Mitos e lendas da Idade média

Mitos e lendas da Idade média

Sérgio Pereira Couto


Conhecida como Idade das trevas, o período que ficou oficialmente batizado como Idade Média é lembrado como uma série de perseguições religiosas, reinados poderosos, cavaleiros andantes e o total controle da Igreja Católica exercia sobre a vida de seus seguidores. Ainda hoje é pequeno o número de historiadores que conseguem ressaltar o lado positivo dessa época. Em geral, os estudos dão destaque às grandes crises do período, como a propagação da Peste Negra e o fim do Império Romano.

Porém, basta uma pequena pesquisa para verificar que a contribuição da Idade Média para a vida humana foi ampla em alguns sentidos. Quando o Império Romano chegou ao fim, as técnicas artísticas que vieram da Grécia, grosso modo, perderam- se. A pintura medieval tornou-se bidimensional, um veículo destinado a passar uma mensagem religiosa, como se pode ver até hoje nos vitrais das grandes catedrais, que contam estórias da Bíblia; mesmo o povo que não sabe ler entende as cenas que vê.

Foi por meio de muitas dessas pinturas que os mitos e lendas daqueles séculos chegaram até nós. São estórias que envolvem prioritariamente vidas de santos e passagens bíblicas, muitas delas conhecidas mesmo sobre quem só tivesse passado pelo Antigo ou no Novo Testamento apenas uma vez. E foi por meio delas que chegaram aos nossos dias estórias fascinantes como a de São Jorge, padroeiro de países como Portugal, Grécia, Etiópia e Inglaterra, aquele mesmo que matou o dragão; ou o relato da santa britânica Ursula que, juntamente com seu séquito de 11 mil virgens, foi morta pelos hunos na cidade alemã de Colônia.

O judeu errante

De todas as estórias daquele período, a que mais intriga até hoje é a Lenda do Judeu Errante. Meu primeiro contato com esse mito aconteceu durante uma daquelas leituras obrigatórias de colégio, quando li fascinado o conto Viver, de Machado de Assis. A estória relata um encontro entre o sapateiro Ahasver e o titã condenado Prometeu no fim dos tempos, numa terra onde não existem mais homens vivos. O primeiro se desilude com a vida, o segundo, apesar de tão condenado quanto o primeiro, procura consolá-lo e o retrato que o autor pinta é tão vivido que realmente impressiona. [18]

O mais curioso, entretanto, é saber que o Judeu Errante não é uma invenção de Machado de Assis. Este estranho personagem faz parte das mais distantes tradições orais cristãs. Sua estória possui algumas variações, mas a essência é a mesma. Vejam como Machado de Assis a conta, numa fala do próprio Judeu Errante:

Galahad Grail

Meu nome é Ahasverus: vivia em Jerusalém, ao tempo em que iam crucificar Jesus Cristo. Quando ele passou pela minha porta, afrouxou a opeso do madeiro que levava aos ombros, e eu empurrei-o, bradando-lhe que não parasse, que não descansasse, que fosse andando até a colina, onde tinha de ser crucificado… Então uma voz anunciou-me do céu que eu andaria sempre, continuamente, até ofim dos tempos. Tal é a minha culpa; não tive piedade para com aquele que ia morrer. Não sei mesmo como isto foi. Os fariseus diziam que o filho de Maria vinha destruir a lei, e que era preciso matá-lo; eu, pobre ignorante, quis realçar o meu zelo e daía ação  daquele dia. Que de vezes visto mesmo, depois, atravessando os tempos e as cidades! Onde quer que o zelo penetrou numa alma subalterna, fez-se cruel ou ridículo. Foi a minha culpa. Esta é a versão básica do incidente, mas é possível encontrar outras com algumas variações significativas. Numa delas, Jesus cai, sob o peso da cruz, e Ahasverus (ou Ahasver) zomba gritando para que o condenado “caminhasse”. Jesus responde que é Ahasver quem “caminharia pelo mundo até o fim dos tempos”. Numa outra vemos Simão o Cireneu se oferecendo para ajudar Jesus a reerguer a cruz, porém, antes Cristo teria pedido a ajuda a Ahasver, que se recusara. Uma terceira versão diz que Jesus havia parado em frente ao curtume e que pedira a Ahasver uma caneca com água. O judeu teria recusado e alegado que se Ele “é o Filho de Deus, faça com que jorre uma fonte de água fresca do chão”, o que teria levado Jesus a amaldiçoá-lo.

Outras variações na estória dizem que o Judeu Errante era na verdade Longino, o soldado cuja lança perfurou o lado de Cristo quando este estava na cruz, o que ligaria esta lenda com a da Lança do Destino, relíquia religiosa hoje em poder do Museu de Viena, na Austria. Uma outra identidade do Judeu Errante o liga a Malco, cuja orelha foi cortada por São Pedro no Jardim do Getsêmane (João 18:10) e que teria assim sido condenado a esperar a segunda vinda de Jesus.

Origens e variações

Um origem provável é encontrada nesta passagem do Evangelho de João (21:21-24):

“Vendo Pedro a este, disse a Jesus: Senhor, e deste que será? Disse-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu. Divulgou-se, pois entre os irmãos este dito, que aquele discípulo não havia de morrer. Jesus, porém, não lhe disse que não morreria, mas: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Este é o discípulo que testifica destas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro”.

Uma variação da lenda encontra-se no livro Flores Historiarum, de Roger de Wendover, escrito em 1228. Roger era um bispo armênio que visitava a Inglaterra quando foi indagado pelos monges da Abadia de Santo Albano sobre José de Arimatéia, o suposto guardião do Santo Graal, que, segundo se dizia, ainda vivia. O arcebispo declarou que ele mesmo havia falado com José, que seu verdadeiro nome era Cartaphilus (uma variação de Ahasver) e que ele havia sido um sapateiro em Jerusalém. Quando Jesus passou em frente a sua sapataria e caiu, ele teria gritado com o condenado e, por isso, sido amaldiçoado. Desde então, Cartaphilus se convertera ao cristianismo e passou seus dias de andarilho levando uma vida de eremita.

Outro autor, Mateus Paris, um monge beneditino, incluiu o relato de Roger de Wendover em seu próprio livro, data de 1252. E outros religiosos apareceram contando a mesma estória sem parar.

O fato é que a figura do pobre judeu criou raízes no imaginário popular, principalmente como uma referência pública à própria mortalidade do povo judeu. Sua fama se espalhou pela Europa e recebeu vários nomes: na Alemanha ele é o Der Ewige Jude (o judeu imortal ou eterno), enquanto nos países latinos ele se tornou Le Juif Errant (o Judeu Errante) na França and Lebreo Errante na Itália. Seu nome próprio na Espanha assumiu a forma Juan Esperendios, ou João que Espera em Deus.

Quando o islamismo se expandiu, pouco depois da época de Cristo havia boatos entre os conquistadores da Síria de que o Judeu Errante havia sido visto em Damasco. Séculos depois ele teria estado na Península Ibérica, onde Esperendios seria sua identidade. Na Itália, ele também foi visto e recebeu o nome de Giovanni Buttadeo (o que bate em Deus).

Aqui no Brasil, também há estórias sobre Ahasver e dizem que ele teria passado por Pernambuco na época do domínio holandês. Alguns falam, inclusive, que ele teria vivido em nosso país e que sua última localização foi no norte de Minas Gerais, quando teria chorado sangue diante de uma igreja numa Sexta-Feira da Paixão.

Seja como for, a presença da lenda do Judeu Errante no imaginário popular é forte e poderosa. Até mesmo a conhecida expressão onde Judas perdeu as botas seria uma referência a Ahasver e sua profissão de sapateiro. A lenda pode ser uma renovação do mito do pecador Caim, condenado a vagar etemamente [19] sem rumo. O certo é que durante muito tempo serviu para europeus como justificativa de seus ataques contra comunidades judias e contra os nômades ciganos, cuja origem também se relacionava à lenda.

O Santo Graal

De acordo com a mitologia cristã, a versão original (por assim dizer) do Santo Graal era bastante diferente do que se vê nos círculos arturianos ou do que é pregado pelos seguidores da teoria de conspiração colocada no best-seller do escritor estadunidense Dan Brown, O Código da Vinci.

O Santo Graal era o prato (algumas vezes identificado como a taça) usado por Jesus Cristo durante a Ultima Ceia. Pelo contato direto com a divindade de Jesus obteve poderes milagrosos que seriam depois confirmados quando o mesmo objeto foi usado para recolher Seu sangue da cruz.

A conexão com José de Arimatéia, que teria recolhido o sangue com aquele objeto, vem do livro José de Arimatéia, de autoria do poeta francês Robert de Boron, escrito no final do século XII. Nele, Arimatéia recebe o Graal de uma aparição de Jesus e logo vai com a peça para a Grã-Bretanha, onde a enterra num lugar desconhecido, muitas vezes identificado como a Ilha de Avalon ou como a Abadia de Glastonbury. Muito tempo depois, a estória seria recontada e o detalhe do recolhimento do sangue durante a crucificação, acrescentado.

Porém, é mesmo no ciclo arturiano que a busca pelo Graal se popularizou, principalmente com o trabalho de Chrétien de Troyes, que combina misticismo cristão com alguns elementos esotéricos celtas. A obra de Troyes é um poema incompleto datado de algum ponto entre 1180 e 1191. Nele, é narrado que Percival, um dos cavaleiros da Távola Redonda, leais ao Rei Arthur, pára para jantar na morada mística do misterioso Rei Ferido. E quando presencia uma procissão onde vê jovens carregando objetos magníficos de uma sala para outra. Primeiro, aparece um jovem que porta uma lança ensanguentada (possível referência à lança do destino, objeto do centurião que perfurou o lado de Jesus enquanto este estava na cruz), depois, garotos com um candelabro (talvez uma referência ao candelabro de [20] sete braços, símbolo dos judeus) e, por fim, jovem que traz um “graal decorado”.

Muitos Graais

Chretien refere-se no texto a “um graal”, já que o termo se refere originalmente a um objeto que contém o verdadeiro sagrado dentro de si que, no caso, é uma hóstia que deveria ser oferecida ao Rei Ferido. Percival assiste à cena calado e mais tarde adormece. No dia seguinte, vê que está sozinho no castelo e então percebe que se tivesse feito as perguntas certas para a aparição do Graal teria salvo seu anfitrião.

Há quatro vertentes para a origem do objeto. A primeira defende que o Graal se trata apenas de um mito originário do folclore celta, no caso, o do caldeirão restaurador da tida de Bran, o Abençoado, deus das profecias. Estudiosos afirmam haver paralelos entre a literatura galesa e a irlandesa da Idade Média e os romances do Graal mais tradicionais. Nesses primeiros escritos, o Graal assume formas diferentes de uma taça: em alguns casos, um caldeirão, em outros, uma cornucopia que alimenta. Seus poderes incluem comida incessante, ressurreição dos mortos e curas milagrosas.

A segunda vertente defende que o Graal é mesmo um símbolo puramente cristão. Como prova, afirmam existir imagens do século XII em antigas pinturas de igrejas – localizadas nos Pireneus, na Catalunha, uma comunidade autônoma da Espanha, situada a nordeste da Península Ibérica – que mostram a Virgem Maria de posse de uma espécie de tigela que irradia línguas de fogo, uma imagem datada de antes da época de Chretien.

A terceira defende que as primeiras estórias do Graal teriam sido criadas para promover o hábito da comunhão, um rito pouco difundido da igreja católica. Era uma época que exigia conversões em massa e embora o sacramento seja citado na Bíblia, foi apenas na época desses primeiros escritos que a Igreja começou a dar um ar de mistério para o ritual. Assim, teriam criado esses recatos para promover uma renovação da eucaristia.

Há ainda uma quarta vertente que crê que as tradições cristãs e ancestrais se combinaram para transformar o Graal num símbolo híbrido das duas religiões.

Seja como for, a alternativa foi mesmo apelar para a origem filológica da palavra. Graal é uma adaptação do antigo francês para uma palavra latina, gradalis, que é um prato levado à mesa em diversos estágios da refeição. A terminologia san graal ou san greal, “santo Graal”, só surgiu mesmo após o ciclo arturiano.

Enquanto Chretien define o Graal como um prato, outros escritores arriscam dar outras definições. Robert de Boron (1191-1202) tornou-o a taça da Última Ceia. Em seu relato conta que José de Arimatéia foi jogado na prisão e que lá ele recebeu a visita de Jesus que lhe explicou os mistérios do cálice sagrado. Assim, quando Arimatéia é libertado, viaja para o Oeste e lá funda a “dinastia do Graal”, uma família de defensores do objeto, da qual faz parte Percival. Outro escritor que explorou o tema foi Wolfram von Eschenbach, que afirmou que era na verdade uma pedra que havia caído do céu e que se tomou uma espécie de refugio para os anjos neutros que não tomaram nenhum partido quando houve a Rebelião de Lúcifer. Uma variação dessa hipótese diz que o Graal seria mesmo um meteorito (uma pedra do céu), mas que seria da tira que Lúcifer usara quando da rebelião. Ninguém sabe seu real paradeiro, que é motivo de muita especulação pelos séculos seguintes. Sua posse já foi atribuída aos Cavaleiros Templários que, quando do auge de sua influência entre os séculos XII e XIII, seriam tão famosos que justificaria a posse de tal objeto. Os Cátaros, hereges condenados pela Igreja Católica e justificadores da criação da Santa Inquisição, também já foram acusados de ser os guardiões do tesouro. O fato é que há pelo menos quatro taças espalhadas pelo mundo que concorrem ao título de “Verdadeiro Santo Graal”. Delas, a mais conhecida é uma que está na Catedral de Santa Maria, em Valência, Espanha, que teria sido levada a Roma no século I por São Pedro e de lá para a Espanha por São Laurêncio no século III. E uma vasilha de pedra datada do século I possivelmente originária de Antioquia, na atual Turquia. Foi usada pelo papa Bento XVI em missas realizadas em 2006. [21]

São Jorge

Um dos santos mais conhecidos de nosso país é lembrado mundialmente como patrono de pelo menos cinco localidades diferentes: Inglaterra, Portugal, Geórgia, Catalunha e Lituânia.

Pouca coisa se pode afirmar com certeza sobre a infância do homem originador da lenda. São Jorge (275 – 303) nasceu como Jorge de Anicii na antiga região da Capadócia, hoje parte da atual Turquia. Ainda criança foi para a Palestina com sua mãe, após a morte de seu pai, oficial do Império Romano, em batalha. Sua mãe, que era originária de lá, tinha muitos bens e o educou da melhor maneira possível.

Quando atingiu a adolescência, optou pela mesma carreira de armas de seu pai em grande parte devido a sua índole combativa. Logo foi promovido a capitão do exército romano graças a sua dedicação e habilidade, que o fizeram receber do Imperador o título de Duque da Capadócia.

Quando completou 23 anos, foi viver na corte imperial em Roma, onde assumiu o cargo de tribuno militar. Nessa época, sua mãe faleceu e ele, de posse das riquezas restantes da família, ficou em Roma. Porém, lá teve a oportunidade de verificar por si mesmo a crueldade com que os romanos tratavam os cristãos. Tomou então uma decisão que marcaria sua vida dali para frente: distribuiu o que havia sobrado de sua riqueza para os pobres.

À época, o imperador Diocleciano conduzia a maior perseguição de cristãos da história de Roma. Chegou de fato a emitir um edito que condenava os seguidores da fé, mas no mesmo dia em que isso aconteceu Jorge levantou-se no meio da declaração do edito e, dizendo-se espantado com a decisão, afirmou que os deuses adorados nos templos eram falsos.

Morte e santificação

Ao perceber que um dos seus havia pronunciado tais palavras, houve choque na corte. Um cônsul o interrogara sobre aquelas palavras e Jorge respondera que falava em nome da verdade. Quando perguntado pelo mesmo cônsul sobre qual era essa verdade, o futuro santo responde apenas: “A Verdade é meu Senhor Jesus Cristo, a quem vós perseguis, e eu sou servo de meu redentor Jesus Cristo, e nele confiando me pus no meio de vós para dar testemunho da Verdade”.

Diocleciano ainda tentou fazer com que Jorge desistisse de sua fé e torturou-o de vários modos. Ao fim de cada rodada ele perguntava se o condenado [22] renegaria a Jesus para adorar aos deuses. Jorge reafirmava sua fé e era novamente torturado. Sua tortura comoveu várias pessoas da corte, incluindo a mulher do imperador que se converteu ao cristianismo.

Como não teve êxito, o soberano mandou degolá- lo em 23 de abril de 303, na Nicomédia, Ásia Menor.

Os restos mortais de Jorge foram levados para Lídia, onde ele crescera junto a sua mãe. Lá, ele foi sepultado e, anos depois, exumado por ordem do imperador Constantino que construiu em sua homenagem um oratório suntuoso para que sua mensagem fosse espalhada pelo Oriente.

No século V já havia cinco igrejas em Constantinopla dedicadas ao santo. Nos primeiros séculos após sua morte havia no Egito quatro igrejas e quarenta conventos dedicados ao santo. Na Itália era o padroeiro da cidade de Gênova. O imperador Frederico III da Alemanha dedicou-lhe uma ordem militar e na Inglaterra tornou-se o santo padroeiro da Ordem da Jarreteira e protetor dos cruzados quando tentavam “recuperar” a Terra Santa.

Purgatório de São Patrício

As grandes peregrinações de Santiago ou de Roma sempre conquistaram a imaginação dos devotos católicos. Uma das mais antigas, no entanto, acontecia em Lough Eske, no condado de Donegal, região setentrional da Irlanda. Até hoje é realizada, mas em outras circunstâncias. Trata-se da ida ao Purgatório de São Patrício, santo protetor da Irlanda.

A data tradicional de início dessa peregrinação é 445, quando São Patrício, conhecido como o apóstolo da Irlanda, mostrou para os ancestrais uma visão do Inferno e da Montanha do Purgatório dentro de uma caverna.

Diz a lenda que o santo andava desencorajado com as crescentes dúvidas dos recém-convertidos ao cristianismo, que exigiam provas substanciais de que a religião os salvaria do Inferno. Assim, São Patrício rezou a Deus para que o ajudasse a convencer os irlandeses e então teve a revelação de uma caverna onde, ao se passar a noite, podia-se ouvir os gritos dos condenados no Inferno e no Purgatório. Quando o santo revelou aos crentes a caverna, permitiu que lá passassem a noite. Se resistissem aos demônios, voltariam certos de que iriam para o céu purificados. Caso se deixassem seduzir, não regressariam mais e passariam a eternidade como condenados.

No século XII, na entrada da caverna, foi construída uma abadia, a igreja de Santa Maria, e o abade era a pessoa que controlava o acesso à caverna, que ficava fechado à chave. Os peregrinos chegavam ao local de barco entre os dias primeiro de junho e 15 de agosto e só podiam andar descalços. Entregavam-se a exercícios espirituais durante três dias; esses exercícios consistiam em se ajoelhar sobre as rochas e rezar diante de um determinado número de cruzes (como as estações da Via Crucis) erguidas em forma de um rosário em honra dos santos mártires irlandeses mais proeminentes.

Cada vez que um peregrino terminava suas devoções ia até um grande penhasco de onde podia ver um espelho de água. Lá, contemplavam o lago do local e se entregavam a momentos de contemplação.

A peregrinação ao Purgatório durou pelos séculos XII, XIV e XV. Hoje em dia, apesar de não possuir o apelo de um Caminho de Santiago, Lough Eske continua sendo bastante procurado. Só que a entrada para a tal caverna se perdeu e não mais pôde ser localizada com exatidão. Em 1913, a igreja foi reconstruída e deu lugar ao edifício gótico que está lá desde 1882. O número de peregrinos entre 1871 e 1911 chegou a três mil por ano. Ainda é possível fazer os exercícios espirituais para se purificar, mas não mais com a severidade medieval. [24]

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