Napoleão, o senhor da guerra

Napoleão, o senhor da guerra

Jacques-Oliver Boudon

Alimentado pela leitura dos filósofos das luzes, Napoleão Bonaparte se entusiasma pela Revolução e compreende que pode ter um papel importante no decorrer dos acontecimentos. Mas ele não toma parte nos primeiros combates que marcam o começo da guerra entre a França e a coligação formada pela Áustria e Alemanha. Só em junho de 1793 decide participar da guerra européia.

Napoleão desembarca em Toulon, com a famílla, em 11 de junho de 1793. A cidade está sob o efeito da pressão jacobina, o que os leva a se instalar em Marselha. A França está exposta aos golpes da primeira coligação que reúne as principais potências européias: Áustria, Prússia. Inglaterra, Províncias-Unidas e Espanha. Em junho de 1793, na Convenção, os girondinos foram acusados e vários deles presos, provocando um movimento federalista em várias cidades francesas, [46] particularmente cm Lyon. A população de Toulon aproveita a ocasião para se desvencilhar dos jacobinos e chamar os ingleses, que se apressam em ocupar este ponto estratégico. Por indicação de seu compatriota Salicetti, é designado para comandar a artilharia do exército do general Caiteaux, responsável pelo cerco de três meses a Toulon. Bonaparte faz maravilhas nos planos militar e político. Embora a vitória seja creditada a Dugommier, comandante das tropas, Napoleão retira do episódio uma certa glória e uma rápida promoção, tomando-se general-de-brigada com apenas 24 anos.

A vitória é importante na carreira de Napolcão por revelar seus talentos militares. Entretanto, outros generais se distinguem na mesma época, em outros campos de batalha. Para a França, em guerra contra uma Europa unida, Napoleão Bonaparte é apenas um oficial entre outros. Quem pode pensar que terá um destino tão inacreditável? Em Toulon, Napoleão cruza pela primeira vez com Nelson, comandante da esquadra inglesa, que assegura a proteção da cidade.

Insurreição Monarquista

Os ingleses não têm dúvidas de que acabaram de enfrentar um adversário perigoso. No entanto, a guerra provoca desgastes nas fronteiras e a queda de Robespierre poderia ter marcado o final da carreira do jovem general. Depois de tomar partido dos montanheses, Napolcão se aproximad e Augustin Robespierre, o irmão de Maximilien, o que lhe vale uma prisão algum tempo depois do 9 Thermidor (25 de julho de 1794), e o afastamento total do comando nos meses seguintes.

Designado para o escritório topográfico parisiense, surge a segunda chance de sua carreira: a insurreição monarquista do Vendémiaire (no mês do calendário republicano). Os monarquistas se rebelam, em outubro de 1795, em protesto contra a Constituição recentemente promulgada. Entre as disposições da Carta, uma autorizava a redeição de dois terços dos deputados da Convenção para a nova Assembléia, o que anularia a esperança monarquista de mudar o regime.

Bonaparte é encarregado de sufocar a revolta nos bairros do oeste parisiense, o que faz com tiros de canhão contra os rebeldes encurralados perto da igreja de Saint-Roch. Na imagem que construía de militar fiel à República, este ato foi um divisor de águas. Embora fosse apenas uma operação destinada a manter a ordem na capital, a repressão ganhou dimensão política. É através dessa manobra que Napoleão se aproxima do poder e se transforma em interlocutor. Em 1794, na época de Robespierre, suas opiniões pouco contavam. mas, agora, a familiaridade com o novo regime do Diretório abre-lhe as portas para uma magnífica carreira política.

Logo após os eventos do vindimiário, Bonaparte habilmente se aproxima dos poderosos. E quando conhece e se apaixona pela antilhesa Joséphine de Beauhamais, – então amante de Barras, o homem forte do Diretório -, seis anos mais velha, viúva de um general guilhotinado pelo Terror, mãe de dois filhos. Casam-se cinco meses após o encontro, em 9 de março de 1796. No dia 11, Napoleão sai de Paris como comandante da armada na Itália. A guerra recomeçou no continente, e o Diretório compreende a necessidade de avançar além das fronteiras naturais para garantir a paz definitiva. Com um olho em Viena, Napoleão deve atingir o centro das possessões [47] austríacas. Enquanto um poderoso exército atravessaria o Reno para ameaçar Viena pelo norte, a bem mais modesta armada estacionada na Itália deveria abrir um segundo fronte no flanco sul da Áustria.

Bonaparte, no comando de 36 mil homens mal equipados, não se contenta em atacar apenas uma parte das tropas inimigas, e muda a estratégia: organiza uma ofensiva rápida. As tropas napoleônicas penetram na Itália do norte e derrotam as duas armadas enviadas para combatê-las, a sarda e a austríaca. Vitorioso em Montenotte, em 12 de abril e, nove dias depois, em Mondovi, Napoleão controla o Piemonte e leva os sardos a abandonar a coligação.

Fascínio e medo na Europa

Com as mãos livres, pode atacar a lombardia ocupada pelos austríacos. A vitória de Lodi, em 10 de maio, abre as portas de Milão, onde entra no dia 15. A Lombardia está conquistada. Bonaparte amplia sua vantagem no centro da Itália com a conquista do norte e dos territórios papais. O avanço em direção a Viena é mais difícil, pois os austríacos controlam Mântua. O cerco prossegue durante o verão. A sua armada é derrotada na Alemanha e reverte asituação em 17 de novembro de 1796, com a vitória na batalha de Arcole. Mântua capitula em 2 de fevereiro de 1797 e abre o caminho de Viena para Bonaparte. No começo de abril, chega às portas da cidade, e obriga a Áustria a assinar as preliminares do tratado de paz de Leoben.

Em pouco mais de um ano, ele é o centro das atenções. A glória repentina é produto de suas vitórias militares, mas também do modo como as explora. Surgem os jornais Correio da Armada na Itália A França Vista pela armada na Itália. Ambos relatam diariamente suas conquistas e contribuem muito para mitificá-lo – artistas franceses e italianos apressam-se em desenhar a figura do novo herói.

As notícias do sucesso de Bonaparte magnetizam a opinião pública francesa e a Europa segue as conquistas napoleônicas dividida entre o temor e a fascinação. Maria Carolina, rainha de Nápoles, fervorosa adversária da Revolução, escreve para o Marquês de Gallo. “Acho execrável o partido que Bonaparte segue, mas tenho por ele um sentimento de verdade, estima e admiração.(…) Em toda Europa não há nenhum outro como ele, guerreiro, militar ou político. (…) Será o maior homem do nosso século.”

Bonaparte fascina e subjuga seus observadores. É, ao mesmo tempo, general vitorioso e administrador incomparável, capaz de cooptar as elites da Itália conquistada e levá-las a apoiá-lo como líder de uma República Cisalpina criada em Milão, em 1797. É igualmente diplomata e conclui, um após outro, o armistício com o rei da Sardenha-Piemonte; o tratado de paz de Tolentino com o Papa, a quem promete proteger o catolicismo na Itália; e, finalmente, negocia as condições de paz com a Áustria. Não somente os franceses se entusiasmam com suas vitórias. Nascem grandes esperanças entre os patriotas italianos adeptos dos princípios da Revolução. Para eles, Napoleão possibilitará o fim do feudalismo e a criação de uma nação unificada.

O general se apoia nesses nacionalistas para administrar a República Cisalpina, que seria o núcleo de uma Itália unificada. Quando os franceses tomam Veneza, os nacionalistas italianos acreditam estar perto da formação de uma nova nação. Bonaparte, porém, utiliza a “sereníssima” como garantia para a assinatura do tratado de paz com os austríacos. E devolve Veneza para a Áustria. Sob essa óptica, a assinatura do tratado de Campoformio é vista como traição pelos italianos.

Mas, se a ideia da unificação italiana é abandonada, a formação das repúblicas irmãs – França, Turim, Roma e, depois, Nápoles – cumpre as expectativas provocadas nos liberals. Bonaparte, no entanto, não é o principal obstáculo à unificação da Itália. [48]

O Diretório desconfia dessa unidade, temendo ver surgir uma republica italiana dominada pelos jacobinos.

Aos olhos dos liberais europeus, ele é o general que carrega os ideais da Grande Nação. Naquele momento, é adulado pelos liberais, como atestam as frases de Germaine de Stael, futuramente um de seus mais ferozes adversários: As decisões de Bonaparte na Itália, foram tomadas para inspirar-nos confiança nele. Mais tarde, ele dirá que, após Lodi, veio-lhe a ideia de que poderia tornar-se um ator decisivo na cena política. Entretanto, em setembro de 1797, o Diretório se vê em perigo diante dos monarquistas. Bonaparte está consciente da necessidade de fortalecer sua popularidade. Lança, então, o olhar em direção ao Oriente. É o general escolhido para comandar a armada contra a Inglaterra. O objetivo seria desembarcar em solo inglês, mas a ação parece arriscada. Assim, surgea ideia de uma manobra indireta, capaz de enfraquecê-la sem atacar o fronte. Em março, o projeto de conquista do Egito é levado a Bonaparte pelo ministro Talleyrand. A princípio, a operação pretende cortar o caminho das índias, vital para o comércio inglês. Bonaparte é fascinado pela civilização egípcia e admirador de Alexandre, o Grande. Interesses políticos e econômicos se mesclam às ambições pessoais.

Em maio de 1792, é reunida uma frota de 300 navios, que leva quase 30 mil homens ao outro lado do Mediterrâneo. Depois de conquistar a ilha de Malta, Napoleão chega a Alexandria. Em 1 de julho, toma posse da cidade e assume o controle do Nilo. Às margens do rio será travada a famosa batalha das Pirâmides, em 21 de julho de 1798. No dia seguinte, o Egito é conquistado, e os franceses se estabelecem no país. Em 1 de agosto, a frota francesa é destruída pela esquadra do Almirante Nelson, em Abuquir, e, em consequência, não pode se retirar do país.

Sem comunicação com a Europa, Bonaparte procura solidificar sua conquista, e em fevereiro de 1799, comanda uma expedição à Síria. A despeito de algumas vitórias, fracassa. Em maio, as tropas francesas abandonam o país. A armada, entretanto, mantém-se firme diante da cavalaria egípcia e das forças inglesas e turcas coligadas. Em 25 de julho de 1799. os franceses dispersam o exército otomano.

Orgulhoso desse sucesso. Bonaparte decide deixar o Egito com seus melhores tenentes. Chegam senhores sobre a situação explosiva da França. O sonho oriental se atenua – é na Europa que ele vai construir seu destino. A guerra européia tem lugar no Mediterrâneo, onde franceses e ingleses se enfrentam.

Napoleaão deflagra, então, uma guerra de comunicação. Ele explora seus feitos na imprensa especializada, como emprego de imagens que exaltam os feitos do seu exército no Egito. Ao mesmo tempo, os ingleses redobram a carga sobre Bonaparte para demolir a imagem de herói já estabelecida na Inglaterra. Dessa forma, Bonaparte é descrito como um chefe sanguinário. Os panfletos lembram a ferocidade dos franceses que, durante a tomada de Jaffa, executaram 2.500 soldados prisioneiros. A propaganda anti-Napoleão atinge o auge quando o general é acusado de ter executado soldados de seus próprios exércitos atacados pela peste. Essas denúncias não são unânimes na Inglaterra. O Morning Herald, escreve sobre a ação de Napoleão no Egito, garantindo que nunca ninguém realizou tanto em tão poucos meses.

Os ingleses, que deixaram Bonaparte escapar do Egito, ficam estarrecidos ao vê-lo chegar, dois meses depois, para liderar a França após o 18 Brumário. A Inglaterra rejeita as ofertas de paz do primeiro-cônsul para não avalizar as mudanças ocorridas desde 1789. Para os monarquistas, Bonaparte continua um herdeiro da Revolução. O conflito iniciado em 1792 contra a Fiança revolucionária, agora encimada por Napoleão, só vai terminar em 1815, no campo de batalha de Waterloo. [49]

Referência

BOUDON, Jaques-Oliver. O jovem corso é o senhor da Guerra. História Viva, n. 01. São Paulo/SP: p.46-49 Novembro 2003

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