A maldição da casa de Tântalo

A maldição da casa de Tântalo

Alice Mills


A Guerra de Tróia, a última grande reunião dos heróis da mitologia grega, teve muitas causas. Foram as queixas recentes que levaram a armada grega até Tróia, mas também causas que recuam uma geração e outras que exigem um retrocesso até aos primórdios da humanidade, quando os deuses e os homens se misturavam mais livremente.

As causas da Guerra de Tróia podem ser procuradas tão para trás até chegar a Tântalo, um filho dos Titãs anterior às guerras que fizeram com que Zeus (Júpiter) passasse a ser o rei dos deuses. Tântalo era rei da Lídia e tinha três filhos: Pélops, Níobe e Bróteas, e todos eles ofenderam os deuses. Níobe era uma mulher que se considerava superior a uma deusa na sua abundância de filhos, e acabou transformada numa pedra. Bróteas teve um destino ainda pior e o comportamento de Pélops redobrou as ofensas que Tântalo tinha feito aos deuses.

Os problemas começaram quando Tântalo abusou da confiança que Zeus tinha depositado nele, pois era um convidado frequente para os banquetes do Olimpo e apreciava um pouco demais o delicioso sabor da ambrosia, tendo roubado alguma da comida dos deuses para partilhar com os amigos. Este foi um ato insensato, que Zeus poderia ter ignorado por amizade, mas quando Tântalo convidou os deuses para uma festa no seu palácio e cozinhou o corpo do próprio filho Pélops para lhes servir, cometeu um crime contra as leis dos deuses e dos homens, e este ato monstruoso não podiaser ignorado. Ninguém sabe com certeza se ele preparou esta horrenda festa na esperança de agradar aos deuses imortais, ou se estava a testar os limites do conhecimento de Zeus. A estranha carne deixou os deuses aterrados e instantaneamente reconheceram-na como sendo humana e recusaram-se a comer – todos eles à exceção de Deméter (Ceres) que continuava à deriva em busca da filha, Perséfone (Proserpina) e, por isso, comeu o ombro esquerdo de Pélops com o espírito totalmente ausente.

Zeus atingiu Tântalo com o seu raio e puniu-o para além da morte, ao pendurar o seu corpo numa árvore de fruto que pendia sobre um ribeiro. Tântalo tinha sofrido de sede, com a água a correr ao seu alcance, mas quando se debruçava para beber, ela retrocedia fugindo-lhe das mãos. Tinha desejado comer a fruta, que era abundante, mas quando se esticou para a apanhar, os ramos afastavam-se do seu alcance. Tântalo é o símbolo da frustração e o seu destino continua a ser celebrado na palavra «tantalizante.»

Zeus ordenou a Hermes (Mercúrio) que apanhasse todos os pedaços da criança assassinada e que voltasse a cozê-los no caldeirão. Em seguida, o rei dos deuses usou os seus poderes divinos para reconstituir Pélops mas faltava-lhe o ombro, Deméter criou um novo feito em marfim e ele foi o rei seguinte da Lídia.

O seu corpo reconstituído era tão belo que Posídon (Neptuno) se apaixonou por ele e levou-o para o Olimpo como seu copeiro.

O outro filho de Tântalo, Bróteas, era um grande caçador e seguiu o exemplo do pai ao desafiar os deuses. Recusou-se a venerar Ártemis (Diana), a deusa da caça, e como castigo, ela enlouqueceu-o. Chegou ao ponto de acreditar que era invencível ao fogo e saltou para cima de uma pira para o provar. As chamas consumiram-no, reforçando a terrível lição da morte de Tântalo, de que os deuses destroem quem os ofende. Apesar de ter estes dois exemplos presentes e da sua própria morte e reconstituição, Pélops não se portou melhor que o pai e o irmão.

UMA PRAGA SOBRE A CASA DE PÉLOPS

Pélops perdeu o reino que lhe foi retirado pelos bárbaros e andava em busca de novo para o conquistar. Também procurava uma mulher e escolheu a princesa Hipodamia, filha do rei Enómao, da Arcádia.

Este estava relutante em deixar casar a filha, talvez porque ele próprio secretamente a desejasse, pelo que combinou uma corrida de carros em que cada concorrente tinha de competir com o rei.

O prêmio seria Hipodamia e o preço do perdedor seria a morte. O rei estava preparado para dar um avanço generoso aos pretendentes e até permitiu que a filha fosse nos seus carros, mas estava seguro da vitória porque os cavalos dele tinham sido um presente de Ares (Marte) e corriam mais depressa que o vento.

Enómao tinha já matado pelo menos 12 pretendentes, espetando as suas cabeças por cima dos portões do palácio e esperava vir a empilhar crânios suficientes para construir um templo para troçar dos deuses imortais. Pélops implorou a Posídon por ajuda e o deus forneceu-lhe cavalos alados assim como um carro com asas capaz de correr sobre o mar sem quebrar a superfície da água. Pélops deveria ter confiado nas dádivas do deus, mas quando chegou ao palácio de Enómao e viu as cabeças a apodrecer sobre os portões, começou a duvidar. Falou com o condutor do carro do rei, Mírtilo o filho de Hermes, prometendo-lhe o que ele quisesse para trair o amo. Mírtilo pediu metade do reino e o privilégio de partilhar da cama de Hipodamia na noite de núpcias, e Pélops concordou precipitadamente. Mírtilo retirou as cavilhas que seguravam as rodas aos eixos do carro de Enómao e substituiu-os por outros feitos de cera. O rei concedeu a Pélops o avanço habitual e depois deu ordem a Mírtilo para conduzir o carro mais depressa que o vento enquanto ele aprontava a lança para matar Pélops.

Mas à medida que o carro rodava cada vez mais depressa, a cera foi derretendo e, de repente, as rodas caíram. O carro espatifou-se e Enómao morreu no meio dos destroços. Pélops pôde casar com Hipodamia

e, como parte dos festejos do casamento, conduziu o carro alado sobre o mar, na companhia do traidor Mírtilo. Hipodamia teve sede, pelo que Pélops conduziu os cavalos para terra tendo aportado numa ilha onde foi em busca de água. Quando ele regressou, a mulher estava banhada em lágrimas e contou-lhe como é que o condutor tinha tentado violá-la. «Isso não é verdade!», interrompeu Mírtilo, «Tu prometeste-me que eu podia desfrutar da tua noiva na noite de núpcias e, portanto, eu estava apenas a tentar receber o que me é devido.» Pélops não disse nada e continuaram o caminho até que estavam perto de Euboea. De repente, Pélops empurrou Mírtilo para fora do carro, pelo que caiu ao mar. À medida que se afundava, Mírtilo rogou uma praga sobre Pélops e todos os membros da sua casa.

Pélops conquistou a maior parte do sul da Grécia e deu-lhe o nome de Peloponeso. Construiu um grande reino e, na maior parte do tempo, reinou bem, embora também tenha cortado o corpo de um rei rival, Estínfalo da Arcádia, e espalhado os bocados de tal forma que ninguém, nem mesmo um deus, pôde reconstituí-lo. Pélops e Hipodamia tiveram numerosos filhos, entre os quais Piteu de Trezeno, os gêmeos Ateu e Tiestes, e Círon o assassino que Teseu matou. Pélops tinha outro filho, Crisipo, cuja mãe era a ninfa Axíoque. O rei Laio  de Tebas visitou em certa altura Pélops e ficou completamente perdido por Crisipo, pelo que o raptou e o levou à força, no seu carro, para Tebas. Hipodamia há muito que sentia ciúmes do afeto de Pélops por Crisipo e receava que este filho ilegítimo fosse nomeado herdeiro do reino em vez dos filhos dela.

E o ciúme era de tal ordem que ela o seguiu até Tebas onde o foi encontrar na cama de Laio e apunhalou-o até à morte. A vítima ainda teve tempo de pronunciar o nome da assassina antes de morrer. Esta fugiu de Tebas e depois suicidou-se. Esta foi a primeira consequência infeliz da praga lançada por Mírtilo sobre a casa de Pélops.

UMA PRAGA SOBRE A CASA DE ATREU

Pélops deu aos filhos, Atreu e Tiestes, um rebanho de belos carneiros, esperando que o fato de terem a propriedade comum do rebanho os ajudaria a viver juntos em paz, mas o que é certo é que não tardaram a guerrear entre si. A culpa foi de Hermes, que tinha querido vingar a morte do irmão Mírtilo e enviou um borrego com velo de ouro para se juntar ao rebanho. Atreu tinha prometido sacrificar o melhor dos animais à deusa Ártemis, mas nem sequer podia pensar em perder este novo tesouro. Matou o borrego mas ficou com o velo de ouro que encheu para que parecesse estar vivo. O irmão Tiestes ficou cheio de inveja e de cobiça do velo de ouro. Quando a mulher de Atreu, Aérope, lhe fez uma investida sexual, Tiestes disse-lhe:

«Farei tudo o que quiseres, desde que me devolvas o borrego de ouro, pois a verdade é que ele me pertence, já que fazia parte da minha metade do rebanho.» Aérope abriu a arca onde estava guardado o borrego de ouro e, secretamente, entregou-o ao novo amante.

O rei de Micenas morreu sem deixar herdeiro e o povo enviou um mensageiro ao oráculo para saber quem deveria ser o próximo rei. «Aquele que tem o borrego de ouro», foi a resposta. Quando o mensageiro regressou, Atreu reclamou a subida ao trono. «Concordas que o homem que tem o borrego de ouro seja o rei?», perguntou Tiestes ao irmão e quando Atreu concordou, mostrou-lho e exigiu o trono. Desta vez havia de ser Zeus a interferir nas vidas dos irmãos. Ele queria que fosse Atreu e não Tiestes a reinar em Micenas, pelo que enviou Hermes à cidade para perguntar a este último se concordaria em desistir da exigência do trono se o Sol invertesse o seu curso nos céus. Tiestes pensou que isto seria impossível e concordou alegremente.

Zeus virou os cavalos do Sol para trás no seu percurso e Tiestes teve de renunciar ao reino de Micenas e partir para o exílio.

A VINGANÇA DE ATREU

Atreu agora sabia que a mulher tinha sido amante do irmão, mas quis perdoar a ambos, mesmo quando ela deu à luz os filhos gêmeos de Tiestes, Plístenes e Tântalo. Aérope e Atreu tiveram dois filhos, Agamémnon e Menelau, e uma filha, e Atreu também teve um filho Plístenes, de um casamento anterior. A maldição contra a casa de Pélops atuou de novo quando Atreu enviou assassinos para matarem Plístenes, o filho de Tiestes, e eles, por engano, mataram Plístenes, o seu próprio filho. Em seguida, Atreu ofereceu a Tiestes o perdão e metade do reino, e este foi suficientemente tolo para acreditar. Regressou a Micenas com os bebês, filhos de Aérope, Plístenes e Tântalo e mais três filhos mais velhos, cuja mãe era uma ninfa. Atreu convidou-o para uma festa de reconciliação e fez grandes preparações para o banquete. Matou os três filhos mais velhos de Tiestes, cortou-os em pedacinhos e depois juntou a carne dos dois bebês e cozeu tudo fazendo uma grande empada. Esta foi servida ao convidado de honra, Tiestes, que comeu o recheio. Nessa altura, Atreu fez sinal a um servo para que trouxesse a travessa onde estavam empilhadas as cabeças, mãos e pés. Horrorizado e dominado pela dor, Tiestes vomitou tudo o que tinha comido e lançou uma maldição sobre a casa do irmão.

Tiestes consultou depois o oráculo de Delfos para conhecer a melhor forma de se vingar de Atreu e foi-lhe dito que ele teria de ser pai de um filho da sua própria filha. O ódio que o movia contra o irmão era tão profundo que não hesitou em procurar a filha Pelópia, uma sacerdotisa de Atenas, e violá-la, escondido sob uma máscara para que ela não o reconhecesse. Quando fugiu, caiu-lhe a espada que Pelópia guardou como pista para o identificar. Ela já estava grávida quando Atreu a foi cortejar, após ter atirado a primeira mulher, Aérope, ao mar onde morreu. Pelópia casou com Atreu, mas a criança que nasceu passados oito meses do casamento, era filho de Tiestes. Deu-lhe o nome de Egisto e em seguida tentou matá-lo expondo-o numa colina, mas Atreu, julgando que Pelópia estava a sofrer das sequelas do parto, mandou os servos à montanha para salvarem a criança. Egisto foi tratado como filho verdadeiro de Atreu e foi proclamado herdeiro legítimo de Micenas. Até agora tudo mal, mas o pior ainda estava para vir!

Os filhos verdadeiros de Atreu, Agamémnon e Menelau capturaram Tiestes e trouxeram-no de volta a Micenas. Atreu ordenou ao, por assim dizer, filho Egisto que matasse Tiestes na masmorra onde se encontrava, apesar de o rapazito ter apenas sete anos. Tiestes não teve dificuldade em dominar o miúdo e tirar-lhe a espada das mãos, preparando-se para o matar quando, de repente, reconheceu a arma. Era aquela espada que ele, Tiestes, tinha perdido quando violara a própria filha:

«Prometo poupar-te a vida se me jurares que farás três coisas que eu te mandar fazer», disse ele ao rapaz. «Primeiro, traz a mulher do teu pai aqui, em segredo.» Egisto cumpriu a promessa e levou Pelópia à masmorra. Ela ficou radiante por voltar a ver o pai – quer dizer, até Tiestes lhe revelar que ele era o dono da espada de Egisto, e o homem que a tinha violado.

Pelópia ficou tão horrorizada que enfiou a espada no peito até ao coração, tendo morrido na frente do pai violador e do filho-irmão. Em seguida, Tiestes ordenou a Egisto que mostrasse a Atreu a espada ensanguentada e que lhe dissesse que Tiestes estava morto, como ele lhe mandara. Logo que isto foi feito, Tiestes contou a Egisto quem ele era e pediu ao rapaz que matasse Atreu por ele. Egisto apanhou Atreu de surpresa quando estava sentado a celebrar a morte do irmão. Com o desaparecimento de Atreu, Tiestes voltou a ser o rei de Micenas, sendo Egisto o seu herdeiro. E a maldição sobre as casas de Pélops e de Atreu ainda não tinha terminado.

Referência

MILLS, Alice. A era clássica .in: CHEERS, Gordon.(org.) Mitologia: Mitos e lendas de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter Editora, 2011. Cap. 1. p.163-168.

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