Templodeapolo.net
Lendas medievais
Mitologia Africana
Mitologia Asteca
Mitologia Celta
Mitologia Chinesa
Mitologia Egípcia
Mitologia Eslava
Mitologia Finlandesa
Mitologia Grega
Mitologia Indiana
Mitologia japonesa
Mitologia Judaico-cristã
Mitologia Maia
Mitologia Mesopotâmica
Mitologia Nórdica
Mitologia Norte-Americana
Mitologia Persa
Mitologia Romana
Mitologia Sul-americana
#VazaJato
Cosmogonia Textos
20 cadastradas
6/28/2018 6:50:23 PM | Por Rosana Rios
Livre
O coração do céu

Esta é a primeira fala. Esta é a primeira estória sobre o tempo em que nada existia; apenas o mar sereno cobrindo a Terra e o vasto céu cobrindo o mar. Nada se movia, nada se agitava, nenhuma união acontecia e nenhum som perturbava a tranquilidade das águas: o silêncio e a imobilidade reinavam na escuridão da noite. Nenhuma coisa tinha existência. Nem homens, animais, pássaros, peixes ou caranguejos; não existiam árvores, pedras, pântanos, barrancos, plantas ou bosques. O Criador estava sozinho: ele, que é dois: Gucumatz, o Criador, a Serpente de Plumas e Tepeu, o Formador, Senhor da Vida.[1]

Ambos adornados com penas verdes e azuis, Gucumatz e Tepeu existiram antes de tudo. Nas sombras da noite eles receberam a palavra. E falaram um com o outro, quebrando o silêncio sem fim. De suas palavras surgiu a Luz... E no momento da primeira alvorada eles conversaram, pensaram e conceberam a criação dos seres, o nascimento da vida e o surgimento das criaturas que iriam pronunciar seus nomes sábios e honrá-los. [35]

Pelas palavras de Gucumatz e Tepeu surgiu então o Coração do Céu, que é chamado Hurakán, o Furacão. O primeiro sinal do Coração do Céu é Caculhá-Hurakán, o Relâmpago. O segundo é Chipi-Caculhá, o Raio. O terceiro sinal é Raxa-Caculhá, o Trovão. Estes três seres formam o Coração do Céu.

Foram os três se aconselhar com Tepeu e Gucumatz, para decidirem como seria a vida e a claridade, de que maneira cresceriam as sementes, qual seriam o alimento e o sustento das criaturas. E, tendo deliberado bastante, eles disseram:

- Que assim se faça: que o vazio seja preenchido. Que as águas se retirem e haja espaço para o solo firme, em que se possa semear. Que amanheça e a luz ilumine a tudo, brilhando no alto.[2]

Decidiram, então, que os Progenitores não seriam homenageados ou glorificados enquanto não existissem seres dotados de consciência para fazer isso. Nesse momento eles pronunciaram a palavra:

- Terra!

E a Terra passou a existir.

A princípio como uma névoa ou neblina, a terra se condensou em estado sólido. Impelidas por um poder maravilhoso, da água ergueram-se as montanhas; e surgiram os vales e as colinas, ao mesmo tempo em que brotavam os ciprestes e os pinheiros.

Profunda alegria tomou conta de Gucumatz, que declarou:

- Bem-vindo sejas, Coração do Céu! Hurakán, Chipi-Caculhá, Raxa-Caculhá: Relâmpago, Raio, Trovão.[3]

Responderam-lhe:

- Completaremos nossa obra, nossa criação. [36]

Puseram-se a trabalhar e primeiro formaram todas as terras, altas e baixas. Os rios correram livremente entre as colinas, e as águas se separavam ao encontrar as montanhas.

Assim foi formada a Terra pelo Coração do Céu, que se tornou o Coração da Terra, após os tempos em que apenas o firmamento pairava sobre tudo que estava submerso sob as águas.

Logo foram gerados os pequenos animais dos bosques e os guardiães das matas, os vinaquil huyub, espíritos das montanhas. E perguntaram-se os Progenitores:

- Haverá apenas silêncio e imobilidade entre as árvores e os arbustos? Não deveria haver quem os guarde.

Eles meditaram e, em seguida, falaram. Por suas palavras foram criados as aves e os cervos.

- Tu andarás sobre quatro patas, dormirás nos vales dos rios, percorrerás a vegetação e lá te multiplicarás, - disseram eles ao cervo, antes de ordenar às aves.

- Vós habitareis em árvores e arbustos, ali fareis ninhos e vos multiplicareis, vossa vida transcorrerá entre os ramos e galhos.

Como foi dito, foi feito.

E foram designadas pelos Progenitores todas as habitações dos animais da Terra - o puma, o jaguar, a serpente, os quadrúpedes e os alados.

Então o Criador, o Formador e os Progenitores pediram às criaturas:

- Falai, gritai, chamai, cantai, cada qual segundo vossa espécie e variedade. Invocai nossos nomes, glorificai-nos!

Porém os animais não conseguiam falar; apenas chilreavam, cacarejavam, guinchavam, bramiam, cada um a seu modo. [37]

Tepeu e Gucumatz, o Criador e o Formador, viram que nenhum daqueles seres saberia pronunciar seus nomes; e os Progenitores, que são o Coração do Céu, se entristeceram.

- Vosso destino será mudado - disseram eles. - Como não podeis invocar nossos nomes ou adorar-nos, vivereis somente nos bosques e vossas carnes servirão de alimento a outros seres.

E essa foi a vontade que manifestaram para todos, os grandes e pequenos animais que havia sobre a face da Terra.

Debateram, então, sobre como fazer nova tentativa para criar seres conscientes.[4]

- Já se aproxima o amanhecer e a aurora. Como fazer para que sejamos chamados, e nossos nomes sejam sempre lembrados sobre a Terra? Façamos agora aqueles que nos alimentarão e nos sustentarão, aqueles que nos elogiem e venerem!

E assim o Criador e o Formador, e o Coração do Céu, que é Relâmpago, Raio e Trovão, decidiram a criação dos seres humanos: apenas eles saberiam pronunciar seus nomes e adorá-los. [38]

Povo Quiché

Também chamados K'iche' ou Quiche, os povos assim denominados constituem várias nações que se acredita serem descendentes dos antigos Maias. Na época da conquista espanhola da Mesoamérica, os mais numerosos descendentes do povo Maia eram os Quiché e os Cakchiquel, povos rivais que ocupavam os territórios da América Central, em especial onde hoje se localiza a Guatemala, mas abrangendo ainda várias regiões das Américas.

Nessa época, século XVI, os europeus se depararam com inúmeras estórias que eram contadas oralmente pelas populações nativas, e que deviam remontar a séculos, desde a época da riquíssima cultura maia.

Um escritor anônimo de origem indígena, que havia aprendido a língua dos conquistadores, registrou alguns desses mitos, compondo um livro que ficaria conhecido como Popol Vuh ou Popol Vul, o “Livro do Conselho”- e que seria, daí em diante, considerado o Livro Sagrado dos Quichés.

O mito cosmogônico que narramos aqui é parte do Popol Vuh, e junto com muitas outras narrativas traz à tona uma cultura vasta e rica, remetendo-nos aos tempos remotos em que o povo Maia dominava aquela região [38]

 

Mitologia - Mitologia Maia
6/28/2018 6:20:26 PM | Por Rosana Rios
Livre
A criação do quinto mundo

O primeiro de todos os deuses foi Ometéotl, o criador. Ele vivia em Omeyocán, o mais elevado de todos os 13 céus. Como era um deus masculino e, ao mesmo tempo, feminino, gerou filhos tanto com os poderes celestiais como também com as forças da terra. Os quatro principais filhos de Ometéotl foram os deuses que deram origem ao universo: Tezcatlipoca, Quetzalcoatl, Tlaloc e Chaichulhuitlicue. Eles governaram nas primeiras idades desta terra, tornando-se, um por vez, o Sol que iria iluminar cada mundo.[1]

A Primeira Idade se chamou Sol do Jaguar, e nela o mundo foi criado pelo feroz Tezcatlipoca, o Espelho Fumegante. Ele também era conhecido como Deus do Castigo e Deus do Calendário, pois foi quem colocou o universo em movimento. Era senhor do céu noturno e do frio e sabia de tudo que acontecia ao olhar em seu fantástico espelho de obsidiana. Mas essa idade não durou muito: certo dia veio do norte um poderoso jaguar, que saltou tão alto que alcançou o céu e engoliu o sol, trazendo as trevas. Há quem diga que esse jaguar era o próprio Tezcatlipoca, que apreciava a destruição e decidira acabar com o mundo. [29]

A Segunda Idade foi a do Sol do Vento, criada por outro dos filhos de Ometéotl, Ehecatl-Quetzalcoatl, que se tornaria conhecido como Serpente de Plumas e deus do Vento.[2]No segundo mundo, viveram muitos seres humanos e houve inúmeros feiticeiros. Esse tempo terminou com vendavais desencadeados por Quetzalcoatl. Tudo parece ter começado com as magias dos feiticeiros, que foram transformando os seres humanos da época em macacos; então os ventos varreram a Terra violentamente, soprando do Oeste para o Leste. E, quando nada mais restava, iniciou-se a Terceira Idade.

O terceiro mundo, também conhecido como Sol da Chuva de Fogo, passou a existir sob os auspícios de Tlaloc, o deus da chuva, dos relâmpagos e dos raios. Ele era considerado pelos homens um príncipe-feiticeiro, protetor da agricultura. Porém, Tlaloc também era o senhor dos vulcões e quando ele decidiu que esse mundo fosse destruído, uma enxurrada de lava veio do Sul e tudo que existia foi queimado; nada restou, abrindo-se o caminho para a Quarta Idade.

A Deusa Chaichulhuitlicue governou nessa era, denominada como Sol da Água. Sendo a grande Deusa das Águas Doces, a ela eram consagradas as crianças após nascerem e dela os bebês recebiam o seu primeiro banho. Quando chegou a hora de o quarto mundo ser destruído, Chaichulhuitlicue mandou um dilúvio que veio do Leste e inundou as terras, afogando todas as criaturas. Conta-se que houve apenas um homem e uma mulher que sobreviveram à aniquilação: eles fugiram das águas e se refugiaram em um cipreste muito alto. Contudo, foram vistos pelo Deus Tlaloc, que foi até eles e os transformou em cachorros. Assim, não restou ninguém da Quarta Idade e todo o universo ficou imerso na escuridão. [30]

Quando os deuses quiseram criar um quinto mundo, reuniram-se para deliberar o que fazer. Primeiro, era preciso criar novos seres humanos para habitá-lo. Quetzalcoatl, então, decidiu descer ao mundo subterrâneo em que reinava o Deus Mictlantecuhtli. Seu duplo, o Deus Xolotl, o acompanhou até Mictlán, o sinistro lugar em que jaziam os ossos e as cinzas dos mortos, e sopravam os gelados ventos cortantes de obsidiana.

Os dois deuses, escondidos, conseguiram roubar muitos ossos e muitas cinzas; mas, na viagem ao mundo superior, foram perseguidos pelo feroz Mictlantecuhtli, que lhes preparou várias armadilhas. Conseguiram, a custo, chegar à superfície levando parte do que haviam roubado.

Com a ajuda de Tezcatlipoca, Quetzalcoatl começou a modelar os ossos e as cinzas, criando novos homens e novas mulheres. Para dar-lhes vida, o Deus Serpente Emplumada tomou o cutelo e cortou o próprio corpo em vários pontos, derramando seu sangue sobre os corpos modelados.[3]Assim, da matéria dos antepassados mortos e do sangue do Deus, surgiram os primeiros seres humanos, antepassados do povo Asteca e da humanidade que habitaria a Quinta Idade.

No entanto, o mundo continuava no escuro, e os deuses sabiam que, para que houvesse luz, seria necessário que um deles se deixasse matar. A luz demandava sangue. Mas... Quem se ofereceria para o sacrifício?

Entre os muitos deuses ali reunidos, dois deles se apresentaram: Tecciztecatl, um deus belo e trajado ricamente, e Nanauatzin, um deus pequeno, humilde e vestido com simplicidade.

Aliviados por haver dois candidatos, os demais deuses prepararam o sacrifício. Começaram a construir [31] uma pirâmide muito alta, em cuja base seria acesa uma enorme fogueira.[4]Enquanto isso, os dois candidatos se preparavam fazendo penitências e oferendas. Tecciztecatl trouxe muitas joias, pedras preciosas e plumas belíssimas; vestiram-no com um rico manto tecido com penas de pássaros. Nanauatzin trouxe apenas frutos da terra, caniços, feno, bolotas; foi trajado com roupas simples e sem qualquer ornamento.

Quando a fogueira sacrificial foi acesa, os dois deuses subiram ao alto da pirâmide, de onde deviam atirar-se às chamas, para morrerem queimados e então renascerem como luz. O orgulhoso Tecciztecatl, porém, teve medo. Ameaçou jogar-se e recuou por quatro vezes. Já Nanauatzin não hesitou; lançou-se lá do alto na enorme fogueira e, no mesmo instante, se transformou no Sol. Somente então o outro deus superou o medo e conseguiu atirar-se também: ele se tornou a Lua.

Os dois astros brilharam no céu, ao Leste. Eram igualmente luminosos, o que aborreceu todos os deuses. Como Nanauatzin tivera mais coragem que Tecciztecatl, merecia reluzir mais. Um dos deuses então pegou uma lebre e a atirou na face da Lua, fazendo com que Tecciztecatl fosse castigado por sua covardia e brilhasse menos. Por isso, até hoje vemos marcas escuras em forma de lebre, na Lua.[5]

Houve ainda um problema: o Sol e a Lua permaneciam parados no céu, não se moviam. Quetzalcoatl, em sua forma de Ehecatl, o Vento, que é o aspecto mais terrível desse deus, ergueu o cutelo: para mover os astros, um grande sacrifício seria necessário. E todos os deuses tiveram de se submeter à imolação sobre a pirâmide. Apenas Xolotl fugiu, com medo de [32] morrer, e por isso se tornou o repugnante Deus dos Monstros.

Quando o sangue dos deuses havia sido derramado, finalmente o Sol e a Lua começaram a se movimentar no céu. Houve luz durante o dia e também à noite. Os seres humanos recém-criados receberam como presente dos deuses o milho para se alimentar. E foi dessa forma que teve início o quinto mundo, que é o nosso, e se chama a Idade de Nahui Olin, o Sol do Movimento.

Povo asteca

O povo denominado Asteca tem origem ao norte das atuais terras mexicanas, e acredita-se que seus integrantes migraram de uma cidade mítica chamada Aztlán para o Sul, guiados por conselhos do herói e Deus Huitzilopochtli, em busca de um local melhor para viver. Fixaram-se em ilhas no centro do lago Texcoco e ali construíram uma cidade que se chamou Tenochtitlán, no mesmo local em que hoje fica a Cidade do México.

Sua cultura absorveu os muitos costumes dos povos conquistados e as crenças de povos já desaparecidos, como os Teotiahuacanos, Olmecas, Toltecas. Pode-se perceber pelos mitos de criação astecas como a religião influenciava a vida da sociedade; eles acreditavam que, já que seus deuses iniciaram o mundo com sacrifícios de sangue, deveriam também ser aplacados com cerimônias semelhantes. Surgem daí os sacrifícios humanos que foram descritos por muitos e cujas imagens estão gravadas em suas esculturas de pedra; era preciso, por exemplo, arrancar o coração das vítimas e o ferecê-lo aos deuses, ainda sangrando, para renovar o sacrifício primordial e manter o Sol em movimento. Os astecas foram um povo influente e poderoso, e seu domínio se desenvolveu entre 1345 e 1521. Contudo, não foram capazes de enfrentar as armas de fogo dos conquistadores espanhóis no século XVI. A chegada do explorador Hernán Cortés às suas terras, em 1519, seria o começo do fim do Império Asteca. [33]

 

Mitologia - Mitologia Asteca
6/24/2018 4:05:19 PM | Por Rosana Rios
Livre
Os seres da escuridão

Povo Apache Jicarilla - No começo, a Terra era totalmente coberta pela água, e todas as coisas viventes tinham de morar abaixo do oceano, num mundo subterrâneo totalmente escuro. Nesse tempo, tudo podia falar: as pessoas, os animais, as árvores, as pedras, os espíritos, até as tempestades. A única forma de se enxergar alguma coisa lá nas profundezas era acendendo tochas com as penas das águias. E os seres do subterrâneo conversavam e discutiam sem parar[1]. O urso, o leão-da-montanha e a coruja gostavam das trevas; porém, as pessoas e algumas aves como a pega e a codorna desejavam a luz, pois estavam cansadas de viver no escuro. Tanto eles discutiram uns com os outros, que resolveram deixar a decisão sobre haver luz, ou não, à sorte: todos se enfrentariam num jogo. Se os animais noturnos ganhassem a partida, haveria trevas para sempre; mas se os que amavam a luz vencessem, a claridade se espalharia pelo mundo.

O jogo escolhido foi o do botão-pela-fresta. Um pequeno botão estava perdido na escuridão, e quem o visse primeiro ganharia a rodada. Quando a partida começou, a codorna e a pega, com seus olhinhos [21] agudos, viram o botão através dos arbustos; os homens foram lá e o pegaram. Assim, os diurnos venceram a primeira rodada. E, imediatamente, surgiu, lá no alto, a estrela da manhã! O urso negro, aborrecido, fugiu e foi se esconder em locais escuros.

O jogo recomeçou e mais uma vez os amantes da luz venceram a rodada. Assim que eles gritaram de alegria por terem encontrado o botão, o Leste começou a se iluminar. Com medo da luz, o urso pardo também correu para longe e desapareceu nas trevas.

Na continuação do jogo, as pessoas logo encontraram o botão e, ao vencerem a terceira rodada, a claridade foi se espalhando lá no alto. O leão-da-montanha, intimidado pela luz, tratou de sumir em busca de sombras.

A quarta rodada não poderia ser diferente: com menos noturnos em jogo, os diurnos venceram facilmente. Então todos viram o Sol nascer pela primeira vez. Fez-se o dia! E a coruja voou, o mais depressa que conseguiu, em busca de um refúgio.

Agora havia luz, com um Sol e até uma Lua para iluminar o subterrâneo. E a claridade mostrou aos moradores das profundezas que existia um outro mundo, mais acima.

Um buraco lá no alto era uma passagem para esse lugar. Todos ficaram curiosos para conhecer o tal mundo e começaram a pensar numa forma de chegar lá. Com a ajuda de um espírito poderoso chamado Tornado,[2]as pessoas, as aves, os búfalos e outros animais começaram a construir montes em que pudessem subir para chegar ao buraco no teto de sua morada: fizeram quatro grandes pilhas de terra em cada um dos pontos cardeais. [22]

Ao Leste, plantaram no monte várias árvores que davam frutos de cor negra. Ao Sul, após erguerem a elevação, plantaram muitas árvores que davam frutos azuis. No monte erguido a Oeste, escolheram para semear plantas que dessem frutos amarelos. Por fim, ao Norte, plantaram, sobre o monte de terra, vegetais que dariam frutos de cores variadas.

Conforme as árvores e os arbustos plantados iam crescendo, os montes de terra iam crescendo também e se transformando primeiro em morros, depois em montanhas. As pessoas e os animais observavam aquela maravilha e esperavam ansiosamente pelo momento em que eles fossem tão altos que alcançariam a passagem para o mundo acima.

Porém, certo dia, duas meninas resolveram subir escondidas em um dos morros para colher frutinhas e flores. E, quando chegaram lá no alto, de repente, as quatro montanhas pararam de crescer! Intrigadas, as pessoas chamaram o espírito Tornado e lhe pediram para descobrir o que havia acontecido. Ele encontrou as duas garotas e as levou de volta às suas famílias.

- As montanhas não crescerão mais - disse ele. - E agora o mesmo acontecerá com os meninos de seu povo. Eles crescerão bastante, até o dia em que, pela primeira vez, estiverem com uma mulher; então deixarão de crescer.

Como não havia jeito, os animais e as pessoas se conformaram com o que ocorrera. Mas as montanhas não haviam se tornado altas o suficiente para que fosse possível alcançar o buraco lá em cima. Então eles resolveram fazer outras tentativas.

Primeiro, tentaram construir uma escada unindo penas de pássaros; mas, assim que alguém subia, os [23] frágeis degraus se quebravam. Em seguida, tentaram usar penas de águia para fazer a escada e, embora estas fossem mais resistentes, ainda não produziam degraus bastante fortes para sustentar o peso de quem subia. Foi então que os búfalos ofereceram seus chifres, que naquela época eram longos e retos.

Com os chifres de búfalo, foi feita uma escada bem resistente que permitiu aos seres humanos subir até o buraco. O peso das pessoas, contudo, era tanto, que os chifres dos búfalos se entortaram e permanecem recurvos até hoje.[3]

Quando os primeiros homens viram o mundo lá em cima, através do buraco, descobriram que ele era totalmente escuro e que estava coberto pelas águas. As aranhas resolveram ajudar: teceram fios bem fortes e com eles amarraram o Sol e a Lua. Os astros luminosos saíram pelo buraco e iluminaram o mundo superior, presos pelos fios. E, mesmo com toda a luz que levaram, ainda assim não se podia ver, lá fora, nenhum lugar sólido em que os seres do subterrâneo pudessem pisar.

Foi decidido que as quatro tempestades também poderiam ajudar. Elas subiram para a superfície do mar enorme e começaram a soprar... A tempestade negra empurrou as águas para formar o oceano do Leste. A tempestade azul soprou com força para o Sul e enrolou as águas nessa direção, criando outro oceano. A tempestade amarela fez as águas irem para o Oeste para lá formarem outro oceano. E, por fim, a tempestade de várias cores soprou e enrolou as águas que restavam em direção ao Norte, onde se criou um outro oceano. No centro do mundo superior, a terra começou a secar. [24]

A doninha-fedorenta estava com muita pressa e foi o primeiro animal a sair pelo buraco; mas a terra ainda estava úmida e suas patas afundaram na lama, tornando-se negras desde então. Depois o texugo saiu e também teve as patas manchadas de preto. Tornado teve de ir buscar os dois animaizinhos e trazê-los para baixo, enquanto todos esperavam que a terra secasse de uma vez.

Mas o castor saiu também e, sentindo a terra mais sólida, foi explorá-la. Viu, então, que as águas estavam indo embora, mas ainda havia água doce no centro daquele mundo. Mais que depressa, ele se pôs a trabalhar na construção de um dique, para represar aquela água antes que ela fosse embora. Vendo que o castor não retornava, Tornado saiu para procurá-lo; ao encontrá-lo tão ocupado, perguntou o que estava fazendo.

- Estou guardando a água para que todos possam beber - respondeu ele.

Depois que o dique ficou pronto, criando um grande lago, Tornado e o castor voltaram ao mundo subterrâneo para esperar um pouco mais. Finalmente, os homens, os espíritos e os animais enviaram um corvo cinzento para voar lá em cima e avisar se já era seguro que todos subissem.[4]

O corvo voou sobre o mundo superior. Encontrou terras secas, os quatro mares ao seu redor e o grande lago formado pelo dique do castor no centro. Mas nos terrenos de que os mares tinham sido expulsos pelas tempestades, encontrou muitos peixes mortos, sapos e répteis semienterrados. Animado, o corvo começou a bicá-los e a comer seus olhos. Tão ocupado ficou a se alimentar que demorou a voltar. Tornado se preocupou e foi procurá-lo. [25]

O espírito levou o corvo de volta e as pessoas e os animais o desprezaram por comer carne morta; desde então a penugem do corvo se tornou negra. Mas agora os seres do subterrâneo sabiam que podiam subir! Estava na hora.

Um por um, todos escalaram a escada de chifres de búfalo e chegaram a sua nova moradia.

O mundo agora era claro, pois o Sol e a Lua brilhavam em turnos, sempre presos pelos fios de teia de aranha. Então, cada animal e cada povo foi viajando e escolhendo um lugar para morar. Muitas tribos pararam perto dos quatro mares, outras fizeram suas moradas longe dele.

Somente os Jicarilla não apreciavam nenhum lugar e ficavam dando voltas em torno do buraco de onde haviam saído. Quando haviam dado três voltas, os espíritos lhes perguntaram onde queriam morar.

- No meio da terra - disseram eles.

E então aquele povo ficou ali mesmo e construiu no meio do mundo os lares onde suas famílias viveriam para sempre. [26]

Povo Apache Jicarilla

O nome pelo qual esse grupo tribal chama a si mesmo, na verdade, é N’de ou Dineh, o Povo. A palavra apache vem de apachu, que significa “inimigo” na língua do povo Zuni. E o nome Jicarilla vem de uma palavra em espanhol que quer dizer “pequena cesta”, pois eles tecem cestinhas compactas para beber líquidos. Suas cestas são famosas pela beleza e pela habilidade com que são tecidas.

Assim como todos os chamados Apache, os Jicarilla pertencem à família linguística Athapaskan ou Atabascana. Fazem parte de povos que migraram, em tempos ancestrais, do Canadá para regiões do Arizona e do Novo México. Compreendiam os grupos tribais denominados Lipan, Jicarilla, Chiricahua, Tonto, Mescalero e os chamados Apaches das Montanhas Brancas.

Um povo originalmente nômade, os Apache construíam tendas em formato cônico apoiados em quatro altos galhos. Tinham os cabelos longos e presos com tiras artesanais na testa. Usavam sapatos mocassim feitos de pele de cervos, o que lhes permitia andar por terrenos acidentados e correr mais rapidamente do que seus inimigos. As mulheres ocupavam lugares de destaque em sua sociedade. Considerados grandes caçadores, sua arma principal era o arco; mesmo após entrarem em contato com os colonizadores e obterem armas de fogo, continuaram a usar arco-e-flecha com grande perícia. Foram muito atacados por colonos estadunidenses e mexicanos, envolvendo-se em várias guerras. Hoje, os remanescentes desse valente povo vivem em reservas localizadas no Novo México e no Arizona. [27]

 

Mitologia - Mitologia Norte-Americana
5/1/2018 3:08:16 PM | Por Christine el Mahdy
Livre
Mitologias de criação egípcias

A criação segundo Toth - Toth era venerado no Médio Egito, no local atualmente chamado Ashmunein. A arqueologia tem agora de verificar a verdadeira idade deste sítio, tão grande e onde os vestígios estão tão profundos, mas há a concordância de que os mitos originados na cidade são muito anteriores à unificação do Egito. Embora houvesse a crença de que a Criação tinha tido lugar nesta cidade em um tempo demasiado antigo para ser recordado, Toth representava apenas uma parte minoritária. Segundo o mito, no tempo anterior à Existência, só havia um vazio profundo, sem forma e cheio de água. Neste «caldo»Mprimevo existiam demiurgos femininos e masculinos - espíritos primitivos que se podiam juntar para criar formas físicas.

Atum, Senhor da Plenitude e deus supremo para além do tempo e do espaço, convocava machos e fêmeas. Havia Nun e o seu contrário Nunet, que simbolizavam o Nada; Kek e Kekt, a Escuridão; Amun e Amunet, o Segredo; e Huh e Huhet representando o Silêncio.

Os machos assumiam a forma de sapos, as fêmeas de répteis; e da sua reprodução era semeada a sementeda Criação. Então Atum, em um ato supremo de poder, criava uma superfície sobre a Profundeza e sobre ela um monte de terra. O centro deste monte era o Egito e o próprio Nilo jorrava diretamente das águas primordiais. No epicentro deste monte estava Ashmuneim e aí Toth, criado pelo seu senhor Atum, fixava a administração efetiva, estabelecia todo o saber e ciência e registava-os em 42 volumes de conhecimento. Estes rolos eram depois escondidos no mais profundo segredo até que a humanidade estivesse pronta para os descobrir.

A ação combinada dos oito demiurgos gerou a Criação no monte de Ashmunein. Plantas, animais e a humanidade passaram a existir. Muito mais tarde, os gregos identificaram Toth com o deus Hermes, o mensageiro dos deuses e a cidade de Toth passou a ser designada por Hermopolis.

Quanto aos textos em si mesmos, existirão? Quem pode responder? Eles estavam registrados em lendas como os textos Herméticos, e os homens sábios e alquimistas, desde o período medieval até aos nossos dias, ao procurarem «o saber do universo» têm ansiado pela descoberta dos originais. Os reis egípcios ao longo dos séculos desejaram mais do que tudo adquirir este saber original de Toth. Olhavam para o passado do seu reino como um tempo de perfeição, antes da chegada da humanidade e desta ignorar as regras de Toth - uma época a que chamavam a Primeira Ocorrência.

O Papiro Westcar, em Berlim, Alemanha, conta como Khufu, um rei da IV Dinastia e o construtor da Grande Pirâmide de Gizé, foi apresentado por um dos filhos a um grande mágico. O rei perguntou-lhe se ele sabia pormenores sobre a perda da sabedoria. O mágico, Djedi, disse-lhe que os rolos se encontravam em uma série de sete caixas, guardadas por uma serpente imortal enrolada à volta da caixa de fora. Esta, por sua vez, encontrava-se na parte mais funda de um rio perto de Coptos. Khufu ordenou-lhe que fosse lá e a trouxesse, mas o mágico teve de recusar.

O destino, incontestável para todos os Egípcios antigos, tinha deliberado que não seria ele a encontrar a caixa nem a sua família, mas sim a família de reis a seguir, a V Dinastia.

Os reis dessa dinastia fadada encontraram os textos perdidos? A história não o registra, mas no centro de Heliopolis, os videntes tornaram-se os herdeiros do saber. Eles passavam o conhecimento de uma geração de reis para a seguinte, incluindo os segredos sobre a forma como comunicar com a terra dos deuses e como manter o Maat.. 

A criação segundo Ptah - A Unificação trouxe a construção da cidade capital do Egito para Mênfis (por volta de 3000 a.e.c.), onde o deus local Ptah era identificado com os artífices. Como o rei construiu e depois serviu no grande templo ali localizado, a estória antiga da criação segundo Toth acabou por sucumbir e dar lugar a um novo mito.

A Pedra Shabaka, que agora se encontra no British Museum, relata como o rei líbio Shabaka, por volta de 850 a.e.c, encontrou «um verme que comia rolos de couro» na biblioteca do templo de Ptah, pelo que ordenou que fossem reescritos em pedra para a posteridade. A linguagem que neles se encontrava era realmente arcaica e não podia ser escrita com facilidade no tempo de Shabaka - sugerindo que a estória era verdadeira.

A nova narrativa mantém quase completamente o mito anterior sobre a Criação, do deus Toth, mas os oito demiurgos deixaram de fazer parte da mitologia. Em vez deles, conta-se agora, que no monte de Atum, foi criado o deus Ptah. Este mito é interessante pois concebe idéias no coração, avalia-as com a razão e depois as palavras saem da sua boca. Como as palavras partem da língua, passam a ser entidades físicas. Esta é a mais antiga narrativa da Criação através da lógica, literalmente logos, a palavra falada.

Fontes posteriores, que têm sido consideradas por muitos investigadores serem bastante mais ortodoxas registaram este mesmo conto com pequenas diferenças. «No início era a palavra; e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus». São muito poucas as pessoas que hoje consciencializam quão semelhante a frase inicial do Evangelho Segundo. João é ao mito de Ptah do antigo Egito. 

A criação segundo Rá
O culto do Sol como o criador da vida floresceu em finais da IV Dinastia (por volta de 2600 a.e.c.) e durou pouco tempo. Estava centrado em Heliopolis, durante os reinados dos últimos reis da IV e os primeiros da V Dinastia (c. 2350 a.e.c.) e foi a primeira adoração solar. Em Heliopolis, os celebrantes religiosos eram chamados Videntes. A sua tarefa consistia na interpretação dos sinais, na leitura dos sonhos (incluídos como os Homens Sábios e o Magos da Gênese) e também na instrução do príncipe herdeiro sobre os seus deveres futuros como rei.

Ré, ou Rá era o Sol em todos os seus variados aspectos. Não sabemos como é que o nome se pronunciava, mas segundo os arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Egito deveria ser «Ria». No Egito, o Sol tem muitas faces como aliás sempre teve: a primeira luz pálida que se espalha sobre as colinas nubladas a leste; depois as línguas de luz que trazem o dia, mas ainda não o calor; mais tarde chega a força impressionante quando a bruma se dissipa e o calor abrasador queima a terra; o Sol mais suave a meio da tarde quando os raios começam a enfraquecer; e, finalmente, o pôr do Sol escarlate das fábulas e o Sol desaparece passando para o Outro Mundo.

Em termos mitológicos, Rá tinha sido introduzido no mundo físico por Khepri, um escaravelho cósmico que empurrou a bola solar para cima do reino mortal. A primeira luz era Ré-Hor-em-akhet, ou Harmachis como os Gregos lhe chamavam, «Rá,  que é o Hórus do horizonte», em que Hórus é representado como um falcão, com as asas estendidas e as sua rémiges refletindo os raios do Sol. À  medida que o Sol vai ficando mais intenso, cria-se que o próprio deus Rá guiava o barco do sol para dentro do meio do céu, onde, no zénite, se tornava em Aton.

Conforme se ia dirigindo para ocidente, tomava a forma de Ré-Hor-akhetwy, ou Horakhte o «Falcão do segundo horizonte. Quando o Sol se punha, Rá entrava na barca da noite e navegava para o mundo paralelo dos espíritos dos mortos, tornando-se em um deles com Atum o grande senhor da Criação e da Plenitude.

No primeiro monte da existência, conta o mito que cresciam flores de lótus. Quando o botão se abria em toda a sua plenitude, Rá, o Sol, emergia do coração da flor, trazendo a primeira luz ao mundo.

Emergia então a ave bennu, a lendária Fénix que mais tarde surgiria nas lendas gregas. Criada com a imagem de uma garça-real, o bennu foi o primeiro ser vivo a surgir neste original monte da existência e os seus gritos quebraram pela primeira vez o silêncio. Rá, o Sol e o maior todos os deuses, começou a criar Chu, o ar, e depois Tefnut, a humidade, que seriam irmão e irmã. Em certa altura, casaram é tiveram dois filhos: Geb, o filho, e Nut, a filha. Geb e Nut cresceram amando-se e queriam casar-se mas Chu, o pai, opôs-se. Um dia, encontrou-os abraçados e, furioso, separou-os, forçando Geb a permanecer deitado enquanto levantava Nut e afastava do corpo do irmão amado. Geb tornou-se terra, enquanto Nut, autorizada apenas a tocar nas pontas dos pés e dos dedos em Geb, passou a ser o arco de céu sobre a terra, com o seu vestido cheio estrelas. E assim ela permaneceu, para sempre afastada do irmão amado através da força do ar, o pai de ambos.

Finalmente, Rá, lamentando ser forçado a afastar-se da Terra todas as noites, ordenou que Toth fosse a Lua, a luz mais fria que a sua, mas mantendo um pouco do velho mito de Toth.

Em dada altura, Nut deu à luz quatro filhos: Osíris, Ísis,  Seth e Néftis. Mais tarde, Ísis teve Hórus e estes tornaram-se os Nove deuses de Heliopolis e eram conhecidos como a Grande Enéade: Chu, Tefnut, Geb, Nut, Osíris, ísis, Set, Néftis e Hórus.

Mitologia - Mitologia Egípcia
8/9/2017 6:17:45 PM | Por James Graham-Campbell
Livre
A Mitologia Nórdica

Entre os maiores mitos estão aqueles que explicam o principio e o fim do mundo. Não é surpreendente que nenhum seja muito preciso. No inicio não havia nada, só o vazio, mas este se estendia entre duas regiões, uma gelada e nebulosa, chamada Niflheim, outra cálida e resplandecente, chamada Muspell. No grande vazio fluía um rio que gelou, camada sobre camada. Ali onde confinavam as duas regiões, o gelo derreteu-se e formou um gigante de neve, Ymir, de quem descendem todos os gigantes do mundo. Depois formou uma vaca, Audhumla, que lambeu o gelo salgado. Conforme lambia, uma figura com forma humana surgia do bosque: era Buri, de quem descendia a maioria dos grandes deuses. Os deuses Odin, Vile e Vi mataram Ymir, e do seu corpo fizeram a estrutura do mundo, do mar, do céu e das nuvens: dentro desse mundo, vive uma diversidade de criaturas, os mesmos deuses, homens, anãos, duendes e gigantes de vários tipos.

Ali vivem também vários monstros sinistros que acabarão com os deuses no dia final ou Ragnarok. Os mais conhecidos são o lobo Fenrir e a Serpente do Mundo, Midgardsorm, também chamada lormungand. Na maior parte do tempo, estes monstros estão bem guardados, Fenrir atado e acorrentado a uma rocha, lormungand no fundo do mar. Quando chegar o dia final, sairão do seu cativeiro e se unirão as forcas das trevas, o horrível Loki e um obscuro grupo de demônios e gigantes. Estes atacarão os deuses, que cairão depois de uma valente defesa, e o mundo será consumido pelo fogo. Os deuses o previram, e naturalmente Odin reuniu um exercito de grandes guerreiros na sua grande mansão do Valhalla dentre os heróis mortos na batalha, mas Sabe de antemão que a sua resistência e inútil e que ele e todos os seus parentes estão condenados. Esta é uma mitologia adequada a uma raça guerreira, em que as matanças e as traições são moeda corrente, e em que um homem importante demonstra a sua grandeza lutando contra um destino que sabe inevitável.

O mito nórdico da criação do gênero humano é muito primitivo. Três deuses, Odin, Hoenir e Lodur, caminhavam pela costa marítima e encontraram dois pedaços de lenha, provavelmente madeira flutuante. Pegaram os pedaços de madeira e deram-lhes forma humana, um macho e uma femea. Depois cada um dos deuses acrescentou características humanas: sopro e vida, razão e movimento; fala, ouvido e visão. Desses dois seres, disse Snorri, descende toda e qualquer pessoa. Mas os humanos são animais sociais, e remanesce um poema curioso, Rigsthula ("A cancao de Rig"), que descreve como apareceram as diferenças sociais neste mundo. O grande deus Heimdall estava passeando pelo mundo e adotou o nome de Rig. Foi a três casas que pertenciam respectivamente a um casal pobre, a um médio e a um rico. Em cada um dos casos, a mulher deu à luz uma criança nove meses depois. Da mulher pobre proveio a classe escrava, da segunda a classe trabalhadora livre, e da rica a classe dos nobres e finalmente a realeza. Por conseguinte, segundo o mito, Heimdall foi o progenitor do gênero humano no seu aspecto social. Vários são os mitos relativos aos mesmos deuses. Um dos mais admiráveis fala do amado deus Baldr, de quem o sinistro Loki tinha tanto ciúme, que planejou a sua morte. Badr era invulnerável às armas feitas com qualquer material, exceto o agárico, o qual era tão insignificante, que não tinha sido incluído no juramento de não atentar contra a vida dos deuses. Loki informou-se disso e conseguiu que o deus cego Hodr lançasse uma seta de agárico contra Baldr, matando-o imediatamente. Os deuses tentaram, em vão, faze-lo sair da residência de Hel, deusa dos mortos, mas ele continuara ali ate que, segundo uma versão, volte de novo depois do Ragnarok. Este é o mito do deus "moribundo", conhecido dos estudantes de religião comparada.

Outro tipo de mito muito comum é o "sagrado matrimônio", no qual o deus da fertilidade se acasala com a Terra para faze-la frutificar. Este deus é representado na lenda nórdica por um relato do deus Freyr e seu amor por uma moça gigante, Gerd. Freyr vira pela primeira vez quando estava sentado no grande trono de Odin, Hlidskialf, de onde podia ver o mundo inteiro. Apaixonou-se tão profundamente dela, que não podia dormir nem beber e enviou seu servo Shirnir para lhe fazer propostas. A recompensa de Shirnir seria receber a famosa espada de Freyr, que podia lutar motu proprio. O mensageiro fez a perigosa viagem ao norte, uma região frequentada por gigantes, e ofereceu presentes suntuosos a gigante. Quando ela os rejeitou, ele recorreu a ameaças, e finalmente obteve a promessa de Gerd de ser noiva de Freyr de modo que a historia teve um final feliz, mas deixou Freyr sem a sua espada, e ele, portanto, não poderia usa-la para defender os deuses no Ragnarok.

Para os poetas que relataram estes mitos, os mais importantes tratavam do hidromel, a bebida que concede a inspiração para criar poesias magnificas. Foi criada, no principio, por um par de anãos, Fialar e Galar, que mataram um gigante chamado Kvasir e misturaram o seu sangue com mel, fazendo assim o hidromel. Depois a bebida chegou as mãos de um gigante, Suttung, que a guardava em três caldeiros. Odin cobiçava o hidromel e roubou-o de Suttung, seduzindo sua filha Gunnlod, que o deixou beber dos três caldeiros.

Mas Odin esvaziou-os e empreendeu o voo transformado em águia. Suttung perseguiu-o, também com aparência de águia, mas Odin conseguiu chegar a Asgard (o reino dos deuses) e regurgitou o hidromel nos baldes e nas talhas que os deuses tinham preparado. Dessa altura, Odin pode fornece-lo a qualquer dos seus favoritos.

Mitologia - Mitologia Nórdica
8/9/2017 6:15:25 PM | Por Rudolf Simek
Livre
Mitos de criação germânicos

Uma das mais antigas referências aos mitos germânicos é dada por Tácito. Em Germania, ele menciona que
nas «canções antigas» as tribos germânicas celebram
a origem da humanidade recuando até um certo «Tuisto, um deus nascido da terra, e o seu filho Mannus, como os antepassados e fundadores da nação. Consideram que Mannus procriou três filhos, cujos nomes designariam muitos povos: Ingêvones, que viviam perto do oceano; Hermíones, no meio do país; e Istêvones em todo o resto». Isto quer dizer que estes três filhos eram considerados como antepassados das principais tribos germânicas, que viviam no leste, centro e oeste do norte da Europa. Embora estes antepassados míticos dos Germanos sejam citados apenas por Tácito, o nome «Mannus»
refere claramente a palavra «man» (homem em germânico). O mito da criação nórdico, como é apresentado através
de fontes como as duas Eddas, é diferente, embora haja alguns conceitos semelhantes.

Contos Nórdicos Antigos sobre o Cosmos

Ao contrário do mito de Tuisto e do primeiro pai das tribos da Germânia central, como nos informa Tácito, a origem do cosmos, segundo as histórias nórdicas, dever-se-ia
a interações obscuras mas dinâmicas entre a água, o gelo
e o fogo, do que resultaram submundos diferentes, muitos deles habitados por tipos específicos de seres. As fontes nórdicas, de fato, não apresentam uma visão inteiramente consistente ou sistemática da estrutura do universo, mas alguns aspectos são claros. Midgard, concebida como uma massa de terra central rodeada por mar, era onde viviam
os deuses e os humanos. Nela situava-se Asgard, a cidade dos deuses, presididos por Ódin, o senhor de todos
os deuses. Por baixo, situa-se o mundo dos mortos, governado pela deusa Hei. Os gigantes têm um
mundo próprio, localizado vagamente nas franjas
do cosmos, talvez para lá do mar circundante.
Finalmente, os anões viviam nas rochas e nas
grutas debaixo da terra. Todos os submundos dos
mitos nórdicos são dominados pela árvore Yggdrasill,
que tudo domina, enquanto as suas raízes se enterram
em cada um dos três mundos: Asgard, Midgard e  Mundo dos Mortos.

Como explicam os vários mitos nórdicos
da Antigüidade, as mais antigas criaturas são os gigantes. Todos os seres derivam do «protogigante» Ymir, que tinha um filho, Buri, gerado pelas duas pernas de Ymir uma com a outra, e que, por sua vez, teve um filho chamado Burr. Este ligou-se com uma gigante e tiveram três filhos, os deuses Ódin, Víli
e Vé. Os deuses evoluíram a partir deles e criaram
o primeiro homem e a primeira mulher a partir
de dois cepos arrastados pelas águas e encontrados nas costas de Midgard.

As partes do corpo do protogigante morto, Ymir, foram usadas como a base dos principais componentes do universo: o seu sangue tornou-se no mar, o crânio na abóbada celeste, o cérebro nas nuvens e os ossos as rochas.

Apesar das diferenças dos nomes, os três descendentes do protogigante Ymir - Ódin, Víli
e Vé - parecem ser os antepassados das principais tribos germânicas, como descrito no mito de Tuisto. Isto sugere uma origem comum a ambos os mitos, especialmente porque Ódin é amplamente referido como antepassado mítico das tribos germânicas
do ocidente e das casas reais da Escandinávia à Inglaterra e à Lombardia. No caso dos três «povos» mencionados por Tácito, é possível também aqui encontrar elos de ligação. Os antepassados dos Ingêvones podem ser identificados na tradição escandinava como Yngvi, um nome ligado ao deus Freyr que foi o protetor da dinastia real sueca dos Ynslings.

Duas Famílias de Deuses


Neste mundo criado a partir de Ymir, houve duas famílias distintas de deuses, os Vanes e os Ases. Em tempos remotos da história do universo, eles tinham-se combatido, mas na época em que ocorreram a maior parte dos mitos, já tinham esquecido as diferenças e viviam
em harmonia no Reino de Asgard. Os membros chefes dos Vanes são Njord e os filhos - a deusa Freyja
e o irmão gêmeo Freyr. Todos os Vanes estão associados, tanto na religião como na mitologia, com o amor,
a fertilidade e a riqueza material. Todas as outras divindades de destaque - Ódin, Thor e Tyr - são Ases, embora a distinção entre as duas raças raramente seja focada nas fontes.

Deuses e Gigantes

Os deuses e os gigantes são tradicionalmente inimigos
e muitos mitos contam as quezílias entre eles. Thor, com
o seu martelo, é um deus guerreiro, o inimigo mais temido pelos gigantes. Os mitos afirmam que esta inimizade um dia acabará por transbordar fazendo desencadear uma guerra final, a que chamam Ragnarok. Todo o universo será destruído por essa guerra, tal como a maior parte dos seus habitantes. No entanto, as fontes aludem a uma nova aurora: alguns deuses e homens sobreviveriam
e juntos começariam a trabalhar na reconstrução e no repovoamento de um mundo melhor e mais pacífico.

O Gigante Construtor

A estória que se segue faz parte da Edda em Prosa de Snorri Sturluson chamado Cylfaginníng, que relata os contos narrados pelo rei Gylfi na sua visita à cidade de Asgard. Ela ilustra a desonestidade dos deuses nos seus comportamentos com os gigantes, e alguns consideram que esta nódoa moral na sociedade divina conduzirá à destruição dos deuses no Ragnarok.

O mito ocorre em uma parte remota do passado mítico, depois dos deuses terem constituído Mídgard
e de lá terem edificado o grande palácio
Valhalla. Um construtor visitou-os e
ofereceu-se para lhes fazer uma fortificação
que resistiria aos ataques dos gigantes
vindos das montanhas e dos gelos, mesmo
que forçassem a entrada em Midgard.
Como pagamento, pedia a deusa Freyja
em casamento, assim como o Sol e a Lua.

Os deuses aceitaram sob a condição
de ele completar o trabalho e um único inverno, sem a ajuda de qualquer homem, caso contrário confiscavam o pagamento.
O construtor concordou, mas pediu para
que o seu garanhão Svadilfoeri o ajudasse
e isto foi concedido por indicação do malicioso deus Loki. O acordo foi selado com juramentos solenes de ambos os lados. O construtor iniciou os trabalhos. Svadilfoeri, que trabalhava durante a noite a arrastar
as pedras, tinha o dobro da força do construtor e à medida que o tempo de verão se aproximava tudo parecia indicar que a obra seria concluída dentro do tempo. Os deuses então despertaram para a terrível possibilidade de perderem não só Freyja mas também as fontes de luz de todo o mundo. Censuraram Loki pelo mau aconselhamento e obrigaram-no a encontrar uma maneira de evitar que o construtor concluísse o trabalho
a tempo. A solução que Loki encontrou para o problema foi simples: transformou-se ele mesmo em égua. Nessa mesma noite, quando o garanhão começou a trabalhar, ele seduziu e afastou-o do dever. Os dois cavalos divertiram-se no bosque durante toda a noite, e o trabalho nas fortificações ficou como estava. O construtor, ao enfrentar a perda dos honorários, enraiveceu de tal forma que os deuses
se aperceberam que ele na verdade não era um homem mas um gigante da montanha. Esquecendo o acordo, convocaram Thor, que ergueu o seu martelo, Mjolnir, e despedaçou
o crânio do gigante. E assim termina estória mas há
um epílogo: Loki, transformado em égua deitou-se
com o garanhão e procriaram um impressionante potro com oito pernas, que cresceu e viria a ser Sleipnir, o melhor de todos os cavalos e a montada escolhida por Ódin.

Mitologia - Mitologia Nórdica
8/9/2017 5:55:37 PM | Por Carmen Seganfredo
Livre
A criação do universo na Mitologia Nórdica

Primeiro, havia o Caos, que era o Nada do Mundo, e isto era tudo quanto nele havia. Nem Céu, nem Mar, nem Terra - nada disto havia. Apenas três reinos coexistiam: o Ginnungagap (o Grande Vazio), abismo primitivo e vazio, situado entre Musspell (o Reino do Fogo) e Niflheim (a Terra da Neblina), terra da escuridão e das névoas geladas. Durante muitas eras, assim foi, até que as névoas começaram a subir lentamente das profundezas do Niflheim e formaram no medonho abismo de Ginnungagap um gigantesco bloco de gelo. Das alturas abominavelmente tórridas do Musspell, desceu um ar quente e este encontro do calor que descia com o frio que subia de Niflheim começou a provocar o derretimento do imenso bloco de gelo. Após mais alguns milhares de eras - pois que o tempo, então, não se media pelos brevíssimos anos de nossos afobados calendários - o gelo foi derretendo e pingando e deixando entrever, sob a outrora gelada e espessa capa branca, a forma de um gigante.

Ymir era o seu nome - e por ser uma criatura primitiva, dotada apenas de instintos, o maniqueísmo batizou-a logo de má. Ymir dormiu durante todas estas eras, enquanto o gelo que o recobria ia derretendo mansamente, gota à gota, até que, sob o efeito do calor escaldante de Musspell, que não cessava jamais de descer das alturas, eis que ele começou a suar. O suor que lhe escorria copiosamente do corpo uniu-se, assim, à água do gelo, que brotava de seus poderosos membros - e este suor vivificante deu origem aos primeiros seres vivos. Debaixo de seu braço surgiu um casal de gigantes e da união de suas pernas veio ao mundo outro ser da mesma espécie, chamado Thrudgelmir. Estes três gigantes foram as primeiras criaturas, que surgiram de Ymir; mais tarde, Thrudgelmir geraria Bergelmir, que daria origem à toda a descendência dos gigantes.

Entretanto, do gelo derretido também surgira, além das monstruosidades já citadas, uma prosaica vaca de nome Audhumla, de cujas tetas prodigiosas manavam quatro rios, que alimentavam o gigante Ymir. Audhumla nutria-se do gelo salgado, que lambia continuamente da superfície, e, deste gelo, surgiu ao primeiro dia o cabelo de um ser; no segundo, a sua cabeça; e, finalmente, no terceiro, o corpo inteiro. Esta criatura egressa do gelo chamou-se Buri e foi a progenitora dos deuses. Seu primeiro filho chamou-se Bor, e, desde que pai e filho se reconheceram, começaram a combater os gigantes, que nutriam por eles um ódio e um ciúme incontroláveis.

Esta foi a primeira guerra de que o universo teve notícia e incontáveis eras sucederam-se sem que ninguém adquirisse a supremacia. Finalmente, Bor casou-se com a giganta Bestla e, desta união, surgiram três notáveis deuses: Wotan (também chamado Odin), Vili e Ve. Dos três, o mais importante é Wotan, que um dia chegará a ser o maior de todos os deuses. E, porque assim será, um dia, ele próprio disse a seus irmãos:

- Unamo-nos a Bor e destruamos Ymir, o perverso pai dos gigantes!

Os quatro juntos derrotaram, então, o poderoso gigante, e com sua morte, acabou também a quase totalidade dos demais de sua espécie, afogada no sangue de Ymir. Um casal, entretanto, escapou do massacre: Bergelmir e sua companheira, que construíram um barco feito de um tronco escavado e foram se refugiar em Jotunheim, a terra dos Gigantes, onde geraram muitos outros. Desde então, a inimizade estabeleceu-se, definitivamente, entre deuses e gigantes, cada qual vivendo livremente em seu território, mas sempre alerta contra o inimigo.

Dos restos do cadáver do gigantesco Ymir, Wotan e seus irmãos moldaram a Midgard (Terra-Média): de sua carne, foi feita a terra; enquanto que, de seus ossos e seus dentes, fizeram-se as pedras e as montanhas. O sangue abundante de Ymir correu por toda a terra e deu origem ao grande rio que cerca o universo.

- Ponhamos, agora, a caveira de Ymir no céu - disse Wotan a seus irmãos, após haverem completado a primeira tarefa.

Wotan fez com que quatro anões mantivessem a caveira suspensa nos céus, cada qual colocado num dos pontos cardeais. Em seguida, das faíscas do fogo de Musspell, brotaram o sol, a lua e as estrelas; enquanto que, do cérebro do gigante, foram engendradas as nuvens, que recobrem todo o céu.

Entretanto, após terem remexido a carne do gigante, com a qual moldaram a terra, os três deuses descobriram nela um grande ninho de vermes. Wotan, penalizado destas criaturas, decidiu dar-lhes, então, uma outra morada, que não, o Midgard. Os seres subumanos, que pareciam um pouco mais turbulentos que os outros, foram chamados de Anões e receberam como morada as profundezas sombrias da terra (Svartalfheim). Os demais, que pareciam ter um modo mais nobre de proceder, foram chamados de Elfos e receberam como morada as regiões amenas do Alfheim.

Completada a criação de Midgard, caminhavam, um dia, Wotan e seus irmãos sobre a terra para ver se tudo estava perfeito, quando encontraram dois grandes pedaços de troncos caídos ao solo, próximos ao oceano. Wotan esteve observando-os longo tempo, até que, afinal, teve outra grande idéia:

- Irmãos, façamos de um destes troncos um homem e do outro, uma mulher! E assim se fez: ele foi chamado de Ask (Freixo) e ela, de Embla (Olmo). Wotan lhes deu a vida e o alento; Vili, a inteligência e os sentimentos; e Ve, os sentidos da visão e da audição. Este foi o primeiro casal, que andou sobre a terra e originou todas as raças humanas que habitariam por sucessivas eras a Terra-Média. Depois que Midgard e os homens estavam feitos, Wotan decidiu que era preciso que os deuses tivessem também uma morada exclusiva para si:

- Façamos Asgard e que lá seja o lar dos deuses! - exclamou ele, que, como se vê, era um deus de energia e vontade inesgotáveis.

Este reino estava situado acima da elevada planície de Idawold, que flutuava muito acima da terra, impedindo que os mortais o observassem. Além disso, um rio cujas águas nunca congelavam - o Iffing - separava a planície do restante do universo. Mas, Wotan, sábio e poderoso como era, entendeu que não seria bom se jamais existisse um elo de ligação entre deuses e mortais. Por isso, determinou que fosse construída a ponte Bifrost (a ponte do Arco-íris), feita da água, do fogo e do mar. Heimdall, um estranho deus nascido ao mesmo tempo de nove gigantas, ficaria encarregado, desde então, de vigiá-la noite e dia para que os mortais não a atravessassem livremente no rumo de Asgard. Para isso, ele portava unia grande trompa, que fazia soar todas as vezes que os deuses cruzavam a ponte.

A morada dos deuses possuía várias residências, as quais foram sendo ocupadas pelos deuses à medida que iam surgindo. O palácio de Wotan, o mais importante de todos, era chamado de Gladsheim. Ali, o deus supremo linha instalado o seu trono mágico, Hlidskialf, de onde podia observar tudo o que se passava nos Nove Mundos e receber de seus dois corvos, Hugin (Pensamento) e Muniu (Memória), as informações trazidas das mais remotas regiões do universo.

Entretanto, se na mais alta das regiões estava situado o paraíso daquele soberbo universo, nas profundezas da terra, muito abaixo de Midgard, estava o Niflheim, o horrível e gelado reino dos mortos. Lá pontificava a sinistra deusa ú, filha de Loki, que se regozija Com a fome, a velhice e a doença, e que tem ao lado a serpente Nidhogg. Esta se alimenta dos cadáveres dos mortos e se dedica a roer continuamente uma das raízes da grande árvore Yggdrasil, um freixo gigantesco que se eleva por cima do mundo e deita suas raízes nos diversos reinos, entre os quais, o próprio Asgard. Ao alto da copa frondosa desta imensa árvore, sobrevoa uma gigantesca águia, que vive em guerra aberta contra a serpente Nidhogg. Um pequeno esquilo - Ratatosk -, que passa a vida a correr desde o alto da Árvore da Vida até as profundezas onde está a terrível serpente, é o leva-traz dos insultos que estas duas criaturas se comprazem em trocar sem jamais esgotar seu infinito estoque de injúrias.

Nesta árvore fundamental, diz a lenda que o próprio Wotan esteve pendurado durante nove longas noites, com uma lança atravessada ao peito, para que pudesse aprender o significado oculto das Runas, o alfabeto nórdico, que rege e governa a vida dos deuses e dos homens. Quando seu martírio terminou, Wotan havia se tornado, definitivamente, o mais poderoso e sábio dos deuses, tendo o poder de curar doenças e de derrotar os inimigos com sua poderosa lança, Gungnir - ao mesmo tempo, sua mais poderosa arma e local de registro de todos os seus acordos.

Yggdrasil é o centro do mundo, e, enquanto suas raízes continuarem a suportar o peso de seu prodigioso tronco e de seus ramos infinitos, o mundo estará firme e a vida será soberana, sob os auspícios de Wotan, senhor dos deuses.

Mitologia - Mitologia Nórdica
8/7/2017 2:43:51 PM | Por Mark Anthony Rolo
Livre
Popol Vuh, a estória da criação maia

«Esta é a história do tempo em que tudo estava em suspensão, calmo e silencioso; tudo estava imóvel e o céu estava vazio. Esta é a primeira palavra, a primeira narrativa; não havia homens, nem animais, pássaros, peixes, árvores, pedras, cavernas, barrancos, moitas ou florestas. Só havia o céu. Em lado algum se via terra; todo o mar se espelhava no céu; nenhum corpo existia; nada havia terminado no céu, nada se movia, era tudo absorção, era tudo imobilidade; quando o céu ficou terminado, nada emergiu. Só havia o mar imóvel e o céu que se estendia por cima.» Assim começa o Popol Vuh («Livro do Tempo», «Livro dos Acontecimentos» ou «Livro do Conselho», em língua quiché), o documento mais importante de que hoje dispomos sobre os mitos maias, miraculosamente salvo da destruição sistemática dos manuscritos maias perpetrada pelos bandidos Espanhóis.

A versão do Popol Vuh que conhecemos foi redigida 30 anos após a conquista espanhola. O seu autor foi provavelmente um religioso maia desejoso de colocar por escrito uma narrativa oral e pictográfica muito antiga. Foi escrita em língua maia, mas em caracteres latinos. O manuscrito foi descoberto pelo padre Francisco Ximenez em inícios do século XVIII, que ele obteve das mãos dos índios Quiché da região de Chichicastenango. A história original pode remontar até 2000 anos a.e.c.

A primeira parte conta a gênese do mundo, que se assemelha à da Bíblia. Do nada das origens, os deuses decidiram fazer um mundo povoado de humanos que os adorem. Em primeiro lugar, criam a terra, as montanhas, a flora e a fauna. «Tendo acabado de as formar, disseram: "Falem, gritem, chilreiem; que cada um faça ouvir a sua linguagem segundo a sua espécie e a sua variedade [...] Digam os vossos nomes, louvem-nos, a nós, ao vosso pai e à vossa mãe [...]".» Em seguida, criaram os primeiros homens com argila. Mas estes homens moles e fracos eram incapazes de sobreviver e de se multiplicar. Como esta primeira tentativa se revelara infrutífera, os deuses fabricaram uma nova humanidade em madeira; mas estes homens de madeira depressa se mostraram vaidosos e preguiçosos e acabaram por secar. Os deuses enviaram então um dilúvio de resina, onde todos os homens se afogaram, e o mundo foi invadido por uma multidão de monstros.

A segunda parte do Popol Vuh é dedicada à luta dos gêmeos heroicos, lxbalanque e Hunahpu, contra os monstros do reino de Xibalba. Nascidos de uma virgem adolescente miraculosamente fecundada pela saliva de um cadáver, os gêmeos, depois de terem passado por numerosas provas, desafiam os deuses subterrâneos no jogo de pelota maia e, vitoriosos, deixam o reino das trevas, Xibalba, passando pelas «moradas» sucessivas do mundosubterrâneo: a morada das Lamas de obsidiana, a morada do Frio, a morada dos Jaguares e a morada do Fogo. Mas os demônios não esgotaram as suas manhas. Conseguem que Hunahpu seja decapitado pelo vampiro Camatotz e desafiam Ixbalanque para outro jogo de pelota, utilizando como bola a cabeça do seu irmão. Mas este ressuscita e os gêmeos obtêm uma vitória decisiva sobre as forças das Trevas.

Apesar da vitória dos gêmeos heroicos, a criatura humana ainda não existia: «Então, o Criador, o Formador, os Fazedores, voltaram ao trabalho: Criemos aquele que nos sustentará, que nos alimentará! Tentemos agora criar seres obedientes, respeitosos, que nos sustentem e nos alimentem, disseram eles.» Gucumatz (o Quetzalcoatl maia) associa-se ao «Coração do Céu» para empreender este trabalho. «Coração do Céu» é apresentado no Popol Vuh como uma espécie de trindade, que inclui Caculhá-Huracán (Raio que anuncia o furacão), Chipi-Caculhá (Clarão do raio) e Raxa-Caculhá (Raio que fere). Pedem a uma raposa, a um coiote, a um corvo e a um periquito que lhes levem espigas de milho. É com a farinha destas espigas que serão formados os quatro primeiros homens. Por fim, aparece uma humanidade digna desse nome. Mas Gucumatz e Coração do Céu estão preocupados: esses homens tão inteligentes e clarividentes ameaçam tornar-se iguais aos deuses. Condenam-nos então a verem apenas o que está perto deles, a procriarem para se reproduzirem e a morrerem. Para isso, dão-lhes quatro mulheres, que lhes farão esquecer toda a sua ciência. Foi destes quatro primeiros casais que nasceu a raça dos Maias Quiché.

Mitologia - Mitologia Maia
8/6/2017 9:22:10 PM | Por Nanon Gardin
Livre
A criação do mundo no mito japonês

Deuses invisíveis - Nesse tempo, só a luz pálida das estrelas iluminava a terra, uma vez que o Sol e a Lua ainda não tinham nascido. Acerca das primeiras gerações de deuses nascidos do magma viscoso, não há muito a dizer. Nas Altas Planícies Celestes, as gerações divinas sucedem-se, aparecem e desaparecem no nada, sem que ninguém saiba porquê. Por fim, após sete gerações de deuses, aparece o primeiro casal divino que não se esconde, Izanagi e Izanami. A criação do mundo pode então começar. A terra assemelha-se ainda a uma mancha de óleo ou a uma medusa a flutuar no oceano primordial. Para que a vida nela apareça, é necessário consolidá-la. Os deuses invisíveis confiam esta tarefa a Izanagi e Izanami, dando-lhes, para isso, uma enorme lança ricamente decorada. Em pé sobre a ponte flutuante do céu, Izanagi e Izanami mexem o oceano com a sua lança ornada de pedras preciosas e, depois, puxam-na para fora de água. Algumas gotas soltam-se dela e, ao caírem no oceano, transformam-se em uma ilha, Onogoro, o primeiro arquipélago do Japão.

«Desta mistura confusa saiu a parte mais pura, o céu. O que ficou foi a terra, que caiu em um amontoado gelatinoso.» (Kojiki)

O Homem-que-convida e a Mulher-que-convida, ou o divino protocolo

O Homem-que-convida e a Mulher-que-convida, significado de «Izanagi» e «Izanami», encontram esse lugar aprazível e decidem fundar aí o seu lar para engendrarem outras ilhas. Começam por erguer «um augusto pilar celeste» e um grande palácio. Em seguida, Izanami, fascinada pela beleza e força de Izanagi, pede-o em casamento. Izanagi aceita e procedem ao seguinte ritual: Izanagi contorna o pilar pela esquerda, enquanto que Izanami o contorna pela direita. Quando ela encontra Izanagi, grita: «Que jovem tão bonito!» As divindades ficam extremamente contrariadas, pois a mulher não deve falar antes do homem, e, para punir Izanami, fazem-na dar à luz uma criança disforme, uma criança-sanguessuga, que os pais abandonam ao sabor das ondas um uma barca de junco. O casal recomeça então o ritual, desta vez de acordo com as regras, e Izanami dá à luz as Oyashima (o Grande País das Oito Ilhas, ou seja, o arquipélago nipônico), bem como numerosos deuses: os kami do vento, das montanhas, das árvores, etc. A infeliz Izanami é mortalmente queimada ao dar à luz Kagutsuchi, o deus do Fogo. No entanto, durante a sua agonia, consegue dar origem a muitos outros deuses antes de soltar o último suspiro. Indignado, Izanagi apressa-se a cortar a cabeça do bebé Kagutsuchi, e das gotas do seu sangue que salpicam os rochedos nascem muitas outras divindades, fortes e viris.

Viagem à terra das raízes

Inconsolável, Izanagi resolve ir à região de Yomi, a terra dos mortos, «o misterioso país das raízes», ainda sem habitantes nesses tempos longínquos, para suplicar a Izanami que volte para junto de si. O mito japonês apresenta aqui semelhanças com o mito de Perséfone e o de Orfeu e Eurídice. A jovem responde-lhe que não pode regressar ao mundo dos vivos porque ingeriu comida de Yomi, que interdita esse regresso. No entanto, como o domínio dos mortos estava mergulhado nas trevas, Izanagi apodera-se do pente da sua esposa adormecida para o acender como uma tocha e olhara sua bela mulher. Apercebe-se então que tem debaixo dos olhos um cadáver decomposto, com o corpo carcomido por larvas. Horrorizado, foge e tapa a entrada de Yomi com uma enorme rocha, sem se impressionar com os monstros que Izanami lança em sua perseguição nem com as ameaças terríveis que ela profere do interior, «Porque fizeste isso? Retira imediatamente esta rocha, ou matarei mil homens por dia.» Ao que Izanagi responde: «E eu criarei mil e quinhentos homens todos os dias!» A partir desse momento, Izanami passou a reinar sobre o mundo dos mortos com o nome de Yomotsu-ô-kami, e é desde essa altura que os homens são mortais. Izanagi, sentindo-se sujo pelo seu contacto com o cadáver, resolve banhar-se em um rio. À medida que lança à água as suas roupas e o seu bastão, nascem novos deuses. Decide então partilhar o universo entre os seus três filhos mais gloriosos, criados no momento em que lavava o rosto: Amaterasu (kami do Sol), nascido do seu olho esquerdo, Tsukiyomi (kami da Lua), nascido do seu olho direito, e Susanoo (kami tufão), nascido do seu nariz. Torna-se assim o pai dos grandes deuses.

Mitologia - Mitologia Japonesa
8/6/2017 3:29:36 PM | Por Sarah Bartlett
Livre
Mitos de criação védicos

Esse mito e proveniente dos Rig-Vedas, os livros sagrados mais antigos das divindades pré-hindus, e que datam de cerca, de 2000 a 3000 a.e.c. Parusha, um ser primordial, e desmembrado é usado para criar diferentes elementos do mundo material. Sua estória semelhante a de Ymir, em que a essência do mundo foi criada a partir do mais notável tipo de sacrifício o autosacrificio. No oceano primordial flutuava um ovo de ouro. Esse ovo havia boiado por 1.576.800.000.000 anos mortais na imensidão do agitado mar do caos. Sozinho dentro do ovo de ouro estava Parusha, já farto de sua solidão. Quando o fogo aqueceu as águas escuras e o oceano encapelou-se, o ovo se partiu. Parusha era o universo manifestado e ele surgiu do ovo com mil cabeças, mil mãos e mil olhos. Como se sentia só dividiu-se em dois. Um quarto dele produziu a Terra e Viraj (poder universal feminino); o restante formou os deuses e o universo. Parusha, então, desmembrou suas partes remanescentes para completar a criação. Sua boca transformou-se em Brâman, o poder do universo; seus olhos tornaram-se o Sol; sua mente virou a Lua. Nada foi desperdiçado: ele se tornou tudo e é tudo. Se ele mudar de ideia e juntar-se todo novamente, o universo acabará.

Prajapati

Outro deus védico, Prajapati, também é descrito como o criador universal. Ele sobreviveu até o período hindu, quando se fundiu com Brahma. Em algumas narrativas, ele criou os primeiros deuses por meio de meditação e jejum. Uma de suas primeiras criações foi sua filha Ushas, a aurora. Mas ele a cobiçou, o que a deixou tão aterrorizada que ela preferiu transformar-se em uma corça. Ele simplesmente converteu-se em veado e seu sêmen caiu sobre roda a Terra, criando as primeiras pessoas. Em outro relato, Prajapati criou-se a partir do mar primordial e chorou com a visão de seu vazio. Suas lágrimas deram origem aos continentes e, em seguida, descascou seu corpo, camada por camada, como uma cebola, e criou todo o resto a partir disso.

Mitologia - Mitologia Indiana
8/6/2017 3:28:34 PM | Por Sarah Bartlett
Livre
A criação segundo o povo Minyong

O povo minyong, do nordeste da índia, permaneceu intocado pela mitologia védica ariana e o hinduismo posterior resultante. Esse antigo mito, que data, de 2000 a.e.c., narra a derrubada dos criadores do universo por seus descendentes, e a, subsequente necessidade de restabelecer o equilíbrio
entre a Luz e a escuridão. Antes, havia apenas escuridão e Sedi, a Terra, e Melo, o Céu. Sedi e Melo acasalaram-se e criaram o primeiro povo, chamado wiyus, mas eles estavam comprimidos e esmagados entre a Terra e o Céu, por isso, um dos maiores wiyus, chamado Sedi-Diyor, agarrou seu pai, o Céu, e o chutou até que ele fugiu para o alto. Sedi havia dado à luz duas filhas, mas como Melo a abandonara, não suportava olhar para elas. Então, Sedi-Diyor arranjou-lhes uma babá. À época em que já podiam caminhar, elas brilhavam como estrelas. Iluminavam o mundo com sua luz, mas, então, morreram de desgosto quando sua velha babá faleceu, e a luz que irradiavam também morreu. Tudo mergulhou em trevas novamente. Assim, os wiyus ficaram com medo e perguntavam-se se a velha babá havia roubado a luz das crianças. Desenterraram o corpo dela, mas haviam restado apenas os olhos no cadáver apodrecido e, quando os wiyus os encararam, viram seu próprio reflexo e pensaram que eram as crianças. Um carpinteiro foi trazido para arrancar os olhos e remover os reflexos, que depois se transformaram em crianças de verdade.

Chamaram uma de Bomong e a outra de Bong. Mas essas crianças brilhavam com tamanha violência que havia luz e calor demais - as árvores começaram a murchar, as rochas a se desintegrar e os rios a secar. O calor era intenso e nunca havia qualquer escuridão. Os wiyus concordaram que deveriam destruir uma das crianças de luz, para que o mundo pudesse ter tempos de chuva e de escuridão também.

Sapo

O Sapo foi encarregado da terrível tarefa de matar Bong. Quando ela passou pelo Sapo, secando-o com seu calor radiante, ele atirou uma flecha em seus olhos e Bong morreu. Bomong ficou com tanto medo de também ser morta que correu para a floresta e colocou uma pedra enorme em cima de sua cabeça, e o mundo se tornou escuro. Então, como os wiyus perceberam que precisavam de luz para se manter vivos, enviaram um galo e um rato para pedir a Bomong para voltar. Mas ela disse: “Como eu poderia? Vocês mataram minha irmã, só vou voltar se vocês a trouxerem de volta à vida”.

O galo contou aos wiyus, que fabricaram um corpo de madeira, e o carpinteiro insuflou-lhe vida. Quando Bomong ouviu que sua irmã estava viva, retirou a enorme pedra de sua cabeça e novamente a luz irradiou dela. Entretanto, como Bong havia sido feita de madeira, sua luz havia desaparecido, e houve equilíbrio no mundo.

Mitologia - Mitologia Indiana
8/6/2017 2:50:05 PM | Por Sarah Bartlett
Livre
Criação do mundo na mitologia finlandesa

Luonnotar, virgem e filha do ar, lançou-se ao mar e lá ficou insuflada pelo vento durante sete séculos e nadando sem cessar por todos os mares, até que pediu a Ukko, Deus supremo, que a ajudasse a parir após aquela interminável gravidez do ar. Um pássaro, uma magnífica águia do céu, veio pousar-se nas suas pernas e nelas pôs o seu ninho e seis ovos de ouro e mais outro de ferro, chocando-os durante três dias, até que Luonnotar sentiu o calor abrasador dos sete ovos e meteu as suas pernas na água, para refrescá-las; então os ovos caíram no mar e deles brotou a Terra, com o seu céu, a sua Lua e o seu Sol, mas a virgem continuaria na água, durante mais outros dez anos, até que Luonnotar decidiu criar vida nessa Terra e dar forma aos continentes e às ilhas; mas ainda esperou outros trinta anos, até que por fim pariu o já velho e gigantesco Vainamoinen, que caiu no mar e nele continuou, como a sua mãe, nadando, até que, depois de oito anos, tocou a terra firme e pôde contemplar ensimesmado aquela primeira ilha, aquele mundo maravilhoso que a sua mãe tinha criado e que agora o rodeava com todo o seu esplendor.

Sozinho estava Vainamoinen, até que o deus Sampsa veio ensinar-lhe a forma de cultivar o solo com as suas sementes, embora a Vainamoinen não lhe parecesse demasiado perfeito o que cresceu na sua ilha. De maneira que quatro virgens saídas do mar cortaram a erva e queimaram-na até, que da verde vegetação, só restou a cinza. E uma azinheira começou a crescer, imbatível, apoderando-se da terra e do ar. De maneira que Vainamoinen pediu à sua mãe que o ajudasse a derrubar aquela árvore, e apareceu um diminuto ser que depois também cresceu e cresceu, como a azinheira. Com uma folha de erva formou um machado e com ela a azinheira derrubou de três golpes. Tinha provado qual era a força e o poder da magia; também tinha deixado espaço para que a vegetação recebesse a luz do sol e todas as plantas medrassem. Vainamoinen fez-se ele próprio um machado e derrubou todas as árvores que tinham crescido, todas menos o abedul, no qual se pousaram os pássaros do céu.

Mitologia - Mitologia Finlandesa
8/3/2017 12:30:41 PM | Por Antônio Daniel Abreu
Livre
PanGu, o Criador do Universo

Há muitos e muitos anos atrás, antes do principio do céu e da terra, o Universo constituía uma confusa massa negra que se assemelhava a um grande ovo, dentro do qual se encontrava em crescimento e dormia a sono solto um gigantesco embrião, chamado Pan Gu. Passados cerca de 18 mil anos, Pan Gu começou a acordar. Quando, finalmente, abriu os olhos e se pôs a olhar em volta, descobriu que tudo era tão negro que não conseguia distinguir nada. Isto o aborrecéu muito, tanto que, acabando por ficar enraivecido, abriu a palma da sua enorme mão e, brandindo o seu possante braço, desferiu um violento golpe na confusão negra que o rodeava. Craque! O ovo estalou com um colossal estrondo, fragmentando-se a negritude que se encontrava estática e condensada nele há centenas de milhares de anos.

Na sucessão deste acontecimento, os elementos que eram mais leves subiram lentamente para as alturas e dispersaram-se gradualmente, acabando por se transformar no azul do céu, enquanto que os mais pesados e turvos desceram vagarosamente para as profundezas, transformando-se na terra. De pé, entre o céu e a terra, Pan Gu respirou, então, profundamente, sentindo-se agora muito à vontade e prazenteiro.

O céu e a terra estavam finalmente separados, contudo, Pan Gu, tendo receio de que eles viessem a juntar-se de novo, resolveu sustentar o céu com os seus braços levantados, calcando firmemente a terra com os seus pés. Entretanto, o corpo de Pan Gu crescia tão rapidamente que atingia em media três metros por dia, e o céu e a terra distanciavam-se, assim, quotidianamente, cerca de três metros. Passados 18 mil anos, o céu tinha atingido colossais alturas e a terra tinha-se tornado extremamente compacta. Entretanto, por mais estranho que possa parecer, Pan Gu tinha crescido descomunalmente. Mas, afinal, qual era agora a altura de Pan Gu? Dizia-se que tinha ultrapassado 45 mil quilômetros. Tinha-se realmente transformado em um extraordinário gigante que tocava o céu com a cabeça e tinha os pés firmemente assentes na terra.

Fora justamente graças à força divina de Pan Gu, que o céu e a terra tinham sido criados, e era agora devido a sua interposição, que estes se mantinham separados, não havendo jamais o perigo de virem a juntar-se de novo. Se bem que a original confusão negra tivesse desintegrado completamente e não fosse mais do que uma memoria do passado, Pan Gu tinha ficado tão exausto na sua grandiosa obra de criação, que não tardou a morrer de cansaço.

Apos a criação do céu e da terra, Pan Gu tinha imaginado poder vir a criar um brilhante e esplendoroso mundo sobre o qual pairassem o sol e a lua, revestido por montanhas, rios e toda uma variedade de coisas, habitados pelos homens e demais seres vivos. Infelizmente, devido à sua morte prematura, não pode realizar esse seu grandioso plano, mas, antes de dar seu ultimo suspiro, ainda teve alento para metamorfosear partes do seu corpo moribundo.

O seu hálito transformou-se em brisa, nas nuvens e nos nevoeiros do céu, e a sua voz no estrondo dos trovoes.

O seu olho esquerdo transformou-se no sol resplandecente que ilumina a terra, o seu olho direito na lua brilhante, e os seus cabelos e bigodes na minada de estrelas do firmamento.

Os seus quatro membros e tronco transformaram-se em cinco maciças montanhas - quatro perdendo-se nas extremidades de leste, oeste, sul e norte do planeta, situado no centro do universo.

O seu sangue transformou-se em impetuosos rios que passaram a sulcar a crosta terrestre, e os seus tendões, em caminhos que intercomunicam todos os pontos do globo.

Os seus músculos transformaram-se em terras férteis, e os seus dentes, ossos e tutano, respectivamente, em perolas, jade e inesgotáveis recursos minerais subterrâneos.

Os pelos do seu corpo transformaram-se na relva e nas arvores que abundam, disseminadas por todo o mundo, e o seu suor, na chuva e na garoa que são o alimento de todas as plantas.

Em resumo, se bem que a criação do universo se devesse inteiramente aos esforços divinos e ao espirito de abnegação do gigante Pan Gu, a maravilhosa variedade, exuberante riqueza e intima beleza deste mundo, são produtos do seu corpo.

Conta-se ainda que a raça humana gerou-se a partir da sublimação da alma do grande gigante, o que significa serem todos os seres humanos descendentes de um antepassado comum: Pan Gu. Não é de estranhar que a humanidade, enquanto espirito do universo, tenha sido capaz de - graças a sua superioridade - controlar tudo quanto existe na superfície da terra, de arrasar montanhas, de modificar o curso de rios e mesmo de transformar a Natureza de uma maneira mais benéfica, duradoura e propicia ao prospero futuro de todos os seres humanos.

 

Mitologia - Mitologia Chinesa
8/3/2017 12:27:01 PM | Por Sarah Bartlett
Livre
PanGu e o ovo cósmico

Existem muitas versões desse mito, mas todas elas giram
em torno do Ovo cósmico, um símbolo da fertilidade e da aproximação entre o caos e a matéria. Era um mito muito popular no sul da China entre os séculos III e VI e.c. Em uma versão, Pan Gu surgiu do ‘nada’ como filho do caos. No início, não havia nada. Mas, à medida que o tempo passava o nada se tornou algo e essas forças viraram o Ovo Cósmico. Dentro do ovo havia o caos, e Pan Gu flutuou dentro do caos por 18 mil anos. Ele acabou rompendo a casca e saiu do ovo. Carregava um martelo e um cinzel e dois chifres cresceram em sua cabeça, um símbolo de poder sobrenatural na China. Estava coberto de cabelos negros e espessos e duas presas enormes apontavam de sua mandíbula. Foram precisos mais 18 mil anos para que Pan Gu separasse a Terra e o Céu com o cinzel.

Em uma das versões, quando ele chorou suas lágrimas formaram o grande rio Amarelo na China. Em outra, o céu foi moldado a partir de seu crânio, os campos de sua carne, as pedras de seus ossos e os trovões de sua voz. Outra ainda sugere que Pan Gu formou as cinco montanhas sagradas da China a partir de diferentes partes de seu corpo.

Mitologia - Mitologia Chinesa
7/30/2017 3:21:18 PM | Por Carmen Seganfredo
Livre
A cosmogonia egípcia de Heliópolis

Nada ainda existe nomundo a não ser Nun, o grande oceano primitivo que um dia será chamado pelos sábiod e "sagrado Nilo". Ao seu redor, reinam o silêncio, as trevas e o caos infinito, não havendo ainda olho humano que possa perceber a ausência das formas, dos volumes e das cores. Não há nem mesmo morte nesse opaco universo, já que vida alguma existe ali. O informe deus Nun permanece imerso desde sempre em seu sono primitivo, não passando ele – e o próprio universo, já que Nun e ele se confundem – de um grande espelho liquefeito de águas imparciais, escuras e silentes, a relfetirem o nada inexpressivo que habita o mundo. E então, inesperadamente, o grande mistério acontece: Num começa subitamente a mover-se, depertando, enfim, de seu longo sono primordial. Negras tempestadres agitam o espelho opaco das águas revoltas enquanto grandes massas escuras de água são lançadas para o algo, fazendo explodir em todas as direções imensos e trepidantes jorros de espuma negra.

Aos poucos a força vital de Nun começa a operar, e das profundezas do mar revolto surge lentamente uma pequena ilha envolta pelo impenetrável manto da escuridão. Um primeiro progresso se fez perceber, pois onde antes havia somente uma, agora há duas trevas: a treva imóvel da terra e a treva ondulante do mar. Brotada no centro dessa pequena ilha ergue-se, aos poucos, uma pequena flor de lótus, alva e delicada e que se destaca no meio da treva circundante. O universo conhece seu primeiro momento de espantosa beleza ao contemplar aquela pequena flor, frágil e solitária, a desafiar a escuridão silente do Nada. Então, do centro da flor começam a emanar lentamente finíssimos raios de uma fulva claridade. As pétalas do lótus vão abrindo-se da luz que dele emana forma-se, finalmente, a figura soberana de uma nova e luzente divindade. Alguns a chamarão de Rá, outros de Amons e, ainda outros de Amon-Rá – aquele ser divino que um dia as gerações futuras louvarão como o abençoado deus solar.

A nova divindade emerge de seu delicado leito estendendo seus raios flamejantes pela terra inteira – ainda vasta paisagem árida e infinitamente desolada –, riscando o horizonte negro com seus retilíneos feixes dourados, até que tudo se torna claro o bastante apra que se possa separar a luz da treva. Recém-despertos para a vida, os olhos de Rá nublam-se de luminosas lágrimas ao enxergar o pouco que ainda há no mundo e o muito que lhe alta. Uma gota cristalina desliza e cai de seus olhos brilhantes, indo entranhar-se na terra dura e seca que o calor de seu próprio corpo gretara. Dessa gota divina, um dia, surgirá a humanidade.

Depois, os olhos do poderoso Rá fecham-se e seu pensamento se dedica a criar outras divindades que lhe façam companhia. Uma a uma elas vão surgindo, nomeadas pelo deus solar: primeiro Tefnet, a deusa da água, e Chu, o deus do ar, que habitarão no firmamento, glorificando o deus supremo. Então, da união desses dois deuses nascem Geb, deus da terra, e a bela Nut, deusa do firmamento. Os últimos, por sua vez, dão origem à primeira geração de deuses a habitar a sagrada terra do Egito: as deusas Ísis e Néftis e os deuses Seth e Osíris.

Primogênito entre todos, o puro Osíris virá ao mundo para cumprir o ciclo inteiro da vida e da morte. Será o grande deus civilizador que ensinará aos homens, ainda imersos na barbárie e na ignorância, as sagradas artes da agricultura e do culto. Ele tornará próspero o Egito, espalhando a civilização por todo o mundo, além de ser o primeiro deus a possuir a forma humana e a reinar sobre as criaturas de forma inconteste. Ísis, sua irmã e esposa, reinará ao seu lado sobre as terras que circundam o majestoso Nilo, em paz e harmonia, ainda que sob os olhos amargos de inveja do sinistro Seth, sedento de maldade e poder.

Muitas estórias de heroísmo e vilania dessa dinastia gloriosa ainda estão por acontecer: desde a decadência natural do primitivo Rá, e de como Ísis astuta lhe tormará o cetro, até o crime horrendo que Seth perpetrará contra seu próprio irmão Osíris. Ao fim de tudo, entretanto, o divino Horus, filho intrépido do deus assassinado, retomará o cetro que por direito eterno lhe cabe, enquanto Osíris irá reinar, sobereno, entre os mortos.

Mitologia - Mitologia Egípcia
7/30/2017 3:20:38 PM | Por Luís Manuel de Araújo
Livre
A criação do mundo por Atum

Quando o céu e a terra ainda não estavam separados, e quando as serpentes, os vermes e os seus inimigos ainda não tinham sido criados, quando aindan não havia vida alguma, ou seja, no começo de tudo, só existia Atum ou Nun. Então Atum elevou-se do Nun, Postando-se no cimo da colina primordial. E, depois de algum tempo, Atum fartou-se da sua solidão e, masturbando-se, engoliu o seu próprio sêmen, que conseguiria com a ajuda da sua mão. Depois de, desta forma, se ter fecundado a si mesmo, deu a luz Shu, o ar, e Tefnut, a humanidade, os quais lançou da sua boca. Shu e Tefnut fizeram Geb, a terra, e Nut, o céu. Por sua vez, estes geraram Ísis e Osíris, a deusa da vida e o senhor do reino dos mortos, depois dos quais vieram Seth e Néftis, o deus dos territórios estrangeiros, e a senhora da casa. Apareceu então no reino de Hórus, o filho de Ísis, e de Osíris. Estas nova divindades formam a Enéade de Heliópolis.

Mitologia - Mitologia Egípcia
7/29/2017 7:12:50 PM | Por Robert Graves
Livre
O Mito da criação Pelasgo

No início, Eurínome, a Deusa de Todas as coisas, ergueu-se nua do Caos, mas, não encontrando nenhum lugar firme onde pudesse descansar os pés, separou o mar do céu, dançando sozinha sobre as ondas. Dançou em direção ao sul, e atrás dela correu um vento novo e incomum, que lhe pareceu apropriado para o inicio de um trabalho de criação. Girado, ela se apoderou desse vento norte, esfregou-o entre as mãos e vejam só: a grande serpente Ofíon! Eurínome dançava para se esquentar, cada vez mais frenética, até que Ofíon, excitada, enrolou-se naqueles membros divinos com a intenção de copular com ela. A partir de então, o Vento Norte, também chamado Bóreas, fertiliza. Por isso as éguas frequentemente voltam as ancas para o vento e ficam prenhas sem a ajuda do garanhão. Da mesma maneira, Eurínome engravidou.

Em seguida, ela assumiu a forma de uma pomba e pôs o Ovo Universal, chocando-o por cima das ondas durante algum tempo. Ao seu comando, Ofíon enrolou-se sete vezes em torno desse ovo, completando a incubação, até ele se partir em dois. Para fora arremessaram-se todas as coisas que existem, seus filhos: o Sol a Lua, os planetas, as estrelas a Terra com suas montanhas e rios, suas árvores e plantas e todas as criaturas vivas.

Eurínome e Ofíon fizeram do topo do monte Olimpo seu lar, onde a serpente enfureceu a deusa ao reivindicar para si a autoria do Universo. Imediatamente, Eurínome esmagou-lhe a cabeça com o calcanhar, arrancou seus dentes e baniu-a para as cavernas escuras sob a Terra.

Em seguida, a deusa criou sete poderes planetários, designando uma titânida e um titã pra cada um deles: Téia e Hipérion para o Sol; Febe e Atlas para a Lua; Dione e Créos para o planeta Marte; Métis e Ceo para o planeta Mercúrio; Têmis e Eurínome para o planeta Júpiter; Tétis e Oceano para Vênus; Réia e Cronos para Saturno. Mas o primeiro homem foi Pelasgo, ancestral dos Pelasgos. Ele emergiu sob solo da Arcádia, seguido por alguns outros, a quem ensinou a construir cabanas, alimentar-se de frutos do carvalho e coser túnicas de couro de porco, como as usadas ainda hoje pelos mais pobres na Eubéia e na Fócida.

---------------

 

Nesse sistema religioso arcaico não havia, até agora, deuses nem sacerdotes, mas apenas uma deusa universal e suas sacerdotisas, a mulher sendo o sexo dominante e o homem, sua vítima assustada. A paternidade não era honrada, e a concepção era atribuída ao vento, à ingestão de feijão ou, acidentalmente, de um inseto. A herança era matrilinear, e as cobras eram consideradas encarnações dos mortos. A deusa, como a Lua visível, tinha o título de Eurínome (vasta perambulação). Seu nome sumério era Iahu (pombo exaltada), título transferido mais tarde a Jeová, como o Criador. Foi uma pomba o animal que Marduk simbolicamente cortou em dois pedaços no Festival da Primavera Babilônica, ao inaugurar a nova ordem mundial.

Ofíon, ou Bóreas, é a serpente-demiurgo do mito hebraico e egípcio - na arte mediterrânea primitiva, a deusa aparece constantemente em sua companhia. Os pelasgos nascidos da terra, que parecem alegar terem surgido dos dentes de Ofíon, talvez tenham sido, originalmente, o povo neolítico das "Mercadorias Pintadas". Partindo da Palestina, eles chegaram à Grécia continental por volta de 3500 a.e.c. Setecentos anos mais tarde, os primeiros Helênicos - imigrantes da Ásia Menor vindos das Cíclades - encontraram-nos ocupando o Peloponeso. Mas o termo "Pelasgo" tornou-se aplicável livremente a todos os habitantes pré-helênicos da Grécia. Nesse sentido, Eurípides (citado por Estrabão V. 2.4) registra que os pelasgos adotaram o nome "dânaos" por ocasião da chegada de Dânao e suas cinquenta filhas a Argos. Severas críticas á sua conduta licenciosa (Heródoto: VI. 137) referem-se provavelmente ao costume pré-helênico de orgias eróticas. Estrabão diz, na mesma passagem, que aqueles que viviam perto de Atenas eram conhecidos como pelargi "cegonhas". Talvez fosse o pássaro totêmico dos pelasgos.

Os titãs "senhores" e as titânides tiveram suas contrapartes nas astrologias primitivas da Babilônia e da Palestina, onde constituíram divindades que governavam os sete dias da semana sagrada planetária. Talvez tenham sido introduzidos pela colônia cananéia, ou hitita, estabelecida no istmo de Corinto no início do segundo milênio a.e.c., ou até mesmo pelos primeiros helênicos. Mas, assim que oculto aos titãs foi abolido na Grécia e a semana de sete dias deixou de figurar no calendário oficial, seu número foi citado por alguns autores como sendo 12, provavelmente para fazê-los corresponder aos signos do Zodíaco. Hesíodo, Apolodoro, Estêvão de Bizâncio, Pausânias e outros autores oferecem listas inconsistentes de seus nomes. No mito babilônico, os governadores planetários da semana - Samas, Sin, Nergal, Bel, Beltis e Ninib - eram todos masculinos, exceto Beltis, a deusa do amor. Mas na semana germânica, que os celtas tomaram emprestada do mediterrâneo oriental, o domingo, a terça-feira e a sexta-feira eram governados por titânidas, e não por titãs. A julgar pelo estatuto divino das filhas e filhos emparelhados de Éolo e pelo mito de Níobe, quando o sistema chegou da Palestina á Grécia pré-helênica, decidiu-se por emparelhar uma titânida a cada um dos titãs, de maneira a salvaguardar os interesses da deusa. Mas, muito antes, os 14 eram reduzidos a uma companhia mista de sete. Os poderes planetários eram os seguintes: o Sol para iluminação; a Lua para encantamento; marte para crescimento; Mercúrio para sabedoria; Júpiter para justiça; Vênus para amor; Saturno para paz. Os astrólogos clássicos gregos ajustaram-se aos babilônios, atribuindo respectivamente os planetas a Hélio, Selene, Ares, Hermes (ou Apolo), Zeus Afrodite, Cronos - cujos equivalentes latinos supramencionados ainda nomeiam os dias das semanas francesa, italiana e espanhola.

No fim, miticamente falando, Zeus engoliu os titãs, inclusive uma representação primitiva de si mesmo - visto que os judeus de Jerusalém veneravam um Deus transcendente, composto por todos os poderes planetários da semana: teoria simbolizada pelo candelabro de sete braços e pelos sete Pilares da Sabedoria. Os sete pilares planetários instalados próximos á Tumba do Cavalo, em Esparta, eram, segundo Pausânias (II. 20.9), decorados á moda antiga, ligados possivelmente aos ritos egípcios trazidos pelos pelasgos (Heródoto II. 57). Não se sabe ao certo se os judeus tomaram essa teoria emprestada aos egípcios, ou vice-versa. Entretanto, o assim chamado Zeus heliopolitano, analisado por A. B. Cook em sua obra Zeus, tinha um caráter egípcio e ostentava bustos dos sete poderes planetários como ornamentos frontais e sua vestimenta e, com frequência, também bustos dos deuses olímpicos remanescentes como ornamentos da parte de trás. Uma estatueta de bronze desse deus foi encontrada em Tortos, na Espanha, e outra em Bibelôs, na Fenícia. Uma estela de mármore de Marselha exibe seis bustos planetários e uma figura completa de Hermes - revestido da maior importância nas estatuetas - presumivelmente como inventor da astronomia. Em Roma, Quintis Valerias Soramos alegava, de modo semelhante, que Júpiter era um deus transcendente, embora lá a semana não fosse respeitada como em Marselha, Bibelôs e provavelmente Tortos. Mas os poderes planetários foram limitados a jamais influenciar o culto olímpico oficial, pois eram vistos como não-gregos e portanto, não patrióticos: Aristófanes faz Trygalus dizer que a Lua e "aquele velho patife, o Sol" estão tramando um complô para trair a Grécia e fazê-la cair nas mãos dos bárbaros persas.

A afirmação de Pausânias de que os pelasgos foram os primeiros homens registra a continuidade de uma cultura neolítica na Arcádia até a época clássica.

Mitologia - Mitologia Grega
7/25/2017 9:49:08 PM | Por Luís Manuel de Araújo
Livre
A criação do mundo por Ptah

Eis os deuses que se manifestaram em Ptah: Ptah o grande trono (...) / Ptah-nun, o pai que criou Aton, / Ptah-Naunet, a mãe que gerou Aton, / Ptah, o Grande, é o coração e a língua da Enéade (...) A sua Enéade está diante dele como os dentes e os lábios de Aton, como o sêmen de Aton. A Enéade de Aton formou-se a partir do seu sêmen e dos seus dedos. A Enéade é verdadeiramente os dentes e os lábios na boca que proclamou o nome de todas as coisas. Dela saíram Chu e Tefnut, assim nasceu a Enéade. O coração manifestou-se sob a forma de Aton. A língua manifestou-se sob a forma de Aton. O deus maior é Ptah, que fez confiar a vida a todos os deuses e aos seus Kau. O seu coração é onde Hórus se manifesta em Ptah.

A sua língua é onde Toth se manifesta em Ptah. Então o coração e a língua tornaram-se nos que têm poder sobre os membros, segundo o ensinamento que surge em todo o corpo e em toda a boca de todos os deuses, de todos os homens, de todo o gado, de todos os vermes e de todas as coisas vivas, de acordo com o plano que comanda todas as coisas que ele ama. A visão dos olhos, o escutar das orelhas e o respirar da garganta sobem diante do coração. Ele gerou todos os deuses, e completou a sua Enéade. Na verdade, toda a palavra divina nasce a partir do conhecimento do coração e do comando da língua.

Ele criou os Kau e designou as bemsut. Eles criaram todo o alimento e todas as oferendas, de acordo com a sua palavra.

Para o que faz que faz o que é amado, ele dá vida e paz.

Para o que faz o que é odiado, ele dá morte e condenação.

Ele fez todos os trabalhos e todos os ofícios, as obras feitas pelas mãos, o andamento das pernas e todo o movimento dos membros, de acordo com a sua ordem, a palavra do conhecimento do coração que sai pela língua e faz todas as coisas veneráveis. Ele manifestou a sua palavra, concluiu a sua obra e formou os deuses.

Ele é Ptah-Tatenen, o que gerou os deuses. Todas as coisas saíram dele, as provisões, os alimentos para as oferendas divinas e todas as coisas boas.

Ele descobriu a sabedoria, e a sua força é maior do que a dos outros deuses. Desta forma, Ptah ficou verdadeiramente satisfeito com as suas obras, todas as coisas e todas as palavras divinas.

Ele gerou os deuses.

Ele Criou as cidades.

Ele estabeleceu todas as províncias.

Ele colocou os deuses nos seus santuários.

Ele definiu as suas oferendas.

Ele fundou os seus templos.

Ele fez as suas imagens veneráveis.

E elas tornaram-se os seus corpos através dos quais satisfaziam os seus desejos.

Deste modo, os deuses entraram nos seus corpos, feitos de todas as madeiras, de todas as pedras, de todas as espécies de argila, de todas as coisas que crescem sobre si, de onde eles se formam.

Ele reuniu todos os deuses e todos os seus Kau, satisfeitos e unidos com o senhor das Duas Terras.

Mitologia - Mitologia Egípcia
6/23/2017 4:54:58 PM | Por Rosana Rios
Livre
Como Nanabozho criou a Terra

(Povo Algonquin)

Em um tempo muito, muito distante, do qual ninguém pode se lembrar, vivia Nanabozho, o feiticeiro criador. Ele era jovem e morava na água, pois não havia mais nenhum lugar para se viver. Nada existia além de um mar sem fim. No alto, viam-se as estrelas e as nuvens; entre elas um vento frio soprava suavemente, e seu sopro era o único som que se ouvia. O resto era o silêncio pairando sobre as águas. Durante muito tempo, Nanabozho viveu sozinho, mas depois decidiu que precisava de criaturas para lhe fazer companhia, Então ele criou a tartaruga, e lhe deu uma carapaça forte e protetora.[1] Depois criou o rato-almiscarado, e lhe deu um pelo bem longo – tão longo que podia abrigar bolhas de ar, para que o animal tivesse como respirar quando mergulhava no imenso oceano: era só enfiar o focinho entre o próprio pelo e absorver o ar ali guardado. Depois disso, Nanabozho criou a lontra, que sabe nadar tão bem e tão depressa. E também o castor, dando-lhe uma cauda achatada e uma pelagem marrom bem compacta.

No grande mar que cobria o mundo, os quatro animais fizeram companhia ao criador. Nadavam com ele, [15] conversavam, pescavam os peixes, que faziam parte do mar, para se alimentar. Porém Nanabozho acabou se aborrecendo com as conversas deles e começou a imaginar como criar seres mais interessantes. Concluiu, porém, que o problema não eram seus companheiros, era o excesso de água.

“Quero descansar meus pés em algo sólido”, ele refletiu. “E se eu ficar em pé e colocar um pé diante do outro, poderei andar! Estou cansado de nadar.”

Mas onde conseguir algo sólido em toda aquela água que cobria o mundo?

Certo dia, ao ver a lontra nadando rapidamente e mergulhando, Nanabozho teve uma ideia. Devia haver algo sólido sob a água, impedindo que o mar escoasse! Assim pensando, Nanabozho respirou fundo para reter bastante ar e mergulhou no oceano sem fim.[2]

Nadou para baixo, cada vez mais para o fundo, até que as águas ficaram tão escuras, que nada se podia enxergar. E o fundo parecia não existir… Quando o ar que havia inalado acabou, o criador voltou à superfície para respirar. Os quatro animais estavam preocupados com ele, pois não sabiam para onde tinha ido.

Ele explicou aos amigos o que tentara fazer e que não encontrara o fundo do mar, pois não pudera respirar mais tempo sob a água. Mas quando disse que tinha outra ideia, os amigos trataram logo de sair de perto – pois, quando Nanabozho tinha ideias, sempre os metia em apuros!

– Você, castor – disse o criador, sem se perturbar, – vai mergulhar para mim. Vou amarrar minha linha de pesca em sua cauda para puxá-lo de volta se ficar sem ar para respirar. [16]

O castor não queria fazer aquilo, mas não podia se recusar, pois Nanabozho era um grande feiticeiro e sempre alcançava tudo o que desejava.[3] O animalzinho olhou para os amigos com os olhos tristes, sacudiu a cauda, na qual o criador prendera a linha de pesca, e mergulhou.

Os outros ficaram em expectativa. Por algum tempo Nanabozho sentia a linha esticada deslizar por suas mãos, o mergulho do castor parecia sem fim. De repente ela parou e ficou folgada. O criador começou a puxar, puxar… A tartaruga, a lontra e o rato-almiscarado se entreolharam, tristes. Finalmente Nanabozho recolheu o corpo inerte do pobre castor. Seus pulmões não haviam aguentado.

Durante alguns dias, nada aconteceu, mas logo o criador desejou tentar de novo.

– Agora é a vez do rato-almiscarado – disse ele. – Tenho uma nova linha de pesca e vou emendar com a outra, assim poderá ir mais para o fundo. Naturalmente, o animal não queria fazer a tentativa.

– Veja só o que aconteceu com o castor! – ele choramingou.

Nanabozho lhe disse:

– Você sabe como armazenar ar em seu pelo, poderá respirar por bastante tempo sob a água.

O rato-almiscarado sabia que só conseguiria armazenar um pouquinho de ar, mas não negaria o pedido do feiticeiro. Deixou que ele amarrasse a linha de pesca em sua cauda, despediu-se dos companheiros com um olhar tristonho e mergulhou.

A linha deslizou pelas mãos de Nanabozho mais rapidamente desta vez, pois o rato-almiscarado nadava depressa, querendo chegar logo ao fundo do oceano. Mas o tempo passou e ele não voltava; até que a linha parou completamente de se mover.

O criador começou a puxar, puxar, puxar. E finalmente eles viram o corpo do animalzinho subir à superfície. Ele também não sobrevivera ao mergulho; mas todos perceberam que, entre as patinhas da frente, segurava alguma coisa pequena e marrom.

Nanabozho retirou com cuidado o material que o rato-almiscarado trouxera, com tanto sacrifício. Era um punhado de coisa molhada e grudenta; ele colocou sobre a carapaça da tartaruga para secar. Após cheirar e provar a substância, anunciou:

– Acho que isto é barro.

O feiticeiro, a lontra e a tartaruga resolveram esperar que aquela lama estivesse quase seca. Mas Nanabozho cansou de aguardar e começou a trabalhar nela com os dedos.[4] O pequeno bocado de lama foi crescendo entre suas mãos enquanto ele o moldava. Até que aumentou tanto de tamanho que se transformou em uma grande extensão de chão, onde muitas criaturas poderiam habitar!

E essa foi a primeira terra que existiu em nosso mundo.

Todos viram que ali havia espaço para o crescimento de plantas e árvores. Havia sulcos para que corressem rios.

Os calombos no barro se transformaram em montanhas, as depressões se encheram de água e viraram lagos. Os animais e as pessoas já podiam existir, pois agora possuíam um lugar para morar; e Nanabozho, o criador, conseguiria andar ao invés de nadar. Mas como ele tinha sido muito apressado e não deixara o barro secar completamente, alguns pontos permaneceram [18] molhados e grudentos. Estes são os pântanos, que jamais ficarão secos.

Povo Algonquin
O mito de Nanabozhofo foi recolhido entre os Algonquin do Canadá. Vários grupos tribais foram designados como Algonquins ou Algonkins. O nome designa ainda a língua básica de muitos povos, considerados integrantes do maior grupo linguístico da América do Norte. No Canadá, eles eram originários do Leste, acima da região dos grandes lagos. Grupos tribais canadenses incluíam os Beothuk, Micmac, Malecite, Montagnais, Naskapi, Ojibwa, Cree e os Algonquin propriamente ditos.

Também havia povos Algonquin no território dos Estados Unidos; diz-se que eram numerosíssimos e se espalhavam desde o Oceano Atlântico até as Montanhas Rochosas. Compreendiam, entre muitas outras tribos, os Cheyenne, Arapaho, Chippewa, Pottawatomi, Illinois, Miami, Shawnee; na Costa Leste estavam radicados os Pequod, Mohegan, De laware, Abnaki. Também se contam entre os algonquins as três tribos Blackfoot (Pés-negros): os Siksika, os Blood, osPiegan.

Consta que os Algonquin fora, os primeiros grupos nativos a terem contato com os colonizadores, e que tinham boas relações com os franceses, mas eram grandes inimigos das tribos dos iroqueses. Eram povos sedentários, dotados de técnicas adiantadas de agricultura e extrema habilidade no curtimento das peles de cervo e na confecção de vestes. Também são famosos os mantos deplumas que teciam.

Mitologia - Mitologia Norte-Americana
5/28/2017 4:03:00 PM | Por Mirella Faur
Livre
Cosmogonia nórdica

A epopeia da criação e da destruição do mundo, na tradição nórdica,
é relatada no poema “Võluspa”, de autor desconhecido, traduzido
como “As profecias — ou a visão — da vala” (vidente, profetisa). Esse
poema supostamente foi escrito em torno do ano 1000, quando as pessoas passaram a temer o fim do mundo depois de uma sucessão de três invernos rigorosos (que poderiam ser o prenúncio do Fimbul, “o inverno sem fim”, e o prenúncio do Ragnarõk, “o fim dos tempos”). Foi esse poema a principal fonte de inspiração para o relato do historiador Snorri Sturluson.
A cosmogênese nórdica é permeada de toques dramáticos e trágicos, e está centralizada no eterno e perpétuo conflito entre as forças positivas e negativas da natureza, representadas pela força expansiva do fogo e a contração e cristalização do gelo. Diferente da mitologia das culturas favorecidas por climas amenos, colheitas fartas e os benefícios do calor solar, os mitos nórdicos refletem a agreste natureza das montanhas, geleiras e vulcões, com a terra banhada pelas ondas furiosas do mar gelado, com breves interlúdios de verão ensolarado [79] e vegetação abundante. O clima e a paisagem das terras nórdicas tiveram uma grande influência na modelação das crenças religiosas e dos conceitos, costumes e valores dos seus habitantes. Era natural que a difícil sobrevivência nos longos e rigorosos invernos árticos, a escassez de luz e de calor solar, que colocavam em risco a própria vida, criassem as imagens do gelo e da escuridão como monstros malévolos e ameaçadores.

“No início dos tempos, o grande caos rugia. Não havia mar, nem água, nem areia, Nenhuma terra abaixo, nenhum céu acima, Somente um vão profundo, em que nada existia.” — Võluspa” Poetic Edda

O intricado drama cósmico inicia-se a partir de um abismo primordial, um incomensurável buraco negro e vazio, chamado Ginungagap. Nesse vazio desprovido de terra, mar, ar ou luz, sem forma, cor ou vida, surgiram após incontáveis eons (divisão de tempo geológico) duas regiões, distintas e separadas entre si.

Para o sul entendia-se Muspelheim, o reino do fogo cósmico, onde labaredas gigantes desprendiam um calor a que nenhum ser resistia, além dos gigantes de fogo, seus habitantes, que eram regidos pelo gigante Surt, o detentor de uma espada flamejante e letal. No extremo norte existia o reino de Niflheim, onde dominavam o frio e a escuridão, repleto de camadas de gelo sempre envoltas em neblina e assoladas pelas tempestades de neve. Do centro de Niflheim, jorrava a fonte Hvergelmii — o caldeirão borbulhante —, que alimentava onze rios gelados, chamados Elivagar, que se diferenciavam entre si pela largura, natureza, rapidez e turbulência da corrente. À medida que os rios alcançavam a imensidão do abismo de Ginungagap, eles congelavam e formavam enormes blocos de gelo, que rolavam ruidosamente para dentro do abismo, preenchendo aos poucos o espaço central.

Esses dois mundos antagônicos foram deslizando lentamente e se aproximando um do outro, até que, depois de milênios, encontraram-se no meio de Ginungagap. Embora o centro de Niflheim fosse gelado, a extremidade próxima a Muspelheim foi esquentando aos poucos; com o passar dos milênios e a lenta aproximação de Muspelheim, fagulhas incandescentes das suas chamas, levadas pelo vento, foram caindo sobre os blocos de gelo, produzindo, um som sibilante e derretendo alguns. O vapor formado se condensava em uma espuma, que foi se solidificando em camadas sobrepostas preenchendo o espaço central. A medida que as ondas de calor tocavam o gelo, ele começou a derreter gradativamente e, das gotas espumantes e salgadas, a vida foi se formando lentamente.

Pelo seu movimento incessante, as forças primevas do fogo e do gelo criaram a fricção necessária para ativar o potencial não manifestado de Ginungagap e o impregnaram com a centelha geradora da vida. Surgiram assim dois seres primordiais: um gigante hermafrodita chamado Ymii, a personificação do oceano congelado e o ancestral de todos os gigantes do gelo (denominados Jotnai, Thurs, Hrim) [80] e uma vaca gigantesca —Audhumbla. Ymir começou a perambular pelas redondezas e, ao encontrar Audhumbla, saciou sua fome com o leite que escorria abundantemente das suas nove tetas. Movida pela fome, Audhumbla começou a lamber um bloco de sal congelado, até que suas lambidas desvelaram outro ser sobrenatural, imponente, translúcido e com feições humanas, chamado Buri.

Enquanto isso, Ymir adormeceu deitado no beiral do abismo e, aquecido pelas lufadas de ar quente vindas de Muspelheim, começou a suar. Do suor que brotou das suas axilas plasmou-se um casal, uma moça e um rapaz; das virilhas surgiu um ser gigantesco de seis cabeças, Thiudgelmir, e dos pés, uma família de gigantes. Buri teve um filho, Bor (talvez gerado apenas por Buri, que era hermafrodita, ou da união com a moça nascida da axila de Ymir), e Thrudgelmir gerou Bergelmir, o precursor de todos os gigantes de gelo.

Quando os filhos de Ymir perceberam a presença dos seres divinos, Buri e Bor, partiram para a luta, pois, como deuses e gigantes, representavam forças opostas e em conflito; não havia possibilidade de um convívio pacífico e harmonioso.

A batalha continuou por muito tempo sem que fosse definido o vencedor, até que Bor se casou com Bestla — filha do gigante Bolthorn (descendente de Ymir e possivelmente também hermafrodita) – e juntos eles geraram três filhos poderosos. Eram eles, Odin (Wotan), simbolizando “espírito”; Vili (Will), indicando “vontade”; e Vê (Wish), sinônimo de sagrado (em outra versão seus nomes são Odin, Hoenir e Hodur).

Apesar da sua parcial descendência de gigantes, os três deuses se uniram ao seu pai Bor na luta contra os gigantes e finalmente venceram, matando o temido e sagaz Ymir. Os rios de sangue que jorraram das feridas de Ymir causaram um dilúvio, no qual morreram afogados todos os gigantes, com exceção de Bergelmir, que escapou nadando e se refugiou junto com a sua família em uma região afastada chamada Jotunheim (o lar dos gigantes). Ali eles procriaram, gerando inúmeros descendentes, que mantiveram a inimizade, os confrontos e as disputas com os deuses e seres humanos, e estavam sempre prontos para invadir e cobiçar o território e os bens dos deuses. A sua cidadela chamava-se Utgard e seu mundo era separado do mundo humano pelo rio Iving, que jamais congelava.

Odin, Vili e Vê decidiram aproveitar o imenso corpo de Ymir e, depois de triturá-lo no grande Moinho Cósmico, usá-lo como matéria-prima para modelar um novo mundo, melhor do que o seu árido e vazio habitat. Dos seus tecidos construíram a própria Terra, chamada Midgard (o jardim do meio), colocando-a no centro do espaço vazio e cercando-a por baluartes feitos das sobrancelhas de Ymir e por um vasto oceano formado do sangue e do suor do gigante. Os deuses modelaram [81] montanhas e colinas dos seus ossos, rochedos e pedras dos dentes, florestas e bosques dos cabelos encaracolados. Depois suspenderam o seu crânio, formando a abobada celeste, e salpicaram os miolos no céu à guisa de nuvens.

Para sustentar o pálio celeste, os deuses escolheram quatro anões fortes — Nordhri, Austri, Sudhri e Vestii — e os posicionaram nos quatro pontos cardeais, cujos nomes deles derivaram: Norte, Leste, Sul e Oeste. Os anões tinham surgido do corpo esfacelado de Ymir como criaturas minúsculas e rastejantes, e receberam dos deuses feições humanas, inteligência e habilidades. Foram divididos em dois grupos. Os escuros, astutos e traiçoeiros foram exilados em Svartalheim, no mundo subterrâneo, de onde não podiam sair com o risco de serem petrificados pela luz solar. Abrangendo vários tipos e com nomes diferenciados, eles exploravam os recursos e riquezas ocultas da terra, colecionando metais e pedras preciosas e guardando-os em esconderijos nas fendas da terra ou sob rochas e colinas. A outra classe de anões, de natureza bondosa e energia luminosa, foi enviada para Aljheim, no reino dos elfos claros, situado entre o céu e a terra, e encarregados de cuidar de plantas, flores, insetos e pássaros.

Para iluminar o novo mundo, os deuses usaram fagulhas luminosas das chamas de Muspelheim para criar estrelas no firmamento celeste. Duas grandes faíscas – uma dourada e uma prateada – foram escolhidas como luminares e colocadas em carruagens, ambas puxadas por cavalos. Para conduzir as carruagens, os deuses escolheram os filhos do gigante Arfundifari, que, por serem muito belos, tinham recebido os nomes de Sol (ou Sunna) e Mani (Lua), nomeação considerada uma ofensa e por isso punida com as tarefas a eles designadas.

A carruagem solar era puxada por dois cavalos: Arvakr (o madrugador) e Alsvin (o veloz), protegidos do intenso calor por selas recheadas de ar gelado. Na frente da carruagem foi fixado um escudo, Svalin, (o resfriador), que evitava a queima da terra e dos seres vivos que nela iriam habitar.

A carruagem lunar era puxada por um único cavalo, Alsvidai (o ligeiro) e o seu condutor, Mani, tinha a tarefa de coordenar as fases e os ciclos da lua. Para ter companhia, Mani pegou duas crianças de Midgard, Bil e Hjuki, que sofriam muito com os maus-tratos do pai. Bil foi elevada posteriormente à condição divina e reverenciada como deusa lunar junto do coregente Mani. A deusa Sol, ou Sunna, reinava sozinha e precisava se defender de dois lobos ferozes — Skoll (repulsa) e Hati (raiva) -, que a perseguiam, tentando abocanhá-la, e conseguiam fazer isso de vez em quando, ocasionando os eclipses. Como os seres humanos temiam que a escuridão (solar ou lunar) se tornasse permanente, eles batiam tambores e gritavam para afastar os lobos. Assustados com o barulho, os [82] lobos largavam suas presas e se escondiam por um tempo, recomeçando depois a eterna perseguição, que duraria até o Ragnarök (fim dos tempos), quando finalmente iriam engolir o sol, mergulhando a terra na temida escuridão e no frio permanente.

Narvik, um dos gigantes de Jötunheim, tinha uma filha diferente dos demais, com cabelos, pele e olhos pretos. Chamada Nott (noite), ela se casou três vezes. Do primeiro marido, Naglfari, teve o filho Aud, do segundo marido, Armar, teve a filha Jord (terra); e do terceiro marido, o brilhante Delling, teve um filho belo e luminoso chamado Dag (dia). Odin colocou Nott e Dag em carruagens puxadas por cavalos e lhes deu como tarefas a divisão do tempo em dia e noite. O cavalo de Nott era Hrimfaxi (crina de gelo), cujo bafo e suor se condensavam em gotas de orvalho e cristais de granizo sobre a terra, enquanto Skinfaxi, o cavalo de Dag, tinha uma crina brilhante, que iluminava todos os recantos da terra durante o dia.

Para finalizar sua obra, Odin, Vili e Vé ampliaram a divisão do dia, criando o Crepúsculo e a Alvorada, a Manhã, a Tarde, o Meio-dia e a Meia-noite; depois dividiram a passagem do tempo em duas estações principais: Inverno e Verão, que eram marcadas pelos solstícios. O Verão era amado e honrado por todos, com exceção do Inverno, filho dos ventos gelados e seu inimigo eterno.

Odin conduziu depois os deuses para a grande planície de Idawolf, bem acima da terra, do outro lado do rio Ifing. No centro desse espaço foi estabelecido o reino dos deuses Aesir, chamado Asgard, onde todas as divindades se reuniam nos seus concílios. Nesse mundo era proibido verter sangue e lutar, e todos deviam se empenhar em preservar a paz e a harmonia. Foram construídos palácios resplandecentes de ouro para servirem como moradas e iniciou- se a chamada Idade de Ouro.

Quando contemplavam sua obra-prima e se regozijavam com ela, a tríade divina percebeu, ao olhar ao redor, que faltavam os habitantes do mundo que lhes tinha sido destinado — Midgard ou Manaheim —, a morada da humanidade. Caminhando à beira-mar, os deuses encontraram dois troncos de árvores trazidos pela maré, com formas semelhantes ao corpo humano, e tiveram a ideia de usá-los como matéria-prima. Do tronco de freixo modelaram o homem, Askr, e do olmo, a mulher, Embla. Depois de lhes insuflar o sopro da vida, Odin conferiu-lhes espírito e consciência; Vili, os movimentos e a capacidade mental; e Vê, a fala, a circulação sanguínea, a aparência e os sentidos. Dessa forma, o primeiro casal humano dotado de pensamentos, sentimentos e capacidade de falar, agir, trabalhar, viver, amar e morrer foi instalado em Midgard, que foi, aos poucos, povoado com seus descendentes e protegido dos gigantes pelos seus criadores divinos. [83]

Análise do mito
Sem nos atermos às metáforas e a algumas descrições incongruentes, podemos perceber e compreender melhor a complexa simbologia metafísica do mito da criação analisando detalhadamente os seus elementos.

Ginungagap é o útero primordial, o receptáculo em que surge a manifestação da energia vital pelo encontro dos princípios polarizados: o calor brilhante do fogo e a energia densa e escura do gelo e do sal nele contido.

Os dois seres primordiais são personificações primevas da matéria e da energia :Ymir representa a protomateria, Audhumbla a protoenergia, ambos atuando como cocriadores no processo de formação da vida. Da fonte tripla (constituída pela mescla do fogo e do gelo cósmico que formou Ymir e nutrida pela energia feminina de Audhumbla) surgiu um ser hermafrodita, ao mesmo tempo deus e gigante. Os filhos de Buri – Odin, Vili e Vé — matam Ymir e da sua matéria cósmica bruta remodelam o cosmo estático e o transformam em um sistema vivo e dinâmico. Em outra passagem do mito aparece novamente uma tríade divina, desta vez Odin, acompanhado de Hoenir e Lodur, que criam o primeiro casal humano a partir de troncos de árvores. Os seres humanos não foram criados diretamente pelos deuses, pois eles ja existiam como formas orgânicas mais simples (arvores flutuando na agua do mar); tornaram-se humanos quando receberam as dadivas divinas: o sopro vital, o espírito, a consciência e as funções da mente, os sentidos e os movimentos do corpo físico.

Na visão da escritora Monica Sjõo, Ymir representava a terra congelada (da era do gelo), que derreteu sob a ação dos raios solares personificados por Audhumbla. Esta, ao alimentar Ymir com seu leite, tornou-se sua mãe e coparticipante no processo da criação, que se desenrolou ao longo de milênios.
Alguns episódios e personagens da cosmogênese nórdica faziam parte das tradições pré-cristãs germânicas e assemelham-se aos mitos de outras culturas.

O sacrifício do ser primordial — para que dele fosse formada a terra — tem paralelos no mito da deusa suméria Tiamat, assassinada pelo seu filho Marduk, que usou o seu corpo para criar a terra e o céu, antes de se declarar criador e senhor do seu trono. No mito greco-romano, a deusa Gaia surgiu do caos e, ao se unir com o céu (Urano), criou os titãs (gigantes) e os deuses, seus filhos. Na mitologia egípcia, existe a descrição de um vasto oceano primordial do qual se originou o céu, a terra e todos os seres vivos. A deusa criadora é representada como uma Vaca Celestial (assim como na mitologia pré-védica e egípcia), cujo leite sagrado respingou no céu, criando a Via Láctea, e o corpo servia de abrigo para as almas antes de seu nascimento. [84]

O nome de Ymir é associado ao sânscrito Yama, que significa “hermafrodita”. Em outros mitos nórdicos existem referências sobre partes de um corpo de gigante sendo dispersos no céu e formando estrelas. No mito do gigante Thiazi, conta-se que Odin — para vingar o rapto da deusa Idunna — permitiu a sua morte pelos deuses, mas depois, para consolar a filha dele, Skadhi, jogou os olhos de Thiazi no céu, onde se transformaram em duas estrelas. Em outro mito, relata-se que Thor usou o dedão congelado do gigante Aurvandil para transformá-lo na estrela de mesmo nome.

A combinação de água, sal e fogo é associada a determinados locais sagrados da Alemanha, como as fontes salgadas do rio Saale perto de Strassfurt, um lugar onde se acreditava que as preces humanas eram ouvidas e atendidas pelos deuses quando a água do rio colocada sobre a madeira incandescente resultava em sal, um resultado visível e com significado mítico da mescla de fogo e água salgada.

Um exemplo concreto da combinação do fogo e gelo criando novas formas de vida é encontrado na Islândia, onde as erupções vulcânicas com chamas, a lava incandescente e os vapores derretem as geleiras, que descem como enchentes desastrosas sobre os campos, mas ao mesmo tempo irrigam e adubam a terra com as cinzas vulcânicas.

Ao contrário dos mitos egípcios, greco-romanos e persas, não há nenhuma menção nas fontes nórdicas sobre a criação do mundo a partir de um ovo primordial, com exceção da lenda finlandesa de Ilmatar e Vãinamõinem, possivelmente trazida pelas tribos indo-europeias e incorporada aos mitos nativos.

A escritora e pesquisadora Diana Paxson, apoiada por outros pesquisadores e estudiosos da tradição nórdica, considera os gigantes (Jotnar) como uma metáfora dos poderes naturais dos elementos e do ambiente em que viviam (montanhas, rochedos, geleiras, vulcões, mar). Eles eram os regentes ancestrais dos reinos, das forças primordiais (fogo e gelo) e dos espíritos elementares da natureza, ligados ao habitat em que viviam. Diana afirma que “necessitamos da benevolência dos gigantes além da proteção dos deuses”, por isso devemos respeitar o seu habitat e evitar a degradação da natureza. Os deuses representariam a evolução da consciência e o poder de manipulação e transmutação dos elementos naturais. A interação entre deuses e gigantes pode se manifestar como conflito ou domínio das forças da natureza, levando à destruição ou sobrevivência da terra e de todos os seres que nela vivem. Os povos antigos temiam e respeitavam os “gigantes”, sabendo que a sua sobrevivência dependia da clemência e colaboração das forças e dos ciclos naturais. Eles invocavam a ajuda dos deuses para que a destruição e os desastres naturais fossem evitados e faziam a sua parte, respeitando [85] os recursos da Mãe Terra e dela retirando e usando apenas o necessário; garantiam-se assim os recursos naturais indispensáveis para a sobrevivência e segurança dos seus descendentes e de todos os seres da Criação.

O equilíbrio entre controle e poder é extremamente delicado e instável; se o poder tiver objetivos de destruição e ganância, e usar os recursos da terra sem respeitar os limites e os ciclos da ordem natural, o desequilíbrio planetário é inevitável e o mundo poderá se desintegrar e retornar a seus elementos primordiais, como descreve o mito do Ragnarök.

Mitologia - Mitologia Nórdica
Todos os textos
A value is required.
Redes sociais

Se as mulheres não existissem, todo o dinheiro do mundo não teria sentido...

Aristóteles
Todas as citações
{+} de Aristóteles
+
Área/Conhecimento
Antropologia
Astronomia
Ciências naturais
Filosofia
História
Mitologia
Psicologia
Tema
Lendas Medievais
Mitologia Africana
Mitologia Asteca
Mitologia Celta
Mitologia Chinesa
Mitologia Egípcia
Mitologia Eslava
Mitologia Finlandesa
Mitologia Grega
Mitologia Inca
Mitologia Indiana
Mitologia Japonesa
Mitologia judaico-cristã
Mitologia Maia
Mitologia Nórdica
Mitologia Norte-Americana
Mitologia Persa
Mitologia Sul-americana
Mitologia Tibetana
Tópicos
Antropogênese
Apocalipse
Cosmogonia
Religião
Sociedade
Texto
Vida após a morte
Autores
A. D. P. Serafim
A. S. Franchini
Ana Maria Efron e cols
Anita Guazzeli Bernardes
Antone Minard
Antônio Daniel Abreu
Carlos Augusto de Proença Rosa
Carlos Caballero Jurado
Carmen Seganfredo
Catherine Salles
Chester G. Starr
Christian Jacq
Christine el Mahdy
Claisy Maria Marinho-Araujo
Claudine Le Tourneur
Cláudio da Cunha
Cristiano Valério dos Santos
Dalia Ventura
Daniel Defoe
David Hughes
David Levering Lewis
David Linden
David Rosenfeld
Duane P. Schultz
Eduardo Bueno
Eva Ontiveros
Federico A. Arborio Mella
Fernanda Orsomazo
Flávia Galil Tastch
Flávio Fortes DAndrea
Francis Joannès
Francisco Bethencourt
G. A. Trevarthen
Gabriel Cardona
Gaia Vince
Gerald Bernard Mailhiot
Greg Bailey
Isabel Trindade
Iván Izquierdo
James Graham-Campbell
Jean Vercoutter
John Baines & Jaromir Málek
José Carlos Libâneo
José Luis Sanchez
José Roberto Guido
José Roberto V. Costa
Julliette Wood
Junito de Souza Brandão
Jurema Alcides Cunha
Karl Marx
Leontina Barca
Luis Cláudio Mendonça Figueiredo
Luís Manuel de Araújo
Luiz Gonzaga Beluzzo
Márcia Gimenez
Marco Aurélio Antonino Augusto
Maria Ester Garcia Arzeno
Maria Luisa Siqueira de Ocampo
Marie Claire Sekkel
Mário Curtis Giordani
Mark Anthony Rolo
Martín Caparrós
Mary Beard
Mary Vincent
Michael Angold
Michael Roaf
Milton Rondó
Mirella Faur
Nanon Gardin
Okusitino Mahina
Osvaldo Iazzetta
Owen Jarus
Paul Gendrop
Paulo Dalgalarrondo
Pedrinho A. Guareschi
Pedro Pablo G. May
Philip Matyszak
Pierre Grimal
Pierre Lévêque
Platão
Priscila Laroca
Reinaldo Dias
Richard O. Straub
Robert Dinwiddie
Robert Graves
Roberto Amaral
Rosana Rios
Rudolf Simek
Sarah Bartlett
Sigmund Freud
Silvia Tatiana Maurer Lane
Simon Roberts
Sofia Lerche Vieira
Steven Mithen
Teresa Cristina Rego
Vladimir Palmeira
Voltaire Schilling
Zaro Barach Nedelman Dreiblatt
Explore o templodeapolo.net
Templodeapolo
Mitologia
História
Psicologia
Astronomia
2018 - v.11.96
CONTATO
RECLAMAÇÕES DE DIREITOS
POLÍTICA DE PRIVACIDADE
SOBRE O TEMPLO
Templodeapolo.net desde 2007 - Todos os textos publicados e seus respectivos direitos são de resposabilidade de seus autores e editoras - Textos que não incluam a autoria não são propriedade do editor deste sítio. Para receber as referências nestes casos, clique no link respectivo e solicite autoria e referências. - O Templodeapolo.net não possui nenhuma finalidade comercial. Não há propaganda e esperamos continuar assim. A proposta do sítio é puramente acadêmica, consistindo na publicação de textos com temas variados, classificados e organizados contextualmente para facilitar as pesquisas e navegação. - Caso você seja autor de algum material publicado sem sua devida autorização, por favor entre em contato para remoção imediata. - O editor é formado em Administração de empresas pela Universo/RJ. Fez cursos de extesão de História e Antiguidade Clássica/Oriental. Atualmente (2018) é graduando em Psicologia/Licenciatura pela PUC Goiás. - Templodeapolo.net ® Todos os direitos reservados aos seus respectivos proprietários.