Atenas, capital artística da Grécia

Atenas, capital artística da Grécia

Jean Jacque Maffre

O mundo grego do século V a.e.c., não tinha uma capital, no sentido político do termo. Cada uma das cidades que o constituíam era independente e funcionava, pelo menos na teoria, como um Estado autônomo, com sua própria constituição, leis, organização social, moeda e sistema de pesos e medidas. Isso ocorria tanto no território de origem como nas regiões onde os gregos se instalaram no decorrer dos séculos, particularmente a Sicilia, a Itália, a Gália meridional, a Cirenaica e nas proximidades do mar Negro. Eram heterogêneas, variando de vilarejos a verdadeiras metrópoles poderosas e populosas, como Selinunte, Agrigento, Siracusa, Tarento, Coreira, Corinto, Esparta, Tehas, Atenas, Cálcis, Éfeso e Esmima. Destas, muitas podiam aspirar à qualidade de metrópoles regionais; algumas estavam à frente de ligas ou confederações. Atenas, porém, se destacava. Após ter desempenhado um papel decisivo nas guerras médicas com vitórias brilhantes sobre os persas em Maratona, no ano de 490 a.e.c, e em Salamina, no ano de 480 a.e.c., Atenas exerceu uma supremacia de fato. E, também, de direito, por meio da liga de Delos, que criou em 477 a.e.c. sob o pretexto de proteger as cidades de um retomo ofensivo das persas. Praticou, em relação a elas, uma política imperialista que se estendeu até a época de Péridcs, no segundo terço do século V a.e.c. Mas essa busca do comando, foi contestada indusive por participantes da liga, como a própria Esparta, ou recalcitantes, entre as quais se alinhavam Naxos, Tasos ou Samos, que se revoltaram contra as exigências da cidade hegemônica.

Mesmo se o desejasse, no terceiro quarto do século V a.e.c., Atenas não poderia pretender ser reconhecida como a capital política do mundo grego. Também não era a capital economica. Há, porém, um domínio no qual da pôde legitimamente ser considerada capital do mundo grego: o do pensamento e das boas-artes. Em poucas décadas, entre aproximadamente 450 e 410 a.e.c., as criações artísticas da cidade de Pérides se multiplicaram com uma rapidez e uma densidade raramente alcançadas em outras épocas, nos domínios mais diversos: arquitetura, escultura, pintura e artes decorativas. A conjuntura política era favorável: a ameaça “bárbara” cessou de pairar com o restabelecimento da paz, assinada com o rei da Pérsia em 449 a.e.c. Em 446 a.e.c., Atenas concluiu uma trégua de 30 anos com Esparta. Assim, os meios financeiros e humanos disponíveis foram totalmente colocados à disposição das artes.

O espetáculo mais fantástico foi o que iluminou a Acrópole da cidade, numa florescência de construções. O mármore branco do monte Pentélico o projeta ainda hoje, num brilho fascinante, sobre a tela do céu azul do Ático. Plutarco, no século I e.c., frisava a importância dessas realizações arquitetônicas, no célebre livro A vida de Pérides. “O que causou mais prazer aos atenienses e mais contribuiu para embelezar sua cidade, o que mais tocou a imaginaçio dos estrangeiros, o que atesta que essa potência tão consagrada da Grécia e sua antiga prosperidade não são mentiras, foram os monumentos construídos por Péricles…” O mesmo autor ainda dizia: “Os artistas esforçavam-se no desejo de se superar pela perfeição técnica do trabalho; porém o mais admirável foi a rapidez da execução. Todas essas obras, cada uma das quais parecia ter exigido várias gerações sucessivas para serem acabadas, encontraram-se todas terminadas durante o período de apogeu de uma única carreira política”.

Tesouro votivo

Ele se referia a três templos – o Partenon, o Erectéion e o templo de Atena Nike – e a um edifício civil, o Propileu, construído como uma decoração em mármore em torno da entrada solene que dava acesso, do lado ocidental, ao elevado rochoso da Acrópole. Graças às fontes literárias epigrâficas e à sequência das escavações arqueológicas feitas desde o século XIX, chegamos bem próximos de uma cronologia desses monumentos: o Partenon foi concluído entre 447 e 432 a.e.c.; o templo de Atena Nike, cuja construção foi decidida por um decreto de 449 a.e.c., foi erguido entre 427 e 424 a.e.c.; o Erectéion, iniciado entre 421 e 415 a.e.c., foi terminado entre 409 e 406 a.e.c. O maior e mais famoso edifício da Acrópole, o Partenon, dedicado a Atena, deusa defensora da cidade, sob a forma de Partenia, ou seja, de virgem. Graças ao talento do arquiteto Ictino e do escultor Fídias, esse monumento foi concluído sem delongas, após um período de lenta progressão das obras, iniciadas algumas décadas antes. Ao assumir a responsabilidade pela obra inacabada de um predecessor desconhecido, Ictino ergueu uma construção majestosa, ao mesmo tempo templo e tesouro votivo em honra da deusa protetora da cidade.

O Partenon é um dos grandes templos gregos peripteros, ou seja, cercados de colunas externas – oito nas fichadas 17 nas laterais. Era notável por sua largura excepcional (mais de 19 m), o que permitiu rara amplitude aos espaços internos. Sua nave central, de quase 11 m de largura, era envolvida por uma tripla colunata: duas, habituais, que a separam de cada nave lateral, mais uma, imaginada aqui pela primeira vez, que fazia a volta atrás da estátua de culto, em frente à parede de fundo. Assim, o conjunto da colunata, de dois andares, formava um verdadeiro estojo de mármore a envolver uma jóia de ouro e marfim: a grandiosa Atena crisdefamim esculpida por Fídias.

Exteriormente, o Partenon seguia a mais pura tradição dórica, com suas colunas, capitéis e, coroando tudo, a cornija inclinada sobre a qual se erguem, na fachada, dois frontões. Um estudo minucioso dessa estrutura mostrou que a obra fora objeto de cuidados extremos, seja para garantir sua solidez, seja por razões estéticas, para compensação das ilusões de óptica, como evitar que as linhas horizontais do monumento dessem a impressão de curvar-se no meio aos olhos de um observador localizado a uma certa distância. As colunas do peristilo não são verticais, mas levemente inclinadas para o centro do edifício, desenhando um tronco de pirâmide, o que contribui para a estabilidade do conjunto, menos propenso a tombar em caso de sismo.

Alguns refinamentos já eram visíveis cm templos do final do século VI a.e.c. ou da primeira metade do século V. Ictino, porem, os levou à perfeição. Introduziu no invólucro dórico de seu templo alguns elementos emprestados da tradição jônica. Essas particularidades se integravam ao conjunto da obra-prima: nada de efeitos exagerados, mas linhas e volumes simples e harmoniosos.

O Partenon ainda não havia sido acabado quando um outro grande arquiteto, Mnesides, começou a construção do Propileu, composto por um corpo central (25.04 m de comprimento, 18,12 m de largura, entre duas fachadas dóricas) no interior do qual uma passagem principal, parcialmente rodeada de colunas jônicas, permitia atravessar uma porta monumental ladeada por duas portas estreitas e baixas. No corpo central, de orientação leste-oeste, estavam unidas duas alas simétricas na fachada, mas de desigual profundidade, na qual a maior, ao norte, servia também de pinacoteca. O arquiteto soube vencer os problemas de declividade do terreno com sua engenhosidade. Dotou a fachada oeste, que se avistava de mais longe e se levantava pelo lado de cima da rampa de acesso à Acrópole, de uma base de quatro degraus e de colunas ligeiramente mais altas, enquanto a fachada leste, voltada para o interior da esplanada, ficou com um embasamento de um degrau que suporta colunas menos elevadas (8,54 m). Além da sua função pratica de única porta de acesso à Acrópole, o edifício tinha um papel decorativo no setor mais baixo do planalto rochoso sobre o qual a cidade inteira havia se fortificado, na sua origem.

Próximo do Propileu o arquiteto (alícrares construiu uma verdadeira jóia da ordem jônica: o pequeno templo de tetrastilo anfisrilar Atena Nike (8,27 m x 5,44 m), cujas fachadas, com bases emolduradas e capitéis abobadadas nas colunas jônicas, eram valorizadas pela sóbria nudez das longas laterais, nas quais o único elemento decorativo era o friso esculpido que percorria o alio das paredes.

Quase simetricamente ao Partenon, do lado norte da Acrópole, erguia-se o Erectéion, dedicado a Atena Polias e a Posseidon. Sabe-se o nome de um dos mestres-de-obras, Filodes. Era composto de um corpo central retangular (11,60 m x 22,76 m), ao qual se uniam dois pórticos – um ao norte, outro ao sul, ornamentado por seis cariátides. Havia abundância de elementos decorativos, esculpidos em mármore, principalmente no topo das paredes e das colunas e sobre o enquadramento da grande porta que se abria sobre o pórtico norte. Foi um precursor, cujo exemplo se irradiaria durante séculos.

Esculturas colossais

Outras obras embelezavam a Atenas de Péricles e das duas décadas posteriores à sua morte. O grande estadista deixou, como legado, seu sopro criador. Algumas, completamente destruídas, restaram para a posteridade apenas por meio de seus nomes: o templo jónico de Illssos, construído por Calícrates, ou o odeão de Péricles, construído por volta de 440 a.e.c. Há um outro templo que serguia ainda, quase intacto, sobre a colina situada a oeste da ágora da cidade: o de Hefàístos, com freqüência impropriamente chamado de Ieseu. Esse harmonioso templo dórico de mármore, iniciado por volta de 445 a.e.c. e finalizado por volta de 420 a.e.c. tem proporções externas próximas às do Partenon, apesar de ser cerca de duas vezes menor (13,71 m x 31,77 m; 6 x 13 colunas).

As esculturas também são marcantes, em Atenas. Ao artista Fídias, recorreram os administradores do santuário de Olímpia, no noroeste do Peloponeso, para a realização da estátua de culto do templo de Zeus, edificado por volta de 460 a.e.c. pelo arquiteto Libon de Elcan. Os antigos a consideravam uma das sete maravilhas do mundo. Era colossal, com mais de 10m de altura e datada de aproximadamente 450 a.e.c., ou 425. O Zeus de Fídias ficou na história, graças à descrição que dele fez Pausânias, no século 11 de nossa era. e pelas moedas que o reproduzem. Vítima de igual destruição foi outra obra do mesmo autor, a Atam Partêniaào Partenon, conhecida também, apenas pelo texto de Pausânias e pelas cópias de mármore de tamanho pequeno executadas na época romana imperial.

Havia, ainda, uma outra Atena colossal de Fídias, em bronze, representando a deusa ao ar livre, na Acrópole de Atenas, pronta para o combate. Também desapareceu. Felizmente, para a posteridade, restaram trabalhos desse grande mestre ateniense: as esculturas que ornavam as partes altas do Partenon. Esse conjunto enorme constituído por dois frontões, cada um enriquecido por mais de 20 figuras, cerca de 1,60 m de comprimento por 1 m de altura, reunia 360 personagens, entre os quais 192 cavaleiros. Não foi, com certeza, executado apenas por Fídias, mas sua personalidade impôs um estilo homogêneo, visível no talhe dos corpos, na expressão dos rostos e no movimento característico das roupas, uma feliz mistura de naturalidade e dignidade.

No terceiro quinto do século V a.e.c., Fídias não era o único escultor ateniense de renome. Mesmo que sua genialidade tenha ocultado um pouco o talento dos outros, como Alcâmenes, Agonícrito, Calímaco ou Cresilas, o retratista de Péricles, também eram muito admirados. A obra deles era mal conservada, mas trabalharam com afinco. Nem todos eram atenienses de origem: Agorácrito vinha de Paros; Cresilas, de Creta. O próprio Polideto, um dos outros destaques da escultura grega clássica, peloponense contemporâneo de Fídias, tinha reputação de ter ido a Atenas executar o retrato de um dos colaboradores de Pericles, o engenheiro Artemon, originário de Clazômenas, como o célebre filósofo Anaxágoras.

Gênios da pintura

Nenhuma região do mundo grego reuniu a mesma concentração de arquitetos e escultores eminentes como Atenas dos anos 450-420 a.e.c. A cidade de Pérides era, pelo menos por um tempo, a “escola da Grécia” em matéria de artes plásticas, para retomar uma expressão do próprio Péricles num discurso atribuído a ele por Tucídides. Desde a segunda metade do século VI a.e.c., a cidade era a capital artística do mundo grego. É o domínio da pintura em vasos, que compensa um pouco, apesar de não ser mais que um pálido e distante reflexo, o desaparecimento quase total das obras da grande pintura.

O século V a.e.c. conheceu autênticos gênios da pintura – na primeira fila deles, Polignote de Thasos, um novato que tinha ido trabalhar em Atenas provavelmente nos anos 460 a.e.c., ao lado do ateniense Micon, com o qual decorou um pórtico que rodeava a ágora, que tinham batizado stoapoikilé, ou seja, “pórtico muiticolorido”. Mesmo na época de Pérides e nos anos imediatamente posteriores, a atividade de Micon prosseguiu, inclusive com a decoração de sua própria cidade natal, e dos santuários dos Dioscuros e de Teseu.

Outros dois grandes pintores atenienses foram Panamas, sobrinho e colaborador de Fídias (as esculturas gregas eram sempre ressaltadas com a aplicação de cores), e Apollodorus, o pintor de sombras, provavelmente porque ele foi o primeiro a sugerir a profundidade de campo, pelo uso de degrades em jogos de claro-escuro.

A cerâmica ateniense era, principalmente entre 460 e 410 a.e.c, ornada por um desenho de contorno traçado, realçado por diversas cores (preto, vermelho, azul. amarelo e verde), tudo aplicado sobre um fundo de engolfo branco-creme. As peças, muito frágeis, eram pouco manuseadas, daí seu uso essencialmente funerário e com temas afins: partida do defunto para o lado de lá na barca de Caronte, o adeus ou homenagens prestadas ao morto ou gestos rituais realizados na sua tumba. Alguns pintores anônimos, aos quais os conhecedores atribuem nomes de convenção, eram especializados nessa técnica sobre fundo branco. Pode-se citar, para os anos 450-420 a.e.c., os identificados como Aquiles, Phiale, Tymbos,Thanatos, Bosanquet, Tríglifos.

Já os vasos áticos do século dc Péricles são, em sua maioria, fiéis à técnica conhecida como figuras vermelhas, da qual os pintores atenienses do barro de Cerâmica tinham quase o monopólio desde que a inventaram, por volta de 525 a.e.c. Alguns são conhecidos: Polignoto, Polion, Aison ou Aristófane, mas a maioria permaneceu anônima. Nos anos 450-430 a.e.c., Polignoto ou o artista designado apenas como pintor de Aquiles buscavam tomar atitudes plásticas com certa ênfase. O pintor de Clcophon dava um ar nobre e sutil aos personagens cujo rosto, ligeiramente inclinado, se inspirava no estilo partenoniano. O delicado pintor de Erétria anunciava, por volta de 430-420 a.e.c., o estilo conhecido como Horido que triunfaria no fim do século com o pintor de Meidias. No domínio da cerâmica pintada, Atenas continuava ainda, de longe, à frente da produção de qualidade, mesmo se, a partir do último quarto de século, já sofria a tímida concorrência dos ateliês instalados na Itália meridional e com certeza criados por pintores atenienses emigrados. Prova evidente da influencia das artes decorativas atenienses, cujos produtos foram amplamente exportados pela bacia do Mediterrâneo.

Pela qualidade excepcional das diversas realizações de seus arquitetos, pintores e escultores, pela difusão das obras que eles produziram e pela influencia de seu talento que atraía discípulos e admiradores, Atenas garantiu o título de capital artística, naqueles anos de apogeu em que a política ambiciosa de Pérides soube incentivar os impulsos criativos que declinariam gradativamente com a crise que viveria em seguida. Seu prestígio intelectual e artístico continuaria imenso, contudo, durante muito tempo. Segundo a palavra de Plutarco, falando dos monumentos da Acrópole mas que poderia ser pronunciada a propósito de muitas outras obras de arte do século de Pérides – , “parece que essas obras têm nelas um sopro sempre vivo e uma alma inacessível à velhice”.


Jean Jacque Maffre

Doutor em letra e professor de civilização grega da Sorbonne.

Jean Jacque Maffre


Referência

MAFFRE, Jean-Jacques. Atenas, capital artística da Grécia. História Viva, n. 20 São Paulo/SP: p.54-59. Junho 2005.

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