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A Mitologia Chinesa

Na mitologia chinesa, aquilo que começa por surpreender é a grande semelhança entre o mundo dos deuses e o dos homens. A hierarquia e a organização burocrática da sociedade criada pelos imperadores e pelo seu exercito de funcionários, bem como o seu funcionamento baseado em um sistema de recompensas e castigos, existem tanto no império celeste como no império terrestre. O Imperador de Jade usa as mesmas vestes que o imperador terrestre, e a arquitetura do seu palácio reflete a da Cidade Proibida. Contudo, segundo crenças muito antigas, estes deuses muito humanos são acompanhados por seres míticos, como o dragão e a fênix, ou por animais reais divinizados, como a tartaruga ou o tigre. A única coisa que não é estável neste mundo organizado é a própria noção de divindade. Os mortais podem tornar-se deuses e estes podem trocar de posições, podem ser despromovidos ou, pelo contrario, subir na hierarquia.

Outro dado especifico das crenças chinesas é o relacionamento quase universal de todos os níveis da existência, do microcosmos e do macrocosmos: cada elemento do individuo esta ligado a um elemento da natureza, e as invenções atribuídas aos deuses são geralmente inspiradas em coisas vistas na natureza. Por exemplo, Yu, o Grande, ao observar uma teia de aranha, inventou a rede de pesca e, ao observar o efeito dos incêndios florestais, descobriu a cozedura dos alimentos. A própria invenção dos oito trigramas divinos, descritos no Yijing (I Ching, Livro das Mutações, inicios do I milênio a.e.c., transcrito na dinastia Han), que desempenham um papel divinatório considerável no pensamento chinês, foi inspirada a Yu (ou a Fuxi, o Primeiro Augusto, segundo algumas versões) pela contemplação das configurações observáveis no céu e na terra, a fim de ordenar ó4 hexagramas (ou seja, 8 x 8 hexagramas), ó4 situações de mutações ou de evoluções primordiais, que permitem que a estabilidade e a paz reinem no império e no coração do homem. Outra característica é o fato de a cosmologia chinesa se basear no numero cinco, numero propicio que rege o microcosmos humano (cinco sentidos, cinco extremidades, cinco partes do corpo, etc.) e os elementos (madeira, fogo, terra, metal e agua), a que se associam cinco estações e cinco direções, que são os quatro pontos cardeais e o centro. Cinco montanhas sagradas cobrem o território da China, entre as quais os montes Kunlun, residência dos deuses.

As três grandes religiões

A China é o país da tolerância religiosa. Geralmente associadas a filosofias, três religiões fundam o pensamento chinês: o taoísmo, o confucionismo e o budismo. Ao lado destas grandes correntes de pensamento, subsistiram crenças muito antigas, que se vivem quotidianamente na China, na forma de animais fantásticos ou de divindades protetoras do homem, do lar ou da região, ou ainda na forma de praticas divinatórias, em que a astrologia desempenha um papel predominante. Assim, o dragão, animal simbólico da China, tem como antepassada uma serpente, que já era venerada pelos habitantes da China vários milênios a.e.c. O budismo implanta-se na China a partir do século 1 d.e.c., na época em que o seu país de origem, a Índia, o abandona para regressar ao hinduísmo. Na China, o culto dirige-se principalmente a duas manifestaçõs de Buda: Mile Fo (Buda Risonho), o gordo buda do futuro, que corresponde ao Maitreya indiano, cujo advento assinalara o inicio de uma era de pureza e de apaziguamento das paixões, e Amituo Fo (Buda da Luz Infinita, Amithaba em sânscrito), o Buda que promete aos homens que invocam o seu nome renascer na Terra Pura, sentado numa flor de lótus, acompanhado pela deusa da compaixão Guanyin (aquela que vê e ouve, que corresponde ao bodisatva indiano Avalokiteshvara). O budismo e o confucionismo afastam-se dos cultos tradicionais autóctones, mas manifestam grande tolerância a seu respeito.

O confucionismo, doutrina de Estado imposta por Han Wudi, fundador da dinastia Han (206 a.e.c. - 220 d.e.c.), dominara a vida social e os costumes ao longo de toda a história da China, ate a fundação da Republica da China, em 1911. A base da doutrina de Confúcio, que viveu no século VI a.e.c., consiste num sistema de uma lógica imparável, assente em um humanismo coletivista: o desenvolvimento do saber permite aceder a sinceridade no pensamento, que leva a reforma do coração e, por isso, a cultura da personalidade. As famílias que vivem segundo estes princípios asseguram o bom governo dos Estados e, portanto, a felicidade e a paz do império.

O taoísmo, baseado no Dao (ou Tao, segundo a transcrição antiga), a via da boa conduta, assenta principalmente nos escritas de Lao zi (Lao Tse), reunidos no Daodejing (Tao-te Ching, O Livro do Caminho e da Virtude). Esta filosofia, contemporânea da de Confúcio, desenvolve uma ética libertaria e baseia-se na noção dos equilíbrios entre o yin (principio feminino) e o yang (principio masculino), que influenciara profundamente a medicina chinesa e o desenvolvimento pessoal. Por outro lado, o taoísmo esta na origem da maioria das divindades que constituem a base do panteão chinês.

Os Textos

A mitologia chinesa transmite-se sobretudo oralmente, de 2000 a 500 a.e.c., e não deixou de se modificar e enriquecer com as transcrições e versões romanescas ulteriores. As primeiras versões escritas dos mitos aparecem no período feudal, por volta do século III a.e.c., em obras filosóficas como o Zhuangzi ou o Huainanzi, ou ainda em relatos de viagens, como o Chan bai Ching (Clássico das Montanhas e dos Mares), antologia de informações geográficas e de lendas da Antiguidade chinesa realizada durante a dinastia Han. Muitos destes mitos foram popularizados por dois grandes romances da época Ming: Xiyuji (Viagem ao Ocidente), de Wu Cheng'en (c. 1500-c. 1582), e o Fengshen Yanyi (Gesta da Investidura dos Deuses).

As lendas sobre os Ba Man (Pa Hsien, os Oito Imortais) foram também transcritas no século XVII por Wu Yuantai, no seu romance Ba xian chi chu dong yu zi (Peregrinação ao Leste). A literatura mítica chinesa baseia-se na história lendária da China. Deste modo, alguns heróis e chefes da Antiguidade, como Fuxi, Shennong, Huangdi (o imperador Amarelo) e Yu são, simultaneamente, "antepassados", heróis lendários e divindades.

Os grandes textos destacam o valor do sacrifício, a revolta contra a opressão, o amor, as boas ações e a preven4ção do crime. Os sentimentos humanos e a moral ocupam neles um lugar de primeiro plano. Estes textos distinguem-se por grande concisão e eficácia, como mostra a historia de Yu Gong, o velho que queria mover as montanhas, conto moral frequentemente citado por Mao Zedong para ilustrar o valor do esforço coletivo, extraído do Lie Zi (Verdadeiro Clássico do Vazio Perfeito), um dos três grandes clássicos do taoísmo.

Yu Gong move a montanha

Ha muito tempo, vivia em Jizhu um velho com 90 anos chamado Yu Gong (que significa "velho louco"). Yu Gong tinha filhos e netos. Apesar da sua idade, continuava a trabalhar diariamente no campo, de manha à noite. Duas altas montanhas, o Taihang e o Wangwu, tornavam muito difícil o acesso a sua casa. Certo dia, reuniu toda a família e propôs aos filhos abater as montanhas e construir uma estrada desde o sul do Henan até a borda do rio. Todos os filhos concordaram. Mas, Xiam Yi, a sua velha companheira, inquietou-se: "Meu velho esposo, parece-me bem que se retirem essas duas montanhas, estou totalmente de acordo. Mas já não es jovem e não és capaz de erguer montanhas como o gigante Kui Fu. Além disso, onde colocaremos a terra e as pedras?" Em coro, os filhos replicaram: "O pai esta velho mas nos somos jovens! Só teremos de transportara terra ate ao mar, não e difícil!" Inspirados pela vontade e obstinação de Yu Gong, puseram-se todos ao trabalho. Os vizinhos vieram ajuda-los. O trabalho era muito duro, pois havia uma grande distancia entre as montanhas e o mar. Apesar de tudo, Yu Gong e os seus filhos nunca pararam de escavar.

Um belo dia, um velho chamado Zhi Su, que significa "velho sábio", parou a borda do rio para fazer troça dele: "Que loucura, com a tua idade, não és capaz sequer de levantar um cabelo a esta montanha, quanto mais toda esta terra e estas pedras!" O velho louco soltou um suspiro e respondeu: sua vaidade cega-te. Uma viúva ou uma criança raciocinam melhor do que tu! Pensa: quando eu morrer, existirão os meus filhos e os meus netos, bem como as gerações futuras. A montanha, por seu lado, não crescerá. Por que razão será então impossível aplana-la?"

Origem do mundo

Reunindo dois mitos da criação do mundo, o mito de Pangu introduz, simultaneamente, o ovo original e o corpo de um gigante comprimido no seu interior. Esta imagem de uma matéria comprimida que explode e da origem ao mundo faz lembrar o big bang.

O ovo teve origem no caos. No seu interior, Pangu desenvolve-se durante 18000 anos. Depois de se ter tornado gigante, abre os braços e a casca parte-se. As partes mais leves do ovo elevam-se e formam o céu, enquanto que as partes mais pesadas se tornam na terra, os dois aspectos do yin e yang. Originalmente imagens da luz e das trevas, o yin e yang acabaram por representar forças opostas: o yang é a virilidade, a atividade, o calor, a dureza; o yin e a feminilidade, a passividade, o frio, a humidade e a suavidade. Por vezes antagônicos (vida e morte, bem e mal), o yin e yang são também complementares e indissociáveis um do outro.

Para impedir que o céu e a terra se juntem, Pangu cresce mais dez pés por dia e mantém-los afastados durante mais 18000 anos; o céu esta então afastado da terra em 30000 pés. Satisfeito com o seu trabalho, Pangu deita-se na terra e morre. Do seu corpo nascem então todos os elementos: do seu sopro, o vento e as nuvens, da sua voz o trovão, dos seus olhos o Sol e a Lua, dos seus braços e pernas as quatro direções e do seu tronco as montanhas. Os seus ossos e dentes tornam-se as pedras e os minérios preciosos, a sua pele a erva e as plantas, o seu suor a chuva e o orvalho, e os seus cabelos as estrelas. Dos vários parasitas presentes no seu corpo formam-se os homens.

A criação do homem

Segundo alguns mitos, o homem nasceu então das pulgas de Pangu. Outro mito atribui a sua origem a obra de Nu Wa, irmã esposa do primeiro imperador lendário, Fuxi.

Vinda ao mundo após a separação da terra e do céu, Nu Wa depressa começa a sofrer de solidão. Certo dia, vendo o seu reflexo num lago, teve a ideia de fabricar figurinhas de terra a sua imagem. No entanto, como este trabalho lhe ocupava muito tempo, teve a ideia de mergulhar um cordel na lama e de faze-lo girar sobre si. Das gotas de lama que caíram no chão formaram-se seres humanos. Nu Wa criou assim rapidamente uma multidão de homens que povoaram a terra. Os homens que ela moldou na argila amarela eram belos e nobres, e os que nasceram das gotas de lama eram mais ou menos bem feitos. E assim que se explica a diversidade humana.

O dilúvio ou a Grande Inundação

Vários mitos chineses fazem referencia a um diluvio ou a uma inundação enorme. Uma dessas lendas, contada por Sima Qian (c. 145-86 a.e.c.), narra as ações de Yu, o Grande, herói lendário e rei demiurgo da China antiga, que conseguiu vazar as aguas que haviam invadido o mundo.

A epopeia de Yu narra numerosas aventuras que colocam em cena seres míticos, mas o seu principal mérito consiste no fato de ter concluído os trabalhos iniciados pelo seu pai, que, por ordem do imperador, trabalhara durante nove anos na evacuação das águas sem ter terminado a tarefa e fora depois banido e esquartejado, sacrifício que marcou o inicio de uma nova era. Durante 13 anos de trabalho duro, Yu esforçou-se por acabar com o diluvio e canalizar todas as aguas que haviam invadido a terra. Yu beneficiou da ajuda de uma tartaruga gigante, que, sozinha, transportava montanhas de terra no seu dorso. Um dragão alado, Ying, marcava com a cauda o traçado dos futuros canais e dragava vários rios num dia. Por fim, gigantes benfazejos fendiam as montanhas e deitavam as terras para o mar. Graças a "terra que se dilata", Yu fechou as 233 559 nascentes das grandes aguas e edificou quatro montanhas insubmersíveis. O herói usou as mãos e os pés neste trabalho titânico, fendendo a montanha, escavando canais e edificando barragens. A sua pele secou e ficou tão magro e fraco que deixou de poder andar. Mas cumpriu a tarefa tão bem que, no fim, toda a agua da inundação foi evacuada para o mar. Na sua luta contra as aguas, Yu concluiu uma aliança com o deus do rio Amarelo, que lhe deu o Quadro do Rio, uma espécie de diagrama emblemático onde o mundo é representado por um quadrado magico.

Em seguida, Yu reordenou o mundo, percorrendo-o em todos os sentidos ate as suas extremidades. Saltitava, arrastando uma perna, esgotado devido aos seus grandes trabalhos. O "passo de Yu", dança magica com que Yu organiza o mundo, foi praticado pelos sacerdotes tauistas durante séculos. Depois de ter medido o espaço, Yu gravou um mapa em nove caldeirões de bronze, que todos os soberanos posteriores se esforçaram em vão por encontrar.

A estória altamente moral de Yu, marcava pela perseverança e pela determinação, faz dele o modelo ideal do funcionário zeloso. Diz-se, nomeadamente, que, durante os seus grandes trabalhos, passou três vezes em frente a sua casa, mas sem entrar, pois considerava a sua missão infinitamente mais importante do que a vida familiar. O imperador Shun ficou toão impressionado com a virtude e com o trabalho de Yu que o escolheu para seu sucessor. Yu tornou-se assim o primeiro imperador da mítica dinastia dos Xia (2205-2197 a.e.c.) e foi divinizado como deus governador das Aguas. Atualmente, o seu mausoléu, perto de Xhaoxing, na província de Zhejiang, continua a ser muito visitado.

O Panteão Chinês

O panteão chinês impressiona desde logo pela importância da hierarquia e pelo fato de os deuses não serem propriamente diferentes dos homens. Organizado à imagem da sociedade chinesa, apresenta-se como uma administração muito estruturada, em que cada divindade tem o seu próprio palácio ou domínio em um dos diferentes níveis do céu, beneficiando de uma equipe de funcionários, de um exercito e de atribuições precisas. Os deuses e os seus colaboradores efetuam tarefas administrativas, fazem listas e registos, prestam contas à divindades superiores, que, por sua vez, prestam contas uma vez por ano ao Imperador de Jade, o soberano absoluto. O próprio dragão, animal sagrado dos Chineses, é um funcionário encarregado de velar sobre as Aguas da terra, oceanos, rios e ribeiros em geral. As divindades principais, na ordem hierárquica, são: o Céu, a Terra, os antepassados imperiais, os deuses dos Cereais, Confúcio, a Lua e o Sol.

O Imperador de Jade

No nível superior do Céu e da hierarquia divina, o Imperador de Jade ou Pai-Ceu, personificado por um dragão dourado, reside em um palácio semelhante ao do imperador terrestre. Nesse palácio, dispõe de um grande corpo de funcionários e de um exercito, que lhe permite combater os espíritos malévolos. A sua esposa real, a rainha-mãe Wang, tem a função, entre outras, de organizar os banquetes dos deuses, onde são consumidos os pêssegos da imortalidade. O Imperador de Jade usa o chapéu dos imperadores, uma tabuinha de madeira na qual estão pendurados 13 berloques de perolas. Duas vezes por ano, nos solstícios de inverno e de verão, o imperador terrestre vai oferecer-lhe sacrifícios no templo do Céu, um dos monumentos mais impressionantes de Pequim. Uma procissão solene acompanha o imperador ate a grande escadaria de mármore, que ele sobe para se prosternar na vasta sala circular e oferecer ao seu augusto representante celeste peças de seda e objetos de jade, carnes e libações.

Os Reis-Dragões

Os Reis-Dragões, diretamente colocados sob a autoridade do Imperador de Jade, estão encarregados de distribuir a chuva sobre a Terra. Os quatro grandes Reis-Dragões, que habitam em palácios de cristal no Céu, são responsáveis pelos Quatro Mares que rodeiam a Terra, sobre os quais velam com o seu exercito de caranguejos e peixes. No entanto, existem numerosos Reis-Dragões locais que reinam sobre todos os poços, rios, fontes e canais da China. Em caso de seca, as pessoas dirigem orações e fazem oferendas a estas divindades e, quando a chuva regressa, organizam-se grandes festas em sua honra.

Wenchang, o deus da literatura e dos exames

A propósito da China da dinastia Ming, um Ocidental fez esta observação: "Todo o reino é governado por filósofos." Diretamente ligado a organização burocrática e ao culto da literatura e da escrita, o deus da Literatura ou dos Letrados, Wenchang, tem o poder de favorecer o sucesso nos exames imperiais. Os concursos de admissão na função publica, organizados em todo o país pelo imperador, representaram sempre uma grande oportunidade de ascensão social. Wenchang é geralmente representado de pé, em cima de uma tartaruga, tendo na mão direita um pincel e, na mão esquerda, um alqueire, que lhe serve para avaliar os méritos do candidato aos exames. Com efeito, está encarregado de nomear o primeiro classificado no concurso organizado pelo Imperador de Jade. No plano terrestre, podemos ver aquela tartaruga na laje de mármore que separa os dois lances de escadas que levam ao Palácio Imperial, onde o imperador concedia audiências aos candidatos. O primeiro a subir os degraus ficava naturalmente à altura da cabeça da tartaruga, e por isso que Wenchang e representado de pé em cima da cabeça de uma tartaruga.

O Sol e a Lua

Na China, o Sol foi objeto de um culto oficial ate inicios do século XX. No entanto, contrariamente ao deus Sol dos Incas ou ao deus Rá dos Egípcios, está longe de ocupar o primeiro nível da hierarquia divina. Em contrapartida, os Chineses prestam culto a Lua, que é festejada no meio do outono, no decimo quinto dia do oitavo mês do calendário lunar. O herói Yi, o arqueiro divino, e a sua esposa Cheng He estão intimamente ligados a história da Lua e do Sol.

No principio havia dez sóis, que, com o seu pai Di Jun e a sua mãe Xi He, habitavam uma amoreira gigante, chamada Fusang, nas aguas do paraíso do Leste. Estas aguas estavam sempre em ebulição, pois os sóis banhavam-se nelas todos os dias. Um de cada vez, todos os dias os dez sóis revezavam-se no céu para iluminarem o mundo, enquanto que os seus irmãos descansavam nos ramos da amoreira. No entanto, certo dia, os dez irmãos revoltaram-se contra a rotina estabelecida pelo pai e resolveram ir todos juntos divertir-se no céu. Para os habitantes da Terra, foi uma verdadeira catástrofe. O mundo tornou-se incandescente, impossível de habitar, e a vegetação começou a morrer. O imperador Yao, que reinava então sobre a terra, suplicou a Di Jun que acabasse com aquele flagelo. Di Jun refletiu durante algum tempo e decidiu enviar o seu melhor arqueiro, Yi, à Terra. Confiou-lhe um arco magico, com a missão de assustar os sóis. Mas, horrorizado com a visão da situação terrível em que os humanos se encontravam, Yi disparou uma flecha contra um dos sóis. Uma chuva de faulhas douradas caiu por toda a parte, e um corvo de três patas caiu no chão. Um após outro, Yi abateu assim nove sóis e a temperatura voltou ao normal.

Indignado com a morte dos filhos, Di Jun decidiu castigar Yi. Exilou-o definitivamente na Terra com a sua mulher Cheng He e tornou-os mortais. Como Cheng He se lamentava de ter perdido a imortalidade, Yi decidiu pedir o elixir da vida a rainha do Ocidente, que vivia nos montes Kunlun com os outros deuses. Depois de ter superado varias provas difíceis, chegou a residência da rainha, que aceitou dar-lhe uma dose suficiente para lhe assegurar a imortalidade e à sua mulher. Mas avisou Yi de que se uma única pessoa tomasse toda a dose, subiria até as altas esferas do mundo. Quando Yi regressou, Cheng He só tinha uma ideia na cabeça: beber todo o conteúdo do frasco para ir visitar as regiões superiores. Certo dia em que Yi se ausentou, a mulher executou finalmente o seu projeto e foi logo transportada para a Lua. Descobriu ai uma lebre, sentada debaixo da árvore da imortalidade, ocupada a fabricar eternamente o elixir da vida, e um velho, que passava o tempo a tentar cortar a árvore.

Cheng He passou então a residir na Lua com os seus dois companheiros. É representada como uma jovem muito beta. É frequentemente evocada nos romances e nas poesias, que falam de uma mulher "bela como Cheng He vinda da Lua".

Os Oito Imortais

Os Ba Xian (Pa Hsien), os Oito Imortais, não são propriamente deuses, mas homens que, pela sua devoção, virtude e pratica da via taoista obtiveram a imortalidade e vivem com os deuses nos montes Kunlun, no centro da Terra. A cada mil anos, a rainha-mãe Wang, esposa do Imperador de Jade, convida-os para um grande festim, no qual são servidos os pêssegos da imortalidade.

Estas personagens bonacheironas, consideradas protetores eficazes, tornaram-se divindades extremamente populares a partir da dinastia Song (960-1279).

Os Oito Imortais são os mestres da arte marcial da ebriedade, zui baxian, cujo código se inspira no Quajing Quan fa Beiyao, um livro do século XVII onde figura o cântico dos Oito Imortais. Esta arte marcial continua hoje a ser uma das formas do kung-fu, uma técnica de agilidade e de descontração na qual se imitam as varias atitudes que caracterizam cada um dos Oito Imortais.

"Sob o efeito do álcool, Zhong Lijuan executa a dança da ebriedade com o seu leque.

O imortal bêbedo Gulao desloca-se escarranchado na sua mula, montado ao contrario.

Com a cabeça pesada e o passo ligeiro, parece bêbedo, como se caminhasse na lama;

O terceiro imortal, Xiangzi, toca a sua flauta de ferro.

Não está seguro da sua esquerda nem da sua direita, e não distingue o alto do baixo;

Aquele que gosta de tocar as castanholas, o espirito melancólico;

Cao Gujiu, vestido como de madrugada, executa a dança da ebriedade [...]»

 

Cao Gujiu, criado na corte, refugiou-se na montanha para seguir a via do Tao. É representado com roupas de corte, com tabuinhas na mão.

Han Xiangzi, representado com uma flauta, padroeiro dos músicos e dos agricultores, faz as flores desabrocharem.

He Xiangu, a única mulher do grupo dos Imortais, asceta taoista protetora das moças, tem uma flor de Iótus na mão.

Lan Caihe, espécie de fogo sagrado, protetor dos pobres, é representado vestido com uma túnica azul, calçado apenas com um sapato, e um alaúde. Li Tieguai (Li com bengala de ferro), protetor dos doentes, abriga-se no corpo de um mendigo. É representado ébrio, com uma bengala e uma cabaça cheia de álcool.

Lu Dongbin, filósofo moralista e aluno de Zhong Lijuan, é representado a segurar uma espada, que aprendeu a manejar com Zhong Lijuan. A sua bondade é tão famosa que um proverbio chinês diz: "o cação morde Lu Dongbin", que significa que só alguém sem qualquer juízo pode morder o melhor dos homens.

Zhang Gulao desloca-se em uma mula branca, que é capaz de dobrar e guardar em uma folha de papel. É o padroeiro dos pintores e dos calígrafos.

Zhong Lijuan, o gorducho, distribui aos pobres o cobre que transformou em prata. Tem um leque que lhe serve para reanimar as almas dos mortos e na mão, segura um pêssego da imortalidade.

Os deuses da felicidade

Não se pode falar de mitologia chinesa sem evocar os deuses mais populares do país, presentes na maioria dos lares chineses na forma de estatuetas ou de imagens coloridas guardadas em um móvel a altura dos olhos. "No céu existem três estrelas boas, na terra, existem fu, lu e shu", diz um provérbio chinês. Lu representa a elevação social e a e a abundância. Por vezes, tem nos braços uma criança que simboliza a esperança. Fu, deus da felicidade e da prosperidade, um pouco maior do que os outros, é sempre colocado ao centro. Tem nos braços um rolo de ouro que representa a riqueza. Shu, o deus da saúde e da longevidade, é representado na forma de um velho com a testa alta e crânio calvo, tendo numa mão uma bengala e, na outra, um pêssego da imortalidade.

Mitologia Chinesa

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A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

Mitologia Celta
As tarefas impossíveis de Culhwch

Um dos contos mais populares de Mabinogion narra a estória de Culhwch e Olwen. Culhwch é de sangue real, pois é primo de Arthur. O seu nascimento foi invulgar. Antes de ele ter nascido, a mãe, Golenddyd, ganhou uma profunda antipatia por porcos, pois quando passava por uma vara deles, assustou-se e deu à luz um filho que abandonou. Um guardador de porcos pegou nele e levou-o para os pais criarem. Golenddyd morreu e o marido, Cilydd, voltou a casar com uma mulher que tinha uma filha que ela queria casar com Culhwch. Mas ele não quis, afirmando ser ainda muito jovem. A rainha então rogou uma praga a Culhwch, segundo a qual ele só viria a casar com Olwen, filha de Ysbaddeden, o Chefe dos Gigantes. Bastou a Culhwch ouvir o nome dela para se apaixonar profundamente.

Culhwch decidiu então pedir ajuda a Arthur para encontrar esta donzela e partiu num grande esplendor, completamente armado com machados de guerra, espada dourada e uma pequena machadinha que «podia fazer o ar sangrar.» Tinha também um chifre de marfim, dois galgos e montava um cavalo fantástico. Quando Culhwch chegou à corte de Arthur o porteiro tentou barrar-lhe a entrada, mas ele ameaçou dar três gritos de tal intensidade que as mulheres ficariam estéreis e as que estivessem grávidas abortariam.

É claro que ele passou. Encontrou-se com Arthur que se deixou convencer a ajudá-lo a procurar Olwen. As buscas decorreram durante um ano, sem sucesso. Por fim, juntaram um grupo dos melhores cavaleiros, cada um deles abençoado com peculiaridades extraordinárias. Um deles, Kay, tinha uma espada que provocava feridas que nenhum médico podia tratar; outro, Bedwyr, o mais veloz de todos, e Gwalchmai, que nunca voltava de uma missão sem a cumprir.

Após mais dia buscas, Olwen foi finalmente encontrada.

Ela correspondeu ao amor de Culhwch, mas explicou que o pai Ysbaddeden estava destinado a morrer quando se casasse. Olwen pediu a Culhwch que aceitasse qualquer condição que o pai lhe impusesse. Culhwch aproximou-se do Chefe dos Gigantes que lhe ordenou uma longa série de «tarefas impossíveis.» A mais intimidante delas consistia em recuperar uma tesoura, uma navalha da barba e um pente que estava entre as orelhas do grande e destruidor javali Twrch Trwyth. Apesar de tudo, Culhwch aceitou de boa vontade toda as tarefas. Ele e Arthur conseguiram atrair a ajuda de Mabon, o caçador que tinha estado preso num castelo após ter sido roubado. Na ocasião, ele tinha sido libertado Era conhecido como «o jovem» se bem que fosse o mais velho de todos os seres. Mabon Culhwch e os cavaleiros foram ajudados por animais mágicos: a Águia de Gwemabwy, o Melro de Kilgory, o Veado de Rhedynvre, Salmão de Llyn Law e outros bichos encantados. Um dos homens de Arthur, Gwrhyr, tim a capacidade de falar com cada um deles na sua própria linguagem. Após uma longa perseguição através do sul do País de Gales, da Cornualha e da Irlanda, durante a qual o diabólico javali devastou uma grande parte da terra, foi enfim possível, com a ajuda de Mabo dominá-lo e conduzi-lo para o mar. A navalha da barba, a tesoura e o pente foram entregue: e Culhwch pôde finalmente casar com Olwe.

Mitologia Celta
Math Ap Mathonwy e os dois sobrinhos

A história complicada de Math Ap Mathonwy, Lorde de Gwynedd, no Norte, constitui o quarto livro de Mabinogion. Tal como sucede em muitos destes contos, nela existe decepção e magia, e oscila com facilidade para trás e para a frente entre este e o Outro Mundo. É uma história de magia na qual o mal é punido, mas apenas na medida certa. Quando Math, um mago, não estava fora a vigiar as suas terras ou em alguma guerra, ele tinha de pousar os pés no regaço de uma donzela. Ele tinha dois sobrinhos, filhos da deusa Don, Gilfaethwy e Gwydion, que desejavam a virgem onde o tio pousava os pés e cujo nome era Goewin. Os irmãos, que tinham sido treinados na arte da magia pelo próprio Math, planejaram uma forma de o distraírem, começando uma guerra com Pryderi, Lorde de Dyfed, no Sul. Gwydion intrujou Pryderi com os seus porcos brancos mágicos e, tal como planejara, rebentou a guerra entre as cidades de Gwynedd e Dyfed.

Enquanto Math estava na guerra os irmãos por magia, violaram Goerin e depois regressaram ao campo de batalha. Em seguida Gwydion matou Pryderi, através das suas magias. Quando Math regressou, a sua ira ao descobrir o que tinha sucedido a Goewin levou-o a punir os dois irmãos, transformando-os durante três anos consecutivos em pares de animais: um veado e uma corça; um javali e uma porca; um lobo e uma loba, forçando-os a seguir as respectivas naturezas. Os irmãos alternavam o gênero masculino e feminino e em cada ano produziam um descendente. No fim deste período, Math perdoou os sobrinhos e voltou a dar-lhes a forma humana assim como aos descendentes, que, no mínimo, mantiveram os nomes de animais.

 

Mitologia Celta
Manawydan Ap Llyr e o encantamento de Dyfed

O terceiro livro de Mabinogion refere-se ao período pós morte de Pwyll. Quando Pryderi e Manawydan regressaram do funeral da cabeça de Bran, em Londres, Manawydan casa com a viúva de Pwyll, Rhiannon. Pryderi e a mulher, Cigfa, Rhiannon e Manawyda vão para Gorssed Arberth, em Dyfed. Embora ilesos, visto estarem no mágico Monte de Arbeth os quatro viram Dief cair em um encantamento. Todos os habitantes e casas desapareceram e os campos cobriram-se de um nevoeiro. Como Dyfed ficou sem nada, os quatro viram-se forçados a partirem para Inglaterra onde Manawydan e Pryderi se fixaram como artesãos de sandálias e sapatos. Para onde quer que fossem, a habilidade de Manawydan suscitava a inveja e a má vontade dos artesãos locais, pelo que os quatro regressaram a Dyfed onde encontraram uma forma de vida na caça. Numa das expedições para caçarem, Manawydan e Pryderi encontraram um enorme javali, ofuscantemente branco (um sinal certo de que vinha do Outro Mundo). O javali atraiu os cães deles para um estranho castelo. Apesar dos avisos de Manawydan, Pryderi seguiu os cães para o castelo. Aí viu uma taça de ouro e tocou-lhe, tendo ficado agarrado ao sítio e perdido a fala. Rhiannon seguiu Pryderi e teve destino semelhante das famílias e sem cães para caçarem, transformaram-se em agricultores e cultivaram o trigo. Os cereais desenvolveram-se bem, mas, pouco antes da colheita, dois dos campos foram destruídos por exércitos de ratos. Manawydan estava à espera deles quando para devastar o terceiro campo. Escaparam todos, à exceção de uma rata prenhe. Ele estava a pensar pendurar esta rata, apesar dos pedidos de clemência de quem passava. Finalmente um bispo interrompeu os procedimentos e tentou redimir a rata. Manawydan reconheceu o bispo como amigo de um mágico e recusou-se a ceder até ele ressuscitar Rhiannon e Pryderi assim como os 700 trabalhadores rurais de Dyfed e libertar a terra do encantamento. O bispo revelou então ser Llwyd e declarou ter lançado aquele feitiço para vingar o mal feito por Pwyll a Gwawl, primeiro pretendente de Rhiannon, quando Pwyll se casou com ela e a tirou a Gwawl.

A rata prenhe era afinal a mulher de Llwyd. Ela e as outras mulheres tinham sido transformadas em ratas e enviadas para destruir o trigo de Manawydan. A magia de Manawydan, porém, provou ser mais forte e Dyfed ressuscitou e os ratos voltaram a ter a forma humana.

Mitologia Celta
Branwen e Bran

Matholwch, o rei da Irlanda, desejava ardentemente a mão da galesa Branwen, filha de Llyr, rei da Inglaterra. O irmão Bran concorda e o casamento realiza-se na corte deste último. Contudo, Efnisien, um meio-irmão por parte da mãe, opôs-se ao matrimônio e, durante a sua celebração, mutilou os cavalos de Matholwch quando estavam nos estábulos da corte. Bran tentou acalmar Matholwch oferecendo-lhe vários presentes, dos quais se destacava um caldeirão mágico que tinha sido feito na Irlanda. O seu poder era de tal ordem, que ele podia fazer reviver guerreiros mortos, embora sem recuperarem a fala. Matholwch aceitou o presente e partiram ambos para a Irlanda. Estava, porém, muito ressentido com o sucedido no País de Gales pelo que tratava a sua nova rainha como uma serva, forçando-a a trabalhar na cozinha, onde ela era tratada com dureza pelo magarefe.

Desesperada, Branwen treinou um estorninho que lhe levou uma mensagem a Bran. Este tratou de atacar imediatamente a Irlanda para vingar a irmã. Era um homem enorme, capaz de caminhar através do Mar da Irlanda, que pareceu aos Irlandeses ser uma montanha que avançava para eles. Estes posicionaram-se para lá de um rio intransponível e destruíram a ponte.

Bran, porém, deitou-se sobre a água e o exército passou sobre ele para o outro lado, derrotando Matholwch sem grandes perdas de tempo. Seguiu-se a paz, mas que não viria a durar muito. Quando recomeçaram as lutas, o que mais uma vez ficou a dever-se, em parte, às ações de Efnisien, Bran foi ferido por uma lança envenenada e apenas sobreviveram sete  dos seus homens.

Ele ordenou aos homens, entre os quais estavam Pryderi de Dyfed e Manawydan, seu irmão, para que lhe cortassem a cabeça e a levassem de volta ao seu país, antes de a sepultarem em Londres no Monte Branco, com o rosto voltado para leste, para evitar que a Inglaterra sofresse invasões estrangeiras. A viagem para Londres é só por si uma saga extraordinária, que levou 87 anos. A cabeça permaneceu viva e narrando os prodígios até ao seu enterro. Entretanto, Branwen morreu com o coração partido em Aber Alaw lamentando que, por causa dela, as duas grandes ilhas sejam estranhas uma para com a outra.   

Mitologia Celta
Viagens fantásticas

Na mitologia irlandesa existe um gênero conhecido como
as estórias imram, que narram as perigosas viagens por mar até às misteriosas «ilhas abençoadas», ou até às «ilhas
dos fantasmas», que se pensava que se encontrariam no Oceano Atlântico para oeste
da Irlanda. As histórias de Bran
e Mael Duin foram convertidas
nas aventuras cristãs de São
Brendan o Navegador, enquanto
a lenda de Ossian, talvez uma
das mais interessantes, foi fonte
de inspiração para várias peças,
filmes e poemas.

A Viagem de Bran


Um dia, Bran encontrou uma mulher surpreendente
e sedutora que lhe ofereceu um ramo prateado cheio
de flores brancas. A mulher falou-lhe da sua casa no Outro Mundo, a «ilha das mulheres» (Tir Inna mBan), que era descrita como um verdadeiro paraíso: comida interminável, amor sem fim, um verão permanente e a eterna juventude. Bran recrutou 26 homens e rumou a ocidente em busca desta ilha encantada. Quando atravessou uma ponte de cristal e chegou à ilha, descobriu que
era tudo aquilo que tinha esperado e ainda muito mais. Tornou-se então amante da bela deusa. Havia só um problema. A deusa tinha lançado um encantamento sobre os homens e avisado que não poderiam jamais voltar a casa.

Durante um ano, todos foram muito felizes. Depois, alguns dos homens começaram a ter saudades da Irlanda e das respetivas famílias e convenceram Bran a levá-los de volta. Quando o barco se aproximava do solo irlandês, os homens que estavam a bordo, começaram a acenar ansiosamente, mas ninguém em terra os reconhecia.

Com a excitação de estarem a chegar
a casa, um homem saltou para a praia e logo que os pés pousaram em terra, desfez-se em um monte de cinzas. Bran e os restantes homens, voltaram a rumar para ocidente, para nunca mais regressarem.

Mael Duin e as Ilhas Extraordinárias

Mael Duin era filho de Ailill, um guerreiro
que tinha sido brutalmente morto em combate. Assim que atingiu a idade adequada, Mael Duin jurou vingar a morte prematura do pai.

Um druida tinha-o avisado de que teria de viajar para uma ilha longínqua para encontrar o assassino.

O druida também lhe disse para levar
no barco apenas 18 homens e nem mais
uma pessoa, caso contrário ocorreriam azares.
Mael Duin obedeceu com todo o rigor às
instruções. Porém, no momento da partida,
os três irmãos adotivos que tinha treparam
pelo barco decididos a fazerem a viagem.
Passados alguns dias, aproximavam-se da ilha onde vivia
o assassino de Ailill. Mas nesse instante, uma imensa ventania fez a embarcação sair da rota e mergulhar nas água encantadas do Outro Mundo, onde encontraram muitos sítios misteriosos e viram muitas criaturas maravilhosas.

Em uma das ilhas havia um palácio cheio de comida, bebida e jóias valiosas. Um dos irmãos roubou uma gargantilha e foi de imediato destruído por um gato mágico e gigantesco. O segundo irmão desembarcou na Ilha do Choro onde foi forçado a permanecer a gritar para toda a eternidade. A seguir visitaram a Ilha
das Mulheres onde foram tentados por sonhos
de imortalidade e de amor. Mael Duin gostou de lá estar durante algum tempo, mas depois decidiu regressar a casa. Na viagem de regresso, o último irmão desembarcou na Ilha do Contentamento onde ainda hoje vive com o povo que ri.

Já sem os irmãos adotivos, Mael Duin voltou a seguir a rota e, finalmente, chegou à ilha dos assassinos do pai. Mas todo o ressentimento e rancor tinham abandonado o seu coração, pelo que pôde fazer amigos entre os habitantes que, por sua vez, o saudaram como explorador e herói.

Ossian e a Terra
da Eterna Juventude


A Niamh dos Cabelos de Ouro era uma fada boa e filha do deus do mar, Manannan Mac Lir. Ela tinha ouvido estórias interessantes do poeta e guerreiro Ossian (filho de Fionn MacCool) e tinha descido à terra para o procurar e fazer dele seu marido.

Niahm encontrou-o a caçar perto de Lough Leane, um dos lagos de Killarney. Ela meteu-o dentro do lago que era uma entrada para
o Outro Mundo, conhecido como Tir Na Nog, «a terra da eterna juventude.» Tir Na Nog era de fato o paraíso: uma beleza de cortar a respiração, realçada pelos pássaros,
pelas cores e pela música, e onde
o amor era sempre fresco e novo.

Os seus habitantes tinham sido abençoados com a eterna juventude, esquecidos
de conceitos como o de tempo,
regras ou
trabalho. Os dias passavam e Ossian levava uma vida feliz com Niamh.

Mas, como sempre acontece
aos humanos, começou a ter saudades
de casa - do pai, dos Fianna e da
Irlanda - e disse a Niamh que queria
voltar. Esta ofereceu-lhe um belo cavalo branco e disse-lhe que podia regressar à Irlanda, desde que não desmontasse do cavalo nem pusesse um pé no chão.

Quando Ossian chegou à Irlanda descobriu que tinham passado 300 anos. Todas as pessoas que ele conhecia já não existiam, mas o que ainda era pior, tudo
o que se referia aos velhos tempos e crenças tinha desaparecido e mesmo os feitos lendários de Fionn MacCool se tinham tornado em uma memória distante. Neste desânimo, esqueceu-se da recomendação de Niamh e desmontou. Imediatamente se transformou em um velho mirrado, cego e decrépito.

Algumas versões desta história contam que S. Patrício encontrou Ossian e cuidou dele, encorajando-o a contar as histórias de Fionn e os dias do passado, que assim ficaram registados para a posteridade.

Mitologia Celta
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MATÉRIAS
6/22/2018 5:39:35 PM | História Viva, n. 20
Atenas, capital artística da Grécia

Mesmo se o desejasse, no terceiro quarto do século V a.e.c., Atenas não poderia pretender ser reconhecida como a capital política do mundo grego. Também não era a capital economica. Há, porém, um domínio no qual da pôde legitimamente ser considerada capital do mundo grego: o do pensamento e das boas-artes.

História - Civilização Grega
6/28/2018 6:02:44 PM | Leituras da História, n.5
Mitos e lendas da Idade média

Conhecida como Idade das trevas, o período que ficou oficialmente batizado como Idade Média é lembrado como uma série de perseguições religiosas, reinados poderosos, cavaleiros andantes e o total controle da Igreja Católica exercia sobre a vida de seus seguidores.

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Jurando pelo Estige
Atravessando o Estige | Joachim Patenir (Patinir) [c.1485-c.1524]

O Estige era um dos seis rios do mundo dos mortos, e jurar pelas suas águas era a maior garantia que se podia dar. Quando um deus do Olimpo se preparava para fazer um juramento pelo Estige, a deusa do arco-íris - íris - corria para o rio, para ir buscar a sua água numa taça de ouro. Os que a bebiam e juravam falso eram punidos com um ano de doença e silêncio, fome de néctar e de ambrosia e depois eram banidos do Olimpo durante nove anos.

MILLS, Alice. A era clássica. IN.: GORDON Cheers (org.). Mitologia: Mitologias de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter, 2011. Cap. 1 p. 112
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TEXTOS
4/12/2020 4:26:57 PM | Por André Bonnard
Livre
A Ilíada e o Humanismo de Homero

A Ilíada de Homero - primeira grande conquista do povo grego: conquista da poesia - e o poema do homem na guerra, dos homens consagrados a guerra pelas suas paixões e pelos deuses. Ali um grande poeta fala da nobreza do homem frente a esse flagelo detestável, do homem arrebatado por Ares, bebedor de sangue... o mais odioso dos deuses. Ali fala da coragem dos heróis que matam e morrem com simplicidade, do sacrifício voluntario dos defensores da pátria, da dor das mulheres, do adeus do pai ao filho que o continuara, da suplica dos velhos. E muitas outras coisas: a ambição dos chefes, a sua cupidez, as querelas, as injurias com que se cumulam, e mais a covardia, a vaidade, o egoísmo, lado a lado com a bravura, a amizade, a ternura. A piedade mais forte que a vingança. Fala do amor da glória que eleva o homem a altura dos deuses. Fala desses deuses onipotentes e da sua serenidade. As suas paixões ciosas, o seu caprichoso interesse e a sua profunda indiferença pela turba dos mortais.

Acima de todas as coisas, este poema, onde reina a morte, fala do amor da vida, e também da honra do homem, mais alta que a vida e mais forte que os deuses.

É natural que um tema como este - o homem na guerra - tenha enchido o primeiro poema épico do povo grego, sempre devorado pela guerra. Para desenvolver este tema, Homero escolheu um episodio semi-fabuloso da histórica guerra de Troia, que se situa no principio do século XII antes da nossa era. Esta guerra teve por causa - sabemo-lo - a rivalidade econômica das primeiras tribos gregas instaladas seja na Grécia propriamente dita, os Aqueus de Micenas, seja sobre a costa asiática do Egeu, os Eólios de Troia.

O episodio escolhido pelo poeta, que dá a todo o poema a sua unidade de ação, é o da cólera de Aquiles; da sua querela com Agamemnon, rei de Micenas e chefe da expedição contra Troia, e das conseqüências funestas desta querela para os Gregos-Aqueus que assediavam Troia.

Eis a trama da ação. Agamemnon, chefe supremo, exige de Aquiles, o mais valente dos Gregos, muralha do exercito, que ele lhe ceda uma bela cativa, Briseida, que lhe coubera quando da partilha de um saque. Aquiles recusa-se, indignado, a ser privado de um bem que lhe pertence. Na assembléia do povo armado, onde esta exigência lhe é feita, insulta gravemente Agamemnon ("O ser vestido de impudência, avaro..., descarado, focinho de cão..., odre de vinho, coração de servo..."), queixa-se de suportar sempre o fardo mais pesado do combate e de receber em troca uma parte inferior a de Agamêmnon, covarde como soldado, ávido como general, "rei devorador do seu povo". Pronuncia diante de todos os seus camaradas o juramento solene de se retirar da batalha e de se fechar na sua tenda, de braços cruzados, enquanto não tiver recebido de Agamêmnon reparação da afronta infligida à sua bravura. Assim faz.

Aquiles, primeiro herói da Ilíada, e o coração e a charneira de toda a ação do poema. A sua retirada - é, com ela, a das suas tropas - tem para o exercito dos Aqueus as mais graves conseqüências. Na planície, sob os muros de Troia, sofrem três derrotas, cada uma mais desastrosa que as outras. Até aí sempre assaltantes, estão reduzidos a defensiva, vêem os Troianos, pela primeira vez em dez anos, atreverem-se a acampar, à noite, na planície. Os Gregos constroem um campo entrincheirado: de sitiantes tornam-se sitiados. Até mesmo este campo é forçado pelos Troianos, conduzidos por Heitor, o mais valoroso dos filhos de Príamo. O inimigo prepara-se para deitar fogo aos barcos dos Gregos, para lançar o seu exercito ao mar.

Ao longo destas duras batalhas, que enchem de carnificina e de proezas, de coragem desesperada mas infatigável, uma boa parte do poema, a ausência de Aquiles não é outra coisa, na opinião dos seus companheiros como na nossa, que o sinal evidente da sua força e do seu poder. Ausência-presença que comanda todos os movimentos e momentos do combate. Os mais valente dos chefes aqueus - o maciço Ajax, filho de Telamon, o rápido Ajax, filho de Oileu, o fogoso Diomedes, muitos outros mais, em vão se esforçam por substituir Aquiles. Mas estes valentes substitutos do valor de Aquiles não são mais que o dinheiro miúdo do jovem herói que - força, rapidez, fogosidade e

bravura - encarna por si só toda a virtude guerreira, sem falha nem fraqueza. Possuindo tudo e recusando tudo, provoca a derrota de todos.

Numa noite trágica, entre dois desastres, enquanto na sua tenda se atormenta na inatividade a que se condenou e que lhe pesa, Aquiles vê vir do campo dos Gregos uma embaixada de que fazem parte dois dos grandes chefes do exercito: Ajax, o primeiro defensor dos Gregos depois de Aquiles, tão teimoso como um burro puxado por crianças, o sutil Ulisses que conhece todas as voltas do coração e da palavra. A estes dois guerreiros se juntou o velho que criou a infância de Aquiles, o tocante Fenis, que lhe faz ouvir a palavra e como que o apelo insistente de seu pai.

Os três lhe suplicam que volte ao combate, que não falte à lealdade que o soldado deve aos seus camaradas, que salve o exercito. Em nome de Agamêmnon fazem-lhe promessas de presentes e de honrarias esplendidas. Mas Aquiles, menos ligado ainda pelo seu juramento que pelo amor-próprio, aos argumentos, às lágrimas, à própria honra, responde com um não brutal. E vai mais longe: declara que no dia seguinte retomará os caminhos do mar com as suas tropas e voltará ao lar, preferindo uma velhice obscura à gloria imortal, que escolhera, de morrer novo diante de Troia.

Esta versão da sua primeira escolha - a vida agora preferida à gloria - aviltá-lo-ia, se nela se pudesse manter.

Mas vem o dia seguinte e Aquiles não parte. E nesse dia que os Troianos forçam as defesas dos Gregos e que Heitor, agarrando-se à popa de uma nave defendida por Ajax, grita aos seus companheiros que lhe levem o fogo que desencadeará o incêndio da frota. Aquiles, na outra extremidade do campo, vê erguer-se a labareda do primeiro barco grego incendiado, essa labareda que dita a derrota dos Gregos é a sua própria desonra. Naquele momento não pode mostrar-se insensível às suplicas do mais querido dos seus companheiros, Patrocolo, a quem considera como a melhor metade de si mesmo. Patrocolo, em lágrimas, pede ao seu chefe que lhe permita combater em seu lugar, revestido dessas ilustres armas de Aquiles que não deixarão de amedrontar os Troianos. Aquiles aproveita a ocasião para fazer voltar ao combate, pelo menos, as suas tropas. Ele próprio arma Patroclo, põe-no à frente dos soldados, incita-o. Pátroclo repele os Troianos para fora do campo, longe dos barcos. Mas nesta brilhante contra-ofensiva que dirige, esbarra com Heitor que lhe faz frente. Heitor mata Patroclo em combate singular, não sem que Apolo invisível tenha ajudado a esta morte que, obtida pela intervenção de um deus, se assemelha a um assassínio.

A dor de Aquiles, ao saber a sorte do seu amigo, é assustadora. Jazendo no chão, recusando alimentar-se, arrancando os cabelos, sujando as roupas e o rosto de cinza, Aquiles soluça e pensa em morrer. (O suicídio é, aos olhos dos Gregos, o vergonhoso refugio dos covardes.) Por mais viva que tenda sido anteriormente a ferida infligida ao seu amor-próprio por Agamêmnon, a morte de Patroclo cava em Aquiles abismos de sofrimento e de paixão que o fazem esquecer o resto. Mas é esta mesma dor que o restitui à vida e à ação, desencadeando nele uma tempestade de furor, uma raiva de vingança contra Heitor assassino de Patroclo e contra o seu povo.

Assim se opera no poema, numa peripécia patética, pedida por Homero a psicologia de Aquiles, herói e motor da Ilíada, uma reviravolta completa da ação dramática, que parecia imobilizada definitivamente pela inflexibilidade desse mesmo herói que não cede jamais a nada senão à própria violência passional.

Aquiles volta ao combate. A quarta batalha da Ilíada começa. E a sua batalha, a da carnificina terrível que ele faz de todos os Troianos que encontra no caminho. Derrotado o exercito troiano, em parte exterminado, em parte afogado no rio para o qual Aquiles o fez recuar, o desmoralizado resto retira para o interior da cidade. Só Heitor fica do lado de fora das portas, apesar das suplicas de seu pai e sua mãe, para enfrentar o mortal inimigo da sua pátria.

O combate singular de Heitor e de Aquiles é o ponto culminante da Ilíada. Heitor combate como um valente, com o coração todo cheio de amor que dedica à mulher, ao filho, à sua terra. Aquiles é mais forte. Os próprios deuses que protegiam Heitor se afastam dele. Aquiles fere-o mortalmente. Leva para o campo dos Gregos o corpo de Heitor, não sem o ter ultrajado: ata o inimigo pelos pés à retaguarda do seu carro de guerra e com uma chicotada faz correr os cavalos, "e o corpo de Heitor era assim arrastado na poeira, os seus cabelos negros desmanchados, a cabeça suja de terra - essa cabeça antes tão bela, que Zeus agora entregava aos inimigos para que eles a ultrajem sobre o solo da pátria".

O poema não termina com esta cena. Aquiles, a quem Priamo vai suplicar na sua tenda, entrega-lhe o corpo do desgraçado filho. Heitor é sepultado pelo povo troiano com as honras fúnebres. Os lamentos das mulheres, os cantos de luto que elas improvisam, falam da desgraça e da gloria daquele que deu a vida pelos seus.

Tal e a ação deste poema imenso, conduzida com mestria por um artista de gênio. Mesmo que o poeta Homero, a quem o atribuem os antigos, não tenha inventado cada um dos múltiplos episódios, esses episódios estão aqui reunidos e ligados por ele numa esplendida unidade.

No decurso dos quatro séculos que separam a guerra de Troia da composição da Ilíada, que devemos situar no século VIII, muitos poetas sem duvida compuseram numerosas narrativas sobre esta guerra e já mesmo sobre a cólera de Aquiles. Estes poetas improvisavam em versos cujo ritmo era próximo do da linguagem falada, mas numa cadencia mais regular e mais nobre. Estes versos eram fluentes e fáceis de fixar. A Ilíada, que procede destes poemas improvisados, é ainda uma espécie de fluxo poético continuo, que carreia no seu curso muitas das formas estranhas da velha linguagem dos antepassados eólios, linguagem meio esquecida, mas que, enriquecida de epítetos esplendidos, dá a toda a epopéia uma sonoridade cintilante e um brilho sem igual.

Os poemas que tinham aberto o caminho a Homero transmitiam-se, por certo, de memória. (Verificou-se em improvisadores modernos de poesia época, os serbios, por exemplo, no século XIX, a faculdade de reter de cor e de transmitir sem escrita até oitenta mil versos.) Os improvisadores gregos, predecessores de Homero, recitavam os seus poemas, por fragmentos, nas casas senhoriais. Estes senhores não eram já os chefes ladrões da época de Micenas, eram sobretudo grandes proprietários rurais que se deleitavam com ouvir celebrar os cometimentos guerreiros do tempo passado. Vem uma altura em que aparecem no mundo grego os primeiros mercadores. E nas cidades da Jônia, na Ásia Menor, precisamente ao sul da terra eólia, em Mileto, Esmirna e outros portos. Homero vive no século VIII, numa destas cidades da costa jônia, não podemos precisar qual. É a época em que vai desencadear-se a luta das classes com uma violência súbita, como talvez em nenhum outro momento da historia. Nesta luta, o povo miserável, que não possui terras ou as possui medíocres, conduzido pela classe dos mercadores, vai tentar arrancar aos nobres proprietários o privilegio quase exclusivo que eles se tinham arrogado sobre o solo. No mesmo golpe arrancam à classe possidente a sua cultura, apropriam-se dela e com ela afeiçoam as primeiras obras-primas do povo grego.

Recentes trabalhos sugeriram que o nascimento da Ilíada, no século VIII, na Jônia, se coloca no momento em que a poesia improvisada e ainda flutuante se fixa numa obra de arte escrita e elaborada. O aparecimento da primeira epopéia, a mais bela da herança humana, esta ligado ao nascimento desta nova classe de burgueses comerciantes. São os comerciantes que difundem subitamente o uso antigo, mas pouco espalhado, da escrita. Um poeta jônio - um poeta de gênio a quem a tradição da o nome de Homero - eleva ao nível da obra de arte uma parte por ele escolhida da matéria tradicional épica improvisada. Ele compõe e escreve enfim, sobre papiro, a nossa Ilíada.

E o mesmo que dizer que a classe burguesa da valor artístico, da forma a uma cultura poética até ai informe. Ao mesmo tempo, esta cultura poética é posta por ela, nas recitações publicas, ao serviço de toda a cidade, ao serviço do povo.

Se quisermos caracterizar o gênio de Homero, diremos, antes de mais, que é um grande, um prodigioso criador de personagens.

A Ilíada é um mundo povoado, e povoado pelo seu criador de criaturas originais, diferentes umas das outras, como o são os seres vivos. Homero teria o direito de se apropriar da frase de Balzac: "Eu faço concorrência ao registro civil." Esta faculdade de criar seres em grande número, distintos uns dos outros, com o seu estado civil, os seus sinais característicos, o seu comportamento próprio (hoje diríamos: com a sua impressão digital), possui-a Homero no mais alto grau, como Balzac e também como Shakespeare, como os maiores criadores de personagens de todos os tempos.

Para fazer viver uma personagem - sem a descrever: pode dizer-se que Homero não descreve nunca -, basta por vezes ao poeta da Ilíada atribuir-lhe um só gesto, uma palavra única. Assim há centenas de soldados que morrem nos combates da Ilíada. Certas personagens entram no poema apenas para nele morrerem. E sempre ou quase sempre é um sentimento diferente em relação à morte que exprime esse gesto pelo qual o poeta dá a vida no instante mesmo em que a retira. "E Diores tombou no pó, de costas, estendendo os braços para os seus companheiros." Criou muitas vezes um poeta um ser para tão pouco e por tão pouco tempo? Um simples gesto, mas que nos toca no fundo, dando-nos a conhecer Diores no seu grande amor da vida.

Vejamos um quadro um pouco mais desenvolvido. Uma imagem de vida e uma imagem de morte.

"Polidoro era o mais novo dos filhos de Priamo e o mais amado deles. Na corrida, triunfava de todos. Nesse dia, por criancice, para mostrar o vigor dos seus jarretes, saltou e pôs-se a correr em frente das linhas..." Nesse momento, Aquiles fere-o. «...e ele caiu, gritando, sobre os joelhos, e uma nuvem negra envolvia os seus olhos, ao mesmo tempo que, amparando com as mãos as entranhas, tombava de vez".

E eis a morte de Harpalo. É um valente, mas que não consegue dominar um movimento de medo instintivo.

Virando costas, recuou para o grupo dos companheiros, ao mesmo tempo que olhava para todos os lados, receoso de que uma flecha de bronze lhe viesse ferir a carne.

E ferido e, no chão, o seu corpo exprime ainda a sua revolta, torcendo-se "como um verme".

A atitude tranqüila do corpo de Cebreno exprime, pelo contrário, a simplicidade com que o herói, cuja bravura e sem macula, entrou na morte. Ao redor dele continua o tumulto da batalha: ele repousa no esquecimento e na paz.

Os Troianos e os Aqueus lançavam-se uns contra os outros, procurando despedaçar-se... Em volta de Cebreno, centenas de dardos agudos iam cravar-se no alvo... Centenas de grandes pedras rebentavam os escudos dos combatentes. Mas ele, Cebreno, grande, ocupando um grande espaço, jazia no pó, para sempre esquecido dos cavalos e dos carros.

E assim que Homero vai direito ao homem. Com um gesto, uma atitude, por mais insignificante que seja a personagem que nos da a ver, caracteriza o que faz o fundo de cada ser humano.

Quase todas as personagens da Ilíada são soldados. A maior parte destes soldados são bravos. Mas é notável que nenhum seja bravo da mesma maneira. A bravura de Ajax, filho de Telamon, é pesada: bravura de resistência. Ajax é um homem grande, de largos ombros, "enorme". Esta bravura é como um bloco que ninguém remove. Uma comparação (que escandalizava os nossos clássicos pela sua vulgaridade não épica (!) e a qual se fez já alusão) define-a na sua teimosia. "Muitas vezes um burro, na berma de um campo, resiste às crianças. Como que escorado, podem partir-lhe em cima pau apos pau: uma vez que entrou no trigo basto, faro a colheita. As crianças castigam-no de pancadas. Pueris violências! Não o farão mexer-se dali enquanto não se fartar. Assim combatia o grande Ajax..."

Ajax tem a coragem da obstinação. Pouca impetuosidade na ofensiva, a sua massa de ,javali a isso se não presta. Pesado de espírito como de corpo. Não estúpido, antes limitado. Há coisas que ele não compreende. Assim, na embaixada dos chefes junto de Aquiles, não compreende que o herói se obstine por causa de Briseida: Por causa de uma só mulher! , exclama, quando vimos oferecer-te sete, belíssimas, e ainda por cima montes de outros presentes.

A rudeza de Ajax serve-o admiravelmente na defensiva. Deram-lhe ordem de ficar onde o puseram, e ai fica. Limitado no sentido etimologico da palavra: a maneira de um limite que e posto ali para dizer que ndo se deve passar alem. O poeta chama-lhe uma torre, um muro. Bravura de betdo.

Ei-lo no barco que defende, caminhando no castelo da proa "a grandes passadas", dominando todo o espaço a guardar, matando a lançadas metódicas os assaltantes um após outro, ou armando-se, se preciso for, de um enorme choque de abordagem. A sua eloqüência é a de um soldado. Diz-se em três palavras: não arredar pé. "Com quem mais contam?", grita ele... "Só nós temos a nós... Logo, a salvação está nas nossas mãos." O desanimo é outra coisa que não compreende. Sabe que uma batalha não é um ,baile, como ele mesmo diz, mas um lugar onde, no corpo a corpo pomos em contato os braços e a coragem com os do inimigo. Então "sabe-se num instante, e ainda bem, se se vai morrer ou continuar vivo". Eis os pensamentos simples que fazem, no meio do combate, nascer o sorriso no rosto terrível de Ajax.

A bravura de Ajax é a do espartano ou do romano antecipado, do espartano a quem o regulamento militar proibia recuar, de Horácio Cocles sobre a sua ponte. Bravura de todos os bons soldados que se deixam matar para agüentar. Heroísmo pintado por Homero muito antes que Plutarco o tenha passado ao copiador, ao alcance do primeiro homem de letras que apareça. Diferente é a bravura de Diomedes. Coragem, não de resistência, mas de ímpeto. Não bravura espartana, mas fúria francese. Diomedes tem a fogosidade e o atrevimento da juventude, tem a labareda. É ele o mais jovem dos heróis da Ilíada, depois de Aquiles. A sua juventude é atrevida para com os mais velhos. Na cena noturna do conselho dos chefes, Diomedes mostra-se impetuoso a atacar a conduta de Agamêmnon: pede que o rei dos reis apresente desculpas a Aquiles. Entretanto, no campo de batalha, é um soldado disciplinado, aceita tudo do general-comandante, mesmo as mais injustas censuras.

Diomedes e um soldado sempre pronto a marchar, tem alma de voluntario. Apos um duro dia de batalha, é ainda ele que se oferece para um perigoso reconhecimento noturno no campo troiano. Gosta de fazer mais que o seu dever. Uma embriaguez leva-o para o mais aceso do combate. Quando todos os chefes fogem diante de Heitor, Diomedes é ainda empurrado para a frente pela coragem que nele habita. A sua lança participa desta embriaguez: "A minha lança esta louca entre as minhas mãos, leva o próprio velho Nestor a precipitar-se contra Heitor. É preciso que Zeus, que quer a vitoria de Heitor, expulse com relâmpagos os dois bravos do campo de batalha. "A labareda branca jorrou terrível e caiu, entre o odor do enxofre queimado, mesmo a frente do carro de Diomedes. Os cavalos amedrontados procuram esconder-se debaixo do carro, as rédeas escapam-se nas mãos de Nestor, Mas Diomedes não tremeu.

Homero deu a Diomedes a coragem mais brilhante de todo o poema. O soldado combate tão longe dos seus que,do filho de Tideu (Diomedes), diz o poeta, não podeis saber se luta do lado dos de Tróia ou dos Aqueus.

As comparações de que Homero usa para o mostrar aos nossos olhos tem sempre um caráter arrastante: ele é a água duma torrente que na planície derruba as sebes dos pomares e esses diques de terra com que os camponeses procuram deter a água que transborda. Para acentuar a qualidade desta coragem brilhante, Homero acende em pleno combate uma labareda simbólica no alto do capacete de Diomedes.

Este herói recebe enfim do poeta o privilegio único de combater contra os deuses. Nem Aquiles nem nenhum dos outros se arriscam a enfrentar os Imortais que se juntam aos combates dos mortais. Só Diomedes, em cenas de uma singular grandeza, leva a temeridade ao ponto de perseguir e atacar Afrodite, Apolo, e depois o próprio Ares. Ataca a deusa da beleza que tentava furtar-lhe um adversário troiano que ele derrubava. Fere-a e faz correr o sangue. "O seu dardo agudo, através do ligeiro véu tecido pelas Graças, penetra na pele delicada do braço, e, acima do punho da deusa, jorra o sangue imortal. Do mesmo modo, fere Ares, e o deus dos combates solta um rugido como o de dez mil guerreiros. Tudo isto sem arrogância. Não há presunção ímpia em Diomedes. Nada além desse fogo interior que o impele a todas as audácias. Diomedes é um apaixonado. Mas que diferença singular a que há entre o apaixonado sombrio que e Aquiles e Diomedes, o apaixonado luminoso! Diomedes é um entusiasta.

Entusiasta: a palavra designa em grego (a etimologia o indica) um homem que traz em si o sopro divino. Uma deusa e amiga de Diomedes: a belicosa mas sábia Atena habita nele, confunde com a dele a sua alma. Sobe ao lado de Diomedes no carro. É ela que o lança no coração da peleja, ela que o enche de força e de coragem - "Ama-me, Atena!" grita-lhe Diomedes -, ela que aponta aos seus golpes o ardente Ares, esse furioso, o Mal encarnando, diz Atena, deus detestado pelos homens e pelos deuses, porque desencadeia a guerra hedionda, esse deus que entre os Gregos sempre teve poucos templos e altares.

A fé que deposita na palavra de Atena é, para Diomedes, a fonte profunda da coragem.

Esta fé da, por momentos, a este soldado aqueu um ar de parentesco com um cavaleiro da nossa Idade Media. Diomedes e o único da Ilíada que pode ser denominado cavaleiresco. Um dia, antes de iniciar o combate com um troiano de quem ignora o nome, sabe, no momento em que o vai ferir, que esse nome e Glaucos e esse homem o neto de um hospede de seu avô. Então o bravo Diomedes sentiu grande alegria e, cravando a lança na terra nutriente, dirigiu ao seu nobre adversário estas palavras plenas de amizade: "Em verdade tu és um hospede da minha casa paterna e os nossos lagos vem de velha data... Não me lembro de meu pai, era muito pequeno quando ele morreu... Por ele e por teu pai, sejamos doravante amigos um para o outro. Tu, na Argólida, serás sempre o meu hospede, e eu serei o teu na Licia, no dia em que for a essa terra. Evitemos as nossas lanças na batalha. Tenho outros Troianos a matar e tu outros Aqueus... Troquemos as nossas armas, para que todos saibam que nos orgulhamos de ser amigos e hospedes por nossos pais..." Dito isto, os dois guerreiros saltam dos carros, apertam as mãos e firmam amizade.

A cena é irradiante. Homero não podia atribuir este gesto generoso a nenhum outro dos seus heróis que ao entusiasta Diomedes.

Cena surpreendente, mas cujo fim nos surpreende mais ainda. Assim ela se conclui: "Mas nesse instante Zeus confundiu o espírito de Glaucos, que deu a Diomedes apenas de ouro em troca de arenas de bronze - o valor de cem bois pelo de nove".

O poeta não nos diz que o seu favorito tenha ficado satisfeito. Dá-o no entanto a entender, uma vez que Diomedes não faz notar a Glaucos o erro. Este grão de capacidade na alma cavalheiresca de Diomedes é o contraveneno do idealismo convencional que ameaça de perigo mortal toda a obra cujas personagens são heróis. Profundo realismo de Homero na pintura do coração humano.

Não há só soldados na Ilíada, há mulheres, há velhos. E entre os soldados não há apenas valentes, há Paris.

Os estranhos amores de Paris e de Helena estavam, segundo a tradição, na origem da guerra de Troia. Continuam presentes e ativos, com uma força singular, no conflito da Ilíada.

Paris era o sedutor e o raptor de Helena. Primeiro autor da guerra, era também vencedor de Aquiles, a quem matava com a sua flecha. É de crer que houve um tempo em que, nas epopéias do ciclo de Troia anteriores a Ilíada, Paris era apresentado como o herói da guerra que provocara, o campeão de Troia e de Helena.

Parece ter sido o próprio Homero que, substituindo-o neste nobre papel por seu irmão Heitor, personagem mais recente no ciclo troiano, fez de Paris o covarde da Ilíada. Em todo o caso, o instinto dramático de Homero coloca Paris nos antípodas de Heitor e mantém, através de todo o poema, um conflito permanente entre os dois irmãos. Heitor é o puro herói, o protetor e salvador de Troia, Paris é quase o covarde no estado puro, é "o flagelo da sua pátria".

Não é que Paris não experimente por repentes o prestigio do ideal do seu tempo: quereria ser bravo, mas, ser bravo em atos - o seu coração é o seu belo corpo de covarde, no instante decisivo, recusam-se. Com muitos gemidos e desculpas, promete a Heitor segui-lo ao combate, que abandonou sem razão que colha. Explicações miseráveis: "Retirei-me para o meu quarto, para me entregar ao desgosto". Promessas vacilantes «Agora minha mulher me aconselha com doces palavras que volte ao combate...» (Estas doces palavras tínhamo-las nós ouvido antes. Uma salva de injúrias que Páris engolia quase sem resposta.) E continua: «E eu próprio creio bem que será melhor assim... Espera-me, pois. Deixa apenas que envergue a minha armadura. Ou antes, parte, eu te seguirei, e penso que me juntarei a ti.» Para um soldado, não falta desenvoltura ao tom.

Certos pormenores materiais desenham ainda a cobardia de Páris. O arco é a sua arma preferida. Permite-lhe evitar o corpo a corpo que faz «tremer os seus joelhos e empalidecer as faces». Para desferir o arco, esconde-se atrás dos seus camaradas ou da estela dum túmulo. Se fere um inimigo, «salta para fora do esconderijo, a rir às gargalhadas».

Contudo, Páris nao é o cobarde absoluto. O medo afasta-o da peleja, mas acontece que a vaidade, o desejo de gloríola lá o reconduz. Porque Páris é vaidoso da sua beleza, vaidoso da pele de pantera que traz sobre os ombros mesmo no combate, vaidoso do seu penteado em caracóis que é um penteado de mulher. É vaidoso das suas armas, que passa o tempo a polir no aposento das mulheres, enquanto os outros se batem. Tudo isto, trajes e beleza – e a sua maneira de «mirar as raparigas», a sua paixão das mulheres, os seus triunfos de sedutor—, não deixou de fazer de Páris, em Tróia, uma personagem talvez desprezada, mas importante. De bom grado ele juntaria aos seus diversos títulos de «subornador», com que Heitor o vergasta como insultos, o título de bravo guerreiro. Com a condição de obter com pouco trabalho com o seu arco — esse certificado de bravura. Apanhado neste conflito da gloríola e do medo, Páris sai dele com o desembaraço e as reticências meio sinceras que marcam de facto a sua própria incerteza sobre os sentimentos que, afinal, prevalecerão em si. Este belo rapaz, cobarde e vaidoso, em cujo leito Afrodite lança Helena revoltada, será, afinal, apenas desprezível?

A análise psicológica no simples plano humano não permite responder a esta questão. Não atinge Páris no seu cerne. A pessoa de Páris só se explica se reconhecermos que ela é o lugar duma experiência a que teremos de chamar religiosa. Insultado por Heitor, Páris admite sem dificuldade que o seu irmão o censurou justamente da sua cobardia. O que ele não aceita é a injúria feita à sua beleza e aos seus amores. Ele replica ao irmão, não sem justo orgulho: «Não tens o direito de me censurar pelos dons encantadores da loura Afrodite. Não devemos desprezar os dons gloriosos dos deuses. É o Céu que os outorga, e nós não temos meio de fazer nós próprios a nossa escolha.» Como se tornou altivo o tom do leviano Páris! Chegou a sua vez de dar lições a Heitor. Os dons que recebeu do Céu, não os «escolhe» o homem, foram-lhe «dados». Foi de Afrodite que ele recebeu a graça da beleza, o desejo e o dom de inspirar o amor. Amor e beleza, dons gratuitos, coisas divinas. Páris não permite que os rebaixem, que insultem assim uma divindade. Não escolheu, foi objecto de uma escolha: tem a consciência de ser um eleito. (O facto de ele receber o divino na sua carne não deve impedir-nos de admitir que Páris faz uma experiência religiosa autêntica.)

A partir daqui compreendemos a perfeita coerência do carácter de Páris. A sua paixão não é a de um simples gozador, é uma consagração. Não lhe dá apenas o prazer dos sentidos — embora lho dê, indiscutivelmente — , aproxima-o da condição da divindade. A sua leviandade, a sua indiferença, atingem a serenidade dos deuses bem-aventurados. Não há mais questões a pôr. Desprendido doutros cuidados que não sejam os de Afrodite, vai buscar à consciência de ser o representante dela entre os homens contentamento, plenitude, autoridade. A sua vida é simplificada porque é dirigida.

É certo que, no mundo da guerra onde vive, se comporta como um cobarde. A sua vontade é fraca ou nula. Mas esta fraqueza fundamental, é capaz de a encher completamente a força de Afrodite. Páris achou no abandono à vontade divina uma forma de fatalismo que o dispensa do esforço e o liberta do remorso. A sua piedade justifica a sua imoralidade. E que grandeza no seu apelo ardente a Helena quando Afrodite, depois de o arrancar à lança de Melenau, o transporta ao leito perfumado onde sua mulher, à força, vai ter com ele: «Vamos! deitemo-nos e saboreemos o prazer do amor. Nunca o desejo a este ponto se apoderou de mim, apertando-me a alma. Não, nem mesmo no dia em que, arrebatando-te da tua bela Lacedemónia, ganhei o mar com os meus barcos, e na ilha de Crânao me uni a ti no amor — não, não, nunca como te amo nesta hora em que a volúpia do desejo me possui.»

Afrodite fala pela boca de Páris, Afrodite força cósmica, e confere-lhe grandeza, por mais pobre que seja o instrumento que escolheu — esse cobarde que o povo troiano «revestiria de vontade de uma túnica de pedras!»

A uma distância infinita de Páris, Helena, sensível mais do que sensual, coloca-se, pelo seu carácter, no pólo inverso de Páris. Moral diante do seu amante amoral, resiste à paixão que Afrodite lhe inflige, quereria recusar-se ao prazer que esta a obriga a partilhar. A amoralidade de Páris procedia da sua piedade, a moralidade de Helena revolta-a contra a deusa.

Ambos belos e ambos apaixonados, a sua beleza e a sua paixão são dons que eles não podem afastar e que constituem o seu destino.

Contudo, a natureza de Helena era feita para a ordem e a regra. Ela evoca com pena o tempo em que tudo lhe era fácil, no respeito e na ternura dos laços familiares. «Deixei o meu quarto nupcial, os parentes, a minha família que­rida... Por isso, entre lágrimas vou penando.» Julga-se a si mesma com severidade, acha natural o juízo severo feito sobre ela pelo povo troiano.

Helena ainda se consolaria do seu destino se Páris fosse valente, se tivesse honra, como era o caso de seu marido Menelau, que ela dá como exemplo de coragem ao amante. Nada dispunha pois a moral Helena a desempenhar, na glória que a poesia confere, o papel da mulher adúltera, instrumento de raínha de dois povos. Paradoxalmente, Homero fez desta esposa culpada, por quem Aqueus e Troianos se exterminam, uma mulher simples que só pedia que a deixassem viver obscuramente a sua vida de boa esposa e de terna mãe. Há paradoxo desde que os deuses entram nas nossas vidas— pelo menos estes deuses homéricos que não apreciam muito a moral que nós inventámos para nos defendermos deles. Afrodite apoderou-se de Helena para manifestar a sua omnipotência. Verga a sua vítima sob a dupla fatalidade da beleza e do desejo furioso que inspira aos homens. Helena torna-se a imagem da própria Afrodite.

E é esta inquietação religiosa que se apossa dos homens na sua presença. Qualquer coisa que, por um instante, lança os velhos de Tróia em êxtase e tremor e faz desatinar a experiência. Quando a vêem subir às muralhas onde estão reunidos, estranhamente dizem: «É justo que, por uma tal mulher, Aqueus e Troianos sofram longas provações, porque ela se assemelha, de maneira terrível, às deusas imortais.» Terríveis velhos estes, que justificam a selvática matança de dois povos pela simples beleza de Helena!

Contudo, nem todos os Troianos se enganam. Nem Príamo nem Heitor confundem Helena, mulher simples e bondosa, Helena que se odeia a si mesma, Helena que odeia a sua paixão incompreensível e contudo a ama, como ama Páris, no sentido de que não poderá nunca desligar-se dele – essa Helena que é toda humana, não a confundem com a beleza fatal que está nela como uma labareda destruidora, manifestação da omnipotência divina. «Para mim», diz Príamo, «não és tu a culpada, mas os deuses.»

Helena não é senhora das consequências da sua beleza. Essa beleza, não a quis ela nem a cultivou. Recebeu-a como uma maldição do Céu, tanto como um dom. A sua beleza é também a sua fatalidade.

Eis agora, após estas estrelas brilhantes, mas de segunda grandeza, os astros cintilantes da Ilíada, Aquiles e Heitor. Nestes dois sóis do poema, Homero ilumina dois modos tão essenciais da vida humana que é difícil vivê-la a uma certa altitude sem participar de um e de outro. Aquiles aparece em primeiro lugar como uma imagem da juventude e da força. Jovem pela idade (anda pelos vinte e sete anos), é-o sobretudo pelo calor do sangue, pela fogosidade das suas cóleras. Juventude indomada, que cresceu na guerra e que não aceitou ainda nem sequer conheceu o freio da vida social.

Aquiles é a juventude e é a força. Uma força segura de si mesma, que os fracos imploram para se defenderem dos humores dos grandes. Assim faz Calcas, o adivinho, no limiar da Ilíada. Interrogado por Agamémnon sobre a causa da peste que caiu sobre a armada, Calcas hesita em responder. Sabe que é perigoso dizer a verdade aos poderosos. Implora a protecção de Aquiles. O jovem herói promete-lhe a sua força sem reserva: «Tranquiliza-te, Calcas. Ninguém entre os Aqueus, vivo eu e com os olhos abertos, levantará contra ti mãos violentas... ainda que designasses Agamémnon, que se glorifica de ser o mais poderoso dos Aqueus.» Eis a primeira imagem de Aquiles, irradiante de força.

Mais adiante, quando, desafiado por Agamémnon, rompe em ameaças, essa força afirma-se com orgulho no amplo juramento (que apenas citarei parcialmente) que Aquiles faz de não mais agir. «Sim, por este ceptro sem folhas nem ramos, que não reverdecerá mais depois que o bronze o cortou duma árvore da montanha... em verdade, por este ceptro entregue aos Aqueus por Zeus para que eles ditem a justiça, e em seu nome mantenham as leis, não tardará que o pesar da ausência de Aquiles invada todos os filhos dos gregos, e tu gemerás de impotência de os salvar quando eles caírem numerosos sobre os golpes mortais de Heitor, e tu sentir-te-ás irritado e dilacerado no mais fundo da alma por teres ultrajado o mais bravo dos Aqueus. — Assim falou o filho de Peleu e, lançando ao chão o ceptro dos pregos de ouro, sentou-se.»

A partir daí, e durante mais de dezoito cantos, a Força está imóvel. Imagem tão impressionante nesta imobilidade mortal para os Gregos, como na sua fúria nos cantos de batalha de Aquiles. Porque nós sabemos que, para salvar o exército, bastaria que Aquiles, que «se sentou», se levantasse. Ulisses, no centro da sua ausência, diz-lhe: «Levanta-te e salva o exército...»

Finalmente, a Força levanta-se. «E Aquiles levantou-se... Uma alta clari­dade irradiava da sua cabeça até ao Céu, e ele avançou até à borda do fosso.

Ali, de pé, soltou um grito, e esta voz suscitou entre os Troianos um tumulto indizível.» Para pintar a força de Aquiles, Homero tem comparações de grande poder. Aquiles é semelhante a um vasto incêndio que estrondeia nas gargantas profundas da montanha; a espessa floresta arde, o vento sacode e rola as labaredas, assim se precipitava Aquiles, como um deus, matando todos aqueles a quem perseguia, e a terra negra escorria sangue.

Ou ainda tira o poeta, não já de um flagelo natural, mas da imagem dum trabalho pacifico, um ponto de comparação do furor destruidor de Aquiles. «Tal como dois bois de larga fronte calcam a cevada branca numa eira circular e como os grãos sob as patas dos animais que mugem se escapam das hastes frágeis, assim, impelidos pelo magnânimo Aquiles, os cavalos pisavam os cadáveres e os escudos. E todo o eixo estava inundado de sangue e os taipais do carro escorriam das gotas de sangue que saltavam das rodas e dos cascos dos cavalos. E o filho de Peleu era ávido de glória, e o sangue sujava as suas mãos inevitáveis.»

Força destruidora, força maculada de sangue, assim surge Aquiles nos cantos mais terríveis do poema. Aquiles é atroz. Raramente um poeta levou o horror mais longe que em cenas como a da morte do adolescente Licáon. A súplica desta criança desarmada, a lembrança do seu primeiro encontro com Aquiles no pomar de seu pai, a história do seu salvamento inesperado, tudo isto enternece, mas apenas para tornar mais brutal a resposta de Aquiles, mais selvática a morte e mais horrível o gesto de agarrar o cadáver pelos pés e de o lançar aos peixes do Escamandro entre imprecações.

Em tudo isto, é ainda um homem, ou nada mais que um bruto, este filho duma deusa? Um homem em todo o caso, pela sua extrema sensibilidade às paixões. É aqui que está a mola psíquica da força de Aquiles: sensível às paixões, e da maneira mais aguda, devorado pela amizade, pelo amor-próprio, e pela glória, e pelo ódio. A força de Aquiles, o mais vulnerável dos homens, só se declara, com uma violência inaudita, no fluxo da paixão. Aquiles, que parece aos olhos horrorizados de Licáon, aos nossos, tão insensível, tão inflexível, só é inflexível porque está todo ele retesado por uma paixão que o endurece como o ferro, só é insensível a tudo porque é unicamente sensível a ela. Nada de sobre-humano, nada de divino neste homem, se o divino é o impassível. Aquiles nada domina, tudo sofre. Briseida, Agamémnon, Pátroclo, Heitor — a vida desencadeia nele, destes quatro pontos cardeais do seu hori­zonte sentimental, uma tormenta após outra, de amor ou de ódio. A sua alma é como um vasto céu, jamais sereno, onde a paixão amontoa e faz rebentar incessantes tempestades.

A calma nunca passa de aparência. Assim, na cena de reconciliação com Agamémnon, Aquiles, para quem este títere que tanto o ulcerou já não conta, está pronto a todas as concessões, até as mais generosas, e de repente, porque tardam em partir, a paixão nova que o possui, a amizade que pede vingança, faz rebentar a calma da superfície. Ele grita: «O meu amigo está morto, deitado na minha tenda, traspassado pelo bronze agudo, os pés para a entrada, e os meus companheiros choram em redor dele... E eu, eu não tenho outro desejo no coração que a carnificina, o sangue e o gemido dos guerreiros.»

Aquiles é uma sensibilidade violentamente abalada pelo objecto que deseja, lamenta ou detesta no momento presente, cega para todo o resto. A imagem passional pode mudar: é Agamémnon, Pátroclo ou Heitor. Mas logo que tomou posse da alma, ela põe em movimento todo o ser e desencadeia a necessidade da acção. A paixão é. em Aquiles, uma obsessão que só pela acção pode ser aliviada.

Este encadeamento — paixão, sofrimento, acção — é Aquiles. Mesmo depois da morte de Heitor, quando parece que a paixão saciada (mas não está na sua natureza sê-lo alguma vez) o deveria deixar em paz.

«Acabada a luta. os soldados dispersaram-se, voltaram às naves, a fim de comer e gozar do suave sono. Mas Aquiles chorava, lembrando-se do compa­nheiro querido, e o sono, que a tudo doma, não o visitava a ele. Andava de um lado para o outro, deplorando a perda da força de Pátroclo e do seu coração heróico. E lembrava-se das coisas realizadas e dos males sofridos em comum, de todos os seus combates e dos perigos enfrentados no mar infinito. A esta lembrança, as lágrimas caíam-lhe, ora deitado de lado, ora de costas, ora com o rosto contra a terra. Depois levantou-se bruscamente, com o coração intu­mescido de dor, e foi ao acaso pela borda do mar, até ao momento em que, quando a Aurora aparecia por cima das vagas e dos promontórios, atou Heitor atrás do carro e duas vezes em volta do túmulo de Pátroclo o arrastou. Depois voltou à sua tenda para repousar e deixar Heitor estendido, com o rosto no pó.»

Viu-se neste texto como a imagem passional, sobretudo no silêncio noc­turno, invade o campo da consciência, faz subir na alma todas as recordações, torna a dor pungente, até que se desencadeie a acção que, por um momento, liberta da angústia.

Eis a primeira chave de Aquiles: paixões fortes que se aliviam graças a violentas ações.

Um homem assim, começa por parecer um puro indivíduo. O demónio do poder, que se alimenta e se acresce de todas as suas vitórias, parece ter-se tomado a lei única da pessoa de Aquiles. O herói quebra e pisa todos os laços que o ligavam à comunidade dos seus camaradas, a todos os outros homens. A paixão, pela acção dissolvente e anárquica que lhe é própria, aniquila nele o sentido da honra, vota-o à mais desumana crueldade. Quando Heitor vencido e moribundo lhe dirige o apelo mais pungente que na Ilíada se encontra, rogando-lhe apenas que o seu corpo seja entregue aos seus. Aquiles responde: «Cão, não supliques nem pelos meus joelhos nem pelos meus pais. Tão verdade como eu quereria ter a força de cortar o teu corpo em pedaços e de comer a tua carne crua pelo mal que me fizeste, ninguém afastará dos cães a tua cabeça, ainda que me oferecessem dez ou vinte vezes o teu resgate, ainda que Príamo pusesse na balança o teu peso em ouro... Não, tua mãe não te
chorará num leito fúnebre. Os cães e as aves te devorarão todo.»

Neste caminho deserto por onde Aquiles avança, é para a solidão mais inumana que ele marcha. Vota-se à sua própria destruição. Vêmo-lo já na cena em que fala de abandonar o exército, sem cuidar do desastre dos seus Atreve-se a declarar preferir a velhice à glória. Viver velho, remoendo dia apos dia o seu rancor, é negar o sentido da sua vida. Não o pode fazer.

Em verdade, Aquiles ama a vida, ama-a prodigiosamente e sempre no instante e no ato. Sempre pronto a apoderar-se do que ela lhe traz de emoção e de acção, estreitamente cingido ao presente, agarra com avidez tudo quanto cada acontecimento lhe oferece. Pronto para matar, pronto para a cólera, pronto para a ternura e mesmo para a piedade, a tudo acolhe, não à maneira do sage antigo, com uma igual indiferença, mas à maneira duma natureza robusta, faminta, que se alimenta de tudo com igual ardor. Extraindo mesmo do sofrimento a alegria. Da morte de Pátroclo tira ele a alegria da carnificina, e o poeta diz-nos, no mesmo momento, que «uma dor horrível enchia o coração de Aquiles» e que «as suas armas eram asas que o impeliam e erguiam o príncipe dos povos». Este arrebatamento da vida é em Aquiles tão forte que tudo nele parece desafiar a morte. Nunca pensa nela, a morte não existe para ele, de tal maneira está ligado ao presente. Duas vezes é avisado: se matar Heitor, morrerá. Responde: que me importa? Antes morrer que ficar junto das naves, «inútil fardo da terra». Ao seu cavalo Xanto, que singularmente toma a palavra para lhe anunciar a morte no próximo combate, responde com indiferença: «Para quê anunciar a minha morte?... Sei que o meu destino é morrer longe de meu pai e de minha mãe. E contudo não me deterei antes de ter fartado os Troianos de combates. — Assim falou e, com grandes gritos, impeliu os cavalos para as fileiras da frente.»

A sageza de Aquiles é, aqui, profunda. Ama a vida o bastante para preferir a intensidade dela à duração. É este o sentido da escolha que fizera na juventude: a glória conquistada na ação, eis uma forma de vida que lhe inspira um amor ainda mais violento que uma vida que decorresse sem história. Esta escolha, após um instante de fraqueza, é mantida com firmeza. A morte em glória é também a imortalidade na memória dos homens. Aquiles escolheu viver até nós e para além de nós.

Assim o indivíduo Aquiles se liga pelo amor da glória à comunidade dos homens de todos os tempos. A glória não é para ele apenas um túmulo solene, é sim a pátria comum dos homens vivos.

Há ainda uma cena da Ilíada, a mais bela, em que Aquiles, de outro modo, revela a humanidade profunda do seu ser. Uma noite em que trouxera, depois de o ter arrastado atrás do carro, o corpo de Heitor para a sua tenda, recorda, no silêncio, o amigo morto. De súbito, Príamo, o velho pai privado do seu filho, apresenta-se perante ele, com risco da vida. Ajoelha aos pés de Aquiles, «beija aquelas mãos assassinas que lhe mataram tantos filhos». Fala do pai de Aquiles, Peleu, que vive ainda na sua terra distante e se regozija à ideia de que o filho está vivo. Ousa suplicar a Aquiles que lhe restitua o corpo de Heitor para que este receba honras fúnebres. Aquiles é tocado até ao fundo da alma pela invocação de seu pai. Levanta docemente o velho e, durante alguns instantes, choram ambos, um por seu pai e por Pátroclo, o outro por Heitor. Aquiles promete a Príamo restituir-lhe o corpo do filho. Assim se conclui, numa cena de extrema beleza e de humanidade tanto mais luminosa quanto a não esperávamos de Aquiles, o retrato deste duro herói da paixão e da glória.

E agora, admirável Heitor, gostaríamos de falar de ti em termos líricos. Mas Homero, que trata todas as suas personagens com igual imparcialidade, que não faz nunca juízos sobre eles, no-lo proíbe. O poeta quer ser apenas o estanho do vidro, que permite às suas criaturas reflectirem-se no espelho da sua arte.

Contudo, Homero não consegue esconder-nos a sua amizade por Heitor. Ao passo que os traços da pessoa de Aquiles os foi buscar à mais antiga tradição da epopeia, Homero modelou Heitor com as suas próprias mãos, usando talvez, quando muito, um esboço rudimentar anterior. Heitor é a sua criatura de eleição. Mais do que nenhuma outra, o poeta diz nela a sua fé no homem. Não nos esqueçamos também de fixar este ponto: ao escrever um poema no quadro geral da guerra de Tróia, o que implica a vitória dos Gregos, poema no qual não esconde o seu patriotismo helênico, Homero vem a escolher o chefe dos inimigos para encarnar, nele, a mais alta nobreza humana que pode conceber. Há aqui uma prova de humanismo que não é rara entre os Gregos.

Como Aquiles e como a maior parte das personagens de epopeia, Heitor é bravo e forte. Comparações brilhantes, jamais tingidas de sangue, desenham a sua força e a sua beleza. «Tal como o garanhão, alimentado de cevada abundante e longo tempo preso à manjedoura, parte de súbito o laço, e, num galope que faz ressoar o solo, corre a mergulhar-se nas águas do claro rio, e depois, de cabeça erguida, sacudindo as crinas, orgulhoso da sua beleza, salta até onde pastam as éguas, assim Heitor, etc...»

Tão bravo como Aquiles, a bravura de Heitor é no entanto de uma quali­dade inteiramente diferente. Não é bravura de natureza, mas de razão. Cora­gem conquistada sobre a sua própria natureza, disciplina que se impôs a si próprio. A paixão de Aquiles pode comprazer-se na guerra; Heitor, esse, detesta a guerra. Di-lo com simplicidade a Andrómaca: teve de «aprender» a ser bravo, a combater na primeira fila dos Troianos. A sua coragem é a mais alta coragem, a única que, segundo Sócrates, merece esse nome, porque, não ignorando o medo, o supera. Quando Heitor vê avançar ao seu encontro Ájax «monstruoso, com o seu sorriso no rosto medonho», não pode reprimir um movimento de temor instintivo. Movimento apenas corporal: o seu coração começa a «bater» mais forte no peito. Mas domina este medo físico. Para vencê-lo, apela para a sua «ciência» do combate. «Ájax», diz, «não procures assustar-me como a uma criança débil... Eu possuo a ciência de tudo quanto diz respeito à batalha. Sei a maneira de derrubar homens... Sei, à esquerda, à direita, opor o escudo de couro que é a minha boa ferramenta de guerra... Sei, no corpo a corpo, dançar a dança do cruel Ares.»

Heitor não ignora a tentação da cobardia. Tendo ficado às portas de Tróia para enfrentar Aquiles, para matá-lo ou ser morto por ele, ainda lhe é fácil afastar as súplicas que, do alto das muralhas, lhe dirigem seu pai e sua mãe para que entre na cidade. Estas súplicas dilaceram-no, representando-lhe o incêndio de Tróia, o extermínio ou a escravização dos seus, que se seguiriam à sua morte. O respeito humano basta-lhe contudo para repelir a tentação. Mas depois, abandonado a si mesmo, estranhos pensamentos, no silêncio do seu coração, perturbam este valente. Pensa na morte certa, se trava combate. Não será tempo ainda de o evitar? Porque não voltar, com efeito, para o abrigo das muralhas? Por um momento, pensa mesmo em implorar a Aquiles, em depor as armas junto da muralha para se oferecer sem defesa ao adversário. Porque não propor-lhe um acordo em nome dos Troianos? (Porque não, realmente?) Durante um momento compraz-se nestas imaginações, pormenoriza as cláusulas dum contrato razoável. De repente, tem um sobressalto. A sua loucura, a sua fraqueza aparecem-lhe claramente. Retoma o domínio de si. «Em que pensa o meu espírito?» Não, não implorará a Aquiles. Não se deixará matar como uma mulher. Não entrará desonrado em Tróia. O tempo dos devaneios passou, tão longe dele agora como os amores da mocidade. «Já não se trata hoje de falar do carvalho ou do rochedo, como o rapaz e a rapariga que ternamente conver­sam entre si.» Trata-se de olhar a morte de frente, trata-se de saber morrer como um valente. Para lutar contra a cobardia, não há somente o respeito humano, o amor-próprio, há a honra, mais alta que a vida.
Aquiles não precisa de reflectir para ser bravo. Heitor é bravo por um acto de reflexão e de razão.

Esta razão tão firme arranca-lhe por vezes palavras belas. Um dia em que seu irmão Polidamas, odedecendo a um presságio sinistro e aliás verídico, o convida a interromper o combate, Heitor, que não pode duvidar de que o presságio seja seguro, mas que quer combater apesar de tudo, replica-lhe: «O melhor presságio é combater pela nossa terra.» Palavras surpreendentes numa época em que os presságios têm grande autoridade e não se deixam facilmente desafiar, sobretudo para um homem piedoso como Heitor.

Mas só a honra e a razão nao explicam Heitor. É preciso falar das fontes profundas, das fontes afectivas da sua coragem. A honra não é para Heitor um conceito do espírito, um «ideal», é combater pela terra que ama, morrer por ela se preciso for, combater para salvar sua mulher e seu filho da morte ou da escravatura. A coragem de Heitor não é a coragem do sage: não se funda, como a de Sócrates, por exemplo, na indiferença pelos bens terrenos, alimenta- -se, pelo contrário, do amor que lhes dedica.

Heitor ama a sua pátria. Ama «a santa ílion e o povo de Príamo de lanças de freixo». Ama-os até ao ponto de os defender contra todas as esperanças. Porque ele sabe que Tróia está perdida. «Sim, eu sei-o, um dia a Santa Tróia perecerá...» Mas o amor, justamente, não se detém em tais certezas: nós defendemos até à última hora aqueles a quem amamos. Toda a ação de Heitor se orienta para a salvação de Tróia. Ao passo que Aquiles não liga importância a sentimentos sociais, Heitor está firme no amor que dedica à sua cidade, aos seus concidadãos, a seu pai, que é também seu rei. A Aquiles, chefe ainda meio selvagem duma tribo em guerra e a quem a guerra ainda mais desciviliza, a quem ela rebaixa por vezes ao nível do bruto, opõe-se Heitor, o filho da cidade que defende o seu território e a quem esta impõe, mesmo na guerra, a sua disciplina social. Aquiles é anárquico, Heitor é cívico. Aquiles quer matar em Heitor aquele a quem odeia. Heitor apenas deseja matar o inimigo mortal de Tróia. «Permitam os deuses», roga ele, ao lançar o seu último dardo, «que tu recebas o ferro da minha lança no teu corpo. A guerra seria menos pesada para os Troianos se eu te matasse: és tu o seu pior flagelo.» A guerra não impede Heitor de ser ao mesmo tempo cívico e civilizado: o seu patriotismo não precisa do ódio ao inimigo.

Civilizado é-o ainda no sentido de que está sempre pronto a concluir um pacto com o adversário. Tem o sentimento claro de que o que une os homens pode vencer o que os separa. E diz a Ájax: «Façamos um ao outro gloriosos presentes, para que digam tanto os Aqueus como os Troianos: bateram-se por causa da guerra que devora as vidas e separaram-se depois de terem firmado um pacto de amizade.»

Em Aquiles, que o odeia, Heitor vê ainda um dos seus semelhantes, com o qual não lhe parece quimérico querer tratar: pensa em propor-lhe entregar aos Gregos Helena e os tesouros roubados por Páris, sem falar duma parte das riquezas de Tróia. Não há nisto apenas uma tentação de cobardia. Há também a persistência dum velho sonho de Heitor: um pacto que reconciliaria os inimigos. Há sobretudo essa repulsa profunda pela violência, que inspira toda a sua conduta, mesmo no instante decisivo em que a razão condena imediata­ mente o projecto como uma fantasia.

Mais tarde ainda, precisamente antes do combate, propõe a Aquiles um último pacto, humano e razoável. Ele sabe que este combate é o último. («Eu te vencerei, ou tu me vencerás», diz.) Mas a ideia do pacto domina-o ainda. «Façamos um pacto e demos o prémio aos deuses. Não penso, por mim, infligir-te monstruosos ultrajes, se Zeus me outorgar resistir e arrancar-te a vida. Apenas te despojarei das tuas armas ilustres, depois entregarei o teu corpo aos Aqueus, Aquiles. Faze o mesmo comigo.»

Aquiles repele-o com brutalidade. «Heitor, não venhas falar-me de pactos entre nós, maldito! Seria o mesmo que falar de acordo leal entre os leões e os homens, entre os lobos e as ovelhas...» E acrescenta estas palavras que marcam bem o sentido da proposta de Heitor, ao mesmo tempo que definem Aquiles: «Não nos é permitido amarmo-nos, tu e eu.»

Ao passo que Aquiles não sai do particular em que a paixão o encerra, Heitor move-se no universal. Este entendimento que ele esboçava, este pro­jecto do pacto, é nada mais nada menos que o princípio, ainda elementar, mas seguro, do direito das gentes.

Mas o amor enérgico que Heitor dedica ao seu país, e que parece já alargar-se à comunidade dos homens, assenta numa base mais profunda e mais viva. Heitor ama os seus. Heitor está solidamente enraizado no amor duma mulher e duma criança. Todo o resto daí deriva. A pátria não é apenas, para ele, os muros e a cidadela de Tróia e o povo troiano (não se trata, escusado seria dizer, duma concepção de Estado a defender), a pátria são as vidas que lhe são preciosas entre todas as vidas, e que ele quer salvar, na liberdade. Nada mais carnal que o amor de Heitor pela sua terra. Andrómaca e Astianax são as imagens concretas mais claras, mais peremptórias, da pátria. Ele o diz a Andrómaca antes de a deixar para ir combater: 

«Sei que o dia virá em que a santa Tróia perecerá, e Príamo, e o bravo povo de Príamo. Mas nem a desgraça futura dos Troianos, nem a de minha mãe, do rei Príamo e de meus irmãos corajosos, que cairão sob os golpes dos guerreiros inimigos, me afligem tanto como a tua, quando um Aqueu coura­ çado de bronze te roubar a liberdade e te levar, chorosa. E tu tecerás os panos do estrangeiro, e tu levarás a água das fontes... Porque a dura necessidade assim o há-de querer... E uma grande dor te pungirá ao pensares neste esposo que terás perdido, único que poderia ter afastado de ti a servidão. Mas que a pesada terra me cubra morto antes que eu ouça os teus gritos, antes que te veia arrancada daqui.»

Andromaca ainda há pouco suplicava a Heitor que não se expusesse ao combate. Agora não pode mais, porque sabe que ele defende a sua mútua ternura. Ha nesta última conversa dos dois esposos qualquer coisa de muito raro na literatura antiga: a perfeita igualdade no amor que eles se testemunham ao mesmo mvel, amam-se ao mesmo nível. Heitor não ama em Andrómaca, nem em seu filho, bens que lhe pertençam: ama, neles, seres de um valor igual ao seu.

Tais são os «bem-amados» que Heitor defende até ao fim. Quando está diante de Aquiles — imagem do seu destino — , desarmado e perdido, ainda se bate contra toda a esperança, faz ainda um pacto com a esperança.

E o momento em que já os deuses o abandonam. Heitor julgava ter a seu lado seu irmao Deífobo, mas era Atena que, para o enganar/tomara a forma do irmao. Lançado o ultimo dardo, quebrada a espada, pede uma arma a Deífobo. Mas não há mais ninguém, está sozinho. Então conhece o seu destino, fixa-o agora na deslumbrante claridade da morte. «Ai de mim! eis que os deuses me chamam para a morte. Julgava meu irmão a meu lado, mas ele está nas nossas muralhas. Atena enganou-me. Agora a má sorte está perto, aqui, já não há rerugio... Eis que o destino me arrebata.» 

Inteiramente lúcido, Heitor conhece o seu destino, vê a morte de tão perto que lhe parece tocá-la. Mas dir-se-ia que a esta mesma visão ele vai buscar uma força nova. Logo acrescenta: «Eis que o destino me arrebata. Mas em verdade, não quero morrer sem lutar... Farei qualquer coisa de grande que os homens do futuro saberão...»

O instante da morte é ainda o da luta. Heitor responde ao destino com uma acção de homem — uma acção que a comunidade dos homens considerará grande.

Assim o humanismo de Homero nos propõe nesta personagem uma ima­gem do homem, ao mesmo tempo verdadeira e exaltante. Heitor é um homem que se define no amor dos seus, no conhecimento dos valores universais e até ao seu ultimo suspiro, no esforço e na luta. Parece, ao morrer, lançar à morte um desafio. O seu grito de homem — esse grito de homem em trabalhos de uma humanidade melhor — quer ele que seja ouvido pelos «homens do futuro» por nos. Aquiles, Heitor: oposição não apenas de dois temperamentos humanos, mas de dois estádios da evolução humana.

A grandeza de Aquiles ilumina-se aos clarões de incêndio de um mundo que parece em vias de desaparecer, esse mundo aqueu da pilhagem e da guerra. Mas estará esse mundo bem morto? Não sobreviverá ele ainda no nosso tempo?

Heitor anuncia o mundo das cidades, das comunidades que defendem o seu solo e o seu direito. Fala da sageza dos pactos, das afeições familiares que prefiguram a vasta fraternidade dos homens.

Nobreza da Ilíada, grito de verdade vindo até nós. Altura e justeza que o poema recebe destas duas grandes figuras contrárias de Aquiles e de Heitor. Contradição ligada ao desenvolvimento da história e que bate ainda nos nossos corações.

Mitologia - Mitologia Grega
4/12/2020 1:22:35 PM | Por Elizabeth Dimock
Livre
Origens ancestrais, Monte Quênia

Os povos que vivem nos sopés à volta do Monte Quênia, todos eles acreditam
ser descendentes de Gikuyu, o qual foi chamado por Mogai (o ser supremo) que lhe deu uma grande quantidade de terra que incluía rios e vales, florestas e todos os animais e plantas que lá viviam. Mogai também tinha criado a montanha, chamada Kere-Nyaga (Monte Quênia), que passou a ser o local
onde Mogai descansava quando viajava à volta do mundo. Mogai levou Gikuyu para o cimo da montanha e mostrou-lhe toda a terra que lhe tinha dado, apontando para um sítio onde cresciam figos bravos junto ao centro do país. Foi aí que Gikuyu fez a sua casa.

Todos os filhos de Gikuyu conhecem esta história sobre a origem deste povo, e conhecem também o capítulo seguinte, no qual Mogai prometeu a Gikuyu e à sua mulher, Mumbi, que os filhos e filhas cresceriam e se multiplicariam. Nasceram nove filhas, mas como poderiam multiplicar-se
se não tinham maridos?

Mogai voltou a trazer a salvação. Disse a Gikuyu
que sacrificasse uma cabra gorda que haveria de dar
à luz nove belos jovens. Houve uma grande festa quando Gikuyu levou os nove jovens para casa. As filhas aceitaram-nos como maridos, com a condição
de eles consentirem que fossem as mulheres a dirigir
a casa e de todos viverem juntos na mesma aldeia.
Até hoje, todos os Gikuyu acreditam que descendem
de um dos nove clãs chamados Wacheera, Wanjiko, Wairimo, Wamboi, Wangari, Wanjiro, Wangoi,
Waithera e Warigia.

Os Gikuyu dizem que, durante um grande número
de gerações, todas as mulheres reinaram nas suas casas. No entanto, a narrativa que os homens fazem da estória sugere que as mulheres eram severas na governação e, por fim, o acordo inicial teve de ser quebrado, o status quo foi alterado e foi dado aos homens o papel de chefes da casa.

Mitologia - Mitologia Africana
1/30/2020 8:47:10 PM | Por Nanon Gardin
Livre
A Mitologia Chinesa

Na mitologia chinesa, aquilo que começa por surpreender é a grande semelhança entre o mundo dos deuses e o dos homens. A hierarquia e a organização burocrática da sociedade criada pelos imperadores e pelo seu exercito de funcionários, bem como o seu funcionamento baseado em um sistema de recompensas e castigos, existem tanto no império celeste como no império terrestre. O Imperador de Jade usa as mesmas vestes que o imperador terrestre, e a arquitetura do seu palácio reflete a da Cidade Proibida. Contudo, segundo crenças muito antigas, estes deuses muito humanos são acompanhados por seres míticos, como o dragão e a fênix, ou por animais reais divinizados, como a tartaruga ou o tigre. A única coisa que não é estável neste mundo organizado é a própria noção de divindade. Os mortais podem tornar-se deuses e estes podem trocar de posições, podem ser despromovidos ou, pelo contrario, subir na hierarquia.

Outro dado especifico das crenças chinesas é o relacionamento quase universal de todos os níveis da existência, do microcosmos e do macrocosmos: cada elemento do individuo esta ligado a um elemento da natureza, e as invenções atribuídas aos deuses são geralmente inspiradas em coisas vistas na natureza. Por exemplo, Yu, o Grande, ao observar uma teia de aranha, inventou a rede de pesca e, ao observar o efeito dos incêndios florestais, descobriu a cozedura dos alimentos. A própria invenção dos oito trigramas divinos, descritos no Yijing (I Ching, Livro das Mutações, inicios do I milênio a.e.c., transcrito na dinastia Han), que desempenham um papel divinatório considerável no pensamento chinês, foi inspirada a Yu (ou a Fuxi, o Primeiro Augusto, segundo algumas versões) pela contemplação das configurações observáveis no céu e na terra, a fim de ordenar ó4 hexagramas (ou seja, 8 x 8 hexagramas), ó4 situações de mutações ou de evoluções primordiais, que permitem que a estabilidade e a paz reinem no império e no coração do homem. Outra característica é o fato de a cosmologia chinesa se basear no numero cinco, numero propicio que rege o microcosmos humano (cinco sentidos, cinco extremidades, cinco partes do corpo, etc.) e os elementos (madeira, fogo, terra, metal e agua), a que se associam cinco estações e cinco direções, que são os quatro pontos cardeais e o centro. Cinco montanhas sagradas cobrem o território da China, entre as quais os montes Kunlun, residência dos deuses.

As três grandes religiões

A China é o país da tolerância religiosa. Geralmente associadas a filosofias, três religiões fundam o pensamento chinês: o taoísmo, o confucionismo e o budismo. Ao lado destas grandes correntes de pensamento, subsistiram crenças muito antigas, que se vivem quotidianamente na China, na forma de animais fantásticos ou de divindades protetoras do homem, do lar ou da região, ou ainda na forma de praticas divinatórias, em que a astrologia desempenha um papel predominante. Assim, o dragão, animal simbólico da China, tem como antepassada uma serpente, que já era venerada pelos habitantes da China vários milênios a.e.c. O budismo implanta-se na China a partir do século 1 d.e.c., na época em que o seu país de origem, a Índia, o abandona para regressar ao hinduísmo. Na China, o culto dirige-se principalmente a duas manifestaçõs de Buda: Mile Fo (Buda Risonho), o gordo buda do futuro, que corresponde ao Maitreya indiano, cujo advento assinalara o inicio de uma era de pureza e de apaziguamento das paixões, e Amituo Fo (Buda da Luz Infinita, Amithaba em sânscrito), o Buda que promete aos homens que invocam o seu nome renascer na Terra Pura, sentado numa flor de lótus, acompanhado pela deusa da compaixão Guanyin (aquela que vê e ouve, que corresponde ao bodisatva indiano Avalokiteshvara). O budismo e o confucionismo afastam-se dos cultos tradicionais autóctones, mas manifestam grande tolerância a seu respeito.

O confucionismo, doutrina de Estado imposta por Han Wudi, fundador da dinastia Han (206 a.e.c. - 220 d.e.c.), dominara a vida social e os costumes ao longo de toda a história da China, ate a fundação da Republica da China, em 1911. A base da doutrina de Confúcio, que viveu no século VI a.e.c., consiste num sistema de uma lógica imparável, assente em um humanismo coletivista: o desenvolvimento do saber permite aceder a sinceridade no pensamento, que leva a reforma do coração e, por isso, a cultura da personalidade. As famílias que vivem segundo estes princípios asseguram o bom governo dos Estados e, portanto, a felicidade e a paz do império.

O taoísmo, baseado no Dao (ou Tao, segundo a transcrição antiga), a via da boa conduta, assenta principalmente nos escritas de Lao zi (Lao Tse), reunidos no Daodejing (Tao-te Ching, O Livro do Caminho e da Virtude). Esta filosofia, contemporânea da de Confúcio, desenvolve uma ética libertaria e baseia-se na noção dos equilíbrios entre o yin (principio feminino) e o yang (principio masculino), que influenciara profundamente a medicina chinesa e o desenvolvimento pessoal. Por outro lado, o taoísmo esta na origem da maioria das divindades que constituem a base do panteão chinês.

Os Textos

A mitologia chinesa transmite-se sobretudo oralmente, de 2000 a 500 a.e.c., e não deixou de se modificar e enriquecer com as transcrições e versões romanescas ulteriores. As primeiras versões escritas dos mitos aparecem no período feudal, por volta do século III a.e.c., em obras filosóficas como o Zhuangzi ou o Huainanzi, ou ainda em relatos de viagens, como o Chan bai Ching (Clássico das Montanhas e dos Mares), antologia de informações geográficas e de lendas da Antiguidade chinesa realizada durante a dinastia Han. Muitos destes mitos foram popularizados por dois grandes romances da época Ming: Xiyuji (Viagem ao Ocidente), de Wu Cheng'en (c. 1500-c. 1582), e o Fengshen Yanyi (Gesta da Investidura dos Deuses).

As lendas sobre os Ba Man (Pa Hsien, os Oito Imortais) foram também transcritas no século XVII por Wu Yuantai, no seu romance Ba xian chi chu dong yu zi (Peregrinação ao Leste). A literatura mítica chinesa baseia-se na história lendária da China. Deste modo, alguns heróis e chefes da Antiguidade, como Fuxi, Shennong, Huangdi (o imperador Amarelo) e Yu são, simultaneamente, "antepassados", heróis lendários e divindades.

Os grandes textos destacam o valor do sacrifício, a revolta contra a opressão, o amor, as boas ações e a preven4ção do crime. Os sentimentos humanos e a moral ocupam neles um lugar de primeiro plano. Estes textos distinguem-se por grande concisão e eficácia, como mostra a historia de Yu Gong, o velho que queria mover as montanhas, conto moral frequentemente citado por Mao Zedong para ilustrar o valor do esforço coletivo, extraído do Lie Zi (Verdadeiro Clássico do Vazio Perfeito), um dos três grandes clássicos do taoísmo.

Yu Gong move a montanha

Ha muito tempo, vivia em Jizhu um velho com 90 anos chamado Yu Gong (que significa "velho louco"). Yu Gong tinha filhos e netos. Apesar da sua idade, continuava a trabalhar diariamente no campo, de manha à noite. Duas altas montanhas, o Taihang e o Wangwu, tornavam muito difícil o acesso a sua casa. Certo dia, reuniu toda a família e propôs aos filhos abater as montanhas e construir uma estrada desde o sul do Henan até a borda do rio. Todos os filhos concordaram. Mas, Xiam Yi, a sua velha companheira, inquietou-se: "Meu velho esposo, parece-me bem que se retirem essas duas montanhas, estou totalmente de acordo. Mas já não es jovem e não és capaz de erguer montanhas como o gigante Kui Fu. Além disso, onde colocaremos a terra e as pedras?" Em coro, os filhos replicaram: "O pai esta velho mas nos somos jovens! Só teremos de transportara terra ate ao mar, não e difícil!" Inspirados pela vontade e obstinação de Yu Gong, puseram-se todos ao trabalho. Os vizinhos vieram ajuda-los. O trabalho era muito duro, pois havia uma grande distancia entre as montanhas e o mar. Apesar de tudo, Yu Gong e os seus filhos nunca pararam de escavar.

Um belo dia, um velho chamado Zhi Su, que significa "velho sábio", parou a borda do rio para fazer troça dele: "Que loucura, com a tua idade, não és capaz sequer de levantar um cabelo a esta montanha, quanto mais toda esta terra e estas pedras!" O velho louco soltou um suspiro e respondeu: sua vaidade cega-te. Uma viúva ou uma criança raciocinam melhor do que tu! Pensa: quando eu morrer, existirão os meus filhos e os meus netos, bem como as gerações futuras. A montanha, por seu lado, não crescerá. Por que razão será então impossível aplana-la?"

Origem do mundo

Reunindo dois mitos da criação do mundo, o mito de Pangu introduz, simultaneamente, o ovo original e o corpo de um gigante comprimido no seu interior. Esta imagem de uma matéria comprimida que explode e da origem ao mundo faz lembrar o big bang.

O ovo teve origem no caos. No seu interior, Pangu desenvolve-se durante 18000 anos. Depois de se ter tornado gigante, abre os braços e a casca parte-se. As partes mais leves do ovo elevam-se e formam o céu, enquanto que as partes mais pesadas se tornam na terra, os dois aspectos do yin e yang. Originalmente imagens da luz e das trevas, o yin e yang acabaram por representar forças opostas: o yang é a virilidade, a atividade, o calor, a dureza; o yin e a feminilidade, a passividade, o frio, a humidade e a suavidade. Por vezes antagônicos (vida e morte, bem e mal), o yin e yang são também complementares e indissociáveis um do outro.

Para impedir que o céu e a terra se juntem, Pangu cresce mais dez pés por dia e mantém-los afastados durante mais 18000 anos; o céu esta então afastado da terra em 30000 pés. Satisfeito com o seu trabalho, Pangu deita-se na terra e morre. Do seu corpo nascem então todos os elementos: do seu sopro, o vento e as nuvens, da sua voz o trovão, dos seus olhos o Sol e a Lua, dos seus braços e pernas as quatro direções e do seu tronco as montanhas. Os seus ossos e dentes tornam-se as pedras e os minérios preciosos, a sua pele a erva e as plantas, o seu suor a chuva e o orvalho, e os seus cabelos as estrelas. Dos vários parasitas presentes no seu corpo formam-se os homens.

A criação do homem

Segundo alguns mitos, o homem nasceu então das pulgas de Pangu. Outro mito atribui a sua origem a obra de Nu Wa, irmã esposa do primeiro imperador lendário, Fuxi.

Vinda ao mundo após a separação da terra e do céu, Nu Wa depressa começa a sofrer de solidão. Certo dia, vendo o seu reflexo num lago, teve a ideia de fabricar figurinhas de terra a sua imagem. No entanto, como este trabalho lhe ocupava muito tempo, teve a ideia de mergulhar um cordel na lama e de faze-lo girar sobre si. Das gotas de lama que caíram no chão formaram-se seres humanos. Nu Wa criou assim rapidamente uma multidão de homens que povoaram a terra. Os homens que ela moldou na argila amarela eram belos e nobres, e os que nasceram das gotas de lama eram mais ou menos bem feitos. E assim que se explica a diversidade humana.

O dilúvio ou a Grande Inundação

Vários mitos chineses fazem referencia a um diluvio ou a uma inundação enorme. Uma dessas lendas, contada por Sima Qian (c. 145-86 a.e.c.), narra as ações de Yu, o Grande, herói lendário e rei demiurgo da China antiga, que conseguiu vazar as aguas que haviam invadido o mundo.

A epopeia de Yu narra numerosas aventuras que colocam em cena seres míticos, mas o seu principal mérito consiste no fato de ter concluído os trabalhos iniciados pelo seu pai, que, por ordem do imperador, trabalhara durante nove anos na evacuação das águas sem ter terminado a tarefa e fora depois banido e esquartejado, sacrifício que marcou o inicio de uma nova era. Durante 13 anos de trabalho duro, Yu esforçou-se por acabar com o diluvio e canalizar todas as aguas que haviam invadido a terra. Yu beneficiou da ajuda de uma tartaruga gigante, que, sozinha, transportava montanhas de terra no seu dorso. Um dragão alado, Ying, marcava com a cauda o traçado dos futuros canais e dragava vários rios num dia. Por fim, gigantes benfazejos fendiam as montanhas e deitavam as terras para o mar. Graças a "terra que se dilata", Yu fechou as 233 559 nascentes das grandes aguas e edificou quatro montanhas insubmersíveis. O herói usou as mãos e os pés neste trabalho titânico, fendendo a montanha, escavando canais e edificando barragens. A sua pele secou e ficou tão magro e fraco que deixou de poder andar. Mas cumpriu a tarefa tão bem que, no fim, toda a agua da inundação foi evacuada para o mar. Na sua luta contra as aguas, Yu concluiu uma aliança com o deus do rio Amarelo, que lhe deu o Quadro do Rio, uma espécie de diagrama emblemático onde o mundo é representado por um quadrado magico.

Em seguida, Yu reordenou o mundo, percorrendo-o em todos os sentidos ate as suas extremidades. Saltitava, arrastando uma perna, esgotado devido aos seus grandes trabalhos. O "passo de Yu", dança magica com que Yu organiza o mundo, foi praticado pelos sacerdotes tauistas durante séculos. Depois de ter medido o espaço, Yu gravou um mapa em nove caldeirões de bronze, que todos os soberanos posteriores se esforçaram em vão por encontrar.

A estória altamente moral de Yu, marcava pela perseverança e pela determinação, faz dele o modelo ideal do funcionário zeloso. Diz-se, nomeadamente, que, durante os seus grandes trabalhos, passou três vezes em frente a sua casa, mas sem entrar, pois considerava a sua missão infinitamente mais importante do que a vida familiar. O imperador Shun ficou toão impressionado com a virtude e com o trabalho de Yu que o escolheu para seu sucessor. Yu tornou-se assim o primeiro imperador da mítica dinastia dos Xia (2205-2197 a.e.c.) e foi divinizado como deus governador das Aguas. Atualmente, o seu mausoléu, perto de Xhaoxing, na província de Zhejiang, continua a ser muito visitado.

O Panteão Chinês

O panteão chinês impressiona desde logo pela importância da hierarquia e pelo fato de os deuses não serem propriamente diferentes dos homens. Organizado à imagem da sociedade chinesa, apresenta-se como uma administração muito estruturada, em que cada divindade tem o seu próprio palácio ou domínio em um dos diferentes níveis do céu, beneficiando de uma equipe de funcionários, de um exercito e de atribuições precisas. Os deuses e os seus colaboradores efetuam tarefas administrativas, fazem listas e registos, prestam contas à divindades superiores, que, por sua vez, prestam contas uma vez por ano ao Imperador de Jade, o soberano absoluto. O próprio dragão, animal sagrado dos Chineses, é um funcionário encarregado de velar sobre as Aguas da terra, oceanos, rios e ribeiros em geral. As divindades principais, na ordem hierárquica, são: o Céu, a Terra, os antepassados imperiais, os deuses dos Cereais, Confúcio, a Lua e o Sol.

O Imperador de Jade

No nível superior do Céu e da hierarquia divina, o Imperador de Jade ou Pai-Ceu, personificado por um dragão dourado, reside em um palácio semelhante ao do imperador terrestre. Nesse palácio, dispõe de um grande corpo de funcionários e de um exercito, que lhe permite combater os espíritos malévolos. A sua esposa real, a rainha-mãe Wang, tem a função, entre outras, de organizar os banquetes dos deuses, onde são consumidos os pêssegos da imortalidade. O Imperador de Jade usa o chapéu dos imperadores, uma tabuinha de madeira na qual estão pendurados 13 berloques de perolas. Duas vezes por ano, nos solstícios de inverno e de verão, o imperador terrestre vai oferecer-lhe sacrifícios no templo do Céu, um dos monumentos mais impressionantes de Pequim. Uma procissão solene acompanha o imperador ate a grande escadaria de mármore, que ele sobe para se prosternar na vasta sala circular e oferecer ao seu augusto representante celeste peças de seda e objetos de jade, carnes e libações.

Os Reis-Dragões

Os Reis-Dragões, diretamente colocados sob a autoridade do Imperador de Jade, estão encarregados de distribuir a chuva sobre a Terra. Os quatro grandes Reis-Dragões, que habitam em palácios de cristal no Céu, são responsáveis pelos Quatro Mares que rodeiam a Terra, sobre os quais velam com o seu exercito de caranguejos e peixes. No entanto, existem numerosos Reis-Dragões locais que reinam sobre todos os poços, rios, fontes e canais da China. Em caso de seca, as pessoas dirigem orações e fazem oferendas a estas divindades e, quando a chuva regressa, organizam-se grandes festas em sua honra.

Wenchang, o deus da literatura e dos exames

A propósito da China da dinastia Ming, um Ocidental fez esta observação: "Todo o reino é governado por filósofos." Diretamente ligado a organização burocrática e ao culto da literatura e da escrita, o deus da Literatura ou dos Letrados, Wenchang, tem o poder de favorecer o sucesso nos exames imperiais. Os concursos de admissão na função publica, organizados em todo o país pelo imperador, representaram sempre uma grande oportunidade de ascensão social. Wenchang é geralmente representado de pé, em cima de uma tartaruga, tendo na mão direita um pincel e, na mão esquerda, um alqueire, que lhe serve para avaliar os méritos do candidato aos exames. Com efeito, está encarregado de nomear o primeiro classificado no concurso organizado pelo Imperador de Jade. No plano terrestre, podemos ver aquela tartaruga na laje de mármore que separa os dois lances de escadas que levam ao Palácio Imperial, onde o imperador concedia audiências aos candidatos. O primeiro a subir os degraus ficava naturalmente à altura da cabeça da tartaruga, e por isso que Wenchang e representado de pé em cima da cabeça de uma tartaruga.

O Sol e a Lua

Na China, o Sol foi objeto de um culto oficial ate inicios do século XX. No entanto, contrariamente ao deus Sol dos Incas ou ao deus Rá dos Egípcios, está longe de ocupar o primeiro nível da hierarquia divina. Em contrapartida, os Chineses prestam culto a Lua, que é festejada no meio do outono, no decimo quinto dia do oitavo mês do calendário lunar. O herói Yi, o arqueiro divino, e a sua esposa Cheng He estão intimamente ligados a história da Lua e do Sol.

No principio havia dez sóis, que, com o seu pai Di Jun e a sua mãe Xi He, habitavam uma amoreira gigante, chamada Fusang, nas aguas do paraíso do Leste. Estas aguas estavam sempre em ebulição, pois os sóis banhavam-se nelas todos os dias. Um de cada vez, todos os dias os dez sóis revezavam-se no céu para iluminarem o mundo, enquanto que os seus irmãos descansavam nos ramos da amoreira. No entanto, certo dia, os dez irmãos revoltaram-se contra a rotina estabelecida pelo pai e resolveram ir todos juntos divertir-se no céu. Para os habitantes da Terra, foi uma verdadeira catástrofe. O mundo tornou-se incandescente, impossível de habitar, e a vegetação começou a morrer. O imperador Yao, que reinava então sobre a terra, suplicou a Di Jun que acabasse com aquele flagelo. Di Jun refletiu durante algum tempo e decidiu enviar o seu melhor arqueiro, Yi, à Terra. Confiou-lhe um arco magico, com a missão de assustar os sóis. Mas, horrorizado com a visão da situação terrível em que os humanos se encontravam, Yi disparou uma flecha contra um dos sóis. Uma chuva de faulhas douradas caiu por toda a parte, e um corvo de três patas caiu no chão. Um após outro, Yi abateu assim nove sóis e a temperatura voltou ao normal.

Indignado com a morte dos filhos, Di Jun decidiu castigar Yi. Exilou-o definitivamente na Terra com a sua mulher Cheng He e tornou-os mortais. Como Cheng He se lamentava de ter perdido a imortalidade, Yi decidiu pedir o elixir da vida a rainha do Ocidente, que vivia nos montes Kunlun com os outros deuses. Depois de ter superado varias provas difíceis, chegou a residência da rainha, que aceitou dar-lhe uma dose suficiente para lhe assegurar a imortalidade e à sua mulher. Mas avisou Yi de que se uma única pessoa tomasse toda a dose, subiria até as altas esferas do mundo. Quando Yi regressou, Cheng He só tinha uma ideia na cabeça: beber todo o conteúdo do frasco para ir visitar as regiões superiores. Certo dia em que Yi se ausentou, a mulher executou finalmente o seu projeto e foi logo transportada para a Lua. Descobriu ai uma lebre, sentada debaixo da árvore da imortalidade, ocupada a fabricar eternamente o elixir da vida, e um velho, que passava o tempo a tentar cortar a árvore.

Cheng He passou então a residir na Lua com os seus dois companheiros. É representada como uma jovem muito beta. É frequentemente evocada nos romances e nas poesias, que falam de uma mulher "bela como Cheng He vinda da Lua".

Os Oito Imortais

Os Ba Xian (Pa Hsien), os Oito Imortais, não são propriamente deuses, mas homens que, pela sua devoção, virtude e pratica da via taoista obtiveram a imortalidade e vivem com os deuses nos montes Kunlun, no centro da Terra. A cada mil anos, a rainha-mãe Wang, esposa do Imperador de Jade, convida-os para um grande festim, no qual são servidos os pêssegos da imortalidade.

Estas personagens bonacheironas, consideradas protetores eficazes, tornaram-se divindades extremamente populares a partir da dinastia Song (960-1279).

Os Oito Imortais são os mestres da arte marcial da ebriedade, zui baxian, cujo código se inspira no Quajing Quan fa Beiyao, um livro do século XVII onde figura o cântico dos Oito Imortais. Esta arte marcial continua hoje a ser uma das formas do kung-fu, uma técnica de agilidade e de descontração na qual se imitam as varias atitudes que caracterizam cada um dos Oito Imortais.

"Sob o efeito do álcool, Zhong Lijuan executa a dança da ebriedade com o seu leque.

O imortal bêbedo Gulao desloca-se escarranchado na sua mula, montado ao contrario.

Com a cabeça pesada e o passo ligeiro, parece bêbedo, como se caminhasse na lama;

O terceiro imortal, Xiangzi, toca a sua flauta de ferro.

Não está seguro da sua esquerda nem da sua direita, e não distingue o alto do baixo;

Aquele que gosta de tocar as castanholas, o espirito melancólico;

Cao Gujiu, vestido como de madrugada, executa a dança da ebriedade [...]»

 

Cao Gujiu, criado na corte, refugiou-se na montanha para seguir a via do Tao. É representado com roupas de corte, com tabuinhas na mão.

Han Xiangzi, representado com uma flauta, padroeiro dos músicos e dos agricultores, faz as flores desabrocharem.

He Xiangu, a única mulher do grupo dos Imortais, asceta taoista protetora das moças, tem uma flor de Iótus na mão.

Lan Caihe, espécie de fogo sagrado, protetor dos pobres, é representado vestido com uma túnica azul, calçado apenas com um sapato, e um alaúde. Li Tieguai (Li com bengala de ferro), protetor dos doentes, abriga-se no corpo de um mendigo. É representado ébrio, com uma bengala e uma cabaça cheia de álcool.

Lu Dongbin, filósofo moralista e aluno de Zhong Lijuan, é representado a segurar uma espada, que aprendeu a manejar com Zhong Lijuan. A sua bondade é tão famosa que um proverbio chinês diz: "o cação morde Lu Dongbin", que significa que só alguém sem qualquer juízo pode morder o melhor dos homens.

Zhang Gulao desloca-se em uma mula branca, que é capaz de dobrar e guardar em uma folha de papel. É o padroeiro dos pintores e dos calígrafos.

Zhong Lijuan, o gorducho, distribui aos pobres o cobre que transformou em prata. Tem um leque que lhe serve para reanimar as almas dos mortos e na mão, segura um pêssego da imortalidade.

Os deuses da felicidade

Não se pode falar de mitologia chinesa sem evocar os deuses mais populares do país, presentes na maioria dos lares chineses na forma de estatuetas ou de imagens coloridas guardadas em um móvel a altura dos olhos. "No céu existem três estrelas boas, na terra, existem fu, lu e shu", diz um provérbio chinês. Lu representa a elevação social e a e a abundância. Por vezes, tem nos braços uma criança que simboliza a esperança. Fu, deus da felicidade e da prosperidade, um pouco maior do que os outros, é sempre colocado ao centro. Tem nos braços um rolo de ouro que representa a riqueza. Shu, o deus da saúde e da longevidade, é representado na forma de um velho com a testa alta e crânio calvo, tendo numa mão uma bengala e, na outra, um pêssego da imortalidade.

Mitologia - Mitologia Chinesa
1/21/2020 7:49:54 PM | Por Junito de Souza Brandão
Livre
Vida após a morte na Grécia Antiga

O reino ctônio de Plutão chamava-se mais comumente Hades, mas havia outros nomes pelos quais podia ser designado, na Grécia e em Roma, muitas vezes tomando-se a parte pelo todo, como Érebo, Tártaro, Orco, Inferno, estes dois últimos provenientes do latim. Discutida a etimologia de Hades, tentaremos estabelecer as das outras denominações, quando existirem

ÉREBO, do grego Έρεβος (Érebos), designa as trevas que cercam o mundo. Trata-se de uma concepção indo-européia * reqwos, "cobrir de trevas", que aparece no sânscrito como rájas, "espaço escuro", no gótico riqiz, "escuridão", e no armênio erek, "tarde".

TÁRTARO, é o grego Τάρταρος (Tártaros), "abismo subterrâneo, local de suplícios", é possivelmente um empréstimo oriental.

ORCO é o latim Orcus, "morada subterrânea dos mortos, os infernos". A Etimologia do vocábulo é desconhecida. A proveniência do indo-europeu * areq ou areg é atualmente considerada como fantasiosa, quando não absurda.

INFERNO ou OS INFERNOS é palavra latina infernus. Etimologicamente infernus é uma forma segunda de inferus "que se encontra embaixo", por oposição a superus, "que se encontra em cima", onde a oposição Di inferi, deuses do Inferno, do Hades, e Di Superi, deuses do Olimpo. Observa-se, ainda, em latim, os comparativos inferior, que está mais embaixo, "inferior", por oposição a superior, que está mais acima, "superior".

Substantivado o neutro plural inferna, -orum, significa as habitações dos deuses de baixo e também dos mortos, quer dizer, o Inferno, abstração feita, em princípio, de local de sofrimento ou de castigo, já que todos na Grécia e em Roma iam para o "Inferno", como parece ter sido no Antigo Testamento, o sentido de Sheol, onde é documentado sessenta e cinco vezes, como por exemplo em Jó 17,16: in profundissimum infernum descendent omnia mea: "todas as minhas coisas descerão ao mais profundo dos infernos".. E era, precisamente, com esta acepção que ainda se rezava, no Credo, não faz muito tempo, (que Jesus Cristo) desceu aos infernos, expressão que, para evitar equívoco, foi substituída por desceu à mansão dos mortos. É a partir do Novo Testamento, todavia, que o Inferno, é identificado com a Geena, local de sofrimento eterno e a parte mais profunda do Sheol, como está em Lc 16,22-23.

Factum est autem ut morertur mendicus et portartur ab angelis in sinum abrahae. Mortuus est autem et diues et sepultus est in inferno: "Ora sucedeu morrer o mendigo e foi levado pelos anjos para o seio de abraão, e morreu também o rico, e foi sepultado no inferno". A Seqüência da Parábola diz que Lázaro, o mendigo, estava lá em cima e o rico lá em baixo, havendo entre ambos um abismo intransponível.

Na Grécia, ao que tudo indica, somente a partir do Orfismo, lá pelo século VII-VI a.e.c., é que o Hades, o Além, foi dividido em três compartimentos: Tártaro, Érebo e Campos Elísios. O fato facilmente se explica, é que o Orfismo rompeu com a secular tradição da chamada maldição familiar, segundo o qual não havia culpa individual, mas cada membro do guénos era co-responsável e herdeiro das faltas de cada um de seus membros, e tudo se quitava por aqui mesmo. Para os Órficos a culpa é sempre de responsabilidade individual e por ela se paga aqui; e quem não se purgar nesta vida, pagará na outra ou nas outras. Havendo uma retribuição, forçosamente terá que existir, no além, um prêmio para os bons e um castigo para os maus e, em conseqüência, local de prêmio e de punição.

Quanto à localização, o Hades era um abismo encravado nas entranhas da Terra, e cuja entrada se situava no Cabo Tênero (sul do peloponeso) ou numa caverna existente perto de Cumas, na Magna Grécia (sul da Itália).

Também na literatura babilônia, na epopéia de Gilgamesh, nos mitos de Nergal e Ereskigal, na descida de Istar para os Infernos, estes são um lugar debaixo da Terra, além do oceano cósmico. Há dois caminhos para se chegar lá: descendo na terra ou viajando para o extremo ocidente; mas antes de atingir o Além, é necessário transpor o rio dos mortos, "as águas da morte". Também as concepções ugarítica e bíblica localizam o Inferno nas profundezas da Terra. Abrindo-se está, Coré, o levita, que se opõe a Moisés, bem como Datã e Abirão, com os seus, desceram vivos para os Infernos. Jó, que o considera como o lugar mais baixo da criação, imagina os acessos à outra vida no fundo do oceano primordial, em que a terra bóia.

O universo por conseguinte, é dividido em três partes: "acima da terra, na terra e debaixo da terra" ou céu, terra e inferno.

Para que se possa compreender o destino da alma no Hades, vamos acompanhá-la em sua longa viagem, do túmulo ao reino de Plutão. A obrigação mais grave de um grego é o que concerne ao sepultamento de seus mortos: filhos, ou , na carência destes, os parentes mais próximos devem sepultar seus pais segundo os ritos, sob pena de lhes deixar a alma volitando no ar por cem anos (o cômputo é puramente fictício), sem direito a julgamento, e, por conseguinte, à paz do Além.

O Sepultamento, todavia, depende de certos ritos preliminares: o cadáver, após ser ritualmente lavado, é perfumado com essências e vestido normalmente de branco, para simbolizar-lhe a pureza. Em seguida, é envolvido com faixas e colocado numa mortalha, mas com o rosto descoberto, para que a alma possa ver o caminho que leva à outra vida. Certos objetos de valor são enterrados com o morto: colares, braceletes, anéis, punhais... Os arqueólogos, escavando túmulos, encontraram grande quantidade desses objetos. em certas épocas se colocava na boca do morto uma moeda, óbolo destinado a pagar ao barqueiro Caronte, para atravessar a alma pelos quatro rios infernais. Essa idéia de pagamento da passagem, diga-se logo, não é um simples mecanismo da imaginação popular. Toda moeda ´eum símbolo: representa o valor pelo qual o objeto é trocado. Mas, além de seu valor próprio de dinheiro, de símbolo de troca, as moedas, consoante Cirlot, "desde a antiguidade tiveram certo sentido talismânico", uma vez que nelas a conjunção do quadrado e do círculo não é incomum. além do mais, a moeda, em grego nómisma, é o símbolo da imagem da alma, porque esta traz impressa a marca de Deus, com oa moeda o traz do soberano, segundo opina Angelus Silesius. A moeda chinesa, denominada "sapeca", é um círculo com um furo quadrado no centro: vê-se aí claramente a coniunctio oppositorum: a conjunção do Céu (redondo) e da Terra (quadrada), o aniums e a anima, formando uma totalidade. Por vezes se colocava junto ao morto um bolo de mel, que lhe permitia agradar o cão Cérbero, guardião da porta única de entrada e saída do Hades. O Cadáver é exposto sobre um leito, durante um ou dois dias, no vestíbulo da casa, com os pés voltados para a porta, ao contrário de como entrou na vida a cabeça do morto, coroada de flores, repousa sobre uma pequena almofada. Todo e qualquer homem podia velor o morto, acompanhar-lhe o féretro e assitir-lhe ao sepultamento ou à cremação, mas a lei era extremamente rígida com a mulher: na ilha de Ceos só podiam entrar na casa, onde houvesse um morto, aquelas que estivessem "manchadas" (a morte sempre contamina) pela proximidade de parentesco com o mesmo, a saber, a mãe, a esposa, as irmãs, as filhas e mais cinco mulheres casadas e duas jovens solteiras, cujo grau de parentesco fosse no mínimo de primas em segundo grau.

Em Atenas, igualmente, a legislação de Sólon era severa a esse respeito: só podiam entrar na casa do morto e acompanhar-lhe o enterro aquelas que fossem parentes até o grau de primas. Os presentes vestiam-se de luto, cuja cor podia ser preta, cinza e, por vezes, branca, e cortavam o cabelo em sinal de dor. Carpideiras acompanhavam o féretro para cantar o treno. Diante da porta da casa se colocava um vaso (ardánion) cheio de água lustral, que se pedia ao vizinho, porque a da casa estava contaminada pela morte. todos que se retiravam, se aspergiam com essa água, com o fito de se purificar. O enterro se realizava na manhã seguinte à exposição do corpo. A lei se Sólon prescrevia que todo enterro se deveria realizar pela manhã, antes do nascimento do sol. Desse modo, os enterros em Atenas se faziam pela madrugada e por motivo religioso: até os raios de sol se manchavam com a morte! No cemitério, sempre fora dos muros da cidade, o corpo era inumado ou cremado sobre uma fogueira: neste último caso, as cinzas e os ossos eram cuidadosamente recolhidos e colocados numa urna. que era sepultada. Após se fazerem libações ao morto, voltava-se para casa e se iniciava o minuscioso trabalho de purificação da mesma, porque, para os gregos, o maior dos "miasmas" era o contato com a morte. Após um banho de cunho rigorosamente catártico, normalmente com água do mar, os parentes do morto participavam de um banquete fúnebre; este se renovava, em Atenas, ao menos, no terceiro, nono e trigésimo dia e na data natalícia do falecido.

Sepultado ou cremado o corpo, a psiqué era conduzida por Hermes, deus psicopompo, até a barca de Caronte. recebido o óbolo, o robusto demônio da morte permitia a entrada da alma em sua barca, que a transportava para além dos quatro temíveis rios infernais, Aqueronte, Cocito, Estige e Piriflegetonte,. Já do outro lado, após passar pelo cão Cérbero, o que não oferecia grandes dificuldades, pois o que o monstro de três cabeças realmente vigiava era a saída, a psiqué enfrentava o julgamento. O tribunal era formado por três juízes integérrimos: Éaco, Radamento e Minos. Esse tribunal, no entanto, é bem recente. Homero só conhece como juiz dos mortos Radamanto. Éaco aparece pela primeira vez em Platão.

Radamanto julgava os asiáticos e africanos; Éaco, os europeus. Em caso de dúvida, Minos intervinha e seu veredicto era inapelável.

Infelizmente quase nada se sabe acerca do conteúdo desse julgamento e a maneira como era conduzido, embora na Eneida, 6,566-569. Vergílio nos fale, de passagem, que Radamento supliciava as almas, obrigando-as a confessar seus crimes ocultos.

Julgada, a alma passava a ocupar um dos três compartimentos: Campos Elísios, Érebo ou Tártaro. Neste último eram lançados os grandes criminosos, mortais e imortais. Era o único local permanente do Hades: lá, supliciados pelas Erínias, ficavam para sempre os condenados, os irrecuperáveis. O mesmo Vergílio, ainda no canto 6, nos dá uma visão dantesca dos suplícios a que eram submetidos os réprobos e a natureza dos crimes por eles perpetrados. O grande poeta todavia, no que se refere às faltas graves cometidas, mistura habilmente "aos que espancaram os pais, aos avarentos, aos adúlteros, aos incestuosos, aos que desprezam os deuses", os condenados por crimes políticos... Estão no Tártaro os que "fizeram guerras civis, os desleais, os traidores, os que venderam a pátria por ouro e impuseram-lhe um senhor despótico..." É bom não perder de vista que, a par de ser um poema tardio, a Eneida é também uma obra assumidamente engajada e comprometida com a ideologia política do imperador Augusto, cuja pessoa, cuja família, que era de origem divina, cujo governo e cujas reformas o poeta canta, exalta e defende. No Tártaro vergiliano, os assassinos principais de César, Cássio e Bruto, e seus grandes inimigos políticos, como Marco Antônio e a egípcia Cleópatra, entre muitos outros, sem omitir os heróis gregos, inimigos do troiano Pai Enéias, fundador da raça latina, certamente formariam um inferninho à parte, com suplícios adequados... Talvez mais violentos do que os do inferno político da Divina Comédia de Dante.

O Érebo e os Campos Elísios são impermanentes: tra-se mais de compartimentos de prova do que de purgação. As provações aí realizadas servem de parâmetro de regressão ou de evolução e aperfeiçoamento, cuja natureza nos escapa. Quer dizer, a descida definitiva ao Tártaro ou a próxima (ensomátosis), "reencanação", ou ainda a próxima (metempsýkhosis), "metempsicose", que são coisas muito diferntes, dependeriam intrinsecamente do "comportamento" da psiqué durante sua permanência no Érebo ou nos Campos Elísios. No Érebo estão aqueles que cometeram certas "faltas". Seria conveniente deixar claro que alguns habitantes temporários do Érebo, que Vergílio denomina lugentes campi, Campos de Lágrimas, não têm suas faltas especificadas e outros lá estão sem que possamos compreender o motivo. Recorrendo mais uma vez à Eneida 6, vamos ver que nos Campos das Lágrimas estão criancinhas que morreram prematuramente as vítimas de falso julgamento; as suicidas (o poema só fala em mulheres) por amor, como Fedra, Prócris, Evadne, Dido...

Alguns heróis, troianos (mirabile dictu !) também lá estão e heróis gregos igualmente.

O Poeta Latino, no entanto, deixa bem claro que essas almas não estão no Érebo por acaso, "sem o aresto de juízes, uma vez que Minos indagou de sua vida e de seus crimes". Onde se conclui que cometeram "faltas".

Do Érebo que é temporário, elas ou mergulharão no Tártaro, porque se pode regredir, ou subirão para outra impermanência, os Campos Elísios, único local de onde poderiam partir os candidatos à reencarnação ou à metempsicose.

Em se tratando do último nível ctônio, em que estão os poucos que lá conseguiram chegar, os Campos Elísios, em grego (Elýsia pedía) são descritos, ao menos na Eneida, 6, como uma paraíso terrestre em plena idade de ouro. Lá residem os melhores em opulentos banquetes nos gramados, cantando em coro alegres canções, nos perfumados bosques de loureiro. Lá estão os que já passaram por uma série de provas e purgações. Mas, decorridos mil anos, após se libertarem totalmente das "impurezas materiais", as almas serão levadas por um deus às águas do rio Lete e, esquecidas do passado, voltarão para reencarnar-se.

Eis aí uma visão da escatologia grega popular em suas linhas gerais, mas poder-se-ia perguntar: a quantas reencarnações se tinha direito? E depois de totalmente purificada das misérias do cárcere do corpo, qual o destino final da psiqué? À primeira pergunta talvez se pudesse responder evasivamente que o número de reencarnações se mediria pela paciência dos deuses (que certamente não era muito grande); e à segunda, dizendo-se que, via de regra, o céu grego era platonicamente a Via Láctea. Ao menos, que se saiba, a cabeleira de Berenice, e os imperadores romanos, que morriam benquisisto do povo, eram transformados em astros...

Mitologia - Mitologia Grega
Mãe Terra
Mãe Terra | Desconhecido

Ainda podemos encontrar as reais joias da herança da Grande Deusa entremeando o tecido dos mitos de dominação masculina. Em uma primeira versão pré-helênica do conto de Orfeu, Eurídice era, na ver­dade a mãe do destino, e a serpente, sua companheira no Mundo Inferior, que apenas acolhera Orleu em vez de matar Eurídice. Como fonte de vida, a Grande Deusa era rambém o ventre sempre fruiífero, e, seja ela manifestada mais tarde sob a forma de Hathor, Cibele, Ishtar, Gaia, Parvati, Tara, Kuan Yin, Sofia ou Maria, é benéfica, prote­tora e criativa. Está ligada à Terra, assim como o arquétipo masculino, ou do pai, está ligado ao céu. No entanto, a Grande Mãe tem um outro aspecto som­ brio, mais assustador. Ela é tanto feiticeira como mercadora da morte quando aparece como Astarte, Kali ou Durga, ou no culto a Artemis, Hécate e até Diana. Deusas do sexo feminino evoluí­ram umas das outras tanto como ocorreu com os deuses masculinos, e em nenhum outro lugar isso é mais aparente do que nas várias deusas da mitologia hindu, cuja fonte primária foi Devi. Da mesma maneira, a mãe terrível aparece na mitologia asteca como a assus­tadora deusa da Terra Coatlicue, a deusa maia Ixchel, a Medusa grega e projeções posteriores do “mal” em “femmes fatales" míticas, como Lilith.

BARTLETT, Sarah. Divindades como arquétipos. IN.: __________. A bíblia da mitologia. São Paulo/SP: Editora Pensamento, 2011. Cap. 1 p. 34-35.
1/11/2020 2:00:48 PM | Por John Haywood
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Origem dos Celtas

Identidade Celta - O Danúbio tem a sua origem no território dos Celtas, perto da cidade de Pyrêne, e corre pelo meio do Europa, dividindo-a em duas partes. Os Celtas vivem além das Colunas de Héracles e fazem fronteira com os Cinésios, que vivem no extremo oeste da Europa. (Heródoto, Histórias (c. 444 a.e.c.)

Os Celtas provaram ser um incrível grupo de povos resistente. Na Antiguidade, foram contemporâneos dos Romanos, Iberos, Ilírios, Trácios, Dácios, Etruscos, Ligures, Citas, Gregos e Germanos, entre outros. Apenas os Celtas, Gregos e Germanos ainda existem. Defini-los durante a sua longa existência não é tarefa fácil. Tem havido uma tão grande mudança cultural, tecnológica e social, que os Celtas modernos seriam completamente irreconhecíveis aos olhos dos seus antepassados. Pouco subsiste da cultura dos Celtas antigos e houve ainda um período - mais de mil anos - em que o nome "celta" caiu em completo desuso, antes de ser reavivado no século XVIII. A definição mais consistente e mais largamente aceite baseia-se na língua, que é o único traço seguro de continuidade, ligando os Celtas antigos aos seus descendentes modernos: os Celtas são povos que falam línguas celtas. Nos tempos antigos estes povos incluíam Gauleses, Belgas, Celtiberos, Lusitanos e Gálatas, e Bretões e Irlandeses antigos.

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A Identidade Celta

A palavra «celta» (grego Keltoi, latim Celtae) foi primeiro usada pelos autores gregos, há cerca de 2500 anos, para descrever as tribos bárbaras que viviam no interior da colônia grega de Massília (Marselha). Os Gregos cedo expandiram o uso dessa palavra para descrever todos os povos bárbaros da Europa a norte dos Alpes, incluindo os Francos, que hoje não são considerados Celtas. Os Gregos também usaram outro nome, "Galatas" (Galatoi), intercalando com "Celta", especificamente para descrever os povos da Europa Central que falavam celta e que invadiram a Grécia e a Anatólia no século III a.e.c. Os Romanos usaram uma palavra similar, "Gaul" (Galli) para descrever os povos continentais de língua celta. As origens destas três palavras são desconhecidas, mas todos são, provavelmente, celtas, já que surgem como elementos em nomes tribais (Gallaeci, Celtici, Celtiberi), nomes pessoais (Celtius) e ainda nomes de locais (Celti). Júlio Cesar diz-nos que "Celta" era também usado como um nome coletivo em algumas das tribos gaulesas. Estes eram os Celtas originais encontrados pelos Gregos de Massília. Contudo, nem todos os povos, que atualmente reconhecemos como Celtas, alguma vez se descreveram como tal. Apesar de os antigos Bretões serem vistos agora como Celtas, nunca foram descritos como Celtas ou Gauleses, vendo-se como povos bem diferentes, tal como os Romanos os viam, reconhecendo no entanto, grandes parecenças com a sua língua e os seus costumes. Em relação aos Irlandeses antigos, nem sequer tinham uma identidade própria comum até no inicio da Idade Media, quando adotaram o nome Gaidel (Gaedheal em gaélico moderno), proveniente de Guoidel «selvagens", o nome bretão para os povos da Irlanda. O costume de descrever todos os grupos que falam a língua celta como "Celtas" é bastante recente, datando apenas do século XVIII. Como não era usual, historicamente, os grupos que falavam celta serem referidos como um todo, alguns historiadores modernos e arqueólogos sustentam que a idéia de os Celtas serem um povo é, simplesmente, uma interpretação moderna. Historiadores e arqueólogos têm vindo a impor uma unidade artificial aquilo que realmente era um grupo diversificado de povos, sem qualquer sentido de identidade comum. Se se levar em conta que a posição politicamente correta, a de que o único nome, cujo uso poderá ser justificado para descrever um povo, é o nome que esse próprio povo usa, então poderemos concordar com o arqueólogo Simon James, de que não existe justificação para descrever os antigos Bretões e Irlandeses como Celtas e que o termo não tem significado, mesmo quando aplicado à Idade do Ferro na Europa continental. Esta é uma posição que compreensivelmente não agrada aos Celtas modernos, a maioria originários da Grã-Bretanha e da Irlanda, uma vez que a vêem como uma tentativa de negar as suas antigas raízes e de apagar da historia aqueles que consideram ser os seus antepassados. O ponto de vista aqui descrito é o de que os céticos se mostram demasiado presumidos. Objetivamente, existiu um grande grupo de povos na Europa da Idade do Ferro, que falava línguas muito aparentadas e que partilhava as mesmas crenças religiosas, estilos de arte, vestuário e armas, estruturas sociais e valores. Faz sentido usar um nome comum para descrever estes povos, bem como os povos modernos que deles descendem, tendo em conta esta acumulação de características partilhadas.

Quando os Celtas inicialmente emergiram da obscuridade pré-histórica, no século V a.e.c., eram já um grupo de povos muito disperso. A língua celta falava-se na maior parte da Europa Ocidental, desde a Áustria e Boemia, passando pelo Sul da Alemanha e França, até a Grã-Bretanha, Irlanda e a Península Iberica. Não é claro o modo como os Celtas conseguiram chegar a esses locais e de onde vieram. Escritores gregos antigos, como o geógrafo Hecateu e o historiador Heródoto, que escreveu sobre os mais antigos registros das tetras celtas, nada dizem sobre isso e, como nunca desenvolveram uma literatura cultural em profundidade, os Celtas nunca puderam registrar os seus mitos e lendas originais que estão agora irreparavelmente perdidos. Nos séculos seguintes, os Gregos negociaram com os Celtas, lutaram com eles e utilizaram-nos como mercenários e escravos, mas se alguma vez pretenderam saber as suas origens, certamente acharam que as respostas não mereciam ser escritas. Afinal, o que era a cultura de um Celta? Não conseguiam sequer falar corretamente - em grego, claro - emitindo apenas ruídos incompreensíveis ("bar-bar"), dos quais se herdou o hábito de descrever aqueles que consideramos incivilizados como "bárbaros". Os Gregos preferiram explicar a gênese dos Celtas inventando mitos etimológicos pitorescos. Segundo um destes mitos, registrado pelo historiador Apio de Alexandria, Polifemo, o infame Ciclope da Sicília e a sua mulher Galateia tiveram três filhos, Celto, Gálates e Ilírio, tendo emigrado todos da Sicilia e reinado sobre outros povos que vieram a chamar-se Celtas, Gálatas e Ilírios (os antepassados dos Albaneses). Outra historia, recordada por Partenio (século I a.e.c.), é a de Céltina, a bela filha do rei Bretano, que se apaixonou por Héracles, quando este levava os bois de Gerião da Erítia. Celtina escondeu os animais e recusava-se a dizer a Héracles onde estavam, a não ser que este fizesse sexo com ela. Não foi necessário usar de muita persuasão e dessa união nasceu um filho. Foi-lhe dado o nome Celto e dele descendem os Celtas. Os Romanos não eram muito melhores que os Gregos. De acordo com Cesar, os Gauleses afirmavam ser descendentes de um deus de um submundo a quem ele atribui um nome romano Dis Parer (Pluto). Qual era o seu nome celta, Cesar não diz, porque essa idéia não lhe ocorreu. Os Romanos acreditavam que os seus deuses eram universais, porém, se outros povos os conhecessem com nomes diferentes, isso era-lhes indiferente. O historiador Tácito confirma esta indiferença quando escreve que era de esperar que ninguém se preocupasse em saber as origens dos povos bárbaros.

O registro arqueológico mostra que, quando os Gregos se aperceberam da sua existência, os Celtas já possuíam uma cultura aristocrática sofisticada, caracterizada por trabalhos bastante desenvolvidos em ferro e bronze e por um estilo distinto de arte decorativa. Esta cultura inicial reconhecida como celta, era a cultura de Hallstatt, cujo nome resulta de uma necrópole da Idade do Ferro, situada nos Alpes Austríacos, e escavada no século XIX. As mais de 2000 sepulturas continham oferendas ricas para os mortos, revelando a existência de uma sociedade guerreira aristocrática com largas ligações comerciais, que chegavam ao Báltico e Norte de África. Foi através destas ligações, que a existência dos Celtas foi descoberta pelos Gregos. A cultura de Hallstatt da Idade do Ferro não surgiu completamente formada: foi o produto de uma longa tradição cultural, que pode ser seguida através de várias fases desde cerca de 1200 a.e.c., quando se começou a desenvolver como uma variante da cultura de urnas funerárias de meados da Idade do Bronze, bastante espalhada pela Europa Central. Antes disso, os Celtas tornaram-se arqueologicamente invisíveis. No entanto, os Celtas, ou os grupos que falavam celta, já deviam existir há mais de 1000 anos.

História - Civilização Celta
1/6/2020 2:51:14 PM | Por Deanna Paniataaq Kingston
Livre
A Mitologia Norte-Americana

Antes dos barcos europeus chegarem às cosas da América do Norte, a vida entre as comunidades tribais nunca fora marcada por uma existência fragmentada. As comunidades tribais tinham uma perspectiva do mundo em que todos os aspectos da vida estavam ligados (língua, ensinamentos, cerimônias, recolha de alimentos). Isto, porém, não pretende sugerir que os povos indígenas viviam no paraíso. A harmonia incluía a aceitação da ruptura social, mesmo as tragédias imprevistas. E os mitos tinham um papel importante na explicação dos caminhos do mundo e o lugar neles ocupado pelo indivíduo. No nosso mundo moderno, notamos uma realidade conspícua de desapego do que nos rodeia de natural e espiritual. E é com esta compreensão contextual das comunidades tribais histórias que abordamos o papel do mito entre os nativos da América do Norte - tanto ontem como hoje.

O mito esteve no Âmago da manutenção deste equilíbrio harmonioso da vida tribal.

As histórias proporcionavam aos povos indígenas um entendimento de muitas coisas diferentes: As origens; as suas relações com a terra, a água e os animais; e as suas ligações com o mundo espiritual. Os mitos também serviam de guia para se encontrar um lugar individual dentro da comunidade da aldeia. Tudo isto serviu par moldar uma percepção expansiva do mundo que informava as comunidades tribais dos valores coletivos, e para obter uma associação complexa de conhecimentos que serviu para conduzir as tribos durante gerações.

Os contadores de histórias (frequentemente idosos) detinham um lugar especial dentro da comunidade, pois eram os mestres, os portadores destas histórias antigas. Era seu dever partilhar este saber com os aldeãos, especialmente com os mais novos, "doutrinando-os" segundo o objetivo ultimo de perpetuar a forma de viver da tribo. Frequentemente imbuídos de cerimônias sagradas e celebrações, os mitos tribais eram os alicerces da existência, objetivos e identidade da tribo.

A época das narrativas nas comunidades tribais era tida a elevada consideração pelos seus membros. Neste mundos tribais, o contexto era crucial para a transmissão das histórias. A forma como estes mitos tribais eram apresentados tinha tanta importância como a mensagem. "De fato, pode observar-se que a verdadeira força dos mitos tribais estava na forma correta de apresentação. Os mitos eram transmitidos oralmente aos membros da tribo. Pais e filhos ouviam com grande respeito enquanto os narradores contavam histórias longas acerca de como o Criador tinha feto o mundo, ou como se vencia o mal com a ajuda de espíritos bondosos. Quando os aldeões partiam, iam intimidados e profundamente impressionados.

A influência dos europeus

Uma das mais severas rupturas a que as comunidade se viram forçadas com a presença dos europeus fio o fim da vida tribal tradicional como era conhecida. O desmantelamento dos sistemas de aldeias tribais teve como consequência uma cisão massiva na ordem social. As tradições foram-se perdendo ao passo rápido do avanço da colonização. À medida que os nativos americanos eram deslocados e dispersos (um grande número de tribos foram dizimadas por inteiro), também o eram as suas antigas formas de viver. O fim da vida da comunidade tribal tradicional era evidente não apenas na perda de terra, mas também pelo fim da cultura, da língua, do saber tradicional e das cerimônias vitais. Praticamente, todas as tribos do continente enfrentaram severas medidas de perda.

Para as tribos que sobreviveram, foi e continua a ser um mundo diferente. Embora haja comunidades nativas a viver em território protegido, a infiltração da vida europeia (a instituição de uma família nuclear; moderna tecnologia; pontos de vista políticos, sociais e religiosos) evitou que quase todas as comunidades nativas regressassem totalmente ao mundo tribal do passado. As atuais formas tribais de governo não funcionam mais como os governos tribais antigos. Como "proteção do estado", as comunidades nativas foram forçadas a aceitar a forma do Governo Federal que está em total contradição com os sistemas tribais tradicionais. E muitos argumentarão que essas formas impostas de governo tinham, e anda hoje têm, como objetivo subverter ou talvez bloquear qualquer tentativa do povo tribal e tomar conta de si próprio pelos modos originais que guiavam os seus antepassados.

Mas neste mundo pós-colonial, as tribos procuram reclamar, tanto quanto possível, esses velhos caminhos, apesar das mudanças ocorridas na paisagem. As tribos estão a tentar recuperar o que lhes foi tirado e, enquanto muitos mitos se dispersaram ou se perderam ao longo dos anos, muitas estórias permanecem vivas, salvas pela memória e registradas em bibliotecas orais guardadas bem fundo nos corações, mentes e almas dos mais velhos. São estórias surpreendentes que continuam a ser passadas de uma geração à outra.

Importância do contexto

Apesar do povo nativo por toda a América do Norte ter conservado muitos dos seus maiores e mais poderosos mitos, é evidente que a destruição do modo de viver retirou a estes mitos tribais toda a sua autoridade sobre os descendentes dos que foram inicialmente afetados pela colonização europeia. Se nós reconhecemos que o poder dos mitos tribais dependia da adequada apresentação da narrativa, temos de nos interrogar sobre qual o seu papel nos tempos modernos para os nativos da América do Norte, dada a perda das comunidades tribais tradicionais.

Esta importante questão da perda contextual coloca-nos a interrogação: Os mitos tribais perderam para sempre a sua grande influência, transmitindo objetivo, lugar e direção do mundo, já que não existem amais as aldeias tribais tradicionais? Se a resposta é sim, então o recontar dos mitos tribais, na melhor das hipóteses, é um lampejo breve sobre a forma como os indígenas viviam em equilíbrio com o seu mundo? Ou, na pior delas, o recontar dos mitos é meramente um ato de diversão teatral para gáudio da audiência, espevitando a imaginação de crianças e adultos?

E talvez uma questão igualmente importante a colocar seja esta: Qual o papel que os mitos indígenas norte-americanos têm nas vidas e nas crenças do resto da população do mundo? É claro, esta e todas as questões acerca do saber tribal tradicional ficam melhor nas mãos dos que estudam história, raça, antropologia e outras disciplinas semelhantes, mas pode-se certamente perguntar como seria diferente o mundo, se tivesse como base o saber dos indígenas norte-americanos.

Mas devemos considerar o que é que ganhamos em aprender alguns dos muito ricos mitos tribais dos nativos norte-americanos. Não há muitos anos, uma escritora nativa foi contratada por uma companhia de teatro para escrever uma peça especial para crianças baseada em um mito à sua escolha. Uma vez a peça escrita, foi assistir aos ensaios e desfez-se em lágrimas ao consciencializar como a companhia de teatro tinha adaptado o seu guião, como tinha transformado aquele mito em nada mais que um conto de fadas para distrair as crianças. Este mito tribal, que tinha sido em tempos profundamente venerado como saber vital, era agora, de fato, nada mais que um entretenimento para a audiência.

Um editor e/ou escritor tem de ter o sentido das transformações caso lhe seja encomendado que conte os mitos dos indígenas norte-americanos na forma publicada. Os editores devem estar completamente cientes do fato de estas estórias perderem muita da sua força quando retiradas da sua apresentação tradicional original. Apesar destas preocupações é claro qu e, se o leitor estiver atento a estes mitos tribais, fará uma descoberta maravilhosa. O leitor verificará que os mitos tribais continuam a mostrar uma riqueza de conhecimento e de sabedoria antiga - segredos que nem mesmo as páginas impressas lhes podem roubar. Se forem lidos com cuidado e refletidamente, os mitos tribais continuam a revelar verdades antigas, mesmo que deslocadas do contexto adequado.

Uma imensidão de mitos diferentes

Existem mais de 500 tribos de nativos americanos dentro das fronteiras dos EUA, continentais e mais de 250 tribos inuítes do Ártico norte-americano, que inclui o Alasca, o Canadá e a Groelândia. (Note-se que a definição de "tribo" é diferente nos nativos americanos e nas culturas inuítes - tribos de nativos americanos pode ser uma amálgama de vários grupos ou "bandos", enquanto que as tribos inuítes normalmente só compreendem uma única aldeia).

Nesta antologia encontram-se mitos de quase todas as regiões da América do Norte. Da Groelândia, Canadá e Alasca ate ao noroeste, descendo a costa do Pacífico e para sudoeste, através das montanhas, atravessando as Grande Planícies, em torno dos Grandes Lagos, percorrendo a região nordeste e leste, depois para sul o leitar irá encontrar mitos que têm tanto de semelhantes como de diferentes.

O que estas tribos partilham é uma perspectiva do mundo baseada n seu relacionamento com a terra. As histórias das "religiões" que tem por base a terra ensinam-nos como vivem em equilíbrio com o nosso mundo. Os mitos tribais emergem do nosso conhecimento da terra.

Muitos dos grandes temas encontrados nos mitos dos nativos norte-americanos contam estórias acerca da criação, jornadas dos heróis, armadilhas, espíritos, animais, amor humanos, Terra-Mãe, o céu e as passagens da vida. Considerando que o mito é uma linguagem espiritual, se for corretamente descodificado, poderá abrir um universo a todos os que tenham ouvido para escutar. Poder-se-á ficar surpreendido ao saber que os mitos tribais norte-americanos abordam temas semelhantes aos da outras culturas, tais como: o bom e o mau do mundo espiritual e como se formou a Terra. Como exemplo pode referir-se que muitas estórias sobre a criação falam de um grande dilúvio que cobriu a Terra, semelhante à epopeia de Gilgamesh. Pode também encontrar-se uma versão indígena de alguns do mitos gregos, como a caixa de Pandora. A universalidade destes mitos é fascinante, mas ao ler-se com mais cuidado estas estórias verificar-se-á que se trata de um mundo inteiramente diferente e e uma perspectiva claramente tribal.

Estes mitos chegam e uma grande série de fontes e são contados com notórias diferenças em relação às estórias que o leitor poderá ter ouvido ou lido anteriormente, o que se deve à sua natureza fluída, que permite ao narrador alterá-las segundo o seu saber e experiência. Deverá ser dito que mesmo antes da chegada dos europeus, os mitos tribais não eram estanques, pois as estórias evoluíam, quase sempre, cada vez que eram contadas e os narradores, frequentemente, introduziam novas personagens e linhas de enredo, o que as ia alterando ao longo dos anos. E, através das atuais comunidades nativas norte-americanas, estes mitos continuam a evoluir. Mas as suas verdades centrais permanecem e o saber antigo permanece intacto, apesar das muitas alterações introduzidas durante as narrações.

Finalmente, deve compreender-se que os narradores tradicionais nunca contaram estes mitos da forma como os leitores modernos do Ocidente estão acostumados. As estruturas ocidentais do desenvolvimento da trama - introduzindo conflitos e atingindo resoluções - não eram o modo indígena de transmitir o conhecimento. Era mais vulgar um contador de estórias tribal optar por um estilo de narração circular, que mantinha os mitos com frescura. Este estilo permitia-lhes revelar o saber quando sentiam que isso era importante, ou que teria maior impacto.

Mitologia - Mitologia Norte-Americana
1/4/2020 2:56:37 PM | Por Elizabeth Dimock
Livre
Mitos africanos de animais e de trapaças

Na mitologia africana, o mundo natural está muito ligado ao social. Tal como a paisagem, o céu, as montanhas
e as florestas fazem parte das estórias, também os animais, os pássaros e os répteis. Algumas criaturas têm maior relevo que outras. O camaleão e a serpente são muito importantes em grandes regiões da África. Outros animais, como o leopardo, a lebre, o coelho e a tartaruga surgem em zonas mais restritas, o que talvez
seja determinado pelo ambiente circundante. Existem estórias de lebres e tartarugas que contam como a astúcia pode, muitas vezes, ser usada contra animais maiores
e mais fortes. Frequentemente, estes contos dizem respeito às características dos seres humanos, mas são narrados como entretenimento e com objetivos morais.

Uma criança pequena perguntou ao pai por que razão é que uma cobra, que a mãe proibiu a família de a matar, a veio visitar.

O pai respondeu que a cobra é um guia da raça e explicou-lhe como é que a cobra se apresentava à família. Primeiramente, aparecia ao pai em vários sonhos. Depois, em uma noite, durante
um sonho, avisou o pai de que iria aparecer na realidade, indicando quando e onde o encontro teria lugar. Contudo, quando o pai viu a cobra ficou cheio de medo e teve de lutar consigo mesmo para não a matar. Ao ver a reação
do pai, a cobra virou-se
e desapareceu pelo mesmo caminho por onde tinha vindo. Na noite a seguir, voltou
a aparecer nos sonhos
do pai e perguntou-lhe porque é que não a tinha recebido amigavelmente, já que ela,  a cobra, era o espírito guia
da raça e se fosse bem recebida,
traria boa sorte. Da segunda vez
que o pai viu a cobra, recebeu-a
sem medo e saudou-a com amabilidade
A partir desse dia, a cobra só trouxe à família
boas coisas. As relações entre os seres humanos
e os animais podem ser expressas de outras formas, como sucede nas estórias de Madagascar. Certos clãs da ilha chamam ao seu folclore «Canções
dos crocodilos», referindo-se a um crocodilo
que vivia em um rio e cuja fêmea era uma mulher,
a qual foi apanhada em uma armadilha para peixes, depois foi retirada do rio e levada por um homem com quem ela viveu durante um certo tempo.
Após lhe ter dado dois filhos, voltou ao rio.

Uma estória acerca de Gina conta como
o crocodilo ganhou a crista rígida no lombo.
Gina, que era um homem, estava a dormir debaixo
de uma árvore quando foi apanhado por um fogo,
tendo sofrido queimaduras graves. Saltou em chamas para dentro do rio e transformou-se em um crocodilo.
Esta é uma estória comum sobre as origens dos animais e que explicam as características das espécies. Uma outra estória conta como o crocodilo andou pelas colinas até ficar cansado e se ter transformado em uma crista rochosa para descansar.

Mitos sobre trapaceiros

Há um tipo de estória que se encontra por todo
o continente que é mais secular que as que têm conotações sagradas com a criação e as origens. São contos com circunstâncias em que a personagem aparentemente
mais fraca ou inocente é posta em competição com outra mais forte. Na África Ocidental, estas estórias atingem grande importância e são frequentemente transferidas
do tradicional para situações da modernidade e com significado político. Se homens ou mulheres vulgares atingem o máximo em importância, o tema é divertido, mesmo que haja alguma situação mais complexa
de desilusão ou de sofrimento. Um gênero de estórias acerca de Ananse, a aranha trapaceira, diz respeito às personagens mais populares da mitologia dos Akan e dos Ashante, do Ghana, nas são contadas por toda a África Ocidental. Uma dessas estórias conta que Ananse prometeu curar a mãe de Nyame, o ser supremo, de uma doença. Mas ela morreu e Nyame, obrigando Ananse a cumprir ° juramento de que pagaria com a vida se não a curasse, sentenciou-o de morte. Ananse preparou então uma trapaça, utilizando o filho que estava escondido por baixo do sítio onde Ananse se encontrava preso.
O filho começou a gritar, como o pai o tinha  instruído, dizendo que Ashante não sobreviveria se Ananse fosse morto, e que prosperaria se ele fosse perdoado.
Desta forma, Ananse salvou-se para continuar a praticar atos de natureza dúbia. Muitas das estórias de Ananse são grosseiras, por vezes mesmo rudes, com contrariedades sexuais, e são frequentemente o espelho das fraquezas humanas.

Uma outra trapaça, associada ao povo Fon, do Benin, é Legba, que é um deus mas também um mediador entre os deuses e os humanos e entre os próprios seres humanos. Legba, um linguista, conhece as línguas
de todos os deuses do panteão, assim como a língua
de Mawu-Lisa, o ser supremo dos Fon. Como cada
deus só sabe a sua língua, como acontece com Mawu-Lisa, esta capacidade de Legba permite-lhe mover-se entre as divindades e, na verdade,
manipular as situações a seu favor. A alcunha
de Legba é Aflakete, que quer dizer «Preguei-te uma partida».

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Ganimedes

Ganimedes, o filho do rei Trós de Tróia, era um jovem excecionalmente belo, Zeus (Júpiter) achou-o uma tentação
e transformou-se numa águia para o afastar de Tróia. Arrebatou Ganimedes até aos céus com as garras e levou-o para o Olimpo, para grande contrarieda de da mulher Hera (Juno). Para maior aborrecimento de Hera, Zeus ordenou que passasse a ser Ganimedes a servir os deuses, tarefa que anteriormente era desempenhada por Hebe, filha de Zeus e de Hera. Mas o rei dos deuses ainda foi mais longe, homenageando o seu amor por Ganimedes na constelação Aquário, o urso-de-água-doce.

MILLS, Alice. A era clássica. IN.: GORDON Cheers (org.). Mitologia: Mitologias de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter, 2011. Cap. 1 p. 108
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Dioníso como marido
Dioniso e Ariadne

Apesar da sua reputação de apreciador de orgias, Dioniso (Baco) era o único deus, talvez à exceção do deus do amor, Eros (Cupido), que era absolutamente fiel ao casamento. Ele encontrou Ariadne a chorar na Ilha de Naxos, onde Teseu a tinha abandonado. Dioniso desposou-a e tiveram muitos filhos. Ariadne foi feita deusa aquando do casamento, e Zeus (Júpiter) pegou na coroa que ela estava a usar e colocou-a no céu onde ficou como constelação Carona Borealis

MILLS, Alice. A era clássica. IN.: GORDON Cheers (org.). Mitologia: Mitologias de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter, 2011. Cap. 1 p. 93
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Hero e Leandro

Hero era uma bela jovem que vivia em Sestos, e Leandro um bonito jovem que morava em Abido. Estas duas cidades estavam uma em frente da outra nas costas do estreito de Helesponto (hoje chamado de Dardanelos). Hero era uma sacerdotisa de Afrodite (Vénus), a deusa do desejo, embora os pais pretendessem que ela se mantivesse casta. Vivia numa torre junto ao mar e, todas as noites, ela acendia uma luz numa janela
bem alta, a fim de guiar Leandro até à torre. Este atravessava o Helesponto a nado para passar a noite com a sua amada Hero, gozando dos rituais da adoração a Afrodite e depois nadava de volta antes que o dia rompesse. Eles mantinham a sua paixão em segredo, sabendo que os pais de Hero desaprovariam a relação. Numa noite tempestuosa de inverno, o vento apagou a luz de Hero, o que fez com que Leandro se perdesse e acabasse por se afogar. Na manhã seguinte, o seu corpo foi arrastado para junto da torre de Hero, de onde ela se lançou para morrer junto do seu amado. Tal como em muitas estórias trágicas de amor, Hero foi incapaz de enfrentar o mundo sem Leandro. A estória deles foi narrada por Museu, que uns dizem ter sido um filho, outros um mestre de Orfeu.

MILLS, Alice. A era clássica. IN.: GORDON Cheers (org.). Mitologia: Mitologias de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter, 2011. Cap. 1 p. 184
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