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FATOS HISTÓRICOS
Desenvolvimento da metalurgia no Perú

Na América do Sul, a metalurgia é um processo complexo que aparece na região andina (colômbia, Equador e norte do Peru), por volta de 1800 a.e.c. Uma vez que o ferro era desconhecido, é especialmente o ouro e o cobre que são explorados. Os sítios de Waywaka Andalahuaylas, nos Andes centrais (Apurimac), forneceram assim folhas de ouro e de cobre, marteladas e gravadas, datadas de 1500 a.e.c. Nos andes meridionais, restos de cobre foram recolhidos nos sítios de Wankarai e Chiripa, nos altos platôs bolivianos. E, no norte da Argentna (Condorwasi, Cienaga e La Aguada) e do Chile (Atacama), a utilização de ligas de cobre e prata e de bronze com arsênico e estanho é atestada a partir do 1º Milênio a.e.c.

O metal era fundido em pequenos fornos ventilados com a ajuda de tubos direcionados para o forno e nos quais era suficiente soprar para reativar o fogo. Martelado quente, permitia obter folhas que era recortadas em seguida, rebatidas e soldadas para confeccionar ornamentos (alfinetes, broches, braceletes, colares, ornamentos de nariz...) de ouro ou de cobre dourado, destinados aos dignitários locais e, mais raramente, utensílios (tesouras, facas, louça).

De 200 a 500, com o desenvolvimento das culturas Vicus, Moche, e Recuay, todas as técnicas de ourivesaria foram empregadas, como a fundição em cera perdida, a coloração, a filigrama e a utilização de uma liga de ouro e de cobre (chamada tumbago) na Colômbia, ou de ouro e prata (ou e ouro e platina) no Equador.

Civilização Moche
A era de Catarina, a Grande

chegaram à cidade depois de uma marcha forçada desesperada e esmagaram o Exército rebelde. Pugachev voltou-se para o sul em direção ao Don, e para chegar até lá ele passou por áreas de agricultura servil. Ali a região explodiu; com ajuda dos rebeldes, os servos exterminaram a nobreza local, incluindo mulheres e crianças. Infelizmente para Pugachev, os cossacos do Don não se mobilizaram, e ele cruzou o Volga mais uma vez, fugindo para a sua base entre os basquírios. Ali as tropas finalmente alcançaram os rebeldes e esmagaram-nos. Alguns basquírios permaneceram leais a Pugachev até o fim, mas os cossacos acabaram por traí-lo. A revolta tinha acabado e, em 1775, Pugachev foi executado em Moscou. Finalmente havia chegado a paz, dentro e fora do país.

As leituras de Catarina deram-lhe não apenas uma série de ideias sobre justiça e administração, mas também sobre desenvolvimento econômico e condição social. Os escritores iluministas acreditavam que a sociedade exigia uma população civilizada para florescer, e isso era feito por meio da educação e cultura. A nova imperatriz ascendera ao trono num momento propício, dado que os esforços do Corpo de Cadetes, da Academia e da Universidade de Moscou estavam começando a dar resultados. A geração que chegou à maturidade junto com Catarina foi a primeira a ter absorvido plenamente a cultura europeia e a primeira a incluir muitos homens e até mulheres que também havia estado no exterior o suficiente para começar a entender a sociedade europeia.

Catarina estava decidida a acelerar esse processo. Embora fosse alemã de nascimento e cultura, durante a maior parte do seu reinado ela esteve no centro da cultura russa, mais que qualquer monarca depois dela e até mais do que o próprio Pedro. Ela não era meramente uma leitora, mas uma participante ativa da vida cultural europeia. Ela correspondeu-se com Voltaire de 1763 até a morte dele em 1778. Ela também teve correspondentes entre os enciclopedistas franceses, Denis Diderot e Jean d’Alembert, além do barão alemão Friedrich Melchior Grimm. Grimm era uma espécie de jornalista literário baseado em Paris, e depois de uma visita a São Petersburgo em 1773-1774 ele tornou-se o principal correspondente de Catarina e seu confidente epistolar até a morte dela. Catarina não fazia apenas corresponder-se com os grandes homens do Iluminismo. Quando ela ouviu falar dos problemas financeiros de Diderot, ela comprou a biblioteca dele, concedeu-lhe o uso perpétuo da mesma e pagou-lhe um salário como seu bibliotecário.

Os projetos culturais de Catarina eram numerosos. Nos bastidores ela foi a instigadora da Sociedade Econômica Livre, um grupo de nobres inspirados pela leitura da literatura iluminista a formar uma sociedade para a discussão de temas econômicos (especialmente agrícolas). Era uma associação independente das instituições estatais, embora gozasse do favor da imperatriz. A sociedade patrocinou um concurso de ensaios sobre a questão da propriedade da terra pelos camponeses que levantou inevitavelmente a questão da servidão, e conferiu o prêmio ao ensaio de um francês que declarava sem ambiguidade que a prosperidade só poderia vir da propriedade plena da terra pelo camponês. Por implicação, a servidão não podia criar prosperidade. O ensaio foi publicado em russo e francês para todos lerem. Ela continuou a apoiar a universidade, as academias e as escolas com dinheiro e incentivo. A primeira escola russa de meninas, o Instituto Smolnyi para meninas nobres em São Petersburgo, fora planejado pela imperatriz Elizabete e criado em 1764, e a imperatriz reorganizou e expandiu o Corpo de Cadetes. Eram escolas de elite, mas a reforma provincial de 1775 trouxe um sistema de escolas nas províncias, que foi expandido novamente em 1786 por um decreto que criava escolas secundárias em todas as capitais provinciais e uma rede de escolas primárias. O progresso era lento, mas em 1800 já havia mais de 300 escolas, o dobro do que havia em 1786. As escolas secundárias russas posteriores tiveram origem nessas leis.

Até a Igreja teve seu papel no progresso do Iluminismo. No momento da ascensão de Catarina, a maioria dos bispos ainda era ucraniana, dotada de um sentido forte, quase católico, da importância do clero. A imperatriz Elizabete havia iniciado o processo de substituí-los por russos e, sob Catarina, toda uma nova geração chegou ao poder na Igreja. Catarina também inscreveu em lei a secularização das terras monásticas formulada por Elizabete contrariamente à posição dos bispos ucranianos mais velhos. A nova geração, como Platon Levshin, metropolita de Moscou de 1775 a 1812, havia recebido formação religiosa luterana com uma forte orientação para a pregação. Seu objetivo era levar as "verdades" do cristianismo ortodoxo ao  povo, em vez de cultivar um ascetismo ideal. Essa ênfase coincidiu com a de Catarina, pois ela via a religião como o fundamento da boa cidadania, o que era outro preceito iluminista.

A corte de Catarina manteve os teatros fundados pelos seus predecessores, e os teatros permaneceram no centro das artes do palco na Rússia. Ela persuadiu Araya a aposentar-se e substituiu-o por uma série de músicos renomados, a começar pelo veneziano Baldassare Galuppi. Sumarokov continuou a dirigir o teatro e escrever peças, e Catarina e a corte costumavam frequentá-lo várias vezes por semana. Em 1768, ela fundou uma sociedade para a tradução de livros estrangeiros que patrocinou toda uma série de importantes traduções, obras eruditas e de entretenimento para o público russo. Ela também editou sua própria revista, Vsiakaia vsiachina {Todo Tipo de Coisas), em 1769. A ideia era imitar a Spectator de Addison e Steele, algo que Sumarokov havia tentado alguns anos antes com sucesso duvidoso. A revista, como seu protótipo, deveria combinar entretenimento com edificação sem moralismo opressivo - um tipo de publicação altamente popular na Alemanha nativa de Catarina e noutros lugares da Europa. Catarina manteve seu papel em segredo, embora ele fosse amplamente conhecido em São Petersburgo. A reação mais vigorosa à sua revista veio de Nikolai Novikov (1744-1818), que lançou uma série de revistas suas, estabelecendo a primeira empresa privada de edição importante da Rússia. Mais bem escritas e mais ousadas que a revista da imperatriz, as publicações de Novikov alcançaram popularidade considerável, mas não suficiente para proporcionar uma boa renda, e ele logo se dedicou à publicação de livros para a Universidade de Moscou, o que lhe garantia um subsídio indireto do Estado. Em Moscou, Novikov também se aproximou cada vez mais dos maçons, um grupo com uma ampla rede de contatos e impacto considerável sobre a cultura russa da época. Os maçons não eram apenas um clube social, mas um movimento de ideias com metas definidas, ainda que nebulosas. A maioria deles havia lido a literatura mística europeia que estava se tornando cada vez mais popular no final do século XVIII e considerava-se comprometida com o autoaperfeiçoamento, a contemplação de Deus e suas obras e, acima de tudo, a filantropia ativa e o incentivo ao progresso do mundo. Infelizmente para eles, os maçons levantavam toda espécie de suspeitas. Clérigos conservadores viam-nos como os propagadores de uma religião alternativa e perniciosa, enquanto muitos nobres esclarecidos os tomavam por obscurantistas. A própria Catarina via-os dessa maneira e escreveu várias comédias curtas, satirizando-os. Os maçons também constituíam uma sociedade internacional ligada às dinastias estrangeiras da Prússia e da Suécia, que eram hostis à Rússia, e, o que era ainda mais grave, os maçons haviam recrutado o herdeiro, o tsarévitche Paulo, como patrono. Este último elemento tornou-os profundamente suspeitos na mente de Catarina, haja vista que Paulo estava descontente com seu papel marginal na corte e no governo e cada vez mais hostil para com sua mãe conforme os anos passavam.

Apesar de contratempos, Catarina não desistiu de patrocinar a literatura russa e, em 1782-1783, ela nomeou sua velha amiga, a princesa Dashkova, para chefiar a Academia de Ciências e a nova Academia de Letras. Dashkova, que havia encontrado Benjamin Franklin em Paris, foi a primeira mulher membro da Sociedade Filosófica Americana de Filadélfia. Nesses cargos, Dashkova pôde publicar mais uma série de revistas literárias e outras publicações e organizar um comitê para produzir o primeiro dicionário russo. Um decreto de 1783 autorizava explicitamente a edição e publicação privada, sujeita à censura dos chefes de polícia das capitais.

O principal problema para os editores privados não era a censura ou a atitude do Estado, mas a falta de público amplo. Somente a aristocracia e um pequeno corpo de professores e eruditos tinham instrução para interessar-se por livros e revistas, e grande parte da aristocracia morava em propriedades remotas ou cidades provinciais e preferia a literatura francesa à russa. Os escritores eram menos afetados por essa situação que os editores, pois a maior parte dos escritores importantes eram nobres empregados no serviço público de uma forma ou de outra, e portanto não dependiam das vendas de suas obras para ter renda. Muitos nobres até desprezavam Novikov por tentar viver dos lucros da literatura. O serviço público, no entanto, envolvia os escritores nas facções da corte e numa relação complexa com a imperatriz.

Assim, os dois escritores mais importantes da época, o dramaturgo Denis Fonvizin (1744-1792) e o poeta Gavriil Derzhavin (1743-1816) envolveram-se numa rede de lealdades pessoais e políticas na corte. Fonvizin passou o início de sua carreira como cliente do conde Panin, o que o levou a fazer, próximo ao fim da sua vida, parte da rede de apadrinhamento centrada em Paulo, o herdeiro do trono. Essa afiliação tornava-o impopular junto a Catarina, mas foi ela que encomendou a primeira apresentação da sua melhor peça, O Adolescente, no teatro da corte, em 1782. Não obstante, a renúncia final de Panin a todos os cargos em 1781 contribuiu para o fracasso de Fonvizin em conseguir autorização para uma revista alguns anos mais tarde.

Fonvizin e Novikov eram formados pela Universidade de Moscou, enquanto o poeta Derzhavin vinha de uma família da aristocracia provincial e havia apenas terminado o ginásio em Kazan. Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, ele nunca aprendeu bem o francês e sua única língua estrangeira era o alemão, que ele aprendeu em Kazan. Ele começou sua carreira no Exército e desempenhou um papel menor e um tanto inglório na luta contra os rebeldes de Pugachev. Nessa época, ele chamou a atenção de Potemkin e continuou a ser cliente do favorito enquanto fazia carreira na administração pública, em São Petersburgo e nas províncias, e viveu o bastante para ocupar brevemente o cargo de ministro da Justiça sob Alexandre I. A poesia de Derzhavin tornou-o famoso nos anos 1780, quando ele produziu odes em homenagem a Catarina e suas vitórias, além de sátiras de cortesãos e suas fraquezas, seguindo o modelo de Horácio e do classicismo europeu. Como Fonvizin, ele tinha um domínio da língua que permitiu que sua obra sobrevivesse para os leitores russos apesar do ocaso dos gêneros setecentistas que ele empregou.

No final do reinado de Catarina, estava começando a formar-se timidamente um público independente da corte para a literatura, o teatro, a poesia e a prosa em russo. Outras formas de arte continuavam estreitamente ligadas ao mecenato da corte e da nobreza. O teatro musical e a orquestra da corte eram dominados em grande parte por músicos importados, e a centralidade da corte na vida cultural significava que a nobreza ouvia uma vasta gama de música europeia. As tradições nativas subsistiam na música sacra, uma especialidade particular dos ucranianos associados aos coros das capelas imperiais. O mais bem-sucedido desses ucranianos era Dmitri Bortnyanskii (1751-1825), o primeiro compositor da Rússia, que abordava com a mesma facilidade os concertos europeus e o canto coral russo. Nenhum dos músicos era nobre, fato que impedia sua aceitação como artistas sérios. Uma situação semelhante ocorria nas artes visuais, nas quais a Academia de Arte dominava a cena. Catarina reorganizou a Academia para dar-lhe mais autonomia e melhor financiamento, mantendo ao mesmo tempo seus instrutores majoritariamente franceses, e garantiu aos artistas plásticos uma condição social mais privilegiada que correspondia à sua profissão. Os estudantes russos, todos de origem não nobre e por vezes até servil, destinavam-se a fornecer arte para os palácios da imperatriz, da nobreza e da Igreja. A Academia também oferecia bolsas aos estudantes para passarem temporadas em Paris e Roma, ampliando enormemente a sua formação e experiência. Em retrospecto, seu pior defeito, além do seu caráter muito “oficial”, era sua cópia precisa de modelos europeus que se coadunavam mal com as possibilidades e tradições russas. Como nas academias de arte europeias, o gênero de maior prestígio era a pintura histórica  no estilo do classicismo. Tentativas de retratar a história russa nesse estilo foram elogiadas na época, mas produziram quadros que, para o gosto mais recente, eram inexpressivos no melhor dos casos, e muitas vezes cómicos. Os antigos russos apareciam em armaduras fantásticas que lembravam mais os romanos que a Rússia medieval. Mais atraentes para a preferência mais atual eram os retratistas, que, por ironia, tinham pouca ou nenhuma ligação com a Academia. O primeiro a ficar conhecido foi Ivan Argunov (1727-1802), servo da riquíssima família Sheremetev. Seus sucessores incluíam Fyodor Rokotov, servo dos Repnins, e dois ucranianos, Dmitri Levitskii (pupilo de Argunov) e Vladimir Borovikovskii, o único nobre entre eles. Seus retratos encantadores de homens e mulheres nobres, bem como da própria Catarina, enchiam os palácios e casas de campo russos e eram de qualidade comparável a muitos retratos franceses e ingleses da época, ainda que menos inventivos que estes últimos.

A época de Catarina marcou o início da arquitetura classicista russa, que transformou São Petersburgo na cidade que hoje conhecemos. Ela era firmemente contrária à exuberância barroca do arquiteto-chefe Rastrelli, da sua predecessora Elizabete. Catarina e seus contemporâneos construíram, com alusões romanas inconfundíveis, uma arquitetura apropriada para uma grande capital imperial e suas elites. Simetria estrita, colunas romanas e arcos triunfais estavam na ordem do dia. A realização suprema da era foi o monumento a Pedro, o Grande, o “Cavaleiro de Bronze” na expressão imortal de Púchkin. Obra do escultor francês Étienne-Maurice Falconet e de sua nora, ele mostra Pedro na indumentária de um imperador romano a cavalo sobre uma rocha gigante com a simples inscrição “De Catarina II para Pedro I” em latim e russo. Inaugurada em 1782 numa cerimônia solene, a estátua continua sendo a contribuição mais impactante de Catarina para a cidade de São Petersburgo.

Os anos posteriores a Pugachev não foram preenchidos apenas com projetos artísticos e entretenimentos da corte, pois foram anos de extensa reforma do governo e sociedade russa. A Comissão Legislativa finalmente deu frutos, embora indiretamente: Catarina sabia qual era o pensamento da nobreza a respeito das questões e o que poderia ser útil enquanto não os contrariasse. A primeira tarefa foi reordenar a administração das províncias e cidades, o que implicava criar um novo sistema de corte. Os decretos de Catarina de 1775 fragmentaram as grandes unidades administrativas em cerca de 40 novas províncias, que por sua vez dividiam-se em 5 ou 6 unidades menores. O governo detinha-se essencialmente no nível dessas unidades menores, deixando o campo à nobreza e às comunidades camponesas. A figura local mais poderosa era o governador provincial, nomeado pela imperatriz. Tratava-se invariavelmente de um nobre, que podia ser um grande aristocrata, mas no mais das vezes era um militar. No mesmo decreto, Catarina estabeleceu tribunais para a nobreza que deveriam combinar juízes nomeados com nobres locais eleitos para auxiliá-los. Eram tribunais somente para a nobreza. Nas regiões onde os camponeses livres predominavam, haveria igualmente tribunais com camponeses eleitos, além dos oficiais para ministrar a justiça. Como sempre, o nível das aldeias era o mais fraco e era ali que o poder estatal existia muitas vezes apenas no papel. Nas cidades, Catarina também criou tribunais unicamente para os citadinos, que consistiam em juízes nomeados e assessores eleitos. Assim, a justiça era dividida em tribunais especiais para cada grupo social e combinava juízes nomeados pelo governo com assessores eleitos.

A nova legislação implicava uma maior responsabilidade por parte da nobreza e da elite dos citadinos, porém muitos aspectos básicos da sua condição e relação com o Estado permaneceram indefinidos. As respostas para esse problema foram as Cartas de 1785 para a nobreza e os citadinos. A Carta da Nobreza confirmou e ampliou os direitos já existentes na prática desde a época de Pedro e acrescentou outros, incluindo o decreto de 1762 sobre a isenção do serviço público obrigatório. Os nobres não podiam ser privados de vida e propriedade sem julgamento por um tribunal composto de pares. A nobreza era hereditária e não podia ser anulada sem condenação judiciária por crimes específicos, como homicídio ou traição. Eles não eram sujeitos a castigos corporais e o direito de possuir terra e servos era reservado unicamente a eles. Os nobres em cada província deviam reunir-se para formar uma Assembleia da Nobreza provincial, que elegia seu próprio presidente e determinava as condições de admissão. O presidente atuava como líder da aristocracia local, transmitindo os desejos desta à capital e as ordens do governo à nobreza. Os presidentes tinham pouco poder formal mas, na posição de representantes principais da nobreza local, muitas vezes com conexões poderosas em São Petersburgo, eles eram figuras imponentes. Os governadores provinciais, apesar do seu poder formal, julgavam mais sábio cortejar os presidentes da nobreza. Nas cidades, os decretos de Catarina dividiram a população urbana por níveis de riqueza e puseram a maior parte da administração, como os tribunais, nas mãos das elites urbanas. A população elegia um órgão de governo dentre os cidadãos mais ricos para administrar a parte comercial da vida urbana, deixando os tribunais e a polícia como especificados na reforma provincial de 1775. Os citadinos também não podiam ser privados de vida e propriedade sem condenação por um tribunal de pares. Os citadinos de condição inferior estavam sujeitos a castigos corporais. Também havia uma elaborada legislação suntuária que especificava limites para a ostentação de luxo das ordens mais baixas. Embora restritas às classes alta e média, as Cartas foram o primeiro fruto do pensamento iluminista acerca dos direitos e deveres do cidadão a ser promulgado no Direito russo.

Enquanto Catarina e seus ministros estavam reordenando o governo russo, eles não perderam de vista a situação na fronteira meridional. Os otomanos relutavam em ignorar os ganhos russos, e a “autonomia” da Crimeia sob administração russa revelou-se um arranjo instável. Em 1783, Catarina anexou o território à Rússia, adicionando-o às vastas áreas da Nova Rússia sob a mão firme de Potemkin. Catarina e Potemkin começaram a elaborar planos mais ambiciosos de conquista no Sul, tentando a Áustria unir-se a eles no “projeto grego”, uma proposta para a partição dos Bálcãs e a restauração de uma monarquia grega com príncipes russos sobre as ruínas do Império Otomano. Finalmente, em 1787 a Turquia declarou guerra. As tropas russas começaram a avançar nos Bálcãs, mas em outros lugares a situação deteriorou-se. O imperador austríaco José II honrou seu tratado com a Rússia, e seu Exército começou a avançar também para o Sul, mas ele foi logo derrotado pelos turcos. O rei Gustavo III da Suécia atacou a Rússia igualmente, na esperança de vingar-se das perdas anteriores e fortalecer sua posição doméstica. Catarina esperava que tropas polonesas apoiassem o esforço russo, mas quando Stanislaw Poniatowski convocou a dieta para discutir a questão, ela transformou-se rapidamente numa assembleia revolucionária que passou a rejeitar a dominação russa e elaborar uma constituição reformada. Para piorar as coisas, a Prússia apoiou cinicamente o esforço polonês com vistas à sua própria expansão futura na Polônia. Catarina não podia contar com ninguém além de Potemkin e seu Exército e Marinha.

Catarina mostrou os nervos de aço que a haviam levado ao trono 30 anos antes. Ao ouvir os canhões da esquadra sueca das janelas do seu palácio, ela continuou a trabalhar sem se importar com eles. O progresso no Sul era lento, especialmente de início, mas a nova esquadra do mar Negro (com alguma ajuda do herói naval estadunidense John Paul Jones) foi vitoriosa, e o Exército empurrou incansavelmente os turcos em direção aos principados romenos. Gustavo III fez pouco progresso e viu-se alvo de uma conspiração de oficiais finlandeses descontentes com o absolutismo sueco. Com seus recursos exauridos, apesar do modesto sucesso no mar, Gustavo negociou a paz em 1790. A Turquia permaneceu na guerra.

Para complicar ainda mais a situação da Rússia, a Grã-Bretanha, cujas próprias ambições imperiais cresciam rapidamente, começou a preocupar-se com a movimentação russa em direção ao Mediterrâneo e adotou uma postura hostil. Catarina precisava ter sucesso e, no final de dezembro de 1790, o general Alexandre Suvorov deu-o a ela, tomando a fortaleza de Izmail, perto da foz do Danúbio. Ele tomou o forte num assalto frontal com muitas baixas, mas o tomou. Na primavera seguinte, os russos avançaram para o sul em direção à Bulgária e, no final do verão, os turcos capitularam. As fronteiras da Rússia estendiam-se agora até o rio Dniestre, incluindo a localização da futura cidade de Odessa. Catarina havia jogado suas cartas com grande habilidade e tinha vencido. Foi então que Potemkin morreu. Catarina continuou a ter amantes e favoritos, mas nenhum deles jamais recebeu o amor e a confiança que Potemkin havia inspirado.

As guerras com a Turquia e a Suécia haviam exigido toda a atenção e recursos do governo russo, mas eles estavam conscientes de que a Europa estava cada vez mais em crise. A Revolução Francesa estava transformando a política europeia cotidianamente e, mais perto de casa, a constituição reformada da dieta polonesa de 3 de maio de 1791 significava que a Rússia teria em breve um vizinho hostil e mais poderoso. Não havia muito que Catarina pudesse fazer com relação à França, mas a Polónia era diferente. Ela conspirou com os adversários aristocráticos da nova constituição e, assim que terminou a guerra com a Turquia, ela e seus aliados poloneses avançaram contra Poniatowski e o novo governo. O pequeno Exército polonês foi desbaratado com facilidade e Catarina combinou com a Prússia uma nova partição. Essa não era sua opção preferida, pois ela sempre quis uma Polônia unida e obediente, mas Catarina percebeu que a nova ordem era demasiado popular entre os nobres poloneses para ser revertida e que ela tinha de conciliar a Prússia e a Áustria.

Assim, uma Polônia muito reduzida ganhou uma constituição conservadora sustentada por baionetas russas, mas ela não durou. Em 1794, Tadeusz Kosciuszko liderou uma rebelião no Sul da Polônia que logo atingiu Varsóvia e obteve alguns sucessos modestos. Catarina estava convencida de que o jacobinismo francês estava por trás disso e mandou Suvorov à frente de um Exército russo. Suvorov tomou Varsóvia num grande massacre e as  potências agressoras concordaram em encerrar a existência da Polônia. A Prússia e a Áustria recortaram as áreas com populações predominantemente polonesas, enquanto a Rússia tomou a Ucrânia Ocidental, o restante da Bielorrússia e a Lituânia.

Agora a Rússia havia se tornado um verdadeiro império multinacional. Os 5,5 milhões de novos súditos levaram a proporção de russos no Estado de cerca de 85% para talvez 70%. Catarina não travara a guerra para reunir os eslavos orientais, mas havia de fato incluído no seu império praticamente todo o território do Rus de Kiev medieval.

Se Catarina não podia fazer muita coisa para afetar o progresso da Revolução Francesa, nem por isso estava menos assustada com seu radicalismo crescente, e a nobreza russa compartilhava seus temores. A política de tolerância e Iluminismo aos poucos chegou ao fim. Especialmente após a proclamação da República e execução de Luís XVI, a importação e circulação de novos livros franceses e até de escritores iluministas familiares há tempos enfrentava agora sérias restrições. Em 1792, Novikov foi preso depois de uma investigação, mas não houve julgamento e ordenou-se que ele fosse confinado à prisão indefinidamente. Os maçons foram banidos e sofreram suspeitas crescentes como partidários potenciais dos revolucionários franceses. Em 1796, poucas semanas apenas antes da sua morte, Catarina estabeleceu o primeiro sistema russo de censura estatal, que já não dependia mais da Academia de Ciências ou da polícia local para trabalhar.

Porém, o caso mais espetacular de dissensão e repressão acontecera em 1790. Nesse ano, Alexander Radishchev, um nobre e funcionário público de baixo escalão, publicou um livro chamado Uma Viagem de São Petersburgo a Moscou. Ao usar o gênero então popular da viagem fictícia, ele descrevia as aldeias e cidades da Rússia e intercalava suas próprias reflexões sobre sociedade e política. Seu retrato da servidão era extremamente desfavorável - na sua visão, um sistema que corrompia tanto o senhor como o servo era moralmente indefensável e economicamente ruinoso. Suas elucubrações políticas eram mais vagas, mas sugeriam claramente que a autocracia não era a melhor forma de governar a Rússia. Catarina leu o livro e fez muitas anotações marginais, e acabou por pedir a prisão de Radishchev. Interrogado no Departamento Secreto do Senado, Radishchev foi condenado por sedição e lesa-majestade no tribunal penal de São Petersburgo e condenado à morte. Catarina comutou a pena para o exílio num forte remoto da Sibéria e Radishchev partiu, mas com um estipêndio substancial de um dos figurões de Catarina, que intercedeu em seu favor junto à imperatriz.

A Revolução Francesa e a morte de Catarina em 1796 foram o fim do século XVIII na Rússia. Durante um século, o Estado, ou mais precisamente os monarcas e suas cortes, haviam se esforçado para transformar o país em moldes europeus e trazer a cultura europeia para a Rússia. Nessa tarefa eles tiveram amplo sucesso. A Rússia tinha instituições e leis copiadas de modelos europeus, e diplomatas, mercadores e viajantes ocidentais sentiam-se em casa em São Petersburgo, ou até em qualquer lugar da Rússia. A estrutura do novo Estado proporcionara a base para a ascensão da Rússia ao posto de grande potência e incentivara o crescimento do comércio e indústria, da educação e ciência. A colonização de novas áreas no Sul contribuíra para a explosão demográfica em curso que estava rapidamente fazendo da Rússia o maior país da Europa, mesmo sem contar os territórios recém-anexados.

A transformação cultural foi profunda. No final do século, os russos cultos, a maioria deles ainda composta de nobres, haviam absorvido grande parte das principais ideias e realizações artísticas da Europa moderna e estavam começando a oferecer suas próprias contribuições, ainda modestas. O pensamento político russo tinha os mesmos elementos e baseava-se nos mesmos escritos que no Ocidente. Se os nobres russos não admiravam as especulações democráticas de Rousseau, eles absorveram os ensinamentos de Pufendorf e Montesquieu, assim como de uma série de escritores menores. A monarquia da Rússia era entendida de maneira bastante semelhante à da França ou Prússia, Áustria ou Suécia.

A realidade russa impunha limites tanto à construção do Estado quanto ao progresso cultural. A Rússia ainda era pobre demais para financiar um sistema educacional extensivo e todo o governo local sofria de falta crônica de fundos e pessoal. Fora das capitais, grandes cidades e propriedades rurais aristocráticas, a vida continuava como antes, um ciclo de trabalho rural pontuado pela liturgia ortodoxa. Áreas de progresso econômico existiam nos Urais e nas aldeias e cidades comerciantes da Rússia central, mas ainda era uma sociedade esmagadoramente agrária.

Além disso, era uma sociedade agrária da qual metade dos agricultores eram servos. Esse foi um problema que Catarina e seus amigos esclarecidos não conseguiram mudar, nem mesmo enfrentar. Ela não gostava do sistema e sabia que era pernicioso, não só para o progresso agrícola, mas estava consciente de que praticamente todos os nobres, dos quais seu trono dependia, viam-no como a base da sua riqueza e posição na sociedade, como de fato era. A Rússia não era a única a manter o sistema servil no final do século. Ele subsistia na Polônia e na Prússia, e José II mal havia começado a desmanchá-lo na Áustria.

Exatamente no momento em que a Rússia parecia ter alcançado uma ordem estável e europeia, a Revolução Francesa mudou todas as regras do jogo. Agora ela teria de tentar responder a toda uma série de novos desafios, internacionais e domésticos, culturais e políticos. Sua própria sobrevivência acabaria por ser posta em jogo. Abria-se uma nova e perigosa era.

Rússia
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O Deserto Oriental na época dos faraós

A leste do Egito existiam várias fontes importantes de minerais. A que se situava mais ao norte era o Sinai, que fornecia turquesas, extraídas pelos Egípcios desde a 3ª dinastia até ao fim do Novo Império, mas não mais tarde (teve-se recentemente notícia de descobertas datando do inicio do período dinástico). As principais escavações de ruínas egípcias ficam no Sinai ocidental, no uadi Maghara e Serabit el-Khadim, tende havido, em certos períodos, um povoamento egípcio permanente nesta região. O Sinai é também fonte de cobre, e em Timna, próximo de Eilat, foram escavadas minas de cobre contemporâneas das 18ª - 20ª dinastias egípcias. Estas minas eram provavelmente exploradas pela população local, sob controle egípcio, não havendo indícios de que os Egípcios extraíssem eles próprios cobre em qualquer outro local do Sinai. É possível que, tal como acontecia com o comércio de cereais entre o Egito e o Próximo Oriente, os Egípcios extraíssem cobre, não considerando, porém, essa atividade suficientemente prestigiosa para a registrarem. Caso contrário, talvez utilizassem mão-de-obra local, como em Timna, ou comprassem cobre à população local, ou adquirissem a maior parte de que necessitavam noutro local.

O deserto oriental do Egito fornecia grande quantidade de pedras para a construção e pedras semi-preciosas e era o caminho para o mar Vermelho. Algumas pedreiras localizavam-se perto do vale do Nilo, como era o caso de Gebel Ahmar (quartzito) e de Hatnub (alabastro egípcio), mas outras, particularmente as de grauvaque (pedra dura e negra), em uadi Hammamat, e as de ouro, na sua maior parte ao sul da latitude de Koptos, implicavam expedições em grande escala. Sem o domínio egípcio sobre a população nômade local, ou sem a sua colaboração, estas minas não podiam ter sido exploradas. Este controle era-lhes igualmente necessário para poderem utilizar as três principais vias de acesso ao mar Vermelho que seguem pelo uadi Gasssus ate Safaga, pelo uadi Hammamat ate Quseir e pelo uadi Abbad ate Berenike, existindo igualmente um caminho menos importante que vai de cerca de 80 km ao sul de Cairo até ao golfo de Suez, de cuja existência há provas que datam do reinado de Ramsés II. O testemunho mais antigo da utilização destas rotas data do fim do período pré-dinástico (uadi el-Qash, de Koptos a Berenike), podendo estar relacionada com o comércio do mar Vermelho ou com a exploração mineira. Existem provas da utilização das rotas mais ao norte em todos os principais períodos da história egípcia e mais ao sul a partir do Novo Império.

Nos confins do uadi Gassus encontrava-se um templo da 12ª dinastia e em 1976 foram descobertas ruínas do porto egípcio próxima, da mesma época. Existem mais vestígios, das 25ª e 26ª dinastias (700-525 a.e.c.), e este padrão manteve-se provavelmente durante o período persa (séculos VI-V a.e.c.), altura em que existiam ligações com o lrã, contornando a costa arábica. O período romano esta representado em sítios como Quseir e Berenike, que eram portos de comércio com a África oriental e com a Índia. Embora não existam provas de que os contatos dos Egípcios tivessem chegado tão longe, tais portos deviam ser utilizados para o comércio com as terras quase míticas do Ponto, que aparece referido em textos a partir do Antigo Império. A localização do Ponto não esta rigorosamente estabelecida, sendo, para os Egípcios, uma região com várias associações idealizadas, mas é muito provável que se tratasse da região da moderna Eritréia ou Somália, onde há notícia de recentes descobertas dos períodos helenístico e romano, Os artigos que vinham do Ponto eram quase todos exóticos ou de luxo, sendo o mais importante o incenso. Não se sabe se o comércio com o país do Ponto era a única razão para a navegação no mar Vermelho, para além do acesso a algumas zonas do Sinai. Há noticia de terem sido encontradas pérolas egípcias de 18ª dinastia na costa ao sul do rio Juba, perto do equador, mas isto não significa que os Egípcios tivessem chegado eles próprios ate aí.

Civilização Egípcia | Geografia
Por John Baines & Jaromir Málek
O Deserto Ocidental na época dos faraós

As restantes regiões a tratar eram mais periféricas em relação ao Egito e só podiam ser mantidas quando havia um governo forte. Os oásis do deserto ocidental produziam algumas culturas valiosas, por exemplo, uvas e as melhores tâmaras, e eram também pontos de ligação importantes no comércio com as regiões remotas. Do norte para o sul, eram essencialmente quatro os oásis governados pelo Egito: Bahariya, Farafra, el—Dakhla e el—Kharga (a leste de el—Dakhla), sendo os dois últimos, de longe, os mais importantes. Para além destes, o mais remoto oásis a oeste de Siwa foi incorporado no Egito no período tardio, tendo adquirido renome mundial graças a fracassada missão de Cambises em 525 a.e.c (soube-se recentemente que foram encontrados no deserto vestígios do exército de Cambises), e a posterior consulta aí efetuada por Alexandre Magno ao oráculo. Existem também oásis menores, ao ocidente do Nilo e mais para sul, Kurkur, Dunqul e Salima, que são pontes de paragem onde não foram encontrados quaisquer vestígios da Antiguidade.

Há testemunhas, datando dos Impérios Médio e Novo, de pessoas que fugiam da justiça ou a perseguições para os oásis de el-Kharga e el-Dakhla, enquante na 21ª dinastia os exilados políticos eram para laá banidos. Nesse aspecto, esta região era uma faceta da Sibéria egípcia, sendo outro o de trabalho forçado em condições horríveis, com enormes perdas de vidas, nas minas do deserto oriental.

Toda a zona a ocidente do vale do Nilo se chamava, na Antiguidade, Líbia. A região costeira ao ocidente de Alexandria, até a Cineraica, albergava provavelmente a maioria da população Líbia e era menos inóspita do que parece atualmente. Quase todos os vestígios egípcios ali encontrados datam do reinado de Ramsés II, que construiu fortalezas ao longo da costa ate Zawyet Umm el-Rakham, a 340 km ao ocidente de Alexandria, e do período greco-romano, quando os Ptolomeus construíram, nos estilos grego e egípcio, em Tolmeita, na Cirenaica, a 1000 km de Alexandria.

Durante quase toda a história do Egito os oásis constituíram um posto avançado contra os Líbios, que tentaram, em vários períodos, infiltrar-se. Nos reinados de Merenre e de Pepi II, o chefe de expedição Harkhu foi várias vezes até Yam, zona que fica, provavelmente, na região moderna de Kerma e Dongola, ao sul da 3ª catarata do Nilo. Numa dessas ocasiões, Harkhuf seguiu pela estrada do deserto, deixando o vale do Nilo perto de Abydos e passando, certamente, por el-Dakhla. Ao chegar verificou que o governador de Yam tinha ido "correr com o chefe do território líbio para o canto ocidental do céu — descoberta esta provavelmente relacionada com a estrada do ocidente, utilizada nesta expedição. Este pormenor mostra que, para os Egípcios, a "Líbia" se estendia até cerca de 1500 km ao sul do mar. As ruínas do Fezzan, que datam, provavelmente, do tempo de Cristo, revelam a possibilidade de o Sul da Líbia ter sido povoado na Antiguidade, enquanto a zona de Uweinat o foi no 3º milênio antes da era Cristã. Em períodos mais antigos a cultura dos Líbios era semelhante a dos Egípcios e é possível que falassem um dialeto da mesma língua, mas os contatos entre eles foram, durante o período dinástico, em boa parte hostis.

Dos oásis ocidentais sai um caminho, conhecido hoje por Darb el—Arba’in "o caminho dos 40 dias", que leva a el-Fasher, capital da província de Darfur, no Sudão ocidental. Harkhuf utilizou a primeira parte deste caminho, mas é possível que, já na Antiguidade, estivesse totalmente aberto ao comércio. Harkhuf viajava com burros, mas a exploração eficaz de tais caminhos deve ter dependido do camelo, introduzido no Egito, ao que parece, nos séculos VI-V a.e.c.

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Judas é, desde sempre, a encarnação do traidor, aquele que entregou seu mestre por uns trocados. Pela primeira vez, um advogado procura restabelecer a verdade no processo, dissecando as causas, pesando os argumentos da acusação, o que deve ser esclarecido sobre o apóstolo maldito.

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Fronteiras redesenhadas, soberanias aviltadas, divisões territoriais arbitrárias: Napoleão subverte afisionomia da Europa à sua maneira. Mas, desprezando o direito à autodeterminação dos povos, ele desperta nacionalismos.

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O viajante na Espanha
Ford em trajes andaluzes | Joaquin Bécquer [1832]

Até finais do século XVIII, a Península Ibérica era desco­nhecida pelo Norte da Europa. Duas coisas fizeram isso mudar. Ao acompanhar as campanhas das guerras napoleônicas nos jornais, os leitores europeus se familiariza­ram com a topografia da península. Ao mesmo tempo, a ascensão do movimento romântico vestiu de glamour a atração pelo pitoresco e pelo remoto. Um destes viajan­tes precoces da Espanha e de Portugal foi lorde Byron (1788-1824), que percorreu a península em 1809. Seu poema épico Dom Juan (1819-1821) deu nova expressão à história do ímpio sedutor dramatizado pela primeira vez pelo dramaturgo espanhol Tirso de Molina (1571-1641) e foi tema da ópera de Mozart Dom Giovanni (1787). Outro visitante foi o escritor norte-americano Washington Irving (1783-1849). Adido da representação norte-americana em Sevilha desde 1822, sentiu-se cada vez mais atraído pelo passado mouro da Andaluzia, e pu­blicou uma série de lendas e relatos com o título de Con­tos da Alhambra (1832). Prosper Merimée publicou Carmen, o epítome da novela romântica espanhola, em 1845. No entanto, foi o escritor inglês Richard Ford (1796-1858) que colocou os encantos da península ao alcance do viajante comum. Seu Manual para Viajantes na Espanha, publicado em 1845, era baseado nas anotações copiosas e nos muitos desenhos feitos em suas excursões a cavalo por todo o país quando ele e sua esposa viveram em Sevilha e Granada na década de 1830. Proporcionou ao leitor uma grande riqueza de detalhes práticos e seu estilo agradável transformou o livro instantaneamente em um bestseller. Muitos ainda o consideram como o melhor guia de viagens sobre a Espanha.

VINCENT, Mary. STRANDLING , R. A. Constitucionalismo e a guerra civi, 1812-1992. in:__________. Espanha e Portugal. Grandes civilizações do passado. Barcelona/ES: Folio, 2008. Cap. 6. p.132
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TEXTOS
3/20/2020 3:32:24 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
A Psicologia da Gestalt

Tenerife, localizada a 200 milhas da costa da África, é a ilha mais famosa na história da psicologia; talvez seja a única ilha na história da psicologia. No entanto, o trabalho de um psicólogo alemão que vivia ali na segunda década do século XX é, sem sombra de dúvida, uma parte significativa da história dessa disciplina.

Wolfgang Köhler estudou macacos no Tenerife. Esses animais tinham sido trei­nados ou condicionados a se comportar de determinada maneira. Mas até Köhler ir para Tenerife, acreditava-se que a única maneira de animais aprenderem era por meio de tentativa e erro, isto é, tropeçando acidentalmente na resposta correta - aquela que levava comida como recompensa. A maioria das pesquisas sobre animais já realizadas até aqui envolve animais ensina­dos a se comportar da maneira como o experimentador ou treinador queira.

Köhler não tinha interesse em treinar os macacos que encontrou na ilha. Seu objetivo era observá-los para ver como solucionavam problemas. Ele acreditava que eram mais inteligentes do que pessoas ensinadas e que eram capazes de resolver problemas de maneira muito semelhante aos humanos. E assim colocou seus macacos em gaiolas grandes e deu-lhes instrumentos que usariam para obter comida, enquanto se sentava para observar o que faziam.

Uma macaca, Nueva, pegou uma vara que Köhler havia colocado em sua gaiola. Esfregou-a no chão por um período curto e em seguida perdeu interesse e a deixou de lado. Dez minutos depois, algumas frutas foram colocadas do lado de fora. Ela esticou um dos braços pelas grades da gaiola em direção à fruta, mas não conseguiu alcançá-la. Começou a choramingar e a gemer, e em seguida jogou-se no chão num gesto muito eloquente de desespero", Köhler escreveu. Após diversos minutos ela olhou a vara, parou de cho­ramingar, e repentinamente a agarrou. Ela esticou a vara pelas grades da gaiola e arrastou a fruta até que estivesse perto o suficiente para que pudesse alcançá-la com sua mão. Uma hora depois Köhler repetiu o experimento. Dessa vez Nueva mostrou certa hesitação. Pegou a vara e a usou como instrumento mais habilmente do que da primeira vez, e assim conseguiu obter a fruta mais rapidamente. Na terceira vez, ela pegou a vara de imediato, reagindo ainda mais rapidamente.

Ficou evidente para Köhler que Nueva não havia hesitado, usando a técnica de tentativa e erro para sua aprendizagem, e que esta havia acontecido no decorrer dos movimentos realizados ao acaso, até que ela tocou a comida com a vara.

Ao contrário, seus movimentos tinham um objetivo em mente, eram propositados e deliberados. Isso era diferente do comportamento dos gatos na caixa quebra-cabeça, ou dos ratos no labirinto de Thorndike.

Nueva e os outros chimpanzés estudados no Tenerife exibiram uma maneira diferente de aprender, e suas ações levaram a uma outra revolução na psicologia, a outra maneira de abordar o estudo da mente e do comportamento.

A Revolta da Gestalt

Até aqui a evolução da psicologia desde as ideias iniciais de Wundt e a elaboração dessas noções por Titchener, passou pela escola de pensamento funcionalista, bem como pelas áreas aplicadas da psicologia, até chegar ao behaviorismo de Watson e Skinner e ao desafio cognitivo nesse movimento. Mais ou menos na mesma época em que a revolução behaviorista aglutinava forças nos Estados Unidos, a revolução da Gestalt tomava conta da psicologia na Alemanha. Essa revolução consistia em mais um pro­testo contra a psicologia wundtiana, e viria mais tarde a se tornar um testemunho das ideias de Wundt, como fonte de inspiração para o surgimento de novas visões, e como base para o lançamento de novos sistemas de psicologia.

Nesse ataque contra a psicologia dominante, a psicologia da Gestalt concentrava-se principalmente na natureza elementar do trabalho de Wundt. Apenas para relembrar, os elementos sensoriais formavam a base da psicologia wundtiana; e os psicólogos da Gestalt fizeram desse enfoque o alvo do seu ataque. Wolfgang Köhler, fundador da psicologia da Gestalt, afirmou: "Ficamos chocados com a tese de que todo fato psicológico (...) consti­tui-se de átomos inertes não-relacionados e que as associações consistem praticamente nos únicos fatores que combinam esses átomos, introduzindo, assim, a ação" (Köhler, 1959, p. 728)..

Para compreender o protesto da Gestalt, retornemos ao ano de 1912. O behaviorismo de Watson começava a atacar Wundt e Titchener e também o funcionalismo. A pesquisa sobre animais realizada nos laboratórios de Thorndike e de Pavlov exercia grande impacto. A psicanálise de Freud já completava uma década. Embora o movi­mento dos psicólogos da Gestalt contra a posição de Wundt ocorresse concomitantemente ao surgimento do behaviorismo nos Estados Unidos, os dois movimentos foram totalmente independentes. E ainda que ambas as escolas de pensamento tenham iniciado como uma oposição às mesmas ideias, ou seja, contra o enfoque de Wundt nos elementos sensoriais, as duas acabaram opondo-se entre si.

As diferenças entre a psicologia da Gestalt e o behaviorismo logo ficaram evidentes. Os psicólogos da Gestalt admitiam o valor da consciência embora criticassem a tentativa de reduzi-la a elementos ou átomos. Os psicólogos behavioristas recusavam-se a reconhecer o valor do conceito de consciência na psicologia científica.

Os psicólogos da Gestalt comparavam a abordagem da psicologia de Wundt (do modo como a interpretavam) com a construção de uma casa, em que os elementos (os tijolos) seriam unidos pela argamassa mediante o processo de associação. Afirmavam que, ao olharmos pela janela, enxergamos efetivamente as árvores e o céu, e não os denomina­dos elementos sensoriais, como o brilho e as tonalidades, os quais, de alguma forma, se conectariam para formar a nossa percepção de árvore e de céu.

Além disso, os psicólogos da Gestalt acusavam Wundt de afirmar que a percepção dos objetos era meramente a soma ou a junção dos elementos, formando-se uma espécie de pacote. Insistiam em alegar que, ao se combinarem, os elementos sensoriais formariam um novo padrão ou uma nova configuração. Por exemplo, se juntarmos um grupo de notas musicais, surge uma melodia ou um tom por essa combinação, algo novo que não existia em nenhuma das notas elementares individuais. Essa ideia se encontra na expressão conhecida: o todo é diferente da soma das partes. Para fazer justiça a Wundt, devemos observar que ele reconheceu essa questão, formulando a doutrina da síntese criativa.

A Percepção: o que os Olhos Não Veem

Para ilustrar a diferença entre a abordagem de Wundt e a da Gestalt acerca da percepção, suponha que você seja aluno de um laboratório de psicologia alemão do estilo de Wundt no início do século XX.

O psicólogo responsável pede-lhe para descrever um objeto sobre a mesa, e você responde:

"Um livro."

"Sim, é claro que é um livro", ele concorda, "mas o que você está realmente vendo?"

Intrigado, você pergunta: "Mas o que você quer dizer com 'o que eu realmente estou vendo?' Eu disse que estou vendo um livro. Um livro pequeno, de capa vermelha." O psicólogo insiste. "Qual a sua real percepção do objeto? Descreva-o com a maior precisão possível."

"Você está dizendo que não é um livro? Isso é alguma piada?"

Ele demonstra certa impaciência. "Sim, isso é realmente um livro. Não se trata de nenhuma brincadeira. Eu apenas gostaria que você descrevesse exatamente o que está vendo, nem mais, nem menos."

Você vai ficando cada vez mais desconfiado e diz: "Bem, olhando deste ângulo, a capa do livro parece um paralelogramo vermelho-escuro".

"Isso!" ele diz, satisfeito. "Ótimo, você está vendo uma espécie de tira vermelho-escuro com o formato de um paralelogramo. E o que mais?"

"Há uma borda branca meio acinzentada abaixo dela e mais para baixo outra linha fina, do mesmo tom vermelho-escuro. Debaixo de tudo, vejo a mesa." Ele se retrai. "Em volta do objeto vejo umas manchas marrons com algumas listras paralelas, meio ondu­ladas, em marrom-claro."

"Ótimo, ótimo!" E ele agradece a sua colaboração.

Você fica parado ali, olhando para o livro sobre a mesa, e sente-se um pouco cons­trangido por ter-se deixado induzir pelo insistente psicólogo a uma análise desse tipo. Ele o deixou muito desconfiado, a ponto de não ter mais certeza do que realmente estava vendo ou pensava que estava vendo... Essa cautela o fez descrever o que percebia com as sensações, quando apenas um momento antes tinha certeza de observar um livro sobre a mesa.

Os seus devaneios são interrompidos de repente pela presença de um psicólogo que se parece vagamente com Wilhelm Wundt. "Obrigado por ajudar a comprovar mais uma vez a minha teoria da percepção. Você comprovou", ele diz, "que o livro que via nada mais é do que um composto de sensações elementares. Quando tentava precisar e dizer exatamente o que realmente via, teve de se expressar em padrões de cor, e não do objeto em si. As sensações de cor é que são as características primárias, e todo objeto visual pode ser reduzido a essas sensações. A sua percepção do livro é construída com base nas sensações, assim como a molécula é constituída a partir dos átomos."

Ao que parece, esse breve discurso é um sinal para o início da batalha. "É um absur­do!", grita uma pessoa do outro lado do salão. "Bobagem! Qualquer idiota sabe que o livro é o fato perceptual primário, imediato, direto e incontestável." O psicólogo que agora olha para você possui certa semelhança com William James, mas parece ter sotaque alemão, e o seu rosto está tão vermelho de raiva que não há como ter certeza. "Essa redução da percepção em sensações de que você está falando não passa de um jogo intelectual. Um objeto não é um pacote de sensações. Qualquer homem que vê manchas vermelhas-escuras quando devia enxergar um livro deve estar doente!"

Quando a briga começa a esquentar, você fecha a porta devagarinho e desaparece. Você acaba de ter o que queria: uma ilustração de que há duas atitudes diferentes, duas formas distintas de falar sobre as informações que os nossos sentidos nos proporcionam. (Miller, 1962, p. 103-105)

Os psicólogos da Gestalt acreditam que há mais na percepção do que os olhos veem. Em outras palavras, a percepção vai muito além dos elementos sensoriais, dos dados físi­cos básicos proporcionados aos órgãos dos sentidos.

As Influências Anteriores sobre a Psicologia da Gestalt

Assim como em todo movimento, as ideias contestadoras da Gestalt tiveram origem em con­ceitos anteriores. A base da posição da Gestalt, ou seja, o enfoque na unidade da percepção, encontra-se no trabalho do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) que, curiosamente, escrevia os seus livros confortavelmente vestido de roupão e calçando chinelos. Kant alegava que, quando percebemos o que chamamos de objeto, encontramos os estados mentais que parecem compostos de partes e pedaços. Essa ideia é semelhante à proposta dos elementos sensoriais defendida pelos empiristas ingleses e associacionistas. No entanto, para Kant, esses elementos são organizados de forma que tenham algum sentido, e não por meio de processos de associação. Durante o processo de percepção, a mente forma ou cria uma experiência completa. Desse modo, a percepção não é uma impressão passiva e uma combinação de elementos sensoriais, como afirmavam os empiristas e associa­cionistas, mas uma organização ativa dos elementos, de modo que forme uma experiência coerente. Assim, a mente molda e forma os dados originais da percepção.

Franz Brentano, da University of Vienna, opôs-se ao enfoque de Wundt acerca dos elementos da experiência consciente e propôs à psicologia o estudo do ato da experiência. Ele considerava artificial a introspeccão utilizada por Wundt e defendia uma observação menos rígida e mais direta da experiência na forma como ela ocorre. A visão de Brentano estava mais próxima dos métodos mais recentes dos psicólo­gos da Gestalt.

Ernst Mach (1838-1916), professor de física da University of Prague, exerceu influência mais direta sobre o pensamento da Gestalt com a obra The analysis of sensations (1885). Nesse livro, Mach discutia os padrões espaciais, como as figuras geométricas, bem como os padrões temporais, como as melodias, e os considerava sensações. Essas sensações de forma do espaço e de forma do tempo independem dos elementos individuais. Por exem­plo, a forma do espaço de um círculo pode ser branca ou preta, grande ou pequena e ainda manter a qualidade elementar circular.

Mach alegava que a percepção de um objeto não muda, ainda que modifiquemos nossa orientação em relação a ele. Uma mesa continua a ser uma mesa se a olharmos de lado, de cima ou de algum ângulo. Do mesmo modo, o tom continua o mesmo em nossa percepção inclusive quando a forma do tempo é modificada, ou seja, quando é executado mais lenta ou rapidamente.

Christian von Ehrenfels (1859-1932) estudou as ideias de Mach e propôs qualidades de experiência que não podem ser explicadas como combinações de elementos sensoriais. Chamou essas qualidades de Gestalt Qualitäten (qualidades de forma), que são percepções baseadas em algo além da aglutinação de sensações individuais. A melodia é uma qualidade de forma porque parece a mesma até quando transposta para outra nota. Ela independe das sensações de que é composta. Para Ehrenfels e os seus seguidores, a forma em si era um elemento criado pela mente em operação sobre os elementos sensoriais. Desse modo, a mente seria dotada de capacidade para criar formas a partir de sensações elementares.

Max Wertheimer, um dos três principais fundadores da psicologia da Gestalt, percebeu que, do trabalho de Ehrenfels, com quem estudara em Praga, vinha o maior incentivo para o movimento da Gestalt.

William James, que se opôs à tendência do elementarismo na psicologia, também foi precursor da escola de psicologia da Gestalt. James considerava os elementos da cons­ciência como abstrações artificiais. Afirmava que as pessoas veem os objetos como uma unidade; Como Pacotes Armados de sensações. Outros principais fundadores da psicologia da Gestalt, Kurt Koffka e Wolfgang Kõhler, tomaram contato com o trabalho de James quando foram alunos de Stumpf.

Outra influência anterior foi o movimento ocorrido na filosofia e na psicologia alemã; conhecido como fenomenologia, doutrina baseada na descrição imparcial da experiência imediata na forma como ela ocorre. A experiência não é analisada nem reduzida em ele­mentos ou abstraída de alguma forma artificial. Ela envolve uma experiência praticamente ingênua de senso comum, e não uma experiência relatada por um observador treinado dotado de orientação ou tendência sistemática.

Um grupo de psicólogos fenomenologistas trabalhou na Universidade de Gõttingen de 1909 a 1915, isto é, no período em que o movimento da Gestalt esta­va começando a se desenvolver. O trabalho desses psicólogos precedeu a escola formal da Gestalt, que mais tarde acabou adotando a visão desse estudo.

As Mudanças do Zeitgeist na Física

O Zeitgeist - mais especificamente, a atmosfera intelectual predominante na física - exerceu grande influência no desenvolvimento da Psicologia da Gestalt. Nas últimas décadas do século XIX, as noções da física tornavam-se cada vez menos atomísticas com o reconhecimento e a aceitação dos campos de força - regiões ou espaços atravessados por linhas de força, por exemplo, por corrente elétrica.

O exemplo clássico desse conceito é o magnetismo, propriedade difícil de explicar com base na visão tradicional de Galileu ou Newton. Por exemplo, quando limalhas de ferro são sacudidas em uma folha de papel colocada sobre um ímã, os pedacinhos formam um padrão característico. Embora as limalhas não toquem no ímã, são obviamente afetadas pelo campo de força existente em torno do magneto. Acreditava-se que a luz e a eletrici­dade funcionavam da mesma forma. Esses campos de força eram considerados entidades novas, e não apenas a soma dos efeitos dos elementos ou das partículas individuais.

Desse modo, a noção do atomismo ou elementarismo, tão influente no estabelecimento de grande parte mais recente ciência da psicologia, estava sendo reconsiderada na física. Os físicos descreviam campos e entidades orgânicas completas, proporcionando assim munição e apoio para a visão revolucionária dos psicólogos da Gestalt a respeito da percepção. As noções oferecidas pelos psicólogos da Gestalt refletiam a nova física. Mais uma vez, os psicólogos esforçavam-se para imitar as ciências naturais já estabelecidas.

Houve uma conexão pessoal no impacto da nova física sobre a psicologia da Gestalt. Köhler havia estudado com Max Planck, um dos criadores da física moderna, e afirmou que, por influência de Planck, percebera haver uma conexão entre a aula de física e o conceito de unidade da Gestalt. Köhler testemunhou diretamente na física a crescente relutância em lidar com os átomos e a substituição dessa ideia pelo enfoque no conceito mais amplo dos campos, e afirmou: "A partir de então, a psicologia da Gestalt transformou-se em uma espécie de aplicação da física de campo nas áreas essenciais da psicologia" (1969, p. 77).

Entretanto, Watson aparentemente não tomou conhecimento da nova física. Sua escola de pensamento behaviorista manteve a abordagem reducionista, enfatizando os elementos - os do comportamento. Essa visão é compatível com a antiga perspectiva atomística da física.

Fenômeno Phi um desafio à Psicologia Wundtiana

A psicologia da Gestalt desenvolveu-se por um estudo de pesquisa conduzido, em 1910, por Max Wertheimer. Enquanto viajava de trem pela Alemanha durante as férias, ocor­reu-lhe a ideia de realizar uma experiência para visualizar um movimento quando ele não estivesse efetivamente acontecendo. Abandonou seus planos de viagem, desceu do trem em Frankfurt, comprou um estroboscópio de brinquedo e analisou suas sensações internas em um estudo preliminar que realizou no quarto de um hotel. Mais tarde, con­duziu um programa de pesquisa mais abrangente na Universidade de Frankfurt, com dois psicólogos, Koffka e Köhler.

O problema de pesquisa de Wertheimer, para a qual Koffka e Köhler serviram como sujeitos, envolvia a percepção do movimento aparente, ou seja, do movimento quando não há efetivamente o movimento físico. Wertheimer referia-se a essa percepção como "impressão" do movimento. Usando o taquistoscópio, projetava a luz através de duas fen­das, uma vertical e a outra com ângulo de 20 ou 30 graus da vertical. Se a luz era projetada primeiro por uma fenda e depois através da outra, com um intervalo relativamente longo entre elas (mais de 200 milissegundos), os sujeitos enxergavam algo como duas luzes sucessivas, primeiro em uma fenda e depois na outra. Quando o intervalo entre as luzes era menor, os observadores percebiam duas luzes que pareciam contínuas. Com um bom intervalo entre as luzes, cerca de 60 milissegundos, eles enxergavam um único feixe de luz que parecia se mover de uma fenda a outra, voltando novamente ao lugar.

Essas descobertas podem parecer pouco importantes. Os cientistas conhecem o fenô­meno há anos, e ele parece fazer parte do senso comum. No entanto, de acordo com a posição predominante na psicologia, que era dominada pela visão de Wundt, toda expe­riência consciente era passível de análise em elementos sensoriais. Portanto, como explicar a percepção do movimento aparente como uma soma de elementos individuais, quando os elementos eram simplesmente duas fendas fixas de luz? Seria possível adicionar um estímulo fixo a outro para produzir uma sensação de movimento? Não, não era possível, e foi exatamente esse o ponto demonstrado de modo simples e brilhante por Wertheimer, o qual confrontou a explicação baseada no sistema de Wundt.

Wertheimer acreditava que o fenômeno na forma verificada no laboratório era tão elementar quanto uma sensação, mas era diferente de uma sensação ou de uma série delas. Denominou essa noção de fenômeno phi. E como Wertheimer explicava o fenômeno phi quando a psicologia da época não conseguia encontrar nenhuma explicação? Sua resposta era tão simples quanto sua pesquisa. O movimento aparente dispensa qualquer explicação. Ele existe assim como é percebido e não pode ser reduzido em um elemento mais simples.

Para Wundt, a introspecção do estímulo produzia apenas duas linhas de luz e nada mais, no entanto não importa quão rigorosamente um observador realizasse a introspec­ção dos dois feixes de luz, a experiência de uma única linha em movimento persistia. Qualquer tentativa de análise fracassava. Toda a experiência, que consistia no movimento aparente do feixe de uma fenda a outra, era distinta da soma das partes (as duas linhas fixas). Desse modo, a psicologia associacionista e elementarista, rebatida, não fora capaz de sustentar o seu ponto de vista.

Wertheimer publicou os resultados da pesquisa, em 1912, no artigo intitulado “Expe­rimental studies of perception of moviment" ("Estudos experimentais de percepção do movi­mento"), considerado o marco formal da escola de pensamento da psicologia da Gestalt.

Max Wertheimer (1880-1943)

Max Wertheimer frequentou as escolas locais até completar 18 anos. Estudou direito na University of Prague, mudou sua graduação para filosofia, participou das aulas de Ehrenfels e então seguiu para a Univerdadide of Berlin para prosseguir o estu­do de filosofia e psicologia. Obteve o doutorado, em 1904, da University of Würzburg, sob a orientação de Oswald Külpe. Seguiu para a University of Frankfurt para lecionar e realizar pesquisas, obtendo uma posição acadêmica em 1929. Durante a Primeira Guerra Mundial, realizou pesquisas militares com os aparelhos de escuta dos submarinos e dos fortes localizados nas regiões portuárias.

Na década de 1920, na Universidade de Berlin, Wertheimer desempenhou alguns de seus trabalhos mais produtivos para o desenvolvimento da psicologia da Gestalt. Um discípulo seu lembra-se de que as paredes do escritório de Wertheimer eram pintadas de vermelho vivo. Aparentemente ele achava que cores fortes eram estimulantes, e que, se as paredes fossem pintadas de cinza, ou verde-claro, ou outra cor maçante, as pessoas não trabalhariam tão bem como se fossem pintadas de cores excitantes como o vermelho" (King e Wetheimer, 2005, p. 188).

O estilo das aulas de Wertheimer era estimulante e sua imaginação também era muito viva; alguns alunos achavam que isso facilitava o entendimento, mas outros achavam confuso e obscuro. Uma aluna, entusiasmada pela paixão, zelo e convicções do professor, acreditava, a princípio, que poucos sabiam sobre o que Wertheimer estava falando. "De­morou praticamente um ano para que eu, particularmente, indo a duas ou três aulas por semana, entendesse o que ele dizia. Quando entendíamos, ficávamos muito satisfeitos! Nossa vida mudava, toda nossa visão sobre ela modificava. De repente, tudo ficava colorido e cheio de vida e começava a fazer sentido" (King e Wertheimer, 2004, p. 171).

A vida daquela aluna mudou significativamente. Aos 22 anos de idade ela se casou com seu professor de 43 anos, apesar de ter lhe avisado sobre sua obsessão pelo trabalho. "Deve sempre se lembrar", ele lhe disse, "que estarei sempre à minha mesa trabalhando. Preciso criar a teoria da Gestalt" (King e Wetheimer, 2005, p. 172). Ele não estava exagerando.

Em 1921 Wertheimer, Koffka, e Kõhler assistidos por Kurt Goldstein e Hans Gruhle, fundaram o periódico Psychological Research, que se tornou a publicação oficial da escola de pensamento da Gestalt. O governo nazista suspendeu sua publicação em 1938, mas ela foi retomada após a guerra, em 1949.

Wertheimer fazia parte do primeiro grupo de estudiosos a fugir da Alemanha nazista para os Estados Unidos, chegando em Nova York em 1933. Associou-se à New School for Social Research, onde permaneceu até sua morte, 10 anos mais tarde. Embora seus anos nos Estados Unidos tivessem sido produtivos, teve dificuldade em se adaptar a uma nova língua e cultura.

Wertheimer impressionou muito o jovem psicólogo Abraham Maslow, que aparente­mente ficou tão admirado que começou a estudar as características pessoais de Wethei­mer. Por essas observações sobre Weitheimer e outros, Maslow desenvolveu o conceito de autorrealização e posteriormente promoveu a escola de pensamento da psicologia humanística.

Kurt Koffka (1886-1941)

Kurt Koffka, nascido em Berlim, foi o mais criativo dentre os fundadores da psicologia da Gestalt. Interessado em ciência e filosofia, frequentou a Universidade de Berlin. Estudou psi­cologia com Carl Stumpf, obtendo o Ph.D. em 1909. No ano seguinte, começou a longa e frutífera relação com Wertheimer e Köhler, na Universidade Frankfurt. Koffka afirmou:

Pessoalmente, a simpatia era recíproca, tínhamos o mesmo entusiasmo, o mesmo tipo de formação e nos encontrávamos diariamente para discutir todas as questões, sob o sol (...) ainda [posso] sentir a emoção da experiência quando começou a me ocorrer o verdadeiro significado do fenômeno phi. (...) e que agora, no formato final, tornara-se objeto mani­pulável, finalmente ingressou no sistema da psicologia. (apud Ash, 1995, p. 120, 131)

Em 1911, Koffka aceitou uma posição na Universidade de Giessen, a 64 quilômetros de Frankfurt, onde permaneceu até 1924. Durante a Primeira Guerra Mundial, trabalhou em uma clínica psiquiátrica, tratando de pacientes afásicos e com danos cerebrais.

Depois da guerra, percebendo que os psicólogos estadunidenses estavam tomando conhe­cimento dos desenvolvimentos da psicologia da Gestalt, na Alemanha, Koffka escreveu um artigo para a revista estadunidense Psychological Bulletin intitulado "Perception: an introduction to the Gestalt-Theorie" ("Percepção: uma introdução à teoria da Gestalt") (Koffka, 1922). Apresentou os conceitos básicos da psicologia da Gestalt, acompanhados dos resultados e das consequências de várias pesquisas.

Apesar da importância do artigo como a primeira explicação completa do movimen­to da Gestalt para psicólogos estadunidenses, ele parece ter provocado mais danos do que benefícios. A palavra percepção, usada no título, criou um enorme equívoco, dando a impressão de que os psicólogos da Gestalt lidavam exclusivamente com percepção e de que movimento não era importante para as outras áreas da psicologia. A psicologia da Gestalt, na verdade, preocupava-se mais amplamente com os processos cognitivos, as questões relacionadas ao pensamento, a aprendizagem e outros aspectos da experiência consciente. O psicólogo Michael Wertheimer, filho de Max Wertheimer, deu a seguinte explicação para o enfoque inicial da Gestalt em relação à percepção:

A principal razão para que os primeiros psicólogos da Gestalt se concentrassem em suas publicações sistemáticas sobre a percepção deve-se ao Zeitgeist: a psicologia de Wundt, contra a qual os gestálticos se rebelaram, recebia muito apoio das pesquisas sobre sensa­ção e percepção, então os psicólogos da Gestalt escolheram a percepção como arena para atacar Wundt no próprio reduto. (Michael Wertheimer, 1979, p. 134)

Em 1921, Koffka publicou "The growth of the mind", um livro a respeito da psicologia do desenvolvimento infantil, que teve sucesso na Alemanha e nos Estados Unidos. Koffka lecionou como professor visitante na Cornell University e na University of Wisconsin, e, em 1927, foi indicado para lecionar na Smith College, em Northampton, Massachusetts, onde permaneceu até a morte, em 1941. Em 1935, publicou Principies of Gestalt psychology, obra de difícil leitura que, portanto, não se tornou a abordagem definitiva da psicologia da Gestalt, contrariando as expectativas do autor.

Wolfgang Köhler (1887-1967)

Wolfgang Köhler foi o porta-voz do movimento da Gestalt. Seus livros, escritos com cui­dado e precisão, tornaram-se trabalhos-padrão na psicologia da Gestalt. Os estudos de física realizados com Max Planck convenceram Köhler de que a psicologia devia aliar-se à física e que as Gestalten (formas ou padrões) ocorriam não apenas na física, mas também na psicologia.

Nascido na Estônia, Köhler estava com 5 anos quando a família se mudou para o norte da Alemanha. Estudou em universidades em Tübingen, Bonn e Berlim, e doutorou-se orien­tado por Stumpf, na Universidade de Berlin, em 1909. Seguiu para a Universidade de Frankfurt, chegando pouco tempo antes de Wertheimer e seu estroboscópio de brinquedo.

Em 1913, a convite da Academia de Ciência da Prússia, viajou para o Tenerife, nas ilhas Canárias, próximo à costa noroeste da África, para estudar os chimpanzés. Seis meses depois da sua chegada, começou a Primeira Guerra Mundial, e Köhler informou à Alemanha não ter condições de retornar (outros cidadãos alemães conseguiram voltar ao país durante a guerra). Um psicólogo chegou a insinuar, baseado na sua interpretação idiossincrática dos dados históricos, que Köhler talvez fosse um espião alemão e que o seu local de pesquisa não passava de um disfarce para as atividades de espionagem (Ley, 1990). Acusaram-no também de transmitir informações sobre os movimentos das frotas aliadas por meio de um potente radiotransmissor escondido no alto da sua casa. No entan­to, as provas que sustentam essas acusações são circunstanciais e foram contestadas pelos seguidores de Köhler e por outros historiadores (in Lück, 1990).

Seja como espião ou como um cientista desamparado por causa da guerra, Köhler passou os sete anos seguintes estudando o comportamento dos chimpanzés. Registrou o trabalho no clássico volume The mentality of the apes (1917), lançado em segunda edição em 1924 e traduzido para o inglês e o francês. Embora no começo considerasse interessante a pesquisa com os chimpanzés, logo se cansou de trabalhar com os animais, e declarou:

Dois anos observando macacos todos os dias; qualquer um acaba se transformando em um 'chimpanzoide' (...) e não consegue mais perceber facilmente qualquer característica do animal" (apud Ash, 1995, p. 167).

Em 1920, Köhler retornou à Alemanha. Vendeu os chimpanzés para o zoológico de Berlim, que, entretanto, por não suportarem a mudança climática, não sobreviveram muito tempo. Dois anos depois, Köhler substituiu Stumpf como professor de psicologia da Universidade de Berlin. A razão mais provável para essa honrosa indicação teria sido a publi­cação de Static and stationary physical Gestalts (1920), livro bastante elogiado em virtude do seu elevado grau de erudição. Nele, Köhler sugere que a teoria da Gestalt consistia em uma lei geral da natureza que pode ser amplamente aplicada em todas as ciências.

Na metade da década de 1920, Köhler se divorciou da esposa e casou com uma jovem aluna sueca rica, e depois disso, cortou contato com os quatro filhos do primeiro casa­mento. Cerca de 60 anos depois, sua segunda esposa disse em uma entrevista que Köhler se opunha ao casamento por princípio, vendo-o como uma "imposição à sua liberdade," e que não gostava da vida familiar. Ele achava que "todos deveriam ser livres" (apud Ley, 1990, p. 201). Não muito tempo depois disso Köhler desenvolveu um tremor nas mãos, que era mais notado quando estava aborrecido. Seus assistentes de laboratório observavam todas as manhãs o tremor das mãos dele para avaliar o grau do seu humor.

No ano letivo de 1925-1926, Köhler lecionou na Harvard University e na Clark Uni­versity, onde também ensinou os estudantes de pós-graduação a dançarem o tango. Em 1929, publicou Gestalt psychology, uma descrição completa do movimento da Gestalt. Deixou a Alemanha nazista em 1935 por causa de divergências com o governo. Depois de criticar o regime em suas aulas, uma gangue de nazistas invadiu a classe. As ameaças não o impediram de correr riscos que facilmente levariam à sentença de morte. Motivado pela demissão dos professores judeus das universidades alemãs, escreveu uma carta corajosa criticando o nazismo, e enviou-a para um jornal de Berlim. À tarde, a carta foi publicada, e ele e alguns amigos permaneceram em casa, aguardando a Gestapo para prendê-lo; mas a temida batida na porta jamais ocorreu.

Um historiador contemporâneo comentou que Köhler foi o único psicólogo não ju­deu na Alemanha a protestar publicamente contra as demissões dos intelectuais judeus (Geuter, 1987). A maioria dos professores e dos alunos apoiou com entusiasmo o governo nazista desde o princípio. Um professor chamou Adolf Hitler de "grande psicó­logo" e outro elogiou-o, dizendo ser um homem de "visão, corajoso e emocionalmente profundo" (apud Ash, 1995, p. 342). Os líderes da German Psychological Society [Socie­dade Alemã de Psicologia] apoiaram imediatamente o regime nazista, demitiram editores judeus, mesmo antes das leis que determinariam tais demissões, e rendiam homenagens públicas a Hitler. Nas reuniões da sociedade, proclamavam a "influência demoníaca" dos judeus (Mandler, 2002b, p. 197).

Depois de emigrar para os Estados Unidos, Köhler lecionou na Swarthmore College, Pensilvânia, publicou diversos livros e editou a revista gestáltica Psychological Research. Em 1956, recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica da APA, órgão que em 1959, elegeu-o seu presidente.

A Natureza da Revolta da Gestalt

As ideias dos psicólogos da Gestalt contradiziam grande parte da tradição acadêmica da psicologia alemã. Nos Estados Unidos, o behaviorismo não se constituiu em uma revolta tão imediata contra a psicologia wundtiana e contra o estruturalismo de Titchener, por­ que o funcionalismo já provocara mudanças básicas na psicologia estadunidense. O caminho para a revolução da Gestalt, na Alemanha, não contou com efeitos assim moderados. - declarações dos psicólogos da Gestalt eram consideradas total heresia.

Como a maioria dos revolucionários intelectuais, os líderes da Gestalt exigiam com­pleta revisão da antiga ordem. Köhler declarou:

Estamos entusiasmados com o que descobrimos, e ainda mais com a perspectiva de constatar mais fatos reveladores. (...) a inspiração não veio apenas da novidade do nosso trabalho. Ocorreu também uma grande onda de alívio - como se estivéssemos fugindo de uma prisão. A prisão era a psicologia tal como era ensinada nas universidades, quando ainda éramos estudantes. (Köhler, 1959, p. 728)

Depois que Wertheimer passou a estudar a percepção do movimento aparente, os psicólogos da Gestalt começaram a se dedicar a outro fenômeno perceptual. A experiên­cia da constância perceptual produziu apoio adicional para as suas visões. Por exemplo quando paramos em frente a uma janela, uma imagem retangular é projetada na nossa retina, mas, quando paramos de lado, a imagem da retina transforma-se em um trapezoide, embora, é claro, continuemos a perceber a janela no formato retangular. A percepção sobre a janela permanece constante, embora a informação sensorial (a imagem projetada na retina) mude.

O mesmo ocorre com a constância do tamanho e do brilho em que os elementos sensoriais mudam, mas não a percepção. Nesses casos, assim como no movimento apa­rente, a experiência perceptual é dotada da qualidade da totalidade ou da integridade não encontrada em nenhuma parte componente. Assim, existe uma diferença entre o caráter da estimulação sensorial e da percepção em si. A percepção não pode ser explicada simplesmente como um conjunto de elementos ou a soma das partes.

A percepção é um todo, uma Gestalt, e qualquer tentativa de analisá-la ou reduzi-la em elementos a destruirá.

Começar com os elementos é começar de forma errada, já que eles são produtos da refle­xão e da abstração, derivados remotamente a partir da experiência imediata e utilizados para explicá-la. A psicologia da Gestalt tenta retornar à percepção simples, à experiência imediata (...) e insiste em afirmar que não encontra ali conjuntos de elementos, mas uni­dades completas; não massas de sensações, mas árvores, nuvens e céu. E essa afirmação convida todos à verificação, simplesmente abrindo os olhos e olhando apenas para o mundo de forma simples e cotidiana. (Heidbreder, 1933, p. 331)

A própria palavra Gestalt criou dificuldades. Diferentemente do termo funcionalismo ou behaviorismo, ela não expressa a ideia principal do movimento. Além disso, não exis­te equivalente exato na língua inglesa, embora hoje o termo já faça parte da linguagem cotidiana da psicologia. Os termos equivalentes mais comuns seriam "forma", "formato" e "configuração".

Na obra Gestalt psychology (1929), Köhler afirmou que a palavra era empregada de duas maneiras na Alemanha. Uma que denota a forma ou o formato como propriedade dos objetos. Nesse sentido, Gestalt refere-se às propriedades gerais expressas em questões como angular ou simétrico e descreve as características como a forma triangular de uma figura geométrica ou o ritmo de uma melodia. A segunda forma denota a unidade ou a entidade concreta que tem como atributo uma forma ou um formato específico. E, nesse sentido, a palavra diz respeito a, digamos, triângulos, e não à noção do formato triangu­lar da figura.

Assim, Gestalt pode ser usada para se referir a objetos ou às suas características formais. Além disso, o termo não se restringe ao campo visual nem mesmo a todo o campo senso­rial. Ele pode abranger a aprendizagem, o pensamento, as emoções e o comportamento (Köhler, 1947). É nesse sentido geral e funcional da palavra que os psicólogos da Gestalt tentaram lidar com toda a área de atuação da psicologia.

Os Princípios da GestoIt sobre a Organização Perceptual

Wertheimer apresentou os princípios de organização perceptual da escola de psicologia da Gestalt em um artigo publicado em 1923. Ele alegava que percebemos os objetos do mesmo modo que observamos o movimento aparente, como unidades completas e não como agrupamentos de sensações individuais. Esses princípios da Gestalt seriam as regras fundamentais por meio das quais organizamos nosso universo perceptual.
Uma premissa subjacente estabelece que a organização perceptual ocorre instantanea­mente, sempre que percebemos diversos padrões ou formatos. As minúsculas partes do campo perceptual unem-se para formar estruturas distintas das originais. A organização perceptual é espontânea e inevitável, sempre que vemos ou ouvimos. Normalmente, não precisamos aprender a formar padrões, como afirmavam os associacionistas, embora algumas percepções de nível superior, como nomear os objetos, dependam da aprendizagem.

De acordo com a teoria da Gestalt, o cérebro é um sistema dinâmico em que todos os elementos ativos interagem em determinado momento. A área visual do cérebro não responde separadamente aos elementos individuais do estímulo visual, conectando-os mediante algum processo mecânico de associação. Ao contrário, os elementos similares, ou bem próximos, tendem a se combinar, e os elementos diferentes ou distantes, a não se combinar.

Listamos a seguir vários princípios de organização perceptual ilustrados na Figura 12.1.

  1. Proximidade. As partes bem próximas umas das outras no tempo e no espaço parecem unidas e tendem a ser percebidas juntas. Na Figura 12 1(a) percebemos círculos nas três colunas duplas e não apenas como um grande conjunto;
  2. Continuidade. Ha uma tendência de a nossa percepcão seguir uma direção para conectar os elementos de modo que eles pareçam contínuos ou fluir, em uma direção especifica. Na Figura 12.1(a), a tendência é seguir as colunas com pequenos círculos de cima para baixo;
  3. Semelhança. As parte similares tendem a ser vistas juntas, formando um grupo. Figura 12.1 (b ), os círculos e os pontos parecem juntos, e a tendência é perceber três quadrados, mesmo que as figuras estejam incompletas;
  4. Preenchimento. Há uma tendência da nossa percepção em completar as figuras incompletas, de preencher as lacunas. Na Figura 12.1(c), é possível perceber três quadrados, mesmo que as figuras estejam incompletas.
  5. Simplicidade. Há uma tendência de vermos a figura como tendo boa qualidade sob as condições de estímulos; a psicologia da Gestalt chama essa característica de Pragnanz ou boa forma. Uma boa Gestalt é simétrica, simples e estável e não pode ser mais simples nem mais organizada. Os quadrados na Figura 12.1(c) são boas Gestalts porque são claramente percebidos como completos e organizados;
  6. Figura/fundo. Ha uma tendencia de organizar as percepções do objeto a figura sendo visto e do fundo (a base) sobre o qual ele aparece. A figura parece mais substancial e também a destacar-se do fundo. Na Figura 12.1(d), ela e a base são reversíveis; e possível ver dois rostos ou um vaso, dependendo de como a percepção é organizada.

Esses princípios de organização não dependem dos processos mentais superiores nem de experiências passadas, pois estão nos próprios estímulos. Wertheimer chamou-os de fatores periféricos, reconhecendo também que os fatores centrais dentro do organismo influenciam a percepção. Por exemplo, sabe-se que os processos mentais superiores de familiaridade e de atitude afetam a percepção. No entanto, em geral, os psicólogos da Gestalt concentram-se mais nos fatores periféricos da organização perceptual do que nos efeitos da aprendizagem ou da experiência.

Os Estudos da Gestalt sobre a Aprendizagem: ínsight e a Mentalidade dos Macacos

Mencionamos anteriormente a longa visita de Köhler ao Tenerife (1913-1920), onde ele investigou a inteligência dos chimpanzés demonstrada por meio das habilidades na solução de problemas. Essas experiências foram realizadas tanto dentro como em volta das jaulas dos animais e envolveram apetrechos muito simples, como as barras das jaulas (usadas para bloquear o acesso), bananas, varas para puxar as frutas para dentro das jaulas e cai­xas que serviam de apoio para os animais tentarem alcançar as frutas penduradas no teto. Com base na visão de percepção da Gestalt, Köhler interpretou os resultados da pesquisa animal analisando toda a situação e as relações entre os estímulos. Acreditava que a reso­lução de problemas estava relacionada com a reestruturação do campo perceptual.

Em um dos estudos, colocou-se uma banana do lado de fora, com um barbante amar­rado chegando até a jaula. O macaco agarrou o barbante e puxou a banana para dentro, quase sem titubear. Köhler concluiu que, nessa situação, o animal percebera facilmente todo o problema. No entanto, se vários fios saíssem da jaula em direção à banana, o maca­co não saberia imediatamente qual deles puxar para obter a fruta. Assim, Köhler observou que, nessa situação, o animal não conseguia visualizar claramente todo o problema.

Em outro estudo, colocou-se um pedaço da fruta do lado de fora, pouco além do alcan­ce do animal. Quando se colocou uma vara perto das grades, em frente à fruta, os dois objetos foram percebidos como parte da mesma situação, e o animal rapidamente usou a vara para puxar a fruta. Mas, se a vara era colocada no fundo da jaula, então os dois objetos (a vara e a banana) não eram prontamente vistos como parte do mesmo problema. Nesse caso, era preciso reestruturar o campo perceptual para o chimpanzé resolver a questão.

Outra experiência consistiu em colocar uma banana fora da jaula e além do alcance do animal e, do lado de dentro, duas varas ocas de bambu que não eram de tamanho sufi­ciente para puxar a fruta. Para isso, o animal tinha de juntar as duas (inserindo a ponta de uma dentro da extremidade da outra) para criar outra do tamanho que precisava.

Assim, para solucionar o problema, o animal tinha de perceber uma nova relação entre as duas varas. 

O trecho a seguir, extraído do livro de Köhler, descreve mais estudos e observações acerca da aprendizagem dos chimpanzés. Köhler discute os esforços dos animais para aprenderem a usar os acessórios a fim de que eles obtenham a comida que, de outro modo, não conseguiriam. Essas experiências mostram como os animais aprendem as usar caixas para alcançar o objeto de estímulo, normalmente uma banana suspensa no teto da jaula. Observe como Köhler empregou uma linguagem não-técnica para descrever o trabalho. Ele se concentrou na personalidade e nas diferenças individuais dos seus sujeitos de pesquisa.

Não adotou nenhuma forma de medição ou experimentação, nenhum tratamento expe­rimental rigoroso, grupos de controle nem análises estatísticas. Köhler descreveu suas observações das reações dos animais às situações criadas.


Texto original 

Trecho sobre a Psicologia da Gestalt, Extraído de The Mentalitv of Apes (1927), de Wolfgang Kõhler

O chimpanzé não recebeu da vida apenas alguma aptidão especial para ajudá-lo a alcançar os objetos colocados no alto, empilhando os materiais de construção; ao contrário ele é capaz de realizar muito por esforço próprio, quando as circunstâncias assim exigirem e quando hou­ver material disponível.

O ser humano adulto tende a não perceber as reais dificuldades do chimpanzé diante dessa construção, por assumir que o fato de acrescentar um segundo material de construção ao pri­meiro é apenas uma repetição do ato de posicionar o primeiro no chão (debaixo do objetivo); que, quando a primeira caixa está no chão, é como se a sua superfície fosse do mesmo nível do solo e, portanto, o único fator novo nesse processo de construção seria o levantamento efetivo do material. Assim, as únicas dúvidas seriam se os animais realizam ordenadamente o seu trabalho, se manipulam as caixas desajeitadamente ou de outra forma. (...)

Todavia, a existência de outra dificuldade específica se tornaria óbvia ao se observar mais detalhadamente a primeira tentativa de Sultão durante a realização dessa tarefa quan­do Sultão [considerado o chimpanzé mais inteligente] apanha e levanta peia primeira vez a segunda caixa, balançando-a estranhamente sobre a primeira, mas não a põe em cima dela. Na segunda vez, coloca-a em cima da que está no chão, com o lado maior virado no sentido vertical aparentemente sem qualquer hesitação, mas a construção ainda fica muito baixa já que o objetivo foi pendurado, sem querer, alto demais.

A experiência continua imediatamente, com o objetivo pendurado agora a aproximada­mente dois metros da lateral, em um ponto mais baixo do teto, e com a construção de Sultão mantida no mesmo lugar. Entretanto, o fracasso de Sultão parece provocar um efeito posterior perturbador, por muito tempo ele ignora as caixas, diferentemente das outras vezes, em que achava uma nova solução, em geral repetindo prontamente a ação. (...)

Mais tarde, durante a experiência, um curioso incidente ocorre: o animal volta a adotar os métodos antigos, tenta puxar o tratador pelas mãos para conduzi-lo até o objetivo, sendo repelido, tenta fazer o mesmo comigo, e novamente é rejeitado. Em seguida, orientamos o tratador para que, caso Sultão tente puxá-lo novamente, ele finja ceder, mas, assim que o animal subir nos seus ombros, deve se ajoelhar e ficar bem baixo.

Logo isso realmente acontece: depois de arrastar o tratador até ficar debaixo do objetivo Sultão sobe nos seus ombros e o homem rapidamente dobra os joelhos. O animal sai de cima dele, resmungando, segura-o com as duas mãos pelos quadris, e tenta com toda a força empurra-lo para cima. Uma forma surpreendente de tentar aprimorar o instrumento humano!

Agora que Sultão não toma mais conhecimento das caixas, já que descobriu a solução sozinho, parece razoável remover o motivo do seu fracasso. Coloquei as caixas uma sobre a outra para Suitão, debaixo do objetivo, exatamente como ele fizera da primeira vez, e deixei-o pegar o objetivo.

Em relação ao esforço de Sultão em empurrar o tratador, tentando endireitá-lo, desejo logo de início refutar a acusação de equívoco na interpretação da "leitura do animal"; trata-se apenas de uma descrição do procedimento, e não há nenhuma possibilidade de equívoco. Todavia, a fim de evitar qualquer suspeita, por se tratar de um caso isolado (suspeita, de qualquer modo, injustificável, considerando que Sultão tenta utilizar tanto o tratador como a mim, não apenas uma, mas várias vezes, como um apoio), devo acrescentar resumidamente a descrição de outros casos semelhantes:

Sultão não consegue resolver o problema quando o objetivo está do lado de fora e além do seu alcance; eu me encontro perto dele, dentro da jaula. Depois de todo tipo de tenta­tiva fracassada, o animal aproxima-se de mim, segura o meu braço, arrasta-me em direção às grades, puxando, ao mesmo tempo, o meu braço com toda a força na sua direção, e, em seguida, empurra o meu braço pelas grades, na direção do objetivo. Como eu não pego o objetivo, vai em direção ao tratador, e tenta fazer o mesmo com ele.

Mais tarde ele repete o procedimento, apenas com uma diferença: primeiro, ele tem de me chamar com lamúrias, como se estivesse suplicando, já que dessa vez estou do lado de fora. Nesse caso, assim como no primeiro, ofereci tanta resistência que o animal quase não conseguiu superá-la e não me largou até que a minha mão efetivamente alcançasse o objetivo; no entanto não lhe fiz o favor (para o bem das futuras experiências) de levá-lo até ele.

Devo mencionar ainda que, em um dia quente, os animais tiveram de esperar mais tempo que o normal pela tigela d'água, de modo que, por fim, eles simplesmente tentaram agarrar as mãos, os pés ou os joelhos do tratador e empurrá-lo com toda força em direção à porta, atrás da qual normalmente ficava guardada a jarra d'água. Durante algum tempo, esse com­ cortamento tornou-se rotineiro; se o homem tentava alimentá-los com as bananas, Chica calmamente as tirava da mão do tratador e as colocava de lado, e o empurrava na direção da porta (Chica estava sempre com sede).

Talvez seja um equívoco pensar que os chimpanzés não tenham noção ou que sejam estúpidos em relação a essas questões. Devo acrescentar que os animais percebem o corpo humano com certa facilidade, quando vestido com roupas comuns, como camisa e calças e sem qualquer tipo de casaco. Se alguma coisa os deixa intrigados, eles investigam imediata­mente, e qualquer grande mudança na maneira de vestir ou na aparência (por exemplo, uma barba) faz com que Grande e Chica realizem prontamente uma investigação minuciosa.

Depois do auxílio encorajador a Sultão, as caixas foram deixadas novamente de lado. Um novo objetivo é pendurado no mesmo ponto no teto da jaula. Sultão imediatamente empilha as duas caixas, mas no mesmo lugar em que o objetivo fora pendurado, bem no início da experiên­cia, e onde ficara a sua primeira construção. Em cerca de 100 casos usando as caixas, essa foi a única ocasião em que esse tipo de estupidez foi cometido. Sultão parece confuso quando está fazendo isso, e provavelmente muito cansado, já que a experiência durou mais de uma hora e em um local quente. Sultão continuou a empurrar as caixas de um lado a outro, praticamente ao acaso, até colocá-las novamente uma sobre a outra e debaixo do objetivo; ele pega a fruta e nós o deixamos sair. Somente em uma ocasião o vi assim tão confuso e perturbado. 

No dia seguinte, fica claro que deve haver uma dificuldade específica contida no problema em si. Sultão carrega uma caixa e coloca-a debaixo do objetivo, mas não traz a segunda caixa; por fim, acabamos empilhando-as e assim ele alcança a meta. o novo problema que se segue imediatamente (a construção novamente foi destruída) não o induz a trabalhar; ele continua tentando usar o observador como apoio; e assim, mais uma vez, montamos a construção para ele. No terceiro problema, debaixo do objetivo, Suitão coloca uma caixa, puxa a outra e a põe ao lado, mas pára no momento crítico: seu comportamento provoca total perplexidade; ele continua olhando para o objetivo e, ao mesmo tempo, tenta desajeitadamente agarrar a segunda caixa. Então, quasa de repente, ele a agarra com firmeza, faz um movimento seguro, colocando-a sobre a primeira. Sua longa indecisão é totalmente contraditória em relação a essa solução repentina.

Dois dias depois, repetimos a experiência; o objetivo é novamente pendurado em outro ponto. Sultão coloca uma caixa um pouco inclinada debaixo do objetivo, traz a segunda - começa a levantá-la, todo o tempo olhando para o objetivo, quando a deixa cair novamente. Depois de diversas ações (tentando subir até o teto, empurrando o observador para cima), ele recomeça a construir; coloca cuidadosamente a primeira caixa com o lado maior no sentido vertical debaixo do objetivo, e agora faz enorme esforço para colocar a segunda em cima a caixa gira e balança de um lado a outro e acaba ficando sobre a outra, mas com o lado menor no sentido vertical e com a parte aberta presa em um dos cantos. Sultão sobe nelas e imediatamente destrói a construção, jogando tudo no chão.

Muito cansado, fica deitado em um canto da sala, dali olhando as duas caixas e o objetivo. Somente depois de passado um tempo razoável, ele retoma o trabalho; coloca uma caixa no sentido vertical e tenta alcançar o objetivo; desce, pega a segunda e finalmente, com muito cuidado, consegue colocá-la no sentido vertical sobre a primeira, mas as duas não estão exatamente uma sobre a outra, por isso, cada vez que ele tenta subir, as caixas começam a desabar. Somente depois de uma longa tentativa, durante a qual o animal nitidamente age quase cegamente, deixando o sucesso ou o fracasso por conta de movimentos aleatórios consegue colocar a caixa de cima em posição mais segura, finalmente atingindo o objetivo.

Depois dessa tentativa, Sultão passou a usar sempre e imediatamente a segunda caixa, e acima de tudo, sem hesitar quanto ao lugar em que deveria colocá-la.


Comentários

Para Köhler, esses estudos e outros similares proporcionavam evidências do insight, a espontânea e aparente apreensão ou compreensão das relações. Sultão finalmente obteve o insight do problema depois de várias tentativas, assimilando as relações entre as caixas e a banana pendurada sobre a sua cabeça. A palavra em alemão que Köhler usou para des­crever esse fenômeno foi Einsicht, traduzida para o inglês como insight ou compreensão.

Não tem nenhum condicionamento acontecendo, ele escreveu; "ao contrário, depois de um determinado ponto, o animal entende o que está ocorrendo, e então, o comporta­mento resultante é, logicamente, perfeito" (apnd Ley, 1990, p. 182). Em outro exemplo de descoberta simultânea e independente, o psicólogo estadunidense de animais Robert Yerkes encontrou evidências, em experiências com orangotangos, para sustentar o conceito de insight, e a denominou "aprendizagem ideacional".

Na decada de 1930, Ivan Pavlov repetiu algumas das pesquisas de Köhler em que o macaco precisava colocar uma caixa sobre a outra para alcançar a comida suspensa no teto. Constatou que os animais levavam diversos meses para resolver o problema. Questionou a hipótese de Köhler de que os macacos obtinham o insight da situação e chamou de "caótico" o comportamento dos animais na solução do problema. Pavlov disse que as respostas por ele obtidas não eram tão diferentes daquelas da aprendizagem por ensaio-e-erro da pesquisa de Thorndike (Windholz, 1997).

Em 1974, o tratador dos chimpanzés de Köhler, Manuel Gonzalez y Garcia, descreveu a pesquisa em uma entrevista. Contou diversas histórias sobre os animais, e principal­mente de Sultão que costumava ajudá-lo a alimentar os outros animais. Gonzalez dava a Sultão cachos de bananas para segurar. "Mediante uma ordem, 'duas para cada', Sultão caminhava recinto e distribuía duas bananas para cada um dos macacos". Um dia, Sultão viu o tratador pintando uma porta. Quando o homem saiu, o animal pegou o pincel e começou a imitar o comportamento que observara. Em outra ocasião, o o caçula de Köhler, Claus, sentou-se em frente da jaula, tentando sem êxito empurrar uma banana entre as grades. Sultão, dentro da gaiola e aparentemente sem fome, girou a banana 90 graus, de modo que a fruta pudesse passar entre as barras, enquanto Köhler dizia a seu filho que Sultão era mais esperto do que ele.

Certa vez, Sultão de algum modo encorajou Claus a subir uma árvore até o topo e o menino se recusava a descer, apesar das ordens severas de seu pai. Quando Claus final­mente desceu, Kohler o agarrou, abaixou seus shorts, e deu uma surra nele. Logo depois disso, Sultão agarrou Kohler, e abaixou suas calças por trás. Cerca de 70 anos depois Claus contou essa história para um entrevistador, com os olhos brilhando de prazer. Köhler acreditava que o insight e as habilidades para resolver problemas demonstrados pelos chimpanzés eram diferentes da aprendizagem por ensaio-e-erro descrita por Thorn­dike. Köhler criticava o trabalho de Thorndike, alegando que as condições experimentais eram artificiais e que permitiam a demonstração apenas de comportamentos aleatórios dos animais. E afirmou que os gatos das caixas-problema de Thorndike não exploravam todo o mecanismo que os libertava (todos os elementos pertencentes a toda a situação) e assim apresentavam apenas respostas de ensaio-e-erro.

Do mesmo modo, um animal dentro do labirinto não pode ver todo o padrão ou o formato, mas apenas o corredor que encontra. Portanto, os animais não têm muita opção a nao ser arriscar um caminho por vez. Na visão da Gestalt, o organismo deve estar apto a perceber as relações entre as várias partes do problema antes que a aprendizagem por insight ocorra. 

Esses estudos a respeito do insight sustentavam o conceito global ou molar dos psicólogos da Gestalt em relação ao comportamento, ao contrário da visão atomística e mole­cular promovida pelos behavioristas. A pesquisa também reforça a ideia da Gestalt de que a aprendizagem envolve a reorganização ou reestruturação do ambiente psicológico do indivíduo.

O Pensamento Humano Produtivo

O livro de Wertheimer a respeito do pensamento produtivo (Wertheimer. 1945), publicado após a sua morte, apresentou os princípios da Gestalt sobre a aprendizagem aplicados a pensamento criativo humano. Sua proposta afirmava que o pensamento forma-se com um todo. O aprendiz assim considera a situação, e o professor deve apresentá-la igualmente É possível notar as diferenças entre esse método e o do ensaio-e-erro, em que a solução do problema, em certo sentido, fica oculta, e o aprendiz pode cometer erros antes de alcançar a resposta correta.

Os casos apresentados no livro de Wertheimer vão de processos de pensamento infan­til na solução de problemas de geometria até processos cognitivos complexos, como o do físico Albert Einstein na elaboração da teoria da relatividade. Em diversas faixas etárias e vários níveis de dificuldade, Wertheimer constatou evidências para sustentar a ideia de que o problema como um todo deve dominar as partes. Acreditava que os detalhes de um problema devessem ser considerados apenas em relação à situação inteira. Ademais, a solução do problema deve seguir do todo para as partes, e não o contrário.

Em um ambiente de sala de aula, por exemplo, se o professor organizar ou arrumar os elementos dos exercícios, como as palavras ou os números, em uma unidade com sen­tido, os alunos obterão mais facilmente o insight e assimilarão os problemas e as soluções. Wertheimer mostrou que, uma vez compreendido, o princípio básico de uma solução pode ser transferido ou aplicado em outras situações.

Ele desafiou as práticas educativas tradicionais, como a repetição mecânica de estru­turas e a aprendizagem dirigida, derivadas da abordagem associacionista. Considerava a repetição pouco produtiva e citava como prova a incapacidade de um aluno resolver a variação de um problema quando a solução fora adquirida por outro método e não assimi­lada por um insight. Concordava, no entanto, que nomes e datas deviam ser aprendidos por memorização, por meio de associação reforçada por repetição. Desse modo, admitia ser a repetição útil em alguns casos, mas insistia em que esse método produzia um desem­penho mecânico e não a compreensão ou um pensamento produtivo ou criativo.

O lsomorfismo

Satisfeitos por estabelecerem que os seres humanos percebem unidades organizadas e não conjuntos de elementos sensoriais, os psicólogos da Gestalt mudaram o enfoque para os mecanismos cerebrais envolvidos na percepção. Tentaram desenvolver uma teoria sobre correlatos neurológicos subjacentes das Gestalts percebidas. Descreviam o córtex cerebral como um sistema dinâmico, em que os elementos ativos interagem em um determinado momento. Essa ideia contradiz o conceito de semelhança entre o homem e a máquina, que compara a atividade neural a uma central telefônica, conectando mecanicamente as ligações sensoriais recebidas de acordo com os princípios da associação. Nessa visão associacionista, o cérebro opera de forma passiva e é incapaz de organizar ou modificar ativamente os elementos sensoriais recebidos. Essa última teoria também implica a cor­respondência direta entre a percepção e o seu equivalente neurológico.

Com base na sua pesquisa sobre o movimento aparente, Wertheimer sugeriu que a atividade cerebral é um processo integral de configuração. Como o movimento aparente e o real são percebidos de forma idêntica, os respectivos processos corticais também devem ser similares, ou seja, devem ocorrer processos cerebrais correspondentes.

Em outras palavras, deve haver uma correspondência entre a experiência consciente ou psicológica e a cerebral subjacente, responsável pelo fenômeno phi. Essa ideia é denomi­nada isomorfismo, princípio já aceito na biologia e na química. Os psicólogos da Gestalt compararam a percepção com um mapa, no sentido de ser idêntica ("iso") na forma ou formato ("morfo") ao que representa, sem ser uma cópia literal. No entanto, a percepção não é um guia confiável para perceber o mundo real.

Kohler aprofundou a posição de Wertheimer no trabalho Static and stationary physical gestalts (1920), em que afirmou comportarem-se os processos corticais de modo semelhan­te aos campos de força. Sugeriu que, tal como o comportamento de um campo de força eletromagnética em volta de um ímã, os campos de atividade neurais são estabelecidos por processos eletromecânicos do cérebro em resposta aos impulsos sensoriais.

A Expansão da Psicologia da Gestalt

Em meados da década de 1920, o movimento da Gestalt era uma escola de pensamento coerente, dominante e poderosa na Alemanha. Centralizado no Psychological Institute da University of Berlin, o movimento atraía muitos alunos de diversos países. O instituto estava instalado em uma das alas do antigo Palácio Imperial e orgulhava-se de possuir um dos maiores laboratórios do mundo, equipado para investigar diversas questões psicológicas do ponto de vista da Gestalt. A revista Psychological Research era muito lida e respeitada.

Depois de os nazistas assumirem o poder na Alemanha, em 1933, suas ações repressoras contra intelectuais e judeus forçaram muitos pesquisadores, inclusive os fundadores da psicologia da Gestalt, a deixarem o país. O núcleo da Gestalt se transferiu para os Estados unidos, disseminando-se por meio de contatos pessoais, bem como pelas publicações dos trabalhos. Mesmo antes da fundação formal da escola, muitos psicólogos estadunidenses haviam estudado com seus futuros líderes, absorvendo suas ideias. Herbert Langfeld, da Princeton University, conheceu Koffka em Berlim e enviou seu aluno E. C. Tolman à Ale­manha, o qual serviu como sujeito de pesquisa no programa de Koffka. Robert Ogden, da Cornell University, também conheceu Koffka. O pesquisador da personalidade, Gordon Allport, da Harvard University, passou um ano na Alemanha e declarou ter ficado muito impressionado com a qualidade da pesquisa experimental da Gestalt.

Alguns livros de Koffka e de Köhler foram traduzidos do alemão para o inglês, e rese­nhas foram publicadas nas revistas estadunidenses de psicologia. Uma série de artigos escritos pelo psicólogo estadunidense Harry Helson e publicados na American Journal of Psychology também ajudou a divulgar a teoria da Gestalt nos Estados Unidos (Helson, 1925, 1926). Koffka e Köhler estiveram nesse país para dar aulas e conferências em universidades. Koffka deu 30 palestras em três anos e, em 1929, Köhler foi um dos conferencistas a apresentar as diretrizes básicas do 9º Congresso Internacional de Psicologia, na Yale University (o outro palestrante foi Ivan Pavlov, que foi cuspido por um dos chimpasses de Robert Yerkes).

Assim, a psicologia da Gestalt vinha chamando a atenção nos Estados Unidos, por por diversas razões, a sua aceitação como escola de pensamento foi lenta. Primeiro que o behaviorismo estava no auge da popularidade. Segundo, porque havia uma barria linguística, isto é, as principais publicações da Gestalt eram em alemão, e a necessidade de tradução atrasava a divulgação completa e precisa daquela visão. Terceiro, com: já mencionamos, porque muitos psicólogos pensavam equivocadamente que a Gestalt se ocupava-se apenas à percepção. Quarto, porque os fundadores Wertheimer, Koffka e Kõhler instalaram-se em faculdades pequenas nos Estados Unidos, que não ofereciam programas de pós-graduação, portanto era difícil atraírem discípulos para transmitir suas ideias. Quinto, e o mais importante, porque a psicologia estadunidense havia avançado muito além das ideias de Wundt e Titchener, às quais os psicólogos da Gestalt estavam se opondo. O behaviorismo já era o segundo estágio da oposição estadunidense. Consequentemente a psicologia estadunidense, muito mais do que a alemã, já superara a posição elementarista de Wundt. Os psicólogos estadunidenses acreditavam que os psicólogos da Gestalt estavam lutando contra um inimigo que já haviam derrotado. Os psicólogos da Gestalt chegaram aos Estados Unidos protestando contra algo que não fazia mais sentido.

Esse cenário era arriscado para a sobrevivência da escola da Gestalt. Temos testemu­nhado por toda a história que o movimento revolucionário depende de uma oposição para sobreviver, algo para combater, se deseja promover suas ideias com êxito. Todavia, quando os psicólogos da Gestalt chegaram aos Estados Unidos, encontraram pouca oposição.

A Batalha contra o Behaviorismo

Quando os psicólogos da Gestalt perceberam quais eram as tendências na psicologia estadunidense, imediatamente estudaram o novo alvo. Se não havia sentido em protestar contra a psicologia wundtiana, que já desaparecera da psicologia estadunidense, então podiam atacar as qualidades reducionistas típicas da escola de pensamento behaviorista. Assim, os psicólo­gos da Gestalt alegavam que o behaviorismo, do mesmo modo que a psicologia de Wundt. também se dedicava a abstrações artificiais. Para eles, não fazia muita diferença se a análise era feita com base na redução introspectiva em elementos mentais ou na redução objetiva em unidades condicionadas de estímulo-resposta (Watson). O resultado era o mesmo: uma abordagem molecular em vez de molar. Os psicólogos da Gestalt também contestavam o fato de os behavioristas não aceitarem a validade da introspecção e descartarem qualquer reconhecimento da consciência. Koffka acusava de insensato o desenvolvimento de uma psicologia sem o conceito de consciência, como faziam os behavioristas, porque significava que a psicologia era pouco mais do que uma coleção de pesquisas com animais.

As batalhas entre psicólogos da Gestalt e behavioristas começaram a inflar emocional e pessoalmente. Uma ocasião, quando Clark Hull, E. C. Tolman, Wolfgang Köhler e vários psicólogos saíram para beber algumas cervejas depois de um encontro científico na Filadélfia, em 1941, Köhler disse a Hull que ouvira falar que ele teria usado uma expressão insultante durante as suas aulas, "aqueles malditos gestaltistas". Hull ficou embaraçado e disse esperar que as divergências científicas não se transformassem em agressões pessoais.

Köhler respondeu que ele estava "ávido por discutir mais assuntos de forma lógica e científica. mas, quando as pessoas tentam transformar o homem em uma espécie de máquina caça-níqueis, então ele se vê obrigado a brigar". Deu um murro sobre a mesa "fazendo um barulho bem alto" para deixar bem clara a sua opinião (apud Amsel e Rashotte, 1984, p.23).

A Psicologia da Gestalt na Alemanha Nazista

Embora os fundadores da escola de pensamento da psicologia da Gestalt tivessem fugido da Alemanha na época da guerra, alguns de seus discípulos permaneceram no país durante o período nazista, que terminou com os alemães derrotados pelos aliados, em 1945, Esses adeptos da Gestalt continuaram a conduzir pesquisas, concentrando-se nos estudos da visão e da percepção de profundidade. O instituto psicológico de Köhler continuou a funcionar na University of Berlin, embora, assim como todas as universidades alemãs daquela época, ela não se caracterizasse mais pela liberdade acadêmica nem pela receptividade às pesquisas! Um estadunidense, em visita ao instituto em 1936, comentou sobre a "absoluta aridez do clima intelectual desse ex-baluarte da escola da Gestalt" (apud Ash, 1995, p. 340). As atividades de pesquisa da maioria dos psicólogos alemães durante a Segunda Guerra Mundial foram direcionadas ao esforço de guerra, principalmente na avaliação do pessoal militar. A pes­quisa prática e aplicada teve precedência sobre a ciência pura e a construção teórica.

A Teoria de Campo: Kurt Lewin (1890-1947)

A psicologia da Gestalt refletia a tendência científica, do final do século XIX, do estudo com base nas relações de campo e não no modelo atomístico e elementarista. A teoria de campo surgiu dentro da psicologia como um conceito equivalente ao dos campos de força da física. Na psicologia atual, o termo teoria de campo geralmente refere-se às ideias de Kurt Lewin. O trabalho de Lewin segue a orientação gestáltica, mas ultrapassa os limites da posição ortodoxa da Gestalt, para incluir as necessidades humanas, a personalidade e as influências sociais no comportamento.

A Biografia de Lewin

Kurt Lewin nasceu em Mogilno, Alemanha, e estudou nas universidades de Friburgo, Munique e Berlim. Recebeu o Ph.D. em psicologia de Carl Stumpf, na University of Berlin em 1914, onde também estudou matemática e física. Durante a Primeira Guerra Mundial, serviu no exército alemão e foi ferido em combate, recebendo a medalha da Cruz de Ferro, da Alemanha. Retornou à University of Berlin e dedicou-se à pesquisa da Gestalt a respeito da associação e motivação com tanto entusiasmo que várias vezes foi considerado colega dos três fundadores da Gestalt. Apresentou uma versão da teoria de campo aos psicólogos estadunidenses no Congresso Internacional de Psicologia, realizado em 1929, na Yale.

Desse modo, Lewin já era conhecido nos Estados Unidos quando chegou à Stanford em 1932, como professor visitante. No ano seguinte, decidiu deixar a Alemanha por causa da ameaça nazista. Escreveu a Kohler, dizendo: "Agora acredito que não há outra alternativa para mim a não ser emigrar, mesmo que a minha vida seja despedaçada" (1993, p. 158, 160). Passou dois anos na Cornell University e, em seguida, seguiu para a University of Iowa. Sua pesquisa a respeito da psicologia social infantil rendeu-lhe um convite para desenvolver o novo Research Center for Group Dynamics [Centro de Pesquisa para a Dinâmica de Grupo] no Massachusetts Institute of Technology. Embora tenha sido poucos anos após aceitar essa posição, seu programa foi tão eficaz que o centro pesquisa, agora localizado na University of Michigan, permanece ativo até hoje.

O Espaço Vital

Por toda a carreira de 30 anos, Lewin dedicou-se à área amplamente definida da motivação humana, descrevendo o comportamento humano no total contexto social e físico (Lewin 1936, 1939). Seu conceito geral de psicologia era prático, concentrado nas questões sociais que afetam a nossa vida pessoal e profissional. Buscava humanizar as fábricas da época de modo que o trabalho se tornasse mais uma fonte de satisfação pessoal do que apenas uma forma de ganhar a vida.

O conhecimento a respeito da teoria de campo da física fez com que ele imagina-se que as atividades psicológicas de um indivíduo também ocorrem em uma espécie de campo psicológico, chamado espaço vital - que compreende todos os acontecimentos do passado, do presente e do futuro que nos afetam. Do ponto de vista psicológico, cada um desses fatos determina algum tipo de comportamento em uma situação específica.

Dessa forma, o espaço vital consiste na necessidade de as pessoas interagirem com o ambiente psicológico. O espaço vital exibe diversos graus de desenvolvimento em função da quantidade e do tipo de experiência acumulados. Como o bebê tem pouca experiência, possui poucas regiões diferenciadas no seu espaço vital. Um adulto extremamente culto e sofisticado é dotado de um espaço vital complexo e bem diferenciado, exibindo grande variedade de experiências.

Lewin tentou criar um modelo matemático para representar esse conceito teórico de processos psicológicos. Em virtude do interesse em um único indivíduo (um único caso e não em grupos nem no desempenho médio, a análise estatística não tinha muito valor para esse fim. Ele escolheu a topologia, uma forma de geometria, para criar um diagrama do espaço vital, mostrando os objetivos possíveis de uma pessoa e os caminhos que con­duziam a essas metas em qualquer momento determinado.

No mapa topológico, usado para criar o diagrama de todas as formas de comportamen­to e de fenômenos psicológicos, Lewin usava setas (vetores) para representar a direção do movimento do indivíduo em busca da meta. Acrescentou a noção de peso a essas opções (valências) para referir-se ao valor positivo ou negativo dos objetos, dentro do espaço vital. Os objetos atraentes ou que satisfizessem às necessidades humanas recebiam valência posi­tiva, enquanto os ameaçadores recebiam valência negativa. Esses diagramas chegaram a ser chamados de "psicologia do quadro-negro".

No exemplo simples apresentado na Figura 12.2, uma criança deseja ir ao cinema, mas está proibida pelos pais. A elipse representa o espaço vital; C representa a criança. A seta é o vetor indicando que C está motivada a atingir o objetivo de ir ao cinema, portan­to tem valor positivo. A linha vertical é a barreira estabelecida pelos pais, que impedem C de atingir a meta, logo, tem valência negativa.

Figura 12.2

A Motivação e o Efeito de Zeigarnik

Lewin propôs a existência de um estado básico de balanço ou equilíbrio entre o indivíduo e o ambiente. Qualquer perturbação desse equilíbrio provoca uma tensão que, por sua vez, conduz a alguma ação em um esforço de aliviar a tensão e restabelecer o equilíbrio. Assim, para explicar a motivação humana, Lewin acreditava que o comportamento envolve um círculo de estados de tensão ou estados de necessidade seguidos de atividade e alívio.

Em 1927, Bluma Zeigarnik realizou um experimento, sob a supervisão de Lewin, para testar essa proposição. Os indivíduos recebiam uma série de tarefas e lhes era permitido terminar algumas, mas eles eram interrompidos antes de completarem outras. Lewin fez algumas previsões:

  1. Um sistema de tensão será criado quando o indivíduo receber uma tarefa para realizar;
  2. Quando a tarefa for concluída, a tensão desaparecerá;
  3. Se a tarefa não for concluída, a persistência da tensão resultará na maior proba­bilidade de o indivíduo lembrar-se da tarefa.

Os resultados de Zeigarnik confirmaram as previsões. As pessoas lembravam-se das tarefas não concluídas com mais facilidade do que das completadas. Desde então, esse efeito passou a se chamar efeito de Zeigarnik.

A inspiração para essa pesquisa de Lewin a respeito da motivação surgiu da sua obser­vação de um garçom do café situado do outro lado da rua do Psychological Institute em Berlim. Uma tarde, ao reunir-se com alguns alunos da pós-graduação no café, alguém comentou estar surpreso com a habilidade aparente do garçom em lembrar-se do pedido de cada um sem anotar nada. Algum tempo depois de pagar a conta, Lewin chamou o garçom e perguntou-lhe o que eles haviam consumido. O garçom, indignado, respondeu que não se lembrava mais. (Ash, 1995, p. 271).

Uma vez paga a conta, a tarefa do garçom havia terminado e a tensão, desaparecido. Ele não precisava mais se lembrar do que cada um tinha pedido.

A Psicologia Social

O interesse de Lewin na psicologia social começou na década de 1930. Seus esforços pioneiros na área foram suficientes para justificar a sua importância na história da psi­cologia. Sua extraordinária realização na psicologia social foi a criação da dinâmica de grupo, aplicação dos conceitos psicológicos aos comportamentos individual e coletivo. Assim como o indivíduo e o seu ambiente formam um campo psicológico, o grupo e o seu ambiente formam o campo social. Os comportamentos sociais ocorrem em enti­dades sociais coexistentes, tais como subgrupos, membros de grupo, barreiras e canais de comunicação, e delas resultam. O comportamento coletivo em algum determinado momento é uma função da situação de todo o campo. Lewin conduziu pesquisas sobre o comportamento em várias situações sociais. Uma experiência que se tornou clássica reunia tipos de liderança autoritários, democráticos e neutros dentro de um grupo de garotos (Lewin, Lippitt e White, 1939). Os resultados mostraram que os garotos do grupo autoritário tornavam-se bem agressivos. Os do grupo democrático eram gentis uns com os outros e completavam mais tarefas que os dos demais grupos. A pesquisa de Lewin deu início a novas áreas da pesquisa social e impulsionou o crescimento da psicologia social.

Além disso, ele enfatizou a pesquisa da ação social, o estudo de problemas sociais relevantes visando a introdução de mudanças. Refletindo a preocupação pessoal com as questões raciais, conduziu estudos em comunidades acerca da moradia integrada, da igualdade de oportunidade profissional e do desenvolvimento e da prevenção da discri­minação na infância. Seu trabalho transformou essas questões polêmicas em estudos de pesquisa controlados, aplicando o rigor do método experimental sem a artificialidade do laboratório acadêmico.

Lewin promoveu o treinamento da sensibilidade dos educadores e dos empresários para reduzir o conflito entre grupos e desenvolver o potencial individual. Os grupos de treinamento da sensibilidade (grupos-T) foram precursores dos famosos grupos de encon­tros das décadas de 1960 e 1970.

Em geral, os programas experimentais e as descobertas das pesquisas de Lewin são mais aceitos pelos psicólogos do que muitos dos seus conceitos teóricos. Sua influência na psicologia infantil e social foi bastante considerável, e muitos dos seus conceitos e técnicas são usados na personalidade e na motivação.

As Críticas à Psicologia da Gestalt

Os críticos da escola de pensamento da psicologia da Gestalt alegavam que a organização aos processos perceptuais, como no fenômeno phi, não era tratada como um problema científico a ser investigado, mas como um fenômeno cuja existência era simplesmente aceita. Era como se fosse uma negação da existência do problema.

Além disso, os psicólogos experimentais acusavam de vaga a posição da Gestalt e afir­mavam que os conceitos básicos não eram definidos com o rigor suficiente para possuírem algum significado científico. Os psicólogos da Gestalt rebatiam essas acusações, afirmando que, em uma ciência jovem, as tentativas de explicação e definição podem estar incomple­tas, o que não significa que sejam vagas.

Outros psicólogos alegavam que os proponentes da Gestalt estavam ocupados demais com a teoria, em detrimento da pesquisa e dos dados empíricos. Embora a escola da Gestalt assumisse a orientação teórica, também enfatizou a experimentação e produziu conside­rável quantidade de pesquisa.

Ligada a essa visão existe a afirmação de que o trabalho experimental da Gestalt era inferior à pesquisa da psicologia behaviorista porque lhe faltavam controles adequados, e dados não-quantificáveis não eram passíveis de análise estatística. Os psicólogos da Gestalt sustentavam que grande parte da sua pesquisa era propositadamente menos quantitativa do que as outras escolas consideravam necessário, já que, nesse sistema, os resultados qualitativos tinham precedência. A maioria das pesquisas da Gestalt tem caráter exploratório, investigando os problemas psicológicos em um modelo diferente.

A noção de Köhler acerca do insight também foi questionada. As tentativas de repro­duzir a experiência dos chimpanzés e as duas varas proporcionaram pouca comprovação sobre o papel do insight na aprendizagem. Esses últimos estudos sugereriam que a solução do problema não ocorre de repente e pode depender da aprendizagem ou da experiência anterior (veja, por exemplo, Windholz e Lamal, 1985).

Ademais, alguns psicólogos consideravam que os psicólogos da Gestalt adotavam hipóteses fisiológicas pobremente definidas. Os pesquisadores da Gestalt reconheciam a teorização da área apenas como uma tentativa, mas acreditavam que as especulações eram aliadas válidas para o sistema.

As Contribuições da Psicologia da Gestalt

O movimento da Gestalt deixou uma permanente marca na psicologia e influenciou o trabalho a respeito da percepção, da aprendizagem, do pensamento, da personalidade, da psicologia social e da motivação. Ao contrário do seu maior rival na época - o behaviorismo -, a psicologia da Gestalt manteve uma identidade separada. Seus maiores princípios o foram absorvidos pelo principal pensamento psicológico. Ela continuou a promover o  interesse na experiência consciente como um problema legitimo para a psicologia os anos em que o behaviorismo dominava. O enfoque da Gestalt na experiência consciente era diferente da abordagem de e Titchener, pois se concentrava em uma versão moderna da fenomenologia. Os contemporâneos da posição da Gestalt acreditam realmente na ocorrência da experiência consciente, sendo ela, portanto, um objeto de estudo legítimo. Eles reconheciam no entanto, nâo ser possível investigá-la com a mesma precisão e objetividade do - comportamento manifesto. A abordagem fenomenológica da psicologia tem mais manifestaçâo entre os psicólogos europeus do que entre os estadunidenses, mas sua influência pode ser percebida no movimento da psicologia humanista estadunidense. Muitos aspectos da psicologia cognitiva contemporânea também devem sua origem à psicologia da Gestalt.

Psicologia - História da Psicologia
2/25/2020 2:30:59 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Behaviorismo - Período Pós-fundação

Algum dia visitou o Zoológico do Ql em Hot Springs, Arkansas? Não? É uma pena, pois não existe mais. Mas, por 35 anos, milhares de pessoas visitaram e observaram animais desempenhando uma variedade surpreendente de truques. Pelo menos pareciam ser truques, mas, na realidade, cada animal havia sido cuidadosamente treinado. Nada havia sido deixado ao acaso no Ql Animal. Cada animal que via - fosse uma pomba ou uma galinha ou um guaxinim - havia se tornado outro Hans, o Esperto.

Pense na Priscilla, o Porco Metódico. Se algum dia viu porcos em uma fazenda, pode achar que não são capazes de fazer qualquer coisa suficientemente excitante para você olhar. Entretanto, Priscilla era fascinante. Ela tinha uma rotina matinal.

Primeiro ligava o rádio, depois comia sentada à mesa, pegava toda a roupa suja e a guardava na cesta, e limpa­va seu quarto com um aspirador de pó. E quando estava pronta para enfrentar o público, ela respondia perguntas feitas pela plateia, ativando sinais que acendiam indicando "sim" ou "não".

Outro residente do Zoológico do Ql era a Ave Inteli­gente, uma galinha que participava do jogo da velha com pessoas e, invariavelmente, empatava ou ganhava. Jamais perdia nem mesmo quando jogava com o grande psicólogo B. F. Skinner, cuja reação ao perder para a galinha nunca foi registrada. Em uma época, havia centenas de galinhas como a Ave Inteligente, apresentadas em exposições e cas­sinos espalhados pelos Estados Unidos, e nenhuma jamais perdeu o jogo para um oponente humano.

Além da Ave Inteligente, uma “galinha tocava algumas notas melodiosas em um piano pequeno, outra dançava 'sapateado' fantasiada e com sapatos, enquanto uma terceira 'punha ovos de madeira' em um ninho; os ovos rolavam por uma calha até uma cesta. A plateia podia pedir um determinado número de ovos desejado, até oito, e a galinha os punha sem parar" (Breland e Breland, 1951, p. 202).

Tinha galinhas que andavam no trapézio e outras treinadas para jogar beisebol. Coelhos dirigiam caminhões de bombeiro tocando a sirene, patos tocavam piano e bate­ria, papagaios andavam de bicicleta, e guaxinins jogavam basquete. Posteriormente foram acrescentados shows de golfinhos e baleias.

Esse zoológico foi iniciado em 1955, por Keller e Ma­rian Breland, antigas alunas do curso de pós-graduação em psicologia, que abandonaram a universidade para ganhar a vida aplicando técnicas de condicionamento ao comportamento animal. Em 1943, elas haviam formado a Empresa de Comportamento Animal para treinar animais a se apresentarem em feiras estaduais e para servirem de atrações turísticas. Quando abriram o Zoológico do QI seu trabalho já era bastante conhecido, graças a artigos no Wall Street Journal, Time, Life e Reader's Digest. No auge de seu sucesso, as irmãs Breland administravam cerca de 140 shows com animais treinados em lugares turísticos importantes e dez vezes mais esse número em shows pelo país. Também haviam treinado centenas de animais para papéis em filmes, programas de televisão e comerciais. No total treinaram mais de 6 mil animais de cerca de 150 espécies. E tudo isso utilizando técnicas básicas de condicionamento que haviam aprendido com B. F. Skinner, o behaviorista mais importante do século XX.

Os Três Estágios do Behaviorismo

A revolução iniciada por John B. Watson não transformou a pscologia de um dia para o outro. Levou mais tempo do que ele imaginava. Todavia, por volta de 1924, um pouco mais uma década após o lançamento formal do behaviorismo, até mesmo o seu maior opositor, Titchener, admitia que o movimento impregnou a psicologia estadunidense. Mais o menos em 1930, Watson já possuía argumentos suficiente para se declarar completamente vitorioso.

O behaviorismo de Watson constituiu o primeiro estágio da evolução da escola de pen­samento comportamental. O segundo estágio, o neobehaviorismo, compreende o período de 1930 a mais ou menos 1960, e engloba os trabalhos de Tolman, Hull e Skinner. Esses neobehavioristas compartilhavam diversos pontos em comum:

  • O estudo da aprendizagem constitui o tópico central da psicologia;
  • Em sua maioria, os comportamentos, independentemente da sua complexidade, podem ser entendidos pelas leis do condicionamento;
  • A psicologia deve adotar o princípio do operacionismo.

O terceiro estágio da evolução behaviorista, o neo-neobehaviorismo ou o sociobehaviorismo, data de cerca de 1960 a 1990. Essa etapa inclui o trabalho de Bandura e Rotter e destaca-se pelo retorno do estudo dos processos cognitivos, mas mantendo o enfoque na observação do comportamento manifesto.

Operacionismo

O operacionismo, principal característica do neobehaviorismo, tinha por objetivo propor­cionar uma linguagem e uma terminologia mais objetivas e precisas à ciência, livrando-a dos "pseudoproblemas", ou seja, dos problemas não-observáveis fisicamente ou não-demonstráveis. O operacionismo sustenta que o valor de qualquer descoberta científica ou de qualquer constructo teórico depende da validade das operações empregadas para determiná-los.

A visão operacionista foi promovida por Percy W. Bridgman (1882-1961), ganhador do Prêmio Nobel de física e psicólogo da Harvard University. O seu livro, The logic of modern physics (1927), chamou a atenção de muitos psicólogos (Feest, 2005). Bridgman insistia na definição exata dos conceitos da física e no descarte de todos os conceitos que não possuíssem referentes físicos.

Utilizemos como exemplo o conceito de comprimento. O que queremos dizer quando nos referimos ao comprimento de um objeto? Evidentemente, entenderemos o significado de comprimento se soubermos especificar o comprimento de todo e qualquer objeto e, para o físico, isso é o suficiente. A determinação do comprimento de um objeto requer algumas operações físicas. O conceito de comprimento, assim, é definido quando se determinam as operações de mensuração do comprimento, ou seja, o conceito de com­primento envolve tão-somente e apenas um conjunto de operações; o conceito é sinônimo do conjunto correspondente de operações. (Bridgman, 1927, p. 5)

Desse modo, um conceito físico equivale ao conjunto de operações ou de procedimen­tos que o determinam. Muitos psicólogos acreditavam que esse conceito seria muito útil nos seus trabalhos e estavam ansiosos para utilizá-lo.

A insistência de Bridgman em descartar os pseudoproblemas, ou seja, as questões que desafiam a resposta resultante de qualquer teste objetivo conhecido, era muito bem-vista pelos psicólogos behavioristas. As proposições que não podem ser submetidas a um teste experimental, como a existência e a natureza da alma, não têm nenhum valor científi­co. O que é alma? Como observá-la no laboratório? É possível medi-la e manipulá-la sob condições controladas para determinar seus efeitos no comportamento? Se a resposta for negativa, o conceito não é dotado de nenhuma utilidade, significado ou importância para a ciência.

Seguindo esse raciocínio, o conceito de experiência consciente individual ou privada consiste em um pseudoproblema para a ciência da psicologia. Não é possível determinar nem investigar a existência ou as características da consciência por meio de métodos objetivos. Assim, de acordo com a visão operacionista, a consciência não tem lugar na psicologia científica.

Os críticos alegavam que o operacionismo não passava de uma afirmação um pouco mais formal dos princípios já aplicados pelos psicólogos para definir as ideias e os conceitos em relação ao seus referentes físicos. No livro de Bridgman, há muito pouco sobre o operacionismo que não se relacione com os trabalhos dos empiristas britânicos. A tendência do longo prazo da psicologia estadunidense seguia em direção à objetividade da metodologia e do objeto de estudo, portanto pode-se afirmar que a visão operacionista em relação à pesquisa e à teoria já fora aceita por muitos psicólogos.

Entretanto, desde a época de Wilhelm Wundt, na Alemanha, os físicos vinham sendo, para a nova psicologia, exemplos de perfeição da respeitabilidade científica. Quando os físicos anunciaram a aceitação do operacionismo como uma doutrina formal, muitos psicó­logos sentiram-se obrigados a seguir esse modelo de papel. No fim, os psicólogos acabaram empregando mais amplamente o operacionismo do que os físicos. Consequentemente, a geração dos neobehavioristas atuantes entre as décadas de 1920 e 1930 incorporou o operacionismo na sua abordagem de psicologia.

Bridgman viveu tempo suficiente para testemunhar tanto a aceitação como o descarte do operacionismo na psicologia. Com 79 anos, ciente do seu estado terminal, Bridgman terminou o sumário da edição em sete volumes de todos os seus trabalhos, enviou-o para o editor e suicidou-se. Temia esperar mais tempo e ficar incapacitado para tal ação. Na carta deixada antes de suicidar-se, escreveu: "Provavelmente, este é o último dia em que terei condições de fazê-lo" (apud Nuland, 1994, p. 152).

Edward Chace Tolman (1886-1959)

Edward Tolman, um dos primeiros convertidos ao behaviorismo, estudou engenharia no Massachusetts Institute of Technology. Voltou-se para a psicologia, obtendo o Ph.D. da Harvard em 1915. No verão de 1912, Tolman estudou na Alemanha com o psicólogo da Gestalt, Kurt Koffka. No último ano de pós-graduação, Tolman conheceu o novo behavio­rismo de Watson e, embora orientado de acordo com a tradição da psicologia estruturalista de Titchener, Tolman já não estava convicto do valor científico da introspecção. Em sua autobiografia, declarou que o behaviorismo de Watson apareceu como um "enorme estímulo e alívio" (1952, p. 326).

Tolman tornou-se professor da Northwestern University, em Evanston, Illinois, e, em 1918, seguiu para a University of California, em Berkeley, onde lecionou psicologia comparativa e conduziu pesquisas sobre a aprendizagem nos ratos - nessa época tornou-se insatisfeito com a forma de behaviorismo de Watson e começou a desenvolver a sua. Durante a Segunda Guerra Mundial, colaborou com o Office of Strategic Services - OSS [Departamento de Serviços Estratégicos], precursor da Central Intelligence Agency [Agência Central de Inteligência] - CIA. No início da década de 1950, foi um dos líderes do movi­mento de professores contra o juramento de lealdade ao Estado da Califórnia.

O Behaviorismo intencional

A visão de behaviorismo de Tolman está descrita no livro Purposive behavior in animais and men (1932). O termo cunhado por ele, behaviorismo intencional, à primeira vista pode parecer uma aglutinação curiosa de duas ideias contraditórias: a intenção e o comportamento. A atribuição de intenção ao comportamento do organismo parece implicar a consciência, conceito mentalista não aceito na psicologia behaviorista. Tolman deixava claro, no entanto, que a sua visão era muito mais behaviorista no objeto de estudo e na metodologia. Ele não tentava impor o conceito de consciência à psicologia. Assim como Watson, rejeitava a introspecção e não se interessava pelas experiências internas presumi­das, não acessíveis à observação objetiva.

Para ele, a intencionalidade do comportamento pode ser definida em termos comportamentais objetivos sem se recorrer à introspecção ou aos relatos das sensações do indivíduo em relação à experiência. 

Parecia óbvio para Tolman que toda ação visava a um objetivo. Por exemplo, o gato tenta escapar da caixa-problema experimental do psicólogo o rato tenta aprender o caminho do labirinto, a criança tenta aprender a tocar piano ou a chutar a bola de futebol.

Em outras palavras, dizia Tolman, o comportamento está "impregnado" de intenção e visa atingir um objetivo ou aprender a forma de alcançar a meta. O rato persiste em percorrer os caminhos do labirinto, reduzindo os erros a cada tentativa, a fim de atingir mais rapidamente a meta. O que ocorre nesse caso é que o rato está aprendendo, e o fato de aprender, seja em um ser humano seja em um animal, é a prova comportamental objetiva da intenção. Tolman lida com as respostas objetivas do organismo e as medidas são feitas com base nas mudanças nas respostas comportamentais como uma função da aprendizagem. São essas medidas que produzem os dados objetivos.

Os behavioristas watsonianos imediatamente reagiram com críticas contra a atribuição de intenção ao comportamento. Insistiam em afirmar que qualquer referência à intenção implicava o reconhecimento dos processos conscientes. Tolman respondeu que não fazia a menor diferença se o indivíduo ou o animal estivesse ou não consciente. A experiência consciente - se ela existisse - associada com o comportamento intencional não influenciava a resposta do organismo. Ademais, Tolman estava interessado apenas no comportamento manifesto.

As Variáveis intervenientes

Como behaviorista, Tolman acreditava que as causas iniciadoras do comportamento e o comportamento final deviam ser passíveis de observação objetiva e de definição opera­cional. Relacionou cinco variáveis independentes como as causas do comportamento: o estímulo ambiental, os impulsos fisiológicos, a hereditariedade, o treinamento prévio e a idade. O comportamento é uma função dessas cinco variáveis, uma ideia que Tolman expressou por meio de uma equação matemática.

Entre essas variáveis independentes observáveis e o comportamento de resposta resul­tante (a variável dependente observável), Tolman presumia a existência de um conjunto de fatores não-observáveis, as variáveis intervenientes, que são as verdadeiras determi­nantes do comportamento. Esses fatores consistem em processos internos que estabelecem a ligação entre a situação de estímulo e a resposta observada. A proposição E-R (estímulo-resposta) dos behavioristas deve ser lida, então, E-O-R. A variável interveniente refere-se a tudo que ocorre dentro do organismo (O) e que provoca a resposta comportamental a determinada situação de estímulo. No entanto, como a variável interveniente não pode ser observada objetivamente, ela somente tem validade para a psicologia quando pode ser relacionada diretamente com as variáveis experimentais (independentes) e com a variável do comportamento (dependente).

A fome é um exemplo clássico de variável interveniente. Não se pode observar a fome em um indivíduo ou em um animal no laboratório, no entanto ela pode ser precisa e obje­tivamente relacionada com uma variável experimental como, por exemplo, o intervalo de tempo transcorrido desde a última vez em que o organismo recebeu comida. A fome tam­bém pode ser relacionada a uma resposta objetiva ou a uma variável de comportamento, como a quantidade de comida consumida ou a velocidade com a qual foi ingerida. Assim, é possível descrever precisamente a variável não-observável da fome em relação a variáveis empiristas e torná-la passível de quantificação e de manipulação experimental.

A especificação das variáveis independentes e dependentes, que são fatos observáveis, possibilitou a Tolman estabelecer definições operacionais de estados internos não-obser­váveis. No princípio, ele se referia à sua abordagem, no geral, como behaviorismo opera­cional, antes de optar pelo termo mais preciso "variável interveniente".

A Teoria da Aprendizagem

O principal enfoque do behaviorismo intencional de Tolman estava no problema da apren­dizagem. Tolman rejeitou a lei do efeito de Thorndike, afirmando que a recompensa ou o reforço exerciam pouca influência sobre a aprendizagem. Em seu lugar, propunha uma explicação cognitiva para a aprendizagem, sugerindo que a repetição do desempenho de uma tarefa reforça a relação aprendida entre as dicas ambientais e as expectativas do organismo. Dessa forma, o organismo acaba conhecendo o seu ambiente. Tolman chama­va essas relações aprendidas de “sign Gestalts", e afirmava serem elas estabelecidas pela repetição da realização de uma tarefa.

Imaginemos um rato faminto dentro de um labirinto. Ele o percorre, explorando todos os caminhos corretos como os sem saída e, finalmente, acaba alcançando a comida. X tentativas subsequentes dentro do labirinto, o objetivo (encontrar a comida) proporciona ao rato a intenção e a direção. A cada ponto de intersecção em que o animal tem de fazer uma opção de seguir para um lado ou outro, cria-se uma expectativa de que certas dicas associadas ao ponto de intersecção vão ou não levar à comida.

Quando a expectativa do rato é confirmada e ele obtém a comida, a sign Gestalt, a expectativa de sinalização associada com determinada opção) é reforçada. Assim, para todas as tentativas realizadas no labirinto, o animal estabelece um mapa cognitivo, que consiste em um padrão de sign Gestalts. Esse padrão é o que o animal aprende, ou seja, um mapa do labirinto, e não apenas um conjunto de hábitos motores. O cérebro do rato cria uma visão completa do labirinto ou de qualquer ambiente familiar, que lhe permite tran­sitar de um lugar a outro sem se restringir a uma série de movimentos físicos fixos.

A clássica experiência para testar a teoria de aprendizagem de Tolman investigava se o rato que percorria os caminhos do labirinto aprendia um mapa cognitivo ou uma série de respostas motoras. Em um labirinto com formato de cruz, um grupo de ratos sempre encontrava a comida no mesmo lugar, ainda que, usando pontos iniciais diferentes, às vezes tivessem de virar à direita e outras vezes à esquerda para chegarem até o alimento. As respostas motoras eram diferentes, mas a comida estava sempre no mesmo lugar.

O segundo grupo de ratos apresentava as mesmas respostas independentemente do ponto inicial, mas com a comida em lugares diferentes. Iniciando de uma saída do labirin­to, o ratos achavam a comida somente quando viravam à direita no ponto de intersecção: começando da outra saída, também encontravam a comida virando à direita.

Os resultados demonstraram que os ratos que aprendiam o caminho (o primeiro grupo apresentavam um desempenho bem melhor do que os que aprendiam o movimento (o segundo grupo). Tolman concluiu que o mesmo fenômeno ocorre com o indivíduo fami­liarizado com a cidade ou com a vizinhança. Ele é capaz de locomover-se de um ponto a outro utilizando diversos caminhos por causa do mapa cognitivo que desenvolveu de toda a área.

Comentários

Tolman é considerado o precursor da psicologia cognitiva contemporânea, tendo seu trabalho exercido grande impacto na disciplina, principalmente a pesquisa acerca dos problemas de aprendizagem e o conceito da variável interveniente. Por ser uma forma de definir operacionalmente os estados internos não-observáveis, as variáveis inter­venientes fizeram desses estados temas válidos para o estudo científico. As variáveis intervenientes foram empregadas pelos neobehavioristas, como Hull e Skinner.

Outra contribuição significativa de Tolman foi a sua defesa veemente para conside­rar o rato como sujeito apropriado para pesquisa em psicologia. No entanto, no início da carreira, ele não pensava assim e afirmava: "Não gosto de ratos. Eles me dão arrepios" (Tolman, 1919, apuã Innis, 1992, p. 191).

Em torno de 1945, sua atitude havia mudado:

Observe-se que os ratos vivem em gaiolas; não caem na farra na noite anterior a um expe­rimento; não provocam guerras matando uns aos outros; não inventam máquinas de des­truição e, se inventassem, não seriam tão inaptos para controlar esses equipamentos; não se envolvem em conflitos de classe ou raciais; ficam distantes da política, da economia e dos trabalhos de psicologia. Eles são maravilhosos, puros e agradáveis. (Tolman, 1945, p. 166)

Graças aos trabalhos de Tolman e de outros psicólogos, o rato branco tornou-se o princi­pal sujeito utilizado na pesquisa dos neobehavioristas e dos teóricos da aprendizagem, desde 1930 até a década de 1960. Acreditava-se que as pesquisas com os ratos brancos produziriam observações sobre os processos básicos subjacentes do comportamento não apenas dos ratos, como também de outros animais e dos seres humanos. Como observou um pesquisador contemporâneo, "o rato era um modelo simples mas acessível de animal, que possibilitava ao psicólogo investigar os fundamentos do cérebro, do comportamento, da emoção e da aprendizagem com precisão sem precedentes" (Logan, 1999, p. 3). Quem precisa de seres humanos para as pesquisas, perguntavam, com tantos ratos brancos disponíveis?

Clark Leonard Hull (1884-1952)

Clark Hull e seus seguidores dominaram a psicologia estadunidense entre as décadas de 1940 e 1960. Talvez nenhum psicólogo tenha se dedicado tanto aos problemas do método científico. Hull era dotado de espantoso domínio da matemática e da lógica formal, e as aplicava à teoria psicológica de maneira nunca vista antes. A forma de behaviorismo de Hull era mais sofisticada e mais complexa do que a de Watson. Hull dizia a seus alunos de pós-graduação que "Watson era ingênuo demais. Seu behaviorismo é excessivamente simples e imaturo" (apuei Gengerelli, 1976, p. 686).

Biografia de Hull

Por toda a vida, Hull foi incomodado pela saúde frágil e pela dificuldade visual. Quando ainda menino, quase morreu de tifo, deixando-o com a memória deficitária. Aos 24 anos contraiu poliomielite, que o deixou paralítico de uma perna, sendo forçado a usar muleta de metal construída por ele mesmo. Era de família pobre e por diversas vezes vira-se forçado a interromper os estudos para lecionar e ganhar dinheiro. Sua maior qualidade era a intensa motivação para atingir o sucesso e a perseverança diante dos muitos obstáculos.

Em 1918, com 34 anos, idade já relativamente adiantada, recebeu o título de Ph.D. - a University of Wisconsin, onde estudou engenharia de minas antes de passar para a psicologia. Fez parte do corpo docente da Wisconsin por 10 anos. Os interesses iniciais em pesquisa já davam indicações da sua eterna ênfase nos métodos objetivos e nas leis rancionais. Hull estudou a formação de conceitos e os efeitos do fumo na eficácia do comportamento, além de analisar os testes e as medidas e com isso publicar um livro a respeito dos testes de aptidão (Hull, 1928). Ele desenvolveu métodos de análise estatística e inventou uma máquina calculadora de correlações, que foi exibida no museu do Smithsonian institution em Washington, DC. Dedicou 10 anos ao estudo da hipnose e da sugestionabilidade, publicando 32 trabalhos e um livro resumindo as pesquisas (Hull, 1933).

Em 1929, Hull aceitou a posição de professor de pesquisa na Yale University, com o objetivo de formular uma teoria sobre o comportamento com base nas leis de condicio­namento de Pavlov. Lera o trabalho de Pavlov havia alguns anos e ficara impressionado com os estudos do reflexo condicionado e da aprendizagem. Hull considerava a obra Conáitioned reflexes, de Pavlov, um "grande livro” e decidiu realizar pesquisas usando ani­mais. Ele nunca utilizara animais porque abominava o cheiro dos ratos de laboratório, no entanto, ao chegar a Yale, conheceu uma colônia de ratos mantida por E. R. Hilgard sob totais condições de higiene. Viu os animais, "cheirou-os e disse que talvez pudesse afinal usar ratos" (Hilgard, 1987, p. 201).

Na década de 1930, Hull publicou artigos a respeito do condicionamento, afirmando ser possível explicar os comportamentos complexos de ordem superior com base nos prin­cípios básicos do condicionamento. A sua obra Principies of behavior (1943) apresentava o esboço de uma estrutura teórica completa, abrangendo todo comportamento. Logo Hull tornou-se o psicólogo mais frequentemente citado da área; na década de 1940, até 40% de todos artigos sobre psicologia experimental e 70% dos artigos sobre a aprendizagem e motivação publicados nas duas principais revistas de psicologia estadunidense citavam o traba­lho de Hull (Spence, 1952). Hull revisava constantemente o seu sistema, incorporando os resultados de sua prolongada pesquisa, e submetia suas proposições ao teste experimental. A forma final do trabalho foi publicada em 1952 na obra A behavior system.

O Espírito do Mecanicismo

Hull descrevia seu behaviorismo e sua visão da natureza humana empregando termos mecanicistas e considerava o comportamento humano automático e possível de ser redu­zido e explicado na linguagem da física. De acordo com Hull, os behavioristas deviam considerar seus sujeitos como máquinas, e ele apoiava a ideia de que um dia se construiria uma máquina para pensar e exibir outras funções cognitivas humanas. Em 1926, Hull afirmou: "Ocorreu-me várias vezes que o organismo humano é uma das máquinas mais extraordinárias - mas, ainda assim, uma máquina. E pensei mais de uma vez que, assim como ocorrem os processos de pensamento, se poderia construir uma máquina capaz de executar todas as funções essenciais que o corpo realiza" (cipud Amsel e Rashotte, 1984, p. 2-3). Nota-se, assim, que o espírito mecanicista do século XVII, representado pelas figuras mecânicas, pelos relógios e robôs vistos na Europa, incorporou-se perfeitamente no trabalho de Hull.

A Metodologia Objetiva e a Quantificação

O behaviorismo objetivo, reducionista e mecanicista de Hull proporciona uma clara visão de como era o seu método de estudo. Primeiro, tinha de ser objetivo, além de quantitati­vo, ou seja, com as leis fundamentais do comportamento expressas na linguagem precisa da matemática.

Em Principies of behavior (1943), Hull explicou como desenvolver uma psicologia mate­maticamente definida. Evidentemente, qualquer adepto do sistema de Hull tinha de ser disciplinado, comprometido e paciente.

O progresso consistirá no extenso trabalho de registrar, uma por uma, das centenas de equações; na determinação experimental, uma por uma, das centenas de constantes empíricas contidas nas equações; no planejamento das unidades utilizáveis na prática com as quais medir as quantidades expressas pelas equações; na definição objetiva de centenas de símbolos que aparecem nas equações; na rigorosa dedução, um por um, dos milhares de teoremas e corolários decorrentes das primeiras definições e equações; na meticulosa realização de milhares de experimentos quantitativos críticos. (Hull, 1943, p. 400-401)

Hull seguia quatro métodos que considerava úteis na pesquisa científica. Três já eram amplamente empregados: a observação simples, a observação sistemática controlada e o teste experimental das hipóteses. O quarto método proposto por Hull foi o método hipotetico-dedutivo, que utiliza a dedução baseada em um conjunto de formulações deter­minadas a priori. Consiste em estabelecer postulados a partir dos quais são deduzidas as conclusões testáveis por meio da experimentação. Essas conclusões são submetidas a um teste experimental: se não forem comprovadas com evidências experimentais, devem ser revistas e, se comprovadas e verificadas, podem ser incorporadas ao corpo da ciência. Hull acreditava que, se a psicologia desejasse se tornar verdadeiramente objetiva assim como as demais ciências naturais, princípio básico do programa behaviorista, o único método apropriado seria o hipotético-dedutivo.

Os Impulsos

Para Hull, a base da motivação era um estado de necessidade corporal provocada por um desvio nas condições biológicas ideais. Em vez de introduzir o conceito de necessidade biológica diretamente no seu sistema, Hull postulou a variável interveniente do "impulso", termo já empregado na psicologia. O impulso era definido como o estímulo provocado por um estado de necessidade do organismo que impulsiona ou ativa um comportamento. Na opinião de Hull, a redução ou a satisfação de um impulso era a única base para o reforço. A força do impulso pode ser determinada na prática pelo tempo de privação ou pela inten­sidade, força e gasto de energia do comportamento resultante. Ele considerava o tempo de privação uma medida imperfeita e colocava maior ênfase na intensidade da resposta. Hull postulou dois tipos de impulso. O primário, associado aos estados de necessidades biológicas inatas e vitais para a sobrevivência do organismo, entre as quais o alimento, a água, o ar, a temperatura, a defecação, a micção, o sono, a atividade, a relação sexual e o alívio da dor. Reconhecia, no entanto, outras forças, que não os impulsos primários, capazes de moti­var o organismo. Propôs, assim, os impulsos adquiridos ou secundários, relacionados com os estímulos situacionais ou ambientais associados à redução dos impulsos primários e que também podem se transformar em impulsos. Desse modo, o estímulo anteriormente neutro pode adquirir características de um impulso por ser capaz de provocar respostas semelhantes às instigadas pelo impulso primário ou pelo estado de necessidade original.

Um exemplo simples é queimar-se ao tocar um fogão quente. A dor da queimadura, provocada por um dano físico real nos tecidos do corpo, produz um impulso primário, ou seja, o desejo de alívio da dor. Outro estímulo ambiental associado com esse impulso pri­mário - como a visualização de um fogão - pode, no futuro, provocar o rápido afastamento da mão diante da percepção visual do estímulo. Desse modo, a visão do fogão torna-se um estímulo para o impulso adquirido de medo. Esse impulso adquirido ou secundário motivador do comportamento é resultante de um impulso primário.

A Aprendizagem

A teoria da aprendizagem de Hull concentra-se no princípio do reforço, o qual é essen­cialmente a lei do efeito de Thorndike. A lei do reforço primário de Hull estabelece que quando a relação estímulo-resposta é seguida de uma redução na necessidade, aumenta a probabilidade de ocorrência da mesma resposta nas apresentações subsequentes do mesmo estímulo. A recompensa e o reforço não são definidos em termos da noção de satisfação de Thorndike, mas em termos de redução da necessidade primária. Assim, o reforço primário (a redução de um impulso primário) é fundamental para a teoria de aprendizagem de Hull.

Uma vez que seu sistema contém o impulso adquirido ou secundário, ele também trata do reforço secundário. Se a intensidade do estímulo é reduzida em virtude de um impulso secundário, este atuará como reforço secundário.

Ocorre que qualquer estímulo coerentemente associado com uma situação de reforço adquire, mediante essa associação, o poder de provocar a inibição condicionada, ou seja, a redução na intensidade do estímulo e, assim, de si mesmo produzir o reforço resultante. Como essa força indireta de reforço é adquirida por meio de aprendizagem, denomina-se reforço secundário. (Hull, 1951, p. 27-28).

As relações estímulo-resposta são fortalecidas pelo número de reforços ocorridos. Hull chamava a força da conexão estímulo-resposta de força do hábito, e afirmava ser ela uma função do reforço referente à persistência do condicionamento.

A aprendizagem não ocorre na ausência do reforço necessário para provocar a redução do impulso. Essa ênfase no reforço caracteriza o sistema de Hull como a teoria da neces­sidade de redução, em oposição à teoria cognitiva de Tolman.

Comentários

Sendo um importante expoente do neobehaviorismo, Hull também era alvo dos mesmos ataques direcionados a Watson e a outros behavioristas. Os psicólogos contrários a qual­quer abordagem behaviorista da psicologia colocavam Hull no campo dos inimigos.

Uma falha observada no seu sistema era a falta de generalização. Na tentativa de defi­nir com precisão as variáveis, em termos quantitativos, Hull operava necessariamente em um plano limitado. Frequentemente formulava postulados a partir de resultados obtidos em um único experimento. Os opositores argumentavam ser imprudente a generalização a todo comportamento com base em demonstrações experimentais específicas, tais como “o intervalo mais favorável para o condicionamento do piscar dos olhos (Postulado 2)" ou "o peso em gramas necessário de comida para condicionar um rato (Postulado 7)" (apud Hilgard, 1956, p. 181). Embora a quantificação fosse louvável, a abordagem extrema de Hull reduzia a faixa de aplicabilidade das suas descobertas de pesquisa.

Mesmo assim, a influência de Hull na psicologia foi substancial. A quantidade abso­luta de pesquisas inspiradas por seu trabalho assim como o grande número de psicólogos influenciados por ele, garantem a sua importância na história da psicologia. Hull defen­deu, ampliou e explicou a abordagem behaviorista objetiva da psicologia como não o fez nenhum psicólogo. Um historiador declarou: "Não é comum o surgimento de um verda­deiro gênio teórico em qualquer área; dentre os poucos da psicologia assim considerados, Hull certamente se classificaria entre os principais" (Lowry, 1982, p. 211).

B. F. Skinner (1904-1990)

Durante décadas, B. F. Skinner foi o psicólogo mais influente do mundo. Quando morreu, em 1990, o editor da revista American Psychologist elogiou-o, dizendo que ele foi "um dos gigantes da nossa disciplina", alguém que "marcou a psicologia para sempre" (Fowler, 1990, p. 1.203). O obituário de Skinner, na publicação Journal of the History of the Behavioral Sciences, descreveu-o como a "principal figura da ciência do comportamento deste século" (Keller, 1991, p. 3).

Começando na década de 1950, Skinner foi a grande personificação da psicologia behaviorista estadunidense. Ele atraía enorme grupo de seguidores leais e entusiasmados. Desenvolveu um programa para o controle comportamental da sociedade, promoveu técnicas de modificação de comportamento e inventou um berço automático para emba­lar bebês. O seu romance, Walden two, ainda se mantém com grande popularidade após décadas de publicação. O livro Beyond freedom and dignity, lançado em 1971, foi um dos mais vendidos no país, proporcionando a Skinner a oportunidade de participar de muitos programas de entrevista na televisão. Tornou-se uma celebridade, tendo seu nome reco­nhecido tanto pelo público em geral como por outros psicólogos. Em 1972, o editorial da revista Psychology Today afirmou que "Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, um professor de psicologia alcançou a celebridade comparável à dos astros de cinema e da televisão" (,apud Rutherford, 2000, p. 372).

A Biografia de Skinner

Skinner, nascido em Susquehanna, na Pensilvânia, cresceu em ambiente estável e de muito afeto. Frequentou a mesma pequena escola de ensino médio em que se formaram os seus pais; na cerimônia de formatura, havia apenas ele e mais sete outros colegas. Quando criança, gostava de construir vagões, jangadas, aeromodelos, chegando a montar uma espécie de canhão a vapor para atirar pedaços de cenoura e batata sobre o telhado. Passou anos tentando desenvolver uma máquina de movimento perpétuo. Gostava de ler sobre os animais e mantinha diversas espécies de tartarugas, cobras, lagartos, sapos e esquilos. Em uma feira local, viu alguns pombos realizando performances; e, anos mais tarde, treinou algumas dessas aves para realizar alguns truques.

O sistema de psicologia de Skinner reflete as próprias experiências de infância. De acordo com o seu ponto de vista, a vida é produto da história de reforços. Afirmava que sua vida foi predeterminada e organizada exatamente do modo que o seu sistema ditava como devia ser a vida de todo ser humano. Acreditava que as suas experiências estavam relacionadas exclusiva e diretamente aos estímulos do próprio ambiente.

Skinner matriculou-se na Hamilton College de Nova York, mas não se sentia feliz. Escreveu:

Nunca me adaptei à vida estudantil. Entrei para a fraternidade sem saber bem o que era. Não possuía habilidade nos esportes e sofria demais quando batia a minha canela durante um jogo de hóquei sobre o gelo ou quando no jogo de basquete usavam a minha cabeça como tabela para acertar na cesta. (...) Reclamava que a faculdade me exigia demais em requisitos inúteis (um deles era a oração diária na capela) e que ela quase não demonstra­va o interesse intelectual pela maioria dos alunos. (Skinner, 1967, p. 392)

Skinner preparava trotes que perturbavam a comunidade da faculdade e criticava abertamente os professores e a administração. Formou-se em Letras - Inglês, com distinção Phi Beta Kappa, e desejava tornar-se escritor. Em um seminário de redação de que participou no verão, o poeta Robert Frost elogiou seus poemas e contos. Por dois anos, depois de se formar, trabalhou escrevendo, mas chegou à conclusão de que não tinha nada a dizer. Deprimido pelo fiasco como escri­tor, pensou em consultar um psiquiatra. Considerava-se um fracasso, e a sua autoestima estava despedaçada. Além disso, estava desiludido no amor; mais ou menos meia dúzia de mulheres rejeitaram-no.

Leu sobre as experiências de condicionamento de Watson e Pavlov, os quais lhe des­pertaram um interesse mais científico que literário acerca da natureza humana. Em 1928, matriculou-se no curso de pós-graduação em psicologia na Harvard University, embora nunca houvesse frequentado qualquer curso da área. Obteve o Ph.D. em três anos, completou com bolsa de estudo o pós-doutorado e lecionou na University of Minnesota (1936-1945) e na Indiana University (1945-1947), retornando depois para Harvard.

O tópico da sua dissertação dá uma indicação da posição que adotaria por toda a car­reira. Propôs ser o reflexo simplesmente uma correlação entre um estímulo e uma resposta, nada mais. Destacava a utilidade do conceito de reflexo na descrição do comportamento e dava amplo crédito a Descartes.

O seu livro lançado em 1938, The behavior of organisms, descreve os pontos principais do seu sistema. A obra vendeu apenas 80 cópias em quatro anos, perfazendo um total de 500 cópias nos oito primeiros anos, e recebeu críticas muito negativas. Cinquenta anos depois, foi considerado "um dentre alguns livros que mudaram a face da psicologia moderna" (Thompson, 1988, p. 397). O que levou esse livro do fracasso inicial para o estrondoso sucesso foi a sua utilidade nas áreas aplicadas, como na psicologia educacio­nal e clínica. Essa ampla aplicação prática das ideias de Skinner era bastante adequada, já que ele estava profundamente interessado em resolver os problemas da vida real. Um trabalho posterior, Science and human behavior (1953), tornou-se o livro básico da psicolo­gia behaviorista de Skinner.

Skinner continuou produzindo até à morte, com 86 anos. No porão da sua casa, cons­truiu a própria "caixa de Skinner", um ambiente controlado para proporcionar reforço positivo. Dormia em um tanque de plástico amarelo suficientemente grande para colocar um colchão, algumas prateleiras de livros e um pequeno aparelho de televisão. Deitava-se às 10 horas, dormia três horas, trabalhava uma hora, dormia mais três horas e levanta-se às cinco da manhã para trabalhar mais três horas. Depois, seguia para o escritório para trabalhar mais e toda tarde aplicava-se um autorreforço ouvindo música.

Gostava de escrever e dizia que essa atividade proporcionava-lhe bastante reforço positivo. Com 78 anos, escreveu um trabalho intitulado “Intellectual self-management in old age ("Autogerenciamento intelectual na velhice"), descrevendo suas experiências como um estudo de caso (Skinner, 1983). Descreveu a necessidade de o cérebro trabalhar menos horas por dia, com períodos de descanso entre os esforços exaustivos, para lidar com a perda de memória e a redução da capacidade intelectual. Ficou feliz ao saber que fora citado na literatura psicológica mais vezes do que Sigmund Freud. Quando pergunta­do por um amigo se tinha atingido a meta como escritor, apenas comentou: "Pensei que conseguiria" (apud Bjork, 1993, p. 214).

Em 1989, Skinner foi diagnosticado com leucemia, tendo expectativa de dois meses de vida. Durante uma entrevista no rádio, descreveu como se sentia:

Não sou religioso, portanto não me preocupo com o que acontecerá comigo depois da morte. Quando soube da doença e que morreria em alguns meses, não senti nenhum tipo de emoção. Não entrei em pânico, nem senti medo ou ansiedade. (...) O único sentimento de comoção que realmente encheu os meus olhos de lágrimas eu tive quando pensei em como contaria à minha esposa e às minhas filhas. (...) A minha vida foi realmente muito boa. Seria muito tolo de minha parte queixar-me, de alguma forma, sobre essa situação. Então estou aproveitando esses últimos meses assim como fiz a minha vida inteira. (apud Catania, 1992, p. 1.527)

Oito dias antes de morrer, mesmo fraco, Skinner apresentou um trabalho na convenção da APA de 1990, em Boston. Atacou veementemente o crescimento da psicologia cogniti­va, que desafiava a sua forma de behaviorismo. Na tarde anterior à sua morte, trabalhava no seu último artigo, “Can psychology be a Science of mind?" ("A psicologia pode ser uma ciência da mente?") (Skinner, 1990), outra acusação contra o movimento cognitivo que ameaçava suplantar a sua visão de psicologia.

O Behaviorismo de Skinner

Em diversos aspectos, a posição de Skinner representa uma renovação do behaviorismo de Watson. Um historiador afirmou: "O espírito de Watson é indestrutível. Límpido e purificado, ele respira por meio dos trabalhos de B. F. Skinner" (MacLeod, 1959, p. 34). Embora Hull também fosse considerado um rigoroso behaviorista, há diferenças entre suas visões e as de Skinner. Enquanto Hull enfatizava a importância da teoria, Skinner defendia um sistema empírico sem estrutura teórica para a condução de uma pesquisa.

Skinner resumia sua visão da seguinte forma: "Nunca ataquei um problema construindo uma hipótese. Jamais deduzi teoremas, nem os submeti a verificação experimental. Até onde consigo enxergar, não tenho nenhum modelo preconcebido de comportamento e, certamente, nem fisiológico nem mentalista e, creio, nem conceitual" (Skinner, 1956, p. 227).

O behaviorismo de Skinner dedica-se ao estudo das respostas. Ele se preocupava em descrever e não em explicar o comportamento. A sua pesquisa tratava apenas do compor­tamento observável, e ele acreditava que a tarefa da investigação científica era estabelecer as relações funcionais entre as condições de estímulo controladas pelo pesquisador e as respostas subsequentes do organismo.

Skinner não se preocupava em especular sobre o que ocorria dentro do organismo. Seu programa não apresentava suposições a respeito das entidades internas, fossem as variá­veis intervenientes, os impulsos ou os processos fisiológicos. O que acontecia na relação entre estímulo e resposta não era o tipo de dado objetivo com o qual o behaviorista skinneriano lidava. Assim, o behaviorismo puramente descritivo de Skinner foi denominado adequadamente de abordagem do "organismo vazio". Nessa visão, o organismo humano seria controlado e operado pelas forças do ambiente, pelo mundo exterior, e não pelas forças internas. Skinner não duvidava da existência das condições mentais ou fisiológicas internas, apenas não aceitava a sua validade no estudo científico do comportamento. Um biógrafo reiterou que a posição de Skinner "não era uma negação dos eventos mentais, mas uma recusa em classificá-los como entidades explicativas" (Richelle, 1993, p. 10).

Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, Skinner não considerava necessá­rio usar grande quantidade de indivíduos nas experiências ou realizar comparações esta­tísticas entre as respostas médias dos grupos de pesquisados, o seu método consistia na investigação compreensiva de um único indivíduo.

Uma previsão do que o indivíduo médio realizará é, muitas vezes, de pouco ou nenhum valor ao lidar com um indivíduo em particular. (...) Uma ciência é válida ao lidar com um indivíduo somente se as leis forem referentes aos indivíduos. Uma ciência do com­portamento que considera apenas o comportamento coletivo não parece válida para compreender um caso particular. (Skinner, 1953, p. 19)

Em 1958, os behavioristas skinnerianos criaram a revista Journal of the Experimental Analysis of Behavior, principalmente como resposta às exigências para publicação, não mencionadas nas principais revistas de psicologia, a respeito da análise estatística e da dimensão da amostragem de indivíduos observados. A revista Journal of Applied Behavior Analysis foi lançada para promover a pesquisa sobre a modificação do comportamento, um produto aplicado da psicologia de Skinner.

No trecho a seguir da obra Science and human behavior, Skinner descreve como o tra­balho de Descartes e as figuras mecânicas da Europa do século XVII (veja no Capítulo 2) influenciaram a sua abordagem de psicologia. Esse é um bom exemplo do uso da história, ou seja, de um psicólogo do século XX que se baseou em um trabalho realizado 300 anos antes. O texto também demonstra a evolução contínua das máquinas, tornando-se cada vez mais próximas da vida real.


Texto Original

Trecho Extraído de Science and Human Behavior (1953), de B. F. Skinner

O comportamento é uma característica primária das espécies vivas. Quase o identificamos com a própria vida. Qualquer objeto que se mova é praticamente chamado de ser vivo, princi­palmente quando o movimento é dotado de direção ou atua mudando o ambiente. O movi­mento acrescenta verossimilhança a qualquer modelo de organismo. A marionete adquire vida quando é movida, e os ídolos que se requebram ou exalam fumaça de cigarro são alvos de grande admiração. Robôs e criaturas mecânicas nos divertem apenas por se moverem. E há um significado na etimologia do termo desenho animado.

As máquinas parecem ter vida apenas porque estão em movimento. O fascínio da pá a vapor para neve é lendário. As máquinas menos conhecidas talvez possam realmente ser temi­das. Hoje, percebemos que somente as pessoas mais simples confundem-nas com as criaturas vivas; no entanto, em algum momento, todos as desconheciam. Um dia, quando [os poetas do século XIX William] Wordsworth e [Samuel Taylor] Coleridge passaram pela locomotiva a vapor, Wordsworth observou que era praticamente impossível apagar a impressão de vida e vontade que ela transmitia. "Sim", afirmou, "é um gigante dotado de pensamento".

Um brinquedo mecânico que imitava o comportamento humano conduziu à teoria da chamada ação reflexa. Na primeira parte do século XVII, certas figuras movidas por força hidráulica foram instaladas nos jardins públicos e particulares como objetos de diversão. Uma jovem passeando pelo jardim pisava sem querer em uma pequena plataforma escondida. Assim, uma válvula se abria, a água fluía para um pistão, e uma figura assustadora saltava por entre os galhos das árvores, assustando-a. René Descartes sabia como essas figuras funciona­vam e também o quanto elas se pareciam com as criaturas vivas. Pensava na possibilidade de aplicar a explicação do sistema hidráulico das figuras mecânicas também nas criaturas vivas. O músculo que se dilata quando move um membro talvez seja inflado por um fluido vindo pelos nervos cerebrais. Os nervos que se estendem da superfície do corpo até o cérebro talvez sejam os fios que abrem as válvulas.

Descartes não afirmava que o organismo humano sempre operava dessa forma. Aceitava essa explicação no caso dos animais e reservava uma esfera de ação para a "alma racional", talvez por causa da pressão religiosa. Todavia, não levou muito tempo para que um passo adiante produzisse a doutrina totalmente amadurecida do "homem como máquina". A dou­trina não deveu sua popularidade à plausibilidade - não havia provas confiáveis para a teoria de Descartes -, mas às chocantes implicações teóricas e metafísicas.

Desde aquela época, dois fatos se destacam: as máquinas parecem cada vez mais dotadas de vida, e os organismos vivos estão cada vez mais parecidos com as máquinas. As máquinas contem­porâneas não são apenas mais complexas: elas são propositadamente projetadas para operarem de forma a imitar o comportamento humano. As maquinações "quase humanas" fazem parte da experiência cotidiana. As portas nos veem chegando e se abrem para nos receber. Os elevadores memorizam os comandos e param no andar correto. As mãos mecânicas retiram os itens defei­tuosos da linha de produção. Outras escrevem mensagens até certo grau legíveis. As calculadoras mecânicas ou elétricas resolvem as equações mais difíceis ou as que tomam muito tempo dos matemáticos. O homem criou, assim, a máquina à sua imagem e semelhança —consequentemente, o organismo vivo perdeu uma parte da sua exclusividade. Ficamos menos espantados com as máquinas do que nossos ancestrais e menos propensos a dotar a máquina com autonomia de pensamento. Ao mesmo tempo, descobrimos mais a respeito do funcionamento do organismo vivo e estamos mais aptos a enxergar nele propriedades semelhantes às das máquinas


O Condicionamento Operante

Várias gerações de estudantes de psicologia estudaram os experimentos de Skinner sobre condicionamento operante e como diferem do comportamento respondente investigado por Pavlov. Na situação de condicionamento pavloviano, um estímulo conhecido é pareado com outro estímulo sob condições de reforço. A resposta comportamental é eliciada por um estímulo observável e Skinner chamou-a de comportamento respondente.

O comportamento operante ocorre sem qualquer estímulo antecedente externo observá­vel. A resposta do organismo parece ser espontânea, ou seja, não relacionada com qualquer estímulo observável conhecido. Isso não significa que não haja um estímulo que elicite a resposta, mas que ele não é detectado quando ocorre a resposta. No entanto, na visão do observador, não existe estímulo porque ele não o aplicou e não consegue vê-lo.

Outra diferença entre o comportamento respondente e o operante é que este opera no ambiente do organismo, enquanto o outro, não. O cão treinado do laboratório de Pavlov não fazia outra coisa senão reagir (nesse caso, salivar) quando o pesquisador apre­sentava-lhe o estímulo (a comida). O cão não era capaz de atuar por si só para assegurar o estímulo. No entanto, o comportamento operante do rato na caixa de Skinner é ins­trumental em assegurar o estímulo (a comida). Quando o rato pressiona a barra, recebe comida, e somente a recebe se pressionar a barra, portanto ele opera sobre o ambiente.

Skinner acreditava no comportamento operante como o melhor representante da situa­ção típica de aprendizagem. Na maioria das vezes, o comportamento é do tipo operante, por isso, a melhor abordagem científica para seu estudo são os processos de condiciona­mento e extinção.
A demonstração da clássica experiência da caixa de Skinner envolvia o ato de pressio­nar a barra, que fora construída de modo que controlasse as variáveis externas. Colocava-se um rato privado de comida dentro da caixa, ficando livre para explorar o ambiente. No curso dessa exploração, o rato pressionava uma alavanca ou uma barra, ativando um meca­nismo que liberava uma bolinha de ração em uma bandeja. Depois de conseguir algumas bolinhas (os reforços), o condicionamento geralmente se estabelecia com rapidez. Observe que o comportamento do rato (pressionando a alavanca) atuou sobre o ambiente e assim serviu como instrumento para a obtenção do alimento. A variável dependente é simples e direta: a taxa de respostas.

Com base nessa experiência básica, Skinner derivou sua lei da aquisição, que afirma que a força de um comportamento operante aumenta quando ele é seguido pela apresenta­ção de um estímulo reforçador. Embora a prática seja importante para se estabelecer uma alta taxa de pressão à barra, a variável-chave é o reforço. A prática em si não aumenta a taxa de respostas; ela apenas proporciona a oportunidade de ocorrência do reforço adicional.

A lei da aquisição de Skinner é diferente das visões de Thorndike e Hull sobre a aprendizagem. Skinner não lidava com as consequências do reforço, como as sensações de prazer/dor ou satisfação/insatisfação, como fazia Thorndike, nem tentava interpretar o reforço com base na redução dos impulsos, como Hull. Enquanto os sistemas de Thorndike e Hull eram explicativos, o de Skinner era descritivo.

Esquemas de Reforço

A pesquisa inicial com o rato pressionando a barra da caixa de Skinner demonstrou o papel do reforço no comportamento operante. O comportamento do rato era reforçado cada vez que ele pressionava a barra. Em outras palavras, o rato recebia alimento sempre que executava a resposta correta. No mundo real, no entanto, o reforço nem sempre é assim consistente ou contínuo, muito embora a aprendizagem ocorra e o comportamento persista, mesmo quando o reforço seja intermitente. Skinner afirmou:

Nem sempre encontramos uma boa camada de gelo ou uma boa neve quando vamos pati­nar ou esquiar. (...) Nem sempre temos uma ótima refeição nos restaurantes, porque os cozinheiros não são muito previsíveis. Nem sempre que telefonamos a um amigo consegui­mos falar com ele, porque nem sempre ele está em casa. (...) Os reforços característicos do trabalho e do estudo são quase sempre intermitentes porque não é viável controlar o comportamento reforçando toda resposta. (Skinner, 1953, p. 99)

Pense na sua experiência. Mesmo que você estude sem parar, não conseguirá obter a nota máxima em todas as provas. No emprego, mesmo que trabalhe com a máxima eficiência, nem sempre você recebe elogios ou aumentos salariais. Assim, Skinner dese­java saber de que forma o reforço variável influenciava o comportamento. Será que um esquema de reforço ou um determinado padrão é melhor que outro para determinar as respostas do organismo?

A motivação para a realização da pesquisa não surgiu da curiosidade intelectual mas da conveniência, o que mostra que a ciência às vezes funciona diferentemente da imagem idealizada descrita em muitos livros. Em um sábado à tarde, Skinner percebeu que as bolinhas de ração do rato estavam acabando. Naquela época, ou seja, na década de 1930, a ração animal não era adquirida pronta nas lojas de animais ou diretamente dos fabricantes. O pesquisador (ou o aluno de pós-graduação) tinha de prepará-las manual­mente, um processo trabalhoso que consumia muito tempo. Em vez de passar o fim de semana preparando as bolinhas, Skinner perguntou-se o que aconteceria se reforçasse os ratos apenas uma vez a cada minuto, independentemente do número de respostas que apresentassem. Desse modo, gastaria muito menos ração naquele fim de semana. Elabo­rou, assim, uma série de experiências para testar diferentes taxas e intervalos de reforço (Ferster e Skinner, 1957; Skinner, 1969).

Em uma série de estudos, comparou as taxas de resposta dos animais que recebiam um reforço por resposta sendo apresentado após um intervalo específico. A segunda condição era um programa de reforço com intervalo fixo. O novo reforço era dado uma vez a cada minuto ou uma vez a cada quatro minutos. O aspecto importante era a apresentação do reforço ao animal depois de um período fixo. Um emprego com sistema de pagamento semanal ou mensal proporciona o reforço em um intervalo fixo. A remuneração dos fun­cionários não é baseada no número de peças produzidas (o número de respostas), mas nos dias trabalhados. A pesquisa de Skinner demonstrou que, quanto menor o intervalo entre os reforços, mais rápida a resposta do animal. Quando o intervalo aumentava, a taxa de respostas diminuía.

A frequência dos reforços também contribui para a extinção de uma resposta. Elimi­na-se um comportamento com mais rapidez quando o reforço é contínuo e interrompido de repente, do que quando é intermitente. Alguns pombos apresentaram respostas até 10 mil vezes, mesmo sem reforço, quando foram originalmente condicionados com reforços intermitentes.

Em um esquema de razão fixa, o reforço não é apresentado depois de certo intervalo, mas depois de um número predeterminado de respostas. O comportamento do animal é que determina a frequência com que receberá o reforço. Talvez seja necessário respon­der 10 ou 20 vezes depois do reforço inicial antes de receber outro. Os animais em um esquema de razão fixa respondem com muito mais rapidez que os de intervalo fixo. Responder rapidamente em um esquema de intervalo fixo não proporciona nenhum reforço adicional; nesse esquema, mesmo que o animal pressione a barra 5 ou 50 vezes, receberá o reforço somente depois de passado o intervalo estabelecido. A alta taxa de resposta em um esquema de razão fixa funciona com ratos, pombos e seres humanos. Em um progra­ma salarial de razão fixa aplicado no ambiente de trabalho, o pagamento ou a comissão do empregado depende do número de itens produzidos ou vendidos. Esse esquema de reforço é válido somente se a razão não for elevada demais, ou seja, se foi requerida uma carga de trabalho exequível para se receber uma unidade de pagamento, e se o reforço específico recompensar o esforço.

Aproximação Sucessiva: a Formação do Comportamento

No experimento original de Skinner do condicionamento operante, esse (apertar uma alavanca) era um comportamento simples, esperado de um rato de laboratório, que po­deria possivelmente exibir ao explorar seu ambiente. Assim, a possibilidade de que tal comportamento ocorrerá é grande, supondo-se que o experimentador tenha paciência suficiente. Entretanto, é óbvio que os animais e humanos demonstrem comportamentos operantes muito mais complexos com pequena probabilidade de ocorrência no curso normal dos eventos. Lembre-se da sequência complicada de comportamentos exibida por Priscilla, o Porco Metálico, ou os surpreendentes feitos da Ave Inteligente que estavam sendo exibidos no Zoológico do QI. Como esses comportamentos complexos são aprendi­dos? Como pode um treinador ou um experimentador ou um pai reforçar e condicionar um animal ou uma criança a desempenhar comportamentos que provavelmente não ocorrem espontaneamente?

Skinner respondeu a essas perguntas com o método de aproximação sucessiva, ou modelagem (Skinner, 1953). Ele treinou uma pomba em um período muito curto a bicar um determinado lugar na sua gaiola. A probabilidade de que a pomba bicasse aquele lu­gar preciso era baixa. Primeiro a pomba foi reforçada com comida quando simplesmente se virava para a direção do lugar designado. Em seguida, o reforço foi retirado até que a pomba fizesse qualquer movimento, mesmo mínimo, em direção àquele local. Depois, o reforço era dado somente quando a pomba se aproximasse de lá. E, finalmente, reforço era dado somente quando seu bico tocasse o local. Embora isso tudo pareça tomar bastante tempo, Skinner condicionou pombos em menos de três minutos.

O procedimento experimental em si explica o termo "aproximação sucessiva". O organismo é reforçado à medida que seu comportamento ocorra em fases sucessivas ou consecutivas para se aproximar do comportamento final desejado. Skinner propôs a ideia de que é assim que as crianças aprendem o complexo comportamento da fala. Crianças pequenas espontaneamente emitem sons sem sentido, o que é reforçado pelos pais com sorrisos, risadas e conversas. Depois de um tempo os pais recompensam esses balbucios infantis de modos diferentes, oferecendo recompensas mais fortes para aqueles sons que se aproximam de palavras. À medida que o processo continua, o reforço paterno torna-se mais restrito, dado somente quando usado e pronunciado adequadamente. Assim, o com­ portamento complexo de se adquirir habilidades de linguagem é moldado ao se oferecer reforço diferenciado por fases.

Os Aparelhos de Condicionamento Operante de Skinner

Os aparelhos condicionantes de Skinner trouxeram-lhe fama entre os psicólogos, mas foi o "berço automático", aparelho para automatizar as tarefas de cuidar dos bebês, que lhe rendeu a notoriedade pública (Benjamin e Nielsen-Gammon, 1999). Quando Skinner e a esposa resolveram ter um segundo filho, ela disse que os dois primeiros anos do bebê requeriam muito trabalho; assim, Skinner inventou um ambiente mecanizado para ali­viar as tarefas rotineiras dos pais. Embora fosse comercialmente, o berço automático não obteve êxito. A filha de Skinner, criada nesse berço, aparentemente não apresentou efeitos negativos da experiência.

Skinner descreveu o aparelho pela primeira vez na revista Ladies Home Journal em 1945 e, mais tarde, na autobiografia. Era um espaço para viver do tamanho de um berço ao qual chamamos de "bebê-conforto". As paredes eram à prova de som e havia uma grande janela pintada. O ar entrava por filtros instalados na base e, depois de aquecido e umidificado, circulava por todos os lados e todas as bordas de uma lona bem esticada que servia de colchão. Uma espécie de tira de lençol com cerca de nove metros de comprimento passava sobre a lona, e uma parte limpa sua podia ser encaixada no lugar em alguns segundos. (Skinner, 1979, p. 275)

Outro equipamento apresentado por Skinner foi a máquina de ensinar, inventada na década de 1920 por Sidney Pressey. Infelizmente para ele, o aparelho era moderno demais para a sua época, e não houve interesse em continuar a sua comercialização (Pressey, 19671. Talvez as forças contextuais tenham sido responsáveis tanto pela falta de interesse, na épo­ca, como pelo ressurgimento entusiástico do mecanismo, mais ou menos 30 anos depois (Benjamin, 1988). Pressey introduziu a máquina, prometendo que ela ensinaria os alunos em um ritmo mais rápido, exigindo, assim, menos professores nas salas de aula. Na época, no entanto, havia excesso de professores e não existia pressão pública para a melhoria do processo de aprendizagem. Na década de 1950, quando Skinner promoveu um equipamento semelhante, havia falta de professores, excesso de estudantes e pressão pública para a melho­ria da educação, para que os Estados Unidos pudessem competir com a União Soviética na corrida espacial. Skinner resumiu o seu trabalho nessa área no livro The technology of teaching (1968). As máquinas de ensinar foram amplamente empregadas nas décadas de 1950 e 1960, até serem substituídas pelos métodos de ensino por computador.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Skinner, juntamente com as irmãs Breland, de­senvolveu um sistema de orientação para guiar as bombas lançadas dos aviões de guerra sobre alvos específicos em terra. Na ponta dos mísseis, ficavam pombos condicionados a dar bicadas ao avistarem o alvo. As bicadas afetavam o ângulo das alhetas dos mísseis, permitindo, assim, mirar corretamente o alvo. No entanto, o exército estadunidense pareceu não se impressionar quando abriram as alhetas dos mísseis e viram três pombos ao invés do sofisticado instrumento eletrônico que esperavam. Eles recusaram incorporar pombos ao arsenal de artilharia (Skinner, 1960).

Nas décadas de 1960 e 1970, Keller e Marian Breland trabalharam para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Elas 

condicionaram arenques e gaivotas a pesquisarem áreas a uma distância de 360 graus sobre lagos e oceanos, ensinaram pombos a voar ao longo de uma estrada para encontrar atiradores e condicionaram corvos a desempenharem tarefas complexas de longa distância, como fotografar, segurando pequenas câmeras nos seus bicos. Era impressionante que embora tivessem a chance de escapar do cativeiro, esses animais constantemente voltavam depois de desempenharem suas tarefas. (Gillaspy e Bihm, 2002, p. 293)

Walden Two - uma Sociedade do Futuro

Skinner planejou minuciosamente uma tecnologia do comportamento, na tentativa de aplicar as descobertas feitas no laboratório à sociedade. Enquanto Watson falava, em geral sobre a construção de uma base para uma vida mais saudável por meio do condicionamento, Skinner descrevia em detalhes o funcionamento dessa sociedade. No seu romance, Walden two (1948), descreve a vida de uma comunidade rural de mil habitantes, cujo comporta­mento é controlado por reforços positivos. O livro resultou da crise pessoal de meia-idade de Skinner, depressão que sofrera aos 41 anos. A fim de sair da crise, retomou a sua iden­tidade pós-universitária de escritor, expressando os conflitos e desesperos por meio da personagem principal da história, T. E. Frazier. Skinner afirmou: "Grande parte da vida em Walden two retratava a minha vida daquela época. Deixei Frazier dizer coisas que eu mesmo ainda não estava preparado para contar a ninguém" (1979, p. 297-298).

Skinner retratou no romance uma sociedade com base nas suposições a respeito da semelhança entre o homem e a máquina. Essa ideia reflete a linha de pensamento traçada desde Galileu e Newton, passando pelos empiristas britânicos até chegar a Watson e Skin­ner. A visão da ciência natural determinista, analítica e mecanicista de Skinner, reforçada pelos resultados de seus experimentos sobre condicionamento, convenceu vários psicólogos behavioristas de que o comportamento humano pode ser guiado, modificado e modelado com o conhecimento das condições ambientais e a aplicação do reforço positivo.

Modificação de Comportamento

A sociedade de Skinner baseada no reforço positivo existe apenas na ficção. No entanto, o controle ou a modificação do comportamento humano, de forma individual ou em pequenos grupos, são amplamente aceitos. A modificação de comportamento mediante - reforço positivo é aplicada clinicamente com frequência em hospitais de saúde mental, fabricas, prisões e escolas para alterar os comportamentos indesejáveis, transformando-os em mais aceitáveis. A modificação de comportamento funciona com as pessoas da mesma forma que o condicionamento operante o faz para alterar o comportamento de ratos e pombos, ou seja, reforçando o comportamento desejado e não reforçando o indesejado.

Pense em uma criança que vive fazendo cenas para obter comida ou chamar a atenção. Quando os pais acabam cedendo, estão reforçando o comportamento inadequado. Na situação de modificação de comportamento, chutes ou gritos jamais devem ser reforçados, somente os comportamentos aceitáveis socialmente o devem ser. Depois de algum tempo, o comportamento da criança acaba mudando, porque os ataques de teimosia não surtem mais efeito na obtenção de recompensas, enquanto o comportamento adequado é recompensado.

O condicionamento operante e o reforço vêm sendo aplicados em ambientes de trabalho, em que os programas de modificação de comportamento visam reduzir as faltas, melhorar o desempenho do trabalho e as práticas de segurança, além de aperfeiçoamento de habilidades na função. A modificação de comportamento também serve para alterar o comportamento dos pacientes em hospitais de saúde mental. Pode-se induzir a modificação para um comportamento positivo, recompensando o paciente com fichas que podem se trocadas por mercadorias ou privilégios, e não reforçando o comportamento negativo ou agressivo. Ao contrário das técnicas clínicas tradicionais, o psicólogo behaviorista, nessa situação, não se preocupa em saber o que se passa na mente do paciente, assim como o experimentador não se importa com as atividades mentais do rato na caixa de Skinner. O enfoque concentra-se exclusivamente no comportamento aberto e no reforço positivo.

As pesquisas têm mostrado que os programas de modificação de comportamento normalmente têm êxito somente dentro das organizações ou instituições em que são apli­cados. Os efeitos raramente são transferidos para situações externas porque o programa de reforço teria de ser continuado, mesmo de modo intermitente, para que as mudança desejadas persistissem. No caso de pacientes, por exemplo, isso pode ser feito em casa com acompanhantes treinados para reforçar o comportamento desejável com sorrisos, elogios ou outros sinais de afeto e aprovação.
A punição não faz parte do programa de modificação de comportamento. De acordo com Skinner, as pessoas não devem ser punidas por não se comportarem da forma dese­jada. Ao contrário, devem ser reforçadas ou recompensadas quando mudarem o compor­tamento na direção positiva. A posição de Skinner de que o reforço positivo é mais eficaz do que a punição para alterar o comportamento é comprovada por várias pesquisas com animais e seres humanos.

As Críticas ao Behaviorismo de Skinner

As críticas ao behaviorismo de Skinner tinham como alvo o seu extremo positivismo e a oposição à teoria, a qual seus oponentes alegavam ser impossível eliminar completamen­te. O planejamento prévio dos detalhes de um experimento é uma evidência da teoriza­ção, mesmo sendo uma teoria simples. Além disso, a aplicação dos princípios básicos de condicionamento como quadro de referência para a sua pesquisa também constitui um grau de teorização.

Skinner emitia afirmações ousadas a respeito das questões econômicas, sociais, polí­ticas e religiosas derivadas do seu sistema. Em 1986, escreveu um artigo com título bem abrangente "What is wrong with life in the western world?" (“O que há de errado com a vida no mundo ocidental?"). Afirmava que o "comportamento humano ocidental se enfraquecera, mas pode ser fortalecido com a aplicação dos princípios derivados da análi­se experimental do comportamento" (Skinner, 1986, p. 568). Essa disposição de extrapo­lar os dados, especialmente para propor soluções aos problemas humanos complexos, é inconsistente com a posição antiteórica e mostra que Skinner rompeu os limites dos dados observáveis ao apresentar seu esquema de reestruturação da sociedade.

A afirmação de Skinner de que todo comportamento é aprendido foi rebatida pelo trabalho de treinamento animal dos Brelands. Eles constataram que o porco, a galinha, o hamster, o boto, a baleia, a vaca e outros animais demonstraram uma propensão à 'transferência instintiva", ou seja, que tendiam a substituir o comportamento instintivo pelo comportamento reforçado, mesmo que o comportamento instintivo interferisse na
obtenção de comida.

Utilizando a comida como reforço, o porco e o guaxinim rapidamente se condiciona­vam a apanhar uma moeda, carregá-la por uma certa distância e colocá-la em um banco de brinquedo. Depois de certo tempo, no entanto, os animais começavam a apresentar comportamentos indesejados.

O porco parava pelo caminho, enterrava a moeda na areia e a retirava com o focinho; o guaxinim ficava bastante tempo mexendo na moeda e fazendo movimentos como se estivesse se lavando. No começo, pareceu interessante, mas acabava consumindo tempo demais e fazia o show parecer cheio de falhas para o espectador. Comercialmente, foi desastroso. (Richelle, 1993, p. 68)

O que estava acontecendo era uma transferência instintiva. O animal revertia o com­portamento inato que tinha precedência sobre o comportamento aprendido, mesmo que atrapalhasse na obtenção do alimento. Nesse caso, o reforço evidentemente não era tão eficaz quanto afirmava Skinner.

As visões de Skinner sobre o comportamento verbal e a explicação sobre como a criança aprendia a falar também foram contestadas. Os críticos insistiam em afirmar que alguns comportamentos seriam inatos. Os bebês não aprendem a língua, palavra por palavra, porque recebem reforço por seu uso ou sua pronúncia corretos. Ao contrário, eles dominam as regras gramaticais necessárias para produzir frases. O potencial para cons­truir essas regras, de acordo com essa argumentação, é inato e não adquirido (Chomsky, 1959, 1972).

As Contribuições do Behaviorismo de Skinner

Apesar dessas críticas, Skinner foi o campeão inconteste da psicologia behaviorista entre as décadas de 1950 e 1980. Durante esse período, a psicologia estadunidense foi moldada muito mais pelo seu trabalho do que pelas ideias de qualquer outro psicólogo. Em 1958, a APA outorgou a Skinner o Distinguished Scientific Contribution Award [Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica], observando que "poucos psicólogos estadunidenses exerceram tamanho impacto no desenvolvimento da psicologia e nos jovens promissores psicólogos".

Em 1968, Skinner recebeu a National Medal of Science [Medalha Nacional da Ciên­cia] , a mais alta honraria concedida pelo governo estadunidense, por causa das contribuições à ciência. A American Psychological Foundation [Fundação Americana de Psicologia] concedeu a Skinner o Gold Medal Award [Prêmio da Medalha de Ouro], e ele foi capa da revista Time. Em 1990, foi homenageado com a citação presidencial da APA por uma vida de contribuições à psicologia.

O objetivo geral de Skinner era a melhoria da vida humana e da sociedade. Apesar da natureza mecanicista do seu sistema, ele era humanista, qualidade expressa nos seus esforços para modificar o comportamento nos ambientes do mundo real - como nos lares, escolas, empresas e instituições. Esperava que a sua tecnologia do comportamento ajudasse a aliviar o sofrimento humano e sentia-se muito frustrado ao ver que as suas ideias, embo­ra populares e influentes, não eram aplicadas de forma mais sábia e mais ampla.

Embora o tipo de behaviorismo de Skinner continue a ser aplicado em laboratórios, clínicas, empresas e outros ambientes do mundo real, foi contestado pelo trabalho do neo-neobehavioristas, incluindo Albert Bandura e Julian Rotter, entre outros, que adotam uma abordagem mais sociobehaviorista.

Behaviorismo Social: o Desafio Cognitivo

Bandura, Rotter e outros seguidores da abordagem sociobehaviorista eram, em princípio, behavioristas, mas adotavam uma forma de behaviorismo bem distinta da de Skinner. Eles questionavam a sua total negação aos processos mentais ou cognitivos e propunham em seu lugar uma aprendizagem social ou uma abordagem sociobehaviorista, uma reflexão sobre um movimento cognitivo mais amplo na psicologia como um todo. As teorias de aprendizagem social marcam o terceiro estágio (o estágio neo-neobehaviorista) no desen­ volvimento da escola de pensamento behaviorista. A origem e o impacto do movimento cognitivo serão abordados integralmente no Capítulo 15. 

Albert Bandura (1925-)

Albert Bandura nasceu no Canadá, em uma cidade tão pequena que a escola secundária tiha somente 20 alunos e 2 professores. Seus pais eram imigrantes da Europa Oriental, com pouca educaçao formal, mas que a valorizaram muito para seu filho. Depois de terminar o colegial, Albert trabalhou na construção civil no território Yukon, tapando buracos em uma estrada do Alasca. "Vendo-se no meio de diversas personalidades curiosas, muitas das quais fugindo dos credores, de pensões e de funcionários da justiça, [Bandura] desenvolveu rapidamente uma profunda admiração pela psicopatologia da vida cotidiana, que parecia brotar da rigorosa tundra" (Distinguished Scientific Contribution Award, 1981, p 28)

Bandura se matriculou na University of British Columbia, em Vancouver, onde fez um curso de psicologia, mas só porque estava sendo oferecido em um horário conveniente e não porque tivesse qualquer interesse no assunto. No entanto, verificou que gostava da área e decidiu continuar nela. Obteve o diploma de Ph.D. pela University of Iowa em 1952 e daí para a frente teve uma carreira brilhante e altamente produtiva em Stanford University.

A Teoria Social Cognitiva

A teoria social cognitiva de Bandura é uma forma de behaviorismo menos radical que a de Skinner e reflete o espírito dos tempos, o impacto do renovado interesse da psicologia nos fatores cognitivos. Mesmo assim, a visão de Bandura ainda era behaviorista. Sua pes­quisa tmha como meta observar o comportamento dos indivíduos durante a interação não usava a introspecção nem enfatizava a importância da recompensa ou do reforço na aquisição ou modificação do comportamento.

Além de ser uma teoria behaviorista, o sistema de Bandura era cognitivo. Ele enfa­tizava a influência dos esquemas de reforço externo dos processos de pensamento, tais como crenças, expectativas e instrução. Para Bandura, respostas comportamentais não são disparadas automaticamente por um estímulo externo, como em uma máquina ou em um robô. Ao contrário, as reações aos estímulos são autoativadas, iniciadas pela pró­pria pessoa. Quando um reforço externo altera o comportamento, é porque a pessoa tem consciência da resposta que está sendo reforçada e antecipa a recepção do mesmo reforço ao repetir o comportamento da próxima vez em que a situação ocorrer.

Embora Bandura concordasse com Skinner a respeito da possibilidade de mudar o compor­tamento humano por meio do reforço, também sugeriu e demonstrou, na prática, a capacidade de as pessoas aprenderem quase todos os tipos de comportamento sem receberem diretamente qualquer reforço. Para ele, não é necessário receber sempre um reforço para se aprender algo. A aprendizagem também ocorre por meio do reforço vicário, ou seja, mediante a observação tanto do comportamento das outras pessoas como das suas consequências. 

A capacidade de aprender por meio de exemplos e de reforço vicário parte do prin­cípio de que somos capazes de antecipar e avaliar as consequências que observamos nas outras pessoas, mesmo não passando pela mesma experiência. É possível controlar o pró­prio comportamento, observando as consequências, ainda que não experimentadas, de determinado comportamento e fazendo uma opção consciente de agir ou não da mesma forma. Bandura acredita não existir uma ligação direta entre estímulo e resposta, ou entre comportamento e reforço, como afirmava Skinner. Para ele, há um mecanismo interposto entre o estímulo e a resposta, que nada mais é do que o processo cognitivo do indivíduo.

Desse modo, o processo cognitivo exerceu um papel importante na teoria social cog­nitiva de Bandura, diferenciando a sua visão da de Skinner. Na opinião de Bandura, não é o esquema de reforço em si que produz efeito na mudança do comportamento de uma pessoa, mas o que ela pensa desse esquema. A aprendizagem ocorre não pelo reforço dire­to, mas por meio de "modelos", observando o comportamento de outras pessoas e nele fundamentando os próprios padrões. Para Skinner, o controlador do reforço regula o com­portamento. Para Bandura, o controlador do modelo social regula o comportamento.

Bandura conduziu pesquisas completas sobre as características dos modelos que influenciam o comportamento humano. A tendência do indivíduo é modelar o próprio compor­tamento com base nas pessoas do mesmo sexo e idade, ou seja, nos nossos semelhantes que conseguiram resolver os problemas similares aos nossos. Há uma propensão também de se deixar impressionar por modelos de prestígio e status superiores ao nosso. O tipo de comportamento envolvido afeta a amplitude da imitação. A tendência é de imitar mais os comportamentos simples do que os extremamente complexos. A hostilidade e a agressividade tendem a ser muito imitadas, principalmente pelas crianças (Bandura, 1986). Assim, o que se vê na vida real ou na mídia, muitas vezes, determina o nosso comportamento.

A abordagem de Bandura consiste em uma teoria de aprendizagem "social", porque estuda iformação e a modificação do comportamento nas situações sociais. Bandura criticou Skinner por usar apenas um único sujeito na observação (na maioria das vezes, ratos e pombos) em vez de pessoas interagindo umas com as outras. Poucas pessoas vivem isoladas socialmente. Bandura afirmava que os psicólogos não devem considerar relevantes para o mundo moderno as descobertas de pesquisas que ignorem as interações sociais.

A Autoeficácia

Bandura realizou muitas pesquisas sobre a autoeficácia, descrita como o senso de autoestima ou valor próprio, o sentimento de adequação, eficácia e competência para enfrentar os problemas (Bandura, 1982). Seu trabalho demonstrou que as pessoas com grau elevado de autoeficácia acreditam ser capazes de lidar com os diversos acontecimentos da vida. Um pesquisador a descreveu simplesmente como "o poder de acreditar que se consegue fazer coisas", acrescentando que "acreditar que consegue realizar o que quer é um dos ingredientes mais importantes na receita para o sucesso" (Maddux, 2002, p. 277).

As pessoas com baixo grau de autoeficácia sentem-se inúteis, sem esperança, acredi­tam que não conseguem lidar com as situações que enfrentam e que têm poucas chances de mudá-las. Diante de um problema, tendem a desistir na primeira tentativa frustrada. Não acreditam que a sua atitude faça alguma diferença nem que controlam e podem mudar o próprio destino.

A pesquisa de Bandura mostrou que a crença no nível de autoeficácia influencia vários aspectos da vida. Por exemplo, pessoas com elevado grau de autoeficácia tendem a obter notas altas, a analisar mais opções de carreira, a obter maior sucesso profissional, a esta­belecer metas pessoais mais altas e a apreciar mais a saúde mental e física do que as com baixa autoeficácia. No geral, constatou-se que o homem tem a autoeficácia mais elevada do que a mulher. Tanto no homem como na mulher, o pico da autoeficácia ocorre na meia-idade e diminui depois dos 60 anos.
Parece óbvio que o alto grau de autoeficácia produz efeitos positivos em praticamen­te todos os aspectos da vida. O estudo demonstrou que as pessoas com grau elevado de autoeficácia sentem-se melhor e mais saudáveis, menos estressadas, suportam mais a dor física e tendem a recuperar-se mais rapidamente de uma doença ou de uma cirurgia do que as de baixa autoeficácia. Esta afeta também o desempenho escolar e profissional. Por exemplo, constatou-se que empregados com elevado grau de autoeficácia sentem-se mais realizados profissionalmente, são mais comprometidos com a empresa e mais motivados para realizar bem as tarefas e os programas de treinamento do que os funcionários de baixa autoeficácia (Salas e Cannon-Bowers, 2001).

Bandura descobriu também que os grupos desenvolvem níveis coletivos de eficácia que influenciam no desempenho de diversas tarefas. A pesquisa com grupos como equi­pes de esportes, departamentos corporativos, unidades militares, comunidades de bairro e grupos de ação política mostrou que "quanto mais intensamente percebida a eficácia coletiva, mais elevadas são as aspirações do grupo e maior é a motivação para as realizações; quanto mais intensa a persistência diante de impedimentos e obstáculos mais ele­vados são o moral e a capacidade de recuperação diante do estresse, e maior a realização de proezas" (Bandura, 2001, p. 14).

A Modificação de Comportamento

A proposta de Bandura para o desenvolvimento de uma abordagem social cognitiva para o behaviorismo consistia em alterar ou modificar comportamentos considerados social­mente anormais ou indesejáveis. Ele pensou que, se todo comportamento é aprendido observando outras pessoas e modelando o nosso comportamento de acordo com o delas, então é possível alterar ou reaprender o comportamento indesejável também por meio da observação. Assim como Skinner, Bandura concentrava-se nos fatores externos, ou seja, no comportamento em si e não em alguma consciência interna presumida ou em algum conflito inconsciente. Para Bandura, o tratamento do sintoma significa tratar o distúrbio porque sintoma e distúrbio são a mesma coisa.

As técnicas de modelação são usadas para modificar o comportamento, fazendo com que o indivíduo observe um modelo em uma situação que normalmente provoque certo grau de ansiedade. Por exemplo, uma criança que tem medo de cachorro observa outra da mesma idade - o modelo - aproximar-se do animal e acariciá-lo. Observando de uma distancia segura, a criança vê o modelo realizar movimentos progressivos, aproximando-se aos poucos do cachorro. O modelo acaricia o cão pelas barras do cercadinho e, em seguida, entra e brinca com o animal. Como resultado dessa situação de aprendizagem por observação, o medo da criança pode ser reduzido. Em uma variação dessa técnica, pessoas assistem a modelos brincarem com objetos temidos, como uma cobra, e então os próprios indivíduos realizam movimentos progressivos de aproximação em direção ao objeto, até se sentirem realmente capazes de tocá-lo.

A forma de terapia do comportamento de Bandura é amplamente empregada em clínicas, empresas e salas de aula e tem sido comprovada por centenas de estudos experimentais. Esse método tem sido eficaz na cura da fobia de cobras, espaços fechados, espaços abertos e altu­ras. Também é válido no tratamento dos distúrbios obsessivo-compulsivos, das disfunções sexuais e de algumas formas de ansiedade, além de ser eficaz no aumento da autoeficácia

O trabalho de Bandura vem sendo adaptado para programas de rádio e televisão com o objetivo de apresentar modelos de comportamento adequados para tratar de problemas sociais e nacionais, como a prevenção de gravidez indesejada, controle da disseminação da AIDS e redução do analfabetismo. Esses programas baseiam-se em personagens fictícias atuando como modelos para que os ouvintes e telespectadores simulem a mudança do comportamento. Pesquisas realizadas com tais simulações em rádios e televisões compro­vam o aumento significativo do comportamento adequado, tais como a prática de sexo seguro, o planejamento familiar e a melhoria do status da mulher (Smith, 2002a).

Comentários

Como era de se esperar, os behavioristas tradicionais criticaram o behaviorismo social cog­nitivo de Bandura, alegando que os processos cognitivos, como a crença e a antecipação, não causam efeito no comportamento. A resposta de Bandura foi a seguinte: "É interessan­te observar os behavioristas radicais afirmarem que o pensamento não exerce influência, enquanto dedicam um tempo razoável com palestras, artigos e livros em um esforço para convencer as pessoas a adotarem a sua forma de pensamento" (apud Evans, 1989, p. 83)

A teoria social cognitiva tem sido amplamente aceita na psicologia como uma forma eficaz para o estudo do comportamento em laboratórios e para modificá-lo nos ambien­tes clínicos. Além disso, as contribuições de Bandura foram amplamente reconhecidas pelos colegas. Ele presidiu a APA em 1974 e, em 1980, recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Cientifica da APA. Em 2004 recebeu o prêmio Outstanding Contribution to
Psychology Award
, da APA, e em 2006 recebeu o American Psychological Foundation's Gold Medal Award for Life Achievement in the Science of Psychology.

Sua teoria e a terapia de modelos dela derivada ajustam-se à forma prática e funcional da psicologia estadunidense contemporânea. A sua abordagem é objetiva e adaptável aos métodos precisos de laboratório. Atende aos anseios do clima intelectual corrente que se concentra nas variáveis cognitivas internas, além de ser aplicável às questões da vida real.

Julian Rotter (1916-2014)

Julian Rotter cresceu no bairro do Brooklyn, em Nova York. A família levou uma vida confortável até seu pai perder os negócios no início da Grande Depressão de 1929. Essa desastrosa mudança no cenário econômico marcou a guinada na vida de Rotter, na época com 13 anos. Ele declarou que "essa experiência despertou a minha eterna preocupação com a injustiça social e proporcionou-me uma grande lição de como a personalidade e o comportamento são influenciados pelas condições situacionais" (Rotter, 1993, p. 274)

Durante o ensino médio, Rotter descobriu os livros de psicanálise de Sigmund Freud e de Alfred Adler. Como brincadeira, começou a interpretar os sonhos dos colegas e resolveu que desejava se tornar psicólogo. Decepcionado ao descobrir a pouca disponibilidade de empregos para psicólogos, decidiu formar-se em química na Brooklyn College. No entan­to, ao ingressar na faculdade, conheceu, por acaso, Adler e resolveu afinal mudar para a psicologia, mesmo sabendo ser ela impraticável. Desejava seguir a carreira acadêmica, mas a discriminação contra os judeus frustrou suas expectativas. "Tanto na Brooklyn College como no curso de pós-graduação, fui alertado de que os judeus simplesmente não
conseguiam obter posições acadêmicas, independentemente das credenciais. Os alertas se confirmaram" (Rotter, 1982, p. 346). Depois de obter o Ph.D. na Indiana University, em 1941, aceitou um emprego em um hospital de saúde mental em Connecticut. Serviu o exército estadunidense como psicólogo durante a Segunda Guerra Mundial, lecionou na Ohio State University até 1963 e foi para a University of Connecticut. Em 1988, recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica da APA.

Os Processos Cognitivos

Rotter foi o primeiro psicólogo a utilizar o termo "teoria da aprendizagem social" (Rotter 1947). Ele desenvolveu uma forma de behaviorismo que, como a de Bandura, inclui referências às experiências subjetivas internas. Desse modo, o seu behaviorismo é menos radical do que o de Skinner.
Criticado por Rotter por estudar os indivíduos isoladamente, afirmando que a aprendi­zagem do comportamento ocorre principalmente mediante experiências sociais. A pesquisa de laboratório de Rotter era rigorosa e bem controlada, típica do movimento behaviorista. Ele realizou pesquisas somente com pessoas em situações de interação social.

Rotter enfatizava mais amplamente os processos cognitivos do que Bandura. Acredi­tava que os indivíduos se percebem como seres conscientes capazes de mudar as próprias vidas, e que o comportamento é determinado pelo estímulo externo e pelo esforço que oferece - no entanto, a influência relativa desses dois fatores é intermediada pelos proces­sos cognitivos. Rotter esboçou quatro princípios regentes dos resultados comportamentais (Rotter, 1982).

  • O indivíduo cria expectativas subjetivas em relação às consequências ou aos resultados do seu comportamento com base na quantidade e no tipo de reforço que recebe;
  • Ele calcula a probabilidade de determinado comportamento conduzir a um refor­ço específico e o ajusta apropriadamente;
  • Atribui valores diferentes para os diversos reforços e avalia o seu valor relativo nas variadas situações;
  • Como cada indivíduo apresenta um comportamento exclusivo e único no ambien­te psicológico, o mesmo reforço pode adquirir diferentes valores para diversas pessoas.

Desse modo, para Rotter, os valores e as expectativas subjetivas, que consistem em estados cognitivos internos, determinam os efeitos das diferentes experiências externas (estímulos e reforços externos diferentes) sobre o indivíduo.

Locus de Controle

Rotter concentrou razoável pesquisa nas crenças a respeito da origem do reforço. Algumas pessoas consideram o reforço dependente do próprio comportamento e alegam a existên­cia de um locus de controle interno. Outras pessoas acreditam no reforço dependente das forças externas - como o destino, a sorte ou as atitudes de outros indivíduos; alegam a existência do locus de controle externo (Rotter, 1966).

Obviamente, tais percepções acerca da origem do controle exercem variadas influências sobre o comportamento. Para as pessoas que percebem a existência do locus de controle exter­no, as próprias habilidades e ações não exercem muita influência nos reforços que recebem.

Convencidas da falta de poder em relação às forças externas, não se esforçam em tentar mudar ou melhorar a situação. As pessoas que percebem a existência do locus de controle interno acreditam ser responsáveis pela própria vida e por isso atuam apropriadamente. A pesquisa de Rotter demonstrou que as pessoas com locus de controle interno tendem a ser física e mentalmente mais saudáveis do que as outras. Em geral, sua pressão sanguí­nea é mais baixa, apresentam menos infartos, ansiedade e depressão e são mais hábeis ao lidarem com o estresse. Obtêm as melhores notas na escola e acreditam ter maior liberdade de escolha. São mais populares e sociáveis e apresentam elevado grau de autoestima. Além disso, o trabalho de Rotter sugere que o locus de controle é adquirido na infância por meio do comportamento dos pais e dos responsáveis pela criação. Pais de adultos com locus de controle interno tendem a ser solidários, generosos ao elogiarem as realizações (reforço positivo), coerentes na disciplina e a demonstrarem atitudes não autoritárias.

Rotter desenvolveu um teste para medir o locus de controle, que consiste em 23 ques­tões com alternativas obrigatórias; a pessoa deve escolher uma das duas opções que melhor descreva as suas crenças (veja na Tabela 11.1).

Exemplos da Escala l-E (Locus de Controle Interno-Externo)

Uma descoberta ao acaso. Relembremos o caso da descoberta acidental de Skinner do esquema de reforço, resultado do acaso, por ele não desejar passar o fim de semana no laboratório preparando as bolinhas de ração para os ratos. Percebemos que a ciência nem sempre avança na forma sistemática e racional descrita na maioria dos livros. Os fatores casuais ocorrem para moldar o desenvolvimento de um campo de estudo. A conceituação de Rotter sobre o locus de controle, que ele considerava a sua descoberta mais importante, ocorreu por acaso, em virtude de um comentário eventual de um colega.

Rotter conduzia um experimento em que as pessoas trabalhavam com um conjunto de cartões, tentando adivinhar se no reverso de cada um havia a figura de um quadrado ou de um círculo. Elas foram informadas de que estavam sendo testadas a respeito da per­cepção extrassensorial (PES). Depois de terminar uma série de cartões, elas deviam tentar calcular quantos acertos obteriam na segunda série.

Alguns indivíduos afirmavam que acertariam menos, pois acreditavam que os acertos da primeira tentativa foram apenas questão de sorte. Outros alegavam que se desempenha­riam melhor, pois acreditavam que os acertos da primeira tentativa foram por causa de sua capacidade de percepção extrassensorial, a qual esperavam aperfeiçoar com a prática.

Ao mesmo tempo que estava envolvido com essa pesquisa, Rotter supervisionava o trei­namento clínico de E. Jerry Phares. Phares contou a Rotter sobre um paciente insatisfeito com a sua falta de vida social. Pressionado por Phares, o rapaz foi a uma festa e dançou com várias mulheres, mas, mesmo com o aparente sucesso social, sua visão não mudou. Ele afirmou a Phares que fora apenas uma questão de sorte. "Jamais vai se repetir."

Quando Rotter ouviu a história, ocorreu-lhe uma ideia. Ele observou que nas experiências há sempre algumas pessoas cujas expectativas, assim como a desse paciente, nunca melhoram mesmo ante o êxito.

Eu e meu aluno de pós-graduação reali­zamos várias experiências em que manipulávamos o êxito ou o fracasso dos voluntários. (...) Alguns voluntários, mesmo quando informados de que estavam corretos ou errados a maioria das vezes, não mudavam suas expectativas de que cometeriam mais erros na próxima tentativa. Outros, independentemente do que lhes era dito, acreditavam que se desempenhariam melhor na vez seguinte. Nesse momento, juntei os dois lados do meu trabalho - o cientista e o empirista - e formulei a hipótese de que algumas pessoas acreditam em forças externas que, de uma forma ou outra, regem os acontecimentos da vida, enquanto outras creem na capacidade própria e no esforço individual como determinantes dos próprios destinos. (Rotter apud Hunt, 1993, p. 334)

Deixamos as dúvidas quanto a se Rotter teria desenvolvido a ideia do locus de controle caso o paciente de Phares houvesse mudado de posição sobre a sua popularidade depois do baile.

Comentários

A teoria da aprendizagem social de Rotter atraiu muitos seguidores que, a princípio, seguiam a orientação experimentalista, mas concordavam com a importância das variáveis cogni­tivas no impacto do comportamento. O rigor e o controle da sua pesquisa obedecem aos padrões permitidos de acordo com o assunto, e ele define os seus conceitos com a precisão que os torne passíveis de testes experimentais. Vários estudos de pesquisa, principalmente a respeito do locus de controle interno e externo, sustentam a sua abordagem. Rotter afir­ma que o centro de controle tornou-se "uma das variáveis mais estudadas na psicologia e nas demais ciências sociais" (Rotter, 1990, p. 489).

O Destino do Behaviorismo

Apesar de o debate interno a respeito da questão cognitiva no behaviorismo ter provoca­do mudanças no movimento behaviorista, que se seguiram desde Watson até Skinner, é importante lembrar que Bandura, Rotter e outros neo-neobehavioristas defensores da abor­dagem cognitiva ainda se consideram behavioristas. Podemos chamá-los de behavioristas metodológicos, porque se referem aos processos cognitivos internos como parte do objeto de estudo da psicologia, enquanto os behavioristas radicais acreditam que a disciplina deva se dedicar ao estudo do comportamento público e do estímulo ambiental, e não dos estados internos presumidos. Watson e Skinner eram behavioristas radicais. Hull, Tolman, Bandura e Rotter podem ser classificados como behavioristas metodológicos.

O domínio do tipo de behaviorismo de Skinner chegou ao auge na década de 1980 e diminuiu depois da sua morte, em 1990. Até o laboratório de pombos da Harvard, criado por Skinner em 1948, foi fechado em 1998 (Azar, 2002). Skinner admitia que a sua forma de behaviorismo estava perdendo terreno e que o impacto da abordagem cognitiva aumentava. Outros pesquisadores concordam, observando que "menos especialistas das principais univer­sidades hoje se denominam behavioristas no sentido tradicional. Na verdade, 'behaviorismo' é geralmente mencionado como algo pertencente ao passado" (Baars, 1986, p. 1).

O behaviorismo que permanece vivo na psicologia contemporânea, principalmente na psicologia aplicada, é diferente daquele que surgiu nas décadas entre o manifesto de Watson, de 1913, e a morte de Skinner. Assim como ocorre com todo movimento evolutivo na ciência e na natureza, as espécies continuam a evoluir. Nesse sentido, o behaviorismo sobrevive no espírito e não na realidade da intenção do seu fundador.
 

Psicologia - História da Psicologia
2/25/2020 1:44:24 PM | Por Stuart B. Schwartz
Livre
Império marítimo português: o Estado da Índia

Como sistema econômico, o Estado da índia era efetivamente a articulação da «carreira da índia», a grande rota transoceânica que ligava Lisboa ao colonato português de Goa, na costa ocidental da India, e a uma série de escalas que conectavam vários lugares da Ásia a Goa e à carreira. Os Portugueses procuraram monopolizar o comércio do oceano Indico, eliminando rivais poderosos (Turcos, Mamelucos e Guzerates) e controlando o comércio a partir de uma série de feitorias e fortalezas que vieram a estender-se de Sofala (África Oriental) a Ormuz (golfo Pérsico), Cochim (índia Ocidental), Malaca (Malásia) e além-Macau (China). A alfândega da Casa das índias, em Lisboa, o vice-rei e outros agentes régios presentes nos portos e feitorias do oceano índico administravam o monopólio real sobre a pimenta, a canela e outras especiarias. Durante a primeira metade do século XVI, este sistema proporcionou lucros consideráveis à coroa. Contudo, após a penetração portuguesa original e as primeiras vitórias militares, o comércio local do oceano índico recuperou e encontrou maneiras de abastecer as antigas rotas das caravanas para o Médio Oriente. As contínuas tentativas portuguesas para estrangular este comércio concorrente fizerem disparar os custos da operação imperial e acabaram por se revelar infrutíferas. A política foi alterada. Em vez de eliminarem o comércio local, os Portugueses procuraram controlar e taxar o comércio privado através de um sistema de «cartazes» (licenças), que gerou receitas apreciáveis para o Estado da índia mas permitiu o desenvolvimento das rotas alternativas do comércio das especiarias e minou o monopólio da carreira, que continuava a ser a principal aposta da coroa.

Embora fosse enviada para a Europa, pelo cabo da Boa Esperança, toda uma variedade de produtos, em especial canela, cravinho e outras especiarias, o grosso, em valor e volume, era constituído pela pimenta. A frota de 1518, por exemplo, transportou 1000 toneladas métricas de pimenta, 95% da carga total, e durante todo o século XVI a pimenta foi o bem mais transacionado do comércio real. Mas os grandes navios da carreira também transportavam os produtos dos comerciantes privados, e embora a sua parte do espaço representasse apenas 25%-30% da tonelagem, o valor dos seus bens era superior a 90% do valor total - e estes números não têm em conta o contrabando. Eram transportadas especiarias, tecidos, jóias e outros artigos de luxo, mas na década de 1580 os têxteis foram predominantes. Este padrão manteve-se durante boa parte do século XVII.

Os navios que zarpavam da Europa transportavam colonos, soldados e funcionários, alguns artigos de luxo e - de suma importância - dinheiro para pagar os produtos asiáticos e os custos militares e administrativos do império. O Quadro 1.1 apresenta, por decênio, números de tonelagens relativos às partidas e chegadas em ambos os sentidos. Mostra um período de grande atividade entre 1531 e 1540, seguido de um longo período de relativa estabilidade entre as viagens de ida e as de volta. Entre 1541 e 1600 viajaram cerca de 20% mais navios para a Ásia do que para a Europa. A taxa de perdas nas viagens para a Ásia foi de cerca de 13%, e um pouco mais elevada, 17%, em sentido contrário. Embora o nível de atividade variasse anualmente, durante os setenta anos do século XVI para os quais possuímos estimativas entre cinco e seis navios deslocaram-se anualmente em ambos os sentidos para assegurarem a carreira.

O monopólio português do comércio do oceano Indico foi um sonho nunca realizado devido à concorrência, e o comércio privado levado a cabo por funcionários régios, soldados e mercadores também minou o controle exclusivo do comércio índico por parte da coroa. A partir da década de 1550, as concessões a administradores reais e a mercadores privados, por outorga ou compra, criaram um sistema de escalas comerciais que ligou a Indonésia, a baía de Bengala e outras áreas vizinhas ao comércio da carreira. A coroa obteve algumas receitas das taxas alfandegárias sobre este comércio e também da venda das rotas. Estima-se que o valor destas viagens concessionadas, como de Goa para Ormuz ou de Malaca para São Tomé, tenha sido o dobro das receitas da coroa com o comércio da carreira em um ano bom. A rota entre Macau e Nagasáqui, na qual os Portugueses trocavam seda chinesa por prata japonesa, ou a rota entre Macau e Manila, em que a prata mexicana era trocada por seda destinada aos compradores da Nova Espanha, do Peru e da própria Espanha continental, geravam grandes lucros, mas eram apenas dois dos muitos circuitos em que o «comércio local» indígena e o comércio privado português operavam no âmbito do sistema do oceano índico. De fato, como observou o historiador James Boyajian: «O sucesso do comércio privado português na Ásia e na rota do Cabo não foi um fenômeno isolado. Integrou um vasto mundo comercial asiático, no qual os Portugueses desempenharam um papel secundário em relação aos Guzerates, Chineses, Javaneses e Japoneses»[1].

As viagens e rotas concessionadas e o comércio costeiro ligavam-se depois a Goa e à carreira por comboios anuais e pelo comércio por via terrestre. Os Portugueses também investiram bastante neste tráfico. Cada rota contribuía para o vértice aparente do sistema, que continuava a ser a rota do Cabo. Goa recebia bens de toda a Ásia: de Macau, de Bengala, das Molucas, de Malaca. Entre 1580 e 1640, cerca de 75% do valor total dos produtos descarregados em Lisboa pela carreira provieram de Bijapur, perto de Goa, e das regiões mais distantes de Cambaia, Guzerate e Sinde. Em cada rota colaboravam comerciantes locais e negociantes portugueses, incluindo muitos cristãos-novos. Estes foram praticamente empurrados para fora do sistema entre 1640 e 1670, devido à pressão da Inquisição, mas os mercadores indígenas muçulmanos, hindus e cristãos demonstraram considerável engenho e capacidade para se adaptarem e explorarem o sistema comercial português em benefício próprio.

O que significava o império para a economia portuguesa nas primeiras décadas do século XVI, quando o comércio da Ásia começou a fazer sentir o seu impacto? Em 1506 as especiarias asiáticas representaram mais de um quarto das receitas anuais do reino. Em 1518-1519 este número subiu para quase 40%. Entre os produtos ultramarinos, as especiarias da índia constituíam, de longe, a categoria maior. No entanto, importa ter em conta que as rendas e taxas cobradas em Portugal e as receitas geradas pela alfândega de Lisboa continuaram a ser fontes importantes de rendimentos.

No fim do século XVI estava já definido o carácter essencial dos dois sistemas do Império Português. A atividade econômica portuguesa no seio do Estado da índia era quase exclusivamente militar e comercial, uma combinação do uso da força e do terror, em especial na parte ocidental do oceano índico, com uma inteligente atividade comercial na baía de Bengala e além-Malaca. A economia da colônia brasileira diferia essencialmente do império além-cabo da Boa Esperança. Nas ilhas atlânticas e no Brasil, os Portugueses tinham investido fortemente na produção e haviam organizado capital, terra e mão-de-obra para produzir açúcar e outros produtos. Na Ásia quase nunca foi levada a cabo uma empresa semelhante. Os Portugueses deixaram as populações locais produzir pimenta, especiarias, seda e têxteis e negociaram estes produtos, ou licenciaram a sua circulação. Isto não é dizer que as taxas e as rendas sobre as terras não foram importantes para o império na Ásia. Em alguns lugares, como o Sri Lanka (Ceilão), contribuíram para mais de 80% das receitas da coroa e em meados do século XVII estas fontes de rendimentos poderão ter representado cerca de um terço do total. Contudo, os Portugueses raramente se dedicaram à produção dos bens comerciados. Apenas em alguns locais se desenvolveram propriedades fundiárias (aforamentos), sendo as mais impressionantes os «prazos» ao longo do rio Zambeze, na África Oriental, onde detentores e instituições se «africanizaram» como uma espécie de governantes locais. Os Portugueses quase nunca se oneraram com a responsabilidade da organização dos fatores de produção, em particular o capital e a terra, e acima de tudo, na maior parte dos locais, o problema do fornecimento e organização da mão-de-obra não lhes dizia respeito. Esta foi uma importante diferença econômica entre as duas esferas de atividade e teve também amplas implicações sociais. No princípio do século XVII, Ambrósio Fernandes Brandão, nos seus Diálogos das Grandezas do Brasil (1618), observou que em Portugal era possível encontrar muitos homens que tinham regressado da India com fortunas, mas poucos que tivessem feito o mesmo no Brasil. A diferença, disse ele, não residia no nível de lucro que se obtinha entre uma e outra esfera colonial, mas no fato de as fortunas que se faziam no Brasil estarem em propriedades e ativos fixos, enquanto as da índia eram resultado do comércio e portanto mais líquidas. Brandão poderia inclusivamente ter acrescentado que o estilo de vida e os níveis de consumo na índia, onde os Portugueses residentes usavam a sua riqueza para deslumbrar a classe alta indígena e se impressionarem uns aos outros, eram muito mais ostentosos do que no Brasil. Este consumo ostentivo também contribuiu para a eventual estagnação do Estado da índia.

Crise e Sobrevivência no Século XVII

Durante o século XVII, o papel do Império Português e o contexto em que operava modificaram-se radicalmente devido a alterações gerais na economia mundial e à emergência de um novo equilíbrio político na Europa. A desastrosa tentativa do rei D. Sebastião para expandir os interesses portugueses em Marrocos, em 1578, provocou não apenas a sua morte, mas também a perda do trono para os Habsburgos espanhóis durante sessenta anos (1580-1640). Subjacente à intervenção espanhola estava o interesse em Lisboa como grande porto atlântico e pelo comércio da índia, e muitas famílias nobres e da comunidade mercantil demonstraram considerável apoio à causa dos Habsburgos. De fato, de 1580 a 1620, o acesso português à prata espanhola, aos mercados das possessões habsburgas e à protecção oferecida pelas armas espanholas contribuíram para a economia portuguesa, uma situação favorecida pelo disparar da produção açucareira brasileira e pelos preços elevados alcançados por este produto. Porém, depois de 1621, a situação alterou-se radicalmente. Primeiro, entre 1622 e 1624, verificou-se uma recessão impressionante na economia euro-atlântica, provavelmente causada por uma expansão excessiva e pela eclosão da Guerra dos Trinta Anos. A renovação da guerra contra os Holandeses, a formação da Companhia das índias Orientais holandesa (1621), concebida como uma arma comercial contra os domínios dos Habsburgos espanhóis, e as crescentes exigências militares e navais daqui decorrentes colocaram enorme pressão sobre os recursos de Portugal e a sua capacidade de aumento da produção. A ocupação do Nordeste brasileiro (1630-1654), a conquista de EI Mina (1638) e a ocupação de Luanda (1641-1648) pelos Holandeses desorganizaram o fornecimento de escravos sobre o qual assentava todo o sistema atlântico. Esta situação e as políticas mercantilistas fechadas de Filipe IV contribuíram para o apoio à separação de Espanha. A Restauração, iniciada em 1640 por apoiantes dos Braganças, inaugurou um período de esforços militares, diplomáticos e econômicos portugueses que durou quase trinta e anos e deixou os dois campos exaustos. O fato de Portugal ter lutado pela sua independência ao mesmo tempo que travava um combate à escala global para defender o seu império contra os concorrentes europeus toma o feito português ainda mais impressionante.

Neste contexto, podem também descortinar-se benefícios proporcionados pelo império que não eram essencialmente econômicos. Na década de 1580, os opositores portugueses da causa dos Habsburgos tinham conseguido recrutar auxílio francês e inglês oferecendo concessões no comércio do Brasil, e houvera até insinuações de concessões ou transferências territoriais. Durante as negociações com os Holandeses, na década de 1640, o chamariz do comércio colonial e a entrega de praças coloniais tinham sido utilizados como moeda de troca. Em certa medida, o apoio da Inglaterra a Portugal, a partir de 1642, e especialmente após o tratado de 1654, foi comprado com a promessa de vantagens comerciais nas colônias portuguesas, e quando a relação foi consolidada através do casamento de Catarina de Bragança com Carlos II, em 1661, um fator de peso nas negociações foi o enorme dote de 2 milhões de cruzados, grande parte do qual obtida através de impostos sobre as populações coloniais e da entrega de praças coloniais como Bombaim e Tânger. Por si só, Portugal contava pouco para os outros monarcas da Europa, mas com o seu império global passava a ser merecedor de alguma consideração, fato de que a corte, em Lisboa, estava plenamente consciente. Estes acordos comerciais poderão ter sido economicamente desvantajosos para Portugal a longo prazo, mas garantiram a independência política do reino e recrutaram um aliado poderoso para defesa da sua soberania. Era um benefício que não se podia calcular facilmente no balancete do império, mesmo se este existisse. Além do mais, o sistema atlântico também pagou diretamente, em homens e armas, a sobrevivência do reino. Os impostos sobre a indústria do açúcar foram cruciais para pagar a guerra da independência e financiar a luta global contra os Holandeses, durante a qual o contributo das forças coloniais para a reconquista de Pernambuco e de Angola foi um fator importante. Muitos dos capitães e comandantes das guerras da Restauração tinham prestado serviço no Brasil ou na índia.

No meio destes acontecimentos políticos, a economia açucareira, coração do sistema atlântico, alterou-se. Em 1630 o Brasil produziu cerca de 22 000 toneladas, mas a baixa de preços reduziu os lucros para metade dos auferidos na década de 1610. Os preços voltaram a subir nas décadas de 1640 e 1650, mas isto fez com que os concorrentes estrangeiros das Caraíbas, em particular de Barbados, começassem a produzir açúcar. Estes desenvolvimentos tiveram duas consequências. Com açúcar disponível nas suas próprias colônias, a Inglaterra e a França começaram a impor restrições às importações do Brasil e, para todos os efeitos, eliminaram o açúcar brasileiro dos seus mercados. Em segundo lugar, o aumento da produção fez cair o preço do açúcar no mercado atlântico, e a procura de trabalhadores para as plantações das Caraíbas fez subir o preço dos escravos. Os plantadores brasileiros foram apanhados entre estas duas tendências no preciso momento em que o Estado português aumentava cada vez mais os impostos sobre o açúcar para pagar a defesa do império e a guerra de independência. Mesmo depois do fim da Guerra Luso-Holandesa, em 1654, a produção do Brasil conseguiu superar a dos seus concorrentes em mais de 1 200 000 de arrobas (18 000 toneladas). A região continuava a possuir algumas vantagens comparativas, mas as condições político-econômicas internacionais e os seus efeitos nas políticas fiscais portuguesas conjugaram-se para dar origem a uma situação de crise. Portugal procurou responder de várias formas. Em 1649, foi criada a Companhia do Brasil, para organizar o comércio da colônia. Apesar de prejudicada pela irregularidade das viagens marítimas, pelo contrabando e por outros problemas, a companhia foi relativamente bem-sucedida, enviando frotas carregadas com os principais produtos da colônia, que passaram a incluir, além de açúcar, grandes quantidades de tabaco e peles.

Na década de 1680 a economia entrou em profunda recessão. A separação de Espanha interrompera e dificultara o afluxo de prata da América espanhola à economia portuguesa. À semelhança do resto da Europa Ocidental, Portugal viu-se a braços com uma recessão que levou a uma desvalorização da moeda portuguesa, em 1688, e à intensificação da busca de novas fontes de receitas, mas o sistema atlântico, na sua maioria, sobreviveu. Os rendimentos que proporcionou deram ao reino forças para se manter independente, impedindo que Portugal seguisse o caminho da Catalunha ou da Escócia.

O século XVII foi muito pior para o Estado da índia. Para lá do cabo da Boa Esperança, podemos aperceber-nos de três processos inter-relacionados que afetaram a natureza do império. Primeiro, depois de 1590, a chegada de rivais europeus, em especial os Holandeses e os Ingleses, e a subsequente perda de rotas, portos e praças importantes como Malaca (perdida em 1641), provocaram uma grave contração nas operações do Estado da índia e no volume de comércio e receitas. Em segundo lugar, e ao mesmo tempo, do Levante ao Japão assistiu-se a uma reação asiática à presença portuguesa (e europeia). A ascensão ao poder dos Safávidas, na Pérsia, a expansão mogol no Norte da índia e o xogunato Tokugawa no Japão deram origem a Estados grandes e poderosos que não podiam ser intimidados, coagidos ou bajulados como antes. Estes «impérios da pólvora» também eliminaram a antiga divisão entre potências fundiárias e Estados comerciais menores. A perda de Ormuz (1622) para os Safávidas e Ingleses e a expulsão dos cristãos (com exceção dos Holandeses) do Japão, em 1638-1640, foram episódios sintomáticos da contração imperial provocada pela emergência das novas potências.

Em resposta à concorrência estrangeira e à assertividade indígena, os Portugueses experimentaram novas alternativas. O êxito das companhias comerciais inglesas e holandesas promoveu a criação de uma Companhia Portuguesa das índias Orientais, mas as elevadas perdas no mar e a escassez de capital provocada pela obstrução da Inquisição à participação dos cristãos-novos condenaram-na a uma existência breve (1628-1633). A coroa virou-se cada vez mais para os privados e vendeu as lucrativas rotas asiáticas para Goa sob a forma de viagens concessionadas. O volume das receitas da carreira propriamente dita só começou a revelar uma contração séria na segunda metade do século; em parte como resposta a esta contração, tentou-se integrar o vacilante sistema do oceano índico no do Atlântico, também a braços com problemas, mas com melhores resultados. Os navios que rumavam à metrópole começaram a escalar com alguma regularidade em Salvador, no Brasil, onde as sedas, as pérolas e os artigos de luxo que traziam eram procurados, e onde a partir de 1675 passaram a ser autorizados a carregar açúcar para entrega em Lisboa. Também o Rio de Janeiro acabou por ser atraído para o comércio com Goa, e entre o Brasil e Goa prosperou o comércio de tabaco na forma de rapé.

A carreira sofreu os prejuízos mais pesados em meados do século XII, com a perda de cerca de 20% da tonelagem total embarcada. Em 1670, o Estado da índia, enquanto empresa estatal, sofreu as maiores perdas, mas isto não quer dizer que os comerciantes privados não tenham continuado a prosperar, nem que os milhares de mercenários, mercadores e missionários portugueses existentes de Macau ao Sião e à Abissínia tenham perdido importância nas sociedades locais.

Na luta global contra os Holandeses, os Portugueses praticamente perderam a Ásia, contiveram-nos na África e, recorrendo à guerra e às aquisições, venceram na América. Os esforços para se manterem no Brasil representaram o reconhecimento de que o sistema atlântico, não obstante as pressões a que fora sujeito, se tornara a espinha dorsal do império. Compunha-se agora primariamente do Brasil e da África Central e Ocidental. A Madeira e os Açores tinham-se convertido em produtores de vinho e cereais e estavam mais integrados na economia e na política da metrópole, mas o Atlântico Sul do Brasil e da África formou progressivamente um sistema integrado de mão-de-obra e produção. A importação de escravos atingia 5000 por ano e a impressionante mortalidade e o crescimento demográfico negativo verificados no Brasil transformaram o tráfico de escravos na caraterística essencial de todo o sistema. A vida econômica de Angola e dos outros colonatos da África passou a subordinar-se quase por inteiro às exigências do tráfico de escravos.

História - Portugal
2/13/2020 4:20:16 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
O Behaviorismo de Watson

A bonita e jovem aluna do curso de pós-graduação segurava o bebê enquanto o psicólogo segurava o martelo. Vagarosamente ela abanava sua mão no ar para manter a atenção do bebê de modo que ele se ligasse nela e não virasse sua cabeça e olhasse para outro lugar. Assim, a criança distraida, não vê o bastão de metal de 1,2 m de comprimento por 2 cm de largura, pendurado no teto. Ele não viu o homem que levantou o martelo e bateu com força na barra de metal.

O relato da pesquisa afirmava que "A criança alterou violentamente, sua respiração foi verificada e seus braços levantados." Quando o psicólogo bateu no bastão novamente, os lábios da criança "começaram a se dobrar e a tremer" e após bater pela terceira vez no bastão, ele começou a chorar repentina e fortemente" (Watson e Rayner, 1920, p. 2).

Já descobriu quem são essas pessoas e o que estão fazendo? O sujeito desse experimento passou a ser conhecido como O "Pequeno Alberto", o bebê mais famoso da história da psicologia. O psicólogo de 42 anos de idade era John Watson, o fundador da escola de pensamento conhecida como behaviorismo. Sua assistente era Rosalie Rayner, uma aluna de pós-graduação de 21 anos que ia para o campus da Johns Hopkins University dirigindo seu Stutz Bearcat, o carro esportivo mais moderno e caro daquela época. Juntos eles mudaram a psicologia e, no processo, terminaram a brilhante carreira acadêmica de Watson.

Albert (seu sobrenome é ainda desconhecido) tinha 8 meses e 26 dias quando o mar­telo foi batido na barra de metal atrás de sua cabeça. Um bebê saudável e feliz, ele havia sido escolhido por Watson para ser o sujeito de sua pesquisa, precisamente por ser tão estável emocionalmente e não facilmente perturbado.

Dois meses antes de ser assustado pelas batidas do martelo, Albert havia sido exposto a uma variedade de estimulos, incluindo um rato branco, um coelho, um cachorro, um macaco, jornais sendo queimados, e uma série de máscaras. Ainda não havia exibido nenhum medo em resposta a esses objetos. Na realidade, nem a mãe de Albert, nem outra pessoa jamais havia visto a criança exibindo medo em nenhuma situação - até o dia do laboratório.

Quando Watson bateu o martelo pela primeira vez, Albert reagiu amedrontadamente tudo indica que pela primeira vez na sua vida. Isso deu a Watson uma resposta emocional não-condicionada com a qual poderia trabalhar. Ele queria descobrir se conseguiria produzir em Albert uma resposta emocional condicionada, por exemplo, medo do rato branco do qual não tinha anteriormente, combinando a visão do rato com o barulho provocado pelo som que o havia assustado. Não foi preciso mais do que sete combinações do rato branco com o barulho para que a criança mostrasse medo cada vez que visse o rato, mesmo se o bastão não fosse batido com o martelo por trás de sua cabeça.

Assim, Watson e Rayner estabeleceram uma resposta de medo a um objeto anterior­mente neutro e isso foi realizado de uma maneira fácil e eficaz. Em seguida eles demons­traram que a resposta de medo de Albert podia ser generalizada a outros objetos brancos e peludos, como um coelho, cachorro, um casaco de pele e a máscara do Papai Noel!

Watson concluiu que nossos medos, ansiedades e fobias quando adultos, consequen­temente, devem ser simples respostas emocionais condicionadas que foram estabelecidas na infância, e que permanecem durante toda a nossa vida.

E quanto ao pequeno Alberto? Ele ainda se esconde de pequenos animais brancos e peludos? Teve que fazer psicoterapia? Ninguém sabe o que aconteceu a ele. Talvez tenha se tornado um psicólogo, mas não há como negar sua contribuição para a história da psicologia e seu papel no desenvolvimento do behaviorismo de John B. Watson.

John B. Watson (1878-1958)

Foram várias as tendências que influenciaram John B. Watson na tentativa de construir a escola de pensamento behaviorista da psicologia. Watson reconhecia não ser o ato de fun­dar o mesmo que originar e descrevia os seus esforços como uma cristalização das ideias ja emergentes dentro da psicologia. Assim como Wilhelm Wundt, o primeiro promotor-fundador da psicologia, Watson deixou clara a sua intenção de fundar uma escola. Essa intenção deliberada é o que estabelece a nítida distinção entre Watson e os demais, hoje denominados pela história como precursores do behaviorismo.

A Biografia de Watson

John B. Watson nasceu em um  sítio próximo a Greenville, na Carolina do Sul, onde fre­quentou os primeiros anos de estudo em uma escola que possuia apenas uma sala. Sua mãe era extremamente religiosa, ao contrário do pai. O velho Watson bebia muito, era violento e mantinha muitas relações extraconjugais. Ele raramente conseguia manter um emprego fixo, por isso a família vivia à beira da pobreza, subsistindo à custa da produção do sitio. Alguns vizinhos os desprezavam, enquanto outros sentiam pena deles. Quando Watson estava com 13 anos, seu pai fugiu com outra mulher e nunca mais voltou. Watson jamais o perdoou por isso, e anos mais tarde, quando se tornou rico e famoso, seu pai foi procurá-lo em Nova York, mas Watson não quis vê-lo.

Quando pequeno e na adolescência, Watson era considerado delinquente. Ele mesmo se dizia preguiçoso e desobediente e suas notas na escola eram apenas suficientes para passar de ano. Os professores consideravam-no indolente, sempre propenso a discussões e, às vezes, incontrolável. Duas vezes envolveu-se em brigas e foi preso, em uma das ocasioes, por atirar dentro dos limites urbanos. Contudo, aos 16 anos matriculou-se na Furman University, em Greenville, afiliada à igreja Batista, disposto a tornar-se pastor, como prometera à mãe. Estudou filosofia, matemática, latim e grego, planejando entrar no seminário teológico depois de se formar em Furman.

Um fato curioso ocorreu durante o último ano de Watson na Furman University. Um professor advertiu os alunos de que se alguém entregasse o exame final com as páginas na ordem inversa seria reprovado. Watson resolveu desafiá-lo, entregando a prova dessa forma e foi reprovado - pelo menos essa é a sua versão. Um estudo posterior dos dados históricos a respeito do episódio - nesse caso, das notas de Watson - mostra que ele não foi reprovado nessa matéria. Seu biógrafo acredita que a versão da história escolhida pelo proprio Watson revela algo da sua personalidade, ou seja, "a sua ambivalência em relação ao sucesso. Muitas vezes, seus contínuos esforços para atingir as metas e ser aceito eram boicotados pelos próprios atos, totalmente obstinados e impulsivos, que o afastavam ainda mais da respeitabilidade” (Buckley, 1989, p. 11). Outro professor de Watson disse que ele era inconformista, "um aluno brilhante, mas de algum modo preguiçoso e indolente; um pouquinho pesado, mas de boa aparência; valoriza-se demasiadamente e preocupa-se mais com as próprias ideias do que com as pessoas" (Brewer, 1991, p. 174).

Watson ficou mais um ano em Furman, completando o mestrado em 1899, mas nessa data sua mãe faleceu, ficando ele, assim, livre da promessa de tornar-se pastor. Em vez de ir para o seminário teológico, foi para a University of Chicago. Seu biógrafo observou que naquela época ele era ambicioso, um homem extremamente consciente da importâcia do status social, ansioso por deixar sua marca no mundo, mas totalmente indeciso em relaçao à escolha da profissão e inseguro por causa da falta de recursos e de sofisticação social. Chegou ao campus com apenas 50 dólares no bolso (Buckley, 1989, p. 39).

Escolheu a University of Chicago para realizar o trabalho de pós-graduação em filo­sofia com o ilustre John Dewev, mas sentia dificuldade para entender as aulas. "Jamais compreendia o que ele estava falando", relembrou Watson, "e, infelizmente para mim, até hoje não entendo" (Watson, 1936, p. 274). Como era de se esperar, o entusiasmo pela filosofia diminuiu. Atraido para a psicologia em função do trabalho do psicólogo funcionalista James Rowland Angell, Watson estudou também biologia e fisiologia com Jacques Loeb, que lhe introduziu o conceito de mecanismo.

Teve vários empregos de meio período, trabalhando como garçom em uma república, tratador de ratos e zelador encarregado de tirar o pó da escrivaninha de Angell. Perto de terminar os estudos de pós-graduação, começou a sofrer ataques profundos de ansiedade e durante certo período só conseguia dormir com uma luz acesa no quarto.

Em 1903, com 25 anos, completou o doutorado, sendo o mais jovem na história da University of Chicago a obter a título de Ph.D. Embora aprovado com louvor (magna cum laude e Phi Beta Kappa), sentiu-se profundamente inferiorizado quando Angell e Dewey Ihe disseram que seu exame de doutorado não fora tão bom quanto o de Helen Bradford Thompson Woolley, que completara a graduação três anos antes. Watson comentou: "Fiquei imaginando, então, quem seria capaz de igualar-se a ela. Esse ciúme persistiu por vários anos" (Watson, 1936, p. 274).

Naquele ano, Watson casou-se com uma de suas alunas, Mary Ickes, de 19 anos, per­tencente a uma importante família do meio político e social. Contam que ela escreveu um longo poema de amor para Watson em um de seus exames. Não se sabe a nota que ela obteve, mas sabe-se que obtivera Watson.

A carreira acadêmica de Watson

Watson permaneceu na University of Chicago como professor até 1908. Publicou a dissertação sobre a maturação psicológica e neuroló­gica do rato branco, pesquisa que revelava a sua preferência inicial pelo uso de animais nas pesquisas.

Nunca quis usar seres humanos nas minhas pesquisas. Detestava servir de cobaia. Não gostava daquela parafernália de instruções artificiais dadas às pessoas. Sempre me sentia incomodado e não agia com naturalidade. Com os animais, no entanto, sentia-me em casa. Percebia que, observando-os, conseguia me manter próximo da biologia e com os pés no chão. Aos poucos, a ideia se concretizava: será que minhas descobertas observan­do o comportamento dos animais não são iguais às dos demais alunos que observam os [seres humanos]? (Watson, 1936, p. 276)

Os colegas de Watson lembram-se de que ele não conseguia obter exito com a intros­pecção. Qualquer que fosse o talento ou o temperamento necessários para utilizar adequa­damente essa técnica, Watson não os possuia. Essa deficiência talvez o tenha direcionado para a psicologia behaviorista objetiva. Afinal, se ele era uma negação na utilização da introspecção, técnica de pesquisa fundamental na sua área, então suas perspectivas pro­fissionais certamente estavam prejudicadas. Ele teria de buscar outra abordagem. Além disso, caso seguisse sua tendência de enxergar a psicologia como uma ciência que estudava apenas o comportamento - o que evidentemente era possível de ser feito mediante expe­riências com animais e com seres humanos -, ajudaria a atrair os interesses profissionais dos psicólogos que estudavam animais para a psicologia geral.

Em 1908, recebeu uma proposta para lecionar na Johns Hopkins University, em Baltimore. Embora relutasse em deixar Chicago, a promessa de promoção, o aumento substancial no salário e a chance de dirigir o laboratório não lhe deixaram outra opção. E, assim, os 12 anos de Watson na Hopkins acabaram sendo os mais produtivos para a psicologia.

James Mark Baldwin (1861-1934), o psicólogo que lhe havia oferecido o emprego, era um dos fundadores (juntamente com James McKeen Cattell) da revista Psychological Review. Um ano depois da chegada de Watson à Hopkins, Baldwin foi obrigado a pedir demissão por causa de um escândalo. Em uma batida policial, fora flagrado em uma casa de prostituição. O reitor da universidade não aceitou as explicações de Baldwin. Ele ale­gou ter aceitado ingenuamente uma sugestão, feita depois de um jantar, para conhecer [o bordel]. Antes de chegar ao local, não sabia que ali trabalhavam mulheres indecentes" (apud Evans e Scott, 1978, p. 713). Mas deu um nome falso para a policia. Baldwin foi totalmente banido da psicologia estadunidense, passando o resto dos seus anos na Inglaterra e no México, morrendo em Paris em 1934 (Horley, 2001). Onze anos depois da demissão de Baldwin, a história se repetiu. O mesmo reitor da universidade exigiu a demissão de Watson por causa de um escândalo.

Quando Baldwin pediu demissão, Watson tornou-se o responsável pelo departamen­to de psicologia e editor da importante Psychological Review. Assim, aos 31 anos havia se tornado uma figura importante na psicologia estadunidense, no momento e local certos. "Todo o teor da minha vida havia mudado", ele escreveu. Experimentei a liberdade no trabalho sem supervisão. Estava perdido no meu trabalho, mas feliz.” Em casa, no entanto, Watson não estava feliz: "Dois filhos é suficiente" escreveu depois que seu segundo filho nasceu {apud Hulbert, 2003, p. 131). Começou a levar uma vida social ativa, desenvolvendo uma reputação de mulherengo, não diferente de seu pai.

Era extremamente querido pelos alunos da Johns Hopkins University, que costuma­vam lhe dedicar o anuário estudantil e elegê-lo como melhor professor, certamente uma honraria ímpar na história da psicologia. Ele continuava ambicioso e dedicado. Muitas vezes, com medo de perder o controle, chegava à exaustão.

No inicio da carreira na Hopkins, Watson propos estudar os efeitos, tanto positivos como negativos, do álcool e dos filmes de educação sexual nos adolescentes (Simpson, 2000). A administração da universidade não acolheu muito bem essa ideia. Consideraram a pesquisa arriscada e insistiram para que ele parasse. Felizmente, Watson possuia outras válvulas de escape para sua energia e ambição.

Ele começou a pensar seriamente a respeito do tratamento mais objetivo da psicologia por volta de 1903, e expressou essa opinião publicamente em 1908, em palestra na Yale University e em um trabalho apresentado na reunião anual em Baltimore, da Southern Society for Philosophy and Psychology [Sociedade Sulista de Filosofia e Psicologia]. Watson argumentava que os conceitos psiquicos e mentais não serviam de nada para uma ciência como a psicologia. Em 1912, a convite de Cattell, apresentou uma série de palestras na Columbia University. No ano seguinte, publicou um artigo, que mais tarde ficou famoso, na revista Psychological Review (Watson, 1913], assim lançando oficialmente o behaviorismo.

O livro de Watson, Behavior: an introduction to comparative psychology, foi lançado em 1914. Defendia a aceitação da psicologia animal e descrevia as vantagens do uso de ani­mais na pesquisa psicológica. Muitos psicólogos mais jovens e estudantes de pós-graduação consideraram interessantes as propostas de uma psicologia comportamental, afirmando que Watson estava limpando a atmosfera poluida da psicologia, expulsando os mistérios de longa data herdados da filosofia.

Mary Cover Jones (1896-1987), na época aluna de pós-graduação e, mais tarde, presi­dente da Divisão de Psicologia do Desenvolvimento da APA, lembrou-se do entusiasmo com que era recebida a publicação de cada um dos seus livros. "[O behaviorismo de Watson] abalou as estruturas da psicologia tradicional nascida na Europa, e nós o recebemos de bra­ços abertos. (...) Esse behavorismo indicou o caminho da psicologia teórica para a ação e para a reforma e foi, por essa razão, saudado como uma panaceia" (Jones, 1974, p. 582). O programa de Watson normalmente não seduzia os psicólogos mais antigos. Ao contrário, a maioria rejeitava a sua abordagem.

Somente dois anos após a publicação do artigo na Psychological Review, Watson foi eleito presidente da APA. Sua eleição talvez não fosse um sinal de aprovação oficial da sua posição, mas servia como reconhecimento da sua notoriedade e da rede pessoal de relações estabelecidas com diversos psicólogos renomados.

Watson desejava que o novo behaviorismo tivesse valor prático; suas ideias não ser­viam apenas para serem aplicadas nos laboratórios, como também na vida real. Promoveu as especializações aplicadas da psicologia e tornou-se consultor pessoal de uma grande companhia seguradora. Além disso, oferecia cursos de psicologia aplicada à publicidade aos alunos de administração da Hopkins e deu início a um programa de treinamento de estudantes de pos-graduação para trabalharem na área da psicologia industrial.

Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu no exército estadunidense, com a patente de major, desenvolvendo testes de habilidade perceptiva e motora para usar como esquema de seleção para pilotos. Também pesquisou o efeito da redução de oxigênio em atitudes elevadas. Depois da guerra, Watson e um médico criaram a industrial Service Corporation para oferecer serviços de seleção de pessoal e consultoria de admimstração no mundo empresarial (DiClemente e Hantula, 2000).

Embora suas atividades estivessem relacionadas com as áreas da psicologia aplicada a visão de Watson concentrava-se no desenvolvimento da abordagem behaviorista do pensamento psicologico. Em 1919, publicou o livro Psychology from the standpoint of a behavirors, dedicando-o a Cattell. O livro apresentava uma abordagem mais completa da sua psicologia behaviorista, alem do argumento de que os métodos e principios recomendados para a psicologia animal também eram adequados para o estudo do ser humano.

Enquanto isso, seu casamento se deteriorava; sua infidelidade deixava a esposa furio­sa. Watson escreveu a Angell, dizendo que Mary não ligava mais para ele. "Ela instintivamente abomina o meu toque. Será que arruinamos as nossas vidas?" (Watson, apud isucKiey, 1994, p. 27). Ele estava prestes a arruinar a sua ainda mais.

Watson apaixonara-se por Rosalie Rayner, uma assistente da pós-graduação com metade da sua idade, e pertencente a uma rica família de Baltimore que fizera generosa doação para a universidade. Watson escrevia cartas, cientificamente falando ardentes de paixão, 15 das quais encontradas pela esposa. Durante o escandaloso processo de divórcio trechos das cartas eram publicados no jornal Baltimore Sun.

Cada célula do meu corpo a ti pertence, individual e coletivamente. Todas as minhas reações são positivas e todas são para ti. Assim como cada uma e todas as reações do coração. Não posso ser mais teu do que sou, mesmo que uma cirurgia nos transformasse em um unico ser. (Watson, apud Pauly, 1979, p. 40) 

Assim chegava ao fim a carreira acadêmica de Watson, sendo forçado a demitir-se da Hopkins. Seu biografo disse: "Watson ficou chocado. Até o final, recusava-se a acre­ditar que realmente seria demitido. (...) Acreditava piamente que sua estatura profissional lhe proporcionaria imunidade a qualquer censura a respeito da sua vida pessoal" (Buckley 1 9 9 4 , p. 31). Embora tenha se casado com Rosalie Rayner, nunca mais pôde assumir integralmente outra posição acadêmica. Nenhuma universidade o aceitava por causa da má reputaçao, e ele logo percebeu que teria de começar uma nova vida. "Posso arrumar um emprego na area comercial", disse a um amigo. "Mas, sinceramente, amo o meu trabalho. Sei da sua importancia para a psicologia e que a pequena chama que tentei manter acesa para o futuro da psicologia se extinguirá, caso eu a abandone" (apud Pauly, 1986, p 39)

Muitos colegas acadêmicos, inclusive o seu mentor Angell, da University of Chicago criticaram publicamente Watson, que se ressentiu da falta de apoio, chegando a acusá-los de deslealdade. Ironicamente, considerando as diferenças radicais de temperamento e de posições teóricas, foi E. B. Titchener, da Cornell University, quem lhe deu apoio emocional durante sua crise Pessoal. Tltchener escreveu a Robert Yerkes, comentando: "Sinto muita pena dos filhos de Watson", "Também sinto pena dele, pois terá de desaparecer por cinco ou 10 anos; temo se algum dia desejar voltar para a psicologia" (apud Leys e Evans, 1990, p. 105).

A carreira empresarial de Watson

Desempregado e tendo de pagar a quantia equi­valente a dois terços do último salário como pensão para os filhos, Watson iniciou uma segunda carreira profissional como psicólogo aplicado no campo da publicidade. Começou a trabalhar na agência publicitária J. Walter Thompson em 1921, ganhando um salário anual de 25 mil dólares, quatro vezes mais que seu salário acadêmico. Realizou pesquisas de porta em porta, vendeu café e trabalhou como atendente da Macy's para conhecer melhor o mundo dos negócios. Atuando com a sua criatividade e energia características, em três anos tornou-se vice-presidente da agência. Em 1936, foi para outra agência de publicidade, permanecendo ali até se aposentar, em 1945.

Watson acreditava ser o comportamento humano igual ao da máquina. Portanto, era possível prever e controlar o comportamento das pessoas como consumidoras, assim como se previa o funcionamento de qualquer máquina. Afirmava que, para controlar o consumidor, basta apresentar-lhe um estímulo emocional, condicional ou fundamental. (...) dizer-lhe algo que se relacione com o medo, que provoque uma leve ira, que incentive uma reação apaixonada e afetiva, ou que capte uma profunda necessidade psicológica ou de hábito. (apud Buckley, 1982, p. 212)

Propôs pesquisas de laboratório a respeito do comportamento do consumidor. Res­saltava que as mensagens publicitárias deviam enfocar o estilo e não a substância, além de transmitirem a impressão de uma imagem nova e melhorada. O objetivo era deixar o consumidor insatisfeito com os produtos que estava consumindo e estimular o desejo de novas mercadorias.

Durante vários anos, Watson foi considerado o pioneiro no uso de celebridades para a promoção de produtos e serviços e na criação de técnicas para manipular a motivação e a emoção. Mais tarde, pesquisas revelaram que, embora ele promovesse bem essas técni­cas, elas já vinham sendo aplicadas antes do seu ingresso no universo da publicidade. Mesmo assim, as contribuições de Watson para a publicidade foram extremamente eficazes e logo lhe renderam notoriedade e riqueza.

Depois de 1920, Watson mantinha contato apenas indireto com a psicologia acadêmica. Apresentava suas ideias a respeito da psicologia comportamental para o público em geral por meio de palestras, discursos em rádios e artigos em revistas populares, aumen­tando, assim, sua visibilidade e, alguns diriam, sua notoriedade. Por exemplo, em um artigo escrito para o leitor comum, ele previa o fim da instituição do casamento. "Creio ser a monogamia uma coisa do passado. O mecanismo social descarrilou. Estamos livres das algemas e rompendo e aproveitando a nossa liberdade" (apud Simpson, 2000, p. 64). Se seu objetivo era chocar, estava conseguindo.

Nos artigos de revistas, ele também transmitia mensagens mais sérias acerca do beha­viorismo para um público mais amplo. Seu estilo de redação era claro, de fácil leitura e, de algum modo, simples. Na autobiografia, comentou que, embora o seu trabalho não fosse mais viável para publicação nas revistas especializadas de psicologia profissional, não havia razões para não "vender os seus artigos" para o público (Watson, 1936). Essa atitude o afastou ainda mais da comunidade acadêmica. "Aqueles que não aceitavam de modo algum a aplicação mais genérica dos principios da psicologia, ou a visão behaviorista em si, rejeitavam mais ainda as 'campanhas' de Watson para a divulgação da doutrina" (Kreshel, 1990, p. 56).

Um raro contato formal com a psicologia acadêmica ocorreu quando Watson minis­trou uma serie de palestras na New School for Social Research [Nova Escola para Pesquisas Sociais] em Nova York. Essas palestras serviram de base para o livro Behaviorism, em que ele escrevia o seu programa para a melhoria da sociedade. O livro foi publicado pela primeira vez em 1925 e mais tarde Watson confessou que havia sido preparado apressadamente.

Minhas palestras eram datilografadas; depois eu as olhava rapidamente e as levava para o editor (apud Carpentero, 2004, p. 185). Uma versão revisada foi lançada em 1930 As duas edições tiveram muito sucesso. As ideias de Watson atingiram e influenciaram um grande numero de pessoas que nao pertenciam ao mundo da psicologia.

Prática da Educação Infantil

Em 1928, publicou Psychological care of the infant and child, onde critica severamente o modo de se educar crianças naquela época. Ele acusou os "pais de incompetenaa A maioria deveria ser processada por assassinato psicológico" (apud Hulbert,2003, p. 123). Ele propos um sistema de educacão infantil regulador e não-permissivo dentro da sua visão estritamente ambientalista. O livro estava repleto de conselhos rígidos, baseados na forma behaviorista de educar crianças. De acordo com Watson, os pais nunca devem abraçar e beijar, jamais as deixem sentar no colo. Quando estritamente necessário bei­jem mas apenas uma vez na testa ao lhes dar boa-noite. Pela manhã, cumprimentem-nas com um aperto de mão. Afaguem-lhes a cabeça, caso realizem muito bem uma tarefa extremamente difícil. (...) vocês perceberão como é fácil serem perfeitamente objetivos com os filhos e ao mesmo tempo gentis. Vocês se sentirão totalmente envergonhados da forma sentimental e insipida de como os estavam tratando. (Watson, 1928, p. 81-82)

O livro era bastante popular e transformou as práticas estadunidenses de educação infantil. Uma geraçao de crianças, inclusive as suas, foi educada seguindo essas orientações.

Seu filho James empresário na Califórnia, recorda-se do pai como um homem incapaz de demonstrar afeto para com ele e com o seu irmão. Descreveu Watson como insensivel, emocionalmente reservado, incapaz de expressar - e lidar com - qualquer sentimento ou emoção própria e, creio, determinado inadvertidamente a privar-me bem como ao meu irmão, de qualquer tipo de estrutura emocional. Realmente acreditava que qualquer expressão de ternura ou afeto nos traria efeitos danosos. Era extremamente rigido na aplcação das suas filosofias fundamentais como behaviorista. Nunca fomos beijados ou carregados no colo quando crianças; nunca nos foi demonstrado qualquer tipo de proximidade emocional, era totalmente proibido na família. À noite, quando ia para a cama, lembro-me de apertar as mãos dos meus pais. (...) Nunca tentei (e nem o meu irmao Billy) me aproximar fisicamente dos meus pais, pois sabíamos que era um tabu. (James Watson apud Hannush, 1987, p. 137-138)

Rosalie, esposa de Watson escreveu um artigo para a revista Parents Magazine inti­tulado I am the mother of a behaviorist's sons" ("Sou mãe dos filhos de um behaviorista") discordando publicamente das práticas de educação infantil definidas por ele "Em alguns aspectos, ela afirmou, "reverencio a grande sabedoria da ciência do behaviorismo e em outros me rebelo. Desejo secretamente que em razões de afeto [das crianças] demonstrem certa fraqueza quando crescerem, que sejam capazes de ter lágrimas nos olhos diante de uma poesia ou de um drama da vida e sintam palpitações de paixão. (...) Gosto de ser ale­gre e jovial e de rir bastante. Os behavioristas consideram as risadas um sinal de desajuste” (apud Simpson, 2000, p. 65). Rosalie também afirmou ser difícil refrear completamente a sua afeição pelos filhos, tendo desejado, algumas vezes, quebrar as regras do behavioris­mo. Mas seu filho James não se recorda de isso haver ocorrido.

Seus dois filhos sofreram de depressão séria na adolescência e vida adulta. Um dos filhos se suicidou e o outro teve um colapso nervoso, lutando contra seus próprios impulsos suicidas. Embora tenha sobrevivido, sua filha suicidou-se alguns anos mais tarde.

Os últimos anos de Watson

Ele era inteligente, articulado, bonito e charmoso, quali­dades que o tornavam uma celebridade. Frequentemente aparecia em público, cortejando e saboreando a atenção recebida. Vestia-se com elegância, participava de competições de lancha e circulava facilmente no meio da sociedade nova-iorquina. Considerava-se um grande amante e aventureiro romântico, e gostava de participar de rodadas de bebidas. Mandou construir uma mansão em Connecticut e contratou vários empregados, embora gostasse de vestir roupas velhas e fazer jardinagem.

[Watson] se preocupava bastante com as atividades masculinas, como caçar, pescar e outras formas de adultos e crianças demonstrarem coragem e habilidades pessoais. Dessa forma, ele possuia um "quê" de Hemingway, já que valorvalorizava a competência, a bravura e a masculinidade. (James Watson apud Hannush, 1987, p. 138)

Em 1935 Rosalie faleceu, aos 37 anos. James Watson lembra-se de ter sido essa a única ocasião em que viu o pai chorar. Por um breve momento, Watson abraçou os seus filhos, pelo menos a única vez que se lembravam. Depois disso ele os mandou para o colégio interno e jamais voltou a falar sobre Rosalie com eles.

Quando Myrtle McGraw, uma psicóloga de Nova York, conheceu W atson pouco depois da morte da esposa, ele lhe confessou que não estava preparado para lidar com a morte de Rosalie. Por ele ser 20 anos mais velho do que ela, sempre pensou que morreria primeiro. Conversou com alguma profundidade com McGraw, perguntando-lhe como devia lidar com a dor (McGraw, 1990). Depois de algum tempo tornou-se recluso, desligando-se do contato social e mergulhando no trabalho. Vendeu a enorme casa e mudou-se para uma de madeira, parecida com aquela em que passara a sua infância.

Em 1957, quando Watson estava com 79 anos, a APA prestou-lhe uma homenagem, elogiando seu trabalho como "uma das determinantes vitais da forma e substância da psicologia moderna (...) o ponto de partida das linhas contínuas da pesquisa proveitosa". Um amigo levou-o para o hotel em Nova York onde aconteceria a apresentação, mas no último minuto Watson recusou-se a entrar e insistiu para que o filho mais velho fosse em seu lugar. (...) Watson ficara com medo de que naquele momento as suas emoções o dominassem e que o apóstolo do controle do comportamento fraquejasse e desabasse em lágrimas. (Buckley, 1989, p. 182)
Antes de morrer, um ano depois, Watson queimou todas as cartas, manuscritos e ano­ tações, jogando-as, uma por uma, na lareira, recusando-se a deixá-las para a história.

A melhor forma de começar a estudar a escola de pensamento behaviorista de Watson é lendo um trecho do artigo que inaugurou o movimento. Na passagem a seguir, ele dis­ cute a definição e o objetivo da sua nova psicologia, bem como as suas críticas contra o estruturalismo e o funcionalismo. Ele também explica a sua visão ao considerar as áreas
da psicologia aplicada como científicas por buscarem leis gerais para o controle e a previ­ são do comportamento.

A Reação ao Programa de Watson

Para muitos psicólogos, a crítica de Watson à antiga psicologia e o seu clamor por uma nova abordagem constituíam apelos comoventes. Vamos reconsiderar os fundamentos principais. A psicologia deve ser uma ciência do comportamento - não o estudo introspec­tivo da consciência puramente objetiva, uma ciência natural experimental. Ela teria de investigar tanto o comportamento humano como o animal. Os psicólogos precisariam deixar de lado todas as ideias mentalistas e empregar apenas os conceitos do comporta­mento tais como o estímulo e a resposta. As metas da psicologia deviam ser a previsão e o controle do comportamento.

Embora os argumentos fossem convincentes para alguns, o programa de Watson não foi imediatamente aceito por todos. No início, as publicações especializadas não deram muito destaque ao behaviorísmo. O movimento começou a exercer maior impacto somente após a publicação, em 1919, do livro Psychology from the standpoint of a behavioríst.

Mary Whiton Calkins discordava de Watson e, questionando a sua visão, disse a muitos colegas psicólogos acreditar na introspecção como único método que permitia o estudo de certos processos psicológicos. Esse debate a respeito da introspecção perdurou por vários anos, e Margaret Washburn chegou ao extremo de chamar Watson de inimigo da psicologia.

Era inevitável o crescimento do movimento de apoio a Watson, especialmente entre os psicólogos mais jovens; por volta da década de 1920, as universidades já ofereciam cursos sobre o behaviorísmo, e o termo passou a ser adotado nas revistas especializadas. William McDougall, entre os psicólogos mais antigos, fez uma advertência pública con­tra a popularidade do behaviorísmo, e E. B. Titchener acusou o behaviorísmo de tragar o país como uma onda gigantesca. Entretanto, por volta de 1930, Watson anunciou, com orgulho, que o behaviorismo era tão importante que nenhuma universidade podia deixar de ministrar essa disciplina.

Evidentemente, o movimento behaviorista foi muito bem-sucedido; no entanto, as mudanças exigidas por Watson em 1913 foram lentas. E, quando finalmente se concretiza­ram, a psicologia watsoniana não era a única forma de behaviorismo sendo difundida.

Os Métodos do Behaviorismo

Quando a psicologia teve início formalmente, estava ávida por se aliar à antiga, bem esta­belecida e mais respeitável ciência natural da física. A nova psicologia tentou adaptar os métodos naturais científicos às próprias necessidades. Essa tendência foi ainda mais clara no caso do behaviorismo.

Watson insistia em que a psicologia se limitasse aos dados das ciência naturais, ao que fosse passível de observação. Em poucas palavras: a psicologia devia limitar-se ao estudo objetivo do comportamento. Somente os métodos objetivos rígidos de investigação deviam ser adotados nos laboratórios dos behavioristas. Para Watson, esses métodos incluíam:

  • a observação, com e sem o uso de instrumentos;
  • métodos de teste;
  • o método de relato verbal; e
  • o método do reflexo condicionado.

A observação constitui a base fundamental para os outros métodos. Métodos de teste objetivo já eram adotados, mas Watson propôs tratar os resultados dos testes como amos­tragens do comportamento, e não como indicadores das qualidades mentais. Para ele, o teste não media a inteligência nem a personalidade, ao contrário, simplesmente media as respostas do indivíduo à situação do estímulo de ser submetido ao teste.
A questão do relato verbal foi ainda mais controversa. Como Watson rejeitava tão claramente a introspecção, o uso do relato verbal no laboratório deixava uma abertura às críticas. Alguns psicólogos consideraram o ato comprometedor, afirmando ter Watson intro­duzido a introspecção pela porta dos fundos, depois de tê-la enxotado pela da frente.

Por que ele aceitara o relato verbal? Apesar da aversão pela introspecção, não pôde ignorar os trabalhos realizados pelos psicofísicos com o uso da introspecção. Portanto, sugeriu que as reações orais, por serem observáveis objetivamente, seriam significativas para o behaviorismo, assim como qualquer tipo de resposta motora. "Falar é fazer - ou seja, comportar-se. Falar abertamente ou para nós mesmos (pensar) é um comportamento tão objetivo quanto jogar beisebol" (Watson, 1930, p. 6).

Todavia, a adoção do método do relato verbal no behaviorismo foi uma concessão muito questionada. Os adversários de Watson acusavam-no de fazer um jogo de palavras, de oferecer apenas uma mudança semântica. Ele rebatia, concordando que os relatos verbais talvez não fossem precisos e, portanto, não seriam os substitutos adequados da observação objetiva. Por isso restringia o seu uso para as situações em que pudessem ser verificados, como na descrição das diferenças tonais. Os relatos verbais não-verificáveis, como o pen­samento sem imagens e os relatos dos estados de sentimento, seriam descartados.

O método do reflexo condicionado foi adotado em 1915, dois anos depois da funda­ção formal do behaviorismo. Os métodos de condicionamento eram pouco usados, no entanto, Watson foi bastante responsável pela sua ampla aplicação na pesquisa psicoló­gica estadunidense. Ele contou ao psicólogo Ernest Hilgard haver se interessado muito pelos reflexos condicionados ao estudar o trabalho de Bekhterev, embora mais tarde também
creditasse a Pavlov esse interesse (Hilgard, 1994).

Watson descrevia o condicionamento em termos de substituição de estímulo. A respos­ta torna-se condicionada quando associada ou conectada a um estímulo diferente daquele que a originou (no caso dos cães de Pavlov, a resposta condicionada consistia na salivação mediante o som da campainha e não pela visualização da comida). Ele escolheu esse tra­tamento por oferecer um método objetivo de análise do comportamento, de redução em unidades básicas, ou seja, em ligações de estímulo-resposta (E-R). Todo comportamento podia ser reduzido a esses elementos, portanto o método de reflexo condicionado permi­tia aos psicólogos conduzirem investigações acerca da complexidade do comportamento humano em laboratórios.

Desse modo, Watson mantinha a tradição atomística e mecanicista estabelecida pelos empiristas britânicos e adotada pelos psicólogos estruturalistas. Sua intenção era estudar o comportamento humano da mesma maneira que os físicos estudavam o universo, separando-o em partes componentes, entre elas átomos e elementos.

Para a psicologia, esse enfoque exclusivo nos métodos objetivos e a eliminação da introspecção significaram uma mudança na natureza e no papel do sujeito humano no laboratorio de psicologia. Para Wundt e Titchener, o indivíduo desempenhava o papel tanto do observador como do observado, já que observavam a própria experiência cons­ciente. O seu papel era muito mais importante do que o do pesquisador.

No behaviorismo, os indivíduos em si tornaram-se menos importantes. Eles não mais observaram; em vez disso, eram observados pelo pesquisador. Com essa mudança de enfo­que, o sujeito humano do laboratório, normalmente chamado de observador, passou a ser
conhecido como sujeito. Os verdadeiros observadores eram os pesquisadores, psicólogos responsáveis pela pesquisa que estabeleciam as condições experimentais e registravam as respostas dos sujeitos.

Desse modo, o indivíduo foi rebaixado de posto. Não mais observava as próprias carac­terísticas, apenas exibia os comportamentos. E praticamente todos exibem comportamen­tos. bebês, crianças, pessoas portadoras de distúrbios mentais e emocionais, pombos ou ratos. Esse ponto de vista reforçou a imagem da psicologia de semelhança entre o homem e a maquina. Como notou um historiador, "Insere-se um estímulo em uma das pequenas aberturas para, em seguida, sair um pacote de reações” (Burt, 1962, p. 232).

O Objeto de Estudo do Behaviorismo

Os principais objetos de estudo da psicologia behaviorista de Watson eram os elementos do comportamento, ou seja, os movimentos musculares do corpo e as secrecões glandula­res. Sendo uma ciência do comportamento, a psicologia tratava exclusivamente dos atos passíveis de descrição objetiva, sem o emprego de terminologia subjetiva ou mentalista.

Apesar de a meta estabelecida reduzir todo comportamento em unidades de estímulo-resposta (E-R), o behaviorista basicamente devia envidar esforços para compreender o comportamento do organismo na totalidade. Por exemplo, embora a resposta fosse apenas um espasmo do joelho, ela também podia ser mais complexa. Watson chamava essas res­postas mais complexas de "atos". Considerava atos de resposta inclusive os fatos de comer escrever, dançar ou construir uma casa. Em outras palavras, o ato envolve o movimento do organismo no espaço. Aparentemente, Watson concebia os atos de resposta em função  da realização de alguma meta que afetasse o ambiente de algum indivíduo, e não como uma simples conexão dos elementos musculares. Entretanto, os atos do comportamento, independentemente da sua complexidade, podiam ser reduzidos em respostas glandula­res ou motoras inferiores.

As respostas podem ser explícitas ou implícitas. São explícitas notórias e diretamente observáveis. As respostas implícitas são as que ocorrem dentro do organismo -, por exem­plo, o movimento das vísceras, as secreções glandulares e os impulsos nervosos. Embora as respostas implícitas não sejam patentes, ainda são consideradas comportamentos e, ao incluí-las, Watson estava modificando seu ponto de vista de que todos os dados eram observáveis em psicologia. Ele aceitou que alguns itens do comportamento eram poten­cialmente observáveis. A observação dos movimentos ou das respostas ocorridas dentro do organismo era feita por meio de instrumentos.

Assim como as respostas com as quais o behaviorismo lida, o estímulo também pode ser simples ou complexo. Os feixes de luz que incidem sobre a retina dos olhos são estí­mulos relativamente simples, porém há outros mais complexos. Do mesmo modo que o conjunto de reações envolvido em uma ação pode ser reduzido em respostas componentes, é possível analisar a situação de estímulo reduzindo-a em estímulos componentes espe­cíficos. Assim, a psicologia behaviorista de Watson investiga o comportamento de todo organismo em relação ao seu ambiente. Para propor leis específicas do comportamento, primeiramente é necessário analisar os complexos de estímulo-resposta, reduzindo-os em estímulos elementares e nas unidades de resposta.

No que tange aos métodos e ao objeto de estudo, o behaviorismo de Watson foi uma tentativa de construir uma ciência livre de noções e métodos subjetivos, ou seja, uma ciência tão objetiva quanto a física. A seguir, analisaremos a forma de tratamento dispen­sada por Watson a três temas principais: o instinto, a emoção e o pensamento. Como qualquer teórico sistemático, ele desenvolveu a sua psicologia de acordo com a crença básica de que todas as áreas do comportamento devem ser consideradas no que se refere aos objetivos de estímulo-resposta.

Os Instintos

No início, Watson aceitava o papel dos instintos no comportamento. No livro Behavior: an introduction to comparative psychology (1914), ele descreveu 11 instintos, inclusive um relacionado com o comportamento aleatório. Estudou o comportamento instintivo das andorinhas-do-mar, uma espécie de pássaro aquático das ilhas Dry Tortugas, na região costeira da Flórida. Acompanhou-o nessa experiência Karl Lashley, um estudante da Johns Hopkins University, que afirmou haver sido a expedição prematuramente interrompida ao término do estoque de cigarros e de uísque.
Mais ou menos em 1925, Watson reavaliou sua posição e eliminou o conceito de instinto. Alegou que os comportamentos aparentemente instintivos são, na verdade, respostas con­dicionadas socialmente. Ao adotar a visão de que a aprendizagem - ou o condicionamento - seria a chave para a compreensão do desenvolvimento humano, tornou-se um ambientalista radical, indo ainda mais longe: não apenas negava os instintos como também se recusava a admitir no seu sistema qualquer tipo de talento, temperamento ou capacidade herdado.

Os comportamentos aparentemente herdados estavam relacionados com o treinamen­to adquirido logo nos primeiros anos de infância. Por exemplo, as crianças não nasciam com a habilidade para se tornarem grandes atletas ou músicos, mas eram conduzidas nessa direção pelos pais ou pelos responsáveis pela sua criação, mediante o incentivo e o reforço dos comportamentos adequados. Essa ênfase no efeito imperativo dos pais e do ambiente social na criação infantil foi um dos motivos da popularidade de Watson. Ele concluiu, de forma simples e otimista, ser possível treinar uma criança para se tornar o que se desejasse que ela fosse, pois não havia fatores genéticos limitadores.

Watson não estava sozinho ao sugerir que as influências ambientais seriam mais impor­tantes do que qualquer traço ou potencial inatos. Tornava-se cada vez mais popular, na psi­cologia, a noção de minimizar o papel do instinto como um determinante comportamental. Assim, a posição de Watson refletia uma mudança de perspectiva já em andamento. Além disso, ele pode ter sido influenciado pela orientação aplicada da psicologia estadunidense do iní­cio do século XX. A psicologia não podia ser aplicada para alterar o comportamento, a menos que ele fosse passível de modificação. Não era possível alterar o comportamento regido por forças como o instinto, no entanto o comportamento dependente da aprendizagem ou do treinamento podia ser mudado.

As Emoções

Para Watson, as emoções não passavam de simples respostas fisiológicas a estímulos especí­ficos. Um estímulo (como a ameaça de uma agressão física) produz mudanças físicas inter­nas, tais como o aumento do batimento cardíaco, acompanhado das respostas explícitas apropriadas e adquiridas. Essa explicação para as emoções nega a existência de qualquer percepção consciente da emoção ou as sensações dos órgãos internos.

Cada emoção envolve um padrão particular de mudanças fisiológicas. Embora Watson tenha observado que respostas emocionais têm envolvimento no movimento explícito, acreditava nas reações internas como predominantes. Assim, a emoção constitui uma forma de comportamento implícito no qual as reações internas são expressas por meio de manifestações físicas como o rubor das faces, a transpiração ou o aumento do bati­mento cardíaco.

A teoria das emoções de Watson é menos complexa do que a de William James, cuja teoria afirmava ser a percepção do estímulo imediatamente seguida de mudanças físicas, e definia os sentimentos resultantes como emoção. Watson criticava a posição de James. Descartando o processo consciente de percepção da situação e do estado do sentimento, Watson garantia ser possível descrever as emoções totalmente em função da situação de estimulação objetiva, da resposta física visível e das modificações fisiológicas internas.

Em um estudo hoje considerado clássico, Watson investigou os estímulos que pro­duziam respostas emocionais nos bebês. Sugeria que eles demonstravam três padrões fundamentais de resposta emocional não aprendida: o medo, a raiva e o afeto. O medo seria provocado por ruídos altos e súbita perda de apoio; a raiva, pela restrição dos movi­mentos do corpo, e o afeto, pelo toque carinhoso na pele, pelo embalo e pelas carícias. Watson também descobriu padrões típicos de resposta para esses estímulos. Essas três emoções básicas compõem outras respostas emocionais mediante o processo de condi­cionamento. Elas podem se associar a estímulos que originalmente não eram capazes de provocá-las.

Albert, Peter e os Coelhos

Watson demonstrou sua teoria das respostas emocionais condicionadas nos estudos experi­mentais realizados com o bebê Albert, de 11 meses, condicionando-o a ter medo de um rato branco, que ele não temia antes de ser submetido ao condicionamento (Watson e Ravner, 1920). Para estabelecer a relação de medo, provocava-se um enorme barulho (batendo em uma barra de aço com um martelo) atrás da cabeça de Albert, sempre que o rato lhe era mostrado. Em pouco tempo, a mera visualização do rato produzia sinais de medo na criança. Esse medo condicionado generalizava-se a outros estímulos similares como um coelho, uma pele branca de animal ou a barba branca do Papai Noel. Watson sugeriu que todos os medos, todas as aversões e ansiedades do adulto eram, do mesmo modo, condicionados no início da infância. Eles não surgem, assim como afirmava Freud, de conflitos inconscientes. Watson rejeitava totalmente a noção do inconsciente porque, assim como o consciente, não era possível observá-lo objetivamente. No início, ficara fascinado com vários conceitos de Freud, mas acabou descartando a psicanálise, chamando-a de "macumba" (apiul Rilling, 2000, p. 302).

Watson descreveu a pesquisa com Albert como apenas um estudo-piloto preliminar. Todavia ele jamais foi reproduzido com êxito. Apesar de os psicólogos notarem algumas sérias falhas metodológicas na pesquisa, seus resultados foram aceitos como uma prova científica e são mencionados em praticamente qualquer livro básico de psicologia.

Embora Albert fosse condicionado a ter medo de ratos brancos, coelhos e Papai Noel, ele não estava mais disponível como sujeito da pesquisa quando Watson tentou eliminar esses temores. Pouco tempo depois de começar esse programa de pesquisa, Watson abandonou a vida acadêmica. Mais tarde, quando trabalhava com publicidade em Nova York, apresentou uma palestra sobre a pesquisa. Estava presente no público Mary Cover Jones (uma colega de faculdade da sua esposa, Rosalie). As observações de Watson despertaram seu interesse e ela se questionou se a técnica de condicionamento podia ser utilizada para eliminar o medo das crianças. Pediu a Rosalie que lhe apresentasse Watson e então começou a realizar um estudo que, desde então, tornou-se outro clássico da história da psicologia (Jones, 1924).

Sua pesquisa foi realizada com Peter, de 3 anos, que já demonstrava medo de coelhos, embora esse temor não tenha sido condicionado em laboratório. Enquanto Peter comia, um coelho era colocado na sala, mas a uma distância razoável, de modo que não provocasse uma resposta de medo. Depois de uma série de tentativas, que duraram várias semanas, o coelho era progressivamente trazido para mais perto, sempre quando a criança estava comendo. Finalmente, Peter acabou se acostumando com o coelho e conseguiu tocá-lo sem sentir medo. As respostas generalizadas de medo de objetos similares também foram eliminadas por meio desse procedimento.

O estudo de Jones foi considerado um precursor da terapia do comportamento (a aplicação dos princípios de aprendizagem para alterar o comportamento desajustado), quase 50 anos antes de a técnica se tornar conhecida. Jones, há muito tempo associada ao Institute of Child Walfare da University of Califórnia, em Berkeley, recebeu de G. Stanley Hall um prêmio, em 1968, pelas extraordinárias contribuições para a psicologia do desenvolvimento.

Os Processos de Pensamento

A visão tradicional dos processos de pensamento afirmava que eles ocorriam no cérebro "tão indistintamente que nenhum impulso nervoso passa pelo nervo motor até o músculo, portanto nenhuma reação ocorre nos músculos e nas glândulas" (Watson, 1930, p. 239). De acordo com essa teoria, os processos de pensamento não são passíveis de observação e de experimentação, já que ocorrem na ausência de movimentos musculares. O pensa­mento era considerado intangível, algo exclusivamente mental e, portanto, desprovido de pontos de referência físicos.
O sistema behaviorista de Watson tentou reduzir o pensamento a comportamento motor implícito. Ele alegava ser o pensamento, como todos os demais aspectos do funcio­namento humano, uma espécie de comportamento sensório-motor. Partia do princípio de que o comportamento do pensamento envolvia movimentos ou reações de fala implí­citas. Desse modo, reduzia o pensamento para a fala subvocal que dependia dos mesmos hábitos musculares aprendidos para a expressão da fala explícita. À medida que nos tor­namos adultos, esses hábitos musculares tornam-se inaudíveis e invisíveis porque pais e professores nos reprimem para pararmos de conversar alto com nós mesmos. Assim, o pensamento transforma-se em uma forma de conversação silenciosa.

Watson achava que grande parte desse comportamento implícito se concentrava nos músculos da língua e da laringe (chamadas de caixa da voz). Também expressamos o pen­samento por gestos, como o franzir da testa e o movimento dos ombros, que são reações explícitas a um estímulo.
Uma das fontes mais claras de comprovação da teoria de Watson está no fato de mui­tos admitirem conversar consigo mesmos enquanto estão pensando. Um estudo realizado com relatos introspectivos de estudantes da faculdade constatou que 73% das amostras de pensamento envolviam o ato de conversar consigo mesmo enquanto estavam pen­sando (Farthing, 1992). Todavia, esse tipo de evidência não é aceito pelos behavioristas exatamente por ser introspectivo, e Watson raramente lançava mão da introspecção para sustentar a sua teoria. O behaviorismo exigia provas objetivas de movimentos implícitos da fala, portanto Watson realizou tentativas experimentais para registrar os movimentos da língua e da laringe durante o pensamento.

Essas mensurações revelaram alguns leves movimentos quando os indivíduos estavam pensando. As mensurações dos gestos dos dedos e das mãos dos portadores de deficiência auditiva usando a linguagem dos sinais também revelaram alguns movimentos durante o pensamento. Apesar da sua incapacidade de assegurar resultados mais confiáveis, Watson conti­nuou convicto da existência dos movimentos implícitos de fala. Insistia em que a comprovação dependia apenas do desenvolvimento de equipamentos de laboratório mais sofisticados.

O Apelo Popular do Behaviorismo

Por que as declarações ousadas de Watson lhe renderam tanta adesão do público? Na verdade, a maioria das pessoas pouco se importava se alguns psicólogos fingiam estar conscientes enquanto outros afirmavam ter a psicologia perdido a cabeça ou se o pensa­mento ocorria na cabeça ou no pescoço. Essas questões provocavam muitos debates entre os psicólogos, mas quase não despertavam o interesse das pessoas comuns.
O que sensibilizou o público foi o clamor de Watson por uma sociedade baseada no comportamento controlado e moldado cientificamente, livre dos mitos, dos costumes e dos comportamentos convencionais. Esses conceitos trouxeram esperança às pessoas desencantadas com as antigas ideias. Na fé e na devoção, o behaviorismo adquiriu as características de uma religião. Entre as centenas de artigos e livros escritos sobre o behaviorismo de Watson estava The religion called behaviorism (Berman, 1927), que logo foi lido por um jovem de 23 anos, B. F. Skinner, que escreveu um artigo, enviando-o para uma revista literária popular. "Eles não publicaram o [meu artigo], mas o fato de tê-lo escrito foi como se eu tivesse me definido pela primeira vez como um behaviorista" (Skinner, 1976, p. 299). Skinner prosseguiu aprimorando e ampliando o trabalho de Watson (veja no Capítulo 11).

O entusiasmo gerado pelas ideias de Watson pode ser observado nos comentários dos jornais a respeito do seu livro Behaviorism (1925). O The New York Times declarou: Trata-se de um marco da época na história intelectual do homem" (2 ago. 1925). O The New York Herald Tribune afirmou ser "o livro mais importante escrito até hoje. Saímos em um instante da escuridão para uma grande esperança" (21 jun. 1925).

A esperança vinha da ênfase de Watson no efeito da criação e do ambiente infantil, na determinação do comportamento e na minimização do impacto das tendências inatas. 

O trecho a seguir, extraído do livro Behaviorism, frequentemente é citado para sustentar essa visão:

Deixe sob a minha responsabilidade uns 10 bebês saudáveis e bem-formados, e a um mundo especificado por mim para criá-los, e garanto escolher algum aleatoriamente e treiná-lo para tornar-se especialista de qualquer área, seja um médico, um advogado, um empresário e até mesmo um mendigo ou um bandido, independentemente do talen­to, da propensão, da tendência, da habilidade, da vocação e da raça de seus ancestrais. (Watson, 1930, p. 104)

As experiências de Watson acerca do reflexo condicionado, tais como o estudo com Albert, convenceram-no de que os distúrbios emocionais do adulto são provocados pelas respostas condicionadas estabelecidas na infância e na adolescência. E, se o desequilíbrio do adulto é resultante do condicionamento deficiente na infância, então um programa de condicionamento infantil adequado evitaria o surgimento de adultos desequilibrados. Watson acreditava que esse tipo de controle prático sobre o comportamento infantil (e, consequentemente, sobre o comportamento adulto posterior) não era apenas possível, como também absolutamente necessário. Ele desenvolveu um plano para a melhoria da socieda­de, um programa de ética experimental, baseado nos princípios do behaviorismo.

Ninguém jamais lhe ofereceu uma dezena de bebês saudáveis para ele testar sua afirmação e, mais tarde, Watson reconheceu que, se houvesse feito isso, estaria ultrapas­sando os limites dos fatos. No entanto, comentou que as pessoas que discordavam dele e acreditavam no maior impacto da hereditariedade do que do ambiente vinham fazendo essa afirmação por milhares de anos e ainda não haviam conseguido alguma prova real para a sua visão.

O seguinte trecho do livro Behaviorism mostra a vitalidade com que Watson descrevia o seu programa de sobrevivência nos termos do sistema behaviorista. E talvez ajude a esclarecer por que tantas pessoas adotaram o behaviorismo como uma nova fé.

O behaviorismo deve ser uma ciência que prepare homens e mulheres para compreender os princípios dos próprios comportamentos. Deve formar homens e mulheres dispostos a reorganizar as próprias vidas, e principalmente com disposição para se prepararem para educar seus filhos de maneira saudável. Gostaria de conseguir retratar a vocês o indivíduo rico e maravilhoso que podemos produzir de cada criança saudável se pudermos moldá-la de forma adequada e oferecer-lhe um universo em que possa exercer essa organização, um universo não influenciado pelas lendas folclóricas dos acontecimentos de milhares de anos passados, não tolhido pela história política desonrosa, livre de costumes e conven­ções tolas, desprovidas de significados próprios, mas que submetem os indivíduos como rígidas algemas de aço.

Não clamo aqui por uma revolução; não peço às pessoas que se dirijam a algum local esquecido por Deus, formem uma colônia, andem nuas e vivam em uma comunidade; nem peço para mudarem para uma dieta à base de raízes ou ervas. Não clamo pelo "amor livre". Estou tentando lhes apresentar um estímulo verbal que, se produzir algum efeito, gradualmente transformará o universo. Porque o universo se transformará se vocês edu­carem seus filhos, não com libertinagem, mas com a liberdade behaviorista, uma liber­dade que não pode ser descrita em palavras, já que pouco sabemos dela. E será que essas crianças, com a sua melhor forma de vida e de pensamento, não nos substituirão como sociedade e educarão seus filhos de uma forma mais científica até que o mundo finalmen­te se torne um lugar adequado para o homem viver? (Watson, 1930, p. 303-304)

O plano de Watson de substituir a ética baseada na religião pela experimental, fun­damentada no behaviorismo, ficou na esperança e não se concretizou. Ele esboçou esse programa e o deixou como base para outros. Anos mais tarde, B. F. Skinner (veja no Capí­tulo 11) concebeu mais detalhadamente uma utopia moldada cientificamente no espírito das ideias de Watson.

A Popularização da Psicologia

Por volta da década de 1920, o campo da psicologia já havia conquistado e cativado a atenção do público. Em virtude do carisma, do charme pessoal, do poder de persuasão e da mensagem de esperança de Watson, os estadunidenses estavam enfeitiçados por algo cha­mado "surto" de psicologia. Grande parte do público estava convencida da capacidade da psicologia de mostrar o caminho para a saúde, a felicidade e a prosperidade. As colunas com conselhos psicológicos brotavam nas páginas dos jornais diários.

O psicólogo Joseph Jastrow (1863-1944) era descrito como um propagandista hiperativo da psicologia, comparado aos modernos colunistas famosos, como Ann Landers ou Dear Abby (Rabkin, 1994). Jastrow obteve o Ph.D. em 1886, na Johns Hopkins e construiu uma longa carreira acadêmica na University of Wisconsin. Também escrevia artigos para as revis­tas sobre psicologia, trabalhando com a crença de que a "popularização da psicologia era essencial para o seu reconhecimento público e apoio oficial" (Jastrow, 1930/1961, p. 150). Entre os assuntos abordados estavam a cura da melancolia, a psicologia dos delinquentes, os medos e as preocupações, o significado dos testes de QI, o complexo de inferioridade, os conflitos familiares e o motivo do consumo de café. Obviamente, a psicologia já se encontrava bem distante do trabalho de laboratório da época de Wundt e Titchener.

Jastrow era autor de uma coluna, Keeping Mentally Fit (Como Manter o Equilíbrio Mental), publicada em 150 jornais, e também participava de um programa de rádio semanal da rede NBC. Chegou a escrever um manual popular de psicologia, Piloting your life: the psychologist as helmsman, bem diferente dos livros de autoajuda mais vendidos atualmente. Albert Wiggam foi outro grande divulgador da psicologia. Embora não fosse psicólogo, escrevia uma coluna chamada Exploring Your Mind (Explorando sua Mente). Esse trecho ilustra as suas opiniões:

Os homens e as mulheres nunca precisaram tanto da psicologia como nos dias de hoje. Os rapazes e as moças necessitam da psicologia para avaliar seus traços mentais e suas habilidades, a fim de fazer uma opção precoce e correta da carreira. (...) os empresários a utilizam na seleção de funcionários; os pais e educadores, para ajudar na criação e educa­ção dos filhos; enfim, todos necessitam da psicologia para garantir a mais elevada eficácia e a felicidade. Não se pode atingir plenamente esses objetivos sem o novo conhecimento da própria mente e personalidade que os psicólogos nos oferecem. (Wiggam, 1928 apud Benjamin, 1986, p. 943)

O humorista canadense Stephen Butler Leacock comentou que a psicologia, enquanto confinada nos campi universitários, não estabelecia relações com a realidade nem provocava nenhum dano a quem a estudasse. No entanto, por volta de 1924, ela estava disseminada por toda parte. Leacock disse: "Hoje, para qualquer momento crítico da vida, procuramos os serviços de um psicólogo com a mesma naturalidade com que contratamos o serviço de um encanador. Em todas as metrópoles há ou haverá cartazes em que se lê 'Psicólogo - 24 horas por dia"' (apud Benjamin, 1986, p. 944).

Dessa maneira, a psicologia foi acolhida em todo o território estadunidense, e John B. Watson, mais do que qualquer outra figura, foi responsável por ajudar a divulgá-la.

As Críticas ao Behaviorismo de Watson

Qualquer sistema que apresente propostas radicais de revisão, que desafie violentamente a ordem existente e sugira a exclusão da versão anterior da verdade certamente deve ser alvo de críticas. É sabido que a psicologia estadunidense já rumava em direção à maior obje­tividade quando Watson fundou o behaviorismo, no entanto nem todo psicólogo estava disposto a aceitar a radical objetividade por ele apresentada. Muitos psicólogos, inclusive alguns defensores do princípio da objetividade, acreditavam que o programa de Watson omitia componentes importantes - como os processos perceptuais e sensoriais.

Edwin B.Holt (1873-1946)

Holt recebeu seu diploma de Ph.D. das mãos de William James, pela Harvard University, em 1901 e passou sua carreira acadêmica na Princeton University. Ele discordava do senti­mento de rejeição e dos fenômenos mentais de Watson, e achava que é possível relacionar experiências conscientes a situações físicas. Entretanto, como Watson, Holt acreditava na influência determinante das forças ambientais sobre as forças instintivas.

Também acreditava que a aprendizagem podia ocorrer como resposta a motivações interiores (nossas necessidades e impulsos internos, como fome e sede) bem como moti­vações externas (estímulos). Holt foi um dos primeiros teóricos a identificar os impulsos internos, antecipando-se ao trabalho posterior na área de motivação.

Holt não tentou reduzir o comportamento à unidade estímulo-resposta. Preferiu lidar com comportamentos maiores que tinham algum propósito para o organismo, compor­tamentos que ajudavam a atingir algum objetivo. O termo e conceito de "propósito" não eram permitidos no sistema de Watson. A ênfase que Holt deu a esse conceito serviu de estímulo para o trabalho do neo-behaviorista E.C. Tolman (veja no Capítulo 11).

Karl Lashley (1890-1958)

Lashley fora aluno de Watson na Johns Hopkins, onde completou o Ph.D. Sua carreira na psicofisiologia abriu-lhe as portas das universidades de Minnesota e de Chicago, além da Harvard, conduzindo-o finalmente ao laboratório de Yerkes, dedicado ao estudo biológi­co dos primatas. Ele preservou a tradição mecanicista característica da psicologia desde a sua fundação.

Lashley revelou que, quando criança, ficava muito intrigado com as pessoas e era habili­doso com os objetos mecânicos [como os brinquedos de montar, para construir prédios e pontes]. Afirmou que a psicologia foi uma verdadeira revelação para ele, quando ele reconheceu que o ser humano e a máquina tinham muitos aspectos em comum. (Murray apud Robinson, 1992, p. 213)

Karl Lashley defendia o behaviorismo de Watson, embora sua pesquisa acerca do mecanismo cerebral dos ratos contrariasse um dos pontos básicos de Watson.

Ele resumiu suas descobertas no trabalho Brain mechanisms and intelligence (1929), e apresentou dois princípios hoje famosos: a lei da ação da massa, que estabelece ser a eficácia da aprendizagem uma fun­ção da massa intacta do córtex (quanto mais tecido cortical estiver disponível, melhor a aprendizagem); e o princípio da equipotencialidade, que estabelece ser uma parte do córtex essen­cialmente igual à outra na contribuição para a aprendizagem.

Lashley esperava que a pesquisa lhe revelasse os centros motor e sensorial específicos do córtex cerebral, bem como as conexões correspondentes entre o aparelho motor e o sensorial. Essas descobertas teriam sustentado a primazia e a simplicidade do arco reflexo como uma unidade de comportamento elementar. No entanto, ocorreu que os resultados contradiziam a ideia de Watson da conexão simples, ponto a ponto, dos reflexos, de acor­do com a qual o cérebro serve apenas para transformar os impulsos nervosos sensoriais de origem em impulsos motores de resposta. As descobertas de Lashley sugeriam que o cérebro desempenha uma função muito mais ativa na aprendizagem do que Watson admi­tia. Desse modo, Lashley contestava a afirmação de Watson de que o comportamento era composto parte por parte exclusivamente dos reflexos condicionados.

Embora o trabalho de Lashley contrariasse uma parte fundamental do sistema de Watson, ele não enfraqueceu a insistência behaviorista na utilização dos métodos obje­tivos de pesquisa. Ao contrário, seu trabalho confirmou o valor da objetividade na pes­quisa psicológica.

William McDougall (1871-1938)

Um dos mais vigorosos opositores de Watson era William McDougall, psicólogo inglês que foi para os Estados Unidos em 1920, primeiro para a Harvard e depois para a Duke University. McDougall ficou conhecido por sua teoria do comportamento instintivo e pelo ímpeto do seu livro acerca da psicologia social (McDougall, 1908).

Embora houvesse contribuído muito para a psicologia social, pessoalmente McDougall não era muito sociável. Ele dizia:

Nunca me adaptei adequadamente a nenhum grupo social, jamais fui capaz de me encon­trar completamente como indivíduo na presença de alguma pessoa ou de algum sistema; e, embora não ignorando os interesses da vida, do sentimento e do pensamento coletivo, sempre me mantive isolado, crítico e insatisfeito. (McDougall, 1930, p. 192)

Costumava apoiar causas impopulares, como o livre-arbítrio, a superioridade nórdica e a pesquisa psíquica, e muitas vezes foi criticado pela imprensa por causa das suas posi­ções. McDougall também foi difamado pela comunidade psicológica por haver criticado o behaviorismo na década de 1920, período em que a maioria dos psicólogos aceitava a influência behaviorista.

MacDougall escreveu que "sofreu muito com a perda da reputação, impopularidade, informações difamadoras e hostilidade desdenhosa" (apud Innis, 2003, p. 102). Um psicólogo estadunidense chegou a ponto de dizer publicamente, quando McDougall estava muito doente, que a psicologia lucraria mais se ele morresse. Robert Yerkes, mais compreensivo, observou que a vida de McDougall tinha sido uma "grande tragédia" (Innis, 2003, p. 91).

A teoria do instinto de McDougall afirmava ser o comportamento humano derivado das tendências inatas ao pensamento e à ação. Embora a sua ideia fosse bem recebida no início, perdera terreno para o behaviorismo. Watson não aceitava a noção de instinto, e nessa questão e em várias outras os dois colidiam.

O debate entre Watson e McDougall.

Watson e McDougall encontraram-se para debater suas divergências em 5 de fevereiro de 1924, no Clube de Psicologia, localizado em Washington, DC. O fato de haver em Washington um clube de psicologia não-filiado a nenhuma universidade comprova a ampla popularidade da disciplina. Cerca de mil pes­soas compareceram ao debate. Havia poucos psicólogos: somente 464 membros da APA de todo o país. Assim, o tamanho do público também refletia a popularidade do behavioris­mo de Watson. Os julgadores do debate, no entanto, declaram McDougall o vencedor. Os argumentos de ambas as partes foram publicados em The battle of behaviorism (1929).

McDougall começou com otimismo, dizendo: "Começo com boa vantagem sobre o Dr. Watson, uma superioridade tão grande que se torna até injusto; isto é, todas as pes­soas dotadas de bom senso ficarão necessariamente a meu lado desde o início" (Watson e McDougall, 1929, p. 40). Ele concordava com a visão de Watson de serem os dados do comportamento o enfoque adequado do estudo psicológico, no entanto, afirmava serem igualmente indispensáveis os dados da consciência (essa posição foi sustentada posterior­mente pelos psicólogos humanistas e pelos teóricos da aprendizagem social).

Se os psicólogos não adotassem a introspecção, perguntava McDougall, como deter­minariam o significado da reação de um indivíduo ou a precisão do ato da fala (que Watson chamava de relato verbal)? Sem o autorrelato, como descobrir algo a respeito das fantasias e dos sonhos das pessoas? Como compreender ou analisar as experiências estéticas? McDougall desafiava Watson a explicar como seria o relato do behaviorista acerca da expenencia de apreciar um concerto de violino. McDougall disse:

Entro neste salão e vejo um homem no palco raspando as tripas de um gato com os pelos do rabo de um cavalo, e, sentados silenciosamente em uma atitude de total atenção mil pessoas que de repente irrompem em aplausos. Qual a explicação behaviorista para estra­nhos incidentes como esse? Como explicar o fato de as vibrações emitidas pelos categutes motivarem mil pessoas a permanecerem em total e absoluto silêncio e quietude e o fato seguinte, no qual a interrupção desse estímulo parece transformar-se em outro estímulo provocador de uma atividade tão frenética?

O senso comum e a psicologia concordam em aceitar a explicação de que o público ouviu a musica com extremado prazer e deu vazão à admiração e gratidão ao artista com gritos e aplausos. No entanto, o behaviorista não conhece nada a respeito do prazer e da dor, nem da admiraçao e da gratidão. Ele relegou todas essas "entidades metafísicas" a um amontoado de poeira, e tem de buscar outra explicação. Deixemo-lo procurando, já que a busca o manterá inofensivamente ocupado por vários séculos. (Watson e McDougall, 1929, p. 62-63)

Assim, McDougall questionava a afirmação de Watson de que o comportamento humano é totalmente determinado, de que tudo que realizamos é resultado direto da experiência passada e pode ser previsto assim que conhecemos esses fatos passados. Esse tipo de Pslcologia não dá espaço para o livre-arbítrio ou a liberdade de escolha. Se essa posição determinista fosse verdadeira, ou seja, se os humanos não fossem dotados
e vontade livre nem responsáveis pelas próprias ações, então não existiria a iniciativa humana, o esforço criativo, o desejo de melhoria individual e social. Ninguém tentaria evitar a guerra, minimizar a injustiça ou lutar por algum ideal pessoal ou social Por que continuar tentando achar uma resposta, se todo pensamento e comportamento é deter­minado pela experiência passada?

O método do relato verbal de Watson entrou no fogo cruzado. Watson foi acusado e inconsistência por aceita-lo quando conseguia comprová-lo e rejeitá-lo quando não. Evidentemente, esse era o enfoque principal de Watson e de todo o movimento behaviorista: usar somente dados verificáveis.

O debate entre os dois ocorreu 11 anos depois de Watson fundar a escola de pensa­mento behaviorista. McDougall previu que em mais alguns anos a posição de Watson desapareceria sem deixar rastros. Em um pós-escrito à publicação do debate, cinco anos depois McDougall disse que sua previsão foi excessivamente otimista, "baseada em uma ideia generosa demais da inteligência do público americano. (...) Dr. Watson continua
como um profeta muito honrado no próprio país, a emitir suas opiniões" (Watson é McDougall, 1929, p. 86-87).

As Contribuições do Behaviorismo de Watson

A carreira produtiva de Watson na psicologia durou pouco menos de 20 anos; mesmo assim, afetou profundamente o curso do desenvolvimento da psicologia por muito tempo.

Watson foi um eficaz agente do Zeitgeist, em uma época de mudanças não apenas na psicologia, como também nas atitudes científicas em geral. O século XIX testemunhou os magníficos avanços em todos os ramos da ciência. O século XX prometia feitos ainda mais extraordinários. Na época, acreditava-se que, se aos cientistas fosse dado tempo sufi­ciente, eles descobririam as soluções para todos os problemas e as respostas para todas as perguntas.

Watson tornou a metodologia e a terminologia da psicologia mais objetivas. Embo­ra suas posições a respeito de determinados tópicos estimulassem muita pesquisa, suas formulações iniciais não são mais válidas. Como uma escola de pensamento distinta, o behaviorismo de Watson foi substituído por outras formas de objetivismo psicológico nele baseado, como veremos no Capítulo 11. O historiador E. G. Boring afirmou que, em 1929, o behaviorismo já ultrapassara a etapa inicial. Como os movimentos revolucionários dependem das polêmicas para se fortalecerem, é um verdadeiro tributo ao behaviorismo de Watson que apenas 16 anos após a sua introdução ele não precisasse mais protestar. Na verdade, não sobrou nada para protestar.

O behaviorismo de Watson efetivamente superou as posições iniciais mais gerais da psicologia. Em 1926, um estudante de pós-graduação da University of Wisconsin relatou que, naquela época, poucos estudantes tinham ouvido falar de Wundt e Titchener (Gengerelli, 1976). Os métodos objetivos e a linguagem acabaram se incorporando à psicologia estadunidense e, desse modo, morria o sistema de Watson, assim como outros movimentos bem-sucedidos, ou seja, sendo absorvidos por um corpo principal de pensamento, a fim de proporcionar uma base conceituai mais firme para a psicologia moderna.

Embora o programa de Watson não lhe permitisse atingir seus ambiciosos objetivos, ele foi amplamente reconhecido pelo seu papel de fundador. O seu 100° aniversário de nascimento foi comemorado em abril de 1979, o mesmo ano do centenário da psicologia como ciência. Um simpósio realizado na Furman University, para o qual o laboratório de psicologia levou o nome de Watson em sua homenagem, reuniu psicólogos vindos de todos os Estados Unidos. Um dos oradores foi B. F. Skinner, cujo discurso se intitulava “What J. B. Watson meant to me” ("O que J. B. Watson significou para mim"). Seus conterrâneos não guardavam boas lembranças de Watson. Muitos recordavam-se dele como "arrogante e ateu que voltara as costas para a sua herança sulista e a criação batista" (Greenville News, 5 abr. 1979). Em 1984, foi inaugurado um marco comemorativo em uma estrada próxima ao local de seu nascimento.

Até certo ponto, a aceitação do behaviorismo watsoniano deveu-se à personalidade de Watson, figura carismática que projetava suas ideias com entusiasmo, otimismo e autocon­fiança. Orador muito eloquente e persuasivo, desprezava a tradição e rejeitava a psicologia corrente. Essas características pessoais, aliadas ao espírito dos tempos que ele manipulava com tanta maestria, definiram John B. Watson como um dos pioneiros da psicologia.
 

Psicologia - História da Psicologia
2/4/2020 1:30:02 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Behaviorismo, as influências anteriores

Hans, o Esperto, foi o cavalo mais famoso de toda a história da psicologia. Naturalmente, ele foi o único cavalo na história da psicologia, mas isso não diminui suas realizações extraordina­riamente brilhantes. No início da década de 1900, praticamente toda pessoa culta da Europa e dos Estados Unidos já ouvira falar a respeito de Hans, o cavalo prodígio. Ele foi o cavalo mais esperto do mundo e conhecido até como a criatura de
quatro patas mais inteligente de que se ouvira falar.

O esperto Hans, que vivia em Berlim, Alemanha, era uma celebridade. As propagandas usavam seu nome para vender seus produtos. Suas realizações serviram de inspi­ração para canções, artigos de revistas e livros. Seu conhe­cimento fenomenal foi testado por matemáticos famosos e considerado como tendo capacidade de raciocínio numérico equivalente ao de um menino de 14 anos de idade.

Ele conseguia somar e subtrair, usar frações e decimais, ler, identificar moedas, jogar baralho, soletrar, reconhecer uma variedade de objetos e resolver problemas incríveis de memória. O cavalo respondia a perguntas feitas a ele batendo a pata um determinado número de vezes ou balançando a cabeça em direção ao objeto apropriado. "Quantos cavalheiros presentes estão usando chapéu de palha?" perguntava-se. [228] Hans, o Esperto, batia a resposta com sua pata direita, tomando cuidado para não incluir os chapéus de palha usados pelas damas. "O que aquela senhora está segurando?" O cavalo respondia ‘‘schirm’’, que significa sombrinha, indicando cada letra em um cartaz especial. E ele ainda era capaz de distinguir entre uma bengala e uma sombrinha, ou um chapéu de palha e um de feltro.

O mais importante é que Hans podia pensar por si mesmo. Quando lhe faziam uma pergunta estranha, por exemplo, quantos lados tem um círculo, ele sacudia a cabeça de um lado para o outro querendo dizer que nenhum. (Fernald, 1984, p. 19)

Não era para menos que as pessoas ficassem surpresas e que seu dono, Wilhelm von Osten, um professor aposentado de matemática, ficasse orgulhoso. Ele levara vários anos ensinando a Hans os princípios da inteligência humana (já havia tentado antes, em vão, ensinar um gato e um urso). Von Osten não lucrou financeiramente com o desempenho de Hans. Quando deu demonstrações da inteligência do cavalo, no pátio do edifício onde morava, nunca cobrou nenhuma taxa, tampouco aproveitou-se do resultado para fazer publicidade. A motivação para esse enorme esforço foi puramente científica. Seu objetivo era provar que Darwin estava correto ao sugerir a semelhança entre o processo mental animal e o humano.

Von Osten também acreditava que educação insuficiente era a única justificativa para a aparente falta de inteligência dos cavalos e dos demais animais. Estava convencido de que, com o método adequado de treinamento, o cavalo provaria sua inteligência.  Devido aos seus esforços, a maior parte do mundo ocidental se convenceu!

Mas havia alguns céticos que duvidavam e questionavam se Hans ou qualquer outro animal podia realmente ser tão inteligente. Devia ter algum truque envolvido. Alguns achavam que era o escândalo do século.

Você acredita que seja possível ensinar um animal a responder perguntas correta­mente? Aquela exibição da inteligência do animal era legítima? E o que tudo isso tem a ver com a história da psicologia? Vamos ver posteriormente que foi um psicólogo que finalmente resolveu o mistério.

Rumo à Ciência do Behaviorismo

Em torno da segunda década do século XX, pouco menos de 40 anos após Wilhelm Wundt dar início à psicologia, a ciência passava por uma profunda reavaliação. Não havia mais consenso entre os psicólogos acerca do valor da introspecção, da existência dos elemen­tos mentais ou da necessidade de a psicologia continuar a manter o status de uma ciência pura. Os psicólogos funcionalistas reescreviam as diretrizes, usando a psicologia de uma forma que seria inadmissível em Leipzig e em Cornell.

O movimento na direção do funcionalismo era mais evolucionário do que revolucioná­rio. A intenção inicial dos funcionalistas não consistia em acabar com a ordem estabelecida por Wundt e E. B. Titchener. Eles apenas acrescentaram e modificaram alguns aspectos, dando origem, com o passar dos anos, a uma nova forma de psicologia, que era mais um movimento emergente interno do que uma consequência de um ataque externo. [229]

Os líderes do movimento funcionalista não estavam ávidos por formalizar a sua posi­ção. Eles viam a sua tarefa não como uma ruptura com o passado, mas como uma evolução a partir dele. Por isso, a mudança do estruturalismo para o funcionalismo não estava tão evidente no momento em que ocorria. Dessa forma, o cenário da psicologia estadunidense na segunda década do século XX exibia o amadurecimento do funcionalismo concomitantemente à consolidação, embora em uma posição não mais exclusiva, do estruturalismo.

O ano de 1913 foi marcado por uma espécie de declaração de guerra, com o surgimento de um movimento de protesto cuja intenção era dilacerar as visões antigas, buscando uma ruptura com ambas as posições. Seus líderes não desejavam modificar o passado, muito menos manter alguma relação com ele. Esse movimento revolucionário chamava-se beha- viorismo e foi promovido pelo psicólogo John B. Watson, de 35 anos. Apenas 10 anos antes, Watson recebera o Ph.D. de James Rowland Angell na University of Chicago, na época em que a universidade era o centro da psicologia funcionalista, um dos dois movimentos que Watson decidiu destruir.

As premissas básicas do behaviorismo de Watson eram simples, diretas e ousadas. Ele buscava uma psicologia científica que lidasse exclusivamente com os atos comportamentais observáveis e passíveis de descrição objetiva, por exemplo, em termos de "estímulo" e "resposta". Além disso, a psicologia de Watson rejeitava qualquer termo ou conceito mentalista. Na sua visão, palavras como "imagem", "sensação", "mente" e "consciência" - adotadas desde a época da filosofia mentalista - não significavam absolutamente nada para a ciência do comportamento.

Watson afirmava que a consciência não tinha o menor valor para a psicologia do comportamento, rejeitando veementemente esse conceito. Além disso, alegava que nin­ guém jamais "havia visto, tocado, cheirado, experimentado ou transferido de um lugar a outro a consciência. Asua definição não passa de mera suposição tão improvável quanto o conceito de alma" (Watson e McDougall, 1929, p. 14). Desse modo, a introspecção, que pressupunha a existência do processo consciente, era irrelevante e sem valor para a ciên­ cia do comportamento.

Watson afirmava que a consciência não tinha o menor valor para a psicologia do comportamento, rejeitando veementemente esse conceito. Além disso, alegava que nin­ guém jamais "havia visto, tocado, cheirado, experimentado ou transferido de um lugar a outro a consciência. Asua definição não passa de mera suposição tão improvável quanto o conceito de alma'' (Watson e McDougall, 1929, p. 14). Desse modo, a introspecção, que pressupunha a existência do processo consciente, era irrelevante e sem valor para a ciên­ cia do comportamento.

Não foi Watson quem deu origem a essas idéias básicas do movimento behaviorista; elas já vinham sendo desenvolvidas há algum tempo, tanto na psicologia como na biolo­ gia. Como qualquer outro fundador, Watson organizou e promoveu as idéias e as questões já aceitáveis para o Zeitgeist intelectual. Assim, são estes alguns dos principais conceitos reunidos por Watson para formar seu sistema de psicologia behaviorista: a tradição filosó­fica objetivista e mecanicista; a psicologia animal; e a psicologia funcional.

O reconhecimento da necessidade de uma psicologia mais objetiva envolve uma longa história que nos remete a Descartes, cujas explicações mecanicistas para o funcionamento do corpo humano constituíram uma das primeiras iniciativas rumo a uma ciência objetiva. Outra figura ainda mais importante na história do objetivismo foi o filósofo francês Auguste Comte (1798-1857), fundador do positivismo, movimento com ênfase no conhecimento positivo (fatos), o quél constituiria uma verdade inquestionável (veja no Capítulo 2). De acordo com Comte, o único conhecimento válido é o de natureza social e observável de forma objetiva. Esses critérios eliminavam a introspecção, já que ela depende da consciên­cia individual particular e não é passível de estudo objetivo.

Por volta dos primeiros anos do século XX, o positivismo incorporava-se ao Zeitgeist científico. Mesmo assim, Watson e outros psicólogos estadunidenses da sua época raramente abordavam o positivismo em seus trabalhos. No entanto, de acordo com um historiador, "agiam como positivistas, mesmo não se assumindo como tais (Logue, 1985. p. 149). Dessa forma, quando Watson começou a trabalhar com o behaviorismo as suas idéias já tão impregnadas pelas influências objetivistas, mecanicistas e materialistas, deram origem a um novo tipo de psicologia - disciplina que excluía a consciência, a mente ou a alma -, com enfoque apenas em algo visível, audível ou palpável. O resultado foi uma ciência do comportamento que enxergava o ser humano como uma máquina.

A Influencio da Psicologia Animal no Behaviorismo

A posição de Watson a respeito da relação entre a psicologia animal e o behaviorismo era clara: "O behaviorismo é o resultado direto dos estudos do comportamento animal realiza­dos durante a primeira década do século XX" (Watson, 1929, p. 327). Desse modo, podemos afirmar que o principal antecessor do programa de Watson foi a psicologia animal, resultante da teoria evolucionista e que levou à tentativa de se demonstrar (1) a existência da mente nos organismos inferiores e (2) a continuidade entre a mente animal e a humana.

No Capítulo 6, apresentamos os trabalhos de dois pioneiros da psicologia animal, George John Romanes e Conwy Lloyd Morgan. A lei da parcimônia de Morgan e o maior emprego das técnicas experimentais em vez das anedóticas tornaram a psicologia animal mais objetiva, embora a consciência continuasse a ser o enfoque central. A metodologia tornava-se mais objetiva, mesmo o objeto de estudo sendo subjetivo.

Por exemplo, em 1899, Alfred Binet publicou The psychic life of micro-organisms, em que apresentava uma proposta afirmando que até mesmo um organismo unicelular como o protozoário era capaz de perceber e distinguir os objetos e de exibir um comportamento dotado de intenção. Em 1908, Francis Darwin (filho de Charles Darwin) questionava sobre o papel da consciência nas plantas. Nos primeiros anos da psicologia animal nos Estados Unidos, houve grande interesse pelos processos conscientes dos animais, e a influência de Romanes e Morgan perdurou por algum tempo.

Jacques Loeb (1859-1924)

Outra personalidade que contribuiu significativamente para incrementar a objetividade na psicologia animal foi o fisiologista e zoólogo alemão Jacques Loeb (1859-1924), que gostava de regar seu jardim mesmo quando chovia. Loeb trabalhou em diversas institui­ções nos Estados Unidos, inclusive na University of Chicago.

Em reação à tradição antropomórfica e ao método de introspecção por analogia, desenvolveu uma teoria do comportamento animal com base no conceito de tropismo, o movimento forçado involuntário. Ele acreditava na reação direta e automática do animal a um estímulo. Desse modo, afirmava ser a reação comportamental forçada pelo estímulo, não cabendo qualquer explicação em termos de definição consciente do animal.[231]

Embora seu trabalho representasse o tratamento mais objetivo e mecânico da psico­logia animal daquela época, Loeb não conseguiu abdicar totalmente do passado. Ele não rejeitava a existência da consciência nos animais (por exemplo, nos seres humanos) que se encontravam na escala mais elevada da evolução (Loeb, 1918). Argumentava que a cons­ciência animal revelava-se por meio da memória associativa, ou seja, que os animais já haviam aprendido a reagir a determinados estímulos de um modo esperado. Por exemplo a reação do animal ao ser chamado pelo nome ou ao ouvir um som específico para dirigir-se repetidas vezes a determinado local a fim de receber alimento são evidências de alguma conexão mental, da existência da memória associativa. Portanto, mesmo a abordagem de algum modo mecanicista de Loeb ainda continha certo conceito de consciência.

Watson frequentou alguns cursos de Loeb na University of Chicago e desejava reali­zar pesquisas sob sua orientação, demonstrando curiosidade a respeito das visões mecanicistas de Loeb. Angell e o neurologista H. H. Donaldson demoveram Watson da sua intenção, afirmando ser uma ideia "arriscada", termo com várias conotações, mas talvez com o intuito de expressar o repúdio ao objetivismo de Loeb.

Ratos, Formigas e a Mente Animal

Mais ou menos no início do século XX, os psicólogos da psicologia animal experimental trabalhavam com muita seriedade. Robert Yerkes iniciou esses estudos em 1900 usando diversos animais, e suas pesquisas consolidaram a posição e a influência da psicologia comparativa.

Também em 1900, Willard S. Small, da Clark University, introduziu o labirinto para ratos (veja na Figura 9.1); assim, o camundongo branco e o labirinto transformaram-se em método padrao no estudo da aprendizagem. A noção de consciência ainda invadia a psicologia animal, mesmo com a adoção do método do rato branco e o labirinto. Ao inter­ pretar o comportamento do rato, Small usava a terminologia mentalista, descrevendo as imagens e as ideias do animal.

Embora as conclusoes de Small fossem mais objetivas do que as produzidas pelo tipo de antropomorfização de Romanes, elas também refletiam uma preocupação em relação aos elementos e processos mentais. No início da carreira, até mesmo Watson sofrera essa influencia. O titulo da sua dissertação de doutorado, concluída em 1903, era Animal education: the psychical development of the white rat (grifo em negrito acrescentado) (A educação animal: o desenvolvimento psíquico do rato branco). Até 1907, ele discutia a experiência consciente da sensação dos ratos.

Em 1906, ainda como aluno de pós-graduação da University of Chicago, Charles Henry Turner (1867-1923) publicou um artigo intitulado “A preliminary note on ant behavior” Observações preliminares sobre o comportamento da formiga"). Watson publicou uma critica muito elogiosa sobre o trabalho na renomada revista Psychological Bulletin. Nesse artigo, empregou a palavra comportamento, que aparece no título do trabalho de Turner, e talvez essa tenha sldo a Primeira vez que ele usou a palavra por escrito, embora já a houvesse empregado anteriormente em uma solicitação de recursos (Cadwallader, 1984, 1987). [232]

Turner era afro-americano e recebeu o Ph.D. magna cum laude, em 1907, da University of Chicago. Embora sua graduação fosse em zoologia, ele publicou tantas pesquisas relacionadas com os estudos comparativos e de animais em revistas especializadas de psicologia que alguns psicólogos o consideravam um colega da área. Porém, lembre-se de quão raros eram os empregos para os psicólogos pertencentes a grupos de minoria, e por isso as oportunidades acadêmicas de Turner se limitavam a posições em faculdades do Missouri e da Geórgia.

Por volta de 1910, foram instalados oito laboratórios de psicologia comparativa; os primeiros estavam nas universidades Clark, Harvard e Chicago. Diversas universidades ofereciam cursos na área. Margaret Floy Washburn, a primeira orientanda de doutorado de Titchener (veja no Capítulo 5), lecionava psicologia animal na Cornell. Seu livro, The animal mind (1908), foi o primeiro trabalho de psicologia comparativa publicado nos Estados Unidos.

Observe-se o título do livro de Washburn: The animal mind. No seu trabalho, persistia a noção de consciência animal, bem como o método de introspecção comparativa entre a mente animal e a mente humana. Washburn afirmava: [233]

Somos obrigados a reconhecer que toda interpretação psíquica do comportamento animal deve ser por analogia com a experiência humana (...) Devemos adotar a posição antropomorfica ao formarmos ideias sobre o que ocorre na mente de um animal. (Washburn, 1908; p. 88)

Embora o livro de Washburn fosse o mais completo em termos de pesquisa sobre a psicologia animal naquela epoca, ele também marcou o fim de uma era. Depois dele nenhum outro texto usou a abordagem da inferência dos estados mentais a partir do comportamento. Os temas que chamaram a atenção de [Herbert] Spencer, Lloyd Morgan e Yerkes não esta­vam mais em voga e praticamente desapareceram da literatura.

Quase todo livro didático que veio a seguir adotava a visão behaviorista e envolvia principalmente as questões e os problemas da aprendizagem. (Demarest, 1987, p. 144)

Seja lidando com a mente, seja com o comportamento, não era fácil ser um profissio­nal da psicologia animal. Tanto os governantes como os administradores das universida­des sempre atentos às questões orçamentárias, não enxergavam na área nenhum valor prático. O heitor de Harvard dizia não ver "futuro no tipo de psicologia comparativa de Yerkes. Alem de malcheirosa e cara, parece não oferecer nenhuma aplicacão prática para o serviço publico (Reed, 1987a, p. 94). Yerkes disse ter sido 

discreta e gentilmente alertado (...) de que a psicologia educacional oferecia, além da minha area especifica de psicologia comparativa, outros caminhos, mais amplos e dire­tos, para uma carreira na docência e para melhor aproveitamento acadêmico; assim eu devia pensar seriamente em mudar. (Yerkes, 1930/1961, p. 390-391)

Os alunos orientados por Yerkes em seu laboratório procuravam empregos na área da aplicação por não conseguirem colocação na psicologia comparativa. Aqueles que conse­guiam garantir uma posição universitária estavam cientes de que eram os membros mais custosos dos respectivos departamentos de psicologia. Nos momentos de dificuldades financeiras, os que fossem vinculados à psicologia animal geralmente eram os primeiros a ser demitidos.

O próprio Watson enfrentou esse tipo de dificuldade no início da carreira. Ele escre­veu para Yerkes, dizendo: "No momento, a minha pesquisa está parada. (...) Não temos espaço físico para manter os animais e, mesmo que o tivéssemos, não teríamos fundos para mante-lo (Watson, 1904, apud O'Donnell, 1985, p. 190). Em 1908, apenas seis traba­lhos relacionados com animais foram publicados nas revistas de psicologia, cerca de 4% de toda a pesquisa psicológica daquele ano. No ano seguinte, quando Watson sugeriu a Yerkes um jantar, reunindo os psicólogos que estudavam o comportamento dos animais durante o encontro da APA, sabia que caberiam todos em uma única mesa: compareceram apenas nove. Na edição de 1910 da American Men of Science, de Cattell, apenas seis, entre os 218 psicologos relacionados, admitiam realizar pesquisas com animais. As perspectivas profissionais não eram promissoras, mas, mesmo assim, o campo se expandia em virtude da dedicaçao de alguns, poucos, que permaneciam na área.

A publicação Journal of Animal Behavior (mais tarde intitulada Journal of Comparative Psychology) foi lançada em 1911. Em 1906, o texto de uma palestra do fisiologista russo Ivan Pavlov foi publlcado na revista Science, introduzindo para o público estadunidense o seu [234] trabalho a respeito da psicologia animal. Yerkes e Sergius Morgulis, um estudante russo, publicaram um relato mais detalhado da metodologia utilizada por Pavlov, bem como dos resultados da sua pesquisa, na publicação Psychological Bulletin (1909).

A pesquisa de Pavlov sustentava a psicologia objetiva e, em especial, o behaviorismo de Watson. Desse modo, estabeleceu-se uma psicologia animal dotada de um método e um objeto de estudo muito mais objetivos. Aquela tendência em direção a uma maior objeti­vidade no estudo do comportamento animal foi fortemente apoiada pelos acontecimentos na Alemanha, em 1904. Esse foi o ano em que o governo estabeleceu uma comissão para examinar os poderes de Hans, o Esperto, e determinar se havia algum mecanismo ou truque envolvido. O grupo incluía um administrador de circo, um veterinário, treinadores de cavalo, um aristocrata, o diretor do Zoológico de Berlim e o psicólogo Carl Stumpf, da University of Berlin.

Em setembro de 1904, depois de uma minuciosa investigação, a comissão concluiu que Hans não recebia nenhum tipo de sinalização intencional nem indicações do proprietário. Não havia fraude nem truques. No entanto, Stumpf não se encontrava totalmente con­vencido e estava curioso para saber como o cavalo conseguia responder corretamente a tantas perguntas. Ele atribuiu essa missão a um aluno de pós-graduação, Oskar Pfungst, que realizou o estudo com o cuidado exigido de um psicólogo experimental.

O cavalo demonstrou capacidade para responder às perguntas mesmo quando o trei­nador não estava presente; assim, Pfungst decidiu elaborar uma experiência para testar esse fenômeno. Formou dois grupos de pessoas para formular as perguntas: um, com indivíduos que sabiam as respostas corretas, e outro, com indivíduos que não sabiam res­ ponder às questões formuladas ao cavalo. Os resultados mostraram que o cavalo respondia corretamente somente às perguntas feitas pelos indivíduos que sabiam a resposta. Assim, ficou claro que Hans recebia as informações de quem quer que estivesse formulando a pergunta, mesmo que fosse um estranho.

Depois de uma série de experiências rigorosamente controladas, Pfungst concluiu que Hans fora condicionado sem querer pelo proprietário, von Osten. O cavalo começava a bater a pata ao menor movimento para baixo da cabeça de von Osten. Quando ele executava o número correto de batidas, a cabeça de von Osten automaticamente fazia um leve movimento para cima, e o cavalo parava de bater. Pfungst demonstrou que qualquer indivíduo, mesmo uma pessoa que nunca estivera perto de um cavalo, realizava o mesmo gesto imperceptível com a cabeça quando falava com o animal.

Assim, o psicólogo provou que Hans não tinha um depósito de conhecimento. Ele apenas fora treinado para começar a bater com a pata ou a inclinar a cabeça em direção ao objeto sempre que a pessoa fizesse determinado movimento, e condicionado a parar ao mínimo movimento contrário. Von Osten motivara Hans durante o período de treina­mento, dando-lhe cenouras e torrões de açúcar, sempre que respondia corretamente. Com o passar do tempo, von Osten pensou que não precisava mais incentivar cada resposta correta, por isso passou a premiá-lo apenas de vez em quando. O psicólogo behaviorista B. F. Skinner demonstrou mais tarde a enorme eficácia desse tipo de reforço intermitente ou parcial no processo de condicionamento.

O que von Osten pensou da conclusão de Pfungst? Ficou arrasado e sentiu-se ofendido, explorado e fisicamente doente. Entretanto direcionou sua fúria não a Pfungst, mas a Hans, que, acreditava von Osten, de algum modo o enganara. Von Osten afirmava que o comportamento fraudulento do cavalo o deixara enfermo. E realmente ele acabou ficando doente e foi diagnosticado com câncer do fígado. (Candland, 1993, p. 135) [235]

Von Osten jamais perdoou Hans pela traição e rogou-lhe uma praga, dizendo que pas­saria o resto dos seus dias puxando uma carruagem fúnebre. Von Osten morreu dois anos depois da constatação de Pfungst, creditando ao comportamento ingrato do cavalo o fato de ter ficado enfermo. Era evidente que ele ainda acreditava na inteligência de Hans.

O novo dono de Hans, o Esperto, Hans Krall, um joalheiro milionário, colocou Hans e dois outros cavalos em exibição para performances populares em que os cavalos batiam com as patas em resposta às perguntas. E suas respostas estavam sempre corretas. Krall os chamava de Cavalos Mágicos. Eles surpreendiam as plateias com seus poderes; conseguiam até calcular a raiz quadrada de números, entre outros truques (veja Kressley-Mba, 2006). Aparentemente a maior parte do público não tinha ouvido falar, ou prestado atenção às pesquisas de Pfungst mostrando que os denominados poderes não tinham nenhum mistério, mas eram simplesmente respostas aprendidas.

O caso de Hans, o Esperto, é um exemplo do valor e da necessidade de uma abordagem experimental no estudo do comportamento animal. Os psicólogos passaram a enxergar com mais ceticismo os grandes feitos de "animais inteligentes". Entretanto, esse estudo também mostrou a capacidade de o animal aprender e ser condicionado a modificar seu comportamento. O estudo experimental da aprendizagem animal passou a ser mais impor­tante no tratamento desse tipo de questão do que a hipótese anterior sobre a existência de uma consciência operando na mente animal. John B. Watson redigiu um artigo para a Journal of Comparative Neurology and Psychology a respeito do relato experimental de
Pfungst sobre Hans, o Esperto. As conclusões do trabalho influenciaram a crescente ten­dência de Watson em promover uma psicologia que abordasse apenas o comportamento e não a consciência (Watson, 1908).

Edward Lee Thorndike (1874-1949)

Thorndike, um dos principais pesquisadores para o desenvolvimento da psicologia animal, elaborou uma teoria de aprendizagem objetiva e mecanicista com enfoque no comporta­mento manifesto. Thorndike acreditava que o psicólogo devia estudar o comportamento, não os elementos mentais ou a experiência consciente, e assim reforçava a tendência rumo à maior objetividade iniciada pelos funcionalistas. Não interpretava a aprendizagem do ponto de vista subjetivo, mas em termos de conexões concretas entre o estímulo e a res­posta, embora não admitisse qualquer referência à consciência e aos processos mentais.

Os trabalhos de Thorndike e de Ivan Pavlov são outro exemplo de descobertas simultâ­neas independentes. Thorndike desenvolveu a lei do efeito em 1898, e Pavlov apresentou uma proposta semelhante, a lei do reforço, em 1902.

A Biografia de Thorndike

Edward Lee Thorndike foi um dos primeiros psicólogos estadunidenses a receber toda a formação educacional nos Estados Unidos. Um fato importante foi ele ter realizado os estudos de pós-graduação nos Estados Unidos e não na Alemanha, apenas duas décadas depois da fundação formal da psicologia. O seu interesse na psicologia foi despertado, assim como o de vários outros colegas, pela leitura da obra The principles of psychology de [236] William James, quando ainda era estudante de graduação na Wesleyan University, em Middletown, Connecticut. Mais tarde, Thorndike estudou sob a orientação de James, em Harvard, e começou a pesquisar sobre a aprendizagem.

Ele planejava conduzir suas pesquisas utilizando crianças como sujeitos, o que estava proibido. A administração da universidade ainda sofria as consequências de um escânda­ lo envolvendo um antropólogo acusado de afrouxar as roupas das crianças para tomar as medidas do corpo. Ao constatar que não poderia realizar experiências com as crianças, resolveu usar pintinhos, talvez inspirado nas aulas em que Morgan descrevia a sua pes­quisa com esses animais.

Thorndike improvisou labirintos usando alguns livros e ensinou os pintinhos a percor­rerem os caminhos. Com dificuldades para achar um lugar para guardar os pintinhos, já que a proprietária do imóvel em que morava não permitia que mantivesse os animais no seu quarto, ele pediu ajuda a William James, o qual, não conseguindo arrumar um lugar no laboratório nem no museu da universidade, resolveu acolher Thorndike e os pintinhos no porão da sua casa, para alegria de seus filhos.

Thorndike não chegou a completar os estudos em Harvard. Desiludido por não ser correspondido por uma jovem, resolveu afastar-se da região de Boston e matriculou-se no curso de James McKeen Cattell, na Columbia University. Quando Cattell lhe ofereceu uma bolsa de estudos, Thorndike seguiu para Nova York, levando consigo os dois pintinhos mais bem treinados. Prosseguiu nas pesquisas com animais na Columbia, trabalhando com gatos e cachorros, usando caixas-problema que ele mesmo havia projetado. Em 1898, recebeu o título de Ph.D., apresentando a dissertação Animal intelligence: an experimental study of the associative processes in animais (Inteligência animal: um estudo experimental dos processos associativos nos animais), publicada com destaque na Psychological Review por ser a primeira tese de doutorado a utilizar animais como sujeito de pesquisa (Galef, 1998). Posteriormente, Thorndike publicou várias pesquisas a respeito da aprendizagem associativa, envolvendo pintinhos, peixes, gatos e macacos.

Extremamente ambicioso e competitivo, Thorndike escreveu à sua noiva, dizendo: "Decidi chegar ao topo da psicologia em cinco anos, lecionar durante mais dez e, então, abandonar a área" (apuá Boakes, 1984, p. 72). Ele não permaneceu na psicologia animal por muito tempo. Reconhecia não ser essa a área de seu principal interesse, mas manteve-se nela exclusivamente para completar a graduação e criar certa reputação. A psicologia animal não era o melhor campo para uma pessoa com tamanha vontade de alcançar o sucesso. Além disso, como já verificamos anteriormente, as áreas aplicadas ofereciam muito mais oportunidades de emprego do que a pesquisa com animais.

Thorndike tornou-se orientador de psicologia na Teachers College da Columbia Uni­versity. Ali estudou os problemas de aprendizagem nos seres humanos, adaptando as téc­nicas de pesquisa com animais para crianças e jovens (Beatty, 1998). Passou a dedicar-se a outras duas áreas: a psicologia educacional e os testes mentais e ainda escreveu diversos livros didáticos, fundando, em 1910, a Journal of Educational Psychology. Atingiu o topo da psicologia em 1912, quando foi eleito presidente da APA. Os direitos autorais dos testes e dos livros didáticos lhe renderam uma fortuna; por volta de 1924 ele perfazia uma receita anual aproximada de 70 mil dólares, soma substancial para a época (Boakes, 1984).

Os 50 anos em que permaneceu na Columbia estão entre os mais produtivos registra­dos na história da psicologia. Na relação da sua bibliografia constam 507 itens. Apesar de aposentar-se em 1939, trabalhou até morrer, 10 anos depois. [237]

O Conexionismo

Thorndike chamou de conexionismo ao tratamento experimental no estudo da associação. Afirmou que, para analisar a mente humana, ele deveria localizar:

as conexões de forças variáveis entre (a) as situações e os seus respectivos elementos e componentes e (b) as respostas e os seus respectivos facilitadores e inibidores, a pron­tidão às respostas e as direções das respostas. Se conseguir identificar todos esses ele­mentos, definindo o que pensa ou faz o homem e o que o satisfaz ou aborrece em cada situação imaginável, parece-me que nada será deixado de lado. (...) Aprendizagem é o estabelecimento de conexões, e a mente é o sistema de conexões do homem (Thorndike 1931, p. 122)

Essa posição era uma extensão direta da antiga noção filosófica de associação (veja no Capítulo 2), mas com uma diferença significativa: em vez de abordar associações e conexões entre as ideias, Thorndike trabalhava com as conexões entre as situações verifi­cáveis objetivamente e as respostas.

Embora houvesse desenvolvido sua teoria seguindo um referencial mais objetivo, Thorndike continuou a referir-se aos processos mentais. Falava de satisfação, irritação e desconforto quando discutia o comportamento dos animais em seus experimentos, usando termos mais mentalistas do que comportamentalistas. Assim, Thorndike manti­nha a influência recebida de Romanes e Morgan. Muitas vezes, a sua análise objetiva do comportamento animal incorporava julgamentos subjetivos das alegadas experiências conscientes dos animais. Observe que Thorndike, assim como Jacques Loeb, não atribuía gratuitamente alto grau de consciência e inteligência aos animais da forma absurda como fazia Romanes. É possível notar uma redução uniforme na importância da consciência na psicologia animal desde o início até a época de Thorndike, proporcionalmente ao uso mais frequente do método experimental no estudo do comportamento.

Apesar do tom mentalista do trabalho de Thorndike, a sua abordagem ainda se baseava na tradição mecanicista. Ele alegava que o comportamento deveria ser reduzido aos elementos mais simples, ou seja, a unidades de estímulo e resposta. Concordava com a visão atomística, analítica e mecanicista dos empiristas britânicos e dos estruturalistas. Para ele, as unidades de estímulo-resposta consistem em elementos do comportamento (e não da consciência) e são os blocos de construção que compõem os comportamentos mais complexos.

A Caixa-problema

Aproveitando alguns caixotes e pedaços de madeiras, Thorndike projetou e construiu caixas-problema para utilizar nas pesquisas com os animais (veja na Figura 9.2). Para conse­guir escapar da caixa, o animal tinha de aprender a mexer no trinco. Thorndike extraiu a ideia de utilizar a caixa-problema como um aparato para estudar a aprendizagem dos [238] relatos anedóticos de Romanes e Morgan, que descreviam o modo como cães e gatos con­seguiam abrir os trincos das portas.

Figura 9.2 - A caixa problema de Thorndike

Em uma série de experimentos, Thorndike colocava um gato faminto na caixa feita de ripas de madeira. Deixava a comida do lado de fora da caixa como um prêmio por ele conseguir escapar. O gato tinha de puxar uma alavanca ou uma corrente e, às vezes, repetir muito a manobra para afrouxar o trinco e conseguir abrir a porta. No início, o gato exibia comportamentos aleatórios, como empurrar, farejar e arranhar com as patas, tentando alcançar a comida. Por fim, acabava executando o comportamento correto, des­trancando a porta. Na primeira tentativa, esse comportamento ocorria sem querer. Nas tentativas subsequentes, os comportamentos aleatórios mostravam-se menos frequentes, até que a aprendizagem fosse completa. Então, o gato passava a demonstrar o comporta­mento apropriado assim que era colocado dentro da caixa.
A fim de registrar os dados, Thorndike adotava medições quantitativas da aprendiza­gem. Uma das técnicas consistia em registrar o número de comportamentos incorretos, ou seja, das ações que não resultavam na abertura da caixa. Depois de uma série de tentativas esse número diminuía. Outra técnica adotada consistia em registrar o tempo decorrido do instante em que o gato era colocado na caixa até o momento em que ele conseguia sair. Assim que a aprendizagem se concretizava, esse intervalo diminuía. [239]

Thorndike escreveu sobre uma tendência de resposta em que "gravar" ou "apagar" acontecia de acordo com o êxito ou o fracasso das consequências. A tendência a respostas fracassadas que não resultavam na abertura da porta para o gato sair da caixa tendia a desaparecer, ou seja, a ser apagada depois de várias tentativas. A tendência a respostas que conduziam ao êxito era gravada depois de algumas tentativas. Esse tipo de aprendizagem passou a ser conhecido como aprendizagem por tentativa-e-erro, embora Thorndike preferisse chamá-lo de tentativa e sucesso acidental.

As Leis da Aprendizagem

Thorndike apresentou formalmente essa ideia sobre o "gravar" ou o "apagar" de uma ten­dência de resposta, definindo-a como a lei do efeito:
[240]

Qualquer ato que, executado em determinada situação, produza satisfação fica associado a ela de tal modo que, quando ela se repete, a probabilidade de o ato também se repetir é maior do que antes. Inversamente, qualquer ato que produza desconforto em uma situa- çao específica vai dela se dissociar de maneira que, quando ela se repetir, a probabilidade de o ato se repetir também é menor do que antes. (Thorndike, 1905, p. 203)

Uma lei associada - a lei do exercício ou a lei do uso e desuso - afirma que qualquer resposta a uma determinada situação a ela se associa. Quanto mais usada a resposta na situação, mais sólida será a associação, assim como ocorre o contrário: o desuso prolonga­do da resposta tende a enfraquecer a associação.

Em outras palavras, a simples repetição da resposta em uma determinada situação tende a fortalecer a resposta. Pesquisas complementares convenceram Thorndike de que as consequências da recompensa a uma resposta (situação que produz satisfação) são mais eficazes do que a mera repetição da resposta.

Posteriormente, mediante um programa completo de pesquisa com seres humanos, Thorndike reavaliou a lei do efeito. Os resultados revelaram que a recompensa realmente fortalecia a resposta adequada, porém a punição a uma resposta não produzia um efeito negativo comparável. Ele reviu seu ponto de vista, dando mais ênfase à recompensa do que à punição.

Comentários

Os estudos de Thorndike a respeito da aprendizagem humana e animal estão entre os programas de pesquisa mais importantes mencionados na história da psicologia.

O novo método de Thorndike para a análise da mente animal foi o marco de um século de produções em pesquisas para determinar com exatidão o processo de aprendizagem animal. Ele também serviu de contrapeso para o tipo de valorização não-específica do mentalismo animal observado nos trabalhos - como os de Romanes - escritos imediata­mente após a era darwiniana. (Candland, 1993, p. 242)

O trabalho de Thorndike anunciava o surgimento e a consolidação da teoria de apren­dizagem na psicologia estadunidense, e o espírito objetivo da sua pesquisa constituiu impor­tante contribuição para o behaviorismo. Watson declarou que a pesquisa de Thorndike foi o alicerce para a fundação do behaviorismo. Ivan Pavlov elogiou Thorndike, dizendo:

Alguns anos depois de iniciar os trabalhos com o nosso novo método, tomei conhecimen­to das experiências - de algum modo similares - realizadas nos Estados Unidos, não por fisiologistas, mas por psicólogos. (...) Devo admitir que os méritos pelos passos iniciais dados nessa direção pertencem a E. L. Thorndike. Suas experiências nos antecederam em mais ou menos dois ou três anos, e seu livro deve ser considerado um clássico, tanto pela magnitude do panorama da sua tarefa, como pela precisão dos resultados apresentados. (Pavlov, 1928, apud Jonçich, 1968, p. 415-416)

A revista American Psychologist publicou uma seção especial comemorativa, em 1998, do 100° aniversário da dissertação de Thorndike a respeito da inteligência animal. Ele foi descrito como uma das figuras mais influentes e produtivas da psicologia, e o seu traba­lho, como um "marco na passagem da especulação para a experimentação" (Dewsbury, 1998, p. 1.122).

Ivan Petrovitch Pavlov (1849-1936)

O trabalho de Ivan Pavlov sobre a aprendizagem ajudou a transferir a ênfase da visão tradicional do associacionismo - das ideias subjetivas para os eventos psicológicos quan­tificáveis e objetivos, tais como a secreção glandular e o movimento muscular. Como con­sequência, o trabalho de Pavlov proporcionou a Watson o método para estudar e tentar controlar e modificar o comportamento.

A Biografia de Pavlov

Ivan Pavlov nasceu na cidade de Ryazan, região central da Rússia, e era o mais velho dos 11 filhos de um pastor. Sendo o irmão mais velho de uma família tão numerosa, teve de desenvolver bem prematuramente o senso de responsabilidade e a disposição para tra­balhar muito, mantendo essas características por toda a vida. Por um bom tempo, não pôde frequentar a escola por causa de um ferimento na cabeça em consequência de um acidente sofrido aos 7 anos, e, assim, seu pai lhe ministrava aulas em casa. Matriculou-se no seminário com a intenção de se tornar pastor, mas, depois de ler a teoria de Darwin, mudou de ideia. Disposto a frequentar a universidade em São Petersburgo para estudar a fisiologia animal, Pavlov viajou centenas de quilômetros a pé. [241]

Com a formação universitária, Pavlov passou a fazer parte de um grupo de intelectuais, a intelligentsia, uma classe emergente na sociedade russa, diferente das outras classes, ou seja, distinta da aristocracia e do campesinato. Um historiador comentou que Pavlov possuía uma formação de extremo alto nível e era inteligente demais para pertencer ao campesinato do qual se originara, mas pobre e comum demais para fazer parte da aris­tocracia, nível ao qual jamais ascenderia. Frequentemente, esse tipo de condição social produzia um intelectual extremamente dedicado, que concentrava a vida nas realizações intelectuais para justificar a sua existência. Esse era o caso de Pavlov, que lançava mão da firmeza e da simplicidade do camponês russo para dedicar-se a fundo à ciência pura e à pesquisa experimental. (Miller, 1962, p. 177)

Pavlov formou-se em 1875 e começou a estudar medicina, não para se tornar médico, mas na esperança de seguir a carreira na pesquisa fisiológica. Estudou dois anos na Ale­manha e retornou a São Petersburgo para trabalhar durante vários anos como assistente do laboratório de pesquisas.

A dedicação de Pavlov à pesquisa era total. Recusava-se a desviar a atenção com questões práticas como o salário, as roupas ou as condições de vida. Sua esposa, Sara, com quem se casara em 1881, dedicava-se a protegê-lo dos assuntos mundanos. Logo no início do casamento, eles fizeram um pacto, e Sara concordou em cuidar dos problemas cotidianos para que nada interferisse no trabalho do marido. Em contrapartida, Pavlov prometeu jamais beber ou jogar e sair apenas nos sábados e domingos à noite. Assim, ele adotou uma rotina rígida, trabalhando sete dias por semana, de setembro a maio, e pas­sando os verões no campo.

Sua indiferença em relação às questões práticas é ilustrada pela história de que fre­quentemente Sara era obrigada a lembrá-lo de ir receber o salário. Ela dizia que ele não era confiável para comprar as próprias roupas. Um dia, mais ou menos com 70 anos, Pa­vlov estava em um bonde, indo para o seu laboratório. Impulsivamente, saltou antes de o bonde parar e acabou quebrando a perna. "Uma senhora que estava perto dele disse: 'Meu Deus! Eis aqui um gênio, mas que não sabe sequer saltar do bonde sem quebrar a perna'." (Gantt, 1979, p. 28).

A família Pavlov viveu na pobreza até 1890, quando, aos 41 anos, Pavlov foi indicado para lecionar farmacologia na Academia Médica Militar de São Petersburgo. Alguns anos antes, quando preparava a dissertação de doutorado, nascera seu primeiro filho. O médi­co havia alertado de que o frágil bebê não sobreviveria, a menos que mãe e filho fossem repousar no campo. Pavlov finalmente conseguiu dinheiro emprestado para a viagem, mas era tarde demais, e o bebê faleceu. Na época em que seu outro filho nasceu, a família vivia com parentes enquanto Pavlov dormia em uma maca em seu laboratório, já que não tinha como sustentar um apartamento.

Um grupo de alunos de Pavlov, sabendo das suas dificuldades financeiras, ofereceu-lhe dinheiro sob o pretexto de pagar pelas aulas que pediram para ele ministrar. No entanto, Pavlov não guardou nada para ele, gastando o dinheiro com os cachorros para o seu laborató­rio. Ele parecia nunca se abalar por essas dificuldades, elas realmente não o preocupavam.

Embora a pesquisa de laboratório fosse o seu principal interesse, raramente ele mesmo conduzia experimentos. Ao contrário, geralmente supervisionava os esforços dos outros. De 1897 a 1936, cerca de 150 pesquisadores trabalharam sob a supervisão de Pavlov, pro­duzindo mais de 500 trabalhos científicos. Um aluno escreveu que "todo o laboratório funcionava como o mecanismo de um relógio" (Todes, 2002, p. 107). [242]

Pavlov incorporava [os pesquisadores] em um sistema semelhante ao de uma fábrica empregando-os como se fossem seus próprios olhos e mãos, ou seja, atribuindo-lhes um tema especifico, oferecendo-lhes a tecnologia "canina" adequada para realizar as experiências, supervisionando (...) as pesquisas, interpretando os resultados e editando pessoalmente o trabalho produzido. (Todes, 1997, p. 948)

O temperamento de Pavlov era famoso, principalmente as suas explosões, direcionadas, em geral, aos assistentes de pesquisa. Durante a Revolução Bolchevique de 1917, repreendeu um assistente por chegar 10 minutos atrasado. Tiroteios nas ruas não eram justificativas para interferências no trabalho do laboratório. Com frequência ele esquecia rapidamente essas explosões emocionais. Seus pesquisadores sabiam muito bem o que esperar, já que Pavlov jamais hesitava em dizer o que pensava - era franco e direto ao lidar com as pessoas, nem sempre ponderado, mas tinha perfeita consciência dessa natureza volúvel. Um trabalhador do laboratório, não aguentando mais os insultos, acabou pedindo demissão. "Pavlov afirmou que o seu comportamento agressivo era apenas um hábito (...) e não devia ser uma razão suficiente para deixar o laboratório" (apud Windholz, 1990, p. 68). O menor fracasso de uma experiência deixava Pavlov deprimido, mas o sucesso proporcionava-lhe tamanha alegria que ele cumprimentava não apenas os, como também os cães. 

Ele tentou ser tão humano quanto possível com os cachorros e acreditava que os procedimentos cirúrgicos aos quais eram submetidos eram desastrosos, mas inevitáveis na pesquisa científica. 

Precisamos reconhecer que justamente devido ao grande desenvolvimento intelectual o melhor amigo dos homens - o cachorro - muito frequentemente se torna a vítima os experimentos fisiologicos.... o cachorro é insubstituível, além de ser extremamente emocionante. É quase um participante do experimento conduzido sobre ele próprio facilitando em grande parte o sucesso da pesquisa, devido à compreensão e submissão
(Pavlov, apud Todes, 2002, p. 123)

Posteriormente, Pavlov mandou erguer uma estátua de um cachorro, sentado em um pedestal, nas proximidades do prédio onde a pesquisa era realizada. Jersy Konorski, psicólogo polonês que trabalhou no laboratório, lembrava-se do trata­mento dispensado pelos alunos a Pavlov, como se ele fosse um membro da família real. Observou que era claro o

ciúme existente entre os alunos na disputa para determinar quem era o mais próximo e Pavlov. As pessoas gabavam-se quando eram alvos por mais tempo da sua atenção (...) a atitude de Pavlov em relação a qualquer um deles era fator determinante na hierarquia dentro do grupo. (Konorski, 1974, p. 193)

Pavlov foi um dos poucos cientistas russos a admitir mulheres e judeus em seu labo­ratorio. Qualquer insinuação de antissemitismo o deixava furioso. Era dotado de ótimo senso de humor e sabia apreciar boas piadas, mesmo que fossem a seu respeito. Durante a cerimonia em que recebeu um título honorário da Cambridge University, alguns alunos que estavam sentados na galeria desceram um cachorro de brinquedo amarrado em uma corda, deixando-o cair no colo de Pavlov. Ele guardou o cachorro sobre a escrivaninha do seu apartamento. [243]

E. R. Hilgard, na época doutorando na Yale University, assistiu a uma palestra de Pavlov no 9º Congresso Internacional de Psicologia, realizado em New Haven, Connecticut. Pavlov dirigia-se ao público em russo, fazendo uma pausa de vez em quando para que o intérprete apresentasse as observações em inglês. Mais tarde, o intérprete contou a Hilgard que "Pavlov parava e dizia: 'você já conhece esse assunto. Diga a eles o que sabe. Vou continuar e falar outras coisas'" (apud Fowler, 1994, p. 3).

Pavlov foi um cientista até o fim da vida. Acostumado à prática da auto-observação sempre que estava doente, no dia da sua morte não foi diferente. Fraco, por causa da pneu­monia, chamou um médico e descreveu seus sintomas: "Meu cérebro não está funcionando muito bem, e tenho sentimentos obsessivos e movimentos involuntários; a morte deve estar se instalando. Discutiu suas condições com o médico por alguns instantes e adormeceu. Quando acordou, sentou-se na cama e começou a procurar suas roupas com a mesma energia irrequieta que o acompanhara por toda a vida. "É hora de levantar", ele disse. "Me ajude! Tenho de me vestir!" E, assim, caiu sobre os travesseiros e morreu (Gantt, 1941, p. 35).

Os Reflexos Condicionados

Durante a sua brilhante carreira, Pavlov trabalhou com três questões principais. A primeira era referente à função dos nervos cardíacos, e a segunda envolvia as glândulas digestivas primárias. Essa importante pesquisa a respeito da digestão rendeu-lhe o reconhecimento mundial e o Prêmio Nobel, em 1904. A terceira área de pesquisa, que lhe proporcionou um lugar de destaque na história da psicologia, foi o estudo dos reflexos condicionados. A noção de reflexo condicionado teve origem, assim como vários feitos científicos, em uma descoberta acidental. Durante o trabalho com as glândulas digestivas dos cães, Pavlov usou o método de exposição cirúrgica para realizar a coleta externa das secreções digestivas, o que permitia a observação, a medição e o registro do material (Pavlov, 1927/1960). Um dos aspectos desse trabalho lidava com a função da saliva, que os cachorros secretavam involuntariamente, sempre que recebiam a comida na boca. Pavlov percebeu que, às vezes, a saliva era secretada mesmo antes de o animal receber a comida. Os cães salivavam ao ver a comida ou ao som dos passos do homem que geralmente os alimentava. A reação não aprendida de salivação de algum modo se associou ou se condicionou ao estímulo anteriormente associado ao recebimento da comida. [244]

Os reflexos psíquicos. Esses reflexos psíquicos, como Pavlov os denominou inicialmente, foram provocados nos cães do laboratório por estímulos diferentes do original (ou seja, da comida). Pavlov raciocinou e concluiu que essa reação ocorria porque os outros estímulos (tais como a visão e o barulho do tratador) frequentemente eram associados com a alimentação.

De acordo com o Zeitgeist dominante na psicologia animal, e assim como Thorndike, Loeb e outros predecessores, Pavlov concentrou-se inicialmente nas experiências mentalistas dos animais do seu laboratório. É possível observar esse ponto de vista na expressão "reflexos psíquicos", originalmente empregada para se referir aos reflexos condicionados. Ele escreveu sobre os desejos, os julgamentos e a vontade dos animais, interpretando os eventos mentais dos animais em termos subjetivos e humanos. Em tempo hábil, Pavlov deixou de lado as referências mentalistas em prol de uma abordagem descritiva mais objetiva.

No início das nossas experiências psíquicas (...) dedicamo-nos conscientemente a explicar os resultados imaginando o estado subjetivo do animal. No entanto, nenhum resultado válido foi obtido, senão polêmicas inúteis e opiniões individuais que não podiam ser leva­das em consideração. Portanto, não tivemos outra alternativa senão conduzir a pesquisa com base puramente objetiva. (Pavlov apud Cuny, 1965, p. 65)

Na tradução para o inglês do seu livro clássico, Conditioned reflexes (1927), Pavlov ofereceu o devido crédito a René Descartes por haver desenvolvido a ideia de reflexo 300 anos antes. Observou que o que Descartes chamou de reflexo nervoso constituiu o ponto inicial do seu programa de pesquisa.

As primeiras experiências de Pavlov com os cachorros foram simples. Ele segurava um pedaço de pão e o mostrava ao cachorro antes de dá-lo para comer. Com o tempo, o cachorro começava a salivar assim que via o pão. A resposta de salivação do cachorro quando a comida era colocada na sua boca era uma reação natural de reflexo do sistema digestivo e não envolvia a aprendizagem. Pavlov denominou essa reação de reflexo inato ou não-condicionado.

Figura 9.3 - O aparelho de Pavlov para estudar a resposta de salivação condicionada dos cães.

Entretanto a salivação provocada pela visão da comida não era reflexiva, mas devia ser aprendida. Dessa vez, ele chamou a reação de reflexo condicionado (em lugar do termo mentalista anterior "reflexo psíquico") por ser condicional ou dependente da conexão feita pelo cachorro entre a visão da comida e o subsequente ato de comer.

Na tradução do trabalho de Pavlov do russo para o inglês, W. H. Gantt, um discípu­lo estadunidense, usou a palavra "condicionado" em vez de "condicional". Posteriormente, Gantt admitiu arrepender-se da troca. No entanto, reflexo condicionado continua a ser o termo aceito.

Pavlov e os seus auxiliares descobriram que diversos estímulos poderiam produzir a resposta de salivação condicionada nos animais do laboratório, desde que o estímulo fosse capaz de atrair a atenção do animal sem provocar medo ou fúria. Testaram buzinas luzes, apitos, sons, bolhas d'água e o tique-taque dos metrônomos com cães e obtiveram resultados similares.

A meticulosidade e a precisão do programa de pesquisa eram evidenciadas pelo equi­pamento sofisticado criado para coletar a saliva, a qual fluía por um tubo de borracha fixado a um orifício cirúrgico na bochecha do cachorro. Quando cada gota de saliva caía na plataforma instalada em cima de uma mola sensível, esta acionava um marcador sobre uma especie de tambor giratório (veja na Figura 9.3). Esse aparato, que permitia registrar com precisão o número de gotas de saliva e o momento exato em que cada uma caía, é apenas um dos exemplos dos imensos esforços de Pavlov para seguir à risca o método cientifico - em outras palavras, para padronizar as condições experimentais, aplicar con­troles rigorosos e eliminar qualquer fonte de erro.

A Torre do Silêncio. A preocupação de Pavlov em impedir que as influências externas afetassem a confiabilidade da pesquisa era tão grande que ele construiu cubículos espe­ciais, um para o animal e outro para o observador. O pesquisador conseguia manipular os diversos estímulos a serem condicionados, coletar a saliva e mostrar a comida sem ser visto pelo animal.

Mesmo com essas precauções, Pavlov não se sentia totalmente satisfeito. Temia que os estímulos ambientais externos pudessem contaminar os resultados. Com os fundos recebidos de um empresário russo, projetou um prédio de três andares para as pesquisas que ficou conhecido como a "Torre do Silêncio". As janelas possuíam vidros extremamente espessos e as portas das salas eram de chapas de aço duplas que, quando fechadas, impe­diam totalmente a entrada do ar. Vigas de aço reforçadas de areia sustentavam o piso e o predio era circundado por uma vala cheia de palha. Desse modo, qualquer vibração ruído, temperatura extrema, odor e correnteza eram eliminados. Pavlov queria que o único elemento a exercer influência sobre o animal fosse o estímulo a ser condicionado.

O experimento de condicionamento. Vejamos em que consistia o típico experimento de condicionamento de Pavlov. Primeiro, apresentava-se o estímulo condicionado (diga­mos, a luz); nesse exemplo, acendia-se a luz. Imediatamente, o pesquisador apresentava o estimulo incondicionado: a comida. Após certo número de pareamentos da luz acesa e da comida, o animal passava a salivar com a simples visão da luz. Nesse caso, formava-se uma associaçao ou uma ligação entre a luz e a comida, e o animal era condicionado a responder mediante a apresentação do estímulo condicionado. Esse condicionamento ou aprendiza­gem não ocorre, a menos que a luz seja seguida da apresentação de comida um número de
vezes suficiente. Desse modo, o reforço (nesse caso, receber a comida) é necessário para que a aprendizagem ocorra. [246]

Além de estudar a formação das respostas condicionadas, Pavlov e seus assistentes pesquisavam fenômenos relacionados, tais como o reforço, a extinção da resposta, a re­cuperação espontânea, a generalização, a discriminação e o condicionamento de ordem superior. Todos esses tópicos são áreas de pesquisas nos dias de hoje. No todo, o programa experimental de Pavlov consistiu de um trabalho de longa duração e que envolveu mais pessoas do que qualquer outro esforço de pesquisa realizado desde Wundt.

Um Comentário a Respeito de E. B. Twitmyer

Uma curiosa informação histórica envolve outro exemplo de descoberta simultânea indepen­dente. Em 1904, um jovem estadunidense chamado Edwin Burket Twitmyer (1873-1943) ex-aluno de Lightner Witmer, na University of Pennsylvania, apresentou na convenção anual da APA um trabalho baseado na sua dissertação de doutorado, o qual ele havia completado dois anos antes. Esse trabalho abordava o famoso reflexo do joelho. Twitmyer observou que os partici­pantes da sua pesquisa começaram a reagir a estímulos diferentes do estímulo original que era a leve batida com o martelo logo abaixo do joelho. Ele descreveu a reação das pessoas como um tipo de reflexo novo e incomum e sugeriu que esse fosse alvo de mais estudo.

No encontro, ninguém se interessou pelo relatório de Twitmyer. Depois da apresentação, o publico não formulou nenhuma pergunta, e suas descobertas científicas foram ignoradas. Desmotivado, ele não prosseguiu com a pesquisa.

Os historiadores apresentam várias hipóteses para a permanente omissão quanto a Twitmyer. É provável que o Zeitgeist da psicologia estadunidense não estivesse preparado para aceitar a noção reflexo condicionado. Talvez Twitmyer fosse jovem e inexperiente demais, ou não contasse com a habilidade nem com os recursos econômicos necessários para persistir e divulgar as suas ideias. Ou quem sabe fosse apenas questão de inadequação quanto ao momento da apresentação. Twitmyer apresentou o seu trabalho sobre os reflexos um pouco antes do horário do almoço, como parte de uma série de trabalhos em uma sessão presidida por William James. A conferencia já estava atrasada, e James (talvez com fome ou entediado) suspendeu a sessão sem deixar muito tempo para os comentários depois da apresentação de Twitmyer.

De tempos em tempos, os historiadores ressuscitam essa trágica história do cientista que poderia ter ficado famoso por conta de uma das descobertas mais importantes de toda a psicologia. "Certamente Twitmyer deve ter remoído durante boa parte da sua vida essa constatação, a consciência do que esse seu legado teria representado para a psicologia (Benjamin, 1987, p. 1.119)

Outro precursor relativamente desconhecido do trabalho de Pavlov foi Alois Kreidl biologista austríaco que demonstrou os princípios básicos do condicionamento em 1896, antecedendo o relatorio de Twitmyer em cerca de oito anos. Kreidl constatou que o peixe ornamental aprendia  a atencipar o momento de receber a comida com base no estímulo associado ao caminhar do assistente do laboratório em direção ao aquário. E concluiu que [248] os peixes avistavam o tratador se aproximando "e ficavam alertas por causa das vibrações provocadas na água pelos seus [passos]" {apudlogan, 2002, p. 397). No entanto, o principal interesse de Kreidl estava no processo da sensação e não no condicionamento ou na apren­dizagem, por isso essas descobertas não tiveram repercussão na comunidade científica.

Comentários

Pavlov demonstrou que os processos mentais superiores dos animais observados eram passíveis de descrição em termos fisiológicos, sem qualquer referência à consciência. Seus métodos de condicionamento tiveram ampla aplicação prática em áreas como a terapia do comportamento. Joseph Wolpe (1915-1997), fundador da terapia comportamental, decla­rou que os princípios do condicionamento elaborados por Pavlov foram fundamentais para o desenvolvimento dos seus métodos (Wolpe e Plaud, 1997). A pesquisa de Pavlov também influenciou na mudança do enfoque da psicologia em direção a uma maior obje­tividade tanto do objeto de estudo como dos métodos empregados, além de ter reforçado a propensão às aplicações práticas e funcionais.

Pavlov deu continuidade à tradição do mecanicismo e do atomismo, visões que moldaram a nova psicologia desde o início. Para ele, todos os animais, fossem cães de laboratório, ou seres humanos, não passavam de máquinas – complicadas, reconhecia, —mas, como relatou um historiador, acreditava serem "tão submissos e obedientes como qualquer máquina" (Mazlish, 1993, p. 124).

As técnicas de condicionamento de Pavlov proporcionaram à psicologia um elemento básico do comportamento, possibilitando a redução do comportamento humano complexo a unidades concretas passíveis de estudo para, assim, submetê-las a experiências em con­dições laboratoriais. John B. Watson reconheceu essa unidade de comportamento, a qual passou a ser o ponto fundamental do seu programa de estudo. Pavlov reconheceu que fica­ra satisfeito com o trabalho de Watson e que o crescimento do behaviorismo nos Estados Unidos representava uma confirmação das suas ideias, bem como de seus métodos.

É irônico constatar que a maior influência de Pavlov tenha sido sobre a psicologia, campo que ele não enxergava totalmente com bons olhos. Estava familiarizado com as escolas de pensamento do estruturalismo e do funcionalismo. Também conhecia o traba­lho de William James e concordava com ele em que a psicologia devia envidar esforços para tornar-se uma ciência, mas que ainda não havia atingido esse estágio. Assim, Pavlov excluía a psicologia do seu trabalho científico e chegava a reclamar dos assistentes de labo­ratório que usavam a terminologia da psicologia e não a da fisiologia. Mais tarde, Pavlov reavaliou a sua posição em relação à área e ocasionalmente referia-se a si próprio como um psicólogo experimental. De qualquer modo, a sua visão negativa inicial não impediu os psicólogos de fazerem uso efetivo do seu trabalho.

Em 1997, para comemorar o 100° aniversário da publicação do trabalho Lectures on the work of the principal digestive glands, as revistas American Psychologist e European Psychologist lançaram edições especiais como homenagem a Pavlov pelas suas contribuições. [249]

Vladimir M. Bekhterev (1857 - 1927)

Outra figura importante no desenvolvimento da psicologia animal foi Vladimir Bekhte­rev. Ele ajudou a desviar a área para a observação objetiva do comportamento manifesto, em detrimento das ideias subjetivas. Embora menos conhecido do que Ivan Pavlov, este psiquiatra, neurologista e fisiologista russo foi pioneiro em diversas áreas de pesquisa. Era crítico radical e declarado do governo russo e do czar. Admitiu mulheres e judeus como alunos e colegas em uma época na qual foram excluídos das universidades russas.

Bekhterev recebeu a graduação da St. Peterburg's Military Medical Academy em 1881. Estudou na University of Leipzig, com Wilhelm Wundt, frequentou outros cursos comple­mentares em Berlim e Paris e retornou à Rússia para assumir o cargo de professor de distúr­bios mentais na University of Kazan. Em 1893, foi nomeado titular da cadeira de distúrbios nervosos e mentais da Military Medical Academy onde organizou um hospital para doentes mentais. Em 1907, fundou o Psychoneurological Institute, que hoje leva o seu nome.

Bekhterev e Pavlov tornaram-se inimigos depois que Pavlov publicou uma crítica negativa a respeito dos livros de Bekhterev. A inimizade entre Bekhterev e Pavlov era tão patente que eles chegavam a trocar insultos na rua. Se um cruzasse com o outro em algum congresso, logo iniciavam uma discussão. Formando grupinhos e trocando ofensas entre si, constantemente estavam envolvidos em disputas para ver qual conseguia apontar mais falhas ou fraquezas do outro. Bastava algum aluno de Bekhterev fazer uma apresentação em público para imediatamente ser retaliado por Pavlov, como se fosse um reflexo condicionado. (Ljunggren, 1990, p. 60)

Em 1927, 10 anos depois de a Revolução Bolchevique derrubar o czar, Bekhterev foi convocado a ir a Moscou para tratar de Joseph Stalin, que diziam sofrer de depressão. Bekhterev o examinou e informou-lhe o diagnóstico sendo uma paranoia pro­funda. Misteriosamente, Bekhterev morreu naquela mesma tarde. Não foi permitida a realização de autópsia, e o corpo foi rapidamente cremado. Especula-se que Stalin tenha mandado envenenar Bekhterev como vingança por causa do diagnóstico psiquiátrico. Depois, Stalin proibiu a divulgação dos trabalhos de Bekhterev e mandou executar o seu filho (Ljunggren, 1990). Em 1952, um ano depois da morte de Stalin, o governo da União Soviética mandou criar um selo em homenagem a Bekhterev.

Os Reflexos Associados

Enquanto a pesquisa de Pavlov sobre o condicionamento concentrava-se quase exclusiva­mente nas secreções glandulares, o interesse de Bekhterev estava na resposta motora con­dicionada. Em outras palavras, Bekhterev aplicava os princípios de Pavlov nos músculos. Bekhterev basicamente descobriu os reflexos associados, constatados mediante a análise das respostas motoras. Verificou que os movimentos de reflexo, quando uma pessoa afasta o dedo de um objeto ao receber um choque elétrico, por exemplo, eram provocados não apenas pelo estímulo não-condicionado (o choque elétrico), como também pelo estímulo que se associara ao estímulo original. Outro exemplo: o som de uma buzina no momento do choque logo produziria por si só o afastamento do dedo. [250] 

Os associacionistas explicavam essas conexões com base nos processos mentais; no entanto, Bekhterev considerava as reações como reflexas. Acreditava na mesma explicação para o comportamento de nível superior e de grande complexidade como um acúmulo ou composto de reflexos motores de nível inferior. Os processos de pensamento eram semelhantes, já que dependiam das ações internas da musculatura envolvida na fala, ideia adotada mais tarde por Watson. Bekhterev defendia a abordagem totalmente objetiva do fenômeno psicológico e repudiava o uso de termos e conceitos mentalistas.

Descreveu suas ideias no livro Objective psychology, publicado em 1907. A obra foi tra­duzida para o alemão e para o francês em 1913, e a terceira edição, publicada em inglês em 1912, foi intitulada General principles of human reflexology. Desde os primeiros trabalhos da psicologia animal, com Romanes e Morgan, observou-se o movimento constante na busca por maior objetividade na metodologia e no objeto de estudo. As primeiras pesquisas da área referiam-se à consciência e aos processos mentais e dependiam de métodos subjetivos de pesquisa. Todavia, mais ou menos no início do sécu­lo XX, a psicologia animal já adotava objetos de estudo e métodos totalmente objetivos. Termos como secreção glandular, respostas condicionadas, atos ou comportamento não deixavam dúvidas de que a psicologia animal havia deixado a subjetividade para trás.

A psicologia animal rapidamente transformara-se em modelo para o behaviorismo, cujo líder, Watson, dava preferência ao uso de animais em vez de seres humanos nas pesquisas psicológicas. Watson fez das descobertas e das técnicas da psicologia animal a base para uma ciência do comportamento aplicável igualmente aos animais e aos seres humanos.

A Influência da Psicologia Funcional no Behaviorismo

Outro antecedente direto do behaviorismo foi o funcionalismo. Embora não fosse uma escola de pensamento totalmente objetiva, a psicologia funcional na época de Watson apresentava mais objetividade do que suas predecessoras. Cattell e outros funcionalistas enfatizavam o comportamento e a objetividade e mostravam-se insatisfeitos em relação à introspecção (veja no Capítulo 8). Mark Arthur May (1891-1977), um estudante de pós-graduação da Columbia University em 1915, lembrou-se da visita de Cattell ao seu laboratório:

May mostrou os equipamentos a Cattell, que ficou impressionado. Entretanto, quando tentou lhe mostrar os relatórios introspectivos obtidos das pessoas envolvidas na pesqui­sa a Cattell, resmungou: Isto não vale nada!" e saiu enfurecido do laboratório. (apud May, 1978, p. 655)

Os psicólogos aplicados não viam muita utilidade na introspecção e na consciên­cia, e suas diversas áreas de especialização constituíam essencialmente uma psicologia funcional objetiva. Mesmo antes de Watson surgir no cenário, os psicólogos funcionais haviam se distanciado da pura psicologia da experiência consciente adotada por Wundt [251] e Titchener. Nos trabalhos escritos e nas palestras, alguns psicólogos funcionalistas eram bastante específicos ao exigir uma psicologia objetiva, ou seja, queriam uma psicologia com enfoque no comportamento, e não na consciência.

Em 1904, na feira mundial realizada em St. Louis, no Missouri, Cattell disse em seu discurso:

Não estou convencido de que a psicologia deva se limitar ao estudo da consciência. (...) A noção amplamente aceita de que não há psicologia sem introspecção é refutada pelo argumento material do fato consumado. Parece-me que a maior parte dos trabalhos de pesquisa realizados por mim ou em meu laboratório é praticamente tão independente da introspecção quanto os estudos realizados na física ou na zoologia. (...) Não vejo razão para que a aplicação do conhecimento sistematizado no controle da natureza humana não possa, no curso do presente século, alcançar resultados proporcionais às aplicações, no século XIX, da ciência física ao mundo material. (Cattell, 1904, p. 179-180, 186)

Watson estava na plateia assistindo ao discurso de Cattell. A semelhança entre a fala de Cattell e a posterior posição pública de Watson é gritante. Um historiador sugeriu que, se Watson era considerado o pai do behaviorismo, Cattell devia ser chamado de avó (Burnham, 1968).

Na década anterior à fundação formal do behaviorismo por Watson, a atmosfera intelectual estadunidense favorecia a ideia de uma psicologia objetiva. Assim, o movimento geral da psicologia estadunidense seguia a direção behaviorista. Robert Woodworth, na Columbia University, disse que os psicólogos estadunidenses estavam "aos poucos introduzindo o behaviorismo (...) já que, a partir de 1904, um percentual cada vez maior de psicólogos expressava a preferência em definir a psicologia como a ciência do comportamento e não como uma tentativa de descrição da consciência" (Woodworth, 1943, p. 28).

Em 1911, Walter Pillsbury, ex-aluno de Titchener, definiu em seu livro a psicologia como a ciência do comportamento. Alegava ser possível dispensar um tratamento objetivo aos seres humanos do mesmo modo que se tratava qualquer outro aspecto do universo físico. Max Meyer publicou um livro intitulado The fundamental laws of human behavior; William McDougall escreveu Psychology: the study of behavior (1912), e Knight Dunlap, psicólogo da Johns Hopkins University, onde Watson estava lecionando, sugeriu que a introspecção fosse eliminada da psicologia.
Naquele mesmo ano, William Montague apresentou um trabalho intitulado “Has psychology lost its mind?" ("A psicologia perdeu a cabeça?") à filial da APA, em Nova York. Montague falava sobre o movimento para descartar o "conceito de mente ou de consciên­cia e substituí-lo pelo conceito de comportamento como o único objeto de estudo da psicologia" (apud Benjamin, 1993, p. 77).

J. R. Angell, da University of Chicago, talvez o psicólogo funcionalista mais progres­sista, anunciava que a psicologia estadunidense estava pronta para tornar-se mais objetiva. Em 1910, comentou que parecia possível o termo "consciência" desaparecer da psicologia da mesma forma que o termo "alma" desaparecera. Três anos mais tarde, um pouco antes da publicação do manifesto behaviorista de Watson, Angell (1913) sugeriu que seria inte­ressante esquecer a consciência e passar a descrever objetivamente os comportamentos humano e animal.

Assim, a ideia de psicologia vista como uma ciência do comportamento começava a ganhar adeptos. A importância de Watson não está em ter sido o primeiro a propor essa ideia, mas em enxergar, talvez mais claramente do que qualquer pessoa, o que a época [252] estava exigindo. Watson foi o principal articulador e agente responsável pela revolução cujos sucesso e inevitabilidade estavam garantidos, pois ela já estava em andamento.

Psicologia - História da Psicologia
2/3/2020 1:36:06 PM | Por
Livre
O Deserto Oriental na época dos faraós

A leste do Egito existiam várias fontes importantes de minerais. A que se situava mais ao norte era o Sinai, que fornecia turquesas, extraídas pelos Egípcios desde a 3ª dinastia até ao fim do Novo Império, mas não mais tarde (teve-se recentemente notícia de descobertas datando do inicio do período dinástico). As principais escavações de ruínas egípcias ficam no Sinai ocidental, no uadi Maghara e Serabit el-Khadim, tende havido, em certos períodos, um povoamento egípcio permanente nesta região. O Sinai é também fonte de cobre, e em Timna, próximo de Eilat, foram escavadas minas de cobre contemporâneas das 18ª - 20ª dinastias egípcias. Estas minas eram provavelmente exploradas pela população local, sob controle egípcio, não havendo indícios de que os Egípcios extraíssem eles próprios cobre em qualquer outro local do Sinai. É possível que, tal como acontecia com o comércio de cereais entre o Egito e o Próximo Oriente, os Egípcios extraíssem cobre, não considerando, porém, essa atividade suficientemente prestigiosa para a registrarem. Caso contrário, talvez utilizassem mão-de-obra local, como em Timna, ou comprassem cobre à população local, ou adquirissem a maior parte de que necessitavam noutro local.

O deserto oriental do Egito fornecia grande quantidade de pedras para a construção e pedras semi-preciosas e era o caminho para o mar Vermelho. Algumas pedreiras localizavam-se perto do vale do Nilo, como era o caso de Gebel Ahmar (quartzito) e de Hatnub (alabastro egípcio), mas outras, particularmente as de grauvaque (pedra dura e negra), em uadi Hammamat, e as de ouro, na sua maior parte ao sul da latitude de Koptos, implicavam expedições em grande escala. Sem o domínio egípcio sobre a população nômade local, ou sem a sua colaboração, estas minas não podiam ter sido exploradas. Este controle era-lhes igualmente necessário para poderem utilizar as três principais vias de acesso ao mar Vermelho que seguem pelo uadi Gasssus ate Safaga, pelo uadi Hammamat ate Quseir e pelo uadi Abbad ate Berenike, existindo igualmente um caminho menos importante que vai de cerca de 80 km ao sul de Cairo até ao golfo de Suez, de cuja existência há provas que datam do reinado de Ramsés II. O testemunho mais antigo da utilização destas rotas data do fim do período pré-dinástico (uadi el-Qash, de Koptos a Berenike), podendo estar relacionada com o comércio do mar Vermelho ou com a exploração mineira. Existem provas da utilização das rotas mais ao norte em todos os principais períodos da história egípcia e mais ao sul a partir do Novo Império.

Nos confins do uadi Gassus encontrava-se um templo da 12ª dinastia e em 1976 foram descobertas ruínas do porto egípcio próxima, da mesma época. Existem mais vestígios, das 25ª e 26ª dinastias (700-525 a.e.c.), e este padrão manteve-se provavelmente durante o período persa (séculos VI-V a.e.c.), altura em que existiam ligações com o lrã, contornando a costa arábica. O período romano esta representado em sítios como Quseir e Berenike, que eram portos de comércio com a África oriental e com a Índia. Embora não existam provas de que os contatos dos Egípcios tivessem chegado tão longe, tais portos deviam ser utilizados para o comércio com as terras quase míticas do Ponto, que aparece referido em textos a partir do Antigo Império. A localização do Ponto não esta rigorosamente estabelecida, sendo, para os Egípcios, uma região com várias associações idealizadas, mas é muito provável que se tratasse da região da moderna Eritréia ou Somália, onde há notícia de recentes descobertas dos períodos helenístico e romano, Os artigos que vinham do Ponto eram quase todos exóticos ou de luxo, sendo o mais importante o incenso. Não se sabe se o comércio com o país do Ponto era a única razão para a navegação no mar Vermelho, para além do acesso a algumas zonas do Sinai. Há noticia de terem sido encontradas pérolas egípcias de 18ª dinastia na costa ao sul do rio Juba, perto do equador, mas isto não significa que os Egípcios tivessem chegado eles próprios ate aí.

História - Civilização Egípcia
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Ivan Petrovitch Pavlov
Fisiologista, anatomista
História da Psicologia, Século XX e.c.
A Idade do Bronze «final» na Europa
Ferreiros da era do bronze

A partir do 3º milênio, os povos europeus começam a utilizar uma liga de cobre e estanho, o bronze, para fabricar objetos resistentes, armas ou utensílios. Essa “Idade do Bronze" dura até a introdução do ferro, no século IX a.ec. Desenvolve-se no Mediterrâneo (Creta, Micenas, Troia) e na Europa ocidental, do Cáucaso às ilhas britânicas. A partir do século XIII difunde-se na Europa a Idade do Bronze "final", denominada a "bela Idade do Bronze" por causa da qualidade da produção artesanal. O mundo camponês "do bronze antigo” deu lugar a sociedades em que, ao lado dos agricultores e dos criadores, trabalham os mineiros e os bronzeiros. Uma classe guerreira garante a segurança dos transportes de matérias-primas e de objetos manufaturados em toda a Europa.O habitat se modifica: as aldeias de planície e as palafitas (cidades lacustres) são abandonadas em favor de locais fortificados construídos sobre elevações. O sepultamento é substituído pela incineração. "Cemitérios de urnas” aparecem na Polônia, na Alemanha, na península ibérica. As urnas contendo as cinzas dos defuntos são cercadas de oferendas fúnebres, armas e joias. Os bronzeiros então atingiram um perfeito domínio das técnicas: trabalham o metal com um martelo, decoram a peça com entalhes e chegam a poli-la para lhe conferir o brilho do ouro. O culto ao Sol inspirou a realização de carros em miniatura, muitas vezes puxados por aves aquáticas. O mais belo exemplo desse trabalho é o carro de Trundholm (Dinamarca): um cavalo puxa um grande disco de bronze chapeado de ouro. Os ourives produzem obras igualmente notáveis, ornamentos e objetos de culto em ouro maciço, decorados com desenhos geométricos.

SALLES, Catherine. A Idade do Bronze «final» na Europa. IN.: SALLES Catherine (org.). Larousse das civilizações antigas. São Paulo/SP: Larousse, 2008. p. 94
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MATÉRIAS
6/22/2018 5:39:35 PM | História Viva, n. 20
Atenas, capital artística da Grécia

Mesmo se o desejasse, no terceiro quarto do século V a.e.c., Atenas não poderia pretender ser reconhecida como a capital política do mundo grego. Também não era a capital economica. Há, porém, um domínio no qual da pôde legitimamente ser considerada capital do mundo grego: o do pensamento e das boas-artes.

História - Civilização Grega
12/19/2018 7:55:43 PM | História Viva, n. 01
Guerra civil espanhola, um campo de provas para Hitler

Nos primeiros dias do conflito espanhol, muitos mantêm a ilusão de “reviver Verdun”, a famosa batalha da Primeira Guerra Mundial. Entretanto, no decorrer dos combates, surgem novas estratégias e novos armamentos, que serão intensamente utilizados a partir de 1939.

História - Espanha
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2/1/2020 2:56:29 PM | Por John Baines & Jaromir Málek
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O Deserto Ocidental na época dos faraós

As restantes regiões a tratar eram mais periféricas em relação ao Egito e só podiam ser mantidas quando havia um governo forte. Os oásis do deserto ocidental produziam algumas culturas valiosas, por exemplo, uvas e as melhores tâmaras, e eram também pontos de ligação importantes no comércio com as regiões remotas. Do norte para o sul, eram essencialmente quatro os oásis governados pelo Egito: Bahariya, Farafra, el—Dakhla e el—Kharga (a leste de el—Dakhla), sendo os dois últimos, de longe, os mais importantes. Para além destes, o mais remoto oásis a oeste de Siwa foi incorporado no Egito no período tardio, tendo adquirido renome mundial graças a fracassada missão de Cambises em 525 a.e.c (soube-se recentemente que foram encontrados no deserto vestígios do exército de Cambises), e a posterior consulta aí efetuada por Alexandre Magno ao oráculo. Existem também oásis menores, ao ocidente do Nilo e mais para sul, Kurkur, Dunqul e Salima, que são pontes de paragem onde não foram encontrados quaisquer vestígios da Antiguidade.

Há testemunhas, datando dos Impérios Médio e Novo, de pessoas que fugiam da justiça ou a perseguições para os oásis de el-Kharga e el-Dakhla, enquante na 21ª dinastia os exilados políticos eram para laá banidos. Nesse aspecto, esta região era uma faceta da Sibéria egípcia, sendo outro o de trabalho forçado em condições horríveis, com enormes perdas de vidas, nas minas do deserto oriental.

Toda a zona a ocidente do vale do Nilo se chamava, na Antiguidade, Líbia. A região costeira ao ocidente de Alexandria, até a Cineraica, albergava provavelmente a maioria da população Líbia e era menos inóspita do que parece atualmente. Quase todos os vestígios egípcios ali encontrados datam do reinado de Ramsés II, que construiu fortalezas ao longo da costa ate Zawyet Umm el-Rakham, a 340 km ao ocidente de Alexandria, e do período greco-romano, quando os Ptolomeus construíram, nos estilos grego e egípcio, em Tolmeita, na Cirenaica, a 1000 km de Alexandria.

Durante quase toda a história do Egito os oásis constituíram um posto avançado contra os Líbios, que tentaram, em vários períodos, infiltrar-se. Nos reinados de Merenre e de Pepi II, o chefe de expedição Harkhu foi várias vezes até Yam, zona que fica, provavelmente, na região moderna de Kerma e Dongola, ao sul da 3ª catarata do Nilo. Numa dessas ocasiões, Harkhuf seguiu pela estrada do deserto, deixando o vale do Nilo perto de Abydos e passando, certamente, por el-Dakhla. Ao chegar verificou que o governador de Yam tinha ido "correr com o chefe do território líbio para o canto ocidental do céu — descoberta esta provavelmente relacionada com a estrada do ocidente, utilizada nesta expedição. Este pormenor mostra que, para os Egípcios, a "Líbia" se estendia até cerca de 1500 km ao sul do mar. As ruínas do Fezzan, que datam, provavelmente, do tempo de Cristo, revelam a possibilidade de o Sul da Líbia ter sido povoado na Antiguidade, enquanto a zona de Uweinat o foi no 3º milênio antes da era Cristã. Em períodos mais antigos a cultura dos Líbios era semelhante a dos Egípcios e é possível que falassem um dialeto da mesma língua, mas os contatos entre eles foram, durante o período dinástico, em boa parte hostis.

Dos oásis ocidentais sai um caminho, conhecido hoje por Darb el—Arba’in "o caminho dos 40 dias", que leva a el-Fasher, capital da província de Darfur, no Sudão ocidental. Harkhuf utilizou a primeira parte deste caminho, mas é possível que, já na Antiguidade, estivesse totalmente aberto ao comércio. Harkhuf viajava com burros, mas a exploração eficaz de tais caminhos deve ter dependido do camelo, introduzido no Egito, ao que parece, nos séculos VI-V a.e.c.

História - Civilização Egípcia
1/24/2020 2:17:56 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Funcionalismo Fundação e Evolução

Evolução do Filósofo Neurótico - Ele foi um dos homens mais famosos do mundo; contudo, frequentemente andava pelas ruas de Londres usando protetores de orelha para proteger seus pensamentos de interferências externas. Sempre que sons o perturbavam, seu dia estava arruinado. Charles Darwin o chamava de "nosso filósofo", e, frequentemente, era possível vê-lo va­gando sem rumo "sem conseguir se concentrar, escrever ou mesmo ler” (Coser, 1977, p. 104-105).

No verão de 1882 ele chegou aos Estados Unidos, onde foi recebido e homenageado como celebridade internacio­nal. Foi recebido em Nova York por Andrew Carnegie, o multimilionário patriarca da indústria siderúrgica, que o considerou como um messias. E, aos olhos de vários líderes da economia, ciência, política e religião, esse estranho filó­sofo inglês realmente era um salvador. Diversos jantares e festas foram promovidos em sua homenagem. Ainda assim, ele continuou sendo um "semi-inválido e psicótico durante todo o resto de sua vida. Sofria de insônia aguda, que às vezes tentava superar com uma dose bastante pesada de ópium; portanto, nunca conseguia trabalhar mais do que algumas horas por dia. Trabalhar mais horas o levava a um nervosismo inadequado e, portanto, à insônia (Coser, 1977, p . 104-105).

Entretanto, antes de se tornar tão incapacitado, ele havia sido um dos escritores mais prolíficos do século XIX. Havia produzido um grande número de livros, muitos dos quais haviam sido ditados a uma secretária tão rapidamente quanto ela conseguia registrar as palavras, às vezes enquanto ele estava entre sets de tênis ou passeando em um barco a remo. Seus trabalhos foram publicados em revistas popu­lares, milhares de cópias de seus livros foram vendidas e seu sistema de filosofia foi adotado como parte do currículo padrão em praticamente todas as universidades.

Sem dúvida ele teria publicado ainda mais livros e artigos se não tivesse desenvolvido sintomas intensos de neurose que limitaram seu trabalho a algumas horas ao dia. Aos 35 anos, em uma situação que nos lembra a de Darwin, nosso filósofo desenvolveu palpitações no coração, insônia e problemas digestivos sempre que o mundo lhe importunava. Assim como Darwin, seus males físicos coin­cidiram com o desenvolvimento do sistema de pensamento ao qual devotou sua vida, o sistema que exerceria profunda influência em direção da nova psicologia estadunidense. Seu nome era Herbert Spencer.

A Evolução Chega aos Estados Unidos: Herbert Spencer (1820-1903)

A filosofia que rendeu a Herbert Spencer o reconhecimento e a aclamação foi o darwinismo - a noção da evolução e da sobrevivência do mais apto. Spencer estendeu a teoria para muito além do próprio trabalho de Darwin. Nos Estados Unidos, o interesse pela teoria da evolução de Darwin era muito grande, e suas ideias haviam sido muito bem-aceitas. O evolucionismo foi abarcado não apenas pelas universidades e sociedades científicas, mas também por revistas populares e até mesmo algumas publicações religiosas.

O Darwinismo Social

Spencer alegava que o desenvolvimento de todos os aspectos do universo é evolucionário, incluindo o caráter humano e as instituições sociais, em conformidade com o princípio da "sobrevivência do mais apto" (expressão cunhada por ele). Essa ênfase no chamado darwinismo social - aplicação da teoria da evolução da natureza humana e da sociedade - foi recebida com muito entusiasmo nos Estados Unidos.

Na visão utópica de Spencer, se o princípio da sobre­vivência do mais apto operasse com liberdade, apenas os melhores sobreviveriam. Portanto, a perfeição humana seria inevitável, desde que nenhuma ação interferisse na ordem natural das coisas. O individualismo e o sistema econômico do laissez-faire eram vitais, enquanto os aspectos governamentais para regulamentar negócios e indústria e a assistência social (por meio de subsídios a educação, moradia e pobreza) eram opostos.

A população e as organizações deveriam ter liberdade para se desenvolver por conta própria, utilizando-se de meios próprios, do mesmo modo que as demais espécies vivas se desenvolviam e adaptavam-se livremente ao ambiente natural. Qualquer auxílio do Estado interfere no processo evolutivo natural.

As pessoas, os programas, a economia ou as instituições que não se adaptassem eram considerados inaptos para sobreviver e deviam perecer (tornarem-se "extintos") para a melhoria de toda a sociedade. Se o Estado continuasse a sustentar empresas que não fun­cionassem bem, elas conseguiriam sobreviver, mas acabariam enfraquecendo a socieda­de, violando a lei básica natural de que apenas o mais forte e mais apto deve sobreviver. Mais uma vez, a ideia de Spencer era que somente com a sobrevivência dos melhores a sociedade atingiria a perfeição.

Essa mensagem era compatível com o espírito individualista estadunidense e as expressões "sobrevivência do mais apto" e "a luta pela existência" rapidamente passaram a fazer parte da consciência nacional. James J. Hill, o magnata da indústria ferroviária, reiterou a mensagem de Spencer: "O êxito das companhias ferroviárias é determinado pela lei da sobrevivência do mais apto". E John D. Rockfeller declarou: "O crescimento das grandes empresas é apenas o resultado da sobrevivência do mais apto" (Hill e Rockefeller apud Hofstadter, 1992, p. 45). As frases refletiam claramente a sociedade norte-estadunidense do final do século XIX, ou seja, os Estados Unidos consistiam um exemplo vivo das ideias de Spencer.

Essa nação pioneira estava sendo formada por sérios trabalhadores que acreditavam na livre iniciativa, na autossuficiência e na independência da interferência do Estado. E eles conheciam bem de perto a lei da sobrevivência do mais apto no seu dia-a-dia. A terra estava disponível para os dotados de coragem, sagacidade e habilidade para tomá-la e transformá-la no seu meio de vida. Os princípios da seleção natural eram claramente demons­trados nas experiências diárias, principalmente na fronteira oeste dos Estados Unidos, onde a sobrevivência e o sucesso dependiam da capacidade de adaptação do homem às difíceis condições e exigências do ambiente; quem não se adaptou não sobreviveu.

O historiador estadunidense Frederick Jackson Turner descreveu assim os sobreviventes:

Aquela rudeza e força combinadas com a agudeza e curiosidade; aquela mentalidade práti­ca engenhosa e astuta para encontrar recursos; aquele hábil domínio das coisas materiais (...) poderoso para realizar grandes feitos; aquela energia incansável e agitada; aquele individualismo dominante. (Turner, 1947, p. 235)

Os estadunidenses eram voltados ao prático, útil e funcional. Os estágios iniciais da psicologia estadunidense refletiram essas qualidades. Por essa razão, a teoria evolucionista foi mais bem-aceita nos Estados Unidos do que em outras nações. A psicologia estadunidense transformou-se em uma psicologia funcional porque a evolução e o espírito funcional eram compatíveis com esse temperamento básico, assim como a compatibilidade entre a visão de Spencer e o ethos estadunidense permitiu que seu sistema filosófico influenciasse todos os campos do conhecimento. O famoso líder religioso protestante Henry Ward Beecher escreveu a Spencer, dizendo: “As condições peculiares da sociedade estadunidense permitiram que seus escritos produzissem efeitos mais rápidos aqui do que na Europa" (Beecher, apud Hofstadter, 1992, p. 31).

A Filosofia Sintética

Spencer formulou um sistema denominado filosofia sintética (ele usou a palavra "sintéti­ca no sentido de sintetização ou combinação e não com o significado de algo artificial ou não natural). Ele baseou esse sistema amplamente abrangente na aplicacão dos princípios evolucionistas ao conhecimento e à experiência humana. Suas ideias foram publicadas em uma serie de 10 livros, entre 1860 e 1897. Os volumes foram considerados pelos prin­cipais intelectuais da época um trabalho de gênio. 

Conwy Lloyd Morgan escreveu a ele: "A nenhum outro mestre lntelectual devo tanta gratidão quanto ao senhor" Alfred Russel Wallace batizou seu primeiro filho com o nome de Spencer. Darwin disse: Após ler um dos livros de Spencer, que ele "era uma dúzia de vezes superior a mim".

Dois volumes da filosofia sintética constituíram a obra The principies of psychology publicada inicialmente em 1855, mais tarde adotada por William James como livro-base para o primeiro curso de psicologia que lecionou em Harvard. Nesse livro, Spencer discute a noção de que a forma atual da mente é resultado dos esforços passados e contínuos na adaptação a diversos ambientes. Ele enfatizava a natureza adaptável dos processos nervosos e mentais e afirmava que uma complexidade crescente de experiência - e assim de com­portamento - faz parte do processo normal de evolução. O organismo precisa se adaptar ao ambiente se desejar sobreviver.

Evolução Contínua das Máquinas

As máquinas (chamadas de robôs), haviam sido criadas para duplicar o movimento humano bem como o pensamento humano (como as máquinas de calcular de Babbage). Seria possível que as máquinas evoluíssem para formas mais avançadas tal como era dito a respeito dos homens e animais? Na época em que o darwinismo foi publicado em 1859, a metáfora mecânica para a vida humana havia se tornado tão aceita nos círculos intelectuais e sociais que a questão parecia inevitável.

A pessoa que fez a pergunta e expandiu o evolucionismo para as máquinas foi Sa­muel Butler (1835-1902), um escritor, pintor e músico que em 1859 emigrou para a Nova Zelândia para criar ovelhas. Butler e Darwin se corresponderam longamente.

Em um ensaio intitulado "Darwin entre as Máquinas", Butler escreveu que a evolução das maquinas já havia ocorrido. Só tínhamos que comparar os itens primordiais, rudimentares como as alavancas, cunhas e roldanas com o complexo maquinário das fábricas e as grandes locomotivas e navios a vapor.

Butler propôs que a evolução mecânica estava ocorrendo por meio dos mesmos processos que guiaram a evolução humana: seleção natural e luta pela existência. Os inventores estão constantemente criando máquinas novas para obter alguma vantagem competitiva. Essas novas máquinas eliminam as antigas, que, inferiores, não conseguem mais se adaptar ou competir na luta pela sobrevivência - um lugar no mercado. Como resultado, as máquinas obsoletas desaparecem, assim como os dinossauros.

Com o rápido desenvolvimento tecnológico ficou claro a Butler que as máquinas haviam evoluído muito mais do que os animais, e previu que as máquinas um dia se tornariam capazes de simular processos mentais humanos - um tipo de inteligência. Isso se tornou realidade enquanto Butler vivia, pelo menos no que diz respeito ao processo mental para cálculos.

Por volta do final do século XIX, o tipo de máquina calculadora de Babbage não era mais adequado. Os cálculos realizados por dispositivos mecânicos ou por meios humanos exigiam máquinas cada vez mais adequadas. Um fato que exemplificou essa necessidade foi o censo populacional norte-estadunidense de 1890.

O censo realizado 10 anos antes fora tão complexo que levou sete anos para ser con­cluído. Cerca de 1.500 funcionários computaram a mão dados referentes a idade, sexo, etnia, residência e outras características (que esperavam obter) de cada cidadão estadunidense. Os resultados foram compilados em um relatório de mais de 21 mil páginas. Nesse inter­valo, a população cresceu tão rapidamente que era óbvia a necessidade de uma mudança nos procedimentos ou, do contrário, o censo de 1890 não seria concluído antes de 1900, já no início do censo seguinte. Havia a necessidade de uma nova e avançada máquina processadora de informações.

Henry Hollerith e os Cartões Perfurados

Henry Hollerith (1859-1929) foi o engenheiro que desenvolveu a nova e avançada forma de processar as informações. Dois historiadores, sobre a origem dos computadores, des­creveram a inovadora criação de Hollerith dizendo que seu método registrava as respostas dos questionários de cada cidadão em uma fita de papel com um padrão de perfuração ou em um conjunto de cartões perfurados, parecidos com os utilizados para a gravação de músicas dos pequenos órgãos de exposição [como os pianos] daquela época. Desse modo, era possível utilizar uma máquina para contar automaticamente os orifícios e tabular os resultados. (Campbell-Kelly e Aspray, 1996. p. 22)

Hollerith utilizou 56 milhões de cartões para computar os resultados obtidos de 62 milhões de pessoas. Cada cartão tinha capacidade para armazenar o equivalente a até 36 bytes de 8 bits de informações. Assim, o censo norte-estadunidense de 1890 produziu mais informações do que se havia acumulado até então e, em apenas dois anos, rendeu uma economia de 5 milhões de dólares em comparação com o método de tabulação manual. O sistema de cartão perfurado de Hollerith alterou radicalmente o processamento desse tipo de informação e renovou as esperanças (e os temores) de que as máquinas, com o tempo, seriam capazes de reproduzir o funcionamento cognitivo humano. Um artigo na revista Scientific American foi publicado com o seguinte título “How strips of paper canendow inanimate machines with brains of their own" ("Como tiras de papel podem dotar as máquinas inanimadas de mentes próprias") (Dyson, 1997).

Em 1896, Hollerith estabeleceu a própria empresa, a Tabulating Machine Company, que foi vendida em 1911. A nova corporação, a Computing-Tabulating-Recording Com­pany, foi rebatizada em 1924, sendo hoje a famosa IBM.

William James (1842-1910): o Precursor da Psicologia Funcional

Tanto o próprio William James como o seu papel na psicologia estadunidense são muito para­doxais. Seu trabalho foi o principal precursor estadunidense da psicologia funcional e ele foi o pioneiro da nova psicologia científica desenvolvida nos Estados Unidos. Uma pesquisa realizada pelos historiadores da psicologia, 80 anos após a morte de James, revelou que ele era considerado a segunda figura mais importante da psicologia, perdendo apenas para Wilhelm Wundt, além de ser apontado como o principal psicólogo estadunidense (Korn etal., 1991). O eminente filósofo e psicólogo John Dewey considerou James como "de longe, o maior dos psicólogos dos Estados Unidos(...) de qualquer país(...) talvez de todos os tem­pos." John B. Watson, o fundador do behaviorismo, referiu-se a James como "o psicólogo mais brilhante que o mundo já conheceu" (ambos citados em Leary, 2003, p. 19-20).

No entanto, alguns colegas de James o consideravam uma força contrária ao desenvol­vimento da psicologia científica. Ele mantinha um notório interesse em assuntos como telepatia, clarividência, espiritismo, comunicação com os mortos em sessões espíritas e outros fatos místicos. Os psicólogos estadunidenses, como Titchener e Cattell, criticavam a sua entusiástica exposição a esses fenômenos psíquicos e mentalísticos que eles, como psicólogos experimentais, estavam tentando banir do campo.

James não fundou nenhum sistema formal de psicologia ou sequer teve algum discípulo; não houve uma escola de pensamento "jamesiana". Embora a forma de psicologia a ele associada fosse uma tentativa de ser científica e experimental, a própria atitude e as realizações de James não eram experimentalistas. A psicologia, que um dia ele chama­ra de "pequena ciência detestável", não era a sua paixão eterna, como era para Wundt e Titchener. James trabalhou com a psicologia durante algum tempo e depois mudou sua área de interesse.

Nos últimos anos da vida, esse homem complexo e fascinante, que tanto contribuíra para a psicologia, acabou deixando-a de lado (em uma ocasião, quando ia realizar uma palestra na Princeton University, pediu para que não fosse apresentado como psicólogo). Ele até insistia em afirmar que a psicologia não passava de "uma elaboração do óbvio". Mesmo que com a sua ausência a psicologia não deixasse de seguir adiante, e às vezes cambaleante, James ocupou o seu lugar e teve a sua importância garantida na história da psicologia.

James não fundou a psicologia funcional, mas apresentou de forma clara e eficaz as suas ideias dentro da atmosfera funcionalista impregnada na psicologia estadunidense.

Dessa forma, influenciou o movimento funcionalista, inspirando as gerações posteriores de psicólogos.

A Biografia de James

William James nasceu no Astor House, um hotel da cidade de Nova York, em uma família destacada e rica. Seu pai (naquela época, o segundo homem mais rico dos Estados Unidos) dedicou-se com entusiasmo, embora de forma inconsistente, à educação dos filhos, que alternava entre a Europa e os Estados Unidos. Assim, os anos escolares iniciais de James foram passados na Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Suíça e nos Estados Unidos. Essas experiências estimulantes expuseram James às vantagens culturais e intelectuais da In­glaterra e do restante da Europa.

Durante toda a sua vida, James viajou muitas vezes para o exterior. O método favorito do pai para tratar das pessoas doentes da família era mandá-las para a Europa, e não para o hospital. E a sua mãe dispensava atenção e carinho aos filhos somente quando estavam doentes. Talvez não fosse surpresa o fato de James dificilmente apresentar boa saúde.

Embora o velho James não esperasse que nenhum dos filhos se preocupasse em ganhar a vida, incentivou o interesse precoce de William pela ciência. Deu-lhe um jogo de química contendo um "bico de Bunsen e pequenas amostras de líquidos estranhos que, para desgosto do pai, misturava, aquecia e transfundia, manchando os dedos e as roupas, chegando até a provocar perigosas explosões" (Allen, 1967, p. 47).

Com 18 anos, James decidiu tornar-se artista, e seis meses no ateliê do pintor William Hunt em Newport, Rhode Island, convenceram-no de que, apesar da boa técnica, não era dotado de talento suficiente para tornar-se um grande artista. Desistiu da carreira e acabou matriculando-se na Lawrence Scientific School, em Harvard. Nessa época estoura­va a guerra civil estadunidense e, mais tarde, James confessou que desejara servir o exército, mas o pai o proibira, alegando não existir nenhum governo ou qualquer outra causa que valesse a vida como sacrifício.

Pouco tempo depois de chegar a Harvard, começou a perder a autoconfiança e a saúde, transformando-se em uma pessoa extremamente neurótica para o resto da vida. Abandonou o interesse pela química, aparentemente em função da precisão exigida no trabalho laboratorial, e tentou prosseguir com a medicina que, no entanto, não lhe des­pertava muito interesse, tal como comentou:

Há muito farsante nesse meio (...) Exceto nas cirurgias, em que às vezes é possível obter algum resultado positivo, o médico faz mais pelo efeito moral da sua presença diante do paciente e da sua família do que por qualquer outro motivo, além de poder extrair-lhe o dinheiro. (James apud Allen, 1967, p. 98)

James abandonou a medicina para auxiliar o zoólogo Louis Agassiz em uma expedição à bacia do rio Amazonas, para colher espécies de animais marinhos. A viagem deu-lhe a oportunidade de ter uma amostra da carreira na biologia, mas logo percebeu que não conseguiria suportar a precisão das coletas e da classificação das espécies, bem como as exigências físicas do trabalho de campo. Em uma carta que escreveu para a família, disse: “Minha vinda foi um erro. Estou definitivamente convencido de que sou talhado para a elaboração teórica e não para o trabalho de campo" (apud Simon, 1998, p. 93). Essa reação ao trabalho científico na química e na biologia professava a sua posterior aversão pela experimentação no campo da psicologia.

Embora a viagem ao Brasil, em 1865, não conseguisse tornar a medicina de alguma forma atraente para James, ele relutou mas acabou retomando os estudos médicos por não haver nenhuma outra área que lhe despertasse o interesse. Estava frequentemente doente, queixando-se de depressão, problemas digestivos, insônia, dificuldades visuais e dores nas costas. "Era óbvio que ele estava sofrendo de América; a Europa era a única cura" (Miller e Buckhout, 1973, p. 84).

James recuperou-se em um balneário na Alemanha, dedicando-se à literatura e escre­vendo longas cartas aos amigos, mas a depressão persistia. Frequentou aulas de psicologia na Universidade de Berlim que o levaram a refletir que talvez fosse chegada a hora de a "psi­cologia começar a se tornar ciência" (apud Allen, 1967, p. 140). Também afirmou que se sobrevivesse a doença e conseguisse suportar o inverno, desejava aprofundar os estudos de Psicologia com o grande Helmholtz e, usando exatamente estas palavras, com um homem chamado Wundt. Sobreviveu ao inverno, mas não conheceu Wundt naquela época. No entanto, o fato de ter ouvido falar de Wundt mostra a consciência que ele tinha das tendên­cias cientificas e intelectuais, mesmo 10 anos antes de Wundt fundar seu laboratório.

James conseguiu formar-se em medicina em Harvard em 1869, mas sua insegurança e depressão pioravam. Acometido de males indeterminados e medos terríveis chegou a pensar em suicídio. Seu pavor era tão imenso que não conseguia sair de casa sozinho à noite.

Internou-se em uma clínica de repouso em Somerville, Massachusetts, mas nenhum tratamento era capaz de aliviar seu sofrimento (Townsend, 1996). James não era a única pessoa a sofrer desse mal naquela época.

Uma epidemia de neurastenia. O neurologista estadunidense George Beard cunhou o termo neurastenia para referir-se a um estado nervoso peculiar do estadunidense. Listou uma variedade de sintomas como insônia, hipocondria, dor de cabeça, erupções cutâneas cansaço nervoso e um estado que chamou de colapso cerebral (Lutz, 1991). James chamou a sindrome de "americanite" (Ross, 1991).

Durante a segunda metade do século XIX, aquilo que muitos observadores chamaram de epidemia de neurastenia" varria as classes mais altas. (...) Neurastenia era, literalmente falta de força nervosa, ou seja, depressão paralisante e perda de ânimo. Os mais educa­dos e conscientes eram os que tinham mais chances de sucumbirem. O adiamento na escolha da carreira tornou-se uma experiência comum entre esses filhos problemáticos da burguesia. (Lears, 1987, p. 87).

Muitos amigos, parentes e colegas de James sofriam desses sintomas debilitantes. Um amigo escreveu-lhe, dizendo: 'Fico imaginando se alguém na Nova Inglaterra tênha conseguido chegar aos 35 anos sem pensar em suicídio”, E James respondem  "creio não haver nenhum intelectual que não tenha flertado com a ideia de suicídio" (apud Townsend, 1996). A condição estava tão disseminada entre o segmento mais rico e intelectual Estadunidense que uma revista foi lançada com o título de Anybody Who Was Anybody Was Neurasthenic (Miller, 1991). Obviamente, William James estava bem acompanhado. A indústria  farmaceutica Rexall tirou Proveito da oportunidade criada por essa doença, introduzindo um remedio patenteado com o nome de Americanitis Elixir (Elixir para Americanitis), recomendado para distúrbios nervosos, fadiga e todos os problemas causados pela americanite (Marcus, 1998). As mulheres que sofriam desse mal, claramente intelectuais e feministas, eram aconselhadas a "passar seis semanas ou mais de cama sem executarem qualquer trabalho, leitura ou atividade social e ganhar muito peso por meio de uma dieta a base de muita gordura". Os homens não precisavam se submeter a um tratamento tão rígido assim. O conselho para eles incluía "viagens, aventuras [e muito exercício físico" (Showalter, 1997, p. 50, 66). 

Descobrindo a psicologia. No período de depressão em 1869, James começou a desenvolver uma filosofia de vida incentivado não tanto pela curiosidade intelectual mas pelo desespero. Leu muita filosofia, inclusive os ensaios de Charles Renouvier sobre o livre-arbitrio, o que o convenceu da sua existência. 

Decidiu que seu primeiro ato da vontade própria seria a crença no livre-arbítrio. Em seguida, passou a crer que conseguiria curar a depressão apenas acreditando na força de vontade. Aparentemente obteve certo êxito, pois, em 1872, aceitou lecionar fisiologia em Harvard, comentando ser "nobre para o espírito de uma pessoa ter um trabalho responsável para realizar" (James, 1902, p. 167). No entanto, apenas um ano depois, teve de tirar licença para visitar a Itália, mas retornou pouco tempo depois e continuou lecionando.

Mais ou menos nessa mesma época, James interessou-se pelos efeitos de alguns ele­mentos químicos na alteração da mente. Leu a respeito das experiências por que passaram pessoas sob a influência do óxido nitroso (o "gás hilariante") e do nitrato de amila, que afetam a oxigenação do cérebro, causando assim movimentos bruscos. Decidiu experimen­tar essas substâncias. Como escreveu um biógrafo, essa fora "a primeira entre as várias experiências [de James] com estados conscientes alterados, que o fascinaram devido à forma como as alterações físicas influenciavam a consciência" (Croce, 1999, p. 7).

No ano letivo de 1875-76, James lecionou seu primeiro curso de psicologia, que cha­mou de The relations between physiology and psychology [As relações entre a fisiologia e a psicologia]. Por isso, Harvard foi a primeira universidade dos Estados Unidos a oferecer o curso de psicologia experimental. James nunca frequentara cursos formais de psicologia - o primeiro foi o seu. Pediu dinheiro à faculdade para adquirir um laboratório e equipa­mentos de demonstração para suas aulas e recebeu 300 dólares.

Em 1878, dois acontecimentos importantes marcaram a vida de James: o casamento com Alice Howe Gibbens, a mulher escolhida por seu pai, e a assinatura de um contrato com o editor Henry Holt, que resultou em um dos livros clássicos da psicologia. Ele levou 12 anos para escrever o livro, que começara durante a lua-de-mel.

Uma das razões de tanta demora para James escrevê-lo é que ele era um viajante com­pulsivo. Quando não estava na Europa, podia ser facilmente encontrado nas montanhas de Nova York ou New Hampshire.

Suas cartas dão a entender que suas relações familiares eram muito desgastantes e que frequentemente sentia necessidade de ficar sozinho. As viagens eram a única forma de conseguir lidar com essa situação. Ele arranjava uma viagem após o nascimento de cada um dos seus filhos e, obviamente, sentia-se culpado. Frequentemente se ausentava das comemorações de Natal, Ano Novo e aniversários, mesmo não estando muito distante, como, por exemplo, em Newport. (...) As viagens de James eram fugas das confusões fami­liares para a natureza, a solidão e o alívio místico. (Myers, 1986. p. 36-37)

Os nascimentos dos filhos foram muito perturbadores para o temperamento sensível de James. Não conseguia trabalhar direito e ressentia-se da atenção dispensada pela esposa aos recém-nascidos. Depois do nascimento do segundo filho, passou um ano no exterior, viajando de uma cidade a outra. Escreveu de Veneza para sua esposa, dizendo-se apaixonado por uma italiana. Ele disse: "Você vai acabar se acostumando com esses meus entusiasmos e acabará gostando" (apud Lewis, 1991, p. 344). Mas Alice ficava contrariada com o que ela mesma descrevia como a "tendência [do meu marido] de flertar casualmen­te com conhecidas e até mesmo com as empregadas da família". Ficara furiosa quando ele lhe contara haver beijado uma delas. James, no entanto, achava que essa sua natureza afetiva devia deixá-la feliz. Conforme explicava, muitas vezes tinha o "desejo de beijar as pessoas" (apud Simon, 1998, p. 215-216).

James continuava a lecionar em Harvard quando se encontrava na cidade e, em 1885, foi promovido a professor de filosofia. Quatro anos mais tarde, passou a ter o título de professor de psicologia. Nessa época já havia conhecido vários psicólogos europeus, dentre eles Wundt, que "causou-me uma agradável impressão pessoal, com a sua voz agradável e o eterno sorriso franco nos lábios". No entanto, alguns anos depois, James percebeu que Wundt ''não é um gênio, ele é um professor, um ser cuja tarefa é conhecer tudo e ter opi­nião própria sobre qualquer assunto" (James apud Allen, 1967, p. 251, 304).

O livro de James, The principles of psychology, foi finalmente publicado em 1890 em dois volumes. Foi um tremendo sucesso e uma importante contribuição para a área. Quase 80 anos após a sua publicação, um psicólogo declarou: "O livro Principles de James é sem sombra de dúvida a obra mais culta e provocante e, ao mesmo tempo, o livro de psicologia mais compreensível escrito até hoje em inglês e em qualquer outro idioma" (MacLeod, 1969, p. iii). Essa obra foi o livro de referência mais importante para várias gerações de estudantes de psicologia e até hoje é lida por várias pessoas que não têm a obrigatoriedade de lê-la.

A reação favorável ao livro não foi unânime. Wundt e Titchener, criticados na obra, não reagiram bem. Wundt declarou: “Trata-se de uma literatura dotada de beleza, mas não é psicologia" (Wundt, apud Bjork, 1983, p. 12). Wundt continuou criticando severamente o trabalho de James na psicologia. De acordo com C. H. Judd, um estudante estadunidense do laboratório de Wundt em Leipzig, havia tido muito pouco respeito pelos líderes da psicologia estadunidense que houvessem estuda­do em outro lugar que não em Leipzig. Havia especial antipatia por James. Ele fez algo
considerado totalmente insensato, não somente criticou Wundt (...) como o fez de forma sarcástica. Isso era demais. (...) James não era considerado um pensador de primeira linha (1930/1961, p. 215).

O próprio James não reagiu favoravelmente ao seu livro. Escreveu uma carta ao editor e descreveu o manuscrito como uma "massa repugnante, distendida, intumescida, inflada e hidrópica que certifica nada além de dois fatos: primeiro, não existe uma ciência da psico­logia, segundo, que [William James] é um incapaz" (James apud Allen, 1967, p. 314-315).

Com a publicação do livro The principles, James decidiu que não tinha nada mais a dizer a respeito da psicologia. Além disso, não se interessava mais na supervisão do labo­ratório de psicologia em Harvard. Conseguiu que Hugo Münsterberg, naquela época na University of Freiburg, Alemanha, se tornasse diretor do laboratório e lecionasse os cursos de psicologia, ficando livre para trabalhar com a filosofia. Münsterberg nunca chegou a desempenhar o papel que James esperava dele: tornar-se uma liderança na pesquisa expe­rimental em Harvard. Ao contrário, Münsterberg procurava estudar uma variedade de problemas do mundo real e dedicava pouca atenção ao laboratório. Ele foi importante por
ter ajudado a popularizar a psicologia e transformá-la em uma disciplina mais aplicada.

Embora James houvesse instalado e equipado o laboratório de psicologia de Harvard, ele não era experimentalista. Nunca se convencera do valor do trabalho laboratorial e pessoalmente não gostava de realizar essa tarefa. Dizia que as universidades estadunidenses tinham laboratórios demais e, no livro The principles, destacou que os resultados do tra­balho de laboratório não eram proporcionais aos enormes esforços exigidos. Portanto
não causa estranheza o fato de sua contribuição à psicologia constituir-se de tão pouco trabalho experimental.

James passou os últimos 20 anos da vida refinando seu sistema filosófico e, por volta da década de 1890, foi reconhecido como o principal filósofo estadunidense. Entre os principais trabalhos de filosofia publicados está The varieties of religious experience (1902). A sua obra Talks to teachers (1899) marcou o início da psicologia educacional e divulgou as ideias de James sobre a aplicação da psicologia na sala de aula em situações de aprendizagem.

Os Princípios da Psicologia

Por que tantos estudiosos consideram James o maior psicólogo estadunidense? Três hipóteses são levantadas para explicar tamanha importância e influência creditadas a ele. Primeiro, James escrevia com uma clareza rara na ciência. Sua escrita era dotada de magnetismo! espontaneidade e charme. Segundo, ele se posicionou contra o objetivo de Wundt na psicologia - a análise da consciência a partir dos seus elementos. E terceiro, James ofere­ceu uma forma alternativa de analisar a mente, uma visão congruente com a abordagem funcional da psicologia. Em resumo, a era da psicologia estadunidense estava preparada para ouvir o que James tinha a dizer.

No livro The principies of psychology, James apresentou a visão que acabou tornando-se a doutrina central do funcionalismo estadunidense - a psicologia não tem como meta a des­coberta dos elementos da experiência, mas o estudo sobre a adaptação dos seres humanos ao seu meio ambiente. A função da nossa consciência é guiar-nos aos fins necessários para a sobrevivência. A consciência é vital para as necessidades dos seres complexos em um ambiente complexo; de outra forma, a evolução humana não ocorreria.

James também enfatizava os aspectos não-racionais da natureza humana. As pessoas eram criaturas dotadas de emoção e paixão, assim como de pensamento e razão. Mesmo quando discutia os processos puramente intelectuais, James destacava o não-racional. Alegava que a condição física afetava o intelecto, que os fatores emocionais determinavam as crenças e que as necessidades e os desejos humanos influenciavam a formação da razão e dos conceitos. Assim, James não considerava as pessoas seres totalmente racionais. Em The principies, James escreveu sobre as mais variadas áreas.

O Objeto de Estudo da Psicologia: a Nova Visão sobre a Consciência

James afirmava logo no início da obra que “A psicologia é a ciência da vida mental, abran­gendo tanto os seus fenômenos como as suas condições” (James, 1890, v. 1, p. 1). No que tange ao objeto de estudo, as palavras-chave são fenômenos e condições. Com fenômenos,
ele queria dizer que o objeto de estudo da psicologia devia ser buscado na experiência imediata; com condições, referia-se à importância do corpo, principalmente do cérebro, na vida mental.

De acordo com James, as subestruturas físicas da consciência formam uma parte básica da psicologia. A consciência deve ser analisada no seu ambiente natural, que é o físico do ser humano. Essa noção biológica da ação do cérebro sobre a consciência é uma característica exclusiva da abordagem de psicologia de James.

Ele rebelava-se contra a artificialidade e a estreiteza da posição de Wundt. Acreditava serem as experiências conscientes simplesmente experiências conscientes e não grupos ou conjuntos de elementos. A descoberta de elementos mínimos da consciência, por meio da análise introspectiva, não demonstra que eles existam independentemente de um obser­vador treinado. Os psicólogos realizam leituras da experiência com base na sua posição sistemática e com o seu ponto de vista.

Um degustador treinado é capaz de distinguir os elementos individuais do sabor de um alimento que não são percebidos por uma pessoa não-treinada, a qual percebe um misto de sabores, uma mistura total de ingredientes impossível de distinguir. Do mesmo modo, o fato de algumas pessoas treinadas serem capazes de analisar suas experiências conscientes em um laboratório de psicologia não quer dizer que os elementos por elas relatados estejam presentes na consciência de qualquer outra pessoa exposta à mesma experiência. James considerava essa afirmação uma "falácia dos psicólogos".

Atingindo o ponto central da abordagem de Wundt, James declarou que as sensa­ções simples não existem na experiência consciente, existindo apenas como resultado de algum processo retorcido de inferência ou abstração. Em uma declaração grosseira e eloquente, disse:

Ninguém jamais experimentou uma sensação simples por si próprio. A consciência, desde o dia do nosso nascimento, gera uma imensa multiplicidade de objetos e relações e o que denominamos sensações simples é resultado da atenção discriminativa, levada a um grau muito alto. (James, 1890, v. 1, p. 224)

No lugar da análise artificial e da redução da experiência consciente aos ditos elemen­tos componentes, James criou um programa de psicologia. A vida mental consiste em uma unidade, em uma experiência total que se modifica. A consciência é um fluxo constante e qualquer tentativa de dividi-la em fases temporariamente distintas pode distorcê-la. Para expressar essa ideia, James cunhou a expressão fluxo de consciência.

Como a consciência está em constante modificação, não é possível experimentar o mesmo pensamento ou a mesma sensação mais de uma vez. Pode-se pensar em um objeto ou um estímulo em mais de uma ocasião, mas os pensamentos não são idênticos em cada situação. São diferentes devido às experiências intervenientes. Desse modo, a consciência é definida como cumulativa e não recorrente.

A mente é igualmente contínua. Não há interrupção abrupta no fluxo de consciência. É possível notar lapsos de tempo, por exemplo, quando estamos sonolentos, mas, quando estamos despertos, não temos dificuldade de estabelecer relações com nosso fluxo de cons­ciência em andamento. Além disso, a mente é seletiva: como somos capazes de prestar atenção em apenas uma pequena parte do universo das nossas experiências, ela escolhe entre os vários estímulos aos quais é exposta. A mente filtra algumas experiências, combina ou separa outras, seleciona e rejeita outras mais. O principal critério de seleção é a relevância - a mente seleciona os estímulos relevantes de modo que permita que a consciência opere de modo lógico, criando assim uma série de ideias que possam resultar em uma conclusão racional.

Por fim, James destacou a função ou o propósito da consciência. Acreditava que ela desempenhava alguma função biológica, de outro modo não teria sobrevivido ao tempo.

A função da consciência é proporcionar a capacidade de adaptação ao ambiente, permi­tindo-nos escolher. Para desenvolver essa ideia, James fazia a distinção entre a escolha e o hábito; acreditava que os hábitos eram involuntários e não conscientes. Quando estamos diante de um novo problema e temos de escolher uma forma de enfrentá-lo, a consciência entra em cena. Essa ênfase da intencionalidade reflete o impacto da teoria da evolução.


Texto original

Trecho sobre a Consciência, Extraído de Psychology (Briefer Course) (1892), de William James

A consciência encontra-se em constante mudança. Não quero dizer com essa afirmação que o estado mental seja dotado de alguma duração - e mesmo que fosse verdade, seria difícil estabelecer essa duração. O que desejo destacar com essa afirmação é a impossibilidade de um estado do passado recorrer e ser idêntico ao que fora anteriormente. Neste momen­to sentimos, ouvimos, pensamos, desejamos, lembramos, esperamos, amamos, odiamos e vivenciamos outras centenas de estados que sabemos estarem relacionados alternadamente em nossas mentes. Todavia, todos esses estados são complexos, podendo-se assim dizer, produzidos pela combinação dos estados mais simples; mas os estados simples não seriam regidos por uma lei distinta? Não seriam, por exemplo, as sensações extraídas do mesmo objeto sempre as mesmas? A tecla do piano pressionada com a mesma intensidade não pro­vocaria a sensação de ouvirmos e o mesmo som? Não provocaria a mesma grama a idêntica sensação de verde, o mesmo firmamento, a igual sensação de azul, e não teríamos a mesma sensação olfativa independentemente do número de vezes que encostamos o nosso nariz no mesmo frasco do perfume? Pode soar como um sofisma metafísico a sugestão de que não percebemos as sensações dessa forma; e uma atenção mais cuidadosa do assunto demonstra que não há provas de que a sensação de receber um choque elétrico provoque duas vezes percepções corporais idênticas.

O que está presente duas vezes é o mesmo objeto. Ouvimos a mesma nota executada diversas vezes, enxergamos a mesma tonalidade da cor verde, a fragrância do mesmo perfume ou a experiência da mesma espécie de dor. As realidades, concretas e abstratas, físicas e ideo­lógicas, em cuja permanente existência acreditamos, parecem surgir constantemente no nosso pensamento e conduzir-nos, devido à nossa falta de cautela, a supor que as nossas "ideias" a respeito dessas realidades consistem nas mesmas ideias. (...) A grama que vislumbro pela janela parece ter o mesmo tom de verde tanto sob o sol como sob a sombra, e, no entanto, o pintor pode pintar uma parte dela de marrom escuro, outra parte de amarelo claro, tentan­do criar o efeito sensorial da realidade. Normalmente, não prestamos atenção nas diferentes formas de aparência, som e odor que os mesmos objetos assumem quando observados de distâncias distintas e sob diversas circunstâncias. A igualdade dos objetos é que consiste no alvo de nossa investigação; e qualquer sensação que nos garanta essa igualdade será prova­velmente considerada, de um modo geral, como a mesma para todos.

Essa característica é que traz o julgamento precipitado sobre a identidade subjetiva das diferentes sensações bem próximo da invalidade como uma evidência do fato. Toda a descri­ção daquilo que se chama sensação consiste em um comentário sobre a nossa incapacidade  de afirmar se duas qualidades sensoriais recebidas separadamente são exatamente idênticas. O que chama a nossa atenção muito mais do que a qualidade absoluta de uma impressão é a sua proporção em relação a qualquer outra impressão que possamos vivenciar ao mesmo tempo. Quando a escuridão é total, a mínima sensação de claridade nos faz enxergar um branco – Helmholtz calcula que o mármore branco pintado em uma tela representando uma paisagem arquitetônica sob o luar, quando visto à luz do dia, é de 10 a 20 vezes mais claro do que seria o mármore visto sob o luar verdadeiro.

Uma diferença como essa nunca poderia ser aprendida por meio da sensação, teria de ser deduzida com base em uma série de considerações indiretas. Isso tudo nos faz crer que a nossa sensibilidade vai se alterando com o tempo, de modo que o mesmo objeto não nos proporciona facilmente a mesma sensação novamente. Sentimos os objetos de modo dife­rente, de acordo com o nosso estado, se estamos sonolentos ou despertos, com fome ou satisfeitos, dispostos ou cansados; de forma distinta à noite e pela manhã, no verão e no inverno, e, acima de tudo, na infância, na vida adulta e na velhice. No entanto, nunca duvida­mos de que os nossos sentimentos revelam o mesmo universo, com as mesmas características sensoriais e com os mesmos objetos sensoriais o ocupando. A diferenciação da sensibilidade é mais bem demonstrada por meio da distinção da nossa emoção a respeito dos objetos de uma idade a outra, ou quando nos encontramos em estados orgânicos distintos. O que era
alegre e excitante torna-se tedioso, simples e inútil. O canto do pássaro é entediante a brisa e melancólica e o céu é triste. (...)

É óbvio e palpável que nosso estado mental jamais é exatamente o mesmo. Cada pensamen­to produzido por meio de um determinado fato é, falando rigorosamente, exclusivo e possui apenas certa semelhança com os demais pensamentos provenientes do mesmo fato. Quando o fato idêntico for recorrente, devemos pensar nele de forma independente, analisá-lo de um angulo distinto e compreendê-lo dentro das diferentes relações nas quais surgiu anteriormente e o pensamento por meio do qual o percebemos é aquele que surge dentro das diferentes reações, que se espalhou com a consciência de todo aquele contexto indistinto. Muitas vezes nos vemos atingidos por estranhas diferenças nas nossas visões sucessivas do mesmo objeto. Pensamos como pudemos opinar desse modo no mês passado sobre o mesmo assunto.

Acabamos de desenvolver a possibilidade daquele estado mental e nem sabemos como de um ano para o outro visualizamos os objetos sob uma nova luz. O que era irreal torna-se real e o que era excitante torna-se insípido. Os amigos mais importantes do mundo passaram para a obscuridade; a mulher antes divina, as estrelas, as florestas, as águas, como podem ser agora tão estúpidas e banais!


Os Métodos da Psicologia

Como a psicologia lida com a consciência pessoal e imediata, a introspecção deve ser o seu metodo básico. James dizia: 'A observação introspectiva é o método em que devemos nos basear primeiramente e sempre (...) a visão da nossa mente e a descrição do que observa­mos. Todos concordam que é na nossa mente que descobrimos os estados da consciência" (James, 1890, v. 1, p. 185). James tinha ciência das dificuldades da introspecção e a aceita­va mesmo considerando-a um método imperfeito de observação. No entanto, acreditava
possibilidade de uma verificação mais apurada dos resultados produzidos mediante a comparação das constatações obtidas por diversos observadores.

Embora não utilizasse amplamente o método experimental, considerava-o um cami­nho importante para o conhecimento psicológico, especialmente nas pesquisas psicofísicas, como na análise da percepção espacial e no estudo da memória.

Como complementação dos métodos introspectivo e experimental, James recomen­dava o método comparativo. A averiguação do funcionamento psicológico de populações distintas, como de animais, crianças e pessoas não-alfabetizadas ou indivíduos emocional­mente desequilibrados, permitiria descobrir variações significativas na vida mental.

Os métodos citados na sua obra The principies salientam a principal diferença entre a psicologia estrutural e a funcional: o movimento funcionalista não se restringia a um único método como as formas de introspecção de Wundt ou Titchener. Ele também acei­tava e adotava outras metodologias. Esse tratamento eclético ampliou consideravelmente a área de estudo da psicologia estadunidense.

O Pragmatismo

James enfatizava a importância do pragmatismo na psicologia, cuja doutrina baseia-se na comprovação da validade de uma ideia ou de um conceito mediante a análise das con­ sequências práticas. A conhecida expressão do ponto de vista pragmático afirma que "se funcionar, é verdadeiro".

O pragmatismo foi desenvolvido na década de 1870 por Charles Sanders Peirce, mate­mático, filósofo e amigo de longa data de James. Seu trabalho somente foi reconhecido após a publicação da obra escrita por James, Pragmatism (1907), que formalizou a doutri­na como um movimento filosófico (Peirce foi o primeiro a escrever a respeito da nova psicologia de Fechner e Wundt para os intelectuais estadunidenses, em um artigo publicado em 1869).

A Teoria das Emoções

A teoria das emoções de James, publicada em um artigo em 1884 e posteriormente no livro The principies, contradizia o pensamento corrente sobre a natureza dos estados emocionais. Os psicólogos partiam do princípio de que a experiência mental subjetiva da emoção antecedia a expressão ou a ação corporal. O exemplo clássico de avistar um animal selvagem, sentir medo e fugir correndo, ilustra a ideia de que a emoção (o medo) ocorre antes da reação do corpo (a fuga).

James inverteu essa ordem e afirmou que a reação física ocorre antes do surgimento da emoção, principalmente das emoções que considerava "grosseiras" como o medo, a ira, a dor e a compaixão. Por exemplo, vemos o animal, corremos e, então, vivenciamos a emoção do medo. "Nosso sentimento em relação às reações [físicas] que ocorrem é a emoção" (James, 1890, v. 2, p. 449).

Para defender essa ideia, James analisou, mediante a observação introspectiva, que, quando não ocorrem alterações físicas, como a aceleração do batimento cardíaco, a respira­ção ofegante e a tensão muscular, não há emoção. As visões de James acerca das emoções provocaram muita polêmica e incentivaram a realização de diversas pesquisas.

O Eu de Três Partes

James sugeriu que o sentido do eu de uma pessoa é formado por três aspectos ou com­ponentes. O eu material consiste de tudo que chamamos de pessoal, como nosso corpo, família, lar, ou estilo de se vestir. Ele achava que a nossa escolha de roupa é particularmente importante. Escreveu ele que "o velho ditado que diz que uma pessoa é composta de três partes - alma, corpo e roupas - é mais do que piada. Nós nos apropriamos de nossas roupas e nos identificamos com elas" (James, 1890, v. 1, p. 292). O eu social refere-se ao reconhe­cimento que obtemos por meio de outras pessoas. James salientou que temos muitos eus sociais; apresentamos diferentes lados de nós mesmos a diferentes pessoas. Por exemplo, você provavelmente se comporta de modo diferente com seus pais, com conhecidos ou com amantes. Cada um o verá de modo diferente. O terceiro componente, o eu espiritual, refere-se ao nosso ser interior ou subjetivo.

Os psicólogos têm sugerido que nossa escolha de roupa e modo de se vestir influen­ciam e refletem não só nosso eu material, como James acreditava, mas também o social e o espiritual. Além disso, o modo como somos vistos, reconhecidos e julgados por outras pessoas pode ser influenciado pelo modo como nos vestimos. Assim sendo, as roupas podem ser uma forma de autoexpressão, tal como parece ter sido para James.

Ele tendia a se vestir de uma maneira notadamente diferente da norma para sua posição e classe social. Dava preferência a gravatas-borboleta de bolinha e calças xadrez, com cores bem vivas, definitivamente um "desvio do padrão educado" (Watson, 2004, p. 218). Ele era considerado "bastante conspícuo na sua maneira de se vestir", contrário aos padrões da moda da época. Obviamente ele queria se sobressair na multidão.

Hmmmm. O que você está usando?

O Hábito
O capítulo do livro The principies que trata do hábito reafirma o interesse de James pelas influências psicológicas. Ele descreve todas as criaturas vivas como um "pacote de hábitos" (James, 1890, v. 1, p. 104). As atitudes repetitivas ou habituais envolvem o sistema nervoso e servem para aumentar a plasticidade da matéria neural. Como consequência, os hábitos facilitam a execução das subsequentes repetições e exigem menor atenção consciente.

Os hábitos têm enormes implicações sociais, como exemplifica o trecho a seguir.

O hábito (...) per se é o que nos mantém dentro dos limites da ordem. (...) Ele nos conde­na a lutar a batalha da vida de acordo com as orientações da nossa criação ou da nossa escolha inicial e a fazer o melhor de uma atividade, mesmo que nos desagrade, porque não há outra para a qual estamos aptos e é tarde demais para recomeçar (...)

Já com 25 anos é possível enxergar o tipo profissional de um jovem representante comercial, do jovem médico, ministro ou advogado. É possível enxergar as tênues linhas divisórias do caráter, das elaborações do pensamento, dos preconceitos (...) das quais logo o homem não consegue mais escapar, assim como são inevitáveis as marcas deixadas pelo tempo. No final, é melhor que ele não escape e que, para o bem da humanidade, a maio­ria de nós, aos 30 anos, já tenha o caráter solidificado e que nunca mais volte a amolecer. (James, 1890, v. 1, p. 121)

A obra The principies exerceu grande influência na psicologia estadunidense e, mesmo pas­sado um século, a sua publicação foi alvo de elogios (Donnelly, 1992; Johnson e Henley, 1990). Ela alterou a visão de milhares de alunos e inspirou psicólogos a transferirem o enfoque da nova ciência da psicologia da perspectiva estruturalista para a fundação for­mal da escola de pensamento funcionalista.

A Desigualdade Funcional das Mulheres

Mary Whiton Calkins (1863-1930)

James foi o grande responsável pelos estudos de pós-graduação de Mary Whiton Calkins, ajudando-a a vencer as barreiras do preconceito e da discriminação. Calkins acabou desen­volvendo a técnica da associação de pares usada no estudo da memória, além de haver contribuído de forma significativa e duradoura para a psicologia (Madigan e O'Hara, 1992). Foi a primeira mulher a tornar-se presidente da APA e, em 1906, ocupava a 12ª colocação entre os 50 psicólogos mais importantes dos Estados Unidos, reconhecimento muito sig­nificativo por parte dos colegas a uma pessoa a quem havia sido recusada a concessão do título de Ph.D. (Furumoto, 1990).

A Harvard University nunca aceitou sua matrícula formal, mas William James a recebia de braços abertos nos seus seminários e pressionava a universidade a conceder-lhe a graduação. Quando a direção recusou-se a fazê-lo, James escreveu a ela, dizendo que bastava "produzir explosivos juntando você e todas as mulheres. Tenho esperanças e acredito que a sua dedicação acabará explodindo a barreira" (James, apud Benjamin, 1993, p. 72). Apesar dos esforços de James, Harvard recusava-se a conceder o doutorado a uma mulher, embora o teste de Calkins
(ministrado informalmente por James e outros docentes) fosse considerado "o mais brilhante exame de Ph.D. até então realizado em Harvard” (James, apud Simon, 1998, p. 244).

Sete anos depois, quando Calkins estava lecionando na Wellesley e realizando a sua pesquisa a respeito da memória, Harvard ofereceu-lhe a graduação da Radcliffe College, criada pela Harvard para oferecer cursos de graduação para as mulheres. Ela recusou, pois havia completado as exigências de graduação na Harvard e não na Radcliffe. A Harvard a discriminava apenas por ser mulher e ignorou várias solicitações suas de graduação para a qual havia completado todos os requisitos. Acabou obtendo uma graduação honorária da Columbia University (Denmark e Fernandez, 1992). Harvard não concedeu diplomas de doutorado a mulheres antes de 1963.

A experiência de Calkin é um exemplo da discriminação sofrida pelas mulheres que almejavam a educação superior, condição que persistiu até o século XX. Ainda assim Calkm considerava-se privilegiada, quando se comparava às mulheres das gerações anteriores que jamais foram admitidas nas universidades. As mulheres foram tradicionalmente excluídas da maioria das áreas acadêmicas das faculdades e universidades europeias e estadunidenses. Quando Harvard foi fundada, em 1636, não aceitava alunas. Somente depois da decada de 1830 algumas faculdades estadunidenses relaxaram a sua proibição e admitiam mulheres para o curso de graduação.

A primeira razão alegada para essa restrição era a crença generalizada na chamada superioridade intelectual masculina. Como afirmava esse argumento, embora certas mulheres recebessem as mesmas oportunidades educacionais dadas aos homens, as deficiências intelectuais femininas inatas não permitiam que tirassem proveito dos benefícios. Muitos cientistas importantes do século XIX, como Darwin, e a maioria dos cientistas da época concordavam com essa visão.

Hoje, a maioria dos estudantes formados e que obtiveram Ph.D. em psicologia são mulheres, assim com a maioria dos estudantes de graduação e pós-graduação na área. No entanto, vimos que o homem dominou a história da psicologia. Apenas para relembrar, Margaret Washburn não pode matricular-se na Columbia University porque era mulher. Somente depois de 1892 as universidades de Yale e de Chicago e mais algumas outras instituições aceitaram a matrícula de mulheres nos cursos de graduação. Por cerca de 20 anos após a fundação formal da Psicologia como disciplina científica, as mulheres enfrentaram barreiras para tornarem-se psicólogas e para contribuírem de forma signifi­cativa para o desenvolvimento do campo.

Grande parte do mito da superioridade intelectual do homem surgiu da chamada hipótese da variabilidade, baseada nas ideias de Darwin a respeito da variabilidade masculina. Darwin descobriu que em diversas espécies o macho demonstrava uma variedade mais ampla de desenvolvimento das características físicas e das habilidades do que as fêmeas. As características e habilidades femininas encontravam-se concentradas em torno de um valor médio. Acreditava-se que essa tendência mediana feminina fazia com que a mulher se beneficiasse menos da educação formal e tivesse menos possibilidade de êxito no trabalho intelectual ou de pesquisa. Faltava apenas um passo para supor que o cérebro masculino fosse mais evoluído do que o feminino. Em virtude da grande variedade de talentos demonstrada pelo homem, acreditava-se estar ele mais apto a se adaptar e tirar proveito dos diversos ambientes desafiadores. Dessa forma a mulher era considerada inferior ao homem, tanto nas qualidades mentais como nas físicas necessárias para se obter exito na adaptação às exigências do ambiente. Como consequência a ideia da desigualdade funcional entre os sexos foi amplamente aceita. 

Uma teoria popular a esse respeito afirmava que a mulher exposta à educação superior alem da formação básica sofreria de danos físicos e emocionais. Alguns psicólogos alegavam que a mulher com nível de educação superior colocava em risco as condições biológicas necessárias para a maternidade, interrompendo o ciclo menstrual e enfraquecendo o instinto maternal. Um psicólogo chegou a afirmar que, se a mulher desejasse algum tipo de educação, "que fosse educada para a maternidade" (G. S. Hall, apud Diehl, 1986, p. 872).

Um professor da escola de medicina de Harvard declarou que a educação produzia na mulher "cérebros monstruosos e corpos franzinos; atividade cerebral anormal e diges­tão extremamente deficiente; raciocínios dispersos e mal funcionamento do intestino (E. Clarke, apud Scarborough e Furumoto, 1987, p. 4). O professor também advertiu: "A igualdade da educação entre os sexos é um crime perante Deus e a humanidade" (Clarke,
1873, p. 127).

Nos primeiros anos do século XX, duas psicólogas obtiveram êxito ao desafiarem a ideia da desigualdade funcional entre os sexos. Utilizando as técnicas empiristas da psicologia funcional, Helen Bradford Thompson Woolley e Leta Stetter Hollingworth demonstraram que Darwin e os demais estavam equivocados a respeito da mulher.

Helen Bradford Thompson Woolley ( 7874-1947)

Helen Bradford Thompson Woolley nasceu em Chicago, em 1874. Seus pais apoiavam a ideia da educação das mulheres e as três filhas da família Thompson frequentaram a faculdade. Helen Thompson formou-se na University of Chicago, em 1897, e recebeu o Ph.D. em 1900. Seus principais professores foram James Rowland Angell e John Dewey, o qual a considerava uma de suas alunas mais brilhantes (apud James, 1994). Depois de completar a pós-graduação com bolsa de estudos em Paris e em Berlim, tornou-se diretora do laboratório de psicologia da Mount Holyoke College, em Massachusetts.

Casou-se com o médico Paul Woolley e acompanhou-o às Filipinas, onde ele foi dire­tor de um laboratório. Em 1908, o casal mudou-se para Cincinnati, em Ohio, onde Helen aceitou a direção do departamento vocacional do ensino público, preocupada com as questões do bem-estar das crianças. Suas pesquisas acerca do efeito do trabalho infantil provocaram mudanças nas leis trabalhistas estaduais (em vários estados, crianças de ape­nas 8 anos trabalhavam, cumprindo uma jornada diária de 10 horas de trabalho, 6 dias por semana. Em poucos estados existiam leis de proteção referentes à idade, à jornada de trabalho e ao salário mínimo infantil). Em 1921, Helen atuou como presidente da National Vocacional Guidance Association [Associação Nacional de Orientação Vocacional].

Naquele ano, sua família mudou-se para Detroit, em Michigan, e ela foi trabalhar no Merrill-Palmer Institute [Instituto Merrill-Palmer], onde criou um programa de educação infantil para estudar o desenvolvimento e as habilidades mentais das crianças. Em 1924, tornou-se diretora do novo Institute of Child Welfare Research [Instituto de Pesquisa do Bem-estar Infantil] da Columbia University e prosseguiu no seu trabalho sobre a aprendi­zagem na primeira infância, a educação vocacional e a orientação educacional.

A apresentação da dissertação de doutorado de Helen Woolley na University of Chi­cago foi o primeiro teste experimental do conceito darwiniano da inferioridade biológica da mulher em relação ao homem, ideia considerada, na época, tão óbvia que dispensava qualquer comprovação científica (James, 1994). Ela aplicou um teste em 25 homens e 25 mulheres para medir a habilidade motora, os limiares sensoriais (paladar, olfato, audição, visão e tato), a capacidade intelectual e os traços de personalidade.

Os resultados revelaram não haver diferenças no funcionamento emocional entre homens e mulheres e apenas uma diferença insignificante na capacidade intelectual. Os dados também mostraram pequena superioridade das mulheres em habilidades como a memória e a percepção sensorial. Woolley deu um passo inédito ao atribuir as dife­renças aos fatores ambientais e sociais - às diferentes práticas na criação da criança e às expectativas distintas para os meninos e as meninas - e não às determinantes biológicas (Rossiter, 1982).

Woolley publicou os resultados em The mental traits of sex: an experimental investigation of the normal mind in men and women (Thompson, 1903). Suas conclusões não foram bem recebidas pelos psicólogos masculinos do meio acadêmico. G. Stanley Hall acusou-a de atribuir uma interpretação feminista aos dados (Hall, 1904). O fato de ser uma mulher a autora da pesquisa que demonstra não haver inferioridade biológica da mulher em rela­ção ao homem produz, de alguma forma, resultados distorcidos ou tendenciosos (James, 1994). Mais tarde, ela escreveu mais dois trabalhos a respeito da crescente literatura de pesquisa sobre a psicologia das diferenças entre os sexos para a renomada revista Psychological Bulletin (Woolley, 1910, 1914).

Durante 30 anos, Woolley trabalhou como professora, pesquisadora e orientadora de psicólogas nas áreas do desenvolvimento e da educação infantil. Quando a saúde precária e o traumático divórcio forçaram-na à aposentadoria precoce, o foco da psicologia feminina passou para outras mãos.

Leta Stetter Hollingworth (1886-1939)

Leta Stetter cresceu em Nebraska em uma família de meios financeiros limitados. Sua casa era uma cabana de barro e frequentava uma escola de uma única sala. Aos 3 anos, sua mãe faleceu e seu pai a deixou para ser criada pelos avós. Quando reapareceu, 10 anos mais tarde, ele a tirou daquele lar seguro e a levou para morar com ele e sua esposa, que a tratava mal. Ela jamais o perdoou. Apesar desse início pouco promissor, ela se matriculou e formou-se, com louvor, na University of Nebraska, em 1906. Foi professora do ensino médio por dois anos, enquanto o seu noivo, Harry Hollingworth, completava o doutorado em psicologia, sob a orientação de James McKeen Cattell na Columbia University. Leta e Harry casaram-se em 1908. Ele lecionava na Barnard College, na cidade de Nova York, mas, para sua surpresa e decepção, havia uma lei que proibia a mulher casada de lecionar em escolas públicas.

Ela passou a escrever ficção, mas não conseguiu encontrar uma editora para publicar seus contos. Sem encontrar uma saída para seu talento e energia, ela tornou-se triste e amarga. Harry posteriormente escreveu que Leta "inesperadamente costumava irromper em lágrimas (...) Depois dizia que não conseguia aceitar o fato de ser forte e capaz, com uma boa mente e educação sólida, e ainda assim ser incapaz de contribuir materialmente para seu bem-estar" (apud Klein, 2002, p. 65).

O casal vivia com poucos recursos financeiros, e então Harry aceitou atuar como consultor a fim de guardar dinheiro para que Letta pudesse avançar em seus estudos. Em 1916, ela obteve seu Ph.D. da Teacher's College da Columbia University, onde teve a oportunidade de estudar com Edward L. Thorndike, e trabalhou como psicóloga do governo da cidade de Nova York. Cinco anos depois, ela foi citada na publicação American Men of Science por suas contribuições à psicologia da mulher.

Lreta Hollingworth realizou ampla pesquisa empírica a respeito da hipótese da variabilidade, o conceito de que, em relação ao funcionamento físico, psicológico e emocional, as mulheres constituíam um grupo mais homogêneo e mediano do que os homens, demonstrando, assim, menor variação. A pesquisa de Hollingworth, entre 1913 e 1916, se concentrou no funcionamento físico, sensorial e motor e nas habilidades intelectuais de diversos tipos de pessoas, como crianças, estudantes universitários do sexo masculino e do feminino, mulheres no período menstrual (quando se presume que suas condições emocionais e mentais sejam afetadas pelos processos naturais do corpo). Seus dados desmentiram a hipótese da variabilidade e outras noções de inferioridade feminina. Por exemplo, ela constatou, ao contrário do que se afirmava havia muito tempo, que o ciclo menstrual não estava relacionado com os desempenhos deficientes das habilidades moto­ras e perceptuais ou das capacidades intelectuais (Hollingworth, 1914).

Mais tarde, ela desafiou o conceito de instinto inato da maternidade, questionando a noção de que a mulher atingia a plena satisfação somente sendo mãe e descartou o con­ceito de que o desejo da mulher de obter êxito em outros campos, que não no casamento ou na constituição de família, fosse anormal ou não-saudável. Ela sugeriu não serem os fatores biológicos e sim as atitudes sociais e culturais que exerciam influência, impedin­do as mulheres de se tornarem membros mais ativos na sociedade (Benjamin e Shields, 1990; Shields, 1975). Hollingworth também alertou as orientadoras vocacionais a não conduzirem as mulheres no sentido de restringir suas aspirações apenas às áreas conside­radas socialmente aceitas como a maternidade ou o trabalho doméstico, nas quais não há reconhecimento. E afirmou: “Ninguém conhece a melhor dona de casa estadunidense . Dona de casa famosa não existe e nem pode existir" (apud Benjamin e Shields, 1990, p. 177).

Leta Hollingworth também contribuiu de forma significativa para a psicologia clíni­ca, educacional e acadêmica, principalmente em relação às necessidades emocionais e educacionais das crianças denominadas "talentosas", termo cunhado por ela (Benjamin, 1975). Apesar da quantidade e da qualidade das suas pesquisas, nunca conseguiu apoio para realizar os trabalhos (Hollingworth, 1943). Participou ativamente do movimento pelo sufrágio feminino, realizando campanhas em favor do direito ao voto feminino (finalmente aprovado em 1920) e participando de manifestações e comícios em Nova York. Ela faleceu relativamente jovem, aos 53 anos de idade, de câncer no estômago, "o qual por razões inexplicáveis, suportou sozinha e escondeu de todos por 10 anos" (Stanley e Brody, 2004, p. 4).

Granville Stanley Hall (1844-1924)

Embora William James tenha sido o primeiro psicólogo famoso, verdadeiramente estadunidense, o tremendo desenvolvimento da psicologia nos Estados Unidos entre 1875 e 1900 não se deu unicamente pelo seu trabalho. Outra figura notável na história da psicologia dos Estados Unidos, e um contemporâneo digno e influente de James, foi G. Stanley Hall.

Este colecionou um registro surpreendente das primeiras posições na psicologia estadunidense. Recebeu o primeiro título de doutorado em psicologia, e alegava ter sido o primeiro aluno estadunidense no primeiro ano do primeiro laboratório de psicologia. Hall deu início ao que frequentemente é considerado o primeiro laboratório de psicologia nos Estados Unidos, bem como o primeiro periódico estadunidense de psicologia. Foi o primeiro presidente de Clark University, o organizador e primeiro presidente da APA, e um dos primeiros psicólogos da psicologia aplicada.

A Biografia de Hall

Hall nasceu em uma fazenda em Massachussetts. Sua mãe era uma mulher piedosa, gentil e carinhosa; seu pai era severo e exigente, e às vezes batia no jovem Hall. Aos 14 anos, depois de ter sido esbofeteado com força por ele, "afastei-me com raiva, em parte real e - lembro-me claramente - em parte para obter um efeito, fechei meus punhos e o olhei fixamente como se estivesse fortemente tentado a retribuir o tapa. Jamais esquecerei seu olhar de espanto. Nunca apanhei de novo" (Hall, apud Hulbert, 2003, p. 53 )

Um rapaz intensamente ambicioso, Hall prometeu que "realizaria algo importante e seria reconhecido no mundo todo" (apud Ross, 1972, p. 12). Aos 17 anos de idade, ficou profundamente envergonhado quando, no início da Guerra Civil Americana, seu pai comprou sua dispensa do exército. Hall disse que devia ser punido pelo descumprimento do serviço militar obrigatório (Vande Kemp, 1992).

Em 1863, Hall ingressou no Williams College. Até a época em que se formou, havia recebido um grande número de homenagens e havia sido eleito o homem mais inteligente de sua classe. Desenvolveu um entusiasmo pela teoria evolucionista, o que influenciaria sua carreira em psicologia. Hall escreveu que "assim que ouvi a palavra 'evolução' na minha juventude, fiquei hipnotizado por ela, era como música para meus ouvidos" (Hall, 1923, p. 357). Depois de se formar, ainda não muito certo a respeito de sua vocação, matrículou-se na Union Teological Seminary em Nova York. Não tinha um comprometimento forte com o sacerdócio, e seu interesse pelo evolucionismo não era, certamente, nenhuma vantagem.

Logo se tornou evidente que não ficaria famoso pela sua ortodoxia religiosa. Conta-se que quando fez seu primeiro sermão de ensaio para o corpo docente e discípulos, o diretor do seminário ajoelhou-se e rezou pela sua alma. "Não acredito ter os requisitos para ser pregador," ele escreveu a seus pais (apud Hulbert, 2003, p. 55).

Aconselhado pelo famoso pregador Henry Ward Beecher, Hall foi para a University of Bonn, na Alemanha, para estudar filosofia e teologia. Em Berlim, acrescentou os estudos de fisiologia e física. Complementou essa fase de sua educação com visitas a teatros e cer­vejarias, experiências ousadas para um jovem oriundo de um ambiente religioso. Escreveu sobre a sua surpresa ao ver um professor de teologia bebendo cerveja em um domingo. Hall também escreveu a respeito de seus casos românticos, observando que duas das paixões que viveu revelaram capacidades em si mesmo "até então adormecidas e reprimidas e [que] consequentemente haviam tornado sua vida mais rica e significativa" (apud Lewis, 1991, p. 317). Aparentemente, sua permanência na Europa foi um período de liberação.

Relutantemente, voltou para casa em 1871, porque, como sugeriu por um biógrafo, seus pais não queriam mais financiá-lo (White, 1994). Nessa época ele tinha 27 anos, não tinha diplomas e estava bastante endividado. Terminou seus estudos no seminário (em­bora não tenha sido ordenado) e pregou em uma igreja em Cowdersport no interior da Pensilvania. abandonando o cargo somente após 10 semanas. Depois de trabalhar como tutor particular por mais de um ano, Hall conseguiu um cargo de professor em Antioch College, em Ohio. Deu aulas de literatura inglesa, língua e literatura francesa e alemã e filosofia, trabalhou como bibliotecário, liderou o coro e pregou na capela.

Em 1874, o livro de Wundt, Physiological psychology, despertou o interesse de Hall para a ciência nova, provocando incertezas adicionais a respeito de sua carreira. Pediu um afastamento de Antioch, estabeleceu-se em Cambridge, Massachusetts, e tornou-se tutor de inglês em Harvard. Iniciou estudos de pós-graduação e fez pesquisas na escola de medicina. Em 1878 apresentou sua dissertação sobre a percepção espacial e recebeu o primeiro diploma de doutorado em psicologia nos Estados Unidos.

Logo após receber seu diploma, Hall partiu de novo para a Europa, primeiro para es­tudar fisiologia em Berlim e depois para se tornar aluno de Wundt, em Leipzig, onde era vizinho de Fechner. A urgência de trabalhar com Wundt era maior do que a realidade. Embora Hall obrigatoriamente frequentasse as aulas de Wundt e servisse como sujeito no seu laboratório, ele conduziu sua própria pesquisa em fisiologia. A carreira subsequente de Hall mostra que, no final das contas, Wundt o influenciou muito pouco.

Dois anos mais tarde, quando Hall voltou aos Estados Unidos, ele não tinha nenhuma perspectiva de emprego, mas ainda assim, em 10 anos tornou-se uma figura de importância nacional. Hall identificou que a possibilidade de satisfazer sua ambição estava na aplicação da psicologia à educação. Em 1882 ele proferiu uma palestra em uma reunião da National Education Association (NEA) insistindo sobre a ideia de que o estudo psicológico de crianças fosse o componente importante da pedagogia. Repetia essa mensagem sempre que tinha a oportunidade. O presidente de Harvard o convidou a dar uma série de aulas sobre educação aos sábados de manhã. Essas palestras renderam a Hall uma publicidade muito favorável e um convite para lecionar meio período na Johns Hopkins University, a qual havia se estabelecido em Baltimore cinco anos antes como a primeira escola de pós-graduação nos Estados Unidos.

As aulas de Hall tiveram grande sucesso, e lhe foi oferecido um cargo de professor em Hopkins. Em 1883, ele inaugurou formalmente o primeiro laboratório de psicologia estadunidense, que costumava chamar de seu "laboratório de psicofisiologia" (Pauly, 1986, p. 30). Deu aula a um grupo de alunos que posteriormente se tornaram psicólogos famosos, entre eles John Dewey e James McKeen Cattell.

Em 1887, Hall fundou o American Journal o f Psychology, o primeiro periódico de psico­logia nos Estados Unidos e que até hoje é considerado uma publicação importante. Esse periódico serviu como uma plataforma para ideias teóricas e experimentais e para orientar a psicologia norte-americana ruma à solidariedade e independência. Devido ao grande entusiasmo, Hall imprimiu um número excessivo de cópias do primeiro número; levou cinco anos para pagar esses custos iniciais.

No ano seguinte, Hall tornou-se o primeiro presidente de Clark University, em Worcester, Massachusetts. Antes de iniciar o trabalho, embarcou para uma longa viagem com o objetivo de conhecer as universidades europeias e contratar o corpo docente de sua nova escola. Um escritor, ao escrever sobre os 100 primeiros anos da história de Clark University, observou que a viagem de Hall serviu como "férias remuneradas por serviços ainda não prestados. (...) incluía uma série de paradas totalmente irrelevantes para a tarefa futura, tais como academias militares na Rússia, lugares históricos na Grécia, além de bordéis, circos e outras curiosidades” (Koelsch, 1987, p. 21).

Hall aspirava fazer de Clark uma universidade de pós-graduação como Johns Hopkins e as universidades alemãs, enfatizando mais pesquisa do que o ensino. Além de presidente, foi também professor de psicologia, e deu aulas no curso de pós-graduação. Publicou por conta própria o periódico Pedagogical Seminary (atualmente Journal of Genetic Psychology), para servir de vínculo para as pesquisas sobre psicologia infantil e educacional. Em 1915 ele fundou o Journal of Applied Psychology, elevando o número de periódicos de psicologia norte-americana para 16.

A APA foi organizada em 1892, em grande parte pelos esforços de Hall. Aproximadamente doze psicólogos aceitaram seu convite para reunir em sua casa e planejar a organização, e o elegeram primeiro presidente. Em 1900, o grupo contava com 127 membros.

Hall manteve seu interesse pela religião. Fundou a Clark School of Religious Psychology e deu início ao Journal of Religious Psychology (1904), que foi publicado durante uma década. Escreveu um livro chamado Jesus, the Christ, in the light of psychology, mas sua visão de Jesus como um tipo de "super-homem adolescente" não foi muito bem recebida pela religião organizada (Ross, 1972).

Hall foi um dos primeiros psicólogos estadunidenses a se interessar pela psicanálise freudiana e foi o responsável, em grande parte, pela atenção inicial que o sistema de Sigmund Freud recebeu nos Estados Unidos. Em 1909, para celebrar os vinto anos da Clark University, Hall convidou Freud e Carl Jung para participarem das conferências comemorativas, convite corajoso porque muitos cientistas suspetaivam da psicanálise. Hall havia convidado inicialmente seu antigo professor, Wilhelm Wundt, que recusou por causa da sua idade e porque seria o palestrante principal da comemoração dos 500 anos de sua universidade em Leipzig.

A psicologia na Clark prosperou sob o comando de Hall. Nos 36 anos que passou lá, foram concedidos 81 diplomas de doutorado em psicologia. Seus alunos se lembram de seminários exaustivos, mas divertidos, às segundas-feiras, à noite, na casa de Hall, quando ele, o corpo docente e outros alunos de pós-graduação, examinavam oralmente os candidatos a doutorado. Depois dessas reuniões, que duravam até quatro horas, um empregado trazia uma enorme taça de sorvete.

Os comentários que Hall escrevia nos trabalhos de seus alunos podiam ser devastadores. Lewis Terman se lembra que:

Hall resumia as coisas com uma erudição e fertilidade de imaginação que sempre nos surperendia e fazia com que sentissemos que seu insight improvisado sobre o problema ia muito além do que o do aluno que havia dedicado meses de trabalho escravo. Sempre voltava para casa sentindo-me ofuscado e intoxicado, tomava um banho quente para acalmar meus nervos, e depois me deitava acordado por horas ensaiando o drama e formulando as coisas inteligentes que poderia ter dito, mas não o fiz (Terman, 1930/1961, p. 316).

Hall sempre dava preferência aos alunos inteligentes, desde que fossem adequadamente diferenciados, sendo muitas vezes generoso e encorajador. Pode-se afirmar que a maioria dos psicólogos estadunidenses associou-se a Hall na Clark ou Johns Hopkins, embora ele não tenha sido a fonte principal de inspiração para todos eles. Sua influência pessoal reflete-se melhor no fato de que um terço de seus alunos de doutorado seguiu carreira nas áreas administrativas da faculdade.

Hall tornou a Clark University mais receptiva às mulheres e minorias do que a grande parte das escolas dos Estados Unidos naquela época. Embora compartilhasse da oposição nacional à coeducação para alunos universitários, ele prontamente admitia mulheres como alunas de pós-graduação e como assistente para trabalhos de pesquisa. Tomou uma atitude pouco comum ao encorajar alunos japoneses a se matricularem na Clark e se recusava a restringir a contratação de judeus para o corpo docente como aconteceu na maioria das outras universidades. Também encorajou negros a fazerem o curso de pós-graduação.

O primeiro afro-americano a conseguir um Ph.D. em psicologia, Francis Cecil Sumner, estudou com Hall. Sumner posteriormente tornou-se diretor do departamento de psicologia em Howard University, em Washinghton DC, onde deu início a um programa acadêmico forte para introduzir negros na área de psicologia (Dewsbury e Pickren, 1992). Além disso, Sumner traduziu milhares de artigos de periódicos do alemão, francês e espa­nhol e escrevia resumos sobre eles para os periódicos de psicologia estadunidenses.

Depois que Hall se aposentou da Clark, em 1920, continuou a escrever. Morreu quatro anos mais tarde, alguns meses depois de eleito para o segundo mandato como presidente da APA. Uma pesquisa entre os participantes da APA sobre as contribuições de Hall para a psicologia mostrou que, entre as 120 pessoas que responderam à pesquisa, 99 classificaram Hall entre os 10 melhores psicólogos de todos os tempos. Muitos elogiaram sua capacidade como professor, seus esforços para promover a psicologia e seu desafio à ortodoxia, mas eles, bem como outras pessoas que o conheciam bem, criticavam suas qualidades pessoais. Hall era descrito como difícil, desonesto, inescrupuloso, divergente e que se autopromovia com agressividade. William James o chamou de "uma mistura muito estranha de grandeza e insignificância como jamais conheci" (apud Myers, 1986, p. 18). Mas até seus críticos concordavam com os resultados da pesquisa: "Hall produziu um grande número de trabalhos escritos e pesquisas, mais do que qualquer um dos outros três grandes nomes na área" {apud Koelsch, 1987, p. 52).

Evolução e Recapitulação da Teoria do Desenvolvimento

Embora Hall estivesse interessado em muitas áreas, seu percurso intelectual tinha um tema somente - a teoria evolucionista. Seu trabalho era governado pela convicção de que o crescimento normal da mente envolvia uma série de fases evolucionárias.

Hall frequentemente é chamado de psicólogo genético devido à sua preocupação com o desenvolvimento humano e animal e os problemas relacionados à adaptação. Enquanto esteve na Clark, seus interesses genéticos o levaram ao estudo psicológico da infância, onde baseou sua psicologia. Em um discurso proferido em 1893, na Feira Mundial de Chicago, ele disse: "Até agora temos ido à Europa para a nossa psicologia. Agora, vamos pegar uma criança e colocá-la em nosso meio e vamos fazer nossa própria psicologia nos Estados Unidos" (apud Siegel e White, 1982, p. 253). Hall pretendia aplicar sua psicologia ao funcionamento da criança no mundo real. Um aluno seu habilmente relembrou que "A criança tornou-se o laboratório de Hall" (Averill, 1990, p. 127).

Ao conduzir sua pesquisa, Hall fez uso extensivo de questionários, um procedimento que havia aprendido na Alemanha. Hall e seus alunos desenvolveram e administraram 194 questionários observando diferentes tópicos (White, 1990). Durante um tempo, o método tornou-se associado ao nome de Hall nos Estados Unidos, embora a técnica tivesse sido desenvolvida anteriormente na Inglaterra por Francis Galton.

Os primeiros estudos sobre crianças entusiasmaram o público em geral e levaram à formalização do movimento de estudo da criança. Entretanto, essa abordagem desapare­ceu em poucos anos devido à pesquisa mal executada. As amostragens de sujeitos eram inadequadas, os questionários eram falhos, os coletores de dados não tinham treinamento adequado, e os dados eram mal analisados - um esforço considerado como "psicologia muito pobre, imprecisa, inconsistente e mal orientada" (Thorndike, apud Berliner, 1993, p. 54). Apesar dessa crítica merecida, o movimento do estudo da criança promoveu tanto seu estudo empírico como o conceito de desenvolvimento psicológico.

O trabalho mais influente de Hall é Adolescence: its psychology and its relations to physiology anthropology sociology, sex, crime, religion, and education (1904) com 1.300 páginas, em dois volumes. Essa enciclopédia contém a mais completa declaração de Hall sobre a teoria da recapitulação do desenvolvimento psicológico. Em essência, Hall afirmou que as crianças, no seu desenvolvimento pessoal, repetem a história de vida da raça humana, evoluindo de um estágio próximo ao selvagem quando bebês e durante a infância, até um ser humano racional e civilizado na fase adulta.

O livro Adolescence tornou-se controvertido porque alguns psicólogos consideraram que a obra apresentava um enfoque excessivo e entusiasmado em sexo; Hall foi acusado de ter interesses lascivos. O psicólogo E. L. Thorndike escreveu em um comentário sobre o livro: "Aos sentimentos, normais e mórbidos, que resultam do sexo, são discutidos de um modo sem precedente na ciência inglesa." Thorndike foi ainda mais severo em uma carta que escreveu a um colega, dizendo que o livro de Hall "estava cheio de erros, masturbação e Jesus. Ele é um louco" (apud Ross, 1972, p. 385). Hall havia também programado uma série de palestras sobre sexo na Clark, uma atitude considerada escandalosa, embora não se permitisse a participação de mulheres. Posteriormente ele teve que interromper essas palestras, pois "muitos estranhos entravam e até ouviam por trás da porta" (Koelsch, 1970, p. 119). Não existe uma maneira de desviar a atenção de Hall desse período de cio?" escreveu Angell para Titchener. "Realmente acho que é uma coisa moral e intelectualmente errada harpear tanto na corda sexual" (apud Boakes, 1984, p. 163). Os psicólogos colegas de Hall não precisavam ter se preocupado; o Hall produtivo e cheio de energia logo voltou-se para outros interesses. À medida que envelheceu, naturalmente se tornou curioso a respeito das fases tardias do desenvolvimento humano. Aos 78 anos, ele publicou Senescence (1922), a primeira pesquisa em larga escala sobre assuntos psicológicos da velhice. Nos últimos anos de vida, escreveu duas autobiografias, Recreations of a psychologist (1920) e The life and confessions of a psychologist (1923).

Comentários

Certa vez Hall foi apresentado a uma plateia como o Darwin da mente. A caracterização evidentemente o agradou e expressou suas aspirações e a atitude que permeou seu trabalho. Em outra ocasião foi apresentado como "a maior autoridade no mundo sobre o estudo da criança," e esse elogio foi considerado correto (Koelsch, 1987, p. 58). Em sua segunda au­tobiografia ele escreveu: "Toda minha vida ativa consciente foi formada por uma série de modas ou loucuras, algumas fortes, outras fracas; algumas de longa duração (...) e outras efêmeras" (1923, p. 367-368). Foi uma observação perceptiva. Hall era corajoso, versátil e agressivo, frequentemente entrava em disputa com colegas, mas jamais foi enfadonho.


A Fundação do Funcionalismo

Os estudiosos relacionados com a fundação do funcionalismo não ambicionavam iniciar uma nova escola de pensamento. Eles apenas protestavam contra as restrições e limitações da psicologia de Wundt e do estruturalismo de Titchener e não desejavam substituí-los com outro "ismo" formal. A primeira razão era pessoal e não ideológica, já que nenhum dos principais proponentes do funcionalismo ambicionava estabelecer um movimento, do modo como fizeram Wundt e Titchener. Naquela época, o funcionalismo incorporava diversas características de uma escola de pensamento, mas esse não era o objetivo dos líderes. Eles pareciam satisfazer-se apenas em modificar a ortodoxia existente, sem lutar ativamente para substituí-la.

Desse modo, o funcionalismo jamais se constituiu em uma posição sistemática rígida ou diferenciada formalmente como o estruturalismo de Titchener. Não houve uma psicologia funcional única, assim como houve uma psicologia estrutural única. Várias psicologias fun­cionais coexistiram e, embora apresentassem algumas diferenças, todas compartilhavam o interesse no estudo das funções da consciência. Posteriormente, como resultado dessa ênfase nas funções mentais, os funcionalistas interessaram-se pelas possíveis aplicações da psicolo­gia aos problemas cotidianos em relação ao comportamento e à adaptação do homem nos diferentes ambientes. A rápida evolução da psicologia aplicada nos Estados Unidos pode ser considerada a herança mais importante do movimento funcionalista (veja no Capítulo 8).

Paradoxalmente, a formalização desse movimento de protesto foi imposta pelo funda­dor do estruturalismo: E. B. Titchener. Ele fundou indiretamente a psicologia funcional, ao adotar a palavra "estrutural" em oposição a "funcional" no artigo "The postulates of a structural psychology" ("Os postulados da psicologia estrutural" ) publicado na Philosophical Review em 1898. Nesse artigo, Titchener ressaltou as diferenças entre a psicologia fun­cional e a estrutural e argumentou que o estruturalismo era o único estudo adequado de psicologia.

Ao estabelecer o funcionalismo como oposição, Titchener sem querer ofereceu-lhe uma identidade e um status que talvez nunca viesse a obter. "O que Titchener estava cri­ticando, na verdade, não tinha nome, até ele batizá-lo; a partir de então, ele deu impulso ao movimento, destacando e divulgando o termo funcionalismo, que acabou tornando-se conhecido" (Harrison, 1963, p. 395).

A Escola de Chicago

Nem todo o crédito pela fundação do funcionalismo deve-se a Titchener, mas os psicólo­gos que a história batizou de fundadores da psicologia funcional foram, no máximo, fun­dadores relutantes. Dois psicólogos que contribuíram diretamente na fundação da escola de pensamento funcionalista foram John Dewey e James Rowland Angell. Em 1894, eles chegaram à recém-criada University of Chicago; mais tarde, foram capa da revista Time.

Foi nada menos do que William James a anunciar posteriormente Dewey e Angel como responsáveis pela fundação do novo sistema que ele designou a "escola de Chicago" (in Backe, 2001, p. 328).

John Dewey (1859-1952)

John Dewey teve uma infância comum e não demonstrava grande capacidade intelectual até começar a frequentar a University of Vermont. Depois de se formar, lecionou no ensino médio durante alguns anos e estudou filosofia por conta própria, escrevendo alguns artigos acadêmicos. Iniciou a pós-graduação na Johns Hopkins University, em Baltimore, comple­tando o doutorado em 1884. Lecionou nas universidades de Michigan e Minnesota. Em 1886 publicou o primeiro manual estadunidense com base na nova psicologia (adequada­mente intitulado Psicologia) que teve grande sucesso nos Estados Unidos e Europa. Com isso Dewey adquiriu fama instantânea, pois era o único livro disponível adequado para o ensino nas universidades estadunidenses" (Martin, 2002, p. 105). O livro foi bastante popular até ser ofuscado em 1890 por The principies of psychology de James.

Dewey permaneceu 10 anos na University of Chicago. Criou a escola-laboratório, uma inovação radical na educação que se tornou um marco do movimento educacional progres­sivo. Em 1904, foi para a Columbia University, em Nova York, onde prosseguiu com seu trabalho de aplicação da psicologia aos problemas educacionais e filosóficos, tornando-se, assim, outro exemplo da orientação prática de vários psicólogos funcionalistas.
Apesar de brilhante, Dewey não era bom professor. Um de seus alunos lembrou-se de que ele usava uma boina verde.

Ele entrava [na classe], sentava-se à mesa e colocava a boina à sua frente, falando sempre no mesmo tom de voz, como se estivesse dando aula para a boina. (...) Era inevitável que muitos alunos caíssem no sono. Todavia, se você fosse capaz de prestar atenção ao que ele falava, realmente valia a pena! (May, 1978, p. 655)

Frequentemente sua aula da tarde continuava além do horário, pois ele ficava muito en­volvido no assunto. Sua esposa costumava mandar um de seus filhos até a sala de aula para lembrá-lo que era hora de ir para casa. Geralmente "colocava a criança sentada na mesa enquanto terminava seu pensamento" (Martin, 2002, p. 259).

Arco Reflexo

O artigo de Dewey “The reflex arc concept in psychology" ("O conceito do arco reflexo na psicologia ), publicado na Psychological Review (1896), foi o ponto de partida da psicolo­gia funcional. Realmente, um historiador afirmou ter sido o artigo o "tiro inaugural" do movimento funcionalista (Bergmann, 1956, p. 268). Ele se tornou tão popular que foi votado como o "artigo mais importante publicado nos primeiros 50 volumes da Psychological Review" (Backe, 2001, p. 329).

Nesse importante trabalho, Dewey criticava o aspecto molecular, elementar e reducionista psicológico do arco reflexo, devido à sua distinção entre o estímulo e a respos­ta. Por meio dessa crítica, Dewey alegava não ser possível reduzir o comportamento ou a experiência consciente aos seus elementos componentes, como afirmavam Wundt e Titchener. Assim, Dewey atacava o ponto principal das suas abordagens da psicologia. Os proponentes do arco reflexo argumentavam que qualquer unidade de comportamento extingue a resposta a um estímulo, por exemplo, quando a criança afasta a mão do fogo.

Dewey sugeria que o reflexo formava mais um círculo do que um arco, já que a percepção da criança sobre a chama muda, servindo, assim, a diferentes funções. Inicialmente, a chama atrai a criança, mas, logo em seguida, ao sentir seus efeitos repele o fogo. A resposta altera a percepção da criança sobre o estímulo (a chama). Portanto, a percepção e o movimento (o estímulo e a resposta) devem ser vistos como uma unidade e não como uma composição de sensações e respostas individuais.

Assim, Dewey argumentava não ser possível a redução do comportamento envolvido na resposta reflexiva a elementos sensório-motores básicos, assim como era impossível anali­sar de forma adequada a consciência, dividindo-a em partes componentes elementares. Esse tipo de analise e redução artificiais faz com que o comportamento perca todo o sentido, deixando apenas abstrações na mente do psicólogo que está realizando o exer­cício. Dewey observou que o comportamento não deve ser tratado como um constructo científico artificial, mas em termos de seu significado para o organismo, na adaptação ao ambiente. Ele concluiu que o objeto de estudo mais adequado para a psicologia seria a analise do organismo inteiro e o seu funcionamento no ambiente.

Comentários

O evoluciomsmo exerceu grande influência sobre as ideias de Dewey. Na luta pela sobre­vivência, tanto a consciência como o comportamento trabalham para o organismo - a consciência gera o comportamento adequado que permite ao organismo sobreviver. Como consequencia, a psicologia funcional dedicou-se ao estudo do organismo em fun­cionamento.

É mteressante observar que Dewey jamais chamou a sua psicologia de funcionalismo. Aparentemente, não acreditava que a estrutura e a função tivessem sentido separadamen­te apesar do seu ataque contra a premissa básica do estruturalismo. Angell e outros psicólogos ficaram encarregados de declarar que o funcionalismo e o estruturalismo eram formas contrarias de psicologia.

A importância de Dewey para a psicologia está na sua influência sobre os psicólogos e outros estudiosos e no desenvolvimento da estrutura filosófica da nova escola de pensa­mento. Quando ele deixou a University of Chicago em 1904, Angell passou a ser o líder do movimento funcionalista.

James Rowland Angell (1869-1949)

James Rowland Angell moldou o movimento funcionalista, transformando-o em uma escola de pensamento utilitária. Graças ao seu trabalho, o departamento de psicologia da University ot Chicago foi o mais importante da sua época e a principal base de orientação para os psicologos funcionalistas.

A Biografia de Angell

Angell nasceu em uma família de acadêmicos, em Vermont. Seu avô fora reitor da Brown University, em Providence, Rhode Island, e seu pai, reitor da Vermont University e depois da University of Michigan, onde Angell se formou e teve aulas com Dewey. Leu também The principies of psychology, de James, e afirmou ter sido o livro que mais influenciou seu pensamento. Angell trabalhou um ano com James, em Harvard, e obteve o mestrado em 1892.

Seguiu para a Europa para continuar seus estudos de pós-graduacão nas universi­dades de Halle e Berlim, na Alemanha. Em Berlim, assistiu às aulas de Ebbinghaus e Helmholtz. Desejava seguir para Leipzig, mas Wundt não estava mais aceitando alunos naquele ano. Angell não conseguiu completar seu trabalho de doutorado. Sua tese fora aceita mediante a condição de que a redação em alemão fosse melhorada, mas para isso teria de permanecer em Halle sem qualquer fonte de renda. Decidiu aceitar a indicação para lecionar na University of Minnesota, cujo salário, embora baixo, era razoável para quem desejava casar-se depois de um noivado de quatro anos. Apesar de jamais ter con­cluído o doutorado, orientou diversos doutorandos e, no curso da sua carreira, recebeu 23 títulos honorários.

Depois de um ano em Minnesota, Angell aceitou trabalhar na University of Chicago, onde permaneceu por 25 anos. Seguindo a tradição familiar, foi reitor da Yale University e ajudou a desenvolver o Instituto de Relações Humanas. Em 1906, foi eleito 15° presi­dente da APA e, depois de se aposentar da vida acadêmica, foi conselheiro da National Broadcasting Company (NBC).

A revista Time, e outras pessoas que o conheciam bem, descreveu Angell como "um homem alegre e saltitante" e "a alegria da festa." Seu apelido na University of Chicago era "Jim, o Radiante". Também se comentava que não era aconselhável andar a pé ou de carro com ele, pois "ele tinha o hábito inacreditável de atravessar a rua sem prestar atenção ao trânsito. Sinais de trânsito não significam nada para ele. (...) Com a mesma segurança descuidada e habilidade incrível, ele dirige seu carro" (apuá Dewsbury, 2003, p. 66-69).

A Esfera de Ação da Psicologia Funcional

O livro de Angell, Psychology (1904), incorpora a abordagem funcionalista e obteve tanto sucesso que foram publicadas quatro edições em quatro anos, sinalizando o apelo da posição funcionalista. Nele, Angell afirmava ser função da consciência a melhoria da capacidade de adaptação do organismo. O objetivo da psicologia era estudar de que modo a mente auxilia o organismo a se adaptar ao seu ambiente.

No discurso de posse como presidente da APA, em 1906, publicado na Psychological Review, Angell descreveu o que chamou de "esfera de atuação" da psicologia funcional. Até aqui observamos que os novos movimentos ganharam impulso somente quando se referiram ou se opuseram à posição popular naquele momento. Angell traçou as linhas da batalha com avidez, mas concluiu com modéstia: "Renuncio formalmente a qualquer intenção de traçar novos planos; estou comprometido com o que se propõe ser um sumá­rio imparcial das condições reais" (Angell, 1907, p. 61).

A psicologia funcional, afirmou Angell, não consiste, de todo, em uma novidade e sim em uma parte significativa da psicologia desde o seu início. Foi a psicologia estrutural que se colocou à parte da forma de psicologia funcional mais antiga e verdadeiramente mais difusa. Assim Angell descreveu os três principais temas do movimento funcionalista:

  1. A psicologia funcional é a psicologia da operação mental, ao contrário do estruturalismo, que é a psicologia dos elementos mentais. O aspecto elementar da psicologia de Titchener ainda contava com defensores e Angell promovia o funcionalismo em oposição direta a ele. A tarefa do funcionalismo é descobrir o modus operandi do processo mental, as suas realizações e as condições sob as quais ele ocorre;
  2. 2. A psicologia funcional é a psicologia das utilidades fundamentais da consciên­cia. Desse modo, a consciência é vista como um instrumento utilitário, já que faz a mediação entre as necessidades do organismo e as condições do ambiente. As estruturas e as funções orgânicas existem a fim de permitir que o organismo se adapte ao ambiente para, assim, sobreviver. Angell sugeria que a consciência sobrevivia para executar alguma função essencial para o organismo. Os psicólo­gos funcionalistas precisavam descobrir exatamente qual era essa função, não apenas da consciência como também dos processos mentais mais específicos, como o julgamento e a vontade;
  3. 3. A psicologia funcional é a psicologia das relações psicofísicas (as relações mente-corpo) e dedica-se ao estudo de todas as relações entre o organismo e seu ambien­te. O funcionalismo abrange todas as funções mente-corpo e não faz qualquer distinção entre a mente e o corpo. Ele os considera pertencentes à mesma classe e admite a facilidade de transferência entre eles.

Comentários

O discurso de posse de Angell na APA foi realizado em uma época em que o espírito do funcionalismo já era amplamente aceito. Angell moldou esse espírito em uma empreita­da ativa e destacada, tendo como instrumentos um laboratório, um corpo de dados de pesquisa, um grupo de professores entusiasmados e um núcleo de dedicados estudantes de pós-graduação. Ao dirigir o funcionalismo para ocupar o status de escola formal, atribuiu-lhe o enfoque e a importância para efetivá-lo. Todavia, continuou a afirmar que o fun­cionalismo não constituía na verdade uma escola de pensamento separada nem devia ser relacionado exclusivamente com a University of Chicago. Apesar das objeções de Angell, o funcionalismo prosperou e frequentemente referiam-se a ele como a "escola de Chicago", sendo permanentemente associado com o tipo de psicologia ensinado e praticado ali.

Harvey A. Carr (1873-1954)

Harvey Carr fez especialização em matemática na DePauw University, Indiana, e na Uni­versity of Colorado. Passou a se interessar pela psicologia aparentemente por admirar o professor. "Decidi tornar-me psicólogo", declarou, "embora conheça muito pouco a respeito da natureza da matéria" (Carr, 1930/1961. p. 71). Não existia laboratório de psicologia em Colorado, então, Carr transferiu-se para a University of Chicago, na qual seu primeiro profes­sor de psicologia experimental foi o jovem professor-assistente, James Rowland Angell.

No seu segundo ano em Chicago, Carr trabalhou como assistente de laboratório de John B. Watson que, na época, era instrutor e mais tarde viria a fundar a escola de pensa­mento behaviorista. Watson apresentou a Carr a psicologia animal.

Depois de obter o doutorado em 1905, Carr lecionou em uma escola de ensino médio no Texas e, em Michigan, em uma faculdade para professores estaduais. Em 1908, retor­nou a Chicago para substituir Watson que havia aceitado uma posição na Johns Hopkins University. Por fim, Carr sucedeu Angell como chefe do departamento de psicologia da University of Chicago. Durante o mandato de Carr (1919-1938), o departamento de psico­logia concedeu 150 títulos de doutorado.

Funcionalismo: o Formato Final

Carr aprimorou a posição teórica de Angell e seu trabalho representava o funcionalismo, quando não precisava mais batalhar contra o estruturalismo. O funcionalismo superara a oposição e adquirira direitos legítimos sobre a própria posição. No período de Carr, o funcionalismo em Chicago atingiu o ápice como sistema formal. Carr alegava ser a psi­cologia funcional a psicologia estadunidense. Afirmava que as demais versões de psicologias propostas naquela época, como o behaviorismo, a psicologia da Gestalt e a psicanálise, dedicavam-se apenas a alguns aspectos limitados do campo. Acreditava que essas visões não tinham muito a acrescentar na tão abrangente psicologia funcionalista.

O livro básico de Carr, Psychology (1925), apresenta a forma mais refinada de funcio­nalismo, do qual se destacam dois pontos principais:

  • Carr definiu a atividade mental como objeto de estudo da psicologia - os processos mentais, como a memória, a percepção, o sentimento, a imaginação, o julgamento e a vontade;
  • A função da atividade mental é a aquisição, fixação, retenção, organização e ava­liação das experiências e a sua utilização para determinar a ação de uma pessoa. Carr chamou a forma específica de ação, na qual aparece a atividade mental, de comportamento de "adaptação" ou "ajuste”.

É possível perceber, nas ideias de Carr, a ênfase familiar da psicologia funcional nos pro­cessos mentais e não nos elementos nem no conteúdo da consciência. E, ainda, observa-se uma descrição da atividade mental em termos das realizações que permitem a adaptação do organismo a seu ambiente. É importante ressaltar que, em 1925, essas questões já eram aceitas como fatos e não mais como objeto de debate. Nesse período, o funcionalismo já era considerado psicologia geral.

Como muitos psicólogos se consideravam, de alguma forma, funcionalistas, essa deno­minação começou a perder o significado. Os profissionais da área denominavam-se sim­plesmente psicólogos e não era necessário afirmar que a atitude funcional fazia parte do comportamento do psicólogo. (Wagner e Owens, 1992, p. 10)

Carr aceitava os dados obtidos por meio dos métodos experimental e introspectivo. Assim como Wundt, acreditava que as criações artísticas e literárias de uma cultura dariam indicações sobre as atividades mentais que a produziram. Embora o funcionalismo não adotasse uma metodologia única, como fazia o estruturalismo, na prática, a ênfase estava na objetividade. Quando se empregava a introspecção, ela era limitada ao máximo por controles objetivos. Além disso, é importante observar que o funcionalismo empregava nas pesquisas tanto animais como seres humanos.

A escola funcionalista de Chicago promoveu a transferência do estudo exclusivo da mente e da consciência subjetiva para o estudo do comportamento objetivo e patente. O funcionalismo ajudou a redefinir a psicologia estadunidense, que acabou concentrando o foco no comportamento e eliminando o estudo da mente como um todo. Nesse sentido, os funcionalistas criaram uma ponte entre a psicologia estruturalista e a psicologia comportamental de Watson, que viria a ser a subsequente proposta revolucionária.

Funcionalismo na Columbia University

Como observamos até agora, não existiu uma forma única de psicologia funcional nos mesmos moldes da psicologia estrutural exclusiva de Titchener. Embora a evolução inicial e a fundação da escola de pensamento funcionalista houvessem ocorrido na University of Chicago, outro ponto de vista vinha sendo formado por Robert Woodworth na Columbia University. Essa universidade também foi a base acadêmica de outros dois psicólogos de orientação funcionalis­ ta. Um foi James McKeen Cattell, cujo trabalho sobre os testes mentais incorporou o espírito funcionalista estadunidense, e o outro foi E. L. Thorndike, cuja pesquisa a respeito dos problemas da aprendizagem animal reforçou a tendência funcionalista à maior objetividade.

Robert Sessions Woodworth (1869-1962)

Robert Woodworth não pertencia formalmente à escola de pensamento funcionalista como pertenciam tradicionalmente Carr e Angell. Ele não apreciava as restrições impostas por membros de qualquer escola de pensamento. Entretanto, grande parte do trabalho que escreveu sobre a psicologia seguia o espírito funcionalista da escola de Chicago, além de haver introduzido um importante ponto de vista.

Contribuições do Funcionalismo

A forte oposição do funcionalismo ao estruturalismo teve enorme impacto na evolução da psicologia nos Estados Unidos. A amplitude das consequências da transferência da ênfa­se da estrutura para a função também foi bastante significativa. Um dos resultados foi a incorporação da pesquisa do comportamento animal, que não fazia parte do tratamento estruturalista como área de estudo da psicologia. A ampla base da psicologia funcionalista também incorporava os estudos sobre bebês, crianças e adultos com dificuldades mentais. Os funcionalistas complementavam o método introspectivo com dados obtidos por meio de outros métodos, como a pesquisa fisiológi­ca, os testes mentais, os questionários e as descrições objetivas do comportamento. Essas abordagens, rejeitadas pelos estruturalistas, transformaram-se em fontes respeitáveis de informação para a psicologia.

Na época da morte de Wundt, em 1920, e de Titchener, em 1927, suas abordagens já estavam obscuras nos Estados Unidos. Por volta de 1930, consolidava-se a vitória do fun­cionalismo. Como veremos no Capítulo 8, o funcionalismo deixou a sua marca na psico­logia estadunidense contemporânea mais significativamente devido à ênfase na aplicação dos métodos e das descobertas da psicologia para a solução dos problemas práticos.

Psicologia - História da Psicologia
1/19/2020 6:04:39 PM | Por Janine Trotereau
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Por que Felipe, o belo, rei da França, combateu a ordem do Templo?

Motivos pessoais - A ambição do rei foi o principal motivo da prisão dos Templários. Felipe, o Belo foi o primeiro rei capetiano a utilizar exércitos mercenários. Precisava de dinheiro para pagá-los. Antes, os senhores armavam seus próprios cavaleiros e o rei não intervinha, financeiramente falando. Agora, o Grão-Mestre do Templo, Jacques de Molay, refugiado em Chipre, última terra cristã no Oriente, colocava à disposição um verdadeiro tesouro para financiar uma nova cruzada para reconquistar a Palestina. Quando voltou para a França, trouxe o tesouro e depositou-o na casa-mãe em Paris. Felipe, o Belo esperava colocar as mãos nessa excepcional fortuna e sobre os bens imobiliários da Ordem. Entretanto, estes últimos foram distribuídos pelo papa para a Ordem dos Hospitalários.

Enquanto estavam na Palestina, os Templários não representavam nenhum perigo para a Coroa. Mas quando, terminadas as cruzadas, voltaram para a Europa Ocidental, e particularmente para a França - quatro quintos da Ordem eram franceses - o rei se viu diante de uma tropa de 30 mil homens armados que conheciam perfeitamente as artes da guerra.

Os Templários poderiam facilmente ter derrubado o poder. Certamente eles não o fariam jamais, pois eram dedicados à Santa Sé, à Terra Santa e às virtudes religiosas.

Motivos políticos - Em 1291, a queda de São João de Acre marcou o fim do reino de Jerusalém. Os Templários, mergulhados em seu quixotismo religioso, não pensaram de modo algum em procurar um local para se fixarem, como fizeram os cavaleiros Teutônicos na Prússia, ou os Hospitalários em Malta.

A França transformou-se de Estado feudal em um Estado moderno fortemente centralizado. Felipe, desejando controlá-lo, retirou, pouco a pouco, as atribuições dos grandes senhores feudais. Com os Templários, ele descobriu um verdadeiro Estado dentro do Estado, ainda mais temível do que qualquer principado feudal subsistente. O rei, não podendo aceitá-lo, tentou obter a fusão das duas ordens religiosas-militares, Templários e Hospitalários, com o objetivo de impor um de seus filhos como Grão-Mestre à frente dessa nova Ordem. Desse modo, esperava poder controlar essas forças militares que ele temia e dispor facilmente de suas riquezas. O projeto fracassou, em grande parte devido à falta de visão de Jacques de Molay, o Grão-Mestre então em função, que não compreendeu a que perigo, ele expôs a ordem da qual era responsável. Se ele tivesse aceitado a fusão, jamais teriam ocorrido os processos contra o Templo.

História - Cavaleiros Templários
1/19/2020 12:15:01 PM | Por Carlos Augusto de Proença Rosa
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Ciência e conhecimento científico na mesopotâmia

As comunidades que se formaram nos férteis vales dos rios Eufrates e Tigre, do Nilo, do Amarelo e do Indo e Ganges, evoluiriam para um estágio relativamente avançado, origem das primeiras civilizações da História, ou seja, das culturas da Mesopotâmia, do Egito, da China e da Índia. Esse início do processo civilizador só foi possível a partir da invenção da escrita, por volta de 5,5 mil anos atrás, que ocorreria de forma independente e quase simultânea como uma necessidade social desses povos, provavelmente para registrar contas e operações comerciais, acontecimentos políticos, religiosos e militares, e regras de convivência social.

O primeiro sistema de escrita, que utilizava um bambu talhado em forma de cunha sobre tábuas de argila úmida (daí o nome de escrita cuneiforme), foi inventado na Suméria, na região Sul da Mesopotâmia. Inicialmente, os sumérios usavam desenhos para representar cada objeto ou acontecimento, chegando, segundo os estudiosos, a 1.600 o número de pictogramas na escrita cuneiforme inicial. O sistema seria simplificado, depois, pelos próprios sumérios, com a aproximação da escrita ao som da palavra por meio de signos ou ideogramas. Por essa mesma época, os egípcios inventariam os hieróglifos, que escreviam com sinais gráficos mais simples em papiros (rolos e folhas). Chineses e hindus criariam, também, nessa época, sistema de escrita em ideogramas, a exemplo dos sumérios. A escrita alfabética surgiria apenas no segundo milênio, com os fenícios (22 letras), aperfeiçoada, posteriormente, pelos gregos, com a introdução das vogais, em um total de 24 letras.

Apesar da complexidade da escrita por ideogramas, e de sua utilização restrita a um pequeno grupo de iniciados (escribas), o papel da escrita, ao proporcionar o registro das tradições orais, substituindo, com evidentes vantagens, a memória como depósito principal do conhecimento, seria determinante e decisivo na passagem da Sociedade humana de um estágio cultural para um mais complexo, estimulante do exame e da crítica e exigente de novos processos de pensamento, como a abstração.

A partir daí, o desenvolvimento cultural, econômico, técnico e social dessas comunidades adquiriria novo ritmo, o que viria permitir o surgimento dessas civilizações, dado que estariam preenchidas condições de urbanização, estrutura social, comunidade de língua, de crença e de costumes, e um sistema de contagem e de escrita.

Dessas quatro grandes civilizações, as duas primeiras duraram pouco menos de 4 mil anos. A civilização da Mesopotâmia terminaria com a conquista da Babilônia pelo Rei persa Ciro, em 539 a.e.c., e, posteriormente, pela submissão do Império Persa a Alexandre da Macedônia, que expandiria a cultura grega na região. A cultura mesopotâmica seria gradativamente abandonada, até seus últimos vestígios desaparecerem definitivamente, com a conquista de toda a região, inclusive a Pérsia, pelo Islã, nos séculos VII e VIII. A civilização do Egito, iniciada com a unificação, por Meno (3150-3125), do Alto e Baixo Egito, entraria em crise a partir da conquista do Império por Alexandre, em 332, quando a influência grega se afirmaria, com o desenvolvimento de Alexandria como grande centro da cultura helênica sob a dinastia dos Ptolomeus. A derrota egípcia, em 31 antes da era comum, na Batalha de Actium, transformou o Império em mera província romana, o que agravaria, ainda mais, o grau de deterioração e de decadência da antiga cultura egípcia. Quando a região foi invadida e dominada pelos árabes muçulmanos (século VII), pouco ou quase nada restara da antiga civilização.

As outras duas grandes civilizações, a da China e a da Índia, têm a particularidade de uma existência de mais de 4 mil anos, resistindo a invasões e dinastias estrangeiras e se mantendo até os dias atuais por um processo evolutivo próprio. Até a proclamação da República na China (1912) e da independência da Índia (1947), os fundamentos de ambas as culturas, ainda que diferentes entre si, permaneceram atuantes e válidos, ao longo desse processo histórico, o que explica a surpreendente continuidade dessas civilizações até hoje.

Hititas, persas, fenícios e hebreus foram, basicamente, caudatários de técnicas desenvolvidas por outros povos, mas tiveram algumas características e iniciativas que os diferenciaram das outras culturas: os fenícios, pela invenção do alfabeto; os hebreus, pelo monoteísmo; os hititas, pelo aproveitamento pioneiro do ferro; e os persas, pela criação de um formidável Império.

A Ciência é uma criação grega, primeiro povo que demonstrou a necessária capacidade de abstração e de racionalidade, inexistente em outras culturas da época, para desenvolver um espírito inquisitivo, crítico e analítico, indispensável para tal criação. A ausência desses atributos nas culturas mesopotâmica, egípcia, chinesa e hindu, bem como nas demais de mesma época, explica não ter sido possível a esses povos criar a Ciência. Fruto da imaginação, da capacidade inventiva e das demandas da Sociedade, essas quatro grandes civilizações seriam capazes, contudo, de criar, aperfeiçoar e inovar, em diversos campos, através da Técnica, o que lhes permitiria estabelecer as condições para o grande desenvolvimento de suas sociedades; o avanço e a expansão do artesanato, da mineração e da metalurgia ilustram este ponto. A existente pré-Ciência tinha um fundo meramente prático, na aplicação de técnicas de contagem e medição, de tratamento de doenças e de observação da abóbada e dos corpos celestes para fins religiosos e agrícolas. A explicação teórica dos fenômenos naturais escapava ao domínio das preocupações desses povos, cujas crendices e superstições fetichistas dominavam suas mentes e sua cultura.

Mesopotâmia

A cultura do Período Neolítico e da Idade dos Metais floresceu em uma região mesopotâmica, no Oriente Médio, conhecida hoje como Crescente Fértil e daí se irradiou para regiões circunvizinhas da Ásia Menor e Pérsia. Apesar das condições adversas de solo e clima, os povos que chegaram às férteis planícies e ricos vales banhados pelos rios Tigre e Eufrates, em busca de alimento, foram capazes de aí se fixar, desenvolver a agricultura e criar uma vida comunitária rural. Em contraste com a regularidade benéfica das cheias do Nilo, o fluxo das águas dos rios da Mesopotâmia é irregular e imprevisível, produzindo situações de seca em um ano e de inundações em outro. A construção de canais de irrigação, de açudes e de barragens permitiu a regularização do fluxo das águas, a conquista de novas áreas agricultáveis e o desenvolvimento da produção agrícola. As novas condições econômicas levariam a um aumento demográfico, ao sedentarismo e ao surgimento de vilas. Ainda no Período Neolítico, os notáveis avanços técnicos em diversos setores (criação de animais, cerâmica, tecelagem, utilização da roda, tração animal e energia eólica) demonstram a capacidade criativa e de adaptação, além do caráter prático, utilitário, daquele povo.

A chamada civilização mesopotâmica nasceu exatamente nessa área privilegiada do Crescente Fértil e herdou toda essa base cultural, ponto de partida para novos desenvolvimentos em várias atividades: intelectuais, políticas, religiosas, técnicas. A parte sul, banhada pelo Golfo Pérsico, era conhecida como Suméria; o centro, correspondendo ao curso médio dos rios Tigre e Eufrates, era chamado de Agadé ou País de Acad; e a parte Norte, próxima às nascentes dos dois rios, era denominada de Assíria ou Assur.

A cultura desenvolvida na região, com a Revolução Agrícola, se situou no início do Período que os historiadores e arqueólogos chamam de Idade dos Metais, quando o cobre, o bronze e o ferro substituiriam a pedra como principais materiais para a confecção dos instrumentos, implementos, objetos e armas; o chumbo e o estanho seriam usados em um Período mais recente da História dos povos da Mesopotâmia. O ouro e a prata, por sua maleabilidade, seriam utilizados como adornos, peças de decoração e em cerimônias fúnebres. Em consequência do valor dos metais na Sociedade, as técnicas de mineração e metalurgia se aprimoraram e os artesãos de ourivesaria seriam prestigiados.

Foi extraordinária a abrangência dessa civilização: área territorial extensa em seu apogeu (Oriente Médio, Ásia Menor), longo período cronológico (desde a urbanização e a invenção da escrita, no quarto milênio, até a helenização de toda aquela região a partir de 331, pela conquista de Alexandre), e grande variedade de povos (sumérios, acádios, amoritas, semitas, cassitas, hurritas, caldeus, hititas, babilônios, assírios) que se revezaram no domínio político local ou regional. Apesar de toda a complexidade decorrente dessa abrangência na evolução cultural e técnica, é aceito ser a civilização mesopotâmica fundamentalmente constituída pelas culturas suméria e babilônica, já que os demais povos pouco aportaram e se submeteram à influência dessas culturas mais avançadas. O uso da escrita cuneiforme suméria explica o forte laço da unidade política e cultural, ao longo das várias dinastias. Leis, códigos, registros de impostos, cartas pessoais, lições de escola, transações comerciais e efemérides eram registrados em tábuas de argila, reforçando esse sentimento de unidade das comunidades. O declínio se iniciou com a conquista de toda essa região por Ciro, em 539 a.e.c., que, ao fundar o grande Império Persa, submeteria a cultura sumério-babilônica aos interesses, às tradições e à cultura persa; a antiga tradição passaria a ser uma mera expressão do passado, e a região uma simples província do Império Persa.

Considerações Gerais

O conhecimento da cultura mesopotâmica data de meados do século XIX, a partir do extraordinário trabalho de decifração da escrita cuneiforme pelo orientalista inglês Sir Henry Rawlinson (1810-1895), que aperfeiçoou uma chave sugerida pelo arqueólogo e filólogo alemão Georg Grotenfend (1775-1853), que realizara algum progresso na leitura da escrita cuneiforme. Inscrições esculpidas em uma monumental baixo-relevo, com cerca de 100 m2, achado em um grande rochedo, perto da aldeia de Behistun, no Noroeste do atual Irã, serviriam de peça principal para a decifração da escrita. As inscrições estão gravadas em 13 painéis, em uma superfície aproximada de 50 m por 30 m em três línguas: persa antigo, elamita e acadiano, todas em escrita cuneiforme. As inscrições e o relevo datam de 516 a.e.c., sob as ordens de Dario, o Grande[1]. Rawlinson copiou tais inscrições, e, após paciente e exaustivo trabalho, publicou alguns livros nos quais apresentou o sucesso de suas pesquisas e de sua descoberta. Um intenso trabalho de arqueologia na região mesopotâmica se seguiu, o que permitiria descobrir, até hoje, mais de 500 mil tábuas de argila com inscrições sobre variados temas. No local da antiga Nippur foram escavadas mais de 50 mil tábuas, e na Biblioteca Real de Nínive, cerca de 25 mil. Dispõe-se, assim, de razoável quantidade de material com variada informação sobre diversos aspectos da vida desses povos em muitos períodos da história babilônica. Graças às pesquisas e ao trabalho arqueológico na região, deve-se esperar, em um futuro próximo, maior conhecimento da cultura mesopotâmica.

A invenção da escrita foi, talvez, a maior contribuição dos sumérios à cultura humana. Considera-se a escrita como o marco do fim do Período Pré-Histórico, e, consequentemente, o início da História, ao tornar possível, pelo registro dos fatos e obras, o conhecimento da evolução da Sociedade humana, de suas conquistas e realizações. Ainda que não seja possível precisar uma data para sua invenção, por se tratar de obra de gerações, e não de um indivíduo, a mais antiga tabuleta com a escrita cuneiforme primitiva, encontrada em Uruk, é estimada em 5 mil anos atrás. A invenção, pelos sumérios, no terceiro milênio, surgiu da necessidade de atender aos crescentes requisitos de uma Sociedade mais complexa, como as atividades comerciais e as ordenanças reais, que não podiam continuar dependendo da transmissão oral, da memória, para a troca de dados e informações. A técnica empregada era a seguinte: com a ponta afiada de um junco, se desenhava em uma plaqueta de argila um signo pictográfico (haveria cerca de 1.600 signos – cabeça de boi, espiga de trigo, pote, etc.). Com o tempo, os signos passaram a ser feitos com a ponta do junco, em forma de cunha, na tábua ou plaqueta de argila compactada, e depois, cozida. A escrita (terceiro milênio) evoluiu de uma figura concreta para o ideograma cuneiforme de valor silábico (Tell Brak – Norte da Síria).

Outro desenvolvimento da maior importância, que explica o surgimento da civilização sumério-babilônica, foi o aparecimento de grandes centros urbanos na Mesopotâmia, em decorrência do grande aumento populacional e econômico da região, proporcionado pela Revolução Agrícola, no Período Neolítico e Proto-Histórico. A radical transformação de uma população nômade e predadora em uma sedentária e produtora criaria as condições indispensáveis para a ocorrência da chamada Revolução Urbana, no início da Idade do Bronze (quarto milênio), cujas repercussões seriam igualmente decisivas na formação de uma nova estrutura social e uma nova organização política, ou seja, no nascimento de uma nova Sociedade. Essas cidades se constituiriam no centro político, econômico, religioso e cultural da região, monopolizando a riqueza e o poder, político e religioso.

Por não dispor de defesas naturais (vulnerabilidade das planícies) e por ter alcançado um relativamente alto nível de desenvolvimento econômico e cultural, a região foi continuamente objeto da cobiça de seus vizinhos e da rivalidade das diversas etnias. Essa instabilidade política tornou evidente a necessidade de proteger a riqueza acumulada com o excedente de safra agrícola, com a aquisição de objetos e materiais comercializados com outros povos, bem como de defender os templos, centros espirituais da comunidade. A criação de cidades muradas, onde  eram armazenados os alimentos, exercidos os ofícios de artesanato e de comércio e onde estavam protegidas as classes aristocráticas e sacerdotais, tinha, portanto, um objetivo defensivo, entre outros (econômico, religioso, político, social). Suas principais construções eram os palácios e os templos, para abrigar a elite governante; murada, a cidade se protegia de ataques externos e mantinha, em conveniente distância, a população trabalhadora rural. Uma das principais edificações era o zigurate, vasta estrutura em forma de pirâmide escalonada ou torre, composta por sucessivos terraços, encimada por um templo ou santuário, que se atingia por meio de largas escadas. O mais notável zigurate era o da cidade de Ur, dedicado a Nanna ou Sin, deusa da Lua. Essas monumentais obras mostram que já no terceiro milênio os sumérios estavam familiarizados com as formas básicas da Arquitetura – coluna, arco, cúpula, abóbada.

Ao longo da civilização mesopotâmica e das regiões vizinhas, foram construídas famosas cidades – Uruk, Nippur, Ur, Mari, Lagash, Ugarit, Ashur, Hattusas, Susa, Babilônia, Nínive – e foram criados vários impérios: sumério-acadiano, babilônico, assírio, 2° babilônico-caldeu. Ao longo do Período, uma das cidades-Estados obteria hegemonia momentânea sobre as demais. A unificação da Mesopotâmia, porém, prevaleceria, a partir de 2750 a.e.c., com Sargão, que iniciou a dinastia Acadiana, a qual, devido à influência cultural da Suméria, é conhecida como dinastia Sumério-Acadiana, que duraria até cerca do ano 2 mil a.e.c. O 1° Império Babilônico foi obra de Hamurabi (2067-2025 a.e.c.), mas seria conquistado, no século VIII, pelo Rei assírio Teglatefalasar III; os reis mais conhecidos da dinastia Assíria são Sargão II e Assurbanipal. Em 612, Nabucopolassar derrotou os assírios e fundou o efêmero 2° Império Babilônico, cujo governante mais famoso seria Nabucodonosor. A vitória de Ciro, Rei dos persas, em 539, significou o colapso definitivo do Império e da cultura da Mesopotâmia, reduzida a uma mera província aquemênida. A civilização mesopotâmica teve, assim, uma duração, registrada, de cerca de 4500 anos.

A Sociedade resultante desse processo, radicalmente diferente das anteriores sociedades caçador-coletoras e rurais, foi formada, grosso modo, por duas grandes classes: a dos governantes, constituída por uma elite política, religiosa e militar, que acumulou riqueza através da propriedade das terras e da imposição de taxas, impostos e tributos, e a dos governados, destituída de direitos e privilégios, formada por artesãos, mercadores, camponeses e escravos.

O poder do Rei era incontrastável e exercido de forma absoluta. Nessas cidades-Estados a divindade seria, na realidade, o soberano; e seu representante temporal, o rei. Nada se fazia sem consultar a divindade; tudo que acontecia era resultado de sua vontade. O dever do crente era o da absoluta submissão[2]. A casta sacerdotal dispunha de enorme autoridade sobre a população, como única e válida intérprete dos desígnios das divindades; detinha, ademais, o quase exclusivo conhecimento da escrita, da contagem e da Medicina, e o monopólio da Astrologia, o que a tornava sustentáculo importante da realeza. A casta militar assegurava a sobrevivência da cidade (quando era o caso) e do Império aos ataques externos. Os mesopotâmios foram os primeiros a organizar um exército permanente, com base no dever dos súditos de servir o Estado. A instabilidade política explica o papel central dessa casta na estrutura social e no desenvolvimento técnico na Arte da guerra, como o uso do metal em armas, elmos e escudos, e do carro de combate puxado a cavalo. O escriba, quando não era sacerdote, era alguém vinculado diretamente à corte, formada por palacianos que ajudavam o monarca na administração de sua vontade. À medida que se ampliava o Império, a administração se tornava mais complexa, sendo requerido corpo de funcionários públicos, que gozavam de algumas regalias.

A classe dos governados – sem recursos e supersticiosa – dedicava-se às suas ocupações diárias, sem perspectiva de melhoria (na ausência de mobilidade social) de suas condições de vida. Os escravos eram usados em serviços domésticos, ou enviados para trabalhar no campo ou nos templos. Os prisioneiros de guerra eram empregados, normalmente, nos trabalhos de construção de templos e palácios, abertura e manutenção de canais e levantamento de barragens.

Outra diferença marcante entre essas sociedades (rural e urbana) é a da religiosidade e seus ritos. A passagem de um fetichismo puro, no qual a comunicação entre o indivíduo e as forças ocultas se fazia diretamente, sem intermediação e sem ritual especial, para uma astrolatria, pela qual a vida neste Mundo estava dependente do comportamento dos astros e estrelas, explica o surgimento de templos dedicados aos diversos deuses e servidos por uma casta sacerdotal; essa importante mudança de mentalidade seria, inclusive, uma das forças motoras da transformação da vida rural em vilarejo nos grandes centros de poder político nas cidades-Estados.

A cultura mesopotâmica era dominada pela religião, pelo culto de divindades, demônios, fantasmas, seres invisíveis, fantásticos e todo-poderosos, pela crença na dependência da vida terrena dos astros e demais corpos celestes. Esse fetichismo astrolátrico será a principal determinante da vida e da cultura mesopotâmicas. Além do Sol e da Lua, adoravam os cinco planetas, cujos movimentos eram comandados pelos respectivos deuses: Sin, a Lua, reinava sobre as plantas, a agricultura, os dias, o ano, o destino dos homens; Shamash, o Sol, era o deus da vida, da justiça; Ishtar, deusa do amor, era Vênus; o criador, Marduk, era Júpiter, o protetor da Babilônia, e seu filho Nabu, Mercúrio, o deus da sabedoria; Marte era Nergal, o deus do inferno e da guerra, e Ninurta, ou Saturno, era o deus da ordem e da estabilidade.

Dessa crença astrolátrica desenvolveram-se a magia e a adivinhação, duas atividades culturais da maior importância na Mesopotâmia. A magia era exercida pelos sacerdotes, conhecidos como exorcistas ou encantadores, em nome de dois deuses, Ea e Marduk. A magia se fundamentava na concepção do sobrenatural, na qual todos os elementos, vivos ou não, eram dotados de consciência e de vontade. Os exorcistas eram os únicos que, por sua iniciação religiosa e pela proteção, podiam mover-se sem perigo entre essas forças misteriosas e buscar conhecer os desígnios divinos. A adivinhação, muito cultuada, utilizava vários métodos para conhecer e descobrir o futuro, como a oniromancia (interpretação dos sonhos), a aruspicação (exame das entranhas das vítimas), a hepatoscopia (exame do fígado), a Astrologia (posicionamento dos astros), a lecanomancia (vaso com óleo para leitura da imagem), a siognomonia (interpretação dos traços do rosto), e o presságio em nascimentos. Com base na leitura dos resultados do método aplicado, o adivinho, astrólogo ou arúspice podia prever guerra, fome, doença, epizootias, chuvas, inundações, epidemias; tais perigos poderiam ser afastados por meio de sacrifícios e ritos, pelo que acreditavam poder alterar os acontecimentos.

Dos diversos métodos de adivinhação, a Astrologia é a mais característica. Da constante observação da abóbada celeste para fins de estabelecer a influência dos astros e outros corpos celestes na vida da população, desenvolveram os sacerdotes-astrólogos, principalmente a partir do Período Caldeu, uma Astronomia de posição, e instituíram o Zodíaco baseado na aparente trajetória (eclíptica) do Sol pelas doze constelações de estrelas, os doze signos[3]. Convencidos da inflência dos astros sobre os acontecimentos humanos e terrestres, a Astrologia se desenvolveu na Mesopotâmia como método de presságio, daí se espalhando para outras culturas.

A civilização mesopotâmica foi essencialmente voltada para o desenvolvimento e aperfeiçoamento técnico em todos os domínios, tendo atingido níveis que durante séculos não seriam ultrapassados. Na construção de grandes monumentos, templos e palácios, na edificação de fortificações, no planejamento e urbanismo das cidades, na irrigação e drenagem dos campos, na diversificação da alimentação (leite, pão, cerveja, vinho, frutas), na utilização de caravanas para o comércio com lugares distantes e na de barcos a vela na navegação marítima e fluvial (inclusive nos canais), na tecelagem do linho e do algodão, no mobiliário, no uso de ouro, prata e marfim na bijuteria e na ourivesaria, nas diversas manifestações artísticas, como a pintura na cerâmica e a música, na fundição e na variada utilização de metais, no emprego do vidro, de tinturas e de perfumes, no aperfeiçoamento de armas de guerra (lanças, espadas, carros de combate, elmos, escudos), enfim, nos diversos campos da atividade humana, os babilônios demonstraram ser um povo prático, inventivo, criativo, capaz de inovar, desenvolver e aperfeiçoar as técnicas requeridas pelas exigências da Sociedade. Duas invenções, por suas implicações na agricultura, nos transportes e na guerra, devem ser mencionadas em separado: a roda, provavelmente na Suméria no quarto milênio, que permitiria maior mobilidade no transporte dos indivíduos e das mercadorias e cuja inovação repercutiria no comércio, permitindo transações com regiões mais distantes, e na área militar, com a e ciência dos carros de combate; e o arado, provavelmente também no quarto milênio, na Suméria, responsável pela expansão e aumento da produtividade agrícola. Tais técnicas, contudo, não tinham embasamento teórico. Assim, por exemplo, as técnicas na fabricação de vidro, poções, tinturas e metalurgia se deviam a um conhecimento empírico, sem qualquer relação com noções químicas, como o desenvolvimento de máquinas e grandes obras não levaram ao estudo da Mecânica. A invenção da escrita no quinto milênio foi o maior legado deixado por essa civilização às futuras gerações.

O comércio local e regional, importante e tradicional atividade, era realizado sem qualquer sistema de moedas, embora fossem usadas peças de metal precioso para o intercâmbio. Se não possuíam uma moeda- -padrão, os sumérios desenvolveram um sistema extraordinário de pesos e medidas, inicialmente utilizado para pesar quantidades de ouro em pó, e não para uso comercial. O peso já seria usado desde 2500 antes da era comum, cerca de mil anos antes do Egito. Como em todas as medidas, os comprimentos-padrão eram baseados em partes do corpo humano: mão e palmo, pé e dígito; o padrão do peso era o siclo (129 grãos) e o do volume o log (541 cm3).

A Técnica na Cultura Mesopotâmica

Como explicou Maurice Daumas, “Os sumérios acreditavam que todos os elementos da civilização eram objeto de uma revelação dos deuses, e que não se poderia fazer nada melhor. Esta concepção só permitiria o progresso do detalhe. O saber, objeto de uma revelação total, portanto sagrado, não poderia ser comunicado, e seria, assim, privilégio dos iniciados, dos sacerdotes que o transmitiam, mas oralmente, e não o consignavam em seus escritos, nos quais se encontra apenas um conjunto de receitas com o resultado a obter, sem sua explicação”. Nessas circunstâncias, ao progresso ocorrido na área técnica não corresponderia avanço no campo teórico, investigativo. A observação e a especulação eram restritas à casta sacerdotal, o que viria inibir o surgimento de um espírito crítico. Como em todas as outras sociedades dessa época, a Técnica precederia a criação da Ciência, a qual requer uma capacidade de abstração, ausente nas primeiras civilizações.

O conhecimento, o saber e as Artes eram dons da deusa Ea, à qual, para os babilônios, só tinham acesso seus sacerdotes, únicos iniciados nos mistérios da divindade. Ciosos desse privilégio e conscientes de que saber é poder, os sacerdotes não transmitiram, não ensinaram, nem registraram nas plaquetas de barro seus conhecimentos. Até hoje só foram encontrados textos de aplicação prática, catálogos de referência e conjuntos de exercício; o enunciado de soluções não comportava explicações e justificativas. A parte teórica, o enunciado de princípios, de premissas, de postulados, os métodos de investigação e pesquisas não foram revelados. Se houve, não são conhecidos. Esse procedimento era seguido nos domínios dos números e da medição, da observação da abóbada celeste, do tratamento dos doentes.

Em outras palavras, raciocinar, analisar, compreender, criticar, explicar era proibido, por desnecessário e irrelevante. A verdade já estava revelada por Ea aos seus representantes e intérpretes neste mundo, pelo que seria uma perda de tempo tentar compreender o que era privativo da divindade. Detentores do saber, os sacerdotes não tinham como meta instruir, mas dominar; não transmitiam ao povo seus conhecimentos, para não perder a ascendência política, religiosa, cultural e econômica. A tudo davam os sacerdotes uma “explicação sobrenatural, de sagrado, de celeste, que tendia a fazê-los ser vistos como superiores à Humanidade, como revestidos de um caráter divino, como tendo recebido do próprio Céu conhecimentos proibidos ao resto dos homens”, como escreveu Condorcet. Por essa razão, explicou René Taton, “nada de obra teórica, de tratado doutrinário, de exposição de princípios. Toda a parte teórica, o enunciado de princípios e metodologia, e os livros do mestre não foram escritos”. O acesso às fontes do conhecimento era proibido, as regras não eram demonstradas. O conhecimento estava disponível em catálogos, mera acumulação de dados, como no caso da observação sistemática dos astros, mas sem análise. Não há comentários, críticas, observações, análises, mas mera constatação dos fatos, sem interesse em compreender o problema ou o fenômeno. Não há dúvidas, pois se crê possuir o conhecimento absoluto.

Um dos aspectos relevantes da cultura mesopotâmica é o que comumente se chama de ciência das listas, ou verdadeiros catálogos das inúmeras observações, efetuadas nos diversos campos, ao longo dos milênios. São listas de vegetais, minerais e animais, utensílios, roupas, alimentos e bebidas, deuses, estrelas, regiões e povos, rios, montanhas. Não se trata de mera enumeração, porquanto as coisas e os seres eram agrupados em famílias ou em espécies, de acordo com certas características. No caso, por exemplo, de animais, o cachorro, o leão, a raposa, o chacal, o lobo e a lontra pertenciam à mesma família, pois os nomes de todos esses animais derivavam do nome, em sumério, para cachorro. O signo elementar do asno servia igualmente para o cavalo, o onagro, o dromedário e o camelo. Essas listas, nas quais se encontravam consignados os dados da experiência intelectual babilônica, ocupam um lugar importante na formação e no desenvolvimento do pensamento na antiguidade mesopotâmica[4]. Para outros autores[5], a esterilidade do pensamento babilônico se revela ao se limitar à elaboração de listas, à compilação de tudo, sem outro objetivo que o de listar.

Nessas circunstâncias desfavoráveis, é compreensível que não tenha surgido entre os povos dessa cultura um espírito científico, analítico, crítico, investigativo. Em um ambiente hostil ao desenvolvimento do raciocínio e da liberdade de pensamento e de expressão, não poderia haver Ciência, mas uma pseudociência, como a Astrologia e a Medicina babilônicas, ou uma técnica elaborada, como nas Matemáticas.

Matemática

Os textos matemáticos disponíveis (cerca de 400 plaquetas) são de duas épocas muito separadas no tempo: de 2000 a 1600 (Período Babilônico), e de 300 a 150 (Período Selêucida), e podem ser classificadas em duas categorias: tabelas numéricas e tábuas de problemas[6]. A plaqueta mais importante talvez seja a conhecida como Plimpton 322, por ser a 322a plaqueta da coleção Plimpton, da Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque; pertence ao Período Babilônico antigo, foi confeccionada entre 1800 e 1600, e o conhecimento sobre seu conteúdo se deve, principalmente, ao notável trabalho de Otto Neugebauer, em 1935, no livro Textos Matemáticos Cuneiformes, e a Thureau-Dangin, em 1938.

A numeração tinha valor posicional e se baseava em um sistema sexagesimal, combinado com o decimal, com apenas dois sinais cuneiformes para registrar toda a numeração; daí certa ambiguidade e dificuldade interpretativa. Como escreveu Colin Ronan, o número correto dependia do contexto, o que dificulta a decifração das plaquetas. O sistema sexagesimal babilônico teve origem, possivelmente, astronômica. A contagem dos dias de uma Revolução solar ao longo da eclíptica deve ter levado à divisão desse círculo em 360 compartimentos ou graus. A fácil divisão do círculo em seis partes iguais, pela inserção de um hexágono, teria levado à adoção do numeral 60 como base do sistema de numeração.

O fator-padrão 60, dadas suas vantagens, é o utilizado, ainda hoje, para as medidas de ângulo e tempo. Para representar os números de 1 a 59, empregavam, repetindo por justaposição, os sinais ou símbolos de 1 a 10; acima de 60, o número era decomposto (exemplo: 94 = 60+34) e escrito em duas bases distintas, sexagesimal e decimal. O zero era desconhecido, apesar de sua noção já ter sido apreendida no Período Selêucida. Em Aritmética, prepararam tábuas das quatro operações com valores unitários até 20, e daí em diante, em dezenas até 60; eram necessárias, então, repetidas operações para se obter o resultado  final desejado. Prepararam, igualmente, tábuas de raiz quadrada e conheciam progressão aritmética.

Os babilônios desenvolveram a Álgebra, expressa de forma retórica, sem anotação simbólica. A solução, porém, é apresentada como resultado de regras e operações sem justificativas, como explicou Duvilli, sem comentários do procedimento adotado. Eram capazes de resolver equações simples, de 2° grau e cúbicas. A maioria dos especialistas reconhece o caráter essencialmente algébrico dos conhecimentos matemáticos dos mesopotâmios, em particular sua capacidade de resolver diversos tipos de equações, sem, contudo, desenvolver uma metodologia geral.

A Geometria babilônica se reduzia à solução de problemas práticos de algumas  figuras planas, mas raramente de sólidos. Os problemas consistiam, geralmente, de cálculos de áreas e dimensões de  figuras (quadrados, retângulo, trapézios, triângulos, círculos) e de volumes (cilindros, prismas, pirâmides, cones). Conheciam o triângulo isósceles, e eram cientes, ao contrário dos egípcios, da relação entre os lados de um triângulo retângulo (Teorema de Pitágoras). A geometria do círculo era rudimentar; a circunferência do círculo era obtida multiplicando o diâmetro por 3. O valor mais exato do pi (π) a que chegaram os babilônios teria sido de 3,125, valor inferior ao que calcularam os egípcios.

Em Matemática, os mesopotâmios foram capazes de desenvolver técnicas para resolver problemas específicos de seu cotidiano, de acordo com seu espírito prático. As tábuas se referiam a problemas, mas nunca à teoria; as tábuas ensinavam o resultado da operação, mas não a raciocinar, a compreender. As tábuas, que tinham sido passadas de geração em geração, sempre produziam a resposta correta, e assim não havia preocupação em examinar ou questionar a lógica subjacente daquelas equações. O importante era que os cálculos satisfizessem; por que davam certo era irrelevante, como explicou Singh em O Último Teorema de Fermat. O aprendizado se fazia por indução, por experimentação. Desta forma, os babilônios não criaram um sistema logicamente formal, não estabeleceram princípios, postulados ou premissas, não desenvolveram uma metodologia. A Matemática era, fundamentalmente, uma técnica para cálculos, sem qualquer outra preocupação intelectual.

Astronomia

Acreditavam os mesopotâmios que o posicionamento dos corpos celestes era obra dos deuses, o que influenciava e determinava os acontecimentos terrenos, atuais e futuros. A observação sistemática da abóbada celeste, a cargo dos sacerdotes, era uma consequência desse interesse em perscrutar os desígnios das divindades, mas também em registrar a disposição dos astros, de forma a  fixar Calendário, pelo qual o povo poderia ajustar sua agricultura e preparar os festejos religiosos em homenagem às divindades. A observação sistemática serviu para a acumulação de dados, úteis para antecipar movimentos planetários futuros, mas não levou os babilônios a formular qualquer teoria relativa aos planetas.

A observação astronômica foi decisiva para a  fixação do Calendário, que inicialmente era lunar (uma série regular de meses de número inteiro de dias, de acordo com o ciclo lunar); posteriormente, houve a necessidade, por motivo das safras agrícolas, dependentes das estações do ano, ou seja, do movimento solar, de fundir o Calendário lunar com um Calendário que refletisse o período de um ano, que pensavam ser de 360 dias. Desde então, o Calendário lunissolar anual foi  fixado em 12 meses de 29 e 30 dias, alternadamente, com um total de 354 dias. No  fim de três anos, havia um atraso, com relação ao ano solar, de cerca de 33 dias, que era corrigido com a inserção de um 13° mês, por decreto real. Deve-se ter presente, contudo, não ter sido o Calendário o principal ou o único motivo para a observação dos astros, mas a própria crença na sua influência, como verdadeiras divindades, no destino do Homem. A Astrolatria levou necessariamente à Astrologia.

Como explica Verdet, foi preciso preparar tabelas de movimentos diários da Lua e do Sol, determinar a última visibilidade seguinte do crescente lunar, e, por esse motivo, determinar também o meio do período de invisibilidade, ou seja, o momento da conjunção do Sol e da Lua. Com tais dados disponíveis, poderiam os sacerdotes-astrônomos saber da ocorrência de eclipse lunar, tanto mais que acontecem sempre por volta do meio do mês civil e no momento em que a Lua corta a eclíptica, região objeto de constante observação. Quanto ao eclipse solar, apenas sua possibilidade, ou não, de ocorrer, mas ainda sem saber onde seria visível, uma vez que era insuficiente, e até inexistente, o conhecimento babilônico da distância da Terra ao Sol e à Lua, e de suas dimensões relativas.

Se bem que utilizassem a Matemática em suas observações sistemáticas, tanto mais que se tratava de uma Astronomia de posição, não foram capazes os babilônios de dar um caráter científico ao trabalho realizado. A acumulação de dados se limitava a determinar a influência dos astros sobre as atividades humanas e a Natureza, sem interesse de entender a abóbada celeste. Não houve tentativa, nem intenção de buscar uma explicação teórica para os fenômenos físicos e meteorológicos.

Na falta desse espírito investigativo, a observação era guiada por uma fértil imaginação, situação que não poderia conduzir à Astronomia. Os instrumentos de observação usados pelos astrônomos babilônicos eram aqueles utilizados em toda a Antiguidade: o gnômon, a esfera armilar, os relógios de água, os círculos e meios círculos, para se conhecer as distâncias dos corpos celestes acima do horizonte e ao longo da eclíptica.

O conhecimento astronômico resumia-se a alguns pontos:

  1. orientação segundo os pontos cardeais;
  2. determinação da posição dos astros sobre a esfera celeste, tomando como plano de referência a eclíptica (trajetória percorrida pelo Sol em um ano na esfera celeste);
  • descoberta de astros cuja posição é fixa (estrelas); seu agrupamento constituía as constelações (52), sendo 12 na eclíptica (constelações zodiacais) – vários catálogos de estrelas foram preparados;
  1. estudo do movimento do Sol e da Lua, sendo que a observação do movimento relativo da Lua permitia a elaboração do Calendário lunar;
  2. reconhecimento do movimento errático dos planetas em relação às estrelas;
  3. predição dos eclipses do Sol e da Lua, por sua periodicidade;
  • elaboração de tabelas com as fases da Lua e seus movimentos diurnos;
  • a posição relativa do Sol e dos planetas era conhecida;
  1. eram identificados cinco planetas: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, cujas órbitas, próximas à elíptica, eram observadas.

Medicina

A prática da Medicina já estava regulamentada no Código de Hamurabi, gozando os médicos de prestígio na Sociedade mesopotâmica. A crença na origem divina das doenças não significava que não se devesse buscar a cura do paciente. Intervinham nesse processo tanto o sacerdote, o exorcista, quanto o curandeiro, o médico. Como as doenças eram tidas como criação dos deuses, os remédios agiam como paliativos, mas os médicos atuavam como apaziguadores da ira da divindade. Os exorcistas e os médicos utilizavam a adivinhação para compreender as razões misteriosas da doença e para ter uma orientação dos métodos de tratamento mais apropriados. O tratamento era influenciado pelos números mágicos que, por seu poder misterioso, dariam maior efeito ao remédio. Os números 3 e 7 (e seus múltiplos) eram os favoritos. Drogas a partir de ervas eram receitadas; na preparação de poções era usual convocar a presença de uma criança ou de uma virgem, cuja pureza ou inocência poderia influenciar a mistura dos ingredientes.

Pouco sabiam os mesopotâmios de Anatomia humana; o fígado era tido como sede das emoções e da própria vida, e o coração, do intelecto. Em comparação com o Egito, nenhuma operação de vulto era praticada. Neste campo, como em outros, os esforços dos médicos se limitavam a procurar debelar o mal que a afligia o doente, sem jamais procurar conhecer o corpo humano e o funcionamento dos diversos órgãos. Sem qualquer base científica, o tratamento dos pacientes era totalmente inadequado, precário e irrelevante.

Em conclusão, a civilização babilônica atingiu, em pouco mais de 4 mil anos, um nível de desenvolvimento técnico bastante elevado e significativo para a época, fruto de um longo e lento processo cumulativo de experiência. Preocupados e interessados apenas em agradar e interpretar os desígnios divinos, limitavam-se os babilônios a compilar as observações efetuadas, particularmente dos corpos celestes, sem outra intenção que a de registrar os sinais enviados pelos deuses.

A crença de que o conhecimento seria privativo da divindade impediria o surgimento de um espírito de dúvida, de curiosidade, investigativo. Na ausência de tal espírito, é compreensível que não tenham criado os mesopotâmios qualquer ramo da Ciência. Técnicas de contagem, observações astronômicas e preparação de poções não seriam suficientes, nem direcionadas para a criação da Matemática, da Astronomia e da Biologia, pela falta de formulação teórica e de pesquisa.

Ciências naturais - História da ciência
1/18/2020 2:16:58 PM | Por Carlos Augusto de Proença Rosa
Livre
Os primórdios da ciência nas sociedades primitivas

O surgimento do Homo Sapiens Sapiens (há cerca de 40 mil), de características físicas e mentais atuais, significou e determinou uma radical, profunda e rápida modificação no desenvolvimento do processo evolutivo, até então lento, porquanto fruto de mera acumulação e somatório de experiência. O Homem atual, que recebeu de seus ancestrais técnicas simples e incipientes, desenvolvidas ao longo de centenas de milhares de anos, no Paleolítico Superior, teria, agora, as condições necessárias para inovar em diversas atividades, ampliando o âmbito de sua atuação e realizando, em poucos milhares de anos, verdadeira revolução em seu modo de vida. Tão extraordinário avanço técnico só foi possível em decorrência de uma nova capacidade mental que permitiu o desenvolvimento da imaginação, da curiosidade e da observação. A resultante é uma Sociedade mais complexa e sofisticada, totalmente distinta da anterior.

Esse relativamente curto Período Pré-Histórico, denominado pelos historiadores de acordo com os materiais descobertos ou utilizados pela primeira vez, é dividido, em geral, em Neolítico ou Idade da Pedra Polida e em Eneolítico ou Idade dos Metais, ou, ainda, Proto-História.

Período Neolítico

O termo Neolítico – Período da Pedra Polida – foi criado em 1865 pelo naturalista inglês Sir John Lubbock (1834-1913), em sua obra Prehistoric Times, em oposição ao Paleolítico, Período da Pedra Lascada. Ainda que essa classificação continue em uso, a noção de Neolítico mudou bastante. Hoje em dia, se considera que outros aspectos da cultura dessa fase Pré-Histórica seriam mais representativos dos desenvolvimentos ocorridos em muitas populações, como a invenção da agricultura, o início dos agrupamentos urbanos e a vida sedentária, enquanto outros povos se dedicariam ao pastoreio, à caça e à coleta, permanecendo nômades. Tais denominações são, assim, insuficientes para traduzir a real complexidade de uma nova Sociedade, cujas características transcendem a mera utilização da pedra. Dessa forma, alguns autores denominam o Período como o da Grande Revolução Agrícola; outros enfatizam o aspecto da formação de uma nova organização social; outros, ainda, priorizam o estágio fetichista da sociedade primitiva.

O desenvolvimento dessas primeiras comunidades seguiu um ritmo distinto nas diversas regiões da Terra. Iniciado em momentos diferentes e com duração variável, esse processo evolutivo foi, em muitas áreas, concomitante, o que dificulta, bastante, a fixação de datas de aplicação generalizada. As datas têm, assim, um caráter indicativo e aproximativo, inclusive porque, na ausência da escrita (inventada no quarto milênio), não são disponíveis evidências comprobatórias definitivas de datação dos fatos e acontecimentos pré-históricos. As regiões para as quais se dispõe de razoável número de dados e informações são a Mesopotâmia, a Europa e os vales do Nilo, do Indo e do Amarelo.

Considera-se que o Neolítico teve início na região mesopotâmica, há uns 12 mil anos; no Sul da Europa (Grécia, Bálcãs) e Anatólia, há 9 mil anos; no Vale do Indo, há 7 mil anos; e na China, há uns 6 mil anos; independentemente desse desenvolvimento na Eurásia, o Período Neolítico teria começado na América Central e México por volta de 8 mil anos atrás, com o início da chamada Revolução Agrícola.

O processo evolutivo não ocorreu, assim, por igual e simultaneamente, nas diversas regiões da Terra. Com defasagem e sujeitas a condições locais, as diversas comunidades tiveram, contudo, uma base comum ou uma cultura neolítica comum, muitas das vezes facilitada pelos contatos de comércio com vizinhos e até com populações de outras regiões; mesmo no caso de sociedades isoladas, como é o caso da América Central, a evolução seguiu o caminho percorrido por outras na Eurásia, como atestam a agricultura, a cerâmica, os metais. O desenvolvimento técnico foi, basicamente, equivalente, nesse Período Pré-Histórico, nas diversas partes do Mundo. A explicação se encontra no fato de que a invenção, impulsionadora da Técnica, é produto do meio, de sua época, e não de um indivíduo. Tais foram os casos, por exemplo, da linguagem, da agricultura, da cerâmica e da domesticação dos animais.

Na realidade, a primeira grande inovação nasceu da necessidade de subsistência de uma população cada vez maior (crescimento de comunidades), cujos produtos de caça, pesca e coleta já eram insuficientes para satisfazê-la. As crescentes dificuldades para o deslocamento de grupos cada vez maiores, errando pelas terras circunvizinhas atrás de um alimento aleatório, contribuíram decisivamente para a busca de suprimento garantido, abundante e menos penoso de alimentos. As plantas locais, complemento das necessidades alimentares em momentos de escassez de caça e frutos, viriam a se constituir na principal fonte de alimentos. Depois de inúmeras tentativas, erros e acertos, e, para alguns autores, após uma boa dose de sorte, aquelas populações adquiriram a técnica do cultivo do arroz e do sorgo (China e Sudeste da Ásia), do trigo, da cevada, do centeio, da aveia e de leguminosas (Mesopotâmia, Anatólia, Sul da Europa), do milho, do feijão e da batata (América Central, Região Andina). A fartura resultante da incipiente agricultura incentivou o aumento demográfico, o qual requereu novas técnicas a fim de aumentar a produção e a produtividade. A expansão da fronteira agrícola para novas terras férteis propiciou a invenção do arado (Europa – 6 mil anos atrás), enquanto a irrigação e a barragem foram utilizadas nas terras abundantes de água (Mesopotâmia, vales do Nilo, do Indo e do Amarelo). A agricultura fixou o Homem à terra, transformando-o em um ser sedentário, que passaria a viver em pequenas granjas ou vilas agrícolas. A transição decorrente da implantação da agricultura teria amplas e profundas consequências, transformando uma Sociedade predadora, nômade e formada de agrupamentos familiares em uma produtora, sedentária e de dimensão multifamiliar. A resultante mais significativa para essa nova e emergente Sociedade foi o nascimento de um novo modo de vida totalmente diferente do de seus antepassados.

A Cultura Pré-Histórica foi oral, o que significa não haver registro escrito desse período. O conhecimento atual desse período é, assim, necessariamente superficial e tentativo. As descobertas de utensílios, adornos, restos mortais, vestimentas, rodas e ruínas de construções são algumas das evidências do tipo de cultura de tradição oral dessas populações. A Antropologia, ao estudar as comunidades ágrafas contemporâneas, e as informações dos primeiros documentos escritos têm contribuído, também, para uma compreensão da cultura dos povos do Período Neolítico.

Dependentes exclusivamente da memória para a transmissão de conhecimento, não foi permitido a tais povos alcançar saber teórico, mas lhes foi possível obter e desenvolver a técnica de como fazer as coisas.

Os grandes avanços técnicos, movidos pelas crescentes necessidades, em um meio hostil, e pela capacidade inventiva e imaginativa, podem ser assim resumidos:

  1. utilização de novos materiais – pedra polida e argila, da qual criaram a cerâmica, com a fabricação de um grande número de utensílios (copos, vasilhames, jarras, potes), inclusive para a estocagem de alimentos, e o tijolo, que seria usado na construção de habitações;
  2. alimentação mais rica e variada, com a introdução de novos produtos, como o leite, cereais, leguminosas;
  3. vestimentas e agasalhos mais confortáveis de tecidos (linho, lã), o que significou, ao menos, uma incipiente e tosca tecelagem;
  4. desenvolvimento do curtume – peles, couro;
  5. domesticação de animais para alimento e tração (cão, cavalo, boi, porco, carneiro, cabra, rena, camelo, galinha). A pecuária (criação de animais) e a atividade de pastoreio foram decorrentes diretos dessa importante inovação;
  6. utilização da energia eólica (barco a vela) e da tração animal para moagem e semeadura, para as quais desenvolveram a atrelagem e a junta de bois;
  7. invenção da roda, roldana, rolos, aumentando a capacidade de força muscular humana e animal;
  8. fabricação de cestos e balaios de uso doméstico;
  9. identificação de plantas venenosas e de plantas medicinais;
  10. construção de moradias (palafitas) mais apropriadas para uma vida sedentária, o que corresponderia aos primeiros tempos da Arquitetura. As manifestações artísticas, inclusive a Arte decorativa se expandiram, como atesta o grande número de esculturas e adornos encontrados em vários locais arqueológicos.

Esses extraordinários avanços não se limitaram ao campo técnico (tecelagem, cerâmica) ou ao campo das Artes (Escultura, Pintura, Arquitetura), vinculados à satisfação das necessidades materiais e culturais de uma nova Sociedade mais complexa e sofisticada. Transformações profundas na organização social, decorrentes das novas exigências comunitárias, foram os pontos altos desse processo evolutivo.

As novas e variadas atividades na agricultura, no pastoreio, no artesanato de cerâmica, na construção de moradias, no comércio com outras comunidades, na defesa da vida e dos interesses comunitários, ao promover uma incipiente especialização, estabeleceram uma divisão de trabalho da qual surgiu a classe dos proprietários, a dos empregados, a dos escravos, a dos operários ou artesãos e a dos mercadores[1]. A necessidade de um chefe, a fim de poder agir em conjunto, tanto para a defesa da comunidade, diante de um inimigo, quanto para dirigir os esforços na obtenção de sua subsistência, introduziu na Sociedade a ideia de uma autoridade política. Consolidar-se-ia, com o tempo, a figura do chefe e de seus auxiliares mais próximos, e surgiria, como representante do poder espiritual, a casta sacerdotal, aliada e suporte dos detentores do poder político.

Essa divisão de trabalho se refletiu no processo de urbanização, ao separar o poder defensivo e religioso, localizado nas vilas, das populações camponesas, vivendo próximas da lavoura. Seria nesses centros populacionais, onde passaram a habitar os chefes militares e religiosos e parte dos artesãos, e onde se estocariam os alimentos, que seriam adotadas as decisões políticas regulatórias da vida comunitária[2]. O dispositivo funcional, escreveria Daumas, se transformou progressivamente, ao ponto que se produziu uma separação tanto social quanto territorial entre a maioria rural, engajada na produção alimentar, e a minoria urbana, dedicada, nos planos profanos e religiosos, ao capital coletivo. Desses centros urbanos, onde se concentravam a riqueza e o poder (militar e religioso), surgiriam as inovações técnicas, como a metalurgia, que só tardiamente beneficiarão as populações do campo. A noção de propriedade se firmaria definitivamente, e os novos detentores do poder passariam a gerir a coisa pública. Os processos de estratificação social e de organização política se acentuariam, enquanto o sistema produtivo se tornaria cada vez mais complexo. Algumas comunidades mais avançadas deixariam de sacrificar os prisioneiros de guerra em cerimônias de antropofagia, para apresá-los como trabalhadores cativos, surgindo, desse modo, o escravismo[3].

Como seus antepassados, o Homem desse Período Pré-Histórico tinha como prioridade absoluta sua sobrevivência em um meio hostil. Daí sua objetividade, seu pragmatismo, seu interesse no desenvolvimento de coisas práticas e úteis que lhe facilitassem enfrentar as dificuldades do dia a dia. Não havia outra preocupação além das de assegurar uma melhoria das condições de vida.

No Mundo Pré-Histórico e Proto-Histórico, a Natureza, tão diversa e misteriosa, deve ter maravilhado, e apavorado, aqueles habitantes, ainda impossibilitados de compreender os fenômenos naturais ou de procurar uma explicação racional e lógica para o que acontecia a seu redor. Apesar de o Homem primitivo constatar, através da observação, a ocorrência de fatos extraordinários, como o movimento dos corpos celestes, variação climática, sucessão do dia e da noite, chuva, eclipse, tremor de terra, doenças e morte, não lhe ocorria, nem o preocupava, buscar explicações para tais fenômenos, carente que era de espírito crítico e analítico. Sua própria observação dos fenômenos naturais era passiva, deficiente, assistemática e sem objetividade, no sentido de que não lhe aguçava a curiosidade. Sua reduzida capacidade de observação e sua imaginação lhe seriam suficientes, contudo, para deslanchar impressionante desenvolvimento técnico. Sua imaginação desempenharia um papel central em sua evolução mental e cultural, porém não se subordinaria à observação e, até mesmo, em alguns casos, e em determinadas situações, a substituiria pela pura imaginação. Como ensina Ivan Lins, era inevitável que o Homem primitivo atribuísse os fenômenos ou acontecimentos a vontades  fictícias, isto é, sobrenaturais e imaginárias, que só existiam em sua própria fantasia e eram informadas pela observação[4].

Surgiria, em consequência, como fruto da imaginação, a magia, que procuraria expressar uma síntese do Mundo natural e de seu relacionamento com o Homem. Para Colin Ronan[5], a “magia exprimiu o que, de um modo geral, era uma visão anímica... em um mundo onde as forças eram personificadas”. Esse relacionamento (chuva e crescimento das plantas, por exemplo) era facilmente observável, mas a dificuldade se encontrava em explicar tais fenômenos e em colocá-los a seu serviço. Como escreveu Maurice Daumas “durante muito tempo ainda, tudo decorrerá da simples experiência, de uma espécie de submissão ativa às leis naturais. O homem do campo se contentará durante séculos, em todas as latitudes, com os conhecimentos práticos, e este será o tesouro que ele legará às gerações que o seguirão. Aquilo que ele não compreende, ele o explicará por sua ação diária, mesmo a mais humilde, em ritos tornados tradicionais...”. O Mundo tornar-se-ia compreensível somente através da ideia de que os objetos e fenômenos tinham vida própria ou eram manifestações de deuses e divindades, que deveriam ser agradados de forma a terem boa vontade para com os homens em sua labuta diária. Assim, o Mundo era povoado por um conjunto de seres visíveis (animais, plantas) e controlado por espíritos e forças ocultas e misteriosas que habitavam os seres, objetos e elementos (animais, árvores, mar, vento, chuva, sol); algumas dessas forças eram perceptíveis (raio, trovão, tremor de terra), e a doença era tida como uma manifestação dos espíritos do mal. Os fenômenos naturais eram, assim, relacionados com o mundo dos espíritos, desenvolvendo-se procedimentos (através da magia) para lidar com os dois mundos. A reencarnação era uma crença amplamente difundida.

A Medicina, ou melhor, a arte de curar, nas culturas orais ou ágrafas, era inseparável da magia. O valor do especialista na cura não era devido à sua habilidade cirúrgica ou ao uso correto de plantas medicinais, mas ao seu conhecimento das causas sobrenaturais da enfermidade.

Surgiu, então, a  figura do feiticeiro, mago, curandeiro, que incentivaria a imaginação popular e criaria uma ritualística pela qual seria possível prestar homenagens a essas forças misteriosas. Detentor dessa capacidade de interpretar a vontade superior de tais entidades, o feiticeiro transformou-se em uma das autoridades da Sociedade, constituindo-se, inclusive, em uma casta, a sacerdotal. Como escreveu Darcy Ribeiro, “os especialistas no trato com o sobrenatural, cuja importância social vinha crescendo, tornam-se, agora, dominadores. Constituem não apenas os corpos eruditos que explicam o destino humano, mas também os técnicos que orientam o trabalho, estabelecendo os períodos apropriados para as diferentes atividades agrícolas. Mais tarde, compendiam e codificam todo o saber tradicional, ajustando-o às novas necessidades, mas tentando  fixá-lo para todos os tempos. Este caráter conservador era inarredável à sua posição de guardiões de verdades reveladas, cuja autoridade e cujo poder não se encontravam neles, mas nas divindades a que eram atribuídas”. Preces, invocações, feitiços, sacrifícios, purificações, amuletos e poções seriam, então, utilizados para apaziguar e festejar essas divindades e espíritos.

Essa visão anímica do Mundo e da Natureza, essa mentalidade fetichista levaria, inexoravelmente, a uma noção do absoluto; o Homem acreditaria ter posse do conhecimento absoluto, pois não encontraria nenhuma dificuldade ou problema em se satisfazer com a interveniência de divindades para justificar os fenômenos. O problema da compreensão não surgia, assim, para o Homem Neolítico, já que a explicação fetichista lhe satisfazia. Bastavam-lhe as constatações do que acontecia ao seu redor e a crença em um poder superior, responsável pelo que ocorria e ao qual deveria submeter-se e adorar.

Idade dos Metais

O terceiro e último Período da Pré-História é conhecido como o da Idade dos Metais, ou Eneolítico, ou ainda de Proto-Histórico, de curta duração (de 8 mil a 5 mil anos atrás), mas de grande importância no processo evolutivo da Sociedade Pré-Histórica, pois corresponde à transição para o Período Histórico. As atividades agrícolas e de artesanato, iniciadas no Neolítico, se expandiriam e se diversificariam para atender a uma maior demanda de uma crescente população que se urbanizava rapidamente; surgiriam centros urbanos em pontos estratégicos das rotas comerciais.

Uma nova atividade, a da mineração do metal, contribuiria para a diversificação econômica, propiciando o aparecimento da Metalurgia. Tão importante quanto foram, em épocas anteriores, a argila, o osso, a madeira e a pedra, o novo material, de múltipla utilização, teria um papel decisivo no plano econômico e social das sociedades do período, a ponto de caracterizá-lo.

O primeiro metal descoberto foi o cobre (cerca de 8 mil anos atrás, no Sudoeste europeu, espalhando-se pelo resto da Europa, da Ásia e do Norte da África), usado em utensílios domésticos; sua importância e significado explicam ser esse Período inicial chamado, por muitos autores, de Calcolítico. O ouro e a prata também foram conhecidos nessa época e tiveram muitas aplicações, inclusive em adornos. O bronze (liga de cobre e estanho) segue cronologicamente os três metais anteriores, mas pela técnica requerida para sua fabricação, originou a Metalurgia, avanço técnico fantástico, o que justifica chamar esse Período de Idade do Bronze. O bronze foi fabricado primeiro na Mesopotâmia, por volta de 6 mil anos atrás, e na Grécia e na China, há 5 mil anos, vindo, rapidamente, outras populações a aprender a técnica e a utilizar o metal. O ferro só viria a ser conhecido há cerca de 3.300 anos, usado, pela primeira vez, em artefato de guerra, pelos hititas.

A linguagem falada permitiria melhor convivência social entre os diversos grupos multifamiliares, ao mesmo tempo em que o avanço econômico e a divisão de trabalho favoreciam um empírico desenvolvimento técnico, de efeito altamente positivo, nas condições de vida das populações. A noção de propriedade privada se estenderia aos meios de produção e ao campo, consolidando-se a hierarquização social, com uma classe rica, dominante, próxima e beneficiária do poder político, exercido por um governante, apoiado por uma casta sacerdotal. A tradição, os costumes, as crenças e o conhecimento técnico eram transmitidos oralmente, de geração a geração, constituindo-se na característica marcante dessas comunidades.

A descoberta, em setembro de 1991, de uma múmia de caçador, em perfeito estado de conservação, na geleira do Tirol, com datação estimada em 5,3 mil anos, poderá trazer preciosas informações sobre hábitos da população das comunidades da região. O “homem de gelo” recebeu o nome de Otzi, por causa da área em que fora encontrado, Oetzal, e atualmente se encontra no museu da pequena cidade de Bolzano, na Itália.

Duas extraordinárias inovações técnicas ocorreram no período. A primeira foi a contagem – provavelmente apenas soma e subtração – para fins de medição de peso, volume e área, dadas as necessidades de comércio e de armazenamento do excesso de safra, além do requerimento de quantidade envolvida com a propriedade dos rebanhos de animais. Incipiente e precária, e fruto exclusivo das prementes necessidades comunitárias, a contagem, nesse estágio, foi um mero desenvolvimento técnico. A segunda inovação, a escrita de signo, surgiu por volta de 3,5 mil antes da Era Comum, na Mesopotâmia (tábuas de argila em Uruk), dada a necessidade de consignar o conhecimento obtido nas diversas atividades, de registrar os principais acontecimentos e decisões dos líderes da comunidade e de atender aos interesses comerciais. A transmissão oral, dependente da memória, era já insuficiente para esses propósitos, razão bastante para o desenvolvimento de uma técnica capaz de satisfazer os interesses comunitários. A invenção da escrita, instrumento fundamental na preservação e divulgação da cultura, é um marco no desenvolvimento da Humanidade, e serve, inclusive, como fecho do Período Pré-Histórico e momento inicial da História.

Apesar de todo o desenvolvimento técnico e acumulação de dados e informações, é compreensível não ter surgido a Ciência no Período Pré-Histórico, porquanto não se tinham ainda reunido as condições necessárias para a transformação do conhecimento empírico em conhecimento científico. Seria contraditório a uma comunidade ágrafa dispor de conhecimento teórico e desenvolver um saber científico. A falta da escrita e de um espírito científico, crítico, analítico, foi suficiente para inviabilizar o nascimento da Ciência naquele contexto Pré-Histórico, mental e social. Avanços técnicos (emprego de drogas extraídas de ervas, trepanação) e observações na área da saúde não podem ser considerados como indicação de algum conhecimento biológico, como a ideia do número, evidência de alguma capacidade de abstração, não serve como momento da constituição da Ciência Matemática. Da mesma forma, o conhecimento de algumas plantas não cria a Botânica, ou de certos animais, a Zoologia. O que havia era uma técnica, um conhecimento prático, um empirismo sem qualquer abstração dos princípios subjacentes. Assim, apesar dos incontestáveis progressos técnicos, a Ciência não foi criada nesse Período da Pré-História da evolução humana.

O surgimento das primeiras grandes civilizações, às margens dos vales do Tigre e Eufrates, do Nilo, do Amarelo e do Indo e Ganges, início do Período Histórico, beneficiou-se pela incorporação do adiantamento social, cultural e técnico ocorrido em épocas anteriores, especialmente no Período Arqueológico Neolítico e na Idade dos Metais, nessas regiões. Assim, não surgiram tais culturas por acaso ou por milagre nesses locais, nem desenvolveram esses povos seus conhecimentos e seu modo de vida sem uma base prévia; essas civilizações primárias emergiram diretamente de seu passado neolítico. Há, assim, um legado importante, recebido no início dos tempos históricos, que não deve ser esquecido ou desprezado, porquanto ele contém respostas para uma série de indagações sobre os primórdios do Homem, sua evolução e suas realizações, bem como sobre a emergência das civilizações primárias.

 

História - Neolítico
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O mau olhado
Cyprus: 1,500-year-old amulet with Greek palindrome inscription unearthed

Tanto os Gregos como os Romanos (e muitos povos do Médio Oriente) acreditavam no mau-olhado, um poder mágico que era suposto algumas pessoas terem, normalmente sem saberem. Quem detinha esse poder, muitas vezes não era com má intenção mas ao olharem com demasiada atenção, ficavam demasiado ligados ao que viam e isso trazia má sorte. Os Gregos e Romanos usavam amuletos, como ferraduras, para afastar a influência do mau-olhado. Qualquer amuleto com este poder é designado como apotropaico. A face de Medusa causa a morte a quem a olhar, e quando usada por Atena (Minerva) afasta influências que a possam ameaçar. O uso de amuletos para proteção era designado como filactério. Acreditava-se que os objetos usados como amuletos tinham poderes especiais. Muitas vezes usavam uma pedra ou um bocado de metal onde tinham sido feitas gravações.

MILLS, Alice. A era clássica. IN.: GORDON Cheers (org.). Mitologia: Mitologias de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter, 2011. Cap. 1 p. 117
EVENTOS
Primeira Guerra Mundial
Segunda Guerra Mundial
LINHA DO TEMPO
A.E.C. (Antes da Era Comum)
40000
A China na pré-história
 
8500
A China no período Neolítico
 
8000
A China do período neolítico
 
4000
Explosão Urbana na Mesopotâmia
 
3300
O surgimento da escrita na Mesopotâmia
Século XXXIV 
3000
O antigo império egípcio
Século XXXI 
2700
A domesticação do feijão e os primeiros vilarejos na América Central
Século XXVIII 
2630
Imhotep constrói a pirâmide de degraus de Djoser
Século XXVII 
2600
Aperfeiçoamento da escrita na Suméria
Século XXVII 
2500
Florescimento da Cultura Hallstatt A,B e C
Século XXVI 
2334
Sargão, o Grande, conquista Ebla
Século XXIV 
2323
O declínio do Antigo Império Egípcio
Século XXIV 
2205
A dinastia Xia
Século XXIII 
2200
A china da idade do bronze
Século XXI 
2200
Primeiro Período intermediário egípcio
Século XXIII 
2100
Apogeu da cidade de Ur
Século XXII 
2060
A reunificação do Egito e o início do Médio Império
Século XXI 
2040
O Médio Império Egípcio
Século XXI 
2000
O comércio e a guerra na Mesopotâmia
Século XXI 
2000
A Europa nasce em Creta
Século XXXI 
1800
Desenvolvimento da metalurgia no Perú
Século XIX 
1785
Segundo Período Intermediário e o domínio dos Hycsos
Século XVIII 
1759
Os arquivos do palácio de Mari
Século XVIII 
1750
O código de Hammurabi
Século XVIII 
1600
Os conflitos na Mesopotâmia da Era do Bronze
Século XVII 
1500
Os Vedas, literatura sagrada da Índia
Século XVI 
1500
A dinastia Shang
Século XVI 
1387
As construções de Amenhotep III
Século XIV 
1285
A batalha de Kadesh
Século XIII 
1260
Ugarit sob o reinado de Amistamru II
Século XIII 
1189
A invasão dos povos do mar
Século XIII 
1185
Ramsés III constrói o templo de Medinet-Habu
Século XII 
1184
A guerra de Tróia
Século XII 
1100
É escrita a versão canônica de Gilgamesh
Século XII 
1100
A dinastia Zhou
Século XII 
1000
Os assírios expandem seu poder e influência
Século XI 
1000
Os arianos se estabelecem no vale do Ganges
Século XI 
967
Início da construção do Templo de Salomão
Século X 
853
Batalha de Qarqar
Século IX 
814
A fundação mítica de Cartago
Século IX 
753
Fundação de Roma
Século VIII 23 Abril
750
Os assírios atingem o auge de seu poder
Século VIII 
700
Roma sob o domínio etrusco
Século VIII 
700
Os citas se estabelecem na Rússia
Século VIII 
652
Babilônia se revolta contra o poder da Assíria
Século VII 
626
Os babilônios atingem o auge de seu poder
Século VII 
539
Os persas conquistam a Babilônia
Século VI 29 Outubro
499
Etruscos e Romanos em guerra pela hegemonia no Lácio
Século V 
495
Roma expande seu controle pela Itália até a Magna Grécia
Século V 
480
Os Etruscos dominam a Itália
Século V 
459
O início da rivalidade Esparta-Atenas e a Primeira Guerra do Peloponeso
Século V 
450
O Império Ateniense
Século V 
446
Guerra do Peloponeso: a paz dos trinta anos
Século V 
436
Guerra do Peloponeso: Corinto e o cerco de Epidamnus
Século V 
433
Guerra do Peloponeso: Atenas decide apoiar a Córcira contra Corinto
Século V Setembro
432
Guerra do Peloponeso: Esparta e Atenas e a opção pela Guerra
Século V 
432
Guerra do Peloponeso: o decreto de Mégara
Século V 
430
Guerra do Peloponeso: A libertação de Potidéia
Século V 
430
Guerra do Peloponeso: A grande peste de Atenas
Século V Maio
429
A morte de Péricles
Século V 
428
Guerra do Peloponeso: A revolta de Mitilene
Século V 
427
Guerra do Peloponeso: Guerra civil em Córcira
Século V 
427
Guerra do Peloponeso: Primeira expedição ateniense na Sicília
Século V Setembro
426
Guerra do Peloponeso: Esparta invade a Grécia Central
Século V 
426
Guerra do Peloponeso: Atenas saqueia a ilha de Melos
Século V 
426
Guerra do Peloponeso: Demóstenes e seus aliados derrotam os espartanos no noroeste
Século V 
426
Guerra do Peloponeso: Demóstenes é derrotado na Etólia
Século V 
425
Guerra do Peloponeso: Atenas derrota Esparta em Pilos e recupera seu prestigio na Guerra
Século V 
424
Guerra do Peloponeso: Esparta conquista Anfípolis e outras aliadas atenienses na Trácia
Século V Agosto
424
Guerra do Peloponeso: Atenas fracassa ao tentar capturar Mégara e Délion
Século V 
423
Guerra do Peloponeso: A trégua de um ano
Século V 
421
Guerra do Peloponeso: A paz de Nícias
Século V 12 Março
418
Guerra do Peloponeso: Políticas em Esparta e Atenas após a batalha de Mantineia
Século V 
415
Guerra do Peloponeso: Invasão ateniense da Sicília
Século V 
412
Guerra do Peloponeso: Os persas entram na guerra do lado peloponesio
Século V 
412
Guerra do Peloponeso: A guerra no mar Egeu
Século V 
411
Guerra do Peloponeso: Revoluçōes políticas em Atenas
Século V 
410
Guerra do Peloponeso: A restituição da democracia em Atenas
Século V 
410
Guerra do Peloponeso: a guerra no Helesponto
Século V 
408
Guerra do Peloponeso: A recuperação de Esparta
Século V 
406
Guerra do Peloponeso: A batalha das Arginusas
Século V 
404
Guerra do Peloponeso: Esparta derrota Atenas, e vence a Guerra
Século V Março
403
O mundo Grego após a Guerra do Peloponeso
Século V 
403
A Grécia sob o domínio Espartano
Século V 
386
Esparta manipula a Pérsia a apoiar sua supremacia na Grécia
Século IV 
379
Tebas se revolta contra a supremacia espartana
Século IV 
378
Atenas cria uma modesta segunda liga ateniense
Século IV 
362
Esparta e Atenas se aliam contra Tebas e a Liga Arcádica
Século IV 
362
Filipe II reorganiza a Macedônia e a transforma em potência
Século IV 
350
Política e economia ateniense em 350 a.e.c.
Século IV 
350
Atenas vacila entre apoiar ou combater Filipe II da Macedônia
Século IV 
346
O governo de Filipe II da Macedônia
Século IV 
338
Filipe II da Macedônia derrota Tebas e Atenas em Queronéia e conquista a Grécia central
Século IV 02 de Agosto
336
Após unir a Grécia, Felipe II da Macedônia é assassinado
Século IV 
335
A revolta de Tebas contra Alexandre Magno
Século IV 
334
Alexandre Magno e o cerco a Halicarnasso
Século IV 
334
Alexandre Magno e a Batalha do Rio Granico
Século IV 
334
Alexandre Magno atravessa o Helesponto em direção à Ásia
Século IV 
333
Alexandre Magno avança pela Anatólia
Século IV 
333
Alexandre Magno e a Batalha de Isso
Século IV Novembro
333
Alexandre Magno avança pelo interior da Ásia Menor
Século IV 
332
Alexandre Magno e o Cerco de Tiro
Século IV Janeiro