O povo cretense

Qual o tipo étnico dos habitantes da antiga Creta? Eis um problema que tem suscitado pesquisas, dificuldades e debates. Já os gregos antigos sabiam, por tradição, que a ilha de Creta fora habitada por diferentes povos, entre os quais o livro dezenove (vs. 175-177) da Odisséia menciona os Eteo-cretenses, cuja língua parece não ter sido o grego. As fontes literárias, entretanto, não nos fornecem informações seguras sobre as características raciais dos antigos cretenses. Devemos buscá-las em duas ordens de fontes distintas: antropológicas (esqueletos) e iconográficas (pinturas, relevos, estatuetas, etc….). Salientemos, desde logo, a importância dos documentos fornecidos pela Antropologia. Pittard, em seu interessante estudo , chama a atenção para o papel da Antropologia como ciência auxiliar da História: “Antes de a Antropologia haver revelado as variedades humanas, não se prestava atenção alguma aos <> que utilizamos nesse livro.

Os esqueletos que se exumavam no decurso das escavações eram simplesmente esqueletos e nada mais. Abandonavam-nos à beira das Valas, quebravam-nos e sepultavam-nos de novo. Nenhum arqueólogo teria imaginado que tais ossamentos iriam fornecer a ciência meios de explicação às vezes bem desenvolvidos, esclarecer muitos acontecimentos obscuros.

No estudo do tipo físico dos cretenses, a Antropologia leva, sobretudo, em consideração os índices cefálicos apresentados pela cranio­metria. De acordo com esses índices encontramos em Creta, desde o Neolítico, (não ha indícios, por enquanto, da existência de civilização paleolítica) uma predominante percentagem de dolicocéfalos, tipicamente mediterrâneos. Ao lado dos dolicocéfalos encontramos uma porcentagem bem menor de braquicéfalos, talvez de origem asiática. Os braquicéfalos representam quer os restos de aborígines massacrados pela raça predominante, quer, mais provavelmente, um elemento imigrado, uma minoria vinda, provavelmente, das Cicladas onde se vêem na Idade do Cobre dolicocéfalos em Sira, mesocéfalos em Naxos, mas braquicefalos em Paros, em Oliaros, em Sifnos.

A predominância dos dolicocéfalos se acentua no curso dos séculos que vão do M.A. (Minoano Antigo) ao M.M. (Minoano Médio). Ao que parece, a raça aborígine assimila cada vez mais os descendentes dos intrusos. No Minoano recente (final da Idade do Bronze) observa-se uma transformação radical na morfologia dos habitantes de Creta: diminui consideravelmnente a população dolicocefalia enquanto que aumenta, paralelamente, o contingente de braquicéfalos e de inesocéfalos. Essa mudança brusca assinala, segundo Glúten, a chegada dos helenos. Passemos, agora, às fontes iconográficas que nos dão maiores esclarecimentos sobre o tipo físico dos antigos cretenses, do que os fornecidos por alguns esqueletos e algumas tíbias. Pinturas, relevos, pedras gravadas, indicam-nos como os minoanos viam-se a si mesmos; as pinturas existentes nos túmulos egípcios mostram-nos como eram vistos pelos estrangeiros.

Pequena estatura, porte gracioso, esbelteza, cintura apertada, Características que dão idéia de agilidade e vivacidade, eis o que nos revela a iconografia sobre o tipo físico dos morenos habitantes da Creta Minoana. As mulheres são representadas com a pele branca contrastando com a cor morena dos homens, fato esse que se explica pela vida mais recolhida daquelas, enquanto que estes se expunham aos raios ardentes do sol e ao vento do mar. Os bronzeados cretenses causaram admiração aos louros helenos quando estes os encontraram pela primeira vez. Quanto ao cabelo, notemos que a moda variou na ilha de Minos: no Minoano Médio encontram-se representações de homens com cabelos curtos; mais tarde, contudo, aparecem as longas cabeleiras. Encontram-se, em algumas gravuras, ambas as modas usadas simultaneamente. Mas um costume prevaleceu sempre entre os cretenses, desde os tempos neolíticos: raspar a barba. Tal hábito explica as navalhas e pinças depilatórias encontradas nos túmulos.

A mulher cretense apresenta uma fronte vertical donde se destaca bruscamente o nariz, as mais das vezes, arrebitado na extremidade. Os olhos são grandes e rasgados. A boca bem delineada apresenta lábios carnudos e rubros. Os cabelos estão divididos em cachos sobre o pescoço e a fronte, ou caem, trançados, sobre os ombros e o peito saliente.


Referência

GIORDANI, Mário Curtis. Creta. in: __________.  História da Grécia.  8ª Ed.  Petrópolis/RJ: Vozes, 2006. Cap. 3. p.40-41. 

Deixe um comentário