Topiltzin, o rei sacerdote

Topiltzin, o rei sacerdote

Rosana Rios


Dizem que o rei Tolteca Tecpancaltzin tornou-se de amores por Xochitl, donzela com quem nunca poderia se casar. O rei, porém, desprezou o tabu: e de seu amor proibido nasceu Topiltzin, cujo nome significa “nosso jovem príncipe”. A lei dizia que, ao completar 50 anos, Tecpancaltzin deveria passar o trono ao filho; e ele o fez, porém indicando dois corregentes para dividir o trono: Cuautli e Maxlatzin. Com isso, ele pretendia aplacar os deuses, por ter tido um filho com a donzela proibida. Portanto, segundo essa estória, Topiltzin se tornou rei aos 15 anos. A partir daí, o mito se confunde com a história e com muitas outras lendas.

Uma versão diz que o reinado triplo não foi bem-sucedido, pois nos anos seguintes quatro calamidades caíram sobre a região: secas prolongadas, terremotos, tempestades destruidoras e chuvas de granizo devastadoras. Muitos consideraram que essa era a resposta dos deuses à quebra do tabu por Tecpancaltzin, assim castigando seu povo. Uma outra versão, contudo, diz que o pai de Topiltzin teria sido assassinado antes de seu nascimento, e que sua mãe morreria no parto; um usurpador se apossaria do trono e que por [139] isso, ao crescer, o herdeiro legítimo decidiu buscar a purificação e as boas graças dos deuses, retirando-se para as montanhas. Lá, ele passaria sete anos, isolado em penitência, praticando o ritual do sangramento e pedindo que os seres divinos o tornassem um grande guerreiro para retomar o trono.

Mas todas as versões concordam que Topiltzin assumiria o reino e seria grande, o maior líder dos Toltecas. Logo após o início de seu reinado, ele partiria da terra de seus pais com todo o povo.

No caminho, venceria muitas batalhas e conquistaria várias cidades. Depois se fixaria nas ruínas de Tollán, ou Tula, cidade que alguns acreditam ter sido parte da cultura Teotihuacana.

Sob o domínio dos Toltecas, Tollán se tornou memorável. Cresceria em paz e abundância, tornando-se a Cidade Sagrada por excelência.

Topiltzin, já reverenciado como senhor da guerra, transformou-se num famoso sacerdote, criando novas formas de honrar os deuses: através de um sistema religioso Tolteca reformulado, ele instituiu o culto da Serpente.

Todos os sacerdotes deviam manter o celibato e evitar bebidas intoxicantes, seguindo o exemplo de seu líder. O sangramento ritual de si mesmos também era considerado uma forma de se purificar e buscar a elevação do espírito.

Com isso, foram abandonadas muitas das tradições passadas, pois Topiltzin proibiu os sacrifícios humanos. A partir daí, só eram permitidos nos templos de Tollán o sacrifício de animais. Conta-se que o centro cerimonial em Tollán tinha quatro templos recobertos de joias, associados a quatro regiões cósmicas: Tlacopãn, ao Leste, o Local da Aurora, de [140] cor amarela; Moctilampa, ao Norte, a Região do Mundo Subterrâneo, vermelha; Cihuatlampa, ao Oeste, a Região das Mulheres, azul-esverdeada; Huitzlampa, a Região dos Espinhos, ao Sul, branca. Dizia-se ainda que Topiltzin realizava sacrifícios rituais em quatro montanhas que cercavam a cidade e que lá podia se comunicar com o grande deus Ometéotl.

Seu reinado foi tão pacífico e cheio de prosperidade que ele foi considerado um deus, e até hoje é chamado Topiltzin-Quetzalcoatl, unindo ao seu o nome da grande divindade, a Serpente de Plumas.

Alguns registros dizem que o soberano e sacerdote reinou por 42 anos, e que depois disso a falta de sacrifícios humanos fez com que o malvado Deus Tezcatlipoca, o Deus do Espelho Obscuro, descesse à Terra para trair Topiltzin-Quetzalcoatl e encerrar seu reino de paz e de harmonia.

Nesse ponto, mais uma vez, a história do rei sacerdote se confunde com a estória do deus emplumado. Uma narrativa diz que, enganado por Tezcatlipoca, o rei de Tollán se embriagou e quebrou seu voto de celibato; quando o efeito do álcool passou e ele viu o que fizera, partiu, envergonhado, em expiação.

Percorreria muitos lugares, levando ensinamentos e civilização a povos que encontrava pelo caminho, até que, ao alcançar o mar, ele acenderia uma fogueira ritual para deixar-se queimar no fogo, numa purificação final. De suas cinzas, entre uma revoada de pássaros, surgiu a Estrela-da-Manhã (o planeta Vênus), em que ele se transformou para, lá do alto, zelar por seu povo.

Uma outra estória conta que, perseguido por Tezcatlipoca, Topiltzin-Quetzalcoatl fugiu à procura de Tlapallán, uma outra cidade sagrada. [141]

Ele demoraria quatro anos em peregrinação até chegar lá; mas morreria no dia seguinte à sua chegada.

Acredita-se que o povo Tolteca foi conquistado ou absorvido pelos Astecas [provalmente já não mais existiam no momento da chegada dos astecas]; e a recordação da grandeza lendária de Topiltzin era tanta que muitos soberanos astecas, os tlatoanis, diziam ser seus descendentes. Porém, o banimento dos sacrifícios humanos não durou e muitas criaturas ainda seriam sacrificadas até que o Império Asteca caísse, com a invasão dos conquistadores espanhóis.

Povo Tolteca

É dito que o nome Tolteca não se refere a uma etnia, mas a uma cultura; significaria “artífice”, “construtor”. Esse povo teria se originado dos Náuatle ou Nahua e teria se instalado no vale do México por volta do ano 900. Sua capital, Tollén ou Tula, ficava a uns 80 quilômetros ao Norte de onde hoje está localizada a Cidade do México.

Era realmente um povo de artífices, pois fundiam metais, fabricavam papéis para a escrita, possuíam técnicas de tecelagem e tingimento. Seus conhecimentos astronômicos eram admiráveis. Sua cerâmica, chamada mazapa, também foi notável.

Há registros de que o último soberano Tolteca tenha sido Topiltzin, mas há outros que dizem ter sido um rei chamado Huemac, que teria fugido para Chapultepec no século XII, após uma guerra. De qualquer forma, as escavações arqueológicas revelam que a cidade de Tollán foi abandonada pelos Toltecas e posteriormente ocupada pelos Astecas; na verdade, grande parte da cultura e da mitologia desses dois povos se confunde, e acredita-se que os Astecas, com seu grande Império, provavelmente absorveram os descendentes das populações que viveram anteriormente nas várias regiões do México. [142]

Referência

RIOS, Rosana. Topiltzin, o rei sacerdote. in:__________. América Mítica: Estórias fantásticas de povos nativos e Pré-Colombianos. São Paulo/SP: Besouro Box, 2013. p.140-142.

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