Egito, um dom do Nilo

Egito, um dom do Nilo

Pierre Lévêque


A civilização egípcia deve muito ao enquadramento natural onde nasceu; de fato, ela só existe graças ao Nilo, e a geografia desempenhou um papel importante na sua evolução histórica.

No fim da época terciaria, o baixo vale do Nilo forma um golfo marinho desde a costa atual do Mediterrâneo até as proximidades de El Kab. Depósitos de calcário marinho enchem pouco a pouco este golfo e, em seguida, um amplo movimento de agitação leva o calcário a 180-200m acima do nível do mar e o Nilo, então muito vigoroso, remodela o seu leito nesses depósitos terciários. Cava-se um vale muito largo, que o aluvião enche progressivamente de lodo, à medida que o debito do rio se torna mais vagaroso. Assim se cria a oposição fundamental entre o limo do vale, a terra negra, fértil, Kemet, e as molduras de areias e de rochedos queimados no sol, Desde, a terra vermelha.

Encontram-se assim, no local, os elementos de base para o povoamento humano: o rico limo para as culturas, rodeado de falésias que vão fornecer, primeiro, o sílex para o armamento e, depois, o calcário para a construção.

Entre o Norte do Egito, o Delta, onde o vale é muito longo, e o Sul, o Said, estreito corredor de terras cultiváveis apertado entre dois desertos, o único elo de ligação é o Nilo e a sua cheia fertilizadora. O Egito é pois “um dom do Nilo”, segundo a demasiado citada expressão de Herótodo, que continua, no entanto, a manter toda a sua verdade. Com efeito, neste pais em que a exposição ao sol é quase permanente, onde a partir de 2400 a.e.c., e até a nossa época, não há praticamente precipitações, pelo menos no Alto Egito, a seca é inexorável. Sob a mesma latitude que o Sara e o Nedjed, e nas mesmas condições climáticas, o Egito seria tal como eles um deserto, se não houvesse o rio; mas este não bastaria para assegurar a riqueza do pais se não trouxesse, com a sua cheia, a água e o limo indispensáveis.

O fenômeno da inundação é muito complexo. As chuvas de monção da Primavera, abatendo-se sobre o maciço etíope, determinam a subida dos afluentes abissínios do Nilo: Sobat, Nilo Azul, Atbara. De Julho até ao fim de Outubro, as águas e o limo arrancado as margens abissínias vão cobrir o vale, no Egito. Contudo, esta cheia benfeitora pode também assumir o aspecto de catástrofe: ou é demasiado brutal e a corrente leva tudo atrás de si, ou é demasiado fraca e deixa as terras ressequidas e na impossibilidade de serem cultivadas.

Assim, pode dizer-se com razão que a civilização egípcia nasceu quando a cheia foi controlada. Os meios empregados para tal foram complexos e executados progressivamente. De inicio, os Egípcios ergueram diques de proteção ao longo do rio; em seguida, por meio de um conjunto de canais e de depósitos de retenção, aprenderam pouco a pouco a controlar a inundação. Uma vez controlada a violência da corrente, as águas puderam então permanecer por mais tempo sobre os campos, depositando neles o limo fertilizante. Finalmente, aplainando cuidadosamente o Vale, a rede de canais permite levar a água a terras que a simples cheia não teria atingido. Se o Nilo e a sua cheia são fenômenos da natureza, o Egito, em contra-partida, é de fato uma criação humana, um Oasis, palavra que nos vem do egípcio antigo, no sentido pleno do termo.

O segundo meio utilizado pelo homem para atenuar as falhas do Nilo foi a constituição sistemática de reservas nos anos de boa cheia para ocorrer às necessidades quando das inundações insuficientes. O “Tesouro real” é essencialmente um celeiro, e uma boa administração deve proceder de modo que o celeiro esteja sempre cheio. Esta necessidade contribuiu certamente para estabelecer, no Egito, um regime político autoritário e centralizado. Exigiu, além disso, desde muito cedo a instalação de uma administração eficaz, para permitir a população viver e prosperar, fosse qual fosse a cheia. Em contrapartida, a configuração geográfica tende a fragmentação do poder. Com efeito, o Egito é cerca de trinta e cinco vezes mais longo que largo. Onde quer que esteja instalada a sede da administração central, está sempre muito afastada de certas províncias com as quais só com lentidão se pode comunicar. Recentemente, comparamos de modo prosaico o Egito a um tubo de rega: o seu ralo seria o Delta com os sete braços do Nilo, constituindo o Alto Egito o tubo propriamente dito; mais poeticamente, o Egito foi também comparado a um lótus cuja flor constituiria o Delta, o caule meavel o Said, e um botão o Fayum. Seja qual for a imagem adotada, é muito difícil determinar o centro de um tal pais.

Por outro lado, a largura do Vale não é uniforme. Quando as falésias Líbia e arábica se afastam uma da outra, abrem-se pequenas bacias naturais, aparadas umas das outras por estrangulamentos do Vale, onde as falésias se aproximam. Estas pequenas bacias, mais ou menos ricas consoante a sua ascensão, tendem a constituir entidades políticas independentes a partir do momento em que o poder central enfraquece.

A historia do Egito oscila, assim, entre duas tendências opostas: ora para um poder absoluto fortemente centralizado, ora para dispersão em pequenos principados. A concentração do poder correspondem às grandes épocas da historia egípcia: Antigo Império, Médio Império, Novo Império da XVIII à a XX dinastia. Em contrapartida, a tendência para o esboroamento do poder desemboca na fragmentação do pais em pequenos reinos, fragmentação essa que leva geralmente à anarquia e, com muita freqüência, à fome, porque a exploração do Vale deixa de ser assegurada de maneira -continua; essas épocas são conhecidas dos historiadores sob o nome de Primeiro e Segundo Períodos Intermediários, mas o mesmo fenômeno reproduziu-se periodicamente desde a XXI dinastia até à conquista macedônia.

Os recursos naturais

Os recursos naturais do Egito eram, pelo menos no Neolítico, variados e abundantes. A floresta-galeria era então bastante densa ainda no Alto Egito. A dessecação progressiva dos desertos limítrofes fazia dela o refúgio de uma fauna abundante: macacos, elefantes, leopardos, cobras e serpentes encontravam nela um terreno que lhes era favorável. A savana e os desertos que rodeavam o vale inundável eram ricos em herbívoros, lebres, ouriços-cacheiros, gamos, gazelas, cabritos-monteses, antílopes diversos – como o “addax”, o orix, o búfalo -, girafas, burros e bois selvagens, avestruzes, que eram acompanhados de grandes e pequenos predadores tais como leões, panteras, linces, hienas, cães selvagens, raposas, águias, falcões e abutres, assim como de outros hospedes, temíveis uns, como os escorpiões e as víboras de antenas, pacíficos outros, como as galinhas-do-mato e as codornizes.

As margens do rio, mais ou menos pantanosas, abrigavam numerosos hipopótamos, crocodilos, lontras, grandes lagartos como o varano, assim como javalis, mangustos e ginetos. Inúmeras aves aquáticas viviam ao longo do Nilo: patos, gansos, garças-reais, pelicanos, flamingos, grous, íbis, verdizelas, poupas, garças de poupa, jabirus, porque o Vale servia já, tal como atualmente, servia de passagem para as aves migradoras. As águas do rio, por fim, continham múltiplas espécies de peixes, e a tartaruga fluvial não era rara.

É esta fauna selvagem que fornece aos caçadores e pescadores das épocas altas as suas presas habituais, e aos criadores de gado do Neolítico e das primeiras dinastias numerosos espécimes para domesticar ou para cruzar com os animais domésticos vindos da Ásia ou do Sul.

A flora é um pouco menos rica: gramíneas variadas da savana e das margens do rio, arbustos e arvores como os espinhosos, terebintos, tamargueiras, jujubeiras, acácias, sicomoros, perseas, assim como as palmeiras, tamareira ou palmeira mediterrânica. Os pântanos continham numerosas plantas aquáticas: “potagometon“, lótus azul e rosa, cana, junco, e sobretudo o papiro de múltiplas utilizações: cordas, esteiras, sandálias, barcos.

A riqueza da fauna e da flora selvagens irá diminuir à partir do Pré-dinastico, e sobretudo, a partir de 2500 a.e.c. O seu empobrecimento só parcialmente será compensado pelos contributos vindos do exterior. A exploraçação do Vale pelos agricultores é o principal responsável por este empobrecimento: a construção dos diques ao longo do rio destrói a floresta-galeria, o nivelamento do solo elimina os pântanos, a destruirão pela caça dos animais nefastos para as culturas reduz o número dos animais. A fauna recua pouco a pouco, e a flora selvagem – arborescente sobretudo – torna-se mais rara. Além disso, o fim do “Subpluvial” neolítico africano, por volta de 2400 a.e.c., transforma em deserto a savana que até aquela altura cobria ainda os planaltos tanto a Oeste como a Leste do Nilo. Esta dessecação progressiva diminui os recursos em caça e as possibilidades de criação de gado dos habitantes do Vale.

Contudo, a partir do Neolítico, e talvez antes, quer por importação da Ásia no Leste e da África no Sul e no Oeste, quer selecionando eles próprios sementes e reprodutores, os Egípcios modificam os recursos da natureza selvagem: a cevada, desde a pré-história, e a espelta substituem as gramíneas primitivas; lentilhas, feijões, alhos, pepinos, cebolas e alhos-porros tomam o lugar das plantas que cobriam a subfloresta da floresta-galeria desaparecida; aparecem o linho e a vinha, e a moringa fornece o óleo. Se as tentativas de domesticação da gazela, do orix e da hiena se malogram, em contrapartida os rebanhos de vacas, de cabras, de carneiros e de porcos multiplicam-se.

Esta transformação é muito progressiva. O Egito do Antigo Império, até pelo menos cerca de 2200, graças a uma umidade relativa mais forte que atualmente, é ainda pastoril; o gado desempenha, na economia do país, um papel pelo menos igual ao da grande cultura. A partir do Médio Império, a cultura domina, a criação de gado perde importância e o Egito faz apelo ao exterior para preencher as suas necessidades em gado.

O vale, via de comunicação

O Egito, pela sua posição geográfica, na charneira, se assim se pode dizer, da África e da Ásia, foi sempre um lugar de permutas internacionais, pacificas ou violentas. O vale do Nilo constitui uma via de comunicação privilegiada entre o mundo mediterrânico e a África longínqua. Pelo istmo de Suez, está em contato com o corredor siro-palestino e, por ai, com a Mesopotâmia e a Anatólia. Estes laços, que já estão estabelecidos no Neolítico, tem a sua marca mesmo na língua e na escrita: se a morfologia e a sintaxe estão por vezes próximas do semítico, em contrapartida os sinais hieroglíficos propriamente ditos apresentam uma fauna e uma flora puramente africanas. À Ásia, o Egito media madeira de construção, já que as árvores do vale eram difíceis de trabalhar e impróprias para fornecer as belas, longas tabuas e traves feitas à partir dos cedros e pinheiros do Líbano. O mineral de cobre vinha sobretudo do Sinai, assim como as turquesas. À estas importações de base juntavam-se o lápis-lazúli que transitava pela Ásia, e, a partir do Médio Império, o gado e numerosos produtos fabricados. Da África vinham o ébano e essências, tendo a floresta-galeria subsistido durante mais tempo no alto vale do Nilo; o marfim e sem duvida a obsidiana provinham também do Sul, aos quais há que juntar talvez um pouco de cobre no Antigo Império e principalmente, a partir do Médio Império, o ouro, o gado, os animais exóticos – vivos ou sob forma de peles – e por fim, de boa ou de má vontade, a mão-de-obra humana.

Pelo Mediterrâneo, o Egito esteve em contato, pelo menos através de intermediários, com o mundo egeu que, desde o Médio Império, lhe fornece objetos fabricados, assim como o cobre cipriota, a prata ciliciana e o marfim sírio. No mar Vermelho, os navegadores egípcios iam até ao estreito de Bab-el-Mandeb para obter, na costa africana, o incenso, especiarias, ébano, marfim, ouro, animais como os babuínos, ou peles de leopardo. No Oeste, o Egito estava em relação com os Líbios que cultivavam os territórios na costa do Mediterrâneo e os Oasis escalonados paralelamente ao Nilo, de Siwa no Norte até Khargeh no Sul. Embora pouco numerosos, e sem duvida limitados em quantidade, os produtos da Líbia, gado de pequeno porte, azeite, vinho, parecem ter sido sempre muito apreciados dos Egípcios; mais abundantes na época alta: no período pré-dinástico e até ao meio do Antigo Império, desempenham então um papel econômico importante que não se limita às necessidades do ritual religioso, como até há pouco se julgava. Se se juntarem a todos estes recursos, de proveniência tanto local como externa, as numerosissimas pedras que se encontravam com abundância nas cadeias montanhosas líbia e arábica, desde os sílex, alabastros, calcários, grés e granitos, até aos xistos, basaltos, quartzitos e dioritos, sem esquecer as pequenas pedras semi-preciosas (jaspe, ametista, cornalina), vê-se que o Egito dispunha de tudo aquilo de que podia ter necessidade uma civilização antiga. Só o ferro era pouco abundante, mas só ganhara importância mesmo no fim da história egípcia.

A população e a vida quotidiana

Depois dos recursos naturais, contêm mencionar os recursos humanos. Quando da dessecação progressiva dos desertos limítrofes, a partir do Paleolítico superior e, depois, a seguir ao fim do III milênio a.e.c., o vale do Nilo recolheu uma grande parte das tribos que não podiam subsistir no deserto. A este fundo, essencialmente africano branco, juntam-se periodicamente infiltrações vindas da Ásia pelo istmo de Suez, e também do Sul, de modo que os Egípcios antigos não constituem uma raça pura. Parece, todavia, que o elemento africano branco, aparentado aos Líbios e aos Núbios, terá sido sempre predominante.

É impossível precisar qual poderá ter sido o montante da população egípcia na época faraônica; de resto, ele deve ter variado consideravelmente ao longo dos séculos. Sugeriu-se a cifra de cinco milhões, o que provavelmente será um Maximo, situando-se a media sem dúvida entre três e quatro milhões. O Egito estava, pois, longe de conhecer o sobrepovoamento. Veremos que ele só poderá desempenhar um papel importante na Ásia com a ajuda dos recursos em homens do alto vale do Nilo: e mesmo assim esse papel será muito limitado no tempo.

O quadro onde se desenvolveu a civilização egípcia, quadro esse que acabamos de descrever, marcou fortemente a vida quotidiana dos habitantes. A inundação produtiva impôs um ritmo rigoroso a essa vida.

Depois de a água se retirar dos campos, entre Outubro e Dezembro conforme a latitude, os camponeses tinham de semear imediatamente na terra ainda úmida, ou melhor, na própria lama. Com efeito, uma vez semeada, a semente nunca mais recebia qualquer rega, natural ou artificial, até a completa maturação da planta. Havia, pois, que aproveitar ao máximo a umidade retida no solo. Enquanto esperavam pela ceifa, começada a partir de Março, os camponeses tratavam das hortas e dos pomares plantados nas margens do rio ou dos canais, onde era fácil regar por meio de baldes, primeiro, e, mais tarde, recorrendo a cegonha. Os Egípcios só conhecerão a saquieh ou nora mesmo no fim da sua historia, e a irrigação permanecerá sempre anual, e não perene como o é atualmente graças às barragens.

No principio de Junho o mais tardar, a ceifa estava feita e o grão recolhido nos celeiros. Era necessário, de imediato, de Maio a Julho, preparar a chegada da nova inundação: reparar os diques ao longo das margens, limpar os canais assoreados, levantar de novo os aterros que constituíam os “reservatórios” de irrigarão que, escalonados do Sul ao Norte, retardavam e dominavam o ímpeto da cheia. E para este trabalho, que só seria eficaz se fosse executado a tempo e com cuidado, que a uma autoridade central era indispensável. A partir de Julho, a inundação começa a fazer-se sentir. De Julho até ao fim de Outubro, o Egito era inteiramente coberto pelas águas lodosas do rio, e as aldeias do vale apenas comunicavam entre si através dos diques que serviam também de estradas.

O camponês deixava, então, de poder trabalhar nos campos, mas nem por isso esse era para ele um período de descanso. Com efeito, o Nilo constituía a única estrada que permitia circular de uma extremidade a outra do país; por isso, tirando partido da inundação que penetrava em todo o lado na própria orla do deserto, a administração mandava fazer, nessa época, os grandes transportes de materiais de construção, designadamente pedra e madeira, que eram trazidos para a edificação dos templos e, sobretudo, dos túmulos reais construídos na orla do deserto. Este trabalho exigia longas e numerosas “empreitadas”. A inundação era também a época em que os -rápidos das cataratas, cobertos de água, eram mais fáceis de transpor, era portanto a altura em que era preciso empreender as grandes expedições comerciais ou militares para o Sul.

Assim, o ritmo da vida egípcia estabelece-se com rigor: do fim de Julho a meados de Novembro, o Vale está inundado, é a época dos grandes transportes materiais e das expedições para o Sul; de meados de Novembro a meados de Março, sementeiras e manutenção das culturas hortícolas; de meados de Marco a meados de Julho, ceifa e preparativos para a chegada da nova cheia.

O calendário

Aqui se encontra a origem do calendário egípcio antigo que é um calendário agrícola; o ano esta nele dividido em três estações de quatro meses cada uma: Akhet (inundação), Peret (crescimento das plantas), Shemu (ceifa, etc.). Estas estações correspondem rigorosamente ao esquema dos trabalhos agrícolas que descrevemos. Cada mês tem trinta dias, ou seja, um total de 360 dias.

O primeiro dia do ano coincidia com o primeiro dia do primeiro mês da inundação. Primitivamente, os Egípcios tiveram de determinar este dia observando diretamente a subida efetiva das águas, variando assim o primeiro dia de Akhet de um ano para o outro, e arriscando-se o ultimo mês de Shemu a ser umas vezes mais longo outras vezes mais curto. No entanto, bastante rapidamente, talvez sob a III dinastia, eles acabaram por ligar o fenômeno natural da subida das águas a um fenômeno astronômico: o aparecimento no céu, na altura do pôr-do-sol, da estrela Sepedet, Sothis em grego (a nossa Sírio), a que se chama o nascer heliaco de Sothis. Este fenômeno, abaixo da latitude de Mines, produz-se a 14 de Junho gregoriano (19 de Julho juliano); ora, é efetivamente por esta altura que o inicio da inundação, primeiro muito lenta, pode ser observado em Mênfis. A partir daí, o ano oficial começou no dia do nascer heliaco de Sothis e durou 365 dias; porque os Egípcios tinham observado que este fenômeno se repetia após 365 dias; acrescentaram, portanto, cinco dias suplementares ao ano de 360 dias, em grego os “dias epagómenos”.

Se o nascer heliaco de Sothis tivesse sido observado todos os anos, os Egípcios teriam encontrado o calendário perfeito. No entanto, as coisas não se passaram assim. No novo calendário adotado, sem dúvida por volta de 2773 a.e.c. sob o reinado de Djoser, o primeiro dia do ano voltava regularmente a 365 dias após a celebração do anterior. Sendo o ano solar real de 365 dias e um quarto (6 horas), dai se seguiu um desfasamento, de ano para ano, com o ano oficial. Ao fim de 120 anos, havia um mês de diferença entre os dois, e só após 1460 anos o primeiro dia do ano astronômico coincidia de novo com o primeiro dia de Akhet. É aquilo a que se chama um período sotiaco.

O desfasamento entre ano astronômico e ano “faraônico” forneceu à Egiptologia uma cronologia de base segura. Com efeito, por diversas vezes, os Egípcios anotaram o dia do ano oficial em que efetivamente se tinha dado o nascer heliaco de Sothis. Sabendo por um texto de Censorinus que esse nascer heliaco e o primeiro do ano oficial tinham coincidido em 139 da nossa era, calculou-se primeiramente que o mesmo fenômeno devia ter-se verificado em 1317 e 2773 a.e.c.; isso permitia fixar a data da adoção do calendário que só podia ser uma dessas duas datas. Admitia-se até há pouco que essa adoção se tivesse feito um período sotiaco antes, ou seja, em 4323 a.e.c., mas essa data, que se situa em plena época neolítica, foi abandonada. Não permitindo a data de 1317 incluir o reinado de todos os faraós conhecidos graças às fontes, dai se segue que a adoção do calendário deva ter sido feita em 2773 a.e.c.

Graças às observações dos escribas, algumas datas precisas balizam a história do Egito: o ano 7 de Sesóstris III cai em 1877 a.e.c., o ano 9 de Amenófis I em 1545 e o reinado de Tutmés III deve incluir o ano 1469. Foi a partir destas datas-referências que, combinando fontes literárias e arqueológicas, se pode estabelecer uma cronologia que, no pormenor, pode prestar-se à discussão, mas no seu conjunto se mantém sólida.

O calendário “oficial” ou “civil”, de uso sobretudo administrativo, tão ,hábil para o estabelecimento da cronologia, nunca substituiu, para os Egípcios, na vida de todos os dias, um calendário lunar em uso desde o período proto-dinástico. Foi sempre com base nas fases da lua que foram fixadas as grandes festas religiosas. Assinalou-se mesmo, após a adoção do calendário “civil”, a existência de um segundo calendário lunar, melhorado, de modo que se deve falar não “do” mas “dos” calendários egípcios.

As fontes da história egípcia

O Egito não parece ter tido “historiadores”, como os Gregos e Roma possuíram. Contudo, esta fora de dúvida que, nos seus arquivos, os templos conservavam Anais de caráter histórico, nos quais estavam consignados os nomes dos reis, a duração do seu reinado e, por vezes, os principais acontecimentos que tinham ocorrido. Poucos desses documentos chegaram até nós. O mais antigo, gravado em uma laje de diorito negro, e conhecido sob o nome de Pedra de Palermo (local onde se conserva). Redigido sob a V dinastia, apresenta os nomes dos faraós desde o fim do Pré-dinástico recente, quando a monarquia ainda não era unificada, e conseqüentemente encontram-se nele, separados, os nomes dos reis do Alto Egito e os dos reis do Baixo Egito. O monumento está infelizmente em mau estado de conservação e são por isso numerosas as lacunas. Onde esté completa, a Pedra de Palermo é das mais preciosas, porquanto apresenta, ano após ano, o nome do faraó reinante, o acontecimento marcante do ano e, ao que parece, a altura atingida pela inundação. Fica-se pelo caso do sexto rei da V dinastia, Ne-user-ré.

O Papiro de Turim, redigido sob Ramsés II (1290-1224), deve ter sido imposto segundo anais do tipo dos da Pedra de Palermo: é uma lista de nomes de reis com a duração do seu reinado em anos, meses e dias. A lista começa com os deuses e semi-deuses aos quais atribui reinados de uma duração fantástica; os faraós históricos estão agrupados e, de lugar em lugar, o papiro apresenta o total dos anos de reinado do grupo. Infelizmente, o Papiro de Turim, que se fica pela XIX dinastia, é também ele muito incompleto.

À Pedra de Palermo e ao Papiro de Turim convém juntar as Listas reais monumentais. Compiladas também elas a partir de anais originais, citam seqüência de nomes de reis por ordem cronológica, mas sem apresentarem datas. Destinadas a assegurar, nos templos, o culto funerário dos grandes antepassados, tem a desvantagem de fazerem uma escolha entre os reis, alguns dos quais não são nomeados. As mais célebres destas listas são: a Lista de Karnak, atualmente no Museu do Louvre, composta sob Tutmés III(1504¬-1450), comportava originalmente 61 nomes que nem sempre estão dispostos com rigor; a Tábua de Abydos, gravada numa parede deste tempo sob Sethi I (1312-1298), enumera 76 reis; a Tabua de Sakkara, por fim, que data de Ramsés II (1301-1235), encontrada num tumulo de funcionário, comportava as vinhetas de 57 reis das quais subsistem apenas 50.

No século III a.e.c., a pedido de Ptolomeu II Filadelfo, um sacerdote egípcio, Maneton, escreveu em grego uma historia completa do Egito faraônico. Maneton serviu-se certamente dos anais conservados nos templos, mas a sua obra Aegyptiaca perdeu-se e só a conhecemos através de um sumario ou Epítome redigido segundo o original por vários cronógrafos. Os apologistas judeus e cristãos serviram-se com freqüência deste Epítome que nos chegou graças a eles. Maneton repartira a história dos Faraós, desde as origens até a conquista de Alexandre, em trinta e uma dinastias. O Epítome apresenta, para cada dinastia, o seu lugar de origem, a lista dos reis que a compõem com a duração do seu reinado e, por vezes, raramente, uma curta frase que menciona um acontecimento marcante do reinado.

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