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Sai da cadeia quem nunca deveria ter entrado. Lula Livre é mais que uma ideia, é a democracia que ainda respira.

Mitos
321 cadastrados
11/22/2019 6:04:27 PM | Por Leontina Barca
A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

Mitologia Celta
Danna   
11/22/2019 5:49:58 PM | Por Simon Roberts
As tarefas impossíveis de Culhwch

Um dos contos mais populares de Mabinogion narra a estória de Culhwch e Olwen. Culhwch é de sangue real, pois é primo de Arthur. O seu nascimento foi invulgar. Antes de ele ter nascido, a mãe, Golenddyd, ganhou uma profunda antipatia por porcos, pois quando passava por uma vara deles, assustou-se e deu à luz um filho que abandonou. Um guardador de porcos pegou nele e levou-o para os pais criarem. Golenddyd morreu e o marido, Cilydd, voltou a casar com uma mulher que tinha uma filha que ela queria casar com Culhwch. Mas ele não quis, afirmando ser ainda muito jovem. A rainha então rogou uma praga a Culhwch, segundo a qual ele só viria a casar com Olwen, filha de Ysbaddeden, o Chefe dos Gigantes. Bastou a Culhwch ouvir o nome dela para se apaixonar profundamente.

Culhwch decidiu então pedir ajuda a Arthur para encontrar esta donzela e partiu num grande esplendor, completamente armado com machados de guerra, espada dourada e uma pequena machadinha que «podia fazer o ar sangrar.» Tinha também um chifre de marfim, dois galgos e montava um cavalo fantástico. Quando Culhwch chegou à corte de Arthur o porteiro tentou barrar-lhe a entrada, mas ele ameaçou dar três gritos de tal intensidade que as mulheres ficariam estéreis e as que estivessem grávidas abortariam.

É claro que ele passou. Encontrou-se com Arthur que se deixou convencer a ajudá-lo a procurar Olwen. As buscas decorreram durante um ano, sem sucesso. Por fim, juntaram um grupo dos melhores cavaleiros, cada um deles abençoado com peculiaridades extraordinárias. Um deles, Kay, tinha uma espada que provocava feridas que nenhum médico podia tratar; outro, Bedwyr, o mais veloz de todos, e Gwalchmai, que nunca voltava de uma missão sem a cumprir.

Após mais dia buscas, Olwen foi finalmente encontrada.

Ela correspondeu ao amor de Culhwch, mas explicou que o pai Ysbaddeden estava destinado a morrer quando se casasse. Olwen pediu a Culhwch que aceitasse qualquer condição que o pai lhe impusesse. Culhwch aproximou-se do Chefe dos Gigantes que lhe ordenou uma longa série de «tarefas impossíveis.» A mais intimidante delas consistia em recuperar uma tesoura, uma navalha da barba e um pente que estava entre as orelhas do grande e destruidor javali Twrch Trwyth. Apesar de tudo, Culhwch aceitou de boa vontade toda as tarefas. Ele e Arthur conseguiram atrair a ajuda de Mabon, o caçador que tinha estado preso num castelo após ter sido roubado. Na ocasião, ele tinha sido libertado Era conhecido como «o jovem» se bem que fosse o mais velho de todos os seres. Mabon Culhwch e os cavaleiros foram ajudados por animais mágicos: a Águia de Gwemabwy, o Melro de Kilgory, o Veado de Rhedynvre, Salmão de Llyn Law e outros bichos encantados. Um dos homens de Arthur, Gwrhyr, tim a capacidade de falar com cada um deles na sua própria linguagem. Após uma longa perseguição através do sul do País de Gales, da Cornualha e da Irlanda, durante a qual o diabólico javali devastou uma grande parte da terra, foi enfim possível, com a ajuda de Mabo dominá-lo e conduzi-lo para o mar. A navalha da barba, a tesoura e o pente foram entregue: e Culhwch pôde finalmente casar com Olwe.

Mitologia Celta
   Culhwch - Rei Arthur
11/19/2019 7:57:26 PM | Por Hugo McCann
Math Ap Mathonwy e os dois sobrinhos

A história complicada de Math Ap Mathonwy, Lorde de Gwynedd, no Norte, constitui o quarto livro de Mabinogion. Tal como sucede em muitos destes contos, nela existe decepção e magia, e oscila com facilidade para trás e para a frente entre este e o Outro Mundo. É uma história de magia na qual o mal é punido, mas apenas na medida certa. Quando Math, um mago, não estava fora a vigiar as suas terras ou em alguma guerra, ele tinha de pousar os pés no regaço de uma donzela. Ele tinha dois sobrinhos, filhos da deusa Don, Gilfaethwy e Gwydion, que desejavam a virgem onde o tio pousava os pés e cujo nome era Goewin. Os irmãos, que tinham sido treinados na arte da magia pelo próprio Math, planejaram uma forma de o distraírem, começando uma guerra com Pryderi, Lorde de Dyfed, no Sul. Gwydion intrujou Pryderi com os seus porcos brancos mágicos e, tal como planejara, rebentou a guerra entre as cidades de Gwynedd e Dyfed.

Enquanto Math estava na guerra os irmãos por magia, violaram Goerin e depois regressaram ao campo de batalha. Em seguida Gwydion matou Pryderi, através das suas magias. Quando Math regressou, a sua ira ao descobrir o que tinha sucedido a Goewin levou-o a punir os dois irmãos, transformando-os durante três anos consecutivos em pares de animais: um veado e uma corça; um javali e uma porca; um lobo e uma loba, forçando-os a seguir as respectivas naturezas. Os irmãos alternavam o gênero masculino e feminino e em cada ano produziam um descendente. No fim deste período, Math perdoou os sobrinhos e voltou a dar-lhes a forma humana assim como aos descendentes, que, no mínimo, mantiveram os nomes de animais.

 

Mitologia Celta
   Math Ap Mathonwy
11/19/2019 7:42:22 PM | Por Hugo McCann
Manawydan Ap Llyr e o encantamento de Dyfed

O terceiro livro de Mabinogion refere-se ao período pós morte de Pwyll. Quando Pryderi e Manawydan regressaram do funeral da cabeça de Bran, em Londres, Manawydan casa com a viúva de Pwyll, Rhiannon. Pryderi e a mulher, Cigfa, Rhiannon e Manawyda vão para Gorssed Arberth, em Dyfed. Embora ilesos, visto estarem no mágico Monte de Arbeth os quatro viram Dief cair em um encantamento. Todos os habitantes e casas desapareceram e os campos cobriram-se de um nevoeiro. Como Dyfed ficou sem nada, os quatro viram-se forçados a partirem para Inglaterra onde Manawydan e Pryderi se fixaram como artesãos de sandálias e sapatos. Para onde quer que fossem, a habilidade de Manawydan suscitava a inveja e a má vontade dos artesãos locais, pelo que os quatro regressaram a Dyfed onde encontraram uma forma de vida na caça. Numa das expedições para caçarem, Manawydan e Pryderi encontraram um enorme javali, ofuscantemente branco (um sinal certo de que vinha do Outro Mundo). O javali atraiu os cães deles para um estranho castelo. Apesar dos avisos de Manawydan, Pryderi seguiu os cães para o castelo. Aí viu uma taça de ouro e tocou-lhe, tendo ficado agarrado ao sítio e perdido a fala. Rhiannon seguiu Pryderi e teve destino semelhante das famílias e sem cães para caçarem, transformaram-se em agricultores e cultivaram o trigo. Os cereais desenvolveram-se bem, mas, pouco antes da colheita, dois dos campos foram destruídos por exércitos de ratos. Manawydan estava à espera deles quando para devastar o terceiro campo. Escaparam todos, à exceção de uma rata prenhe. Ele estava a pensar pendurar esta rata, apesar dos pedidos de clemência de quem passava. Finalmente um bispo interrompeu os procedimentos e tentou redimir a rata. Manawydan reconheceu o bispo como amigo de um mágico e recusou-se a ceder até ele ressuscitar Rhiannon e Pryderi assim como os 700 trabalhadores rurais de Dyfed e libertar a terra do encantamento. O bispo revelou então ser Llwyd e declarou ter lançado aquele feitiço para vingar o mal feito por Pwyll a Gwawl, primeiro pretendente de Rhiannon, quando Pwyll se casou com ela e a tirou a Gwawl.

A rata prenhe era afinal a mulher de Llwyd. Ela e as outras mulheres tinham sido transformadas em ratas e enviadas para destruir o trigo de Manawydan. A magia de Manawydan, porém, provou ser mais forte e Dyfed ressuscitou e os ratos voltaram a ter a forma humana.

Mitologia Celta
Rhiannon Pryderi - Manawydan  Cigfa
11/19/2019 7:28:30 PM | Por Hugo McCann
Branwen e Bran

Matholwch, o rei da Irlanda, desejava ardentemente a mão da galesa Branwen, filha de Llyr, rei da Inglaterra. O irmão Bran concorda e o casamento realiza-se na corte deste último. Contudo, Efnisien, um meio-irmão por parte da mãe, opôs-se ao matrimônio e, durante a sua celebração, mutilou os cavalos de Matholwch quando estavam nos estábulos da corte. Bran tentou acalmar Matholwch oferecendo-lhe vários presentes, dos quais se destacava um caldeirão mágico que tinha sido feito na Irlanda. O seu poder era de tal ordem, que ele podia fazer reviver guerreiros mortos, embora sem recuperarem a fala. Matholwch aceitou o presente e partiram ambos para a Irlanda. Estava, porém, muito ressentido com o sucedido no País de Gales pelo que tratava a sua nova rainha como uma serva, forçando-a a trabalhar na cozinha, onde ela era tratada com dureza pelo magarefe.

Desesperada, Branwen treinou um estorninho que lhe levou uma mensagem a Bran. Este tratou de atacar imediatamente a Irlanda para vingar a irmã. Era um homem enorme, capaz de caminhar através do Mar da Irlanda, que pareceu aos Irlandeses ser uma montanha que avançava para eles. Estes posicionaram-se para lá de um rio intransponível e destruíram a ponte.

Bran, porém, deitou-se sobre a água e o exército passou sobre ele para o outro lado, derrotando Matholwch sem grandes perdas de tempo. Seguiu-se a paz, mas que não viria a durar muito. Quando recomeçaram as lutas, o que mais uma vez ficou a dever-se, em parte, às ações de Efnisien, Bran foi ferido por uma lança envenenada e apenas sobreviveram sete  dos seus homens.

Ele ordenou aos homens, entre os quais estavam Pryderi de Dyfed e Manawydan, seu irmão, para que lhe cortassem a cabeça e a levassem de volta ao seu país, antes de a sepultarem em Londres no Monte Branco, com o rosto voltado para leste, para evitar que a Inglaterra sofresse invasões estrangeiras. A viagem para Londres é só por si uma saga extraordinária, que levou 87 anos. A cabeça permaneceu viva e narrando os prodígios até ao seu enterro. Entretanto, Branwen morreu com o coração partido em Aber Alaw lamentando que, por causa dela, as duas grandes ilhas sejam estranhas uma para com a outra.   

Mitologia Celta
   Branwen - Bran - Matholwch - Efnisien
11/19/2019 7:19:27 PM | Por Simon Roberts
Viagens fantásticas

Na mitologia irlandesa existe um gênero conhecido como
as estórias imram, que narram as perigosas viagens por mar até às misteriosas «ilhas abençoadas», ou até às «ilhas
dos fantasmas», que se pensava que se encontrariam no Oceano Atlântico para oeste
da Irlanda. As histórias de Bran
e Mael Duin foram convertidas
nas aventuras cristãs de São
Brendan o Navegador, enquanto
a lenda de Ossian, talvez uma
das mais interessantes, foi fonte
de inspiração para várias peças,
filmes e poemas.

A Viagem de Bran


Um dia, Bran encontrou uma mulher surpreendente
e sedutora que lhe ofereceu um ramo prateado cheio
de flores brancas. A mulher falou-lhe da sua casa no Outro Mundo, a «ilha das mulheres» (Tir Inna mBan), que era descrita como um verdadeiro paraíso: comida interminável, amor sem fim, um verão permanente e a eterna juventude. Bran recrutou 26 homens e rumou a ocidente em busca desta ilha encantada. Quando atravessou uma ponte de cristal e chegou à ilha, descobriu que
era tudo aquilo que tinha esperado e ainda muito mais. Tornou-se então amante da bela deusa. Havia só um problema. A deusa tinha lançado um encantamento sobre os homens e avisado que não poderiam jamais voltar a casa.

Durante um ano, todos foram muito felizes. Depois, alguns dos homens começaram a ter saudades da Irlanda e das respetivas famílias e convenceram Bran a levá-los de volta. Quando o barco se aproximava do solo irlandês, os homens que estavam a bordo, começaram a acenar ansiosamente, mas ninguém em terra os reconhecia.

Com a excitação de estarem a chegar
a casa, um homem saltou para a praia e logo que os pés pousaram em terra, desfez-se em um monte de cinzas. Bran e os restantes homens, voltaram a rumar para ocidente, para nunca mais regressarem.

Mael Duin e as Ilhas Extraordinárias

Mael Duin era filho de Ailill, um guerreiro
que tinha sido brutalmente morto em combate. Assim que atingiu a idade adequada, Mael Duin jurou vingar a morte prematura do pai.

Um druida tinha-o avisado de que teria de viajar para uma ilha longínqua para encontrar o assassino.

O druida também lhe disse para levar
no barco apenas 18 homens e nem mais
uma pessoa, caso contrário ocorreriam azares.
Mael Duin obedeceu com todo o rigor às
instruções. Porém, no momento da partida,
os três irmãos adotivos que tinha treparam
pelo barco decididos a fazerem a viagem.
Passados alguns dias, aproximavam-se da ilha onde vivia
o assassino de Ailill. Mas nesse instante, uma imensa ventania fez a embarcação sair da rota e mergulhar nas água encantadas do Outro Mundo, onde encontraram muitos sítios misteriosos e viram muitas criaturas maravilhosas.

Em uma das ilhas havia um palácio cheio de comida, bebida e jóias valiosas. Um dos irmãos roubou uma gargantilha e foi de imediato destruído por um gato mágico e gigantesco. O segundo irmão desembarcou na Ilha do Choro onde foi forçado a permanecer a gritar para toda a eternidade. A seguir visitaram a Ilha
das Mulheres onde foram tentados por sonhos
de imortalidade e de amor. Mael Duin gostou de lá estar durante algum tempo, mas depois decidiu regressar a casa. Na viagem de regresso, o último irmão desembarcou na Ilha do Contentamento onde ainda hoje vive com o povo que ri.

Já sem os irmãos adotivos, Mael Duin voltou a seguir a rota e, finalmente, chegou à ilha dos assassinos do pai. Mas todo o ressentimento e rancor tinham abandonado o seu coração, pelo que pôde fazer amigos entre os habitantes que, por sua vez, o saudaram como explorador e herói.

Ossian e a Terra
da Eterna Juventude


A Niamh dos Cabelos de Ouro era uma fada boa e filha do deus do mar, Manannan Mac Lir. Ela tinha ouvido estórias interessantes do poeta e guerreiro Ossian (filho de Fionn MacCool) e tinha descido à terra para o procurar e fazer dele seu marido.

Niahm encontrou-o a caçar perto de Lough Leane, um dos lagos de Killarney. Ela meteu-o dentro do lago que era uma entrada para
o Outro Mundo, conhecido como Tir Na Nog, «a terra da eterna juventude.» Tir Na Nog era de fato o paraíso: uma beleza de cortar a respiração, realçada pelos pássaros,
pelas cores e pela música, e onde
o amor era sempre fresco e novo.

Os seus habitantes tinham sido abençoados com a eterna juventude, esquecidos
de conceitos como o de tempo,
regras ou
trabalho. Os dias passavam e Ossian levava uma vida feliz com Niamh.

Mas, como sempre acontece
aos humanos, começou a ter saudades
de casa - do pai, dos Fianna e da
Irlanda - e disse a Niamh que queria
voltar. Esta ofereceu-lhe um belo cavalo branco e disse-lhe que podia regressar à Irlanda, desde que não desmontasse do cavalo nem pusesse um pé no chão.

Quando Ossian chegou à Irlanda descobriu que tinham passado 300 anos. Todas as pessoas que ele conhecia já não existiam, mas o que ainda era pior, tudo
o que se referia aos velhos tempos e crenças tinha desaparecido e mesmo os feitos lendários de Fionn MacCool se tinham tornado em uma memória distante. Neste desânimo, esqueceu-se da recomendação de Niamh e desmontou. Imediatamente se transformou em um velho mirrado, cego e decrépito.

Algumas versões desta história contam que S. Patrício encontrou Ossian e cuidou dele, encorajando-o a contar as histórias de Fionn e os dias do passado, que assim ficaram registados para a posteridade.

Mitologia Celta
   Bran, Mael Duin, Ossian
11/15/2019 1:08:24 PM | Por Alice Mills
O mito de Atlântida

Os Gregos e os Romanos não estavam particularmente interessados nem em estórias respeitantes ao princípio das coisas nem em especulações quanto ao fim do mundo ou da vida depois da morte. O principal mito grego sobre o fim de um mundo diz respeito à civilização que precede a história dos heróis, nove mil anos antes da civilização da Grécia clássica, e esta estória só pode ser encontrada nos escritos do filósofo Platão.

O mito da Atlântida não era amplamente divulgado como tradicional, mas antes como um artefato literário, que teve uma muito maior difusão na Europa moderna do que na era clássica grega ou romana.

A Atlântida Perdida

Segundo dois dos diálogos de Platão, Crítias e Timeu, a Atlântida era uma ilha maior que a Líbia e a Ásia juntas. Encontrava-se para lá das Colunas de Héracles (Hércules), no Oceano Atlântico, perto de Espanha. O deus padroeiro da ilha era Posídon (Neptuno), e ele e uma mulher mortal, Cleito, eram os antepassados da família reinante.

O primeiro dirigente chamava-se Atlas de onde derivou o nome da ilha, Atlântida, e o nome do oceano que a rodeava. Na ilha abundavam terrenos férteis e estava cheia de pomares. Do subsolo extraíam preciosos metais.

A principal cidade era um encanto de arquitetura e escultura, com palácios maravilhosamente ornamentados e magníficos templos a Posídon. A Atlântida era bem governada, todo o seu povo sabia bem quais as suas obrigações para com o estado e respeitava as leis que Posídon tinha decretado. Durante gerações tudo correu bem na Atlântida. Embora a ilha estivesse cheia de riquezas, os habitantes não davam grande valor ao ouro e aos outros tesouros.

Por fim, porém, entraram em decadência, tornaram-se corruptos, deixaram de obedecer às leis de Posídon e não queriam continuar a permanecer dentro das fronteiras do reino que ele lhes tinha atribuído.

Construíram um grande império, dominando o Norte de África desde as Colunas de Héracles a oeste até ao Egito a leste, assim como todo o sul da Europa à exceção da Grécia. Decidiram-se então a invadi-la e os atenienses formaram um grande exército para os deterem. Mas, a pouco e pouco, conseguiram ir derrotando cada cidade-estado até que apenas lhes faltava conquistar Atenas. E foram os atenienses sozinhos quem finalmente derrotou o exército da Atlântida e libertaram todas as outras regiões da sua tirania. Pouco tempo depois deste episódio a terra foi agitada com tremores de terra e dilúvios.

Num dia e numa noite todo o exército de Atlântida foi engolido por um forte terremoto e a cidade afundou-se nas profundeza do mar. Segundo Platão, o mar ainda continuava agitado pelo afundamento da Atlântida menos de 200 anos antes da data em que ele escreveu estes diálogos, verificando-se um assoreamento que impedia a passagem dos barcos.

Durante anos, foram muitos os que tentaram localizar a Atlântida como uma ilha com existência física, e existem duas teorias sobre a sua localização.

Uns pensam que o mito refere uma enorme erupção que ocorreu no tempo histórico na ilha vulcânica de Tera. Esta imensa erupção parece ter destruído a civilização pré-clássica minóica que existiu em Creta. Outros aceitam literalmente as referências de Platão quanto à localização geográfica da Atlântida e procuram vestígios da sua existência no Oceano Atlântico, talvez nas proximidades dos Açores.

O diálogo de Platão, Timeu, também fala de uma sucessão [208] de civilizações que foram sendo destruídas por dilúvios ou fogos, e esta ideia também é referida na mitologia da América Central. Atualmente ainda se debate se a Atlântida é um local imaginário ou se um dia os arqueólogos irão encontrar vestígios físicos da sua existência.

Mitologia Grega
Posídon   Atlas
11/15/2019 1:05:52 PM | Por Alice Mills
Mito da fundação de Roma

Como mito instituído para uma nação e para um império, a estória de Eneias não recua até um deus guerreiro nem ao rei dos deuses, mas sim a uma deusa frívola que gosta de rir, a deusa do desejo sexual. Esta genealogia talvez não fosse vista com bons olhos pelos Romanos, que se orgulhavam da expansão do império, da força da lei e de um bom governo, o que não fazia parte das qualidades apreciadas por Vênus (Afrodite). O segundo mito instituído em Roma fornece uma outra origem divina para a nação ao fazê-la descendente de Marte (Ares), o deus da guerra, uma divindade considerada muito mais favoravelmente pelos Romanos do que pelos Gregos.

Rômulo e Remo

Reia Sílvia era filha do rei Numitor, que Amúlio destronou, tendo matado os filhos do rei e forçado Reia a tornar-se uma Virgem Vestal (sacerdotisa de Hestia), para que não tivesse marido, nem filhos ou netos, que pudessem vir a vingar a usurpação do trono. Um dia, ela foi buscar água na fonte do bosque sagrado de Marte, quando o próprio deus desceu do céu e a seduziu. Reia Sílvia fez o que pôde para esconder a gravidez e nove meses depois deu à luz dois rapazes gêmeos: Rômulo e Remo. Amúlio não acreditou na estória do deus e atirou-a ao Tibre, onde o deus do rio Tiberino, lhe salvou a vida, casou-se com ela e a transformou em deusa.

Amúlio deu ordem para que os bebês gêmeos fossem colocados em uma arca de madeira e lançados ao rio (tal como na mitologia grega, pretendia assim evitar o crime de sangue). O Tibre arrastou-os até à colina do Palatino onde a arca se abriu e eles foram depositados sob uma figueira. Foi aí que uma loba os encontrou.

Ela tinha acabado de parir e não se importou de amamentar junto com os seus também estes filhos de humanos que não paravam de gritar. O guardador de porcos do reino viu esta coisa extraordinária e pensou logo que algum deus estava a proteger os filhos de Reia Sílvia. Levou as crianças para casa e, como a mulher tinha tido um bebê que nascera morto, criaram as crianças como se fossem seus filhos.

Rômulo e Remo cresceram mostrando a natureza guerreira do pai, dispensando a justiça para punir os erros, adorando a caça e tendo prazer numa boa zaragata. Um dia, quando os rapazes já eram uns jovens, os pastores de Numitor tiveram uma querela com os pastores de Amúlio, enquanto Rômulo estava ausente. [203] A querela transformou-se em luta e Remo foi capturado e levado para Numitor. Rômulo estava com vontade de contra-atacar e libertar o irmão, mas o pai adotivo acabava de lhe revelar a verdade sobre a origem dos gêmeos e planejaram juntos não apenas resgatar Remo, como conquistar o reino que tinha sido usurpado ao avô, Numitor. Em simultâneo, Numitor tinha acabado de saber quem eram os gêmeos, ao inquirir o prisioneiro Remo.

Os irmãos não tardaram a juntar-se e a desencadear um ataque ao rei Amúlio com o apoio de Numitor. A ofensiva foi bem-sucedida, o usurpador foi morto e Numitor recuperou o seu reino.

Existem diversas versões sobre os desentendimentos que destruíram o amor fraterno entre Rômulo e Remo. Segundo uma delas, Numitor deu permissão para que fosse construída uma nova cidade e a luta entre eles começou por causa da colina que devia ser escolhida para iniciar a construção. Quando as profecias se pronunciaram a favor de Rômulo, ele começou a escavar um fosso para delimitar a nova cidade, tendo dado ordem aos seus homens para matarem quem o passasse sem autorização. Remo censurou o irmão, dizendo que o fosso era demasiado estreito. «Todos os inimigos poderão saltar esta vala, com esta facilidade», disse ele; e saltou. Imediatamente um dos homens que estavam a trabalhar, atravessou-o com a espada por entrar sem autorização. Uma outra versão refere que foi o próprio Rômulo quem matou o irmão, dizendo: «Assim se destroem todos os invasores!»

O mito da fundação de Roma, portanto, obteve a sua glória imperial não apenas do deus da guerra, mas também da morte de um irmão pelo outro. Roma foi fundada obre um crime, mas ao contrário do que sucedia nos mitos gregos em que as maldições caíam sobre as famílias e prolongavam-se por gerações, este mito romano termina com a morte de Remo. Rômulo tornou-se o primeiro rei de Roma, tendo sido finalmente divinizado sob o nome de deus Quirino.

O Rapto das Sabinas

Rômulo foi o primeiro rei de Roma, mas quase todos os seus súditos eram homens. Ele tinha, portanto, de atrair mulheres para a cidade, pelo que enviou mensageiros às localidades vizinhas para arranjar casamentos, mas sem sucesso, pois esta nova cidade tinha uma má reputação por ser uma terra sem lei.

Os Romanos começaram a desejar a guerra, mas Rômulo descobriu uma solução menos sangrenta para o problema. Tratou de convidar todos os cidadãos dos estados vizinhos para assistirem a um festival em Roma, pelo que vieram multidões, em especial do estado dos Sabinos. Todos estavam à espera que começassem as corridas de carros, quando Rômulo fez sinal aos seus homens para se apoderarem de todas as mulheres presentes.

Os visitantes não vinham preparados para uma luta pelo que tiveram de regressar às suas casas em fúria, planejando um ataque a Roma para levarem as suas mulheres de volta e darem aos fora-da-lei romanos uma lição de hospitalidade. Contavam que também os deuses se vingariam, já que era uma ofensa às divindades violar as relações amistosas com os visitantes.

Rômulo obrigou as mulheres a casarem com os romanos e deu-lhes cidadania romana. Ele estava convencido de que elas se resignariam com os seus matrimônios, se ficassem em Roma pelo menos até ao nascimento dos primeiros filhos, mas os Sabinos e os homens das outras cidades-estados em redor não esperaram tanto tempo para pegar em armas contra Roma. Por três vezes, Rômulo derrotou um exército e assinou uma paz generosa com uma cidade-estado, mas quando os Sabinos enviaram os seus exércitos contra Roma e atacaram a cidadela, a filha do comandante romano, Tarpeia, traiu a cidade. Os Sabinos tinham-na capturado fora da cidadela e tinham-lhe perguntado qual o preço para trair Roma. Ela olhou para as jóias que cobriam os braços do rei e disse: «Trairei o meu povo por essas coisas que usais nos braços.» Nessa noite, ela abriu a porta da cidadela e pediu a recompensa. Os Sabinos deram-lhe o que [204] estavam a usar nos braços - escudos, não jóias - até ela ficar esmagada sob o peso dos mesmos e morrer. Em seguida, atiraram o corpo dela do alto da cidadela para cima de uma rocha, que a partir daí passou a chamar-se a Rocha Tarpeia.

Os Sabinos tomaram a cidadela e atacaram Roma.

A meio da luta, as mulheres Sabinas correram para o campo de batalha, gritando que não queriam a morte nem dos pais nem dos maridos. Ao ouvirem isto, os Sabinos fizeram a paz com os Romanos. A influência da nova cidade-estado estava em crescimento.

Os Livros Sibilinos

Os livros sibilinos eram os textos das profecias que se supunha tivessem sido proferidas por uma das sibilas gregas e que tinham sido trazidos da Grécia para Cumas, na Itália. O mito dos livros sibilinos narra como é que a Sibila de Cumas terá levado os livros a Tarquinio, o Orgulhoso, último rei de Roma, tendo-lhe proposto vende-los. Tratava-se de nove livros de profecias e quando ele recusou pagar o preço exigido, ela queimou três deles. Tarquinio continuou a recusar a compra das profecias e ela partiu para queimar mais três. Esta tática funcionou pois o rei ficou com receio de perder todas as profecias [205] e então concordou com a compra dos últimos três livros, embora o preço pedido fosse exatamente o mesmo que inicialmente para os nove. No ano 83 a.e.c., os livros sibilinos foram destruídos e os Romanos recolheram da Grécia e da Ásia Menor tantas profecias quantas puderam, com o objetivo específico de as usar para fazer a interpretação dos presságios. Usavam também as profecias para interpretar acontecimentos nefastos como terremotos, pragas e a passagem de cometas. No início do século v a.e., esta segunda coleção das profecias sibílicas foi também destruída.

Como Horácio Manteve a Ponte

Quando o último rei de Roma, Tarquinio, o Orgulhoso, foi destronado, Horácio juntou um exército de etruscos para forçar o seu regresso ao poder. Persuadiu o rei Lars Porsena de Clusium a ajudá-lo e o seu exército cercou Roma. A cidade tinha um ponto especialmente fraco, que era uma ponte de madeira sobre o Tibre e se as forças de Tarquinio tomassem esta ponte, Roma teria forçosamente de se render.

A batalha começou a atravessar o Tibre a partir de Roma e os etruscos estavam a ganhar. A linha romana quebrou-se e os soldados correram para trás em direção à ponte, com os etruscos no seu encalço. Horácio, o comandante dos soldados que guardavam a ponte, sabia que ela cairia em minutos se os seus homens entrassem em pânico, como os restantes soldados. Ordenou, por isso, ao seu pessoal, que a destruísse enquanto ele, Horácio, permanecia no lado mais afastado, pronto a defendê-la das forças inimigas.

Os etruscos estavam boquiabertos com a coragem deste homem, e os romanos envergonhados. Dois dos companheiros de Horácio, Espúrio e Tito, correram para se juntarem a ele, e assim os três romanos derrotaram todos os etruscos que tentaram atravessar a ponte. Os outros romanos, [206] enquanto quebravam os suportes da ponte à machadada, chamavam os três homens para regressarem antes que fosse tarde demais. Espúrio e Tito assim fizeram, mas Horácio permaneceu no lado inimigo do rio Tibre, impedindo os etruscos de avançarem até que, finalmente, a ponte caiu. Horácio orou ao deus do rio Tiberino e saltou para a água, embora com todo o peso da armadura. O deus deve ter-lhe dado uma grande ajuda para ele ter conseguido atravessar o rio a nado. Foi recebido pelos romanos como um herói e foi-lhe dada tanta terra quanta a que ele conseguiu lavrar num dia.

A Estória de Camilo 

Quando Roma era apenas uma pequena cidade-estado em guerra com os vizinhos, os Etruscos, os Romanos sitiaram a cidade etrusca de Veio. Tal como Tróia, levou 10 anos para ser conquistada. No décimo ano o comandante romano, Camilo, ordenou que fosse escavado um túnel sob as muralhas da cidade e os romanos dominaram os etruscos tanto no interior como por fora da cidade. Camilo deu autorização aos seus homens para irromperem pela cidade pilhando, mas não permitiu que profanassem os templos dos deuses. Camilo estava particularmente preocupado com o templo de Juno (Hera), a deusa padroeira de Veio, não querendo que houvesse aí qualquer espécie de violência.

Ele próprio pediu à deusa autorização para levar a sua estátua para Roma. A estátua fez um aceno com a cabeça e disse que lhe apetecia mudar-se, o que foi interpretado pelos Romanos como um grande sinal do favor divino.

A cidade etrusca que Camilo sitiou a seguir foi Falero e foi aqui que o mestre da escola traiu a sua cidade ao levar todos os alunos para a tenda de Camilo para os oferecer como reféns. Camilo era suficientemente honrado para aceitar esta oferta e ordenou aos rapazes que chicoteassem o professor durante todo o caminho de volta a Falero. Os Etruscos ficaram de tal modo impressionados com o código de honra e justiça do inimigo de guerra que decidiram fazer a paz com ele.

Os Gansos que Salvaram Roma

Roma passou a atrair inimigos cada vez de mais longe. Os Gauleses do norte da Europa invadiram a Itália e avançaram até Roma. Tinham um exército enorme e os Romanos não conseguiam detê-los, pelo que tudo levava a crer que Roma iria cair. O povo tanto fugia da cidade como se aglomerava na escarpada cidadela, a colina Capitolina, esperando atemorizado a chegada dos invasores. Os Gauleses não encontraram resistência à invasão e continuaram a queimar e a saquear, e depois a incendiar os edifícios de Roma. Juntaram-se depois na base da colina Capitolina procurando uma forma de a escalarem para destruírem toda a cidade. Após dias de tentativas, encontraram um caminho pela escarpa e, nessa noite, começaram calmamente a subi-lo.

Na cidade vivia um bando de gansos consagrados à deusa Juno. Os Romanos estavam todos a dormir, mas os gansos ouviram os sons ligeiros que os homens faziam ao subir o rochedo e as suas respirações ofegantes. Então as aves atacaram os gauleses, sibilando, grasnando e batendo nos homens com as asas. A barulheira acordou os romanos, que se precipitaram sobre os invasores atirando-os para a morte.

Os gansos tinham conseguido salvar Roma e, a partir daí, nunca mais se sacrificou um ganso no altar de Juno. Tinham conquistado o direito a viver soltos como guardiães da cidade. [207]

Mitologia Romana
Vênus (Afrodite, Marte (Ares), Juno (Hera) Rômulo, Horácio, Camilo Síbila Rômulo, Remo, Reia Sílvia, Numitor, Amúlio, Espúrio, Tito, Tarpeia, Tarquínio,
11/14/2019 1:07:34 PM | Por
A estória de Enéias

Eneias era filho de Vênus (Afrodite) e de Anquises, e tornou-se rei de Dárdano. Por Aquiles lhe ter roubado o gado, lutou na Guerra de Tróia ao lado dos troianos. Pôde contar com a ajuda frequente da mãe que, apesar de não poder lutar a seu lado, o protegia nas situações problemáticas. Netuno (Posídon) e Apolo também lhe davam proteção, pois todos os deuses sabiam que ele tinha de sobreviver à guerra para descobrir um novo reino. Apenas Juno (Hera) se atreveu a mostrar o seu rancor por ele, continuando a cismar no passado, quando Vênus deu a maçã a Paris, e prevendo o futuro, no qual os descendentes de Eneias estariam destinados a destruir a sua cidade de Cartago. Os outros deuses enviavam presságios e visões para ajudar Eneias a sobreviver à queda de Tróia, prometendo-lhe que haveria de governar um novo reino na Itália. Quando os Gregos saquearam Tróia, Eneias escapou, salvando piedosamente os seus deuses domésticos e o velho pai que transportou aos ombros. Pela mão levou o filho pequeno, Ascânio, e a mulher Creúsa seguiu-os, mas acabou por se perder, não tendo sido possível voltar a achá-la.

Eneias fez-se ao mar com uma pequena frota de refugiados, primeiro para a Trácia, depois para Creta e, em seguida, para Itália. Pelo caminho, visitou a ilha onde as Harpias se tinham refugiado quando os Argonautas as afastaram de Fineu e, tal como este, também Eneias teve os alimentos conspurcados com os seus excrementos.

O povo que o acompanhava atacou-as sem sucesso, tendo com isso apenas ganho o lançamento de uma praga por parte da Harpia Celeno que lhes garantiu que passariam tanta fome que comeriam as mesas, antes de construírem as muralhas da nova cidade. Eneias encontrou Andrômaca vivendo feliz em Epiro com o novo marido troiano, Heleno, após Neoptólemo ter morrido. Estavam a construir uma nova cidade servindo-se do modelo de Tróia, com uma miniatura da Porta Céias e um pequeno curso de água em substituição do Rio Escamandro. Mas não estava no destino de Eneias permanecer aqui.

Heleno informou-o como poderia passar em segurança entre os perigosos gêmeos de Cila e Cáribdis. A pequena frota passou pelo Etna em erupção e salvou um marinheiro grego que tinha sido deixado para trás por Ulisses na sua fuga da caverna do Ciclope havia três meses. Continuaram a navegar para a Sicília, onde Anquises morreu, e dali seguiram para Itália. Poderiam lá ter chegado sem incidentes, se Juno não tivesse intervido. Mas a deusa tinha pedido a Éolo, o guardião dos ventos, que enviasse uma tempestade. Entraram em ação os ventos de leste e de sul e depois o de sudoeste que danificaram os barcos de Eneias. Todos os refugiados estavam em perigo de afogamento, mas Netuno ordenou a Éolo que chamasse os ventos de volta e os exaustos troianos encontraram um porto de abrigo na Líbia.

No dia seguinte, tendo Vênus por guia, Eneias encontrou o caminho para a cidade de Cartago, que ainda estava em construção. Era dirigida pela rainha Dido, uma viúva que vivera em Tiro, de onde tinha fugido à perseguição dos irmãos. Esta deu as boas-vindas aos troianos e ofereceu-lhes ajuda se quisessem prosseguir viagem, ou um novo lar em Cartago. Nessa noite, durante a festa de boas-vindas, o filho de Vênus, Cupido (Eros) disfarçou-se de Ascânio e inspirou em Dido um amor apaixonado por Eneias.

Ela começou a pensar casar-se com ele e rezou a todos os deuses pedindo apoio, especialmente a Juno, a deusa [198] do casamento. Juno estava ansiosa para que Cartago, e não Roma, cumprisse as profecias de um novo império, pelo que ouviu as preces de Dido. No dia seguinte, quando os troianos e tiranos tinham ido caçar, foram apanhados por uma violenta tempestade e Dido e Eneias encontraram proteção numa gruta. Aí casaram tendo Juno celebrado o casamento e os céus sido testemunhas - uma cerimônia que Eneias achou fácil de repudiar quando Júpiter (Zeus) o chamou para cumprir o seu destino e lhe ordenou que deixasse Dido. Ela chorou, depois reprovou, em seguida amaldiçoou-o e, finalmente, quando os troianos remaram precipitadamente mar adentro, suicidou-se com a espada que ele tinha deixado.

Descida ao Mundo dos Mortos

Os ventos não estavam favoráveis à viagem para Itália, pelo que Eneias ordenou à frota que navegasse mais uma vez para a Sicília, a terra onde o pai morrera um ano antes. Mandou que fossem feitos jogos fúnebres complicados, em que [199] os homens faziam competições de remo, corrida, boxe e com setas e arcos. Entretanto, as mulheres troianas choravam a morte de Anquises, e Juno enviou íris, o mensageiro dos deuses, disfarçado de uma destas mulheres, para trazer novas dificuldades a Eneias. Ela lembrou às mulheres os penosos anos que tinham andado sem destino e sugeriu-lhes que a Sicília seria um bom local para construir uma nova cidade.

Por fim, ela persuadiu-as a lançarem fogo aos barcos, a fim de forçarem Eneias a ficar. Júpiter enviou de imediato uma forte chuva para apagar os fogos, mas quatro barcos já estavam destruídos e os restantes não podiam transportar todos os troianos.

A sombra de Anquises apareceu a Eneias recomendando-lhe que deixasse para trás todos os mais velhos, sem forças para lutar, demasiado cansados para prosseguir viagem ou demasiado relutantes em partir. Eles poderiam fundar a sua própria cidade, Acesta, na Sicília, enquanto os melhores e mais fortes seguiam para Itália.

Apenas um homem morreu na curta viagem até Itália, Palinuro, o homem do leme, que foi dominado pelo Sono (Hipno), deus do sono, e caiu ao mar.

Os barcos chegaram sãos e salvos a Cumas onde a Sibila de Apolo vivia, fazendo as suas profecias numa enorme e escura caverna. Esta informou-os de que chegariam em segurança ao país de destino, mas que depois seriam atormentados por uma guerra. Eneias pediu à Sibila que o ajudasse a ir ao mundo dos mortos como vivo para visitar o pai que ele tanto amava. «Fácil é descer», replicou a Sibila, «visto que a porta está aberta em Averno, mas o difícil é regressar. Tens de ir à floresta e encontrar um ramo de ouro, consagrado à deusa Juno. Só os escolhidos pelo destino podem pegar no ramo e logo que ele é quebrado da árvore, esta desenvolve outro também em ouro, destinado a outro herói. Se conseguires achar o ramo e quebrá-lo, esse será o sinal de que tens autorização para entrar e sair.»

A VIAGEM

As pombas de Vênus conduziram Eneias à floresta, voando um pouco, parando para se alimentarem, voltando a voar, [200] até que chegaram ao ramo de ouro, brilhando como as cintilantes folhas do azevinho no inverno. Eneias quebrou o ramo com facilidade e entrou na escura garganta de Averno com a Sibila, após fazer sacrifícios a Hécate, Proserpina (Perséfone) e Plutão (Hades), a Nox (Nix) e Gaia, a deusa da Noite e da Terra. Passaram pela velha Doença, Fome e Medo e Penúria, Guerra e Morte, Sono e Sonhos, e pelas Fúrias.

Encontraram os monstros da mitologia grega, os Centauros, as Górgonas e as Harpias, a Quimera e a Hidra, mas eram apenas fantasmas e não podiam fazer mal. Eneias continuou a andar no constante crepúsculo cinzento do mundo dos mortos até ao rio Aqueronte e Coeito, até à barca do rio Estige e ao velho barqueiro Quironte. Viu as sombras da morte agrupadas em torno da barca, tão secas como as folhas no outono, e viu Quironte a embarcar as sombras dos que tinham sido devidamente sepultados e a afastar os que tinham ficado sem sepultura.

Viu o desaparecido homem do leme, Palinuro, que disse que o corpo dele podia ser encontrado na espuma junto à costa da Itália. Este implorou a Eneias que espalhasse terra sobre o seu corpo para ele poder atravessar o rio Estige, mas os deuses não permitiram.

Quironte tentou proibir Eneias de atravessar o Estige mas o ramo de ouro era um salvo-conduto. Mal o homem vivo entrou na barca, as suas tábuas rangeram sob o peso e entrou água. Do outro lado do Estige, Cérbero latia, mas a Sibila deu-lhe um bolo de papoila e ele caiu a dormir. Eneias prosseguiu, ouvindo os lamentos dos bebês que tinham morrido logo após o nascimento, depois os lamentos dos julgados, condenados e executados, embora inocentes. Viu as sombras dos suicidas, ansiando pela vida que tinham desperdiçado, e daqueles que morreram por amor. Dido andava por aqui, como a Lua meia encoberta por uma nuvem e quando ela viu Eneias, a face adquiriu um brilho sinistro e depois voltou-se e seguiu. 

Ele suplicou-lhe que ficasse e que fizesse as pazes com ele, mas em vão.

Depois encontrou outras sombras famosas de mortos da Guerra de Tróia e mesmo antes dela, alguns impacientes por falar com ele, outros retrocedendo como se ele lhes pudesse provocar uma segunda morte. Viu a grande muralha de Dis com Flegetonte a servir de fosso e uma Fúria como guardiã. Como ele não era um homem cruel, Eneias não foi autorizado a passar para lá destas muralhas e só ouviu o que a Sibila lhe contou sobre os tormentos dos condenados.

Ela apressou-se a conduzi-lo aos Campos Elísios onde finalmente ele encontrou o pai e tentou abraçá-lo, mas os seus braços passavam através do corpo do fantasma. Anquises deu ao filho um relatório profético tranquilizado: sobre os futuros dirigentes do reino italiano que iria ser fundado por Eneias.

O REGRESSO

Em seguida, Eneias voltou ao mundo de cima, o dos vivos através dos portões de marfim, pelos quais os sonhos falsos viajam em cada noite. A sua frota voltou a içar as velas, passou em segurança pela ilha de Circe e chegou à foz do Rio Tibre. Esta terra era governada pelo rei Latino, cuja filha Lavínia era cortejada por muitos homens, mas aquele que os pais aprovavam era Turno, só que as previsões eram desfavoráveis e recomendavam que se casasse com um estrangeiro que haveria de fundar um império.

Eneias e os seus estavam a comer a primeira refeição em terra, fazendo montinhos de fruta e de legumes sobre bolos de trigo que tinham colocado no chão.

Em seguida comeram os bolos e, ao fazê-lo, cumpriam a maldição das Harpias de que eles comeriam as próprias mesas. Podiam agora começar a construir as muralhas da nova cidade, enquanto negociavam a terra com o rei Latino. Reconhecendo que este era o estrangeiro de que a profecia falara, Latino estava feliz por casar a filha com Eneias, mas Turno declarou guerra a este pretendente.

Foi uma guerra curta e sangrenta que acabou com a vitória dos troianos. Eneias foi rei da nova cidade durante três anos, mas o filho, Ascânio haveria de governar Alba Longa durante os 30 anos que se seguiram e uns 300 anos mais tarde a grande cidade de Roma seria fundada ali pelos descendentes dele, Rômulo e Remo. [201]

Mitologia Romana
Vênus (Afrodite), Juno (Hera), Netudo (Posídon), Cupido (Eros), Júpiter (Zeus) Enéias Hárpias, Síbila Dido, Anquises, Turno, Lavínia
11/10/2019 6:25:08 PM | Por Alice Mills
O regresso de Ulisses

Tal como a maior parte dos sistemas míticos, a mitologia grega está cheia de astutos. As mitologias dos inuítes, dos nórdicos, dos nativos americanos e dos africanos, por exemplo, estão também cheias de figuras astuciosas, mas estas pertencem normalmente ao mundo sobrenatural. Na mitologia grega, tanto os deuses como os humanos desempenham papéis ardilosos. Hermes (Mercúrio) era um astuto proeminente, sempre a pregar partidas a Apolo, quase desde o nascimento. Da estória dos pais dos deuses, com Reia enganando o marido e levando-o a engolir uma pedra, até à dos Titãs Prometeu e Epimeteu, a mitologia grega preza mais a astúcia que a força bruta. Entre os humanos, Ulisses era o mestre da esperteza da mitologia grega, com a mulher Penélope representando a farsa em casa, tal como ele na sua longa viagem até voltar para ela, mas muitos outros heróis - mesmo o poderoso Héracles (Hércules) que não era famoso pela sua inteligência - teve alguma astúcia em certos casos de necessidade.

Autólico e Sísifo

Ulisses era o mais expedito, astuto e engenhoso dos homens, o que não surpreende visto ser descendente de Hermes. A mãe dele, Anticleia, era filha do rei dos ladrões, Autólico, que era filho de Hermes.

O pai deu a Autólico o poder de transformar a aparência de todos os animais, o que lhe permitia ter uma excelente manada proveniente dos vizinhos. Continuou a roubar vacas ao rei Sísifo de Efira, alterando-as de castanho para branco, pondo chifres às que não tinham, transformando as reses velhas em novas e até as fêmeas em machos. Sísifo sabia que alguém lhe andava a roubar as vacas e reparou que a manada de Autólico crescia na medida em que a sua diminuía, embora as reses fossem [188] completamente diferentes. Sísifo achava que o ladrão era Autólico mas não via forma de o provar.

Um dia, porém, teve uma inspiração. Decidiu gravar as letras SIS nos cascos de todas as vacas e na manhã seguinte pôde encontrar estas marcas dos cascos indo da sua manada para os campos de Autólico. Este, ao ser interpelado, negou categoricamente que tivesse roubado alguma vaca. «Foi tudo obra tua», acusou ele. «Os teus homens levaram as minhas vacas para os teus campos e gravaram letras nos seus cascos, para mos roubares.»

Sísifo ganhou esta batalha de astúcia, mas perdeu no conflito que teve com Zeus (Júpiter), que se deu quando o rei dos deuses se apaixonou por Egina, que era filha do deus-rio Asopo. Este procurou-a por todo o lado e Sísifo foi suficientemente impetuoso para denunciar Zeus. Asopo partiu para ir resgatar a filha e encontrou-a nos braços de Zeus, que tinha deixado os raios pendurados numa árvore. Este limitou-se a transformar-se numa pedra até Asopo passar. Em seguida, retomou a sua forma do Olimpo, pegou na arma e atirou um raio ao deus-rio.

A partir deste ataque, Asopo passou a coxear.

Sísifo foi condenado a uma punição eterna no reino dos mortos devido à sua indiscrição. Zeus pediu a Hades (Plutão) para levar o rei para o mundo dos mortos, mas quando Hades foi à procura dele, Sísifo recusou-se a ir. Primeiro disse que a tarefa de guiar as almas até ao mundo dos mortos pertencia a Hermes e não a Hades, e depois afirmou que não tinha chegado a altura de ele morrer. Por fim, Sísifo perguntou a Hades como é que ele planejava arrastá-lo para o mundo das sombras. «Com esta nova invenção de Hefesto (Vulcano) - as algemas», respondeu ele. «Mostra-me como é que funcionam», pediu Sísifo, e no momento seguinte Hades estava algemado à parede.

Sísifo manteve Hades preso durante um mês inteiro, o que fez com que ninguém pudesse morrer, e que Ares (Marte) perdesse completamente a paciência com o homem que estava a tirar toda a piada às suas batalhas. Ameaçou desmembrar Sísifo e, finalmente e com relutância, o rei libertou Hades e acompanhou-o na estrada sombria até ao mundo dos mortos. Em seguida ele tentou as suas palavras de ouro com Perséfone (Proserpina) que o autorizou a regressar a casa pois não tinha ainda sido sepultado e o barqueiro Caronte mantinha a sua sombra no Rio Estige. Sísifo foi punido e o seu castigo consistiu em empurrar uma pedra por uma colina acima - uma pedra semelhante àquela em que Zeus se tinha transformado. Quando a pedra chegava ao cimo, rolava para trás passando sobre o corpo de Sísifo até chegar à base. Sísifo tinha de a empurrar até ao cimo uma e outra vez, para todo o sempre.

A filha de Autólico, Anticleia, casou com o rei Laertes, da ítaca, uma pequena ilha rochosa. O filho de ambos, Ulisses, foi crescendo e viria a ser tão esperto como o avô, mas não o suficiente para conseguir escapar ao dever de combater na Guerra de Tróia. Viriam a passar 10 anos até a guerra terminar e 20 anos até a mulher Penélope e o filho Telémaco voltarem a vê-lo.

Ulisses e os Ciclopes

Ulisses partiu de Tróia exatamente ao mesmo tempo que todos os outros guerreiros gregos que sobreviveram, mas nenhum deles levou tanto tempo a regressar a casa como ele. Os ventos e os mares estiveram sempre contra desde a partida. Devido a uma tempestade, os seus barcos foram atirados para a terra dos Lotófagos. Estes comedores de lótus levavam uma vida ditosa, não fazendo mais nada para além de comer, beber e dormir. Os frutos de lótus provocavam-lhes um esquecimento total, pelo que não se ofendiam nem se preocupavam, não tendo qualquer ideia para o futuro nem do passado. Ulisses enviou alguns dos seus homens a terra para procurarem água e os Lotófagos ofereceram aos marinheiros os frutos [189] e lótus. Como os homens nunca mais regressavam, o próprio Ulisses decidiu ir em busca deles. Encontrou-os sentados no chão, mastigando lótus, sorrindo e não pensando em nada. Ulisses teve de enviar outros marinheiros para os levarem para os barcos e depois voltou a partir, antes que mais algum fosse tentado.

A terra que encontraram a seguir foi uma ilha fértil, cheia de cursos de água e aqui apanharam e mataram algumas cabras para aumentar as provisões. Ulisses e os seus homens foram explorar o continente vizinho onde encontraram uma grande gruta com uma enorme pedra junto da abertura. A gruta era claramente o abrigo de alguém, tendo uma zona para fazer o lume e outra vedada para guardar as cabras e as ovelhas. Na parte de trás da gruta encontravam-se borregos e crianças, mas o dono não estava. Ulisses e os seus homens recolheram alguns queijos que encontraram na gruta. Também acharam vinho, mas Ulisses tinha trazido uma grande quantidade de vinho para a expedição e pensava partilhá-lo com o dono da gruta em troca da sua hospitalidade.

O solo agitou-se sob o peso do dono da cava quando ele entrou. Era um Ciclope, um descendente dos gigantes com um olho no centro da testa que tinham lutado ao lado de Zeus contra os Titãs. Toda a ilha era habitada pelos Ciclopes, sendo a maior parte deles bastante sociáveis, mas este, Polifemo, tinha-se transformado numa espécie de eremita após ter perdido Galateia. Comia carne crua enquanto os outros Ciclopes a cozinhavam, tal como as pessoas civilizadas. Polifemo meteu o rebanho dentro da caverna e fechou a entrada com a pedra. Avistou então Ulisses e os marinheiros e perdeu pouco tempo com conversas, agarrando logo um marinheiro que partiu aos bocados e foi metendo pela garganta abaixo.

Em seguida, agarrou outro para completar a refeição.

Os outros não podiam fazer mais nada para além de se colarem às paredes da gruta. Viram o Ciclope adormecer e ficaram a aguardar mais mortes pela manhã. [190] 

ENGANANDO O CICLOPE

De manhã, o Ciclope devorou mais homens e levou o rebanho para fora da caverna, tendo voltado a fechá-la com a pedra. Nesta altura, Ulisses já tinha pensado num plano. Pegou no enorme bastão de Polifemo e afiou-o numa das pontas com a espada, depois endureceu-o no fogo. Nessa noite, depois do Ciclope regressar e matar mais dois homens, Ulisses disse-lhe: «Ciclope, que graça tem a carne sem vinho? Nós temos muito e bom vinho que gostaríamos de partilhar contigo. Se queres saber o meu nome, chamo-me "Ninguém"». O Ciclope pareceu um pouco surpreendido pelo comportamento dos prisioneiros, mas também não via nenhuma razão para recusar uma tal oferta de vinho. Ulisses serviu-lhe uma malga gigante cheia de vinho a que não tinha misturado água, depois outra e outra até que Polifemo estava tão bêbado que caiu inconsciente. [191] Ulisses aqueceu a ponta do cacete no lume, depois ele e os seus homens ergueram-no até à testa do Ciclope que ressonava, e enfiaram-no pelo olho dentro. Polifemo agarrou-se ao olho carbonizado gritando de choque e de dor. Os outros Ciclopes apareceram para saber o que provocara tal barulheira. «Quem é que te está a ferir?», perguntaram eles através da pedra que servia de porta e Polifemo respondeu: «Ninguém». E eles foram-se embora. Tacteou em busca dos inimigos para os matar, mas eles escapavam-lhe com facilidade, embora continuassem cativos. Mais cedo o mais tarde, prometera ele, havia de os encontrar e comê-los a todos.

A certa altura, Polifemo rodou um pouco a pedra para que as ovelhas pudessem sair. À medida que cada uma passava, o Ciclope corria-lhe a mão pelo lombo, para se certificar de que nenhum homem tentava escapar. Ulisses sussurrou então aos seus homens que se pendurassem por debaixo do ventre dos carneiros, para que o gigante não se apercebesse quando os animais saíssem transportando-os.

O próprio Ulisses pendurou-se num grande carneiro que foi o último a sair. Mal se viram cá fora correram velozmente para o barco.

O herói ordenou aos homens que remassem para o alto mar e, pouco depois já estavam bastante afastados, pelo que Ulisses não conseguiu resistir à vontade de escarnecer de Polifemo que tinha vindo a correr para a praia, onde andava de um lado para o outro tentando apanhá-los.

«Eu sou Ulisses, saqueador de cidades!», gabou-se. Polifemo pegou numa enorme pedra a atirou-a na direção do som, tendo caído perto do barco, mas os marinheiros remaram o mais depressa que puderam para se afastarem mais antes que a próxima pedra lhes acertasse. Polifemo implorou vingança ao pai, Posídon (Neptuno), e, até ao fim da viagem de regresso a casa, Ulisses teve de suportar todas as tempestades que o deus dos mares lhe lançou ao caminho.

As Sereias

Numa das ilhas por onde Ulisses teve de passar, viviam as Sereias. Tinham forma de mulheres até à cintura, grande: asas, pernas com penas, e garras. O seu canto despertava o desejo em todos os homens, e era uma tentação que atraí; os marinheiros para a morte. A ilha estava cheia de ossos dos homens que elas tinham devorado. Ulisses tinha sido avisado do perigo, pelo que deu bocados de cera a todo os seus homens, para que os pusessem nos ouvidos e assim não pudessem ouvir o cantar das Sereias. Mas Ulisses era um curioso insaciável e quis ouvir esse som irresistível. Ordenou por isso, aos seus homens, que o atassem ao mastro do navio e que não o soltassem enquanto estivessem ao alcance do som vindo da ilha, por mais que ele mandasse ou implorasse. Os outros homens podiam ser tentados com cânticos de amor, mas para Ulisses, as Sereias cantaran o conhecimento e a sabedoria. Ele debateu-se contra as amarras que o prendiam e tentou convencer a tripulação a soltá-lo mas eles mantiveram-no preso até se encontrarem em segurança, após terem passado a ilha. E foi assim que Ulisses foi o único homem a ouvir cantar as Sereias e a sobreviver. [192]

O REGRESSO DE ULISSES

Uma das ilhas que Ulisses visitou era governada por Éolo, que controlava os ventos. Entregou a Ulisses um saco de couro que continha todos os ventos, à exceção do Vento Oeste que os conduziria em segurança até Ítaca. Mas os homens de Ulisses pensaram que Éolo lhe tinha dado um tesouro secreto, que ele não iria partilhar com eles e, enquanto Ulisses dormia, abriram o saco. Saíram velozmente os ventos e o barco foi empurrado para trás até se encontrar de novo na ilha de Éolo que, desta vez, se recusou a ajudá-los reconhecendo que pelo menos um deus estava a impedir Ulisses de regressar. Pouco tempo depois deste episódio, ele perdeu todos os seus barcos à exceção de um, ao entrarem na terra dos Lotófagos, gigantes e canibais parecidos com o Ciclope. Perdeu então a maior parte dos homens.

O vento empurrou o barco restante para outra ilha de aspeto agradável, governada por Circe. Uns dizem que ela era filha de Hélio (Sol), outros que era filha de Hécate. Tinha o poder de transformar os seres humanos em animais e a maior parte dos bichos que existiam na ilha tinham, em tempos, sido humanos. Alguns dos homens de Ulisses foram até ao palácio dela e pediram-lhe ajuda. Ela sentou-os à mesa, alimentou-os com toda a generosidade antes de lhes acenar com a varinha de condão e de os transformar em porcos. Apenas um homem escapou para contar aos outros. Ulisses foi em seu socorro e no caminho encontrou Hermes (Mercúrio) que lhe mostrou uma planta insignificante chamada moli, que o iria proteger contra as magias de Circe. Ulisses sentou-se à mesa com ela e comeu o que lhe ofereceu, esperando não estar a comer carne humana.

Em seguida, Circe agitou a varinha mágica, tentando transformá-lo num animal, mas a moli evitou-o.

Ela apercebeu-se de imediato que algum deus estava a protegê-lo e, sem mais demoras, convidou-o para ir para a cama com ela. Ulisses concordou sob a condição de ela voltar a transformar todos os animais em homens. Ulisses ficou com ela tempo suficiente para ser pai de três filhos.

Quando recomeçou a ter vontade de voltar a casa, Circe disse-lhe o que tinha a fazer para chegar a Ítaca. Teria de descer ao mundo das trevas em vivo e pedir conselhos ao adivinho Tirésias. Ela forneceu-lhe as direções para o mundo dos mortos e explicou-lhe como era possível recuperar as vozes dos mortos durante uns momentos. [193] Era necessário dar-lhes a beber o sangue de ovelhas acabadas de matar. Todas as sombras se juntariam à volta dele, ansiosas por saborear o sangue, mas ele teria de guardar o resto para Tirésias poder beber e falar. Ulisses encontrou a entrada para o mundo dos mortos e matou a ovelha que Circe lhe tinha dado. Entre as sombras que se aglomeravam à sua volta estava a da mãe, Anticleia, e a do grande guerreiro Aquiles. Ulisses certificou-se de que Tirésias tinha espaço para poder chegar ao sangue e, após ter bebido, o adivinho falou. Avisou Ulisses de que deveria manter os seus homens sob controle quando chegassem à ilha do Sol, caso contrário o deus tornar-se-ia um inimigo. Ele iria ter problemas também em Ítaca e mesmo quando estivesse em segurança em casa, as suas viagens não teriam terminado. Teria de voltar a partir, com um remo sobre um ombro, até chegar a uma região onde não se conheciam os remos. Só então poderia apaziguar a ira de Posídon (Netuno) e voltar a casa em paz.

Perdas e Ganhos

Ulisses passou por muitas outras provas na sua viagem, até que perdeu todos os seus homens e o único barco que restava. Seis deles pereceram durante a passagem entre Cila e Cáribdis. Cila era um monstro marinho com seis cabeças, cada uma das quais devorou um dos marinheiros de Ulisses quando tentavam evitar o redemoinho de Cáribdis. O resto da tripulação morreu como castigo por terem matado e comido o gado de Hélio na ilha de Trinácia, enquanto Ulisses dormia. Zeus (Júpiter) enviou uma tempestade que submergiu o barco, e só Ulisses sobreviveu, trepando pelo mastro quebrado acima até ser atirado para [194] uma praia da ilha Ogígia, onde vivia a ninfa Calipso, que o prendeu durante sete anos como seu amante, tendo-lhe oferecido a imortalidade o que não o impediu de todos o dias olhar em direção a Ítaca e chorar.

Por fim, Zeus enviou Hermes para obrigar Calipso a libertá-lo. Ulisses construiu uma jangada, e depois de esta ter sido afundada numa nova tentativa de Posídon para lhe pôr um fim, nadou por mares tempestuosos até chegar a uma ilha habitada pelos Feaces.

O rei Alcínoo e a rainha Arete governavam esta ilha e tinham uma filha chamada Nausícaa. Atena (Minerva) enviou um sonho à princesa, sugerindo-lhe que fosse à praia lavar a roupa. Aí ela encontrou Ulisses, nu e necessitando de ajuda, pelo que o levou para o palácio dos pais.

O rei e a rainha teriam tido muito gosto em casar a filha com este estrangeiro que os cativou com as suas estórias de astúcia e bravura, mas Ulisses só desejava voltar a casa. Ofereceram-lhe o mais rico dos presentes e deixaram-no partir num dos seus barcos, o qual haveria de aportar numa praia de Ítaca enquanto ele dormia, tendo sido deixado à beira-mar com todos os presentes empilhados ao lado. Posídon ainda teve oportunidade de se vingar uma última vez dos marinheiros que o tinham ajudado, transformando o barco e a tripulação em pedra, mas só depois de terem, finalmente, levado Ulisses ao destino.

Problemas em ítaca

Ulisses estava agora de volta à sua amada ilha, mas tinha mais problemas para enfrentar. Dezessete anos depois de ele ter partido para Tróia, uma multidão de pretendentes começou a cortejar a mulher, Penélope, que os repudiava convencida de que ele continuava vivo. Estes faziam festas todos os dias no seu palácio, comendo as provisões e bebendo o vinho. Penélope decidiu mantê-los à distância por estar certa de que o marido havia de voltar.

Ela não podia repudiá-los abertamente, visto que dispunha de pouco apoio. O pai de Ulisses estava demasiado velho para lutar e o filho Telémaco não podia libertar-se sozinho dos pretendentes. Mas Penélope era tão astuta como o marido. Ela disse aos interessados que estava a tecer uma mortalha para o sogro Laertes. Todos os dias durante três anos, ela tecia a mortalha e todas as noites desmanchava o que tinha feito. Por fim, uma das mulheres que a serviam denunciou o estratagema aos pretendentes. Agora ela tinha de concluir o trabalho e garantiu-lhes que iria escolher um deles, visto que o filho Telémaco já era um homem, tal como Ulisses lhe tinha recomendado.

Telémaco tinha crescido durante a longa ausência do pai e Atena inspirou-o a partir em sua busca, pois corria riscos, já que os pretendentes não hesitariam em matá-lo para herdarem Ítaca. Atena pensou que seria melhor enviar Telémaco em visita aos velhos companheiros de Ulisses, dos tempos da Guerra de Tróia: Menelau e Helena em Esparta e Nestor em Pilos. O jovem não encontrou vestígios do pai, mas regressou a casa carregado de presentes e com a amizade de alguns dos homens mais poderosos da Grécia.

ULISSES, O MENDIGO

Quando Ulisses despertou na praia de Ítaca, Atena disfarçou-o de mendigo pelo que ele pôde verificar como estavam as coisas no reino, sem ser reconhecido. Encontrou refúgio no guardador de porcos que se tinha mantido leal ao amo (embora não o tivesse reconhecido). Telémaco regressou nesta altura da sua viagem e Ulisses revelou-lhe quem era. Começaram a tramar a vingança a infligir aos pretendentes, com a ajuda de Atena.

Como primeiro passo, Ulisses chegou ao palácio [195] como mendigo. Cá fora, num monte de excrementos de animais, encontrava-se um cão velho.

Era Argos, o cão fiel de Ulisses que tinha sido abandonado e condenado a morrer naquele monte de estéreo e que o reconheceu imediatamente, tendo tido força para levantar a cabeça numa saudação, mas nada mais.

O cão teve a alegria de saber que o seu dono tinha regressado e, em seguida, deixou cair a cabeça e morreu.

No palácio, Ulisses testou os limites da insolência dos pretendentes, consentindo que troçassem dele e até que lhe atirassem com peças de mobília. Penélope repreendeu-os por terem tal comportamento para com um hóspede e pedinte, um ato que os deuses não deixariam de punir. Estas palavras proféticas tiveram pouca influência na conduta insolente dos indivíduos. Mais tarde, naquela noite, Penélope decidiu inquirir o mendigo que lhe garantiu que Ulisses vinha a caminho de casa. Ela chorou ao ouvir notícias do marido e ofereceu-lhe uma cama para passar a noite e ordenou a Euricleia, a velha criada da família, que lhe lavasse os pés. Esta lavou-lhe os pés e as pernas e, de repente, deu um grito ao ver uma longa cicatriz que Ulisses tinha desde criança, após um ferimento de caça. Ele agarrou-a pelo pescoço e sussurrou-lhe que tinha de se manter calada.

Atena inspirou Penélope com a ideia de desafiar os pretendentes para uma competição de arqueiros.

Ela decidiu que tinha de escolher um daqueles desagradáveis homens, pelo menos para que Telêmaco pudesse ficar com alguma das ricas propriedades do pai. Disse-lhes que casaria, se bem que contrariada, com o que fosse capaz de esticar o grande arco de Ulisses e de disparar uma seta através das argolas dos seus 12 machados. Nenhum deles conseguiu esticar o arco, e Telêmaco ordenou que este fosse entregue ao mendigo para que experimentasse. Esticou-o sem qualquer dificuldade e disparou a seta através de todos os machados. A seguir virou-se para os pretendentes disparando setas. Telêmaco tinha escondido todas as armas no palácio, e o pai e o filho, juntamente com os leais guardadores de porcos e de vacas, chacinaram todos aqueles miseráveis até se formarem pilhas de corpos mortos no chão do palácio.

Ulisses contou então à mulher, Penélope, quem era.

Esta tinha um espírito tão arguto como o marido e exigiu uma prova, algo que só Ulisses e ela soubessem. Então ela disse-lhe: «Vou mandar tirar a cama do nosso quarto e colocá-la noutro onde tu irás dormir.»

Ora um dos pés da cama deles tinha sido decorado pelo marido com uma árvore viva que crescia no meio da casa. Ulisses ficou furioso ao pensar que alguém tivesse cortado o pé da cama para a poder mover. Quando Penélope ouviu isto, ficou certa de que ele era realmente o seu amado esposo. Os anos de espera e de sofrimento tinham finalmente terminado.

O povo de Itaca descobriu no dia seguinte que todos os pretendentes, príncipes e lordes da ilha e das terras vizinhas tinham morrido às mãos de Ulisses, de Telêmaco e dos dois servos leais. Alguns dos habitantes de Ítaca perceberam que um deus estava a ajudar Ulisses e reconheceram que todos aqueles homens tinham merecido morrer, devido ao seu péssimo comportamento.

Outros armaram-se com o intuito [196] de se vingarem, pelo que a deusa Atena voltou a intervir a fim de que o seu muito querido herói, Ulisses, pudesse ter paz assim como a esposa fiel.

O Ulisses de Dante

Tirésias tinha profetizado que esta não seria a conclusão das viagens de Ulisses, mas foi aqui que o poema épico de Homero, A Odisséia, o deixa. Nos milênios que se seguiram desde o poema de Homero, numerosos escritores têm criado continuações para esta intricada estória. No século XII o poeta italiano Dante escreveu a respeito de Ulisses e de Diomedes no seu «Inferno» (parte de A Divina Comédia), que é um poema visionário da sua própria descida ao mundo dos mortos (cristão).

O Ulisses de Dante arde eternamente no Inferno devido ao seu roubo do Paládio e da criação do Cavalo de Tróia. Ulisses relatou o final da sua viagem a Dante, guiado eternamente pelo seu desejo de saber. Nem a velhice nem o amor da esposa e do filho puderam segurá-lo em casa, tendo ele morrido no mar, enquanto continuava a procurar os limites da capacidade humana de pesquisa e inquirição. [197]

Mitologia Grega
Posídon, Atena, Hermes, Zeus, Hades, Éolo Odisseu Ciclopes, Polífemo, Sereias Autólico, Sísifo, Asopo, Tirésias, Penélope, Telêmaco
11/8/2019 7:52:21 PM | Por
A casa de Agamêmnon

Um dos despojos de guerra a que Agamêmnon teve direito como comandante dos gregos foi a possibilidade de selecionar as mulheres de Tróia. Escolheu Cassandra, a filha de Príamo e de Hécuba, apesar de ela continuar a profetizar um destino lúgubre tanto para ele como para a sua casa, o que ele considerou como delírios de uma mulher mentalmente afetada pela morte de toda a família, e deu pouca atenção às previsões.

Em casa dele, em Micenas, a mulher Clitemnestra esperava-o com os filhos, Orestes, Electra e Crisótemis. Uma outra filha, Ifigênia, tinha sido sacrificada por Agamêmnon para conseguir ventos de feição para a armada chegar a Tróia. Durante os 10 anos que durou a Guerra de Tróia, Clitemnestra tinha-se tornado amante do meio-irmão do marido, Egisto. Ambos cismavam com as ofensas passadas: Clitemnestra pela morte da filha inocente Ifigênia e Egisto por erros que recuavam até ao tempo de Tântalo.

Existia uma profecia que afirmava que Agamêmnon não podia ser morto nem em terra nem na água, nem nu nem vestido, nem dentro nem fora de casa, uma profecia que parecia prometer-lhe imunidade a uma morte violenta. Clitemnestra e Egisto tiveram 10 anos para planear a melhor forma de cumprir a profecia.

Quando Agamêmnon regressou, a rainha tinha pronta uma carpete cor de purpura para ele passar por cima, quando descesse do carro. Este ato haveria de desagradar aos deuses, já que o privilégio do tecido púrpura estava-lhes reservado. O rei chegou com Cassandra sentada ao lado dele no carro, e hesitou apenas um instante quando viu a carpete. Em seguida, Clitemnestra introduziu-o no balneário para que tomasse um banho antes da festa de boas-vindas. Cassandra ficou no pátio profetizando a própria morte e a dele, mas quem a ouvia apenas sentia piedade.

De dentro do balneário vinham gritos, e depois o silêncio. Agamêmnon tinha sido assassinado de acordo com o previsto.

A casa de banho tinha sido construída ao lado do palácio, pelo que não era nem dentro nem fora. Clitemnestra aguardou até ele ter um pé dentro da água do banho e o outro no chão e nesse momento ela atirou uma rede para cima dele. Assim que ele foi aprisionado pela rede, Egisto acorreu com um machado e ambos se atiraram a ele até o matarem. Clitemnestra anunciou então que ela e Egisto eram agora os reis de Micenas e ninguém se atreveu a dizer o contrário. A infeliz Cassandra foi arrastada [183] para a morte, acusando-a Clitemnestra de ser amante de Agamêmnon, sem considerar o fato de ter sido à força.

A Vingança Cai sobre Clitemnestra e Egisto

Orestes cresceu bem longe de Micenas, junto do rei Estrófio, da Crisa, pois a irmã mais velha, Electra, quis que ele saísse da cidade logo após o assassínio de Agamêmnon, para que ficasse a salvo de Clitemnestra e Egisto, que poderiam recear que Orestes viesse a querer vingar a morte do pai.

Em Crisa, ele encontrou um amigo fiel no filho do rei, Pílades. Electra permaneceu na corte de Micenas, cheia de ódio pela mãe e por Egisto. Crisótemis também continuou na corte.

Esta era ainda demasiado jovem quando Agamêmnon foi assassinado para recordar a tragédia pelo que, tal como a filha de Édipo, Ismena, era uma apaziguadora, tentando sempre reconciliar a irmã Electra com a mãe.

Clitemnestra e Egisto contavam que Orestes voltasse para se vingar, quando fosse suficientemente adulto.

Egisto era um homem muito medroso, chegando a recear que Electra pudesse casar-se com alguém que tentasse vingar a morte de Agamêmnon. E, por esta razão, ele e Clitemnestra forçaram-na a casar-se com um camponês que jamais poderia reunir um exército contra Micenas. Teria sido mais simples matar a filha, tal como tinham matado o pai, mas mantiveram-na viva, para não ofenderem os deuses mais do que já tinham feito. Electra continuou a denunciar a mãe e Egisto, e, secretamente, manteve uma troca de correspondência com Orestes, em Crisa. O anseio profundo de que ele haveria de voltar era o que a mantinha viva.

O DILEMA DE ORESTES

Quando Orestes se tornou adulto e capaz de se vingar foi consultar o oráculo de Delfos para perguntar se deveria perpetuar os problemas no seio da família ao matar a mãe e Egisto. Encontrava-se numa grande angústia ao ter de enfrentar ou a acusação de ser um homem que não tinha vingado o assassínio do pai, ou de que tinha matado a própria mãe. O oráculo disse-lhe que se não se vingasse contrairia a lepra e seria banido de todos os templos dos deuses. Foi aconselhado a não constituir um exército mas sim a vingar-se pela astúcia. Deveria cortar um caracol do seu cabelo e colocá-lo sobre o túmulo de Agamêmnon mal chegasse a Micenas.

O oráculo, porém, avisou-o de que as Erínias, as Fúrias, que atormentam os espíritos dos criminosos, se levantariam contra ele se matasse a mãe. Apolo deu um arco a Orestes, para afastar as Erínias, pelo menos temporariamente, e prometeu-lhe proteção se ele voltasse a Delfos depois de escutar os seus conselhos. Afinal, Orestes decidiu seguir os conselhos do oráculo de Pítia e matar Clitemnestra.

Pílades acompanhou Orestes até ao túmulo de Agamêmnon e juntou-se a ele na oração a Hermes (Mercúrio), o deus das mentiras astutas. Em seguida, Orestes cortou um caracol do seu cabelo e colocou-o sobre o túmulo. Poucos instantes depois chegaram alguns escravos para derramar vinho para o fantasma de Agamêmnon. Clitemnestra tinha-os enviado após ter tido um pesadelo, no qual ela dava à luz uma serpente que colocava ao peito, mas que ao mamar lhe mordera o mamilo sugando-lhe o sangue. Os adivinhos tinham interpretado este sonho, não com o seu sentido verdadeiro de que o filho Orestes tinha regressado para a matar, mas sim como um sinal de que o espírito de Agamêmnon precisava de ser apaziguado. Assim, Clitemnestra tinha enviado as escravas para pedirem à sombra de Agamêmnon que a perdoasse, mas Electra foi com elas, e as suas orações eram de vingança, não de perdão.

Electra viu o caracol de cabelo no túmulo e reconheceu-o como uma oferenda de Orestes ao pai, embora tivesse receio de ter essa esperança. Em seguida ele saiu do esconderijo onde se encontrava e colocou os braços à volta da irmã tão amada, provando que era mesmo o irmão ao mostrar-lhe as roupagens em que tinha sido envolto quando fugira de Micenas quando criança. Electra e Orestes rezaram a Zeus (Júpiter) implorando para que a vingança não lhes tirasse a vida, e, em seguida, Electra regressou ao palácio e tentou [184] proceder como se nada tivesse acontecido. Orestes ficou para trás por uns momentos e depois dirigiu-se ao palácio para conseguir uma audiência com a rainha.

Clitemnestra saiu para falar com o estranho. Orestes contou-lhe uma mentira muito elaborada, dizendo-lhe que tinha ouvido alguém dizer que Orestes tinha morrido. Clitemnestra ficou radiante ao ouvir esta notícia e convidou o desconhecido a entrar, mandando chamar Egisto para que este pudesse rejubilar com ela. Quando este entrou no palácio, Pílades fez o mesmo levando consigo uma urna que, segundo ele, continha as cinzas de Orestes. Egisto aproximou-se para ver a prova da morte do inimigo e Orestes, que tinha surgido por trás, aproveitou para lhe cortar o pescoço. Clitemnestra reconheceu então o filho e implorou-lhe misericórdia. Abriu a túnica e mostrou-lhe o peito simbolizando ser a sua mãe, mas ele não olhou nem ouviu. Ergueu um machado e decepou-lhe a cabeça.

A Vingança Cai sobre Orestes

No mesmo dia em que ele matou a mãe, Orestes foi atacado pelas Erínias: Alecto, Megera e Tisífone. Estas três fêmeas com cabeças de cães e cabelos de serpentes, com asas de morcego e olhos vermelhos como sangue, eram habitantes imortais do mundo das trevas, que já existiam muito antes dos deuses do Olimpo. Encarregavam-se de vingar os pecados dos filhos para com os pais, ou dos hospedeiros para com os hóspedes, maus-tratos aos suplicantes ou assassinos, com tormentos mentais sem cessar. As vítimas sujeitas a esta punição selvagem e constante não tardavam a morrer. Estas incarnações da consciência de culpa eram muito temidas e quando as pessoas falavam delas não lhes chamavam Erínias (Fúrias) mas sim Eumênides (as Benevolentes).

Mas mudar-lhes os nomes não contribuía em nada para lhes alterar a natureza. Orestes adoeceu devido aos constantes ataques das Erínias, que só ele podia ver e ouvir. Mantinha-se na cama, sem comer, condenando-se à morte. Então, o pai de Clitemnestra, Tíndaro, chegou de Esparta para acusar Orestes, antes dos nobres de Micenas, pelo crime de assassínio da mãe. Menelau e Helena vieram fazer uma visita considerada inoportuna, pelo que não foram bem recebidos nem por Electra nem por Tíndaro.

«Porquê?», perguntou Tíndaro.

«Orestes não matou a mãe? Então tem de ser castigado por matricídio, sendo apedrejado até à morte. Electra merece a mesma morte, visto que instigou o irmão.»

O julgamento terminou com os juízes a decidirem que Orestes e Electra não deviam ser apedrejados até à morte, mas que lhes devia ser permitida a dignidade de se suicidarem. Pílades entrou em ação. Tinha-se apaixonado por Electra e esperava casar com ela, pelo que não podia suportar a ideia de a perder assim como o estimado amigo, Orestes. Pensou matar-se juntamente com eles, mas decidiu matar primeiro Helena, a causa de todos os problemas que tinham caído sobre a casa de Agamêmnon a partir do assassinato de Ifigênia. Orestes e Pílades atacaram Helena e podiam tê-la matado com toda a facilidade, mas Zeus elevou a filha até ao Olimpo, libertando-a finalmente de todas as perplexidades e agressões da vida dos mortais [185] Enquanto Orestes e Pílades estavam a agredir Helena, Electra raptou a filha de Helena, Hermíone, como refém. Menelau irrompeu na sala e a morte estava eminente para Orestes às mãos de Menelau e para Hermíone à mãos de Electra. De repente, surgiu Apolo, fazendo parar toda a violência. Disse a Menelau que Helena tinha subido ao Olimpo e que ele devia voltar a Esparta e casar novamente. Disse também ao rei que casasse Hermíone com Orestes, embora não prometesse que ele viesse a recuperar totalmente a paz de espírito. Quando Apolo falava, os humanos obedeciam. O povo de Micenas sepultou os mortos, e Orestes casou com Hermíone. As Erínias continuaram a atormentar-lhe o espírito. A intervenção de Apolo evitou uma matança, mas não serenou as vozes que continuaram a censurar Orestes.

O SEGUNDO JULGAMENTO

Orestes vagueou pela Grécia, atormentado pelas Erínias, umas vezes com sanidade e outras sem ela. Finalmente chegou a Atenas, persuadido por Tíndaro, que continuava a querer vê-lo morto como punição pelo assassínio de Clitemnestra. Atena (Minerva) reuniu os juízes atenienses e começou um segundo julgamento, em que Apolo era o defensor de Orestes e as Erínias o acusador. Ninguém discutia os fatos que aconteceram e os argumentos centraram-se em saber se era mais importante honrar o pai ou a mãe, ou se, neste caso, Orestes tinha procedido corretamente ao matar a mãe para vingar o pai. Os juízes estavam num beco sem saída, com igual número de votos de cada lado. Atena usou então o seu voto de desempate a favor de Orestes. As Erínias ficaram furiosas com o resultado do julgamento de Orestes e ameaçaram atacar Atenas com a sua influência perniciosa. A deusa Atena ofereceu-lhe um santuário sob a condição de elas serem amáveis com o povo da cidade de Atenas e as Erínias concordaram em ser adoradas na parte lateral da cidadela, no Areópago. Orestes estava agora legalmente livre do seu crime de sangue e uma versão desta estória termina aqui, com Pílades a casar com Electra. Numa outra, as Erínias continuaram a atormentá-lo e ele só encontrou a paz de espírito quando seguiu as instruções de Apolo e navegou até Táurida, onde a irmã Ifigênia continuava viva. Nesta versão da estória diz-se que ela foi salva miraculosamente da faca de Agamêmnon por Ártemis (Diana), e continuou a viver ao longo da Guerra de Tróia, do regresso de Agamémnon e da vingança de Orestes bem longe de tudo, na ilha de Táurida. Ela ajudou Orestes e Pílades a escaparem da Táurida, com o auxílio de Posídon e, por fim, casou com Pílades.

Com este final feliz, a sanidade de Orestes foi recuperada para sempre e ele teve ainda uma longa vida com a mulher Hermíone, governando tanto em Micenas como em Esparta. Para outras famílias amaldiçoadas, existentes da mitologia grega, a maldição só termina com a morte de todos os seus elementos. Na casa de Tântalo, após gerações de derramamento de sangue, Atena e Apolo encontraram uma maneira de apaziguar os tormentos da consciência, respeitar a lei e contra-atacar a maldição. O julgamento de Orestes assinala uma alteração crucial nas ideias da civilização que passam do poder da vingança para o poder da lei. [187]

Mitologia Grega
Apolo, Atena  Erínias Agamêmnon, Menelau, Helena, Clitemnestra, Egisto, Orestes
11/6/2019 12:23:11 PM | Por Alice Mills
A Guerra de Tróia

Antecedentes - Quando Tiestes assassinou o irmão Atreu e exigiu ser rei de Micenas, os filhos de Atreu, Agamêmnon e Menelau fugiram para Esparta para salvar a vida. O rei Tindareu desta cidade acabou por ajudá-los a destronar Tiestes e entregar o reinado a Agamémnon, o filho mais velho. Foi então a vez de Tiestes e Egisto fugirem para salvarem as respetivas vidas. Agamêmnon provou ser um grande general e comandante de homens, pelo que vários reis da Grécia não tardaram a prestar-lhe homenagem.

Matou o primo, o segundo Tântalo, e casou com a viúva, Clitemnestra, como saque de guerra. Esta era irmã gêmea de Helena, que iria passar a ser conhecida como Helena de Tróia. A mãe delas era a bela Leda, rainha de Esparta, uma das muitas mulheres mortais que Zeus (Júpiter) achou irresistíveis.

Um dia, quando Leda passeava junto ao rio Eurotas, Zeus transformou-se num magnífico cisne e foi desta forma que a violou. Leda deu à luz quatro filhos: Helena, Clitemnestra, Castor e Polidectes (Pólux). Alguns dizem que Helena e os dois rapazes se desenvolveram de um só ovo, e eram filhos de Zeus; outros referem que Helena e Polidectes eram os filhos de Zeus e que Clitemnestra e Castor eram filhos do rei Tíndaro de Esparta. Clitemnestra, todos concordam, era de proveniência mortal.

Esta e os irmãos gêmeos Castor e Polidectes (também conhecidos como Dioscuros, o que significa filhos de Zeus) avançaram para salvar Clitemnestra, mal souberam que Agamêmnon a tinha levado à força, mas este apelou ao pai dela, Tíndaro, e obteve consentimento para se casarem. Então Menelau pediu a Tíndaro a mão da outra filha de Leda, Helena. Quando ela era criança já tinha sido violada e casada à força com Teseu, e quando atingiu a idade para ter um casamento adequado, era tão bela que os muitos pretendentes iniciaram uma guerra por causa dela. Tíndaro queria casá-la com Menelau e entregou-lhe o reino de Esparta, mas este não sabia como evitar a violência dos outros pretendentes. Pediu ajuda ao sensato Ulisses, rei da Ítaca, que tinha ido para Esparta com todos os outros pretendentes, embora consciente das suas escassas hipóteses, já que era o pobre rei de uma ilha rochosa.

Ulisses respondeu-lhe: «Eu ajudo-te, se tu também me ajudares. Eu quero casar com Penélope, filha de ícaro, e preciso de alguém poderoso para interceder por mim.» Quando Tíndaro concordou, Ulisses aconselhou-o a fazer jurar a todos os pretendentes de Helena que aceitariam que fosse ela a escolher [169] quem queria para marido e que o ajudariam se alguém tentasse prejudicar o casamento. E foi por esta razão que tantos governantes gregos acorreram em auxilio de Menelau quando ele perdeu Helena.

Agamêmnon e Clitemnestra tiveram quatro filhos, um filho, Orestes, e três filhas, Electra, Crisótemis e Ifianassa (Ifigênia); Menelau e Helena tiveram também quatro filhos, três rapazes e uma moça, Hermíone. Ambos os casais pareciam prosperar e ter vidas felizes, mas a maldição sobre a casa de Atreu não tinha acabado, e a deusa Afrodite (Vênus) também estava zangada com Tíndaro por este negligenciar a adoração que lhe devia, pelo que decidiu castigar Clitemnestra e Helena pela ofensa do pai. Com os problemas em preparação, nem a família real de Micenas nem os parentes em Esparta tinham qualquer hipótese de um casamento livre de conflitos.

A Maçã (Pomo) da Discórdia

Foi a deusa da discórdia, Éris, quem deu início à cadeia de acontecimentos que levou ao rapto de Helena e a que Clitemnestra assassinasse o marido.

Muitos anos antes e muito longe de Micenas ou de Esparta, Éris tinha assistido ao casamento de Peleu e da deusa do mar Tétis, a mesma deusa por quem Zeus tinha ansiado e cujo filho estava destinado a destituir o pai. O rei dos deuses arranjou o casamento entre Peleu e Tétis para impedir uma guerra nos céus, mas Éris astutamente pôs em movimento uma questão que conduziria à maior guerra entre os homens de toda a mitologia grega, a Guerra de Tróia. Ela atirou para cima da mesa do banquete uma maçã de ouro com a seguinte inscrição: «Para a mais bela» e riu cheia de maldade quando as deusas discutiram por causa da maçã. Hera (Juno), Atena (Minerva) e Afrodite estavam todas elas convencidas de que tinham direito a ela, e quando nenhum dos deuses conseguia pôr fim à discussão, Zeus enviou-as para um juiz humano, o príncipe Paris de Tróia.

Este era filho do rei Príamo e da rainha Hécuba, de Tróia. Antes de ele ter nascido, a mãe teve um sonho em que tinha um filho incendiário que punha fogo a toda a Tróia. O adivinho Aesacus interpretou o sonho dizendo que o filho que ela carregava dentro dela haveria de destruir o reino e aconselhou-a a expor a criança na montanha, a fim de evitar que o sonho se tornasse realidade. O bebê Paris foi exposto no Monte Ida, mas uma ursa amamentou-o e depois foi adotado pelos pastores. Apenas o chefe de todos eles, Agelau, sabia a verdade sobre o parentesco da criança. Paris apaixonou-se pela náiade Enone, famosa pelas suas [170] artes de curandeira e que vivia uma vida sem preocupações de um pescador da Ida. Talvez o tivesse escolhido como juiz por ser um jovem simples e sem problemas ou talvez o rei dos deuses já se tivesse decidido por uma guerra que havia de consumir a juventude da Grécia e de Tróia nos dez anos seguintes. Era fácil a Zeus usar uma discussão entre as deusas para induzir Paris a raptar Helena e causar a Guerra de Tróia.

As três deusas desceram ao Monte Ida, com Hermes (Mercúrio), que era o mensageiro dos deuses, para dizer a Paris o que Zeus pretendia que ele fizesse. Ele não sabia o que fazer, pois fosse qual fosse a deusa que ele escolhesse, iria ganhar duas inimigas poderosas. Ele implorou-lhes que aceitassem a decisão sem se sentirem ofendidas e depois exigiu que as deusas se pusessem na frente dele nuas. Quando ele mostrou alguma hesitação, Hera disse: «Escolhe-me a mim, pastor, e farei de ti rei de toda a Ásia e dar-te-ei toda a riqueza que quiseres.»

Atenas num pescar de olhos acrescentou: -olhe-me a mim e dar-te-ei sabedoria e prudência, e ganharás todas as batalhas.» Afrodite guardou-se para o fim e murmurou: «Escolhe-me a mim e dar-te-ei a mulher mais bela do mundo.»

Paris ficou muito excitado com esta promessa e deu a maçã a Afrodite, deusa do desejo sexual.

Hera e Atena tinham prometido a Paris que não ficariam ofendidas, mas intimamente estavam a ferver de raiva e prometeram a si mesmas que a vitória de Afrodite significaria a destruição de Tróia.

Paris seguiu do Monte Ida para Tróia a fim de tomar parte nos jogos atléticos e ganhou todos os eventos em que participou. Os príncipes de Tróia, os outros filhos de Príamo, ficaram furiosos e quiseram matar este individuo que os tinha envergonhado a todos.

Então Agelau gritou:

«Este é o vosso irmão, Paris.» Hécuba e Príamo ficaram encantados, apesar de um oráculo os ter avisado que deviam matá-lo imediatamente, ou Tróia seria destruída. Quando Príamo, anos atrás, tinha concordado em expor o bebê na montanha, essa decisão tinha-lhe causado um enorme envelhecimento e muitos anos de arrependimento. Agora, fosse qual fosse a condenação do oráculo, recusava-se a matar o filho uma segunda vez.

«Preferia ver Tróia a arder», disse ele, numa premonição do destino, mais exata que qualquer oráculo.

Preparação para a Guerra

Paris esqueceu-se completamente de Enone e passou a estar obcecado com a ideia de conquistar a mais bela mulher do mundo - e quem poderia ser senão Helena, [171] filha de Zeus e de Leda e mulher do rei Menelau de Esparta? 

Ele disse à família que ia em busca de Hesíone, a mulher que tinha sido levada por Héracles uma geração antes, mas, na verdade, estava a planejar visitar Esparta e, de alguma forma, atrair Helena ao barco. Navegou para a Grécia e visitou o palácio de Menelau, onde foi tratado com a hospitalidade devida a um príncipe de Tróia. Passados poucos dias, Menelau partiu para Creta, deixando a mulher para tratar do hospede. Afrodite retirou a Helena todas as suas capacidades de raciocinar e de contenção e, em seu lugar, colocou uma paixão avassaladora por Paris. Assim, quando Menelau regressou, hospede e esposa tinham sucumbido à tentação e partido para Tróia.

Quando Menelau foi informado de que a mulher havia partido com Paris, de vontade ou sob coação, voltou-se para o irmão pedindo auxílio. Agamêmnon começou por pedir ao rei de Tróia a devolução de Helena, e quando [172] Príamo recusou, enviou mensageiros a todos os reinos da Grécia para recordar aos pretendentes de Helena o juramento que tinham feito. Intimou-os a juntarem os seus soldados e arranjarem navios para uma expedição a Tróia a fim de levarem Helena de volta a casa.

Quase toda a gente obedeceu, mas, pelo menos, duas pessoas opuseram-se a esta expedição: o jovem príncipe da iÍtaca, Ulisses, queria ficar em casa, como homem sensível que era, com a esposa Penélope e o filho recém-nascido Telêmaco. Quando Agamêmnon e Menelau foram a Ítaca para o convocarem e aos seus homens para a guerra, Ulisses fingiu-se de louco, pondo a canga numa donzela e um boi a lavrar e depois semeou a terra com sal em vez de sementes. Os reis sabiam da reputação de artífice de Ulisses e resolveram testar até onde ia a sua loucura. Puseram então o bebê Telêmaco no chão junto à lâmina do arado. Ulisses parou de lavrar e admitiu que estava suficientemente são para ir para Tróia com os outros.

O jovem Aquiles, filho de Pélias e de Tétis, teria gostado muito de ir para a guerra, mas a mãe queria mantê-lo na segurança do lar, pelo que o vestiu de mulher para enganar o mensageiro, Ulisses. Mas ele estava avisado do estratagema e resolveu representar também o seu papel. Pilhou no palácio alguns presentes de que as mulheres costumam gostar, como roupas finas e jóias, e entre elas também uma espada e um escudo. Tinha também dado ordem aos homens para baterem com as espadas nos escudos e tocarem a trompeta de guerra fora do palácio. Mal Aquiles ouviu aquele barulho, pegou na espada e no escudo e correu para fora. Tétis chorou amargamente, pois um oráculo tinha-lhe dito que Aquiles só teria uma longa vida se permanecesse em casa. Ela sabia muito bem que a carreira dele em Tróia seria violenta, gloriosa e curta. 

A armada grega reuniu-se em Áulis. Então a maldição sobre a casa de Atreu voltou a manifestar-se, com ventos desfavoráveis que retiveram a frota no porto. Os homens começaram a falar em abandonar a expedição pois os deuses estavam claramente contra. O adivinho Calças disse ao rei que a única forma de apaziguar os deuses era através do sacrifício da própria filha Ifigênia à deusa Ártemis (Diana). Agamêmnon mandou buscar Clitemnestra e Ifigênia, dizendo que queria casar a filha com o jovem herói Aquiles, o qual ficou ofendido com este embuste, mas o rei fez bastante pior quando sacrificou a própria filha cortando-lhe o pescoço. Há também quem diga que quando a faca começou a cortar, Ártemis substituiu a moça por um jovem veado, mas na maior parte das versões deste mito, Agamêmnon mata mesmo a filha. A mulher, Clitemnestra, regressou a Micenas, planejando vingar-se quando ele voltasse de Tróia. Os ventos sopraram de feição, a frota içou as velas e a guerra ia começar. [173]

A Guerra de Tróia

A guerra durou 10 anos, como todos os adivinhos tinham profetizado. Os navios gregos ancoraram suficientemente perto de Tróia para as suas tropas poderem avançar com os carros para uma batalha de um dia frente às muralhas da cidade. Encontravam-se, porém, também suficientemente perto para as tropas de Tróia avançarem nos seus carros para lhes lançarem fogo. A maior parte dos guerreiros lutou com grande heroísmo. Muitos homens morreram devido a ferimentos e outros por doença. No entanto, nove anos depois da chegada, os Gregos não tinham conseguido franquear os portões de Tróia nem os Troianos tinham podido expulsá-los.

Os deuses do Olimpo seguiam com muito interesse esta guerra, já que alguns dos guerreiros eram seus filhos ou netos. Ares (Marte) e Apolo tomaram partido por Tróia, assim como Afrodite (Vênus), que não provou ser uma grande lutadora na batalha, enquanto Atena (Minerva) era a favor dos Gregos e em especial de Ulisses, Hera (Juno) e Posídon (Netuno) também apoiaram os Gregos contra os Troianos, e Zeus (Júpiter) deixou que a guerra se arrastasse por 10 anos, tal como era previsto que durasse.

No décimo ano, o adivinho Calças, que tinha sido troiano mas que deixara a cidade ao prever a sua queda, quis que a filha Briseida se viesse juntar a ele no exército grego. Pediu por isso ao rei Agamêmnon que enviasse emissários ao rei Príamo de Tróia, pedindo-lhe que deixasse sair Briseida para se juntar ao pai. Com o consentimento de Príamo assim aconteceu e, passado pouco tempo, partilhava a cama com Aquiles. Aconteceu, em seguida, que Crises, um sacerdote de Apolo, pediu a Agamêmnon que lhe devolvesse a filha, que este tinha capturado e mantido como concubina. Quando o rei recusou, Apolo lançou uma doença sobre os Gregos que só passou quando ela foi libertada. Agamêmnon exigiu então Briseida de Aquiles para substituir a filha de Crises. Aquiles teve de obedecer ao seu líder, mas ficou muito ressentido e recusou-se a continuar o combate.

Dado que o melhor guerreiro decidiu não lutar mais, os Gregos propuseram uma trégua a ambos os exércitos.

O amante de Helena, Paris, e o marido ultrajado, Menelau, deveriam travar o combate um contra o outro. Paris era um arqueiro excelente mas não muito dotado na luta corpo a corpo, pelo que Menelau estava a ganhar o combate quando Afrodite envolveu Paris numa bruma que não permitia que o adversário o visse, podendo assim, graças à deusa, regressar à cidade e aos braços de Helena. Em seguida, o herói dos Troianos, o príncipe Heitor, desafiou Aquiles para uma luta apenas entre os dois, mas este continuou a negar-se a combater.

Os Gregos escolheram então Aias (Ajax) como o segundo melhor combatente e este lutou com Heitor durante quatro horas, sem que nenhum deles ganhasse vantagem sobre o outro. Quando já estava tão escuro que mal se viam, tiveram de suspender o combate. Os Troianos concordaram em respeitar uma trégua para os Gregos retirarem os mortos do campo de batalha e os poderem enterrar, mas, logo que esta tarefa fosse cumprida, os Troianos voltariam à carga até expulsarem os Gregos. Mais um dia de luta como este e os Troianos ganhariam a guerra.

Os Gregos estavam à beira do pânico generalizado. Aquiles ameaçava agora pegar nos soldados e navegar de regresso a casa. Então, o rei Ulisses surgiu com um plano engenhoso.

Ele e o amigo Diomedes rastejaram das tendas gregas e realizaram [174] um ataque súbito às tendas onde dormiam os aliados dos troianos.

Mataram um deles, o rei Reso, e roubaram os seus cavalos. Um oráculo tinha predito que Tróia manter-se-ia invulnerável se estes cavalos comessem comida troiana e bebessem água do rio Escamandro que corre junto à cidade de Tróia.

Tal não aconteceu, e quando os troianos descobriram o seu desaparecimento, ficaram de cabeça perdida e recuaram de todos os territórios que tinham conquistado no dia anterior. No dia seguinte, a batalha agitou-se de um a outro lado, com Hera a apoiar os Gregos e Zeus ajudando os Troianos até eles terem atingido os barcos gregos e começarem a incendiá-los. Nessa altura, Aquiles cedeu. Continuou a não lutar, mas enviou o amigo e amante Pátroclo para o combate em vez dele, levando a sua armadura e o seu carro para o campo de batalha. Os Troianos recuaram, enlouquecidos ao pensarem que Aquiles tinha voltado à luta. Os barcos foram salvos e Pátroclo conduziu um assalto às muralhas de Tróia. Apolo interveio, atingindo Pátroclo e perturbando-lhe o cérebro, pelo que Heitor de Tróia não teve dificuldade em matá-lo. Aquiles esqueceu o seu orgulho ferido e o ressentimento com o desgosto da perda do amigo e, solenemente, prometeu que vingaria Pátroclo no corpo morto de Heitor. [175]

A Morte de Heitor

Aquiles estava agora impaciente por voltar ao campo de batalha, mas a sua armadura tinha sido levada por Heitor que a tirou do corpo de Pátroclo. A mãe de Aquiles, Tétis, entregou-lhe novas armas forjadas por Hefesto (Vulcano). Usando as novas armas e ostentando o seu novo e esplêndido escudo, Aquiles forçou os Troianos a recuarem até ao Rio Escamandro e mesmo para lá dele até às muralhas de Tróia. Todos os Troianos estavam aterrorizados pelo medo de enfrentarem a cólera de Aquiles - todos, quer dizer, à exceção de Heitor, que se tinha preparado convenientemente para lutar com ele numa luta singular, como há muito desejava. O pai de Heitor, o rei Príamo, e a mãe, a rainha Hécuba, choravam com medo de que o amado filho pudesse morrer. A mulher de Heitor, Andrómaca, também chorava, enquanto segurava o pequeno filho de ambos, Astíanax, para dizer adeus ao pai.

Como num último adeus, Príamo, Hécuba, Andrómaca e o bebê olharam do cimo das muralhas enquanto Heitor atravessava o grande portão de Tróia.

Heitor - usando a armadura do próprio Aquiles que tinha tirado a Pátroclo - deixou-se ficar parado até Aquiles se aproximar e, então, estremeceu de horror e fugiu. Deu três voltas correndo em torno das muralhas tentando passar por um dos portões, mas Aquiles estava demasiado próximo. Por fim, Heitor virou-se para enfrentar o inimigo e Aquiles enfiou-lhe a lança na garganta, tendo ainda tido tempo para implorar a Aquiles que os Troianos pudessem recolher o seu corpo para lhe darem uma sepultura, mas ele recusou. Furou-lhe os artelhos e passou-lhe correias de couro pelos pés, que depois atou ao carro e deu três voltas a Tróia antes de arrastar o corpo para a tenda. Toda a cidade de Tróia receou que a morte de Heitor significasse a sua queda iminente.

Aquiles ainda infligiu outras violências ao corpo de Heitor como arrastá-lo três vezes por dia em volta da sepultura de Pátroclo. Os deuses detestaram este comportamento ultrajante e encheram-se de piedade de Heitor, cuja sombra não podia encontrar o caminho para o mundo dos mortos sem um enterro adequado. Apolo impediu que o corpo apodrecesse, e Zeus enviou o mensageiro Hermes (Mercúrio) para ajudar o rei Príamo a ir à tenda de Aquiles, secretamente, durante a noite, para resgatar o corpo do seu amado filho. Aquiles concordou na troca do corpo pelo seu peso em ouro e os Troianos amontoaram tudo o que encontraram num dos pratos de uma enorme balança, enquanto o corpo permanecia no outro. A princesa Políxena, uma das filhas de Príamo e de Hécuba, foi pôr as pulseiras no monte e Aquiles apaixonou-se por ela ao primeiro olhar, mas também não o suficiente para abandonar a guerra por ela.

Apesar de Heitor estar morto, continuava a haver muitos guerreiros em Tróia e novos aliados iam chegando. Entre estes estava Pentesileia, a Amazona. Fora ela que matara a mulher de Teseu, Antíope, pelo que já não podia ser nada nova por altura da guerra de Tróia, que aconteceu passada uma geração. Esta chegou durante o funeral de Heitor e partiu para a luta após 11 dias de luto. [176]

Aquiles haveria de a matar durante o combate, um ato de que se arrependeu quando viu, demasiado tarde, que o inimigo era, afinal, uma bela mulher. Pouco depois chegou um novo aliado, vindo de muito longe, Mémnon da Etiópia. Zeus pesou os destinos de Aquiles e de Mémnon na sua balança de pratos e o de Mémnon provou ser mais pesado. Não tardou a jazer morto, atravessado pela lança de Aquiles.

A Morte de Aquiles

Aquiles parecia ser invencível com o ódio pela morte do amigo Pátroclo. Forçava agora os Troianos para dentro da cidade e seguia-os através da Porta de Céias. Parecia que até ao fim do dia a guerra estaria terminada, com os gregos prontos a passarem para lá dos portões. Mas Aquiles foi ferido por uma flecha disparada pelo príncipe Paris, ajudado por Apolo, e que lhe acertou num calcanhar. Não tinha o aspeto de ser uma grande ferida, mas, afinal, provou ser mortal, pois o calcanhar era a única parte vulnerável do seu corpo. A mãe, Tétis, soube por um oráculo que o filho iria destituir o pai e ela quis proteger Aquiles, quando era bebê, dos perigos que enfrentaria numa batalha, que previa ir enfrentar em adulto. Mergulhou o bebê no Rio Estige, segurando-o por um calcanhar, e as águas tornaram todo o seu corpo invulnerável, à exceção do calcanhar (esta estória está na origem do nome «tendão de Aquiles» que é dado ao tendão no tornozelo, que os atletas lesionam com facilidade).

Foi este ponto fraco que Paris atingiu, e então o resto do corpo de Aquiles perdeu a proteção concedida pelo [177] deus. Paris disparou uma segunda flecha e Aquiles caiu morto atingido no coração. Era agora a vez dos gregos recuarem, transportando o cadáver de Aquiles para a respectiva tenda. A deusa Tétis foi até lá para chorar a morte do filho, fazendo-se acompanhar por nove Musas e as nereidas, as ninfas dos mares, filhas de Nereu. Aquiles desceu ao reino dos mortos onde Ulisses viria a encontrá-lo anos mais tarde, quando fazia a viagem de regresso da expedição a Tróia. Lá, o grande Aquiles haveria de dizer a Ulisses que preferia ser o último dos homens vivos, um pobre escravo, que a maior das sombras dos mortos, um rei no reino das trevas. Ele era o maior dos guerreiros gregos da sua geração, embora o julgamento final dele tivesse declarado que tinha desperdiçado a vida na guerra e nas suas glórias. A morte de Aquiles conduziu [178] a uma outra entre os gregos, quando Ulisses e Ájax competiam pela armadura que Hefesto lhe tinha dado. Ulisses foi considerado o guerreiro mais valente e foi-lhe atribuída a armadura como prêmio.

Ájax planeou uma vingança assassina sobre todos os Gregos.

Nessa noite, Atena enlouqueceu Ajax, pelo que confundiu vacas e ovelhas com guerreiros gregos, atou-as, insultou-as e depois matou-as. De manhã, ao constatar como o seu comportamento tinha sido ridículo, profundamente envergonhado e desgostoso, suicidou-se.

Sem Aquiles, os gregos procuravam agora ajuda nas profecias, para saberem se haveria alguma condição imposta pelos deuses, que pudessem cumprir, para conquistarem Tróia. Encontraram três predições: deviam ir buscar o filho de Aquiles, Neoptólemo, Filoctetes devia usar o seu arco no combate, e o Paládio tinha de ser roubado de Tróia. Para cumprirem estas profecias, os Gregos viraram-se para Ulisses, que tinha uma reputação merecida de ser eloquente e muito protegido por Atena.

Foi fácil para ele navegar até Ciros e trazer Neoptólemo, mas Filoctetes era muito mais difícil de persuadir. Quando Héracles jazia moribundo sobre a pira fúnebre, foi a Filoctetes que ele deu o seu arco. Este tinha partido com os outros heróis gregos para Tróia, mas muito antes de lá chegaram, tinha sido mordido por uma serpente e a ferida não sarava, escorrendo pus e emanando um fedor de tal forma fétido que os outros guerreiros o abandonaram na ilha de Lemnos. Era agora incumbência de Ulisses recuperá-lo para a causa grega. Para isso, tentou todas as formas de lisonja e adulação, mas Filoctetes estava irremovível. Só quando Héracles apareceu e lhe disse para ir para Tróia é que ele concordou em deixar Lemnos. Os médicos do exército grego curaram-lhe a ferida e foi ele quem disparou o arco de Héracles que matou Paris.

A Queda de Tróia

Ulisses começou então a pensar numa maneira de roubar o Paládio, que era uma estátua de Palas, amigo de Atena, que ela tinha matado em criança e que, segundo se diz, teria caído do céu. Atena protegeu os gregos durante a Guerra de Tróia, mas a presença do Paládio na cidade, com todo o seu significado pessoal implícito, impediam-na de participar na sua destruição. Roubar a estátua não havia de ser tarefa fácil, como não seria Ulisses conseguir entrar na cidade em guerra, mas ele tinha mesmo de ir buscar o Paládio genuíno, já que os troianos tinham feito muitas cópias, sabendo que o original era crucial à sobrevivência do reino.

Ulisses disfarçou-se de pedinte e arranjou forma de chegar ao quarto de Helena, no palácio de Príamo. Como Paris estava morto, o sogro tinha-a casado com outro dos seus filhos, Deífobo, mas ela estava desejosa de sair de Tróia. Helena era a única pessoa que Ulisses não podia enganar e ela reconheceu-o através do seu disfarce de pedinte.

Ela quis ajudá-lo e explicou-lhe onde estavam guardadas as estátuas e que poderia facilmente identificar a verdadeira já que era a menor. Ulisses afastou-se de Tróia mas voltou outra vez com o amigo Diomedes. Entraram no palácio através dos esgotos e trouxeram a estátua pelo mesmo caminho. Tróia tinha perdido a sua proteção. [179]

O Cavalo de madeira

A dado momento, Atena ajudou Ulisses a imaginar um estratagema brilhante: a construção de um cavalo de madeira. Este era uma criatura enorme, oca por dentro e capaz de abrigar 30 guerreiros. Era mais alto que a grande Porta de Céias de Tróia, pelo que os Troianos teriam de derrubar uma parte do portão se o quisessem meter dentro da cidade. Os Gregos gravaram uma inscrição na parte lateral do cavalo, onde dizia que ele era uma oferenda para Atena como recompensa pelo roubo do Paládio. Seguidamente, fizeram ostensivos preparativos para abandonarem a costa de Tróia, lançando fogo às tendas.

Quando os Gregos se foram, os Troianos aproximaram-se, primeiramente com todo o cuidado, depois correndo e gritando de alegria por o inimigo ter abandonado a luta e assim não ser preciso mais nenhum homem morrer.

Só duas pessoas em toda a cidade de Tróia pensavam de modo diferente, Cassandra, a filha de Príamo e de Hécuba, a quem tinha sido dado o poder da adivinhação pelo deus Sol Apolo, quando este lhe fez a corte. Porém, quando ela o repeliu, lançou-lhe uma maldição, exclamando: «Tu irás predizer a verdade, mas nunca ninguém acreditará em ti.» Agora Cassandra andava de um lado para o outro numa roda viva tentando que os Troianos não acreditassem nos Gregos, especialmente quando dessem presentes. Ninguém se deu ao trabalho se a ouvir.

Laocoonte, que era sacerdote tanto de Apolo como de Posídon, fez o mesmo aviso de Cassandra. Pressentindo que dentro do cavalo estavam muitos homens armados, tentou prová-lo com a sua lança, mas, de repente, surgiram duas enormes serpentes, vindas do mar, ondularam à volta de Laocoonte e dos dois filhos, tendo-os arrastado para as águas onde se afogaram, antes de escorregarem em direção a uma estátua de Atena, na cidadela de Tróia. Os Troianos ficaram [180] aterrados com este presságio, e alertados para o perigo subsequente. Atena já não lhe assegurava proteção, tal como nem Apolo nem Posídon protegiam o sacerdote. Algum deus impelia os Troianos para o seu destino, pelo que eles não deram atenção a estes avisos. Puxaram o cavalo de madeira para dentro da cidade, após terem demolido o portão para que ele passasse e depois festejaram pela noite fora.

Dentro do cavalo, Ulisses aguardava juntamente com os melhores guerreiros gregos. Enquanto os troianos continuavam a festejar, Helena aproximou-se do cavalo com o novo marido Deífobo e quase arruinou o plano de Ulisses. Ela chamou pelos guerreiros que estavam dentro do cavalo, fazendo várias vozes, imitando as das respectivas mulheres. Ela enganou todos, exceto Ulisses, que se apercebeu da estratégia de Helena, e Neoptólemo, que ainda não tinha mulher. Ulisses manteve a porta fechada e sussurrou aos amigos que as mulheres deles não podiam de repente ter chegado todas a Tróia, e eles ficaram envergonhados por terem caído na armadilha de Helena. Esta continuou a chamar com voz sedutora, mas ninguém foi tentado a lançar-se nos seus braços. Ninguém sabe a razão pela qual ela fez isto. Terá sido uma última tentativa de Afrodite para salvar Tróia, que a inspirou? Ou Helena seria uma mulher de humores, inconstante como o vento, primeiro traindo o marido, depois a nova casa e agora tentando trair de novo os gregos?

O Fim da casa de tróia

Helena partiu e passado pouco tempo todos os troianos estavam a dormir. Ulisses abriu a porta e os guerreiros gregos saltaram de dentro do cavalo de madeira e avançaram pela cidade, prontos a derrotar os inimigos agora indefesos. Começaram a incendiar as casas e a juntar as mulheres para as levarem como escravas. Os fogos serviram de sinal aos barcos gregos que se apressaram a voltar. Agamêmnon e o resto do exército correram pela Porta de Céias e juntaram-se à matança. O filho de Aquiles, Neoptólemo, usou a sua espada contra o velho rei Príamo que se tinha refugiado no altar de Zeus. Também matou o bebê de Heitor, Astíanax, para se assegurar de que não crescia para se vingar dele e o matar.

Andrômaca foi feita prisioneira como ela tinha previsto naquele dia fatídico em que viu o marido morto fora das muralhas de Tróia. [181]

A velha Hécuba fez o que pôde para combater os gregos, até que morreu. Então a sua sombra tornou-se num cão, um seguidor de Hécate. Polixena, que Aquiles amara, foi sacrificada na sepultura dele. Cassandra foi levada por Agamêmnon como despojo de guerra. A casa real de Tróia foi destruída.

Menelau correu em busca de Helena. Uns dizem que se desvaneceu em frente aos seus olhos pois não era senão um fantasma de Helena, e que ele viria a encontrar sua verdadeira e leal Helena no Egito, onde ela se tinha refugiado durante os dez anos que durou a Guerra de Tróia. Segundo outra versão, a verdadeira Helena viveu em Tróia, casou primeiro com Paris, depois com Deífobo e que ficou à espera de Menelau para o matar. Ela não disse nada em sua defesa. A única coisa que fez foi destapar o peito. Menelau recordou a sua paixão por aquela bela mulher e foi como se a guerra nunca tivesse acontecido. Afrodite sorriu ao ver marido e mulher nos braços um do outro. Para este casal, não houve mais provações. Contudo, para o resto dos gregos, à exceção do esperto e prudente Nestor, o regresso à Grécia haveria de ser problemático, por vezes, mortal. [182]

Mitologia Grega
Afrodite, Apolo, Zeus Aquiles, Heitor Tétis Agamêmnon, Menelau, Príamo, Páris, Helena
11/6/2019 9:31:00 AM | Por Carmen Seganfredo
O Sacrifício de Ifigênia

O cais de um porto grego. Ao fundo estão as efígies gigantescas de diversos navios, compondo uma esquadra. Há um grande ir e vir de soldados e ruídos de armas que se entrechocam involuntariamente. Calcas, o adivinho do exército, está inquieto, observando as velas das naus, que estão caídas e perfeitamente imóveis. Ele as observa, preocupado, por um bom tempo, indo e vindo lentamente, enquanto esbarra nos soldados. Neste instante entram Agamenon e Ulisses, fardados para a guerra. Calcas, avançando para ambos: - Nobre comandante! Os deuses dos ventos não parecem dispostos a nos auxiliar em nossa campanha. Veja como as velas de nossas naus colam-se aos mastros, como pendões inúteis.

Agamenon, encarando o adivinho com firmeza, lhe diz rudemente - Arúspice do óbvio, o que mais tem a nos dizer que já não o saibamos à exaustão?

Calcas baixa a cabeça, ocultando o despeito - Senhor, já consultei nosso oráculo, e ele sempre me repete o mesmo...

Um silêncio sobrevém por alguns instantes, até que o comandante o quebra.

Agamenon - Fica mudo... é isto, adivinho do silêncio?

Espocam alguns risos de pessoas que estão em torno.

Ulisses- Vamos, Calcas, não pode encadear uma frase na outra sem enfadar a alma de seus ouvintes com suas pausas aborrecidas?

Calcas, erguendo a cabeça - O que os fados têm a lhe dizer, valoroso capitão, talvez não sejam palavras que tragam muita alegria à sua alma.

Agamenon - Qualquer coisa me alegrará mais que este seu ar de mistério enfadonho. Vamos, diga logo o que suas artes mágicas disseram!

Calcas, cobrindo o rosto com o manto - Oh, mas são negras palavras...

Agamenon, aproximando seu rosto do adivinho - Negro ficará seu olho direito, postergador maldito! Vamos, diga o que tem a dizer ou retire já da minha presença a sua figura exasperante!

Calcas, tomando coragem - Comandante... O oráculo é categórico em afirmar que tal retardo dos ventos não tem outra causa senão a sua própria pessoal

Calcas, ainda, à parte - Pronto! Está dito tudo!

Ulisses, lançando o manto para trás - Agamenon culpado pela ausência de ventos, que há dois anos nos retém neste porto de Áulis? E por que razão os deuses poriam empecilho à partida dele e de nossos exércitos, se causa mais nobre e mais justa nunca houve no mundo?

Agamenon, bradando - Um cão traiçoeiro, de nome Páris, vem até a pátria de meu irmão Menelau, rapta-lhe a mulher, a mais bela de quantas houve em toda a Hélade, levando-lhe ainda os seus tesouros. Eu, seu irmão, decido, então, empreender junto com ele uma expedição até Tróia maldita para resgatar a sua esposa e a sua honra. Que há nisto tudo, adivinho insolente, que me indisponha contra qualquer divindade?

Algumas vozes levantam-se entre os ouvintes, que agora se apinham em volta dos três, ouvindo-se claramente esta frase - Basta! Voltemos para casa, pois não há mais dúvidas de que os deuses abominam tal expedição!

Agamenon, voltando-se para a soldadesca - Silêncio, escória! Se temos de levar tais soldados, que a qualquer pretexto renunciam à sua obrigação, vamos bem arranjados!

Ulisses, dispersando a multidão - Eia, canalha! Esta conversa não é para orelhas de asno!

Agamenon, pegando Calcas pelos ombros - Vamos, adivinho de maus agouros, diga tudo o que ouviu do oráculo.

Calcas, de espinha ereta, sentindo-se agora importante - Nobre comandante! Éos de róseos dedos ainda não havia surgido de todo no negro empíreo, quando me aproximei naquele dia, repleto de maus pressentimentos, diante do oráculo...

Agamenon, interrompendo-o - Esqueça a Éos maldita e ponha o sol bem no alto de seu relato, falador incansável, se não quiser adiar para sempre o seu palavreado!

Calcas, algo frustrado - Está bem, comandante, está bem. O oráculo me disse exatamente isto. - Mudando o tom da voz para um tom gutural, mas à sério - "Eis que os ventos cessarão de soprar, até que o presunçoso guerreiro se prosterne diante de Artemis sublime!"

Agamenon - O "presunçoso guerreiro" sou eu, suponho?

Calcas, encabulalado - Temo que sim, audaz comandante...

Agamenon - Adiante, debulhador de enigmas!

Calcas, retomando o fio - A deusa Artemis está enfurecida porque o senhor lhe fez há muitos anos uma promessa e está decidida a não aceitar mais postergações no seu cumprimento.

Ulisses, intervindo - Promessa? Que promessa?

Agamenon empalidece enquanto ambos aguardam a resposta.

Calcas - Outrora você prometeu à Artemis valorosa que lhe sacrificaria o mais belo ser que nascesse em seu reino...

Agamenon larga Calcas e afasta-se dele e de Ulisses, a passos lentos. Após alguns instantes de silêncio, volta-se para os companheiros e diz, com a voz alquebrada - Sim, é verdade, Ulisses fiel... Há muitos anos fiz tal promessa insensata.

Calcas - A deusa determinou que esta expedição só deixará este porto quando promessa for cumprida integralmente!

Ulisses - Mas quem é esse ser infeliz que deverá passar por tão terrível ordálio?

Calcas, erguendo a voz, como quem finalmente pode revelar um terrível segredo - A vítima não há de ser outra senão Ifigênia, a filha de Agamenon!

Agamenon faz menção de voltar a discutir com Calcas, mas desiste. Depois diz a Ulisses - Clitemnestra, minha esposa, jamais aceitará tal solução!

Um rebuliço desperta a atenção dos três: é Menelau quem chega, rodeado de seus generais.

Agamenon, adiantando-se para ele - Menelau, meu irmão!

Os dois imãos abraçam-se efusivamente.

Menelau- Agamenon, a situação está se tornando insuportável! A peste já começa a grassar entre os soldados!

Ulisses- Temos, também, a peste entre nós?

Menelau- Sim, já perdemos dezenas de homens. - Vira-se, então, para o adivinho - Calcas, já falou com meu irmão sobre o que precisa ser feito?

Calcas- Sim, comandante, mas receio que essa decisão custe mais do que possamos lhe exigir...

Agamenon, procurando justificar-se perante o irmão - Menelau, Artemis está tomada pela ira e exige que lhe dê minha filha, sangue do meu sangue, para que deixe de nos perseguir!

Menelau - É desnecessário repetir a história, Calcas já me contou tudo. Vim atrás de você para saber que decisão tomará quanto a isto.

Agamenon - Bem sei dos deveres que me prendem à deusa, embora a dor que me dilacera o peito. No entanto, há Clitemnestra, minha esposa. Ela jamais aceitará ver-lhe tirada dos braços a própria filha, que é a luz dos seus olhos!

Menelau - Permitirá, então, que as choradeiras de uma mulher provoquem a ruína de seu irmão e de sua pátria? É isto, caro irmão?

Agamenon silencia. Depois de alguns instantes, acabrunhado, resmunga: Se Clitemnestra concordar, acatarei a ordem da deusa.

Menelau, enfurecendo-se - Você se recusa a obedecer à deusa, isto é que é!

Um dos generais exclama: - Elejamos um novo comandante, ó Menelau!

Outras vozes aduzem:

Primeira voz- Isto! Isto! Um novo comandante!

Segunda voz- Morreremos todos da peste neste porto maldito!

Terceira voz- Cumpramos o que a deusa exige de nós!

Quarta voz- Que Palamedes seja, então, nosso novo comandante!

Ulisses, fazendo menção de se retirar- Se Palamedes assumir o comando, não tomarei parte nesta expedição.

Menelau, tomando Ulisses pelo braço: - Espera, filho de Ítaca! Depois, voltando-se para Agamenon: - Veja, Agamenon, a obra de sua fraqueza... Seus pruridos sentimentais começam a provocar a rebelião entre nossos próprios generais! Chegou a hora de tomar uma decisão.

Ulisses, para Agamenon, tentando acalmá-lo: - Compreendo seu dilema, Agamenon.

Façamos isto, então: sua filha, bem como sua esposa, não saberá do que irá acontecer, senão no último instante, quando se fará o que a deusa exige de você.

Calcas, à parte: - Ó astuto Ulisses! Agamenon - Um estratagema?

Ulisses- Exatamente. Vamos dizer a ambas que contratamos o casamento de Ifigênia com o valoroso Aquiles. Escreve à sua esposa e diga a ela que sua filha deve vir imediatamente até nós.

Agamenon - Está bem...

Ulisses- Mas, atenção: ela deve vir sozinha.

Calcas, à parte - Filho de Laerte, você será grande!

Ulisses- Diga a Clitemnestra que seria indigno da esposa de um rei aparecer diante dos seus exércitos.

Calcas, à parte: - Bem imaginado!

Menelau - Peça para ela que faça isto o mais rápido possível, pois aguardamos apenas a celebração deste casamento para partirmos para Tróia.

Agamenon - Mas e o que dirá Aquiles disto? Não ficará aborrecido ao saber que usamos seu nome em vão?

Ulisses - Pode ser em vão uma artimanha que livrará seu irmão da ignomínia e restabelecerá a honra de sua família?

Calcas, à parte: - Ó engenho sutil!

Agamenon, depois de algum tempo: - Está bem, tudo será feito como quiserem.

Menelau estende a seu irmão uma tabuleta, onde este deverá escrever a carta. Agamenon a toma, arrasado, e começa a escrever, debaixo de um silêncio opressivo.

Cai o pano.

O interior de uma grande tenda de campanha. É noite. Agamenon está deitado de bruços e chora convulsamente. Depois volta para cima o rosto coberto pelas mãos e exclama:

Agamenon - Zeus supremo, o que foi que fiz? Minha Ifigênia adorada ofertada em

holocausto! Oh, crueldade atroz! Ter o peito rasgado pela lâmina do sacrifício! Como pude permitir tal monstruosidade?

Depois de chorar mais um pouco, no entanto, Agamenon cessa abruptamente as lágrimas. Uma idéia lhe ocorreu.

Agamenon, pondo-se em pé, de um salto: - Não, não permitirei tal coisa! Desfarei o que maus conselhos me induziram a fazer!

Imediatamente pega uma tabuleta e põe-se a escrever freneticamente.

Agamenon - Eis o que escreverei a Clitemnestra: "Minha esposa, atente bem para o que lhe digo: não mande para cá a nossa querida Ifigênia. Guardou a tabuleta num invólucro e voltou-se para a entrada da tenda. - Soldado! Venha já até aqui!

Um soldado entra rapidamente.

Agamenon - Está vendo esta mensagem?

Soldado - Sim, senhor.

Agamenon - Quero que a leve, sem mais perda de tempo, até a minha esposa. Não dê descanso a seu cavalo, nem faça pouso ou parada alguma sob pena de sua própria vida, entendeu?

Soldado- Sim, senhor.

Agamenon - Vamos, retirá-se e vá dar cumprimento à sua missão. Agamenon fica só outra vez.

Agamenon, caindo outra vez no leito: - Que os deuses protejam minha Ifigênia e façam com que esse mensageiro chegue ainda a tempo!

As luzes apagam-se. Alguns instantes depois acendem-se novamente. Agamenon está adormecido. O dia amanhece. Menelau irrompe tenda adentro segurando algo.

Menelau, em altos brados: - Vamos, levante!

Agamenon acorda, assustado: - O que foi, meu irmão?

Menelau- "Irmão"! Falta pouco para que o proíba de me chamar por este nome, asseguro!

Agamenon - Por que as flamas da ira abrasam tanto seu coração? Menelau, lançando às faces do irmão a carta que este enviara às ocultas: - Aqui está, tratante, o motivo de minha ira!

Agamenon reconhece o objeto e fica revoltado.

Agamenon - Então você ousou me espionar e interceptar uma carta que mandei à minha esposa? Com que direito o fez?

Menelau - Com mais direito que você, que torna atrás de um compromisso solene que assumiu diante de mim e de meus generais. Acaso está brincando com a minha honra? Quer espalhar o escárnio e o deboche na boca de meus soldados?

Agamenon, tornando à humildade: - Um pai não tem, então, o direito de tentar salvar sua filha da morte cruel?

Menelau - Você não tem o direito de sobrepor à honra do Estado os seus mesquinhos interesses pessoais! Ifigênia terá a honra de ofertar sua vida em prol de milhares de seus cidadãos e de restaurar a honra de sua pátria. É pouco? Não basta?

Agamenon- A mim bastaria tê-la ao meu lado, mesmo no infortúnio, pois o que é a alegria e a honra sob uma ausência terrível?

Menelau - Basta de choradeiras! Ifigênia deve chegar em breve. Devemos avisar o sacerdote para que prepare logo o local do sacrifício, diante de nossas tropas.

Menelau sai da tenda e Agamenon, prostrado pelo insucesso de sua tentativa, cai derreado ao leito.

Acampamento. A tenda de Agamenon está à direita. O céu está carregado e alguns relâmpagos clareiam esporadicamente o cenário, quase mergulhado nas trevas, iluminado apenas por alguns archotes. Um grupo chega, num grande alarido. De uma liteira desce uma moça de grande beleza.

Vigia - Comandante! Ifigênia, filha de Agamenon, já está entre nós!

Ifigênia, ansiosa: - Onde está meu pai? Morro de saudades!

Agamenon, saindo de sua tenda, às pressas: - Minha filha! Oh, minha adorada Ifigênia!

Abraça-se dramaticamente à sua bela filha, em prantos.

Ifigênia, tomando o rosto do pai em suas mãos: - Meu pai, por que choras?

Agamenon- Não sei, minha filha, não sei... Só sei que as lágrimas caem-me aos pares dos olhos.

Ifigênia - Alegre-se, meu pai, pois venho para meu casamento. Teremos uma festa, pois não?

Agamenon - Festa... Sim... Um sagrado himeneu...

Aos poucos vão chegando os demais, Menelau, Ulisses e Calças.

Ifigênia- E, então, onde está meu futuro marido?

Agamenon, quase divagando: -M-marido...?

Ifigênia, alegremente: - Sim, papai, o homem junto do qual sacrificarei a Afrodite.

Agamenon - Sacrificará...!

Ifigênia - Que tem, afinal, meu pai? Voltando-se para Menelau: - Papai está doente, meu tio?

Menelau - Seu pai esteve um pouco doente, Ifigênia... A cólera tem dizimado muitos homens por aqui.

Ifigênia, abraçando-se ao pai: - Oh, meu pai, doente! Volte para a cama, papai!

Agamenon - Estou bem, minha filha... À parte: - Minha doença chama-se remorso...

Nesse instante, Clitemnestra surge repentinamente.

Clitemnestra - Ora, que tantos abraços e lágrimas são estes, afinal, que ouço desde lá de fora do acampamento?

Todos ficam estupefatos diante da presença inesperada da esposa de Agamenon.

Agamenon, desvencilhando-se dos braços da filha: - Clitemnestra! Que faz aqui?

Clitemnestra, fazendo pouco caso do marido: - Perguntar a uma mãe o que faz junto da filha no dia do seu casamento é uma pergunta que só um toleirão como você, meu marido, poderia fazer.

Agamenon- Casamento... Casamento de quem?

Ifigênia- Da sua distração com sua desatenção, por certo!

Menelau, adiantando-se com um ar severo: - Clitemnestra, não recebeu uma carta ordenando expressamente que não viesse juntamente com sua filha Ifigênia?

Clitemnestra, olhando-o duramente: - Naturalmente que resolvi desobedecer "expressamente" uma carta néscia e atrevida como esta. Esse disparate, aliás, é bem seu, caro Menelau! Se sua própria esposa Helena não lhe deu ouvidos! - Depois, voltando-se para todos os lados: - E o noivo, o belo Aquiles, onde está? Quero ver com meus próprios olhos se é mesmo tudo aquilo que dele dizem por aí.

Um relâmpago ofusca tudo, fazendo com que Ifigênia se encolha.

Clitemnestra - Ifigênia, querida, ao que vejo seu casamento se fará sob os auspícios de Zeus tonante! Já sinto o cheiro da chuva errando no ar. Aspira profundamente.

Um trovão estoura, sacudindo tudo.

Clitemnestra - Viva! Adoro chuva! Vejam só que trovão. - Depois, voltando-se para os demais: - Onde estão as lonas de proteção? Não estão vendo que um temporal vai desabar em instantes?

De repente Clitemnestra identifica Calças, o adivinho.

Clitemnestra - Ah, aí está o decifrador de oráculos! Então, faça uso dos seus poderes e traga logo Aquiles até nós. Vamos, velho charadista, dê logo um jeito nisto!

Calças - A esposa de Agamenon há de entender que meus dons não são exatamente estes, senão os de receber e interpretar os oráculos sagrados que a mim são revelados...

Clitemnestra, dando-lhe as costas: - Adeus, charlatão. Não estou para dar ouvidos a um homem que fala mais do que a ninfa Eco!

Ifigênia, depois de deixar o pai no interior de sua tenda, reaparece em prantos.

Ifigênia, abraçando-se à mãe: - Mamãe, papai está mal! Às vezes diz que este é um momento de grande alegria, para logo em seguida cair num pranto convulso. Há algo errado com ele, deve estar muito doente!

Clitemnestra - Esqueça o seu pai. Deve estar bêbado. Eles sempre ficam nesse estado às vésperas de perder suas filhas.

Nesse instante, Aquiles, o noivo, aparece. Os demais já se retiraram.

Clitemnestra - E este, agora, quem é?

Aquiles- Perdão, não quis interrompê-las...

Clitemnestra - Esteja à vontade. - À parte: (Bonito deste jeito, bem poderia ser o eleito de minha filha!) - Sou a esposa de Agamenon e esta é minha filha, Ifigênia.

Aquiles- Encantado em conhecê-las.

Clitemnestra - E você, jovem guerreiro, quem és?

Aquiles- Sou Aquiles, filho de Peleu e Tétis.

Clitemnestra, eufórica: - Ora, então, o que achou de sua noiva?

Aquiles- Perdão, senhora, mas não entendo suas palavras.

Ifigênia - Mamãe, o que está havendo, afinal?

Clitemnestra- O que está havendo é que ou todos os homens deste acampamento enlouqueceram ou estão bêbados como a burra de Sileno!

Ifigênia, para Aquiles: - Eu sou a mulher que meu pai resolveu lhe dar por esposa.

Aquiles, se irritando: - Perdão, mais uma vez, bela jovem, mas nada sei de tal casamento. Devem ter-lhes feito uma burla.

Ifigênia oculta o rosto no ombro de sua mãe.

Clitemnestra, tornando-se repentinamente séria: - Escute aqui, rapaz, que espécie de tramoia estão todos armando para cima de minha filha? Vamos, conte logo o que sabe!

Aquiles- Estou nisto tão inocente quanto meus netos que estão por vir, minha senhora.

Clitemnestra -Está bem, meu jovem. Terei de lançar mão, então, de meus meios! Por Afrodite sagrada que vou descobrir o que esses malditos tramam contra minha filha.

Clitemnestra olha para os lados e vê um de seus serviçais. Faz-lhe um sinal para que venha até ela.

Clitemnestra- Conheço você. É o serviçal direto de meu esposo, Agamenon, e sei que são íntimos o bastante para que ele de você nada oculte. Conte-me, então, tudo o que se planeja com relação à minha filha, ou vou armar uma intriga tão medonha para o seu lado que Agamenon em menos de vinte e quatro horas mandará fazê-lo em pedaços e lançar seus restos aos cães. Fui clara, lacaio?

Serviçal- Mas não posso trair a confiança de meu senhor.

Clitemnestra - Você já disse o principal. Realmente aquele cão trama algo contra minha Ifigênia. Diga o resto, vamos!

Serviçal, intimidado: - O oráculo da deusa Artemis exige o sacrifício de sua filha para que os exércitos possam ter sucesso em sua campanha. Agamenon foi obrigado a ceder. Eis tudo.

Clitemnestra, horrorizada, abraça-se à sua filha: - Ifigênia posta sob a pedra dos sacrifícios! Estarei escutando isto?

Aquiles - Isto é terrível! Por que usaram meu nome para acobertar tal monstruosidade?

Ifigênia - Acalme-se, mamãe! Papai é contra esse sacrifício e impedirá que tal coisa aconteça!

Clitemnestra- Seu pai é um fraco, um joguete nas mãos daquele imbecil de seu tio!

Além do mais sua vaidade falará mais alto quando tiver a oportunidade de ostentar seu poder perante essa canalha inteira. Ouça o que estou lhe dizendo!

Ifigênia- Não, mamãe, não diga tal coisa!

Agamenon sai de sua tenda e vem em direção ao pequeno grupo.

Serviçal- Meu senhor aproxima-se. Devo retirar-me.

Aquiles- Também vou junto com você.

Clitemnestra- Vejamos o que este pulha tem a nos dizer!

Agamenon -Vamos para dentro, minhas queridas. O temporal pode desabar a qualquer momento.

Ifigênia, para seu pai: - Meu pai, que mal fiz eu para Artemis para que queira meu sangue em holocausto?

Agamenon, arregalando os olhos: - O que dizes, minha filha?

Clitemnestra, enfurecida: - Vamos, fingido, já sabemos de tudo! Como ousa oferecer sua própria filha em sacrifício para saciar a ambição e o despeito de seu irmão? Prefere, então, este pulha à sua própria filha?

Ifigênia, tomando as mãos de Agamenon: - Papai, você não permitirá isto, não é?

Agamenon, completamente abatido: - Pensa, minha filha, que não sofro diante desse terrível fado que pesa sobre você?

Clitemnestra - Monstro insensível! Quer levar avante, ainda, esse plano hediondo? Vai permitir que mãos assassinas enterrem o punhal do sacrifício no peito da filha que viu sair de minhas entranhas? Espera, então, que eu retorne para nossa casa sem ela? Que direi a todos? Que direi a Orestes, irmão dela, quando o pobre indagar de sua irmã? Diz em falsete: - "Orestes, meu filho, sua irmã casou, é verdade, mas em vez do belo Aquiles, tomou Caronte por esposo!"

Agamenon - Minha esposa... Desgraçadamente coube a mim a má sorte de fazer o primeiro grande sacrifício desta guerra! Muitos outros ainda virão, no entanto, e não cairão somente sobre nós. Os tempos são negros, e a cada qual caberá uma cota de sacrifício e de dor...

Ouvem-se vozes e brados distantes.

Primeira voz- Chegou a hora de aplacarmos a ira da deusa!

Segunda voz- Basta! Nossos homens morrem como moscas!

Terceira voz - Procedamos logo ao sacrifício!

Ifigênia corre aos prantos para os braços do pai, enquanto Clitemnestra permanece hirta, com o ar feroz e determinado.

Ainda no acampamento. Aquiles entra correndo e dirige-se a Clitemnestra e Ifigênia. Os relâmpagos estão mais intensos e trovões ribombam a todo instante.

Aquiles- Os soldados exigem que Ifigênia seja levada imediatamente ao altar!

Agamenon - Espere, tentarei ainda demovê-los.

Agamenon retira-se.

Ifigênia, para Clitemnestra: - É o fim, minha mãe! As Moiras cruéis já têm em suas mãos a tesoura que cortará o fio de minha vida.

Clitemnestra- Não, minha filha! Aquiles está aqui e há de proteger-te.

Aquiles- Infelizmente meus próprios homens se rebelam, Ifigênia! Mas nem por isso arredarei pé de seu lado. Saca então sua espada e põe-se em posição de defesa.

Ifigênia - É loucura, Aquiles amado! À parte: (Amado, que digo? Sim, amado, porque você me defendeu, ainda mais que meu próprio pai!)

O ruído dos gritos aumenta.

Ifigênia desvencilha-se da mãe e de Aquiles e aponta na direção de onde vêm os gritos:

- Eles todos têm razão! É preciso que se proceda ao sacrifício sem mais demora!

 

Mitologia Grega
Artemis Aquiles  Ifigenia - Agamenon - Menelau
10/27/2019 11:06:12 AM | Por A. S. Franchini
Hera: a Rainha

— Sim, agora minha pequena Hera está a salvo... Mas até quando? Assim dizia Reia, após ver resgatada, do ventre de seu cruel esposo Crono, a sua filha querida. O velho deus havia engolido um a um os seus filhos, tão logo estes haviam nascido; Zeus, porém, lhe ministrara uma bebida encantada, obrigando-o a regurgitá-los de volta para os braços da mãe. Reia, a precavida, imaginava agora um meio de manter a salvo a sua filha dileta. "Tenho um pressentimento de que a ela está destinado um lugar de honra na corte celestial!", pensava a deusa, acariciando os cabelos de Hera. Imaginava Reia, como todas as mães, divinas ou não, que sua filha excederia em beleza e poder todas as outras filhas da face da Terra ou da imensidão do céu.

De repente seus olhos avistaram, para o ocidente, um fulgor intenso.

— É isto! — exclamou Reia, feliz. — Levarei-a para o país das Hespérides! Hespérides eram três encantadoras deusas que governavam um país paradisíaco, onde a primavera era eterna e a necessidade não existia.

— Queridas amigas, preciso entregar a minha bela Hera aos seus cuidados, pois  somente aqui ela estará em segurança.

Abriram um largo sorriso, enquanto uma delas envolvia a deusa em suas vestes

esvoaçantes.

— Vá em paz, Reia — disse esta. — Nós faremos da sua filha a mais poderosa das

deusas. Hera respondeu apontando o dedo para o céu.

O tempo passou e Hera tornou-se uma deusa de maravilhosa beleza. As Hespérides eram unânimes em reconhecer este seu atributo, que fazia par com o da perfeita sapiência.

— Vejam: os animais e mesmo as flores parecem ficar felizes tão logo sua presença se anuncia — diziam alegremente as irmãs, todos os dias, umas às outras.

Hera, contudo, apesar de estar satisfeita naquele lugar paradisíaco, ambicionava mais alto.

Com olhos postos no céu, suspirava todos os dias:

— Tudo é belo... mas eu queria mesmo era ser rainha do céu.

Por uma natural inclinação, a moça procurava sempre os lugares mais altos da ilha para dar largas à sua imaginação. Havia um rochedo, à beira-mar, que era o seu refúgio especial.

— Mais um passinho e posso quase tocar o céu... — dizia ela, brincando e esticando seu alvo dedo.

Um dia, estando ali sentada, sentiu muito calor. Então avistou no horizonte uma nuvem que vagava meio sem jeito, como que perdida das outras.

— Adoro chuva! — pensou, esticando o pescoço na ânsia de ver as companheiras

daquela comparsa extraviada. — O único defeito deste país encantador, se há algum,  é o de chover tão pouco!

Então pôs-se em pé, cerziu os olhos e começou a pensar com toda a força:

— Quero muito que chova! Que chova muito! E o que quero!

Hera reabriu os olhos e viu que agora aquela nuvem mal-esboçada e solitária, lá adiante, havia ganho uma inesperada e rechonchuda companheira. A jovem fechou os olhos outra vez e repetiu com toda a força:

— Quero muito que chova! Que chova muito! É o que quero!

Quando reabriu outra vez os seus olhos, viu que um exército de outras nuvens havia se juntado à primeira, engolfando-a num turbilhão escuro e barulhento. Hera colocou-se na ponta dos pés e aspirou profundamente.

— Hmmm.... Perfume de chuva, não há outro igual.

Num instante as nuvens chegaram, e a jovem deusa comandou do alto ma tremenda

tempestade, como nunca as Hespérides haviam visto. Os raios miam ao redor da jovem os seus espadins recurvos, porém sem nunca atingi-la, enquanto a água da chuva a envolvia num frescor delicioso.

Depois que a chuva passou e um vento fresco secou suas roupas, afastando-o para longe as nuvens tempestuosas, Hera olhou para o céu, novamente azul.

— Tudo é belo... Mas eu queria mesmo era ser rainha do céu.

Neste instante uma águia de asas imensas surgiu das alturas. A ave, após rodopiar ao

redor da deusa, agarrou-a delicadamente e suspendeu-a no ar. Hera, embora surpresa, não se assustou; algo lhe dizia, secretamente, que o seu sonho começava a se concretizar.

— Para onde me leva, águia sutil?

Foram ambas subindo, a águia e a deusa, até que, adentrando o próprio ceu. Hera viu-se diante do jovem Zeus.

— Estou no céu! — gritou Hera, de olhos brilhantes.

O pai dos deuses explicou então a Hera tudo o que havia ocorrido e como ele a havia

salvo do ventre do tirânico pai de ambos, Crono.

Hera, agradecida, abraçou os joelhos de Zeus. Depois disse a ele, radiante de esperança:

— Tudo o que você diz é belo... Mas eu queria mesmo...

O pudor, entretanto,impediu-a de repetir pela milésima vez o seu desejo.

— Sim, adorada Hera, você será, sem dúvida, rainha do céu — completou Zeus, sorridente, que escutara diversas vezes, ali do alto, a jovem clamar por seu desejo. — Desde que a vi manejando a tempestade e orquestrando os raios, decidi que seria a esposa ideal para mim.

E foi assim que Hera casou-se, tornando-se Rainha do Céu e dando início à história do casal mais famoso da mitologia antiga.

Mitologia Grega
Hera, Zeus   
10/27/2019 10:23:16 AM | Por A. S. Franchini
As orelhas de Midas

Quando Midas deixou de ser rei, ele foi habitar os campos, juntamente com Pã, a divindade dos bosques. Ali vivia em agradáveis conversas com a mais feia e desagradável das divindades, que tinha pés de bode e corpo peludo, parecendo em tudo um fauno. Este deus, apesar de ser pouco favorecido pela beleza, tinha um dom inegável para a música. Tendo inventado uma flauta, passava seus dias se exercitando, de tal sorte que havia adquirido uma destreza ímpar com o seu instrumento. Empolgado com seu talento, resolveu um dia desafiar o próprio Apolo para um concurso de música. Midas ainda tentou, precavidamente, demovê-lo da idéia:

— Não sei, Pã, mas não acho recomendável pretender bater-se com o próprio Apolo. Com sua lira, ele não tem rival.

— Afinal, você é meu amigo ou amigo de Apolo? — disse Pã, fazendo uma careta de desagrado que o tornou mais repulsivo ainda.

Como o deus dos bosques não se mostrasse disposto a evitar o confronto, mandou-se um mensageiro atrás de Apolo, encarregado de lhe levar ao conhecimento o desafio. Apolo concordou em realizar a disputa e, chegando ao local do embate musical, perguntou, em tom debochado."

— Quem é o atrevido que ousa se achar melhor do que eu? Será meu filho Orfeu, talvez?

— Não, sou eu, Pã, que com minha flauta provarei ser melhor do que você!— exclamou o deus, confiante.

Os deuses todos do Olimpo reuniram-se para assistir ao desafio, que se deu no próprio bosque onde residiam Midas e Pã. O próprio Ímolo, deus da montanha, afastou as árvores de seus ouvidos para escutar melhor os acordes dos dois competidores.

Sentando-se numa grande pedra, Pã sacou de sua flauta e começou a soprar sobre os tubos enfileirados de seu instrumento. Um som melodioso e triste partiu daqueles minúsculos orifícios, espalhando-se pelo ar com tal encanto e sonoridade que os próprios pássaros silenciaram para escutar. As folhas das árvores despejavam o orvalho acumulado em suas folhas com tal intensidade que parecia que choravam, comovidas com os acordes da triste música. Os deuses escutavam com atenção, agradavelmente impressionados. Alguns julgavam mesmo que dificilmente Apolo faria melhor com sua lira. Quando Pã terminou seu recital, todos aplaudiram-no com entusiasmo.

Agora era a vez de Apolo demonstrar seu talento. Lançando para as costas a sua túnica púrpura, o deus do Sol ajeitou a folha de louro sobre a orelha. Depois, empunhando a lira de ouro, começou a deslizar pelas cordas finas como teias de aranha os seus dedos delicados, arrancando delas um som que era nada menos do que celestial.

Outra vez os olhos dos circunstantes encheram-se de brilho. A natureza silenciara uma vez mais, para escutar os ritmos e tons do instrumento, acompanhados ainda pela voz maviosa de Apolo, que unira assim dois instrumentos num só — o que o seu adversário não pudera fazer, por ter uma voz estridente e desafinada. Por isto dizia-se que a flauta de Pã era mágica, pois conseguia transformar sua voz anasalada num som limpo e perfeitamente modulado.

Enquanto Apolo executava sua canção, foi crescendo no entendimento de todos a certeza de que seria ele o vencedor, afinal. Com o último acorde de sua lira, os aplausos choveram de todos os lados.

— Bem, vamos ao julgamento — disse o deus da montanha, que já tinha seu voto firmado.

Um a um foram os deuses dando seus vereditos — sendo desnecessário requisitar-se o voto de Minerva, aquele que decide as questões controversas, pois ali parecia não haver lugar algum para a controvérsia.

— Pã foi maravilhoso, mas Apolo foi insuperável! — disse Afrodite, dando seu voto.

— Não pode haver dúvidas de que Apolo, unindo sua voz à de sua lira, é o vencedor! — disse Hermes, de maneira enfática.

— Apolo é o melhor — afirmou Hera, com sua habitual reserva.

Todos votaram, até que chegou a vez de Midas revelar o seu voto. Vendo que seu amigo estava fragorosamente derrotado, resolveu dar-lhe um voto de consolo — pois sabia ele que Apolo se saíra muito melhor.

— Apolo é imbatível com sua voz melodiosa e sua lira afinada, todos sabem. Infelizmente para ele, hoje sua lira esteve minimamente desafinada, o que qualquer ouvido mais apurado deve ter percebido — começou simplesmente a dizer Midas. — Entretanto, a flauta de Pã esteve simplesmente perfeita, e os sons que saíram dela não perderam um tom do seu brilho e musicalidade. Foi uma execução absolutamente impecável e, por isto, não hesito em afirmar que Pã foi, inequivocamente, o vencedor.

Alguns aplausos soaram, mas Apolo estava francamente revoltado com o julgamento de Midas. Seu semblante alterado denunciava a sua vaidade ofendida, pois esperava vencer com a unanimidade dos votos, tornando sua vitória absoluta e irrefutável. "Quem este idiota pensa que é?", pensou o deus, enquanto fuzilava um olhar mortal sobre Midas. Este, percebendo a fúria acesa nos olhos do ofendido, tentou consertar:

— Quero deixar bem claro que a derrota de Apolo, no meu modesto entender, se deveu não à sua imperícia, mas a um defeito de afinação do próprio instrumento...

Mas já era tarde demais; o estrago já estava feito, e seu adendo perdeu-se em meio ao burburinho dos circunstantes, que se dispersavam para retornar aos seus lares.

Apolo, entretanto, decidiu aguardar o atrevido que ousara desfeiteá-lo em público, daquela maneira. Tão logo se viu a sós com o juiz adverso, assumiu um ar vingativo:

— Já que suas orelhas parecem ser mais apuradas do que as dos demais, lhes darei um formato mais de acordo com elas — disse, lançando sobre o pobre Midas uma praga.

Assim que Apolo lhe deu as costas, Midas sentiu que suas orelhas começavam a crescer. Tufos de cabelos nasciam nas covas do imenso pavilhão que apontava nos dois lados da cabeça.

Em menos de um minuto Midas tinha colado nos dois lados da cabeça um imenso par de orelhas de burro.

— Está aí o que se ganha em querer ajudar os amigos! — disse, ao ver que ficara algo

parecido com Pã, que também tinha suas orelhas pontudas de silvano, só que em tamanho muito maior.

Desconsolado, Midas tentou esconder seus horríveis apêndices com um barrete, que enterrou na cabeça, até ocultá-los totalmente. Assim viveu durante um certo tempo, até que um dia seu cabeleireiro veio, a seu pedido, até o bosque para lhe cortar o cabelo. Ao retirar a proteção de sobre a cabeça do cliente, o barbeiro encheu-se de assombro, e ia falar, mas Midas interrompeu-o, tomando-Ihe a tesoura com grosseria:

— Cale-se, não diga uma palavra, idiota! Se ousar abrir o bico e contar para alguém, corto fora... as suas orelhas!

O barbeiro, assustado, silenciou rapidamente, executando a sua tarefa com discrição. E, ao final do trabalho, juntou seus instrumentos e afastou-se, desaparecendo bosque adentro. No entanto, sua língua ardia, a vontade de falar era intolerável, pois todos sabem como os profissionais dessa classe adoram uma novidade.

Não podendo mais se conter, decidiu parar no caminho e cavar com a tesoura um buraco no chão. Depois, abaixando-se, protegendo a boca com as mãos, ciciou no interior do buraco estas palavras:

— Midas tem orelhas de burro...

E cobriu a fenda com terra, logo em seguida.

O tempo passou, até que no local brotou um feixe extenso de bambuzal. Tão logo o primeiro vento mais forte soprou entre os caniços, arrancou deles as palavras que, ainda que entoadas num sussurro, eram perfeitamente audíveis:

— Midas tem orelhas de burro...

Mitologia Grega
Apolo   
10/26/2019 12:03:33 PM | Por Clarissa Pinkola Estés
A água da vida

Era uma vez um rei muito poderoso que vivia feliz e tranquilo em seu reino. Um dia adoeceu gravemente e ninguém esperava mais que escapasse. Seus três filhos estavam consternados vendo o estado do pai piorar dia a dia. Choravam no jardim quando surgiu à sua frente um velho de aspecto venerável que indagou a causa de tamanha tristeza. Disseram-lhe estar aflitos por causa da enfermidade do pai, já que os médicos não tinham mais esperanças de o salvar. O velho lhes disse: “Conheço um remédio muito eficaz que poderá curá- lo; é a famosa Água da Vida. Mas é muito difícil obtê-la.” O filho mais velho disse: “Vou encontrá-la, custe o que custar.” Foi imediatamente aos aposentos do rei, expôs-lhe o caso e pediu permissão para ir em busca dessa água. “Não. Sei bem que essa água maravilhosa existe, mas há tantos perigos a vencer antes de chegar à fonte que prefiro morrer a ver um filho meu correndo esses riscos” disse o rei. O príncipe porém insistiu tanto que o pai acabou por consentir. Em seu íntimo o príncipe pensava: “Se conseguir a água me tornarei o filho predilecto e herdarei o trono.” Partiu pois montado em rápido corcel na direcção indicada pelo velho. Após alguns dias de viagem, ao atravessar uma floresta viu um anão mal vestido que o chamou e perguntou: “Aonde vais com tanta pressa?” “Que tens com isso, homúnculo ridículo? Não é da tua conta” respondeu altivamente sem deter o cavalo. O anão se enfureceu e lhe rogou uma praga. Pouco adiante o príncipe se viu entalado entre dois barrancos; quanto mais andava mais se estreitava o caminho, até que não pôde mais avançar nem recuar, nem voltar o cavalo nem descer. Ficou ali aprisionado sofrendo fome e sede mas sem morrer.

O rei esperou em vão sua volta. O segundo filho, julgando que o irmão tivesse morrido, ficou contentíssimo pois assim seria o herdeiro do trono. Foi ter com o pai e lhe pediu para ir em busca da Água da Vida. O rei respondeu o mesmo que ao primeiro; por fim cedeu ante a insistência do rapaz. O segundo príncipe montou a cavalo e seguiu pelo mesmo caminho. Quando atravessava a floresta surgiu-lhe o anão mal vestido e lhe dirigiu a mesma pergunta: “Para onde vais com tanta pressa?” “Pedaço de gente nojento! Sai da minha frente se não queres que te espezinhe com meu cavalo.” O anão lhe rogou a mesma praga, assim o príncipe acabou entalado nos barrancos como o irmão.

Passados muitos dias sem que os irmãos voltassem, o mais moço foi pedir licença ao pai para ir buscar a Água da Vida. O rei não queria consentir, mas foi obrigado a ceder ante suas insistências. O jovem príncipe montou em seu cavalo e partiu; quando encontrou o anão na floresta ele, que era delicado e amável, deteve o cavalo dizendo: “Vou em busca da Água da Vida, o único remédio que pode salvar meu pobre pai, que está à morte.” “Sabes onde se encontra?” perguntou o anão. “Não.” “Pois já que me respondeste com tanta amabilidade vou te indicar o caminho. Ao sair da floresta não te metas pelo desfiladeiro que está à frente, vira à esquerda e segue até uma encruzilhada; aí segue ainda à esquerda. Depois de dois dias encontrarás um castelo encantado: é no pátio dele que se encontra a fonte da Água da Vida. O castelo está fechado com um grande portão de ferro maciço, mas basta tocá-lo três vezes com esta varinha que te dou para que se abra de par em par. Assim que entrares verás dois leões enormes prestes a se lançarem sobre ti para te devorar; atira-lhes estes dois bolos para apaziguá-los. Aí corre ao parque do castelo e vai buscar a Água de Vida antes que soem as doze badaladas, senão o portão se fecha e tu ficarás lá preso.”

O príncipe agradeceu gentilmente, pegou a varinha e os dois bolos e se pôs a caminho, e conforme as indicações chegou ao castelo. Com a varinha mágica bateu três vezes e o imenso portão se abriu; ao entrar os dois leões se arremessaram contra ele de bocas escancaradas, mas atirou-lhes os dois bolos e não sofreu mal algum. Porém antes de se dirigir à fonte da Água da Vida não resistiu à tentação de ver o que havia no interior do castelo, cujas portas estavam abertas: galgou as escadas e entrou. Viu uma série de salões grandes e luxuosos. No primeiro, imersos em sono letárgico, viu uma multidão de fidalgos e criados. Sobre uma mesa estava uma espada e um saquinho de trigo; pressentiu que lhe poderiam ser úteis e levou-os consigo. Indo de um salão a outro, no último deu com uma princesa de rara beleza, que se levantou e disse que, tendo conseguido penetrar no castelo, destruíra o encanto que pesava sobre ela e todos os súditos do seu reino; mas o efeito do encantamento só cessaria mais tarde. “Dentro de um ano, dia por dia, se voltares aqui serás meu esposo”. Depois lhe indicou onde estava a fonte da Água da Vida e se despediu, recomendando-lhe que se apressasse para poder sair do castelo antes do relógio da torre bater as doze badaladas do meio-dia, porque nesse exacto momento os portões se fechariam. O príncipe percorreu em sentido inverso todos os salões por onde passara, até que viu uma belíssima cama com roupas muito alvas e recendentes; cansado que estava da longa caminhada deitou-se para descansar um pouco e adormeceu. Felizmente mexeu-se e fez cair no chão a espada que colocara a seu lado, despertando com o barulho. Levantou-se depressa: faltava

um minuto para o meio-dia e mal teve tempo de correr ao parque, encher um frasco com a água preciosa e fugir. Ao transpor os batentes da entrada soou o relógio dando meio-dia; o portão se fechou com estrondo e tão rápido que ainda lhe arrancou uma espora.

No auge da felicidade por ter conseguido a água que salvaria seu pai e ansioso por se ver no palácio pulou sobre a sela e partiu a galope. Na floresta encontrou o anão no mesmo lugar, o qual vendo a espada e o saquinho de trigo disse: “Fizeste bem em guardar este precioso tesouro. Com essa espada vencerás sozinho o mais numeroso exército, e com o trigo desse saquinho terás todo o pão que quiseres e nunca se lhe verá o fundo.” O príncipe estava porém apoquentado com a desgraça dos irmãos, e perguntou se o anão poderia fazer algo por eles. “Posso, ambos estão pouco distante daqui entalados em barrancos muito apertados; amaldiçoei-os por causa de seu orgulho.” O príncipe rogou encarecidamente que os perdoasse e libertasse, e o anão cedeu às suas súplicas. “Mas te advirto que te arrependerás. Não te fies neles, são de mau coração; liberto-os apenas para te ser agradável.” Assim dizendo fez os barrancos se afastarem libertando os entalados, pouco depois reunidos ao irmão que os esperava. Muito feliz por tornar a vê-los o príncipe lhes narrou suas aventuras e disse que daí a um ano voltaria para desposar a maravilhosa princesa e reinar com ela sobre um grande país. Puseram-se os três de regresso para casa. Atravessaram um reino assolado pela guerra, estando o rei desesperado de poder salvar-se e a seu povo. O príncipe confiou-lhe então o saco de trigo e a espada mágica, com os quais o rei derrotou os exércitos invasores e encheu os celeiros até o forro. O príncipe tornou a receber a espada e o saquinho de trigo e os três irmãos seguiram viagem, tomando um navio para encurtar o caminho.

Durante a travessia os dois irmãos mais velhos, devorados de ciúmes, começaram a conspirar contra o mais novo. “Nosso irmão conseguiu a Água da Vida e nós não; com isso nosso pai o promoverá a herdeiro do trono que deveria ser nosso e nada nos restará.” Então juraram perdê-lo. De noite quando ele dormia furtaram-lhe o frasco e substituíram a Água da Vida por água salgada. Tentaram também roubar-lhe a espada e o saquinho de trigo mas os objectos desapareceram de repente.

Chegando em casa o jovem correu para o pai e lhe apresentou o frasco para que logo sarasse. Mal engoliu alguns goles daquela água salgada o rei piorou sensivelmente. Estava se lastimando quando chegaram os mais velhos e acusaram o irmão de ter querido envenenar o pai. Eles porém traziam a verdadeira Água da Vida e lha ofereceram. Apenas bebeu alguns goles pôde se levantar do leito cheio de vida e saúde como nos tempos da juventude. O pobre príncipe, expulso da presença do pai, se entregou ao maior pesar. Os dois mais

velhos vieram ter com ele rindo e mofando: “Pobre tolo! Tu tiveste todo o trabalho e conseguiste encontrar a Água da Vida mas nós tivemos o proveito; devias ser mais esperto e manter os olhos abertos, enquanto dormias a bordo trocamos o frasco por outro de água salgada. E poderíamos se quiséssemos ter- te atirado ao mar para nos livrarmos de ti, mas tivemos dó. Livra-te contudo de reclamar e contar a verdade ao nosso pai, que não te acreditaria; se disseres uma só palavra não nos escaparás, perderás a vida. Também não penses em ir desposar a princesa daqui a um ano, ela pertencerá a um de nós dois.”

O rei estava muito zangado com o filho mais moço, julgando que o quisera envenenar. Convocou seus ministros e conselheiros e lhes submeteu o caso. Foram todos de opinião que o príncipe merecia a morte e o rei decidiu que fosse morto secretamente por um tiro. Partindo o moço para a caça sem suspeitar de nada um dos criados do rei foi encarregado de o acompanhar e matar na floresta. Chegando ao lugar destinado o criado, que era o primeiro caçador do rei, estava com um ar tão triste que o príncipe lhe indagou a razão: “Que tens, caro caçador?” “Proibiram-me de falar, mas devo dizer tudo.” “Dize então o que há, nada temas.” “Estou aqui por ordem do rei e devo matar-vos.” O príncipe se sobressaltou mas disse: “Meu amigo, deixa-me viver. Dar-te-ei meus belos trajes em recompensa e tu me darás os teus, que são mais pobres.” “Da melhor boa vontade” disse o caçador. “É preciso que o rei julgue que executaste suas ordens senão sua cólera recairá sobre ti. Vestirei estas roupas feias e tu levarás as minhas como prova de que me mataste. Em seguida abandonarei para sempre este reino.” Assim fizeram.

Pouco tempo depois o rei viu chegar uma embaixada faustosa do rei vizinho incumbida de entregar ao bom príncipe os mais ricos presentes em agradecimento por ter ele salvo o reino da fome e da invasão do inimigo. Diante disso o rei se pôs a reflectir: “Meu filho seria inocente?” e comunicou aos que o serviam: “Como me arrependo de o ter mandado matar! Ah, se ainda estivesse vivo ...” Encorajado por estas palavras o caçador revelou a verdade. Disse ao rei que o bom príncipe estava vivo mas em lugar ignorado. Imediatamente o rei mandou um arauto proclamar por todo o país que considerava o filho inocente e que desejava imensamente sua volta. Mas a notícia não chegou ao príncipe; encontrara seu amigo anão, que lhe dera ouro suficiente para poder viver como um filho de rei.

Nesse ínterim a princesa do castelo encantado que ele livrara do sortilégio mandara construir uma avenida toda calçada com chapas de ouro maciço e pedras preciosas que conduzia directamente ao castelo, explicando aos seus vassalos: “O filho do rei que será meu esposo não tardará a chegar; virá a galope bem pelo meio da avenida. Mas se outros pretendentes vierem,

cavalgando à beira da estrada, expulsem-nos a chicotadas.” Com efeito, dia por dia, um ano depois do jovem príncipe ter penetrado no castelo, o irmão mais velho achou que podia se apresentar como sendo o salvador e receber a princesa por esposa. Vendo aquela avenida calçada no meio de ouro e pedrarias não quis que o cavalo estragasse com as patas tanta riqueza que já considerava sua e fez o animal passar pelo lado direito. Quando chegou diante do portão e disse ser o noivo da princesa todos riram e depois o correram de lá a chicote. Pouco tempo depois veio o segundo príncipe, e vendo todo aquele ouro e jóias pensou que seria um pecado arruiná-los; fez o cavalo galopar pelo lado esquerdo e se apresentou como sendo o noivo da princesa. Teve a mesma sorte do irmão mais velho: foi corrido a chicote. Findava o ano estabelecido e o terceiro príncipe resolveu deixar a floresta para ir ter com sua amada e a seu lado esquecer as mágoas. Pôs-se a caminho pensando só na felicidade de tornar a ver a linda princesa; ia tão embebido que nem sequer viu que a estrada estava toda coberta de pedras preciosas. Deixou o cavalo galopar pelo meio da avenida, e quando chegou diante do portão do castelo este lhe foi aberto de par em par. Soaram alegres fanfarras e uma multidão de fidalgos saiu para recebê- lo. Dentrou em pouco apareceu a princesa, deslumbrante de beleza, que o acolheu cheia de felicidade e declarou a todos que ele era seu salvador e senhor daquele reino. As núpcias foram realizadas imediatamente em meio a esplêndidas festas.

Terminadas as festas, que duraram muitos dias, ela lhe contou que seu pai o havia proclamado inocente e desejava vê-lo de novo. Acompanhado da rainha sua esposa ele foi ter com o pai e contou-lhe tudo que se passara: como fora traído pelos irmãos e como estes o obrigaram a se calar. O rei, extremamente irritado contra eles, mandou que seus arqueiros os trouxessem à sua presença a fim de receberem o castigo merecido, mas vendo suas maldades descobertas eles tinham tomado um barco tentando fugir para terras longínquas para aí esconderem sua vergonha. Não o conseguiram. Sobreveio uma tremenda tempestade que tragou o navio e eles pereceram miseravelmente.

Fábulas e contos
   
10/20/2019 1:43:31 PM | Por Antônio L. Furtado
As aventuras de sir Lancelot

Assim que o rei Artur regressou de Roma para a Inglaterra, todos os cavaleiros da Távola Redonda acorreram a ele, e juntos realizaram muitas justas e torneios. E alguns se notabilizaram de tal forma no manejo das armas que ultrapassaram todos os seus companheiros em proeza e nobres façanhas. Mais do que ninguém, sir Lancelote do Lago comprovou seu valor, pois em todos os torneios e justas, amistosos ou mortais, ele prevaleceu sobre os demais [230] cavaleiros e em nenhuma ocasião foi vencido, salvo por traição ou encantamento. Tanto cresceu em fama e reputação, desde o retorno de Roma, que se tornou o primeiro entre seus homens. Por isso, a rainha Guenever o tinha em alta conta, acima de todos os cavaleiros, e ele, por toda a vida, decerto amou a rainha, acima de todas as outras damas e donzelas, e mais tarde a salvaria do fogo por nobre feito de cavalaria.

Após longo tempo de repouso, dedicado a jogos e caçadas, sir Lancelote pensou em submeter-se à prova buscando novas aventuras. Ordenou ao sobrinho, sir Lionel, que se aprontasse. Montaram em seus cavalos, armados da cabeça aos pés e, cavalgando, meteram-se por uma floresta densa. Era tempo de calor e, em torno do meio-dia, sir Lancelote sentiu vontade de dormir. Sir Lionel avistou uma macieira copada perto de uma cerca, e disse:

— Ali adiante há uma boa sombra; lá poderemos descansar com nossos cavalos.

— Disseste bem, pois nestes sete anos nunca estive tão sonolento quanto agora.

E assim apearam e amarraram os cavalos às árvores. Sir Lancelote deitou debaixo da macieira, apoiando a cabeça sobre o elmo, e logo adormeceu. Sir Lionel velava enquanto ele dormia.

Nesse ínterim, passaram três cavaleiros, cavalgando em fuga desabalada, perseguidos por um único cavaleiro. Ao ver este último, sir Lionel julgou que nunca encontrara outro tão alto e vigoroso, nem tão bem equipado. Em um instante o forte cavaleiro dominou um dos três e o derrubou por terra, onde ficou sem se mover. Então investiu contra o segundo e o golpeou, fazendo cair homem e cavalo. Depois, foi direto sobre o terceiro e o jogou da garupa do cavalo para trás, a uma lança de distância. Apeando, amarrou firmemente cada um dos três usando as rédeas deles.

Ao vê-lo proceder assim, sir Lionel decidiu experimentá-lo. Aprontou-se e foi silenciosamente pegar seu cavalo, tomando cuidado para não despertar sir Lancelote. Uma vez montado, alcançou o cavaleiro e o intimou a virar-se em sua direção. E o outro bateu com tanta dureza em sir Lionel que o prostrou por terra junto com a montaria. Desmontou, amarrou-o firme e o jogou por cima do próprio cavalo, fazendo o mesmo com os outros. Tendo dado conta dos quatro, cavalgou levando-os a reboque para seu castelo. [231]

Chegando lá, desarmou-os e pôs-se a fustigá-los sobre a pele nua com ramos de espinheiro, e depois os trancafiou no fundo de uma prisão em que já estavam muitos cavaleiros a lamentar-se.

Enquanto isso, na corte, sir Ector de Maris sentia-se contrariado consigo mesmo ao perceber que sir Lancelote saíra sem ele à caça de aventuras, e preparou-se para seguir à sua procura. Depois de longa cavalgada pela floresta, deu com um homem que parecia ser um guarda florestal.

— Meu caro, sabes que aventuras há neste país, aqui por perto?

— Senhor, conheço bem este país. A cerca de uma milha daqui ergue-se um forte castelo cercado por um fosso, tendo à esquerda um córrego onde os cavalo vão beber. À beira do córrego, cresce uma bela árvore, da qual pendem muitos escudos ostentados outrora por bons cavaleiros, e também uma bacia de cobre e latão. Se bateres na bacia três vezes com o cabo de tua lança, logo ouvirás novidades — e possas ter melhor sorte do que tiveram os cavaleiros que passaram por esta floresta em todos estes anos.

— Muito obrigado!

E sir Ector encaminhou-se para a árvore, que encontrou coberta de muitos escudos. Entre eles, reconheceu o de sir Lionel, seu irmão, além de muitos mais, que pertenciam a seus companheiros da Távola Redonda. De coração aflito, prometeu vingar o irmão. De pronto bateu furiosamente na bacia. Pouco depois, enquanto dava de beber ao cavalo no córrego, veio por trás um cavaleiro que o mandou sair da água e preparar-se. Sir Ector voltou-se rápido contra ele, de lança em riste, e desferiu tão forte golpe que o cavalo do outro girou duas vezes sobre si mesmo, e o cavaleiro exclamou:

— Isto foi bem feito, tu me golpeaste como a cavalaria requer!

E com isso veio cavalgando até sir Ector, enlaçou-o com o braço direito e arrancou-o da sela. Assim o carregou até sua morada, jogando-o no meio do salão. O nome desse cavaleiro era sir Turquin. Assim falou ele a sir Ector:

— Como fizeste comigo hoje mais do que qualquer cavaleiro conseguiu nestes doze anos, eu neste instante te concedo a vida, se jurares ser meu prisioneiro por todos os dias que viveres.

— Não! Nunca te prometerei tal coisa, pois não me traz vantagem. — Isso me desagrada. [232]

E então tratou de desarmá-lo e fustigou-lhe a pele com galhos de espinheiro, e depois o encerrou em um cárecere profundo, onde reconheceu muitos de seus companheiros. Mas foi quando viu sir Lionel que sir Ector manifestou maior mágoa:

— Ai, sobrinho, onde está meu irmão, sir Lancelote?

— Belo tio. deixei-o a dormir debaixo de uma macieira quando me afastei. E o que lhe aconteceu depois não sei dizer-te.

Os demais cavaleiros aprisionados se lamentavam:

— Ai, a menos que sir Lancelote nos venha socorrer, jamais seremos libertados, pois não conhecemos neste momento cavaleiro algum capaz de confrontar-se com nosso algoz Turquin.

Depois da partida de Lionel, sir Lancelote do Lago continuara dormindo à sombra da macieira. Por volta do meio-dia, chegaram ali quatro rainhas de alta estirpe, montadas em mulas brancas. Para que o calor não as molestasse, quatro cavaleiros as ladeavam, protegendo-as do sol com um toldo de seda verde estendido sobre a ponta de suas lanças. Ao escutar o relincho de um robusto cavalo de batalha, notaram o cavaleiro adormecido, de armadura completa, deitado sob a macieira. Olhando seu rosto, perceberam que era sir Lancelote. Começaram então a disputar pelo cavaleiro, cada uma querendo ter seu amor. Disse a fada Morgana, que era irmã do rei Artur:

— Não discutamos. Lançarei sobre ele um encantamento para que não desperte nas próximas seis horas, e o levarei para meu castelo. Quando lá o tiver seguramente em meu poder, desfarei o encantamento e então deixaremos que ele escolha qual de nós terá como amante.

Uma vez submetido ao encantamento, sir Lancelote foi colocado sobre seu escudo, e assim transportado entre dois cavaleiros para o castelo Chariot, onde o depositaram em uma fria alcova. À noite, enviaram uma formosa donzela para trazer-lhe a ceia. O encantamento havia passado, e ela o saudou ao entrar, perguntando como ele se sentia.

— Não posso dizer, bela donzela, pois não sei como poderia ter vindo parar neste castelo, a não ser por algum encantamento.

— Senhor, deves fazer cara alegre; se és tal cavaleiro como te afirmam ser, irei dizer-te mais amanhã, na primeira hora do dia. [233]

— Muito obrigado, donzela; confio em tua boa vontade.

Com isso ela se foi e ele ficou deitado por toda aquela noite, sem ver mais ninguém. De manhã cedo, vieram as quatro rainhas, exibindo sua mais linda aparência, todas lhe desejando bom dia, e ele também a elas.

— Senhor cavaleiro, deves compreender que és nosso prisioneiro, e sabemos bem seres sir Lancelote do Lago, filho do rei Ban; por teu valor, nós te julgamos o mais nobre de todos os cavaleiros viventes. Sabemos ainda que nenhuma dama pode ter teu amor, exceto uma, e essa é a rainha Guenever. Mas agora tu a perderás para sempre, e ela a ti, e portanto te incumbe escolher uma de nós quatro. Sou a fada Morgana, rainha da terra de Gore; eis aqui a rainha de Gales do Norte, a rainha da Terra do Leste e a rainha das Ilhas Distantes. Cuida logo de escolher aquela dentre nós que terás como tua amante, pois, se não escolhes, só te resta morrer nesta prisão.

— Este é um caso difícil: devo morrer ou devo escolher uma de vós. Mas, seja como for, prefiro antes morrer com honra nesta prisão do que ter uma de vós como amante, malgrado minha vontade. Portanto vos respondo que não quero nenhuma de vós, pois sois encantadoras cheias de falsidade; quanto à minha senhora, a rainha Guenever, estivesse eu livre como estava antes, provaria a vós, ou contra o corpo de vossos homens, ser a dama mais leal para com seu senhor que neste mundo existe.

— Bem, é esta então tua resposta: que nos recusas?

— Sim, por minha vida, sois todas recusadas por mim!

Elas saíram e o deixaram sozinho, em grande aflição.

Ao meio-dia, veio a donzela trazer-lhe comida e perguntou como estava.

— Na verdade, bela donzela, nos dias de minha vida nunca tão mal.

— Senhor, isto me contraria, mas, se te deixares guiar por mim, irei ajudar-te a sair deste aperto, sem incorrer em vergonha ou vilania, desde que me faças uma promessa.

— Donzela, farei o que pedes; pois receio essas rainhas feiticeiras, que já destruíram mais de um bom cavaleiro.

— Senhor, é verdade; por ouvir falar de teu renome e qualidades, queriam ter teu amor. Dizem que teu nome é sir Lancelote do Lago, flor dos cavaleiros, e estão extremamente irritadas contigo por tê-las recusado. Mas promete, senhor, [234] que ajudarás meu pai na próxima terça-feira, quando irá prosseguir um torneio acertado entre ele e o rei de Gales do Norte. Na terça-feira passada, meu pai perdeu o campo por causa de três cavaleiros da corte de Artur. Se prometes estar lá na terça vindoura a fim de ajudar meu pai, na primeira hora de amanhã, pela graça de Deus, ficarás inteiramente livre por meu intermédio.

— Donzela, dize-me o nome de teu pai e então te darei resposta.

— Senhor cavaleiro, meu pai é o rei Bagdemagus.

— Conheço bem teu pai, que é tido como nobre rei e bom cavaleiro. E, por minha fé, meu corpo estará pronto a prestar serviço a teu pai e a ti naquele dia.

— Senhor, muito obrigada. Amanhã de manhã trata de estar pronto bem cedo, e eu mesma virei para soltar-te e para devolver tua armadura, escudo e lança, como também teu cavalo. A umas dez milhas daqui, há uma abadia de monges brancos; peço-te que permaneças lá até que traga meu pai à tua presença.

— Tudo isso será feito, tens minha palavra leal de cavaleiro.

Ela saiu e voltou de manhã cedo, encontrando-o pronto. Levou-o para fora transpondo doze portas antes trancadas. Entregou-lhe a armadura e, quando o cavaleiro acabou de armar-se, trouxe-lhe o cavalo. Ele o selou depressa, tomou na mão uma grossa lança e se despediu enquanto saía cavalgando:

— Donzela, não te falharei, com a graça de Deus!

E assim ele prosseguiu através de uma grande floresta durante o dia todo, sem encontrar estrada, até que, ao cair da noite, avistou em uma clareira um pavilhão de fino pano vermelho.

— Por minha fé, por esta noite hei de alojar-me naquele pavilhão.

Apeou, prendeu o cavalo ao pavilhão, desarmou-se e, achando um leito no interior, deitou-se e adormeceu profundamente. Uma hora mais tarde, chegou o cavaleiro a quem pertencia o pavilhão e pensou que quem estava naquela cama era sua amada. Assim, acomodou-se ao lado de sir Lancelote, tomou-o nos braços e pôs-se a beijá-lo. Sentindo a barba áspera a roçar-lhe a boca, sir Lancelote pulou rapidamente do leito, e o outro cavaleiro fez o mesmo, e ambos tomaram das espadas e saíram às pressas pela porta do pavilhão para lutar. Em pouco tempo, sir Lancelote feriu seriamente o cavaleiro do pavilhão, [235] quase o matando. E ele propôs render-se a sir Lancelote, que aceitou sob a condição de explicar por que fora meter-se daquela maneira no leito.

— Senhor, é meu o pavilhão. E nesta noite eu havia combinado dormir nele com minha dama. E agora estou para morrer deste ferimento.

— Lamento por ter-te ferido — se me enganei foi por temor de alguma emboscada. Entremos em teu pavilhão para que descanses e eu tente estancar teu sangue.

Entraram ambos no pavilhão e logo sir Lancelote deteve o sangramento do outro. Nisso, chegou a bela dama, e, quando percebeu que seu senhor Belleus estava seriamente ferido, bradou, tomada de desespero, contra sir Lancelote. Mas sir Belleus a conteve:

— Paz, minha querida dama, pois este é um homem de qualidade, um cavaleiro que busca aventuras.

E, depois de contar-lhe em quais circunstâncias fora ferido, acrescentou:

— E, logo que me rendi, este cavaleiro tratou de atender-me e fez-me parar de sangrar.

A dama voltou-se para o cavaleiro:

— Senhor, rogo-te que me digas quem és.

— Bela dama, meu nome é sir Lancelote do Lago.

— Assim me pareceu por teu modo de falar, pois já te vi antes, em muitas ocasiões, e te conheço mais do que imaginas. Mas uma coisa deves prometer-me, por cortesia, em compensação pelos males que fizeste sofrer a mim e a meu senhor Belleus: que, ao voltares à corte de Artur, cuidarás para ele ser feito cavaleiro da Távola Redonda. Pois ele é muito bom homem de armas e rico dono de terras em muitas ilhas.

— Bela dama, que ele venha à corte na próxima festa solene, e não deixes de vir junto com ele; farei então o que puder e, se vós ambos cumpris vossa parte, o desejo será realizado.

Pouco mais tarde, enquanto ainda conversavam, terminou a noite e raiou o dia. Então sir Lancelote armou-se e pegou o cavalo. Eles lhe mostraram o caminho para a abadia, onde foi dar após duas horas de cavalgada.

Quando sir Lancelote se aproximava do pátio da abadia, a filha do rei Bagdemagus ouviu a forte batida dos cascos do corcel no pavimento. [236] Ergueu-se e debruçou-se a uma janela, da qual avistou sir Lancelote. Apressou-se a mandar serviçais para ajudá-lo a desmontar e recolher o cavalo a um estábulo, enquanto o conduziam a um quarto confortável, para desarmá-lo e cobri-lo de um manto longo enviado pela donzela. Ela própria não tardou a vir a seu encontro, manifestando regozijo e afirmando que ele era para ela o mais bem-vindo dentre todos os cavaleiros do mundo. Com a maior urgência, mandou chamar seu pai, o rei Bagdemagus, que estava a doze léguas do lugar, e ele acorreu com um forte grupo de cavaleiros. Apeando do cavalo, o rei foi direto à câmara onde o esperavam a filha e sir Lancelote. Abraçou o cavaleiro e cada um demonstrou ao outro sua alegria. Sir Lancelote queixou-se de como fora traído e contou como sir Lionel o deixara, indo não sabia para onde, e como sua filha o retirara da prisão.

— De hoje em diante, enquanto eu viver, hei de servi-la e a toda sua parentela.

— Então posso contar com tua ajuda nesta terça-feira?

— Sim, senhor. Não te faltarei, pois assim prometi à minha senhora, tua filha. Mas dize-me: quais eram os cavaleiros de meu senhor Artur que estavam com o rei de Gales do Norte?

— Eram sir Mador de la Porte, sir Mordred e sir Gahalantine, que levaram a melhor contra os meus, pois a eles nem eu nem meus cavaleiros tivemos força para enfrentar.

— Senhor, ouço dizer que o torneio será a cerca de três milhas desta ataria. Manda-me três cavaleiros de tua confiança, e providencia para que os três tenham escudos brancos, e eu também, sem pintura alguma. Nós quatro sairemos de um bosque e nos meteremos no meio das duas facções, e cairemos em cima dos inimigos para atormentá-los o mais que pudermos; assim não saberão quem sou.

Com isso foram repousar pelo resto da noite, que era de domingo. O rei logo partiu para providenciar para Lancelote os três cavaleiros pedidos, que vieram trazendo os quatro escudos brancos. Na terça-feira, alojaram-se em um bosque denso, ao lado de onde seria realizado o torneio.

No local, havia tablados, para que senhores e damas pudessem assistir às lutas e à entrega do prêmio. Entrou no campo de combate o rei de Gales, com [237] 160 homens. Os três cavaleiros de Artur mantinham-se à parte. Então entrou o rei Bagdemagus com oitenta homens. Os cavaleiros de ambos os lados colocaram as lanças em riste e se chocaram com grande ímpeto, sendo mortos neste primeiro encontro seis do rei de Gales do Norte e doze do rei Bagdemagus, que foi forçado a recuar. Foi aí que veio sir Lancelote do Lago, metendo-se no mais espesso da porfia, e ali derrubou, com a mesma lança, cinco cavaleiros, quatro dos quais fraturaram as costas. No meio do tumulto, abateu o rei de Gales do Norte, que quebrou a coxa na queda. A todos esses atos de Lancelote presenciaram os três cavaleiros de Artur. Disse sir Mador de la Porte:

— Eis acolá um convidado esperto. Vamos logo ter com ele.

Os dois se chocaram e sir Lancelote atirou no chão cavalo e cavaleiro, o qual teve o ombro destroncado.

— Agora é minha vez de justar — disse Mordred — , já que sir Mador teve queda feia.

Sir Lancelote o notou, tratou de pegar uma grande lança, e partiu ao encontro dele. Sir Mordred quebrou a lança contra seu corpo, enquanto sir Lancelote dava-lhe tal pancada que o arção da sela partiu-se e ele voou por sobre a garupa do cavalo, bateu com o elmo no chão e quase quebrou o pescoço; e ali ficou longo tempo desmaiado.

Então veio sir Gahalantine com uma grande lança, e Lancelote contra ele, com toda a força com que puderam carregar, estilhaçando-se ambas as lanças até os punhos. Sacaram das espadas e deram-se muitos golpes temíveis. Então sir Lancelote enfureceu-se além da conta e golpeou sir Gahalantine sobre o elmo, de tal forma que o nariz, os ouvidos e a boca encheram-se de sangue e a cabeça se curvou para a frente. Seu cavalo correu descontrolado e ele tombou ao chão.

Sir Lancelote pôs a mão em outra grossa lança e, antes que também se partisse, deitou por terra dezesseis cavaleiros, alguns com cavalo e tudo, e dentre os que feriu não houve um a portar armas de novo nesse dia. Então pegou mais uma lança e derrubou doze cavaleiros, a maioria dos quais nunca se recuperou. E depois disso os cavaleiros do rei de Gales do Norte não quiseram mais justar, e a vitória foi atribuída ao rei Bagdemagus.

Cada facção partiu para seu lugar de origem, e sir Lancelote cavalgou com o [238] rei Bagdemagus para o castelo dele, onde tanto o rei como a filha lhe deram a mais alegre acolhida e cumularam de ricos presentes. Pela manhã, despediu-se, dizendo ao rei que iria procurar sir Lionel, que o deixara enquanto ele dormia. Montou a cavalo, encomendando todos a Deus e prometendo à filha do rei:

— Se alguma vez precisares de meu serviço, rogo-te que me faças saber, pois não te faltarei como cavaleiro leal que sou.

E assim sir Lancelote partiu, e quis a sorte que passasse pela mesma região onde o haviam pegado a dormir. No meio da estrada cruzou com uma donzela cavalgando um palafrém branco, e trocaram saudações.

— Bela donzela, sabes de alguma aventura neste país?

— Senhor cavaleiro, ha ́aventuras bem perto da qui, se ousa resprová-las.

— Por que não provaria aventuras? É por causa delas que venho.

— Bem, tu pareces ser um bom cavaleiro, e se te atreves a enfrentar outro bom cavaleiro, irei conduzir-te aonde está o melhor deles e o mais possante que jamais achaste. Antes me dirás teu nome e que espécie de cavaleiro te julgas ser.

— Donzela, não me importo em dizer-te meu nome, que é sir Lancelote do Lago.

— Senhor, pareces talhado para as aventuras daqui, pois nestas paragens habita um cavaleiro que não será superado por nenhum homem conhecido por mim, a não ser que tu mesmo consigas, e o nome dele é sir Turquin. Pelo que sei, ele mantém em sua prisão 64 bons cavaleiros da corte de Artur, aos quais derrotou com as próprias mãos. Mas, quando tiveres levado a cabo essa jornada, prometerás a mim, como cavaleiro leal, ir comigo ajudar-me e a outras donzelas que são atormentadas diariamente por um cavaleiro falso.

— Todos os teus intentos e desejos haverei de cumprir, donzela, desde que me leves a esse de quem falas.

— Agora, belo cavaleiro, vem por aqui.

E assim ela o trouxe ao riacho e à árvore na qual a bacia estava pendurada. Sir Lancelote fez o cavalo beber e em seguida começou a bater na bacia com o cabo da lança, com tanta força que o fundo se rompeu, e continuou batendo, sem ver nada acontecer. Depois cavalgou ao longo dos portões do castelo por quase meia hora. Avistou então um corpulento cavaleiro que [239] tocava à sua frente um cavalo, estendido sobre o qual estava um cavaleiro de armadura, de mãos e pés atados. Ao se aproximarem, sir Lancelote julgou reconhecer o cativo. Percebeu afinal que era sir Gaheris, irmão de Gawain, um dos homens da Távola Redonda. Disse Lancelote:

— Bela donzela, vejo vir por ali um cavaleiro todo amarrado que é meu companheiro e irmão de sir Gawain. Para começar, prometo, com a permissão de Deus, resgatá-lo; mas, a não ser que aquele que o venceu esteja mais firme do que eu sobre a sela, também livrarei do perigo a todos os prisioneiros, pois dois dentre esses são com certeza meus parentes.

Nesse momento, um avistara o outro e ambos empunharam as lanças. Sir Lancelote lançou seu desafio:

— Agora, belo cavaleiro, retira esse cavaleiro ferido do cavalo e deixa que descanse um pouco. E vamos nós dois provar nossas forças; pois, conforme me informaram, tu fizeste e continuas fazendo grande acinte e vergonha aos cavaleiros da Távola Redonda, e portanto trata de defender-te.

— Se és da Távola Redonda, desafio-te e a toda tua companhia!

— Isso é falar demais!

Colocaram as lanças em riste e foram um contra o outro, com os cavalos correndo a mais não poder, e cada um atingiu o outro no centro do escudo com tal ímpeto que as costas dos cavalos se fraturaram sob o peso deles e ambos caíram por terra, presos às montarias, completamente atordoados. Tão logo puderam desvencilhar-se dos cavalos, ergueram os escudos à frente e sacaram as espadas, e atiraram-se um ao outro denodadamente, cada um desferindo sobre o adversário muitos golpes fortes que nem escudo nem arnês podia agüentar. Em pouco tempo, estavam cheios de feridas sérias e sangravam gravemente. Continuaram assim por duas horas ou mais, cercando e acutilando um ao outro, tentando achar algum ponto desprotegido para ferir. No fim, continuavam os dois de pé, mas sem fôlego, apoiando-se sobre as espadas fincadas no chão. Sir Turquin falou:

— Detém tua mão por um instante e responde ao que vou perguntar-te.

— Dize, pois.

— És o homem mais robusto com que me bati até hoje e o de mais fôlego, semelhante a um cavaleiro a quem odeio acima de todos. Se porventura [240] não és ele, prontamente farei as pazes contigo e, por amor a ti, entregarei todos os prisioneiros em meu poder, que são 64, logo que me disseres teu nome. E tu e eu seremos camaradas enquanto eu viver.

— Dizes bem. Mas, se disso depende tua amizade, conta-me quem é esse cavaleiro que odeias acima de todos?

— Na verdade, seu nome é Lancelote do Lago, e foi quem matou na Torre Dolorosa meu irmão, sir Carados, que era um dos melhores cavaleiros vivos. A ele, portanto, excetuo dentre os demais, pois, se me puder encontrar alguma vez com ele, um de nós dará cabo do outro, tal é meu voto. Por causa de sir Lancelote, matei uma centena de bons cavaleiros; e estropiei outros tantos, a tal ponto que nunca mais poderão cuidar de si próprios, e muitos morreram na prisão, e lá tenho ainda 64. Libertarei todos esses últimos tão logo me digas teu nome, desde que não sejas sir Lancelote.

— Agora vejo bem que, dependendo de quem eu seja, ou poderei ter paz, ou haverá guerra mortal entre nós. E agora, senhor cavaleiro, a teu pedido quero que ouças e aprendas: sou Lancelote do Lago, filho do rei Ban de Benwick e cavaleiro verdadeiro da Távola Redonda. E agora te desafio e trata de fazer o melhor que podes.

— Ah, Lancelote, és mais bem-vindo que qualquer cavaleiro jamais foi, pois não nos separaremos até um de nós estar morto.

Então arremeteram um contra o outro como dois touros selvagens, cortando e batendo, algumas vezes se estatelando no chão. Lutaram assim por mais de duas horas, sem nenhum descanso, e sir Turquin infligiu muitos ferimentos a sir Lancelote, salpicando todo de sangue o campo em que lutavam. Por fim, sir Turquin começou a enfraquecer e a ceder terreno, abaixando o escudo por cansaço. Isso notou sir Lancelote e saltou ferozmente sobre ele, agarrou-o pela viseira do elmo e o pôs de joelhos. De pronto arrancou-lhe o elmo e cortou rente o pescoço.

Feito isso, sir Lancelote foi ter com a donzela e lhe disse:

— Donzela, estaria pronto para ir contigo aonde quiseres que eu vá, mas não tenho cavalo.

— Belo senhor, toma o cavalo deste cavaleiro ferido que sir Turquin trouxe há pouco; e manda o cavaleiro ao castelo libertar os prisioneiros todos. [241]

Sir Lancelote dirigiu-se a Gaheris e lhe pediu não levar a mal se tomasse emprestado seu cavalo, ao que Gaheris replicou:

— Não, belo senhor, quero que tomes meu cavalo como teu, pois devemos a ti nossa salvação, e neste dia afirmo que és o melhor cavaleiro do mundo, pois mataste diante de meus olhos o homem mais vigoroso e mais destro cavaleiro que, à exceção de ti, jamais cheguei a ver. E te rogo, belo senhor, que me digas teu nome.

— Senhor, meu nome é Lancelote do Lago, que, de direito, teria de socorrer-te, em respeito ao rei Artur e, em especial, a meu senhor sir Gawain, teu irmão. Ao entrares no castelo, estou certo de que acharás muitos cavaleiros da Távola Redonda, pois reconheci seus escudos pendurados naquela árvore. Lá estão os escudos de sir Kay, sir Brandiles, sir Marhaus, sir Galihud, sir Brian de Listonoise, sir Aliduke, além de muitos outros de que não estou informado, e ainda de meus familiares, sir Ector de Maris e sir Lionel. Portanto, rogo-te saudares a todos eles por mim, dizendo que os convido a se apossar de quaisquer coisas que encontrarem; e dize a meus dois parentes para não deixarem de ir esperar-me na corte, pois pretendo comparecer durante a festa de Pentecostes. Neste momento, porém, devo acompanhar esta donzela para cumprir minha promessa.

Com isso, deixou Gaheris, o qual seguiu para o castelo. Lá encontrou Gaheris um porteiro de guarda, com muitas chaves. Sem perda de tempo, derrubou o porteiro, tomou-lhe as chaves e abriu prontamente a porta do cárcere, fazendo sair todos os prisioneiros. Eles se ajudaram mutuamente a livrar-se das cadeias. Ao ver sir Gaheris e notando como estava ferido, todos lhe rendiam graças como a seu libertador, e ele protestou:

— Nada disso, foi Lancelote que venceu e matou sir Turquin valorosamente. Vi com meus próprios olhos. E ele vos saúda e vos pede para não tardares em ir à corte; e quanto a sir Lionel e sir Ector de Maris, pede ainda que ali aguardem por ele.

— Não faremos isso — disseram os dois. — Sairemos agora mesmo e buscaremos por ele, enquanto vida nos restar.

— Também eu, por meu voto de cavaleiro — disse Kay. — Antes de seguir para a corte haverei de encontrá-lo. [242]

Então todos os cavaleiros procuraram onde estavam guardadas suas armaduras e trataram de armar-se, e cada cavaleiro achou também seu cavalo e tudo mais que lhe pertencia. Quando acabavam de preparar-se, entrou um mateiro com quatro cavalos carregados de caça gorda. Sir Kay apressou-se a dizer:

— Eis que nos chega boa carne para um repasto decente, como não temos tido por tantos dias.

A carne foi tostada no forno e, depois da refeição, alguns se alojaram ali mesmo para passar a noite, mas sir Lionel, sir Ector de Maris e sir Kay foram à caça de sir Lancelote, para se reunirem a ele se pudessem.

Por sua vez, sir Lancelote ia cavalgando com a donzela por uma estrada. Em certo momento, ela falou:

— Senhor, por este caminho ronda um cavaleiro que molesta todas as damas e gentis senhoras, e no mínimo as rouba ou violenta.

— O quê? É um cavaleiro ladrão e um sedutor de mulheres? Ele envergonha a ordem da cavalaria e descumpre seu juramento; pena é que viva. Mas vai tu mesma em frente, enquanto eu sigo atrás, tentando passar despercebido. Se ele vier perturbar-te, cuidarei de resgatar-te e de ensiná-lo a portar-se como cavaleiro.

A mulher foi cavalgando a passo lento. Dentro em pouco saiu do mato o tal cavaleiro, vindo montado e acompanhado de um pajem, e arrebatou a donzela de seu cavalo. Ela gritou, e ao ouvi-la acorreu sir Lancelote o mais depressa que pôde, invectivando o cavaleiro:

— Ó cavaleiro falso e traidor, quem te ensinou a abusar de donzelas?

Vendo sir Lancelote a censurá-lo, não respondeu, mas sacou a espada e se lançou contra ele, e sir Lancelote largou a lança e sacou também a espada, e deu-lhe tal pancada sobre o elmo que lhe fendeu a cabeça e o pescoço até a garganta.

— Agora tiveste o pagamento há tanto merecido.

— É verdade — disse a donzela. — Pois assim como sir Turquin almejava destroçar cavaleiros, este intentava maltratar e atormentar donzelas, damas e gentis-senhoras, e o nome dele era sir Peris de Forest Savage.

— E agora, donzela, desejas de mim mais algum serviço?

— Não, senhor, por enquanto não. Que Jesus todo-poderoso te proteja [243] por onde quer que caminhes, pois és o mais cortês dos cavaleiros e o mais meigo para com todas as damas e gentis senhoras que hoje existe. Mas em uma coisa, senhor cavaleiro, parece-me que estás em falta: és cavaleiro sem dama. Não te propões a amar nem moça nem mulher, nunca ouvi dizer que amaste de maneira alguma, e isso é de lamentar. Correm rumores de que amas a rainha Guenever, e que ela dispôs por encantamento: nunca amarás outra senão ela, nem donzela ou dama nenhuma te agradará. Por isso há muitas, tanto de alta como de baixa extração, que por demais se lastimam.

— Bela donzela, não posso impedir as pessoas de falarem de mim o que lhes aprouver; mas, quanto a tornar-me um homem casado, não penso nisso. Pois, para deitar com a esposa, teria de deixar as armas e os torneios, batalhas e aventuras. E se me falam de deleitar-me com amantes, isso eu recuso de todo, por temor a Deus; pois cavaleiros adúlteros ou libertinos não são afortunados na guerra — ou serão dominados por cavaleiro menos destro, ou, em sua execração, acabarão exterminando homens melhores do que eles próprios. Assim é que aquele que tem amantes há de ser infeliz, e infeliz é tudo que o cerca.

Separaram-se então e sir Lancelote penetrou por uma floresta profunda por mais de dois dias, dormindo ao relento. No terceiro dia, atravessava uma longa ponte, quando de súbito foi atacado por um vilão dos mais grosseiros, que bateu no focinho de seu cavalo, fazendo-o rodopiar, e perguntou por que cavalgava por aquela ponte sem sua licença. Sir Lancelote replicou:

— E por que não iria por aqui? Não teria como passar ao largo.

 — Não tens escolha!

O vilão fez menção de bater-lhe com um grande porrete ferrado, mas sir Lancelote puxou da espada, aparou o golpe e partiu-lhe a cabeça até os miolos. Na extremidade da ponte, situava-se uma bela vila, e todos os habitantes, homens e mulheres, gritavam para sir Lancelote:

— Pior não poderias ter feito em teu próprio prejuízo, pois mataste o porteiro-mor do castelo!

Sir Lancelote deixou-os dizer o que quisessem e foi direto ao castelo. Chegando ali, desmontou e atou o cavalo a uma argola presa ao muro. Viu um aprazível pátio verdejante e para lá se dirigiu; parecia-lhe um excelente [244] lugar para combater. Olhou em volta e viu muita gente junto às portas e janelas a dizer:

— Belo cavaleiro, que infortunado és!

Nisso, vieram sobre ele dois gigantes imensos, com armamento completo exceto nas cabeças, levando terríveis clavas nas mãos. Sir Lancelote ergueu o escudo à frente e desviou o golpe do primeiro gigante, e com a espada partiu-lhe a cabeça ao meio. Quando o companheiro viu isso, correu como um louco, com medo de seus golpes horríveis, e Lancelote em seu encalço com toda a energia deu-lhe uma cutilada no ombro que o cortou até o umbigo.

Em seguida, sir Lancelote entrou pelo salão e lá se apresentaram a ele damas e donzelas; todas se ajoelharam à sua frente, agradecendo a Deus e a ele por sua libertação.

— Eis que em nossa maioria, senhor, permanecemos aqui já por sete anos como prisioneiras deles. Executávamos toda sorte de trabalhos em seda para nosso sustento, embora sejamos todas de alta nobreza. Bendito seja o momento, ó cavaleiro, em que nasceste, pois realizaste o mais valoroso feito que jamais logrou um cavaleiro neste mundo, como deixaremos registrado. E te rogamos nos dizer teu nome, para podermos contar a nossos amigos quem nos livrou da prisão.

— Belas, meu nome é sir Lancelote do Lago.

— Ah, senhor, podes bem ser ele, pois, como sempre pensamos, cavaleiro algum salvo tu mesmo poderia levar a melhor sobre esses dois gigantes. Muitos formosos cavaleiros tentaram e acabaram mal, e muitas vezes ansiamos por ti e esses gigantes nunca temeram senão a ti.

— Agora podeis dizer a vossos amigos como fostes libertadas e por quem, e saudai-os de minha parte; e se eu passar um dia por algum de vossos domínios, recebei-me como julgais que mereço. O tesouro que existir neste castelo eu vos concedo em reparação pelo agravo sofrido. E desejo que quem for o verdadeiro dono do castelo o receba de volta, como é justo.

— Belo senhor, o nome deste castelo é Tintagel, e um duque o possuía outrora, que se casara com a bela Igraine, a qual, por sua vez, Uther Pendragon desposou e nela gerou Artur.

— Percebo agora a quem pertence o castelo. [245]

Com isso, deixou-as, encomendando-as a Deus. Atravessou cavalgando muitas terras estranhas e selvagens, muitos cursos d’água e vales, sempre ao desabrigo. Afinal, por acaso, achou-se certa noite em um belo pátio, onde encontrou uma idosa gentil-senhora que o hospedou de boa vontade, e tanto ele como seu cavalo tiveram boa acolhida. Na hora devida, ela o conduziu ao leito, em um confortável sótão, acima do portão. Sir Lancelote desarmou-se e, tendo arrumado seus arneses ao alcance da mão, deitou-se e logo adormeceu.

Pouco mais tarde, chegou alguém a cavalo e bateu no portão com insistência. Ouvindo a batida, sir Lancelote levantou-se e espiou pela janela, avistando ao luar três cavaleiros vindo em perseguição ao solitário recém-chegado. Os três ao mesmo tempo desferiam cutiladas sobre ele, que se voltou e defendeu-se como bravo cavaleiro.

— Por certo ajudarei aquele cavaleiro, pois seria vergonhoso para mim ficar assistindo à luta de três contra um. Se ele fosse morto, eu seria cúmplice de sua morte.

Isso pensando, sir Lancelote tomou dos arneses e desceu por um lençol que prendeu à janela, indo ao encontro dos quatro cavaleiros e exclamando alto:

— Virai-vos para mim, ó cavaleiros, e parai de lutar com esse outro.

Eles deixaram em paz o cavaleiro, que era sir Kay, e voltaram-se contra sir Lancelote, e uma grande batalha teve início, pois os três apearam e puseram-se a assestar grandes golpes contra sir Lancelote, assediando-o por todos os lados. Então sir Kay aprontou-se para prestar auxílio a sir Lancelote, mas este recusou:

— Não, senhor. Não quero nenhuma ajuda tua; portanto, para teres a minha, deixa-me só com eles.

Sir Kay, para agradar ao cavaleiro, conformou-se a fazer-lhe a vontade, e quedou-se à parte. Logo, com seis golpes, sir Lancelote os deitou por terra. E os três gritaram a uma voz:

— Senhor cavaleiro, nós nos rendemos a ti como homem poderoso e incomparável.

— Não aceitarei vossa rendição à minha pessoa. Se vos renderdes a sir Kay o Senescal, somente nesses termos pouparei vossas vidas, senão, nada feito. [246]

— Belo cavaleiro, isso nos repugna fazer; pois, quanto a sir Kay, nós o acossamos até aqui e o teríamos dominado se não interviesses, portanto não há razão para nos rendermos a ele.

— Quanto a isso, atentai bem: trata-se de escolher se ireis morrer ou viver. Para render-vos, terá de ser a sir Kay!

— Belo cavaleiro, para salvar nossas vidas faremos como nos mandas.

— Pois então, no dia de Pentecostes vindouro, ide à corte do rei Artur, onde vos entregareis à rainha Guenever, submetendo-vos à sua graça e mercê, e dizei que foi sir Kay quem vos enviou como prisioneiros dela.

— Senhor, assim será feito, por nossa fé, se vivos estivermos.

Tendo cada um deles jurado sobre sua espada, sir Lancelote consentiu que partissem. Logo, bateu ao portão com o punho da espada, sendo atendido por sua hospedeira, e entrou com sir Kay. A nobre senhora estranhou:

— Senhor, acreditava que estivesses em tua cama.

— Pois estava, mas levantei-me e pulei pela janela para socorrer um velho companheiro.

Ao chegarem perto da luz, sir Kay percebeu que era sir Lancelote, e se pôs de joelhos e lhe agradeceu pela bondade de o salvar por duas vezes da morte. Lancelote replicou:

— Senhor, nada mais fiz do que deveria, pois és amigo. Ficarás aqui para repousar.

Após desarmar-se, sir Kay pediu carne; foi servido e comeu fartamente. Finda a ceia, foram dormir, acomodando-se na mesma cama. De manhã, sir Lancelote ergueu-se cedo e deixou sir Kay a dormir. Para armar-se, tomou da armadura e do escudo de sir Kay. Foi ao estábulo e também pegou o cavalo dele, despediu-se da castelã e partiu. Pouco depois, sir Kay acordou, dando por falta de sir Lancelote. Notou então que ele levara sua armadura e seu cavalo.

— Por minha fé, bem sei que ele irá maltratar alguns da corte do rei Artur; pois os cavaleiros vão ser atrevidos com ele, pensando ser eu, enganados por essa troca. Enquanto isso, graças à armadura e ao escudo dele, tenho certeza de viajar em paz.

E sir Kay partiu pouco depois, agradecendo à hospedeira.

Sir Lancelote cavalgou por longo tempo através de uma vasta floresta, [247] atingindo afinal uma planície cheia de rios e prados aprazíveis. Deu com uma extensa ponte, sobre a qual havia três pavilhões de seda e outros tecidos finos de diversos matizes. Por fora viu três escudos brancos presos a tocos de lança. Havia ainda compridas lanças encostadas aos pavilhões e três escudeiros postados junto a cada porta. Sir Lancelote passou por eles sem falar palavra alguma. Depois de ele ter passado, os três cavaleiros dos pavilhões comentaram que devia ser o pretencioso Kay, o qual, segundo eles, “julgava não haver cavaleiro tão bom quanto ele, embora o contrário fosse muitas vezes demonstrado”. Disse um dos três, que se chamava sir Gauter:

— Por minha fé, vou sair atrás dele e pôr à prova todo esse orgulho, e ver como me saio.

Sir Gauter armou-se, ajustou o escudo ao ombro, montou um vigoroso corcel e pegou na mão a lança. Galopou na direção de sir Lancelote e gritou quando chegou perto:

— Espera, altivo sir Kay, pois não passarás incólume.

Aí sir Lancelote deu a volta e cada um pôs sua lança em riste, e chocaram- se com toda a força. Sir Gauter quebrou a lança, mas sir Lancelote o derrubou com cavalo e tudo. Com sir Gauter caído, seus irmãos disseram entre si:

— Aquele cavaleiro não é sir Kay, pois é mais alto do que ele.

— Ouso apostar minha cabeça — disse sir Gilmere — , aquele cavaleiro matou sir Kay e lhe tomou o cavalo e os arneses.

— Quer seja assim ou não — disse sir Arnold, o terceiro irmão —, vamos logo montar em nossos cavalos e tratar de resgatar nosso irmão, que corre perigo de morte. Teremos trabalho bastante para enfrentar aquele cavaleiro, pois me parece pelo porte que é sir Lancelote, ou sir Tristão, ou então sir Pelleas, o bom cavaleiro.

Montaram sem demora os cavalos e alcançaram sir Lancelote, e sir Gilmere apontou para a frente a lança e correu contra ele, que logo o estendeu desmaiado no chão. Exclamou sir Arnold:

— Senhor cavaleiro, és homem vigoroso e suponho que mataste meus dois irmãos, pelo que meu coração se enche de mágoa contra ti. Se me fosse permitido, preservando minha honra, não disputaria contigo. Mas é preciso que faça minha parte, como eles fizeram. E, portanto, ó cavaleiro, põe-te em guarda. [248]

Investiram um contra o outro com grande ímpeto, e ambos partiram as lanças. Então sacaram as espadas e trocaram cutiladas denodadamente.

Nisso, sir Gauter ergueu-se e foi até sir Gilmere e o sacudiu:

— Levanta-te e vamos levar ajuda a nosso irmão, que resiste maravilhosamente àquele bom cavaleiro.

Saltaram sobre os cavalos e atacaram sir Lancelote. Ao vê-los aproximar- se, deu um rijo golpe em sir Arnold, fazendo-o cair do cavalo, e então deu combate aos outros dois irmãos, e com dois golpes os deitou por terra. Sir Arnold já se levantava, com a cabeça sangrando, tentando vir de novo contra sir Lancelote, que o exortou:

— Agora deixa ficar. Eu não estava longe quando foste armado cavaleiro, sir Arnold, e sei quão bom cavaleiro és e lastimaria matar-te.

— Agradeço-te muito por tua bondade. Atrevo-me a dizer, por mim e por meus irmãos, que não nos repugna render-nos a ti logo após ouvir teu nome, porque bem sabemos que não és sir Kay.

— Seja como for, cumpre que vos entregueis como prisioneiros à rainha Guenever no domingo de Pentecostes, dizendo ter sido sir Kay quem vos mandou a ela.

Eles juraram que assim seria feito e com isso sir Lancelote se afastou, enquanto cada irmão assistia o outro, o melhor que podia.

Atravessando uma floresta profunda, sir Lancelote foi ter a um vale, onde se deparou com quatro cavaleiros da corte de Artur, postados sob um carvalho: sir Sagramore le Desirous, sir Ector de Maris, sir Gawain e sir Uwain. Avistando sir Lancelote, julgaram por suas armas que fosse sir Kay. Disse sir Sagramore:

— Por minha fé, vou pôr à prova o vigor de sir Kay.

Tomou na mão a lança e veio na direção de sir Lancelote, que estava atento e soube logo de quem se tratava. Colocou a lança em riste e atingiu sir Sagramore com tanta violência que homem e cavalo despencaram por terra. Sir Ector se adiantou:

— Olá, companheiros! Podeis ver que pancada aquele ali é capaz de dar; é um cavaleiro muito mais corpulento que sir Kay jamais foi. Agora vereis se posso com ele. [249]

Pegou a lança e galopou sobre sir Lancelote, e este o feriu através do escudo e do ombro, jogando homem e cavalo por terra. E sua lança continuava inteira! Sir Uwain exclamou:

— Por minha fé, lá está um cavaleiro forte, e estou certo de que matou sir Kay. Com tamanha força, vejo que será difícil superá-lo.

E nisso agarrou sua lança e cavalgou na direção de sir Lancelote, que o reconheceu perfeitamente. Foi de encontro a ele em campo aberto e lhe deu tal pancada que o deixou atordoado, sem saber onde estava, por longo tempo. Era a vez de sir Gawain:

— Agora vejo bem que devo enfrentar esse cavaleiro.

Ergueu o escudo e escolheu uma boa lança, e sir Lancelote percebeu quem era. Então, deixaram os cavalos correr com todo o ímpeto e cada cavaleiro atingiu o outro no meio do escudo, mas a lança de sir Gawain espatifou-se, enquanto sir Lancelote carregou tão duramente que o cavalo do outro tombou de pernas para o ar. Sir Gawain penou para livrar-se do cavalo. Sir Lancelote passou por eles em marcha lenta, sorrindo:

— Deus dê alegria a quem fez esta lança, pois nunca tive melhor na mão.

Os quatro cavaleiros acercaram-se uns dos outros, tratando de confortar- se mutuamente. Disse sir Gawain:

— Que dizeis deste nosso convidado, que, com a mesma lança, derrubou a nós quatro?

— Que nós o encomendamos ao diabo, pois é homem de grande poder! — responderam os outros.

— Podeis bem dizer isso — retorquiu sir Gawain —, é homem possante, pois ouso apostar minha cabeça que é sir Lancelote. Sei que é ele por seu jeito de cavalgar. Deixai que se vá, pois quando voltarmos à corte saberemos.

E aí tiveram muito trabalho para arrebanhar os cavalos de volta.

Sir Lancelote continuava a embrenhar-se na floresta, quando viu um cão de caça preto, no rastro de um cervo ferido. Passou a cavalgar atrás do cão, que seguia uma longa trilha de sangue deixada no chão. O cão, olhando às vezes para trás, atravessou um brejo, com sir Lancelote sempre em seu encalço. Afinal, ele divisou um velho castelo, para o qual o animal se dirigiu, transpondo uma ponte velha e frágil, sobre a qual passou também sir Lancelote, a cavalo. [250]

Entrou em uma vasta sala e, no centro dela, viu jazer morto um cavaleiro de aparência digna. O cão se aproximara do cavaleiro, lambendo-lhe as feridas.

Veio então uma dama, chorando e torcendo as mãos, e falou a sir Lancelote: — Ó cavaleiro, demasiada aflição me trouxeste.

— Por que falas assim? Jamais causei dano a este cavaleiro; foi seguindo este cão, na pista de um rastro de sangue, que vim parar aqui. E, portanto, bela dama, não me queiras mal, pois muito sofro por teu sofrimento.

— Na verdade, senhor, sei que não és quem matou meu marido, pois quem praticou esse feito está gravemente ferido e não deverá recobrar-se, isso eu garanto.

— Qual era o nome de teu marido?

— Senhor, chamava-se sir Gilbert o Bastardo, um dos melhores cavaleiros do mundo. Já de quem o matou não sei o nome.

— Que Deus te traga consolo!

Partiu e, novamente na floresta, cruzou com uma donzela que o conhecia, e esta lhe disse em voz alta:

— Foi bom encontrar-te, meu senhor; e te solicito, por teu dever de cavaleiro, ajudares meu irmão que está seriamente ferido e não cessa de sangrar; pois hoje lutou com sir Gilbert o Bastardo e o matou em combate franco, do qual também resultou ferido. Uma dama feiticeira, moradora de um castelo próximo daqui, disse-me que as feridas de meu irmão não se fechariam até eu achar um cavaleiro que fosse à Capela Perigosa. Lá, deveria buscar uma escada e um pano manchado de sangue em que sir Gilbert está envolto. Um pedaço desse pano e a espada são necessários para curar os ferimentos, sobre os quais deverão ser passados de leve.

— Isto é coisa maravilhosa. Mas qual é o nome de teu irmão?

— Senhor, é sir Meliot de Logris.

— Lamento por isso, pois é um companheiro da Távola Redonda, e farei o que puder para ajudá-lo.

— Volta então, senhor, por esta mesma estrada, e ela te levará à Capela Perigosa; ficarei esperando até Deus trazer-te de novo aqui, e, a não ser que tenhas sucesso, não sei de nenhum cavaleiro vivo capaz de levar a cabo esta aventura. [251]

Sir Lancelote partiu de imediato e, chegando à Capela Perigosa, desmontou e atou o cavalo a uma cancela. Ao percorrer o átrio, notou junto à fachada da capela muitos ricos escudos colocados em posição invertida, muitos dos quais sir Lancelote vira outrora em mãos de cavaleiros. Nisso, viu em pé a cercá-lo uns trinta cavaleiros de porte elevado, com uma jarda a mais de altura do que qualquer homem que já vira, e todos o encaravam arreganhando os beiços e rangendo os dentes.

Temeroso diante da expressão deles, ergueu o escudo à frente e empunhou a espada, pronto para a luta. Eles estavam todos revestidos de arneses negros, com os escudos em posição e as espadas desembainhadas. Mas, quando sir Lancelote fez menção de avançar, eles recuaram para ambos os lados, abrindo passagem. E com isso ele se encheu de ousadia e entrou na capela. No interior escuro, iluminado apenas pela luz mortiça de uma lamparina, deu com um cadáver coberto por um pano de seda.

Sir Lancelote curvou-se e cortou um pedaço do pano, sentindo nesse momento como se o chão em que pisava tremesse um pouco, e isso o assustou. Viu então uma bela espada, depositada ao lado do cavaleiro morto. Pegou a espada na mão e apressou-se a sair da capela. Enquanto ainda atravessava o pátio, todos aqueles cavaleiros o intimaram, com voz horrenda:

— Cavaleiro sir Lancelote, larga essa espada ou morrerás!

— Quer eu viva ou morra, não é com palavras de ameaça que a tomareis de volta; portanto lutai por ela, se a quiserdes.

Então foi logo passando por eles. Na saída do átrio, uma donzela veio a seu encontro, dizendo:

— Sir Lancelote, deixa para trás essa espada, ou morrerás por ela. — Não a soltarei por coisa alguma!

— Se deixasses essa espada, nunca mais verias a rainha Guenever. — Então seria um louco se largasse a espada!

— Agora, gentil cavaleiro, requeiro de ti que me beijes uma única vez. — Não, que Deus me proíba!

— Bem, senhor, se me tivesses beijado teus dias de vida estariam acabados. Mas agora, que pena! Perdi todo o meu trabalho, pois havia preparado esta capela em tua intenção e na de sir Gawain. Uma vez tive sir Gawain em [252] minha companhia e, naquela ocasião, ele lutou com o cavaleiro que jaz morto na capela, sir Gilbert o Bastardo; foi então que decepou a mão de sir Gilbert. Sir Lancelote, agora te digo, eu te amei sempre nestes últimos sete anos, mas nenhuma mulher pode ter teu amor, salvo a rainha Guenever. Já que não conseguia o deleite de ter teu corpo vivo, não me restava outra alegria neste mundo senão a de ter teu corpo morto. Aí eu o teria embalsamado e cuidado para conservá-lo durante toda a minha vida, e diariamente iria abraçar-te e beijar- te, malgrado a rainha Guenever.

— Ainda bem que me contaste. Jesus me preserve de tuas artes enganosas!

E com isso pegou o cavalo e afastou-se dela. Diz-se que ela sentiu tanto desgosto com a partida de sir Lancelote, que morreu quatorze noites depois. Seu nome era Hellawes a feiticeira, dama do Castelo Nigramous.

Sir Lancelote apressou-se a reencontrar a irmã de sir Meliot. Quando ela o viu, bateu palmas e chorou de alegria. Cavalgaram até o castelo onde jazia sir Meliot. Mal sir Lancelote o viu, reconheceu-o, embora estivesse pálido como areia, de tanto que sangrara. E, ao ver sir Lancelote, sir Meliot ajoelhou-se e exclamou:

— Ò senhor sir Lancelote, ajuda-me!

Sem demora, sir Lancelote correu para ele e tocou nos ferimentos com a espada de sir Gilbert. E depois passou levemente o retalho do pano manchado de sangue em que sir Gilbert estava amortalhado. E de pronto sir Meliot ficou mais são do que nunca estivera antes na vida.

Houve então grande regozijo entre irmão e irmã, e os dois entretiveram sir Lancelote da melhor forma que puderam. De manhã, sir Lancelote despediu-se, e pediu a sir Meliot que não tardasse a ir à corte do rei Artur, pois a festa de Pentecostes se aproximava; se Deus quisesse, sir Meliot o encontraria lá. E com isso se separaram.

Lancelote cavalgou por muitas terras estranhas, através de pântanos e vales, até que a fortuna o trouxe a um belo castelo. Enquanto passava adiante, pareceu-lhe ouvir dois sinos a tocar.

Viu então um falcão, com longas presilhas nos pés, voando por sobre sua cabeça na direção de um olmo alto, onde pousou. As presilhas se emaranharam em um galho e, quando o falcão tentou alçar vôo, ficou preso pelas [253] pernas. Sir Lancelote viu o que acontecia com o belo falcão e teve pena dele. Nesse ínterim, saiu uma dama do castelo, exclamando:

— O Lancelote, Lancelote, como és a flor de toda a cavalaria, ajuda-me a recuperar meu falcão, pois se o perco meu senhor acabará comigo. Eu tomava conta do falcão quando ele me escapou. Se o senhor meu marido souber, impulsivo como ele é, irá matar-me!

— Qual é o nome de teu senhor?

— Senhor, o nome dele é sir Phelot, um cavaleiro a serviço do rei de Gales do Norte.

— Bem, bela dama, já que sabes meu nome e recorres a mim como cavaleiro para ajudar-te, farei o que puder para pegar teu falcão. Contudo, sabe Deus que não sou bom em subir em árvores, e esta é bastante alta e tem poucos ramos de que eu me possa servir.

Dizendo isso, sir Lancelote desmontou, atou o cavalo à árvore, e pediu à dama que o desarmasse. Uma vez desarmado, desembaraçou-se das roupas, conservando apenas calções e camisa, e trepou com esforço até o falcão. Amarrou as presilhas do falcão a um graveto e o atirou para baixo, fazendo o pássaro cair ao chão. A dama foi logo segurá-lo. Eis que, de súbito, saiu o marido, sir Phelot, de seu esconderijo por trás das moitas, todo armado e com a espada nua na mão, dizendo:

— O cavaleiro Lancelote, agora te encontro do jeito que eu sempre quis! E postou-se junto ao tronco da árvore para matá-lo. Sir Lancelote exclamou:

— Ah, dama, por que me traíste?

— Ela fez – disse sir Phelot — exatamente o que lhe ordenei, e portanto não tens saída: chegou tua hora de morrer.

— Seria vergonha para ti. Tu, um cavaleiro armado, matar por traição um homem desguarnecido!

— Não terás outra sorte. Trata de defender-te como puderes.

— Verdadeiramente, isso será tua vergonha. Já que não queres proceder de outra forma, guarda contigo meus arneses, mas pendura minha espada em um ramo de onde eu possa alcançá-la. E então faze o melhor que puderes para matar-me. [254]

— Não, não, pois te conheço mais do que imaginas. Não conseguirás arma alguma se eu puder evitar.

— Ai, que jamais tenha um cavaleiro de morrer sem armas!

E aí olhou para cima e para baixo, e, por sobre a cabeça, notou um galho grosso, sem folhas, e o quebrou rente ao tronco. Veio para mais baixo e observou onde estava seu cavalo. De repente, pulou para o outro lado, bem na frente do cavaleiro. Sir Phelot acutilou com vontade sobre ele, certo de o ter matado. Mas sir Lancelote desviou o golpe com o galho e bateu-lhe na parte lateral da cabeça, com o que ele caiu desmaiado no chão. Então, sir Lancelote tomou-lhe a espada da mão e cortou-lhe o pescoço. A dama gritou:

— Ai de mim, por que mataste meu esposo?

— Não sou eu o culpado, pois com vossa falsidade e traição me teríeis morto, o que agora recaiu sobre vós ambos.

Ela perdeu os sentidos como se fosse morrer. E sir Lancelote catou todas as peças de sua armadura e tratou de cobrir-se com elas, temendo mais algum ataque, já que o castelo do cavaleiro estava tão próximo. Logo que pôde, montou a cavalo e partiu, agradecendo a Deus por ter escapado ileso nesta aventura.

Sir Lancelote cavalgou por muitos caminhos selvagens e pantanosos. Ao cruzar um vale, viu um cavaleiro perseguindo uma dama, com a espada desembainhada, na intenção de matá-la. E, por sorte, quando o cavaleiro ia feri-la, ela gritou para sir Lancelote, implorando que a salvasse. Dando-se conta do malfeito iminente, ele cavalgou até colocar-se entre os dois, dizendo:

— Cavaleiro, que vergonha! Por que pretendes matar esta dama? Envergonhas a ti mesmo e a todos os demais cavaleiros.

— O que tens a ver com o que acontece entre mim e minha mulher? Eu a matarei malgrado tua opinião.

— Isso não farás, pois antes terás de haver-te comigo.

— Sir Lancelote, não tomas o partido certo, pois esta dama me traiu.

— Não é assim — disse a dama — , é errado o que ele diz de mim. Por eu ter afeto ao meu primo-irmão, ele sente ciúmes. Mas, como dou testemunho diante de Deus, nunca houve pecado entre nós. Senhor, que és chamado o mais afamado cavaleiro do mundo, eu te suplico por tua honra de [255] cavaleiro: protege-me e salva-me! Seja o que for que falares, ele irá matar-me, pois nunca perdoa.

— Não tenhas receio; desde agora isso está fora do alcance dele.

— Senhor — disse o cavaleiro —, diante de tuas vistas, procederei como determinares.

E assim sir Lancelote foi seguindo lado a lado com eles. Mal haviam começado a cavalgar, o cavaleiro fez com que sir Lancelote se virasse para olhar para trás:

— Senhor, lá vêm homens armados galopando em nossa direção!

Sir Lancelote voltou-se, sem desconfiar de traição. Com isso, a mulher e o cavaleiro ficaram lado a lado, e este, de súbito, decepou a cabeça de sua dama. Ao perceber o que ele fizera, sir Lancelote o invectivou:

— Traidor, tu me desonraste para sempre!

De pronto apeou do cavalo e sacou a espada para matá-lo, diante do que ele se jogou ao chão, abraçando as pernas de sir Lancelote e pedindo mercê. Lalou sir Lancelote:

— Que vergonha, ó cavaleiro despudorado, não mereces perdão! Portanto, ergue-te e luta comigo!

— Não, não me levantarei em caso nenhum até que me concedas mercê!

— Pois vou dar-te vantagem: tirarei a armadura, ficando apenas com minhas vestes e com a espada que tenho na mão. Se puderes matar-me, considera-te quites para sempre.

— Não, senhor, isso não farei nunca.

— Bem, então toma o corpo e a cabeça e carrega-os contigo, sempre sobre tuas costas. Conforme jurarás aqui sobre minha espada, seguirás sem descanso até chegares assim à rainha Guenever.

— Senhor, eu o farei pela fé de meu corpo. — Agora dize-me qual é teu nome.

— Senhor, meu nome é Pedivere.

— Em má hora nasceste.

Então Pedivere partiu com o corpo e a cabeça da dama morta. Encontrou a rainha com o rei Artur, em Winchester, e lá contou toda a verdade. Disse a rainha: [256]

— Senhor cavaleiro, foi um ato horrível e vergonhoso, além de gravemente vexar sir Lancelote, não fosse o grande mérito dele tão bem conhecido em tantos países diversos. Imponho-te como penitência, faze teu melhor para cumpri-la, que leves esta dama contigo a cavalo à presença do papa em Roma; dele receberás penitência por teus malfeitos. Até então, jamais descanses mais de uma noite no mesmo lugar. E, em qualquer leito em que deitares, o corpo morto há de jazer a teu lado.

Ele fez o juramento e então partiu. Segundo conta o livro francês em que este relato se baseia, quando ele chegou a Roma o papa o mandou de volta à rainha Guenever, ficando a mulher sepultada em Roma, também por ordem do papa. E depois disso sir Pedivere foi tomado de uma grande bondade, tornando-se um ermitão e um homem santo.

Quanto a sir Lancelote do Lago, sabemos que regressou à corte do rei Artur dois dias antes da festa de Pentecostes, e o rei e todos na corte ficaram mais do que felizes com sua chegada. Quando sir Gawain, sir Uwain, sir Sagramore e sir Ector de Maris viram sir Lancelote coberto com a armadura de Kay, perceberam enfim quem de fato os havia desmontado a todos com uma única lança, e isso lhes causou alívio e provocou risadas entre eles. Foram também chegando, um por um, os cavaleiros que sir Turquin havia aprisionado, e cada qual homenageava e manifestava sua admiração por sir Lancelote. Ouvindo-os falar, sir Gaheris acrescentou:

— Vi toda a batalha do início ao fim.

E contou ao rei Artur como fora travada, com todos os detalhes, afirmando que sir Turquin era o mais forte cavaleiro que jamais vira, exceto sir Lancelote. E foram muitos os cavaleiros presentes a confirmar seu testemunho, cerca de uns sessenta. Em seguida, sir Kay contou ao rei como sir Lancelote o resgatara quando estava para ser morto:

— E fez aqueles cavaleiros se renderem a mim, e não a ele, que os vencera. E todos os três, que ali estavam, deram sua confirmação. Sir Kay acrescentou:

— E, por Jesus, porque sir Lancelote revestiu-se de meus arneses e deixou-me os dele, cavalguei em paz, ninguém ousando meter-se comigo. Entraram então os três cavaleiros que haviam lutado com sir Lancelote no pontilhão. Foram entregar-se a sir Kay e este não os deixou ajoelhar-se, negando que alguma vez os enfrentara. [257]

— Mas vou tranqüilizar vossos corações: lá está sir Lancelote, que vos subjugou.

Ao se darem conta do fato, ficaram mais alegres. E então foi a vez de sir Meliot de Logris entrar na corte, e contar ao rei como sir Lancelote o salvara da morte.

E todas as suas demais proezas foram reveladas: como quatro rainhas feiticeiras o mantiveram cativo e como foi libertado pela filha do rei Bagdemagus; seus grandes feitos d’armas no confronto entre os dois reis, ou seja, do rei de Gales do Norte contra o rei Bagdemagus — toda a verdade sobre isso sendo contada por sir Gahalantine, sir Mador de la Porte e sir Mordred, que haviam pirticipado do torneio. Então veio a dama que conheceu sir Lancelote quando este feriu sir Belleus no pavilhão. E, a pedido de sir Lancelote, sir Belleus foi feito cavaleiro da Távola Redonda.

Assim, naquele tempo, sir Lancelote tinha o nome mais ilustre entre os cavaleiros do mundo, e acima dos demais o honravam todos, grandes e pequenos.

Lendas Medievais
 Lancelot  
10/7/2019 8:29:17 PM | Por Antônio L. Furtado
A campanha mítica de Alexandre Magno

Alexandre III, cognominado “o Grande”, foi rei da Macedônia e. em sua curta vida de 33 anos (356-323 a.e.c.), conquistou pelas armas boa parte do mundo conhecido. Enquanto vivia, já começava a tornar-se lendário. Era filho do rei Filipe e da rainha Olímpia, mas cedo surgiu a crença de que o deus egípcio Amon seria seu verdadeiro pai. Alexandre tratou de aproveitar essa pretensa origem divina com fins políticos e militares; numa moeda antiga é representado com chifres de carneiro, um atributo de Amon.

Aos vinte anos, com a morte do rei Filipe, Alexandre assumiu o trono da Macedônia. Apostando em sua inexperiência, as cidades gregas, que se ressentiam da dura hegemonia de Filipe, revoltaram-se, como também outros povos, incluindo os trácios. Alexandre teve de usar a força para subjugá-los, em alguns casos; mas muitas vezes conseguiu impor-se através de uma hábil combinação de diplomacia e intimidação. Ganhou o apoio dos gregos para desafiar e dominar o Império Persa. Nunca satisfeito, prosseguiu através da índia, até que seus soldados se recusaram a ir mais adiante. Empreendeu, então, a longa e penosa viagem de volta, morrendo, porém, de causa desconhecida ao chegar à Babilônia. Durante sua ausência da Macedônia, deixara como regen­te um certo Antipatro, a quem a lenda atribui a conspiração para matá-lo por envenenamento. Um grande herói só pode ser vencido por traição — como o folclore nos repete, por exemplo, com o rei Artur, morto pelo mesmo Mordred que ficara de regente ao sair o rei para a guerra.

Alexandre se fazia acompanhar por um sobrinho de Aristóteles, Calístenes, com a missão de escrever a crônica de suas campanhas. Dos escritos de Ca­lístenes, como também de registros feitos por generais de Alexandre, só nos chegaram fragmentos. As biografias de Alexandre que foram preservadas, embora com algumas lacunas, são de autores dos dois primeiros séculos da era cristã: Plutarco, Arriano e Diodoro Sículo, em grego; Justino (resumindo tex­to perdido de Trogo) e Quinto Cúrcio, em latim. Esses textos gregos e latinos parecem respeitar a verdade histórica, apesar de certas liberdades, tais como o encontro de Alexandre com uma rainha das Amazonas...

Mas uma tradição separada, fundamentalmente lendária, iniciou-se no Egito, no terceiro século de nossa era, com o Romance Grego de Alexandre. Seu autor desconhecido é referido pelos especialistas como o “Pseudo-Calístenes”, já que houve no passado quem atribuísse o livro a esse sobrinho de Aristóteles. Durante a Idade Média o livro foi traduzido para o latim, língua bem mais disseminada na época, e com isso contribuiu para espalhar a fama do herói por muitas regiões. Na França, inspirou o Roman d’Alexandre, cuja versão fi­nal (século XII) foi composta em versos de doze sílabas, por isso ainda hoje chamados “alexandrinos”. É curioso notar que em algumas das primeiras ver­sões do Roman d’Alexandre aparece, pela primeira vez em obra literária, a pa­lavra “graal”— não ainda como o objeto mágico dos romances arturianos, mas como um simples prato largo ou travessa.

O relato de uma navegação fantástica, escrito entre 1100 e 1175, denomina­ do Alexandri Magni Iter ad Paradisum (Jornada de Alexandre Magno ao Paraíso), fez o herói navegar ao longo do Ganges, que seus homens, cansados de tantas lutas, haviam-se recusado a transpor. O rio teria também o nome de Fison e sua nascente seria o Paraíso da Alegria. Encontrando um misterioso navio equipado com velas e remos, Alexandre embarcou com alguns de seus homens e seguiu até as portas desse Paraíso. As portas estavam fechadas, mas por uma janela um ancião lhe fez chegar uma pedra preciosa, de peso miraculoso: posta em um dos pratos de uma balança, nenhuma quantidade de ouro posta no outro prato po­dia fazê-la erguer-se, mas, ao ser coberta de poeira, uma simples pluma provava ser mais pesada do que ela. A gema representaria o olho de um homem com sua ambição jamais saciada mas que, uma vez sem vida e retornado ao pó, nada mais valia. Era uma lição de moral, para que Alexandre desistisse de seus planos de conquista. Por uma coincidência notável, também isso contribuiu para uma outra versão do Graal, apresentada no Parzival do alemão Wolfram von Eschenbach, em que, em vez de ser uma travessa ou um cálice, o Graal é uma pedra maravi­lhosa de tamanho exíguo (“lapis exilis” em latim).

Alexandre foi discípulo de Aristóteles, que lhe inspirou uma ânsia de aprender tudo sobre todas as coisas. Passou a ter a dupla ambição de possuir o mun­do e de explorar seus segredos. Plutarco lhe atribuiu a frase: “Preferiria sobre­por-me ao restante da humanidade pelo meu conhecimento do que há de melhor do que pela extensão de meu poder.” Essa curiosidade, de fato uma de suas características, é levada ao extremo nas narrativas lendárias sobre sua expedição à índia, extraídas do Romance Grego de Alexandre, na maior parte, e do Roman d’Alexandre (o trecho das meninas-flores). Entre esses episódios sobre as maravilhas da índia há um que lembra a busca frustrada de Gilgamesh pela imortalidade, enquanto outros antecipam os fei­tos absurdos do Barão de Munchhausen e as aventuras fantásticas narradas por Jules Verne, um dos preconizadores da moderna ficção científica.  

 

O mito de Alexandre

Desembarcando das naves em que viajavam, Alexandre e seus homens passeavam pela beira da praia quando depararam com um caranguejo saindo do mar. Era do tamanho de uma couraça de guerreiro e cada pinça tinha uma braça de comprimento. Os homens tomaram das lanças e o mataram; foi preciso um grande esforço, pois o ferro não penetrava em sua carapaça e com as patas dianteiras ele partia as lanças. Quando afinal foi morto e retalhado, en­contraram sob a carapaça sete pérolas das mais valiosas, como ninguém vira antes. Ao examiná-las, o rei imaginou que procediam das profundezas insondáveis daquele mar.

Mandou fabricar uma grande jaula de ferro e introduzir nela uma enorme tina de cristal, com uma espessura de dois codos e meio. Determinou que recortassem uma abertura na parte de baixo da tina, grande o suficiente para deixar passar a mão de um homem. Sua intenção era descer e verificar o que havia no leito daquele mar. A abertura ficaria vedada até atingir o fundo; então, faria uma fresta, enfiaria rapidamente o braço através dela para agarrar o que encontrasse sobre a areia, e logo recolheria a mão, voltando a tapar a tina. Mandou fazer tam­bém uma corrente de 308 braças, que os homens usariam para içar a jaula, mas deu instruções para não puxarem até a corrente ser agitada por ele.

Quando tudo estava pronto, entrou na tina disposto a tentar o impossível. Com ele dentro, a entrada foi vedada com uma tampa de chumbo. Tendo descido 120 codos, um peixe que passava bateu na jaula com a cauda, e os ho­mens a içaram porque sentiram a corrente sacudir. Da vez seguinte, sucedeu o mesmo. Na terceira tentativa, atingiu uma profundidade de 308 codos, e ob­servou todos os tipos de peixe nadando em volta. Eis que chegou um, real­mente enorme, e abocanhou a jaula e a levou com o rei dentro, por mais de uma milha. Havia 360 homens nos quatro navios aos quais a jaula estava presa, e o peixe arrastou tudo consigo. Ao se avizinhar da terra firme, despedaçou a jaula e a tina com os dentes e atirou o rei na praia, ofegan­te e semimorto de pavor.

Alexandre ajoelhou-se e agradeceu à Providência do alto por tê-lo salvado da terrível besta. E disse a si mesmo:

— Alexandre, desiste de buscar o impossível, para que ao rastrear o abis­mo não percas a vida!

Em seguida, ordenou ao exército que levantasse acampamento e seguisse adiante.

Depois de dois dias de marcha, atingiram um lugar em que não brilhava o sol. Ali se situava a Terra dos Bem-aventurados. O rei queria ver e explorar essa região, acompanhado apenas de seus servidores pessoais. Mas Calístenes o aconselhou a levar quarenta de seus companheiros graduados, cem escravos e mil e duzentos soldados de confiança. Deixou portanto a infantaria, junta­mente com os velhos e as mulheres, e levou somente soldados jovens, dando ordens para que nenhum velho seguisse com o grupo.

Mas havia um velho muito curioso, que tinha dois filhos soldados, moços valentes e leais, e lhes disse:

— Filhos, ouvi o conselho de vosso pai e levai-me convosco. Não me achareis uma carga inútil nessa jornada. No momento do perigo, o rei Alexandre terá necessidade de um velho. Se souber então que estou convosco, recebereis farta recompensa.

— Pai,tememos as ameaças do rei. Se nos pega a desobedecer suas ordens, podemos ser privados não só de participar da expedição, mas até de nossas vidas. — Ajudai-me a cortar a barba e vestir outra roupa, de modo a mudar de aparência. Assim viajarei no meio do exército, e, no momento certo, serei de grande utilidade para vós.

Eles fizeram como o pai ordenara.

Após uma caminhada de três dias, chegaram a um lugar coberto de nebli­na. Incapazes de prosseguir, uma vez que não se viam nem estradas nem qualquer caminho, armaram as tendas. No dia seguinte, Alexandre reuniu mil homens armados e avançou com eles para verificar se ali era de fato o limite extremo da terra. Seguiram pela esquerda, pois esse lado estava mais ilumina­do, e caminharam por terrenos rochosos, cortados de ravinas, durante a meta­ de do dia. Não vendo o sol, estimavam a passagem do tempo e a posição em que estavam pela distância percorrida. Mas acabaram voltando temerosos, ao atingir um ponto em que o caminho se tornou intransponível.

Tentaram então seguir pela direita. O terreno era mais plano, mas envol­vido pela névoa e de uma escuridão impenetrável. Alexandre foi tomado de incerteza, visto que seus jovens companheiros o aconselhavam todos a não penetrar mais fundo por aquela região, com medo de os cavalos errarem o rumo e se desgarrarem nas trevas durante o longo percurso. Se assim acontecesse, não mais poderiam regressar. O rei lhes disse:

— Vós, tão bravos na guerra, percebeis agora que sem experiência e tino nada se faz direito! Se houvesse um velho entre nós, saberia aconselhar-nos sobre o modo de avançar por esta terra escura. Mas qual de vós é valente o bastante para voltar ao acampamento e trazer-me um veterano? Prometo que vai ganhar dez libras de ouro.

Ninguém se ofereceu para a missão; temiam partir, em meio àquela atmosfera opaca, para voltar ao longínquo acampamento no qual haviam deixa­ do os que o rei não quisera levar na expedição. Então se aproximaram os fi­lhos do velho soldado e falaram ao rei:

— Senhor, se nos escutas sem rancor, temos algo a dizer-te.

— Falai o que quiserdes. Juro pela Providência do Alto que não vos farei nenhum mal.  E eles logo lhe contaram sobre o pai, e como o haviam trazido com eles; e correram a mostrá-lo diante do rei. Este o saudou calorosamente e lhe pediu que o aconselhasse. Respondeu o velho:

— Rei Alexandre, hás de compreender que, se os cavalos perderem o rumo, jamais verás de novo a luz do céu. Leva as éguas que tenham potros. E deixa os potros aqui enquanto segues avante a explorar esta terra, pois as éguas, por amor às crias, sem falta te trarão depois de volta.

Dentre as montarias foram encontradas apenas cem éguas com cria. Além delas, foram escolhidos cem cavalos, e mais alguns para transportar as provi­sões. Seguindo o conselho do velho, partiram deixando para trás os potros,

Ele havia recomendado aos filhos pegar qualquer coisa que encontrassem no chão desde que entrassem na terra inexplorada, e guardar nas mochilas. Dos 360 soldados do grupo, os 160 que iam a pé foram destacados para ir na frente, e assim foram por umas quinze léguas. Chegaram a um lugar em que havia uma fonte cristalina, cuja água fulgurava como relâmpago. Existiam por perto outros mananciais, e o ar era perfumado e bem menos sombrio.

O rei sentiu fome e chamou seu cozinheiro, Andreas, e lhe ordenou:

— Prepara-me alguma comida.

Ele pegou um peixe seco e foi até a água cristalina para lavá-lo. Tão logo foi molhado na água, o peixe reviveu e escapou das mãos do cozinheiro! Este se espantou e não contou ao rei o que acontecera. Em vez disso, bebeu da água, e com ela encheu também um vaso de prata, que guardou consigo. Como o lugar estava repleto de outras nascentes d’água, Alexandre e os demais bebe­ram delas, e não dessa fonte que dava vida ao que estava morto, e da qual so­mente o cozinheiro tivera a sorte de provar.

Depois de comer e beber, continuaram por cerca de 230 léguas. Viram então uma luz que não provinha do sol, nem da lua, nem das estrelas. Viram duas aves no ar, com rostos humanos, uma delas falando em grego:

— Por que, Alexandre, vens pisar em um solo reservado aos deuses? Vai embora, infeliz, vai embora! Não te é dado penetrar nas Ilhas dos Bem-aventurados. Retrocede, ó homem, anda na terra que te foi concedida e não te metas em buscas vãs! Estremecendo, o rei preparou-se para obedecer de imediato à advertência. A segunda ave falou, também em grego:

— O Oriente te chama, o reino de Porus será submetido a teu domínio!

Com estas palavras, as aves partiram voando. Alexandre orou para aplacar os deuses. Logo, puseram-se em marcha, tendo as éguas à frente. Estas, guia­das pelo chamado dos potros deixados no acampamento, conduziram-nos de volta em 22 dias. Muitos soldados vinham recolhendo coisas pelo caminho; mais do que os outros, os dois filhos do velho haviam enchido suas mochilas, conforme o pai lhes recomendara. Mal saíram da zona escura, com a luz do dia voltando a brilhar, perceberam que haviam trazido ouro puro e pérolas de grande valor. Houve então quem se arrependesse de não ter recolhido mais, e alguns de nem ter-se dado a esse trabalho. Todos congratularam o velho que dera tão bons conselhos.

Na saída das trevas, dispôs-se o cozinheiro a contar o que sucedera à beira da fonte. O rei desesperou-se e encheu-se de furia contra ele. Ainda assim, pensou em seu íntimo:

— De que te serve, Alexandre, lamentar o que passou?

O rei ainda não sabia que o cozinheiro bebera da água, nem que havia guardado um pouco, pois este só revelara o fato de o peixe seco voltar à vida. Mas, então, o cozinheiro chegou-se a Kale, filha de Alexandre com sua concu­bina Unna, e a seduziu em troca da água da imortalidade. Quando Alexandre ficou sabendo, foi tomado de inveja — como não deixou de admitir para si mesmo — da imortalidade deles. Chamou a filha e disse-lhe:

— Toma o que é teu e afasta-te de mim. Ao se tornar imortal foste con­vertida em divindade, e serás chamada Nereida por teres recebido da água a imortalidade.

Gemendo e chorando, ela se afastou e foi viver com outras divindades em lugares solitários. Quanto ao cozinheiro, o rei ordenou que lhe atassem ao pescoço uma pedra de moinho e o jogassem ao mar. Converteu-se em um ser divino, habitando em certo recanto do mar, que, por causa dele, passou a chamar-se Andreas.

Em face de todos esses acontecimentos, novamente Alexandre se pôs a pensar se este lugar seria realmente o confim último do mundo, onde o céu toca a terra. Quis apurar a verdade. Com esse intento, mandou capturar duas aves que viviam ali. Eram grandes aves brancas, muito fortes mas mansas: não fugiam ao ver os homens. Alguns soldados haviam experimentado subir nas costas delas, e elas saíram voando com eles agarrados a seus pescoços. As aves alimentavam-se de carniça; por isso muitas freqüentavam o acampamento, atraídas pelos cavalos mortos.

Capturadas as duas aves, o rei determinou que não lhes dessem comida por três dias. No terceiro dia, mandou fabricar uma espécie de jugo de madei­ra, que lhes foi atado aos pescoços. Do couro de um boi foi feita então uma cesta, que foi amarrada ao jugo. Alexandre acomodou-se dentro da cesta, se­gurando duas lanças de sete codos de comprimento, cada uma com uma posta de fígado espetada na ponta. De imediato, as aves se precipitaram tentando alcançar as postas, e com isso alçaram vôo, subindo com o rei, até que ele achou estar perto do céu. A pele arrepiava-se e tremia por causa do frio extremo do ar, tornado mais gélido pelo vento causado pela batida das asas.

De repente, uma criatura voadora em forma de homem aproximou-se falando:

— Ó Alexandre, tu, que tão pouco conheces das coisas da terra, preten­des explorar as do céu? Volta rápido para a terra, ou servirás de pasto a estas aves. Olha agora para baixo, Alexandre!

Ele olhou, um tanto aflito, e viu uma imensa cobra enroscada sobre si mesma, formando um anel em cujo centro se via um círculo diminuto. Do alto, o círculo parecia do tamanho de uma eira de debulhar trigo. O ser alado falou de novo:

— Para as aves te levarem de volta, aponta com tua lança para a eira. pois o que te parece ser uma eira é a terra. A serpente é na verdade o mar a circundá-la. Pelo desígnio da Providência do Alto, Alexandre regressou à terra, num ponto situado a sete dias de caminhada de seu exército. No final estava gelado e semimorto de exaustão. Encontrou por ali um dos símapas a seu comando. Obtendo dele uma escolta de trezentos cavaleiros, retornou ao acampamento, com a decisão de não mais tentar o impossível.

Alguns homens sábios do reino da índia vieram um dia falar com Alexan­dre, e lhe disseram:  — Senhor, confia em nós que te conduziremos, com teus homens, a ver maravilhas em nossas florestas.

Alexandre lhes agradeceu e lhes deu mulas e rica equipagem para a via­gem. Depois de longa marcha, viram-se diante de um vergel muito antigo, onde os ramos das árvores curvavam-se ao peso dos frutos e, cobrindo o chão, ervas preciosas exalavam um perfume que restaurava a saúde de qualquer enfermo. Debaixo de cada árvore havia uma jovem mulher de corpo delicado e olhos claros e sorridentes.

Ao cair da noite, elas se chegaram aos homens, cada uma escolheu um deles, sem receio. À vontade deles não se negavam, muitas vezes os repreendiam docemente se hesitavam. Quando eles sentiram fome, todas as iguarias, todas as frutas que podiam desejar lhes foram servidas sobre panos estendidos na relva. Por três dias folgaram nessa floresta.

No quarto dia, Alexandre avistou uma que era tão formosa como jamais vira, a pele macia da brancura da neve. Quis levá-la consigo e um de seus ca­ pitães a fez montar em uma mula. Ao ver que a levavam, ela se apavorou, des­ faleceu mais de uma vez, olhou para Alexandre e lhe pediu mercê:

— Rei gentil, não me queiras matar, senhor honrado! Pois se me afasto da floresta, se passo além da sombra das árvores, morrerei na certa, tal é meu destino.

Alexandre a contemplou; era mais bela que uma fada, ainda mais pálida por ter chorado tanto. Com pena dela, mandou que a fizessem demonstrar, recomendou-a à proteção de seus deuses. Ela se ajoelhou, demonstrou grande alegria ao ver-se livre e logo embrenhou-se na mata. Depois foi confabular com as outras e, às escondidas, puseram-se a acompanhar o exército que partia, dispostas a seguir os homens até o limite da sombra das árvores. Alguns solda­dos que as perceberam, seduzidos pela beleza delas, quiseram voltar — mas Alexandre os ameaçou de fazê-los arder na fogueira!

Chamou os velhos guias e os exortou a explicar a origem daquelas lindas criaturas. E eles, que bem sabiam sobre a natureza delas, disseram:

— Na entrada do inverno, para abrigar-se da friagem, elas todas pene­tram na terra e mudam de aparência. Quando volta o bom tempo, elas ressur­gem, sob a forma de flores brancas. Por dentro das flores renascem seus corpos, enquanto por fora as pétalas lhes servem de vestido. E tudo de que preci­sam lhes é dado sempre: basta sentir o desejo de manhã para receberem de tarde, antes de escurecer.

Admirava-se Alexandre com essas meninas-flores; em nenhuma parte do mundo encontrara alguém que lhe contasse tal prodígio. Mas os guias conhe­ciam coisa ainda mais rara:

— Rei, temos para mostrar-te uma maravilha digna de ti. Iremos levar-te a umas árvores que falam com voz humana.

E assim o conduziram ao lugar em que se erguia o santuário do sol e da lua. Havia um posto de guarda e duas árvores semelhantes a ciprestes. Em círculo, dispunham-se árvores de espécie parecida à que no Egito se chama mirobálano, produtoras de mirra; também os frutos eram seme­lhantes aos do mirobálano.

As duas árvores do centro do jardim podiam falar, uma com voz masculi­na e a outra com voz feminina. O nome da árvore masculina era Sol, e o da feminina, Lua. Eram chamadas muteamatos na língua local. Estavam envoltas em peles de diversos tipos de animais — mas somente peles de machos para a árvore masculina e de fêmeas para a feminina. Em sua vizinhança não era permitida a presença de ferro, bronze ou estanho, nem mesmo de argila de oleiro. Quando Alexandre perguntou de quais espécies de animais eram as peles, responderam que eram de leões e panteras. O rei quis saber mais sobre as árvores, e lhe disseram:

— Ao amanhecer, mal se ergue o sol, sai uma voz da árvore do sol, e sai de novo quando o sol está no meio do céu, e por uma terceira vez no mo­mento do ocaso. Sucede da mesma forma com a outra árvore, conforme a passagem da lua.

Os que aparentavam ser sacerdotes acercaram-se de Alexandre.

— Entra, se és puro, e prosterna-te; assim ouvirás o oráculo. Mas deves saber que o ferro é proibido no santuário.

Alexandre ordenou que seus homens deixassem as espadas fora do local sagrado. Muitos deles o acompanhavam, e ele os mandou examinar toda a área. Também manteve junto a si alguns dentre os naturais da índia, para servirem de intérpretes, e ameaçou queimá-los vivos se o sol se pusesse sem que soasse a voz do oráculo.

Nesse exato momento o sol se pôs. Uma voz vinda de uma das árvores fez- se ouvir, falando hindu. Os hindus em sua companhia se atemorizaram e não queriam traduzir as palavras. Alexandre os chamou à parte e eles então lhe confidenciaram a tradução:

— Rei Alexandre, cedo vais morrer pela mão dos teus.

Os que escutaram perturbaram-se ante o prodígio, mas Alexandre quis consultar de novo o oráculo. Movido pelas previsões do que lhe iria acontecer, expressou seu desejo de abraçar uma vez mais Olímpia, sua mãe. Quando a lua se ergueu, a árvore da lua falou em grego:

— Rei Alexandre, hás de morrer em Babilônia, pela mão dos teus, e não poderás retornar a tua mãe Olímpia.

Tomado de assombro, Alexandre quis recobrir as árvores com as mais fi­nas grinaldas, mas os sacerdotes objetaram:

— Isso não é permitido. Mas, se quiseres impor tua vontade, faze como desejares, pois, quando um rei não ouve a lei, fica o dito por não dito.

Muito entristecido, Alexandre levantou-se na hora da alvorada. Com os sacerdotes, os companheiros e os hindus, voltou ao santuário. Depois de orar, adiantou-se ladeado por um dos sacerdotes e, colocando a mão sobre a árvore do sol, perguntou se lhe seria dado completar o curso inteiro de sua vida — era isso o que precisava saber. Quando o sol despontou e os primeiros raios tocaram no cimo da árvore, uma voz ressoou:

— O curso de tua vida está completo. Não regressarás a tua mãe, Olímpia, porque irás morrer em Babilônia. Pouco tempo depois, tua mãe e tua mulher serão cruelmente mortas pelos teus. Não perguntes mais sobre essas coisas, pois nada mais ouvirás.

Muito angustiado ao escutar estas palavras, Alexandre partiu da índia, seguindo para a Pérsia.

Concebeu então o desejo de ver o renomado palácio de Semíramis. O país era governado por uma mulher de notável beleza e idade madura, a rainha Candace de Méroe. Alexandre e Candace trocaram cartas. Ela ouvira contar como Alexandre tinha derrotado os reis mais poderosos, e quis saber mais sobre ele. Chamou um de seus cortesãos, um pintor grego, e mandou que fosse aonde estava Alexandre e pintasse seu retrato disfarçadamente. Ele assim fez; Candace recebeu o retrato e o guardou em lugar secreto.

Pouco tempo depois, um filho de Candace, de nome Candaules, que via­java acompanhado de uns poucos cavaleiros, foi atacado pelo rei dos bébrices. Levando a pior, Candaules buscou refugiar-se no acampamento de Alexandre. Vendo-o aproximar-se das tendas, as sentinelas o prenderam e trouxeram a Ptolomeu, que era o segundo em comando. Ptolomeu indagou:

— Quem és e quem são teus companheiros?

— Sou filho da rainha Candace. 

— A que vieste?

— Seguia meu caminho, com minha mulher e pequena tropa, para par­ticipar dos mistérios anuais no país das amazonas. Mas o rei dos bébrices viu minha mulher e nos assaltou com grande contingente, raptando-a e matando a maior parte de meus soldados. Estou voltando para reunir uma força maior para invadir a terra dos bébrices.

Ouvindo isso, Ptolomeu dirigiu-se a Alexandre, que no momento dormia, acordou-o e contou-lhe o que escutara do filho de Candace. Alexandre ergueu-se de pronto, tomou da coroa e a pôs na cabeça de Ptolomeu, colocou seu manto sobre os ombros dele e disse:

— Senta-te no trono como se fosses Alexandre e dize a um servidor: “Vai chamar Antígono, capitão de minha guarda pessoal.” Quando eu mesmo vier, fingindo ser Antígono, conta-me exatamente essa história e dize: “Dá-me teu conselho sobre o que deveremos fazer.”

Assim foi que Ptolomeu tomou lugar no trono, vestido com os trajes régios. Ao vê-lo, os soldados perguntavam admirados uns aos outros o que pretende­ria Alexandre desta vez. Mas quando Candaules viu Ptolomeu com os para­mentos reais e supôs estar diante de Alexandre, receou que ele estivesse em vias de mandá-lo executar. Sem demora, Ptolomeu ordenou:

— Chamai Antígono, capitão de minha guarda.

Alexandre compareceu e Ptolomeu foi dizendo:

— Antígono, este é um dos filhos da rainha Candace. Sua mulher foi seqüestrada pelo rei dos bébrices. O que me recomendas fazer? — Aconselho-te, ó rei Alexandre, que armes teus homens e faças guerra aos bébrices, a fim de resgatar a mulher deste homem, e que a devolvamos a ele em sinal de respeito à rainha.

Candaules ficou deleitado ao ouvir isso. Ptolomeu concluiu:

— Se é assim que pensas, ó Antígono, podes agir tu

Mitologia Grega
 Alexandre Magno  
6/27/2019 8:37:30 PM | Por Alice Mills
A maldição da casa de Tântalo

A Guerra de Tróia, a última grande reunião dos heróis da mitologia grega, teve muitas causas. Foram as queixas recentes que levaram a armada grega até Tróia, mas também causas que recuam uma geração e outras que exigem um retrocesso até aos primórdios da humanidade, quando os deuses e os homens se misturavam mais livremente.

As causas da Guerra de Tróia podem ser procuradas tão para trás até chegar a Tântalo, um filho dos Titãs anterior às guerras que fizeram com que Zeus (Júpiter) passasse a ser o rei dos deuses. Tântalo era rei da Lídia e tinha três filhos: Pélops, Níobe e Bróteas, e todos eles ofenderam os deuses. Níobe era uma mulher que se considerava superior a uma deusa na sua abundância de filhos, e acabou transformada numa pedra. Bróteas teve um destino ainda pior e o comportamento de Pélops redobrou as ofensas que Tântalo tinha feito aos deuses.

Os problemas começaram quando Tântalo abusou da confiança que Zeus tinha depositado nele, pois era um convidado frequente para os banquetes do Olimpo e apreciava um pouco demais o delicioso sabor da ambrosia, tendo roubado alguma da comida dos deuses para partilhar com os amigos. Este foi um ato insensato, que Zeus poderia ter ignorado por amizade, mas quando Tântalo convidou os deuses para uma festa no seu palácio e cozinhou o corpo do próprio filho Pélops para lhes servir, cometeu um crime contra as leis dos deuses e dos homens, e este ato monstruoso não podiaser ignorado. Ninguém sabe com certeza se ele preparou esta horrenda festa na esperança de agradar aos deuses imortais, ou se estava a testar os limites do conhecimento de Zeus. A estranha carne deixou os deuses aterrados e instantaneamente reconheceram-na como sendo humana e recusaram-se a comer - todos eles à exceção de Deméter (Ceres) que continuava à deriva em busca da filha, Perséfone (Proserpina) e, por isso, comeu o ombro esquerdo de Pélops com o espírito totalmente ausente.

Zeus atingiu Tântalo com o seu raio e puniu-o para além da morte, ao pendurar o seu corpo numa árvore de fruto que pendia sobre um ribeiro. Tântalo tinha sofrido de sede, com a água a correr ao seu alcance, mas quando se debruçava para beber, ela retrocedia fugindo-lhe das mãos. Tinha desejado comer a fruta, que era abundante, mas quando se esticou para a apanhar, os ramos afastavam-se do seu alcance. Tântalo é o símbolo da frustração e o seu destino continua a ser celebrado na palavra «tantalizante.»

Zeus ordenou a Hermes (Mercúrio) que apanhasse todos os pedaços da criança assassinada e que voltasse a cozê-los no caldeirão. Em seguida, o rei dos deuses usou os seus poderes divinos para reconstituir Pélops mas faltava-lhe o ombro, Deméter criou um novo feito em marfim e ele foi o rei seguinte da Lídia.

O seu corpo reconstituído era tão belo que Posídon (Neptuno) se apaixonou por ele e levou-o para o Olimpo como seu copeiro.

O outro filho de Tântalo, Bróteas, era um grande caçador e seguiu o exemplo do pai ao desafiar os deuses. Recusou-se a venerar Ártemis (Diana), a deusa da caça, e como castigo, ela enlouqueceu-o. Chegou ao ponto de acreditar que era invencível ao fogo e saltou para cima de uma pira para o provar. As chamas consumiram-no, reforçando a terrível lição da morte de Tântalo, de que os deuses destroem quem os ofende. Apesar de ter estes dois exemplos presentes e da sua própria morte e reconstituição, Pélops não se portou melhor que o pai e o irmão.

Uma Praga sobre a Casa de Pélops

Pélops perdeu o reino que lhe foi retirado pelos bárbaros e andava em busca de novo para o conquistar. Também procurava uma mulher e escolheu a princesa Hipodamia, filha do rei Enómao, da Arcádia.

Este estava relutante em deixar casar a filha, talvez porque ele próprio secretamente a desejasse, pelo que combinou uma corrida de carros em que cada concorrente tinha de competir com o rei.

O prêmio seria Hipodamia e o preço do perdedor seria a morte. O rei estava preparado para dar um avanço generoso aos pretendentes e até permitiu que a filha fosse nos seus carros, mas estava seguro da vitória porque os cavalos dele tinham sido um presente de Ares (Marte) e corriam mais depressa que o vento.

Enómao tinha já matado pelo menos 12 pretendentes, espetando as suas cabeças por cima dos portões do palácio e esperava vir a empilhar crânios suficientes para construir um templo para troçar dos deuses imortais. Pélops implorou a Posídon por ajuda e o deus forneceu-lhe cavalos alados assim como um carro com asas capaz de correr sobre o mar sem quebrar a superfície da água. Pélops deveria ter confiado nas dádivas do deus, mas quando chegou ao palácio de Enómao e viu as cabeças a apodrecer sobre os portões, começou a duvidar. Falou com o condutor do carro do rei, Mírtilo o filho de Hermes, prometendo-lhe o que ele quisesse para trair o amo. Mírtilo pediu metade do reino e o privilégio de partilhar da cama de Hipodamia na noite de núpcias, e Pélops concordou precipitadamente. Mírtilo retirou as cavilhas que seguravam as rodas aos eixos do carro de Enómao e substituiu-os por outros feitos de cera. O rei concedeu a Pélops o avanço habitual e depois deu ordem a Mírtilo para conduzir o carro mais depressa que o vento enquanto ele aprontava a lança para matar Pélops.

Mas à medida que o carro rodava cada vez mais depressa, a cera foi derretendo e, de repente, as rodas caíram. O carro espatifou-se e Enómao morreu no meio dos destroços. Pélops pôde casar com Hipodamia

e, como parte dos festejos do casamento, conduziu o carro alado sobre o mar, na companhia do traidor Mírtilo. Hipodamia teve sede, pelo que Pélops conduziu os cavalos para terra tendo aportado numa ilha onde foi em busca de água. Quando ele regressou, a mulher estava banhada em lágrimas e contou-lhe como é que o condutor tinha tentado violá-la. «Isso não é verdade!», interrompeu Mírtilo, «Tu prometeste-me que eu podia desfrutar da tua noiva na noite de núpcias e, portanto, eu estava apenas a tentar receber o que me é devido.» Pélops não disse nada e continuaram o caminho até que estavam perto de Euboea. De repente, Pélops empurrou Mírtilo para fora do carro, pelo que caiu ao mar. À medida que se afundava, Mírtilo rogou uma praga sobre Pélops e todos os membros da sua casa.

Pélops conquistou a maior parte do sul da Grécia e deu-lhe o nome de Peloponeso. Construiu um grande reino e, na maior parte do tempo, reinou bem, embora também tenha cortado o corpo de um rei rival, Estínfalo da Arcádia, e espalhado os bocados de tal forma que ninguém, nem mesmo um deus, pôde reconstituí-lo. Pélops e Hipodamia tiveram numerosos filhos, entre os quais Piteu de Trezeno, os gêmeos Ateu e Tiestes, e Círon o assassino que Teseu matou. Pélops tinha outro filho, Crisipo, cuja mãe era a ninfa Axíoque. O rei Laio  de Tebas visitou em certa altura Pélops e ficou completamente perdido por Crisipo, pelo que o raptou e o levou à força, no seu carro, para Tebas. Hipodamia há muito que sentia ciúmes do afeto de Pélops por Crisipo e receava que este filho ilegítimo fosse nomeado herdeiro do reino em vez dos filhos dela.

E o ciúme era de tal ordem que ela o seguiu até Tebas onde o foi encontrar na cama de Laio e apunhalou-o até à morte. A vítima ainda teve tempo de pronunciar o nome da assassina antes de morrer. Esta fugiu de Tebas e depois suicidou-se. Esta foi a primeira consequência infeliz da praga lançada por Mírtilo sobre a casa de Pélops.

Uma Praga sobre a Casa de Atreu

Pélops deu aos filhos, Atreu e Tiestes, um rebanho de belos carneiros, esperando que o fato de terem a propriedade comum do rebanho os ajudaria a viver juntos em paz, mas o que é certo é que não tardaram a guerrear entre si. A culpa foi de Hermes, que tinha querido vingar a morte do irmão Mírtilo e enviou um borrego com velo de ouro para se juntar ao rebanho. Atreu tinha prometido sacrificar o melhor dos animais à deusa Ártemis, mas nem sequer podia pensar em perder este novo tesouro. Matou o borrego mas ficou com o velo de ouro que encheu para que parecesse estar vivo. O irmão Tiestes ficou cheio de inveja e de cobiça do velo de ouro. Quando a mulher de Atreu, Aérope, lhe fez uma investida sexual, Tiestes disse-lhe:

«Farei tudo o que quiseres, desde que me devolvas o borrego de ouro, pois a verdade é que ele me pertence, já que fazia parte da minha metade do rebanho.» Aérope abriu a arca onde estava guardado o borrego de ouro e, secretamente, entregou-o ao novo amante.

O rei de Micenas morreu sem deixar herdeiro e o povo enviou um mensageiro ao oráculo para saber quem deveria ser o próximo rei. «Aquele que tem o borrego de ouro», foi a resposta. Quando o mensageiro regressou, Atreu reclamou a subida ao trono. «Concordas que o homem que tem o borrego de ouro seja o rei?», perguntou Tiestes ao irmão e quando Atreu concordou, mostrou-lho e exigiu o trono. Desta vez havia de ser Zeus a interferir nas vidas dos irmãos. Ele queria que fosse Atreu e não Tiestes a reinar em Micenas, pelo que enviou Hermes à cidade para perguntar a este último se concordaria em desistir da exigência do trono se o Sol invertesse o seu curso nos céus. Tiestes pensou que isto seria impossível e concordou alegremente.

Zeus virou os cavalos do Sol para trás no seu percurso e Tiestes teve de renunciar ao reino de Micenas e partir para o exílio.

A vingança de Atreu

Atreu agora sabia que a mulher tinha sido amante do irmão, mas quis perdoar a ambos, mesmo quando ela deu à luz os filhos gêmeos de Tiestes, Plístenes e Tântalo. Aérope e Atreu tiveram dois filhos, Agamémnon e Menelau, e uma filha, e Atreu também teve um filho Plístenes, de um casamento anterior. A maldição contra a casa de Pélops atuou de novo quando Atreu enviou assassinos para matarem Plístenes, o filho de Tiestes, e eles, por engano, mataram Plístenes, o seu próprio filho. Em seguida, Atreu ofereceu a Tiestes o perdão e metade do reino, e este foi suficientemente tolo para acreditar. Regressou a Micenas com os bebês, filhos de Aérope, Plístenes e Tântalo e mais três filhos mais velhos, cuja mãe era uma ninfa. Atreu convidou-o para uma festa de reconciliação e fez grandes preparações para o banquete. Matou os três filhos mais velhos de Tiestes, cortou-os em pedacinhos e depois juntou a carne dos dois bebês e cozeu tudo fazendo uma grande empada. Esta foi servida ao convidado de honra, Tiestes, que comeu o recheio. Nessa altura, Atreu fez sinal a um servo para que trouxesse a travessa onde estavam empilhadas as cabeças, mãos e pés. Horrorizado e dominado pela dor, Tiestes vomitou tudo o que tinha comido e lançou uma maldição sobre a casa do irmão.

Tiestes consultou depois o oráculo de Delfos para conhecer a melhor forma de se vingar de Atreu e foi-lhe dito que ele teria de ser pai de um filho da sua própria filha. O ódio que o movia contra o irmão era tão profundo que não hesitou em procurar a filha Pelópia, uma sacerdotisa de Atenas, e violá-la, escondido sob uma máscara para que ela não o reconhecesse. Quando fugiu, caiu-lhe a espada que Pelópia guardou como pista para o identificar. Ela já estava grávida quando Atreu a foi cortejar, após ter atirado a primeira mulher, Aérope, ao mar onde morreu. Pelópia casou com Atreu, mas a criança que nasceu passados oito meses do casamento, era filho de Tiestes. Deu-lhe o nome de Egisto e em seguida tentou matá-lo expondo-o numa colina, mas Atreu, julgando que Pelópia estava a sofrer das sequelas do parto, mandou os servos à montanha para salvarem a criança. Egisto foi tratado como filho verdadeiro de Atreu e foi proclamado herdeiro legítimo de Micenas. Até agora tudo mal, mas o pior ainda estava para vir!

Os filhos verdadeiros de Atreu, Agamémnon e Menelau capturaram Tiestes e trouxeram-no de volta a Micenas. Atreu ordenou ao, por assim dizer, filho Egisto que matasse Tiestes na masmorra onde se encontrava, apesar de o rapazito ter apenas sete anos. Tiestes não teve dificuldade em dominar o miúdo e tirar-lhe a espada das mãos, preparando-se para o matar quando, de repente, reconheceu a arma. Era aquela espada que ele, Tiestes, tinha perdido quando violara a própria filha:

«Prometo poupar-te a vida se me jurares que farás três coisas que eu te mandar fazer», disse ele ao rapaz. «Primeiro, traz a mulher do teu pai aqui, em segredo.» Egisto cumpriu a promessa e levou Pelópia à masmorra. Ela ficou radiante por voltar a ver o pai - quer dizer, até Tiestes lhe revelar que ele era o dono da espada de Egisto, e o homem que a tinha violado.

Pelópia ficou tão horrorizada que enfiou a espada no peito até ao coração, tendo morrido na frente do pai violador e do filho-irmão. Em seguida, Tiestes ordenou a Egisto que mostrasse a Atreu a espada ensanguentada e que lhe dissesse que Tiestes estava morto, como ele lhe mandara. Logo que isto foi feito, Tiestes contou a Egisto quem ele era e pediu ao rapaz que matasse Atreu por ele. Egisto apanhou Atreu de surpresa quando estava sentado a celebrar a morte do irmão. Com o desaparecimento de Atreu, Tiestes voltou a ser o rei de Micenas, sendo Egisto o seu herdeiro. E a maldição sobre as casas de Pélops e de Atreu ainda não tinha terminado.

Mitologia Grega
Zeus, Deméter, Hermes, Posídon, Ártemis   Tântalo Pélops, Níobe, Bróteas, Hipodamia, Mírtilo, Crisipo, Atreu, Tiestes, Aérope, Plístenes, Tântalo, Agamémnon, Menelau, Pelópia, Egisto
6/26/2019 9:21:51 PM | Por Alice Mills
Os mitos de Creta

Os mitos gregos de Creta falam de um reino contemporâneo das famílias reais de Tebas e Atenas, mas com poderes superiores aos reinos da Grécia continental. Existem provas arqueológicas que sugerem que estes mitos de Creta lançam um olhar retrospectivo para um reino que já existia muito antes de Tebas, Micenas ou Atenas se terem tornado cidades poderosas. A civilização cretense, também conhecida como minóica, designação derivada do rei mítico Minos, prolongou-se por 1500 anos mas entrou em declínio após a erupção vulcânica de Thera, por volta de 1450 a.e.c. Os cretenses adoravam uma deusa mãe e peças de cerâmica que chegaram até aos nossos dias mostram homens jovens a executar uma dança com um touro, talvez em homenagem à deusa. As memórias desta dança com o touro, distorcidas ao longo de gerações, podem ter contribuído para a história do Minotauro cretense.

Minos e o Minotauro

Minos era um dos três filhos de Zeus (Júpiter) e de Europa. Tornou-se rei de Creta, após uma luta pelo poder travada com os irmãos. «Manda-me um touro dos mares», pedira Minos a Posídon (Netuno), «para confirmar que tenho o direito de reinar.»

Um magnífico touro branco nadou até às costas de Creta, onde Minos deveria ter sacrificado em honra do deus do mar, mas ele ficou tão embevecido com o touro que não pôde suportar a ideia de o matar. Manteve-o por isso entre o seu gado e sacrificou um animal inferior em seu lugar, esperando que Posídon não desse conta da diferença.

Mas Posídon não era parvo e também não tardou a vingar-se. A rainha Pasífae, mulher de Minos, também reparou na beleza magnífica do touro branco, pelo que Posídon pediu a Afrodite (Vênus), a deusa do desejo, para atiçar em Pasífae o desejo do animal, e ela tornou-se obcecada pela ideia de manter relações sexuais com o bicho, mas corria o risco de ser pisada e esmagada, caso se aproximasse do touro sem qualquer proteção, pelo que recorreu ao inventor grego Dédalo, para encontrar uma solução. Este construiu uma vaca de madeira dentro da qual Pasífae se poderia ocultar, qualquer coisa como uma miniatura do cavalo de Tróia, e o touro foi enganado com o estratagema. Pasífae ficou grávida do touro e nove meses depois deu à luz um filho, Astério. Este nome em grego significa «estrelado», só que ele nasceu com a cabeça e o torso superior de um touro e a parte inferior com a forma de homem, e era vulgarmente conhecido pela alcunha o Minotauro (que em grego significa «o touro de Minos»). O rei Minos sentia-se envergonhado e ultrajado com o nascimento do monstro e quis escondê-lo dos habitantes da ilha. Pediu por isso a Dédalo para construir um labirinto em Knossos, um espaço enorme, subterrâneo, com uma porta fechada a cadeado e que era a única entrada e saída. Minos esperava que o Minotauro aí vivesse em total segredo. Entretanto, Pasífae recuperou do desejo louco que Afrodite lhe tinha imposto e voltou a ser uma esposa fiel. O rei e a rainha continuaram assim a ter outros filhos, entre os quais duas moças, Ariadne e Fedra, e um rapaz, Andrógeo. Este último viria mais tarde a deslocar-se a Atenas, para tomar parte em jogos atléticos, conquistando todos os títulos. O rei de Atenas, Egeu, começou a suspeitar que este campeão não era só um atleta mas também um apoiante dos rebeldes que estavam a causar problemas no reino. Pelo que lhe armou uma emboscada, quando ele regressava a casa, de que resultou a sua morte às mãos dos homens de Egeu. Este crime viria a ser o ponto de partida para uma guerra entre Atenas e Creta, que viria a terminar com a derrota dos atenienses. A punição foi o fornecimento de sete rapazes e sete moças, de nove em nove anos. Toda a gente sabia que estes jovens atenienses estavam condenados a serem comidos pelo Minotauro.

Dédalo e ícaro

Após Dédalo ter construído o intrincado labirinto em Creta, Minos aprisionou-o juntamente com o filho ícaro numa torre. A intenção era manter secreta a existência do Minotauro, mas mesmo sabendo dos mexericos que grassavam por todo o lado, a principal razão para o secretismo era o desejo de deter o escândalo acerca da mulher Pasífae e o touro.

A torre onde Minos tinha aprisionado Dédalo e o filho era bastante alta e eles encontravam-se no cimo. As escadas eram mantidas permanentemente sob vigilância, pelo que o rei estava seguro de que não poderiam fugir e por isso também não se preocupou com grilhões.

Dédalo olhou à volta do espaço para ver se descortinava alguma forma de fugir. Tinha com ele pedaços de cera e nos cantos da sala havia folhas e penas arrastadas pelo vento para dentro da janela. A torre nunca tinha sido limpa desde a sua construção.

Dédalo juntou as penas e fez dois pares de asas com elas, colando-as com a cera. Escolheu para ele o par maior e deu o outro a Ícaro. «Tem cuidado», recomendou ele ao filho. «Tens de seguir perto de mim. Não podes aproximar-te do mar, pois cairás se as penas se molharem; também não poderás aproximar-te do Sol, porque cairias se a cera aquecesse e derretesse.»

Pai e filho passaram pela janela e voaram para fora da torre. Os cretenses que os viam pensavam que eram deuses imortais. Passaram a voar sobre muitas das ilhas gregas e ícaro começou a ficar aborrecido com o ritmo lento que o pai impunha assim como a altura sem variações a que seguiam. Certamente, pensou com os seus botões, o pai não daria conta se ele tentasse fazer umas manobras com as suas esplêndidas asas.

Começou a fazer vôos picados e saltos mortais pelos céus, cada vez voando mais alto, até ficar demasiado perto do Sol. A cera derreteu num instante o que fez com que se precipitasse no mar onde se afogou. Quando o pai olhou para trás, já só viu uma série de penas a flutuar na água. E foi assim que o maior inventor, Dédalo, ajudou o filho a encontrar a liberdade, mas também a morte.

Anos mais tarde, Minos tentou forçar Dédalo a regressar a Creta, mas como não sabia para onde ele tinha ido, forjou um plano para o encontrar que era digno do próprio Dédalo. Minos ofereceu uma recompensa a quem conseguisse passar um fio por uma concha em espiral, desde a abertura até à ponta, convencido de que só Dédalo seria suficientemente inteligente para resolver a questão.

Dédalo fez um furo na ponta da concha e besuntou-o com mel. Depois atou o fio numa formiga grande que enfiou pela abertura da concha e esta lá encontrou o caminho para chegar ao mel, arrastando consigo o fio. O rei da Sicília recebeu o prêmio e acabou depois por confessar a Minos que, na realidade, o problema tinha sido resolvido pelo hospede, um grande inventor. Minos dirigiu-se à Sicília em busca de Dédalo, mas as filhas do rei siciliano não quiseram perder a companhia do amado hospede e atiraram com Minos para dentro de um banho onde o viriam a matar. A última invenção de Dédalo para Minos foi um tubo que partia do telhado por cima da banheira onde ele se encontrava e através do qual as princesas verteram água a ferver até que o reide Creta morreu.

Teseu e Ariadne

Quando chegou a Atenas como um herói, Teseu não sabia nada dos reféns que estavam a ser enviados para Creta para morrerem, mas notou de imediato que as pessoas da cidade estavam mais ansiosas do que o normal e que no palácio tinham lugar rituais pesarosos. Quando lhe foi contado o que se passava, tomou logo a decisão de ajudar, pelo menos assumindo o lugar de um dos reféns que estavam para partir. Egeu esforçou-se desesperadamente para o convencer a não ir, mas Teseu anunciou a decisão na praça do mercado e, uma vez tornada pública, o rei tinha mesmo de o enviar para Creta.

«Não te atormentes mais», disse Teseu, «eu prometo trazer todos os reféns de volta em triunfo, juntamente com a cabeça do Minotauro.» A sua afirmação foi tão convincente que Egeu lhe deu umas velas brancas para equipar o barco na viagem de regresso. Até então, o barco que fazia a ligação entre Atenas e Creta com a sua carga infeliz era equipado com velas negras, que significavam morte e luto. Agora, Egeu ousava esperar que veria o barco regressar com velas brancas de felicidade.

Durante a viagem, Teseu disse ao capitão do navio que tanto ele como os seus homens tinham de pernoitar em Creta prontos a partir a qualquer momento. O barco chegou ao porto de Creta e o rei Minos foi a bordo inspecionar os reféns acompanhado pela mulher e pela filha Ariadne.

A princesa apaixonou-se por Teseu mal o viu e, quando seguiam em procissão para o palácio, aproveitou uma oportunidade para lhe sussurrar ao ouvido:

«O Minotauro é meu meio-irmão, mas se quiseres casar comigo, ajudar-te-ei a matá-lo.» Teseu concordou com um aceno de cabeça e uma grande satisfação; a sorte, como habitualmente, traçava-lhe o caminho, ou seria obra da dourada Afrodite, a deusa do desejo, a quem ele tinha feito um sacrifício mesmo antes de partir de Atenas?

Através do labirinto 

Ariadne arranjou uma forma de Teseu assinalar o percurso através do escuro labirinto de modo a que pudesse encontrar o caminho para a saída após acabar com o Minotauro. Ela deu-lhe um novelo de fio e disse-lhe para atar a ponta à porta. O fio iria sendo desenrolado à medida que ele fosse andando pelo Labirinto, e para encontrar o caminho de volta, só tinha de seguir o fio pois este levá-lo-ia à saída. À noite, os reféns foram levados para a entrada e empurrados, um a seguir ao outro, para a escuridão que cheirava a carnificina. Teseu conseguiu atar o fio de Ariadne à porta mal ela foi fechada e ordenou aos atenienses para se manterem ali e não se porem a andar, o que faria com que se perdessem, enquanto ele ia penetrar no Labirinto, encontrar o monstro e matá-lo. Não dispunha de qualquer arma, evidentemente, e foi tateando na escuridão, parando e escutando a cada curva do labirinto. Por fim, ouviu o Minotauro, que aguardava pacientemente pela primeira vítima para começar a espalhar o pânico e a gritaria. Teseu travou a sua mais dura luta, no escuro, de mãos vazias, contra um inimigo munido de chifres aguçados, mas o Minotauro tinha-se habituado a dar-se por satisfeito com a sua limitada dieta de atenienses aterrorizados e julgou mal este oponente. Assim, Teseu conseguiu atirá-lo ao chão, pegar-lhe pelos chifres e torcer-lhe a cabeça até lhe partir o pescoço.

Ariadne roubou a chave do labirinto e aguardava com a porta aberta, juntamente com os reféns atenienses, que Teseu chegasse agarrado ao fio. Correram todos para o porto e saltaram para dentro do navio que se fez à vela rumo a Atenas.

O capitão e a tripulação não perderam tempo enquanto aguardaram no porto. Aproveitaram a escuridão para fazer buracos na maior parte dos navios cretenses, tendo deixado uns poucos que ainda ficaram em condições de navegar. Alguém deu o alarme e os habitantes de Creta precipitaram-se para os seus barcos para evitar que Teseu partisse, mas no meio de uma grande confusão só uns poucos conseguiram chegar perto do barco ateniense, mas foram incapazes de o impedir de seguir o seu rumo.

Foi uma viagem tranquila e, passados poucos dias, Teseu e Ariadne chegaram à ilha de Naxos. Ariadne adormeceu à beira-mar e Teseu rastejou silenciosamente para dentro do barco e partiu. Ninguém sabe por que razão ele a abandonou.

Ter-se-ia arrependido da promessa de casar com ela? Terá recebido instruções de Dioniso (Baco) que planejava desposá-la? Ou estaria ele farto dela após meia dúzia de noites de prazer, e até já andasse em perseguição de outra mulher? Fosse qual fosse a razão, a surpresa e o desgosto de Ariadne ao acordar, não duraram muito.

Ela pediu ajuda aos deuses e Dioniso apareceu de imediato com os companheiros de vadiagem, pronto a casar com ela na hora. A coroa que ela usou neste casamento viria depois a ser posta nos céus como Coroa Boreal.

Teseu navegou para Atenas sem ela. No tumulto das aventuras, Teseu esqueceu-se de mudar as velas pretas para brancas, pelo que Egeu, que aguardava a sua chegada do cimo da Acrópole, um alto rochedo com lados em precipício, viu as velas pretas e, julgando que o filho
tinha morrido, atirou-se da Acrópole para a morte e é
em homenagem a ele que o Mar Egeu tem o seu nome. 

Mitologia Grega
Posídon, Afrodite, Dioníso, Ártemis,  Teseu Astério, Minotauro,  Minos, Pasífae, Dédalo, Ícaro, Ariadne, Fedra, Andrógeo, Egeu, Hipólita,
6/26/2019 9:20:58 PM | Por Alice Mills
O mito de Teseu

Existem duas versões do nascimento de Teseu. Segundo uma, ele é filho do deus do mar Posídon (Netuno), enquanto a outra refere que ele é filho de um homem mortal, o rei Egeu. Atena disse a Etra que ela tinha de ir ao templo fazer um sacrifício ao fantasma do cocheiro sepultado por perto. Etra foi ao templo no dia seguinte e aí encontrou Posídon esperando por ela para lhe tirar a virgindade à força. Nove meses mais tarde veio ao mundo o filho, Teseu, que cresceu em Trezeno, como herdeiro do reino. Era completamente invulgar a deusa virgem Atena aprovar um relacionamento sexual dentro do templo, mesmo que fosse com alguém do Olimpo. Mas, desta vez, ela não só aprovou, como foi responsável pelo envio da moça ao encontro do atacante. Isto porque, para ela, era mais importante que Teseu nascesse, do que manter o templo numa pureza virginal.

Na outra versão, Etra entregou a virgindade ao rei Egeu, de Atenas, encorajada pelo pai. Após dois casamentos sem filhos, Egeu ansiava por um filho e perguntou ao oráculo de Delfos como poderia ser pai.

O oráculo respondeu-lhe: «Não abras a tua pele de vinho até chegares a Atenas.» Ele não entendeu o que queria dizer esta mensagem e, em vez de seguir diretamente para Atenas, visitou o rei de Trezeno, Pitéu, que era um especialista na descodificação de mensagens dos oráculos, pelo que percebeu logo que o oráculo tinha ordenado a Egeu que se mantivesse casto até chegar a Atenas, visto que na primeira vez que tivesse relações sexuais com uma mulher, seria pai de um filho.

Mas o rei de Trezeno não lhe explicou isto porque ele queria que a filha Etra se tornasse na mãe do filho de Egeu que seria o herdeiro do reino de Atenas.

Nessa noite, ele persuadiu a filha a partilhar a cama com o hóspede e, de manhã, antes de partir de regresso a casa, Egeu pediu-lhe que seguisse no carro com ele até às portas da cidade. Aí ele encontrou um sítio onde havia um buraco profundo na estrada onde meteu as sandálias e a espada. Em seguida, empurrou uma enorme pedra com grande esforço até ela rolar para cima do dito buraco, tendo dito a Etra: «Só um herói poderá fazer mover esta pedra e encontrar a minha espada e as minhas sandálias.

Eu duvido que estejas grávida do meu filho, mas se o tiveres, trá-lo aqui e deixa-o experimentar a força contra esta pedra. Se a conseguir mover, manda-o para Atenas com a espada e com as sandálias, para eu o reconhecer e o tornar herdeiro do meu reino.

Não será seguro para ele chegar a Atenas antes disso, no caso de um dos meus desprezíveis sobrinhos tentar matar-me.» E dito isto, Egeu partiu.

Nove meses mais tarde, Etra deu à luz Teseu, que foi crescendo na corte do rei Pitéu. Quando tinha sete anos de idade, Héracles (Hércules) visitou-os, no caminho para um dos seus 12 trabalhos e deixou cair a sua assustadora pele de leão para ficar mais confortável no banquete de boas-vindas. Todas as crianças ficaram aterrorizadas ao verem a pele de leão no chão, que parecia mesmo um animal vivo, mas Teseu agarrou um machado e correu para ele disposto a matá-lo, até que se apercebeu de que era só a pele. Este foi o seu primeiro ato heróico, mas ainda não era suficientemente forte para deslocar a rocha e retirar a espada do pai.

Perigos na Estrada

Quando Teseu já não era uma criança, a mãe levou-o até ao local onde Egeu tinha enterrado as sandálias e a espada sob a pedra. O rapaz empurrou-a sem esforço e pôs a descoberto os sinais de reconhecimento do pai. Calçou as sandálias e, com a espada na mão, partiu para a longa jornada até Atenas. O caminho estava cheio de assassinos, como ele bem sabia, e poderia ter escolhido a via mais segura, por mar, mas queria afirmar-se como herói.

Teseu admirava Héracles e ansiava por conquistar o mesmo gênero de glória. Além disso, queria conhecer o pai em Atenas, não como um jovem desconhecido, mas como um herói de renome.

Teseu e Perifetes 

Pouco depois de partir, Teseu encontrou Perifetes, o filho estropiado do deus coxo Hefesto (Vulcano) que costumava esconder-se no subsolo junto à estrada para atacar quem passava com uma grande moca de bronze. Como apanhava as pessoas de surpresa, roubou e matou muitos viajantes, mas Teseu estava de sobreaviso. Quando Perifetes saltou para o caminho, atrás dele, Teseu voltou-se, agarrou-o, atirou-o ao chão e matou-o com a própria moca. Levou com ele a arma do crime, talvez numa imitação deliberada de Héracles, e que lhe serviria para matar muitos mais pelo caminho.

Sínis e os pinheiros ligados

Ao longo da estrada para Atenas havia um pinhal que servia de esconderijo a um bandido chamado Sínis, filho de Posídon. Sempre que capturava um viajante, costumava atar dois pinheiros e prender a vítima a ambos, chegando mesmo a forçar o desgraçado a servir de atilho. Em seguida, Sínis soltava as árvores o que despedaçava o infeliz. Teseu permitiu que Sínis o levasse para o pinhal e até o ajudou a escolher dois pinheiros fortes e a atá-los, mas foi Teseu quem prendeu o bandido às árvores, ignorando os seus pedidos de misericórdia. E assim, o facínora morreu despedaçado, tal como tinha feito a muitos outros.

Círon, o assassino

A estrada passava depois por uma zona plana no vale de uma montanha com uma colina de um lado e uma escarpa abrupta que se precipitava no mar.

Os viajantes que caíam ou tentavam contornar o sopé da montanha eram comidos por uma tartaruga, um dos servos de Hades (Plutão). Um tratante chamado Círon dominava o caminho estreito da montanha. Costumava sentar-se numa pedra, no meio da estrada, e exigia que todos os viajantes lhe lavassem os pés, como portagem. Mal as vítimas se ajoelhavam, o malvado dava-lhes um pontapé que os fazia cair pela montanha abaixo até ao mar, onde a tartaruga os aguardava para os devorar. Teseu chegou à pedra de Círon e deu-lhe um potente pontapé que a fez precipitar-se no mar e, com ela, seguiu Círon, que foi parar mesmo no meio da boca da tartaruga, não tendo tido tempo nem para gritar durante a queda.

Cercion e procrustes

Quase a chegar a Atenas, perto de Elêusis, vivia um lutador chamado Cércion, que obrigava todos os que por lá passavam a lutar com ele e todos perdiam, não só a luta, como a própria vida. Teseu era bem mais dotado que um lutador e matou-o lançando-o ao chão e esmagando-lhe os ossos. Um pouco mais abaixo, na mesma estrada, vivia o pai de Sínis, Procrustes, outro bandido que costumava oferecer aos viajantes uma cama para pernoitarem. Ele possuía duas camas: uma era muito comprida e a outra muito curta. Metia as pessoas altas nesta última e cortava-lhes o que sobrava no comprimento. De forma idêntica, metia os que eram baixos na cama grande e esticava-os até ficarem do tamanho dela. Todos os que passaram por esta medição, acabaram mortos.

Teseu obrigou Procrustes a ir para cima da cama pequena e mediu-o e aparou-o até morrer.

Quando Teseu chegou a Atenas, já toda a gente tinha ouvido falar do novo herói que tinha feito com que a estrada se tornasse segura para os viajantes, mas ninguém sabia que ele era filho de Egeu e herdeiro do trono - ninguém, à exceção da mulher do rei, Medeia. Esta era a mesma Medeia que tinha ajudado Jasão a conquistar o Velo de Ouro.

Agora, como rainha de Atenas, ela queria que o filho, Medo, fosse o herdeiro do trono do velho rei. Graças às suas artes mágicas, persuadiu Egeu a envenenar o novo campeão com vinho, no banquete de boas-vindas.

A única coisa em que Teseu conseguia pensar era no momento em que o pai o reconhecesse. Aceitou

a taça de vinho que este lhe estendia e entregou-lhe a espada. De repente, o rei reconheceu a arma que tinha escondido há tantos anos em Trezeno. Arrancou a taça da mão de Teseu e gritou bem alto: «Prendam essa malvada, a minha mulher!» Medeia não conseguiu esconder a sua culpa, pelo que foi banida de Atenas juntamente com o filho Medo, enquanto Teseu era aclamado como filho do rei e seu herdeiro.

Teseu, o Novo Herdeiro

Nem todos aplaudiram a chegada do novo herdeiro. Egeu tinha um irmão, Palas, que tinha 50 filhos. Durante anos, eles tinham esperado virem a partilhar o governo do reino entre si quando Egeu morresse e agora planejavam uma forma de atrair Teseu a um embuste e matá-lo. A sorte esteve do lado dele, que descobriu o plano e matou os 50 filhos de Palas. Depois disto, Egeu quis que o filho recém-aparecido ficasse em Atenas e não arriscasse mais a vida em aventuras, tanto mais que - como ele frisara a Teseu - a matança de tantos vilões durante o percurso para Atenas, tinha granjeado uma reputação de herói. Não tinha, portanto, de provar mais nada a si mesmo ou aos outros.

Mas Teseu mostrava-se inquieto na corte, como se estivesse numa prisão dourada. 

À primeira oportunidade, fugiu do palácio para ir em busca de outra aventura.

Héracles tinha trazido um touro que lançava fogo pelas narinas, para a Maratona, como parte dos seus trabalhos, e estava agora enfurecido na planície, aterrorizando os aldeãos. Mal Teseu ouviu falar deste problema, descobriu uma forma de sair secretamente de Atenas e ir até à Maratona. Muito antes de conseguir ver o touro, já se ouviam os seus urros que, no entanto, não eram suficientes para assustar o herói. O que Héracles tinha conseguido antes dele, jurara Teseu a si próprio, havia de ser igualado. Avançou sem medo para o touro, sabendo com exatidão o que tinha a fazer. Com uma das mãos, agarrou-lhe um chifre, e com a outra apanhou-lhe as narinas, depois empurrou a cabeça para um lado e para o outro, e também para baixo, até que o touro se ajoelhou. Atou-lhe uma corda à volta do pescoço e não lhe deu mais problemas, seguindo atrás dele até Atenas.

O Rapto de Helena

Teseu tinha um amigo, Pirítoo, rei de Lápitas, que era filho de Zeus (Júpiter). Cada um deles tinha uma má influência no outro. Ambos achavam que os filhos dos deuses mereciam ter nas suas camas as melhores mulheres e que não se deviam ligar a nada menos que filhas de Zeus. Tinham ouvido falar de uma delas, Helena de Esparta, que tinha fama de ser a mais bela das mulheres e eles planejavam raptá-la e forçá-la a casar-se, lançando à sorte qual seria o felizardo. Não os incomodava nada o fato de ela ser ainda uma criança. Teseu ganhou e, com a ajuda de Pirítoo, raptou Helena, o que constituiu uma ofensa aos deuses já que a captura se deu no templo da deusa virgem Ártemis (Diana). Confiou-a à guarda da mãe, Etra, após ter casado com ela à força. Os irmãos de Helena, Castor e Polidectes (Pólux) vieram libertá-la e levaram Etra para Esparta, como escrava. Quando Helena voltou a ser raptada, anos mais tarde, por Paris de Tróia, a mãe de Teseu foi para Tróia com ela, pois continuava a ser sua escrava.

Teseu não se interessou por esta aventura que trouxe à mãe anos e anos de sofrimento e humilhação. Pirítoo e Teseu não aprenderam nada com isso, pois o plano falhado que se seguiu consistia em trazer outra filha de Zeus, Perséfone (Proserpina) do mundo dos mortos.

Esta tentativa terminou com ambos a serem lançados para tronos do mundo das sombras, de onde Héracles salvou Teseu, mas onde Pirítoo permaneceu para sempre. Teseu desejou ardentemente igualar os feitos de Héracles e, até ao momento, tinha provado a si mesmo ser um herói a tratar com homens terríveis, mas no seu comportamento com as mulheres, tinha provado a si próprio ser um malandro.

Teseu e Ariadne

Quando chegou a Atenas como um herói, Teseu não sabia nada dos reféns que estavam a ser enviados para Creta para morrerem, mas notou de imediato que as pessoas da cidade estavam mais ansiosas do que o normal e que no palácio tinham lugar rituais pesarosos. Quando lhe foi contado o que se passava, tomou logo a decisão de ajudar, pelo menos assumindo o lugar de um dos reféns que estavam para partir. Egeu esforçou-se desesperadamente para o convencer a não ir, mas Teseu anunciou a decisão na praça do mercado e, uma vez tornada pública, o rei tinha mesmo de o enviar para Creta.

«Não te atormentes mais», disse Teseu, «eu prometo trazer todos os reféns de volta em triunfo, juntamente com a cabeça do Minotauro.» A sua afirmação foi tão convincente que Egeu lhe deu umas velas brancas para equipar o barco na viagem de regresso. Até então, o barco que fazia a ligação entre Atenas e Creta com a sua carga infeliz era equipado com velas negras, que significavam morte e luto. Agora, Egeu ousava esperar que veria o barco regressar com velas brancas de felicidade.

Durante a viagem, Teseu disse ao capitão do navio que tanto ele como os seus homens tinham de pernoitar em Creta prontos a partir a qualquer momento. O barco chegou ao porto de Creta e o rei Minos foi a bordo inspecionar os reféns acompanhado pela mulher e pela filha Ariadne.

A princesa apaixonou-se por Teseu mal o viu e, quando seguiam em procissão para o palácio, aproveitou uma oportunidade para lhe sussurrar ao ouvido:

«O Minotauro é meu meio-irmão, mas se quiseres casar comigo, ajudar-te-ei a matá-lo.» Teseu concordou com um aceno de cabeça e uma grande satisfação; a sorte, como habitualmente, traçava-lhe o caminho, ou seria obra da dourada Afrodite, a deusa do desejo, a quem ele tinha feito um sacrifício mesmo antes de partir de Atenas?

Através do labirinto 

Ariadne arranjou uma forma de Teseu assinalar o percurso através do escuro labirinto de modo a que pudesse encontrar o caminho para a saída após acabar com o Minotauro. Ela deu-lhe um novelo de fio e disse-lhe para atar a ponta à porta. O fio iria sendo desenrolado à medida que ele fosse andando pelo Labirinto, e para encontrar o caminho de volta, só tinha de seguir o fio pois este levá-lo-ia à saída. À noite, os reféns foram levados para a entrada e empurrados, um a seguir ao outro, para a escuridão que cheirava a carnificina. Teseu conseguiu atar o fio de Ariadne à porta mal ela foi fechada e ordenou aos atenienses para se manterem ali e não se porem a andar, o que faria com que se perdessem, enquanto ele ia penetrar no Labirinto, encontrar o monstro e matá-lo. Não dispunha de qualquer arma, evidentemente, e foi tateando na escuridão, parando e escutando a cada curva do labirinto. Por fim, ouviu o Minotauro, que aguardava pacientemente pela primeira vítima para começar a espalhar o pânico e a gritaria. Teseu travou a sua mais dura luta, no escuro, de mãos vazias, contra um inimigo munido de chifres aguçados, mas o Minotauro tinha-se habituado a dar-se por satisfeito com a sua limitada dieta de atenienses aterrorizados e julgou mal este oponente. Assim, Teseu conseguiu atirá-lo ao chão, pegar-lhe pelos chifres e torcer-lhe a cabeça até lhe partir o pescoço.

Ariadne roubou a chave do labirinto e aguardava com a porta aberta, juntamente com os reféns atenienses, que Teseu chegasse agarrado ao fio. Correram todos para o porto e saltaram para dentro do navio que se fez à vela rumo a Atenas.

O capitão e a tripulação não perderam tempo enquanto aguardaram no porto. Aproveitaram a escuridão para fazer buracos na maior parte dos navios cretenses, tendo deixado uns poucos que ainda ficaram em condições de navegar. Alguém deu o alarme e os habitantes de Creta precipitaram-se para os seus barcos para evitar que Teseu partisse, mas no meio de uma grande confusão só uns poucos conseguiram chegar perto do barco ateniense, mas foram incapazes de o impedir de seguir o seu rumo.

Foi uma viagem tranquila e, passados poucos dias, Teseu e Ariadne chegaram à ilha de Naxos. Ariadne adormeceu à beira-mar e Teseu rastejou silenciosamente para dentro do barco e partiu. Ninguém sabe por que razão ele a abandonou.

Ter-se-ia arrependido da promessa de casar com ela? Terá recebido instruções de Dioniso (Baco) que planejava desposá-la? Ou estaria ele farto dela após meia dúzia de noites de prazer, e até já andasse em perseguição de outra mulher? Fosse qual fosse a razão, a surpresa e o desgosto de Ariadne ao acordar, não duraram muito.

Ela pediu ajuda aos deuses e Dioniso apareceu de imediato com os companheiros de vadiagem, pronto a casar com ela na hora. A coroa que ela usou neste casamento viria depois a ser posta nos céus como Coroa Boreal.

Teseu navegou para Atenas sem ela. No tumulto das aventuras, Teseu esqueceu-se de mudar as velas pretas para brancas, pelo que Egeu, que aguardava a sua chegada do cimo da Acrópole, um alto rochedo com lados em precipício, viu as velas pretas e, julgando que o filho
tinha morrido, atirou-se da Acrópole para a morte e é
em homenagem a ele que o Mar Egeu tem o seu nome. 

O rei de Atenas

Teseu tornou-se então rei de Atenas e governou durante muito tempo e, na maior parte dele, de forma sensata.
Uma das suas decisões menos ponderadas foi o casamento com a Amazona Hipólita, a mesma mulher a quem Héracles (Hércules) tirou o cinto durante uma das suas tarefas; outras versões da história não referem Hipólita, mas sim a irmã Antíope. Fosse qual fosse a Amazona, a verdade é que Teseu a violou e a levou para Atenas, onde mais tarde ela viria a dar à luz o filho Hipólito. As irmãs de Hipólita ainda foram atacar Atenas, sem sucesso e, para cúmulo ainda tiveram
o azar de matar Antíope (ou seria Hipólita?) com uma seta, durante a luta. 

A mulher seguinte foi igualmente uma escolha irrefletida de Teseu. Tratou-se de Fedra, filha do rei Minos e de Pasífae, e irmã de Ariadne, a quem ele abandonara na ilha de Naxos. Quando Teseu levou Fedra para Atenas ela ficou entusiasmada por Hipólito, o qual não tinha o menor interesse por ela. Afrodite tinha-a infetado com esta loucura amorosa por estar ofendida com Hipólito, que tinha feito votos de castidade à deusa virgem Ártemis (Diana) desprezando o desejo sexual da deusa. Fedra adoeceu de anseio ardente. Por fim, a sua aia (sic) descobriu o seu desejo secreto e aproximou-a de Hipólito, que estava com qualquer mulher, mas não com a esposa do pai. Em seguida, Fedra ficou cheia de medo de que Hipólito dissesse a Teseu do seu desejo pecaminoso por ele e, em desespero, enforcou-se tendo deixado uma placa de cera contendo a acusação de que Hipólito tinha tentado violá-la. Teseu acreditou na mulher e condenou o filho ao exílio. Posídon tinha, havia muito, dado a Teseu o dom dos três desejos, e agora ele usava um deles para desejar a morte ao filho. E assim aconteceu, quando Hipólito conduzia o carro ao longo da costa, afastado de Atenas. Posídon fez estremecer a terra e enviou um touro do mar, o que fez com que os cavalos ficassem completamente desnorteados, galopassem pela praia e arrastassem Hipólito para a morte.

Há quem diga que a constelação Cocheiro representa Hipólito.

A deusa Ártemis apareceu a Teseu e revelou-lhe a verdade, ou seja, a inocência do filho.

Se fosse permitido aos deuses chorarem, ela teria chorado pela morte do amigo muito querido. Teseu não teve mais nenhuns atos dignos de nota até à sua morte. Graças aos seus dotes, libertou o mundo de muitos homens malvados, mas a sua vida foi cheia de problemas, em larga medida provocados por ele, especialmente os seus comportamentos imprudentes e loucos com as mulheres.

Mitologia Grega
Atena, Posídon, Perséfone  Teseu, Héracles, Castor, Polidectes,  Perifetes, Sínis, Círon, Cercion, Procrustes, Touro de Maratona Etra, Egeu, Pitéu, Medéia, Palas, Pirítoo, Helena de Esparta
6/24/2019 8:05:07 PM | Por Alice Mills
Meleagro e Atalanta

Meleagro era filho da rainha Alteia, de Cálidon, mas o pai era Ares, o deus da guerra, e não o marido de Alteia, o rei Eneu. Quando Meleagro nasceu, as três Parcas apareceram na cama de Alteia. A mais nova, Cloto que fia o fio da vida, profetizou que o bebê seria um homem de coragem e de ações nobres. A mulher adulta, Láquesis, que tece as malhas da vida humana, profetizou que ele viria a ser um herói de grande renome. A mais velha das Parcas, Átropo, que corta o fio da vida, olhou para o lume, onde ardia um tronco e profetizou que ele viveria até que o tronco ardesse completamente. Alteia saltou da cama, afastou o tronco do lume e depois escondeu-o no palácio, esperando que nunca mais fosse encontrado.

Meleagro cresceu e dedicou-se à caça. Quando era um jovem, chegou a Cálidon um javali selvagem, que tinha sido enviado por Ártemis (Diana), a deusa da caça, que estava zangada por o rei Eneu se ter esquecido de fazer sacrifícios em sua honra. Ninguém podia apanhar ou matar o javali, e Meleagro decidiu convocar todos os caçadores gregos para caçar em Cálidon. Vieram muitos heróis para apanhar o javali. Héracles (Hércules) não foi por estar ocupado com os trabalhos, mas Jasão e Teseu e alguns Argonautas estiveram presentes. A caçadora Atalanta também foi para Cálidon, tendo causado muitas desavenças entre os caçadores, que não queriam ver mulheres metidas na questão. Meleagro insistiu para que Atalanta fosse autorizada a caçar, porque a seta do deus do amor lhe tinha atingido o coração ao vê-la pela primeira vez.

Quando Atalanta nasceu, o pai tinha ficado desapontado por não ser um rapaz e ordenou que ela fosse exposta na montanha mais próxima. Foi salva de morte certa por uma mãe ursa que a amamentou e, mais tarde, foi encontrada por caçadores que a educaram. Atalanta cresceu, tornou-se uma excelente corredora e jurou que só casaria com um homem que a ultrapassasse numa corrida. As condições impostas para a corrida eram difíceis, pois ela achava-se no direito de matar todos os que falhassem. Muitos homens foram tentados pela beleza de Atalanta e todos eles morreram com a seta dela no coração. Meleagro não teve tempo de a desafiar para uma corrida a pé, mas esforçou-se por se manter ao lado dela durante os seis dias da caçada. Por fim, ambos mataram o javali, tendo Atalanta alvejado o animal com uma seta e Meleagro cortado o pescoço.

Era altura para festejar! Houve um banquete em que foi apresentada a cabeça do javali e a pele para o vencedor. Meleagro, por direito, deveria ter ficado com os prêmios, visto que tinha sido ele a disparar o arco que de fato matou o javali, mas ofereceu tudo a Atalanta. Os festejos tornaram-se numa discussão furiosa entre os caçadores, a que se seguiu uma luta, tendo Meleagro acabado por matar os tios, que eram também irmãos de Alteia.

O palácio estava num barafunda. Alteia lançou-se ao chão com o desgosto e a fúria e implorou a Hades (Plutão) e Perséfone (Proserpina) para que o filho se juntasse a eles no mundo dos mortos, tão depressa quanto possível. A seguir foi para o quarto, onde ela tinha escondido o tronco retirado do lume e que agora se achava dentro e uma arca envolto em tecidos de lã. Então, Alteia pegou nele e atirou-o para o fogo. Meleagro sentiu as chamas atacarem-lhe os membros, depois subirem-lhe ao coração e, a seguir estava morto. A mãe enlouquecida tinha-o matado!

Atalanta e as Maçãs

Após a desastrosa caçada de Cálidon, outros pretendentes desafiaram Atalanta para uma corrida a pé, conquistando assim a morte, pois não havia ser humano que corresse tão depressa como esta favorita da deusa Ártemis. A certa altura, o primo Melanion apaixonou-se por ela e pensou maduramente na corrida que tinha de disputar para a poder ter. Concluiu então que só poderia vencê-la com um artifício e pediu ajuda à deusa do desejo sexual, Afrodite (Vénus). Esta já estava muito impaciente com a atitude de Atalanta para com os pretendentes, pelo que desceu do Olimpo para dar a Melanion três maçãs, frutos irresistivelmente belos que ela tinha pedido a Dioniso (Baco).

«Usa-as com cabeça e Atalanta será tua!», afirmara a deusa.

Chegou o dia da corrida e Melanion colocou-se na linha de partida, com as maçãs nas mãos. Atalanta preparava-se para troçar dele e para lhe perguntar se ele achava que com os pesos nas mãos corria mais depressa, mas nessa altura viu as maçãs de mais perto e ficou impressionada com o seu brilho dourado. Quando a corrida terminasse e ele estivesse morto, pensou ela, ficaria com as maçãs, pelo que prometeu correr ainda mais depressa para garantir a posse daquelas maravilhas douradas.

A corrida começou e Atalanta lá ia sempre à frente de Melanion, até que ele atirou uma das maçãs na direção dela mas para fora do trajeto da corrida. Incapaz de lhe resistir, Atalanta saiu do trajeto para ir apanhar, o que conseguiu. Voltou de novo ao percurso e não tardou a ultrapassar Melanion, Então ele atirou a segunda maçã e lá foi ela atrás do fruto, saindo do percurso da corrida para a apanhar. Nesta altura, Melanion ia novamente à frente e a corrida estava prestes a terminar, mas, apesar disso, ela era suficientemente rápida para o apanhar e matá-lo. Só que surgiu a terceira maçã e os pés de Atalanta saíram do trajeto como se fosse a corrida da sua vida. Estava de novo para trás, correndo mais rapidamente que nunca, mas Melanion estava já na linha de meta.

A corrida terminou e ele ganhou a noiva.

Mitologia Grega
Ares, Afrodite, Teseu, Jasão Moiras Meleatro, Atalanta, Alteia, Melanion
6/22/2019 4:46:49 PM | Por Alice Mills
Pã e Siringe

Siringe era uma das dríades da Arcádia. Era uma companheira muito próxima de Ártemis (Diana) na caça e tal como a deusa tinha-se votado à castidade. Vestia-se como Ártemis e as suas armas eram iguais à dela, à exceção de a deusa ter um arco de ouro enquanto o da ninfa era de chifre. Um dia, o deus Pã encontrou Siringe quando ela regressava da caça e, instantaneamente, sentiu por ela uma atração avassaladora e estendeu a mão para a agarrar. Ela recuou, depois fugiu e ele largou em sua perseguição com os seus rápidos saltos de cabra. Ao mesmo tempo que corria, Siringe orava a qualquer deus que a ouvisse,implorando ajuda para lhe escapar, e quando viu o Rio Ládon pediu ao deus do rio que a ajudasse.

Pã quase a apanhou, estendendo os braços para a agarrar pela cintura, mas ao abraçá-la, constatou que tinha nos seusbraços um molho de canas. Siringe tinha-se transformado em canas que crescem nas águas baixas e nas terras pantanosas. Pã sentou-se desconsolado à beira de água, olhando para as canas e desejando ardentemente a ninfa. Foi então que ouviu a música suave que as canas fazem quando a brisa passa por elas. Partiu várias canas de diferentes comprimentose atou-as umas às outras fazendo a primeira flauta de Pã. A partir de então, as flautas de Pã são chamadas syrinx(siringe) na Grécia.

Há quem diga que foi o deus Pã que inventou o primeiro instrumento musical na forma da flauta de Pã. A flauta de Hermes, a que ele tinha negociado com Apolo em troca da arte das profecias e o domínio dos pastores, era apenas uma cópia da de Pã que tinha sido deixada um dia nos campos.

Mitologia Grega
  Pã, Siringe 
7/21/2018 2:54:50 PM | Por Rosana Rios
Topiltzin, o rei sacerdote

Dizem que o rei Tolteca Tecpancaltzin tornou-se de amores por Xochitl, donzela com quem nunca poderia se casar. O rei, porém, desprezou o tabu: e de seu amor proibido nasceu Topiltzin, cujo nome significa “nosso jovem príncipe”. A lei dizia que, ao completar 50 anos, Tecpancaltzin deveria passar o trono ao filho; e ele o fez, porém indicando dois corregentes para dividir o trono: Cuautli e Maxlatzin. Com isso, ele pretendia aplacar os deuses, por ter tido um filho com a donzela proibida. Portanto, segundo essa estória, Topiltzin se tornou rei aos 15 anos. A partir daí, o mito se confunde com a história e com muitas outras lendas.

Uma versão diz que o reinado triplo não foi bem-sucedido, pois nos anos seguintes quatro calamidades caíram sobre a região: secas prolongadas, terremotos, tempestades destruidoras e chuvas de granizo devastadoras. Muitos consideraram que essa era a resposta dos deuses à quebra do tabu por Tecpancaltzin, assim castigando seu povo. Uma outra versão, contudo, diz que o pai de Topiltzin teria sido assassinado antes de seu nascimento, e que sua mãe morreria no parto; um usurpador se apossaria do trono e que por [139] isso, ao crescer, o herdeiro legítimo decidiu buscar a purificação e as boas graças dos deuses, retirando-se para as montanhas. Lá, ele passaria sete anos, isolado em penitência, praticando o ritual do sangramento e pedindo que os seres divinos o tornassem um grande guerreiro para retomar o trono.

Mas todas as versões concordam que Topiltzin assumiria o reino e seria grande, o maior líder dos Toltecas. Logo após o início de seu reinado, ele partiria da terra de seus pais com todo o povo.

No caminho, venceria muitas batalhas e conquistaria várias cidades. Depois se fixaria nas ruínas de Tollán, ou Tula, cidade que alguns acreditam ter sido parte da cultura Teotihuacana.

Sob o domínio dos Toltecas, Tollán se tornou memorável. Cresceria em paz e abundância, tornando-se a Cidade Sagrada por excelência.

Topiltzin, já reverenciado como senhor da guerra, transformou-se num famoso sacerdote, criando novas formas de honrar os deuses: através de um sistema religioso Tolteca reformulado, ele instituiu o culto da Serpente.

Todos os sacerdotes deviam manter o celibato e evitar bebidas intoxicantes, seguindo o exemplo de seu líder. O sangramento ritual de si mesmos também era considerado uma forma de se purificar e buscar a elevação do espírito.

Com isso, foram abandonadas muitas das tradições passadas, pois Topiltzin proibiu os sacrifícios humanos. A partir daí, só eram permitidos nos templos de Tollán o sacrifício de animais. Conta-se que o centro cerimonial em Tollán tinha quatro templos recobertos de joias, associados a quatro regiões cósmicas: Tlacopãn, ao Leste, o Local da Aurora, de [140] cor amarela; Moctilampa, ao Norte, a Região do Mundo Subterrâneo, vermelha; Cihuatlampa, ao Oeste, a Região das Mulheres, azul-esverdeada; Huitzlampa, a Região dos Espinhos, ao Sul, branca. Dizia-se ainda que Topiltzin realizava sacrifícios rituais em quatro montanhas que cercavam a cidade e que lá podia se comunicar com o grande deus Ometéotl.

Seu reinado foi tão pacífico e cheio de prosperidade que ele foi considerado um deus, e até hoje é chamado Topiltzin-Quetzalcoatl, unindo ao seu o nome da grande divindade, a Serpente de Plumas.

Alguns registros dizem que o soberano e sacerdote reinou por 42 anos, e que depois disso a falta de sacrifícios humanos fez com que o malvado Deus Tezcatlipoca, o Deus do Espelho Obscuro, descesse à Terra para trair Topiltzin-Quetzalcoatl e encerrar seu reino de paz e de harmonia.

Nesse ponto, mais uma vez, a história do rei sacerdote se confunde com a estória do deus emplumado. Uma narrativa diz que, enganado por Tezcatlipoca, o rei de Tollán se embriagou e quebrou seu voto de celibato; quando o efeito do álcool passou e ele viu o que fizera, partiu, envergonhado, em expiação.

Percorreria muitos lugares, levando ensinamentos e civilização a povos que encontrava pelo caminho, até que, ao alcançar o mar, ele acenderia uma fogueira ritual para deixar-se queimar no fogo, numa purificação final. De suas cinzas, entre uma revoada de pássaros, surgiu a Estrela-da-Manhã (o planeta Vênus), em que ele se transformou para, lá do alto, zelar por seu povo.

Uma outra estória conta que, perseguido por Tezcatlipoca, Topiltzin-Quetzalcoatl fugiu à procura de Tlapallán, uma outra cidade sagrada. [141]

Ele demoraria quatro anos em peregrinação até chegar lá; mas morreria no dia seguinte à sua chegada.

Acredita-se que o povo Tolteca foi conquistado ou absorvido pelos Astecas [provalmente já não mais existiam no momento da chegada dos astecas]; e a recordação da grandeza lendária de Topiltzin era tanta que muitos soberanos astecas, os tlatoanis, diziam ser seus descendentes. Porém, o banimento dos sacrifícios humanos não durou e muitas criaturas ainda seriam sacrificadas até que o Império Asteca caísse, com a invasão dos conquistadores espanhóis.

Povo Tolteca

É dito que o nome Tolteca não se refere a uma etnia, mas a uma cultura; significaria “artífice”, “construtor”. Esse povo teria se originado dos Náuatle ou Nahua e teria se instalado no vale do México por volta do ano 900. Sua capital, Tollén ou Tula, ficava a uns 80 quilômetros ao Norte de onde hoje está localizada a Cidade do México.

Era realmente um povo de artífices, pois fundiam metais, fabricavam papéis para a escrita, possuíam técnicas de tecelagem e tingimento. Seus conhecimentos astronômicos eram admiráveis. Sua cerâmica, chamada mazapa, também foi notável.

Há registros de que o último soberano Tolteca tenha sido Topiltzin, mas há outros que dizem ter sido um rei chamado Huemac, que teria fugido para Chapultepec no século XII, após uma guerra. De qualquer forma, as escavações arqueológicas revelam que a cidade de Tollán foi abandonada pelos Toltecas e posteriormente ocupada pelos Astecas; na verdade, grande parte da cultura e da mitologia desses dois povos se confunde, e acredita-se que os Astecas, com seu grande Império, provavelmente absorveram os descendentes das populações que viveram anteriormente nas várias regiões do México. [142]

Mitologia Asteca
Ometéotl, Quetzalcoatl, Tezcatlipoca   Topiltzin
7/21/2018 2:31:02 PM | Por Rosana Rios
O primeiro xamã

(Povo Kamayurá)

À margem esquerda do Rio Tuatuari morava Savuru, que tinha duas esposas. Todas as noites, Savuru e suas mulheres iam ao rio para tomar banho; depois acendiam uma fogueira para se aquecer e só então iam dormir.

A mais velha das mulheres de Savuru criava, na aldeia, muitas ariranhas; estas pescavam para ela usando uma rede. Porém as ariranhas não comiam peixe, davam tudo para seus donos.

Um dia, o Sol e seu irmão Lua, que viviam no Morená, ouviram falar na beleza das duas mulheres e quiseram conhecê-las. Viajaram até sua aldeia e, ainda perto do rio, viram as ariranhas chegarem com o resultado da pesca. O Sol perguntou-lhes:

- De onde vocês vêm?

- Da pescaria - respondeu uma delas. - Vamos entregar os peixes para as mulheres de Savuru.

- Vocês comem peixe? - indagou, de novo, o Sol. [129]

As ariranhas disseram que não, que só comiam minhocas, pois as esposas de Savuru ficavam com todos os peixes. Sol e Lua, então, pegaram os pescados, assaram e deram peixe assado para as ariranhas comerem e elas gostaram muito.

- Não está certo vocês pescarem e não ganharem pelo menos a metade dos peixes - disse o Sol. - Vocês têm de assar e comer peixe também.

Mas as ariranhas tinham muito medo de Savuru, e por isso Lua lhes disse:

- Se quiserem comer peixe sempre, vocês têm de matar Savuru.

Elas começaram a cochichar, com medo, sem saber se deviam seguir aquele conselho. Lua lhes deu uma rede, e explicou:

- Se vocês armarem a rede no rio, quando Savuru vier tomar banho, ele vai ficar preso.

Naquela tarde, as ariranhas foram para a beira do rio e armaram a rede, como Sol e Lua haviam ensinado. Bem que Savuru e suas esposas acharam estranho elas não terem trazido peixe naquele dia...

À noite, Savuru foi sozinho tomar banho no rio. Quando se jogou na água, ficou preso na rede e não conseguiu escapar: acabou morrendo afogado.

Suas mulheres ficaram preocupadas, pois ele estava demorando muito para voltar. Foram até o rio e encontraram o marido, ainda enrolado na rede, morto.

Logo desconfiaram das ariranhas e foram até a casa onde elas moravam.

- Por que vocês fizeram isso com Savuru? - perguntaram.

Mas os animais nada disseram; com raiva, elas puseram fogo na casa das ariranhas.

Mesmo assim todas escaparam, fazendo um buraco nos fundos de sua casa. E, no outro dia, foram [130] à morada de Savuru. As mulheres haviam levado o corpo do marido para lá e o estavam chorando. As ariranhas choraram pelo morto junto com elas. Então chegaram Sol e Lua, que também choraram a morte de Savuru.

Depois que o corpo foi enterrado, Sol e Lua disseram às viúvas:

- Vocês não podem ficar aqui sozinhas. Venham com a gente para o Morená.

Elas estavam indecisas, porém acabaram concordando e seguiram Sol e Lua para sua aldeia. No rio, partiram de canoa; mas as duas ainda choravam por Savuru. Os dois irmãos então começaram a fazer brincadeiras para que elas parassem de chorar; afinal, ambas acabaram rindo e não ficaram mais tristes.

Depois de um dia de viagem, chegaram ao Morená. O Sol se casou com a mulher mais velha e Lua com a mais moça. Porém eles não estavam muito felizes com o casamento, pois nenhum dos dois conseguia fazer amor com sua esposa à noite.

As duas os aconselharam a procurarem por Iamururu, que conhecia um bom remédio e poderia curá-los. Eles saíram em busca da casa de Iamururu, e demoraram tanto que, no caminho, sentiram que já estavam curados. Mesmo assim, entraram na casa dele e pediram:

- Precisamos de um remédio para poder fazer amor com nossas mulheres.

- Não precisam - respondeu Iamururu. - Os remédios já pegaram vocês no caminho.

Lua não estava acreditando que haviam sarado e pediu o remédio de qualquer jeito. Iamururu lhe entregou, e os dois tomaram o caminho de casa. [131]

Lá chegando, nem precisaram do remédio, e daí em diante foram felizes com suas mulheres.

Porém elas notaram que nem Sol nem Lua tinham ciúme delas. E não estavam satisfeitas com isso. Sabiam que havia um remédio para criar ciúme nos maridos, e só um velho chamado Ierêp sabia qual era. Por isso, decidiram procurar Ierêp e pediram o remédio para causar ciúmes.

- Não precisa - riu-se Ierêp. - O remédio do ciúme já pegou seus maridos.

Elas não acreditaram: insistiram tanto que ele acabou lhes dando o remédio. E foram para casa. Quando chegaram lá, Sol e Lua estavam muito zangados e começaram a bater nelas!

Ao ver que o ciúme era forte demais, as duas correram de volta à casa de Ierêp e devolveram o remédio ao velho. Dessa forma, Sol e Lua ficaram menos ciumentos e todos se alegraram. Mas, um tempo depois, os dois casais perderam o sono. Nenhum deles conseguia dormir, passavam noites e mais noites acordados. Ficaram imaginando: onde encontrar alguma coisa para trazer de volta o sono?

Descobriram, então, que o Uiaó tinha um remédio para fazer dormir. E lá se foram, os quatro, em busca da casa do Uiaó. Ao se aproximarem, viram o dono da casa e foram pedindo:

- Meu avô, viemos buscar o remédio que dá sono!

O Uiaó olhou para eles e disse:

- O sono já pegou vocês, não precisam mais do remédio.

Era verdade. Mal haviam entrado na casa dele, Sol, Lua e as duas mulheres adormeceram e só acordaram [132] no dia seguinte. De qualquer maneira, pediram ao Uiaó que lhes entregasse o remédio, e ele os atendeu. Contudo, a caminho do Morená, eles não aguentaram de tanto sono. Andavam, paravam, dormiam. Até andando acabavam adormecendo! O jeito foi dar meia volta e ir devolver o remédio para o Uiaó. Só assim conseguiram voltar para casa e ficar acordados durante o dia, dormindo apenas à noite.

Outro problema surgiu quando eles quiseram beber água e descobriram que não havia mais água boa para beber ali perto. O Sol saiu em busca de água e não achou, mas ficou sabendo que o Canutsipém tinha muita água.

- Vamos ver se ele tem mesmo água boa.

Os dois irmãos tomaram o caminho da casa de Canutsipém e, lá, o Sol disse a ele:

- Não temos água boa para beber, por isso viemos até aqui.

Canutsipém convidou Sol e Lua para irem tomar banho, mas, quando entraram na lagoa dele, viram que aquela água era muito suja. Não era nada boa para beber.

- Será que essa é que é a água de Canutsipém? - perguntou Lua.

- Esta não é a água de verdade, ele quer nos enganar - respondeu Sol. - A água boa deve estar escondida. Pode ser que esteja no tapãim?

Passaram o dia na casa de Canutsipém; Lua se transformou num beija-flor e foi procurar água por toda parte. Entrou no tapãim, viu muitos potes, e foi logo contar ao Sol.

- Tem razão, ele escondeu a água boa nos potes. A água suja era para nos enganar. [133]

Ficaram hospedados na casa naquela noite e, no dia seguinte, Canutsipém os convidou para pescar. Depois que pegaram bastante peixe, o pessoal dele os assou e todos comeram muito bem. Quando Sol e Lua resolveram ir embora, Canutsipém lhes deu de presente duas cabaças cheias de água, para a viagem. Eles partiram e, ao chegarem à sua aldeia, deram a água para as mulheres experimentarem.

- Esta água, sim, é muito boa! - disseram elas.

Todos do Morená e das aldeias vizinhas ficaram sabendo do acontecido e se uniram, resolvidos a buscarem a água escondida por Canutsipém.

Sol, Lua, Ianamá, Vani-Vani, Kanaratê e vários outros amigos resolveram se preparar para a expedição. Primeiro, eles fizeram máscaras e roupas de espíritos que moram nas matas e no fundo das águas: turuá, jakuí-katu, ivát, tavarí, mearatsim. Colocaram as máscaras, dançaram e cantaram cantos rituais para invocar os espíritos, pois precisariam da ajuda deles para conquistar a água.

Então partiram e chegaram à aldeia de Canutsipém cantando e dançando. Ele ficou com medo daquelas criaturas mascaradas, achando que seria seu fim.

Sol, Lua e todos os amigos invadiram a aldeia e foram logo ao tapãim, onde começaram a bater nos potes para quebrá-los. A água começou a sair dos potes quebrados e dali para fora. Todo mundo desceu flutuando na água que corria. Era tanta água, que a aldeia de Canutsipém transformou-se numa enorme lagoa!

Então o aguaceiro começou a formar grandes rios, que se espalharam pela Terra; foi assim que surgiram os rios daquela região e, desde aquela época, todos têm água boa para beber.

O Sol seguiu carregado pela forte corrente do Rio Ronuro, e chamou por seu irmão, Lua, mas ele não respondia. É que Lua havia quebrado o último pote dentro do tapãim, e lá não havia água: havia um bicho muito grande, o peixe jacunâum, que saiu do pote e o engoliu!

Vani-Vani ouviu o chamado de Sol e respondeu: já estava longe, correndo com o Rio Maritsauá. Kanaretê também ouviu e respondeu, lá do Rio Parana.

O Sol chegou ao Morená muito preocupado com o irmão. E o rio que chegou lá com ele era só um fio de água; foi preciso fazer uma barragem para que a água ficasse represada. Então ele criou uma lagoa no Morená, e os peixes começaram a passar para lá.

- Preciso encontrar meu irmão - disse Sol.

Começou a pescar os peixes que apareciam na lagoa e a abrir a barriga deles, para ver se achava Lua; pegou tucunaré, pegou matrinxã... mas nada de Lua aparecer. Ele viu então um grande acará na água e se preparou para pescá-lo.

O acará, porém, lhe disse:

- Não faça isso comigo! Eu sei onde está seu irmão.

O Sol esperou para ouvir o que o acará tinha a dizer.

- Seu irmão foi engolido pelo jacunâum. Para enganar esse peixe, faça um charuto e prenda nele um anzol; aí eu levo até ele e dou um puxão na linha do anzol, para avisar você. [135]

Sol preparou um anzol, acendeu um charuto e prendeu nele. Deu para o acará, que nadou para além da lagoa e começou a subir o rio devagar, fumando um pouquinho do charuto. Sol ficou segurando a linha presa ao anzol.

Quando o jacunâum viu o acará passando no rio, saiu de seu esconderijo e pediu:

- Deixe eu fumar um pouquinho! Estou com a barriga muito cheia.

O acará deu o charuto ao outro e puxou a linha, dando o sinal.

Recolhendo a linha com toda a força, o Sol fisgou o jacunâum, que se rebolou todo, mas não conseguia escapar!

Ao tirar o enorme peixe da água, Sol abriu sua barriga e só encontrou os ossos de Lua.

- Meu irmão morreu! - chorou ele.

Apesar de tudo, ele decidiu tentar trazer Lua de volta à vida. Traçou na terra o desenho de uma pessoa e foi tirando todos os ossos da barriga do peixe, colocando-os no chão, cada um no lugar certo do desenho. Depois cobriu todo aquele esqueleto com folhas perfumadas. E começou a cantar para que o irmão revivesse... O canto era mágico. Por baixo das folhas, os ossos começaram a ser recobertos por carne e o corpo de Lua foi se refazendo. Sol chamou, então, os pássaros para ajudar o corpo a voltar à vida. O jaó veio e voou sobre as folhas; depois veio a rolinha.

Com a magia das aves, o corpo começou aos poucos a se mexer. Em seguida, o irmão pegou um mosquitinho e colocou dentro do nariz dele. Quando sentiu o mosquitinho voando lá dentro, Lua soltou um espirro e acordou. Levantou-se, achando que estava despertando de um sono. [136]

- Você não estava dormindo! - disse-lhe Sol.

Para que Lua conseguisse levantar-se de uma vez e andar, Sol acendeu um charuto e começou a soltar a fumaça sobre ele, enquanto cantava. Chamou um homem de nome Caapaié e os pássaros atsim-aum para ajudar. Todos juntos, eles fizeram a primeira pajelança, com cantos, danças e a ajuda dos espíritos.

Lua voltou a ser como era antes. Sarou completamente, e todos no Morená ficaram felizes com sua volta. Caapaié aprendeu a pajelança, os remédios, os cantos, as máscaras, as curas. E foi assim que começou essa arte, pois o Sol foi o primeiro de todos os pajés.

Povo Kamayurã

Esse povo faz parte da grande nação de língua Tupi. São tradicionalmente caçadores e pescadores, hábeis no uso do arco e da flecha. É costume que seu líder tenha duas ou três esposas. Uma de suas tradições mais antigas é a troca de objetos com outros povos tribais; até hoje fazem um encontro de tribos chamado Moitará, para realizar essas trocas. São eles os criadores da mais importante festa indígena brasileira, o Kuarup ou Quarup, festa que homenageia os mortos, também baseada num mito: a estória de Mavutsinim, seu antepassado, que queria trazer os homens de volta à vida enterrando na aldeia várias toras da madeira chamada kuarup.

São conhecidos como o povo do Morená, a mítica “Terra da Lenda”; diz-se que o Morená fica no local em que os afluentes se encontram para formar o Rio Xingu. Hoje os Kamayurã vivem no Alto Xingu, nas aldeias Tiwatiware e Ipavu. [137]

Mitologia Sul-Americana
   Savuru, Iamururu, Ierêp, Uiaó, Canutsipém, Ianamá, Vani-Vani, Kanaratê, jacunâum, Caapaié, atsim-aum
7/21/2018 2:27:48 PM | Por Rosana Rios
Bacororo e Itubore, os gêmeos

(Mito Bororo)

Certo dia, na mata, um índio foi atacado por uma grande onça macho. Ele se defendeu ferozmente, e a luta entre os dois se prolongou do nascer até o pôr do sol.

Mas a onça, que era chamada Adugo, era mais forte; e o homem pediu:

- Deixe-me viver!

O Adugo respondeu:

- Deixo, mas quero me casar com a sua filha.

O homem, sem escapatória, concordou em ceder sua filha para se tornar esposa da onça. E o Adugo explicou onde ficava sua casa: no fim do caminho, em uma gruta. Vendo-se livre, o homem correu para sua casa e logo contou à filha:

- O Adugo me venceu! Só escapei com vida porque prometi que você se casaria com ele.

A moça concordou com aquilo, e logo se pôs a caminho para encontrar a caverna onde morava seu futuro marido. Teve de usar a esperteza para escapar de vários animais, como a irara, a suçuarana e outros; cada um deles tentou convencê-la de que era o marido prometido. Mas ela sabia muito bem como era o aspecto da onça, pois seu pai a havia descrito. [121]

Afinal chegou à morada do Adugo, que a recebeu muito bem e logo saiu para caçar, em busca de alimento para ele e sua jovem esposa.

Passado um tempo, a moça ficou grávida; depois disso, todo dia, quando saía para caçar, o Adugo lhe dizia:

- Cuidado! Você não pode rir, ou correrá perigo!

E ela tratava de ficar séria. Porém, um dia, já no final da gravidez, apareceu na caverna da onça um grande verme, o Marugoddo, criatura nojenta que tinha um vozeirão engraçado.

Ao ouvir a voz do verme, a mulher da onça não conseguiu se conter e desandou a rir. Infelizmente, o riso a matou. Quando chegou em casa e viu a esposa morta, a onça correu a cortar seu ventre: ela gerava duas crianças, que ainda estavam vivas. Então o Adugo retirou os bebês e os colocou dentro de uma cabaça, o marabari. Lá dentro eles terminaram de crescer, e quando nasceram de verdade foram criados por seu pai, a onça. Receberam os nomes de Bakororo e Itubore.

Já crescidos, os gêmeos perguntaram ao Adugo:

- Pai, onde está nossa mãe ?

A onça contou a eles que a mãe morrera ao rir da voz do Marugoddo, o verme. E os dois meninos resolveram vingar-se daquele que causara a morte de sua mãe. Como eram muito rápidos e fortes, eles capturaram o Marugoddo e o jogaram numa grande fogueira. Mas os ossos do verme começaram a estalar no fogo; os dois ficaram com medo e foram esconder-se na caverna, junto a seu pai. A fogueira continuava a queimar e os estranhos barulhos atiçavam sua curiosidade. [122]

- Não olhem! - dizia-lhes a onça. - É perigoso!

Mesmo assim, Bakororo teimou e foi olhar a fogueira. No mesmo instante alguma coisa lá dentro estourou e atingiu o rosto do menino, que ficou cego!

O Adugo ensinou:

- Corra e se atire na água!

Bakororo obedeceu e se jogou nas águas do rio.

Quando saiu, a queimadura havia sarado e ele tinha se tornado um belo rapaz. Itubore ficou com inveja e também quis olhar a fogueira. O Marugoddo ainda queimava, e mais um estouro atingiu a cabeça de Itubore, que também ficou cego. Seu pai, a onça, de novo recomendou:

- Vá para a água!

Itubore obedeceu, e igualmente se curou, saindo do rio como um formoso rapaz.

Finalmente o verme acabou de queimar: o Marudoggo estava morto e os gêmeos viveram em paz com seu pai, a onça, por um bom tempo. No entanto, eles ouviam contar sobre feras terríveis que ameaçavam as tribos e matavam homens e mulheres. Decidiram então obrigar esses animais a não mais devorar as pessoas.

- Itubore - disse Bakororo - vá pedir ao nosso pai que faça para nós a baragara, para colocarmos na cabeça.

O Adugo teceu para os filhos as baragaras, que eram cordinhas para amarrar em torno da cabeça e que os protegiam de sentir dor. A pedido de Itubore, fez também para os gêmeos armas cortantes e pontudas. Bakororo e Itubore cingiram suas cabeças com as baragaras, tomaram as armas e deixaram a casa do pai. Foram enfrentar o Gavião Real, que gostava muito de [123] comer carne humana. Combinaram o que fazer e, quando chegaram à árvore onde ele morava, Itubore a sacudiu. O Gavião caiu sobre o rapaz e tentou agarrá-lo, mas nesse momento Bakororo, que havia se escondido, apareceu e atacou a grande ave, que caiu ao chão, quase morta.

- Agora você não caçará mais os homens, só os animais e as aves da mata!

Morto o Gavião Real, depois daquele dia, seus descendentes nunca mais devoraram carne humana, só a dos animais que caçavam nas florestas. E os gêmeos saíram atrás de outra fera, o Jaburu, que naquela época também caçava e comia os seres humanos. Perseguiram o Jaburu por muito tempo, mas ele tinha as pernas longas e sempre escapava. Cansados da perseguição, Bakororo e Itubore resolveram fazer uma armadilha com um cipó espinhoso, que enredaram em seu caminho. Quando o Jaburu passou por ali ficou preso na armadilha de cipó, e os filhos da onça o alcançaram e mataram.

Antes de morrer, o Jaburu ainda ouviu os gêmeos ordenarem:

- Você não comerá mais gente! Peixes serão seu alimento.

E, depois daquele dia, os descendentes do Jaburu passaram a se alimentar apenas com os peixes dos rios.

Outra ameaça às pessoas eram os papagaios chamados Kiddoe, que voavam e atacavam em bando. Bakororo pediu a Itubore que fosse falar com seu pai, o Adugo, para que ele fabricasse muitas flechas, pois assim poderiam alvejar os Kiddoe. O Adugo atendeu ao pedido e confeccionou para os filhos flechas com pontas rombudas. Com elas, os gêmeos atingiram [124] muitos papagaios em uma revoada, matando-os; e então ordenaram:

- Vocês não poderão mais atacar as pessoas. Sua comida será somente frutos e flores!

Desde então, os Kiddoe sobreviventes e seus filhos passaram a se alimentar apenas de frutas, cocos, flores e raízes.

Assim, Bakororo e Itubore tornaram-se grandes heróis: foram conquistando as matas e os campos para os seres humanos. Fizeram ainda o mesmo com os peixes e as serpentes, matando-os e proibindo que seus descendentes continuassem sendo antropófagos. A cada animal foram designando que alimento poderia comer, e até hoje são obedecidos.

Com o mundo livre de tais monstros, os gêmeos se tornaram grandes líderes; eles são os antepassados dos chefes dos Bororo, e as canções que fizeram são cantadas até hoje por seus descendentes em seus cantos e danças, que celebram os feitos dos corajosos gêmeos.

Por fim, os dois se separaram: Itubore foi morar no Oriente e Bakororo no Ocidente. Criaram duas grandes aldeias, para onde vão os espíritos dos Bororo apos a morte.

Povo Bororo

Grupo tribal muito antigo; acredita-se que eles teriam ocupado territórios na Bolívia, em Goiás e no Mato Grosso por cerca de sete mil anos. Seus primeiros contatos com os europeus se deram a partir do século [125] XVII, quando bandeirantes e missionários começaram a explorar a bacia do Rio Araguaia. Depois disso, nos séculos seguintes, envolveram-se em conflitos com garimpeiros, colonizadores e fazendeiros. O resultado de alguns desses conflitos foi a cisão da nação Bororo em duas, uma oriental e outra ocidental, sendo que a ocidental foi quase que completamente dizimada e sua cultura, suas estórias e seus costumes, em grande parte se perderam. Como são tradicionalmente um povo caçador, eles não poderiam sobreviver sem terras adequadas; e, atingidos por epidemias, fome e massacres, é surpreendente que ainda não estejam extintos.

Sua língua pertence ao tronco linguístico Macro-Jê; eles também são chamados Coxiponé, Araripoconé ou Araés. Para eles, a denominação de seu povo é Boe. A palavra Bororo significa “pátio da aldeia”, pois suas casas são construídas em torno de um grande espaço onde são realizadas suas cerimônias.

Hoje, eles possuem seis territórios demarcados pelo governo no Estado do Mato Grosso, porém, várias dessas áreas continuam sendo invadidas e estão seriamente ameaçadas de desaparecimento. [126]

Mitologia Sul-Americana
 Bacororo, Itubore,  
7/4/2018 1:06:32 PM | Por Rosana Rios
Hiawatha, o unificador

(Povo Iroquois)

O sono de Tarenyawagon, o Sustentáculo dos Céus, foi certa vez perturbado por gritos de angústia e tristeza. De sua alta morada ele olhou para a Terra e viu que os seres humanos sofriam, gemendo aterrorizados diante de tremendos monstros e cruéis gigantes antropófagos. Compadecido deles, Tarenyawagon tomou a forma de um mortal e desceu à Terra. Aqui chegando, tomou uma menina pela mão e disse aos homens e às mulheres que o seguissem. Enveredou por caminhos que apenas ele conhecia e levou todo aquele povo sofrido para um refúgio: uma caverna na boca de um grande rio; lá ele os alimentou e os fez descansar.

Depois que as pessoas haviam se recuperado, sob sua proteção, Tarenyawagon mais uma vez tomou a garotinha pela mão e se pôs a caminho do Sol nascente; todos o seguiram até a confluência de dois grandes rios, onde as águas cascateavam, brancas de espuma, sobre tremendos rochedos. Lá ele parou e construiu uma grande casa para seu povo.

Durante algum tempo eles viveram protegidos ali, em contentamento e abundância, suas crianças [111] cresciam e se tornavam homens fortes e mulheres belas. Então o Sustentáculo dos Céus, tornado homem, reuniu a todos e lhes disse:

- Vocês, meus filhos, devem agora espalhar-se e formarem grandes nações. Farei com que seu povo seja tão numeroso quanto as folhas numa floresta em plena primavera, quanto os seixos na praia das grandes águas.

Novamente, tomando a mão de uma menina, ele os guiou na direção do Sol poente. Após longa jornada chegaram às margens de um belo rio; Tarenyawagon se pôs a separar algumas famílias e lhes disse que construíssem uma casa grande naquele local, fundando uma aldeia. E ordenou:

- Vocês serão conhecidos como “Aqueles-da-fala-dividida”.

E eles se tornaram os Mohawk. No momento em que ele lhes deu esse nome, sua linguagem mudou e eles não mais entendiam o que o resto do povo falava. Aos Mohawk, Tarenyawagon deu o milho, o feijão, a abóbora e o tabaco, além de cães para ajudá-los na caça. Ensinou-os a plantar, a colher e a preparar alimentos.

Mostrou-lhes os caminhos da floresta e da caça, pois naqueles tempos antigos as pessoas nada sabiam dessas coisas.

Depois de tê-los ensinado sobre tudo isso, Tarenyawagon tomou mais uma vez uma menina pela mão e viajou com o restante das pessoas, seguindo para o pôr do sol. Quando pararam, viram-se num vale belo e cheio de rios, cercado por florestas; ele comandou um grupo para que construíssem ali outra aldeia. Deu-lhes tudo de que precisavam para viver, ensinou-lhes muitas coisas, e chamou-os de Povo-da-grande-árvore, por causa das florestas que [112] os cercavam. E eles se tornaram a nação Oneida; todos se puseram a falar uma nova língua, assim que ele os nomeou.

De novo, tomando uma menina pela mão, o Sustentáculo dos Céus levou o restante do povo para o Sol que se punha, e chegaram a uma grande montanha que ele chamou de Onundagaonoga. Aos pés da montanha, mandou que outro grupo de famílias construísse uma casa grande, entregou-lhes as mesmas dádivas que dera aos anteriores, e uma fala só deles. Deu-lhes um nome em homenagem à montanha que se elevava acima de todos, e aquela se tornou a nação Onondaga.

Tendo a seu lado, outra vez, uma garota, Tarenyawagon levou seus seguidores às margens de uma grande lagoa, que brilhava ao Sol. A lagoa se chamava Goyogah, e ali outro grupo construiu sua aldeia: eles se tornaram os Cayuga.

Por fim, apenas um pequeno grupo de pessoas restava, e esses foram levados pelo Sustentáculo dos Céus para um lago junto a uma montanha que se chamava Ganundagwa. Ali ele os fez se estabelecerem, dando-lhes o nome de Guardiães-do-portal. Também eles receberam uma nova linguagem e se tornaram a poderosa nação Seneca.

Havia, entre toda a gente, aqueles que não estavam satisfeitos com os locais que o Sustentáculo do Céu lhes indicara para morar. Esses vagaram pela Terra, indo em direção ao Sol poente, até que encontraram um grande rio, que era conhecido como Mississipi. Eles o cruzaram sobre uma enorme videira cujos ramos atravessavam de um lado a outro do rio; mas depois que o último deles havia atravessado, a videira se desmanchou e nenhum deles pôde jamais [113] retornar. Desde então, o rio dividiu os seres humanos que vivem a Leste dos que vivem a Oeste.

A cada nação o Sustentáculo dos Céus deu um presente especial. Aos Seneca ele deu pés tão velozes que seus caçadores podiam correr mais que os cervos; aos Cayuga ele deu a canoa e a habilidade de navegá-la mesmo pelas águas mais turbulentas. Aos Onondaga ele deu o conhecimento das leis eternas e o dom de sondar os desejos do Grande Criador. Aos Oneida ele deu a capacidade de fazer armas e tecer cestas, enquanto que aos Mohawk ele deu arcos e flechas, além da habilidade para fazer com que suas pontas acertassem o coração de sua caça e de seus inimigos.

E foi então que Tarenyawagon decidiu definitivamente viver como um ser humano, e usou seu poder de tomar qualquer forma para se tornar um homem; escolheu o nome de Hiawatha. Optou por morar junto aos Onondagas e tomou uma de suas jovens e belas mulheres para esposa. De sua união nasceu uma filha, Mnihaha, que ultrapassou até a mãe em beleza.

Hiawatha nunca deixou de ensinar os homens e, sobretudo, pregava a paz e a harmonia. Sob sua orientação os Onondagas se tornaram a maior de todas as tribos, embora todas as nações fundadas pelo Sustentáculo dos Céus também crescessem e prosperassem.

Viajando em uma canoa mágica feita de madeira de bétula, branca e brilhante, que flutuava sobre as águas e as campinas. Hiawatha ia de povo em povo, aconselhando-os e mantendo os homens, os animais e a natureza em perfeito equilíbrio, de acordo com as leis eternas dos Manitus. Tudo ia bem e as pessoas viviam felizes.

Mas a lei do universo diz que a felicidade deve se alternar com a tristeza, a prosperidade com a escassez, [114] a vida com a morte, a harmonia com a desarmonia. E assim, do Norte vieram tribos ferozes, sem líder, que não plantavam ou teciam cestas, nem queimavam barro para fazer vasilhas. Tudo o que sabiam era pegar o que outros faziam e colher os frutos que outros haviam plantado.

Ferozes e sem piedade, esses estranhos comiam carne crua, cortando-a com os dentes. Guerrear e matar era sua ocupação; e eles caíram sobre os povos de Hiawatha como uma inundação, espalhando a devastação por onde iam.

As tribos clamaram pela ajuda de Hiawatha, e ele mandou às nações a mensagem de que se reunissem e aguardassem sua vinda. Foi então que as cinco tribos se reuniram no local do Grande Fogo do Conselho, às margens de um lago tranquilo, onde os homens selvagens do Norte ainda não haviam chegado. Ali esperaram por Hiawatha um dia, dois dias, três dias. No quarto dia viram surgir sua canoa brilhante, flutuando sobre as brumas. Lá estava Hiawatha na popa, guiando a canoa, enquanto na proa ia Mnihaha, sua única filha.

Chefes, anciãos e homens sábios das tribos se levantaram às margens do lago para louvar o grande herói que tudo lhes ensinara. Hiawatha e sua filha desembarcaram; ele saudou todos que encontrou como irmãos, e a cada um falou em sua própria língua.

De súbito, todos ouviram um estranho ruído, um som como o correr de mil rios, como o bater de mil asas gigantes! Amedrontadas, as pessoas olharam para o alto.

E das nuvens veio voando, em círculos descendentes, o misterioso Pássaro dos Céus, cem vezes maior do que as maiores águias, e que com o bater das asas [115] fazia mais barulho que mil trovoadas. Enquanto todo o povo se encolhia sob as penas que caíam dos céus, Hiawatha e sua filha se mantiveram de pé, sem se mover. E o herói pôs as mãos sobre a cabeça de sua filha, numa bênção; naquele momento ela lhe disse, serena:

- Adeus, meu pai.

O misterioso pássaro pousou. Ela tomou assento entre suas asas, e ele se ergueu numa espiral, subindo para além das nuvens, até desaparecer na imensa abóbada do céu. Todos olhavam, assombrados, mas Hiawatha, atordoado de dor, prostrou-se na terra e se cobriu com o manto de uma pantera. Por três dias ele ali ficou, em silêncio, e ninguém ousava aproximar-se. Imaginavam se ele havia entregado sua única filha aos manitus do alto como um sacrifício para a libertação de seu povo. Porém o grande herói nunca lhes revelaria isso, nem jamais mencionaria de novo sua filha e o grande pássaro que a havia levado embora.

Após lamentar sua perda naqueles dias, na quarta manhã Hiawatha ergueu-se e foi purificar-se nas frias e claras águas do lago. Então pediu ao Grande Conselho que se reunisse. E quando os chefes, anciãos e sábios se assentaram em torno do fogo sagrado, ele veio e disse:

- O que é passado, é passado; é o presente e o futuro que nos importam. Meus filhos, ouçam-me, pois estas serão minhas últimas palavras. Meu tempo entre vocês está chegando ao fim. A guerra, o medo e a desunião os trouxeram de suas aldeias para este Sagrado Conselho. Em face de um perigo comum, e temendo pela vida de suas famílias, vocês se afastaram, cada tribo agindo apenas por si. Recordem como eu os transformei, de um pequeno bando de pessoas, em várias nações. Vocês devem agora reunir-se e agir como uma só nação. [116] Nenhuma tribo sozinha pode deter os inimigos selvagens, que não se importam com a lei eterna e caem sobre nós como tempestades de inverno, espalhando morte e destruição por toda a parte. Meus filhos, ouçam bem. Lembrem-se de que são irmãos, de que a queda de um será a queda de todos. Devem ter apenas um fogo, um cachimbo, uma clava de guerra.

Hiawatha fez com que os cinco guardiões do fogo das tribos unissem suas chamas com o fogo do Sagrado do Conselho. Então, ele espalhou o tabaco sagrado sobre as brasas reluzentes, de forma que sua doce fragrância envolvesse os homens sábios sentados em círculo. E declarou:

- Onondaga, vocês são uma tribo de guerreiros poderosos. Sua força é como a de um pinheiro gigante, cujas raízes se espalham tão profundamente que podem enfrentar a tempestade. Sejam vocês os protetores. Serão a Primeira Nação.

Ele se dirigiu aos outros líderes, declarando:

- Oneida, seus homens são famosos por sua sabedoria. Sejam os conselheiros das tribos. Vocês serão a Segunda Nação. Seneca, vocês têm pés rápidos e fala convincente. Entre seus homens estão os melhores oradores das tribos. Sejam os porta-vozes dos povos. Vocês serão a Terceira Nação. Cayuga, vocês são os mais astutos, têm a maior habilidade em construir e guiar as canoas. Sejam os guardiães dos rios. Vocês serão a Quarta Nação. Mohawk, sua é a liderança em plantar milho e feijão, em construir casas. Sejam vocês os que alimentam, a Quinta Nação.

Suas tribos devem ser como os cinco dedos da mão de um guerreiro, unidos ao agarrar a clava de guerra. Juntem-se como se fossem um só e seus inimigos terão de recuar para a devastação do Norte, de onde [117] vieram. Permitam que minhas palavras calem fundo em seus corações e suas mentes. Retirem-se agora, para refletir entre vocês, e venham até mim amanhã para dizer se decidiram seguir meu conselho.

Na manhã seguinte, chefes e sábios das Cinco Nações foram até Hiawatha com a promessa de que, daquele dia em diante, eles seriam um só.

Hiawatha se regozijou. Recolheu as penas brancas reluzentes que haviam caído das asas do misterioso pássaro dos céus e as distribuiu entre os líderes ali reunidos.

- Por estas penas - disse ele - vocês serão reconhecidos como os Ako-no-shu-ne, os Iroqueses.

Assim, Hiawatha, o Unificador, fez nascer a Liga das Cinco Nações. Suas tribos dominaram, imperturbáveis, toda a Terra entre o grande rio do Oeste e o grande mar do Leste. Os anciãos pediram a Hiawatha que se tornasse o grande chefe das tribos unidas, mas ele lhes respondeu:

- Isso não pode ser, pois eu devo deixá-los. Amigos e irmãos, escolham em suas tribos as mais sábias mulheres, para que sejam as futuras mães dos clãs, e as pacificadoras: deixem que elas transformem em amizade qualquer contenda que surgir entre vocês. E que seus chefes sejam bastante sábios para pedir conselho às mulheres, sempre que exista uma disputa. Eu já disse o que tinha a dizer. Agora, adeus.

Naquele momento, todos que ali estavam reunidos ouviram um doce som, como uma onde de folhas sussurrantes, e a canção de inúmeros pássaros. Hiawatha subiu em sua misteriosa canoa branca e, em vez de deslizar para as águas do lago, elevou-se vagarosamente aos céus, desaparecendo entre as nuvens. [118] Hiawatha, o herói pacificador, se fora.

Contudo, seus ensinamentos sobrevivem no coração das pessoas.

Iroqueses

Povo que parece ter origem entre os Algonquins, os Iroqueses, Iroquenses ou Iroquois, na verdade, não são um grupo tribal homogêneo, mas sim uma aliança de cinco tribos que dominavam os territórios que iam da Costa do Atlântico ao Lago Erie, e desde Ontario até a Carolina do Norte.

No Canadá, os povos Iroqueses eram representados majoritariamente pelos Huron, que em várias ocasiões guerrearam com seus parentes que viviam mais ao Sul. Em terras estadunidenses os mais influentes eram os povos Mohavuk, Oneida, Onondaga, Cayuga e Seneca. Diz a tradição que a liga das Cinco Nações foi realmente formada em 1570 pelo chefe tribal Onondaga chamado Hiawatha, (embora ele fosse Mohawk por nascimento), e por seu discípulo Dekanawida, nascido entre os Huron. Consta que, após os Tuscarora se unirem à liga, os Iroqueses se tornaram conhecidos como as “Seis Nações”.

O grupo era uma república democrática que mantinha conselhos de delegados eleitos em cada grupo. Os chefes eram eleitos entre uma lista de pessoas indicadas pelas matronas das tribos, que atuavam através do conselho e da colaboração de mulheres que haviam atingido a idade de gerar filhos.

Este mito justifica a importância da cooperação, da paz e explica miticamente a criação dos Cinco Povos; talvez por isso a narrativa atribua uma origem divina a Hiawatha, assimilando sua figura à do Deus Tarenyawagon, ou Ta-ren-ya-wa-gon, que parece significar, literalmente, “Aquele que sustenta o Céu”. O deus e o homem seriam na verdade duas criaturas, cujas histórias sefundiram em uma. [119]

Mitologia Norte-Americana
Hiawatha   
7/4/2018 12:50:40 PM | Por Rosana Rios
O anão adivinho

Vivia, em Uxmal, uma velha a quem todos chamavam La Bruja. Uma mulher misteriosa, que havia herdado de seus antepassados um estranho disco de cobre, que mantinha escondido sob o fogão, pois os pais lhe haviam dito que deveria mantê-lo sempre em segredo. Se ela tinha, porém, poderes mágicos, não os aproveitava - pois queria muito ter um filho e não conseguia, já que passara da idade de conceber. Mesmo assim, ela sempre rezava aos deuses sob uma árvore sagrada, a Paineira, pedindo que os imortais lhe dessem uma criança. Certo dia, surpresa, ela viu sair dos ramos da Paineira um morcego enorme, maior que qualquer outro já visto! E, para que o espanto fosse ainda maior, viu-o pairar diante de si e ouviu que ele dizia, com voz humana:

- Trago a voz dos deuses! Faz o teu pedido.

A mulher não acreditava no que via, paralisada de medo, e emudeceu.

- Esta é tua única oportunidade de obter o que queres - insistiu o morcego. - Fala! [103]

Ainda tomada pelo medo, mas adquirindo coragem, a mulher balbuciou:

- Quero ter um filho...

E o morcego, esvoaçando acima dela, declarou:

- Terás teu filho, se fizeres o que ordeno. Entra na mata até dar com um buraco na terra: nele encontrarás um grande ovo. Leva-o para tua casa e não lhe deixes faltar calor, pois do ovo nascerá o filho que tanto desejas!

Após dizer isso, elevou-se aos ares e desapareceu.

A velha senhora, mais que depressa, entrou pela mata e logo avistou um ovo, exatamente como dissera o morcego miraculoso. Levou-o para casa e cuidou dele; durante o dia sempre o deixava próximo ao fogo, levando-o para sua cama à noite.

Depois de sete dias a casca do ovo se quebrou e La Bruja viu nascer um menino, que criou com todo o cuidado. Ele se desenvolveu rapidamente; mas, quando chegou aos 9 anos, parou de crescer e se tornou um anão.

Logo o povo da vizinhança descobriu que o anão possuía poderes prodigiosos. Ele podia adivinhar o futuro: sempre sabia quando a colheita de cada um seria boa ou má, e previa quando haveria boas chuvas ou grandes secas, avisava sobre epidemias, pragas, tempestades.

Passou a ser chamado “Adivinho”, e era muito respeitado pelas pessoas.

A mãe se orgulhava de seu filho, mas sempre lhe recomendava que não chegasse muito perto do fogão. Ele pensava que era para não se queimar, mas, de tanto que a idosa senhora insistia em mantê-lo afastado dali, começou a desconfiar de que naquele lugar havia [104] algum segredo - e, mesmo com seus poderes de adivinhação, não conseguia adivinhar o que era.

O anão se pôs, então, a planejar uma forma de manter a mãe afastada de casa por tempo suficiente para poder investigar o que havia de tão secreto naquele fogão. Espertamente, fez alguns furos no cântaro que ela usava todos os dias para buscar água na fonte.

Quando a mulher foi à fonte, estranhou ver que seu cântaro nunca se enchia. Somente ao perceber os furos entendeu o que houvera e tratou de tapar os orifícios. Isso a fez demorar-se mais, dando ao rapazinho o tempo de que precisava para ir mexer no canto proibido. Ele afastou tudo o que havia no fogão e foi remexer nas cinzas. Ali, enterrado, encontrou o estranho disco de cobre, a herança que a velha escondera por tanto tempo. Sem pensar, ele o limpou e deu-lhe uma pancada tão forte que o som repercutiu além da casa, do bairro, da cidade.

O som foi ouvido por toda parte, até no palácio do rei!

Ora, ao ouvirem aquele som, todos se lembraram de uma antiga profecia: há séculos se dizia que, se um dia um som assim forte fosse ouvido na cidade, aquele que o tivesse produzido seria, por direito divino, aclamado como legítimo rei de Uxmal; ninguém poderia se lhe opor.

O povo se agitou com aquela notícia, mesmo porque seu rei era um déspota ambicioso, de quem ninguém gostava. E, mal o eco do som havia se dissipado, as pessoas começaram a acorrer às ruas e ao palácio, em busca do misterioso tocador do disco de cobre. O rei, que também ouvira o som, ficara bem [105] preocupado de que alguém viesse disputar-lhe o trono. Tratou de chamar seus soldados e mandá-los em busca da criatura que havia causado o toque desafiador. Os guardas saíram a percorrer Uxmal e, em pouco tempo, orientados pelas pessoas, começaram a se aproximar do local em que o som fora mais forte.

A essa altura, La Bruja havia chegado em casa e fora repreender severamente o filho pela desobediência. Muito ocupados, ela em repreendê-lo e ele em ouvir o sermão, mal notaram os passos de soldados que entravam por sua rua e que iam invadindo sua casa. Eles ouviram a repreensão da mulher e, sem hesitar, obedeceram à ordem de seu comandante:

- E este que procuramos! Vamos levá-lo.

Agarrado pelos soldados, que nem se preocuparam com os gritos da pobre mãe, o anão foi arrastado para o palácio, onde seria levado à presença do rei. Os guardas só não contavam com a multidão que já cercava a moradia real, todos querendo saber quem havia disparado o som que podia significar o fim de um reinado tirânico e o cumprimento da vontade dos deuses.

Ao ver o anão sendo levado pelos guardas, grupos de pessoas o reconheceram como o famoso Adivinho e começaram a segui-los para exigir, aos berros, que ele se tornasse rei!

O soberano, no palácio, bem que tentou mandar seu exército dispersar o povaréu e jogar o tal anão na prisão; porém viu que até seus soldados já estavam comentando a profecia e poderiam muito bem não acatar suas ordens. Teve de contemporizar, aparecendo em público e dizendo:

- A vontade dos deuses se fará! Mas o anão terá de provar que é digno do trono de Uxmal: Deve sair vencedor das três provas rituais. [106]

A declaração foi recebida com aplausos e gritos de alegria do povo. Todos queriam ver o pequeno Adivinho no trono, embora soubessem que as provas seriam muito difíceis. O primeiro teste seria uma adivinhação. O segundo, que o rei e o anão fizessem um ídolo e o colocassem no fogo: o que resistisse às chamas daria a vitoria a seu artífice. No teste final, o candidato ao trono teria de ter arremessados sobre sua cabeça a quantidade de cocos que coubesse em uma cesta. Caso ele saísse vencedor desta prova, a mesma seria aplicada ao rei.

Marcaram um dia propício aos testes, e todos os habitantes de Uxmal foram convidados a presenciá- los. O Adivinho aceitara se submeter às provas com toda a calma; mas sua mãe se desesperava ao pensar que o tirânico rei mataria seu amado filho. Voltou a ir rezar sob a Paineira sagrada, pedindo aos deuses a proteção para o rapaz. E não se decepcionou: depois de alguns dias lá rezando, viu aparecer o mesmo morcego gigante que vira antes. O animal enviado pelos deuses pairou sobre ela e disse:

- Não te preocupes: teu filho será vencedor, desde que faças o que eu ordenar.

Primeiro, ele lhe disse um número, que ela deveria repetir ao rapaz. Depois, mandou que ele fizesse um ídolo de barro. Por último, explicou:

- Volta àquele buraco na mata onde encontraste o ovo; lá acharás uma cabeleira revestida com um elmo fortíssimo, que encaixará perfeitamente na cabeça de teu filho e o protegerá.

Mais uma vez, o morcego voou e desapareceu velozmente na mata.

A velha mulher não hesitou em fazer tudo que ele ensinara. [107]

Finalmente chegou o dia marcado para as três provas. Todo povo de Uxmal, ansioso, postou-se em torno da praça central da cidade, diante do palácio. O rei se dirigiu à praça, arrogante em sua magnificência; indicou a maior árvore que ali se via e lançou o desafio;

- Anão miserável, tu que te fazes de adivinho, diz quantas folhas tem esta árvore!

O anão, que chegara usando a cabeleira dada pela mãe, ficou em silêncio por alguns segundos e, sem esperar mais, respondeu com o número que a velha mulher lhe revelara. Mas antes que os guardas reais pudessem começar a contar as folhas da árvore, surgiu, do nada, o mesmo morcego gigante! Ele pairou diante do rei e declarou:

- Trago a voz dos deuses: digo que a quantidade que o Adivinho declarou está correta!

E desapareceu no ar, deixando todos os presentes assombrados.

O rei ficou furioso, porém, não ousou desdizer o morcego, até mesmo porque o povo delirava de entusiasmo. Gritavam que os deuses realmente haviam se manifestado através de um mensageiro, já que nunca se vira um animal falar com voz humana. O soberano concordou então em que a primeira prova fora vencida, mas providenciou que fosse acesa a fogueira ritual para a queima dos ídolos. E, enquanto seus soldados traziam o ídolo que ele mandara esculpir, na mais dura pedra que se conhecia, o anão trazia uma estatueta que moldara em simples barro.

Ambos foram jogados no fogo, que subiu alto. As chamas dançavam e enlaçavam os ídolos, seu crepitar era o único som que se ouvia na praça.

Todos os olhos estavam pregados na fogueira. Parecia que nenhum dos dois se quebraria, mas, de repente, [108] o ídolo de pedra se partiu ao meio com um ruído retumbante - e o de barro ainda estava ali, inteiro. O povo aclamou o anão como vencedor da segunda prova e o rei não pôde contradizer os súditos.

Para a última prova, o Adivinho se postou no meio da praça e aguardou placidamente que trouxessem a cesta cheia de cocos e que o carrasco real os golpeasse sobre sua cabeça.

O elmo por baixo dos cabelos devia ser mesmo indestrutível, pois todos os cocos, ao serem forçados sobre ele, se partiam.

Quando o rei percebeu que só faltavam três cocos na cesta e que o anão suportava a prova, todo sorridente, ficou apavorado e tentou fugir discretamente da praça. No entanto, encontrou no caminho seus próprios soldados, que se irritaram com a covardia daquele a quem por tanto tempo haviam obedecido e o arrastaram de volta ao local das provas.

O carrasco havia terminado de quebrar o último coco da cesta na cabeça do anão; já foi pegando um outro para golpear a cabeça do rei.

Não houve dúvidas: ao primeiro golpe, o coco afundou no crânio do soberano e o partiu, matando-o no mesmo instante. E, enquanto um rei caía sem vida, o outro era aclamado por todo povo e carregado como um herói, em triunfo, para o palácio real.

Foi dessa forma que um anão, ainda muito jovem, tornou-se rei de Uxmal; e é dito que seu reinado foi de grande sabedoria, pois ele via o futuro. Para ele foi construído um templo, que leva seu nome até os dias de hoje. [109]

Povo Maia

A cultura mais influente das civilizações existentes na América Central, séculos antes da conquista espanhola, é, sem dúvida, a dos Maias. O território que dominaram, e que se calcula ter-se estendido por mais de 300.000 quilômetros, hoje abrange Honduras, a maior parte da Guatemala e a península de Yucatã.

A história dos Maias tem registros desde o século IV da era comum, quando teria início seu primeiro império; ele se extinguiria no século IX, sendo substituído por um segundo império. Os maias desenvolveram um sistema de escrita por hieróglifos diferente de todos os outros; possuíam um surpreendente conhecimento de matemática e astronomia. Sua escultura e arquitetura foram preservadas em grande parte, demonstrando algo de suas formas de culto e rituais.

Há sítios arqueológicos em vários de seus centros cerimoniais, constantemente desvendando objetos e inscrições antigas. Na Guatemala, há o centro de Tikal; em Honduras, pesquisa-se Chichen Itzá e Copán; no Yucatã, ao Norte, há as enormes ruínas de Uxmal. Palácios, pirâmides, tumbas, observatórios e campos para jogo de bola estão ali, talhados em pedra, testemunhas silenciosas do tempo e da vida de um povo místico e misterioso. [110]

Mitologia Maia
  Anão adivinho La bruja
7/4/2018 8:31:32 AM | Por Rosana Rios
Huitzilopochtli, o guia

Conta-se que Coatlicue, a Deusa da Terra, teve inúmeros filhos. Seu nome significava “A que tem saias de serpente”, e ela deu à luz os quatrocentos deuses-estrelas, os Centon-Huiznahuac, que povoavam os céus do hemisfério Sul. Também foi mãe da Deusa das Trevas Noturnas, Coyolxauhqui, e do belicoso Mixcoatl. Teve esse filho com o Sol, para que o herdeiro castigasse os deuses-estrelas que não cumpriam com suas obrigações de filhos, nem faziam sacrifícios adequados para o Sol. Coyolxauhqui, que também é considerada uma Deusa da Lua, revoltou-se contra Coatlicue e reuniu um exército para combater a mãe e os deuses primordiais; teve início então a guerra, que era considerada pelos astecas como o estado natural das coisas. Porém, Mixcoatl teria sucesso em combater a irmã e se tornaria o Senhor da Via Látea, também conhecido pelo nome de Camaxtli. Mas o maior herói que Coatlicue concebeu foi, sem dúvida, o grande guerreiro Huitzi- lopochtli, cujo nome quer dizer “Deus Colibri”, ou “o colibri da esquerda”. [99]

Coatlicue estava passeando pela sagrada Montanha da Serpente, quando do céu veio sobre ela uma chuva de plumas de belíssimas aves. No mesmo momento, a deusa soube que teria um filho; e ao termo da gravidez teve o menino Huitzilopochtli, que já ao nascer possuía o Xiucoatl, um cetro que era uma serpente de fogo. Pouco depois de nascer, ele já se tornou adulto e guerreiro, começando suas aventuras ao expulsar os irmãos que haviam desprezado sua mãe, e ao derrotar Coyolxauhqui, a Deusa das Trevas Noturnas; dizem que ele brandiu seu poderoso cetro sobre ela e a cortou em pedaços. Isso o tornou o her­ deiro do Sol.

Huitzilopochtli não seria apenas um herói para os deuses: ele também veio à Terra para ser o guia do povo de Aztlán, que vivia em miséria e tristeza.

Ele apareceu, certo dia, para o sacerdote Quahcoatl, a Serpente-Águia, e lhe disse:

- Deves levar este povo para o Sul, em busca de um cacto tenochtli, No cacto verás uma águia devorando uma serpente! Lá reinaremos.

Quahcoatl reuniu o povo, e com as palavras de Huitzilopochtli a inspirá-lo, convenceu a todos de que deveriam iniciar a perigosa jornada. Em viagem, eles encontraram várias cidades e povoações que foram conquistando; aos poucos, guiados pelo Deus Colibri, tornavam-se numerosos e obtinham cada vez mais poder. Até que, depois de perambular por um século e meio, todo aquele povo chegou às ruínas do antigo reino de Tuia. Estavam em terreno panta­ noso; em uma ilha, no centro de um lago, que seria chamado Texcoco, viram uma caverna e diante dela encontraram um cacto tenochtli, exatamente como [100] fora previsto. Sobre o cacto, havia uma águia que se alimentava de uma serpente.

As palavras de seu guia, então, se fizeram verdadeiras:

- Esta será nossa cidade, México-Tenochtitlán, nela reinaremos e conquistaremos diferentes povos, com nossa flecha e nosso escudo. É o local em que nada o peixe, em que a águia solta seu grito, abre suas asas e devora a serpente. Muitas coisas neste lugar se farão!

Foi assim que nasceu a primeira cidade dos Astecas, e por isso elesreverenciaramparasempreseulíder, deus e herói Huitzilopochtli. Construíram, exata­ mente naquele local, o santuário que seria o Templo Mayor do Império Asteca. Para ele instituíram a festa Panquetzalitzi, “o Erguimento das Bandeiras”, e a ele foram sacrificados muitos inimigos nos altares dos deuses. [101]

Povo Asteca

A cultura Asteca foi tão abrangente que até hoje influencia o pensamento dos povos nativos no México. Seus incontáveis deuses podem ser originários dos tantos povos que eles conquistaram e com quem tiveram contato, na longa peregrinação para encontrar sua terra.

Além de todos os deuses do panteão asteca - alguns deles citados no mito sobre a criação do Quinto Mundo - Huitzilopochtli se tornaria o herói-deus mais cultuadopelosprimeiros mexicanos e opadroeiro de sua capital. Algumas narrativas dizem que a águia pousada sobre o cacto era o próprio herói disfarçado.

A ele eram dedicados muitos rituais, inclusive sacrifícios. Os sacrifícios humanos, como visto anteriormente, eram parte integrante dos rituais astecas. Conta-se que em épocas deguerra osprisioneiros inimigos serviam a essaspráticas; nos tempos depaz ospovosfaziam competições ou torneios esportivos, em que os “times" vencidos eram sacrificados pelos sacerdotes no templo.

O que conhecemos sobre essespovos se deve não apenas aos registros dos colonizadores, mas aos códices em escrita pictórica, elaborados por escribas astecas: séries de desenhos retratando seupovo, suas vestimentas, seus costumes e suas histórias antigas. [102]

Mitologia Asteca
Huitzilopochtli, Coatlicue, Centon-Huiznahuac, Coyolxauhqui, Mixcoatl   
7/4/2018 8:25:24 AM | Por Rosana Rios
Bochica, o sábio

(Mito Chibcha)

Em tempos antigos, os homens que viviam nas terras altas de Cundinamarca, nos Andes, nada sabiam de leis ou do cultivo do solo. Viviam quase como selvagens, até que chegou a eles um viajante misterioso e sábio que se denominava Bochica. Alguns dizem que ele veio da região sagrada das Iracas, outros que veio de Pasca, mais ao Sul. Seja como for, ele foi morar entre o povo chibcha e começou a lhes ensinar várias coisas. Bochica também foi chamado pelos nomes de Nemterequeteba e Zukha, e há quem diga que ele era um deus, e que tinha três aspectos diversos. Mas a face que o povo conhecia era a de um homem velho, com cabelos e barba compridos. Foi ele quem os ensinou a construir suas casas e a se organizarem em sociedade. Também explicou às pessoas como obter os fios, tecê-los e tingi-los, criando belos tecidos. Depois ensinou aos homens as formas para extrair os minerais da terra e a trabalhar com o cobre e o ouro. Com os ensinamentos de Bochica, que seria seu maior herói e civilizador, o povo chibcha se tornou organizado e rico, e foi chamado de Império dos Muíscas. [95]

Bochica, porém, era casado com Cia; e embora sua mulher fosse muito bela, seu coração era traiçoeiro. Também ela era trina, e além de Cia recebeu os nomes de Huitaca e de Ubecalhuara. Tornou-se uma deusa de embriaguez e de caos, e seu maior prazer era desfazer tudo de bom que o marido construía para as pessoas. Infelizmente para ela, Bochica era poderoso demais e sempre saía vencedor, ficando ao lado dos Chibchas. Vendo que não conseguia vencê-lo, Cia tramou então destruir seus protegidos.

Aproveitou uma ausência do marido e, usando artes mágicas, fez com que as águas do Rio Funzha, que hoje é chamado Rio Bogotá, subissem sem parar. As águas transbordaram e começaram a cobrir todas as terras a seu redor. Por mais que as pessoas fugissem, não conseguiam escapar à fúria do rio. Foi um dilúvio terrível, e Cia se divertiu vendo a destruição das cidades e das plantações dos homens. Apenas poucas pessoas tiveram sucesso em se refugiar nos altos morros que não foram submersos pelas águas. Os sobreviventes clamaram por Bochica, que correu a ajudar seu povo.

Quando viu tanta destruição, ele se transformou num arco-íris e se projetou sobre as cidades inundadas. Tomou seu bastão e bateu com ele nos rochedos, criando uma enorme fenda nos vales de Magdalena, que ia desde Jauja a Tenquedama. O grande volume de águas escoou pela fenda e criou o Salto de Tequendama, cujas águas fluem até hoje. Mas nem toda a água escoou; o Lago Guatavita guardou o que restou do dilúvio.

Bochica também fez com que o Sol viesse para secar a inundação. Desde então ele se tornou um herói solar, e depois seria ainda adorado como Deus do Sol. [96]

E sua fúria para com Cia foi tão grande, pelo que ela fizera aos seres humanos, que Bochica a expulsou da Terra e a mandou para os céus. Cia se transformou na Lua, e passou a iluminar o firmamento à noite.

Os que conseguiram salvar-se do dilúvio voltaram ao vale e reconstruíram suas cidades, que cresceram mais uma vez ricas e poderosas, através dos ensinamentos de seu maior herói e deus.

Depois de tudo isso, Bochica foi para Iraca, o lugar sagrado, e lá ficou em meditação por mais de mil anos. Segundo contam algumas pessoas, ele se retirou para o céu, onde se tornou definitivamente o Sol; lá do alto, aproveita para manter encarcerada na Lua sua maligna esposa, a traiçoeira Cia. Mas há aqueles que acreditam que ele foi para o fundo da terra e que, lá, ele suporta o mundo sobre os ombros. Quando, de tempos em tempos, ele muda o peso do mundo de um ombro para outro, a Terra se desequilibra, e é por isso que acontecem os terremotos.

Povo Chibcha

A civilização dos Chibchas se desenvolveu em terras altas, que hoje pertencem à Colômbia, desde o século VI antes da era comum. Sua sociedade é considerada uma das mais organizadas que já houve nas Américas, à época, embora não fosse um império tão poderoso quanto o dos Incas. Os estudiosos acreditam que eles eram originários da América Central, e consta que eram um povo bem-desenvolvido quando os conquistadores espanhóis chegaram à região, tendo em suas terras mais de um milhão de pessoas. Chamavam a si mesmos pelo nome de Muíscas, e parece que não possuíam, linguagem escrita, mas deixaram esculturas, cerâmicas e objetos de adorno em ouro. Sua língua foi extinta com o passar dos séculos.

Sua economia girava em torno da agricultura; cultivavam milho, batata, mandioca, e também extraíam sal da Cordilheira dos Andes, o que lhes proporcionou um bom comércio com os povos da vizinhança.

Os exploradores espanhóis se mostraram fascinados com os adornos que eles usavam, feitos de metais e pedras preciosas. Eles aproveitaram o enfraquecimento dos Chibchas, devido às suas várias guerras civis, e atacaram suas terras. Uma das maiores motivações para o ataque foi a busca pela mítica cidade de El Dorado, que nasceu das tradições chibchas. A última resistência do povo Muísca seria destruída no século XVI pelos conquistadores da Espanha.

Mitologia Sul-Americana
Bochica   
7/3/2018 7:38:59 PM | Por Rosana Rios
A estória de dois rios

(Povo Mapuche Picunche)

Neuquén e Limay eram dois rapazes muito amigos, filhos de chefes de pueblos, e por isso as pessoas os chamavam de inalonkos. Não moravam na mesma região, porém: um deles vivia ao norte, outro ao sul. Seus pais eram aliados e ambos tinham orgulho dos filhos, considerados grandes caçadores e guerreiros. Sempre que podiam, eles saíam juntos para caçadas. E foi durante uma delas, quando perseguiam a trilha de um guanaco nas cercanias do Lago Huechulafken, o Lago Alto, que Neuquén e Limay ouviram uma estranha canção soar, levada pelo vento.

Os dois caçadores abandonaram o rastro do animal e se puseram a buscar a origem do som. Para sua surpresa, junto às margens do lago deram com a mais bela jovem que jamais haviam vislumbrado. Tímidos, acercaram-se da moça, e Limay perguntou:

- Como te chamas ?

- Raihué - disse ela, baixando os belíssimos olhos negros.

Após deixarem a jovem e voltarem às suas casas, os dois rapazes sentiram que sua amizade estava abalada: [81] as serpentes do céu aninhavam-se em seus corações. Pois era claro que ambos haviam se apaixonado loucamente pela bela Raihué. Começaram a se afastar e não mais saíam juntos para caçadas. Seus pais perceberam esse distanciamento dos filhos, mas não sabiam qual o motivo; temendo que sua inimizade crescesse e que isso abalasse a aliança entre seus povos, debateram o problema e resolveram ir consultar uma machi, mu­ lher xamã que era muito sábia.

A machi explicou aos pais de Neuquén e Limay que os dois amavam a mesma moça e sugeriu que, para decidir a questão, submetessem os dois a uma prova: aquele que a vencesse se casaria com ela. Decididos a pôr em ação a sugestão da xamã, os chefes indagaram a Raihué:

- O que é que mais gostarias de possuir?

- Uma concha, para encostar no ouvido e escutar as ondas - respondeu ela.

Os dois então chamaram os filhos e anunciaram a prova. Ambos deveriam partir, cada um de sua morada, até o mar distante, em busca da concha. O que primeiro trouxesse o presente a Raihué seria seu marido.

Chamaram a m achi para ajudar, e ela pediu aos deuses que transformassem os dois rapazes em dois rios. E assim se fez: Neuquén partiu do Norte e Limay partiu do Sul, ambos feitos correntes de água, atraves­ sando os terrenos acidentados que levavam ao mar. Porém, o que nem os chefes e nem a machi sabiam era que o vento, que se chamava Curef, sentiu-se ofendido por não ter sido consultado naquele caso. Fora ele a levar o canto da jovem aos dois apaixonados! Como ousavam deixá-lo de fora da situação ? [82]

Então, Curef resolveu não permitir que a história acabasse bem, e foi logo ventar maldades aos ouvidos de Raihué.

- Jamais verás Limay e Neuquén de novo - sussurrou-lhe o vento. - Quando chegarem ao mar, eles serão enfeitiçados pelas huen hueshá e nunca voltarão para casa...

A pobre Raihué acreditou naquilo e chorou de tristeza, pois gostava dos dois jovens. Ela sabia que as huen hueshá eram estrelas caídas do céu e transformadas em ferozes sereias. Viviam nas águas do mar e sempre que viam um homem por perto encantavam-no e o arrastavam para o fundo do oceano, onde se tornava um de seus escravos.

O vento não cessava de soprar aquelas mentiras aos ouvidos da moça. Ela foi ficando cada vez mais triste, mesmo porque o tempo passava e nenhum dos dois rapazes, agora rios, retornava à terra natal. Tão desesperada ficou, que, sem dizer nada a ninguém, um dia foi para as margens do Huechulafken, no ponto em que os três haviam se conhecido, e clamou pelo grande Deus Nguenechén.

Pensando que seus apaixonados perderiam a vida por sua culpa, já que ela lhes pedira uma concha do mar, Raihué implorou ao deus que salvasse os dois, oferecendo sua vida em troca da deles.

Nguenechén a ouviu e decidiu aceitar a oferta de sua vida. Mal havia ela terminado as súplicas e sentiu que seus pés se transformavam em raízes, tentando enfiar-se terra adentro. Seus braços erguidos aos céus se tornaram ramos, sua boca se abriu como uma flor vermelha e seus olhos negros se converteram em pe­ quenos frutos, doces como o mel. [83]

Raihué havia se transformado na árvore do mi- chay, que o povo da Patagônia chama de calafate. Desde então seus frutinhos muito doces adoçam a boca dos apaixonados. Mas Curef, o vento, não ficou satisfeito com a transformação da jovem em planta; quis fazer sofrer os dois inalonkos, que ainda não haviam chegado ao mar. E foi soprar no vale em que eles corriam, de tal forma que os fez chegar bem perto um do outro. Ao vê-los próximos, o vento soprou a novidade para que ambos soubessem que sua amada não mais vivia.

- Raihué está morta - disse-lhes, com crueldade. - Foi transformada numa planta às margens do Lago Alto. Ninguém jamais a terá por esposa!

O perverso vento foi soprar noutras plagas. Ao saberem do triste destino da jovem, Neuquén e Limay esqueceram a inimizade. Ainda como rios, abraçaram-se para chorar juntos o fim de Raihué, e desde então suas águas estão unidas para não mais se separarem. De luto pela amada, tornaram-se o caudaloso Rio Negro e seguiram juntos para o mar.[1]

Ainda hoje as águas de Neuquén e Limay correm na região patagônica e dão origem ao Negro, que deságua no oceano suas águas enlutadas. [84]

Povo Mapuche Picunche

Chamou-se povo Araucano ou Mapuche aos povos que habitam, desde tempos remotos, uma região do Norte da Patagônia, localizada ao Sul do Chile e Sudoeste da Argentina. Encontram-se referências a três divisões desse povo: os Picunche, os Huiliche e os Pehuenche. Consta ainda que os Mapuche teriam, porforça deguerras ou disputas, também imposto sua cultura a alguns dospovos vizinhos chamados Tehuelche.

A palavra mapuche parece significar apenas “gente da terra”, na língua desse povo. Já a denominação araucano pode ter origem inca, tendo vindo da palavra quéchua awka, que quer dizer “inimigo”; mas essa origem é discutida.

A estória dos dois rios foi recolhida na província de Neuquén, e, como em muitos mitos da região, atribui vida a elementos existentes na natureza; os araucanos possuem vários mitos etiológicos em uma riquíssima tradição oral.

 

Mitologia Sul-Americana
Nguenechén   Neuquén, Limay, Raihué, Curef, huen hueshá
7/3/2018 7:35:04 PM | Por Rosana Rios
Como surgiu o fogo

(Povo Xerente)

Antes, ninguém cozinhava, todos comiam apenas as coisas cruas ou esquentadas ao calor do Sol. Até que, certo dia, aconteceu de um menino ser convidado por seu cunhado para ir à mata capturar araras. Os dois partiram da aldeia, o homem mais velho guiou o mais jovem até uma grande árvore oca, em que as araras haviam feito ninho; ele queria que o irmão de sua mulher subisse até o alto da árvore e capturasse as aves para ele. O menino aceitou subir e, com a ajuda do cunha­ do, foi escalando um grande pedaço de tronco encostado na outra árvore. Ao chegar à altura em que ficava o ninho, encontrou duas ararinhas. Mas não teve coragem de desaninhar os filhotes, e quando o outro, lá embaixo, o chamou, disse:

- Não tem nada aqui, só ovos!

O cunhado insistiu, desconfiado de que ele mentira, e então o garoto, com a boca, pegou uma pedra branca que encontrou enfiada entre o emaranhado do ninho e a jogou lá para baixo, dizendo que era um ovo de arara. A pedra foi caindo e, durante a queda, se transformou num ovo! Ao atingir o chão, estatelou-se. E o homem ficou muito zangado, tanto que [75] retirou o pedaço de tronco pelo qual o jovem subira e foi embora, resmungando.

Ora, o menino ficou preso no alto da árvore com as duas ararinhas, sem ter como descer. Cinco dias se passaram e ele continuava lá. Foi quando apareceu uma onça macho. O animal rodeou a árvore, viu o menino lá em cima e perguntou:

- O que você está fazendo aí ?

Ele explicou como o cunhado o abandonara no alto da árvore. Então a onça prometeu que, se ele lhe jogasse os filhotes de arara, ela o ajudaria a descer. O jovem acabou concordando e atirou as duas aves para a onça, que imediatamente as devorou. Depois, disse ao menino para pular, pois o apanharia para que não se machucasse no chão.

Apesar de estar assustado, ele resolveu obedecer. A onça o aparou e, embora rugisse e o segurasse com suas patas de garras afiadas, ficou impressionada por ele não ter demonstrado medo.

- Suba nas minhas costas, vou levar você para a minha casa.

O menino concordou e subiu nas costas da onça, que logo se embrenhou na mata e foi tomando o rumo de onde morava.

Quando chegaram perto de um riozinho, o garoto quis parar para beber água.

- Não pode – negou a onça – esta água é dos urubus. Só eles podem beber aqui.

Seguiram em frente e, quando alcançaram outro rio, ele quis descer das costas da onça, mais uma vez, para beber.

- Não pode, esta água é dos passarinhos - foi a nova resposta. [76]

Porém, quando encontraram o terceiro riacho, o jovem já estava com tanta sede que não ligou para a proibição da onça, dizendo que aquela água pertencia aos jacarés. Ele saltou das costas do animal e bebeu tanto, mas tanto, que quase secou a água toda; não adiantou os jacarés aparecerem e pedirem para que parasse! Só quando saciou a sede foi que ele tornou a subir nas costas da onça para continuarem a viagem. Finalmente chegaram à aldeia, e a fêmea da onça ficou muito zangada por seu marido ter trazido o menino até lá.

- Ele é muito magro e muito feio - disse ela.

A onça macho, contudo, mandou que a esposa tomasse conta do jovem. Ela não gostou muito, mas aceitou e mandou que ele se sentasse junto dela para catar os piolhos da sua cabeça.

O garoto fez o que fora ordenado; quando estava sentado entre as patas da onça fêmea, catando os piolhos, ela soltou um rugido tão feroz que quase o matou de medo.

Ele saiu correndo para se queixar à onça macho, que o defendeu. Mas a onça sabia que o menino não poderia ficar ali, pois sua mulher o mataria. Disse-lhe, então:

- Você vai voltar para sua aldeia.

E, antes da viagem, deu-lhe vários presentes: arco, flechas, enfeites e comida para comer no caminho. Foi até um tronco que pegava fogo num canto, e de lá trouxe vários pedaços de carne assada.

O jovem nunca havia visto o fogo, e achou a carne muito saborosa. A onça instruiu:

- Vá agora, e se minha mulher o seguir, atire uma flecha nela, mas precisa acertar seu pescoço, senão ela o matará. [77]

Aconteceu exatamente como a onça macho previra. Logo que tomou o rumo de casa, o menino viu que a onça fêmea o seguia; preparou a flecha e atirou, atingindo o animal na carótida. Com a perseguidora morta, ele conseguiu seguir em segurança para sua aldeia. Porém, ao chegar perto, não teve coragem de entrar lá e ficou escondido na mata. Não sabia o que sua família pensava de seu sumiço, depois da expedição com o cunhado. Entretanto, mesmo permanecendo oculto, ele foi visto por dois de seus irmãos, que correram para contar à mãe que seu filho não estava morto, como todos haviam pensado pelo que o cunhado contara. A mãe não queria acreditar, porém, quando todos estavam no meio de uma grande festa, ele apareceu e foi então cercado por toda a família.

Eles se deslumbraram com os presentes que ele recebera da onça. Quando viram a carne assada, foi um acontecimento! Ficaram todos maravilhados, pois não conheciam o fogo.

- Como esta carne foi preparada? - perguntaram. - Ao Sol, respondeu ele.

Só depois de muitas perguntas, e de um tio insistir em que ele dissesse a verdade, foi que o garoto contou que a carne fora assada ao fogo, um segredo que só a onça possuía. Todos então se reuniram e decidiram que precisavam ter o fogo para assar seus alimentos. Mas, para isso, teriam de ir à aldeia da onça e roubá-lo. Prepararam, então, um grande grupo de homens e animais para uma expedição que obtivesse o fogo. Quando chegaram lá, pegaram o tronco incandescente e saíram correndo; o fogo foi carregado pelas aves corredoras, pelo mutum e a galinha d agua. Não foi fácil atravessar a [78] mata com aquilo, mas conseguiram! O jacu, que ia atrás deles, ia bicando as brasas que caíam no chão e engolindo-as, e é por isso que, até hoje, seu papo é vermelho.

Foi após roubar o fogo da onça que os homens aprenderam a usá-lo para cozinhar os alimentos, e nunca mais comeram carne crua.

Povo Xerente

Esse grupo tribal tem também por nome Akwen ou Acuen. Originários do Centro-oeste brasileiro, hoje concentram-se no Estado de Tocantins. Falam dialetos da família linguística Jê, e consta que formavam um só grupo com o povo Xavante, mas teriam se separado deles no século XIX, mantendo-se desde então separados, com aqueles se fixando no cerrado e estes às margens do rio Tocantins.

Seus primeiros contatos com missionários e bandeirantes aconteceram no século XVII, e desde então os Xerentes se envolveram em muitos conflitos por terras, que seprolongam até os dias de hoje.

A sociedade Xerente é organizada deform a complexa, estruturada em torno de duas metades, que compreendem três clãs cada uma; essas metades recebem os nomes de D oí e Wáhirê, o Sol e a Lua. Os clãs Doí se chamam Kuzaptedkwá, Kbazitdkwá e Kritóitdkwa; e os Wáhirê recebem as denominações de Krozaké, Kreprehí e Wáhirê. Tudo na aldeia gira em torno dessas divisões: as atividades de subsistência, os rituais sociais, os jogos. [79]

Mitologia Sul-Americana
   
7/3/2018 7:26:59 PM | Por Rosana Rios
As folhas de coca

(Povo Aymara)

Conta-se que um grande grupo de pessoas que vivia perto de Tiahuanaco, no Altiplano, saiu em busca de uma nova morada nas colinas orientais da Cordilheira dos Andes. Chegaram aos vales muito elevados, chamados Yungas, e resolveram ficar por lá. Para começar a colonizar a região, passaram a cortar as árvores e os arbustos, e a queimá-los para limpar o terreno, pois queriam cultivar aquelas terras. Mas a fumaça de suas queimadas se elevou e chegou ao cume dos montes Ilimani e Ilampu.. Além disso, chegou às geleiras de Khunu, o Deus das Neves e das Tempestades.

Khunu ficou furioso com a poluição causada pelos homens do Altiplano. Sua fúria se materializou e se transformou em um terrível temporal, com chuva forte e granizo mortal caindo sobre os Yungas. A chuva formou rios torrenciais que começaram a devastar os vales. Tudo o que os homens haviam construído por lá foi destruído, suas plantações foram arrasadas e os caminhos que haviam aberto foram inundados. As pessoas tiveram de se refugiar em grutas para não se afogar com a tempestade e a inundação. Ficaram [71] lá por muito tempo, isolados, enquanto a chuva e o granizo caíam.

Após a tempestade, todos puderam sair de seus refúgios; mas não encontraram nada além de terras devastadas. As plantações haviam morrido e nada flo­ rescia nas colinas. Desesperados em busca de alimen­ tos, eles descobriram que apenas uma planta vicejava por ali: um arbusto de folhas muito verdes e brilhan­ tes. Os homens apanharam as folhas daquele arbusto e as usaram como alimento. Logo perceberam que, ao mascar uma única folha, sentiam-se mais fortes, menos cansados e com ânimo renovado. A planta foi chamada coca.

Assim, eles conseguiram descer dos Yungas e voltar a Tiahuanaco. Lá, contaram aos auquis, os sábios anciãos, sobre a planta miraculosa. Foi através deles que o conhecimento das propriedades medicinais das folhas de coca se espalhou pelos Andes.

É ao mascar essas folhas que as pessoas conseguem aguentar a vida em regiões muito altas, desde que não levem a poluição às terras protegidas pelos deuses.

Povo Aymara

O povo Aymara, Aimara ou Aymará tem uma origem tão antiga que pouco se sabe sobre ela. Sabe-se que ocupavam territórios onde hoje se situam o Peru, o Chile, a Colômbia e o Equador. Foram conquistados pelos Incas, mas conseguiram m anter sua cultura mesmo após se tornarem parte do Império Inca. [72]

Uma história diz que, ao ver que seriam conquistados, ofereceram ouro eprata aos monarcas vencedores, o que lhespermitiu viver com suas próprias características, emboraprestando vassalagem aos chefes incaicos.

Mais tarde, com a chegada dos europeus à América do Sul, combateram tanto quanto os senhores do Império, mas acabaram sendo assimilados.

Ainda hoje muitos deles permanecem em algumas zonas da Bolívia, junto aos Andes, São povos montanheses e agricultores, e embora seus mitos se confundam com os dos Incas, mantiveram na memória muitas estórias sobre seus próprios deuses e heróis. [74]

Mitologia Sul-Americana
Khunu   
7/3/2018 7:19:09 PM | Por Rosana Rios
A origem do milho

(Povo Dakota Sioux)

Um velho eremita vivia sozinho no fundo de uma floresta, distante das aldeias de seu povo. Sua tenda era feita de peles de búfalo, suas roupas de pele de cervo[1]. Longe de todos os seres humanos, ele se sentia feliz por viver sozinho. Durante o dia ele vagava pela floresta, estudando as diferentes plantas e colhendo raízes. Estas ele usava tanto como alimentos como também para fazer poções. De tempos em tempos, algum guerreiro aparecia em sua tenda buscando re­ médios para a tribo; todos acreditavam que as artes de cura do velho eremita eram as melhores.

Um dia, após um longo passeio pelas matas, o ere­ mita chegou em casa tão cansado que, logo após comer alguma coisa, deitou-se para dormir. E, quando estava quase caindo no sono, sentiu alguma coisa tocar em seu corpo. De um salto, ele acordou e viu um vulto escuro a seus pés; parecia estender para ele um braço, e segurar uma flecha que tinha ponta de pedra.

“Deve ser um espírito”, pensou o velho. “Não há ninguém por aqui, a não ser eu.”

Então a estranha sombra sumiu e ele ouviu uma voz, que dizia: [67]

- Eremita, vim convidá-lo a ir para minha casa. - Eu irei - respondeu o homem.

Levantando-se, enrolou-se nas cobertas e saiu na

noite fria, em busca da voz.

Porém, fora da tenda, por mais que olhasse, não conseguiu ver o menor sinal do vulto.

- Onde quer que esteja, quem quer que seja,

espere por mim - pediu ele. - Não sei para onde ir, nem como encontrar sua casa!

Nenhuma resposta ele teve, nem ouviu mais qual­ quer som de que alguém estivesse por perto, ou nos arbustos. Voltou para a tenda e logo adormeceu.

Na noite seguinte, ele acordou de madrugada e tornou a ouvir a voz, que dizia:

- Eremita, vim convidá-lo a ir para minha casa.

E mais uma vez, ao sair da tenda e procurar o dono daquela voz, não encontrou ninguém. O homem começou a ficar zangado, pois pensava que alguém esta­ va zombando dele. E resolveu que descobriria quem é que tentava perturbar seu descanso noturno.

No anoitecer seguinte, ele cortou um buraco na tenda, grande o bastante para deixar passar uma fle­ cha. E ficou de vigia junto à porta, esperando.

Assim que viu o vulto escuro se aproximar e parar do lado de fora da tenda, a voz soou:

- Avô, eu vim convidá-lo...

Mas a sombra não terminou o que ia dizer. O velho eremita havia atirado sua flecha pelo buraco da tenda!

Ouviu-se um som estranho, como se a flecha tivesse atingido um saco cheio de pedras. Mas não se enxergava nada naquela profunda escuridão, e nenhum som se ouviu depois disso. [68]

Quando a manhã nasceu, o eremita saiu da tenda e foi olhar o local onde achava que sua flecha havia acertado algo. Sobre a terra havia um grão amarelo, e daí em frente ele viu uma trilha de grãos da mesma cor, indo em direção à mata. O velho entrou na floresta e foi seguindo a trilha, até que os grãos terminaram; encontrava-se em um grande círculo no qual não havia nem grama nem plantas.

“A trilha termina nas bordas do círculo”, pensou ele. “Aquele que me convidou deve morar aqui...”

Ele tomou sua faca e seu grande machado feito de osso, e começou a cavar no centro do círculo. Após cavar bastante, encontrou um saco cheio de carne seca. Mais abaixo, encontrou um saco cheio de nabos, um outro contendo cerejas secas, e por fim um saco de grãos amarelos. No final achou outro saco dos mesmos grãos, mas quase vazio, contendo apenas um punhado deles; neste havia um buraco, onde a flecha que ele atirara furara o saco.

Os grãos amarelos eram o milho, que ele não conhecia. O furo deixara cair os grãos, formando a trilha que o guiara até o esconderijo. A partir daquela experiência, o velho eremita começou a ensinar seu povo como conservar suas provisões quando fossem viajar.

- Cavem um buraco - ele explicava a eles - e en­ terrem suas provisões; depois cubram-nas com terra.

Com esse método, os Sioux passaram a guardar alimentos durante o verão. Quando chegava o outo­ no, eles retornavam aos esconderijos; ao abrirem os buracos, encontravam as provisões fresquinhas, como as tinham deixado.[2]

Quanto aos grãos amarelos, os homens passaram a cultivá-los, e depois disso todos iriam agradecer muito ao velho eremita. Era seu primeiro contato com o milho, que se tornaria um alimento muito importante para aquele povo.

Povo Dakota Sioux

Os povos de língua Sioux parecem ter vivido originalmente no vale do Mississipi e do rio Ohio. Quando os colonizadores europeus chegaram à América do Norte, suas tribos ocupavam enormes territórios nos atuais estados de Dakota do Norte, Dakota do Sul, Wisconsin, lowa e Minnesota. Esses povos foram ferozes combatentes da invasão de seus domínios,

pois, quando foi descoberto ouro nas montanhas, milhares de mineiros começaram a infiltrar-se em terras indígenas e começaram a causar a destruição dos ecossistemas locais, acabando com territórios tradicionais de caça e dizimando tribos inteiras.

A guerra dos invasores com os nativos seprolongaria; guerreiros indígenas derrotariam os Generais Crook (em Rosebud) e Custer (em Lit- tle Bighorn), mas acabariam eventualmente massacrados por exércitos fortemente armados em Wounded Knee, em 1890. Os principais grandes grupos tribais Sioux são três: os Lakota, os Dakota e os Nakota. Os remanescentes dos Dakota, hoje, espalham-sepelos territórios originais e também por Montana, Nebraska e Wyoming. Pos­ suem inúmeras lendas e mitos a respeito de criaturas travessas e espertas, o que nos legou várias histórias de tricksters, embora tenham também mitos etiológicos, como este da origem do milho, e muitos mitos heroicos. [70]

Mitologia Norte-Americana
  Velho eremita 
7/3/2018 7:15:24 PM | Por Rosana Rios
As cores dos pássaros

(Povo Yukon)

Nos tempos antigos, na época em que o mundo era pequeno, o Velho Coiote[1]resolveu dar um jeito nas aves. Ele andava aborrecido porque todos os pássaros ti nham as mesmas cores, sempre em tons de marrom, os mesmos formatos, e suas vozes soavam todas iguais. E apesar de o Velho Coiote já ter matutado muito sobre o problema, não sabia o que poderia fazer a respeito. Numa manhã muito quente, passeando junto às margens do rio Porco-espinho, um afluente do rio Yukon[2], parou e se inclinou junto às águas para matar a sede; e foi então que viu o corvo voar ali por perto, gritando “craw, craw” com sua voz rouca.

Resmungando sobre a voz do corvo, que considerava horrenda, o Velho Coiote bebeu água e passou os olhos pelas pedrinhas à beira do rio. Algumas eram vermelhas, outras azuis; havia as esverdeadas e as cinzentas. Ao ver que não havia dois seixos iguais, ele exclamou:

- É isso! Agora sei exatamente o que fazer!

Na tarde seguinte, o Velho Coiote chamou todas as aves e explicou-lhes qual era seu plano. Ele criaria [61] novas e diferentes roupagens para todos eles, e assim nunca mais haveria confusão entre os pássaros.

- Cada um de vocês será belo - declarou ele. - Os pássaros pequeninos terão cores brilhantes, como os menores seixos do riacho. As grandes aves ficarão elegantes e imponentes, como as rochas nos penhascos acima dos rios.

Todos gostaram bastante da ideia e foram se organizando em filas para não perder nada do que iria acontecer. Iam pousando na beira do rio, nos galhos dos salgueiros, nas margens e nas rochas, ansiosos para ganharem suas novas roupagens. Apenas o Corvo não estava satisfeito. Ficou saltando entre os grupos de aves, murmurando contra o Velho Coiote, assegurando-se para que o Velho não o ouvisse resmungar pelo canto do bico. Mas o outro não prestou a mínima atenção aos resmungos; já estava trabalhando.

Os primeiros a ganharem novas cores foram os pássaros canoros, os menores e mais agitados. O Coiote foi usando pequenos pincéis e colocando um toque de vermelho aqui, um pouco de azul ali, asas verdes para uns e capuzes negros para outros.

Todos estavam interessados e adorando a agitação, chilreando sem parar, chegando perto para ver a pintura. O beija-flor pairou tão próximo do Coiote que levou uma pincelada.

- Saia daí e me deixe trabalhar! - o pintor reclamou, acidentalmente manchando o beija-flor com tinta carmim; desde então esse pássaro tem manchas cor de rubi no pescoço.

O tempo passava e o número de aves aumentava sem parar. O Velho Coiote resolveu usar pincéis maio­ res e começou a trabalhar mais depressa; o tordo39fi­ cou parcialmente vermelho e o azulão ganhou muitos [62] tons de azul. Enquanto isso, o Corvo continuava descontente. As vezes ia mexer nas tintas e pegava um pouco de uma, um pouco de outra, e levava para longe, querendo examinar melhor as cores. Mas o Coiote continuava a não lhe dar atenção.

Quando foi hora de pintar as grandes aves, como falcões e águias, as cores estavam tão misturadas que eles foram coloridos em tons de marrons e cinzas; e quando restavam os cisnes e gansos, o pintor encon­ trou apenas tinta branca, e eles tiveram de se conten­ tar com essa cor.

Ao terminar, o Velho Coiote pousou os pincéis; estava cansado, mas feliz com sua primeira tentativa de colorir. Foi então que o Corvo resolveu ir cutucá-lo.

- Você não me pintou - resmungou ele, sempre rouco.

- Não, sinto muito. Minhas tintas acabaram - foi a resposta do Coiote. - Não posso fazer nada por você.

O Corvo não se conformou.

- Pois eu não quero ficar marrom como antes, agora que todas as aves são coloridas! Acho que vou pintar a mim mesmo.

E, para espanto do Coiote, revelou que, enquanto este pintava, ele fora pegando bocados de várias cores para experimentar. Vendo que o outro não parecia zangado com ele, trouxe as tintas de volta e começou a fazer exigências.

- Eu já estou acostumado com o marrom, essa cor pode colorir as penas do meu corpo, mas gostaria de ter a cabeça mais vermelha que a do pica-pau.

O Coiote tentou não se irritar com a ousadia do Corvo. Tomou seus pincéis e coloriu da forma pedida, mas quando a ave foi se olhar no espelho das águas do rio, não gostou. [63]

Voltou para o pintor e pediu:

- Quero um círculo cor de laranja ao redor do pescoço, e as asas bem verdes.

Ainda sem dizer nada e tentando ser paciente, o Coiote o atendeu.

E quando a ave se olhou no reflexo das águas mais uma vez, detestou o que viu.

- Isso está horrível! E melhor pintar minhas cos­ tas de azul e o resto de branco; o marrom é mesmo muito sem graça.

Porém, após mais uma etapa de pintura, ao olhar seu reflexo nas águas do rio, o Corvo voltou furioso.

- Como você fez com que os pássaros ficassem tão bonitos, e me deixou deste jeito? Estou parecendo um arco-íris estúpido! Faça alguma coisa!

O Velho Coiote, a essa altura, estava cansado de aturar tantas ofensas.

- O que quer que eu faça? - perguntou, muito irritado. - Só restou um último tom de tinta, quer que eu use esse ?

O Corvo, fora de si, berrou:

- Claro! E impossível ficar pior do que está, seu velho tolo!

Ninguém jamais chamara o poderoso Coiote de tolo.

- Pois muito bem! - desabafou ele, furioso. - A partir de hoje, você terá uma única cor: suas penas serão negras, e desta cor ficará para sempre! Será assim até que o mundo acabe, até que os rochedos desabem e que todos os peixes morram! Até que o Velho Homem do Rio corra pelo leito seco do rio Porco-espinho, levando num balde feito de casca de bétula40asúltimasgotasdeáguadaTerra! [64]

É por isso que, enquanto os pássaros têm tantas cores, o Corvo tem apenas uma.

Povo Yukon

O rio Yukon nasce no Noroeste do Canadá, e vai desaguar no M ar de Beringapós atravessarparte do Alaska. O vale em que ele corre, chamado Vale do Yukon, deu nome a um território canadense e a seu redor se de­ senvolveram muitospovos nativos,falantes da linguagem Athapascana ou Atabascana, inclusive os Kutchin, os Nahani, os Hare e vários outros grupos.

Tradicionalmente, esses povos viviam entre asflorestas e a tundra, e às vezes se deslocavam para buscar caça e melhor temperatura. Em tem­ pos antigos viviam da caça do búfalo, do caribu e do salmão.

Os mitos dos povos Athapascanos do Yukon são inúmeros, e consta que seus anciães sempreforam grandes contadores de histórias. Na mito­ logia dessa região incluem-se contos etiológicos sobre a form a como as coisasforam feitas, e como se tornaram diferentes - como esta, sobre as cores das aves. É dito ainda que muitos dos seus mitos são semelhantes aos depovos moradores do outro lado do Estreito de Bering, na Sibéria - o que alguns acreditam serprova de que a origem dospovos indígenas americanos está mesmo na Asia. [65]

 

Mitologia Norte-Americana
  Velho coyote 
7/2/2018 6:40:40 PM | Por Rosana Rios
Os astros, os meses e as estações

(Povo Tsimshian do Alaska)

O Chefe-do-céu, que viveu antes de tudo o que foi criado, tinha dois filhos e uma filha; seu povo era numeroso. Nesse tempo, o céu era escuro e nada se enxergava nele. O filho mais velho do chefe se chamava O-que-sai-bem-cedo; o segundo filho tinha o nome de O-que-anda-por-todo-o-céu; e a única filha era conhecida como Apoio-do-sol. Todos eles eram muito fortes, porém o do meio era bem mais sábio e hábil que o primogênito. Esse rapaz achava uma pena que o céu sempre estivesse escuro. Um dia, O-que-anda-por-todo-o-céu chamou o irmão mais velho para irem cortar lenha.

Juntos, eles cortaram um galho de cedro bem fino e o dobraram, formando um círculo do tamanho da cabeça de uma pessoa; prenderam ramos em toda a volta do círculo, criando uma máscara.[1]Então atearam fogo à máscara de madeira, para que O-que-anda-por-todo-o-céu a colocasse diante do rosto e saísse correndo rumo ao Oeste.

De repente, todos viram uma grande luz subir ao céu! Maravilhadas, as pessoas assistiram o filho mais novo do chefe correr de Leste a Oeste, movendo-se [55] tão rapidamente que as chamas da máscara incendiada não o queimavam. A partir desse dia, todas as manhãs o rapaz repetia essa corrida, e iluminava o céu. Então toda a tribo se reuniu e se assentou em conselho.

- Estamos felizes por seu filho nos ter dado luz - disseram ao chefe. - Mas ele é rápido demais; deveria ir mais devagar, para que todos pudessem aproveitar melhor essa luminosidade.

O chefe contou a seu filho o que o povo havia dito, mas O-que-anda-por-todo-o-céu respondeu:

- Se eu for mais devagar, a máscara queimará bem antes que eu chegue ao Oeste..

Ele continuou a correr muito depressa, e as pessoas continuaram a desejar que se movesse mais lenta­ mente. Até que um dia sua irmã disse:

- Vou tentar atrasar um pouco a marcha de meu irmão.

No dia seguinte, quando O-que-anda-por-todo-o-céu surgiu no Leste e iniciou sua caminhada rumo ao Oeste, Apoio-do-Sol apareceu no Sul e pediu:

- Irmão, espere por mim!

Ela correu o mais rapidamente que podia e alcançou o irmão no meio do caminho.

Então, a menina o abraçou com força e o segurou por um tempo, até que ele conseguiu se soltar e prosseguiu sua caminhada. E por causa do abraço da irmã que o Sol sempre pára um pouco quando chega ao meio do céu. Com isso, o povo da tribo soltou gritos de alegria, e o pai de Apoio-do-Sol a abençoou. Mas o chefe não estava satisfeito com o filho mais velho. Achava que O-que-sai-bem-cedo não era tão esperto e capaz como seu irmão, o Sol. Ao ver o desapontamento do pai, o rapaz chorou muito, desanimado. [56]

Enquanto ele se lamentava, O-que-anda-por-todo-o-céu chegou de seu passeio diário e foi dormir, pois estava exausto. Dormia profundamente, e o brilho de seu rosto projetava luz pelo buraco da tenda que servia para sair a fumaça. Quando O-que-sai-bem-cedo viu que toda a família estava dormindo também, esfregou carvão e gordura no próprio rosto. Com isso, o brilho que o irmão mais novo projetava pelo buraco da fumaça refletia-se em sua face. Então o mais velho chamou seu escravo e ordenou-lhe:

- Assim que você me vir subir ao céu no leste, saia gritando “Viva! Ele surgiu!”.

Ele deixou a tribo e apareceu no céu, sempre refletindo em seu rosto o brilho do irmão na face suja de carvão. O escravo começou a pular e a correr, gritando:

- Viva! Ele surgiu!

Várias pessoas apareceram, ralhando com o escravo. Diziam elas:

- Por que faz tanto barulho?

Em resposta, ele indicava o céu ao Leste. Todos olharam, viram a Lua nascendo, e gritaram:

- Viva!

O tempo passou, e muitos animais passaram a viver no mundo. Certo dia eles se reuniram em conselho e decidiram que o Sol deveria continuar percorrendo o céu de Leste a Oeste, e que ele seria a luz do dia. Quanto à Lua, deveria andar somente à noite. Depois disso, puseram-se a decidir quantos dias deveria haver em um mês. Os cães, que até então eram considerados mais sábios que os outros animais, foram os primeiros a falar.

- A Lua deve nascer por quarenta dias - falou o seu porta-voz. [57]

Mas os outros animais não gostaram da ideia e ficaram em silêncio, vendo os cachorros contarem até quarenta com os dedos.

Até que finalmente o porco-espinho espetou um dedo do cachorro-chefe, e disse:

- Quarenta dias em um mês? Não podemos viver assim, o ano seria muito longo. Deveria haver só trinta dias em um mês.

Todos os animais concordaram com o porco-espinho, e os cães perderam na votação. Graças a esse conselho é que os meses duram trinta dias, e há doze meses num ano. Mas os animais ficaram zangados com os cachorros, e decidiram que eles deveriam ir embora.

É por isso que os cães detestam as criaturas da mata, principalmente os porcos-espinho, por causa daquele que espetou um deles no dedo e o humilhou durante o conselho. E o formato dos dedos dos cachorros ficou do jeito que é hoje por culpa da espetada do porco-espinho.

Naquele mesmo conselho, os animais decidiram que nomes teriam os meses:

Entre outubro e novembro é o mês das Folhas-que-caem.

Entre novembro e dezembro é o mês do Tabu.

Entre dezembro e janeiro é o mês Que-está-no-meio.

Entre janeiro e fevereiro é o mês da Primavera-do-salmão.

Entre fevereiro e março é o Mês-de-comer-arenque.

Entre março e abril é o Mês-de-cozinhar-arenque. [58]

Entre maio e junho é o mês do Ovo.

Entre junho e julho é o mês do Salmão.

Entre julho e agosto é o mês do Salmão-corcunda.

Entre setembro e outubro é o mês do Pião.

Além disso, eles dividiram o ano em quatro estações: primavera, verão, outono e inverno.

Enquanto todas essas coisas eram decididas, novidades aconteciam no céu. Certa noite, quando O-que-anda-por-todo-o-céu dormia, fagulhas escaparam de sua boca e se transformaram em estrelas. E, às vezes, quando ele se sentia muito feliz, pintava seu rosto com as tintas avermelhadas de sua irmã.

Pelas cores, as pessoas podiam saber qual a temperatura que viria. Se sua cor vermelha colorisse o céu ao anoitecer, haveria bom tempo no dia seguinte; porém se a luz vermelha aparecesse pela manhã, era sinal de que uma tempestade se aproximava. E dizem que isso ainda acontece.

Depois que o céu ganhou o Sol, a Lua e as estrelas, a filha do chefe, Apoio-do-Sol, foi desprezada por seu povo, por ter tido uma parte tão pequena na criação dos astros. Infeliz, ela vagou em direção ao Oeste, entrou na água e suas roupas se molharam. Ao voltar para casa, pôs-se diante do fogo aceso por seu pai para se esquentar. Mas quando foi torcer as roupas molhadas, ela deixou as águas caírem sobre a fogueira e elas evaporaram, formando uma grande nuvem de vapor que flutuou sobre a casa e se espalhou pela terra. Aquele vapor se tornou um nevoeiro úmido e moderou o calor que fazia. Seu pai a abençoou e todos na tribo aproveitaram o frescor do nevoeiro. E é por isso que, até hoje, todos os nevoeiros vêm do Oeste, onde ficam as águas em que ela se molhou. [59]

O Chefe-do-céu se alegrou porque seus três filhos eram sábios e úteis; e até hoje O-que-sai-bem-cedo, a Lua, surge e some numa jornada de quase trinta dias, para que as pessoas consigam contar o tempo. O Sol, O-que-anda-por-todo-o-céu, foi encarregado de criar coisas boas como as frutas e fazer com que elas venham em abundância. E Apoio-do-Sol, a filha do chefe, refresca a terra quente com a neblina fresca.

Povo Tsimshian do Alaska

Esse grupo tribal também era chamado Povo do Rio Skeena, um rio localizado na Colúmbia Britânica, território canadense; mas no século XIX eles migraram para o Alaska, já em terras estadunidenses. Culturalmente, era um povo relacionado aos Haida e aos Kwakiutl - ambos grupos originários das costas do Canadá. Como esses, os Tsimshian sempre foram grandes escultores em madeira, e faz parte de seus costumes tecer belíssimas mantas, chamadas Chilkat. Confeccionadas com uma forma tradicional e complexa de tecelagem, típica da região, as mantas formam desenhos estilizados, cujos significados remetem aos animais presentes em seus mitos. Seu uso sempre esteve restrito às cerimônias e aos rituais das tribos.

Hoje, a maioria dos Tsimshian vive na ilha Anette, em reservas, e eles são bastante atuantes na economia e na política do Alaska. [60]

 

Mitologia Norte-Americana
  O-que-sai-bem-cedo, O-que-anda-por-todo-o-céu, Apoio-do-sol, Chefe-do-céu, Sol 
7/2/2018 6:26:40 PM | Por Rosana Rios
A morte de Kuadê, o sol

O sol, em tempos antigos, não morava no céu. Ele se chamava Kuadê e vivia na Terra, em uma aldeia distante; tinha mulher e três filhos. Poucos sabiam onde ficava a morada do Sol, mas os Juruna sabiam.[1] Bem próximo à casa de Kuadê havia uma armadilha que ele armara para caçar: era um buraco na pedra, que sempre estava cheio de água. Quando qualquer animal enfiava a cabeça no buraco, para beber água, ficava preso e não conseguia escapar. Diariamente o Sol ia verificar a armadilha, matava os bichos aprisionados com sua borduna - um grande porrete que tinha vida própria - e então levava a caça para casa.

Certo dia, um rapaz Juruna foi passear para aqueles lados. Ele viu o buraco, mas não sabia que era uma armadilha: estava com sede e, quando colocou a mão lá dentro para pegar água e beber, ficou com o braço preso no buraco. O tempo passou, e o Sol foi até lá para buscar caça. O Juruna percebeu que alguém se aproximava e ficou deitado, imóvel, fingindo-se de morto. Estava com tanto medo que até mesmo seu coração parou! Kuadê chegou, viu o corpo caído e foi procurar sinais de que ele havia morrido: como o Juruna não respirava e seu coração não parecia bater, [47] soltou-o do buraco e colocou-o em um grande cesto, para levar embora.

Antes de ir, querendo verificar se o rapaz estava morto mesmo, jogou dentro do cesto muitas formigas. O Juruna aguentou as picadas sem se mexer, porém, quando as formigas picaram seus olhos acabou se movendo.[2]Kuadê não viu, mas sua borduna percebeu o movimento e quis atacá-lo. O Sol, entretanto, disse à borduna que o moço estava morto e que o deixasse em paz.

Ao chegar em casa, Kuadê pendurou o cesto numa árvore e o deixou lá. Veio a noite, e apenas no dia seguinte o dono da casa mandou um de seus filhos ir buscar o corpo. Mas o filho do Sol não encontrou ninguém no cesto: o rapaz havia fugido durante a madrugada! Assim que ficou sabendo disso, o Sol atirou sua borduna em busca do fugitivo. A borduna saiu voando e logo encontrou vários animais, mas nenhum deles era o que o Sol queria.

Depois de muita procura, acabaram encontrando o Juruna escondido na raiz oca de uma árvore.[3]A borduna começou a bater na árvore, porém o rapaz não saía de dentro do oco. Depois ela cortou uma vara e começou a enfiar pelas frestas do tronco; mesmo assim, apesar de ficar todo machucado, o Juruna não saiu .O Sol viu aquilo e, como já estava anoitecendo, tapou todas as aberturas da raiz com pedras, prendendo o outro lá dentro, e disse:

- Amanhã voltamos para acabar com ele.

A noite caiu e vários animais se aproximaram da árvore: antas, porcos, veados, macacos, pacas, cutias... [48]

Queriam ajudar o rapaz a escapar, e todos ouviram o Juruna pedir:

- Cavem perto da raiz, para me soltar!

Os bichos começaram a cavar, mas estava difícil. Por fim, a anta abriu um buraco maior e o Juruna conseguiu colocar a cabeça para fora. Então eles cavaram mais ao redor e afinal ele ficou livre! Tratou de fugir dali.

O dia nasceu, e o Sol lá se foi, com sua borduna, para capturá-lo. E, outra vez, ficou furioso, pois a presa lhe havia escapado. A essa altura, o rapaz tinha voltado à aldeia Juruna e contado para sua mãe e todos os parentes o que havia lhe acontecido. Porém, poucos dias depois ele resolveu deixar a aldeia de novo, para colher cocos na mata. Embora a mãe lhe pedisse para não ir, pois poderia ser morto pelo Sol, ele teimou e foi. Para não ser reconhecido por Kuadê, cortou os cabelos e fez uma pintura de jenipapo, ficando bem diferente.

Mata adentro, logo encontrou uma palmeira de inajá e nela subiu para pegar os cocos lá no alto. Foi então que o Sol apareceu. Primeiro, ele pensou que era um macaco lá no alto, mas não demorou para reconhecer o Juruna. E disse:

- Desça daí! Você me escapou no outro dia, mas hoje vai morrer.

- Não sou quem você pensa - respondeu o rapaz sou outra pessoa.

Kuadê não se deixou enganar.

- É você mesmo. Desça daí, vou matar você.

O Juruna não podia ficar lá no alto a vida toda.

Então, propôs:

- Vou descer, mas primeiro tenho de jogar para baixo este cacho de cocos. [49]

- Joga - respondeu o Sol.

O rapaz jogou um cacho cheinho de cocos, e o Sol o apanhou.

- Pega mais um... - pediu o moço, lá de cima.

E atirou um cacho tão grande e pesado que, ao cair no peito de Kuadê, os cocos o derrubaram e o mataram.[4]Na mesma hora, a borduna, que estava ali ao lado, saiu correndo e se transformou numa cobra, a salamanta, que também se chama uandaré-borduna-do-sol.

Na mesma hora, tudo ficou escuro. Do corpo morto de Kuadê começou a escorrer sangue, que foi se transformando em bichos venenosos: aranhas, lacraias, formigas, cobras.[5]Eram muitos, e todos eles foram cercando a palmeira, querendo envenenar o Juruna. Vendo que não conseguiria descer da palmeira, ele resolveu fazer como os macacos: foi pulando de árvore em árvore, de galho em galho, até que se viu livre dos bichos venenosos. Então desceu ao chão e correu para sua casa. Ao chegar lá, contou para sua mãe:

- Eu matei o Sol.

A mãe do Juruna ficou muito zangada, pois agora haveria apenas a escuridão e, sem o Sol, como todos iriam viver? E isso aconteceu: sem a luz solar, as pessoas não conseguiam mais caçar, pescar, plantar. As crianças Juruna começaram a morrer.

Na aldeia do Sol, a mulher de Kuadê logo percebeu que seu marido havia morrido. Até seus filhos iriam passar fome, sem a luz do Sol! Então, ela lhes perguntou:

- Um de vocês tem de tomar o lugar de seu pai. Quem vai fazer isso ? [50]

O filho mais velho quis experimentar. A mãe colocou sobre sua cabeça o cocar com penas do Sol, e ele tentou subir para o céu. Mas o penacho do cocar era muito quente, e o filho do Sol não aguentou o calor; acabou descendo antes mesmo de amanhecer. A mãe então entregou o cocar ao filho do meio. Este subiu aos céus e chegou um pouco mais longe que o irmão, mas mesmo assim o calor era demais e ele voltou. Restava apenas o filho mais novo. A mãe colocou o penacho do Sol sobre sua cabeça, e ele se esforçou para iluminar o dia. Mas, como o calor era forte demais, foi correndo, para que o passeio acabasse logo e ele pudesse descer. E a mãe lhe disse:

- Você aguentou bem, mas deve andar mais devagar. Todos precisam da claridade para trabalhar, pescar, caçar. Quando estiver bem no alto, é bom parar um pouco e descansar.

Assim o filho de Kuadê fez. E não desceu quando a noite chegou. Disse à mãe:

- Agora não posso mais voltar. Vou morar aqui no alto para sempre.

A mãe chorou, com saudades do filho, mas não havia mais jeito: desde aquele dia ele está no lugar de seu pai, Kuadê, e foi então que o Sol passou a morar no céu.

Povo Juruna

São incontáveis os grupos tribais que habitaram e habitam a América do Sul. Os Yudjá, Yuruna ou Juruna são uma nação pertencente ao tronco linguístico Tupi. Foram um dos povos nativos brasileiros mais [51] atingidos por invasões de terras e conflitos com seringueiros. Remanescentes desse povo vivem no Mato Grosso, no médio e baixo Xingu, e acredita-se que haja membros da etnia no sudeste do Pará.

O mito aqui narrado foi recolhido pelos irmãos Villas Bôas, e fala do surgimento do Sol como ele é hoje. Consta que muitos dos elementos da cultura dos Yudjá ou Juruna estavam ligados à figura do Xamã - - como as relações com os astros, o mundo dos mortos, as curas, os remédios. Parece que, infelizmente, eles não possuem mais xamãs, desde que o último deles morreu.

Mitologia Sul-Americana
Kuadê   Jovem aventureiro
10/25/2017 3:26:48 PM | Por A. S. Franchini
Mayahuel e a origem do maguey

Mayahuel era a deusa do maguey, a planta da qual se fabricava o pulque (em nahuatl se diz octli), bebida ainda hoje muito apreciada no México e adjacências. Como a maioria dos deuses, ela possuía a pele colorida - às vezes azul com manchas amarelas, outras vezes com a face tingida de vermelho e negro, [141] simbolizando sua condição de deusa do pulque. Normalmente, seja nos códices ou nas ilustrações modernas, a deusa surge por entre as folhas do maguey vestida de branco, pois branca é a cor da bebida, trazendo na mão o octecomatl, a "jarra do pulque”, ou simplesmente uma taça espumante.

Os astecas possuem uma lenda para contar como surgiu o maguey, e ela começa dizendo que Mayahuel vivia, num tempo muito antigo, junto com sua avó - uma das estrelas tzitzimime, também tidas como os monstros que, no fim do mundo, devorarão os homens -, submetida a uma severa vigilância.

Um dia, o deus Quetzalcoatl, apaixonando-se pela neta desta avó tirana, lhe pediu que descesse dos céus junto com ele, para que fossem divertir-se um bocado pela Terra.

- Mas minha avó não vai gostar... - balbuciou Mayahuel.

- Ora, esqueça a vovó! - exclamou a Serpente Emplumada. - Vamos namorar um pouco lá embaixo, já que aqui em cima, com essa vigilância toda, é simplesmente impossível.

Mayahuel relutou mais um pouco, mas o desejo acabou prevalecendo sobre o medo.

- Está bem, mas tomemos cuidado para que ela não nos veja.

- Eu tenho um jeito perfeito! - disse o deus. - Vamos nos transformar nos ramos de uma árvore.

Quetzalcoatl e Mayahuel assim fizeram, mas, quando a avó acordou e viu que a neta fugira, desceu à terra, junto com as suas irmãs tzitzimime, e não tardou a descobrir os dois amantes disfarçados de ramas.

- Maldita! - bradou a avó. - Agora verá o preço de me desobedecer!

A velha fez em pedaços a rama na qual Mayahuel se metamorfoseara, e deixou espalhados pelo chão os seus pobres pedaços. Quando Quetzalcoatl viu que a velha desaparecera, lamentou-se muito do fim que tivera a amante, enterrando em seguida os seus pedaços.

Mas, para sua felicidade, viu brotar do solo as ramas de uma nova planta - a planta do maguey -, e, junto com ela, a própria amante, agora transformada numa bela e colorida deusa.

E foi assim que surgiu uma das plantas mais típicas da América Central. [142]

Mas a própria deusa Mayahuel, como terá surgido?

Diz uma lenda antiga que foi da seguinte maneira: antes de ser a deusa que se tornou, Mayahuel era a modesta esposa de um lavrador. A pobrezinha passava os dias correndo atrás dos ratos que devastavam a plantação do marido. Certa feita, ela estava empreendendo mais uma de suas caçadas quando o rato por ela perseguido pôs-se a dar voltas ao seu redor. O bichinho parecia muito estranho, como se não estivesse no seu estado normal. Mayahuel ficou com pena do rato e deixou-o partir.

Ao retornar para casa, ela passou por uma planta e viu que o seu caule estava roído.

- Deve ter sido por aqui que aquele danadinho andou afiando seus dentes! - disse ela.

Ao observar melhor, ela viu que uma seiva leitosa escorria do caule da planta, e decidiu recolhê-la numa cabaça e levá-la para casa. Talvez fosse possível utilizá-la como remédio ou uma beberagem.

Ao chegar em casa, a jovem resolveu experimentar para ver que gosto tinha aquilo.

"Nada mal!” pensou ela, tomando logo em seguida outro gole ainda maior.

Dali a pouco o marido chegou.

- O que está bebendo aí? - disse ele. - Dê-me um gole, estou morto de sede!

Mayahuel estendeu-lhe a cabaça, que já estava quase vazia. Ela estava bastante alegrinha e, depois de encher a boca, verteu ela mesma a bebida na boca do esposo, dando uma gostosa gargalhada.

Nem bem ingerira a bebida, o esposo também começou a sentir-se alegre.

- Isso é bom! Dê-me mais! - disse ele.

Como não havia mais na cabaça, ambos retornaram ao pé da planta desconhecida e, depois de aplicarem novos talhes no seu caule, encheram a cabaça do líquido.

Foi uma festa! Beberam tudo ali mesmo e dançaram e cantaram à luz da lua até perderem os sentidos. Depois, ao acordarem, descobriram estar na presença dos deuses.

- Que bebida é essa que tanto vos alegrou? - quis saber um dos deuses.

Mayahuel tomou a cabaça e estendeu-a ao ente divino.

- Não sabemos seu nome, mas é muito saborosa. Prove! [143]

O deus provou e aprovou, e a partir dali a bebida, batizada de "pulque", passou a ser adotada pelos deuses em seus cerimoniais. Por ter feito a descoberta, Mayahuel foi transformada em deusa, o mesmo acontecendo com seu esposo, transformado no deus Xochipilli ("Príncipe Flor"), deus das flores, da poesia e das festas. [144]

Mitologia Asteca
Mayahuel, Quetzalcoatl, Xochipilli  tzitzimime 
10/20/2017 6:19:51 PM | Por A. S. Franchini
O sol devorador de estrelas

Os astecas possuíam duas obsessões permanentes: a primeira delas era a ideia da morte. Essa obsessão derivava da sua crença de que o universo marchava inexoravelmente para a sua quinta extinção. Tão forte era essa certeza que, mesmo durante o apogeu da sua civilização, eles sentiam a morte, como dizia um verso da época, “agarrá-los pela garganta no meio das flores”.

A segunda obsessão asteca, subsidiária da primeira, era a ideia da guerra. Assim como os vikings eram obcecados por navegações e pilhagens, os astecas o eram pela guerra e pelos sacrifícios humanos. Para eles a guerra era imprescindível, sendo o único meio de fornecer alimento, sob a forma de corações extraídos, ao seu deus Huitzilopochtli. Em termos simbólicos, a guerra era uma representação terrena da velhíssima pugna entre o Sol e as estrelas, com o Sol sendo o deus, e os prisioneiros de guerra as estrelas derrotadas por ele - armadilha mítica fatal [129]  que impôs a obrigatoriedade de haver sempre uma guerra em andamento, já que a peleja cósmica jamais se encerrava.[1]

O mito seguinte conta justamente como as estrelas passaram a ser o alimento do Sol

Iztacchalchiuhtlicue (“A deusa branca das águas”) gerou, certa feita, as quatrocentas serpentes das nuvens (centzon mimixcoa). Algum tempo depois, gerou mais cinco dessas criaturas, que se criaram à parte das primeiras quatrocentas.

Depois que as quatrocentas haviam crescido, o Sol entregou-lhes arcos e flechas, dizendo:

— Com essas flechas caçareis, dando-me de comer e beber. Mas as quatrocentas serpentes não se preocuparam em fazer o que o Sol lhes dissera, preferindo usar as flechas para caçar aves e se divertirem, testando a sua pontaria.

Certa feita, após terem caçado um belo jaguar, as serpentes cobriram-se de penas e, em vez de oferecerem a presa ao Sol, arrumaram umas serpentes fêmeas e, após tomarem com elas um porre monumental de pulque, caíram adormecidas.[2] Então, o Sol decidiu puni-las, chamando as cinco serpentes das nuvens que haviam sido criadas à parte. Depois de lhes dar flechas ainda melhores das que havia dado às quatrocentas, ordenou-lhes que as abatessem. Ao se aproximarem, porém, foram vistas por elas, que começaram a dizer entre si:

— Quem são essas cinco outras, semelhantes a nós?

— Matemo-las, e assim não precisaremos saber - disse uma das mimixcoas, dotada de espírito prático.

Antes, porém, que as quatrocentas setas viessem sobre si, as cinco serpentes se esconderam rapidamente. A primeira meteu-se dentro do oco de uma árvore, a segunda para dentro da terra, a terceira no interior de uma montanha, a quarta dentro da água, e a quinta se escondeu num campo de tlachtli, ou jogo [130] de bola (as cidades do México, como de toda a América Central, estavam cheias destes campos, já que este jogo ritual, criado pelos olmecas, era tão popular quanto o futebol nos dias de hoje).

Quando as quatrocentas mimixcoas chegaram ao local onde tinham avistado as cinco intrusas, nada encontraram, até que, num repente inesperado, as cinco serpentes surgiram de seus respectivos esconderijos e, de arco em punho, arremessaram suas flechas, com extraordinária rapidez e perícia, sobre as suas adversárias, matando-as todas.

Os corpos das mimixcoas abatidas foram servidos como alimento ao Sol, e assim encerrou-se o mito, que nada mais é do que uma alegoria do combate travado pela Lua, aqui figurada como aliada do Sol, sob a forma das cinco serpentes, contra as estrelas, as quatrocentas “serpentes das nuvens” — mito esse que reproduz o do combate travado entre Huitzilopochtli (o Sol) e sua irmã Coyolxauhqui (a Lua), auxiliada pelos quatrocentos centzonhuitznahua (que eram, a exemplo dos mimixcoas, a representação das estrelas).

Os astecas gostaram tanto de traduzir o evento trivial da sucessão dos dias e das noites como um combate glorioso entre o Sol e as forças noturnas que resolveram transpor para a terra esta rixa cósmica, passando a travar uma guerra contínua contra os seus vizinhos — os chamados “reservatórios de sangue”, encarregados de saciar a sede inextinguível dos deuses de Tenochtitlán.

 

Mitologia Asteca
Iztacchalchiuhtlicue, mimixcoa, Coatlicue   
10/14/2017 7:21:16 PM | Por Antônio L. Furtado
A lenda do El Cid

El-rei don Fernando sucedeu a seu pai don Sancho no trono de Castela. Pouco depois de iniciar seu reinado, don Fernando matou em combate o rei Bermudo, irmão de sua mulher, dona Sancha, e com isso ganhou também o reino de León. Tinha duas filhas, as infantas dona Urraca e dona Elvira, e três filhos, don Sancho, don Alfonso e don Garcia.

Naqueles dias, surgiu Rodrigo de Bivar, de quem fala esta crônica, jovem forte nas armas e de bons costumes; e o povo se rejubilou por causa dele, pois se dedicava a proteger a terra contra os mouros. Descendia de um juiz, Layn Calvo, que outrora governara Castela em companhia de outro juiz, de quem o rei don Fernando descendia. De Fayn Calvo nasceu Diego Faynez, pai de Rodrigo. Este nasceu em Burgos, no ano 1026 da Incarnação, e foi batizado na [263] igreja de San Martin. Sempre teve afeição por essa igreja e foi ele que mais tarde fez construir a torre do campanário.

No curso do tempo, quando Rodrigo era ainda adolescente, ocorreu uma desavença entre o conde don Gomez, senhor de Gormaz, e o pai de Rodrigo, don Diego. O conde insultou Diego e deu-lhe uma bofetada. Ora, Diego era então homem idoso, perdera a antiga força, e não podia assim tomar vingança. Confinou-se em sua morada, para ali quedar-se solitário a lamentar a desonra.

Rodrigo não seria adversário para o conde. Experiente no uso das armas, don Gomez era reputado o melhor na guerra, poderoso também pelos mil correligionários que se espalhavam pelas montanhas; e era sempre o primeiro a fazer-se ouvir nas Cortes. Contudo, isso nada era para Rodrigo quando pensava na ofensa a seu pai, a primeira que jamais fora lançada sobre os do sangue de Layn Calvo. Nada pedia senão a justiça do Céu, pois dos homens queria apenas um campo neutro para combater. O pai, percebendo seu ânimo forte, deu-lhe a própria espada, com sua bênção. A espada pertencera ao belicoso Mudarra em tempos idos, e quando Rodrigo a empunhou refletiu que seu braço não era mais fraco do que o do primeiro dono.

Saiu a desafiar o conde. Diante do menosprezo dele por sua pouca idade e inexperiência, Rodrigo lhe falou atrevidamente:

— É verdade que sou jovem. Mas, se a alma é nobre, o valor não espera a passagem dos anos!

Matou-o em duelo, e cortou-lhe a cabeça para levá-la ao pai. O velho sentava-se à mesa, o alimento largado à sua frente, sem ser provado. Foi quando Rodrigo voltou e, apontando para a cabeça ensangüentada presa ao arreio do cavalo, mandou-o erguer os olhos, pois ali estava a erva que lhe restauraria o apetite.

O pai de Rodrigo veio em pouco a falecer de morte natural. Passado algum tempo, os mouros entraram em Castela com forte contingente, pois tinham vindo com cinco reis. Passaram ao largo de Burgos e cruzaram as montanhas de Oca; saquearam Carrión, Vilforado, San Domingo de la Calzada, Logrono e Najara. Devastaram a terra e levaram muitos cativos, homens e mulheres, além de arrebanhar éguas e gado de toda espécie. Mas quando [264] retornavam apressados, Rodrigo de Bivar chamou às armas a região e ocupou com as tropas que pôde reunir as montanhas de Oca. Caiu sobre os mouros e os desbaratou, recuperando o produto do saque e fazendo todos os cinco reis prisioneiros.

Regressou então ao encontro da mãe, levando consigo os reis. Ao chegar, partilhou seus ganhos entre os fidalgos e os demais companheiros, entregando tanto os mouros capturados quanto os despojos de todo tipo, de modo que eles se despediram contentes, plenamente satisfeitos com seus atos. Agradeceu a Deus a graça concedida, e disse à mãe que não achava bom conservar os reis em cativeiro, preferindo deixá-los partir em liberdade. Assim, cada um retornou a seu país, abençoando-o pela libertação e louvando sua generosidade. E daí em diante passaram a pagar-lhe tributo e a se reconhecer como seus vassalos.

O rei don Fernando estava percorrendo as terras de León, pondo em ordem o reino, quando o alcançaram as notícias do sucesso de Rodrigo contra os mouros. Ao mesmo tempo, veio apresentar-se diante dele Ximena Gomez, que caiu de joelhos à sua frente e disse:

— Senhor, sou filha do conde don Gomez de Gormaz, que Rodrigo de Bivar matou; e das filhas deixadas por ele sou a mais moça. Venho queixar-me a ti, rogo que faças justiça.

— Muito me pesou o que aconteceu pois foi uma desgraça para o reino, com castelhanos agora se levantando uns contra os outros.

— Peço-vos mercê, senhor, não me queiras mal pelo pedido que te farei, pois venho mostrar-te como trazer sossego a Castela: dê-me Rodrigo como marido. Com ele me considerarei bem casada e grandemente honrada; estou convencida de que as posses dele serão um dia maiores do que as de qualquer um em teus domínios. Por certo, senhor, convém a ti que me satisfaças, porque é para servir a Deus, pois assim haverá paz e hei de poder perdoar Rodrigo de boa vontade.

O rei considerou bom cumprir o desejo dela, e de pronto mandou escrever uma mensagem a Rodrigo de Bivar, convocando-o a vir imediatamente a Palencia, de vez que tinha muito a participar-lhe sobre assunto ligado ao serviço de Deus e a seu próprio benefício e honra. Rodrigo atendeu com alegria [265] ao chamado. Entrou em Palencia com duzentos companheiros armados, em desfile festivo, e o rei saiu para recebê-lo e honrá-lo, para desagrado de muitos condes. Quando julgou oportuno, o rei lhe dirigiu a palavra e fez saber que dona Ximena Gomez, filha do conde que ele matara, tinha vindo pedi-lo como marido e o perdoaria pela morte do pai. Exortou-o a aceitá-la; caso concordasse, gozaria de grande favor real. Rodrigo prometeu fazer a vontade do rei, tanto nisso como em tudo mais que pudesse mandar, e o rei lhe agradeceu.

Chamado pelo rei, o bispo de Palencia oficiou diante de Rodrigo e Ximena, fazendo-os prometer-se um ao outro, conforme a lei determina. Uma vez casados, o rei lhes fez grande honra; deu-lhes muitos nobres presentes e acrescentou terras às que Rodrigo já possuía, e quis-lhe bem por vê-lo obediente a seus comandos e pelas boas palavras que ele dizia. Rodrigo pediu vênia para partir e foi deixar a mulher sob a guarda da mãe. Fez voto de não se unir a ela até ter vencido cinco batalhas campais. Suplicou à mãe amar Ximena tanto quanto a ele próprio, e tratá-la bem e honrosamente, pelo que ele, seu filho, lhe ficaria grato e pronto a servir com ainda maior dedicação. A mãe lhe prometeu que assim faria, e ele então despediu-se das duas e foi meter-se na fronteira, em face dos mouros.

A história relata que o rei don Fernando disputava a cidade de Calahorra com o rei don Ramiro de Aragón. Don Ramiro quis decidir o caso mediante julgamento por combate, confiante na proeza de don Martin Gonzales, que naquele tempo era tido como o melhor cavaleiro de toda a Espanha. Don Fernando aceitou o desafio e disse que Rodrigo de Bivar deveria combater de sua parte, embora ele não estivesse presente na ocasião. Ambos se comprometeram a reunir-se, cada um trazendo seu cavaleiro, ficando acertado que o vencedor ganharia Calahorra para seu senhor. De imediato don Fernando mandou chamar Rodrigo e lhe contou como estava o caso, e que lhe cabia bater-se. Bem satisfeito ficou Rodrigo, concordando em batalhar na intenção de seu rei por aquela causa. Mas teria de passar antes em Compostella, porque prometera ir lá em peregrinação; o rei deu-se por satisfeito e lhe fez presentes.

Rodrigo se pôs em marcha, levando vinte cavaleiros. Durante a viagem, foi realizando boas ações, deu esmolas, alimentou pobres e necessitados. No [266] meio do caminho, encontraram um leproso debatendo-se em um atoleiro. Ele clamava na direção deles em voz alta, pedindo ajuda por amor de Deus. Logo que ouviu, Rodrigo desmontou e foi socorrê-lo; colocou-o então sobre o cavalo, à sua frente, e conduziu-o dessa maneira até a estalagem onde ele e seu grupo se alojaram por aquela noite. Isso agradou bem pouco a seus cavaleiros, ainda menos quando, na hora da ceia, tomou o leproso pela mão e o fez sentar a seu lado, comendo os dois do mesmo prato. Os cavaleiros sentiram-se ofendidos com essa visão para eles repugnante, a ponto de levantar-se dos assentos e deixar a sala. Mas Rodrigo mandou arrumar um leito para si e para o leproso e os dois dormiram lado a lado. À meia-noite, estando Rodrigo profundamente adormecido, o leproso soprou em sua direção entre os ombros, e o sopro foi tão forte que lhe atravessou o peito. Ele acordou assustado e tateou com a mão, buscando o leproso, mas ele não estava ali; chamou-o, mas não teve resposta. Então, levantou-se preocupado, pediu que trouxessem luz e de novo procurou o leproso, mas sem resultado.

Voltou pois ao leito, deixando a vela acesa. Pôs-se a pensar, sem atinar no que teria acontecido, e o que seria aquele alento a varar seu corpo, e como teria o leproso sumido dali. Depois de algum tempo nessa meditação, eis que apareceu diante dele alguém em trajes totalmente brancos, a dizer-lhe:

— Dormes ou estás vigilante, Rodrigo?

— Estou bem acordado, mas quem és tu que trazes contigo tal brilho e aroma tão doce?

— Sou São Lázaro, e fica sabendo que era eu o leproso a quem fizeste tanto bem e tanta honra por amor a Deus. E, porque assim fizeste, Deus te concedeu um grande dom; pois sempre que sentires o toque daquele sopro, tudo aquilo que desejares iniciar será completado com sucesso, seja em batalha ou não, e com isso tua fama se engrandecerá a cada dia, serás temido por mouros e cristãos e teus inimigos nunca prevalecerão contra ti. E morrerás de morte honrosa em tua própria casa, e então conquistarás ainda maior renome — segue adiante, portanto, e persevera sempre em fazer o bem!

E, tendo dito isso, desapareceu. Rodrigo ergueu-se e rezou a Nossa Senhora e intercessora Santa Maria, para pedir a seu bendito filho proteção para o corpo e a alma em tudo o que empreendesse; e continuou a orar até romper [267] o dia. Então, prosseguiu em sua peregrinação, fazendo o bem pelo caminho, pelo amor a Deus e a Santa Maria.

Era chegado o dia aprazado para o combate por Calahorra, entre Rodrigo e don Martin Gonzales, e Rodrigo ainda não se apresentara! Diante disso, seu primo Alvar Fanez Minaya assumiu o lugar dele no confronto e mandou ajaezar o cavalo. Enquanto ainda se armava, apareceu Rodrigo e, montando no cavalo já preparado para Alvar Fanez, entrou na liça. Don Martin Gonzales entrou também, e os juizes determinaram seus lugares de modo justo — nenhum dos dois teria a luz do sol batendo nos olhos. Eles carregaram um contra o outro com tal ferocidade que as lanças se partiram e ambos se feriram seriamente. Don Martin começou a provocar Rodrigo, pensando desencorajá-lo:

— Por certo já te arrependes, don Rodrigo, de ter entrado nesta liça comigo: pois vou lidar contigo de tal forma que nunca terás dona Ximena, a quem tanto amas, nem voltarás vivo a Castela.

Mas esse discurso só enraiveceu Rodrigo, que lhe replicou:

— Es bom cavaleiro, don Martin Gonzales, mas neste negócio é com as mãos que temos de nos haver, não com essas palavras vazias; e está em Deus o poder de conferir a honra como melhor lhe parece.

Em sua fúria chegou até o adversário e deu-lhe uma cutilada sobre o elmo, e a espada cortante atingiu sua cabeça, ferindo-a profundamente, com grande perda de sangue. E don Martin golpeou contra o escudo de Rodrigo, cravando nele a espada e, ao arrancá-la de volta com força, fez com que Rodrigo perdesse o escudo. Mas ele, sem esmorecer, devolveu o golpe, ferindo don Martin no rosto. Os dois cada vez mais se enfureciam e batiam um contra o outro cruelmente, sem mercê, pois ambos eram homens que sabiam como portar-se. Mas, enquanto assim lutavam, don Martin Gonzales perdia muito sangue e, dominado pela fraqueza, mal podia agüentar-se sobre o cavalo. Caiu por terra, Rodrigo desmontou, correu até ele e o matou. Morto o inimigo, perguntou aos juizes se havia algo mais a fazer pelo direito a Calahorra — e eles responderam que não.

Então acorreu o rei don Fernando, desmontou a seu lado e o ajudou a desarmar-se, abraçando-o com efusão. Com ele desarmado, saíram juntos do campo de combate, em meio ao júbilo dos homens de Castela. Tão grande era [268] o prazer do rei don Fernando e de seu povo, quanto era a mágoa do rei don Ramiro de Aragón e dos seus. Don Ramiro ordenou que o corpo de don Martin Gonzales fosse recolhido e transportado para sua terra, para onde apressou-se a regressar. E Calahorra ficou em poder de don Fernando.

Depois dessa conquista, Rodrigo de Bivar empenhou-se em muitas guerras, lutando por seu rei don Fernando, e em todas elas não houve quem tivesse maior participação do que ele, ou realizasse maiores feitos de armas. Após a tomada de Coimbra, don Fernando decidiu armá-lo cavaleiro na grande mesquita, agora dedicada a Santa Maria. Durante a cerimônia, o rei lhe cingiu a espada e deu-lhe o beijo ritual. Para honrá-lo ainda mais,

A rainha entregou-lhe o cavalo e a infanta dona Urraca calçou-lhe as esporas. A partir de então, passou a ser chamado Ruy Diaz. Enquanto estava em Zamora com seu rei, vieram um dia como mensageiros os cinco reis mouros que vencera e logo libertara. Como vassalos dele desde aquela época, vinham trazer-lhe tributo, e chegaram quando ele estava em companhia do rei. Nesse momento chamaram Ruy Diaz de “Cid”, que significa “senhor”, e quiseram beijar-lhe a mão, mas ele só consentiu depois de primeiro haverem beijado a mão do rei don Fernando. Ruy Diaz de Bivar recebeu o tributo e ofereceu um quinto ao rei, como marca de soberania; o rei agradeceu mas não quis aceitar, e desde esta ocasião ordenou que Ruy Diaz fosse tratado como “el Cid”, porquanto era assim que os mouros o haviam chamado.

Muitas outras vitórias obrou o Cid Ruy Diaz para don Fernando, até que este entregou a alma a Deus e deixou seus domínios divididos entre os filhos. Legou a don Sancho o reino de Castela até o rio Pisuerga, fazendo fronteira com León e incluindo as dioceses de Osma, Segovia e Ávila, e até o Ebro, do lado em que alcançava a fronteira com Navarra. A don Alfonso deu o reino de León e parte das Astúrias até o rio Deva, que banha Oviedo, com parte de Campos até atingir Carrión e o Pisuerga, contendo as dioceses de Zamora, Salamanca, Ciudad Rodrigo e Astorga, além de outras terras da Galícia e a cidade de Zebreros. A don Garcia coube o reino da Galícia e todas as terras tomadas a Portugal, com o título de rei da Galícia. A dona Urraca deu a cidade de Zamora, com todas as suas dependências, e metade do Infantazgo. [269] A outra metade, com a cidade de Toro e suas dependências, ficou para dona Elvira.

Don Sancho, a quem o pai recomendara ouvir sempre os conselhos do Cid, nunca se conformou com a partilha, afirmando que o reino deveria pertencer-lhe todo, sem divisão, como filho mais velho. O Cid, embora leal a ele, exortava-o sempre a cumprir a vontade do pai e respeitar os limites senhoriais dos irmãos. Dona Urraca tinha profunda afeição pelo outro irmão, don Alfonso, e tudo fazia para vê-lo ampliar seu domínio. Em certo momento, don Sancho veio contra ela, sitiando Zamora. Nessa ocasião, ela recebeu a visita de um cavaleiro da fortuna, chamado Vellido, que veio com trinta homens oferecer-lhe seus serviços. Se ela o recompensasse dignamente, prometia achar um modo de aliviar Zamora do cerco de don Sancho. Ela lhe respondeu com palavras ambíguas:

— Vellido, vou repetir para ti um dito de um homem sábio. Ele dizia ser fácil barganhar com os preguiçosos e com quem passa por uma necessidade — e é assim que vens negociar comigo. Não te mando cometer qualquer ato perverso, se é isso que tens em mente. Mas, afirmo eu, não há pessoa no mundo a quem, se conseguir socorrer Zamora e fizer o rei meu irmão levantar o cerco, eu não conceda seja lá o que for que peça.

Ouvindo isso, Vellido beijou-lhe as mãos. E em pouco tempo armou uma cilada contra don Sancho. Veio ter com ele, beijou-lhe as mãos, e o engasgou com as palavras falsas de sua língua mentirosa:

— Senhor, só porque eu disse no conselho de Zamora que eles deveriam entregar a ti a cidade, os filhos de Arias Gonzalo quiseram matar-me. Venho a ti, senhor, e serei teu vassalo, se puder merecer favor de tuas mãos. Mostrar-te-ei como, dentro de poucos dias, poderás ter Zamora, se aprouver a Deus. E, se eu não fizer o que digo, então manda matar-me!

O rei acreditou em tudo que ele dizia, acolheu-o como vassalo e o tratou muito honrosamente. Por toda aquela noite confabularam sobre os segredos dos quais Vellido teria conhecimento, e ele induziu o rei a crer que sabia de uma entrada secreta pela qual poria Zamora em suas mãos. Pouco tempo depois, chamou o rei à parte e lhe disse: [270]

— Se te agrada, senhor, cavalguemos juntos até lá. Circularemos em redor de Zamora, inspecionando as trincheiras que mandaste cavar. Eu te mostrarei a entrada, que chamam de Postigo da Rainha, pela qual poderemos penetrar na cidade, pois nunca está trancada. Ao anoitecer, tu me confiarás cem cavaleiros, todos fidalgos e bem armados, e iremos a pé. Os homens de Zamora, fracos por causa da fome e da miséria como estão, vão deixar-se dominar e entraremos, abrindo o portão e mantendo-o escancarado até tuas forças entrarem. É assim que conquistaremos Zamora.

O rei, crédulo, seguiu com ele, e o traidor lhe mostrou a entrada de que falara. Enquanto caminhavam a pé, o rei pediu a Vellido para segurar por um momento um leve chuço de caça, ricamente adornado, que costumava carregar. Vendo o rei de costas, distraído, Vellido fincou-lhe o chuço entre os ombros, atravessando-lhe o peito; e de imediato saiu a galope, transpondo a entrada para a cidade.

Agora, com a morte de don Sancho e para felicidade de Urraca, seu querido don Alfonso podia unir o reino de León ao de Castela. Muitos nobres, porém, suspeitavam de que ele houvesse participado de alguma trama para assassinar o irmão. Por isso o Cid temia que as suspeitas tornassem fraco quem deveria ser um forte rei, defensor da cristandade. Disse a don Alfonso que um juramento solene de inocência era necessário para garantir a lealdade de todos, e o rei respondeu ser esse seu desejo.

Para a realização do juramento, don Alfonso e toda a sua companhia montaram e se dirigiram a Burgos. Chegado o dia marcado, o rei foi ouvir missa na igreja de Gades, e as infantas suas irmãs, dona Urraca e dona Elvira, estavam com ele, bem como todos os cavaleiros. O rei subiu a um lugar elevado, de onde todos pudessem vê-lo, e o Cid veio tomar o juramento. Abriu o livro dos Evangelhos e o colocou sobre o altar, e o rei pôs as mãos sobre ele. Assim lhe falou o Cid:

— Rei don Alfonso, vens aqui jurar, a propósito da morte do rei don Sancho teu irmão, que nem o mataste nem aconselhaste que o matassem. Dize agora, junto com estes fidalgos, se assim juras.

E o rei e os fidalgos responderam e disseram:

— Sim, nós assim juramos!

E o Cid prosseguiu: [271]

— Se sabias de algo sobre o ato ou pronunciaste ordem para que fosse realizado, possas tu morrer da mesma morte que o rei don Sancho, teu irmão, pela mão de um vilão em quem confies, alguém que não seja nem fidalgo nem castelhano.

E o rei e os cavaleiros que estavam com ele disseram:

— Amém!

O rosto do rei se anuviava, já mudara de cor, e mesmo assim o Cid o fez repetir o juramento por uma segunda vez, e o rei e seus doze cavaleiros disseram “Amém!” da mesma forma, e o semblante do rei se alterou mais ainda. E o Cid reclamou o juramento por uma terceira vez, e o rei e os cavaleiros disseram de novo “Amém!”. Mas a ira do rei era extraordinária, e deste dia em diante não houve amor pelo Cid em seu coração.

Quando o Cid fez guerra aos mouros que sitiavam o castelo de Gormaz, e os perseguiu através de Atienza, Ciguenza, Fita, Guadalajara e toda a terra de San Esteban, devastando e pilhando o que encontrava pela frente até Toledo, os ricos-homens do rei don Alfonso o caluniaram perante ele, dizendo que Ruy Diaz fizera isso para provocar os mouros de Toledo a caírem sobre eles com intenção de matar a todos. O rei, por causa do rancor pelo juramento forçado, acreditou neles e convocou o Cid para vir a Burgos com a máxima urgência.

Sabendo da má disposição do rei a seu respeito, o Cid respondeu que viria encontrá-lo, a meio caminho, na fronteira entre Burgos e Bivar. O rei saiu pois de Burgos em direção a Bivar e o Cid veio até ele e ter-lhe-ia beijado a mão, mas o rei a retirou, irritado:

— Ruy Diaz, sai de minha terra!

Ao que o Cid esporeou a mula em que montava e recuou até uma faixa de terra sua por herança, respondendo:

— Senhor, já não estou em terra tua, mas na minha.

E o rei iradamente:

— Deixa meu reino sem demora!

— Dá-me então um prazo de trinta dias, como é o direito de um fidalgo. Mas o rei recusou, dizendo que iria atrás dele se não tivesse ido embora em nove dias. Muitos nobres invejosos ficaram bem satisfeitos, mas o povo comum lamentou o exílio do Cid. Ele chamou a si todos os amigos, familiares [272] e vassalos, contou-lhes como o rei don Alfonso o banira do reino, e quis saber quem iria com ele e quem permaneceria onde estava. Alvar Fahez, seu primo-irmão, adiantou-se:

— Cid, iremos todos contigo, por terras desertas ou habitadas, e nunca te faltaremos. A teu serviço esfalfaremos nossas mulas e cavalos, gastaremos nossos bens e até a roupa do corpo, e, enquanto vivermos, seremos teus leais amigos e vassalos.

E todos confirmaram o que Alvar Fanez dissera e o Cid lhes agradeceu pelo amor demonstrado; haveria de chegar o tempo de recompensá-los.

Meu Cid Ruy Diaz entrou em Burgos com sessenta homens. Os habitantes de Burgos punham-se à janela para vê-lo, tristes e chorosos, dizendo a uma voz:

— Deus, que bom vassalo! Se ao menos tivesse bom senhor!

Gostariam de convidá-lo a entrar em suas casas, mas não ousavam, porque don Alfonso mandara proclamar que ninguém lhe deveria dar hospedagem, sob pena de perder suas posses, além dos próprios olhos da cara. Escondiam-se quando ele chegava perto, não se atreviam a falar com ele. O Cid encontrou fechada a porta da pousada, por medo do rei. Tirou um pé do estribo e tentou inutilmente forçá-la, pois estava bem trancada. Uma menininha de nove anos saiu então de uma das casas e veio dizer-lhe:

— Ó Cid, o rei nos proibiu de receber-te. Não podemos abrir para ti, pois perderíamos as casas e tudo o que temos, até nossos olhos, e nossa perda não te ajudaria. Mas que Deus e todos os seus santos estejam contigo!

Depois de dizer isso voltou a sua casa, e o Cid, ao saber o que determinara o rei, afastou-se da porta e rumou para a igreja de Santa Maria. Saltou do cavalo, ajoelhou-se e orou de todo o coração. Terminando de rezar, foi armar sua tenda em um areal perto de Arlanzón.

Quanto à comida, que o rei também ordenara não lhe venderem, um bom cidadão de Burgos, Martin Antolinez, lhe forneceu pão e vinho em abundância, ao Cid e a toda a sua companhia. E se dispôs a juntar-se a ele, pouco se importando em incorrer na inimizade do rei, que acreditava ser passageira. Martin Antolinez era sobrinho do Cid, e este sentiu poder confiar-lhe uma missão que exigia habilidade: [273]

— És homem corajoso e, se eu viver, ainda hei de dobrar tua paga. Vês que nenhum recurso trago comigo e ainda assim devo abastecer meus companheiros. Vou pegar duas arcas e enchê-las com esta areia, e tu irás em segredo a Rachel e Vidas, e lhes dirás sobre minha situação; dirás que o rei me baniu e nem posso comprar o necessário em Burgos. Também não posso sair carregando em arcas minhas riquezas, são pesadas demais — assim pretendo empenhá-las por uma quantia razoável.

Com astúcia, Martin obteve seiscentos marcos emprestados a juros altos, sob a garantia das arcas, sempre bem fechadas. Estariam cheias de ouro que o Cid teria arrecadado como imposto, e escondera consigo. Era por isso exatamente que o rei o estava banindo... Rachel e Vidas tiveram de jurar solenemente não mexer nas arcas por um ano inteiro. E, para si mesmo, o esperto negociador ainda extraiu deles mais trinta marcos, a título de comissão pela barganha.

O Cid confiou dona Ximena e as duas filhas ao abade do mosteiro de San Pedro de Cardena. Deu-lhe cinqüenta marcos para o sustento delas, prometendo acrescentar o dobro se algum dia pudesse voltar. Dona Ximena prostrou-se diante do altar, pondo-se a pedir ao Criador por seu amado Ruy Diaz, da melhor maneira que sabia:

Ó Senhor glorioso, que salvaste Daniel dos leões e ressucitaste Lázaro, tu até na cruz te compadeceste dos que te torturavam. Longino, que era cego de nascença, atravessou teu costado com a lança, fazendo sair sangue, e o sangue escorreu pela haste da lança, molhando-lhe as mãos. Ergueu-as até a face tocando nos olhos — e os olhos se abriram e ele olhou em volta, vendo tudo!. Acreditou em ti e por isso salvou-se. Tu és rei dos reis e pai do mundo todo; adoro-te e creio em ti de todo o coração. Rogo a São Pedro que me ajude a rogar a ti por meu Cid Campeador, para que o protejas do mal. Se hoje nos separamos, faze com que em vida nos juntemos de novo!

Dona Ximena, chorando e beijando-lhe as mãos, disse ao marido:

— Agora te banem desta terra, por obra dos caluniadores, e aqui fico eu com tuas filhas pequenas. Pelo amor de Santa Maria, dize-me o que faremos. [274] Ele tomou as filhas nos braços e apertou-as junto do coração, chorando, pois ternamente as amava.

— Praza a Deus e a Santa Maria que ainda possa dar minhas filhas em casamento com minhas próprias mãos. E quanto a ti, mulher honrada, a quem amo tanto quanto à minha alma, possa eu ter a boa ventura e alguns dias restantes de vida para voltar a servir-te!

Na noite anterior à partida, repousaram em Figueruela, onde mais aventureiros vieram juntar-se a eles. Enquanto o Cid dormia profundamente, o arcanjo Gabriel lhe apareceu numa visão, e lhe falou:

— Vai ousadamente e não temas nada, pois tudo irá bem contigo enquanto viveres, e todas as coisas que iniciares irás levar a termo, e serás rico e honrado. O Cid despertou e benzeu-se. Levantou-se da cama e se pôs de joelhos, dando graças a Deus pela mercê que lhe concedera, cheio de alegria por causa da visão. Cedo de manhã partiram, pois era o último dos nove dias do prazo fixado pelo rei.

Deixando o reino de don Alfonso, embrenharam-se pelas terras dos mouros.

Aproximavam-se de Castrejón de Henares, quando Alvar Fanez disse ao Cid que tomaria consigo duzentos cavaleiros e sairia devastando o país até Fita, Guadalajara e Alcalá, pondo as mãos em tudo que achasse, sem temor nem do rei Alfonso nem dos mouros. Aconselhou o Cid a armar emboscada ali mesmo onde estava, e a atacar de surpresa o castelo de Castrejón.

E seu plano agradou ao Cid. Alvar Fanez saiu com Alvar Salvadorez e Galin Garcia, levando os duzentos cavaleiros; o Cid ficou de tocaia com o resto da companhia. Mal amanhecia, os mouros de Castrejón, sem notar os que estavam tão perto deles, abriram os portões do castelo e saíram para seu labor diário, como de costume. E o Cid deixou o esconderijo e caiu sobre eles e tomou todos os seus rebanhos, enquanto ia direto aos portões, a persegui-los. Ergueu-se um clamor no castelo de que os cristãos os assediavam e quem estava dentro correu aos portões para defendê-los, mas o Cid veio de espada em punho; matou onze mouros com as próprias mãos, e eles abandonaram o portão e fugiram para refugiar-se no interior. E assim ele acabou conquistando o castelo* apossando-se do ouro e da prata e de tudo mais que havia. [275]

Muitas outras vitórias alcançou o Cid, acumulando vasta riqueza para si e também para seus homens, que tratava sempre generosamente. Um dia, voltando de Murviedro, que acabara de tomar, mandou proclamar por toda parte:

— Quem desejar ir comigo sitiar Valência, venha livremente. Estarei à espera por três dias em Canal de Ceifa.

Muita gente acorreu dentre os cristãos, para alegria do Cid. Sem demora, marchou contra Valência e deu início ao sítio. Cercou a cidade completamente, de sorte que ninguém podia entrar ou sair. Durante o longo cerco de Valência, realizava sortidas para assolar várias regiões próximas. Com a morte de Almudafar, os domínios desse rei haviam sido divididos entre os filhos: Zulema ficara com o reino de Saragoça e Abenalfange recebera Denia. Logo começou uma inimizade entre os dois irmãos, e fizeram guerra um ao outro. Zulema pôs seu reino sob a proteção do Cid, enquanto o rei don Pedro de Aragón e o conde don Ramon Berenguer de Barcelona favoreciam Abenalfange. O Cid saqueava terras dos mouros, poupando apenas as de Saragoça, sua aliada, que lhe pagava tributo. Quando don Ramon Berenguer soube dessas incursões, considerou-as como afronta, pois aquelas partes da terra dos mouros estavam sob sua guarda. Em guerra contra o Cid, acabou caindo prisioneiro. E naquele dia o Cid, ao vencê-lo, ganhou a espada Colada, que valia mais de mil marcos de prata.

A luta por Valência continuava. Afinal, um acordo foi celebrado com o alcaide Abeniat: os de Valência mandariam mensageiros ao rei de Saragoça e a Ali Abenaxa. adelantado dos Almoravides e senhor de Múrcia, pedindo para socorrê-los; se no prazo de quinze dias não viesse socorro, deveriam entregar Valência ao Cid, sob condições generosas, em que o próprio Abeniaf teria a posição honrosa de “veedor”, ou seja, supervisor das rendas. Os mouros de Valência sentiam-se confortados, acreditando que receberiam ajuda; por outro lado, os cristãos haviam interrompido os ataques, embora continuassem montando guarda e prosseguissem com as rondas em torno da cidade.

Mas o prazo expirou sem os mensageiros retornarem, e Abeniaf suplicou por mais três dias de tolerância, o que lhe foi negado. O Cid lhes mandou dizer que teriam de render-se, como haviam prometido; jurou que, se tardassem uma só hora a mais, não manteria os termos convencionados e, além de [276] tudo, executaria os reféns. Aqueles que haviam assinado o acordo da parte dos mouros saíram então ao encontro do Cid, suplicando que entrasse e recebesse a posse da cidade. Ele disse, irado, que não estava obrigado a cumprir os termos, visto estar o prazo ultrapassado; eles se entregaram assim mesmo em suas mãos, dizendo que os poderia tratar como lhe agradasse. O Cid, porém, encheu-se de compaixão e os papéis de praxe foram escritos e confirmados pelos chefes dos cristãos e dos mouros. Os portões foram abertos ao meio-dia, numa quinta-feira, último dia de junho, portanto depois da festa de São João, que os mouros chamam de Alhazaro.

De Valência, o Cid saía em expedições bem-sucedidas, que traziam honra e proveito para ele e para os seus. Grande era a alegria dos cristãos com meu Cid Ruy Diaz, que em boa hora nascera! Sua barba tinha crescido bastante e continuava a crescer. Afagando o queixo, o Cid costumava repetir:

— Por amor do rei don Alfonso, que me baniu de sua terra, nenhuma tesoura tocará nesta barba, nem um único fio será cortado. Mouros e cristãos hão de falar dela!

Mas ele pensava sempre em sua mulher, dona Ximena, e em dona Elvira e dona Sol, suas filhas. Enviou Alvar Fanez e Martin Antolinez ao rei don Alfonso, com ricos presentes e uma mensagem. Beijaram a mão do rei, que os recebeu muito bem:

— Que novas me trazeis do Cid, meu vassalo verdadeiro, o mais honrado que jamais foi armado cavaleiro em Castela?

— Trazemos-te um pedido, senhor rei don Alfonso, por amor a teu Criador. Meu Cid nos manda beijar tuas mãos e teus pés, como seu senhor natural, a cujas ordens ele está, e de quem espera boa e generosa acolhida. Tu o baniste desta terra mas, embora em solo estrangeiro, ele nada fez senão a teu serviço. Desde então venceu cinco batalhas campais, algumas com mouros, outras contra maus cristãos, e tomou Xerica, Ondra, Almenar, Monviedro, Cebola, Castrejón, Pena Cadiella e a nobre cidade de Valência. Tudo isso fez para glória da fé de Jesus Cristo, e também por ti, nosso senhor e rei. E eis aqui cem cavalos dos espólios que conquistou; são robustos e velozes, todos selados e equipados. Beijando tuas mãos ele te roga, como seu senhor natural, que os aceites. [277]

Ouvindo isso, o rei ficou grandemente admirado; erguendo a mão direita, benzeu-se, e disse:

– Que São Isidro me guarde, eu me rejubilo com a boa fortuna do Cid, e recebo seu presente de bom grado!

E, ouvindo rosnar o invejoso Garcia Ordoñez, que não perdia oportunidade de difamar o Cid, advertiu secamente:

– Fica em paz, pois em todas as coisas ele me serve melhor do que tu!

Então Alvar Fañez de novo beijou a mão do rei e falou:

– Senhor, o Cid te suplica, por tua complacência, ter de volta sua mulher dona Ximena e suas duas filhas, a fim de poderem vir a Valência para junto dele, largando o mosteiro onde ele as deixou; pois muitos dias já se passaram desde a última vez em que as viu. Se for de teu agrado, isso o contentaria muito.

– Muito me apraz que assim seja, e a elas fornecerei escolta através de meus domínios, para serem conduzidas honrosamente até a fronteira; depois de a cruzarem, o próprio Campeador as tomará a seus cuidados. Ouvi-me agora, todos vós a quem desapossei dos bens hereditários por seguirem o Campeador; eu neste instante vos reintegro plenamente. Além disso, dou licença a todos os que desejarem partir para servi-lo – podeis ir, com a graça de Deus!

E acrescentou, na inteção do Cid:

– Quero ainda declarar que lhe concedo Valência, assim como todas as conquistas que fez e fará daqui por diante. Seja proclamado que é senhor delas, e que não as recebe de ninguém, salvo de mim, seu senhor natural.

Enquanto Alvar Fañez assim se desincumbia junto ao rei, Martin Antolinez foi à cata de Rachel e Vidas, aos quais, em nome do Cid, pediu desculpas pelo embuste das arcas de areia, e recompensou regiamente pelo que recebera deles. Os dois, de boa vontade, não guardaram qualquer rancor, e renderam graças ao Cid, pela generosa paga que recebeiam.

Alvar Fañez despachou três cavaleiros ao Cid, para relatar-lhe como se saíra da embaixada junto ao rei, e como se certificara de que o Campeador gozava agora do favor real; mandou explicar que se demoraria apenas para equipar dona Ximena, a ser trazida com a devida honra. Minaya foi buscá-la no mosteiro a que se recolhera com as filhas desde o exílio do marido. Em luzido cortejo as veio conduzindo; quando estavam a três milhas de Valência, o Cid foi informado e destacou duzentos cavaleiros para reforçar a escolta. Mandou que lhe trouxessem pela primeira vez o cavalo Bavieca, o qual, havia pouco tempo, tomara do rei de Sevilha, ao derrota-lo na guerra. O Cid o fez falopar e todos ficaram maravilhados com ele, e desde esse dia Bavieca se tornou famoso em toda a Espanha.

Chegando onde a mulher e as filhas o esperavam, desmontou e andou até elas. Quem pode descrever a alegria delas ao reencontrá-lo? Caíram-lhe aos pés e era tal a emoção que não conseguiam falar. Ele as fez erguer-se e as abraçou e beijou muitas vezes, chorando de contentamento por vê-las vivas:

– Querida minha, mulher honrada, e vós minhas filhas: meu coração e minha alma! Entrai contimo em Valência, esta é a herança que conquistei para vós.

Enquanto assim se rejubilavam, don Jerônimo, o bispo de Valência, veio encabeçando a procissão. Dona Ximena trouxera consigo relíquias e outros objetos sagrados, que presenteou para enobrecer a nova igreja de Valência. Entraram dessa forma na cidade, em meio a festejos que se prolongaram pelo dia todo. O Cid conduziu dona Ximena e as filhas para o Alcazar; levou-as à torre mais alta, de onde olharam em volta e contemplaram Valência. Viram como o casario se estendia à sua frente, o grande jardim com sua aléias sombrias, os prados férteis e o mar do outro lado. E elas ergueram as mãos para agradecer a Deus esse prêmio magnífico.

Por três meses dona Ximena tinha estado em Valência, quando chegaram notícias de além-mar, dando conta de que Yucef, filho do miramolim de Marrocos, estava a caminho para sitiar Valência com cinquenta mil homens. O Cid mandou reparar as defesas dos castelos e armazenou alimento. Em uma manhã, do topo de uma torre do Alcazar, olhando em direção do mar, viram chegar a enorme força dos mouros. Desembarcavam e começavam a armar as tendas à volta de Valência, tocando bem forte os tambores. Ximena, de coração aflito, perguntou ao Cid se porventura Deus o poderia livrar desses inimigos. Mas, cheio de ânimo e de confiança na ajuda de Deus e da Santa Mãe, ele só via no ataque dos mouros uma oportunidade de saque, para arrecadar o dote para o casamento das filhas. Ardia de entusiasmo ao pensar que elas o veriam combater! [280]

Quando os mouros penetravam pelos jardins, o Cid deu sinal para cada corpo de suas tropas. Alvar Fanez, que ficara de emboscada, caiu sobre o flanco do inimigo postado perto do mar. Depois de grande mortandade, os mouros tiveram de fugir e os cristãos os perseguiram. Montado em Bavieca, Cid Ruy Diaz alcançou Yucef e o golpeou três vezes, e o rei mouro só escapou porque, depois de ferir, o Cid passou adiante no ímpeto da corrida; e quando o Campeador se voltou, Yucef já fugira com seus homens. Dos cinqüenta mil, somente quinze mil escaparam. Embarcando nas naves, refugiaram-se em Denia e seguiram depois para o Marrocos. Remoendo todo dia como pudera ser vencido por tão poucos, e quantos dos seus perdera, Yucef adoeceu e acabou morrendo. Antes, porém, fez Bucar, seu irmão e sucessor, prometer tirar vingança da desonra que sofrera do Campeador às portas de Valência. Esplêndido foi o butim dos cristãos, espoliando as tendas abandonadas pelos mouros. Dos bens pessoais de Yucef, o Cid ganhou a boa espada Tizona, que significa “tição” ou “tocha”.

Novamente, o Cid mandou parte do ganho a don Alfonso. Os infantes de Carrión, Diego Gonzales e Fernando Gonzales, filhos do conde don Gonzalo, viram o presente magnífico entregue ao rei, e ouviram como as riquezas e o poder do Cid cresciam a cada dia. Puseram-se a imaginar quanto ele deveria possuir, se todos aqueles cavalos dados representavam apenas o quinto do espólio de uma só batalha, e, como se isso não bastasse, que ele era o senhor de Valência. Começaram então a cochichar entre si. Concordavam um com o outro que se o Cid lhes desse suas filhas em casamento, estariam bem casados e se tornariam ricos e respeitáveis. Foram pedir ao rei, em confidência, que os ajudasse a satisfazer seu desejo, e o rei os atendeu.

Mesmo relutante, alegando a tenra idade das filhas, o Cid não quis opor-se à vontade expressa do rei. Deu as filhas em casamento, presenteando aos genros as nobres espadas Tizona e Colada. Logo os infantes demonstrariam sua covardia, escondendo-se quando um leão, mantido em cativeiro, conseguiu soltar-se. O leão foi entrando até chegar muito perto de onde estava o Cid. Ele dormia, sentado à mesa depois de jantar. Acordando com os gritos de alarme, perguntou de que se tratava, e o leão, ouvindo sua voz, ficou quieto imediatamente. O Cid se ergueu e, tomando o leão pela juba, levou-o de volta [281] ao pátio em que ficava confinado, recomendando mais cuidado aos guardadores dali em diante.

Os infantes nunca se conformaram com a humilhação sofrida e com a zombaria dos outros. Atribuíam a culpa ao Cid, achando que arranjara o incidente com o leão para desmoralizá-los. Vingaram-se cruelmente em cima das filhas dele, suas esposas. Numa viagem, ficaram a sós com elas em Corpes, no meio de um bosque de carvalhos. Bateram nelas e as abandonaram feridas, seminuas, acreditando que morreriam. Elas foram encontradas e cuidadas por Feles Munoz, sobrinho do Cid.

O Cid apelou ao rei contra os infantes, e don Alfonso os chamou a comparecer perante as Cortes. O Cid os fez devolver as espadas, o dote das filhas e, por fim, fez com que fossem submetidos ao julgamento por combate. Os dois, ao lado de seu tio e mau conselheiro Suero Gonzales, enfrentaram três fiéis servidores do Cid: Pero Bermudez, Martin Antolinez e Muno Gustioz. Foram vergonhosamente vencidos e condenados ao escárnio público, como falsos e traidores. Livres dos perversos, dona Elvira e dona Sol casaram-se com príncipes reais, os infantes Sancho de Aragón e Garcia Ramirez de Navarra.

O rei Bucar não tardou a enviar mensagem de desafio ao Cid. Suas tropas foram vencidas no campo de Quarto onde, depois de matar ou aprisionar muitos de seus homens, o Cid o rechaçou para o mar com os restantes, apossando-se do tesouro que trouxera consigo. Por cinco anos depois dessa vitória, Cid Ruy Diaz governou Valência em paz, procurando tão-somente servir a Deus e manter tranqüilos os mouros residentes em seus domínios, de modo que mouros e cristãos conviviam com tal concórdia que parecia que sempre tinham estado unidos; e todos amavam e serviam ao Cid com maravilhosa boa vontade.

Ao fim desses cinco anos, correram notícias, logo chegadas a Valência, de que o mesmo rei Bucar, miramolim de Marrocos, insuflava todos os bárbaros pagãos para de novo cruzar o mar e tirar vingança. Rememorava constantemente a vergonhosa derrota com que o Cid o desgraçara. Agora a sorte seria diferente. Reunira contingente tão grande que ninguém podia calcular-lhe o número. Quando o Cid convenceu-se de que o rei Bucar viria em breve contra Valência, reuniu os mouros da cidade e lhes disse: [282]

— Bons homens da Aljama, sabeis que desde o dia quando me tornei senhor de Valência estivestes sempre bem protegidos e defendidos, e passastes o tempo em prosperidade e paz em vossas moradas, sem que vos perturbassem ou fizessem sofrer injustiça; e nem eu, como senhor vosso, jamais fiz convosco coisa contrária ao direito. Agora recebo notícias de que o rei Bucar de Marrocos vem de além-mar com um poderoso exército para arrebatar-me esta cidade, conquistada por mim com o mais ingente esforço. Sendo assim, acho oportuno e vos determino que deixeis a cidade com vossas famílias, indo morar em Alcudia, ou em algum outro subúrbio ocupado por mouros, até que chegue ao fim essa desavença entre mim e o rei Bucar.

Embora lhes desagradasse, os mouros de Valência obedeceram. Mas, mesmo tendo assim tornado mais segura a cidade, agora só habitada pelos cristãos, o Cid ainda se inquietava. Numa ocasião, deitado no leito sem poder dormir, pensava como poderia resistir ao rei Bucar. Quando já era meia-noite, penetrou no palácio uma grande luz, acompanhada de um perfume de incrível doçura. Enquanto ele se maravilhava, sem saber o que poderia ser isso, surgiu diante dele um homem velho, de uma brancura de neve, carregando chaves na mão. Antes que o Cid pudesse falar, disse ele:

— Sou São Pedro, príncipe dos apóstolos, e o que te venho anunciar é mais urgente do que tuas preocupações com o rei Bucar: estás prestes a deixar este mundo, e isso vai acontecer dentro de trinta dias. Mas Deus mostrará a ti seu favor, de modo que tua gente derrote o rei Bucar; e tu, em tua condição de morto, vencerás essa batalha, para a fama de teu corpo! Isso acontecerá com a ajuda de Santiago, a quem Deus enviará ao campo da luta. É preciso porém que faças penitência por teus pecados, e assim serás salvo. Tudo isso Jesus Cristo te promete, por amor a mim, e pela reverência que sempre demonstraste para com minha igreja no mosteiro de Cardena.

No vigésimo nono dia depois de presenciar essa visão, um dia portanto antes do que lhe fora indicado pelo santo como o de sua partida desta vida, o Cid chamou dona Ximena, o bispo don Jerônimo, don Alvar Fanez Minaya, Pero Bermudez e Gil Diaz. Quando os cinco se puseram diante dele, começou a orientá-los sobre o que fazer em seguida à sua morte:

— Sabeis que o rei Bucar cedo virá sitiar esta cidade, com 37 reis e um [283] poderoso exército de mouros. A primeira coisa a fazer depois que eu me for é lavar meu corpo em água de rosas, muitas vezes, para livrá-lo de toda impureza. Depois o secareis bem e o ungireis, da cabeça aos pés, com a mirra e o bálsamo contidos naqueles cofres dourados que o sultão da Pérsia me enviou de presente. Quanto a ti, dona Ximena, que não haja pranto nem lamentos por mim de tua parte ou das outras mulheres, para que os mouros não saibam de minha morte. E, no dia em que o rei Bucar chegar, mandai todo o povo de Valência subir às muralhas, tocar trombetas e tambores e fazer as maiores manifestações possíveis de regozijo. Preparai-vos para sair em direção a Castela, pois certamente não podereis manter a cidade, nem permanecer nela depois de minha morte. Chegada a hora da partida, informai secretamente a todos os cristãos para que também se aprontem, levando todos os seus bens e tomem cuidado para nenhum dos habitantes mouros ficar sabendo. Selai então meu cavalo Bavieca e equipai-o bem; tratai de vestir e armar meu corpo devidamente, colocando-me sobre o cavalo, amarrado e escorado de modo a não poder cair — e atai a espada Tizona em minha mão. Que o bispo don Jerônimo vá a meu lado e, do outro lado, siga Gil Diaz, segurando as rédeas de meu cavalo. Tu, Pero Bermudez, levarás minha bandeira, e tu, Alvar Fanez, reúne as tropas em ordem de combate, e então investe contra o rei Bucar e não duvides que vencerás, pois Deus me prometeu esse dom.

Em um domingo, dia 29 de maio do ano de Nosso Senhor de 1099, aos 73 anos, meu Cid Ruy Diaz de Bivar rendeu sua alma a Deus.

Três dias depois, o rei Bucar aportou em Valência com todo o seu poderio, e era de perder a conta a multidão de mouros que trazia. Acompanhavam-no 36 reis e uma rainha moura, que era negra, e trazia consigo duzentas guerreiras negras a cavalo, todas de cabeça raspada, salvo por um tufo de cabelo no topo do crânio. O rei Bucar acampou o exército em volta de Valência, erguendo mais de quinze mil tendas. No dia seguinte, começaram a atacar a cidade, com os cristãos defendendo-se bem e causando muitas perdas entre os mouros. Sempre que subiam às muralhas, os cristãos tocavam trombetas e tambores, fazendo alegre algazarra, como o Cid ordenara. Mas o rei Bucar e seus comandados acreditavam que o Cid não ousaria sair contra eles, visto que demorava tanto a mostrar-se. [284]

Conforme as instruções dadas pelo Cid antes de morrer, seus homens de confiança estavam preparando tudo para a partida para Castela. Cuidaram principalmente de dispor o corpo do Cid tal como ele havia querido, montado sobre Bavieca, com o braço ajustado de modo tão sutil que era maravilhoso ver com que firmeza mantinha a espada erguida. O bispo don Jerônimo, pela direita, e o fiel Gil Diaz, pela esquerda, o ladeavam, este segurando as rédeas de Bavieca. Quando tudo ficou pronto, partiram de Valência à meia-noite, através do portão de Roseros que está voltado para Castela. Pero Bermudez ia na frente, com o pendão do Cid, comandando quinhentos cavaleiros. A bagagem vinha depois, seguindo-se o corpo do Cid escoltado por cem cavaleiros; atrás deles vinha dona Ximena, com toda a sua companhia, mais seiscentos cavaleiros formando a retaguarda. Puseram-se em marcha silenciosamente e em passo cadenciado. Já era dia quando todos acabaram de sair.

Nesse momento, Alvar Fanez Minaya tratou de arregimentar suas tropas em ordem de batalha. Enquanto o bispo don Jerônimo e Gil Diaz começavam a tomar o rumo de Castela, levando o corpo do Cid juntamente com dona Ximena e a bagagem, o grupo dos combatentes caiu sobre os mouros. Atacaram primeiro as tendas da rainha moura, mais próximas da cidade, e a investida foi tão repentina que mataram umas 150 antes de terem tempo de armar-se e montar a cavalo. A rainha, de extraordinária habilidade com arco e flecha, foi a primeira a recobrar-se e saltar sobre o cavalo, reunindo logo cinqüenta guerreiras e causando algum dano aos cristãos, até ser morta e as companheiras postas em fuga.

Tão grande era o alarido e a confusão, que poucos dentre os mouros chegaram a pegar em armas; em vez disso, viravam as costas e fugiam em direção à praia. Quando o rei Bucar e os reis que o acompanhavam perceberam o ocorrido, ficaram atônitos. E pareceu-lhes ver, investindo contra eles, mais de setenta mil cavaleiros, todos brancos como a neve. Tinham à frente um cavaleiro de enorme estatura, montado em um cavalo branco com uma cruz da cor do sangue. Era Santiago, como a visão anunciara! Numa das mãos levava um estandarte branco e na outra uma espada, que parecia ser de fogo, e causou grande mortandade entre os mouros em fuga. De tão desencorajados, o rei Bucar e os demais reis não contiveram as rédeas até atingir o mar, enquanto os [285] cristãos galopavam atrás deles, ferindo e matando sem dar quartel. Foi prodigioso o número dos que derrubaram, pois os mouros nem se viravam para defender-se. Ao chegar à praia, no tumulto e na pressa de embarcar nos navios, mais de dez mil morreram afogados. Dos 36 reis, 22 foram mortos. E o rei Bucar, assim como os poucos que puderam escapar com ele, içaram as velas e se foram, sem nunca olhar para trás.

Lendas Medievais
 El Cid São Lázaro, São Pedro, Santiago Alvar Fanez Minaya, Don Martin Gonzales, don Fernando, don Ramiro de Aragón, Don Sancho, don Alfonso, Vellido, Martin Antolinez, don Pedro de Aragón, don Ramon Berenguer, Garcia Ordoñez, Yucef, Bucar
9/24/2017 5:02:23 PM | Por Antônio L. Furtado
A canção de Rolando

O rei Carlos, nosso grande imperador, por sete anos permaneceu na Espanha. Até a beira do mar foi conquistando terras. Não houve castelo a lhe resistir, muralha ou cidadela que lhe restasse tomar, exceto Saragoça, erguida no alto de uma montanha. O rei Marsile, inimigo de Deus, a possuía; ele servia Maomé e invocava Apolo, que não tinham poder para guardá-lo do mal. Marsile sentava-se em um banco de mármore, à sombra das árvores de um vergel. Tinha à sua volta mais de vinte mil homens. Dirigiu-se a seus duques e condes:

— Ouvi, senhores, que perigo nos ameaça. O imperador Carlos da França veio a este país para nos assediar. Não tenho exército forte o bastante para enlrentá-lo em batalha e derrotá-lo. Aconselhai-me, sábios homens, dizei-me como me salvar da morte e da vergonha!

Não houve entre esses pagãos quem achasse uma palavra sequer para responder-lhe, afora Blancandrindo castelo de Valfunde. Dos pagãos era um dos [210] mais avisados e ardilosos, vassalo valente e hábil cavaleiro. Cheio de manha, veio em ajuda do rei, dizendo:

— Não te perturbes nesta hora! Manda oferecer ao altivo Carlos teus fiéis serviços e tua grande amizade. Dá-lhe ursos, leões e cães, setecentos camelos e mil falcões que já tenham mudado a plumagem, trezentas mulas carregadas de ouro e prata e mais cinqüenta carroças enfileiradas. Com isso poderá pagar bem a seus soldados. Tempo bastante ficou nesta terra e é bom que volte a Aix-la-Chapelle, na França. Tu irás a seu encontro na festa de São Miguel, quando te converterás à lei dos cristãos e te tornarás seu vassalo, empenhando tua honra e teus bens. Se ele quiser reféns, tu enviarás uns dez ou vinte como garantia. Enviemos nossos próprios filhos; correndo o risco de vê-los mortos, mandarei os meus. Melhor eles perderem a cabeça do que nós a honra e as posses, ficando reduzidos à mendicância.

E acrescentou:

— Por minha mão direita e por esta barba que me chega ao peito sacudida pelo vento: logo verás o exército dos francos deslocar-se, voltando à França, sua terra. Quando cada um chegar a sua morada, Carlos estará em sua capela em Aix, onde celebrará uma festa solene no dia de São Miguel. Chegado o dia e vencido o prazo, não terá ouvido palavra nem notícia de nossa parte. O rei é soberbo e de coração cruel — mandará decepar as cabeças de nossos reféns. Mas antes isso do que nós perdermos a luminosa e bela Espanha, e termos de suportar males e sofrimentos.

Replicaram os pagãos:

— Pode muito bem ser assim como dizes!

Finda a reunião de seu conselho, o rei Marsile chamou Clarin de Balaguet, Estamarin e seu companheiro Eudropin, Priamun, o barbudo Guarlan, Machiner e seu tio Maheu, Joüner e Malbien de ultramar, além do próprio Blancandrin, dez ao todo dentre os piores felões, para encarregá-los da embaixada:

— Senhores barões, ireis a Carlos Magno, que agora sitia a cidade de Cordres, levando ramos de oliveira nas mãos em sinal de paz e submissão. Carregadas de presentes para ele, seguirão convosco dez mulas brancas, com freios de ouro e arreios incrustados de prata. Pedireis que, pelo Deus dele, tenha piedade de mim, e direis que ele não verá passar este mês antes de eu ir a [211] seu encontro, com mil de meus fieis súditos, para receber o batismo cristão. Serei seu vassalo amigo e leal, e ele, se quiser reféns, com certeza os receberá. Se vós conseguirdes aplacá-lo com vossa habilidade, eu vos darei ouro e prata em abundância, terras e feudos, tantos quanto quiserdes.

Responderam os pagãos:

— Tudo isso logo será nosso!

Montaram os mensageiros e cavalgaram até Carlos, que tinha a França sob sua guarda mas a si mesmo não lograria proteger dos enganadores.

Carlos Magno estava contente, pois havia tomado Cordres, depois de demolir as muralhas e destruir as torres e os artefatos de guerra. Seus cavaleiros amealharam um rico butim de ouro, prata e caras guarnições. Na cidadela não restou um pagão que não morresse ou se tornasse cristão. O imperador entrara em um vergel; com ele estavam Rolando, Olivier, o duque Sanson, Anseïs o fero, Geoffroy d’Anjou o porta-estandarte do rei, Gérin e Gérier. Junto com esses, havia vários outros, ao todo quinze mil homens tinham vindo da doce França. Os cavaleiros estavam sentados em tapetes de seda branca. Para distrair-se, os mais velhos e prudentes jogavam xadrez, e os jovens fogosos esgrimiam.

Sob um pinheiro, ao lado de uma roseira silvestre, haviam colocado um trono de ouro puro. Nele se sentava o rei, com sua barba e cabelo brancos, corpo esbelto e semblante severo — não seria preciso apontá-lo aos mensageiros. Eles desmontaram e caminharam em sua direção, saudando-o de forma amistosa. Blancandrin foi o primeiro a falar:

— Que te salve o Deus glorioso a quem devemos adorar! Eis o que te manda dizer o rei Marsile: ele se fez instruir sobre a doutrina que leva à salvação. Quer dar-te uma boa parte de seus haveres: ursos, leões, cães de caça, setecentos camelos, mil falcões que já sofreram muda, cem mulas carregadas de ouro e prata, cinqüenta carroças para levar moedas de ouro com as quais poderás remunerar teus soldados. Neste país já te tardaste o suficiente; seria bom regressares à França, a Aix-la-Chapelle. É lá que meu senhor Marsile irá procurar-te, como me assegurou.

O imperador ergueu as mãos para Deus, baixou a cabeça, pôs-se a pensar. Suas palavras jamais foram precipitadas, era seu costume levar tempo para responder. Afinal, ergueu o rosto e disse com firmeza: [212] — Falaste bem. Mas o rei Marsile é meu inimigo; até que ponto posso confiar em suas promessas?

— Ele se dispõe a entregar reféns, em número de dez, quinze ou vinte. Ainda que o matem, incluirei meu filho, e terás outros dentre os mais nobres. Quando estiveres em teu palácio, na grande festa de São Miguel do Perigo, meu senhor irá a teu encontro nos banhos que Deus criou em tua intenção. Lá ele deseja tornar-se cristão.

— Ainda poderá salvar-se!

Carlos reuniu os seus em conselho. Como responderia à oferta de Marsile? Rolando lembrou que ele já fizera promessa igual e não cumprira. Aconselhou o tio a continuar a guerra e sitiar Saragoça até a vitória final. Ganelão ergueu-se com arrogância para contradizê-lo, dirigindo-se ao imperador:

— Farás mal em crer no que for dito, seja por mim ou por outro qualquer. se não for para teu proveito. Eis que o rei Marsile te fez saber que, colocando as mãos juntas entre as tuas, tornar-se-ia teu vassalo, e manteria a Espanha como feudatário teu, e depois adotaria nossa religião. Se alguém te aconselha a rejeitar este generoso pleito, senhor, a esse alguém muito pouco importa de que morte haveremos de morrer. Conselho ditado pelo orgulho não deve prevalecer; deixemos de lado os tolos e sigamos os prudentes!

O duque Xaimes falou em seguida. Achava que Marsile já se sentia derrotado, tendo perdido a maior parte de suas cidades e castelos. Com a garantia dos reféns, poderiam aceitar o acordo oferecido e fazer cessar a guerra. Osltancos todos concordaram, e o rei lhes perguntou quem levaria a resposta a Marsile. O próprio duque se ofereceu, mas Carlos não poderia dispensar, por um momento sequer, um de seus mais sábios conselheiros. Outros se adiantaram: Rolando foi o primeiro, mas era impulsivo demais, conduziria ao desastre a embaixada: apresentou-se Olivier, seu leal amigo, e depois o arcebispo Turpin, mas a todos Carlos recusava, com palavras ásperas. A missão era perigosa, o rei não queria arriscar seus melhores homens.

Mas era preciso mandar alguém. Carlos dirigiu-se aos homens reunidos:

— Nobres cavaleiros, escolhei um de meus barões para levar minha mensagem ao rei Marsile.

E Rolando falou: [213] — Seja Ganelão, meu padrasto.

E os francos o apoiaram, pois ninguém mais bem falante se poderia encontrar. Então o conde Ganelão ficou muito angustiado. Soltou do pescoço sua grande peliça de marta, ficando coberto apenas com a túnica de seda. Tinha olhos claros e um rosto cheio de altivez, corpo elegante, costas largas; de tão belo atraía a atenção de todos. Esbravejou com Rolando:

— Insensato, por que esse ódio? É sabido que sou teu padrasto. Como te atreves agora a requerer que eu vá ao encontro de Marsile? Se Deus me permitir voltar de lá, moverei tal perseguição contra ti que haverás de te atormentar pelo resto da vida!

— Ora, isso não passa de orgulho sem sentido. Todos sabem que não temo ameaças. Mas ainda é preciso encontrar alguém que tenha tino para levar a mensagem — se o rei concordar, estou pronto a fazê-lo em teu lugar.

— Em meu nome é que não irás! Não és meu vassalo nem sou teu suserano. Já que Carlos me manda a seu serviço, irei a Marsile em Saragoça. Mas antes preciso arrumar algo que me distraia, para acalmar minha raiva!

Ao ouvi-lo, Rolando começou a rir e, diante do riso, Ganelão ficou tão despeitado que por pouco não explodia:

— Nenhum afeto tenho por ti; por tua causa, fazem agora mal juízo de mim. Justo imperador, eis-me aqui presente, disposto a cumprir teu comando.

O imperador lhe estendeu a luva da mão direita. Mas não era ali que o conde Ganelão gostaria de estar nesse momento: quando foi pegá-la, deixou-a cair no chão. Os francos exclamaram:

— Deus, que pode ser isso? Desta embaixada nos advirá grande dano!

Ganelão prometeu-lhes que em breve ouviriam notícias suas, e despediu-se do rei, que lhe confiou a carta e o bastão de enviado real.

Para chegar às terras dos sarracenos, Ganelão juntou-se ao grupo liderado pelo mensageiro de Marsile, o arguto Blancandrin, que ficara à espera para retornar a seu rei com a resposta dos francos. Conversando com Ganelão, Blancandrin descobriu a animosidade dele por Rolando. Descobriu também que Ganelão poderia vender-se, traindo seu soberano. Logo que chegaram, dirigiu-se em companhia dele ao rei Marsile, levando-o pela mão. Prestou contas a seu rei e lhe apresentou o mensageiro de Carlos Magno: [214]

— Salve, ó rei, em nome de Maomé, Apolo e Tervagant, cujas santas leis seguimos! Passamos tua mensagem a Carlos. Ele ergueu ambas as mãos para o alto, louvou seu Deus, outra resposta não quis dar à nossa frente. E vos envia um de seus nobre barões; é de França, homem muito rico. Dele ouvirás se terás paz ou não.

Marsile ordenou que Ganelão comunicasse a mensagem. Tendo longamente refletido sobre o que diria, ele pôs-se a falar como quem sabe:

— Saúdo-te em nome do Deus glorioso, a quem devemos adorar! Isto te manda fazer Carlos, o valoroso: que te convertas ao cristianismo. Ele te pretende dar como feudo a metade da Espanha. Se não quiseres aceitar este acordo, serás preso, manietado e levado à força a Aix, diante de seu trono. Ao fim do julgamento, serás condenado à morte; lá morrerás em vergonha e vilania.

O rei Marsile mudou de cor. Furioso, pôs a mão em uma azagaia. Ganelão, vendo isso, começou a desembainhar a espada. Mas foram contidos pelos cortesãos e Ganelão se afastou. Blancandrin confidenciou então ao rei que Ganelão se comprometera a agir em proveito deles. Marsile ordenou que o chamassem de novo à sua presença. Disse-lhe:

— Belo senhor Ganelão, foi um engano meu fazer menção de ferir-te com grande ira. À guisa de reparação, dar-te-ei esta peliça de zibelina, que vale mais de quinhentas libras de ouro. Até a noite de amanhã receberás bela compensação.

Ganelão apressou-se a declarar que não recusaria o presente. Depois de trocas de palavras cada vez mais amistosas, disse o rei Marsile:

— Espanta-me o rei Carlos Magno com seus cabelos brancos. Pelo que sei, tem mais de duzentos anos. Andou conquistando tantas terras, suportou tantos golpes de chuço, venceu e matou tantos ricos reis no campo de batalha. Quando se fartará de combater?

— Isso nunca acontecerá, enquanto Rolando viver. Entre este lugar e o Oriente não há vassalo que se lhe compare. Também muito bravo é Olivier, seu companheiro. Os doze pares, que Carlos tanto ama, formam sua retaguarda contando vinte mil guerreiros francos. Graças a eles, Carlos sente-se seguro, não teme nenhum ser vivente. [215]

— Belo senhor Ganelão, e como farei para matar Rolando?

— Isso sei bem como explicar-te. Ao atravessar os desfiladeiros, o rei terá deixado sua retaguarda com seu sobrinho Rolando e com Olivier, em quem tanto confia. Como já te disse, é de vinte mil o efetivo da companhia. Envia contra eles cem mil de teus pagãos, para uma primeira batalha. A gente de França sofrerá ferimentos, embora eu não possa negar que aos teus caberá o pior martírio. Dê outra batalha aos francos, assim mesmo. Em uma sortida ou na outra Rolando sucumbirá. Terás então realizado um alto feito de cavalaria, e não terás mais guerra pelo resto de tua vida.

A noite se esvaiu e abriu-se a clara alvorada. Pelo meio das tropas, o imperador Carlos Magno cavalgou altaneiro, e disse aos seus:

— Senhores barões, olhai o desfiladeiro e as passagens estreitas: quem me recomendais para comandar a retaguarda?

Respondeu Ganelão, já de volta, para armar a traição:

— Rolando, meu enteado. Não tens barão de maior fidalguia.

Ao ouvi-lo, o rei o encarou com dureza:

— És o diabo encarnado, entrou uma fúria mortal em teu coração. E quem irá adiante de mim, na vanguarda?

— Ogier da Dinamarca; não tens barão que tão bem o faça.

Quando Rolando entendeu que seguiria na retaguarda, falou francamente a seu padrasto:

— Ah, mesquinho, homem ruim de raça pervertida! Pensavas que a luva me cairia da mão, como aconteceu contigo diante de Carlos!

E então voltou-se para o rei:

— Justo imperador, dá-me o arco que tens na mão. Sei que não terão de me reprovar por deixar cair o sinal de teu mandado, como fez Ganelão quando foi a vez dele.

O imperador quedou-se cabisbaixo, afagando a barba e retorcendo o bigode, com os olhos úmidos. Instado pelo duque Naimes, disse afinal a Rolando:

— Belo sobrinho, saberás que deixarei contigo metade de meu exército.

Trata de mantê-lo em boa ordem, para tua própria proteção.

— Assim não seja, Deus me confunda se desminto minha fama! Não levarei mais do que vinte mil homens recrutados dentre os francos, dos bem [216] valentes. Podes atravessar confiante os desfiladeiros: enquanto eu viva, nada terás a temer de homem algum.

O conde Rolando montou sobre seu corcel. A seu lado postou-se Olivier, seu companheiro. Vieram também Gérin, o audaz Gérier, Oton, Bérenger, Astor, Anseis o fero, o velho Gérard de Roussillon, o rico duque Gaifier. E veio o conde Gautier:

— Homem sou de Rolando, não lhe devo faltar.

E, por fim, o arcebispo Turpin, completando os doze pares:

— Irei também, por minha cabeça!

Dentre as tropas, escolheram então vinte mil cavaleiros. O conde Rolando chamou Gautier:

— Toma mil homens e ocupa as ravinas e outeiros; fica vigilante para que o imperador não venha a perder nenhum dos seus.

Gautier obedeceu. Não desceria para acudir, quando lhe chegassem as más novas, sem que setecentas espadas já tivessem sido desembainhadas. Naquele triste dia, o rei pagão Almaris de Belferne haveria de lhe dar combate.

Enquanto os doze pares se demoravam na Espanha, com os vinte mil homens que compunham a retaguarda do exército, o imperador regressava à França, acabrunhado por maus presságios. Por seu lado, o rei Marsile convocava na Espanha seus barões, condes, viscondes, duques e generais, os emires e os filhos dos cortesãos; em três dias reuniu quatrocentos mil. Fez soar os tambores em Saragoça, onde ergueram a imagem de Maomé na torre mais alta, e nenhum pagão deixou de invocá-lo e adorá-lo. Depois cavalgaram com grande aparato, através de vales e montes, até avistar os estandartes dos francos. A retaguarda, com os doze pares, não deixaria de lhes dar batalha!

Os pagãos se cobriram de couraças sarracenas, quase todas de malhas triplas. Enlaçaram os bons elmos de Saragoça, cingiram espadas de aço de Valência, empunharam estandartes com suas cores. Largaram as mulas e palafrens, e montaram nos corcéis, avançando em fila cerrada. Era dia claro, de sol radioso; as armas do enorme exército fulguravam e mil clarins soavam, para realçar o esplendor da cena.

Aproximavam-se os pagãos, os francos ainda não os viam. Mas a algazarra já era grande, Olivier escutou, subiu ao topo de uma colina. Olhou à direita, [217] viu e divisou a horda pagã, que atravessava um vale verdejante. Tantos sarracenos reunidos! Luziam os elmos, com gemas incrustadas em ouro; brilhavam os escudos e as couraças cor de açafrão e as espadas, e os estandartes tremulavam hasteados nas lanças. Tantos eram os batalhões que não conseguia contá-los. Muito se afligiu, o mais cedo que pôde desceu célere da colina, juntou-se aos francos e lhes descreveu tudo:

— Avistei os pagãos: ninguém no mundo já viu tantos. São cem mil à nossa frente, com seus escudos, os elmos atados, revestidos de couraças brancas, as lanças em riste, os chuços pontiagudos. Teremos luta como nunca houve antes. Senhores francos, que Deus vos dê vigor! Não cedais terreno, não sejamos vencidos!

Responderam os francos:

— Vergonha a quem fugir! Se for para morrer, nenhum de nós há de faltar!

Olivier emparelhou-se com Rolando, e ponderou:

— Os pagãos reuniram grande força, e, quanto a nós, francos, parece-me que somos bem poucos! Companheiro Rolando, toca tua trompa: Carlos a ouvirá, retornará com o grosso do exército.

— Eu faria papel de tolo! Perderia minha fama na doce França. Sempre posso ferir fortes golpes com a Durindana, tingindo de sangue a lâmina até o ouro da guarda. Os pagãos felões em hora nefasta para eles vieram ao desfiladeiro: garanto que estão todos condenados à morte.

Rolando era bravo e Olivier prudente. Ambos eram maravilhosamente leais: uma vez a cavalo e em armas, não se esquivariam da batalha por temor da morte. Eram nobres os dois condes e suas palavras altivas, ao passo que os pagãos felões cavalgavam movidos cegamente pela ira. Disse Olivier:

— Rolando, observa: estão perto de nós, mas Carlos está bem longe. E ainda não te dignaste a soar tua trompa — se aqui estivesse o rei, não sofreríamos dano! Olha lá no alto, na direção dos desfiladeiros da Espanha. Como vês, está em dolorosa desvantagem a retaguarda. Quem faz parte desta jamais há de marchar em outra.

— Não digas tal absurdo! Mal haja o coração que no peito se acovarde! Ficaremos firmes neste lugar; de nós é que virão os golpes e os embates. [218] Ao ver que a batalha era iminente, mais feroz se fez Rolando do que leão ou leopardo. Gritou pelos francos, exortou Olivier:

— Senhor, companheiro, amigo, não digas mais. O imperador que nos confiou estes vinte mil guerreiros francos escolhidos sabia não haver um só covarde. Por seu senhor deve um homem sofrer grandes males, suportar frio e calor extremos, disposto a perder por ele carne e sangue. Fere com tua lança e eu ferirei com Durindana, minha boa espada que o rei me deu. Se eu morrer aqui, quem vier a tê-la poderá dizer que ela foi de um vassalo nobre.

Do outro lado acorreu o arcebispo Turpin, esporeou o cavalo e subiu a uma elevação. Apelou para os francos, dirigiu-lhes este sermão:

— Senhores barões, Carlos nos deixou aqui, e é nosso dever morrer por nosso rei. Ajudai a sustentar a cristandade! Tereis batalha, como bem sabeis, pois vedes os sarracenos com vossos próprios olhos. Confessai vossas culpas, pedindo perdão a Deus, e eu vos absolverei para a salvação de vossas almas. Se perecerdes, sereis santos mártires, tereis assento no alto do Paraíso.

Os francos desmontaram, prosternaram-se, e o arcebispo os abençoou. Como penitência, comandou-os a ferir!

Ergueram-se os francos, absolvidos de seus pecados, e o arcebispo fez so­ bre eles o sinal-da-cruz. Montaram sobre seus velozes corcéis, armaram-se como deviam os cavaleiros, completamente equipados para a luta. O conde Rolando falou a Olivier: *

— Senhor companheiro, bem sabes que Ganelão nos traiu em troca de ouro, bens e dinheiro. O imperador nos haverá de vingar. O rei Marsile nos negociou no mercado, mas é com golpes de espada que há de ser pago.

Pelas passagens dos montes de Espanha seguia Rolando sobre Veillantif, seu bom cavalo de batalha, rápido na investida. Levava o bravo suas armas, com muito garbo, empunhando a lança, a ponta voltada para o céu; enlaçado nela agitava-se um pendão totalmente branco, cujas franjas vinham bater-lhe na mão. Guapo era seu corpo, o rosto claro e risonho. Seu companheiro se­ guia-o de perto, os de França o proclamavam seu protetor. Aos sarracenos en­ carava com olhar feroz, mas aos francos humana e docemente, e lhes dirigiu uma palavra cortês: [219] — Senhores barões, ide confiantes, a passo moderado! Esses pagãos ca­ minham para sua perdição. Hoje arrecadaremos belo e rico butim: nenhum rei de França teve jamais tal ganho.

Disse Olivier a Rolando:

— Nada mais tenho a dizer. Não te dispuseste a soar teu olifante, não terás pois a ajuda de Carlos. Ele de nada sabe, nenhuma culpa lhe cabe, nem se pode reprovar os que estão com ele. Cavalgai, pois, enquanto puderdes, senhores barões, não cedais terreno! Por Deus vos peço: não penseis senão em desferir golpes, recebendo e devolvendo logo! Do grito de guerra de Carlos não nos devemos esquecer! Montjoie!

A estas palavras os francos bradaram a uma voz, e quem os ouviu clamar “— Montjoie!” haverá sempre de lembrar a bravura deles. Depois marcharam, Deus, com quanta audácia! Usando as esporas para investir mais rápido, foram ferir: o que de melhor poderiam fazer. E os sarracenos não os temendo, eis que francos e pagãos se engajaram na luta.

Chamava-se Aelroth o sobrinho do rei Marsile. Foi o primeiro a vir, cavalgando à frente das hostes inimigas, lançando palavras de provocação:

— Francos felões, hoje justareis conosco. A vós traiu quem vos deveria resguardar, doido foi o rei que vos abandonou neste desfiladeiro. Ainda hoje a França há de perder seu lustre e o grande Carlos seu braço direito.

Ao ouvi-lo, como Rolando se afligiu! Acicatou o cavalo, deixou-se ir a galope, foi ferir o conde o mais rijamente que pôde. Fendeu seu escudo, rompeu a couraça, talhou-lhe o peito, quebrou-lhe os ossos, a espinha lhe descolou das costas. Com a lança, arrancou-lhe a alma. Espetou bem fundo, fazendo vacilar o corpo; completando o golpe, abateu-o do cavalo, morto, com o pescoço partido em dois. E não deixou de lhe dizer umas palavras:

— Desespera-te, vilão! Carlos não é louco, nem jamais gostou de traição. Agiu como um bravo ao nos deixar neste lugar, e não será hoje que a França perderá sua fama.

E bradou aos seus:

— Ó vós, francos, ide sobre eles, foram nossos os primeiros golpes! Nós estamos certos e esses glutões errados!

Lá estava um duque de nome Falsaron; era irmão do rei Marsile. Possuía as [220] terras de Dathan e de Abiron. Sob o céu não havia felão mais celerado. Entre os dois olhos sua cara era tão larga que pelo menos meio pé haveria de medir. Teve muito pesar ao ver morto o sobrinho Aelroth. Destacou-se do grosso das tropas, deixou-se ir em frente, lançando um grito de guerra pagão contra os francos:

— Hoje é que a França perde a esperança!

Olivier o escutou, irritou-se muito. Picou o cavalo com as esporas douradas e saiu a ferir como convém a um barão. Partiu-lhe o escudo, rompeu-lhe a couraça; junto com a lança enfiou-lhe no peito o pano do estandarte e o abateu morto do arção da montaria. Olhando para baixo, viu jazer o glutão por terra. Disse-lhe em tom feroz:

— Tuas ameaças, canalha, pouco me importam! Feri, ó francos, que os bateremos todos! Montjoie!

Cada pagão insolente caiu à frente de um dos companheiros. Ao rei Corsablix venceu Turpin. Malprinis de Brigai foi ferido por Gérin, um emir por Gérier, um general pelo duque Sanson, Turgis de Tortelose por Anseis, Escremiz de Valterne por Engelier o Gascão de Bordeaux, Estorgans por Oton, Astramariz por Bérenger e Margariz por Olivier, mais uma vez, Rolando derrubou Chernuble, largou-o morto, sobre a relva espessa.

A batalha era maravilhosa e pesadas eram as perdas. Rolando e Olivier feriam muito bem, o arcebispo dava mais de mil golpes, os doze pares não cessavam de atacar. E sempre os francos combatiam unidos. Os pagãos morriam às centenas, aos milhares; aqueles que não fugiam, não escapavam da rnorte, quisessem ou não seu tempo se esgotara. Mas os francos já perdiam os melhores guardiães. Não reveriam mais os pais e os familiares, nem voltariam a Carlos Magno que os esperava na passagem.

Enquanto isso, grassava na França uma tormenta assustadora, com furacões, trovão e vento, chuva e granizo desmesurados. Caíam raios a todo instante e o chão tremia. De São Miguel do Perigo a Sens, de Besançon ao porto de Wissant, nem uma só parede resistia. Ao meio-dia havia trevas impenetráveis, com nenhuma claridade salvo a dos raios fendendo o céu. Ninguém via isso tudo sem se espantar e muitos talavam que era chegado o fim do mundo. Mas não sabiam o que diziam! Na verdade, era o doloroso luto de que tudo se cobria na terra pátria pela morte próxima de Rolando. [221] O conde Rolando via a grande perda dos seus. Chamou seu companheiro Olivier:

— Belo senhor, meu camarada, por Deus, o que pensas? Tantos bons vassalos vês caídos por terra! Podemos lamentar pela bela e doce França: sem tais barões, ficará como deserta! Ai, meu rei, meu amigo, que não estás aqui! Olivier, irmão, que faremos para mandar-lhe notícias?

— Não sei como fazer. Porém mais vale morrer do que incorrer em reprovação por isso.

— Vou soar o olifante, Carlos ouvirá, enquanto passa pelos desfiladeiros. Garanto-te que logo voltarão os francos.

— Pois agora seria uma grande vergonha que recairia sobre teus familiares, uma pecha pela vida toda. Quando te disse para soar a trompa, nada fizeste. Não esperes meu louvor para fazê-lo somente agora, quando teus braços estão sangrando; neste momento, isso pareceria falta de coragem. Eu te pedi antes e não te dignaste a me atender. Se o rei tivesse vindo aqui naquela hora, não teríamos sofrido dano. Por minha barba, se pudesse rever minha nobre irmã Aude, tua prometida, juro que nunca mais a terias nos braços!

— Por que te irritas comigo?

— Companheiro, és o culpado, pois coragem com bom senso não é tolice; mais vale a moderação do que a temeridade. Francos morreram por tua leviandade e Carlos não terá mais nosso serviço. Se tivesses acreditado em mim, nosso senhor teria vindo e teríamos ganhado esta batalha. Rendido ou morto estaria o rei Marsile. Tua proeza, Rolando, nos foi funesta! Carlos Magno — homem tal não existirá até o juízo final! — já não terá nossa ajuda. Vais morrer e a França será humilhada. Hoje, antes da hora das vésperas, extingue-se a leal companhia, e será muito triste a despedida.

O arcebispo os ouviu disputar, instigou o cavalo com as esporas de ouro puro, aproximou-se deles, e os repreendeu:

— Senhor Rolando e tu, senhor Olivier, peço-vos, por Deus, nada de briga! Para nós soar a trompa de nada serve, e no entanto é bem melhor ser feito assim: que venha o rei, pois nos poderá vingar; que os de Espanha não voltem felizes! Os nossos, ao desmontar, vão achar-nos mortos, despedaçados; vão levar-nos em ataúdes sobre animais de carga. Irão chorar-nos com dor e pesar, [222] seremos enterrados em átrios de mosteiros — com isso os cães e os porcos não nos devorarão.

Respondeu Rolando:

— Senhor, muito bem disseste.

Rolando levou o olifante à boca, ajustou-o bem e soprou nele com grande esforço. Altos eram os montes e na vastidão ressoou o toque, a mais de trinta léguas ecoou. Carlos o escutou e todas as fileiras do exército. Disse o rei:

— Nossos homens travam combate!

Mas Ganelão o contradisse:

— Se alguém que não tu falasse isso, ousariam dizer que é mentira.

O conde Rolando, penosamente, com dolorido esforço, de novo soprou seu olifante. Saía-lhe sangue pela boca, sentia as têmporas romper-se. O toque se ouviu a uma longa distância, Carlos o escutou, enquanto passava pelo desfiladeiro. O duque de Naimes ouviu também, assim como os demais francos. Disse o rei:

— Ouço a trompa de Rolando! Não a tocaria se não estivesse combatendo. Ganelão disse em resposta:

— Não é batalha de modo algum. Velho e canoso como estás, dizendo estas palavras pareces criança. Bem conheces o orgulho de Rolando; é espantoso como Deus ainda o tolera. Para acuar alguma lebre é capaz de passar o dia todo corneteando. Neste momento deve estar a exibir-se na frente de seus pares. Ora, não há debaixo do céu quem ouse provocá-lo em campo de batalha. Segue adiante! Por que te deténs?

O conde Rolando tinha a boca sangrando, as têmporas rompidas. Soprou o olifante, malgrado a dor e a duras penas. Carlos ouviu, os francos ouviram. Disse o rei:

— Nessa trompa há um sopro que alcança longe!

E o duque Naimes:

— É um barão que sopra em sofrimento! Estou certo de que trava batalha. Traiu-o este aqui, que finge aconselhar-te. Arma-te, lança teu grito de guerra, socorre tua gente: já ouviste bastante como Rolando se desespera!

Carlos reuniu o exército e apressou-se a voltar em socorro de sua retaguar­ da. Deixou o traidor Ganelão como prisioneiro, com uma argola no pescoço e [223] acorrentado como se fosse um urso, para ser julgado e punido mais tarde. Os francos agora cavalgavam, orando para Rolando resistir até eles estarem lá para lutar a seu lado. Mas de que adiantaria? Era inútil: haviam demorado demais, não chegariam a tempo.

Altos eram os montes e muito alto erguiam-se as árvores. Quatro blocos de mármore luzente ali havia. Sobre a erva verde o conde Rolando desfaleceu. Um sarraceno o espiava o tempo todo, fingindo-se de morto, estendido entre os demais; molhara de sangue o corpo e a cara. Pôs-se de pé e veio correndo. Era belo e forte, de grande atrevimento. Em seu orgulho encheu-se de uma raiva mortal; agarrou o corpo de Rolando, pôs a mão em suas armas, falando:

— Vencido está o sobrinho de Carlos! Esta espada eu levarei para a Arábia. Ao tentar puxá-la, fez com que o conde se recobrasse um pouco. Rolando percebeu que lhe tiravam a espada, abriu os olhos e exclamou:

— Pelo que vejo, não és um dos nossos!

Pegou a trompa, que não queria jamais perder, deu com ela no elmo cravejado de gemas sobre ouro do inimigo, fendeu o aço, a cabeça e os ossos, fez saltar fora os dois olhos, derrubou-o morto a seus pés e ainda lhe disse:

— Pagão miserável, com que direito te atreves a me saquear? Só podes ser doido. Por tua causa meu olifante está quebrado, caiu o cristal e o ouro!

Rolando sentia a vista falhar; ficou de pé, esforçou-se o quanto pôde. Seu rosto perdera a cor. À sua frente havia uma pedra escura. Deu dez golpes de espada contra ela, cheio de mágoa e de rancor. O aço rangia mas não se fendia nem lascava.

— Ah, Santa Maria, ajuda-me! Ai de ti, Durindana, minha boa espada! Perdido estou, não tenho mais o que fazer de ti. Tantas batalhas campais venci contigo, tantas terras extensas conquistei, que Carlos, o da barba canosa, hoje domina! Nunca pertenças a homem que possa fugir diante de outro. Como bom vassalo te possuí por longo tempo, jamais haverá na França alguém tão leal como fui!

Rolando batia contra a pedra, mais estilhaços voavam do que vos sei contar. A espada rangia, mas não se entortava nem partia, rebatida para o alto. Quando o conde percebeu que não a romperia, ternamente a lamentou consigo mesmo: [224]

— Ai, Durindana, como és bela e santa! Em teu punho dourado, quantas relíquias há, o dente de São Pedro e o sangue de São Basílio e cabelos de meu senhor São Denis; há até um retalho da vestimenta de Santa Maria — não é justo que um pagão te possua, só a cristãos deves serviço. Não te tenha homem que cometa covardia! Contigo, muitas vastas terras eu conquistei, que agora são de Carlos, o da barba florida, dando fama e fortuna a nosso imperador.

Sentia Rolando que a morte o trespassava, descia da cabeça ao coração. Arrastou-se para debaixo de um pinheiro, deitou-se sobre a erva verde. Colocou sob o corpo a espada e o olifante, virou o rosto na direção da turba dos pagãos. Fez assim porque de fato queria que Carlos dissesse, e toda a sua gente repetisse, que o nobre conde morrera conquistando. Jazia agora estendido no chão, sob um pinheiro, com a face voltada para a Espanha. De várias coisas pôs-se a recordar, de tantas terras conquistadas, da doce França, dos homens de sua linhagem, de Carlos Magno, seu senhor, que o criara. Não pôde conter o pranto e suspirou Mas não quis esquecer-se de si mesmo, confessou suas culpas, suplicou a misericórdia de Deus:

— Pai verdadeiro, que nunca mentiste, tu que ressuscitaste São Lázaro e protegeste Daniel dos leões, livra minha alma de todos os perigos pelos pecados cometidos em minha vida!

Ofertou a Deus a luva da mão direita, e São Gabriel recebeu-a nas mãos. Sobre o braço inclinou a cabeça e, de mãos postas, chegou ao fim. Deus lhe enviou um anjo querubim e São Miguel, que acode no perigo. Acompanhados por São Gabriel, levaram a alma do conde ao Paraíso.

Lendas Medievais
 Rolando  Carlos Magno, Marsile, Ganelão
9/23/2017 2:09:27 PM | Por Antônio L. Furtado
Sharr Kan e a princesa Abriza

Depois de fazer suas tropas acamparem, o príncipe Sharr Kan, fiel à promessa feita ao pai de se manter vigilante, decidiu sair para um reconhecimento pelos arredores. Como haviam acabado de penetrar em território inimigo, era preciso que ele ficasse alerta. Não cessou de percorrer o vale em todas as direções durante o primeiro quarto da noite. Então, já um pouco cansado, foi dominado pelo sono. Não conseguindo continuar a galope, mas acostumado a cochilar enquanto cavalgava, deixou- se conduzir a passo pelo corcel. No meio da noite, tendo penetrado em uma floresta densa, o cavalo tropeçou algumas vezes no mato que cobria o chão. Acordando em sobressalto, o príncipe percebeu estar entre as árvores, sob um luar tão claro que iluminava o céu de oriente a ocidente como se fosse dia. Vendo-se só nesse lugar, pronunciou a frase que jamais envergonha um crente:

— Não há majestade nem poder salvo em Alá, o Grande, o Glorioso!

Desorientado, sentia-se inquieto com a possível presença de feras nessas paragens. Então entreviu, ao fundo de uma passagem pela mata, uma clareira inundada pelos raios da lua, de uma beleza paradisíaca, de onde vinha o som de conversas alegres, entrecortadas de risadas cristalinas, que tinham o dom de cativar qualquer homem. Desmontou, prendeu o cavalo a uma árvore e, guiando-se pelos sons, caminhou até chegar a um riacho. Uma mulher apostrofava as outras em árabe:

— Pelo Messias, vossas brincadeiras são bem maldosas! A primeira que disser mais uma palavra vai-se haver comigo. Vou atirá-la ao chão e atá-la com meu próprio cordão.

Continuando pela margem, sempre na direção da voz, ele acabou deparando com a mais serena das paisagens. A água fluía através de um florido jardim de variadas cores. Gazelas saltitavam entre animais de presa, que as deixavam pastar em paz. Pássaros gorjeavam e assinalavam com harmoniosos trinados sua alegria de viver. Ao fundo, avistou um mosteiro fortificado, cujo torreão altaneiro se desenhava contra o céu enluarado. No jardim fronteiriço, irrigado pelo mesmo riacho que atravessava a clareira, estava a jovem mulher cuja voz imperiosa ele ouvira, cercada por dez raparigas semelhantes a estrelas, cujos adereços e jóias eram um encanto para os olhos.

A jovem dama era a que mais atraía a atenção do príncipe. Dir-se-ia que era o próprio astro da noite no esplendor do plenilúnio. As sobrancelhas finamente ciseladas, a fronte resplandecente, a face emoldurada nas têmporas por cachos frisados, os cílios com a maciez da seda, ela era por suas formas a perfeição feita mulher. Com o talhe mais esbelto do que uma lança de Samhar ela se erguia, deixando as longas tranças sombrear-lhe o rosto, como noite prenunciando volúpia na alvorada. Sharr Kan a ouviu desafiar as companheiras:

— Vinde! Vamos lutar enquanto a lua brilha, antes que o dia nos surpreenda.

Uma a uma elas se apresentavam para logo tombar na poeira do chão, com as mãos amarradas por seus cordões, à vista de uma mulher de idade avançada, que afinal interveio com um toque de irritação na voz:

— Ó desavergonhada! Orgulhas-te de vencer garotas? Dessas, velha como sou, derrubo quarenta de uma vez! De que te gabas? Se achas que podes comigo, chega até aqui para eu meter tua cabeça entre teus joelhos!

Assim desafiada, a jovem respondeu com um sorriso, a despeito da raiva que sentia por dentro:

— Ó minha senhora Dhat ad-Dawahi, será isso simples gracejo ou pretendes realmente medir-te comigo?

— Nada há de mais sério!

— Se é assim, prepara-te para enfrentar-me, se te julgas capaz!

Essa provocação teve o dom de irritar a velha, e os pêlos de seu corpo se eriçaram, mais duros que espinhos de ouriço.

— Por minha fé, vagabunda, contigo só combato nua!

Arrancou as vestes e amarrou um pano de seda em torno dos flancos. Em sua seminudez parecia uma ifrita em fúria ou uma víbora venenosa.

— Faze como eu! — gritou para a rival.

O príncipe acompanhava a cena e ria do espetáculo grotesco que a megera oferecia. Sem se apressar, a jovem cingiu uma fita yemenita, que enrolou duas vezes em volta da cintura. Arregaçou então os calções, revelando as pernas marmóreas e as coxas docemente arredondadas, lisas como cristal. Acima, descobriu o ventre que se diria atapetado de pétalas de anémona e perfumado de almíscar, e os seios, como duas romãs.

As antagonistas se atracaram sob o olhar de Sharr Kan que, voltando a face para o céu, rezava pela vitória da bela. Esta esgueirou-se de súbito por baixo da guarda da adversária e, agarrando-a pelo pano da cintura com a esquerda e pelo pescoço com a direita, levantou-a do chão e a manteve no alto com os braços esticados. Debatendo-se para livrar-se, a velha caiu de costas, com as pernas para o ar, expondo ao clarão da lua o corpo peludo e exalando até o céu um fedor pestilencial que levantou a poeira do solo. Ante essa visão, Sharr Kan riu de rolar no chão. Depois soergueu-se, desembainhando o sabre, e procurou assegurar-se de que não havia ninguém nos arredores, além da jovem, suas companheiras amarradas e a velha estatelada na terra. Vendo-a nessa postura ridícula, pensou que ela bem merecia o apelido de “Mãe das Calamidades”, como ouvira chamá-la. Aproximou-se às escondidas para ouvir o que iriam dizer.

A jovem, inclinando-se sobre a adversária malsucedida, cobriu-lhe a nudez com um véu de seda e se excusou:

— Senhora, não era isso que eu pretendia! Minha intenção era apenas lutar contigo, não te humilhar. Foi na tentativa de soltar-te de minhas mãos que caíste nessa posição. Mas, graças aos céus, não te machucaste!

Acabrunhada pela vergonha, sem dizer palavra, a velha foi saindo até desaparecer de vista.

E Sharr Kan, contemplando as raparigas estendidas aos pés daquela que as dominara, disse a si mesmo:

— Não há fato sem propósito! Foi certamente a Providência qué me fez sucumbir ao sono e guiou para este lugar os passos de minha montaria. Que butim, que bela presa me foi dada, na pessoa dessas odaliscas!

Retornou aonde estava seu cavalo, montou e, de sabre desembainhado e aos brados de “Alá é maior que tudo!”, esporeou o corcel que arremeteu como uma flecha, irrompendo na clareira.

Ao vê-lo, a bela com um só pulo atingiu o outro lado do riacho, de seis cúbitos de largura nesse ponto, e, firmemente plantada sobre as pernas, invectivou-o a plena voz:

— Quem és para nos assaltar como se fôssemos soldados, e vires interromper nossos divertimentos? De onde vens, aonde te diriges? Responde com toda franqueza, como te convém, pois o fingimento é a marca da vilania. Por certo perdeste o caminho esta noite, para vires ter aqui, de onde só por milagre sairás são e salvo. Ao nosso menor chamado, acorrerão seis mil homens comandados por nossos emires. Dize-nos o que desejas: se é apenas achar teu caminho, nós o mostraremos; se precisas de assistência, nós cuidaremos de ti.

— Sou um estrangeiro, um muçulmano, e parti sozinho à caça de butim. Não poderia encontrar algo de mais precioso do que essas garotas oferecidas a meus olhares por um luar radioso. Vou apossar-me delas e voltar a meus companheiros.

— Devias perceber que o butim está longe de cair em tuas mãos, estas mulheres não são para ti. Não te ensinaram que é feio gabar-se?

— Ó senhora, o homem sábio é aquele que se curva ante a censura dos outros.

— Pelo Messias, se não temesse ter tua morte a pesar sobre minha consciência, bastaria um grito meu para atrair uma multidão de cavaleiros e homens de armas. Mas por demais me compadeço da sorte de estranhos que vejo extraviados. Se porventura ainda pensas em captura, apeia do cavalo e jura por tua fé que chegarás até mim sem armas na mão, pois assim lutaremos. Vencendo, joga-me sobre teu cavalo e leva-nos todas. Vencido, ficarás à minha mercê. Mas primeiro presta juramento, pois me inspiras desconfiança. Dizem, com efeito, que Não se pode acreditar em quem nasceu pra enganar. Jura e eu atravessarei o riacho para teu lado.

Sharr Kan, inflamado de desejo por ela e persuadido de que a jovem ignorava com que temível campeão iria haver-se, respondeu:

— Prescreve-me o juramento que te inspire maior confiança. Prometo não enfrentar-te até te julgares pronta, e esperarei teu sinal. Se perder, tenho como pagar resgate. Caso contrário, que poderia esperar de melhor de tal aposta?

— Aceito essas condições.

E Sharr Kan, surpreso com a confiança em si mesma que ela demonstra­ va, confirmou:

— Pelo Profeta — que sobre ele recaia a bênção e a salvação de Alá — também eu as aceito!

— Pois, então, repete depois de mim: “Por aquele que insuflou as almas nos corpos e deu leis aos homens, não tenho outra intenção senão a de lutar lealmente. Que eu morra como renegado se chegar a trair a fé jurada!”.

Ele pensou:

— Por Alá, nem mesmo o mais severo dos cadis reclamaria de mim tão rigoroso juramento!

Submeteu-se, ainda assim. Abismado em reflexões, atou a montaria a uma árvore, arrumou as roupas para o embate a iniciar-se e gritou para ela:

— Estou pronto. Passa para cá!

— Como poderia, se não há passagem?

— Da mesma forma, não posso chegar do teu lado.

— Moleque, eis-me aqui!

Ela levantara as bordas de suas vestes e, tendo dado um único salto, fora ter junto dele do outro lado do rio. Sharr Kan aproximou-se, inclinou-se e pôs-se a bater as mãos, fascinado por sua beleza e graça. Via diante de seus olhos uma imagem formada pelo Destino a partir de uma folha colhida da árvore do Paraíso; uma criatura que a Providência vira crescer, a Felicidade embalara com bons presságios e uma conjunção favorável dos astros saudara no momento de sua concepção. A jovem chegou até ele e o provocou:

— Vamos, muçulmano, vem à luta antes que a aurora desponte.

Arregaçou as mangas, deixando à mostra os braços e assim iluminando o lugar com sua fresca alvura de leite. Sharr Kan, desamparado, inclinou-se e de novo bateu as mãos uma na outra, e ela fez o mesmo. Os dois se tocaram, se enlaçaram, se engalfinharam e se puseram a lutar. Ele pôs as mãos na cintura delgada da bela, seus dedos afundando na pele macia do ventre. Afrouxou o aperto e suspirou. A fofura langorosa daquela carne o fazia tremer como um caniço da Pérsia agitado pela tempestade. Rápida como o relâmpago, ela o dominou, ergueu-o e o derrubou ao solo, sentando então sobre seu peito formas que se arredondavam como dunas de areia. Sharr Kan sentiu a razão desvairar-se. E ela:

— Vós muçulmanos achais legítimo derramar o sangue dos cristãos. E se eu agora te fizesse o mesmo?

— Senhora, em vosso caso isso nos seria proibido por nossa religião, pois nosso Profeta — sobre ele a bênção e a salvação de Alá — nos proibiu causar a morte dos vossos quando se trata de mulheres, crianças, velhos e monges.

— Se assim é, se tal foi revelado a vosso Profeta, devemos retribuir na mesma moeda. Concedo-te graça, pois todo benefício merece recompensa.

Ela se levantou, libertando Sharr Kan, que se pôs de pé e sacudiu a poeira da cabeça. E ela irônica:

— Não te envergonhes. Quem vem buscar butim entre os bizantinos, e vem meter-se em querelas entre seus reis, só pode ser uma criatura débil que não saberia defender-se, nem mesmo ao ir de encontro a costelas de mulher.

— Não é questão de fraqueza e tu não me bateste realmente. Foi tua beleza que me venceu. Sê generosa, é preciso que me dês revanche.

— Está bem — disse ela rindo. — Mas minhas servas já estão agrilhoadas por tempo demais, com braços e pernas dormentes. Vou primeiro soltá- las, já que o próximo assalto arrisca ser longo.

Dirigiu-se para junto das servas, desfez os laços e as orientou, em grego, para que fossem refugiar-se em lugar seguro, a salvo da cobiça do muçulmano. Elas se foram, acompanhadas pelos olhares de Sharr Kan. O príncipe e a jovem foram um contra o outro. Ela encostou o ventre no dele. Dando-se conta da emoção que o tomava, agarrou-o com a ligeireza do raio e deu-lhe com as costas no chão.

— Levanta-te, vou fazer-te graça pela segunda vez. Da primeira te poupei em honra a vosso Profeta, que vos proibiu de matar mulheres. Faço-o agora porque sinto pena de tua fraqueza, de tua juventude e por estares sozinho aqui. Se houver no exército muçulmano algum campeão mais forte do que tu, mandem-no enfrentar-me. Mas explica-lhe bem que a luta é uma arte cujos truques diversos é preciso conhecer: as maneiras de agarrar o adversário antes que ele o faça, jogá-lo por terra, golpeá-lo e mordê-lo, as pegadas, as chaves de braço, as fintas, as rasteiras, as projeções, as quedas e os rolamentos, as imobilizações e os estrangulamentos. É no domínio dessas técnicas que se distingue o perito do iniciante.

— Minha senhora — disse Sharr Kan tomado de raiva —, já li mestre as-Safadi, mestre Muhammad Qimal e Ibn as-Suda, e nada me falta aprender sobre esses golpes que citas. E, juro por Alá, não me venceste pela força; foram tuas partes posteriores roçando em meu corpo que me perturbaram. Nós, povo do Iraque, temos paixão por coxas cheias e rijas, e foi assim que minha atenção se desviou e não pude antever os ataques. Se queres enfrentar-me agora que recobrei a lucidez, concede-me ainda um assalto segundo as regras dessa arte. Neste momento, tenho de volta todas as minhas habilidades.

— Que esperas ainda, ó duas vezes vencido! Vem, pois, mas fica sabendo que é tua última chance.

Ela se pôs em guarda e Sharr Kan fez o mesmo. Desta vez, tomou a sério o combate e evitou as distrações. A luta se prolongou por algum tempo. A jovem encontrava no adversário uma força que ainda não sentira nele.

— Estás agora de olhos abertos, ó muçulmano?

— Sim, tu sabes ser esta minha última oportunidade; depois cada um seguirá seu caminho.

Ela começou a rir e ele a imitou; mas nem teve tempo de se dar conta do que lhe acontecia: ela o pegou pelas coxas e o jogou por terra.

— Vê-se bem — disse ela rindo— que não passas de um presunçoso querendo tirar farelo comigo. Es tão leve como boné de beduíno que cai com um piparote, ou como um falcão que despenca ao primeiro sopro do vento. Xô, ave de mau agouro! Volta para casa e manda-me um outro qualquer. Leva meu desafio aos Árabes e aos Persas, aos Turcos e aos Daylamitas. Venha visitar-me quem quer que seja que quer que eu quebre...

Enquanto ele se punha de pé, sacudindo a poeira que o cobria, ela saltou para a outra margem e o provocou com malícia:

— É penoso para mim, senhor, ver-te partir. Mas volta logo para os teus, senão amanhã de manhã podes dar-te mal. quando nossos emires te farão experimentar a ponta de suas lanças, a ti que não soubeste fazer trente a uma mulher.

E dispôs-se a deixá-lo ali e seguir para o mosteiro.

— Minha dama — ele gritou-lhe despeitado — , vais partir e abandonar assim um infeliz estrangeiro de coração despedaçado, triste presa das agonias do amor?

Ela se voltou e perguntou sorrindo:

— Que desejas, que eu possa fazer por ti?

— É porventura concebível eu estar aqui a percorrer o solo de teu país e a deleitar-me com a contemplação de teus delicados atrativos, sem me convidares a compartilhar de tua mesa, a mim com quem desde agora contas entre teus servidores?

— Só quem é vil falta à lei da hospitalidade! Sê bem-vindo, és meu hóspede. Monta a cavalo e segue-me, cada um de nós pela margem em que está. Foram assim, em paralelo, no mesmo passo, até atingirem uma ponte levadiça talhada em madeira de nogueira, que era acionada por correias de aço enganchadas ao tabuleiro. Na entrada, estavam as raparigas que vira lutar. A jovem ordenou em bizantino a uma delas que o ajudasse a atravessar a ponte, puxando sua montaria pelas rédeas, e o levasse ao interior do prédio. Ele se deixou guiar, maravilhado pelo que via. Teria gostado de ter consigo o vizir Dandan, para compartilhar do prazer de contemplar tantos esplendores femininos reunidos. Após transpor a ponte, falou à jovem:

— Admirável beldade, és duplamente sagrada a meus olhos: primeiro, por estares em minha companhia; segundo, porque eu, tendo concordado em seguir-te na qualidade de hóspede, estou desde agora à tua mercê como também sob tua proteção. Por que, nessas condições, não me darias a honra de vir comigo para a terra do Islã? Lá verias a nata de nossos guerreiros e descobririas quem realmente sou.

A oferta irritou a jovem no mais alto grau.

— Pelo Messias, eu te considerava sensato, mas percebo que és um perverso empedernido! Que direito te arrogas para dirigir-me semelhantes ofertas, que tresandam a perfídia? Como poderia acompanhar-te, quando sei que, uma vez em poder de vosso rei Omar an-Numan, não poderia jamais escapar- lhe? É sabido que ele, senhor de Bagdá e de Khorasan, construiu para seu prazer doze pavilhões, um para cada mês do ano, e em cada um instalou trinta concubinas, perfazendo o total de dias do ano e cada uma o servindo por uma só noite, sem repetição. Mas ele não pode ainda vangloriar-se de ter possuído gente de minha espécie. Portanto, se eu caísse em suas mãos estaria perdida. Não é verdade que vossa crença permite abusar das cativas, aquelas que vossas dextras apresaram, como costumais dizer? Que proposta atrevida! E quanto ao que chamas “nata de nossos guerreiros”? Pude observá-los desde sua chegada, há dois dias, a nossa terra: não eram nada que parecesse um exército real digno desse nome, mas apenas uma horda indisciplinada. E tua tentativa de engodar-me, insinuando vires de alta linhagem, é uma fanfarronada que nem mesmo Sharr Kan — cuja presença nestas paragens não nos passou despercebida — teria ousado proferir diante de mim. Minha benevolência para contigo nada tem a ver com algum tipo de homenagem que seria devida à tua posição. Ela procede de minha própria grandeza de alma.

O príncipe refletiu que ela parecia estar ao corrente de sua expedição. Talvez soubesse até das razões que haviam levado seu pai a organizá-la e do efetivo das tropas.

— Minha dama, eu te exorto, pelo que tens de mais sagrado, a me informares o que sabes sobre a chegada das tropas muçulmanas. É importante para mim conhecer as causas precisas dessa campanha de destino incerto.

— Por minha fé, vou jurar-te uma coisa: se estivesse segura de que não descobririam minha condição de bizantina, assumiria sem hesitação o risco de sair contra vossos dez mil cavaleiros para poder matar seu chefe Dandan e derrotar seu campeão Sharr Kan. Quem poderia censurar-me? — sou perfeitamente capaz disso! Aprendi muito sobre nossos inimigos, li uma quantidade de livros deles e estudei a literatura dos árabes. Quanto a minha coragem e destreza, não tenho mais necessidade de te demonstrar, pois acabas de ver-me em ação e sabes muito bem como sou forte e aguerrida. Se Sharr Kan em pessoa fosse desafiado, como foste, a transpor de um pulo o riacho, teria mostrado sua incapacidade. Ah, permita o Messias que ele caia em minhas mãos dentro deste mosteiro. Disfarçada de homem eu combateria com ele e o derrubaria, pondo-o a ferros em meu cativeiro!

Vexado em sua honra e picado ao vivo em seu orgulho de guerreiro, Sharr Kan pensou por um momento em dar-se a conhecer e pegar-se com ela. Mas, imobilizado pelo feitiço de sua formosura extraordinária, nada fez senão meditar que se a Beleza uma falta um dia cometer, mil vozes achará por ela a interceder.

A jovem o precedeu, em direção aos prédios e, vendo balançar seus flancos como ondas langorosas no mar agitado, balbuciou louvores a essa maravilha semelhante à lua irrompendo na noite, frente a quem até mesmo o ifrit de Balkis sucumbiria de pronto.

Logo chegaram a uma porta de verga de mármore, dando para um comprido corredor abobadado, com uma sucessão de dez arcos, cada um com um lustre de cristal, lançando mil fogos mais ofuscantes que raios de sol. No final, se alinhavam raparigas portadoras de velas odoríferas, cujos brilhos produziam reflexos iridescentes nos diademas cravejados de jóias que lhes enfeitavam as testas. Precedida por suas companheiras e seguida por Sharr Kan, a jovem entrou em um salão ao redor do qual estavam dispostos sofás recobertos de almofadas bordadas a fio de ouro. O asoalho era de mármore negro rajado de branco. No centro, em uma bacia alimentada por 24 aquedutos de ouro maciço, água dourada jorrava de chafarizes, desenhando no ar ao cair graciosos arabescos. No fundo do salão havia um divã de cerimônia revestido de seda.

A jovem lhe pediu que ali se instalasse e retirou-se, depois de confiá-lo aos cuidados de suas servidoras. Algum tempo depois ele perguntou:

— Para onde foi vossa ama?

— Repousar um pouco em sua câmara. Mas aqui estamos nós, segundo as ordens dela, à tua inteira disposição.

Elas lhe ofereceram pratos, cada um mais extraordinário que o outro, dos quais se regalou. Depois lhe trouxeram uma bacia e um jarro d’água. Cabisbaixo, lavou as mãos, pensando em seu exército cuja situação ignorava. Culpava-se por ter contrariado as instruções do rei, seu pai, e não fechou os olhos a noite toda, roído pelo arrependimento de se ter deixado arrastar para essa aventura. De bom grado recompensaria quem o pudesse ajudar a livrar-se dos males do amor! Mas, com o coração cativo e perdido em suas penas, só em Alá punha esperança.

Chegada a manhã, viu aproximar-se um cortejo imponente. Vinte raparigas igualmente belas cercavam sua ama, astro resplandecente escoltado pelas estrelas. Estava vestida de brocado real, e uma cinta incrustada de gemas punha em relevo o arredondado dos flancos e, por cima, fazia ressaltar peitos como romãs maduras. E das dunas de cristal, que via por trás, erguia-se a haste de prata de seu corpo. Com a cabeça coberta por uma rede entremeada de diamantes e pérolas, passava entre as servas que sustinham as bordas de seu manto. Ao vê-la, por pouco não desfaleceu; de um salto pôs-se de pé, em homenagem a tão soberana beleza, e exclamou:

— O cintura sedutora, que pões em destaque tais atrativos!

Assim louvava a apertada cinta de pedras preciosas, que lhe acentapva as formas delicadas. Admirava-se da firmeza com que ela continha as próprias emoções, enquanto ele já não era senhor das suas. Só fazia contemplá-la, escoltada pelas servas, qual pérolas, ora juntadas num fio de colar, ora dispersas.

Ela fixou longamente os olhos nele, considerando-o muitas vezes até que, inteiramente convicta, disse-lhe com voz firme:

— Tu iluminas este lugar com tua presença, ó Sharr Kan! Como passaste a noite depois que nos separamos, valoroso guerreiro? A mentira é baixeza e vilania, recorrer a ela não convém a reis, sobretudo aos mais ilustres. Es por certo Sharr Kan, filho de Omar an-Neman. Cessa de fingir outra coisa e de me enganar sobre tua condição. A dissimulação só engendra inimizade e ódio. Se o destino te escolheu como alvo de suas flechas, encara de coração contente a fortuna adversa e trata de submeter-te de bom grado ao que ela te reserva.

— Seja! — assentiu ele, deixando de lado as reservas. — Sou quem dizes. Traído pela sorte que aqui me conduziu, estou à tua mercê. Trata-me como quiseres!

Pensativa, ela baixou a cabeça por um momento e depois disse:

— Tranqüiliza-te e afasta toda inquietação. És meu convidado, compartilhamos pão e sal, selando um compromisso de hospitalidade. Desde então, estás em segurança sob minha guarda e proteção. Pelo Messias, quem quer que pretenda teu prejuízo, irá achar-me em seu caminho, pronta a defender-te ao preço de minha vida. O Messias e eu mesma te tomamos sob nossa égide.

Sentou-se a seu lado e esforçou-se por distraí-lo com falas jocosas. Sharr Khan afinal se aquietou, considerando que, se ela tivesse intenção de matá-lo, teria agido na noite anterior. Ela chamou em grego uma escrava, que veio em um instante preparar uma mesa guarnecida de iguarias e bebidas. Ele, porém, se absteve de servir-se, por temor de algum veneno que houvessem misturado. Compreendendo sua reticência, ela disse:

— Pelo Messias, nada há aí que possa justificar tua apreensão. Aliás, seu tivesse algum propósito funesto, quem me impediria de o executar de imediato? Postou-se diante da mesa e, a fim de mostrar a pureza de suas intenções, provou de cada prato. Ele então comeu à vontade, para satisfação de sua hospedeira, que lhe fez companhia animadamente. Lavaram as mãos e ela fez trazerem um vaso para queimar perfumes, junto com o serviço de bebidas: taças de cristal, copas de ouro e de prata, que mandou encher com os melhores vinhos. Como fizera em relação aos alimentos, foi a primeira a beber antes de estender-lhe uma taça, dizendo-lhe então:

— Vê, muçulmano, como estás bem aqui, a gozar das doçuras e alegrias da existência!

Entregaram-se pois às libações, até que o príncipe acabou perdendo o controle de si próprio. E a jovem não cessou de servir-lhe de beber e entretê-lo, a ponto de mergulhá-lo em torpor de embriaguez, tanto dos vapores do álcool quanto do amor que ela lhe inspirava. Ela mandou então que Marjana, uma de suas servas, trouxesse alguns instrumentos musicais: um alaúde de Damasco, uma flauta tártara e uma cítara egípcia. Marjana tomou do alaúde e ajustou-lhe o tom. Com uma voz leve qual sopro de zéfiro, doce como a água da fonte Tasnim no Paraíso, cantou acompanhando-se com o instrumento:

Alá perdoe teus olhos pelo sangue que fizeram correr, lançando flechas. Amigo injusto! À amante desarmada, conquistada por ti, negas clemência. Paz a estes olhos que manténs insones e ao coração que teu amor destrói! Decides minha morte e sou refém de lei tirana em que não há resgate.

Uma outra serva, por sua vez, entoou em grego uma melodia que encantou o príncipe. A própria jovem cantou então em sua língua. Notando o prazer de Sharr Kan, perguntou-lhe se entendia o idioma.

— Não, é o jogo delicado de teus dedos que me fascina. — E como seria se eu cantasse em árabe?

— Já não teria o domínio de mim mesmo.

Mudando o tom, ela tocou e cantou:

Pressentimentos da separação que vem tão cedo, como vos fugir?  Resta-me o exílio, se o negar três vezes.

Mas se o amo, enleada em seu feitiço, como é amargo pensar não tê-lo ao lado!

Embalado pelo canto, ele entorpecido deixou-se ficar estendido no meio de tantas beldades. Despertando, ainda nesse encantamento, continuou bebendo com a jovem inúmeras taças até o momento em que a tarde cedeu lugar às sombras da noite. Ela se recolheu ao quarto para dormir, enquanto ele invocava sobre ela a guarda e a proteção divina.

Ao amanhecer, Marjana veio procurá-lo para o levar à ama, que desejava vê-lo. Sharr Kan a seguiu, e, à medida que passavam pelos diversos quartos, as outras servas foram-se juntando e passaram a escoltá-los ao som de tamborins. Atravessaram por uma porta trabalhada em marfim, incrustada de pérolas e de outras jóias, indo ter a um edifício imponente que abrigava um pavilhão de honra, atapetado de tecidos de seda. Em volta abriam-se janelas gradeadas, através das quais se entreviam folhagens de plantas. No meio se erguiam, aqui e ali, manequins que pareciam falar, graças a mecanismos interiores que funcionavam quando soprava alguma corrente de ar. A jovem foi-lhe ao encontro, tomou-lhe a mão e o fez sentar-se a seu lado, perguntando como passara a noite. Ele agradeceu e invocou sobre ela as bênçãos do céu. Depois se puseram a conversar. Ela indagou:

— Por acaso conheces algum poema sobre amantes reduzidos à escravidão por sua paixão?

— Sim, por certo!

Não! Proclamar não posso que amo Azzah: ela me fez jurar manter segredo.

Mulás de Madyan com seus fiéis o juízo final chorando esperam. Conhecessem Azzah, como eu conheço, melhor fariam adorando Azzah!

Ela exclamou:

— São versos de Khuthayyir! E que talento ele tem, que domínio da língua para tão bem descrever sua bela:

Se indagam de um juiz o que é mais belo o sol ou Azzah — sentenciará que é ela. Vêm a mim difamá-la as invejosas?

Pois condenai que para Azzah se façam da pele de seus rostos as sandálias!

— Esta Azzah — acrescentou a jovem — era, segundo dizem, de uma beleza perfeita. Poderias, ó príncipe, citar-me alguns versos de Jamil para Buthaynah?

— Ninguém melhor do que eu os conhece:

Dizem a mim: “— Jamil, vai combater!”, mas só nas guerras da paixão me empenho.

Doce é falar às belas, aos pés delas vai quem morrer sacrificar-se à Fé:

— O que é esse mal, ó Buthaynah, que eu sofro? — Está em ti e irá crescendo sempre.

— Mas poupa-me a razão, para que eu viva! — Nada te sobra — ela me diz severa.

Só minha morte então te satisfaz e a ti somente sigo desejando!

— Como recitas bem, Sharr Kan, e como são belos os versos de Jamil! Que poderia querer esta Buthaynah de seu amante, e o que significa o primeiro hemistíquio do último verso?

— Falam exatamente do fim que me reservas , e nem mesmo isso te satisfaz!

Ela riu e os dois voltaram a beber até que a luz do dia cedeu ao escuro da noite. Ela se retirou então para dormir e deixou-o fazer o mesmo. Na manhã seguinte, as servas voltaram para conduzi-lo ao som de pífaros e tamburins. Beijaram o chão diante dele e lhe pediram para aceitar o convite da ama, a esperá-lo em seus aposentos. Sharr Kan foi levado a uma outra dependência, uma sala ainda mais imponente, onde estavam dispostas estatuetas e manequins representando de forma maravilhosa pássaros e animais selvagens. Admirado diante do esplendor do lugar, recitou o poema:

Quem me vem censurar terá tocado em pérolas cobrindo ternos peitos? Em fonte já bebeu feita de prata, já viu rostos de rosa e de rubi, e, entre sombras de khol, olhos celestes em que os tons das violetas se refletem?

Como na véspera, ela se ergueu quando ele entrou, tomou-lhe a mão e o instalou junto a si.

— Jogas bem o xadrez, ó filho de Ornar an-Numan?

— Sim, contanto que não seja nas circunstâncias descritas pelo poeta:

Ora o amor me constringe, ora distende, sinto sede do orvalho de seus lábios. Enquanto a enfrento no seu tabuleiro, mal vejo o branco e preto dessas peças. “Roca” meu rei com a torre — e num instante vem sua rainha me deixar em “xeque”... Pois se levanto os olhos para os dela seus olhares travessos me distraem.

Arrumado o tabuleiro, começaram uma partida. Mas Sharr Kan, em vez de atentar para o jogo da adversária, não tinha olhos senão paraela, a ponto de esquecer as regras do jogo e confundir o peão com o cavalo.

— É essa tua maneira de jogar? — disse ela com ironia. — Não jogas nada! — Esta partida não valeu; estamos apenas começando.

Jogaram cinco vezes e por cinco vezes ela ganhou.

— Será tua vocação ser vencido em tudo?

— Se assim for, é porque me é doce perder de ti!

Depois disso, fizeram uma refeição, lavaram as mãos e recomeçaram a beber. Tomando de uma cítara, instrumento em que era exímia, ela cantou:

O rosto muda se varia a sorte: um dia alegre, e logo aflito.

Bebe à beleza de tua amada agora se já não podes esquecê-la.

Passaram um dia ainda mais delicioso do que o anterior e, chegada a noite, ela o deixou para voltar ao leito. Quanto a ele, foi também dormir, para ser despertado do mesmo modo pelos pífaros e tamborins. Logo que ela o viu, foi em sua direção, tomou-o pela mão e o fez sentar-se a seu lado, indagando como passara a noite. Acompanhando-se de um alaúde, cantou:

Mais nada esperes da separação que é taça amarga.

O próprio sol, quando é chegado o ocaso, empalidece.

Enquanto assim se entretinham, eis que ouviram um tumulto provocado pela invasão de homens armados, emires em sua maioria. De espada em punho, clamavam em sua língua:

— Nós te pegamos, Sharr Kan! Chegou teu fim!

O príncipe acreditou que chegara sua última hora. Pensou no íntimo que fora traído pela jovem. Ela o iludira esperando a chegada dos guerreiros, com os quais, aliás, já o havia ameaçado logo no início de seu encontro!

— Tanto pior — concluiu. — Sou o artífice de minha própria perda.

Dispunha-se a reclamar dela, quando a viu precipitar-se, com as feições descompostas, exclamando aos intrusos:

— Quem sois vós?

— Nobre princesa — respondeu o chefe. — Pérola entre as pérolas, sabes quem é este homem?

— Não, não sei.

— É simplesmente o flagelo devastador, o melhor dos guerreiros do Islã: Sharr Kan, filho do rei an-Numan, a quem devemos a queda de tantos castelos e fortalezas antes inexpugnáveis. A velha Dhat ad-Dawahi intormou o rei Hardub, teu pai, sobre a presença dele em nossas terras. E agora tu mesma deste a vitória a nossos exércitos bizantinos, capturando este leão sinistro!

Encarando o homem nos olhos, ela o mandou identificar-se:

— Sou Masurah, filho de teu servidor Mausurah bin Kashardah, grande do reino.

— E com que direito tomaste a liberdade de entrar aqui sem minha permissão?

—- Pela simples razão, Senhora, de que nenhum camareiro ou porteiro me barrou. Pelo contrário, foram as próprias sentinelas que nos conduziram a ti. Não é costume, inclusive, obrigar a aguardar, para serem anunciadas, pessoas de nossa importância. Mas não é hora de palavras vãs. O rei espera com impaciência nosso retorno com o prisioneiro, ponta de lança das tropas muçulmanas. Pretende condená-lo à morte e assim forçar o inimigo a bater em retirada, sem que tenhamos de entrentar as fadigas de uma longa campanha.

— Tuas afirmações são inaceitáveis. Dhat ad-Dawahi mentiu e fez alegações sem fundamento. Ela não sabe o que está ocorrendo. Pelo Messias, este homem não é Sharr Kan e muito menos meu prisioneiro, mas apenas um viajante que pediu nossa hospitalidade e consentimos em acolher. De resto, ainda que se tratasse daquele de quem falas, seria contrário à minha dignidade entregá-lo a vós. Eu lhe concedi salvaguarda e proteção. Não me faças trair a fé jurada a um hóspede, assim me tornando objeto de escárnio diante do mundo inteiro. Volta para meu pai, beija o chão à sua frente e relata-lhe que as coisas não são como Dhat ad-Dawahi descreveu.

— Ó Senhora, eu não saberia retornar sem esse homem, de cuja captura o rei tanto espera!

— Não te metas nisso! — apostrofou ela enraivecida. — Contenta-te em transmitir minha mensagem. Ninguém te reprovará em coisa alguma.

— Não partirei sem ele.

Com a fisionomia alterada, ela lhe ordenou que parasse com a discussão. — Este homem, tendo tido a audácia de penetrar sozinho em nosso território, deve sentir-se em condições de fazer frente a cem guerreiros de uma vez, tanto mais se for Sharr Kan que, aliás, não se rebaixaria a esconder sua identidade. Se tu e teus homens se metessem em seu caminho, nem um sequer dentre vós escaparia. Contudo, já que insistes, vou enviá-lo armado de seu sabre e de seu escudo.

— Se posso enfrentar tua cólera, não saberia expor-me à ira de teu pai. Tão logo aviste esse homem, ordenarei a meus soldados que o prendam e conduzam, despojado de sua soberba, a nosso rei Hardub.

— Tua conduta revela tua infâmia. Se persistes em teu propósito, já que são cem contra um, tratem de desafiá-lo um de cada vez, guerreiro a guerreiro. Assim o rei meu pai saberá qual dentre todos é o mais valoroso.

O emir aceitou a proposta, jurando que não repassaria a ninguém a tarefa de bater-se com Sharr Kan.

— Tem paciência um momento — disse-lhe ela—, que vou avisar a ele e ver se aceita a prova. Caso contrário, nada fareis contra ele, pois eu mesma, minhas companheiras e todo o pessoal daqui daremos nossas vidas para protegê-lo.

Ela se dirigiu aonde estava o príncipe e lhe informou o que o esperava. Aliviado ao saber que ela não o traíra nem tivera parte em sua descoberta, Sharr Kan culpou a si próprio por ter penetrado nesse vespeiro, em pleno território inimigo.

— As condições que combinaste me agradam, embora deixem em desvantagem os guerreiros. Que me enfrentem, não um por um, mas dez de cada vez.

Equipado da cabeça aos pés, avançou até os inimigos. Logo o chefe deles o atacou. Tal qual um leão, Sharr Kan lhe fez frente e, de um só golpe na base do pescoço, fendeu-lhe o corpo até as entranhas, de onde a lâmina saiu encharcada. Vendo-o em ação, a princesa sentiu crescer sua estima por ele. Entendeu que, se o havia batido ao enfrentá-lo corpo a corpo, fora menos por seu valor como lutadora do que por seu encanto e beleza, aos quais, tão-somente, ele havia sucumbido.

— Seguidores do Messias, ide vingar vosso chefe! — gritou ela para os outros.

O próprio irmão de Masurah, temível e possante campeão, assumiu desafio e sofreu logo a mesma sorte, retalhado por um golpe idêntico ao primeiro. Um outro e logo outro mais foram-se sucedendo, até cinqüenta acabarem mordendo o pó sob o olhar da princesa, servindo de joguetes à lâmina terrível que os ceifava. Os sobreviventes se furtaram ao combate singular e caíram sobre ele em bloco. Firme como um rochedo, ele os triturou como grãos em um moinho, e os fez todos soltar o último alento.

A princesa mandou então suas servas verificar quem sobrava ainda no interior dos prédios.

— Ninguém, a não ser os porteiros — foi-lhe informado.

Ela se aproximou do vencedor, abraçou-o e o conduziu a seu palácio. Todavia, informaram a ela ainda haver alguns que teriam conseguido escapar, escondidos aqui e ali nos recantos do edifício. Ausentou-se por um instante e reapareceu revestida de uma espessa cota de malhas e armada com um sabre de aço da índia.

— Pelo Messias, ninguém me acusará de não ter assumido em pessoa a defesa de meu hóspede, ainda que incorra para sempre no desprezo de meus compatriotas.

Em seguida, inspecionou todos os lugares e descobriu oitenta corpos de emires juncando o solo; os outros vinte haviam fugido. À vista daquela hecatombe, cumprimentou Sharr Kan:

— Que campeão és tu, e que exemplo a ser seguido pelos melhores cavaleiros!

Enxugando sua arma manchada de sangue, o príncipe recitou:

Em meus dias de fúria quantas hostes dizimei, seus valentes dando às feras! Antes de ousardes me enfrentar, sabei dos que foram provar minha investida: quantos de seus leões eu abati, quantos corpos deitei na areia ardente!

Ela sorriu, tomou-lhe a mão e levou-a aos lábios; então se desfez da cota de malhas.

— Por que, minha dama, colocaste essa cota e te muniste de um sabre? — Para te proteger contra essa tropa.

Convocou os porteiros de guarda junto à ponte levadiça e os intimou a explicar por que haviam deixado entrar os homens de armas do rei seu pai, sem permissão dela.

— Majestade, até agora nunca fomos obrigados a pedir licença em favor de emissários do rei, sobretudo em se tratando do primaz entre os emires.

— Creio antes que vossa intenção era desgraçar-me e tirar a vida de meu hóspede.

E mandou Sharr Kan decapitá-los de imediato, gritando para o resto dos servos: — Na verdade, eles mereciam castigo ainda pior.

E, dirigindo-se a Sharr Kan, disse-lhe:

— De ora em diante não tenho mais segredos para contigo. Sou Abriza, filha do rei Hardub; e esta Dhat ad-Dawahi, a “Mãe das Calamidades” que te denunciou, é minha avó paterna. Ela não descansará enquanto não causar minha perda, como punição por ter ensejado a morte de nossos emires e por ter tomado o partido dos muçulmanos, como já devem ter espalhado por toda a região. O mais avisado é que eu parta daqui para escapar de sua vingança. Irei pois contigo para teu país. Mas fica sabendo que requeiro de ti me tratares tão bem quanto te tratei. Não te esqueças jamais disso, pois a inimizade de meu pai recairá sobre mim pelo que fiz unicamente em tua intenção.

Sharr Kan se rejubilou ao ouvir que ela o acompanharia e, com o peito repleto de alegria, exclamou:

— Por Alá, enquanto eu viver ninguém ousará tocar-te! Mas serás capaz de suportar o exílio, longe de teu pai e dos teus?

— Por certo, sim.

Sharr Kan comprometeu-se por juramento, e os dois fizeram pacto de mútua lealdade.

Lendas Medievais
 Sharr Kan  Abriza
8/20/2017 6:03:59 PM | Por Antônio L. Furtado
A lenda de Saktivega

Na cidade de Vardhamana vivia outrora um rei glorioso de nome Paropakarin. Esse poderoso monarca tinha como esposa a rainha Kanakaprabha, que éra para ele como o fulgor do raio para a nuvem escura — e sem a inconstância caprichosa daqueles clarões que ora brilham, ora se apagam. Ganhou da rainha uma filha, que o criador parecia ter concebido para abater o orgulho ostentado pela deusa Laksmi por sua beleza. Luar iluminando o mundo, revelava-se mais e mais com o passar do tempo. O rei a chamou de Kanakarekha, lembrando o nome da rainha. Quando ela atingiu a puberdade, o rei falou reservadamente com a rainha que nesse momento viera procurá-lo: — Eis que Kanakarekha cresceu e apreocupação de casá-la com homem de nível igual ao seu começa a inquietar-me. Uma filha que continua com a família é como um canto destoante: ouvi-lo causa irritação. E é também como o conhecimento, que, se é transmitido a quem não é digno, não traz fama nem mérito, mas só arrependimento. Não sei como decidir a que rei eu a poderia dar e que esteja à altura dela.

Kanakaprabha lhe respondeu sorrindo:

— Isso é o que pensas, mas não é o que nossa filha deseja. Hoje mesmo, enquanto ela brincava com suas bonecas, eu lhe perguntei quando poderia assistir a seu casamento. E ela me pediu para não falar assim, que não a deveriam dar em casamento a ninguém, que nada me obrigava a separá-la de mim. Disse estar contente em permanecer solteira, caso contrário preferia morrer! E afirmou que havia um motivo secreto por trás de sua recusa. Tais palavras me perturbaram e é por isso que vim ter contigo. De que serviria discutir sobre possíveis pretendentes para uma filha se ela se proíbe de casar-se:

Surpreso com o que a rainha dissera, o rei se dirigiu prontamente aos aposentos da filha.

— Como é possível, minha querida, negares a ti mesma o casamento, coisa que até as filhas dos devas e dos asuras desejam a ponto de razer penitência para conseguir?

De olhos voltados para o chão, a princesa ficou em silêncio por alguns instantes, e então respondeu:

— Pai, por enquanto não é isso o que quero. Porque te achas no dever de dar-me em casamento, por que tanta insistência?

— É porque sei que não tem como livrar-se de culpa quem não casa as filhas. Toda moça solteira submete-se à autoridade da família, que é responsável por ela, pois não saberia viver independentemente. Desde o nascimento, a mulher é educada para ser entregue a algum homem. Exceto durante a infância, como deixá-la então continuar na casa paterna, sem marido? Se passa da puberdade sem casar-se, seus parentes estão condenados. Torna-se uma pária, e se alguém vier a aceitá-la como esposa, é chamado marido de pária.

— Se é assim, meu pai, deves dar-me a alguém que, sendo brâmane ou xátria, tenha visto a cidade chamada Kanakapun. Tal nomem será meu marido. Senão, ó pai, é inútil atormentar-me.

Alegrou-se o rei ao ouvir que a filha admitia uma possibilidade. Mas — pensou — como poderia saber sobre a tal cidade? Não seria ela alguma deusa, nascida na casa dele para algum propósito desconhecido? Deu-lhe seu consentimento e foi cuidar de suas tarefas cotidianas.

No dia seguinte, na sala de audiência, perguntou aos homens da corte se algum deles já vira Kanakapuri, prometendo a filha e a condição de herdeiro a quem dissesse que sim. Eles se entreolharam e responderam todos que sequer tinham ouvido falar da cidade. O rei então chamou o porteiro do palácio, e lhe deu ordem de fazer apregoar por toda a capital, ao som de tambores:

— Se algum jovem, brâmane ou xátria, já viu a cidade de Kanakapuri, que o declare! O rei lhe concederá sua filha e o fará príncipe herdeiro!

Ao escutarem a proclamação, os cidadãos, estupefatos, interrogavam-se uns aos outros sobre essa cidade, cujo nome era repetido em voz alta em cada esquina. Se nem mesmo os mais velhos haviam ouvido falar nela, como poderia alguém afirmar tê-la visto? Nenhum deles declarou que a conhecia.

Nessa ocasião, havia entre os habitantes de Vardhamana um brâmane de nome Saktideva, filho de Baladeva. Presa fácil de paixões ruins, nesse mesmo dia se arruinara no jogo. Excitado ao ouvir como a filha do rei era oferecida, disse consigo mesmo:

— Agora que perdi tudo o que possuía no jogo, não tenho cara para entrar na casa de meus pais e muito menos na de alguma cortesã. Não vejo outra solução: é preciso que eu minta, dizendo aos pregoeiros que já vi Kanakapuri. Quem poderia comprovar minha ignorância? Quem já a teria visto e quando? E — quem sabe? — talvez me case com a princesa!

Com essa ideia, Saktideva abordou os homens do rei alegando ter visto a cidade. Eles o felicitaram e o acompanharam até o porteiro do palácio. A este também disse ter visto Kanakapuri. O porteiro o saudou cortesmente e o conduziu ao rei. Mesmo diante do soberano, repetiu sem hesitação a mesma balela. Para assegurar-se de que ele dizia a verdade, o rei o encaminhou à filha. Esta, já informada da chegada dele pelo porteiro, perguntou ao jovem:

— É verdade que viste a cidade de Kanakapuri?

— Por certo que sim! Eu a vi quando percorria o mundo em meus dias de estudante.

— E que caminho tomaste para chegar até ela?

— Partindo daqui, fui até Harapura. Daí segui para Varanasi e, dias depois, para Paundravardhana. De lá, por fim, cheguei à cidade chamada Kanakapuri, e vi esse lugar de delícias para os virtuosos, semelhante à cidade de Indra, cuja beleza faz o encanto dos deuses. Foi lá que acabei de instruir-me, antes de regressar para cá.

— Ora, grande brâmane — disse ela rindo. — Não há dúvida de que viste a cidade. Mas repete mais uma vez teu itinerário.

Quando ele se preparava para prosseguir com sua farsa deslavada, a princesa mandou que suas servas o pusessem para fora. Ao pai, que veio perguntar se o brâmane dissera a verdade, ela exclamou:

— Pai, de nada te serve seres rei se te dispões a agir sem refletir. Não sabes que os espertalhões fazem troça dos ingênuos: É em vão que esse brâmane tenta enganar-me; esse mentiroso vagabundo jamais viu Kanakapuri.

Ao rei Paropakarin não restou alternativa senão mandar repetir os proclamas.

Quanto ao jovem brâmane Saktideva, coberto de vergonha por ver-se insultado pela jovem, que agora desejava ardentemente como esposa, pôs-se contrito a meditar:

— Fingindo ter visto Kanakapuri não ganhei a princesa, mas apenas humilhação. Pois bem! Para conquistar Kanakarekha errarei pela terra até encontrar essa cidade, ou então perderei a vida! De que adianta viver se não consigo que ela seja minha?

Feito esse voto, o brâmane deixou a cidade de Vardhamana e tomou o caminho do sul. Atingiu a grande floresta que recobre os montes Vinddhya, tão espessa e interminável quanto sua vontade de prosseguir. Depois de atravessá-la por alguns dias, viu um lago de água fresca e transparente em um recanto solitário. Parecia um pavilhão real, sombreado pelo guarda-sol das plantas de lótus e abanado pela agitação da plumagem dos cisnes. Saktideva fez uma pausa para banhar-se.

Notou então um eremitério na margem norte do lago, cercado de árvores frutíferas. Ali avistou, sentado ao pé de uma figueira sagrada, ladeado de outros ascetas, um velho sábio, chamado Suryatapas. Uma fieira de uma centena de contas pendia de sua orelha, como que para indicar os anos de sua vida.

Saktideva se aproximou respeitosamente e o sábio o acolheu com a amabilidade devida a um hóspede. Depois de repartir frutas e outros alimentos com ele, o sábio falou:

— Queres dizer-nos, meu amigo, de onde vens e para onde caminhas?

— Venho de Vardhamana, ó venturoso, e fiz promessa de chegar a Kanakapuri, mas não sei onde fica essa cidade. Acaso saberias?

— Meu pequeno, passei 108 anos neste eremitério, mas nunca ouvi o nome Kanakapuri nesses anos todos.

— Vejo — disse Saktideva cheio de mágoa — que estou fadado a morrer vagueando em vão pelo mundo todo.

— Se estás determinado a encontrar a cidade a todo custo, então faze como te direi. A trezentas léguas daqui, encontrarás o reino de Kampilya. Nele ergue-se o monte Uttara, no topo do qual há um eremitério. Lá reside meu irmão mais velho, Dirghatapas. Vai ao encontro dele; esse ancião pode bem conhecer essa cidade.

Com a esperança renovada, Saktideva concordou e passou ali a noite, serenamente. Na manhã seguinte, apressou-se a retomar a marcha. Atravessando diversas florestas densas, com grande esforço, penetrou no reino de Kampilya e escalou o monte Uttara. Deparou-se com o asceta Dirghatapas e o saudou, e foi recebido bondosamente por ele. Esperançoso, disse ao sábio:

— Busco a cidade de Kanakapuri, da qual me falou uma princesa. Mas ignoro onde encontrá-la. Poderias dizer-me, ó bem-aventurado, por onde devo ir? Preciso achar a cidade para ganhar a princesa. O sábio Suryatapas, teu irmão, foi quem me aconselhou a recorrer a ti.

— Velho como sou, meu filho, é a primeira vez que ouço esse nome, embora eu tenha conhecido todo tipo de gente vinda de terras distantes. Nunca me falaram dessa cidade. Mas penso que deve situar-se em algum local muito distante, provavelmente em uma ilha remota. Vou ensinar-te o modo de procurá-la. No meio do oceano há uma ilha chamada Utsthala. Nela habita Satyavrata, o rico rei dos Nisadas — que vivem da pesca. Com freqüência, ele visita tudo quanto é ilha. Provavelmente já viu a cidade de Kanakapuri ou, pelo menos, ouviu falar dela. Mas, primeiro, deves dirigir-te à cidade de Vitankapura, à beira do mar. Ao chegar, trata de obter a ajuda de algum mercador que tenha um barco, e segue em companhia dele em demanda da ilha dos Nisadas.

Saktideva, acatando os conselhos do eremita, despediu-se e partiu imediatamente. Depois de viajar por longo tempo, percorrendo várias regiões, foi dar na jóia da beira do oceano, a soberba cidade de Vitankapura. Andou inquirindo e conseguiu localizar um mercador, Samudradatta, que se preparava para velejar para a ilha de Utsthala. Fez amizade com ele e o mercador o deixou embarcar em seu navio. Quando faltava pouca distância a percorrer, formou-se inesperadamente uma nuvem negra com os contornos de um demônio, com uma língua feita de raios, e que avançava fazendo reboar o trovão. Um vendaval terrível, semelhante aos embates do destino, arrebatava para cima o que era frágil e derrubava no mar tudo que lhe resistia. Vagalhões enormes como montanhas erguiam-se impelidos pelo vento. O navio era jogado para o alto e para baixo e, dentro de poucos instantes, partiu-se em pedaços, em meio aos gritos desesperados dos marinheiros.

O mercador Samudradatta, dono do barco, salvou-se agarrado a uma prancha e, depois de algum tempo, foi recolhido por outro navio. Mas um peixe enorme, de goela pavorosa como uma caverna, engoliu Saktideva assim que ele caiu no mar, sem no entanto ferir seu corpo. Quis o destino que o peixe fosse nadando até as proximidades da ilha de Utsthala. E, por puro acaso, servidores do rei dos pescadores o capturaram. Intrigados com o tamanho da presa, arrastaram o pesado corpo e o levaram a seu soberano. O rei Satyavrata, com a curiosidade despertada à vista de tal pescado, mandou que o abrissem. Do ventre aberto saiu Saktideva, são e salvo, como se nascesse do corpo da mãe pela segunda vez. Vendo o jovem brâmane sair do peixe e saudá-lo, o rei pescador lhe perguntou, tomado de espanto:

— Ó brâmane, quem és tu? Como e por que foste morar na barriga de um peixe? Que extraordinária aventura viveste?

— Meu nome é Saktideva e sou da cidade de Vardhamana. Tenho necessidade de ir a Kanakapuri. Como não conheço o caminho, andei sem destino por longo tempo. A conselho do asceta Dirghatapas, que achava que Kanakapuri poderia situar-se em uma ilha, consegui a ajuda de um mercador e velejei com ele na direção da ilha de Utsthala, para obter informações com o rei dos pescadores, Satyavrata, que nela habita. Mas o navio foi colhido por uma tempestade e fez-se em pedaços. Quando caí no mar, o peixe me engoliu e me trouxe para cá.

— Pois fica sabendo que sou o próprio Satyavrata, e esta é precisamente a ilha de Utsthala. Contudo, apesar de já ter visitado muitas ilhas, nunca vi aquela que procuras. Apenas ouvi rumores sobre sua existência nos confins do oceano.

Percebendo a aflição de Saktideva, e movido pela afeição que sentia por seu hóspede, Satyavrata apressou-se a acrescentar:

— Brâmane, não te desesperes. Passa a noite aqui e amanhã de manhã acharei algum meio de atingires tua meta.

Providenciou para que Saktideva fosse hospedado em um mosteiro. Vishnudatta, um dos brâmanes residentes, preparou-lhe uma refeição e os dois puseram-se a conversar. Quando Saktideva narrou sobre suas andanças e respondeu brevemente às perguntas do outro sobre seu país de origem e sua família, este irrompeu em lágrimas. Descobrira que eram primos, nascidos na mesma terra. Esquecendo as fadigas da viagem, Saktideva foi tomado de alegria. O encontro de um parente em terra estrangeira é como água jorrando no deserto. Teve a sensação de que a realização de seu desejo estava próxima: com efeito, um acontecimento feliz no curso de uma expedição costuma ser sinal de sucesso.

No dia seguinte, quando o sol se ergueu sobre a ilha de Utsthala, o rei dos pescadores veio ao mosteiro visitar Saktideva. Conforme prometera, tinha algo a dizer-lhe:

— O brâmane, refleti bastante e achei um modo de cumprires teu objetivo. Há no meio do mar uma ilha magnífica, que tem o nome de Ratnakuta; e há nela uma estátua de Vishnu, consagrada pelo senhor do oceano. No décimo segundo dia da quinzena clara do mês de Asadha, celebra-se ali um festival acompanhado de uma procissão. Vem gente de todas as ilhas para cumprir zelosamente suas devoções. Porventura lá estará alguém que conheça essa ilha de Kanakapuri. Vem! Vamos juntos! O dia do festival está próximo.

Saktideva concordou e reuniu muito contente as provisões de viagem que o primo Vishnudatta preparara. Subiu com elas ao barco trazido por Satyavrata, içaram as velas e partiram. Cruzavam esse mar repleto de maravilhas, onde nadavam grandes monstros marinhos semelhantes a ilhas, quando Saktideva perguntou a Satyavrata, que estava ao leme:

— O que é aquela coisa imensa que se vê lá longe saindo do mar, com a aparência de uma montanha alta provida de asas?

— E um ser sobrenatural, uma árvore banian, figueira divina. Dizem que o turbilhão gigante a se agitar debaixo dela é a entrada do inferno. Temos de navegar evitando cuidadosamente esse lugar, pois os que se aventuram par perto não voltam mais.

Mal havia Satyavrata dito estas palavras, uma correnteza começou a puxar o barco em direção ao redemoinho. Logo que notou o perigo, Satyavrata exclamou:

— O brâmane, chegou nossa hora! Olha! O barco vai naquela direçâo e não consigo mais desviá-lo! Vamos ser jogados nesse lugar horrendo que parece a garganta da Morte, a água nos arrasta, é nosso karma inevitável. Mas o que me dá pena não é morrer, nenhum corpo é permanente, o que me atormenta é não chegares, depois de todas as dificuldades suportadas, a finalmente realizar teu sonho. Enquanto me esforço para reter o barco, tenta gaigar um galho da árvore. Talvez te apareça um jeito de escapar, belo jovem, pois não se pode prever com mais certeza os caprichos do destino do que um movimento das vagas do mar.

Enquanto Satyavrata, firme em sua resolução, pronunciava estas palavras, o barco chegou perto da figueira divina. No mesmo instante. Saktideva encheu-se de ânimo e, de um salto, foi agarrar um galho da árvore que brotava do oceano. Satyavrata, porém, era tragado pela boca míemal, sacrificando o corpo junto com o navio pelo bem de um semelhante. Rerugiado sobre o galho da árvore, cuja copa da ramagem já preenchia o espaço até onde a vista alcançava, Saktideva lamentava:

— Pereço neste lugar, depois de ter causado a perda do rei dos pescadores e sem ter podido ver Kanakapuri. Mas quem ousa depender do Destino, essa divindade que continuamente repousa o pé sobre a cabeça de cada homem?

O jovem brâmane, remoendo esses pensamentos, passou o dia montado no galho. Ao entardecer, viu aproximar-se uma revoada de aves gigantescas, que faziam o ar vibrar com seus gritos, vindas de todas as direções para pousar na árvore banian. Ao se aproximarem em vôo baixo, ao vento provocado pelas asas, elevava-se o mar em ondas ao encontro delas, como movidas pela alegria de rever amigas. Escondido atrás da folhagem, Saktideva escutou os abutres pousados nos galhos a conversar em linguagem humana. Cada ave descrevia o lugar aonde fora naquele dia, ora alguma ilha, ora uma montanha, ora uma terra distante. Um velho pássaro contou:

— Hoje estive a divertir-me em Kanakapuri. Vou voltar amanhã para alimentar-me. Ao preço de uma viagem cansativa, onde acharia coisa melhor?

Com a doçura do néctar das flores, as palavras da ave fluíram pelos ouvidos de Saktideva, aliviando seus tormentos.

— Graças aos céus, essa cidade existe, e existe também um meio de atingi-la: esta ave de corpo gigantesco me transportará!

Logo que a ave adormeceu, Saktideva foi-se chegando discretamente e se acomodou, bem escondido, entre as plumas do dorso. De manhã, as aves começaram a debandar. A que levava Saktideva nas costas alçou vôo, batendo fortemente as asas. Em um instante pairou sobre Kanakapuri, à cata de comida. Pousou em um jardim e Saktideva deixou-se escorregar para o chão, sem se fazer notar. Explorando os arredores, deparou com duas mulheres que colhiam flores. Aproximou-se cortesmente delas, que o encaravam com surpresa, e perguntou-lhes:

— Encantadoras damas, que país é este e quem sois vós?

— Amigo, esta cidade se chama Kanakapuri e é habitada por vidyadharas. Uma vidyadhari chamada Candraprabha mora aqui, e nós duas somos encarregadas de cuidar de seu jardim; estas flores que colhemos são para ela.

— Por ventura podeis providenciar, é um favor que vos peço, para que eu possa ver vossa senhora?

Atendendo a seu pedido, elas conduziram o jovem ao palácio real, no centro da cidade. Era edificado sobre colunas resplandecentes de rubi, as paredes de ouro maciço, reunindo todas as riquezas imagináveis. Vendo-o chegar, os servidores de Candraprabha foram anunciar-lhe essa chegada extraordinária de um simples mortal. Ela deu instruções ao porteiro, que sem demora encaminhou o brâmane através do palácio à sua presença. Saktideva, entrando a passos lentos, contemplava essa criatura que era uma festa para os olhos, e parecia encarnar a capacidade do Criador de produzir maravilhas. Ela, subjugada por sua bela aparência, levantou-se da cadeira cravejada de jóias magníficas antes que ele chegasse mais perto, para dar-lhe as boas-vindas com o maior respeito. Quando o viu deter-se diante dela, perguntou-lhe:

— Quem és tu, jovem auspicioso, e como pudeste vir a este lugar inacessível aos mortais?

Saktideva declinou seu país, sua casta e seu nome: depois explicou que viera por causa da recompensa prometida a quem tivesse visto a cidade: a mão da grincesa Kanakarekha. Candraprabha refletiu por um instante, exalou um suspiro profundo e falou, em voz baixa, com discrição.

— Escuta, jovem encantador, presta atenção ao que vou narrar-te. Neste país reside um rei dos vidyadharas chamado Sasikhania. Nasceram-lhe, em seqüência, quatro filhas: primeiro eu, Candraprabha. que sou a mais velha; Candrarekha foi a segunda; em terceiro lugar, Sasirekrakehka e, por último, Sasiprabha. Uma após outra fomos atingindo a puberdade na casa de nosso pai. Num dia em que me vinham as regras, minhas irmãs foram todas banhar-se no rio Mandakini. Enquanto brincavam, respingaram com toda a insolência própria da adolescência, sobre um sábio chamado Agryatapas que estava imerso em meditação. Como elas não paravam com a travessura, o sábio irritado pronunciou uma maldição: “— Meninas perversas’ Renascei todas no mundo dos mortais!”. Ao ser informado, meu pai correu a apaziguá-lo, de sorte que o grande sábio consentiu em fixar as condições — muito diferentes, aliás — pelas quais cada uma seria afinal libertada da maldição. Concedeu a todas a faculdade de se lembrar de seus nascimentos anteriores durante a permanência entre os mortais, e permitiu que conservassem seu saber sobre-humano. Em seguida, depois que elas deixaram seus corpos para ingressar no mundo dos mortais, meu pai me legou esta cidade e, triste como estava, retirou-se para praticar o ascetismo na floresta.

Depois de uma pausa, Candraprabha prosseguiu:

— Saudosa de minhas irmãs, passei a viver nesta cidade. Certa noite, a deusa Ambika me apareceu em sonho e me disse: “ — Minha filha, hás de ter como esposo um homem mortal!” E por isso resisti sempre a meu pai, que me propôs diversos vidyadharas como pretendentes, e permaneci solteira até agora. Hoje, maravilhada com tua chegada extraordinária e vencida por tua beleza, entrego-me a ti! No décimo quarto dia da próxima quinzena lunar, irei ao monte Rishabha fazer a meu pai meu pedido a teu respeito. Nesse dia, os mais ilustres vidyadharas, vindo de todas as regiões do espaço, reúnem-se ali para homenagear o deus Shiva. Meu pai irá também. Logo que tiver obtido a permissão dele, voltarei depressa e tu me desposarás!

Então Candraprabha honrou Saktideva, propiciando-lhe todo tipo de prazeres a que os vidyadharas estão acostumados. Tendo consentido em ficar, gozou nesse lugar de uma felicidade comparável à que sente um homem queimado pelo fogo de um incêndio na floresta quando mergulha em um lago de néctar. Chegado o décimo quarto dia, disse Candraprabha:

— Irei hoje apresentar a meu pai o pedido. Todos os serviçais me acompanharão, mas nada te faltará nesses dois dias em que ficarás sozinho. Cuida apenas de não subir, em nenhuma circunstância, à plataforma situada no centro do palácio!

Com isso, Candraprabha partiu, abandonando o coração com o jovem, e, em troca, levando o dele.

Vendo-se só, Saktideva distraiu-se andando de um lado para o outro, entrando em cada dependência suntuosa. Lembrou-se de que a formosa vidyadhari lhe havia proibido escalar a plataforma central. Com a curiosidade despertada, decidiu subir assim mesmo. O que é proibido tem de fato um poder irrestível sobre nossa vontade! Nesse andar superior encontrou, bem dissimulados, três pavilhões fabricados com pedras preciosas. A porta de um deles estava aberta, e ele entrou. Notou no interior um divã trabalhado com jóias magníficas, com um tecido acolchoado por cima; sobre ele havia um corpo deitado, completamente envolvido em um pano macio. Erguendo o pano, descobriu estupefato a adorável filha do rei Paropakarin, que parecia morta. Vendo- a, pensou:

— Que grande maravilha é esta? Estaria ela entorpecida sem poder despertar, ou será uma ilusão que nem sei como esconjurar? A mulher pela qual eu me exilei está aqui, diante de meus olhos, sem vida, enquanto em meu país está viva; e, mesmo aqui, sua beleza permanece inalterada! É certamente uma feitiçaria, com que o Criador me põe à prova por alguma razão!

Saiu do pavilhão e entrou sucessivamente nos outros dois, onde viu igualmente duas jovens. Admirado, foi para fora do palácio e ficou sentado, pensando. Viu então mais abaixo um belo poço e, junto à borda, um corcel com uma sela incrustada de pedrarias. Desceu cheio de curiosidade e tentou montar no cavalo, mas este com um coice o projetou no poço. Submergiu na água e logo voltou à tona, olhando em redor cheio de espanto: estava no meio de um tanque oblongo situado no parque de Vardhamana, sua cidade natal! Estava de volta à pátria, em pé dentro d’água, tal como os talos dos lótus do tanque. E já lamentava a falta de Candraprabha.

— Que diferença entre Vardhamana e a cidade dos vidvadharas! Que prodígio de magia foi este? Como foi que eu, pobre de mim, fui enganado? Quem fabricou esta ilusão? Não podemos prever o que o destino nos reserva!

Tratou de sair do tanque e dirigiu-se à casa paterna, onde contou suas aventuras e foi bem recebido pelos familiares.

Na manhã seguinte, ao sair de casa, ouviu de novo a proclamação, feita ao rufar do tambor:

— Se algum jovem, brâmane ou xátria, realmente viu a cidade de Kanakapuri, que o declare! O rei lhe concederá sua filha e o fará príncipe herdeiro! Saktideva abordou alegremente os pregoeiros e, mais uma vez, lhes disse:

— Eu, sim, já vi essa cidde!

Eles o levaram rapidamente ao rei, mas o monarca o reconheceu e deduziu que, como antes, ele estava mentindo. Saktideva insistiu:

— Ponho minha vida em jogo! Que a princesa me interrogue imediatamente e, se o que digo é falso, se não vi a cidade, que eu seja punido com a morte!

O rei mandou que pessoas de seu séquito o levassem à princesa. Quando ela viu esse brâmane com o qual já tivera uma experiência, foi logo dizendo ao rei:

— Pai, esse indivíduo vai contar-nos de novo alguma invencionice!

E Saktideva, sem mais delongas:

— Princesa, talvez te diga a verdade, talvez uma mentira. Mas uma coisa me intriga: como posso ver-te viva aqui em Vardhamana, quando te estendes sem vida sobre um divã em Kanakapuri?

Assim que ouviu Saktideva dar-lhe essa prova irrefutável, a princesa Kanakarekha disse ao rei:

— Pai, este nobre jovem verdadeiramente viu a cidade e, daqui a pouco tempo, quando eu de novo habitar naquele lugar, ele se tornará meu marido. Também desposará minhas três outras irmãs e reinará sobre os vidyadharas. Hoje devo retornar a meu corpo e a minha cidade. Com efeito, foi uma maldição lançada por um asceta que me fez renascer um dia em tua casa. O sábio, abrandando a ira, assim fixou seu término no meu caso: “— No momento em que, estando tu na condição de mortal, um ser humano descobrir teu corpo na cidade de Kanakapuri, e revelar a verdade, estarás liberta da maldição e ele será teu esposo.” Assim se explica porque eu, embora humana ainda, tenha podido lembrar-me de minha existência anterior, e tenha possuído conhecimentos sobre-humanos. Agora volto para casa, onde moram os vidyadharas, a fim de recuperar meus poderes!

Com estas palavras a princesa desapareceu, enquanto a agonia e a confusão tomavam conta do palácio.

Decepcionado pela segunda vez, rememorando como havia ganho duas criaturas adoráveis, ao custo de dificuldades quase insuperáveis, sem no entanto torná-las suas, Saktideva afastou-se do palácio real. Acusava-se por não ter sabido converter em realidade suas aspirações. Mas, um instante depois um pensamento lhe ocorreu:

— Kanakarekha me predisse que eu alcançaria meu desejo, por que então me desespero? Irei de novo a Kanakapuri, pelo mesmo caminho e, sem dúvida alguma, o destino permitirá minha chegada — seja de que jeito for!

Aqueles que são resolutos não abandonam uma missão sem atingir a meta. Decidido e confiante, Saktideva partiu de Vardhamana. Depois de uma longa viagem, novamente chegou à cidade de Vitankapura, junto às dunas do litoral. Percorrendo as ruas, viu-se cara a cara com o mercador Samudradatta, em cuja companhia havia embarcado. Duvidou de seus próprios olhos: não o vira cair no mar, quando o navio dele se partira ao meio? Surpreendeu-se ao dar com um homem que julgava morto. Samudradatta, por sua vez, também o reconheceu e, contente por ele ter sobrevivido, correu a abraçá-lo.

Em seguida convidou Saktideva a hospedar-se em sua casa e, depois das cortesias de praxe, perguntou como havia podido salvar-se após o nautrágio. O jovem brâmane contou-lhe como fora engolido por um peixe e transportado na barriga dele até a ilha de Utsthala, e então quis saber como o negociante conseguira escapar.

— Depois de cair no mar, agarrei-me a uma prancha e fiquei boiando à deriva por três dias, quando de repente vi passar um navio. Aos gritos, atraí a atenção da tripulação e eles me guindaram para bordo. No navio encontrei meu pai, que um dia havia partido para uma ilha longuinqua e depois de tanto tempo. Ele me reconheceu e enlaçou meu pescoço em lagrímas, e me pediu que lhe narrasse minha história. Expliquei como, na ausência dele e sem saber se retornaria, eu me havia dedicado aos negócios, por ser a ocupação apropriada à minha casta. E fui contando tudo até nossa expedição através do mar, terminada com o naufrágio, quando então, por ordem dele, fui recolhido a bordo e agora me alegrava de estar em sua presença. Meu pai me respondeu em tom de censura: por que eu arriscava a coda desse modo? Ele possuía muitos bens e pretendia adquirir muitos mais: nesse momento voltava com o navio carregado de ouro! Depois de reconfortar-me com essas palavras, meu pai me levou em seu navio a Vitankapura, deixando-me em casa.

Finda a narrativa de Samudradatta, Saktideva foi repousar, cassando a noite na casa do mercador. De manhã, veio falar com ele:

— O negociante, é urgente que eu me dirija de novo à ilha de Utsthala. Poderias dizer-me como devo proceder?

— Uns homens que efetuam transações em meu nome estão neste momento a ponto de ir para lá. Podes perfeitamente partir com eles.

Saktideva seguiu o conselho do mercador e navegou para a ilha de Utsthala em companhia de seus prepostos. Uma vez na ilha. lembrou-se de seu parente Vishnudatta; como da vez anterior, seria bom acomodar-se ao lado do primo no mosteiro. Foi nessa direção, tomando um caminho que atravessava o mercado.

Quis o destino que os filhos de Satyavrata, o rei dos pescadores, o notassem quando ele passava. Reconheceram-no imediatamente e exclamaram:

— Brâmane! Foste tu que partiste em companhia de nosso pai em busca de Kanakapuri. Como explicas que és o único a retornar?

— Vosso pai foi tragado pelas águas, arrastado com seu barco para uma boca do inferno que se escancarou sob o mar.

Furiosos, os filhos do rei pescador bradaram para seus homens de armas:

— Prendei este criminoso, ele matou nosso pai! Como é possível que, dentre duas pessoas no mesmo barco, uma caia nas chamas do inferno e a outra escape? Amanhã, na hora do nascer do sol, ofereceremos o assassino de nosso pai como vítima sacrificial à deusa Durga!

Os homens armados obedeceram e conduziram Saktideva acorrentado ao horripilante templo de Candika, “a Violenta”, forma terrível da esposa de Shiva. O interior do templo, como um ventre inchado, fartava-se com a ingestão contínua de seres humanos; orlado de longas enfiadas de sinos, como arcadas cheias de dentes, dir-se-ia que era a fauce da Morte. Durante a noite, temendo pela vida, Saktideva ergueu os braços encadeados e orou a Durga:

— Ó deusa, nesta tua forma — que, por teres bebido o sangue rubro vomitado pela garganta do demonio Ruru, assemelha-se ao disco do sol nascente — ergue-te, vem proteger o mundo! Ó dispensadora de favores! Concede tua proteção a mim que constantemente me prosternei diante de ti; a mim que, tendo vindo de muito longe na sede de obter aquela a quem amo, caí sem ter cometido qualquer falta nas mãos de inimigos!

Após a prece à deusa, Saktideva acabou adormecendo. Mergulhado no sono, viu uma mulher de aspecto divino aproximar-se dele, saída do santuário do templo. Como que tomada de compaixão por ele, disse estas palavras:

— O Saktideva, não tenhas medo, nada de mal te acontecerá. Os filhos do rei pescador têm uma irmã chamada Bindumati. Ao amanhecer, essa jovem, logo que te enxergar, irá pedir-te para seres seu esposo. Tu consentirás e ela fará com que te libertem. Ela não pertence à casta dos pescadores — é uma criatura celeste, decaída por causa de uma maldição.

Ao ouvir isso, ele acordou e permaneceu desperto pelo resto da noite. Quando rompeu a aurora, uma beldade dentre as filhas dos pescadores, verdadeira bebida da imortalidade a derramar-se diante de seus olhos insones, penetrou no templo da deusa. Chegou-se a ele, impelida pelo desejo, pronta a oferecer-se:

— Farei com que te soltem deste lugar, se fizeres o que quero. Até hoje recusei todos os pretendentes escolhidos por meus irmãos, e no entanto, logo que te vi, o amor me invadiu — possui-me!

Era Bindumati, filha do rei dos pescadores, que assim vinha falar-lhe. Rememorando o sonho, Saktideva, radiante, pôs-se de acordo sem hesitação. Ela fez com que o livrassem e ele desposou a linda jovem. Os irmãos se conformaram com a vontade dela, tendo recebido em sonhos a ordem de Ambika, face materna da deusa.

Saktideva deixou-se ficar na ilha de Utsthala com essa criatura divina que lhe fora dada sob forma humana. Um dia, recostado no terraço de sua morada viu passar na estrada um pária que levava um carregamento de carne de vaca. Comentou com sua amada:

— Olha, ó mulher detalhe esbelto! As vacas devem ser reverenciadas nos três mundos; como pode esse infame consumir sua carne?

— Esposo querido isto é de fato um pecado, um ato inconcebível — que mais se pode dizer? Se o poder sobrenatural das vacas me fez nascer nesta família de pescadores, tendo eu cometido uma ofensa mínima contra elas o que deveria sofrer esse indivíduo para expiar seu crime?

— Ora, que coisa! Mas dize-me, minha cara, quem és afinal: E como foi que nasceste entre os pescadores?

Como Saktideva não parava de pressioná-la com sua curiosidade, ela declarou que lhe daria uma resposta, apesar de ser um segredo, se ele concordasse em fazer aquilo que ela iria indicar depois. Ele se comprometeu por força de juramento, e só então ela lhe expôs o que teria de fazer:

— Em pouco irás arranjar mais uma esposa nesta ilha, e logo ela ficará grávida. No oitavo mês, tu lhe abrirás o ventre e arrancarás o embrião — não, não fiques horrorizado!

Ela nem terminara de falar e Saktideva já protestava, perplexo e com visível repugnância, arrependido da promessa imprudente. Não podia entender que sentido teria um ato tão contrário a seus sentimentos de compaixão.

— Pois é o que terás de fazer, e por trás disso há um motivo que não posso revelar. E agora escuta quem sou eu e como vim a nascer entre os pescadores. Fui outrora, em outra existência, uma vidyadhari, mas uma maldição me condenou a viver no mundo dos mortais. E porque, enquanto eu era ainda vidyadhari, para ajustar as cordas de minha vina cortei-as com os dentes, fui fadada a nascer na casa de um pescador. É que minha boca havia tocado em tendões esticados de bovinos, de que são feitas as cordas desse tipo de alaúde. Se só por um simples contato tive de sofrer tal rebaixamento, que castigo caberia a quem se atreve a comer a carne desses animais?

Mal terminara de falar, quando um de seus irmãos entrou precipitadamente e disse a Saktideva:

— Levanta-te e foge com tua mulher! Um javali enorme, saído não se sabe de onde, está vindo para cá, deixando incontáveis vítimas pelo caminho!

Saktideva desceu rápido do terraço, montou em um cavalo e, empunhando um chuço, precipitou-se à procura do javali. Tratou de espetá-lo, logo que o avistou. Quando o valente brâmane voltou a atacá-lo, o javali, sentindo-se ferido, fugiu e se meteu em uma caverna com Saktideva atrás dele, sempre a persegui-lo. Dentro da caverna, ele divisou uma habitação erguida na amplidão de um parque. Lá avistou uma jovem de estonteante beleza, a vir apressada em sua direção; bem poderia ser a deusa da floresta, acorrendo por amor ao encontro dele.

— Quem és, ó encantadora? E o que te perturba?

— Amigo, sou a donzela Bindurekha, filha do rei Candavikrama, que reina sobre a região do sul. Um diabólico daitya de olhos flamejantes me seqüestrou ardilosamente da casa de meu pai e me trouxe para cá. Esfomeado, tomou forma de javali e saiu à caça de uma presa. Algum herói o trespassou com seu chuço, agora mesmo. Acabou de voltar ferido e está morto. Com isso estou livre dele, e mantive intacta minha virgindade.

— Cessa de inquietar-te, princesa. Fui eu que, com meu chuço, matei esse javali.

Às perguntas dela, respondeu ser um brâmane de nome Saktideva, e ela de imediato o convidou a tornar-se seu esposo, ao que o jovem consentiu com igual presteza. Saíram juntos pela abertura da caverna. De volta à casa, ele narrou o acontecido à mulher. Com a aprovação dela, casou-se com a princesa Bindurekha.

Mais tarde, embora Saktideva coabitasse com as duas, somente uma, Bindurekha, ficou grávida. Ao completar o oitavo mês, a primeira mulher, Bindumati, veio dizer-lhe sem preâmbulos:

— Ó herói! Lembra-te do que me prometeste! Eis que chegou o oitavo mês de gravidez de tua segunda esposa. Vai! Corta a barriga dela e traze-me o embrião! Não podes faltar com a palavra dada sob juramento!

Saktideva, cheio de ternura e compaixão mas ligado pelo compromisso, ficou paralisado por um instante, sem resposta. Depois saiu, tomado de agitação, e foi procurar Bindurekha. Esta, vendo-o chegar com o semblante abatido, tentou tranqüilizá-lo:

— Caro esposo, bem seio que hoje te desespera: Bindumati te envia para que extraias o embrião que trago no ventre. Deves fazer isso a todo custo, pois o ato tem uma razão oculta. Não te aterrorizes, não estarás cometendo vilania alguma. Arranca sem remorso o embrião que carrego, tal como te mandou Bindumati.

Malgrado as palavras de Bindurekha, Saktideva continuava temeroso de incorrer em um pecado. Uma voz então veio do céu:

— Arranca sem inquietude o embrião dessa mulher, Saktideva; ele se transformará em espada!

Ouvindo as palavras divinas, não hesitou mais: fendeu o ventre da mulher, arrancou rapidamente o embrião e o brandiu no ar, seguro pelo pescoço. Apenas o empunhara e ele se transformou em uma espada, longa como a cabeleira da Fortuna, que acabava corajosamente de conquistar! O brâmane se metamorfoseou em vidyadhara, ao mesmo tempo em que Bindurekha desaparecia.

Sob sua nova forma, acorreu a contar a Bindumati o que se passara com a segunda esposa. Disse a filha do rei pescador:

— Senhor, somos três irmãs, filhas de um rei dos vidyadharas, banidas de Kanakapuri em conseqüência de uma maldição. A primeira é Kanakarekha; tu assististe ao fim de sua maldição em Vardhamana, e ela está agora de volta em sua cidade. O destino quis que, para a segunda, a maldição terminasse daquele modo extraordinário. Eu sou a terceira, e minha maldição chega agora ao fim. Hoje mesmo, carinhoso amigo, devo voltar à minha cidade, onde se encontram nossos corpos de vidyadharis. Nossa irmã mais velha, Candraprabha, sempre esteve lá, onde a encontraste. Vem tu mesmo comigo, vem ligeiro!, agora podes voar graças aos poderes mágicos de tua espada! Nosso pai, que se retirou para a solidão da floresta, dará sua permissão: tu nos tomarás, todas as quatro, como esposas — e reinarás sobre nossa cidade.

Saktideva aquiesceu e, acompanhado por Bindumati, que acabara de revelar sua verdadeira história, dirigiu-se pelo caminho dos ares para Kanakapuri. Pousando, viu inclinar-se diante dele, com Kanakarekha à frente, suas três amadas, cujas almas haviam reentrado nos corpos femininos que observara antes, estendidos sem vida sobre os sofás dos três pavilhões. Viu também a quarta, a irmã mais velha, Candraprabha, que cumpria os ritos de bom augúrio por sua chegada, e o bebia com um olhar langoroso por ter ficado por tanto tempo à espera dele. Servos e servas, cada um aplicado à sua tarefa, saudaram alegremente o recém-chegado. Uma vez na intimidade dos aposentos privados, Candraprabha revelou por fim quem era de fato cada uma:

— Caro esposo, eis minha irmã Candrarekha; foi ela uma vez a princesa Kanakarekha que encontraste na cidade de Vardhamana. Minha irmã Sasirekha, aqui presente, era Bindumati, a filha do rei dos pescadores, que desposas­te em primeiro lugar na ilha de Utsthala. Eis por fim minha caçula, Sisiprabha; era a princesa Bindurekha com quem te casaste em seguida, depois que um demônio a carregou para aquela caverna. Agora vem conosco diante de nosso pai, ó afortunado, para receber sua concordância, e depois — depressa! — trata de desposar-nos todas!

Candraprabha falara com a ousadia dos que seguem os comandos do deus cujas flechas são flores. Quando ela terminou, Saktideva se dirigiu em companhia das quatro para a floresta, ao encontro do pai delas.

Ali, como lhe suplicavam em coro as filhas prosternadas a seus pés, e como, ao mesmo tempo, uma voz vinda do céu lhe prescrevia, o soberano dos vidyadharas, o magnânimo Sasikhandapada, com o espírito jubilante, concedeu-as, sem excetuar nenhuma, a Saktideva. Em seguida transferiu-lhe o domínio real sobre a próspera Kanakapuri, assim como a totalidade de seus conhecimentos mágicos.

— És poderoso demais para que outro rei qualquer te vença!

Para culminar a sagração, atribuiu ao herói o nome de Saktivega, conforme os usos dos vidyadharas.

Recebendo vênia do sogro para despedir-se, Saktivega, rodeado de suas esposas queridas, entrou como rei em Kanakapuri, glória do mundo dos vidyadharas. Nessa cidade, onde o ouro faz refulgir os templos, e que, por localizar-se nas alturas, parece feita dos raios condensados do sol caindo com violência entre os jardins, e onde escadarias incrustadas de jóias conduzem ao jorro d’água dos chafarizes, ele atingiu a felicidade perfeita em companhia de suas quatro bem-amadas de olhos encantadores.

Mitologia Indiana
   Saktivega
8/20/2017 2:47:16 PM | Por Antônio L. Furtado
O mito de Perseu

Quando Acrísio, rei de Argos, perguntou ao oráculo de Delfos como poderia obter prole masculina, o deus Apolo limitou-se a responder-lhe: — Tua filha conceberá um filho, que te matará. Temeroso da profecia, Acrísio mandou construir uma câmara subterrânea de bronze, e nela manteve Dânae confinada. Lá, o próprio Zeus veio a ela, sob a forma de uma chuva de ouro que se derramou através do teto em seu regaço. Sabendo Acrísio, mais tarde, que Dânae dera à luz um filho, com o nome de Perseu, recusou-se a acreditar ter sido ela seduzida por Zeus. Encerrou a mãe e a criança em um cofre de madeira e lançou-o ao mar. O cofre foi jogado pelas ondas a uma praia em Sérifo. Lá foi encontrado e recolhido por Díctis, irmão do rei Polidectes, mas reduzido a viver na condição de pescador pobre e humilde. Díctis deu abrigo a mãe e filho, e o menino foi criado com toda a dedicação que só um pai saberia dar.

Polidectes, com o passar dos anos, foi-se tomando de paixão por Dânae, mas não podia aproximar-se dela. Perseu, filho de Dânae e do divino Zeus, crescera em estatura e força e, já homem, adestrado no combate, protegia a mãe zelosamente. O rei então convocou seus amigos, e chamou também Perseu, sob o pretexto de coletar contribuições para o presente de casamento de Hipodamia, filha de Enômao.

Perseu se adiantou afoitamente, quis logo gabar-se: não pouparia esforços para trazer o que o rei escolhesse, mesmo se fosse a cabeça de uma Górgona. Polidectes pôde assim preparar sua perda. Falando com moderação, pediu a cada um para contribuir com um cavalo para o presente de núpcias — mas esse era um bem que Perseu não tinha para dar. Polidectes ordenou-lhe então que, enredado por suas palavras imprudentes, trouxesse a cabeça da Górgona.

Guiado pelos deuses Hermes e Atena, Perseu viajou até a morada das Gréias no País da Noite. As Gréias — Enio, Pefredo e Dino — eram as guardiãs do caminho para as temíveis Górgonas, suas irmãs. Pois só as Gréias sabiam como encontrar as ninfas que possuíam os objetos indispensáveis para enfrentar as Górgonas, e guardavam o segredo com firmeza imquebrantável.

Nascidas velhas, as três Gréias usavam apenas, uma por vez, um só olho e um só dente, que trocavam entre si, numa ronda recomeçada sem cessar. Perseu se escondeu no meio delas. E quando uma, voltando a ser cega nesse curto instante, estendia a mão para passar o olho e o dente à outra, também nas trevas ainda, foi a mão ardilosa do herói que os recebeu.

— E somente os tereis de volta se me mostrardes onde achar as ninfas!

Elas apontaram o caminho, não lhes restava outra escolha. Das ninfas, sem resistência, ele recebeu as sandálias aladas, a kibisis em forma de sacola e o capacete de Hades. E, dos deuses, já recebera as armas. Cingindo pois a recurva lâmina adamantina de Hermes e o escudo de bronze polido que Atena lhe emprestara, Perseu agitou os calcanhares e, pelo poder das asas das sandálias, transpôs o oceano.

Cruzando os ares, chegou por fim ao lugar onde se ocultavam as Górgonas: Ésteno, Euríale e Medusa, filhas de Fórcis e Ceto, irmão unido à irmã, ambos gerados outrora pelo mar. Elas dormiam descuidadas, visões malignas com cabelos de serpente, presas de javali, mãos de bronze e asas de ouro afeitas aos longos vôos, e olhar que petrificava quem as contemplasse.

Pairando no ar e desviando os olhos para que um súbito olhar delas não o petrificasse, Perseu não mais ousou do que entrever, espelhado no escudo, o vulto adormecido da Medusa, única mortal entre imortais. Fixando os olhos na imagem refletida, e tendo Atena a dirigir-lhe o braço, o herói ceifou com a espada a cabeça do monstro e, sempre com o rosto desviado, recolheu-a com segurança ao fundo da kibisis. Do corpo da Medusa, em estertor de morte, saltaram Pégaso, cavalo alado, e o gigantesco Crisaor, engendrados nela pela semente deixada um dia por Poseidon.

Despertadas pelo gesto violento, Ésteno e Euríale se precipitaram contra o vencedor agora em fuga. Mas, invisível sob o capacete de Hades, ele escapou e seguiu voando para bem longe pelo céu noturno.

Os cavalos da noite completaram com o passar das horas seu curso veloz. O divino Eolo já havia detido os ventos em sua prisão no monte Etna, e já subira ao céu a brilhante estrela da manhã, mensageira que acorda os homens para suas tarefas diárias. Despertando do sono. Perseu levantou-se, retomou as asas e as prendeu de um lado e do outro de ambos os pés, cingiu de novo a espada recurva e, logo, movimentando os calcanhares para agitar as asas, novamente levantou vôo e pôs-se a atravessar os ares.

Deixando para trás inúmeras regiões habitadas por gentes diversas, avistou por fim a terra dos etíopes, reino de Cefeu e de Cassiopéia. Formosa como era, essa rainha ousara presumir-se mais linda do que as Nereidas, ninfas do mar, servidoras queridas de Netuno. Elas, enciumadas, clamaram a seu deus e ele as vingava, chamando das profundezas um monstro para devastar a Etiópia. E agora, para punir as palavras orgulhosas da mãe, o oráculo de Amon injustamente condenava a filha, decretando que Andrômeda fosse exposta na praia, oferecida em sacrifício ao monstro como único modo de aplacar sua fúria.

Obediente ao oráculo, essa gente feroz e embrutecida expôs à besta cruel, na beira do mar, a belíssima mulher assim desnuda como a Natureza um dia a compusera. Nem um véu lhe restava a cobrir a brancura de lírios e o rubor de rosas que, sem fenecer aos rigores de julho ou de dezembro, seus membros esbeltos coloriam.

Assim a encontrou Perseu, imóvel, encadeada às duras rochas pelos braços. Maravilhado, o herói talvez pensasse que era estátua, de um mármore sem par — não visse a lágrima rolar na face e os cabelos ao vento, a esvoaçar. Emudeceu, tomado de um ardor desconhecido. Arrebatado pela visão de suas formas perfeitas, quase esquecia de fazer bater as asas das sandálias. Pousou, afinal, e disse:

— Não são essas as cadeias que te convêm, mas sim aquelas feitas para unir os amantes que um ao outro se desejam. Peço que me digas teu nome e o de teu país, e por qual motivo te oprimem essas correntes.

Ela, a princípio, calou-se. Em sua inocência, não ousava dirigir-se a um homem, e teria escondido o rosto nas mãos se não estivessem ligadas. Respon­deu apenas com os olhos, que se encheram de lágrimas. Diante da insistência dele, para não levá-lo a achar que ela tentava disfarçar alguma falta cometida, indicou seu nome e o de sua terra, e disse o quanto sua mãe se gabara da própria formosura.

Ainda não terminara de falar, quando o ruído das ondas soou mais forte, e a fera gigantesca veio emergindo da imensidão do mar, rompendo a longa crista das vagas. A jovem gritou. E o pai e a mãe também presentes, ambos angustiados, nenhuma ajuda lhe davam, mas somente clamores e lamentações, abraçando-se a seu corpo acorrentado.

O estrangeiro lhes falou então:

— Não é hora para lágrimas e resta muito pouco tempo para agir. Se me atrevo a pedir-vos o dom desta jovem, saibam: sou Perseu, nascido de Júpiter e da mulher que o deus impregnou com uma chuva de ouro. Sou aquele que venceu a Medusa dos cabelos de serpente, e ousou atravessar os ares com sandálias aladas. Decerto, isso bastaria para que me preferissem a qualquer outro pretendente. Pois acrescento o esforço que tentarei realizar, se os deuses me favorecerem; que ela seja minha, portanto, se a puder salvar com meu valor.

Os pais aceitaram as condições — como poderiam hesitar? — e lhe suplicaram que a socorresse, prometendo dar-lhe o reino como dote, junto com a filha.

Eis que, como um navio aponta para a frente o esporão da proa e sulca as águas impelido pelos braços suarentos dos marinheiros, assim vinha a fera impetuosa, com o peitoral erguido, quebrando a barreira das ondas. Já se aproximava do rochedo, à distância a que uma funda pode arremessar um petardo de chumbo, quando de repente o jovem herói, com o impulso dos pés alados, lançou-se do chão para as nuvens. Vendo a sombra dele espelhada na água, a besta furiosa atacou a sombra. Nesse momento, Perseu deixou-se cair através do ar, precipitando-se contra o dorso da fera, e cravando a lâmina curva do ferro no vão da espádua direita.

Gravemente ferida, a criatura ora se arremessava para o alto, ora mergulhava fundo, ora se voltava atacando como javali feroz acuado por matilha ladradora de cães. Perseu tratava de escapar das mordidas ávidas, com o auxílio das asas velozes. E onde quer que se apresentasse uma abertura, fosse por trás, em meio à cobertura de conchas, ou nos flancos, ou onde o corpo se estreitava em forma de cauda de peixe, golpeava com sua lâmina em foice. A fera vomitava pela gorja água salgada misturada com sangue púrpuro, que, ao jorrar, se impregnava as penas das asas nos calcanhares de Perseu, tornando-as cada vez mais pesadas.

Já não ousando depender das asas, o herói avistou uma ponta rochosa que se mantinha acima da superfície, mesmo quando varrida pelo mar agitado. Baixando sobre ela e segurando-se com a mão esquerda a uma aresta da rocha, por três vezes e ainda por uma quarta vez cravou o ferro nas entranhas do monstro.

Ergueu-se nas margens um clamor de aplauso, que chegou até a morada dos deuses. Os pais de Andrômeda, Cefeu e Cassiopéia, se rejubilaram e saudaram Perseu como genro, e o chamaram de salvador de sua casa. Livre das cadeias, a própria jovem se adiantou, causa e agora prêmio de seu trabalho heróico.

Ele lavou na água as mãos vitoriosas. E para que a aspereza da areia não danificasse a cabeça coberta de cobras da Medusa, recobriu o chão de folhas, espalhou sobre elas algas marinhas e ali depôs o troféu. As algas frescas, vivas ainda, absorveram em seu interior os eflúvios do poder do monstro, com esse contato endureceram, tomadas de uma estranha rigidez nos caules e nas folhas.

Conta-se que, tempos depois, as ninfas do mar vieram experimentar, com outros ramos de algas, essa prodigiosa metamorfose em pedra, e se alegraram ao vê-la repetir-se. Saíram lançando ramos pelas ondas para semeá-los, e é esta a origem dos corais que até hoje conservam sua natureza: ganham rigidez quando expostos ao ar — de plantas macias na água, tornam-se pedras fora dela.

Perseu ergueu, para três deuses, três altares de turfa: o da esquerda para Hermes, o da direita para Atena, o do centro para Zeus. Sacrificou uma vaca à deusa guerreira, um vitelo a Hermes, um touro ao deus supremo. Prontamente, reclamou Andrômeda como único prêmio de seu grande feito, dispensando o dote oferecido. Mas Fineu, irmão de Cefeu, a quem Andrômeda fora antes prometida, conspirou com seus sequazes para matá-lo. O herói no mesmo instante descobriu a trama. Mostrou-lhes a cabeça de Medusa e os transfor­ mou em pedra.

Celebraram-se então as felizes bodas. Os deuses Himeneu e Amor agitavam à frente deles as tochas nupciais. As chamas eram continuamente alimentadas com essências perfumadas; grinaldas enfeitavam as casas e em toda parte soavam liras, flautas e cantos, como sinais da felicidade que alegrava os ânimos das gentes. Descerradas as portas do palácio, abriu-se o salão dourado pre­ parado para o rico banquete, e entraram os principais da corte de Cefeu, entre muitos convivas.

Voltando com Andrômeda a Sérifo, soube Perseu que sua mãe se refugiara com o leal Díctis, junto aos altares dos deuses, para escapar do assédio e da violência de Polidectes. Perseu penetrou no palácio em que o rei se cercara de seus amigos. Desviando o rosto, mostrou-lhes a cabeça da Górgona, a qual prometera trazer, e todos que a olharam foram transmutados em pedra, cada um fixado para sempre na posição do gesto iniciado.

Díctis, o pobre pescador, era agora rei de Sérifo, por vontade de Perseu. O herói entregou a kibisis e o capacete a Hermes, que os devolveu às ninfas. Mas devotou a Atena a cabeça de Medusa, que a deusa engastou no centro de seu escudo.

Apressou-se então Perseu a voltar a Argos, sua terra natal, levando consigo Dânae e Andrômeda, desejando reunir-se ao avô Acrísio. Mas este, ao lhe contarem que se aproximava o fruto malsinado de seu sangue anunciado pelo oráculo, deixou Argos e partiu para Larissa, na terra dos Pelasgos. Ali, o rei Tentâmides convocava os jovens de todas as terras para jogos atléticos em honra de seu pai falecido, e Perseu veio também competir.

Participava do pentatlo quando, ao atirar o disco, atingiu Acrísio no pé, matando-o instantaneamente. Percebendo que o oráculo se cumprira, Perseu sepultou Acrísio fora da cidade. Contrito e envergonhado de voltar a Argos para assumir a herança daquele que morrera por sua mão, dirigiu-se a Tirinto, à procura de Megapentes, filho de Preto, e com ele fez uma troca: entregou-lhe Argos e passou ele próprio a reinar sobre Tirinto. De Perseu e Andrômeda nasceram fihos, um deles Eléctrion. De Eléctrion nasceu Alcmena, e de Alcmena, visitada por Zeus, nasceu Héracles, o dos doze trabalhos para glória de Hera.

Mitologia Grega
Atena, Zeus Perseu Medusa Andrômeda, Acrísio, Dânae
8/13/2017 2:29:39 PM | Por Mirella Faur
A queda de Idunna para o mundo subterrâneo

Junto com seu marido Bragi, deus da poesia, Idunna vivia no palácio Brunnaker, de onde saía com seu baú de maçãs mágicas para distribuí-las diariamente aos deuses. Um dia, ela estava sentada sobre um galho de Yggdrasil, quando de repente enfraqueceu, perdeu o equilíbrio e caiu, indo até o mais profundo nível de Nifelhel. Lá ela permaneceu pálida e imóvel, olhando aterrorizada para o sombrio e frio reino de Hel, tremendo violentamente, sem conseguir parar. Preocupado com sua ausência, Odin pediu que os deuses Bragi e Heimdall saíssem a sua procura, dando-lhes um manto de pele de lobo branco e orientando- os para fazerem o possível e tirarem Idunna do seu estupor. Idunna permitiu ser enrolada no manto, mas recusou-se a falar ou a se mexer, permanecendo triste e com lágrimas descendo sem cessar pelo seu rosto pálido. Bragi, preocupado com o o estado delicado da sua esposa, decidiu permanecer ao seu lado, até que ela melhorasse do inexplicável mal. Apreensivo e entristecido, Bragi não mais entoou suas canções, nem tocou a sua harpa, até que Idunna se restabeleceu, de repente, voltando ambos para Asgard no início da primavera.

A queda de Idunna simboliza o outono, quando as folhas das árvores caem e se amontoam inertes no chão, sendo cobertas pelo manto branco de neve, simbolizado pela pele branca de lobo, enviada por Odin, o deus celeste. O silêncio de Bragi representa o cessar dos cantos dos pássaros, enquanto a inércia e o silêncio de Idunna - deusa da vegetação - são metáforas da morte da vegetação no inverno, aguardando o seu renascimento na primavera. Como deusa renovadora, Idunna é ligada à Arvore do Mundo e ao seu poder primal, sendo a regente das estações, dos ciclos da natureza e do eterno movimento de morte e renovação. O mito de Idunna tem vários elementos similares a outros ligados ao renascimento, como a conquista de Gerd por Frey, o despertar de Sigrdrifa por Sigurdh (Völsunga Saga), o simbolismo da mulher poderosa aprisionada por gigantes e o seu resgate pelo herói com a morte dos algozes, como um retrato da eterna luta entre deuses e gigantes.

Assim como Hel atuava no mundo subterrâneo, Idunna agia na superfície da terra, remodelando e renovando. Por isso os mortos eram enterrados desde a Idade do Bronze cercados de maçãs ou de ovos tingidos de vermelho, na esperança do seu renascimento. No Ragnarök, Idunna mergulhava na terra, desaparecendo sob as raízes de Yggdrasil, de onde reaparecia no Novo Mundo, após a purificação e renovação da terra, marcando o início de uma nova era, a Idade de Ouro.

Seus símbolos, além das maçãs da juventude, eram as sementes, que representavam a energia concentrada e explodiam ao se abrirem para a vida. Idunna era vista como uma deusa da cura, resgatando, renovando e consagrando as partes feridas ou adormecidas de cada ser, promovendo de forma suave e gentil as mudanças necessarias para o crescimento e a evolução. Na conexão com Idunna, é preciso abrir a mente e o coração em um movimento singelo de fé e devoção, permitindo assim que ela plante as “sementes espirituais” adequadas para cada um.

Mitologia Nórdica
Idunna   
8/11/2017 8:33:22 AM | Por Mirella Faur
O roubo do ouro de Odin

A atração de Frigga por adornos de ouro levou-a a dar um passo errado, pois ela retirou um pedaço desse metal cobiçado de uma estátua de Odin, recém-colocada no seu templo. Ela entregou depois o ouro para os anões ferreiros, pedindo que dele fosse confeccionado um primoroso colar, mas quando Odin descobriu o roubo do ouro da sua estátua, ficou furioso e intimou os anões a revelarem o autor do furto. Mesmo apavorados com a fúria de Odin, eles permaneceram em silêncio por não ousarem trair a rainha celeste. Odin ordenou então que a estátua fosse colocada acima da entrada do templo e iniciou um poderoso encantamento rúnico para que ela adquirisse o dom da fala e denunciasse o ladrão. Sabendo disso, Frigga ficou apavorada com a sua possível denúncia pública e pediu à sua fiel acompanhante Fulla uma solução para protegê-la da fúria e vingança de Odin. Fulla trouxe um renomado bruxo anão, com uma aparência horrível, mas que se ofereceu para impedir a estátua de falar, desde que Frigga o abraçasse com carinho, o que ela fez.

O anão correu para o templo, fez os guardas dormirem e quebrou a estátua em inúmeros pedaços, sem que ela revelasse o segredo. Mais enfurecido ainda com o sacrilégio feito no seu templo, Odin desapareceu de Asgard, levando consigo as costumeiras bênçãos para a humanidade, o que permitiu a invasão de Jötuns (gigantes) e a prolongação de um rigoroso inverno durante sete meses. Na sua volta, Odin enfrentou e expulsou os gigantes, devolveu a luz e o calor para a terra e fez as pazes com a sua esposa.

Mitologia Nórdica
Frigga, Odin, Fulla  Anões, Gigantes 
8/10/2017 12:15:50 PM | Por Mirella Faur
O mito dos Longobardos

Frigga e Odin tinham opiniões contrárias em relação a duas tribos que guerreavam entre si, os Winnilers e os Vândalos. Odin tinha decidido garantir a vitória dos Vândalos, mas Frigga discordava dele, o que a determinou usar sua habilidade e perspicacia para criar um estratagema, em lugar de prolongar a disputa conjugal ou contrariar frontalmente Odin. Como os cônjuges tinham chegado a um acordo para dar a vitória aos primeiros guerreiros que Odin visse quando despertasse no dia seguinte (ele sabia que os Vândalos estavam acampados na direção da sua janela), Frigga, conhecendo sua intenção, astutamente elaborou uma solução.

Ela enviou um mensageiro aos Winnilers aconselhando que eles cobrissem os rostos com seus longos cabelos e que mudassem seu acampamento para perto das janelas de Odin, o que eles fizeram imediatamente. Quando Odin acordou e avistou um bando de barbudos perguntou quem eles eram; ao ouvir sua exclamação, Frigga gritou triunfante que Odin tinha lhes dado um novo nome (Longobarden significando longas barbas”) e que de acordo com a tradição, devia lhes dar um presente de batismo, ou seja, a vitoria. Odin teve que aceitar o engodo de Frigga e, assim, os Winnilers mudaram seu nome para Longobardos e se instalaram nos campos ferteis de Longobardia, louvando e honrando Odin, seu deus padrinho.

Frigga e Odin eram cultuados principalmente na Suécia, onde existem lugares associados com seus nomes e também no sul da Alemanha.

Mitologia Nórdica
Frigga, Odin   
8/9/2017 4:52:31 PM | Por Nanon Gardin
A eterna luta entre o bem e o mal

«Quando a verdade tiver vencido a mentira, quando os falsos deuses e os homens tiverem recebido a compensação das suas obras, o culto do Senhor triunfará» (Yasna). A luta de Ohrmazd contra Arimane constitui o maior e praticamente único mito da mitologia persa. Esta luta é simultaneamente material e espiritual. Quando Ohrmazd criou o mundo material e os Amensha Spenta, Arimane criou seis demônios, e esforçou-se durante 3000 anos por corromper a criação de Ohrmazd. Mas, no início do período seguinte de 3000 anos, nasce então Zoroastro, que revelou ao mundo esta luta na esperança de precaver os homens contra o mal. Arimane abstina-se em semear a desordem na criação pura e ordenada" de Ohrmazd, mas o seu principal terreno de luta situa-se no plano espiritual e tenta por todos os meios macular a alma humana. Esta crença na atividade do demônio encontra uma ressonância evidente na Epístola de São Paulo aos Efésios (6,12): «Pois, não é contra seres humanos que temos de combater, mas contra poderes e autoridades que dominam este mundo de escuridão e contra espíritos do mal, que não se veem.»

As primeiras vítimas de Arimane são o primeiro casal humano. O próprio Ohrmazd teve o cuidado de convencer Mashya e Mashyoi de que haviam sido por ele criados, mas Arimane chega e semeia a dúvida na alma do primeiro casal, afirmando ser o verdadeiro criador. Esta proposta tentadora de um acesso ao saber em contradição com a que é anunciada pelo verdadeiro deus evoca fortemente a de Lúcifer a convencer Adão e Eva a provarem os frutos da árvore do Conhecimento. Na sua luta contra o mal, Ohrmazd é ajudado materialmente pelo seu filho Atar (o Relâmpago), mas também, e sobretudo, pelas virtudes morais preconizadas pelos Imortais benéficos.

No fim dos tempos, uma grande batalha oporá os santos e os demônios e marcará a vitória do bem sobre o mal. Saoshyant é o salvador derradeiro, que nascerá de uma virgem impregnada com o sémen de Zaratustra. Saoshyant virá para renovar o mundo e ressuscitar os mortos. Esta purificação será feita por meios radicais: uma torrente de metal em fusão submergirá o planeta e Angra Mainyu morrerá ou será lançado nas trevas para sempre. A humanidade será submergida por essa torrente, que destruirá todos os vícios e permitirá aos homens regenerados viverem na luz pura de Ahura-Mazda. Saoshyant sacrificará então um touro e misturará a sua gordura com o haoma. Em seguida, distribuirá este elixir da imortalidade por cada representante da raça humana. O universo recuperará então a sua perfeição e pureza originais.

Mitologia Persa
Ahura Mazda/Ohrmad, Ahriman/Arimane/Angra Mainyu   
8/9/2017 4:46:08 PM | Por Philip Wilkinson
O sábio senhor

O zoroastrismo foi uma religião na antiga Pérsia pré-islâmica fundada pelo profeta Zoroastro no séc.VI a.e.c. A língua persa era próxima à que era usaria no norte da índia, e os ensinamentos de Zoroastro estão contidos nos textos sagrados indo-iranianos Avesta e Galha. Eles contêm a estória arquetípica na luta entre o bem e o mal, que será resolvida apenas pelo surgimento do salvador, Saoshiant, e pelo fim dos tempos. No vazio primitivo existia apenas o deus Zurvan (Tempo), uma divindade andrógina. Zurvan desejava muito ter um filho e ofereceu sacrificar mil anos a fim de criar um. Entretanto, conforme o tempo se aproximava do fim, ele começava a duvidar de seu poder de criação. Então, concebeu gêmeos, um nascido da dúvida e outro nascido do otimismo.

Ainda durante a gestação e, Zurvan previu que o primeiro filho a nascer governaria o mundo. Ao saber disso, um dos gêmeos, Ahura Mazda, contou o fato a seu terrível irmão, Ahriman, que então forçou o caminho para nascer primeiro. Ele disse a Zurvan: “Sou Ahura Mazda, seu primeiro filho.”

Mas Zurvan não se deixou enganar: “Ele é leve e cheiroso, mas você e escuro e fétido." E chorou.  Ahura Mazda, o sábio e conhecedor de tudo, fez o Sol, a Lua, as estrelas e a Boa Mente que atua no homem e em toda a criação. Ahriman atacou com demônios, mas Ahura Mazda o baniu para as trevas. Então, Ahura Mazda criou o primeiro homem, Gayomart, e o mundo teria sido perfeito se o malvado Ahriman não se tivesse precipitado do céu em uma explosão de fogo, trazendo consigo a fome, as doenças, a dor, a luxúria e a morte.

Ele corrompia tudo o que tocava e se alegrava com isso. “A minha vitória é perfeita”, exultava, “Eu contaminei o mundo com sujeira e escuridão e disso fiz a minha força. Sequei a Terra, para que as plantas morram, e envenenei Gayomart, que morrerá.”

De fato, Gayomart morreu, mas de sua semente Ahura Mazda criou a mãe e o pai da humanidade: Mashya e Mashyoi.

Todos os humanos descendem deles e nascem bons, mas Ahura Mazda os deixa livres para escolher entre o bem e o mal. Ahura Mazda não conseguiu derrotar Ahriman, e, assim, estabeleceu um limite de tempo e prendeu Ahriman dentro da
Criação. Ahriman não conseguiu escapar e vai permanecer no mundo espalhando o mal ate o fim dos tempos. Ahura Mazda faz o que pode para contê-lo com a ajuda dos sete deuses, inclusive Mitra, o deus-Sol, que dizem ser seu filho.

A aparição do Salvador

Perto do fim dos tempos, surgirá o salvador Saoshiant, que preparará o mundo para ser recriado e ajudará Ahura Mazda a destruir Ahriman. Os homens vão se tornar cada vez mais puros, até que, sem necessidade de comida e bebida, sobreviverão apenas de ar. Ahura Mazda banirá Ahriman da criação, o tempo se extinguirá e o mundo começará novamente, mas dessa vez será perfeito. Saoshianl ressuscitará os mortos, e Ahura Mazda unirá o corpo a alma.

Mitologia Persa
Zurvan, Ahura Mazda, Ahriman, Saoshyant   Gayomart, Mashya, Mashyoi
8/9/2017 3:29:25 PM | Por Deanna Paniataaq Kingston
O bebê forte

(Povo Seneca)

O rapazinho observava o grande sofrimento do pai junto ao corpo da mãe morta. Ela tinha falecido ao dar à luz o segundo filho. O menino sobreviveu ao parto mas o pai ficava destroçado só de olhar para ele, por ser uma recordação viva da perda da mulher e decidiu levá-lo para a floresta e deixá-lo morrer. O rapazinho, secretamente, seguiu o pai enquanto ele levava o irmão mais novo pela floresta dentro. Viu o pai colocá-lo sobre o tronco de uma árvore, voltar costas e partir. O rapaz correu para a criança e tomou-a nos braços. Ele nem sequer tinha pensado como iria evitar que o pai soubesse da continuação da existência da criança. Só esperava que o desgosto do pai se fosse desvanecendo e que um dia ele aceitasse o regresso do filho. Todavias, quando o rapazinho estava na floresta com o bebê ao colo, este saltou-lhe dos braços e antes que ele pudesse compreender, o irmão seguia a andar, e mesmo a correr, entre as árvores.

O mais velho percebeu que este era um bebê muito especial com grandes poderes e, na verdade, de repente, agarrou um grande ramo e começou a derrubar árvores com movimentos balouçantes.

O rapaz decidiu manter o irmão escondido na floresta, longe do pai, mas isso tornou-se uma tarefa impossível, Ao ouvir o barulho das árvores a quebrarem-se, o pai correu de volta à floresta para ver que estava a acontecer. E viu o filho mais velho e o forte bebê de pé entre árvores tombadas.

Receando que os aldeãos não aceitassem este bebê invulgar, o pai deu ordens ao filho mais velho para que levasse a criança para longe da aldeia e o criasse sozinho, avisando-o, porém, de que não deveria seguir para norte, pois era muito perigoso devido aos sapos diabólicos que lá estavam à espera para comer viajantes inesperados.

Mas o rapaz, confiante de que o bebê poderia vencer os sapos, levou a criança para o norte. E, com toda a segurança, ele venceu-os numa batalha feroz, tendo-os matado a todos com facilidade.

O rapaz convenceu-se que o bebê poderia sobreviver pelos seus próprios meios e decidiu deixá-lo seguir caminho sozinho. E, na realidade, o bebê venceu um grande número de inimigos que queriam destruí-lo. Prosseguiu vencendo inimigos em todas as direções. Quer fosse para leste, oeste, sul ou norte não havia quem pudesse vencê-lo.

Não tardou a correr a notícia acerca do bebê que tinha uma força inacreditável.

Quando esta notícia chegou aos ouvidos de um gigante peculiar que vivia muito para norte, este achou que seria melhor enredá-lo numa armadilha do que lutar com ele. Quando o bebê entrou no território do gigante, concordou com a participação num concurso de comida. O gigante pensou que o mergulharia num sono profundo depois de uma grande refeição. Mas quando o gigante não conseguiu ingerir mais nada e declarou que o bebê era o vencedor, este despedaçou-o em bocadinhos.

Passado pouco tempo após as suas jornadas, o bebê estava farto de travar guerras com os inimigos. Um dia aconteceu que os aldeãos estavam a jogar à bola e, curiosos ao verem o bebê, desafiaram-no para um jogo dizendo-lhe que, se ganhasse, eles desistiriam das suas terras. E, de fato, a criança derrotou-os. Chamou então o pai para a aldeia para ser o chefe e o pai foi e reinou por muitos anos.    

Mitologia Norte-Americana
 Bebê forte  
8/9/2017 3:20:18 PM | Por Deanna Paniataaq Kingston
O regresso dos Cavalos

(Povo Blackfeet)

Um dia, um velho chefe observou como um rapaz órfão era cruelmente troçado por um grupo da sua idade. O velho chefe tinha ouvido dizer que o rapaz era surdo, e sabia que todo o povo da tribo considerava que ele também era estúpido. Esperou que as crianças se fartassem de importunar o outro e se fossem embora. Quando o rapaz ficou sozinho, o chefe aproximou-se dele e ofereceu-lhe carne seca. O rapaz viu no olhar amável do velho chefe que seria bem-vindo se fosse viver com ele. Num dia em que o velho chefe e o jovem rapaz iam a passear junto de um lago próximo, o rapaz apontou para uma manada de cavalos brilhando à distância. Sabendo que o rapaz não podia ouvir as suas palavras, o velho chefe pegou num pau e fez desenhos na areia, onde se viam os homens da tribo montando os cavalos e, a seguir, desenhou os cavalos deambulando na planície sem os homens.

O rapaz percebeu que o velho chefe lhe estava a explicar que os cavalos tinham decidido abandonar a tribo. Depois, ele pegou no pau e desenhou na areia a imagem de um rapazinho montado num cavalo.

O velho chefe sabia que o rapaz queria fazer algo importante para a tribo, alguma coisa que nenhum guerreiro tivesse conseguido levar a cabo.

O chefe deu com o rapaz alguns passos dentro da lagoa até que este baixou a cabeça e olhou fixamente para a água. Junto à superfície, pôde ver um jovem convidando-o a mergulhar. O rapaz olhou para o velho chefe e, em seguida mergulhou na lagoa.

Para sua enorme surpresa, o rapaz constatou que podia respirar debaixo de água e que podia ouvir todos os sons da vida abaixo da superfície. Seguiu o jovem até ao fundo da lagoa onde este lhe apresentou o avô, o qual o mandou sentar-se e lhe disse que o ajudaria a trazer os cavalos de volta ao seu povo.

Tirou o cinto e a túnica e deu-os ao rapaz dizendo-lhe que estas peças tinham poderes mágicos que lhe permitiriam encantar os cavalos. Quando estava a pôr

o cinto e a túnica, viu que os pés do avô eram agora cascos de cavalo. De repente, o jovem colocou a mão no ombro do rapaz dizendo-lhe que tinha de voltar à superfície da água.

Quando chegou, o velho chefe tinha partido e o rapaz soube que estava na altura de partir para a sua tarefa de capturar os cavalos. Quando estes o viram, ficaram atordoados com a beleza da túnica e do cinto, pelo que o rapaz facilmente os conquistou. Estes, porém, disseram-lhe que só voltariam à tribo, se ele aprendesse a montar como devia ser.

Durante muitos dias, o rapaz montou os cavalos pela pradaria, ganhando-lhe confiança, até que eles concordaram em regressar à tribo.

Quando chegaram, o rapaz recebeu a triste notícia de que o velho chefe tinha morrido. Mas a tribo ficou-lhe tão agradecida, que o homenagearam com uma grande celebração pelo seu grande feito.

Mitologia Norte-Americana
 Garoto Surdo  
8/9/2017 3:13:50 PM | Por Deanna Paniataaq Kingston
O Rapaz e o Urso

(Povo Pawnee)

Era uma vez um rapaz que nunca se apercebeu de como era pobre até ir visitar a casa do chefe da aldeia. O rapaz foi convidado a ir à casa do seu melhor amigo, o filho do chefe. A partir desse dia, o rapaz foi ficando cada vez mais triste devido à pobreza da família. Dominado por essa profunda tristeza, o rapaz decidiu deixar a aldeia e partir para as florestas, esperando ser morto por um grupo de animais ferozes. No segundo dia da sua jornada, entrou numa gruta. Pensando que estava sozinho, o rapaz enroscou-se no chão frio para dormir. «Quem és tu?», perguntou uma voz na escuridão. O rapaz pôs-se de pé num salto pronto para fugir, mas foi agarrado por uma enorme pata peluda.

Logo se apercebeu de que tinha entrado na toca de um urso a quem implorou para não o comer. O urso disse-lhe que baixasse a voz para não acordar a sua cria.

Rapidamente o rapaz percebeu que a mãe ursa não estava interessada em comê-lo e, de fato, ela ofereceu-lhe dormida para aquela noite. Porém, a ursa avisou-o de que o marido o comeria quando regressasse, a não ser que o rapaz cobrisse a cria com os braços.

E assim aconteceu. O pai urso regressou e, quando viu o rapaz, os seus grandes dentes brilharam. Mas o rapaz fez como a ursa tinha recomendado. Arrebatou a cria e olhou o urso nos olhos, que rapidamente se acalmou.

«Vou agora passar a chamar-te meu filho», disse o urso. Disse ao rapaz que lhe daria poderes especiais que fariam dele um grande guerreiro.

Em seguida, matou a cria e deu a pele ao rapaz para o proteger na batalha.

Nos meses que se seguiram a este encontro, o rapaz regressou à aldeia e juntou-se ao grupo de guerra.

Fez grandes proezas na batalha e foi elogiado pelo chefe da tribo.

À medida que o tempo ia passando, a afeição do rapaz pela filha do chefe ia crescendo e ele desejava tê-la como sua mulher. Mas durante a noite, o urso foi ter com ele num sonho e disse-lhe que ele não podia casar com ela antes de ter realizado mais um feito numa batalha. O rapaz prestou atenção às palavras do urso e voltou a conduzir o seu grupo de guerreiros numa grande batalha de que saiu vitorioso.

Quando voltou da guerra, ficou a saber que o filho do chefe - o seu melhor amigo - estava doente e prestes a morrer. Então pegou nele e levou-o até à orla de uma escarpa e deixou-o ficar sozinho para alimentar as aves com carne de búfalo. Após alguns dias, o rapaz voltou e encontrou o filho do chefe curado e com poderes especiais que lhe tinham sido dados por cada pássaro.

O chefe ficou tão agradecido por o rapaz ter ajudado o filho a recuperar da doença que lhe deu a mão da filha em casamento.

Durante muitos anos, o rapaz, agora um homem, governou a aldeia lado a lado com o filho do chefe. Quando chegou a altura de ele passar para o mundo seguinte, segurou o filho nos braços e deu-lhe um presente especial - os poderes surpreendentes do urso.

Mitologia Norte-Americana
 Rapaz-Urso  
8/8/2017 3:10:30 PM | Por Nanon Gardin
A Epopéia de Gilgamesh

Este texto com 5000 anos é a primeira obra literária da humanidade e é, talvez, o texto mais profundamente comovente da literatura mítica. Gilgamesh terá sido rei de Uruk, uma das cidades-Estado da Mesopotâmia, por volta de 2650 a.e.c. A narrativa tem como tema principal a condição mortal do homem e a incompreensão dos deuses. Mas é, acima de tudo, um hino à amizade amorosa que une dois seres semelhantes e diferentes, cujos pontos de vista sobre a morte vão sempre evoluindo ao longo de uma estória repleta de aventuras temíveis. Esta amizade, tão próxima do amor, é análoga àquela que une Aquiles e Pátroclo, ou à que Montaigne sentia pelo seu amigo La Boétie, e que exprime em termos tão simples quanto fortes: «Porque era ele, porque era eu.»

O homem-deus e o homem-anima!

Aruru, deusa da Criação, ouviu as queixas das gentes de Uruk. Gilgamesh, o rei, dois terços deus e um terço homem, apesar de grande e magnífico, abusa dos seus súditos: não há noiva que não seja por ele tomada, antes do esposo, na noite de núpcias; não há jovem da cidade que não seja desafiado por ele para uma luta e depois morto. Aruru decide então dar a Gilgamesh um companheiro capaz de o chamar à razão. A partir de uma bola de argila, a deusa cria Enkidu, coberto de pelos e com cabelos «lanosos» (imaginamos a sua cabeleira com tranças enredadas, semelhante ao cabelo dos saddhus indianos ou às rastas jamaicanas); inocente de humanidade, tão forte e belo quanto Gilgamesh, Enkidu é um selvagem que semeia o pânico entre os caçadores e os pastores. Gilgamesh, curioso em relação a tudo, ouve falar dele e interessa-se por essa estranha criatura. Para o humanizar, envia-lhe uma cortesã. Durante seis dias e sete noites, Enkidu ama-a selvaticamente. Quando se levanta, já não se parece com os animais selvagens, que agora o temem. A cortesã diz-lhe: «Agora, és um homem.» No entanto, dantes, Enkidu era feliz. Agora, tem de comer os alimentos amargos dos homens, sofrer os sofrimentos dos homens. E a cortesã leva-o para a cidade.

Na noite anterior à chegada de Enkidu, Gilgamesh teve dois sonhos. Desce na sua direção uma estrela, pela qual se sente atraído como que por uma mulher. Em seguida, desce do céu na sua direção um machado, pelo qual é atraído como que por uma mulher. Ninsun explica os sonhos ao filho Gilgamesh: «É um amigo que vai chegar, um amigo tão forte como tu. Tem a essência de An. Será teu amigo.»

Na cidade de Uruk «de belas muralhas», Gilgamesh e Enkidu enfrentam-se, lutam como campeões. Gilgamesh não acredita no que vê: finalmente, encontra um campeão à sua altura. Mais uma vez, Gilgamesh apresta-se a fazer valer o seu «direito» sobre uma jovem noiva. Os dois heróis lutam no vão da porta da noiva, mas Enkidu interpõe-se e o rei, pela primeira vez, não poderá transpô-la. Em seguida, empurram-se, caem na rua, levantam-se, voltam a cair, derrubando as bancas do mercado. Enkidu é derrotado, mas por pouco, e admoesta Gilgamesh sobre o seu comportamento. O rei diz-lhe: «Nunca ninguém rivalizou comigo. Encontrei finalmente um companheiro digno de mim. Juntos, poderemos ir à floresta dos Cedros.»

Enkidu não compreende. Porquê a floresta dos cedros, onde reside o terrível Humbaba? Gilgamesh explica: é o seu sonho mais antigo, livrar a cidade do mal. Enkidu já fez metade do trabalho, domando o tirano. Agora, é necessário concluir a missão. Mas Enkidu tem medo de morrer. Gilgamesh diz que não tem medo e discorre sobre a imortalidade: «Quem pode chegar ao Céu, meu amigo? Sob o Sol, só os deuses são imortais, e os dias dos mortais estão aprazados.» Enkidu segue Gilgamesh; a assembleia de Uruk confiou-lhe Gilgamesh, o seu rei. Doravante, Enkidu é homem e tem uma missão: trazer Gilgamesh, ileso, da floresta dos Cedros.

Os monstros

Os dois amigos encontram-se face a Humbaba, gigante com cabeça de intestinos, que insulta Enkidu, chamando-lhe «filho de peixe» e «idiota que nunca mamou da sua mãe». Humbaba compreendeu a natureza selvagem de Enkidu. Shamash, deus do Céu e amigo dos heróis, lança os ventos sobre Humbaba para o enfraquecer: Grande Vento, Vento do Norte, Vento do Sul, Vento Rodopiante, Vento da Tormenta, Vento Gelado, Vento da Tempestade. De repente, Gilgamesh apieda-se e pede a Enkidu que poupe Humbaba. Mas Enkidu aprendeu a lição dura dos homens e explica ao amigo as leis da guerra, Humbaba é o inimigo dos homens, tem de morrer. Gilgamesh opõe-se, enfrenta Enkidu e chama mercenário ao amigo. Enkidu, indignado com essa renegação, corta a cabeça de Humbaba com um golpe de machado.

Exaustos, os heróis lavam-se e ataviam-se com os seus belos ornamentos. Com a sua tiara na cabeça, Gilgamesh é tão belo que a deusa Inanna se apaixona por ele, quer torná-lo seu amante, promete-lhe cabras férteis e precioso Lápis-lazúli. Gilgamesh repele a deusa, lembra-lhe os seus crimes anteriores e chama-lhe «sandália que magoa os pés», «odre de pele rugosa», «pedra friável que mina as muralhas», mulher instável, inconstante e malévola. Inanna vai queixar-se a An, seu pai, o deus do Céu. A chorar por causa do vexame, exige vingança. Pede ao pai que mande o touro do Céu combater e matar Gilgamesh. Se ele recusar, ela abrirá as portas dos Infernos e os mortos sairão para devorar a comida dos vivos. An cede à exigência da filha. Os mugidos do touro do Céu abrem abismos profundos, onde caem às centenas os homens de Uruk. Enkidu cai em uma das fendas. Retesa os músculos e, com um salto, sai da fenda; em seguida, agarra na cauda do Touro e espeta-lhe uma espada na nuca. Inanna ruge de raiva impotente. Orgulhoso, rebelde, resistente ao destempero e à arbitrariedade dos deuses, Enkidu atira-lhe à cabeça uma perna do Touro.

Os deuses reúnem-se então em conselho. As mortes de Humbaba e do touro do Céu devem ser punidas. Um dos dois deve morrer. «Enkidu deve morrer», diz Enlil. «Gilgamesh não morrerá!» E Shamash, o Justo, o Sol divino, responde a Enlil: «Não foi como resposta às tuas ordens que estes atos fatalmente se produziram? A morte do Touro Celeste e de Humbaba? E hoje dizes que Enkidu deve morrer!»

Enkidu é deitado no seu leito, de onde não voltará a levantar-se. Duplamente vítima, porque duas vezes nascido, lamenta-se. Porque o obrigaram a deixar a vida selvagem, a descobrir os costumes dos homens? Para chegar a este estado? Ao fim de sete dias, Enkidu morre. Gilgamesh invoca para o seu amigo Enkidu as lamentações do mundo inteiro. «Que o urso, a hiena, a pantera, o tigre, o cervo, o lobo, o boi, o gamo, que todos os animais da estepe chorem por ti!» Em seguida, estende o lençol por cima do rosto de Enkidu, como se se tratasse do rosto de uma noiva, e ruge «como uma leoa a quem tivessem retirado as crias.»

As Águas Mortais Gilgamesh erra pela estepe: «Deverei morrer como Enkidu? Tenho medo da morte.» Resolve então ir falar com Utanapishtim, o sobrevivente do Dilúvio que conquistou a imortalidade. Nenhum homem havia alguma vez entrado na noite escura da montanha, pelo caminho, pela passagem noturna, que conduz às Águas Mortais. «Seja qual for a dificuldade, seja qual for o sofrimento, no calor extremo e no frio gélido, irei!», diz Gilgamesh. Na escuridão profunda, vestido com peles de animais e alimentado com bagas selvagens, Gilgamesh avança e conta a sua infelicidade a quem o queira ouvir: «Aquele com quem combati, aquele a quem tanto amei, conhece hoje a sorte que a todos nos espera. Não queria que o enterrassem, com medo de que ele não despertasse. Velei-o durante seis dias e sete noites. Depois, um verme saiu-lhe do nariz. Já não há vida para mim.» Incansavelmente, Gilgamesh repete as suas lamentações, a dor de ter perdido o seu «macho vagabundo», o seu «ónagro do deserto», a sua «pantera da estepe», o amigo a quem tanto amava. Por fim, Gilgamesh chega ao rio das Águas Mortais e encontra Urshanabi, o barqueiro. A embarcação lança-se sobre as vagas das Águas Mortais e, após três dias de uma travessia que equivalem a 15 dias no mar, os dois viajantes alcançam a outra margem. Gilgamesh encontra-se finalmente com Utanapishtim. Este compreende a sua dor, pois é um homem, ainda que tenha obtido a imortalidade. Diz a Gilgamesh: «Não devem todas as pessoas morrer? Construímos as nossas casas para que durem eternamente? Os nossos compromissos são eternos? Será o ódio eternamente inextirpável? Desde o princípio dos tempos que nada é permanente.»

Gilgamesh quer saber como Utanapishtim se tornou imortal. O idoso fala-lhe de uma época em que os homens se multiplicavam como moscas e em que o mundo mugia como um touro selvagem. Enlil declarou insuportável essa algazarra e os deuses concordaram em aniquilar a humanidade. Utanapishtim narra o Dilúvio, a grande invasão das águas. Avisado em sonhos por Ea, construiu um barco de juncos em forma de cubo perfeito e embarcou a sua família, famílias de artesãos e um casal de todos os animais da Criação. Quando Utanapishtim estava preparado, «uma enorme nuvem negra elevou-se no céu. No meio da nuvem, Adad trovejava. Siullat e Hanish, deuses gêmeos da destruição, avançaram, devastando montes e vales. Nergal, deus da pestilência, rompeu as barragens do Oceano profundo e Ninurta abriu as comportas do céu. Os deuses infernais inflamaram-se e Incendiaram toda a terra».
O Dilúvio desejado por Enlil e Inanna durou seis dias e sete noites. Mas, passado esse tempo, Inanna começava a lamentar-se e a arrepender-se. Era preciso parar tudo isso. Utanapishtim libertou uma pomba e uma andorinha, que regressaram exaustas à arca; depois, libertou um corvo, que, tendo encontrado alimento, não regressou: as águas haviam começado a recuar. Por fim, o barco encalhou no cume do monte Nisir.

Enlil fica furioso. Jurara que não haveria sobreviventes. Mais uma vez, os deuses rejeitam a culpa. Mas Enki, cheio de compaixão, decide que Utanapishtim e a sua mulher viverão à distância, pois conhecem o segredo dos deuses e essa é a única maneira de garantirem que o guardarão. Enki consegue apaziguar Enlil, que aceita entrar na arca, abençoar Utanapishtim e conceder-lhe o dom da imortalidade.

A derrota

Utanapishtim aflige-se por Gilgamesh. Quem lhe dará a vida eterna? Impõe-lhe uma prova: durante seis dias e sete noites, o herói deve ficar acocorado sem dormir. Mas logo o sono sopra sobre ele como uma bruma sob a chuva. Gilgamesh falhou. «Agora que fiz todo este caminho, deverei morrer e deixar a terra cobrir-me a cabeça para sempre? Não pode ser. Dá-me a imortalidade», suplica Gilgamesh. «Não», responde Utanapishtim, «nunca terás a vida eterna. Quando os deuses criaram a humanidade, criaram a morte, não a imortalidade. Tal como todos os homens, encherás a barriga de boa carne. Dançarás e serás feliz dia e noite. Festas e alegrias. Terás roupas lipas, lavar-te-ás na água fresca e cuidarás da criança que te dará a mão. E farás feliz a tua esposa. É o destino do homem e deves limitar-te a isso.» Em seguida, revela a Gilgamesh o local aquático onde cresce a planta espinhosa que, ainda que não conceda a imortalidade, devolve a juventude. Gilgamesh mergulha, encontra a planta, colhe-a e regressa à superfície. Depois adormece junto de uma nascente, e uma serpente engole a planta de um trago, libertando-se assim da sua pele velha. Gilgamesh chora a sua esperança perdida. Tal como Orfeu, não terá uma segunda oportunidade e, desiludido, empreende a viagem de regresso.

Vencido, despeitado e mortal, Gilgamesh está limitado a louvar os prodígios da sua própria criação e mostra ao barqueiro Urshanabi os esplendores de Uruk de belas muralhas: «Vem, vem até às muralhas, Urshanabi, vê este terraço, toca neste trabalho da pedra, nestes tijolos recozidos, magníficos. Os sete sábios edificaram as fundações destas paredes. Vê esta cidade, os seus jardins, os terrenos em redor. Uruk, a minha cidade, é tudo isto.»

Mitologia Mesopotâmica
Inanna Gilgamesh Enkidu Utnapishtim
8/8/2017 3:01:08 PM | Por
O dilúvio sumério

Conheces a cidade de Shurrupak, que fica às margens do Eufrates? A cidade envelheceu, assim como os deuses que lá moravam. Havia Anu, o senhor do firmamento e pai da cidade; o guerreiro Enhl, seu conselheiro; Ninurta, o ajudante; e Ennugi, que vigiava os canais. Entre eles também se encontrava Ea. Naqueles dias a  terra fervilhava, os homens multiplicavam-se e o mundo bramia como um touro selvagem. Este tumulto despertou o grande deus. Enlil ouviu o alvoroço e disse aos deuses reunidos em conselho: 'O alvoroço dos humanos é intolerável, e o sono já não é mais possível por causa da balbúrdia.' Os deuses então concordaram em exterminar a raça humana. Foi o que Enlil fez, mas Ea, por causa de sua promessa, me avisou em um sonho. Ele denunciou a intenção dos deuses sussurrando para minha casa de colmo: 'Casa de colmo, casa de colmo! Parede, oh, parede da casa de colmo, escuta e reflete. Oh, homem de Shurrupak, filho de Ubara-Tutu, põe abaixo tua casa e constrói um barco. Abandona tuas posses e busca tua vida preservar; despreza os bens materiais e busca tua alma salvar. Põe abaixo tua casa, eu te digo, e constrói um barco. Eis as medidas da embarcação que deveras construir: que a boca extrema da nave tenha o mesmo tamanho que seu comprimento, que seu convés seja coberto, tal como a abóbada celeste cobre o abismo; leva então para o barco a semente de todas as criaturas vivas.'

"Quando compreendi, eu disse ao meu senhor: 'Sereis testemunha de que honrarei e executarei aquilo que me ordenais, mas como explicarei às pessoas, à cidade, aos patriarcas?' Ea então abriu a boca e falou a mim, seu servo: 'Dize-lhes isto: Eu soube que Enlil está furioso comigo e já não ouso mais caminhar por seu território ou viver em sua cidade; partirei em direção ao golfo para morar com o meu senhor Ea. Mas sobre vós ele fará chover a abundância, a colheita farta, os peixes raros e as ariscas aves selvagens. A noite, o cavaleiro da tempestade vos trará uma torrente de trigo.'

"Ao primeiro brilho da alvorada, toda a minha família se reuniu ao meu redor; as crianças trouxeram o piche e os homens todo o resto necessário. No quinto dia eu aprontei a quilha, montei a ossatura da embarcação e então instalei o tabuado. O barco tinha um acre de área e cada lado do convés media cento e vinte côvados, formando um quadrado. Construí abaixo mais seis conveses, num total de sete, e dividi cada um em nove compartimentos, colocando tabiques entre eles. Finquei cunhas onde elas eram necessárias, providenciei as zingas e armazenei suprimentos. Os carregadores trouxeram o óleo em cestas. Eu joguei piche, asfalto e óleo na fornalha. Mais óleo foi consumido na calafetagem, e mais ainda foi guardado no depósito pelo capitão da nave. Eu abati novilhos para a minha família e matava diariamente uma ovelha. Dei vinho aos carpinteiros do barco como se fosse água do rio, vinho verde, vinho tinto, vinho branco e óleo. Fez-se então um banquete como os que são preparados à época dos festejos do ano­novo; eu mesmo ungi minha cabeça. No sétimo dia, o barco ficou pronto.

"Foi com muita dificuldade então que a embarcação foi lançada à água; o lastro do barco foi deslocado para cima e para baixo até a submersão de dois terços de seu corpo. Eu carreguei o interior da nave com tudo o que eu tinha de ouro e de coisas vivas: minha família, meus parentes, os animais do campo — os domesticados e os selvagens — e todos os artesãos. Eu os coloquei a bordo, pois o prazo dado por Shamash já havia se esgotado; e ele disse: 'Esta noite, quando o cavaleiro da tempestade enviar a chuva destruidora, entra no barco e te fecha lá dentro.' Era chegada a hora. Caiu a noite e o cavaleiro da tempestade mandou a chuva. Tudo estava pronto, a vedação e a calafetagem; eu então passei o timão para Puzur-Amurri, o timoneiro, deixando todo o barco e a navegação sob seus cuidados.

"Ao primeiro brilho da alvorada chegou do horizonte uma nuvem negra, que era conduzida por Adad, o senhor da tempestade. Os trovões retumbavam de seu interior, e, na frente, por sobre as colinas e planícies, avançavam Shul-lat e Hanish, os arautos da tempestade. Surgiram então os deuses do abismo; Nergal destruiu as barragens que represavam as águas do inferno; Ninurta, o deus da guerra, pôs abaixo os diques; e os sete juizes do outro mundo, os Anunnaki, elevaram suas tochas, iluminando a terra com suas chamas lívidas. Um estupor de desespero subiu ao céu quando o deus da tempestade transformou o dia em noite, quando ele destruiu a terra como se despedaça um cálice. Por um dia inteiro o temporal grassou devastadoramente, acumulando fúria à medida que avançava e desabando torrencialmente sobre as pessoas como os fluxos e refluxos de uma batalha; um homem não conseguia ver seu irmão, nem podiam os povos serem vistos do céu. Até mesmo os deuses ficaram horrorizados com o dilúvio; eles fugiram para a parte mais alta do céu, o firmamento de Anu, onde se agacharam contra os muros e ficaram encolhidos como covardes. Foi então que Inanna, a Rainha do Céu, de voz doce e suave, gritou como se estivesse em trabalho de parto: 'Ai de mim! Os dias de outrora estão virando pó, pois ordenei que se fizesse o mal; por que fui exigir esta maldade no conselho dos deuses? Eu impus as guerras para a destruição dos povos, mas acaso estes povos não pertencem a mim, pois fui eu quem os criou? Agora eles flutuam no oceano como ovas de peixe.' Os grandes deuses do céu e do inferno verteram lágrimas e se calaram.

"Por seis dias e seis noites os ventos sopraram; enxurradas, inundações e torrentes assolaram o mundo; a tempestade e o dilúvio explodiam em fúria como dois exércitos em guerra. Na alvorada do sétimo dia o temporal vindo do sul amainou; os mares se acalmaram, o dilúvio serenou. Eu olhei a face do mundo e o silêncio imperava; toda a humanidade havia virado argila. A superfície do mar se estendia plana como um telhado. Eu abri uma janelinha e a luz bateu em meu rosto. Eu então me curvei, sentei e chorei. As lágrimas rolavam pois estávamos cercados por uma imensidade de água. Procurei em vão por um pedaço de terra. A quatorze léguas de distância, porém, surgiu uma montanha, e ali o barco encalhou. Na montanha de Nisir o barco ficou preso; ficou preso e não mais se moveu. No primeiro dia ele ficou preso; no segundo dia ficou preso em Nisir e não mais se moveu. Um terceiro e um quarto dia ele ficou preso na montanha e não se moveu. Um quinto e um sexto dia ele ficou preso na montanha. Na alvorada do sétimo dia eu soltei uma pomba e deixei que se fosse. Ela voou para longe, mas, não encontrando um lugar para pousar, retornou. Então soltei uma andorinha, que voou para longe; mas, não encontrando um lugar para pousar, retornou. Então soltei um corvo. A ave viu que as águas haviam abaixado; ela comeu, voou de um lado para o outro, grasnou e não mais voltou para o barco. Eu então abri todas as portas e janelas, expondo a nave aos quatro ventos. Preparei um sacrifício e derramei vinho sobre o topo da montanha em oferenda aos deuses. Coloquei quatorze caldeirões sobre seus suportes e juntei madeira, bambu, cedro e murta. Quando os deuses sentiram o doce cheiro que dali emanava, eles se juntaram como moscas sobre o sacrifício. Finalmente, então, Inanna também apareceu; ela suspendeu seu colar com as jóias do céu, feito por Anu para lhe agradar. 'Oh, vós, deuses aqui presentes, pelo lápis-lazúli que circunda meu pescoço, eu me lembrarei destes dias como me lembro das jóias em minha garganta; não me esquecerei destes últimos dias. Que todos os deuses se reúnam em torno do sacrifício; todos, menos Enlil. Ele não se aproximará desta oferenda, pois sem refletir trouxe o dilúvio; ele entregou meu povo à destruição.'

"Quando Enlil chegou e viu o barco, ele ficou furioso. Enlil se encheu de cólera contra o exército de deuses do céu. 'Alguns destes mortais escaparam? Ninguém deveria ter sobrevivido à destruição.' Então Ninurta, o deus das nascentes e dos canais, abriu a boca e disse ao guerreiro Enlil: 'E que deus pode tramar sem o consentimento de Ea? Somente Ea conhece todas as coisas.' Então Ea abriu a boca e falou para o guerreiro Enlil: 'Herói Enlil, o mais sábio dos deuses, como pudeste tão insensatamente provocar este dilúvio?

Inflige ao pecador o seu pecado,
Inflige ao transgressor a sua transgressão,
Pune-o levemente quando ele escapar,
Não exageres no castigo ou ele sucumbirá;
Antes um leão houvesse devastado a raça humana
Em vez do dilúvio,
Antes um lobo houvesse devastado a raça humana
Em vez do dilúvio,
Antes a fome houvesse assolado o mundo
Em vez do dilúvio.
Antes a peste houvesse assolado o mundo
Em vez do dilúvio.

Não fui eu quem revelou o segredo dos deuses; o sábio soube dele através de um sonho. Agora reuni-vos em conselho e decidi sobre
o que fazer com ele.'
"Enlil então subiu no barco, pegou a mim e a minha mulher pela mão e nos fez entrar no barco e ajoelhar, um de cada lado, com ele no meio. E tocou nossas testas para abençoar-nos, dizendo: 'No passado, Utnapishtim era um homem mortal; doravante ele e sua mulher viverão longe, na foz dos rios.' Foi assim que os deuses me pegaram e me colocaram aqui para viver longe, na foz dos rios."

 

__________

Essa é uma versão babilônica escrita em uma série de Tabuletas de argila encontradas na biblioteca real do rei assírio Assurbanipal, em Nínive. A transcrição do texto cuneiforme, foi feita por George Smith, o primeiro a traduzi-la e pode ser encontrada em:
 
Rawlison, Cuneiform Inscriptions of Western Asia, Vol IV, Tabuletas 50 e 51.
Mitologia Mesopotâmica
Enlil, Enki, Ea, An, Adad   Utnapishtim
8/8/2017 2:52:53 PM | Por Michael Garden
Inanna e os sete véus

Atualmente, as mulheres árabes de todo o mundo homenageiam esta estória antiga com a «Dança dos Sete Véus», embora o poder cósmico envolvido já não tenha significado religioso. Nas mais antigas versões do mito, de origem suméria,
a deusa Inanna era atraída ao submundo pelos deuses.
A sua estória foi mais tarde transformada em um romance divino: a tragédia de uma deusa imortal apaixonada por
um humano mortal, Dumuzi. Ele é o agricultor supremo,
o pastor superlativo, o mais amável dos homens que se regia pela sua total devoção à sua mulher deusa. No entanto, outras versões contam que Inanna expulsava Dumuzi para submundo, vários meses por ano como punição pela falta de sentimentos para com ela. Durante esse tempo, a terra ficava estéril e só readquiria a sua fertilidade quando eles voltavam a juntar-se.

Em uma versão posterior da Acádia, estes mesmos papéis eram desempenhados pela deusa Ishtar e o seu amado Tammuz. Nesta versão, quando Tammuz morreu, Ishtar acompanhou o seu corpo ao submundo, o reino da rival Ereshkigal, um lugar sombrio onde os mortos eram alimentados com pó, usavam penas e estavam
de pé no pátio como servos.

Paredes maciças protegiam este
submundo de múltiplas camadas,
uma dentro da outra, com portões fechados
a cadeado e monstros a servir de guardas. Ishtar tinha
de dizer o nome de todas as partes do portão e do pessoal que o mantinha, assim como pagar um tributo para
o atravessar. Uma a uma, perdeu todas as suas jóias para efetuar este pagamento.

Quando finalmente Ishtar atravessou os sete portões
e chegou até ao trono de Ereshkigal, estava nua e indefesa, e teve apenas um vislumbre do amado marido antes de ser assassinada. A sua morte deixou a terra em uma agitação:
o solo não era semeado e nenhum útero podia conceber. Ishtar, embora loucamente apaixonada, não era parva. Tinha deixado os seus fiéis adjuntos preparados.
Um sacerdote dignamente travestido estava treinado
e equipado, e mandou uma mensagem aos deuses a pedir o corpo de Ishtar. Através da adulação e da eloqüência,
o sacerdote chegou até Ereshkigal e conquistou-lhe o coração. Ele tinha levado consigo, secretamente, um frasco
com água da vida, fornecida por Ea (Enki) e com ela conseguiu ressuscitar Ishtar.

Após complexas negociações, Tammuz concordou em tomar o lugar de Ishtar no submundo durante metade de cada ano, período durante o qual o grande sofrimento de Ishtar trazia o inverno. A irmã de Tammuz tomava o lugar dele na outra metade do ano e, então, a felicidade de Ishtar
e a sua atividade sexual faziam florir a terra.

Em cada portão, ao regressar, Ishtar recuperou
uma peça do seu vestuário. Da mesma forma, a natureza veste-se de novo em cada estação.

 

Mitologia Mesopotâmica
Inanna, Ishtar, Ereshkigal, Ea, Enli    Dumuzi, Tammuz
8/8/2017 2:42:06 PM | Por Philip Wilkinson
O casamento de Inanna

O casamento de Inanna, deusa do amor, com o pastor Dumuzi é uma narrativa central na mitologia suméria, e relata que coube à deusa escolher entre um marido agricultor e um pastor, decidindo-se pelo ultimo. Acreditava-se que essa união sagrada assegurava a fertilidade, e, assim, todos os anos ela era encenada pelo rei de Uruk e as altas sacerdotisas de Inana. Em outra versão do mito, o nome do marido de Inanna é Tamuz. O deus-Sol Utu teceu linho para fazer um lençol nupcial para sua irmã̃ Inana. “Quem será o meu marido?”. Inanna quis saber. Utu respondeu que ela deveria se casar com Dumuzi, o pastor. Inana não gostou da escolha. “O pastor usa roupas de lã grosseiras”, ela disse. “Eu prefiro o linho macio que Enkimdu, o agricultor, planta.” Dumuzi e Enkimdu desafiaram-se, e cada um mostrou suas aptidões. Dumuzi forneceu ao mundo a lã, o leite e o queijo, enquanto Enkimdu encheu os celeiros de grãos e proveu farinha, cerveja e pão. Dumuzi foi o mais convincente e o vencedor, mas Inanna não ficou satisfeita até Dumuzi comparar-se ao irmão dela, Utu, e encher-lhe o coração de desejo.

O CASAMENTO

Inana cobriu-se de jóias e ungiu o corpo com óleo, e o casal amou-se apaixonadamente. Inanna deu a Dumuzi o reinado de Uruk e prometeu o apoio de sua força e poder. Cedo Dumuzi a deixou para assumir o reinado e Inanna ficou só com as lembranças de seu amor.

Mitologia Mesopotâmica
Inanna, Utu  Enkimdu, Dumuzi 
8/8/2017 2:33:25 PM | Por Sarah Bartlett
A águia e a serpente

A mitologia babilônica é repleta de monstros e animais, algumas vezes como formas de poder e, outras, como totêmicas dos próprios deuses. Isso incluía um touro alado, os quatro cães de Marduk e a águia, um símbolo do deus do Sol babilônico, Shamash. A Águia e a Serpente eram boas amigas que costumavam caçar juntas. Mas, um dia, a Águia sentiu-se extremamente faminta e pensou que nada poderia ser melhor do que uma saborosa refeição de serpentes. A Águia disse à sua família que tinha a intenção de comer os filhos da amiga, a Serpente, mas uma sábia águia jovem advertiu-a de que, se o fizesse, incorreria na ira do deus do Sol, Shamash, e que ele, então, a puniria. A Águia, no entanto, recusou-se a acreditar em seu filho e arremeteu contra a árvore onde as serpentes se aninhavam. Quando pousou nos galhos mais altos, seu peso destruiu o ninho e todos os pequenos filhotes de serpente caíram no solo. A Águia os devorou avidamente. Quando a Serpente retornou e percebeu que toda sua prole havia sido devorada, clamou pela ajuda de Shamash para vingar a morte de sua família.

Shamash concordou em ajudar a Serpente a conseguir sua vingança, e deu-lhe um conselho: “Há um boi morto no caminho para as montanhas; esconda-se no interior da carcaça, e logo a Águia chegará. Quando o fizer, enrole-se rapidamente nela, esprema sua vida para fora, depois a morda com suas presas venenosas. Depois, você deve lançá-la em um poço”.

Serpente escondida

A Serpente encontrou o boi morto, rasgou a carcaça e deslizou por entre as costelas para se ocultar. Poucas horas mais tarde, ouviu um crocitar e o bater de asas. Centenas de corvos carniceiros precipitavam-se para comer a carne, mas a Águia foi cautelosa e permaneceu distante até que todos os outros pássaros se saciassem. Então, a Águia ficou com fome e quis comer: "Não há escolha, temos de comer a carne do boi, como todo mundo”. A sábia águia jovem falou de novo: tenha cuidado, meu pai, estou certo de que a Serpente está esperando por você dentro desse cadáver e irá matá-lo”.

Mas a Águia não lhe deu atenção e riu. Disse que não tinha medo da Serpente e, dominado de cobiça pela carne deliciosa, pousou na barriga do boi. Quando a Águia arrancou um naco do cadáver, a Serpente surgiu e capturou-a, enrolou-se firmemente em volta dela e depois enterrou as presas em seu pescoço. A Águia tentou implorar por misericórdia, mas a Serpente a espremeu ainda mais até que a Águia sufocou. A Águia morta foi atirada em um fosso. Daquele dia em diante, nenhuma águia jamais ousou matar uma serpente.

Mitologia Mesopotâmica
Utu (Shamash)   
8/8/2017 2:26:24 PM | Por Sarah Bartlett
Marduk e Tiamat

Marduk era o deus supremo durante a primeira dinastia, babilônica c. 2057-1758 a.e.c,. O texto mesopotâmico em que a sua estória é baseada provavelmente era uma peça de propaganda para manter o seu poder como principal divindade e o status da própria Babilônia. Esse mito era reencenado como um ritual de Ano-Novo e, embora sua principal fonte tenha sido encontrada entre as ruínas da biblioteca do rei Assurbanipal, que data de 650 a.e.c., fragmentos de textos anteriores sugerem que a estória é baseada em crenças mais antigas, nas quais os deuses teriam criado os seres humanos para serem seus escravos. No início 
Apsu, o oceano, e Tiamat, as águas primordiais, produ ziram muitos descendentes no início dos tempos, quando tudo era caos. Mas os deuses mais jovens, incluindo Ea, pai de Marduk, rebelaram-se e mataram Apsu. Tiamat se casou com o monstro Kingu, que enviou sua raça de demônios e monstros para se vingar dos jovens deuses.

Marduk se ofereceu para ser o campeão dos deuses e matar Tiamat e Kingu, se a ele fosse dado o papel de deus supremo. Armado com um arco, a força de um raio e uma rede sustentada pelos quatro ventos, Marduk montou em um furacão e partiu para a batalha com Tiamat.
Marduk encontrou Tiamat e quando ela abriu a boca para devorá-lo, atirou os quatro ventos em sua garganta; em seguida, disparou flechas em seu ventre inflado antes que ela pudesse arrotá-los de volta. Uma seta perfurou seu coração e ela morreu instantaneamente, soltando um arroto tão grande que arremessou Marduk para trás.

Roubando as Tábuas do Destino de Kingu para se certificar de que seria o mais poderoso de todos os seres, Marduk partiu para a criação do universo. Ele cortou Tiamat ao meio e ergueu metade dela para fazer o Céu e colocou a outra metade diante da face aquosa de Ea para formar a Terra. Marduk executou Kingu e, sob sua orientação, Ea tomou-lhe o sangue para criar a raça humana para ser escrava dos deuses.

Mitologia Mesopotâmica
Marduk, Tiamat, Apsu, Ea  Kingu 
8/8/2017 2:20:55 PM | Por Philip Wilkinson
Os decretos sagrados de Inanna

Inanna, também conhecida como Ishtar, é a deusa mais importante da mitologia mesopotâmica. Não raro, fez-se referência a ela como a “deusa do amor”, mas seu nome traduz-se literalmente como “rainha do céu”, e nos fragmentos de poesia encontrados em tabuletas do argila de quatro mil anos atrás ela se coroou como a rainha da Terra. Nesse trecho, ela visita Enki, o deus da sabedoria, e ganha dele o me, os poderes sagrados das leis que ele usou para estabelecer a ordem no mundo. Inana, a deusa do amor, pegou a coroa da Terra e a colocou sobre a cabeça. A seguir, ela se recostou em uma macieira e decidiu ir para Eridu visitar “... meu pai Enki, o deus que conhece o me, as leis sagradas do Céu e da Terra. Quando Inanna entrou no templo sagrado, Enki a recebeu com bolos, água fria para “refrescar o seu coração" e cerveja, e eles beberam juntos, à mesa do Céu.

Enki e Inanna brindaram e Enki, tendo exagerado na bebida, ofereceu o me à filha Inanna, Quatorze vezes ele ergueu a taça e ritualmente ofereceu a Inanna quase cem de seus poderes, incluindo o alto-sacerdócio, o trono, a arte do amor, o domínio do poder e da verdade, a cessão dos julgamentos e a capacidade de descer ao Mundo Subterrâneo e ressurgir na Terra. A todos Inanna respondeu: “Aceito!" Em seguida, a bordo da Barca do Céu, navegou com o me rumo ásua cidade, Uruk.

Enki recupera a sobriedade

Ouando os efeitos da cerveja se dissiparam, Enki pediu ao servo Isimud para trazer o me, mas Isimud disse: “O senhor o deu a Inanna.” Então, Enki enviou Isimud atrás de Inanna para trazer os poderes de volta, e quando Inanna se recusou a devolvê-los, ele enviou seis demônios terríveis para persegui-la. Inanna chamou sua serva Ninshubur para ajudá-la. Ninshubur cortou o ar com a mão e mandou os demônios de volta para Eridu. Com a ajuda da serva. Inanna conduziu a Barca do Céu até Uruk, onde houve festejos nas ruas quando Inanna colocou o me em seu templo sagrado.

Mitologia Mesopotâmica
Inanna, Enki  Isimud, Ninshubur 
8/7/2017 2:40:19 PM | Por
Os heróis gêmeos

Para além da história da criação o Popol Vuh inclui muitos contos sobre as façanhas dos Heróis Gêmeos, as mais conhecidas de todas as figuras mitológicas mesoamericanas. Os Primeiros Heróis Gêmeos: Hunahpu Um e Hunahpu Sete Xpiyacoc e Xmucane, o deus e a deusa que viriam mais tarde a criar os primeiros seres humanos a partir do milho, tiveram filhos gêmeos chamados Hunahpu Um e Hunahpu Sete. Os gêmeos adoravam jogar pokatok, um jogo de bola muito popular que era muito rápido e frequentemente violento, e que se tornou em um ritual fulcral na cultura mesoamericana. O objetivo do jogo consistia em meter uma bola de borracha em um anel de pedra que se encontrava em uma extremidade de um campo especial, usando apenas os joelhos, cotovelos ou cintura. Acontecia que o campo de bola de pedra estava mesmo por cima da entrada do Xilbalba, o Submundo, cujos senhores estavam aborrecidos com o barulho que acompanhava os jogos de bola e também extremamente invejosos da terrível mestria atlética dos gêmeos.

Dois dos senhores, Morte Um e Morte Sete, chamaram-nos para irem jogar à bola no Submundo, com a ideia de os matarem e roubar-lhes o campo de jogos. A mãe dos gêmeos, Xmucane, suspeitou de jogo sujo e tentou convencê-los a não irem, mas eles não ligaram aos avisos.

Para chegarem ao Xibalba, os gêmeos conseguiram atravessar três rios repugnantes e perigosos o primeiro estava cheio de sangue, o segundo cheio de pus, e o terceiro cheio de espinhos aguçados. Após uma série de tarefas árduas e humilhantes em que se viram enredados, es irmãos foram sacrificados e os seus corpos sepultados debaixo do campo da bola, mas a cabeça de Hunahpu Um foi pendurada em uma de cabaças. (Em outras versões da história, a cabeça foi transformada em uma cabaça e toda a gente estava proibida de olhar para a árvore ou de comer o fruto.) Os senhores devolveram o equipamento do jogo de bola dos gêmeos, que Xmucane escondeu tristemente nas vigas da casa.

Um dia, uma donzela do Submundo, de seu nome Xquic («Lua de Sangue») parou para olhar para a árvore.

A cabeça de Hunahpu Um, ou a cabaça, deitou-lhe sementes na mão e ela ficou grávida. Expulsa pelo pai, retirou-se para o Mundo Superior e foi para a casa de Xmucane para dar à luz a segunda geração de Heróis Gêmeos.

Os segundos Heróis Gêmeos: Hunahpu e Xbalanque

Quando os gêmeos Hunahpu e Xbalanque nasceram, Xmucane aceitou-os como família, na qual já se incluíam os primeiros filhos de Hunahpu Um: Macaco Um e Artesão Um.

Tal como o pai e o tio, Hunahpu e Xbalanque eram brilhantes e aventureiros. Também eram caçadores exímios e tinham poderes mágicos.

Como eram muito bonitos e espertos, os meios-irmãos tinham inveja deles, roubavam-lhes a comida e tentavam criar-lhes todas as espécies de problemas.

Embora o Macaco Um e o Artesão Um tivessem mau temperamento e fossem preguiçosos, tinham talento artístico e musical. Por fim, Hunahpu e Xbalanque estavam fartos das partidas dos irmãos, pelo que os apanharam em uma árvore e os transformaram em macacos.

As Provações de Hunahpu e Xbalanque

Um dia, os Heróis Gêmeos tinham ido à caça, apanharam uma ratazana e preparavam-se para a atirar ao fogo quando ela lhes disse o que tinha acontecido ao pai e ao tio em Xibalba. Também lhes falou do equipamento de jogar à bola (que incluía elmos, cintos e proteções para os pulsos e para os joelhos) que estavam guardados na casa da avó.

A segunda geração de gêmeos adorava o jogo da bola, tal como Hunahpu Um e Hunahpu Sete tinham adorado. Decidiram então que logo que pudessem, vingariam a morte do pai. Não tardou a que o barulho do jogo constante enervasse os senhores de Xibalba, pelo que convocaram os gêmeos para irem ao Submundo.

Tal como o pai e o tio antes deles, os irmãos atravessaram os três rios terríveis e, mal chegaram ao Submundo, aguardava-os uma série de testes.

Sobreviveram com bravura aos perigos de noites sucessivas na Casa das Trevas, na Casa da Navalha da Barba, na Casa do Jaguar, na Casa do Frio e na Casa do Fogo vencendo pela astúcia as armadilhas e ciladas dos senhores da escuridão.

A última - e mais dura - noite seria passada na Casa dos Morcegos.

O mais perverso dos morcegos cortou a cabeça de Hunahpu e, para acrescentar o insulto ao ferimento, os senhores forçaram Xbalanque a disputar um jogo de pokatok usando a cabeça do irmão como bola. Xbalanque, porém, tinha uma inteligência rápida; descobriu um coelho para fazer o papel de bola e, com toda a rapidez, apanhou a cabeça do irmão e voltou a juntá-la ao corpo.

Após tudo isto, os Heróis Gêmeos autorizaram ser sacrificados pelo fogo, mas passados alguns dias emergiram de um rio como seres semelhantes a peixes. Viajaram pelo Submundo entretendo as pessoas com cantares, danças e magias. Por fim, os gêmeos foram convocados para uma apresentação de comando realizada pelos dois dirigentes das trevas mais poderosos e foi-lhes dada ordem para que voltassem a sacrificar-se. Eles obedeceram e regressaram instantaneamente à vida.

Os senhores quiseram que os gêmeos fizessem a mesma magia com eles, e se bem que tivessem concordado, não inverteram o feitiço para trazer os senhores de volta à vida. Xibalba tornou-se apenas uma sombra do que era e os vitoriosos Heróis Gêmeos subiram aos céus, onde finalmente passaram a ser o Sol e a Lua.

Mitologia Maia
Hunahpu Um - Hunahpu Sete - Xbalanque - Hunahpu - Xpiyacoc - Xmunace    
8/6/2017 10:25:22 PM | Por A. S. Franchini
O sacrifício de Isaac

Depois que Abraão recebera de Deus a notícia de que sua esposa Sara iria ter finalmente o filho que ambos esperavam há tanto tempo, partiu com ela para a região do Negueb, indo habitar no reino de Guerar. Entretanto, ali passou por uma aventura muito parecida com a que vivera no Egito, quando recém era um emigrante vindo da distante Ur dos caldeus. Nem bem chegara a Guerar, com sua mulher Sara, e já o rei, chamado Abimelec, a cobiçou ardentemente – apesar de ela ser, então, uma mulher de mais de noventa anos de idade. Mas, atendendo-se ao fato de que ela ainda tinha mais 37 anos de vida pela frente e de que ao decidir tomá-la mãe o Senhor a ornara de novos encantos, nada há aqui que se possa tomar como verdadeiro disparate. Quando os oficiais de Abimelec chegaram para levar a bela Sara, Abraão repetiu o mesmo feliz estratagema empregado com o Faraó, dizendo ser irmão dela.

- Está bem – disse um dos raptores, de modo condescendente. – Por ser apenas irmão dela, pouparemos a sua vida.

Contudo, o deus de Abraão estava atento à vilania, e logo tratou de enviar um sonho funesto ao rei, prevenindo-o de que males terríveis desceriam sobre ele por ter tomado para si uma mulher casada.

- Mas, Senhor - disse Abimelec, no mesmo sonho -, se eu não sabia de nada! O próprio marido me disse que a bela Sara era sua irmã, e só por isto a tomei para mim. Estou completamente inocente nesta estória.

- Foi por saber disto que impedi que tocasses na bela Sara - disse o Senhor -, e só por isto é que ainda não fiz desabar sobre ti o meu terrível castigo, que será a tua morte e a de todos os teus.

No dia seguinte Abimelec acordou em grande sobressalto e, no mesmo instante, mandou chamar Abraão a sua presença.

- Por que me mentiu, forasteiro, dizendo que sua esposa era sua irmã? – disse o rei, atarantado.- Por sua causa me vejo em grande risco de perder a vida e o reino, já que seu deus me ameaçou, além de ter tomado estéril toda mulher deste reino.

Abraão explicou-lhe dizendo que usava daquele estratagema para evitar que o matassem, sabendo que era marido de uma mulher tão cobiçada. Mas logo em seguida fez outra revelação realmente estarrecedora.

- Na verdade, minha bela Sara, além de minha esposa, é de fato minha irmã - disse ele, usando de sinceridade.

Abimelec arregalou os olhos.

- Sim, rei de Guerar – confirmou Abraão, de modo impassível. – Sendo filha de meu pai com outra mulher, certo dia a tomei também como esposa.

“Estarei diante de novo ardil?", pensou Abimelec, sem atinar, contudo, com a razão da malícia.

Não querendo mais saber, então, o que era e o que não era, Abimelec decretou:

- Tome de volta a sua mulher – ou sua irmã, ou as duas coisas-  e instale-se livremente em qualquer parte de meu país, para que assim se evite que a destra do seu deus desça com força sobre a minha cabeça.

Recompensado – tal como o fora da outra vez com o Faraó – com mil siclos de prata, além de grande número de ovelhas e servos, Abraão e sua disputada Sara se reconciliaram com Abimelec, o que representou verdadeira bênção para esse monarca, pois logo sua mulher e suas servas voltaram a ser férteis, enchendo o pais de novos descendentes.

Depois disso, Sara concebeu de Abraão, finalmente, o seu filho tão desejado.

- Aqui está, meu amado esposo, o tão esperado fruto! - disse ela, tomando em suas próprias mãos o filho recém-nascido e ofertando-o ao marido.

Abraão chorou de emoção ao tomar nos braços o seu verdadeiro rebento.

- Ele se chamará Isaac - disse o velho pai, pois lembrara do grande riso que Sara dera ao receber do Senhor a notícia de que iria parir aos noventa anos de idade.

E ao ver a velha Sara tirar para fora seu seio redondo como um grande mamão, a fim de dar alimento ao seu filho, pensou, num novo e agradabilíssimo acesso de espanto: "Quem haveria de dizer que minha Sara, quase centenária, ainda daria de mamar a uma criança! Grande é o Senhor!"

Aos oito dias, o pequeno herdeiro foi circuncidado, como mandara outrora o seu deus.

No dia do desmame de Isaac. Abraão deu uma grande festa para comemorar o evento. Sara, entretanto, ao ver Ismael, o filho da escrava Agar e de seu marido, brincar com seu próprio filho, tomou-se de grande ira.

- Expulse este bastardo daqui! – disse ela, ao seu marido. – Não quero que ele venha a herdar junto com o meu filho.

Abraão, entretanto, acendeu-se de ira e disse:


- Nada disto! Ismael também é meu filho!
Entretanto, Abraão recebeu, mais tarde, a visita do Senhor, o qual lhe ordenou que fizesse tal qual sua esposa ordenara.
- A estirpe que te prometi deve provir de Isaac, e não de Ismael – disse Ele.- Do filho de Agar, entretanto, farei também uma grande nação.
No dia seguinte, o próprio Abraão tomou para si a triste incumbência de expulsar para o deserto Agar e seu filho Ismael. De manhã bem cedo, tomou de um odre de água e de um pão e os levou até eles, dizendo:

- Devem partir imediatamente.

E sem escutar mais nada, deu-lhes as costas, pois sendo Deus quem lhe ordenara, não havia mais o que discutir.

Agar, desesperou-se.
- Ai de mim e de você, filho amado! Para nós está tudo acabado!
A pé, ela e Ismael tomaram, então, o rumo do deserto de Bersebá. Andaram muito, e quando o último gole de água desceu do cantil, ela depositou o exaurido Ismael debaixo de um arbusto, indo desabar ela própria um pouco mais adiante.

- Não, não assistirei à morte de meu próprio filho! - disse ela, cobrindo a cabeça com seu manto coberto de poeira.

Nesse instante, porém, ela escutou a mesma voz que escutara da outra vez em que fugira para o mesmo deserto, a fim de escapar â ira de Sara.

- Nada tema, Agar, nem por ti nem por teu filho. Já disse outrora, e agora repito, que ouvi a voz de Ismael e que farei dele pai de uma grande nação.

O anjo do Senhor estava outra vez em pé, ao lado dos dois desgraçados.

- Vai. levanta e dá de beber a teu filho - disse ele, apontando para uma nascente d'água que brotara subitamente da areia.

Desde então Deus não mais abandonou a Ismael, o qual se tornou, sob as vistas do Senhor, emérito caçador e chefe dos povos do deserto. Mais tarde casou-se com uma mulher, egípcia tal como sua mãe, e é considerado patriarca dos povos árabes seguidores da lei do profeta Muhammad (ou Maomé). Ismael morreu com 137 anos.

Depois que Isaac nasceu, Abraão fez um novo pacto de aliança com Abimelec, pois vivia ainda em suas terras. O tratado foi firmado sobre o poço de Bersebá, e desse modo Abraão ainda residiu por muito tempo na terra dos filisteus.

Tudo parecia ir maravilhosamente bem quando, certo dia, o Senhor apareceu novamente a Abraão. O que Ele tinha a dizer, no entanto, iria abalar profundamente a alma do seu velho servo.

- Deixa tudo, toma o teu filho e parte já para Moriá – disse o Senhor.

- Para Moriá? – disse Abraão, com um mau pressentimento, - O que haverei de fazer lá, meu Senhor?

- Vou Indicar-te uma montanha, a qual deverás subir, junto com teu filho Isaac. Abraão sentiu um calafrio na alma.
- Perdão, Senhor, mas ainda não entendi o que queres - balbuciou ele.
- Quando lá chegares, sacrificarás a mim o teu filho Isaac, como prova de tua submissão - disse Deus, desaparecendo em seguida.
Abraão, tateando o ar, como um cego, procurou o apoio de uma pedra.
"Como pode ser isto?, perguntava-se, incrédulo. "Como direi tal coisa a Sara? E o que restará de minha descendência, inumerável como as estrelas?"
Abraão deitou-se à noite como quem deita para morrer. Na manhã seguinte, entretanto, ergueu-se bem cedo - pois não dormira - e, tomando do machado, foi cortar a lenha para o terrível holocausto.

Enquanto fazia descer o machado, a cabeça do pai de Isaac parecia tomada por uma nuvem, e por mais que tentasse não conseguia visualizar a cena que fatalmente teria de protagonizar dali a alguns dias. “Devo cortar a lenha em grandes pedaços", pensava ele, e isto era tudo quanto sua mente podia alcançar. "Pedaços bem grandes."

Então, depois de completada a tarefa, viu o filho surgir à sua frente. Ele já era um rapaz, mas ainda guardava no rosto os traços da criança recente.

- Tom a este feixe de lenha seca, filho meu, e me acompanha – disse ele a Isaac.

Abraão seguiu montado sobre um jumento, enquanto seu filho ia um pouco mais atrás, a carregar o seu feixe às costas. Junto com ambos ainda iam dois servos.

- Porque vamos subir a montanha? – perguntou o jovem, curioso.

Abraão nada disse e permaneceu soturno, sob o passo bamboleante do jumento. Com o feixe disposto horizontalmente sobre os ombros, Isaac foi galgando os caminhos, cada vez mais intrigado com tudo aquilo. As vezes dava uma olhada para os dois servos, mas estes logo desviavam as vistas, pressentindo o pior. Isaac também notou que de tempos em tempos ambos pareciam tomados por uma espécie de espasmo, que os fazia se retorcerem. Na verdade, eles também estavam muito agitados, pois pressentiam estar envolvidos em um grande acontecimento. Ao mesmo tempo em que pressagiavam uma desgraça, também se rejubilavam interiormente com ela. “Em algum dia distante será conhecido de todos que Abraão e seu filho marcharam certa feita para as montanhas de Moriá, a fim de fazerem o que quer que seja de importante que estejam prestes a fazer", pensavam eles (pois, estando na mesma situação, ambos pensavam exatamente a mesma coisa). “Talvez, com um pouco de sorte, se dirá também que junto deles seguiam dois modestos servos. Ora, os dois servos somos justamente nós!", acrescentavam, apalpando-se, enquanto procuravam esconder os seus arreganhos de euforia.

Isaac, porém, ao ver as caretas dos dois tolos, interpretava-as de modo diferente. "Eles choram", pensava ele, o que o deixava ainda mais alarmado.

E assim seguiu o pobre Isaac, junto com o pai e os servos, durante três dias, o seu périplo pelas veredas que conduziam até a montanha fatídica.

- A partir daqui vocês dois ficam, até retornarmos – disse Abraão, sem olhar para o rosto dos dois servos. Depois, voltando-se para o filho, disse:

- Isaac, meu filho, tome seu feixe e venha nos meus passos.

Os servos, sem dar um pio – obedientes que eram -, ficaram a observar o velho senhor e o jovem infeliz, e só quando ambos sumiram em meio à vegetação foi que os dois tolos se olharam, e o olhar perfeitamente desolado do primeiro dizia: “Não, não veremos jamais o que sucederá”, ao que o olhar do outro concordava plenamente, dizendo: "Por certo que não, o que é, sem dúvida, uma lástima".

Enquanto isso, Abraão e Isaac seguiam, avançando pelas subidas Íngremes. Isaac, bastante exausto pela carga de lenha que carregava havia já três dias, fez várias paradas, no que era acompanhado por Abraão.

- Bom é parar, mas o melhor é sempre chegar – dizia o pai, mecanicamente, depois de cada parada.

Isaac, então, tomando de sua carga, retomava a subida junto com o pai. Quando o dia já estava alto, os dois chegaram finalmente ao seu destino. – É aqui – disse o velho patriarca, com a voz cavernosa.
- É aquio quê, meu pai? – disse o jovem, depondo a carga ao chão.

- Façamos agora um holocausto para o Senhor – disse o velho pai.

- Como quiser – disse o jovem, pegando as madeiras. – Onde erguerá o altar, meu pai?

- Ali, sobre aquela grande pedra - disse o velho, de cabeça curvada.

Então, assim que estava tudo arrumado, o jovem perguntou para o pai, com um ligeiro tremor em sua voz:

- Mas e o cordeiro, meu pai? Onde está que não o vejo?


- Isto a Deus compete, meu filho – disse Abraão.
E como não surgisse cordeiro algum, senão o cordeiro de Abraão, este tomou-o nos ombros e o conduziu até a pira, ainda apagada, sem dizer uma única palavra. Isaac soube, então, que era ele o cordeiro escolhido. Sem dizer, igualmente, uma única palavra, deixou que seu pai o deitasse sobre o lenho e amarrasse seus membros. Abraão, tomando da adaga afiada que trazia oculta sob o manto, somente a fez ver ao filho quando não havia mais outro meio de escondê-la.

- Eis que o Senhor me impele à maior das provas, meu filho muito amado! Console-se, pois logo estará na companhia dos outros justos como você, que também souberam se submeter à inteira vontade Daquele que é maior do que qualquer de nós.

Depois de erguer hesitantemente o punhal, Abraão fez uma prece ao Senhor, mas tão logo a terminou e preparava-se já para fazer descer a lâmina mortal foi impedido por uma voz retumbante que dizia:

- Basta, Abraão! Nada faças a teu cordeiro escolhido.
Os olhos de Abraão encheram-se de lágrimas.
- Agora sei que me tens inteira dedicação, pois não me recusaste o teu único filho. Retira-o logo do altar e põe em seu lugar aquele carneiro que ali está.
Abraão voltou os seus olhos para um denso espinheiro e ali viu, com efeito, um carneiro preso pelos grandes chifres anelados.
E antes que Abraão desse início ao verdadeiro holocausto, o Senhor repetiu do alto dos céus a sua promessa de que a Abraão estaria destinada uma descendência mais numerosa que as estrelas do céu e os grãos de areia da praia.

Cumprido o rito, Abraão e Isaac retomaram até onde haviam deixado os dois criados. Estes, ligeiramente perplexos, chegaram a temer que nada de importante houvesse realmente acontecido. Mas, ao verem o brilho de felicidade nos olhos do pai e do filho, tiveram a certeza de que a fama do ato que ambos recém haviam protagonizado também lhes respingaria, de alguma maneira, para todo o sempre.

Mitologia judaico-cristã
Yahweh, Jeová, Deus hebreu, Alah   Abraão, Isaac, Agar, Ismael, Sara, Abimelec
8/6/2017 10:16:01 PM | Por A. S. Franchini
Isaac e Rebeca

Abraão e Sara não foram os únicos a procriar no período em que tiveram seu filho Isaac. O patriarca hebreu tinha um irmão chamado Naor que. junto com sua esposa Milká, teve vários descendentes, dentre os quais Betuel, que seria, mais tarde, pai de uma linda moça chamada Rebeca. Mas para que esta nova e fresca personagem entre em cena é preciso antes que uma outra, bem mais velha, dela se retire. Estamos falando, é claro, da encantadora Sara. A esposa de Abraão, depois de ter alcançado do Senhor a grande graça de gerar um filho após os noventa anos, viveu ainda até alcançar a provecta idade de 127 anos. Sara morreu na terra de Canaã, em Hebron, e por isso Abraão negociou a compra de um túmulo para sua adorada esposa ali mesmo, na caverna de Makpelá, que o novo proprietário fez questão de pagar, embora lhe tivesse sido ofertada como presente pelos habitantes locais.

- Pagarei quatrocentos siclos de prata – disse Abraão, firmando o negócio.

E foi assim que Sara adentrou de pés juntos a caverna na qual, além do próprio Abraão, entrariam um dia, entre outros, seu filho Isaac e o neto Jacó, que ela jamais conheceria.

Estando Abraão viúvo, e já entrado em anos, começou a temer pela descendência maior que as estrelas, pois seu filho Isaac, um homem calmo e pouco dado a namoros, já andava perto da casa dos quarenta anos.

- É preciso que Isaac faça a sua parte para que a minha noite, que já se aproxima, se povoe de estrelas – disse um dia Abraão a seu administrador Eliézer.

O administrador concordou,

- Coloque, então, a sua mão sobre os meus testículos - disse Abraão, exigindo que Eliézer fizesse esse tipo de juramento, então corriqueiro. - Prometa que não permitirá jamais, mesmo que eu desapareça, que meu filho Isaac se case com uma mulher desta terra de Canaã, mas antes com uma de minha própria família. O administrador ficou em dúvida.


- Imagino que deva levar seu filho até a distante terra de Haran – disse ele.


- Imagina errado, caro Eliézer - disse Abraão. - Você fará sozinho tal jornada, pois o lugar de Isaac é aqui, e aqui me será dada a descendência. Faça esta jornada sozinho e, quando estiver na minha antiga terra, lá o Senhor fará com que venha ao seu encontro aquela que, indubitavelmente, será a minha nora. Agora vá, pois a minha idade já me pesa e os últimos grãos da ampulheta sempre escorrem mais rápido. Ande, pois não quero morrer sem conhecer aquela que será para meu filho o mesmo que foi para mim a saudosa Sara.

Eliézer partiu rumo a Haran, levando consigo dez camelos. Durante todo o transcurso da viagem, esteve preocupado sobre como faria para alcançar o sinal do Senhor, até que, depois de muitos dias, finalmente chegou à entrada da cidade, em um final de tarde.

- É aqui o lugar onde devo encontrar a esposa para Isaac - disse ele para si mesmo. - Que o Senhor me ilumine e não permita que volte para Abraão sem a sua nora.

Ali onde estava, Eliézer divisou um poço onde as pessoas vinham buscar água em grandes cântaros e teve a ideia de orar ao Senhor.

- Senhor do meu amo! - disse ele, ajoelhando-se. - Faze com que eu identifique a esposa de Isaac da seguinte maneira: quando ela se aproximar, direi: “Dê-me, por favor, um pouco da água de seu cântaro", e depois, caso ela me atenda, aguardarei que diga: “Darei, também, água para os seus camelos", e se ela assim o fizer, então é porque é ela a escolhida. Pois esse será o sinal da eleição.
Nem bem o mordomo de Abraão havia terminado sua prece quando surgiu uma bela mulher carregando um grande cântaro vermelho. Seu vestido alvo contrastava deliciosamente com o objeto, e Eliézer sentiu seu coração vibrar de expectativa. “Será ela, meu Senhor?", pensou, emocionado.

- Bom dia, jovem filha de Haran – disse o emissário de Isaac.


- Bom dia - disse ela, sem olhar-lhe no rosto.

A jovem aproximou-se do poço e, depois de mergulhar o cântaro escarlate na fonte, retirou-o gotejante de lá. Eliézer observou tudo, encantado, e aproximou-se da Jovem, como que impelido por uma força superior.

- Poderia me dar um pouco da sua água, pois tenho muita sede? - disse, educadamente.

No mesmo instante, e sem pestanejar, a jovem inclinou o seu cântaro para que o servo de Abraão saciasse a sede.

Com as barbas grisalhas molhadas pelo liquido, Eliézer aguardou que Deus tornasse efetiva a segunda parte do ajuste, o que, para sua felicidade, não tardou a acontecer, pois logo a jovem anunciou, retornando para o poço:

- Aguarde, que também darei de beber aos seus camelos.
“Graças ao Senhor!', pensou ele, prosternando-se, enquanto ela se afastava. Então, depois que ela havia saciado a sede dos camelos, Eliézer perguntou:


- Como é o seu nome, bela jovem?


- Sou Rebeca, filha de Betuel - disse ela, erguendo ligeiramente os cílios.

Novamente o servo de Abraão prosternou-se, agora diante das vistas da jovem.


- Bendito seja sempre o Senhor, que não me abandonou! - exclamou, extasiado, ao descobrir que estava diante da neta do irmão de Abraão.


A moça contemplou, surpresa, a reação daquele estranho homem.


- Meu senhor lhe oferece este anel de ouro e estes dois braceletes de ouro para que resplandeça ainda mais a sua beleza – disse Eliézer, estendendo-lhe os presentes.

Rebeca fez menção de partir, vagamente ofendida com a oferta.
- Não se ofenda, bela Rebeca, pois estes presentes vêm da mão de Abraão, irmão de seu avô.
Rebeca, encantada com a noticia, correu ligeiro até a sua casa para dar a boa nova aos seus parentes.

Seu irmão  Labão – que anos mais tarde iria desempenhar um papel fundamental na vida de um dos filhos de Rebeca – também estava ali, e foi com grande alegria que todos correram a receber o servo de Abraão.

Naor, que ia à frente de todos, abraçou a Eliézer, perguntando pelo irmão.
- Abraão é um grande senhor em Canaã – disse Eliézer, com orgulho.
Rebeca, com o anel colocado no nariz, à maneira oriental, e com os braceletes a penderem dos pulsos, assistia a tudo, maravilhada.
Eliézer fez o pedido em nome de Isaac, tal como ordenara seu amo, explicando as circunstancias milagrosas do encontro. Diante disso, todas as cabeças inclinaram-se

- Esta a sua vontade? – perguntou Labão à irmã.

- Sim – disse ela, satisfeita.

Rebeca retornou, então, com Eliézer, e depois de vários dias de viagem, quando haviam entrado nos limites da terra de Abraão, surgiu-lhes adiante a figura de Isaac, que estava por ali a meditar, já que esta era sua natureza.

- Quem é este homem que vem até nós? – disse Rebeca, cobrindo o rosto. – Este é Isaac, filho de Abraão e o seu futuro esposo – disse Eliézer.
E assim se deram os primeiros passos da união de Isaac e Rebeca, que se casaram na cidade de Haran.

Antes de morrer, Abraão ainda pôde desfrutar da companhia de sua nova nora, à qual coube consolar, a exemplo do que já fizera durante muitos anos com sua falecida Sara, pois a jovem Rebeca também encontrou dificuldades para gerar um filho.

- Confie nas palavras do Senhor, assim como Sara confiou – dizia ele, todas as vezes que a jovem vinha até a sua tenda lamentar a desdita.

Isaac, no entanto, com seu temperamento calmo, parecia não estar muito preocupado com o assunto, talvez porque soubesse, como o pai, que o Senhor não faltava jamais com uma promessa.

Entretanto, antes que o rebento de Rebeca pudesse vir ao mundo, tiveram todos de haver-se com um fato entristecedor, que foi a morte de Abraão. O velho patriarca, cujo nome seria exaltado para sempre, depois de ter perdido sua primeira esposa, ainda tomara outra, de nome Cetura, e com ela tivera mais seis robustos filhos.

Vivendo cercado por sua prole. Abraão teve um final de vida pacifico e feliz, morrendo aos 175 anos. Seus filhos, capitaneados pelo manso Isaac e o selvagem Ismael, conduziram o corpo do velho patriarca até a caverna de Makpelá, onde Sara já repousava há bom tempo. Rebeca, profundamente entristecida pelo fato, sentiu-se sozinha, já que agora não tinha mais a presença reconfortante daquele delicado sogro, que tinha sempre uma palavra de consolo e carinho a lhe prodigalizar. Por isso, logo depois dos funerais, tomou uma decisão.

- Isaac, preciso muito lhe falar - disse, com firme determinação.

Seu esposo, embora parecesse meio desligado das coisas terrenas, quando se tratava da esposa, tinha sempre um olhar de atenção.

- O que foi, minha Rebeca? - disse ele, tomando os cabelos dela em suas mãos.

- Quero retomar para a terra de meus pais.


Isaac ficou perplexo.
- Retornar? Para quê?

- Algo me diz que só conceberei nosso filho quando estiver de volta ao meu lar.

Isaac pediu um tempo a ela para pensar no assunto. Será que ele se adaptaria a viver na planicie de Haran? Mas depois de refletir que seu próprio pai de lá viera, decidiu fazer a vontade da esposa.

- Está bem, Rebeca amada, iremos para junto dos seus - disse ele, fazendo com que a esposa desse pulos de alegria.

De volta a Haran, fizeram muitos passeios até a fonte de Lahai-Roí, onde o servo Eliézer a encontrara com seu cântaro na mão.

E foi assim que se anunciou o ingresso no mundo dos filhos dos dois, Esaú e Jacó, cuja amarga contenda - parecida com aquela que opusera um dia Isaac a Ismael – iria repetir-se em um nível muito maior.

Mitologia judaico-cristã
Jeová, Yahweh, deus hebreu, Alah   Abraão, Isaac, Rebeca, Eliézer, Naor, Labão
8/6/2017 10:11:40 PM | Por Carmen Seganfredo
A Torre de Babel

Durou pouco tempo a nova trégua estabelecida entre Deus e suas criaturas. Nem bem havia secado a última poça de água do devastador Dilúvio e já os descendentes de Noé haviam começado a reincidir alegremente na prática do mal. Espalhados pelo mundo, os filhos de Sem, de Cam e de Jafé construíram grandes civilizações, tão adiantadas materialmente quanto eram atrasadas espiritualmente (segundo a ótica do Senhor). Uma dessas civilizações era a babilônica, cuja capital era a cidade de Babel, lugar onde viviam seres muito industriosos, porém pouco morais. Naqueles distantes dias, todos os povos falavam a mesma língua, pois ainda era recente a época em que haviam coabitado sob as mesmas tendas. E, sendo fácil a comunicação, igualmente fácil era fazer circular toda a espécie de ideias soberbas. O ser humano, como que renascido das águas, sentia-se senhor do seu destino. A velha estória do castigo divino havia sido relegada a condição de fábula, da qual se riam os homens abertamente pelas ruas da grande cidade erguida sobre a planície de Shinear.

- Que Deus, que nada! - diziam os potentados, dos quais os grandes construtores eram os maiorais. – Basta dessas bobagens! O que vale é construir, construir cada vez mais!

Empolgados por um frenesi construtivista, espalhavam-se canteiros de obras por toda parte, e o que mais se via em toda Babel eram andaimes espalhados pelos ares, repletos de formigas humanas com seus instrumentos de trabalho.

- Vamos lá, temos de entregar ainda este mês este maldito palácio! - berravam os construtores, de chicote em punho.

Ao mesmo tempo, circulavam pela corte as mais extravagantes ideias. Tomados pela inveja, ao saberem que os egípcios haviam erguido uma monumental pirâmide para louvar o seu faraó corrupto (a célebre pirâmide de Gizé), os babilônios decidiram erguer um majestoso zigurate – palavra suméria que significava ‘pináculo’ - para homenagear os governantes e os deuses do seu pais.

- Pirâmide alguma chegará aos pés de nossa elevada torre – dissera um dos construtores ao rei da Babilônia. – Será tão imensamente alta que tocará os portões do céu e dilúvio algum poderá submergi-la.

Os babilônios também pretendiam que o topo da torre fosse a habitação do deus Marduk, divindade suprema que haviam criado para substituir o velho Yahweh de Noé, divindade arcaica que os tempos modernos, empreendedoristicos e amorais haviam tomado obsoleta.

- O grande Marduk estará instalado em um enorme aposento, no topo d ozigurate, onde receberá as oferendas de seus fiéis – dissera  o mesmo construtor.

Aprovado o projeto audacioso, o rei deu a ordem para que começassem as obras imediatamente. Em poucos dias, a construção, que mais parecia um vasto cupinzeiro, já havia crescido de maneira espantosa. Ultrapassando em muito o tamanho do maior dos palácios existentes, elevava-se cada dia mais, de tal sorte que em um mês já não se podia mais divisar seu topo.

Todos os dias um mensageiro corria ao rei para levar a notícia do andamento da prodigiosa obra.

- Já tocou o céu? – perguntava o soberano.
- Ainda não, alteza, mas já alcança as nuvens – dizia o leva-e-traz.
- Redobrem, então, os trabalhos, até que perfure o céu – dizia o rei, ávido de realizar o inédito prodígio.
No outro dia, nova remessa de material era enviada para o local da construção. Juntamente com mais alguns milhares de homens. Famílias inteiras estavam entregues à tarefa exaustiva; muitas centenas de pessoas morriam no duro afã de escalar as escadas que conduziam até o pináculo, atravancando os degraus, e acabavam sendo arremessadas do alto para desobstruir os caminhos que levavam ao céu.

Os milhares de andaimes, suspensos por um verdadeiro emaranhado de cordas, subiam e desciam como pequenos elevadores de madeira, levando aos céus homens e materiais, e era uma verdadeira festa quando os trabalhadores se cruzavam, e então irrompiam os gritos, cumprimentos e brincadeiras que uns dirigiam aos outros.

Depois de uma certa altura, dependendo do clima que reinava no dia, era impossível enxergar-se algo embaixo, e era, então, como se os trabalhadores estivessem a construir um palácio sobre as nuvens.

- Até onde isto nos levará? - perguntavam-se, invariavelmente.

E assim foi até que o Senhor, tomando conhecimento da grande irrisão, perdeu finalmente a paciência diante do atrevimento daquelas formigas.

- Então ajuntam-se todos sob uma mesma língua para desafiar o meu poder?! - disse Deus, enfurecido.

Decidido a colocar um ponto final em tanta soberba, o Senhor fez, então, com que descesse sobre toda a terra dos babilônios uma grande confusão.

Era a manhã de mais um dia de trabalho na grande torre de Babel. Os operários, espremidos em seus andaimes, começavam a ser suspendidos outra vez para as nuvens, enquanto, pelas escadarias, milhares de trabalhadores galgavam exaustivamente os infinitos degraus. Os feitores e capitães-de-obra acompanhavam o serviço, impedindo por todos os meios que a preguiça se introduzisse na alma dos assentadores de tijolos.

O dia começara nublado, mas não foi assim por muito tempo, já que de repente o sol surgiu no horizonte, banhando a construção com seus raios ofuscantes.

- Bfofé liziu diguritu, fegumibe! - disse um feitor a outro, com o semblante alegre. (Na verdade, ele dissera: "Vamos ter um lindo dia de sol!”, e o que reproduzimos não era, naturalmente, o novo idioma que surgira, senão a tradução figurada de como ela soara aberrantemente aos ouvidos do outro.)

- Hunji-kinjú? - perguntou o companheiro. ("Como é que é?')
Os dois olharam-se com o pasmo estampado no rosto. Então um dos feitores, ao perceber dois operários que conversavam- e que também não conseguiam se entender de modo algum -. Os interrompeu com uma chicotada no lombo.

- Plotatunda, fadú! - disse o feitor, enfurecido (“Ao trabalho, ralé!")
Entre os andaimes a coisa se repetia.
Por toda parte a desinteligência estava instalada. Não havia duas pessoas que se entendessem entre si, de tal sorte que um alarido infernal ergueu-se em poucos minutos em todos os andares da construção. Homens agarrados às barbas dos outros tentavam fazer-se entender a qualquer custo.

A verdade é que Deus, decidido a impedir o avanço da obra blasfema, decidira também poupar, por esta vez, as suas criaturas da sua fúria sanguinária (pois não lhe custaria nada fazer ruir a torre inteira, sepultando em seus escombros toda a legião de obreiros), fazendo simplesmente com que as línguas se embaralhassem num caldeirão de idiomas diferentes e ininteligíveis.

A partir daquele dia, não houve mais quem se entendesse em toda a Babel. Dispersos pelo mundo, seus construtores foram buscar outros lugares para viver, fundando comunidades onde pudessem se desentender no mesmo idioma. A torre gigantesca, por sua vez, abandonada como lugar de maldição, permaneceu como um monumento inconcluso da vaidade e do orgulho humanos frente ao poder soberano do Deus supremo de Adão e de Noé.

Mitologia judaico-cristã
Yahweh/Jeová/Deus hebreu/Alah   
8/6/2017 10:06:54 PM | Por A. S. Franchini
A Arca de Noé

Depois de ter gerado os infaustos Caim e Abel, Adão foi pai, ainda, de inumerável prole. O tronco mais nobre desta verdadeira árvore da vida que foi Adão chamou-se Set. Dele veio, algumas gerações mais tarde, um certo Enoque, homônimo do filho de Caim, mas tão infinitamente superior ao filho deste que mereceu o maior dos favores de Deus, sendo dispensado de morrer. O Criador, de fato, extremamente agradado de sua fidelidade, arrebatou-o aos céus, um certo dia, como a um Ganimedes ancião, quando completara 365 anos de idade. Também a seu filho Matusalém esteve reservada outra graça – um pouco menor que a conferida a Enoque, mas ainda assim invejável -, pois que chegou a viver mais do que qualquer outro ser humano sobre a Terra. O bom Matusalém, enfim, viveu nada menos que 969 anos de idade - ou *31 menos que mil*, como diziam os amigos, para acentuar ainda mais o maravilhoso prodígio.

Matusalém ainda vivia quando já andava pelo mundo o seu netinho Noé. Este patriarca ilustre, que a tradição nos apresenta sempre como um ancião severo - que, de fato, realmente foi, especialmente no período da grande tribulação -, era, no entanto, nos seus verdes dias, um menino muito alegre e que, como todos os outros, também gostava de brincar. Um desses brinquedos já era um sinal de sua futura eleição. Era assim que, desde o raiar do dia, o pequeno Noé já andava por toda parte à cata de insetos e pequenos animaizinhos para juntá-los, sempre aos pares, encerrando-os depois em minúsculas caixinhas. Tão logo reunia nova parelha, corria radiante até o avô lhe estendia a caixinha, num grande sorriso ainda sem dentes.

O bom Matusalém recebia o presente com um sorriso divertido e o colocava de lado, para mais tarde soltar os pequeninos prisioneiros – pois o moleque, incansável na sua obra, esquecia-se sempre de libertá-los.

Mas o pequeno Noé cresceu, afinal, e tornou-se um robusto jovem, casando-se mais tarde com uma dedicada mulher (que a tradição identificou, posteriormente, como Naamá). Para sustentar a esposa e seus três filhos, o incansável Noé fez-se carpinteiro, talvez o melhor que já houve em todos os tempos.

Entretanto, no mundo, as coisas andavam de mal a pior, em termos morais. Totalmente corrompida, a raça humana entregara-se a todos os excessos, de tal sorte que um dia, enquanto Noé – já um velho de veneráveis barbas – trabalhava em sua oficina, foi visitado pela voz de Deus.

- Noé, largue a enxó e ouça a voz do Senhor!
O velho carpinteiro, tomado pelo assombro, obedeceu.
- Estou farto desta humanidade corrompida – disse Deus, com uma nota evidente de amargura. – Por isso decidi apagar da face da Terra os sinais não só da presença dela, como também dos animais que por aí andam e das aves que voam pelos céus.

Noé, pálido pelo simples de fato de estar diante da presença divina, ficou estupefato diante daquele terrível anúncio.

- Exterminar... a todos, meu Senhor? – disse ele, quase incrédulo.
- Não – disse a voz. – A ti e aos teus pouparei do castigo.
Noé sentiu-se um pouco mais aliviado, mas não a ponto de esquecer da

desgraça que poria fim aos dias de todas as coisas vivas sobre a Terra.
- Farei desabar sobre a Terra inteira todas as águas represadas no céu, de tal sorte que em muito pouco tempo tudo perecerá debaixo d'água – disse Deus.
Um estupor de espanto substituiu as feições normalmente serenas do patriarca.

- Mas como poderá minha família escapar à tuaira, Senhor?
- Assim será, se fizeres como agora vou te dizer.
Então Deus ordenou a Noé que construísse uma grande arca, de três pavimentos, a qual encheria de todas as espécies de animais – um casal para cada espécie; deveria embarcar nela junto com os seus familiares, e lá deveriam permanecer durante quarenta dias e quarenta noites, que seria o tempo de duração para o Dilúvio,

- Esteja alerta – concluiu a voz, em um tom admoestatório -, pois quando começar a grande tribulação, daqui a sete dias, não haverá muito tempo para providências.

No mesmo dia Noé reuniu a esposa e os três filhos, além das noras, e deu-lhes a conhecer o terrível veredicto proferido pelo Senhor.

- Comecemos imediatamente a construir a Arca - disse aos filhos, que, apesar de um tanto incrédulos, não ousaram pôr em dúvida a veracidade das palavras do velho pai.

Nos sete dias seguintes Noé e seus parentes não conheceram um único segundo de descanso, consumindo todo o tempo a recolher material para a construção da arca, além de reunir animais aos pares, deixando-os ajuntados em uma espécie de redil enorme construído nos fundos da casa. Naamá, a esposa de Noé, também ficou encarregada de juntar quantidades enormes de alimento para manter vivos a família e os animais durante a longa quarentena sobre as águas. Durante todos esses dias de preparativos - mesmo naquele que antecedeu ao sétimo -, não se viu uma única nuvem cruzar os céus, pois Deus queria testar a fé de Noé, ver se ele era digno de sua escolha. Noé, contudo, nem por um instante, durante todo esse período, ergueu os olhos para o céu; ao contrário, manteve-os sempre voltados para a terra, pois sabia que o tempo urgia.

- Depressa com o betume! – dizia ele a seus filhos, que engrossavam em uma caldeira o material destinado a calafetar todas as frestas da grande nave.

Aos poucos a imensa arca foi ganhando forma, suspensa sobre dois gigantescos tripés de madeira que Noé fizera erguer, com a ajuda de outros homens, os quais, assalariados para tal, o faziam com empenho, mas também com grandes mostras de deboche.

- O velho endoideceu – dizia um, enquanto enfiava as cunhas das junturas.
- Também, seiscentos anos nas barbas...! - dizia outro, a serrar uma tábua.
E não só entres estes, mas também em meio à população do lugar se espalhou a maledicência. a ponto dos fofoqueiros se reunirem em pequenos bandos para perturbar o trabalho do velho marceneiro;

- Lá vem a chuva, Noé! Larga a arca e dá no pé!

Mas o forte ancião, a quem a escolha divina dava uma segurança acima de qualquer escárnio, continuava inquebrantável em sua obra.

E assim foi até que chegou a noite que antecedeu o dia fatal.

Uma verdadeira multidão acompanhou o extraordinário movimento daquela última e memorável noite sobre a terra. Sob a luz espectral de dezenas de archotes, uma extraordinária procissão de animais começou a subir a enorme rampa que dava acesso aos dois primeiros pavimentos da enorme arca.

Foi, realmente, um espetáculo magnífico, uma noite de sonho que antecedeu o pesadelo: debaixo de uma mistura de aplausos e assobios, subiam os animais, tendo por fundo o grande disco prateado da lua. Elefantes prodigiosos, leões selvagens, tigres inquietos, zebras - toda espécie, enfim, de animais de grande porte precederam a dos menores, como ovelhas, lobos, coelhos, cães e vários tipos de animais domésticos.

- Venha logo, Mimi! - disse Jafé ao velho gato de estimação, que surgira com a fêmea no seu manso passo aveludado.

Logo atrás veio o grande cortejo dos insetos, guardados em pequenas caixas, o que trouxe de imediato à memória de Noé o seu brinquedo antigo, além do saudoso avô, fazendo com que seus olhos se enchessem subitamente de lágrimas.

E assim, ainda antes que a aurora se anunciasse com seu rubor no horizonte, estavam já todas as criaturas irracionais acomodadas no interior da grande arca suspensa sobre os dois gigantescos tripés.

Então foi a vez de Noé e sua família adentrarem a grande nau. Apoiado em seu bastão, o velho patriarca subiu levando ao lado a esposa, os filhos e as noras, debaixo do riso delirante da multidão. Noé, porém, assim que pisou no terceiro pavimento, sentiu uma pena tão grande daquelas pobres almas chafurdadas no pecado, que lhes dirigiu, ainda, um último apelo:

- PorcosI Até quando desafiarão a ira do Senhor?

Um coro sonoro de risos estourou lá embaixo, com alguns chegando mesmo a lançar objetos sobre a arca.

Entretanto, apesar do tom de deboche, a maioria daquelas pessoas eram mais supersticiosas do que cínicas, e por isso resolveram esperar até o fim para ver no que ia dar aquilo tudo. “Vai que o velho maluco estava certo?", pensavam secretamente.

Mas quando o sol surgiu outra vez no horizonte, espalhando amplamente os seus raios, a expectativa do povo esmoreceu. Entendendo que aquela anedota já se estendera em demasia, aos poucos a multidão começou a dissolver-se, indo no rumo de suas mesquinhas tarefas cotidianas. Logo a barca ficou entregue á solidão, debaixo de um sol abrasador.

- Meu pai, como faremos para zarpar aqui de cima? – disse o jovem Cam ao velho marceneiro, ao perceber que não teriam quaisquer meios de fazer a arca se liberar dos dois tripés onde estava assentada.

- Deus o fará- disse Noé, laconicamente.

Mal Noé terminara de pronunciar essas palavras e uma pequenina nuvem surgiu, bem ao longe, no horizonte. Avançando velozmente, foi logo sucedida por mais algumas, e logo atrás, por um exército de outras, de uma cor ferruginosa verdadeiramente assustadora.

- Veja, Noé! - disse Naamá.
O ancião voltou suas barbas naquela direção e disse, com vigor na voz:
- Chegou a hora de o Senhor demonstrar todo o seu poder!
Um rumor surdo, como que de rochedos a rolar sobre a cúpula côncava dos céus, desceu do alto, enquanto o firmamento escurecia como a mais negra das noites. Apesar de as nuvens correrem alucinadamente pelos céus, na terra o ar estava morbidamente parado. Então uma lufada de vento surgiu de repente, levantando uma nuvem de pó e indo de encontro à arca. Os tripulantes oscilaram para trás, como se uma mão invisível os tivesse empurrado ao mesmo tempo.

- Sem! – berrou Noé.- Recolha as escadas!

Imediatamente Sem deu cumprimento às ordens do pai. Outra lufada abateu-se sobre a arca, fazendo com que os tripés de madeira que a sustentavam rangessem. Jafé viu a arca desprendendo-se das escoras e indo mergulhar sobre o solo ainda seco, num espalhar de madeira e animais. Mas sua visão foi obstada pelo ruído desses mesmos animais, os quais, inquietos com a escuridão, começaram a remexer-se nos pisos abaixo, fazendo tremer a arca toda com os golpes surdos de suas patas.

Noé mirava o céu, em uma espécie de transe místico, quando sentiu nas barbas a primeira gota da chuva prometida. E então, o temporal verdadeiramente começou. Em uma fração de segundos, a chuva fina evoluiu para uma tempestade de impressionante violência. As águas caiam dos céus com tanta intensidade que parecia que o mundo recebia sobre si o jorro continuo de uma gigantesca cachoeira. Em menos de um minuto a terra desapareceu sob os olhos dos marinheiros improvisados, e a única coisa que puderam ver lá embaixo eram formas opacas a correr alucinadamente de lá para cá, com as pernas já submersas até os joelhos.

- Pobres coitados! – gritava Naamá.

- Silêncio, mulher! - disse-lhe Noé, com autoridade. – Quer atrair, também sobre nós, a ira que o Senhor destinou aos imprevidentes?

Uma legião de desesperados – que a chuva espessa tornava meros vultos - arremessava-se aos tripés, tentando escalá-los desesperadamente para alcançarem o primeiro pavimento da arca. Entretanto, um a um, iam sendo arrancados antes que conseguissem alcançar seu objetivo, mergulhando de ponta cabeça para a morte. Apenas um destemido conseguira colocar a mão sobre a madeira lustrosa da grande nau, mas. sem poder encontrar um apoio, fora perdendo aos poucos o fôlego, até que, afinal, vencido pela adversidade, foi juntar-se à massa dos desgraçados no turbilhão das águas.

Rapidamente as casas foram sendo engolidas pela elevação das águas. Pessoas e animais rodopiavam como bonecos desengonçados em gigantescos redemoinhos até desaparecerem na vastidão do grande mar no qual a Terra ia se convertendo.

- Meu pai, a água está quase alcançando o casco da arca! – berrou Jafé.


- Segurem-se todosl - disse Noé, sabendo perfeitamente o que os aguardava.

Tão logo o nível das águas alcançou o casco, a arca foi subitamente impelida para cima, provocando um violento movimento que fez todas as juntas da mesma rangerem. Ao mesmo tempo, o barulho dos animais em desespero atroou a arca inteira. Uma gritaria sobrenatural elevou-se de todas aquelas criaturas espremidas em seus compartimentos, em um grito único de mil vozes estridentes e desparelhas que fez eriçarem os cabelos de toda a família de Noé.

O tripé dianteiro, entretanto, tendo perdido sua base de sustentação, saiu fora