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Vida após a morte na Grécia Antiga

O reino ctônio de Plutão chamava-se mais comumente Hades, mas havia outros nomes pelos quais podia ser designado, na Grécia e em Roma, muitas vezes tomando-se a parte pelo todo, como Érebo, Tártaro, Orco, Inferno, estes dois últimos provenientes do latim. Discutida a etimologia de Hades, tentaremos estabelecer as das outras denominações, quando existirem

ÉREBO, do grego Έρεβος (Érebos), designa as trevas que cercam o mundo. Trata-se de uma concepção indo-européia * reqwos, "cobrir de trevas", que aparece no sânscrito como rájas, "espaço escuro", no gótico riqiz, "escuridão", e no armênio erek, "tarde".

TÁRTARO, é o grego Τάρταρος (Tártaros), "abismo subterrâneo, local de suplícios", é possivelmente um empréstimo oriental.

ORCO é o latim Orcus, "morada subterrânea dos mortos, os infernos". A Etimologia do vocábulo é desconhecida. A proveniência do indo-europeu * areq ou areg é atualmente considerada como fantasiosa, quando não absurda.

INFERNO ou OS INFERNOS é palavra latina infernus. Etimologicamente infernus é uma forma segunda de inferus "que se encontra embaixo", por oposição a superus, "que se encontra em cima", onde a oposição Di inferi, deuses do Inferno, do Hades, e Di Superi, deuses do Olimpo. Observa-se, ainda, em latim, os comparativos inferior, que está mais embaixo, "inferior", por oposição a superior, que está mais acima, "superior".

Substantivado o neutro plural inferna, -orum, significa as habitações dos deuses de baixo e também dos mortos, quer dizer, o Inferno, abstração feita, em princípio, de local de sofrimento ou de castigo, já que todos na Grécia e em Roma iam para o "Inferno", como parece ter sido no Antigo Testamento, o sentido de Sheol, onde é documentado sessenta e cinco vezes, como por exemplo em Jó 17,16: in profundissimum infernum descendent omnia mea: "todas as minhas coisas descerão ao mais profundo dos infernos".. E era, precisamente, com esta acepção que ainda se rezava, no Credo, não faz muito tempo, (que Jesus Cristo) desceu aos infernos, expressão que, para evitar equívoco, foi substituída por desceu à mansão dos mortos. É a partir do Novo Testamento, todavia, que o Inferno, é identificado com a Geena, local de sofrimento eterno e a parte mais profunda do Sheol, como está em Lc 16,22-23.

Factum est autem ut morertur mendicus et portartur ab angelis in sinum abrahae. Mortuus est autem et diues et sepultus est in inferno: "Ora sucedeu morrer o mendigo e foi levado pelos anjos para o seio de abraão, e morreu também o rico, e foi sepultado no inferno". A Seqüência da Parábola diz que Lázaro, o mendigo, estava lá em cima e o rico lá em baixo, havendo entre ambos um abismo intransponível.

Na Grécia, ao que tudo indica, somente a partir do Orfismo, lá pelo século VII-VI a.e.c., é que o Hades, o Além, foi dividido em três compartimentos: Tártaro, Érebo e Campos Elísios. O fato facilmente se explica, é que o Orfismo rompeu com a secular tradição da chamada maldição familiar, segundo o qual não havia culpa individual, mas cada membro do guénos era co-responsável e herdeiro das faltas de cada um de seus membros, e tudo se quitava por aqui mesmo. Para os Órficos a culpa é sempre de responsabilidade individual e por ela se paga aqui; e quem não se purgar nesta vida, pagará na outra ou nas outras. Havendo uma retribuição, forçosamente terá que existir, no além, um prêmio para os bons e um castigo para os maus e, em conseqüência, local de prêmio e de punição.

Quanto à localização, o Hades era um abismo encravado nas entranhas da Terra, e cuja entrada se situava no Cabo Tênero (sul do peloponeso) ou numa caverna existente perto de Cumas, na Magna Grécia (sul da Itália).

Também na literatura babilônia, na epopéia de Gilgamesh, nos mitos de Nergal e Ereskigal, na descida de Istar para os Infernos, estes são um lugar debaixo da Terra, além do oceano cósmico. Há dois caminhos para se chegar lá: descendo na terra ou viajando para o extremo ocidente; mas antes de atingir o Além, é necessário transpor o rio dos mortos, "as águas da morte". Também as concepções ugarítica e bíblica localizam o Inferno nas profundezas da Terra. Abrindo-se está, Coré, o levita, que se opõe a Moisés, bem como Datã e Abirão, com os seus, desceram vivos para os Infernos. Jó, que o considera como o lugar mais baixo da criação, imagina os acessos à outra vida no fundo do oceano primordial, em que a terra bóia.

O universo por conseguinte, é dividido em três partes: "acima da terra, na terra e debaixo da terra" ou céu, terra e inferno.

Para que se possa compreender o destino da alma no Hades, vamos acompanhá-la em sua longa viagem, do túmulo ao reino de Plutão. A obrigação mais grave de um grego é o que concerne ao sepultamento de seus mortos: filhos, ou , na carência destes, os parentes mais próximos devem sepultar seus pais segundo os ritos, sob pena de lhes deixar a alma volitando no ar por cem anos (o cômputo é puramente fictício), sem direito a julgamento, e, por conseguinte, à paz do Além.

O Sepultamento, todavia, depende de certos ritos preliminares: o cadáver, após ser ritualmente lavado, é perfumado com essências e vestido normalmente de branco, para simbolizar-lhe a pureza. Em seguida, é envolvido com faixas e colocado numa mortalha, mas com o rosto descoberto, para que a alma possa ver o caminho que leva à outra vida. Certos objetos de valor são enterrados com o morto: colares, braceletes, anéis, punhais... Os arqueólogos, escavando túmulos, encontraram grande quantidade desses objetos. em certas épocas se colocava na boca do morto uma moeda, óbolo destinado a pagar ao barqueiro Caronte, para atravessar a alma pelos quatro rios infernais. Essa idéia de pagamento da passagem, diga-se logo, não é um simples mecanismo da imaginação popular. Toda moeda ´eum símbolo: representa o valor pelo qual o objeto é trocado. Mas, além de seu valor próprio de dinheiro, de símbolo de troca, as moedas, consoante Cirlot, "desde a antiguidade tiveram certo sentido talismânico", uma vez que nelas a conjunção do quadrado e do círculo não é incomum. além do mais, a moeda, em grego nómisma, é o símbolo da imagem da alma, porque esta traz impressa a marca de Deus, com oa moeda o traz do soberano, segundo opina Angelus Silesius. A moeda chinesa, denominada "sapeca", é um círculo com um furo quadrado no centro: vê-se aí claramente a coniunctio oppositorum: a conjunção do Céu (redondo) e da Terra (quadrada), o aniums e a anima, formando uma totalidade. Por vezes se colocava junto ao morto um bolo de mel, que lhe permitia agradar o cão Cérbero, guardião da porta única de entrada e saída do Hades. O Cadáver é exposto sobre um leito, durante um ou dois dias, no vestíbulo da casa, com os pés voltados para a porta, ao contrário de como entrou na vida a cabeça do morto, coroada de flores, repousa sobre uma pequena almofada. Todo e qualquer homem podia velor o morto, acompanhar-lhe o féretro e assitir-lhe ao sepultamento ou à cremação, mas a lei era extremamente rígida com a mulher: na ilha de Ceos só podiam entrar na casa, onde houvesse um morto, aquelas que estivessem "manchadas" (a morte sempre contamina) pela proximidade de parentesco com o mesmo, a saber, a mãe, a esposa, as irmãs, as filhas e mais cinco mulheres casadas e duas jovens solteiras, cujo grau de parentesco fosse no mínimo de primas em segundo grau.

Em Atenas, igualmente, a legislação de Sólon era severa a esse respeito: só podiam entrar na casa do morto e acompanhar-lhe o enterro aquelas que fossem parentes até o grau de primas. Os presentes vestiam-se de luto, cuja cor podia ser preta, cinza e, por vezes, branca, e cortavam o cabelo em sinal de dor. Carpideiras acompanhavam o féretro para cantar o treno. Diante da porta da casa se colocava um vaso (ardánion) cheio de água lustral, que se pedia ao vizinho, porque a da casa estava contaminada pela morte. todos que se retiravam, se aspergiam com essa água, com o fito de se purificar. O enterro se realizava na manhã seguinte à exposição do corpo. A lei se Sólon prescrevia que todo enterro se deveria realizar pela manhã, antes do nascimento do sol. Desse modo, os enterros em Atenas se faziam pela madrugada e por motivo religioso: até os raios de sol se manchavam com a morte! No cemitério, sempre fora dos muros da cidade, o corpo era inumado ou cremado sobre uma fogueira: neste último caso, as cinzas e os ossos eram cuidadosamente recolhidos e colocados numa urna. que era sepultada. Após se fazerem libações ao morto, voltava-se para casa e se iniciava o minuscioso trabalho de purificação da mesma, porque, para os gregos, o maior dos "miasmas" era o contato com a morte. Após um banho de cunho rigorosamente catártico, normalmente com água do mar, os parentes do morto participavam de um banquete fúnebre; este se renovava, em Atenas, ao menos, no terceiro, nono e trigésimo dia e na data natalícia do falecido.

Sepultado ou cremado o corpo, a psiqué era conduzida por Hermes, deus psicopompo, até a barca de Caronte. recebido o óbolo, o robusto demônio da morte permitia a entrada da alma em sua barca, que a transportava para além dos quatro temíveis rios infernais, Aqueronte, Cocito, Estige e Piriflegetonte,. Já do outro lado, após passar pelo cão Cérbero, o que não oferecia grandes dificuldades, pois o que o monstro de três cabeças realmente vigiava era a saída, a psiqué enfrentava o julgamento. O tribunal era formado por três juízes integérrimos: Éaco, Radamento e Minos. Esse tribunal, no entanto, é bem recente. Homero só conhece como juiz dos mortos Radamanto. Éaco aparece pela primeira vez em Platão.

Radamanto julgava os asiáticos e africanos; Éaco, os europeus. Em caso de dúvida, Minos intervinha e seu veredicto era inapelável.

Infelizmente quase nada se sabe acerca do conteúdo desse julgamento e a maneira como era conduzido, embora na Eneida, 6,566-569. Vergílio nos fale, de passagem, que Radamento supliciava as almas, obrigando-as a confessar seus crimes ocultos.

Julgada, a alma passava a ocupar um dos três compartimentos: Campos Elísios, Érebo ou Tártaro. Neste último eram lançados os grandes criminosos, mortais e imortais. Era o único local permanente do Hades: lá, supliciados pelas Erínias, ficavam para sempre os condenados, os irrecuperáveis. O mesmo Vergílio, ainda no canto 6, nos dá uma visão dantesca dos suplícios a que eram submetidos os réprobos e a natureza dos crimes por eles perpetrados. O grande poeta todavia, no que se refere às faltas graves cometidas, mistura habilmente "aos que espancaram os pais, aos avarentos, aos adúlteros, aos incestuosos, aos que desprezam os deuses", os condenados por crimes políticos... Estão no Tártaro os que "fizeram guerras civis, os desleais, os traidores, os que venderam a pátria por ouro e impuseram-lhe um senhor despótico..." É bom não perder de vista que, a par de ser um poema tardio, a Eneida é também uma obra assumidamente engajada e comprometida com a ideologia política do imperador Augusto, cuja pessoa, cuja família, que era de origem divina, cujo governo e cujas reformas o poeta canta, exalta e defende. No Tártaro vergiliano, os assassinos principais de César, Cássio e Bruto, e seus grandes inimigos políticos, como Marco Antônio e a egípcia Cleópatra, entre muitos outros, sem omitir os heróis gregos, inimigos do troiano Pai Enéias, fundador da raça latina, certamente formariam um inferninho à parte, com suplícios adequados... Talvez mais violentos do que os do inferno político da Divina Comédia de Dante.

O Érebo e os Campos Elísios são impermanentes: tra-se mais de compartimentos de prova do que de purgação. As provações aí realizadas servem de parâmetro de regressão ou de evolução e aperfeiçoamento, cuja natureza nos escapa. Quer dizer, a descida definitiva ao Tártaro ou a próxima (ensomátosis), "reencanação", ou ainda a próxima (metempsýkhosis), "metempsicose", que são coisas muito diferntes, dependeriam intrinsecamente do "comportamento" da psiqué durante sua permanência no Érebo ou nos Campos Elísios. No Érebo estão aqueles que cometeram certas "faltas". Seria conveniente deixar claro que alguns habitantes temporários do Érebo, que Vergílio denomina lugentes campi, Campos de Lágrimas, não têm suas faltas especificadas e outros lá estão sem que possamos compreender o motivo. Recorrendo mais uma vez à Eneida 6, vamos ver que nos Campos das Lágrimas estão criancinhas que morreram prematuramente as vítimas de falso julgamento; as suicidas (o poema só fala em mulheres) por amor, como Fedra, Prócris, Evadne, Dido...

Alguns heróis, troianos (mirabile dictu !) também lá estão e heróis gregos igualmente.

O Poeta Latino, no entanto, deixa bem claro que essas almas não estão no Érebo por acaso, "sem o aresto de juízes, uma vez que Minos indagou de sua vida e de seus crimes". Onde se conclui que cometeram "faltas".

Do Érebo que é temporário, elas ou mergulharão no Tártaro, porque se pode regredir, ou subirão para outra impermanência, os Campos Elísios, único local de onde poderiam partir os candidatos à reencarnação ou à metempsicose.

Em se tratando do último nível ctônio, em que estão os poucos que lá conseguiram chegar, os Campos Elísios, em grego (Elýsia pedía) são descritos, ao menos na Eneida, 6, como uma paraíso terrestre em plena idade de ouro. Lá residem os melhores em opulentos banquetes nos gramados, cantando em coro alegres canções, nos perfumados bosques de loureiro. Lá estão os que já passaram por uma série de provas e purgações. Mas, decorridos mil anos, após se libertarem totalmente das "impurezas materiais", as almas serão levadas por um deus às águas do rio Lete e, esquecidas do passado, voltarão para reencarnar-se.

Eis aí uma visão da escatologia grega popular em suas linhas gerais, mas poder-se-ia perguntar: a quantas reencarnações se tinha direito? E depois de totalmente purificada das misérias do cárcere do corpo, qual o destino final da psiqué? À primeira pergunta talvez se pudesse responder evasivamente que o número de reencarnações se mediria pela paciência dos deuses (que certamente não era muito grande); e à segunda, dizendo-se que, via de regra, o céu grego era platonicamente a Via Láctea. Ao menos, que se saiba, a cabeleira de Berenice, e os imperadores romanos, que morriam benquisisto do povo, eram transformados em astros...

Mitologia Grega

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A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

Mitologia Celta
As tarefas impossíveis de Culhwch

Um dos contos mais populares de Mabinogion narra a estória de Culhwch e Olwen. Culhwch é de sangue real, pois é primo de Arthur. O seu nascimento foi invulgar. Antes de ele ter nascido, a mãe, Golenddyd, ganhou uma profunda antipatia por porcos, pois quando passava por uma vara deles, assustou-se e deu à luz um filho que abandonou. Um guardador de porcos pegou nele e levou-o para os pais criarem. Golenddyd morreu e o marido, Cilydd, voltou a casar com uma mulher que tinha uma filha que ela queria casar com Culhwch. Mas ele não quis, afirmando ser ainda muito jovem. A rainha então rogou uma praga a Culhwch, segundo a qual ele só viria a casar com Olwen, filha de Ysbaddeden, o Chefe dos Gigantes. Bastou a Culhwch ouvir o nome dela para se apaixonar profundamente.

Culhwch decidiu então pedir ajuda a Arthur para encontrar esta donzela e partiu num grande esplendor, completamente armado com machados de guerra, espada dourada e uma pequena machadinha que «podia fazer o ar sangrar.» Tinha também um chifre de marfim, dois galgos e montava um cavalo fantástico. Quando Culhwch chegou à corte de Arthur o porteiro tentou barrar-lhe a entrada, mas ele ameaçou dar três gritos de tal intensidade que as mulheres ficariam estéreis e as que estivessem grávidas abortariam.

É claro que ele passou. Encontrou-se com Arthur que se deixou convencer a ajudá-lo a procurar Olwen. As buscas decorreram durante um ano, sem sucesso. Por fim, juntaram um grupo dos melhores cavaleiros, cada um deles abençoado com peculiaridades extraordinárias. Um deles, Kay, tinha uma espada que provocava feridas que nenhum médico podia tratar; outro, Bedwyr, o mais veloz de todos, e Gwalchmai, que nunca voltava de uma missão sem a cumprir.

Após mais dia buscas, Olwen foi finalmente encontrada.

Ela correspondeu ao amor de Culhwch, mas explicou que o pai Ysbaddeden estava destinado a morrer quando se casasse. Olwen pediu a Culhwch que aceitasse qualquer condição que o pai lhe impusesse. Culhwch aproximou-se do Chefe dos Gigantes que lhe ordenou uma longa série de «tarefas impossíveis.» A mais intimidante delas consistia em recuperar uma tesoura, uma navalha da barba e um pente que estava entre as orelhas do grande e destruidor javali Twrch Trwyth. Apesar de tudo, Culhwch aceitou de boa vontade toda as tarefas. Ele e Arthur conseguiram atrair a ajuda de Mabon, o caçador que tinha estado preso num castelo após ter sido roubado. Na ocasião, ele tinha sido libertado Era conhecido como «o jovem» se bem que fosse o mais velho de todos os seres. Mabon Culhwch e os cavaleiros foram ajudados por animais mágicos: a Águia de Gwemabwy, o Melro de Kilgory, o Veado de Rhedynvre, Salmão de Llyn Law e outros bichos encantados. Um dos homens de Arthur, Gwrhyr, tim a capacidade de falar com cada um deles na sua própria linguagem. Após uma longa perseguição através do sul do País de Gales, da Cornualha e da Irlanda, durante a qual o diabólico javali devastou uma grande parte da terra, foi enfim possível, com a ajuda de Mabo dominá-lo e conduzi-lo para o mar. A navalha da barba, a tesoura e o pente foram entregue: e Culhwch pôde finalmente casar com Olwe.

Mitologia Celta
Math Ap Mathonwy e os dois sobrinhos

A história complicada de Math Ap Mathonwy, Lorde de Gwynedd, no Norte, constitui o quarto livro de Mabinogion. Tal como sucede em muitos destes contos, nela existe decepção e magia, e oscila com facilidade para trás e para a frente entre este e o Outro Mundo. É uma história de magia na qual o mal é punido, mas apenas na medida certa. Quando Math, um mago, não estava fora a vigiar as suas terras ou em alguma guerra, ele tinha de pousar os pés no regaço de uma donzela. Ele tinha dois sobrinhos, filhos da deusa Don, Gilfaethwy e Gwydion, que desejavam a virgem onde o tio pousava os pés e cujo nome era Goewin. Os irmãos, que tinham sido treinados na arte da magia pelo próprio Math, planejaram uma forma de o distraírem, começando uma guerra com Pryderi, Lorde de Dyfed, no Sul. Gwydion intrujou Pryderi com os seus porcos brancos mágicos e, tal como planejara, rebentou a guerra entre as cidades de Gwynedd e Dyfed.

Enquanto Math estava na guerra os irmãos por magia, violaram Goerin e depois regressaram ao campo de batalha. Em seguida Gwydion matou Pryderi, através das suas magias. Quando Math regressou, a sua ira ao descobrir o que tinha sucedido a Goewin levou-o a punir os dois irmãos, transformando-os durante três anos consecutivos em pares de animais: um veado e uma corça; um javali e uma porca; um lobo e uma loba, forçando-os a seguir as respectivas naturezas. Os irmãos alternavam o gênero masculino e feminino e em cada ano produziam um descendente. No fim deste período, Math perdoou os sobrinhos e voltou a dar-lhes a forma humana assim como aos descendentes, que, no mínimo, mantiveram os nomes de animais.

 

Mitologia Celta
Manawydan Ap Llyr e o encantamento de Dyfed

O terceiro livro de Mabinogion refere-se ao período pós morte de Pwyll. Quando Pryderi e Manawydan regressaram do funeral da cabeça de Bran, em Londres, Manawydan casa com a viúva de Pwyll, Rhiannon. Pryderi e a mulher, Cigfa, Rhiannon e Manawyda vão para Gorssed Arberth, em Dyfed. Embora ilesos, visto estarem no mágico Monte de Arbeth os quatro viram Dief cair em um encantamento. Todos os habitantes e casas desapareceram e os campos cobriram-se de um nevoeiro. Como Dyfed ficou sem nada, os quatro viram-se forçados a partirem para Inglaterra onde Manawydan e Pryderi se fixaram como artesãos de sandálias e sapatos. Para onde quer que fossem, a habilidade de Manawydan suscitava a inveja e a má vontade dos artesãos locais, pelo que os quatro regressaram a Dyfed onde encontraram uma forma de vida na caça. Numa das expedições para caçarem, Manawydan e Pryderi encontraram um enorme javali, ofuscantemente branco (um sinal certo de que vinha do Outro Mundo). O javali atraiu os cães deles para um estranho castelo. Apesar dos avisos de Manawydan, Pryderi seguiu os cães para o castelo. Aí viu uma taça de ouro e tocou-lhe, tendo ficado agarrado ao sítio e perdido a fala. Rhiannon seguiu Pryderi e teve destino semelhante das famílias e sem cães para caçarem, transformaram-se em agricultores e cultivaram o trigo. Os cereais desenvolveram-se bem, mas, pouco antes da colheita, dois dos campos foram destruídos por exércitos de ratos. Manawydan estava à espera deles quando para devastar o terceiro campo. Escaparam todos, à exceção de uma rata prenhe. Ele estava a pensar pendurar esta rata, apesar dos pedidos de clemência de quem passava. Finalmente um bispo interrompeu os procedimentos e tentou redimir a rata. Manawydan reconheceu o bispo como amigo de um mágico e recusou-se a ceder até ele ressuscitar Rhiannon e Pryderi assim como os 700 trabalhadores rurais de Dyfed e libertar a terra do encantamento. O bispo revelou então ser Llwyd e declarou ter lançado aquele feitiço para vingar o mal feito por Pwyll a Gwawl, primeiro pretendente de Rhiannon, quando Pwyll se casou com ela e a tirou a Gwawl.

A rata prenhe era afinal a mulher de Llwyd. Ela e as outras mulheres tinham sido transformadas em ratas e enviadas para destruir o trigo de Manawydan. A magia de Manawydan, porém, provou ser mais forte e Dyfed ressuscitou e os ratos voltaram a ter a forma humana.

Mitologia Celta
Branwen e Bran

Matholwch, o rei da Irlanda, desejava ardentemente a mão da galesa Branwen, filha de Llyr, rei da Inglaterra. O irmão Bran concorda e o casamento realiza-se na corte deste último. Contudo, Efnisien, um meio-irmão por parte da mãe, opôs-se ao matrimônio e, durante a sua celebração, mutilou os cavalos de Matholwch quando estavam nos estábulos da corte. Bran tentou acalmar Matholwch oferecendo-lhe vários presentes, dos quais se destacava um caldeirão mágico que tinha sido feito na Irlanda. O seu poder era de tal ordem, que ele podia fazer reviver guerreiros mortos, embora sem recuperarem a fala. Matholwch aceitou o presente e partiram ambos para a Irlanda. Estava, porém, muito ressentido com o sucedido no País de Gales pelo que tratava a sua nova rainha como uma serva, forçando-a a trabalhar na cozinha, onde ela era tratada com dureza pelo magarefe.

Desesperada, Branwen treinou um estorninho que lhe levou uma mensagem a Bran. Este tratou de atacar imediatamente a Irlanda para vingar a irmã. Era um homem enorme, capaz de caminhar através do Mar da Irlanda, que pareceu aos Irlandeses ser uma montanha que avançava para eles. Estes posicionaram-se para lá de um rio intransponível e destruíram a ponte.

Bran, porém, deitou-se sobre a água e o exército passou sobre ele para o outro lado, derrotando Matholwch sem grandes perdas de tempo. Seguiu-se a paz, mas que não viria a durar muito. Quando recomeçaram as lutas, o que mais uma vez ficou a dever-se, em parte, às ações de Efnisien, Bran foi ferido por uma lança envenenada e apenas sobreviveram sete  dos seus homens.

Ele ordenou aos homens, entre os quais estavam Pryderi de Dyfed e Manawydan, seu irmão, para que lhe cortassem a cabeça e a levassem de volta ao seu país, antes de a sepultarem em Londres no Monte Branco, com o rosto voltado para leste, para evitar que a Inglaterra sofresse invasões estrangeiras. A viagem para Londres é só por si uma saga extraordinária, que levou 87 anos. A cabeça permaneceu viva e narrando os prodígios até ao seu enterro. Entretanto, Branwen morreu com o coração partido em Aber Alaw lamentando que, por causa dela, as duas grandes ilhas sejam estranhas uma para com a outra.   

Mitologia Celta
Viagens fantásticas

Na mitologia irlandesa existe um gênero conhecido como
as estórias imram, que narram as perigosas viagens por mar até às misteriosas «ilhas abençoadas», ou até às «ilhas
dos fantasmas», que se pensava que se encontrariam no Oceano Atlântico para oeste
da Irlanda. As histórias de Bran
e Mael Duin foram convertidas
nas aventuras cristãs de São
Brendan o Navegador, enquanto
a lenda de Ossian, talvez uma
das mais interessantes, foi fonte
de inspiração para várias peças,
filmes e poemas.

A Viagem de Bran


Um dia, Bran encontrou uma mulher surpreendente
e sedutora que lhe ofereceu um ramo prateado cheio
de flores brancas. A mulher falou-lhe da sua casa no Outro Mundo, a «ilha das mulheres» (Tir Inna mBan), que era descrita como um verdadeiro paraíso: comida interminável, amor sem fim, um verão permanente e a eterna juventude. Bran recrutou 26 homens e rumou a ocidente em busca desta ilha encantada. Quando atravessou uma ponte de cristal e chegou à ilha, descobriu que
era tudo aquilo que tinha esperado e ainda muito mais. Tornou-se então amante da bela deusa. Havia só um problema. A deusa tinha lançado um encantamento sobre os homens e avisado que não poderiam jamais voltar a casa.

Durante um ano, todos foram muito felizes. Depois, alguns dos homens começaram a ter saudades da Irlanda e das respetivas famílias e convenceram Bran a levá-los de volta. Quando o barco se aproximava do solo irlandês, os homens que estavam a bordo, começaram a acenar ansiosamente, mas ninguém em terra os reconhecia.

Com a excitação de estarem a chegar
a casa, um homem saltou para a praia e logo que os pés pousaram em terra, desfez-se em um monte de cinzas. Bran e os restantes homens, voltaram a rumar para ocidente, para nunca mais regressarem.

Mael Duin e as Ilhas Extraordinárias

Mael Duin era filho de Ailill, um guerreiro
que tinha sido brutalmente morto em combate. Assim que atingiu a idade adequada, Mael Duin jurou vingar a morte prematura do pai.

Um druida tinha-o avisado de que teria de viajar para uma ilha longínqua para encontrar o assassino.

O druida também lhe disse para levar
no barco apenas 18 homens e nem mais
uma pessoa, caso contrário ocorreriam azares.
Mael Duin obedeceu com todo o rigor às
instruções. Porém, no momento da partida,
os três irmãos adotivos que tinha treparam
pelo barco decididos a fazerem a viagem.
Passados alguns dias, aproximavam-se da ilha onde vivia
o assassino de Ailill. Mas nesse instante, uma imensa ventania fez a embarcação sair da rota e mergulhar nas água encantadas do Outro Mundo, onde encontraram muitos sítios misteriosos e viram muitas criaturas maravilhosas.

Em uma das ilhas havia um palácio cheio de comida, bebida e jóias valiosas. Um dos irmãos roubou uma gargantilha e foi de imediato destruído por um gato mágico e gigantesco. O segundo irmão desembarcou na Ilha do Choro onde foi forçado a permanecer a gritar para toda a eternidade. A seguir visitaram a Ilha
das Mulheres onde foram tentados por sonhos
de imortalidade e de amor. Mael Duin gostou de lá estar durante algum tempo, mas depois decidiu regressar a casa. Na viagem de regresso, o último irmão desembarcou na Ilha do Contentamento onde ainda hoje vive com o povo que ri.

Já sem os irmãos adotivos, Mael Duin voltou a seguir a rota e, finalmente, chegou à ilha dos assassinos do pai. Mas todo o ressentimento e rancor tinham abandonado o seu coração, pelo que pôde fazer amigos entre os habitantes que, por sua vez, o saudaram como explorador e herói.

Ossian e a Terra
da Eterna Juventude


A Niamh dos Cabelos de Ouro era uma fada boa e filha do deus do mar, Manannan Mac Lir. Ela tinha ouvido estórias interessantes do poeta e guerreiro Ossian (filho de Fionn MacCool) e tinha descido à terra para o procurar e fazer dele seu marido.

Niahm encontrou-o a caçar perto de Lough Leane, um dos lagos de Killarney. Ela meteu-o dentro do lago que era uma entrada para
o Outro Mundo, conhecido como Tir Na Nog, «a terra da eterna juventude.» Tir Na Nog era de fato o paraíso: uma beleza de cortar a respiração, realçada pelos pássaros,
pelas cores e pela música, e onde
o amor era sempre fresco e novo.

Os seus habitantes tinham sido abençoados com a eterna juventude, esquecidos
de conceitos como o de tempo,
regras ou
trabalho. Os dias passavam e Ossian levava uma vida feliz com Niamh.

Mas, como sempre acontece
aos humanos, começou a ter saudades
de casa - do pai, dos Fianna e da
Irlanda - e disse a Niamh que queria
voltar. Esta ofereceu-lhe um belo cavalo branco e disse-lhe que podia regressar à Irlanda, desde que não desmontasse do cavalo nem pusesse um pé no chão.

Quando Ossian chegou à Irlanda descobriu que tinham passado 300 anos. Todas as pessoas que ele conhecia já não existiam, mas o que ainda era pior, tudo
o que se referia aos velhos tempos e crenças tinha desaparecido e mesmo os feitos lendários de Fionn MacCool se tinham tornado em uma memória distante. Neste desânimo, esqueceu-se da recomendação de Niamh e desmontou. Imediatamente se transformou em um velho mirrado, cego e decrépito.

Algumas versões desta história contam que S. Patrício encontrou Ossian e cuidou dele, encorajando-o a contar as histórias de Fionn e os dias do passado, que assim ficaram registados para a posteridade.

Mitologia Celta
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Não são as coisas em si mesmas que perturbam os homens, mas os juízos que eles fazem sobre as coisas.

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MATÉRIAS
6/28/2018 6:02:44 PM | Leituras da História, n.5
Mitos e lendas da Idade média

Conhecida como Idade das trevas, o período que ficou oficialmente batizado como Idade Média é lembrado como uma série de perseguições religiosas, reinados poderosos, cavaleiros andantes e o total controle da Igreja Católica exercia sobre a vida de seus seguidores.

Mitologia - Mitologia judaico-cristã
6/22/2018 5:39:35 PM | História Viva, n. 20
Atenas, capital artística da Grécia

Mesmo se o desejasse, no terceiro quarto do século V a.e.c., Atenas não poderia pretender ser reconhecida como a capital política do mundo grego. Também não era a capital economica. Há, porém, um domínio no qual da pôde legitimamente ser considerada capital do mundo grego: o do pensamento e das boas-artes.

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A morte de Pã
Oferenda ao deus Pã | Pedro_Weingärtner [1894}

Uma vez, no século l e.c., um barco estava a passar junto à ilha de Paxi um marinheiro ouviu uma voz a gritar «O grande deus Pã morreu», a que se seguiram os lamentos. Mas seria mesmo uma voz dos céus a anunciar a morte do deus? Alguns estudiosos dos mitos crêem que o marinheiro ouviu os sons dos lamentos provenientes de um festival anual em honra do deusTammuz («Dumuzi» na mitologia suméria) que tinha morrido e ressuscitado, que entre outros tinha o título «pan-megas» o que significa «grande deus». O marinheiro terá entendido o uso da palavra «pan» como um lamento e não para designar o deus Pã. Seguramente, a adoração de Pã e de outros deuses do panteão grego, não terminou no século I  e.c. Para além de deus dos rebanhos e das manadas, Pã era também considerado como o deus da fertilidade e da sexualidade masculina. Apesar de ter sido divulgada a sua morte no século l e.c., santuários, altares, árvores, montanhas mesmo grutas consagrados a Pã continuavam a ser visitados e venerados mais de um século depois.

MILLS, Alice. A era clássica. IN.: GORDON Cheers (org.). Mitologia: Mitologias de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter, 2011. Cap. 1 p. 208
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TEXTOS
1/21/2020 7:49:54 PM | Por Junito de Souza Brandão
Livre
Vida após a morte na Grécia Antiga

O reino ctônio de Plutão chamava-se mais comumente Hades, mas havia outros nomes pelos quais podia ser designado, na Grécia e em Roma, muitas vezes tomando-se a parte pelo todo, como Érebo, Tártaro, Orco, Inferno, estes dois últimos provenientes do latim. Discutida a etimologia de Hades, tentaremos estabelecer as das outras denominações, quando existirem

ÉREBO, do grego Έρεβος (Érebos), designa as trevas que cercam o mundo. Trata-se de uma concepção indo-européia * reqwos, "cobrir de trevas", que aparece no sânscrito como rájas, "espaço escuro", no gótico riqiz, "escuridão", e no armênio erek, "tarde".

TÁRTARO, é o grego Τάρταρος (Tártaros), "abismo subterrâneo, local de suplícios", é possivelmente um empréstimo oriental.

ORCO é o latim Orcus, "morada subterrânea dos mortos, os infernos". A Etimologia do vocábulo é desconhecida. A proveniência do indo-europeu * areq ou areg é atualmente considerada como fantasiosa, quando não absurda.

INFERNO ou OS INFERNOS é palavra latina infernus. Etimologicamente infernus é uma forma segunda de inferus "que se encontra embaixo", por oposição a superus, "que se encontra em cima", onde a oposição Di inferi, deuses do Inferno, do Hades, e Di Superi, deuses do Olimpo. Observa-se, ainda, em latim, os comparativos inferior, que está mais embaixo, "inferior", por oposição a superior, que está mais acima, "superior".

Substantivado o neutro plural inferna, -orum, significa as habitações dos deuses de baixo e também dos mortos, quer dizer, o Inferno, abstração feita, em princípio, de local de sofrimento ou de castigo, já que todos na Grécia e em Roma iam para o "Inferno", como parece ter sido no Antigo Testamento, o sentido de Sheol, onde é documentado sessenta e cinco vezes, como por exemplo em Jó 17,16: in profundissimum infernum descendent omnia mea: "todas as minhas coisas descerão ao mais profundo dos infernos".. E era, precisamente, com esta acepção que ainda se rezava, no Credo, não faz muito tempo, (que Jesus Cristo) desceu aos infernos, expressão que, para evitar equívoco, foi substituída por desceu à mansão dos mortos. É a partir do Novo Testamento, todavia, que o Inferno, é identificado com a Geena, local de sofrimento eterno e a parte mais profunda do Sheol, como está em Lc 16,22-23.

Factum est autem ut morertur mendicus et portartur ab angelis in sinum abrahae. Mortuus est autem et diues et sepultus est in inferno: "Ora sucedeu morrer o mendigo e foi levado pelos anjos para o seio de abraão, e morreu também o rico, e foi sepultado no inferno". A Seqüência da Parábola diz que Lázaro, o mendigo, estava lá em cima e o rico lá em baixo, havendo entre ambos um abismo intransponível.

Na Grécia, ao que tudo indica, somente a partir do Orfismo, lá pelo século VII-VI a.e.c., é que o Hades, o Além, foi dividido em três compartimentos: Tártaro, Érebo e Campos Elísios. O fato facilmente se explica, é que o Orfismo rompeu com a secular tradição da chamada maldição familiar, segundo o qual não havia culpa individual, mas cada membro do guénos era co-responsável e herdeiro das faltas de cada um de seus membros, e tudo se quitava por aqui mesmo. Para os Órficos a culpa é sempre de responsabilidade individual e por ela se paga aqui; e quem não se purgar nesta vida, pagará na outra ou nas outras. Havendo uma retribuição, forçosamente terá que existir, no além, um prêmio para os bons e um castigo para os maus e, em conseqüência, local de prêmio e de punição.

Quanto à localização, o Hades era um abismo encravado nas entranhas da Terra, e cuja entrada se situava no Cabo Tênero (sul do peloponeso) ou numa caverna existente perto de Cumas, na Magna Grécia (sul da Itália).

Também na literatura babilônia, na epopéia de Gilgamesh, nos mitos de Nergal e Ereskigal, na descida de Istar para os Infernos, estes são um lugar debaixo da Terra, além do oceano cósmico. Há dois caminhos para se chegar lá: descendo na terra ou viajando para o extremo ocidente; mas antes de atingir o Além, é necessário transpor o rio dos mortos, "as águas da morte". Também as concepções ugarítica e bíblica localizam o Inferno nas profundezas da Terra. Abrindo-se está, Coré, o levita, que se opõe a Moisés, bem como Datã e Abirão, com os seus, desceram vivos para os Infernos. Jó, que o considera como o lugar mais baixo da criação, imagina os acessos à outra vida no fundo do oceano primordial, em que a terra bóia.

O universo por conseguinte, é dividido em três partes: "acima da terra, na terra e debaixo da terra" ou céu, terra e inferno.

Para que se possa compreender o destino da alma no Hades, vamos acompanhá-la em sua longa viagem, do túmulo ao reino de Plutão. A obrigação mais grave de um grego é o que concerne ao sepultamento de seus mortos: filhos, ou , na carência destes, os parentes mais próximos devem sepultar seus pais segundo os ritos, sob pena de lhes deixar a alma volitando no ar por cem anos (o cômputo é puramente fictício), sem direito a julgamento, e, por conseguinte, à paz do Além.

O Sepultamento, todavia, depende de certos ritos preliminares: o cadáver, após ser ritualmente lavado, é perfumado com essências e vestido normalmente de branco, para simbolizar-lhe a pureza. Em seguida, é envolvido com faixas e colocado numa mortalha, mas com o rosto descoberto, para que a alma possa ver o caminho que leva à outra vida. Certos objetos de valor são enterrados com o morto: colares, braceletes, anéis, punhais... Os arqueólogos, escavando túmulos, encontraram grande quantidade desses objetos. em certas épocas se colocava na boca do morto uma moeda, óbolo destinado a pagar ao barqueiro Caronte, para atravessar a alma pelos quatro rios infernais. Essa idéia de pagamento da passagem, diga-se logo, não é um simples mecanismo da imaginação popular. Toda moeda ´eum símbolo: representa o valor pelo qual o objeto é trocado. Mas, além de seu valor próprio de dinheiro, de símbolo de troca, as moedas, consoante Cirlot, "desde a antiguidade tiveram certo sentido talismânico", uma vez que nelas a conjunção do quadrado e do círculo não é incomum. além do mais, a moeda, em grego nómisma, é o símbolo da imagem da alma, porque esta traz impressa a marca de Deus, com oa moeda o traz do soberano, segundo opina Angelus Silesius. A moeda chinesa, denominada "sapeca", é um círculo com um furo quadrado no centro: vê-se aí claramente a coniunctio oppositorum: a conjunção do Céu (redondo) e da Terra (quadrada), o aniums e a anima, formando uma totalidade. Por vezes se colocava junto ao morto um bolo de mel, que lhe permitia agradar o cão Cérbero, guardião da porta única de entrada e saída do Hades. O Cadáver é exposto sobre um leito, durante um ou dois dias, no vestíbulo da casa, com os pés voltados para a porta, ao contrário de como entrou na vida a cabeça do morto, coroada de flores, repousa sobre uma pequena almofada. Todo e qualquer homem podia velor o morto, acompanhar-lhe o féretro e assitir-lhe ao sepultamento ou à cremação, mas a lei era extremamente rígida com a mulher: na ilha de Ceos só podiam entrar na casa, onde houvesse um morto, aquelas que estivessem "manchadas" (a morte sempre contamina) pela proximidade de parentesco com o mesmo, a saber, a mãe, a esposa, as irmãs, as filhas e mais cinco mulheres casadas e duas jovens solteiras, cujo grau de parentesco fosse no mínimo de primas em segundo grau.

Em Atenas, igualmente, a legislação de Sólon era severa a esse respeito: só podiam entrar na casa do morto e acompanhar-lhe o enterro aquelas que fossem parentes até o grau de primas. Os presentes vestiam-se de luto, cuja cor podia ser preta, cinza e, por vezes, branca, e cortavam o cabelo em sinal de dor. Carpideiras acompanhavam o féretro para cantar o treno. Diante da porta da casa se colocava um vaso (ardánion) cheio de água lustral, que se pedia ao vizinho, porque a da casa estava contaminada pela morte. todos que se retiravam, se aspergiam com essa água, com o fito de se purificar. O enterro se realizava na manhã seguinte à exposição do corpo. A lei se Sólon prescrevia que todo enterro se deveria realizar pela manhã, antes do nascimento do sol. Desse modo, os enterros em Atenas se faziam pela madrugada e por motivo religioso: até os raios de sol se manchavam com a morte! No cemitério, sempre fora dos muros da cidade, o corpo era inumado ou cremado sobre uma fogueira: neste último caso, as cinzas e os ossos eram cuidadosamente recolhidos e colocados numa urna. que era sepultada. Após se fazerem libações ao morto, voltava-se para casa e se iniciava o minuscioso trabalho de purificação da mesma, porque, para os gregos, o maior dos "miasmas" era o contato com a morte. Após um banho de cunho rigorosamente catártico, normalmente com água do mar, os parentes do morto participavam de um banquete fúnebre; este se renovava, em Atenas, ao menos, no terceiro, nono e trigésimo dia e na data natalícia do falecido.

Sepultado ou cremado o corpo, a psiqué era conduzida por Hermes, deus psicopompo, até a barca de Caronte. recebido o óbolo, o robusto demônio da morte permitia a entrada da alma em sua barca, que a transportava para além dos quatro temíveis rios infernais, Aqueronte, Cocito, Estige e Piriflegetonte,. Já do outro lado, após passar pelo cão Cérbero, o que não oferecia grandes dificuldades, pois o que o monstro de três cabeças realmente vigiava era a saída, a psiqué enfrentava o julgamento. O tribunal era formado por três juízes integérrimos: Éaco, Radamento e Minos. Esse tribunal, no entanto, é bem recente. Homero só conhece como juiz dos mortos Radamanto. Éaco aparece pela primeira vez em Platão.

Radamanto julgava os asiáticos e africanos; Éaco, os europeus. Em caso de dúvida, Minos intervinha e seu veredicto era inapelável.

Infelizmente quase nada se sabe acerca do conteúdo desse julgamento e a maneira como era conduzido, embora na Eneida, 6,566-569. Vergílio nos fale, de passagem, que Radamento supliciava as almas, obrigando-as a confessar seus crimes ocultos.

Julgada, a alma passava a ocupar um dos três compartimentos: Campos Elísios, Érebo ou Tártaro. Neste último eram lançados os grandes criminosos, mortais e imortais. Era o único local permanente do Hades: lá, supliciados pelas Erínias, ficavam para sempre os condenados, os irrecuperáveis. O mesmo Vergílio, ainda no canto 6, nos dá uma visão dantesca dos suplícios a que eram submetidos os réprobos e a natureza dos crimes por eles perpetrados. O grande poeta todavia, no que se refere às faltas graves cometidas, mistura habilmente "aos que espancaram os pais, aos avarentos, aos adúlteros, aos incestuosos, aos que desprezam os deuses", os condenados por crimes políticos... Estão no Tártaro os que "fizeram guerras civis, os desleais, os traidores, os que venderam a pátria por ouro e impuseram-lhe um senhor despótico..." É bom não perder de vista que, a par de ser um poema tardio, a Eneida é também uma obra assumidamente engajada e comprometida com a ideologia política do imperador Augusto, cuja pessoa, cuja família, que era de origem divina, cujo governo e cujas reformas o poeta canta, exalta e defende. No Tártaro vergiliano, os assassinos principais de César, Cássio e Bruto, e seus grandes inimigos políticos, como Marco Antônio e a egípcia Cleópatra, entre muitos outros, sem omitir os heróis gregos, inimigos do troiano Pai Enéias, fundador da raça latina, certamente formariam um inferninho à parte, com suplícios adequados... Talvez mais violentos do que os do inferno político da Divina Comédia de Dante.

O Érebo e os Campos Elísios são impermanentes: tra-se mais de compartimentos de prova do que de purgação. As provações aí realizadas servem de parâmetro de regressão ou de evolução e aperfeiçoamento, cuja natureza nos escapa. Quer dizer, a descida definitiva ao Tártaro ou a próxima (ensomátosis), "reencanação", ou ainda a próxima (metempsýkhosis), "metempsicose", que são coisas muito diferntes, dependeriam intrinsecamente do "comportamento" da psiqué durante sua permanência no Érebo ou nos Campos Elísios. No Érebo estão aqueles que cometeram certas "faltas". Seria conveniente deixar claro que alguns habitantes temporários do Érebo, que Vergílio denomina lugentes campi, Campos de Lágrimas, não têm suas faltas especificadas e outros lá estão sem que possamos compreender o motivo. Recorrendo mais uma vez à Eneida 6, vamos ver que nos Campos das Lágrimas estão criancinhas que morreram prematuramente as vítimas de falso julgamento; as suicidas (o poema só fala em mulheres) por amor, como Fedra, Prócris, Evadne, Dido...

Alguns heróis, troianos (mirabile dictu !) também lá estão e heróis gregos igualmente.

O Poeta Latino, no entanto, deixa bem claro que essas almas não estão no Érebo por acaso, "sem o aresto de juízes, uma vez que Minos indagou de sua vida e de seus crimes". Onde se conclui que cometeram "faltas".

Do Érebo que é temporário, elas ou mergulharão no Tártaro, porque se pode regredir, ou subirão para outra impermanência, os Campos Elísios, único local de onde poderiam partir os candidatos à reencarnação ou à metempsicose.

Em se tratando do último nível ctônio, em que estão os poucos que lá conseguiram chegar, os Campos Elísios, em grego (Elýsia pedía) são descritos, ao menos na Eneida, 6, como uma paraíso terrestre em plena idade de ouro. Lá residem os melhores em opulentos banquetes nos gramados, cantando em coro alegres canções, nos perfumados bosques de loureiro. Lá estão os que já passaram por uma série de provas e purgações. Mas, decorridos mil anos, após se libertarem totalmente das "impurezas materiais", as almas serão levadas por um deus às águas do rio Lete e, esquecidas do passado, voltarão para reencarnar-se.

Eis aí uma visão da escatologia grega popular em suas linhas gerais, mas poder-se-ia perguntar: a quantas reencarnações se tinha direito? E depois de totalmente purificada das misérias do cárcere do corpo, qual o destino final da psiqué? À primeira pergunta talvez se pudesse responder evasivamente que o número de reencarnações se mediria pela paciência dos deuses (que certamente não era muito grande); e à segunda, dizendo-se que, via de regra, o céu grego era platonicamente a Via Láctea. Ao menos, que se saiba, a cabeleira de Berenice, e os imperadores romanos, que morriam benquisisto do povo, eram transformados em astros...

Mitologia - Mitologia Grega
1/11/2020 2:00:48 PM | Por John Haywood
Livre
Origem dos Celtas

Identidade Celta - O Danúbio tem a sua origem no território dos Celtas, perto da cidade de Pyrêne, e corre pelo meio do Europa, dividindo-a em duas partes. Os Celtas vivem além das Colunas de Héracles e fazem fronteira com os Cinésios, que vivem no extremo oeste da Europa. (Heródoto, Histórias (c. 444 a.e.c.)

Os Celtas provaram ser um incrível grupo de povos resistente. Na Antiguidade, foram contemporâneos dos Romanos, Iberos, Ilírios, Trácios, Dácios, Etruscos, Ligures, Citas, Gregos e Germanos, entre outros. Apenas os Celtas, Gregos e Germanos ainda existem. Defini-los durante a sua longa existência não é tarefa fácil. Tem havido uma tão grande mudança cultural, tecnológica e social, que os Celtas modernos seriam completamente irreconhecíveis aos olhos dos seus antepassados. Pouco subsiste da cultura dos Celtas antigos e houve ainda um período - mais de mil anos - em que o nome "celta" caiu em completo desuso, antes de ser reavivado no século XVIII. A definição mais consistente e mais largamente aceite baseia-se na língua, que é o único traço seguro de continuidade, ligando os Celtas antigos aos seus descendentes modernos: os Celtas são povos que falam línguas celtas. Nos tempos antigos estes povos incluíam Gauleses, Belgas, Celtiberos, Lusitanos e Gálatas, e Bretões e Irlandeses antigos.

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A Identidade Celta

A palavra «celta» (grego Keltoi, latim Celtae) foi primeiro usada pelos autores gregos, há cerca de 2500 anos, para descrever as tribos bárbaras que viviam no interior da colônia grega de Massília (Marselha). Os Gregos cedo expandiram o uso dessa palavra para descrever todos os povos bárbaros da Europa a norte dos Alpes, incluindo os Francos, que hoje não são considerados Celtas. Os Gregos também usaram outro nome, "Galatas" (Galatoi), intercalando com "Celta", especificamente para descrever os povos da Europa Central que falavam celta e que invadiram a Grécia e a Anatólia no século III a.e.c. Os Romanos usaram uma palavra similar, "Gaul" (Galli) para descrever os povos continentais de língua celta. As origens destas três palavras são desconhecidas, mas todos são, provavelmente, celtas, já que surgem como elementos em nomes tribais (Gallaeci, Celtici, Celtiberi), nomes pessoais (Celtius) e ainda nomes de locais (Celti). Júlio Cesar diz-nos que "Celta" era também usado como um nome coletivo em algumas das tribos gaulesas. Estes eram os Celtas originais encontrados pelos Gregos de Massília. Contudo, nem todos os povos, que atualmente reconhecemos como Celtas, alguma vez se descreveram como tal. Apesar de os antigos Bretões serem vistos agora como Celtas, nunca foram descritos como Celtas ou Gauleses, vendo-se como povos bem diferentes, tal como os Romanos os viam, reconhecendo no entanto, grandes parecenças com a sua língua e os seus costumes. Em relação aos Irlandeses antigos, nem sequer tinham uma identidade própria comum até no inicio da Idade Media, quando adotaram o nome Gaidel (Gaedheal em gaélico moderno), proveniente de Guoidel «selvagens", o nome bretão para os povos da Irlanda. O costume de descrever todos os grupos que falam a língua celta como "Celtas" é bastante recente, datando apenas do século XVIII. Como não era usual, historicamente, os grupos que falavam celta serem referidos como um todo, alguns historiadores modernos e arqueólogos sustentam que a idéia de os Celtas serem um povo é, simplesmente, uma interpretação moderna. Historiadores e arqueólogos têm vindo a impor uma unidade artificial aquilo que realmente era um grupo diversificado de povos, sem qualquer sentido de identidade comum. Se se levar em conta que a posição politicamente correta, a de que o único nome, cujo uso poderá ser justificado para descrever um povo, é o nome que esse próprio povo usa, então poderemos concordar com o arqueólogo Simon James, de que não existe justificação para descrever os antigos Bretões e Irlandeses como Celtas e que o termo não tem significado, mesmo quando aplicado à Idade do Ferro na Europa continental. Esta é uma posição que compreensivelmente não agrada aos Celtas modernos, a maioria originários da Grã-Bretanha e da Irlanda, uma vez que a vêem como uma tentativa de negar as suas antigas raízes e de apagar da historia aqueles que consideram ser os seus antepassados. O ponto de vista aqui descrito é o de que os céticos se mostram demasiado presumidos. Objetivamente, existiu um grande grupo de povos na Europa da Idade do Ferro, que falava línguas muito aparentadas e que partilhava as mesmas crenças religiosas, estilos de arte, vestuário e armas, estruturas sociais e valores. Faz sentido usar um nome comum para descrever estes povos, bem como os povos modernos que deles descendem, tendo em conta esta acumulação de características partilhadas.

Quando os Celtas inicialmente emergiram da obscuridade pré-histórica, no século V a.e.c., eram já um grupo de povos muito disperso. A língua celta falava-se na maior parte da Europa Ocidental, desde a Áustria e Boemia, passando pelo Sul da Alemanha e França, até a Grã-Bretanha, Irlanda e a Península Iberica. Não é claro o modo como os Celtas conseguiram chegar a esses locais e de onde vieram. Escritores gregos antigos, como o geógrafo Hecateu e o historiador Heródoto, que escreveu sobre os mais antigos registros das tetras celtas, nada dizem sobre isso e, como nunca desenvolveram uma literatura cultural em profundidade, os Celtas nunca puderam registrar os seus mitos e lendas originais que estão agora irreparavelmente perdidos. Nos séculos seguintes, os Gregos negociaram com os Celtas, lutaram com eles e utilizaram-nos como mercenários e escravos, mas se alguma vez pretenderam saber as suas origens, certamente acharam que as respostas não mereciam ser escritas. Afinal, o que era a cultura de um Celta? Não conseguiam sequer falar corretamente - em grego, claro - emitindo apenas ruídos incompreensíveis ("bar-bar"), dos quais se herdou o hábito de descrever aqueles que consideramos incivilizados como "bárbaros". Os Gregos preferiram explicar a gênese dos Celtas inventando mitos etimológicos pitorescos. Segundo um destes mitos, registrado pelo historiador Apio de Alexandria, Polifemo, o infame Ciclope da Sicília e a sua mulher Galateia tiveram três filhos, Celto, Gálates e Ilírio, tendo emigrado todos da Sicilia e reinado sobre outros povos que vieram a chamar-se Celtas, Gálatas e Ilírios (os antepassados dos Albaneses). Outra historia, recordada por Partenio (século I a.e.c.), é a de Céltina, a bela filha do rei Bretano, que se apaixonou por Héracles, quando este levava os bois de Gerião da Erítia. Celtina escondeu os animais e recusava-se a dizer a Héracles onde estavam, a não ser que este fizesse sexo com ela. Não foi necessário usar de muita persuasão e dessa união nasceu um filho. Foi-lhe dado o nome Celto e dele descendem os Celtas. Os Romanos não eram muito melhores que os Gregos. De acordo com Cesar, os Gauleses afirmavam ser descendentes de um deus de um submundo a quem ele atribui um nome romano Dis Parer (Pluto). Qual era o seu nome celta, Cesar não diz, porque essa idéia não lhe ocorreu. Os Romanos acreditavam que os seus deuses eram universais, porém, se outros povos os conhecessem com nomes diferentes, isso era-lhes indiferente. O historiador Tácito confirma esta indiferença quando escreve que era de esperar que ninguém se preocupasse em saber as origens dos povos bárbaros.

O registro arqueológico mostra que, quando os Gregos se aperceberam da sua existência, os Celtas já possuíam uma cultura aristocrática sofisticada, caracterizada por trabalhos bastante desenvolvidos em ferro e bronze e por um estilo distinto de arte decorativa. Esta cultura inicial reconhecida como celta, era a cultura de Hallstatt, cujo nome resulta de uma necrópole da Idade do Ferro, situada nos Alpes Austríacos, e escavada no século XIX. As mais de 2000 sepulturas continham oferendas ricas para os mortos, revelando a existência de uma sociedade guerreira aristocrática com largas ligações comerciais, que chegavam ao Báltico e Norte de África. Foi através destas ligações, que a existência dos Celtas foi descoberta pelos Gregos. A cultura de Hallstatt da Idade do Ferro não surgiu completamente formada: foi o produto de uma longa tradição cultural, que pode ser seguida através de várias fases desde cerca de 1200 a.e.c., quando se começou a desenvolver como uma variante da cultura de urnas funerárias de meados da Idade do Bronze, bastante espalhada pela Europa Central. Antes disso, os Celtas tornaram-se arqueologicamente invisíveis. No entanto, os Celtas, ou os grupos que falavam celta, já deviam existir há mais de 1000 anos.

História - Civilização Celta
1/6/2020 2:51:14 PM | Por Deanna Paniataaq Kingston
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A Mitologia Norte-Americana

Antes dos barcos europeus chegarem às cosas da América do Norte, a vida entre as comunidades tribais nunca fora marcada por uma existência fragmentada. As comunidades tribais tinham uma perspectiva do mundo em que todos os aspectos da vida estavam ligados (língua, ensinamentos, cerimônias, recolha de alimentos). Isto, porém, não pretende sugerir que os povos indígenas viviam no paraíso. A harmonia incluía a aceitação da ruptura social, mesmo as tragédias imprevistas. E os mitos tinham um papel importante na explicação dos caminhos do mundo e o lugar neles ocupado pelo indivíduo. No nosso mundo moderno, notamos uma realidade conspícua de desapego do que nos rodeia de natural e espiritual. E é com esta compreensão contextual das comunidades tribais histórias que abordamos o papel do mito entre os nativos da América do Norte - tanto ontem como hoje.

O mito esteve no Âmago da manutenção deste equilíbrio harmonioso da vida tribal.

As histórias proporcionavam aos povos indígenas um entendimento de muitas coisas diferentes: As origens; as suas relações com a terra, a água e os animais; e as suas ligações com o mundo espiritual. Os mitos também serviam de guia para se encontrar um lugar individual dentro da comunidade da aldeia. Tudo isto serviu par moldar uma percepção expansiva do mundo que informava as comunidades tribais dos valores coletivos, e para obter uma associação complexa de conhecimentos que serviu para conduzir as tribos durante gerações.

Os contadores de histórias (frequentemente idosos) detinham um lugar especial dentro da comunidade, pois eram os mestres, os portadores destas histórias antigas. Era seu dever partilhar este saber com os aldeãos, especialmente com os mais novos, "doutrinando-os" segundo o objetivo ultimo de perpetuar a forma de viver da tribo. Frequentemente imbuídos de cerimônias sagradas e celebrações, os mitos tribais eram os alicerces da existência, objetivos e identidade da tribo.

A época das narrativas nas comunidades tribais era tida a elevada consideração pelos seus membros. Neste mundos tribais, o contexto era crucial para a transmissão das histórias. A forma como estes mitos tribais eram apresentados tinha tanta importância como a mensagem. "De fato, pode observar-se que a verdadeira força dos mitos tribais estava na forma correta de apresentação. Os mitos eram transmitidos oralmente aos membros da tribo. Pais e filhos ouviam com grande respeito enquanto os narradores contavam histórias longas acerca de como o Criador tinha feto o mundo, ou como se vencia o mal com a ajuda de espíritos bondosos. Quando os aldeões partiam, iam intimidados e profundamente impressionados.

A influência dos europeus

Uma das mais severas rupturas a que as comunidade se viram forçadas com a presença dos europeus fio o fim da vida tribal tradicional como era conhecida. O desmantelamento dos sistemas de aldeias tribais teve como consequência uma cisão massiva na ordem social. As tradições foram-se perdendo ao passo rápido do avanço da colonização. À medida que os nativos americanos eram deslocados e dispersos (um grande número de tribos foram dizimadas por inteiro), também o eram as suas antigas formas de viver. O fim da vida da comunidade tribal tradicional era evidente não apenas na perda de terra, mas também pelo fim da cultura, da língua, do saber tradicional e das cerimônias vitais. Praticamente, todas as tribos do continente enfrentaram severas medidas de perda.

Para as tribos que sobreviveram, foi e continua a ser um mundo diferente. Embora haja comunidades nativas a viver em território protegido, a infiltração da vida europeia (a instituição de uma família nuclear; moderna tecnologia; pontos de vista políticos, sociais e religiosos) evitou que quase todas as comunidades nativas regressassem totalmente ao mundo tribal do passado. As atuais formas tribais de governo não funcionam mais como os governos tribais antigos. Como "proteção do estado", as comunidades nativas foram forçadas a aceitar a forma do Governo Federal que está em total contradição com os sistemas tribais tradicionais. E muitos argumentarão que essas formas impostas de governo tinham, e anda hoje têm, como objetivo subverter ou talvez bloquear qualquer tentativa do povo tribal e tomar conta de si próprio pelos modos originais que guiavam os seus antepassados.

Mas neste mundo pós-colonial, as tribos procuram reclamar, tanto quanto possível, esses velhos caminhos, apesar das mudanças ocorridas na paisagem. As tribos estão a tentar recuperar o que lhes foi tirado e, enquanto muitos mitos se dispersaram ou se perderam ao longo dos anos, muitas estórias permanecem vivas, salvas pela memória e registradas em bibliotecas orais guardadas bem fundo nos corações, mentes e almas dos mais velhos. São estórias surpreendentes que continuam a ser passadas de uma geração à outra.

Importância do contexto

Apesar do povo nativo por toda a América do Norte ter conservado muitos dos seus maiores e mais poderosos mitos, é evidente que a destruição do modo de viver retirou a estes mitos tribais toda a sua autoridade sobre os descendentes dos que foram inicialmente afetados pela colonização europeia. Se nós reconhecemos que o poder dos mitos tribais dependia da adequada apresentação da narrativa, temos de nos interrogar sobre qual o seu papel nos tempos modernos para os nativos da América do Norte, dada a perda das comunidades tribais tradicionais.

Esta importante questão da perda contextual coloca-nos a interrogação: Os mitos tribais perderam para sempre a sua grande influência, transmitindo objetivo, lugar e direção do mundo, já que não existem amais as aldeias tribais tradicionais? Se a resposta é sim, então o recontar dos mitos tribais, na melhor das hipóteses, é um lampejo breve sobre a forma como os indígenas viviam em equilíbrio com o seu mundo? Ou, na pior delas, o recontar dos mitos é meramente um ato de diversão teatral para gáudio da audiência, espevitando a imaginação de crianças e adultos?

E talvez uma questão igualmente importante a colocar seja esta: Qual o papel que os mitos indígenas norte-americanos têm nas vidas e nas crenças do resto da população do mundo? É claro, esta e todas as questões acerca do saber tribal tradicional ficam melhor nas mãos dos que estudam história, raça, antropologia e outras disciplinas semelhantes, mas pode-se certamente perguntar como seria diferente o mundo, se tivesse como base o saber dos indígenas norte-americanos.

Mas devemos considerar o que é que ganhamos em aprender alguns dos muito ricos mitos tribais dos nativos norte-americanos. Não há muitos anos, uma escritora nativa foi contratada por uma companhia de teatro para escrever uma peça especial para crianças baseada em um mito à sua escolha. Uma vez a peça escrita, foi assistir aos ensaios e desfez-se em lágrimas ao consciencializar como a companhia de teatro tinha adaptado o seu guião, como tinha transformado aquele mito em nada mais que um conto de fadas para distrair as crianças. Este mito tribal, que tinha sido em tempos profundamente venerado como saber vital, era agora, de fato, nada mais que um entretenimento para a audiência.

Um editor e/ou escritor tem de ter o sentido das transformações caso lhe seja encomendado que conte os mitos dos indígenas norte-americanos na forma publicada. Os editores devem estar completamente cientes do fato de estas estórias perderem muita da sua força quando retiradas da sua apresentação tradicional original. Apesar destas preocupações é claro qu e, se o leitor estiver atento a estes mitos tribais, fará uma descoberta maravilhosa. O leitor verificará que os mitos tribais continuam a mostrar uma riqueza de conhecimento e de sabedoria antiga - segredos que nem mesmo as páginas impressas lhes podem roubar. Se forem lidos com cuidado e refletidamente, os mitos tribais continuam a revelar verdades antigas, mesmo que deslocadas do contexto adequado.

Uma imensidão de mitos diferentes

Existem mais de 500 tribos de nativos americanos dentro das fronteiras dos EUA, continentais e mais de 250 tribos inuítes do Ártico norte-americano, que inclui o Alasca, o Canadá e a Groelândia. (Note-se que a definição de "tribo" é diferente nos nativos americanos e nas culturas inuítes - tribos de nativos americanos pode ser uma amálgama de vários grupos ou "bandos", enquanto que as tribos inuítes normalmente só compreendem uma única aldeia).

Nesta antologia encontram-se mitos de quase todas as regiões da América do Norte. Da Groelândia, Canadá e Alasca ate ao noroeste, descendo a costa do Pacífico e para sudoeste, através das montanhas, atravessando as Grande Planícies, em torno dos Grandes Lagos, percorrendo a região nordeste e leste, depois para sul o leitar irá encontrar mitos que têm tanto de semelhantes como de diferentes.

O que estas tribos partilham é uma perspectiva do mundo baseada n seu relacionamento com a terra. As histórias das "religiões" que tem por base a terra ensinam-nos como vivem em equilíbrio com o nosso mundo. Os mitos tribais emergem do nosso conhecimento da terra.

Muitos dos grandes temas encontrados nos mitos dos nativos norte-americanos contam estórias acerca da criação, jornadas dos heróis, armadilhas, espíritos, animais, amor humanos, Terra-Mãe, o céu e as passagens da vida. Considerando que o mito é uma linguagem espiritual, se for corretamente descodificado, poderá abrir um universo a todos os que tenham ouvido para escutar. Poder-se-á ficar surpreendido ao saber que os mitos tribais norte-americanos abordam temas semelhantes aos da outras culturas, tais como: o bom e o mau do mundo espiritual e como se formou a Terra. Como exemplo pode referir-se que muitas estórias sobre a criação falam de um grande dilúvio que cobriu a Terra, semelhante à epopeia de Gilgamesh. Pode também encontrar-se uma versão indígena de alguns do mitos gregos, como a caixa de Pandora. A universalidade destes mitos é fascinante, mas ao ler-se com mais cuidado estas estórias verificar-se-á que se trata de um mundo inteiramente diferente e e uma perspectiva claramente tribal.

Estes mitos chegam e uma grande série de fontes e são contados com notórias diferenças em relação às estórias que o leitor poderá ter ouvido ou lido anteriormente, o que se deve à sua natureza fluída, que permite ao narrador alterá-las segundo o seu saber e experiência. Deverá ser dito que mesmo antes da chegada dos europeus, os mitos tribais não eram estanques, pois as estórias evoluíam, quase sempre, cada vez que eram contadas e os narradores, frequentemente, introduziam novas personagens e linhas de enredo, o que as ia alterando ao longo dos anos. E, através das atuais comunidades nativas norte-americanas, estes mitos continuam a evoluir. Mas as suas verdades centrais permanecem e o saber antigo permanece intacto, apesar das muitas alterações introduzidas durante as narrações.

Finalmente, deve compreender-se que os narradores tradicionais nunca contaram estes mitos da forma como os leitores modernos do Ocidente estão acostumados. As estruturas ocidentais do desenvolvimento da trama - introduzindo conflitos e atingindo resoluções - não eram o modo indígena de transmitir o conhecimento. Era mais vulgar um contador de estórias tribal optar por um estilo de narração circular, que mantinha os mitos com frescura. Este estilo permitia-lhes revelar o saber quando sentiam que isso era importante, ou que teria maior impacto.

Mitologia - Mitologia Norte-Americana
1/4/2020 2:56:37 PM | Por Elizabeth Dimock
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Mitos africanos de animais e de trapaças

Na mitologia africana, o mundo natural está muito ligado ao social. Tal como a paisagem, o céu, as montanhas
e as florestas fazem parte das estórias, também os animais, os pássaros e os répteis. Algumas criaturas têm maior relevo que outras. O camaleão e a serpente são muito importantes em grandes regiões da África. Outros animais, como o leopardo, a lebre, o coelho e a tartaruga surgem em zonas mais restritas, o que talvez
seja determinado pelo ambiente circundante. Existem estórias de lebres e tartarugas que contam como a astúcia pode, muitas vezes, ser usada contra animais maiores
e mais fortes. Frequentemente, estes contos dizem respeito às características dos seres humanos, mas são narrados como entretenimento e com objetivos morais.

Uma criança pequena perguntou ao pai por que razão é que uma cobra, que a mãe proibiu a família de a matar, a veio visitar.

O pai respondeu que a cobra é um guia da raça e explicou-lhe como é que a cobra se apresentava à família. Primeiramente, aparecia ao pai em vários sonhos. Depois, em uma noite, durante
um sonho, avisou o pai de que iria aparecer na realidade, indicando quando e onde o encontro teria lugar. Contudo, quando o pai viu a cobra ficou cheio de medo e teve de lutar consigo mesmo para não a matar. Ao ver a reação
do pai, a cobra virou-se
e desapareceu pelo mesmo caminho por onde tinha vindo. Na noite a seguir, voltou
a aparecer nos sonhos
do pai e perguntou-lhe porque é que não a tinha recebido amigavelmente, já que ela,  a cobra, era o espírito guia
da raça e se fosse bem recebida,
traria boa sorte. Da segunda vez
que o pai viu a cobra, recebeu-a
sem medo e saudou-a com amabilidade
A partir desse dia, a cobra só trouxe à família
boas coisas. As relações entre os seres humanos
e os animais podem ser expressas de outras formas, como sucede nas estórias de Madagascar. Certos clãs da ilha chamam ao seu folclore «Canções
dos crocodilos», referindo-se a um crocodilo
que vivia em um rio e cuja fêmea era uma mulher,
a qual foi apanhada em uma armadilha para peixes, depois foi retirada do rio e levada por um homem com quem ela viveu durante um certo tempo.
Após lhe ter dado dois filhos, voltou ao rio.

Uma estória acerca de Gina conta como
o crocodilo ganhou a crista rígida no lombo.
Gina, que era um homem, estava a dormir debaixo
de uma árvore quando foi apanhado por um fogo,
tendo sofrido queimaduras graves. Saltou em chamas para dentro do rio e transformou-se em um crocodilo.
Esta é uma estória comum sobre as origens dos animais e que explicam as características das espécies. Uma outra estória conta como o crocodilo andou pelas colinas até ficar cansado e se ter transformado em uma crista rochosa para descansar.

Mitos sobre trapaceiros

Há um tipo de estória que se encontra por todo
o continente que é mais secular que as que têm conotações sagradas com a criação e as origens. São contos com circunstâncias em que a personagem aparentemente
mais fraca ou inocente é posta em competição com outra mais forte. Na África Ocidental, estas estórias atingem grande importância e são frequentemente transferidas
do tradicional para situações da modernidade e com significado político. Se homens ou mulheres vulgares atingem o máximo em importância, o tema é divertido, mesmo que haja alguma situação mais complexa
de desilusão ou de sofrimento. Um gênero de estórias acerca de Ananse, a aranha trapaceira, diz respeito às personagens mais populares da mitologia dos Akan e dos Ashante, do Ghana, nas são contadas por toda a África Ocidental. Uma dessas estórias conta que Ananse prometeu curar a mãe de Nyame, o ser supremo, de uma doença. Mas ela morreu e Nyame, obrigando Ananse a cumprir ° juramento de que pagaria com a vida se não a curasse, sentenciou-o de morte. Ananse preparou então uma trapaça, utilizando o filho que estava escondido por baixo do sítio onde Ananse se encontrava preso.
O filho começou a gritar, como o pai o tinha  instruído, dizendo que Ashante não sobreviveria se Ananse fosse morto, e que prosperaria se ele fosse perdoado.
Desta forma, Ananse salvou-se para continuar a praticar atos de natureza dúbia. Muitas das estórias de Ananse são grosseiras, por vezes mesmo rudes, com contrariedades sexuais, e são frequentemente o espelho das fraquezas humanas.

Uma outra trapaça, associada ao povo Fon, do Benin, é Legba, que é um deus mas também um mediador entre os deuses e os humanos e entre os próprios seres humanos. Legba, um linguista, conhece as línguas
de todos os deuses do panteão, assim como a língua
de Mawu-Lisa, o ser supremo dos Fon. Como cada
deus só sabe a sua língua, como acontece com Mawu-Lisa, esta capacidade de Legba permite-lhe mover-se entre as divindades e, na verdade,
manipular as situações a seu favor. A alcunha
de Legba é Aflakete, que quer dizer «Preguei-te uma partida».

Mitologia - Mitologia Africana
As nove musas
Musas | Francesco Primaticcio [1504-1570]

As companheiras de Apolo eram as nove musas que inspiram todos os artistas e cientistas. Eram filhas de Zeus e de Mnemósine, a deusa da Memória, Calíope é a musa da Poesia Épica, Clio a musa da História, Érato a da Poesia Amorosa, Euterpre da Poesia Lírica, Melpómene a musa da Tragédia, Polímnia a musa das Canções Dedicadas aos Deuses,Talia da Comédia,Terpsícore inspira a Dança e Urânia a Astronomia. Elas encontram-se nas encostas do Monte Parnaso onde brota a fonte Castália, perto do oráculo de Delfos de Apolo, ou, em alternativa no Monte Hélicon.

MILLS, Alice. A era clássica. IN.: GORDON Cheers (org.). Mitologia: Mitologias de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter, 2011. Cap. 1 p. 44
1/1/2020 12:21:22 PM | Por Nanon Gardin
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Os textos sagrados do hinduísmo

A literatura sagrada da índia tem as suas raízes no terceiro milênio antes da nossa era, época em que provavelmente foram compostos os primeiros hinos dos Vedas em louvor dos elementos da natureza: ar, água, Sol, trovão, fogo, etc., personificados pelos primeiros deuses védicos: Vayu, Varuna, Indra, Surya e Agni. A parte mais antiga do Veda, o Rig Veda, remonta a 1800-1500 a.e.c.. e a redação prossegue depois até ao século XV na nossa era, com os últimos textos sagrados, os Purana. Não existe uma narrativa linear da Criação semelhante à de Hesíodo em relação aos deuses gregos, não há uma biografia unificada e coerente dos deuses nestes textos, que são compilações de hinos, reflexões filosóficas ou conselhos de vida.

Os textos revelados, o Veda ou shruti

O Veda (Saber) foi revelado aos rishi («videntes, sábios védicos), não na forma de um texto, mas de um conjunto de dados que tratam da própria essência do mundo. Os rishi, portanto, não são os autores, mas os veículos desses hinos sagrados.

Os hindus pensam que o texto dos Vedas - perfeito e eterno - foi originalmente concebido por um deus criador (Prajapati ou Brama) ou, segundo a doutrina de Shankara (século IX), que se autorrevelou, sem autor, pertencendo de certo modo à Criação. É por isso que o texto é verdadeiro, sagrado, e que uma pessoa só se pode aproximar dele em perfeito estado de pureza. Só os brâmanes podem ensinar o Veda, e a ele apenas têm acesso os homens das três castas superiores depois de terem sido iniciados. Nos Vedas, existem de palavras que o exprimem na totalidade. É o caso do Gayatri-Manta, que é recitado durante os ritos de iniciação e de manhã, ao nascer do sol.

Os Vedas compreendem quatro grandes conjuntos: o Rigveda (1028 hinos de louvor aos deuses, sendo o primeiro dedicado a Agni, deus do Fogo); Yajurveda, constituído por fórmulas rituais da liturgia hindu, incluindo notações musicais; o Samaveda, o Veda dos cantos e das melodias; e o Atarvaveda, compilação de fórmulas mágicas contra a doença, para conquistar o amor de alguém, etc.

Cada um dos conjuntos inclui uma compilação de base, o samhita, geralmente em versos, constituído por fórmulas denominadas mantras, quando estão ligadas a ritos; explicações em prosa: os Brâmanas (na sua origem, o termo brâmane significa o saber sagrado) - o Brâmana mais famoso é o Satapata Brâmana, ou «Brâmana das Cem Vias»; os Araniaka, ou «livros das florestas», mais especialmente destinados aos sadhu (eremitas); e os Upanixades, especulações filosóficas que se referem aos textos de base.

Os textos legados pela smirti (tradição)

A smirti é constituída por textos não revelados e que, por isso, têm um carácter menos sagrado do que os Vedas. Compreendem as grandes epopeias - o Ramaiana, que narra a vida de Rama, sétimo avatar (encarnação) de Vishnu, e o Maabárata, que apresenta o sétimo avatar de Vishnu, Krishna. Para alguns investigadores os dois poemas destinam-se a evocar acontecimentos históricos que teriam ocorrido em épocas muito remotas. O episódio mais conhecido do Maabárata, a Bhagavad Gita (a canção da Divindade), que relata uma conversa entre Krishna e o herói Arjuna antes da grande batalha entre os Pandava e os Kaurava, é visto como um guia de vida hinduísta.

As Leis de Manu são um conjunto de códigos e regras de conduta destinados ao indivíduo e à comunidade. Atribuído ao primeiro homem, Manu. Pensa-se que este texto se dirige aos rishi, que lhe pediram que os esclarecesse. É um dos textos mais controversos da literatura hindu, na medida em que funda a discriminação das mulheres e dos shudra, a casta inferior à qual é interdito ouvir o Veda: «Se o shudra ouvir intencionalmente e memorizar o Veda, as suas orelhas deveriam ser enchidas de linha e laca; se cantar o Veda, a sua língua deveria ser cortada; se dominar o Veda, o seu corpo deveria ser cortado aos bocados» (Leis de Manu, XII).

Como a leitura do Veda e das epopeias é interdita às castas inferiores, estas têm acesso a textos compostos especialmente para elas, os Purana, que misturam cosmogonia e lendas; os Purana são, de certa maneira, o Veda das mulheres e das castas inferiores. A sua composição é tradicionalmente atribu­ ída ao sábio Viasa, que terá sido também o autor do Maabárata. Na verdade, a redação desses textos estende-se por vários séculos e de modo algum pode ser atribuída a um só homem

Mitologia - Mitologia Indiana
11/25/2019 1:03:37 PM | Por Philip Wilkinson & Neil Philip
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O Mahabharata

O Mahabharata é o segundo dos dois grandes poemas épicos indianos. Foi compilado por vários escritores anônimos, apesar de ser atribuído tanto ao sábio Vyasa quanto ao deus Ganesh. Compreende dezenas de estórias, mas seu enredo principal gira em torno da rivalidade entre duas famílias de governantes. O épico é precioso principalmente por incluir um poema chamado Bagavad Gita ('Canção do Senhor'), que contém os ensinamentos de Krishna. Quando Paudu, rei de Bharata, morreu, deixou o reino para o mais velho dos cinco filhos, Yudhisthira.

Contudo, este rapaz e seus irmãos (que juntos são conhecidos como os Pandava) tinham como rivais pelo poder seus cem primos, os Kaurava, filhos de um rei cego chamado Dhritashtra. Os Kaurava eram também encarnações de demônios inimigos dos deuses.

Inicialmente eles tentaram conquistar o trono por estratagemas; enganaram Yudhisthira em um jogo de dados, expulsando-o de seu reino e banindo também os Pandava. Estes acabaram retornando, mas os Kaurava não abriram mão do reino.

Os dois lados se prepararam para lutar pelo reino. Nesse ponto, Krishna, o oitavo avatar do deus Vishnu, interferiu. Ele era ligado às duas famílias e se encontrou com os líderes militares dos dois lados: o irmão de Yudhisthira, Arjuna, e Duryodhana, líder dos Kaurava. Ele lhes deu duas opções: poderiam ter o apoio de seu enorme exército, ou sua ajuda pessoal. Duryodhana escolheu o exército, enquanto Arjuna pediu o apoio de Krishna em pessoa, que decidiu ser o condutor da carruagem de Arjuna. Este, um príncipe gentil, não queria guerrear. Para animá-lo, Krishna recitou o Bhagavad Gita. O poema explicava que tudo é resultado de um destino imutável. O soldado deve lutar e sua vítima, morrer: este era o seu destino. As palavras de Krishna mudaram a disposição de Arjuna para o combate.

Os Pandava lutaram uma longa e sangrenta batalha contra os kaurava. O combate durou 18 dias e muitas pessoas foram mortas dos dois lados. Os Pandava venceram, pois contavam com o próprio Krishna a seu lado, mas mesmo assim perderam vários membros da família. Os kaurava sobreviventes (incluindo Dhritarashtra) exilaram-se.

Sentindo remorso por toda a matança, Yudhisthira decidiu fazer uma peregrinarão ao palácio dos deuses no monte Meru. Os irmãos e sua “esposa comum’', Draupadi, foram com ele.

Com a benção de Krishna, fizeram de Parikshit, neto de Arjuna, o governante de Bharala, e partiram. A viagem  quase os venceu. Apenas Yudhisthira chegou ao portal do céu sem ferimentos, e ele se recusou a ultrapassá-lo até ter certeza de que os irmãos e Draupadi poderiam também entrar.

Mitologia - Mitologia Indiana
11/15/2019 1:13:23 PM | Por Alice Mills
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O legado da mitologia grega

No ano 312 e.c., o imperador romano Constantino converteu-se ao Cristianismo, que passou a ser a religião do estado pouco tempo depois. O imperador Juliano tentou fazer reviver a adoração aos deuses greco-romanos como religião estatal, em 360 e.c., no que não foi bem-sucedido. Os oráculos caíram em desuso, os templos foram abandonados e os festivais foram esquecidos. O que nunca foi totalmente esquecido, porém, nem mesmo na alta Idade Média da história ocidental, foram os mitos gregos e romanos. Aquando da queda de Bizâncio no século XV, muitos dos seus sábios fugiram para Itália. O afluxo da literatura e do saber clássicos inspirou a arte, a literatura e a ciência da Renascença.

Os mitos da Grécia e de Roma serviram de temas para artistas que vão de Leonardo da Vinci a Picasso, e a partir dos Romanos, os países pretendiam que a sua grandeza literária fosse medida em relação às narrativas gregas dos seus mitos. Os compositores também se inspiraram na mitologia grega, como nas óperas que tratam de Orfeu e Eurídice, Helena de Tróia e os filhos de Clitemnestra. Filósofos como Nietzsche mergulharam na mitologia da Grécia e a teoria psicanalítica designa questões do comportamento humano, como o complexo de Édipo, e doenças do foro psíquico, como o narcisismo, na sequencia dos mitos. Ainda hoje eles continuam a ser fontes inspiradoras para séries televisivas e filmes, que vão de Xena a Hércules, da Disney. Os mitos gregos continuam vivos e a afetar as nossas vidas e o conhecimento que temos de nós próprios. [209]

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Hero e Leandro

Hero era uma bela jovem que vivia em Sestos, e Leandro um bonito jovem que morava em Abido. Estas duas cidades estavam uma em frente da outra nas costas do estreito de Helesponto (hoje chamado de Dardanelos). Hero era uma sacerdotisa de Afrodite (Vénus), a deusa do desejo, embora os pais pretendessem que ela se mantivesse casta. Vivia numa torre junto ao mar e, todas as noites, ela acendia uma luz numa janela
bem alta, a fim de guiar Leandro até à torre. Este atravessava o Helesponto a nado para passar a noite com a sua amada Hero, gozando dos rituais da adoração a Afrodite e depois nadava de volta antes que o dia rompesse. Eles mantinham a sua paixão em segredo, sabendo que os pais de Hero desaprovariam a relação. Numa noite tempestuosa de inverno, o vento apagou a luz de Hero, o que fez com que Leandro se perdesse e acabasse por se afogar. Na manhã seguinte, o seu corpo foi arrastado para junto da torre de Hero, de onde ela se lançou para morrer junto do seu amado. Tal como em muitas estórias trágicas de amor, Hero foi incapaz de enfrentar o mundo sem Leandro. A estória deles foi narrada por Museu, que uns dizem ter sido um filho, outros um mestre de Orfeu.

MILLS, Alice. A era clássica. IN.: GORDON Cheers (org.). Mitologia: Mitologias de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter, 2011. Cap. 1 p. 184
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Isis
Ísis dourada | sarcófago de Ramsés III (c. 1184-1 153 a.e.c.)

Ísis, muiher e irmã de Osíris era venerada como a esposa e mãe perfeita. Ao mesmo tempo, era chamada a Grande Mágica pelo papel que teve no drama da vida e morte do marido. Na Época Baixa (664 a.e.c. em diante) o culto a Isis aumentou e foram construídos templos em sua honra por todo o Egito. Os Romanos (30 a.e.c. em diante) acharam o seu culto apelativo e os Iseums (templos de Isis) foram construídos por todo o Império Romano, chegando mesmo ao norte a Inglaterra.

EL-MAHDY, Christine. Mitologia egípcia e africana. IN.: GORDON Cheers (org.). Mitologia: Mitologias de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter, 2011. Cap. 3 p. 293
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A teoria do mito de Jung
Vertumno e Pomona

Carl Jung fala das verdades psicológicas do mito, que ele assegura serem universais e necessárias à saúde da psique humana. Segundo ele, necessitamos das estórias dos mitos para que haja sentido na confusão reinante na nossa sociedade e nos nossos espíritos. Os mitos dão voz às verdades do nosso inconsciente, e ele crê que os deuses, deusas e heróis da mitologia corporizam aspetos da criatividade, inteligência, dor, alegria, agressividade e êxtase. Os monstros míticos são na verdade monstros da mente; as tragédias e os triunfos do mito refletem os modos pelos quais parecemos ser sacudidos psicologicamente de um lado para o outro por forças que estão fora do nosso controle. Os seres humanos são criadores de mitos por natureza, sempre curiosos, sempre vivendo psicologicamente fora dos padrões do mito ou sendo ultrapassados por eles. Em termos psicológicos, segundo esta teoria, estamos sempre num ou noutro padrão mítico, e a nossa liberdade de escolha como seres humanos conscientes é a liberdade de dançarem em vez de caminhar aos tropeções ao longo da maior história do mundo - a vida.

 
MILLS, Alice. O que é mito? IN.: GORDON Cheers (org.). Mitologia: Mitologias de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter, 2011. Cap. 1 p. 12-13
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