A lua, o feminino e a prostituição sagrada

A lua, o feminino e a prostituição sagrada

Junito de Souza Brandão


Ártemis estava estreitamente ligada a Hécate e a Selene, personificação antiga da Lua, cujo culto a filha de Leto suplantou inteiramente, tanto quanto Apolo fez esquecer a Hélio, a personificação do Sol. Pois bem, desde muito cedo, Ártemis foi identificada com a Lua e, dado o caráter ambivalente de nosso satélite, mercê de suas fases, segundo se verá mais abaixo, a Lua-Ártemis surge na mitologia com um tríplice desdobramento, o que se poderia denominar a dea triformis, deusa triforme. De início, ao menos na Grécia, a Lua era representada por (Selene)[1], “Lua”. Mas, dada a índole pouco determinada de Selene e as fases diversas da lua, foi a Deusa-Lua desdobrada em Selene, que corresponderia mais ou menos à Lua Cheia; Ártemis, ao Quarto Crescente; e Hécate[2], ao Quarto Minguante e à Lua Nova, ou seja, à Lua Negra. Cada uma age de acordo com as circunstâncias, favorável ou desfavoravelmente. Assim, a Lua, por seu próprio cunho cambiante, é dispensadora, à noite, de fertilidade e de energia vital, mas, ao mesmo tempo, é senhora de poderes terríveis e destruidores. Percorrendo várias fases, manifesta as qualidades próprias de cada uma delas. No Quarto Crescente e Lua Cheia é normalmente boa, dadivosa e propícia; no Quarto Minguante e Lua Nova é cruel, destruidora e malévola. Plutarco nos lembra que a Lua “no Quarto Crescente é cheia de boas intenções, mas no Minguante traz a doença e a morte”.

Dada a extensão do assunto, vamos sintetizá-lo, abordando primeiramente a Lua, seus poderes e efeitos, em geral, e depois focalizaremos brevemente a Lua Negra, Hécate.

Os raios da Lua, a qual sempre se identificou com a mulher, via de regra foram tidos como elementos grandemente fertilizantes e fecundantes. Em muitas culturas primitivas, o papel do homem, por isso mesmo, era secundário: quem trabalhava o campo era a mulher, mercê da proteção da Lua sobre ela e as sementes. O homem apenas arroteava, preparava o terreno: plantar, cultivar e colher eram tarefas femininas. Nós sabemos que o gérmen da vida se encontra na semente e que o papel do sol é tão-somente fazê-la desenvolver-se. Para os primitivos, todavia, as coisas eram bem diferentes: a semente não passava de massa inerte, absolutamente desprovida do poder de germinar. Esse poder lhe era conferido por uma potência fertilizante, isto é, por uma divindade da fecundação, que era sempre a Lua, como descreve Briffault em sua obra monumental sobre o mito de Selene.[3]  Somente as mulheres podiam fazer prosperar as colheitas, porque somente elas estavam sob a proteção direta da Lua, que lhes delegava a faculdade de fazer crescer e amadurecer. Os povos primitivos acreditavam que as mulheres eram dotadas de uma natureza semelhante à da Lua, não apenas porque elas “incham” como esta, mas porque têm um ciclo mensal com a mesma duração que o do astro noturno. O fato de que o ciclo mensal feminino depende da Lua era para os antigos prova evidente de sua semelhança com o corpo celeste. A palavra menstruação e a palavra lua são semelhantes ou, por vezes, estreitamente aparentadas em várias línguas. Em grego, só para citar uma delas,  (mén, menós) é mês e (émmenon) é “o que volta todos os meses”, cujo plural e (émmena) significa particularmente menstruação, ao passo que (méne) e (menás) designam a lua, como astro e como divindade. Ao que ficou dito poder-se-ia acrescentar o grego (kataménia), que, em Hipócrates e Aristóteles, tem o mesmo sentido que possui catamênio em português, isto é, mênstruo. Diga-se, de passagem, que em nossa linguagem popular mênstruo se diz também lua. Os camponeses alemães chamam simplesmente o período menstrual de der Mond, “a lua”, e, em francês, é comum denominá-lo le moment de la lune, “o período da lua”.

O sol, fonte constante de calor e luz, brilha enquanto dura o trabalho: é o macho, o homem; a lua, inconstante e mutável, é fonte de umidade e brilha à noite: sua luz é doce e terna, é a fêmea, a mulher. O sol, princípio masculino, reina sobre o dia, a luz; a lua, princípio feminino, reina sobre a noite, as trevas. O sol é lógos, a -71- razão; a lua é éros, o amor. E só o amor faz germinar! Não foi em vão que Deus criou duas luzes: a mais forte, para preponderar durante o dia, a mais frágil e terna, para governar a noite:

Fez Deus pois dois grandes luzeiros, um maior, que presidisse ao dia, outro menor, que presidisse à noite.

E mais uma vez Ouçamos Plutarco

“A Lua, por sua luz úmida e geradora, é favorável à propagação dos animais e das plantas”. (Gn 1,16)

No Antigo Testamento, as lúnulas (pequenas luas) faziam parte dos enfeites femininos (Is 3,18) ou eram penduradas no pescoço dos animais (Jz 8,21): em ambos os casos configuravam a fertilidade. A lua, aliás, sempre teve um poder especial de umedecer, por isso era chamada a dispensadora da água. Tal epíteto honroso não lhe cabe apenas porque ela exerce controle sobre as chuvas, mas ainda porque o nosso satélite “provoca” o orvalho. Este era símbolo da fertilidade e na alta Idade Média prescrevia-se um banho de orvalho como “magia amorosa”.

A lua estava de tal modo ligada à mulher, e, portanto, à fertilidade, que, em muitas culturas primitivas, se acreditava piamente que o homem não desempenhava papel algum na reprodução. A função do homem era tão-somente romper o hímen, para que os raios da lua pudessem penetrar, uma vez que ela era o único agente fertilizante. Os meninos gerados pela lua estavam, além do mais, destinados a ser reis ou a desempenhar uma função de grande relevância, como convém a um rebento divino. Ora, como os “raios da lua” tinham o poder de fecundar, a própria Lua, não raro, era considerada como um “homem”, o Homem- Lua, que, por vezes, se encarnava, sobre a terra, em um rei muito poderoso. Partindo dessa crença os reis de certas linhagens ou dinastias foram considerados como encarnações desse Homem-Lua. Muitos desses reis e soberanos antigos tinham uma cabeleira ornamentada com chifres, emblema da luna cornuta (lua cornuda), no quarto crescente, e, por uma transição natural, o rei portador de semelhante adorno tornava-se não somente a lua, mas também o touro, uma vez que os animais corníferos, como o touro e a vaca, estão entre aqueles associados à lua. Em determinadas cerimônias, por isso mesmo, reis celtas, egípcios e assírios usavam cornos, uma vez que seus súditos os tinham na conta de encarnações de uma divindade lunar. Mais tarde se passou a dizer que o rei não era a lua, mas um seu representante ou -72- certamente um ilustre descendente. Gengis-Khan, o poderoso imperador mongol, em pleno século treze de nossa era, fazia remontar seus ancestrais a um rei, cuja mãe havia sido fecundada por um raio da lua…

Os raios da lua eram tão poderosos, que bastava a mulher se deitar sob os raios da mesma no quarto crescente para ficar grávida. A criança, no tempo devido, seria trazida pelo Pássaro-Lua. A nossa cegonha tem raízes milenares.  Ao contrário, aquela que não desejava ser fecundada, era bastante não olhar para a lua e friccionar o ventre com saliva, poderoso elemento apotropaico, e certamente o primeiro anticoncepcional que o homem conheceu.

A lua, que está sempre cm mutação, assemelha-se ao que se passa na terra com os seres humanos. Desse modo, teve ela também direito a uma antropomorfização. Assim, no Quarto Crescente e no Minguante, a lua se torna, por antropomorfismo, o homem-lua, uma espécie de herói que vive na lua e é a própria lua. Esse homem-lua inicia suas atividades no Crescente, em luta contra o demônio das trevas, uma espécie de dragão, que devorou seu pai, a lua velha, isto é, a lua nova. O homem-lua vence o dragão na lua cheia e reina, triunfante, sobre a terra. Trata-se de um rei sábio e justo. Traz a paz e a ordem para as tribos e organiza a agricultura. Mas o reinado do herói dura pouco: o velho inimigo, terminado o plenilúnio, volta ao combate. Vencido no novilúnio, o homem-lua é tragado pelo dragão. A lua se apaga e julga-se que o herói morreu de maneira estranha: despedaçado, como a lua que veio decrescendo até desaparecer. Esse mesmo tema pode ser observado no mito de Osíris, o deus-lua egípcio, que, como a Lua, pereceu despedaçado, para logo ser recomposto. O homem-lua, que desceu às trevas do inferno, lá permanece durante o novilúnio e depois a luta recomeça… O herói consegue nova vitória e a lua cheia descansa, porque, nessa fase, ela não cresce nem decresce. Parece ter sido essa a origem do sábado e sobretudo dos tabus que incidiam sobre o mesmo. É que em culturas primitivas e até “avançadas” como na hindu antiga e na babilônica, para não citar outras, se fazia estreita analogia entre a menstruação e a lua cheia. Na índia antiga via-se no catamênio uma prova de que a mulher estava particularmente sob a influência da lua e mesmo possuída pela divindade lunar. Diz um texto védico: “O sangue da mulher é uma das formas de Agni, portanto não deve ser o mesmo desprezado”. Tem-se aí uma relação entre menstruação e fogo, já que Agni, deus do fogo, está inteiramente vinculado à luz da lua. Na Babilônia acreditava-se de modo idêntico que Ishtar, -73- a deusa lua, ficava indisposta durante o plenilúnio, quando então se observava o sabattu, ou melhor, sapattu, donde o hebraico sabbat, que se poderia interpretar, ao menos poeticamente, como “repouso do coração”.[4] Durante a “indisposição” de Ishtar, no período da lua cheia, guardava-se, pois, o sábado, que era, nesse caso, mensal, tornando-se depois semanal, de acordo com as quatro fases da lua. Esse dia era considerado nefasto, não se podendo executar qualquer trabalho, viajar ou comer alimentos cozidos. Ora, nesses mesmos interditos, incorriam as mulheres menstruadas. No dia da menstruação da lua, todos, homens e mulheres, estavam sujeitos a idênticas restrições, porque o tabu da mulher indisposta pesava sobre todos.

No judaísmo, sabbat era normalmente o nome do sétimo dia da semana, embora pudesse ser aplicado a festas que não caíam necessariamente no sétimo dia da mesma, como o dia da expiação (Lv 16,31; 23,32), a festa das trombetas (23,24) e o primeiro e oitavo dias da festa dos tabernáculos (23,39). De qualquer forma, o sábado judaico, que na Bíblia é usado para indicar somente uma obrigação religiosa e social, estava também cercado de tabus, cuja origem talvez remonte à época em que “os semitas ainda eram pastores nômades, cujas andanças eram determinadas pelas fases da lua. Esses dados parecem justificar a conclusão de que o sábado, como modo concreto de satisfazer à necessidade humana de descanso periódico, deve sua origem ao fato de que se começou a dar um valor absoluto ao caráter periódico da celebração das quatro fases da lua, à custa da coincidência do dia da celebração com as fases da mesma. Ao se sedentarizarem, as tribos semitas de nômades estenderam os seus tabus, originariamente ligados à celebração das fases da lua, às suas novas ocupações agrícolas”.[5]

Entre esses tabus “herdados” certamente se devem inserir aqueles que cercam como impura a mulher menstruada (Gn 31,35; 2Sm 11,4; Lv 20,18 e certas determinações em Lv 15,19-24;25-30).[6] -74

Voltando a Selene, Ártemis e Hécate, ou melhor, à deusa triforme, vamos ver mais de perto o seu androginismo, cifrado nos raios fecundantes da lua e no homem-lua, que é a própria lua.

A lua é, portanto, andrógina. Plutarco está novamente conosco: “Chama-se a Lua (Ártemis) a mãe do universo cósmico; ela possui uma natureza andrógina”. Na Babilônia, o deus-Lua Sin é andrógino e quando foi substituído por Ishtar, esta conservou seu caráter de androginismo. Igualmente no Egito, Ísis é denominada Ísis-Neit, enquanto andrógina.

Pelo fato mesmo de a lua ser andrógina, o homem-Lua, cujo representante na terra era o rei ou o chefe tribal, passava a primeira noite de núpcias com a noiva, a fim de provocar a fertilização dela, da tribo e da terra. Tal hábito, como já se assinalou, permaneceu na França até a Idade Média com o nome de Le Droit du cuissage du Seigneur.

O fato de todos dependerem dos préstimos da lua para a propagação da espécie, da fertilização dos animais e das plantas, enfim, da boa colheita anual, em todos os sentidos, é que provocou, desde a mais remota antiguidade, um tipo especial de hieròs gámos, de -75- casamento sagrado, uma união sagrada, de caráter impessoal. Trata-se das chamadas hierodulas, literalmente, “escravas sagradas”, porque adjudicadas, em princípio, a um templo, ou ainda denominadas “prostitutas sagradas”, mas sem nenhum sentido pejorativo.

Em determinadas épocas do ano, sacerdotisas e mulheres de todas as classes sociais uniam-se sexualmente a reis, sacerdotes ou a estranhos, todos simbolizando o homem-Lua, com o único fito de provocar a fertilização das mulheres e da terra, bem como de angariar bens materiais para o templo da deusa (Lua) a que serviam. Tudo isso parece muito estranho para nossa mentalidade ou para nossa ignorância das religiões antigas. Vamos, assim, pela “delicadeza” do assunto, restringi-lo ao mínimo necessário.

Puta, em latim, era uma deusa muito antiga e muito importante. Provém do v. putare, “podar”, cortar os ramos de uma árvore, pôr em ordem, “pensar”, contar, calcular, julgar, donde Puta era a deusa que presidia à podadura. Com o sentido de cortar, calcular, julgar, ordenar, pensar, discutir, muitos são os derivados de putare em nossa língua, como deputado, amputar, putativo, computar, computador, reputação. O sentido pejorativo, ao que parece, surgiu pela primeira vez num texto escrito entre 1180-1230 de nossa era. Não é difícil explicar a deturpação do vocábulo. É que do verbo latino mereri, receber em pagamento, merecer uma quantia, proveio meretrix, “a que recebe seu soldo”, de cujo acusativo meretrice nos veio meretriz, que também, a princípio, não tinha sentido erótico. Mas, como putas e meretrizes, que se tornaram sinônimos, se entregavam não só para obter a fecundação da tribo, da terra, das plantas e dos animais, mas também recebiam dinheiro para o templo, ambas as palavras, muito mais tarde, tomaram o sentido que hoje possuem.

Não eram, todavia, apenas mulheres que “trabalhavam” para a deusa-Lua. Homens igualmente, embora fosse mais raro, após se emascularem, entregavam-se ao serviço da deusa. Na Índia, segundo W. H. Keating, os homens de Winnipeck consideram o sol como propício ao homem, mas julgam que a lua lhes é hostil e se alegra quando pode armar ciladas contra o sexo masculino. Desse modo, os homens de Winnipeck, se sonhassem com a lua, sentiam-se no dever de tornar-se cinaedi, quer dizer, homossexuais. Vestiam-se imediatamente de mulher e colocavam-se ao serviço da lua. Em 2 Reis 23,7, Josias mandou derrubar os aposentos dos efeminados, consagrados a Astarte. -76-

Cibele era a grande deusa frígia, trazida solenemente para Roma entre 205 e 204 a.e.c, durante a segunda Guerra Púnica. Identificada com a lua, protetora inconteste da mulher, seus sacerdotes, chamados Coribantes, Curetes ou Gaios e muitos de seus adoradores, durante as festas orgiásticas da Bona Mater, Boa Mãe, como era chamada em Roma, se emasculavam e cobriam-se com indumentária feminina e passavam a servir à deusa-Lua Cibele.

No Egito e na Mesopotâmia as deusas-Lua Ísis e Ishtar sempre tiveram um grande número de hierodulas, que, para obter a fertilidade da terra e dinheiro para os templos, para elas trabalhavam infatigavelmente.

No judaísmo, as hierodulas causaram problemas sérios. Para Astarte, deusa-Lua semítica da vegetação e do amor (a Afrodite do Oriente), as hierodulas, sobretudo em Canaã, operavam, quer ao longo das estradas (Gn 38,15-21; Jr 3,2), quer nos próprios santuários (Os 4,14) da deusa. O dinheiro arrecadado, a que se dava o nome de “salário de meretriz” ou “de cachorro”, era entregue aos santuários. Sob a influência cananéia, o abuso penetrou também no culto israelítico (Nm 25,1-16), embora a Lei se opusesse energicamente a isso e proibisse que o dinheiro fosse aceito pelo Templo (Dt 23,18). Sob Manassés e Amon (sec. VII a.e.c.), as prostitutas sagradas instalaram-se no próprio Templo de Jerusalém. Foi necessário que Josias mandasse demolir suas habitações. Mais tarde, à época da desordem total, até não cristãos as procuravam no Templo da Cidade Santa (2Mc 8).

Na Grécia, à época histórica, em lugar de oferecer seu corpo e sua virgindade em honra da deusa-Lua, as mulheres ofereciam sua cabeleira.

Ainda uma palavra sobre a Lua, suas servidoras e seus préstimos. Em todas as culturas primitivas eram as mulheres que serviam à Lua, pois tinham a incumbência de assegurar, entre outras coisas, o abastecimento de água à tribo, à cidade e ao campo, velando, ao mesmo tempo, sobre a chama sagrada, que representava a luz da Lua e que jamais poderia extinguir-se. Além do mais, essas mulheres, essas sacerdotisas deviam receber em sua própria pessoa a “energia fertilizante” da Lua, em seu e em benefício de todos. Na -77- civilização inca, no Peru, as sacerdotisas de Mana-Quillas e, na Roma antiga, as Virgens Vestais não tinham somente o dever de manter acesa a chama sagrada da deusa Lua-Vesta, mas ainda de prover ao abastecimento de água. Nos idos de março, por ocasião da Lua Cheia, realizavam-se sacrifícios ad pendendam pluuiam, sendo lançados pelas Vestais no rio Tibre vinte e quatro manequins, substitutos de antigos sacrifícios humanos, para provocar a chuva. A deusa-Lua Ártemis, divindade dos bosques, onde ficavam muitos de seus santuários, via de regra os tinha junto a uma nascente ou gruta, onde a água brotasse de uma pedra. No Egito, um copo de água era levado em procissão diante de um falo de Osíris. Por magia simpática, em grandes secas, derramava-se água sobre a terra seca para provocar chuva. A deusa Cibele, de que se falou linhas atrás, levada para Roma, entre 205-204 a.e.c. era apenas uma pedra negra, simulacro da Bona Dea, Boa Deusa. Essa pedra era banhada nas águas do Tibre, quando havia estiagem prolongada.

No dia quinze de agosto, em Roma, para homenagear a grande deusa-Lua, celebrava-se a Festa das Tochas, que a Igreja substituiu pela Assunção de Maria. Desmitificando e dessacralizando o mito, a Igreja o sublimou, revestindo-o com nova indumentária. O conselho é do Papa Inocêncio III: “É para a Lua que deve olhar todo aquele que se acha enterrado na sombra do pecado e da iniqüidade. Tendo perdido a graça divina, o dia desaparece. Não há mais sol. Que se dirija a Maria: sob sua influência, milhares encontram diariamente seu caminho para Deus”. A simbologia é perfeita: Cristo é o sol; Maria, a lua. É comum, aliás, ver- se a estátua da Mãe de Deus sobre um Crescente Lunar.

Curioso é que para os antigos gregos o real poder da Lua não estava na Lua Cheia, na Lua Brilhante, no seu aspecto positivo, que para nós surge como o mais importante, mas na Lua Nova, a Lua Negra, isto é, na poderosa deusa-Lua Hécate. Aparentada com Ártemis não tem um mito propriamente dito. Independente dos deuses olímpicos, foi de princípio uma deusa benévola e dadivosa, mas, à medida em que se tornou hipóstase da Lua Negra, tornou-se a deusa da magia e dos sortilégios. Com semelhantes atributos, Hécate passou a simbolizar igualmente, com seu cortejo de cães, amigos dos cemitérios, a cadela, a mãe perversa, devoradora e fálica, e, através da mesma, o inconsciente devorador.

Essa polaridade de Hécate explica-se pela própria ambivalência da Lua. Deusa da prosperidade e da abundância no mundo exterior, -78- no mundo interior, a Lua, se é dispensadora da magia, da inspiração e da clarividência, o é igualmente do terror e até da loucura. É bom lembrar que desde o século III a.e.c, como atesta o historiador e poeta didático egípcio de língua grega Mâneton, 4,81 (cerca de 263 a.e.c.), o verbo (seleniádzein), derivado de (Seléne), Lua, significa “ser epiléptico”, de onde “ser adivinho ou feiticeiro”, uma vez que a epilepsia era considerada morbus sacer, uma “doença sagrada”: é que as convulsões do epiléptico se assemelhavam às agitações e “distúrbios” por que eram tomados os que entravam em êxtase e entusiasmo, isto é, “na posse do divino”, sobretudo nos ritos dionisíacos. No Novo Testamento, Mt 17,15, um pai aflito procurou Jesus, para que lhe curasse o filho. A doença era lunar: Domine, miserere filio meo, quia lunaticus est. “Senhor, tem compaixão de meu filho, porque é lunático”.


Notas

[1] Selene,, é derivada da mesma raiz que selas (sélas), “brilho”, ásuelio >  (Hélios), “sol”, do indo-europeu suel, “brilhar”, sânscrito svar — “sol”, latim sol. Filha de Hiperíon e Téia, Selene era representada como uma jovem lindíssima, que percorria o céu em carro de prata, tirado por dois cavalos. De Zeus teve uma filha, Pandia, “a totalmente divina”. Foi amante de Pã, que a presenteou com um rebanho de bois brancos. Do belo pastor Endímion ela teve cinqüenta filhas.

[4] O português sábado provém do latim sabbatu(m), que, por sua vez, é um empréstimo ao hebraico sahabbat, por intermédio do grego  (sábbaton). Quanto à etimologia, uns fazem o hebraico sabbat provir do v. sabat (cessar de); outros o relacionam com seba‘ (sete), mercê do caráter rigorosamente periódico do sábado, de sete em sete dias. Há ainda os que preferem explicá-lo como uma deformação de sabi‘at (dia sétimo). Seja como for, há que se levar em consideração o acádico s’apatu, por sua notável semelhança com o hebraico sabbat: talvez este provenha daquele e o sentido primeiro do vocábulo seria descanso, repouso da Lua.

[6] O fato de o ciclo mensal da mulher estar relacionado com as fases da lua, o argumento de que no sangue está a vida e que, por isso mesmo, “o contato com o sangue e até ver sangue” eram considerados um perigo, não justificam tantos tabus e interditos, alguns profundamente desumanos, que recaíam sobre a mulher menstruada. Considerada impura, na fase do catamênio, era afastada do convívio social e tudo quanto fosse por ela tocado se tornava contaminado ou perdia sua eficácia. Por que isto? Por que a mulher indisposta era considerada pelos primitivos como uma verdadeira causa de infecção e de contaminação, um mal que podia ser transmitido a todos quantos entrassem em contato com ela, a ponto de até sua sombra ser tida como emanação mefítica? Por que grandes legisladores antigos como Zoroastro, Manu e Moisés registraram em seus sistemas interditos concernentes à menstruação? Ouçamos um pequeno trecho de Manu: “a sabedoria, a energia, a força, o poder e a virilidade de um homem que se aproxima de uma mulher coberta com excreções menstruais desaparecem por completo. Se ele a evita, enquanto ela permanece nesse estado, sua sabedoria, sua energia, sua força, seu poder e virilidade tomarão novo impulso” (G. Buhler, The Laws of Manu, in: Sacred Books of the East, Oxford, Clarendon Press, 1879-1910, p. 135).

A Dra. Esther Harding, em sua excelente obra, Woman’s Mysteries, p. 63sqq., que voltaremos a citar mais adiante, e que estamos seguindo de perto neste estudo sobre a deusa-Lua, também discorda de que o tabu do catamênio se restrinja apenas ao horror do sangue em si mesmo e tenta explicá-lo de maneira bem diversa. Vamos resumir-lhe a longa exposição sobre o assunto. É verdade que o homem primitivo tinha horror ao sangue, que é a seiva da vida, mas nenhum tabu existe com respeito às pessoas que sangram, quando este sangue provém de uma ferida. Por que, então, o tabu acerca do sangue menstrual? Julga Harding que para o espírito do primitivo a menstruação provém de uma espécie de infecção, de uma possessão do demônio, que é preciso expulsar através de jejuns, fumigações, mortificações e isolamento da paciente. Era essa, aliás, a terapia aplicada em casos de “possessão demoníaca”. Uma segunda causa seria ditada pela própria mulher: já que os desejos e apetites intempestivos dos homens se constituíam numa ameaça séria para ela, alguns mitos primitivos fazem supor que, para se defender das exigências excessivas dos homens, as mulheres se impuseram continência durante esse período, embora seu desejo sexual, como entre os animais, seja particularmente forte, quer imediatamente antes, quer imediatamente após a menstruação. Nesse sentido, diz o Talmude que se uma mulher passar entre dois homens, no início de suas regras, causará a morte de um; se passar no fim das mesmas, ela provocará simplesmente entre eles uma violenta altercação. Um terceiro motivo para semelhante tabu seria o de tornar possível a evolução dos povos primitivos. Sem essa salvaguarda, tornar-se-ia impossível a homens e mulheres, consoante a Dra. Harding, o desenvolvimento de valores especificamente humanos e a libertação do domínio absoluto do instinto animal.Talvez se possa ver em todos esses tabus, sobretudo no que tange às restrições alimentares que pesavam sobre a mulher menstruada, gestante ou de resguardo, um complexo de castração por parte do homem.


Referência

BRANDÃO, Junito de Souza. O mito de leto: nascimento de Artemis e Apolo. in: __________.  Mitologia Grega, v2.  15ª Ed. Vol 2. Petrópolis/RJ: Vozes, 2009. Cap. 2. p.71-81. 

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