As aventuras de sir Lancelot

As aventuras de sir Lancelot

Antônio L. Furtado


Assim que o rei Artur regressou de Roma para a Inglaterra, todos os cavaleiros da Távola Redonda acorreram a ele, e juntos realizaram muitas justas e torneios. E alguns se notabilizaram de tal forma no manejo das armas que ultrapassaram todos os seus companheiros em proeza e nobres façanhas. Mais do que ninguém, sir Lancelote do Lago comprovou seu valor, pois em todos os torneios e justas, amistosos ou mortais, ele prevaleceu sobre os demais [230] cavaleiros e em nenhuma ocasião foi vencido, salvo por traição ou encantamento. Tanto cresceu em fama e reputação, desde o retorno de Roma, que se tornou o primeiro entre seus homens. Por isso, a rainha Guenever o tinha em alta conta, acima de todos os cavaleiros, e ele, por toda a vida, decerto amou a rainha, acima de todas as outras damas e donzelas, e mais tarde a salvaria do fogo por nobre feito de cavalaria.

Após longo tempo de repouso, dedicado a jogos e caçadas, sir Lancelote pensou em submeter-se à prova buscando novas aventuras. Ordenou ao sobrinho, sir Lionel, que se aprontasse. Montaram em seus cavalos, armados da cabeça aos pés e, cavalgando, meteram-se por uma floresta densa. Era tempo de calor e, em torno do meio-dia, sir Lancelote sentiu vontade de dormir. Sir Lionel avistou uma macieira copada perto de uma cerca, e disse:

— Ali adiante há uma boa sombra; lá poderemos descansar com nossos cavalos.

— Disseste bem, pois nestes sete anos nunca estive tão sonolento quanto agora.

E assim apearam e amarraram os cavalos às árvores. Sir Lancelote deitou debaixo da macieira, apoiando a cabeça sobre o elmo, e logo adormeceu. Sir Lionel velava enquanto ele dormia.

Nesse ínterim, passaram três cavaleiros, cavalgando em fuga desabalada, perseguidos por um único cavaleiro. Ao ver este último, sir Lionel julgou que nunca encontrara outro tão alto e vigoroso, nem tão bem equipado. Em um instante o forte cavaleiro dominou um dos três e o derrubou por terra, onde ficou sem se mover. Então investiu contra o segundo e o golpeou, fazendo cair homem e cavalo. Depois, foi direto sobre o terceiro e o jogou da garupa do cavalo para trás, a uma lança de distância. Apeando, amarrou firmemente cada um dos três usando as rédeas deles.

Ao vê-lo proceder assim, sir Lionel decidiu experimentá-lo. Aprontou-se e foi silenciosamente pegar seu cavalo, tomando cuidado para não despertar sir Lancelote. Uma vez montado, alcançou o cavaleiro e o intimou a virar-se em sua direção. E o outro bateu com tanta dureza em sir Lionel que o prostrou por terra junto com a montaria. Desmontou, amarrou-o firme e o jogou por cima do próprio cavalo, fazendo o mesmo com os outros. Tendo dado conta dos quatro, cavalgou levando-os a reboque para seu castelo. [231]

Chegando lá, desarmou-os e pôs-se a fustigá-los sobre a pele nua com ramos de espinheiro, e depois os trancafiou no fundo de uma prisão em que já estavam muitos cavaleiros a lamentar-se.

Enquanto isso, na corte, sir Ector de Maris sentia-se contrariado consigo mesmo ao perceber que sir Lancelote saíra sem ele à caça de aventuras, e preparou-se para seguir à sua procura. Depois de longa cavalgada pela floresta, deu com um homem que parecia ser um guarda florestal.

— Meu caro, sabes que aventuras há neste país, aqui por perto?

— Senhor, conheço bem este país. A cerca de uma milha daqui ergue-se um forte castelo cercado por um fosso, tendo à esquerda um córrego onde os cavalo vão beber. À beira do córrego, cresce uma bela árvore, da qual pendem muitos escudos ostentados outrora por bons cavaleiros, e também uma bacia de cobre e latão. Se bateres na bacia três vezes com o cabo de tua lança, logo ouvirás novidades — e possas ter melhor sorte do que tiveram os cavaleiros que passaram por esta floresta em todos estes anos.

— Muito obrigado!

E sir Ector encaminhou-se para a árvore, que encontrou coberta de muitos escudos. Entre eles, reconheceu o de sir Lionel, seu irmão, além de muitos mais, que pertenciam a seus companheiros da Távola Redonda. De coração aflito, prometeu vingar o irmão. De pronto bateu furiosamente na bacia. Pouco depois, enquanto dava de beber ao cavalo no córrego, veio por trás um cavaleiro que o mandou sair da água e preparar-se. Sir Ector voltou-se rápido contra ele, de lança em riste, e desferiu tão forte golpe que o cavalo do outro girou duas vezes sobre si mesmo, e o cavaleiro exclamou:

— Isto foi bem feito, tu me golpeaste como a cavalaria requer!

E com isso veio cavalgando até sir Ector, enlaçou-o com o braço direito e arrancou-o da sela. Assim o carregou até sua morada, jogando-o no meio do salão. O nome desse cavaleiro era sir Turquin. Assim falou ele a sir Ector:

— Como fizeste comigo hoje mais do que qualquer cavaleiro conseguiu nestes doze anos, eu neste instante te concedo a vida, se jurares ser meu prisioneiro por todos os dias que viveres.

— Não! Nunca te prometerei tal coisa, pois não me traz vantagem. — Isso me desagrada. [232]

E então tratou de desarmá-lo e fustigou-lhe a pele com galhos de espinheiro, e depois o encerrou em um cárecere profundo, onde reconheceu muitos de seus companheiros. Mas foi quando viu sir Lionel que sir Ector manifestou maior mágoa:

— Ai, sobrinho, onde está meu irmão, sir Lancelote?

— Belo tio. deixei-o a dormir debaixo de uma macieira quando me afastei. E o que lhe aconteceu depois não sei dizer-te.

Os demais cavaleiros aprisionados se lamentavam:

— Ai, a menos que sir Lancelote nos venha socorrer, jamais seremos libertados, pois não conhecemos neste momento cavaleiro algum capaz de confrontar-se com nosso algoz Turquin.

Depois da partida de Lionel, sir Lancelote do Lago continuara dormindo à sombra da macieira. Por volta do meio-dia, chegaram ali quatro rainhas de alta estirpe, montadas em mulas brancas. Para que o calor não as molestasse, quatro cavaleiros as ladeavam, protegendo-as do sol com um toldo de seda verde estendido sobre a ponta de suas lanças. Ao escutar o relincho de um robusto cavalo de batalha, notaram o cavaleiro adormecido, de armadura completa, deitado sob a macieira. Olhando seu rosto, perceberam que era sir Lancelote. Começaram então a disputar pelo cavaleiro, cada uma querendo ter seu amor. Disse a fada Morgana, que era irmã do rei Artur:

— Não discutamos. Lançarei sobre ele um encantamento para que não desperte nas próximas seis horas, e o levarei para meu castelo. Quando lá o tiver seguramente em meu poder, desfarei o encantamento e então deixaremos que ele escolha qual de nós terá como amante.

Uma vez submetido ao encantamento, sir Lancelote foi colocado sobre seu escudo, e assim transportado entre dois cavaleiros para o castelo Chariot, onde o depositaram em uma fria alcova. À noite, enviaram uma formosa donzela para trazer-lhe a ceia. O encantamento havia passado, e ela o saudou ao entrar, perguntando como ele se sentia.

— Não posso dizer, bela donzela, pois não sei como poderia ter vindo parar neste castelo, a não ser por algum encantamento.

— Senhor, deves fazer cara alegre; se és tal cavaleiro como te afirmam ser, irei dizer-te mais amanhã, na primeira hora do dia. [233]

— Muito obrigado, donzela; confio em tua boa vontade.

Com isso ela se foi e ele ficou deitado por toda aquela noite, sem ver mais ninguém. De manhã cedo, vieram as quatro rainhas, exibindo sua mais linda aparência, todas lhe desejando bom dia, e ele também a elas.

— Senhor cavaleiro, deves compreender que és nosso prisioneiro, e sabemos bem seres sir Lancelote do Lago, filho do rei Ban; por teu valor, nós te julgamos o mais nobre de todos os cavaleiros viventes. Sabemos ainda que nenhuma dama pode ter teu amor, exceto uma, e essa é a rainha Guenever. Mas agora tu a perderás para sempre, e ela a ti, e portanto te incumbe escolher uma de nós quatro. Sou a fada Morgana, rainha da terra de Gore; eis aqui a rainha de Gales do Norte, a rainha da Terra do Leste e a rainha das Ilhas Distantes. Cuida logo de escolher aquela dentre nós que terás como tua amante, pois, se não escolhes, só te resta morrer nesta prisão.

— Este é um caso difícil: devo morrer ou devo escolher uma de vós. Mas, seja como for, prefiro antes morrer com honra nesta prisão do que ter uma de vós como amante, malgrado minha vontade. Portanto vos respondo que não quero nenhuma de vós, pois sois encantadoras cheias de falsidade; quanto à minha senhora, a rainha Guenever, estivesse eu livre como estava antes, provaria a vós, ou contra o corpo de vossos homens, ser a dama mais leal para com seu senhor que neste mundo existe.

— Bem, é esta então tua resposta: que nos recusas?

— Sim, por minha vida, sois todas recusadas por mim!

Elas saíram e o deixaram sozinho, em grande aflição.

Ao meio-dia, veio a donzela trazer-lhe comida e perguntou como estava.

— Na verdade, bela donzela, nos dias de minha vida nunca tão mal.

— Senhor, isto me contraria, mas, se te deixares guiar por mim, irei ajudar-te a sair deste aperto, sem incorrer em vergonha ou vilania, desde que me faças uma promessa.

— Donzela, farei o que pedes; pois receio essas rainhas feiticeiras, que já destruíram mais de um bom cavaleiro.

— Senhor, é verdade; por ouvir falar de teu renome e qualidades, queriam ter teu amor. Dizem que teu nome é sir Lancelote do Lago, flor dos cavaleiros, e estão extremamente irritadas contigo por tê-las recusado. Mas promete, senhor, [234] que ajudarás meu pai na próxima terça-feira, quando irá prosseguir um torneio acertado entre ele e o rei de Gales do Norte. Na terça-feira passada, meu pai perdeu o campo por causa de três cavaleiros da corte de Artur. Se prometes estar lá na terça vindoura a fim de ajudar meu pai, na primeira hora de amanhã, pela graça de Deus, ficarás inteiramente livre por meu intermédio.

— Donzela, dize-me o nome de teu pai e então te darei resposta.

— Senhor cavaleiro, meu pai é o rei Bagdemagus.

— Conheço bem teu pai, que é tido como nobre rei e bom cavaleiro. E, por minha fé, meu corpo estará pronto a prestar serviço a teu pai e a ti naquele dia.

— Senhor, muito obrigada. Amanhã de manhã trata de estar pronto bem cedo, e eu mesma virei para soltar-te e para devolver tua armadura, escudo e lança, como também teu cavalo. A umas dez milhas daqui, há uma abadia de monges brancos; peço-te que permaneças lá até que traga meu pai à tua presença.

— Tudo isso será feito, tens minha palavra leal de cavaleiro.

Ela saiu e voltou de manhã cedo, encontrando-o pronto. Levou-o para fora transpondo doze portas antes trancadas. Entregou-lhe a armadura e, quando o cavaleiro acabou de armar-se, trouxe-lhe o cavalo. Ele o selou depressa, tomou na mão uma grossa lança e se despediu enquanto saía cavalgando:

— Donzela, não te falharei, com a graça de Deus!

E assim ele prosseguiu através de uma grande floresta durante o dia todo, sem encontrar estrada, até que, ao cair da noite, avistou em uma clareira um pavilhão de fino pano vermelho.

— Por minha fé, por esta noite hei de alojar-me naquele pavilhão.

Apeou, prendeu o cavalo ao pavilhão, desarmou-se e, achando um leito no interior, deitou-se e adormeceu profundamente. Uma hora mais tarde, chegou o cavaleiro a quem pertencia o pavilhão e pensou que quem estava naquela cama era sua amada. Assim, acomodou-se ao lado de sir Lancelote, tomou-o nos braços e pôs-se a beijá-lo. Sentindo a barba áspera a roçar-lhe a boca, sir Lancelote pulou rapidamente do leito, e o outro cavaleiro fez o mesmo, e ambos tomaram das espadas e saíram às pressas pela porta do pavilhão para lutar. Em pouco tempo, sir Lancelote feriu seriamente o cavaleiro do pavilhão, [235] quase o matando. E ele propôs render-se a sir Lancelote, que aceitou sob a condição de explicar por que fora meter-se daquela maneira no leito.

— Senhor, é meu o pavilhão. E nesta noite eu havia combinado dormir nele com minha dama. E agora estou para morrer deste ferimento.

— Lamento por ter-te ferido — se me enganei foi por temor de alguma emboscada. Entremos em teu pavilhão para que descanses e eu tente estancar teu sangue.

Entraram ambos no pavilhão e logo sir Lancelote deteve o sangramento do outro. Nisso, chegou a bela dama, e, quando percebeu que seu senhor Belleus estava seriamente ferido, bradou, tomada de desespero, contra sir Lancelote. Mas sir Belleus a conteve:

— Paz, minha querida dama, pois este é um homem de qualidade, um cavaleiro que busca aventuras.

E, depois de contar-lhe em quais circunstâncias fora ferido, acrescentou:

— E, logo que me rendi, este cavaleiro tratou de atender-me e fez-me parar de sangrar.

A dama voltou-se para o cavaleiro:

— Senhor, rogo-te que me digas quem és.

— Bela dama, meu nome é sir Lancelote do Lago.

— Assim me pareceu por teu modo de falar, pois já te vi antes, em muitas ocasiões, e te conheço mais do que imaginas. Mas uma coisa deves prometer-me, por cortesia, em compensação pelos males que fizeste sofrer a mim e a meu senhor Belleus: que, ao voltares à corte de Artur, cuidarás para ele ser feito cavaleiro da Távola Redonda. Pois ele é muito bom homem de armas e rico dono de terras em muitas ilhas.

— Bela dama, que ele venha à corte na próxima festa solene, e não deixes de vir junto com ele; farei então o que puder e, se vós ambos cumpris vossa parte, o desejo será realizado.

Pouco mais tarde, enquanto ainda conversavam, terminou a noite e raiou o dia. Então sir Lancelote armou-se e pegou o cavalo. Eles lhe mostraram o caminho para a abadia, onde foi dar após duas horas de cavalgada.

Quando sir Lancelote se aproximava do pátio da abadia, a filha do rei Bagdemagus ouviu a forte batida dos cascos do corcel no pavimento. [236] Ergueu-se e debruçou-se a uma janela, da qual avistou sir Lancelote. Apressou-se a mandar serviçais para ajudá-lo a desmontar e recolher o cavalo a um estábulo, enquanto o conduziam a um quarto confortável, para desarmá-lo e cobri-lo de um manto longo enviado pela donzela. Ela própria não tardou a vir a seu encontro, manifestando regozijo e afirmando que ele era para ela o mais bem-vindo dentre todos os cavaleiros do mundo. Com a maior urgência, mandou chamar seu pai, o rei Bagdemagus, que estava a doze léguas do lugar, e ele acorreu com um forte grupo de cavaleiros. Apeando do cavalo, o rei foi direto à câmara onde o esperavam a filha e sir Lancelote. Abraçou o cavaleiro e cada um demonstrou ao outro sua alegria. Sir Lancelote queixou-se de como fora traído e contou como sir Lionel o deixara, indo não sabia para onde, e como sua filha o retirara da prisão.

— De hoje em diante, enquanto eu viver, hei de servi-la e a toda sua parentela.

— Então posso contar com tua ajuda nesta terça-feira?

— Sim, senhor. Não te faltarei, pois assim prometi à minha senhora, tua filha. Mas dize-me: quais eram os cavaleiros de meu senhor Artur que estavam com o rei de Gales do Norte?

— Eram sir Mador de la Porte, sir Mordred e sir Gahalantine, que levaram a melhor contra os meus, pois a eles nem eu nem meus cavaleiros tivemos força para enfrentar.

— Senhor, ouço dizer que o torneio será a cerca de três milhas desta ataria. Manda-me três cavaleiros de tua confiança, e providencia para que os três tenham escudos brancos, e eu também, sem pintura alguma. Nós quatro sairemos de um bosque e nos meteremos no meio das duas facções, e cairemos em cima dos inimigos para atormentá-los o mais que pudermos; assim não saberão quem sou.

Com isso foram repousar pelo resto da noite, que era de domingo. O rei logo partiu para providenciar para Lancelote os três cavaleiros pedidos, que vieram trazendo os quatro escudos brancos. Na terça-feira, alojaram-se em um bosque denso, ao lado de onde seria realizado o torneio.

No local, havia tablados, para que senhores e damas pudessem assistir às lutas e à entrega do prêmio. Entrou no campo de combate o rei de Gales, com [237] 160 homens. Os três cavaleiros de Artur mantinham-se à parte. Então entrou o rei Bagdemagus com oitenta homens. Os cavaleiros de ambos os lados colocaram as lanças em riste e se chocaram com grande ímpeto, sendo mortos neste primeiro encontro seis do rei de Gales do Norte e doze do rei Bagdemagus, que foi forçado a recuar. Foi aí que veio sir Lancelote do Lago, metendo-se no mais espesso da porfia, e ali derrubou, com a mesma lança, cinco cavaleiros, quatro dos quais fraturaram as costas. No meio do tumulto, abateu o rei de Gales do Norte, que quebrou a coxa na queda. A todos esses atos de Lancelote presenciaram os três cavaleiros de Artur. Disse sir Mador de la Porte:

— Eis acolá um convidado esperto. Vamos logo ter com ele.

Os dois se chocaram e sir Lancelote atirou no chão cavalo e cavaleiro, o qual teve o ombro destroncado.

— Agora é minha vez de justar — disse Mordred — , já que sir Mador teve queda feia.

Sir Lancelote o notou, tratou de pegar uma grande lança, e partiu ao encontro dele. Sir Mordred quebrou a lança contra seu corpo, enquanto sir Lancelote dava-lhe tal pancada que o arção da sela partiu-se e ele voou por sobre a garupa do cavalo, bateu com o elmo no chão e quase quebrou o pescoço; e ali ficou longo tempo desmaiado.

Então veio sir Gahalantine com uma grande lança, e Lancelote contra ele, com toda a força com que puderam carregar, estilhaçando-se ambas as lanças até os punhos. Sacaram das espadas e deram-se muitos golpes temíveis. Então sir Lancelote enfureceu-se além da conta e golpeou sir Gahalantine sobre o elmo, de tal forma que o nariz, os ouvidos e a boca encheram-se de sangue e a cabeça se curvou para a frente. Seu cavalo correu descontrolado e ele tombou ao chão.

Sir Lancelote pôs a mão em outra grossa lança e, antes que também se partisse, deitou por terra dezesseis cavaleiros, alguns com cavalo e tudo, e dentre os que feriu não houve um a portar armas de novo nesse dia. Então pegou mais uma lança e derrubou doze cavaleiros, a maioria dos quais nunca se recuperou. E depois disso os cavaleiros do rei de Gales do Norte não quiseram mais justar, e a vitória foi atribuída ao rei Bagdemagus.

Cada facção partiu para seu lugar de origem, e sir Lancelote cavalgou com o [238] rei Bagdemagus para o castelo dele, onde tanto o rei como a filha lhe deram a mais alegre acolhida e cumularam de ricos presentes. Pela manhã, despediu-se, dizendo ao rei que iria procurar sir Lionel, que o deixara enquanto ele dormia. Montou a cavalo, encomendando todos a Deus e prometendo à filha do rei:

— Se alguma vez precisares de meu serviço, rogo-te que me faças saber, pois não te faltarei como cavaleiro leal que sou.

E assim sir Lancelote partiu, e quis a sorte que passasse pela mesma região onde o haviam pegado a dormir. No meio da estrada cruzou com uma donzela cavalgando um palafrém branco, e trocaram saudações.

— Bela donzela, sabes de alguma aventura neste país?

— Senhor cavaleiro, ha ́aventuras bem perto da qui, se ousa resprová-las.

— Por que não provaria aventuras? É por causa delas que venho.

— Bem, tu pareces ser um bom cavaleiro, e se te atreves a enfrentar outro bom cavaleiro, irei conduzir-te aonde está o melhor deles e o mais possante que jamais achaste. Antes me dirás teu nome e que espécie de cavaleiro te julgas ser.

— Donzela, não me importo em dizer-te meu nome, que é sir Lancelote do Lago.

— Senhor, pareces talhado para as aventuras daqui, pois nestas paragens habita um cavaleiro que não será superado por nenhum homem conhecido por mim, a não ser que tu mesmo consigas, e o nome dele é sir Turquin. Pelo que sei, ele mantém em sua prisão 64 bons cavaleiros da corte de Artur, aos quais derrotou com as próprias mãos. Mas, quando tiveres levado a cabo essa jornada, prometerás a mim, como cavaleiro leal, ir comigo ajudar-me e a outras donzelas que são atormentadas diariamente por um cavaleiro falso.

— Todos os teus intentos e desejos haverei de cumprir, donzela, desde que me leves a esse de quem falas.

— Agora, belo cavaleiro, vem por aqui.

E assim ela o trouxe ao riacho e à árvore na qual a bacia estava pendurada. Sir Lancelote fez o cavalo beber e em seguida começou a bater na bacia com o cabo da lança, com tanta força que o fundo se rompeu, e continuou batendo, sem ver nada acontecer. Depois cavalgou ao longo dos portões do castelo por quase meia hora. Avistou então um corpulento cavaleiro que [239] tocava à sua frente um cavalo, estendido sobre o qual estava um cavaleiro de armadura, de mãos e pés atados. Ao se aproximarem, sir Lancelote julgou reconhecer o cativo. Percebeu afinal que era sir Gaheris, irmão de Gawain, um dos homens da Távola Redonda. Disse Lancelote:

— Bela donzela, vejo vir por ali um cavaleiro todo amarrado que é meu companheiro e irmão de sir Gawain. Para começar, prometo, com a permissão de Deus, resgatá-lo; mas, a não ser que aquele que o venceu esteja mais firme do que eu sobre a sela, também livrarei do perigo a todos os prisioneiros, pois dois dentre esses são com certeza meus parentes.

Nesse momento, um avistara o outro e ambos empunharam as lanças. Sir Lancelote lançou seu desafio:

— Agora, belo cavaleiro, retira esse cavaleiro ferido do cavalo e deixa que descanse um pouco. E vamos nós dois provar nossas forças; pois, conforme me informaram, tu fizeste e continuas fazendo grande acinte e vergonha aos cavaleiros da Távola Redonda, e portanto trata de defender-te.

— Se és da Távola Redonda, desafio-te e a toda tua companhia!

— Isso é falar demais!

Colocaram as lanças em riste e foram um contra o outro, com os cavalos correndo a mais não poder, e cada um atingiu o outro no centro do escudo com tal ímpeto que as costas dos cavalos se fraturaram sob o peso deles e ambos caíram por terra, presos às montarias, completamente atordoados. Tão logo puderam desvencilhar-se dos cavalos, ergueram os escudos à frente e sacaram as espadas, e atiraram-se um ao outro denodadamente, cada um desferindo sobre o adversário muitos golpes fortes que nem escudo nem arnês podia agüentar. Em pouco tempo, estavam cheios de feridas sérias e sangravam gravemente. Continuaram assim por duas horas ou mais, cercando e acutilando um ao outro, tentando achar algum ponto desprotegido para ferir. No fim, continuavam os dois de pé, mas sem fôlego, apoiando-se sobre as espadas fincadas no chão. Sir Turquin falou:

— Detém tua mão por um instante e responde ao que vou perguntar-te.

— Dize, pois.

— És o homem mais robusto com que me bati até hoje e o de mais fôlego, semelhante a um cavaleiro a quem odeio acima de todos. Se porventura [240] não és ele, prontamente farei as pazes contigo e, por amor a ti, entregarei todos os prisioneiros em meu poder, que são 64, logo que me disseres teu nome. E tu e eu seremos camaradas enquanto eu viver.

— Dizes bem. Mas, se disso depende tua amizade, conta-me quem é esse cavaleiro que odeias acima de todos?

— Na verdade, seu nome é Lancelote do Lago, e foi quem matou na Torre Dolorosa meu irmão, sir Carados, que era um dos melhores cavaleiros vivos. A ele, portanto, excetuo dentre os demais, pois, se me puder encontrar alguma vez com ele, um de nós dará cabo do outro, tal é meu voto. Por causa de sir Lancelote, matei uma centena de bons cavaleiros; e estropiei outros tantos, a tal ponto que nunca mais poderão cuidar de si próprios, e muitos morreram na prisão, e lá tenho ainda 64. Libertarei todos esses últimos tão logo me digas teu nome, desde que não sejas sir Lancelote.

— Agora vejo bem que, dependendo de quem eu seja, ou poderei ter paz, ou haverá guerra mortal entre nós. E agora, senhor cavaleiro, a teu pedido quero que ouças e aprendas: sou Lancelote do Lago, filho do rei Ban de Benwick e cavaleiro verdadeiro da Távola Redonda. E agora te desafio e trata de fazer o melhor que podes.

— Ah, Lancelote, és mais bem-vindo que qualquer cavaleiro jamais foi, pois não nos separaremos até um de nós estar morto.

Então arremeteram um contra o outro como dois touros selvagens, cortando e batendo, algumas vezes se estatelando no chão. Lutaram assim por mais de duas horas, sem nenhum descanso, e sir Turquin infligiu muitos ferimentos a sir Lancelote, salpicando todo de sangue o campo em que lutavam. Por fim, sir Turquin começou a enfraquecer e a ceder terreno, abaixando o escudo por cansaço. Isso notou sir Lancelote e saltou ferozmente sobre ele, agarrou-o pela viseira do elmo e o pôs de joelhos. De pronto arrancou-lhe o elmo e cortou rente o pescoço.

Feito isso, sir Lancelote foi ter com a donzela e lhe disse:

— Donzela, estaria pronto para ir contigo aonde quiseres que eu vá, mas não tenho cavalo.

— Belo senhor, toma o cavalo deste cavaleiro ferido que sir Turquin trouxe há pouco; e manda o cavaleiro ao castelo libertar os prisioneiros todos. [241]

Sir Lancelote dirigiu-se a Gaheris e lhe pediu não levar a mal se tomasse emprestado seu cavalo, ao que Gaheris replicou:

— Não, belo senhor, quero que tomes meu cavalo como teu, pois devemos a ti nossa salvação, e neste dia afirmo que és o melhor cavaleiro do mundo, pois mataste diante de meus olhos o homem mais vigoroso e mais destro cavaleiro que, à exceção de ti, jamais cheguei a ver. E te rogo, belo senhor, que me digas teu nome.

— Senhor, meu nome é Lancelote do Lago, que, de direito, teria de socorrer-te, em respeito ao rei Artur e, em especial, a meu senhor sir Gawain, teu irmão. Ao entrares no castelo, estou certo de que acharás muitos cavaleiros da Távola Redonda, pois reconheci seus escudos pendurados naquela árvore. Lá estão os escudos de sir Kay, sir Brandiles, sir Marhaus, sir Galihud, sir Brian de Listonoise, sir Aliduke, além de muitos outros de que não estou informado, e ainda de meus familiares, sir Ector de Maris e sir Lionel. Portanto, rogo-te saudares a todos eles por mim, dizendo que os convido a se apossar de quaisquer coisas que encontrarem; e dize a meus dois parentes para não deixarem de ir esperar-me na corte, pois pretendo comparecer durante a festa de Pentecostes. Neste momento, porém, devo acompanhar esta donzela para cumprir minha promessa.

Com isso, deixou Gaheris, o qual seguiu para o castelo. Lá encontrou Gaheris um porteiro de guarda, com muitas chaves. Sem perda de tempo, derrubou o porteiro, tomou-lhe as chaves e abriu prontamente a porta do cárcere, fazendo sair todos os prisioneiros. Eles se ajudaram mutuamente a livrar-se das cadeias. Ao ver sir Gaheris e notando como estava ferido, todos lhe rendiam graças como a seu libertador, e ele protestou:

— Nada disso, foi Lancelote que venceu e matou sir Turquin valorosamente. Vi com meus próprios olhos. E ele vos saúda e vos pede para não tardares em ir à corte; e quanto a sir Lionel e sir Ector de Maris, pede ainda que ali aguardem por ele.

— Não faremos isso — disseram os dois. — Sairemos agora mesmo e buscaremos por ele, enquanto vida nos restar.

— Também eu, por meu voto de cavaleiro — disse Kay. — Antes de seguir para a corte haverei de encontrá-lo. [242]

Então todos os cavaleiros procuraram onde estavam guardadas suas armaduras e trataram de armar-se, e cada cavaleiro achou também seu cavalo e tudo mais que lhe pertencia. Quando acabavam de preparar-se, entrou um mateiro com quatro cavalos carregados de caça gorda. Sir Kay apressou-se a dizer:

— Eis que nos chega boa carne para um repasto decente, como não temos tido por tantos dias.

A carne foi tostada no forno e, depois da refeição, alguns se alojaram ali mesmo para passar a noite, mas sir Lionel, sir Ector de Maris e sir Kay foram à caça de sir Lancelote, para se reunirem a ele se pudessem.

Por sua vez, sir Lancelote ia cavalgando com a donzela por uma estrada. Em certo momento, ela falou:

— Senhor, por este caminho ronda um cavaleiro que molesta todas as damas e gentis senhoras, e no mínimo as rouba ou violenta.

— O quê? É um cavaleiro ladrão e um sedutor de mulheres? Ele envergonha a ordem da cavalaria e descumpre seu juramento; pena é que viva. Mas vai tu mesma em frente, enquanto eu sigo atrás, tentando passar despercebido. Se ele vier perturbar-te, cuidarei de resgatar-te e de ensiná-lo a portar-se como cavaleiro.

A mulher foi cavalgando a passo lento. Dentro em pouco saiu do mato o tal cavaleiro, vindo montado e acompanhado de um pajem, e arrebatou a donzela de seu cavalo. Ela gritou, e ao ouvi-la acorreu sir Lancelote o mais depressa que pôde, invectivando o cavaleiro:

— Ó cavaleiro falso e traidor, quem te ensinou a abusar de donzelas?

Vendo sir Lancelote a censurá-lo, não respondeu, mas sacou a espada e se lançou contra ele, e sir Lancelote largou a lança e sacou também a espada, e deu-lhe tal pancada sobre o elmo que lhe fendeu a cabeça e o pescoço até a garganta.

— Agora tiveste o pagamento há tanto merecido.

— É verdade — disse a donzela. — Pois assim como sir Turquin almejava destroçar cavaleiros, este intentava maltratar e atormentar donzelas, damas e gentis-senhoras, e o nome dele era sir Peris de Forest Savage.

— E agora, donzela, desejas de mim mais algum serviço?

— Não, senhor, por enquanto não. Que Jesus todo-poderoso te proteja [243] por onde quer que caminhes, pois és o mais cortês dos cavaleiros e o mais meigo para com todas as damas e gentis senhoras que hoje existe. Mas em uma coisa, senhor cavaleiro, parece-me que estás em falta: és cavaleiro sem dama. Não te propões a amar nem moça nem mulher, nunca ouvi dizer que amaste de maneira alguma, e isso é de lamentar. Correm rumores de que amas a rainha Guenever, e que ela dispôs por encantamento: nunca amarás outra senão ela, nem donzela ou dama nenhuma te agradará. Por isso há muitas, tanto de alta como de baixa extração, que por demais se lastimam.

— Bela donzela, não posso impedir as pessoas de falarem de mim o que lhes aprouver; mas, quanto a tornar-me um homem casado, não penso nisso. Pois, para deitar com a esposa, teria de deixar as armas e os torneios, batalhas e aventuras. E se me falam de deleitar-me com amantes, isso eu recuso de todo, por temor a Deus; pois cavaleiros adúlteros ou libertinos não são afortunados na guerra — ou serão dominados por cavaleiro menos destro, ou, em sua execração, acabarão exterminando homens melhores do que eles próprios. Assim é que aquele que tem amantes há de ser infeliz, e infeliz é tudo que o cerca.

Separaram-se então e sir Lancelote penetrou por uma floresta profunda por mais de dois dias, dormindo ao relento. No terceiro dia, atravessava uma longa ponte, quando de súbito foi atacado por um vilão dos mais grosseiros, que bateu no focinho de seu cavalo, fazendo-o rodopiar, e perguntou por que cavalgava por aquela ponte sem sua licença. Sir Lancelote replicou:

— E por que não iria por aqui? Não teria como passar ao largo.

 — Não tens escolha!

O vilão fez menção de bater-lhe com um grande porrete ferrado, mas sir Lancelote puxou da espada, aparou o golpe e partiu-lhe a cabeça até os miolos. Na extremidade da ponte, situava-se uma bela vila, e todos os habitantes, homens e mulheres, gritavam para sir Lancelote:

— Pior não poderias ter feito em teu próprio prejuízo, pois mataste o porteiro-mor do castelo!

Sir Lancelote deixou-os dizer o que quisessem e foi direto ao castelo. Chegando ali, desmontou e atou o cavalo a uma argola presa ao muro. Viu um aprazível pátio verdejante e para lá se dirigiu; parecia-lhe um excelente [244] lugar para combater. Olhou em volta e viu muita gente junto às portas e janelas a dizer:

— Belo cavaleiro, que infortunado és!

Nisso, vieram sobre ele dois gigantes imensos, com armamento completo exceto nas cabeças, levando terríveis clavas nas mãos. Sir Lancelote ergueu o escudo à frente e desviou o golpe do primeiro gigante, e com a espada partiu-lhe a cabeça ao meio. Quando o companheiro viu isso, correu como um louco, com medo de seus golpes horríveis, e Lancelote em seu encalço com toda a energia deu-lhe uma cutilada no ombro que o cortou até o umbigo.

Em seguida, sir Lancelote entrou pelo salão e lá se apresentaram a ele damas e donzelas; todas se ajoelharam à sua frente, agradecendo a Deus e a ele por sua libertação.

— Eis que em nossa maioria, senhor, permanecemos aqui já por sete anos como prisioneiras deles. Executávamos toda sorte de trabalhos em seda para nosso sustento, embora sejamos todas de alta nobreza. Bendito seja o momento, ó cavaleiro, em que nasceste, pois realizaste o mais valoroso feito que jamais logrou um cavaleiro neste mundo, como deixaremos registrado. E te rogamos nos dizer teu nome, para podermos contar a nossos amigos quem nos livrou da prisão.

— Belas, meu nome é sir Lancelote do Lago.

— Ah, senhor, podes bem ser ele, pois, como sempre pensamos, cavaleiro algum salvo tu mesmo poderia levar a melhor sobre esses dois gigantes. Muitos formosos cavaleiros tentaram e acabaram mal, e muitas vezes ansiamos por ti e esses gigantes nunca temeram senão a ti.

— Agora podeis dizer a vossos amigos como fostes libertadas e por quem, e saudai-os de minha parte; e se eu passar um dia por algum de vossos domínios, recebei-me como julgais que mereço. O tesouro que existir neste castelo eu vos concedo em reparação pelo agravo sofrido. E desejo que quem for o verdadeiro dono do castelo o receba de volta, como é justo.

— Belo senhor, o nome deste castelo é Tintagel, e um duque o possuía outrora, que se casara com a bela Igraine, a qual, por sua vez, Uther Pendragon desposou e nela gerou Artur.

— Percebo agora a quem pertence o castelo. [245]

Com isso, deixou-as, encomendando-as a Deus. Atravessou cavalgando muitas terras estranhas e selvagens, muitos cursos d’água e vales, sempre ao desabrigo. Afinal, por acaso, achou-se certa noite em um belo pátio, onde encontrou uma idosa gentil-senhora que o hospedou de boa vontade, e tanto ele como seu cavalo tiveram boa acolhida. Na hora devida, ela o conduziu ao leito, em um confortável sótão, acima do portão. Sir Lancelote desarmou-se e, tendo arrumado seus arneses ao alcance da mão, deitou-se e logo adormeceu.

Pouco mais tarde, chegou alguém a cavalo e bateu no portão com insistência. Ouvindo a batida, sir Lancelote levantou-se e espiou pela janela, avistando ao luar três cavaleiros vindo em perseguição ao solitário recém-chegado. Os três ao mesmo tempo desferiam cutiladas sobre ele, que se voltou e defendeu-se como bravo cavaleiro.

— Por certo ajudarei aquele cavaleiro, pois seria vergonhoso para mim ficar assistindo à luta de três contra um. Se ele fosse morto, eu seria cúmplice de sua morte.

Isso pensando, sir Lancelote tomou dos arneses e desceu por um lençol que prendeu à janela, indo ao encontro dos quatro cavaleiros e exclamando alto:

— Virai-vos para mim, ó cavaleiros, e parai de lutar com esse outro.

Eles deixaram em paz o cavaleiro, que era sir Kay, e voltaram-se contra sir Lancelote, e uma grande batalha teve início, pois os três apearam e puseram-se a assestar grandes golpes contra sir Lancelote, assediando-o por todos os lados. Então sir Kay aprontou-se para prestar auxílio a sir Lancelote, mas este recusou:

— Não, senhor. Não quero nenhuma ajuda tua; portanto, para teres a minha, deixa-me só com eles.

Sir Kay, para agradar ao cavaleiro, conformou-se a fazer-lhe a vontade, e quedou-se à parte. Logo, com seis golpes, sir Lancelote os deitou por terra. E os três gritaram a uma voz:

— Senhor cavaleiro, nós nos rendemos a ti como homem poderoso e incomparável.

— Não aceitarei vossa rendição à minha pessoa. Se vos renderdes a sir Kay o Senescal, somente nesses termos pouparei vossas vidas, senão, nada feito. [246]

— Belo cavaleiro, isso nos repugna fazer; pois, quanto a sir Kay, nós o acossamos até aqui e o teríamos dominado se não interviesses, portanto não há razão para nos rendermos a ele.

— Quanto a isso, atentai bem: trata-se de escolher se ireis morrer ou viver. Para render-vos, terá de ser a sir Kay!

— Belo cavaleiro, para salvar nossas vidas faremos como nos mandas.

— Pois então, no dia de Pentecostes vindouro, ide à corte do rei Artur, onde vos entregareis à rainha Guenever, submetendo-vos à sua graça e mercê, e dizei que foi sir Kay quem vos enviou como prisioneiros dela.

— Senhor, assim será feito, por nossa fé, se vivos estivermos.

Tendo cada um deles jurado sobre sua espada, sir Lancelote consentiu que partissem. Logo, bateu ao portão com o punho da espada, sendo atendido por sua hospedeira, e entrou com sir Kay. A nobre senhora estranhou:

— Senhor, acreditava que estivesses em tua cama.

— Pois estava, mas levantei-me e pulei pela janela para socorrer um velho companheiro.

Ao chegarem perto da luz, sir Kay percebeu que era sir Lancelote, e se pôs de joelhos e lhe agradeceu pela bondade de o salvar por duas vezes da morte. Lancelote replicou:

— Senhor, nada mais fiz do que deveria, pois és amigo. Ficarás aqui para repousar.

Após desarmar-se, sir Kay pediu carne; foi servido e comeu fartamente. Finda a ceia, foram dormir, acomodando-se na mesma cama. De manhã, sir Lancelote ergueu-se cedo e deixou sir Kay a dormir. Para armar-se, tomou da armadura e do escudo de sir Kay. Foi ao estábulo e também pegou o cavalo dele, despediu-se da castelã e partiu. Pouco depois, sir Kay acordou, dando por falta de sir Lancelote. Notou então que ele levara sua armadura e seu cavalo.

— Por minha fé, bem sei que ele irá maltratar alguns da corte do rei Artur; pois os cavaleiros vão ser atrevidos com ele, pensando ser eu, enganados por essa troca. Enquanto isso, graças à armadura e ao escudo dele, tenho certeza de viajar em paz.

E sir Kay partiu pouco depois, agradecendo à hospedeira.

Sir Lancelote cavalgou por longo tempo através de uma vasta floresta, [247] atingindo afinal uma planície cheia de rios e prados aprazíveis. Deu com uma extensa ponte, sobre a qual havia três pavilhões de seda e outros tecidos finos de diversos matizes. Por fora viu três escudos brancos presos a tocos de lança. Havia ainda compridas lanças encostadas aos pavilhões e três escudeiros postados junto a cada porta. Sir Lancelote passou por eles sem falar palavra alguma. Depois de ele ter passado, os três cavaleiros dos pavilhões comentaram que devia ser o pretencioso Kay, o qual, segundo eles, “julgava não haver cavaleiro tão bom quanto ele, embora o contrário fosse muitas vezes demonstrado”. Disse um dos três, que se chamava sir Gauter:

— Por minha fé, vou sair atrás dele e pôr à prova todo esse orgulho, e ver como me saio.

Sir Gauter armou-se, ajustou o escudo ao ombro, montou um vigoroso corcel e pegou na mão a lança. Galopou na direção de sir Lancelote e gritou quando chegou perto:

— Espera, altivo sir Kay, pois não passarás incólume.

Aí sir Lancelote deu a volta e cada um pôs sua lança em riste, e chocaram- se com toda a força. Sir Gauter quebrou a lança, mas sir Lancelote o derrubou com cavalo e tudo. Com sir Gauter caído, seus irmãos disseram entre si:

— Aquele cavaleiro não é sir Kay, pois é mais alto do que ele.

— Ouso apostar minha cabeça — disse sir Gilmere — , aquele cavaleiro matou sir Kay e lhe tomou o cavalo e os arneses.

— Quer seja assim ou não — disse sir Arnold, o terceiro irmão —, vamos logo montar em nossos cavalos e tratar de resgatar nosso irmão, que corre perigo de morte. Teremos trabalho bastante para enfrentar aquele cavaleiro, pois me parece pelo porte que é sir Lancelote, ou sir Tristão, ou então sir Pelleas, o bom cavaleiro.

Montaram sem demora os cavalos e alcançaram sir Lancelote, e sir Gilmere apontou para a frente a lança e correu contra ele, que logo o estendeu desmaiado no chão. Exclamou sir Arnold:

— Senhor cavaleiro, és homem vigoroso e suponho que mataste meus dois irmãos, pelo que meu coração se enche de mágoa contra ti. Se me fosse permitido, preservando minha honra, não disputaria contigo. Mas é preciso que faça minha parte, como eles fizeram. E, portanto, ó cavaleiro, põe-te em guarda. [248]

Investiram um contra o outro com grande ímpeto, e ambos partiram as lanças. Então sacaram as espadas e trocaram cutiladas denodadamente.

Nisso, sir Gauter ergueu-se e foi até sir Gilmere e o sacudiu:

— Levanta-te e vamos levar ajuda a nosso irmão, que resiste maravilhosamente àquele bom cavaleiro.

Saltaram sobre os cavalos e atacaram sir Lancelote. Ao vê-los aproximar- se, deu um rijo golpe em sir Arnold, fazendo-o cair do cavalo, e então deu combate aos outros dois irmãos, e com dois golpes os deitou por terra. Sir Arnold já se levantava, com a cabeça sangrando, tentando vir de novo contra sir Lancelote, que o exortou:

— Agora deixa ficar. Eu não estava longe quando foste armado cavaleiro, sir Arnold, e sei quão bom cavaleiro és e lastimaria matar-te.

— Agradeço-te muito por tua bondade. Atrevo-me a dizer, por mim e por meus irmãos, que não nos repugna render-nos a ti logo após ouvir teu nome, porque bem sabemos que não és sir Kay.

— Seja como for, cumpre que vos entregueis como prisioneiros à rainha Guenever no domingo de Pentecostes, dizendo ter sido sir Kay quem vos mandou a ela.

Eles juraram que assim seria feito e com isso sir Lancelote se afastou, enquanto cada irmão assistia o outro, o melhor que podia.

Atravessando uma floresta profunda, sir Lancelote foi ter a um vale, onde se deparou com quatro cavaleiros da corte de Artur, postados sob um carvalho: sir Sagramore le Desirous, sir Ector de Maris, sir Gawain e sir Uwain. Avistando sir Lancelote, julgaram por suas armas que fosse sir Kay. Disse sir Sagramore:

— Por minha fé, vou pôr à prova o vigor de sir Kay.

Tomou na mão a lança e veio na direção de sir Lancelote, que estava atento e soube logo de quem se tratava. Colocou a lança em riste e atingiu sir Sagramore com tanta violência que homem e cavalo despencaram por terra. Sir Ector se adiantou:

— Olá, companheiros! Podeis ver que pancada aquele ali é capaz de dar; é um cavaleiro muito mais corpulento que sir Kay jamais foi. Agora vereis se posso com ele. [249]

Pegou a lança e galopou sobre sir Lancelote, e este o feriu através do escudo e do ombro, jogando homem e cavalo por terra. E sua lança continuava inteira! Sir Uwain exclamou:

— Por minha fé, lá está um cavaleiro forte, e estou certo de que matou sir Kay. Com tamanha força, vejo que será difícil superá-lo.

E nisso agarrou sua lança e cavalgou na direção de sir Lancelote, que o reconheceu perfeitamente. Foi de encontro a ele em campo aberto e lhe deu tal pancada que o deixou atordoado, sem saber onde estava, por longo tempo. Era a vez de sir Gawain:

— Agora vejo bem que devo enfrentar esse cavaleiro.

Ergueu o escudo e escolheu uma boa lança, e sir Lancelote percebeu quem era. Então, deixaram os cavalos correr com todo o ímpeto e cada cavaleiro atingiu o outro no meio do escudo, mas a lança de sir Gawain espatifou-se, enquanto sir Lancelote carregou tão duramente que o cavalo do outro tombou de pernas para o ar. Sir Gawain penou para livrar-se do cavalo. Sir Lancelote passou por eles em marcha lenta, sorrindo:

— Deus dê alegria a quem fez esta lança, pois nunca tive melhor na mão.

Os quatro cavaleiros acercaram-se uns dos outros, tratando de confortar- se mutuamente. Disse sir Gawain:

— Que dizeis deste nosso convidado, que, com a mesma lança, derrubou a nós quatro?

— Que nós o encomendamos ao diabo, pois é homem de grande poder! — responderam os outros.

— Podeis bem dizer isso — retorquiu sir Gawain —, é homem possante, pois ouso apostar minha cabeça que é sir Lancelote. Sei que é ele por seu jeito de cavalgar. Deixai que se vá, pois quando voltarmos à corte saberemos.

E aí tiveram muito trabalho para arrebanhar os cavalos de volta.

Sir Lancelote continuava a embrenhar-se na floresta, quando viu um cão de caça preto, no rastro de um cervo ferido. Passou a cavalgar atrás do cão, que seguia uma longa trilha de sangue deixada no chão. O cão, olhando às vezes para trás, atravessou um brejo, com sir Lancelote sempre em seu encalço. Afinal, ele divisou um velho castelo, para o qual o animal se dirigiu, transpondo uma ponte velha e frágil, sobre a qual passou também sir Lancelote, a cavalo. [250]

Entrou em uma vasta sala e, no centro dela, viu jazer morto um cavaleiro de aparência digna. O cão se aproximara do cavaleiro, lambendo-lhe as feridas.

Veio então uma dama, chorando e torcendo as mãos, e falou a sir Lancelote: — Ó cavaleiro, demasiada aflição me trouxeste.

— Por que falas assim? Jamais causei dano a este cavaleiro; foi seguindo este cão, na pista de um rastro de sangue, que vim parar aqui. E, portanto, bela dama, não me queiras mal, pois muito sofro por teu sofrimento.

— Na verdade, senhor, sei que não és quem matou meu marido, pois quem praticou esse feito está gravemente ferido e não deverá recobrar-se, isso eu garanto.

— Qual era o nome de teu marido?

— Senhor, chamava-se sir Gilbert o Bastardo, um dos melhores cavaleiros do mundo. Já de quem o matou não sei o nome.

— Que Deus te traga consolo!

Partiu e, novamente na floresta, cruzou com uma donzela que o conhecia, e esta lhe disse em voz alta:

— Foi bom encontrar-te, meu senhor; e te solicito, por teu dever de cavaleiro, ajudares meu irmão que está seriamente ferido e não cessa de sangrar; pois hoje lutou com sir Gilbert o Bastardo e o matou em combate franco, do qual também resultou ferido. Uma dama feiticeira, moradora de um castelo próximo daqui, disse-me que as feridas de meu irmão não se fechariam até eu achar um cavaleiro que fosse à Capela Perigosa. Lá, deveria buscar uma escada e um pano manchado de sangue em que sir Gilbert está envolto. Um pedaço desse pano e a espada são necessários para curar os ferimentos, sobre os quais deverão ser passados de leve.

— Isto é coisa maravilhosa. Mas qual é o nome de teu irmão?

— Senhor, é sir Meliot de Logris.

— Lamento por isso, pois é um companheiro da Távola Redonda, e farei o que puder para ajudá-lo.

— Volta então, senhor, por esta mesma estrada, e ela te levará à Capela Perigosa; ficarei esperando até Deus trazer-te de novo aqui, e, a não ser que tenhas sucesso, não sei de nenhum cavaleiro vivo capaz de levar a cabo esta aventura. [251]

Sir Lancelote partiu de imediato e, chegando à Capela Perigosa, desmontou e atou o cavalo a uma cancela. Ao percorrer o átrio, notou junto à fachada da capela muitos ricos escudos colocados em posição invertida, muitos dos quais sir Lancelote vira outrora em mãos de cavaleiros. Nisso, viu em pé a cercá-lo uns trinta cavaleiros de porte elevado, com uma jarda a mais de altura do que qualquer homem que já vira, e todos o encaravam arreganhando os beiços e rangendo os dentes.

Temeroso diante da expressão deles, ergueu o escudo à frente e empunhou a espada, pronto para a luta. Eles estavam todos revestidos de arneses negros, com os escudos em posição e as espadas desembainhadas. Mas, quando sir Lancelote fez menção de avançar, eles recuaram para ambos os lados, abrindo passagem. E com isso ele se encheu de ousadia e entrou na capela. No interior escuro, iluminado apenas pela luz mortiça de uma lamparina, deu com um cadáver coberto por um pano de seda.

Sir Lancelote curvou-se e cortou um pedaço do pano, sentindo nesse momento como se o chão em que pisava tremesse um pouco, e isso o assustou. Viu então uma bela espada, depositada ao lado do cavaleiro morto. Pegou a espada na mão e apressou-se a sair da capela. Enquanto ainda atravessava o pátio, todos aqueles cavaleiros o intimaram, com voz horrenda:

— Cavaleiro sir Lancelote, larga essa espada ou morrerás!

— Quer eu viva ou morra, não é com palavras de ameaça que a tomareis de volta; portanto lutai por ela, se a quiserdes.

Então foi logo passando por eles. Na saída do átrio, uma donzela veio a seu encontro, dizendo:

— Sir Lancelote, deixa para trás essa espada, ou morrerás por ela. — Não a soltarei por coisa alguma!

— Se deixasses essa espada, nunca mais verias a rainha Guenever. — Então seria um louco se largasse a espada!

— Agora, gentil cavaleiro, requeiro de ti que me beijes uma única vez. — Não, que Deus me proíba!

— Bem, senhor, se me tivesses beijado teus dias de vida estariam acabados. Mas agora, que pena! Perdi todo o meu trabalho, pois havia preparado esta capela em tua intenção e na de sir Gawain. Uma vez tive sir Gawain em [252] minha companhia e, naquela ocasião, ele lutou com o cavaleiro que jaz morto na capela, sir Gilbert o Bastardo; foi então que decepou a mão de sir Gilbert. Sir Lancelote, agora te digo, eu te amei sempre nestes últimos sete anos, mas nenhuma mulher pode ter teu amor, salvo a rainha Guenever. Já que não conseguia o deleite de ter teu corpo vivo, não me restava outra alegria neste mundo senão a de ter teu corpo morto. Aí eu o teria embalsamado e cuidado para conservá-lo durante toda a minha vida, e diariamente iria abraçar-te e beijar- te, malgrado a rainha Guenever.

— Ainda bem que me contaste. Jesus me preserve de tuas artes enganosas!

E com isso pegou o cavalo e afastou-se dela. Diz-se que ela sentiu tanto desgosto com a partida de sir Lancelote, que morreu quatorze noites depois. Seu nome era Hellawes a feiticeira, dama do Castelo Nigramous.

Sir Lancelote apressou-se a reencontrar a irmã de sir Meliot. Quando ela o viu, bateu palmas e chorou de alegria. Cavalgaram até o castelo onde jazia sir Meliot. Mal sir Lancelote o viu, reconheceu-o, embora estivesse pálido como areia, de tanto que sangrara. E, ao ver sir Lancelote, sir Meliot ajoelhou-se e exclamou:

— Ò senhor sir Lancelote, ajuda-me!

Sem demora, sir Lancelote correu para ele e tocou nos ferimentos com a espada de sir Gilbert. E depois passou levemente o retalho do pano manchado de sangue em que sir Gilbert estava amortalhado. E de pronto sir Meliot ficou mais são do que nunca estivera antes na vida.

Houve então grande regozijo entre irmão e irmã, e os dois entretiveram sir Lancelote da melhor forma que puderam. De manhã, sir Lancelote despediu-se, e pediu a sir Meliot que não tardasse a ir à corte do rei Artur, pois a festa de Pentecostes se aproximava; se Deus quisesse, sir Meliot o encontraria lá. E com isso se separaram.

Lancelote cavalgou por muitas terras estranhas, através de pântanos e vales, até que a fortuna o trouxe a um belo castelo. Enquanto passava adiante, pareceu-lhe ouvir dois sinos a tocar.

Viu então um falcão, com longas presilhas nos pés, voando por sobre sua cabeça na direção de um olmo alto, onde pousou. As presilhas se emaranharam em um galho e, quando o falcão tentou alçar vôo, ficou preso pelas [253] pernas. Sir Lancelote viu o que acontecia com o belo falcão e teve pena dele. Nesse ínterim, saiu uma dama do castelo, exclamando:

— O Lancelote, Lancelote, como és a flor de toda a cavalaria, ajuda-me a recuperar meu falcão, pois se o perco meu senhor acabará comigo. Eu tomava conta do falcão quando ele me escapou. Se o senhor meu marido souber, impulsivo como ele é, irá matar-me!

— Qual é o nome de teu senhor?

— Senhor, o nome dele é sir Phelot, um cavaleiro a serviço do rei de Gales do Norte.

— Bem, bela dama, já que sabes meu nome e recorres a mim como cavaleiro para ajudar-te, farei o que puder para pegar teu falcão. Contudo, sabe Deus que não sou bom em subir em árvores, e esta é bastante alta e tem poucos ramos de que eu me possa servir.

Dizendo isso, sir Lancelote desmontou, atou o cavalo à árvore, e pediu à dama que o desarmasse. Uma vez desarmado, desembaraçou-se das roupas, conservando apenas calções e camisa, e trepou com esforço até o falcão. Amarrou as presilhas do falcão a um graveto e o atirou para baixo, fazendo o pássaro cair ao chão. A dama foi logo segurá-lo. Eis que, de súbito, saiu o marido, sir Phelot, de seu esconderijo por trás das moitas, todo armado e com a espada nua na mão, dizendo:

— O cavaleiro Lancelote, agora te encontro do jeito que eu sempre quis! E postou-se junto ao tronco da árvore para matá-lo. Sir Lancelote exclamou:

— Ah, dama, por que me traíste?

— Ela fez – disse sir Phelot — exatamente o que lhe ordenei, e portanto não tens saída: chegou tua hora de morrer.

— Seria vergonha para ti. Tu, um cavaleiro armado, matar por traição um homem desguarnecido!

— Não terás outra sorte. Trata de defender-te como puderes.

— Verdadeiramente, isso será tua vergonha. Já que não queres proceder de outra forma, guarda contigo meus arneses, mas pendura minha espada em um ramo de onde eu possa alcançá-la. E então faze o melhor que puderes para matar-me. [254]

— Não, não, pois te conheço mais do que imaginas. Não conseguirás arma alguma se eu puder evitar.

— Ai, que jamais tenha um cavaleiro de morrer sem armas!

E aí olhou para cima e para baixo, e, por sobre a cabeça, notou um galho grosso, sem folhas, e o quebrou rente ao tronco. Veio para mais baixo e observou onde estava seu cavalo. De repente, pulou para o outro lado, bem na frente do cavaleiro. Sir Phelot acutilou com vontade sobre ele, certo de o ter matado. Mas sir Lancelote desviou o golpe com o galho e bateu-lhe na parte lateral da cabeça, com o que ele caiu desmaiado no chão. Então, sir Lancelote tomou-lhe a espada da mão e cortou-lhe o pescoço. A dama gritou:

— Ai de mim, por que mataste meu esposo?

— Não sou eu o culpado, pois com vossa falsidade e traição me teríeis morto, o que agora recaiu sobre vós ambos.

Ela perdeu os sentidos como se fosse morrer. E sir Lancelote catou todas as peças de sua armadura e tratou de cobrir-se com elas, temendo mais algum ataque, já que o castelo do cavaleiro estava tão próximo. Logo que pôde, montou a cavalo e partiu, agradecendo a Deus por ter escapado ileso nesta aventura.

Sir Lancelote cavalgou por muitos caminhos selvagens e pantanosos. Ao cruzar um vale, viu um cavaleiro perseguindo uma dama, com a espada desembainhada, na intenção de matá-la. E, por sorte, quando o cavaleiro ia feri-la, ela gritou para sir Lancelote, implorando que a salvasse. Dando-se conta do malfeito iminente, ele cavalgou até colocar-se entre os dois, dizendo:

— Cavaleiro, que vergonha! Por que pretendes matar esta dama? Envergonhas a ti mesmo e a todos os demais cavaleiros.

— O que tens a ver com o que acontece entre mim e minha mulher? Eu a matarei malgrado tua opinião.

— Isso não farás, pois antes terás de haver-te comigo.

— Sir Lancelote, não tomas o partido certo, pois esta dama me traiu.

— Não é assim — disse a dama — , é errado o que ele diz de mim. Por eu ter afeto ao meu primo-irmão, ele sente ciúmes. Mas, como dou testemunho diante de Deus, nunca houve pecado entre nós. Senhor, que és chamado o mais afamado cavaleiro do mundo, eu te suplico por tua honra de [255] cavaleiro: protege-me e salva-me! Seja o que for que falares, ele irá matar-me, pois nunca perdoa.

— Não tenhas receio; desde agora isso está fora do alcance dele.

— Senhor — disse o cavaleiro —, diante de tuas vistas, procederei como determinares.

E assim sir Lancelote foi seguindo lado a lado com eles. Mal haviam começado a cavalgar, o cavaleiro fez com que sir Lancelote se virasse para olhar para trás:

— Senhor, lá vêm homens armados galopando em nossa direção!

Sir Lancelote voltou-se, sem desconfiar de traição. Com isso, a mulher e o cavaleiro ficaram lado a lado, e este, de súbito, decepou a cabeça de sua dama. Ao perceber o que ele fizera, sir Lancelote o invectivou:

— Traidor, tu me desonraste para sempre!

De pronto apeou do cavalo e sacou a espada para matá-lo, diante do que ele se jogou ao chão, abraçando as pernas de sir Lancelote e pedindo mercê. Lalou sir Lancelote:

— Que vergonha, ó cavaleiro despudorado, não mereces perdão! Portanto, ergue-te e luta comigo!

— Não, não me levantarei em caso nenhum até que me concedas mercê!

— Pois vou dar-te vantagem: tirarei a armadura, ficando apenas com minhas vestes e com a espada que tenho na mão. Se puderes matar-me, considera-te quites para sempre.

— Não, senhor, isso não farei nunca.

— Bem, então toma o corpo e a cabeça e carrega-os contigo, sempre sobre tuas costas. Conforme jurarás aqui sobre minha espada, seguirás sem descanso até chegares assim à rainha Guenever.

— Senhor, eu o farei pela fé de meu corpo. — Agora dize-me qual é teu nome.

— Senhor, meu nome é Pedivere.

— Em má hora nasceste.

Então Pedivere partiu com o corpo e a cabeça da dama morta. Encontrou a rainha com o rei Artur, em Winchester, e lá contou toda a verdade. Disse a rainha: [256]

— Senhor cavaleiro, foi um ato horrível e vergonhoso, além de gravemente vexar sir Lancelote, não fosse o grande mérito dele tão bem conhecido em tantos países diversos. Imponho-te como penitência, faze teu melhor para cumpri-la, que leves esta dama contigo a cavalo à presença do papa em Roma; dele receberás penitência por teus malfeitos. Até então, jamais descanses mais de uma noite no mesmo lugar. E, em qualquer leito em que deitares, o corpo morto há de jazer a teu lado.

Ele fez o juramento e então partiu. Segundo conta o livro francês em que este relato se baseia, quando ele chegou a Roma o papa o mandou de volta à rainha Guenever, ficando a mulher sepultada em Roma, também por ordem do papa. E depois disso sir Pedivere foi tomado de uma grande bondade, tornando-se um ermitão e um homem santo.

Quanto a sir Lancelote do Lago, sabemos que regressou à corte do rei Artur dois dias antes da festa de Pentecostes, e o rei e todos na corte ficaram mais do que felizes com sua chegada. Quando sir Gawain, sir Uwain, sir Sagramore e sir Ector de Maris viram sir Lancelote coberto com a armadura de Kay, perceberam enfim quem de fato os havia desmontado a todos com uma única lança, e isso lhes causou alívio e provocou risadas entre eles. Foram também chegando, um por um, os cavaleiros que sir Turquin havia aprisionado, e cada qual homenageava e manifestava sua admiração por sir Lancelote. Ouvindo-os falar, sir Gaheris acrescentou:

— Vi toda a batalha do início ao fim.

E contou ao rei Artur como fora travada, com todos os detalhes, afirmando que sir Turquin era o mais forte cavaleiro que jamais vira, exceto sir Lancelote. E foram muitos os cavaleiros presentes a confirmar seu testemunho, cerca de uns sessenta. Em seguida, sir Kay contou ao rei como sir Lancelote o resgatara quando estava para ser morto:

— E fez aqueles cavaleiros se renderem a mim, e não a ele, que os vencera. E todos os três, que ali estavam, deram sua confirmação. Sir Kay acrescentou:

— E, por Jesus, porque sir Lancelote revestiu-se de meus arneses e deixou-me os dele, cavalguei em paz, ninguém ousando meter-se comigo. Entraram então os três cavaleiros que haviam lutado com sir Lancelote no pontilhão. Foram entregar-se a sir Kay e este não os deixou ajoelhar-se, negando que alguma vez os enfrentara. [257]

— Mas vou tranqüilizar vossos corações: lá está sir Lancelote, que vos subjugou.

Ao se darem conta do fato, ficaram mais alegres. E então foi a vez de sir Meliot de Logris entrar na corte, e contar ao rei como sir Lancelote o salvara da morte.

E todas as suas demais proezas foram reveladas: como quatro rainhas feiticeiras o mantiveram cativo e como foi libertado pela filha do rei Bagdemagus; seus grandes feitos d’armas no confronto entre os dois reis, ou seja, do rei de Gales do Norte contra o rei Bagdemagus — toda a verdade sobre isso sendo contada por sir Gahalantine, sir Mador de la Porte e sir Mordred, que haviam pirticipado do torneio. Então veio a dama que conheceu sir Lancelote quando este feriu sir Belleus no pavilhão. E, a pedido de sir Lancelote, sir Belleus foi feito cavaleiro da Távola Redonda.

Assim, naquele tempo, sir Lancelote tinha o nome mais ilustre entre os cavaleiros do mundo, e acima dos demais o honravam todos, grandes e pequenos.

Notas

Lancelote do Lago é o mais conhecido dentre os cavaleiros da Távola Redonda, principal servidor do rei Artur e seu amigo devotado — e ao mesmo tempo rival, pelo amor da rainha.

Quanto a Artur, apesar de vários estudiosos defenderem com entusiasmo teses sobre um “Arthur” ou “Artorius” histórico, talvez não um rei mas pelo menos chefe militar (“dux bellorum”, senhor da guerra), o fato é que nenhum deles logrou reunir provas realmente convincentes. Artur teria liderado os bretões, povo de origem celta, em suas últimas tentativas bem-sucedidas de evitar que a Grã-Bretanha fosse invadida pelos saxões e outros bárbaros germânicos, como afinal aconteceu. A História dos Bretões, pseudo-crônica bretã do século IX, atribuída a um certo Nemius, a que se costuma anexar os Anais de Câmbria (nome antigo de Gales), credita a Artur doze batalhas vitoriosas, entre as quais a de Badon, no ano 516 e.c., e assinala sua morte na batalha de Camlann, em 537. Mas nem mesmo dessas batalhas há registro histórico reconhecido. Lord Raglan mostrou, inclusive, que a pretensa biografia de Artur se encaixa bem em seu padrão de heróis lendários:

Sua mãe, Igraine, é de sangue nobre, e seu pai — se ele fosse filho legítimo — seria o duque da Cornualha. Entretanto, ele é dito ser filho do rei Uther Pedragon, que visita Igraine sob a aparência do duque. Ao nascer, embora aparentemente não corra perigo, é retirado do convívio dos pais e [225] educado por sir Ector em local distante. Não ouvimos nada sobre sua infância, mas, ao atingir a idade adulta, viaja para a capital do reino, obtém uma vitória mágica ao retirar uma espada da pedra em que estava cravada, e em virtude disso é proclamado rei. Depois de outras vitórias, casa-se com Guenever, e, como dote, recebe do pai dela a Távola Redonda. Depois disso, reina com tranqüilidade e prescreve as mais reputadas leis da cavalaria, porém mais tarde ocorre uma conspiração contra ele, enquanto está ausente, combatendo contra o Império Romano. Há um mistério sobre sua morte, de vez que, tendo sido ferido mortalmente, é transportado para Avalon, terra das fadas. Aquele que o sucede no trono não é seu filho. Seu corpo não teria sido sepultado, conforme a crença de que um dia ele voltaria a reinar, mas ainda assim lhe atribuíam um sepulcro em solo consagrado em Glastonbury.

Lancelote, por sua vez, é sem dúvida personagem de ficção. Foi criado pelo escritor francês Chrétien de Troyes. Em seu romance de cavalaria, em versos, intitulado O Cavaleiro da Carreta (1177), Chrétien nos conta como Lancelote libertou sua idolatrada rainha Guenièvre (em inglês, Guenever) do seqüestrador Méliagant e a devolveu a Artur. A estrutura da narrativa lembra a do clássico sânscrito Ramayana, em que também é descrita, com várias semelhanças, a expedição de um herói, o príncipe Rama, para resgatar a mulher amada em terra estranha.

Para Chrétien, Lancelote não era o principal entre os cavaleiros do rei Artur. Gawain, sobrinho do rei, e Érec viriam antes dele. Lancelote ganharia o primeiro lugar nos romances em prosa que vieram depois, em particular na chamada Vulgata Arturiana. Nessa obra, jádo século XIII, apenas no curso da busca do Graal Lancelote seria superado — pelo filho, Galaad. O caso com Guenever o teria tornado indigno de empreender tão elevada missão espiritual.

Lemos na Vulgata Arturiana sobre os primeiros anos do herói. O pai de Lancelote, o rei Ban de Benoic (ou Benwick), fora morto durante o período conturbado entre a morte de Uther e a coroação de Artur. O menino teria também sucumbido ao massacre se não fosse arrebatado por Niniane, a Dama do Lago, que o criou em seus domínios, ocultos por encantamento no fundo de [226] um lago — tudo isso servindo para explicar por que o chamavam Lancelote do Lago. Atingindo a idade adulta, é armado cavaleiro na corte de Artur em Camelot e recebe a espada das mãos de Guenever; daí em diante, será sempre o cavaleiro da rainha. Por amizade a Lancelote, o rei Galehaut, inimigo de Artur, faz as pazes com ele. Galehaut revela depois a Guenever que Lancelote a ama sem ousar confessar seus sentimentos. Lancelote e Guenever trocam o primeiro beijo. Tornam-se amantes, conseguindo no início manter em segredo seus encontros.

Os anos finais seriam tristes. Guenever é condenada à morte por Artur, diante da denúncia de sua ligação com Lancelote. Este a salva da fogueira e exila-se com ela em seu castelo, sofrendo então o assédio militar de Artur. Foi necessária a intervenção do papa, que fez cessar as hostilidades, determinando ao rei aceitar Guenever de volta como rainha. Mais adiante, quando o traidor Mordred tenta seduzi-la, ela escapa, refugiando-se em uma torre. De lá sai para ingressar em um convento, já durante a luta final entre Artur e Mordred, no curso da qual a não participação do invencível Lancelote é grandemente sentida. Ele deveria sobreviver ao rei e à rainha, transcorrendo seus últimos dias em penitência e orações em um eremitério.

A Vulgata Arturiana foi provavelmente o texto que mais influenciou A Morte de Artur (1485), do inglês sir Thomas Malory, até hoje a mais importante referência sobre o lendário rei. No relato de Malory, do qual foi tirada a seqüência de aventuras narradas (…), lê-se que Lancelote “prevaleceu sobre os demais cavaleiros e em nenhuma ocasião foi vencido, salvo por traição ou encantamento”. A frase dá a entender que o critério de Malory era bem simples: o melhor cavaleiro é aquele capaz de derrotar cada um dos outros em combate singular. Para estabelecer seu nome nessa hierarquia de quem vence quem, cada cavaleiro viveria procurando oportunidade de enfrentar os outros. Em um torneio em que cavaleiros do rei Artur defendessem um lado, nada impediria Lancelote de lutar pelo outro. Isso não é apontado como traição no texto, é apenas mais uma ocasião de “pôr-se à prova”.

O rei Artur saía algumas vezes em guerra, como aquela empreendida contra o Império Romano. Nessas ocasiões, seus cavaleiros participavam lealmente das batalhas campais, certamente mais sérias do que os habituais combates [227] singulares, pois o objetivo passava a ser a defesa do reino. Mas tem-se a impressão de que eles não viam a hora de regressar. Lemos de fato em Malory como, terminada a guerra contra Roma, os cavaleiros da Távola Redonda estão de volta à Inglaterra, felizes de poderem dedicar-se de novo a justas e torneios, além de jogos e caçadas. Pouco tempo depois, o mais valoroso entre eles, sir Lancelote do Lago, sente que isso não lhe basta e decide sair à procura de aventuras…

Ao nos fazer acompanhar Lancelote, Malory nos dá a melhor ilustração possível da figura do cavaleiro andante, que sai cavalgando sem propósito definido, para o que der e vier, sempre disponível para atender aos apelos de quem cruza seu caminho, especialmente damas e donzelas indefesas. Nos romances de cavalaria, é esse exatamente o conceito de “aventura”, incidente maravilhoso em que qualquer coisa pode acontecer. E o que acontece não são apenas os combates entre os cavaleiros. A todo momento o mundo real é invadido pelo mundo fantástico, com seus magos, gigantes, fadas, feiticeiras e encantamentos. [228]


Referência

FURTADO, Antônio L. Lancelote (Inglaterra). in:__________. História da Antiguidade Oriental. 10ª Ed.Petrópolis/RJ: Vozes, 2006. Cap. 11. p. 225-257.

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