O Rapto de Perséfone
Deméter já havia ido a Elêusis, na sua turnê ensinando a arte da agricultura aos homens da Terra, pois, assim como Atena e Prometeus, Deméter estava ligada com estreitos laços à Humanidade. Tomou uma criança doente, Triptólemos, filho do rei Céleos e Metanira, devolveu-lhe a saúde e o transformou em seu pupilo. Mais tarde, coube a ele levar os ensinamentos da deusa a todos os reinos da Hélade, e conquistou a amizade de Arcas, o filho de Zeus e Calisto.
Foi perseguida por Posídon, o garanhão dos mares, e foi por ele possuída violentamente nas cavalariças do rei Oncos, de cuja união nasceu o maravilhoso potro Aríon e uma enigmática donzela conhecida apenas pelo nome Despóïne.
Deixando a Terra, depois de vê-la fértil e em paz, voltou a morar no Olimpo, deixando a sua herança aos seus devotos, administrada por Triptólemos, seu mais fiel sacerdote. Porém, as terras foram maculadas pela ambição de Erisícton, filho de Tríopas e Sósis, um homem de Árgos que havia ido habitar nas terras do norte, na Hemônia (Tessália). Ao profanar seu carvalho sagrado, Erisícton provocou a ira da deusa, que lhe enviou uma peste, que se alastrou por todas as terras por onde passava, até alcançar a morte através da Fome.
Durante as bodas de Cadmo e Harmonia, onde estiveram presentes deuses e homens, Deméter conheceu Iásion, um jovem estrangeiro, parente da noiva, que viera do Ocidente com seu irmão Dárdanos, incentivados por uma promessa de fartura em terras do Oriente. A deusa entregou-se ao mortal provocando a ira de Zeus, e levou-o à morte. Dessa união nasceu Plutos, que foi levado ao Olimpo, tornando-se deus das riquezas. Dárdanos continuou sua peregrinação sozinho, e foi buscar morada nas terras do rei Teucros, onde, em suas redondezas, muitos anos depois, seria erguida a cidade de Tróia. Então, Deméter decidiu, novamente, deixar o Olimpo e auxiliar a raça humana , abalada pelo pecado de Erisícton.
Ao chegar em Elêusis, ao anoitecer, Deméter foi recebida com festas, cerimônias e orações, mas surpreendeu a todos por, diante da homenagem, verter lágrimas. Triptólemos achegou-se a ela, perguntando:
— O que aflige a senhora?
E Deméter, adentrando o templo, falou-lhe, à espera do que a aguardava:
— Nova missão que me cabe. Exigência de um poder bem maior que o teu e o meu!
Eis que, quando amanheceu, nada que exigira Zeus houvera acontecido. Diante disto, pensou que o irmão havia desistido do desejo concebido a ela manifestado no Olimpo. Assim, levando alegria por esta suposição, foi visitar o seu bosque, junto às margens da estrada que levava a Elêusis. Serena, caminhou, guiada por doce força, até onde antes plantara o seu carvalho sagrado, então cortado. E, no lugar do carvalho, do imenso sementário tombado por Erisícton, sentou-se tranqüila a deusa.
Foi então, que Zeus fez chover sobre a irmã gotas de aromas. A deusa sentiu que algo nela mudava, era diferente de tudo o que sentira. Sem perceber, Zeus a engravidou duplamente: primeiro, distante do Olimpo, nasceu-lhe a contragosto uma criança, que Deméter chamou de Feréfate. Porém, como se não se fosse suficiente, sentiu que outra criança se aninhava em seu ventre. Deméter não soube senão amar a criança que trazia dentro de si, ainda mais desta vez, e que um dia nasceu no Oráculo de Elêusis. Ao nascer, Deméter mostrou-a aos fiéis:
— Chama-se Core, “a semente”!
Feréfate e Core cresceram entre as Ninfas e outras filhas de Zeus. Mas deu maior atenção a Core, nascida em Elêusis, que cresceu e de lá jamais deveria sair.
Educada pela mãe, fez-se rainha das flores. Semeadora de cores, Core plantou jardins pela região, colorindo tudo por onde passava. Tinha o carinho dos deuses e a afeição dos mortais, todos admirados com sua plena beleza.
Depois que Zeus e seus irmãos terem derrotado os Titãs e os expulsado para o Tártaros, constantemente a Terra era sacudida por terremotos. Provavelmente provocados pelas tentativas dos Titãs se libertarem. E Hádes sentiu-se alarmado, receoso de que seu reino pudesse ser aberto à luz do Sol, já sobraram muitas fendas no solo terrestre. Presa dessa apreensão, Hádes já planejava ir verificar a extensão dos danos.
Hádes era o soberano do Reino dos Mortos, das obscuras cavernas do Tártaros. Ali vivia ele a fazer companhia, sozinho, às almas dos defuntos, e sua solidão entristecia-o. Não era propriamente um deus sombrio, mas os Infernos tornaram-se seu quinhão, muito diferente de onde brincavam e viviam as Ninfas das florestas e dos regatos e os Amores, criaturas lindas e serenas, que acompanhavam o séquito de Afrodite. Entre eles, havia um pequenino ser, filho da deusa, que divertia-se atirando a esmo as flechas da paixão no coração de todos os seres. Isso incomodava um pouco sua mãe, porque muitas vezes a paixão podia ter conseqüências desastrosas. E isto atiçava a curiosidade de Éros.
— Por que, mamãe, mesmo no Céu, alguns desprezam nosso poder? Atena, a sábia, e Ártemis, a caçadora, desafiam-nos.
— Cuidado, Éros, porque poderás atiçar a paixão do mais gélido ser, e isto poderá trazer tristeza ao mais sublime coração.
Coisas do Destino. Éros, o deus do amor, posicionado sobre o monte Érix, ao atirar sem destino uma flecha infalível da paixão, ela entrou por uma fenda no chão e foi ferir o coração frio de Hádes, o deus dos mortos.
Hádes, sem entender o que sentia, procurou buscar o entendimento na sua fonte mágica, que lhe indicaria um motivo para lhe revelar esse sentimento novo: ao fixar os olhos na fonte reveladora, viu um rosto de menina, uma flor em forma de deusa, com cabelos da cor do trigo, e teve por ela um grande interesse. Ao vê-la tão radiante, do fundo do abismo, por ela se apaixonou e uma fulminante atração atormentou seu corpo. Supôs que, desposando-a, levadas pela graça de uma linda mulher, a luz e a alegria penetrariam e permaneceriam nos profundos abismos, para dissipar-lhe a melancolia. Porém, ao pensar sobre isso, não pensou um só momento nas conseqüências que poderiam advir do seu procedimento. Procurava um meio de localizá-la, quando viu surgir, diante de seus olhos, uma nova cena: a menina corria a abraçar sua mãe, a deusa Deméter.
— Mas então é minha sobrinha...!
O soberano das sombras, vestindo seu manto negro, ordenou que preparassem para ele sua carruagem, pois precisava ia até o Olimpo; e foi pedir a Zeus que fizesse um pedido a Deméter que lhe desse sua filha em casamento. Queria tê-la consigo em seu reino, para com ele viver e reinar.
— Estou apaixonado por tua sobrinha, meu irmão.
— Sobrinha? Que sobrinha?
— Core, filha de Deméter. Aquela a quem não se sabe quem é o pai...! Tu, por acaso, não sabes quem é o pai... não é mesmo?
Zeus, preocupado, olhou para um lado e para outro, pôs o dedo sobre os lábios para lhe pedir silêncio, e sussurrou:
— O que pretendes, irmão?
— Será que tu me darias tua permissão para eu fazê-la minha esposa?
— Esposa?!
— É... eu ando meio solitário em meu Reino Sombrio. Não tenho com quem dividir o meu leito, e acho que já está mais do que na hora. Preciso de uma esposa, casta e digna de reinar. Meu reino no subterrâneo é triste e melancólico, e precisa de uma presença feminina como a da formosa Core. Eu a tornarei feliz, te prometo.
Zeus teve receio de ofender Hádes negando-lhe a sobrinha, que escondia ser sua filha. Mas teve receio também de ofender Deméter com sua permissão. Por isso, sem dizer uma palavra, limitou-se a piscar o olho para o irmão, aprovando em silêncio, o que trouxe satisfação ao deus Hádes. Zeus intercedeu e enviou até a deusa, em seu templo, a divina e multicolorida Íris levando a mensagem de Hádes.
— Branda Deméter, quer Hádes casar-se com a bela Core. E Zeus se mostra a favor, se assim o quiseres, só aguardando nos Céus o seu justo consentimento!
— Core?! É muito moça ainda, e eu a quero comigo para aprimorar a vida no destino que lhe cabe. Respeito Hádes meu irmão, mas ele deve se conter e esquecê-la! Que ele procure suas amantes! Dize a Zeus que assim penso, desta forma zelo e protejo minha filha aqui na Terra!
Íris desceu aos Infernos e comunicou a decisão negativa de Deméter:
— Senhor das trevas, deus dos mortos, soberano do Tártaros, imploro-te que controles a tua ira divina e ajuda a manter o bom relacionamento com o Olimpo. Esquece a tua paixão, porque Deméter nega teu pedido. Quanto a Zeus, fez o que fez, nada mais, em relação ao teu matrimônio com Core, como desejas!
O rei Hádes se calou em seu trono. Conhecia bem sua irmã e tinha por ela apreço, mas, também, reconhecia sua teimosia. Era definitiva. Jamais ouviria um “sim” de Deméter. Porém, matutou sobre o caso, sem deixar que percebessem, ainda, em seu coração, a fulminante paixão pela deusa das flores, Core, sua sobrinha.
Deméter tinha a seu cargo uma das tarefas mais importantes. Fôra ela quem ensinara aos homens o cultivo da terra. Não se limitava a ensinar. Presidia às semeaduras, ao crescimento das plantas, às colheitas. Dela dependiam todos os homens, e sem ela as sementes não germinavam, as plantas não cresciam, os frutos da Terra não tinham o menor valor.
Assim sendo, Deméter vivia sempre ocupada, indo de um país para outro, de terra par terra, de campo para campo, correndo em auxílio dos lavradores e providenciando para que o seu duro labor fosse beneficiado pelos elementos do solo, pelas chuvas e pelo Sol oportunos, evitando a geada, o granizo, as secas impiedosas ou as chuvas excessivas, porque tanto o Sol como a chuva em demasia perturbavam as hortas e a plantação em geral.
Grande era a alegria de Deméter, maior que a própria alegria dos homens do campo, quando os prados reverdeciam, as flores desabrochavam, o louro trigal fulgia ao Sol e os frutos sadios apontavam apetitosos, por entre os ramos abençoados pelo Céu.
Só comparável à alegria dos frutos sempre renovados era a que provava quando acolhia em seus braços carinhosos sua filha Core, que era boa e amorosa. Mas, constrangida pela responsabilidade assumida, perante os homens e os deuses, de animar as culturas e fecundar as terras, das quais dependiam tantas e tantas vidas humanas, Deméter nem sempre estava junto da filha querida. Com tristeza partia para o cumprimento de sua missão. Com infinita doçura regressava para mirar-se nos olhos festivos de Core. Mas precisava, sempre, partir outra vez...
Deméter, num certo dia, havia levado Core, pela primeira vez, para fora dos limites de Elêusis. Levou-a para perto de Hena, onde havia um lago escondido no bosque, no interior da ilha de Trinácria, onde, pensava ela, era um lugar abençoado por eterna primavera, pois Deméter precisava ir para a ilha de Creta, para exercer os seus ensinamentos ao povo de lá, ensiná-lo a plantar e colher seus próprios alimentos.
A presença de Deméter e sua filha Core fez calar a fúria do flamejante vulcão Etna. Costumava cuspir fumaça, faíscas e lavas por todos os lados, chegando a abalar até o escuro reino do deus Hádes. E há muito isso o incomodava, e pensava que a qualquer momento tomaria uma atitude. Mas foi se acostumando, e isso acabou lhe trazendo momentos de incessantes irritações. Passava o tempo todo mau-humorado, se segurando no trono a cada tremor de terra, que ameaçava desabar sobre sua cabeça. Não conseguia descansar nem ter um momento sequer de paz. Não bastasse o seu reino sombrio, ainda tinha que suportar tamanha intranqüilidade. Quando não era um tremor que abalava as estruturas de seu palácio, era uma grande quantidade de fumaça que era obrigado a respirar.
No entanto, de repente, as inquietações deram uma trégua, e ficou assim por um bom tempo. Finalmente Hádes pôde esticar as canelas e descansar um pouco. Mas levantou-se às pressas, porque sentia que algo estava errado. Teria o gigante sido libertado? Teria Encélados, finalmente, dado um tempo à sua ira incontrolável? Isso começou a incomodá-lo, e resolveu investigar.
Chegada a hora de se despedir da filha, como que sob a impressão de um mau pressentimento, Deméter recomendou-lhe, com a maior insistência, que não se afastasse do palácio em que se encontrava. Deméter ainda temia que Hádes ou outro pretendente lhe levasse Core. No templo, estaria segura.
— Mas não posso nem descer até a praia, para brincar com minhas amigas, as Ninfas do mar?
— Podes. Mas não te afastes delas, nunca. As Oceânides são boas amigas e as filhas de Áquelous te protegerão. Mas nunca te afastes sozinha. Prometes?
Core prometeu. E Deméter, de coração apertado, beijou-a repetidas vezes, antes de subir ao seu carro, puxado por dragões alados, com o qual percorria os caminhos e os campos da Terra.
Na sua doce inconsciência, Core foi procurar suas amigas Oceânides, enquanto as Aquelóias não desgrudavam dela. Lá estavam elas, recém-saídas do fundo das águas. Estavam dançando e cantando, e Core foi a elas se juntar. Reunindo uma boa quantidade de conchas lindíssimas, uma das Ninfas preparou um colar e o ofereceu a Core.
Aquilo inspirou-lhe uma idéia. Resolveu retribuir o presente da ninfa preparando-lhe uma grinalda de flores.
— Vinde comigo. Vamos até o campo aqui perto colher flores para uma porção de grinaldas.
As Ninfas filhas de Océanos recusaram, com pesar. Não podiam afastar-se da praia, porque viviam de aspirar a brisa salgada do mar. Do contrário, morreriam. Ademais, preferiam permanecer na praia, pois dividiriam o tempo estando com ela e Prometeus, que se encontrava acorrentado no Cáucaso, e lhe faziam companhia.
— Bem, queridas, então esperai aqui. Eu vou aqui pertinho, encho o meu avental de flores e já estarei de volta.
Foi aceita a proposta, já que desconheciam as ameaças que rondavam a filha de Deméter, e a menina imprudente, esquecendo o conselho de sua mãe, se afastou sozinha, enquanto as Ninfas Aquelóias, despreocupadas, cantavam e dançavam, como gostavam de fazer. Estava maravilhada, nunca vira flores tão lindas. Encheu o avental e já ia voltando quando, um pouco mais além, viu flores ainda mais delicadas, de cores ainda mais vivas. Jogou no chão as que havia colhido, começou a apanhar as novas flores, que logo a seguir deixou cair, quase com desprezo, porque mais adiante as flores tinham muito mais perfume e pétalas mais suaves e de cores mais deslumbrantes, como lírios e violetas.
Assim foi que, pouco a pouco, a filha de Deméter, totalmente esquecida dos conselhos de sua mãe, aventurou-se pelo campo, o avental sempre renovado com flores cada vez mais bonitas e de perfume mais delicado!
Porém, já ia regressar, feliz, quando reparou num arbusto, como nunca vira antes, todo coberto com as flores mais maravilhosas do mundo, que se encontrava junto a um lago de águas cristalinas.
— Somente Deméter, minha querida mãe, podia inventar estas flores.
E, outra vez esvaziando o avental, correu para o arbusto, disposta a arrancá-lo por inteiro, com raízes e tudo, para replantá-lo nos jardins do palácio de sua mãe, no Olimpo. Tinha flores de diferentes matizes, de tonalidades diversas, todas com um traço comum de parentesco, formando o mais rico, deslumbrante e variado ramalhete de flores jamais visto. Só uma coisa a intrigava: um certo brilho luminoso nas pétalas, que lhe inspirou receio.
— Não serão venenosas?
Mas logo afastou a idéia, que lhe pareceu tola. E, agarrando cuidadosamente o arbusto pelo tronco, pôs-se a tentar arrancá-lo do solo. Estava difícil. O arbusto parecia fortemente enraizado. Tentou novamente. Parou, preocupada. Não somente ele resistia, mas pareceu-lhe também ouvir um estranho rumor sob seus pés.
— Será que existe aí embaixo alguma caverna encantada?... Bobagem! Eu vivo sempre imaginando coisas...
Tornou a agarrar o tronco do arbusto. Desta vez não precisou fazer força. O arbusto saltou, mal o tocou de leve, e Core perdeu o equilíbrio, caindo para trás. Ergueu-se risonha. Mas o riso não durou muito. No lugar de onde saíra o arbusto via-se agora um buraco. Era como se ela houvesse destampado uma caverna. E caverna que tinha os seus moradores. Ouvia vozes, rumor de passos, troar de cascos, ruídos esquisitos, barulho de rodas. Pensou em fugir, mas o barulho aumentou e nem teve coragem de sair do lugar. Sentiu-se plantada no solo, como se tivesse raízes... E aí o espanto foi grande: o buraco se abriu e se alargou, e quatro grandes cavalos negros, soltando fumaça pelas ventas, nitrindo com fúria, irromperam por ele, puxando um esplêndido carro, uma biga toda de ouro, cujas rodas acabaram amassando margaridas e centáureas
Imóvel de pavor, Core viu que dois cavalos, que mais pareciam dragões, puxando o seu carro fabuloso, bufando e agitando as crinas, evoluíam ao seu redor, como se lhe quisessem prestar uma homenagem. E no centro do carro, manejando as rédeas dos cavalos fogosos, viu um homem, de aspecto jovem, mas de rosto fechado e de aparência zangada, procurando defender os olhos dos raios do Sol, como se não estivesse acostumado à luz e estivesse chegando do Reino das Trevas.
— Como é que eu fui esquecer-me dos conselhos de minha mãe? Agora estou perdida...
Mas o homem fazia o possível para ser gentil e convidava-a para subir:
— Queres dar uma voltinha?
Core ouvira sempre de Deméter que nunca se deveria aceitar convites de desconhecidos, principalmente para passeios de carro, mesmo que fosse um carro de ouro, puxado por negros cavalos inquietos e de trote fogoso. E não estava gostando muito do jeito que a chamava, nem daquele tremor que agitava o solo.
De repente, Hádes lançou enormes nuvens negras para esconder a face do Sol, e a Terra escureceu. Core ficou temerosa e começou a gritar:
— Mamãe! Mamãe! Socorro!
Mas a voz mal lhe saía da garganta. E Deméter devia andar muito longe, na sua infindável e generosa tarefa de ajudar os lavradores de toda a Terra, no seu eterno plantar e colher.
Fez um esforço enorme e, cada vez mais assustada e movida pelo seu medo infinito, gritou:
— Mamãe! Socorro! Socorro!
Foi inútil gritar. Ela não foi ouvida por Deméter nem aquele jovem altivo se mostrou preocupado, pois afinal era um rei: Hádes, senhor dos Infernos. Hádes fez parar os cavalos, desceu, tomou-a no colo, voltou ao carro e espicaçou os animais.
— És filha de Deméter, não?
A menina confirmou.
— Não tenhas receio, querida. Não vou te fazer mal algum. Que é que estavas fazendo, sozinha no campo?
— Estava desobedecendo à minha mãe...
— E fazias o quê?
— Colhia flores.
— Ela lhe proibia de fazer isto? Pois vou te levar ao meu palácio. Lá encontrarás o mais belo jardim da Terra e do Céu. O jardim com todas as flores será teu...
— Quero minha mãe...
— Tuas flores serão feitas de pérolas, rubis, diamantes e todos os metias mais preciosos.
— Quero ver minha mãe...
— Lá terás um rei aos teus pés...
— Mamãe...
— Não sabes que rei sou eu? Sou Hádes, o rei dos diamantes e de todas as pedras do mais alto valor.
— Mamãe! Mamãe!
Hádes levou-a para o carro nos braços. Em seguida, tocou os animais, que levantaram vôo. Core gritava, à medida que a estranha viagem começava.
Hádes, sem lhe dar ouvidos, tocou sua carruagem em direção da fenda. Mas aquela cena foi presenciada por Cíane, uma de suas amigas, que havia ido procurá-la. Perséfone gritou pelo seu nome, mas ela nada pôde fazer senão implorar:
— Espera, cruel divindade! Deixa-a em paz!
Hádes, temeroso por ter sido descoberto, desviou seu caminho e tocou os cavalos para longe da fenda e desapareceu. E, para não deixar vestígios, ordenou que a fenda se fechasse. Nesse momento, uma vara de porcos por ali passava, misturando seus rastros com os rastros dos corcéis de Hádes. E, ao começar a fechar-se o abismo, os porcos nele caíram e morreram. Quanto a Cíane, saiu correndo para avisar do rapto, mas suas pernas fraquejaram e, sem forças para continuar, dobrou os joelhos e esticou-se sobre a relva. Num instante, seu corpo foi transformado numa fonte, e jamais ela pôde revelar quem era o raptor da filha de Deméter.
Hádes continuava a falar das suas riquezas e não lhe dizia ser o senhor dos Infernos. Apenas tentava-lhe persuadir, até o ponto de lhe dizer que seu palácio era muito mais belo que o de Deméter...
— Quero minha mãe, leva-me de volta, por favor...
Hádes pretendia torná-la sua rainha.
— Por favor...
Hádes já estava ficando irritado. Ofereceu-lhe todas as glórias, honrarias e riquezas, além de estar-lhe proporcionando aquele passeio, e ela insistia em choramingar chamando Deméter.
— Eu tenho todas as riquezas. Sou o rei mais rico do mundo. No palácio maravilhoso só falta um riso, o teu riso, para encher de alegria os meus salões.
Mas Core continuava a chorar e gritar pela mãe.
Hádes estugava cada vez mais seus garbosos cavalos, que mais voavam que galopavam, providos de asas como eram, dando voltas por entre as nuvens.
Num dado momento, olhando para baixo, Core conseguiu avistar Deméter, sua mãe, que se encontrava em Creta, com os camponeses do país.
— Mamãe!!!
Mas os cavalos de Hádes tinham a velocidade do pensamento e já estavam muito além dos limites da luz do Sol. Deméter nada viu ou ouviu.
Começava a escurecer e rumores de trovoada e anúncios de tempestade era tudo o que se ouvia então. E quanto mais trevas desciam, mais alegria brilhava no tenebroso rosto daquele rei.
— Hélios não tem beleza, menina. A luz do Sol não tem majestade. Luz maravilhosa é a que encontrarás no meu reino. Luz de tochas encantadas, luz que resplandece refletida nos diamantes e no ouro das paredes do palácio que vais ver agora. Queres ver?
— Então eu poderei voltar depois?
— Isso se resolve depois. Olha, estamos chegando...
O carro, depois de atravessar densa quantidade de neblina negra, transpunha um imponente portão, e logo os cavalos se detinham, retidos pelas rédeas.
E um enorme cão negro de três cabeças, dócil e contente, surgiu a correr e esperava ansioso a descida de seu dono. Core, surpresa, arrancou um grito de sua garganta.
— Não te assustes, garota, ele pertence a mim. Vem, meu querido Cérberos!
Hádes acariciou, uma por uma, as três cabeças daquele cão de guarda, que para Core eram terríveis, apesar de vê-lo muito manso e amigo. Cérberos gania de satisfação, ao receber a carícia do dono, agitando a cauda. Core aquietou-se. Mas qual não foi a sua surpresa ao olhar, com mais atenção, a cauda que o cachorro agitava. Era nada menos que um autêntico dragão, com olhos ferozes e garras de assustar qualquer gigante. Em seguida, reparou que, por baixo dos pelos do pescoço do animal, mexiam-se o que pareciam ser cobras, e de fato eram. Core assustou-se.
— Eu tenho medo, senhor, leva-me de volta...!
— Não temas, querida. Cérberos é o meu amigo mais fiel. Não faz mal a ninguém, a não ser àqueles que queiram entrar em meus domínios sem terem sido chamados... ou que pretendam sair sem permissão...
Hádes estugou de novo os animais e, atravessando rios lodosos e flamejantes, pelo ar, o carro percorreu os jardins interiores de um belíssimo palácio.
— Olha quanta riqueza...
As pedras do caminho eram pedras preciosas.
Chegaram a uma ponte.
— Olha o rio que passa aí embaixo.
Ela olhou e sentiu frio na alma. Era um rio negro, lamacento, de marcha pesada.
— Esse é o Létes, nunca ouviste falar?
— É um rio muito feio.
— Mas do meu particular agrado. Tem uma água estupenda, mesmo não parecendo. Basta um gole dessa água para fazer esquecer imediatamente todos os cuidados e tristezas. Se a provares, deixarás de sentir saudade de tua mãe e nada haverá na tua memória que possa te atormentar e impedir a tua felicidade em meu palácio.
Isso dizendo, Hádes chamou um de seus servos e ordenou-lhe que trouxesse, numa vasilha de ouro, um pouco da água do rio Létes.
Core atirou longe a água e o vaso de ouro. Não quis beber.
— Eu prefiro continuar infeliz e não esquecer minha mãe, que eu não devia ter desobedecido...
— Temos tempo.
Hádes desceu do carro, tomou a menina em seus braços e conduziu-a até o vestíbulo, para além da porta do palácio, que estava amplamente iluminado pelo reflexo da luz nas pedras preciosas incrustadas nas paredes.
Chamou depois o chefe dos cozinheiros reais e ordenou-lhe que preparasse um banquete opulento e saboroso como nunca houvera outro, nem mesmo no Olimpo, que era onde viviam os deuses supremos.
— E não te esqueças de um cálice de ouro e diamantes, o mais belo que houver, com água do Létes, para a nossa linda visitante.
E olhou-a com um forçado carinho.
— Não é mesmo, queridinha?
Core, que não queria, por nada que lhe descem em troca, esquecer sua mãe e que preferia morrer de fome a ficar no reino de Hádes, não respondeu. Mas jurou a si mesma, dentro de seu coração, que nada beberia e que nada comeria, por maior sede ou fome que tivesse, naquele palácio de falsas riquezas.
Mal sabia Core que, agindo assim, seria a sua salvação. Porque, segundo as leis antigas, todo aquele que entrasse numa terra ou nos domínios mágicos e ali comesse ou bebesse qualquer coisa, nunca mais voltaria ao seu lugar de origem.
Porém, Deméter, que estava no campo junto dos agricultores de Creta, começou a sentir que sua filha lhe chamava. Começou a ouvir seu pedido tardio de socorro.
— Minha filha está em perigo! Eu sinto! Onde ela estará?
Fechando os olhos, Deméter começou a vasculhar o espaço em busca de respostas e viu, ao longe, um carro alado se perdendo nas distâncias do Céu, em meio a relâmpagos. Mas não tinha certeza de que Core estivesse naquele carro, que rumava para algum país distante. Procurou convencer-se de que fora simples ilusão e preocupação de mãe. E continuou a orientar os trabalhadores, transmitindo à terra a virtude da fecundidade.
Só que o coração divino de Deméter não se enganava, e lhe importunava. Continuava a sentir amargura, aquela certeza de que algo mau havia acontecido a Core. E, atrelando às pressas os seus dragões, que os humanos viam cavalos comuns e alados, em seu carro mágico, regressou numa velocidade de relâmpago. Teve o intuito de ir primeiro ao Olimpo, pensando que estivesse lá entre Zeus e os deuses.
— Minha filha! Minha filha!
Ninguém sabia dar notícia. Os deuses do Olimpo alarmaram-se com sua ausência, sobretudo Zeus, o pai de Core.
Deméter, então, correu para o lugar aonde havia deixado a filha antes de partir. Foi para Hena, na Trinácria. Entrou no templo, não a encontrou, e foi procurar as Oceânides na praia.
— Onde está minha filha?
Não sabiam. Todas sabiam informar, apenas, que Core afastara-se, durante um alegre folguedo.
— Ela prometeu-nos grinaldas e foi colher flores nos campos. Mas não voltou...
Desconfiada, a princípio, de que as Ninfas a tivessem levado para o fundo do mar, Deméter viu que havia sinceridade nas suas palavras.
— Em que direção minha filha saiu?
As Ninfas apontaram para o caminho certo.
— E onde estão as filhas de Áquelous, que ficaram de vigiar e cuidar de minha filha?
Deméter avistou-as se divertindo e despreocupadas, como se nada houvesse acontecido. Deméter, furiosa, mudou-lhes o aspecto, transformando-as em aves de rapina. Como eram Ninfas do mar, filha de um deus-rio, foram mudadas em aves aquáticas, conhecidas então pelo nome de Sereias, que, assustadas, levantaram vôo em busca de Core. Só assim, as monstruosas Aquelóias poderiam ser perdoadas e voltariam ao seu aspecto original. No entanto, depois de muito vagarem, desistiram e pousaram na primeira ilha rochosa que encontraram, e lá permaneceram. Eram as ilhas Antemusas (hoje recifes que ficam entre a ilha de Cápri e a Itália).
E um Oráculo predisse às Sereias que elas viveriam tanto tempo quanto pudessem deter os navegantes à sua passagem; mas desde que um só passasse sem para sempre ficar preso ao encanto das suas vozes e das suas palavras, acompanhadas de seus instrumentos musicais — uma tocava lira, outra duas flautas e a terceira gaitas campestres —, elas morreriam. Por isso, essas feiticeiras, sempre em vigília, não deixariam de deter pela sua harmonia todos os que chegassem perto delas e que cometessem a imprudência de escutar as suas vozes melodiosas. E os infelizes, que se deixassem levar pelo encanto e pela sedução das Sereias, não pensariam mais no seu país, na sua família, em si mesmos; esqueceriam de beber e de comer, e morreriam famintos e sedentos.
Deméter, andando pelos campos, interrogava todos os camponeses que encontrava, e muito pouco tinham a dizer. Alguns a tinham visto com o seu avental cheio de flores, que ela sabia muito bem escolher.
— Ela seguia na direção daquela colina.
Continuou procurando. A certa altura, viu no chão todo um amontoado de flores.
— Aqui algo aconteceu...
Continuou. Mais além, novo feixe de flores lindamente escolhidas. Procurou mais adiante, nova colheita de flores caídas no chão.
— Isso está muito esquisito.
Deméter já chorava de dor, e seu coração apertava-se cada vez mais.
Súbito, viu um arbusto arrancado, ainda carregado de flores, em meio a margaridas e centáureas pisoteadas. Deméter nunca vira flores iguais às daquele arbusto.
— As flores deste arbusto não são das minhas. É lindo, mas parece um arbusto venenoso e mau.
Algo lhe dizia que aquele arbusto tinha qualquer coisa com o destino da filha. Mas nada em volta apontava qualquer indício. Nem sequer a cavidade pela qual saíra Hádes no seu carro dourado; havia desaparecido. Procurou em vão pelo lugar onde havia sido arrancado aquele arbusto, e nada encontrou, a não ser uma pequena fonte onde água bebeu e, por um instante, lembrou-se de Hádes, que um dia fôra ao Olimpo a fim de pedir sua filha em casamento. Porém, assim que se afastou da fonte, deixou de lado essa possibilidade, pois jamais poderia aceitá-la. Mas pôs no seu seio uma das flores malditas, como lembrança, talvez a última que lhe ficava, da filhinha querida.
Ao cair a noite, com duas tochas acesas, disfarçando-se de velha camponesa, continuou, de porta em porta, a bater em choupanas e palácios. Abatida como se achava, cansada pelo sofrimento, ninguém via, nela, a maga generosa que fazia a riqueza e a felicidade dos campos. Parecia mais uma mulher desesperada, que perturbava a paz dos outros com lamentos e choradeiras. Às vezes, era até tratada rudemente e com desprezo pelos humanos e pelos gênios das florestas. Tamanho era seu desespero, dor de mãe atormentada, que, por onde passava, as tochas queimavam acidentalmente os campos plantados, atiçando fortes fogueiras nos vales e povoados, mesmo até incendiando os mais áridos desertos.
E a pobre Deméter, com suas humildes tochas de chamas inextinguíveis, mas fracas, assim passou a noite e a madrugada.
A procura se prolongou por nove dias, sem comer nem beber. Não interpelou apenas camponeses, soldados, mendigos e poetas. Encontrou, no seu afadigado caminhar, muitos seres extra-humanos, que eram tão comuns naquele tempo. Às vezes saía do tronco nodoso de um carvalho o vulto maravilhoso de uma hamadríade, que partilhava de sua vida e se regozijava quando a brisa agitava suas folhas verdes.
— Não viste, formosa hamadríade, minha triste filha Core?
Nada vira.
Chegava a uma fonte. À flor d’água, numa agitação repentina, surgia uma jovem de cabelos gotejantes.
— Náiade maravilhosa, inspiração e orgulho das fontes, não viste passar Core, minha querida filha?
Dos olhos da náiade fluíam fáceis as lágrimas de simpatia pelo sofrimento alheio. Mas a resposta era:
— Não.
De outra feita, consultava os Faunos de orelhas pontudas e de pés de bode, com pequenos chifres na testa.
— Não vistes minha filha, ó Faunos dos campos e florestas?
— Como ela se chama?
— Core...
— O nome é feio. É bela de rosto?
— Sim, é lindíssima.
— Infelizmente não...
E cabriolando, pulando e rindo lá se foram os Faunos, indiferentes ao seu sofrimento, em busca das Ninfas para perseguir e seduzir.
E, como os Faunos, encontrava os Sátiros, seu semelhantes. Mais pareciam macacos, com rabo semelhante ao dos cavalos, que viviam dançando, pulando e gargalhando.
— Vistes, porventura, minha filha? Preciso muito saber.
— Ela é de menor?
— Sim, é quase uma criança.
— Hum, não perseguimos crianças...
E fugiram dando novas gargalhadas.
Chegou mesmo a interrogar Sélene, a deusa-Lua:
— Por acaso não viste, deusa dos raios de prata, minha filha Core sendo levada por algum infeliz raptor?
A resposta foi a mesma, tanto que tudo havia se passado durante o dia, e nem mesmo Hélios, o Sol, fora testemunha ocular do acontecido. Mas ela não desistiu, e seguiu adiante, empunhando os archotes. Até as estrelas intensificaram seu brilho para iluminar o caminho de Deméter, que andou durante toda a noite, de um lado para outro, até o amanhecer. E viu a Aurora conduzindo a sua carruagem, antecedendo o novo dia.
— Querida Éos, perdi minha filha! Tu, por acaso, não a viste passar numa carruagem suspeita?
Também nada vira. Estava disposta a ajudar na procura, mas o Sol, seu irmã, a impelia para frente, e precisava seguir adiante.
Já estava quase desanimando quando avistou um rebanho de ovelhas. E sobre um rochedo perto, nada menos que Pan, o deus dos pastores, irmão de criação de Zeus. Pan soprava uma flauta e as ovelhas pareciam ouvi-lo com encantamento. Tinha chifres, orelhas pontudas e peludas e pés de bode. Deméter, vendo que aquele ser era respeitado até pelos deuses, renovou suas esperanças.
Aproximou-se, agoniada. Contou da sua tragédia. Pan tratou-a carinhosamente, oferecendo-lhe leite e mel. Pan sabia que Deméter era irmã de Zeus e era tratado com respeito pelos demais deuses, tanto que podia até entrar no Olimpo quando quisesse, sem ser barrado. Só que, infelizmente, nada pôde informar à deusa...
— Ó Céus! Ó Céus!
Deméter desesperou-se, já não sabia a quem recorrer. Acabou retornando à região de Hena, próxima do Etna, onde o gigante Encélados havia voltado como nunca a enfurecer-se. Deméter buscava um consolo, um conselho, uma pista... Continuou em sua busca inútil, esquecida de seus deveres para com a Natureza. A Terra logo começava a apresentar as marcas de sua negligência, tornando-se estéril. E Deméter, extremamente exausta, foi sentar-se numa pedra, curvando a cabeça sobre o peito. Assim esteve bom tempo, abatida, bem ao lado da fonte que um dia água bebeu para saciar sua sede. Quando sentiu que respingava água da fonte sobre seus pés de forma estranha, incompreensível. Passando os olhos sobre o espelho das águas, Deméter percebeu nele o desenho do rosto de alguém que conhecia: era Cíane, uma das Ninfas mais íntimas de sua filha. Ainda que um pouco turvada, a imagem a encarava com indizível tristeza.
— Cíane? És tu? Mas como...
Parou um instante e viu que não obteria resposta. E Percebeu que era obra de um deus muito poderoso. Então, como que por encanto, surgiu flutuando sobre suas águas o cinto de Core. Apanhando-o, secou-o em suas roupas, mas logo o encharcou novamente com suas lágrimas
A deusa Deméter, na sua peregrinação infindável, já no décimo dia de busca, na forma disfarçada de uma mulher comum, passando por Colonas, avistou um velho camponês, que carregava um saco de amoras e bolotas, e sua filha, que conduzia duas cabras para a cidade de Elêusis, e, sem se identificar, aproximou-se e sentou-se sobre uma rocha pelo cansaço. A menina, carinhosamente, lhe chamou:
— Mãe, por que estás sentada aí?
O divino coração de Deméter quase saltou pela boca quando ouvir chamar-lhe de mãe. E o velho, largando o peso que carregava às costas, também parou e convidou-a:
— Vem conosco, segue-nos até Elêusis, e te daremos hospitalidade. Minha casa é modesta, mas o pouco que temos podemos partilhar de todo coração.
Foi um aperto no coração, mas Deméter recusou:
— Segue em paz, e sê feliz em companhia de tua filha, porque eu perdi a minha.
Ao falar, lágrimas divinas escorreram-lhe pelo peito. O compassivo velho e a menina choraram com ela. Afinal, o velho falou:
— Como te chamas, minha senhora?
— Doso. Acabo de escapar das mãos de piratas desalmados que tiraram a mim e minha filha à força de nossa pátria Creta.
— Vem conosco e não desprezes nosso teto humilde. Talvez tua filha te seja devolvida sã e salva. O nosso bom rei Céleos te ajudará no que for possível.
Deméter, mesmo sabendo que isto não seria possível e lembrando-se de que um dia já prestara auxílio à família real de Elêusis, cedeu:
— Vamos, não posso resistir a esse apelo!
Não tinha a quem recorrer, quem sabe entre os mortais. Levantou-se da pedra e seguiu com os dois. Entraram na cidade, donde avistou o modesto palácio de Céleos (ou Diaulos), onde um dia tomou para si o pequeno Triptólemos. Mas a deusa, assim que adentrou na cidade, notou que, apesar da imponência do palácio, com seus muitos guerreiros e suas muitas damas e seus muitos oficiais da corte, com seus trajes ricos, havia um clima de tristeza em todos os semblantes. E perguntou ao velho:
— Morreu alguém?
— Não. Mas é como se tivesse morrido. O filho do rei está enfermo e a rainha Metanira tem o coração despedaçado.
Um escravo, que se encaminhava para o palácio, percebendo ser estrangeira, complementou:
— O menino não dorme, rejeita os alimentos e chora todos os dias.
— De fome?
— Não sabemos. Parece que ele sofre de medo... Todas as amas que cuidavam dele foram dispensadas. Mal se aproximam da criança, por mais doces que sejam suas palavras, por mais suave que sejam seus passos, ele se enche de temor e recomeça a chorar... Ninguém entende mais nada... A rainha procura desesperada uma nova ama. As jovens mais ricas, das melhores famílias, fracassaram. As senhoras da nobreza se ofereceram também. Mas a criança cada vez chora mais...
— E ainda procuram?
— Sim.
Deméter estava desesperada, não tinha tempo a perder, mas amava os seres-humanos e não podia deixar de lhes prestar auxílio, portanto...
— Posso oferecer-me?
— Por que não?
Deméter foi encaminhada ao palácio e pediu aos guardas que a levassem à presença da rainha Metanira. Era tal a angústia geral que ninguém pôs reparo na sua pobreza e no seu jeito excessivamente humilde. A deusa percebeu que realmente se tratava do filho da mesma mãe que havia-lhe entregue Triptólemos. A fome era tanta naquela região, que até os ricos sofriam.
Deméter, apresentada pelo nome de Doso, foi sentar-se num tamborete e, durante longo tempo, permaneceu em silêncio, à espera. Metanira, quando a viu, teve um movimento de surpresa, ao vê-la tão pobre e humilde. Mandou a ama-seca Baubo lhe preparar um pouco de vinho, mas a estranha mulher pediu que apenas lhe preparasse o “kykeón”, uma bebida com sêmola de cevada, água e poejo, que, acreditavam, era um calmante de propriedades mágicas. Foi atendida. Dizem que, logo depois que bebeu, Deméter começou a gemer como se estivesse dando à luz um filho, causando tremenda correria das criadas da rainha, e certamente se sucedia, mesmo não aparentando gravidez: inesperadamente a deusa, sozinha em seu quarto, antes que as criadas retornassem para atendê-la, retirou debaixo de seu vestido um menino, e chamou-o Íacos. O nascimento teria se sucedido da união com Zeus, seu irmão. O menino aninhou-se nos braços da mãe e encheu-a de beijos, em seguida procurou-lhe o peito.
Abante (ou Abas), um dos filhos de Céleos e Metanira, naquele momento, apareceu e teve a infelicidade de zombar de Deméter, por ela ser tão velha e ter dado à luz, e não resistiu:
— Nossa! quanta avidez!
E foi por ela transformado em um pequeno lagarto, que logo saiu se arrastando. Então, Deméter cobriu o rosto com o véu, e o menino desapareceu, quando entrou na sala uma jovem criada coxa, chamada Iambe, que diziam ser filha do rei.
— Oh! que bicho nojento! Como será que ele entrou aqui? Pode deixar, minha senhora, eu o retiro.
Iambe agarrou o pequeno lagarto pela cauda e atirou-o janela afora. Então, sabendo ser uma triste mãe que acabara de perder a filha, Iambe fê-la rir com seus chistes maliciosos e gestos obscenos. Em seguida, tentou consolá-la. Então, as criadas de Metanira, dela acompanhadas, entraram depressa no quarto e a encontraram calma e serena, como se nada tivesse acontecido.
Apesar de ter muitas dúvidas, Céleos aconselhou a esposa a fazer então uma experiência. Deméter foi conduzida ao quarto do príncipe que chorava num berço de ouro. E mal entrou no quarto, o menino pareceu mais calmo. Ela chegou junto do berço e murmurou com carinho:
— Parece uma flor de tão lindo...
Foi como ele entendesse e gostasse do elogio, porque desabrochou num sorriso. Os que presenciaram aquilo, gritaram:
— Milagre! O bebê sorriu! O bebê sorriu!
Metanira acabava de encontrar a ama que o seu coração de mãe desejava. A rainha entrevistou a estranha, sem saber quem realmente era.
— Aceitas o encargo? Posso confiar em ti?
— Aceito. Mas com uma condição.
— Pede quanto quiseres.
— Não quero ouro nem prata. Quero apenas confiança.
— Eu confio em ti.
— Mas eu quero confiança inteira, absoluta. Nem tu nem o rei teu marido e senhor podereis interferir nos meus cuidados.
Metanira teve que aceitar. Se recusasse, perderia a ama, tão festivamente recebida por Demófon, seu filho, a primeira que o fizera sorrir e a única mão capaz de estender-lhe alimento sem que fosse repelido com lágrimas e gritos. Mas tratava-se de uma desconhecida. Mesmo assim, teve que aceitar.
— Não vais interferir, não é? Eu tenho segredos só para ele reservados, que farão do pequeno Demófon um príncipe maravilhoso e um futuro rei como nunca houve entre os reis nascidos na Terra.
— Está bem, minha amiga. Nós confiamos em ti.
Valeu a pena. O príncipe dentro em pouco era uma festa permanente no palácio. Estava de novo forte e alegre. Cresceu forte, começou a ensaiar o primeiro engatinhado, já tentava erguer-se, punha-se de pé, mal equilibrando o corpinho gorducho, rindo com os dentinhos nascentes, os olhos claros, iluminados de alegria.
Quase ninguém do povo acreditava na radical transformação da criança. O soberano Céleos e a rainha Metanira estavam felizes. Havia até uns criminosos condenados à pena de morte, que deviam ser executados dentro de poucos dias; mas o rei mudou a pena e resolveu dar-lhes apenas alguns anos de prisão. Uma semana depois, vendo o pequeno príncipe ensaiar os primeiros passos, aboliu para sempre a pena de morte em Elêusis.
Para nutrir o menino, Deméter saía à noite, sem ser vista, para colher papoulas e fazer um caldo para misturar ao seu leite. Feliz, um dia, por ver o pequeno príncipe comer os ricos manjares que Deméter lhe oferecia, a rainha Metanira lembrou-se de que havia na sua cidade inúmeras crianças que tinham fome e nem sempre tinham o que comer. E, com a aprovação do rei Céleos, ordenou que seus servos saíssem a verificar todas as casas onde faltasse alimento para os bebês, para serem abastecidas pelo palácio real.
Deméter parecia muito misteriosa nos seus cuidados com o menino Demofóon, cada vez mais robusto e feliz. E Metanira não conseguia refrear a sua curiosidade.
Mais de uma vez perguntou, mais de uma vez Deméter quase perdeu a paciência:
— Qual foi o nosso trato?
— Está bem, está bem...
Uma noite, não resistiu. Sem que Deméter a visse, escondeu-se no quarto de lindas cortinas e de piso de mármore onde Deméter e o pequenino príncipe dormiam. E foi com o maior espanto que assistiu a um estranho cerimonial.
Depois de abraçar e beijar muito a criança, extravasando carinho, Deméter se encaminhou para a lareira, que havia a um canto e em cuja base ardiam brasas que iluminavam fracamente o quarto, aquecendo-o contra o frio que reinava lá fora. Revolveu os carvões acesos e a cinza que havia ao seu lado. Depois banhou o pequeno príncipe com muito cuidado e perfumou o seu corpo com uma essência suave, que retirou de um vaso de alabastro. Em seguida, remexeu as brasas com uma tenaz de ferro, que foi ficando vermelha ao contato do fogo, fez uma clareira no meio das brasas e tomando o menino, todo nu e sorridente, colocou-o no espaço vazio que ficava no meio das brasas vermelhas.
Ao ver aquilo, horrorizada, Metanira deixou o seu esconderijo, deu um grito, retirou, desesperada, a criança do meio das brasas, que não estava chorando, e avançou para Deméter:
— Criminosa! É assim que tratas meu filho?
Deméter voltou-se para a rainha, como se tivesse levado um golpe mortal. Não mostrava medo, mas tristeza.
— Acabas de cometer uma loucura, Metanira!
— Loucura? Salvando o meu filho da Morte?
— Não. Apenas faltaste com a tua palavra. Tinhas prometido não interferir. Concedeste-me toda a liberdade para dar-lhe condições de se tornar o maior rei que já houve entre os homens, um rei imortal...
— Mas ele não iria morrer?
— De onde o tiraste?
— Do meio das brasas ardentes.
— E ele tem queimaduras?
A rainha examinou a criança.
— Não... não tem!
— Há quanto tempo não o vias chorar?
— Desde que aqui chegaste, já faz algum tempo...
— E ele está fazendo o quê?
Só então Metanira reparou que o pequeno príncipe chorava em desespero.
— Ele deve estar todo queimado.
— Sabes que não, Metanira. Observa melhor...
Metanira nada de errado viu na criança.
— Mas então...?
— Agora o problema é teu. Procura outra ama. Eu vou sair de Elêusis agora mesmo...
Metanira, com a criança no colo, caiu por terra, suplicando. Deméter ficou irredutível. A rainha, fugindo ao compromisso, interferindo nos seus cuidados, quebrara o encantamento com o qual Deméter estava criando o pequeno príncipe, para que ele crescesse como uma criança celestial, dotada de força sobre-humana, inteligência suprema e imortalidade.
Veio Céleos e apoiou Metanira na sua súplica. Fez os maiores juramentos e as maiores ofertas, e concluiu:
— Minha casa é desafortunada!
— Agora é tarde. Vosso filho terá de crescer como todos os outros filhos de rei ou de gente do povo. Crescerá, poderá ser fraco, poderá ser forte, poderá ser bom, poderá ser mau. Tomara que seja homem bom, que é tão raro entre os homens... Poderá até ser um rei coberto de glórias, mas um dia morrerá como todos os homens e todos os reis, na guerra ou na doença... Seca tuas lágrimas, mulher. Ainda tens três filhos aos quais pretendo conferir grandes dons para que esqueças tua dupla perda.
Céleos e Metanira não entenderam suas palavras. Tinham cinco filhos varões, Triptólemos, Eubuleus, Eumolpos, Abante e o pequeno Demófon; não sabiam que Abante havia desaparecido para sempre, desconheciam o destino do filho menor e nem reconheceram Deméter pelo seu poder. E, beijando os pezinhos do príncipe, que se acalmou, por um instante, Deméter afastou-se do palácio, desta vez decidida que fosse para sempre... E a criança tornou a chorar.
Ainda em Elêusis, Triptólemos, o príncipe mais velho do rei Céleos, que além de servir a Deméter também cuidava das vacas de seu pai, veio-lhe ao encontro, dizendo:
— Ó Deméter, temo estar te trazendo más notícias. Meus irmãos Eubuleus, que cuida dos porcos, e Eumolpos, o pastor, me disseram que há dez dias atrás estavam dando de comer aos porcos em Colonas, não muito longe daqui, quando ouviram um tropel de patas e viram passar uma carruagem tirada de corcéis negros, que recém levantava vôo da terra. Nela estavam um rei de rosto obscuro, parecendo invisível, usando uma armadura negra, e uma moça muito assustada que parecia ser tua filha Core; mas não tiveram certeza ser ela. Mas viram que havia um enorme buraco na terra, que antes não havia. Por isso, perdemos todos os nossos porcos que caíram no buraco, que, diante dos seus olhos, se fechou num piscar de olhos.
Deméter temia que Hádes fosse o causador do rapto de sua filha. Mas não se precipitou. Procurou saber mais. Não poderia desistir, pois amava muito sua filha, nem ia desanimar tão facilmente. Era deusa-mãe, deusa da fecundidade, tinha o dom da vida em suas veias e, acima de tudo, era mãe de uma bela mocinha.
Continuou viajando, portanto, com uma tocha na mão, dia e noite interrogando a todos os que encontrava pelos caminhos e batendo a todas as portas. Mas ninguém dava notícia. Ninguém a vira, nem sabia informar, pelo menos algo diferente do que já sabia. Uma ou outra vez, quando via no chão uma flor emurchecida, Deméter a recolhia e beijava, fazendo-a renovar-se, e a escondia no seio. Talvez tivesse caído das mãos de Core, talvez tivesse pousado em seus lábios.
O Sol, inclemente, iluminava seus passos na procura inútil. O frio da Noite enregelava seu corpo. E nem o calor do dia nem os Ventos imprevistos nem as trevas noturnas detinham sua triste caminhada.
Numa tarde, longe de todos os lugares onde os homens moravam, Deméter chegou à boca de uma caverna sombria onde parecia luzir, lá no fundo, uma pequena tocha.
Outro qualquer fugiria. A caverna assustava. Mas Deméter parou, espreitou, chamou. A pequena tocha acesa era indício de haver alguém ali. Quem seria?
Como ninguém respondesse, entrou, cautelosa, iluminando-a um pouco mais com a pequena tocha que trazia acesa.
— Tem alguém aí?
Ninguém respondeu.
— Tem alguém aí? Por favor, aparece! Core?!
Ouviu então um resmungo que parecia um lamento, soturno e rouco. Deméter, sem querer, trêmula, pensou em voz alta:
— Aqui mora gente ou monstro?
Ouviu um gemido ao fundo.
— Posso me aproximar?
— Entra.
Era voz de mulher.
Iluminando melhor a caverna com sua tocha, Deméter viu ao fundo um vulto de mulher, que aos poucos foi tomando forma, diante de seus divinos e aterrados olhos.
Não era muito bela, mas era uma mulher, feiticeira ou deusa. Achegando-se para mais perto, viu que a cabeça era de cão e tinha, como ornamento, no pescoço, um rolo de serpentes. Mas não atacava, não ameaçava, não parecia agressiva. Apenas gemia no tom mais lamentoso, como se tivesse perdido não uma, mas uma centena de filhas. E logo Deméter percebeu de quem se tratava, apesar de conhecê-la vagamente. Era Hécate, verdadeira encarnação de certas pessoas que sentiam prazer na própria desgraça e que se refugiavam na sua miséria como se o sofrimento fosse em si mesmo um consolo. Estava sentada sobre um monte de folhas e suspirava e gemia, indiferente à presença da forasteira. Dizia-se que As Empusas eram suas filhas e saíam do submundo durante à noite com sede de sangue, à maneira dos Vampiros. Possuíam uma perna de mula e outra de bronze. Para seduzir os homens, mudavam de forma, assumindo aspecto de mulheres maravilhosas.
Deméter, percebendo apenas que se ela encontrava diante de uma deusa que sofria, pensou:
— Pelo menos, ela é capaz de entender o meu sofrimento.
Cansada de tanto caminhar, Deméter aproximou-se e deixou-se cair sobre o chão de folhas secas.
— Teu nome é Hécate, não é?
Hécate confirmou, agitando a cabeça de cão e acariciando uma das cobras do pescoço.
— Sabe quem sou?
— Uma colega.
Hécate deu um longo suspiro.
Deméter levou as mãos ao pescoço e à cabeça, para ver se não tinha mudado. Hécate pareceu compreender seu pensamento, e continuou, quase em tom de volúpia:
— Colega de sofrimento. Basta olhar-se, para saber que és uma criatura infeliz. Não tanto como eu, é claro. Mas infeliz, infeliz, infeliz...
E, olhando para a deusa, perguntou:
— Acertei?
— Acertaste. Sou Deméter, filha de Cronos e Réia e irmã daquele que governa do Olimpo. Eu era aquela que abençoava os campos e enchia de frutos as mãos dos trabalhadores da Terra. Hoje sou apenas uma triste mãe à procura de sua filha. Não viste, por acaso, minha filha, que desapareceu de maneira misteriosa, nas proximidades de Colonas? Tens notícia dela por acaso?
Hécate começou a gemer e lamentar-se em voz alta. Deméter assustou-se.
— Soubeste alguma coisa?... Hécate?!
— Choro por não saber. É mais uma desgraça minha. Não posso ajudar-te.
E quase arrancou as cobras do pescoço, de tanto desespero.
Nisso, fulguraram seus olhos.
— Foi há quantos dias?
— Dez...
— Tinha voz infantil?
— É uma criança.
Hécate, a personificação da Noite Escura, suspirou.
— Ver, eu não vi. Eu não costumo sair desta caverna sombria. Mas os meus ouvidos foram feitos para recolher todos os suspiros, todos os gritos de dor, todos os sofrimentos do mundo... Graças a eles eu estou sempre em dia com as últimas desgraças sofridas...
— Tu me assustas, terrível Hécate...
— Eu não assusto, pobre infeliz... Eu informo.
— Então explica-te. Fala!
— Pois bem...
Hécate fez suspense. Deu um profundo suspiro, gemeu, informou que era a criatura mais sofredora da Terra, entre todas as divindades ctonianas.
— Sabes o que eu tenho sofrido?
E já ia falar de suas desgraças, quando Deméter a interrompeu:
— Por Zeus, Hécate, fala de minha filha...!
— Ah! sim...
E, novamente suspirando e gemendo, e quase arrancando as suas cobras, Hécate contou que, nove dias antes, ouvira o pranto e os gritos e o clamor de uma voz infantil que corria pelo Céu, como se estivesse no maior desespero, conduzida por um vivo rumor de carro no espaço, a enorme velocidade.
— Seria ela?
— Devia ser! Ela gritava “socorro, mamãe! Socorro!”
— E então?
— Não sei. Não ouvi mais nada.
— E o carro ia a que direção?
— Desapareceu na direção do nascer do Sol...
Deméter ergueu-se, num sobressalto.
— Eu vou partir na direção do Sol! Adeus!
— Não vás, fica! Não adianta perder tempo. Pelo jeito, era rumor de carro de dragão e asas de monstro o que eu ouvi, abafando os gritos da menina, puxando o carro veloz que passava. Não adianta lutar contra o Destino ou contra as forças mágicas da Natureza.
— Eu vou lutar!
Deméter estava decidida, e acabava de conseguir uma coisa notável: convenceu Hécate a deixar por algum tempo a sombria caverna em que habitava. Iria ajudá-la a procurar sua filha. Sair da escuridão, abandonar a treva, enfrentar as claridades, era, para a soturna senhora de cabeça de cão, algo quase impossível. Para ela, o bem era sofrer e se lamentar. Bom era o sombrio, o trágico, o triste. Positivamente não era boa companheira para ninguém. Mas Deméter precisava de um apoio qualquer. Insistiu para que Hécate a acompanhasse em suas novas andanças. E como ela se regozijasse, no fundo de seu negro coração, com o espetáculo daquele coração de mãe despedaçado, acabou concordando.
— Está bem, infeliz. Eu vou contigo. Vamos perder tempo em canseiras inúteis e em procuras vãs. Vamos sofrer juntas, minha pobre coitada. Consolar-te-ás com as minhas queixas. Eu me confortarei com a tua desgraça irremediável. E juntas elevaremos as nossas lamentações e havemos de chorar nosso trágico destino. Ainda tens lágrimas para chorar?
Deméter estranhou a pergunta, e Hécate continuou:
— Sim, porque vais ter que chorar muito... Mas não faz mal. Eu sou uma fonte de lágrimas. Conta comigo. Bem, vamos. Tens a tua tocha?
— Sim.
— Levo a minha também.
— Mas vamos caminhar durante o dia, muitas vezes.
— Eu prefiro a minha tocha. Ela dá sombra, em vez de iluminar... e distrai a minha vista do Sol. Odeio o Sol!
Deméter já ia desistir de companhia tão amarga, quando a referência feita por Hécate ao Sol lhe deu uma idéia animadora.
— Poderoso Zeus! E eu que não tinha pensado no Sol! Vamos procurá-lo. Talvez ele nos possa ajudar.
E começou a caminhar. Hécate foi logo atrás, resmungando o tempo todo.
— Que idéia mais idiota! Procurar aquele vadio... Um irresponsável... Um boêmio... Um músico frívolo... Um rapaz que não leva nada a sério... Vê tudo cor-de-rosa... Acha tudo lindo... Está satisfeito com tudo... Que é que esperas dele?
— Apolo? Não... refiro-me a Hélios, filho dos Titãs. Ele pode dar-me notícias de minha filha.
— Apolo... Hélios... qualquer um deles! Vai dar coisa alguma! Olha, querida infeliz, eu só te acompanho porque sei que vais ter a maior decepção do mundo...
Hécate não se convencia. Não admitia a luz do Sol, mesmo representado por seu avô Hélios e por Apolo, que às vezes servia de cocheiro à flamejante carruagem. E continuava resmungando. Apolo era ocioso, leviano... E ainda tinha uma coisa desagradável, para Hécate: era radiante como o próprio Hélios, o Sol.
— Não gosto de luz! O Sol é um chato!
— Então volta para a tua caverna...!
— Não. Eu comecei, eu vou até o fim. Quero ter o prazer de te consolar, contando as minhas tristezas, quando te sentires a mais desgraçada das mães sem esperança...
Felizmente estavam atravessando um campo de agapantos e, nas flores que luziam ao Sol, Deméter sentiu renascer um bom pensamento:
— Essas flores não seriam tão lindas se não tivessem a esperança de serem vistas por ela... Minha filha está viva!
— Olha, Hécate! Só pode ser ele! Não encontramos Hélios, mas eis Apolo, que poderá nos servir!
— Eu sabia...
Haviam caminhado muito e, para ela, só avistar, de longe, aquele jovem tão belo, de cabelos encaracolados, que pareciam feitos de raios do Sol, já valia a pena ter andado tanto.
Já Hécate pensava exatamente o contrário:
— Não faço fé nesse cabeludo! Esse tipo não é de nada!
E, apontando a lira, que Apolo tangia, com os olhos nas nuvens, disse ainda:
— Tem jeito isso? Observa só, Deméter... Em vez de trabalhar, de produzir alguma coisa em benefício dos deuses ou dos homens, ele fica tocando música, como se fosse o melhor que sabe fazer...
— Mas ele é um artista.
Deméter apressou o passo.
— Muito me admira que tu, uma deusa respeitável, a rainha dos campos e das plantações, que preside a produção e a colheita dos frutos...
— ...e das flores.
— ...tu, divindade encarregada de coroar o trabalho duro dos homens do campo, não devias favorecer a ociosidade...
— Cada um tem a sua missão neste mundo. Um planta o trigo, outro faz o pão, um cultiva as flores, que perfumam a Terra, outro produz beleza, que torna a vida dos que trabalham duro mais agradável... Ouve só a doçura de sua melodia...
E aproximaram-se.
— É impossível que ele não me dê notícia de minha filha...
— Queres apostar?
Hécate, ofuscada pela intensa luminosidade que irradiava daquele deus, cobriu os olhos. As cobras de seu pescoço chiavam de raiva, participando do pessimismo e da irritação da sombria senhora das cavernas. Deméter correu ao seu encontro.
— Apolo! Nobre Apolo!
Ele deixou de tocar e voltou-se para a deusa, que vinha-lhe ao encontro desesperada.
— Deméter?! Que desejas? Queres que te escreva um poema? Que componha para ti uma nova canção?
Hécate, baixando a cabeça devido à luminosidade e para que o belo jovem não lhe visse a horrenda cabeça de cão, murmurou para suas cobras:
— Olhai só que cara de pau! Em vez de prestar serviço, em vez de desiludir logo a infeliz, ele quer cantar, compor, vadiar... E suas canções são ridículas, sem nenhum contato com a realidade. Se ele ao menos cantasse as desgraças do mundo, nós ainda podíamos tolerar... Mas não: é inconsciente...
Mas Deméter já estava ao lado de Febo-Apolo, com as mãos unidas numa súplica:
— Quero, sim, quero um poema. Quero uma nova canção. Mas para traduzir a minha alegria, quando me deres notícia de minha filha que desapareceu e que eu não consigo encontrar...
Hécate não resistiu:
— E tu pensas que ele sabe de alguma coisa? Pensas que ele se interessa por alguma coisa? Ah!
— Ele é amigo de Hélios flamejante, ele tem os olhos do Sol que tudo vê!
Deméter afastou a companheira. E, voltando-se para Apolo, disse-lhe:
— Estou certa?
— A quem procuras?
— Core. Desapareceu há pouco mais de dez dias. Procurei-a por todos os caminhos, ninguém deu notícia. Apenas esta “boa” amiga teve a impressão de ouvir os gritos de socorro, confundidos com um tropel de cavalos ou dragões que passavam no Céu...
— ...e com certeza rumo ao Inferno.
Deméter virou para Hécate, e esta continuou:
— É... já deve estar morta, entendes?
E, assim dizendo, enxugava com as cobras as lágrimas que chorava, na sua voluptuosa mania de sofrer.
Febo-Apolo olhou com repugnância aquela estranha figura. E pensou:
— Vais ser feia assim nas profundezas do Tártaros!
Apolo não era capaz de ferir oralmente qualquer ser, mesmo a um ser como ela, com horrenda cabeça de cão e tão tenebrosos pensamentos. E, voltando os olhos para Deméter, disse-lhe:
— Eu acho que ouvi também esse tropel de cavalos... Ouvi também uma vozinha linda que pedia socorro...
— Só podia ser minha filha... Quando foi?
— Há oito ou dez dias... Mas se realmente era tua filha e se pedia socorro...
— Já está liquidada.
Apolo não se deixou abalar pela conclusão de Hécate.
— Pelo contrário. Se é tua filha, está salva e deve estar agora na maior felicidade.
— Será possível?
— Duvido.
De súbito, Hécate recebeu um olhar desprezível e zangado de Apolo e Deméter, que fez a sombria senhora das cavernas estremecer. E Apolo continuou:
— É possível e é natural. O que eu ouvi foi o tropel dos cavalos que puxavam o carro maravilhoso de Hádes.
— Hádes?! Meu irmão? Eu temia! Zeus deve ter planejado isso! Ah, eu hei de me vingar...!
— Sim... E se tua filha teve o privilégio de ser convidada para conhecer o palácio de Hádes, ela deve ter-se assustado, mas deve estar agora deslumbrada e feliz, carregada de presentes...
Hécate e Deméter se entreolharam.
— Hádes é deus poderoso, como sabeis. Não conheço meu tio muito bem, pois nunca aparece no Olimpo. Mas, pelo que sei de meu pai Zeus, é o mais rico dos Imortais.
Ao contrário de Hécate, que se comprazia com o lado negativo das coisas, com o seu tenebroso pessimismo, Febo-Apolo viu apenas o lado bom. Não amava a tristeza nem a maldade. Deliciava-se com o lado róseo da vida. E facilmente esquecia o que havia ou sabia de mau.
Falando do possível destino da pequena Core, que caíra nas garras de Hádes, que era irmão de Zeus, Posseidon, Héra, Héstia e mesmo de Deméter, ele a consolava falando-lhe do esplendor do palácio de grande beleza arquitetônica, de salões vastíssimos, de elegantes colunas e da riqueza de todos os objetos que nele existiam.
— Segundo meu irmão Hermes, que vive indo lá, Hádes é o rei das minas, o senhor supremo do ouro, dos diamantes, das pérolas, das pedras preciosas. Se tua filhinha agradou a Hádes, ela só pode estar feliz, mesmo sentindo tua falta...
— Mas eu prefiro minha filha comigo...
Hécate complementou:
— E a riqueza jamais fez a felicidade plena de ninguém. Eu posso garantir, Deméter, que Core não há de fugir à regra. Ela deve estar sofrendo...
— Ah, língua de cobra!
Apolo sentiu o desejo de atirar a lira contra sua cabeça de cão, mas conteve-se. Hécate já se encontrava de costas, cansada de esconder o rosto com as mãos.
— Espera, Apolo, nisso a minha amiga tem razão. Feliz ela não pode estar. Se Hádes fosse, pelo menos, o rei dos jardins e das flores... é tudo o que ela mais gosta...
— Ora, Deméter, as flores lá são de ouro, o tempo não desgasta...
— Minha filha, como eu, prefere as flores que perecem, de vida curta, mas de perfume suave, delicado...
Houve uma pausa, até que Apolo, levantando-se, pôs a mão no ombro da triste mãe.
— Eu acredito que tua filha esteja feliz. Honestamente acredito. Mas tens que resignar-te ao Destino...
— Como assim?
— Porque as Moiras já devem ter fiado o destino de Core...
— Eu preciso de minha filha e ela precisa de mim!
E começou aos prantos. Deméter, apontando para o infinito, dirigiu-se a Zeus:
— Zeus, austero soberano, sempre segui teus passos e bem mais te fui fiel, porém, agora, eu exijo que arranques das sombras a minha filha, que também é tua, que Hádes, o infernal Hádes, tirou de meu convívio! E te advirto, senhor do raio, incendiarei o mundo na desgraça e na miséria, fazendo o fogo alcançar o teu Olimpo, secando a fonte das honras aos poderes imortais, caso me negues atender o que agora suplico por amor à nossa filha Core!
Apolo, surpreso, agora sabia o que ninguém antes sabia: Core era filha de Zeus. Não se surpreendeu. Não seria de admirar, pela forma que Deméter havia concebido aquela menina.
Diante de tal ameaça de Deméter, Apolo observou:
— Ela está sofrendo, eu tenho certeza!
— O sofrimento, às vezes, é a melhor escola... Deixa-a sofrer, Deméter... Até que é bom...
Apolo não se conteve.
— Essa tua amiga é de morte, hein?
— Tenho a Morte na alma!
— Por Zeus! Por Zeus! Pelo Olimpo todo! Cala-te!
Hécate se afastou, resmungando, e Apolo observava:
— Com um Sol luminoso como o de hoje, com tanta beleza nos campos, com tanta música no ar, essa criatura só fala em coisas fúnebres...!
Tomando sua lira em posição, disse a Deméter:
— Vou compor uma canção falando nas alegrias que tua filha terá, se ela tem a tua sensibilidade, admirando os tesouros que há nos domínios de Hádes.
E começou a dedilhar a lira, improvisando uma canção. Mas, angustiada, Deméter o interrompeu:
— Não, meu querido Apolo. Eu sei que estás procurando consolar-me de uma desgraça que parece irremediável. És amigo de Hélios, o Sol, e Heméra, o Dia. Queres que eu veja só o lado amável da vida. Mas eu não consigo. Eu preciso reaver minha filha. Dize-me, com sinceridade: posso ter esperança?
Uma nuvem de tristeza passou pelos olhos antes luminosos de Apolo.
— Talvez não, minha amiga. Até onde eu posso ir...? Tu não podes ignorar estas coisas... Quem uma vez entrar nos domínios de Hádes não voltará mais. Tens que aceitar! A menos que o próprio Hádes permitir que saia...
— Não aceito, não posso aceitar! Eu preciso salvá-la das mãos de meu irmão! Ajuda-me, Apolo!
— Vai ser difícil.
— Leva-me até Hádes, ajuda-me a falar com ele. Todos te amam, todos te admiram!
— É... mas Hádes tem uma diferença comigo. Ele não gosta muito de mim. Mais ou menos como esta senhora que trouxeste contigo...
— Então eu irei sozinha. Ensina-me o caminho.
— Esquece, querida. O sofrimento é dos homens e dos deuses. Mas a sabedoria e a resignação só aos deuses pertencem. Não és uma deusa também?
— Quem sou eu? Apenas uma pobre mãe desesperada... Eu vou, Apolo! Conheces ou não o caminho para os Infernos?
— Mesmo que eu conhecesse, não te ensinaria.
— Por quê?
— São muitas as entradas, mas todas vão dar no Érebos, lugar defendido por um terrível mastim... Píton não era páreo para ele...
— Que mastim?
— Um cão feroz de três cabeças... É pelo menos a mais terrível criatura que já se ouviu falar. Talvez mais terrível que o próprio Inferno!
— Então ele deve ter devorado minha filha!
— Não... Cérberos está ali para impedir a entrada dos que não foram convidados pelo rei, não os que chegam com o rei... No teu lugar, eu não iria...
— Eu vou. Adeus.
— Sinto não poder fazer mais nada...
— Já fizeste muito. Pelo menos já tenho certeza onde encontrar minha filha. E eu adorei as tuas canções...
Deméter já se afastava, quando viu que Hécate a chamava. Deteve-se um momento.
— Não vais aborrecer-te se eu não te acompanhar? Volto para a minha caverna...
— Tudo bem, Hécate.
Despediram-se sem aperto de mão, dando um grande alívio a Deméter. Afinal, “melhor sozinha do que mal-acompanhada”.
Hécate retornou para o sombrio lugar onde tinha morada, sempre a gemer e a lamentar-se. Verdadeiramente, a deusa Hécate conhecia as entradas que davam para os Infernos, pois era a deusa da magia e servia ao deus Hádes. Porém, temendo a ira do deus, evitou informar e acompanhar Deméter.
Sem destino certo, Deméter saiu pelo mundo, com sua humilde tocha acesa, na sua angustiada procura. Toda a sua esplêndida beleza fenecera ao peso de tanto sofrimento. Já não se interessava por coisa alguma. Já não via as árvores, nem as flores, nem sequer via os frutos, que eram antes o seu encanto e o seu cuidado, agora pareciam tristes também, galhos caídos, flores murchando, frutos apodrecidos.
Seus olhos se iluminavam somente à visão das crianças humanas. Todas lhe lembravam a sua filha roubada. E apesar de seu jeito vencido, pois havia envelhecido em poucas semanas, parecia uma camponesa dobrada pelos duros trabalhos. As crianças que via, inesperadamente, aproximavam-se e vinham brincar ao seu lado, e as menores lhe saltavam no colo e perguntavam seu nome.
E tal era ainda o seu dom de abençoar as sementes e dar vida ao solo que, quando as crianças corriam para Deméter, e brincavam ao seu lado, viam-se nos arbustos vizinhos flores desabrochando como por encanto.
E era assim que os dias passavam por Deméter, procurando sem achar, caminhando em vão, mas fazendo desabrochar as flores e sorrisos por onde passava.
Gozando o fato de ser filho de Zeus e acreditando que tudo pudesse fazer, Tântalos abusava de vaidade e ambição, e ousou apoderar-se de Lélape, o prodigioso cão pertencente ao rei Minos. Mas, uma vez mais o amor paterno falou mais alto, e nem dessa oportunidade Tântalos foi punido. Em lugar de ficar contente com a generosidade de Zeus, Tântalos considerou aquele gesto do pai mais como fraqueza do que bondade. Confiando cegamente no amor que Zeus lhe tinha, Tântalos achou que poderia cometer o maior dos crimes sem sofrer nenhum castigo. Depois que a doentia idéia da impunidade lhe veio à cabeça, Tântalos começou a maquinar o mais horrível e cruel crime que alguém seria capaz de imaginar. Pretendia, com isso, humilhar os Imortais e mostrar ao mundo que eles não eram tudo aquilo que os homens veneravam. Queria se certificar se os deuses realmente possuíam clarividência plena, se sabiam de tudo e estavam em todos os lugares ao mesmo tempo.
Desde as primeiras horas da manhã, o palácio do rei Tântalos estava movimentado. E não era para menos, pois seu pai divino estava prestes a chegar para um amigável banquete. Além dele, foram convidados também os divinos Hermes, dos pés ligeiros, e Deméter, deusa da fecundidade.
Tântalos estava preocupado.
— O que irei oferecer a Zeus, no banquete?
Pensando em agradar semelhantes convivas, na sua qualidade de rei bárbaro, pensou que sacrifícios humanos seriam bem vistos pelos Imortais, os deuses da Hélade.
Levando ao extremo a sua intenção de agradar e, ao mesmo tempo, testar a divindade de seus convidados, mandou chamar seu filho Pélops, que ainda dormia.
— Pélops, meu filho, hoje tu terás o prazer de estar à mesa junto com os deuses!
— Oh! Meu avô Zeus vem nos visitar?!
— Não só ele, mas ainda outras duas divindades!
— Divino! Maravilhoso! Não vejo a hora de contar a meus amigos! Eles não vão acreditar! Vou vestir a minha melhor túnica!
— Isso, meu garoto...
Depois que o príncipe saiu, Tântalos chamou às pressas o seu cozinheiro.
— Nem uma palavra, apenas faz o que te digo: vai atrás dele, mata-o e faz um assado magnífico com ele.
O cozinheiro, a princípio, achou que o rei estivesse brincando, mas, ao notar a sua aparência malévola, começou a tremer, e ficou sem ação.
— Vamos, idiota, faz o que eu disse! Não vês que hoje é um dia especial?
E pensava, enquanto o cozinheiro desatava a correr:
— Zeus ficará encantado ao descobrir que lhe sacrifico o meu próprio filho! Quantas vidas já sacrifiquei em sua honra... mas desta vez eu serei admitido na lista dos deuses!
Em seguida, viu seu cozinheiro trazendo-lhe o garoto.
— Idiota! Não disse para matá-lo de uma vez?
— Mas...
— Pai, por que fazes isto? Tu não disseste que eu estaria à mesa, daqui a pouco, com os deuses?
— Sim, e estará! Vamos, escravo, faz rapidamente o que eu te ordenei!
Depois, enquanto o filho era arrastado para o cepo, tentou acalmá-lo:
— Vamos, rapaz, deixa de fricotes. É por uma boa causa. Pedirei a Zeus que te recompense com a Imortalidade!
Então, a um sinal, a lâmina desceu e cortou-lhe a cabeça. Em seguida, o cozinheiro, já acostumado com a idéia, fatiou e salgou todas as partes nobres do corpo esquartejado.
Apaziguada a sua consciência perversa, Tântalos chamou as escravas e ordenou que preparassem a mesa com o maior requinte possível., que, sem de nada supeitarem, obedeceram.
O Sol já estava no alto quando os visitantes do Olimpo se aproximaram do palácio, na Meônia. Todos pareciam pouco animados, enquanto outros retiravam-se de lá para nunca mais voltar. Os deuses estranharam, pois achavam que fossem queridos naquela terra. Enquanto Hermes vinha à frente, distraído, como sempre, mais atrás vinha o seu pai, de braço dado com sua irmã Deméter.
— Vê, pai, já chegamos ao palácio de meu irmão Tântalos... Não é uma beleza?
— Não fosse o mau-humor de Deméter...
A deusa estava ali contra sua vontade, já que ainda buscava o paradeiro da filha Core, que havia sumido, e não tivera mais notícias suas. E respondeu:
— Vamos de uma vez! Se tem de ser, que seja logo!
Enquanto as três divindades adentravam-se pelas portas do salão, um escravo foi anunciá-los ao rei, que se concentrava, murmurando:
— Como seria mesmo? “Deus Tântalos”... ou então “Divino Tântalos”... ou melhor “Poderoso Tântalos”.
— Bondoso rei, as visitas já chegaram.
Disse o escravo curvando-se.
Tântalos despertou em sobressalto.
— Ótimo! Manda-os entrar! Vamos, imbecil, por que estás demorando?
— Sê bem-vindo, poderoso Zeus, meu pai, diante do qual todos os poderes celestes e terrenos se humilham.
E foi beijar-lhe os pés.
Em seguida, querendo chegar logo até a bela deusa, beijou rapidamente um dos pés de Hermes. Quando, porém, chegou até os pés da encantadora Deméter, esta lhe ofereceu distraidamente a sola empoeirada das sandálias.
— Divina Deméter, teus encantos superam, hoje, os da própria Afrodite!
Disse com a boca coberta de pó.
Tântalos levantou-se e conduziu os convidados até os seus assentos. E, sentando-se também, perguntou a Zeus:
— Como vão as coisas lá em casa, pai?
Zeus ficou um tanto confuso, mal percebendo que Tântalos se referia ao Olimpo.
— Vão bem, vão bem...
Zeus, na verdade, detestava aquelas visitas anuais que era obrigado a fazer aofilho bastardo, cuja mãe já deixara de procurar há muito tempo.
— Hermes, tens viajado muito?
Tântalos esforçava-se por ser atencioso e simpático, mas aparentava segundas intenções. E Hermes assentiu, sem dar muita conversa.
E o rei, aproximando seu rosto vil ao da deusa, de maneira quase obscena, observou:
— E tu, Deméter, sempre muito formosa, hein? Foi boa a colheita este ano?
E começou a cheirar-lhe os cabelos.
Zeus e Hermes entreolhavam-se, enquanto a deusa lhe respondia ao mesmo tempo em que estendia o guardanapo, sem olhar para o rosto do interlocutor:
— É... bastante.
De repente, surgiram quatro escravos carregando uma imensa bandeja, que foi depositada com pompa sobre a mesa, diante de Zeus. E despertou os ânimos. Tântalos esfregava as mãos sob a mesa, na expectativa da reação favorável de seu pai. E pensava:
— A um passo da Imortalidade!
A tampa foi descoberta. Entre tâmaras, amêndoas e nozes descansavam partes nobres de um assado digno dos deuses.
Tântalos arremessou-se para a bandeja junto de Zeus e expulsou o escravo com um safanão.
— Faço questão de servir-te eu mesmo. Preferes carne branca ou escura, meu pai?
— Branca.
Depois de escolher várias vezes, o anfitrião selecionou um grande pedaço de carne branca. Em seguida, serviu também a deusa, com pequenos pedaços de carne.
— Miúdos não, obrigada. Deixa, que eu mesmo escolho.
E Tântalos, assim que ela escolheu, serviu-a com mil trejeitos, e só depois pôs um pouco de carne no prato de Hermes. Zeus parecia não estar com muita vontade de comer, ensaiava várias vezes, e nada. Quanto a Hermes, antes de começar a comer, percebeu que havia recebido a pior porção. Na verdade, era implicância de Tântalos, que tinha ciúmes do filho predileto de Zeus, cuja mãe ainda procurava às ocultas.
Hermes parou os olhos sobre o pedaço ossudo que tinha no prato, depôs os talheres e observou:
— Mas... isto aqui parece um pé humano...!
Zeus quase ia por na boca um pedaço, quando Deméter, que estava com muita fome, comeu uma bela porção do ombro. Ela tinha o hábito de comer com avidez ao sentir-se nervosa ou preocupada. E, distraída, nada ouviu.
Tântalos pensou:
— É agora.
E dirigiu-se para o pai Zeus, como se este fosse o autor da descoberta:
— Sim, meu pai, é o pé de meu querido Pélops!
— Mas que...
— E aqui está uma das mãos... peito... lombo...
Zeus ergueu um olhar ao rei da Meônia, de tal forma feroz, que o tornou branco como a parede de mármore.
— Como te atreves, maldito, a me oferecer a carne do próprio filho, que é meu neto?
Hermes levantou-se da mesa, enojado, enquanto Deméter, se dando conta, era acometida de náuseas.
— Mas pai, é um sacrifício humano! E é dedicado a ti! Quis provar a minha dedicação extrema oferecendo-lhe, em holocausto, o meu próprio filho!
O pai dos deuses não havia sido enganado: o rosto do senhor dos deuses e dos homens ficou sombrio por uma incontrolável fúria; trovões e relâmpagos castigaram a Terra, e todos evitaram olhá-lo para não ficarem cegos.
— Idiota! Não sabes que a prática dos sacrifícios humanos já foi há muito tempo abolida?
Enquanto isso, Hermes, penalizado da sorte de Pélops, espiava-o dentro da imensa tigela.
— Pai, vamos tentar trazê-lo de volta à vida!
Zeus, apesar de tudo, manteve-se firme e não puniu Tântalos, mas rompeu suas relações amistosas com ele, e os deuses abandonaram Tântalos à própria sorte.
Hermes foi incumbido por Zeus de reunir e lavar todas as partes separadas do menino Pélops e de colocá-las numa caldeira mágica, de onde a moira Cloto, que ainda não lhe determinara a morte, retirou-o em perfeito estado. Mas, ao notar que faltava o ombro comido por Deméter, que escondera-se envergonhada, Hermes foi até seu irmão Hefaístos e pediu a ele que substituísse o pedaço, fazendo uma peça de marfim, com propriedades de curar as doenças de quem a tocasse.
Terminada a obra, enquanto Pan dançava euforicamente em torno do fogo, A divina Réia, mãe dos deuses, soprou vida nas narinas de Pélops, que renasceu, agora com um transplante de marfim no ombro. A partir de então, toda pessoa que tivesse manchas brancas no corpo seria chamada de “descendente de Pélops”
Então Posseidon, vê-lo divinamente refeito, imaginou fazê-lo imortal, e, raptando-o, levou-o no seu carro ao palácio de Zeus, no Olimpo. E o menino, refeito, na companhia dos Imortais, agradeceu a Zeus e pediu-lhe que não castigasse o seu pai, que quis agradar os deuses, mesmo que de maneira errada. E desejou ardentemente retornar para casa. Confuso, mas apiedado, o senhor do Céu mandou que Hermes reintegrasse Pélops ao cruel rei da Meônia. Ele obedeceu e entregou o menino ao rei, e fê-lo jurar pelo Estige que jamais voltasse a cometer abusos contra os Imortais, pois haveria de receber uma terrível punição, o que certamente não cumpriria, e seria seu derradeiro infortúnio.
A morte e a ressurreição do jovem Pélops trouxe a Deméter uma nova e arriscada esperança; ao ganhar a estrada, Deméter exclamou, olhando o Sol que brilhava:
— E agora, aconteça o que acontecer, eu vou recuperar minha filha!
Estava disposta a tudo. Encontraria o caminho do reino de Hádes. Enfrentaria, se precisasse e quando a encontrasse, a fúria de Cérberos e salvaria Core.
— Os homens e os deuses têm que me ajudar! Do contrário, não haverá mais alegria nem para os homens nem para os deuses!
E, naquela disposição desesperada de luta, Deméter lembrou-se de que dependia dela o destino das sementes que davam aos homens as flores e os frutos, usufruídos também pelos deuses.
Lembrou-se de que dependiam dela a firmeza dos ramos e o verde das folhas. E as ervas humildes. E as árvores frondosas. E a relva e os arbustos que alimentavam os rebanhos. E as hortaliças e os grãos e as espigas que alimentavam os homens.
E, lembrando tudo aquilo, Deméter decidiu:
— Não fecundarei mais as sementes, não darei mais alento às árvores, deixarei morrer as flores ao desabrocharem, não haverá mais frutos sobre a Terra enquanto não recuperar minha filha.
Assim pensou, assim falou, assim resolveu. E a partir daquele instante a relva mais rasteira e as árvores mais altas, as pequenas plantas de vida curta, que davam alimento aos homens e árvores centenárias que eram, o deslumbramento de seguidas gerações, tudo começou a fenecer e murchar.
Não havia mais flores no campo. Os homens mergulhavam as mãos calosas no solo onde havia antes raízes e tubérculos comestíveis e nem embaixo da terra nem nos ramos mais altos encontravam qualquer alimento.
E como as ovelhas e as cabras, as galinhas e as outras aves, os jumentos, os cavalos e os bois também raramente encontravam o que comer, neles o homem encontrava menos comida para si e para seus filhos.
Muitos a conheciam e não desconheciam o seu poder. E poderosos senhores de terras e humildes lavradores assalariados, quando a surpreendiam, caíam aos seus pés e lhe pediam socorro.
— Ajuda-nos, ó deusa, ou morreremos de fome!
— Eu tenho uma filha, de nome Core, roubada pelo terrível senhor dos Infernos. Eu a quero de volta. Ou os homens ou os deuses, alguém tem que devolver minha filha. Do contrário, os homens acabarão sem comida e os deuses sem adoradores.
E resumindo a sua resolução:
— O primeiro verde que vai haver sobre a Terra, de hoje em diante, será o da relva do caminho de volta que vai ser percorrido por minha filha...
Assim, Zeus fez Héra mandar sua mensageira Íris descer pelo seu arco com uma mensagem para Deméter.
— “Por favor, minha querida irmã, sê sensata e deixa a vegetação crescer de novo, pelo bem dos mortais que tanto amas...”
Como Deméter não dera a menor atenção a seu pedido, Zeus mandou Posseidon, Héstia e a própria Héra entregarem-lhe presentes maravilhosos, mas Deméter, gemendo de angústia, disse:
— Levai tudo embora. Não farei nada por nenhum de vós enquanto minha filha não voltar para casa, para mim!!
A situação ficou tão séria, a fome se alastrava, o gado desesperado definhava. Zeus, então, pediu que Deméter fosse visitá-lo Olimpo. Mas ela recusou. Ao invés, de volta à Trinácria, começou a lançar a culpa sobre a Terra inocente:
— Ingrato solo, que tornei fértil e cobri de ervas e grãos nutritivos, não mais gozarás de meus favores!
O gado morria, o arado quebrava-se no sulco, as sementes não germinavam. Por isso, ouvindo os insultos de Deméter, a ninfa Aretusa apareceu e disse-lhe:
— Não culpes a Terra, ó deusa. Ela se abriu de má vontade para dar passagem à tua filha. Esta não é minha terra natal; venho da Ápia. Era uma ninfa dos bosques e comprazia-me na caça. Exaltavam minha beleza, mas eu não cuidava disso, e antes me vangloriava de minhas proezas venatórias. Certo dia, estava voltando do bosque, aquecida pelo exercício, quando vi um regato que corria sem ruído, tão claro que podiam contar-se as pedrinhas do fundo. Os salgueiros o sombreavam e as margens, cobertas de relva, desciam até a água, numa rampa suave. Aproximei-me, toquei a água com o pé. Entrei até ficar com água pelo joelho e, não contente com isto, deixei minhas vestes nos salgueiros e entrei no rio. Enquanto lá estava, ouvi um murmúrio indistinto, vindo do fundo, e apressei-me em fugir para a margem próxima. Era Alfeus, o deus daquele regato, e pôs-se a me perseguir. Não era mais rápido do que eu, mas era mais forte e insistente, e alcançou-me quando minhas forças fraquejaram. Gritei pedindo ajuda, e logo a deusa Ártemis me atendeu e envolveu-me numa nuvem. O deus-rio procurou-me, ora aqui, ora ali, e duas vezes aproximou-se de mim sem me ver. Eu tremia, como um cordeiro cercado pelo lobo. Um suor frio cobriu-me, meus cabelos caíram como correntes de água e onde estavam neus pés formou-se uma lagoa.
E continuou:
Em resumo: em menos tempo do que levo para contar, tornei-me uma fonte. E, sob essa forma, fui reconhecida e tentou misturar sua corrente com a minha. Ártemis abriu o solo e eu, tentando escapar à perseguição, mergulhei na fenda e, através das entranhas da Terra, cheguei até aqui. Ao passar pelas camadas inferiores da Terra, vi tua Core. Ela estava triste, mas já não refletia susto em sua face. Seu aspecto era de uma rainha: a rainha do Érebos; a poderosa esposa do monarca Hádes.
— Minha filha rainha de Hádes? Não vou permitir! E por isso vou até o Olimpo falar com meu irmão Zeus.
E assim, graças à ninfa Aretusa, Deméter decidiu atender ao pedido de Zeus e foi até a corte celestial.
— Minha irmã, por que insistes em...
— Na vedade, Zeus, eu só estou aqui porque preciso da tua ajuda. Quero que obrigues teu irmão Hádes a devolver-me minha filha, ou seja, nossa filha!
Zeus, olhando para todos os lados, pediu para Deméter baixar o tom de voz, como se temesse que alguém os ouvisse.
— Deméter, minha querida, Hádes é senhor em seus domínios... tu sabes... e também é teu irmão.
— Ele que vá para o Inferno!
— Ele já está lá, querida...
Deméter, olhando-o atravessado, não estava para gracejos.
— Não tenho tempo nem ânimo de rir, Zeus!
— Então volta lá para baixo, que é teu lugar, e coloca em ordem outra vez a Terra, da qual tu tens te descuidado há meses.
— Não, ela vai continuar assim, sem brotar mais um pé de couve sequer, enquanto eu não tiver minha filha de volta!
O grande Zeus, ao perceber que sua esposa Héra já se aproximava para ver o que estava acontecendo, resolveu contemporizar, pois sabia que duas mulheres iradas não era um bom negócio.
— Está bem, está bem, façamos então assim: tua filha, ah! perdão — nossa filha poderá retornar para a Terra, mas terei que primeiro mandar Hermes falar com Hádes, que certamente irá impor alguma condição. Por ora, desce para a Terra e espera.
Deméter não tinha outra alternativa senão aguardar a decisão de Hádes, mas pensava seriamente em ir buscá-la pessoalmente. Então, os homens e os deuses resolveram convocar o mensageiro Hermes. Ele deveria entender-se pessoalmente com Hádes e libertar Core, pois era ele o único entre os Olímpicos que entrava livremente nos Infernos. Neste momento, doce água perfumada caiu como chuva. Deméter percebeu, neste sinal, que Zeus estaria do seu lado. E conteve-se a esperar. Retirou-se para o seu templo em Elêusis.
Naquele meio tempo, uma menina tinha vivido horas, dias e meses de maior aflição, num estranho palácio onde não entrava a luz do Sol e onde tudo era riqueza e esplendor, mas onde a alegria não tinha morada.
Era Core.
Passou todo aquele tempo sem provar qualquer alimento. Por mais que Hádes convocasse os melhores cozinheiros, não conseguia vencer sua resistência passiva. Era a sua maneira de protestar contra o seqüestro que havia sofrido. Ela possuía um dom inexplicável e misterioso. Algo de sobrenatural a preservava. Porque de aparência continuava a mesma, sempre bela, bem disposta e natural. Havia suspeitas que ela comia às escondidas e apenas fingia não comer para não dar aquele gosto de satisfação ao rei Hádes. Ou nutria-se de esperança. Chegavam a deixar frutas, doces e toda sorte de guloseimas em seu quarto, à espera de que fraquejasse. Mas quando iam ver, a menina não havia cedido. E aquilo preocupava Hádes. Porque só havia um meio seguro de retê-la para sempre em seus domínios: ela precisaria comer os seus manjares de poderes mágicos, tornando-se um de seus habitantes.
— Morrer ela não morre, ainda que não coma. Ela tem uma natureza especial. Não é uma mortal. Mas nunca estarei garantindo contra a sua fuga, mais cedo ou mais tarde, por esta ou por aquela maneira, se ela não comer. É lei eterna que ninguém pode mudar.
Apesar disso, Core não vivia inteiramente infeliz no palácio.
Certamente, sofria de saudade. Certamente, pensava dia e noite em voltar para os queridos braços maternos. Jamais se perdoava haver desobedecido aos conselhos da mãe. E queria e pensava libertar-se. Mas havia tanta coisa bonita nos domínios de Hádes que, como criança que ainda era, sempre achava um meio de se distrair.
Entre os dotes da pequena havia um vago brilho solar que irradiava. E, ao penetrar num lugar escuro, sem janelas, em que tudo era ouro, brilhantes e pérolas de uma austera tristeza, todas as peças se iluminavam pelo menos a seus olhos e as flores de ouro frio ganhavam perfume e novas cores e uma vida que palpitava enquanto ela estivesse presente.
E graças àquele dom e fascinados pela sua presença, os antigos e soturnos moradores do palácio e o próprio Hádes a seguiam, para partilhar da irradiação de alegria e do toque de beleza humana ou divina que ela a tudo comunicava.<
