Os mitos de Creta

Os mitos de Creta

Alice Mills


Os mitos gregos de Creta falam de um reino contemporâneo das famílias reais de Tebas e Atenas, mas com poderes superiores aos reinos da Grécia continental. Existem provas arqueológicas que sugerem que estes mitos de Creta lançam um olhar retrospectivo para um reino que já existia muito antes de Tebas, Micenas ou Atenas se terem tornado cidades poderosas.

A civilização cretense, também conhecida como minóica, designação derivada do rei mítico Minos, prolongou-se por 1500 anos mas entrou em declínio após a erupção vulcânica de Thera, por volta de 1450 a.e.c. Os cretenses adoravam uma deusa mãe e peças de cerâmica que chegaram até aos nossos dias mostram homens jovens a executar uma dança com um touro, talvez em homenagem à deusa. As memórias desta dança com o touro, distorcidas ao longo de gerações, podem ter contribuído para a história do Minotauro cretense.

MINOS E O MINOTAURO

Minos era um dos três filhos de Zeus (Júpiter) e de Europa. Tornou-se rei de Creta, após uma luta pelo poder travada com os irmãos. «Manda-me um touro dos mares», pedira Minos a Posídon (Netuno), «para confirmar que tenho o direito de reinar.»

Um magnífico touro branco nadou até às costas de Creta, onde Minos deveria ter sacrificado em honra do deus do mar, mas ele ficou tão embevecido com o touro que não pôde suportar a ideia de o matar. Manteve-o por isso entre o seu gado e sacrificou um animal inferior em seu lugar, esperando que Posídon não desse conta da diferença.

Mas Posídon não era parvo e também não tardou a vingar-se. A rainha Pasífae, mulher de Minos, também reparou na beleza magnífica do touro branco, pelo que Posídon pediu a Afrodite (Vênus), a deusa do desejo, para atiçar em Pasífae o desejo do animal, e ela tornou-se obcecada pela ideia de manter relações sexuais com o bicho, mas corria o risco de ser pisada e esmagada, caso se aproximasse do touro sem qualquer proteção, pelo que recorreu ao inventor grego Dédalo, para encontrar uma solução. Este construiu uma vaca de madeira dentro da qual Pasífae se poderia ocultar, qualquer coisa como uma miniatura do cavalo de Tróia, e o touro foi enganado com o estratagema. Pasífae ficou grávida do touro e nove meses depois deu à luz um filho, Astério. Este nome em grego significa «estrelado», só que ele nasceu com a cabeça e o torso superior de um touro e a parte inferior com a forma de homem, e era vulgarmente conhecido pela alcunha o Minotauro (que em grego significa «o touro de Minos»). O rei Minos sentia-se envergonhado e ultrajado com o nascimento do monstro e quis escondê-lo dos habitantes da ilha. Pediu por isso a Dédalo para construir um labirinto em Knossos, um espaço enorme, subterrâneo, com uma porta fechada a cadeado e que era a única entrada e saída. Minos esperava que o Minotauro aí vivesse em total segredo. Entretanto, Pasífae recuperou do desejo louco que Afrodite lhe tinha imposto e voltou a ser uma esposa fiel. O rei e a rainha continuaram assim a ter outros filhos, entre os quais duas moças, Ariadne e Fedra, e um rapaz, Andrógeo. Este último viria mais tarde a deslocar-se a Atenas, para tomar parte em jogos atléticos, conquistando todos os títulos. O rei de Atenas, Egeu, começou a suspeitar que este campeão não era só um atleta mas também um apoiante dos rebeldes que estavam a causar problemas no reino. Pelo que lhe armou uma emboscada, quando ele regressava a casa, de que resultou a sua morte às mãos dos homens de Egeu. Este crime viria a ser o ponto de partida para uma guerra entre Atenas e Creta, que viria a terminar com a derrota dos atenienses. A punição foi o fornecimento de sete rapazes e sete moças, de nove em nove anos. Toda a gente sabia que estes jovens atenienses estavam condenados a serem comidos pelo Minotauro.

DÉDALO E ÍCARO

Após Dédalo ter construído o intrincado labirinto em Creta, Minos aprisionou-o juntamente com o filho ícaro numa torre. A intenção era manter secreta a existência do Minotauro, mas mesmo sabendo dos mexericos que grassavam por todo o lado, a principal razão para o secretismo era o desejo de deter o escândalo acerca da mulher Pasífae e o touro.

A torre onde Minos tinha aprisionado Dédalo e o filho era bastante alta e eles encontravam-se no cimo. As escadas eram mantidas permanentemente sob vigilância, pelo que o rei estava seguro de que não poderiam fugir e por isso também não se preocupou com grilhões.

Dédalo olhou à volta do espaço para ver se descortinava alguma forma de fugir. Tinha com ele pedaços de cera e nos cantos da sala havia folhas e penas arrastadas pelo vento para dentro da janela. A torre nunca tinha sido limpa desde a sua construção.

Dédalo juntou as penas e fez dois pares de asas com elas, colando-as com a cera. Escolheu para ele o par maior e deu o outro a Ícaro. «Tem cuidado», recomendou ele ao filho. «Tens de seguir perto de mim. Não podes aproximar-te do mar, pois cairás se as penas se molharem; também não poderás aproximar-te do Sol, porque cairias se a cera aquecesse e derretesse.»

Pai e filho passaram pela janela e voaram para fora da torre. Os cretenses que os viam pensavam que eram deuses imortais. Passaram a voar sobre muitas das ilhas gregas e ícaro começou a ficar aborrecido com o ritmo lento que o pai impunha assim como a altura sem variações a que seguiam. Certamente, pensou com os seus botões, o pai não daria conta se ele tentasse fazer umas manobras com as suas esplêndidas asas.

Começou a fazer vôos picados e saltos mortais pelos céus, cada vez voando mais alto, até ficar demasiado perto do Sol. A cera derreteu num instante o que fez com que se precipitasse no mar onde se afogou. Quando o pai olhou para trás, já só viu uma série de penas a flutuar na água. E foi assim que o maior inventor, Dédalo, ajudou o filho a encontrar a liberdade, mas também a morte.

Anos mais tarde, Minos tentou forçar Dédalo a regressar a Creta, mas como não sabia para onde ele tinha ido, forjou um plano para o encontrar que era digno do próprio Dédalo. Minos ofereceu uma recompensa a quem conseguisse passar um fio por uma concha em espiral, desde a abertura até à ponta, convencido de que só Dédalo seria suficientemente inteligente para resolver a questão.

Dédalo fez um furo na ponta da concha e besuntou-o com mel. Depois atou o fio numa formiga grande que enfiou pela abertura da concha e esta lá encontrou o caminho para chegar ao mel, arrastando consigo o fio. O rei da Sicília recebeu o prêmio e acabou depois por confessar a Minos que, na realidade, o problema tinha sido resolvido pelo hospede, um grande inventor. Minos dirigiu-se à Sicília em busca de Dédalo, mas as filhas do rei siciliano não quiseram perder a companhia do amado hospede e atiraram com Minos para dentro de um banho onde o viriam a matar. A última invenção de Dédalo para Minos foi um tubo que partia do telhado por cima da banheira onde ele se encontrava e através do qual as princesas verteram água a ferver até que o reide Creta morreu.

TESEU E ARIADNE

Quando chegou a Atenas como um herói, Teseu não sabia nada dos reféns que estavam a ser enviados para Creta para morrerem, mas notou de imediato que as pessoas da cidade estavam mais ansiosas do que o normal e que no palácio tinham lugar rituais pesarosos. Quando lhe foi contado o que se passava, tomou logo a decisão de ajudar, pelo menos assumindo o lugar de um dos reféns que estavam para partir. Egeu esforçou-se desesperadamente para o convencer a não ir, mas Teseu anunciou a decisão na praça do mercado e, uma vez tornada pública, o rei tinha mesmo de o enviar para Creta.

«Não te atormentes mais», disse Teseu, «eu prometo trazer todos os reféns de volta em triunfo, juntamente com a cabeça do Minotauro.» A sua afirmação foi tão convincente que Egeu lhe deu umas velas brancas para equipar o barco na viagem de regresso. Até então, o barco que fazia a ligação entre Atenas e Creta com a sua carga infeliz era equipado com velas negras, que significavam morte e luto. Agora, Egeu ousava esperar que veria o barco regressar com velas brancas de felicidade.

Durante a viagem, Teseu disse ao capitão do navio que tanto ele como os seus homens tinham de pernoitar em Creta prontos a partir a qualquer momento. O barco chegou ao porto de Creta e o rei Minos foi a bordo inspecionar os reféns acompanhado pela mulher e pela filha Ariadne.

A princesa apaixonou-se por Teseu mal o viu e, quando seguiam em procissão para o palácio, aproveitou uma oportunidade para lhe sussurrar ao ouvido:

«O Minotauro é meu meio-irmão, mas se quiseres casar comigo, ajudar-te-ei a matá-lo.» Teseu concordou com um aceno de cabeça e uma grande satisfação; a sorte, como habitualmente, traçava-lhe o caminho, ou seria obra da dourada Afrodite, a deusa do desejo, a quem ele tinha feito um sacrifício mesmo antes de partir de Atenas?

Através do labirinto 

Ariadne arranjou uma forma de Teseu assinalar o percurso através do escuro labirinto de modo a que pudesse encontrar o caminho para a saída após acabar com o Minotauro. Ela deu-lhe um novelo de fio e disse-lhe para atar a ponta à porta. O fio iria sendo desenrolado à medida que ele fosse andando pelo Labirinto, e para encontrar o caminho de volta, só tinha de seguir o fio pois este levá-lo-ia à saída. À noite, os reféns foram levados para a entrada e empurrados, um a seguir ao outro, para a escuridão que cheirava a carnificina. Teseu conseguiu atar o fio de Ariadne à porta mal ela foi fechada e ordenou aos atenienses para se manterem ali e não se porem a andar, o que faria com que se perdessem, enquanto ele ia penetrar no Labirinto, encontrar o monstro e matá-lo. Não dispunha de qualquer arma, evidentemente, e foi tateando na escuridão, parando e escutando a cada curva do labirinto. Por fim, ouviu o Minotauro, que aguardava pacientemente pela primeira vítima para começar a espalhar o pânico e a gritaria. Teseu travou a sua mais dura luta, no escuro, de mãos vazias, contra um inimigo munido de chifres aguçados, mas o Minotauro tinha-se habituado a dar-se por satisfeito com a sua limitada dieta de atenienses aterrorizados e julgou mal este oponente. Assim, Teseu conseguiu atirá-lo ao chão, pegar-lhe pelos chifres e torcer-lhe a cabeça até lhe partir o pescoço.

Ariadne roubou a chave do labirinto e aguardava com a porta aberta, juntamente com os reféns atenienses, que Teseu chegasse agarrado ao fio. Correram todos para o porto e saltaram para dentro do navio que se fez à vela rumo a Atenas.

O capitão e a tripulação não perderam tempo enquanto aguardaram no porto. Aproveitaram a escuridão para fazer buracos na maior parte dos navios cretenses, tendo deixado uns poucos que ainda ficaram em condições de navegar. Alguém deu o alarme e os habitantes de Creta precipitaram-se para os seus barcos para evitar que Teseu partisse, mas no meio de uma grande confusão só uns poucos conseguiram chegar perto do barco ateniense, mas foram incapazes de o impedir de seguir o seu rumo.

Foi uma viagem tranquila e, passados poucos dias, Teseu e Ariadne chegaram à ilha de Naxos. Ariadne adormeceu à beira-mar e Teseu rastejou silenciosamente para dentro do barco e partiu. Ninguém sabe por que razão ele a abandonou.

Ter-se-ia arrependido da promessa de casar com ela? Terá recebido instruções de Dioniso (Baco) que planejava desposá-la? Ou estaria ele farto dela após meia dúzia de noites de prazer, e até já andasse em perseguição de outra mulher? Fosse qual fosse a razão, a surpresa e o desgosto de Ariadne ao acordar, não duraram muito.

Ela pediu ajuda aos deuses e Dioniso apareceu de imediato com os companheiros de vadiagem, pronto a casar com ela na hora. A coroa que ela usou neste casamento viria depois a ser posta nos céus como Coroa Boreal.

Teseu navegou para Atenas sem ela. No tumulto das aventuras, Teseu esqueceu-se de mudar as velas pretas para brancas, pelo que Egeu, que aguardava a sua chegada do cimo da Acrópole, um alto rochedo com lados em precipício, viu as velas pretas e, julgando que o filho
tinha morrido, atirou-se da Acrópole para a morte e é
em homenagem a ele que o Mar Egeu tem o seu nome. 

Referência

MILLS, Alice. A era clássica. in: CHEERS, Gordon.(org.) Mitologia: Mitos e lendas de todo o mundo.Lisboa/PT: Caracter Editora, 2011. Cap. 1. p.156-161.

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