Templodeapolo.net
Alemanha
Brasil
Civilização Árabe
Civilização Assíria
Civilização Asteca
Civilização Babilônica
Civilização Cartaginesa
Civilização Celta
Civilização Chinesa
Civilização Cretense
Civilização Egípcia
Civilização Etrusca
Civilização Fenícia
Civilização Grega
Civilização hebraica
Civilização Hurrita
Civilização Indiana
Civilização Micênica
Civilização Romana
Civilização Suméria
Civilização suméria
Espanha
Estados Unidos
Império Bizantino
Portugal
Século XXI
Vikings
História
SEÇÕES
CIVILIZAÇÕES

FATOS HISTÓRICOS
Revolução Russa de 1917

A Revolução Russa de 1917 foi uma das muitas consequências da Primeira Guerra Mundial. A guerra submeteu o Estado e a sociedade russa a tensões que nenhum dos dois podia suportar. O resultado foram seis anos de guerra e tumulto que criaram a União Soviética. A participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial não foi um acidente. Depois da Guerra Russo-Japonesa, a política externa da Rússia voltou-se para o oeste. Em 1907, a Rússia concluiu um tratado com sua rival de longa data, a Grã-Bretanha, para estabelecer um domínio conjunto sobre o Irã. Os russos tomaram controle da parte setentrional do país até Teerã, e os britânicos do Sul. Esse compromisso pôs fim à competição imperial anglo-russa na Ásia e fez que a Rússia se tornasse um aliado efetivo da Grã-Bretanha, bem como da França. Os únicos inimigos imagináveis eram a Alemanha e a Áustria. O acordo sobre a Pérsia armou o palco para os eventos de 1914, mas foram as rivalidades imperiais nos Bálcãs que proporcionaram a fagulha para a explosão. Ali, a Rússia enfrentava um Império Otomano ressurgente, aliado com a Alemanha e a Áustria, seguidas pela Bulgária. Nesse ponto, o único aliado da Rússia era a diminuta Sérvia, que estava exatamente no caminho da expansão austro-alemã no Sul. Uma série de crises nos Bálcãs nesses anos mostrou repetidamente a fraqueza da Rússia na região: ela não tinha aliados formais além da Sérvia, nem o poder informal derivado dos laços comerciais estabelecidos pelos alemães e austríacos, bem como os franceses e britânicos. Quando Gavrilo Princip assassinou o arquiduque austríaco em Sarajevo em 1914, Viena lançou um ultimato à Sérvia e a Rússia teve de apoiar a resistência sérvia. A credibilidade básica da Rússia estava em jogo, e o resultado foi a guerra. Ela não havia buscado a guerra, mas desviado em direção à crise, tal como estava fazendo em muitas outras áreas.

Se o governo do Império Russo depois da morte de Stolypin meramente vagava no fluxo dos acontecimentos, nem a sociedade russa nem o movimento revolucionário demonstravam a mesma passividade. Os anos imediatamente anteriores à Primeira Guerra Mundial foram anos de crescimento econômico dinâmico para as ilhas de indústria moderna no mar de atraso rural. O desenvolvimento industrial significava crescimento no tamanho e, em certa medida, na sofisticação da classe operária, e os partidos revolucionários estavam prontos para fazer uso dele. Em alguns lugares, os trabalhadores recorreram novamente à greve. Em 1912, no rio Lena, na Sibéria, várias centenas de trabalhadores pereceram quando os soldados e a polícia reprimiram uma greve nas minas de ouro de propriedade inglesa. Por volta dessa época, os partidos revolucionários haviam se recuperado da derrota de 1905-1907. Os bolcheviques, mencheviques e SRs estavam razoavelmente bem organizados e o movimento trabalhista recuperou-se. Na primavera de 1914, uma onda de greves varreu São Petersburgo, e nela os bolcheviques pareciam pela primeira vez ser a liderança, e não os mencheviques ou SRs. Todavia, o restante do país estava relativamente sossegado, e as notícias da guerra atingiram a Rússia como um raio. Na verdade, a Rússia havia dedicado muito esforço à reconstrução do Exército e da Marinha desde a guerra com o Japão, e um dos numerosos fatores que aguilhoavam o Estado-Maior alemão e o Kaiser a forçar uma guerra imediata era o temor de que a Rússia seria muito mais difícil de derrotar dentro de poucos anos. Na verdade, tanto o planejamento quanto o equipamento ainda eram deficientes. Por insistência do tsar, enormes somas haviam sido gastas para reconstruir a esquadra do Báltico, que no fim era pequena demais para desafiar a Marinha alemã e nunca deixou o porto. A indústria de armamentos da Rússia ainda era inadequada para abastecer um Exército moderno e sua rede de transporte, adequada em tempos de paz, era pequena demais para a mobilização e abastecimento velozes do Exército na fronteira ocidental. Para piorar as coisas, o avanço rápido do Exército alemão pela Bélgica e pela França gerou uma crise no fronte. Sob intensa pressão da França, os russos lidaram com a crise enviando um Exército despreparado para a Prússia Oriental, uma expedição que terminou em derrota em Tannenberg em agosto de 1914. Assim, a Rússia iniciou a guerra com uma derrota.

Em casa, a guerra produziu de início uma orgia de patriotismo. Sob aclamação universal, o governo mudou o nome alemão São Petersburgo para Petrogrado, uma tradução russa, mais ou menos, do mesmo. Liberais e reacionários na Duma uniram-se numa plataforma de guerra e a intelligentsia, como seus pares a oeste, despejou uma enxurrada de propaganda anti-inimigo e delírios nacionalistas. Os trabalhadores também foram arrastados pela febre e o movimento de greve na capital evaporou-se. A polícia reprimiu fortemente os partidos revolucionários, particularmente os bolcheviques, e dentro de poucos dias seus líderes que estavam na Rússia desapareceram na prisão e no exílio na Sibéria. Stalin estava entre eles. Os bolcheviques foram objeto de ira particular do governo por causa da sua posição acerca da guerra, uma posição que transformou um obscuro grupo marxista num movimento mundial que reordenou fundamentalmente o século XX. Afinal, foi da reação de Lenin à guerra, e não como resposta à Revolução Russa posterior, que o comunismo nasceu.

Antes de 1914, os partidos socialistas europeus haviam prometido reiteradamente, nas suas reuniões internacionais, opor-se a todas as guerras entre os Estados europeus por serem nocivas aos interesses da classe operária. Tratava-se de grandes e poderosos partidos de massa, que controlavam sindicatos trabalhistas importantes e ofereciam serviços sociais e culturais elaborados, no que eram totalmente diversos do pequeno bando de combatentes clandestinos de Lenin. Quando os governos pronunciaram declarações bombásticas de guerra em julho e agosto de 1914, a expectativa era a de que os socialistas se opusessem à guerra e até fizessem greve, como haviam ameaçado antes, no intuito de pôr fim a ela. Nada disso aconteceu. Ao contrário, os líderes socialistas pronunciaram-se quase unanimemente a favor da guerra e juntaram-se ao coro de patriotismo e ódio nos seus respectivos países. Os poucos que discordaram sentiram-se obrigados pela disciplina do partido a ficarem quietos e seguir a liderança. Entre os russos, o ancião fundador do marxismo russo, Plekhanov, pronunciou-se a favor da guerra, e os mencheviques adotaram uma posição de compromisso, não conclamando a uma vitória russa, mas não se opondo à guerra. Entre os socialistas europeus, somente os bolcheviques de Lenin e um punhado de dissidentes mencheviques como Trotsky opuseram-se à guerra desde o primeiro dia.

Lenin não era um pacifista, e seu programa para a guerra não consistia apenas em opor-se a ela. Ele proclamou que a derrota do Império Russo seria o melhor resultado para a Rússia e conclamou todos os socialistas, na Rússia e alhures, a transformar a guerra internacional numa guerra civil.

Em outras palavras, ele estava lançando um apelo à insurreição armada em tempo de guerra. Essa posição parecia-lhe a única atitude marxista correta, mas por que tão poucos socialistas europeus concordaram? Segundo ele, eles haviam traído a classe operária que deveriam liderar, mas por quê? Desesperado com o futuro, Lenin voltou-se para a teoria marxista para tentar entender o que tinha acontecido. Ele releu a Metafísica de Aristóteles (em grego; ele era produto do ginásio russo) e a Ciência da Lógica de Hegel para tentar recapturar o sentido original da dialética como Hegel e Marx a compreendiam. Ele também realizou um longo estudo dos eventos económicos recentes. Seu objetivo era entender o apoio dado à guerra pelos socialistas europeus. Sua conclusão foi que a resposta estava no imperialismo, na riqueza excessiva gerada pelos impérios europeus na África e na Ásia, alimentada pela concentração crescente do capital. O império era o verdadeiro objetivo das potências beligerantes, ocultado sob um jargão enganador de liberdade ou honra nacional. A riqueza do império também produzira uma aristocracia trabalhista, contente com o status quo e portanto relutante em causar problemas em tempo de guerra. A curto prazo, ela se beneficiaria com o imperialismo. Ambas as conclusões viriam a ter efeitos decisivos após a Revolução Russa, mas por enquanto a leitura fez pouco mais que manter Lenin ocupado enquanto o mundo afundava cada vez mais no lodaçal sangrento da guerra.

À medida que as baixas acumulavam-se aos milhões, a oposição à guerra começou a surgir entre os socialistas na Europa Ocidental. Os primeiros a abandonar as fileiras foram os pertencentes à ala esquerda dos social-democratas alemães, Rosa Luxemburg, Karl Liebknecht e seus seguidores, que votaram contra os créditos de guerra no Reichstag em dezembro de 1914. Dentro de pouco tempo, os socialistas antiguerra estavam realizando pequenas reuniões na Suíça para exigir o fim da guerra e discutir táticas, e mesmo ali Lenin, com seu apelo intransigente à revolução, era minoria. Pela primeira vez, os bolcheviques russos chamaram a atenção do mundo como um bando diminuto de revolucionários que se aferravam à sua posição mesmo quando ela parecia condená-los ao isolamento e à derrota. Sua posição começou a angariar apoio entre socialistas ocidentais e, dessas pequenas reuniões de grupos na Suíça, surgiu um movimento mundial com consequências decisivas para a Rússia, bem como para a China, o Vietnã e outros países.

As consequências dessas reuniões obscuras estavam num futuro distante. Enquanto isso, na Rússia, a situação deteriorava-se gradualmente e não oferecia consolo nem ao tsar e seu governo, nem aos bolcheviques. No começo da guerra, Nicolau suspendeu a Duma, na esperança de governar sozinho. A derrota inicial na Prússia Oriental foi seguida, na primavera de 1915, por uma retirada geral russa da Polónia, o que acabou levando a uma crise no governo. A Duma foi convocada novamente no verão e os Kadets e conservadores moderados conseguiram formar um “Bloco Progressista”, que ofereceu cooperar com o governo no esforço de guerra. Por fim, o governo teve de apelar aos zemstvos e diversos comités de empresários para resolver as crises de abastecimento, mas só o fez com relutância e tarde demais. Surgiram novas agências para regular a economia para a guerra, como na Alemanha e outras potências beligerantes, mas a Rússia carecia da infra-estrutura para fazê-las funcionar. O governo regulou os preços dos cereais para abastecer o Exército e as cidades com comida barata, mas o resultado foi que os camponeses passaram a semear menos e a produção de alimentos começou a cair, piorando a situação.

No final de 1915, o próprio Nicolau assumiu o comando do Exército e mudou-se de Petrogrado para Stavka, o quartel-general do Exército perto de Mogilev. Sua mudança não ajudou o Exército e só desorganizou ainda mais o governo na capital, pois o tsar continuava a ser a única autoridade e agora era ainda mais difícil conseguir sua atenção. Suas consultas reiteradas à imperatriz Alexandra e a Rasputin provavelmente não tiveram muito impacto sobre a política, mas acabaram por indispor ainda mais o público. O Exército russo teve êxitos mitigados, já que pouco podia fazer contra os alemães, mas obteve uma vitória importante contra a Áustria em 1916 (a “Ofensiva Brusilov”, comandada pelo general Aleksei Brusilov) e contra os turcos. Erzurum, na Anatólia Oriental, caiu nas mãos do general Nikolai Yudenich no mesmo ano. Esses sucessos não puderam mudar a estagnação geral da guerra nem interromper a carnificina. As baixas russas aproximavam-se de cerca de 2 milhões de mortos, 2,5 milhões de feridos e 5 milhões de prisioneiros de guerra. Na Duma, o líder dos Kadets, Pavel Miliukov, falou de traição em altas esferas (uma referência à imperatriz Alexandra, entre outros) e, em dezembro de 1916, um grupo de jovens aristocratas temerosos quanto ao destino da monarquia assassinou Rasputin. Primeiro convidaram-no para jantar e serviram-lhe comida e vinho com altas doses de veneno. Depois, ao notarem que isso não surtia efeito na sua constituição corpulenta, eles atiraram nele e puseram-no sob o gelo dos canais de São Petersburgo. Rasputin se fora, e logo foi a vez da monarquia.

 

Sob muitos aspectos, a queda da dinastia Romanov foi quase um anticlímax. No final de fevereiro de 1917, o agravamento da situação alimentar em São Petersburgo levou a longas filas em padarias e outras lojas de produtos alimentícios nos bairros operários da cidade. No Dia Internacional da Mulher (23 de fevereiro/8 de março, um feriado socialista), muitas mulheres trabalhadoras, exaustas de ficar nas filas de comida depois das longas jornadas de trabalho, entraram em greve. Em poucas horas, os homens nas fábricas ouviram a notícia e também entraram em greve, fechando rapidamente a cidade inteira. Os estudantes e as classes médias aderiram a eles. O governo mobilizou soldados, que atiraram nos manifestantes, matando várias dúzias deles. Contudo, no dia seguinte, os mesmos soldados que haviam atirado recusaram-se a lutar e amotinaram-se, levando outros regimentos com eles, até os cossacos. Os ministros e a Duma enviaram telegramas cada vez mais desesperados ao tsar, e Nicolau retornou às pressas de Stavka. Antes que ele chegasse à capital, representantes do governo vieram ao seu encontro e convenceram-no a abdicar. Foi o que ele fez, em 2/15 de março, e a monarquia chegou abruptamente ao fim.

 

REVOLUÇÃO

Mesmo antes da abdicação do tsar, dois novos governos estavam sendo formados em Petrogrado. Quando o governo do tsar ruiu, os líderes da Duma formaram um Governo Provisório liderado pelo príncipe Georgii Lvov, o chefe da União dos Zemstvos, um fidalgo rural liberal diplomado em Direito e com folha de serviço nos conselhos locais e na Duma. Seu ministro das Relações Exteriores era o líder do partido Kadet, o historiador Pavel Miliukov. A única voz mais ou menos radical era a de Aleksandr Kerenskii, um advogado conhecido pelo trabalho de defesa em julgamentos políticos e membro do “Grupo Trabalhista” da Duma, socialistas agrários próximos da ala direita dos SRs. Seu pai fora diretor do colégio de Simbirsk quando Lenin era aluno lá. Esses homens eram a fina flor da Rússia liberal em termos amplos, mas como grupo não faziam ideia de como liderar as massas e passavam grande parte do seu tempo preocupando-se com as reações dos aliados da Rússia na guerra, a Grã-Bretanha, a França e logo mais os Estados Unidos. Sua solução preferida para todos os problemas que a Rússia enfrentava era convocar uma Assembleia Constituinte a fim de escrever uma constituição para uma república democrática que satisfizesse o desejo dos camponeses por terra e as queixas dos trabalhadores. Entrementes, eles dariam prosseguimento à guerra, na esperança de uma vitória aliada sobre a Alemanha. 

 

O outro “governo” era o soviete de Petrogrado. Respondendo à instigação dos mencheviques, os trabalhadores de quase todas as fábricas da cidade elegeram delegados para um soviete municipal que contava quase mil membros. Sua primeira medida foi a “Ordem n° 1”, na qual especificava que o Exército devia ser gerido por sovietes de soldados eleitos e que os oficiais só exerceriam o comando durante as operações. Nesse momento em que os partidos revolucionários passaram a agir abertamente pela primeira vez na história russa, os mencheviques e os SRs, não os bolcheviques, impuseram rapidamente seu domínio sobre o soviete de Petrogrado e na maioria das outras cidades. A tática menchevique era recusar apoio ao Governo Provisório e ao mesmo tempo empurrá-lo numa direção mais radical, uma posição de compromisso insustentável. Logo de início, o problema da guerra teve de ser abordado. Se os mencheviques russos diferiam da maioria dos socialistas europeus por argumentarem que a guerra devia ser encerrada sem vitória para nenhum lado, eles não tinham nenhum plano factível para interrompê-la, nem defendiam uma revolução socialista imediata. Sua posição refletia, de fato, uma genuína hostilidade popular à guerra, e em maio Miliukov e outros tiveram de deixar o Governo Provisório, pois queriam levar a guerra a um final vitorioso e o soviete não aceitava isso. Lvov organizou um novo governo com vários socialistas moderados, incluindo Kerenskii, que ficou encarregado do Exército e da Marinha e lançou uma nova ofensiva no fronte. Sovietes também foram formados em Moscou e outras cidades, no Exército e até em algumas regiões rurais. Eles representavam apenas trabalhadores, soldados e camponeses, não as classes médias ou altas. Reeleitos em intervalos de poucas semanas, os sovietes locais refletiam o humor popular muito de perto.

Em todas essas deliberações durante os primeiros meses da revolução, os bolcheviques continuaram minoria nos sovietes. Lenin ouviu falar da queda do tsar na Suíça e conseguiu retornar à Rússia através da Alemanha, tendo convencido o governo alemão de que ele era mais uma ameaça ao esforço de guerra da Rússia que ao da Alemanha. Ele viajou num trem cujas portas foram lacradas até que ele chegasse à Suécia neutra, e atravessou a Finlândia para chegar a Petrogrado em 3/16 de abril de 1917, onde recebeu as boas-vindas tumultuadas dos seus seguidores. Ele descobriu que os líderes bolcheviques, incluindo Stalin, haviam retornado do exílio e estavam começando a organizar-se. No entanto, todos eles careciam de uma ideia clara do que deveria ser sua plataforma. A de Lenin era absolutamente clara, tal como expressa nas “Teses de Abril”. A queda do tsar, ele escreveu, significava que a revolução burguesa, a qual o partido havia almejado em 1905, havia terminado. Naquele momento havia no país um poder dual, os sovietes junto com o Governo Provisório. O objetivo era agora a tomada do poder pelo proletariado com a meta de transformar a Rússia numa sociedade socialista. O instrumento dessa tomada seriam os sovietes, principalmente os de soldados e trabalhadores. A meta imediata dos bolcheviques era, portanto, obter uma maioria no soviete de Petrogrado e outros.

A história dos poucos meses seguintes é a da realização desse objetivo. Foi a situação da Rússia que a tornou possível, dado que o país inteiro entrou numa crise profunda. O colapso do antigo governo deixou pouca autoridade efetiva em seu lugar e grande parte dela estava acuada pela multidão revolucionária. Nas aldeias, os camponeses simplesmente tomaram as terras durante o verão. Em muitos lugares houve violência, mas no mais das vezes eles simplesmente ignoraram os proprietários nobres e começaram a arar os campos deles para uso próprio. Às vezes eles entravam nas mansões dos aristocratas e pediam-lhes educadamente que saíssem. Seja como for que tenha ocorrido, a tomada das terras pelos camponeses foi uma mudança cataclísmica na sociedade russa, que pôs fim em poucos meses a uma ordem social que durara séculos. A maioria dos nobres não eram mais senhores da terra, mas refugiados pobres nas grandes cidades. Nas cidades, os trabalhadores usaram sua liberdade recém-conquistada para exigir uma jornada de oito horas e salários mais altos, e para formar comités de fábrica que tentavam tomar o controle dos locais de trabalho.

Os partidos de esquerda saíram todos da clandestinidade e tentaram tornar-se organizações de massa. A época da clandestinidade revolucionária havia terminado. De início, os mais bem-sucedidos foram os SRs, com suas tradições de ação direta e apelo ao campesinato. Pela primeira vez, eles conseguiram realmente organizar números significativos de camponeses no seu partido, e seus seguidores oriundos da classe operária eram muito numerosos. Mas eles tinham um problema grave - a guerra. Mesmo antes de 1917, alguns SRs haviam se pronunciado contra a guerra, com uma posição muito próxima da de Lenin, mas continuavam a fazer parte do partido maior. À medida que a crise aprofundou-se no verão de 1917, a cisão ampliou-se. Os mencheviques, que sempre tiveram a esperança de formar um partido de massas em condições mais livres, beneficiaram-se enormemente com a nova liberdade. Quando os sovietes realizaram seu primeiro congresso de delegados de toda a Rússia em junho, os SRs e os mencheviques tinham quase 300 deputados cada, e os bolcheviques apenas pouco mais de 100. A moderação parecia triunfar, mas o clima mudou muito rápido.

 

Pela primeira vez, os bolcheviques estavam tornando-se também um partido de massas. Em vez de poucos milhares de revolucionários profissionais, o partido cresceu rapidamente até incluir 200 mil filiados, com concentração maior nas grandes cidades e especialmente em Petrogrado. A maioria esmagadora desses novos membros era composta de jovens operários, a maior parte deles com menos de 25 anos. À medida que mais e mais revolucionários retornavam do exterior, os bolcheviques também começaram a atrair dissidentes dos mencheviques, dos quais o mais importante foi Trotsky, cuja oposição à guerra levou-o a aderir a Lenin pela primeira vez. Trotsky era um orador poderoso e seus discursos eram uma arma capital para arregimentar as massas para o bolchevismo. Os novos membros transformaram o partido bolchevique, especialmente no nível das bases, cujo radicalismo veio à tona no início de julho. Os bolcheviques de Petrogrado organizaram uma manifestação armada que parecia estar assumindo ares de reivindicação do poder. O Governo Provisório, com apoio do soviete municipal, conseguiu reprimi-la e prender muitos líderes bolcheviques. Lenin fugiu para a Finlândia e Trotsky acabou preso. Em reação a esses eventos, Kerenskii sucedeu o príncipe Lvov no cargo de primeiro-ministro. Durante algumas semanas a onda revolucionária pareceu recuar, mas isso não durou. A guerra prosseguia, o descontentamento no Exército desdobrava-se num colapso gradual da disciplina e Kerenskii substituiu Brusilov pelo general Lavr Kornilov como comandante em chefe, esperando que Kornilov pudesse restaurar a ordem no Exército. A tarefa estava além dos seus poderes. A rede de transportes do país, já enfraquecida pela guerra, começou a ruir, assim como muitas indústrias e serviços essenciais. Nas cidades, os sovietes organizaram os Guardas Vermelhos, que contribuíam tanto para a desordem quanto para a ordem. As organizações e grupos revolucionários “expropriaram” prédios para uso próprio, dos quais o exemplo mais famoso foi a tomada pelo soviete de Petrogrado dos edifícios do Instituto Smolnyi em Petrogrado, a escola aristocrática de meninas fundada pela imperatriz Elizabete. Ela passou a servir de quartel-general bolchevique. Para as classes média e alta, foi o começo da anarquia; para os trabalhadores, era a aurora de um novo mundo, caótico, mas que lhes pertencia. Discussões e reuniões intermináveis tumultuavam ainda mais o trabalho das fábricas, mas também formavam um eleitorado para reivindicações cada vez mais radicais. A vida em Petrogrado era febril, e nas províncias só um pouco mais calma. Moscou e todas as cidades e povoados com algum tipo de indústria fervilhavam com reuniões, discursos e manifestações. Nos extremos do país,  surgiram movimentos nacionalistas com exigências de autonomia. Em Kiev, grupos de intelectuais nacionalistas e ativistas partidários proclamaram-se a Rada ucraniana (conselho) junto com o Governo Provisório e os sovietes locais. Outros grupos foram formados no Báltico e no Cáucaso, embora nenhum deles ainda defendesse uma independência efetiva.

Os dias de julho haviam posto um entrave na organização bolchevique e sua ascensão à primazia entre os trabalhadores. Então, no final de agosto, o general Kornilov avançou sobre a capital com o Corpo de Cavalaria de Montanha, composto de povos muçulmanos do Cáucaso setentrional (chechenos e circassianos), a fim de restaurar a disciplina e a ordem no país. Diante desse desafio, Kerenskii teve de recorrer ao soviete de Petrogrado, que armou os trabalhadores. Os bolcheviques haviam ganhado força desde os dias de julho. Agora eles eram cruciais para derrotar Kornilov, e seus líderes saíram da cadeia novamente para a liberdade. A incapacidade de Kerenskii de defender a revolução por si mesmo foi o último golpe contra o seu poder e, a partir da derrota de Kornilov em 1/14 de setembro, o Governo Provisório só fez derivar. O foco da ação havia sido transferido para os sovietes. Durante o episódio de Kornilov e logo depois dele, os bolcheviques finalmente obtiveram a maioria nos sovietes de Petrogrado e Moscou. Conforme as semanas avançavam e a crise económica e militar continuava a piorar, outro Congresso dos Sovietes foi organizado, mais uma vez com delegados do país todo. Nele as divisões do partido SR desempenhariam um papel decisivo, dado que os bolcheviques haviam ganhado claramente a maioria dos trabalhadores da cidade, mas nas aldeias eles não tinham nenhuma organização. A ala esquerda do partido SR, cada vez mais radicalizada pela revolução, exigia um fim imediato para a guerra e estava pronta para aderir aos bolcheviques. Em 10/23 de outubro, Lenin retornou de seu esconderijo na Finlândia e reuniu os líderes bolcheviques. Com o apoio de Trotsky e Stalin, ele superou os pessimistas na liderança, Zinoviev e Kamenev, e o Comité Central bolchevique votou a tomada do poder. Com os votos dos SRs de esquerda, os bolcheviques capturaram a liderança do Congresso dos Sovietes e, em 25 de outubro/7 de novembro de 1917, os Guardas Vermelhos avançaram sobre o Palácio de Inverno para desalojar o Governo Provisório. Restavam somente poucas centenas de defensores no palácio, oficiais cadetes e o “Batalhão da Morte Feminino”, uma unidade formada principalmente de mulheres de classe média para lutar na guerra. A um sinal do cruzador naval Aurora, ancorado no rio Neva, vários milhares de Guardas Vermelhos andaram rapidamente através do frio outonal e tomaram o palácio com um mínimo de tiros e feridos. As tentativas de saquear a adega e os numerosos tesouros do palácio foram logo reprimidas e os ministros do Governo Provisório foram escoltados para a prisão na Fortaleza de São Pedro e São Paulo. Kerenskii escapou para o sul num carro da embaixada dos Estados Unidos numa vã tentativa de angariar apoio no fronte.

Ao contar com a maioria no Congresso dos Sovietes, os bolcheviques e os SRs de esquerda tomaram o poder e proclamaram a Rússia uma república socialista e soviética. Os mencheviques e os SRs de direita deixaram o Congresso em protesto enquanto Trotsky relegou-os ao “monturo da história”. A primeira ação dos Vermelhos foi organizar o novo governo. O Congresso dos Sovietes elegeu um governo de Comissários do Povo com Lenin à sua frente e Trotsky como comissário do povo para Relações Exteriores. As outras posições ficaram com bolcheviques e SRs de esquerda de destaque. Entre estes últimos, o mais significativo era Joseph Stalin como comissário das nacionalidades. Trotsky foi para o Ministério das Relações Exteriores, na Ponte dos Cantores perto do Palácio de Inverno, apagou as luzes e mandou todo mundo ir para casa. Pelos próximos poucos meses, ele geriu a política externa de um pequeno escritório no Instituto Smolnyi.

O novo governo soviético chegou ao poder com amplo apoio dos trabalhadores e intensa oposição das velhas classes altas, das classes médias e da intelligentsia. Essas divisões refletiam-se na Assembleia Constituinte que se reuniu em 5/18 de janeiro de 1918. Convocadas pelo Governo Provisório, as eleições para a Assembleia haviam ocorrido no outono, antes e depois da tomada do poder pelos bolcheviques. Nas cidades, os bolcheviques desbarataram os socialistas moderados (SRs e mencheviques), deixando os Kadets, cada vez mais conservadores e nacionalistas, como o segundo partido urbano. No campo, porém, os SRs obtiveram o maior número de votos, embora a maioria dos candidatos não tivesse declarado se apoiava a esquerda ou a direita, o que confundia o resultado. A Assembleia reuniu-se por cerca de 13 horas, depois do que a guarda bolchevique de marinheiros Vermelhos simplesmente mandou os deputados irem para casa. Eles obedeceram. Poucos dias depois, um outro Congresso de Deputados Soviéticos proclamou o novo Estado, a República Socialista Federativa Soviética da Rússia, com declarações altissonantes dos direitos dos trabalhadores, camponeses e minorias nacionais.

 

Guerra civil e poder dos sovietes

A essa altura, a guerra civil já havia começado, pois grupos de oficiais militares na Rússia meridional reuniram-se para organizar a resistência ao novo governo, e o descontentamento crescia entre os cossacos do Don. O líder cossaco Kaledin formou um governo cossaco improvisado no Don e os Vermelhos logo avançaram contra ele. Ao longo de toda a guerra civil, os cossacos seriam a fundação da resistência ao poder soviético. Eles viviam nas bordas meridional e oriental da Rússia, e já não eram mais os rebeldes do século XVIII. Eles combinavam a agricultura camponesa com o serviço militar e, com a posse garantida de suas terras, representavam os servidores mais leais do tsar desde os anos 1790. As hostes maiores e mais prósperas dos cossacos ficavam no Don, e ali ocorria a resistência mais feroz à nova ordem. Ao mesmo tempo, os intelectuais nacionalistas na Rada de Kiev declararam-se o poder supremo da Ucrânia. Um fronte cossaco-ucraniano parecia estar se formando contra os Vermelhos no Sul. Um ajuntamento disparatado de Guardas Vermelhos e marinheiros foi suficiente para derrotar os cossacos do Don e a Rada em janeiro de 1918. Enquanto isso, o caos espalhava-se pelo país, junto com episódios de resistência em outros lugares. No final de dezembro de 1917, para conter essas ameaças, as autoridades soviéticas formaram a Cheka, a Comissão Extraordinária para a Luta contra o Banditismo e a Contrarrevolução, uma organização que combinava funções de polícia de segurança com uma espécie de Exército político. Seu primeiro chefe foi um comunista polonês, Felix Dzerzhinskii, incorruptível e implacável.

A rápida derrota da oposição aos bolcheviques não significava que a ordem havia retornado. A guerra havia arruinado a economia russa. A inflação estava fora de controle, as redes de transporte e a distribuição de alimentos vinham entrando em colapso. O aquecimento e a energia elétrica desapareceram em Petrogrado e noutras grandes cidades e os trabalhadores começaram a retornar às suas aldeias nativas quando podiam. Na antiga capital do Império Russo, as luzes apagavam-se nos grandes palácios, a nobreza fugiu para o sul em busca de calor e comida, junto com grande parte da intelligentsia e das classes médias. À medida que o Exército se desintegrava, milhões de soldados atulhavam os trens ao ir para casa, levando consigo rifles e granadas de mão. Gangues criminosas aterrorizavam muitas cidades. As primeiras medidas dos bolcheviques só aceleraram a desintegração, pois o novo governo começou a construir o novo Estado socialista em meio ao caos. Os trabalhadores interpretavam amiúde que o socialismo significava que eles deviam expulsar fisicamente os proprietários e gerentes das fábricas, bem como eleger comités de trabalhadores para administrar as usinas. Esses comités não tinham meios para obter suprimentos ou distribuir os produtos e, no caos social geral, a disciplina do trabalho ruiu. Era um círculo vicioso. Os bolcheviques toleraram isso por vários meses, como parte da necessidade de dissolver a velha ordem, mas na primavera de 1918 a economia em frangalhos e as necessidades da guerra civil forçaram-nos a voltar atrás e começar a nomear administradores únicos, antigos trabalhadores ou ativistas do partido, para gerir as fábricas. Em tese, esses gerentes Vermelhos eram responsáveis perante o recém-criado Conselho Supremo da Economia e os diversos Comissariados do Povo (Indústria, Comércio, Agricultura, Trabalho, Abastecimento). Esse foi o embrião do Estado soviético.

Por enquanto, a prioridade dos bolcheviques era a mera sobrevivência. O primeiro ponto da ordem do dia em novembro de 1917 era a guerra e, imediatamente após a revolução bolchevique, o novo governo proclamou uma trégua com a Alemanha e seus aliados e abriu as negociações. Trotsky foi para Brest-Litovsk na fronteira polonesa, agora sob ocupação alemã, para tentar conclamar a paz. As exigências alemãs eram exorbitantes e Trotsky vacilava, proclamando que a política correta era “nem a guerra nem a paz”. Os alemães responderam com uma ofensiva maciça que ocupou toda a Ucrânia, a Bielorrússia e as províncias bálticas. Os nacionalistas locais proclamaram sua independência da Petrogrado vermelha, mas os Exércitos do Kaiser não lhes deram atenção. Os alemães instalaram um regime fantoche em Kiev com o general russo Pavel Skoropadskii, um ex-adido do tsar que havia repentinamente descoberto suas raízes ucranianas, como seu instrumento. Os Guardas Vermelhos eram uma força demasiado amadora e, por conseguinte, os bolcheviques formaram um Exército de verdade, o Exército Vermelho dos Operários e Camponeses, mas o novo exército não conseguiu frear os alemães. O governo mudou-se para Moscou, mais longe das linhas alemãs. Mesmo assim, alguns líderes comunistas, especialmente Nikolai Bukharin, e os SRs de esquerda queriam continuar a travar uma “guerra revolucionária”. Lenin percebeu que era loucura e convenceu a liderança a acatar as condições alemãs. A paz veio em março, com a perda de todos os territórios ocidentais para a Alemanha e a Áustria, mas era a paz e o Kaiser reconheceu a República vermelha. Os SRs de esquerda renunciaram em protesto, deixando os bolcheviques inteiramente encarregados do novo Estado.

O fiasco de Brest-Litovsk incentivou a oposição aos Vermelhos no Sul. As áreas cossacas meridionais ergueram-se novamente em revolta, dessa vez aliadas ao Exército de Voluntários do general Mikhail Alekseev, formado por oficiais do antigo Exército. No Don, o novo Exército Vermelho conseguiu repelir os Brancos, que fugiram para o Sul em direção ao rio Kuban, mas logo surgiram outros problemas. Combates acirrados começaram em maio de 1918, numa região totalmente diferente do país, após as ações da Legião Tcheco-Eslovaca. A Legião Tcheco-Eslovaca tinha sido formada sob o tsar e era composta de prisioneiros de guerra, ex-soldados austro-húngaros de nacionalidade tcheca e eslovaca, para auxiliar os Aliados contra a Áustria e a Alemanha. Depois da paz soviética com a Alemanha, eles queriam continuar a lutar, e o novo governo permitiu que eles deixassem o país através da Sibéria até o Japão e os Estados Unidos para poderem continuar a guerra na França. Uma série de choques com autoridades soviéticas locais fez com que eles tomassem o controle das linhas férreas da Rússia europeia até o oceano Pacífico. Em Samara, em junho, protegidos pelos tchecos, alguns deputados SR da Assembleia Constituinte dispersada formaram um governo que tentou dar seguimento às práticas da democracia parlamentar. Ele também conseguiu arregimentar um “Exército do Povo” que avançou em direção a Moscou contra os Vermelhos.

Para Lenin e os bolcheviques, era uma verdadeira crise, agravada pela revolta dos seus aliados recentes, os SRs de esquerda. Fora do poder e enfurecidos pela paz com a Alemanha, os SRs de esquerda tentaram uma revolta em Moscou, assassinando nesse ínterim o embaixador alemão. Revoltas semelhantes aconteceram em outras cidades russas, todas reprimidas com rapidez, mas indicativas de oposição séria ao novo governo. No entanto, a principal ameaça era a Legião Tcheco-Eslovaca e seus aliados russos, que vinham do leste, e o periclitante Exército Vermelho, formado de milícias mal treinadas com oficiais inexperientes, bateu em retirada. Foi o momento em que Trotsky mostrou pela primeira vez sua têmpera de comandante militar, assim como seu caráter impiedoso ao impor ordem e disciplina. Ele recorreu intensamente aos oficiais do antigo Exército do tsar e manteve suas famílias como reféns para garantir sua lealdade. Além disso, os comissários políticos nomeados para cada unidade militar deviam manter e inspirar credibilidade. Oficiais que fracassaram, comissários e simples soldados foram fuzilados às centenas a mando de Trotsky. Com essa nova organização, o Exército Vermelho recapturou as cidades do Volga e repeliu de volta para os Urais o Exército do Povo, que se desintegrava rapidamente.

Essas crises selaram o destino do ex-tsar Nicolau e sua família. Sua presença em Tobolsk, na Sibéria, para onde o Governo Provisório havia-os enviado, era próxima demais dos centros emergentes de resistência, e por isso os Vermelhos levaram-nos para Ekaterinburg, nos Urais. Em julho  de 1918, diante da aproximação dos Brancos, os soviéticos ordenaram que a família imperial fosse executada, o fim derradeiro da dinastia Romanov, que havia governado a Rússia por três séculos. A casa onde eles viveram e foram mortos permaneceu despercebida durante décadas até 1977, quando um chefe excessivamente zeloso do Partido Comunista, Boris Yeltsin, mandou deitá-la por terra. Enquanto isso, em Moscou, Lenin foi alvo dos tiros de um assassino no final de agosto. A reação da Cheka foi declarar o Terror Vermelho, prendendo milhares de pessoas das classes média e alta. Algumas foram executadas imediatamente, outras mantidas como reféns contra futuras tentativas.

No outono de 1918, o novo Exército Vermelho retomou a maior parte do Volga e dos Urais e o Exército do Povo esfacelou-se. Mais para leste, em Omsk, na Sibéria, outro Exército Branco havia surgido, composto de cossacos siberianos e unidades formadas por ex-oficiais imperiais determinados a combater os Vermelhos. Em novembro, o almirante Alexander Kolchak tomou o poder como governante supremo da Rússia e dissolveu os resquícios da liderança SR da Assembleia Constituinte. Kolchak também fuzilou muitos SRs, bem como quaisquer outros bolcheviques ou ativistas de esquerda que conseguiu encontrar. Kolchak era um ditador militar e não haveria mais brincadeiras com democracia. Ademais, um novo elemento estava entrando em jogo, pois a Primeira Guerra Mundial terminou em 11 de novembro e delegados aliados, britânicos, franceses, norte-americanos e japoneses, chegaram em Omsk. Os aliados também eram favoráveis à ditadura, e logo mobilizaram-se para apoiar Kolchak como líder da oposição ao bolchevismo.

Se Kolchak era o líder supremo titular, seu Exército Branco não era o único em campo. Depois que os Vermelhos retomaram o Don no início de 1918, o Exército de Voluntários havia se deslocado para o sul durante o inverno para estabelecer-se no Kuban. A morte de Alekseev e do seu substituto Kornilov (da tentativa de putsch de 1917) numa rápida sucessão levou à ascensão do general Anton Denikin como comandante supremo do Exército de Voluntários no Sul. Enquanto Trotsky estava ocupado no Volga, Denikin resistiu, e no Don os cossacos ergueram-se novamente mais para o final de 1918. Com apoio secreto dos alemães, eles tentaram avançar para o norte e leste. Eles ainda eram fracos demais para vencer a resistência Vermelha, mas mesmo assim conseguiram isolar grande parte das áreas cruciais de produção de cereais e, se cruzassem o Volga, eles teriam uma chance remota de unir-se a Kolchak. Em Tsaritsyn, no Volga, os cossacos e os Brancos estavam diante de Joseph Stalin, enviado de início apenas para organizar as entregas de cereais, mas que logo assumiu o controle do aparato militar e revigorou a resistência. Seu aliado entre os soldados era Kliment Voroshilov, que havia fugido para leste com uma milícia disparatada de trabalhadores do Donbas escapando do avanço alemão. Stalin e Voroshilov também estavam descontentes com a política de Trotsky de uso intensivo de oficiais profissionais do Exército do tsar, mas Lenin apoiava Trotsky nesse ponto e eles tiveram de recuar. Unidades Vermelhas comandadas por oficiais profissionais foram decisivas para defender a linha, mas em Tsaritsyn o Comissário das Nacionalidades teve sua primeira experiência bélica. Os cossacos não cruzaram o rio e Kolchak estava milhares de quilómetros a leste, impossibilitado de juntar-se a eles.

Atrás de todas essas linhas de frente, os Vermelhos começaram a construir uma utopia. Enquanto o marxismo oferecia uma análise detalhada do capitalismo e do caminho projetado para a revolução proletária, esse não oferecia quase nada além de generalidades sobre o socialismo. O agravamento da crise de abastecimento causado pelo caos crescente e pela tomada da Ucrânia pelos alemães levara à proclamação da “ditadura da comida” em maio de 1918. Sob o Comissariado do Povo para o Abastecimento, destacamentos armados foram para o campo arrebanhar o “excedente” de cereais a preços fixos pré-revolucionários, ou simplesmente o confiscavam. A ideia era desencavar os estoques supostamente retidos pelos kulaks e comerciantes com a ajuda dos camponeses pobres organizados em comités, mas na realidade era difícil fazer a distinção entre os camponeses, e as medidas afetavam toda a sociedade rural. A hiperinflação contínua e o desaparecimento do dinheiro agravaram o colapso económico em curso, e os Vermelhos instituíram o racionamento e um sistema de cooperativas para distribuir alimentos e bens de consumo.

No início de 1919, as autoridades soviéticas formalizaram o sistema de entregas obrigatórias de cereais, a ser complementado por uma alocação centralizada de bens de consumo aos camponeses. Cerca de 60 mil homens foram mobilizados num “exército alimentar” para arrancar cereais dos agricultores. Os camponeses reagiram reduzindo o tamanho de suas culturas, o que mergulhou as cidades numa crise ainda mais profunda. Essas novas medidas, que eram em parte produto da ideologia e em parte da necessidade de guerra, duraram toda a guerra civil. Os bolcheviques sempre foram hostis aos mercados, e o colapso dos transportes e o caos geral romperam os laços normais de mercado. Essa situação deu-lhes a oportunidade de instituir esquemas utópicos de distribuição por meio da alocação central de produtos. Praticamente todas as fábricas e todo o comércio foram nacionalizados. Pequenas lojas de varejo desapareceram, enquanto os municípios soviéticos tentavam criar grandes fábricas municipais de pão em vez de pequenas padarias de bairro, o que agravava a situação alimentar. Foi esse sistema que ficou conhecido como “comunismo de guerra”. A realidade logo interveio, pois as autoridades soviéticas locais violavam regularmente as regras, e a impossibilidade de um controle central pleno levou as maiores fábricas e até o Exército Vermelho a criar seus próprios sistemas de aquisição de alimentos, incluindo uma quantidade substancial de fazendas operadas pelas fábricas e pelo Exército. Os únicos mercados remanescentes eram os mercados de pulgas e o mercado negro, que tornavam a simples sobrevivência mais fácil para grande parte da população urbana. As novas instituições económicas centrais eram incapazes de implementar seus esquemas, pois não se tratava de estruturas burocráticas sofisticadas, mas sim de pequenos escritórios onde trabalhavam antigos ativistas revolucionários sem nenhuma   experiência relevante, assistidos por alguns engenheiros ou economistas e dos trabalhadores mais qualificados.

O Estado soviético emergente era também um partido-Estado, visto que o partido bolchevique aumentou de tamanho para mais de 300 mil membros no início de 1919. Esses homens e mulheres eram o quadro do novo Estado. Os mencheviques e SRs remanescentes foram eliminados da vida política até o final de 1918, e as novas instituições exigiam funcionários leais para administrá-las. O próprio partido tornou-se mais centralizado, especialmente com o estabelecimento do Politburo (Escritório Político) acima do Comité Central em 1919. O novo Politburo incluía somente Lenin, Kamenev, Trotsky, Stalin e Nikolai Krestinskii como membros plenos; Zinoviev, Bukharin e Mikhail Kalinin foram incluídos como candidatos. Esse era o núcleo da liderança bolchevique. Zinoviev era filho de fazendeiros leiteiros judeus da Ucrânia e fora próximo de Lenin nos anos de exílio europeu. Depois que o governo mudou-se para Moscou em 1918, Zinoviev chefiou a organização do partido em Petrogrado, administrando de fato a cidade até 1926 e, ao mesmo tempo, liderando a nova Internacional Comunista. Lev Kamenev era filho de um trabalhador ferroviário judeu, mas tinha tido alguma educação universitária e era casado com a irmã de Trotsky. Após 1917, ele atuou como suplente de Lenin e administrou a organização do partido em Moscou. Bukharin, o melhor educado dos bolcheviques depois de Lenin, tinha algo de teórico marxista e havia passado algum tempo na Europa Ocidental e brevemente nos Estados Unidos. Ele era um pouco mais jovem que os outros e pessoalmente popular no partido. Como Lenin, ele também era um russo genuíno, tal como Krestinskii e Kalinin, que eram figuras menores. Krestinskii serviu como comissário de Finanças, enquanto Kalinin, o único operário do grupo e até nascido numa família camponesa, chefiava o Comité Executivo Central dos Sovietes - em outras palavras, ele era tecnicamente o chefe de governo. Todos eles compartilhavam, incluindo Stalin, sólidas credenciais de bolchevismo inabalável. Trotsky, em contrapartida, era um ex-menchevique exuberante que mal se encaixava no grupo.

A pessoa crucial na totalidade do partido e do governo era Lenin. Até 1917 ele havia passado sua vida como organizador e jornalista revolucionário, produzindo montanhas de artigos para explicar sua posição e denunciar seus adversários. Ele também era mais intelectual que os outros, como mostram seus escritos sobre filosofia e a economia do imperialismo. Nessas questões, somente Bukharin se aproximava dele. Como orador ele era claro e capaz de comover uma plateia, mas não no nível de Trotsky ou Zinoviev.

 

Ao tomar o poder em 1917, ele provou ter capacidades políticas e administrativas muito superiores às da maioria dos seus camaradas, assim como uma vontade poderosa e a capacidade de tomar decisões. Ele absorveu-se rapidamente nos detalhes do governo, incluindo a miríade de problemas económicos que surgiram quando os bolcheviques nacionalizaram a economia. Ele tentou e, em grande parte, conseguiu impor à liderança do partido um espírito de trabalho de equipe, fazendo que camaradas belicosos e muitas vezes arrogantes trabalhassem juntos. Quando ele defendia sua posição pessoalmente, conseguia convencer seus adversários sem menosprezá-los (o que já não acontecia com suas polêmicas escritas). Ainda que todos os outros líderes por vezes discordassem dele, ele continuava a ser o líder incontestado do partido, e portanto do Estado.

Essa liderança altamente eficaz controlava um aparato estatal muito imperfeito, mas tinha, além do partido, outros instrumentos de poder. O Exército Vermelho possuía um contingente de 5 milhões ao final da guerra civil, mas os “exércitos trabalhistas” representavam grande parte da sua força teórica e ele assumia muitas funções económicas, fornecendo cavalos para a lavoura e restaurando o serviço ferroviário. A Cheka garantia a segurança interna, eliminava adversários ativos e potenciais e tentava reprimir o número crescente de bandos criminosos nas cidades. Havia cerca de 25 mil pessoas na Cheka ao final da guerra civil, mas ela também controlava mais de 100 mil soldados de segurança interna, infantaria e cavalaria. O partido, o Exército e a Cheka tornaram possível a vitória vermelha, mas não podiam conter a crise económica que se agravava e a anarquia que se alastrava. O quase colapso do transporte ferroviário implicava que as cidades setentrionais só podiam ser abastecidas com grande dificuldade. Petrogrado sofreu particularmente, pois perdeu cerca de três quartos da sua população em 1920. Com a mudança do governo para Moscou, os Vermelhos evacuaram uma série de fábricas estratégicas junto com seus trabalhadores e equipamentos, e centenas de milhares de trabalhadores foram trabalhar em Moscou e aderiram ao aparato do partido, à Cheka ou ao Exército Vermelho. Muitos simplesmente foram para seus lares em suas aldeias nativas à procura de comida, ambiente aquecido e trabalho. À medida que a ordem desmoronava, as doenças começavam a espalhar-se. Tifo, gripe e outras moléstias tornaram-se epidêmicas.

A primavera de 1919 trouxe vida nova para os movimentos Brancos. O fim da guerra na Europa em novembro de 1918 implicou a retirada das tropas alemãs dos territórios ocidentais. Nas províncias bálticas e na Ucrânia, os nacionalistas locais declararam independência dos bolcheviques, mas o Exército Vermelho logo devolveu o poder aos soviéticos. Os Vermelhos expulsaram o Diretório nacionalista ucraniano de Kiev. Diante da aproximação das Forças Vermelhas, o exército de camponeses do Diretório simplesmente evaporou-se. Guiados pelo seu líder militar Semyon Petliura, os nacionalistas ucranianos deslocaram-se para oeste, executando um massacre feroz dos judeus em Proskurov em seu caminho. Kolchak manteve a Sibéria e os Urais e Denikin avançou para o norte durante a primavera, tomando o Donbas, grande parte da Ucrânia e a Rússia meridional. Denikin conseguiu chegar até Orei, avançando muito atrás das linhas Vermelhas com grupos substanciais de cavalaria. A mobilidade da guerra civil valorizava a cavalaria, e os cossacos e oficiais de cavalaria do antigo Exército eram um desafio formidável. Os Vermelhos reagiram com o Primeiro Exército de Cavalaria de Semen Budennyi, formado em meio às batalhas contra Denikin, que era inicialmente um bando disparatado de homens mal disciplinados adestrados na marra pelo carisma de Budennyi. Em julho, a mobilização em massa dos Vermelhos permitiu-lhes enviar Exércitos substanciais contra Denikin e freá-lo. Atrás de suas linhas na Ucrânia meridional, um novo Exército surgiu aparentemente do nada, o Exército anarquista de Nestor Makhno, um ex-sargento do Exército Imperial russo e um líder de guerrilha nato. Makhno destroçou as comunicações de Denikin e, com os Vermelhos empurrando-o do norte, ele teve de bater em retirada.

Denikin era um general consumado, mas essa era uma guerra política. Os governos Brancos eram ditaduras militares com ministros civis recrutados entre antigos liberais para dar-lhes um mínimo de credibilidade. Sua política social estava fadada a desagradar as massas, pois eles opunham-se não somente aos Vermelhos, mas também a qualquer coisa que os trabalhadores vissem como conquistas da revolução. Nas cidades, somente as classes média e alta os apoiavam. Os massacres de judeus eram frequentes. No campo, sua política favorecia inevitavelmente os proprietários nobres contra os camponeses e não podia explorar o antagonismo rural às medidas bolcheviques. Para piorar as coisas, os governos Brancos financiavam suas operações imprimindo dinheiro, e os camponeses relutavam em vender cereais em troca de uma moeda sem valor. Tal como os Vermelhos, os Brancos recorreram ao confisco de cereais. Como nas áreas sob controle Vermelho, os camponeses reduziram sua agricultura à subsistência, o que gerou escassez de alimentos nas regiões agrícolas mais ricas no campo, na Sibéria Ocidental e no Sul. Conforme a resistência a eles aumentou, os Brancos só podiam reagir com repressão, e as cidades que os Brancos ocuparam presenciaram execuções em massa. Atrás das linhas Brancas na Sibéria e na Ucrânia, os camponeses formaram bandos armados para confrontar os Brancos. Não somente Makhno, mas também centenas de bandos camponeses focados apenas em preservar seu próprio território impediram que os Brancos tivessem controle efetivo do campo.

Nem a intervenção estrangeira pôde salvar os Brancos. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, os Aliados tinham livre acesso à Rússia pelo mar Negro e por outros lugares, mas a exaustão da guerra implicava que, na prática, eles podiam oferecer pouca coisa em termos de soldados. O Japão enviou cerca de 60 mil para a Sibéria como parte de um plano para tomar controle do território russo (indispondo assim os Estados Unidos), mas as outras potências enviaram menos tropas. Uma breve intervenção em Odessa e outras cidades meridionais em 1919 terminou após alguns meses apenas, apesar de a Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos continuarem a enviar armas. Elas não serviram para muita coisa, pois os gargalos de transporte (especialmente na Sibéria) seguravam os suprimentos nos portos e a corrupção generalizada fazia que armas e munição terminassem muitas vezes nas mãos dos Vermelhos. Para piorar as coisas, os oficiais que formavam o núcleo do movimento Branco eram intensamente patrióticos e muitos ficaram ofendidos com a necessidade de recorrer a Exércitos estrangeiros. A intervenção enfraquecia o moral tanto quanto o reforçava.

No outono de 1919, os Vermelhos empurraram as tropas de Kolchak de volta para a Sibéria, as primeiras vitórias do futuro marechal soviético M. N. Tukhachevskii, um oficial da guarda aristocrático que se tornara adepto da revolução. O Exército Vermelho finalmente derrotou Kolchak, capturou-o e executou-o em Irkutsk, na Sibéria. Houve outra tentativa de vitória Branca: o general Yudenich, o vencedor de Erzurum em 1916, liderou uma expedição que partiu da Estónia em direção a Petrogrado. Zinoviev pensou que a cidade era indefensável, opinião com a qual Lenin concordou. Trotsky e Stalin objetaram veementemente e convenceram Lenin a deixá-los defender a cidade. Eles correram para o norte em direção a Petrogrado, e Trotsky montou pessoalmente a cavalo para incentivar as tropas. Em outubro de 1919, Yudenich começou a retirada de volta para a Estónia. No Sul, Denikin abandonou o comando no início de 1920 e partiu para o exílio. O restante do Exército Branco retirou-se para a Crimeia e formou um novo Exército e governo sob o comando do barão Peter Wrangel. Nessa altura, o novo Estado polonês invadiu a Ucrânia. O objetivo dos poloneses era conquistar as terras detidas pela Polónia antes das partições do século XVIII e, para tanto, eles aliaram-se  a Petliura, que assim desacreditou-se mais ainda junto ao campesinato ucraniano, para quem os poloneses eram apenas proprietários rurais nobres e, portanto, seus inimigos. O Exército Vermelho reposicionou-se para oeste para conter a nova ameaça, mobilizando cerca de meio milhão de soldados. Lenin estava convencido de que os Vermelhos deviam ir até Varsóvia, na tentativa de ajudar a espalhar a revolução na Europa, bem como de derrotar os poloneses. Trotsky tinha dúvidas. O Exército Vermelho, levado até diante de Varsóvia pelo brilhante mas errático Tukhachevskii, avançou longe demais para oeste numa tentativa de cercar a cidade. Abriu-se um imenso buraco nas linhas Vermelhas, mas os soldados Vermelhos mais ao sul liderados por Budennyi, com Stalin como comandante político, retardaram o avanço em direção ao norte para ajudar a tapar o buraco. Os poloneses, com aconselhamento e armas francesas, acorreram para o norte numa manobra de simplicidade brilhante a fim de cercar as tropas de Tukhachevskii. Os Vermelhos retiraram-se bem para leste, no que foi sua maior derrota na guerra civil, e celebraram a paz com a Polónia. O tratado estabeleceu uma fronteira que deu à Polónia vastas áreas da Bielorrússia Ocidental e da Ucrânia, mas não as principais cidades, Kiev, Odessa e Minsk.

No momento crítico da guerra contra a Polónia, o barão Wrangel havia avançado sobre a retaguarda Vermelha vindo da Crimeia. Agora ele era a única força hostil que sobrava em campo contra os bolcheviques. No final de 1920, o Exército Vermelho atravessou o istmo e penetrou na Crimeia com a ajuda dos irregulares de Makhno, e a causa Branca estava acabada. Os últimos refugiados, soldados e civis evacuaram as cidades meridionais sob os canhões da Marinha britânica, numa cena caótica que marcou o final derradeiro da velha Rússia.

A revolução e a guerra civil foram sobretudo um acontecimento russo, mas que teve efeitos profundos para as várias nacionalidades que compunham a periferia deste Império. Na Polónia, o nacionalismo superou as distinções de classe e o socialismo, e a transição para um governo independente foi (internamente) bastante suave. Na Finlândia, uma cruenta guerra civil em 1918 entre os social-democratas locais e os Brancos levou à vitória Branca depois que o Kaiser enviou uma força expedicionária para auxiliar o barão Gustav Mannerheim, um antigo general imperial russo. Nas províncias bálticas, o colapso da ocupação alemã também levou à guerra civil, pois Riga, em particular, possuía uma classe operária grande e muito radical. A Grã-Bretanha, contudo, via o Báltico como esfera de influência sua e transportou soldados Freikorps, paramilitares nacionalistas alemães de direita, em 1919 para expulsar os Vermelhos. Depois os britânicos instalaram um governo nacionalista no seu lugar e expulsaram os Freikorps também. Os Vermelhos do Báltico foram para o exílio na Rússia soviética, proporcionando em especial um componente capital para a Cheka e o Exército Vermelho. Na Ucrânia, a tarefa dos Vermelhos foi facilitada pelo fato de que todas as cidades eram de língua russa. A maior minoria urbana era judaica, não ucraniana, e o movimento nacionalista local era uma pequena camada de intelectuais que tentavam liderar o campesinato. Seus exércitos eram totalmente desorganizados e, além disso, eles hesitavam em ser claros sobre a questão da terra, crucial para os camponeses. Os Vermelhos liquidaram-nos com facilidade.

No Cáucaso, os Vermelhos também foram vitoriosos. O tratado de Brest-Litovsk levara à ocupação turco-alemã do Cáucaso, e o fim da guerra acarretou sua retirada. Os Vermelhos tentaram fazer uma revolução na sequência, mas os partidos nacionalistas locais tomaram o poder com auxílio dos britânicos. Como a Grã-Bretanha estava atarefada ocupando o Oriente Médio próximo, ela tinha poucos recursos sobrando, e os governos locais foram deixados à própria sorte. Em 1920, o Exército Vermelho avançou para o sul sob o comando do conterrâneo georgiano e amigo próximo de Stalin, Sergo Ordjonikidze, e tomou Baku. O pequeno Exército azeri era liderado principalmente por oficiais turcos, que agora eram adeptos da resistência de Kemal Ataturk às potências ocidentais na Anatólia e saudaram os Vermelhos como aliados. Ademais, Baku era uma cidade de maioria não azeri, mas russa, georgiana e arménia, uma população atraída pelo petróleo para uma cidade que era em grande parte europeia. Os Vermelhos tinham muitos aliados. Eles agiram rapidamente para afastar os nacionalistas arménios e, poucos meses depois, foi a vez dos mencheviques georgianos. Surgiu uma nova república soviética, a Federação Transcaucasiana, que congregava toda a região sob um mesmo governo. Na Ásia Central, a resistência aos Vermelhos terminou em 1922, e os japoneses acabaram sendo persuadidos a retirar-se da Sibéria Oriental, de forma que em todo lugar, menos a oeste, as antigas fronteiras foram restabelecidas.

A nova Rússia soviética que se formou fora devastada por anos de guerra e revolução, e sua economia estava em frangalhos. Talvez 1 milhão de homens haviam morrido nos numerosos frontes da guerra civil e (as estimativas variam) 5 ou 6 milhões de civis - a maior parte deles de tifo e outras doenças epidêmicas, seguidas pela fome. Execuções e represálias em massa por todos os lados foram responsáveis pelo restante da mortandade. Cerca  de 1 ou 2 milhões de russos, incluindo grande parte das velhas classes altas e da intelligentsia, deixou o país para nunca mais voltar. Os transportes e a produção estavam paralisados. Por enquanto, os soviéticos mantinham a política de comunismo de guerra e mobilizavam os Exércitos de Trabalho sob Trotsky para reparar os danos. Essa política não era viável e a resistência à nova ordem cresceu por todo o país. Lenin percebeu que algum tipo de compromisso era necessário, uma política económica que proporcionasse espaço suficiente para que a população, particularmente o campesinato, trabalhasse sem direção do Estado. Esse compromisso viria a ser chamado de Nova Política Económica e inaugurou uma era inteiramente nova na história da Rússia soviética e dos outros Estados soviéticos sob o domínio do Partido Comunista.

 

Rússia
Desenvolvimento da metalurgia no Perú

Na América do Sul, a metalurgia é um processo complexo que aparece na região andina (colômbia, Equador e norte do Peru), por volta de 1800 a.e.c. Uma vez que o ferro era desconhecido, é especialmente o ouro e o cobre que são explorados. Os sítios de Waywaka Andalahuaylas, nos Andes centrais (Apurimac), forneceram assim folhas de ouro e de cobre, marteladas e gravadas, datadas de 1500 a.e.c. Nos andes meridionais, restos de cobre foram recolhidos nos sítios de Wankarai e Chiripa, nos altos platôs bolivianos. E, no norte da Argentna (Condorwasi, Cienaga e La Aguada) e do Chile (Atacama), a utilização de ligas de cobre e prata e de bronze com arsênico e estanho é atestada a partir do 1º Milênio a.e.c.

O metal era fundido em pequenos fornos ventilados com a ajuda de tubos direcionados para o forno e nos quais era suficiente soprar para reativar o fogo. Martelado quente, permitia obter folhas que era recortadas em seguida, rebatidas e soldadas para confeccionar ornamentos (alfinetes, broches, braceletes, colares, ornamentos de nariz...) de ouro ou de cobre dourado, destinados aos dignitários locais e, mais raramente, utensílios (tesouras, facas, louça).

De 200 a 500, com o desenvolvimento das culturas Vicus, Moche, e Recuay, todas as técnicas de ourivesaria foram empregadas, como a fundição em cera perdida, a coloração, a filigrama e a utilização de uma liga de ouro e de cobre (chamada tumbago) na Colômbia, ou de ouro e prata (ou e ouro e platina) no Equador.

Civilização Moche
GOVERNANTES
. . .
+
Por civilização
CIVILIZAÇÃO
Por Carlos Augusto de Proença Rosa
Os primórdios da ciência nas sociedades primitivas

O surgimento do Homo Sapiens Sapiens (há cerca de 40 mil), de características físicas e mentais atuais, significou e determinou uma radical, profunda e rápida modificação no desenvolvimento do processo evolutivo, até então lento, porquanto fruto de mera acumulação e somatório de experiência. O Homem atual, que recebeu de seus ancestrais técnicas simples e incipientes, desenvolvidas ao longo de centenas de milhares de anos, no Paleolítico Superior, teria, agora, as condições necessárias para inovar em diversas atividades, ampliando o âmbito de sua atuação e realizando, em poucos milhares de anos, verdadeira revolução em seu modo de vida. Tão extraordinário avanço técnico só foi possível em decorrência de uma nova capacidade mental que permitiu o desenvolvimento da imaginação, da curiosidade e da observação. A resultante é uma Sociedade mais complexa e sofisticada, totalmente distinta da anterior.

Esse relativamente curto Período Pré-Histórico, denominado pelos historiadores de acordo com os materiais descobertos ou utilizados pela primeira vez, é dividido, em geral, em Neolítico ou Idade da Pedra Polida e em Eneolítico ou Idade dos Metais, ou, ainda, Proto-História.

Período Neolítico

O termo Neolítico – Período da Pedra Polida – foi criado em 1865 pelo naturalista inglês Sir John Lubbock (1834-1913), em sua obra Prehistoric Times, em oposição ao Paleolítico, Período da Pedra Lascada. Ainda que essa classificação continue em uso, a noção de Neolítico mudou bastante. Hoje em dia, se considera que outros aspectos da cultura dessa fase Pré-Histórica seriam mais representativos dos desenvolvimentos ocorridos em muitas populações, como a invenção da agricultura, o início dos agrupamentos urbanos e a vida sedentária, enquanto outros povos se dedicariam ao pastoreio, à caça e à coleta, permanecendo nômades. Tais denominações são, assim, insuficientes para traduzir a real complexidade de uma nova Sociedade, cujas características transcendem a mera utilização da pedra. Dessa forma, alguns autores denominam o Período como o da Grande Revolução Agrícola; outros enfatizam o aspecto da formação de uma nova organização social; outros, ainda, priorizam o estágio fetichista da sociedade primitiva.

O desenvolvimento dessas primeiras comunidades seguiu um ritmo distinto nas diversas regiões da Terra. Iniciado em momentos diferentes e com duração variável, esse processo evolutivo foi, em muitas áreas, concomitante, o que dificulta, bastante, a fixação de datas de aplicação generalizada. As datas têm, assim, um caráter indicativo e aproximativo, inclusive porque, na ausência da escrita (inventada no quarto milênio), não são disponíveis evidências comprobatórias definitivas de datação dos fatos e acontecimentos pré-históricos. As regiões para as quais se dispõe de razoável número de dados e informações são a Mesopotâmia, a Europa e os vales do Nilo, do Indo e do Amarelo.

Considera-se que o Neolítico teve início na região mesopotâmica, há uns 12 mil anos; no Sul da Europa (Grécia, Bálcãs) e Anatólia, há 9 mil anos; no Vale do Indo, há 7 mil anos; e na China, há uns 6 mil anos; independentemente desse desenvolvimento na Eurásia, o Período Neolítico teria começado na América Central e México por volta de 8 mil anos atrás, com o início da chamada Revolução Agrícola.

O processo evolutivo não ocorreu, assim, por igual e simultaneamente, nas diversas regiões da Terra. Com defasagem e sujeitas a condições locais, as diversas comunidades tiveram, contudo, uma base comum ou uma cultura neolítica comum, muitas das vezes facilitada pelos contatos de comércio com vizinhos e até com populações de outras regiões; mesmo no caso de sociedades isoladas, como é o caso da América Central, a evolução seguiu o caminho percorrido por outras na Eurásia, como atestam a agricultura, a cerâmica, os metais. O desenvolvimento técnico foi, basicamente, equivalente, nesse Período Pré-Histórico, nas diversas partes do Mundo. A explicação se encontra no fato de que a invenção, impulsionadora da Técnica, é produto do meio, de sua época, e não de um indivíduo. Tais foram os casos, por exemplo, da linguagem, da agricultura, da cerâmica e da domesticação dos animais.

Na realidade, a primeira grande inovação nasceu da necessidade de subsistência de uma população cada vez maior (crescimento de comunidades), cujos produtos de caça, pesca e coleta já eram insuficientes para satisfazê-la. As crescentes dificuldades para o deslocamento de grupos cada vez maiores, errando pelas terras circunvizinhas atrás de um alimento aleatório, contribuíram decisivamente para a busca de suprimento garantido, abundante e menos penoso de alimentos. As plantas locais, complemento das necessidades alimentares em momentos de escassez de caça e frutos, viriam a se constituir na principal fonte de alimentos. Depois de inúmeras tentativas, erros e acertos, e, para alguns autores, após uma boa dose de sorte, aquelas populações adquiriram a técnica do cultivo do arroz e do sorgo (China e Sudeste da Ásia), do trigo, da cevada, do centeio, da aveia e de leguminosas (Mesopotâmia, Anatólia, Sul da Europa), do milho, do feijão e da batata (América Central, Região Andina). A fartura resultante da incipiente agricultura incentivou o aumento demográfico, o qual requereu novas técnicas a fim de aumentar a produção e a produtividade. A expansão da fronteira agrícola para novas terras férteis propiciou a invenção do arado (Europa – 6 mil anos atrás), enquanto a irrigação e a barragem foram utilizadas nas terras abundantes de água (Mesopotâmia, vales do Nilo, do Indo e do Amarelo). A agricultura fixou o Homem à terra, transformando-o em um ser sedentário, que passaria a viver em pequenas granjas ou vilas agrícolas. A transição decorrente da implantação da agricultura teria amplas e profundas consequências, transformando uma Sociedade predadora, nômade e formada de agrupamentos familiares em uma produtora, sedentária e de dimensão multifamiliar. A resultante mais significativa para essa nova e emergente Sociedade foi o nascimento de um novo modo de vida totalmente diferente do de seus antepassados.

A Cultura Pré-Histórica foi oral, o que significa não haver registro escrito desse período. O conhecimento atual desse período é, assim, necessariamente superficial e tentativo. As descobertas de utensílios, adornos, restos mortais, vestimentas, rodas e ruínas de construções são algumas das evidências do tipo de cultura de tradição oral dessas populações. A Antropologia, ao estudar as comunidades ágrafas contemporâneas, e as informações dos primeiros documentos escritos têm contribuído, também, para uma compreensão da cultura dos povos do Período Neolítico.

Dependentes exclusivamente da memória para a transmissão de conhecimento, não foi permitido a tais povos alcançar saber teórico, mas lhes foi possível obter e desenvolver a técnica de como fazer as coisas.

Os grandes avanços técnicos, movidos pelas crescentes necessidades, em um meio hostil, e pela capacidade inventiva e imaginativa, podem ser assim resumidos:

  1. utilização de novos materiais – pedra polida e argila, da qual criaram a cerâmica, com a fabricação de um grande número de utensílios (copos, vasilhames, jarras, potes), inclusive para a estocagem de alimentos, e o tijolo, que seria usado na construção de habitações;
  2. alimentação mais rica e variada, com a introdução de novos produtos, como o leite, cereais, leguminosas;
  3. vestimentas e agasalhos mais confortáveis de tecidos (linho, lã), o que significou, ao menos, uma incipiente e tosca tecelagem;
  4. desenvolvimento do curtume – peles, couro;
  5. domesticação de animais para alimento e tração (cão, cavalo, boi, porco, carneiro, cabra, rena, camelo, galinha). A pecuária (criação de animais) e a atividade de pastoreio foram decorrentes diretos dessa importante inovação;
  6. utilização da energia eólica (barco a vela) e da tração animal para moagem e semeadura, para as quais desenvolveram a atrelagem e a junta de bois;
  7. invenção da roda, roldana, rolos, aumentando a capacidade de força muscular humana e animal;
  8. fabricação de cestos e balaios de uso doméstico;
  9. identificação de plantas venenosas e de plantas medicinais;
  10. construção de moradias (palafitas) mais apropriadas para uma vida sedentária, o que corresponderia aos primeiros tempos da Arquitetura. As manifestações artísticas, inclusive a Arte decorativa se expandiram, como atesta o grande número de esculturas e adornos encontrados em vários locais arqueológicos.

Esses extraordinários avanços não se limitaram ao campo técnico (tecelagem, cerâmica) ou ao campo das Artes (Escultura, Pintura, Arquitetura), vinculados à satisfação das necessidades materiais e culturais de uma nova Sociedade mais complexa e sofisticada. Transformações profundas na organização social, decorrentes das novas exigências comunitárias, foram os pontos altos desse processo evolutivo.

As novas e variadas atividades na agricultura, no pastoreio, no artesanato de cerâmica, na construção de moradias, no comércio com outras comunidades, na defesa da vida e dos interesses comunitários, ao promover uma incipiente especialização, estabeleceram uma divisão de trabalho da qual surgiu a classe dos proprietários, a dos empregados, a dos escravos, a dos operários ou artesãos e a dos mercadores[1]. A necessidade de um chefe, a fim de poder agir em conjunto, tanto para a defesa da comunidade, diante de um inimigo, quanto para dirigir os esforços na obtenção de sua subsistência, introduziu na Sociedade a ideia de uma autoridade política. Consolidar-se-ia, com o tempo, a figura do chefe e de seus auxiliares mais próximos, e surgiria, como representante do poder espiritual, a casta sacerdotal, aliada e suporte dos detentores do poder político.

Essa divisão de trabalho se refletiu no processo de urbanização, ao separar o poder defensivo e religioso, localizado nas vilas, das populações camponesas, vivendo próximas da lavoura. Seria nesses centros populacionais, onde passaram a habitar os chefes militares e religiosos e parte dos artesãos, e onde se estocariam os alimentos, que seriam adotadas as decisões políticas regulatórias da vida comunitária[2]. O dispositivo funcional, escreveria Daumas, se transformou progressivamente, ao ponto que se produziu uma separação tanto social quanto territorial entre a maioria rural, engajada na produção alimentar, e a minoria urbana, dedicada, nos planos profanos e religiosos, ao capital coletivo. Desses centros urbanos, onde se concentravam a riqueza e o poder (militar e religioso), surgiriam as inovações técnicas, como a metalurgia, que só tardiamente beneficiarão as populações do campo. A noção de propriedade se firmaria definitivamente, e os novos detentores do poder passariam a gerir a coisa pública. Os processos de estratificação social e de organização política se acentuariam, enquanto o sistema produtivo se tornaria cada vez mais complexo. Algumas comunidades mais avançadas deixariam de sacrificar os prisioneiros de guerra em cerimônias de antropofagia, para apresá-los como trabalhadores cativos, surgindo, desse modo, o escravismo[3].

Como seus antepassados, o Homem desse Período Pré-Histórico tinha como prioridade absoluta sua sobrevivência em um meio hostil. Daí sua objetividade, seu pragmatismo, seu interesse no desenvolvimento de coisas práticas e úteis que lhe facilitassem enfrentar as dificuldades do dia a dia. Não havia outra preocupação além das de assegurar uma melhoria das condições de vida.

No Mundo Pré-Histórico e Proto-Histórico, a Natureza, tão diversa e misteriosa, deve ter maravilhado, e apavorado, aqueles habitantes, ainda impossibilitados de compreender os fenômenos naturais ou de procurar uma explicação racional e lógica para o que acontecia a seu redor. Apesar de o Homem primitivo constatar, através da observação, a ocorrência de fatos extraordinários, como o movimento dos corpos celestes, variação climática, sucessão do dia e da noite, chuva, eclipse, tremor de terra, doenças e morte, não lhe ocorria, nem o preocupava, buscar explicações para tais fenômenos, carente que era de espírito crítico e analítico. Sua própria observação dos fenômenos naturais era passiva, deficiente, assistemática e sem objetividade, no sentido de que não lhe aguçava a curiosidade. Sua reduzida capacidade de observação e sua imaginação lhe seriam suficientes, contudo, para deslanchar impressionante desenvolvimento técnico. Sua imaginação desempenharia um papel central em sua evolução mental e cultural, porém não se subordinaria à observação e, até mesmo, em alguns casos, e em determinadas situações, a substituiria pela pura imaginação. Como ensina Ivan Lins, era inevitável que o Homem primitivo atribuísse os fenômenos ou acontecimentos a vontades  fictícias, isto é, sobrenaturais e imaginárias, que só existiam em sua própria fantasia e eram informadas pela observação[4].

Surgiria, em consequência, como fruto da imaginação, a magia, que procuraria expressar uma síntese do Mundo natural e de seu relacionamento com o Homem. Para Colin Ronan[5], a “magia exprimiu o que, de um modo geral, era uma visão anímica... em um mundo onde as forças eram personificadas”. Esse relacionamento (chuva e crescimento das plantas, por exemplo) era facilmente observável, mas a dificuldade se encontrava em explicar tais fenômenos e em colocá-los a seu serviço. Como escreveu Maurice Daumas “durante muito tempo ainda, tudo decorrerá da simples experiência, de uma espécie de submissão ativa às leis naturais. O homem do campo se contentará durante séculos, em todas as latitudes, com os conhecimentos práticos, e este será o tesouro que ele legará às gerações que o seguirão. Aquilo que ele não compreende, ele o explicará por sua ação diária, mesmo a mais humilde, em ritos tornados tradicionais...”. O Mundo tornar-se-ia compreensível somente através da ideia de que os objetos e fenômenos tinham vida própria ou eram manifestações de deuses e divindades, que deveriam ser agradados de forma a terem boa vontade para com os homens em sua labuta diária. Assim, o Mundo era povoado por um conjunto de seres visíveis (animais, plantas) e controlado por espíritos e forças ocultas e misteriosas que habitavam os seres, objetos e elementos (animais, árvores, mar, vento, chuva, sol); algumas dessas forças eram perceptíveis (raio, trovão, tremor de terra), e a doença era tida como uma manifestação dos espíritos do mal. Os fenômenos naturais eram, assim, relacionados com o mundo dos espíritos, desenvolvendo-se procedimentos (através da magia) para lidar com os dois mundos. A reencarnação era uma crença amplamente difundida.

A Medicina, ou melhor, a arte de curar, nas culturas orais ou ágrafas, era inseparável da magia. O valor do especialista na cura não era devido à sua habilidade cirúrgica ou ao uso correto de plantas medicinais, mas ao seu conhecimento das causas sobrenaturais da enfermidade.

Surgiu, então, a  figura do feiticeiro, mago, curandeiro, que incentivaria a imaginação popular e criaria uma ritualística pela qual seria possível prestar homenagens a essas forças misteriosas. Detentor dessa capacidade de interpretar a vontade superior de tais entidades, o feiticeiro transformou-se em uma das autoridades da Sociedade, constituindo-se, inclusive, em uma casta, a sacerdotal. Como escreveu Darcy Ribeiro, “os especialistas no trato com o sobrenatural, cuja importância social vinha crescendo, tornam-se, agora, dominadores. Constituem não apenas os corpos eruditos que explicam o destino humano, mas também os técnicos que orientam o trabalho, estabelecendo os períodos apropriados para as diferentes atividades agrícolas. Mais tarde, compendiam e codificam todo o saber tradicional, ajustando-o às novas necessidades, mas tentando  fixá-lo para todos os tempos. Este caráter conservador era inarredável à sua posição de guardiões de verdades reveladas, cuja autoridade e cujo poder não se encontravam neles, mas nas divindades a que eram atribuídas”. Preces, invocações, feitiços, sacrifícios, purificações, amuletos e poções seriam, então, utilizados para apaziguar e festejar essas divindades e espíritos.

Essa visão anímica do Mundo e da Natureza, essa mentalidade fetichista levaria, inexoravelmente, a uma noção do absoluto; o Homem acreditaria ter posse do conhecimento absoluto, pois não encontraria nenhuma dificuldade ou problema em se satisfazer com a interveniência de divindades para justificar os fenômenos. O problema da compreensão não surgia, assim, para o Homem Neolítico, já que a explicação fetichista lhe satisfazia. Bastavam-lhe as constatações do que acontecia ao seu redor e a crença em um poder superior, responsável pelo que ocorria e ao qual deveria submeter-se e adorar.

Idade dos Metais

O terceiro e último Período da Pré-História é conhecido como o da Idade dos Metais, ou Eneolítico, ou ainda de Proto-Histórico, de curta duração (de 8 mil a 5 mil anos atrás), mas de grande importância no processo evolutivo da Sociedade Pré-Histórica, pois corresponde à transição para o Período Histórico. As atividades agrícolas e de artesanato, iniciadas no Neolítico, se expandiriam e se diversificariam para atender a uma maior demanda de uma crescente população que se urbanizava rapidamente; surgiriam centros urbanos em pontos estratégicos das rotas comerciais.

Uma nova atividade, a da mineração do metal, contribuiria para a diversificação econômica, propiciando o aparecimento da Metalurgia. Tão importante quanto foram, em épocas anteriores, a argila, o osso, a madeira e a pedra, o novo material, de múltipla utilização, teria um papel decisivo no plano econômico e social das sociedades do período, a ponto de caracterizá-lo.

O primeiro metal descoberto foi o cobre (cerca de 8 mil anos atrás, no Sudoeste europeu, espalhando-se pelo resto da Europa, da Ásia e do Norte da África), usado em utensílios domésticos; sua importância e significado explicam ser esse Período inicial chamado, por muitos autores, de Calcolítico. O ouro e a prata também foram conhecidos nessa época e tiveram muitas aplicações, inclusive em adornos. O bronze (liga de cobre e estanho) segue cronologicamente os três metais anteriores, mas pela técnica requerida para sua fabricação, originou a Metalurgia, avanço técnico fantástico, o que justifica chamar esse Período de Idade do Bronze. O bronze foi fabricado primeiro na Mesopotâmia, por volta de 6 mil anos atrás, e na Grécia e na China, há 5 mil anos, vindo, rapidamente, outras populações a aprender a técnica e a utilizar o metal. O ferro só viria a ser conhecido há cerca de 3.300 anos, usado, pela primeira vez, em artefato de guerra, pelos hititas.

A linguagem falada permitiria melhor convivência social entre os diversos grupos multifamiliares, ao mesmo tempo em que o avanço econômico e a divisão de trabalho favoreciam um empírico desenvolvimento técnico, de efeito altamente positivo, nas condições de vida das populações. A noção de propriedade privada se estenderia aos meios de produção e ao campo, consolidando-se a hierarquização social, com uma classe rica, dominante, próxima e beneficiária do poder político, exercido por um governante, apoiado por uma casta sacerdotal. A tradição, os costumes, as crenças e o conhecimento técnico eram transmitidos oralmente, de geração a geração, constituindo-se na característica marcante dessas comunidades.

A descoberta, em setembro de 1991, de uma múmia de caçador, em perfeito estado de conservação, na geleira do Tirol, com datação estimada em 5,3 mil anos, poderá trazer preciosas informações sobre hábitos da população das comunidades da região. O “homem de gelo” recebeu o nome de Otzi, por causa da área em que fora encontrado, Oetzal, e atualmente se encontra no museu da pequena cidade de Bolzano, na Itália.

Duas extraordinárias inovações técnicas ocorreram no período. A primeira foi a contagem – provavelmente apenas soma e subtração – para fins de medição de peso, volume e área, dadas as necessidades de comércio e de armazenamento do excesso de safra, além do requerimento de quantidade envolvida com a propriedade dos rebanhos de animais. Incipiente e precária, e fruto exclusivo das prementes necessidades comunitárias, a contagem, nesse estágio, foi um mero desenvolvimento técnico. A segunda inovação, a escrita de signo, surgiu por volta de 3,5 mil antes da Era Comum, na Mesopotâmia (tábuas de argila em Uruk), dada a necessidade de consignar o conhecimento obtido nas diversas atividades, de registrar os principais acontecimentos e decisões dos líderes da comunidade e de atender aos interesses comerciais. A transmissão oral, dependente da memória, era já insuficiente para esses propósitos, razão bastante para o desenvolvimento de uma técnica capaz de satisfazer os interesses comunitários. A invenção da escrita, instrumento fundamental na preservação e divulgação da cultura, é um marco no desenvolvimento da Humanidade, e serve, inclusive, como fecho do Período Pré-Histórico e momento inicial da História.

Apesar de todo o desenvolvimento técnico e acumulação de dados e informações, é compreensível não ter surgido a Ciência no Período Pré-Histórico, porquanto não se tinham ainda reunido as condições necessárias para a transformação do conhecimento empírico em conhecimento científico. Seria contraditório a uma comunidade ágrafa dispor de conhecimento teórico e desenvolver um saber científico. A falta da escrita e de um espírito científico, crítico, analítico, foi suficiente para inviabilizar o nascimento da Ciência naquele contexto Pré-Histórico, mental e social. Avanços técnicos (emprego de drogas extraídas de ervas, trepanação) e observações na área da saúde não podem ser considerados como indicação de algum conhecimento biológico, como a ideia do número, evidência de alguma capacidade de abstração, não serve como momento da constituição da Ciência Matemática. Da mesma forma, o conhecimento de algumas plantas não cria a Botânica, ou de certos animais, a Zoologia. O que havia era uma técnica, um conhecimento prático, um empirismo sem qualquer abstração dos princípios subjacentes. Assim, apesar dos incontestáveis progressos técnicos, a Ciência não foi criada nesse Período da Pré-História da evolução humana.

O surgimento das primeiras grandes civilizações, às margens dos vales do Tigre e Eufrates, do Nilo, do Amarelo e do Indo e Ganges, início do Período Histórico, beneficiou-se pela incorporação do adiantamento social, cultural e técnico ocorrido em épocas anteriores, especialmente no Período Arqueológico Neolítico e na Idade dos Metais, nessas regiões. Assim, não surgiram tais culturas por acaso ou por milagre nesses locais, nem desenvolveram esses povos seus conhecimentos e seu modo de vida sem uma base prévia; essas civilizações primárias emergiram diretamente de seu passado neolítico. Há, assim, um legado importante, recebido no início dos tempos históricos, que não deve ser esquecido ou desprezado, porquanto ele contém respostas para uma série de indagações sobre os primórdios do Homem, sua evolução e suas realizações, bem como sobre a emergência das civilizações primárias.

 

Neolítico | Ciências
Por Phillipe Ariès
O nascimento do sentimento de família na Europa medieval

Pareceria contestável falarmos de uma iconografia profana na Idade Média antes do século XIV, de tal forma o profano se distingue mal do sagrado. Contudo, entre as contribuições de origem profana a essa representação total do mundo, há um tema cuja frequência e popularidade são significativas: o tema dos ofícios. Os arqueólogos nos informaram que os gauleses da época romana gostavam de representar em seus baixos-relevos funerários cenas de suas vidas de trabalhadores[1]. Essa preferência pelos temas de ofícios não é encontrada em nenhuma outra parte. Os arqueólogos também ficaram impressionados com sua raridade, quando não com sua ausência, na iconografia funerária da África romana[2]. O tema remonta, por conseguinte, a um passado remoto. Ele se manteve e até mesmo se desenvolveu durante a Idade Média. Ressalvando o anacronismo da expressão, poderíamos dizer, grosso modo, mas sem deformar a verdade, que a iconografia “profana” medieval consiste acima de tudo no tema dos ofícios. É importante que durante tanto tempo o ofício tenha parecido às pessoas ser a principal atividade da vida quotidiana, uma atividade cuja lembrança se associava ao culto funerário da época galo-romana e à concepção erudita do mundo da Idade Média, nos calendários das catedrais. Sem dúvida, isso parece perfeitamente natural aos historiadores modernos. Mas terão eles se indagado quantos hoje em dia prefeririam esquecer seu ofício e gostariam de deixar uma outra imagem de si mesmos? Em vão tentamos introduzir algum lirismo nos aspectos funcionais da vida contemporânea; o resultado é uma espécie de academicismo sem raízes populares. O homem de hoje não escolheria seu ofício, mesmo que gostasse dele, para propô-lo como tema a seus artistas, mesmo que estes últimos pudessem aceitá-lo. A importância dada ao ofício na iconografia medieval é um sinal do valor sentimental que as pessoas lhe atribuíam. Era como se a vida privada de um homem fosse antes de mais nada seu ofício.

Uma das representações mais populares do ofício o liga ao tema das estações, cuja importância já tivemos a ocasião de reconhecer a propósito das idades da vida. Sabemos que a Idade Média ocidental se caracterizou pelo hábito de reunir através do simbolismo noções cujas correspondências secretas, ocultas por detrás das aparências, se desejava sublinhar. A Idade Média ligava as profissões às estações, assim como o fazia com as idades da vida ou os elementos. Era esse o sentido dos calendários de pedra e de vidro, dos calendários das catedrais e dos livros de horas.

A iconografia tradicional dos 12 meses do ano foi fixada no século XII, tal como a encontramos, com muito poucas variantes, em Saint-Denis, em Paris, em Senlis, em Chartres, em Amiens, em Reims etc.: os trabalhos e os dias. De um lado, os grandes trabalhos da terra: o feno, o trigo, a vinha e o vinho, o porco. De outro, a pausa, do inverno e da primavera. São camponeses que trabalham, mas a representação dos momentos de interrupção do trabalho oscila entre o camponês e o nobre. Janeiro (a festa de Reis) pertence ao nobre, diante de uma mesa na qual não falta nada. Fevereiro pertence ao plebeu que volta à casa carregando lenha e se aquece perto do fogo. Maio ora é um camponês que descansa no meio das flores, ora um jovem nobre que parte para a caça e prepara seu falcão. Em todo o caso, é a evocação da juventude participando das festas de maio. Nessas cenas, o homem está sempre sozinho: excepcionalmente um jovem criado (como em São Denis) aparece de pé atrás do amo, que come sentado em sua mesa. Por outro lado, trata-se sempre de um rapaz e nunca de uma mulher.

Podemos ver essa iconografia evoluir ao longo dos livros de horas até o século XVI, de acordo com tendências significativas.

Primeiro, vemos surgir a mulher, a dama do amor cortês ou a dona-de-casa. No livro de horas do Duque de Berry, no mês de fevereiro, o camponês não é mais o único a se aquecer, como nas paredes de Senlis, de Paris ou de Amiens. Três mulheres da casa já estão sentadas em torno do fogo, enquanto o homem ainda está do lado de fora, fransido de frio no pátio coberto de neve. Em outras representações, a cena se torna a imagem de um interior, de uma noite de inverno em que as pessoas ficam dentro de casa: o homem, diante da lareira, ainda aquece as mãos e o pé descalço, mas, ao lado, sua mulher trabalha tranquilamente em sua roca (Charles d’Angoulême). Em abril, aparece o tema da corte de amor: a dama e seu amigo em um jardim fechado com muros (Charles d’Angoulême). Ela também acompanha os cavaleiros à caça. Mas mesmo a dama nobre não é mais a heroína ociosa e um tanto imaginária dos jardins de abril, ou a cavaleira das festas de maio; ela também dirige os trabalhos desse jardim de abril (Turim). A camponesa aparece mais vezes. Ela participa dos trabalhos dos campos com os homens (Berry, Angoulême). Dá de beber aos trabalhadores que fazem a colheita enquanto eles descansam nos dias quentes de verão (Hennessy, Grimani). Seu marido a leva de volta em uma carreta com o cantil de vinho que ela lhe havia trazido. Os cavaleiros e as damas não estão mais isolados nos prazeres nobres de abril ou de maio. Assim como a dama do livro de horas de Turim cuidava de seu jardim, os cavaleiros e as damas se misturam aos camponeses, aos colhedores de uva (como na cena da colheita de cerejas do livro de horas de Turim). Quanto mais avançamos no tempo, e sobretudo no século XVI, mais frequentemente a família do senhor da terra é representada entre os camponeses, supervisionando seu trabalho e participando de seus jogos. Numerosas tapeçarias do século XVI descrevem essas cenas campestres em que os senhores e suas crianças colhem uvas e supervisionam a colheita do trigo. O homem não está mais sozinho. O casal não é mais apenas o casal imaginário do amor cortês. A mulher e a família participam do trabalho e vivem perto do homem, na sala ou nos campos. Não se trata propriamente de cenas de família: as crianças ainda estão ausentes no século XV. Mas o artista sente a necessidade de exprimir discretamente a colaboração da família, dos homens e das mulheres da casa, no trabalho quotidiano, com uma preocupação de intimidade outrora desconhecida.

Ao mesmo tempo, a rua surge nos calendários. A rua já era um tema familiar da iconografia medieval: ela se anima com uma vida particularmente expressiva nas admiráveis vistas das pontes de Paris da Vida de São Denis, um manuscrito do século XIII. Assim como nas cidades árabes de hoje, a rua era o lugar onde se praticavam os ofícios, a vida profissional, as conversas, os espetáculos e os jogos. Fora da vida privada, por muito tempo ignorada pelos artistas, tudo se passava na rua. No entanto, as cenas dos calendários, de inspiração rural, durante muito tempo a ignoraram. No século XV, a rua tomou seu lugar nos calendários. É verdade que os meses de novembro e de dezembro do livro de horas de Turim são ilustrados com o tradicional sacrifício do porco. Mas aqui, ele se passa na rua, e os vizinhos estão diante de suas portas para observá-lo. No calendário do livro de horas de Adelaide de Savoie, aparece o mercado: moleques cortam as bolsas de donas-de-casa ocupadas e distraídas - reconhecemos aí o tema dos pequenos batedores de carteiras, que se iria manter na pintura picaresca ao longo de todo o século XVII[3]. Uma outra cena do mesmo calendário representa a volta do mercado: uma comadre pára para falar com sua vizinha, que está na janela; alguns homens descansam sentados em um banco, protegidos por um telheiro, e distraem-se vendo meninos jogar péla e lutar. Essa rua medieval, assim como a rua árabe de hoje, não se opunha à intimidade da vida privada; era um prolongamento dessa vida privada, o cenário familiar do trabalho e das relações sociais. Os artistas, em suas tentativas relativamente tardias de representação da vida privada, começariam por mostrá-la na rua, antes de segui-la até dentro de casa. Talvez essa vida privada se passasse tanto ou mais na rua do que em casa.

Com a rua, os jogos invadiram as cenas dos calendários: os jogos de cavalaria, como os torneios (Turim, Hennessy), os jogos comuns a todos, e as festas folclóricas, como a árvore de maio. O calendário do livro de horas de Adelaide de Savoie compõe-se essencialmente de uma descrição dos mais diversos jogos, jogos de salão, jogos de força e de habilidade, jogos tradicionais: a festa de Reis, a dança de maio, a luta, o hóquei, as disputas entre dois homens armados de varas em duas barcas, as guerras de neve. Em outros manuscritos, assistimos a certames de tiro com bestas (Hennessy), a passeios de barco com música (Hennessy) e os banhos coletivos (Grimani). Ora, sabemos que os jogos não eram então apenas diversões, mas uma forma de participação na comunidade ou no grupo: jogava-se em família, entre vizinhos, entre classes de idade, entre paróquias[4].

Finalmente, a partir do século XVI, uma nova personagem entra em cena nos calendários: a criança. Sem dúvida, ela já aparecia com frequência na iconografia do século XVI, particularmente nos Miracles de Notre Dame. Mas ela havia permanecido ausente dos calendários, como se essa tradição iconográfica antiga tivesse hesitado em aceitar esse elemento tardio. Nos trabalhos dos campos, não aparecem crianças ao lado das mulheres. Apenas algumas servem à mesa nos banquetes de janeiro. Percebemo-las também no mercado do livro de horas de Adelaide de Savoie; nesse mesmo manuscrito, elas brincam de jogar bolas de neve, atrapalham com sua bagunça o pregador na igreja e são expulsas. Nos últimos manuscritos flamengos do século XVI, elas se divertem alegremente; percebe-se a predileção que lhes dedica o artista. Os calendários dos livros de horas de Hennessy e de Grimani imitaram com precisão a aldeia coberta de neve das Très Riches Heures do Duque de Berry, na cena do mês de janeiro que descrevemos acima, em que o camponês corre para casa a fim de se unir às mulheres que se aquecem. Contudo, eles acrescentaram uma outra personagem: a criança. E a criança aparece na pose do Manneken-Pis, que se tornara frequente na iconografia da época - a criança urina pela abertura da porta. Esse tema do Manneken-Pis é encontrado em toda a parte: lembremos o sermão de São João Batista do museu dos Augustins de Toulouse (que outrora ornava a capela do Parlamento dessa cidade), ou um certo putto de Ticiano[5].

Nesses livros de horas de Hennessy e Grimani, as crianças patinam no gelo, brincam de imitar os torneios dos adultos (alguns reconheceriam entre elas o jovem Carlos V). No livro de horas de Munique, elas se atiram bolas de neve. No Hortulus animae, elas brincam de corte de amor e de torneio, montadas numa barrica, ou patinam no gelo[6].

As representações sucessivas dos meses do ano introduziram portanto essas novas personagens: a mulher, o grupo de vizinhos e companheiros, e finalmente a criança. E a criança se ligava a essa necessidade outrora desconhecida de intimidade, de vida familiar, quando não ainda precisamente, de vida “em família”.

Ao longo do século XVI, essa iconografia dos meses sofreria uma última transformação muito significativa para nosso estudo: ela se tornaria uma iconografia da família. Ela se tornaria familiar ao se combinar com o simbolismo de uma outra alegoria tradicional: as idades da vida. Havia várias maneiras de representar as idades da vida, mas duas delas eram mais comuns: a primeira, mais popular, sobreviveu na gravura, e representava as idades nos degraus de uma pirâmide que subia do nascimento à maturidade, e daí descia até a velhice e a morte. Os grandes pintores recusavam-se a adotar essa composição demasiado ingênua. De modo qual, adotavam a representação das três idades da vida sob a forma de uma criança, alguns adolescentes - em geral um casal - e um velho. No quadro de Ticiano, por exemplo, aparecem dois putti dormindo, um casal formado por uma camponesa vestida tocando flauta e um homem nu no primeiro plano, e, ao fundo, um velho sentado e recurvado segurando uma caveira. O mesmo tema é encontrado em Van Dyck, no século XVII. Nessas composições, as três ou quatro idades da vida são representadas separadamente, segundo a tradição iconográfica. Ninguém teve a ideia de reuni-las dentro de uma mesma família, cujas gerações diferentes simbolizariam as três ou quatro idades da vida. Os artistas, e a opinião que eles traduziam, permaneciam fiéis a uma concepção mais individualista das idades: o mesmo indivíduo era representado nos diversos momentos de seu destino.

Entretanto, ao longo do século XVI, surgira uma nova ideia, que simbolizava a duração da vida através da hierarquia da família. Já tivemos a ocasião de citar Le Grand Propriétaire de toutes choses, esse velho texto medieval traduzido para o francês e editado em 1556. Como observamos, esse livro era um espelho do mundo. O sexto livro trata das “Idades”. É ilustrado com uma xilogravura que não representa nem os degraus das idades, nem as três ou quatro idades separadas, mas simplesmente uma reunião de família. O pai está sentado com uma criancinha sobre os joelhos. Sua mulher está de pé à sua direita. Um dos filhos está à sua esquerda, e o outro dobra o joelho para receber algo que o pai lhe dá. Trata-se ao mesmo tempo de um retrato de família, como os que abundavam nessa época nos Países Baixos, na Itália, na Inglaterra, na França e na Alemanha, e de uma cena de gênero familiar, como as que os pintores e gravado res multiplicariam no século XVII. Esse tema conheceria a mais extraordinária popularidade. Não era um tema totalmente desconhecido da Idade Média, ao menos do final. Foi desenvolvido de forma notável em um capitel das loggias do palácio Ducal de Veneza, dito capitel do casamento. Venturi data essa representação de cerca de 1424[7], enquanto Toesca a coloca no fim do século XIV, o que parece mais provável devido ao estilo e ao traje, mas mais surpreendente em virtude da precocidade do tema[8]. As oito faces desse capitel contam-nos uma história dramática que ilustra a fragilidade da vida, um tema familiar nos séculos XIV e XV - porém aqui, esse drama se passa no seio de uma família, e isso é novo. A representação começa pelo noivado. A seguir, a jovem mulher aparece vestida com um traje de cerimônia sobre o qual foram costurados pequenos discos de metal: seriam simples enfeites ou seriam moedas, já que as moedas desempenhavam um papel no folclore do casamento e do batismo? A terceira face representa a cerimônia do casamento, no momento em que um dos cônjuges segura uma coroa sobre a cabeça do outro: rito que subsistiu na liturgia oriental. Então, os noivos têm o direito de se beijar. Na quinta face, eles estão deitados nus no leito nupcial. Nasce uma criança, que aparece enrolada em cueiros e segura pelo pai e a mãe juntos. Suas roupas parecem mais simples do que na época do noivado e do casamento: eles se tornaram pessoas sérias, que se vestem com uma certa austeridade ou segundo a moda antiga. A sétima face reúne toda a família, que posa para um retrato. O pai e a mãe seguram a criança pelo ombro e pela mão. Já é o retrato familiar, tal como o encontramos no Le Grand Propriétaire. Mas, com a oitava face, o drama explode: a família sofre uma prova, pois a criança está morta, estendida sobre a cama, com as mãos postas. A mãe enxuga as lágrimas com uma das mãos e põe a outra no braço da criança; o pai reza. Outros capitéis, vizinhos deste, são ornados com putti nus que brincam com frutas, aves ou bolas: temas mais banais, mas que permitem recolocar o capitel do casamento em seu contexto iconográfico.

A história do casamento começa como a história de uma família, mas acaba com o tema diferente da morte prematura.

No museu Saint-Raimond, em Toulouse, podemos ver os fragmentos de um calendário que pôde ser datado do início da segunda metade do século XVI graças aos trajes. Na cena do mês de julho, a família está reunida em um retrato, como na gravura contemporânea do Le Grand Propriétaire, mas com um detalhe adicional que tem sua importância: a presença dos criados ao lado dos pais. O pai e a mãe estão no meio. O pai dá a mão ao filho, e mãe à filha. O criado está do lado dos homens, e a criada do lado das mulheres, pois os dois sexos são separados como nos retratos de doadores: os homens, pais e filhos, de um lado, e as mulheres, mães e filhas, do outro. Os criados fazem parte da família.

Agosto é o mês da colheita, mas o pintor se empenha em representar, mais do que a própria colheita, a entrega da colheita ao senhor, que tem na mão moedas para dar aos camponeses. Essa cena prende-se a uma iconografia muito frequente no século XVI, particularmente nas tapeçarias em que os fidalgos do campo supervisionam seus camponeses ou se divertem com eles.

Outubro: a refeição em família. Os pais e as crianças estão sentados à mesa. A criança menor está encarapitada em uma cadeira alta, que lhe permite alcançar o nível da mesa - uma cadeira feita especialmente para as crianças de sua idade, do tipo que vemos ainda hoje. Um menino com um guardanapo serve à mesa: talvez um criado, talvez um parente, encarregado naquele dia de servir à mesa, função que nada tinha de humilhante, muito ao contrário.

Novembro: o pai está velho e doente, tão doente que foi preciso recorrer ao médico. Este, com um gesto banal pertencente a uma iconografia tradicional, inspeciona o urinol.

Dezembro: toda a família está reunida no quarto, em torno do leito onde o pai agoniza. Ele recebe a comunhão. Sua mulher está de joelhos ao pé da cama. Atrás dela, uma moça ajoelhada chora. Um rapaz segura uma vela. Ao fundo, percebe-se uma criança pequena: sem dúvida o neto, a próxima geração que continuaria a família.

Portanto, esse calendário assimila a sucessão dos meses do ano à das idades da vida, mas representa as idades da vida sob a forma da história de uma família: a juventude de seus fundadores, sua maturidade em torno dos filhos, a velhice, a doença e a morte, que é ao mesmo tempo a boa morte, a morte do homem justo, tema igualmente tradicional, e também a morte do patriarca no seio da família reunida.

A história desse calendário começa como a da família do capitel do casamento do palácio dos Doges. Mas não é o filho, a criança querida, que a morte rouba cedo demais. As coisas seguem um curso mais natural. É o pai que parte, ao final de uma vida plena, cercado por uma família unida, e deixando-lhe sem dúvida um patrimônio bem administrado. A diferença está toda aí. Não se trata mais de uma morte súbita, e sim da ilustração de um sentimento novo: o sentimento da família.

O aparecimento do tema da família na iconografia dos meses não foi um simples episódio. Uma evolução maciça arrastaria nessa mesma direção toda a iconografia dos séculos XVI e XVII.

No princípio, as cenas representadas pelos artistas se passavam ou em um espaço indeterminado, ou em lugares públicos como as igrejas, ou ao ar livre. Na arte gótica, livre do simbolismo romano-bizantino, as cenas de ar livre tornaram-se mais numerosas e mais significativas graças à invenção da perspectiva e ao gosto pela paisagem: a dama recebe seu cavaleiro em um jardim fechado; a caçada conduz grupos através dos campos e florestas; o banho reúne as damas em torno da fonte de um jardim; os exércitos manobram, os cavaleiros se enfrentam em torneios, o exército acampa em torno da tenda onde o Rei descansa, os exércitos sitiam cidades; os príncipes entram e saem das cidades fortificadas, sob a aclamação do povo e dos burgueses.

Penetramos nas cidades por pontes, passando diante das tendas onde trabalham os ourives. Vemos passar os vendedores de biscoitos, e as barcas carregadas descendo o rio. Ao ar livre ainda, vemos todos os jogos serem praticados. Acompanhamos os jograis e os peregrinos em seu caminho. A iconografia profana medieval é uma iconografia do ar livre. Quando, nos séculos XIII ou XIV, os artistas se propõem a ilustrar anedotas ou episódios particulares, eles hesitam, e sua ingenuidade surpresa produz um resultado canhestro: nenhum deles se compara ao virtuosismo dos artistas que representam episódios nos séculos XV e XVI.

Antes do século XV, portanto, as cenas de interior são muito raras. A partir de então, elas se tornam cada vez mais frequentes. O evangelista, antes situado em um meio atemporal, torna-se um escriba em sua escrivaninha, com a pena e a raspadeira na mão. Primeiro ele é colocado na frente de um simples drapeado decorativo, mas finalmente aparece em um quarto cheio de livros em prateleiras: do evangelista, passou-se ao autor em seu quarto, a Froissart escrevendo uma dedicatória em seu livro[9]. Nas ilustrações do texto de Terêncio do palácio dos Doges, as mulheres trabalham e fiam em seus aposentos, com suas criadas, ou aparecem deitadas na cama, nem sempre sozinhas. Vêem-se cozinhas e salas de albergues. As cenas galantes e as conversações se passam agora no espaço fechado de uma sala.

Surge o tema do parto, cujo pretexto é o nascimento da Virgem. Criadas, comadres e parteiras se atarefam no quarto em torno da cama da mãe. Surge também o tema da morte, da morte no quarto, em que o agonizante luta em seu leito por sua salvação.

A representação mais frequente do quarto e da sala corresponde a uma tendência nova do sentimento, que se volta então para a intimidade da vida privada. As cenas de exterior não desaparecem, é certo - são a origem das paisagens, mas as cenas de interior tornam-se mais numerosas e mais originais. Iriam caracterizar a pintura de gênero durante todo o tempo de sua existência. A vida privada, rechaçada na Idade Média, invade a iconografia, particularmente a pintura e a gravura ocidentais no século XVI e sobretudo no XVII: a pintura holandesa e flamenga e a gravura francesa comprovam a extraordinária força desse sentimento, antes inconsistente ou menosprezado. Sentimento já tão moderno, que para nós é difícil compreender o quanto era novo.

Essa farta ilustração da vida privada poderia ser classificada em dois grupos: o do namoro e da farra à margem da vida social, no mundo suspeito dos mendigos, nas tabernas, nos bivaques, entre os boêmios e os vagabundos - grupo que desprezaremos por estar fora de nosso assunto - e sua outra face, o grupo da vida em família. Se percorrermos as coleções de estampas ou as galerias de pintura dos séculos XVI-XVII, ficaremos impressionados com essa verdadeira avalancha de imagens de famílias. Esse movimento culmina na pintura da primeira metade do século XVII na França, e na pintura de todo o século e até mais na Holanda. Ele persiste na França durante a segunda metade do século XVII na gravura e nos leques pintados, reaparece no século XVIII na pintura, e dura até o século XIX, até a grande revolução estética que baniria da arte a cena de gênero.

Nos séculos XVI e XVII, os retratos de grupos são numerosíssimos. Alguns são retratos de confrarias ou corporações. Mas a maioria representa uma família reunida. Estes últimos surgem no século XV, com os doadores que se fazem representar modestamente no nível inferior de alguma cena religiosa, como sinal de sua devoção. De início, esses doadores são discretos e estão sozinhos. Mas logo começam a trazer a seu lado toda a família, incluindo os vivos e os mortos: as mulheres e os filhos mortos também têm seu lugar na pintura. De um lado aparece o homem e os meninos, do outro a ou as mulheres, cada uma com as filhas de seu leito.

O nível ocupado pelos doadores amplia-se ao mesmo tempo em que se povoa, em detrimento da cena religiosa, que se torna então uma ilustração, quase um hors-d'oeuvre. Na maioria dos casos ela se reduz aos santos padroeiros do pai e da mãe, o santo do lado dos homens e a santa do lado das mulheres. Convém observar a importância assumida pela devoção dos santos padroeiros, que figuram como protetores da família: ela é o sinal de um culto particular de caráter familiar, como o do anjo da guarda, embora este último tenha um caráter mais pessoal e mais peculiar à infância.

Essa etapa do retrato dos doadores com sua família pode ser ilustrada com numerosos exemplos do século XVI: os vitrais da família Montmorency em Monfort-L’Amaury, Montmorency e Ecouen; ou os numerosos quadros pendurados como ex-votos nos pilares e nas paredes das igrejas alemãs, muitos dos quais ainda permanecem em seu lugar nas igrejas de Nurembergue. Muitas outras pinturas, às vezes ingênuas e mal feitas, chegaram aos museus regionais da Alemanha e da Suíça alemã. Os retratos de família de Holbein são fiéis a esse estilo[10]. Tudo indica que os alemães se tenham apegado por mais tempo a essa forma de retrato religioso da família, destinado às igrejas; ele seria uma forma mais barata do vitral dos doadores, mais antigo, e anunciaria os ex-votos mais anedóticos e pitorescos do século XVIII e início do XIX, que representam não mais a reunião familiar dos vivos e dos mortos, mas o acontecimento miraculoso que salvou um indivíduo ou um membro da família de um naufrágio, um acidente ou uma doença. O retrato de família é também uma espécie de ex-voto.

A escultura funerária inglesa da época elisabetana fornece um outro exemplo do retrato de família a serviço de uma forma de devoção. Esse exemplo, aliás, é específico, e não é encontrado com a mesma frequência e a mesma facilidade na França, na Alemanha ou na Itália. Muitos túmulos ingleses dos séculos XVI e XVII mostram toda a família reunida em torno do defunto, em baixo ou em alto-relevo: a insistência na enumeração das crianças, vivas ou mortas, é impressionante, e vários desses túmulos ainda são encontrados na abadia de Westminster: Sir Richard Pecksall, por exemplo, morto em 1571, aparece entre suas duas mulheres, e na base do monumento há pequenas figuras esculpidas: suas quatro filhas. De cada lado da estátua deitada de Margaret Stuart, morta em 1578, vêem-se seus filhos e filhas. Sobre túmulo de Winifred, Marquesa de Winchester, morta em 1586, também esculpida em posição deitada, aparece seu marido ajoelhado, representado em uma escala reduzida, e, ao lado, um minúsculo túmulo de criança.

Sir John e Lady Puckering, morta em 1596, estão esculpidos deitados lado a lado, no meio de suas oito filhas. O casal Norris (1601) aparece ajoelhado no meio de seus seis filhos.

Em Holdham, contam-se 21 figurinhas sobre o túmulo de John Coke (1639), alinhadas como nos retratos de doadores, e as que estão mortas seguram uma cruz. Sobre o túmulo de Cope d’Ayley em Hambledone (1633), os quatro meninos e as três meninas estão diante de seus pais ajoelhados; entre eles, um menino e uma menina seguram uma caveira.

Em Westminster, a Duquesa de Buckingham mandou erigir em 1634 o túmulo de seu marido, assassinado em 1628; os cônjuges estão esculpidos em posição deitada, no meio de suas crianças[11].
Essas representações alemães e inglesas prolongam aspectos ainda medievais do retrato de família. A partir do século XVI, o retrato de família se liberou de sua função religiosa. Foi como se o rés-do-chão dos quadros de doadores tivesse invadido toda a tela, expulsando dela a imagem religiosa, que, ou desapareceu completamente, ou persistiu sob a forma de uma pequena imagem devota pendurada na parede de fundo do quadro. A tradição do ex-voto ainda está presente em um quadro de Ticiano pintado em torno de 1560[12]: os membros de sexo masculino da família Cornaro - um velho, um homem maduro de barba grisalha, um homem jovem de barba negra (a barba, sua forma e sua cor são indícios da idade) e seis meninos, o menor dos quais brinca com um cão - estão agrupados em torno de um altar. Em certos casos, também, o retrato de família adota a forma material, a apresentação do quadro de igreja: existe no Victoria and Al bert Museum um tríptico de 1628 que representa no painel central um menininho e uma menininha, e nos painéis laterais, os dois pais[13]. Esses quadros não se destinavam mais às igrejas, decoravam agora os interiores particulares. E essa laicização do retrato de família é certamente um fenômeno importante: a família se contempla ela própria na casa de um de seus parentes. Sente-se a necessidade de fixar o estado dessa família, lembrando-se também às vezes os desaparecidos através de uma imagem ou uma inscrição na parede.

Esses retratos de família são muito numerosos, e seria inútil apontá-los todos. A lista seria longa e monótona. Eles são encontrados tanto em Flandres como na Itália, com Ticiano, Pordenone e Veronese, na França, com Le Nain, Lebrun e Tournier, na Inglaterra ou na Holanda, com Van Dyck, nos séculos XVI, XVII, e até mesmo início do século XVIII. Nessa época eles deviam ser tão numerosos como os retratos individuais. Muitas vezes foi dito que o retrato revela o progresso do individualismo. Talvez. Mas é notável que ele traduza acima de tudo o imenso progresso do sentimento da família.

No início, os membros da família são agrupados de forma seca, como nos quadros dos doadores ou na gravura das idades da vida de Le Grand Proprietáire, ou na miniatura do museu Saint-Raimond. Mesmo quando têm mais vida, “posam” em uma atitude solene e destinada a salientar o laço que os une. Em uma tela de Pourbus[14], o marido apoia a mão esquerda no ombro da mulher; a seus pés, uma das crianças repete o mesmo gesto, apoiando a mão no ombro da irmãzinha. Sébastien Leers foi pintado por Van Dyck segurando a mão de sua mulher em uma tela de Ticiano 1920, três homens barbudos cercam uma criança, única nota clara no meio dos trajes negros, e um deles aponta-a com o dedo: a criança está no centro da composição. Contudo, muitos desses retratos não procuram animar suas personagens: os membros da família são justapostos, às vezes ligados por gestos que exprimem seu sentimento recíproco, mas não participam de uma ação comum. É o que ocorre com a família Pordenone da galeria Borghese - o pai, a mãe e sete crianças - ou ainda da família Pembroke de Van Dyck[15]: o Conde e a Condessa estão sentados, e as outras personagens, de pé; à direita um casal, certamente um filho ou filha casados, e à esquerda, dois adolescentes muito elegantes (a elegância é um símbolo da adolescência masculina, e se atenua com a seriedade da maturidade), um escolar com seu livro embaixo do braço, e dois outros meninos mais moços.

Por volta de meados do século XVI, os artistas começaram a representar a família em torno de uma mesa coberta de frutas: a família Van Berchaun de Floris, de 1561, ou a família Anselme de Martin de Vos, de 1577[16]. Ou então, vemos a família que parou de comer para fazer música: não se trata, como sabemos, de um artificio do pintor, pois as refeições muitas vezes terminavam por um concerto ou eram interrompidas por uma canção. A família que posa para o artista, com um grau maior ou menor de afetação, permaneceria na arte francesa até pelo menos o início do século XVIII, com Tournier e Largillière. Mas, sob a influência particular dos holandeses, o retrato de família muitas vezes seria tratado como uma cena de gênero: o concerto após a refeição é um dos temas que os holandeses multiplicariam. Daí em diante, a família seria retratada em um instantâneo, em uma cena viva, em um certo momento de sua vida quotidiana: os homens reunidos em torno da lareira, uma mulher tirando um caldeirão do fogo, uma menina dando de comer ao irmãozinho. Daí em diante, torna-se difícil distinguir um retrato de família de uma cena de gênero que evoca a vida em família.

Durante a primeira metade do século XVII, as velhas alegorias medievais também são atingidas por essa contaminação geral, e são tratadas como ilustrações da vida familiar, sem respeito pela tradição iconográfica. Já vimos o que aconteceu no caso dos calendários. As outras alegorias clássicas se alteraram no mesmo sentido. No século XVII, as idades da vida tornaram-se pretextos para as imagens da vida familiar. Em uma gravura de Abraham Bosse representando as quatro idades do homem, a infância é sugerida pelo que hoje chamaríamos de nursery, um bebê no berço vigiado por uma irmã atenta, uma criança de túnica mantida de pé em uma espécie de cercado com rodas (objeto muito comum entre os séculos XV e XVIII), uma menina com sua boneca, um menino com um catavento, e dois meninos maiores preparando-se para brigar, tendo um deles jogado no chão seu chapéu e sua capa. A virilidade é ilustrada pela refeição que reúne toda a família em torno da mesa, em uma cena análoga à de vários retratos, e que seria muitas vezes repetida tanto na gravura francesa como na pintura holandesa. É o mesmo espírito da gravura das idades de Le Grand Propriétaire, do meio do século XVI, e da miniatura do museu Saint-Raimond, Toulouse. A idade viril é sempre a família. Humbelot não reuniu a família em torno da mesa, mas no gabinete do pai, um rico negociante em cuja casa se amontoam fardos de mercadorias e se alinham pastas de processos. O pai faz suas contas, com a pena na mão, ajudado pelo filho que se mantém atrás; a seu lado, a mulher cuida da filha pequena; um jovem criado entra com uma cesta cheia de provisões, sem dúvida voltando da casa de campo. No fim do século XVII, uma gravura de F. Guérard retoma o mesmo tema. O pai - mais moço do que na gravura de Humbelot-Huart - mostra pela janela o porto, o cais e os navios, fonte de sua fortuna. Dentro do aposento, perto da mesa onde ele faz suas contas e onde estão pousadas sua bolsa, algumas fichas e um á- baco, sua mulher nina um bebê de cueiros e cuida de outra criança vestida com uma túnica.

Esse sentimento nada tem de surpreendente para nós, homens do século XX, mas era novo na época, e sua expressão deveria nos espantar. Humbelot ilustraria o mesmo tema, desenhando uma mulher jovem que mostra o seio a uma criança trepada em suas costas. Não devemos esquecer que no século XVII as crianças desmamavam muito tarde. Há ainda uma outra gravura de Guérard que representa a dona-de-casa com suas chaves e suas crianças, dando ordens a uma criada[17].

As outras alegorias também evoluem para as mesmas cenas de família. Em um holandês do início do século XVII, o olfato, um dos cinco sentidos, é representado pela cena que se tornaria banal da toalete da criança nua no momento em que sua mãe lhe limpa o traseiro[18].

Abraham Bosse simboliza também um dos quatro elementos, a terra, através de uma imagem da vida familiar: em um jardim, uma ama segura uma criança vestida com uma túnica; seus pais, que, da entrada da casa, a contemplam com ternura, divertem-se em lançar-lhe frutas - os frutos da terra. Até mesmo as Beatitudes dão pretexto a evocações da vida em família: em Bonnard-Sandrart[19], a Beatitude torna-se o perdão da mãe às suas crianças, perdão que ela confirma distribuindo-lhes guloseimas - é já o espírito familiar sentimental do século XIX.

De modo geral, a cena de gênero moderna nasceu da ilustração das alegorias tradicionais da Idade Média. Mas a distância entre o tema antigo e sua nova expressão é enorme. Esquecemo-nos da alegoria das estações e do inverno quando contemplamos um quadro de Stella, representando uma noite ao pé do fogo: de um lado da grande sala, os homens ceiam, enquanto do outro, em volta da lareira, as mulheres fiam ou trançam o junco e as crianças brincam ou são lavadas. Não é mais o inverno, é o verão. Não é mais a virilidade ou a terceira idade, é a reunião de família. Nasce uma iconografia original, estranha aos velhos temas desgastados que no princípio ela havia ilustrado. O sentimento da família constitui sua inspiração essencial, uma inspiração muito diferente da das antigas alegorias. Seria fácil elaborarmos um catálogo de temas repetidos ad nauseam: a mãe vigiando a criança no berço[20], a mãe amamentando a criança[21], a mulher fazendo a toalete da criança, a mãe catando piolho na cabeça da criança (operação corriqueira e que aliás não se limitava às crianças, pois Samuels Pepys se submetia a ela), o irmão ou a irmã tentando ver o bebê no berço na ponta dos pés, a criança na cozinha ou no celeiro com um criado ou uma criada, a criança fazendo compras em um armazém. Este último tema, frequente na pintura holandesa, também foi tratado pelos gravadores franceses - em meados do século por Abraham Bosse (o padeiro), e no final do século por Le Camus (o taberneiro, que vendia vinhos) - mas é o espírito dessas ima   gens que é preciso compreender. Uma tela de Le Nain representa um camponês cansado que ferrou no sono. Sua mulher faz psiu! para as crianças, mostrando-lhes o pai que descansa, e que não deve ser acordado: é já um Greuze, não pela pintura ou o estilo, é claro, mas pela inspiração sentimental. A ação é centrada na criança. Em uma tela de Peter de Hooch, as pessoas estão reunidas para almoçar. O pai bebe sentado; uma criança de cerca de dois anos está de pé em cima de uma cadeira; ela usa o chapéu redondo e acolchoado comum na sua idade, em que o andar ainda não é firme, para protegê-la em seus tombos. Uma mulher (a criada?) a segura com uma das mãos e, com a outra, estende um copo de vinho a uma outra mulher (a mãe?), que mergulha nele um biscoito. Ela vai dar o biscoito molhado ao papagaio para distrair a criança, e a distração da criança no seio da família cuja unidade ela assegura é o verdadeiro tema do pintor, o sentido de sua anedota. O sentimento da família, que emerge assim nos séculos XVI-XVII, é inseparável do sentimento da infância. O interesse pela infância não é senão uma forma, uma expressão particular desse sentimento mais geral, o sentimento da família.

A análise iconográfica leva-nos a concluir que o sentimento da família era desconhecido da Idade Média e nasceu nos séculos XV-XVI, para se exprimir com um vigor definitivo no século XVII. Somos tentados a comparar essa hipótese com as observações dos historiadores da sociedade medieval.

A ideia essencial dos historiadores do direito e da sociedade é que os laços de sangue não constituíam um único grupo, e sim dois, distintos embora concêntricos: a família ou mesnie, que pode ser comparada à nossa família conjugal moderna, e a linhagem, que estendia sua solidariedade a todos os descendentes de um mesmo ancestral. Em sua opinião, haveria, mais do que uma distinção, uma oposição entre a família e a linhagem: os progressos de uma provocariam um enfraquecimento da outra, ao menos entre a nobreza. A família ou mesnie, embora não se estendesse a toda a linhagem, compreendia, entre os membros que residiam juntos, vários elementos, e, às vezes, vários casais, que viviam em uma propriedade que eles se haviam recusado a dividir, segundo um tipo de posse chamado frereche ou fratemitas. frereche agrupava em torno dos pais os filhos que não tinham bens próprios, os sobrinhos ou os primos solteiros. Essa tendência à indivisão da família, que aliás não durava além de duas gerações, deu origem às teorias tradicionalistas do século XIX sobre a grande família patriarcal.

A família conjugal moderna seria portanto a consequência de uma evolução que, no final da Idade Média, teria enfraquecido a linhagem e as tendências à indivisão.

Na realidade, a história das relações entre a linhagem e a família é mais complicada. Ela foi acompanhada por G. Duby na região do Mâconnais, do século IX ao XIII inclusive[22].

No Estado franco, escreve G. Duby, “a família do século X, ao que tudo indica, era uma comunidade reduzida à sua expressão mais simples, a célula conjugal, cuja coesão em certos casos se prolongava por algum tempo após a morte dos pais nas frereches. Mas os laços eram muito frouxos. É que eles eram inúteis: os órgãos de paz do velho Estado franco ainda eram bastante vigorosos para permitir ao homem livre viver uma vida independente e preferir, se assim o desejasse, a companhia de seus vizinhos e amigos à de seus parentes”. A solidariedade da linhagem e a indivisão do patrimônio se desenvolveram, ao contrário, em consequência da dissolução do Estado: “Depois do ano mil, a nova distribuição dos poderes de comando obrigou os homens a se agruparem mais estreitamente” . O estreitamento dos laços de sangue que então se produziu correspondia a uma necessidade de proteção, do mesmo modo como outras formas de relações humanas e de dependências: a homenagem de vassalo, a suzerania e a comunidade aldeã. “Demasiado independentes e mal defendidos contra certos perigos, os cavaleiros procuraram refúgio na solidariedade de linhagem.

Ao mesmo tempo, nesses séculos XI e XII do Mâconnais, podemos constatar o progresso da indivisão. É dessa época que data a indivisão dos bens dos dois cônjuges, que, no século X, ainda não estavam fundidos em uma massa comum, administrada pelo marido: nesse século, o marido e a mulher geriam cada um seus bens hereditários, compravam e vendiam separadamente, sem que o cônjuge pudesse interferir.

A indivisão quase sempre também foi estendida aos filhos, que eram impedidos de obter qualquer adiantamento sobre sua herança: “Agregação prolongada na casa paterna e sob a autoridade do ancestral, dos descendentes desprovidos de pecúlio pessoal e independência econômica”. A indivisão muitas vezes subsistia após a morte dos pais: “É preciso imaginar o que era então a casa de um cavaleiro, reunindo em um mesmo domínio, em uma mesma “corte”, 10, 20 senhores, dois ou três casais com filhos, os irmãos e as irmãs solteiras e o tio cônego, que aparecia de tempos em tempos e preparava a carreira de um ou outro sobrinho”. A frereche raramente durava além da segunda geração, mas, mesmo após a divisio do patrimônio, a linhagem conservava um direito coletivo sobre o conjunto do patrimônio dividido: a laudatio parentum, a recuperação da herança da linhagem.

Essa descrição aplica-se sobretudo à família dos cavaleiros, que já poderíamos chamar de família nobre. G. Duby acredita que a família camponesa tenha vivido menos intensamente esse estreitamento dos laços de sangue porque os camponeses haviam preenchido de maneira diferente dos nobres o vazio deixado peia dissolução do Estado franco: a tutela do senhor havia substituído imediatamente a proteção dos poderes públicos, e a comunidade aldeã havia fornecido aos camponeses um quadro de organização e de defesa superior à família. A comunidade aldeã teria sido para os camponeses o que a linhagem foi para os nobres.
Durante o século XIII, a situação mais uma vez se inverteu. As novas formas de economia monetária, a extensão da fortuna mobiliária, a frequência das transações, e, ao mesmo tempo, os progressos da autoridade do Príncipe (quer fosse um Rei capetíngio ou o chefe de um grande principado) e da segurança pública provocaram um estreitamento das solidariedades de linhagem e o abandono das indivisões patrimoniais. A família conjugal tornou-se novamente independente. Contudo, a classe nobre não voltou à família de laços frouxos do século X. O pai manteve e até mesmo aumentou a autoridade que, nos séculos XI e XII, lhe havia sido conferida pela necessidade de manter a integridade do patrimônio indiviso. Sabemos, por outro lado, que, a partir do fim da Idade Média, a capacidade da mulher entrou em declínio. Foi também no século XIII, na região do Mâconnais, que o direito da primogenitura se difundiu nas famílias nobres. Ele substituiu a indivisão, que se tornou mais rara, como meio de salvaguardar o patrimônio e sua integridade. A substituição da indivisão e da comunhão de bens do casal pelo direito de primogenitura parece ser ao mesmo tempo um sinal da importância atribuída à autoridade paterna e do lugar assumido na vida quotidiana pelo grupo do pai e seus filhos.

Georges Duby conclui: “ Na realidade, a família é o primeiro refúgio em que o indivíduo ameaçado se protege durante os períodos de enfraquecimento do Estado. Mas assim que as instituições políticas lhe oferecem garantias suficientes, ele se esquiva da opressão da família e os laços de sangue se afrouxam. A história da linhagem é uma sucessão de contrações e distensões, cujo ritmo sofre as modificações da ordem política”.

A oposição entre a família e a linhagem é menos marcada em G. Duby do que em outros historiadores do direito. Trata-se menos de uma substituição progressiva da linhagem pela família - o que, de fato, pareceria ser uma visão puramente teórica - do que da dilatação ou da contração dos laços de sangue, ora estendidos a toda a linhagem ou aos membros da frereche, ora restringidos ao casal e sua prole. Tem-se a impressão de que apenas a linhagem era capaz de exaltar as forças do sentimento e da imaginação. Por esse motivo, ela deixou tantas marcas nos romances de cavalaria. A comunidade familiar reduzida, ao contrário, levava uma vida obscura que escapou à atenção dos historiadores. Mas essa obscuridade tem um sentido. No mundo dos sentimentos e dos valores a família não contava tanto como a linhagem. Poder-se-ia dizer que o sentimento da linhagem era o único sentimento de caráter familiar conhecido na Idade Média. Mas ele é muito diferente do sentimento da família, tal como o vimos na iconografia dos séculos XVI e XVII. Estende-se aos laços de sangue, sem levar em conta os valores nascidos da coabitação e da intimidade. A linhagem nunca se reúne num espaço comum, em torno de um mesmo pátio. Não tem nada de comparável à Zadrouga serva. Os historiadores do direito reconhecem que não há vestígios de grandes comunidades “silenciosas” na França antes do século XV. Ao contrário, o sentimento da família está ligado à casa, ao governo da casa e à vida na casa. Seu encanto não foi conhecido durante a Idade Média porque esse período possuía uma concepção particular da família: a linhagem.

A partir do século XIV, porém, assistimos ao desenvolvimento da família moderna. Esse processo, bastante conhecido, foi claramente resumido por M. Pelot: “A partir do século XIV, assistimos a uma degradação progressiva e lenta da situação da mulher no lar. Ela perde o direito de substituir o marido ausente ou louco... Finalmente, no século XVI, a mulher casada torna-se uma incapaz, e todos os atos que faz sem ser autorizada pelo marido ou pela justiça tornam-se radicalmente nulos. Essa evolução reforça os poderes do marido, que acaba por estabelecer uma espécie de monarquia doméstica”. “A partir do século XVI, a legislação real se empenhou em reforçar o poder paterno no que concerne ao casamento dos filhos.”

“Enquanto se enfraqueciam os laços da linhagem, a autoridade do marido dentro de casa tornava-se maior e a mulher e os filhos se submetiam a ela mais estritamente. Esse movimento duplo, na medida em que foi o produto inconsciente e espontâneo do costume, manifesta sem dúvida uma mudança nos hábitos e nas condições sociais...” Passara-se portanto a atribuir à família o valor que outrora se atribuía à linhagem. Ela torna-se a célula social, a base dos Estados, o fundamento do poder monárquico. Veremos agora a importância que lhe era atribuída pela religião.

A exaltação medieval da linhagem, de sua honra, da solidariedade entre seus membros, era um sentimento especificamente leigo, que a Igreja ignorava, quando não via com desconfiança. O naturalismo ancestral dos laços de sangue pode muito bem ter-lhe parecido repugnante. Na França, onde a Igreja aceitou a hereditariedade dos reis, é significativo que ela não a tenha mencionado na liturgia da coroação.

Além disso, a Idade Média não conhecia o princípio moderno de santificação da vida leiga, ou melhor, só o admitia em casos excepcionais: o santo rei (mas o rei fora consagrado), ou o bom cavaleiro (mas o cavaleiro havia sido iniciado após uma cerimônia que se tornara religiosa). O sacramento do casamento poderia ter tido a função de enobrecer a união conjugal, de lhe dar um valor espiritual, bem como à família. Mas, na realidade, ele apenas legitimava a união. Durante muito tempo, o casamento foi apenas um contrato. A cerimônia, a julgar por suas representações esculpidas, não se realizava no interior da igreja, e sim na entrada, diante do pórtico. Qualquer que fosse o ponto de vista teológico, a maioria dos padres, considerando suas ovelhas, devia partilhar a opinião do cura de Chaucer, para quem o casamento era uma questão de último caso, uma concessão à fraqueza da carne ”, Ele não livrava a sexualidade de sua impureza essencial. Sem dúvida, essa reprovação não chegava à condenação da família e do casamento, à maneira dos cátaros do Sul da França; manifestava, porém, uma desconfiança com relação a todo fruto da carne. Não era na vida leiga que o homem podia se santificar; a união sexual, quando abençoada pelo casamento, deixava de ser um pecado, mas isso era tudo. Por outro lado, o outro grande pecado dos leigos, o pecado da usura, perseguia o homem em suas atividades temporais. O leigo não dispunha de outro meio para assegurar sua salvação além de abandonar completamente o mundo e entrar para a vida religiosa. Na sombra do claustro, ele podia reparar os erros de seu passado profano.  Foi preciso esperar o fim do século XVI, o tempo da Philotée de São Francisco de Sales, ou, no século XVII, o exemplo dos senhores de Port-Royal - e, de modo mais geral, de todos esses leigos empenhados em importantes atividades religiosas, teológicas, espirituais e místicas - para que se admitisse a possibilidade de uma santificação fora da vocação religiosa, na prática dos deveres civis.

Para que uma instituição natural tão ligada à carne como a família se tornasse objeto de uma devoção, essa reabilitação da condição leiga era necessária. Os progressos do sentimento da família e os da promoção religiosa do leigo seguiram caminhos paralelos. Pois o sentimento moderno da família - ao contrário do sentimento medieval da linhagem - penetrou na devoção comum. O sinal mais antigo dessa devoção, ainda muito discreto, aparece no hábito iniciado pelos doadores de quadros ou vitrais de igreja de agrupar em seu redor toda a família, e, mais ainda, no costume posterior de associar a família ao culto do santo padroeiro. No século XVI, era frequente oferecer como ex-votos retratos dos santos padroeiros do marido e da mulher, cercados pelos próprios cônjuges e suas crianças. O culto dos santos padroeiros tornou-se um culto de família.

A influência do sentimento da família também pode ser reconhecida, especialmente no século XVII, na nova maneira de pintar um casamento ou um batismo. No final da Idade Média, os miniaturistas costumavam representar a própria cerimônia religiosa, tal como ela se desenrolava na entrada da igreja: lembremos, por exemplo, o casamento do Rei Cosius e da Rainha Sabinède na vida de Santa Catarina, em que o padre enrola a estola em torno das mãos dos dois noivos: ou o casamento de Filipe de Macedônia pintado pelo mesmo Guillaume Vrelant, na história do bom Rei Alexandre, em que, atrás do padre, no tímpano da porta da igreja, se percebe uma cena esculpida que mostra um marido batendo na mulher. Nos séculos XVI e XVII, não se representava mais a cerimônia do casamento - a não ser no caso de reis e príncipes. Ao contrário, preferia- se evocar os aspectos familiares da festa, quando os parentes, os amigos e os vizinhos se reuniam em torno dos noivos. Em Gérard David já vemos o banquete de núpcias (“As Bodas de Caná" do Louvre). Em outros pintores, vemos o cortejo que acompanha os noivos: em Stella[23], a noiva de braço dado com o pai, seguida por um grupo de crianças, chega à igreja diante da qual a espera o noivo. Em Molinier[24], a cerimônia já acabou e o cortejo deixa a igreja - à esquerda, o noivo entre seus pajens, e à direita, a noiva coroada (mas ainda não vestida de branco: a cor do amor era ainda o vermelho, como nos ornamentos sacerdotais) entre suas damas de honra - ao som de gaitas de fole, enquanto uma menina atira moedas na frente da noiva. Certas coleções de gravuras de “trajes habituais” ou “trajes diversos” do fim do século XVI ou início do século XVII muitas vezes mostram o noivo ou a noiva com seus pajens e damas de honra: nessa época, o traje de casamento torna-se mais específico (sem ser ainda o uniforme branco usado do século XIX até nossos dias), ao menos por certos detalhes. E há uma tendência em apresentar esses detalhes como características dos costumes de uma determinada região.

Finalmente, todas as pequenas cenas maliciosas do folclore entraram na iconografia: por exemplo, o deitar dos noivos ou o levantar da mãe que deu à luz.

Da mesma forma, á cerimônia do batismo, os artistas passaram a preferir as reuniões tradicionais em casa: os convidados bebendo ao voltar da igreja enquanto um menino toca flauta, ou a visita das vizinhas à mãe que acaba de dar à luz. Ou então, vemos costumes folclóricos mais difíceis de identificar, como uma cena de Molenaer em que uma mulher carrega uma criança no meio de brincadeiras grosseiras, enquanto as damas da assistência cobrem a cabeça com o vestido.

Não devemos interpretar esse gosto pelas festas mundanas ou folclóricas, das quais a malícia não estava ausente, assim como tampouco estava ausente da linguagem das pessoas de bem, como um sinal de indiferença religiosa: simplesmente, enfatizava-se o caráter familiar e social da ocasião, mais do que seu caráter sacramental. Nos países do Norte, onde os temas da família eram extremamente difundidos, uma pintura muito significativa de J. Steen[25] mostra-nos a nova interpretação familiar do folclore ou da devoção tradicional. Já tivemos a ocasião de frisar a importância nos costumes do Ancien Regime das grandes festas coletivas, e insistimos na participação das crianças, que se misturavam aos adultos: toda uma sociedade inteiramente diversa se reunia nessas ocasiões, feliz por estar junta. Mas a festa descrita por Steen não é mais exatamente uma dessas festas da juventude, em que as crianças se comportavam um tanto como os escravos no dia das saturnais, em que desempenhavam um papel fixado pela tradição ao lado dos adultos. Aqui, ao contrário, os adultos organizaram a festa para distrair as crianças: é a festa de São Nicolau, o ancestral de nosso Papai Noel. Steen reproduz a cena no momento em que os pais ajudam as crianças a achar os brinquedos que eles haviam escondido para elas nos cantos da casa. Algumas crianças já encontraram os seus. Algumas meninas seguram bonecas. Outras seguram baldes cheios de brinquedos, e há sapatos espalhados pelo chão: os brinquedos já seriam escondidos nos sapatos, esses sapatos que as crianças dos séculos XIX e XX colocariam diante da lareira na véspera de Natal? Não se trata mais de uma grande festa coletiva, e sim de uma festa de família em sua intimidade; e, consequentemente, essa concentração da família é prolongada por uma contração da família em torno das crianças. As festas da família tornam-se as festas da infância. Hoje, o Natal tornou-se a maior, e poderíamos dizer, a única festa do ano, comum tanto aos ateus como aos religiosos. O Natal não tinha essa importância nas sociedades do Ancien Régime, pois enfrentava a concorrência da festa de Reis, que era muito próxima. Mas o extraordinário sucesso do Natal nas sociedades industriais contemporâneas, às quais repugnam cada vez mais as grandes festas coletivas, deve-se a seu caráter familiar, obtido graças à sua associação com a festa de São Nicolau: a pintura de Steen mostra-nos que, na Holanda do século XVII, já se festejava São Nicolau como o “Papai Noel” - ou o “menino Jesus” - na França de hoje, com o mesmo sentimento moderno da infância e da família, da infância dentro da família.

Um novo tema ilustra de maneira ainda mais significativa o componente religioso do sentimento da família: o tema do benedicite. Há muito tempo já a “cortesia" exigia que, na falta de um padre, um menino pequeno abençoasse a mesa no início das refeições. Certos textos manuscritos do século XV, publicados por F. J. Furnival em uma coletânea intitulada The Babees Book, enumeram as regras estritas da conduta à mesa: “As conveniências da mesa”, ou “a maneira de se portar à mesa”[26]. “Criança, diz o benedicite... quando estiveres em um lugar onde haja um prelado da igreja, deixa-o dizer, se ele assim o desejar, o benedicite e as graças. Criança, se o prelado ou o senhor te mandarem com sua autoridade dizer o benedicite, fá-lo com ardor, pois assim deve ser feito.” Sabemos que então a palavra enfant (criança) designava tanto as crianças pequenas como os meninos maiores. Os manuais de civilidade do século XVI, ao contrário, reservam a tarefa de dizer o benedicite não a qualquer uma das crianças, mas à mais nova: o manual pueril e honesto de Mathurin Cordier estabelece essa regra, que é conservada nas edições modificadas posteriores; assim, uma edição de 1761[27] ainda precisa que o dever de abençoar a mesa “ pertence aos eclesiásticos, quando os há, ou, na sua falta, ao mais jovem membro do grupo” . Segundo a Civilité nouvelle de 1671, “após servir à mesa, é uma mostra de civilidade perfeita e verdadeira fazer uma reverência ao grupo e a seguir dizer as graças”. Ou, segundo as Regies de la bienséance et de la civilité chrétienne de Jean-Baptiste de La Salle[28]: “Quando há uma criança, é comum se lhe atribuir essa função” de (abençoar a mesa). Em seus Dialogues Vivès descreve uma grande refeição: “O dono da casa, de acordo com seu direito, indicou os lugares. A prece foi dita por uma criança pequena, de forma breve, curiosa, e rimada.

Portanto, não é mais a um menino do grupo, e sim à menor criança da casa que cabe a honra de dizer o benedicite. Reconhecemos aí um sinal da promoção da infância no sentimento no século XVI, mas o mais importante é o fato de a criança ter sido associada à principal prece da família, durante muito tempo a única prece dita em comum pela família reunida. Nesse ponto, os textos dos tratados de civilidade são menos reveladores do que a iconografia. A partir do fim do século XVI, a cena do benedicite torna-se um dos temas mais frequentes da nova iconografia, que tentamos distinguir. Examinemos por exemplo uma gravura de Merian[29]. Trata-se de um retrato de família à mesa, fiel a uma convenção já antiga: o pai e a mãe estão sentados em cadeiras com seus cinco filhos em volta. Uma criada traz um prato, e a porta da cozinha está aberta. Mas o gravador fixou o momento em que um menininho de túnica, apoiado nos joelhos da mãe, com as mãos postas, recita o benedicite: o resto da família ouve a prece, com a cabeça descoberta e as mãos postas.

Uma outra gravura de Abraham Bosse[30] representa a mesma cena em uma família protestante. Antoine Le Nain reúne uma mulher e seus três filhos na hora da refeição: um dos meninos está de pé e diz as graças. Lebrun tratou esse tema segundo a maneira antiga, como uma Sagrada Família. A mesa está posta; o pai barbudo, com o bastão do viajante na mão, está de pé. A mãe, sentada, olha com ternura para a criança que, de mãos postas, recita a prece. Essa com posição foi amplamente difundida pela gravura como uma imagem devota.

É normal encontrarmos esse tema na pintura holandesa do século XVII. Em uma pintura de Steen, o pai é o único sentado: velho hábito rural, abandonado há muito pela burguesia francesa. A mãe serve o pai e as duas crianças que estão de pé: o menor, de dois ou três anos, está de mãos postas e diz a prece. Em um quadro semelhante de Heemskerck, dois velhos sentados e um homem mais jovem de pé estão em torno de uma mesa, ao lado de uma mulher sentada com as mãos postas: perto dela, uma menina repete a prece, lendo-a nos lábios da mãe. O mesmo tema é encontrado ainda no século XVIII no célebre “Bénédicité” de Chardin.

A insistência da iconografia dá a esse tema um valor singular. A recitação do benedicite pela criança não é mais uma marca de civilidade. Os artistas se dedicaram a representá-la porque em geral se atribuía a essa prece, outrora banal, uma significação nova. O tema iconográfico evocava e associava em uma síntese três forças afetivas: a religiosidade, o sentimento da infância (a criança menor) e o sentimento da família (a reunião em torno da mesa). O benedicite tornou-se o modelo da prece dita em família. Antes, não havia cultos religiosos privados. Os livros de civilidade mencionam a prece da manhã (nos colégios, os internos a diziam em comum após a toalete). Eles já falam menos sobre a prece da noite. Insistem, e isso é significativo, nos deveres das crianças para com seus pais (as regras de cortesia mais antigas, do século XV, não falavam nos deveres dos filhos para com seus pais, e sim para com seus mestres): “As crianças, diz J.-B. de La Salle, não devem ir dormir antes de cumprimentar seu pai e sua mãe”. O manual de Courtin de 1671 termina o dia da criança da seguinte maneira: “ Ela deverá recitar suas lições, dizer boa-noite a seus pais e mestres, fazer suas necessidades, e deitar-se na cama para dormir”.
No entanto, foi nessa época que surgiu, ao lado das orações particulares, uma oração pública da família. O benedicite é um dos atos desse culto, e sua frequência iconográfica prova que ele correspondia a uma forma viva de devoção. Esse culto familiar se desenvolveu muito nos meios protestantes: na França, sobretudo após a revogação do edito de Nantes, ele substituiu o culto público a tal ponto que, após a volta à liberdade, os pastores do fim do século XVIII tiveram dificuldade em trazer de volta ao culto público os fiéis habituados a se contentar com suas orações em família. A célebre caricatura de Hogarth mostra que no século XVIII a oração da noite em comum, que reunia em torno do pai de família os parentes e criados, tornara- se corriqueira e convencional. É provável que as famílias católicas tenham sofrido uma evolução quase paralela, e que também tenham sentido a necessidade de uma devoção nem pública nem individual: de uma devoção familiar.

Descrevemos acima o “Bénédicité” de Lebrun, popularizado pela gravura de Sarrabat: percebemos imediatamente que esse benedicite era também uma Sagrada Família, uma representação da oração e da refeição da Virgem, de São José e do menino Jesus. A cena de Lebrun pertence ao mesmo tempo a duas séries de representações, igualmente frequentes na época, pois ambas exaltavam o mesmo sentimento. Temos de reconhecer, como M. V. L. Tapie, que, “sem dúvida, era o próprio princípio da família que era associado a essa homenagem rendida à família de Cristo[31]”. Todas as famílias eram convidadas a considerar a Sagrada Família como seu modelo. A iconografia tradicional modificou-se, portanto, sob a mesma influência que aumentou a autoridade paterna: São José não desempenhava mais o papel apagado que ainda lhe era atribuído no século XV e início do século XVI. Ele aparece no primeiro plano, como o chefe da família, em um outro retrato da Sagrada Família à mesa pintado por Callot e igualmente popularizado pela gravura. “A Virgem, São José e o menino, comenta E. Mâle, tomam a refeição da noite: um candeeiro colocado sobre a mesa cria um contraste entre a luz viva e a sombra profunda, e dá à cena um aspecto misterioso; São José dá de beber à criancinha, enternecedora de tão bem comportada, com um guardanapo em torno do pescoço” Ou há ainda o tema que E. Mâle chama de “A Sagrada Família em marcha”, em que o menino é colocado entre Maria e José. Imagino que os teólogos da época possam ter visto aí a imagem da Trindade, mas o sentimento comum se comovia com esse tema como se fosse uma exaltação da família.

A autoridade de São José pode ser notada em várias cenas: em uma tela de um pintor napolitano do século XVII, São José carrega o menino Jesus no colo e passa assim para o centro da composição. Esse tema é frequente em Murilo e Guido Reni. Algumas vezes, José aparece reinando em seu ateliê de marceneiro, ajudado pelo menino Jesus.

Chefe de família na mesa, na hora da refeição, e no ateliê, nas horas de trabalho. São José é ainda chefe de família em um outro momento dramático da vida familiar, muitas vezes representado pelos artistas: o momento em que a morte o vem buscar. Tornando-se o padroeiro da boa morte, São José conserva seu sentido: a imagem de sua morte lembra a imagem da morte do pai, tantas vezes representa da nas ilustrações da boa morte - ela pertence à mesma iconografia da nova família.

As outras sagradas famílias inspiram o mesmo sentimento. No século XVI em particular tornou-se comum representar santos contemporâneos de Cristo em criança, reunidos e brincando juntos. Uma tapeçaria alemã representa de uma forma encantadoramente pitoresca as três Marias cercadas de seus filhos, que se agitam, se banham e brincam. Esse grupo é encontrado com frequência, particularmente em uma bela talha do início do século XVII em Notre-Dame la Grande, em Poitiers.

O tema parece evidentemente ligado ao sentimento da infância e da família. Essa ligação é sublinhada com insistência na decoração barroca da capela da Virgem, na igreja franciscana de Lucerne. Essa decoração data de 1723. A abóbada é ornamentada com anjinhos decentemente vestidos, cada um trazendo um dos símbolos da Virgem, enumerados em suas litanias (estrela-do-mar etc.). Nas paredes laterais, os pais e filhos santos se dão as mãos, em tamanho natural: São João Evangelista e Maria Salomé, São Tiago Maior e Zebedeu...

Os temas do Antigo Testamento também são utilizados para ilustrar essa devoção. O pintor veneziano Carlo Loth trata a bênção de José por Jacó como a cena frequente nas Idades da vida do velho cercado por seus filhos esperando a morte. Mas foi sobretudo a família de Adão que foi tratada como uma Sagrada Família. Em uma tela de Veronese, Adão e Eva aparecem no pátio de sua casa no meio de seus animais e de seus filhos, Caim e Abel. Um deles mama na mãe, enquanto o outro, menor, brinca no chão. Adão, escondido atrás de uma árvore a fim de não perturbar esses folguedos, observa a cena. Ele é visto de costas. Sem dúvida, poderíamos com razão encontrar uma intenção teológica nessa família do “primeiro Adão”, que anunciava a vinda de Cristo, o “segundo Adão”. Mas essa intenção erudita esconde-se atrás de uma cena que evoca as alegrias então consagradas da família.

O mesmo tema é encontrado em um teto mais recente do convento de San Martino, em Nápoles, que provavelmente data do início do século XVIII. Adão cava a terra - como José trabalha com a madeira -, Eva fia - como a Virgem costura - e seus dois filhos estão a seu lado.

Portanto, a iconografia nos permite acompanhar a ascensão de um sentimento novo: o sentimento da família. Espero ter sido bem compreendido. O sentimento era novo, mas não a família, embora esta sem dúvida não desempenhasse em suas origens o papel primordial que lhe atribuíram Fustel de Coulanges e seus contemporâneos. M. Jeanmaire descobriu na Grécia sobrevivências ainda fortes de estruturas não familiares, como as classes de idade. Os etnólogos mostraram a importância das classes de idade entre os africanos, e das comunidades clânicas entre os indígenas americanos. Não teríamos, sem o perceber, nos deixado impressionar pela função que a família desempenha em nossas sociedades há alguns séculos, e não nos sentiríamos tentados a exagerá-la indevidamente e até mesmo a atribuir-lhe uma espécie de autoridade histórica quase absoluta? No entanto, não há a menor dúvida de que a família foi constantemente mantida e reforçada por influências ao mesmo tempo semíticas (e não apenas bíblicas, creio eu) e romanas.

Por outro lado, é possível que ela se tenha enfraquecido na época das invasões germânicas. Pouco importa: seria vão contestar a existência de uma vida familiar na Idade Média. Mas a família subsistia no silêncio, não despertava um sentimento suficientemente forte para inspirar poetas ou artistas. Devemos atribuir a esse longo silêncio uma significação importante: não se conferia um valor suficiente à família. Da mesma forma, devemos reconhecer a importância do florescimento iconográfico que a partir do século XV, e sobretudo XVI, sucedeu a esse longo período de obscuridade: o nascimento e o desenvolvimento do sentimento da família. Daí em diante, a família não é apenas vivida discretamente, mas é reconhecida como um valor e exaltada por todas as forças da emoção.

Ora, esse sentimento tão forte se formou em torno da família conjugal, a família formada pelos pais e seus filhos. É raro uma tela reunir mais de duas gerações. Quando netos ou filhos casados aparecem, é sempre discretamente, como uma coisa sem importância. Nada aí lembra a antiga linhagem, nada acentua a ampliação da família ou a grande família patriarcal, essa invenção dos tradicionalistas do século XIX. Essa família, ou a própria família, ou ao menos a ideia que se fazia da família ao representá-la e exaltá-la, parece igual à nossa. O sentimento é o mesmo.

Esse sentimento está muito ligado também ao sentimento da infância. Ele afasta-se cada vez mais das preocupações com a honra da linhagem ou com a integridade do patrimônio, ou com a antiguidade ou permanência do nome: brota apenas da reunião incomparável dos pais e dos filhos. Uma de suas expressões mais comuns seria o hábito criado de se insistir nas semelhanças físicas entre os pais e seus filhos. No século XVII, pensava-se que São José se parecia com seu filho adotivo, salientando-se assim a força do laço familiar. Erasmo já possuía a ideia extremamente moderna de que as crianças uniam a família e de que sua semelhança física produzia essa união profunda; não nos espantaremos, pois, com o fato de seu tratado sobre o casa mento ter sido reimpresso ainda no século XVIII. Vejamos um trecho dessa obra, numa tradução francesa de 1714, que adorna de maneira picante e um tanto anacrônica a prosa do Renascimento: “Só nos pode causar admiração o cuidado surpreendente da natureza nesse ponto: ela pinta duas pessoas num mesmo rosto e num mesmo corpo; o marido reconhece o retrato de sua mulher em seus filhos, e a mulher, o do marido. Às vezes, descobre-se uma semelhança com o avô e com a avó, com um tio-avô ou com uma tia-avó” . O que conta acima de tudo é a emoção despertada pela criança, a imagem viva de seus pais.

 

França | Família
. . .
+
Tópicos
BATALHAS
Guerras Assírias
Civilização Assíria
Babilônia
Século VII a.e.c.
689
-
Guerras Egípcias
Civilização Egípcia
Civilização Hitita
Século XIII a.e.c.
1285
-
. . .
+
Guerras
PERSONALIDADES
. . .
+
Por letra inicial
A
B
C
D
E
F
G
H
I
J
K
L
M
N
O
P
Q
R
S
T
U
V
X
Y
W
Z
Por ocupação
CIDADES
. . .
+
Região
Fundação
MAPAS / INFOGRÁFICOS
Médio império egípcio (2064-1986 a.e.c.)
Civilização Egípcia
Diáspora grega
Civilização Grega
. . .
+
Temas

O nascimento do sentimento de família na Europa medieval

História - França

Origem dos Celtas

História - Civilização Celta

A Mitologia Norte-Americana

Mitologia - Mitologia Norte-Americana

O nascimento da Psicologia

Psicologia - História da Psicologia

Mitos africanos de animais e de trapaças

Mitologia - Mitologia Africana

Redes sociais

Considero essencial à honestidade que se procurem os melhores argu­mentos contrários à posição que se está sustentando...

Kenneth Joseph Arrow
Todas as citações
{+} Kenneth Joseph Arrow
+
+
NOTÍCIAS
Uol Notícias
10 Jan , 2020, 11:23h
Por que alguns gregos voltaram a cultuar os deuses da mitologia
Uol Notícias
17 Dec , 2019, 17:41h
Navio romano naufragado é encontrado com 6 mil peças de vasos
BBC Brasil
5 Dec , 2019, 13:01h
Um dos lugares habitados mais antigos do mundo ficará submerso
Sputnik
, h
Voltar às raízes: gregos recomeçam a rezar aos deuses antigos
Globo.com
29 Oct , 2019, 08:29h
Local onde Júlio César foi assassinado em Roma será aberto ao público
Todas as notícias
Todas História
+
MATÉRIAS
7/30/2018 1:48:23 PM | National Geographic, n. 105
Herodes, o visionário arquiteto da Terra Santa

Quase 13 quilometros ao sul de Jerusalém, onde as últimas oliveiras mirradas começam a se confundir com as extensões áridas do deserto da Judéia, ergue-se um morro, um cone íngreme de topo plano, parecido com um pequeno toilcão. Ali fica o Herodium, um dos grandiosos empreendimentos arquitetônicos de Herodes, o Grande, rei da Judéia.

História - Civilização Hebráica
6/21/2018 9:20:04 PM | História Viva, n. 1
Estados Unidos, o nascimento de uma nação

O que opõe o Norte industrial ao Sul agrícola é uma divergência mais de ordem econômica: o primeiro é protecionista, o segundo quer a liberdade de comércio. Não é, portanto, a questão do escravismo que pode explicar a origem das hostilidades e de um conflito que causará a morte de mais de 600 mil estadunidenses

História - Estados Unidos
Todas as matérias
Todas História
Azulejos portugueses

Os azulejos decorativos encontram pela primeira vez o caminho para o interior da península Ibérica como uma das muitas contribuições da cultura islâmica: a pa­lavra tanto espanhola como portuguesa que os desig­na, azulejo, não é derivada, como poderia se imaginar, de sua cor predominantemente azul, mas do termo árabe az-zulayj, que significa “pequena pedra”. Foi em Portugal onde adquiriram toda a sua glória na arquite­tura e na decoração. Durante quase um século após a expulsão dos muçulmanos continuaram importando azulejos, mas em 1550 foram estabelecidas fábricas em Lisboa que utilizaram artistas flamencos. Em meados do século XVII, a indústria era auto-suficiente e os próxi­mos 200 anos marcaram o auge de sua popularidade. Desenhos pictóricos complexos e a inclusão de letras complementaram os desenhos tradicionais. Nas mãos de artistas e artesãos hábeis, o azulejo se transformou em uma forma de arte importante, cuja tradição conti­nua até hoje.

VINCENT, Mary. STRANDLING , R. A. Dinamismo e pragmatismo, 1670-1812. in:__________. Espanha e Portugal. Grandes civilizações do passado. Barcelona/ES: Folio, 2008. Cap. 5. p.118
+
TEXTOS
1/17/2020 5:53:24 PM | Por Carlos Augusto de Proença Rosa
Livre
Os primórdios da ciência nas sociedades primitivas

O surgimento do Homo Sapiens Sapiens (há cerca de 40 mil), de características físicas e mentais atuais, significou e determinou uma radical, profunda e rápida modificação no desenvolvimento do processo evolutivo, até então lento, porquanto fruto de mera acumulação e somatório de experiência. O Homem atual, que recebeu de seus ancestrais técnicas simples e incipientes, desenvolvidas ao longo de centenas de milhares de anos, no Paleolítico Superior, teria, agora, as condições necessárias para inovar em diversas atividades, ampliando o âmbito de sua atuação e realizando, em poucos milhares de anos, verdadeira revolução em seu modo de vida. Tão extraordinário avanço técnico só foi possível em decorrência de uma nova capacidade mental que permitiu o desenvolvimento da imaginação, da curiosidade e da observação. A resultante é uma Sociedade mais complexa e sofisticada, totalmente distinta da anterior.

Esse relativamente curto Período Pré-Histórico, denominado pelos historiadores de acordo com os materiais descobertos ou utilizados pela primeira vez, é dividido, em geral, em Neolítico ou Idade da Pedra Polida e em Eneolítico ou Idade dos Metais, ou, ainda, Proto-História.

Período Neolítico

O termo Neolítico – Período da Pedra Polida – foi criado em 1865 pelo naturalista inglês Sir John Lubbock (1834-1913), em sua obra Prehistoric Times, em oposição ao Paleolítico, Período da Pedra Lascada. Ainda que essa classificação continue em uso, a noção de Neolítico mudou bastante. Hoje em dia, se considera que outros aspectos da cultura dessa fase Pré-Histórica seriam mais representativos dos desenvolvimentos ocorridos em muitas populações, como a invenção da agricultura, o início dos agrupamentos urbanos e a vida sedentária, enquanto outros povos se dedicariam ao pastoreio, à caça e à coleta, permanecendo nômades. Tais denominações são, assim, insuficientes para traduzir a real complexidade de uma nova Sociedade, cujas características transcendem a mera utilização da pedra. Dessa forma, alguns autores denominam o Período como o da Grande Revolução Agrícola; outros enfatizam o aspecto da formação de uma nova organização social; outros, ainda, priorizam o estágio fetichista da sociedade primitiva.

O desenvolvimento dessas primeiras comunidades seguiu um ritmo distinto nas diversas regiões da Terra. Iniciado em momentos diferentes e com duração variável, esse processo evolutivo foi, em muitas áreas, concomitante, o que dificulta, bastante, a fixação de datas de aplicação generalizada. As datas têm, assim, um caráter indicativo e aproximativo, inclusive porque, na ausência da escrita (inventada no quarto milênio), não são disponíveis evidências comprobatórias definitivas de datação dos fatos e acontecimentos pré-históricos. As regiões para as quais se dispõe de razoável número de dados e informações são a Mesopotâmia, a Europa e os vales do Nilo, do Indo e do Amarelo.

Considera-se que o Neolítico teve início na região mesopotâmica, há uns 12 mil anos; no Sul da Europa (Grécia, Bálcãs) e Anatólia, há 9 mil anos; no Vale do Indo, há 7 mil anos; e na China, há uns 6 mil anos; independentemente desse desenvolvimento na Eurásia, o Período Neolítico teria começado na América Central e México por volta de 8 mil anos atrás, com o início da chamada Revolução Agrícola.

O processo evolutivo não ocorreu, assim, por igual e simultaneamente, nas diversas regiões da Terra. Com defasagem e sujeitas a condições locais, as diversas comunidades tiveram, contudo, uma base comum ou uma cultura neolítica comum, muitas das vezes facilitada pelos contatos de comércio com vizinhos e até com populações de outras regiões; mesmo no caso de sociedades isoladas, como é o caso da América Central, a evolução seguiu o caminho percorrido por outras na Eurásia, como atestam a agricultura, a cerâmica, os metais. O desenvolvimento técnico foi, basicamente, equivalente, nesse Período Pré-Histórico, nas diversas partes do Mundo. A explicação se encontra no fato de que a invenção, impulsionadora da Técnica, é produto do meio, de sua época, e não de um indivíduo. Tais foram os casos, por exemplo, da linguagem, da agricultura, da cerâmica e da domesticação dos animais.

Na realidade, a primeira grande inovação nasceu da necessidade de subsistência de uma população cada vez maior (crescimento de comunidades), cujos produtos de caça, pesca e coleta já eram insuficientes para satisfazê-la. As crescentes dificuldades para o deslocamento de grupos cada vez maiores, errando pelas terras circunvizinhas atrás de um alimento aleatório, contribuíram decisivamente para a busca de suprimento garantido, abundante e menos penoso de alimentos. As plantas locais, complemento das necessidades alimentares em momentos de escassez de caça e frutos, viriam a se constituir na principal fonte de alimentos. Depois de inúmeras tentativas, erros e acertos, e, para alguns autores, após uma boa dose de sorte, aquelas populações adquiriram a técnica do cultivo do arroz e do sorgo (China e Sudeste da Ásia), do trigo, da cevada, do centeio, da aveia e de leguminosas (Mesopotâmia, Anatólia, Sul da Europa), do milho, do feijão e da batata (América Central, Região Andina). A fartura resultante da incipiente agricultura incentivou o aumento demográfico, o qual requereu novas técnicas a fim de aumentar a produção e a produtividade. A expansão da fronteira agrícola para novas terras férteis propiciou a invenção do arado (Europa – 6 mil anos atrás), enquanto a irrigação e a barragem foram utilizadas nas terras abundantes de água (Mesopotâmia, vales do Nilo, do Indo e do Amarelo). A agricultura fixou o Homem à terra, transformando-o em um ser sedentário, que passaria a viver em pequenas granjas ou vilas agrícolas. A transição decorrente da implantação da agricultura teria amplas e profundas consequências, transformando uma Sociedade predadora, nômade e formada de agrupamentos familiares em uma produtora, sedentária e de dimensão multifamiliar. A resultante mais significativa para essa nova e emergente Sociedade foi o nascimento de um novo modo de vida totalmente diferente do de seus antepassados.

A Cultura Pré-Histórica foi oral, o que significa não haver registro escrito desse período. O conhecimento atual desse período é, assim, necessariamente superficial e tentativo. As descobertas de utensílios, adornos, restos mortais, vestimentas, rodas e ruínas de construções são algumas das evidências do tipo de cultura de tradição oral dessas populações. A Antropologia, ao estudar as comunidades ágrafas contemporâneas, e as informações dos primeiros documentos escritos têm contribuído, também, para uma compreensão da cultura dos povos do Período Neolítico.

Dependentes exclusivamente da memória para a transmissão de conhecimento, não foi permitido a tais povos alcançar saber teórico, mas lhes foi possível obter e desenvolver a técnica de como fazer as coisas.

Os grandes avanços técnicos, movidos pelas crescentes necessidades, em um meio hostil, e pela capacidade inventiva e imaginativa, podem ser assim resumidos:

  1. utilização de novos materiais – pedra polida e argila, da qual criaram a cerâmica, com a fabricação de um grande número de utensílios (copos, vasilhames, jarras, potes), inclusive para a estocagem de alimentos, e o tijolo, que seria usado na construção de habitações;
  2. alimentação mais rica e variada, com a introdução de novos produtos, como o leite, cereais, leguminosas;
  3. vestimentas e agasalhos mais confortáveis de tecidos (linho, lã), o que significou, ao menos, uma incipiente e tosca tecelagem;
  4. desenvolvimento do curtume – peles, couro;
  5. domesticação de animais para alimento e tração (cão, cavalo, boi, porco, carneiro, cabra, rena, camelo, galinha). A pecuária (criação de animais) e a atividade de pastoreio foram decorrentes diretos dessa importante inovação;
  6. utilização da energia eólica (barco a vela) e da tração animal para moagem e semeadura, para as quais desenvolveram a atrelagem e a junta de bois;
  7. invenção da roda, roldana, rolos, aumentando a capacidade de força muscular humana e animal;
  8. fabricação de cestos e balaios de uso doméstico;
  9. identificação de plantas venenosas e de plantas medicinais;
  10. construção de moradias (palafitas) mais apropriadas para uma vida sedentária, o que corresponderia aos primeiros tempos da Arquitetura. As manifestações artísticas, inclusive a Arte decorativa se expandiram, como atesta o grande número de esculturas e adornos encontrados em vários locais arqueológicos.

Esses extraordinários avanços não se limitaram ao campo técnico (tecelagem, cerâmica) ou ao campo das Artes (Escultura, Pintura, Arquitetura), vinculados à satisfação das necessidades materiais e culturais de uma nova Sociedade mais complexa e sofisticada. Transformações profundas na organização social, decorrentes das novas exigências comunitárias, foram os pontos altos desse processo evolutivo.

As novas e variadas atividades na agricultura, no pastoreio, no artesanato de cerâmica, na construção de moradias, no comércio com outras comunidades, na defesa da vida e dos interesses comunitários, ao promover uma incipiente especialização, estabeleceram uma divisão de trabalho da qual surgiu a classe dos proprietários, a dos empregados, a dos escravos, a dos operários ou artesãos e a dos mercadores[1]. A necessidade de um chefe, a fim de poder agir em conjunto, tanto para a defesa da comunidade, diante de um inimigo, quanto para dirigir os esforços na obtenção de sua subsistência, introduziu na Sociedade a ideia de uma autoridade política. Consolidar-se-ia, com o tempo, a figura do chefe e de seus auxiliares mais próximos, e surgiria, como representante do poder espiritual, a casta sacerdotal, aliada e suporte dos detentores do poder político.

Essa divisão de trabalho se refletiu no processo de urbanização, ao separar o poder defensivo e religioso, localizado nas vilas, das populações camponesas, vivendo próximas da lavoura. Seria nesses centros populacionais, onde passaram a habitar os chefes militares e religiosos e parte dos artesãos, e onde se estocariam os alimentos, que seriam adotadas as decisões políticas regulatórias da vida comunitária[2]. O dispositivo funcional, escreveria Daumas, se transformou progressivamente, ao ponto que se produziu uma separação tanto social quanto territorial entre a maioria rural, engajada na produção alimentar, e a minoria urbana, dedicada, nos planos profanos e religiosos, ao capital coletivo. Desses centros urbanos, onde se concentravam a riqueza e o poder (militar e religioso), surgiriam as inovações técnicas, como a metalurgia, que só tardiamente beneficiarão as populações do campo. A noção de propriedade se firmaria definitivamente, e os novos detentores do poder passariam a gerir a coisa pública. Os processos de estratificação social e de organização política se acentuariam, enquanto o sistema produtivo se tornaria cada vez mais complexo. Algumas comunidades mais avançadas deixariam de sacrificar os prisioneiros de guerra em cerimônias de antropofagia, para apresá-los como trabalhadores cativos, surgindo, desse modo, o escravismo[3].

Como seus antepassados, o Homem desse Período Pré-Histórico tinha como prioridade absoluta sua sobrevivência em um meio hostil. Daí sua objetividade, seu pragmatismo, seu interesse no desenvolvimento de coisas práticas e úteis que lhe facilitassem enfrentar as dificuldades do dia a dia. Não havia outra preocupação além das de assegurar uma melhoria das condições de vida.

No Mundo Pré-Histórico e Proto-Histórico, a Natureza, tão diversa e misteriosa, deve ter maravilhado, e apavorado, aqueles habitantes, ainda impossibilitados de compreender os fenômenos naturais ou de procurar uma explicação racional e lógica para o que acontecia a seu redor. Apesar de o Homem primitivo constatar, através da observação, a ocorrência de fatos extraordinários, como o movimento dos corpos celestes, variação climática, sucessão do dia e da noite, chuva, eclipse, tremor de terra, doenças e morte, não lhe ocorria, nem o preocupava, buscar explicações para tais fenômenos, carente que era de espírito crítico e analítico. Sua própria observação dos fenômenos naturais era passiva, deficiente, assistemática e sem objetividade, no sentido de que não lhe aguçava a curiosidade. Sua reduzida capacidade de observação e sua imaginação lhe seriam suficientes, contudo, para deslanchar impressionante desenvolvimento técnico. Sua imaginação desempenharia um papel central em sua evolução mental e cultural, porém não se subordinaria à observação e, até mesmo, em alguns casos, e em determinadas situações, a substituiria pela pura imaginação. Como ensina Ivan Lins, era inevitável que o Homem primitivo atribuísse os fenômenos ou acontecimentos a vontades  fictícias, isto é, sobrenaturais e imaginárias, que só existiam em sua própria fantasia e eram informadas pela observação[4].

Surgiria, em consequência, como fruto da imaginação, a magia, que procuraria expressar uma síntese do Mundo natural e de seu relacionamento com o Homem. Para Colin Ronan[5], a “magia exprimiu o que, de um modo geral, era uma visão anímica... em um mundo onde as forças eram personificadas”. Esse relacionamento (chuva e crescimento das plantas, por exemplo) era facilmente observável, mas a dificuldade se encontrava em explicar tais fenômenos e em colocá-los a seu serviço. Como escreveu Maurice Daumas “durante muito tempo ainda, tudo decorrerá da simples experiência, de uma espécie de submissão ativa às leis naturais. O homem do campo se contentará durante séculos, em todas as latitudes, com os conhecimentos práticos, e este será o tesouro que ele legará às gerações que o seguirão. Aquilo que ele não compreende, ele o explicará por sua ação diária, mesmo a mais humilde, em ritos tornados tradicionais...”. O Mundo tornar-se-ia compreensível somente através da ideia de que os objetos e fenômenos tinham vida própria ou eram manifestações de deuses e divindades, que deveriam ser agradados de forma a terem boa vontade para com os homens em sua labuta diária. Assim, o Mundo era povoado por um conjunto de seres visíveis (animais, plantas) e controlado por espíritos e forças ocultas e misteriosas que habitavam os seres, objetos e elementos (animais, árvores, mar, vento, chuva, sol); algumas dessas forças eram perceptíveis (raio, trovão, tremor de terra), e a doença era tida como uma manifestação dos espíritos do mal. Os fenômenos naturais eram, assim, relacionados com o mundo dos espíritos, desenvolvendo-se procedimentos (através da magia) para lidar com os dois mundos. A reencarnação era uma crença amplamente difundida.

A Medicina, ou melhor, a arte de curar, nas culturas orais ou ágrafas, era inseparável da magia. O valor do especialista na cura não era devido à sua habilidade cirúrgica ou ao uso correto de plantas medicinais, mas ao seu conhecimento das causas sobrenaturais da enfermidade.

Surgiu, então, a  figura do feiticeiro, mago, curandeiro, que incentivaria a imaginação popular e criaria uma ritualística pela qual seria possível prestar homenagens a essas forças misteriosas. Detentor dessa capacidade de interpretar a vontade superior de tais entidades, o feiticeiro transformou-se em uma das autoridades da Sociedade, constituindo-se, inclusive, em uma casta, a sacerdotal. Como escreveu Darcy Ribeiro, “os especialistas no trato com o sobrenatural, cuja importância social vinha crescendo, tornam-se, agora, dominadores. Constituem não apenas os corpos eruditos que explicam o destino humano, mas também os técnicos que orientam o trabalho, estabelecendo os períodos apropriados para as diferentes atividades agrícolas. Mais tarde, compendiam e codificam todo o saber tradicional, ajustando-o às novas necessidades, mas tentando  fixá-lo para todos os tempos. Este caráter conservador era inarredável à sua posição de guardiões de verdades reveladas, cuja autoridade e cujo poder não se encontravam neles, mas nas divindades a que eram atribuídas”. Preces, invocações, feitiços, sacrifícios, purificações, amuletos e poções seriam, então, utilizados para apaziguar e festejar essas divindades e espíritos.

Essa visão anímica do Mundo e da Natureza, essa mentalidade fetichista levaria, inexoravelmente, a uma noção do absoluto; o Homem acreditaria ter posse do conhecimento absoluto, pois não encontraria nenhuma dificuldade ou problema em se satisfazer com a interveniência de divindades para justificar os fenômenos. O problema da compreensão não surgia, assim, para o Homem Neolítico, já que a explicação fetichista lhe satisfazia. Bastavam-lhe as constatações do que acontecia ao seu redor e a crença em um poder superior, responsável pelo que ocorria e ao qual deveria submeter-se e adorar.

Idade dos Metais

O terceiro e último Período da Pré-História é conhecido como o da Idade dos Metais, ou Eneolítico, ou ainda de Proto-Histórico, de curta duração (de 8 mil a 5 mil anos atrás), mas de grande importância no processo evolutivo da Sociedade Pré-Histórica, pois corresponde à transição para o Período Histórico. As atividades agrícolas e de artesanato, iniciadas no Neolítico, se expandiriam e se diversificariam para atender a uma maior demanda de uma crescente população que se urbanizava rapidamente; surgiriam centros urbanos em pontos estratégicos das rotas comerciais.

Uma nova atividade, a da mineração do metal, contribuiria para a diversificação econômica, propiciando o aparecimento da Metalurgia. Tão importante quanto foram, em épocas anteriores, a argila, o osso, a madeira e a pedra, o novo material, de múltipla utilização, teria um papel decisivo no plano econômico e social das sociedades do período, a ponto de caracterizá-lo.

O primeiro metal descoberto foi o cobre (cerca de 8 mil anos atrás, no Sudoeste europeu, espalhando-se pelo resto da Europa, da Ásia e do Norte da África), usado em utensílios domésticos; sua importância e significado explicam ser esse Período inicial chamado, por muitos autores, de Calcolítico. O ouro e a prata também foram conhecidos nessa época e tiveram muitas aplicações, inclusive em adornos. O bronze (liga de cobre e estanho) segue cronologicamente os três metais anteriores, mas pela técnica requerida para sua fabricação, originou a Metalurgia, avanço técnico fantástico, o que justifica chamar esse Período de Idade do Bronze. O bronze foi fabricado primeiro na Mesopotâmia, por volta de 6 mil anos atrás, e na Grécia e na China, há 5 mil anos, vindo, rapidamente, outras populações a aprender a técnica e a utilizar o metal. O ferro só viria a ser conhecido há cerca de 3.300 anos, usado, pela primeira vez, em artefato de guerra, pelos hititas.

A linguagem falada permitiria melhor convivência social entre os diversos grupos multifamiliares, ao mesmo tempo em que o avanço econômico e a divisão de trabalho favoreciam um empírico desenvolvimento técnico, de efeito altamente positivo, nas condições de vida das populações. A noção de propriedade privada se estenderia aos meios de produção e ao campo, consolidando-se a hierarquização social, com uma classe rica, dominante, próxima e beneficiária do poder político, exercido por um governante, apoiado por uma casta sacerdotal. A tradição, os costumes, as crenças e o conhecimento técnico eram transmitidos oralmente, de geração a geração, constituindo-se na característica marcante dessas comunidades.

A descoberta, em setembro de 1991, de uma múmia de caçador, em perfeito estado de conservação, na geleira do Tirol, com datação estimada em 5,3 mil anos, poderá trazer preciosas informações sobre hábitos da população das comunidades da região. O “homem de gelo” recebeu o nome de Otzi, por causa da área em que fora encontrado, Oetzal, e atualmente se encontra no museu da pequena cidade de Bolzano, na Itália.

Duas extraordinárias inovações técnicas ocorreram no período. A primeira foi a contagem – provavelmente apenas soma e subtração – para fins de medição de peso, volume e área, dadas as necessidades de comércio e de armazenamento do excesso de safra, além do requerimento de quantidade envolvida com a propriedade dos rebanhos de animais. Incipiente e precária, e fruto exclusivo das prementes necessidades comunitárias, a contagem, nesse estágio, foi um mero desenvolvimento técnico. A segunda inovação, a escrita de signo, surgiu por volta de 3,5 mil antes da Era Comum, na Mesopotâmia (tábuas de argila em Uruk), dada a necessidade de consignar o conhecimento obtido nas diversas atividades, de registrar os principais acontecimentos e decisões dos líderes da comunidade e de atender aos interesses comerciais. A transmissão oral, dependente da memória, era já insuficiente para esses propósitos, razão bastante para o desenvolvimento de uma técnica capaz de satisfazer os interesses comunitários. A invenção da escrita, instrumento fundamental na preservação e divulgação da cultura, é um marco no desenvolvimento da Humanidade, e serve, inclusive, como fecho do Período Pré-Histórico e momento inicial da História.

Apesar de todo o desenvolvimento técnico e acumulação de dados e informações, é compreensível não ter surgido a Ciência no Período Pré-Histórico, porquanto não se tinham ainda reunido as condições necessárias para a transformação do conhecimento empírico em conhecimento científico. Seria contraditório a uma comunidade ágrafa dispor de conhecimento teórico e desenvolver um saber científico. A falta da escrita e de um espírito científico, crítico, analítico, foi suficiente para inviabilizar o nascimento da Ciência naquele contexto Pré-Histórico, mental e social. Avanços técnicos (emprego de drogas extraídas de ervas, trepanação) e observações na área da saúde não podem ser considerados como indicação de algum conhecimento biológico, como a ideia do número, evidência de alguma capacidade de abstração, não serve como momento da constituição da Ciência Matemática. Da mesma forma, o conhecimento de algumas plantas não cria a Botânica, ou de certos animais, a Zoologia. O que havia era uma técnica, um conhecimento prático, um empirismo sem qualquer abstração dos princípios subjacentes. Assim, apesar dos incontestáveis progressos técnicos, a Ciência não foi criada nesse Período da Pré-História da evolução humana.

O surgimento das primeiras grandes civilizações, às margens dos vales do Tigre e Eufrates, do Nilo, do Amarelo e do Indo e Ganges, início do Período Histórico, beneficiou-se pela incorporação do adiantamento social, cultural e técnico ocorrido em épocas anteriores, especialmente no Período Arqueológico Neolítico e na Idade dos Metais, nessas regiões. Assim, não surgiram tais culturas por acaso ou por milagre nesses locais, nem desenvolveram esses povos seus conhecimentos e seu modo de vida sem uma base prévia; essas civilizações primárias emergiram diretamente de seu passado neolítico. Há, assim, um legado importante, recebido no início dos tempos históricos, que não deve ser esquecido ou desprezado, porquanto ele contém respostas para uma série de indagações sobre os primórdios do Homem, sua evolução e suas realizações, bem como sobre a emergência das civilizações primárias.

 

História - Neolítico
1/16/2020 1:40:18 PM | Por Francisco Teixeira Portugal
Livre
Comparação e genealogia na psicologia inglesa no século XIX

A obra de Charles Darwin (1809-1882) marcou de maneira incontornável a concepção do vivo no século XIX e os cinquenta anos que sucederam a publicação de Origem das espécies (1859) podem ser chamados de era darwiniana não só na psicologia, mas na biologia e nas ciências sociais (Jacquard, 1986). Ao final de sua obra marco, Darwin “visualiza novos campos que se estendem para pesquisas ainda mais importantes” e continua sua previsão escrevendo que a "psicologia irá basear-se num fundamento novo, o da necessária aquisição gradual de cada faculdade mental". Dessa forma, "nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história” (Darwin, 1859: 351).

À psicologia caberia a importante tarefa de mostrar a aquisição grada­tiva de cada faculdade mental e assim chegar a estender as propostas transtornacionistas ao homem, algo repleto de consequências não apenas para a universidade inglesa, ainda muito clerical, mas também para os grupos governantes ainda muito antiliberais. Um fundamento novo — seguindo as palavras de Darwin – suportou as novas pesquisas sobre o homem, os seres vivos e as organizações sociais, e a história de sua difusão revela o surgimento de uma importante vertente da psicologia inglesa no século XIX.

Constitui um erro comum considerar a biologia como fornecedora de referenciais e modelos para a psicologia, especialmente no que diz respeito às contribuições de Darwin. A suposição é a de que nas relações entre elas, as inovações conceituais e metodológicas da biologia seriam exportadas para a psicologia. Nesta linha de pensamento, e destacando a psicologia – darwiniana inglesa, restaria à psicologia apenas o procedimento maior de recolocação dos problemas a partir de um referencial novo que se mostrou fértil alhures sobre seu objeto privilegiado, as faculdades mentais.

Mas, deveríamos crer, ingenuamente, que a aplicação de um pressuposto ou de um método sobre um objeto faria com que ele se apresentasse aos nossos olhos sem possibilidade de ocultação?

Outros são os termos de Darwin e outra também a história desse saber. Essa psicologia, como qualquer outra, não se fez por depuração metodológica, mas pela constituição de dispositivos de legitimidade e pela emergência de novos temas. O papel desempenhado pela psicologia foi relevante para a constituição da própria teoria da seleção natural, modificando a mão dessa trilha que liga a psicologia à biologia.

O evolucionismo constitui um exemplo do equívoco apontado acima. Embora o conceito de evolução tenha se identificado com a evolução orgânica, ele não se restringe à biologia e pode ser remetido a campos diversos das ciências naturais e das ciências humanas e sociais (por exemplo, cosmologia evolutiva, termodinâmica evolutiva, algumas teorias da linguagem, as ciências sociais, a geologia). Como afirmou Lewontin (1985:249), Darwin representa o ponto culminante da teoria da evolução orgânica, não a matriz do evolucionismo do século XIX.

Podemos dizer que Darwin forneceu, com seu livro inaugural, uma credibilidade, segundo os cânones da ciência de então, à noção de evolução Jacquard (1986) lembra, entretanto, que o termo só apareceu na sexta edição da obra Origem das espécies. Na verdade, um dos grandes organizadores e difusores da tese evolucionista na Inglaterra do século XIX foi Herbert Spencer (1820-1903).

Spencer é atualmente um pensador muito ignorado; todavia, a ressurgência das forças liberalistas tem sido acompanhada da revalorização de parte de sua obra. Assim, há uma simpatia por seu pensamento quer pelos filósofos de mercado, quer pela renovada tentativa de aplicar os princípios evolucionistas à sociedade humana. A ausência de formação universitária e inserção profissional acadêmica de Spencer não impediu que ele fosse indicado a receber, ao longo dos últimos trinta anos de sua vida, uma série de homenagens acadêmicas (tendo recusado quase todas).

Juntamente com Edward Burnett Tylor (1832-1917) e Lewis Henry Mor­gan (1818-1881), Spencer está entre os três mais destacados evolucionistas do século XIX, e embora, segundo Burrow (1968), seu trabalho tenha sido exaltado da Rússia aos EUA, sua importância entre os pensadores do século XIX tem sido exagerada. Sua herança intelectual inclui também, além do evolucionismo, o liberalismo clássico calcado no individualismo, na noção puramente econômica das relações sociais, no Estado mínimo e na negação gradual das instituições com exceção da propriedade. Estas características fizeram dele o grande DARWINISTA SOCIAL, pois foi sobretudo seu evolucionismo e não o de Darwin, que, associado ao  liberalismo individualista, deu suporte às práticas excludentes e perigosas do evolucionismo social. 

O positivismo determinista presente nas ciências sociais na segunda metade do século XIX encontrou em Spencer um de seus mais firmes adeptos. Sua crença na causação natural o levou a adotar a teoria evolucionista. Tendo escrito algu­mas de suas obras onde a concepção de evolução é exposta antes mesmo da publicação do livro Origem das espécies de Darwin, Spencer buscou aplicar o princípio da evolução sistematicamente a todo o universo e es­ pecialmente à sociedade humana. Spencer considerava-se o Newton das ciências morais, a aplicar a lei universal da conservação de energia traduzida em princípio da evolução ao universo. Assim, para além do mundo ao qual os físicos se dirigem, a evolução se aplicaria também ao mundo dos seres vivos, aos homens e suas organizações sociais.

Sua concepção de evolução não vem, pois, de Darwin, nem ele foi um darwiniano. A concepção de evolução relaciona-se à sua crença na causação natural e a uma ciência determinista e, no caso de sua aplicação aos seres vivos, vem muito mais de um conhecimento de segunda mão das concepções de Jean-Baptiste Lamarck do que de uma reflexão a partir da obra de Darwin. Seu credo liberal valorizava, assim como os utilitaristas da primeira metade do século XIX, o indivíduo, mas de uma forma renovada, ao propor o conceito de estrutura social.

É dessa perspectiva individualista que se pode compreender a expressão de Spencer - “sobrevivência do mais apto" - para o conceito darwiniano de seleção natural. A seleção natural, tão importante por ter fornecido um sentido para as transformações e diferenças entre os seres vivos, inexplicáveis na perspectiva lamarquista, se ancora na comunidade, não no indivíduo. Spencer desloca para o indivíduo esse conceito crucial dos trabalhos de Darwin e o aloca na perspectiva do progresso. Além da deformação conceitual que representa a transformação da seleção natural em sobrevivência do mais apto, Spencer manteve até o final de sua vida a crença na concepção lamarquista de herança dos traços adquiridos. O evolucionismo liberalista de Spencer pode então hierarquizar as organizações sociais tomando como cume a organização liberal da Inglaterra colonialista.

Spencer foi muito mais resenhado por autores das ciências sociais que da psicologia. Contudo, considerando o retorno das abordagens evolucionistas ou evolucionárias na psicologia, Spencer tem sido retomado e historicamente revalorizado. Assim é que se indica repetidamente o elogio de Darwin e de William James a Herbert Spencer. 

Nessa vertente do melhoramento biológico, social e psíquico que se elaborou teoricamente na Inglaterra também pode ser incluído o contemporâneo de Spencer, Sir Francis Galton (1822-1911). As contribuições de Galton para a psicologia podem ser divididas em dois campos: a eugenia e a psicologia diferencial. 

A Eugenia significa “bem-nascido e consistia no estudo e no uso da reprodução seletiva com o fito de melhorar as espécies, principalmente dos atributos hereditários, ao longo das gerações. A defini­ção de eugenia foi refinada por Galton ao distinguir a eugenia positiva, que incentivava a reprodução do mais apto à da eugenia negativa, que buscava evitar ou dificultar a proliferação do menos apto. Assim, e nos termos marcadamente conservadores da Inglaterra vitoriana, Galton afirmou da maneira mais desqualificada sua impaciência e objeção em relação à tese da igualdade natural entre os homens (Galton, 1869: 44).

O esforço de Galton foi o de mostrar que as habilidades mentais – o que ele chamava gênio — eram traços hereditários tanto quanto os padrões físicos e estavam, consequentemente, submetidas aos mesmos dispositivos de transmissão. O lorde inglês utilizou para demonstrar tal propósito dois instrumentos de legitimação, um artifício matemático (a teoria das probabilidades) e as palavras de Darwin (a seleção artificial). O problema principal para Galton foi como ter acesso às habilidades mentais e como mostrar que eram traços hereditários. Para tanto, Galton fez uma passagem cheia de consequências ao correlacionar as habilidades mentais superiores à reputação profissional alcançada pelos individuos. O pressuposto era o de que a reputação so pode ser alcançada através das altas habilidades mentais. Em seguida era preciso mostrar como os indivíduos de alta reputação mantinham um padrão here­ditário. Em outras palavras, tratava-se de naturalizar as diferenças sociais. Além disto, observe-se que o termo correlacionar aqui é importante porque os instrumentos matemáticos permitem “limpar” as escolhas morais de Galton, uma vez que a sofisticação introduzida pelas matemáticas obstruem frequentemente a percepção dos interesses e consequências político-sociais envolvidos nessas analises.

O primeiro passo foi dado sem maiores dificuldades —“Estou con­vencido... – , o segundo foi dado ao indicar a similaridade entre a forma de distribuição das habilidades mentais e dos traços físicos herdados (ambos eram distribuídos segundo a curva normal). Embora tal similaridade não permitisse indicar a hereditariedade das habilidades mentais, o que importa notar é que o instrumental matemático ajudou a sustentar uma fraude cien­tífica muito mais por suas consequências sociais que por qualquer má-fé de seu criador e de seus divulgadores.

O argumento era circular; sem ter como medir a hereditariedade das habilidades mentais, Galton mediu as frequências com que a eminência ou reputação aparecia em famílias de grande notabilidade segundo o grau de parentesco. Comparando-as com as frequências de eminência esperada da população mais ampla, descobriu que as relações de homens eminentes exibiam uma frequência muito maior de eminência que a esperada na base e que ela declinava conforme o grau de parentesco dessas relações. Então, aí está a circularidade do argumento, Galton concluiu que esse padrão só poderia resultar da herança das habilidades mentais.

Independentemente das falhas do procedimento de Galton, estaría­mos enganados ao diminuir as consequências das propostas eugênicas. Elas tiveram uma ampla aplicação ao longo do século XX e estão presentes em nossos dias. O infame programa eugênico levado a cabo na Alemanha nazista em nome da pureza da raça ariana foi realizado pela esterilização forçada de centenas de milhares de pessoas consideradas mentalmente desadaptadas e pelos programas de eutanásia compulsória que mais tarde desembocaram no assassinato de milhões de “indesejáveis”, incluindo judeus, ciganos e ho­mossexuais, durante o Holocausto perpetrado na Segunda Grande Guerra.

O segundo maior movimento eugênico ocorreu nos EUA que, desde o final do século XIX, implantou leis sob a égide da eugenia proibindo o casamento dos epilépticos, imbecis e débeis mentais. As teses eugenistas também estiveram presentes em 1924 nas decisões do Congresso estadunidense de dificultar a imigração, ao serem aconselhados sobre os riscos de espalhar entre os estadunidenses um “estoque inferior” proveniente da Europa Oriental e do sul. Assim, também sob inspiração eugênica, foram adotadas, ainda nos EUA, leis contra o incesto e de antimiscigenação, bem como levados a cabo programas de esterilização que atingiram milhares de estadunidenses considerados desadaptados. Um relatório favorável desse programa de esterilização foi apontado pelo governo nazista como evi­dência de que a esterilização era praticável e humana e, durante o Tribunal de Nuremberg dos Crimes de Guerra, os administradores nazistas de programas de esterilização em massa apontaram os programas estadunidenses como sua inspiração. Contudo, observe-se que, com exceção do Reino Unido, quase todos os países não católicos da Europa Ocidental implan­taram ao longo do século XX uma legislação eugênica.

Após a Segunda Grande Guerra, os programas perdem força, mas muitos eugenistas nos EUA criam o termo criptoeugenia com a intenção de manter as propostas eugênicas disfarçadas. Assim, diversas argumentações sobre raça, imigração, pobreza, criminalidade e saúde mental são categorizadas como criptoeugênicas, ou seja, publicações e práticas eugênicas ganham novos nomes. Atualmente, um dos programas de inspiração eugênica de maior alcance está ligado ao projeto genoma de mapeamento do código genético.

Uma importante modificação nos procedimentos classificatórios praticados pelos pesquisadores do mundo natural no final do século XVIII e início do século XIX consistiu no abandono da descrição do que era observado diretamente na superfície das coisas e na eleição de princípios ordenadores invisíveis que pudessem fornecer sentido à classificação dos seres. A história natural própria ao século XVIII ordenava seu mundo pela comparação das características visíveis das plantas e dos animais em um sistema fechado, refratário às transformações. As novas noções de vida, de função e de órgãos que emergem no século XIX deslocam o procedi­mento descritivo da história natural e se impõem na formação de novas práticas que constituem a biologia (Foucault, 1987). Também o tempo passa a constituir uma dimensão invisível que ordena as relações entre os seres vivos. A genealogia se impõe à comparação.

Darwin, representante dessas modificações, também se perguntou so­bre o sentido da classificação. As aproximações e as diferenças que emergem da pura comparação entre os seres vivos geravam uma infinidade de categorias, tornando a classificação pouco operacional. Essas categorias poderiam ser drasticamente reduzidas se fosse eleito um princípio norteador que fornecesse uma inteligibilidade manuseável. Enquanto biólogos mais ligados à Igreja —os teólogos naturalistas —se esforçavam em agrupar os seres vivos em círculos simbólicos que revelariam a escrita de Deus própria ao criacionismo, Darwin, na esteira transformacionista, elege a genealogia como critério que fornece sentido às aproximações e diferenciações que permitem agrupar os tipos animais e vegetais. Entende, pois, que as enormes diferenças existentes entre os seres vivos remontariam a um longo passado reple­to de pequenas bifurcações. Se todos os seres existentes e que existiram pudessem ser coletados, então seria possível estabelecer suas séries, relacionando-os em um grande e indivisível grupo.

Ainda que esse princípio tenha sido altamente difundido a par­tir de então na biologia, não devemos esquecer sua artificialidade. As “ordens, famílias e gêneros são termos meramente artificiais extrema­mente úteis para mostrar o parentesco daqueles membros da série que não se tornaram extintos” (Darwin, 1859). Darwin ainda comenta que os natu­ralistas sabem que seus critérios são artificiais, mas têm a estranha tendência a esquecer essa característica e conceber suas propostas como o simples reflexo do mundo natural.

A psicologia entra em cena nos trabalhos de Darwin a partir de sua tentativa de saber como o homem descende de alguma forma preexistente. Se no livro Origem das espécies (1859) não houve menção à genealogia humana, com o sucesso de suas propostas, a pergunta encontra seu encaminhamento vinte e poucos anos depois em A ascendência do homem (1871) e em A ex­pressão das emoções em homens e animais (1872).

As conexões do homem com alguma forma preexistente foram procuradas nas variações da estrutura corporal e nas faculdades mentais. A assimetria dos critérios que garantem a conexão genealógica entre os seres vivos quando referidos às estruturas corporais e às faculdades mentais marca uma diferenciação presente entre biologia e psicologia. Darwin tem muito mais dificuldade em estabelecer critérios de ordenação das faculda­des mentais e seus elos com formas anteriores, em franco contraste com os critérios utilizados para as estruturas corporais.

Ainda que Darwin não tenha desenvolvido uma teoria sofisticada da relação mente-corpo, ele concebe as faculdades mentais como produtos do funcionamento cerebral. Seu argumento era bastante simples: assim com o não se sabe por que a gravitação é um efeito da matéria e ninguém fica perplexo por isso, também não sabemos por que a mente é um efeito do cérebro. Com essa definição naturalista, as faculdades mentais, tanto quanto os atri­butos estruturais dos organismos, poderiam ser utilizadas para classificá-los, legitimando a comparação entre homens e animais no campo da psicologia.

Entretanto, a tentativa de classificar um tipo animal por seus hábitos ou instintos havia se mostrado muito insatisfatória. Devemos lembrar sem­pre que as tentativas de classificação centradas em apenas um critério eram concebidas pelo naturalista com inadequadas e insuficientes, mas de uma forma geral o comportamento e as faculdades mentais não serviram ou não tiveram o mesm o respaldo que os critérios atinentes às estruturas corporais para o sistema classificatório.

Se fica claro que a base de sustentação da teoria biológica diferen­ciou-se da psicológica, por outro lado estaríamos equivocados ao afirmar que não houve interação entre elas, ou mesmo que a primeira tenha sido imposta à segunda. As faculdades mentais e o comportamento não são determinados passivamente pela evolução, tendo sido concebidos pelos transformacionistas como desempenhando um papel relevante na trajetória dos seres vivos. Jean-Baptiste Lamarck concebia o comportamento como simultaneamente produto e instrumento das transformações das espécies. Sua obra teve importante influência no pensamento de Darwin que a conheceu durante seus estudos em Edimburgo (onde tentou sem sucesso formar-se em medicina como seu pai e seu avo) e que manteve por longo tempo no eixo de suas reflexões. O pensamento do naturalista francês atua sobre o jovem Darwin da seguinte forma: algumas modificações no ambiente constrangem os animais a novos hábitos, em decorrência de novas exigencias. Novos habitos alteiam as estruturas cerebrais bem como outros órgãos, se praticados ao longo de muitas gerações. Para Darwin, a memória ou o pensamento, quando tornados habituais e involuntários, afetam a estrutura física do cérebro, podendo tais transformações ser transmitidas à prole. Dessa forma, os instintos ganhavam uma explicação materialista, mas grandes brechas ficaram abertas, a mais conhecida e mais grave sendo a pergunta: como conectar a modificação estrutural produzida pelo hábito com a transmissão para a prole das estruturas adquiridas?

Os instintos maravilhosos eram, para Darwin, extremamente difíceis de explicar pelo hábito. Sua dificuldade principal estava na acentuação do caráter não intencional e não consciente de comportamentos complexos. Como poderia a solitária vespa aprender a cavar um buraco, paralisar uma aranha e colocar seus ovos, se suas crias nascerão depois de sua morte.

Que benefício futuro ela poderá tirar? Que tipo de ajuste do comportamento pode ser evocado para dar sentido a este tipo de instinto? Em um formigueiro pode haver formigas divididas em duas ou mais castas, sendo algumas estéreis. Como esses insetos sexualmente neutros poderiam deixar prole?

Darwin encontrou respostas a estas perguntas na transposição do foco de análise do indivíduo para a população. A solução encontrada que permitiu a aplicação da teoria da seleção natural a estes casos foi o reconhecimento da diferença entre o animal que seleciona um comportamento por sua utilidade (o animal é o centro decisório) e o animal que é selecionado por seu comportamento útil (o animal é parte de um processo). A unidade de medida passa a ser a população ou a comunidade.

Um problema considerado psicológico como o do instinto ocupou, portanto, um lugar destacado no estabelecimento da teoria da seleção natural, envolvendo-a numa longa reflexão sobre a moral e as faculdades mentais.

Como dito anteriormente, foi principalmente nas obras A ascendência do homem (1871) e A expressão das emoções em homens e animais (1872) que Darwin buscou explicitar o parentesco comum entre homens e animais através das expressões e das faculdades mentais.

Ao longo desses livros foram desfiados extensos comentários sobre as semelhanças psicológicas entre homens e animais calcados em “fatos” colhidos por mais de quarenta anos através de observações, de questionários e de experimentações. A liberdade com que foram aplicados atributos mentais aos animais a partir das observações de viajantes e missionários salienta uma opção pela continuidade mental entre eles, já que esses “fatos” eram tremendamente antropomórficos e antropocêntricos. Muito mais do que uma fonte intelectual e documental para a construção de uma psico­logia comparada ou uma etologia, a psicologia de Darwin se apresenta como uma crítica aos argumentos que isolam qualitativamente homens e animais. Assim é que a observação dos cachor­ros pode fornecer uma evidência anticartesiana, uma vez constatado que eles constroem “uma ideia geral dos gatos e das ovelhas, e conhece[m] as palavras correspondentes tão bem quanto as pode conhecer um filósofo” (Fontenay, 1998: 566). Ou mesmo que os animais se espantem; aqui, lembramos ser o espanto uma característica-chave para a atividade filosófica na concepção de Platão e Aristóteles. Ficamos também cons­trangidos ao sermos comparados pelo naturalista em relação aos nobres sentimentos de um cão que, no momento mesmo de sua vivisseção, lambe a mão de seu dono: sinal não só de aceitação de seu martírio em nome da nobre causa da ciência, como de seu perdão por uma ação tão cruel.

O esforço de Darwin se justificava pela barreira imposta à teoria da seleção natural diante da descontinuidade das capacidades mentais do homem e dos animais. A genealogia simiesca do homem, apesar de ge­rar intensas discussões, foi aceita por um público amplo. Se o clero e algumas camadas dominantes a rejeitaram com fervor, o livro Darwin alcançou várias tiragens, as palestras de Huxley atraíam multi­dões e houve também a produção de uma literatura popular, divul­gando valores evolucionistas, avida­mente consumida por um grande público.

Mas, no plano das argumentações acadêmicas, muito havia ainda a ser feito para garantir a continuidade homem-animal no plano mental. Os esforços de George John Romanes (1848-1894) e Conwy Lloyd Morgan (1852-1936) foram os mais relevantes em continuidade com os do mais conhecido naturalista inglês.

Encarregado por Darwin de realizar a extensão das teses evolucionistas à mente e ao comportamento, Romanes realizou um estudo de psicologia comparada centrado na experiência humana consciente. Para ele, a força de uma teoria estava na possibilidade de fornecer inteligibilidade a campos novos que não tinham sido seu foco inicial e este era o caso da teoria da seleção na explicação de temas psicológicos como o instinto, a razão e o senso moral.

Seu projeto consistiu principalmente na elaboração de princípios explicativos da gênese da mente, mas ele também realizou estudos sobre o intelecto, a emoção, a vontade, a moral e a religião. Há um claro esforço em atestar a continuidade homem-animal, o que o levou a uma seleção bastante tendenciosa do material a ser analisado. Explicando: como seu material continuava provindo, em grande parte, de viajantes e missionários nas colônias europeias, Romanes o selecionava conforme a fama do autor do relato. Se o autor não fosse reconhecido, fazia a verificação da qualidade da observação através da confrontação das informações. Como a maioria dos relatos utilizados era proveniente de eminentes ingleses trabalhando nas longínquas terras daquele então vasto império colonial, não questionava seus dados nem sua interpretação, já que, segundo seus critérios, estes eram válidos e confiáveis. Dessa forma, o antropomorfismo das observações ganhava uma teorização academicamente legitimadora na obra de Romanes. 

Contudo, também contou com observação mais controlada e chegou mesmo a cuidar de um MACACO CEBUS COULO parte de suas pesquisas. A mente, em sua concepção, é imediatamente dada a nós, não podemos duvidar de que temos conhecimento de um certo fluxo de Pensamentos e sentimentos. Com esta perspectiva, a observação de outras mentes torna-se possível por inferência, a partir das atividades dos organismos que parecem exibi-las. Solipsismo e antropomorfismo regem a reflexão. Primeiro passo: os humanos têm acesso introspectiva e diretamente às suas mentes (é por analogia que podemos afirmar que todos partilhamos esta característica). Segundo passo: como só podemos inferir as mentes em animais a partir das atividades dos or­ ganismos, devemos compará-las às dos homens para, na medida de sua semelhança, vislumbrá-las.

Romanes justifica seu procedimento lançando mão de um argumento teológico. Assim como os teólogos mostraram que a mente divina só pode ser concebida por analogia com a nossa, ainda que imperfeita, também em reação à mente animal devemos impor tal entendimento e aplicar o “antropomorfismo invertido” (invertido aqui em comparação ao alvo teológico que, na primeira comparação, se dirige a Deus),

A consciência e a escolha são os traços distintivos que indicam a existência da mente entre os animais. Assim como os comportamentos humanos que não se restringem  ao conjunto de hábitos herdados podem ser explicados pela consciência e pela escolha, também as atividades dos animais que escapam ao hábito podem indicar decisão e consciência. Mas a mente só pode ser inferida a partir de atividades que se sobrepõem às determinações inatas. Atividade consciente e aprendizagem se aproximam e a distinção inato-aprendido passa ao primeiro plano.

Coube a Conwy Lloyd Morgan indicar um caminho para que a psicologia comparada pudesse se livrar das pesadas lentes do antropomor­fismo. Seu monismo metafísico o fez adotar a concepção de consciência de William James evitando o “forte preconceito de que temos estados mentais e de que o cérebro os condiciona” (1977a [1894]). Seu monismo fornece três ve­tores ao trabalho do pesquisador: uma teoria monista do conhecimento, uma interpretação monista da natureza e um monismo analítico. O primeiro evita tanto o idealismo quanto os dualismos que segmentam sujeito e objeto como entidades separadas e independentes. Nesta direção, os aspectos subjetivos e objetivos são uma divisão que se faz sobre o fluxo unitário da experiência pela atividade da razão. A concepção monista da natureza, por sua vez, o leva a conceber a análise psicológica e a biológica como aspectos de um mesmo processo, a mente consistindo em um dos aspectos da existência natural. Finalmente, o monismo analítico indica que a divisão mente-corpo resulta do trabalho do conhecimento. A atividade do conhecimento cria um objeto a ser conhecido para além dos sentidos, uma vez que o acesso a ele ocorre somente pela reflexão. O homem é concebido como objeto natural, sendo seus aspectos corporais e mentais estabelecidos pelo mesmo movimento e sem que um determine o outro.

Evocando a experiência subjetiva do leitor, Lloyd Morgan escreve “que ele sabe o que quero afirmar quando digo que ele é consciente” (1977a [1894]: 11). O termo mente é utilizado como o conjunto das atividades psí­quicas que, não tendo uma realidade independente do corpo, correspondem a diferentes modos de olhar o mesmo conjunto de ocorrências naturais.

Lloyd Morgan transformou a divisão entre a mente e o corpo em diferença de superfície, isto é, evitou sua duplicação ontológica. Entretanto, manteve a introspecção como via de acesso à mente: só podemos ter um conhecimento direto e imediato dos próprios processos psíquicos, o que faz da introspecção o ponto de partida de toda a psicologia comparada.

Mas seu monismo falha justamente na tentativa de conhecer as mentes animais. Podemos colocar sua questão da seguinte forma: se só temos conhecimento direto de nossa própria mente e derivamos sua existência nos outros homens por analogia, dada a semelhança interna à nossa espécie, como conhecer as mentes animais? E o aspecto corporal que sustenta a comparação porque permite estabelecer uma ponte en­tre as mentes humanas e as animais. Se a observação direta das mentes animais nos é vedada, as semelhanças corporais sustentam a hipótese das semelhanças psíquicas. O trajeto da comparação tem como ponto de partida o aspecto mental dos homens, passando em seguida a seu aspecto corporal, de onde, dadas as semelhanças, passa-se ao aspecto corporal de alguns animais para, finalmente, alcançarmos seu aspecto mental. A teoria da evolução constitui o solo desse trajeto, já que tanto o aspecto mental quanto o corporal são o resultado de exigências ambientais.

O dualismo de aspecto apresentado por Lloyd Morgan — que, em sua argumentação filosófica, seria secundário em relação ao monismo metafísico —, levou-o a uma valorização anômala (como compatibilizar a hierarquia dos aspectos com o monismo?) do aspecto corporal sobre o mental. A comparação entre os psíquismos segundo Lloyd M organ é legí­tima quando realizada, no máximo, em relação aos vertebrados superiores, porque seus estados psíquicos podem ser inferidos a partir da semelhança de seus hemisférios cerebrais com os dos homens. A dificuldade em atribuir esse privilégio ao aspecto físico, incoerente com o monismo, deixa em aberto o conhecimento dos estados psíquicos de animais cujas estruturas cerebrais são muito diferenciadas da dos homens.

Lloyd Morgan também introduziu o “princípio da simplicidade” na atividade comparativa. Este princípio diz que não se deve interpretar uma ação de um animal através de uma faculdade psíquica superior se ela puder ser explicada por uma outra mais simples. Tal princípio atuará no estabelecimento das diferenças entre as funções psíquicas de homens e animais, introduzindo uma continuidade imprevista ao legitimar a busca e a generalização de explicações “objetivas” das características mentais — os animais. É conhecido como cânon de Lloyd Morgan, organizando
pesquisas comparadas a partir da teoria da evolução. O parâmetro para inferir as habilidades mentais dos animais tem necessariamente que resultar de seu comportamento nos ambientes, já que a seleção natural não poderia explicar uma faculdade mental superior às exigidas por essa interação.

A acentuação do experimentalismo nos estudos psicológicos no iní­cio do século XX introduziu definitivamente uma desconfiança quanto à validade da observação. Se essa validade já havia sido notada por Romanes, os novos pesquisadores se ampararam sobretudo na observação planejada, não casual, e a tornaram dispositivo de legitimação indispensável.

A aproximação entre homens e animais levada a cabo por Darwm foi o solo de onde emergiu a psicologia comparada. Canguilhem (1970) mos­tra, entretanto, com o a metodologia desta se desenvolveu, em parte, contra a perspectiva darwiniana. A psicologia que compara homens e animais se tornou possível transformando o difundido paralelismo homem-ammal, com sua intransponível barreira, numa genealogia de muitas e pequenas
diferenças. Assim, noções como retorno, luta pela vida, adaptação por seleção natural forneceram instrumentos para a comparação na psicologia, mas sua aplicação teve que esperar até os trabalhos de Lloyd-Morgan.

A noção de meio específico da vida desenvolvida por Jacob von Uexküll (1864-1944) – considerado por alguns etólogos como figura cen­tral para emergência de seu campo – e, mais tarde, pela etologia permitiu o abandono dessa homogeneização promovida por Darwin na medida em que dissociou estrutura e comportamento. As características psicológicas do animal, se não anularmos as diferenças, devem ser tomadas pelas relações entre o organismo do animal e o meio que ele determina por sua estrutura: “A atenção de um animal é inseparável de seu modo de capturar suas presas. A rã aguarda e o sapo procura” (Canguilhem. 1970:125).

A psicologia elaborou essa relação entre homens e animais de três modos, primeiramente, tomando a conduta dos animais como referenciada a experiencia humana conscientemente vivida. Em seguida, a psicologia abordou as condutas animais como tema da fisiologia, compreendida como parte da biologia que aborda as relações entre o organismo e o meio. Uma terceira via foi o estudo do comportamento animal isolado de seu meio, isto é, inserido no laboratório e abordado analiticamente. Foi necessário que a psicologia se liberasse dessas formas de pesquisa para considerar o animal como sujeito de sua experiência, ou seja, foi necessário que esse caminho fosse percorrido para que a psicologia se despojasse de seu antropomorfismo.

Psicologia - História da Psicologia
1/16/2020 1:30:42 PM | Por Phillipe Ariès
Livre
O nascimento do sentimento de família na Europa medieval

Pareceria contestável falarmos de uma iconografia profana na Idade Média antes do século XIV, de tal forma o profano se distingue mal do sagrado. Contudo, entre as contribuições de origem profana a essa representação total do mundo, há um tema cuja frequência e popularidade são significativas: o tema dos ofícios. Os arqueólogos nos informaram que os gauleses da época romana gostavam de representar em seus baixos-relevos funerários cenas de suas vidas de trabalhadores[1]. Essa preferência pelos temas de ofícios não é encontrada em nenhuma outra parte. Os arqueólogos também ficaram impressionados com sua raridade, quando não com sua ausência, na iconografia funerária da África romana[2]. O tema remonta, por conseguinte, a um passado remoto. Ele se manteve e até mesmo se desenvolveu durante a Idade Média. Ressalvando o anacronismo da expressão, poderíamos dizer, grosso modo, mas sem deformar a verdade, que a iconografia “profana” medieval consiste acima de tudo no tema dos ofícios. É importante que durante tanto tempo o ofício tenha parecido às pessoas ser a principal atividade da vida quotidiana, uma atividade cuja lembrança se associava ao culto funerário da época galo-romana e à concepção erudita do mundo da Idade Média, nos calendários das catedrais. Sem dúvida, isso parece perfeitamente natural aos historiadores modernos. Mas terão eles se indagado quantos hoje em dia prefeririam esquecer seu ofício e gostariam de deixar uma outra imagem de si mesmos? Em vão tentamos introduzir algum lirismo nos aspectos funcionais da vida contemporânea; o resultado é uma espécie de academicismo sem raízes populares. O homem de hoje não escolheria seu ofício, mesmo que gostasse dele, para propô-lo como tema a seus artistas, mesmo que estes últimos pudessem aceitá-lo. A importância dada ao ofício na iconografia medieval é um sinal do valor sentimental que as pessoas lhe atribuíam. Era como se a vida privada de um homem fosse antes de mais nada seu ofício.

Uma das representações mais populares do ofício o liga ao tema das estações, cuja importância já tivemos a ocasião de reconhecer a propósito das idades da vida. Sabemos que a Idade Média ocidental se caracterizou pelo hábito de reunir através do simbolismo noções cujas correspondências secretas, ocultas por detrás das aparências, se desejava sublinhar. A Idade Média ligava as profissões às estações, assim como o fazia com as idades da vida ou os elementos. Era esse o sentido dos calendários de pedra e de vidro, dos calendários das catedrais e dos livros de horas.

A iconografia tradicional dos 12 meses do ano foi fixada no século XII, tal como a encontramos, com muito poucas variantes, em Saint-Denis, em Paris, em Senlis, em Chartres, em Amiens, em Reims etc.: os trabalhos e os dias. De um lado, os grandes trabalhos da terra: o feno, o trigo, a vinha e o vinho, o porco. De outro, a pausa, do inverno e da primavera. São camponeses que trabalham, mas a representação dos momentos de interrupção do trabalho oscila entre o camponês e o nobre. Janeiro (a festa de Reis) pertence ao nobre, diante de uma mesa na qual não falta nada. Fevereiro pertence ao plebeu que volta à casa carregando lenha e se aquece perto do fogo. Maio ora é um camponês que descansa no meio das flores, ora um jovem nobre que parte para a caça e prepara seu falcão. Em todo o caso, é a evocação da juventude participando das festas de maio. Nessas cenas, o homem está sempre sozinho: excepcionalmente um jovem criado (como em São Denis) aparece de pé atrás do amo, que come sentado em sua mesa. Por outro lado, trata-se sempre de um rapaz e nunca de uma mulher.

Podemos ver essa iconografia evoluir ao longo dos livros de horas até o século XVI, de acordo com tendências significativas.

Primeiro, vemos surgir a mulher, a dama do amor cortês ou a dona-de-casa. No livro de horas do Duque de Berry, no mês de fevereiro, o camponês não é mais o único a se aquecer, como nas paredes de Senlis, de Paris ou de Amiens. Três mulheres da casa já estão sentadas em torno do fogo, enquanto o homem ainda está do lado de fora, fransido de frio no pátio coberto de neve. Em outras representações, a cena se torna a imagem de um interior, de uma noite de inverno em que as pessoas ficam dentro de casa: o homem, diante da lareira, ainda aquece as mãos e o pé descalço, mas, ao lado, sua mulher trabalha tranquilamente em sua roca (Charles d’Angoulême). Em abril, aparece o tema da corte de amor: a dama e seu amigo em um jardim fechado com muros (Charles d’Angoulême). Ela também acompanha os cavaleiros à caça. Mas mesmo a dama nobre não é mais a heroína ociosa e um tanto imaginária dos jardins de abril, ou a cavaleira das festas de maio; ela também dirige os trabalhos desse jardim de abril (Turim). A camponesa aparece mais vezes. Ela participa dos trabalhos dos campos com os homens (Berry, Angoulême). Dá de beber aos trabalhadores que fazem a colheita enquanto eles descansam nos dias quentes de verão (Hennessy, Grimani). Seu marido a leva de volta em uma carreta com o cantil de vinho que ela lhe havia trazido. Os cavaleiros e as damas não estão mais isolados nos prazeres nobres de abril ou de maio. Assim como a dama do livro de horas de Turim cuidava de seu jardim, os cavaleiros e as damas se misturam aos camponeses, aos colhedores de uva (como na cena da colheita de cerejas do livro de horas de Turim). Quanto mais avançamos no tempo, e sobretudo no século XVI, mais frequentemente a família do senhor da terra é representada entre os camponeses, supervisionando seu trabalho e participando de seus jogos. Numerosas tapeçarias do século XVI descrevem essas cenas campestres em que os senhores e suas crianças colhem uvas e supervisionam a colheita do trigo. O homem não está mais sozinho. O casal não é mais apenas o casal imaginário do amor cortês. A mulher e a família participam do trabalho e vivem perto do homem, na sala ou nos campos. Não se trata propriamente de cenas de família: as crianças ainda estão ausentes no século XV. Mas o artista sente a necessidade de exprimir discretamente a colaboração da família, dos homens e das mulheres da casa, no trabalho quotidiano, com uma preocupação de intimidade outrora desconhecida.

Ao mesmo tempo, a rua surge nos calendários. A rua já era um tema familiar da iconografia medieval: ela se anima com uma vida particularmente expressiva nas admiráveis vistas das pontes de Paris da Vida de São Denis, um manuscrito do século XIII. Assim como nas cidades árabes de hoje, a rua era o lugar onde se praticavam os ofícios, a vida profissional, as conversas, os espetáculos e os jogos. Fora da vida privada, por muito tempo ignorada pelos artistas, tudo se passava na rua. No entanto, as cenas dos calendários, de inspiração rural, durante muito tempo a ignoraram. No século XV, a rua tomou seu lugar nos calendários. É verdade que os meses de novembro e de dezembro do livro de horas de Turim são ilustrados com o tradicional sacrifício do porco. Mas aqui, ele se passa na rua, e os vizinhos estão diante de suas portas para observá-lo. No calendário do livro de horas de Adelaide de Savoie, aparece o mercado: moleques cortam as bolsas de donas-de-casa ocupadas e distraídas - reconhecemos aí o tema dos pequenos batedores de carteiras, que se iria manter na pintura picaresca ao longo de todo o século XVII[3]. Uma outra cena do mesmo calendário representa a volta do mercado: uma comadre pára para falar com sua vizinha, que está na janela; alguns homens descansam sentados em um banco, protegidos por um telheiro, e distraem-se vendo meninos jogar péla e lutar. Essa rua medieval, assim como a rua árabe de hoje, não se opunha à intimidade da vida privada; era um prolongamento dessa vida privada, o cenário familiar do trabalho e das relações sociais. Os artistas, em suas tentativas relativamente tardias de representação da vida privada, começariam por mostrá-la na rua, antes de segui-la até dentro de casa. Talvez essa vida privada se passasse tanto ou mais na rua do que em casa.

Com a rua, os jogos invadiram as cenas dos calendários: os jogos de cavalaria, como os torneios (Turim, Hennessy), os jogos comuns a todos, e as festas folclóricas, como a árvore de maio. O calendário do livro de horas de Adelaide de Savoie compõe-se essencialmente de uma descrição dos mais diversos jogos, jogos de salão, jogos de força e de habilidade, jogos tradicionais: a festa de Reis, a dança de maio, a luta, o hóquei, as disputas entre dois homens armados de varas em duas barcas, as guerras de neve. Em outros manuscritos, assistimos a certames de tiro com bestas (Hennessy), a passeios de barco com música (Hennessy) e os banhos coletivos (Grimani). Ora, sabemos que os jogos não eram então apenas diversões, mas uma forma de participação na comunidade ou no grupo: jogava-se em família, entre vizinhos, entre classes de idade, entre paróquias[4].

Finalmente, a partir do século XVI, uma nova personagem entra em cena nos calendários: a criança. Sem dúvida, ela já aparecia com frequência na iconografia do século XVI, particularmente nos Miracles de Notre Dame. Mas ela havia permanecido ausente dos calendários, como se essa tradição iconográfica antiga tivesse hesitado em aceitar esse elemento tardio. Nos trabalhos dos campos, não aparecem crianças ao lado das mulheres. Apenas algumas servem à mesa nos banquetes de janeiro. Percebemo-las também no mercado do livro de horas de Adelaide de Savoie; nesse mesmo manuscrito, elas brincam de jogar bolas de neve, atrapalham com sua bagunça o pregador na igreja e são expulsas. Nos últimos manuscritos flamengos do século XVI, elas se divertem alegremente; percebe-se a predileção que lhes dedica o artista. Os calendários dos livros de horas de Hennessy e de Grimani imitaram com precisão a aldeia coberta de neve das Très Riches Heures do Duque de Berry, na cena do mês de janeiro que descrevemos acima, em que o camponês corre para casa a fim de se unir às mulheres que se aquecem. Contudo, eles acrescentaram uma outra personagem: a criança. E a criança aparece na pose do Manneken-Pis, que se tornara frequente na iconografia da época - a criança urina pela abertura da porta. Esse tema do Manneken-Pis é encontrado em toda a parte: lembremos o sermão de São João Batista do museu dos Augustins de Toulouse (que outrora ornava a capela do Parlamento dessa cidade), ou um certo putto de Ticiano[5].

Nesses livros de horas de Hennessy e Grimani, as crianças patinam no gelo, brincam de imitar os torneios dos adultos (alguns reconheceriam entre elas o jovem Carlos V). No livro de horas de Munique, elas se atiram bolas de neve. No Hortulus animae, elas brincam de corte de amor e de torneio, montadas numa barrica, ou patinam no gelo[6].

As representações sucessivas dos meses do ano introduziram portanto essas novas personagens: a mulher, o grupo de vizinhos e companheiros, e finalmente a criança. E a criança se ligava a essa necessidade outrora desconhecida de intimidade, de vida familiar, quando não ainda precisamente, de vida “em família”.

Ao longo do século XVI, essa iconografia dos meses sofreria uma última transformação muito significativa para nosso estudo: ela se tornaria uma iconografia da família. Ela se tornaria familiar ao se combinar com o simbolismo de uma outra alegoria tradicional: as idades da vida. Havia várias maneiras de representar as idades da vida, mas duas delas eram mais comuns: a primeira, mais popular, sobreviveu na gravura, e representava as idades nos degraus de uma pirâmide que subia do nascimento à maturidade, e daí descia até a velhice e a morte. Os grandes pintores recusavam-se a adotar essa composição demasiado ingênua. De modo qual, adotavam a representação das três idades da vida sob a forma de uma criança, alguns adolescentes - em geral um casal - e um velho. No quadro de Ticiano, por exemplo, aparecem dois putti dormindo, um casal formado por uma camponesa vestida tocando flauta e um homem nu no primeiro plano, e, ao fundo, um velho sentado e recurvado segurando uma caveira. O mesmo tema é encontrado em Van Dyck, no século XVII. Nessas composições, as três ou quatro idades da vida são representadas separadamente, segundo a tradição iconográfica. Ninguém teve a ideia de reuni-las dentro de uma mesma família, cujas gerações diferentes simbolizariam as três ou quatro idades da vida. Os artistas, e a opinião que eles traduziam, permaneciam fiéis a uma concepção mais individualista das idades: o mesmo indivíduo era representado nos diversos momentos de seu destino.

Entretanto, ao longo do século XVI, surgira uma nova ideia, que simbolizava a duração da vida através da hierarquia da família. Já tivemos a ocasião de citar Le Grand Propriétaire de toutes choses, esse velho texto medieval traduzido para o francês e editado em 1556. Como observamos, esse livro era um espelho do mundo. O sexto livro trata das “Idades”. É ilustrado com uma xilogravura que não representa nem os degraus das idades, nem as três ou quatro idades separadas, mas simplesmente uma reunião de família. O pai está sentado com uma criancinha sobre os joelhos. Sua mulher está de pé à sua direita. Um dos filhos está à sua esquerda, e o outro dobra o joelho para receber algo que o pai lhe dá. Trata-se ao mesmo tempo de um retrato de família, como os que abundavam nessa época nos Países Baixos, na Itália, na Inglaterra, na França e na Alemanha, e de uma cena de gênero familiar, como as que os pintores e gravado res multiplicariam no século XVII. Esse tema conheceria a mais extraordinária popularidade. Não era um tema totalmente desconhecido da Idade Média, ao menos do final. Foi desenvolvido de forma notável em um capitel das loggias do palácio Ducal de Veneza, dito capitel do casamento. Venturi data essa representação de cerca de 1424[7], enquanto Toesca a coloca no fim do século XIV, o que parece mais provável devido ao estilo e ao traje, mas mais surpreendente em virtude da precocidade do tema[8]. As oito faces desse capitel contam-nos uma história dramática que ilustra a fragilidade da vida, um tema familiar nos séculos XIV e XV - porém aqui, esse drama se passa no seio de uma família, e isso é novo. A representação começa pelo noivado. A seguir, a jovem mulher aparece vestida com um traje de cerimônia sobre o qual foram costurados pequenos discos de metal: seriam simples enfeites ou seriam moedas, já que as moedas desempenhavam um papel no folclore do casamento e do batismo? A terceira face representa a cerimônia do casamento, no momento em que um dos cônjuges segura uma coroa sobre a cabeça do outro: rito que subsistiu na liturgia oriental. Então, os noivos têm o direito de se beijar. Na quinta face, eles estão deitados nus no leito nupcial. Nasce uma criança, que aparece enrolada em cueiros e segura pelo pai e a mãe juntos. Suas roupas parecem mais simples do que na época do noivado e do casamento: eles se tornaram pessoas sérias, que se vestem com uma certa austeridade ou segundo a moda antiga. A sétima face reúne toda a família, que posa para um retrato. O pai e a mãe seguram a criança pelo ombro e pela mão. Já é o retrato familiar, tal como o encontramos no Le Grand Propriétaire. Mas, com a oitava face, o drama explode: a família sofre uma prova, pois a criança está morta, estendida sobre a cama, com as mãos postas. A mãe enxuga as lágrimas com uma das mãos e põe a outra no braço da criança; o pai reza. Outros capitéis, vizinhos deste, são ornados com putti nus que brincam com frutas, aves ou bolas: temas mais banais, mas que permitem recolocar o capitel do casamento em seu contexto iconográfico.

A história do casamento começa como a história de uma família, mas acaba com o tema diferente da morte prematura.

No museu Saint-Raimond, em Toulouse, podemos ver os fragmentos de um calendário que pôde ser datado do início da segunda metade do século XVI graças aos trajes. Na cena do mês de julho, a família está reunida em um retrato, como na gravura contemporânea do Le Grand Propriétaire, mas com um detalhe adicional que tem sua importância: a presença dos criados ao lado dos pais. O pai e a mãe estão no meio. O pai dá a mão ao filho, e mãe à filha. O criado está do lado dos homens, e a criada do lado das mulheres, pois os dois sexos são separados como nos retratos de doadores: os homens, pais e filhos, de um lado, e as mulheres, mães e filhas, do outro. Os criados fazem parte da família.

Agosto é o mês da colheita, mas o pintor se empenha em representar, mais do que a própria colheita, a entrega da colheita ao senhor, que tem na mão moedas para dar aos camponeses. Essa cena prende-se a uma iconografia muito frequente no século XVI, particularmente nas tapeçarias em que os fidalgos do campo supervisionam seus camponeses ou se divertem com eles.

Outubro: a refeição em família. Os pais e as crianças estão sentados à mesa. A criança menor está encarapitada em uma cadeira alta, que lhe permite alcançar o nível da mesa - uma cadeira feita especialmente para as crianças de sua idade, do tipo que vemos ainda hoje. Um menino com um guardanapo serve à mesa: talvez um criado, talvez um parente, encarregado naquele dia de servir à mesa, função que nada tinha de humilhante, muito ao contrário.

Novembro: o pai está velho e doente, tão doente que foi preciso recorrer ao médico. Este, com um gesto banal pertencente a uma iconografia tradicional, inspeciona o urinol.

Dezembro: toda a família está reunida no quarto, em torno do leito onde o pai agoniza. Ele recebe a comunhão. Sua mulher está de joelhos ao pé da cama. Atrás dela, uma moça ajoelhada chora. Um rapaz segura uma vela. Ao fundo, percebe-se uma criança pequena: sem dúvida o neto, a próxima geração que continuaria a família.

Portanto, esse calendário assimila a sucessão dos meses do ano à das idades da vida, mas representa as idades da vida sob a forma da história de uma família: a juventude de seus fundadores, sua maturidade em torno dos filhos, a velhice, a doença e a morte, que é ao mesmo tempo a boa morte, a morte do homem justo, tema igualmente tradicional, e também a morte do patriarca no seio da família reunida.

A história desse calendário começa como a da família do capitel do casamento do palácio dos Doges. Mas não é o filho, a criança querida, que a morte rouba cedo demais. As coisas seguem um curso mais natural. É o pai que parte, ao final de uma vida plena, cercado por uma família unida, e deixando-lhe sem dúvida um patrimônio bem administrado. A diferença está toda aí. Não se trata mais de uma morte súbita, e sim da ilustração de um sentimento novo: o sentimento da família.

O aparecimento do tema da família na iconografia dos meses não foi um simples episódio. Uma evolução maciça arrastaria nessa mesma direção toda a iconografia dos séculos XVI e XVII.

No princípio, as cenas representadas pelos artistas se passavam ou em um espaço indeterminado, ou em lugares públicos como as igrejas, ou ao ar livre. Na arte gótica, livre do simbolismo romano-bizantino, as cenas de ar livre tornaram-se mais numerosas e mais significativas graças à invenção da perspectiva e ao gosto pela paisagem: a dama recebe seu cavaleiro em um jardim fechado; a caçada conduz grupos através dos campos e florestas; o banho reúne as damas em torno da fonte de um jardim; os exércitos manobram, os cavaleiros se enfrentam em torneios, o exército acampa em torno da tenda onde o Rei descansa, os exércitos sitiam cidades; os príncipes entram e saem das cidades fortificadas, sob a aclamação do povo e dos burgueses.

Penetramos nas cidades por pontes, passando diante das tendas onde trabalham os ourives. Vemos passar os vendedores de biscoitos, e as barcas carregadas descendo o rio. Ao ar livre ainda, vemos todos os jogos serem praticados. Acompanhamos os jograis e os peregrinos em seu caminho. A iconografia profana medieval é uma iconografia do ar livre. Quando, nos séculos XIII ou XIV, os artistas se propõem a ilustrar anedotas ou episódios particulares, eles hesitam, e sua ingenuidade surpresa produz um resultado canhestro: nenhum deles se compara ao virtuosismo dos artistas que representam episódios nos séculos XV e XVI.

Antes do século XV, portanto, as cenas de interior são muito raras. A partir de então, elas se tornam cada vez mais frequentes. O evangelista, antes situado em um meio atemporal, torna-se um escriba em sua escrivaninha, com a pena e a raspadeira na mão. Primeiro ele é colocado na frente de um simples drapeado decorativo, mas finalmente aparece em um quarto cheio de livros em prateleiras: do evangelista, passou-se ao autor em seu quarto, a Froissart escrevendo uma dedicatória em seu livro[9]. Nas ilustrações do texto de Terêncio do palácio dos Doges, as mulheres trabalham e fiam em seus aposentos, com suas criadas, ou aparecem deitadas na cama, nem sempre sozinhas. Vêem-se cozinhas e salas de albergues. As cenas galantes e as conversações se passam agora no espaço fechado de uma sala.

Surge o tema do parto, cujo pretexto é o nascimento da Virgem. Criadas, comadres e parteiras se atarefam no quarto em torno da cama da mãe. Surge também o tema da morte, da morte no quarto, em que o agonizante luta em seu leito por sua salvação.

A representação mais frequente do quarto e da sala corresponde a uma tendência nova do sentimento, que se volta então para a intimidade da vida privada. As cenas de exterior não desaparecem, é certo - são a origem das paisagens, mas as cenas de interior tornam-se mais numerosas e mais originais. Iriam caracterizar a pintura de gênero durante todo o tempo de sua existência. A vida privada, rechaçada na Idade Média, invade a iconografia, particularmente a pintura e a gravura ocidentais no século XVI e sobretudo no XVII: a pintura holandesa e flamenga e a gravura francesa comprovam a extraordinária força desse sentimento, antes inconsistente ou menosprezado. Sentimento já tão moderno, que para nós é difícil compreender o quanto era novo.

Essa farta ilustração da vida privada poderia ser classificada em dois grupos: o do namoro e da farra à margem da vida social, no mundo suspeito dos mendigos, nas tabernas, nos bivaques, entre os boêmios e os vagabundos - grupo que desprezaremos por estar fora de nosso assunto - e sua outra face, o grupo da vida em família. Se percorrermos as coleções de estampas ou as galerias de pintura dos séculos XVI-XVII, ficaremos impressionados com essa verdadeira avalancha de imagens de famílias. Esse movimento culmina na pintura da primeira metade do século XVII na França, e na pintura de todo o século e até mais na Holanda. Ele persiste na França durante a segunda metade do século XVII na gravura e nos leques pintados, reaparece no século XVIII na pintura, e dura até o século XIX, até a grande revolução estética que baniria da arte a cena de gênero.

Nos séculos XVI e XVII, os retratos de grupos são numerosíssimos. Alguns são retratos de confrarias ou corporações. Mas a maioria representa uma família reunida. Estes últimos surgem no século XV, com os doadores que se fazem representar modestamente no nível inferior de alguma cena religiosa, como sinal de sua devoção. De início, esses doadores são discretos e estão sozinhos. Mas logo começam a trazer a seu lado toda a família, incluindo os vivos e os mortos: as mulheres e os filhos mortos também têm seu lugar na pintura. De um lado aparece o homem e os meninos, do outro a ou as mulheres, cada uma com as filhas de seu leito.

O nível ocupado pelos doadores amplia-se ao mesmo tempo em que se povoa, em detrimento da cena religiosa, que se torna então uma ilustração, quase um hors-d'oeuvre. Na maioria dos casos ela se reduz aos santos padroeiros do pai e da mãe, o santo do lado dos homens e a santa do lado das mulheres. Convém observar a importância assumida pela devoção dos santos padroeiros, que figuram como protetores da família: ela é o sinal de um culto particular de caráter familiar, como o do anjo da guarda, embora este último tenha um caráter mais pessoal e mais peculiar à infância.

Essa etapa do retrato dos doadores com sua família pode ser ilustrada com numerosos exemplos do século XVI: os vitrais da família Montmorency em Monfort-L’Amaury, Montmorency e Ecouen; ou os numerosos quadros pendurados como ex-votos nos pilares e nas paredes das igrejas alemãs, muitos dos quais ainda permanecem em seu lugar nas igrejas de Nurembergue. Muitas outras pinturas, às vezes ingênuas e mal feitas, chegaram aos museus regionais da Alemanha e da Suíça alemã. Os retratos de família de Holbein são fiéis a esse estilo[10]. Tudo indica que os alemães se tenham apegado por mais tempo a essa forma de retrato religioso da família, destinado às igrejas; ele seria uma forma mais barata do vitral dos doadores, mais antigo, e anunciaria os ex-votos mais anedóticos e pitorescos do século XVIII e início do XIX, que representam não mais a reunião familiar dos vivos e dos mortos, mas o acontecimento miraculoso que salvou um indivíduo ou um membro da família de um naufrágio, um acidente ou uma doença. O retrato de família é também uma espécie de ex-voto.

A escultura funerária inglesa da época elisabetana fornece um outro exemplo do retrato de família a serviço de uma forma de devoção. Esse exemplo, aliás, é específico, e não é encontrado com a mesma frequência e a mesma facilidade na França, na Alemanha ou na Itália. Muitos túmulos ingleses dos séculos XVI e XVII mostram toda a família reunida em torno do defunto, em baixo ou em alto-relevo: a insistência na enumeração das crianças, vivas ou mortas, é impressionante, e vários desses túmulos ainda são encontrados na abadia de Westminster: Sir Richard Pecksall, por exemplo, morto em 1571, aparece entre suas duas mulheres, e na base do monumento há pequenas figuras esculpidas: suas quatro filhas. De cada lado da estátua deitada de Margaret Stuart, morta em 1578, vêem-se seus filhos e filhas. Sobre túmulo de Winifred, Marquesa de Winchester, morta em 1586, também esculpida em posição deitada, aparece seu marido ajoelhado, representado em uma escala reduzida, e, ao lado, um minúsculo túmulo de criança.

Sir John e Lady Puckering, morta em 1596, estão esculpidos deitados lado a lado, no meio de suas oito filhas. O casal Norris (1601) aparece ajoelhado no meio de seus seis filhos.

Em Holdham, contam-se 21 figurinhas sobre o túmulo de John Coke (1639), alinhadas como nos retratos de doadores, e as que estão mortas seguram uma cruz. Sobre o túmulo de Cope d’Ayley em Hambledone (1633), os quatro meninos e as três meninas estão diante de seus pais ajoelhados; entre eles, um menino e uma menina seguram uma caveira.

Em Westminster, a Duquesa de Buckingham mandou erigir em 1634 o túmulo de seu marido, assassinado em 1628; os cônjuges estão esculpidos em posição deitada, no meio de suas crianças[11].
Essas representações alemães e inglesas prolongam aspectos ainda medievais do retrato de família. A partir do século XVI, o retrato de família se liberou de sua função religiosa. Foi como se o rés-do-chão dos quadros de doadores tivesse invadido toda a tela, expulsando dela a imagem religiosa, que, ou desapareceu completamente, ou persistiu sob a forma de uma pequena imagem devota pendurada na parede de fundo do quadro. A tradição do ex-voto ainda está presente em um quadro de Ticiano pintado em torno de 1560[12]: os membros de sexo masculino da família Cornaro - um velho, um homem maduro de barba grisalha, um homem jovem de barba negra (a barba, sua forma e sua cor são indícios da idade) e seis meninos, o menor dos quais brinca com um cão - estão agrupados em torno de um altar. Em certos casos, também, o retrato de família adota a forma material, a apresentação do quadro de igreja: existe no Victoria and Al bert Museum um tríptico de 1628 que representa no painel central um menininho e uma menininha, e nos painéis laterais, os dois pais[13]. Esses quadros não se destinavam mais às igrejas, decoravam agora os interiores particulares. E essa laicização do retrato de família é certamente um fenômeno importante: a família se contempla ela própria na casa de um de seus parentes. Sente-se a necessidade de fixar o estado dessa família, lembrando-se também às vezes os desaparecidos através de uma imagem ou uma inscrição na parede.

Esses retratos de família são muito numerosos, e seria inútil apontá-los todos. A lista seria longa e monótona. Eles são encontrados tanto em Flandres como na Itália, com Ticiano, Pordenone e Veronese, na França, com Le Nain, Lebrun e Tournier, na Inglaterra ou na Holanda, com Van Dyck, nos séculos XVI, XVII, e até mesmo início do século XVIII. Nessa época eles deviam ser tão numerosos como os retratos individuais. Muitas vezes foi dito que o retrato revela o progresso do individualismo. Talvez. Mas é notável que ele traduza acima de tudo o imenso progresso do sentimento da família.

No início, os membros da família são agrupados de forma seca, como nos quadros dos doadores ou na gravura das idades da vida de Le Grand Proprietáire, ou na miniatura do museu Saint-Raimond. Mesmo quando têm mais vida, “posam” em uma atitude solene e destinada a salientar o laço que os une. Em uma tela de Pourbus[14], o marido apoia a mão esquerda no ombro da mulher; a seus pés, uma das crianças repete o mesmo gesto, apoiando a mão no ombro da irmãzinha. Sébastien Leers foi pintado por Van Dyck segurando a mão de sua mulher em uma tela de Ticiano 1920, três homens barbudos cercam uma criança, única nota clara no meio dos trajes negros, e um deles aponta-a com o dedo: a criança está no centro da composição. Contudo, muitos desses retratos não procuram animar suas personagens: os membros da família são justapostos, às vezes ligados por gestos que exprimem seu sentimento recíproco, mas não participam de uma ação comum. É o que ocorre com a família Pordenone da galeria Borghese - o pai, a mãe e sete crianças - ou ainda da família Pembroke de Van Dyck[15]: o Conde e a Condessa estão sentados, e as outras personagens, de pé; à direita um casal, certamente um filho ou filha casados, e à esquerda, dois adolescentes muito elegantes (a elegância é um símbolo da adolescência masculina, e se atenua com a seriedade da maturidade), um escolar com seu livro embaixo do braço, e dois outros meninos mais moços.

Por volta de meados do século XVI, os artistas começaram a representar a família em torno de uma mesa coberta de frutas: a família Van Berchaun de Floris, de 1561, ou a família Anselme de Martin de Vos, de 1577[16]. Ou então, vemos a família que parou de comer para fazer música: não se trata, como sabemos, de um artificio do pintor, pois as refeições muitas vezes terminavam por um concerto ou eram interrompidas por uma canção. A família que posa para o artista, com um grau maior ou menor de afetação, permaneceria na arte francesa até pelo menos o início do século XVIII, com Tournier e Largillière. Mas, sob a influência particular dos holandeses, o retrato de família muitas vezes seria tratado como uma cena de gênero: o concerto após a refeição é um dos temas que os holandeses multiplicariam. Daí em diante, a família seria retratada em um instantâneo, em uma cena viva, em um certo momento de sua vida quotidiana: os homens reunidos em torno da lareira, uma mulher tirando um caldeirão do fogo, uma menina dando de comer ao irmãozinho. Daí em diante, torna-se difícil distinguir um retrato de família de uma cena de gênero que evoca a vida em família.

Durante a primeira metade do século XVII, as velhas alegorias medievais também são atingidas por essa contaminação geral, e são tratadas como ilustrações da vida familiar, sem respeito pela tradição iconográfica. Já vimos o que aconteceu no caso dos calendários. As outras alegorias clássicas se alteraram no mesmo sentido. No século XVII, as idades da vida tornaram-se pretextos para as imagens da vida familiar. Em uma gravura de Abraham Bosse representando as quatro idades do homem, a infância é sugerida pelo que hoje chamaríamos de nursery, um bebê no berço vigiado por uma irmã atenta, uma criança de túnica mantida de pé em uma espécie de cercado com rodas (objeto muito comum entre os séculos XV e XVIII), uma menina com sua boneca, um menino com um catavento, e dois meninos maiores preparando-se para brigar, tendo um deles jogado no chão seu chapéu e sua capa. A virilidade é ilustrada pela refeição que reúne toda a família em torno da mesa, em uma cena análoga à de vários retratos, e que seria muitas vezes repetida tanto na gravura francesa como na pintura holandesa. É o mesmo espírito da gravura das idades de Le Grand Propriétaire, do meio do século XVI, e da miniatura do museu Saint-Raimond, Toulouse. A idade viril é sempre a família. Humbelot não reuniu a família em torno da mesa, mas no gabinete do pai, um rico negociante em cuja casa se amontoam fardos de mercadorias e se alinham pastas de processos. O pai faz suas contas, com a pena na mão, ajudado pelo filho que se mantém atrás; a seu lado, a mulher cuida da filha pequena; um jovem criado entra com uma cesta cheia de provisões, sem dúvida voltando da casa de campo. No fim do século XVII, uma gravura de F. Guérard retoma o mesmo tema. O pai - mais moço do que na gravura de Humbelot-Huart - mostra pela janela o porto, o cais e os navios, fonte de sua fortuna. Dentro do aposento, perto da mesa onde ele faz suas contas e onde estão pousadas sua bolsa, algumas fichas e um á- baco, sua mulher nina um bebê de cueiros e cuida de outra criança vestida com uma túnica.

Esse sentimento nada tem de surpreendente para nós, homens do século XX, mas era novo na época, e sua expressão deveria nos espantar. Humbelot ilustraria o mesmo tema, desenhando uma mulher jovem que mostra o seio a uma criança trepada em suas costas. Não devemos esquecer que no século XVII as crianças desmamavam muito tarde. Há ainda uma outra gravura de Guérard que representa a dona-de-casa com suas chaves e suas crianças, dando ordens a uma criada[17].

As outras alegorias também evoluem para as mesmas cenas de família. Em um holandês do início do século XVII, o olfato, um dos cinco sentidos, é representado pela cena que se tornaria banal da toalete da criança nua no momento em que sua mãe lhe limpa o traseiro[18].

Abraham Bosse simboliza também um dos quatro elementos, a terra, através de uma imagem da vida familiar: em um jardim, uma ama segura uma criança vestida com uma túnica; seus pais, que, da entrada da casa, a contemplam com ternura, divertem-se em lançar-lhe frutas - os frutos da terra. Até mesmo as Beatitudes dão pretexto a evocações da vida em família: em Bonnard-Sandrart[19], a Beatitude torna-se o perdão da mãe às suas crianças, perdão que ela confirma distribuindo-lhes guloseimas - é já o espírito familiar sentimental do século XIX.

De modo geral, a cena de gênero moderna nasceu da ilustração das alegorias tradicionais da Idade Média. Mas a distância entre o tema antigo e sua nova expressão é enorme. Esquecemo-nos da alegoria das estações e do inverno quando contemplamos um quadro de Stella, representando uma noite ao pé do fogo: de um lado da grande sala, os homens ceiam, enquanto do outro, em volta da lareira, as mulheres fiam ou trançam o junco e as crianças brincam ou são lavadas. Não é mais o inverno, é o verão. Não é mais a virilidade ou a terceira idade, é a reunião de família. Nasce uma iconografia original, estranha aos velhos temas desgastados que no princípio ela havia ilustrado. O sentimento da família constitui sua inspiração essencial, uma inspiração muito diferente da das antigas alegorias. Seria fácil elaborarmos um catálogo de temas repetidos ad nauseam: a mãe vigiando a criança no berço[20], a mãe amamentando a criança[21], a mulher fazendo a toalete da criança, a mãe catando piolho na cabeça da criança (operação corriqueira e que aliás não se limitava às crianças, pois Samuels Pepys se submetia a ela), o irmão ou a irmã tentando ver o bebê no berço na ponta dos pés, a criança na cozinha ou no celeiro com um criado ou uma criada, a criança fazendo compras em um armazém. Este último tema, frequente na pintura holandesa, também foi tratado pelos gravadores franceses - em meados do século por Abraham Bosse (o padeiro), e no final do século por Le Camus (o taberneiro, que vendia vinhos) - mas é o espírito dessas ima   gens que é preciso compreender. Uma tela de Le Nain representa um camponês cansado que ferrou no sono. Sua mulher faz psiu! para as crianças, mostrando-lhes o pai que descansa, e que não deve ser acordado: é já um Greuze, não pela pintura ou o estilo, é claro, mas pela inspiração sentimental. A ação é centrada na criança. Em uma tela de Peter de Hooch, as pessoas estão reunidas para almoçar. O pai bebe sentado; uma criança de cerca de dois anos está de pé em cima de uma cadeira; ela usa o chapéu redondo e acolchoado comum na sua idade, em que o andar ainda não é firme, para protegê-la em seus tombos. Uma mulher (a criada?) a segura com uma das mãos e, com a outra, estende um copo de vinho a uma outra mulher (a mãe?), que mergulha nele um biscoito. Ela vai dar o biscoito molhado ao papagaio para distrair a criança, e a distração da criança no seio da família cuja unidade ela assegura é o verdadeiro tema do pintor, o sentido de sua anedota. O sentimento da família, que emerge assim nos séculos XVI-XVII, é inseparável do sentimento da infância. O interesse pela infância não é senão uma forma, uma expressão particular desse sentimento mais geral, o sentimento da família.

A análise iconográfica leva-nos a concluir que o sentimento da família era desconhecido da Idade Média e nasceu nos séculos XV-XVI, para se exprimir com um vigor definitivo no século XVII. Somos tentados a comparar essa hipótese com as observações dos historiadores da sociedade medieval.

A ideia essencial dos historiadores do direito e da sociedade é que os laços de sangue não constituíam um único grupo, e sim dois, distintos embora concêntricos: a família ou mesnie, que pode ser comparada à nossa família conjugal moderna, e a linhagem, que estendia sua solidariedade a todos os descendentes de um mesmo ancestral. Em sua opinião, haveria, mais do que uma distinção, uma oposição entre a família e a linhagem: os progressos de uma provocariam um enfraquecimento da outra, ao menos entre a nobreza. A família ou mesnie, embora não se estendesse a toda a linhagem, compreendia, entre os membros que residiam juntos, vários elementos, e, às vezes, vários casais, que viviam em uma propriedade que eles se haviam recusado a dividir, segundo um tipo de posse chamado frereche ou fratemitas. frereche agrupava em torno dos pais os filhos que não tinham bens próprios, os sobrinhos ou os primos solteiros. Essa tendência à indivisão da família, que aliás não durava além de duas gerações, deu origem às teorias tradicionalistas do século XIX sobre a grande família patriarcal.

A família conjugal moderna seria portanto a consequência de uma evolução que, no final da Idade Média, teria enfraquecido a linhagem e as tendências à indivisão.

Na realidade, a história das relações entre a linhagem e a família é mais complicada. Ela foi acompanhada por G. Duby na região do Mâconnais, do século IX ao XIII inclusive[22].

No Estado franco, escreve G. Duby, “a família do século X, ao que tudo indica, era uma comunidade reduzida à sua expressão mais simples, a célula conjugal, cuja coesão em certos casos se prolongava por algum tempo após a morte dos pais nas frereches. Mas os laços eram muito frouxos. É que eles eram inúteis: os órgãos de paz do velho Estado franco ainda eram bastante vigorosos para permitir ao homem livre viver uma vida independente e preferir, se assim o desejasse, a companhia de seus vizinhos e amigos à de seus parentes”. A solidariedade da linhagem e a indivisão do patrimônio se desenvolveram, ao contrário, em consequência da dissolução do Estado: “Depois do ano mil, a nova distribuição dos poderes de comando obrigou os homens a se agruparem mais estreitamente” . O estreitamento dos laços de sangue que então se produziu correspondia a uma necessidade de proteção, do mesmo modo como outras formas de relações humanas e de dependências: a homenagem de vassalo, a suzerania e a comunidade aldeã. “Demasiado independentes e mal defendidos contra certos perigos, os cavaleiros procuraram refúgio na solidariedade de linhagem.

Ao mesmo tempo, nesses séculos XI e XII do Mâconnais, podemos constatar o progresso da indivisão. É dessa época que data a indivisão dos bens dos dois cônjuges, que, no século X, ainda não estavam fundidos em uma massa comum, administrada pelo marido: nesse século, o marido e a mulher geriam cada um seus bens hereditários, compravam e vendiam separadamente, sem que o cônjuge pudesse interferir.

A indivisão quase sempre também foi estendida aos filhos, que eram impedidos de obter qualquer adiantamento sobre sua herança: “Agregação prolongada na casa paterna e sob a autoridade do ancestral, dos descendentes desprovidos de pecúlio pessoal e independência econômica”. A indivisão muitas vezes subsistia após a morte dos pais: “É preciso imaginar o que era então a casa de um cavaleiro, reunindo em um mesmo domínio, em uma mesma “corte”, 10, 20 senhores, dois ou três casais com filhos, os irmãos e as irmãs solteiras e o tio cônego, que aparecia de tempos em tempos e preparava a carreira de um ou outro sobrinho”. A frereche raramente durava além da segunda geração, mas, mesmo após a divisio do patrimônio, a linhagem conservava um direito coletivo sobre o conjunto do patrimônio dividido: a laudatio parentum, a recuperação da herança da linhagem.

Essa descrição aplica-se sobretudo à família dos cavaleiros, que já poderíamos chamar de família nobre. G. Duby acredita que a família camponesa tenha vivido menos intensamente esse estreitamento dos laços de sangue porque os camponeses haviam preenchido de maneira diferente dos nobres o vazio deixado peia dissolução do Estado franco: a tutela do senhor havia substituído imediatamente a proteção dos poderes públicos, e a comunidade aldeã havia fornecido aos camponeses um quadro de organização e de defesa superior à família. A comunidade aldeã teria sido para os camponeses o que a linhagem foi para os nobres.
Durante o século XIII, a situação mais uma vez se inverteu. As novas formas de economia monetária, a extensão da fortuna mobiliária, a frequência das transações, e, ao mesmo tempo, os progressos da autoridade do Príncipe (quer fosse um Rei capetíngio ou o chefe de um grande principado) e da segurança pública provocaram um estreitamento das solidariedades de linhagem e o abandono das indivisões patrimoniais. A família conjugal tornou-se novamente independente. Contudo, a classe nobre não voltou à família de laços frouxos do século X. O pai manteve e até mesmo aumentou a autoridade que, nos séculos XI e XII, lhe havia sido conferida pela necessidade de manter a integridade do patrimônio indiviso. Sabemos, por outro lado, que, a partir do fim da Idade Média, a capacidade da mulher entrou em declínio. Foi também no século XIII, na região do Mâconnais, que o direito da primogenitura se difundiu nas famílias nobres. Ele substituiu a indivisão, que se tornou mais rara, como meio de salvaguardar o patrimônio e sua integridade. A substituição da indivisão e da comunhão de bens do casal pelo direito de primogenitura parece ser ao mesmo tempo um sinal da importância atribuída à autoridade paterna e do lugar assumido na vida quotidiana pelo grupo do pai e seus filhos.

Georges Duby conclui: “ Na realidade, a família é o primeiro refúgio em que o indivíduo ameaçado se protege durante os períodos de enfraquecimento do Estado. Mas assim que as instituições políticas lhe oferecem garantias suficientes, ele se esquiva da opressão da família e os laços de sangue se afrouxam. A história da linhagem é uma sucessão de contrações e distensões, cujo ritmo sofre as modificações da ordem política”.

A oposição entre a família e a linhagem é menos marcada em G. Duby do que em outros historiadores do direito. Trata-se menos de uma substituição progressiva da linhagem pela família - o que, de fato, pareceria ser uma visão puramente teórica - do que da dilatação ou da contração dos laços de sangue, ora estendidos a toda a linhagem ou aos membros da frereche, ora restringidos ao casal e sua prole. Tem-se a impressão de que apenas a linhagem era capaz de exaltar as forças do sentimento e da imaginação. Por esse motivo, ela deixou tantas marcas nos romances de cavalaria. A comunidade familiar reduzida, ao contrário, levava uma vida obscura que escapou à atenção dos historiadores. Mas essa obscuridade tem um sentido. No mundo dos sentimentos e dos valores a família não contava tanto como a linhagem. Poder-se-ia dizer que o sentimento da linhagem era o único sentimento de caráter familiar conhecido na Idade Média. Mas ele é muito diferente do sentimento da família, tal como o vimos na iconografia dos séculos XVI e XVII. Estende-se aos laços de sangue, sem levar em conta os valores nascidos da coabitação e da intimidade. A linhagem nunca se reúne num espaço comum, em torno de um mesmo pátio. Não tem nada de comparável à Zadrouga serva. Os historiadores do direito reconhecem que não há vestígios de grandes comunidades “silenciosas” na França antes do século XV. Ao contrário, o sentimento da família está ligado à casa, ao governo da casa e à vida na casa. Seu encanto não foi conhecido durante a Idade Média porque esse período possuía uma concepção particular da família: a linhagem.

A partir do século XIV, porém, assistimos ao desenvolvimento da família moderna. Esse processo, bastante conhecido, foi claramente resumido por M. Pelot: “A partir do século XIV, assistimos a uma degradação progressiva e lenta da situação da mulher no lar. Ela perde o direito de substituir o marido ausente ou louco... Finalmente, no século XVI, a mulher casada torna-se uma incapaz, e todos os atos que faz sem ser autorizada pelo marido ou pela justiça tornam-se radicalmente nulos. Essa evolução reforça os poderes do marido, que acaba por estabelecer uma espécie de monarquia doméstica”. “A partir do século XVI, a legislação real se empenhou em reforçar o poder paterno no que concerne ao casamento dos filhos.”

“Enquanto se enfraqueciam os laços da linhagem, a autoridade do marido dentro de casa tornava-se maior e a mulher e os filhos se submetiam a ela mais estritamente. Esse movimento duplo, na medida em que foi o produto inconsciente e espontâneo do costume, manifesta sem dúvida uma mudança nos hábitos e nas condições sociais...” Passara-se portanto a atribuir à família o valor que outrora se atribuía à linhagem. Ela torna-se a célula social, a base dos Estados, o fundamento do poder monárquico. Veremos agora a importância que lhe era atribuída pela religião.

A exaltação medieval da linhagem, de sua honra, da solidariedade entre seus membros, era um sentimento especificamente leigo, que a Igreja ignorava, quando não via com desconfiança. O naturalismo ancestral dos laços de sangue pode muito bem ter-lhe parecido repugnante. Na França, onde a Igreja aceitou a hereditariedade dos reis, é significativo que ela não a tenha mencionado na liturgia da coroação.

Além disso, a Idade Média não conhecia o princípio moderno de santificação da vida leiga, ou melhor, só o admitia em casos excepcionais: o santo rei (mas o rei fora consagrado), ou o bom cavaleiro (mas o cavaleiro havia sido iniciado após uma cerimônia que se tornara religiosa). O sacramento do casamento poderia ter tido a função de enobrecer a união conjugal, de lhe dar um valor espiritual, bem como à família. Mas, na realidade, ele apenas legitimava a união. Durante muito tempo, o casamento foi apenas um contrato. A cerimônia, a julgar por suas representações esculpidas, não se realizava no interior da igreja, e sim na entrada, diante do pórtico. Qualquer que fosse o ponto de vista teológico, a maioria dos padres, considerando suas ovelhas, devia partilhar a opinião do cura de Chaucer, para quem o casamento era uma questão de último caso, uma concessão à fraqueza da carne ”, Ele não livrava a sexualidade de sua impureza essencial. Sem dúvida, essa reprovação não chegava à condenação da família e do casamento, à maneira dos cátaros do Sul da França; manifestava, porém, uma desconfiança com relação a todo fruto da carne. Não era na vida leiga que o homem podia se santificar; a união sexual, quando abençoada pelo casamento, deixava de ser um pecado, mas isso era tudo. Por outro lado, o outro grande pecado dos leigos, o pecado da usura, perseguia o homem em suas atividades temporais. O leigo não dispunha de outro meio para assegurar sua salvação além de abandonar completamente o mundo e entrar para a vida religiosa. Na sombra do claustro, ele podia reparar os erros de seu passado profano.  Foi preciso esperar o fim do século XVI, o tempo da Philotée de São Francisco de Sales, ou, no século XVII, o exemplo dos senhores de Port-Royal - e, de modo mais geral, de todos esses leigos empenhados em importantes atividades religiosas, teológicas, espirituais e místicas - para que se admitisse a possibilidade de uma santificação fora da vocação religiosa, na prática dos deveres civis.

Para que uma instituição natural tão ligada à carne como a família se tornasse objeto de uma devoção, essa reabilitação da condição leiga era necessária. Os progressos do sentimento da família e os da promoção religiosa do leigo seguiram caminhos paralelos. Pois o sentimento moderno da família - ao contrário do sentimento medieval da linhagem - penetrou na devoção comum. O sinal mais antigo dessa devoção, ainda muito discreto, aparece no hábito iniciado pelos doadores de quadros ou vitrais de igreja de agrupar em seu redor toda a família, e, mais ainda, no costume posterior de associar a família ao culto do santo padroeiro. No século XVI, era frequente oferecer como ex-votos retratos dos santos padroeiros do marido e da mulher, cercados pelos próprios cônjuges e suas crianças. O culto dos santos padroeiros tornou-se um culto de família.

A influência do sentimento da família também pode ser reconhecida, especialmente no século XVII, na nova maneira de pintar um casamento ou um batismo. No final da Idade Média, os miniaturistas costumavam representar a própria cerimônia religiosa, tal como ela se desenrolava na entrada da igreja: lembremos, por exemplo, o casamento do Rei Cosius e da Rainha Sabinède na vida de Santa Catarina, em que o padre enrola a estola em torno das mãos dos dois noivos: ou o casamento de Filipe de Macedônia pintado pelo mesmo Guillaume Vrelant, na história do bom Rei Alexandre, em que, atrás do padre, no tímpano da porta da igreja, se percebe uma cena esculpida que mostra um marido batendo na mulher. Nos séculos XVI e XVII, não se representava mais a cerimônia do casamento - a não ser no caso de reis e príncipes. Ao contrário, preferia- se evocar os aspectos familiares da festa, quando os parentes, os amigos e os vizinhos se reuniam em torno dos noivos. Em Gérard David já vemos o banquete de núpcias (“As Bodas de Caná" do Louvre). Em outros pintores, vemos o cortejo que acompanha os noivos: em Stella[23], a noiva de braço dado com o pai, seguida por um grupo de crianças, chega à igreja diante da qual a espera o noivo. Em Molinier[24], a cerimônia já acabou e o cortejo deixa a igreja - à esquerda, o noivo entre seus pajens, e à direita, a noiva coroada (mas ainda não vestida de branco: a cor do amor era ainda o vermelho, como nos ornamentos sacerdotais) entre suas damas de honra - ao som de gaitas de fole, enquanto uma menina atira moedas na frente da noiva. Certas coleções de gravuras de “trajes habituais” ou “trajes diversos” do fim do século XVI ou início do século XVII muitas vezes mostram o noivo ou a noiva com seus pajens e damas de honra: nessa época, o traje de casamento torna-se mais específico (sem ser ainda o uniforme branco usado do século XIX até nossos dias), ao menos por certos detalhes. E há uma tendência em apresentar esses detalhes como características dos costumes de uma determinada região.

Finalmente, todas as pequenas cenas maliciosas do folclore entraram na iconografia: por exemplo, o deitar dos noivos ou o levantar da mãe que deu à luz.

Da mesma forma, á cerimônia do batismo, os artistas passaram a preferir as reuniões tradicionais em casa: os convidados bebendo ao voltar da igreja enquanto um menino toca flauta, ou a visita das vizinhas à mãe que acaba de dar à luz. Ou então, vemos costumes folclóricos mais difíceis de identificar, como uma cena de Molenaer em que uma mulher carrega uma criança no meio de brincadeiras grosseiras, enquanto as damas da assistência cobrem a cabeça com o vestido.

Não devemos interpretar esse gosto pelas festas mundanas ou folclóricas, das quais a malícia não estava ausente, assim como tampouco estava ausente da linguagem das pessoas de bem, como um sinal de indiferença religiosa: simplesmente, enfatizava-se o caráter familiar e social da ocasião, mais do que seu caráter sacramental. Nos países do Norte, onde os temas da família eram extremamente difundidos, uma pintura muito significativa de J. Steen[25] mostra-nos a nova interpretação familiar do folclore ou da devoção tradicional. Já tivemos a ocasião de frisar a importância nos costumes do Ancien Regime das grandes festas coletivas, e insistimos na participação das crianças, que se misturavam aos adultos: toda uma sociedade inteiramente diversa se reunia nessas ocasiões, feliz por estar junta. Mas a festa descrita por Steen não é mais exatamente uma dessas festas da juventude, em que as crianças se comportavam um tanto como os escravos no dia das saturnais, em que desempenhavam um papel fixado pela tradição ao lado dos adultos. Aqui, ao contrário, os adultos organizaram a festa para distrair as crianças: é a festa de São Nicolau, o ancestral de nosso Papai Noel. Steen reproduz a cena no momento em que os pais ajudam as crianças a achar os brinquedos que eles haviam escondido para elas nos cantos da casa. Algumas crianças já encontraram os seus. Algumas meninas seguram bonecas. Outras seguram baldes cheios de brinquedos, e há sapatos espalhados pelo chão: os brinquedos já seriam escondidos nos sapatos, esses sapatos que as crianças dos séculos XIX e XX colocariam diante da lareira na véspera de Natal? Não se trata mais de uma grande festa coletiva, e sim de uma festa de família em sua intimidade; e, consequentemente, essa concentração da família é prolongada por uma contração da família em torno das crianças. As festas da família tornam-se as festas da infância. Hoje, o Natal tornou-se a maior, e poderíamos dizer, a única festa do ano, comum tanto aos ateus como aos religiosos. O Natal não tinha essa importância nas sociedades do Ancien Régime, pois enfrentava a concorrência da festa de Reis, que era muito próxima. Mas o extraordinário sucesso do Natal nas sociedades industriais contemporâneas, às quais repugnam cada vez mais as grandes festas coletivas, deve-se a seu caráter familiar, obtido graças à sua associação com a festa de São Nicolau: a pintura de Steen mostra-nos que, na Holanda do século XVII, já se festejava São Nicolau como o “Papai Noel” - ou o “menino Jesus” - na França de hoje, com o mesmo sentimento moderno da infância e da família, da infância dentro da família.

Um novo tema ilustra de maneira ainda mais significativa o componente religioso do sentimento da família: o tema do benedicite. Há muito tempo já a “cortesia" exigia que, na falta de um padre, um menino pequeno abençoasse a mesa no início das refeições. Certos textos manuscritos do século XV, publicados por F. J. Furnival em uma coletânea intitulada The Babees Book, enumeram as regras estritas da conduta à mesa: “As conveniências da mesa”, ou “a maneira de se portar à mesa”[26]. “Criança, diz o benedicite... quando estiveres em um lugar onde haja um prelado da igreja, deixa-o dizer, se ele assim o desejar, o benedicite e as graças. Criança, se o prelado ou o senhor te mandarem com sua autoridade dizer o benedicite, fá-lo com ardor, pois assim deve ser feito.” Sabemos que então a palavra enfant (criança) designava tanto as crianças pequenas como os meninos maiores. Os manuais de civilidade do século XVI, ao contrário, reservam a tarefa de dizer o benedicite não a qualquer uma das crianças, mas à mais nova: o manual pueril e honesto de Mathurin Cordier estabelece essa regra, que é conservada nas edições modificadas posteriores; assim, uma edição de 1761[27] ainda precisa que o dever de abençoar a mesa “ pertence aos eclesiásticos, quando os há, ou, na sua falta, ao mais jovem membro do grupo” . Segundo a Civilité nouvelle de 1671, “após servir à mesa, é uma mostra de civilidade perfeita e verdadeira fazer uma reverência ao grupo e a seguir dizer as graças”. Ou, segundo as Regies de la bienséance et de la civilité chrétienne de Jean-Baptiste de La Salle[28]: “Quando há uma criança, é comum se lhe atribuir essa função” de (abençoar a mesa). Em seus Dialogues Vivès descreve uma grande refeição: “O dono da casa, de acordo com seu direito, indicou os lugares. A prece foi dita por uma criança pequena, de forma breve, curiosa, e rimada.

Portanto, não é mais a um menino do grupo, e sim à menor criança da casa que cabe a honra de dizer o benedicite. Reconhecemos aí um sinal da promoção da infância no sentimento no século XVI, mas o mais importante é o fato de a criança ter sido associada à principal prece da família, durante muito tempo a única prece dita em comum pela família reunida. Nesse ponto, os textos dos tratados de civilidade são menos reveladores do que a iconografia. A partir do fim do século XVI, a cena do benedicite torna-se um dos temas mais frequentes da nova iconografia, que tentamos distinguir. Examinemos por exemplo uma gravura de Merian[29]. Trata-se de um retrato de família à mesa, fiel a uma convenção já antiga: o pai e a mãe estão sentados em cadeiras com seus cinco filhos em volta. Uma criada traz um prato, e a porta da cozinha está aberta. Mas o gravador fixou o momento em que um menininho de túnica, apoiado nos joelhos da mãe, com as mãos postas, recita o benedicite: o resto da família ouve a prece, com a cabeça descoberta e as mãos postas.

Uma outra gravura de Abraham Bosse[30] representa a mesma cena em uma família protestante. Antoine Le Nain reúne uma mulher e seus três filhos na hora da refeição: um dos meninos está de pé e diz as graças. Lebrun tratou esse tema segundo a maneira antiga, como uma Sagrada Família. A mesa está posta; o pai barbudo, com o bastão do viajante na mão, está de pé. A mãe, sentada, olha com ternura para a criança que, de mãos postas, recita a prece. Essa com posição foi amplamente difundida pela gravura como uma imagem devota.

É normal encontrarmos esse tema na pintura holandesa do século XVII. Em uma pintura de Steen, o pai é o único sentado: velho hábito rural, abandonado há muito pela burguesia francesa. A mãe serve o pai e as duas crianças que estão de pé: o menor, de dois ou três anos, está de mãos postas e diz a prece. Em um quadro semelhante de Heemskerck, dois velhos sentados e um homem mais jovem de pé estão em torno de uma mesa, ao lado de uma mulher sentada com as mãos postas: perto dela, uma menina repete a prece, lendo-a nos lábios da mãe. O mesmo tema é encontrado ainda no século XVIII no célebre “Bénédicité” de Chardin.

A insistência da iconografia dá a esse tema um valor singular. A recitação do benedicite pela criança não é mais uma marca de civilidade. Os artistas se dedicaram a representá-la porque em geral se atribuía a essa prece, outrora banal, uma significação nova. O tema iconográfico evocava e associava em uma síntese três forças afetivas: a religiosidade, o sentimento da infância (a criança menor) e o sentimento da família (a reunião em torno da mesa). O benedicite tornou-se o modelo da prece dita em família. Antes, não havia cultos religiosos privados. Os livros de civilidade mencionam a prece da manhã (nos colégios, os internos a diziam em comum após a toalete). Eles já falam menos sobre a prece da noite. Insistem, e isso é significativo, nos deveres das crianças para com seus pais (as regras de cortesia mais antigas, do século XV, não falavam nos deveres dos filhos para com seus pais, e sim para com seus mestres): “As crianças, diz J.-B. de La Salle, não devem ir dormir antes de cumprimentar seu pai e sua mãe”. O manual de Courtin de 1671 termina o dia da criança da seguinte maneira: “ Ela deverá recitar suas lições, dizer boa-noite a seus pais e mestres, fazer suas necessidades, e deitar-se na cama para dormir”.
No entanto, foi nessa época que surgiu, ao lado das orações particulares, uma oração pública da família. O benedicite é um dos atos desse culto, e sua frequência iconográfica prova que ele correspondia a uma forma viva de devoção. Esse culto familiar se desenvolveu muito nos meios protestantes: na França, sobretudo após a revogação do edito de Nantes, ele substituiu o culto público a tal ponto que, após a volta à liberdade, os pastores do fim do século XVIII tiveram dificuldade em trazer de volta ao culto público os fiéis habituados a se contentar com suas orações em família. A célebre caricatura de Hogarth mostra que no século XVIII a oração da noite em comum, que reunia em torno do pai de família os parentes e criados, tornara- se corriqueira e convencional. É provável que as famílias católicas tenham sofrido uma evolução quase paralela, e que também tenham sentido a necessidade de uma devoção nem pública nem individual: de uma devoção familiar.

Descrevemos acima o “Bénédicité” de Lebrun, popularizado pela gravura de Sarrabat: percebemos imediatamente que esse benedicite era também uma Sagrada Família, uma representação da oração e da refeição da Virgem, de São José e do menino Jesus. A cena de Lebrun pertence ao mesmo tempo a duas séries de representações, igualmente frequentes na época, pois ambas exaltavam o mesmo sentimento. Temos de reconhecer, como M. V. L. Tapie, que, “sem dúvida, era o próprio princípio da família que era associado a essa homenagem rendida à família de Cristo[31]”. Todas as famílias eram convidadas a considerar a Sagrada Família como seu modelo. A iconografia tradicional modificou-se, portanto, sob a mesma influência que aumentou a autoridade paterna: São José não desempenhava mais o papel apagado que ainda lhe era atribuído no século XV e início do século XVI. Ele aparece no primeiro plano, como o chefe da família, em um outro retrato da Sagrada Família à mesa pintado por Callot e igualmente popularizado pela gravura. “A Virgem, São José e o menino, comenta E. Mâle, tomam a refeição da noite: um candeeiro colocado sobre a mesa cria um contraste entre a luz viva e a sombra profunda, e dá à cena um aspecto misterioso; São José dá de beber à criancinha, enternecedora de tão bem comportada, com um guardanapo em torno do pescoço” Ou há ainda o tema que E. Mâle chama de “A Sagrada Família em marcha”, em que o menino é colocado entre Maria e José. Imagino que os teólogos da época possam ter visto aí a imagem da Trindade, mas o sentimento comum se comovia com esse tema como se fosse uma exaltação da família.

A autoridade de São José pode ser notada em várias cenas: em uma tela de um pintor napolitano do século XVII, São José carrega o menino Jesus no colo e passa assim para o centro da composição. Esse tema é frequente em Murilo e Guido Reni. Algumas vezes, José aparece reinando em seu ateliê de marceneiro, ajudado pelo menino Jesus.

Chefe de família na mesa, na hora da refeição, e no ateliê, nas horas de trabalho. São José é ainda chefe de família em um outro momento dramático da vida familiar, muitas vezes representado pelos artistas: o momento em que a morte o vem buscar. Tornando-se o padroeiro da boa morte, São José conserva seu sentido: a imagem de sua morte lembra a imagem da morte do pai, tantas vezes representa da nas ilustrações da boa morte - ela pertence à mesma iconografia da nova família.

As outras sagradas famílias inspiram o mesmo sentimento. No século XVI em particular tornou-se comum representar santos contemporâneos de Cristo em criança, reunidos e brincando juntos. Uma tapeçaria alemã representa de uma forma encantadoramente pitoresca as três Marias cercadas de seus filhos, que se agitam, se banham e brincam. Esse grupo é encontrado com frequência, particularmente em uma bela talha do início do século XVII em Notre-Dame la Grande, em Poitiers.

O tema parece evidentemente ligado ao sentimento da infância e da família. Essa ligação é sublinhada com insistência na decoração barroca da capela da Virgem, na igreja franciscana de Lucerne. Essa decoração data de 1723. A abóbada é ornamentada com anjinhos decentemente vestidos, cada um trazendo um dos símbolos da Virgem, enumerados em suas litanias (estrela-do-mar etc.). Nas paredes laterais, os pais e filhos santos se dão as mãos, em tamanho natural: São João Evangelista e Maria Salomé, São Tiago Maior e Zebedeu...

Os temas do Antigo Testamento também são utilizados para ilustrar essa devoção. O pintor veneziano Carlo Loth trata a bênção de José por Jacó como a cena frequente nas Idades da vida do velho cercado por seus filhos esperando a morte. Mas foi sobretudo a família de Adão que foi tratada como uma Sagrada Família. Em uma tela de Veronese, Adão e Eva aparecem no pátio de sua casa no meio de seus animais e de seus filhos, Caim e Abel. Um deles mama na mãe, enquanto o outro, menor, brinca no chão. Adão, escondido atrás de uma árvore a fim de não perturbar esses folguedos, observa a cena. Ele é visto de costas. Sem dúvida, poderíamos com razão encontrar uma intenção teológica nessa família do “primeiro Adão”, que anunciava a vinda de Cristo, o “segundo Adão”. Mas essa intenção erudita esconde-se atrás de uma cena que evoca as alegrias então consagradas da família.

O mesmo tema é encontrado em um teto mais recente do convento de San Martino, em Nápoles, que provavelmente data do início do século XVIII. Adão cava a terra - como José trabalha com a madeira -, Eva fia - como a Virgem costura - e seus dois filhos estão a seu lado.

Portanto, a iconografia nos permite acompanhar a ascensão de um sentimento novo: o sentimento da família. Espero ter sido bem compreendido. O sentimento era novo, mas não a família, embora esta sem dúvida não desempenhasse em suas origens o papel primordial que lhe atribuíram Fustel de Coulanges e seus contemporâneos. M. Jeanmaire descobriu na Grécia sobrevivências ainda fortes de estruturas não familiares, como as classes de idade. Os etnólogos mostraram a importância das classes de idade entre os africanos, e das comunidades clânicas entre os indígenas americanos. Não teríamos, sem o perceber, nos deixado impressionar pela função que a família desempenha em nossas sociedades há alguns séculos, e não nos sentiríamos tentados a exagerá-la indevidamente e até mesmo a atribuir-lhe uma espécie de autoridade histórica quase absoluta? No entanto, não há a menor dúvida de que a família foi constantemente mantida e reforçada por influências ao mesmo tempo semíticas (e não apenas bíblicas, creio eu) e romanas.

Por outro lado, é possível que ela se tenha enfraquecido na época das invasões germânicas. Pouco importa: seria vão contestar a existência de uma vida familiar na Idade Média. Mas a família subsistia no silêncio, não despertava um sentimento suficientemente forte para inspirar poetas ou artistas. Devemos atribuir a esse longo silêncio uma significação importante: não se conferia um valor suficiente à família. Da mesma forma, devemos reconhecer a importância do florescimento iconográfico que a partir do século XV, e sobretudo XVI, sucedeu a esse longo período de obscuridade: o nascimento e o desenvolvimento do sentimento da família. Daí em diante, a família não é apenas vivida discretamente, mas é reconhecida como um valor e exaltada por todas as forças da emoção.

Ora, esse sentimento tão forte se formou em torno da família conjugal, a família formada pelos pais e seus filhos. É raro uma tela reunir mais de duas gerações. Quando netos ou filhos casados aparecem, é sempre discretamente, como uma coisa sem importância. Nada aí lembra a antiga linhagem, nada acentua a ampliação da família ou a grande família patriarcal, essa invenção dos tradicionalistas do século XIX. Essa família, ou a própria família, ou ao menos a ideia que se fazia da família ao representá-la e exaltá-la, parece igual à nossa. O sentimento é o mesmo.

Esse sentimento está muito ligado também ao sentimento da infância. Ele afasta-se cada vez mais das preocupações com a honra da linhagem ou com a integridade do patrimônio, ou com a antiguidade ou permanência do nome: brota apenas da reunião incomparável dos pais e dos filhos. Uma de suas expressões mais comuns seria o hábito criado de se insistir nas semelhanças físicas entre os pais e seus filhos. No século XVII, pensava-se que São José se parecia com seu filho adotivo, salientando-se assim a força do laço familiar. Erasmo já possuía a ideia extremamente moderna de que as crianças uniam a família e de que sua semelhança física produzia essa união profunda; não nos espantaremos, pois, com o fato de seu tratado sobre o casa mento ter sido reimpresso ainda no século XVIII. Vejamos um trecho dessa obra, numa tradução francesa de 1714, que adorna de maneira picante e um tanto anacrônica a prosa do Renascimento: “Só nos pode causar admiração o cuidado surpreendente da natureza nesse ponto: ela pinta duas pessoas num mesmo rosto e num mesmo corpo; o marido reconhece o retrato de sua mulher em seus filhos, e a mulher, o do marido. Às vezes, descobre-se uma semelhança com o avô e com a avó, com um tio-avô ou com uma tia-avó” . O que conta acima de tudo é a emoção despertada pela criança, a imagem viva de seus pais.

 

História - França
1/12/2020 1:25:14 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Funcionalismo: as influências anteriores

Jenny estava vestida como qualquer criança típica de 2 anos, e certamente se comportava como uma criança de 2 anos. Milhares de pessoas afluíam para vê-la. Elas a encaravam maravilhados, encantados, pois Jenny - tão inocente, tão humana, na realidade era um orangotango, um macaco, como a maioria das pessoas a chamava. Jenny estava em exibição em uma gaiola de girafa no zoológico de Londres. O ano era 1838.

Poucas pessoas na Inglaterra, ou em qualquer lugar da Europa jamais tinham visto tal criatura, e aqueles que foram vê-la estavam surpresos, até mesmo desconcertados pelos maneirismos a que estavam tão familiarizados. Vestida em um vestido de babado, ela se sentava à mesa, usava uma colher para comer de um prato, tomava chá em uma xícara e parecia entender o que seu cuidador lhe dizia. Também parecia saber o que era e o que não era permitido fazer.

Um visitante escreveu:

O cuidador mostrou-lhe uma maçã, mas não a dava, o que fez com que se atirasse de costas, chutando e cho­rando, precisamente como uma criança malcriada... O cuidador disse: "Jenny, se parar de berrar e se comportar como uma menina boazinha, eu lhe dou a maçã." Ela certamente entendeu cada palavra e, embora como criança que custa a parar de choramingar, conseguiu a maçã (apud Aydon, 2002, p. 128).

Aparentemente, Jenny fazia com que aquele visitante se lembrasse de seus dois filhos pequenos, pois ele voltou ao zoológico alguns meses mais tarde, levando um instrumento de boca (gaita) e um espelho. Ele tocou o instrumento na frente da gaiola e depois o deu a ela pelas grades. Imediatamente ela o colocou nos lábios, como ele havia feito. Quando ele deu o espelho, ela ficou se olhando continuadamente como se estivesse surpresa com sua imagem, assim como os filhos daquele homem haviam ficado a primeira vez que se viram em um espelho.

Ele a observou aceitando pão de outro visitante, olhando primeiro para o seu cuida­dor para ver se podia comer. Mas Jenny também exibia comportamento voluntarioso e desobediente. Com frequência ela fazia algo que haviam dito que não deveria fazer. Quando ela acha que o cuidador não vai ver, mas que sabe que fez algo errado, ela se esconde. (...) Quando acha que vai ser chicoteada, ela se cobre com palha ou um cobertor (.apud Keynes, 2002, p. 50).

Observar o comportamento de Jenny teve um profundo efeito no nosso visitante. Ele escreveu o seguinte comentário em seu caderno: "Deixe o homem ver o orangotango domesticado e sua inteligência.... e depois deixe que se vanglorie de sua superioridade orgulhosa. (...) O homem, na sua arrogância, pensa que é o resultado de um grande tra­balho, digno da intervenção de uma divindade. Mais humilde e, creio verdadeiro, seria considerá-lo descendente dos animais" (apud Ridley, 2003, p. 9).

Quem era esse distinto visitante que ficou tão impressionado com Jenny? Seu nome era Charles Darwin.

O Protesto Funcionalista

Charles Darwin, com sua noção de evolução, mudou o foco da nova psicologia da estrutura da consciência para as suas funções. Era inevitável que a escola de pensamento funcionalista se desenvolvesse.

O funcionalismo se preocupa com as funções da mente, em como ela é usada por um organismo para se adaptar ao seu ambiente. O movimento da psicologia funcional focou em uma questão prática: O que os processos mentais conseguem realizar? Os funcionalistas estudaram a mente não do ponto de vista de sua composição - seus elementos mentais ou sua estrutura - mas sim como um conglomerado ou acúmulo de funções e processos que levam a consequências práticas no mundo real. As pesquisas realizadas por Wundt e Titchener nada revelaram sobre os resultados ou realizações da atividade mental humana, mas este não era o objetivo. Tais preocupações utilitárias eram incompatíveis com a sua abordagem puramente científica da psicologia.

Como um primeiro sistema de psicologia, puramente estadunidense, o funcionalismo foi um protesto deliberado contra a psicologia experimental de Wundt e a psicologia estrutural de Titchener, ambas vistas como restritivas demais. Essas primeiras escolas de pensamento não podiam responder às perguntas que os funcionalistas estavam fazendo: O que a mente faz? E como age?

Como resultado dessa ênfase nas funções mentais, os funcionalistas passaram a se in­teressar pelas aplicações em potencial da psicologia aos problemas da vida diária, de como as pessoas funcionam e se adaptam a diferentes ambientes. O rápido desenvolvimento da psicologia aplicada nos Estados Unidos pode ser considerado o legado mais importante do movimento funcionalista.

Este capítulo trata das raízes do movimento da psicologia funcional, incluindo os trabalhos de Darwin, Galton e os primeiros estudiosos do comportamento animal. É importante observar a época em que esses precursores do funcionalismo estavam desen­volvendo suas ideias: o período anterior e durante os anos em que a nova psicologia estava começando a evoluir.

A obra pioneira de Darwin sobre a evolução, On the origin of species (1859), foi publicada um ano antes do livro de Fechner, Elements of psychophysics (1860), e 20 anos antes de Wun­dt instalar o laboratório na University of Leipzig. Galton começou a trabalhar no problema das diferenças individuais em 1869, antes de Wundt escrever a obra Principies of physiological psychology (1873-1874). As experiências com psicologia animal já eram realizadas na década de 1880, antes de Titchener seguir da Inglaterra para a Alemanha para estudar com Wundt.
Portanto, a maior parte dos trabalhos a respeito das funções da consciência, das diferen­ças individuais e do comportamento animal estava sendo realizada ao mesmo tempo em que Wundt e Titchener optaram por excluir essas áreas das suas definições de psicologia. Somente com a chegada da nova psicologia aos Estados Unidos é que as funções mentais, as diferenças pessoais e os ratos de laboratório ganharam destaque na psicologia.

 

A Revolução da Teoria da Evolução de Charles Darwin (1809-1882)

A ideia da evolução não começou com Darwin. Na época em que ele publicou sua teoria em 1859, não havia nada realmente novo a esse respeito (ver Gribbin, 2002). A hipótese de que os seres vivos mudam com o tempo, noção fundamental da evolução, pode ser já encontrada no século V a.C., embora só fosse investigada de forma sistemática a partir do final do século XVIII. O fisiologista inglês Erasmus Darwin (avô de Charles Darwin e de Francis Galton) afirmava que todo animal de sangue quente havia evoluído de um único filamento vivo e animado por Deus.

Erasmus Darwin acreditava que havia um Deus que originalmente havia estabelecido vida na Terra em movimento, mas que não interveio depois disso para alterar a flora ou fauna ou para criar espécies. As mudanças nas formas animais, dizia, ocorriam de acordo com as leis naturais que fazem com que as espécies continuamente se adaptem às mu­danças em seu ambiente.

Em 1809, o naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck formulou a teoria comportamentalista da evolução, que enfatizava a modificação das características físicas do animal mediante o esforço de adaptação ao ambiente. Lamarck sugeria que essas modificações eram herdadas por gerações sucessivas. Por exemplo, a girafa desenvolveu o seu longo pescoço por várias gerações devido à necessidade de alcançar os galhos cada vez mais altos para obter comida.

Em meados da década de 1800, o geólogo britânico Charles Lyell introduziu a noção da evolução na teoria geológica, argumentando que a Terra havia passado por vários está­gios de desenvolvimento até chegar à estrutura atual. No Capítulo 13, veremos que a ideia de evolução também influenciou o trabalho de Freud.

Passados tantos séculos aceitando-se a doutrina bíblica da criação, por que os inte­lectuais buscavam uma explicação alternativa? Uma das razões era a de que os cientistas estavam adquirindo cada vez mais conhecimento sobre as outras espécies que habitaram a Terra. Os exploradores estavam descobrindo formas de vida animal antes desconheci­das. Portanto, era inevitável que alguém questionasse como Noé fora capaz de colocar um casal de cada espécie animal na arca. Tantas foram as espécies descobertas que não havia como os pesquisadores continuarem a acreditar nessa história.

O navegador italiano Américo Vespúcio escrevera, já em 1501, após a terceira viagem em torno da costa da América do Sul: "Não há como descrever a enorme variedade de animais selvagens, a abundância de pumas, panteras, gatos selvagens, diferentes dos que vemos na Espanha, mas parecidos com os das ilhas Antípodas; tantos lobos, veados ver­melhos, macacos e felinos, saguis de diversas espécies e várias cobras enormes. (...) Tantas espécies não caberiam na arca de Noé" (apud Boorstin, 1983, p. 250).

Na década de 1830, os ingleses e europeus viram pela primeira vez espécies animais constrangedoramente semelhantes aos seres humanos. Antes disso, somente alguns explo­radores corajosos haviam visto animais como os orangotangos e chimpanzés. Em 1835, um ano antes de Darwin retornar de uma viagem de exploração que durou cinco anos, um chim­panzé chamado Tommy foi exibido no zoológico de Londres. Em 1837, uma orangotango foi exibida e outra, dois anos depois; ambas se chamavam Jenny. Na década de 1850, um orangotango macho foi exibido em várias cidades da Inglaterra e da Escócia e a propaganda dizia que ele exibia comportamentos inteligentes quase no mesmo nível dos humanos.

Em 1853, o Museu Britânico exibiu o esqueleto de um gorila ao lado de um esqueleto humano. Tamanha era a semelhança que muitos observadores alegavam sentir-se emba­raçados. Era possível continuar insistindo que os seres humanos eram as únicas criaturas totalmente diferentes das outras espécies? Talvez não.

Exploradores também descobriram fósseis e ossadas de criaturas que não correspon­diam aos das espécies existentes, esqueletos aparentemente pertencentes a animais que em algum momento perambularam pela Terra mas que haviam desaparecido. Essas des­ cobertas fascinaram os cientistas e leigos interessados, e muitas pessoas começaram a colecionar fósseis.

A Grã-Bretanha do século XVIII foi um marco de requinte e impecável bom gosto na propriedade e exibição de coleções de fósseis. Os próprios objetos não apenas eram raros e bonitos (...) como a sua simples posse era uma indicação de sede de conhecimento, de consciência da filosofia natural, de compreensão solidária dos processos misteriosos da Terra. (Winchester, 2001, p. 106)

As pessoas desejavam saber o que aqueles fósseis e ossadas poderiam revelar sobre a origem do homem. Para os cientistas, o crescente acúmulo desses artefatos dava indicações de que as formas vivas não podiam mais ser consideradas constantes, imutáveis desde o início dos tempos e deviam ser vistas como sujeitas a mudanças e modificações. As espé­cies antigas evidentemente tornaram-se extintas, dando lugar a novas, sendo algumas delas versões alteradas das formas existentes. Talvez tudo na natureza fosse resultado de mudanças e ainda continuasse no processo de evolução.

O impacto da mudança contínua foi observado não apenas nos círculos científicos e intelectuais, como também na vida cotidiana. O Zeitgeist social estava se transformando por causa da Revolução Industrial. Os valores, as relações e as normas culturais, mantidos constantes por várias gerações, de repente foram rompidos quando a migração em massa da zona rural para as pequenas cidades promoveu o rápido desenvolvimento dos centros industriais urbanos.

A crescente dominação da ciência contaminava as atitudes populares. As pessoas esta­vam cada vez menos convencidas das ideias a respeito da natureza humana e da sociedade baseadas nos dogmas das antigas autoridades religiosas. Ao contrário, estavam dispostas e ávidas para transferir essa crença para a fé científica.

Mudança era a ordem do dia. Afetava o fazendeiro, cuja vida agora pulsava no ritmo de uma máquina e não das estações do ano, assim como afetava o cientista, cujo tempo era gasto tentando desvendar uma ossada desenterrada. A atmosfera intelectual produziu a noção de evolução não apenas respeitável cientificamente, como também necessária. Entretanto, durante muito tempo os estudiosos analisaram, especularam e levantaram hipóteses, mas ofereceram poucas provas concretas. Então, Darwin, em seu livro On the origin of species, apresentou informações tão bem organizadas que a teoria da evolução não pôde mais ser ignorada. O Zeitgeist demandava essa teoria e Charles Darwin tornou-se o seu agente.

A Biografia de Darwin

Ele foi um dos homens mais felizes que já viveu. Seus dois avôs foram dois dos homens mais famosos na Inglaterra. Graças a eles, acostumou-se desde pequeno à companhia de pessoas inteligentes e artísticas. Cresceu em uma casa confortável, cheia de afeto, onde sua imaginação era livre para vagar. Seu pai era muito rico, e no final da sua adolescência percebeu que não teria que fazer nada na vida que não quisesse. Para o resto de sua vida, ele fez exatamente o que lhe agradava. E, até o final de sua vida, foi sempre rodeado pelo mesmo ambiente de amor e proteção de sua infância. (Aydon, 2002, p. xxiii)

Quando criança, Charles Darwin dava poucas indicações de que se tornaria o cientista tão dedicado e entusiasmado que o mundo viria a conhecer. Era rude e maldoso, aprontando travessuras, mentindo e roubando para chamar a atenção. Os biógrafos relatam, sobre a infância de Darwin, um episódio em que ele tentou quebrar a janela de uma sala em que fora trancado como castigo por mau comportamento (veja Desmond e Moore, 1991). Ele parecia tão pouco promissor que seu pai, um rico médico, acreditava que o jovem Charles acabaria desgraçando o nome da família.

Embora seu desempenho escolar fosse fraco, demonstrava interesse por história natu­ral e em colecionar moedas, minérios e conchas. Seu pai o mandou para a University of Edinburgh para estudar medicina, mas logo o jovem se mostrou entediado. Como resposta, o pai disse-lhe que deveria tornar-se clérigo. Ele passou três anos na Cambridge University e achou a experiência uma perda de tempo, pelo menos do ponto de vista aca­dêmico. No âmbito social, no entanto, achou fantástico, tendo sido esse o período mais feliz da sua vida. Passava os dias e as noites bebendo, cantando, jogando cartas, fazendo parte de um grupo que descrevia como esbanjador e de baixo nível intelectual. Também colecionava besouros.

O botânico John Stevens Henslow, um de seus professores, conseguiu uma indicação para Darwin como naturalista para fazer parte da excursão do HMS Beagle, um navio que o governo britânico estava preparando para uma viagem científica ao redor do mundo.

A famosa excursão, que durou de 1831 a 1836, explorou as águas da América do Sul, seguin­do para o Taiti e Nova Zelândia, e retornou à Inglaterra, passando pela Ilha Ascensão e pelos Açores. Todavia, Darwin quase fora recusado para trabalhar a bordo do navio por causa do formato do seu nariz. O capitão, Robert Fitzroy, orgulhoso de sua capacidade de julgar o caráter pelas feições do rosto, tinha certeza de que o nariz de Darwin indicava um homem preguiçoso, mas ele conseguiu convencê-lo do contrário. Fitzroy, um homem extremamente religioso, desejava a presença de um naturalista a bordo para encontrar provas concretas sobre a teoria bíblica da criação. Escolhera o homem errado.

A viagem rendeu a Darwin a oportunidade ímpar de observar uma variedade de vida animal e vegetal e de coletar diversas espécies, além de enorme quantidade de dados. A viagem também parece ter mudado sua personalidade. Não mais um diletante e amante do prazer, Darwin retornou à Inglaterra como um cientista dedicado e com uma única paixão: desenvolver a teoria da evolução.

Casou-se em 1839 e três anos depois mudou-se com a esposa para o vilarejo de Down, a 26 quilômetros de Londres, onde pôde concentrar-se no trabalho sem as agitações da vida urbana. Sempre teve a saúde frágil e agora começava a sofrer de perturbações físicas como vômitos, gases, furúnculos, erupções cutâneas, tonturas, tremores e depressão. Sua casa se transformou em uma “enfermaria onde ninguém era saudável; a doença era regra e a saúde uma exceção" (Desmond, 1997, p. 291).

Os sintomas de Darwin eram aparentemente de fundo neurótico, provocados por qualquer interrupção na sua rotina diária. Sempre que alguma interferência externa o impedia de trabalhar, sofria outro ataque. A doença tornara-se um mecanismo convenien­te, protegendo-o dos afazeres mundanos e proporcionando a solidão e a concentração, necessárias para ele criar e desenvolver sua teoria. Um escritor batizou a condição de Darwin de "maldição criativa" (Pickering, 1974).

Ele se isolava, evitava festas e declinava de compromissos; chegou a instalar um espelho do lado de fora da janela da sua sala de estudos para espiar os visitantes que vinham procurá-lo. Dia após dia, semana após semana, o estômago o incomodava. (...) Era um homem preocupado. (Desmond e Moore, 1991, p. xviii-xix)

Darwin tinha motivos de sobra para se preocupar. A ideia de evolução vinha sendo condenada pelas autoridades religiosas conservadoras e até em alguns meios acadêmicos. O clero, entendendo-a como moralmente degenerativa e subversiva, pregava que, se as pessoas fossem retratadas como animais, igualmente se comportariam. O resultado de tal selvageria certamente causaria o colapso da civilização.

Darwin se autodenominava o "capelão do demônio", dizendo a um amigo que traba­lhar na teoria da evolução era como confessar um assassinato (Desmond e Moore, 1991). Ele sabia que, quando publicasse o livro, seria condenado por heresia. Percebeu que essas preocupações com o trabalho eram a causa dos seus persistentes males físicos, "a maior parte dos males de que a minha carne é herdeira” (apud Desmond, 1997, p. 254). Esperou 22 anos para apresentar publicamente as suas ideias, pois desejava ter a certeza de que, ao fazê-lo, a teoria estaria perfeitamente apoiada em provas científicas irrefutáveis. Assim, Darwin prosseguiu no trabalho com calma e com cuidado extremamente rigoroso.

Em 1842, Darwin redigiu um esquema de 35 páginas da sua teoria da evolução. Dois anos mais tarde, expandiu as ideias em um ensaio de 200 páginas, mas ainda não estava satisfeito. Continuou a manter segredo da maior parte do seu trabalho, compartilhando as ideias ape­nas com os amigos mais íntimos, como o geólogo Charles Lyell e o botânico Joseph Hooker.

Por mais 15 anos Darwin elaborou e trabalhou seus dados, conferindo, aperfeiçoando, revi­sando, insistindo para que todos os aspectos da sua posição fossem inquestionáveis.

Ninguém sabe ao certo quanto tempo mais ele se estenderia no trabalho se não houves­ se recebido uma carta chocante, em junho de 1858, de uma pessoa chamada Alfred Russel Wallace, um naturalista 14 anos mais jovem que ele. Morando nas índias Orientais para se recuperar de uma doença, Wallace esboçara uma teoria da evolução nitidamente semelhante à de Darwin, embora não estivesse baseada em dados tão ricos como os coletados por ele. E o pior é que Wallace afirmava ter desenvolvido a sua teoria completa em apenas três dias! Pedia a opinião e a ajuda de Darwin para publicá-la. O biógrafo de Wallace escreveu:

No intervalo de duas horas, desde os primeiros arrepios da febre até ficar banhado em um mar de suor [sintomas da malária], Wallace disse que havia desenvolvido toda a teoria da seleção natural, e a esboçou naquela mesma noite, apesar de sua exaustão física. Foi uma luz de inspiração que uniu anos de experiência e contemplação. Nas duas noites seguintes ele escreveu toda a sua teoria. (Slotten, 2004, p. 144)

Em sua carta a Darwin, Wallace pediu sua opinião sobre suas ideias e ajuda para que seu trabalho fosse publicado. Wallace escreveu anos mais tarde que o efeito desse curto trabalho sobre Darwin foi "praticamente paralisante", como se Darwin estivesse lendo sua própria teoria. "Qualquer noção da sua importância desaparecera, sua originalidade fora massacrada" (apud Raby, 2001, p. 137).

Assim como vários cientistas, Darwin era muito ambicioso. Escreveu em seu diário: "Gostaria de conseguir não valorizar tanto essa tal de fama. (...) E ainda abomino a ideia de escrever porque é importante criar; todavia certamente ficaria contrariado se outra pessoa publicasse essas doutrinas antes de mim" (apud Merton, 1957, p. 647-648). Darwin disse ao amigo Lyell que, se ajudasse Wallace a publicar sua teoria, todos os seus anos de
trabalho árduo e, o mais importante, o crédito pela criação da teoria da evolução estariam perdidos (Benjamin, 1993).

Enquanto ficava em dúvida se devia ajudar Wallace ou apressar a publicação do seu trabalho, seu filho de 18 meses morreu de febre escarlatina. Desesperado, Darwin remoía a respeito das implicações da carta de Wallace e as opções que surgiam para si próprio. Finalmente, munido de enorme sentido de justiça e de bom senso, decidiu: "Parece difícil para mim perder a prioridade de vários anos de dedicação, mas não tenho certeza absolu­ta de que isso altere a justiça do caso. (...) Seria desonesto de minha parte publicar agora" (apud Merton, 1957, p. 648).

Lyell e Hooker sugeriram que tanto o trabalho de Wallace como partes do livro de Darwin que estava para ser publicado fossem lidos em um encontro na Sociedade Linneana (uma sociedade científica cujo nome homenageia o naturalista sueco Linnaeus), em 10 de julho de 1858, no mesmo dia em que o filho de Darwin fora enterrado. O resto está registrado na história. Todas as 1.250 cópias da primeira edição do livro de Darwin, On the origin ofspecies, foram vendidas no dia da publicação. A obra provocou reações e discussões imediatas, e Darwin, embora fosse objeto de consideráveis críticas, ganhou a "tal da fama".

Quando o livro foi publicado, Darwin foi acometido de novas enfermidades. Ele des­creveu uma terrível e longa ânsia de vômito", "furúnculos que ardiam", além de se sentir “extremamente mal e em cacos" (apud Desmond, 1997, p. 257). Fugiu para uma estância hidromineral no norte da Inglaterra, onde se escondeu do mundo por dois meses. Wallace nunca expressou ressentimento por não receber o reconhecimento proporcional pelo desenvolvimento de uma teoria tão semelhante à de Darwin. Na verdade, sua reação foi pratica­mente contrária. Quando soube que o seu trabalho e o de Darwin seriam lidos na Sociedade Linneana, Wallace declarou haver recebido "mais reconhecimento e crédito do que mere­cia". Mostrou-se satisfeito quando soube que, ao mandar seus papéis para Darwin, ele fora o "meio inconsciente que fez com que [Darwin] se concentrasse na tarefa" para completar um dos livros mais importantes da história (Wallace, apud Raby, 2001, p. 141-142).

Depois de ler o livro de Darwin, Wallace escreveu a um amigo que "Jamais teria me igualado à totalidade desse livro, seu enorme acúmulo de evidência, sua impressionante argumentação, e seu admirável tom e espírito. (...) Sr. Darwin criou uma nova ciência." Em uma nota pessoal a Darwin fez elogios semelhantes e guardou a resposta que lhe foi enviada. Darwin respondeu "Com quanta nobreza você trata dessa falha da humanidade. Mas você fala com modéstia demasiada de si mesmo; se tivesse tido as mesmas vantagens, teria feito o trabalho tão bem, ou talvez ainda melhor do que eu." (Slotten, 2004, p. 172-173).

A Origem das Espécies por meio da Seleção Natural

A teoria da evolução darwiniana é tão conhecida que neste tópico abordaremos apenas alguns pontos básicos. A partir do fato evidente da variação entre os membros individuais de uma espécie, Darwin deduziu ser essa variabilidade espontânea transmitida de uma geração à outra. Na natureza, o processo de seleção natural resulta na sobrevivência dos organismos mais bem adaptados ao seu ambiente e na eliminação dos demais. A batalha pela sobrevivência é constante e as formas de vida sobreviventes são as que se adaptam ou se ajustam com êxito às circunstâncias ambientais a que forem expostas. Resumindo, as espécies que não se adaptam não sobrevivem.

Darwin formulou as ideias sobre a luta pela sobrevivência e a “sobrevivência do mais apto" após a leitura de Essay on the principie of population (1789), de autoria do economista Thomas Malthus, no qual observou que o suprimento de alimentos tende a crescer em proporção aritmética, enquanto a população humana, em progressão geométrica. O resul­tado inevitável seria, como Malthus descreveu em tom melancólico, muitos seres huma­nos vivendo praticamente em condições de inanição. Somente os mais fortes, espertos e adaptáveis sobreviveriam.

Darwin aplicou o princípio malthusiano a todos os organismos humanos para desenvol­ver a sua teoria da seleção natural. Esses seres vivos que sobrevivem à batalha e atingem a maturidade tendem a transmitir aos seus descendentes as mesmas habilidades e vantagens que lhes permitiram prosperar. Além disso, como a variação é uma das leis gerais da here­ditariedade, a prole também apresenta variações; alguns descendentes acabam tendo suas boas qualidades mais desenvolvidas que as dos pais. As qualidades tendem a sobreviver e, ao longo de várias gerações, ocorrem mudanças que podem ser bastante significativas a ponto de produzirem as diferenças observadas hoje entre as espécies.

A seleção natural não foi o único mecanismo de evolução reconhecido por Darwin. Ele também concordava com a doutrina de Lamarck de que as modificações na forma, derivadas da experiência durante o ciclo de vida do animal, podem ser transferidas às gerações subsequentes.

Thomas Henry Huxley e a polêmica sobre a evolução.

À medida que os estudiosos de diversas áreas aderiam à teoria da evolução ou a execravam, o próprio Darwin permanecia à parte e não se interessava em participar das crescentes discussões. Thomas Henry Huxley (1825-1895), ambicioso biólogo que foi a força diretriz no estabelicimento da ciência inglesa, estava disposto a se envolver nas polêmicas e foi um dos defensores mais ávidos da teoria.

Darwin chamava Huxley de seu "bom e gentil agente propagador do evangelho [da evolução]". Huxley era um orador eloquente e carismático e tinha prazer em debater com os inimigos da ciência, agora inimigos da evolução. Era dotado de enorme apelo popular, principalmente entre os operários. Para eles, Huxley promovia a ciência como uma nova religião, um novo caminho para a salvação. O biógrafo de Huxley disse: "Operários barbudos com as mãos calejadas acotovelavam-se para ouvir seus discursos. (...) Ele arrebanhava multidões semelhantes às que vemos hoje em encontros cristãos protestantes ou apresentações de rock" (Desmond, 1997, p. xvii). As pessoas paravam-no na rua para pedir autógrafo e os taxistas não lhe cobravam a corrida.

No período de um ano após a publicação de On the origin of species, a British Association for the Advencement of Science promoveu um debate a respeito do evolucionismo na Oxford University. Os amigos e defensores de Darwin pressionavam-no a participar do debate, no entanto ele não suportava a ideia de ter de se defender em público. Seus amigos insistiam e a situação tornava-se insustentável. Finalmente, escreveu um biógrafo, "seu estômago o salvou. Dois dias antes da reunião sua saúde deteriorou-se completamente Uma crise como essa nunca fora tão bem-vinda (Browne, 2002, p. 118).

No encontro, os oradores foram Huxley, defendendo Darwin e a evolução, e o bispo Samuel Willberforce (apelidado de Soapy [Sam, o Chato] por causa dos seus intermináveis discursos), que defendia a bíblia.

Com relação às ideias de Darwin, [Wilberforce] se felicitava (...) por não descender de um macaco. Veio a resposta de Huxley "Se tivesse de escolher, preferiria ser descendente de um simples macaco do que de um homem que emprega seu conhecimento e sua eloquencia para deturpar a imagem daqueles que dedicam a vida em busca da verdade". (White, 1896/1965, p. 92)

Outro orador no debate em Oxford foi Robert Fitzroy, o capitão do navio Beagle durante a viagem de Darwin. Fitzroy declarava-se culpado por ajudar na pesquisa de Darwin, aprovando a sua seleção para fazer parte da excursão como naturalista (apesar do formato do seu nariz). Fitzroy agitava a bíblia, enquanto conclamava o público a acreditar na palavra de Deus, expressando seu profundo pesar e arrependimento por ter proporcionado a Darwin a oportunidade de coletar dados para o desenvolvimento de sua teoria. Ninguém estava interessado em ouvir as lamentações de Fitzroy. "A sala permanecia em silêncio", declarou o biógrafo de Darwin, e, por fim, Fitzroy "afundou-se em seu assento sem praticamente ser ouvido" (Browne, 2002, p. 123).

Fitzroy tinha tida uma vida difícil desde a viage do Beagle Após servir o Parlamento e um período curto e não bem-sucedido como governador da Nova Zelândia, retornou à Inglaterra para se dedicar ao estudo da meteorologia. "Desenvolveu as técnicas fundamentais de previsão do tempo [e] inventou o sistema de avisos e sinais anunciando tempestades que salvaram inúmeras vidas nas décadas que se seguiram, e foi o responsável pela publicação de previsões diárias de tempo. Na verdade, ele inventou o termo 'previsão do tempo'" (Gribbin e Gribbin, 2004, p. 5). Mas sua obsessão lhe custou a fortuna da família.

Ficou também bastante atormentado com o papel que teve em habilitar Darwin a produzir a teoria da evolução. Ele estava convicto que se não tivesse escolhido Darwin para acompanhá-lo na viagem no Beagle, a teoria não teria surgido. Quando Darwin lhe enviou uma cópia do On the origin of species, ele respondeu que "não conseguia achar nada enobrecedor ser descendente do mais antigo dos macacos" (apud Nichols, 2003, p. 311).

Cinco anos depois do debate em Oxford, em um domingo de manhã no meio de sua preparação para ir à igreja, o pensativo capitão suicidou-se cortando sua garganta com uma lâmina. A Sra. Darwin escreveu que seu marido "havia sentido muito o acontecido com Fitzroy, mas que não estava nada surpreso. Lembrou-se de uma ocasião em que ele [Fitzroy] quase enlouqueceu na viagem no Beagle" (apud Browne, 2002, p. 264).

Posterior­mente Darwin enviou uma considerável quantia de dinheiro à viúva desamparada.

Outros trabalhos de Darwin.

O segundo importante trabalho sobre a evolução, The descent of man (1871), reunia as provas da evolução humana a partir das formas de vida mais simples, enfatizando a semelhança entre os processos mentais humanos e animais. O livro rapidamente ganhou popularidade, e um famoso escritor de revista ressaltou: "Na sala de estar, o livro compete com o mais recente romance; na sala de estudos, incomoda como o homem da ciência, o moralista e o teólogo. De todos os lados escorrem enxurra­das mistas de ódio, admiração e encantamento" (apud Richards, 1987, p. 219).

Darwin realizou um estudo intensivo sobre as expressões emocionais nos humanos e nos animais. Sugeriu que as mudanças dos gestos e das posturas típicas de vários estados emocionais podiam ser interpretadas com base no evolucionismo. Na obra The expression of the emotions in man and animals (1872), explicou as expressões emocionais como vestí­gios dos movimentos que em dado momento tiveram alguma função prática.

Darwin alegava que as expressões faciais e a chamada linguagem corporal eram "manifestações inatas e incontroláveis" dos estados emocionais internos. Por exemplo, a dor era acompanhada de trejeitos e o prazer, de um sorriso. Darwin afirmava que esses tipos de expressões humanas e de outras espécies animais surgiam por meio da evolução. Seu biógrafo relatou: "As expressões que surgem nos rostos humanos eram, para ele, uma prova viva e diária da ancestralidade animal" (Browne, 2002, p. 369).

Darwin também deu uma pequena contribuição para a literatura psicológica infantil com o diário sobre seu filho. Ele registrou cuidadosamente o desenvolvimento da criança e publicou o material intitulado “A biographical sketch on an infant” (1877) na revista Mind. O diário é um importante precursor da psicologia do desenvolvimento, um exemplo da tese de Darwin de que as crianças passam por uma série de estágios do desenvolvimento paralelos aos estágios da evolução humana.

A Evolução em Andamento: o Bico dos Tentilhões

Darwin realizou várias de suas observações a respeito da variação entre as espécies quan­ do esteve nas Ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico, próximo à costa da América do Sul. Observou como os animais da mesma espécie haviam evoluído de formas diferentes em resposta às diversas condições ambientais.

Seguindo os passos de Darwin, os biólogos Peter e Rosemary Grant, da Princeton University, acompanhados de um grupo dedicado de estudantes de pós-graduação, visi­taram as ilhas para monitorar as modificações encontradas nas gerações subsequentes de 13 espécies de tentilhões, decorrentes da adaptação dos pássaros às drásticas mudanças ambientais. O programa da pesquisa começou em 1973 e durou mais de 30 anos. Os pesquisadores testemunharam a evolução em andamento, observando as diferenças nas pequenas aves cantoras de uma geração a outra. Os Grants chegaram à conclusão de que Darwin havia subestimado a força da seleção natural. No caso dos tentilhões, a evolução era mais rápida do que se imaginava.

As variações observadas em uma espécie de tentilhão iniciaram durante um rigoroso período de seca que afetara o suprimento alimentar das aves, reduzindo-o a pequenas sementes duras e pontiagudas. Somente os tentilhões de bicos mais grossos, cerca de 15% da população, eram capazes de quebrar para abrir as sementes. Muitas aves de bicos finos não conseguiam abrir as sementes e logo morriam. Portanto, sob essas condições de seca, os bicos mais grossos eram ferramentas necessárias para a adaptação.

Quando essas aves de bicos mais espessos se reproduziam, sua ninhada também herdava essa característica, com bicos de 4% a 5% maiores do que os dos seus ancestrais antes da seca. Em apenas uma geração, a seleção natural produzira uma espécie mais bem adaptada e forte.
Logo vieram as chuvas, com enormes tempestades e enchentes que varreram da ilha as sementes graúdas, deixando apenas as miúdas como fonte de alimentação dos pássaros. Agora as aves de bicos mais grossos estavam em desvantagem, pois não conseguiam pegar a quantidade adequada de comida. Era nítida a necessidade de bicos mais finos para a sobrevivência. A partir daí, é fácil deduzir o que aconteceu. Peter Grant escreveu: “A sele­ção provocou uma verdadeira revolução na vida dos pássaros. As aves maiores, com bicos grandes, estavam morrendo enquanto as aves pequenas, com bicos menores, estavam se desenvolvendo. A seleção mudou rapidamente de lado" (apud Weiner, 1994, p. 104).

Na geração seguinte, o tamanho médio do bico era menor. Uma década mais tarde, como consequência da seca entre 2003-2004, observou-se outra evolução no tamanho do bico, em resposta àquele ambiente modificado (Grant e Grant, 2006). Mais uma vez a espécie havia evoluído, adaptando-se às mudanças do seu ambiente. Assim como Darwin previra, apenas os mais aptos sobreviveram.

O elo perdido? Em 2006, cerca de 147 anos depois da publicação de On the origin of the species, um grupo de cientistas dos Estados Unidos descobriu diversos fósseis em uma ilha remota do Canadá, ao norte do Círculo Ártico. Acredita-se que os fósseis encontrados eram os restos do esqueleto de um peixe enorme, medindo quase três metros de comprimento, e foi considerado o tão procurado elo perdido - isto é, um peixe no processo de evolução para se tornar um animal terrestre (Daeschler, Shubin e Jenkins, 2006; Shubin, Daeschler e Jenkins, 2006).

Os fósseis, que se acreditava ter 275 mil anos, tinham todas as características de peixe, como barbatanas e escama, e também mostravam evidência de membros em formação. Tinham ossos que correspondiam ao ombro, parte superior dos braços, cotovelo e traços semelhan­tes ao punho, desconhecidos em outras espécies de animais. Essas descobertas forneceram suporte adicional às ideias de Darwin sobre a transição de uma espécie para outra.

A Influência de Darwin na Psicologia

O trabalho de Darwin, bem no final do século XIX, influenciou a psicologia contempo­rânea, mediante:

  • o enfoque na psicologia animal, que formou a base da psicologia comparativa;
  • a ênfase nas funções e não na estrutura da consciência;
  • a aceitação da metodologia e dos dados de diversas áreas;
  • o enfoque na descrição e mensuração das diferenças individuais.

A teoria da evolução suscitou a intrigante possibilidade da continuidade do funcio­namento mental entre os humanos e os animais inferiores. Se a mente humana fosse uma evolução das mentes mais primitivas, então será que haveria semelhanças entre o funcionamento mental dos animais e dos homens? Dois séculos antes, Descartes insis­tira haver uma diferença entre o funcionamento humano e o animal. Agora a questão voltava à tona.

Os psicólogos perceberam a importância do estudo do comportamento animal para a compreensão do comportamento humano e concentraram a pesquisa no funcionamentomental dos animais, introduzindo um novo tópico no laboratório de psicologia. A investi­gação da psicologia animal viria exercer grande impacto no desenvolvimento da área.

A teoria da evolução provocou também uma mudança no objeto de estudo e na meta da psicologia. O enfoque da escola de pensamento estruturalista era a análise do conteúdo da consciência. O trabalho de Darwin inspirou alguns psicólogos que trabalhavam nos Estados Unidos a analisarem as funções da consciência. Para alguns pesquisadores, esse enfoque pareceu mais importante do que a descoberta de qualquer elemento estrutural da consciência. E assim, gradualmente, à medida que a psicologia se dedicava mais ao estudo do funcionamento do ser humano e dos animais na adaptação ao seu ambiente, a investigação detalhada dos elementos mentais, iniciada por Wundt e Titchener, perdia
o seu apelo.

As ideias de Darwin influenciaram a psicologia, ampliando os métodos que essa nova ciência passara a usar com legitimidade. Os métodos empregados no laboratório de Wundt, em Leipzig, foram derivados principalmente da fisiologia, mais especificamente dos métodos psicofísicos de Fechner. Os métodos de Darwin, que produziam resultados aplicáveis tanto nos seres humanos como nos animais, não tinham qualquer semelhança com as técnicas baseadas na fisiologia. Os dados de Darwin foram obtidos de diversas fon­tes, incluindo a geologia, a arqueologia, a demografia, as observações de animais selvagens e domésticos e a pesquisa com reprodução. Foram as informações obtidas de todos esses campos que deram suporte à sua teoria.

Essa foi uma prova tangível e impressionante da possibilidade de os cientistas estuda­rem a natureza humana adotando técnicas que não a introspecção experimental. Seguindo o exemplo de Darwin, os psicólogos que aceitavam a teoria evolucionista e sua ênfase nas funções da consciência tornaram-se mais ecléticos em relação aos seus métodos de pesquisa, expandindo, assim, os tipos de informações obtidos.
Outro efeito da evolução na psicologia foi o crescente enfoque nas diferenças indivi­duais. Durante a viagem do Beagle, Darwin observou várias espécies e formas, de modo que, para ele, era evidente a variação entre os membros da mesma espécie. Se cada geração fosse idêntica aos seus ancestrais, não haveria evolução. Portanto essas variações, ou seja, essas diferenças individuais, consistiam em um princípio importante do evolucionismo.

Enquanto os psicólogos estruturalistas continuavam a buscar as leis gerais que abranges­sem toda a mente, os psicólogos influenciados pelas ideias de Darwin procuravam as dife­renças mentais individuais e logo apresentaram técnicas para medir essas diferenças.
O material a seguir foi extraído da autobiografia de Darwin. Essa passagem não se refere à sua pesquisa ou à sua teoria, mas trata-se da imagem que ele tinha de si próprio e sua opinião sobre as qualidades pessoais que o levaram ao sucesso.


Texto original

Trecho Extraído de The Autobiography of Charles Darwin (1876)

Meus livros tiveram boa vendagem na Inglaterra, foram traduzidos para vários idiomas e passaram por várias edições em outros países. Ouvi dizer que o sucesso de um trabalho no exterior é o melhor teste para verificar seu valor perene. Tenho dúvidas se, afinal, essa afir­mação é digna de confiança; todavia, a julgar por esse padrão, o meu nome deve perdurar por alguns anos. Portanto, talvez seja de valia tentar analisar as qualidades mentais e as con­dições das quais dependeu o meu sucesso, embora ciente de não haver homem capaz de fazê-lo corretamente.
Não sou dotado de grande rapidez de apreensão ou sagacidade, que é notável em alguns homens inteligentes como, por exemplo, Huxley. Considero-me, assim, um mau crítico: quando leio pela primeira vez um trabalho ou um livro, normalmente ele suscita a minha admiração e somente depois de muita reflexão é que percebo os pontos fracos. Minha capacidade de seguir uma linha de pensamento extensa e puramente abstrata é bastante limitada e, portan­to, nunca teria êxito na metafísica ou na matemática. Minha memória é boa, porém vaga: suficiente para me alertar, indicando-me morosamente já ter eu observado ou lido algo que contradiga a conclusão a que estou chegando ou, de modo contrário, a favoreça; e depois de algum tempo, geralmente sou capaz de lembrar-me onde buscar o embasamento necessário. Em certo sentido minha memória é tão fraca, que jamais fui capaz de memorizar por alguns dias uma única data ou um verso de um poema. (...)

O lado favorável da balança, creio ser superior aos homens comuns no aspecto de obser­var algo que facilmente escapa da atenção, analisando-o cuidadosamente. Minha dedicação ao trabalho de observação e à coleta dos fatos chega praticamente ao extremo, O meu amor firme e ardente pela ciência natural é o mais importante.

Esse amor puro, no entanto, tem sido alimentado pela ambição de ser estimado por meus colegas naturalistas. Desde a juventude, sinto o profundo desejo de compreender ou explicar tudo que observo, ou seja, de agrupar todos os fatos sob algumas leis gerais. Essas causas combinadas proporcionaram-me paciência para refletir ou ponderar por quanto tempo fosse necessário a respeito de qualquer problema inexplicável. No que me concerne julgar, não tenho capacidade para seguir cegamente outros homens. Tenho me dedicado com fir­meza para manter minha mente livre de modo a renunciar a qualquer hipótese, mesmo que muito querida (e não resisto a criar uma sobre qualquer assunto), assim que se apresentem fatos que a desmintam. De fato, não possuo outra alternativa senão agir dessa forma, pois, - exceção dos Corais de Reefs, não tenho lembrança de uma única primeira hipótese que não tenha sido, deoois de algum tempo, renunciada ou bastante modificada. Isso me conduziu, naturalmente a rejeitar totalmente o raciocínio dedutivo nas ciências mistas. Por outro lado, não sou tão cético, uma característica da mente que creio ser um insulto para o progresso da ciência. Uma boa dose de ceticismo ao cientista é aconselhável para evitar muita perda de tempo, [mas] conheci não poucos homens que, sinto com certeza, várias vezes foram assim dissuadidos da experiência ou das observações que poderiam provar-se direta ou indireta­mente válidas (...)

Meus hábitos são metódicos e essa qualidade vem se mostrando bastante eficaz para a minha linha particular de trabalho. Ultimamente, venho tendo amplo lazer por não ter de obter meu próprio sustento. Até mesmo o meu estado de enfermidade, embora aniquilando vários anos da minha vida, salvou-me das distrações e divertimentos sociais.

Portanto, o meu sucesso como um homem da ciência, aonde quer que ele tenha me levado, foi determinado, de acordo com o meu julgamento, por condições e qualidades mentais diver­sificadas e complexas. Dentre essas características, as mais importantes são o amor à ciência, a paciência irrestrita para longas reflexões sobre qualquer assunto, o trabalho dedicado na obser­vação e coleta dos fatos e uma fatia razoável de criatividade, além do senso comum. Com essas modestas habilidades que possuo, é realmente surpreendente que eu houvesse influenciado tão extensamente a crença dos homens da ciência em alguns pontos importantes.


Diferenças Individuais: Francis Galton (1822-1911)

O trabalho de Galton a respeito da herança mental e das diferenças individuais da capacidade humana incorporou efetivamente o espírito da evolução na nova psicologia. Antes dele, o fenô­meno das diferenças individuais quase não era considerado um tema adequado para estudo.
Um dos poucos cientistas pioneiros a reconhecer as diferenças individuais nas habi­lidades e nas atitudes foi o médico espanhol Juan Huarte (1530-1592). Trezentos anos antes dos estudos de Galton nessa área, Huarte havia publicado um livro intitulado The examination of talented individuals (O exame dos indivíduos talentosos), em que apresentava uma grande variedade de diferenças individuais da capacidade humana (apud Diamond, 1974). Huarte sugeria que as crianças começassem a estudar desde cedo para que a educa­ção pudesse ser planejada individualmente de acordo com as suas habilidades. Por exem­plo, mediante uma avaliação adequada, seria oferecida ao aluno com aptidão musical a oportunidade de estudar música e as disciplinas afins.

O livro de Huarte teve alguma repercussão, no entanto suas ideias não eram formalmen­te seguidas antes de Galton. Embora Weber, Fechner e Helmholtz houvessem observado as diferenças individuais nas pesquisas experimentais, não investigaram sistematicamen­te essas descobertas.

Além disso, Wundt e Titchener sequer consideravam as diferenças individuais como parte legítima do estudo da psicologia.

A Biografia de Galton

Francis Galton era dotado de extraordinária inteligência (um QI estimado de 200) e riqueza de ideias originais. Entre alguns dos tópicos da sua pesquisa estão as impressões digitais que a polícia acabou adotando para a identificação criminal), a moda, a distribuição geo­gráfica da beleza, o levantamento de peso e a eficácia da oração religiosa. Ele inventou uma versão inicial da impressora de teletipo, um dispositivo para abrir cadeados e um periscópio que o permitia olhar por sobre as cabeças das pessoas durante um desfile de rua.

Galton era o caçula de nove filhos e nasceu em 1822, nas proximidades de Birmingham Inglaterra. Seu pai era um banqueiro próspero cuja família abastada e socialmente desta­cada incluia pessoas de esferas de grande influência como o governo, a Igreja e o exército. Francis era uma criança precoce que aprendia rapidamente. Um biógrafo escreveu que, aos 12 meses Galton conseguia reconhecer todas as letras maiúsculas; aos 18 meses conhecia bem o alfabeto inglês e o grego e chorava se fossem retirados de sua vista- aos 2 anos e meio leu seu primeiro livro... Aos 5 já estava bem familiarizado com os trabalhos de Homero. (Brooks, 2004, p. 18)

Aos 16 anos, pela insistência de seu pai, Galton começou a aprender medicina no Birmingham General Hospital, como assistente de médico. Distribuía medicamentos lia ívros de medicina, tratava de fraturas, amputava dedos, extraía dentes, aplicava vacina nas crianças e divertia-se lendo os clássicos da literatura. No geral, entretanto, não achava uma experiencia prazerosa e continuava somente por pressão do pai.

Um incidente ocorrido durante o aprendizado médico de Galton é um exemplo da sua curiosidade. Desejando conhecer os efeitos dos diversos medicamentos da farmácia ele passou a tomar pequenas doses de cada um e a anotar a sua reação, iniciando, de forma sistematica, com os que começavam com a letra "A". Essa aventura científica teve fim na etra C, quando tomou uma dose de óleo de cróton, um forte laxante.

Depois de um ano no hospital, continuou seus estudos de medicina no King's College em Londres. No ano seguinte mudou os planos e matriculou-se no Trinity College da Cambridge University. Ali, diante do olhar do busto de sir Isaac Newton, procurou seguir seu interesse pela matemática. Embora seu trabalho houvesse sido interrompido por um profundo surto mental, conseguiu formar-se. Retomou o odioso estudo da medicina, até que a morte do seu pai finalmente o libertou daquela profissão.

Nesse momento, a viagem e a exploração chamavam a atenção de Galton. Viajou por toda a Africa fazendo viagens difíceis e perigosas para áreas onde homens brancos jamais tinham visitado. Ele achou tudo muito empolgante e animador, exceto talvez por um incidente contado por seu biógrafo:

Só e longe de casa, parece que Galton possa ter superado sua timidez e procurou os serviços de uma prostituta. Sua coragem foi retribuída com uma grande dose de doença venérea que o perseguiu intermitentemente por muitos anos. Quer seja verdade ou não, a sua atitude em relação às mulheres esfriou notadamente apartir de 1846. o ano em questão. (Brookes, 2004, p. 60)

Quando voltou para a Inglaterra publicou histórias sobre suas viagens, que lhe renderam uma medalha da Royal Geographic Society [Sociedade Real de Geografia], Na década e 1850, parou de viajar, alegando como causas o casamento e a saúde frágil, mas manteve o interesse pela exploraçao e escreveu um famoso guia intitulado The art of travel. O livro fez tanto sucesso que publicado em oito edições, em oito anos, e reimpresso em 2001. Galton tambem organizava expedições para exploradores e dava orientações sobre a vida do campo a soldados em treinamento para servirem em país estrangeiro.

Sua inquietação mental o conduziu em seguida à meteorologia e à criação de instru­mentos para coletar informações meteorológicas. Seu trabalho nesse campo resultou no desenvolvimento do tipo de mapa meteorológico utilizado até hoje. Galton resumiu suas descobertas em um livro considerado a primeira tentativa de cartografar em grande esca­la os padrões de meteoros.

Quando seu primo Charles Darwin publicou On the origin of species, Galton ficou fas­cinado pela nova teoria. Escreveu, dizendo que o livro "marcou época no meu próprio desenvolvimento mental, assim como no pensamento humano em geral (apud Gillham, 2001, p. 155). O primeiro ponto a chamar sua atenção foi o aspecto biológico da evolução, e assim ele realizou uma pesquisa sobre os efeitos das transfusões de sangue entre os coe­lhos para descobrir se as características adquiridas seriam herdadas. Embora seu interesse pelo lado genético do evolucionismo não houvesse durado muito tempo, as implicações sociais da teoria direcionaram seu trabalho subsequente e determinaram sua influência na psicologia moderna.

A Herança Mental

O primeiro livro importante de Galton para a psicologia foi Hereditary genius (1869). Quando Darwin o leu, escreveu a Galton, dizendo nunca ter lido algo tão interessante e original. Galton procurou demonstrar que a grandeza ou a genialidade individuais ocorriam com tanta frequência dentro das famílias que a mera explicação da influência ambiental não era suficiente. Resumindo, sua tese afirmava que um homem notável teria filhos homens notáveis (naquele tempo, as filhas tinham poucas oportunidades de se destacarem, a não ser por meio de um casamento com algum homem importante).

A maioria dos estudos biográficos descritos por Galton em Hereditary genius era pes­quisas sobre os ancestrais de influentes cientistas e médicos contemporâneos. Os dados demonstravam que uma pessoa famosa herdava não apenas a genialidade, como também sua forma específica. Por exemplo, um grande cientista nascia em uma família que já se houvesse destacado na ciência.

O objetivo de Galton era incentivar o nascimento de indivíduos mais notáveis ou mais aptos na sociedade e desencorajar o nascimento dos inaptos. Para essa finalidade, fundou a ciência da "eugenia", palavra por ele cunhada. Eugenia, ele afirmou, lida com as "questões relacionadas com o termo grego, Eugenes, isto é, de boa estirpe, hereditariamente dotado de qualidades nobres" (apud Gillham, 2001, p. 207). Galton desejava impulsionar o aperfeiçoamento das qualidades herdadas da raça humana. Argumentava que os seres humanos, assim como os animais de criação, podiam ter as características melhoradas mediante a seleção artificial. Se as pessoas de muito talento fossem selecionadas e acasa­ladas geração após geração, o resultado seria uma raça humana extremamente talentosa. Propôs o desenvolvimento de testes de inteligência para selecionar homens e mulheres brilhantes, destinados à reprodução seletiva, e recomendou que os melhores recebessem incentivos financeiros para se casarem e procriarem.

Na tentativa de verificar sua teoria da eugenia, Galton estudou problemas de mensuração e de estatística. Para o livro Hereditary genius, aplicou conceitos estatísticos a problemas de hereditariedade, classificando os homens extraordinários de sua amostragem em categorias, conforme a frequência com que seus níveis de capacidade ocorriam na população. Os dados comprovaram que os homens notáveis apresentavam maior probabilidade de terem filhos extraordinários do que os homens comuns. A amostragem consistia em 977 homens famosos, cada um tão notável que a proporção era de 1 para cada 4.000 homens. Aleatoriamente, a expectativa seria de haver no grupo apenas um parente importante; no entanto havia 332.

A probabilidade de superioridade em algumas famílias não era alta o suficiente para Galton aceitar seriamente qualquer possibilidade de influência de um ambiente superior, como melhores oportunidades educacionais ou vantagens sociais. Seu argumento era de que a eminência ou a sua ausência deviam-se exclusivamente a uma função hereditária, e não à oportunidade.

Galton escreveu também English men of science (1874), Natural inheritance (1889) e mais 30 trabalhos a respeito da hereditariedade. Publicou a revista Biometrika, fundou o labo­ratório de eugenia na University College, de Londres, e uma organização para promover suas ideias acerca do aperfeiçoamento das qualidades mentais da raça humana.

No trecho a seguir, extraído de Hereditary genius, Galton discute os limites do desen­volvimento tanto físico como mental impostos pela hereditariedade. Ele observa que nenhum tipo de esforço, mental ou físico, possibilita que uma pessoa avance além de suas características genéticas.


Texto original

Trecho Extraído de Hereditary Genius: an Inquiry into Its Laws and Consequences (1869), de Franeis Galton

Não tenho como admitir a hipótese ocasionalmente expressa, e muitas vezes implícita, prin­cipalmente nas histórias escritas a fim de ensinar as crianças a serem boas, de que os bebês recém-nascidos são muito parecidos e que os únicos agentes a criarem as diferenças entre dois garotos e entre dois homens sejam a rígida aplicação e o esforço moral. É da maneira mais incondicional que faço objeção contra as pretensões da igualdade natural. As experiên­cias do berçário, da escola, da universidade e das carreiras profissionais formam uma cadeia de provas contrárias. Admito francamente o enorme efeito da educação e das influências sociais no desenvolvimento dos poderes ativos da mente, assim como reconheço o efeito do uso no desenvolvimento dos músculos do braço de um ferreiro e nada mais. Deixe o ferreiro simplesmente trabalhar, e ele descobrirá que existem algumas proezas acima do seu poder que são convenientes para a força de um homem de feitio hercúleo, embora possa ter tido uma vida sedentária. (...)

Todo aquele que se exercita fisicamente descobre a magnitude da sua força muscular para o refinamento. Quando começa a caminhar, a remar, a utilizar halteres ou a correr, descobre, para seu deleite, que seus [músculos] se fortalecem e a sua resistência à fadiga aumenta dia após dia. Enquanto é um novato, talvez se vanglorie da inexistência de um limite designável ao treinamento dos seus músculos; todavia logo notará que o ganho diário diminui e que, por fim, acaba desaparecendo. Seu desempenho máximo torna-se uma quantidade rigidamen­te determinada. Aprende a medir milimetricamente a sua capacidade de salto em altura ou sua ausência quando atinge o mais alto grau de treinamento. Aprende a dosar a força que pode aplicar no dinamômetro, comprimindo-o. É capaz de aplicar um golpe na máquina utilizada para medição de impacto e obter certo grau de índice, mas nada mais. É assim na corrida, no remo, na caminhada e em qualquer outra forma de exercício. A força muscular humana possui um limite definido que não pode ser ultrapassado por nenhum exercício ou treinamento.

Esse argumento é precisamente similar à experiência vivida por cada aluno que trabalha com a sua capacidade mental. O garoto ansioso no primeiro dia de aula, ao confrontar-se com as dificuldades intelectuais, fica maravilhado com seu progresso. Vangloria-se do desenvolvi­mento mental recém-conquistado e da sua capacidade crescente de aplicação e, talvez, cari­nhosamente acredite estar a seu alcance tornar-se um dos heróis que deixaram a sua marca ao longo da história mundial. Os anos passam, ele compete repetidas vezes com os seus colegas nos exames da escola e da faculdade e logo conquista o seu lugar entre eles. Sabe que pode vencer este ou aquele concorrente; que existem alguns com quem compete em igualdade de condições e outros com feitos intelectuais dos quais ele nen se aproxima. (...)

Dessa maneira, com esperanças recém-renovadas e com toda a ambição de um jovem de 22 anos, sai da universidade e ingressa em um campo de competição ainda maior. Ali, o mesmo tipo de experiência pelo qual já passou o aguarda. Surgem as oportunidades - e as surgem para todo homem - e ele se sente incapaz de agarrá-las. Ele tenta e é tentado de diversas maneiras. Em mais alguns anos, a menos que definitivamente cegado pela própria vaidade, aprende exatamente quais são os desempenhos de que é capaz e quais são os que estão além da sua capacidade. Quando atinge a maturidade, é confiante apenas dentro de determinados limites e se conhece, ou deveria conhecer-se, assim como é provavelmente julgado pelo mundo, com todas as suas inconfundíveis fraquezas e todas as suas inegáveis forças. Não se tortura mais em realizar esforços inúteis pelos discursos falaciosos da presunçosa vaidade, todavia limita as suas realizações às matérias abaixo do nível de seu alcance e descobre o verdadeiro repouso moral na convicção honesta de que está enga­jado na melhor empreitada de que é capaz de desempenhar, proporcionada pela sua natureza.


Métodos Estatísticos

Galton nunca ficava totalmente satisfeito com um problema até encontrar alguma maneira de quantificar os dados e analisá-los estatisticamente. Quando precisava, até desenvolvia os próprios métodos. 

Adolph Quetelet (1796-1874), um matemático belga que também era pintor, poeta e escritor, acreditava fortemente na utilidade da estatística, "convencido de que a estatística fornecia um insight ao comportamento humano e à compreensão da sociedade (Cohen, 2005, p. 126). Quetelet foi o primeiro a usar métodos estatísticos e a curva normal de distribuição em dados biológicos e sociais. A curva normal fora empregada em trabalhos acerca da distribuição de medidas e erros na observação científica, mas não havia sido aplicada à variabilidade humana até Quetelet demonstrar que as medidas de altura de 10 mil indivíduos ficavam próximas da curva normal. A sua expressão l homme moyen (o homem médio) explicava a descoberta de que a maioria das medidas físicas ficavam distribuídas em torno da média ou do centro da distribuição e poucas se encontravam
próximas de qualquer extremo.

Galton ficou impressionado com os dados de Quetelet e presumiu que resultados simi­lares seriam obtidos para as características mentais. Por exemplo, Galton descobriu que as notas atribuídas nos exames das universidades seguiam a curva normal. Devido à simplicidade da curva normal e à sua consistência em vários traços, ele sugeriu que qualquer conjunto grande de medidas ou de valores das características humanas podia ser descrito satisfatoriamente por dois números: o valor médio da distribuição (a média aritmética) e a dispersão ou a faixa de variação em torno desse valor médio (o desvio-padrão).

O trabalho estatístico de Galton produziu uma das medidas científicas mais importan­tes: a correlação. O primeiro relatório, utilizando o que ele chamou de "correlação" foi elaborado em 1888. As modernas técnicas estatísticas para a determinação da validade e confiabilidade dos testes, bem como dos métodos analítico-fatoriais, são resultado direto da sua pesquisa de correlação, os quais foram baseados na observação da tendência das características herdadas de regressarem na direção da média. Por exemplo, ele observou que, na média, os homens de estatura alta não são tão altos quanto seus pais; por outro lado, os filhos de homens de estatura bem baixa são mais altos do que os pais. Ele represen­tou graficamente as propriedades básicas do coeficiente de correlação e criou uma fórmula para o cálculo, embora não seja mais usada.

Incentivado por Galton, seu aluno Karl Pearson (1857-1936) desenvolveu a fórmula usada atualmente para calcular o coeficiente de correlação (o coeficiente de correlação produto-momento de Pearson), cujo símbolo é a letra "r" inicial da palavra "regressão", como homenagem à descoberta da tendência dos traços humanos herdados de regressão para a média feita por Galton. Durante muitos anos Pearson se preocupou com a ideia de que sua reputação científica não passaria de uma simples "nota de rodapé em uma fórmula (...) Esse medo tornou-se uma grande verdade" (E. Baumgartner, 2005, p. 84).

A correlação é uma ferramenta fundamental para as ciências sociais e comportamentais, bem como para a engenharia e as ciências naturais. Além disso, outras técnicas de estatística foram desenvolvidas graças ao trabalho pioneiro de Galton.

Testes Mentais

A expressão testes mentais foi cunhada por James McKeen Cattell, discípulo estadunidense de Galton e aluno de Wundt. Entretanto foi Galton quem deu origem ao conceito de testes mentais. Ele imaginava que a inteligência podia ser medida com base na capacidade sensorial individual e que, quanto mais inteligente, mais alto seria o nível de funcionamento sensorial do indivíduo. Galton extraiu essa ideia da visão empirista de John Locke de que todo conhecimento é adquirido por meio dos sentidos. Se Locke esti­vesse correto, as pessoas mais inteligentes teriam os sentidos mais aguçados.

A fim de atingir seus objetivos, Galton precisava inventar um aparelho que realizasse medidas sensoriais em um grande número de pessoas com rapidez e precisão. Por exemplo para determinar a frequência sonora mais alta, passível de detecção, inventou um apito que testou em animais e em seres humanos. Caminhava pelo zoológico de Londres com uma bengala que tinha o apito afixado em uma ponta e na outra uma espécie de bexiga de bor­racha que ele apertava para tocar o apito, enquanto observava a reação dos animais. O apito de Galton tornou-se uma peça-padrão entre os equipamentos do laboratório de psicologia até ser substituído, na década de 1930, por um dispositivo eletrônico mais sofisticado.

Entre outros instrumentos usados por Galton estão o fotômetro, para medir a precisão com que uma pessoa consegue encontrar dois pontos da mesma cor, um pêndulo calibra­do, para medir a velocidade de reação à luz e ao som, e uma série de pesos ordenados para medir a sinestesia ou a sensibilidade muscular. Criou ainda uma barra com várias medidas de distância para testar a estimativa de extensão visual e conjuntos de recipientes contendo diversas substâncias para testar a distinção olfativa. Em sua maioria, os testes de Galton serviram como protótipos para equipamentos que se tornaram padrão de laboratório.

Munido de seus novos testes, Galton prosseguiu coletando uma enorme quantidade de dados. Fundou o Laboratório Antropométrico na International Health Exhibition [Ex­posição Internacional de Saúde], em 1884, e mais tarde transferiu-o para o museu South Kensington de Londres. O laboratório funcionou durante seis anos e, nesse período, Galton coletou dados de mais de 9 mil pessoas. Ele arrumava os instrumentos para as medidas psicométricas e antropométricas sobre uma mesa comprida, no fundo de uma sala estrei­ta, de mais ou menos 2m de largura por 11m de comprimento. Mediante o pagamento de uma pequena taxa, o visitante entrava, passava por todo o comprimento da mesa e um atendente realizava a avaliação e registrava os dados em um cartão.

Além dessas medidas mencionadas, os funcionários do laboratório registravam a altu­ra, o peso, a capacidade respiratória, a força de impulsão e compressão, a rapidez de sopro, a audição, a visão e a percepção cromática. Cada pessoa passava por um total de 17 testes. O objetivo do programa de testes em larga escala de Galton era nada menos que a defini­ção da variedade da capacidade humana de toda a população britânica para determinar seus recursos mentais coletivos.

Um século mais tarde, um grupo de psicólogos estadunidenses analisou esses dados (Johnson et al, 1985) e descobriu muitas correlações teste-reteste, indicando a consistência estatística dos dados. Esses psicólogos constataram também que os dados forneciam informações acerca das tendências do desenvolvimento infantil, juvenil e adulto, dentro da população testada. As medidas como o peso, o alcance do braço, a capacidade respiratória e a força de compressão mostraram-se similares às descritas na literatura psicológica mais recente, exceto em reiação à velocidade de desenvolvimento que, na época de Galton, parece ter sido um pouco mais lenta. Os psicólogos chegaram à conclusão de que esses dados continuam instrutivos.

A Associação de Ideias

Galton trabalhou em dois problemas relacionados com a área da associação:

  1. a diversidade de associações de ideias;
  2. o tempo de reação (o tempo necessário para a produção de associações).

Um dos métodos usados por Galton para estudar a diversidade de associações era cami­nhar cerca de 400m pela rua Pall Mall (em Londres, entre a Trafalgar Square e o palácio de St. James), concentrando sua atenção em um objeto até que ele lhe incitasse uma ou duas associações de ideias.

A primeira vez em que realizou essa experiência, surpreendeu-se com o número de associações provocadas por cerca de 300 objetos que vira. Muitas dessas associações eram lembranças de experiências do passado, inclusive de incidentes que pensava ter se esque­cido havia muito tempo. Ao repetir a caminhada alguns dias depois, constatou uma considerável repetição das associações ocorridas na primeira experiência, o que pôs fim ao seu interesse na questão. Voltou-se para as experiências sobre o tempo de reação, que produziam resultados mais satisfatórios.
Preparou uma lista de 75 palavras e escreveu cada qual em uma tira de papel separada. Depois de uma semana, leu uma palavra de cada vez e, com o cronômetro, registrou o tempo que levou para produzir duas associações para cada palavra. Muitas delas consistiam em apenas uma palavra, mas algumas eram imagens e figuras mentais que exigiam diversas palavras para descrevê-las. A tarefa seguinte era determinar a origem dessas associações. Identificou cerca de 40% dos acontecimentos da infância e da adolescência, demonstração inicial da influência das experiências da infância na personalidade adulta.

Galton também ficou bastante impressionado com a influência dos processos de pensamento do seu inconsciente, que trouxeram para o nível consciente incidentes que acreditava haver esquecido muito tempo atrás. Disse que chegou a acreditar "que o meu melhor trabalho cerebral era totalmente independente da [consciência]" (apud Gillham, 2001, p. 221). Escreveu sobre a importância do inconsciente em um artigo publicado na revista Brain (1879). Em Viena, Sigmund Freud, que tinha ideias próprias a respeito da importância do inconsciente, era assinante da revista e foi nitidamente influenciado pelo trabalho de Galton.

Mais importante que os resultados foi o método experimental que Galton desenvol­veu para estudar as associações, hoje conhecido como o teste de associação de palavras. Wilhelm Wundt adaptou a técnica no laboratório de Leipzig, como mencionamos no Capítulo 4, limitando as respostas dos indivíduos a apenas uma palavra. O analista Cari Jung aprimorou a técnica para aplicá-la na sua pesquisa de associação de palavras relativas à personalidade.

Imagens Mentais

As pesquisas de Galton a respeito das imagens mentais marcaram a primeira aplicação ampla do questionário psicológico. Pedia-se às pessoas que se lembrassem de alguma cena, como, por exemplo, a mesa do café-da-manhã daquele dia, e tentassem inferir imagens. Elas eram instruídas a relatar se as imagens eram obscuras ou nítidas, claras ou escuras, coloridas ou não, e assim por diante. Para sua surpresa, o primeiro grupo de pessoas, cien­tistas conhecidos, não relatou nenhuma imagem nítida. Alguns não entenderam muito bem do que Galton estava falando. Tomando uma amostragem mais ampla da população, Galton obteve relatos de imagens nítidas e bem distintas, cheias de detalhes e de cores. As imagens descritas pelas mulheres e crianças eram mais concretas e detalhadas. Utilizando-se da análise estatística, Galton descobriu que as imagens mentais, assim como muitas outras características humanas, estavam distribuídas na população conforme a curva normal.

O trabalho de Galton sobre as imagens estava baseado na sua contínua tentativa de demonstrar as semelhanças hereditárias. Descobriu que a probabilidade de ocorrência de imagens semelhantes era maior entre parentes do que entre pessoas desconhecidas.

Aritmética Olfativa e Outros Tópicos

A riqueza do talento de Galton fica evidente na variedade dos seus estudos de pesquisa. Ele chegou a se colocar no estado mental de uma pessoa que sofre de paranóia, imaginando que todos ou tudo que via estavam o espionando. Um historiador relata que, quando ele fazia isso durante a sua caminhada matutina, "sentia como se todo cavalo olhasse direta­mente para ele ou, desconfiadamente, dissimulasse a espionagem, simplesmente fazendo de conta que não lhe prestava atenção" (Watson, 1978, p. 328-329).

No auge da controvérsia entre o evolucionismo de Darwin e a teologia fundamentalista, Galton estudou a questão com a objetividade necessária e concluiu que, embora muitas pessoas tivessem fortes crenças religiosas, não havia provas suficientes da sua validade. Realizou uma pesquisa sobre o poder da oração na produção de resultados e verificou não ter ela eficácia para os médicos curarem pacientes ou para os meteorologistas tentarem mudar as condições do tempo, nem para os religiosos aplicarem-na na vida cotidiana. Acreditava haver pouca diferença entre as pessoas possuidoras de fortes crenças religiosas e as que não possuíam, em termos de expectativa de vida, de relacionamento interpessoal ou de enfrentamento dos próprios problemas. Galton esperava que um conjunto de cren­ças mais efetivo pudesse ser estruturado em termos científicos. Pensava que o desenvol­vimento de uma raça humana superior por meio da evolução, mediante a eugenia, devia ser a meta da sociedade e não um lugar no céu.

Seu interesse na quantificação e na análise estatística muitas vezes se expressava no seu apego aos números. Passava o tempo entre palestras e peças teatrais contando os boce­jos e as tossidas do público. Descrevia os resultados como uma medida do tédio. Em uma ocasião, quando um artista pintava o seu retrato, contou o número de pinceladas: cerca de 20 mil. Um dia decidiu contar pelo cheiro e não por números, e praticou bastante para poder esquecer o significado deles. Mas, em vez de esquecer os números, atribuiu valores numéricos aos odores, como o cheiro de menta, e aprendeu a adicionar e subtrair pensan­do no cheiro. Esse exercício intelectual deu origem a um trabalho intitulado “Arithmetic by smell" ("Aritmética olfativa"), publicado na primeira edição da revista especializada estadunidense Psychological Review.

Comentários

Galton passou 15 anos pesquisando problemas psicológicos e seus esforços tiveram um impacto significativo na direção da nova psicologia, embora não fosse realmente um psicólo­go. Era uma pessoa extremamente bem dotada, cujos talento e temperamento não ficaram restritos a uma única disciplina. Basta verificar os métodos e o escopo do seu interesse: adaptação, hereditariedade versus ambiente, comparação das espécies, desenvolvimento infantil e testes mentais. Seu trabalho exerceu maior influência na evolução da psicologia estadunidense do que o trabalho do fundador da disciplina, Wilhelm Wundt.

A Psicologia Animal e a Evolução do Funcionalismo

A teoria da evolução de Darwin foi comprovadamente um estímulo para o desenvolvimento da psicologia animal. Antes da publicação de On the origin ofspecies, não havia razão para os cientistas se preocuparem com a mente animal, já que os animais eram apenas robôs sem mente e sem alma. Afinal, Descartes afirmou que os animais não tinham qualquer semelhança com os homens.

O trabalho de Darwin alterou essa visão conformista, pois suas conclusões apontaram para a inexistencia de qualquer distinção evidente entre a mente humana e a animal. Assim os cientistas propuseram a continuidade entre todo aspecto mental e físico dos seres humanos e dos animais, com base na teoria de que o homem descende do animal por meio do continuo processo de desenvolvimento evolutivo. Darwin afirmou: "Não existe diferença fundamental entre o homem e os mamíferos superiores em relação às faculdades mentais" (1871, p. 66). E ainda, acreditava que os animais inferiores sentiam prazer e dor, alegria e tristeza; tinham sonhos e até certo grau de imaginação. Mesmo as minhocas, afirmou Darwin, demonstram prazer ao comer, além de paixão sexual e senti­mento social, sendo tudo uma prova da existência de alguma forma de mente animal.

Se fosse possível provar a existência da habilidade mental nos animais, além de compro­var a continuidade entre a mente animal e a mente humana, essas evidências colocariam por terra a dicotomia humano/animal defendida por Descartes. Desse modo, estava lança­do o desafio para os cientistas buscarem as provas da existência da inteligência animal.

Darwin defendeu suas ideias sobre a inteligência animal no livro The expression of the emotions in man and animais (1872), em que argumentava que o comportamento emo­cional humano deriva do comportamento herdado que um dia fora útil aos animais mas que não é mais relevante para o homem. Um exemplo é a expressão nos lábios de uma pessoa quando ela quer demonstrar escárnio. Darwin alegava ser esse gesto remanescente da forma como os animais enfurecidos mostravam os dentes caninos.

Nos anos que se seguiram à publicação de On the origin of species, o tema da inteligencia animal ganhou popularidade, não apenas entre a comunidade científica como tambem entre o publico em geral. Nas décadas de 1860 e 1870, muitas pessoas escreviam para as revistas populares e científicas pedindo exemplos de comportamento animal que comprovassem habilidades mentais antes ignoradas. Histórias circulavam dando conta de feitos marcantes da inteligência de gatos e cães domésticos, cavalos e porcos e até de lesmas e pássaros.
Nem o grande experimentalista Wilhelm Wundt escapou dessa tendência. Em 1863 antes de tornar-se o primeiro psicólogo da história, Wundt escreveu a respeito das habili­dades intelectuais de vários seres vivos, desde besouros até castores. Ele presumia que os animais que exibissem qualquer capacidade mínima sensorial também deviam ser dotados de poder de julgamento e de inferência consciente. Na verdade, os animais simples não deviam ser considerados inferiores ou menos inteligentes, pois diferiam dos seres huma­nos não tanto pela habilidade como por terem recebido menos educação e treinamento! Trinta anos depois, a sua generosidade em relação à inteligência animal havia diminuído mas durante algum tempo sua afirmação juntou-se às várias que sugeriam serem os animais tão bem dotados quanto os seres humanos.

George John Romanes (1848-1894)

O fisiologista britânico George Romanes formalizou e sistematizou o estudo da inteligên­cia animal. Ainda criança, foi considerado pelos pais "um perfeito idiota" (Richards, 1987, p. 334). Quando jovem, ficou impressionado com os trabalhos de Darwin. Tornaram-se amigos, e Darwin deu a Romanes seu caderno de anotações sobre o comportamento ani­mal. Desse modo, Darwin escolheu Romanes para dar continuidade àquele aspecto do seu trabalho, aplicando a teoria da evolução à mente assim como ele havia aplicado ao corpo, e Romanes mostrou-se um sucessor de valor. Por ser rico, Romanes não precisava se preocupar em ganhar a vida. O único emprego que teve foi como professor de meio período na University of Edinburgh, que exigia a sua presença no total de duas semanas no ano. Passava o inverno em Londres e Oxford e o verão na praia, onde construiu um laboratório tão bem equipado quanto o de uma universidade.

Romanes publicou Animal intelligence (Inteligência animal) (1883), geralmente consi­derado o primeiro livro de psicologia comparativa. Coletou dados do comportamento de protozoários, formigas, aranhas, répteis, peixes, pássaros, elefantes, macacos e animais domésticos. Seu objetivo era demonstrar o alto nível da inteligência animal e a sua seme­lhança com o funcionamento intelectual humano, mostrando assim a continuidade do desenvolvimento mental. Com suas palavras, Romanes desejava demonstrar que "não há diferença de modalidade entre os atos racionais executados pelo caranguejo e qualquer ato racional humano" (apud Richards, 1987, p. 347).

Romanes desenvolveu o que chamou de "escada mental", em que ordenava as várias espécies animais por grau de funcionamento mental (Tabela 6.1). Observa-se na tabela que ele creditava até às formas de vida inferior (como a água-viva, o ouriço e a lesma) um alto grau de funcionamento mental. Ele formou essas opiniões, de algum modo surpreenden­tes, coletando dados por meio do método anedótico, definido como o uso de relatos ou narrativas de observações, muitas vezes casuais, sobre o comportamento animal. Muitos dos relatos foram de observadores não-treinados e acríticos, cujas observações poderiam ser parciais e negligentes.

Tabela 6.1

Romanes desenvolveu essas definições a respeito da inteligência animal com base nas observações anedóticas obtidas por meio de uma técnica curiosa chamada introspecção por analogia, que acabou sendo descartada. Nessa abordagem, os pesquisadores partem do princípio de que os mesmos processos mentais que ocorrem em suas mentes ocorrem na mente dos animais observados. Assim, presume-se a existência de uma função men­tal específica, observando-se o comportamento do animal e criando-se uma analogia, seja por alguma correspondência seja por relação, entre os processos mentais humanos conhecidos e os processos que, deduz-se, estejam ocorrendo na mente do animal.

Para começar, com base no conhecimento subjetivo das operações da minha mente e das atividades que essas operações parecem indicar em meu organismo, sigo por analogia para deduzir, a partir das atividades observáveis demonstradas por outros organismos, o fato de que certas operações mentais sustentam ou acompanham essas atividades, (Romanes apud Mackenzie, 1977, p. 56-57)

Com a técnica da introspecção por analogia, Romanes sugeria que os animais eram capazes de realizar os mesmos tipos de racionalização, ideação, raciocínio complexo, processamento de informação e solução de problemas que os humanos. Alguns de seus seguidores credi­tavam aos animais níveis de inteligência muito superiores ao do ser humano médio.

Romanes acreditava que, excluindo o macaco e o elefante, o gato era o animal mais inteligente. Escreveu muito sobre o comportamento do gato que pertencia ao seu motorista. Realizando vanos movimentos intrigantes, o gato era capaz de abrir as portas fechadas que conduziam ao estábulo. Empregando a introspecção por analogia, Romanes concluiu que:

Nos casos como esse, os gatos têm uma ideia perfeitamente definida das propriedades mecâ­nicas de uma porta; sabem que, para abri-la, mesmo quando destrancada, têm de empur­ra-la. (...) Primeiro, o animal deve ter observado que a porta é aberta pela mão que segura a maçaneta e move o trinco. Em seguida, deve raciocinar, pela "lógica dos sentimentos", que, se a mão é capaz de fazer isso, por que não a pata? (...) O ato de empurrar com a pata traseira após baixar o trinco deve-se a razões de adaptação. (Romanes, 1883, p. 421-422)

O trabalho de Romanes empregava métodos muito aquém do rigor científico moder­ no e, muitas vezes, a divisão entre a interpretação factual e a subjetiva de seus dados não era clara. Todavia, embora os cientistas reconhecessem a deficiência dos seus dados e métodos, ele era respeitado pelos esforços pioneiros, incentivando o desenvolvimento da psicologia comparativa e abrindo caminho para o estudo do comportamento animal.

Em diversas areas da ciência, a utilização de dados observacionais antecede o desenvolvimento de uma metodologia experimental mais refinada. E foi Romanes quem deu início ao estágio observacional da psicologia comparativa.

C. Lloyd Morgan (1852-1936)

O ponto fraco inerente aos métodos anedótico e da introspecção por analogia foi indicado formalmente por Conwy Lloyd Morgan (1852-1936), a quem Romanes designou como seu sucessor. Morgan foi aluno de Thomas Henry Huxley e tornou-se professor de psicologia e de educação da University of Bristol, na Inglaterra, além de ter sido uma das primeiras pessoas a pedalar uma bicicleta dentro dos limites da cidade. Também se interessava por geologia e zoologia e propôs a lei da parcimônia (também denominada Cânone de Lloyd Morgan) para neutralizar a tendência predominante de atribuir excessiva inteligência aos animais.

A lei da parcimônia afirma que o comportamento animal não deve ser interpretado como o resultado de um processo mental superior, quando pode ser explicado por um processo mental inferior. Morgan desenvolveu essa ideia em 1894 e pode tê-la criado com base na lei da parcimônia similar, descrita por Wundt dois anos antes. Wundt havia observado que "os princípios explicativos complexos devem ser empregados somente quando os [princípios] mais simples forem insuficientes" (Richards, 1980, p. 57).

A intenção de Morgan não era a exclusão completa do antropomorfismo dos traba­lhos sobre o comportamento animal, mas a redução do seu uso e aplicação, de modo mais científico, dos métodos da psicologia comparativa. Morgan concordava com Romanes em que os relatos subjetivos eram inevitáveis, no entanto tentou manter ao mínimo as infe­rências anedóticas no seu trabalho. Morgan disse:

Com relação às várias observações anedóticas de Romanes (...) noto, e sem dúvida ele também notou, que a ciência da psicologia comparativa não deve ser construída com tais fundamentos anedóticos. A maioria das histórias são meros registros casuais, complemen­tados por opiniões amadorísticas de observações passageiras, cujo treinamento psicológico é praticamente desprezível. Então, levanto dúvidas se alguém é capaz de extrair da mente do animal (...) os dados exigidos para uma ciência. (1930/1961, p. 247-248)

No geral, Morgan seguiu a abordagem de Romanes na observação do comportamen­to de um animal e na sua explicação por meio de uma análise introspectiva dos próprios processos mentais. No entanto, ao aplicar a lei da parcimônia, evitou atribuir processos mentais de nível mais elevado aos animais, quando o comportamento podia ser explicado em termos de processos de nível inferior.

Ele acreditava que a maioria dos comportamentos animais resultava da aprendizagem ou da associação com basea na experiência sensorial; esse tipo de aprendizagem consistia em um processo de nível inferior, e não em um pensamento racional ou em uma ideação.

Com a aceitação do cânon de Morgan, o método da introspecção por analogia foi aperfei­çoado e proporcionou dados mais úteis, mas acabou sendo superado por outros métodos mais objetivos.

Morgan foi o primeiro cientista a conduzir estudos experimentais em larga escala na psicologia animal. Embora suas experiências não fossem realizadas sob as condições cien­tíficas rígidas exigidas hoje, elas constituíram observações cuidadosas do comportamento animal, a maioria em ambientes naturais, mas com algumas modificações artificiais. Apesar de esses estudos não comportarem o mesmo grau de controle das experiências realizadas em laboratórios, foram um avanço importante do método anedótico de Romanes.

Comentários

O trabalho inicial na psicologia comparativa foi conduzido na Inglaterra, mas a liderança no campo passou rapidamente para os Estados Unidos. Romanes faleceu mais ou menos aos 40 anos, vitimado por tumor cerebral, e Morgan trocou sua pesquisa por uma carreira administrativa na universidade.

A psicologia comparativa surgiu da excitação e da polêmica provocadas pela sugestão de Darwin a respeito da continuidade entre as espécies humana e animal. As ideias bási­cas da teoria darwiniana são a noção de função e a afirmação de que as espécies evoluem e que as estruturas físicas são determinadas pela luta pela sobrevivência. Essa premissa levou os biólogos a considerarem cada estrutura anatômica um elemento utilitário ou funcional em um sistema total de vida e adaptação. Quando os psicólogos começaram a examinar os processos mentais da mesma maneira, estabeleceram o trabalho de base para um novo movimento: a psicologia funcional.

Psicologia - História da Psicologia
1/11/2020 2:00:48 PM | Por John Haywood
Livre
Origem dos Celtas

Identidade Celta - O Danúbio tem a sua origem no território dos Celtas, perto da cidade de Pyrêne, e corre pelo meio do Europa, dividindo-a em duas partes. Os Celtas vivem além das Colunas de Héracles e fazem fronteira com os Cinésios, que vivem no extremo oeste da Europa. (Heródoto, Histórias (c. 444 a.e.c.)

Os Celtas provaram ser um incrível grupo de povos resistente. Na Antiguidade, foram contemporâneos dos Romanos, Iberos, Ilírios, Trácios, Dácios, Etruscos, Ligures, Citas, Gregos e Germanos, entre outros. Apenas os Celtas, Gregos e Germanos ainda existem. Defini-los durante a sua longa existência não é tarefa fácil. Tem havido uma tão grande mudança cultural, tecnológica e social, que os Celtas modernos seriam completamente irreconhecíveis aos olhos dos seus antepassados. Pouco subsiste da cultura dos Celtas antigos e houve ainda um período - mais de mil anos - em que o nome "celta" caiu em completo desuso, antes de ser reavivado no século XVIII. A definição mais consistente e mais largamente aceite baseia-se na língua, que é o único traço seguro de continuidade, ligando os Celtas antigos aos seus descendentes modernos: os Celtas são povos que falam línguas celtas. Nos tempos antigos estes povos incluíam Gauleses, Belgas, Celtiberos, Lusitanos e Gálatas, e Bretões e Irlandeses antigos.

---------------

A Identidade Celta

A palavra «celta» (grego Keltoi, latim Celtae) foi primeiro usada pelos autores gregos, há cerca de 2500 anos, para descrever as tribos bárbaras que viviam no interior da colônia grega de Massília (Marselha). Os Gregos cedo expandiram o uso dessa palavra para descrever todos os povos bárbaros da Europa a norte dos Alpes, incluindo os Francos, que hoje não são considerados Celtas. Os Gregos também usaram outro nome, "Galatas" (Galatoi), intercalando com "Celta", especificamente para descrever os povos da Europa Central que falavam celta e que invadiram a Grécia e a Anatólia no século III a.e.c. Os Romanos usaram uma palavra similar, "Gaul" (Galli) para descrever os povos continentais de língua celta. As origens destas três palavras são desconhecidas, mas todos são, provavelmente, celtas, já que surgem como elementos em nomes tribais (Gallaeci, Celtici, Celtiberi), nomes pessoais (Celtius) e ainda nomes de locais (Celti). Júlio Cesar diz-nos que "Celta" era também usado como um nome coletivo em algumas das tribos gaulesas. Estes eram os Celtas originais encontrados pelos Gregos de Massília. Contudo, nem todos os povos, que atualmente reconhecemos como Celtas, alguma vez se descreveram como tal. Apesar de os antigos Bretões serem vistos agora como Celtas, nunca foram descritos como Celtas ou Gauleses, vendo-se como povos bem diferentes, tal como os Romanos os viam, reconhecendo no entanto, grandes parecenças com a sua língua e os seus costumes. Em relação aos Irlandeses antigos, nem sequer tinham uma identidade própria comum até no inicio da Idade Media, quando adotaram o nome Gaidel (Gaedheal em gaélico moderno), proveniente de Guoidel «selvagens", o nome bretão para os povos da Irlanda. O costume de descrever todos os grupos que falam a língua celta como "Celtas" é bastante recente, datando apenas do século XVIII. Como não era usual, historicamente, os grupos que falavam celta serem referidos como um todo, alguns historiadores modernos e arqueólogos sustentam que a idéia de os Celtas serem um povo é, simplesmente, uma interpretação moderna. Historiadores e arqueólogos têm vindo a impor uma unidade artificial aquilo que realmente era um grupo diversificado de povos, sem qualquer sentido de identidade comum. Se se levar em conta que a posição politicamente correta, a de que o único nome, cujo uso poderá ser justificado para descrever um povo, é o nome que esse próprio povo usa, então poderemos concordar com o arqueólogo Simon James, de que não existe justificação para descrever os antigos Bretões e Irlandeses como Celtas e que o termo não tem significado, mesmo quando aplicado à Idade do Ferro na Europa continental. Esta é uma posição que compreensivelmente não agrada aos Celtas modernos, a maioria originários da Grã-Bretanha e da Irlanda, uma vez que a vêem como uma tentativa de negar as suas antigas raízes e de apagar da historia aqueles que consideram ser os seus antepassados. O ponto de vista aqui descrito é o de que os céticos se mostram demasiado presumidos. Objetivamente, existiu um grande grupo de povos na Europa da Idade do Ferro, que falava línguas muito aparentadas e que partilhava as mesmas crenças religiosas, estilos de arte, vestuário e armas, estruturas sociais e valores. Faz sentido usar um nome comum para descrever estes povos, bem como os povos modernos que deles descendem, tendo em conta esta acumulação de características partilhadas.

Quando os Celtas inicialmente emergiram da obscuridade pré-histórica, no século V a.e.c., eram já um grupo de povos muito disperso. A língua celta falava-se na maior parte da Europa Ocidental, desde a Áustria e Boemia, passando pelo Sul da Alemanha e França, até a Grã-Bretanha, Irlanda e a Península Iberica. Não é claro o modo como os Celtas conseguiram chegar a esses locais e de onde vieram. Escritores gregos antigos, como o geógrafo Hecateu e o historiador Heródoto, que escreveu sobre os mais antigos registros das tetras celtas, nada dizem sobre isso e, como nunca desenvolveram uma literatura cultural em profundidade, os Celtas nunca puderam registrar os seus mitos e lendas originais que estão agora irreparavelmente perdidos. Nos séculos seguintes, os Gregos negociaram com os Celtas, lutaram com eles e utilizaram-nos como mercenários e escravos, mas se alguma vez pretenderam saber as suas origens, certamente acharam que as respostas não mereciam ser escritas. Afinal, o que era a cultura de um Celta? Não conseguiam sequer falar corretamente - em grego, claro - emitindo apenas ruídos incompreensíveis ("bar-bar"), dos quais se herdou o hábito de descrever aqueles que consideramos incivilizados como "bárbaros". Os Gregos preferiram explicar a gênese dos Celtas inventando mitos etimológicos pitorescos. Segundo um destes mitos, registrado pelo historiador Apio de Alexandria, Polifemo, o infame Ciclope da Sicília e a sua mulher Galateia tiveram três filhos, Celto, Gálates e Ilírio, tendo emigrado todos da Sicilia e reinado sobre outros povos que vieram a chamar-se Celtas, Gálatas e Ilírios (os antepassados dos Albaneses). Outra historia, recordada por Partenio (século I a.e.c.), é a de Céltina, a bela filha do rei Bretano, que se apaixonou por Héracles, quando este levava os bois de Gerião da Erítia. Celtina escondeu os animais e recusava-se a dizer a Héracles onde estavam, a não ser que este fizesse sexo com ela. Não foi necessário usar de muita persuasão e dessa união nasceu um filho. Foi-lhe dado o nome Celto e dele descendem os Celtas. Os Romanos não eram muito melhores que os Gregos. De acordo com Cesar, os Gauleses afirmavam ser descendentes de um deus de um submundo a quem ele atribui um nome romano Dis Parer (Pluto). Qual era o seu nome celta, Cesar não diz, porque essa idéia não lhe ocorreu. Os Romanos acreditavam que os seus deuses eram universais, porém, se outros povos os conhecessem com nomes diferentes, isso era-lhes indiferente. O historiador Tácito confirma esta indiferença quando escreve que era de esperar que ninguém se preocupasse em saber as origens dos povos bárbaros.

O registro arqueológico mostra que, quando os Gregos se aperceberam da sua existência, os Celtas já possuíam uma cultura aristocrática sofisticada, caracterizada por trabalhos bastante desenvolvidos em ferro e bronze e por um estilo distinto de arte decorativa. Esta cultura inicial reconhecida como celta, era a cultura de Hallstatt, cujo nome resulta de uma necrópole da Idade do Ferro, situada nos Alpes Austríacos, e escavada no século XIX. As mais de 2000 sepulturas continham oferendas ricas para os mortos, revelando a existência de uma sociedade guerreira aristocrática com largas ligações comerciais, que chegavam ao Báltico e Norte de África. Foi através destas ligações, que a existência dos Celtas foi descoberta pelos Gregos. A cultura de Hallstatt da Idade do Ferro não surgiu completamente formada: foi o produto de uma longa tradição cultural, que pode ser seguida através de várias fases desde cerca de 1200 a.e.c., quando se começou a desenvolver como uma variante da cultura de urnas funerárias de meados da Idade do Bronze, bastante espalhada pela Europa Central. Antes disso, os Celtas tornaram-se arqueologicamente invisíveis. No entanto, os Celtas, ou os grupos que falavam celta, já deviam existir há mais de 1000 anos.

História - Civilização Celta
1/6/2020 2:32:58 PM | Por Saulo de Freitas Araújo
Livre
Wilhelm Wundt e o estudo da experiência imediata

Wilhelm Wundt (1832-1920) é normalmente considerado, na historiografia da psicologia, como o fundador da psicologia científica, tí­tulo este que está diretamente relacionado ao fato de ter criado, em 1879, o Laboratório de Psicologia na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Além disso, é um dos autores mais citados e mencionados nos manuais de história da psicologia. Entretanto, apesar de toda essa fama, Wundt ainda é um autor não só bastante desconhecido, como também aquele, dentre os chamados “fundadores” da psicologia, cujas ideias mais sofreram distorções na literatura psicológica. Não só a extensão e as dificuldades de acesso à sua obra original, mas principalmente a atitude de vários historiadores da psicologia, que têm se detido apenas em partes dela, sem se preocupar com o sentido geral do seu sistema de pensamento, têm contribuído para essa situação desconfortável. Sendo assim, a primeira coisa que o leitor interessado em se aproximar da psicologia de Wundt deve ter em mente é que estamos ainda longe de ter uma clara e adequada compreensão de toda a sua obra e o que aqui nos interessa mais de perto, do lugar que seu projeto psicológico nela ocupa.

É bem verdade que, sobretudo a partir da década de 1980, começa­ram a surgir novos e importantes estudos sobre a obra de Wundt que têm procurado reavaliar o seu pensamento e mostrar as origens de algumas interpretações equivocadas tradicionalmente presentes nos manuais de história da psicologia. Alguns desses estudos, contudo, apesar de terem contribuído significativamente para mostrar a complexidade do projeto wundtiano de psicologia, são ainda superficiais e podem acabar introdu­zindo novos problemas na interpretação do pensamento de Wundt, na medida em que deixam de considerar textos fundamentais de sua obra, como seus escritos psicológicos iniciais, que abrangem o período de 1858 a 1863, quando ele ainda não tinha ido para Leipzig. Muitas questões permanecem mal resolvidas na obra de Wundt. Em primeiro lugar, coloca-se a questão da continuidade ou ruptura de seu projeto de psicologia. Teria ele apresentado vários sistemas teóricos distintos, introduzindo modificações essenciais em cada um deles? Ou haveria um único sistema psicológico, cujas alterações posteriormente introduzidas não afetariam sua unidade fundamental? Isso nos remete a uma outra questão, que diz respeito aos interesses e pressupostos filosófi­cos fundamentais de Wundt, que subjazem ao seu projeto de psicologia. Wundt é, antes de tudo, um filósofo que formulou um sistema de filosofia, incluindo uma lógica, uma teoria do conhecimento, uma ética e uma metafísica. Sem uma adequada compreensão de seus escritos filosóficos, os problemas relativos à interpretação de sua psicologia não poderão ser satisfatoriamente resolvidos.

Como as questões acima referidas aguardam uma solução definitiva, cujas exigências demandam um aprofundamento que extrapola os objetivos do presente texto, vamos privilegiar aqui, em vez de uma apresentação sistemática de todo o percurso wundtiano, alguns dos principais tópicos de seu pensamento psicológico, tomando como base sua fase madura, que se expressa na última grande síntese teórica de seu projeto de psicologia — o livro Compêndio de psicologia, cuja primeira edição é de 1896.

A natureza da psicologia

Talvez a melhor maneira de iniciar uma apresentação introdutória da psicologia wundtiana seja explicitando a própria definição de psicologia pro­ posta por Wundt. Neste sentido, a pergunta “O que é psicologia?" receberia a seguinte resposta: "A psicologia é uma ciência empírica cujo objeto de estudo é a experiência imediata”. No entanto, torna-se ainda necessário esclarecer o conceito de “experiência imediata”.

Wundt entende por experiência em geral um todo unitário e coerente, que pode ser concebido e elaborado cientificamente a partir de dois pontos de vista distintos, porém complementares: toda experiência pode ser analisada pelo seu conteúdo objetivo (experiência mediata) ou subjetivo (experiência ime­diata). No primeiro caso, a ênfase recai sobre os objetos da experiência (mundo externo), pensados independentemente do sujeito da experiência, enquanto, no segundo caso, investiga-se o próprio sujeito da experiência (mundo interno) em sua relação com os conteúdos da experiência. Com base nesses dois pontos de vista, surge uma dupla possibilidade de se fazer ciência empírica: a ciência natural (física, química, fisiologia etc.), que cuida dos conteúdos específicos da experiência mediata, uma vez que os objetos fornecidos na experiência são sempre mediados pelos fatores subjetivos; e a psicologia, que tem por objeto a experiência imediata, já que não abstrai o próprio sujeito, como a ciência natural.

Com essa definição de psicologia, Wundt pretende, em primeiro lugar, atacar um tipo de psicologia bastante difundida em sua época, que vinha sendo definida como ciência da alma ou mente. Segundo Wundt, essa psicologia está assentada em hipóteses metafísicas (espiritualismo ou materialismo) que extrapola no domínio da experiência possível. Como sua intenção é inaugurar uma nova psicologia, autônoma e independente de teorias metafísicas, o único caminho possível era recusar essa psicologia e construir uma outra, que se atém somente à experiência psicológica pro­priamente dita. Para a psicologia wundtiana, só há a experiência, vista como um conjunto de processos interligados, e nada mais. É importante enfatizar que, de acordo com essa definição, não há uma diferença essencial de natureza entre o mundo interno e o externo — uma vez que a experiência é um todo organizado que abrange ambos —, mas apenas uma diferença na maneira de se abordá-los. Por isso, a relação entre a psicologia e as ciências da natureza (Naturwissenschaften) é de complementaridade. Elas se complementam, na medida em que fornecem relatos diferentes da mesma experiência, sem que haja a possibilidade de haver uma subordinação ou redução de uma a outra.

Por outro lado, na medida em que a psicologia é a ciência das formas universais da experiência humana imediata, ela pode ser considerada a mais geral de todas as ciências do espírito (Geisteswissexschaftex) e, portanto, o fundamento de cada uma delas em particular (filologia, história, direito etc.).

Há que se considerar ainda a relação entre psicologia e filosofia. De todas as disciplinas empíricas, Wundt considera que a psicologia é aquela cujos resultados mais contribuem para a investigação dos problemas gerais da teoria do conhecimento e da ética, os dois domínios filosóficos fundamen­tais para ele. Se a psicologia, portanto, é complementar às ciências naturais e o fundamento das ciências do espírito, podemos dizer que é preparatória para a filosofia. Em outras palavras, os resultados da investigação psicológica podem guiar a construção de um sistema filosófico.

A questão do método e a subdivisão da psicologia

Como a psicologia não estuda um objeto diferente do objeto das ciências naturais, mas apenas a mesma experiência de um outro ponto de vista, seus métodos de investigação também não podem diferir. A psicologia vai se servir, portanto, dos dois principais métodos utilizados pelas ciências da natureza: o experimento e a observação. O experimento consiste na interferência proposital (manipulação) do pesquisador sobre o início, a duração e o modo de apresentação dos fenômenos investigados (como na física, na química e na fisiologia). A observação propriamente dita refere-se à mera apreensão de fenômenos ou objetos, sem que haja qualquer interferência por parte do observador (como na botânica, na anatomia e na astronomia).

No que diz respeito ao experimento, a psicologia de Wundt utiliza-o diretamen­te em suas investigações, como demonstram os estudos sobre a sensação, a percepção e a representação, ou seja, aquilo que Wundt chama de psicologia individual, fisiológica ou experimental. Nesse caso, pode-se investigar cui­dadosamente tanto o início quanto o curso desses processos, visando sempre à sua relação com seus elementos constituintes.

Há, porém, uma diferença metodológica significativa entre a psi­cologia e as ciências da natureza, decorrente da especificidade da pers­pectiva psicológica. Em primeiro lugar, já que a psicologia é o estudo da experiência imediata, seu conteúdo revela apenas processos, jamais objetos estáveis, como acontece na observação científica da natureza. Em segundo lugar, a psicologia não pode desconsiderar ou colocar entre parênteses, como fazem as ciências naturais, o sujeito da experiência, uma vez que este é precisamente o assunto de seu interesse. Além disso, seria muito difícil que, mesmo em situações frequentemente repetidas, os mesmos elementos objetivos da experiência imediata viessem acompanhados da mesma condição do sujeito. Em outras palavras, a intenção do observador, que deve estar presente nas observações científicas, altera significativa­mente o início e o curso dos processos psíquicos. Levando em conside­ração essa particularidade dos eventos psicológicos, o psicólogo estaria, portanto, impossibilitado, por princípio, de utilizar a observação pura ou auto-observação (Selbstbeobachtung) no domínio da psicologia individual.

É importante estar atento para este ponto, tendo em vista o fato de que Wundt é muitas vezes acusado de ser um dos principais defensores da auto-observação ou introspecção tradicional, que remonta à tradição filosófica. No entanto, o que permanece em grande parte ignorado por seus intérpretes, e que está implícito nas considerações anteriores, é a diferença fundamental que ele estabeleceu entre a auto-observação (Selbstbeobachtung) e a percepção interna (innere Wahrnehmung). Essa última, segundo Wundt, por estar baseada no controle experimental das condições externas da experiência, substituiria a introspecção tradicional e livraria a psicologia das duras críticas feitas por diversos autores ao introspeccionismo.

Isso não significa, porém, que não haja lugar para a pura observação na psicologia. Ao contrário, existem fatos psíquicos que, embora não sejam objetos reais do mundo externo, possuem o caráter de objetos psíquicos, na medida em que sua natureza é relativamente estável e que independem do observador. Além disso, eles têm uma outra característica em comum, que os tornam adequados à observação: eles são inacessíveis pelo méto­do experimental. Mas que objetos psíquicos são esses? São aquilo que Wundt chama de produtos mentais surgidos ao longo da história, como a linguagem, a religião, os mitos e os costumes, que dependem de certas condições psíquicas gerais, as quais podemos inferir com base em suas características objetivas.

Uma característica fundamental desses produtos mentais é que eles pressupõem a existência de uma comunidade de muitos indivíduos que compartilham uma certa mentalidade, embora sua fonte última sejam sempre as características psíquicas do indivíduo em particular. E por estarem ligados a uma comunidade popular que Wundt chamou essa área de investigação psicológica de psicologia dos povos (Völkerpsychologie), que complementa a psicologia individual ou experimental na busca de uma compreensão geral dos princípios fundamentais da vida psíquica. No entanto, há uma curiosa diferença na atitude de Wundt em relação a essas duas áreas de investigação psicológica. Enquanto na psicologia individual ele procurou sempre investigar direta e empiricamente os fenômenos, na psicologia dos povos Wundt o fez apenas indiretamente, baseando-se acima de tudo nos relatos e estudos etnológicos. Os últimos 20 anos de sua vida (1900-1920) foram dedicados principalmente a essa psicologia dos povos, esforço esse que resultou em dez extensos volumes.

Em suma, a psicologia dispõe, assim como a ciência natural, de dois métodos de investigação, que darão origem a duas formas complementares de estudo psicológico: o experimento, que a psicologia individual/fisioló­gica utiliza na análise dos processos psíquicos mais simples; e a observação dos produtos mentais, através da qual a psicologia dos povos investiga os processos psíquicos superiores. É importante termos sempre em mente que essa subdivisão da psicologia é uma necessidade apenas metodológica, que em princípio não compromete a unidade do seu objeto de estudo (os processos psíquicos revelados na experiência).

Principais conceitos e ideias psicológicas

Uma das principais ideias psicológicas de Wundt é a de que a vida psíquica desenvolve-se gradual e continuamente do simples para o complexo, através de uma série de processos regulares, que constituem nossa experiência psicológica na vida cotidiana. Neste sentido, nossa experiência imediata só nos fornece conteúdos de natureza complexa, que resultam da ligação de vários elementos simples.

Esses elementos psíquicos, que são revelados através da análise psicológica e, portanto, de uma abstração - uma vez que em nossa experiência eles nunca aparecem isolados, mas somente ligados a outros conteúdos -, constituem a base de toda nossa vida mental. Como o conteúdo de nossa experiência imediata varia entre dois pólos, um objetivo e outro subjetivo, os elementos podem ser, seguindo essa divisão, de dois tipos: as sensações ligadas ao conteúdo objetivo (som, luz etc.) e os sentimentos simples rela­cionados ao conteúdo subjetivo (prazer, desprazer etc.).

O próximo passo é a formação, a partir das sensações ou dos sentimen­tos simples, daquilo que Wundt chamou de complexos psíquicos (psychische Gebilde), que se diferenciam uns dos outros por certas características próprias, formando uma unidade relativamente autônoma. Eles podem assumir quatro formas diferentes: representações, sentimentos compostos, afetos e processos volitivos. Enquanto as representações têm sua origem nas sensações, todos os outros complexos psíquicos originam-se a partir dos sentimentos simples.

É importante ressaltar aqui que, para Wundt, os complexos psíquicos, embora sejam compostos de elementos psíquicos, possuem características que não pertencem a nenhum de seus elementos em particular. E a ligação dos elementos que produz essas novas características, que pertencem so­mente aos complexos enquanto tais. Aqui entra em cena uma das principais ideias da teoria psicológica de Wundt, que permanece ignorada por muitos comentadores, a saber, o conceito de fusão (Verschmelzung) e o princípio da síntese criadora. 

É a fusão - que tem como resultado a síntese criadora — que liga os elementos e constitui os complexos psíquicos, enquanto que a associação é um processo secundário, que se refere apenas à ligação de elementos já presentes em diversos compostos. O processo fundador da complexidade psíquica é, pois, a fusão, e não a associação. Sendo assim, Wundt está longe do associacionismo britânico, como faz questão de ressaltar inúmeras vezes.

Os complexos psíquicos podem ainda se conectar, formando um todo unitário. Essa conexão dos complexos psíquicos Wundt denomina consciência. E o processo através do qual um conteúdo psíquico é trazido à clareza da consciência é chamado de apercep­ção (Apperception), que vem acompanhado do estado de atenção. Mas é possível também apreender conteúdos sem a presença da atenção, e nisso consiste exatamente a percepção (Perception). Desta forma, fazendo uma analogia com o sistema visual, Wundt chama o conteúdo ao qual a atenção está dirigida de ponto focal (Blickpunkt) da consciência, e o conteúdo restante de campo visual (Blickfeld) da consciência.

 

 

Outra importante ideia psicológica de Wundt é o conceito de “cau­salidade psíquica”, que está diretamente relacionado ao seu paralelismo Psícofísico. Para Wundt, a experiência pode, como já foi dito, ser conhecida a partir de dois pontos de vista distintos, porém complementares: objetivo (experiência mediata) e subjetivo (experiencia imediata). 

Certas partes da experiência direta com partes da experiência imediata, sem que uma possa ser reduzida à ou derivada da outra. De acordo com o princípio do parelelismo psicofísico, quando isso acontece há uma relação necessária entre cada processo psíquico elementar e seu processo físico correspondente. No entanto, existem vários conteúdos da nossa experiência que so podem ser conhecidos a partir de um único ponto de vista, seja ele físico ou psicológico. Nesse caso, somos obrigados a reconhecer a autonomia do conhecimento psicológico e estamos justificados a supor uma causalida­de própria para o domínio dos processos mentais, do mesmo modo que supomos a causalidade física na natureza. Os dois tipos de causalidade são complementares e nunca podem entrar em contradição entre si. Assim como a causalidade física está fundamentada nas leis da natureza, a causalidade psíquica vai encontrar sua fundamentação última nas leis fundamentais da vida psíquica.

A institucionalização da psicologia

O título de fundador da psicologia, normalmente consagrado a Wundt em quase todos os manuais de história da psicologia, encontra frequentemente justificativa na fundação, em 1879, do Laboratório de Psicologia da Universidade de Leipzig, onde ele permaneceu até se aposentar em 1917. Entretanto, esse fato seria por si só insuficiente para sustentar tal escolha. Tendo em vista a rápida disseminação de labora­tórios de fisiologia por praticamente toda a Alemanha do século XIX, é sempre possível apontar a existência de laboratórios anteriores ao de Leipzig, onde também eram realizadas investigações de cunho psicoló­gico, o que colocaria em questão o pioneirismo de Wundt.

Ao investigarmos mais detalhadamente a vida acadêmica de Wun­dt. sobretudo o período de Leipzig, podemos perceber mais claramente onde reside a verdadeira justificativa para a eleição de Wundt como o fundador da psicologia científica. Não se trata da fundação do laboratório em si, mas sim daquilo que ele passou a representar a partir de então. Durante todo o úl­timo quarto do século XIX, o Laboratório de Leipzig atraiu estudantes de várias partes do mundo (Estados Unidos, Ca­nadá, Inglaterra, entre outros) e tornou-se o primeiro e maior centro de formação de toda uma geração de psicólogos, que posteriormente regressaram a seus locais de origem e fundaram novos laboratórios nos moldes wundtianos.

Foi também o sucesso do laboratório de Leipzig que impulsionou a institucionalização formal da psicologia, quando, em 1883, o Instituto de Psicologia teve sua existência oficial­mente reconhecida pela Universidade de Leipzig e passou a ser incluído no orçamento universitário. No entanto, essa institu­cionalização não deve ser entendida como uma autonomia e separação institucional da psicologia em relação à filosofia, uma vez que até a metade do século XX a psicologia continuou subordinada à Faculdade de Filosofia nas universidades alemãs. Trata-se, ao contrário, de uma desvinculação programática, na medida em que Wundt pretendia fundar um novo campo de investigação científica, sem a influência deletéria das especulações metafísicas.

Além de tudo isso, é digno de nota o fato de Wundt ter fundado e publicado, em 1883, um dos primeiros periódicos de psicologia, que ini­cialmente se chamava Philosophische Studien (Estudos filosóficos), e, a partir de 1906, passou a se chamar Psychologische Studien (Estudos psicológicos). Esse periódico era o veículo oficial de publicação dos trabalhos realizados no Instituto de Psicologia.

Não podemos nos esquecer também que o próprio Wundt, desde seus primeiros trabalhos psicológicos (1858-1863), que antecedem por mais de dez anos sua chegada a Leipzig (1875), sempre reivindicou para si o ato de fundação de uma nova psicologia, restrita ao campo da experiência possível. Foi Wundt, mais do que qualquer outra pessoa, que lutou para fixar o significado do termo “psicologia” em conformidade com a tradição científica do século XIX na Alemanha.

No que diz respeito ao desenvolvimento e à institucionalização da psicologia no Brasil, é praticamente impossível estabelecer qualquer ligação direta entre esta e a obra de Wundt. Se levarmos em consideração que a penetração da psicologia no Brasil ocorreu principalmente pela via da psicologia aplicada — seja na psiquiatria ou na pedagogia, com ênfase na psicometria — e que Wundt jamais se preocupou seriamente com qualquer aplicação da psicologia, torna-se evidente a distância. O máximo que podemos afirmar é que, caso tenha havido alguma influência, esta ocorreu de maneira muito indireta, com a criação de laboratórios de psicologia e a utilização de alguns instrumentos de medição de fenômenos psicológicos.

Wundt e Titchener

Um dos equívocos cometidos com mais frequência nos manuais de história da psicologia é a afirmação de que Wundt seria, ao lado de Titchener, um dos principais representantes do estruturalismo. Esse equívoco, que por si só já representa uma total falta de compreensão da psicologia wundtiana, está diretamente relacionado a outros ainda mais graves —p. ex., quando ele é apontado como um defensor do elementarismo e do associacionismo britânicos —, na medida em que subvertem os principais fundamentos filosóficos de seu pensamento.

Em primeiro lugar, deve-se ressaltar que existem diferenças importantes entre Wundt e Titchener, pelo menos enquanto este último se definiu como estruturalista e foi fiel aos seus princípios. Foi Titchener quem fundou o estruturalismo, e não Wundt. Embora tenha sido aluno e colaborador de Wundt no Laboratório de Leipzig, ele construiu sua própria concepção de psicologia, que em muitos aspectos se distanciou do pensamento wundtiano. A divergência fundamental está na própria concepção de objeto e método da psicologia. Para Titchener, a psicologia é fundamentalmente o estudo dos elementos da consciência através da introspecção. E tudo o que não puder ser relacionado com os elementos estruturais da consciência não deve ser considerado assunto da psicologia. Fica evidente, portanto, que o sistema de Titchener é muito mais restrito do que o de Wundt, uma vez que grande parte da análise wundtiana dos conteúdos relativos à psicologia dos povos não teria lugar no sistema titcheneriano. E mesmo considerando apenas a psicologia individual, Titchener parece ter se distanciado metodologicamente de Wundt, ao utilizar amplamente a introspecção criticada por ele.

Há ainda uma outra divergência importante. Titchener foi reconhe­cidamente um defensor do elementarismo e do associacionismo. A análise ou decomposição dos processos psíquicos conscientes em seus elementos mais básicos (estruturas fundamentais) e a descoberta dos seus mecanismos associativos subjacentes eram os objetivos últimos de sua psicologia estruturalista. Para Wundt, a análise era apenas um meio de se alcançar a meta principal da psicologia, que era a descoberta das leis universais da vida psíquica em todas as suas manifestações. Além disso, quando rotulou seu sistema psicológico de voluntarismo, uma de suas maiores preocupa­ções era manifestar sua insatisfação com a psicologia associacionista, que segundo ele era incapaz de explicar a dimensão afetiva (sentimentos) e volitiva (vontade) da vida mental.

Os equívocos acerca de Wundt presentes na historiografia tra­dicional da psicologia só poderão vir a ser definitivamente corrigidos quando os estudos sobre sua obra alcançarem uma maior consistência, permitindo-nos, desta forma, resolver problemas cruciais de interpretação do seu pensamento, como, por exemplo, a questão da relação entre seus textos psicológicos iniciais e seu pensamento maduro. Ainda está por vir uma análise exaustiva do projeto wundtiano de psicologia.

Psicologia - História da Psicologia
Todos os textos
Todos História
PERSONALIDADE
René Descartes
Filósofo, inventor
Filosofia moderna,  
O papel da Plaza Mayor
Plaza Mayor, Auto de Fé | Francisco Rizi [1683]

Esta pintura de Francisco Rizi mostra o último auto de fé celebrado na Plaza Mayor de Madri, em 1683, ao qual assistiu o religiosamente obsessivo Carlos II e sua rainha como parte de seu sacrossanto dever. Nenhum dos condenados foi queimado nessa ocasião. Autos de Fé, com efeito, eram muito raros na capital e nem sempre ocorriam na Plaza Mayor. A famosa morte na fogueira, em 1632, de cinco “cristãos novos” que supostamente tinham voltado ao judaísmo produziu-se a certa distância, perto do enorme arco triunfal erguido mais tarde por Carlos III. A Plaza Mayor, porém, foi cenário de outros horrores judiciais, como a execução em 1621 do ministro caído em desgraça (e certamente corrupto) Rodrigo Calderón, que atraiu uma enorme multidão. Felipe III ordenou a sua construção. O rei nasceu em Madri, mas passou grande parte do tempo longe dessa cidade, transferindo inclusive a capital para Valladolid, entre 1601 e 1606. Foi necessária uma longa e custosa campanha para persuadir o rei a trazer a corte de volta a Madri. A Plaza Mayor, aberta oficialmente em 1620, pouco antes de sua morte, pode ser considerada um símbolo do estabelecimento definitivo dessa cidade como capital da Espanha. A Plaza Mayor proporcionou um local excelente para espetáculos cortesãos, como justas de esquadrões a cavalo e outros combates simulados e, acima de tudo, para as frequentes touradas organizadas para celebrar festividades religiosas, acontecimentos reais e triunfos militares.

VINCENT, Mary. STRANDLING , R. A. O império católico, 1480-1670. in:__________. Espanha e Portugal. Grandes civilizações do passado. Barcelona/ES: Folio, 2008. Cap. 4. p.094
+
MATÉRIAS
6/21/2018 9:20:16 PM | MenteCérebro n.141
Música por todos os sentidos

A percepção da música na antiguidade era muito mais abrangente no uso dos sentidos e na proposta de harmonização entre homem e universo.

Psicologia - Psicologia social
3/10/2019 3:44:40 PM | História Viva, n. 01
Pedristas X Miguelistas, a guerra civil portuguesa

D. Pedro e D. Miguel são, em Portugal e no Brasil, o exemplo perfeito dos irmãos desavindos. Campeões de causas irreconciliáveis, os filhos de D.João VI combateram-se na guerra civil que ensanguentou Portugal de 1832 a 1834. Ainda hoje se mantêm as sequelas de tão funda divisão.

História - Portugal
Todas as matérias
Todas História
+
TEXTOS
1/6/2020 1:40:56 PM | Por Arthur Arruda Leal Ferreira
Livre
A psicologia no recurso aos vetos kantianos

Para entender os rumos da psicologia, especialmente na Alemanha do século XIX. é necessário em primeiro lugar entender as críticas a que foi submetida desde o final do século XVIII. E o mais notável de todos os seus críticos foi Imannuel Kant, considerado o inaugurador da filosofia contemporânea. A ele caberá a colocação dos novos parâmetros para o conhecimento ocidental.

Neste aspecto, processa-se uma transformação capital com relação ao século XVIII, uma vez que se passa a distinguir ciência de metafísica, esta entendida como um saber sem fundamento.

É ai que ameaçavam ser alojados os saberes psicológicos do século XVIII, relegados à mera metafísica na impossibilidade de serem ciências legítimas, graças as críticas kantianas. As criticas foram voltadas para um dos pilares da psicologia de língua alemã do século XVIII, Christian Wolff. Mas essas não se voltaram apenas para a psicologia racional de Wolff mas também para a sua psicologia empírica. Segundo Kant, em seus Princípios metafísicos da ciência da natureza (1989 [1786]: 32-33), a psicologia empírica para se provar como ciência propriamente dita deveria:

  1. descobrir o seu elemento de modo similar à química, para com isto efetuar análises e sínteses;
  2. facultar a esse elemento um estudo objetivo, em que sujeito e objeto não se misturem como na introspecção;
  3. produzir uma matematização mais avançada que a geometria da linha reta, apta a dar conta das sucessões temporais da nossa consciência (o sentido interno).

Durante todo o século XIX, a psicologia, para se fundar e ser aceita no restrito clube das ciências, tentou pleitear o recurso a tais vetos e aos de outros filósofos, como o positivista Augusto Comte. Assim, nesse in­tento, esboçaram-se alguns projetos de psicologia como os de Rudolph Lotze (1817-1881), na Alemanha, e Francis Galton (1822-1911), na Inglaterra. 

A superação dos vetos kantianos: fisiologia sensorial e psicofísica

O primeiro problema listado, a falta de um elemento objeti­vo, será resolvido pela teoria das energias nervosas específicas de Johannes Müller, formulada explicitamente em seu Manual de fisiologia de 1826. Para esse fisiólogo, cada via nervosa aferente possuiria uma enema nervosa especifica que se traduziria em um tipo de sensação específica de cada nervo.

Assim, o nervo ótico excitado pela ação da retina, ou por forças mecânicas e químicas, produziria sempre imagens luminosas. O mesmo ocorreria com os demais sentidos.

A posição de Müller conduziu a uma espécie de “kantismo fisioló­gico”, em que o mundo percebido seria uma mera propriedade das nossas energias nervosas específicas (no lugar do sujeito transcendental), estimula­das sempre por um fator físico qualquer, não importando a sua natureza. A sensação, enquanto variação das energias nervosas específicas, representaria um elemento preciso, corporalmente situado como fenômeno, ao contrário das ideias e impressões descritas pelos filósofos empiristas do século XVIII. Foi por tal razão que a sensação veio a ser utilizada como elemento para a construção de uma possível psicologia, pois ela ligaria:

  • o mundo físico que constantemente estimula os sentidos; 
  • o fisiológico, uma vez que as energias nervosas específicas estão ligadas aos nervos e
  • o psicológico, uma vez que a sensação seria a base de nossas representações.

Quanto ao segundo problema kantiano, quem apresenta a solução é um discípulo de Müller. Hermann von Helmholtz. Esse autor elabo­rou em 1860 uma teoria sobre o surgimento das representações psicológicas, ou apercepções, que, no seu reverso, irá fomentar um novo método para o estudo objetivo das sensações. A teoria proposta é a das inferências inconscientes, de claro cunho empirista, e o método, o da introspecção experimental, bem dife­rente do produzido pela psicologia do século XVIII. 

Vejamos primeiro a teoria das inferências inconscientes.

Para esse fisiólogo alemão, as nossas sensações seriam organizadas por experiências passadas, que seriam armazenadas como as premissas maiores de um silogismo, aptas a ordenar de modo inconsciente e rápido as premissas menores informadas pelos sentidos, produzindo como conclusão as nossas representações psi­cológicas. O modo de análise das sensações, a introspecção experimental, se processaria de modo inverso a essas sínteses inconscientes, visando neutralizar os efeitos dessa inferência silogística operada pela experiência passada.

Para neutralizar essa síntese inconsciente, processa-se então uma análise consciente, em que os sujeitos dos experimentos são treinados para reconhecer o aspecto mais bruto e selva­gem de nossa experiência. Fazendo uma analogia, isso ocorreria da mesma maneira que a reeducação de animais selvagens domesticados em seu retorno ao ambiente natural. Essa necessidade de treinamento dos sujeitos faz com que esse estudo não possa ser feito com crianças, primitivos, ou doentes mentais, visando evitar o erro do estímulo, qual seja, a confusão do objeto percebido com os juízos inconscientes acumulados pela experiência passa-da. Por isso, o estudo objetivo das sensações em um sujeito só poderia ser feito se esse mesmo sujeito fosse também um fisiólogo, apto a distinguir o joio da experiência passada do trigo das sensações. Por todos esses cuidados metodológicos, o treinamento e a presença de um estímulo objetivo a ser percebido pelo sujeito (mesmo que a experiência observada ocorra com o próprio sujeito), é que o método introspectivo se distingue da introspecção dos filósofos-psicólogos do século XVIII.

Restava ainda o problema da matematização, o terceiro colocado por Kant. E aqui que entra a psicofísica de Gustav Fechner, delineada no livro Elementos de psicofísica, de 1860. Pode-se dizer que ela também oferece uma resposta experimental ao segundo veto kantiano, referente à impossibilidade de estudos objetivos. Mas a sua principal conquista está em oferecer a qualquer estudo psicológico a possibilidade de desenvolver uma matemática mais avançada que a “geometria de uma linha reta” (nos termos da críticas kantianas). Isso, através do estabelecimento da primeira lei matemática na psicologia, batizada por ele Lei Weber-Fechner, em função do aproveitamento da equação desenvolvida por Ernst Weber sobre a relação de proporcionalidade entre as diferenças apenas percebidas (dap) entre dois estímulos (Ea e Eh) e os valores absolutos destes, gerando a fórmula: dap = Ea —Eb/ Eb. Para entendermos o que Weber quis mostrar com sua fórmula, basta pensarmos na diferença percebida na relação entre um peso de 1 kg e outro de 2 kg, e a compararmos com a diferença percebida entre um peso de 21 kg e outro de 20 kg. A diferença absoluta é a mesma (um quilo), mas a diferença relativa, que é a efetivamente percebida, depende da relação da diferença com os valores absolutos.


Gustav Fechner (1801-1887) foi também um personagem bastante versátil: formado em medicina em 1822, dedicou-se no início de sua carreira às matemáticas e especialmente à física. Até 1839 destacava-se nesse campo, quando renunciou à cátedra em função de um comprometimento ocular, adquirido no exame da luz solar através de lentes coloridas. Essa enfermidade lhe causou uma reclusão de cerca de cinco anos, quando Fechner passou a meditar sobre uma série de postulados metafísicos e religiosos, o panpsiquismo e a sua visão diurna. Sua recuperação, creditada por ele a esse pensamento, conduziu à publicação de uma série de livros, dos quais o mais conhecido é Elementos de psicofísica (1860), em que o autor busca comprovar empiricamente a relação indissociável entre matéria e espírito. Nesse período, ele se dedica ao estudo de fenômenos diversos como a estética experimental (determinação estatística das formas do gosto comum) e fenômenos paranormais, ao acompanhar o médium espírita Henry Slade.

Ernst Weber (1795-1878) foi fisiólogo e anatomista, tendo lecionado na Universidade de Leipzig. Fez parte também da fundação da moderna fisiologia alemã, realizando uma série de estudos sobre sensibilidade tátil e propondo a lei das diferenças apenas percebidas (dap), posteriormente retrabalhada por Fechner em termos loga­rítmicos, gerando a rebatizada Lei Weber-Fechner, em que as daps são assumidas como medidas de sensação.

Este trabalho , proposto em 1860, tem a sua importância não apenas por ser um suposto marco para a psicologia, mas por ter gerado uma linha de pesquisa presente até os dias de hoje. Ainda que a psicofísica atual seja mais inspirada nos trabalhos de Stanley Stevens (1906-1973), a Sociedade Internacional de Psicofísica (ISP —Intenational Society of Psychophysics) ainda hoje promove congressos internacionais. No Brasil destacam-se pesquisadores como José Aparecido da Silva (USP), Nikon Ribeiro Filho (UFRJ) e Elton Matsushima (UFF), organizadores do Congresso da ISP no Brasil em 2002.


Fechner, além de complexificar a equação, irá transformar as diferenças apenas percebidas (daps) em sensações (S), sugerindo a primeira medição psicológica. Mas, antes de se identificar o trabalho de Fechner como o início da psicologia experimental (ao menos na Alemanha), deve-se perguntar por que um físico como ele iria se dedicar a estabelecer uma lei rigorosamente matemática sobre a relação entre o domínio físico e o psicológico (daí o termo da área de conhecimento proposto, psicofísica). Temos então que relacionar esse texto com o conjunto de sua obra, que caracteriza um trabalho mais ou menos sistemático na direção do que o próprio Fechner designou como visão diurna ou panpsiquismo. Por panpsiquismo entendia-se um conjunto de pensamentos e reflexões sobre o mundo enquanto composto por uma hierarquia de seres em que o espírito e o corpo seriam coextensivos, em todas as esteras. O domínio físico e o mental não seriam duas naturezas, mas uma única natureza composta de duas perspectivas, de resto um mistério tão complexo como saber se uma esfera é côncava ou convexa (Fechner, 1850, p. iv). Ficariam assim excluídas as concepções dualistas da natureza (que creem na existência de substâncias), e principalmente as materialistas (que negam a existência de qualquer fator de natureza espiritual), denominadas por Fechner visão noturna. O trabalho psicofísico de Fechner não representa, pois, uma exceção dentro de sua concepção da natureza, mas uma tentativa de estabelecer a prova e o rigor matemático desta.

Por se tratar da possível superação do último veto kantiano é que se pode dizer que o trabalho de Fechner representa o primeiro pilar de uma psicologia a nascer. As fundações desse pilar se encontrariam no sonho de Fechner de 22 de outubro de 1850, em que intuiu matematicamente a relação entre os elementos físicos (estímulos) e espirituais (sensações), data que é reconhecida por alguns historiadores da psicologia como o marco do surgimento da psicologia experimental (Boring, 1950). Mas deve-se lembrar que o valor desse trabalho está correlacionado ao poder de resposta que ele oferece às críticas kantianas. É nesse circuito que se concretiza a importância do trabalho de Fechner, pois ele abriu espaço para a primeira formulação de psicologia reconhecida como científica pelos novos padrões do século XIX, ou seja, superando os impasses da psicologia empírica do século XVIII. 

Assim, quando em 1879 Wilhelm Wundt inaugura a psicologia como formação e Area de investigação acadêmica, todos os elementos possibilitadores desse ato já estarão garantidos, pelas respostas indiretas tanto da fisiologia quanto da psicofísica aos vetos kantianos.

Antes do sonho de Fechner havia o sonho da psicologia de acordar do sono dogmático de todo saber metafísico denunciado por Kant. O sonho de Fechner pode ter brevemente acordado a psicologia (ou ter feito sonhar que acordou) do sono dogmático, apesar de sua intenção ter sido mais nos acordar do sono materialista. Pois correlacionar o físico (estímulo) e o espiritual (sensação), para Fechner, não visava provar uma psicologia matematizável, mas um duplo aspecto de uma mesma natureza extensível a todos os seres, o seu panpsiquismo. Contudo, a história da psicologia prosseguirá na proliferação de escolas e sistemas que se postulam como a quintessência da cientificidade. Em função da proliferação desses mundos científicos possíveis é que se pode perguntar se os vetos kantianos, formulados no final do século XVIII, não continuam a assombrar a psicologia.

Wilhelm Wundt: alguns dados biográficos

Saulo de Freitas Araújo

Wilhelm Maximiliam Wundt, filho de um pastor protestante, nasceu em 16 de agosto de 1832 no vilarejo de Neckarau, nas cercanias de Mannheim (sul da Alemanha). Já aos quatro anos mudou-se com a família para Heidelsheim, onde passou a maior parte de sua infância solitária e deu início aos seus estudos. Aos oito anos, sua educação ficou por conta de um tutor, assistente de seu pai. Em 1845, quando já contava com 13 anos, mudou-se para a casa de sua tia em Heidelberg para frequentar o ginásio. Ao término desse período, Wundt teve que escolher uma carreira profissional. Como tinha interesse em se mudar, ainda que por pouco tempo, de Heidelberg, ele acabou escolhendo o curso de medicina na Universidade de Tübingen, onde seu tio era professor de anatomia e fisiologia. No entanto, ele só permaneceu lá por um ano, após o qual retornou a Heidelberg, acompanhando a transferência de seu tio para aquela universidade.

Foi em Heidelberg que Wundt terminou seu curso de medicina e começou sua brilhante carreira profissional. Além de fisiologia, estudou matemática, física e também química, área em que con­seguiu sua primeira publicação, em 1853, relativa a um experimento sobre a concentração de sal na urina. Em 1855, ele finalmente conseguiu sua habilitação para a prática médica. No entanto, após um curto período em que trabalhou como assistente clínico em um hospital municipal sob a direção de um de seus ex-professores, Wundt começou a ter dúvidas sobre sua capacidade para a prática da medicina, o que o levou de volta à vida acadêmica. Em 1857, após ter anteriormente estudado fisiologia com Johannes Müller e DuBois-Reymond em Berlim, habilitou-se como docente {Privatdozent) e proferiu seu primeiro curso de fisiologia experimental.

Em 1858, Wundt tornou-se assistente de Helmholtz em Heidelberg, posição que ocupou até o início de 1865. Foi durante esse período que realizou seus primeiros estudos em psicologia, que foram posteriormente reunidos no seu primeiro livro propriamente psicológico - Beiträge zur Theorie der Sinneswahmehmung (Contribuições à Teoria da Percepção Sensonal) —, publicado em 1862. Esses estudos vieram precedidos de um ensaio introdutório - o primeiro texto puramente teórico de Wundt —, em que ele propõe uma reforma conceitual e metodológica na psicologia. No ano seguinte, publicou as Vorlesungen über die Menschenund Thierseelc (Conferências sobre a mente humana e animal), obra que representa uma extensão dos princípios fundamentais expostos nas Beiträge.

Um aspecto da vida de Wundt que também merece atenção é o seu envolvimento com a política. Tendo sido convidado para ministrar conferências populares na Associação Educativa dos Operá­rios, ele se engajou não só no movimento para a educação dos operários, mas foi se envolvendo cada vez mais nas discussões políticas, o que o levou a se eleger pelo Partido Progressista, em 1866. como membro do Parlamento de Baden. Dois anos depois, ele abandonou a carreira política para se dedicar exclusivamente à vida acadêmica.

Antes de deixar Heidelberg, Wundt publicou o livro que lhe deu fama e reconhecimento aca­dêmico — Grundziige der physiologischen Psychologie (Elementos de psicologia fisiológica). Este livro, que teve seis edições revistas e ampliadas durante sua vida, influenciou por muito tempo a formação e a direção do trabalho de toda uma geração de novos psicólogos.

Em 1874, Wundt recebeu um convite para assumir a cátedra de filosofia indutiva na Universidade de Zurique, na Suíça. No entanto, ele só permaneceu lá por um ano, pois em 1875 foi chama­do para lecionar na Universidade de Leipzig, onde permaneceu até 1917, quando se aposentou. Sua primeira grande realização foi a fundação, em 1879, do famoso Laboratório de Psicologia, que atraiu estudantes de várias partes do mundo e deu a ele a fama de fundador da psicologia científica. Juntamente com o laboratório, Wundt fundou também, em 1883, um periódico de psicologia, que inicialmente se chamava Philosophische Studien (Estudos filosóficos) e, a partir de 1906, passou a se chamar Psychologische Studien (Estudos psicológicos).

Foi em Leipzig que Wundt escreveu a maior parte de sua obra. Além de suas já tradicionais publicações na área da psicologia fisiológica, ele escreveu longos tratados de filosofia - Logik (1880-1883), Ethik (1886) e System der Philosophie (1889) — e uma síntese teórica do seu projeto de psicologia — o Gmndriss der Psychologie (Compêndio de psicologia) (1896) - entre outros. Apartir de 1900, dedicou-se especialmente à Völkerpsychologie (Psicologia dos Povos) - para muitos, sua maior realização acadêmica - até publicar o décimo volume, em 1919. Neste mesmo ano, terminou sua auto-biografia - Erlebtesund Erkanntes (O que eu vivi e conheci) - e veio a falecer no dia 31 de agosto, pouco depois de completar 88 anos de idade.

Psicologia - História da Psicologia
1/5/2020 7:01:02 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
O nascimento da Psicologia

Wilhelm Wundt não tinha ouvido falar de multitarefas. E mesmo que tivesse, não teria acreditado que fosse possível prestar atenção a mais de um estímulo, ou se envolver em mais de uma atividade mental, exatamente ao mesmo tempo. É claro que ninguém tinha ouvido falar de multitarefas na metade do século XIX, antes do telefone, e muito menos mensagens instantâneas, e-mail, videogames, e outros aparelhos eletrônicos, solicitando simultaneamente nosso tempo e nossa atenção.

O ano era 1861. Nos Estados Unidos, a Guerra Civil estava começando. Na Alemanha, um ambicioso Wilhelm Wundt, um pesquisador de 29 anos na área de fisiologia, lecionava meio período na University of Heidelberg. Descrito por amigos como distraído e sonhador, tentava encontrar seu caminho ensinando técnicas básicas de laboratório para alunos universitários. No laboratório improvisado em sua casa, ele tentava conduzir pesquisas para deslanchar o desenvolvimento da nova ciência psicológica.

Ultimamente, Wundt andava pensando a respeito do que Friedrich Bessel, o astrônomo alemão, havia cha­mado de "equação pessoal" - os erros de medição entre os astrônomos que haviam levado à demissão de David Kinnebrook em 1796. Como explicado por um historiador da psicologia, Wundt estava intrigado pelas diferenças entre os astrônomos ao medirem a passagem da grade quadriculada dos telescópios. Essas peque­nas diferenças [simplesmente meio segundo entre Kinnebrook e Maskelyne] ocorriam dependendo do que focalizavam primeiro - a estrela ou o cronômetro. (Blumenthal, 1980, p. 121)

Se o observador olhasse primeiro a estrela, ele obteria uma leitura, mas se olhasse primeiro a grade quadriculada, ele faria uma leitura ligeiramente diferente. Era impossível para o observador focar sua atenção nos dois objetos ao mesmo tempo. O interesse de Wundt por esse problema o levou a modificar um relógio de pêndulo de forma a apresentar dois estímulos - um auditivo e um visual - no caso, um sino e um pêndulo balançando diante de um ponto fixo. Ele chamou o instrumento de Geáankenmesser, o que significa "medidor do pensamento" ou "medida da mente", e ele o usava para medir o processo mental para perceber dois estímulos.

Colocando-se como único sujeito desse experimento, ele concluiu que era impossível perceber essas duas coisas ao mesmo tempo. Ele conseguia prestar atenção ao som do sino, ou ao movimento do pêndulo passando por um ponto específico. Os resultados de suas medidas mostraram que levava um oitavo de segundo para registrar os dois estímu­los sequencialmente. Para o observador casual, os estímulos pareciam ocorrer simultaneamente, mas não para o pesqui­sador treinado.

Wundt escreveu que "a consciência retém só um pen­samento, uma única percepção. Quando parece que temos diversas percepções simultâneas, somos enganados pela sua rápida sucessão" (apud Diamond, 1980b, p. 39). Com essa descoberta, Wilhelm Wundt havia medido a mente. É verdade que Fechner já havia feito isso antes, mas foi Wundt quem usou o experimento como base para uma nova ciência (e David Kinnebrook jamais soube do seu papel nisso).

O Pai da Psicologia Moderna

Wilhelm Wundt foi o fundador da psicologia como disciplina acadêmica formal. Instalou o primeiro laboratório, lançou a primeira revista especializada e deu início à psicologia experimental como ciência. Os temas de suas pesquisas, como sensação e percepção, atenção, sentimento, reação e associação, tornaram-se capítulos básicos de livros didáti­cos e são até hoje fontes inesgotáveis de estudo. Tanto que  a maior parte da história da psicologia pós-wundtiana é caracterizada pela contestação ao seu ponto de vista da psicologia, fato que não desvaloriza sua importância nem seus feitos como seu fundador.

Por que foi Wundt e não Fechner a receber os méritos pela fundação da nova psicologia? A obra Elements of psychophysics, de Fechner, foi publicada em 1860, cerca de 15 anos antes de Wundt iniciar os estudos de psicologia. O próprio Wundt declarou que o trabalho de Fech­ner representava a "primeira conquista" da psicologia experimental (Wundt, 1888, p. 471). Quando Fechner faleceu, seus papéis foram doados a Wundt, que proferiu palavras honrosas em sua memória durante o funeral. Além disso, E. B. Titchener, discípulo de Wundt, referia-se a Fechner como pai da psicologia experimental (Benjamin, Bryant, Campbell, Luttrell e Holtz, 1997). Os historiadores são unânimes em relação à importância de Fechner, e alguns até questionam se a psicologia teria começado naquele momento sem a sua contribuição. Então, por que eles não creditam a Fechner os méritos pela fundação da psicologia?

A resposta encontra-se na natureza do processo de fundação de uma escola de pensa­mento. A fundação consiste em um ato deliberado e intencional que envolve características e habilidades pessoais diferentes das exigidas na produção de contribuições científicas extraordinárias. Um historiador da psicologia disse:

Quando as ideias básicas estão todas elaboradas, algum promotor toma essas ideias e as organiza, adicionando informações que pareçam ser (...) essenciais, publica-as, divulga-as e as promove e, em resumo, "funda" uma escola. (Boring, 1950, p. 194)

O comentário mais recente sobre a natureza do fundador fala sobre a necessidade de se vender uma ideia à comunidade científica: "Para que uma importante contribuição ao conhecimento seja completa, assegurar o impacto de uma ideia é tão importante quanto a originalidade dessa ideia. Vender a ideia com sucesso talvez seja ainda mais importante" (Berscheid, 2003, p. 110).

A contribuição de Wundt para a fundação da psicologia moderna é devida não tanto a uma única descoberta científica quanto à promoção vigorosa da experimentação sistemática realizada por ele. Portanto, fundação não é sinônimo de criação, embora essa distinção não tenha intenção de ser depreciativa. Tanto os fundadores como os criadores são essenciais para a formação de uma ciência, assim como os arquitetos e os construtores são indispen­sáveis na construção de um edifício.

Com essa distinção em mente é possível compreender por que Fechner não foi iden­tificado como o fundador da psicologia. Na verdade, ele simplesmente não estava tentan­do fundar uma nova ciência. Seu objetivo era compreender a relação entre os universos mental e material. Ele buscava descrever com base científica um conceito unificado de mente e corpo.

Wundt, no entanto, estava determinado a fundar uma nova ciência. No prefácio da primeira edição da sua obra Principles of physiological psychology (Princípios da psicologia fisiológica) (1873-1874), ele escreveu: "O trabalho que ora apresento ao público consiste em uma tentativa de demarcar um novo domínio da ciência". Seu objetivo era promover a psicologia como uma ciência independente. Todavia é preciso reafirmar que, embora Wundt seja considerado o fundador da psicologia, ele não foi o seu criador. A psicologia é o resultado de uma longa sequência de esforços criativos.

Na segunda metade do século XIX, o Zeitgeist estava propício para a aplicação da metodologia experimental aos problemas da mente. Wundt foi um agente poderoso do que já estava em andamento, um promotor talentoso do inevitável.

Wilhelm Wundt (1832-1920)

A Biografia de Wundt

Wilhelm Wundt passou os anos iniciais de sua vida nas pequenas vilas das proximidades de Mannheim, na Alemanha. Teve uma infância solitária (seu irmão mais velho ficava em um internato) e a sua única diversão era ficar sonhando em um dia se tornar um escritor famoso. Seu rendimento escolar foi baixo nos anos iniciais. Seu pai era pastor, mas Wundt não tinha boas recordações dele, embora tanto o pai como a mãe fossem descritos como pessoas sociáveis. Lembrava-se de um dia em que o pai fora visitar a escola e dera-lhe uma bofetada no rosto por não prestar atenção ao professor. No início do segundo ano, a responsabilidade pela sua educação ficou a cargo de um assistente do pai, um jovem vigário por quem o garoto acabou criando uma forte afeição. Quando o pároco foi trans­ferido para uma cidade vizinha, Wundt ficou tão aborrecido que foi autorizado a viver com ele até os 13 anos.

A família Wundt era dotada de forte tradição acadêmica, com ancestrais renomados intelectualmente em praticamente todas as áreas. Entretanto parecia que essa extensa linhagem seria interrompida com o jovem Wundt. Ele passava a maior parte do tempo sonhando em vez de estudar, e fora reprovado no primeiro ano do Gymnasium. Sua relação com os colegas de classe não era muito amistosa e ele era ridicularizado pelos professores. Aos poucos, no entanto, aprendeu a controlar seus devaneios, tornando-se relativamente popular. Embora nunca houvesse apreciado a escola, esforçou-se para desenvolver seus interesses e sua capacidade intelectual. Quando se formou, com 19 anos, estava preparado para prosseguir os estudos universitários.

Decidiu tornar-se médico por duas razões: desejava trabalhar com a ciência e ganhar a vida. Frequentou a escola de medicina das universidades de Tübingen e de Heidelberg, nesta tendo cursado anatomia, fisiologia, física, medicina e química. No decorrer do curso, per­cebeu não ter tanta inclinação para a medicina e decidiu especializar-se em fisiologia.

Depois de estudar um semestre na University of Berlin, com o importante fisiologista Johannes Müller, retornou à University of Heidelberg e completou o doutorado em 1855. Lecionou fisiologia em Heidelberg, de 1857 a 1864, e foi indicado para ser assistente de laboratório de Helmholtz. Wundt detestou a tarefa de dar orientações básicas aos estu­dantes no laboratório e deixou a função. Em 1864, foi promovido a professor adjunto e permaneceu em Heidelberg por mais 10 anos.

Estando envolvido na pesquisa em fisiologia, Wundt começou a conceber o estudo da psicologia como uma disciplina científica experimental independente. Primeiramente, sintetizou as ideias no livro intitulado Contributions to the theory of sensoryperception, publi­cado em partes, entre 1858 e 1862. Descreveu suas experiências originais, realizadas em um laboratório improvisado em sua casa, e os métodos que considerava adequados para a nova psicologia, usando pela primeira vez o termo "psicologia experimental". Esse livro, juntamente com o Elements of psychophysics (1860), de Fechner, é considerado marco lite­rário do surgimento da nova ciência.

No ano seguinte, Wundt publicou Lectures on the minds of men and animais (1863). Sua revisão cerca de 30 anos mais tarde, a tradução para o inglês e as seguidas reimpressões da obra após a morte de Wundt são indicadores da importância do livro, no qual Wundt abordou vários temas, como o tempo de reação e a psicofísica, que ocupariam a atenção dos psicólogos experimentais durante vários anos.

Em 1867, Wundt começou a ministrar um curso de psicologia fisiológica na Heidelberg, o primeiro curso formal dessa área no mundo. Suas aulas também produziram material para outro importante livro, Principles of physiological psychology (Princípios da psicologia fisiológica), publicado em duas partes, em 1873 e 1874. Em 37 anos, Wundt revisou o livro em seis edições, sendo a última publicada em 1911. Principles é, indubitavelmente, sua obra-prima, na qual Wundt estabeleceu a psicologia como uma ciência laboratorial inde­pendente, com problemas e métodos de experimentação próprios.

Por vários anos, as sucessivas edições de Principles of physiological psychology serviram como base de informações para os psicólogos experimentais e de registro do progresso da psicologia. O termo "psicologia fisiológica" pode dar margem a interpretações equi­vocadas, já que naquela época o vocábulo "fisiológica" era sinônimo da palavra alemã que queria dizer "experimental”. Na realidade, Wundt estava lecionando e escrevendo a respeito de psicologia experimental e não sobre a psicologia fisiológica no sentido atual da palavra (Blumenthal, 1998).

Os Anos em Leipzig

Wundt começou a mais longa e importante fase da sua carreira em 1875, ao tornar-se professor de filosofia da University of Leipzig, onde trabalhou durante incríveis 45 anos. Logo depois de chegar a Leipzig, instalou um laboratório e, em 1881, lançou a revista Philosophical Studies, publicação oficial do novo laboratório e da nova ciência. Havia pen­sado em chamar a revista de Psychological Studies (Estudos Psicológicos), mas mudou de ideia aparentemente porque já existia outra com o mesmo nome (embora abordasse temas relacionados com ocultismo e espiritismo).

Em 1906, renomeou a revista de Psychological Studies. Agora tendo nas mãos um manual, um laboratório e uma revista acadêmica especializada, a psicologia estava em um bom caminho.

O laboratório de Wundt e também a sua crescente fama atraíram a Leipzig muitos estudantes que desejavam trabalhar com ele, dos quais vários se tornaram pioneiros, difun­dindo versões próprias de psicologia para as gerações seguintes. Entre eles estavam diversos estadunidenses que retornaram aos Estados Unidos para implementar laboratórios próprios. Assim, o laboratório de Leipzig exerceu enorme influência no desenvolvimento da psico­logia moderna, servindo como modelo para novos laboratórios e constantes pesquisas.

Além dos laboratórios instalados nos Estados Unidos, outros foram implementados por alunos de Wundt na Itália, na Rússia e no Japão. Nenhum outro idioma teve mais livros traduzidos de Wundt do que o russo e a admiração por ele chegou ao ponto de os psicólogos de Moscou construírem uma réplica do seu laboratório. Outra réplica foi cons­truída por estudantes japoneses na Tokyo University, em 1920, ano da morte de Wundt, mas foi destruída durante um conflito estudantil nos anos 1960.

Wundt foi um professor bastante popular e, em um dos cursos por ele ministrado em Leipzig, o número de estudantes matriculados ultrapassou a 600. Sua maneira de lecionar foi descrita da seguinte forma pelo estudante E. B. Titchener, em uma carta que escreveu em 1890, depois de assistir pela primeira vez a uma aula de Wundt:

O [funcionário] abriu a porta e Wundt entrou, todo vestido de preto, é claro, dos sapatos à gravata: uma figura magra, de ombros estreitos, com a coluna um pouco curvada a partir da cintura, dava a impressão de ser alto, no entanto, duvido que tivesse efetivamente mais de 1,75m de altura.
Ele caminhava ruidosamente - não há outra palavra para aquilo - subindo pelo corredor lateral os degraus da plataforma; batia com os pés e fazia barulho, como se as solas dos sapatos fossem de madeira. Realmente fiquei com má impressão daquele modo ruidoso de caminhar, todavia parece que ninguém se deu conta.

Alcançou a plataforma e pude ter uma boa visão da figura. Cabelos grisalhos, em quantidade razoável, exceto no topo da cabeça, cuidadosamente coberto por alguns fios longos puxados da lateral...

Wundt, pude perceber, não consultou qualquer tipo de anotação para dar a aula nem olhou em algum momento para o suporte de livros, embora tivesse alguns papéis misturados entre os cotovelos...

Wundt não deixava os braços sobre o descanso: mantinha os cotovelos fixos, mas movia constantemente os braços e as mãos, apontando e acenando... os movimentos eram controlados e pareciam, de alguma forma, misteriosamente ilustrativos...

Ele parou pontualmente ao soar do relógio e saiu pisando e fazendo barulho, um pouco curvado, assim como havia entrado. Se não fosse pelo ruído absurdo do seu cami­nhar, não teria outro sentimento a expressar senão o de admiração pelo seu procedimento. (Baldwin, 1980, p. 287-289)

Sua vida pessoal foi tranquila e modesta e seus dias eram cuidadosamente planejados. Pela manhãs trabalhava em um livro ou algum artigo, lia os trabalhos dos alunos e edita­va a revista. Às tardes realizava exames ou encaminhava-se para o laboratório, cuja visita, conforme lembrou um estudante estadunidense, não durava mais de cinco ou dez minutos. Aparentemente, apesar de acreditar na pesquisa de laboratório, "o próprio Wundt não era um pesquisador de laboratório" (Cattell, 1928, p. 545).

Mais ao final do dia, Wundt fazia uma caminhada e mentalmente preparava a aula da tarde que ministrava habitualmente às quatro horas. À noite dedicava-se à música, à política e, quando mais jovem, às atividades relacionadas com os direitos do trabalhador e do estudante. Levava uma vida confortável e a família dispunha de empregados domés­ticos e usufruía de lazer.

A Psicologia Cultural

Com a implementação do laboratório e a criação da revista especializada, além da gran­de quantidade de pesquisas em andamento, Wundt voltou a atenção para a filosofia. De 1880 a 1891, escreveu a respeito da ética, da lógica e da filosofia sistemática. Publicou a segunda edição de Principies of physiological psychology em 1880 e a terceira em 1887; ainda contribuía com artigos para a revista. Outra área em que Wundt concentrou seu grande talento fora esquematizada em seu primeiro livro: a criação da psicologia social. Ao retomar esse projeto, Wundt produziu um trabalho em 10 volumes, intitulado Cultural psychology (Psicologia cultural), que publi­cou entre 1900 e 1920 (muitas vezes, o título é traduzido equivocadamente como Folk psychology [Psicologia do povo]).

A psicologia cultural tratou de várias etapas do desenvolvimento mental humano mani­festado pela linguagem, nas artes, nos mitos, nos costumes sociais, na lei e na moral. O impacto dessa publicação na psicologia foi mais significativo do que o conteúdo em si, já que serviu para dividir a nova ciência em duas partes principais: a experimental e a social.

Wundt acreditava que as funções mentais mais simples, como a sensação e a percepção, deviam ser estudadas por meio de métodos de laboratório. Todavia os processos mentais superiores, como a aprendizagem e a memória, não podiam ser investigados pela experi­mentação científica por serem condicionados pela língua e por outros aspectos culturais. Wundt somente acreditava no estudo dos processos de pensamento superiores com o emprego de meios não-experimentais como os usados na sociologia, na antropologia e na psicologia social. A noção do significativo papel das forças sociais no desenvolvimen­to dos processos cognitivos ainda é considerada importante; no entanto, a conclusão de
Wundt de que tais processos não são passíveis de estudo por meio de experimentos foi logo contestada e invalidada.

Wundt dedicou 10 anos ao desenvolvimento da psicologia cultural; entretanto o campo, na forma como havia previsto, exerceu pouco impacto sobre a psicologia estadunidense. Uma pesquisa abrangendo os artigos publicados em 90 anos na American Journal of Psychology mostrou que, de todas as citações referentes às publicações de Wundt, menos de 4% estavam relacionadas com a obra Cultural psychology. Entretanto, Principies of physiological psychology era responsável por 61% das referências aos seus trabalhos (Brozek, 1980).

Uma razão provável para a falta de interesse dos psicólogos estadunidenses na psicologia cultural de Wundt seria a época da publicação: entre 1900 e 1920. Nesse período uma nova psicologia estava surgindo nos Estados Unidos, com uma abordagem um pouco distinta da de Wundt. Os psicólogos estadunidenses passaram a confiar nas próprias ideias e nas instituições educacionais e não sentiam mais tanta necessidade de voltar a atenção para os acontecimentos da Europa. Um destacado pesquisador observou que a psicologia cultural não atraía tanto interesse porque ela "surgiu em um estágio de maturidade da psicologia estadunidense em que os pesquisadores estadunidenses estavam bem menos suscetíveis às impressões estrangeiras do que nas décadas de 1880 e 1890" (Judd, 1961, p. 219).

Wundt prosseguiu na pesquisa sistemática e no trabalho teórico até a morte, em 1920. Graças ao seu estilo de vida organizado, conseguiu completar as memórias dos seus regis­tros psicológicos pouco antes de morrer. Análises acerca da sua produção constataram que ele escreveu 54 mil páginas entre 1853 e 1920, em uma média de 2,2 páginas por dia (Boring, 1950; Bringmann e Balk, 1992). Ele havia concretizado o sonho da infância de tornar-se um escritor famoso.

O Estudo da Experiência Consciente

A psicologia de Wundt utilizava os métodos experimentais das ciências naturais, princi­palmente as técnicas empregadas pelos fisiologistas. Wundt adaptou esses métodos cientí­ficos de investigação para a nova psicologia e prosseguiu na sua pesquisa do mesmo modo como os cientistas físicos se dedicavam ao objeto de estudo de sua própria área. Dessa forma, o Zeitgeist na fisiologia e na filosofia contribuiu para moldar tanto os métodos de investigação como o objeto de estudo.

O objeto de estudo de Wundt consistia, para definir em uma única palavra, na cons­ciência. No sentido mais amplo, o impacto do empirismo e do associacionismo do século XIX refletia-se ao menos parcialmente, no sistema de Wundt. Na sua perspectiva, a cons­ciência incluia varias partes diferentes e podia ser estudada pelo método da análise ou da redução. Ele declarou: "A primeira etapa da investigação de um fato deve ser uma descrição dos elementos individuais (...) dos quais consiste" (apuá Diamond, 1980, p. 85).

Todavia, a semelhança entre a abordagem de Wundt e a da maioria dos empiristas e dos associacionistas concentrava-se apenas nesse ponto de vista. Wundt não aceitava a ideia de os elementos da consciência serem estáticos (assim denominados átomos da mente) e se conectarem de forma passiva mediante algum processo mecânico de associação. Ao contrário, ele acreditava no papel ativo da consciência em organizar o próprio conteúdo.

Portanto, o estudo separado dos elementos, do conteúdo ou da estrutura da consciência proporcionaria apenas o ponto inicial para a compreensão dos processos psicológicos.

Voluntarismo.

Wundt concentrou-se no estudo da capacidade própria de organização da mente, dando o nome de voluntarismo ao seu sistema, em referência à palavra volição, que significa o ato ou a força de vontade. O voluntarismo refere-se à força de vontade pró­pria de organizar o conteúdo da mente em processos de pensamento superiores. Wundt enfatizava não os elementos em si, como os empiristas e associacionistas britânicos (assim como Titchener mais tarde enfatizara como aluno de Wundt), mas o processo ativo de organizaçao e síntese desses elementos. No entanto é importante lembrar que Wundt embora alegasse que a mente consciente era dotada do poder de sintetizar os elementos em processos cognitivos de nível superior, nunca deixou de reconhecer serem básicos os elementos da consciência. Na ausência desses elementos, não havia nada a ser organizado na mente.

Experiencia mediata e imediata.

Na opinião de Wundt, os psicólogos deveriam dedi­car-se ao estudo da experiência imediata e não da experiência mediata. A experiência mediata proporciona ao indivíduo as informações ou o conhecimento relacionado com algo além dos elementos de uma experiência. É a forma usual de empregar a experiência para adquirir o conhecimento do nosso mundo. Por exemplo, quando olhamos uma rosa e dizemos "A rosa e vermelha", subentende-se que nosso interesse principal concentra-se na flor e não no fato de percebermos algo denominado "[cor] vermelha". Todavia a experiência imediata de visualizar a flor não está no objeto propriamente dito, e sim na experiência de perceber que alguma coisa é vermelha. Para Wundt, a expe­riencia imediata não sofre nenhum tipo de influência de interpretações pessoais, como a descrição da experiência de visualizar a cor vermelha da rosa em termos do obieto ou seja, da flor em si.

Do mesmo modo, ao descrevermos a sensação de desconforto provocada por uma dor de dente relatamos a nossa experiência imediata. No entanto, se apenas dissermos: "Estou com dor de dente", referimo-nos somente à experiência mediata.

Na perspectiva de Wundt, as experiências básicas humanas, como a percepção da cor vermelha ou a sensação de desconforto provocada pela dor, formam os estados da consciência (os elementos mentais) organizados de forma ativa pela mente. A proposta de Wundt consistia em analisar a mente com base nos seus elementos, nas partes componen­tes, exatamente do mesmo modo que os cientistas naturalistas trabalhavam para dividir o seu objeto de estudo, ou seja, o universo físico. A ideia da tabela periódica desenvolvi­da pelo químico russo Dimitri Mendeleev serviu de apoio para o objetivo de Wundt. Os historiadores sugeriram que talvez Wundt estivesse tentando desenvolver uma espécie de "tabela periódica" da mente (Marx e Cronan-Hillix, 1987).

O Método de Introspecção

Wundt descrevia a sua psicologia como a ciência da experiência consciente. Assim, o método da psicologia científica deve abranger as observações da experiência consciente. No entanto, somente o indivíduo que passa pela experiência é capaz de observá-la. Wundt estabeleceu que o método de observação devia necessariamente utilizar-se da introspec­ção, ou seja, do autoexame do estado mental. Ele se referia a esse método como percepção interna. Wundt não foi o criador do método da introspecção, que já existia no tempo de Sócrates. A inovação introduzida por ele consistia na aplicação do controle experimental preciso sobre as condições de execução da introspecção.

Na física, a introspecção foi utilizada para estudar a luz e o som; na fisiologia, foi apli­cada na pesquisa dos órgãos dos sentidos. Por exemplo, para obter informações sobre os sentidos, o pesquisador aplicava um estímulo e pedia ao indivíduo para descrever a sensação produzida. Esse procedimento é semelhante aos métodos de pesquisa psicofísicos emprega­ dos por Fechner. Quando as pessoas comparavam dois pesos e apontavam se algum era mais pesado, mais leve ou se ambos possuíam o mesmo peso, estavam passando pela experiência da introspecção, ou seja, estavam descrevendo as suas experiências conscientes.

A introspecção, ou percepção interna, praticada no laboratório de Wundt, na Univer­sity of Leipzig, obedecia a regras e condições estabelecidas por ele:

  • Os observadores devem ser capazes de determinar quando o processo será intro­duzido;
  • Os observadores devem estar em estado de prontidão e alerta;
  • Deve haver condições adequadas para se repetir várias vezes a observação;
  • Deve haver condições adequadas para se variar as situações experimentais em termos de manipulação controlada do estímulo.

A última condição remete à essência do método experimental: a variação das condi­ções das situações de estímulo e a observação das mudanças resultantes nas experiências descritas pelos indivíduos. Wundt acreditava que sua forma de introspecção, a percepção interna, permitia fornecer todos os dados básicos necessários para o estudo dos problemas de interesse da psicologia, assim como a percepção externa proporcionava os dados para as ciências como a astronomia e a química. Na percepção externa, o foco de observação encontra-se fora do observador, por exemplo, uma estrela ou a reação da mistura química no tubo de ensaio. Na percepção interna, o foco encontra-se dentro do observador, na sua experiência consciente.

O objetivo de realizar a percepção interna sob rígidas condições experimentais con­siste em produzir observações precisas, passíveis de repetição, da mesma forma que a percepção externa produz para as ciências naturais observações que podem ser repetidas separadamente por outros pesquisadores. A fim de atingir essa meta, Wundt insistia em treinar cuidadosa e rigorosamente os seus observadores para realizar corretamente as percepções internas. Exigia que eles completassem até 10 mil observações introspectivas individuais antes de considerá-los preparados para fornecerem dados significativos para o seu laboratório de pesquisa.

Submetidos a esse treinamento repetitivo e persistente, os indivíduos estariam aptos a realizar mecanicamente as observações e se tornariam rápidos e alertas em relação à expe­riência consciente sendo observada. Na teoria, os observadores treinados por Wundt não precisariam de pausa para pensar ou refletir sobre o processo (e possivelmente introduzir alguma interpretação pessoal) e seriam capazes de descrever a experiência consciente quase imediata e automaticamente. Assim, o intervalo entre os atos de observar e de relatar a experiência imediata seria mínimo.

Wundt praticamente não aceitava o tipo de introspecção qualitativa em que as pes­soas simplesmente descreviam suas experiências íntimas. A descrição introspectiva que buscava estava relacionada principalmente aos julgamentos conscientes sobre o tamanho, a intensidade, a duração de vários estímulos físicos, ou seja, o tipo de análise quantitativa da pesquisa psicofísica. Poucos estudos do laboratório de Wundt usaram relatos de natu­reza subjetiva ou qualitativa, como a percepção de prazer provocada por um estímulo, a intensidade de uma imagem ou a qualidade de uma sensação. A maioria das pesquisas de Wundt consistia em medições objetivas proporcionadas por equipamentos sofisticados de laboratório, muitas delas referentes a tempos de reação registrados quantitativamente. Depois de acumular os dados objetivos suficientes, Wundt extraía as deduções a respeito dos elementos e dos processos de experiência consciente.

Um historiador pesquisou o uso que Wundt fez de dados qualitativos e quantitativos. Ele verificou que "praticamente em quase todos os 180 estudos experimentais publicados entre 1883 e 1903, nos 20 volumes do Philosophische Studien [o primeiro periódico de Wundt, Philosophical Studies], só foram encontrados quatro que usam dados introspectivos qualitativos" (Danziger, 1980, p. 248).

Elementos da Experiência Consciente

Definidos o objeto de estudo e a metodologia para a nova ciência da psicologia, Wundt traçou suas metas:

  • analisar os processos conscientes, utilizando os seus elementos básicos;
  • descobrir como esses elementos eram sintetizados e organizados;
  • determinar as leis da conexão que regiam a organização dos elementos.

Sensações.

Wundt alegava ser a sensação uma das duas formas básicas de experiên­cia. A sensação surge sempre que um órgão do sentido é estimulado e os impulsos resul­tantes atingem o cérebro. Pode ser classificada pela intensidade, duração e modalidade do sentido.
Wundt não reconhecia nenhuma diferença fundamental entre a sensação e a imagem porque esta também está associada com a estimulação do córtex cerebral.

Sentimentos.

O sentimento é a outra forma elementar da experiência. A sensação e o sentimento são aspectos simultâneos da experiência imediata. O sentimento é o com­plemento subjetivo da sensação, embora não se origine diretamente de órgão do sentido. Sensações são acompanhadas de certas qualidades de sentimento; quando se combinam para formar um estado mais complexo, resultam na qualidade de sentimento.
Wundt propôs a teoria tridimensional do sentimento com base nas próprias observa­ções introspectivas. Trabalhando com um metrônomo (aparelho que pode ser programado para produzir cliques audíveis em intervalos regulares), notou que, após ouvir uma série de cliques, alguns padrões rítmicos eram mais prazerosos ou agradáveis do que outros. Concluiu que parte da experiência de qualquer padrão sonoro requer o sentimento subje­tivo do prazer ou desprazer (observe que o sentimento subjetivo ocorria ao mesmo tempo que as sensações físicas associadas com os cliques). Wundt sugeriu então que esse estado de sentimento poderia ser alocado em uma variação contínua desde o extremamente agradável até o extremamente desagradável.

Dando continuidade aos experimentos, Wundt observou um segundo tipo de senti­mento ouvindo os cliques do metrônomo: uma leve tensão ao antecipar cada som suces­sivo, seguida do alívio após o clique. Concluiu assim que, além do contínuo prazer/des­prazer, o sentimento possuía uma dimensão de tensão/relaxamento. Posteriormente, ao aumentar o intervalo dos cliques, sentiu-se suavemente excitado e, ao reduzi-lo, sentiu-se calmo e até um pouco deprimido.

Dessa forma, variando o intervalo do metrônomo e praticando a introspecção, des­crevendo as suas experiências conscientes imediatas (as próprias sensações e os próprios sentimentos), Wundt definiu as três dimensões independentes do sentimento: prazer/des­prazer, tensão/relaxamento e excitação/depressão. Cada sentimento básico era efetivamente descrito de acordo com a sua localização dentro do espaço tridimensional, ou seja, a sua posição em cada uma das dimensões.

Wundt considerava as emoções um composto complexo de sentimentos elementares e, se fosse possível destacá-los na grade tridimensional, as emoções poderiam ser reduzi­das a esses elementos mentais. Embora a teoria tridimensional do sentimento houvesse despertado o interesse para várias pesquisas em Leipzig e em outros laboratórios europeus da época, não resistiu ao teste do tempo.

A Organização dos Elementos da Experiência Consciente

Apesar da sua ênfase nos elementos da experiência consciente, Wundt reconheceu que, ao olharmos para os objetos do mundo real, nossa percepção é dotada de unidade ou de totalidade. Por exemplo, ao olharmos por uma janela, vemos uma árvore e não sensações individuais ou experiências conscientes de brilho, cor ou formato que os observadores treinados do laboratório descrevem como resultado de suas introspecções. Nossa experiên­cia visual do mundo real abrange a árvore inteira e não como sensações e sentimentos básicos constituintes da árvore.

Como as partes elementares compõem essa experiência consciente unificada? Wundt explicou o fenômeno por meio da sua doutrina da apercepção. O processo de organização dos elementos mentais formando uma unidade é uma síntese criativa (também conhecida como a lei das resultantes psíquicas) que cria novas propriedades mediante a mistura ou a combinação dos elementos. Wundt declarou: "Todo composto psíquico é dotado de carac­terísticas que de modo algum consistem na mera soma das características dos elementos" (Wundt, 1896, p. 375). Todos já ouvimos esta afirmação: a totalidade não é igual à soma das partes. Essa noção é disseminada pelos psicólogos da Gestalt (veja no Capítulo 12). A noção da síntese criativa possui a correspondente na química. A combinação dos elemen­tos químicos produz compostos ou resultantes com propriedades não encontradas nos elementos originais.

Para Wundt, a apercepção consiste em um processo ativo. Nossa consciência não atua apenas sobre sensações e sentimentos básicos que experimentamos. Ao contrário, a men­te atua nesses elementos de forma criativa para compor a unidade. Desse modo, Wundt não acreditava no processo da associação mecânica e passiva, defendido pela maioria dos empiristas e associacionistas britânicos.


Trecho sobre a Lei das Resultantes Psíquicas e o Princípio da Síntese Criativa, Extraído de Outline of Psychology (1896), de WIlhelm Wundt

A lei das resultantes psíquicas encontra sua expressão no fato de todo componente psíquico exibir atributos que são conhecidos, na verdade, por meio dos próprios atributos dos elemen­tos que o compõem após serem identificados; entretanto esses elementos não podem, de maneira alguma, ser considerados mera soma dos atributos. Na melodia composta, há mais atributos afetivos e ideacionais do que na mera soma dos tons. A organização temporal e espacial das ideias temporais e espaciais é certamente condicionada de forma perfeitamente regular por meio da cooperação dos elementos componentes da ideia, no entanto, ainda ass!m, o arranjo em si não pode, de forma alguma, ser considerado propriedade pertencente aos próprios elementos da sensação. As teorias nativistas afirmam ser essa noção contraditória  e insolúvel; e, além disso, na hipótese de admitirem a ocorrência de mudanças subsequentes nas percepções espaciais e temporais originais, estão definitivamente partindo para a aceita­ ção do surgimento, pelo menos parcial, de novos atributos.

Por fim, essa lei encontra a expressão de forma evidentemente reconhecível nas funções aperceptivas e nas atividades da imaginação e da compreensão. Os elementos unidos pela sín­tese aperceptiva não só ganham, na ideia agregada resultante das suas combinações, um novo significado antes inexistente no seu estado isolado, como também - e o que é mais importante - a própria ideia agregada consiste em novo conteúdo psíquico derivado certamente desses elementos e que de modo algum encontrava-se neles contido. Essa característica apresenta-se de forma mais evidente nas produções com maior complexidade da síntese aperceptiva, por exemplo, em uma produção artística ou em um exercício de lógica.

A lei das resultantes psíquicas expressa, assim, um princípio que podemos designar, em vista dos resultados, como princípio da síntese criativa. Esse princípio, há muito reconhecido nos casos de criações mentais superiores, em geral não é aplicado a outros processos psíqui­cos. Na verdade, por uma confusão injustificável com as leis da causalidade psíquica, ele tem sido interpretado até erroneamente.

Equívoco semelhante é responsável pela ideia de contradição existente entre o princípio da síntese criativa no universo mental e as leis gerais do mundo natural, especialmente em relação à conservação da energia. Essa contradição é injustificada porque as perspectivas para o julgamento e, consequentemente, para todas as mensurações nos dois casos são diferentes e devem sê-lo, já que a ciência natural e a psicologia não lidam com os conteúdos distintos da experiência, mas com um único e mesmo conteúdo observado de ângulos diferentes...

As mensurações físicas referem-se a massas, forças e energias objetivas, conceitos adicionais obrigatórios no julgamento da experiência objetiva, e, como as suas leis gerais são derivadas da experiência, não devem ser contraditas por nenhum caso de experiência. As mensurações físicas, que se referem à comparação dos componentes físicos e de suas resultantes, estão relacionadas com valores e resultados subjetivos. O valor subjetivo de uma unidade poce aumentar em compa­ração com seus componentes; o propósito da unidade pode ser diferente e superior ao dos seus componentes sem qualquer alteração nas massas, forças e energias envolvidas. Os movimentos
musculares de um ato de vontade externa, os processos físicos que acompanham a sensação-percepção, associação e apercepção obedecem invariavelmente ao princípio da conservação da energia. Todavia, os valores e as finalizações que essas energias representam podem ser muito diferentes em quantidade, até mesmo quando a quantidade dessas energias permanece a mesma.


O Destino da Psicologia de Wundt na Alemanha

Embora a psicologia wundtiana tenha se espalhado rapidamente, não transformou de ime­diato nem completamente a natureza da psicologia acadêmica na Alemanha. No período de Wundt - na realidade, já em 1941, duas décadas após a sua morte —a psicologia nas universidades alemãs ainda consistia em uma área de especialização da filosofia. Esse fato, em parte, dava-se em virtude da resistência de alguns psicólogos e filósofos em separar a psicologia da filosofia e também a um fator contextual importante: os órgãos governamen­tais responsáveis pela criação das universidades não enxergavam nenhum valor prático na psicologia para garantir a alocação de recursos para o estabelecimento de departamentos acadêmicos e laboratórios independentes.

Em 1912, quando a Sociedade de Psicologia Experimental realizou um encontro em Berlim, os psicólogos pressionaram formalmente o governo para obter mais verba. Em res­posta, o prefeito de Berlim declarou que, primeiro, precisava ver os resultados práticos das pesquisas psicológicas. A mensagem foi clara: "Se a psicologia deseja obter mais verba, seus representantes devem provar a sua aplicabilidade para a sociedade" (Ash, 1995, p. 45).

A dificuldade estava no fato de a psicologia de Wundt concentrar-se na descrição e na organização dos elementos da consciência, não sendo, assim, apropriada para a solução dos problemas do mundo real. Talvez seja essa uma das razões de ela não ter criado raízes na atmosfera pragmática dos Estados Unidos. Wundt considerava a psicologia uma ciência puramente acadêmica e não se interessava em aplicá-la às questões práticas.

Desse modo, apesar da sua aceitação nas universidades de vários países, a evolução da psicologia wundtiana, como ciência distinta, foi relativamente lenta na própria Alemanha. Por volta de 1910, 10 anos antes da morte de Wundt, existiam três publicações especializadas em psicologia na Alemanha, além de diversos livros e laboratórios de pesquisa. No entanto, apenas quatro estudiosos constavam nas listas oficiais como psicólogos e não como filósofos. Por volta de 1925, apenas 25 pessoas na Alemanha intitulavam-se psicólogos e somente em 14 das 23 universidades havia departamentos de psicologia independentes (Turner, 1982).

Nesse mesmo período nos Estados Unidos, havia muito mais psicólogos e departamen­tos de psicologia. O conhecimento e as técnicas de psicologia estavam sendo aplicados aos problemas práticos, na economia e na educação. Ainda assim, deveríamos reconhe­cer que a origem para pensar o campo da psicologia nos Estados Unidos era derivada do pensamento de Wundt.

As Críticas à Psicologia de Wundt

A posição de Wundt, assim como a de qualquer outro inovador, estava sujeita a críticas. Especialmente vulnerável era o método da percepção interna ou da introspecção. Os crí­ticos questionavam: quando a introspecção realizada por diferentes observadores produz resultados distintos, como saber qual é o resultado correto? As experiências realizadas com o uso da técnica de introspecção nem sempre produzem o mesmo resultado, já que se trata de uma auto-observação - é definitivamente uma experiência particular. Assim, as divergências não podem ser dirimidas mediante a repetição das observações. Wundt reconhecia essa falha mas acreditava na possibilidade de aprimorar o método, submeten­do os observadores a mais treinamento e experiência.

As opiniões políticas de Wundt também eram alvo de críticas e podem ser a explica­ção para a afirmação de um historiador ao descrever "o declínio precipitado da psicologia wundtiana entre as duas grandes guerras [1918-1939], (...) A maior parte do conteúdo das pesquisas e dos trabalhos de Wundt simplesmente desapareceu nos ambientes de língua inglesa" (Blumenthal, 1985, p. 44). Os estudiosos creditavam o seu declínio às declarações francas de Wundt a respeito da Primeira Guerra Mundial. Ele considerava a Inglaterra culpada por iniciar a guerra e defendia a invasão da Bélgica pela Alemanha como uma forma de autodefesa. Essas declarações ... fizeram com que os psicólogos estadunidenses se voltassem contra Wundt e sua psicologia (in Benjamin, Dcrkín. Link, Vestal, Acord, 1992; Sanua, 1993).

Sua posição política também pode ter lhe custado o Prêmio Nobel. Wundt havia sido indicado duas vezes antes, em 1907 e 1909, e em 1915 foi um dos seis finalistas. Embora fosse  "o psicólogo mais conhecido do mundo na época, e uma pessoa de consideráveis realizações" ele não ganhou (Benjamin, 2003, p. 735). A Primeira Guerra Mundial estava no seu segundo ano sangrento, e o sentimento contra os alemães era forte.

A defesa algumas vezes cáustica da sua terra natal pode muito bem ter contribuído para que fosse rejeitado ao prêmio.

O sistema de Wundt também enfrentou a concorrência crescente nos países de língua alemã após a Primeira Guerra Mundial. Nos anos finais da sua vida, duas outras escolas de pensamento surgiram na Europa, obscurecendo a sua visão: a psicologia da Gestalt, na Alemanha, e a psicanálise, na Áustria. Nos Estados Unidos, o funcionalismo e o behaviorismo encobriram a abordagem wundtiana.

Além disso, as forças contextuais econômicas e políticas vigentes contribuíram para o desaparecimento do sistema wundtiano na Alemanha. Com o colapso econômico após a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, as universidades ficaram falidas. A University of Leipzig não possuía verbas nem para a aquisição dos livros mais recentes de Wundt para a biblioteca. O laboratório de Wundt, onde ele orientou a primeira geração de psicólogos, foi destruído durante um bombardeio de estadunidenses e ingleses em 4 de dezembro de 1943. Assim, a natureza, o conteúdo, a forma e até mesmo o lar da psicologia wundtiana se perderam.

A Herança de Wundt

O ato de instalação do primeiro laboratório de psicologia exigia uma pessoa com vasto conhe­cimento da fisiologia e da filosofia contemporâneas e com capacidade para sintetizar efetiva­mente as ideias e os métodos dessas disciplinas. Para Wundt cumprir a meta de fundar uma nova ciência, teve de rejeitar o pensamento não-científico do passado e eliminar as relações intelectuais entre a nova psicologia científica e a antiga filosofia mental. Ao restringir o obje­to de estudo da psicologia à experiência consciente e definir a disciplina como uma ciência baseada na experiência, Wundt conseguiu evitar discussões sobre a imortalidade da alma e as suas relações com a mortalidade do corpo. Ele apenas alegava enfaticamente que a psicologia não lidava com essas questões e essa afirmação foi um grande passo adiante.

Wundt, conforme anunciou que o faria, deu início a um novo domínio da ciência e conduziu pesquisas no laboratório que instalara exclusivamente para esse fim. Publicou os resultados na sua própria revista e tentou desenvolver uma teoria sistemática da natureza da mente humana. Alguns de seus alunos deram continuidade ao trabalho, criando labo­ratórios para prosseguir com as experiências relacionadas com as questões estabelecidas por ele e empregando as suas técnicas. Desse modo, Wundt proporcionou à psicologia todos os acessórios de uma ciência moderna.

Notadamente, a época estava preparada para o movimento wundtiano em consequên­cia do amadurecimento natural do desenvolvimento das ciências psicológicas, especial­mente nas universidades alemãs. Todavia, o fato de o trabalho de Wundt não consistir na origem desse movimento, e sim no seu ponto culminante, não reduz a sua importância. A fundação da psicologia exigiu extrema dedicação e coragem para a concretização do movimento. Os resultados de seus esforços representam uma conquista tão extraordiná­ria que Wundt merece ocupar uma posição de destaque entre os psicólogos do período moderno. Uma pesquisa conduzida por 49 historiadores estadunidenses de psicologia, 70 anos após a sua morte, relevou que ele ainda era considerado o psicólogo mais importante de todos os tempos, uma constatação honrosa para um estudioso cujo sistema já havia sido esquecido há muito tempo (Korn, Davis, e Davis, 1991).

O fato de a maior parte da história da psicologia pós-Wundt consistir de posições contrárias às limitações por ele impostas para a área não desvaloriza as suas brilhantes contribuições. Ao contrário, enaltece ainda mais a sua grandeza. As contestações devem ter algum alvo, algo a ser rebatido, e o trabalho de Wundt, sendo esse alvo, proporcionou um início magnífico e convincente para a moderna psicologia experimental.

Outros Tendências da Psicologia Alemã

Wundt deteve o monopólio da nova psicologia por pouco tempo. A ciência também começava a florescer em outros laboratórios alemães. Embora Wundt fosse obviamente o mais importante organizador e sistematizador dos primeiros passos da psicologia, outras figuras também exerceram influência na evolução inicial da área. Os pesquisadores que não concordavam com o ponto de vista de Wundt propunham ideias diferentes, embora todos estivessem comprometidos com uma empreitada comum: a expansão da psicologia como ciência. O trabalho desses psicólogos, aliado ao de Wundt, transformou a Alemanha indiscutivelmente no centro do movimento.

Os acontecimentos na Inglaterra dariam à psicologia uma temática e uma direção radicalmente diferentes. Charles Darwin apresentava a teoria da evolução e Francis Galton começava a trabalhar com a psicologia das diferenças individuais. Ao chegarem aos Esta­dos Unidos, essas ideias exerceram um impacto ainda maior sobre o rumo da psicologia do que o trabalho pioneiro de Wilhelm Wundt.

Além disso, os primeiros psicólogos estadunidenses, muitos dos quais formados sob a orientação de Wundt, em Leipzig, retornaram aos Estados Unidos e transformaram a psicologia wundtiana em algo tipicamente estadunidense. Esse assunto será abordado mais adiante, mas a questão principal neste momento é que, logo depois da sua fundação, a psicologia se dividiu em facções, e rapidamente a abordagem de Wundt tornou-se apenas mais uma delas.

Hermann Ebbinghaus (1850-1909)

Apenas alguns anos após Wundt afirmar ser impossível conduzir experiências com os processos mentais superiores, um psicólogo alemão que trabalhava sozinho, isolado de qualquer centro acadêmico de psicologia, começou a obter êxito nas experiências com esses processos. Hermann Ebbinghaus tornou-se o primeiro psicólogo a pesquisar expe­rimentalmente a aprendizagem e a memória. Desse modo, não apenas demonstrou que Wundt estava errado a respeito daquela questão, como também mudou a forma de estudo da associação e do aprendizado.

A Biografia de Ebbinghaus

Ebbinghaus nasceu nas proximidades de Bonn, na Alemanha, em 1850, realizou os estudos universitários inicialmente na University of Bonn e depois em Halle e Berlim. Durante a  formação acadêmica, seus interesses dividiam-se entre história, literatura e filosofia, tendo se formado nesta em 1873 e, em seguida, servido o exército na guerra Franco-Prussiana. Dedicou sete anos a estudos independentes na Inglaterra e na França, onde os seus inte­resses mudaram novamente, dessa vez voltando-se para a ciência.

Três anos antes de Wundt estabelecer o laboratório de Leipzig, Ebbinghaus havia adquirido, em uma livraria de Londres, uma cópia usada da importante obra de Fechner, Elements of psychophysics. Esse acontecimento casual afetou profundamente o seu pensa­mento e acabou influenciando também a direção da nova psicologia.

O tratamento matemático dado por Fechner ao fenômeno psicológico foi uma revelação instigante para Ebbinghaus, que resolveu aplicar na psicologia a metodologia empregada por Fechner na psicofísica: as medições sistemáticas e rígidas. Seu objetivo era simplesmen­te aplicar o método experimental aos processos mentais superiores. Muito provavelmente influenciado pela popularidade do trabalho dos associacionistas britânicos, Ebbinghaus optou por realizar essa importante pesquisa na área da aprendizagem humana.

Pesquisa sobre Aprendizagem

Antes do trabalho de Ebbinghaus, a maneira mais comum de estudar a aprendizagem era examinando as associações já formadas. Essa era a abordagem dos associacionistas britânicos. De certo modo, os pesquisadores trabalhavam no sentido inverso, tentando determinar como as ligações haviam sido estabelecidas.

O enfoque de Ebbinghaus era diferente: ele começava a análise com a formação inicial das associações. Dessa forma era possível controlar as condições sob as quais a cadeia de ideias se formava, o que tornava o estudo da aprendizagem mais objetivo.

O trabalho de Ebbinghaus a respeito da aprendizagem e do esquecimento acabou sendo considerado um exemplo de genialidade e originalidade da psicologia experimental. Foi o primeiro trabalho a tratar de um problema que fosse verdadeiramente psicológico e não fisiológico, como eram muitos dos tópicos da pesquisa de Wundt. Dessa forma, a pesquisa revolucionária de Ebbinghaus ampliou consideravelmente o escopo da psicologia expe­rimental. Como vimos anteriormente, a aprendizagem e a memória nunca haviam sido alvos de estudo experimental. Wundt afirmava categoricamente não ser possível estudá-las experimentalmente. Ebbinghaus começou a fazê-lo, embora não ocupasse nenhuma posição acadêmica, não estivesse em um ambiente universitário para conduzir o trabalho e não contasse com o auxílio de professores e alunos, nem de um laboratório. Entretanto, em um período de cinco anos, realizou por conta própria uma série de estudos bastante abrangentes e cuidadosamente controlados, sendo ele mesmo a fonte de sua pesquisa.

Para a medição básica da aprendizagem, Ebbinghaus adaptou uma técnica adota­da pelos associacionistas, cuja proposta afirmava ser a frequência de associações uma condição necessária para a lembrança. Ebbinghaus acreditava ser possível medir, por meio da frequência, a dificuldade de assimilação de um conteúdo - pela contagem do número de repetições necessárias para a perfeita reprodução do material. Percebemos aqui a influência de Fechner, que realizava a medição das sensações de forma indireta, mensurando a intensidade de estímulo necessária para produzir uma diferença míni­ma perceptível na sensação. Ebbinghaus tratou do problema da medição da memória de forma similar, contando o número de tentativas ou de repetições necessárias para a aprendizagem do material.

Como material para a aprendizagem, Ebbinghaus preparou uma lista de sílabas seme­lhantes, mas não idênticas. Ele repetia a tarefa quantas vezes fossem necessárias até se sentir seguro da exatidão do resultado. Assim, cancelava os erros variáveis de cada tentativa e obtinha uma medição média. Era tão sistemático em relação à experiência que mantinha com rigidez a regularidade dos seus hábitos pessoais, obedecendo a uma rotina invariável, estudando o material todos os dias, sempre no mesmo horário.

Pesquisa com Sílabas sem Sentido

Para utilizar como objeto de estudo da sua pesquisa - o material a ser aprendido -, Ebbinghaus inventou o que ficou conhecido como as sílabas sem sentido, revolucionando o estudo da aprendizagem. E. B. Titchener vaja o (Capítulo 5), aluno de Wíndut, observou que o uso das sílabas sem sentido marcou o primeiro avanço importante na área desde a época de Aristóteles.

Ebbinghaus buscava palavras diferentes das do dia-a-dia como objeto de estudo, porque percebera a dificuldade da utilização de estórias ou poesias como material de estímulo. As pessoas familiarizadas com a língua já carregam consigo os significados e as associações das palavras, e essas ligações podem facilitar a aprendizagem do material. Como essas conexões já estão presentes no momento da experiência, não podem ser controladas pelo pesquisador. Ebbinghaus desejava utilizar material uniforme que não contivesse associações e que fosse totalmente homogêneo e igualmente não familiar - material que tivesse poucas associações já estabelecidas. As sílabas sem sentido que ele criou, tipicamente formadas por duas consoantes intercaladas com uma vogal (como lef, bok ou yat), satisfaziam esses critérios. Escreveu em cartões todas as combinações possí­veis de consoantes e vogais, produzindo 2.300 sílabas, das quais extraía aleatoriamente o material de estímulo a ser aprendido.

Informações históricas fornecidas posteriormente por um psicólogo alemão - que leu todas as notas de rodapé das publicações e dos trabalhos de Ebbinghaus referentes às suas experiências, comparando as traduções em inglês com os originais em alemão - apresen­tam-nos uma nova interpretação para as sílabas sem sentido (Gundlach, 1986). Elas nem sempre eram limitadas a apenas três letras e não eram necessariamente sem sentido.

Essa análise meticulosa dos dados históricos, nesse caso usando os próprios escritos de Ebbinghaus, revelou que algumas sílabas compreendiam quatro, cinco ou seis letras. E, o que é mais importante, o objeto de pesquisa que Ebbinghaus denominava “série sem sentido de sílabas" foi traduzido incorretamente para o inglês como uma "série de sílabas sem sentido". Para Ebbinghaus, não eram as sílabas individuais que não deveriam ter sen­tido (embora muitas não tivessem), mas toda a lista de palavras, formada deliberadamente para não conter conexões nem associações anteriores.

Essa reinterpretação dos escritos de Ebbinghaus também revelou que ele era tão fluente em inglês e francês quanto em alemão, além de ter estudado latim e grego, o que mostra a dificuldade enfrentada na criação de sílabas que não tivessem absolutamente nenhum sentido para ele. O pesquisador concluiu: "O inútil esforço em obter a sílaba totalmente sem sentido e completamente livre de associações é uma tarefa para alguns dos seguidores [de Ebbinghaus]" (Gundlach, 1986, p. 469-470).

Ebbinghaus planejou diversos experimentos usando a sua série sem sentido de sílabas para determinar a influência das várias condições experimentais sobre a aprendizagem e a retenção humanas. Uma das pesquisas investigou a diferença entre a velocidade de memo­rização das listas de sílabas e a de memorização daquelas com significados mais aparentes. Para determinar a diferença, Ebbinghaus memorizou estrofes do poema "Dom Juan”, de Byron. Cada estrofe compreendia 80 sílabas, e Ebbinghaus acreditava serem necessárias aproximadamente nove leituras para a memorização de cada uma. Em seguida, memori­zou uma sequência sem sentido de 80 sílabas e constatou que essa tarefa exigia cerca de 80 repetições. Concluiu que a aprendizagem de material sem sentido e sem associações é aproximadamente nave-vezes mais difícil que a de conteúdo conhecido.

Ele tainbém estudou o efeito do tamanho do material a ser aprendido sobre o número de repetições necessário para obter uma reprodução perfeita. Constatou que, quanto mais longo o material a ser estudado, mais repetições eram necessárias e, consequentemente, mais tempo para a aprendizagem. Quando aumentou o número de sílabas a serem apren­didas, o tempo médio de memorização de uma sílaba também foi maior. É claro que, esses resultados eram previsíveis: quanto maior a quantidade de material a ser estudado, mais tempo se levava para aprender. A importância do trabalho de Ebbinghaus consiste no controle meticuloso das condições experimentais, na análise quantitativa dos dados e na conclusão de que o tempo de aprendizagem de uma sílaba - assim como o tempo total da aprendizagem - aumenta quanto mais extensa a lista de sílabas.

Ebbinghaus estudou ainda outras variáveis que acreditava influenciarem a aprendiza­gem e a memória, por exemplo,  o efeito da superaprendizagem (a repetição das listas por mais-tempo do que o necessário para obter a reprodução perfeita), as associações existentes nas listas, a revisão do material e o intervalo decorrido entre a aprendizagem e a lembrança. Com a pesquisa sobre o efeito do tempo, produziu a famosa curva do esquecimento de Ebbinghaus, que demonstra que o material é esquecido rapidamente nas primeiras horas após a aprendizagem e mais lentamente depois disso (veja a Figura 4.1).

Curva do esquecimento de Ebbinghaus

Em 1880, Ebbinghaus foi indicado para ocupar uma posição acadêmica na University of Berlin, onde prosseguiu com a sua pesquisa, repetindo e verificando seus estudos ante­riores. Publicou os resultados das pesquisas no livro intitulado On memory: a contribution to experimental psychology (1885), que pode ser considerada a pesquisa mais brilhante rea­lizada por um único estudioso na história da psicologia experimental. Além de inaugurar um novo campo de estudo, importante até hoje, seu programa de pesquisas é um exemplo de habilidade técnica, perseverança e engenhosidade. Não se tem notícia, na história da psicologia, de qualquer outro pesquisador que tenha trabalhado sozinho e se submetido
a um regime de experimentação tão rigoroso. Sua pesquisa foi tão precisa, completa e sis­temática que continua a ser mencionada nos livros atuais de psicologia, depois de mais de um século.

Outras Contribuições de Ebbinghaus à Psicologia

Em 1890, Ebbinghaus e o físico Arthur König lançaram a revista intitulada Journal of Psychology and Physiology of the Sense Organs. A nova revista foi bem recebida na Alemanha, pois a publicação de Wundt, o primeiro meio de divulgação dos trabalhos de pesquisa do laboratório de Leipzig, não dava mais conta de todo o trabalho produzido. A necessidade de uma nova publicação, apenas nove anos após o lançamento da revista de Wundt, é um testemunho importante do fenômeno do crescimento tanto da dimensão como da diversificação da psicologia.
Em sua primeira edição, Ebbinghaus e König deram destaque às duas disciplinas que emprestaram o nome ao título da publicação: psicologia e fisiologia. Essas áreas "têm con­ sequentemente crescido juntas (...) para formar um todo; elas promovem e pressupõem uma a outra, assim, constituem dois membros de igual importância de uma grande dupla ciência" (apud Turner, 1982, p. 151). Essa declaração, apenas 11 anos após Wundt instalar o seu laboratório experimental, também demonstra quão longe a ideia de Wundt sobre psicologia como uma ciência havia chegado.

Ebbinghaus não obteve qualquer outra promoção na University of Berlin, aparentemen­te porque não publicou mais nenhum trabalho. Em 1894, aceitou um cargo na University of Breslau, onde permaneceu até 1905, quando se transferiu para a University of Halle. Desenvolveu um exercício de completar sentenças, sempre considerado o primeiro teste bem-sucedido sobre os processos mentais superiores. Uma forma modificada dessa tarefa é utilizada em testes modernos de habilidade cognitiva.

Em 1902, Ebbinghaus lançou um livro de sucesso, The principles of psychology, dedicado à memória de Fechner, e em 1908 publicou A summary of psychology, voltado ao público mais leigo. Os dois livros tiveram várias edições e, após sua morte por pneumonia, em 1909, foram revisados por outros escritores.

Entre as contribuições de Ebbinghaus não consta nenhuma teoria, sistema formal ou disciplina. Ele não fundou nenhuma escola, nem parecia ser essa a sua intenção. No entanto, ele é importante não apenas no estudo da aprendizagem e da memória, ao qual deu início, como também na psicologia experimental como um todo.

Uma medida do valor histórico geral do cientista é dada pelo tempo durante o qual resiste a sua contribuição. Seguindo esse parâmetro, Ebbinghaus pode ser considerado um cientista de maior importância do que Wundt. Sua pesquisa proporcionou objetividade, quantificação e experimentação para o estudo da aprendizagem, tópico que continuou  central na psicologia do século XX. Graças à visão e à dedicação de Ebbinghaus, as pes­quisas relacionadas com a associação deixaram de basear-se em mera especulação sobre os seus atributos e passaram à investigação científica formal. Mais de um século depois, muitas das suas conclusões a respeito da natureza da aprendizagem e da memória ainda permanecem válidas.

Franz Brentano (1838-1917)

Com cerca de 16 anos, Franz Brentano iniciou os estudos para o sacerdócio. Frequentou as universidades de Berlim, Munique e Tübingen, na Alemanha, e formou-se em filosofia em Tübingen, em 1864. Foi ordenado nesse ano e dois anos mais tarde começou a lecionar filosofia na University of Würzburg, onde também escrevia e ministrava aulas a respeito do trabalho de Aristóteles. Em 1870, o Concílio do Vaticano, reunido em Roma, aceitou a doutrina da infalibilidade papal, ideia à qual Brentano se opôs. Renunciou ao cargo de professor a que havia sido indicado como padre e deixou a igreja.

O livro mais famoso de Brentano, Psychology from an empirical standpoint, foi publicado em 1874, ano do lançamento da segunda parte da obra de Wundt, Principies of physiological psychology. A publicação de Brentano contradizia diretamente as visões de Wundt, confirmando a divergencia já aparente na nova psicologia. Naquele mesmo ano, Brentano foi indicado para ser professor de filosofia da University de Vienna. Permaneceu na Áustria por 20 anos e sua influência aumentou consideravelmente. Professor popular, muitos de seus alunos acabaram destacando-se na psicologia e entre os mais brilhantes estão Christian von Ehrenfels e Sigmund Freud. Freud fez cinco cursos com Brentano e posteriormente se referiu a ele como um "gênio" e "uma pessoa incrivelmente esperta" (Gay, 1988, p. 29). Em 1894, Brentano aposentou-se como professor, mas continuou estudando e escrevendo, dividindo o tempo entre a Suíça e a Itália.

Brentano é considerado um dos mais importantes psicólogos do início da disciplina por causa da diversificação de seus interesses. Foi precursor intelectual das escolas da psicologia da Gestalt e da psicologia humanista, além de ter compartilhado com Wundt a ideia de transformar a psicologia em ciência. Enquanto a psicoIopia de Wundt era experimental, a de Brentano era empirista. Embora não rejeitasse totalmente o experimenta­lismo, Brentano considerava a observação, e não a experimentação, o principal método da psicologia. Acreditava que a abordagem empirista caracterizava-se por um escopo geralmente mais amplo, já que aceitava, além dos dados da observação e da experiência individual, os da experimentação.

O Estudo dos Atos Mentais

Brentano, se opunha à ideia de Wundt de que a psicologia devia estudar o conteúdo da experiência consciente. Seu argumento era que o próprio objeto de estudo da psicologia é a atividade mental, por exemplo, o ato mental de ver, e não o conteúdo mental do que é visto. Desse modo, a psicologia do ato de Brentano contestava a noção wundtiana de que os processos mentais envolvem conteúdo ou elementos.

Ele afirmava que uma distinção devia ser feita entre a experiência como uma estrutu­ra e a experiência como uma atividade. Por exemplo, ao olhar para uma flor vermelha, o conteúdo sensorial do objeto vermelho é diferente do ato de perceber ou sentir a vermelhi­dão. Para Brentano, o ato de perceber a cor vermelha é um exemplo do verdadeiro objeto de estudo da psicologia. Declarou que a cor consiste em uma qualidade física, mas o ato de ver a cor é uma qualidade ou atividade mental. É evidente que o ato envolve necessa­riamente um objeto; sempre deve haver algum conteúdo sensorial, pois o ato de ver não tem o menor sentido sem a presença do elemento a ser visualizado.

A redefinição de Brentano acerca do objeto de estudo da psicologia exigiu um método de análise diferente, já que o ato, ao contrário do conteúdo sensorial, não é acessível por meio da introspecção, método de percepção interna que Wundt e seus alunos estavam utilizando no laboratório de Leipzig. O estudo dos atos mentais exigia uma observação em larga escala. Essa é a razão da preferência de Brentano pelos métodos mais empiristas do que experimentais para a psicologia do ato. Sua proposta não era o retorno à filosofia especulativa. É importante lembrarmos que, apesar de não ser experimental, o método de Brentano dependia da observação sistemática.

Brentano aperfeiçoou duas formas de estudo dos atos mentais:

  1. por meio do uso da memória (a lembrança dos processos mentais envolvidos em um determinado estado mental);
  2. por meio do uso da imaginação (imaginando um estado mental e observando os processos mentais que ocorrem).

Embora a posição de Brentano atraísse um grupo de seguidores, a psicologia wundtiana continuava a ter destaque. Por lançar mais publicações do que Brentano, a posição de Wundt era mais conhecida. Além disso, os psicólogos admitiam ser mais fácil estudar as sensações ou o conteúdo consciente com os métodos da psicofísica do que usando a observação para analisar os atos mais evasivos.

Carl Stumpf (1848-1936)

Nascido em uma família de médicos na Bavária, Carl Stumpf tomou contato com a ciência muito cedo, mas desenvolveu grande interesse pela música. Aos 7 anos, começou a estudar violino e acabou aprendendo a tocar perfeitamente outros cinco instrumentos e, aos 10 anos, já compunha. Quando frequentou a University of Würzburg, interessou-se pelo trabalho de Brentano e concentrou a atenção na filosofia e na ciência. Por recomendação de Brentano, Stumpf cursou a University of Gõttingen, onde obteve o doutorado em 1868. Ocupou várias posições acadêmicas nos anos seguintes enquanto realizava seu trabalho na nova psicologia.

Em 1894, foi indicado para ocupar a mais alta e honrosa posição como professor de psicologia da Alemanha, na University of Berlin. Os anos nessa universidade foram extremamente produtivos. Conseguiu transformar seu laboratório original, composto de três pequenas salas, em um grande e importante instituto. Embora seus trabalhos não abrangessem o mesmo escopo dos de Wundt, foi considerado seu maior rival. Stumpf foi professor de dois psicólogos que viriam a fundar a psicologia da Gestalt (Capítulo 12) uma escola de pensamento que se opôs às visões de Wundt.

Os primeiros trabalhos produzidos por Stumpf eram a respeito da percepção espacial, no entanto seu trabalho de maior impacto, resultado do seu eterno interesse pela musica, foi Psychology of tone, publicado em dois volumes (1883 e 1890). Esse trabalho e os posteriores, relacionados, com a música, renderam-lhe a segunda posição no campo da acústica, perdendo apenas para Helmholtz, e ambos foram considerados pioneiros no estudo psicológico da música.

A Fenomenologia

A influencia de Brentano explica por que Stumpf aceitava o tratamento não tão rigoroso da Psicologia quanto Wundt acreditava ser necessário. Stumpf alegava serem os fenômenos mentais mais importantes para apsicologia. A fenomenologia, tipo de introspecção defendida por Stumpf, refere-se ao exame da experiência imparcial, ou seja, a experiência tal qual ela ocorre. Ele discordava da posição de Wundt de dividir a experiência em elementos. A creditava que analisar a experiência mediante a redução em conteúdo ou elementos mentais acabava tornando-a artificial e abstrata e a levava a deixar de ser natural.

Em uma série de publicações, Stumpf e Wundt travaram uma balalha dura a respeito da introspecção dos tons. Stumpf iniciou o debate no nível teórico, mas Wundt levou-o para o lado pessoal, apimentando as polêmicas com "denúncias contundentes" (Stumpf, 1930/1961, p. 441). As discussões giravam em torno de algumas questões básicas de quem eram os relatos introspectivos de maior credibilidade? Nos relatos das experiências musi­cais, devemos aceitar os resultados dos observadores altamente treinados do laboratório de Wundt ou dos músicos especializados de Stumpf? Stumpf simplesmente se recusou a aceitar os resultados do laboratório de Wundt.

Stumpf continuou a escrever sobre música e acústica e, nesse período, estabeleceu um centro para a coleta de gravações de músicas originárias de vários países do mundo. Fundou a Berlin Association for Child Psychology (Associação de Psicologia Infantil de Berlim) e publicou a teoria da emoção, que tentava reduzir os sentimentos a sensações, ideia importante para as teorias cognitivas contemporâneas da emoção. Assim, Stumpf foi um dos vários psicólogos alemães a trabalhar independentemente de Wundt para expandir as fronteiras da psicologia.

Oswald Külpe (1862-1915)

Inicialmente, Oswald Külpe foi seguidor de Wundt, mas acabou liderando um protesto estudantil contra o que chamou de limitações da psicologia wundtiana. Külpe dedicou toda a sua carreira a trabalhar com os problemas ignorados pela psicologia de Wundt.

Em 1881Külpe iniciou os estudos na University of Leipzig. Planejava estudar história, mas, por influência de Wundt, passou para a filosofia e para a psicologia experimental, a qual ainda estava dando os passos iniciais. Depois de se formar, tornou-se professor adjunto e assistente de Wundt, realizando pesquisas no laboratório de psicologia. Um aluno chamou-o de uma "espécie de mãe" do laboratório porque estava sempre disposto a ajudar os estudantes a resolverem os problemas (Kiesow, 1930/1961, p. 167).

Külpe escreveu um manual introdutório, Outline of psychology (1893) e dedicou-o a Wundt. No livro, definia a psicologia como a ciência dos fatos da experiência dependen­tes do indivíduo que a vivência.

Em 1894, Külpe aceitou o cargo de professor da University of Würzburg e dois anos mais tarde implementou um laboratório de psicologia que logo rivalizaria em importância com o de Wundt. Entre os estudantes atraídos a Würzburg estavam diversos estadunidenses, incluindo James Rowland Angell, que se tornou o pivô do desenvolvimento da escola de pensamento funcionalista (veja Capítulo 7). Külpe dedicou-se a vida toda aos alunos e às pesquisas. Nunca se casou e tinha orgulho de dizer que "a minha noiva é a ciência" (apud Ogden, 1951, p. 4).

Divergências entre Külpe e Wundt

Em Outline of psychology, Külpe não questionou o processo de pensamento, pois concordava com a visão de Wundt sobre a impossibilidade da análise experimental dos processos mentais superiores. Entretanto, apenas alguns anos depois, Külpe convenceu-se do contrário. Afinal, Ebbinghaus estava estudando a memória, outro processo mental superior. Se a memória era passível de análise em laboratório, por que não o pensamento? Ao formular essa pergunta, obviamente Külpe estava desafiando a definição de Wundt acerca do escopo da psicologia.

A Introspecção Experimental Sistemática

Outra diferença entre a psicologia praticada em Würzburg e em Leipzig refere-se à intros­pecção. Külpe desenvolveu um método que chamou de introspecção experimental sis­temática, que envolvia, primeiro, a execução de uma tarefa complexa (como estabelecer conexões lógicas entre conceitos) e, em seguida, a coleta dos relatos individuais sobre os processos cognitivos ocorridos durante a realização da tarefa. Em outras palavras, as pes­soas realizavam alguns processos mentais, como o pensamento ou o julgamento, e depois examinavam como haviam pensado e julgado. Wundt não permitia em seu laboratório o  uso dessa descrição retrospectiva ou após o fato. Ele analisava a experiência consciente à medida que ela ocorria e não a lembrança do fato ocorrido. Decepcionado com a meto­dologia de Külpe, chamou-a de "falsa" introspecção.

A abordagem-de Külpe era sistemática porque a experiência total podia ser descrita precisamente pela sua divisão em períodos de tempo. As tarefas semelhantes eram repeti­das diversas vezes, de modo que permitissem a correção, a confirmação e a ampliação dos relatos introspectivos, os quais eram normalmente complementados com mais perguntas, dirigindo a atenção do indivíduo a pontos específicos.

Outras diferenças existiam entre as abordagens introspectivas de Külpe e de Wundt, o qual não concordava com o método de os indivíduos descreverem em detalhes suas experiências conscientes subjetivas. A maior parte da sua pesquisa concentrava-se nas medições objetivas e quantitativas, como o tempo de reação ou a percepção do peso na pesquisa psicofísica. Entretanto, a introspecção experimental sistemática de Külpe dava ênfase aos relatos individuais detalhados, qualitativos e subjetivos acerca da natureza dos processos de pensamento. Külpe desejava dos participantes da sua pesquisa mais do que um simples julgamento da intensidade do estímulo. Ele lhes pedia para descreverem as operações mentais complexas realizadas durante a execução da tarefa.

É possível perceber que, na introspecção experimental sistemática de Külpe, o pesqui­sador assumia um papel mais, ativo no processo de pesquisa. No laboratório de Wundt, o envolvimento do pesquisador limitava-se à apresentação do material de estímulo e ao registro dos resultados das observações. Portanto, os pesquisadores de Wundt não interfe­riam nas observações em si. No entanto, na abordagem de Külpe, os pesquisadores faziam perguntas diretas aos observadores, tentando explicitar os detalhes das suas reações aos estímulos experimentais.

Esse tipo de questionamento exigia dos observadores um trabalho árduo para des­creverem cuidadosamente e com precisão os fatos mentais complexos que vivenciavam. Külpe desejava obter mais informações do que somente as referentes ao tempo de reação, à percepção de peso ou outras medições quantitativas. Um historiador chegou a afirmar que, na verdade, Külpe estava expandindo os limites estreitos da forma de introspecção de Wundt (Danziger, 1980).

Em resumo, a abordagem de Külpe objetivava diretamente a investigação sobre o que acontecia na mente do indivíduo durante a experiência consciente. Suas metas eram expandir o conceito de Wundt sobre o objeto de estudo da psicologia para englobar os processos mentais superiores e aprimorar o método de introspecção.

Pensamentos sem Imagens

Qual o resultado da campanha de Külpe para expandir e aperfeiçoar o objeto e o método de estudo da psicologia? Wundt afirmava que toda experiência é composta de sensações e imagens, e tentava reduzir a experiêricia consciente a essas partes componentes. Todavia os resultados da introspecção direta de Külpe nos processos de pensamento revelaram o contrário: que o pensamento pode ocorrer sem qualquer conteúdo sensorial ou imagístico. Essa descoberta foi definida como pensamento sem imagens, para representar a ideia de que os significados, no pensamento, não requerem necessariamente imagens específicas e, assim, a pesquisa de Külpe identificou o aspecto não-sensorial da consciência.

Tópicos de Pesquiso do Laboratório de Würzburg

Külpe e seus alunos realizaram pesquisas sobre diversos tópicos. O estudo de Karl Marbe sobre o julgamento comparativo de pesos foi uma contribuição importante, pois constatou que, apesar de as sensações e imagens estarem presentes durante a tarefa, elas parecem não tomar parte do processo de julgamento. Os indivíduos não foram capazes de descrever como os julgamentos de pesado ou leve ocorriam à mente. Essa descoberta contradizia a noção aceita de que, ao realizar esses julgamentos, os indivíduos retinham a imagem mental do primeiro peso e a comparavam com a impressão sensorial do segundo.

O estudo de Henry Watt demonstrou que, em uma tarefa de associação de palavras (em que se pedia às pessoas para responderem a uma palavra de estímulo), os indivíduos ofereceram poucas informações relevantes sobre o processo consciente de julgamento. Essa descoberta reforçou a alegação de Külpe de que a experiência consciente não pode ser redu­zida exclusivamente a sensações e imagens. Os participantes da pesquisa de Watt foram capazes de responder corretamente, sem nenhuma intenção de assim proceder no momento de formular a resposta. Watt concluiu que o trabalho consciente fora realizado antes de a tarefa ser executada - quando as pessoas receberam e entenderam as instruções.
As pessoas envolvidas no trabalho de Watt aparentemente estabeleceram um ambien­te inconsciente ou uma tendência determinante para responder da forma desejada, no momento em que compreenderam as instruções. Quando as regras da tarefa foram com­preendidas e a tendência determinante adotada, a tarefa em si foi realizada com pouco esforço consciente. Essa pesquisa indicou que as predisposições externas à consciência eram capazes, de alguma forma, de controlar as atividades conscientes. Dessa maneira, a experiência foi considerada dependente não apenas dos elementos conscientes, como também das tendências determinantes inconscientes, supondo que a mente inconsciente pode influenciar o comportamento humano. Essa noção foi adotada posteriormente por Sigmund Freud na sua escola de pensamento psicanalítica.

Comentários

Observamos que, logo após a fundação formal da psicologia, surgiram muitas divisões e controvérsias. Entretanto, apesar de todas as divergências, os primeiros psicólogos estiveram unidos em torno de um único objetivo: o desenvolvimento de uma ciência da psicologia independente. Mesmo com as diversas visões quanto ao objeto e ao método de estudo da psicologia, Wundt, Ebbinghaus, Brentano, Stumpf e outros mudaram definitivamente a perspectiva do estudo da natureza humana. Um escritor observou que, em virtude dos esforços desses intelectuais, a psicologia não era mais um estudo da alma [mas] um estudo, por meio da observação e da experiência, de certas reações do organismo humano não incluídas como objeto de estudo de qualquer outra ciência. Os psicólogos alemães, apesar de todas as suas diferenças, estavam totalmente comprometidos com um objetivo comum; e a capacidade, o empenho e a direção comum de seus trabalhos contribuíram para o desenvolvimento das universidades alemãs, trans­formando-as no centro do novo movimento na psicologia. (Heidbreder, 1933, p. 105)

A Alemanha logo deixou de ser o centro do movimento. E. B. Titchener, aluno de Wundt, levou aos Estados Unidos uma nova versão da psicologia do seu fundador.

Psicologia - História da Psicologia
1/4/2020 8:03:03 PM | Por Marina Massimi
Livre
Ideias Psicológicas na cultura Luso-brasileira, do séc. XVI ao XVIII

As instituições superiores de ensino são criadas no Brasil somente no século XIX, o que faz com que a psicologia percorra outros caminhos em sua história entre nós. Indica-se a reconstrução de conhecimentos e práticas psicológicas presentes no contexto de culturas e sociedades específicas, expressivos das diversas “visões de mundo” que as caracterizam. Entende-se por visão de mundo aquele conjunto de aspirações, de sentimentos e de ideias que reúne os membros de um mesmo grupo e os diferencia de outros grupos sociais. Evidenciaremos a seguir alguns tópicos da produção cultural brasileira do período entre o século XVI e o início do século XIX que podemos reconhecer como significativos para a história dos conhecimentos psicológicos na cultura ocidental.

Os jesuítas como portadores e transmissores de ideias psicológicas

Ordem religiosa recém-surgida quando da vinda de seus padres mis­sionários ao Brasil junto à armada do governador geral português Tomé de Souza em 1549, a Companhia de Jesus originara-se num contexto cultural muito fecundo da Europa da época. Seus inícios aconteceram no âmbito de um pequeno grupo de docentes e alunos da Universidade de Paris, local de convergência da tradição medieval e dos novos fermentos do Huma­nismo e do Renascimento. Inclusive alguns dos membros da Companhia foram ilustres representantes dessa corrente de pensamento. Além disso, a identidade hispânica de seu fundador, Inácio de Loyola (1491-1556), e de vários entre os primeiros adeptos, proporcionava a colocação da Companhia no âmago de um dos mais importantes movimentos culturais da Europa da época: a Segunda Escolástica ibérica, escola filosófica que tencionava abarcar e discutir as novas teorias dos filósofos renascentistas e ao mesmo tempo manter uma ligação estreita com a tradição filosófica cristã.

A educação é tida pelos religiosos - imbuídos do espírito da pedagogia humanista - como instrumento privilegiado para criar um homem novo e uma nova sociedade na Terra de Santa Cruz, sendo que a criação de escolas constituíra-se um dos objetivos prioritários do plano missionário da Companhia. Tal empreendimento acarretava a necessidade de formular conhecimentos e práticas que, na nossa linguagem atual, designaríamos como pedagógicos e psicológicos.

Outro motivo que justifica o interesse pelo estudo do saber dos jesuítas do ponto de vista da historiografia das ideias psicológicas no Brasil é que a ênfase no conhecimento de si mesmo (através do discer­nimento dos espíritos) e no diálogo interpessoal visando à compreensão da dinâmica interior (através da direção espiritual) é uma das dimensões principais da espiritualidade da Companhia e de sua formação. Revela uma atenção toda moderna para com o cuidado de si mesmo. Esses recursos, aplicados à vida do indivíduo, são, porém , funcionais ao bem - estar do grupo e visam favorecer a adaptação aos diversos contextos de atuação missionária. Neles canalizam-se conceitos teóricos e receitas práticas próprios de toda a tradição clássica e medieval.

Apresentamos a seguir as principais ideias psicológicas que surgiram no âmbito da produção jesuítica, no meio sociocultural do Brasil colo­nial.

O estudo da alma e a cura das enfermidades do ânimo

Uma importante fonte para o conhecimento da teoria psicológica di­fundida no ambiente cultural da Companhia de Jesus em Portugal e no Brasil ao longo do período colonial são alguns comentários às obras de Aristóteles elaborados por jesuítas portugueses docentes junto ao Colégio de Coimbra, os tratados assim chamados Conimbricences, baseados nos textos gregos daquele filósofo. Nesses compêndios didáticos, assumia-se uma posição cultural explícita a favor de Aristóteles (384-322 a.e.c.) e de Santo Tomás (1225-1274), mas ao mesmo tempo acolhedora dos fermentos culturais novos do Humanismo e da Renascença. A teoria psicológica dos mestres de Coimbra pode ser apreendida pela leitura dos comentários às obras psicológicas de Aristóteles, a saber: De Anima, Anima Separata, Parva Naturalia, Ética a Nicomaco, De Generatione et Corniptione.

A concepção psicológica proposta pelos Comentários é inspirada na tradição aristotélico-tomista. Nesta, a alma é definida como o ato primeiro e substancial do corpo, forma do corpo e princípio de toda atividade. Inovadora, porém, é a ênfase quanto à utilidade concreta da ciência da alma — o que justifica a posição prioritária que ela ocupa entre as outras disciplinas filosóficas.

As cegas paixões do coração humano

A descrição e a definição conceptual de emoções tais como o medo, o amor, a tristeza, na época chamadas paixões, são temas recor­rentes na literatura jesuítica produzida no Brasil ao longo dos séculos XVI e XVII. A elaboração de uma teoria completa acerca de tais fe­nômenos e de seu controle pelo saber da Companhia é documentada pela literatura moral e pela oratória sagrada.

No século XVII, nos Sermões de Antônio Vieira (1608-1697), encontram-se várias referência às “paixões”, sendo estas reconhecidas como motores do comportamento humano individual e social. O saber de Vieira acerca da psicologia das paixões fundamenta-se numa longa tradição teológica, médica e filosófica, em muitos casos explicitamente documentada e citada e que, de qualquer forma, já encontramos nos tratados filosóficos dos mestres de Coimbra (cf. Massimi e Silva, 2001).

O conhecimento de si mesmo: força poderosa sobre as próprias ações

Para Vieira e para os outros pregadores do período colonial, o estudo dos fenômenos psicológicos situa-se no plano de um conhecimento de si mesmo instrumental à conversão religiosa e ao comportamento virtuoso. Para tanto, o sermão é considerado meio privilegiado e eficaz, conforme assinala num famoso conjunto de sermões (As cinco pedras da funda de Davi em cinco discursos morais, 1676): “ O conhecimento de si mesmo, é o conceito que cada um faz de si, é uma força poderosa sobre as próprias ações” (1993,vol.V:612).

Na visão dos pregadores, o verdadeiro conhecimento psicológico brota não de uma autonomização do campo do psicológico, mas, pelo contrário, de uma consideração deste do ponto de vista de uma ordem superior da experiência humana, que é a ordem do espiritual. Para atingir tal perspectiva é preciso “sair”, distanciar-se do que de imediato aparece como o ser do homem. Quando a subjetividade se espelha numa alteridade, e o eu se depara com o Outro, então começa-se a adquirir o verdadeiro conhecimento de si mesmo. E por isso que “a boca do pregador”, semelhante à “boca de Deus”, é o instrumento com que a graça “forma” os homens. Por isso, inclusive em vários de seus Sermões Vieira define os pregadores como “médicos das almas”.

O conhecimento do índio como pessoa

Numa ótica já voltada para a atuação no campo social da Colônia, a correspondência epistolar e a literatura de viagem elaboradas pelos jesuítas ao longo de sua presença missionária no Brasil do século XVI ao século XVIII constituem-se numa fonte importantíssima de transmissão de ideias psicológicas acerca de si mesmo e do outro. O conhecimento dos índios, adquirido pelos missionários jesuítas através da convivência quotidiana com eles, norteada pelo objetivo da evangelização, transmitido e difun­dido através da correspondência epistolar, é, sucessivamente, organizado em tratados e informes. Nesses documentos, é elaborado um saber que, adquirido pela experiência direta, é filtrado pelo crivo da visão antropo­lógica da teologia católica da época, especialmente a doutrina elaborada pelos teólogos da Companhia de Coimbra e em Roma.

Um exemplo da modalidade pela qual o conhecimento do índio vem sendo construído pelos missionários é o Diálogo do Padre Nóbrega sobre a conversão do gentio (in Nóbrega, 1988). Nesse texto, a “criação” de uma “psicologia” do índio é esboçada para corroborar a tese da humanidade do mesmo, tese que, por sua vez, justifica a ação evangelizadora dos religio­sos junto a ele. Para comprovar que os índios também têm alma, Nóbrega (1517-1570) baseia-se no dado de observação de que eles possuem todas as “potências” atribuídas pelos filósofos à alma, a saber “entendimento, memória e vontade”(idem, p. 237). Desse modo, a demonstração da “humanidade” do índio é feita a partir do conhecimento de suas características psicológicas. Outros autores jesuítas —tais como José de Anchieta (1534-1597) e Fernão Cardim (1549-1625) - em seus escritos constroem ideias psicológicas acerca dos índios brasileiros (f. Massimi, 1990; Massimi, Mahfoud et al., 1997).

“A criança disposta para se formarem nela quaisquer imagens”

A crença na possibilidade de o homem “fazer-se a si mesmo”, caracte­rística do Humanismo e do Renascimento, colocando ênfase na possibilidade de o ser humano ser plasmado através da educação, encontra nos Novos Mundos recém descobertos o grande laboratório de sua realização. O trabalho desenvolvido pelos missionários da Companhia de Jesus, visando à criação de escolas para a formação de crianças indígenas e mestiças no Brasil colonial, enquadra-se nesse contexto: a realização do projeto missionário da Com­panhia, através da educação, tornará viável a transformação do homem, da cultura e da sociedade. O homem em sua origem é considerado uma tabula rasa, e o seu desenvolvimento é um processo em que esta tabula poderá ser preenchida conforme for a primeira doutrina, conforme a primeira educação, que deres a vossos filhos, podereis conhecer, o que hão de vir a ser” (Gusmão, 1685: 2). Esta afirmação encontra-se no tratado Arte de crear bem os filhos na idade da puerícia (1685), de outro jesuíta brasileiro, Padre Alexandre de Gusmão (1629-1725), pedagogo e literato, fundador do Colégio de Belém, em Salvador da Bahia, e autor, entre outros, da novela História de Predestinado Peregrino e de seu irmão Precito (1685).

Ideias psicológicas de pensadores brasileiros no Brasil nos séculos XVII e XVIII

Entre o século XVII e o início do século XIX, a proibição da criação da Universidade no território nacional imposta pela política cultural da Metrópole levara os jovens brasileiros membros de famílias mais abas­tadas a realizar seus estudos no exterior, sobretudo nas Universidades de Coimbra, Paris e Montpellier. Uma das consequências mais graves desse êxodo foi a impossibilidade de se conseguirem modalidades de formação do intelectual que fossem integradas às condições e peculiaridades da reali­dade nacional; incentivou-se também uma tendência ao individualismo no mundo intelectual autóctone. A formação cultural como autodidatas foi o caminho encontrado por vários brasileiros que não lograram sair do país para realizar seus estudos. Esses pensadores afirmavam a dignidade cultural de sua posição e ao mesmo tempo tinham uma consciência crítica da condição de desterro do intelectual brasileiro, consciência esta evidente nos seus escritos.

O tema barroco da existência humana como transformação, mudança, movimento caracteriza suas concepções. A vida é concebida como fluxo cons­tante de partes às vezes antagônicas: a beleza faz pressentir a decadência, a alegria contém em si o germe da tristeza, há “firmeza na inconstância”, parafraseando um poema de Gregório de Matos (1633-1696) (Moscheta, Massimi, 2000). A ênfase na variabilidade da experiência humana - comum nesse período -, por sua vez, remete-nos à imagem do homo viator formulada pela tradição medieval. A metáfora do peregrino, já proposta numa novela pelo jesuíta Gus­mão, é retomada por um escritor atuante no Brasil no século XVIII: Nuno Marques Pereira (1652-1728), autor do Compêndio Narrativo do Peregrino de América, editado em 1728 em Coimbra e sucessivamente reeditado em 1731, 1760 e 1765 (Assis, Massimi, 1995):

“Se bem reparamos que cousa é a vida de um homem neste mundo, acharemos que não é mais que uma mera peregrinação: já andando, já navegando, já apetecendo glórias até possuí-las, e na mesma posse temendo perdê-las” (Pereira, 1939, vol. 1: 22).

Posição semelhante encontra-se no texto manuscrito do carioca Feliciano Joaquim de Souza Nunes, Política Brazilica (1781), encontrado na Biblioteca Pública do Porto, conjunto de instruções sobre vários tópicos de natureza moral ou religiosa. A perspectiva proposta por Nunes é marcada por uma ética pessimista, onde a visão aristotélica e contrarreformista é in­terpretada numa tônica estóica e fatalista. Trata-se de submeter-se à imutável ordem hierárquica das coisas, sendo que a prudência - virtude por exce­lência, no enfoque aristotélico-tomista - não garante a felicidade: “não está na tua mão evitar as desgraças” (fl. 83), mas “a conformidade tem mais poder; para fazer ditoso o desgraçado, do que a prudência, para o constituir venturoso” (idem).

Da mesma forma, a noção da estreita correspondência entre higiene moral e higiene física, própria da teoria aristotélica e da teoria dos tempe­ramentos, é rejeitada:

Persuade o discurso, que a conservação da saúde pende da boa regulação dos costumes: porém vê como acaba aquele paralítico, ainda que bem morigerado: vê como vive este robusto, não obstante a sua intemperança, (fl. 85-86).

Análoga percepção da existência humana é formulado pelo autor paulista Matias Aires Ramos da Silva de Eça (1705-1763), em sua obra Reflexão sobre a vaidade dos homens (1752). A vaidade nasce quando o homem fixa sua atenção numa das “cenas” do “teatro do mundo”, como se fosse a definitiva e como se possuísse uma realidade última. A imagem do “teatro” é característica da cultura do Barroco que tende a transformar a existência em espetáculo e representação. Contrariamente ao que acon­tece no caso dos outros afetos (“paixões”), a vaidade não é uma paixão do corpo e portanto independe da composição humoral somática, mas deriva do “discurso” e do “entendimento” (idem: 15). Ela é uma espécie de “delírio”, pois “nos finge mil objetos imortais” (idem: 34-35), produzindo um conflito no eu do homem: ao mesmo tempo em que o juízo reconhece e denuncia os seus delírios, a vontade segue-os. Na perspectiva de Matias Aires, o discurso sobre a vaidade é motivado também por razões políticas: a constatação da decadência do Império português, apesar das ostentações de luxo e de riqueza.

O tema da vaidade encontra-se também na produção poética de Gregório de Matos, de Tomáz Antônio Gonzaga (1744-1810), de Cláudio Manuel da Costa (1729-1789), bem como nos sermões já citados de Antônio Vieira (cf. Massimi, 1990). Todavia, nos autores que aqui analisamos, a mutabilidade, a antinomia entre a essência e a aparência, o sentido de incerteza e de instabilidade tornam-se dimensões salientes e interiores de todo ser humano, sendo ao mesmo tempo sinais da consciência que os intelectuais brasileiros tinham acerca da dissolução do mundo cultural e político da tradição.

Psicologia - História da Psicologia
1/4/2020 2:37:18 PM | Por Fernando Vidal
Livre
A Psicologia do Séc. XVIII

Em torno de 1770, o autor de um artigo sobre psicologia numa enciclopédia suiça termina seu texto com a seguinte pergunta: “Qual é a ciência que mereça nossa atenção e que não tenha a psicologia por base, princípio e guia?” Ele acrescenta ainda que sem o conhecimento da natureza, das faculdades, qualidades, estados, relações e destinação da alma humana, nós não podemos julgar nem decidir sobre nada, nem determinar nada, nem escolher, nem preferir nada, nem fazer nada com segurança e sem erro. Assim a psicologia é a primeira, a mais útil de todas as ciências, a fonte, a fundação de todas e o guia que conduz a cada uma delas. (Mingard, 1770-1775: 511-513)

Esta passagem é interessante sob vários aspectos. Primeiro, pela relação que o autor estabelece entre a psicologia e o que ele considera serem as ciências e as questões que mais merecem nossa atenção, principalmente (tal como especificadas no artigo) a teologia e a imaterialidade e a imortalidade da alma, a ética e a identificação de ações morais, a política e o modo de governar os seres humanos, e finalmente a lógica e o modo de adquirir o conhecimento e de distinguir o falso do verdadeiro, o certo do provável. Em segundo lugar, porque o autor relaciona o conhecimento empírico da alma, adquirido através da observação e da experiência, com princípios religiosos ou metafísicos sobre a natureza e a destinação da alma. Em terceiro lugar, porque atribui à psicologia um estatuto didático e prático preeminente em relação às ciências. Além disso, fica implícito que a psicologia era também epistemologicamente singular: tal como explica o artigo, “uma vez que a psicologia não pode extrair seus princípios nem os fatos que sustentam seus argumentos de uma ciência que se poderia supor anterior a ela, ela não busca nem deve buscá-los em nenhum outro lugar fora do próprio objeto de suas investigações (Mingard, 1770-1775: 513). Assim sendo, a psicologia revela-se como a única ciência cuja metodologia deriva do estudo de seu próprio objeto. Tais juízos sobre a ciência empírica da alma indicam seu lugar no pa­norama intelectual do Iluminismo e legitimam a descrição do século XVIII como o século da psicologia (Gilson e Langan, 1964: 225). A psicologia conquistou essa posição através dos mecanismos intelectuais e sociais que fizeram dela uma disciplina genuína. No século XVIII, a psicologia não pôde se tornar uma profissão acadêmica; na época, tais profissões eram apenas o direito, a medicina e a teologia. Os outros ramos do conhecimento ensinados nas universidades - as “artes” da gramática e da retórica e as “ciências” da lógica, da ética, da física’ (o estudo da natureza) e da metafísica —eram subordi­nados àquelas três faculdades “superiores” e serviam como preparação para elas. Enquanto tratava de fenômenos empíricos relacionados à alma em sua ligação com o corpo, a psicologia era ensinada no curso de física; enquan­to tratava da natureza e da essência da alma, como separada do corpo, ela pertencia à metafísica.

A psicologia no século XVIII não era, portanto, uma profissão institucionalizada. No entanto, ela era uma disciplina - se considerarmos o termo disciplina como uma estrutura social e intelectual caracterizada pela existência de indivíduos que reconhecem a si próprios como seus praticantes; por um conjunto de saberes, problemas, regras, métodos, divergências e debates considerados relevantes; por uma terminologia comum; por publicações, incluindo jornais, além de pessoas identificadas como pertencentes ao domínio em questão ou dotadas de uma autoridade intelectual especial; por sua presença nos currículos acadêmicos e nos materiais de ensino (em manuais ou capítulos de livros didáticos, por exemplo). 

Tudo isso pode existir na ausência de instituições específicas tais como departamentos de universidades, cátedras ou sociedades. É neste sentido de disciplina, que combina o sentido tradicional da palavra com os significados que ela tem na sociologia da ciência, que a psicologia no século XVIII alcançou a consistência e a magnitude que, como veremos abaixo, levaram Immanuel Kant a declarar que ela deveria ganhar o esta­tuto de disciplina universitária autônoma.

O limbo historiográfico contra a autoconsciência metodológica

Em geral, os livros de história da psicologia não consideram a psico­logia do século XVIII uma disciplina e situam-na no limbo de uma “pré-história” ou de uma história “pré-científica”, resumindo as ideias psicológicas dos filósofos iluministas mais importantes. A psicologia, escreveu o eminente experimentalista Herman Ebbinghaus (1850-1909),“tem um passado longo, mas uma história breve” (Ebbinghaus, 1910: 9). Essa frase, tão frequentemente citada, é normalmente interpretada da seguinte maneira: a psicologia empírica e naturalista só teve início nos laboratórios da Alemanha no final do século XIX. Desse modo, acredita-se que a psicologia do século XVIII pertença ao seu passado científico, mas não à sua história. Mas, mesmo que ela não fosse experimental, seria inexato negar a existência de uma psicologia empírica no século XVIII. A psicologia podia não ter laboratórios, mas era concebida como uma disciplina de pesquisa empírica comprometida com a perspectiva naturalista que excluía a alma como um princípio explicativo; por exemplo, ela analisava o pensamento em sua relação com a sensação em lugar de remetê-lo à natureza da substância imaterial e imortal. 

A razão pela qual a psicologia do século XVIII foi julgada “pré-científica”, “filosófica”, ou “especulativa” parece derivar da suposição de que a psicologia natural-científica deveria ser necessariamente quantita­tiva, experimental e independente de propósitos metafísicos ou religiosos. Contudo, a partir de seus próprios termos, a psicologia do século XVIII pode ser considerada uma ciência natural (Hatfield, 1994). Os psicólogos incluíam sua disciplina no estudo da natureza, davam relevo ao estudo dos fenómenos, recusavam-se a discutir a alma como conceito metafísico e apelavam à observação, à experiência, ao método de “análise”, e mesmo à experimentação. Além disso, seguindo o modelo das ciências físicas, eles formulavam hipóteses e esperavam chegar a algum cálculo psicológico.Tudo isso, devemos reconhecer, era fundamentalmente programático e muitas supostas observações não eram mais que ficções conceituais e experimentos intelectuais. Porém, mesmo isso não escapava aos autores do século XVIII.

Já a partir da década de 1750, havia na Alemanha animadas discus­sões metodológicas. Em 1770, o filósofo de Viena Christian Gottfried Shütz (1747-1832), um dos primeiros kantianos, discutiu a questão relativa às dificuldades que resultavam do fato de que a alma é ao mesmo tempo o observador e o observado, o sujeito e o objeto da investigação. Ele assinalou, por exemplo, que mesmo a mais atenta introspecção não consegue atingir muitos fenômenos, tais como os afetos, as percepções obscuras ou rapida­mente concatenadas, os processos graduais de mudança psicológica, ou as primeiras fases do desenvolvimento. Ele examinou rigorosamente os métodos empírico e sintético e era particularmente crítico do método analítico. Este método, cujo teórico mais importante era o filósofo francês Etienne Bonnot de Condillac (1715-1780), visava à “composição” e à “decomposição” de ideias de modo a reduzi-las às mais simples, que podiam ser remetidas às sensações. Schütz caracterizava-o como “o método de conexão arbitrária” (in Bonnet, 1770: 205). O exemplo principal era a estátua imaginada por Condillac no Tratado das sensações (1754) e pelo naturalista e filósofo suíço Charles Bonnet (1720-1793) no Ensaio analítico sobre as faculdades da alma (1760), estátua que, a partir da exposição de estímulos sensoriais separados,

Gradualmente tornava-se um ser pensante. No entanto, Shütz acabou favorecendo uma integração dos três métodos: o método empírico, para esta­belecer os fenômenos; o analítico, para desenvolver hipóteses com base nas observações feitas; e o sintético, para derivar dedutivamente os fenômenos das hipóteses formuladas.

Uma década depois Jean Trembley (1749-1811), um discípulo de Bon­net, autor de alguns dos mais conhecidos trabalhos de psicologia publicados no século XVIII, advogava em favor da tese de que a psicologia deveria seguir a física. Bonnet defendia o papel construtivo da hipótese. Trembley, que estava de acordo com ele quanto a isso, explicava que a física “progrediu apenas depois que se tornou experimental, e que passou a calcular efeitos sem se preocupar com as causas” (Trembley, 1781: 274).

A psicologia deveria imitá-la não somente em seus princípios ontoló­gicos, epistemológicos e metodológicos, mas também em sua estrutura como disciplina. O problema com a psicologia é que, como cada autor tenta construir “todo um sistema”, não se consegue examinar nada com profundidade. A física, por sua vez, avançou na medida em que os físicos enfocaram ramos específicos dessa ciência. A psicologia deveria seguir seu exemplo:

Por que razão alguns autores não se fixam na investigação psicológica dos sentidos, na maneira pela qual conhecemos e julgamos os objetos; e outros na história das crianças e mesmo dos animais que, uma vez que são seres dotados de sensibilidade, são em muitos aspectos semelhantes a nós; outros na história das paixões ou nos diferentes tipos de ações dos homens na sociedade; outros na filosofia da história, etc. A psicologia tornar-se-ia assim uma ciência igualmente vasta e luminosa; cada dia lhe traria novas riquezas e talvez um dia nós pudéssemos reunir todas essas riquezas e ousar empreender uma teoria do homem. Sem dúvida essa é a maneira mais importante de fazer progredir esta ciência (...). (Trembley, 1781; 292-293)

O progresso da psicologia dependia do uso de métodos empíricos em combinação com a especialização. A tendência a elaborar sistemas psicológicos tais como os que Trembley criticava continuou por todo o século XVIII. Apesar disso, a crítica de Trembley era um reflexo da atitude naturalista daquela época, reforçada pelas tentativas de aplicar o raciocínio matemático ou os modelos físicos aos fenômenos e mecanismos mentais, de combinar observações médicas e psicológicas, de discutir a base anatômica da alma ou de conceituar a fisiologia das interações mente-corpo.

Tal como ilustrado pela obra de Wilhelm Wundt (1832-1920), con­siderado o próprio “pai” da psicologia científica, mesmo a ciência que se institucionalizou nas décadas finais do século XIX estava longe de ser ex­clusivamente experimental. A ênfase na ciência de laboratório correspondia aos interesses de uma consolidação institucional. Nos Estados Unidos ela era aclamada como “a nova psicologia”. O livro publicado em 1897 por Edward Wheeler Scripture (1864-1945), um especialista em psicologia da fala e da fonética experimental, recebeu este nome. Esta denominação foi também adotada depois por outros autores. Na França,Théodule Ribot (1839-1916) deu ao seu livro de 1879 A psicologia alemã contemporânea,o subtítulo “escola experimental”; desse modo ele chamava atenção para o que deveria ser uma psicologia positiva e científica. Ao final do século XIX, a psicologia acadêmica do Iluminismo já havia sido relegada para o “passado” da disciplina, de tal modo que poderíamos bem pensar que “o século da psicologia” não tinha mais nenhuma relação com ela. No entanto, agora é preciso reconfigurá-la como objeto legítimo da história da disciplina.

Psicologia: A palavra e o conceito

A palavra psychologia popularizou-se inicialmente nos textos sobre a Alma usados nas universidades protestantes da Alemanha. Ela apareceu na década de 1570 e foi impressa como título pela primeira vez (em caracteres gregos) em 1590 em uma coletânea de discussões sobre a origem e a transmissão da alma racional (Goclenius, 1590). Psychologia era um neologismo conveniente para introduzir os estudantes no sistema geral das ciências, na medida em que ajudava a localizar a scientia de anima e indicar suas rela­ções com as outras disciplinas. Enraizava-se intelectualmente no retorno do aristotelismo e na adoção, dentro das novas universidades protestantes, do método “escolástico” de raciocínio, caracterizado pela sistematização dedutiva, o formalismo lógico e o rigor conceitual no tratamento da controvérsia filosófica, doutrinal e religiosa (Vidal, 2006).

De acordo com Aristóteles, a alma era definida como a “forma” do corpo natural que potencialmente tem vida (De anima, 412-420). Um cor­po “animado” — empsuchos é a palavra grega original —é, portanto, um tipo de matéria dotada de alma (psuchè, anima), e, portanto, capaz de realizar as funções que definem os organismos vivos. A alma era dotada de diferentes poderes ou faculdades (às vezes também apresentados como diferentes tipos de alma): vegetativa (incluindo nutrição, crescimento e reprodução); sensível (incluindo os sentidos externo e interno, movimento físico, as paixões e ou­tros apetites sensíveis); e racional ou intelectual (incluindo o entendimento, o juízo e a vontade) (Michel, 2000). Os seres dotados de alma eram hierarquizados de acordo com as faculdades que eles possuíam: as plantas tinham apenas uma faculdade vegetativa; os animais não humanos tinham a vegetativa e a sensível; e os humanos tinham as três faculdades (vegetativa, sensível e ra­cional). 

Psychologia era, portanto, o nome da ciência geral dos seres vivos e servia como introdução à investigação naturalista das plantas, dos animais e dos humanos. E por esta razão que o estudo do homem ou antropologia (tal como foi chamado nos séculos XVI e XVII) era um ramo da psicologia e não o contrário; é por isso também que ela era frequentemente entendida como uma descrição anatómica do corpo humano.

Ainda que a psicologia fizesse parte do conjunto das ciências naturais, a compreensão de que os humanos eram dotados de um intelecto imaterial e a alma supostamente persistia depois da morte fazia com que os discursos sobre a alma fossem por vezes situados no campo da metafísica. A acepção metafísica do conceito ficou ainda mais evidente quando, depois de des­feito o quadro do pensamento aristotélico, a alma deixou de ser entendida como princípio da vida, responsável pelas funções não intelectuais, passando a ser idêntica à mente, à razão, à consciência. O livro de John Broughton intitulado Psychologia: or An Account of the Nature of the Rational Soul, uma descrição da natureza da alma racional), publicado em 1703, é um exemplo interessante (Broughton, 1703). O autor, um clérigo protestante, tentou demonstrar com o maior rigor que os seres humanos são compostos de duas substâncias heterogêneas. Sua argumentação metafísica se desdobrava, de modo puramente apriori, numa defesa da noção de substância (na época, bastante criticada) como constituindo o substrato, a essência e a condição da existência das coisas (como um princípio explicativo). Seu tratado é um exemplo do tipo de trabalho que fazia com que o termo psicologia fosse difícil de aceitar por aqueles que pretendiam fazer uma ciência empírica da mente. Mas também revela as mudanças no cenário intelectual que abriram espaço para a disciplina da psicologia tal como ela se desenvolveu no século XVIII, a saber, a “mecanização” das funções vegetativa e sensível e a identificação da alma com a mente.

Psicologia e psicologização

Em suas aulas de 1770, Immanuel Kant (1724-1804) explicava que a psicologia empírica tinha permanecido no campo da metafísica não apenas porque os limites da metafísica haviam sido mal estabelecidos, mas também porque a psicologia não era suficientemente ampla e sistemática. Mas chegara o momento de a psicologia se tornar uma disciplina acadêmica:

A razão pela qual a psicologia foi situada no interior da metafísica é evidentemente a seguinte: ninguém nunca soube realmente o que é a metafísica, apesar de ter sido por tanto tempo objeto de muita explanação. Não se sabia como determinar as fronteiras de seu território e por isso muito do que nele foi posto não era cabível (...). A segunda razão era evidentemente esta: a doutrina empírica dos fenômenos da alma não tinha chegado a qualquer sistema que pudesse constituir uma disciplina acadêmica separada. Se ela fosse tão extensa quanto a física empírica, então ela teria sido separada da metafísica. Mas sendo muito pouco extensa e como não se quis descartá-la inteiramente, empurraram-na para a metafísica (...). Mas ela já se tornou muito ampla e logo atingirá uma magnitude quase tão grande quanto a da física empírica. (Kant, 1968: 223-224)

A previsão de Kant para a psicologia empírica como uma disciplina científico-natural começou a se confirmar na segunda metade do século XVIII, nas universidades da Alemanha. Nessa época, a psicologia empírica não tinha cátedras ou departamentos, mas entrou no ensino acadêmico, tornou-se um capítulo nos manuais de filosofia e começou a se disseminar  em periódicos e manuais. Esse processo foi acompanhado do que poderíamos descrever como a psicologização da cultura ilustrada.

Ainda no século XVIII, o filósofo inglês John Locke (1632-1704) foi identificado como o pioneiro indiscutível da tendência psicologizante; seu Essay on Human Understanding (Ensaio sobre o entendimento humano), de 1690, foi devidamente descrito como o “evangelho psicológico” do Iluminismo (Becker, 1955: 64). O historiador da filosofia Gary Hatfield observa justamente que “o empirismo de Locke é bem distinto da tese psi­cológica de que as habilidades perceptivas humanas são adquiridas através da experiência”. Ele nos alerta para o equívoco de interpretar de modo psicologizante os primeiros autores modernos e do Iluminismo, porque para muitos desses autores “estudar o intelecto humano não era um esforço em fazer com a que a psicologia explicasse a lógica ou a epistemologia, e muito menos praticar a psicologia tal como nós a entendemos hoje, mas investigar a própria faculdade lógica e epistêmica” (Hatfield, 1990: 11-12). De fato, o Ensaio de Locke era considerado como uma lógica e não como uma protopsicologia. Contudo, a interpretação psicologizante de Locke se impôs já no século XVIII e foi crucial para o estabelecimento das tarefas e dos contornos da psicologia empírica.

O empirismo, uma corrente filosófica dominante nesse século, de­fine os elementos básicos da psicologização do século XVIII: rejeição das ideias inatas; crítica dos “sistemas” e da metafísica abstrata e substancialista; apelo à observação e à experiência; e, finalmente a convicção de que todo o conhecimento começa com as impressões sensíveis, de que as ideias correspondem a essas impressões e que as ideias complexas podem ser “de­compostas” em elementos mais simples. O sensacionalismo, uma forma de empirismo estreitamente ligado, nesse contexto, a Condillac e seu Essai sur Vorigine des connaissances humaines (Ensaio sobre a origem dos conhecimentos humanos) (1754), vai mais adiante e tende a compreender o conhecimento como coextensivo à sensação.

Em razão da projeção que o empirismo e o sensacionalismo alcança­ram no cenário intelectual do Iluminismo, os historiadores observaram que, no século XVIII, a psicologia (no sentido do discurso psicológico) tornou-se a disciplina básica e estratégica dentro do conjunto das ciências humanas e filosóficas. Segundo Isaiah Berlin, transformar a filosofia “em uma espécie de psicologia empírica” (Berlin, 1984:19) era um projeto da maior importância nessa época. A reforma deveria começar com a primeira ciência, a metafísica. Condillac proclamava a primazia epistêmica e cognitiva da análise e essa abordagem promoveu a psicologização da maneira de pensar. Os princípios empiristas foram sistematicamente aplicados em inúmeras áreas da atividade humana, da lógica à educação, da teoria do conhecimento à ética, da religião à estética. No final do século XVIII, o pedagogo rousseauniano suíço Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) já não tinha nenhuma originalidade ao declarar que seu objetivo era psicologizar a educação humana. A lógica e a filosofia moral são exemplos importantes desse processo.

Voltaire (1694-1778), em suas Lettres philosophiques (Cartas filosóficas) de 1734, declarava que nunca existira “um lógico mais exato” do que Locke e o elogiava por ter escrito uma “história” da alma em oposição aos “ro­mances” que haviam sido produzidos até então. Do mesmo modo, o Discours préliminaire à Encyclopédie explicava que Locke tinha reduzido a metafísica ao que ela deveria ser, “uma física experimental da alma”. O escocês David Hume (1711-1776), no Tratado da natureza humana, afirmava que “a única finalidade da lógica é explicar os princípios e as operações de nossa faculdade de raciocinar, e a natureza das ideias” (Hume, 1739-40: xv). Ao unir a lógica ao estudo empírico da mente, os philosophes adotaram não apenas a terminologia contemporânea, mas também a noção de que a análise das faculdades cognitivas constituía a base de uma lógica nova e antiformalista. 

Tal como foi explicado por James Buickerood, no século XVIII entende-se que a finalidade da lógica é expor a “história natural” do enten­dimento. A lógica da época, portanto, supõe que seu sucesso como uma dis­ciplina normativa depende de descrições precisas e completas das operações cognitivas sobre as quais suas prescrições deveriam se apoiar (Buickerood, 1985:187). Do mesmo modo que Hatfield, Buickerood recomenda cautela ao interpretar as alusões às faculdades cognitivas, cujo contexto de referência original não era necessariamente psicológico. A lógica não era psicologia; mas a tarefa da psicologia era fornecer o conhecimento das operações mentais que a lógica deveria comandar.

Na filosofia moral, enquanto alguns autores insistiam na sensação e na associação como a única fonte das ideias morais, outros argumentavam em favor da existência de um “sentido moral”. Ambos os lados, entretanto, compartilhavam a mesma confiança e o mesmo otimismo na capacidade de aperfeiçoamento da espécie humana, e acreditavam na existência de mecanismos inatos que tornavam possível o avanço moral. Locke enfatizava o papel do hábito, e o encycopédiste materialista francês Claude-Adrien Helvétius (1715-1771), em seu De Vhomme, de sesfacultes intelectuelles et de son éducation (Do homem, suas faculdades intelectuais e sua educação) (1752), sustentava que a educação tinha total poder de moldar o indivíduo. Já em seu Inquiry into the Origin of Our Ideas of Beauty and Virtue (Investigação sobre a origem de nossas ideias de beleza e virtude) (1752) e em outras obras, Francis Hutcheson (1694-1746), professor de filosofia moral em Glasgow e um dos primeiros utilitaristas, expunha sua tese de que Deus havia dotado o homem com um sentido moral universal, uma capacida­de de produzir ideias de ações “agradáveis ou desagradáveis”. Segundo Hutcheson, as ações benevolentes são virtuosas porque elas nos agradam e é por isso que as procuramos. Como todas as outras faculdades psicológicas, o sentido moral pode às vezes falhar, mas isso não o torna menos universal. Alguns anos depois da publicação do Inquiry de Hutcheson, seu discípulo Adam Smith (1723-1790), e também professor de filosofia moral em Glasgow, publicou uma Theory of Moral Sentiments (Teoria dos sentimentos morais) (1759) onde são expostas as bases psicológicas de seu The Wealth of Nations (A riqueza das nações) (1776).

Evidentemente, muito mais poderia ser dito sobre a lógica e a filosofia moral, além de outros campos. Neste esboço, ilustro apenas resumidamente as áreas onde as fontes dos fundamentos do juízo e da prática não eram buscadas em regras formais ou tradições consolidadas, mas antes no conhecimento empírico da natureza e da mente humana. Embora geralmente se desconheça a maioria das publicações que portavam o nome psicologia, as pesquisas acerca dos diferentes domínios da psicologização levaram a descrições muito diferentes da psicologia do século XVIII, justificando a visão do Iluminismo como o “século da psicologia”.

A psicologia no contexto nacional

Do mesmo modo que a psicologização de diferentes domínios se deu sob condições de grande diversidade metodológica e doutrinária, o desenvolvimento da psicologia como disciplina e como corpus de um pensamento psicológico apresentou variações significativas através de fronteiras geográficas e linguísticas.

A “ciência do homem” - da psicologia e da “economia animal” à moral e à economia política - era par excellence a “investigação escocesa” do Iluminismo. A abordagem escocesa da mente era marcada pela “ten­tativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais”, tal como proclamado no subtítulo do Tratado da natureza humana de David Hume (Bryson, 1945).  O que se fazia em psicologia não portava inicialmente esse nome. Por exemplo, a Encyclopcedia Britannica (1768— 1771), totalmente lockeana em sua interpretação, definia a psicologia como o “conhecimento da alma em geral e da alma do homem em particular” (3: 175). Ao associar a psicologia às discussões anteriores sobre as origens e a essência da alma ou aos debates sobre a imaterialidade e imortalidade, a Encyclopedia declara implicitamente que, apesar das “mais profundas, das mais sutis e abstratas pesquisas (...), é extremamente difícil afirmar qualquer coisa [a respeito da alma] que seja racional, e ainda mais difícil, que seja positivo e bem fundado” (3: 175). Um tal juízo implicava uma rejeição da “psicolo­gia” como uma legítima ciência empírica da mente: esta era a lógica, uma ciência que visava à explicação “da natureza da mente humana e da própria maneira de exercer seus vários poderes” (2: 984-1003).

A “filosofia da mente humana” dos escoceses —tal era o objeto dos Elements publicados em 1792-1827 pelo professor de filosofia moral de Edimburgo Dugald Stewart (1753-1828) - não era normalmente chamada “psicologia”. A própria palavra, contudo, não era desconhecida. Em suas
Observações sobre o homem, o médico e filósofo David Hartley (1705-1757) situava a “psicologia, ou teoria da mente humana, junto com os princípios intelectuais dos animais brutos” dentro da filosofia natural, ao lado da mecâ­nica, da hidrostática, da pneumática, ótica, astronomia, química, medicina e outras teorias das artes e ocupações manuais (Hartley, 1749:223). No início da década de 1760, na Universidade de Aberdeen, o professor de filosofia moral James Beattie (1735-1803) lecionava “psicologia ou ciência da natu­reza dos vários poderes ou faculdades da mente humana” (Beattie, 1790:1); embora ele considerasse a psicologia parte da pneumatologia (doutrina das substâncias espirituais), ele a separava completamente das discussões sobre a imortalidade e a imaterialidade da alma. Uma abordagem empírica e na­turalista dos poderes da mente - lockeana e sensualista inicialmente e em seguida dominada pela filosofia anticética do “senso comum”- disseminou-se por todo o Iluminismo escocês, sendo tomada como a base da lógica, da estética, da filosofia moral e política, e constituindo os fundamentos do ensino acadêmico dessas disciplinas.

A primeira coisa a se notar na França é que a palavra psicologia, embora conhecida, era ausente do vocabulário filosófico corrente. É evidente que a agenda anticlerical e antirreligiosa dos philosophes - aqui não no sentido geral de “filósofo”, mas referindo-se especificamente aos franceses assim conhecidos na época (e desde o século XVIII) - contribuiu para estigmatizar uma disciplina cujo nome incluía o termo alma e que, portanto, parecia estar associada aos ensinos obscuros da “escolástica” e ao uso de conceitos que eram considerados sem sentido. O próprio Condillac recusou-se explicitamente a usar esse nome. A ciência que aplica o método de análise para descobrir a “origem e a geração” das ideias seria a primeira ciência; mas uma tal ciência, escrevia ele, é tão nova que não tem ainda um nome: “eu a chamaria psicologia, se conhecesse qualquer trabalho de boa qualidade com esse título” (Condillac, 1947-51:29). Os descendentes intelectuais de Condillac reproduziram a atitude de seu mestre. Destutt deTracy (1754- 1836) inventou a palavra “ideologia” (idéologie) para designar a “análise do pensamento” no lugar de “psicologia”, que, segundo ele, significava “a ciência da alma” e evocava “a vaga busca de causas primeiras” (Tracy, 1992: 71). No início do século XIX, em suas aulas nas Escolas Normais (Ecoles Normales) criadas pela Revolução Francesa, o escritor e político Dominique-Joseph Garat (1749-1833) rejeitou a palavra em favor da expressão lockeana “análise do entendimento” (Garat, 1800: 149-150).

Esses são os autores que nos vêm à mente quando pensamos na psicologia do século XVIII na França. Os philosophes, contudo, debatiam constantemente com católicos tais como o abade Joseph Adrien Lelarge de Lignac (1710-1762), cujas respostas ao sensacionalismo radical, embora quase inteiramente esquecidas, eram notáveis e mereceriam hoje ser nova­mente situadas no contexto do Iluminismo francês (Fignac, 1753, 1760). Geralmente, no quadro de uma defesa do cristianismo contra o que era percebido como materialismo e fatalismo, os críticos dos philosophes enfa­tizavam a atividade da mente e a unidade do eu (self) e da consciência em oposição ao trabalho mecânico de uma máquina orgânica que passivamente responderia à estimulação externa.

A narrativa histórica usual acerca da evolução do pensamento psicológico no Iluminismo francês começa com os esforços de superar o dualismo cartesiano e com a tese de que os homens são seres inteiramente naturais cujas funções psicológicas podem ser empiricamente estudadas. A crítica à noção de uma alma substancial indivisível que formaria o eu e se manteria subjacente ao comportamento humano levou a diferentes estratégias. Uma delas era a descrição dos efeitos externos dos “movimentos” da alma, tais como a fisionomia ou a expressão das paixões. Numa segunda estratégia, os conceitos metafísicos foram reformulados como noções em­píricas. A alma foi assim substituída por mente (esprit) e depois por moral. A terceira estratégia era a anexação materialista desses conceitos. Do “Sistema da natureza” (Système de la nature, 1770) do philosophe determinista Paul-Thiry d’Holbach (1723-1789) ao “Relatório sobre o físico e o moral do homem” (Rapports du physique et du moral de l’homme, 1802) do médecin-philosophe Pierre-Jean-Georges Cabanis (1757-1808), a alma tende a desaparecer do discurso da ciência do homem.
Do mesmo modo que em outros países da Europa, o empirismo en­trou nos tratados de educação e inspirou a reforma pedagógica e também as filosofias que enfatizavam a sensibilidade e o “coração”. Na virada do século XVIII, a psicologia francesa viveu um breve período de existência institucional. Depois da revolução, os idéologues contribuíram para a criação de diversas instituições públicas de ensino e pesquisa e assim tiveram ocasião de realizar e disseminar suas ideias psicológicas, pedagógicas e políticas. A psicologia, portando seu próprio nome, entretanto, só entrou no ensino aca­dêmico depois de Napoleão proscrever os idéologues e principalmente depois da Restauração monárquica que sucedeu a queda do regime napoleônico.

Mas ela era então espiritualista mais do que sensacionalista e forte­mente influenciada pela filosofia escocesa do senso comum. 

A Alemanha, que não era ainda um país unificado no século XVIII, era a principal produtora de psicologias, e onde a psicologia foi mais longe na institucionalização e conquista de um status de disciplina (Dessoir, 1902). A palavra psicologia, que (como vimos) apareceu no fmal do século XVI nas universidades protestantes, era usada com frequên­cia no Aufklärung ou Iluminismo alemão. Seu destino no século XVIII estava vinculado inicialmente ao sistema filosófico de Christian Wolff (1679-1754), que dominava o ensino da disciplina até o surgimento da filosofia crítica de Kant. A obra monumental de Wolff tratava pratica­mente de todas as áreas do conhecimento; seu objetivo era unificar a razão e a experiência e garantir à filosofia a certeza que era reservada à matemática, mas que era característica da scientia como a disposição ou capacidade de demonstrar suas afirmações a partir de princípios estabe­lecidos (habitus asserta demonstrandi) (Wolff, 1728: § 30). Wolff definiu os objetos da filosofia como Deus, a alma humana e os corpos materiais e dividiu seu reino em lógica, metafísica, filosofia prática, física, filosofia das artes (tecnologia e a filosofia das artes liberais e da medicina) e a filosofia da jurisprudência. Ele organizou as disciplinas de acordo com sua dependência de princípios fornecidos por outras disciplinas. A me­tafísica ou “ciência do ser, do mundo em geral e dos espíritos” (Wolff, 1728: § 79) incluía, em ordem de dependência, a ontologia, a cosmologia geral, a psicologia empírica, a psicologia racional e a teologia natural. Os manuais acadêmicos de Wolff seguiam essa estrutura, e foi através deles que a psicologia entrou no currículo de filosofia com seu próprio nome.

Uma vez que a filosofia era a “ciência dos possíveis à medida que eles podem ser”, a psicologia era a ciência das coisas que são possíveis através da alma humana (scientia eorum quae per animas humanas possíbilia sunt) (Wolff, 1728: § 58). Como todas as outras ciências no sistema de Wolff, a psicologia podia ser abordada de duas maneiras: empiricamente e racionalmente, a primeira dava origem a um conhecimento a posteriori dos seres e das coisas materiais e imateriais, e a segunda a um conhecimento a priori de sua essên­cia, de sua razão ou possibilidade. Do mesmo modo, cada psicologia tinha seu método próprio. A psicologia racional (daqui em diante, PR) procedia por dedução a partir de “definições, experiências indubitáveis, axiomas e proposições já demonstradas” (PR, § 3). A psicologia empírica (daqui em diante, PE) usava a observação e podia usar a experimentação (PE, §§ 458, 459). A observação é a experiência que nós temos dos fatos da natureza sem nossa intervenção (PE, § 456) e a experiência é a “cognição do que é evidente apenas mediante nossas percepções” (Wolff, 1728: § 664). Na psicologia empírica, o conhecimento era possível “através das ocorrências em nossas almas das quais nós temos consciência” (PE, § 2), o que Leibniz chamava de “apercepção”.

A Psychologia empirica de Wolff enfocava a vida interior da alma, ex­cluindo as relações fisiológicas e corporais. A primeira parte do tratado lida com a alma em geral (sua existência provada por um argumento semelhante ao cogito cartesiano) e suas faculdades cognitivas: percepção, sentidos, ima­ginação, facultas ingendi (imaginação criativa), memória, atenção e refexão, e intelecto. A segunda parte analisa a passagem do conhecimento para o “apetite” e a aversão. Ela examina o prazer e o desprazer como intuições da perfeição e da imperfeição (e propõe a“psicometria” como uma ferramenta para o estudo de seus vários graus); o bem e o mal em termos de inclinações da alma; as paixões e outros estados mentais, o apetite e a aversão racional, todos em relação ao prazer/desprazer e ao problema da liberdade. Uma seção final descreve a interação da alma e do corpo. A psicologia empírica fornecia os princípios para a lei natural, a teologia natural e a lógica (PE, §§ 6-10).
A Psychologia rationalis, por sua vez, visava à explicação a priori dos fatos apresentados na psicologia empírica através da dedução de axiomas e proposições provadas. A primeira delas é a definição da alma como um poder ou faculdade de representação do universo (vis representativa universi), cuja primeira atividade é a sensação (PR, §§ 66, 67). Ela começa com o conceito ou a essência da alma: um ser consciente de si e das coisas externas, capaz portanto não apenas de percepção, mas também de representação e apercepção. Com base nessa definição, a psicologia racional dedutivamente explicava as faculdades e as operações da alma; ela avaliava as diferentes explicações para a correspondência entre elas e os movimentos do cor­po; tratava da natureza dos espíritos (substâncias dotadas de intelecto e livre-arbítrio) e da espiritualidade da alma, sua origem, sua união com o corpo e a imortalidade; e concluía com uma seção sobre a alma dos animais. A psicologia racional, explicava Wolff, não era capaz de produzir conhecimentos empíricos novos, mas ela “aumenta nosso discernimento na observação do que acontece em nossa alma” e “revela aspectos da alma que não são acessíveis apenas pela observação” (PR, §§ B, 9).

Enquanto os manuais de Wolff foram usados nas universidades alemãs, até a metade do século XVIII, a psicologia era abordada fundamentalmente como uma ciência empírica. A ênfase no empírico era também demonstrada pelo fato de que duas das três popularizações da psicologia de Wolff que apareceram na década de 1750 em língua francesa continham somente sua psicologia empírica. Isto refletia ou, pelo menos, estava em acordo com um crescente interesse na antropologia. Tal como já foi mencionado, os usos iniciais da antropologia enfatizavam a anatomia e a fisiologia humanas. No século XVIII, a antropologia ganha autonomia e, concedendo mais ou menos peso à psicologia, à medicina, à fisiologia ou à filosofia, ela veio a encarnar o projeto de uma “ciência do homem ” (Linden, 1976). Ao oferecer um objetivo e um ideal unificado de um conhecimento total e coerente sobre a “história da humanidade”, tal projeto desempenhou um papel heurístico importante no desenvolvimento inicial das ciências humanas em sua pluralidade. E isso se aplicou inteiramente à psicologia, como veremos abaixo.

Enfim, a invenção de uma tradição psicológica foi crucial para o desenvolvimento da psicologia como disciplina (Vidal, 2000). Foi o que aconteceu na seleção de autores e trabalhos “psicológicos e na emergência da história da psicologia como um gênero historiográfico. Com isso, foi re­forçada a autonomia nascente da psicologia e o domínio da psicologização foi ampliado para a história da humanidade de um modo geral. O capítulo mais longo do que, provavelmente, é a primeira bibliografia a considerar a psicologia empírica como um assunto distinto é dedicado à literatura da “psicologia ou lógica” (Elibmann, 1778: §§ 71-107). Trata-se de uma bibliografia com notas explicativas sobre a psicologia em geral; sobre a lógica; a sensação e os sentidos; a história da teoria das ideias, vários fenôme­nos e faculdades psicológicas; e inúmeros tópicos “lógicos” e metodológicos. A própria classificação reflete a psicologização da lógica. Como explica o autor, à medida que define as regras para o melhor uso dos poderes da alma humana, a lógica pertence à psicologia (Elibmann, 1778: § 8). E mais ainda:

Uma vez que a psicologia, como teoria do entendimento humano, cons­titui metade da filosofia, e uma vez que as considerações da outra metade referem-se a ela, os conteúdos dos escritos que lidam com o entendimento humano intervêm de várias maneiras nas áreas da psicologia que têm a vontade humana como seu objeto próprio. Essa é a razão pela qual esses escritos podem ser empregados proveitosamente em assuntos práticos. Por outro lado, há escritos em psicologia que, de fato, desenvolvem um assunto [relevante para] a filosofia prática geral, através dos quais fazem-se muitas considerações importantes para a filosofia teórica. (...) (Elibmann, 1778: § 71)

A organização bibliográfica dos tópicos filosóficos concentra-se na defesa de uma reforma das disciplinas filosóficas, especialmente através da assimilação da lógica à psicologia, bem como por uma diferenciação clara das investigações empíricas e metafísicas da alma. A bibliografia, portanto, ao mesmo tempo refletia e contribuía para estabelecer as fronteiras do crescente domínio da psicologia.

A ampliação do cânone psicológico abrangia o passado. O apareci­mento do tratamento historiográfico da psicologia foi simultâneo ao desenvolvimento da psicologia empírica. Ele surgiu num momento de expansão da historiografia da física e das ciências naturais, mas estava enraizado na história da filosofia. Durante o século XVIII, na Alemanha, a história da filosofia deslocou-se da erudição para o criticismo kantiano através de uma perspectiva eclética e de uma ênfase na história como progresso. No final desse século, a história da filosofia enfatizava a relevância das obras filosóficas como manifestações de uma cultura e tornou-se uma maneira de fazer filo­sofia. De modo semelhante, a história da psicologia passou a ser vista como uma contribuição para a história psicológica e espiritual da humanidade. As primeiras formas desse gênero novo reconstruíam a “psicologia empírica” de filósofos anteriores tais como Aristóteles, ou incluíam a psicologia como um domínio autônomo dentro da história das ideias filosóficas. Em 1808 surgiu, postumamente, uma História da psicologia de 770 páginas, a primeira em seu gênero. Seu autor, o professor Friedrich August Carus (1770-1807), de Leipzig, descreveu um progresso que ia das ideias míticas sobre a alma e a ausência de um sentido do eu, até a psicologia empírica e a disciplina autônoma de sua própria época. Para Carus, portanto, a história da psicologia —tanto como processo histórico como um gênero historiográfico —tinha uma participação no progresso da consciência e reflexividade humanas (Carus, 1808; Vidal, 2006).

Enfim, ilustrando um movimento característico do Aujklàrung, os au­tores psicológicos às vezes adotavam formas “populares” (ensaios, romances, jornalismo) ou (como o próprio Carus) abandonavam quase inteiramente a linguagem intelectualizada e abstrata das faculdades mentais da psicologia de Wolff em favor de narrativas mais “psicológicas” (no nosso sentido) e existenciais, que frequentemente recorriam ao termo “sentimento de si” (Selbstgefühl) como fonte principal de dados psicológicos. Um exemplo im­portante desse desenvolvimento é a Revista de Psicologia Empírica (Magazin zur Erfahrungs-Seelenkunde) (Moritz, 1783-93), sendo que aqui se poderia dizer também “experiencial”, editada pelo escritor Karl Philipp Moritz (1756- 1793), que se tornou conhecido por seu “romance psicológico” de 1785-90, Anton Reiser. Convencido de que o autoconhecimento era o caminho tanto para a saúde espiritual individual quanto para o aperfeiçoamento da humanidade, Moritz publicou inúmeros estudos de casos normais e pato­lógicos, auto-observações e relatos de sonhos de diversos colaboradores da revista (Kaufmann, 2000).

Na Crítica da razão pura (1781), Immanuel Kant negou a validade de qualquer psicologia racional (Hatfield, 1992; Mischel, 1967). Ele argumen­tava que as afirmações a respeito da essência, da natureza e da relação da alma com o mundo material derivavam da proposição “Eu penso”, que é baseada num a experiência a posteriori. A psicologia, portanto, só pode ser empírica, e, consequentemente, não uma “ciência” no sentido de ser capaz de produzir evidência demonstrativa. Ela poderia proporcionar, no máxi­mo, relatos “históricos” (descritivos, a posteriori) da alma. Além disso, ela não poderia ser submetida à análise matemática e, dada a não-confiabilidade da introspecção, ela deveria se apoiar na história, na biografia, na literatura e nos relatos de viagem. A crítica kantiana definiu alguns problemas fundamentais da psicologia alemã do início do século XIX (Leary, 1978,1982). Contudo, o que Kant escreveu e lecionou sobre a psicologia ajustava-se ao contexto do desenvolvimento da psicologia empírica e da antropologia na Alemanha do final do século XVIII, correspondia às suas próprias ideias em relação à psicologia como uma disciplina universitária e estava intimamente ligado ao que ele chamou de “antropologia do ponto de vista pragmático”, isto é, o estudo (de um modo geral, psicológico) “do que o homem, como um ser que age livremente, faz ou poderia e deveria fazer de si próprio” (Kant, 1798: 119).

Psicologia, os ciências humanas e o destino do homem

A psicologia no século XVIII precisa ser considerada, no quadro ge­ral da “antropologia”, de duas maneiras: como uma “ciência do homem ”, que incluía os temas principais das “ciências humanas”, e como uma visão geralmente cristã da constituição e do destino da humanidade. Em 1966, Michel Foucault declarava que nos séculos XVII e XVIII “o homem não existia” (Foucault, 1966: 355-356).

Contra essa declaração tão afirmativa, é inevitável que sustentemos que o entendimento do“homem” como um indivíduo e um ser social estava no centro de quase todos os domínios do pensamento.Todo trabalho clássico sobre o Iluminismo reconhece a importância da ciência do homem. A his­toriografia pós-foucaultiana considera mais cuidadosamente seus detalhes e seu contexto e retoma as questões sobre as continuidades e descontinuidades entre as ciências humanas e sociais institucionalizadas no final do século XIX e no século XX e as várias formas da ciência do homem do século XVIII (Fox et ah, 1994; Olson, 1993, 2003). No caso da psicologia, enfatizam-se seu enraizamento na ciência do homem e suas conexões com os múltiplos projetos que a compunham (Smith, 1997).

Um bom exemplo de como a psicologia foi entendida como per­tencendo à ciência do homem é dado na revisão protestante da Encyclopédie de Diderot e d’Alembert. Publicada na cidade suíça de Yverdon em 1770-1775, ela examinou as noções de psicologia e antropologia muito mais amplamente do que a famosa enciclopédia francesa modernizando seu vocabulário, harmonizando a ciência do homem com a visão de mundo cristã e incorporando ideias que estavam sendo desenvolvidas na Alemanha e na Suíça. O artigo sobre antropologia poderia ser considerado como um sumário programático. A antropologia, explicava ele,

nos ensinaria a conhecer, 1. as origens do homem; 2. os diferentes estágios pelos quais ele passa; 3. suas qualidades ou afeições; 4. suas faculdades ou ações das quais podem ser deduzidas; 5. um conhecimento de sua natureza; 6. de suas relações; 7. de sua destinação; e 8. das regras que ele deve seguir para conformar-se adequadamente a isso. A Antropologia dependeria assim de todas as ciências e delas ela tiraria ou daria seus princípios e reportaria ao homem todas as consequências para sua utilidade, isto é, para sua conservação, sua perfeição e felicidade. (Mingard, 1770-1775: 22)

O autor associa a antropologia principalmente à filosofia, à história natural, à fisiologia, à metafísica e à psicologia. São elas as disciplinas antropológicas fundamentais; juntas elas formam a ciência do homem e só têm valor à medida que possam contribuir para atualizar a “perfectibilidade” da humanidade.

A perfectibilidade, uma palavra-chave do Iluminismo, tornou-se frequente depois que Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) a usou em seu Discours sur l’origine et les fondements de l’inégalité (Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade) (1775). De acordo com o filósofo genebrês, ao retirar o homem de sua “condição originária”, a perfectibilidade era a fonte da miséria humana.Voltaire questionava o pessimismo de Rousseau e defendia a tese de que a humanidade se aperfeiçoa dentro dos limites impostos pela natureza. Mais tarde, em seu Esquisse d’un tableau historique des progrès de l’esprit humain (Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano) (1795), o Marquês de Condorcet (1743-1794) veio a afirmar que a perfectibilidade não tinha limites. De qualquer modo, a per­fectibilidade era em geral considerada um dos aspectos mais importantes da espécie humana. Ela consistia na aquisição de novos poderes e principalmente no desenvolvimento em direção à felicidade e à perfeição das capacidades que os homens já têm em conformidade com as leis da natureza (como na Enciclopédia Yverdon) e a vontade de Deus.

A ciência do homem que Hume e os philosophes franceses promoviam estava estreitamente ligada a uma crítica da religião. Mas esse não era o caso da maioria dos autores engajados na psicologia e na antropologia. Como vi­mos, a ciência do homem e as disciplinas que ela envolvia eram mutuamente dependentes. A psicologia era a disciplina antropológica crucial por duas razões. A primeira era didática e epistemológica e consistia no método e no objeto de estudo: a “análise” era proposta como paradigma do conhecimento legítimo e o esclarecimento dos mecanismos envolvidos no conhecer era a condição da aquisição e da crítica do próprio conhecimento. De acordo com Hume, por exemplo, os princípios de associação (semelhança, contiguidade no tempo ou no espaço e relação de causa e efeito) eram equivalentes ao princípio de atração universal de Newton. Mas nem todos os Newtons da mente aceitavam que a mente era redutível à matéria em movimento. Ao contrário, a maioria dos psicólogos do século XVIII concordava com a definição cristã do homem como composto de corpo e alma.

Nos séculos XVII e XVIII, três posições davam as coordenadas das discussões sobre a união da alma com o corpo. De acordo com o sistema da influência física, as duas substâncias afetavam uma a outra materialmente. No “ocasionalismo” do cartesiano Nicolas Malebranche (1638-1715), Deus é o agente causal de sua união. Por exemplo, quando a alma desejava mover o corpo, era Deus que o fazia mover-se. Finalmente, Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) via a relação entre a alma e o corpo como regulada por uma harmonia preestabelecida, como dois relógios sincronizados. Os escritos psicológicos diferenciavam sistematicamente a união e a interação da alma e do corpo. Enquanto a união era aceita como um fato confirmado pela fé, pela razão e pelo sentido interno, ainda que em si mesmo misterioso, sua interação era considerada um tópico da pesquisa empírica que poderia ser estudado através do exame de fenômenos que pareciam manifestar a dependência mútua entre a alma e o corpo (Vidai, 2003).

Já nas primeiras linhas de seu Essai depsychologie (Ensaio de psicologia), Charles Bonnet formulou a premissa da psicologia empírica do Iluminismo: “Nós só conhecemos a alma através de suas faculdades; nós só conhecemos tais faculdades através de seus efeitos. Estes efeitos tornam-se aparentes so­mente através da intervenção do corpo” (Bonnet, 1755: 1). E no prefácio do Essai sur les facultés de l’âme (Ensaio sobre as faculdades da aima):

A alma age em seu corpo e através de seu corpo. Portanto, devemos sempre nos voltar ao corpóreo como primeira origem de tudo que a alma experimenta. Não sabemos melhor o que é uma ideia na alma do que é a própria alma. Sabemos, porém, que as ideias estão ligadas à atividade de certas fibras e nós podemos, portanto, raciocinar sobre essas fibras porque nós vemos essas fibras; podemos estudar um pouco seus movimentos, os resultados desses movimentos e as conexões entre as fibras. (Bonnnet, 1760: xxi-xxii)

Admitidos tais princípios, fazia sentido investigar empiricamente as operações de uma substância imaterial tal como elas se davam no interior de si própria e tal como elas se manifestavam nos outros. O postulado da existência dessa substância não era de modo algum obstáculo à psicologia empírica. E mais ainda, esta crença dava alento às psicologias que se baseavam em especulações neurológicas e atribuía um importante papel ao cérebro, como sede da interação entre a alma e o corpo, e aos nervos, como os órgãos responsáveis por essa interação.

Daí então a segunda razão para a preeminência da psicologia: entre as disciplinas que, da economia animal à economia política, compunham a ciência do homem, a psicologia era aquela cujo objeto próprio vir­tualmente coincidia com a definição de ser humano. Isto poderia ter a consequência aparentemente paradoxal de manter o estudo psicológico inseparável do estudo do corpo e principalmente do sistema nervoso, ao mesmo tempo em que fornecia sustentação à antropologia cristã que ela pressupunha. Hartley, que concluiu suas Observations on Man (Observações sobre o homem) vinculando a psicologia à doutrina da ressurreição do corpo, entendia que as “sensações surgem na alma a partir dos efeitos excitados na substância medular do cérebro”, mas ele se recusava a explicar como isso acontecia.“E suficiente para mim”, dizia ele,“ que haja uma certa conexão, de algum tipo, entre as sensações da alma e os efeitos excitados na substância medular do cérebro; que é tudo o que concedem os médicos e filósofos” (Hartley, 1749: 320-321). Bonnet também teve que se defender da suspeita de materialismo, enfatizando sua conformidade com a doutrina cristã:

Se alguns de meus leitores achassem que eu faço a alma depender ex­cessivamente do corpo, eu pediria que considerassem que o homem é, em razão de sua própria natureza, um ser composto, necessariamente constituído por duas substâncias: uma espiritual e outra corporal. Eu mostraria que tal princípio é por isso mesmo o próprio princípio da REVELAÇÃO, que a doutrina da ressurreição do corpo é sua consequência imediata. Longe de opor-se ao philosophe deísta, um dogma tão claramen­te revelado deveria, ao contrário, mostrar-se a ele com o um pressuposto favorável à verdade da RELIGIÃO, já que é tão perfeitamente consistente com o que nós conhecem os com mais certeza sobre a natureza de nosso ser. (Bonnet, 1755: 3-4)

A fazer depender tão intimamente a alma do corpo, a psicologia em pírica ao mesmo tempo aceitava e validava o princípio de união da alma e do corpo. Na visão de Bonnet, a natureza “mista” dos seres humanos era a chave para os dogmas cristãos da encarnação e da ressurreição; por sua vez, a chave para nossa natureza mista estava nos nervos, como intermediários entre a alma e o corpo, e no cérebro, como sede da alma (Vidal, 2002). Em suma, Hartley e Bonnet, os dois psicólogos iluministas mais neurofisiológicos, integravam as promessas cristãs de ressurreição e vida eterna em seus traba­lhos especulando sobre os mecanismos psicofisiológicos e não afirmando uma crença religiosa.

Observações finais

O século XVIII foi, de várias maneiras,“o século da psicologia”, tanto para o historiador que se dedica ao Iluminismo de um modo geral, quanto para os historiadores da lógica, da estética, da filosofia ou da educação, e isso em razão da psicologização que ocorreu nesses e em outros domínios. Esta afirmação também é válida para o historiador das ciências humanas, porque a psicologia empírica se transformou durante o século XVIII num campo de investigação protoprofissional autônomo e, como tal, tornou-se um suporte teórico para a psicologização de outros saberes. Além disso, a psicologia se impôs como disciplina antropológica crucial e mesmo como a primeira ciência de todo o sistema do conhecimento por duas razões. Primeiramente, ela mostrava como os seres humanos naturalmente adquiriam conhecimento (das sensações aos conceitos), e assim indicava os melhores métodos de investigação empírica para todas as outras ciências. Embora os métodos de observação e a expe­riência já tivessem sido proclamados como os mais apropriados para as ciências empíricas, o método psicológico de “análise” confirmava seu valor e demonstrava que eles eram de fato os meios naturais pelos quais se dava a aprendizagem humana. Em segundo lugar, na medida em que o objeto da psicologia era a alma unida ao corpo e interagindo com ele, a psicologia era o fundamento” e o “guia” de todas as ciências, fornecendo conhecimentos sem os quais, tal como escreveu o pastor Mingard, citado no início deste capítulo, “nós não podemos julgar nada, decidir sobre nada, determinar nada, escolher nada, preferir nada, fazer nada com segurança e sem erro”. Certamente, nem todo intelectual do Iluminismo compartilhava essa opinião; mas ela desempenhou um papel essencial e inspirou a própria constituição da psicologia.

Enfim, a psicologização e o desenvolvimento da psicologia em­pírica como disciplina estavam ligados organicamente. A tendência a psicologização funcionava com o um a condição de possibilidade da constituição da disciplina; reciprocamente, a disciplina que emergia justificava e estruturava a psicologização fornecendo coordenadas comuns para suas diversas manifestações. As consequências sociais desse processo foram muitas. No século XX, a psicologia profissional tornou-se o que ela ainda é hoje — um mecanismo maior de definição das normas para o ser humano e sua conduta, e para o controle de seu funcionamento (Rose, 1996). O caminho em direção a esse posto de controle foi pavi­mentado no século XVIII. O Iluminismo deveria supostamente trazer ao homem sua liberdade. De acordo com Kant, tratava-se de abandonar a imaturidade em que a própria pessoa se mantinha” e ganhar coragem para usar seu próprio entendimento (Kant, 1784). Kant não foi o único a propor uma definição para o Iluminismo, e nem todos os autores a compartilhavam (Schmidt, 1996). Os psicólogos, porém, concordavam que a psicologia era parte de um projeto que ajudaria a humanidade a avançar no caminho de sua perfectibilidade. A psicologia empirica, entretanto, logo veio a apoiar formas de autoridade que, à medida que resultavam supostamente de um conhecimento da natureza humana, mostravam-se mais inexoráveis do que aquelas que haviam sido forjadas por tradições seculares e religiosas, contra as quais os homens podiam finalmente se rebelar. Neste sentido, também, a psicologia acabou sendo a “mais útil de todas as ciências".

Psicologia - História da Psicologia
1/3/2020 12:20:02 PM | Por Arthur Arruda Leal Ferreira
Livre
O Múltiplo surgimento da Psicologia

No começo de qualquer trabalho histórico, impõe-se uma questão inicial: seriam as transformações do objeto estudado produto da evolução gradual e contínua de uma experiência original, ou seriam o resultado de múltiplas combinações casuais e inesperadas? É desta forma que o filósofo e historiador Michel Foucault (1982) nos coloca perante uma escolha de que nenhum historiador pode se omitir. Perguntamos então: como esta questão se configura na história da psicologia? É quase um consenso entre os historiadores da psicologia o estabelecimento do século XIX como marco institucional do surgimento dessa disciplina. Mas o historiador não se satisfaz com inaugurações oficiais, sempre se perguntando sobre que experiências, práticas e saberes estariam condicionando essa fundação.

Uma boa parte dos textos sobre história da psicologia aponta para uma origem remota, como se a psicologia pudesse encontrar nessa sua fundação no século XIX ecos de uma experiência e de uma curiosidade bem anteriores. É desta forma que podemos encontrar em trabalhos clássicos, como os de Otto Klemm (1933), Gardner Murphy (1960) e George Brett (1963) ou, principalmente, Edwin Boring (1979 [1950]), as trilhas da história da psicologia se cruzando com os caminhos de uma busca ancestral de conhe­cimento de si, confundindo-se com a própria história do saber ocidental. Como se, por um sutil insight, tivesse havido no século XIX a decisão de apropriar tais intuições ancestrais por um saber regulado e cientificamente disciplinado. Daí a clássica frase de Hermann Ebbinghaus: “A Psicologia tem um longo passado, mas uma curta história” (Vidal, 2000).

Contudo, uma outra forma de pensamento histórico aponta para o surgimento da psicologia a partir da irrupção de condições bem peculiares que teriam surgido de forma singular a partir do século XVI, e que confluiriam para a necessidade do conhecimento de si, da busca de uma natureza na individualidade e na interioridade humanas. Muito mais do que uma tomada de consciência, teria se produzido uma nova experiência da relação consigo e com os demais, em que um conhecimento disciplinado e naturalizado teria se imposto como uma necessidade.

Dentro desta perspectiva, a hipótese adotada neste texto é que em nossa modernidade (a partir do século XVI) teriam irrompido diversas experiências e práticas que, em seu emaranhado, conduziram a uma multiplicidade de orientações no campo atual da psicologia. Uma segunda hipótese derivada deste ponto é que a multiplicidade da psicologia não é o produto de um descuido científico ou de uma imaturidade do saber psicológico, mas o eco dessa profusão de experiências e práticas, e do modo como elas se articulam na construção de um solo psicológico. Portanto, deve-se perguntar: que experiências são essas que surgem na modernidade e constituem o solo fragmentado da psicologia?

De modo corrente, se faz a história da psicologia (e das ciências) de duas formas: 

  • ou se busca demarcar as condições da psicologia através de uma série de transformações intelectuais, conceituais ou metodológicas (a chamada abordagem internalista);
  • ou se busca estabelecer as condições da psicologia a partir de uma série de transformações culturais, sociais, econômicas e políticas (a chamada abordagem externalista).

Compreendemos que, para se fazer a história da psicologia, as duas for­mas são necessárias, pois, por um lado, a psicologia, ainda que calcada em conceitos e práticas científicas, faz parte de uma rede de interesses (dos próprios pesquisadores, do público e das agências de fomento) e de práticas sociais. E, por outro lado, a forma pela qual os interesses e práticas sociais se ordenam nas ciências (e na psicologia em particular) é bem específica, sendo articula­dos a projetos científicos. Portanto, as transformações nos planos interno e externo de um saber não podem ser vistas de forma isolada. Consideremos então a rede conceituai e de práticas sociais que possibilita a constituição da psicologia como um saber e uma prática singulares.

As práticas sociais modernas

O conjunto do saber e das práticas psicológicas contemporâneas apresenta algumas experiências constitutivas fundamentais, uma vez que presentes em todas as psicologias. Tais experiências referem-se respectiva­mente à constituição de um domínio de interioridade reflexiva (a nossa subjetividade), a separação desta do corpo, e a produção de um campo de singularizaçâo valorativa num espaço coletivo (a nossa individualidade). Contudo, a constituição e o adensamento destas experiências ocorrem por meio de algumas práticas específicas. No caso da experiência de individu­alidade, concorrem práticas, notadamente as que produzem a identificação da loucura a uma doença de ordem mental, além da distinção entre infância e idade adulta enquanto períodos da vida.

A constituição de um plano de subjetividade

Por subjetividade entende-se a constituição de um plano de interioridade reflexiva, em que cada vivência se encontra centrada e ancorada em uma expe­riência de primeira pessoa, de um “eu”. A história de um plano de interioridade não visa à busca de uma experiência universal no homem, mas à compreensão da constituição dessa experiência, considerada por nós, na atualidade, uma das mais fundamentais. Essa história pode ser contada como um capítulo dentro do domínio do que Foucault (1995) chamou de história das técnicas de si, procu­rando, pois, desvendar as formas como os indivíduos estabeleciam relações de trato e cuidado consigo desde a Antiguidade antes do fanatismo cristão. Apresentaremos, então, uma história desse processo, apontando de início alguns momentos em que essa experiência de interioridade não fazia parte da existência dos indivíduos, seguindo na constituição dessa experiência por meio de um conjunto de práticas e nas transformações em sua configuração.   

A consideração da história das técnicas de si na Antiguidade anterior ao cristianismo, operaria aqui como uma contraprova da universalidade de nosso modo de subjetivação atual, baseado em uma reflexividade sobre si mesmo em que buscamos desbastar, na densa floresta da nossa vida interior, a cidadela do verdadeiro eu, “o eu de todos os eus”. Contudo, essa busca não fazia o me­nor sentido na Antiguidade greco-romana. Ainda que possamos nos deparar com a máxima do oráculo de Delfos — “Conhece-te a ti mesmo” —, esta não visa ao conhecimento de nossa intimidade, mas aponta para um respeito à sofrosine, a medida, o controle: o homem deveria saber de seus limites, que não é deus nem animal. Assim, o que impera nesse período é a busca de constituição de uma vida calcada no autogoverno e na justa medida. Nas palavras de Foucault (1995), não há na Antiguidade clássica uma busca de conhecimento de si mesmo (uma hermenêutica de si), mas da constituição de uma vida tão bela quanto uma obra de arte (uma estética da existência).

As técnicas de relação consigo não estão calcadas na busca da revelação de um eu, mas na construção de si a partir da verdade e do ensinamento dos grandes mestres. Para Jean-Pierre Vernant (1990), os gregos não possuíam uma experiência generalizada do eu enquanto interioridade individualiza­da ou personalidade, apesar de esta se manifestar no discurso em primeira pessoa da poesia lírica, e nos feitos de indivíduos como magos e guerreiros. Há, enfim, entre os gregos uma interioridade, mas esta não é individuali­zada, reflexiva, ancorada em um eu. Para Vernant, esse “eu” da Antiguidade clássica teria a impessoalidade de um ele. Por exemplo, quando se fala da alma humana, especialmente nos círculos pitagóricos e platônicos, esta não é a alma de alguém, como aprendemos na tradição cristã, mas uma alma universal. Mais uma alma em mim do que a minha alma. Mesmo quando se fala do conhecimento que essa alma tem das coisas, não há a nossa clássica oposição entre mundo externo e interno, pois conhecer é incorporar os próprios objetos ou a essência destes.  

A invenção da interioridade individualizada e da hermenêutica como instrumento de verdade só será processada a partir de uma ética cristã, gestada a partir do século II e.c. Aqui começam a ser formados os termos básicos para a constituição do cuidado de si atual, ao menos quanto ao seu objeto e ao seu processo. Segundo Foucault (1995), nesse momento surge a figura do homem santo que se destaca da comunidade a fim de buscar Deus no interior de seu verdadeiro eu, tendo para tal que estar atento às armadilhas do demônio. Trata-se, nesse mergulho na própria alma, de distinguir os pensamentos de origem divina dos infundidos pelo mal. Esse modo de vida, lentamente produzido no seio da vida religiosa, nos monastérios do Oriente próximo (atuais Síria e Egito), irá se propagar ao longo de todo o tecido social progressivamente até a nossa modernidade no interior das práticas culturais, instituições e hábitos individuais. E com algumas inversões de signos: o próprio eu, impedido de ser cultuado na ética dos primeiros cristãos, tendo em vista a purificação do indivíduo, passará a se tornar uma finalidade em si na modernidade, configurando-se como a nossa riqueza mais íntima e preciosa.

Na passagem para o cuidado de si moderno há, pois, uma mudança de finalidade: não se busca mais uma purificação da alma para atingir Deus, mas uma pura afirmação de si. É também, o exame de si, outrora exercido através de instrumentos religiosos e jurídicos (como a confissão), cede aos aparatos científicos modernos (a anamnese, a entrevista clínica, os testes mentais). Portanto, mudam igualmente as técnicas desse novo cuidado de si.

O que permite a passagem desse cuidado da Antiguidade alienada ao pensamento cristão até as suas formas modernas? Podemos dizer que, a partir da modernidade, passaram a existir diversas formas de relação consigo, além da religio­sa, que nos convidam a um exame da nossa vida interior. Uma delas é a constituição do tema da sexualidade, tão caro a nós nos dias de hoje, como bem mostra Foucault em A vontade de saber, 1977. Outra prática relevante para o adensamento de uma região de subjetividade em nossa existência é a separação entre os plano público e privado, enquanto produto da constitui­ção dos Estados modernos. Ela pode ser acompanhada no surgimento das sociedades de corte e dos seus rituais de etiqueta, como relata Norbert Elias (1990), e mesmo no pensamento dos principais pensadores do Estado moderno, como demonstra Figueiredo (1992).

Para entendermos como essa experiência que cinde a nossa existência entre o plano do foro íntimo privado e o das representações públicas, tão natural às nossas vidas atuais, pôde ter sido diferente, basta considerarmos que muitos dos nossos pensamentos e gestos mais íntimos reservados se desenrolavam na naturalidade da vida cotidiana de perídos como a Baixa Idade Média. Para Elias (1990), um processo de expurgo e ritualização desses nossos atos e gestos começa a se configurar na formação das sociedades de corte, que passam a ser configuradas dentro do processo de centralização do poder estatal. E no bojo das sociedades de corte que todo um conjunto de etiquetas e de representações públicas vai se constituindo, relegando ao plano íntimo uma série de atos e pensamentos. Esse processo vai se dissemi­nando paulatinamente para diversos setores sociais, inicialmente estranhos à sociedade de corte, como os próprios grupos burgueses e urbanos.

Paralela à constituição desse conjunto de dispositivos comportamentais, surge a questão filosófica da relação do poder central com as liberdades individuais. Isto conduziria à partilha entre uma intimidade livre a ser cultivada em contraposição a uma obediência pública ao poder monárquico. Em todas essas formas de pensamento político —as absolutistas, as liberais ou as iluministas —, a função primordial do Estado seria a preservação das leis e dos direitos naturais, garantidos pela ordem pública. A única distinção que se pode fazer, segundo Figueiredo (1992), é que no pensamento liberal, bem como no iluminista, há um investimento maior do plano privado e íntimo contra os excessos do poder central e de suas representações públicas.

Contudo, a instalação do poder central nos Estados modernos se fez de forma diversa nas diferentes nações europeias, consagrando diversos dispositivos de exercício da vida privada. 

Para Descartes, no interior do espírito é possível estabelecer uma distinção entre uma razão de origem divina enquanto cerne de toda inteligibilidade e consciência, onde o eu faz a sua morada, e uma região fronteiriça desse espírito, situada na interseção com o corpo: as paixões. Se na primeira região encontramos a fonte do conhecimento, na segunda encontra-se a raiz de todos os nossos equívocos, de todas as nossas ilusões produzidas por nossos sentidos. Nesse mesmo movimento constitui-se, portanto, uma cisão fundamental entre alma e corpo (este, a causa de nossos enganos), distinção que, ao contrário do que se pensa, não remonta a uma cristandade medieval. Nesse momento, espírito e corpo são compreendidos como portando duas substâncias de naturezas diversas: a extensa (o corpo) e a inextensa (a alma). A princípio, o corpo se constitui como objeto de exame, retificação e controle por parte do espírito. Mais tarde, no século XIX, o próprio espírito irá se constituir em objeto de exame, conhecimento e disciplina. 

A essa solução racionalista sobre a questão do conhecimento se opõe a alternativa empirista de John Locke (1624-1704), George Berkeley (1685- 1753) e David Hume (1711-1776), para os quais o saber não viria de outra fonte senão de nossas paixões, dos nossos sentidos. Nada haveria no espírito que não fosse proveniente destes, sendo os nossos pensamentos complexos meras conjunções de impressões sensoriais (e, neste ponto, responsáveis pelas nossas ilusões). 

Razão ou sensibilidade: nos séculos XVII e XVIII debate-se sobre que região do espírito é responsável pela verdade, qual é a culpável pelo erro. No século XIX as epistemologias serão herdeiras do trato com essa primeira região, responsável pelo conhecimento verdadeiro, ao mesmo tempo em que as psicologias ocuparão a região da incerteza devotando-se ao sujeito das paixões e das ilusões. 

Empiristas e racionalistas concordam, contudo, em um aspecto: a evidência imediata, a transparência no conhecimento do espírito, em opo­sição à opacidade do corpo. Seria mais fácil conhecer a nossa subjetividade do que esta estranha parte de nós que nos foi tornada alheia: o corpo. Esta formulação sofrerá, contudo, uma reversão a partir do final do século XVIII, quando essa análise do espírito cindido entre razão e sensibilidade será superada por uma nova formulação da nossa subjetividade. 

A chave para essa mudança pode ser encontrada no pensamento de Imannuel Kant (1781) que, ao analisar a questão do conhecimento em novas bases, supõe-no como uma síntese a priori entre as formas e categorias do sujeito transcendental (nossa razão) e do diverso sensível (nossa experiência). Separados e colocados isoladamente, a razão pura e o puro sensível apenas nos equivocariam: a primeira nos conduziria às conclusões mais disparatadas (como faz a metafísica) e o segundo não produziria sem a razão nenhum conhecimento. Dentro deste quadro, nosso espírito passa a ser visto como composto por um sujeito transcendental (condição a priori do nosso conhecimento dos objetos, mas ao mesmo tempo incognoscível e opaco em si) e um sujeito empírico (cognoscível e composto pelas experiências que temos de nós mesmos). Não há mais uma simples divisão entre razão e paixões, nem a transparência no conhecimento de si que os primeiros modernos atribuíam ao espírito. 

Com essa nova divisão, impõe-se uma nova instância, o sujeito transcendental, que legitima o conhecimento dos objetos (uma vez que situados no tempo e no espaço), mas é completamente limitado quanto ao conhecimento de si.

Dentro desse esquema, criticam-se todas as tentativas de fundar uma psicologia no século XVIII, como a de Christian Wolff (1679-1754), pois o sujeito transcendetal seria uma condição a priori para o conhecimento e jamais um objeto a ser esquadrinhado no tempo e no espaço. 

Para ser possível uma psicologia empírica para Kant, seria necessário o exame do conjunto das nossa experiências conscientes, o sujeito empírico (e não o transcendental, mera condição lógica para o conhecimento) a partir de um elemento discreto de análise, da matematização e de um mínimo de objetividade. Esses novos parâmetros exigem que a psicologia, para ser reconhecida como científica, seja mais do que a descrição do sujeito empírico, ou das vivências imersas em um mundo de ilusões: ela deve ter, no trato com a experiência imediata, todo o rigor de uma experiência cientificamente mediada e matematizada. 

Surge, então, no final do século XIX, na Alemanha, o projeto da psicologia enquanto ciência da experiência, tomando como base a fisiologia, calcado no conceito de sensação como elemento objetivo e matematizável. Esse conceito de sensação ocupou na psicologia o lugar do sujeito transcendental de Kant, permitindo que Wilhelm Wundt propusesse a psicologia como ciência independente. É através de sua análise que se pode avaliar as ilusões presentes em nossa experiência comum (imediata), de resto distinta da experiência física (mediata).

Contudo, a herança desse esquema kantiano sobre a nossa subjetivi­dade não se resume apenas ao projeto da psicologia como ciência rigorosa da experiência (respondendo às críticas de Kant à psicologia empírica), mas a toda a psicologia, ao instituir sempre um modo de relação entre o sujeito empírico (as nossas experiências conscientes) e um sujeito transcen­dental (que é em geral assimilado a um conceito de uma ciência natural, como o de sensação fisiológica, equilíbrio físico e adaptação biológica). Isto ocorre mesmo em psicologias que tomam a nossa consciência como objeto privilegiado, como faz o gestaltismo, que apela para princípios não conscientes, como o da boa-forma. 

É deste modo que a psicologia tenta unir aquilo que a modernidade tentou cindir: o sujeito transcendental ou epistêmico e o sujeito empírico, impuro. A questão então é: como estudar sob os rigores do método científi­co aquilo que foi excluído por definição de suas possibilidades de ação (a nossa experiência comum)? Como fazer uma ciência precisa daquilo que. em nossa experiência, é impreciso? Toda a psicologia teria que realizar o trânsito do plano transfenomenal (opaco) ao da consciência (o vivido). 

Daí as alternativas propostas por Luís Cláudio Figueiredo (1986): ou se faz uma psicologia partindo do vivido em direção aos mecanismos transfenomenais, como realizariam a psicologia da Gestalt, a epistemologia genética e a psi­canálise, caracterizando-se uma direção metapsicológica (conforme conceito do autor), ou se parte do cientificamente estabelecido, para se abordar em seguida o âmbito fenomenal consciencial, como procede o behaviorismo, numa linha parapsicológica (conforme conceito do autor).

Qual é o método com que trabalha o psicólogo: ele segue os contornos da experiência na busca de algo transfenomenal (posição metapsicológica)? Ou parte de um método ou de um modelo de ciência natural, limitando parte (ou mesmo a totalidade) de nossa experiência subjetiva (posição parapsicológica)? Como diria Pierre Gréco (1972: 19), esta é a desgraça do psicólogo com relação ao seu método: “nunca está seguro de fazer ciência.  E quando a faz, nunca está seguro de que faça psicologia”. 

A distinção entre corpo e mente na definição da identidade do indivíduo

Essa experiência é de certo modo derivada da constituição de um espaço privado e de um campo de subjetividade, aqui depurado de nosso corpo. Segundo Fernando Vidal (2002), essa distinção não é tão longínqua quanto nós pensamos; ela teria surgido a partir do século XVII. A par da episódica distinção platônica e pitagórica entre alma e corpo, até o início da modernidade, a definição da pessoa era operada na relação indistinta entre estes termos. Uma comprovação disto é a concepção hilemórfica, desenvolvida por Aristóteles na antiguidade e que perdurou até o fim da Idade Média. Nessa concepção, alma e corpo se unem indissociavelmente como forma e matéria uma não existindo sem o outro. 

O cristianismo medieval, além de maciçamente influenciado por Aristóteles, desenvolveu uma gama de conceitos e praticas que atuam na contramao da divisão entre alma e corpo. Por exemplo, a noção de carne, longe de implicar apenas o nosso corpo, aponta para umaregião indistinta entre este e a alma onde os nossos desejos são foijados.          

Contudo, para Vidal, a prova mais decisiva da ausência de distinção entre esses dois domínios pode ser encontrada no debate sobre o tema da ressurreição, que pontuou o cristianismo de Santo Agostinho (354-430) até Samuel Buttler (1612-1680), passando por pensadores como São Tomás de Aquino (1225-1274). Ao contrário do que supomos, para esses teólogos, o momento do Juízo Final não seria marcado apenas pela presença de nossas almas, mas também do nosso corpo. E neste ponto surgiriam discussões muito curiosas, a saber: se os nossos cabelos e unhas cortados, bem como membros mutilados, corpos canibalizados e fetos abortados compareceriam também perante Deus no Juízo Final. Aqui vê-se claramente que a pessoa é definida por sua associação indistinta entre alma e corpo.

Como visto, este quadro se altera no início do século XVII, quando Descartes propõe a separação entre esses domínios, entendidos agora como duas substâncias distintas. Mas será apenas com John Locke que a nossa identidade pessoal será claramente vinculada a uma atividade da alma, no caso, a memória. Na sua esteira, os demais pensadores só vinculavam a alma ao cérebro, permanecendo as demais partes do nosso corpo irrelevantes na definição da nossa identidade. Essa ideia “desencorporificadora da nossa identidade (somos o que é determinado em nossa mente e nosso cérebro) persevera até hoje não apenas na psicologia e nas ciências cognitivas, mas em Práticas como a criogenia. Nossa mente e cérebro se identificam pois ao sujeito, restando ao corpo o papel de mero objeto, de mera máquina opaca ao nosso conhecimento imediato.

Essa dualidade marcou o início da psicologia no século XVIII, e ainda está presente nas discussões sobre a relação entre alma e corpo, que acompanham a psicologia até os dias de hoje. Mesmo que essa discussão não seja feita mais em torno da existência de substâncias, mas de experiências objetivas e subjetivas. Ainda que aparentemente sepultada para alguns, esta é a questão mais perseverante no campo psicológico (e filosófico), onde encontramos posições dualistas e monistas. As primeiras tentam resolver o problema determinando uma forma de comunicação entre as duas realidades. As segundas tentam resolver o problema negando-o, afirmando que só há uma natureza. 

É assim que dentre os dualismos, teríamos posturas como as interacionistas e paralelistas. A primeira posição, de mais difícil aceitação nos dias de hoje graças à tese física da conserva­ção de energia, supõe uma verdadeira relação de causa e efeito entre as substâncias. O paralelismo, aceito por algumas escolas psicológicas como a gestaltista e a construtivista, acolhe a existência das duas substâncias, mas defende uma não-interação entre elas, operando estas como duas séries independentes, porém sincronizadas, como dois relógios acordados para funcionar no mesmo horário.

O campo das teses monistas, por sua vez, vai tentar esgotar o pro­blema pela redução de toda a natureza a um determinado aspecto, como a matéria (materialismo), o espírito (idealismo), ou a experiência (monismo neutro).

Na psicologia, teríamos o materialismo de alguns autores da escola behaviorista como John Watson, e uma forma branda de monismo da experiência, como o do fundador da psicologia como área acadêmica, Wilhelm Wundt. 

Haveria ainda uma posição muito especial de monismo, a tese da substância única, na qual matéria e espírito seriam apenas dois modos, dois atributos do mesmo ser. Esta posição mais rara marcou contudo o pensamento de um dos maiores responsáveis pelo reconhecimento da psicologia como um saber potencialmente científico: o psicofísico Gustav Fechner.

A constituição de individualidades

Ao propormos fazer uma história do indivíduo, não nos encontramos mais na história da subjetividade ou da interioridade reflexiva, seja na relação com os objetos a serem conhecidos, com um domínio público ou ainda com o nosso próprio corpo.Trata-se aqui do processo da constituição dos indivíduos enquanto unidades políticas a serem destacadas e diferenciadas no conjunto da sociedade. Quando se fala de história da individualização, não se nega, é claro, a percepção das diferenças entre os indivíduos concretos, mas a experiência de que os indivíduos são ao mesmo tempo fonte e alvo dos poderes. Tal processo, que conduz à existência dos indivíduos ao mesmo tempo na sua singularidade e na sua igualdade, é crucial, não apenas para a compreensão do individualismo como valor social, mas para o lugar especial que a psicologia ocupa entre os saberes e práticas modernos. Destaque não apenas na medida em que a psicologia singularizaria os indivíduos de acordo com suas capacidades, mas operaria no duplo sentido de incrementar a sua autonomia e seu controle.

A nossa história desse processo de individualização poderia se fiar na observação de Norbert Elias (1994), para o qual até o século XIII não existia sequer a palavra indivíduo. Nas cidades-estado (polis) gregas, a autonomia, o autocontrole e governo de si se colocam como valores norteadores. Haveria aqui uma certa valoração do indivíduo? Como esclarece Foucault (1995), essa busca de autonomia visa garantir que o governo da polis não seja dominado por um tirano (como bárbaros). Ela não se refere, contudo, ao indivíduo: busca-se a autonomia da polis, não para si, mas através de si. A vida comum na Antiguidade clássica, longe de ser facilmente comparável à nossa, parece-nos bastante paradoxal, mantendo distanciadas algumas experiências que para nós estão necessaria­mente acopladas, como a de uma interioridade individualizada. Pois há na antiga Grécia uma interioridade, porém não reflexiva e não individualizada. Ao mesmo tempo em que há uma experiência de singularidade, comple­tamente destituída, porém, de interioridade e valor social.  

Dada a inexistência do indivíduo como valor universal até o fim da Antiguidade, iniciaremos por essa época a história da constituição da individualidade como um dos nortes da nossa existência. Essa história pode ser contada em dois tempos, conforme a constituição de dois tipos de indivíduos. O primeiro, o indivíduo enquanto entidade universal, autônoma e livre, pode ser descrito de acordo com a reflexão de alguns pensadores políticos mo­dernos (como Thomas Hobbes e jean-jacques Rousseau), consagrando uma série de práticas políticas herdadas dos Estados modernos da Igreja católica sediada em Roma. O segundo, um indivíduo tomado como um objeto a ser descrito e classificado de acordo com certos determinantes, é constitu­ído como produto das relações políticas de poder a partir do século XVIII, notadamente as práticas disciplinares, descritas por Michel Foucault (1977).

Com a cristandade, surge a experiência de um foro intimo, mas a busca de autonomia e controle de si não se colocam mais como metas da vida política e social. Na vida monástica, o que se busca, tão-somente, são a "purificação" e a "salvação" individual. Nessas comunidades religiosas dos primeiros séculos da era cristã esse esforço de salvação iguala todos os fiéis enquanto membros de uma fraternidade divina. Contudo, essa forma de individualização gestada nos mosteiros, referida a um domínio de interioridade e marcada por uma igualdade (perante Deus) e livre-arbítrio (na busca de "salvação"), vai se mostrar limitada em relação a outras formas sociais desse período. Durante quase toda a Idade Média as relações sociais estão prioritariamente baseadas nas relações de linhagem, na relação contratual entre as famílias de diferentes graus hierárquicos. Nesse espaço social hierarquizado, a posição dos indivíduos é determinada estrita­mente por sua posição social. São raras as experiências de individualização no campo social. Figueiredo (1995) cita alguns desses raros exemplos, como as figuras dos cavaleiros andantes e a dos foliões. Norbert Elias (1994), como vimos, é mais radical neste aspecto: para esse autor, até o século XIII não existia sequer a noção de indivíduo, nem  mesmo uma palavra que designasse essa experiência. Quando esta passa a ser Utilizada pelos ESCOLÁSTICOS, remete à natureza de qualquer ente singular não classificável em um grupo maior, como um animal ou uma planta singular.

Dos acontecimentos que ancorariam uma experiência de individualização no campo social e político, tal como começa a despontar no fim da Idade Média, remontam à criação dos Estados modernos. Segundo Louis Dumont (1993), a criação correlata dos Estados modernos e de uma experiência de individualização decorre dessa matriz cristã mais arcaica. 

É nos Estados modernos que a fraternidade dos homens em torno de Deus se laiciza: todos são irmãos perante a lei não mais divina, mas do Estado. Por detrás dos Estados modernos teríamos o modelo de Roma (como sede da estrutura eclesial), e por detrás desta, as antigas fraternidades monásticas, individualizadas pela igualdade perante a lei divina. Teríamos assim no início da Idade Moderna uma primeira expe­riência mais universal de individualização: a constituição do indivíduo no século XVI enquanto um sujeito autônomo, singular, igual aos demais e dotado de uma interioridade (foro íntimo) que seria a base contratual dos Estados modernos e fonte do poder destes.

Essa ideia foi fartamente explorada pelo pensamento político desde a defesa do absolutismo esclarecido por Thomas Hobbes (1588-1679) até o pensamento liberal (John Locke, David Hume e outros) e iluminista (Voltaire, Denis Diderot e Jean-Jacques Rousseau) do século XVIII. Em outras palavras, teríamos o surgimento de um indivíduo abstrato, fonte da lei, ao mesmo tempo que regulado por ela. Ele só aparece concretamente no momento do delito.

Neste momento o Estado não tem ainda como meta o bem-estar e a qualidade de vida dos seus cidadãos. Suas únicas funções nesse momento são as declarações de guerra e de paz e a gerência do comércio.Trata-se de um Estado que, em nome da lei contratada entre os seus cidadãos, pode tirar a vida destes e submetê-los a toda espécie de suplícios toda vez que houver uma infração. Nas palavras de Foucault (1977:
128) “trata-se de um Estado que faz morrer e deixa viver”.

Esse indivíduo soberano, tal como surge no raiar da modernidade, também não é objeto de qualquer saber. Até então perseverava o veto do filósofo grego Aristóteles contra uma ciência do particular: só existe ciência de entes universais. De mais a mais, o indivíduo soberano jamais poderia se tornar objeto de um saber, uma vez que era a fonte da legalidade e identificado a um sujeito autônomo. Contudo, se o indivíduo como alvo do conhecimento não existia, ele já se fazia presente, como fonte jurídica, nas manifestações iluministas e liberais, próprias do poder soberano. Daí que Figueiredo (1985) sustente que esse sujeito soberano não é alvo e nem condição suficiente da psicologia, enquanto saber sobre o indivíduo; é ne­cessária a invenção de outra forma de individualização, que se manifestará a partir do século XVIII.

Fatores como o aumento da população, a proliferação dos pobres nas cidades. a invenção de novas técnicas, como o fuzil e os artefatos industriais, e suas relações de produção baseadas no trabalho contratual impõem a constituição de novas tecnologias de poder, baseadas não mais na lei, mas no esquadrinhamento e na vigilância constantes dos indivíduos e das pupulações ao longo do tempo e do espaço. Este exame constante se produz em espaços privilegiados que surgem ou são reapropriados nesse período como fábricas, casernas e prisões (primeiro caso), e hospitais, asilos e escolas segundo caso). Surge o que Foucault chama de biopoder, composto de biopolítica (atuando sobre as populações) e de poder disciplinar (sobre os indivíduos). Na esteira deste, desponta todo um conjunto de saberes que buscam descrever a natureza de cada indivíduo, singularizando-o.

A partir de então impõe-se uma duplicidade no que entendemos por indivíduo: para além do indivíduo soberano, que não gera um saber sobre si, emerge o indivíduo disciplinado, que é produzido através do exame, su­perando o veto aristotélico. Se no poder soberano o indivíduo é avaliado a partir da lei contratuada, o indivíduo disciplinado é ordenado a partir de uma norma, que determina a sua filiação ou não à normalidade. Aqui se destaca a importância de todos os saberes sobre a vida. Esse novo indivíduo desponta não mais como um sujeito, mas um objeto determinado, singular, diferenciado e dotado de uma interioridade (identificada agora a uma natureza biológica), que será o alvo do cuidado dos Estados contemporâneos e de uma série de agências privadas. Muda-se a meta; se a forma soberana indicava o “fazer morrer e deixar viver”, a fórmula disciplinar agora é “fazer viver e deixar morrer”. E partindo dessa forma de zelo pelos indivíduos, cuja qualidade de vida e o bem-estar são metas últimas, é que vão se constituir os saberes psicológicos, médicos e psiquiátricos.

Essa experiência de individualização marca de forma decisiva diversas escolas psicológicas fundadas no século XIX em países de língua inglesa, uma vez que ancoradas em saberes sobre a vida, como a biologia evolucionista. E o caso das psicologias funcional, evolutiva, comparativa e diferencial (capítulos 6, 7 e 16). Mas deve-se considerar que essas formas da nossa individualização também estão presentes em todas as práticas psicológicas, oscilando entre a busca de autonomia (soberania) e o controle dos seus sujeitos (disciplina). Pode-se, a partir daqui, de igual modo estabelecer uma das tensões que operam como bússola no campo psicológico: como colocar como objeto de controle o mesmo indivíduo que se configura como essencialmente autônomo e livre em termos jurídicos?

Deste modo, ou uma determinada teoria, prática ou sistema psico­lógico valorizará mais o indivíduo em sua suposta autonomia soberana, ou tomará mais como referência a disciplina, seja em nome da sociedade, do Estado, ou do bem comum, sempre, contudo, se dirigindo à direção complementar à sua posição. Assim, ou se parte do indivíduo autôno­mo em direção a uma suposta determinação última, como procedem os funcionalistas, construtivistas e gestaltistas (capítulos 15 e 18), ou se parte das disciplinas para a constituição de um indivíduo autônomo e autocontrolado, como realiza o behaviorismo (capítulo 11). Algumas psicologias, pois, mesmo que privilegiem a autonomia do ser humano, remetem-no a uma norma natural; outras, ainda que tentem disciplinar os sujeitos, fazem-no de modo a favorecer o seu autocontrole autônomo.
A psicologia se situa, assim, em um espaço político entre o indivíduo autônomo e soberano (fonte do poder) e o indivíduo sob controle das disciplinas (alvo dos poderes), realizando o trânsito entre estes. Poderíamos dizer que, sem esta ambiguidade moderna, não haveria nem mesmo a psicologia, pois, se só houvesse a individualidade autônoma, não haveria a suposição do indivíduo como objeto de conhecimento. Por outro lado, se só hou­vesse a determinação, cairíamos em um fatalismo em que toda intervenção psicológica seria desnecessária. Daí a suposição de Nikolas Rose (1998) de que a psicologia só é possível em sociedades liberais, tendo como função favorecer o “bom uso” da liberdade pelos indivíduos.

Como visto, o impacto das novas tecnologias disciplinares incide so­bre algumas instituições como casernas, hospitais, asilos, presídios, escolas e fábricas. Nelas vemos surgir a constituição de tipos como doentes mentais, crianças-problema, delinquentes e trabalhadores desajustados. Todos serão objeto de exame necessário para a constituição de psicologias específicas (psicopatologias, psicologias da infância e do desenvolvimento, psicologias do trabalho). Examinemos na sequência os dois primeiros exemplos enquanto tipos privilegiados de tecnologias individualizantes.

A constituição da infância como uma etapa da vida

Um capítulo especial nessa história dos processos de individualização diz respeito à demarcação da infância como um estágio da vida e prepara­ ório da vida adulta. Tal história é fundamental para a constituição do tema da evolução das nossas faculdades mentais, crucial para um bom número de psicologias (capítulos 7, 11, 15, 16, 17, 21 e  22). Para tal, teria sido necessária a distinção entre a infância e a idade adulta, que, segundo Philippe Ariès (1979), teria se desenvolvido a partir do século XVI através da constituição da escola e da família nuclear modernas. Não se propõe aqui uma história calcada na descoberta de um objeto atemporal, a infância, descoberta que a teria conduzido até o seu lugar natural, a escola. Pode-se, a partir do trabalho de Ariès, propor uma nova formulação histórica: da invenção da escola no século XVII produz-se uma experiência evolutiva do desenvolvimento que, por sua vez, cria um certo modo de infância. Essa história da infância tem o seu grau zero na quase ausência desta, tal como ocorre no final da Idade Média. Pode-se observar a ausência da infância não apenas nas representações pictóricas, como também em qualquer esforço de segregar o seu modo de vida da dos adultos, seja na vida sexual (esta não consistia em algo a ser ocul­to dos infantes), no espaço da casa (não havia o “quarto das crianças” como espaço preservado), no dormitório (a maior parte das vezes elas dormiam com os adultos), na literatura (as fábulas não eram tão infantis , bem como as crianças podiam ser alfabetizadas com clássicos como os diálogos platôni­cos), na pedagogia (as poucas escolas que existiam não segregavas os alunos por turmas de idades, nem favoreciam o esquema de internato), no trabalho (era muito comum a alternativa pedagógica se mandar um jovem realizar o seu aprendizado servindo em casas alheias; daí a origem do termo garçon nos restaurantes), nas guerras (os exércitos não possuíam limite de idade, característica presente até o século XIX, e ainda presente em certas milícias guerrilheiras). Ainda que muitas destas características firam a nossa sensibilidade atual, elas são marcas de muitos grupos sociais ainda existentes (mesmo os meninos de rua, como uma rede social no interior da nossa) e provas da possibilidade de um mundo sem infância, sem escola e sem psicologia.

A infância começa a se segregar como personagem e sentimento (a “paparicação”) a partir do século XVII, e graças a um duplo aconteci­mento: 1) a diminuição da mortalidade infantil e a possibilidade de apego, restrita até então por causa das altas taxas de mortalidade na Idade Média; 2) o surgimento dos padres reformadores, portadores de uma nova moral baseada na necessidade de preservação da inocência e da racionalidade supostas nessa fase da vida. Daí o surgimento da escola em forma de inter­nato, enquanto aparato disciplinar de quarentena destinada à prevenção da poluição suscitada pelo convívio com o mundo adulto. Supondo a inversa razão entre idade, por um lado, e inocência e racionalidade moral, por outro, se instituem classes diferenciadas por idade, instalando-se o castigo como correção de qualquer desvio da suposta pureza infantil. Inicia-se nesse período o firme laço entre instituições religiosas e pedagogia (vínculo ainda muito presente aqui no Brasil), visando à assepsia moral.

Paralelamente a esse movimento, a família começa a se nuclearizar, se diferenciar de uma massa social uniforme. Ela se transforma de instituição condutora de linhagens de parentesco em espaço de gestação de sentimentos ternos entre seus membros; nasce o que Ariés designa por “família senti­mento”. A divisão do espaço interno da casa passa a acompanhar a divisão do espaço social. De um espaço uniforme, em que os cômodos não eram diferenciados e os móveis realmente móveis, deslocando-se conforme a atividade dos seus habitantes, a casa começa a ganhar compartimentos bem determinados. De igual modo, a mescla indistinta de vida privada - lazer - trabalho - ensino, presente na casa medieval, começa igualmente a se segregar, restando somente a primeira função em seu interior. No século XVIII esse movimento se reforça graças às transformações nas funções dos Estados; estes passam a se encaminhar mais para a gestão de populações d