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FATOS HISTÓRICOS
Aperfeiçoamento da escrita na Suméria

O país de Sumer, na Baixa Mesopotâmia. é constituído durante o 3º milênio a.e.c. de um conjunto de principados urbanos ou cidades-Estado, fortemente unidas por uma língua, uma escrita e uma religião comuns. A organização política, social e econômica é muito semelhante entre as cidades, mas rivalidades políticas ou econômicas constantes opõem-nas umas às outras. Um dos principais fatores de conflito é o controle dos recursos da água, determinantes para a prática da agricultura irrigada. O mais conhecido desses confrontos é o das cidades-Estado de Lagash e de Umma, que se opõem durante mais de um século, entre 2500 e 2400 a.e.c. Apesar de uma longa série de vitórias de Lagash, essa guerra terminou com sua derrota e a destruição de suas principais cidades: a própria Lagash, mas tamhém a cidade de Girsu, mais ao norte.

O último rei de Lagash, Urukagina, decide, no início de seu reinado, proceder a certo número de reformas, que julga indispensáveis para manter a supremacia do Estado de Lagash sobre o sudeste do país de Sumer. Urukagina começa por abrandar as taxas, muitas vezes abusivas, pesadas para a população. Aparece assim como o primeiro soberano da história mesopotâmica a integrar uma preocupação de justiça e de equidade no exercício do poder. O rei alterará também as relações entre a autoridade real e os templos. Algumas gerações antes, Enentarzid, ao mesmo tempo rei e sumo sacerdote de Ningirsu, o deus principal de Lagash, acumulava poder real e poder religioso, misturando os interesses econômicos do palácio com os templos, o que provocava confusão e desperdício. Urukagina confere autonomia aos templos: as terras do templo da grande deusa Bawa, constituindo anteriormente “a casa da rainha”, voltam a tornar-se “domínio de Bawa”. Mas essa reforma é ilusória, porque os responsáveis administrativos não mudam e a família real conserva seu poder sobre a gestão dos principais templos e a responsabilidade pelo bom funcionamento do culto: Urukagina controla o templo do deus Ningirsu, a rainha Sasag controla o de Bawa, seus filhos, o de Shulshagana. Essa gestão é conduzida naturalmente para resguardar da melhor maneira possível o interesse dos santuários. Mas, quando as necessidades do Estado os exigem, os recursos dos templos, em homens e nos produtos mais diversos, podem ser mobilizados a seu serviço.

Após ter rechaçado vitoriosamente as tropas de Uruk, Urukagina é atacado e vencido pelo rei de Umma, Lugalzaggesi. Este dirige suas forças para o centro do principado de Lagash, onde pilha e queima vários santuários. Pouco depois, triunfa sobre Uruk e unifica sob sua autoridade todo o sul sumério, antes de cair, por sua vez, sob os golpes de Sargão da Acádia.

No fim do século XIX. o arqueólogo francês Ernest de Sarzec descobriu no sítio de Girsu os primeiros vestígios dos sumérios. Nos níveis mais antigos do sítio, foram descobertos grande número de estátuas, objetos votivos e vários milhares de placas de escrita cuneiforme, que, uma vez decifradas, permitiram reconstituir o funcionamento de uma cidade-Estado suméria.

Os aproximadamente 1.200 documentos escritos, encontrados no templo de Bawa em Girsu, constituem os primeiros arquivos administrativos da Mesopotâmia e fornecem uma base sólida para reconstruir o que era a gestão de um grande organismo religioso sumério na época de Urukagina. Pesquisas recentes permitiram mostrar que, por meio das simples listas de nomes próprios, de distribuições de rações alimentares, de recenseamentos de rebanhos, surge não somente um sistema econômico, mas também a consequência direta dos acontecimentos militares do reinado de Urukagina.

Desde o início de seu reinado, Urukagina envolve-se em guerras com as outras cidades-Estado. A situação econômica torna-se mais difícil e a contabilidade do templo reflete essa realidade. Os registros de entrega de cevada e de espelta mostram uma diminuição da ordem de mais de 30%. Certos setores de despesas, como a “preparação da cerveja do rei”, desaparecem. A cerveja das rações correntes é diminuída numa proporção de 30% a 50%. Um pastor vê seu rebanho passar de 38 a 22 carneiros.

O estado de guerra acarreta também o estabelecimento de listas de recrutamento, nas quais são contados homens pertencentes aos grupos de trabalhadores do templo. A mais antiga lista registra 43 pessoas: pescadores de água doce, oleiros, arboricultores, dos juncais. Três anos mais tarde, quando do segundo assalto de Uruk contra Girsu, uma nova lista conta cerca de cem homens fornecidos pelo templo sob as ordens de quatro oficiais. No ano seguinte, uma tijoleta registra 167 soldados, tomados entre os agricultores, os pescadores e os pastores. Reunindo todos os dados, constata-se que o templo de Bawa dispõe de uma mão-de-obra de 400 trabalhadores, da qual 40% foram integrados no exército. O templo participa também no esforço de guerra pela fabricação, em seus próprios ateliês, de machados duplos e de pontas de lança.

Por volta de 3300 a.e.c. aparecem em Uruk os primeiros verdadeiros textos escritos. Os princípios básicos dessa escrita são simples: reproduzem elementos reais representados de maneira estilizada sobre a argila. São pictogramas (desenhos figurativos). Nesse sistema, um desenho representa um animal, um vegetal ou um objeto útil. Pouco a pouco, “codifica-se" a representação de certas noções: por exemplo, um pássaro e um ovo desenhados lado a lado permitem evocar a ideia de dar à luz. São introduzidos também elementos puramente abstratos como as anotações de quantidades.

Os pictogramas dão lugar então a ideogramas: um sinal re-presenta uma palavra da língua. A partir de então, a escrita funciona com sinais e não mais com desenhos, e a noção de “representaçâo explícita” desaparece progressivamente. Os sinais se simplificam em combinações de “cunhas”, mais fáceis de imprimir na argila mole que linhas curvas.

À medida que as vastas potencialidades desse sistema aparecem, os sumérios compõem lentamente um processo de escrita no qual, para cada palavra, é necessário um desenho correspondente. Recorrem então a agrupamentos de sentidos em torno de um único sinal. Por exemplo, um só e mesmo sinal designa a “boca", o “dente”, o “ato de comer”, a “palavra” etc. Depois, ao lado do valor de evocação de uma palavra inteira (ideograma) por meio de um sinal, atribui-se a este um ou vários valores fonéticos elementares (do tipo: “ba”, “bí”, mas também “ab” ou “ib”). No final desse processo, os sumérios dispõem, por volta de 2600 a.e.c., de uma escrita com cerca de um milhar de sinais, constituídos de agrupamentos de “cunhas” inscritas na argila e que só possuem uma remota relação com o desenho-pictograma original. Esses sinais devem ser lidos ora como palavras inteiras (valor ideogramático), ora como fonogramas (sinais-som), que combinados com os sinais vizinhos, permitem escrever uma palavra para a qual não existe ideograma adequado, por exemplo, uma forma verbal conjugada ou um nome próprio.

Essa escrita não é concebida como um simples “instrumento”, mas veicula ao mesmo tempo uma concepção do mundo.

Esse sistema pode parecer muito complicado, visto que cada sinal pode ter ao mesmo tempo vários valores fonéticos e vários valores ideogramáticos, e que nada indica, a príori, qual ser escolhido. Entretanto, pode-se constatar que o sistema de escrita cunéiforme dos sumérios foi construído de maneira muito pragmática. Representa, na época de Urukagina, uma espécie de ponto de equilíbrio entre o número total de sinais razoavelmente memorizáveis e a quantidade dos valores que possui cada um desses sinais. Deve-se também ter em mente que essa escrita não é concebida como um simples “instrumento”, mas veicula ao mesmo tempo uma concepção do mundo, a maneira de representá-lo e, com isso, de dominá-lo. De modo significativo, constata-se que, a partir dos primeiros corpos importantes de textos cunéiformes, por volta de 2600 a.e.c., se encontram listas nas quais são registradas, de maneira ordenada, todas as espécies de realidades: nomes de cidades, nomes de ofícios, nomes de divindades, nomes de animais, se colocar por escrito a realidade do mundo permitisse compreender melhor os mecanismos de seu funcionamento íntimo.

Mesmo simplificado desse modo, o sistema da escrita cuneiforme não está ao alcance de todos. Permanece privilégio de especialistas, os técnicos da escrita. Os escribas possuem ao mesmo tempo a arte de escrever, a de contar, o conhecimento das fórmulas jurídicas, espistolares, administrativas. Aprenderam a estabelecer listas de pessoal, a registrar movimentos de produtos ou de animais, a elaborar balanços, a reunir dados estatísticos. Sabem também redigir as inscrições oficiais pelas quais o rei celebra sua bravura ou sua piedade, ou as fórmulas religiosas pelas quais se pode enternecer o coração dos deuses.

Mas o aspecto mais importante dessa prática da escrita reside realmente na possibilidade conferida doravante aos grandes organismos econômicos das diversas cidades-Estado sumérias, palácios e templos, de praticar uma gestão escrita de seus recursos, de controlá-la e, por fim, de otimizá-la.

Civilização Suméria
Revolução Russa de 1917

A Revolução Russa de 1917 foi uma das muitas consequências da Primeira Guerra Mundial. A guerra submeteu o Estado e a sociedade russa a tensões que nenhum dos dois podia suportar. O resultado foram seis anos de guerra e tumulto que criaram a União Soviética. A participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial não foi um acidente. Depois da Guerra Russo-Japonesa, a política externa da Rússia voltou-se para o oeste. Em 1907, a Rússia concluiu um tratado com sua rival de longa data, a Grã-Bretanha, para estabelecer um domínio conjunto sobre o Irã. Os russos tomaram controle da parte setentrional do país até Teerã, e os britânicos do Sul. Esse compromisso pôs fim à competição imperial anglo-russa na Ásia e fez que a Rússia se tornasse um aliado efetivo da Grã-Bretanha, bem como da França. Os únicos inimigos imagináveis eram a Alemanha e a Áustria. O acordo sobre a Pérsia armou o palco para os eventos de 1914, mas foram as rivalidades imperiais nos Bálcãs que proporcionaram a fagulha para a explosão. Ali, a Rússia enfrentava um Império Otomano ressurgente, aliado com a Alemanha e a Áustria, seguidas pela Bulgária. Nesse ponto, o único aliado da Rússia era a diminuta Sérvia, que estava exatamente no caminho da expansão austro-alemã no Sul. Uma série de crises nos Bálcãs nesses anos mostrou repetidamente a fraqueza da Rússia na região: ela não tinha aliados formais além da Sérvia, nem o poder informal derivado dos laços comerciais estabelecidos pelos alemães e austríacos, bem como os franceses e britânicos. Quando Gavrilo Princip assassinou o arquiduque austríaco em Sarajevo em 1914, Viena lançou um ultimato à Sérvia e a Rússia teve de apoiar a resistência sérvia. A credibilidade básica da Rússia estava em jogo, e o resultado foi a guerra. Ela não havia buscado a guerra, mas desviado em direção à crise, tal como estava fazendo em muitas outras áreas.

Se o governo do Império Russo depois da morte de Stolypin meramente vagava no fluxo dos acontecimentos, nem a sociedade russa nem o movimento revolucionário demonstravam a mesma passividade. Os anos imediatamente anteriores à Primeira Guerra Mundial foram anos de crescimento econômico dinâmico para as ilhas de indústria moderna no mar de atraso rural. O desenvolvimento industrial significava crescimento no tamanho e, em certa medida, na sofisticação da classe operária, e os partidos revolucionários estavam prontos para fazer uso dele. Em alguns lugares, os trabalhadores recorreram novamente à greve. Em 1912, no rio Lena, na Sibéria, várias centenas de trabalhadores pereceram quando os soldados e a polícia reprimiram uma greve nas minas de ouro de propriedade inglesa. Por volta dessa época, os partidos revolucionários haviam se recuperado da derrota de 1905-1907. Os bolcheviques, mencheviques e SRs estavam razoavelmente bem organizados e o movimento trabalhista recuperou-se. Na primavera de 1914, uma onda de greves varreu São Petersburgo, e nela os bolcheviques pareciam pela primeira vez ser a liderança, e não os mencheviques ou SRs. Todavia, o restante do país estava relativamente sossegado, e as notícias da guerra atingiram a Rússia como um raio. Na verdade, a Rússia havia dedicado muito esforço à reconstrução do Exército e da Marinha desde a guerra com o Japão, e um dos numerosos fatores que aguilhoavam o Estado-Maior alemão e o Kaiser a forçar uma guerra imediata era o temor de que a Rússia seria muito mais difícil de derrotar dentro de poucos anos. Na verdade, tanto o planejamento quanto o equipamento ainda eram deficientes. Por insistência do tsar, enormes somas haviam sido gastas para reconstruir a esquadra do Báltico, que no fim era pequena demais para desafiar a Marinha alemã e nunca deixou o porto. A indústria de armamentos da Rússia ainda era inadequada para abastecer um Exército moderno e sua rede de transporte, adequada em tempos de paz, era pequena demais para a mobilização e abastecimento velozes do Exército na fronteira ocidental. Para piorar as coisas, o avanço rápido do Exército alemão pela Bélgica e pela França gerou uma crise no fronte. Sob intensa pressão da França, os russos lidaram com a crise enviando um Exército despreparado para a Prússia Oriental, uma expedição que terminou em derrota em Tannenberg em agosto de 1914. Assim, a Rússia iniciou a guerra com uma derrota.

Em casa, a guerra produziu de início uma orgia de patriotismo. Sob aclamação universal, o governo mudou o nome alemão São Petersburgo para Petrogrado, uma tradução russa, mais ou menos, do mesmo. Liberais e reacionários na Duma uniram-se numa plataforma de guerra e a intelligentsia, como seus pares a oeste, despejou uma enxurrada de propaganda anti-inimigo e delírios nacionalistas. Os trabalhadores também foram arrastados pela febre e o movimento de greve na capital evaporou-se. A polícia reprimiu fortemente os partidos revolucionários, particularmente os bolcheviques, e dentro de poucos dias seus líderes que estavam na Rússia desapareceram na prisão e no exílio na Sibéria. Stalin estava entre eles. Os bolcheviques foram objeto de ira particular do governo por causa da sua posição acerca da guerra, uma posição que transformou um obscuro grupo marxista num movimento mundial que reordenou fundamentalmente o século XX. Afinal, foi da reação de Lenin à guerra, e não como resposta à Revolução Russa posterior, que o comunismo nasceu.

Antes de 1914, os partidos socialistas europeus haviam prometido reiteradamente, nas suas reuniões internacionais, opor-se a todas as guerras entre os Estados europeus por serem nocivas aos interesses da classe operária. Tratava-se de grandes e poderosos partidos de massa, que controlavam sindicatos trabalhistas importantes e ofereciam serviços sociais e culturais elaborados, no que eram totalmente diversos do pequeno bando de combatentes clandestinos de Lenin. Quando os governos pronunciaram declarações bombásticas de guerra em julho e agosto de 1914, a expectativa era a de que os socialistas se opusessem à guerra e até fizessem greve, como haviam ameaçado antes, no intuito de pôr fim a ela. Nada disso aconteceu. Ao contrário, os líderes socialistas pronunciaram-se quase unanimemente a favor da guerra e juntaram-se ao coro de patriotismo e ódio nos seus respectivos países. Os poucos que discordaram sentiram-se obrigados pela disciplina do partido a ficarem quietos e seguir a liderança. Entre os russos, o ancião fundador do marxismo russo, Plekhanov, pronunciou-se a favor da guerra, e os mencheviques adotaram uma posição de compromisso, não conclamando a uma vitória russa, mas não se opondo à guerra. Entre os socialistas europeus, somente os bolcheviques de Lenin e um punhado de dissidentes mencheviques como Trotsky opuseram-se à guerra desde o primeiro dia.

Lenin não era um pacifista, e seu programa para a guerra não consistia apenas em opor-se a ela. Ele proclamou que a derrota do Império Russo seria o melhor resultado para a Rússia e conclamou todos os socialistas, na Rússia e alhures, a transformar a guerra internacional numa guerra civil.

Em outras palavras, ele estava lançando um apelo à insurreição armada em tempo de guerra. Essa posição parecia-lhe a única atitude marxista correta, mas por que tão poucos socialistas europeus concordaram? Segundo ele, eles haviam traído a classe operária que deveriam liderar, mas por quê? Desesperado com o futuro, Lenin voltou-se para a teoria marxista para tentar entender o que tinha acontecido. Ele releu a Metafísica de Aristóteles (em grego; ele era produto do ginásio russo) e a Ciência da Lógica de Hegel para tentar recapturar o sentido original da dialética como Hegel e Marx a compreendiam. Ele também realizou um longo estudo dos eventos económicos recentes. Seu objetivo era entender o apoio dado à guerra pelos socialistas europeus. Sua conclusão foi que a resposta estava no imperialismo, na riqueza excessiva gerada pelos impérios europeus na África e na Ásia, alimentada pela concentração crescente do capital. O império era o verdadeiro objetivo das potências beligerantes, ocultado sob um jargão enganador de liberdade ou honra nacional. A riqueza do império também produzira uma aristocracia trabalhista, contente com o status quo e portanto relutante em causar problemas em tempo de guerra. A curto prazo, ela se beneficiaria com o imperialismo. Ambas as conclusões viriam a ter efeitos decisivos após a Revolução Russa, mas por enquanto a leitura fez pouco mais que manter Lenin ocupado enquanto o mundo afundava cada vez mais no lodaçal sangrento da guerra.

À medida que as baixas acumulavam-se aos milhões, a oposição à guerra começou a surgir entre os socialistas na Europa Ocidental. Os primeiros a abandonar as fileiras foram os pertencentes à ala esquerda dos social-democratas alemães, Rosa Luxemburg, Karl Liebknecht e seus seguidores, que votaram contra os créditos de guerra no Reichstag em dezembro de 1914. Dentro de pouco tempo, os socialistas antiguerra estavam realizando pequenas reuniões na Suíça para exigir o fim da guerra e discutir táticas, e mesmo ali Lenin, com seu apelo intransigente à revolução, era minoria. Pela primeira vez, os bolcheviques russos chamaram a atenção do mundo como um bando diminuto de revolucionários que se aferravam à sua posição mesmo quando ela parecia condená-los ao isolamento e à derrota. Sua posição começou a angariar apoio entre socialistas ocidentais e, dessas pequenas reuniões de grupos na Suíça, surgiu um movimento mundial com consequências decisivas para a Rússia, bem como para a China, o Vietnã e outros países.

As consequências dessas reuniões obscuras estavam num futuro distante. Enquanto isso, na Rússia, a situação deteriorava-se gradualmente e não oferecia consolo nem ao tsar e seu governo, nem aos bolcheviques. No começo da guerra, Nicolau suspendeu a Duma, na esperança de governar sozinho. A derrota inicial na Prússia Oriental foi seguida, na primavera de 1915, por uma retirada geral russa da Polónia, o que acabou levando a uma crise no governo. A Duma foi convocada novamente no verão e os Kadets e conservadores moderados conseguiram formar um “Bloco Progressista”, que ofereceu cooperar com o governo no esforço de guerra. Por fim, o governo teve de apelar aos zemstvos e diversos comités de empresários para resolver as crises de abastecimento, mas só o fez com relutância e tarde demais. Surgiram novas agências para regular a economia para a guerra, como na Alemanha e outras potências beligerantes, mas a Rússia carecia da infra-estrutura para fazê-las funcionar. O governo regulou os preços dos cereais para abastecer o Exército e as cidades com comida barata, mas o resultado foi que os camponeses passaram a semear menos e a produção de alimentos começou a cair, piorando a situação.

No final de 1915, o próprio Nicolau assumiu o comando do Exército e mudou-se de Petrogrado para Stavka, o quartel-general do Exército perto de Mogilev. Sua mudança não ajudou o Exército e só desorganizou ainda mais o governo na capital, pois o tsar continuava a ser a única autoridade e agora era ainda mais difícil conseguir sua atenção. Suas consultas reiteradas à imperatriz Alexandra e a Rasputin provavelmente não tiveram muito impacto sobre a política, mas acabaram por indispor ainda mais o público. O Exército russo teve êxitos mitigados, já que pouco podia fazer contra os alemães, mas obteve uma vitória importante contra a Áustria em 1916 (a “Ofensiva Brusilov”, comandada pelo general Aleksei Brusilov) e contra os turcos. Erzurum, na Anatólia Oriental, caiu nas mãos do general Nikolai Yudenich no mesmo ano. Esses sucessos não puderam mudar a estagnação geral da guerra nem interromper a carnificina. As baixas russas aproximavam-se de cerca de 2 milhões de mortos, 2,5 milhões de feridos e 5 milhões de prisioneiros de guerra. Na Duma, o líder dos Kadets, Pavel Miliukov, falou de traição em altas esferas (uma referência à imperatriz Alexandra, entre outros) e, em dezembro de 1916, um grupo de jovens aristocratas temerosos quanto ao destino da monarquia assassinou Rasputin. Primeiro convidaram-no para jantar e serviram-lhe comida e vinho com altas doses de veneno. Depois, ao notarem que isso não surtia efeito na sua constituição corpulenta, eles atiraram nele e puseram-no sob o gelo dos canais de São Petersburgo. Rasputin se fora, e logo foi a vez da monarquia.

 

Sob muitos aspectos, a queda da dinastia Romanov foi quase um anticlímax. No final de fevereiro de 1917, o agravamento da situação alimentar em São Petersburgo levou a longas filas em padarias e outras lojas de produtos alimentícios nos bairros operários da cidade. No Dia Internacional da Mulher (23 de fevereiro/8 de março, um feriado socialista), muitas mulheres trabalhadoras, exaustas de ficar nas filas de comida depois das longas jornadas de trabalho, entraram em greve. Em poucas horas, os homens nas fábricas ouviram a notícia e também entraram em greve, fechando rapidamente a cidade inteira. Os estudantes e as classes médias aderiram a eles. O governo mobilizou soldados, que atiraram nos manifestantes, matando várias dúzias deles. Contudo, no dia seguinte, os mesmos soldados que haviam atirado recusaram-se a lutar e amotinaram-se, levando outros regimentos com eles, até os cossacos. Os ministros e a Duma enviaram telegramas cada vez mais desesperados ao tsar, e Nicolau retornou às pressas de Stavka. Antes que ele chegasse à capital, representantes do governo vieram ao seu encontro e convenceram-no a abdicar. Foi o que ele fez, em 2/15 de março, e a monarquia chegou abruptamente ao fim.

 

REVOLUÇÃO

Mesmo antes da abdicação do tsar, dois novos governos estavam sendo formados em Petrogrado. Quando o governo do tsar ruiu, os líderes da Duma formaram um Governo Provisório liderado pelo príncipe Georgii Lvov, o chefe da União dos Zemstvos, um fidalgo rural liberal diplomado em Direito e com folha de serviço nos conselhos locais e na Duma. Seu ministro das Relações Exteriores era o líder do partido Kadet, o historiador Pavel Miliukov. A única voz mais ou menos radical era a de Aleksandr Kerenskii, um advogado conhecido pelo trabalho de defesa em julgamentos políticos e membro do “Grupo Trabalhista” da Duma, socialistas agrários próximos da ala direita dos SRs. Seu pai fora diretor do colégio de Simbirsk quando Lenin era aluno lá. Esses homens eram a fina flor da Rússia liberal em termos amplos, mas como grupo não faziam ideia de como liderar as massas e passavam grande parte do seu tempo preocupando-se com as reações dos aliados da Rússia na guerra, a Grã-Bretanha, a França e logo mais os Estados Unidos. Sua solução preferida para todos os problemas que a Rússia enfrentava era convocar uma Assembleia Constituinte a fim de escrever uma constituição para uma república democrática que satisfizesse o desejo dos camponeses por terra e as queixas dos trabalhadores. Entrementes, eles dariam prosseguimento à guerra, na esperança de uma vitória aliada sobre a Alemanha. 

 

O outro “governo” era o soviete de Petrogrado. Respondendo à instigação dos mencheviques, os trabalhadores de quase todas as fábricas da cidade elegeram delegados para um soviete municipal que contava quase mil membros. Sua primeira medida foi a “Ordem n° 1”, na qual especificava que o Exército devia ser gerido por sovietes de soldados eleitos e que os oficiais só exerceriam o comando durante as operações. Nesse momento em que os partidos revolucionários passaram a agir abertamente pela primeira vez na história russa, os mencheviques e os SRs, não os bolcheviques, impuseram rapidamente seu domínio sobre o soviete de Petrogrado e na maioria das outras cidades. A tática menchevique era recusar apoio ao Governo Provisório e ao mesmo tempo empurrá-lo numa direção mais radical, uma posição de compromisso insustentável. Logo de início, o problema da guerra teve de ser abordado. Se os mencheviques russos diferiam da maioria dos socialistas europeus por argumentarem que a guerra devia ser encerrada sem vitória para nenhum lado, eles não tinham nenhum plano factível para interrompê-la, nem defendiam uma revolução socialista imediata. Sua posição refletia, de fato, uma genuína hostilidade popular à guerra, e em maio Miliukov e outros tiveram de deixar o Governo Provisório, pois queriam levar a guerra a um final vitorioso e o soviete não aceitava isso. Lvov organizou um novo governo com vários socialistas moderados, incluindo Kerenskii, que ficou encarregado do Exército e da Marinha e lançou uma nova ofensiva no fronte. Sovietes também foram formados em Moscou e outras cidades, no Exército e até em algumas regiões rurais. Eles representavam apenas trabalhadores, soldados e camponeses, não as classes médias ou altas. Reeleitos em intervalos de poucas semanas, os sovietes locais refletiam o humor popular muito de perto.

Em todas essas deliberações durante os primeiros meses da revolução, os bolcheviques continuaram minoria nos sovietes. Lenin ouviu falar da queda do tsar na Suíça e conseguiu retornar à Rússia através da Alemanha, tendo convencido o governo alemão de que ele era mais uma ameaça ao esforço de guerra da Rússia que ao da Alemanha. Ele viajou num trem cujas portas foram lacradas até que ele chegasse à Suécia neutra, e atravessou a Finlândia para chegar a Petrogrado em 3/16 de abril de 1917, onde recebeu as boas-vindas tumultuadas dos seus seguidores. Ele descobriu que os líderes bolcheviques, incluindo Stalin, haviam retornado do exílio e estavam começando a organizar-se. No entanto, todos eles careciam de uma ideia clara do que deveria ser sua plataforma. A de Lenin era absolutamente clara, tal como expressa nas “Teses de Abril”. A queda do tsar, ele escreveu, significava que a revolução burguesa, a qual o partido havia almejado em 1905, havia terminado. Naquele momento havia no país um poder dual, os sovietes junto com o Governo Provisório. O objetivo era agora a tomada do poder pelo proletariado com a meta de transformar a Rússia numa sociedade socialista. O instrumento dessa tomada seriam os sovietes, principalmente os de soldados e trabalhadores. A meta imediata dos bolcheviques era, portanto, obter uma maioria no soviete de Petrogrado e outros.

A história dos poucos meses seguintes é a da realização desse objetivo. Foi a situação da Rússia que a tornou possível, dado que o país inteiro entrou numa crise profunda. O colapso do antigo governo deixou pouca autoridade efetiva em seu lugar e grande parte dela estava acuada pela multidão revolucionária. Nas aldeias, os camponeses simplesmente tomaram as terras durante o verão. Em muitos lugares houve violência, mas no mais das vezes eles simplesmente ignoraram os proprietários nobres e começaram a arar os campos deles para uso próprio. Às vezes eles entravam nas mansões dos aristocratas e pediam-lhes educadamente que saíssem. Seja como for que tenha ocorrido, a tomada das terras pelos camponeses foi uma mudança cataclísmica na sociedade russa, que pôs fim em poucos meses a uma ordem social que durara séculos. A maioria dos nobres não eram mais senhores da terra, mas refugiados pobres nas grandes cidades. Nas cidades, os trabalhadores usaram sua liberdade recém-conquistada para exigir uma jornada de oito horas e salários mais altos, e para formar comités de fábrica que tentavam tomar o controle dos locais de trabalho.

Os partidos de esquerda saíram todos da clandestinidade e tentaram tornar-se organizações de massa. A época da clandestinidade revolucionária havia terminado. De início, os mais bem-sucedidos foram os SRs, com suas tradições de ação direta e apelo ao campesinato. Pela primeira vez, eles conseguiram realmente organizar números significativos de camponeses no seu partido, e seus seguidores oriundos da classe operária eram muito numerosos. Mas eles tinham um problema grave - a guerra. Mesmo antes de 1917, alguns SRs haviam se pronunciado contra a guerra, com uma posição muito próxima da de Lenin, mas continuavam a fazer parte do partido maior. À medida que a crise aprofundou-se no verão de 1917, a cisão ampliou-se. Os mencheviques, que sempre tiveram a esperança de formar um partido de massas em condições mais livres, beneficiaram-se enormemente com a nova liberdade. Quando os sovietes realizaram seu primeiro congresso de delegados de toda a Rússia em junho, os SRs e os mencheviques tinham quase 300 deputados cada, e os bolcheviques apenas pouco mais de 100. A moderação parecia triunfar, mas o clima mudou muito rápido.

 

Pela primeira vez, os bolcheviques estavam tornando-se também um partido de massas. Em vez de poucos milhares de revolucionários profissionais, o partido cresceu rapidamente até incluir 200 mil filiados, com concentração maior nas grandes cidades e especialmente em Petrogrado. A maioria esmagadora desses novos membros era composta de jovens operários, a maior parte deles com menos de 25 anos. À medida que mais e mais revolucionários retornavam do exterior, os bolcheviques também começaram a atrair dissidentes dos mencheviques, dos quais o mais importante foi Trotsky, cuja oposição à guerra levou-o a aderir a Lenin pela primeira vez. Trotsky era um orador poderoso e seus discursos eram uma arma capital para arregimentar as massas para o bolchevismo. Os novos membros transformaram o partido bolchevique, especialmente no nível das bases, cujo radicalismo veio à tona no início de julho. Os bolcheviques de Petrogrado organizaram uma manifestação armada que parecia estar assumindo ares de reivindicação do poder. O Governo Provisório, com apoio do soviete municipal, conseguiu reprimi-la e prender muitos líderes bolcheviques. Lenin fugiu para a Finlândia e Trotsky acabou preso. Em reação a esses eventos, Kerenskii sucedeu o príncipe Lvov no cargo de primeiro-ministro. Durante algumas semanas a onda revolucionária pareceu recuar, mas isso não durou. A guerra prosseguia, o descontentamento no Exército desdobrava-se num colapso gradual da disciplina e Kerenskii substituiu Brusilov pelo general Lavr Kornilov como comandante em chefe, esperando que Kornilov pudesse restaurar a ordem no Exército. A tarefa estava além dos seus poderes. A rede de transportes do país, já enfraquecida pela guerra, começou a ruir, assim como muitas indústrias e serviços essenciais. Nas cidades, os sovietes organizaram os Guardas Vermelhos, que contribuíam tanto para a desordem quanto para a ordem. As organizações e grupos revolucionários “expropriaram” prédios para uso próprio, dos quais o exemplo mais famoso foi a tomada pelo soviete de Petrogrado dos edifícios do Instituto Smolnyi em Petrogrado, a escola aristocrática de meninas fundada pela imperatriz Elizabete. Ela passou a servir de quartel-general bolchevique. Para as classes média e alta, foi o começo da anarquia; para os trabalhadores, era a aurora de um novo mundo, caótico, mas que lhes pertencia. Discussões e reuniões intermináveis tumultuavam ainda mais o trabalho das fábricas, mas também formavam um eleitorado para reivindicações cada vez mais radicais. A vida em Petrogrado era febril, e nas províncias só um pouco mais calma. Moscou e todas as cidades e povoados com algum tipo de indústria fervilhavam com reuniões, discursos e manifestações. Nos extremos do país,  surgiram movimentos nacionalistas com exigências de autonomia. Em Kiev, grupos de intelectuais nacionalistas e ativistas partidários proclamaram-se a Rada ucraniana (conselho) junto com o Governo Provisório e os sovietes locais. Outros grupos foram formados no Báltico e no Cáucaso, embora nenhum deles ainda defendesse uma independência efetiva.

Os dias de julho haviam posto um entrave na organização bolchevique e sua ascensão à primazia entre os trabalhadores. Então, no final de agosto, o general Kornilov avançou sobre a capital com o Corpo de Cavalaria de Montanha, composto de povos muçulmanos do Cáucaso setentrional (chechenos e circassianos), a fim de restaurar a disciplina e a ordem no país. Diante desse desafio, Kerenskii teve de recorrer ao soviete de Petrogrado, que armou os trabalhadores. Os bolcheviques haviam ganhado força desde os dias de julho. Agora eles eram cruciais para derrotar Kornilov, e seus líderes saíram da cadeia novamente para a liberdade. A incapacidade de Kerenskii de defender a revolução por si mesmo foi o último golpe contra o seu poder e, a partir da derrota de Kornilov em 1/14 de setembro, o Governo Provisório só fez derivar. O foco da ação havia sido transferido para os sovietes. Durante o episódio de Kornilov e logo depois dele, os bolcheviques finalmente obtiveram a maioria nos sovietes de Petrogrado e Moscou. Conforme as semanas avançavam e a crise económica e militar continuava a piorar, outro Congresso dos Sovietes foi organizado, mais uma vez com delegados do país todo. Nele as divisões do partido SR desempenhariam um papel decisivo, dado que os bolcheviques haviam ganhado claramente a maioria dos trabalhadores da cidade, mas nas aldeias eles não tinham nenhuma organização. A ala esquerda do partido SR, cada vez mais radicalizada pela revolução, exigia um fim imediato para a guerra e estava pronta para aderir aos bolcheviques. Em 10/23 de outubro, Lenin retornou de seu esconderijo na Finlândia e reuniu os líderes bolcheviques. Com o apoio de Trotsky e Stalin, ele superou os pessimistas na liderança, Zinoviev e Kamenev, e o Comité Central bolchevique votou a tomada do poder. Com os votos dos SRs de esquerda, os bolcheviques capturaram a liderança do Congresso dos Sovietes e, em 25 de outubro/7 de novembro de 1917, os Guardas Vermelhos avançaram sobre o Palácio de Inverno para desalojar o Governo Provisório. Restavam somente poucas centenas de defensores no palácio, oficiais cadetes e o “Batalhão da Morte Feminino”, uma unidade formada principalmente de mulheres de classe média para lutar na guerra. A um sinal do cruzador naval Aurora, ancorado no rio Neva, vários milhares de Guardas Vermelhos andaram rapidamente através do frio outonal e tomaram o palácio com um mínimo de tiros e feridos. As tentativas de saquear a adega e os numerosos tesouros do palácio foram logo reprimidas e os ministros do Governo Provisório foram escoltados para a prisão na Fortaleza de São Pedro e São Paulo. Kerenskii escapou para o sul num carro da embaixada dos Estados Unidos numa vã tentativa de angariar apoio no fronte.

Ao contar com a maioria no Congresso dos Sovietes, os bolcheviques e os SRs de esquerda tomaram o poder e proclamaram a Rússia uma república socialista e soviética. Os mencheviques e os SRs de direita deixaram o Congresso em protesto enquanto Trotsky relegou-os ao “monturo da história”. A primeira ação dos Vermelhos foi organizar o novo governo. O Congresso dos Sovietes elegeu um governo de Comissários do Povo com Lenin à sua frente e Trotsky como comissário do povo para Relações Exteriores. As outras posições ficaram com bolcheviques e SRs de esquerda de destaque. Entre estes últimos, o mais significativo era Joseph Stalin como comissário das nacionalidades. Trotsky foi para o Ministério das Relações Exteriores, na Ponte dos Cantores perto do Palácio de Inverno, apagou as luzes e mandou todo mundo ir para casa. Pelos próximos poucos meses, ele geriu a política externa de um pequeno escritório no Instituto Smolnyi.

O novo governo soviético chegou ao poder com amplo apoio dos trabalhadores e intensa oposição das velhas classes altas, das classes médias e da intelligentsia. Essas divisões refletiam-se na Assembleia Constituinte que se reuniu em 5/18 de janeiro de 1918. Convocadas pelo Governo Provisório, as eleições para a Assembleia haviam ocorrido no outono, antes e depois da tomada do poder pelos bolcheviques. Nas cidades, os bolcheviques desbarataram os socialistas moderados (SRs e mencheviques), deixando os Kadets, cada vez mais conservadores e nacionalistas, como o segundo partido urbano. No campo, porém, os SRs obtiveram o maior número de votos, embora a maioria dos candidatos não tivesse declarado se apoiava a esquerda ou a direita, o que confundia o resultado. A Assembleia reuniu-se por cerca de 13 horas, depois do que a guarda bolchevique de marinheiros Vermelhos simplesmente mandou os deputados irem para casa. Eles obedeceram. Poucos dias depois, um outro Congresso de Deputados Soviéticos proclamou o novo Estado, a República Socialista Federativa Soviética da Rússia, com declarações altissonantes dos direitos dos trabalhadores, camponeses e minorias nacionais.

 

Guerra civil e poder dos sovietes

A essa altura, a guerra civil já havia começado, pois grupos de oficiais militares na Rússia meridional reuniram-se para organizar a resistência ao novo governo, e o descontentamento crescia entre os cossacos do Don. O líder cossaco Kaledin formou um governo cossaco improvisado no Don e os Vermelhos logo avançaram contra ele. Ao longo de toda a guerra civil, os cossacos seriam a fundação da resistência ao poder soviético. Eles viviam nas bordas meridional e oriental da Rússia, e já não eram mais os rebeldes do século XVIII. Eles combinavam a agricultura camponesa com o serviço militar e, com a posse garantida de suas terras, representavam os servidores mais leais do tsar desde os anos 1790. As hostes maiores e mais prósperas dos cossacos ficavam no Don, e ali ocorria a resistência mais feroz à nova ordem. Ao mesmo tempo, os intelectuais nacionalistas na Rada de Kiev declararam-se o poder supremo da Ucrânia. Um fronte cossaco-ucraniano parecia estar se formando contra os Vermelhos no Sul. Um ajuntamento disparatado de Guardas Vermelhos e marinheiros foi suficiente para derrotar os cossacos do Don e a Rada em janeiro de 1918. Enquanto isso, o caos espalhava-se pelo país, junto com episódios de resistência em outros lugares. No final de dezembro de 1917, para conter essas ameaças, as autoridades soviéticas formaram a Cheka, a Comissão Extraordinária para a Luta contra o Banditismo e a Contrarrevolução, uma organização que combinava funções de polícia de segurança com uma espécie de Exército político. Seu primeiro chefe foi um comunista polonês, Felix Dzerzhinskii, incorruptível e implacável.

A rápida derrota da oposição aos bolcheviques não significava que a ordem havia retornado. A guerra havia arruinado a economia russa. A inflação estava fora de controle, as redes de transporte e a distribuição de alimentos vinham entrando em colapso. O aquecimento e a energia elétrica desapareceram em Petrogrado e noutras grandes cidades e os trabalhadores começaram a retornar às suas aldeias nativas quando podiam. Na antiga capital do Império Russo, as luzes apagavam-se nos grandes palácios, a nobreza fugiu para o sul em busca de calor e comida, junto com grande parte da intelligentsia e das classes médias. À medida que o Exército se desintegrava, milhões de soldados atulhavam os trens ao ir para casa, levando consigo rifles e granadas de mão. Gangues criminosas aterrorizavam muitas cidades. As primeiras medidas dos bolcheviques só aceleraram a desintegração, pois o novo governo começou a construir o novo Estado socialista em meio ao caos. Os trabalhadores interpretavam amiúde que o socialismo significava que eles deviam expulsar fisicamente os proprietários e gerentes das fábricas, bem como eleger comités de trabalhadores para administrar as usinas. Esses comités não tinham meios para obter suprimentos ou distribuir os produtos e, no caos social geral, a disciplina do trabalho ruiu. Era um círculo vicioso. Os bolcheviques toleraram isso por vários meses, como parte da necessidade de dissolver a velha ordem, mas na primavera de 1918 a economia em frangalhos e as necessidades da guerra civil forçaram-nos a voltar atrás e começar a nomear administradores únicos, antigos trabalhadores ou ativistas do partido, para gerir as fábricas. Em tese, esses gerentes Vermelhos eram responsáveis perante o recém-criado Conselho Supremo da Economia e os diversos Comissariados do Povo (Indústria, Comércio, Agricultura, Trabalho, Abastecimento). Esse foi o embrião do Estado soviético.

Por enquanto, a prioridade dos bolcheviques era a mera sobrevivência. O primeiro ponto da ordem do dia em novembro de 1917 era a guerra e, imediatamente após a revolução bolchevique, o novo governo proclamou uma trégua com a Alemanha e seus aliados e abriu as negociações. Trotsky foi para Brest-Litovsk na fronteira polonesa, agora sob ocupação alemã, para tentar conclamar a paz. As exigências alemãs eram exorbitantes e Trotsky vacilava, proclamando que a política correta era “nem a guerra nem a paz”. Os alemães responderam com uma ofensiva maciça que ocupou toda a Ucrânia, a Bielorrússia e as províncias bálticas. Os nacionalistas locais proclamaram sua independência da Petrogrado vermelha, mas os Exércitos do Kaiser não lhes deram atenção. Os alemães instalaram um regime fantoche em Kiev com o general russo Pavel Skoropadskii, um ex-adido do tsar que havia repentinamente descoberto suas raízes ucranianas, como seu instrumento. Os Guardas Vermelhos eram uma força demasiado amadora e, por conseguinte, os bolcheviques formaram um Exército de verdade, o Exército Vermelho dos Operários e Camponeses, mas o novo exército não conseguiu frear os alemães. O governo mudou-se para Moscou, mais longe das linhas alemãs. Mesmo assim, alguns líderes comunistas, especialmente Nikolai Bukharin, e os SRs de esquerda queriam continuar a travar uma “guerra revolucionária”. Lenin percebeu que era loucura e convenceu a liderança a acatar as condições alemãs. A paz veio em março, com a perda de todos os territórios ocidentais para a Alemanha e a Áustria, mas era a paz e o Kaiser reconheceu a República vermelha. Os SRs de esquerda renunciaram em protesto, deixando os bolcheviques inteiramente encarregados do novo Estado.

O fiasco de Brest-Litovsk incentivou a oposição aos Vermelhos no Sul. As áreas cossacas meridionais ergueram-se novamente em revolta, dessa vez aliadas ao Exército de Voluntários do general Mikhail Alekseev, formado por oficiais do antigo Exército. No Don, o novo Exército Vermelho conseguiu repelir os Brancos, que fugiram para o Sul em direção ao rio Kuban, mas logo surgiram outros problemas. Combates acirrados começaram em maio de 1918, numa região totalmente diferente do país, após as ações da Legião Tcheco-Eslovaca. A Legião Tcheco-Eslovaca tinha sido formada sob o tsar e era composta de prisioneiros de guerra, ex-soldados austro-húngaros de nacionalidade tcheca e eslovaca, para auxiliar os Aliados contra a Áustria e a Alemanha. Depois da paz soviética com a Alemanha, eles queriam continuar a lutar, e o novo governo permitiu que eles deixassem o país através da Sibéria até o Japão e os Estados Unidos para poderem continuar a guerra na França. Uma série de choques com autoridades soviéticas locais fez com que eles tomassem o controle das linhas férreas da Rússia europeia até o oceano Pacífico. Em Samara, em junho, protegidos pelos tchecos, alguns deputados SR da Assembleia Constituinte dispersada formaram um governo que tentou dar seguimento às práticas da democracia parlamentar. Ele também conseguiu arregimentar um “Exército do Povo” que avançou em direção a Moscou contra os Vermelhos.

Para Lenin e os bolcheviques, era uma verdadeira crise, agravada pela revolta dos seus aliados recentes, os SRs de esquerda. Fora do poder e enfurecidos pela paz com a Alemanha, os SRs de esquerda tentaram uma revolta em Moscou, assassinando nesse ínterim o embaixador alemão. Revoltas semelhantes aconteceram em outras cidades russas, todas reprimidas com rapidez, mas indicativas de oposição séria ao novo governo. No entanto, a principal ameaça era a Legião Tcheco-Eslovaca e seus aliados russos, que vinham do leste, e o periclitante Exército Vermelho, formado de milícias mal treinadas com oficiais inexperientes, bateu em retirada. Foi o momento em que Trotsky mostrou pela primeira vez sua têmpera de comandante militar, assim como seu caráter impiedoso ao impor ordem e disciplina. Ele recorreu intensamente aos oficiais do antigo Exército do tsar e manteve suas famílias como reféns para garantir sua lealdade. Além disso, os comissários políticos nomeados para cada unidade militar deviam manter e inspirar credibilidade. Oficiais que fracassaram, comissários e simples soldados foram fuzilados às centenas a mando de Trotsky. Com essa nova organização, o Exército Vermelho recapturou as cidades do Volga e repeliu de volta para os Urais o Exército do Povo, que se desintegrava rapidamente.

Essas crises selaram o destino do ex-tsar Nicolau e sua família. Sua presença em Tobolsk, na Sibéria, para onde o Governo Provisório havia-os enviado, era próxima demais dos centros emergentes de resistência, e por isso os Vermelhos levaram-nos para Ekaterinburg, nos Urais. Em julho  de 1918, diante da aproximação dos Brancos, os soviéticos ordenaram que a família imperial fosse executada, o fim derradeiro da dinastia Romanov, que havia governado a Rússia por três séculos. A casa onde eles viveram e foram mortos permaneceu despercebida durante décadas até 1977, quando um chefe excessivamente zeloso do Partido Comunista, Boris Yeltsin, mandou deitá-la por terra. Enquanto isso, em Moscou, Lenin foi alvo dos tiros de um assassino no final de agosto. A reação da Cheka foi declarar o Terror Vermelho, prendendo milhares de pessoas das classes média e alta. Algumas foram executadas imediatamente, outras mantidas como reféns contra futuras tentativas.

No outono de 1918, o novo Exército Vermelho retomou a maior parte do Volga e dos Urais e o Exército do Povo esfacelou-se. Mais para leste, em Omsk, na Sibéria, outro Exército Branco havia surgido, composto de cossacos siberianos e unidades formadas por ex-oficiais imperiais determinados a combater os Vermelhos. Em novembro, o almirante Alexander Kolchak tomou o poder como governante supremo da Rússia e dissolveu os resquícios da liderança SR da Assembleia Constituinte. Kolchak também fuzilou muitos SRs, bem como quaisquer outros bolcheviques ou ativistas de esquerda que conseguiu encontrar. Kolchak era um ditador militar e não haveria mais brincadeiras com democracia. Ademais, um novo elemento estava entrando em jogo, pois a Primeira Guerra Mundial terminou em 11 de novembro e delegados aliados, britânicos, franceses, norte-americanos e japoneses, chegaram em Omsk. Os aliados também eram favoráveis à ditadura, e logo mobilizaram-se para apoiar Kolchak como líder da oposição ao bolchevismo.

Se Kolchak era o líder supremo titular, seu Exército Branco não era o único em campo. Depois que os Vermelhos retomaram o Don no início de 1918, o Exército de Voluntários havia se deslocado para o sul durante o inverno para estabelecer-se no Kuban. A morte de Alekseev e do seu substituto Kornilov (da tentativa de putsch de 1917) numa rápida sucessão levou à ascensão do general Anton Denikin como comandante supremo do Exército de Voluntários no Sul. Enquanto Trotsky estava ocupado no Volga, Denikin resistiu, e no Don os cossacos ergueram-se novamente mais para o final de 1918. Com apoio secreto dos alemães, eles tentaram avançar para o norte e leste. Eles ainda eram fracos demais para vencer a resistência Vermelha, mas mesmo assim conseguiram isolar grande parte das áreas cruciais de produção de cereais e, se cruzassem o Volga, eles teriam uma chance remota de unir-se a Kolchak. Em Tsaritsyn, no Volga, os cossacos e os Brancos estavam diante de Joseph Stalin, enviado de início apenas para organizar as entregas de cereais, mas que logo assumiu o controle do aparato militar e revigorou a resistência. Seu aliado entre os soldados era Kliment Voroshilov, que havia fugido para leste com uma milícia disparatada de trabalhadores do Donbas escapando do avanço alemão. Stalin e Voroshilov também estavam descontentes com a política de Trotsky de uso intensivo de oficiais profissionais do Exército do tsar, mas Lenin apoiava Trotsky nesse ponto e eles tiveram de recuar. Unidades Vermelhas comandadas por oficiais profissionais foram decisivas para defender a linha, mas em Tsaritsyn o Comissário das Nacionalidades teve sua primeira experiência bélica. Os cossacos não cruzaram o rio e Kolchak estava milhares de quilómetros a leste, impossibilitado de juntar-se a eles.

Atrás de todas essas linhas de frente, os Vermelhos começaram a construir uma utopia. Enquanto o marxismo oferecia uma análise detalhada do capitalismo e do caminho projetado para a revolução proletária, esse não oferecia quase nada além de generalidades sobre o socialismo. O agravamento da crise de abastecimento causado pelo caos crescente e pela tomada da Ucrânia pelos alemães levara à proclamação da “ditadura da comida” em maio de 1918. Sob o Comissariado do Povo para o Abastecimento, destacamentos armados foram para o campo arrebanhar o “excedente” de cereais a preços fixos pré-revolucionários, ou simplesmente o confiscavam. A ideia era desencavar os estoques supostamente retidos pelos kulaks e comerciantes com a ajuda dos camponeses pobres organizados em comités, mas na realidade era difícil fazer a distinção entre os camponeses, e as medidas afetavam toda a sociedade rural. A hiperinflação contínua e o desaparecimento do dinheiro agravaram o colapso económico em curso, e os Vermelhos instituíram o racionamento e um sistema de cooperativas para distribuir alimentos e bens de consumo.

No início de 1919, as autoridades soviéticas formalizaram o sistema de entregas obrigatórias de cereais, a ser complementado por uma alocação centralizada de bens de consumo aos camponeses. Cerca de 60 mil homens foram mobilizados num “exército alimentar” para arrancar cereais dos agricultores. Os camponeses reagiram reduzindo o tamanho de suas culturas, o que mergulhou as cidades numa crise ainda mais profunda. Essas novas medidas, que eram em parte produto da ideologia e em parte da necessidade de guerra, duraram toda a guerra civil. Os bolcheviques sempre foram hostis aos mercados, e o colapso dos transportes e o caos geral romperam os laços normais de mercado. Essa situação deu-lhes a oportunidade de instituir esquemas utópicos de distribuição por meio da alocação central de produtos. Praticamente todas as fábricas e todo o comércio foram nacionalizados. Pequenas lojas de varejo desapareceram, enquanto os municípios soviéticos tentavam criar grandes fábricas municipais de pão em vez de pequenas padarias de bairro, o que agravava a situação alimentar. Foi esse sistema que ficou conhecido como “comunismo de guerra”. A realidade logo interveio, pois as autoridades soviéticas locais violavam regularmente as regras, e a impossibilidade de um controle central pleno levou as maiores fábricas e até o Exército Vermelho a criar seus próprios sistemas de aquisição de alimentos, incluindo uma quantidade substancial de fazendas operadas pelas fábricas e pelo Exército. Os únicos mercados remanescentes eram os mercados de pulgas e o mercado negro, que tornavam a simples sobrevivência mais fácil para grande parte da população urbana. As novas instituições económicas centrais eram incapazes de implementar seus esquemas, pois não se tratava de estruturas burocráticas sofisticadas, mas sim de pequenos escritórios onde trabalhavam antigos ativistas revolucionários sem nenhuma   experiência relevante, assistidos por alguns engenheiros ou economistas e dos trabalhadores mais qualificados.

O Estado soviético emergente era também um partido-Estado, visto que o partido bolchevique aumentou de tamanho para mais de 300 mil membros no início de 1919. Esses homens e mulheres eram o quadro do novo Estado. Os mencheviques e SRs remanescentes foram eliminados da vida política até o final de 1918, e as novas instituições exigiam funcionários leais para administrá-las. O próprio partido tornou-se mais centralizado, especialmente com o estabelecimento do Politburo (Escritório Político) acima do Comité Central em 1919. O novo Politburo incluía somente Lenin, Kamenev, Trotsky, Stalin e Nikolai Krestinskii como membros plenos; Zinoviev, Bukharin e Mikhail Kalinin foram incluídos como candidatos. Esse era o núcleo da liderança bolchevique. Zinoviev era filho de fazendeiros leiteiros judeus da Ucrânia e fora próximo de Lenin nos anos de exílio europeu. Depois que o governo mudou-se para Moscou em 1918, Zinoviev chefiou a organização do partido em Petrogrado, administrando de fato a cidade até 1926 e, ao mesmo tempo, liderando a nova Internacional Comunista. Lev Kamenev era filho de um trabalhador ferroviário judeu, mas tinha tido alguma educação universitária e era casado com a irmã de Trotsky. Após 1917, ele atuou como suplente de Lenin e administrou a organização do partido em Moscou. Bukharin, o melhor educado dos bolcheviques depois de Lenin, tinha algo de teórico marxista e havia passado algum tempo na Europa Ocidental e brevemente nos Estados Unidos. Ele era um pouco mais jovem que os outros e pessoalmente popular no partido. Como Lenin, ele também era um russo genuíno, tal como Krestinskii e Kalinin, que eram figuras menores. Krestinskii serviu como comissário de Finanças, enquanto Kalinin, o único operário do grupo e até nascido numa família camponesa, chefiava o Comité Executivo Central dos Sovietes - em outras palavras, ele era tecnicamente o chefe de governo. Todos eles compartilhavam, incluindo Stalin, sólidas credenciais de bolchevismo inabalável. Trotsky, em contrapartida, era um ex-menchevique exuberante que mal se encaixava no grupo.

A pessoa crucial na totalidade do partido e do governo era Lenin. Até 1917 ele havia passado sua vida como organizador e jornalista revolucionário, produzindo montanhas de artigos para explicar sua posição e denunciar seus adversários. Ele também era mais intelectual que os outros, como mostram seus escritos sobre filosofia e a economia do imperialismo. Nessas questões, somente Bukharin se aproximava dele. Como orador ele era claro e capaz de comover uma plateia, mas não no nível de Trotsky ou Zinoviev.

 

Ao tomar o poder em 1917, ele provou ter capacidades políticas e administrativas muito superiores às da maioria dos seus camaradas, assim como uma vontade poderosa e a capacidade de tomar decisões. Ele absorveu-se rapidamente nos detalhes do governo, incluindo a miríade de problemas económicos que surgiram quando os bolcheviques nacionalizaram a economia. Ele tentou e, em grande parte, conseguiu impor à liderança do partido um espírito de trabalho de equipe, fazendo que camaradas belicosos e muitas vezes arrogantes trabalhassem juntos. Quando ele defendia sua posição pessoalmente, conseguia convencer seus adversários sem menosprezá-los (o que já não acontecia com suas polêmicas escritas). Ainda que todos os outros líderes por vezes discordassem dele, ele continuava a ser o líder incontestado do partido, e portanto do Estado.

Essa liderança altamente eficaz controlava um aparato estatal muito imperfeito, mas tinha, além do partido, outros instrumentos de poder. O Exército Vermelho possuía um contingente de 5 milhões ao final da guerra civil, mas os “exércitos trabalhistas” representavam grande parte da sua força teórica e ele assumia muitas funções económicas, fornecendo cavalos para a lavoura e restaurando o serviço ferroviário. A Cheka garantia a segurança interna, eliminava adversários ativos e potenciais e tentava reprimir o número crescente de bandos criminosos nas cidades. Havia cerca de 25 mil pessoas na Cheka ao final da guerra civil, mas ela também controlava mais de 100 mil soldados de segurança interna, infantaria e cavalaria. O partido, o Exército e a Cheka tornaram possível a vitória vermelha, mas não podiam conter a crise económica que se agravava e a anarquia que se alastrava. O quase colapso do transporte ferroviário implicava que as cidades setentrionais só podiam ser abastecidas com grande dificuldade. Petrogrado sofreu particularmente, pois perdeu cerca de três quartos da sua população em 1920. Com a mudança do governo para Moscou, os Vermelhos evacuaram uma série de fábricas estratégicas junto com seus trabalhadores e equipamentos, e centenas de milhares de trabalhadores foram trabalhar em Moscou e aderiram ao aparato do partido, à Cheka ou ao Exército Vermelho. Muitos simplesmente foram para seus lares em suas aldeias nativas à procura de comida, ambiente aquecido e trabalho. À medida que a ordem desmoronava, as doenças começavam a espalhar-se. Tifo, gripe e outras moléstias tornaram-se epidêmicas.

A primavera de 1919 trouxe vida nova para os movimentos Brancos. O fim da guerra na Europa em novembro de 1918 implicou a retirada das tropas alemãs dos territórios ocidentais. Nas províncias bálticas e na Ucrânia, os nacionalistas locais declararam independência dos bolcheviques, mas o Exército Vermelho logo devolveu o poder aos soviéticos. Os Vermelhos expulsaram o Diretório nacionalista ucraniano de Kiev. Diante da aproximação das Forças Vermelhas, o exército de camponeses do Diretório simplesmente evaporou-se. Guiados pelo seu líder militar Semyon Petliura, os nacionalistas ucranianos deslocaram-se para oeste, executando um massacre feroz dos judeus em Proskurov em seu caminho. Kolchak manteve a Sibéria e os Urais e Denikin avançou para o norte durante a primavera, tomando o Donbas, grande parte da Ucrânia e a Rússia meridional. Denikin conseguiu chegar até Orei, avançando muito atrás das linhas Vermelhas com grupos substanciais de cavalaria. A mobilidade da guerra civil valorizava a cavalaria, e os cossacos e oficiais de cavalaria do antigo Exército eram um desafio formidável. Os Vermelhos reagiram com o Primeiro Exército de Cavalaria de Semen Budennyi, formado em meio às batalhas contra Denikin, que era inicialmente um bando disparatado de homens mal disciplinados adestrados na marra pelo carisma de Budennyi. Em julho, a mobilização em massa dos Vermelhos permitiu-lhes enviar Exércitos substanciais contra Denikin e freá-lo. Atrás de suas linhas na Ucrânia meridional, um novo Exército surgiu aparentemente do nada, o Exército anarquista de Nestor Makhno, um ex-sargento do Exército Imperial russo e um líder de guerrilha nato. Makhno destroçou as comunicações de Denikin e, com os Vermelhos empurrando-o do norte, ele teve de bater em retirada.

Denikin era um general consumado, mas essa era uma guerra política. Os governos Brancos eram ditaduras militares com ministros civis recrutados entre antigos liberais para dar-lhes um mínimo de credibilidade. Sua política social estava fadada a desagradar as massas, pois eles opunham-se não somente aos Vermelhos, mas também a qualquer coisa que os trabalhadores vissem como conquistas da revolução. Nas cidades, somente as classes média e alta os apoiavam. Os massacres de judeus eram frequentes. No campo, sua política favorecia inevitavelmente os proprietários nobres contra os camponeses e não podia explorar o antagonismo rural às medidas bolcheviques. Para piorar as coisas, os governos Brancos financiavam suas operações imprimindo dinheiro, e os camponeses relutavam em vender cereais em troca de uma moeda sem valor. Tal como os Vermelhos, os Brancos recorreram ao confisco de cereais. Como nas áreas sob controle Vermelho, os camponeses reduziram sua agricultura à subsistência, o que gerou escassez de alimentos nas regiões agrícolas mais ricas no campo, na Sibéria Ocidental e no Sul. Conforme a resistência a eles aumentou, os Brancos só podiam reagir com repressão, e as cidades que os Brancos ocuparam presenciaram execuções em massa. Atrás das linhas Brancas na Sibéria e na Ucrânia, os camponeses formaram bandos armados para confrontar os Brancos. Não somente Makhno, mas também centenas de bandos camponeses focados apenas em preservar seu próprio território impediram que os Brancos tivessem controle efetivo do campo.

Nem a intervenção estrangeira pôde salvar os Brancos. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, os Aliados tinham livre acesso à Rússia pelo mar Negro e por outros lugares, mas a exaustão da guerra implicava que, na prática, eles podiam oferecer pouca coisa em termos de soldados. O Japão enviou cerca de 60 mil para a Sibéria como parte de um plano para tomar controle do território russo (indispondo assim os Estados Unidos), mas as outras potências enviaram menos tropas. Uma breve intervenção em Odessa e outras cidades meridionais em 1919 terminou após alguns meses apenas, apesar de a Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos continuarem a enviar armas. Elas não serviram para muita coisa, pois os gargalos de transporte (especialmente na Sibéria) seguravam os suprimentos nos portos e a corrupção generalizada fazia que armas e munição terminassem muitas vezes nas mãos dos Vermelhos. Para piorar as coisas, os oficiais que formavam o núcleo do movimento Branco eram intensamente patrióticos e muitos ficaram ofendidos com a necessidade de recorrer a Exércitos estrangeiros. A intervenção enfraquecia o moral tanto quanto o reforçava.

No outono de 1919, os Vermelhos empurraram as tropas de Kolchak de volta para a Sibéria, as primeiras vitórias do futuro marechal soviético M. N. Tukhachevskii, um oficial da guarda aristocrático que se tornara adepto da revolução. O Exército Vermelho finalmente derrotou Kolchak, capturou-o e executou-o em Irkutsk, na Sibéria. Houve outra tentativa de vitória Branca: o general Yudenich, o vencedor de Erzurum em 1916, liderou uma expedição que partiu da Estónia em direção a Petrogrado. Zinoviev pensou que a cidade era indefensável, opinião com a qual Lenin concordou. Trotsky e Stalin objetaram veementemente e convenceram Lenin a deixá-los defender a cidade. Eles correram para o norte em direção a Petrogrado, e Trotsky montou pessoalmente a cavalo para incentivar as tropas. Em outubro de 1919, Yudenich começou a retirada de volta para a Estónia. No Sul, Denikin abandonou o comando no início de 1920 e partiu para o exílio. O restante do Exército Branco retirou-se para a Crimeia e formou um novo Exército e governo sob o comando do barão Peter Wrangel. Nessa altura, o novo Estado polonês invadiu a Ucrânia. O objetivo dos poloneses era conquistar as terras detidas pela Polónia antes das partições do século XVIII e, para tanto, eles aliaram-se  a Petliura, que assim desacreditou-se mais ainda junto ao campesinato ucraniano, para quem os poloneses eram apenas proprietários rurais nobres e, portanto, seus inimigos. O Exército Vermelho reposicionou-se para oeste para conter a nova ameaça, mobilizando cerca de meio milhão de soldados. Lenin estava convencido de que os Vermelhos deviam ir até Varsóvia, na tentativa de ajudar a espalhar a revolução na Europa, bem como de derrotar os poloneses. Trotsky tinha dúvidas. O Exército Vermelho, levado até diante de Varsóvia pelo brilhante mas errático Tukhachevskii, avançou longe demais para oeste numa tentativa de cercar a cidade. Abriu-se um imenso buraco nas linhas Vermelhas, mas os soldados Vermelhos mais ao sul liderados por Budennyi, com Stalin como comandante político, retardaram o avanço em direção ao norte para ajudar a tapar o buraco. Os poloneses, com aconselhamento e armas francesas, acorreram para o norte numa manobra de simplicidade brilhante a fim de cercar as tropas de Tukhachevskii. Os Vermelhos retiraram-se bem para leste, no que foi sua maior derrota na guerra civil, e celebraram a paz com a Polónia. O tratado estabeleceu uma fronteira que deu à Polónia vastas áreas da Bielorrússia Ocidental e da Ucrânia, mas não as principais cidades, Kiev, Odessa e Minsk.

No momento crítico da guerra contra a Polónia, o barão Wrangel havia avançado sobre a retaguarda Vermelha vindo da Crimeia. Agora ele era a única força hostil que sobrava em campo contra os bolcheviques. No final de 1920, o Exército Vermelho atravessou o istmo e penetrou na Crimeia com a ajuda dos irregulares de Makhno, e a causa Branca estava acabada. Os últimos refugiados, soldados e civis evacuaram as cidades meridionais sob os canhões da Marinha britânica, numa cena caótica que marcou o final derradeiro da velha Rússia.

A revolução e a guerra civil foram sobretudo um acontecimento russo, mas que teve efeitos profundos para as várias nacionalidades que compunham a periferia deste Império. Na Polónia, o nacionalismo superou as distinções de classe e o socialismo, e a transição para um governo independente foi (internamente) bastante suave. Na Finlândia, uma cruenta guerra civil em 1918 entre os social-democratas locais e os Brancos levou à vitória Branca depois que o Kaiser enviou uma força expedicionária para auxiliar o barão Gustav Mannerheim, um antigo general imperial russo. Nas províncias bálticas, o colapso da ocupação alemã também levou à guerra civil, pois Riga, em particular, possuía uma classe operária grande e muito radical. A Grã-Bretanha, contudo, via o Báltico como esfera de influência sua e transportou soldados Freikorps, paramilitares nacionalistas alemães de direita, em 1919 para expulsar os Vermelhos. Depois os britânicos instalaram um governo nacionalista no seu lugar e expulsaram os Freikorps também. Os Vermelhos do Báltico foram para o exílio na Rússia soviética, proporcionando em especial um componente capital para a Cheka e o Exército Vermelho. Na Ucrânia, a tarefa dos Vermelhos foi facilitada pelo fato de que todas as cidades eram de língua russa. A maior minoria urbana era judaica, não ucraniana, e o movimento nacionalista local era uma pequena camada de intelectuais que tentavam liderar o campesinato. Seus exércitos eram totalmente desorganizados e, além disso, eles hesitavam em ser claros sobre a questão da terra, crucial para os camponeses. Os Vermelhos liquidaram-nos com facilidade.

No Cáucaso, os Vermelhos também foram vitoriosos. O tratado de Brest-Litovsk levara à ocupação turco-alemã do Cáucaso, e o fim da guerra acarretou sua retirada. Os Vermelhos tentaram fazer uma revolução na sequência, mas os partidos nacionalistas locais tomaram o poder com auxílio dos britânicos. Como a Grã-Bretanha estava atarefada ocupando o Oriente Médio próximo, ela tinha poucos recursos sobrando, e os governos locais foram deixados à própria sorte. Em 1920, o Exército Vermelho avançou para o sul sob o comando do conterrâneo georgiano e amigo próximo de Stalin, Sergo Ordjonikidze, e tomou Baku. O pequeno Exército azeri era liderado principalmente por oficiais turcos, que agora eram adeptos da resistência de Kemal Ataturk às potências ocidentais na Anatólia e saudaram os Vermelhos como aliados. Ademais, Baku era uma cidade de maioria não azeri, mas russa, georgiana e arménia, uma população atraída pelo petróleo para uma cidade que era em grande parte europeia. Os Vermelhos tinham muitos aliados. Eles agiram rapidamente para afastar os nacionalistas arménios e, poucos meses depois, foi a vez dos mencheviques georgianos. Surgiu uma nova república soviética, a Federação Transcaucasiana, que congregava toda a região sob um mesmo governo. Na Ásia Central, a resistência aos Vermelhos terminou em 1922, e os japoneses acabaram sendo persuadidos a retirar-se da Sibéria Oriental, de forma que em todo lugar, menos a oeste, as antigas fronteiras foram restabelecidas.

A nova Rússia soviética que se formou fora devastada por anos de guerra e revolução, e sua economia estava em frangalhos. Talvez 1 milhão de homens haviam morrido nos numerosos frontes da guerra civil e (as estimativas variam) 5 ou 6 milhões de civis - a maior parte deles de tifo e outras doenças epidêmicas, seguidas pela fome. Execuções e represálias em massa por todos os lados foram responsáveis pelo restante da mortandade. Cerca  de 1 ou 2 milhões de russos, incluindo grande parte das velhas classes altas e da intelligentsia, deixou o país para nunca mais voltar. Os transportes e a produção estavam paralisados. Por enquanto, os soviéticos mantinham a política de comunismo de guerra e mobilizavam os Exércitos de Trabalho sob Trotsky para reparar os danos. Essa política não era viável e a resistência à nova ordem cresceu por todo o país. Lenin percebeu que algum tipo de compromisso era necessário, uma política económica que proporcionasse espaço suficiente para que a população, particularmente o campesinato, trabalhasse sem direção do Estado. Esse compromisso viria a ser chamado de Nova Política Económica e inaugurou uma era inteiramente nova na história da Rússia soviética e dos outros Estados soviéticos sob o domínio do Partido Comunista.

 

Rússia
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Por civilização
CIVILIZAÇÃO
Por Carlos Augusto de Proença Rosa
Ciência e conhecimento científico no Egito

É usual iniciar um estudo sobre a civilização egípcia pela geografia física da região. Monografias e trabalhos específicos enfatizam a importância do rio Nilo como fator preponderante no desenvolvimento de uma cultura local desde o Período Neolítico. O Egito – fruto da geografia e o Egito – um dom do Nilo – são corretas apreciações de uma realidade histórico-geográfica. O microclima e o isolamento natural do vale, pela proteção dos desertos, são fatores igualmente importantes que explicam o aparecimento de núcleos populacionais ao longo do grande rio. Essa população egípcia originou-se de uma variedade de povos que, desde os Tempos Pré-Históricos, habitavam a região, vindos da África do Norte e da Ásia ocidental em busca de melhores condições ambientais, e que desenvolveram características étnicas próprias. Contingentes de líbios, hamitas, neolíticos semitas e paleolíticos aborígenes foram os principais formadores da raça egípcia, que, já na época Tinita (cerca de 5000 anos atrás), se distinguia de seus vizinhos líbios e núbios.

Assim, o surgimento de condições de vida humana e de desenvolvimento cultural no Egito foi devido a um conjunto de fatores excepcionais, ligados à água. O vale do Nilo, que abrange uma área de 25 mil km2, com uma extensão de 850 km (da 1a Catarata ao Mediterrâneo), se limita a Leste, a Oeste e ao Sul com enormes regiões desérticas, inóspitas, impróprias para atividades econômicas intensivas. O regime do Nilo, cujas enchentes coincidiam com o período mais quente do ano (julho-outubro), beneficiava o vale com uma grande quantidade de lodo fértil, trazido desde a Etiópia, o que permitia a renovação anual do solo. Ao mesmo tempo, e desde o fim do último Período Glacial, o clima mais temperado favoreceu o crescimento da fauna e flora locais, que serviram de meio de subsistência para uma crescente população, inicialmente caçadora-coletora. Tornada insuficiente para a demanda alimentar, a caça deixaria de ser a principal atividade daquela população nômade, com a introdução do trigo e da cevada por volta de 7000 anos atrás, provenientes do Oriente Médio.

Antecedentes Históricos

A agricultura se desenvolveu rapidamente no vale do Nilo, graças à fertilidade do solo, às novas técnicas agrícolas (irrigação, arado puxado por dois bois) e às boas colheitas (três ao ano). A população, agora sedentária,  fixou-se ao longo do Nilo em pequenas comunidades rurais, onde desenvolveram sua principal atividade econômica. Os egípcios não trabalhavam a terra árida, limitando-se a agricultura às margens do Nilo. Além do trigo e da cevada, cultivavam, ainda, leguminosas, cebola, frutas (uva,  figo, tâmara), criavam animais para leite e corte. Região fértil e de fartas safras, o excedente alimentar representou um formidável acúmulo de riqueza que propiciou novas atividades mais diversificadas e desenvolvimento econômico. O Egito chegou a ser considerado o grande celeiro da Antiguidade. A agricultura foi a grande marca, a principal atividade, a característica maior da civilização egípcia. Diferente das civilizações urbanas da Grécia e de Roma, a egípcia foi rural[1]. Determinante da personalidade disciplinada, prática e submissa do camponês, o caráter rural de sua população explica seu comportamento diante do poder central e absoluto do Faraó, o rei-deus.

Na origem da civilização egípcia se encontra a cultura neolítica introduzida na região a partir do quarto milênio, quando surgiu a necessidade de coordenar atividades em um esforço coletivo, e de desenvolver técnicas apropriadas para enfrentar os problemas e as dificuldades da vida cotidiana. Os principais fatores que atuaram na formação dessa civilização foram os limites impostos pela Natureza às necessidades humanas e aos meios sociais e tecnológicos para enfrentar os desafios naturais[2]. Nesse processo de formação da civilização egípcia, foram marcos fundamentais a aquisição da técnica da escrita, inicialmente com ideogramas, e, depois, hieroglífica, a configuração concomitante dos principais ritos e crenças e a modelagem da língua egípcia. Todas essas aquisições datam do Período Pré-Dinástico, ou seja, da fase conhecida como Gerzeana (3300 a.e.c. – 3100 a.e.c.), o que vale dizer ter havido contatos com o Oriente Médio, em especial com os mesopotâmios, e ondas migratórias de regiões vizinhas, e, até mesmo, mais distantes, como a Etiópia e a Arábia. Desses contatos a cultura egípcia recebeu, principalmente, a influência da Mesopotâmia, em sua fase chamada Gerzeana[3]. A partir da unificação dos dois Reinos em um Império, o antigo Egito viveria em um isolamento cultural[4], apesar de superficiais contatos eventuais com outros povos, na maioria das vezes de um nível cultural inferior. O Egito, no dizer de Colin Ronan, era um universo autossuficiente: tinha seus deuses independentes e seu modo de vida especial.

Considerações Gerais

A História do Egito cobre um período de cerca de 3 mil anos, desde sua de formação, Gerzeano – de 3300 a 3100 – até sua decadência e dominação, com a conquista, pelos persas de Cambises, no século VI (525); por Alexandre, em 332; e,  finalmente, pelos romanos, em 31, quando, após a Batalha de Actium, incorporou o Egito como colônia do Império Romano. O Egito antigo, que no Período Pré-Dinástico era dividido em dois Reinos (Baixo Egito e Alto Egito), seria unificado por Meni/Narmer/A-ha, em 3100, quando fundou a capital do Império, Mênfis/Menufer; trinta e uma dinastias governariam o Império até sua conquista por Alexandre, seguindo-se mais duas dinastias (macedônia e ptolomaica) até sua incorporação a Roma. Exceto por dois períodos de instabilidade, o Egito manteve-se unificado por mais de dois mil anos.

A evolução da civilização egípcia é dependente da teocracia imposta pelos Faraós e pela casta sacerdotal, cujo relacionamento se transformou em verdadeira rivalidade, após o fortalecimento do poder do Sumo Sacerdote de Amon-Ra. Acreditavam os egípcios na vida após a morte, pelo que a passagem transitória por este mundo era preparatória para a imortalidade futura. Sua visão era de uma realidade estática, imutável,  fixa, desde o momento da criação; a mudança possível seria cíclica, mas as fases do ciclo seriam imutáveis. Seu interesse primordial estava em um mundo que não era o terreno; suas vistas estavam sempre voltadas para um futuro, além da morte, venturoso e eterno. Todos esses elementos são fundamentais na formação do espírito prático do egípcio. Guiado por uma imaginação e uma observação impossibilitadas de reverter ou alterar uma realidade imposta e imutável, o egípcio antigo foi incapaz de desenvolver um espírito crítico, analítico, especulativo, inventivo. A falta de um espírito investigativo e inovador limitaria, na realidade, o egípcio ao campo técnico, no qual seria bastante realizador, e determinaria um ritmo evolutivo mais lento que em outras sociedades.

Maurice Daumas observou que tudo já estava adquirido desde o Antigo Império, isto é, desde o início de sua História, a Técnica marcaria passo; ela se modificaria e aperfeiçoaria o estado das Artes e Ofícios, mas não se inventaria praticamente nada. O estado social e a estrutura religiosa, conservadores por excelência, permitiriam sustentar apenas o impulso inicial, de forma a manter, por três milênios, o mesmo conjunto de procedimentos técnicos[5]. Na ausência de conhecimento teórico, o valor dos construtores egípcios estava alicerçado em sólida experiência prática e e um instinto para a Engenharia estrutural. As técnicas utilizadas na construção do grande templo em Karnak, por volta de 1370, não foram muito diferentes das usadas na época de Khufu, cerca de treze séculos antes.

Como em todas as civilizações antigas, as atividades de transformação se circunscreveram ao artesanato em cerâmica, tecelagem, ourivesaria, vidraçaria, metais, couro, madeira. As habitações e moradias eram de tijolo. Os palácios, os templos e os grandes monumentos eram construídos em pedra, como testemunho da grandeza dos deuses e do Faraó. De uma planta comum do Nilo, o papiro, fabricaram os egípcios uma espécie de papel que serviu para registrar sua escrita hieroglífica. As Artes, principalmente a Arquitetura, a Escultura e a Pintura, se desenvolveram como técnicas, conforme atestam os monumentos de pedra (Luxor, Karnak, Menon, obeliscos), os murais e pequenos objetos decorativos nos túmulos encontrados nos Vales dos Reis e das Rainhas, sem, contudo, ter havido evolução no conceito ou na percepção da estética. As  figuras são rígidas, estáticas, paradas, frontais.

A Sociedade egípcia antiga se caracterizou, em resumo, por seu caráter teocrático, rural, conservador, hierarquizado. Tais condições estabeleceriam o lento ritmo de desenvolvimento cultural, baseado na acumulação de experiência técnica. Isolada e imune a influências externas, a Sociedade egípcia manteve intactas suas prioridades individuais e coletivas, ao longo dos milênios, sem atentar para a necessidade ou conveniência de evolução no campo mental e intelectual. A falta de interesse, ou mesmo a oposição, das elites que detinham o poder político, religioso, cultural e econômico, em alterar as bases em que se assentava a Sociedade explica o quase imobilismo, a relativa estagnação, o lento progresso, presentes no curso da História da Civilização Egípcia. O conhecimento das coisas estava além da capacidade e percepção humanas, interditado aos mortais, por ser privativo da divindade; desnecessário e irrelevante para o povo, o conhecimento era, na realidade, monopólio da elite governante, como na Mesopotâmia. O desperdício de recursos foi extraordinário. Reuniram-se recursos colossais de mão de obra apenas para construir os maiores túmulos que o mundo já viu. Empregou-se uma Arte de qualidade refinada apenas para construir túmulos. Uma elite instruída, utilizando um material conveniente de escrita, não legou à Humanidade nenhuma grande ideia  filosófica ou religiosa. É difícil não perceber, continua o já citado J. M. Roberts[6], uma esterilidade fundamental, um vazio, no âmago desse brilhante tour de force. Tais características expunham a fragilidade da civilização egípcia, que, uma vez anexada a Roma, desapareceu sem deixar muitos vestígios, além dos formidáveis monumentos. Sua influência em outras culturas foi ínfima, e sua contribuição para a Ciência universal, modesta, insignificante[7].

A Técnica na Cultura Egípcia

Em consequência de todas essas características, não se desenvolveram, na antiga cultura egípcia, o espírito crítico, abstrato, inquisitivo, investigativo, especulativo, e a reflexão  filosófica, capazes de gerar o conhecimento científico. Em tais circunstâncias, há um conhecimento empírico, fruto de observação e longa experiência, sem qualquer embasamento teórico. Como escreveu Abel Rey, citado por René Taton[8], a Ciência egípcia se distingue daquela que  floresceu na Grécia no século V pela falta de teoria e desprovida de toda metafísica. Ela não é mais que uma Técnica. Há um conhecimento prático em diversas áreas, como dos números, contas e cálculos, dos corpos celestes, dos animais e plantas, da cura de algumas doenças e da mumificação, sem haver, contudo, Matemática, Astronomia, Botânica, Zoologia, Biologia. Há uma técnica de cálculo, como também de mumificação e de observação dos astros, mas a falta de um verdadeiro espírito científico impediria o surgimento das respectivas ciências.

Os textos preservados (papiros) se limitavam a soluções de problemas, sem nenhuma teorização. Como na antiga Mesopotâmia, a preocupação era meramente prática, de como solucionar determinadas questões de interesse particular, mas não a de ensinar a raciocinar ou a de entender os fenômenos da Natureza. Ao  final de três mil anos de civilização, os egípcios continuavam a praticar a mumificação sem avançar no estudo da Anatomia ou da Fisiologia; a observar a abóbada celeste sem especular sobre o movimento dos astros; a lidar com doenças sem atinar com seu diagnóstico. Inatingível para os seres humanos, e estando tudo e todos sujeitos aos desígnios da divindade, era o acesso ao conhecimento absolutamente proibido, fora do círculo de uns poucos privilegiados; a observação astronômica, por exemplo, era reservada aos sacerdotes. O conhecimento empírico adquirido ao longo dos séculos se constituiria, assim, no repositório das observações e experiências acumuladas nas diversas áreas da atividade humana.

Se as grandes efemérides da História egípcia estão descritas ou desenhadas nos monumentos, túmulos e ruínas, relativamente pouco foi preservado sobre o conhecimento nas diversas disciplinas, dado que o papiro não é um material muito resistente ao tempo e ao manuseio. O material descoberto, desde meados do século XIX, tem sido a principal fonte para o conhecimento do nível a que chegou a Técnica no Egito antigo.

Deve ser salientado que a cidade de Alexandria, no delta do Nilo, grande centro comercial e cultural (Museu e Biblioteca) no Período Ptolomaico, não foi parte da cultura egípcia, mas da grega e estava inserida no mundo helênico. A força da tradição e a resistência a uma cultura forânea impediriam os egípcios de se beneficiarem dos estudos e investigações da civilização grega.

Matemática

A Matemática egípcia era basicamente uma aritmética prática, voltada para apresentar resposta a problemas. A pesquisa dos princípios matemáticos era desprezível; não havia uma teoria básica da Matemática, nem um sistema teórico de Geometria. Muito poucos documentos matemáticos (papiros) foram recuperados até hoje:

1) Papiro Rhind, escrito por Ahmes, por volta de 1650, mas adquirido pelo escocês Henry Rhind, em 1858, em Luxor, e desde 1864 no Museu Britânico. Trata-se da principal fonte da Matemática egípcia, no formato de um longo rolo de 5,50 m por 33 cm com duas tabelas numéricas, 87 problemas redigidos em escrita hierática sobre Aritmética, Geometria, Estereometria e da vida prática;

2) Papiro de Moscou, desde 1912 no Museu de Belas Artes de Moscou. Redigido por volta de 1850, contém 25 problemas da vida prática; não se encontraria em bom estado de conservação e de leitura o rolo de 8 cm por 5,50 m;

3) rolo de couro, de 43 cm por 26 cm, adquirido em 1858, em Luxor, por Henry Rhind, e no Museu Britânico desde 1858. Redigido em dois exemplares, contém uma tabela de 26 quocientes expressos em soma de frações unitárias;

4) Papiro de Kahun, descoberto por W. M. F. Petrie, em 1889, contém seis fragmentos, dos quais apenas três estão claramente explicitados;

5) Papiro de Berlim, de quatro rolos, em mau estado de conservação, foi descoberto, em 1904, por G. Reisner. Redigido por volta de 1880, o documento media, originariamente, 3,50 m por 30 cm, e se refere à Estereometria ou cálculo de volume dos sólidos[9]. A numeração egípcia era decimal, mas se escrevia de forma diferente quando se utilizava o sistema hieroglífico (aditivo, repetitivo, não posicional) ou os escritos hieráticos e demóticos (mais simples); na escrita hieroglífica, os números de 1 a 9 eram representados por tantos traços verticais quantas as unidades representadas. A ordem da disposição dos símbolos não era importante; de modo geral, a escrita se fazia da direita para a esquerda e do alto para baixo. Não conheciam o zero. As quatro operações aritméticas eram do domínio dos egípcios, porém não se conhece o método utilizado para a soma e a subtração; tanto a multiplicação quanto a divisão eram efetuadas pelo sistema das duplicações sucessivas. Quanto ao sistema de cálculo e representação das frações, todas, com exceção da fração 2/3, deveriam ter o numerador igual à unidade (1/2, 1/3, 1/4, 1/5, e assim, sucessivamente). Sabiam extrair a raiz quadrada e conheciam as progressões aritmética e geométrica. A Álgebra aparece nos papiros Rhind e de Berlim com problemas práticos que correspondem a equações do primeiro e do segundo graus[10]. Os papiros Rhind e de Moscou apresentam uma série de problemas de cálculo geométrico para áreas e volume, inclusive para pirâmides. A sugestão de alguns de que os egípcios conheceriam o valor de pi (π), isto é, a razão entre a circunferência e seu diâmetro, é rejeitada pela grande maioria dos especialistas. O ponto comum dos problemas aritméticos ou geométricos é a forma condensada das soluções apresentadas; a questão se resume a alguns números e operações, sem qualquer comentário. Assim, os problemas dos documentos matemáticos egípcios devem ser considerados como fórmulas para serem aplicadas na solução de problemas, e não como problemas com fórmulas[11].

Astronomia

Como a Matemática, a Astronomia estagnou em um estágio bastante elementar, rudimentar. A inexistência de papiros sobre Astronomia dificulta um completo conhecimento dos avanços atingidos, que são deduzidos de inscrições e representações em monumentos funerários e alguns calendários que adornam certos sarcófagos do Novo Império. Para os egípcios, a Astronomia era a base utilitária necessária para a marcação do tempo, sem maior interesse em teorias sobre o Sol, a Lua e demais corpos celestes; identificavam os planetas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, bem como algumas constelações e estrelas (Orion, Cassiopeia, Grande Ursa, Sirius). Segundo a mitologia egípcia, o deus Osíris, ao morrer, se transformou na constelação Orion. A falta de preocupações com a natureza do universo físico decorria do desinteresse dos sacerdotes-astrônomos em pesquisar as posições das estrelas, o movimento dos astros, a ocorrência de eclipses, em especular a respeito da sua natureza. Dedicavam-se ao mundo espiritual, e não ao físico. Não há menção alguma, em qualquer documento egípcio, sobre eclipse[12]. A Astronomia egípcia tem, na realidade, um caráter religioso e litúrgico, tanto que só aos sacerdotes cabia o privilégio de observar a abóbada celeste e extrair informações precisas que lhes permitissem  fixar datas para as cerimônias religiosas e até as horas para a liturgia diária. As observações astronômicas tinham, assim, um objetivo prático, sem qualquer veleidade teórica, pelo que, segundo René Taton, não tem direito ao título de Ciência, pois o conceito científico deve apoiar-se sobre uma questão de método.

A Astronomia, ou melhor, a observação do Céu, combinada com as enchentes do Nilo, serviria, contudo, para a organização de um Calendário de real valor para a Sociedade egípcia. A inundação anual do Nilo coincidia com o aparecimento, antes da alvorada, no horizonte oriental, de Sirius, a mais brilhante estrela; esse nascimento helíaco de Sirius serviria, no Período Pré-Dinástico, para marcar o início do ano, cuja duração, de 354 dias, se dividia em 12 meses de 29 ou 30 dias, vinculados, assim, às fases da Lua; um mês adicional era acrescentado a cada três ou dois anos. Os egípcios, quando sedentários e agricultores, abandonariam os cálculos baseados na Lua e passariam a se guiar pelo Sol, ou seja, pelas estações, período entre um solstício de verão (Hemisfério Norte) e o seguinte, que corresponde a 365 dias. Os 12 meses estavam agrupados em três estações – Inundação, Germinação dos Campos e Colheita – de 4 meses cada. Tal Calendário civil (solar) teria sido adotado entre 2937 e 2820; porém, após dois séculos, já acumulava um erro de 50 dias. Em vez de proceder à correção do erro, os egípcios criaram outro Calendário lunar para ser usado junto com o solar. Desta forma, por volta de 2600, três calendários estavam em uso: o lunar original, baseado no nascimento helíaco de Sirius, o civil ou solar, de 365 dias, e o novo lunar.

Os egípcios foram os primeiros a dividir o dia (período entre um nascer do Sol e outro) em dois períodos iguais de 12 horas, cuja duração foi uniformizada. A escolha das 12 horas noturnas corresponde ao movimento das estrelas pelo Céu, desde seu nascimento, à noite, até seu desaparecimento, pela manhã; as doze horas do dia correspondem às dez horas entre o nascer e o pôr do sol, mais uma para a alvorada e mais outra para o crepúsculo vespertino. Do exposto, depreende-se ser a observação dos astros e estrelas limitada à  fixação de datas e horas para  fins religiosos e agrícolas, sem qualquer outra pretensão. Durante o dia, as horas eram medidas pelo relógio do sol (ou da sombra), dispondo, ainda, os egípcios, de um relógio de água ou clepsidra.

A Astrologia era desconhecida no Egito Antigo, tendo sido divulgada e praticada apenas a partir do Período Helenístico. Os instrumentos usados pelos sacerdotes egípcios eram aqueles utilizados por outros povos na Antiguidade: o gnômon, os círculos e os meios círculos para se achar a distância dos corpos celestes acima do horizonte e ao longo da eclíptica, a esfera armilar e os relógios de água.

Medicina

Os principais papiros que tratam de Medicina são em número de quatro: o Papiro Ebers (XVIII dinastia), descoberto em 1875, é um repositório de receitas, inclusive com encantamentos por magos; o Papiro Kahun (XII dinastia), descoberto em 1898, é muito curto, preciso e sóbrio; o Papiro de Berlim (XIX dinastia), descoberto em 1909, relaciona uma série de receitas; o Papiro Smith (XVIII dinastia), descoberto em 1930, expõe alguns casos cirúrgicos.

Sabe-se, pelo Papiro médico Ebers, que existiam três espécies de práticos em Medicina: o sinu ou seunu, que é o médico prático, com algum conhecimento empírico; o sacerdote, que, sob a inspiração da divindade, praticava uma medicina de caráter religioso (para os egípcios, e muitos outros povos da Antiguidade, a doença era de origem sobrenatural); e o feiticeiro ou mago, que se utilizava da magia para curar o paciente[13]. Apesar da prática milenar do embalsamamento, o conhecimento da Anatomia humana era elementar: desconheciam os rins e acreditavam ser o coração a sede do sangue, das lágrimas, do esperma e da urina. O tratamento médico se baseava em fórmulas mágicas, amuletos, poções, pomadas, ervas, em um total empirismo que não contribuía para o desenvolvimento da pesquisa. A Farmacopeia utilizava substâncias vegetais (árvores e plantas domésticas, frutas, cereais e ervas comestíveis e perfumadas), animais (carnes, gorduras, leite, mel) e minerais (arsênico, cobre, alabastro, galena). A cirurgia, particularmente a dentária (drenagem de abscessos, obturações), já era empregada desde a IV Dinastia. Como em outros ofícios, a prática médica passava de pai para  filho, sem haver escola de medicina, mas uma “casa da vida” na qual o jovem prático podia adquirir conhecimento adicional. Como em outras culturas da época, os práticos de Medicina, principalmente os sacerdotes-médicos, gozavam de grande prestígio na comunidade, em geral, e na corte, em particular. O personagem mais ilustre, reverenciado como herói, é Imhotep, que, além de médico, teria sido, igualmente, astrônomo e arquiteto (construtor das primeiras pirâmides, em Saqqara).

Química

O povo egípcio, como outros da Antiguidade, soube desenvolver e aperfeiçoar técnicas no aproveitamento de metais, resinas e óleos vegetais e animais. Ainda que o solo e subsolo fossem extremamente pobres em minérios, os egípcios foram capazes de trabalhar o ferro, provavelmente de origem de meteorito, desde 800 a.e.c., assim como o cobre, o bronze, o estanho e o chumbo, provenientes de regiões vizinhas. Os egípcios sabiam, ainda, fabricar objetos de vidro e de cerâmica, além de corantes, cosméticos e perfumes. A técnica da fermentação era conhecida, como atesta a fabricação da cerveja.

Muito pouco ou quase nada se sabe sobre o conhecimento dos egípcios antigos a respeito de outras disciplinas, como Mineralogia, Botânica, Zoologia e Física, apesar de que em suas atividades diárias deverão ter tido oportunidades de atentar para as particularidades e as qualidades dos objetos, materiais, elementos e seres sob observação. Não há documentos, nem papiros a respeito desses assuntos, inclusive sobre a fabricação de perfumes, corantes, cosméticos, e metalurgia.

Em conclusão, o Egito antigo foi, antes de tudo, uma teocracia hierarquizada, na qual a religião dominava todas as facetas de uma vida terrena, transitória, para a preparação da vida após a morte. Todos os recursos materiais e intelectuais estavam a serviço do Faraó; a casta sacerdotal monopolizava o conhecimento. O trabalho manual era o único permitido a uma população dominada pelos preconceitos e superstições. A técnica adquirida resultara de laboriosa acumulação de experiência, sem qualquer teorização. A pesquisa e a análise não eram usadas, ou conhecidas; a observação, superficial, era inconsequente, e o conhecimento, empírico. Esse ambiente hostil à reflexão não foi conducente à criação científica.

A numeração, a Aritmética e a Geometria permaneceram rudimentares; a observação da abóbada celeste serviu para criar calendário e  fixar datas para festejos religiosos; a cura de doenças, de origem sobrenatural, dependia de uma Medicina primitiva, exercida por magos, sacerdotes e práticos.

Do ponto de vista da História da Ciência, a contribuição da civilização egípcia foi inexpressiva, bastante modesta, se bem que tenham sido incontestáveis os avanços no campo da Técnica.

 

Civilização Egípcia | Ciências
Por André Bonnard
Na terra grega, o povo grego

A ultima das expedições guerreiras dos príncipes aqueus, que levaram consigo os seus numerosos vassalos, foi a não lendária mas histórica guerra de Troia. A cidade de Troia-ilion, que era também uma cidade helênica, situada a pequena distância dos Dardanelos, enriquecera cobrando direitos aos mercadores que, para passar o mar Negro, tomavam o caminho de terra, ao longo do estreito, a fim de evitar as correntes, levando aos ombros barcos e mercadorias. Os Troianos espoliavam-nos largamente a passagem. Estes ratoneiros foram pilhados por seu turno. Ilion foi tomada e incendiada após um longo cerco, no principio do século XII (cerca de 1200). Numerosas lendas, aliás belas, mascaravam as razões verdadeiras, que eram razões econômicas, não heróicas, desta rivalidade de salteadores. A Ilíada dá-nos algumas. Os arqueólogos que fizeram escavações em Troia, no século passado, encontraram, nos restos de uma cidade que mostra sinais de incêndio e que a terra de uma colina recobria há mais de três mil anos, objetos da mesma época que os encontrados em Micenas. Os ladrões não escapam aos pacientes inquéritos dos arqueólogos-policiais.

Entretanto, novas tribos helênicas - Eólios, Jônios, por fim, Dórios - invadiram, depois dos Aqueus, o solo da Grécia. A invasão dos Dórios, os últimos a chegar, situa-se por volta de 1100. Enquanto que os Aqueus se tinham civilizado um pouco em contato com os Cretenses, os Dórios continuavam a ser muito primitivos. Contudo, conheciam o uso do ferro: com este metal tinham feito diversas armas. Entre os Aqueus, o ferro era ainda tão raro que o consideravam um metal tão precioso como o ouro e a prata.

Foi com estas armas novas, mais resistentes e sobretudo mais longas (espadas de ferro contra punhais de bronze), que os Dórios invadiram a Grécia como uma tempestade. Micenas e Tirinto são por sua vez destruídas e saqueadas. A civilização aquéia, inspirada na dos Egeus, afunda-se no esquecimento. Torna-se por muito tempo uma terra meio fabulosa da historia. A Grécia, rasgada pela invasão Doria, esta povoada agora unicamente de tribos gregas. A historia grega pode começar. Ela começa na noite dos séculos XI, X e IX. Mas o dia está perto.

Que terra era esta que iria tornar-se a Hélade? Que recursos primeiros, que obstáculos oferecia a um povo primitivo para uma longa duração histórica, uma marcha tacteante para a civilização?

Dois caracteres importa revelar: a montanha e o mar.

A Grécia é um pais muito montanhoso, embora os seus pontos mais altos não atinjam nunca três mil metros. Mas a montanha está por toda a parte, corre e trepa em todas as direções, por vezes muito abrupta. Os antigos marinhavam-na por carreiros que subiam a direito, sem se dar ao trabalho de zigue-zaguear. Degraus talhados na rocha, no mais escarpado da encosta. Esta montanha anárquica dava um país dividido numa multidão de pequenos cantões, a maior parte dos quais, aliás, tocavam o mar. Daqui resultava uma compartimentarão favorável à forma política a que os Gregos chamam cidade.

Forma cantonal do Estado. Pequeno território fácil de defender. Natural de amar. Nenhuma necessidade de ideologia para isto nem de carta geográfica. Subindo a uma elevação, cada qual abraça, com um olhar, o seu país inteiro. No pé das encostas ou na planície, algumas aldeias. Uma povoação construída sobre uma acrópole, eis a capital. Ao mesmo tempo, fortaleza onde se refugiam os camponeses em caso de agressão, e, nos tempos de paz, que pouco dura entre tantas cidades, praça de mercado. Esta acrópole fortificada é o núcleo da cidade quando nasce o regime urbano. A cidade não é construída a beira-mar - cuidado com os piratas! -, suficientemente próxima dele, no entanto, para instalar um porto.

As aldeias e os seus campos, uma povoação fortificada, meio citadina, eis os membros esparsos e juntos dum Estado grego. A cidade de Atenas não é menos a campina e as suas lavouras que a cidade e as suas lojas, o porto e os seus barcos, e todo o povo dos Atenienses atrás do seu muro de montanhas, com a sua janela largamente aberta para o mar: e o cantão a que se chama Ática.

Outras cidades, as dúzias, noutras molduras semelhantes. Entre estas cidades numerosas, múltiplas rivalidades: políticas, econômicas - e a guerra ao cabo delas. Nunca se assinam tratados de paz entre cidades gregas, apenas tréguas: contratos a curto prazo, cinco anos, dez, trinta anos, o Maximo. Mas antes de passado o prazo já a guerra recomeçou. As guerras de trinta anos e mais são mais numerosas na historia grega que as pazes de trinta anos.

Mas a eterna rivalidade grega merece por vezes um nome mais belo: emulação. Emulação desportiva, cultural. O concurso é uma das formas preferidas da atividade grega. Os grandes concursos desportivos de Olímpia e outros santuários fazem largar as armas das mãos dos beligerantes. Durante estes dias de festa, os embaixadores, os atletas, as multidões circulam livremente por todas as estradas da Grécia. Há também em todas as cidades formas múltiplas de concursos entre os cidadãos. Em Atenas, concursos de tragédias, de comedias, de poesia lírica. A recompensa é insignificante: uma coroa de hera para os poetas ou um cesto de figos, mas a gloria é grande. Por vezes um monumento a consagra. Apos a Antígona, Sófocles foi eleito general! E saiu-se com honra de operações que teve de conduzir. Em Delfos, sob o signo de Apolo ou de Dioniso, concursos de canto acompanhado de lira ou de flauta. Arias militares, cantos de luto ou de bodas. Em Esparta e em toda a parte concursos de dança. Em Atenas e em outros lugares, concursos de beleza. Entre homens ou entre mulheres, conforme os sítios. O vencedor do concurso de beleza masculina recebe, em Atenas, um escudo.

A gloria das vitorias desportivas alcançadas nos grandes concursos nacionais não pertence somente à nação: é a gloria da cidade do vencedor. Os maiores poetas - Pindaro e Simonides - celebram essas vitorias em esplendidas arquiteturas líricas onde a musica e a dança se juntam à poesia para dizerem ao povo a grandeza da comunidade dos cidadãos de que o atleta vencedor não é mais que delegado. Acontece o vencedor receber a mais alta recompensa que pode honrar um benfeitor da pátria: ser pensionado - alimentado, instalado - no pritaneu, que é a câmara municipal da cidade.

Tal como os exércitos, enquanto duram os jogos nacionais, os tribunais folgam, adiam-se execuções capitais. Tréguas que não duram mais de alguns dias, por vezes trinta.

A guerra crônica das cidades é um mal que acabara por ser mortal ao povo grego. Os Gregos nunca foram além - quando muito, em imaginação - da forma do Estado cidade-cantão. A linha do horizonte das colinas que limitam e defendem a cidade parece limitar, ao mesmo tempo que a visão, a vontade de cada povo de ser grego antes de ser ateniense, tebano ou espartano. As ligas, alianças ou confederações de cidades são precárias, prontas a desfazer-se, a desagregar-se por dentro, mais do que a sucumbir aos golpes de fora. A cidade forte que constitui o núcleo dessas alianças não leva muito tempo a tratar como súditos aqueles a quem continua a chamar, por cortesia, aliados: faz da liga um império cujo jugo pesa muito em contribuições militares e em tributos.

No entanto, não há uma cidade grega que não tenha a consciência vivíssima de pertencer à comunidade helênica. Da Sicilia a Ásia, das cidades da costa africana às que ficam para lá do Bosforo, até a Crimeia e ao Caucaso, o corpo helênico é do mesmo sangue, escreve Herodoto, fala a mesma língua, tem os mesmos deuses, os mesmos templos, os mesmos sacrifícios, os mesmos usos, os mesmos costumes. Fazer aliança com o Bárbaro, contra outros Gregos, é trair.

O Bárbaro, termo não pejorativo, é simplesmente o estrangeiro, e o não-Grego, aquele que fala essas línguas que soam bar-bar-bar, tão estranhas que parecem línguas de aves. A andorinha também fala bárbaro. O Grego não despreza os Bárbaros, admira a civilização dos Egípcios, dos Caldeus e de muitos outros: sente-se diferente deles porque tem a paixão da liberdade e não quer ser ,escravo de ninguém.

O Bárbaro nasceu para a escravatura, o Grego para a liberdade: por isto mesmo morreu Ifigênia. (Pontinha de racismo).

Perante a agressão bárbara, os Gregos unem-se. Não todos, nem por muito tempo: Salamina e Plateia, Grécia unida por um ano, não mais. Tema oratório, não realidade viva. Em Plateia, o exercito grego combate, ao mesmo tempo que aos Persas, numerosos contingentes doutras cidades gregas que se deixaram alistar pelo invasor. A grande guerra da independência nacional e ainda uma guerra intestina. Mais tarde, as divergências das cidades abrirão a porta à Macedônia, aos Romanos.

A montanha protege e separa, o mar amedronta mas une. Os Gregos não estavam encerrados nos seus compartimentos montanhosos. O mar envolvia todo o pais, penetrava profundamente nele. Havia pouquíssimos cantões, mesmo recuados, que o mar não atingisse.

Mar temível, mas tentador é mais aliciante que qualquer outro. Sob um céu claro, na atmosfera límpida, o olhar do nauta descobre a terra duma ilha montanhosa a cento e cinqüenta quilômetros de distância. Vê-a como um escudo pousado sobre o mar..

As costas do mar grego oferecem portos numerosos, ora praias de declive suave, para onde os marinheiros podem a noite puxar os seus leves barcos, ora portos de água profunda, protegidos por paredes rochosas, onde as grandes naves de comercio e os navios de guerra podem ancorar ao abrigo dos ventos. Um dos nomes que o mar toma em grego significa estrada. Ir pelo mar, é ir pela estrada. O mar Egeu é uma estrada que, de ilha em ilha, conduz o marinheiro da Europa à Ásia sem que ele perca nunca a terra de vista. Estas cadeias de ilhotas parecem calhaus lançados por garotos num regato para o atravessarem, saltando de um para outro.

Não há um cantão grego de onde não se distingue, subindo a qualquer elevação, uma toalha de água que reflete no horizonte. Nem um ponto do Egeu que esteja a mais de sessenta quilômetros de terra. Nem um ponto da terra grega a mais de noventa quilômetros do mar.

As viagens são baratas. Algumas dracmas e estamos no cabo do mundo conhecido. Alguns séculos de desconfiança e pirataria, e os Gregos, mercadores ou poetas, por vezes uma coisa e outra, tomam contato amigável com as velhas civilizações que os precederam. As viagens de Racine e de La Fontaine não vão além de Ferte-Milon ou Chateau-Thierry. As viagens de Sólon, de Esquilo, de Heródoto e de Platão chegam ao Egito, à Ásia Menor e Babilônia, à Cirenaica e a Sicilia. Não há um Grego que não saiba que os Bárbaros são civilizados há milhares de anos e que tem muito para ensinar ao povo do "Nós-Gregos-somos-crianças". O mar grego não é a pesca do atum e da sardinha, é a via das permutas com os outros homens, a viagem ao pais das grandes obras de arte e das invenções surpreendentes, do trigo que cresce basto nas vastas planícies, do ouro que se esconde na terra e nos rios, a viagem ao pais das maravilhas, tendo por única bussola a carta noturna das estrelas. Para além do mar, há uma grande abundancia de terra desconhecida para descobrir, cultivar e povoar. Todas as grandes cidades, a partir do século VIII, vão plantar rebentos nas cidades novas em terra nova. Os marinheiros de Mileto fundam noventa cidades nas margens do mar Negro. E de caminho fundam também a astronomia.

Concluindo: o Mediterrâneo é um lago grego de caminhos familiares. As cidades instalam-se nas margens dele "como rãs ao redor de um charco", diz Platão. Evoe ou coaxo! O mar civilizou os Gregos.

Alias, foi só à força que o povo grego se tornou um povo de marinheiros. E o grito do ventre faminto que arma os barcos e os lança ao mar. A Grécia era um pais pobre. A Grécia foi criada na escola da pobreza. (Outra vez Heródoto.) O solo é pobre, e ingrato. Nas encostas e, muitas vezes, pedregoso. O clima é seco de mais. Apos uma Primavera precoce e efêmera, com uma magnífica e brusca floração das arvores e dos prados, o Sol não se cobre nunca mais. O Verão instala-se como rei e queima tudo. As cigarras zangarreiam na poeira. Durante meses, nem uma nuvem no céu. Muitas vezes, nem uma gota de água cai em Atenas de meados de Maio ao fim de Setembro. Com o Outono vem a chuva, e no Inverno rebentam as tempestades. Borrascas de neve, mas que não se agüentam dois dias. A chuva cai em grossas pancadas, em tromba. Ha sítios em que a oitava parte ou mesmo a quarta parte da chuva de um ano, cai em um só dia. Os rios, meio secos, tornam-se correntes temerosas, de água rugidora e devoradora que come a delgada camada de terra das encostas calvas e a arrasta para o mar. A desejada água torna-se um flagelo. Em cestos vales fechados, as chuvas formam baixos pantanosos. Deste modo, o camponês tinha que lutar, ao mesmo tempo, contra a seca que queimava os centeios e contra a inundação que lhe afogava os prados. E mal o podia fazer. Construía os seus campos nas encostas, em terraços, e transportava em cestos, de um muro para outro, a terra que resvalara do seu bocado. Tentava irrigar os campos, drenar os fundos pantanosos e limpar as bocas por onde havia de escoar-se a água dos lagos. Todo este trabalho, feito com ferramentas de hotentote, era duríssimo e insuficiente. Teria sido preciso repovoar de árvores a montanha nua, mas isso não sabia ele. Ao principio, a montanha grega era bastante arborizada. Pinheiros e plátanos, ulmeiros e carvalhos coroavam-na de bosques centenários. A caça pululava. Mas desde os tempos primitivos os Gregos derrubaram árvores, fosse para construir aldeias, fosse para fazer carvão. A floresta perdeu-se. No século V, colinas e picos perfilavam já contra o céu as mesmas arestas secas de hoje. A Grécia ignorante entregou-se ao sol, a água desregrada, a pedra.

Lutava-se pela sombra de um burro.

Sobre este solo duro, sobre este céu caprichosamente implacável, davam-se bem oliveiras e vinhas, menos bem os cereais, cuja raiz não pode ir buscar a umidade suficientemente funda. Não falemos das charruas, ramos em forquilha ou grosseiros arados de madeira que mal arranhavam a terra. Abandonando os cereais, os Gregos vão buscar o trigo as terras mais afortunadas da Sicilia ou das regiões a que hoje chamamos Ucrânia e Romênia. Toda a política imperialista de Atenas grande cidade, no século V, e, antes de mais, política do trigo. Para alimentar o seu povo, Atenas tem de se manter senhora dos caminhos do mar, em particular dos estreitos que são a chave do mar Negro.

O azeite e as vinhas são a moeda de troca e o orgulho da filha deserdada do mundo antigo. O produto precioso da oliveira cinzenta, dom de Atena, responde as necessidades alimentares da vida quotidiana: cozinham com azeite, alumiam-se com azeite, à falta de água lavam-se com azeite, esfregam-se, alimentam de azeite a pele sempre seca.

Quanto ao vinho, maravilhoso presente de Dioniso, só nos dias de festa o bebem, ou a noite, entre amigos, e sempre cortado com água.

"Bebamos. Para que esperar a luz da lâmpada? só resta da luz do dia um quase nada. Traz para baixo, menino, as grandes taças coloridas. O vinho foi dado aos homens pelo filho de Zeus e de Semele para que esqueçam as suas penas. Enche-as até a borda com uma parte de vinho e duas partes de água, e que uma taça empurre a outra..." (O Ramuz! Não, Alceu.)

"Não plantes nenhuma outra arvore antes de teres plantado vinha." (Outra vez o velho Alceu de Lesbos, antes de Horacio.) O vinho, espelho da verdade, fresta por onde se vê o homem por dentro!

A vinha, amparada em tanchões, ocupa as encostas, arquitetadas em terraços, da terra grega. Na planície plantam-na entre as arvores dos pomares, empada de uma para outra.

O Grego é sóbrio. O clima assim o exige, repetem os livros. Sem duvida, mas a pobreza nao o exige menos. O Grego vive de pão de cevada e de centeio, amassado em bolos chatos, de legumes, de peixe, de frutos, de queijo e de leite de cabra. E muito alho.

Carne - caça, criação, cordeiro e porco -, só nos dias de festa, como o vinho, não falando dos senhores (os "gordos", como se diz).

Desta pobreza de regime e de vida (é claro, esta gente do Meio-dia é preguiçosa, vive de coisa nenhuma, regalada de bom sol), a causa não está apenas no solo ingrato ou mesmo nos processos elementares de cultura. Acima de tudo, resulta da desigual repartição da terra pelos seus habitantes.

No começo, as tribos que ocupavam a região tinham feito da terra uma propriedade coletiva do clã. Cada aldeia tinha o seu chefe de clã, responsável pela cultura do solo do distrito, pelo trabalho de cada um e pela distribuição dos produtos da terra. O clã agrupa um certo numero de famílias - no sentido amplo de gente duma casa -, cada uma das quais recebe uma extensão de terra para cultivar. Não há, nesses tempos primitivos, propriedade privada: a terra devoluta não pode ser vendida ou comprada, e não se reparte por morte do chefe de família. É inalienável. Em compensação, o parcelamento pode ser refeito, a terra outra vez distribuída, segundo as necessidades de cada família.

Esta terra comum é cultivada em comum pelos membros da casa. Os frutos da cultura são repartidos sob a garantia de uma divindade que se chama Moira, cujo nome quer dizer parte e sorte, e que presidira igualmente a repartição, por sorteio, dos lotes de terra. Entretanto, uma parte do domínio, mais ou menos metade, é sempre posta de pousio: é preciso deixar repousar a terra, não se pratica ainda, de um ano para outro, a cultura alternada de produtos diferentes. O rendimento é muito baixo.

Mas as coisas não ficam por aqui. O antigo comunismo rural, forma de propriedade própria do estado da vida primitiva (ver os Batongas da Africa do Sul, ou certos povos de Bengala), começa a desagregar-se a partir da época dos salteadores aqueus. A monarquia de Micenas era militar. A guerra exige um comando unificado. Após uma campanha proveitosa, o rei dos reis e os reis subalternos, seus vassalos, talhavam para si a parte de ledo, na partilha do saque como na redistribuição da terra. Ou então certos chefes apropriam-se simplesmente das terras de que apenas eram administradores. O edifício da sociedade comunitária, onde se introduzem graves desigualdades, destrói-se pelo topo. A propriedade privada cria-se em beneficio dos grandes.

Instala-se também por outra maneira, sinal de progresso... Alguns indivíduos podem ser, por razões diversas, excluídos dos clãs. Podem também sair deles de sua própria vontade. O espírito de aventura leva muitos a tomar o caminho do mar. Outros ocupam, fora dos limites do domínio do clã, terras que haviam sido julgadas demasiado medíocres para ser cultivadas. Forma-se uma classe de pequenos proprietários à margem dos clãs: a propriedade deixa de ser comunal, torna-se, por fases, individual. Esta classe e pobríssima, mas muito ativa. Quebrou os laços com o clã: rompe-os por vezes com a terra. Estes homens formam guildas de artífices: oferecem aos clãs as ferramentas que fabricam, ou simplesmente trabalho artesanal como carpinteiros, ferreiros, etc. Entre estes "artífices", não esqueçamos nem os médicos nem os poetas. Agrupados em corporações, os médicos tem regras, receitas, bálsamos e remédios que vão propondo de aldeia em aldeia: estas receitas são sua exclusiva propriedade. Do mesmo modo, as belas narrativas em verso, improvisadas e transmitidas por tradição oral nas corporações de poetas, são propriedade dessas corporações.

Todos estes novos grupos sociais nascem e se desenvolvem no quadro da "cidade". E aqui temos as cidades divididas em duas metades de força desigual: os grandes proprietários rurais, por um lado, e, por outro, uma classe de pequenos proprietários mal favorecidos, de artífices, de simples trabalhadores do campo, de marinheiros,  tudo gente de ofício, "demiurgos", diz o Grego, turba miserável ao princípio.

Todo o drama da historia grega, toda a sua grandeza futura se enraíza no aparecimento e no progresso destes novos grupos sociais. Nasceu uma nova classe que vai tentar arrancar aos "grandes" os privilégios que fazem deles os senhores da cidade. É que só estes proprietários nobres são magistrados, sacerdotes, juízes e generais. Mas a turba popular depressa tem por seu lado o numero. Quer refundar a cidade na igualdade dos direitos de todos. Mete-se na luta, abre o caminho para a soberania popular. Aparentemente desarmada, marcha à conquista da democracia. O poder e os desses são contra ela. Mesmo assim, a vitoria será sua.

Eis, sumariamente indicadas, algumas das circunstâncias cuja ação conjunta permite e condiciona o nascimento da civilização grega. Repare-se que não foram somente as condições naturais (clima, solo e mar), como o não foi o momento histórico (herança de civilizações anteriores), nem as simples condições sociais (conflito dos pobres e dos ricos, o "motor" da história), mas sim a convergência de todos estes elementos, tornados no seu conjunto, que constituíram uma conjuntura favorável ao nascimento da civilização grega.

E então o "milagre grego"? - perguntarão certos sábios ou assim chamados. Não há "milagre grego". A noção de milagre é fundamentalmente anti-cientifica, e é também não-helenica. O milagre não explica nada: substitui uma explicação por pontos de exclamação.

O povo grego não faz mais que desenvolver, nas condições em que se encontra, com os meios que tem a mão, e sem que seja necessário apelar para dons particulares de que o Céu lhe teria feito dom, uma evolução começada antes dele e que permite a espécie humana viver e melhorar a sua vida.

Um exemplo só. Os Gregos parecem ter inventado, como que por milagre, a ciência. Inventam-na, com efeito, no sentido moderno da palavra: inventam o método cientifico. Mas se o fazem é porque, antes deles, os Caldeus, os Egípcios, outros ainda, tinham reunido numerosas observações dos astros ou sobre as figuras geométricas, observações que permitiam, por exemplo, aos marinheiros, dirigirem-se no mar, aos camponeses medir os seus campos, fixar a data dos seus trabalhos.

Os Gregos aparecem no momento em que, destas observações sobre as propriedades das figuras e o curso regular dos astros, se tornava possível extrair leis, formular uma explicação dos fenômenos. Fazem-no, enganam-se muitas vezes, recomeçam. Não há nada aqui de miraculoso, mas apenas um novo passo do lento progresso da humanidade.

Tirar-se-iam outros exemplos, e com abundância, dos outros domínios da atividade humana.

Toda a civilização grega tem o homem como ponto de partida e como objeto. Procede das suas necessidades, procura a sua utilidade e o seu progresso. Para ai chegar, desbrava ao mesmo tempo o mundo e o homem, e um pelo outro. O homem e o mundo são, para ela, espelhos um do outro, espelhos que se defrontam e se lêem mutuamente.

A civilização grega articula um no outro o mundo e o homem. Casa-os na luta e no combate, numa fecunda amizade, que tem por nome Harmonia.

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7/30/2018 1:48:23 PM | National Geographic, n. 105
Herodes, o visionário arquiteto da Terra Santa

Quase 13 quilometros ao sul de Jerusalém, onde as últimas oliveiras mirradas começam a se confundir com as extensões áridas do deserto da Judéia, ergue-se um morro, um cone íngreme de topo plano, parecido com um pequeno toilcão. Ali fica o Herodium, um dos grandiosos empreendimentos arquitetônicos de Herodes, o Grande, rei da Judéia.

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6/28/2018 6:02:44 PM | Leituras da História, n.5
Mitos e lendas da Idade média

Conhecida como Idade das trevas, o período que ficou oficialmente batizado como Idade Média é lembrado como uma série de perseguições religiosas, reinados poderosos, cavaleiros andantes e o total controle da Igreja Católica exercia sobre a vida de seus seguidores.

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Isabel, mecenas da intelectualidade
Vincent & Strandling, p. 68

Aos 31 anos - quase passada a metade da vida, segundo os padrões da época - Isabel dedicou-se seriamente ao estudo do latim, e fundou uma escola de gramática den­tro de sua corte para a educação humanista dos filhos da nobreza castelhana. Essa atitude, embora frustrada, é um exemplo de iniciativa e mostra porque Isa­bel tornou-se a mais duradoura inspiração da “Espa­nha”. Esposa, mãe, soberana reinante, guerreira, erudi­ta e devota fiel, parecia ser tudo o que o Renascimento idealizava. A imagem propagandística pode ter sido um tanto exagerada, mas Isabel certamente foi uma líder de irreprimível energia e curiosidade. Desde jovem, fez amizade com os Mendoza, a família que, quase sozinha, introduziu a erudição humanista em Castela. Decano dos primeiros humanistas espanhóis, o poeta e latinista Inigo López de Mendoza, marquês de Santillana (1398-1458), colecionou uma enorme biblioteca pessoal, e seus dois filhos mais novos, o conde de Tendilla e o arcebispo de Sevilha, respectivamente, tornaram-se os conselhei­ros de confiança de Fernando e Isabel durante a década de 1470. Ambos os irmãos eram ávidos por novos conhecimentos; o primeiro introduziu os intelectuais italianos na corte, enquanto o segundo fundou a impor­tante nova universidade da Vera Cruz em Valladolid, para todos os efeitos a capital dos monarcas católicos. A erudição e a nova tecnologia da imprensa foram rapi­damente mobilizadas para servir à dinastia. Durante o reinado de Isabel, foram instaladas imprensas de tipos móveis em muitas cidades castelhanas, muitas delas re­sultado de uma deliberada política real de convidar os técnicos alemães para se instalar ali. Antes de sua morte, haviam sido produzidas na Espanha 1.000 edições, e es­tima-se que 50 por cento dos habitantes da cidade sa­biam ler. Embora a maioria das obras fossem devocionárias, também apareceram traduções de autores clássicos e até literatura imaginativa vernácula sob um sistema de licenças reais introduzido na década de 1490. Enquanto isso, a rainha colocou-se na primeira linha do mecenato, conhecendo homens de ideias, aprendendo com eles e abrindo seus próprios horizontes mentais, até o ponto em que foi capaz de compartilhar pelo menos uma parte da visão de Colombo, em 1492.

VINCENT, Mary. STRANDLING , R. A. O império católico, 1480-1670. in:__________. Espanha e Portugal. Grandes civilizações do passado. Barcelona/ES: Folio, 2008. Cap. 4. p.68
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TEXTOS
7/5/2020 1:29:50 PM | Por Carlos Augusto de Proença Rosa
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Ciência e conhecimento científico no Egito

É usual iniciar um estudo sobre a civilização egípcia pela geografia física da região. Monografias e trabalhos específicos enfatizam a importância do rio Nilo como fator preponderante no desenvolvimento de uma cultura local desde o Período Neolítico. O Egito – fruto da geografia e o Egito – um dom do Nilo – são corretas apreciações de uma realidade histórico-geográfica. O microclima e o isolamento natural do vale, pela proteção dos desertos, são fatores igualmente importantes que explicam o aparecimento de núcleos populacionais ao longo do grande rio. Essa população egípcia originou-se de uma variedade de povos que, desde os Tempos Pré-Históricos, habitavam a região, vindos da África do Norte e da Ásia ocidental em busca de melhores condições ambientais, e que desenvolveram características étnicas próprias. Contingentes de líbios, hamitas, neolíticos semitas e paleolíticos aborígenes foram os principais formadores da raça egípcia, que, já na época Tinita (cerca de 5000 anos atrás), se distinguia de seus vizinhos líbios e núbios.

Assim, o surgimento de condições de vida humana e de desenvolvimento cultural no Egito foi devido a um conjunto de fatores excepcionais, ligados à água. O vale do Nilo, que abrange uma área de 25 mil km2, com uma extensão de 850 km (da 1a Catarata ao Mediterrâneo), se limita a Leste, a Oeste e ao Sul com enormes regiões desérticas, inóspitas, impróprias para atividades econômicas intensivas. O regime do Nilo, cujas enchentes coincidiam com o período mais quente do ano (julho-outubro), beneficiava o vale com uma grande quantidade de lodo fértil, trazido desde a Etiópia, o que permitia a renovação anual do solo. Ao mesmo tempo, e desde o fim do último Período Glacial, o clima mais temperado favoreceu o crescimento da fauna e flora locais, que serviram de meio de subsistência para uma crescente população, inicialmente caçadora-coletora. Tornada insuficiente para a demanda alimentar, a caça deixaria de ser a principal atividade daquela população nômade, com a introdução do trigo e da cevada por volta de 7000 anos atrás, provenientes do Oriente Médio.

Antecedentes Históricos

A agricultura se desenvolveu rapidamente no vale do Nilo, graças à fertilidade do solo, às novas técnicas agrícolas (irrigação, arado puxado por dois bois) e às boas colheitas (três ao ano). A população, agora sedentária,  fixou-se ao longo do Nilo em pequenas comunidades rurais, onde desenvolveram sua principal atividade econômica. Os egípcios não trabalhavam a terra árida, limitando-se a agricultura às margens do Nilo. Além do trigo e da cevada, cultivavam, ainda, leguminosas, cebola, frutas (uva,  figo, tâmara), criavam animais para leite e corte. Região fértil e de fartas safras, o excedente alimentar representou um formidável acúmulo de riqueza que propiciou novas atividades mais diversificadas e desenvolvimento econômico. O Egito chegou a ser considerado o grande celeiro da Antiguidade. A agricultura foi a grande marca, a principal atividade, a característica maior da civilização egípcia. Diferente das civilizações urbanas da Grécia e de Roma, a egípcia foi rural[1]. Determinante da personalidade disciplinada, prática e submissa do camponês, o caráter rural de sua população explica seu comportamento diante do poder central e absoluto do Faraó, o rei-deus.

Na origem da civilização egípcia se encontra a cultura neolítica introduzida na região a partir do quarto milênio, quando surgiu a necessidade de coordenar atividades em um esforço coletivo, e de desenvolver técnicas apropriadas para enfrentar os problemas e as dificuldades da vida cotidiana. Os principais fatores que atuaram na formação dessa civilização foram os limites impostos pela Natureza às necessidades humanas e aos meios sociais e tecnológicos para enfrentar os desafios naturais[2]. Nesse processo de formação da civilização egípcia, foram marcos fundamentais a aquisição da técnica da escrita, inicialmente com ideogramas, e, depois, hieroglífica, a configuração concomitante dos principais ritos e crenças e a modelagem da língua egípcia. Todas essas aquisições datam do Período Pré-Dinástico, ou seja, da fase conhecida como Gerzeana (3300 a.e.c. – 3100 a.e.c.), o que vale dizer ter havido contatos com o Oriente Médio, em especial com os mesopotâmios, e ondas migratórias de regiões vizinhas, e, até mesmo, mais distantes, como a Etiópia e a Arábia. Desses contatos a cultura egípcia recebeu, principalmente, a influência da Mesopotâmia, em sua fase chamada Gerzeana[3]. A partir da unificação dos dois Reinos em um Império, o antigo Egito viveria em um isolamento cultural[4], apesar de superficiais contatos eventuais com outros povos, na maioria das vezes de um nível cultural inferior. O Egito, no dizer de Colin Ronan, era um universo autossuficiente: tinha seus deuses independentes e seu modo de vida especial.

Considerações Gerais

A História do Egito cobre um período de cerca de 3 mil anos, desde sua de formação, Gerzeano – de 3300 a 3100 – até sua decadência e dominação, com a conquista, pelos persas de Cambises, no século VI (525); por Alexandre, em 332; e,  finalmente, pelos romanos, em 31, quando, após a Batalha de Actium, incorporou o Egito como colônia do Império Romano. O Egito antigo, que no Período Pré-Dinástico era dividido em dois Reinos (Baixo Egito e Alto Egito), seria unificado por Meni/Narmer/A-ha, em 3100, quando fundou a capital do Império, Mênfis/Menufer; trinta e uma dinastias governariam o Império até sua conquista por Alexandre, seguindo-se mais duas dinastias (macedônia e ptolomaica) até sua incorporação a Roma. Exceto por dois períodos de instabilidade, o Egito manteve-se unificado por mais de dois mil anos.

A evolução da civilização egípcia é dependente da teocracia imposta pelos Faraós e pela casta sacerdotal, cujo relacionamento se transformou em verdadeira rivalidade, após o fortalecimento do poder do Sumo Sacerdote de Amon-Ra. Acreditavam os egípcios na vida após a morte, pelo que a passagem transitória por este mundo era preparatória para a imortalidade futura. Sua visão era de uma realidade estática, imutável,  fixa, desde o momento da criação; a mudança possível seria cíclica, mas as fases do ciclo seriam imutáveis. Seu interesse primordial estava em um mundo que não era o terreno; suas vistas estavam sempre voltadas para um futuro, além da morte, venturoso e eterno. Todos esses elementos são fundamentais na formação do espírito prático do egípcio. Guiado por uma imaginação e uma observação impossibilitadas de reverter ou alterar uma realidade imposta e imutável, o egípcio antigo foi incapaz de desenvolver um espírito crítico, analítico, especulativo, inventivo. A falta de um espírito investigativo e inovador limitaria, na realidade, o egípcio ao campo técnico, no qual seria bastante realizador, e determinaria um ritmo evolutivo mais lento que em outras sociedades.

Maurice Daumas observou que tudo já estava adquirido desde o Antigo Império, isto é, desde o início de sua História, a Técnica marcaria passo; ela se modificaria e aperfeiçoaria o estado das Artes e Ofícios, mas não se inventaria praticamente nada. O estado social e a estrutura religiosa, conservadores por excelência, permitiriam sustentar apenas o impulso inicial, de forma a manter, por três milênios, o mesmo conjunto de procedimentos técnicos[5]. Na ausência de conhecimento teórico, o valor dos construtores egípcios estava alicerçado em sólida experiência prática e e um instinto para a Engenharia estrutural. As técnicas utilizadas na construção do grande templo em Karnak, por volta de 1370, não foram muito diferentes das usadas na época de Khufu, cerca de treze séculos antes.

Como em todas as civilizações antigas, as atividades de transformação se circunscreveram ao artesanato em cerâmica, tecelagem, ourivesaria, vidraçaria, metais, couro, madeira. As habitações e moradias eram de tijolo. Os palácios, os templos e os grandes monumentos eram construídos em pedra, como testemunho da grandeza dos deuses e do Faraó. De uma planta comum do Nilo, o papiro, fabricaram os egípcios uma espécie de papel que serviu para registrar sua escrita hieroglífica. As Artes, principalmente a Arquitetura, a Escultura e a Pintura, se desenvolveram como técnicas, conforme atestam os monumentos de pedra (Luxor, Karnak, Menon, obeliscos), os murais e pequenos objetos decorativos nos túmulos encontrados nos Vales dos Reis e das Rainhas, sem, contudo, ter havido evolução no conceito ou na percepção da estética. As  figuras são rígidas, estáticas, paradas, frontais.

A Sociedade egípcia antiga se caracterizou, em resumo, por seu caráter teocrático, rural, conservador, hierarquizado. Tais condições estabeleceriam o lento ritmo de desenvolvimento cultural, baseado na acumulação de experiência técnica. Isolada e imune a influências externas, a Sociedade egípcia manteve intactas suas prioridades individuais e coletivas, ao longo dos milênios, sem atentar para a necessidade ou conveniência de evolução no campo mental e intelectual. A falta de interesse, ou mesmo a oposição, das elites que detinham o poder político, religioso, cultural e econômico, em alterar as bases em que se assentava a Sociedade explica o quase imobilismo, a relativa estagnação, o lento progresso, presentes no curso da História da Civilização Egípcia. O conhecimento das coisas estava além da capacidade e percepção humanas, interditado aos mortais, por ser privativo da divindade; desnecessário e irrelevante para o povo, o conhecimento era, na realidade, monopólio da elite governante, como na Mesopotâmia. O desperdício de recursos foi extraordinário. Reuniram-se recursos colossais de mão de obra apenas para construir os maiores túmulos que o mundo já viu. Empregou-se uma Arte de qualidade refinada apenas para construir túmulos. Uma elite instruída, utilizando um material conveniente de escrita, não legou à Humanidade nenhuma grande ideia  filosófica ou religiosa. É difícil não perceber, continua o já citado J. M. Roberts[6], uma esterilidade fundamental, um vazio, no âmago desse brilhante tour de force. Tais características expunham a fragilidade da civilização egípcia, que, uma vez anexada a Roma, desapareceu sem deixar muitos vestígios, além dos formidáveis monumentos. Sua influência em outras culturas foi ínfima, e sua contribuição para a Ciência universal, modesta, insignificante[7].

A Técnica na Cultura Egípcia

Em consequência de todas essas características, não se desenvolveram, na antiga cultura egípcia, o espírito crítico, abstrato, inquisitivo, investigativo, especulativo, e a reflexão  filosófica, capazes de gerar o conhecimento científico. Em tais circunstâncias, há um conhecimento empírico, fruto de observação e longa experiência, sem qualquer embasamento teórico. Como escreveu Abel Rey, citado por René Taton[8], a Ciência egípcia se distingue daquela que  floresceu na Grécia no século V pela falta de teoria e desprovida de toda metafísica. Ela não é mais que uma Técnica. Há um conhecimento prático em diversas áreas, como dos números, contas e cálculos, dos corpos celestes, dos animais e plantas, da cura de algumas doenças e da mumificação, sem haver, contudo, Matemática, Astronomia, Botânica, Zoologia, Biologia. Há uma técnica de cálculo, como também de mumificação e de observação dos astros, mas a falta de um verdadeiro espírito científico impediria o surgimento das respectivas ciências.

Os textos preservados (papiros) se limitavam a soluções de problemas, sem nenhuma teorização. Como na antiga Mesopotâmia, a preocupação era meramente prática, de como solucionar determinadas questões de interesse particular, mas não a de ensinar a raciocinar ou a de entender os fenômenos da Natureza. Ao  final de três mil anos de civilização, os egípcios continuavam a praticar a mumificação sem avançar no estudo da Anatomia ou da Fisiologia; a observar a abóbada celeste sem especular sobre o movimento dos astros; a lidar com doenças sem atinar com seu diagnóstico. Inatingível para os seres humanos, e estando tudo e todos sujeitos aos desígnios da divindade, era o acesso ao conhecimento absolutamente proibido, fora do círculo de uns poucos privilegiados; a observação astronômica, por exemplo, era reservada aos sacerdotes. O conhecimento empírico adquirido ao longo dos séculos se constituiria, assim, no repositório das observações e experiências acumuladas nas diversas áreas da atividade humana.

Se as grandes efemérides da História egípcia estão descritas ou desenhadas nos monumentos, túmulos e ruínas, relativamente pouco foi preservado sobre o conhecimento nas diversas disciplinas, dado que o papiro não é um material muito resistente ao tempo e ao manuseio. O material descoberto, desde meados do século XIX, tem sido a principal fonte para o conhecimento do nível a que chegou a Técnica no Egito antigo.

Deve ser salientado que a cidade de Alexandria, no delta do Nilo, grande centro comercial e cultural (Museu e Biblioteca) no Período Ptolomaico, não foi parte da cultura egípcia, mas da grega e estava inserida no mundo helênico. A força da tradição e a resistência a uma cultura forânea impediriam os egípcios de se beneficiarem dos estudos e investigações da civilização grega.

Matemática

A Matemática egípcia era basicamente uma aritmética prática, voltada para apresentar resposta a problemas. A pesquisa dos princípios matemáticos era desprezível; não havia uma teoria básica da Matemática, nem um sistema teórico de Geometria. Muito poucos documentos matemáticos (papiros) foram recuperados até hoje:

1) Papiro Rhind, escrito por Ahmes, por volta de 1650, mas adquirido pelo escocês Henry Rhind, em 1858, em Luxor, e desde 1864 no Museu Britânico. Trata-se da principal fonte da Matemática egípcia, no formato de um longo rolo de 5,50 m por 33 cm com duas tabelas numéricas, 87 problemas redigidos em escrita hierática sobre Aritmética, Geometria, Estereometria e da vida prática;

2) Papiro de Moscou, desde 1912 no Museu de Belas Artes de Moscou. Redigido por volta de 1850, contém 25 problemas da vida prática; não se encontraria em bom estado de conservação e de leitura o rolo de 8 cm por 5,50 m;

3) rolo de couro, de 43 cm por 26 cm, adquirido em 1858, em Luxor, por Henry Rhind, e no Museu Britânico desde 1858. Redigido em dois exemplares, contém uma tabela de 26 quocientes expressos em soma de frações unitárias;

4) Papiro de Kahun, descoberto por W. M. F. Petrie, em 1889, contém seis fragmentos, dos quais apenas três estão claramente explicitados;

5) Papiro de Berlim, de quatro rolos, em mau estado de conservação, foi descoberto, em 1904, por G. Reisner. Redigido por volta de 1880, o documento media, originariamente, 3,50 m por 30 cm, e se refere à Estereometria ou cálculo de volume dos sólidos[9]. A numeração egípcia era decimal, mas se escrevia de forma diferente quando se utilizava o sistema hieroglífico (aditivo, repetitivo, não posicional) ou os escritos hieráticos e demóticos (mais simples); na escrita hieroglífica, os números de 1 a 9 eram representados por tantos traços verticais quantas as unidades representadas. A ordem da disposição dos símbolos não era importante; de modo geral, a escrita se fazia da direita para a esquerda e do alto para baixo. Não conheciam o zero. As quatro operações aritméticas eram do domínio dos egípcios, porém não se conhece o método utilizado para a soma e a subtração; tanto a multiplicação quanto a divisão eram efetuadas pelo sistema das duplicações sucessivas. Quanto ao sistema de cálculo e representação das frações, todas, com exceção da fração 2/3, deveriam ter o numerador igual à unidade (1/2, 1/3, 1/4, 1/5, e assim, sucessivamente). Sabiam extrair a raiz quadrada e conheciam as progressões aritmética e geométrica. A Álgebra aparece nos papiros Rhind e de Berlim com problemas práticos que correspondem a equações do primeiro e do segundo graus[10]. Os papiros Rhind e de Moscou apresentam uma série de problemas de cálculo geométrico para áreas e volume, inclusive para pirâmides. A sugestão de alguns de que os egípcios conheceriam o valor de pi (π), isto é, a razão entre a circunferência e seu diâmetro, é rejeitada pela grande maioria dos especialistas. O ponto comum dos problemas aritméticos ou geométricos é a forma condensada das soluções apresentadas; a questão se resume a alguns números e operações, sem qualquer comentário. Assim, os problemas dos documentos matemáticos egípcios devem ser considerados como fórmulas para serem aplicadas na solução de problemas, e não como problemas com fórmulas[11].

Astronomia

Como a Matemática, a Astronomia estagnou em um estágio bastante elementar, rudimentar. A inexistência de papiros sobre Astronomia dificulta um completo conhecimento dos avanços atingidos, que são deduzidos de inscrições e representações em monumentos funerários e alguns calendários que adornam certos sarcófagos do Novo Império. Para os egípcios, a Astronomia era a base utilitária necessária para a marcação do tempo, sem maior interesse em teorias sobre o Sol, a Lua e demais corpos celestes; identificavam os planetas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, bem como algumas constelações e estrelas (Orion, Cassiopeia, Grande Ursa, Sirius). Segundo a mitologia egípcia, o deus Osíris, ao morrer, se transformou na constelação Orion. A falta de preocupações com a natureza do universo físico decorria do desinteresse dos sacerdotes-astrônomos em pesquisar as posições das estrelas, o movimento dos astros, a ocorrência de eclipses, em especular a respeito da sua natureza. Dedicavam-se ao mundo espiritual, e não ao físico. Não há menção alguma, em qualquer documento egípcio, sobre eclipse[12]. A Astronomia egípcia tem, na realidade, um caráter religioso e litúrgico, tanto que só aos sacerdotes cabia o privilégio de observar a abóbada celeste e extrair informações precisas que lhes permitissem  fixar datas para as cerimônias religiosas e até as horas para a liturgia diária. As observações astronômicas tinham, assim, um objetivo prático, sem qualquer veleidade teórica, pelo que, segundo René Taton, não tem direito ao título de Ciência, pois o conceito científico deve apoiar-se sobre uma questão de método.

A Astronomia, ou melhor, a observação do Céu, combinada com as enchentes do Nilo, serviria, contudo, para a organização de um Calendário de real valor para a Sociedade egípcia. A inundação anual do Nilo coincidia com o aparecimento, antes da alvorada, no horizonte oriental, de Sirius, a mais brilhante estrela; esse nascimento helíaco de Sirius serviria, no Período Pré-Dinástico, para marcar o início do ano, cuja duração, de 354 dias, se dividia em 12 meses de 29 ou 30 dias, vinculados, assim, às fases da Lua; um mês adicional era acrescentado a cada três ou dois anos. Os egípcios, quando sedentários e agricultores, abandonariam os cálculos baseados na Lua e passariam a se guiar pelo Sol, ou seja, pelas estações, período entre um solstício de verão (Hemisfério Norte) e o seguinte, que corresponde a 365 dias. Os 12 meses estavam agrupados em três estações – Inundação, Germinação dos Campos e Colheita – de 4 meses cada. Tal Calendário civil (solar) teria sido adotado entre 2937 e 2820; porém, após dois séculos, já acumulava um erro de 50 dias. Em vez de proceder à correção do erro, os egípcios criaram outro Calendário lunar para ser usado junto com o solar. Desta forma, por volta de 2600, três calendários estavam em uso: o lunar original, baseado no nascimento helíaco de Sirius, o civil ou solar, de 365 dias, e o novo lunar.

Os egípcios foram os primeiros a dividir o dia (período entre um nascer do Sol e outro) em dois períodos iguais de 12 horas, cuja duração foi uniformizada. A escolha das 12 horas noturnas corresponde ao movimento das estrelas pelo Céu, desde seu nascimento, à noite, até seu desaparecimento, pela manhã; as doze horas do dia correspondem às dez horas entre o nascer e o pôr do sol, mais uma para a alvorada e mais outra para o crepúsculo vespertino. Do exposto, depreende-se ser a observação dos astros e estrelas limitada à  fixação de datas e horas para  fins religiosos e agrícolas, sem qualquer outra pretensão. Durante o dia, as horas eram medidas pelo relógio do sol (ou da sombra), dispondo, ainda, os egípcios, de um relógio de água ou clepsidra.

A Astrologia era desconhecida no Egito Antigo, tendo sido divulgada e praticada apenas a partir do Período Helenístico. Os instrumentos usados pelos sacerdotes egípcios eram aqueles utilizados por outros povos na Antiguidade: o gnômon, os círculos e os meios círculos para se achar a distância dos corpos celestes acima do horizonte e ao longo da eclíptica, a esfera armilar e os relógios de água.

Medicina

Os principais papiros que tratam de Medicina são em número de quatro: o Papiro Ebers (XVIII dinastia), descoberto em 1875, é um repositório de receitas, inclusive com encantamentos por magos; o Papiro Kahun (XII dinastia), descoberto em 1898, é muito curto, preciso e sóbrio; o Papiro de Berlim (XIX dinastia), descoberto em 1909, relaciona uma série de receitas; o Papiro Smith (XVIII dinastia), descoberto em 1930, expõe alguns casos cirúrgicos.

Sabe-se, pelo Papiro médico Ebers, que existiam três espécies de práticos em Medicina: o sinu ou seunu, que é o médico prático, com algum conhecimento empírico; o sacerdote, que, sob a inspiração da divindade, praticava uma medicina de caráter religioso (para os egípcios, e muitos outros povos da Antiguidade, a doença era de origem sobrenatural); e o feiticeiro ou mago, que se utilizava da magia para curar o paciente[13]. Apesar da prática milenar do embalsamamento, o conhecimento da Anatomia humana era elementar: desconheciam os rins e acreditavam ser o coração a sede do sangue, das lágrimas, do esperma e da urina. O tratamento médico se baseava em fórmulas mágicas, amuletos, poções, pomadas, ervas, em um total empirismo que não contribuía para o desenvolvimento da pesquisa. A Farmacopeia utilizava substâncias vegetais (árvores e plantas domésticas, frutas, cereais e ervas comestíveis e perfumadas), animais (carnes, gorduras, leite, mel) e minerais (arsênico, cobre, alabastro, galena). A cirurgia, particularmente a dentária (drenagem de abscessos, obturações), já era empregada desde a IV Dinastia. Como em outros ofícios, a prática médica passava de pai para  filho, sem haver escola de medicina, mas uma “casa da vida” na qual o jovem prático podia adquirir conhecimento adicional. Como em outras culturas da época, os práticos de Medicina, principalmente os sacerdotes-médicos, gozavam de grande prestígio na comunidade, em geral, e na corte, em particular. O personagem mais ilustre, reverenciado como herói, é Imhotep, que, além de médico, teria sido, igualmente, astrônomo e arquiteto (construtor das primeiras pirâmides, em Saqqara).

Química

O povo egípcio, como outros da Antiguidade, soube desenvolver e aperfeiçoar técnicas no aproveitamento de metais, resinas e óleos vegetais e animais. Ainda que o solo e subsolo fossem extremamente pobres em minérios, os egípcios foram capazes de trabalhar o ferro, provavelmente de origem de meteorito, desde 800 a.e.c., assim como o cobre, o bronze, o estanho e o chumbo, provenientes de regiões vizinhas. Os egípcios sabiam, ainda, fabricar objetos de vidro e de cerâmica, além de corantes, cosméticos e perfumes. A técnica da fermentação era conhecida, como atesta a fabricação da cerveja.

Muito pouco ou quase nada se sabe sobre o conhecimento dos egípcios antigos a respeito de outras disciplinas, como Mineralogia, Botânica, Zoologia e Física, apesar de que em suas atividades diárias deverão ter tido oportunidades de atentar para as particularidades e as qualidades dos objetos, materiais, elementos e seres sob observação. Não há documentos, nem papiros a respeito desses assuntos, inclusive sobre a fabricação de perfumes, corantes, cosméticos, e metalurgia.

Em conclusão, o Egito antigo foi, antes de tudo, uma teocracia hierarquizada, na qual a religião dominava todas as facetas de uma vida terrena, transitória, para a preparação da vida após a morte. Todos os recursos materiais e intelectuais estavam a serviço do Faraó; a casta sacerdotal monopolizava o conhecimento. O trabalho manual era o único permitido a uma população dominada pelos preconceitos e superstições. A técnica adquirida resultara de laboriosa acumulação de experiência, sem qualquer teorização. A pesquisa e a análise não eram usadas, ou conhecidas; a observação, superficial, era inconsequente, e o conhecimento, empírico. Esse ambiente hostil à reflexão não foi conducente à criação científica.

A numeração, a Aritmética e a Geometria permaneceram rudimentares; a observação da abóbada celeste serviu para criar calendário e  fixar datas para festejos religiosos; a cura de doenças, de origem sobrenatural, dependia de uma Medicina primitiva, exercida por magos, sacerdotes e práticos.

Do ponto de vista da História da Ciência, a contribuição da civilização egípcia foi inexpressiva, bastante modesta, se bem que tenham sido incontestáveis os avanços no campo da Técnica.

 

História - Civilização Egípcia
6/20/2020 2:38:10 PM | Por Duane P. Schultz
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A evolução da Psicologia Contemporânea

Garry Kasparov não era só um grande jogador de xadrez: ele era o mestre dos grão-mestres. No con­senso universal, ele era o maior jogador de xadrez da história. Na primavera de 1997, aos 34 anos de idade, no auge do prolongado reconhecimento, vinha man­tendo o título mundial por 12 anos. Jamais perdera uma única vez em uma competição de várias partidas com um único oponente. Jamais exibira outra coisa que não a absoluta confiança na sua genialidade no xadrez. Sua atitude em relação a qualquer rival che­gava ao limite do desprezo, traço exibido novamente ao vencer, como havia previsto, a primeira das seis partidas da anunciada revanche, naquele mês de maio em Nova York, contra o oponente que arrasara havia um ano.

Ao reinicio da partida, os especialistas em xadrez, reunidos para assistir ao grande campeão esmagar seu adversário, testemunharam algo tão inesperado que ficaram mudos. Milhões de observadores que acompanhavam intensamente a partida pela internet e pela transmissão em cadeia mundial de televisão ficaram atônitos ao testemunhar Kasparov exibir sinais incomuns de perturbação. Primeiro, demonstrando muita dúvida, em seguida, terror, desespero e perda de controle. Finalmente, parecia sofrer de um colapso emocional, demonstrando estar aterrorizado.

O primeiro sinal de que o campeão estava à beira de um colapso nervoso surgiu durante a segunda partida. Foi aí que Kasparov enfrentou algo inusitado na sua experiência. No passado, ele sempre conseguiu explorar a fraqueza do oponente, aprendendo o padrão de pensamento adotado contra ele. Mas, dessa vez, não conseguiu.

Essa segunda partida terminou empatada. Depois, outro empate. Em seguida, o opo­nente venceu uma partida. Quando os enxadristas retomaram o confronto no sábado, a série estava empatada. Kasparov iniciou de forma agressiva, brilhante; sabia que estava vencendo. O oponente respondeu com uma série de movimentos inspirados, até brutais, deixando Kasparov visivelmente abalado.

Os grão-mestres estavam chocados ao verem o campeão, pela primeira vez, parecer insignificante. Ele foi forçado a aceitar outro empate. Depois de um dia de folga na com­petição, o desfecho viria na segunda-feira.

A atenção mundial se intensificou. As redes de televisão enviaram correspondentes para cobrir o evento para transmissão em horário nobre. A imprensa escrita enviou não apenas os analistas de xadrez, mas também os melhores jornalistas, e reservaram a pri­meira página para o resultado do confronto. Eles, bem como milhares de telespectadores, testemunharam pela televisão e pela internet o grande Garry Kasparov, o incontestável campeão cuja suprema confiança comparava-se apenas à sua arrogância, dando lugar a um enxadrista nervoso, encurvado, com olheiras e com o ar taciturno. Parecia derrotado mesmo antes de executar o primeiro movimento.

Kasparov ficava cada vez mais abatido, à medida que os movimentos rápidos e impla­cáveis do oponente o deixavam encurralado. Em um momento captado pelas imagens da televisão e, mais tarde, exibido nas capas dos jornais, depois de perder a rainha e com o rei perigosamente exposto em uma posição de xeque-mate, o campeão curvou-se sobre o tabuleiro. Colocou as mãos sobre o rosto, tapando os olhos, e baixou a cabeça, desanimado. Esse momento consolidou-se como o retrato duradouro da expressão do desespero huma­no. Alguns momentos depois, Kasparov levantou-se de repente. Anunciava a desistência da partida e da competição. Efetuara apenas 19 movimentos.

Os grão-mestres ficaram espantados com o modo abrupto como o campeão desmoro­nou. "Foi como o impacto de uma tragédia grega", disse o presidente do comitê de xadrez, responsável pelo reconhecimento da competição. Kasparov reagiu com mais simplicidade. "Perdi meu espírito de luta", disse. "Não estava mesmo com vontade de jogar."

Minutos depois, em uma tumultuada entrevista coletiva, quando lhe perguntaram sobre o porquê, respondeu: "Sou um ser humano. Quando vejo algo além da minha capacidade de compreensão, sinto medo."

O que Kasparov efetivamente viu que estava além da sua capacidade de compreen­são? O que o espantara tanto a ponto de não conseguir mais jogar o jogo do qual era mestre? O que isso tem a ver com a história da psicologia? Calma! Tudo será revelado mais adiante. Por enquanto, vamos acompanhar a evolução da psicologia cognitiva pelo século XXI.

As Escolas de Pensamento em Perspectiva

Cada escola obteve êxito de modo particular e cada uma contribuiu substancialmente para a evolução da psicologia. Esse fato se aplica até mesmo ao estruturalismo, embora esse movimento tenha publicado pouco material relacionado à psicologia como a conhecemos atualmente. Não existem mais estruturalistas como Titchener na psicologia moderna isso ocorre há décadas. Todavia, o estruturalismo obteve enorme sucesso em promover a empreitada iniciada por Wundt, estabelecendo uma ciência da psicologia independente e livre das limitações da filosofia. O fato de o estruturalismo haver fracassado em dominar a psicologia, fazendo-o apenas por um curto período, não desvaloriza a sua realização revolucionária como a primeira escola de pensamento da nova ciência e a fonte vital de oposição para os sistemas seguintes.

Analisemos o sucesso do funcionalismo, que não conseguiu persistir como escola separada. Os funcionalistas buscavam apenas impor uma atitude ou um ponto de vista e, nesse aspecto, o funcionalismo obteve êxito em penetrar no pensamento psicológico estadunidense. Na medida em que a psicologia estadunidense atual é vista mais como uma profis­são científica e suas descobertas são aplicadas praticamente em todos os aspectos da vida a atitude funcional e utilitária realmente mudou a natureza da psicologia.

E o que dizer da psicologia da Gestalt? A escola da Gestalt, em uma escala mais modes­ta, também cumpriu sua missão. A oposição ao elementarismo, o apoio à abordagem da "totalidade" e o interesse na consciência influenciaram os psicólogos da psicologia clínica, da aprendizagem, da percepção, da psicologia social e do pensamento. Embora a escola da Gestalt não tenha transformado a psicologia da forma como esperavam os fundadores, ela exerceu considerável impacto e deve ser considerada um sucesso.

Mesmo que as realizações do estruturalismo, do funcionalismo e da psicologia da Gestalt mereçam o devido destaque, esses movimentos ocupam o segundo lugar em com­ paração com o impacto fenomenal do behaviorismo e da psicanálise. Os efeitos desses movimentos foram profundos, mantendo identidades próprias e independentes como escolas únicas de pensamento.

Passada a época dos seus fundadores, Watson e Freud, tanto o behaviorismo como a psicanálise dividiram-se internamente em várias posições. Nenhuma forma de behaviorismo ou de psicanálise obteve adesão total dos membros de qualquer uma dessas escolas. O surgimento de subescolas dividiu os sistemas em facções concorrentes, cada uma com o próprio mapa para o caminho da verdade. Todavia, apesar dessa diversidade interna, tanto os behavioristas como os psicanalistas mantêm-se firmes na oposição, uns contra os outros, em relação às suas visões sobre a psicologia. Por exemplo, os behavioristas skinnerianos têm mais aspectos em comum com os sociobehavioristas seguidores de Bandura e de Rotter do que com os adeptos da psicanálise de Jung e de Horney. A vitalidade das duas escolas de pensamento é evidente na sua contínua evolução.

Assim como a psicologia individual de Adler em relação à psicanálise, a psicologia de Skinner não é o último estágio na evolução do behaviorismo. A psicologia humanista, mesmo não conseguindo provocar impacto como escola de pensamento independente, influenciou a psicologia contemporânea, incentivando o crescimento do movimento da psicologia positiva.

Por volta das décadas de 1960 e 1970, dois outros movimentos surgiram na psicologia estadunidense, cada um na tentativa de moldar uma nova definição para o campo - são eles a psicologia cognitiva e a psicologia evolucionista.

O Movimento Cognitivo no Psicologia

Em 1913, no seu manifesto behaviorista, Watson insistia na eliminação da psicologia de qual­quer referência à mente, à consciência ou aos processos conscientes. E, realmente, os psicólogos seguidores dos mandamentos de Watson eliminaram a menção desses conceitos e baniram toda a terminologia mentalista. Durante décadas, os livros básicos de introdução à psicologia apre­sentavam descrições sobre o funcionamento do cérebro mas não proporcionavam discussões acerca de qualquer conceito relacionado à mente. As pessoas comentavam, em tom de piada, que a psicologia perdeu a consciência" ou "perdeu a cabeça”, aparentemente para sempre.

No entanto, de repente (embora a tendência já estivesse se formando há algum tempo), a psicologia resgatou a consciência. Palavras, antes consideradas politicamente incorretas, estavam sendo pronunciadas em alto e bom tom nos encontros e utilizadas nos trabalhos escritos. Em 1979, a publicação American Psychologist apresentou um artigo intitulado "Behaviorism and the mind: a (limited) call for a return to introspection’’ ("O behaviorismo e a mente: um apelo (limitado) para a retomada da introspecção") (Lieberman, 1979), res­gatando não apenas a mente como também a suspeita técnica de introspecção. Alguns meses antes, a revista publicara um artigo com um título bem simples: "Consciousness’’. Seu autor escreveu: Depois de décadas de descaso proposital, a consciência passa nova­mente a ser alvo da investigação científica, com discussões sobre o tópico surgindo por toda parte na respeitada literatura da psicologia" (Natsoulas, 1978, p. 906).

Em 1976, em seu discurso no encontro anual da APA, o presidente falou ao público presente sobre as mudanças que estavam ocorrendo na psicologia, afirmando que o novo conceito incluía a retomada do enfoque na consciência. A imagem da psicologia a res­peito da natureza humana estava sendo "humanizada e não mecanizada" (McKeachie, 1976, p. 831). Quando um representante da APA e uma publicação científica de prestígio discutem a consciência de forma tão aberta e otimista, parece óbvio estar em andamento uma revolução, outro novo movimento. Em seguida, vieram as revisões dos livros básicos de introdução à psicologia, redefinindo o campo como uma ciência do comportamento e dos processos mentais e não apenas do comportamento, uma disciplina em busca da explicação do comportamento manifesto, bem como das suas relações com os processos mentais. Portanto, estava claro que a psicologia progredira muito além dos desejos e dos planos de Watson e de Skinner. Uma nova escola de pensamento estava surgindo.

As Influências Anteriores na Psicologia Cognitiva

Assim como todos os movimentos revolucionários da psicologia, o movimento cognitivo não surgiu de uma hora para outra. Muitas das características já haviam surgido antes.

O interesse na consciência era claro, no período inicial da psicologia, antes de a discipli­na ser considerada uma ciência formal. As obras dos filósofos gregos, Platão e Aristóteles mencionavam os processos de pensamento, como também o faziam as teorias dos associacionistas e empiristas britânicos.

Quando Wundt instituiu a psicologia como disciplina científica independente, seu trabalho concentrou-se na consciência. Ele pode ser considerado o precursor da psicologia cognitiva contemporânea pela ênfase do seu trabalho na atividade criativa da mente. As escolas de pensamento estruturalista e funcionalista abordavam a consciência, estudando os seus elementos e as suas funções. O behaviorismo, no entanto, alterou radicalmente essa visão, descartando a consciência e ignorando-a por cerca de 50 anos.

A retomada da consciência e o início formal do movimento da psicologia cognitiva remontam à década de 1950, embora já se observassem sinais aparentes na década de 1930. O behaviorista E. R. Guthrie, ao final da sua carreira, criticava o modelo mecanicista e afirmava nem sempre ser possível reduzir os estímulos a termos físicos. Ele sugeria que os psicólogos deviam descrever os estímulos em termos cognitivos ou perceptuais, de modo que os tornassem significativos para o organismo reagente (Guthrie, 1959). Por se tratar de um processo cognitivo ou mentalista, o conceito de significado não pode ser descrito exclusivamente por questões behavioristas.

O behaviorismo intencional de E. C. Tolman foi outro precursor do movimento cog­nitivo. Sua forma de behaviorismo reconhecia a importância das variáveis cognitivas e contribuiu para o declínio da visão de estímulo-resposta. Tolman propôs o mapa cognitivo, atribuiu comportamento intencional aos animais e enfatizou as variáveis intervenientes como uma forma de definir operacionalmente os estados internos não-observáveis.

Rudolf Carnap, filósofo positivista, exigia o retorno da introspecção. Em 1956, Carnap afirmou: "a consciência que o indivíduo tem do próprio estado de imaginação, sentimen­to etc. deve ser reconhecida como um tipo de observação, em princípio, semelhante à observação externa e, portanto, uma fonte legítima de conhecimento" (apud Koch, 1964, p. 22). Até mesmo Bridgman, o físico que proporcionou ao behaviorismo a noção de defi­nições operacionais, criticou o behaviorismo e insistiu em que os relatos introspectivos fossem usados para dar significado às análises operacionais.

A psicologia da Gestalt também influenciou a psicologia cognitiva por causa do enfo­que na organização, na estrutura, nas relações, no papel ativo do objeto e na participação importante da percepção na aprendizagem e na memória" (Hearst, 1979, p. 32). A escola de pensamento da Gestalt ajudou a manter vivo ao menos um pouco do interesse na cons­ciência durante os anos em que o behaviorismo dominava a psicologia estadunidense.

Outro precursor da psicologia cognitiva foi o psicólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), que escreveu seu primeiro trabalho científico com 10 anos e viria, mais tarde, a estudar com Jung. Piaget também trabalhou com Théodore Simon, que, juntamente com Alfred Binet, desenvolveu o primeiro teste psicológico de habilidade mental. Piaget ajudava a aplicar os testes nas crianças. Posteriormente se tornaria importante por seu trabalho sobre o desenvolvimento infantil não com base nos estágios psicossexuais, conforme propunha Freud, mas em função dos estágios cognitivos. O método clínico de Piaget de entrevistar crianças e sua insistência em anotar tudo detalhadamente durante as entrevistas eram vistos como uma inspiração importante para o famoso estudo de Hawthorne sobre os trabalhadores industriais na década de 1920.

As hipóteses iniciais de Piaget, publicadas entre 1920 e 1930, embora altamente influen­tes na Europa, não foram muito bem-aceitas nos Estados Unidos por sua incompatibilidade com a posição behaviorista. Os primeiros teóricos cognitivos, no entanto, receberam bem a ênfase de Piaget nos fatores cognitivos. E, à medida que as ideias da psicologia cogniti­va tomavam conta da psicologia estadunidense, a importância dos conceitos de Piaget ficava ainda mais evidente. Em 1969, ele foi o primeiro psicólogo europeu a receber o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica. O enfoque do seu trabalho na criança ajudou a ampliar o campo de aplicação da psicologia cognitiva.

A Mudança do Zeitgeist na Física

Quando ocorre uma grande mudança na evolução de uma ciência, ela é entendida como um reflexo das modificações já concretizadas no Zeitgeist intelectual. Sabemos que a ciência, como uma espécie viva, adapta-se às condições e exigências do ambiente. Qual foi a atmosfera intelectual que favoreceu o movimento cognitivo e amenizou as ideias behavioristas, readmitindo a consciência? Mais uma vez, observa-se aqui o Zeitgeist da física, modelo para a psicologia há bastante tempo, e que tem influenciado a área desde o seu início como ciência.

No início do século XX, surge uma nova visão desenvolvida pelos trabalhos de Al­bert Einstein, Neils Bohr e Werner Heisenberg. Eles rejeitavam o modelo mecanicista do universo, originário da época de Galileu e Newton e protótipo para a visão mecanicista, reducionista e determinista da natureza humana adotada pelos psicólogos desde Wundt até Skinner. A nova perspectiva da física descartava a necessidade de total objetividade e a completa separação entre o universo externo e o observador.

Os físicos reconheciam a provável interferência de qualquer tipo de observação feita sobre o universo natural. Seria necessário tentar estabelecer uma relação na lacuna artifi­cial entre observador e observado, entre o universo interior e o exterior e entre o mental e o material. Desse modo, a investigação científica passou do universo independente identificável objetivamente para a observação do universo pelo indivíduo. Os cientistas modernos não podem mais permanecer tão distantes do foco da observação. Em certo sentido, devem se tornar "observadores participativos".

Consequentemente, o ideal da realidade totalmente objetiva agora era considerado inatingível. A física passou a se caracterizar pela crença de que o conhecimento objetivo na verdade é subjetivo e dependente do observador. Essa ideia de que todo conhecimento é pessoal parece muito semelhante à proposta por Berkeley há 300 anos: que o conhecimento é subjetivo porque depende da natureza do observador. Um escritor comentou que nossa visão de mundo, "bem longe de ser uma verdadeira reprodução fotográfica da realidade que está 'lá fora', na verdade, [está] mais para uma pintura: uma criação subjetiva da mente que reproduz uma imagem semelhante, jamais uma réplica" (Matson, 1964, p. 137).

A rejeição dos físicos do objeto de estudo mecanicista e objetivo e, ao mesmo tempo, o reconhecimento da subjetividade restabeleceram o papel vital da experiência conscien­te como uma forma de obter informações acerca do mundo real. Essa revolução na física foi um argumento efetivo para tornar novamente a consciência uma parte legítima do objeto de estudo da psicologia. Embora o sistema psicológico científico tenha resisitido à nova física por meio século, atendo-se a um modelo desatualizado e definindo-se insis­tentemente como uma ciência objetiva do comportamento, a disciplina acabou reagindo ao Zeitgeist e modificando-se, de modo que readmita os processos cognitivos.

A Fundação da Psicologia Cognitiva

Uma análise retrospectiva do movimento cognitivo deixa a impressão de uma rápida tran­sição que solapou as bases behavioristas da psicologia em alguns poucos anos. Ao mesmo tempo, é claro, essa transição não foi totalmente evidente. A mudança, agora percebida como drástica, ocorreu gradual e silenciosamente, sem alardes. Um psicólogo afirmou: "O termo revolução talvez não seja adequado. Não houve acontecimentos cataclísmicos; a mudança ocorreu lentamente, nos diferentes subcampos, ao longo de 10 a 15 anos; não houve nenhum momento e nenhum líder de destaque" (Mandler, 2002a, p. 339). ’

Geralmente, o progresso histórico fica evidente somente depois do acontecimento. A fundação da psicologia cognitiva não ocorreu da noite para o dia nem deve ser atribuída ao carisma de uma pessoa que — como Watson – transformou a área praticamente sozinha. Assim como a psicologia funcional, o movimento cognitivo não apresenta um fundador único, talvez porque nenhum dos psicólogos atuantes na área ambicionasse a liderança do novo movimento. Seu interesse era pragmático, apenas dar continuidade ao trabalho de redefinição da psicologia.

Em retrospecto, a história identifica dois pesquisadores que não foram fundadores, no sentido formal da palavra, mas contribuíram com o trabalho inovador e influente na forma de um centro de pesquisa e de livros considerados marcos no desenvolvimento da psicologia cognitiva. São eles George Miller e Ulric Neisser. As suas histórias indicam alguns fatores pessoais envolvidos na formação de novas escolas de pensamento.

George Miller (1920-)

George Miller formou-se em inglês na University of Alabama, onde completou o mestra­do em fala, em 1941. Durante esse período na universidade, demonstrou interesse pela psicologia e ganhou uma bolsa de estudos para, em troca, trabalhar como uma espécie de professor assistente, dando 16 aulas de introdução à psicologia, sem jamais haver fre­quentado um curso na área. Dizia que depois de lecionar sobre a mesma coisa 16 vezes por semana, começou a acreditar no que ensinava.

Miller foi para a Harvard University, onde trabalhou no laboratório de psicoacústica, lidando com problemas de comunicação oral, obtendo o Ph.D. em 1946. Cinco anos depois, publicou um livro sobre psicolinguística, considerado um marco divisório, Language and communication (1951). Miller reconhecia a escola de pensamento behaviorista, afirmando não ter outra alternativa, já que os behavioristas mantinham as posições de liderança nas principais universidades e associações profissionais.

O poder, as honras, a autoridade, os livros, os lucros, tudo relacionado à psicologia estava nas mãos da escola behaviorista (...) aqueles que desejassem ser psicólogos científicos não podiam opor-se ao behaviorismo. Senão, ficariam desempregados. (Miller apud Baars, 1986, p. 203) Em meados da década de 1950, após investigar a teoria estatística da aprendizagem, a teoria da informação e os modelos de mente com base no computador, Miller chegou à conclusão de que o behaviorismo, literalmente, não iria "funcionar". As semelhanças entre os computadores e o funcionamento da mente humana o impressionaram e sua visão voltou-se mais para a orientação cognitiva. Ao mesmo tempo, desenvolveu uma alergia grave a pelos e descamações de animais, não podendo mais fazer pesquisas com ratos de laboratório, e trabalhar apenas com seres humanos era uma desvantagem no universo dos behavioristas.

A mudança de Miller para a psicologia cognitiva também foi motivada por seu tempe­ramento rebelde, típico de muitos da sua geração de psicólogos. Estavam sempre dispostos a se revoltar contra a psicologia ensinada e praticada no momento, prontos para oferecer sua nova abordagem, seu enfoque no fator cognitivo em lugar do comportamental. Mas, como Miller escreveu cerca de 50 anos depois, "Na época em que estava acontecendo, não percebi que eu era, na realidade, um revolucionário" (2003, p. 141).

Em 1956, Miller publicou um artigo que, desde então, tornou-se um clássico, intitu­lado “The magical number seven, plus or minus two: some limits on our capacity for processing information ("O mágico número sete, mais ou menos dois: alguns limites da nossa capa­ cidade de processamento de informação"). Nesse trabalho, Miller demonstrou que a capa­ cidade consciente do indivíduo de lembrar números por um curto prazo (ou, igualmente, palavras ou cores) limita-se a aproximadamente sete "pedaços" de informação. Essa é a capacidade individual de processamento em determinado momento. A importância, o impacto dessa descoberta reside no fato de lidar com a experiência consciente ou cogni­tiva em uma época em que o behaviorismo ainda dominava o pensamento psicológico.

Ademais, o uso que ele fez da frase "processamento de informações" indicava a influência do modelo da mente humana baseado no computador.

O Centro de Estudos Cognitivos

Em parceria com Jerome Bruner (1915-), seu colega da Harvard, Miller criou um centro de pesquisa para investigar a mente humana. Miller e Bruner pediram ao reitor da universi­dade um espaço físico e, em 1960, ofereceram-lhes a casa em que William James morara. Não havia lugar mais apropriado, já que James abordou de modo tão requintado a natureza da vida mental no seu livro Principies. A escolha do nome para o novo centro não foi uma tarefa comum. Em virtude do fato de estar associado a Harvard, o centro tinha potencial para exercer grande influência na psicologia. Optaram pela palavra "cognição", para deno­tar o objeto de estudo, e decidiram chamar o local de Centro de Estudos Cognitivos.

Ao usarmos a palavra "cognição", estávamos nos colocando à parte do behaviorismo. Desejávamos algo relacionado a mental, no entanto, "psicologia mental" parecia extrema­mente redundante. "Psicologia do senso comum" podia dar a entender alguma espécie de investigação antropológica, e "psicologia do povo", a psicologia social de Wundt. Que palavra usar para rotular esse conjunto de conceitos? Optamos por cognição. (Miller apud Baars, 1986, p. 210)

Mais tarde, dois estudantes do centro lembraram-se de que, naquela época, ninguém conseguia lhes explicar o significado do termo cognição ou as ideias supostamente promo­vidas ali. O centro "não havia sido criado com um objetivo em particular; fora criado para se opor a algo. O importante não era saber o que era e sim saber o que não era" (Norman e Levelt, 1988, p. 101).

Não era o behaviorismo, não era a autoridade vigente, o sistema predominante ou a psicologia do presente. Ao definir o centro, os fundadores demonstravam quão diferentes eram dos behavioristas. Todo novo movimento anuncia a sua posição ou atitude como diferente da escola de pensamento corrente; esse é um estágio preliminar necessário para definir o objetivo e as alterações propostas. Miller, no entanto, atribuiu o devido crédito ao Zeitgeist. "Nenhum de nós deve receber muitos créditos pelo sucesso do Centro. Foi apenas uma ideia ocorrida no tempo certo" (Miller, 1989, p. 412).

Miller não considerava a psicologia cognitiva uma verdadeira revolução, apesar das diferenças em relação ao behaviorismo. Chamava-a de "acréscimo", uma mudança mediante um lento crescimento ou acúmulo. Enxergava o movimento como mais evolucionário que revolucionário e acreditava ser um retorno à psicologia do senso comum, que reconhecia e ratificava a preocupação psicológica com a vida mental e com o comportamento.

Os pesquisadores do centro investigavam ampla variedade de temas: linguagem, memória, percepção, formação de conceito, pensamento e psicologia do desenvolvimento. A maioria dessas áreas havia sido eliminada do vocabulário dos behavioristas. Mais tarde, Miller criou um programa de ciências cognitivas na Princeton University.

Miller tornou-se presidente da APA em 1969 e recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica e a Medalha de Ouro da Fundação Americana de Psicologia pelas Realizações na Aplicação da Psicologia. Em 1991, recebeu a Medalha Nacional da Ciência. Em 2003, recebeu da APA o Prêmio pela Extraordinária Contribuição à Psicologia. Outro reconhecimento do significado do seu trabalho é a quantidade de laboratórios de psicolo­gia cognitiva criados tendo o seu centro como modelo, além do rápido desenvolvimento e a formalização da abordagem à qual ele se dedicara com afinco para definir.

Ulric Neisser (1928-)

Nascido em Kiel, na Alemanha, Ulric Neisser foi para os Estados Unidos, com os pais, aos 3 anos. Iniciou os estudos universitários na Harvard, formando-se em física. Impressio­nado com um jovem professor de psicologia chamado George Miller, Neisser chegou à conclusão de que física não era assim tão interessante. Mudou para a psicologia e frequen­tou, com menção honrosa, o curso de Miller sobre a psicologia da comunicação e teoria da informação. Ele conta também que foi influenciado pelo livro de Koffka, Principies of Gestalt psychology. Depois de obter a graduação como bacharel em Harvard, em 1950, Neisser recebeu o título de mestrado na Swarthmore College, estudando sob a orientação do psicólogo da Gestalt, Wolfgang Köhler. Retornou a Harvard para obter o Ph.D., que completou em 1956.

Apesar do crescente interesse pela abordagem cognitiva da psicologia, Neisser não via como escapar do behaviorismo, já que desejava seguir a carreira acadêmica. "Não havia outra opção. Estávamos em uma era em que o fenômeno psicologia seria considerado real somente se demonstrado em um rato de laboratório" (apud Baars, 1986, p. 275). No entanto, Neisser teve sorte, pois sua primeira posição acadêmica foi na Brandeis University, onde o diretor do departamento de psicologia era Abraham Maslow. Naquela época, Maslow estava se afas­tando da sua formação behaviorista para desenvolver a abordagem humanista ao campo.

Maslow não conseguiu convencer Neisser a se tornar psicólogo humanista, ou em transfor­mar a psicologia humanista na terceira força da disciplina, mas proporcionou a Neisser a oportunidade de perseguir seu interesse nas questões cognitivas (mais tarde, Neisser afir­mou ser a psicologia cognitiva e não a humanista a terceira força da psicologia).

Em 1967, Neisser publicou a obra Cognitive psychology e alegou ser esse um livro pessoal, uma tentativa de definir a si próprio e o tipo de psicólogo que almejava ser. O trabalho também foi um marco divisório na história da psicologia, uma tentativa de definir um novo tratamento para a disciplina. A obra tornou-se extremamente conhecida, e Neisser sentia-se constrangido por ser identificado como o "pai" da psicologia cognitiva. Embora não desejasse fundar nenhuma escola de pensamento, seus trabalhos ajudaram a afastar a psicologia do behaviorismo, empurrando-a em direção ao cognitivismo. Mesmo assim, Neisser enfatizava que o estudo das questões cognitivas devia constituir apenas parte da psicologia e não caracterizar a disciplina toda.

Neisser definia a cognição como os processos pelos quais "a informação sensorial recebida é transformada, reduzida, elaborada, armazenada, recuperada e usada. (...) cognição está envol­vida em tudo que o ser humano é capaz de realizar" (Neisser, 1967, p. 4). Assim, a psicologia cognitiva está relacionada com a sensação, a percepção, a formação de imagens, a memória, a solução de problemas, o pensamento e as demais atividades mentais relacionadas.

Apenas nove anos depois, Neisser publicou Cognition and reality (1976), expressando a insatisfação com a restrição da posição cognitiva e a dependência da coleta de dados em laboratório e não no mundo real. Insistia em afirmar que os resultados da pesquisa psico­lógica deviam ter validade em termos ecológicos. Com isso, quis dizer que os resultados deviam ser generalizados para as situações além dos limites do laboratório. Além disso, alegava que a psicologia cognitiva devia permitir a aplicação das descobertas aos proble­mas práticos, ajudando as pessoas a lidarem com as questões cotidianas particulares e profissionais. Assim, Neisser mostrava-se decepcionado, concluindo que o movimento da psicologia cognitiva tinha pouco a contribuir com a psicologia, no sentido de compreender como as pessoas lidam com as situações. Desse modo, a principal figura na fundação da psicologia cognitiva tornara-se seu crítico audaz, desafiando o movimento, como fizera anteriormente com o behaviorismo.

Depois de 17 anos na Cornell University, onde seu escritório ficava perto do local em que foi guardado o cérebro conservado de Titchener, Neisser mudou-se para a Emory University, em Atlanta, retornando a Cornell em 1996.

A Metáfora do Computador

Os relógios e os robôs foram as metáforas do século XVII para a visão mecânica do uni­verso e, por analogia, para a mente humana. Essas máquinas bem conhecidas eram mode­los fáceis de entender daquilo que se acreditava ser o funcionamento da mente. Hoje, o modelo do universo mecânico e a psicologia behaviorista baseados nessas máquinas foram superados por outras visões - como a aceitação da subjetividade na física e o movimento cognitivo da psicologia.

Como resultado, o relógio não é mais um exemplo útil para a visão moderna da mente. Uma máquina do século XX, o computador, surgiu para servir de modelo, como uma nova metáfora para o funcionamento da mente. Um historiador da ciência comentou: "O veículo responsável pela reintrodução da mente e um agente vital da derrocada do behaviorismo foi a noção da mente comparada ao computador. Essa afirmação transformou-se em senso comum na literatura histórica da 'revolução cognitiva"' (Crowther-Heyck, 1999, p. 37). Os psicólogos tomam como base as operações do computador para explicar o fenômeno cognitivo. Dizem que os computadores exibem uma inteligência artificial e normalmente são descritos "de forma humana". A capacidade de armazenagem chama-se memória; os códigos de programação, linguagem, e as novas gerações de computadores, evoluções.

O funcionamento dos programas de computador, basicamente formados de conjuntos de instruções para o tratamento de símbolos, é semelhante ao da mente humana. Tanto o computador como a mente recebem do ambiente e processam grande quantidade de infor­mações (estímulos sensoriais ou dados). Ambos compilam essas informações, manipulando, armazenando e recuperando os dados, atuando de várias maneiras. Desse modo, a programa­ ção do computador foi sugerida como base para a visão cognitiva humana do processamento de informações, do raciocínio e da solução de problemas. É o programa (software) e não o computador em si (hardware) que serve como explicação para as operações da mente.

Os psicólogos cognitivos estão interessados na sequência de manipulação dos símbolos envolvida nos processos de pensamento humano. Em outras palavras, estão preocupados em descobrir como a mente processa a informação. Eles têm como objetivo descobrir o programa que cada indivíduo tem armazenado na memória, os padrões de pensamento que lhe permitem compreender e articular as ideias, lembrar e resgatar os acontecimentos e os conceitos, e assimilar e resolver um problema novo. Em quase 125 anos de história, a psicologia partiu do simples relógio até chegar aos sofisticados computadores como mode­los de objeto de estudo, mas é importante observar que ambos são máquinas. Esse aspecto demonstra a continuidade histórica na evolução da psicologia, desde as mais antigas esco­las de pensamento, até as mais recentes. É possível observar também uma continuidade histórica na própria evolução dos computadores.

O Desenvolvimento do Computador Moderno

Os trabalhos de Charles Babbage e Henry Hollerith visavam ao desenvolvimento de uma máquina capaz de "pensar" como o homem. No entanto, um problema prático surgido durante os primeiros dias da Segunda Guerra Mundial provocou o início da moderna era dos computadores. Em 1942, o exército estadunidense precisava desesperadamente encontrar uma forma de realizar com mais rapidez os cálculos necessários para disparar as peças de artilharia. A mira perfeita do canhão para o projétil atingir o alvo envolvia (e até hoje envolve) um processo muito complicado, bem mais complexo que o procedimento de o soldado mirar um rifle e apertar o gatilho. Por exemplo, "Para mirar um canhão, o atirador tinha de efetuar diversos ajustes. Esse procedimento exigia o uso de uma série de tabelas [matemáticas] para calcular todas as variáveis que afetam a trajetória do projétil, como a direção e a velocidade do vento, a umidade do ar, a temperatura, a elevação e até mesmo a temperatura da pólvora" (Keiger, 1999, p. 40).

O manual de ajustes para cada tipo de artilharia continha centenas, até milhares de tabelas de cálculos. Esse trabalho era realizado pelas mulheres, recém-contratadas durante o período da guerra, que usavam calculadores manuais (essas mulheres eram chamadas de "computadoras"). Todavia, um ano depois, elas foram superadas, pois não conseguiam acompanhar a demanda. A situação era tão crítica que alguns canhões chegaram a ser abandonados em combate por falta de tabelas com os cálculos para atirar.

Essa necessidade incentivou o desenvolvimento do primeiro computador de grande porte, o Eniac - Electronic Numerical Integrator and Calculator. Concluída em 1943, a máquina em formato de ferradura ocupava três paredes de uma sala enorme, com "braços de 24 metros de comprimento e altura aproximada de 2,4 metros, pesando em torno de 30 toneladas. Continha cerca de 17.468 válvulas eletrônicas (...) além de 10 mil capacitores, 70 mil resistores, 1.500 relés e 6 mil chaves manuais, uma quantidade tão grande de peças eletrônicas que exigia enormes ventiladores para dissipar o calor produzido" (Waldrop, 2001, p. 45).

As máquinas com capacidade para realizar operações mentais percorreram um longo caminho desde a época da calculadora de Babbage. Basta comparar o tamanho e a capaci­dade de um laptop ou palm top para perceber o quão primitivo era o Eniac. A evolução das máquinas para a realização de funções mentais prossegue em um ritmo tão rápido que nos leva, inevitavelmente, a questionar se elas realmente demonstram inteligência.

A Inteligência Artificial

Os psicólogos cognitivos aceitavam computadores como modelo para o funcionamento cognitivo humano, afirmando que as máquinas exibiam inteligência artificial e proces­samento de informação semelhantes aos do homem. É possível supor, então, que a inteli­gência do computador seja igual à do homem? Será que o computador é capaz de pensar? No século XVII, os robôs simulavam a fala e o movimento humanos. No século XXI, será que as novas gerações de computadores simularão o pensamento humano?

No início, os cientistas da computação e os psicólogos cognitivos acolheram com grande entusiasmo a noção da inteligência artificial. Já em 1949, quando os computadores ainda eram relativamente primitivos, o autor de um livro intitulado Giant brains afirmou: "...a máquina manipula informações; realiza cálculos, chega a conclusões e faz opções; a máquina faz uma quantidade razoável de operações com os dados. A máquina, portanto, pensa” {apud Dyson, 1997, p. 108).

Em 1950, o gênio da computação Alan Turing (1912-1954) propôs uma maneira de veri­ficar a hipótese de que o computador seria capaz de pensar. Chamado de Teste de Turing, o processo consistia em convencer um indivíduo de que o computador com o qual estava se comunicando era realmente uma pessoa, e não uma máquina. Se o indivíduo não conseguis­ se distinguir entre as respostas do computador e as humanas, a máquina estaria exibindo inteligência semelhante à do homem. O Teste de Turing funciona da seguinte forma.

O entrevistador [um indivíduo] estabelece duas formas diferentes de "conversação" com o programa interativo do computador. O entrevistador deve tentar descobrir qual das duas partes seria uma pessoa usando o computador para se comunicar e qual seria a própria máquina respondendo. O entrevistador formula qualquer tipo de pergunta. Entretanto, o computador tenta enganar o entrevistador, ou seja, tenta fazê-lo acreditar ser uma pessoa, enquanto a pessoa de verdade tenta mostrar que ela é humana. O computador é aprovado no Teste de Turing se o entrevistador não conseguir fazer a distinção entre a máquina e o indivíduo. (Sternberg, 1996, p. 481-482)

Nem todos concordavam com a premissa do Teste de Turing. John Searle (1932-), um filósofo que elaborou o problema da sala chinesa, foi quem apresentou as mais veementes objeções (Searle, 1980). Imagine-se sentado em uma cadeira, de frente para uma parede com duas aberturas. Pedaços de papel contendo um conjunto de ideogramas chineses ap­arecem um de cada vez na abertura da esquerda. A sua tarefa é combinar, de acordo com o formato, o conjunto de símbolos com os de um livro. Quando você consegue encontrar o conjunto correto, deve copiar outro conjunto de símbolos do livro em um pedaço.  O que está acontecendo aqui? Você está sendo alimentado com as informações pela abertura da esquerda e transmitindo dados pela da direita, obedecendo às instruções programadas recebidas. Assim como a maioria dos ocidentais, não se espera que você leia ou compreenda chinês. Você está apenas seguindo as instruções de forma mecânica.

No entanto, se um psicólogo chinês estivesse observando a uma distância bem razoá­vel da parede com as aberturas, não conseguiria perceber que você não sabe chinês. As comunicações chegam a você em chinês e, por sua vez, você responde corretamente em chinês, copiando-as do livro. Não importa quantas mensagens você receba ou a quantas responda, ainda continua não sabendo chinês. Você não está pensando, está apenas seguin­do instruções. Não está demonstrando inteligência, apenas obedecendo a ordens.

Searle afirmava que os programas de computador que parecem compreender os diferen­tes tipos de dados recebidos e responder a essas informações de forma inteligente estariam funcionando como a pessoa do problema da sala chinesa. O computador não entende as mensagens, tanto como você não sabe chinês. Nesses exemplos, tanto você como o compu­tador estão funcionando exatamente de acordo com o conjunto de regras programadas.

Vários psicólogos cognitivos chegaram a concordar que o computador passa no Teste de Turing e simula a inteligência sem realmente ser inteligente. Conclusão, o computador ainda não é capaz de pensar. Mas seu desempenho parece simular o pensamento, e isso nos remete às partidas de xadrez de 1997 que devastaram o campeão mundial Garry Kasparov. O que o deixara tão abatido, levando-o a abandonar o jogo? O seu oponente era um computador.

Fabricado pela IBM, o computador se chamava Deep Blue. Pesava cerca de 3 toneladas, e cada uma das suas duas torres media mais de 1,80m de altura. Tinha uma capacidade de processamento de 200 milhões de posições por segundo; em três minutos conseguia processar 50 bilhões de movimento. Não foi à toa que até o maior mestre do xadrez rendeu-se, desespe­rado. Todavia, com toda essa capacidade, o Deep Blue estava realmente pensando?

A conclusão geral foi de que a máquina não pensava, embora se “comportasse" como se estivesse pensando. Um escritor científico britânico, interessado em máquinas de jogos de xadrez, concluiu: "Apesar do incansável aperfeiçoamento do desempenho do computa­dor, houve pouco progresso na busca pela inteligência da máquina para aplicação geral. (...) O Deep Blue mostrou que a criação de um computador capaz de jogar xadrez como qualquer ser humano revela muito pouco sobre a inteligência em geral" (Standage, 2002, p. 241). O computador, apesar do fantástico desempenho exibido, ainda precisa ser progra­mado por um ser humano pensante. Em 2003, Kasparov voltou a jogar, dessa vez contra o Deep Junior, uma nova geração de computador enxadrista. Antes da partida ele disse: "Estou aqui representando a raça humana. Prometo fazer o melhor".

Mas Kasparov teve dificuldades para isso. Um observador para a revista Wired es­creveu: enquanto Kasparov está praticamente exausto, Deep Junior simplesmente continua jogando. Como um robô assassino, o computador com certeza não vai parar, jamais. Garry ficou cada vez mais exausto. Ele está tentando ficar calmo e concentrado para ver se consegue deixar a máquina aborrecida fazer com que ela erre; [mas] ficar aborrecida não é uma opção. A máquina não se irrita, (wired.com/news.7/6/2006) E quando Kasparov cedeu a um empate de 3 a 3, foi vaiado pela multidão. No entanto, seu desempenho mostrou que a inteligência artificial não atingiu o nível de complexidade da inteligência humana - pelo menos por enquanto.

A Natureza da Psicologia Cognitiva

No Capítulo 11, vimos como a inclusão dos fatores cognitivos nas teorias da aprendiza­gem social de Albert Bandura e de Julian Rotter alterou o behaviorismo estadunidense. Hoje, o impacto do movimento cognitivo é observado não apenas na psicologia behaviorista. Os fatores cognitivos são observados por pesquisadores em diversas áreas da disciplina: a teoria da atribuição da psicologia social, a teoria da dissonância cognitiva, a motivação e a emoção, a personalidade, a aprendizagem, a memória, a percepção e o processamen­to da informação na tomada de decisões ou solução de problemas. Nas áreas aplicadas, como a psicologia clínica, comunitária, educacional e industrial-organizacional, também se observam a ênfase nos fatores cognitivos.

A psicologia cognitiva é diferente do behaviorismo em vários aspectos. Primeiro, os psicólogos cognitivos dedicam-se a estudar o processo de aquisição do conhecimento e não apenas a mera resposta ao estímulo. Os principais fatores são os fatos e os processos mentais e não as conexões estímulo-resposta; a ênfase é dada à mente e não ao compor­tamento, o que não quer dizer que os psicólogos cognitivos ignorem o comportamento, mas que as reações comportamentais não consistem no único enfoque da pesquisa. As respostas comportamentais constituem fontes de dedução para se chegar à conclusão sobre os processos mentais associados a essas reações.

Segundo, os psicólogos cognitivos estão interessados em saber como a mente estrutura ou organiza as experiências. Os psicólogos da Gestalt, assim como Piaget, argumentavam em favor da tendência inata de organizar a experiência consciente (as sensações e as percepções) em unidades e padrões de significado. A mente dá forma e coerência à experiência mental; esse processo é o objeto de estudo da psicologia cognitiva. Os empiristas e associacionistas britânicos e a psicologia do século XX derivada dessas teorias, o behaviorismo skinneriano, insistiam em que a mente não é dotada de capacidade organizacional inata.

Terceiro, os psicólogos cognitivos acreditam na atuação ativa e criativa do indivíduo em organizar estímulos recebidos do ambiente. O indivíduo é capaz de participar da aquisição e aplicação do conhecimento, participando intencionalmente de alguns fatos e optando por associá-los à memória. O indivíduo não é, como afirmavam os behavioristas, respondente passivo às forças externas ou folhas em branco para o registro da experiência sensorial.

A Neurociência Cognitiva

As pesquisas sobre o mapeamento das funções cerebrais datam dos séculos XVIII e XIX e estão nos trabalhos de Hall, Flourens e Broca (veja no Capítulo 3). Empregando métodos como a extirpação e os choques elétricos, os primeiros psicólogos tentaram determinar as partes específicas do cérebro controladoras das várias funções cognitivas.

Essa investigação continua até hoje na disciplina chamada neurociência cognitiva, um híbrido da psicologia cognitiva e da neurociência. Os objetivos desse campo são determinar "como as funções cerebrais originam a atividade mental" e "correlacionar aspectos específicos do processamento de informação com as regiões específicas do cérebro" (Sarter Bernston e Cacioppo, 1996, p. 13).

Os pesquisadores da neurociência cognitiva obtiveram avanços extraordinários no mapeamento cerebral, principalmente em virtude do desenvolvimento e da aplicação das sofisticadas técnicas de utilização de imagens. Por exemplo, o eletroencefalograma (EEG - Electroencephalogram) registra as variações na atividade elétrica de partes selecionadas do cérebro. A leitura da tomografia axial computadorizada (CAT - Computerized Axial Tomography) revela perfis detalhados do cérebro. O exame de ressonância magnética (MRI - Magnetic Resonance Imagery) produz imagens tridimensionais do cérebro. Enquanto essas técnicas produzem imagens estáticas, a varredura da tomografia por emissão de pósitron (PET - Positron Emission Tomography) produz imagens ao vivo de várias atividades cogniti­vas. Essas e outras técnicas de uso de imagens vêm oferecendo aos cientistas um grau de precisão e de detalhes impossível de ser obtido até então.
Em 2006, os neurocientistas cognitivos demonstraram que o cérebro humano podia controlar um computador. O pensamento podia ser traduzido em movimento só por impulsos elétricos. O objeto de estudo era um homem de 25 anos de idade que estava totalmente paralisado havia três anos. Censores eletrônicos, implantados no córtex motor de seu cérebro, interagindo com um computador, permitindo controlar não somente o computador, mas também um aparelho de televisão e um robô - tudo isso usando somente seus pensamentos. Em poucos minutos ele havia aprendido a movimentar o cursor do computador, e abrir e-mails, movimentar objetos usando um braço robótico, jogar video-game simples, e desenhar um círculo na tela. Ele praticou esse controle pensando em tais movimentos, isto é, ao ter a intenção ou desejo de fazê-los. Naturalmente, ele não conseguia mover o controle com suas mãos.

Essa aplicação da neurociência cognitiva, chamada de neuroprostética, dá esperança a pessoas com esses tipos de deficiências, de que um dia serão capazes de interagir com objetos em seu ambiente, e controlá-los (Hochberg ET AL., 2006; Pollack, 2006).

O PapeI da Introspecção

A aceitação das experiências conscientes fez os psicólogos cognitivos reconsiderarem a primeira abordagem de pesquisa da psicologia científica, o método introspectivo introdu­zido por Wundt há mais de um século. Em uma declaração que podia ser de Wundt ou Titchener, um psicólogo fez uma afirmação óbvia, no final do século XX, de que "... se vamos estudar a consciência, devemos adotar a introspecção juntamente com os relatos introspectivos" (Farthing, 1992, p. 61).

Os psicólogos tentaram quantificar os relatos introspectivos a fim de permitir análises estatísticas mais objetivas e manipuláveis. Uma das abordagens, a avaliação fenomenológica retrospectiva, consiste em pedir ao indivíduo que avalie a intensidade das experiências subjetivas durante a resposta a uma situação de estímulo anterior. Em outras palavras, o indivíduo avalia retrospectivamente as experiências subjetivas ocorridas durante um período anterior, quando lhe pediram para responder a um dado estímulo.

Um psicólogo cognitivo notou que não somente a introspecção podia ser amplamente utilizada, como também que os estados conscientes revelados pela introspecção são "fre­quentemente bons preditivos do comportamento da pessoa" (Wilson, 2003, p. 131).

Embora alguma forma de introspecção constitua o método de pesquisa mais fre­quentemente usado na psicologia contemporânea, até mesmo os mais fervorosos adeptos reconhecem as limitações para a sua validação. Por exemplo, alguns sujeitos podem fazer relatos introspectivos socialmente desejáveis, falando aos pesquisadores aquilo que eles querem ouvir em um esforço para agradá-los. Outro problema com a introspecção é que os sujeitos podem não ser capazes de avaliar alguns de seus pensamentos ou sentimen­tos, pois eles residem muito profundamente no seu inconsciente, um tópico ao qual os psicólogos estão dedicando atenção crescente.

A Cognição Inconsciente

O estudo do processo mental consciente motivou um renovado interesse nas atividades cognitivas inconscientes. "Depois de cem anos de descaso, desconfiança e frustração, o processo inconsciente voltou com firmeza na mente coletiva dos psicólogos" (Kihlstrom, Barnhardt e Tataryn, 1992, p. 788). Cada vez mais, os psicólogos cognitivos concordam que o inconsciente é capaz de realizar muitas funções que antes se acreditava precisarem de deliberação, intenção e conscientização deliberada. As pesquisas sugerem que a maior parte de nosso pensamento e processamento de informações ocorre no inconsciente, que pode operar mais rápida e eficientemente do que a mente consciente (veja Hassin, Uleman e Margh, 2005; Wilson, 2002).

Entretanto, essa não é a mente inconsciente de que falava Freud, transbordando de lembranças e desejos reprimidos trazidos ao consciente somente por meio da psicanálise. Esse novo inconsciente é mais racional do que emocional, e está envolvido no primeiro estágio da cognição de resposta a um estímulo. Desse modo, o processo inconsciente forma uma parte integrante da aprendizagem e é passível de estudo experimental.

Para distinguir a versão moderna de inconsciente cognitivo da versão psicanalítica (e dos estados físicos de inconsciência, sonolência ou comatoso), alguns psicólogos cognitivos preferem empregar o termo "não-consciente". Em geral, os pesquisadores cognitivos con­cordam que a maioria dos processos mentais do homem ocorre no nível não-consciente. "Hoje, acredita-se ser o estado inconsciente mais 'alerta' do que se pensava, sendo capaz de processar informações visuais e verbais complexas e até prever (e planejar) acontecimen­tos futuros. (...) Não mais um simples depositário do ímpeto e do impulso, o inconsciente parece desempenhar importante papel na solução de problemas, no teste de hipóteses e na criatividade" (Bornstein e Masling, 1998, p. xx).

Tanto nos experimentos laboratoriais quanto nos estudos baseados na observação do comportamento do consumidor ao fazer compras, os pesquisadores verificaram que o pensamento inconsciente (chamado aqui de "atenção sem deliberação") era mais cria­tivo e diversificado e levava a compras mais satisfatórias do que quando as respostas no laboratório e comportamento de compra eram dirigidos pelo pensamento consciente (Kijksterhuis, Bos, Nordgren, e van Baaren, 2006; Dijksterhuis e Meurs, 2006).

Uma abordagem conhecida no estudo do processamento não-consciente envolve a percepção subliminar (ou ativação subliminar), na qual estímulos são apresentados abaixo do nível de consciência do indivíduo. Apesar da incapacidade do indivíduo de percebê-los, a estimulação ativa o processo consciente e o comportamento da pessoa. Desse modo, esse tipo de pesquisa demonstra que o indivíduo pode ser influenciado por um estímulo que não vê ou não ouve. Essas e outras descobertas semelhantes convenceram os psicólogos cognitivos de que o processo de aquisição do conhecimento (dentro ou fora do ambiente laboratorial) ocorre tanto no nível consciente como no não-consciente, mas a maior parte do trabalho mental envolvido na aprendizagem ocorre no nível não-consciente. A pesquisa também indica que o processamento da informação não-consciente pode ser mais rápido, mais eficiente e mais sofisticado do que as atividades semelhantes do nível consciente.

A Cognição Animal

O movimento cognitivo resgatou a consciência não apenas dos seres humanos, como também dos animais. Realmente, a psicologia comparativa e a animal fecharam o círculo completo, desde as observações da vida mental do animal relatadas por Romanes e Mor­gan nas décadas de 1880 e 1890, passando pelo estudo do condicionamento mecânico por estímulo-resposta dos behavioristas skinnerianos nas décadas de 1950 e 1960, até a restauração contemporânea da consciência pelos psicólogos cognitivos.

Desde a década de 1970, os estudiosos da psicologia animal tentam demonstrar como o animal codifica, transforma, computa e manipula as representações simbólicas das texturas espacial, temporal e causal do mundo real para adaptar e organizar o próprio comportamento" (Cook, 1993, p. 174). Em outras palavras, o sistema de processamento de informações semelhante ao do computador que se acredita operar nos humanos também está sendo estudado nos animais. As primeiras pesquisas de cognição animal utilizavam estímulos simples como luzes coloridas, sons e cliques. Esses estímulos talvez tenham sido básicos demais para permitir uma compreensão do processo cognitivo animal, pois não permitiam aos animais exibirem a gama completa de capacidades de processamento de informação. Pesquisas posteriores utilizavam estímulos mais realistas e complexos, tais como fotos coloridas de objetos conhecidos. Esses estímulos fotográficos revelaram capacidades conceituais até então não atribuídas aos animais.

Observou-se ainda uma memória animal complexa e flexível e pelo menos alguns processos cognitivos operando de modo semelhante no animal e nos seres humanos. Os animais de laboratório são capazes de aprender conceitos variados e sofisticados. Eles exi­bem processos mentais tais como a codificação e organização de símbolos, a capacidade de formar abstrações espaciais, temporais e numéricas e perceber as relações de causa e efeito. Além disso, o uso que fazem de ferramentas e outros acessórios implica um sentido básico de raciocínio (Wynne, 2001). 

Estudos feitos com animais, desde insetos até mamíferos (incluindo ratos, pombas, chimpanzés, papagaios, golfinhos e corvos), sugerem que os animais conseguem desempe­nhar uma série de funções cognitivas. Entre estas estão a formação de mapas cognitivos, percepção de motivos, planejamento levando em consideração experiências passadas, compreensão de conceitos de números e resolução de problemas pelo uso da razão (veja por exemplo, Emery e Clayton, 2005; Pennisi, 2006).

No entanto, alguns estudiosos da psicologia animal afirmam que as pesquisas rea­lizadas até hoje não oferecem comprovações suficientes para generalizar a afirmação de que a cognição animal funcione de modo semelhante à humana. A lacuna entre o fun­cionamento da mente animal e o da mente humana proposta por Descartes no século XVII mantém o seu apelo.

Os psicólogos comportamentais ainda rejeitam a noção de consciência, tanto em ani­mais como nos seres humanos. Um behaviorista afirmou sobre os psicólogos cognitivos animais: "Eles são os George Romaneses de hoje. Especular sobre memória, raciocínio e consciência dos animais não é menos ridículo do que era há 100 anos" (Baum, 1994, p. 138). Um historiador famoso apresentou uma opinião contraditória:
Será que os animais demonstram todos os aspectos observáveis da consciência? As evi­dências biológicas apontam para uma clara resposta positiva. Teriam, então, também, o lado subjetivo? Dada a longa e crescente lista de semelhanças, parece-me que o peso da evidência está inexoravelmente tendendo para uma resposta afirmativa. (...) Sinto que a comunidade científica agora inclinou-se a seu favor. Os fatos básicos acabaram retornando à origem. Não somos os únicos seres conscientes do planeta. (Baars, 1997, p. 33)

Se os animais são seres conscientes e podem desempenhar funções cognitivas se­melhantes às dos seres humanos, é possível perguntar se também exibem características comuns de personalidade? Um número crescente de psicólogos acredita que a resposta é afirmativa.

A Psicologia Animal

No início da década de 1990 dois psicólogos decidiram estudar 44 polvos vermelhos no aquário de Seattle, Washington, onde cientistas e cuidadores haviam notado que os polvos tinham personalidades diferentes entre si. De fato, eles haviam dado nomes que corres­pondiam às suas naturezas. Uma fêmea mais tímida foi chamada de Emily Dickinson, em homenagem à poetisa. Uma outra era tão agressiva e destrutiva que foi chamada de Lucrécia McEvil (Siebert, 2006).

Os psicólogos observaram o comportamento dos polvos em três situações experi­mentais e verificaram que diferiam em três fatores: atividade, reação e fuga. A resposta à pergunta: "Os polvos têm personalidade?" foi inexoravelmente afirmativa (Mather e Anderson, 1993).

Desde essa pesquisa, os estudos têm documentado características de personalidade em uma variedade de animais, incluindo peixes, aranhas, animais de grande porte, hienas, chimpanzés e cachorros. Por exemplo, algumas hienas foram observadas em um zoológi­co por seus cuidadores que relataram que apresentam características semelhantes às dos humanos, como excitabilidade, sociabilidade, curiosidade e positividade. Ratos exibiram um certo grau de empatia por outros ratos com dor, assim como os chimpanzés, elefantes e golfinhos. Os orangotangos com grau elevado de extroversão e amabilidade, e baixo grau de comportamento neurótico, também apresentam um alto grau de bem-estar subjetivo. Além disso, os traços de personalidade exibidos por cachorros têm sido medidos com a mesma exatidão que nos seres humanos (veja Gosling, Kwan e John, 2003; Miller, 2006; Siebert, 2006; Weiss, King e Perkins, 2006).

"Com os estudos da personalidade animal estamos obtendo uma apreciação ainda maior não só da distinção dos pássaros e animais e seus comportamentos, mas também de suas semelhanças profundas com nós mesmos e nossos comportamentos" (Siebert, 2006, p. 51). Se os animais são tão semelhantes aos seres humanos em termos de processamento cognitivo, temperamento e personalidade, isso significa confirmação adicional da impor­tância da evolução em todas as criaturas vivas? Como veremos, o campo relativamente novo da psicologia evolucionista dedica-se a investigar justamente essa questão.

O Estágio Atual da Psicologia Cognitiva

Com o movimento cognitivo na psicologia experimental e a ênfase na consciência den­tro da psicologia humanista e da psicanálise pós-freudiana, é possível observar que a consciência estava exigindo a posição central que ocupou quando do início formal da disciplina. Uma análise de 95 discursos presidenciais da APA mostra que a visão predo­minante do objeto de estudo da psicologia oscilou dos fatos subjetivos para os objetivos, retornando aos subjetivos (Gibson, 1993). A retomada da consciência ocorreu de forma vigorosa e substancial.

Como escola de pensamento, a psicologia cognitiva vangloria-se das aparências externas do sucesso. Na década de 1970, o movimento obteve tantos adeptos que conseguiu susten­tar as próprias revistas especializadas: Cognitive Psychology (publicada primeiro em 1970), Cognition (1971), Cognitive Science (1977), Cognitive Therapy and Research (1977), Journal of Mental Imagery (1977) e Memory and Cognition (1983). A revista Consciousness and Cognition começou a ser publicada em 1992, e a Journal of Consciousness Studies, em 1994.

Em uma ocasião, Jerome Bruner descreveu a psicologia cognitiva como "uma revolu­ção cujos limites ainda não podem ser previstos" (Bruner, 1983, p. 274). O cientista Roger Sperry, ganhador do prêmio Nobel, comentou que a revolução da consciência ou cognitiva, comparada às revoluções psicanalítica e behaviorista na psicologia, é "a reviravolta mais radical; a mais revisionista e mais transformadora" (Sperry, 1995, p. 35)

O impacto da psicologia cognitiva é sentido na maioria das áreas de interesse das comunidades de psicologia estadunidense e europeia. Ademais, os psicólogos cognitivos têm tentado aprofundar e consolidar o trabalho de diversas grandes disciplinas em um estudo unificado de aquisição do conhecimento. Essa perspectiva, intitulada ciência cognitiva, é uma fusão de psicologia cognitiva, linguística, antropologia, filosofia, ciência da compu­tação, inteligência artificial e neurociência. Embora George Miller questionasse em que se transformaria a união de campos de estudo tão distintos (ciências cognitivas, ele sugeriu, em vez de ciência cognitiva), não há como negar o crescimento da abordagem multidisci- plinar. Vários laboratórios e institutos de ciência cognitiva foram criados nas universidades dos Estados Unidos; alguns departamentos de psicologia passaram a se chamar departa­mentos de ciência cognitiva. Qualquer que seja o nome, a abordagem cognitiva para o estudo do fenômeno mental e dos processos mentais passou a dominar a psicologia e as disciplinas aliadas.

Todavia, nenhuma revolução, mesmo bem-sucedida, escapa das críticas. Por exemplo, a maioria dos psicólogos behavioristas posiciona-se contrária ao movimento cognitivo. Mesmo os que apoiam o movimento apontam suas limitações e seus pontos fracos, obser­vando que existem poucos conceitos com os quais a maioria dos psicólogos cognitivos concorda, ou que considera importantes, e ainda há muita confusão em torno da termi­nologia e das definições.

Outra crítica está relacionada à ênfase excessiva na cognição em detrimento das outras influências sobre o pensamento e o comportamento, tais como a motivação e a emoção. A literatura especializada em motivação e emoção diminuiu ao longo das últimas décadas, enquanto as publicações relacionadas à cognição aumentaram. Ulric Neisser afirmou ser o resultado uma abordagem limitada e improdutiva do campo. "O pensamento humano envolve paixão e emoção, as pessoas atuam sob motivações complexas. O programa de computador, ao contrário, (...) não trabalha por emoção e é monomaníaco na sua ingenui­dade” (Neisser apud Goleman, 1983, p. 57). Ele percebeu o risco da fixação excessiva da psicologia cognitiva nos processos de pensamento do mesmo modo que o behaviorismo se concentrou excessivamente no comportamento manifesto. Jerome Bruner alertou estar a ciência cognitiva restringindo-se a questões cada vez mais limitadas, até mesmo triviais (Bruner, 1990). Uma crítica mais agressiva aponta o fracasso em unificar os diversos campos de estudo relacionados ao funcionamento cognitivo. Um crítico observou que, até agora, "não existe uma visão comum sobre a mente" (Erneling, 1997, p. 381).

Apesar dessas críticas, a primazia da posição cognitiva é amplamente aceita na psicologia. Esse domínio foi confirmado em uma análise empírica englobando 19 anos de dissertações de doutorado e artigos publicados e citados nas quatro publicações da psi­cologia geral: American Psychologist, Annual Review of Psychology, Psychological BulletinPsychological Review (Robins, Gosling e Craik, 1999).
A psicologia cognitiva não está terminada. Está ainda em evolução, marcando o lugar na história em andamento, portanto ainda é cedo demais para avaliar suas contribuições definitivas. A disciplina é dotada de características de uma escola de pensamento: publi­cações próprias especializadas, laboratórios, encontros, jargões e convicções, bem como o zelo dos adeptos. Podemos falar de cognitivismo, assim como falamos do funcionalis­mo e do behaviorismo. A psicologia cognitiva já atingiu o estágio alcançado pelas outras escolas de pensamento em cada época, ou seja, tornar-se parte da psicologia geral. E essa situação, como já vimos, é o progresso natural das revoluções bem-sucedidas.

A Psicologia Evolucionista

A abordagem mais recente da psicologia, a psicologia evolucionista, afirma que os indivíduos são criaturas ligadas ou programadas pela evolução para se comportarem, pensarem e aprenderem segundo as formas que favoreceram a sobrevivência ao longo de várias gerações passadas. Essa abordagem é baseada na afirmação de que as pessoas com certas tendências comportamentais e cognitivas têm mais chances de sobreviver, perdurar e criar proles.

Conforme comentou um psicólogo evolucionista, "Os seres humanos que defende­ram territórios, alimentaram os filhos e lutaram pela dominação foram mais propensos a se reproduzir com êxito do que os que não o fizeram; resultando que seus últimos des­cendentes - membros da atual geração - normalmente demonstram todas as tendências comportamentais semelhantes" (Funder, 2001, p. 209). Os genes relacionados a esses comportamentos facilitadores da sobrevivência "passam de geração a geração porque se adaptam, aperfeiçoando a forma de sobrevivência e o sucesso reprodutivo, e acabam dis­seminados, tornando-se instrumento-padrão" (Goode, 2000, p. D9).

Assim o ser humano é moldado em grande parte, se não na maioria, pelo meio biológico e não pela aprendizagem. Sem negar que as forças sociais e culturais influenciam o compor­tamento humano pela aprendizagem, os psicólogos evolucionistas afirmam que o indivíduo é predisposto, ao nascer, a certas formas de comportamento moldadas pela evolução.

  1. Todos os mecanismos psicológicos, em algum nível básico, originam-se de pro­ cessos evolucionistas e devem sua existência a eles.
  2. As teorias de Darwin sobre a seleção natural e sexual são as mais importantes para os processos evolucionistas responsáveis por criarem mecanismos psicológicos desenvolvidos.
  3. Mecanismos psicológicos desenvolvidos podem ser descritos como instrumentos de processamento de informações.
  4. Mecanismos psicológicos desenvolvidos são funcionais; funcionam para resol­ver problemas recorrentes de adaptação que confrontaram nossos antepassados, (entrevista de David Buss em Barker, 2006, p. 69-70).

Psicologia evolucionista é uma ampla área que faz uso de resultados de pesquisas de outras disciplinas, incluindo a de comportamento animal, biologia, genética, neuropsicologia e teoria evolucionista. Ela aplica esses resultados em todas as áreas da psicologia. No capítulo 1 observamos que a psicologia atual está fragmentada em abordagens diversas para seus problemas, e que não há um único tema que reúna todas essas propostas em uma única psicologia. Os defensores da psicologia evolucionista afirmam que sua definição pode unir essas áreas discrepantes.

Um dos fundadores da psicologia evolucionista, David Buss, escreveu que "ela repre­senta uma revolução verdadeiramente científica, uma mudança padrão profunda na área de psicologia" (2005, p. xxiv). Em uma entrevista, no ano seguinte, ele chamou a psico­logia evolucionista de "uma das revoluções científicas mais importantes que já tivemos na história da psicologia" (apud Barker, 2006, p. 73).

As Influências Anteriores na Psicologia Evolucionista

Claramente, qualquer movimento que se denomina psicologia evolucionista deve ofere­cer os créditos a Charles Darwin, bem como a Herbert Spencer e sua noção a respeito da sobrevivência do mais apto. A ideia de que somente aqueles dotados de algumas caraterísticas sobrevivem e reproduzem uma espécie com as mesmas qualidades parece ser a base da psicologia evolucionista, assim como fora para Darwin e Spencer.
Em 1890, 31 anos depois da publicação do monumental trabalho de Darwin a respei­to da evolução, William James utilizou o termo "psicologia evolucionista" em seu livro, The principies o psychology. James previu que um dia a psicologia se basearia na teoria da evolução. Também propôs que a maior parte do comportamento humano é programada no nascimento por predisposições genéticas chamadas instinto. Esses comportamentos instintivos seriam passíveis de modificação por meio da experiência ou da aprendizagem, mas são inicialmente formados independentemente das experiências.

James acreditava ser instintiva uma ampla variedade de comportamentos, incluindo o medo de objetos específicos como cobras, animais estranhos e de altura, todos envol­vendo claramente o valor de sobrevivência. Outros comportamentos instintivos, afirmava James, seriam moldados pelos pais - o amor, a sociabilidade e a pugnacidade (a propensão à luta e à disputa). Afirmava que os comportamentos instintivos eram uma evolução mediante a seleção natural e adaptações destinadas a lidar com os problemas específicos de sobrevivência e de reprodução.

Durante o reinado do behaviorismo, de 1913 a cerca de 1960, a noção de determinação genética do comportamento era vista como uma espécie de maldição. Todo comportamen­to era aprendido, afirmavam os behavioristas, mas mesmo assim, durante esse período de supremacia e efetiva dominação do behaviorismo na psicologia, surgiam trabalhos a respeito da precedência das influências genéticas e das tendências herdadas sobre as res­postas condicionadas.

Por exemplo, no Capítulo 11, vimos o trabalho dos alunos de Skinner, os Brelands, que treinavam animais para apresentações em circos, propagandas de televisão e feiras comerciais.

Alguns desses animais demonstravam propensão à transferência instintiva. Os animais, às vezes, substituíam o comportamento instintivo por outros, reforçados por alimento, mesmo quando o instintivo interferia na obtenção de comida, uma violação clara do princípio básico behaviorista de que o reforço seria predominante.

Há um trabalho conhecido do psicólogo Harry Harlow, que realizou uma pesquisa sobre o amor materno dos macacos (Harlow, 1971). Harlow criou filhotes de macacos com mães artificiais de dois tipos. Ambas eram construídas de armações de arame, mas uma era coberta de tecido de pelúcia macio e aconchegante, enquanto a outra era descoberta e dura, mas com mamilos para fornecer leite. Para os skinnerianos, era óbvia a associação do reforço apenas com a mãe que fornecia a recompensa do leite. Entretanto, quando os macacos ficavam assustados, agarravam-se na mãe coberta de pelúcia e não na que sempre lhes fornecera o reforço. Parecia haver outra força atuando, impossível de ser explicada pelo condicionamento operante e pelo reforço.

Uma pesquisa realizada por Martin Seligman, o iniciador da psicologia positiva (discutida no Capítulo 14), demonstrou a facilidade de condicionamento do indivíduo a temer cobras, insetos, cães, altura e túneis. No entanto, percebeu-se que é mais difícil condicionar o indivíduo a temer objetos menos ameaçadores e mais neutros como um automóvel ou uma chave de fendas (Seligman, 1971).

O medo de cobras sempre serviu para a sobrevivência e, consequentemente, para a evolução, e assim, presume-se que o indivíduo já nasça com essa predisposição. Entre­tanto, o medo de objetos neutros não teve valor para a sobrevivência ao longo de várias gerações, não sendo, portanto, transmitido. Seligman chamou esse fenômeno de preparo biológico. Esse conceito sugere que "as fobias realmente são aprendidas por meios clássicos de condicionamento, mas que certos medos, que podem ter servido a algum propósito adaptador nos ambientes ancestrais, são mais facilmente condicionáveis" (Siegert e Ward, 2002, p. 244).

Portanto, a psicologia evolucionista, além de se valer da revolução cognitiva, também expande sua importância ao considerá-lo uma estrutura necessária para se compreender a natureza humana e a animal. Concentra-se na importância do consciente que se desenvolveu com o tempo, e dá uma grande ênfase à noção do computador como uma metáfora para todos os processos conscientes. Dois psicólogos evolucionistas famosos escreveram:

Os programas que abrangem a mente humana foram desenvolvidos por seleção natural para resolver problemas de adaptação regularmente encontrados por nossos ancestrais na caça e coleta - problemas como encontrar um companheiro, cooperar com outros, caçar, coletar, proteger as crianças, navegar, evitar predadores, evitar exploração, e assim por diante. A função desenvolvida do cérebro é a de extrair informações do ambiente e usá-la para gerar comportamentos e regular a fisiologia. Portanto, o cérebro não é só parecido com um computador. Ele é um computador - isto é, um sistema físico planejado para processar informações. (Tooby e Cosmides, 2005, p. 5)

A Influência da Sociobiologia

Surgiu outro ímpeto mais contemporâneo da psicologia evolucionista, em 1975, quando o biólogo Edward O. Wilson publicou um livro totalmente inovador, intitulado Sociobiology: a new synthesis (Wilson, 1975), o qual tanto foi aclamado como veementemente criticado.

Dois anos depois, era capa da revista Time. Nesse mesmo ano, Wilson ganhou a Medalha Nacional da Ciência e, durante a reunião anual da Associação Americana para o Progres­so da Ciência, sociedade não caracterizada pela violência física, ele recebeu um balde de água gelada na cabeça.

A tese simples e corajosa de Wilson era uma afronta para muitas pessoas porque o trabalho desafiava a crença nutrida pela igualdade da criação humana, e da atuação das forças sociais e ambientais motivando ou limitando o desenvolvimento humano. Wilson motivou a ira das pessoas por parecer dar maior ênfase às influências genéticas que às culturais. Se todo comportamento for geneticamente determinado, então, não há espe­ranças na mudança de atitude, mediante as práticas de criação e educação da criança ou por outro método. No entanto, não era esse o ponto central de Wilson, embora adotasse uma visão hereditária muito forte em uma época na qual esse tipo de perspectiva era malvisto. Wilson escreveu:

O ser humano herda a propensão a adquirir estruturas sociais e comportamentais, tendência compartilhada por uma quantidade suficiente de indivíduos para ser chamada de natureza humana. Os traços determinantes incluem a divisão de tarefas entre os sexos, a ligação entre pais e filhos, o grande altruísmo entre os semelhantes mais próximos, a rejeição do incesto, outras formas de comportamento ético, a suspeita de estranhos, o tribalismo, as ordens dominantes entre os grupos, o total domínio masculino e as agressões territoriais diante da limitação de recursos. Embora o indivíduo seja dotado de livre-arbítrio e de escolha das decisões, os canais do desenvolvimento psicológico são - embora muitos de nós desejássemos o contrário - mais determinados pelos genes em algumas direções do que em outras. (Wilson, 1994, p. 332-333)

Como resultado do enorme protesto contra o livro de Wilson, a palavra sociobiologia acabou criando uma conotação tão negativa que caiu em desuso. Em 1989, quando um grupo de cientistas estadunidenses decidiu criar uma associação profissional para estudar o campo iniciado por Wilson, deram o nome de Human Behavior and Evolution Society [Sociedade de Evolução e Comportamento Humano] e procuravam evitar a palavra socio­biologia nos encontros.

O campo de estudo iniciado por Wilson foi incorporado às visões modificadas de vários psicólogos estadunidenses que chamavam seus trabalhos de psicologia evolucionista. Com esse nome aparentemente mais aceitável, o campo tornou-se imensamente popular.

O Estágio Atual da Psicologia Evolucionista

Apesar da sua popularidade, a psicologia evolucionista vem gerando muitas críticas. Como mencionamos anteriormente, as pessoas que acreditam no ser humano exclusivamente, ou pelo menos principalmente, como produto da aprendizagem que se opõem a qualquer discussão a respeito de determinantes biológicas do comportamento. Se a natureza huma­na é determinada apenas pelo dom natural genético, não há possibilidade de as forças culturais e sociais positivas alterarem o comportamento para melhor, ou de as pessoas tentarem exercer o livre-arbítrio.

A resposta dos psicólogos evolucionistas para essa crítica é observar, como fez Wilson, que eles não afirmam ser todo tipo de comportamento imutável e determinado pelos genes.

O comportamento humano é modificável; nós continuamos livres para escolher. As forças sociais e culturais são influentes e, algumas vezes, superam ou alteram a programação herdada para responder de determinada forma.

Os opositores argumentam que a amplitude do campo "dificulta a testagem convin­cente da teoria. A capacidade da psicologia evolucionista de explicar praticamente tudo não é nenhuma virtude" (Funder, 2001, p. 210). Os críticos também questionam como é possível identificar com clareza uma história de adaptação em um comportamento especí­fico, por várias gerações, até chegar aos povos primitivos, quando o valor de sobrevivência possivelmente teria iniciado.

Comentários

Observamos em todo o livro que todas as abordagens da psicologia e as tentativas de defi­nir o campo receberam críticas e apresentaram pontos de aparente vulnerabilidade. Como no caso da psicologia cognitiva, ainda é cedo demais para julgar se a psicologia evolucio­nista terá seu valor legitimado. Também esse campo faz parte da história em andamento. Um defensor do movimento da psicologia evolucionista resumiu o estágio atual da área nos seguintes termos: "Penso que ainda não sabemos realmente como trabalhar com a psicologia evolucionista. Enfrentamos muitas dificuldades para formular as hipóteses, e ainda mais obstáculos para descobrir como testar as afirmações. No momento, temos um princípio poderoso que acabará fornecendo a base para uma psicologia mais profunda e mais enriquecida. No entanto, ainda temos de trabalhar muito” (Randolph Nesse apud Goode, 2000, p. D9).

Assim, a busca pela abordagem verdadeiramente final da psicologia, pela escola de pensamento definitiva que venha a caracterizar o campo por mais de algumas décadas, continua. Será que a psicologia evolucionista ou a psicologia cognitiva se tornará o juiz final e definirá a psicologia e o seu objeto de estudo? Com base no que foi visto até aqui, provavelmente não.

A única afirmação possível fundamentada na história da psicologia estudada até aqui é que, quando um movimento se formaliza em uma escola, ficará em evidência até que um novo movimento apresente ideias que a superem com êxito. Quando isso ocorre, as artérias desobstruídas do até então jovem e vigoroso movimento começam a endurecer. A flexibilidade transforma-se em rigidez, a paixão revolucionária começa a ser protetora da sua posição e os olhos e a mente se fecham para as novas ideias. É dessa maneira que nasce um novo sistema. Assim acontece no progresso de qualquer ciência, uma construção evolucionista para níveis mais elevados de desenvolvimento. Não há complementação nem final, apenas um processo interminável de crescimento, como as novas espécies evoluem das antigas e tentam se adaptar a um ambiente eterno de mudanças.
 

Psicologia - História da Psicologia
4/12/2020 12:44:44 PM | Por Paul Veyne
Livre
O sistema de Clientela e Patronato na Roma imperial

Materialmente livre dentro dos limites da convenção, o ex-escravo permanece simbolicamente sob a dependência do patrono, e os romanos, que gostavam dos trocadilhos paternalistas, repetiam que um liberto tem deveres de filho para com o ex-senhor, cujo nome de família se tornou o seu; tem para com ele deveres de "devoção". A obrigação imposta aos libertos de ir duas vezes por dia à casa do amo dar-lhe bom-dia e boa-noite caiu em desuso. Em contrapartida, a devoção queria que fizessem visitas de respeito, e a Cistellaria mostra como a cena era tensa: o liberto exaspera-se por sentir sobre si o peso de um poder que não tem mais como obrigá-lo e no entanto ainda existe; o patrono, por sua vez, sabe que seu tempo passou, que o liberto o odeia, ao mesmo tempo que o teme, e assim mesmo se faz de importante. Tais relações muito prolongadas eram ainda mais pesadas quando o escravo obtinha a liberdade à custa de trabalhos determinados que executaria para o patrono após a libertação (operae libertorum). Ao que parece, um liberto não era obrigado, como os clientes, a fazer ao patrono uma visita protocolar (salutatió) todas as manhãs; em contrapartida, muitas vezes era convidado a jantar e encontrava-se à mesa não tão longe dos clientes. Consta que não eram raras as rixas entre essas duas espécies desiguais de fiéis: para um cliente pobre era difícil sofrer a concorrência, junto ao patrono, de um ex-escravo próspero; os poetas Juvenal e Marcial, reduzidos a cortejar os grandes para viver, odiavam tanto os libertos ricos como os clientes de nacionalidade grega, pois uns e outros eram seus concorrentes. 

Com a "corte que lhe fazem os clientes e os libertos laboriosos não ingratos", como diz Frontão, uma casa brilha na cena pública da notoriedade, condição necessária e suficiente para que a considerem digna de pertencer à classe que governa: "Tive muitos clientes", escreve um liberto riquíssimo para ilustrar seu sucesso. O que é um cliente? Um homem livre que vem fazer a corte ao pai de família e orgulhosamente se proclama seu cliente; é rico ou pobre, poderoso ou miserável, às vezes mais poderoso que o patrono ao qual saúda. Podemos enumerar pelo menos quatro espécies de clientes: os que desejam fazer carreira pública e contam com a proteção do patrono; gente de negócios cujos interesses o patrono servirá com sua influência política e com maior boa vontade se estiver associado a eles, como frequentemente ocorre; pobres-diabos, poetas, filósofos que em geral vivem das esmolas do patrono (entre eles, muitos gregos) e que, não sendo gente do povo, achariam desonroso trabalhar ao invés de viver da proteção dos grandes; e, por fim, aqueles que são bastante poderosos para pertencer ao mesmo mundo do patrono e legitimamente aspirar a ser incluídos em seu testamento em agradecimento a suas homenagens (entre eles encontram-se tanto os mais altos personagens do Estado quanto libertos do Imperador, administradores todo-poderosos): um velho rico sem descendência tinha muitos clientes desse tipo. 

Tal é a multidão que todas as manhãs faz fila diante da porta do patrono, na hora em que cantam os galos e os romanos se levantam. São algumas dezenas, às vezes centenas. Celebridades locais também são assediadas, embora por grupos mais reduzidos; longe de Roma, através das cidades, os mar, poderosos notáveis também têm sua clientela. Nada há de surpreendentes no fato de um homem rico ou influente viver invado de protegidos e amigos interessados, mas entre os romanos tal evidência tornou-se uma instituição e um rito. "A arraia-miúda", escreve Vitrúvio, "são aqueles que fazem visitas e não recebem ninguém." Quem é cliente de alguém não deixa de dizê-lo abertamente para se vangloriar e manifestar a influência do patrono; declara-se "cliente de Fulano", "íntimo da casa de Beltrano"; quem não pertence à plebe ignara manda construir à própria custa uma estátua do patrono em praça pública ou na casa dele; a inscrição, na base, enumera as funções públicas do patrono, do qual o autor da homenagem se declara cliente, com todas as letras. Um patrono afável protestou em semelhante caso que a palavra amigo seria mais justa; tanto que "amigo" se tornou sinônimo lisonjeiro de cliente. 

A saudação matinal é um rito; faltar-lhe equivaleria a renegar o laço de clientela. Os visitantes fazem fila em veste de cerimônia (toga) e cada um recebe simbolicamente uma espécie de gorjeta (sportula), que permite aos mais pobres ter o que comer nesse dia; tanto que a gorjeta foi substituída pela pura e simples distribuição de alimentos... Os clientes são admitidos na antecâmara segundo uma ordem implacavelmente hierárquica em que se encontram as posições da organização cívica; é a mesma coisa nos jantares, em que as diferentes categorias cívicas de convivas se veem recebendo pratos diferentes e vinhos de qualidade diversa conforme sua respectiva posição; tudo destaca a hierarquia. Em outras palavras, o pai de família não recebe as saudações individuais de certo número de amigos, mas admite em sua casa um fragmento da sociedade romana, que o visita em bloco, com seus níveis e desigualdades públicas, e sobre o qual ele tem autoridade moral; sempre sabe a seu respeito mais que os clientes. "Um rico patrono", escreve Horário, "vos governa como faria uma boa mãe e exige de vós mais sabedoria e virtude do que ele próprio tem."

Autoridade Moral

O poder econômico que a casa exerce sobre seus camponeses, mantidos pelo contrato de meeiros, comporta igualmente uma autoridade moral. Na época das perseguições da Igreja, os proprietários cristãos que, assustados, decidiam sacrificar aos ídolos carregavam consigo na apostasia rendeiros e clientes (amici), os quais sacrificavam como eles; outros senhores, com um toque de varinha mágica, convertiam todos os habitantes de seu domínio, resolvendo que, dali em diante, o culto rústico celebrado por seus camponeses seria oferecido ao "verdadeiro" deus, mandando demolir o santuário ancestral que se erguia em suas terras e construindo no local uma igreja. A auréola de prestígio que envolve a casa constitui também uma área de autoridade. Três séculos antes, Catilina arrastara seus meeiros em uma insurreição contra o Senado; e Cícero, ao partir para o exílio, tivera o consolo de ouvir os amigos colocarem a seu serviço "a própria pessoa, os filhos, os amigos, os clientes, os libertos, os escravos e os bens". 

A casa exerce um poder material e moral sobre os que a compõem e sobre os que a cercam; ora, na mente de todos, seu poder sobre esse pequeno círculo a qualifica também como membro da classe que governa cada cidade ou até o Império todo. Mesmo em Roma, escreve Tácito, "a parte sã do povo via tudo pelos olhos das grandes casas". Ser rico e ter autoridade sobre um pequeno círculo (era realmente um) qualificava também politicamente. Claro que a consciência coletiva não sofria materialmente o poder que cada casa exercia em seu pequeno círculo! Era uma ideia subentendida que assegurava a transição: governar os homens não é uma função especializada, mas o exercício do direito natural que os animais de grande porte têm de governar os menores. Grandeza social e legitimação política andando juntas, o exercício das funções públicas não era uma função especializada, como no mundo de hoje, no qual, mesmo que as "duzentas famílias" governem, não se sentam em pessoa nos bancos do Parlamento. No mundo romano os nobres e os notáveis compunham fisicamente o Senado e os conselhos de todas as cidades, ainda que nessas assembleias o número de cadeiras fosse limitado e nem todos os notáveis encontrassem lugar. 

Poder social e político: há ainda outra coisa, menor e mais geral; quem possui um nome importante deve estar presente em tudo que interessa às pessoas e desempenhar um papel honorífico. É um dos aspectos, o mais anódino, do fenômeno polimorfo que era a clientela. O Império Romano, esse governo indireto, consistia em uma federação de cidades autônomas; todo membro da nobreza, fosse senador ou cavaleiro, devia receber ou merecer o título de patrono de uma dessas cidades ou, se possível, de várias. Na verdade, não passava de um título honorífico; tinha como causa ou consequência algum benefício ou serviço que o patrono prestara à comunidade: doar uma soma ao Tesouro municipal, construir ou restaurar um edifício, defender a cidade em alguma querela de fronteira. Em troca, o patrono podia afixar em sua antecâmara uma carta oficial honorífica que a cidade lhe dirigia; seus lutos familiares tornavam-se eventos locais; a comunidade protegida, a qual ele não deixava de informar, endereçava-lhe em resposta um decreto de consolação; se ele chegava à cidade, era recebido oficialmente e fazia uma entrada solene, à maneira de um soberano. A clientela urbana constituía assim um dos caminhos abertos a essa ambição pelos símbolos; mesmo as inumeráveis associações (collegia) pelo prazer do convívio tinham seus nobres patronos; o objetivo principal desses colégios era banquetear-se; o patrono não recebia outro poder efetivo além daquele de decidir, talvez, sobre o cardápio do festim que oferecia a sua custa. A ambição pelos símbolos foi uma das paixões dominantes do mundo greco- romano. 

Com algumas nuanças regionais. A Itália é o reino da clientela. Em terra grega, sofre-se como por toda parte a influência, o poder econômico e as altas relações dos ricos, aliados naturais dos romanos, donos do país. Poderosos personagens de tempos em tempos tiranizam sua cidade. Em contrapartida, as pompas, vaidades e saudações da clientela são desconhecidas. Os libertos não chegam à primeira fila (em Atenas compõem a metade dessa multidão de semicidadãos que não se incluem no demo em seu epitáfio) nem glorificam o ex-senhor. No entanto, o mecenato, essa ruinosa ambição pelos símbolos, reinava ainda na Grécia mais que na Itália, que recebera seu exemplo dos próprios gregos, e que os modernos chamam de "evergetismo".

Em suma, a classe governante procura recrutar menos governantes capazes que indivíduos que lhe mostrem num espelho o conjunto das qualidades privadas que ela aprecia em si mesma: opulência, educação, autoridade natural. Prefere julgar tais qualidades com os olhos, pois não saberia defini-las com critérios regulamentares; por isso a cooptação continua sendo o princípio que tacitamente domina o ingresso nessa classe e as promoções em dignidade. Só que não é a classe em bloco que procede à escolha dos eleitos: cada um de seus membros tem sua fileira de protegidos, que recomenda aos confrades, mediante a troca do mesmo bom procedimento; o próprio imperador nomeia para altos cargos de acordo com tais recomendações. O sistema assegura a cada personagem importante o prazer de reinar sobre um rebanho de postulantes. Clientela, portanto; mas tomemos cuidado com esse termo vago e enganoso. Há duas espécies de clientela: ora é o cliente que precisa de um patrono; ora é o patrono que corre atrás do cliente para sua própria glória. No primeiro caso, o patrono realmente exerce poder; no segundo, disputa com seus pares os clientes, que são os verdadeiros senhores. É então o patrono que precisa do cliente. 

Nem toda clientela, infelizmente, era da mesma espécie. "Em Ístria", conta Tácito, "a casa dos Crassus sempre tinha clientes, terras e um nome sempre popular." Nos campos reinava por toda parte um patronato comparável ao caciquismo sul-americano; por toda parte os grandes proprietários tiranizavam e protegiam os camponeses dos arredores; aldeias inteiras entregavam-se a um desses protetores, para ao menos estar ao abrigo de outras. Às vezes o patronato constituía mais uma aposta sobre o futuro que um efeito do estado de coisas; durante uma guerra civil, conta o mesmo Tácito, a cidade de Fréjus uniu-se ao bom partido para seguir um de seus filhos, que se tornou personagem importante; assim agiu "por zelo de compatriotas e na esperança de que um dia ele fosse poderoso". 

A bem da verdade, "clientela" e "patronato" são palavras que os romanos usam a torto e a direito; com elas pensam as mais diferentes relações. Uma nação protegida será "cliente" de um Estado poderoso, um acusado será defendido na justiça pelo patrono, a menos que inversamente não reconheça como patrono o homem que se dispõe a defendê-lo. Não há nada mais falacioso que os estudos de vocabulário. Ora se protege porque se domina de outro modo; ora se é escolhido como patrono a fim de proteger. O segundo caso é o do patronato das carreiras: o jovem ambicioso que procura uma promoção não pertence à classe dos pobres coitados que sofrem a influência de algum vizinho poderoso, amam-no, servem-no e recorrem a seu apoio. Esse jovem se pergunta que patrono deve escolher: um compratiotas?, um velho amigo bem posicionado?, o homem que protegeu os primeiros passos de seu pai na carreira? O protetor assim eleito o recomendará pela única razão de que o jovem, ainda na véspera talvez um desconhecido, se confiou a ele, sabendo que, se não aceitar essa fidelidade que lhe é oferecida, outro a receberá. Os romanos costumavam transformar uma relação geral em relações individuais ritualizadas; a geração ascendente dividia-se em mil clientelas e todas as manhãs ia saudar os patronos. 

Em troca de sua proteção o patrono ganhava o prazer de não ter menos protegidos que seus pares. A circulação das elites políticas se processava através de canais de conhecimento pessoal que criavam deveres de homenagens verbais e pecados de ingratidão. Os patronos tinham a ilusão de construir por pura amizade a carreira de jovens respeitosos; tinham prazer em aconselhá-los (Cícero assume com o jovem Trebácio um tom condescendente que não se permite com seus outros correspondentes); escreviam numerosas cartas de recomendação a seus pares. Transformadas quase em gênero literário, tais cartas em geral são vazias: basta informar o nome do protegido; cada patrono confia em seus pares e troca com eles sua parte de influência, sem dúvida à custa de uma censura preliminar que cada um exercia sobre si mesmo: sob pena de perder todo crédito, devia-se recomendar apenas os postulantes que a opinião da classe governante podia aceitar. Ora, o crédito faz tudo: quem tem muitos protegidos e postos para distribuir recebe todas as manhãs a saudação de uma pequena multidão. Em contrapartida, quem renuncia a qualquer papel público será abandonado por todos, "não terá mais séquito, nem escolta ao redor de sua liteira, nem visitantes em sua antecâmara". Uma clara divisão entre a vida pública e a vida privada não decorria nem da lei nem do costume; só a prudência podia decidir. "Deixa, pois, teus clientes e vem jantar tranquilamente em minha casa", diz a um amigo o sábio Horácio.

História - Civilização Romana
3/20/2020 3:32:24 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
A Psicologia da Gestalt

Tenerife, localizada a 200 milhas da costa da África, é a ilha mais famosa na história da psicologia; talvez seja a única ilha na história da psicologia. No entanto, o trabalho de um psicólogo alemão que vivia ali na segunda década do século XX é, sem sombra de dúvida, uma parte significativa da história dessa disciplina.

Wolfgang Köhler estudou macacos no Tenerife. Esses animais tinham sido trei­nados ou condicionados a se comportar de determinada maneira. Mas até Köhler ir para Tenerife, acreditava-se que a única maneira de animais aprenderem era por meio de tentativa e erro, isto é, tropeçando acidentalmente na resposta correta - aquela que levava comida como recompensa. A maioria das pesquisas sobre animais já realizadas até aqui envolve animais ensina­dos a se comportar da maneira como o experimentador ou treinador queira.

Köhler não tinha interesse em treinar os macacos que encontrou na ilha. Seu objetivo era observá-los para ver como solucionavam problemas. Ele acreditava que eram mais inteligentes do que pessoas ensinadas e que eram capazes de resolver problemas de maneira muito semelhante aos humanos. E assim colocou seus macacos em gaiolas grandes e deu-lhes instrumentos que usariam para obter comida, enquanto se sentava para observar o que faziam.

Uma macaca, Nueva, pegou uma vara que Köhler havia colocado em sua gaiola. Esfregou-a no chão por um período curto e em seguida perdeu interesse e a deixou de lado. Dez minutos depois, algumas frutas foram colocadas do lado de fora. Ela esticou um dos braços pelas grades da gaiola em direção à fruta, mas não conseguiu alcançá-la. Começou a choramingar e a gemer, e em seguida jogou-se no chão num gesto muito eloquente de desespero", Köhler escreveu. Após diversos minutos ela olhou a vara, parou de cho­ramingar, e repentinamente a agarrou. Ela esticou a vara pelas grades da gaiola e arrastou a fruta até que estivesse perto o suficiente para que pudesse alcançá-la com sua mão. Uma hora depois Köhler repetiu o experimento. Dessa vez Nueva mostrou certa hesitação. Pegou a vara e a usou como instrumento mais habilmente do que da primeira vez, e assim conseguiu obter a fruta mais rapidamente. Na terceira vez, ela pegou a vara de imediato, reagindo ainda mais rapidamente.

Ficou evidente para Köhler que Nueva não havia hesitado, usando a técnica de tentativa e erro para sua aprendizagem, e que esta havia acontecido no decorrer dos movimentos realizados ao acaso, até que ela tocou a comida com a vara.

Ao contrário, seus movimentos tinham um objetivo em mente, eram propositados e deliberados. Isso era diferente do comportamento dos gatos na caixa quebra-cabeça, ou dos ratos no labirinto de Thorndike.

Nueva e os outros chimpanzés estudados no Tenerife exibiram uma maneira diferente de aprender, e suas ações levaram a uma outra revolução na psicologia, a outra maneira de abordar o estudo da mente e do comportamento.

A Revolta da Gestalt

Até aqui a evolução da psicologia desde as ideias iniciais de Wundt e a elaboração dessas noções por Titchener, passou pela escola de pensamento funcionalista, bem como pelas áreas aplicadas da psicologia, até chegar ao behaviorismo de Watson e Skinner e ao desafio cognitivo nesse movimento. Mais ou menos na mesma época em que a revolução behaviorista aglutinava forças nos Estados Unidos, a revolução da Gestalt tomava conta da psicologia na Alemanha. Essa revolução consistia em mais um pro­testo contra a psicologia wundtiana, e viria mais tarde a se tornar um testemunho das ideias de Wundt, como fonte de inspiração para o surgimento de novas visões, e como base para o lançamento de novos sistemas de psicologia.

Nesse ataque contra a psicologia dominante, a psicologia da Gestalt concentrava-se principalmente na natureza elementar do trabalho de Wundt. Apenas para relembrar, os elementos sensoriais formavam a base da psicologia wundtiana; e os psicólogos da Gestalt fizeram desse enfoque o alvo do seu ataque. Wolfgang Köhler, fundador da psicologia da Gestalt, afirmou: "Ficamos chocados com a tese de que todo fato psicológico (...) consti­tui-se de átomos inertes não-relacionados e que as associações consistem praticamente nos únicos fatores que combinam esses átomos, introduzindo, assim, a ação" (Köhler, 1959, p. 728)..

Para compreender o protesto da Gestalt, retornemos ao ano de 1912. O behaviorismo de Watson começava a atacar Wundt e Titchener e também o funcionalismo. A pesquisa sobre animais realizada nos laboratórios de Thorndike e de Pavlov exercia grande impacto. A psicanálise de Freud já completava uma década. Embora o movi­mento dos psicólogos da Gestalt contra a posição de Wundt ocorresse concomitantemente ao surgimento do behaviorismo nos Estados Unidos, os dois movimentos foram totalmente independentes. E ainda que ambas as escolas de pensamento tenham iniciado como uma oposição às mesmas ideias, ou seja, contra o enfoque de Wundt nos elementos sensoriais, as duas acabaram opondo-se entre si.

As diferenças entre a psicologia da Gestalt e o behaviorismo logo ficaram evidentes. Os psicólogos da Gestalt admitiam o valor da consciência embora criticassem a tentativa de reduzi-la a elementos ou átomos. Os psicólogos behavioristas recusavam-se a reconhecer o valor do conceito de consciência na psicologia científica.

Os psicólogos da Gestalt comparavam a abordagem da psicologia de Wundt (do modo como a interpretavam) com a construção de uma casa, em que os elementos (os tijolos) seriam unidos pela argamassa mediante o processo de associação. Afirmavam que, ao olharmos pela janela, enxergamos efetivamente as árvores e o céu, e não os denomina­dos elementos sensoriais, como o brilho e as tonalidades, os quais, de alguma forma, se conectariam para formar a nossa percepção de árvore e de céu.

Além disso, os psicólogos da Gestalt acusavam Wundt de afirmar que a percepção dos objetos era meramente a soma ou a junção dos elementos, formando-se uma espécie de pacote. Insistiam em alegar que, ao se combinarem, os elementos sensoriais formariam um novo padrão ou uma nova configuração. Por exemplo, se juntarmos um grupo de notas musicais, surge uma melodia ou um tom por essa combinação, algo novo que não existia em nenhuma das notas elementares individuais. Essa ideia se encontra na expressão conhecida: o todo é diferente da soma das partes. Para fazer justiça a Wundt, devemos observar que ele reconheceu essa questão, formulando a doutrina da síntese criativa.

A Percepção: o que os Olhos Não Veem

Para ilustrar a diferença entre a abordagem de Wundt e a da Gestalt acerca da percepção, suponha que você seja aluno de um laboratório de psicologia alemão do estilo de Wundt no início do século XX.

O psicólogo responsável pede-lhe para descrever um objeto sobre a mesa, e você responde:

"Um livro."

"Sim, é claro que é um livro", ele concorda, "mas o que você está realmente vendo?"

Intrigado, você pergunta: "Mas o que você quer dizer com 'o que eu realmente estou vendo?' Eu disse que estou vendo um livro. Um livro pequeno, de capa vermelha." O psicólogo insiste. "Qual a sua real percepção do objeto? Descreva-o com a maior precisão possível."

"Você está dizendo que não é um livro? Isso é alguma piada?"

Ele demonstra certa impaciência. "Sim, isso é realmente um livro. Não se trata de nenhuma brincadeira. Eu apenas gostaria que você descrevesse exatamente o que está vendo, nem mais, nem menos."

Você vai ficando cada vez mais desconfiado e diz: "Bem, olhando deste ângulo, a capa do livro parece um paralelogramo vermelho-escuro".

"Isso!" ele diz, satisfeito. "Ótimo, você está vendo uma espécie de tira vermelho-escuro com o formato de um paralelogramo. E o que mais?"

"Há uma borda branca meio acinzentada abaixo dela e mais para baixo outra linha fina, do mesmo tom vermelho-escuro. Debaixo de tudo, vejo a mesa." Ele se retrai. "Em volta do objeto vejo umas manchas marrons com algumas listras paralelas, meio ondu­ladas, em marrom-claro."

"Ótimo, ótimo!" E ele agradece a sua colaboração.

Você fica parado ali, olhando para o livro sobre a mesa, e sente-se um pouco cons­trangido por ter-se deixado induzir pelo insistente psicólogo a uma análise desse tipo. Ele o deixou muito desconfiado, a ponto de não ter mais certeza do que realmente estava vendo ou pensava que estava vendo... Essa cautela o fez descrever o que percebia com as sensações, quando apenas um momento antes tinha certeza de observar um livro sobre a mesa.

Os seus devaneios são interrompidos de repente pela presença de um psicólogo que se parece vagamente com Wilhelm Wundt. "Obrigado por ajudar a comprovar mais uma vez a minha teoria da percepção. Você comprovou", ele diz, "que o livro que via nada mais é do que um composto de sensações elementares. Quando tentava precisar e dizer exatamente o que realmente via, teve de se expressar em padrões de cor, e não do objeto em si. As sensações de cor é que são as características primárias, e todo objeto visual pode ser reduzido a essas sensações. A sua percepção do livro é construída com base nas sensações, assim como a molécula é constituída a partir dos átomos."

Ao que parece, esse breve discurso é um sinal para o início da batalha. "É um absur­do!", grita uma pessoa do outro lado do salão. "Bobagem! Qualquer idiota sabe que o livro é o fato perceptual primário, imediato, direto e incontestável." O psicólogo que agora olha para você possui certa semelhança com William James, mas parece ter sotaque alemão, e o seu rosto está tão vermelho de raiva que não há como ter certeza. "Essa redução da percepção em sensações de que você está falando não passa de um jogo intelectual. Um objeto não é um pacote de sensações. Qualquer homem que vê manchas vermelhas-escuras quando devia enxergar um livro deve estar doente!"

Quando a briga começa a esquentar, você fecha a porta devagarinho e desaparece. Você acaba de ter o que queria: uma ilustração de que há duas atitudes diferentes, duas formas distintas de falar sobre as informações que os nossos sentidos nos proporcionam. (Miller, 1962, p. 103-105)

Os psicólogos da Gestalt acreditam que há mais na percepção do que os olhos veem. Em outras palavras, a percepção vai muito além dos elementos sensoriais, dos dados físi­cos básicos proporcionados aos órgãos dos sentidos.

As Influências Anteriores sobre a Psicologia da Gestalt

Assim como em todo movimento, as ideias contestadoras da Gestalt tiveram origem em con­ceitos anteriores. A base da posição da Gestalt, ou seja, o enfoque na unidade da percepção, encontra-se no trabalho do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) que, curiosamente, escrevia os seus livros confortavelmente vestido de roupão e calçando chinelos. Kant alegava que, quando percebemos o que chamamos de objeto, encontramos os estados mentais que parecem compostos de partes e pedaços. Essa ideia é semelhante à proposta dos elementos sensoriais defendida pelos empiristas ingleses e associacionistas. No entanto, para Kant, esses elementos são organizados de forma que tenham algum sentido, e não por meio de processos de associação. Durante o processo de percepção, a mente forma ou cria uma experiência completa. Desse modo, a percepção não é uma impressão passiva e uma combinação de elementos sensoriais, como afirmavam os empiristas e associa­cionistas, mas uma organização ativa dos elementos, de modo que forme uma experiência coerente. Assim, a mente molda e forma os dados originais da percepção.

Franz Brentano, da University of Vienna, opôs-se ao enfoque de Wundt acerca dos elementos da experiência consciente e propôs à psicologia o estudo do ato da experiência. Ele considerava artificial a introspeccão utilizada por Wundt e defendia uma observação menos rígida e mais direta da experiência na forma como ela ocorre. A visão de Brentano estava mais próxima dos métodos mais recentes dos psicólo­gos da Gestalt.

Ernst Mach (1838-1916), professor de física da University of Prague, exerceu influência mais direta sobre o pensamento da Gestalt com a obra The analysis of sensations (1885). Nesse livro, Mach discutia os padrões espaciais, como as figuras geométricas, bem como os padrões temporais, como as melodias, e os considerava sensações. Essas sensações de forma do espaço e de forma do tempo independem dos elementos individuais. Por exem­plo, a forma do espaço de um círculo pode ser branca ou preta, grande ou pequena e ainda manter a qualidade elementar circular.

Mach alegava que a percepção de um objeto não muda, ainda que modifiquemos nossa orientação em relação a ele. Uma mesa continua a ser uma mesa se a olharmos de lado, de cima ou de algum ângulo. Do mesmo modo, o tom continua o mesmo em nossa percepção inclusive quando a forma do tempo é modificada, ou seja, quando é executado mais lenta ou rapidamente.

Christian von Ehrenfels (1859-1932) estudou as ideias de Mach e propôs qualidades de experiência que não podem ser explicadas como combinações de elementos sensoriais. Chamou essas qualidades de Gestalt Qualitäten (qualidades de forma), que são percepções baseadas em algo além da aglutinação de sensações individuais. A melodia é uma qualidade de forma porque parece a mesma até quando transposta para outra nota. Ela independe das sensações de que é composta. Para Ehrenfels e os seus seguidores, a forma em si era um elemento criado pela mente em operação sobre os elementos sensoriais. Desse modo, a mente seria dotada de capacidade para criar formas a partir de sensações elementares.

Max Wertheimer, um dos três principais fundadores da psicologia da Gestalt, percebeu que, do trabalho de Ehrenfels, com quem estudara em Praga, vinha o maior incentivo para o movimento da Gestalt.

William James, que se opôs à tendência do elementarismo na psicologia, também foi precursor da escola de psicologia da Gestalt. James considerava os elementos da cons­ciência como abstrações artificiais. Afirmava que as pessoas veem os objetos como uma unidade; Como Pacotes Armados de sensações. Outros principais fundadores da psicologia da Gestalt, Kurt Koffka e Wolfgang Kõhler, tomaram contato com o trabalho de James quando foram alunos de Stumpf.

Outra influência anterior foi o movimento ocorrido na filosofia e na psicologia alemã; conhecido como fenomenologia, doutrina baseada na descrição imparcial da experiência imediata na forma como ela ocorre. A experiência não é analisada nem reduzida em ele­mentos ou abstraída de alguma forma artificial. Ela envolve uma experiência praticamente ingênua de senso comum, e não uma experiência relatada por um observador treinado dotado de orientação ou tendência sistemática.

Um grupo de psicólogos fenomenologistas trabalhou na Universidade de Gõttingen de 1909 a 1915, isto é, no período em que o movimento da Gestalt esta­va começando a se desenvolver. O trabalho desses psicólogos precedeu a escola formal da Gestalt, que mais tarde acabou adotando a visão desse estudo.

As Mudanças do Zeitgeist na Física

O Zeitgeist - mais especificamente, a atmosfera intelectual predominante na física - exerceu grande influência no desenvolvimento da Psicologia da Gestalt. Nas últimas décadas do século XIX, as noções da física tornavam-se cada vez menos atomísticas com o reconhecimento e a aceitação dos campos de força - regiões ou espaços atravessados por linhas de força, por exemplo, por corrente elétrica.

O exemplo clássico desse conceito é o magnetismo, propriedade difícil de explicar com base na visão tradicional de Galileu ou Newton. Por exemplo, quando limalhas de ferro são sacudidas em uma folha de papel colocada sobre um ímã, os pedacinhos formam um padrão característico. Embora as limalhas não toquem no ímã, são obviamente afetadas pelo campo de força existente em torno do magneto. Acreditava-se que a luz e a eletrici­dade funcionavam da mesma forma. Esses campos de força eram considerados entidades novas, e não apenas a soma dos efeitos dos elementos ou das partículas individuais.

Desse modo, a noção do atomismo ou elementarismo, tão influente no estabelecimento de grande parte mais recente ciência da psicologia, estava sendo reconsiderada na física. Os físicos descreviam campos e entidades orgânicas completas, proporcionando assim munição e apoio para a visão revolucionária dos psicólogos da Gestalt a respeito da percepção. As noções oferecidas pelos psicólogos da Gestalt refletiam a nova física. Mais uma vez, os psicólogos esforçavam-se para imitar as ciências naturais já estabelecidas.

Houve uma conexão pessoal no impacto da nova física sobre a psicologia da Gestalt. Köhler havia estudado com Max Planck, um dos criadores da física moderna, e afirmou que, por influência de Planck, percebera haver uma conexão entre a aula de física e o conceito de unidade da Gestalt. Köhler testemunhou diretamente na física a crescente relutância em lidar com os átomos e a substituição dessa ideia pelo enfoque no conceito mais amplo dos campos, e afirmou: "A partir de então, a psicologia da Gestalt transformou-se em uma espécie de aplicação da física de campo nas áreas essenciais da psicologia" (1969, p. 77).

Entretanto, Watson aparentemente não tomou conhecimento da nova física. Sua escola de pensamento behaviorista manteve a abordagem reducionista, enfatizando os elementos - os do comportamento. Essa visão é compatível com a antiga perspectiva atomística da física.

Fenômeno Phi um desafio à Psicologia Wundtiana

A psicologia da Gestalt desenvolveu-se por um estudo de pesquisa conduzido, em 1910, por Max Wertheimer. Enquanto viajava de trem pela Alemanha durante as férias, ocor­reu-lhe a ideia de realizar uma experiência para visualizar um movimento quando ele não estivesse efetivamente acontecendo. Abandonou seus planos de viagem, desceu do trem em Frankfurt, comprou um estroboscópio de brinquedo e analisou suas sensações internas em um estudo preliminar que realizou no quarto de um hotel. Mais tarde, con­duziu um programa de pesquisa mais abrangente na Universidade de Frankfurt, com dois psicólogos, Koffka e Köhler.

O problema de pesquisa de Wertheimer, para a qual Koffka e Köhler serviram como sujeitos, envolvia a percepção do movimento aparente, ou seja, do movimento quando não há efetivamente o movimento físico. Wertheimer referia-se a essa percepção como "impressão" do movimento. Usando o taquistoscópio, projetava a luz através de duas fen­das, uma vertical e a outra com ângulo de 20 ou 30 graus da vertical. Se a luz era projetada primeiro por uma fenda e depois através da outra, com um intervalo relativamente longo entre elas (mais de 200 milissegundos), os sujeitos enxergavam algo como duas luzes sucessivas, primeiro em uma fenda e depois na outra. Quando o intervalo entre as luzes era menor, os observadores percebiam duas luzes que pareciam contínuas. Com um bom intervalo entre as luzes, cerca de 60 milissegundos, eles enxergavam um único feixe de luz que parecia se mover de uma fenda a outra, voltando novamente ao lugar.

Essas descobertas podem parecer pouco importantes. Os cientistas conhecem o fenô­meno há anos, e ele parece fazer parte do senso comum. No entanto, de acordo com a posição predominante na psicologia, que era dominada pela visão de Wundt, toda expe­riência consciente era passível de análise em elementos sensoriais. Portanto, como explicar a percepção do movimento aparente como uma soma de elementos individuais, quando os elementos eram simplesmente duas fendas fixas de luz? Seria possível adicionar um estímulo fixo a outro para produzir uma sensação de movimento? Não, não era possível, e foi exatamente esse o ponto demonstrado de modo simples e brilhante por Wertheimer, o qual confrontou a explicação baseada no sistema de Wundt.

Wertheimer acreditava que o fenômeno na forma verificada no laboratório era tão elementar quanto uma sensação, mas era diferente de uma sensação ou de uma série delas. Denominou essa noção de fenômeno phi. E como Wertheimer explicava o fenômeno phi quando a psicologia da época não conseguia encontrar nenhuma explicação? Sua resposta era tão simples quanto sua pesquisa. O movimento aparente dispensa qualquer explicação. Ele existe assim como é percebido e não pode ser reduzido em um elemento mais simples.

Para Wundt, a introspecção do estímulo produzia apenas duas linhas de luz e nada mais, no entanto não importa quão rigorosamente um observador realizasse a introspec­ção dos dois feixes de luz, a experiência de uma única linha em movimento persistia. Qualquer tentativa de análise fracassava. Toda a experiência, que consistia no movimento aparente do feixe de uma fenda a outra, era distinta da soma das partes (as duas linhas fixas). Desse modo, a psicologia associacionista e elementarista, rebatida, não fora capaz de sustentar o seu ponto de vista.

Wertheimer publicou os resultados da pesquisa, em 1912, no artigo intitulado “Expe­rimental studies of perception of moviment" ("Estudos experimentais de percepção do movi­mento"), considerado o marco formal da escola de pensamento da psicologia da Gestalt.

Max Wertheimer (1880-1943)

Max Wertheimer frequentou as escolas locais até completar 18 anos. Estudou direito na University of Prague, mudou sua graduação para filosofia, participou das aulas de Ehrenfels e então seguiu para a Univerdadide of Berlin para prosseguir o estu­do de filosofia e psicologia. Obteve o doutorado, em 1904, da University of Würzburg, sob a orientação de Oswald Külpe. Seguiu para a University of Frankfurt para lecionar e realizar pesquisas, obtendo uma posição acadêmica em 1929. Durante a Primeira Guerra Mundial, realizou pesquisas militares com os aparelhos de escuta dos submarinos e dos fortes localizados nas regiões portuárias.

Na década de 1920, na Universidade de Berlin, Wertheimer desempenhou alguns de seus trabalhos mais produtivos para o desenvolvimento da psicologia da Gestalt. Um discípulo seu lembra-se de que as paredes do escritório de Wertheimer eram pintadas de vermelho vivo. Aparentemente ele achava que cores fortes eram estimulantes, e que, se as paredes fossem pintadas de cinza, ou verde-claro, ou outra cor maçante, as pessoas não trabalhariam tão bem como se fossem pintadas de cores excitantes como o vermelho" (King e Wetheimer, 2005, p. 188).

O estilo das aulas de Wertheimer era estimulante e sua imaginação também era muito viva; alguns alunos achavam que isso facilitava o entendimento, mas outros achavam confuso e obscuro. Uma aluna, entusiasmada pela paixão, zelo e convicções do professor, acreditava, a princípio, que poucos sabiam sobre o que Wertheimer estava falando. "De­morou praticamente um ano para que eu, particularmente, indo a duas ou três aulas por semana, entendesse o que ele dizia. Quando entendíamos, ficávamos muito satisfeitos! Nossa vida mudava, toda nossa visão sobre ela modificava. De repente, tudo ficava colorido e cheio de vida e começava a fazer sentido" (King e Wertheimer, 2004, p. 171).

A vida daquela aluna mudou significativamente. Aos 22 anos de idade ela se casou com seu professor de 43 anos, apesar de ter lhe avisado sobre sua obsessão pelo trabalho. "Deve sempre se lembrar", ele lhe disse, "que estarei sempre à minha mesa trabalhando. Preciso criar a teoria da Gestalt" (King e Wetheimer, 2005, p. 172). Ele não estava exagerando.

Em 1921 Wertheimer, Koffka, e Kõhler assistidos por Kurt Goldstein e Hans Gruhle, fundaram o periódico Psychological Research, que se tornou a publicação oficial da escola de pensamento da Gestalt. O governo nazista suspendeu sua publicação em 1938, mas ela foi retomada após a guerra, em 1949.

Wertheimer fazia parte do primeiro grupo de estudiosos a fugir da Alemanha nazista para os Estados Unidos, chegando em Nova York em 1933. Associou-se à New School for Social Research, onde permaneceu até sua morte, 10 anos mais tarde. Embora seus anos nos Estados Unidos tivessem sido produtivos, teve dificuldade em se adaptar a uma nova língua e cultura.

Wertheimer impressionou muito o jovem psicólogo Abraham Maslow, que aparente­mente ficou tão admirado que começou a estudar as características pessoais de Wethei­mer. Por essas observações sobre Weitheimer e outros, Maslow desenvolveu o conceito de autorrealização e posteriormente promoveu a escola de pensamento da psicologia humanística.

Kurt Koffka (1886-1941)

Kurt Koffka, nascido em Berlim, foi o mais criativo dentre os fundadores da psicologia da Gestalt. Interessado em ciência e filosofia, frequentou a Universidade de Berlin. Estudou psi­cologia com Carl Stumpf, obtendo o Ph.D. em 1909. No ano seguinte, começou a longa e frutífera relação com Wertheimer e Köhler, na Universidade Frankfurt. Koffka afirmou:

Pessoalmente, a simpatia era recíproca, tínhamos o mesmo entusiasmo, o mesmo tipo de formação e nos encontrávamos diariamente para discutir todas as questões, sob o sol (...) ainda [posso] sentir a emoção da experiência quando começou a me ocorrer o verdadeiro significado do fenômeno phi. (...) e que agora, no formato final, tornara-se objeto mani­pulável, finalmente ingressou no sistema da psicologia. (apud Ash, 1995, p. 120, 131)

Em 1911, Koffka aceitou uma posição na Universidade de Giessen, a 64 quilômetros de Frankfurt, onde permaneceu até 1924. Durante a Primeira Guerra Mundial, trabalhou em uma clínica psiquiátrica, tratando de pacientes afásicos e com danos cerebrais.

Depois da guerra, percebendo que os psicólogos estadunidenses estavam tomando conhe­cimento dos desenvolvimentos da psicologia da Gestalt, na Alemanha, Koffka escreveu um artigo para a revista estadunidense Psychological Bulletin intitulado "Perception: an introduction to the Gestalt-Theorie" ("Percepção: uma introdução à teoria da Gestalt") (Koffka, 1922). Apresentou os conceitos básicos da psicologia da Gestalt, acompanhados dos resultados e das consequências de várias pesquisas.

Apesar da importância do artigo como a primeira explicação completa do movimen­to da Gestalt para psicólogos estadunidenses, ele parece ter provocado mais danos do que benefícios. A palavra percepção, usada no título, criou um enorme equívoco, dando a impressão de que os psicólogos da Gestalt lidavam exclusivamente com percepção e de que movimento não era importante para as outras áreas da psicologia. A psicologia da Gestalt, na verdade, preocupava-se mais amplamente com os processos cognitivos, as questões relacionadas ao pensamento, a aprendizagem e outros aspectos da experiência consciente. O psicólogo Michael Wertheimer, filho de Max Wertheimer, deu a seguinte explicação para o enfoque inicial da Gestalt em relação à percepção:

A principal razão para que os primeiros psicólogos da Gestalt se concentrassem em suas publicações sistemáticas sobre a percepção deve-se ao Zeitgeist: a psicologia de Wundt, contra a qual os gestálticos se rebelaram, recebia muito apoio das pesquisas sobre sensa­ção e percepção, então os psicólogos da Gestalt escolheram a percepção como arena para atacar Wundt no próprio reduto. (Michael Wertheimer, 1979, p. 134)

Em 1921, Koffka publicou "The growth of the mind", um livro a respeito da psicologia do desenvolvimento infantil, que teve sucesso na Alemanha e nos Estados Unidos. Koffka lecionou como professor visitante na Cornell University e na University of Wisconsin, e, em 1927, foi indicado para lecionar na Smith College, em Northampton, Massachusetts, onde permaneceu até a morte, em 1941. Em 1935, publicou Principies of Gestalt psychology, obra de difícil leitura que, portanto, não se tornou a abordagem definitiva da psicologia da Gestalt, contrariando as expectativas do autor.

Wolfgang Köhler (1887-1967)

Wolfgang Köhler foi o porta-voz do movimento da Gestalt. Seus livros, escritos com cui­dado e precisão, tornaram-se trabalhos-padrão na psicologia da Gestalt. Os estudos de física realizados com Max Planck convenceram Köhler de que a psicologia devia aliar-se à física e que as Gestalten (formas ou padrões) ocorriam não apenas na física, mas também na psicologia.

Nascido na Estônia, Köhler estava com 5 anos quando a família se mudou para o norte da Alemanha. Estudou em universidades em Tübingen, Bonn e Berlim, e doutorou-se orien­tado por Stumpf, na Universidade de Berlin, em 1909. Seguiu para a Universidade de Frankfurt, chegando pouco tempo antes de Wertheimer e seu estroboscópio de brinquedo.

Em 1913, a convite da Academia de Ciência da Prússia, viajou para o Tenerife, nas ilhas Canárias, próximo à costa noroeste da África, para estudar os chimpanzés. Seis meses depois da sua chegada, começou a Primeira Guerra Mundial, e Köhler informou à Alemanha não ter condições de retornar (outros cidadãos alemães conseguiram voltar ao país durante a guerra). Um psicólogo chegou a insinuar, baseado na sua interpretação idiossincrática dos dados históricos, que Köhler talvez fosse um espião alemão e que o seu local de pesquisa não passava de um disfarce para as atividades de espionagem (Ley, 1990). Acusaram-no também de transmitir informações sobre os movimentos das frotas aliadas por meio de um potente radiotransmissor escondido no alto da sua casa. No entan­to, as provas que sustentam essas acusações são circunstanciais e foram contestadas pelos seguidores de Köhler e por outros historiadores (in Lück, 1990).

Seja como espião ou como um cientista desamparado por causa da guerra, Köhler passou os sete anos seguintes estudando o comportamento dos chimpanzés. Registrou o trabalho no clássico volume The mentality of the apes (1917), lançado em segunda edição em 1924 e traduzido para o inglês e o francês. Embora no começo considerasse interessante a pesquisa com os chimpanzés, logo se cansou de trabalhar com os animais, e declarou:

Dois anos observando macacos todos os dias; qualquer um acaba se transformando em um 'chimpanzoide' (...) e não consegue mais perceber facilmente qualquer característica do animal" (apud Ash, 1995, p. 167).

Em 1920, Köhler retornou à Alemanha. Vendeu os chimpanzés para o zoológico de Berlim, que, entretanto, por não suportarem a mudança climática, não sobreviveram muito tempo. Dois anos depois, Köhler substituiu Stumpf como professor de psicologia da Universidade de Berlin. A razão mais provável para essa honrosa indicação teria sido a publi­cação de Static and stationary physical Gestalts (1920), livro bastante elogiado em virtude do seu elevado grau de erudição. Nele, Köhler sugere que a teoria da Gestalt consistia em uma lei geral da natureza que pode ser amplamente aplicada em todas as ciências.

Na metade da década de 1920, Köhler se divorciou da esposa e casou com uma jovem aluna sueca rica, e depois disso, cortou contato com os quatro filhos do primeiro casa­mento. Cerca de 60 anos depois, sua segunda esposa disse em uma entrevista que Köhler se opunha ao casamento por princípio, vendo-o como uma "imposição à sua liberdade," e que não gostava da vida familiar. Ele achava que "todos deveriam ser livres" (apud Ley, 1990, p. 201). Não muito tempo depois disso Köhler desenvolveu um tremor nas mãos, que era mais notado quando estava aborrecido. Seus assistentes de laboratório observavam todas as manhãs o tremor das mãos dele para avaliar o grau do seu humor.

No ano letivo de 1925-1926, Köhler lecionou na Harvard University e na Clark Uni­versity, onde também ensinou os estudantes de pós-graduação a dançarem o tango. Em 1929, publicou Gestalt psychology, uma descrição completa do movimento da Gestalt. Deixou a Alemanha nazista em 1935 por causa de divergências com o governo. Depois de criticar o regime em suas aulas, uma gangue de nazistas invadiu a classe. As ameaças não o impediram de correr riscos que facilmente levariam à sentença de morte. Motivado pela demissão dos professores judeus das universidades alemãs, escreveu uma carta corajosa criticando o nazismo, e enviou-a para um jornal de Berlim. À tarde, a carta foi publicada, e ele e alguns amigos permaneceram em casa, aguardando a Gestapo para prendê-lo; mas a temida batida na porta jamais ocorreu.

Um historiador contemporâneo comentou que Köhler foi o único psicólogo não ju­deu na Alemanha a protestar publicamente contra as demissões dos intelectuais judeus (Geuter, 1987). A maioria dos professores e dos alunos apoiou com entusiasmo o governo nazista desde o princípio. Um professor chamou Adolf Hitler de "grande psicó­logo" e outro elogiou-o, dizendo ser um homem de "visão, corajoso e emocionalmente profundo" (apud Ash, 1995, p. 342). Os líderes da German Psychological Society [Socie­dade Alemã de Psicologia] apoiaram imediatamente o regime nazista, demitiram editores judeus, mesmo antes das leis que determinariam tais demissões, e rendiam homenagens públicas a Hitler. Nas reuniões da sociedade, proclamavam a "influência demoníaca" dos judeus (Mandler, 2002b, p. 197).

Depois de emigrar para os Estados Unidos, Köhler lecionou na Swarthmore College, Pensilvânia, publicou diversos livros e editou a revista gestáltica Psychological Research. Em 1956, recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica da APA, órgão que em 1959, elegeu-o seu presidente.

A Natureza da Revolta da Gestalt

As ideias dos psicólogos da Gestalt contradiziam grande parte da tradição acadêmica da psicologia alemã. Nos Estados Unidos, o behaviorismo não se constituiu em uma revolta tão imediata contra a psicologia wundtiana e contra o estruturalismo de Titchener, por­ que o funcionalismo já provocara mudanças básicas na psicologia estadunidense. O caminho para a revolução da Gestalt, na Alemanha, não contou com efeitos assim moderados. - declarações dos psicólogos da Gestalt eram consideradas total heresia.

Como a maioria dos revolucionários intelectuais, os líderes da Gestalt exigiam com­pleta revisão da antiga ordem. Köhler declarou:

Estamos entusiasmados com o que descobrimos, e ainda mais com a perspectiva de constatar mais fatos reveladores. (...) a inspiração não veio apenas da novidade do nosso trabalho. Ocorreu também uma grande onda de alívio - como se estivéssemos fugindo de uma prisão. A prisão era a psicologia tal como era ensinada nas universidades, quando ainda éramos estudantes. (Köhler, 1959, p. 728)

Depois que Wertheimer passou a estudar a percepção do movimento aparente, os psicólogos da Gestalt começaram a se dedicar a outro fenômeno perceptual. A experiên­cia da constância perceptual produziu apoio adicional para as suas visões. Por exemplo quando paramos em frente a uma janela, uma imagem retangular é projetada na nossa retina, mas, quando paramos de lado, a imagem da retina transforma-se em um trapezoide, embora, é claro, continuemos a perceber a janela no formato retangular. A percepção sobre a janela permanece constante, embora a informação sensorial (a imagem projetada na retina) mude.

O mesmo ocorre com a constância do tamanho e do brilho em que os elementos sensoriais mudam, mas não a percepção. Nesses casos, assim como no movimento apa­rente, a experiência perceptual é dotada da qualidade da totalidade ou da integridade não encontrada em nenhuma parte componente. Assim, existe uma diferença entre o caráter da estimulação sensorial e da percepção em si. A percepção não pode ser explicada simplesmente como um conjunto de elementos ou a soma das partes.

A percepção é um todo, uma Gestalt, e qualquer tentativa de analisá-la ou reduzi-la em elementos a destruirá.

Começar com os elementos é começar de forma errada, já que eles são produtos da refle­xão e da abstração, derivados remotamente a partir da experiência imediata e utilizados para explicá-la. A psicologia da Gestalt tenta retornar à percepção simples, à experiência imediata (...) e insiste em afirmar que não encontra ali conjuntos de elementos, mas uni­dades completas; não massas de sensações, mas árvores, nuvens e céu. E essa afirmação convida todos à verificação, simplesmente abrindo os olhos e olhando apenas para o mundo de forma simples e cotidiana. (Heidbreder, 1933, p. 331)

A própria palavra Gestalt criou dificuldades. Diferentemente do termo funcionalismo ou behaviorismo, ela não expressa a ideia principal do movimento. Além disso, não exis­te equivalente exato na língua inglesa, embora hoje o termo já faça parte da linguagem cotidiana da psicologia. Os termos equivalentes mais comuns seriam "forma", "formato" e "configuração".

Na obra Gestalt psychology (1929), Köhler afirmou que a palavra era empregada de duas maneiras na Alemanha. Uma que denota a forma ou o formato como propriedade dos objetos. Nesse sentido, Gestalt refere-se às propriedades gerais expressas em questões como angular ou simétrico e descreve as características como a forma triangular de uma figura geométrica ou o ritmo de uma melodia. A segunda forma denota a unidade ou a entidade concreta que tem como atributo uma forma ou um formato específico. E, nesse sentido, a palavra diz respeito a, digamos, triângulos, e não à noção do formato triangu­lar da figura.

Assim, Gestalt pode ser usada para se referir a objetos ou às suas características formais. Além disso, o termo não se restringe ao campo visual nem mesmo a todo o campo senso­rial. Ele pode abranger a aprendizagem, o pensamento, as emoções e o comportamento (Köhler, 1947). É nesse sentido geral e funcional da palavra que os psicólogos da Gestalt tentaram lidar com toda a área de atuação da psicologia.

Os Princípios da GestoIt sobre a Organização Perceptual

Wertheimer apresentou os princípios de organização perceptual da escola de psicologia da Gestalt em um artigo publicado em 1923. Ele alegava que percebemos os objetos do mesmo modo que observamos o movimento aparente, como unidades completas e não como agrupamentos de sensações individuais. Esses princípios da Gestalt seriam as regras fundamentais por meio das quais organizamos nosso universo perceptual.
Uma premissa subjacente estabelece que a organização perceptual ocorre instantanea­mente, sempre que percebemos diversos padrões ou formatos. As minúsculas partes do campo perceptual unem-se para formar estruturas distintas das originais. A organização perceptual é espontânea e inevitável, sempre que vemos ou ouvimos. Normalmente, não precisamos aprender a formar padrões, como afirmavam os associacionistas, embora algumas percepções de nível superior, como nomear os objetos, dependam da aprendizagem.

De acordo com a teoria da Gestalt, o cérebro é um sistema dinâmico em que todos os elementos ativos interagem em determinado momento. A área visual do cérebro não responde separadamente aos elementos individuais do estímulo visual, conectando-os mediante algum processo mecânico de associação. Ao contrário, os elementos similares, ou bem próximos, tendem a se combinar, e os elementos diferentes ou distantes, a não se combinar.

Listamos a seguir vários princípios de organização perceptual ilustrados na Figura 12.1.

  1. Proximidade. As partes bem próximas umas das outras no tempo e no espaço parecem unidas e tendem a ser percebidas juntas. Na Figura 12 1(a) percebemos círculos nas três colunas duplas e não apenas como um grande conjunto;
  2. Continuidade. Ha uma tendência de a nossa percepcão seguir uma direção para conectar os elementos de modo que eles pareçam contínuos ou fluir, em uma direção especifica. Na Figura 12.1(a), a tendência é seguir as colunas com pequenos círculos de cima para baixo;
  3. Semelhança. As parte similares tendem a ser vistas juntas, formando um grupo. Figura 12.1 (b ), os círculos e os pontos parecem juntos, e a tendência é perceber três quadrados, mesmo que as figuras estejam incompletas;
  4. Preenchimento. Há uma tendência da nossa percepção em completar as figuras incompletas, de preencher as lacunas. Na Figura 12.1(c), é possível perceber três quadrados, mesmo que as figuras estejam incompletas.
  5. Simplicidade. Há uma tendência de vermos a figura como tendo boa qualidade sob as condições de estímulos; a psicologia da Gestalt chama essa característica de Pragnanz ou boa forma. Uma boa Gestalt é simétrica, simples e estável e não pode ser mais simples nem mais organizada. Os quadrados na Figura 12.1(c) são boas Gestalts porque são claramente percebidos como completos e organizados;
  6. Figura/fundo. Ha uma tendencia de organizar as percepções do objeto a figura sendo visto e do fundo (a base) sobre o qual ele aparece. A figura parece mais substancial e também a destacar-se do fundo. Na Figura 12.1(d), ela e a base são reversíveis; e possível ver dois rostos ou um vaso, dependendo de como a percepção é organizada.

Esses princípios de organização não dependem dos processos mentais superiores nem de experiências passadas, pois estão nos próprios estímulos. Wertheimer chamou-os de fatores periféricos, reconhecendo também que os fatores centrais dentro do organismo influenciam a percepção. Por exemplo, sabe-se que os processos mentais superiores de familiaridade e de atitude afetam a percepção. No entanto, em geral, os psicólogos da Gestalt concentram-se mais nos fatores periféricos da organização perceptual do que nos efeitos da aprendizagem ou da experiência.

Os Estudos da Gestalt sobre a Aprendizagem: ínsight e a Mentalidade dos Macacos

Mencionamos anteriormente a longa visita de Köhler ao Tenerife (1913-1920), onde ele investigou a inteligência dos chimpanzés demonstrada por meio das habilidades na solução de problemas. Essas experiências foram realizadas tanto dentro como em volta das jaulas dos animais e envolveram apetrechos muito simples, como as barras das jaulas (usadas para bloquear o acesso), bananas, varas para puxar as frutas para dentro das jaulas e cai­xas que serviam de apoio para os animais tentarem alcançar as frutas penduradas no teto. Com base na visão de percepção da Gestalt, Köhler interpretou os resultados da pesquisa animal analisando toda a situação e as relações entre os estímulos. Acreditava que a reso­lução de problemas estava relacionada com a reestruturação do campo perceptual.

Em um dos estudos, colocou-se uma banana do lado de fora, com um barbante amar­rado chegando até a jaula. O macaco agarrou o barbante e puxou a banana para dentro, quase sem titubear. Köhler concluiu que, nessa situação, o animal percebera facilmente todo o problema. No entanto, se vários fios saíssem da jaula em direção à banana, o maca­co não saberia imediatamente qual deles puxar para obter a fruta. Assim, Köhler observou que, nessa situação, o animal não conseguia visualizar claramente todo o problema.

Em outro estudo, colocou-se um pedaço da fruta do lado de fora, pouco além do alcan­ce do animal. Quando se colocou uma vara perto das grades, em frente à fruta, os dois objetos foram percebidos como parte da mesma situação, e o animal rapidamente usou a vara para puxar a fruta. Mas, se a vara era colocada no fundo da jaula, então os dois objetos (a vara e a banana) não eram prontamente vistos como parte do mesmo problema. Nesse caso, era preciso reestruturar o campo perceptual para o chimpanzé resolver a questão.

Outra experiência consistiu em colocar uma banana fora da jaula e além do alcance do animal e, do lado de dentro, duas varas ocas de bambu que não eram de tamanho sufi­ciente para puxar a fruta. Para isso, o animal tinha de juntar as duas (inserindo a ponta de uma dentro da extremidade da outra) para criar outra do tamanho que precisava.

Assim, para solucionar o problema, o animal tinha de perceber uma nova relação entre as duas varas. 

O trecho a seguir, extraído do livro de Köhler, descreve mais estudos e observações acerca da aprendizagem dos chimpanzés. Köhler discute os esforços dos animais para aprenderem a usar os acessórios a fim de que eles obtenham a comida que, de outro modo, não conseguiriam. Essas experiências mostram como os animais aprendem as usar caixas para alcançar o objeto de estímulo, normalmente uma banana suspensa no teto da jaula. Observe como Köhler empregou uma linguagem não-técnica para descrever o trabalho. Ele se concentrou na personalidade e nas diferenças individuais dos seus sujeitos de pesquisa.

Não adotou nenhuma forma de medição ou experimentação, nenhum tratamento expe­rimental rigoroso, grupos de controle nem análises estatísticas. Köhler descreveu suas observações das reações dos animais às situações criadas.


Texto original 

Trecho sobre a Psicologia da Gestalt, Extraído de The Mentalitv of Apes (1927), de Wolfgang Kõhler

O chimpanzé não recebeu da vida apenas alguma aptidão especial para ajudá-lo a alcançar os objetos colocados no alto, empilhando os materiais de construção; ao contrário ele é capaz de realizar muito por esforço próprio, quando as circunstâncias assim exigirem e quando hou­ver material disponível.

O ser humano adulto tende a não perceber as reais dificuldades do chimpanzé diante dessa construção, por assumir que o fato de acrescentar um segundo material de construção ao pri­meiro é apenas uma repetição do ato de posicionar o primeiro no chão (debaixo do objetivo); que, quando a primeira caixa está no chão, é como se a sua superfície fosse do mesmo nível do solo e, portanto, o único fator novo nesse processo de construção seria o levantamento efetivo do material. Assim, as únicas dúvidas seriam se os animais realizam ordenadamente o seu trabalho, se manipulam as caixas desajeitadamente ou de outra forma. (...)

Todavia, a existência de outra dificuldade específica se tornaria óbvia ao se observar mais detalhadamente a primeira tentativa de Sultão durante a realização dessa tarefa quan­do Sultão [considerado o chimpanzé mais inteligente] apanha e levanta peia primeira vez a segunda caixa, balançando-a estranhamente sobre a primeira, mas não a põe em cima dela. Na segunda vez, coloca-a em cima da que está no chão, com o lado maior virado no sentido vertical aparentemente sem qualquer hesitação, mas a construção ainda fica muito baixa já que o objetivo foi pendurado, sem querer, alto demais.

A experiência continua imediatamente, com o objetivo pendurado agora a aproximada­mente dois metros da lateral, em um ponto mais baixo do teto, e com a construção de Sultão mantida no mesmo lugar. Entretanto, o fracasso de Sultão parece provocar um efeito posterior perturbador, por muito tempo ele ignora as caixas, diferentemente das outras vezes, em que achava uma nova solução, em geral repetindo prontamente a ação. (...)

Mais tarde, durante a experiência, um curioso incidente ocorre: o animal volta a adotar os métodos antigos, tenta puxar o tratador pelas mãos para conduzi-lo até o objetivo, sendo repelido, tenta fazer o mesmo comigo, e novamente é rejeitado. Em seguida, orientamos o tratador para que, caso Sultão tente puxá-lo novamente, ele finja ceder, mas, assim que o animal subir nos seus ombros, deve se ajoelhar e ficar bem baixo.

Logo isso realmente acontece: depois de arrastar o tratador até ficar debaixo do objetivo Sultão sobe nos seus ombros e o homem rapidamente dobra os joelhos. O animal sai de cima dele, resmungando, segura-o com as duas mãos pelos quadris, e tenta com toda a força empurra-lo para cima. Uma forma surpreendente de tentar aprimorar o instrumento humano!

Agora que Sultão não toma mais conhecimento das caixas, já que descobriu a solução sozinho, parece razoável remover o motivo do seu fracasso. Coloquei as caixas uma sobre a outra para Suitão, debaixo do objetivo, exatamente como ele fizera da primeira vez, e deixei-o pegar o objetivo.

Em relação ao esforço de Sultão em empurrar o tratador, tentando endireitá-lo, desejo logo de início refutar a acusação de equívoco na interpretação da "leitura do animal"; trata-se apenas de uma descrição do procedimento, e não há nenhuma possibilidade de equívoco. Todavia, a fim de evitar qualquer suspeita, por se tratar de um caso isolado (suspeita, de qualquer modo, injustificável, considerando que Sultão tenta utilizar tanto o tratador como a mim, não apenas uma, mas várias vezes, como um apoio), devo acrescentar resumidamente a descrição de outros casos semelhantes:

Sultão não consegue resolver o problema quando o objetivo está do lado de fora e além do seu alcance; eu me encontro perto dele, dentro da jaula. Depois de todo tipo de tenta­tiva fracassada, o animal aproxima-se de mim, segura o meu braço, arrasta-me em direção às grades, puxando, ao mesmo tempo, o meu braço com toda a força na sua direção, e, em seguida, empurra o meu braço pelas grades, na direção do objetivo. Como eu não pego o objetivo, vai em direção ao tratador, e tenta fazer o mesmo com ele.

Mais tarde ele repete o procedimento, apenas com uma diferença: primeiro, ele tem de me chamar com lamúrias, como se estivesse suplicando, já que dessa vez estou do lado de fora. Nesse caso, assim como no primeiro, ofereci tanta resistência que o animal quase não conseguiu superá-la e não me largou até que a minha mão efetivamente alcançasse o objetivo; no entanto não lhe fiz o favor (para o bem das futuras experiências) de levá-lo até ele.

Devo mencionar ainda que, em um dia quente, os animais tiveram de esperar mais tempo que o normal pela tigela d'água, de modo que, por fim, eles simplesmente tentaram agarrar as mãos, os pés ou os joelhos do tratador e empurrá-lo com toda força em direção à porta, atrás da qual normalmente ficava guardada a jarra d'água. Durante algum tempo, esse com­ cortamento tornou-se rotineiro; se o homem tentava alimentá-los com as bananas, Chica calmamente as tirava da mão do tratador e as colocava de lado, e o empurrava na direção da porta (Chica estava sempre com sede).

Talvez seja um equívoco pensar que os chimpanzés não tenham noção ou que sejam estúpidos em relação a essas questões. Devo acrescentar que os animais percebem o corpo humano com certa facilidade, quando vestido com roupas comuns, como camisa e calças e sem qualquer tipo de casaco. Se alguma coisa os deixa intrigados, eles investigam imediata­mente, e qualquer grande mudança na maneira de vestir ou na aparência (por exemplo, uma barba) faz com que Grande e Chica realizem prontamente uma investigação minuciosa.

Depois do auxílio encorajador a Sultão, as caixas foram deixadas novamente de lado. Um novo objetivo é pendurado no mesmo ponto no teto da jaula. Sultão imediatamente empilha as duas caixas, mas no mesmo lugar em que o objetivo fora pendurado, bem no início da experiên­cia, e onde ficara a sua primeira construção. Em cerca de 100 casos usando as caixas, essa foi a única ocasião em que esse tipo de estupidez foi cometido. Sultão parece confuso quando está fazendo isso, e provavelmente muito cansado, já que a experiência durou mais de uma hora e em um local quente. Sultão continuou a empurrar as caixas de um lado a outro, praticamente ao acaso, até colocá-las novamente uma sobre a outra e debaixo do objetivo; ele pega a fruta e nós o deixamos sair. Somente em uma ocasião o vi assim tão confuso e perturbado. 

No dia seguinte, fica claro que deve haver uma dificuldade específica contida no problema em si. Sultão carrega uma caixa e coloca-a debaixo do objetivo, mas não traz a segunda caixa; por fim, acabamos empilhando-as e assim ele alcança a meta. o novo problema que se segue imediatamente (a construção novamente foi destruída) não o induz a trabalhar; ele continua tentando usar o observador como apoio; e assim, mais uma vez, montamos a construção para ele. No terceiro problema, debaixo do objetivo, Suitão coloca uma caixa, puxa a outra e a põe ao lado, mas pára no momento crítico: seu comportamento provoca total perplexidade; ele continua olhando para o objetivo e, ao mesmo tempo, tenta desajeitadamente agarrar a segunda caixa. Então, quasa de repente, ele a agarra com firmeza, faz um movimento seguro, colocando-a sobre a primeira. Sua longa indecisão é totalmente contraditória em relação a essa solução repentina.

Dois dias depois, repetimos a experiência; o objetivo é novamente pendurado em outro ponto. Sultão coloca uma caixa um pouco inclinada debaixo do objetivo, traz a segunda - começa a levantá-la, todo o tempo olhando para o objetivo, quando a deixa cair novamente. Depois de diversas ações (tentando subir até o teto, empurrando o observador para cima), ele recomeça a construir; coloca cuidadosamente a primeira caixa com o lado maior no sentido vertical debaixo do objetivo, e agora faz enorme esforço para colocar a segunda em cima a caixa gira e balança de um lado a outro e acaba ficando sobre a outra, mas com o lado menor no sentido vertical e com a parte aberta presa em um dos cantos. Sultão sobe nelas e imediatamente destrói a construção, jogando tudo no chão.

Muito cansado, fica deitado em um canto da sala, dali olhando as duas caixas e o objetivo. Somente depois de passado um tempo razoável, ele retoma o trabalho; coloca uma caixa no sentido vertical e tenta alcançar o objetivo; desce, pega a segunda e finalmente, com muito cuidado, consegue colocá-la no sentido vertical sobre a primeira, mas as duas não estão exatamente uma sobre a outra, por isso, cada vez que ele tenta subir, as caixas começam a desabar. Somente depois de uma longa tentativa, durante a qual o animal nitidamente age quase cegamente, deixando o sucesso ou o fracasso por conta de movimentos aleatórios consegue colocar a caixa de cima em posição mais segura, finalmente atingindo o objetivo.

Depois dessa tentativa, Sultão passou a usar sempre e imediatamente a segunda caixa, e acima de tudo, sem hesitar quanto ao lugar em que deveria colocá-la.


Comentários

Para Köhler, esses estudos e outros similares proporcionavam evidências do insight, a espontânea e aparente apreensão ou compreensão das relações. Sultão finalmente obteve o insight do problema depois de várias tentativas, assimilando as relações entre as caixas e a banana pendurada sobre a sua cabeça. A palavra em alemão que Köhler usou para des­crever esse fenômeno foi Einsicht, traduzida para o inglês como insight ou compreensão.

Não tem nenhum condicionamento acontecendo, ele escreveu; "ao contrário, depois de um determinado ponto, o animal entende o que está ocorrendo, e então, o comporta­mento resultante é, logicamente, perfeito" (apnd Ley, 1990, p. 182). Em outro exemplo de descoberta simultânea e independente, o psicólogo estadunidense de animais Robert Yerkes encontrou evidências, em experiências com orangotangos, para sustentar o conceito de insight, e a denominou "aprendizagem ideacional".

Na decada de 1930, Ivan Pavlov repetiu algumas das pesquisas de Köhler em que o macaco precisava colocar uma caixa sobre a outra para alcançar a comida suspensa no teto. Constatou que os animais levavam diversos meses para resolver o problema. Questionou a hipótese de Köhler de que os macacos obtinham o insight da situação e chamou de "caótico" o comportamento dos animais na solução do problema. Pavlov disse que as respostas por ele obtidas não eram tão diferentes daquelas da aprendizagem por ensaio-e-erro da pesquisa de Thorndike (Windholz, 1997).

Em 1974, o tratador dos chimpanzés de Köhler, Manuel Gonzalez y Garcia, descreveu a pesquisa em uma entrevista. Contou diversas histórias sobre os animais, e principal­mente de Sultão que costumava ajudá-lo a alimentar os outros animais. Gonzalez dava a Sultão cachos de bananas para segurar. "Mediante uma ordem, 'duas para cada', Sultão caminhava recinto e distribuía duas bananas para cada um dos macacos". Um dia, Sultão viu o tratador pintando uma porta. Quando o homem saiu, o animal pegou o pincel e começou a imitar o comportamento que observara. Em outra ocasião, o o caçula de Köhler, Claus, sentou-se em frente da jaula, tentando sem êxito empurrar uma banana entre as grades. Sultão, dentro da gaiola e aparentemente sem fome, girou a banana 90 graus, de modo que a fruta pudesse passar entre as barras, enquanto Köhler dizia a seu filho que Sultão era mais esperto do que ele.

Certa vez, Sultão de algum modo encorajou Claus a subir uma árvore até o topo e o menino se recusava a descer, apesar das ordens severas de seu pai. Quando Claus final­mente desceu, Kohler o agarrou, abaixou seus shorts, e deu uma surra nele. Logo depois disso, Sultão agarrou Kohler, e abaixou suas calças por trás. Cerca de 70 anos depois Claus contou essa história para um entrevistador, com os olhos brilhando de prazer. Köhler acreditava que o insight e as habilidades para resolver problemas demonstrados pelos chimpanzés eram diferentes da aprendizagem por ensaio-e-erro descrita por Thorn­dike. Köhler criticava o trabalho de Thorndike, alegando que as condições experimentais eram artificiais e que permitiam a demonstração apenas de comportamentos aleatórios dos animais. E afirmou que os gatos das caixas-problema de Thorndike não exploravam todo o mecanismo que os libertava (todos os elementos pertencentes a toda a situação) e assim apresentavam apenas respostas de ensaio-e-erro.

Do mesmo modo, um animal dentro do labirinto não pode ver todo o padrão ou o formato, mas apenas o corredor que encontra. Portanto, os animais não têm muita opção a nao ser arriscar um caminho por vez. Na visão da Gestalt, o organismo deve estar apto a perceber as relações entre as várias partes do problema antes que a aprendizagem por insight ocorra. 

Esses estudos a respeito do insight sustentavam o conceito global ou molar dos psicólogos da Gestalt em relação ao comportamento, ao contrário da visão atomística e mole­cular promovida pelos behavioristas. A pesquisa também reforça a ideia da Gestalt de que a aprendizagem envolve a reorganização ou reestruturação do ambiente psicológico do indivíduo.

O Pensamento Humano Produtivo

O livro de Wertheimer a respeito do pensamento produtivo (Wertheimer. 1945), publicado após a sua morte, apresentou os princípios da Gestalt sobre a aprendizagem aplicados a pensamento criativo humano. Sua proposta afirmava que o pensamento forma-se com um todo. O aprendiz assim considera a situação, e o professor deve apresentá-la igualmente É possível notar as diferenças entre esse método e o do ensaio-e-erro, em que a solução do problema, em certo sentido, fica oculta, e o aprendiz pode cometer erros antes de alcançar a resposta correta.

Os casos apresentados no livro de Wertheimer vão de processos de pensamento infan­til na solução de problemas de geometria até processos cognitivos complexos, como o do físico Albert Einstein na elaboração da teoria da relatividade. Em diversas faixas etárias e vários níveis de dificuldade, Wertheimer constatou evidências para sustentar a ideia de que o problema como um todo deve dominar as partes. Acreditava que os detalhes de um problema devessem ser considerados apenas em relação à situação inteira. Ademais, a solução do problema deve seguir do todo para as partes, e não o contrário.

Em um ambiente de sala de aula, por exemplo, se o professor organizar ou arrumar os elementos dos exercícios, como as palavras ou os números, em uma unidade com sen­tido, os alunos obterão mais facilmente o insight e assimilarão os problemas e as soluções. Wertheimer mostrou que, uma vez compreendido, o princípio básico de uma solução pode ser transferido ou aplicado em outras situações.

Ele desafiou as práticas educativas tradicionais, como a repetição mecânica de estru­turas e a aprendizagem dirigida, derivadas da abordagem associacionista. Considerava a repetição pouco produtiva e citava como prova a incapacidade de um aluno resolver a variação de um problema quando a solução fora adquirida por outro método e não assimi­lada por um insight. Concordava, no entanto, que nomes e datas deviam ser aprendidos por memorização, por meio de associação reforçada por repetição. Desse modo, admitia ser a repetição útil em alguns casos, mas insistia em que esse método produzia um desem­penho mecânico e não a compreensão ou um pensamento produtivo ou criativo.

O lsomorfismo

Satisfeitos por estabelecerem que os seres humanos percebem unidades organizadas e não conjuntos de elementos sensoriais, os psicólogos da Gestalt mudaram o enfoque para os mecanismos cerebrais envolvidos na percepção. Tentaram desenvolver uma teoria sobre correlatos neurológicos subjacentes das Gestalts percebidas. Descreviam o córtex cerebral como um sistema dinâmico, em que os elementos ativos interagem em um determinado momento. Essa ideia contradiz o conceito de semelhança entre o homem e a máquina, que compara a atividade neural a uma central telefônica, conectando mecanicamente as ligações sensoriais recebidas de acordo com os princípios da associação. Nessa visão associacionista, o cérebro opera de forma passiva e é incapaz de organizar ou modificar ativamente os elementos sensoriais recebidos. Essa última teoria também implica a cor­respondência direta entre a percepção e o seu equivalente neurológico.

Com base na sua pesquisa sobre o movimento aparente, Wertheimer sugeriu que a atividade cerebral é um processo integral de configuração. Como o movimento aparente e o real são percebidos de forma idêntica, os respectivos processos corticais também devem ser similares, ou seja, devem ocorrer processos cerebrais correspondentes.

Em outras palavras, deve haver uma correspondência entre a experiência consciente ou psicológica e a cerebral subjacente, responsável pelo fenômeno phi. Essa ideia é denomi­nada isomorfismo, princípio já aceito na biologia e na química. Os psicólogos da Gestalt compararam a percepção com um mapa, no sentido de ser idêntica ("iso") na forma ou formato ("morfo") ao que representa, sem ser uma cópia literal. No entanto, a percepção não é um guia confiável para perceber o mundo real.

Kohler aprofundou a posição de Wertheimer no trabalho Static and stationary physical gestalts (1920), em que afirmou comportarem-se os processos corticais de modo semelhan­te aos campos de força. Sugeriu que, tal como o comportamento de um campo de força eletromagnética em volta de um ímã, os campos de atividade neurais são estabelecidos por processos eletromecânicos do cérebro em resposta aos impulsos sensoriais.

A Expansão da Psicologia da Gestalt

Em meados da década de 1920, o movimento da Gestalt era uma escola de pensamento coerente, dominante e poderosa na Alemanha. Centralizado no Psychological Institute da University of Berlin, o movimento atraía muitos alunos de diversos países. O instituto estava instalado em uma das alas do antigo Palácio Imperial e orgulhava-se de possuir um dos maiores laboratórios do mundo, equipado para investigar diversas questões psicológicas do ponto de vista da Gestalt. A revista Psychological Research era muito lida e respeitada.

Depois de os nazistas assumirem o poder na Alemanha, em 1933, suas ações repressoras contra intelectuais e judeus forçaram muitos pesquisadores, inclusive os fundadores da psicologia da Gestalt, a deixarem o país. O núcleo da Gestalt se transferiu para os Estados unidos, disseminando-se por meio de contatos pessoais, bem como pelas publicações dos trabalhos. Mesmo antes da fundação formal da escola, muitos psicólogos estadunidenses haviam estudado com seus futuros líderes, absorvendo suas ideias. Herbert Langfeld, da Princeton University, conheceu Koffka em Berlim e enviou seu aluno E. C. Tolman à Ale­manha, o qual serviu como sujeito de pesquisa no programa de Koffka. Robert Ogden, da Cornell University, também conheceu Koffka. O pesquisador da personalidade, Gordon Allport, da Harvard University, passou um ano na Alemanha e declarou ter ficado muito impressionado com a qualidade da pesquisa experimental da Gestalt.

Alguns livros de Koffka e de Köhler foram traduzidos do alemão para o inglês, e rese­nhas foram publicadas nas revistas estadunidenses de psicologia. Uma série de artigos escritos pelo psicólogo estadunidense Harry Helson e publicados na American Journal of Psychology também ajudou a divulgar a teoria da Gestalt nos Estados Unidos (Helson, 1925, 1926). Koffka e Köhler estiveram nesse país para dar aulas e conferências em universidades. Koffka deu 30 palestras em três anos e, em 1929, Köhler foi um dos conferencistas a apresentar as diretrizes básicas do 9º Congresso Internacional de Psicologia, na Yale University (o outro palestrante foi Ivan Pavlov, que foi cuspido por um dos chimpasses de Robert Yerkes).

Assim, a psicologia da Gestalt vinha chamando a atenção nos Estados Unidos, por por diversas razões, a sua aceitação como escola de pensamento foi lenta. Primeiro que o behaviorismo estava no auge da popularidade. Segundo, porque havia uma barria linguística, isto é, as principais publicações da Gestalt eram em alemão, e a necessidade de tradução atrasava a divulgação completa e precisa daquela visão. Terceiro, com: já mencionamos, porque muitos psicólogos pensavam equivocadamente que a Gestalt se ocupava-se apenas à percepção. Quarto, porque os fundadores Wertheimer, Koffka e Kõhler instalaram-se em faculdades pequenas nos Estados Unidos, que não ofereciam programas de pós-graduação, portanto era difícil atraírem discípulos para transmitir suas ideias. Quinto, e o mais importante, porque a psicologia estadunidense havia avançado muito além das ideias de Wundt e Titchener, às quais os psicólogos da Gestalt estavam se opondo. O behaviorismo já era o segundo estágio da oposição estadunidense. Consequentemente a psicologia estadunidense, muito mais do que a alemã, já superara a posição elementarista de Wundt. Os psicólogos estadunidenses acreditavam que os psicólogos da Gestalt estavam lutando contra um inimigo que já haviam derrotado. Os psicólogos da Gestalt chegaram aos Estados Unidos protestando contra algo que não fazia mais sentido.

Esse cenário era arriscado para a sobrevivência da escola da Gestalt. Temos testemu­nhado por toda a história que o movimento revolucionário depende de uma oposição para sobreviver, algo para combater, se deseja promover suas ideias com êxito. Todavia, quando os psicólogos da Gestalt chegaram aos Estados Unidos, encontraram pouca oposição.

A Batalha contra o Behaviorismo

Quando os psicólogos da Gestalt perceberam quais eram as tendências na psicologia estadunidense, imediatamente estudaram o novo alvo. Se não havia sentido em protestar contra a psicologia wundtiana, que já desaparecera da psicologia estadunidense, então podiam atacar as qualidades reducionistas típicas da escola de pensamento behaviorista. Assim, os psicólo­gos da Gestalt alegavam que o behaviorismo, do mesmo modo que a psicologia de Wundt. também se dedicava a abstrações artificiais. Para eles, não fazia muita diferença se a análise era feita com base na redução introspectiva em elementos mentais ou na redução objetiva em unidades condicionadas de estímulo-resposta (Watson). O resultado era o mesmo: uma abordagem molecular em vez de molar. Os psicólogos da Gestalt também contestavam o fato de os behavioristas não aceitarem a validade da introspecção e descartarem qualquer reconhecimento da consciência. Koffka acusava de insensato o desenvolvimento de uma psicologia sem o conceito de consciência, como faziam os behavioristas, porque significava que a psicologia era pouco mais do que uma coleção de pesquisas com animais.

As batalhas entre psicólogos da Gestalt e behavioristas começaram a inflar emocional e pessoalmente. Uma ocasião, quando Clark Hull, E. C. Tolman, Wolfgang Köhler e vários psicólogos saíram para beber algumas cervejas depois de um encontro científico na Filadélfia, em 1941, Köhler disse a Hull que ouvira falar que ele teria usado uma expressão insultante durante as suas aulas, "aqueles malditos gestaltistas". Hull ficou embaraçado e disse esperar que as divergências científicas não se transformassem em agressões pessoais.

Köhler respondeu que ele estava "ávido por discutir mais assuntos de forma lógica e científica. mas, quando as pessoas tentam transformar o homem em uma espécie de máquina caça-níqueis, então ele se vê obrigado a brigar". Deu um murro sobre a mesa "fazendo um barulho bem alto" para deixar bem clara a sua opinião (apud Amsel e Rashotte, 1984, p.23).

A Psicologia da Gestalt na Alemanha Nazista

Embora os fundadores da escola de pensamento da psicologia da Gestalt tivessem fugido da Alemanha na época da guerra, alguns de seus discípulos permaneceram no país durante o período nazista, que terminou com os alemães derrotados pelos aliados, em 1945, Esses adeptos da Gestalt continuaram a conduzir pesquisas, concentrando-se nos estudos da visão e da percepção de profundidade. O instituto psicológico de Köhler continuou a funcionar na University of Berlin, embora, assim como todas as universidades alemãs daquela época, ela não se caracterizasse mais pela liberdade acadêmica nem pela receptividade às pesquisas! Um estadunidense, em visita ao instituto em 1936, comentou sobre a "absoluta aridez do clima intelectual desse ex-baluarte da escola da Gestalt" (apud Ash, 1995, p. 340). As atividades de pesquisa da maioria dos psicólogos alemães durante a Segunda Guerra Mundial foram direcionadas ao esforço de guerra, principalmente na avaliação do pessoal militar. A pes­quisa prática e aplicada teve precedência sobre a ciência pura e a construção teórica.

A Teoria de Campo: Kurt Lewin (1890-1947)

A psicologia da Gestalt refletia a tendência científica, do final do século XIX, do estudo com base nas relações de campo e não no modelo atomístico e elementarista. A teoria de campo surgiu dentro da psicologia como um conceito equivalente ao dos campos de força da física. Na psicologia atual, o termo teoria de campo geralmente refere-se às ideias de Kurt Lewin. O trabalho de Lewin segue a orientação gestáltica, mas ultrapassa os limites da posição ortodoxa da Gestalt, para incluir as necessidades humanas, a personalidade e as influências sociais no comportamento.

A Biografia de Lewin

Kurt Lewin nasceu em Mogilno, Alemanha, e estudou nas universidades de Friburgo, Munique e Berlim. Recebeu o Ph.D. em psicologia de Carl Stumpf, na University of Berlin em 1914, onde também estudou matemática e física. Durante a Primeira Guerra Mundial, serviu no exército alemão e foi ferido em combate, recebendo a medalha da Cruz de Ferro, da Alemanha. Retornou à University of Berlin e dedicou-se à pesquisa da Gestalt a respeito da associação e motivação com tanto entusiasmo que várias vezes foi considerado colega dos três fundadores da Gestalt. Apresentou uma versão da teoria de campo aos psicólogos estadunidenses no Congresso Internacional de Psicologia, realizado em 1929, na Yale.

Desse modo, Lewin já era conhecido nos Estados Unidos quando chegou à Stanford em 1932, como professor visitante. No ano seguinte, decidiu deixar a Alemanha por causa da ameaça nazista. Escreveu a Kohler, dizendo: "Agora acredito que não há outra alternativa para mim a não ser emigrar, mesmo que a minha vida seja despedaçada" (1993, p. 158, 160). Passou dois anos na Cornell University e, em seguida, seguiu para a University of Iowa. Sua pesquisa a respeito da psicologia social infantil rendeu-lhe um convite para desenvolver o novo Research Center for Group Dynamics [Centro de Pesquisa para a Dinâmica de Grupo] no Massachusetts Institute of Technology. Embora tenha sido poucos anos após aceitar essa posição, seu programa foi tão eficaz que o centro pesquisa, agora localizado na University of Michigan, permanece ativo até hoje.

O Espaço Vital

Por toda a carreira de 30 anos, Lewin dedicou-se à área amplamente definida da motivação humana, descrevendo o comportamento humano no total contexto social e físico (Lewin 1936, 1939). Seu conceito geral de psicologia era prático, concentrado nas questões sociais que afetam a nossa vida pessoal e profissional. Buscava humanizar as fábricas da época de modo que o trabalho se tornasse mais uma fonte de satisfação pessoal do que apenas uma forma de ganhar a vida.

O conhecimento a respeito da teoria de campo da física fez com que ele imagina-se que as atividades psicológicas de um indivíduo também ocorrem em uma espécie de campo psicológico, chamado espaço vital - que compreende todos os acontecimentos do passado, do presente e do futuro que nos afetam. Do ponto de vista psicológico, cada um desses fatos determina algum tipo de comportamento em uma situação específica.

Dessa forma, o espaço vital consiste na necessidade de as pessoas interagirem com o ambiente psicológico. O espaço vital exibe diversos graus de desenvolvimento em função da quantidade e do tipo de experiência acumulados. Como o bebê tem pouca experiência, possui poucas regiões diferenciadas no seu espaço vital. Um adulto extremamente culto e sofisticado é dotado de um espaço vital complexo e bem diferenciado, exibindo grande variedade de experiências.

Lewin tentou criar um modelo matemático para representar esse conceito teórico de processos psicológicos. Em virtude do interesse em um único indivíduo (um único caso e não em grupos nem no desempenho médio, a análise estatística não tinha muito valor para esse fim. Ele escolheu a topologia, uma forma de geometria, para criar um diagrama do espaço vital, mostrando os objetivos possíveis de uma pessoa e os caminhos que con­duziam a essas metas em qualquer momento determinado.

No mapa topológico, usado para criar o diagrama de todas as formas de comportamen­to e de fenômenos psicológicos, Lewin usava setas (vetores) para representar a direção do movimento do indivíduo em busca da meta. Acrescentou a noção de peso a essas opções (valências) para referir-se ao valor positivo ou negativo dos objetos, dentro do espaço vital. Os objetos atraentes ou que satisfizessem às necessidades humanas recebiam valência posi­tiva, enquanto os ameaçadores recebiam valência negativa. Esses diagramas chegaram a ser chamados de "psicologia do quadro-negro".

No exemplo simples apresentado na Figura 12.2, uma criança deseja ir ao cinema, mas está proibida pelos pais. A elipse representa o espaço vital; C representa a criança. A seta é o vetor indicando que C está motivada a atingir o objetivo de ir ao cinema, portan­to tem valor positivo. A linha vertical é a barreira estabelecida pelos pais, que impedem C de atingir a meta, logo, tem valência negativa.

Figura 12.2

A Motivação e o Efeito de Zeigarnik

Lewin propôs a existência de um estado básico de balanço ou equilíbrio entre o indivíduo e o ambiente. Qualquer perturbação desse equilíbrio provoca uma tensão que, por sua vez, conduz a alguma ação em um esforço de aliviar a tensão e restabelecer o equilíbrio. Assim, para explicar a motivação humana, Lewin acreditava que o comportamento envolve um círculo de estados de tensão ou estados de necessidade seguidos de atividade e alívio.

Em 1927, Bluma Zeigarnik realizou um experimento, sob a supervisão de Lewin, para testar essa proposição. Os indivíduos recebiam uma série de tarefas e lhes era permitido terminar algumas, mas eles eram interrompidos antes de completarem outras. Lewin fez algumas previsões:

  1. Um sistema de tensão será criado quando o indivíduo receber uma tarefa para realizar;
  2. Quando a tarefa for concluída, a tensão desaparecerá;
  3. Se a tarefa não for concluída, a persistência da tensão resultará na maior proba­bilidade de o indivíduo lembrar-se da tarefa.

Os resultados de Zeigarnik confirmaram as previsões. As pessoas lembravam-se das tarefas não concluídas com mais facilidade do que das completadas. Desde então, esse efeito passou a se chamar efeito de Zeigarnik.

A inspiração para essa pesquisa de Lewin a respeito da motivação surgiu da sua obser­vação de um garçom do café situado do outro lado da rua do Psychological Institute em Berlim. Uma tarde, ao reunir-se com alguns alunos da pós-graduação no café, alguém comentou estar surpreso com a habilidade aparente do garçom em lembrar-se do pedido de cada um sem anotar nada. Algum tempo depois de pagar a conta, Lewin chamou o garçom e perguntou-lhe o que eles haviam consumido. O garçom, indignado, respondeu que não se lembrava mais. (Ash, 1995, p. 271).

Uma vez paga a conta, a tarefa do garçom havia terminado e a tensão, desaparecido. Ele não precisava mais se lembrar do que cada um tinha pedido.

A Psicologia Social

O interesse de Lewin na psicologia social começou na década de 1930. Seus esforços pioneiros na área foram suficientes para justificar a sua importância na história da psi­cologia. Sua extraordinária realização na psicologia social foi a criação da dinâmica de grupo, aplicação dos conceitos psicológicos aos comportamentos individual e coletivo. Assim como o indivíduo e o seu ambiente formam um campo psicológico, o grupo e o seu ambiente formam o campo social. Os comportamentos sociais ocorrem em enti­dades sociais coexistentes, tais como subgrupos, membros de grupo, barreiras e canais de comunicação, e delas resultam. O comportamento coletivo em algum determinado momento é uma função da situação de todo o campo. Lewin conduziu pesquisas sobre o comportamento em várias situações sociais. Uma experiência que se tornou clássica reunia tipos de liderança autoritários, democráticos e neutros dentro de um grupo de garotos (Lewin, Lippitt e White, 1939). Os resultados mostraram que os garotos do grupo autoritário tornavam-se bem agressivos. Os do grupo democrático eram gentis uns com os outros e completavam mais tarefas que os dos demais grupos. A pesquisa de Lewin deu início a novas áreas da pesquisa social e impulsionou o crescimento da psicologia social.

Além disso, ele enfatizou a pesquisa da ação social, o estudo de problemas sociais relevantes visando a introdução de mudanças. Refletindo a preocupação pessoal com as questões raciais, conduziu estudos em comunidades acerca da moradia integrada, da igualdade de oportunidade profissional e do desenvolvimento e da prevenção da discri­minação na infância. Seu trabalho transformou essas questões polêmicas em estudos de pesquisa controlados, aplicando o rigor do método experimental sem a artificialidade do laboratório acadêmico.

Lewin promoveu o treinamento da sensibilidade dos educadores e dos empresários para reduzir o conflito entre grupos e desenvolver o potencial individual. Os grupos de treinamento da sensibilidade (grupos-T) foram precursores dos famosos grupos de encon­tros das décadas de 1960 e 1970.

Em geral, os programas experimentais e as descobertas das pesquisas de Lewin são mais aceitos pelos psicólogos do que muitos dos seus conceitos teóricos. Sua influência na psicologia infantil e social foi bastante considerável, e muitos dos seus conceitos e técnicas são usados na personalidade e na motivação.

As Críticas à Psicologia da Gestalt

Os críticos da escola de pensamento da psicologia da Gestalt alegavam que a organização aos processos perceptuais, como no fenômeno phi, não era tratada como um problema científico a ser investigado, mas como um fenômeno cuja existência era simplesmente aceita. Era como se fosse uma negação da existência do problema.

Além disso, os psicólogos experimentais acusavam de vaga a posição da Gestalt e afir­mavam que os conceitos básicos não eram definidos com o rigor suficiente para possuírem algum significado científico. Os psicólogos da Gestalt rebatiam essas acusações, afirmando que, em uma ciência jovem, as tentativas de explicação e definição podem estar incomple­tas, o que não significa que sejam vagas.

Outros psicólogos alegavam que os proponentes da Gestalt estavam ocupados demais com a teoria, em detrimento da pesquisa e dos dados empíricos. Embora a escola da Gestalt assumisse a orientação teórica, também enfatizou a experimentação e produziu conside­rável quantidade de pesquisa.

Ligada a essa visão existe a afirmação de que o trabalho experimental da Gestalt era inferior à pesquisa da psicologia behaviorista porque lhe faltavam controles adequados, e dados não-quantificáveis não eram passíveis de análise estatística. Os psicólogos da Gestalt sustentavam que grande parte da sua pesquisa era propositadamente menos quantitativa do que as outras escolas consideravam necessário, já que, nesse sistema, os resultados qualitativos tinham precedência. A maioria das pesquisas da Gestalt tem caráter exploratório, investigando os problemas psicológicos em um modelo diferente.

A noção de Köhler acerca do insight também foi questionada. As tentativas de repro­duzir a experiência dos chimpanzés e as duas varas proporcionaram pouca comprovação sobre o papel do insight na aprendizagem. Esses últimos estudos sugereriam que a solução do problema não ocorre de repente e pode depender da aprendizagem ou da experiência anterior (veja, por exemplo, Windholz e Lamal, 1985).

Ademais, alguns psicólogos consideravam que os psicólogos da Gestalt adotavam hipóteses fisiológicas pobremente definidas. Os pesquisadores da Gestalt reconheciam a teorização da área apenas como uma tentativa, mas acreditavam que as especulações eram aliadas válidas para o sistema.

As Contribuições da Psicologia da Gestalt

O movimento da Gestalt deixou uma permanente marca na psicologia e influenciou o trabalho a respeito da percepção, da aprendizagem, do pensamento, da personalidade, da psicologia social e da motivação. Ao contrário do seu maior rival na época - o behaviorismo -, a psicologia da Gestalt manteve uma identidade separada. Seus maiores princípios o foram absorvidos pelo principal pensamento psicológico. Ela continuou a promover o  interesse na experiência consciente como um problema legitimo para a psicologia os anos em que o behaviorismo dominava. O enfoque da Gestalt na experiência consciente era diferente da abordagem de e Titchener, pois se concentrava em uma versão moderna da fenomenologia. Os contemporâneos da posição da Gestalt acreditam realmente na ocorrência da experiência consciente, sendo ela, portanto, um objeto de estudo legítimo. Eles reconheciam no entanto, nâo ser possível investigá-la com a mesma precisão e objetividade do - comportamento manifesto. A abordagem fenomenológica da psicologia tem mais manifestaçâo entre os psicólogos europeus do que entre os estadunidenses, mas sua influência pode ser percebida no movimento da psicologia humanista estadunidense. Muitos aspectos da psicologia cognitiva contemporânea também devem sua origem à psicologia da Gestalt.

Psicologia - História da Psicologia
2/25/2020 2:30:59 PM | Por Duane P. Schultz
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Behaviorismo - Período Pós-fundação

Algum dia visitou o Zoológico do Ql em Hot Springs, Arkansas? Não? É uma pena, pois não existe mais. Mas, por 35 anos, milhares de pessoas visitaram e observaram animais desempenhando uma variedade surpreendente de truques. Pelo menos pareciam ser truques, mas, na realidade, cada animal havia sido cuidadosamente treinado. Nada havia sido deixado ao acaso no Ql Animal. Cada animal que via - fosse uma pomba ou uma galinha ou um guaxinim - havia se tornado outro Hans, o Esperto.

Pense na Priscilla, o Porco Metódico. Se algum dia viu porcos em uma fazenda, pode achar que não são capazes de fazer qualquer coisa suficientemente excitante para você olhar. Entretanto, Priscilla era fascinante. Ela tinha uma rotina matinal.

Primeiro ligava o rádio, depois comia sentada à mesa, pegava toda a roupa suja e a guardava na cesta, e limpa­va seu quarto com um aspirador de pó. E quando estava pronta para enfrentar o público, ela respondia perguntas feitas pela plateia, ativando sinais que acendiam indicando "sim" ou "não".

Outro residente do Zoológico do Ql era a Ave Inteli­gente, uma galinha que participava do jogo da velha com pessoas e, invariavelmente, empatava ou ganhava. Jamais perdia nem mesmo quando jogava com o grande psicólogo B. F. Skinner, cuja reação ao perder para a galinha nunca foi registrada. Em uma época, havia centenas de galinhas como a Ave Inteligente, apresentadas em exposições e cas­sinos espalhados pelos Estados Unidos, e nenhuma jamais perdeu o jogo para um oponente humano.

Além da Ave Inteligente, uma “galinha tocava algumas notas melodiosas em um piano pequeno, outra dançava 'sapateado' fantasiada e com sapatos, enquanto uma terceira 'punha ovos de madeira' em um ninho; os ovos rolavam por uma calha até uma cesta. A plateia podia pedir um determinado número de ovos desejado, até oito, e a galinha os punha sem parar" (Breland e Breland, 1951, p. 202).

Tinha galinhas que andavam no trapézio e outras treinadas para jogar beisebol. Coelhos dirigiam caminhões de bombeiro tocando a sirene, patos tocavam piano e bate­ria, papagaios andavam de bicicleta, e guaxinins jogavam basquete. Posteriormente foram acrescentados shows de golfinhos e baleias.

Esse zoológico foi iniciado em 1955, por Keller e Ma­rian Breland, antigas alunas do curso de pós-graduação em psicologia, que abandonaram a universidade para ganhar a vida aplicando técnicas de condicionamento ao comportamento animal. Em 1943, elas haviam formado a Empresa de Comportamento Animal para treinar animais a se apresentarem em feiras estaduais e para servirem de atrações turísticas. Quando abriram o Zoológico do QI seu trabalho já era bastante conhecido, graças a artigos no Wall Street Journal, Time, Life e Reader's Digest. No auge de seu sucesso, as irmãs Breland administravam cerca de 140 shows com animais treinados em lugares turísticos importantes e dez vezes mais esse número em shows pelo país. Também haviam treinado centenas de animais para papéis em filmes, programas de televisão e comerciais. No total treinaram mais de 6 mil animais de cerca de 150 espécies. E tudo isso utilizando técnicas básicas de condicionamento que haviam aprendido com B. F. Skinner, o behaviorista mais importante do século XX.

Os Três Estágios do Behaviorismo

A revolução iniciada por John B. Watson não transformou a pscologia de um dia para o outro. Levou mais tempo do que ele imaginava. Todavia, por volta de 1924, um pouco mais uma década após o lançamento formal do behaviorismo, até mesmo o seu maior opositor, Titchener, admitia que o movimento impregnou a psicologia estadunidense. Mais o menos em 1930, Watson já possuía argumentos suficiente para se declarar completamente vitorioso.

O behaviorismo de Watson constituiu o primeiro estágio da evolução da escola de pen­samento comportamental. O segundo estágio, o neobehaviorismo, compreende o período de 1930 a mais ou menos 1960, e engloba os trabalhos de Tolman, Hull e Skinner. Esses neobehavioristas compartilhavam diversos pontos em comum:

  • O estudo da aprendizagem constitui o tópico central da psicologia;
  • Em sua maioria, os comportamentos, independentemente da sua complexidade, podem ser entendidos pelas leis do condicionamento;
  • A psicologia deve adotar o princípio do operacionismo.

O terceiro estágio da evolução behaviorista, o neo-neobehaviorismo ou o sociobehaviorismo, data de cerca de 1960 a 1990. Essa etapa inclui o trabalho de Bandura e Rotter e destaca-se pelo retorno do estudo dos processos cognitivos, mas mantendo o enfoque na observação do comportamento manifesto.

Operacionismo

O operacionismo, principal característica do neobehaviorismo, tinha por objetivo propor­cionar uma linguagem e uma terminologia mais objetivas e precisas à ciência, livrando-a dos "pseudoproblemas", ou seja, dos problemas não-observáveis fisicamente ou não-demonstráveis. O operacionismo sustenta que o valor de qualquer descoberta científica ou de qualquer constructo teórico depende da validade das operações empregadas para determiná-los.

A visão operacionista foi promovida por Percy W. Bridgman (1882-1961), ganhador do Prêmio Nobel de física e psicólogo da Harvard University. O seu livro, The logic of modern physics (1927), chamou a atenção de muitos psicólogos (Feest, 2005). Bridgman insistia na definição exata dos conceitos da física e no descarte de todos os conceitos que não possuíssem referentes físicos.

Utilizemos como exemplo o conceito de comprimento. O que queremos dizer quando nos referimos ao comprimento de um objeto? Evidentemente, entenderemos o significado de comprimento se soubermos especificar o comprimento de todo e qualquer objeto e, para o físico, isso é o suficiente. A determinação do comprimento de um objeto requer algumas operações físicas. O conceito de comprimento, assim, é definido quando se determinam as operações de mensuração do comprimento, ou seja, o conceito de com­primento envolve tão-somente e apenas um conjunto de operações; o conceito é sinônimo do conjunto correspondente de operações. (Bridgman, 1927, p. 5)

Desse modo, um conceito físico equivale ao conjunto de operações ou de procedimen­tos que o determinam. Muitos psicólogos acreditavam que esse conceito seria muito útil nos seus trabalhos e estavam ansiosos para utilizá-lo.

A insistência de Bridgman em descartar os pseudoproblemas, ou seja, as questões que desafiam a resposta resultante de qualquer teste objetivo conhecido, era muito bem-vista pelos psicólogos behavioristas. As proposições que não podem ser submetidas a um teste experimental, como a existência e a natureza da alma, não têm nenhum valor científi­co. O que é alma? Como observá-la no laboratório? É possível medi-la e manipulá-la sob condições controladas para determinar seus efeitos no comportamento? Se a resposta for negativa, o conceito não é dotado de nenhuma utilidade, significado ou importância para a ciência.

Seguindo esse raciocínio, o conceito de experiência consciente individual ou privada consiste em um pseudoproblema para a ciência da psicologia. Não é possível determinar nem investigar a existência ou as características da consciência por meio de métodos objetivos. Assim, de acordo com a visão operacionista, a consciência não tem lugar na psicologia científica.

Os críticos alegavam que o operacionismo não passava de uma afirmação um pouco mais formal dos princípios já aplicados pelos psicólogos para definir as ideias e os conceitos em relação ao seus referentes físicos. No livro de Bridgman, há muito pouco sobre o operacionismo que não se relacione com os trabalhos dos empiristas britânicos. A tendência do longo prazo da psicologia estadunidense seguia em direção à objetividade da metodologia e do objeto de estudo, portanto pode-se afirmar que a visão operacionista em relação à pesquisa e à teoria já fora aceita por muitos psicólogos.

Entretanto, desde a época de Wilhelm Wundt, na Alemanha, os físicos vinham sendo, para a nova psicologia, exemplos de perfeição da respeitabilidade científica. Quando os físicos anunciaram a aceitação do operacionismo como uma doutrina formal, muitos psicó­logos sentiram-se obrigados a seguir esse modelo de papel. No fim, os psicólogos acabaram empregando mais amplamente o operacionismo do que os físicos. Consequentemente, a geração dos neobehavioristas atuantes entre as décadas de 1920 e 1930 incorporou o operacionismo na sua abordagem de psicologia.

Bridgman viveu tempo suficiente para testemunhar tanto a aceitação como o descarte do operacionismo na psicologia. Com 79 anos, ciente do seu estado terminal, Bridgman terminou o sumário da edição em sete volumes de todos os seus trabalhos, enviou-o para o editor e suicidou-se. Temia esperar mais tempo e ficar incapacitado para tal ação. Na carta deixada antes de suicidar-se, escreveu: "Provavelmente, este é o último dia em que terei condições de fazê-lo" (apud Nuland, 1994, p. 152).

Edward Chace Tolman (1886-1959)

Edward Tolman, um dos primeiros convertidos ao behaviorismo, estudou engenharia no Massachusetts Institute of Technology. Voltou-se para a psicologia, obtendo o Ph.D. da Harvard em 1915. No verão de 1912, Tolman estudou na Alemanha com o psicólogo da Gestalt, Kurt Koffka. No último ano de pós-graduação, Tolman conheceu o novo behavio­rismo de Watson e, embora orientado de acordo com a tradição da psicologia estruturalista de Titchener, Tolman já não estava convicto do valor científico da introspecção. Em sua autobiografia, declarou que o behaviorismo de Watson apareceu como um "enorme estímulo e alívio" (1952, p. 326).

Tolman tornou-se professor da Northwestern University, em Evanston, Illinois, e, em 1918, seguiu para a University of California, em Berkeley, onde lecionou psicologia comparativa e conduziu pesquisas sobre a aprendizagem nos ratos - nessa época tornou-se insatisfeito com a forma de behaviorismo de Watson e começou a desenvolver a sua. Durante a Segunda Guerra Mundial, colaborou com o Office of Strategic Services - OSS [Departamento de Serviços Estratégicos], precursor da Central Intelligence Agency [Agência Central de Inteligência] - CIA. No início da década de 1950, foi um dos líderes do movi­mento de professores contra o juramento de lealdade ao Estado da Califórnia.

O Behaviorismo intencional

A visão de behaviorismo de Tolman está descrita no livro Purposive behavior in animais and men (1932). O termo cunhado por ele, behaviorismo intencional, à primeira vista pode parecer uma aglutinação curiosa de duas ideias contraditórias: a intenção e o comportamento. A atribuição de intenção ao comportamento do organismo parece implicar a consciência, conceito mentalista não aceito na psicologia behaviorista. Tolman deixava claro, no entanto, que a sua visão era muito mais behaviorista no objeto de estudo e na metodologia. Ele não tentava impor o conceito de consciência à psicologia. Assim como Watson, rejeitava a introspecção e não se interessava pelas experiências internas presumi­das, não acessíveis à observação objetiva.

Para ele, a intencionalidade do comportamento pode ser definida em termos comportamentais objetivos sem se recorrer à introspecção ou aos relatos das sensações do indivíduo em relação à experiência. 

Parecia óbvio para Tolman que toda ação visava a um objetivo. Por exemplo, o gato tenta escapar da caixa-problema experimental do psicólogo o rato tenta aprender o caminho do labirinto, a criança tenta aprender a tocar piano ou a chutar a bola de futebol.

Em outras palavras, dizia Tolman, o comportamento está "impregnado" de intenção e visa atingir um objetivo ou aprender a forma de alcançar a meta. O rato persiste em percorrer os caminhos do labirinto, reduzindo os erros a cada tentativa, a fim de atingir mais rapidamente a meta. O que ocorre nesse caso é que o rato está aprendendo, e o fato de aprender, seja em um ser humano seja em um animal, é a prova comportamental objetiva da intenção. Tolman lida com as respostas objetivas do organismo e as medidas são feitas com base nas mudanças nas respostas comportamentais como uma função da aprendizagem. São essas medidas que produzem os dados objetivos.

Os behavioristas watsonianos imediatamente reagiram com críticas contra a atribuição de intenção ao comportamento. Insistiam em afirmar que qualquer referência à intenção implicava o reconhecimento dos processos conscientes. Tolman respondeu que não fazia a menor diferença se o indivíduo ou o animal estivesse ou não consciente. A experiência consciente - se ela existisse - associada com o comportamento intencional não influenciava a resposta do organismo. Ademais, Tolman estava interessado apenas no comportamento manifesto.

As Variáveis intervenientes

Como behaviorista, Tolman acreditava que as causas iniciadoras do comportamento e o comportamento final deviam ser passíveis de observação objetiva e de definição opera­cional. Relacionou cinco variáveis independentes como as causas do comportamento: o estímulo ambiental, os impulsos fisiológicos, a hereditariedade, o treinamento prévio e a idade. O comportamento é uma função dessas cinco variáveis, uma ideia que Tolman expressou por meio de uma equação matemática.

Entre essas variáveis independentes observáveis e o comportamento de resposta resul­tante (a variável dependente observável), Tolman presumia a existência de um conjunto de fatores não-observáveis, as variáveis intervenientes, que são as verdadeiras determi­nantes do comportamento. Esses fatores consistem em processos internos que estabelecem a ligação entre a situação de estímulo e a resposta observada. A proposição E-R (estímulo-resposta) dos behavioristas deve ser lida, então, E-O-R. A variável interveniente refere-se a tudo que ocorre dentro do organismo (O) e que provoca a resposta comportamental a determinada situação de estímulo. No entanto, como a variável interveniente não pode ser observada objetivamente, ela somente tem validade para a psicologia quando pode ser relacionada diretamente com as variáveis experimentais (independentes) e com a variável do comportamento (dependente).

A fome é um exemplo clássico de variável interveniente. Não se pode observar a fome em um indivíduo ou em um animal no laboratório, no entanto ela pode ser precisa e obje­tivamente relacionada com uma variável experimental como, por exemplo, o intervalo de tempo transcorrido desde a última vez em que o organismo recebeu comida. A fome tam­bém pode ser relacionada a uma resposta objetiva ou a uma variável de comportamento, como a quantidade de comida consumida ou a velocidade com a qual foi ingerida. Assim, é possível descrever precisamente a variável não-observável da fome em relação a variáveis empiristas e torná-la passível de quantificação e de manipulação experimental.

A especificação das variáveis independentes e dependentes, que são fatos observáveis, possibilitou a Tolman estabelecer definições operacionais de estados internos não-obser­váveis. No princípio, ele se referia à sua abordagem, no geral, como behaviorismo opera­cional, antes de optar pelo termo mais preciso "variável interveniente".

A Teoria da Aprendizagem

O principal enfoque do behaviorismo intencional de Tolman estava no problema da apren­dizagem. Tolman rejeitou a lei do efeito de Thorndike, afirmando que a recompensa ou o reforço exerciam pouca influência sobre a aprendizagem. Em seu lugar, propunha uma explicação cognitiva para a aprendizagem, sugerindo que a repetição do desempenho de uma tarefa reforça a relação aprendida entre as dicas ambientais e as expectativas do organismo. Dessa forma, o organismo acaba conhecendo o seu ambiente. Tolman chama­va essas relações aprendidas de “sign Gestalts", e afirmava serem elas estabelecidas pela repetição da realização de uma tarefa.

Imaginemos um rato faminto dentro de um labirinto. Ele o percorre, explorando todos os caminhos corretos como os sem saída e, finalmente, acaba alcançando a comida. X tentativas subsequentes dentro do labirinto, o objetivo (encontrar a comida) proporciona ao rato a intenção e a direção. A cada ponto de intersecção em que o animal tem de fazer uma opção de seguir para um lado ou outro, cria-se uma expectativa de que certas dicas associadas ao ponto de intersecção vão ou não levar à comida.

Quando a expectativa do rato é confirmada e ele obtém a comida, a sign Gestalt, a expectativa de sinalização associada com determinada opção) é reforçada. Assim, para todas as tentativas realizadas no labirinto, o animal estabelece um mapa cognitivo, que consiste em um padrão de sign Gestalts. Esse padrão é o que o animal aprende, ou seja, um mapa do labirinto, e não apenas um conjunto de hábitos motores. O cérebro do rato cria uma visão completa do labirinto ou de qualquer ambiente familiar, que lhe permite tran­sitar de um lugar a outro sem se restringir a uma série de movimentos físicos fixos.

A clássica experiência para testar a teoria de aprendizagem de Tolman investigava se o rato que percorria os caminhos do labirinto aprendia um mapa cognitivo ou uma série de respostas motoras. Em um labirinto com formato de cruz, um grupo de ratos sempre encontrava a comida no mesmo lugar, ainda que, usando pontos iniciais diferentes, às vezes tivessem de virar à direita e outras vezes à esquerda para chegarem até o alimento. As respostas motoras eram diferentes, mas a comida estava sempre no mesmo lugar.

O segundo grupo de ratos apresentava as mesmas respostas independentemente do ponto inicial, mas com a comida em lugares diferentes. Iniciando de uma saída do labirin­to, o ratos achavam a comida somente quando viravam à direita no ponto de intersecção: começando da outra saída, também encontravam a comida virando à direita.

Os resultados demonstraram que os ratos que aprendiam o caminho (o primeiro grupo apresentavam um desempenho bem melhor do que os que aprendiam o movimento (o segundo grupo). Tolman concluiu que o mesmo fenômeno ocorre com o indivíduo fami­liarizado com a cidade ou com a vizinhança. Ele é capaz de locomover-se de um ponto a outro utilizando diversos caminhos por causa do mapa cognitivo que desenvolveu de toda a área.

Comentários

Tolman é considerado o precursor da psicologia cognitiva contemporânea, tendo seu trabalho exercido grande impacto na disciplina, principalmente a pesquisa acerca dos problemas de aprendizagem e o conceito da variável interveniente. Por ser uma forma de definir operacionalmente os estados internos não-observáveis, as variáveis inter­venientes fizeram desses estados temas válidos para o estudo científico. As variáveis intervenientes foram empregadas pelos neobehavioristas, como Hull e Skinner.

Outra contribuição significativa de Tolman foi a sua defesa veemente para conside­rar o rato como sujeito apropriado para pesquisa em psicologia. No entanto, no início da carreira, ele não pensava assim e afirmava: "Não gosto de ratos. Eles me dão arrepios" (Tolman, 1919, apuã Innis, 1992, p. 191).

Em torno de 1945, sua atitude havia mudado:

Observe-se que os ratos vivem em gaiolas; não caem na farra na noite anterior a um expe­rimento; não provocam guerras matando uns aos outros; não inventam máquinas de des­truição e, se inventassem, não seriam tão inaptos para controlar esses equipamentos; não se envolvem em conflitos de classe ou raciais; ficam distantes da política, da economia e dos trabalhos de psicologia. Eles são maravilhosos, puros e agradáveis. (Tolman, 1945, p. 166)

Graças aos trabalhos de Tolman e de outros psicólogos, o rato branco tornou-se o princi­pal sujeito utilizado na pesquisa dos neobehavioristas e dos teóricos da aprendizagem, desde 1930 até a década de 1960. Acreditava-se que as pesquisas com os ratos brancos produziriam observações sobre os processos básicos subjacentes do comportamento não apenas dos ratos, como também de outros animais e dos seres humanos. Como observou um pesquisador contemporâneo, "o rato era um modelo simples mas acessível de animal, que possibilitava ao psicólogo investigar os fundamentos do cérebro, do comportamento, da emoção e da aprendizagem com precisão sem precedentes" (Logan, 1999, p. 3). Quem precisa de seres humanos para as pesquisas, perguntavam, com tantos ratos brancos disponíveis?

Clark Leonard Hull (1884-1952)

Clark Hull e seus seguidores dominaram a psicologia estadunidense entre as décadas de 1940 e 1960. Talvez nenhum psicólogo tenha se dedicado tanto aos problemas do método científico. Hull era dotado de espantoso domínio da matemática e da lógica formal, e as aplicava à teoria psicológica de maneira nunca vista antes. A forma de behaviorismo de Hull era mais sofisticada e mais complexa do que a de Watson. Hull dizia a seus alunos de pós-graduação que "Watson era ingênuo demais. Seu behaviorismo é excessivamente simples e imaturo" (apuei Gengerelli, 1976, p. 686).

Biografia de Hull

Por toda a vida, Hull foi incomodado pela saúde frágil e pela dificuldade visual. Quando ainda menino, quase morreu de tifo, deixando-o com a memória deficitária. Aos 24 anos contraiu poliomielite, que o deixou paralítico de uma perna, sendo forçado a usar muleta de metal construída por ele mesmo. Era de família pobre e por diversas vezes vira-se forçado a interromper os estudos para lecionar e ganhar dinheiro. Sua maior qualidade era a intensa motivação para atingir o sucesso e a perseverança diante dos muitos obstáculos.

Em 1918, com 34 anos, idade já relativamente adiantada, recebeu o título de Ph.D. - a University of Wisconsin, onde estudou engenharia de minas antes de passar para a psicologia. Fez parte do corpo docente da Wisconsin por 10 anos. Os interesses iniciais em pesquisa já davam indicações da sua eterna ênfase nos métodos objetivos e nas leis rancionais. Hull estudou a formação de conceitos e os efeitos do fumo na eficácia do comportamento, além de analisar os testes e as medidas e com isso publicar um livro a respeito dos testes de aptidão (Hull, 1928). Ele desenvolveu métodos de análise estatística e inventou uma máquina calculadora de correlações, que foi exibida no museu do Smithsonian institution em Washington, DC. Dedicou 10 anos ao estudo da hipnose e da sugestionabilidade, publicando 32 trabalhos e um livro resumindo as pesquisas (Hull, 1933).

Em 1929, Hull aceitou a posição de professor de pesquisa na Yale University, com o objetivo de formular uma teoria sobre o comportamento com base nas leis de condicio­namento de Pavlov. Lera o trabalho de Pavlov havia alguns anos e ficara impressionado com os estudos do reflexo condicionado e da aprendizagem. Hull considerava a obra Conáitioned reflexes, de Pavlov, um "grande livro” e decidiu realizar pesquisas usando ani­mais. Ele nunca utilizara animais porque abominava o cheiro dos ratos de laboratório, no entanto, ao chegar a Yale, conheceu uma colônia de ratos mantida por E. R. Hilgard sob totais condições de higiene. Viu os animais, "cheirou-os e disse que talvez pudesse afinal usar ratos" (Hilgard, 1987, p. 201).

Na década de 1930, Hull publicou artigos a respeito do condicionamento, afirmando ser possível explicar os comportamentos complexos de ordem superior com base nos prin­cípios básicos do condicionamento. A sua obra Principies of behavior (1943) apresentava o esboço de uma estrutura teórica completa, abrangendo todo comportamento. Logo Hull tornou-se o psicólogo mais frequentemente citado da área; na década de 1940, até 40% de todos artigos sobre psicologia experimental e 70% dos artigos sobre a aprendizagem e motivação publicados nas duas principais revistas de psicologia estadunidense citavam o traba­lho de Hull (Spence, 1952). Hull revisava constantemente o seu sistema, incorporando os resultados de sua prolongada pesquisa, e submetia suas proposições ao teste experimental. A forma final do trabalho foi publicada em 1952 na obra A behavior system.

O Espírito do Mecanicismo

Hull descrevia seu behaviorismo e sua visão da natureza humana empregando termos mecanicistas e considerava o comportamento humano automático e possível de ser redu­zido e explicado na linguagem da física. De acordo com Hull, os behavioristas deviam considerar seus sujeitos como máquinas, e ele apoiava a ideia de que um dia se construiria uma máquina para pensar e exibir outras funções cognitivas humanas. Em 1926, Hull afirmou: "Ocorreu-me várias vezes que o organismo humano é uma das máquinas mais extraordinárias - mas, ainda assim, uma máquina. E pensei mais de uma vez que, assim como ocorrem os processos de pensamento, se poderia construir uma máquina capaz de executar todas as funções essenciais que o corpo realiza" (cipud Amsel e Rashotte, 1984, p. 2-3). Nota-se, assim, que o espírito mecanicista do século XVII, representado pelas figuras mecânicas, pelos relógios e robôs vistos na Europa, incorporou-se perfeitamente no trabalho de Hull.

A Metodologia Objetiva e a Quantificação

O behaviorismo objetivo, reducionista e mecanicista de Hull proporciona uma clara visão de como era o seu método de estudo. Primeiro, tinha de ser objetivo, além de quantitati­vo, ou seja, com as leis fundamentais do comportamento expressas na linguagem precisa da matemática.

Em Principies of behavior (1943), Hull explicou como desenvolver uma psicologia mate­maticamente definida. Evidentemente, qualquer adepto do sistema de Hull tinha de ser disciplinado, comprometido e paciente.

O progresso consistirá no extenso trabalho de registrar, uma por uma, das centenas de equações; na determinação experimental, uma por uma, das centenas de constantes empíricas contidas nas equações; no planejamento das unidades utilizáveis na prática com as quais medir as quantidades expressas pelas equações; na definição objetiva de centenas de símbolos que aparecem nas equações; na rigorosa dedução, um por um, dos milhares de teoremas e corolários decorrentes das primeiras definições e equações; na meticulosa realização de milhares de experimentos quantitativos críticos. (Hull, 1943, p. 400-401)

Hull seguia quatro métodos que considerava úteis na pesquisa científica. Três já eram amplamente empregados: a observação simples, a observação sistemática controlada e o teste experimental das hipóteses. O quarto método proposto por Hull foi o método hipotetico-dedutivo, que utiliza a dedução baseada em um conjunto de formulações deter­minadas a priori. Consiste em estabelecer postulados a partir dos quais são deduzidas as conclusões testáveis por meio da experimentação. Essas conclusões são submetidas a um teste experimental: se não forem comprovadas com evidências experimentais, devem ser revistas e, se comprovadas e verificadas, podem ser incorporadas ao corpo da ciência. Hull acreditava que, se a psicologia desejasse se tornar verdadeiramente objetiva assim como as demais ciências naturais, princípio básico do programa behaviorista, o único método apropriado seria o hipotético-dedutivo.

Os Impulsos

Para Hull, a base da motivação era um estado de necessidade corporal provocada por um desvio nas condições biológicas ideais. Em vez de introduzir o conceito de necessidade biológica diretamente no seu sistema, Hull postulou a variável interveniente do "impulso", termo já empregado na psicologia. O impulso era definido como o estímulo provocado por um estado de necessidade do organismo que impulsiona ou ativa um comportamento. Na opinião de Hull, a redução ou a satisfação de um impulso era a única base para o reforço. A força do impulso pode ser determinada na prática pelo tempo de privação ou pela inten­sidade, força e gasto de energia do comportamento resultante. Ele considerava o tempo de privação uma medida imperfeita e colocava maior ênfase na intensidade da resposta. Hull postulou dois tipos de impulso. O primário, associado aos estados de necessidades biológicas inatas e vitais para a sobrevivência do organismo, entre as quais o alimento, a água, o ar, a temperatura, a defecação, a micção, o sono, a atividade, a relação sexual e o alívio da dor. Reconhecia, no entanto, outras forças, que não os impulsos primários, capazes de moti­var o organismo. Propôs, assim, os impulsos adquiridos ou secundários, relacionados com os estímulos situacionais ou ambientais associados à redução dos impulsos primários e que também podem se transformar em impulsos. Desse modo, o estímulo anteriormente neutro pode adquirir características de um impulso por ser capaz de provocar respostas semelhantes às instigadas pelo impulso primário ou pelo estado de necessidade original.

Um exemplo simples é queimar-se ao tocar um fogão quente. A dor da queimadura, provocada por um dano físico real nos tecidos do corpo, produz um impulso primário, ou seja, o desejo de alívio da dor. Outro estímulo ambiental associado com esse impulso pri­mário - como a visualização de um fogão - pode, no futuro, provocar o rápido afastamento da mão diante da percepção visual do estímulo. Desse modo, a visão do fogão torna-se um estímulo para o impulso adquirido de medo. Esse impulso adquirido ou secundário motivador do comportamento é resultante de um impulso primário.

A Aprendizagem

A teoria da aprendizagem de Hull concentra-se no princípio do reforço, o qual é essen­cialmente a lei do efeito de Thorndike. A lei do reforço primário de Hull estabelece que quando a relação estímulo-resposta é seguida de uma redução na necessidade, aumenta a probabilidade de ocorrência da mesma resposta nas apresentações subsequentes do mesmo estímulo. A recompensa e o reforço não são definidos em termos da noção de satisfação de Thorndike, mas em termos de redução da necessidade primária. Assim, o reforço primário (a redução de um impulso primário) é fundamental para a teoria de aprendizagem de Hull.

Uma vez que seu sistema contém o impulso adquirido ou secundário, ele também trata do reforço secundário. Se a intensidade do estímulo é reduzida em virtude de um impulso secundário, este atuará como reforço secundário.

Ocorre que qualquer estímulo coerentemente associado com uma situação de reforço adquire, mediante essa associação, o poder de provocar a inibição condicionada, ou seja, a redução na intensidade do estímulo e, assim, de si mesmo produzir o reforço resultante. Como essa força indireta de reforço é adquirida por meio de aprendizagem, denomina-se reforço secundário. (Hull, 1951, p. 27-28).

As relações estímulo-resposta são fortalecidas pelo número de reforços ocorridos. Hull chamava a força da conexão estímulo-resposta de força do hábito, e afirmava ser ela uma função do reforço referente à persistência do condicionamento.

A aprendizagem não ocorre na ausência do reforço necessário para provocar a redução do impulso. Essa ênfase no reforço caracteriza o sistema de Hull como a teoria da neces­sidade de redução, em oposição à teoria cognitiva de Tolman.

Comentários

Sendo um importante expoente do neobehaviorismo, Hull também era alvo dos mesmos ataques direcionados a Watson e a outros behavioristas. Os psicólogos contrários a qual­quer abordagem behaviorista da psicologia colocavam Hull no campo dos inimigos.

Uma falha observada no seu sistema era a falta de generalização. Na tentativa de defi­nir com precisão as variáveis, em termos quantitativos, Hull operava necessariamente em um plano limitado. Frequentemente formulava postulados a partir de resultados obtidos em um único experimento. Os opositores argumentavam ser imprudente a generalização a todo comportamento com base em demonstrações experimentais específicas, tais como “o intervalo mais favorável para o condicionamento do piscar dos olhos (Postulado 2)" ou "o peso em gramas necessário de comida para condicionar um rato (Postulado 7)" (apud Hilgard, 1956, p. 181). Embora a quantificação fosse louvável, a abordagem extrema de Hull reduzia a faixa de aplicabilidade das suas descobertas de pesquisa.

Mesmo assim, a influência de Hull na psicologia foi substancial. A quantidade abso­luta de pesquisas inspiradas por seu trabalho assim como o grande número de psicólogos influenciados por ele, garantem a sua importância na história da psicologia. Hull defen­deu, ampliou e explicou a abordagem behaviorista objetiva da psicologia como não o fez nenhum psicólogo. Um historiador declarou: "Não é comum o surgimento de um verda­deiro gênio teórico em qualquer área; dentre os poucos da psicologia assim considerados, Hull certamente se classificaria entre os principais" (Lowry, 1982, p. 211).

B. F. Skinner (1904-1990)

Durante décadas, B. F. Skinner foi o psicólogo mais influente do mundo. Quando morreu, em 1990, o editor da revista American Psychologist elogiou-o, dizendo que ele foi "um dos gigantes da nossa disciplina", alguém que "marcou a psicologia para sempre" (Fowler, 1990, p. 1.203). O obituário de Skinner, na publicação Journal of the History of the Behavioral Sciences, descreveu-o como a "principal figura da ciência do comportamento deste século" (Keller, 1991, p. 3).

Começando na década de 1950, Skinner foi a grande personificação da psicologia behaviorista estadunidense. Ele atraía enorme grupo de seguidores leais e entusiasmados. Desenvolveu um programa para o controle comportamental da sociedade, promoveu técnicas de modificação de comportamento e inventou um berço automático para emba­lar bebês. O seu romance, Walden two, ainda se mantém com grande popularidade após décadas de publicação. O livro Beyond freedom and dignity, lançado em 1971, foi um dos mais vendidos no país, proporcionando a Skinner a oportunidade de participar de muitos programas de entrevista na televisão. Tornou-se uma celebridade, tendo seu nome reco­nhecido tanto pelo público em geral como por outros psicólogos. Em 1972, o editorial da revista Psychology Today afirmou que "Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, um professor de psicologia alcançou a celebridade comparável à dos astros de cinema e da televisão" (,apud Rutherford, 2000, p. 372).

A Biografia de Skinner

Skinner, nascido em Susquehanna, na Pensilvânia, cresceu em ambiente estável e de muito afeto. Frequentou a mesma pequena escola de ensino médio em que se formaram os seus pais; na cerimônia de formatura, havia apenas ele e mais sete outros colegas. Quando criança, gostava de construir vagões, jangadas, aeromodelos, chegando a montar uma espécie de canhão a vapor para atirar pedaços de cenoura e batata sobre o telhado. Passou anos tentando desenvolver uma máquina de movimento perpétuo. Gostava de ler sobre os animais e mantinha diversas espécies de tartarugas, cobras, lagartos, sapos e esquilos. Em uma feira local, viu alguns pombos realizando performances; e, anos mais tarde, treinou algumas dessas aves para realizar alguns truques.

O sistema de psicologia de Skinner reflete as próprias experiências de infância. De acordo com o seu ponto de vista, a vida é produto da história de reforços. Afirmava que sua vida foi predeterminada e organizada exatamente do modo que o seu sistema ditava como devia ser a vida de todo ser humano. Acreditava que as suas experiências estavam relacionadas exclusiva e diretamente aos estímulos do próprio ambiente.

Skinner matriculou-se na Hamilton College de Nova York, mas não se sentia feliz. Escreveu:

Nunca me adaptei à vida estudantil. Entrei para a fraternidade sem saber bem o que era. Não possuía habilidade nos esportes e sofria demais quando batia a minha canela durante um jogo de hóquei sobre o gelo ou quando no jogo de basquete usavam a minha cabeça como tabela para acertar na cesta. (...) Reclamava que a faculdade me exigia demais em requisitos inúteis (um deles era a oração diária na capela) e que ela quase não demonstra­va o interesse intelectual pela maioria dos alunos. (Skinner, 1967, p. 392)

Skinner preparava trotes que perturbavam a comunidade da faculdade e criticava abertamente os professores e a administração. Formou-se em Letras - Inglês, com distinção Phi Beta Kappa, e desejava tornar-se escritor. Em um seminário de redação de que participou no verão, o poeta Robert Frost elogiou seus poemas e contos. Por dois anos, depois de se formar, trabalhou escrevendo, mas chegou à conclusão de que não tinha nada a dizer. Deprimido pelo fiasco como escri­tor, pensou em consultar um psiquiatra. Considerava-se um fracasso, e a sua autoestima estava despedaçada. Além disso, estava desiludido no amor; mais ou menos meia dúzia de mulheres rejeitaram-no.

Leu sobre as experiências de condicionamento de Watson e Pavlov, os quais lhe des­pertaram um interesse mais científico que literário acerca da natureza humana. Em 1928, matriculou-se no curso de pós-graduação em psicologia na Harvard University, embora nunca houvesse frequentado qualquer curso da área. Obteve o Ph.D. em três anos, completou com bolsa de estudo o pós-doutorado e lecionou na University of Minnesota (1936-1945) e na Indiana University (1945-1947), retornando depois para Harvard.

O tópico da sua dissertação dá uma indicação da posição que adotaria por toda a car­reira. Propôs ser o reflexo simplesmente uma correlação entre um estímulo e uma resposta, nada mais. Destacava a utilidade do conceito de reflexo na descrição do comportamento e dava amplo crédito a Descartes.

O seu livro lançado em 1938, The behavior of organisms, descreve os pontos principais do seu sistema. A obra vendeu apenas 80 cópias em quatro anos, perfazendo um total de 500 cópias nos oito primeiros anos, e recebeu críticas muito negativas. Cinquenta anos depois, foi considerado "um dentre alguns livros que mudaram a face da psicologia moderna" (Thompson, 1988, p. 397). O que levou esse livro do fracasso inicial para o estrondoso sucesso foi a sua utilidade nas áreas aplicadas, como na psicologia educacio­nal e clínica. Essa ampla aplicação prática das ideias de Skinner era bastante adequada, já que ele estava profundamente interessado em resolver os problemas da vida real. Um trabalho posterior, Science and human behavior (1953), tornou-se o livro básico da psicolo­gia behaviorista de Skinner.

Skinner continuou produzindo até à morte, com 86 anos. No porão da sua casa, cons­truiu a própria "caixa de Skinner", um ambiente controlado para proporcionar reforço positivo. Dormia em um tanque de plástico amarelo suficientemente grande para colocar um colchão, algumas prateleiras de livros e um pequeno aparelho de televisão. Deitava-se às 10 horas, dormia três horas, trabalhava uma hora, dormia mais três horas e levanta-se às cinco da manhã para trabalhar mais três horas. Depois, seguia para o escritório para trabalhar mais e toda tarde aplicava-se um autorreforço ouvindo música.

Gostava de escrever e dizia que essa atividade proporcionava-lhe bastante reforço positivo. Com 78 anos, escreveu um trabalho intitulado “Intellectual self-management in old age ("Autogerenciamento intelectual na velhice"), descrevendo suas experiências como um estudo de caso (Skinner, 1983). Descreveu a necessidade de o cérebro trabalhar menos horas por dia, com períodos de descanso entre os esforços exaustivos, para lidar com a perda de memória e a redução da capacidade intelectual. Ficou feliz ao saber que fora citado na literatura psicológica mais vezes do que Sigmund Freud. Quando pergunta­do por um amigo se tinha atingido a meta como escritor, apenas comentou: "Pensei que conseguiria" (apud Bjork, 1993, p. 214).

Em 1989, Skinner foi diagnosticado com leucemia, tendo expectativa de dois meses de vida. Durante uma entrevista no rádio, descreveu como se sentia:

Não sou religioso, portanto não me preocupo com o que acontecerá comigo depois da morte. Quando soube da doença e que morreria em alguns meses, não senti nenhum tipo de emoção. Não entrei em pânico, nem senti medo ou ansiedade. (...) O único sentimento de comoção que realmente encheu os meus olhos de lágrimas eu tive quando pensei em como contaria à minha esposa e às minhas filhas. (...) A minha vida foi realmente muito boa. Seria muito tolo de minha parte queixar-me, de alguma forma, sobre essa situação. Então estou aproveitando esses últimos meses assim como fiz a minha vida inteira. (apud Catania, 1992, p. 1.527)

Oito dias antes de morrer, mesmo fraco, Skinner apresentou um trabalho na convenção da APA de 1990, em Boston. Atacou veementemente o crescimento da psicologia cogniti­va, que desafiava a sua forma de behaviorismo. Na tarde anterior à sua morte, trabalhava no seu último artigo, “Can psychology be a Science of mind?" ("A psicologia pode ser uma ciência da mente?") (Skinner, 1990), outra acusação contra o movimento cognitivo que ameaçava suplantar a sua visão de psicologia.

O Behaviorismo de Skinner

Em diversos aspectos, a posição de Skinner representa uma renovação do behaviorismo de Watson. Um historiador afirmou: "O espírito de Watson é indestrutível. Límpido e purificado, ele respira por meio dos trabalhos de B. F. Skinner" (MacLeod, 1959, p. 34). Embora Hull também fosse considerado um rigoroso behaviorista, há diferenças entre suas visões e as de Skinner. Enquanto Hull enfatizava a importância da teoria, Skinner defendia um sistema empírico sem estrutura teórica para a condução de uma pesquisa.

Skinner resumia sua visão da seguinte forma: "Nunca ataquei um problema construindo uma hipótese. Jamais deduzi teoremas, nem os submeti a verificação experimental. Até onde consigo enxergar, não tenho nenhum modelo preconcebido de comportamento e, certamente, nem fisiológico nem mentalista e, creio, nem conceitual" (Skinner, 1956, p. 227).

O behaviorismo de Skinner dedica-se ao estudo das respostas. Ele se preocupava em descrever e não em explicar o comportamento. A sua pesquisa tratava apenas do compor­tamento observável, e ele acreditava que a tarefa da investigação científica era estabelecer as relações funcionais entre as condições de estímulo controladas pelo pesquisador e as respostas subsequentes do organismo.

Skinner não se preocupava em especular sobre o que ocorria dentro do organismo. Seu programa não apresentava suposições a respeito das entidades internas, fossem as variá­veis intervenientes, os impulsos ou os processos fisiológicos. O que acontecia na relação entre estímulo e resposta não era o tipo de dado objetivo com o qual o behaviorista skinneriano lidava. Assim, o behaviorismo puramente descritivo de Skinner foi denominado adequadamente de abordagem do "organismo vazio". Nessa visão, o organismo humano seria controlado e operado pelas forças do ambiente, pelo mundo exterior, e não pelas forças internas. Skinner não duvidava da existência das condições mentais ou fisiológicas internas, apenas não aceitava a sua validade no estudo científico do comportamento. Um biógrafo reiterou que a posição de Skinner "não era uma negação dos eventos mentais, mas uma recusa em classificá-los como entidades explicativas" (Richelle, 1993, p. 10).

Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, Skinner não considerava necessá­rio usar grande quantidade de indivíduos nas experiências ou realizar comparações esta­tísticas entre as respostas médias dos grupos de pesquisados, o seu método consistia na investigação compreensiva de um único indivíduo.

Uma previsão do que o indivíduo médio realizará é, muitas vezes, de pouco ou nenhum valor ao lidar com um indivíduo em particular. (...) Uma ciência é válida ao lidar com um indivíduo somente se as leis forem referentes aos indivíduos. Uma ciência do com­portamento que considera apenas o comportamento coletivo não parece válida para compreender um caso particular. (Skinner, 1953, p. 19)

Em 1958, os behavioristas skinnerianos criaram a revista Journal of the Experimental Analysis of Behavior, principalmente como resposta às exigências para publicação, não mencionadas nas principais revistas de psicologia, a respeito da análise estatística e da dimensão da amostragem de indivíduos observados. A revista Journal of Applied Behavior Analysis foi lançada para promover a pesquisa sobre a modificação do comportamento, um produto aplicado da psicologia de Skinner.

No trecho a seguir da obra Science and human behavior, Skinner descreve como o tra­balho de Descartes e as figuras mecânicas da Europa do século XVII (veja no Capítulo 2) influenciaram a sua abordagem de psicologia. Esse é um bom exemplo do uso da história, ou seja, de um psicólogo do século XX que se baseou em um trabalho realizado 300 anos antes. O texto também demonstra a evolução contínua das máquinas, tornando-se cada vez mais próximas da vida real.


Texto Original

Trecho Extraído de Science and Human Behavior (1953), de B. F. Skinner

O comportamento é uma característica primária das espécies vivas. Quase o identificamos com a própria vida. Qualquer objeto que se mova é praticamente chamado de ser vivo, princi­palmente quando o movimento é dotado de direção ou atua mudando o ambiente. O movi­mento acrescenta verossimilhança a qualquer modelo de organismo. A marionete adquire vida quando é movida, e os ídolos que se requebram ou exalam fumaça de cigarro são alvos de grande admiração. Robôs e criaturas mecânicas nos divertem apenas por se moverem. E há um significado na etimologia do termo desenho animado.

As máquinas parecem ter vida apenas porque estão em movimento. O fascínio da pá a vapor para neve é lendário. As máquinas menos conhecidas talvez possam realmente ser temi­das. Hoje, percebemos que somente as pessoas mais simples confundem-nas com as criaturas vivas; no entanto, em algum momento, todos as desconheciam. Um dia, quando [os poetas do século XIX William] Wordsworth e [Samuel Taylor] Coleridge passaram pela locomotiva a vapor, Wordsworth observou que era praticamente impossível apagar a impressão de vida e vontade que ela transmitia. "Sim", afirmou, "é um gigante dotado de pensamento".

Um brinquedo mecânico que imitava o comportamento humano conduziu à teoria da chamada ação reflexa. Na primeira parte do século XVII, certas figuras movidas por força hidráulica foram instaladas nos jardins públicos e particulares como objetos de diversão. Uma jovem passeando pelo jardim pisava sem querer em uma pequena plataforma escondida. Assim, uma válvula se abria, a água fluía para um pistão, e uma figura assustadora saltava por entre os galhos das árvores, assustando-a. René Descartes sabia como essas figuras funciona­vam e também o quanto elas se pareciam com as criaturas vivas. Pensava na possibilidade de aplicar a explicação do sistema hidráulico das figuras mecânicas também nas criaturas vivas. O músculo que se dilata quando move um membro talvez seja inflado por um fluido vindo pelos nervos cerebrais. Os nervos que se estendem da superfície do corpo até o cérebro talvez sejam os fios que abrem as válvulas.

Descartes não afirmava que o organismo humano sempre operava dessa forma. Aceitava essa explicação no caso dos animais e reservava uma esfera de ação para a "alma racional", talvez por causa da pressão religiosa. Todavia, não levou muito tempo para que um passo adiante produzisse a doutrina totalmente amadurecida do "homem como máquina". A dou­trina não deveu sua popularidade à plausibilidade - não havia provas confiáveis para a teoria de Descartes -, mas às chocantes implicações teóricas e metafísicas.

Desde aquela época, dois fatos se destacam: as máquinas parecem cada vez mais dotadas de vida, e os organismos vivos estão cada vez mais parecidos com as máquinas. As máquinas contem­porâneas não são apenas mais complexas: elas são propositadamente projetadas para operarem de forma a imitar o comportamento humano. As maquinações "quase humanas" fazem parte da experiência cotidiana. As portas nos veem chegando e se abrem para nos receber. Os elevadores memorizam os comandos e param no andar correto. As mãos mecânicas retiram os itens defei­tuosos da linha de produção. Outras escrevem mensagens até certo grau legíveis. As calculadoras mecânicas ou elétricas resolvem as equações mais difíceis ou as que tomam muito tempo dos matemáticos. O homem criou, assim, a máquina à sua imagem e semelhança —consequentemente, o organismo vivo perdeu uma parte da sua exclusividade. Ficamos menos espantados com as máquinas do que nossos ancestrais e menos propensos a dotar a máquina com autonomia de pensamento. Ao mesmo tempo, descobrimos mais a respeito do funcionamento do organismo vivo e estamos mais aptos a enxergar nele propriedades semelhantes às das máquinas


O Condicionamento Operante

Várias gerações de estudantes de psicologia estudaram os experimentos de Skinner sobre condicionamento operante e como diferem do comportamento respondente investigado por Pavlov. Na situação de condicionamento pavloviano, um estímulo conhecido é pareado com outro estímulo sob condições de reforço. A resposta comportamental é eliciada por um estímulo observável e Skinner chamou-a de comportamento respondente.

O comportamento operante ocorre sem qualquer estímulo antecedente externo observá­vel. A resposta do organismo parece ser espontânea, ou seja, não relacionada com qualquer estímulo observável conhecido. Isso não significa que não haja um estímulo que elicite a resposta, mas que ele não é detectado quando ocorre a resposta. No entanto, na visão do observador, não existe estímulo porque ele não o aplicou e não consegue vê-lo.

Outra diferença entre o comportamento respondente e o operante é que este opera no ambiente do organismo, enquanto o outro, não. O cão treinado do laboratório de Pavlov não fazia outra coisa senão reagir (nesse caso, salivar) quando o pesquisador apre­sentava-lhe o estímulo (a comida). O cão não era capaz de atuar por si só para assegurar o estímulo. No entanto, o comportamento operante do rato na caixa de Skinner é ins­trumental em assegurar o estímulo (a comida). Quando o rato pressiona a barra, recebe comida, e somente a recebe se pressionar a barra, portanto ele opera sobre o ambiente.

Skinner acreditava no comportamento operante como o melhor representante da situa­ção típica de aprendizagem. Na maioria das vezes, o comportamento é do tipo operante, por isso, a melhor abordagem científica para seu estudo são os processos de condiciona­mento e extinção.
A demonstração da clássica experiência da caixa de Skinner envolvia o ato de pressio­nar a barra, que fora construída de modo que controlasse as variáveis externas. Colocava-se um rato privado de comida dentro da caixa, ficando livre para explorar o ambiente. No curso dessa exploração, o rato pressionava uma alavanca ou uma barra, ativando um meca­nismo que liberava uma bolinha de ração em uma bandeja. Depois de conseguir algumas bolinhas (os reforços), o condicionamento geralmente se estabelecia com rapidez. Observe que o comportamento do rato (pressionando a alavanca) atuou sobre o ambiente e assim serviu como instrumento para a obtenção do alimento. A variável dependente é simples e direta: a taxa de respostas.

Com base nessa experiência básica, Skinner derivou sua lei da aquisição, que afirma que a força de um comportamento operante aumenta quando ele é seguido pela apresenta­ção de um estímulo reforçador. Embora a prática seja importante para se estabelecer uma alta taxa de pressão à barra, a variável-chave é o reforço. A prática em si não aumenta a taxa de respostas; ela apenas proporciona a oportunidade de ocorrência do reforço adicional.

A lei da aquisição de Skinner é diferente das visões de Thorndike e Hull sobre a aprendizagem. Skinner não lidava com as consequências do reforço, como as sensações de prazer/dor ou satisfação/insatisfação, como fazia Thorndike, nem tentava interpretar o reforço com base na redução dos impulsos, como Hull. Enquanto os sistemas de Thorndike e Hull eram explicativos, o de Skinner era descritivo.

Esquemas de Reforço

A pesquisa inicial com o rato pressionando a barra da caixa de Skinner demonstrou o papel do reforço no comportamento operante. O comportamento do rato era reforçado cada vez que ele pressionava a barra. Em outras palavras, o rato recebia alimento sempre que executava a resposta correta. No mundo real, no entanto, o reforço nem sempre é assim consistente ou contínuo, muito embora a aprendizagem ocorra e o comportamento persista, mesmo quando o reforço seja intermitente. Skinner afirmou:

Nem sempre encontramos uma boa camada de gelo ou uma boa neve quando vamos pati­nar ou esquiar. (...) Nem sempre temos uma ótima refeição nos restaurantes, porque os cozinheiros não são muito previsíveis. Nem sempre que telefonamos a um amigo consegui­mos falar com ele, porque nem sempre ele está em casa. (...) Os reforços característicos do trabalho e do estudo são quase sempre intermitentes porque não é viável controlar o comportamento reforçando toda resposta. (Skinner, 1953, p. 99)

Pense na sua experiência. Mesmo que você estude sem parar, não conseguirá obter a nota máxima em todas as provas. No emprego, mesmo que trabalhe com a máxima eficiência, nem sempre você recebe elogios ou aumentos salariais. Assim, Skinner dese­java saber de que forma o reforço variável influenciava o comportamento. Será que um esquema de reforço ou um determinado padrão é melhor que outro para determinar as respostas do organismo?

A motivação para a realização da pesquisa não surgiu da curiosidade intelectual mas da conveniência, o que mostra que a ciência às vezes funciona diferentemente da imagem idealizada descrita em muitos livros. Em um sábado à tarde, Skinner percebeu que as bolinhas de ração do rato estavam acabando. Naquela época, ou seja, na década de 1930, a ração animal não era adquirida pronta nas lojas de animais ou diretamente dos fabricantes. O pesquisador (ou o aluno de pós-graduação) tinha de prepará-las manual­mente, um processo trabalhoso que consumia muito tempo. Em vez de passar o fim de semana preparando as bolinhas, Skinner perguntou-se o que aconteceria se reforçasse os ratos apenas uma vez a cada minuto, independentemente do número de respostas que apresentassem. Desse modo, gastaria muito menos ração naquele fim de semana. Elabo­rou, assim, uma série de experiências para testar diferentes taxas e intervalos de reforço (Ferster e Skinner, 1957; Skinner, 1969).

Em uma série de estudos, comparou as taxas de resposta dos animais que recebiam um reforço por resposta sendo apresentado após um intervalo específico. A segunda condição era um programa de reforço com intervalo fixo. O novo reforço era dado uma vez a cada minuto ou uma vez a cada quatro minutos. O aspecto importante era a apresentação do reforço ao animal depois de um período fixo. Um emprego com sistema de pagamento semanal ou mensal proporciona o reforço em um intervalo fixo. A remuneração dos fun­cionários não é baseada no número de peças produzidas (o número de respostas), mas nos dias trabalhados. A pesquisa de Skinner demonstrou que, quanto menor o intervalo entre os reforços, mais rápida a resposta do animal. Quando o intervalo aumentava, a taxa de respostas diminuía.

A frequência dos reforços também contribui para a extinção de uma resposta. Elimi­na-se um comportamento com mais rapidez quando o reforço é contínuo e interrompido de repente, do que quando é intermitente. Alguns pombos apresentaram respostas até 10 mil vezes, mesmo sem reforço, quando foram originalmente condicionados com reforços intermitentes.

Em um esquema de razão fixa, o reforço não é apresentado depois de certo intervalo, mas depois de um número predeterminado de respostas. O comportamento do animal é que determina a frequência com que receberá o reforço. Talvez seja necessário respon­der 10 ou 20 vezes depois do reforço inicial antes de receber outro. Os animais em um esquema de razão fixa respondem com muito mais rapidez que os de intervalo fixo. Responder rapidamente em um esquema de intervalo fixo não proporciona nenhum reforço adicional; nesse esquema, mesmo que o animal pressione a barra 5 ou 50 vezes, receberá o reforço somente depois de passado o intervalo estabelecido. A alta taxa de resposta em um esquema de razão fixa funciona com ratos, pombos e seres humanos. Em um progra­ma salarial de razão fixa aplicado no ambiente de trabalho, o pagamento ou a comissão do empregado depende do número de itens produzidos ou vendidos. Esse esquema de reforço é válido somente se a razão não for elevada demais, ou seja, se foi requerida uma carga de trabalho exequível para se receber uma unidade de pagamento, e se o reforço específico recompensar o esforço.

Aproximação Sucessiva: a Formação do Comportamento

No experimento original de Skinner do condicionamento operante, esse (apertar uma alavanca) era um comportamento simples, esperado de um rato de laboratório, que po­deria possivelmente exibir ao explorar seu ambiente. Assim, a possibilidade de que tal comportamento ocorrerá é grande, supondo-se que o experimentador tenha paciência suficiente. Entretanto, é óbvio que os animais e humanos demonstrem comportamentos operantes muito mais complexos com pequena probabilidade de ocorrência no curso normal dos eventos. Lembre-se da sequência complicada de comportamentos exibida por Priscilla, o Porco Metálico, ou os surpreendentes feitos da Ave Inteligente que estavam sendo exibidos no Zoológico do QI. Como esses comportamentos complexos são aprendi­dos? Como pode um treinador ou um experimentador ou um pai reforçar e condicionar um animal ou uma criança a desempenhar comportamentos que provavelmente não ocorrem espontaneamente?

Skinner respondeu a essas perguntas com o método de aproximação sucessiva, ou modelagem (Skinner, 1953). Ele treinou uma pomba em um período muito curto a bicar um determinado lugar na sua gaiola. A probabilidade de que a pomba bicasse aquele lu­gar preciso era baixa. Primeiro a pomba foi reforçada com comida quando simplesmente se virava para a direção do lugar designado. Em seguida, o reforço foi retirado até que a pomba fizesse qualquer movimento, mesmo mínimo, em direção àquele local. Depois, o reforço era dado somente quando a pomba se aproximasse de lá. E, finalmente, reforço era dado somente quando seu bico tocasse o local. Embora isso tudo pareça tomar bastante tempo, Skinner condicionou pombos em menos de três minutos.

O procedimento experimental em si explica o termo "aproximação sucessiva". O organismo é reforçado à medida que seu comportamento ocorra em fases sucessivas ou consecutivas para se aproximar do comportamento final desejado. Skinner propôs a ideia de que é assim que as crianças aprendem o complexo comportamento da fala. Crianças pequenas espontaneamente emitem sons sem sentido, o que é reforçado pelos pais com sorrisos, risadas e conversas. Depois de um tempo os pais recompensam esses balbucios infantis de modos diferentes, oferecendo recompensas mais fortes para aqueles sons que se aproximam de palavras. À medida que o processo continua, o reforço paterno torna-se mais restrito, dado somente quando usado e pronunciado adequadamente. Assim, o com­ portamento complexo de se adquirir habilidades de linguagem é moldado ao se oferecer reforço diferenciado por fases.

Os Aparelhos de Condicionamento Operante de Skinner

Os aparelhos condicionantes de Skinner trouxeram-lhe fama entre os psicólogos, mas foi o "berço automático", aparelho para automatizar as tarefas de cuidar dos bebês, que lhe rendeu a notoriedade pública (Benjamin e Nielsen-Gammon, 1999). Quando Skinner e a esposa resolveram ter um segundo filho, ela disse que os dois primeiros anos do bebê requeriam muito trabalho; assim, Skinner inventou um ambiente mecanizado para ali­viar as tarefas rotineiras dos pais. Embora fosse comercialmente, o berço automático não obteve êxito. A filha de Skinner, criada nesse berço, aparentemente não apresentou efeitos negativos da experiência.

Skinner descreveu o aparelho pela primeira vez na revista Ladies Home Journal em 1945 e, mais tarde, na autobiografia. Era um espaço para viver do tamanho de um berço ao qual chamamos de "bebê-conforto". As paredes eram à prova de som e havia uma grande janela pintada. O ar entrava por filtros instalados na base e, depois de aquecido e umidificado, circulava por todos os lados e todas as bordas de uma lona bem esticada que servia de colchão. Uma espécie de tira de lençol com cerca de nove metros de comprimento passava sobre a lona, e uma parte limpa sua podia ser encaixada no lugar em alguns segundos. (Skinner, 1979, p. 275)

Outro equipamento apresentado por Skinner foi a máquina de ensinar, inventada na década de 1920 por Sidney Pressey. Infelizmente para ele, o aparelho era moderno demais para a sua época, e não houve interesse em continuar a sua comercialização (Pressey, 19671. Talvez as forças contextuais tenham sido responsáveis tanto pela falta de interesse, na épo­ca, como pelo ressurgimento entusiástico do mecanismo, mais ou menos 30 anos depois (Benjamin, 1988). Pressey introduziu a máquina, prometendo que ela ensinaria os alunos em um ritmo mais rápido, exigindo, assim, menos professores nas salas de aula. Na época, no entanto, havia excesso de professores e não existia pressão pública para a melhoria do processo de aprendizagem. Na década de 1950, quando Skinner promoveu um equipamento semelhante, havia falta de professores, excesso de estudantes e pressão pública para a melho­ria da educação, para que os Estados Unidos pudessem competir com a União Soviética na corrida espacial. Skinner resumiu o seu trabalho nessa área no livro The technology of teaching (1968). As máquinas de ensinar foram amplamente empregadas nas décadas de 1950 e 1960, até serem substituídas pelos métodos de ensino por computador.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Skinner, juntamente com as irmãs Breland, de­senvolveu um sistema de orientação para guiar as bombas lançadas dos aviões de guerra sobre alvos específicos em terra. Na ponta dos mísseis, ficavam pombos condicionados a dar bicadas ao avistarem o alvo. As bicadas afetavam o ângulo das alhetas dos mísseis, permitindo, assim, mirar corretamente o alvo. No entanto, o exército estadunidense pareceu não se impressionar quando abriram as alhetas dos mísseis e viram três pombos ao invés do sofisticado instrumento eletrônico que esperavam. Eles recusaram incorporar pombos ao arsenal de artilharia (Skinner, 1960).

Nas décadas de 1960 e 1970, Keller e Marian Breland trabalharam para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Elas 

condicionaram arenques e gaivotas a pesquisarem áreas a uma distância de 360 graus sobre lagos e oceanos, ensinaram pombos a voar ao longo de uma estrada para encontrar atiradores e condicionaram corvos a desempenharem tarefas complexas de longa distância, como fotografar, segurando pequenas câmeras nos seus bicos. Era impressionante que embora tivessem a chance de escapar do cativeiro, esses animais constantemente voltavam depois de desempenharem suas tarefas. (Gillaspy e Bihm, 2002, p. 293)

Walden Two - uma Sociedade do Futuro

Skinner planejou minuciosamente uma tecnologia do comportamento, na tentativa de aplicar as descobertas feitas no laboratório à sociedade. Enquanto Watson falava, em geral sobre a construção de uma base para uma vida mais saudável por meio do condicionamento, Skinner descrevia em detalhes o funcionamento dessa sociedade. No seu romance, Walden two (1948), descreve a vida de uma comunidade rural de mil habitantes, cujo comporta­mento é controlado por reforços positivos. O livro resultou da crise pessoal de meia-idade de Skinner, depressão que sofrera aos 41 anos. A fim de sair da crise, retomou a sua iden­tidade pós-universitária de escritor, expressando os conflitos e desesperos por meio da personagem principal da história, T. E. Frazier. Skinner afirmou: "Grande parte da vida em Walden two retratava a minha vida daquela época. Deixei Frazier dizer coisas que eu mesmo ainda não estava preparado para contar a ninguém" (1979, p. 297-298).

Skinner retratou no romance uma sociedade com base nas suposições a respeito da semelhança entre o homem e a máquina. Essa ideia reflete a linha de pensamento traçada desde Galileu e Newton, passando pelos empiristas britânicos até chegar a Watson e Skin­ner. A visão da ciência natural determinista, analítica e mecanicista de Skinner, reforçada pelos resultados de seus experimentos sobre condicionamento, convenceu vários psicólogos behavioristas de que o comportamento humano pode ser guiado, modificado e modelado com o conhecimento das condições ambientais e a aplicação do reforço positivo.

Modificação de Comportamento

A sociedade de Skinner baseada no reforço positivo existe apenas na ficção. No entanto, o controle ou a modificação do comportamento humano, de forma individual ou em pequenos grupos, são amplamente aceitos. A modificação de comportamento mediante - reforço positivo é aplicada clinicamente com frequência em hospitais de saúde mental, fabricas, prisões e escolas para alterar os comportamentos indesejáveis, transformando-os em mais aceitáveis. A modificação de comportamento funciona com as pessoas da mesma forma que o condicionamento operante o faz para alterar o comportamento de ratos e pombos, ou seja, reforçando o comportamento desejado e não reforçando o indesejado.

Pense em uma criança que vive fazendo cenas para obter comida ou chamar a atenção. Quando os pais acabam cedendo, estão reforçando o comportamento inadequado. Na situação de modificação de comportamento, chutes ou gritos jamais devem ser reforçados, somente os comportamentos aceitáveis socialmente o devem ser. Depois de algum tempo, o comportamento da criança acaba mudando, porque os ataques de teimosia não surtem mais efeito na obtenção de recompensas, enquanto o comportamento adequado é recompensado.

O condicionamento operante e o reforço vêm sendo aplicados em ambientes de trabalho, em que os programas de modificação de comportamento visam reduzir as faltas, melhorar o desempenho do trabalho e as práticas de segurança, além de aperfeiçoamento de habilidades na função. A modificação de comportamento também serve para alterar o comportamento dos pacientes em hospitais de saúde mental. Pode-se induzir a modificação para um comportamento positivo, recompensando o paciente com fichas que podem se trocadas por mercadorias ou privilégios, e não reforçando o comportamento negativo ou agressivo. Ao contrário das técnicas clínicas tradicionais, o psicólogo behaviorista, nessa situação, não se preocupa em saber o que se passa na mente do paciente, assim como o experimentador não se importa com as atividades mentais do rato na caixa de Skinner. O enfoque concentra-se exclusivamente no comportamento aberto e no reforço positivo.

As pesquisas têm mostrado que os programas de modificação de comportamento normalmente têm êxito somente dentro das organizações ou instituições em que são apli­cados. Os efeitos raramente são transferidos para situações externas porque o programa de reforço teria de ser continuado, mesmo de modo intermitente, para que as mudança desejadas persistissem. No caso de pacientes, por exemplo, isso pode ser feito em casa com acompanhantes treinados para reforçar o comportamento desejável com sorrisos, elogios ou outros sinais de afeto e aprovação.
A punição não faz parte do programa de modificação de comportamento. De acordo com Skinner, as pessoas não devem ser punidas por não se comportarem da forma dese­jada. Ao contrário, devem ser reforçadas ou recompensadas quando mudarem o compor­tamento na direção positiva. A posição de Skinner de que o reforço positivo é mais eficaz do que a punição para alterar o comportamento é comprovada por várias pesquisas com animais e seres humanos.

As Críticas ao Behaviorismo de Skinner

As críticas ao behaviorismo de Skinner tinham como alvo o seu extremo positivismo e a oposição à teoria, a qual seus oponentes alegavam ser impossível eliminar completamen­te. O planejamento prévio dos detalhes de um experimento é uma evidência da teoriza­ção, mesmo sendo uma teoria simples. Além disso, a aplicação dos princípios básicos de condicionamento como quadro de referência para a sua pesquisa também constitui um grau de teorização.

Skinner emitia afirmações ousadas a respeito das questões econômicas, sociais, polí­ticas e religiosas derivadas do seu sistema. Em 1986, escreveu um artigo com título bem abrangente "What is wrong with life in the western world?" (“O que há de errado com a vida no mundo ocidental?"). Afirmava que o "comportamento humano ocidental se enfraquecera, mas pode ser fortalecido com a aplicação dos princípios derivados da análi­se experimental do comportamento" (Skinner, 1986, p. 568). Essa disposição de extrapo­lar os dados, especialmente para propor soluções aos problemas humanos complexos, é inconsistente com a posição antiteórica e mostra que Skinner rompeu os limites dos dados observáveis ao apresentar seu esquema de reestruturação da sociedade.

A afirmação de Skinner de que todo comportamento é aprendido foi rebatida pelo trabalho de treinamento animal dos Brelands. Eles constataram que o porco, a galinha, o hamster, o boto, a baleia, a vaca e outros animais demonstraram uma propensão à 'transferência instintiva", ou seja, que tendiam a substituir o comportamento instintivo pelo comportamento reforçado, mesmo que o comportamento instintivo interferisse na
obtenção de comida.

Utilizando a comida como reforço, o porco e o guaxinim rapidamente se condiciona­vam a apanhar uma moeda, carregá-la por uma certa distância e colocá-la em um banco de brinquedo. Depois de certo tempo, no entanto, os animais começavam a apresentar comportamentos indesejados.

O porco parava pelo caminho, enterrava a moeda na areia e a retirava com o focinho; o guaxinim ficava bastante tempo mexendo na moeda e fazendo movimentos como se estivesse se lavando. No começo, pareceu interessante, mas acabava consumindo tempo demais e fazia o show parecer cheio de falhas para o espectador. Comercialmente, foi desastroso. (Richelle, 1993, p. 68)

O que estava acontecendo era uma transferência instintiva. O animal revertia o com­portamento inato que tinha precedência sobre o comportamento aprendido, mesmo que atrapalhasse na obtenção do alimento. Nesse caso, o reforço evidentemente não era tão eficaz quanto afirmava Skinner.

As visões de Skinner sobre o comportamento verbal e a explicação sobre como a criança aprendia a falar também foram contestadas. Os críticos insistiam em afirmar que alguns comportamentos seriam inatos. Os bebês não aprendem a língua, palavra por palavra, porque recebem reforço por seu uso ou sua pronúncia corretos. Ao contrário, eles dominam as regras gramaticais necessárias para produzir frases. O potencial para cons­truir essas regras, de acordo com essa argumentação, é inato e não adquirido (Chomsky, 1959, 1972).

As Contribuições do Behaviorismo de Skinner

Apesar dessas críticas, Skinner foi o campeão inconteste da psicologia behaviorista entre as décadas de 1950 e 1980. Durante esse período, a psicologia estadunidense foi moldada muito mais pelo seu trabalho do que pelas ideias de qualquer outro psicólogo. Em 1958, a APA outorgou a Skinner o Distinguished Scientific Contribution Award [Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica], observando que "poucos psicólogos estadunidenses exerceram tamanho impacto no desenvolvimento da psicologia e nos jovens promissores psicólogos".

Em 1968, Skinner recebeu a National Medal of Science [Medalha Nacional da Ciên­cia] , a mais alta honraria concedida pelo governo estadunidense, por causa das contribuições à ciência. A American Psychological Foundation [Fundação Americana de Psicologia] concedeu a Skinner o Gold Medal Award [Prêmio da Medalha de Ouro], e ele foi capa da revista Time. Em 1990, foi homenageado com a citação presidencial da APA por uma vida de contribuições à psicologia.

O objetivo geral de Skinner era a melhoria da vida humana e da sociedade. Apesar da natureza mecanicista do seu sistema, ele era humanista, qualidade expressa nos seus esforços para modificar o comportamento nos ambientes do mundo real - como nos lares, escolas, empresas e instituições. Esperava que a sua tecnologia do comportamento ajudasse a aliviar o sofrimento humano e sentia-se muito frustrado ao ver que as suas ideias, embo­ra populares e influentes, não eram aplicadas de forma mais sábia e mais ampla.

Embora o tipo de behaviorismo de Skinner continue a ser aplicado em laboratórios, clínicas, empresas e outros ambientes do mundo real, foi contestado pelo trabalho do neo-neobehavioristas, incluindo Albert Bandura e Julian Rotter, entre outros, que adotam uma abordagem mais sociobehaviorista.

Behaviorismo Social: o Desafio Cognitivo

Bandura, Rotter e outros seguidores da abordagem sociobehaviorista eram, em princípio, behavioristas, mas adotavam uma forma de behaviorismo bem distinta da de Skinner. Eles questionavam a sua total negação aos processos mentais ou cognitivos e propunham em seu lugar uma aprendizagem social ou uma abordagem sociobehaviorista, uma reflexão sobre um movimento cognitivo mais amplo na psicologia como um todo. As teorias de aprendizagem social marcam o terceiro estágio (o estágio neo-neobehaviorista) no desen­ volvimento da escola de pensamento behaviorista. A origem e o impacto do movimento cognitivo serão abordados integralmente no Capítulo 15. 

Albert Bandura (1925-)

Albert Bandura nasceu no Canadá, em uma cidade tão pequena que a escola secundária tiha somente 20 alunos e 2 professores. Seus pais eram imigrantes da Europa Oriental, com pouca educaçao formal, mas que a valorizaram muito para seu filho. Depois de terminar o colegial, Albert trabalhou na construção civil no território Yukon, tapando buracos em uma estrada do Alasca. "Vendo-se no meio de diversas personalidades curiosas, muitas das quais fugindo dos credores, de pensões e de funcionários da justiça, [Bandura] desenvolveu rapidamente uma profunda admiração pela psicopatologia da vida cotidiana, que parecia brotar da rigorosa tundra" (Distinguished Scientific Contribution Award, 1981, p 28)

Bandura se matriculou na University of British Columbia, em Vancouver, onde fez um curso de psicologia, mas só porque estava sendo oferecido em um horário conveniente e não porque tivesse qualquer interesse no assunto. No entanto, verificou que gostava da área e decidiu continuar nela. Obteve o diploma de Ph.D. pela University of Iowa em 1952 e daí para a frente teve uma carreira brilhante e altamente produtiva em Stanford University.

A Teoria Social Cognitiva

A teoria social cognitiva de Bandura é uma forma de behaviorismo menos radical que a de Skinner e reflete o espírito dos tempos, o impacto do renovado interesse da psicologia nos fatores cognitivos. Mesmo assim, a visão de Bandura ainda era behaviorista. Sua pes­quisa tmha como meta observar o comportamento dos indivíduos durante a interação não usava a introspecção nem enfatizava a importância da recompensa ou do reforço na aquisição ou modificação do comportamento.

Além de ser uma teoria behaviorista, o sistema de Bandura era cognitivo. Ele enfa­tizava a influência dos esquemas de reforço externo dos processos de pensamento, tais como crenças, expectativas e instrução. Para Bandura, respostas comportamentais não são disparadas automaticamente por um estímulo externo, como em uma máquina ou em um robô. Ao contrário, as reações aos estímulos são autoativadas, iniciadas pela pró­pria pessoa. Quando um reforço externo altera o comportamento, é porque a pessoa tem consciência da resposta que está sendo reforçada e antecipa a recepção do mesmo reforço ao repetir o comportamento da próxima vez em que a situação ocorrer.

Embora Bandura concordasse com Skinner a respeito da possibilidade de mudar o compor­tamento humano por meio do reforço, também sugeriu e demonstrou, na prática, a capacidade de as pessoas aprenderem quase todos os tipos de comportamento sem receberem diretamente qualquer reforço. Para ele, não é necessário receber sempre um reforço para se aprender algo. A aprendizagem também ocorre por meio do reforço vicário, ou seja, mediante a observação tanto do comportamento das outras pessoas como das suas consequências. 

A capacidade de aprender por meio de exemplos e de reforço vicário parte do prin­cípio de que somos capazes de antecipar e avaliar as consequências que observamos nas outras pessoas, mesmo não passando pela mesma experiência. É possível controlar o pró­prio comportamento, observando as consequências, ainda que não experimentadas, de determinado comportamento e fazendo uma opção consciente de agir ou não da mesma forma. Bandura acredita não existir uma ligação direta entre estímulo e resposta, ou entre comportamento e reforço, como afirmava Skinner. Para ele, há um mecanismo interposto entre o estímulo e a resposta, que nada mais é do que o processo cognitivo do indivíduo.

Desse modo, o processo cognitivo exerceu um papel importante na teoria social cog­nitiva de Bandura, diferenciando a sua visão da de Skinner. Na opinião de Bandura, não é o esquema de reforço em si que produz efeito na mudança do comportamento de uma pessoa, mas o que ela pensa desse esquema. A aprendizagem ocorre não pelo reforço dire­to, mas por meio de "modelos", observando o comportamento de outras pessoas e nele fundamentando os próprios padrões. Para Skinner, o controlador do reforço regula o com­portamento. Para Bandura, o controlador do modelo social regula o comportamento.

Bandura conduziu pesquisas completas sobre as características dos modelos que influenciam o comportamento humano. A tendência do indivíduo é modelar o próprio compor­tamento com base nas pessoas do mesmo sexo e idade, ou seja, nos nossos semelhantes que conseguiram resolver os problemas similares aos nossos. Há uma propensão também de se deixar impressionar por modelos de prestígio e status superiores ao nosso. O tipo de comportamento envolvido afeta a amplitude da imitação. A tendência é de imitar mais os comportamentos simples do que os extremamente complexos. A hostilidade e a agressividade tendem a ser muito imitadas, principalmente pelas crianças (Bandura, 1986). Assim, o que se vê na vida real ou na mídia, muitas vezes, determina o nosso comportamento.

A abordagem de Bandura consiste em uma teoria de aprendizagem "social", porque estuda iformação e a modificação do comportamento nas situações sociais. Bandura criticou Skinner por usar apenas um único sujeito na observação (na maioria das vezes, ratos e pombos) em vez de pessoas interagindo umas com as outras. Poucas pessoas vivem isoladas socialmente. Bandura afirmava que os psicólogos não devem considerar relevantes para o mundo moderno as descobertas de pesquisas que ignorem as interações sociais.

A Autoeficácia

Bandura realizou muitas pesquisas sobre a autoeficácia, descrita como o senso de autoestima ou valor próprio, o sentimento de adequação, eficácia e competência para enfrentar os problemas (Bandura, 1982). Seu trabalho demonstrou que as pessoas com grau elevado de autoeficácia acreditam ser capazes de lidar com os diversos acontecimentos da vida. Um pesquisador a descreveu simplesmente como "o poder de acreditar que se consegue fazer coisas", acrescentando que "acreditar que consegue realizar o que quer é um dos ingredientes mais importantes na receita para o sucesso" (Maddux, 2002, p. 277).

As pessoas com baixo grau de autoeficácia sentem-se inúteis, sem esperança, acredi­tam que não conseguem lidar com as situações que enfrentam e que têm poucas chances de mudá-las. Diante de um problema, tendem a desistir na primeira tentativa frustrada. Não acreditam que a sua atitude faça alguma diferença nem que controlam e podem mudar o próprio destino.

A pesquisa de Bandura mostrou que a crença no nível de autoeficácia influencia vários aspectos da vida. Por exemplo, pessoas com elevado grau de autoeficácia tendem a obter notas altas, a analisar mais opções de carreira, a obter maior sucesso profissional, a esta­belecer metas pessoais mais altas e a apreciar mais a saúde mental e física do que as com baixa autoeficácia. No geral, constatou-se que o homem tem a autoeficácia mais elevada do que a mulher. Tanto no homem como na mulher, o pico da autoeficácia ocorre na meia-idade e diminui depois dos 60 anos.
Parece óbvio que o alto grau de autoeficácia produz efeitos positivos em praticamen­te todos os aspectos da vida. O estudo demonstrou que as pessoas com grau elevado de autoeficácia sentem-se melhor e mais saudáveis, menos estressadas, suportam mais a dor física e tendem a recuperar-se mais rapidamente de uma doença ou de uma cirurgia do que as de baixa autoeficácia. Esta afeta também o desempenho escolar e profissional. Por exemplo, constatou-se que empregados com elevado grau de autoeficácia sentem-se mais realizados profissionalmente, são mais comprometidos com a empresa e mais motivados para realizar bem as tarefas e os programas de treinamento do que os funcionários de baixa autoeficácia (Salas e Cannon-Bowers, 2001).

Bandura descobriu também que os grupos desenvolvem níveis coletivos de eficácia que influenciam no desempenho de diversas tarefas. A pesquisa com grupos como equi­pes de esportes, departamentos corporativos, unidades militares, comunidades de bairro e grupos de ação política mostrou que "quanto mais intensamente percebida a eficácia coletiva, mais elevadas são as aspirações do grupo e maior é a motivação para as realizações; quanto mais intensa a persistência diante de impedimentos e obstáculos mais ele­vados são o moral e a capacidade de recuperação diante do estresse, e maior a realização de proezas" (Bandura, 2001, p. 14).

A Modificação de Comportamento

A proposta de Bandura para o desenvolvimento de uma abordagem social cognitiva para o behaviorismo consistia em alterar ou modificar comportamentos considerados social­mente anormais ou indesejáveis. Ele pensou que, se todo comportamento é aprendido observando outras pessoas e modelando o nosso comportamento de acordo com o delas, então é possível alterar ou reaprender o comportamento indesejável também por meio da observação. Assim como Skinner, Bandura concentrava-se nos fatores externos, ou seja, no comportamento em si e não em alguma consciência interna presumida ou em algum conflito inconsciente. Para Bandura, o tratamento do sintoma significa tratar o distúrbio porque sintoma e distúrbio são a mesma coisa.

As técnicas de modelação são usadas para modificar o comportamento, fazendo com que o indivíduo observe um modelo em uma situação que normalmente provoque certo grau de ansiedade. Por exemplo, uma criança que tem medo de cachorro observa outra da mesma idade - o modelo - aproximar-se do animal e acariciá-lo. Observando de uma distancia segura, a criança vê o modelo realizar movimentos progressivos, aproximando-se aos poucos do cachorro. O modelo acaricia o cão pelas barras do cercadinho e, em seguida, entra e brinca com o animal. Como resultado dessa situação de aprendizagem por observação, o medo da criança pode ser reduzido. Em uma variação dessa técnica, pessoas assistem a modelos brincarem com objetos temidos, como uma cobra, e então os próprios indivíduos realizam movimentos progressivos de aproximação em direção ao objeto, até se sentirem realmente capazes de tocá-lo.

A forma de terapia do comportamento de Bandura é amplamente empregada em clínicas, empresas e salas de aula e tem sido comprovada por centenas de estudos experimentais. Esse método tem sido eficaz na cura da fobia de cobras, espaços fechados, espaços abertos e altu­ras. Também é válido no tratamento dos distúrbios obsessivo-compulsivos, das disfunções sexuais e de algumas formas de ansiedade, além de ser eficaz no aumento da autoeficácia

O trabalho de Bandura vem sendo adaptado para programas de rádio e televisão com o objetivo de apresentar modelos de comportamento adequados para tratar de problemas sociais e nacionais, como a prevenção de gravidez indesejada, controle da disseminação da AIDS e redução do analfabetismo. Esses programas baseiam-se em personagens fictícias atuando como modelos para que os ouvintes e telespectadores simulem a mudança do comportamento. Pesquisas realizadas com tais simulações em rádios e televisões compro­vam o aumento significativo do comportamento adequado, tais como a prática de sexo seguro, o planejamento familiar e a melhoria do status da mulher (Smith, 2002a).

Comentários

Como era de se esperar, os behavioristas tradicionais criticaram o behaviorismo social cog­nitivo de Bandura, alegando que os processos cognitivos, como a crença e a antecipação, não causam efeito no comportamento. A resposta de Bandura foi a seguinte: "É interessan­te observar os behavioristas radicais afirmarem que o pensamento não exerce influência, enquanto dedicam um tempo razoável com palestras, artigos e livros em um esforço para convencer as pessoas a adotarem a sua forma de pensamento" (apud Evans, 1989, p. 83)

A teoria social cognitiva tem sido amplamente aceita na psicologia como uma forma eficaz para o estudo do comportamento em laboratórios e para modificá-lo nos ambien­tes clínicos. Além disso, as contribuições de Bandura foram amplamente reconhecidas pelos colegas. Ele presidiu a APA em 1974 e, em 1980, recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Cientifica da APA. Em 2004 recebeu o prêmio Outstanding Contribution to
Psychology Award
, da APA, e em 2006 recebeu o American Psychological Foundation's Gold Medal Award for Life Achievement in the Science of Psychology.

Sua teoria e a terapia de modelos dela derivada ajustam-se à forma prática e funcional da psicologia estadunidense contemporânea. A sua abordagem é objetiva e adaptável aos métodos precisos de laboratório. Atende aos anseios do clima intelectual corrente que se concentra nas variáveis cognitivas internas, além de ser aplicável às questões da vida real.

Julian Rotter (1916-2014)

Julian Rotter cresceu no bairro do Brooklyn, em Nova York. A família levou uma vida confortável até seu pai perder os negócios no início da Grande Depressão de 1929. Essa desastrosa mudança no cenário econômico marcou a guinada na vida de Rotter, na época com 13 anos. Ele declarou que "essa experiência despertou a minha eterna preocupação com a injustiça social e proporcionou-me uma grande lição de como a personalidade e o comportamento são influenciados pelas condições situacionais" (Rotter, 1993, p. 274)

Durante o ensino médio, Rotter descobriu os livros de psicanálise de Sigmund Freud e de Alfred Adler. Como brincadeira, começou a interpretar os sonhos dos colegas e resolveu que desejava se tornar psicólogo. Decepcionado ao descobrir a pouca disponibilidade de empregos para psicólogos, decidiu formar-se em química na Brooklyn College. No entan­to, ao ingressar na faculdade, conheceu, por acaso, Adler e resolveu afinal mudar para a psicologia, mesmo sabendo ser ela impraticável. Desejava seguir a carreira acadêmica, mas a discriminação contra os judeus frustrou suas expectativas. "Tanto na Brooklyn College como no curso de pós-graduação, fui alertado de que os judeus simplesmente não
conseguiam obter posições acadêmicas, independentemente das credenciais. Os alertas se confirmaram" (Rotter, 1982, p. 346). Depois de obter o Ph.D. na Indiana University, em 1941, aceitou um emprego em um hospital de saúde mental em Connecticut. Serviu o exército estadunidense como psicólogo durante a Segunda Guerra Mundial, lecionou na Ohio State University até 1963 e foi para a University of Connecticut. Em 1988, recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica da APA.

Os Processos Cognitivos

Rotter foi o primeiro psicólogo a utilizar o termo "teoria da aprendizagem social" (Rotter 1947). Ele desenvolveu uma forma de behaviorismo que, como a de Bandura, inclui referências às experiências subjetivas internas. Desse modo, o seu behaviorismo é menos radical do que o de Skinner.
Criticado por Rotter por estudar os indivíduos isoladamente, afirmando que a aprendi­zagem do comportamento ocorre principalmente mediante experiências sociais. A pesquisa de laboratório de Rotter era rigorosa e bem controlada, típica do movimento behaviorista. Ele realizou pesquisas somente com pessoas em situações de interação social.

Rotter enfatizava mais amplamente os processos cognitivos do que Bandura. Acredi­tava que os indivíduos se percebem como seres conscientes capazes de mudar as próprias vidas, e que o comportamento é determinado pelo estímulo externo e pelo esforço que oferece - no entanto, a influência relativa desses dois fatores é intermediada pelos proces­sos cognitivos. Rotter esboçou quatro princípios regentes dos resultados comportamentais (Rotter, 1982).

  • O indivíduo cria expectativas subjetivas em relação às consequências ou aos resultados do seu comportamento com base na quantidade e no tipo de reforço que recebe;
  • Ele calcula a probabilidade de determinado comportamento conduzir a um refor­ço específico e o ajusta apropriadamente;
  • Atribui valores diferentes para os diversos reforços e avalia o seu valor relativo nas variadas situações;
  • Como cada indivíduo apresenta um comportamento exclusivo e único no ambien­te psicológico, o mesmo reforço pode adquirir diferentes valores para diversas pessoas.

Desse modo, para Rotter, os valores e as expectativas subjetivas, que consistem em estados cognitivos internos, determinam os efeitos das diferentes experiências externas (estímulos e reforços externos diferentes) sobre o indivíduo.

Locus de Controle

Rotter concentrou razoável pesquisa nas crenças a respeito da origem do reforço. Algumas pessoas consideram o reforço dependente do próprio comportamento e alegam a existên­cia de um locus de controle interno. Outras pessoas acreditam no reforço dependente das forças externas - como o destino, a sorte ou as atitudes de outros indivíduos; alegam a existência do locus de controle externo (Rotter, 1966).

Obviamente, tais percepções acerca da origem do controle exercem variadas influências sobre o comportamento. Para as pessoas que percebem a existência do locus de controle exter­no, as próprias habilidades e ações não exercem muita influência nos reforços que recebem.

Convencidas da falta de poder em relação às forças externas, não se esforçam em tentar mudar ou melhorar a situação. As pessoas que percebem a existência do locus de controle interno acreditam ser responsáveis pela própria vida e por isso atuam apropriadamente. A pesquisa de Rotter demonstrou que as pessoas com locus de controle interno tendem a ser física e mentalmente mais saudáveis do que as outras. Em geral, sua pressão sanguí­nea é mais baixa, apresentam menos infartos, ansiedade e depressão e são mais hábeis ao lidarem com o estresse. Obtêm as melhores notas na escola e acreditam ter maior liberdade de escolha. São mais populares e sociáveis e apresentam elevado grau de autoestima. Além disso, o trabalho de Rotter sugere que o locus de controle é adquirido na infância por meio do comportamento dos pais e dos responsáveis pela criação. Pais de adultos com locus de controle interno tendem a ser solidários, generosos ao elogiarem as realizações (reforço positivo), coerentes na disciplina e a demonstrarem atitudes não autoritárias.

Rotter desenvolveu um teste para medir o locus de controle, que consiste em 23 ques­tões com alternativas obrigatórias; a pessoa deve escolher uma das duas opções que melhor descreva as suas crenças (veja na Tabela 11.1).

Exemplos da Escala l-E (Locus de Controle Interno-Externo)

Uma descoberta ao acaso. Relembremos o caso da descoberta acidental de Skinner do esquema de reforço, resultado do acaso, por ele não desejar passar o fim de semana no laboratório preparando as bolinhas de ração para os ratos. Percebemos que a ciência nem sempre avança na forma sistemática e racional descrita na maioria dos livros. Os fatores casuais ocorrem para moldar o desenvolvimento de um campo de estudo. A conceituação de Rotter sobre o locus de controle, que ele considerava a sua descoberta mais importante, ocorreu por acaso, em virtude de um comentário eventual de um colega.

Rotter conduzia um experimento em que as pessoas trabalhavam com um conjunto de cartões, tentando adivinhar se no reverso de cada um havia a figura de um quadrado ou de um círculo. Elas foram informadas de que estavam sendo testadas a respeito da per­cepção extrassensorial (PES). Depois de terminar uma série de cartões, elas deviam tentar calcular quantos acertos obteriam na segunda série.

Alguns indivíduos afirmavam que acertariam menos, pois acreditavam que os acertos da primeira tentativa foram apenas questão de sorte. Outros alegavam que se desempenha­riam melhor, pois acreditavam que os acertos da primeira tentativa foram por causa de sua capacidade de percepção extrassensorial, a qual esperavam aperfeiçoar com a prática.

Ao mesmo tempo que estava envolvido com essa pesquisa, Rotter supervisionava o trei­namento clínico de E. Jerry Phares. Phares contou a Rotter sobre um paciente insatisfeito com a sua falta de vida social. Pressionado por Phares, o rapaz foi a uma festa e dançou com várias mulheres, mas, mesmo com o aparente sucesso social, sua visão não mudou. Ele afirmou a Phares que fora apenas uma questão de sorte. "Jamais vai se repetir."

Quando Rotter ouviu a história, ocorreu-lhe uma ideia. Ele observou que nas experiências há sempre algumas pessoas cujas expectativas, assim como a desse paciente, nunca melhoram mesmo ante o êxito.

Eu e meu aluno de pós-graduação reali­zamos várias experiências em que manipulávamos o êxito ou o fracasso dos voluntários. (...) Alguns voluntários, mesmo quando informados de que estavam corretos ou errados a maioria das vezes, não mudavam suas expectativas de que cometeriam mais erros na próxima tentativa. Outros, independentemente do que lhes era dito, acreditavam que se desempenhariam melhor na vez seguinte. Nesse momento, juntei os dois lados do meu trabalho - o cientista e o empirista - e formulei a hipótese de que algumas pessoas acreditam em forças externas que, de uma forma ou outra, regem os acontecimentos da vida, enquanto outras creem na capacidade própria e no esforço individual como determinantes dos próprios destinos. (Rotter apud Hunt, 1993, p. 334)

Deixamos as dúvidas quanto a se Rotter teria desenvolvido a ideia do locus de controle caso o paciente de Phares houvesse mudado de posição sobre a sua popularidade depois do baile.

Comentários

A teoria da aprendizagem social de Rotter atraiu muitos seguidores que, a princípio, seguiam a orientação experimentalista, mas concordavam com a importância das variáveis cogni­tivas no impacto do comportamento. O rigor e o controle da sua pesquisa obedecem aos padrões permitidos de acordo com o assunto, e ele define os seus conceitos com a precisão que os torne passíveis de testes experimentais. Vários estudos de pesquisa, principalmente a respeito do locus de controle interno e externo, sustentam a sua abordagem. Rotter afir­ma que o centro de controle tornou-se "uma das variáveis mais estudadas na psicologia e nas demais ciências sociais" (Rotter, 1990, p. 489).

O Destino do Behaviorismo

Apesar de o debate interno a respeito da questão cognitiva no behaviorismo ter provoca­do mudanças no movimento behaviorista, que se seguiram desde Watson até Skinner, é importante lembrar que Bandura, Rotter e outros neo-neobehavioristas defensores da abor­dagem cognitiva ainda se consideram behavioristas. Podemos chamá-los de behavioristas metodológicos, porque se referem aos processos cognitivos internos como parte do objeto de estudo da psicologia, enquanto os behavioristas radicais acreditam que a disciplina deva se dedicar ao estudo do comportamento público e do estímulo ambiental, e não dos estados internos presumidos. Watson e Skinner eram behavioristas radicais. Hull, Tolman, Bandura e Rotter podem ser classificados como behavioristas metodológicos.

O domínio do tipo de behaviorismo de Skinner chegou ao auge na década de 1980 e diminuiu depois da sua morte, em 1990. Até o laboratório de pombos da Harvard, criado por Skinner em 1948, foi fechado em 1998 (Azar, 2002). Skinner admitia que a sua forma de behaviorismo estava perdendo terreno e que o impacto da abordagem cognitiva aumentava. Outros pesquisadores concordam, observando que "menos especialistas das principais univer­sidades hoje se denominam behavioristas no sentido tradicional. Na verdade, 'behaviorismo' é geralmente mencionado como algo pertencente ao passado" (Baars, 1986, p. 1).

O behaviorismo que permanece vivo na psicologia contemporânea, principalmente na psicologia aplicada, é diferente daquele que surgiu nas décadas entre o manifesto de Watson, de 1913, e a morte de Skinner. Assim como ocorre com todo movimento evolutivo na ciência e na natureza, as espécies continuam a evoluir. Nesse sentido, o behaviorismo sobrevive no espírito e não na realidade da intenção do seu fundador.
 

Psicologia - História da Psicologia
2/25/2020 1:44:24 PM | Por Stuart B. Schwartz
Livre
Império marítimo português: o Estado da Índia

Como sistema econômico, o Estado da índia era efetivamente a articulação da «carreira da índia», a grande rota transoceânica que ligava Lisboa ao colonato português de Goa, na costa ocidental da India, e a uma série de escalas que conectavam vários lugares da Ásia a Goa e à carreira. Os Portugueses procuraram monopolizar o comércio do oceano Indico, eliminando rivais poderosos (Turcos, Mamelucos e Guzerates) e controlando o comércio a partir de uma série de feitorias e fortalezas que vieram a estender-se de Sofala (África Oriental) a Ormuz (golfo Pérsico), Cochim (índia Ocidental), Malaca (Malásia) e além-Macau (China). A alfândega da Casa das índias, em Lisboa, o vice-rei e outros agentes régios presentes nos portos e feitorias do oceano índico administravam o monopólio real sobre a pimenta, a canela e outras especiarias. Durante a primeira metade do século XVI, este sistema proporcionou lucros consideráveis à coroa. Contudo, após a penetração portuguesa original e as primeiras vitórias militares, o comércio local do oceano índico recuperou e encontrou maneiras de abastecer as antigas rotas das caravanas para o Médio Oriente. As contínuas tentativas portuguesas para estrangular este comércio concorrente fizerem disparar os custos da operação imperial e acabaram por se revelar infrutíferas. A política foi alterada. Em vez de eliminarem o comércio local, os Portugueses procuraram controlar e taxar o comércio privado através de um sistema de «cartazes» (licenças), que gerou receitas apreciáveis para o Estado da índia mas permitiu o desenvolvimento das rotas alternativas do comércio das especiarias e minou o monopólio da carreira, que continuava a ser a principal aposta da coroa.

Embora fosse enviada para a Europa, pelo cabo da Boa Esperança, toda uma variedade de produtos, em especial canela, cravinho e outras especiarias, o grosso, em valor e volume, era constituído pela pimenta. A frota de 1518, por exemplo, transportou 1000 toneladas métricas de pimenta, 95% da carga total, e durante todo o século XVI a pimenta foi o bem mais transacionado do comércio real. Mas os grandes navios da carreira também transportavam os produtos dos comerciantes privados, e embora a sua parte do espaço representasse apenas 25%-30% da tonelagem, o valor dos seus bens era superior a 90% do valor total - e estes números não têm em conta o contrabando. Eram transportadas especiarias, tecidos, jóias e outros artigos de luxo, mas na década de 1580 os têxteis foram predominantes. Este padrão manteve-se durante boa parte do século XVII.

Os navios que zarpavam da Europa transportavam colonos, soldados e funcionários, alguns artigos de luxo e - de suma importância - dinheiro para pagar os produtos asiáticos e os custos militares e administrativos do império. O Quadro 1.1 apresenta, por decênio, números de tonelagens relativos às partidas e chegadas em ambos os sentidos. Mostra um período de grande atividade entre 1531 e 1540, seguido de um longo período de relativa estabilidade entre as viagens de ida e as de volta. Entre 1541 e 1600 viajaram cerca de 20% mais navios para a Ásia do que para a Europa. A taxa de perdas nas viagens para a Ásia foi de cerca de 13%, e um pouco mais elevada, 17%, em sentido contrário. Embora o nível de atividade variasse anualmente, durante os setenta anos do século XVI para os quais possuímos estimativas entre cinco e seis navios deslocaram-se anualmente em ambos os sentidos para assegurarem a carreira.

O monopólio português do comércio do oceano Indico foi um sonho nunca realizado devido à concorrência, e o comércio privado levado a cabo por funcionários régios, soldados e mercadores também minou o controle exclusivo do comércio índico por parte da coroa. A partir da década de 1550, as concessões a administradores reais e a mercadores privados, por outorga ou compra, criaram um sistema de escalas comerciais que ligou a Indonésia, a baía de Bengala e outras áreas vizinhas ao comércio da carreira. A coroa obteve algumas receitas das taxas alfandegárias sobre este comércio e também da venda das rotas. Estima-se que o valor destas viagens concessionadas, como de Goa para Ormuz ou de Malaca para São Tomé, tenha sido o dobro das receitas da coroa com o comércio da carreira em um ano bom. A rota entre Macau e Nagasáqui, na qual os Portugueses trocavam seda chinesa por prata japonesa, ou a rota entre Macau e Manila, em que a prata mexicana era trocada por seda destinada aos compradores da Nova Espanha, do Peru e da própria Espanha continental, geravam grandes lucros, mas eram apenas dois dos muitos circuitos em que o «comércio local» indígena e o comércio privado português operavam no âmbito do sistema do oceano índico. De fato, como observou o historiador James Boyajian: «O sucesso do comércio privado português na Ásia e na rota do Cabo não foi um fenômeno isolado. Integrou um vasto mundo comercial asiático, no qual os Portugueses desempenharam um papel secundário em relação aos Guzerates, Chineses, Javaneses e Japoneses»[1].

As viagens e rotas concessionadas e o comércio costeiro ligavam-se depois a Goa e à carreira por comboios anuais e pelo comércio por via terrestre. Os Portugueses também investiram bastante neste tráfico. Cada rota contribuía para o vértice aparente do sistema, que continuava a ser a rota do Cabo. Goa recebia bens de toda a Ásia: de Macau, de Bengala, das Molucas, de Malaca. Entre 1580 e 1640, cerca de 75% do valor total dos produtos descarregados em Lisboa pela carreira provieram de Bijapur, perto de Goa, e das regiões mais distantes de Cambaia, Guzerate e Sinde. Em cada rota colaboravam comerciantes locais e negociantes portugueses, incluindo muitos cristãos-novos. Estes foram praticamente empurrados para fora do sistema entre 1640 e 1670, devido à pressão da Inquisição, mas os mercadores indígenas muçulmanos, hindus e cristãos demonstraram considerável engenho e capacidade para se adaptarem e explorarem o sistema comercial português em benefício próprio.

O que significava o império para a economia portuguesa nas primeiras décadas do século XVI, quando o comércio da Ásia começou a fazer sentir o seu impacto? Em 1506 as especiarias asiáticas representaram mais de um quarto das receitas anuais do reino. Em 1518-1519 este número subiu para quase 40%. Entre os produtos ultramarinos, as especiarias da índia constituíam, de longe, a categoria maior. No entanto, importa ter em conta que as rendas e taxas cobradas em Portugal e as receitas geradas pela alfândega de Lisboa continuaram a ser fontes importantes de rendimentos.

No fim do século XVI estava já definido o carácter essencial dos dois sistemas do Império Português. A atividade econômica portuguesa no seio do Estado da índia era quase exclusivamente militar e comercial, uma combinação do uso da força e do terror, em especial na parte ocidental do oceano índico, com uma inteligente atividade comercial na baía de Bengala e além-Malaca. A economia da colônia brasileira diferia essencialmente do império além-cabo da Boa Esperança. Nas ilhas atlânticas e no Brasil, os Portugueses tinham investido fortemente na produção e haviam organizado capital, terra e mão-de-obra para produzir açúcar e outros produtos. Na Ásia quase nunca foi levada a cabo uma empresa semelhante. Os Portugueses deixaram as populações locais produzir pimenta, especiarias, seda e têxteis e negociaram estes produtos, ou licenciaram a sua circulação. Isto não é dizer que as taxas e as rendas sobre as terras não foram importantes para o império na Ásia. Em alguns lugares, como o Sri Lanka (Ceilão), contribuíram para mais de 80% das receitas da coroa e em meados do século XVII estas fontes de rendimentos poderão ter representado cerca de um terço do total. Contudo, os Portugueses raramente se dedicaram à produção dos bens comerciados. Apenas em alguns locais se desenvolveram propriedades fundiárias (aforamentos), sendo as mais impressionantes os «prazos» ao longo do rio Zambeze, na África Oriental, onde detentores e instituições se «africanizaram» como uma espécie de governantes locais. Os Portugueses quase nunca se oneraram com a responsabilidade da organização dos fatores de produção, em particular o capital e a terra, e acima de tudo, na maior parte dos locais, o problema do fornecimento e organização da mão-de-obra não lhes dizia respeito. Esta foi uma importante diferença econômica entre as duas esferas de atividade e teve também amplas implicações sociais. No princípio do século XVII, Ambrósio Fernandes Brandão, nos seus Diálogos das Grandezas do Brasil (1618), observou que em Portugal era possível encontrar muitos homens que tinham regressado da India com fortunas, mas poucos que tivessem feito o mesmo no Brasil. A diferença, disse ele, não residia no nível de lucro que se obtinha entre uma e outra esfera colonial, mas no fato de as fortunas que se faziam no Brasil estarem em propriedades e ativos fixos, enquanto as da índia eram resultado do comércio e portanto mais líquidas. Brandão poderia inclusivamente ter acrescentado que o estilo de vida e os níveis de consumo na índia, onde os Portugueses residentes usavam a sua riqueza para deslumbrar a classe alta indígena e se impressionarem uns aos outros, eram muito mais ostentosos do que no Brasil. Este consumo ostentivo também contribuiu para a eventual estagnação do Estado da índia.

Crise e Sobrevivência no Século XVII

Durante o século XVII, o papel do Império Português e o contexto em que operava modificaram-se radicalmente devido a alterações gerais na economia mundial e à emergência de um novo equilíbrio político na Europa. A desastrosa tentativa do rei D. Sebastião para expandir os interesses portugueses em Marrocos, em 1578, provocou não apenas a sua morte, mas também a perda do trono para os Habsburgos espanhóis durante sessenta anos (1580-1640). Subjacente à intervenção espanhola estava o interesse em Lisboa como grande porto atlântico e pelo comércio da índia, e muitas famílias nobres e da comunidade mercantil demonstraram considerável apoio à causa dos Habsburgos. De fato, de 1580 a 1620, o acesso português à prata espanhola, aos mercados das possessões habsburgas e à protecção oferecida pelas armas espanholas contribuíram para a economia portuguesa, uma situação favorecida pelo disparar da produção açucareira brasileira e pelos preços elevados alcançados por este produto. Porém, depois de 1621, a situação alterou-se radicalmente. Primeiro, entre 1622 e 1624, verificou-se uma recessão impressionante na economia euro-atlântica, provavelmente causada por uma expansão excessiva e pela eclosão da Guerra dos Trinta Anos. A renovação da guerra contra os Holandeses, a formação da Companhia das índias Orientais holandesa (1621), concebida como uma arma comercial contra os domínios dos Habsburgos espanhóis, e as crescentes exigências militares e navais daqui decorrentes colocaram enorme pressão sobre os recursos de Portugal e a sua capacidade de aumento da produção. A ocupação do Nordeste brasileiro (1630-1654), a conquista de EI Mina (1638) e a ocupação de Luanda (1641-1648) pelos Holandeses desorganizaram o fornecimento de escravos sobre o qual assentava todo o sistema atlântico. Esta situação e as políticas mercantilistas fechadas de Filipe IV contribuíram para o apoio à separação de Espanha. A Restauração, iniciada em 1640 por apoiantes dos Braganças, inaugurou um período de esforços militares, diplomáticos e econômicos portugueses que durou quase trinta e anos e deixou os dois campos exaustos. O fato de Portugal ter lutado pela sua independência ao mesmo tempo que travava um combate à escala global para defender o seu império contra os concorrentes europeus toma o feito português ainda mais impressionante.

Neste contexto, podem também descortinar-se benefícios proporcionados pelo império que não eram essencialmente econômicos. Na década de 1580, os opositores portugueses da causa dos Habsburgos tinham conseguido recrutar auxílio francês e inglês oferecendo concessões no comércio do Brasil, e houvera até insinuações de concessões ou transferências territoriais. Durante as negociações com os Holandeses, na década de 1640, o chamariz do comércio colonial e a entrega de praças coloniais tinham sido utilizados como moeda de troca. Em certa medida, o apoio da Inglaterra a Portugal, a partir de 1642, e especialmente após o tratado de 1654, foi comprado com a promessa de vantagens comerciais nas colônias portuguesas, e quando a relação foi consolidada através do casamento de Catarina de Bragança com Carlos II, em 1661, um fator de peso nas negociações foi o enorme dote de 2 milhões de cruzados, grande parte do qual obtida através de impostos sobre as populações coloniais e da entrega de praças coloniais como Bombaim e Tânger. Por si só, Portugal contava pouco para os outros monarcas da Europa, mas com o seu império global passava a ser merecedor de alguma consideração, fato de que a corte, em Lisboa, estava plenamente consciente. Estes acordos comerciais poderão ter sido economicamente desvantajosos para Portugal a longo prazo, mas garantiram a independência política do reino e recrutaram um aliado poderoso para defesa da sua soberania. Era um benefício que não se podia calcular facilmente no balancete do império, mesmo se este existisse. Além do mais, o sistema atlântico também pagou diretamente, em homens e armas, a sobrevivência do reino. Os impostos sobre a indústria do açúcar foram cruciais para pagar a guerra da independência e financiar a luta global contra os Holandeses, durante a qual o contributo das forças coloniais para a reconquista de Pernambuco e de Angola foi um fator importante. Muitos dos capitães e comandantes das guerras da Restauração tinham prestado serviço no Brasil ou na índia.

No meio destes acontecimentos políticos, a economia açucareira, coração do sistema atlântico, alterou-se. Em 1630 o Brasil produziu cerca de 22 000 toneladas, mas a baixa de preços reduziu os lucros para metade dos auferidos na década de 1610. Os preços voltaram a subir nas décadas de 1640 e 1650, mas isto fez com que os concorrentes estrangeiros das Caraíbas, em particular de Barbados, começassem a produzir açúcar. Estes desenvolvimentos tiveram duas consequências. Com açúcar disponível nas suas próprias colônias, a Inglaterra e a França começaram a impor restrições às importações do Brasil e, para todos os efeitos, eliminaram o açúcar brasileiro dos seus mercados. Em segundo lugar, o aumento da produção fez cair o preço do açúcar no mercado atlântico, e a procura de trabalhadores para as plantações das Caraíbas fez subir o preço dos escravos. Os plantadores brasileiros foram apanhados entre estas duas tendências no preciso momento em que o Estado português aumentava cada vez mais os impostos sobre o açúcar para pagar a defesa do império e a guerra de independência. Mesmo depois do fim da Guerra Luso-Holandesa, em 1654, a produção do Brasil conseguiu superar a dos seus concorrentes em mais de 1 200 000 de arrobas (18 000 toneladas). A região continuava a possuir algumas vantagens comparativas, mas as condições político-econômicas internacionais e os seus efeitos nas políticas fiscais portuguesas conjugaram-se para dar origem a uma situação de crise. Portugal procurou responder de várias formas. Em 1649, foi criada a Companhia do Brasil, para organizar o comércio da colônia. Apesar de prejudicada pela irregularidade das viagens marítimas, pelo contrabando e por outros problemas, a companhia foi relativamente bem-sucedida, enviando frotas carregadas com os principais produtos da colônia, que passaram a incluir, além de açúcar, grandes quantidades de tabaco e peles.

Na década de 1680 a economia entrou em profunda recessão. A separação de Espanha interrompera e dificultara o afluxo de prata da América espanhola à economia portuguesa. À semelhança do resto da Europa Ocidental, Portugal viu-se a braços com uma recessão que levou a uma desvalorização da moeda portuguesa, em 1688, e à intensificação da busca de novas fontes de receitas, mas o sistema atlântico, na sua maioria, sobreviveu. Os rendimentos que proporcionou deram ao reino forças para se manter independente, impedindo que Portugal seguisse o caminho da Catalunha ou da Escócia.

O século XVII foi muito pior para o Estado da índia. Para lá do cabo da Boa Esperança, podemos aperceber-nos de três processos inter-relacionados que afetaram a natureza do império. Primeiro, depois de 1590, a chegada de rivais europeus, em especial os Holandeses e os Ingleses, e a subsequente perda de rotas, portos e praças importantes como Malaca (perdida em 1641), provocaram uma grave contração nas operações do Estado da índia e no volume de comércio e receitas. Em segundo lugar, e ao mesmo tempo, do Levante ao Japão assistiu-se a uma reação asiática à presença portuguesa (e europeia). A ascensão ao poder dos Safávidas, na Pérsia, a expansão mogol no Norte da índia e o xogunato Tokugawa no Japão deram origem a Estados grandes e poderosos que não podiam ser intimidados, coagidos ou bajulados como antes. Estes «impérios da pólvora» também eliminaram a antiga divisão entre potências fundiárias e Estados comerciais menores. A perda de Ormuz (1622) para os Safávidas e Ingleses e a expulsão dos cristãos (com exceção dos Holandeses) do Japão, em 1638-1640, foram episódios sintomáticos da contração imperial provocada pela emergência das novas potências.

Em resposta à concorrência estrangeira e à assertividade indígena, os Portugueses experimentaram novas alternativas. O êxito das companhias comerciais inglesas e holandesas promoveu a criação de uma Companhia Portuguesa das índias Orientais, mas as elevadas perdas no mar e a escassez de capital provocada pela obstrução da Inquisição à participação dos cristãos-novos condenaram-na a uma existência breve (1628-1633). A coroa virou-se cada vez mais para os privados e vendeu as lucrativas rotas asiáticas para Goa sob a forma de viagens concessionadas. O volume das receitas da carreira propriamente dita só começou a revelar uma contração séria na segunda metade do século; em parte como resposta a esta contração, tentou-se integrar o vacilante sistema do oceano índico no do Atlântico, também a braços com problemas, mas com melhores resultados. Os navios que rumavam à metrópole começaram a escalar com alguma regularidade em Salvador, no Brasil, onde as sedas, as pérolas e os artigos de luxo que traziam eram procurados, e onde a partir de 1675 passaram a ser autorizados a carregar açúcar para entrega em Lisboa. Também o Rio de Janeiro acabou por ser atraído para o comércio com Goa, e entre o Brasil e Goa prosperou o comércio de tabaco na forma de rapé.

A carreira sofreu os prejuízos mais pesados em meados do século XII, com a perda de cerca de 20% da tonelagem total embarcada. Em 1670, o Estado da índia, enquanto empresa estatal, sofreu as maiores perdas, mas isto não quer dizer que os comerciantes privados não tenham continuado a prosperar, nem que os milhares de mercenários, mercadores e missionários portugueses existentes de Macau ao Sião e à Abissínia tenham perdido importância nas sociedades locais.

Na luta global contra os Holandeses, os Portugueses praticamente perderam a Ásia, contiveram-nos na África e, recorrendo à guerra e às aquisições, venceram na América. Os esforços para se manterem no Brasil representaram o reconhecimento de que o sistema atlântico, não obstante as pressões a que fora sujeito, se tornara a espinha dorsal do império. Compunha-se agora primariamente do Brasil e da África Central e Ocidental. A Madeira e os Açores tinham-se convertido em produtores de vinho e cereais e estavam mais integrados na economia e na política da metrópole, mas o Atlântico Sul do Brasil e da África formou progressivamente um sistema integrado de mão-de-obra e produção. A importação de escravos atingia 5000 por ano e a impressionante mortalidade e o crescimento demográfico negativo verificados no Brasil transformaram o tráfico de escravos na caraterística essencial de todo o sistema. A vida econômica de Angola e dos outros colonatos da África passou a subordinar-se quase por inteiro às exigências do tráfico de escravos.

História - Portugal
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PERSONALIDADE
Ivan Petrovitch Pavlov
Fisiologista, anatomista
História da Psicologia, Século XX e.c.
Os palácios reais
Palacio de Cibeles, Madrid

Quase todos os palácios reais da Espanha estão em Madri - a capital desde o século XVII - ou nos arredo­res imediatos: as únicas exceções são a não-terminada mansão renascentista de Carlos V, em Granada, e o pequeno “palácio” de “La Magdalena”, em Santander, construído em uma época muito posterior, quando a corte começou a passar os verões na costa norte. Ainda que a corte tenha deixado de ser extravagante sob Feli­pe II, ainda tinha um calendário bastante ativo que di­tava movimentos regulares (se não contínuos). Os palá­cios que salpicavam a paisagem ao redor de Madri eram usados para escapar do calor debilitante do verão da cidade e dos assuntos do governo que a resi­dência ali empunha constantemente ao monarca. Sem dúvida, os Bourbons também desejavam evitar a capi­tal contestadora e inconstante pela mesma razão que Luís XIV, seu modelo e patriarca, construiu Versalhes a uma distância segura de Paris. Mas o principal objetivo era o descanso e, acima de tudo, os prazeres da caça.

As casas reais cresceram inexoravelmente em tama­nho e número, e enormemente em custos, sob os Bourbons, cujo consumo chamativo ultrapassou até mesmo o de seus predecessores. Remodelaram extensamente os edifícios - em especial os jardins - dos palácios dos Habsburgos e ao redor de Madri ao estilo francês do sé­culo XVIII, redecoraram até mesmo uma ala do Esco­riai, ainda que nunca tenham se sentido muito atraídos pelo palácio austero de Felipe II. No Sítio Real de La Granja, Felipe V construiu um retiro campestre que era uma imitação de Versalhes. A corte existiu geralmente dentro deste “círculo encantado” de residências luxuo­sas e os próprios reis raras vezes abandonaram durante muito tempo sua órbita confortável. Não é estranho que a cada vez mais ressentida identificação da monar­quia com Castela e com Madri se transformasse em um traço profundamente arraigado da política espanhola.

VINCENT, Mary. STRANDLING , R. A. Dinamismo e pragmatismo, 1670-1812. in:__________. Espanha e Portugal. Grandes civilizações do passado. Barcelona/ES: Folio, 2008. Cap. 5. p.122
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MATÉRIAS
8/1/2018 8:06:59 PM | National Geographic, n. 105
Alfred Wallace, e a seleção natural de Darwin

Esse é um caso clássico na história da ciência: versa sobre como a biologia evolutiva veio a se estabelecer - a quase simultânea formulação da agora famosa teoria darwiniana, por obra do próprio Darwin e de um jovem adventício, Alfred Russel Wallace. Pouca gente hoje tem noção disso. Wallace, conhecido em seu tempo como o parceiro júnior de Darwin e por outras contribuições à ciência e ao pensamento social, caiu na obscuridade depois de sua morte, em 1913.

Ciências naturais - Evolução das Espécies
7/23/2018 2:31:38 PM | Leituras da História, n.5
Kepler e as elipses eternas

Se tivéssemos que eleger o cientista mais perfeccionista de todos os tempos, provavelmente Johannes Kepler (1571-1630) levaria fácilmente o título. O alemão era tão obcecado por números e medidas que chegou até a calcular, com precisão de minutos, o tempo da própria gestação. Graças à enorme habilidade matemática, desenvolveu as tabelas astronômicas mais precisas de sua época, e tornou-se um dos astrônomos mais respeitados da Alemanha.

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TEXTOS
2/13/2020 4:20:16 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
O Behaviorismo de Watson

A bonita e jovem aluna do curso de pós-graduação segurava o bebê enquanto o psicólogo segurava o martelo. Vagarosamente ela abanava sua mão no ar para manter a atenção do bebê de modo que ele se ligasse nela e não virasse sua cabeça e olhasse para outro lugar. Assim, a criança distraida, não vê o bastão de metal de 1,2 m de comprimento por 2 cm de largura, pendurado no teto. Ele não viu o homem que levantou o martelo e bateu com força na barra de metal.

O relato da pesquisa afirmava que "A criança alterou violentamente, sua respiração foi verificada e seus braços levantados." Quando o psicólogo bateu no bastão novamente, os lábios da criança "começaram a se dobrar e a tremer" e após bater pela terceira vez no bastão, ele começou a chorar repentina e fortemente" (Watson e Rayner, 1920, p. 2).

Já descobriu quem são essas pessoas e o que estão fazendo? O sujeito desse experimento passou a ser conhecido como O "Pequeno Alberto", o bebê mais famoso da história da psicologia. O psicólogo de 42 anos de idade era John Watson, o fundador da escola de pensamento conhecida como behaviorismo. Sua assistente era Rosalie Rayner, uma aluna de pós-graduação de 21 anos que ia para o campus da Johns Hopkins University dirigindo seu Stutz Bearcat, o carro esportivo mais moderno e caro daquela época. Juntos eles mudaram a psicologia e, no processo, terminaram a brilhante carreira acadêmica de Watson.

Albert (seu sobrenome é ainda desconhecido) tinha 8 meses e 26 dias quando o mar­telo foi batido na barra de metal atrás de sua cabeça. Um bebê saudável e feliz, ele havia sido escolhido por Watson para ser o sujeito de sua pesquisa, precisamente por ser tão estável emocionalmente e não facilmente perturbado.

Dois meses antes de ser assustado pelas batidas do martelo, Albert havia sido exposto a uma variedade de estimulos, incluindo um rato branco, um coelho, um cachorro, um macaco, jornais sendo queimados, e uma série de máscaras. Ainda não havia exibido nenhum medo em resposta a esses objetos. Na realidade, nem a mãe de Albert, nem outra pessoa jamais havia visto a criança exibindo medo em nenhuma situação - até o dia do laboratório.

Quando Watson bateu o martelo pela primeira vez, Albert reagiu amedrontadamente tudo indica que pela primeira vez na sua vida. Isso deu a Watson uma resposta emocional não-condicionada com a qual poderia trabalhar. Ele queria descobrir se conseguiria produzir em Albert uma resposta emocional condicionada, por exemplo, medo do rato branco do qual não tinha anteriormente, combinando a visão do rato com o barulho provocado pelo som que o havia assustado. Não foi preciso mais do que sete combinações do rato branco com o barulho para que a criança mostrasse medo cada vez que visse o rato, mesmo se o bastão não fosse batido com o martelo por trás de sua cabeça.

Assim, Watson e Rayner estabeleceram uma resposta de medo a um objeto anterior­mente neutro e isso foi realizado de uma maneira fácil e eficaz. Em seguida eles demons­traram que a resposta de medo de Albert podia ser generalizada a outros objetos brancos e peludos, como um coelho, cachorro, um casaco de pele e a máscara do Papai Noel!

Watson concluiu que nossos medos, ansiedades e fobias quando adultos, consequen­temente, devem ser simples respostas emocionais condicionadas que foram estabelecidas na infância, e que permanecem durante toda a nossa vida.

E quanto ao pequeno Alberto? Ele ainda se esconde de pequenos animais brancos e peludos? Teve que fazer psicoterapia? Ninguém sabe o que aconteceu a ele. Talvez tenha se tornado um psicólogo, mas não há como negar sua contribuição para a história da psicologia e seu papel no desenvolvimento do behaviorismo de John B. Watson.

John B. Watson (1878-1958)

Foram várias as tendências que influenciaram John B. Watson na tentativa de construir a escola de pensamento behaviorista da psicologia. Watson reconhecia não ser o ato de fun­dar o mesmo que originar e descrevia os seus esforços como uma cristalização das ideias ja emergentes dentro da psicologia. Assim como Wilhelm Wundt, o primeiro promotor-fundador da psicologia, Watson deixou clara a sua intenção de fundar uma escola. Essa intenção deliberada é o que estabelece a nítida distinção entre Watson e os demais, hoje denominados pela história como precursores do behaviorismo.

A Biografia de Watson

John B. Watson nasceu em um  sítio próximo a Greenville, na Carolina do Sul, onde fre­quentou os primeiros anos de estudo em uma escola que possuia apenas uma sala. Sua mãe era extremamente religiosa, ao contrário do pai. O velho Watson bebia muito, era violento e mantinha muitas relações extraconjugais. Ele raramente conseguia manter um emprego fixo, por isso a família vivia à beira da pobreza, subsistindo à custa da produção do sitio. Alguns vizinhos os desprezavam, enquanto outros sentiam pena deles. Quando Watson estava com 13 anos, seu pai fugiu com outra mulher e nunca mais voltou. Watson jamais o perdoou por isso, e anos mais tarde, quando se tornou rico e famoso, seu pai foi procurá-lo em Nova York, mas Watson não quis vê-lo.

Quando pequeno e na adolescência, Watson era considerado delinquente. Ele mesmo se dizia preguiçoso e desobediente e suas notas na escola eram apenas suficientes para passar de ano. Os professores consideravam-no indolente, sempre propenso a discussões e, às vezes, incontrolável. Duas vezes envolveu-se em brigas e foi preso, em uma das ocasioes, por atirar dentro dos limites urbanos. Contudo, aos 16 anos matriculou-se na Furman University, em Greenville, afiliada à igreja Batista, disposto a tornar-se pastor, como prometera à mãe. Estudou filosofia, matemática, latim e grego, planejando entrar no seminário teológico depois de se formar em Furman.

Um fato curioso ocorreu durante o último ano de Watson na Furman University. Um professor advertiu os alunos de que se alguém entregasse o exame final com as páginas na ordem inversa seria reprovado. Watson resolveu desafiá-lo, entregando a prova dessa forma e foi reprovado - pelo menos essa é a sua versão. Um estudo posterior dos dados históricos a respeito do episódio - nesse caso, das notas de Watson - mostra que ele não foi reprovado nessa matéria. Seu biógrafo acredita que a versão da história escolhida pelo proprio Watson revela algo da sua personalidade, ou seja, "a sua ambivalência em relação ao sucesso. Muitas vezes, seus contínuos esforços para atingir as metas e ser aceito eram boicotados pelos próprios atos, totalmente obstinados e impulsivos, que o afastavam ainda mais da respeitabilidade” (Buckley, 1989, p. 11). Outro professor de Watson disse que ele era inconformista, "um aluno brilhante, mas de algum modo preguiçoso e indolente; um pouquinho pesado, mas de boa aparência; valoriza-se demasiadamente e preocupa-se mais com as próprias ideias do que com as pessoas" (Brewer, 1991, p. 174).

Watson ficou mais um ano em Furman, completando o mestrado em 1899, mas nessa data sua mãe faleceu, ficando ele, assim, livre da promessa de tornar-se pastor. Em vez de ir para o seminário teológico, foi para a University of Chicago. Seu biógrafo observou que naquela época ele era ambicioso, um homem extremamente consciente da importâcia do status social, ansioso por deixar sua marca no mundo, mas totalmente indeciso em relaçao à escolha da profissão e inseguro por causa da falta de recursos e de sofisticação social. Chegou ao campus com apenas 50 dólares no bolso (Buckley, 1989, p. 39).

Escolheu a University of Chicago para realizar o trabalho de pós-graduação em filo­sofia com o ilustre John Dewev, mas sentia dificuldade para entender as aulas. "Jamais compreendia o que ele estava falando", relembrou Watson, "e, infelizmente para mim, até hoje não entendo" (Watson, 1936, p. 274). Como era de se esperar, o entusiasmo pela filosofia diminuiu. Atraido para a psicologia em função do trabalho do psicólogo funcionalista James Rowland Angell, Watson estudou também biologia e fisiologia com Jacques Loeb, que lhe introduziu o conceito de mecanismo.

Teve vários empregos de meio período, trabalhando como garçom em uma república, tratador de ratos e zelador encarregado de tirar o pó da escrivaninha de Angell. Perto de terminar os estudos de pós-graduação, começou a sofrer ataques profundos de ansiedade e durante certo período só conseguia dormir com uma luz acesa no quarto.

Em 1903, com 25 anos, completou o doutorado, sendo o mais jovem na história da University of Chicago a obter a título de Ph.D. Embora aprovado com louvor (magna cum laude e Phi Beta Kappa), sentiu-se profundamente inferiorizado quando Angell e Dewey Ihe disseram que seu exame de doutorado não fora tão bom quanto o de Helen Bradford Thompson Woolley, que completara a graduação três anos antes. Watson comentou: "Fiquei imaginando, então, quem seria capaz de igualar-se a ela. Esse ciúme persistiu por vários anos" (Watson, 1936, p. 274).

Naquele ano, Watson casou-se com uma de suas alunas, Mary Ickes, de 19 anos, per­tencente a uma importante família do meio político e social. Contam que ela escreveu um longo poema de amor para Watson em um de seus exames. Não se sabe a nota que ela obteve, mas sabe-se que obtivera Watson.

A carreira acadêmica de Watson

Watson permaneceu na University of Chicago como professor até 1908. Publicou a dissertação sobre a maturação psicológica e neuroló­gica do rato branco, pesquisa que revelava a sua preferência inicial pelo uso de animais nas pesquisas.

Nunca quis usar seres humanos nas minhas pesquisas. Detestava servir de cobaia. Não gostava daquela parafernália de instruções artificiais dadas às pessoas. Sempre me sentia incomodado e não agia com naturalidade. Com os animais, no entanto, sentia-me em casa. Percebia que, observando-os, conseguia me manter próximo da biologia e com os pés no chão. Aos poucos, a ideia se concretizava: será que minhas descobertas observan­do o comportamento dos animais não são iguais às dos demais alunos que observam os [seres humanos]? (Watson, 1936, p. 276)

Os colegas de Watson lembram-se de que ele não conseguia obter exito com a intros­pecção. Qualquer que fosse o talento ou o temperamento necessários para utilizar adequa­damente essa técnica, Watson não os possuia. Essa deficiência talvez o tenha direcionado para a psicologia behaviorista objetiva. Afinal, se ele era uma negação na utilização da introspecção, técnica de pesquisa fundamental na sua área, então suas perspectivas pro­fissionais certamente estavam prejudicadas. Ele teria de buscar outra abordagem. Além disso, caso seguisse sua tendência de enxergar a psicologia como uma ciência que estudava apenas o comportamento - o que evidentemente era possível de ser feito mediante expe­riências com animais e com seres humanos -, ajudaria a atrair os interesses profissionais dos psicólogos que estudavam animais para a psicologia geral.

Em 1908, recebeu uma proposta para lecionar na Johns Hopkins University, em Baltimore. Embora relutasse em deixar Chicago, a promessa de promoção, o aumento substancial no salário e a chance de dirigir o laboratório não lhe deixaram outra opção. E, assim, os 12 anos de Watson na Hopkins acabaram sendo os mais produtivos para a psicologia.

James Mark Baldwin (1861-1934), o psicólogo que lhe havia oferecido o emprego, era um dos fundadores (juntamente com James McKeen Cattell) da revista Psychological Review. Um ano depois da chegada de Watson à Hopkins, Baldwin foi obrigado a pedir demissão por causa de um escândalo. Em uma batida policial, fora flagrado em uma casa de prostituição. O reitor da universidade não aceitou as explicações de Baldwin. Ele ale­gou ter aceitado ingenuamente uma sugestão, feita depois de um jantar, para conhecer [o bordel]. Antes de chegar ao local, não sabia que ali trabalhavam mulheres indecentes" (apud Evans e Scott, 1978, p. 713). Mas deu um nome falso para a policia. Baldwin foi totalmente banido da psicologia estadunidense, passando o resto dos seus anos na Inglaterra e no México, morrendo em Paris em 1934 (Horley, 2001). Onze anos depois da demissão de Baldwin, a história se repetiu. O mesmo reitor da universidade exigiu a demissão de Watson por causa de um escândalo.

Quando Baldwin pediu demissão, Watson tornou-se o responsável pelo departamen­to de psicologia e editor da importante Psychological Review. Assim, aos 31 anos havia se tornado uma figura importante na psicologia estadunidense, no momento e local certos. "Todo o teor da minha vida havia mudado", ele escreveu. Experimentei a liberdade no trabalho sem supervisão. Estava perdido no meu trabalho, mas feliz.” Em casa, no entanto, Watson não estava feliz: "Dois filhos é suficiente" escreveu depois que seu segundo filho nasceu {apud Hulbert, 2003, p. 131). Começou a levar uma vida social ativa, desenvolvendo uma reputação de mulherengo, não diferente de seu pai.

Era extremamente querido pelos alunos da Johns Hopkins University, que costuma­vam lhe dedicar o anuário estudantil e elegê-lo como melhor professor, certamente uma honraria ímpar na história da psicologia. Ele continuava ambicioso e dedicado. Muitas vezes, com medo de perder o controle, chegava à exaustão.

No inicio da carreira na Hopkins, Watson propos estudar os efeitos, tanto positivos como negativos, do álcool e dos filmes de educação sexual nos adolescentes (Simpson, 2000). A administração da universidade não acolheu muito bem essa ideia. Consideraram a pesquisa arriscada e insistiram para que ele parasse. Felizmente, Watson possuia outras válvulas de escape para sua energia e ambição.

Ele começou a pensar seriamente a respeito do tratamento mais objetivo da psicologia por volta de 1903, e expressou essa opinião publicamente em 1908, em palestra na Yale University e em um trabalho apresentado na reunião anual em Baltimore, da Southern Society for Philosophy and Psychology [Sociedade Sulista de Filosofia e Psicologia]. Watson argumentava que os conceitos psiquicos e mentais não serviam de nada para uma ciência como a psicologia. Em 1912, a convite de Cattell, apresentou uma série de palestras na Columbia University. No ano seguinte, publicou um artigo, que mais tarde ficou famoso, na revista Psychological Review (Watson, 1913], assim lançando oficialmente o behaviorismo.

O livro de Watson, Behavior: an introduction to comparative psychology, foi lançado em 1914. Defendia a aceitação da psicologia animal e descrevia as vantagens do uso de ani­mais na pesquisa psicológica. Muitos psicólogos mais jovens e estudantes de pós-graduação consideraram interessantes as propostas de uma psicologia comportamental, afirmando que Watson estava limpando a atmosfera poluida da psicologia, expulsando os mistérios de longa data herdados da filosofia.

Mary Cover Jones (1896-1987), na época aluna de pós-graduação e, mais tarde, presi­dente da Divisão de Psicologia do Desenvolvimento da APA, lembrou-se do entusiasmo com que era recebida a publicação de cada um dos seus livros. "[O behaviorismo de Watson] abalou as estruturas da psicologia tradicional nascida na Europa, e nós o recebemos de bra­ços abertos. (...) Esse behavorismo indicou o caminho da psicologia teórica para a ação e para a reforma e foi, por essa razão, saudado como uma panaceia" (Jones, 1974, p. 582). O programa de Watson normalmente não seduzia os psicólogos mais antigos. Ao contrário, a maioria rejeitava a sua abordagem.

Somente dois anos após a publicação do artigo na Psychological Review, Watson foi eleito presidente da APA. Sua eleição talvez não fosse um sinal de aprovação oficial da sua posição, mas servia como reconhecimento da sua notoriedade e da rede pessoal de relações estabelecidas com diversos psicólogos renomados.

Watson desejava que o novo behaviorismo tivesse valor prático; suas ideias não ser­viam apenas para serem aplicadas nos laboratórios, como também na vida real. Promoveu as especializações aplicadas da psicologia e tornou-se consultor pessoal de uma grande companhia seguradora. Além disso, oferecia cursos de psicologia aplicada à publicidade aos alunos de administração da Hopkins e deu início a um programa de treinamento de estudantes de pos-graduação para trabalharem na área da psicologia industrial.

Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu no exército estadunidense, com a patente de major, desenvolvendo testes de habilidade perceptiva e motora para usar como esquema de seleção para pilotos. Também pesquisou o efeito da redução de oxigênio em atitudes elevadas. Depois da guerra, Watson e um médico criaram a industrial Service Corporation para oferecer serviços de seleção de pessoal e consultoria de admimstração no mundo empresarial (DiClemente e Hantula, 2000).

Embora suas atividades estivessem relacionadas com as áreas da psicologia aplicada a visão de Watson concentrava-se no desenvolvimento da abordagem behaviorista do pensamento psicologico. Em 1919, publicou o livro Psychology from the standpoint of a behavirors, dedicando-o a Cattell. O livro apresentava uma abordagem mais completa da sua psicologia behaviorista, alem do argumento de que os métodos e principios recomendados para a psicologia animal também eram adequados para o estudo do ser humano.

Enquanto isso, seu casamento se deteriorava; sua infidelidade deixava a esposa furio­sa. Watson escreveu a Angell, dizendo que Mary não ligava mais para ele. "Ela instintivamente abomina o meu toque. Será que arruinamos as nossas vidas?" (Watson, apud isucKiey, 1994, p. 27). Ele estava prestes a arruinar a sua ainda mais.

Watson apaixonara-se por Rosalie Rayner, uma assistente da pós-graduação com metade da sua idade, e pertencente a uma rica família de Baltimore que fizera generosa doação para a universidade. Watson escrevia cartas, cientificamente falando ardentes de paixão, 15 das quais encontradas pela esposa. Durante o escandaloso processo de divórcio trechos das cartas eram publicados no jornal Baltimore Sun.

Cada célula do meu corpo a ti pertence, individual e coletivamente. Todas as minhas reações são positivas e todas são para ti. Assim como cada uma e todas as reações do coração. Não posso ser mais teu do que sou, mesmo que uma cirurgia nos transformasse em um unico ser. (Watson, apud Pauly, 1979, p. 40) 

Assim chegava ao fim a carreira acadêmica de Watson, sendo forçado a demitir-se da Hopkins. Seu biografo disse: "Watson ficou chocado. Até o final, recusava-se a acre­ditar que realmente seria demitido. (...) Acreditava piamente que sua estatura profissional lhe proporcionaria imunidade a qualquer censura a respeito da sua vida pessoal" (Buckley 1 9 9 4 , p. 31). Embora tenha se casado com Rosalie Rayner, nunca mais pôde assumir integralmente outra posição acadêmica. Nenhuma universidade o aceitava por causa da má reputaçao, e ele logo percebeu que teria de começar uma nova vida. "Posso arrumar um emprego na area comercial", disse a um amigo. "Mas, sinceramente, amo o meu trabalho. Sei da sua importancia para a psicologia e que a pequena chama que tentei manter acesa para o futuro da psicologia se extinguirá, caso eu a abandone" (apud Pauly, 1986, p 39)

Muitos colegas acadêmicos, inclusive o seu mentor Angell, da University of Chicago criticaram publicamente Watson, que se ressentiu da falta de apoio, chegando a acusá-los de deslealdade. Ironicamente, considerando as diferenças radicais de temperamento e de posições teóricas, foi E. B. Titchener, da Cornell University, quem lhe deu apoio emocional durante sua crise Pessoal. Tltchener escreveu a Robert Yerkes, comentando: "Sinto muita pena dos filhos de Watson", "Também sinto pena dele, pois terá de desaparecer por cinco ou 10 anos; temo se algum dia desejar voltar para a psicologia" (apud Leys e Evans, 1990, p. 105).

A carreira empresarial de Watson

Desempregado e tendo de pagar a quantia equi­valente a dois terços do último salário como pensão para os filhos, Watson iniciou uma segunda carreira profissional como psicólogo aplicado no campo da publicidade. Começou a trabalhar na agência publicitária J. Walter Thompson em 1921, ganhando um salário anual de 25 mil dólares, quatro vezes mais que seu salário acadêmico. Realizou pesquisas de porta em porta, vendeu café e trabalhou como atendente da Macy's para conhecer melhor o mundo dos negócios. Atuando com a sua criatividade e energia características, em três anos tornou-se vice-presidente da agência. Em 1936, foi para outra agência de publicidade, permanecendo ali até se aposentar, em 1945.

Watson acreditava ser o comportamento humano igual ao da máquina. Portanto, era possível prever e controlar o comportamento das pessoas como consumidoras, assim como se previa o funcionamento de qualquer máquina. Afirmava que, para controlar o consumidor, basta apresentar-lhe um estímulo emocional, condicional ou fundamental. (...) dizer-lhe algo que se relacione com o medo, que provoque uma leve ira, que incentive uma reação apaixonada e afetiva, ou que capte uma profunda necessidade psicológica ou de hábito. (apud Buckley, 1982, p. 212)

Propôs pesquisas de laboratório a respeito do comportamento do consumidor. Res­saltava que as mensagens publicitárias deviam enfocar o estilo e não a substância, além de transmitirem a impressão de uma imagem nova e melhorada. O objetivo era deixar o consumidor insatisfeito com os produtos que estava consumindo e estimular o desejo de novas mercadorias.

Durante vários anos, Watson foi considerado o pioneiro no uso de celebridades para a promoção de produtos e serviços e na criação de técnicas para manipular a motivação e a emoção. Mais tarde, pesquisas revelaram que, embora ele promovesse bem essas técni­cas, elas já vinham sendo aplicadas antes do seu ingresso no universo da publicidade. Mesmo assim, as contribuições de Watson para a publicidade foram extremamente eficazes e logo lhe renderam notoriedade e riqueza.

Depois de 1920, Watson mantinha contato apenas indireto com a psicologia acadêmica. Apresentava suas ideias a respeito da psicologia comportamental para o público em geral por meio de palestras, discursos em rádios e artigos em revistas populares, aumen­tando, assim, sua visibilidade e, alguns diriam, sua notoriedade. Por exemplo, em um artigo escrito para o leitor comum, ele previa o fim da instituição do casamento. "Creio ser a monogamia uma coisa do passado. O mecanismo social descarrilou. Estamos livres das algemas e rompendo e aproveitando a nossa liberdade" (apud Simpson, 2000, p. 64). Se seu objetivo era chocar, estava conseguindo.

Nos artigos de revistas, ele também transmitia mensagens mais sérias acerca do beha­viorismo para um público mais amplo. Seu estilo de redação era claro, de fácil leitura e, de algum modo, simples. Na autobiografia, comentou que, embora o seu trabalho não fosse mais viável para publicação nas revistas especializadas de psicologia profissional, não havia razões para não "vender os seus artigos" para o público (Watson, 1936). Essa atitude o afastou ainda mais da comunidade acadêmica. "Aqueles que não aceitavam de modo algum a aplicação mais genérica dos principios da psicologia, ou a visão behaviorista em si, rejeitavam mais ainda as 'campanhas' de Watson para a divulgação da doutrina" (Kreshel, 1990, p. 56).

Um raro contato formal com a psicologia acadêmica ocorreu quando Watson minis­trou uma serie de palestras na New School for Social Research [Nova Escola para Pesquisas Sociais] em Nova York. Essas palestras serviram de base para o livro Behaviorism, em que ele escrevia o seu programa para a melhoria da sociedade. O livro foi publicado pela primeira vez em 1925 e mais tarde Watson confessou que havia sido preparado apressadamente.

Minhas palestras eram datilografadas; depois eu as olhava rapidamente e as levava para o editor (apud Carpentero, 2004, p. 185). Uma versão revisada foi lançada em 1930 As duas edições tiveram muito sucesso. As ideias de Watson atingiram e influenciaram um grande numero de pessoas que nao pertenciam ao mundo da psicologia.

Prática da Educação Infantil

Em 1928, publicou Psychological care of the infant and child, onde critica severamente o modo de se educar crianças naquela época. Ele acusou os "pais de incompetenaa A maioria deveria ser processada por assassinato psicológico" (apud Hulbert,2003, p. 123). Ele propos um sistema de educacão infantil regulador e não-permissivo dentro da sua visão estritamente ambientalista. O livro estava repleto de conselhos rígidos, baseados na forma behaviorista de educar crianças. De acordo com Watson, os pais nunca devem abraçar e beijar, jamais as deixem sentar no colo. Quando estritamente necessário bei­jem mas apenas uma vez na testa ao lhes dar boa-noite. Pela manhã, cumprimentem-nas com um aperto de mão. Afaguem-lhes a cabeça, caso realizem muito bem uma tarefa extremamente difícil. (...) vocês perceberão como é fácil serem perfeitamente objetivos com os filhos e ao mesmo tempo gentis. Vocês se sentirão totalmente envergonhados da forma sentimental e insipida de como os estavam tratando. (Watson, 1928, p. 81-82)

O livro era bastante popular e transformou as práticas estadunidenses de educação infantil. Uma geraçao de crianças, inclusive as suas, foi educada seguindo essas orientações.

Seu filho James empresário na Califórnia, recorda-se do pai como um homem incapaz de demonstrar afeto para com ele e com o seu irmão. Descreveu Watson como insensivel, emocionalmente reservado, incapaz de expressar - e lidar com - qualquer sentimento ou emoção própria e, creio, determinado inadvertidamente a privar-me bem como ao meu irmão, de qualquer tipo de estrutura emocional. Realmente acreditava que qualquer expressão de ternura ou afeto nos traria efeitos danosos. Era extremamente rigido na aplcação das suas filosofias fundamentais como behaviorista. Nunca fomos beijados ou carregados no colo quando crianças; nunca nos foi demonstrado qualquer tipo de proximidade emocional, era totalmente proibido na família. À noite, quando ia para a cama, lembro-me de apertar as mãos dos meus pais. (...) Nunca tentei (e nem o meu irmao Billy) me aproximar fisicamente dos meus pais, pois sabíamos que era um tabu. (James Watson apud Hannush, 1987, p. 137-138)

Rosalie, esposa de Watson escreveu um artigo para a revista Parents Magazine inti­tulado I am the mother of a behaviorist's sons" ("Sou mãe dos filhos de um behaviorista") discordando publicamente das práticas de educação infantil definidas por ele "Em alguns aspectos, ela afirmou, "reverencio a grande sabedoria da ciência do behaviorismo e em outros me rebelo. Desejo secretamente que em razões de afeto [das crianças] demonstrem certa fraqueza quando crescerem, que sejam capazes de ter lágrimas nos olhos diante de uma poesia ou de um drama da vida e sintam palpitações de paixão. (...) Gosto de ser ale­gre e jovial e de rir bastante. Os behavioristas consideram as risadas um sinal de desajuste” (apud Simpson, 2000, p. 65). Rosalie também afirmou ser difícil refrear completamente a sua afeição pelos filhos, tendo desejado, algumas vezes, quebrar as regras do behavioris­mo. Mas seu filho James não se recorda de isso haver ocorrido.

Seus dois filhos sofreram de depressão séria na adolescência e vida adulta. Um dos filhos se suicidou e o outro teve um colapso nervoso, lutando contra seus próprios impulsos suicidas. Embora tenha sobrevivido, sua filha suicidou-se alguns anos mais tarde.

Os últimos anos de Watson

Ele era inteligente, articulado, bonito e charmoso, quali­dades que o tornavam uma celebridade. Frequentemente aparecia em público, cortejando e saboreando a atenção recebida. Vestia-se com elegância, participava de competições de lancha e circulava facilmente no meio da sociedade nova-iorquina. Considerava-se um grande amante e aventureiro romântico, e gostava de participar de rodadas de bebidas. Mandou construir uma mansão em Connecticut e contratou vários empregados, embora gostasse de vestir roupas velhas e fazer jardinagem.

[Watson] se preocupava bastante com as atividades masculinas, como caçar, pescar e outras formas de adultos e crianças demonstrarem coragem e habilidades pessoais. Dessa forma, ele possuia um "quê" de Hemingway, já que valorvalorizava a competência, a bravura e a masculinidade. (James Watson apud Hannush, 1987, p. 138)

Em 1935 Rosalie faleceu, aos 37 anos. James Watson lembra-se de ter sido essa a única ocasião em que viu o pai chorar. Por um breve momento, Watson abraçou os seus filhos, pelo menos a única vez que se lembravam. Depois disso ele os mandou para o colégio interno e jamais voltou a falar sobre Rosalie com eles.

Quando Myrtle McGraw, uma psicóloga de Nova York, conheceu W atson pouco depois da morte da esposa, ele lhe confessou que não estava preparado para lidar com a morte de Rosalie. Por ele ser 20 anos mais velho do que ela, sempre pensou que morreria primeiro. Conversou com alguma profundidade com McGraw, perguntando-lhe como devia lidar com a dor (McGraw, 1990). Depois de algum tempo tornou-se recluso, desligando-se do contato social e mergulhando no trabalho. Vendeu a enorme casa e mudou-se para uma de madeira, parecida com aquela em que passara a sua infância.

Em 1957, quando Watson estava com 79 anos, a APA prestou-lhe uma homenagem, elogiando seu trabalho como "uma das determinantes vitais da forma e substância da psicologia moderna (...) o ponto de partida das linhas contínuas da pesquisa proveitosa". Um amigo levou-o para o hotel em Nova York onde aconteceria a apresentação, mas no último minuto Watson recusou-se a entrar e insistiu para que o filho mais velho fosse em seu lugar. (...) Watson ficara com medo de que naquele momento as suas emoções o dominassem e que o apóstolo do controle do comportamento fraquejasse e desabasse em lágrimas. (Buckley, 1989, p. 182)
Antes de morrer, um ano depois, Watson queimou todas as cartas, manuscritos e ano­ tações, jogando-as, uma por uma, na lareira, recusando-se a deixá-las para a história.

A melhor forma de começar a estudar a escola de pensamento behaviorista de Watson é lendo um trecho do artigo que inaugurou o movimento. Na passagem a seguir, ele dis­ cute a definição e o objetivo da sua nova psicologia, bem como as suas críticas contra o estruturalismo e o funcionalismo. Ele também explica a sua visão ao considerar as áreas
da psicologia aplicada como científicas por buscarem leis gerais para o controle e a previ­ são do comportamento.

A Reação ao Programa de Watson

Para muitos psicólogos, a crítica de Watson à antiga psicologia e o seu clamor por uma nova abordagem constituíam apelos comoventes. Vamos reconsiderar os fundamentos principais. A psicologia deve ser uma ciência do comportamento - não o estudo introspec­tivo da consciência puramente objetiva, uma ciência natural experimental. Ela teria de investigar tanto o comportamento humano como o animal. Os psicólogos precisariam deixar de lado todas as ideias mentalistas e empregar apenas os conceitos do comporta­mento tais como o estímulo e a resposta. As metas da psicologia deviam ser a previsão e o controle do comportamento.

Embora os argumentos fossem convincentes para alguns, o programa de Watson não foi imediatamente aceito por todos. No início, as publicações especializadas não deram muito destaque ao behaviorísmo. O movimento começou a exercer maior impacto somente após a publicação, em 1919, do livro Psychology from the standpoint of a behavioríst.

Mary Whiton Calkins discordava de Watson e, questionando a sua visão, disse a muitos colegas psicólogos acreditar na introspecção como único método que permitia o estudo de certos processos psicológicos. Esse debate a respeito da introspecção perdurou por vários anos, e Margaret Washburn chegou ao extremo de chamar Watson de inimigo da psicologia.

Era inevitável o crescimento do movimento de apoio a Watson, especialmente entre os psicólogos mais jovens; por volta da década de 1920, as universidades já ofereciam cursos sobre o behaviorísmo, e o termo passou a ser adotado nas revistas especializadas. William McDougall, entre os psicólogos mais antigos, fez uma advertência pública con­tra a popularidade do behaviorísmo, e E. B. Titchener acusou o behaviorísmo de tragar o país como uma onda gigantesca. Entretanto, por volta de 1930, Watson anunciou, com orgulho, que o behaviorismo era tão importante que nenhuma universidade podia deixar de ministrar essa disciplina.

Evidentemente, o movimento behaviorista foi muito bem-sucedido; no entanto, as mudanças exigidas por Watson em 1913 foram lentas. E, quando finalmente se concretiza­ram, a psicologia watsoniana não era a única forma de behaviorismo sendo difundida.

Os Métodos do Behaviorismo

Quando a psicologia teve início formalmente, estava ávida por se aliar à antiga, bem esta­belecida e mais respeitável ciência natural da física. A nova psicologia tentou adaptar os métodos naturais científicos às próprias necessidades. Essa tendência foi ainda mais clara no caso do behaviorismo.

Watson insistia em que a psicologia se limitasse aos dados das ciência naturais, ao que fosse passível de observação. Em poucas palavras: a psicologia devia limitar-se ao estudo objetivo do comportamento. Somente os métodos objetivos rígidos de investigação deviam ser adotados nos laboratórios dos behavioristas. Para Watson, esses métodos incluíam:

  • a observação, com e sem o uso de instrumentos;
  • métodos de teste;
  • o método de relato verbal; e
  • o método do reflexo condicionado.

A observação constitui a base fundamental para os outros métodos. Métodos de teste objetivo já eram adotados, mas Watson propôs tratar os resultados dos testes como amos­tragens do comportamento, e não como indicadores das qualidades mentais. Para ele, o teste não media a inteligência nem a personalidade, ao contrário, simplesmente media as respostas do indivíduo à situação do estímulo de ser submetido ao teste.
A questão do relato verbal foi ainda mais controversa. Como Watson rejeitava tão claramente a introspecção, o uso do relato verbal no laboratório deixava uma abertura às críticas. Alguns psicólogos consideraram o ato comprometedor, afirmando ter Watson intro­duzido a introspecção pela porta dos fundos, depois de tê-la enxotado pela da frente.

Por que ele aceitara o relato verbal? Apesar da aversão pela introspecção, não pôde ignorar os trabalhos realizados pelos psicofísicos com o uso da introspecção. Portanto, sugeriu que as reações orais, por serem observáveis objetivamente, seriam significativas para o behaviorismo, assim como qualquer tipo de resposta motora. "Falar é fazer - ou seja, comportar-se. Falar abertamente ou para nós mesmos (pensar) é um comportamento tão objetivo quanto jogar beisebol" (Watson, 1930, p. 6).

Todavia, a adoção do método do relato verbal no behaviorismo foi uma concessão muito questionada. Os adversários de Watson acusavam-no de fazer um jogo de palavras, de oferecer apenas uma mudança semântica. Ele rebatia, concordando que os relatos verbais talvez não fossem precisos e, portanto, não seriam os substitutos adequados da observação objetiva. Por isso restringia o seu uso para as situações em que pudessem ser verificados, como na descrição das diferenças tonais. Os relatos verbais não-verificáveis, como o pen­samento sem imagens e os relatos dos estados de sentimento, seriam descartados.

O método do reflexo condicionado foi adotado em 1915, dois anos depois da funda­ção formal do behaviorismo. Os métodos de condicionamento eram pouco usados, no entanto, Watson foi bastante responsável pela sua ampla aplicação na pesquisa psicoló­gica estadunidense. Ele contou ao psicólogo Ernest Hilgard haver se interessado muito pelos reflexos condicionados ao estudar o trabalho de Bekhterev, embora mais tarde também
creditasse a Pavlov esse interesse (Hilgard, 1994).

Watson descrevia o condicionamento em termos de substituição de estímulo. A respos­ta torna-se condicionada quando associada ou conectada a um estímulo diferente daquele que a originou (no caso dos cães de Pavlov, a resposta condicionada consistia na salivação mediante o som da campainha e não pela visualização da comida). Ele escolheu esse tra­tamento por oferecer um método objetivo de análise do comportamento, de redução em unidades básicas, ou seja, em ligações de estímulo-resposta (E-R). Todo comportamento podia ser reduzido a esses elementos, portanto o método de reflexo condicionado permi­tia aos psicólogos conduzirem investigações acerca da complexidade do comportamento humano em laboratórios.

Desse modo, Watson mantinha a tradição atomística e mecanicista estabelecida pelos empiristas britânicos e adotada pelos psicólogos estruturalistas. Sua intenção era estudar o comportamento humano da mesma maneira que os físicos estudavam o universo, separando-o em partes componentes, entre elas átomos e elementos.

Para a psicologia, esse enfoque exclusivo nos métodos objetivos e a eliminação da introspecção significaram uma mudança na natureza e no papel do sujeito humano no laboratorio de psicologia. Para Wundt e Titchener, o indivíduo desempenhava o papel tanto do observador como do observado, já que observavam a própria experiência cons­ciente. O seu papel era muito mais importante do que o do pesquisador.

No behaviorismo, os indivíduos em si tornaram-se menos importantes. Eles não mais observaram; em vez disso, eram observados pelo pesquisador. Com essa mudança de enfo­que, o sujeito humano do laboratório, normalmente chamado de observador, passou a ser
conhecido como sujeito. Os verdadeiros observadores eram os pesquisadores, psicólogos responsáveis pela pesquisa que estabeleciam as condições experimentais e registravam as respostas dos sujeitos.

Desse modo, o indivíduo foi rebaixado de posto. Não mais observava as próprias carac­terísticas, apenas exibia os comportamentos. E praticamente todos exibem comportamen­tos. bebês, crianças, pessoas portadoras de distúrbios mentais e emocionais, pombos ou ratos. Esse ponto de vista reforçou a imagem da psicologia de semelhança entre o homem e a maquina. Como notou um historiador, "Insere-se um estímulo em uma das pequenas aberturas para, em seguida, sair um pacote de reações” (Burt, 1962, p. 232).

O Objeto de Estudo do Behaviorismo

Os principais objetos de estudo da psicologia behaviorista de Watson eram os elementos do comportamento, ou seja, os movimentos musculares do corpo e as secrecões glandula­res. Sendo uma ciência do comportamento, a psicologia tratava exclusivamente dos atos passíveis de descrição objetiva, sem o emprego de terminologia subjetiva ou mentalista.

Apesar de a meta estabelecida reduzir todo comportamento em unidades de estímulo-resposta (E-R), o behaviorista basicamente devia envidar esforços para compreender o comportamento do organismo na totalidade. Por exemplo, embora a resposta fosse apenas um espasmo do joelho, ela também podia ser mais complexa. Watson chamava essas res­postas mais complexas de "atos". Considerava atos de resposta inclusive os fatos de comer escrever, dançar ou construir uma casa. Em outras palavras, o ato envolve o movimento do organismo no espaço. Aparentemente, Watson concebia os atos de resposta em função  da realização de alguma meta que afetasse o ambiente de algum indivíduo, e não como uma simples conexão dos elementos musculares. Entretanto, os atos do comportamento, independentemente da sua complexidade, podiam ser reduzidos em respostas glandula­res ou motoras inferiores.

As respostas podem ser explícitas ou implícitas. São explícitas notórias e diretamente observáveis. As respostas implícitas são as que ocorrem dentro do organismo -, por exem­plo, o movimento das vísceras, as secreções glandulares e os impulsos nervosos. Embora as respostas implícitas não sejam patentes, ainda são consideradas comportamentos e, ao incluí-las, Watson estava modificando seu ponto de vista de que todos os dados eram observáveis em psicologia. Ele aceitou que alguns itens do comportamento eram poten­cialmente observáveis. A observação dos movimentos ou das respostas ocorridas dentro do organismo era feita por meio de instrumentos.

Assim como as respostas com as quais o behaviorismo lida, o estímulo também pode ser simples ou complexo. Os feixes de luz que incidem sobre a retina dos olhos são estí­mulos relativamente simples, porém há outros mais complexos. Do mesmo modo que o conjunto de reações envolvido em uma ação pode ser reduzido em respostas componentes, é possível analisar a situação de estímulo reduzindo-a em estímulos componentes espe­cíficos. Assim, a psicologia behaviorista de Watson investiga o comportamento de todo organismo em relação ao seu ambiente. Para propor leis específicas do comportamento, primeiramente é necessário analisar os complexos de estímulo-resposta, reduzindo-os em estímulos elementares e nas unidades de resposta.

No que tange aos métodos e ao objeto de estudo, o behaviorismo de Watson foi uma tentativa de construir uma ciência livre de noções e métodos subjetivos, ou seja, uma ciência tão objetiva quanto a física. A seguir, analisaremos a forma de tratamento dispen­sada por Watson a três temas principais: o instinto, a emoção e o pensamento. Como qualquer teórico sistemático, ele desenvolveu a sua psicologia de acordo com a crença básica de que todas as áreas do comportamento devem ser consideradas no que se refere aos objetivos de estímulo-resposta.

Os Instintos

No início, Watson aceitava o papel dos instintos no comportamento. No livro Behavior: an introduction to comparative psychology (1914), ele descreveu 11 instintos, inclusive um relacionado com o comportamento aleatório. Estudou o comportamento instintivo das andorinhas-do-mar, uma espécie de pássaro aquático das ilhas Dry Tortugas, na região costeira da Flórida. Acompanhou-o nessa experiência Karl Lashley, um estudante da Johns Hopkins University, que afirmou haver sido a expedição prematuramente interrompida ao término do estoque de cigarros e de uísque.
Mais ou menos em 1925, Watson reavaliou sua posição e eliminou o conceito de instinto. Alegou que os comportamentos aparentemente instintivos são, na verdade, respostas con­dicionadas socialmente. Ao adotar a visão de que a aprendizagem - ou o condicionamento - seria a chave para a compreensão do desenvolvimento humano, tornou-se um ambientalista radical, indo ainda mais longe: não apenas negava os instintos como também se recusava a admitir no seu sistema qualquer tipo de talento, temperamento ou capacidade herdado.

Os comportamentos aparentemente herdados estavam relacionados com o treinamen­to adquirido logo nos primeiros anos de infância. Por exemplo, as crianças não nasciam com a habilidade para se tornarem grandes atletas ou músicos, mas eram conduzidas nessa direção pelos pais ou pelos responsáveis pela sua criação, mediante o incentivo e o reforço dos comportamentos adequados. Essa ênfase no efeito imperativo dos pais e do ambiente social na criação infantil foi um dos motivos da popularidade de Watson. Ele concluiu, de forma simples e otimista, ser possível treinar uma criança para se tornar o que se desejasse que ela fosse, pois não havia fatores genéticos limitadores.

Watson não estava sozinho ao sugerir que as influências ambientais seriam mais impor­tantes do que qualquer traço ou potencial inatos. Tornava-se cada vez mais popular, na psi­cologia, a noção de minimizar o papel do instinto como um determinante comportamental. Assim, a posição de Watson refletia uma mudança de perspectiva já em andamento. Além disso, ele pode ter sido influenciado pela orientação aplicada da psicologia estadunidense do iní­cio do século XX. A psicologia não podia ser aplicada para alterar o comportamento, a menos que ele fosse passível de modificação. Não era possível alterar o comportamento regido por forças como o instinto, no entanto o comportamento dependente da aprendizagem ou do treinamento podia ser mudado.

As Emoções

Para Watson, as emoções não passavam de simples respostas fisiológicas a estímulos especí­ficos. Um estímulo (como a ameaça de uma agressão física) produz mudanças físicas inter­nas, tais como o aumento do batimento cardíaco, acompanhado das respostas explícitas apropriadas e adquiridas. Essa explicação para as emoções nega a existência de qualquer percepção consciente da emoção ou as sensações dos órgãos internos.

Cada emoção envolve um padrão particular de mudanças fisiológicas. Embora Watson tenha observado que respostas emocionais têm envolvimento no movimento explícito, acreditava nas reações internas como predominantes. Assim, a emoção constitui uma forma de comportamento implícito no qual as reações internas são expressas por meio de manifestações físicas como o rubor das faces, a transpiração ou o aumento do bati­mento cardíaco.

A teoria das emoções de Watson é menos complexa do que a de William James, cuja teoria afirmava ser a percepção do estímulo imediatamente seguida de mudanças físicas, e definia os sentimentos resultantes como emoção. Watson criticava a posição de James. Descartando o processo consciente de percepção da situação e do estado do sentimento, Watson garantia ser possível descrever as emoções totalmente em função da situação de estimulação objetiva, da resposta física visível e das modificações fisiológicas internas.

Em um estudo hoje considerado clássico, Watson investigou os estímulos que pro­duziam respostas emocionais nos bebês. Sugeria que eles demonstravam três padrões fundamentais de resposta emocional não aprendida: o medo, a raiva e o afeto. O medo seria provocado por ruídos altos e súbita perda de apoio; a raiva, pela restrição dos movi­mentos do corpo, e o afeto, pelo toque carinhoso na pele, pelo embalo e pelas carícias. Watson também descobriu padrões típicos de resposta para esses estímulos. Essas três emoções básicas compõem outras respostas emocionais mediante o processo de condi­cionamento. Elas podem se associar a estímulos que originalmente não eram capazes de provocá-las.

Albert, Peter e os Coelhos

Watson demonstrou sua teoria das respostas emocionais condicionadas nos estudos experi­mentais realizados com o bebê Albert, de 11 meses, condicionando-o a ter medo de um rato branco, que ele não temia antes de ser submetido ao condicionamento (Watson e Ravner, 1920). Para estabelecer a relação de medo, provocava-se um enorme barulho (batendo em uma barra de aço com um martelo) atrás da cabeça de Albert, sempre que o rato lhe era mostrado. Em pouco tempo, a mera visualização do rato produzia sinais de medo na criança. Esse medo condicionado generalizava-se a outros estímulos similares como um coelho, uma pele branca de animal ou a barba branca do Papai Noel. Watson sugeriu que todos os medos, todas as aversões e ansiedades do adulto eram, do mesmo modo, condicionados no início da infância. Eles não surgem, assim como afirmava Freud, de conflitos inconscientes. Watson rejeitava totalmente a noção do inconsciente porque, assim como o consciente, não era possível observá-lo objetivamente. No início, ficara fascinado com vários conceitos de Freud, mas acabou descartando a psicanálise, chamando-a de "macumba" (apiul Rilling, 2000, p. 302).

Watson descreveu a pesquisa com Albert como apenas um estudo-piloto preliminar. Todavia ele jamais foi reproduzido com êxito. Apesar de os psicólogos notarem algumas sérias falhas metodológicas na pesquisa, seus resultados foram aceitos como uma prova científica e são mencionados em praticamente qualquer livro básico de psicologia.

Embora Albert fosse condicionado a ter medo de ratos brancos, coelhos e Papai Noel, ele não estava mais disponível como sujeito da pesquisa quando Watson tentou eliminar esses temores. Pouco tempo depois de começar esse programa de pesquisa, Watson abandonou a vida acadêmica. Mais tarde, quando trabalhava com publicidade em Nova York, apresentou uma palestra sobre a pesquisa. Estava presente no público Mary Cover Jones (uma colega de faculdade da sua esposa, Rosalie). As observações de Watson despertaram seu interesse e ela se questionou se a técnica de condicionamento podia ser utilizada para eliminar o medo das crianças. Pediu a Rosalie que lhe apresentasse Watson e então começou a realizar um estudo que, desde então, tornou-se outro clássico da história da psicologia (Jones, 1924).

Sua pesquisa foi realizada com Peter, de 3 anos, que já demonstrava medo de coelhos, embora esse temor não tenha sido condicionado em laboratório. Enquanto Peter comia, um coelho era colocado na sala, mas a uma distância razoável, de modo que não provocasse uma resposta de medo. Depois de uma série de tentativas, que duraram várias semanas, o coelho era progressivamente trazido para mais perto, sempre quando a criança estava comendo. Finalmente, Peter acabou se acostumando com o coelho e conseguiu tocá-lo sem sentir medo. As respostas generalizadas de medo de objetos similares também foram eliminadas por meio desse procedimento.

O estudo de Jones foi considerado um precursor da terapia do comportamento (a aplicação dos princípios de aprendizagem para alterar o comportamento desajustado), quase 50 anos antes de a técnica se tornar conhecida. Jones, há muito tempo associada ao Institute of Child Walfare da University of Califórnia, em Berkeley, recebeu de G. Stanley Hall um prêmio, em 1968, pelas extraordinárias contribuições para a psicologia do desenvolvimento.

Os Processos de Pensamento

A visão tradicional dos processos de pensamento afirmava que eles ocorriam no cérebro "tão indistintamente que nenhum impulso nervoso passa pelo nervo motor até o músculo, portanto nenhuma reação ocorre nos músculos e nas glândulas" (Watson, 1930, p. 239). De acordo com essa teoria, os processos de pensamento não são passíveis de observação e de experimentação, já que ocorrem na ausência de movimentos musculares. O pensa­mento era considerado intangível, algo exclusivamente mental e, portanto, desprovido de pontos de referência físicos.
O sistema behaviorista de Watson tentou reduzir o pensamento a comportamento motor implícito. Ele alegava ser o pensamento, como todos os demais aspectos do funcio­namento humano, uma espécie de comportamento sensório-motor. Partia do princípio de que o comportamento do pensamento envolvia movimentos ou reações de fala implí­citas. Desse modo, reduzia o pensamento para a fala subvocal que dependia dos mesmos hábitos musculares aprendidos para a expressão da fala explícita. À medida que nos tor­namos adultos, esses hábitos musculares tornam-se inaudíveis e invisíveis porque pais e professores nos reprimem para pararmos de conversar alto com nós mesmos. Assim, o pensamento transforma-se em uma forma de conversação silenciosa.

Watson achava que grande parte desse comportamento implícito se concentrava nos músculos da língua e da laringe (chamadas de caixa da voz). Também expressamos o pen­samento por gestos, como o franzir da testa e o movimento dos ombros, que são reações explícitas a um estímulo.
Uma das fontes mais claras de comprovação da teoria de Watson está no fato de mui­tos admitirem conversar consigo mesmos enquanto estão pensando. Um estudo realizado com relatos introspectivos de estudantes da faculdade constatou que 73% das amostras de pensamento envolviam o ato de conversar consigo mesmo enquanto estavam pen­sando (Farthing, 1992). Todavia, esse tipo de evidência não é aceito pelos behavioristas exatamente por ser introspectivo, e Watson raramente lançava mão da introspecção para sustentar a sua teoria. O behaviorismo exigia provas objetivas de movimentos implícitos da fala, portanto Watson realizou tentativas experimentais para registrar os movimentos da língua e da laringe durante o pensamento.

Essas mensurações revelaram alguns leves movimentos quando os indivíduos estavam pensando. As mensurações dos gestos dos dedos e das mãos dos portadores de deficiência auditiva usando a linguagem dos sinais também revelaram alguns movimentos durante o pensamento. Apesar da sua incapacidade de assegurar resultados mais confiáveis, Watson conti­nuou convicto da existência dos movimentos implícitos de fala. Insistia em que a comprovação dependia apenas do desenvolvimento de equipamentos de laboratório mais sofisticados.

O Apelo Popular do Behaviorismo

Por que as declarações ousadas de Watson lhe renderam tanta adesão do público? Na verdade, a maioria das pessoas pouco se importava se alguns psicólogos fingiam estar conscientes enquanto outros afirmavam ter a psicologia perdido a cabeça ou se o pensa­mento ocorria na cabeça ou no pescoço. Essas questões provocavam muitos debates entre os psicólogos, mas quase não despertavam o interesse das pessoas comuns.
O que sensibilizou o público foi o clamor de Watson por uma sociedade baseada no comportamento controlado e moldado cientificamente, livre dos mitos, dos costumes e dos comportamentos convencionais. Esses conceitos trouxeram esperança às pessoas desencantadas com as antigas ideias. Na fé e na devoção, o behaviorismo adquiriu as características de uma religião. Entre as centenas de artigos e livros escritos sobre o behaviorismo de Watson estava The religion called behaviorism (Berman, 1927), que logo foi lido por um jovem de 23 anos, B. F. Skinner, que escreveu um artigo, enviando-o para uma revista literária popular. "Eles não publicaram o [meu artigo], mas o fato de tê-lo escrito foi como se eu tivesse me definido pela primeira vez como um behaviorista" (Skinner, 1976, p. 299). Skinner prosseguiu aprimorando e ampliando o trabalho de Watson (veja no Capítulo 11).

O entusiasmo gerado pelas ideias de Watson pode ser observado nos comentários dos jornais a respeito do seu livro Behaviorism (1925). O The New York Times declarou: Trata-se de um marco da época na história intelectual do homem" (2 ago. 1925). O The New York Herald Tribune afirmou ser "o livro mais importante escrito até hoje. Saímos em um instante da escuridão para uma grande esperança" (21 jun. 1925).

A esperança vinha da ênfase de Watson no efeito da criação e do ambiente infantil, na determinação do comportamento e na minimização do impacto das tendências inatas. 

O trecho a seguir, extraído do livro Behaviorism, frequentemente é citado para sustentar essa visão:

Deixe sob a minha responsabilidade uns 10 bebês saudáveis e bem-formados, e a um mundo especificado por mim para criá-los, e garanto escolher algum aleatoriamente e treiná-lo para tornar-se especialista de qualquer área, seja um médico, um advogado, um empresário e até mesmo um mendigo ou um bandido, independentemente do talen­to, da propensão, da tendência, da habilidade, da vocação e da raça de seus ancestrais. (Watson, 1930, p. 104)

As experiências de Watson acerca do reflexo condicionado, tais como o estudo com Albert, convenceram-no de que os distúrbios emocionais do adulto são provocados pelas respostas condicionadas estabelecidas na infância e na adolescência. E, se o desequilíbrio do adulto é resultante do condicionamento deficiente na infância, então um programa de condicionamento infantil adequado evitaria o surgimento de adultos desequilibrados. Watson acreditava que esse tipo de controle prático sobre o comportamento infantil (e, consequentemente, sobre o comportamento adulto posterior) não era apenas possível, como também absolutamente necessário. Ele desenvolveu um plano para a melhoria da socieda­de, um programa de ética experimental, baseado nos princípios do behaviorismo.

Ninguém jamais lhe ofereceu uma dezena de bebês saudáveis para ele testar sua afirmação e, mais tarde, Watson reconheceu que, se houvesse feito isso, estaria ultrapas­sando os limites dos fatos. No entanto, comentou que as pessoas que discordavam dele e acreditavam no maior impacto da hereditariedade do que do ambiente vinham fazendo essa afirmação por milhares de anos e ainda não haviam conseguido alguma prova real para a sua visão.

O seguinte trecho do livro Behaviorism mostra a vitalidade com que Watson descrevia o seu programa de sobrevivência nos termos do sistema behaviorista. E talvez ajude a esclarecer por que tantas pessoas adotaram o behaviorismo como uma nova fé.

O behaviorismo deve ser uma ciência que prepare homens e mulheres para compreender os princípios dos próprios comportamentos. Deve formar homens e mulheres dispostos a reorganizar as próprias vidas, e principalmente com disposição para se prepararem para educar seus filhos de maneira saudável. Gostaria de conseguir retratar a vocês o indivíduo rico e maravilhoso que podemos produzir de cada criança saudável se pudermos moldá-la de forma adequada e oferecer-lhe um universo em que possa exercer essa organização, um universo não influenciado pelas lendas folclóricas dos acontecimentos de milhares de anos passados, não tolhido pela história política desonrosa, livre de costumes e conven­ções tolas, desprovidas de significados próprios, mas que submetem os indivíduos como rígidas algemas de aço.

Não clamo aqui por uma revolução; não peço às pessoas que se dirijam a algum local esquecido por Deus, formem uma colônia, andem nuas e vivam em uma comunidade; nem peço para mudarem para uma dieta à base de raízes ou ervas. Não clamo pelo "amor livre". Estou tentando lhes apresentar um estímulo verbal que, se produzir algum efeito, gradualmente transformará o universo. Porque o universo se transformará se vocês edu­carem seus filhos, não com libertinagem, mas com a liberdade behaviorista, uma liber­dade que não pode ser descrita em palavras, já que pouco sabemos dela. E será que essas crianças, com a sua melhor forma de vida e de pensamento, não nos substituirão como sociedade e educarão seus filhos de uma forma mais científica até que o mundo finalmen­te se torne um lugar adequado para o homem viver? (Watson, 1930, p. 303-304)

O plano de Watson de substituir a ética baseada na religião pela experimental, fun­damentada no behaviorismo, ficou na esperança e não se concretizou. Ele esboçou esse programa e o deixou como base para outros. Anos mais tarde, B. F. Skinner (veja no Capí­tulo 11) concebeu mais detalhadamente uma utopia moldada cientificamente no espírito das ideias de Watson.

A Popularização da Psicologia

Por volta da década de 1920, o campo da psicologia já havia conquistado e cativado a atenção do público. Em virtude do carisma, do charme pessoal, do poder de persuasão e da mensagem de esperança de Watson, os estadunidenses estavam enfeitiçados por algo cha­mado "surto" de psicologia. Grande parte do público estava convencida da capacidade da psicologia de mostrar o caminho para a saúde, a felicidade e a prosperidade. As colunas com conselhos psicológicos brotavam nas páginas dos jornais diários.

O psicólogo Joseph Jastrow (1863-1944) era descrito como um propagandista hiperativo da psicologia, comparado aos modernos colunistas famosos, como Ann Landers ou Dear Abby (Rabkin, 1994). Jastrow obteve o Ph.D. em 1886, na Johns Hopkins e construiu uma longa carreira acadêmica na University of Wisconsin. Também escrevia artigos para as revis­tas sobre psicologia, trabalhando com a crença de que a "popularização da psicologia era essencial para o seu reconhecimento público e apoio oficial" (Jastrow, 1930/1961, p. 150). Entre os assuntos abordados estavam a cura da melancolia, a psicologia dos delinquentes, os medos e as preocupações, o significado dos testes de QI, o complexo de inferioridade, os conflitos familiares e o motivo do consumo de café. Obviamente, a psicologia já se encontrava bem distante do trabalho de laboratório da época de Wundt e Titchener.

Jastrow era autor de uma coluna, Keeping Mentally Fit (Como Manter o Equilíbrio Mental), publicada em 150 jornais, e também participava de um programa de rádio semanal da rede NBC. Chegou a escrever um manual popular de psicologia, Piloting your life: the psychologist as helmsman, bem diferente dos livros de autoajuda mais vendidos atualmente. Albert Wiggam foi outro grande divulgador da psicologia. Embora não fosse psicólogo, escrevia uma coluna chamada Exploring Your Mind (Explorando sua Mente). Esse trecho ilustra as suas opiniões:

Os homens e as mulheres nunca precisaram tanto da psicologia como nos dias de hoje. Os rapazes e as moças necessitam da psicologia para avaliar seus traços mentais e suas habilidades, a fim de fazer uma opção precoce e correta da carreira. (...) os empresários a utilizam na seleção de funcionários; os pais e educadores, para ajudar na criação e educa­ção dos filhos; enfim, todos necessitam da psicologia para garantir a mais elevada eficácia e a felicidade. Não se pode atingir plenamente esses objetivos sem o novo conhecimento da própria mente e personalidade que os psicólogos nos oferecem. (Wiggam, 1928 apud Benjamin, 1986, p. 943)

O humorista canadense Stephen Butler Leacock comentou que a psicologia, enquanto confinada nos campi universitários, não estabelecia relações com a realidade nem provocava nenhum dano a quem a estudasse. No entanto, por volta de 1924, ela estava disseminada por toda parte. Leacock disse: "Hoje, para qualquer momento crítico da vida, procuramos os serviços de um psicólogo com a mesma naturalidade com que contratamos o serviço de um encanador. Em todas as metrópoles há ou haverá cartazes em que se lê 'Psicólogo - 24 horas por dia"' (apud Benjamin, 1986, p. 944).

Dessa maneira, a psicologia foi acolhida em todo o território estadunidense, e John B. Watson, mais do que qualquer outra figura, foi responsável por ajudar a divulgá-la.

As Críticas ao Behaviorismo de Watson

Qualquer sistema que apresente propostas radicais de revisão, que desafie violentamente a ordem existente e sugira a exclusão da versão anterior da verdade certamente deve ser alvo de críticas. É sabido que a psicologia estadunidense já rumava em direção à maior obje­tividade quando Watson fundou o behaviorismo, no entanto nem todo psicólogo estava disposto a aceitar a radical objetividade por ele apresentada. Muitos psicólogos, inclusive alguns defensores do princípio da objetividade, acreditavam que o programa de Watson omitia componentes importantes - como os processos perceptuais e sensoriais.

Edwin B.Holt (1873-1946)

Holt recebeu seu diploma de Ph.D. das mãos de William James, pela Harvard University, em 1901 e passou sua carreira acadêmica na Princeton University. Ele discordava do senti­mento de rejeição e dos fenômenos mentais de Watson, e achava que é possível relacionar experiências conscientes a situações físicas. Entretanto, como Watson, Holt acreditava na influência determinante das forças ambientais sobre as forças instintivas.

Também acreditava que a aprendizagem podia ocorrer como resposta a motivações interiores (nossas necessidades e impulsos internos, como fome e sede) bem como moti­vações externas (estímulos). Holt foi um dos primeiros teóricos a identificar os impulsos internos, antecipando-se ao trabalho posterior na área de motivação.

Holt não tentou reduzir o comportamento à unidade estímulo-resposta. Preferiu lidar com comportamentos maiores que tinham algum propósito para o organismo, compor­tamentos que ajudavam a atingir algum objetivo. O termo e conceito de "propósito" não eram permitidos no sistema de Watson. A ênfase que Holt deu a esse conceito serviu de estímulo para o trabalho do neo-behaviorista E.C. Tolman (veja no Capítulo 11).

Karl Lashley (1890-1958)

Lashley fora aluno de Watson na Johns Hopkins, onde completou o Ph.D. Sua carreira na psicofisiologia abriu-lhe as portas das universidades de Minnesota e de Chicago, além da Harvard, conduzindo-o finalmente ao laboratório de Yerkes, dedicado ao estudo biológi­co dos primatas. Ele preservou a tradição mecanicista característica da psicologia desde a sua fundação.

Lashley revelou que, quando criança, ficava muito intrigado com as pessoas e era habili­doso com os objetos mecânicos [como os brinquedos de montar, para construir prédios e pontes]. Afirmou que a psicologia foi uma verdadeira revelação para ele, quando ele reconheceu que o ser humano e a máquina tinham muitos aspectos em comum. (Murray apud Robinson, 1992, p. 213)

Karl Lashley defendia o behaviorismo de Watson, embora sua pesquisa acerca do mecanismo cerebral dos ratos contrariasse um dos pontos básicos de Watson.

Ele resumiu suas descobertas no trabalho Brain mechanisms and intelligence (1929), e apresentou dois princípios hoje famosos: a lei da ação da massa, que estabelece ser a eficácia da aprendizagem uma fun­ção da massa intacta do córtex (quanto mais tecido cortical estiver disponível, melhor a aprendizagem); e o princípio da equipotencialidade, que estabelece ser uma parte do córtex essen­cialmente igual à outra na contribuição para a aprendizagem.

Lashley esperava que a pesquisa lhe revelasse os centros motor e sensorial específicos do córtex cerebral, bem como as conexões correspondentes entre o aparelho motor e o sensorial. Essas descobertas teriam sustentado a primazia e a simplicidade do arco reflexo como uma unidade de comportamento elementar. No entanto, ocorreu que os resultados contradiziam a ideia de Watson da conexão simples, ponto a ponto, dos reflexos, de acor­do com a qual o cérebro serve apenas para transformar os impulsos nervosos sensoriais de origem em impulsos motores de resposta. As descobertas de Lashley sugeriam que o cérebro desempenha uma função muito mais ativa na aprendizagem do que Watson admi­tia. Desse modo, Lashley contestava a afirmação de Watson de que o comportamento era composto parte por parte exclusivamente dos reflexos condicionados.

Embora o trabalho de Lashley contrariasse uma parte fundamental do sistema de Watson, ele não enfraqueceu a insistência behaviorista na utilização dos métodos obje­tivos de pesquisa. Ao contrário, seu trabalho confirmou o valor da objetividade na pes­quisa psicológica.

William McDougall (1871-1938)

Um dos mais vigorosos opositores de Watson era William McDougall, psicólogo inglês que foi para os Estados Unidos em 1920, primeiro para a Harvard e depois para a Duke University. McDougall ficou conhecido por sua teoria do comportamento instintivo e pelo ímpeto do seu livro acerca da psicologia social (McDougall, 1908).

Embora houvesse contribuído muito para a psicologia social, pessoalmente McDougall não era muito sociável. Ele dizia:

Nunca me adaptei adequadamente a nenhum grupo social, jamais fui capaz de me encon­trar completamente como indivíduo na presença de alguma pessoa ou de algum sistema; e, embora não ignorando os interesses da vida, do sentimento e do pensamento coletivo, sempre me mantive isolado, crítico e insatisfeito. (McDougall, 1930, p. 192)

Costumava apoiar causas impopulares, como o livre-arbítrio, a superioridade nórdica e a pesquisa psíquica, e muitas vezes foi criticado pela imprensa por causa das suas posi­ções. McDougall também foi difamado pela comunidade psicológica por haver criticado o behaviorismo na década de 1920, período em que a maioria dos psicólogos aceitava a influência behaviorista.

MacDougall escreveu que "sofreu muito com a perda da reputação, impopularidade, informações difamadoras e hostilidade desdenhosa" (apud Innis, 2003, p. 102). Um psicólogo estadunidense chegou a ponto de dizer publicamente, quando McDougall estava muito doente, que a psicologia lucraria mais se ele morresse. Robert Yerkes, mais compreensivo, observou que a vida de McDougall tinha sido uma "grande tragédia" (Innis, 2003, p. 91).

A teoria do instinto de McDougall afirmava ser o comportamento humano derivado das tendências inatas ao pensamento e à ação. Embora a sua ideia fosse bem recebida no início, perdera terreno para o behaviorismo. Watson não aceitava a noção de instinto, e nessa questão e em várias outras os dois colidiam.

O debate entre Watson e McDougall.

Watson e McDougall encontraram-se para debater suas divergências em 5 de fevereiro de 1924, no Clube de Psicologia, localizado em Washington, DC. O fato de haver em Washington um clube de psicologia não-filiado a nenhuma universidade comprova a ampla popularidade da disciplina. Cerca de mil pes­soas compareceram ao debate. Havia poucos psicólogos: somente 464 membros da APA de todo o país. Assim, o tamanho do público também refletia a popularidade do behavioris­mo de Watson. Os julgadores do debate, no entanto, declaram McDougall o vencedor. Os argumentos de ambas as partes foram publicados em The battle of behaviorism (1929).

McDougall começou com otimismo, dizendo: "Começo com boa vantagem sobre o Dr. Watson, uma superioridade tão grande que se torna até injusto; isto é, todas as pes­soas dotadas de bom senso ficarão necessariamente a meu lado desde o início" (Watson e McDougall, 1929, p. 40). Ele concordava com a visão de Watson de serem os dados do comportamento o enfoque adequado do estudo psicológico, no entanto, afirmava serem igualmente indispensáveis os dados da consciência (essa posição foi sustentada posterior­mente pelos psicólogos humanistas e pelos teóricos da aprendizagem social).

Se os psicólogos não adotassem a introspecção, perguntava McDougall, como deter­minariam o significado da reação de um indivíduo ou a precisão do ato da fala (que Watson chamava de relato verbal)? Sem o autorrelato, como descobrir algo a respeito das fantasias e dos sonhos das pessoas? Como compreender ou analisar as experiências estéticas? McDougall desafiava Watson a explicar como seria o relato do behaviorista acerca da expenencia de apreciar um concerto de violino. McDougall disse:

Entro neste salão e vejo um homem no palco raspando as tripas de um gato com os pelos do rabo de um cavalo, e, sentados silenciosamente em uma atitude de total atenção mil pessoas que de repente irrompem em aplausos. Qual a explicação behaviorista para estra­nhos incidentes como esse? Como explicar o fato de as vibrações emitidas pelos categutes motivarem mil pessoas a permanecerem em total e absoluto silêncio e quietude e o fato seguinte, no qual a interrupção desse estímulo parece transformar-se em outro estímulo provocador de uma atividade tão frenética?

O senso comum e a psicologia concordam em aceitar a explicação de que o público ouviu a musica com extremado prazer e deu vazão à admiração e gratidão ao artista com gritos e aplausos. No entanto, o behaviorista não conhece nada a respeito do prazer e da dor, nem da admiraçao e da gratidão. Ele relegou todas essas "entidades metafísicas" a um amontoado de poeira, e tem de buscar outra explicação. Deixemo-lo procurando, já que a busca o manterá inofensivamente ocupado por vários séculos. (Watson e McDougall, 1929, p. 62-63)

Assim, McDougall questionava a afirmação de Watson de que o comportamento humano é totalmente determinado, de que tudo que realizamos é resultado direto da experiência passada e pode ser previsto assim que conhecemos esses fatos passados. Esse tipo de Pslcologia não dá espaço para o livre-arbítrio ou a liberdade de escolha. Se essa posição determinista fosse verdadeira, ou seja, se os humanos não fossem dotados
e vontade livre nem responsáveis pelas próprias ações, então não existiria a iniciativa humana, o esforço criativo, o desejo de melhoria individual e social. Ninguém tentaria evitar a guerra, minimizar a injustiça ou lutar por algum ideal pessoal ou social Por que continuar tentando achar uma resposta, se todo pensamento e comportamento é deter­minado pela experiência passada?

O método do relato verbal de Watson entrou no fogo cruzado. Watson foi acusado e inconsistência por aceita-lo quando conseguia comprová-lo e rejeitá-lo quando não. Evidentemente, esse era o enfoque principal de Watson e de todo o movimento behaviorista: usar somente dados verificáveis.

O debate entre os dois ocorreu 11 anos depois de Watson fundar a escola de pensa­mento behaviorista. McDougall previu que em mais alguns anos a posição de Watson desapareceria sem deixar rastros. Em um pós-escrito à publicação do debate, cinco anos depois McDougall disse que sua previsão foi excessivamente otimista, "baseada em uma ideia generosa demais da inteligência do público americano. (...) Dr. Watson continua
como um profeta muito honrado no próprio país, a emitir suas opiniões" (Watson é McDougall, 1929, p. 86-87).

As Contribuições do Behaviorismo de Watson

A carreira produtiva de Watson na psicologia durou pouco menos de 20 anos; mesmo assim, afetou profundamente o curso do desenvolvimento da psicologia por muito tempo.

Watson foi um eficaz agente do Zeitgeist, em uma época de mudanças não apenas na psicologia, como também nas atitudes científicas em geral. O século XIX testemunhou os magníficos avanços em todos os ramos da ciência. O século XX prometia feitos ainda mais extraordinários. Na época, acreditava-se que, se aos cientistas fosse dado tempo sufi­ciente, eles descobririam as soluções para todos os problemas e as respostas para todas as perguntas.

Watson tornou a metodologia e a terminologia da psicologia mais objetivas. Embo­ra suas posições a respeito de determinados tópicos estimulassem muita pesquisa, suas formulações iniciais não são mais válidas. Como uma escola de pensamento distinta, o behaviorismo de Watson foi substituído por outras formas de objetivismo psicológico nele baseado, como veremos no Capítulo 11. O historiador E. G. Boring afirmou que, em 1929, o behaviorismo já ultrapassara a etapa inicial. Como os movimentos revolucionários dependem das polêmicas para se fortalecerem, é um verdadeiro tributo ao behaviorismo de Watson que apenas 16 anos após a sua introdução ele não precisasse mais protestar. Na verdade, não sobrou nada para protestar.

O behaviorismo de Watson efetivamente superou as posições iniciais mais gerais da psicologia. Em 1926, um estudante de pós-graduação da University of Wisconsin relatou que, naquela época, poucos estudantes tinham ouvido falar de Wundt e Titchener (Gengerelli, 1976). Os métodos objetivos e a linguagem acabaram se incorporando à psicologia estadunidense e, desse modo, morria o sistema de Watson, assim como outros movimentos bem-sucedidos, ou seja, sendo absorvidos por um corpo principal de pensamento, a fim de proporcionar uma base conceituai mais firme para a psicologia moderna.

Embora o programa de Watson não lhe permitisse atingir seus ambiciosos objetivos, ele foi amplamente reconhecido pelo seu papel de fundador. O seu 100° aniversário de nascimento foi comemorado em abril de 1979, o mesmo ano do centenário da psicologia como ciência. Um simpósio realizado na Furman University, para o qual o laboratório de psicologia levou o nome de Watson em sua homenagem, reuniu psicólogos vindos de todos os Estados Unidos. Um dos oradores foi B. F. Skinner, cujo discurso se intitulava “What J. B. Watson meant to me” ("O que J. B. Watson significou para mim"). Seus conterrâneos não guardavam boas lembranças de Watson. Muitos recordavam-se dele como "arrogante e ateu que voltara as costas para a sua herança sulista e a criação batista" (Greenville News, 5 abr. 1979). Em 1984, foi inaugurado um marco comemorativo em uma estrada próxima ao local de seu nascimento.

Até certo ponto, a aceitação do behaviorismo watsoniano deveu-se à personalidade de Watson, figura carismática que projetava suas ideias com entusiasmo, otimismo e autocon­fiança. Orador muito eloquente e persuasivo, desprezava a tradição e rejeitava a psicologia corrente. Essas características pessoais, aliadas ao espírito dos tempos que ele manipulava com tanta maestria, definiram John B. Watson como um dos pioneiros da psicologia.
 

Psicologia - História da Psicologia
2/4/2020 1:30:02 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Behaviorismo, as influências anteriores

Hans, o Esperto, foi o cavalo mais famoso de toda a história da psicologia. Naturalmente, ele foi o único cavalo na história da psicologia, mas isso não diminui suas realizações extraordina­riamente brilhantes. No início da década de 1900, praticamente toda pessoa culta da Europa e dos Estados Unidos já ouvira falar a respeito de Hans, o cavalo prodígio. Ele foi o cavalo mais esperto do mundo e conhecido até como a criatura de
quatro patas mais inteligente de que se ouvira falar.

O esperto Hans, que vivia em Berlim, Alemanha, era uma celebridade. As propagandas usavam seu nome para vender seus produtos. Suas realizações serviram de inspi­ração para canções, artigos de revistas e livros. Seu conhe­cimento fenomenal foi testado por matemáticos famosos e considerado como tendo capacidade de raciocínio numérico equivalente ao de um menino de 14 anos de idade.

Ele conseguia somar e subtrair, usar frações e decimais, ler, identificar moedas, jogar baralho, soletrar, reconhecer uma variedade de objetos e resolver problemas incríveis de memória. O cavalo respondia a perguntas feitas a ele batendo a pata um determinado número de vezes ou balançando a cabeça em direção ao objeto apropriado. "Quantos cavalheiros presentes estão usando chapéu de palha?" perguntava-se. [228] Hans, o Esperto, batia a resposta com sua pata direita, tomando cuidado para não incluir os chapéus de palha usados pelas damas. "O que aquela senhora está segurando?" O cavalo respondia ‘‘schirm’’, que significa sombrinha, indicando cada letra em um cartaz especial. E ele ainda era capaz de distinguir entre uma bengala e uma sombrinha, ou um chapéu de palha e um de feltro.

O mais importante é que Hans podia pensar por si mesmo. Quando lhe faziam uma pergunta estranha, por exemplo, quantos lados tem um círculo, ele sacudia a cabeça de um lado para o outro querendo dizer que nenhum. (Fernald, 1984, p. 19)

Não era para menos que as pessoas ficassem surpresas e que seu dono, Wilhelm von Osten, um professor aposentado de matemática, ficasse orgulhoso. Ele levara vários anos ensinando a Hans os princípios da inteligência humana (já havia tentado antes, em vão, ensinar um gato e um urso). Von Osten não lucrou financeiramente com o desempenho de Hans. Quando deu demonstrações da inteligência do cavalo, no pátio do edifício onde morava, nunca cobrou nenhuma taxa, tampouco aproveitou-se do resultado para fazer publicidade. A motivação para esse enorme esforço foi puramente científica. Seu objetivo era provar que Darwin estava correto ao sugerir a semelhança entre o processo mental animal e o humano.

Von Osten também acreditava que educação insuficiente era a única justificativa para a aparente falta de inteligência dos cavalos e dos demais animais. Estava convencido de que, com o método adequado de treinamento, o cavalo provaria sua inteligência.  Devido aos seus esforços, a maior parte do mundo ocidental se convenceu!

Mas havia alguns céticos que duvidavam e questionavam se Hans ou qualquer outro animal podia realmente ser tão inteligente. Devia ter algum truque envolvido. Alguns achavam que era o escândalo do século.

Você acredita que seja possível ensinar um animal a responder perguntas correta­mente? Aquela exibição da inteligência do animal era legítima? E o que tudo isso tem a ver com a história da psicologia? Vamos ver posteriormente que foi um psicólogo que finalmente resolveu o mistério.

Rumo à Ciência do Behaviorismo

Em torno da segunda década do século XX, pouco menos de 40 anos após Wilhelm Wundt dar início à psicologia, a ciência passava por uma profunda reavaliação. Não havia mais consenso entre os psicólogos acerca do valor da introspecção, da existência dos elemen­tos mentais ou da necessidade de a psicologia continuar a manter o status de uma ciência pura. Os psicólogos funcionalistas reescreviam as diretrizes, usando a psicologia de uma forma que seria inadmissível em Leipzig e em Cornell.

O movimento na direção do funcionalismo era mais evolucionário do que revolucioná­rio. A intenção inicial dos funcionalistas não consistia em acabar com a ordem estabelecida por Wundt e E. B. Titchener. Eles apenas acrescentaram e modificaram alguns aspectos, dando origem, com o passar dos anos, a uma nova forma de psicologia, que era mais um movimento emergente interno do que uma consequência de um ataque externo. [229]

Os líderes do movimento funcionalista não estavam ávidos por formalizar a sua posi­ção. Eles viam a sua tarefa não como uma ruptura com o passado, mas como uma evolução a partir dele. Por isso, a mudança do estruturalismo para o funcionalismo não estava tão evidente no momento em que ocorria. Dessa forma, o cenário da psicologia estadunidense na segunda década do século XX exibia o amadurecimento do funcionalismo concomitantemente à consolidação, embora em uma posição não mais exclusiva, do estruturalismo.

O ano de 1913 foi marcado por uma espécie de declaração de guerra, com o surgimento de um movimento de protesto cuja intenção era dilacerar as visões antigas, buscando uma ruptura com ambas as posições. Seus líderes não desejavam modificar o passado, muito menos manter alguma relação com ele. Esse movimento revolucionário chamava-se beha- viorismo e foi promovido pelo psicólogo John B. Watson, de 35 anos. Apenas 10 anos antes, Watson recebera o Ph.D. de James Rowland Angell na University of Chicago, na época em que a universidade era o centro da psicologia funcionalista, um dos dois movimentos que Watson decidiu destruir.

As premissas básicas do behaviorismo de Watson eram simples, diretas e ousadas. Ele buscava uma psicologia científica que lidasse exclusivamente com os atos comportamentais observáveis e passíveis de descrição objetiva, por exemplo, em termos de "estímulo" e "resposta". Além disso, a psicologia de Watson rejeitava qualquer termo ou conceito mentalista. Na sua visão, palavras como "imagem", "sensação", "mente" e "consciência" - adotadas desde a época da filosofia mentalista - não significavam absolutamente nada para a ciência do comportamento.

Watson afirmava que a consciência não tinha o menor valor para a psicologia do comportamento, rejeitando veementemente esse conceito. Além disso, alegava que nin­ guém jamais "havia visto, tocado, cheirado, experimentado ou transferido de um lugar a outro a consciência. Asua definição não passa de mera suposição tão improvável quanto o conceito de alma" (Watson e McDougall, 1929, p. 14). Desse modo, a introspecção, que pressupunha a existência do processo consciente, era irrelevante e sem valor para a ciên­ cia do comportamento.

Watson afirmava que a consciência não tinha o menor valor para a psicologia do comportamento, rejeitando veementemente esse conceito. Além disso, alegava que nin­ guém jamais "havia visto, tocado, cheirado, experimentado ou transferido de um lugar a outro a consciência. Asua definição não passa de mera suposição tão improvável quanto o conceito de alma'' (Watson e McDougall, 1929, p. 14). Desse modo, a introspecção, que pressupunha a existência do processo consciente, era irrelevante e sem valor para a ciên­ cia do comportamento.

Não foi Watson quem deu origem a essas idéias básicas do movimento behaviorista; elas já vinham sendo desenvolvidas há algum tempo, tanto na psicologia como na biolo­ gia. Como qualquer outro fundador, Watson organizou e promoveu as idéias e as questões já aceitáveis para o Zeitgeist intelectual. Assim, são estes alguns dos principais conceitos reunidos por Watson para formar seu sistema de psicologia behaviorista: a tradição filosó­fica objetivista e mecanicista; a psicologia animal; e a psicologia funcional.

O reconhecimento da necessidade de uma psicologia mais objetiva envolve uma longa história que nos remete a Descartes, cujas explicações mecanicistas para o funcionamento do corpo humano constituíram uma das primeiras iniciativas rumo a uma ciência objetiva. Outra figura ainda mais importante na história do objetivismo foi o filósofo francês Auguste Comte (1798-1857), fundador do positivismo, movimento com ênfase no conhecimento positivo (fatos), o quél constituiria uma verdade inquestionável (veja no Capítulo 2). De acordo com Comte, o único conhecimento válido é o de natureza social e observável de forma objetiva. Esses critérios eliminavam a introspecção, já que ela depende da consciên­cia individual particular e não é passível de estudo objetivo.

Por volta dos primeiros anos do século XX, o positivismo incorporava-se ao Zeitgeist científico. Mesmo assim, Watson e outros psicólogos estadunidenses da sua época raramente abordavam o positivismo em seus trabalhos. No entanto, de acordo com um historiador, "agiam como positivistas, mesmo não se assumindo como tais (Logue, 1985. p. 149). Dessa forma, quando Watson começou a trabalhar com o behaviorismo as suas idéias já tão impregnadas pelas influências objetivistas, mecanicistas e materialistas, deram origem a um novo tipo de psicologia - disciplina que excluía a consciência, a mente ou a alma -, com enfoque apenas em algo visível, audível ou palpável. O resultado foi uma ciência do comportamento que enxergava o ser humano como uma máquina.

A Influencio da Psicologia Animal no Behaviorismo

A posição de Watson a respeito da relação entre a psicologia animal e o behaviorismo era clara: "O behaviorismo é o resultado direto dos estudos do comportamento animal realiza­dos durante a primeira década do século XX" (Watson, 1929, p. 327). Desse modo, podemos afirmar que o principal antecessor do programa de Watson foi a psicologia animal, resultante da teoria evolucionista e que levou à tentativa de se demonstrar (1) a existência da mente nos organismos inferiores e (2) a continuidade entre a mente animal e a humana.

No Capítulo 6, apresentamos os trabalhos de dois pioneiros da psicologia animal, George John Romanes e Conwy Lloyd Morgan. A lei da parcimônia de Morgan e o maior emprego das técnicas experimentais em vez das anedóticas tornaram a psicologia animal mais objetiva, embora a consciência continuasse a ser o enfoque central. A metodologia tornava-se mais objetiva, mesmo o objeto de estudo sendo subjetivo.

Por exemplo, em 1899, Alfred Binet publicou The psychic life of micro-organisms, em que apresentava uma proposta afirmando que até mesmo um organismo unicelular como o protozoário era capaz de perceber e distinguir os objetos e de exibir um comportamento dotado de intenção. Em 1908, Francis Darwin (filho de Charles Darwin) questionava sobre o papel da consciência nas plantas. Nos primeiros anos da psicologia animal nos Estados Unidos, houve grande interesse pelos processos conscientes dos animais, e a influência de Romanes e Morgan perdurou por algum tempo.

Jacques Loeb (1859-1924)

Outra personalidade que contribuiu significativamente para incrementar a objetividade na psicologia animal foi o fisiologista e zoólogo alemão Jacques Loeb (1859-1924), que gostava de regar seu jardim mesmo quando chovia. Loeb trabalhou em diversas institui­ções nos Estados Unidos, inclusive na University of Chicago.

Em reação à tradição antropomórfica e ao método de introspecção por analogia, desenvolveu uma teoria do comportamento animal com base no conceito de tropismo, o movimento forçado involuntário. Ele acreditava na reação direta e automática do animal a um estímulo. Desse modo, afirmava ser a reação comportamental forçada pelo estímulo, não cabendo qualquer explicação em termos de definição consciente do animal.[231]

Embora seu trabalho representasse o tratamento mais objetivo e mecânico da psico­logia animal daquela época, Loeb não conseguiu abdicar totalmente do passado. Ele não rejeitava a existência da consciência nos animais (por exemplo, nos seres humanos) que se encontravam na escala mais elevada da evolução (Loeb, 1918). Argumentava que a cons­ciência animal revelava-se por meio da memória associativa, ou seja, que os animais já haviam aprendido a reagir a determinados estímulos de um modo esperado. Por exemplo a reação do animal ao ser chamado pelo nome ou ao ouvir um som específico para dirigir-se repetidas vezes a determinado local a fim de receber alimento são evidências de alguma conexão mental, da existência da memória associativa. Portanto, mesmo a abordagem de algum modo mecanicista de Loeb ainda continha certo conceito de consciência.

Watson frequentou alguns cursos de Loeb na University of Chicago e desejava reali­zar pesquisas sob sua orientação, demonstrando curiosidade a respeito das visões mecanicistas de Loeb. Angell e o neurologista H. H. Donaldson demoveram Watson da sua intenção, afirmando ser uma ideia "arriscada", termo com várias conotações, mas talvez com o intuito de expressar o repúdio ao objetivismo de Loeb.

Ratos, Formigas e a Mente Animal

Mais ou menos no início do século XX, os psicólogos da psicologia animal experimental trabalhavam com muita seriedade. Robert Yerkes iniciou esses estudos em 1900 usando diversos animais, e suas pesquisas consolidaram a posição e a influência da psicologia comparativa.

Também em 1900, Willard S. Small, da Clark University, introduziu o labirinto para ratos (veja na Figura 9.1); assim, o camundongo branco e o labirinto transformaram-se em método padrao no estudo da aprendizagem. A noção de consciência ainda invadia a psicologia animal, mesmo com a adoção do método do rato branco e o labirinto. Ao inter­ pretar o comportamento do rato, Small usava a terminologia mentalista, descrevendo as imagens e as ideias do animal.

Embora as conclusoes de Small fossem mais objetivas do que as produzidas pelo tipo de antropomorfização de Romanes, elas também refletiam uma preocupação em relação aos elementos e processos mentais. No início da carreira, até mesmo Watson sofrera essa influencia. O titulo da sua dissertação de doutorado, concluída em 1903, era Animal education: the psychical development of the white rat (grifo em negrito acrescentado) (A educação animal: o desenvolvimento psíquico do rato branco). Até 1907, ele discutia a experiência consciente da sensação dos ratos.

Em 1906, ainda como aluno de pós-graduação da University of Chicago, Charles Henry Turner (1867-1923) publicou um artigo intitulado “A preliminary note on ant behavior” Observações preliminares sobre o comportamento da formiga"). Watson publicou uma critica muito elogiosa sobre o trabalho na renomada revista Psychological Bulletin. Nesse artigo, empregou a palavra comportamento, que aparece no título do trabalho de Turner, e talvez essa tenha sldo a Primeira vez que ele usou a palavra por escrito, embora já a houvesse empregado anteriormente em uma solicitação de recursos (Cadwallader, 1984, 1987). [232]

Turner era afro-americano e recebeu o Ph.D. magna cum laude, em 1907, da University of Chicago. Embora sua graduação fosse em zoologia, ele publicou tantas pesquisas relacionadas com os estudos comparativos e de animais em revistas especializadas de psicologia que alguns psicólogos o consideravam um colega da área. Porém, lembre-se de quão raros eram os empregos para os psicólogos pertencentes a grupos de minoria, e por isso as oportunidades acadêmicas de Turner se limitavam a posições em faculdades do Missouri e da Geórgia.

Por volta de 1910, foram instalados oito laboratórios de psicologia comparativa; os primeiros estavam nas universidades Clark, Harvard e Chicago. Diversas universidades ofereciam cursos na área. Margaret Floy Washburn, a primeira orientanda de doutorado de Titchener (veja no Capítulo 5), lecionava psicologia animal na Cornell. Seu livro, The animal mind (1908), foi o primeiro trabalho de psicologia comparativa publicado nos Estados Unidos.

Observe-se o título do livro de Washburn: The animal mind. No seu trabalho, persistia a noção de consciência animal, bem como o método de introspecção comparativa entre a mente animal e a mente humana. Washburn afirmava: [233]

Somos obrigados a reconhecer que toda interpretação psíquica do comportamento animal deve ser por analogia com a experiência humana (...) Devemos adotar a posição antropomorfica ao formarmos ideias sobre o que ocorre na mente de um animal. (Washburn, 1908; p. 88)

Embora o livro de Washburn fosse o mais completo em termos de pesquisa sobre a psicologia animal naquela epoca, ele também marcou o fim de uma era. Depois dele nenhum outro texto usou a abordagem da inferência dos estados mentais a partir do comportamento. Os temas que chamaram a atenção de [Herbert] Spencer, Lloyd Morgan e Yerkes não esta­vam mais em voga e praticamente desapareceram da literatura.

Quase todo livro didático que veio a seguir adotava a visão behaviorista e envolvia principalmente as questões e os problemas da aprendizagem. (Demarest, 1987, p. 144)

Seja lidando com a mente, seja com o comportamento, não era fácil ser um profissio­nal da psicologia animal. Tanto os governantes como os administradores das universida­des sempre atentos às questões orçamentárias, não enxergavam na área nenhum valor prático. O heitor de Harvard dizia não ver "futuro no tipo de psicologia comparativa de Yerkes. Alem de malcheirosa e cara, parece não oferecer nenhuma aplicacão prática para o serviço publico (Reed, 1987a, p. 94). Yerkes disse ter sido 

discreta e gentilmente alertado (...) de que a psicologia educacional oferecia, além da minha area especifica de psicologia comparativa, outros caminhos, mais amplos e dire­tos, para uma carreira na docência e para melhor aproveitamento acadêmico; assim eu devia pensar seriamente em mudar. (Yerkes, 1930/1961, p. 390-391)

Os alunos orientados por Yerkes em seu laboratório procuravam empregos na área da aplicação por não conseguirem colocação na psicologia comparativa. Aqueles que conse­guiam garantir uma posição universitária estavam cientes de que eram os membros mais custosos dos respectivos departamentos de psicologia. Nos momentos de dificuldades financeiras, os que fossem vinculados à psicologia animal geralmente eram os primeiros a ser demitidos.

O próprio Watson enfrentou esse tipo de dificuldade no início da carreira. Ele escre­veu para Yerkes, dizendo: "No momento, a minha pesquisa está parada. (...) Não temos espaço físico para manter os animais e, mesmo que o tivéssemos, não teríamos fundos para mante-lo (Watson, 1904, apud O'Donnell, 1985, p. 190). Em 1908, apenas seis traba­lhos relacionados com animais foram publicados nas revistas de psicologia, cerca de 4% de toda a pesquisa psicológica daquele ano. No ano seguinte, quando Watson sugeriu a Yerkes um jantar, reunindo os psicólogos que estudavam o comportamento dos animais durante o encontro da APA, sabia que caberiam todos em uma única mesa: compareceram apenas nove. Na edição de 1910 da American Men of Science, de Cattell, apenas seis, entre os 218 psicologos relacionados, admitiam realizar pesquisas com animais. As perspectivas profissionais não eram promissoras, mas, mesmo assim, o campo se expandia em virtude da dedicaçao de alguns, poucos, que permaneciam na área.

A publicação Journal of Animal Behavior (mais tarde intitulada Journal of Comparative Psychology) foi lançada em 1911. Em 1906, o texto de uma palestra do fisiologista russo Ivan Pavlov foi publlcado na revista Science, introduzindo para o público estadunidense o seu [234] trabalho a respeito da psicologia animal. Yerkes e Sergius Morgulis, um estudante russo, publicaram um relato mais detalhado da metodologia utilizada por Pavlov, bem como dos resultados da sua pesquisa, na publicação Psychological Bulletin (1909).

A pesquisa de Pavlov sustentava a psicologia objetiva e, em especial, o behaviorismo de Watson. Desse modo, estabeleceu-se uma psicologia animal dotada de um método e um objeto de estudo muito mais objetivos. Aquela tendência em direção a uma maior objeti­vidade no estudo do comportamento animal foi fortemente apoiada pelos acontecimentos na Alemanha, em 1904. Esse foi o ano em que o governo estabeleceu uma comissão para examinar os poderes de Hans, o Esperto, e determinar se havia algum mecanismo ou truque envolvido. O grupo incluía um administrador de circo, um veterinário, treinadores de cavalo, um aristocrata, o diretor do Zoológico de Berlim e o psicólogo Carl Stumpf, da University of Berlin.

Em setembro de 1904, depois de uma minuciosa investigação, a comissão concluiu que Hans não recebia nenhum tipo de sinalização intencional nem indicações do proprietário. Não havia fraude nem truques. No entanto, Stumpf não se encontrava totalmente con­vencido e estava curioso para saber como o cavalo conseguia responder corretamente a tantas perguntas. Ele atribuiu essa missão a um aluno de pós-graduação, Oskar Pfungst, que realizou o estudo com o cuidado exigido de um psicólogo experimental.

O cavalo demonstrou capacidade para responder às perguntas mesmo quando o trei­nador não estava presente; assim, Pfungst decidiu elaborar uma experiência para testar esse fenômeno. Formou dois grupos de pessoas para formular as perguntas: um, com indivíduos que sabiam as respostas corretas, e outro, com indivíduos que não sabiam res­ ponder às questões formuladas ao cavalo. Os resultados mostraram que o cavalo respondia corretamente somente às perguntas feitas pelos indivíduos que sabiam a resposta. Assim, ficou claro que Hans recebia as informações de quem quer que estivesse formulando a pergunta, mesmo que fosse um estranho.

Depois de uma série de experiências rigorosamente controladas, Pfungst concluiu que Hans fora condicionado sem querer pelo proprietário, von Osten. O cavalo começava a bater a pata ao menor movimento para baixo da cabeça de von Osten. Quando ele executava o número correto de batidas, a cabeça de von Osten automaticamente fazia um leve movimento para cima, e o cavalo parava de bater. Pfungst demonstrou que qualquer indivíduo, mesmo uma pessoa que nunca estivera perto de um cavalo, realizava o mesmo gesto imperceptível com a cabeça quando falava com o animal.

Assim, o psicólogo provou que Hans não tinha um depósito de conhecimento. Ele apenas fora treinado para começar a bater com a pata ou a inclinar a cabeça em direção ao objeto sempre que a pessoa fizesse determinado movimento, e condicionado a parar ao mínimo movimento contrário. Von Osten motivara Hans durante o período de treina­mento, dando-lhe cenouras e torrões de açúcar, sempre que respondia corretamente. Com o passar do tempo, von Osten pensou que não precisava mais incentivar cada resposta correta, por isso passou a premiá-lo apenas de vez em quando. O psicólogo behaviorista B. F. Skinner demonstrou mais tarde a enorme eficácia desse tipo de reforço intermitente ou parcial no processo de condicionamento.

O que von Osten pensou da conclusão de Pfungst? Ficou arrasado e sentiu-se ofendido, explorado e fisicamente doente. Entretanto direcionou sua fúria não a Pfungst, mas a Hans, que, acreditava von Osten, de algum modo o enganara. Von Osten afirmava que o comportamento fraudulento do cavalo o deixara enfermo. E realmente ele acabou ficando doente e foi diagnosticado com câncer do fígado. (Candland, 1993, p. 135) [235]

Von Osten jamais perdoou Hans pela traição e rogou-lhe uma praga, dizendo que pas­saria o resto dos seus dias puxando uma carruagem fúnebre. Von Osten morreu dois anos depois da constatação de Pfungst, creditando ao comportamento ingrato do cavalo o fato de ter ficado enfermo. Era evidente que ele ainda acreditava na inteligência de Hans.

O novo dono de Hans, o Esperto, Hans Krall, um joalheiro milionário, colocou Hans e dois outros cavalos em exibição para performances populares em que os cavalos batiam com as patas em resposta às perguntas. E suas respostas estavam sempre corretas. Krall os chamava de Cavalos Mágicos. Eles surpreendiam as plateias com seus poderes; conseguiam até calcular a raiz quadrada de números, entre outros truques (veja Kressley-Mba, 2006). Aparentemente a maior parte do público não tinha ouvido falar, ou prestado atenção às pesquisas de Pfungst mostrando que os denominados poderes não tinham nenhum mistério, mas eram simplesmente respostas aprendidas.

O caso de Hans, o Esperto, é um exemplo do valor e da necessidade de uma abordagem experimental no estudo do comportamento animal. Os psicólogos passaram a enxergar com mais ceticismo os grandes feitos de "animais inteligentes". Entretanto, esse estudo também mostrou a capacidade de o animal aprender e ser condicionado a modificar seu comportamento. O estudo experimental da aprendizagem animal passou a ser mais impor­tante no tratamento desse tipo de questão do que a hipótese anterior sobre a existência de uma consciência operando na mente animal. John B. Watson redigiu um artigo para a Journal of Comparative Neurology and Psychology a respeito do relato experimental de
Pfungst sobre Hans, o Esperto. As conclusões do trabalho influenciaram a crescente ten­dência de Watson em promover uma psicologia que abordasse apenas o comportamento e não a consciência (Watson, 1908).

Edward Lee Thorndike (1874-1949)

Thorndike, um dos principais pesquisadores para o desenvolvimento da psicologia animal, elaborou uma teoria de aprendizagem objetiva e mecanicista com enfoque no comporta­mento manifesto. Thorndike acreditava que o psicólogo devia estudar o comportamento, não os elementos mentais ou a experiência consciente, e assim reforçava a tendência rumo à maior objetividade iniciada pelos funcionalistas. Não interpretava a aprendizagem do ponto de vista subjetivo, mas em termos de conexões concretas entre o estímulo e a res­posta, embora não admitisse qualquer referência à consciência e aos processos mentais.

Os trabalhos de Thorndike e de Ivan Pavlov são outro exemplo de descobertas simultâ­neas independentes. Thorndike desenvolveu a lei do efeito em 1898, e Pavlov apresentou uma proposta semelhante, a lei do reforço, em 1902.

A Biografia de Thorndike

Edward Lee Thorndike foi um dos primeiros psicólogos estadunidenses a receber toda a formação educacional nos Estados Unidos. Um fato importante foi ele ter realizado os estudos de pós-graduação nos Estados Unidos e não na Alemanha, apenas duas décadas depois da fundação formal da psicologia. O seu interesse na psicologia foi despertado, assim como o de vários outros colegas, pela leitura da obra The principles of psychology de [236] William James, quando ainda era estudante de graduação na Wesleyan University, em Middletown, Connecticut. Mais tarde, Thorndike estudou sob a orientação de James, em Harvard, e começou a pesquisar sobre a aprendizagem.

Ele planejava conduzir suas pesquisas utilizando crianças como sujeitos, o que estava proibido. A administração da universidade ainda sofria as consequências de um escânda­ lo envolvendo um antropólogo acusado de afrouxar as roupas das crianças para tomar as medidas do corpo. Ao constatar que não poderia realizar experiências com as crianças, resolveu usar pintinhos, talvez inspirado nas aulas em que Morgan descrevia a sua pes­quisa com esses animais.

Thorndike improvisou labirintos usando alguns livros e ensinou os pintinhos a percor­rerem os caminhos. Com dificuldades para achar um lugar para guardar os pintinhos, já que a proprietária do imóvel em que morava não permitia que mantivesse os animais no seu quarto, ele pediu ajuda a William James, o qual, não conseguindo arrumar um lugar no laboratório nem no museu da universidade, resolveu acolher Thorndike e os pintinhos no porão da sua casa, para alegria de seus filhos.

Thorndike não chegou a completar os estudos em Harvard. Desiludido por não ser correspondido por uma jovem, resolveu afastar-se da região de Boston e matriculou-se no curso de James McKeen Cattell, na Columbia University. Quando Cattell lhe ofereceu uma bolsa de estudos, Thorndike seguiu para Nova York, levando consigo os dois pintinhos mais bem treinados. Prosseguiu nas pesquisas com animais na Columbia, trabalhando com gatos e cachorros, usando caixas-problema que ele mesmo havia projetado. Em 1898, recebeu o título de Ph.D., apresentando a dissertação Animal intelligence: an experimental study of the associative processes in animais (Inteligência animal: um estudo experimental dos processos associativos nos animais), publicada com destaque na Psychological Review por ser a primeira tese de doutorado a utilizar animais como sujeito de pesquisa (Galef, 1998). Posteriormente, Thorndike publicou várias pesquisas a respeito da aprendizagem associativa, envolvendo pintinhos, peixes, gatos e macacos.

Extremamente ambicioso e competitivo, Thorndike escreveu à sua noiva, dizendo: "Decidi chegar ao topo da psicologia em cinco anos, lecionar durante mais dez e, então, abandonar a área" (apuá Boakes, 1984, p. 72). Ele não permaneceu na psicologia animal por muito tempo. Reconhecia não ser essa a área de seu principal interesse, mas manteve-se nela exclusivamente para completar a graduação e criar certa reputação. A psicologia animal não era o melhor campo para uma pessoa com tamanha vontade de alcançar o sucesso. Além disso, como já verificamos anteriormente, as áreas aplicadas ofereciam muito mais oportunidades de emprego do que a pesquisa com animais.

Thorndike tornou-se orientador de psicologia na Teachers College da Columbia Uni­versity. Ali estudou os problemas de aprendizagem nos seres humanos, adaptando as téc­nicas de pesquisa com animais para crianças e jovens (Beatty, 1998). Passou a dedicar-se a outras duas áreas: a psicologia educacional e os testes mentais e ainda escreveu diversos livros didáticos, fundando, em 1910, a Journal of Educational Psychology. Atingiu o topo da psicologia em 1912, quando foi eleito presidente da APA. Os direitos autorais dos testes e dos livros didáticos lhe renderam uma fortuna; por volta de 1924 ele perfazia uma receita anual aproximada de 70 mil dólares, soma substancial para a época (Boakes, 1984).

Os 50 anos em que permaneceu na Columbia estão entre os mais produtivos registra­dos na história da psicologia. Na relação da sua bibliografia constam 507 itens. Apesar de aposentar-se em 1939, trabalhou até morrer, 10 anos depois. [237]

O Conexionismo

Thorndike chamou de conexionismo ao tratamento experimental no estudo da associação. Afirmou que, para analisar a mente humana, ele deveria localizar:

as conexões de forças variáveis entre (a) as situações e os seus respectivos elementos e componentes e (b) as respostas e os seus respectivos facilitadores e inibidores, a pron­tidão às respostas e as direções das respostas. Se conseguir identificar todos esses ele­mentos, definindo o que pensa ou faz o homem e o que o satisfaz ou aborrece em cada situação imaginável, parece-me que nada será deixado de lado. (...) Aprendizagem é o estabelecimento de conexões, e a mente é o sistema de conexões do homem (Thorndike 1931, p. 122)

Essa posição era uma extensão direta da antiga noção filosófica de associação (veja no Capítulo 2), mas com uma diferença significativa: em vez de abordar associações e conexões entre as ideias, Thorndike trabalhava com as conexões entre as situações verifi­cáveis objetivamente e as respostas.

Embora houvesse desenvolvido sua teoria seguindo um referencial mais objetivo, Thorndike continuou a referir-se aos processos mentais. Falava de satisfação, irritação e desconforto quando discutia o comportamento dos animais em seus experimentos, usando termos mais mentalistas do que comportamentalistas. Assim, Thorndike manti­nha a influência recebida de Romanes e Morgan. Muitas vezes, a sua análise objetiva do comportamento animal incorporava julgamentos subjetivos das alegadas experiências conscientes dos animais. Observe que Thorndike, assim como Jacques Loeb, não atribuía gratuitamente alto grau de consciência e inteligência aos animais da forma absurda como fazia Romanes. É possível notar uma redução uniforme na importância da consciência na psicologia animal desde o início até a época de Thorndike, proporcionalmente ao uso mais frequente do método experimental no estudo do comportamento.

Apesar do tom mentalista do trabalho de Thorndike, a sua abordagem ainda se baseava na tradição mecanicista. Ele alegava que o comportamento deveria ser reduzido aos elementos mais simples, ou seja, a unidades de estímulo e resposta. Concordava com a visão atomística, analítica e mecanicista dos empiristas britânicos e dos estruturalistas. Para ele, as unidades de estímulo-resposta consistem em elementos do comportamento (e não da consciência) e são os blocos de construção que compõem os comportamentos mais complexos.

A Caixa-problema

Aproveitando alguns caixotes e pedaços de madeiras, Thorndike projetou e construiu caixas-problema para utilizar nas pesquisas com os animais (veja na Figura 9.2). Para conse­guir escapar da caixa, o animal tinha de aprender a mexer no trinco. Thorndike extraiu a ideia de utilizar a caixa-problema como um aparato para estudar a aprendizagem dos [238] relatos anedóticos de Romanes e Morgan, que descreviam o modo como cães e gatos con­seguiam abrir os trincos das portas.

Figura 9.2 - A caixa problema de Thorndike

Em uma série de experimentos, Thorndike colocava um gato faminto na caixa feita de ripas de madeira. Deixava a comida do lado de fora da caixa como um prêmio por ele conseguir escapar. O gato tinha de puxar uma alavanca ou uma corrente e, às vezes, repetir muito a manobra para afrouxar o trinco e conseguir abrir a porta. No início, o gato exibia comportamentos aleatórios, como empurrar, farejar e arranhar com as patas, tentando alcançar a comida. Por fim, acabava executando o comportamento correto, des­trancando a porta. Na primeira tentativa, esse comportamento ocorria sem querer. Nas tentativas subsequentes, os comportamentos aleatórios mostravam-se menos frequentes, até que a aprendizagem fosse completa. Então, o gato passava a demonstrar o comporta­mento apropriado assim que era colocado dentro da caixa.
A fim de registrar os dados, Thorndike adotava medições quantitativas da aprendiza­gem. Uma das técnicas consistia em registrar o número de comportamentos incorretos, ou seja, das ações que não resultavam na abertura da caixa. Depois de uma série de tentativas esse número diminuía. Outra técnica adotada consistia em registrar o tempo decorrido do instante em que o gato era colocado na caixa até o momento em que ele conseguia sair. Assim que a aprendizagem se concretizava, esse intervalo diminuía. [239]

Thorndike escreveu sobre uma tendência de resposta em que "gravar" ou "apagar" acontecia de acordo com o êxito ou o fracasso das consequências. A tendência a respostas fracassadas que não resultavam na abertura da porta para o gato sair da caixa tendia a desaparecer, ou seja, a ser apagada depois de várias tentativas. A tendência a respostas que conduziam ao êxito era gravada depois de algumas tentativas. Esse tipo de aprendizagem passou a ser conhecido como aprendizagem por tentativa-e-erro, embora Thorndike preferisse chamá-lo de tentativa e sucesso acidental.

As Leis da Aprendizagem

Thorndike apresentou formalmente essa ideia sobre o "gravar" ou o "apagar" de uma ten­dência de resposta, definindo-a como a lei do efeito:
[240]

Qualquer ato que, executado em determinada situação, produza satisfação fica associado a ela de tal modo que, quando ela se repete, a probabilidade de o ato também se repetir é maior do que antes. Inversamente, qualquer ato que produza desconforto em uma situa- çao específica vai dela se dissociar de maneira que, quando ela se repetir, a probabilidade de o ato se repetir também é menor do que antes. (Thorndike, 1905, p. 203)

Uma lei associada - a lei do exercício ou a lei do uso e desuso - afirma que qualquer resposta a uma determinada situação a ela se associa. Quanto mais usada a resposta na situação, mais sólida será a associação, assim como ocorre o contrário: o desuso prolonga­do da resposta tende a enfraquecer a associação.

Em outras palavras, a simples repetição da resposta em uma determinada situação tende a fortalecer a resposta. Pesquisas complementares convenceram Thorndike de que as consequências da recompensa a uma resposta (situação que produz satisfação) são mais eficazes do que a mera repetição da resposta.

Posteriormente, mediante um programa completo de pesquisa com seres humanos, Thorndike reavaliou a lei do efeito. Os resultados revelaram que a recompensa realmente fortalecia a resposta adequada, porém a punição a uma resposta não produzia um efeito negativo comparável. Ele reviu seu ponto de vista, dando mais ênfase à recompensa do que à punição.

Comentários

Os estudos de Thorndike a respeito da aprendizagem humana e animal estão entre os programas de pesquisa mais importantes mencionados na história da psicologia.

O novo método de Thorndike para a análise da mente animal foi o marco de um século de produções em pesquisas para determinar com exatidão o processo de aprendizagem animal. Ele também serviu de contrapeso para o tipo de valorização não-específica do mentalismo animal observado nos trabalhos - como os de Romanes - escritos imediata­mente após a era darwiniana. (Candland, 1993, p. 242)

O trabalho de Thorndike anunciava o surgimento e a consolidação da teoria de apren­dizagem na psicologia estadunidense, e o espírito objetivo da sua pesquisa constituiu impor­tante contribuição para o behaviorismo. Watson declarou que a pesquisa de Thorndike foi o alicerce para a fundação do behaviorismo. Ivan Pavlov elogiou Thorndike, dizendo:

Alguns anos depois de iniciar os trabalhos com o nosso novo método, tomei conhecimen­to das experiências - de algum modo similares - realizadas nos Estados Unidos, não por fisiologistas, mas por psicólogos. (...) Devo admitir que os méritos pelos passos iniciais dados nessa direção pertencem a E. L. Thorndike. Suas experiências nos antecederam em mais ou menos dois ou três anos, e seu livro deve ser considerado um clássico, tanto pela magnitude do panorama da sua tarefa, como pela precisão dos resultados apresentados. (Pavlov, 1928, apud Jonçich, 1968, p. 415-416)

A revista American Psychologist publicou uma seção especial comemorativa, em 1998, do 100° aniversário da dissertação de Thorndike a respeito da inteligência animal. Ele foi descrito como uma das figuras mais influentes e produtivas da psicologia, e o seu traba­lho, como um "marco na passagem da especulação para a experimentação" (Dewsbury, 1998, p. 1.122).

Ivan Petrovitch Pavlov (1849-1936)

O trabalho de Ivan Pavlov sobre a aprendizagem ajudou a transferir a ênfase da visão tradicional do associacionismo - das ideias subjetivas para os eventos psicológicos quan­tificáveis e objetivos, tais como a secreção glandular e o movimento muscular. Como con­sequência, o trabalho de Pavlov proporcionou a Watson o método para estudar e tentar controlar e modificar o comportamento.

A Biografia de Pavlov

Ivan Pavlov nasceu na cidade de Ryazan, região central da Rússia, e era o mais velho dos 11 filhos de um pastor. Sendo o irmão mais velho de uma família tão numerosa, teve de desenvolver bem prematuramente o senso de responsabilidade e a disposição para tra­balhar muito, mantendo essas características por toda a vida. Por um bom tempo, não pôde frequentar a escola por causa de um ferimento na cabeça em consequência de um acidente sofrido aos 7 anos, e, assim, seu pai lhe ministrava aulas em casa. Matriculou-se no seminário com a intenção de se tornar pastor, mas, depois de ler a teoria de Darwin, mudou de ideia. Disposto a frequentar a universidade em São Petersburgo para estudar a fisiologia animal, Pavlov viajou centenas de quilômetros a pé. [241]

Com a formação universitária, Pavlov passou a fazer parte de um grupo de intelectuais, a intelligentsia, uma classe emergente na sociedade russa, diferente das outras classes, ou seja, distinta da aristocracia e do campesinato. Um historiador comentou que Pavlov possuía uma formação de extremo alto nível e era inteligente demais para pertencer ao campesinato do qual se originara, mas pobre e comum demais para fazer parte da aris­tocracia, nível ao qual jamais ascenderia. Frequentemente, esse tipo de condição social produzia um intelectual extremamente dedicado, que concentrava a vida nas realizações intelectuais para justificar a sua existência. Esse era o caso de Pavlov, que lançava mão da firmeza e da simplicidade do camponês russo para dedicar-se a fundo à ciência pura e à pesquisa experimental. (Miller, 1962, p. 177)

Pavlov formou-se em 1875 e começou a estudar medicina, não para se tornar médico, mas na esperança de seguir a carreira na pesquisa fisiológica. Estudou dois anos na Ale­manha e retornou a São Petersburgo para trabalhar durante vários anos como assistente do laboratório de pesquisas.

A dedicação de Pavlov à pesquisa era total. Recusava-se a desviar a atenção com questões práticas como o salário, as roupas ou as condições de vida. Sua esposa, Sara, com quem se casara em 1881, dedicava-se a protegê-lo dos assuntos mundanos. Logo no início do casamento, eles fizeram um pacto, e Sara concordou em cuidar dos problemas cotidianos para que nada interferisse no trabalho do marido. Em contrapartida, Pavlov prometeu jamais beber ou jogar e sair apenas nos sábados e domingos à noite. Assim, ele adotou uma rotina rígida, trabalhando sete dias por semana, de setembro a maio, e pas­sando os verões no campo.

Sua indiferença em relação às questões práticas é ilustrada pela história de que fre­quentemente Sara era obrigada a lembrá-lo de ir receber o salário. Ela dizia que ele não era confiável para comprar as próprias roupas. Um dia, mais ou menos com 70 anos, Pa­vlov estava em um bonde, indo para o seu laboratório. Impulsivamente, saltou antes de o bonde parar e acabou quebrando a perna. "Uma senhora que estava perto dele disse: 'Meu Deus! Eis aqui um gênio, mas que não sabe sequer saltar do bonde sem quebrar a perna'." (Gantt, 1979, p. 28).

A família Pavlov viveu na pobreza até 1890, quando, aos 41 anos, Pavlov foi indicado para lecionar farmacologia na Academia Médica Militar de São Petersburgo. Alguns anos antes, quando preparava a dissertação de doutorado, nascera seu primeiro filho. O médi­co havia alertado de que o frágil bebê não sobreviveria, a menos que mãe e filho fossem repousar no campo. Pavlov finalmente conseguiu dinheiro emprestado para a viagem, mas era tarde demais, e o bebê faleceu. Na época em que seu outro filho nasceu, a família vivia com parentes enquanto Pavlov dormia em uma maca em seu laboratório, já que não tinha como sustentar um apartamento.

Um grupo de alunos de Pavlov, sabendo das suas dificuldades financeiras, ofereceu-lhe dinheiro sob o pretexto de pagar pelas aulas que pediram para ele ministrar. No entanto, Pavlov não guardou nada para ele, gastando o dinheiro com os cachorros para o seu laborató­rio. Ele parecia nunca se abalar por essas dificuldades, elas realmente não o preocupavam.

Embora a pesquisa de laboratório fosse o seu principal interesse, raramente ele mesmo conduzia experimentos. Ao contrário, geralmente supervisionava os esforços dos outros. De 1897 a 1936, cerca de 150 pesquisadores trabalharam sob a supervisão de Pavlov, pro­duzindo mais de 500 trabalhos científicos. Um aluno escreveu que "todo o laboratório funcionava como o mecanismo de um relógio" (Todes, 2002, p. 107). [242]

Pavlov incorporava [os pesquisadores] em um sistema semelhante ao de uma fábrica empregando-os como se fossem seus próprios olhos e mãos, ou seja, atribuindo-lhes um tema especifico, oferecendo-lhes a tecnologia "canina" adequada para realizar as experiências, supervisionando (...) as pesquisas, interpretando os resultados e editando pessoalmente o trabalho produzido. (Todes, 1997, p. 948)

O temperamento de Pavlov era famoso, principalmente as suas explosões, direcionadas, em geral, aos assistentes de pesquisa. Durante a Revolução Bolchevique de 1917, repreendeu um assistente por chegar 10 minutos atrasado. Tiroteios nas ruas não eram justificativas para interferências no trabalho do laboratório. Com frequência ele esquecia rapidamente essas explosões emocionais. Seus pesquisadores sabiam muito bem o que esperar, já que Pavlov jamais hesitava em dizer o que pensava - era franco e direto ao lidar com as pessoas, nem sempre ponderado, mas tinha perfeita consciência dessa natureza volúvel. Um trabalhador do laboratório, não aguentando mais os insultos, acabou pedindo demissão. "Pavlov afirmou que o seu comportamento agressivo era apenas um hábito (...) e não devia ser uma razão suficiente para deixar o laboratório" (apud Windholz, 1990, p. 68). O menor fracasso de uma experiência deixava Pavlov deprimido, mas o sucesso proporcionava-lhe tamanha alegria que ele cumprimentava não apenas os, como também os cães. 

Ele tentou ser tão humano quanto possível com os cachorros e acreditava que os procedimentos cirúrgicos aos quais eram submetidos eram desastrosos, mas inevitáveis na pesquisa científica. 

Precisamos reconhecer que justamente devido ao grande desenvolvimento intelectual o melhor amigo dos homens - o cachorro - muito frequentemente se torna a vítima os experimentos fisiologicos.... o cachorro é insubstituível, além de ser extremamente emocionante. É quase um participante do experimento conduzido sobre ele próprio facilitando em grande parte o sucesso da pesquisa, devido à compreensão e submissão
(Pavlov, apud Todes, 2002, p. 123)

Posteriormente, Pavlov mandou erguer uma estátua de um cachorro, sentado em um pedestal, nas proximidades do prédio onde a pesquisa era realizada. Jersy Konorski, psicólogo polonês que trabalhou no laboratório, lembrava-se do trata­mento dispensado pelos alunos a Pavlov, como se ele fosse um membro da família real. Observou que era claro o

ciúme existente entre os alunos na disputa para determinar quem era o mais próximo e Pavlov. As pessoas gabavam-se quando eram alvos por mais tempo da sua atenção (...) a atitude de Pavlov em relação a qualquer um deles era fator determinante na hierarquia dentro do grupo. (Konorski, 1974, p. 193)

Pavlov foi um dos poucos cientistas russos a admitir mulheres e judeus em seu labo­ratorio. Qualquer insinuação de antissemitismo o deixava furioso. Era dotado de ótimo senso de humor e sabia apreciar boas piadas, mesmo que fossem a seu respeito. Durante a cerimonia em que recebeu um título honorário da Cambridge University, alguns alunos que estavam sentados na galeria desceram um cachorro de brinquedo amarrado em uma corda, deixando-o cair no colo de Pavlov. Ele guardou o cachorro sobre a escrivaninha do seu apartamento. [243]

E. R. Hilgard, na época doutorando na Yale University, assistiu a uma palestra de Pavlov no 9º Congresso Internacional de Psicologia, realizado em New Haven, Connecticut. Pavlov dirigia-se ao público em russo, fazendo uma pausa de vez em quando para que o intérprete apresentasse as observações em inglês. Mais tarde, o intérprete contou a Hilgard que "Pavlov parava e dizia: 'você já conhece esse assunto. Diga a eles o que sabe. Vou continuar e falar outras coisas'" (apud Fowler, 1994, p. 3).

Pavlov foi um cientista até o fim da vida. Acostumado à prática da auto-observação sempre que estava doente, no dia da sua morte não foi diferente. Fraco, por causa da pneu­monia, chamou um médico e descreveu seus sintomas: "Meu cérebro não está funcionando muito bem, e tenho sentimentos obsessivos e movimentos involuntários; a morte deve estar se instalando. Discutiu suas condições com o médico por alguns instantes e adormeceu. Quando acordou, sentou-se na cama e começou a procurar suas roupas com a mesma energia irrequieta que o acompanhara por toda a vida. "É hora de levantar", ele disse. "Me ajude! Tenho de me vestir!" E, assim, caiu sobre os travesseiros e morreu (Gantt, 1941, p. 35).

Os Reflexos Condicionados

Durante a sua brilhante carreira, Pavlov trabalhou com três questões principais. A primeira era referente à função dos nervos cardíacos, e a segunda envolvia as glândulas digestivas primárias. Essa importante pesquisa a respeito da digestão rendeu-lhe o reconhecimento mundial e o Prêmio Nobel, em 1904. A terceira área de pesquisa, que lhe proporcionou um lugar de destaque na história da psicologia, foi o estudo dos reflexos condicionados. A noção de reflexo condicionado teve origem, assim como vários feitos científicos, em uma descoberta acidental. Durante o trabalho com as glândulas digestivas dos cães, Pavlov usou o método de exposição cirúrgica para realizar a coleta externa das secreções digestivas, o que permitia a observação, a medição e o registro do material (Pavlov, 1927/1960). Um dos aspectos desse trabalho lidava com a função da saliva, que os cachorros secretavam involuntariamente, sempre que recebiam a comida na boca. Pavlov percebeu que, às vezes, a saliva era secretada mesmo antes de o animal receber a comida. Os cães salivavam ao ver a comida ou ao som dos passos do homem que geralmente os alimentava. A reação não aprendida de salivação de algum modo se associou ou se condicionou ao estímulo anteriormente associado ao recebimento da comida. [244]

Os reflexos psíquicos. Esses reflexos psíquicos, como Pavlov os denominou inicialmente, foram provocados nos cães do laboratório por estímulos diferentes do original (ou seja, da comida). Pavlov raciocinou e concluiu que essa reação ocorria porque os outros estímulos (tais como a visão e o barulho do tratador) frequentemente eram associados com a alimentação.

De acordo com o Zeitgeist dominante na psicologia animal, e assim como Thorndike, Loeb e outros predecessores, Pavlov concentrou-se inicialmente nas experiências mentalistas dos animais do seu laboratório. É possível observar esse ponto de vista na expressão "reflexos psíquicos", originalmente empregada para se referir aos reflexos condicionados. Ele escreveu sobre os desejos, os julgamentos e a vontade dos animais, interpretando os eventos mentais dos animais em termos subjetivos e humanos. Em tempo hábil, Pavlov deixou de lado as referências mentalistas em prol de uma abordagem descritiva mais objetiva.

No início das nossas experiências psíquicas (...) dedicamo-nos conscientemente a explicar os resultados imaginando o estado subjetivo do animal. No entanto, nenhum resultado válido foi obtido, senão polêmicas inúteis e opiniões individuais que não podiam ser leva­das em consideração. Portanto, não tivemos outra alternativa senão conduzir a pesquisa com base puramente objetiva. (Pavlov apud Cuny, 1965, p. 65)

Na tradução para o inglês do seu livro clássico, Conditioned reflexes (1927), Pavlov ofereceu o devido crédito a René Descartes por haver desenvolvido a ideia de reflexo 300 anos antes. Observou que o que Descartes chamou de reflexo nervoso constituiu o ponto inicial do seu programa de pesquisa.

As primeiras experiências de Pavlov com os cachorros foram simples. Ele segurava um pedaço de pão e o mostrava ao cachorro antes de dá-lo para comer. Com o tempo, o cachorro começava a salivar assim que via o pão. A resposta de salivação do cachorro quando a comida era colocada na sua boca era uma reação natural de reflexo do sistema digestivo e não envolvia a aprendizagem. Pavlov denominou essa reação de reflexo inato ou não-condicionado.

Figura 9.3 - O aparelho de Pavlov para estudar a resposta de salivação condicionada dos cães.

Entretanto a salivação provocada pela visão da comida não era reflexiva, mas devia ser aprendida. Dessa vez, ele chamou a reação de reflexo condicionado (em lugar do termo mentalista anterior "reflexo psíquico") por ser condicional ou dependente da conexão feita pelo cachorro entre a visão da comida e o subsequente ato de comer.

Na tradução do trabalho de Pavlov do russo para o inglês, W. H. Gantt, um discípu­lo estadunidense, usou a palavra "condicionado" em vez de "condicional". Posteriormente, Gantt admitiu arrepender-se da troca. No entanto, reflexo condicionado continua a ser o termo aceito.

Pavlov e os seus auxiliares descobriram que diversos estímulos poderiam produzir a resposta de salivação condicionada nos animais do laboratório, desde que o estímulo fosse capaz de atrair a atenção do animal sem provocar medo ou fúria. Testaram buzinas luzes, apitos, sons, bolhas d'água e o tique-taque dos metrônomos com cães e obtiveram resultados similares.

A meticulosidade e a precisão do programa de pesquisa eram evidenciadas pelo equi­pamento sofisticado criado para coletar a saliva, a qual fluía por um tubo de borracha fixado a um orifício cirúrgico na bochecha do cachorro. Quando cada gota de saliva caía na plataforma instalada em cima de uma mola sensível, esta acionava um marcador sobre uma especie de tambor giratório (veja na Figura 9.3). Esse aparato, que permitia registrar com precisão o número de gotas de saliva e o momento exato em que cada uma caía, é apenas um dos exemplos dos imensos esforços de Pavlov para seguir à risca o método cientifico - em outras palavras, para padronizar as condições experimentais, aplicar con­troles rigorosos e eliminar qualquer fonte de erro.

A Torre do Silêncio. A preocupação de Pavlov em impedir que as influências externas afetassem a confiabilidade da pesquisa era tão grande que ele construiu cubículos espe­ciais, um para o animal e outro para o observador. O pesquisador conseguia manipular os diversos estímulos a serem condicionados, coletar a saliva e mostrar a comida sem ser visto pelo animal.

Mesmo com essas precauções, Pavlov não se sentia totalmente satisfeito. Temia que os estímulos ambientais externos pudessem contaminar os resultados. Com os fundos recebidos de um empresário russo, projetou um prédio de três andares para as pesquisas que ficou conhecido como a "Torre do Silêncio". As janelas possuíam vidros extremamente espessos e as portas das salas eram de chapas de aço duplas que, quando fechadas, impe­diam totalmente a entrada do ar. Vigas de aço reforçadas de areia sustentavam o piso e o predio era circundado por uma vala cheia de palha. Desse modo, qualquer vibração ruído, temperatura extrema, odor e correnteza eram eliminados. Pavlov queria que o único elemento a exercer influência sobre o animal fosse o estímulo a ser condicionado.

O experimento de condicionamento. Vejamos em que consistia o típico experimento de condicionamento de Pavlov. Primeiro, apresentava-se o estímulo condicionado (diga­mos, a luz); nesse exemplo, acendia-se a luz. Imediatamente, o pesquisador apresentava o estimulo incondicionado: a comida. Após certo número de pareamentos da luz acesa e da comida, o animal passava a salivar com a simples visão da luz. Nesse caso, formava-se uma associaçao ou uma ligação entre a luz e a comida, e o animal era condicionado a responder mediante a apresentação do estímulo condicionado. Esse condicionamento ou aprendiza­gem não ocorre, a menos que a luz seja seguida da apresentação de comida um número de
vezes suficiente. Desse modo, o reforço (nesse caso, receber a comida) é necessário para que a aprendizagem ocorra. [246]

Além de estudar a formação das respostas condicionadas, Pavlov e seus assistentes pesquisavam fenômenos relacionados, tais como o reforço, a extinção da resposta, a re­cuperação espontânea, a generalização, a discriminação e o condicionamento de ordem superior. Todos esses tópicos são áreas de pesquisas nos dias de hoje. No todo, o programa experimental de Pavlov consistiu de um trabalho de longa duração e que envolveu mais pessoas do que qualquer outro esforço de pesquisa realizado desde Wundt.

Um Comentário a Respeito de E. B. Twitmyer

Uma curiosa informação histórica envolve outro exemplo de descoberta simultânea indepen­dente. Em 1904, um jovem estadunidense chamado Edwin Burket Twitmyer (1873-1943) ex-aluno de Lightner Witmer, na University of Pennsylvania, apresentou na convenção anual da APA um trabalho baseado na sua dissertação de doutorado, o qual ele havia completado dois anos antes. Esse trabalho abordava o famoso reflexo do joelho. Twitmyer observou que os partici­pantes da sua pesquisa começaram a reagir a estímulos diferentes do estímulo original que era a leve batida com o martelo logo abaixo do joelho. Ele descreveu a reação das pessoas como um tipo de reflexo novo e incomum e sugeriu que esse fosse alvo de mais estudo.

No encontro, ninguém se interessou pelo relatório de Twitmyer. Depois da apresentação, o publico não formulou nenhuma pergunta, e suas descobertas científicas foram ignoradas. Desmotivado, ele não prosseguiu com a pesquisa.

Os historiadores apresentam várias hipóteses para a permanente omissão quanto a Twitmyer. É provável que o Zeitgeist da psicologia estadunidense não estivesse preparado para aceitar a noção reflexo condicionado. Talvez Twitmyer fosse jovem e inexperiente demais, ou não contasse com a habilidade nem com os recursos econômicos necessários para persistir e divulgar as suas ideias. Ou quem sabe fosse apenas questão de inadequação quanto ao momento da apresentação. Twitmyer apresentou o seu trabalho sobre os reflexos um pouco antes do horário do almoço, como parte de uma série de trabalhos em uma sessão presidida por William James. A conferencia já estava atrasada, e James (talvez com fome ou entediado) suspendeu a sessão sem deixar muito tempo para os comentários depois da apresentação de Twitmyer.

De tempos em tempos, os historiadores ressuscitam essa trágica história do cientista que poderia ter ficado famoso por conta de uma das descobertas mais importantes de toda a psicologia. "Certamente Twitmyer deve ter remoído durante boa parte da sua vida essa constatação, a consciência do que esse seu legado teria representado para a psicologia (Benjamin, 1987, p. 1.119)

Outro precursor relativamente desconhecido do trabalho de Pavlov foi Alois Kreidl biologista austríaco que demonstrou os princípios básicos do condicionamento em 1896, antecedendo o relatorio de Twitmyer em cerca de oito anos. Kreidl constatou que o peixe ornamental aprendia  a atencipar o momento de receber a comida com base no estímulo associado ao caminhar do assistente do laboratório em direção ao aquário. E concluiu que [248] os peixes avistavam o tratador se aproximando "e ficavam alertas por causa das vibrações provocadas na água pelos seus [passos]" {apudlogan, 2002, p. 397). No entanto, o principal interesse de Kreidl estava no processo da sensação e não no condicionamento ou na apren­dizagem, por isso essas descobertas não tiveram repercussão na comunidade científica.

Comentários

Pavlov demonstrou que os processos mentais superiores dos animais observados eram passíveis de descrição em termos fisiológicos, sem qualquer referência à consciência. Seus métodos de condicionamento tiveram ampla aplicação prática em áreas como a terapia do comportamento. Joseph Wolpe (1915-1997), fundador da terapia comportamental, decla­rou que os princípios do condicionamento elaborados por Pavlov foram fundamentais para o desenvolvimento dos seus métodos (Wolpe e Plaud, 1997). A pesquisa de Pavlov também influenciou na mudança do enfoque da psicologia em direção a uma maior obje­tividade tanto do objeto de estudo como dos métodos empregados, além de ter reforçado a propensão às aplicações práticas e funcionais.

Pavlov deu continuidade à tradição do mecanicismo e do atomismo, visões que moldaram a nova psicologia desde o início. Para ele, todos os animais, fossem cães de laboratório, ou seres humanos, não passavam de máquinas – complicadas, reconhecia, —mas, como relatou um historiador, acreditava serem "tão submissos e obedientes como qualquer máquina" (Mazlish, 1993, p. 124).

As técnicas de condicionamento de Pavlov proporcionaram à psicologia um elemento básico do comportamento, possibilitando a redução do comportamento humano complexo a unidades concretas passíveis de estudo para, assim, submetê-las a experiências em con­dições laboratoriais. John B. Watson reconheceu essa unidade de comportamento, a qual passou a ser o ponto fundamental do seu programa de estudo. Pavlov reconheceu que fica­ra satisfeito com o trabalho de Watson e que o crescimento do behaviorismo nos Estados Unidos representava uma confirmação das suas ideias, bem como de seus métodos.

É irônico constatar que a maior influência de Pavlov tenha sido sobre a psicologia, campo que ele não enxergava totalmente com bons olhos. Estava familiarizado com as escolas de pensamento do estruturalismo e do funcionalismo. Também conhecia o traba­lho de William James e concordava com ele em que a psicologia devia envidar esforços para tornar-se uma ciência, mas que ainda não havia atingido esse estágio. Assim, Pavlov excluía a psicologia do seu trabalho científico e chegava a reclamar dos assistentes de labo­ratório que usavam a terminologia da psicologia e não a da fisiologia. Mais tarde, Pavlov reavaliou a sua posição em relação à área e ocasionalmente referia-se a si próprio como um psicólogo experimental. De qualquer modo, a sua visão negativa inicial não impediu os psicólogos de fazerem uso efetivo do seu trabalho.

Em 1997, para comemorar o 100° aniversário da publicação do trabalho Lectures on the work of the principal digestive glands, as revistas American Psychologist e European Psychologist lançaram edições especiais como homenagem a Pavlov pelas suas contribuições. [249]

Vladimir M. Bekhterev (1857 - 1927)

Outra figura importante no desenvolvimento da psicologia animal foi Vladimir Bekhte­rev. Ele ajudou a desviar a área para a observação objetiva do comportamento manifesto, em detrimento das ideias subjetivas. Embora menos conhecido do que Ivan Pavlov, este psiquiatra, neurologista e fisiologista russo foi pioneiro em diversas áreas de pesquisa. Era crítico radical e declarado do governo russo e do czar. Admitiu mulheres e judeus como alunos e colegas em uma época na qual foram excluídos das universidades russas.

Bekhterev recebeu a graduação da St. Peterburg's Military Medical Academy em 1881. Estudou na University of Leipzig, com Wilhelm Wundt, frequentou outros cursos comple­mentares em Berlim e Paris e retornou à Rússia para assumir o cargo de professor de distúr­bios mentais na University of Kazan. Em 1893, foi nomeado titular da cadeira de distúrbios nervosos e mentais da Military Medical Academy onde organizou um hospital para doentes mentais. Em 1907, fundou o Psychoneurological Institute, que hoje leva o seu nome.

Bekhterev e Pavlov tornaram-se inimigos depois que Pavlov publicou uma crítica negativa a respeito dos livros de Bekhterev. A inimizade entre Bekhterev e Pavlov era tão patente que eles chegavam a trocar insultos na rua. Se um cruzasse com o outro em algum congresso, logo iniciavam uma discussão. Formando grupinhos e trocando ofensas entre si, constantemente estavam envolvidos em disputas para ver qual conseguia apontar mais falhas ou fraquezas do outro. Bastava algum aluno de Bekhterev fazer uma apresentação em público para imediatamente ser retaliado por Pavlov, como se fosse um reflexo condicionado. (Ljunggren, 1990, p. 60)

Em 1927, 10 anos depois de a Revolução Bolchevique derrubar o czar, Bekhterev foi convocado a ir a Moscou para tratar de Joseph Stalin, que diziam sofrer de depressão. Bekhterev o examinou e informou-lhe o diagnóstico sendo uma paranoia pro­funda. Misteriosamente, Bekhterev morreu naquela mesma tarde. Não foi permitida a realização de autópsia, e o corpo foi rapidamente cremado. Especula-se que Stalin tenha mandado envenenar Bekhterev como vingança por causa do diagnóstico psiquiátrico. Depois, Stalin proibiu a divulgação dos trabalhos de Bekhterev e mandou executar o seu filho (Ljunggren, 1990). Em 1952, um ano depois da morte de Stalin, o governo da União Soviética mandou criar um selo em homenagem a Bekhterev.

Os Reflexos Associados

Enquanto a pesquisa de Pavlov sobre o condicionamento concentrava-se quase exclusiva­mente nas secreções glandulares, o interesse de Bekhterev estava na resposta motora con­dicionada. Em outras palavras, Bekhterev aplicava os princípios de Pavlov nos músculos. Bekhterev basicamente descobriu os reflexos associados, constatados mediante a análise das respostas motoras. Verificou que os movimentos de reflexo, quando uma pessoa afasta o dedo de um objeto ao receber um choque elétrico, por exemplo, eram provocados não apenas pelo estímulo não-condicionado (o choque elétrico), como também pelo estímulo que se associara ao estímulo original. Outro exemplo: o som de uma buzina no momento do choque logo produziria por si só o afastamento do dedo. [250] 

Os associacionistas explicavam essas conexões com base nos processos mentais; no entanto, Bekhterev considerava as reações como reflexas. Acreditava na mesma explicação para o comportamento de nível superior e de grande complexidade como um acúmulo ou composto de reflexos motores de nível inferior. Os processos de pensamento eram semelhantes, já que dependiam das ações internas da musculatura envolvida na fala, ideia adotada mais tarde por Watson. Bekhterev defendia a abordagem totalmente objetiva do fenômeno psicológico e repudiava o uso de termos e conceitos mentalistas.

Descreveu suas ideias no livro Objective psychology, publicado em 1907. A obra foi tra­duzida para o alemão e para o francês em 1913, e a terceira edição, publicada em inglês em 1912, foi intitulada General principles of human reflexology. Desde os primeiros trabalhos da psicologia animal, com Romanes e Morgan, observou-se o movimento constante na busca por maior objetividade na metodologia e no objeto de estudo. As primeiras pesquisas da área referiam-se à consciência e aos processos mentais e dependiam de métodos subjetivos de pesquisa. Todavia, mais ou menos no início do sécu­lo XX, a psicologia animal já adotava objetos de estudo e métodos totalmente objetivos. Termos como secreção glandular, respostas condicionadas, atos ou comportamento não deixavam dúvidas de que a psicologia animal havia deixado a subjetividade para trás.

A psicologia animal rapidamente transformara-se em modelo para o behaviorismo, cujo líder, Watson, dava preferência ao uso de animais em vez de seres humanos nas pesquisas psicológicas. Watson fez das descobertas e das técnicas da psicologia animal a base para uma ciência do comportamento aplicável igualmente aos animais e aos seres humanos.

A Influência da Psicologia Funcional no Behaviorismo

Outro antecedente direto do behaviorismo foi o funcionalismo. Embora não fosse uma escola de pensamento totalmente objetiva, a psicologia funcional na época de Watson apresentava mais objetividade do que suas predecessoras. Cattell e outros funcionalistas enfatizavam o comportamento e a objetividade e mostravam-se insatisfeitos em relação à introspecção (veja no Capítulo 8). Mark Arthur May (1891-1977), um estudante de pós-graduação da Columbia University em 1915, lembrou-se da visita de Cattell ao seu laboratório:

May mostrou os equipamentos a Cattell, que ficou impressionado. Entretanto, quando tentou lhe mostrar os relatórios introspectivos obtidos das pessoas envolvidas na pesqui­sa a Cattell, resmungou: Isto não vale nada!" e saiu enfurecido do laboratório. (apud May, 1978, p. 655)

Os psicólogos aplicados não viam muita utilidade na introspecção e na consciên­cia, e suas diversas áreas de especialização constituíam essencialmente uma psicologia funcional objetiva. Mesmo antes de Watson surgir no cenário, os psicólogos funcionais haviam se distanciado da pura psicologia da experiência consciente adotada por Wundt [251] e Titchener. Nos trabalhos escritos e nas palestras, alguns psicólogos funcionalistas eram bastante específicos ao exigir uma psicologia objetiva, ou seja, queriam uma psicologia com enfoque no comportamento, e não na consciência.

Em 1904, na feira mundial realizada em St. Louis, no Missouri, Cattell disse em seu discurso:

Não estou convencido de que a psicologia deva se limitar ao estudo da consciência. (...) A noção amplamente aceita de que não há psicologia sem introspecção é refutada pelo argumento material do fato consumado. Parece-me que a maior parte dos trabalhos de pesquisa realizados por mim ou em meu laboratório é praticamente tão independente da introspecção quanto os estudos realizados na física ou na zoologia. (...) Não vejo razão para que a aplicação do conhecimento sistematizado no controle da natureza humana não possa, no curso do presente século, alcançar resultados proporcionais às aplicações, no século XIX, da ciência física ao mundo material. (Cattell, 1904, p. 179-180, 186)

Watson estava na plateia assistindo ao discurso de Cattell. A semelhança entre a fala de Cattell e a posterior posição pública de Watson é gritante. Um historiador sugeriu que, se Watson era considerado o pai do behaviorismo, Cattell devia ser chamado de avó (Burnham, 1968).

Na década anterior à fundação formal do behaviorismo por Watson, a atmosfera intelectual estadunidense favorecia a ideia de uma psicologia objetiva. Assim, o movimento geral da psicologia estadunidense seguia a direção behaviorista. Robert Woodworth, na Columbia University, disse que os psicólogos estadunidenses estavam "aos poucos introduzindo o behaviorismo (...) já que, a partir de 1904, um percentual cada vez maior de psicólogos expressava a preferência em definir a psicologia como a ciência do comportamento e não como uma tentativa de descrição da consciência" (Woodworth, 1943, p. 28).

Em 1911, Walter Pillsbury, ex-aluno de Titchener, definiu em seu livro a psicologia como a ciência do comportamento. Alegava ser possível dispensar um tratamento objetivo aos seres humanos do mesmo modo que se tratava qualquer outro aspecto do universo físico. Max Meyer publicou um livro intitulado The fundamental laws of human behavior; William McDougall escreveu Psychology: the study of behavior (1912), e Knight Dunlap, psicólogo da Johns Hopkins University, onde Watson estava lecionando, sugeriu que a introspecção fosse eliminada da psicologia.
Naquele mesmo ano, William Montague apresentou um trabalho intitulado “Has psychology lost its mind?" ("A psicologia perdeu a cabeça?") à filial da APA, em Nova York. Montague falava sobre o movimento para descartar o "conceito de mente ou de consciên­cia e substituí-lo pelo conceito de comportamento como o único objeto de estudo da psicologia" (apud Benjamin, 1993, p. 77).

J. R. Angell, da University of Chicago, talvez o psicólogo funcionalista mais progres­sista, anunciava que a psicologia estadunidense estava pronta para tornar-se mais objetiva. Em 1910, comentou que parecia possível o termo "consciência" desaparecer da psicologia da mesma forma que o termo "alma" desaparecera. Três anos mais tarde, um pouco antes da publicação do manifesto behaviorista de Watson, Angell (1913) sugeriu que seria inte­ressante esquecer a consciência e passar a descrever objetivamente os comportamentos humano e animal.

Assim, a ideia de psicologia vista como uma ciência do comportamento começava a ganhar adeptos. A importância de Watson não está em ter sido o primeiro a propor essa ideia, mas em enxergar, talvez mais claramente do que qualquer pessoa, o que a época [252] estava exigindo. Watson foi o principal articulador e agente responsável pela revolução cujos sucesso e inevitabilidade estavam garantidos, pois ela já estava em andamento.

Psicologia - História da Psicologia
2/3/2020 1:36:06 PM | Por
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O Deserto Oriental na época dos faraós

A leste do Egito existiam várias fontes importantes de minerais. A que se situava mais ao norte era o Sinai, que fornecia turquesas, extraídas pelos Egípcios desde a 3ª dinastia até ao fim do Novo Império, mas não mais tarde (teve-se recentemente notícia de descobertas datando do inicio do período dinástico). As principais escavações de ruínas egípcias ficam no Sinai ocidental, no uadi Maghara e Serabit el-Khadim, tende havido, em certos períodos, um povoamento egípcio permanente nesta região. O Sinai é também fonte de cobre, e em Timna, próximo de Eilat, foram escavadas minas de cobre contemporâneas das 18ª - 20ª dinastias egípcias. Estas minas eram provavelmente exploradas pela população local, sob controle egípcio, não havendo indícios de que os Egípcios extraíssem eles próprios cobre em qualquer outro local do Sinai. É possível que, tal como acontecia com o comércio de cereais entre o Egito e o Próximo Oriente, os Egípcios extraíssem cobre, não considerando, porém, essa atividade suficientemente prestigiosa para a registrarem. Caso contrário, talvez utilizassem mão-de-obra local, como em Timna, ou comprassem cobre à população local, ou adquirissem a maior parte de que necessitavam noutro local.

O deserto oriental do Egito fornecia grande quantidade de pedras para a construção e pedras semi-preciosas e era o caminho para o mar Vermelho. Algumas pedreiras localizavam-se perto do vale do Nilo, como era o caso de Gebel Ahmar (quartzito) e de Hatnub (alabastro egípcio), mas outras, particularmente as de grauvaque (pedra dura e negra), em uadi Hammamat, e as de ouro, na sua maior parte ao sul da latitude de Koptos, implicavam expedições em grande escala. Sem o domínio egípcio sobre a população nômade local, ou sem a sua colaboração, estas minas não podiam ter sido exploradas. Este controle era-lhes igualmente necessário para poderem utilizar as três principais vias de acesso ao mar Vermelho que seguem pelo uadi Gasssus ate Safaga, pelo uadi Hammamat ate Quseir e pelo uadi Abbad ate Berenike, existindo igualmente um caminho menos importante que vai de cerca de 80 km ao sul de Cairo até ao golfo de Suez, de cuja existência há provas que datam do reinado de Ramsés II. O testemunho mais antigo da utilização destas rotas data do fim do período pré-dinástico (uadi el-Qash, de Koptos a Berenike), podendo estar relacionada com o comércio do mar Vermelho ou com a exploração mineira. Existem provas da utilização das rotas mais ao norte em todos os principais períodos da história egípcia e mais ao sul a partir do Novo Império.

Nos confins do uadi Gassus encontrava-se um templo da 12ª dinastia e em 1976 foram descobertas ruínas do porto egípcio próxima, da mesma época. Existem mais vestígios, das 25ª e 26ª dinastias (700-525 a.e.c.), e este padrão manteve-se provavelmente durante o período persa (séculos VI-V a.e.c.), altura em que existiam ligações com o lrã, contornando a costa arábica. O período romano esta representado em sítios como Quseir e Berenike, que eram portos de comércio com a África oriental e com a Índia. Embora não existam provas de que os contatos dos Egípcios tivessem chegado tão longe, tais portos deviam ser utilizados para o comércio com as terras quase míticas do Ponto, que aparece referido em textos a partir do Antigo Império. A localização do Ponto não esta rigorosamente estabelecida, sendo, para os Egípcios, uma região com várias associações idealizadas, mas é muito provável que se tratasse da região da moderna Eritréia ou Somália, onde há notícia de recentes descobertas dos períodos helenístico e romano, Os artigos que vinham do Ponto eram quase todos exóticos ou de luxo, sendo o mais importante o incenso. Não se sabe se o comércio com o país do Ponto era a única razão para a navegação no mar Vermelho, para além do acesso a algumas zonas do Sinai. Há noticia de terem sido encontradas pérolas egípcias de 18ª dinastia na costa ao sul do rio Juba, perto do equador, mas isto não significa que os Egípcios tivessem chegado eles próprios ate aí.

História - Civilização Egípcia
2/1/2020 2:56:29 PM | Por John Baines & Jaromir Málek
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O Deserto Ocidental na época dos faraós

As restantes regiões a tratar eram mais periféricas em relação ao Egito e só podiam ser mantidas quando havia um governo forte. Os oásis do deserto ocidental produziam algumas culturas valiosas, por exemplo, uvas e as melhores tâmaras, e eram também pontos de ligação importantes no comércio com as regiões remotas. Do norte para o sul, eram essencialmente quatro os oásis governados pelo Egito: Bahariya, Farafra, el—Dakhla e el—Kharga (a leste de el—Dakhla), sendo os dois últimos, de longe, os mais importantes. Para além destes, o mais remoto oásis a oeste de Siwa foi incorporado no Egito no período tardio, tendo adquirido renome mundial graças a fracassada missão de Cambises em 525 a.e.c (soube-se recentemente que foram encontrados no deserto vestígios do exército de Cambises), e a posterior consulta aí efetuada por Alexandre Magno ao oráculo. Existem também oásis menores, ao ocidente do Nilo e mais para sul, Kurkur, Dunqul e Salima, que são pontes de paragem onde não foram encontrados quaisquer vestígios da Antiguidade.

Há testemunhas, datando dos Impérios Médio e Novo, de pessoas que fugiam da justiça ou a perseguições para os oásis de el-Kharga e el-Dakhla, enquante na 21ª dinastia os exilados políticos eram para laá banidos. Nesse aspecto, esta região era uma faceta da Sibéria egípcia, sendo outro o de trabalho forçado em condições horríveis, com enormes perdas de vidas, nas minas do deserto oriental.

Toda a zona a ocidente do vale do Nilo se chamava, na Antiguidade, Líbia. A região costeira ao ocidente de Alexandria, até a Cineraica, albergava provavelmente a maioria da população Líbia e era menos inóspita do que parece atualmente. Quase todos os vestígios egípcios ali encontrados datam do reinado de Ramsés II, que construiu fortalezas ao longo da costa ate Zawyet Umm el-Rakham, a 340 km ao ocidente de Alexandria, e do período greco-romano, quando os Ptolomeus construíram, nos estilos grego e egípcio, em Tolmeita, na Cirenaica, a 1000 km de Alexandria.

Durante quase toda a história do Egito os oásis constituíram um posto avançado contra os Líbios, que tentaram, em vários períodos, infiltrar-se. Nos reinados de Merenre e de Pepi II, o chefe de expedição Harkhu foi várias vezes até Yam, zona que fica, provavelmente, na região moderna de Kerma e Dongola, ao sul da 3ª catarata do Nilo. Numa dessas ocasiões, Harkhuf seguiu pela estrada do deserto, deixando o vale do Nilo perto de Abydos e passando, certamente, por el-Dakhla. Ao chegar verificou que o governador de Yam tinha ido "correr com o chefe do território líbio para o canto ocidental do céu — descoberta esta provavelmente relacionada com a estrada do ocidente, utilizada nesta expedição. Este pormenor mostra que, para os Egípcios, a "Líbia" se estendia até cerca de 1500 km ao sul do mar. As ruínas do Fezzan, que datam, provavelmente, do tempo de Cristo, revelam a possibilidade de o Sul da Líbia ter sido povoado na Antiguidade, enquanto a zona de Uweinat o foi no 3º milênio antes da era Cristã. Em períodos mais antigos a cultura dos Líbios era semelhante a dos Egípcios e é possível que falassem um dialeto da mesma língua, mas os contatos entre eles foram, durante o período dinástico, em boa parte hostis.

Dos oásis ocidentais sai um caminho, conhecido hoje por Darb el—Arba’in "o caminho dos 40 dias", que leva a el-Fasher, capital da província de Darfur, no Sudão ocidental. Harkhuf utilizou a primeira parte deste caminho, mas é possível que, já na Antiguidade, estivesse totalmente aberto ao comércio. Harkhuf viajava com burros, mas a exploração eficaz de tais caminhos deve ter dependido do camelo, introduzido no Egito, ao que parece, nos séculos VI-V a.e.c.

História - Civilização Egípcia
1/24/2020 2:17:56 PM | Por Duane P. Schultz
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Funcionalismo Fundação e Evolução

Evolução do Filósofo Neurótico - Ele foi um dos homens mais famosos do mundo; contudo, frequentemente andava pelas ruas de Londres usando protetores de orelha para proteger seus pensamentos de interferências externas. Sempre que sons o perturbavam, seu dia estava arruinado. Charles Darwin o chamava de "nosso filósofo", e, frequentemente, era possível vê-lo va­gando sem rumo "sem conseguir se concentrar, escrever ou mesmo ler” (Coser, 1977, p. 104-105).

No verão de 1882 ele chegou aos Estados Unidos, onde foi recebido e homenageado como celebridade internacio­nal. Foi recebido em Nova York por Andrew Carnegie, o multimilionário patriarca da indústria siderúrgica, que o considerou como um messias. E, aos olhos de vários líderes da economia, ciência, política e religião, esse estranho filó­sofo inglês realmente era um salvador. Diversos jantares e festas foram promovidos em sua homenagem. Ainda assim, ele continuou sendo um "semi-inválido e psicótico durante todo o resto de sua vida. Sofria de insônia aguda, que às vezes tentava superar com uma dose bastante pesada de ópium; portanto, nunca conseguia trabalhar mais do que algumas horas por dia. Trabalhar mais horas o levava a um nervosismo inadequado e, portanto, à insônia (Coser, 1977, p . 104-105).

Entretanto, antes de se tornar tão incapacitado, ele havia sido um dos escritores mais prolíficos do século XIX. Havia produzido um grande número de livros, muitos dos quais haviam sido ditados a uma secretária tão rapidamente quanto ela conseguia registrar as palavras, às vezes enquanto ele estava entre sets de tênis ou passeando em um barco a remo. Seus trabalhos foram publicados em revistas popu­lares, milhares de cópias de seus livros foram vendidas e seu sistema de filosofia foi adotado como parte do currículo padrão em praticamente todas as universidades.

Sem dúvida ele teria publicado ainda mais livros e artigos se não tivesse desenvolvido sintomas intensos de neurose que limitaram seu trabalho a algumas horas ao dia. Aos 35 anos, em uma situação que nos lembra a de Darwin, nosso filósofo desenvolveu palpitações no coração, insônia e problemas digestivos sempre que o mundo lhe importunava. Assim como Darwin, seus males físicos coin­cidiram com o desenvolvimento do sistema de pensamento ao qual devotou sua vida, o sistema que exerceria profunda influência em direção da nova psicologia estadunidense. Seu nome era Herbert Spencer.

A Evolução Chega aos Estados Unidos: Herbert Spencer (1820-1903)

A filosofia que rendeu a Herbert Spencer o reconhecimento e a aclamação foi o darwinismo - a noção da evolução e da sobrevivência do mais apto. Spencer estendeu a teoria para muito além do próprio trabalho de Darwin. Nos Estados Unidos, o interesse pela teoria da evolução de Darwin era muito grande, e suas ideias haviam sido muito bem-aceitas. O evolucionismo foi abarcado não apenas pelas universidades e sociedades científicas, mas também por revistas populares e até mesmo algumas publicações religiosas.

O Darwinismo Social

Spencer alegava que o desenvolvimento de todos os aspectos do universo é evolucionário, incluindo o caráter humano e as instituições sociais, em conformidade com o princípio da "sobrevivência do mais apto" (expressão cunhada por ele). Essa ênfase no chamado darwinismo social - aplicação da teoria da evolução da natureza humana e da sociedade - foi recebida com muito entusiasmo nos Estados Unidos.

Na visão utópica de Spencer, se o princípio da sobre­vivência do mais apto operasse com liberdade, apenas os melhores sobreviveriam. Portanto, a perfeição humana seria inevitável, desde que nenhuma ação interferisse na ordem natural das coisas. O individualismo e o sistema econômico do laissez-faire eram vitais, enquanto os aspectos governamentais para regulamentar negócios e indústria e a assistência social (por meio de subsídios a educação, moradia e pobreza) eram opostos.

A população e as organizações deveriam ter liberdade para se desenvolver por conta própria, utilizando-se de meios próprios, do mesmo modo que as demais espécies vivas se desenvolviam e adaptavam-se livremente ao ambiente natural. Qualquer auxílio do Estado interfere no processo evolutivo natural.

As pessoas, os programas, a economia ou as instituições que não se adaptassem eram considerados inaptos para sobreviver e deviam perecer (tornarem-se "extintos") para a melhoria de toda a sociedade. Se o Estado continuasse a sustentar empresas que não fun­cionassem bem, elas conseguiriam sobreviver, mas acabariam enfraquecendo a socieda­de, violando a lei básica natural de que apenas o mais forte e mais apto deve sobreviver. Mais uma vez, a ideia de Spencer era que somente com a sobrevivência dos melhores a sociedade atingiria a perfeição.

Essa mensagem era compatível com o espírito individualista estadunidense e as expressões "sobrevivência do mais apto" e "a luta pela existência" rapidamente passaram a fazer parte da consciência nacional. James J. Hill, o magnata da indústria ferroviária, reiterou a mensagem de Spencer: "O êxito das companhias ferroviárias é determinado pela lei da sobrevivência do mais apto". E John D. Rockfeller declarou: "O crescimento das grandes empresas é apenas o resultado da sobrevivência do mais apto" (Hill e Rockefeller apud Hofstadter, 1992, p. 45). As frases refletiam claramente a sociedade norte-estadunidense do final do século XIX, ou seja, os Estados Unidos consistiam um exemplo vivo das ideias de Spencer.

Essa nação pioneira estava sendo formada por sérios trabalhadores que acreditavam na livre iniciativa, na autossuficiência e na independência da interferência do Estado. E eles conheciam bem de perto a lei da sobrevivência do mais apto no seu dia-a-dia. A terra estava disponível para os dotados de coragem, sagacidade e habilidade para tomá-la e transformá-la no seu meio de vida. Os princípios da seleção natural eram claramente demons­trados nas experiências diárias, principalmente na fronteira oeste dos Estados Unidos, onde a sobrevivência e o sucesso dependiam da capacidade de adaptação do homem às difíceis condições e exigências do ambiente; quem não se adaptou não sobreviveu.

O historiador estadunidense Frederick Jackson Turner descreveu assim os sobreviventes:

Aquela rudeza e força combinadas com a agudeza e curiosidade; aquela mentalidade práti­ca engenhosa e astuta para encontrar recursos; aquele hábil domínio das coisas materiais (...) poderoso para realizar grandes feitos; aquela energia incansável e agitada; aquele individualismo dominante. (Turner, 1947, p. 235)

Os estadunidenses eram voltados ao prático, útil e funcional. Os estágios iniciais da psicologia estadunidense refletiram essas qualidades. Por essa razão, a teoria evolucionista foi mais bem-aceita nos Estados Unidos do que em outras nações. A psicologia estadunidense transformou-se em uma psicologia funcional porque a evolução e o espírito funcional eram compatíveis com esse temperamento básico, assim como a compatibilidade entre a visão de Spencer e o ethos estadunidense permitiu que seu sistema filosófico influenciasse todos os campos do conhecimento. O famoso líder religioso protestante Henry Ward Beecher escreveu a Spencer, dizendo: “As condições peculiares da sociedade estadunidense permitiram que seus escritos produzissem efeitos mais rápidos aqui do que na Europa" (Beecher, apud Hofstadter, 1992, p. 31).

A Filosofia Sintética

Spencer formulou um sistema denominado filosofia sintética (ele usou a palavra "sintéti­ca no sentido de sintetização ou combinação e não com o significado de algo artificial ou não natural). Ele baseou esse sistema amplamente abrangente na aplicacão dos princípios evolucionistas ao conhecimento e à experiência humana. Suas ideias foram publicadas em uma serie de 10 livros, entre 1860 e 1897. Os volumes foram considerados pelos prin­cipais intelectuais da época um trabalho de gênio. 

Conwy Lloyd Morgan escreveu a ele: "A nenhum outro mestre lntelectual devo tanta gratidão quanto ao senhor" Alfred Russel Wallace batizou seu primeiro filho com o nome de Spencer. Darwin disse: Após ler um dos livros de Spencer, que ele "era uma dúzia de vezes superior a mim".

Dois volumes da filosofia sintética constituíram a obra The principies of psychology publicada inicialmente em 1855, mais tarde adotada por William James como livro-base para o primeiro curso de psicologia que lecionou em Harvard. Nesse livro, Spencer discute a noção de que a forma atual da mente é resultado dos esforços passados e contínuos na adaptação a diversos ambientes. Ele enfatizava a natureza adaptável dos processos nervosos e mentais e afirmava que uma complexidade crescente de experiência - e assim de com­portamento - faz parte do processo normal de evolução. O organismo precisa se adaptar ao ambiente se desejar sobreviver.

Evolução Contínua das Máquinas

As máquinas (chamadas de robôs), haviam sido criadas para duplicar o movimento humano bem como o pensamento humano (como as máquinas de calcular de Babbage). Seria possível que as máquinas evoluíssem para formas mais avançadas tal como era dito a respeito dos homens e animais? Na época em que o darwinismo foi publicado em 1859, a metáfora mecânica para a vida humana havia se tornado tão aceita nos círculos intelectuais e sociais que a questão parecia inevitável.

A pessoa que fez a pergunta e expandiu o evolucionismo para as máquinas foi Sa­muel Butler (1835-1902), um escritor, pintor e músico que em 1859 emigrou para a Nova Zelândia para criar ovelhas. Butler e Darwin se corresponderam longamente.

Em um ensaio intitulado "Darwin entre as Máquinas", Butler escreveu que a evolução das maquinas já havia ocorrido. Só tínhamos que comparar os itens primordiais, rudimentares como as alavancas, cunhas e roldanas com o complexo maquinário das fábricas e as grandes locomotivas e navios a vapor.

Butler propôs que a evolução mecânica estava ocorrendo por meio dos mesmos processos que guiaram a evolução humana: seleção natural e luta pela existência. Os inventores estão constantemente criando máquinas novas para obter alguma vantagem competitiva. Essas novas máquinas eliminam as antigas, que, inferiores, não conseguem mais se adaptar ou competir na luta pela sobrevivência - um lugar no mercado. Como resultado, as máquinas obsoletas desaparecem, assim como os dinossauros.

Com o rápido desenvolvimento tecnológico ficou claro a Butler que as máquinas haviam evoluído muito mais do que os animais, e previu que as máquinas um dia se tornariam capazes de simular processos mentais humanos - um tipo de inteligência. Isso se tornou realidade enquanto Butler vivia, pelo menos no que diz respeito ao processo mental para cálculos.

Por volta do final do século XIX, o tipo de máquina calculadora de Babbage não era mais adequado. Os cálculos realizados por dispositivos mecânicos ou por meios humanos exigiam máquinas cada vez mais adequadas. Um fato que exemplificou essa necessidade foi o censo populacional norte-estadunidense de 1890.

O censo realizado 10 anos antes fora tão complexo que levou sete anos para ser con­cluído. Cerca de 1.500 funcionários computaram a mão dados referentes a idade, sexo, etnia, residência e outras características (que esperavam obter) de cada cidadão estadunidense. Os resultados foram compilados em um relatório de mais de 21 mil páginas. Nesse inter­valo, a população cresceu tão rapidamente que era óbvia a necessidade de uma mudança nos procedimentos ou, do contrário, o censo de 1890 não seria concluído antes de 1900, já no início do censo seguinte. Havia a necessidade de uma nova e avançada máquina processadora de informações.

Henry Hollerith e os Cartões Perfurados

Henry Hollerith (1859-1929) foi o engenheiro que desenvolveu a nova e avançada forma de processar as informações. Dois historiadores, sobre a origem dos computadores, des­creveram a inovadora criação de Hollerith dizendo que seu método registrava as respostas dos questionários de cada cidadão em uma fita de papel com um padrão de perfuração ou em um conjunto de cartões perfurados, parecidos com os utilizados para a gravação de músicas dos pequenos órgãos de exposição [como os pianos] daquela época. Desse modo, era possível utilizar uma máquina para contar automaticamente os orifícios e tabular os resultados. (Campbell-Kelly e Aspray, 1996. p. 22)

Hollerith utilizou 56 milhões de cartões para computar os resultados obtidos de 62 milhões de pessoas. Cada cartão tinha capacidade para armazenar o equivalente a até 36 bytes de 8 bits de informações. Assim, o censo norte-estadunidense de 1890 produziu mais informações do que se havia acumulado até então e, em apenas dois anos, rendeu uma economia de 5 milhões de dólares em comparação com o método de tabulação manual. O sistema de cartão perfurado de Hollerith alterou radicalmente o processamento desse tipo de informação e renovou as esperanças (e os temores) de que as máquinas, com o tempo, seriam capazes de reproduzir o funcionamento cognitivo humano. Um artigo na revista Scientific American foi publicado com o seguinte título “How strips of paper canendow inanimate machines with brains of their own" ("Como tiras de papel podem dotar as máquinas inanimadas de mentes próprias") (Dyson, 1997).

Em 1896, Hollerith estabeleceu a própria empresa, a Tabulating Machine Company, que foi vendida em 1911. A nova corporação, a Computing-Tabulating-Recording Com­pany, foi rebatizada em 1924, sendo hoje a famosa IBM.

William James (1842-1910): o Precursor da Psicologia Funcional

Tanto o próprio William James como o seu papel na psicologia estadunidense são muito para­doxais. Seu trabalho foi o principal precursor estadunidense da psicologia funcional e ele foi o pioneiro da nova psicologia científica desenvolvida nos Estados Unidos. Uma pesquisa realizada pelos historiadores da psicologia, 80 anos após a morte de James, revelou que ele era considerado a segunda figura mais importante da psicologia, perdendo apenas para Wilhelm Wundt, além de ser apontado como o principal psicólogo estadunidense (Korn etal., 1991). O eminente filósofo e psicólogo John Dewey considerou James como "de longe, o maior dos psicólogos dos Estados Unidos(...) de qualquer país(...) talvez de todos os tem­pos." John B. Watson, o fundador do behaviorismo, referiu-se a James como "o psicólogo mais brilhante que o mundo já conheceu" (ambos citados em Leary, 2003, p. 19-20).

No entanto, alguns colegas de James o consideravam uma força contrária ao desenvol­vimento da psicologia científica. Ele mantinha um notório interesse em assuntos como telepatia, clarividência, espiritismo, comunicação com os mortos em sessões espíritas e outros fatos místicos. Os psicólogos estadunidenses, como Titchener e Cattell, criticavam a sua entusiástica exposição a esses fenômenos psíquicos e mentalísticos que eles, como psicólogos experimentais, estavam tentando banir do campo.

James não fundou nenhum sistema formal de psicologia ou sequer teve algum discípulo; não houve uma escola de pensamento "jamesiana". Embora a forma de psicologia a ele associada fosse uma tentativa de ser científica e experimental, a própria atitude e as realizações de James não eram experimentalistas. A psicologia, que um dia ele chama­ra de "pequena ciência detestável", não era a sua paixão eterna, como era para Wundt e Titchener. James trabalhou com a psicologia durante algum tempo e depois mudou sua área de interesse.

Nos últimos anos da vida, esse homem complexo e fascinante, que tanto contribuíra para a psicologia, acabou deixando-a de lado (em uma ocasião, quando ia realizar uma palestra na Princeton University, pediu para que não fosse apresentado como psicólogo). Ele até insistia em afirmar que a psicologia não passava de "uma elaboração do óbvio". Mesmo que com a sua ausência a psicologia não deixasse de seguir adiante, e às vezes cambaleante, James ocupou o seu lugar e teve a sua importância garantida na história da psicologia.

James não fundou a psicologia funcional, mas apresentou de forma clara e eficaz as suas ideias dentro da atmosfera funcionalista impregnada na psicologia estadunidense.

Dessa forma, influenciou o movimento funcionalista, inspirando as gerações posteriores de psicólogos.

A Biografia de James

William James nasceu no Astor House, um hotel da cidade de Nova York, em uma família destacada e rica. Seu pai (naquela época, o segundo homem mais rico dos Estados Unidos) dedicou-se com entusiasmo, embora de forma inconsistente, à educação dos filhos, que alternava entre a Europa e os Estados Unidos. Assim, os anos escolares iniciais de James foram passados na Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Suíça e nos Estados Unidos. Essas experiências estimulantes expuseram James às vantagens culturais e intelectuais da In­glaterra e do restante da Europa.

Durante toda a sua vida, James viajou muitas vezes para o exterior. O método favorito do pai para tratar das pessoas doentes da família era mandá-las para a Europa, e não para o hospital. E a sua mãe dispensava atenção e carinho aos filhos somente quando estavam doentes. Talvez não fosse surpresa o fato de James dificilmente apresentar boa saúde.

Embora o velho James não esperasse que nenhum dos filhos se preocupasse em ganhar a vida, incentivou o interesse precoce de William pela ciência. Deu-lhe um jogo de química contendo um "bico de Bunsen e pequenas amostras de líquidos estranhos que, para desgosto do pai, misturava, aquecia e transfundia, manchando os dedos e as roupas, chegando até a provocar perigosas explosões" (Allen, 1967, p. 47).

Com 18 anos, James decidiu tornar-se artista, e seis meses no ateliê do pintor William Hunt em Newport, Rhode Island, convenceram-no de que, apesar da boa técnica, não era dotado de talento suficiente para tornar-se um grande artista. Desistiu da carreira e acabou matriculando-se na Lawrence Scientific School, em Harvard. Nessa época estoura­va a guerra civil estadunidense e, mais tarde, James confessou que desejara servir o exército, mas o pai o proibira, alegando não existir nenhum governo ou qualquer outra causa que valesse a vida como sacrifício.

Pouco tempo depois de chegar a Harvard, começou a perder a autoconfiança e a saúde, transformando-se em uma pessoa extremamente neurótica para o resto da vida. Abandonou o interesse pela química, aparentemente em função da precisão exigida no trabalho laboratorial, e tentou prosseguir com a medicina que, no entanto, não lhe des­pertava muito interesse, tal como comentou:

Há muito farsante nesse meio (...) Exceto nas cirurgias, em que às vezes é possível obter algum resultado positivo, o médico faz mais pelo efeito moral da sua presença diante do paciente e da sua família do que por qualquer outro motivo, além de poder extrair-lhe o dinheiro. (James apud Allen, 1967, p. 98)

James abandonou a medicina para auxiliar o zoólogo Louis Agassiz em uma expedição à bacia do rio Amazonas, para colher espécies de animais marinhos. A viagem deu-lhe a oportunidade de ter uma amostra da carreira na biologia, mas logo percebeu que não conseguiria suportar a precisão das coletas e da classificação das espécies, bem como as exigências físicas do trabalho de campo. Em uma carta que escreveu para a família, disse: “Minha vinda foi um erro. Estou definitivamente convencido de que sou talhado para a elaboração teórica e não para o trabalho de campo" (apud Simon, 1998, p. 93). Essa reação ao trabalho científico na química e na biologia professava a sua posterior aversão pela experimentação no campo da psicologia.

Embora a viagem ao Brasil, em 1865, não conseguisse tornar a medicina de alguma forma atraente para James, ele relutou mas acabou retomando os estudos médicos por não haver nenhuma outra área que lhe despertasse o interesse. Estava frequentemente doente, queixando-se de depressão, problemas digestivos, insônia, dificuldades visuais e dores nas costas. "Era óbvio que ele estava sofrendo de América; a Europa era a única cura" (Miller e Buckhout, 1973, p. 84).

James recuperou-se em um balneário na Alemanha, dedicando-se à literatura e escre­vendo longas cartas aos amigos, mas a depressão persistia. Frequentou aulas de psicologia na Universidade de Berlim que o levaram a refletir que talvez fosse chegada a hora de a "psi­cologia começar a se tornar ciência" (apud Allen, 1967, p. 140). Também afirmou que se sobrevivesse a doença e conseguisse suportar o inverno, desejava aprofundar os estudos de Psicologia com o grande Helmholtz e, usando exatamente estas palavras, com um homem chamado Wundt. Sobreviveu ao inverno, mas não conheceu Wundt naquela época. No entanto, o fato de ter ouvido falar de Wundt mostra a consciência que ele tinha das tendên­cias cientificas e intelectuais, mesmo 10 anos antes de Wundt fundar seu laboratório.

James conseguiu formar-se em medicina em Harvard em 1869, mas sua insegurança e depressão pioravam. Acometido de males indeterminados e medos terríveis chegou a pensar em suicídio. Seu pavor era tão imenso que não conseguia sair de casa sozinho à noite.

Internou-se em uma clínica de repouso em Somerville, Massachusetts, mas nenhum tratamento era capaz de aliviar seu sofrimento (Townsend, 1996). James não era a única pessoa a sofrer desse mal naquela época.

Uma epidemia de neurastenia. O neurologista estadunidense George Beard cunhou o termo neurastenia para referir-se a um estado nervoso peculiar do estadunidense. Listou uma variedade de sintomas como insônia, hipocondria, dor de cabeça, erupções cutâneas cansaço nervoso e um estado que chamou de colapso cerebral (Lutz, 1991). James chamou a sindrome de "americanite" (Ross, 1991).

Durante a segunda metade do século XIX, aquilo que muitos observadores chamaram de epidemia de neurastenia" varria as classes mais altas. (...) Neurastenia era, literalmente falta de força nervosa, ou seja, depressão paralisante e perda de ânimo. Os mais educa­dos e conscientes eram os que tinham mais chances de sucumbirem. O adiamento na escolha da carreira tornou-se uma experiência comum entre esses filhos problemáticos da burguesia. (Lears, 1987, p. 87).

Muitos amigos, parentes e colegas de James sofriam desses sintomas debilitantes. Um amigo escreveu-lhe, dizendo: 'Fico imaginando se alguém na Nova Inglaterra tênha conseguido chegar aos 35 anos sem pensar em suicídio”, E James respondem  "creio não haver nenhum intelectual que não tenha flertado com a ideia de suicídio" (apud Townsend, 1996). A condição estava tão disseminada entre o segmento mais rico e intelectual Estadunidense que uma revista foi lançada com o título de Anybody Who Was Anybody Was Neurasthenic (Miller, 1991). Obviamente, William James estava bem acompanhado. A indústria  farmaceutica Rexall tirou Proveito da oportunidade criada por essa doença, introduzindo um remedio patenteado com o nome de Americanitis Elixir (Elixir para Americanitis), recomendado para distúrbios nervosos, fadiga e todos os problemas causados pela americanite (Marcus, 1998). As mulheres que sofriam desse mal, claramente intelectuais e feministas, eram aconselhadas a "passar seis semanas ou mais de cama sem executarem qualquer trabalho, leitura ou atividade social e ganhar muito peso por meio de uma dieta a base de muita gordura". Os homens não precisavam se submeter a um tratamento tão rígido assim. O conselho para eles incluía "viagens, aventuras [e muito exercício físico" (Showalter, 1997, p. 50, 66). 

Descobrindo a psicologia. No período de depressão em 1869, James começou a desenvolver uma filosofia de vida incentivado não tanto pela curiosidade intelectual mas pelo desespero. Leu muita filosofia, inclusive os ensaios de Charles Renouvier sobre o livre-arbitrio, o que o convenceu da sua existência. 

Decidiu que seu primeiro ato da vontade própria seria a crença no livre-arbítrio. Em seguida, passou a crer que conseguiria curar a depressão apenas acreditando na força de vontade. Aparentemente obteve certo êxito, pois, em 1872, aceitou lecionar fisiologia em Harvard, comentando ser "nobre para o espírito de uma pessoa ter um trabalho responsável para realizar" (James, 1902, p. 167). No entanto, apenas um ano depois, teve de tirar licença para visitar a Itália, mas retornou pouco tempo depois e continuou lecionando.

Mais ou menos nessa mesma época, James interessou-se pelos efeitos de alguns ele­mentos químicos na alteração da mente. Leu a respeito das experiências por que passaram pessoas sob a influência do óxido nitroso (o "gás hilariante") e do nitrato de amila, que afetam a oxigenação do cérebro, causando assim movimentos bruscos. Decidiu experimen­tar essas substâncias. Como escreveu um biógrafo, essa fora "a primeira entre as várias experiências [de James] com estados conscientes alterados, que o fascinaram devido à forma como as alterações físicas influenciavam a consciência" (Croce, 1999, p. 7).

No ano letivo de 1875-76, James lecionou seu primeiro curso de psicologia, que cha­mou de The relations between physiology and psychology [As relações entre a fisiologia e a psicologia]. Por isso, Harvard foi a primeira universidade dos Estados Unidos a oferecer o curso de psicologia experimental. James nunca frequentara cursos formais de psicologia - o primeiro foi o seu. Pediu dinheiro à faculdade para adquirir um laboratório e equipa­mentos de demonstração para suas aulas e recebeu 300 dólares.

Em 1878, dois acontecimentos importantes marcaram a vida de James: o casamento com Alice Howe Gibbens, a mulher escolhida por seu pai, e a assinatura de um contrato com o editor Henry Holt, que resultou em um dos livros clássicos da psicologia. Ele levou 12 anos para escrever o livro, que começara durante a lua-de-mel.

Uma das razões de tanta demora para James escrevê-lo é que ele era um viajante com­pulsivo. Quando não estava na Europa, podia ser facilmente encontrado nas montanhas de Nova York ou New Hampshire.

Suas cartas dão a entender que suas relações familiares eram muito desgastantes e que frequentemente sentia necessidade de ficar sozinho. As viagens eram a única forma de conseguir lidar com essa situação. Ele arranjava uma viagem após o nascimento de cada um dos seus filhos e, obviamente, sentia-se culpado. Frequentemente se ausentava das comemorações de Natal, Ano Novo e aniversários, mesmo não estando muito distante, como, por exemplo, em Newport. (...) As viagens de James eram fugas das confusões fami­liares para a natureza, a solidão e o alívio místico. (Myers, 1986. p. 36-37)

Os nascimentos dos filhos foram muito perturbadores para o temperamento sensível de James. Não conseguia trabalhar direito e ressentia-se da atenção dispensada pela esposa aos recém-nascidos. Depois do nascimento do segundo filho, passou um ano no exterior, viajando de uma cidade a outra. Escreveu de Veneza para sua esposa, dizendo-se apaixonado por uma italiana. Ele disse: "Você vai acabar se acostumando com esses meus entusiasmos e acabará gostando" (apud Lewis, 1991, p. 344). Mas Alice ficava contrariada com o que ela mesma descrevia como a "tendência [do meu marido] de flertar casualmen­te com conhecidas e até mesmo com as empregadas da família". Ficara furiosa quando ele lhe contara haver beijado uma delas. James, no entanto, achava que essa sua natureza afetiva devia deixá-la feliz. Conforme explicava, muitas vezes tinha o "desejo de beijar as pessoas" (apud Simon, 1998, p. 215-216).

James continuava a lecionar em Harvard quando se encontrava na cidade e, em 1885, foi promovido a professor de filosofia. Quatro anos mais tarde, passou a ter o título de professor de psicologia. Nessa época já havia conhecido vários psicólogos europeus, dentre eles Wundt, que "causou-me uma agradável impressão pessoal, com a sua voz agradável e o eterno sorriso franco nos lábios". No entanto, alguns anos depois, James percebeu que Wundt ''não é um gênio, ele é um professor, um ser cuja tarefa é conhecer tudo e ter opi­nião própria sobre qualquer assunto" (James apud Allen, 1967, p. 251, 304).

O livro de James, The princ