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Mitologia Grega - Principais Mitos Gregos

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Posídon, o Senhor dos Mares

Posídon - Escultura em mármore - 150 a.e.c.Posídon após ter sido engolido por seu pai, Crono, a exemplo de seus irmãos, foi um dia regurgitado, depois que Zeus obrigou o velho deus a ingerir uma beberagem mágica — Pronto, meu irmão — lhe disse Zeus, satisfeito, depois de ambos haverem derrotado Crono e seu poderoso exército na famosa Guerra dos Titãs.

— Agora já pode tomar posse do mar, que é a parte do Universo que cabe a você. A mim caberão os céus, enquanto que o nosso imão Hades reinará nos subterrâneos. Posídon, todo sorrisos, abraçou o irmão. Mas embora todo o imenso terntório que lhe coube, não foi isto o bastante para contentá-lo. De fato, Posídon era um deus ambicioso, invejoso e intratável, e desde aquele dia entrou em inúmeras disputas com as mais diversas divindades: contra Atena, disputou a Ática; contra Hera, o domínio da Argólida; contra Apolo, pelo controle do anquipélago de Delfos; e contra o próprio Zeus numa tentativa abortada de destroná-lo, ousadia que Ihe custou o castigo de ter de servir o rei Laomedonte e construir para ele, pedra por pedra, as rnuralhas da cidadela de Tróia.

— So entro em fria, mesmo! — dizia ele, enquanto carregava as imensas pedras. — E além de tudo ainda tenho de aguentar este tagarela dedilhando a lira o dia inteiro. Posídon referia-se ao deus Apolo, que também estava ali de castigo por uma falta cometida contra Zeus. — Não posso — disse o acalorado deus do sol, ajeitando-se numa sombrinha para melhor exercer o seu delicado oficio. — Sou um astro: nasci so para brilhar. Posídon, para piorar, ainda teve o dissabor de ver-se logrado por Laomedonte, que recusou-se a Ihe pagar o serviço. E assirn seguia sua vida, de deus rabugento e colérico, sempre fincando seu tridente no fundo do mar e provocando terremotos a propósito de qualquer contrariedade, a ponto de acabar conhecido como “Posídon, abalador da terra”. — “Posídon, o importuno”, eis o que é! — disse um dia Zeus, perdendo de vez a paciência.

— É, não tem jeito mesmo, vamos ter de lhe arrumar uma mulher... Depois de muito pesquisar, o pai dos deuses chegou a conclusão de que a solução estava nas mãos de Nereu, “o velho do mar”. Este deus decrépito era filho da velhíssima Terra e do antiquíssimo Mar, e tinha uma penca de filhas, as Nereidas, assim chamadas em sua homenagern. — Hermes! — disse Zeus. — Sim, meu pai — disse o deus dos pés ligeiros. — Vá até o fundo do mar e me traga o velho Nereu. No mesmo instante, Hermes, que era extremamente rápido em tudo que fazia, calçou suas sandálias aladas e rumou para o oceano. Dando um mergulho espetacular, chegou até os domínios de Nereu.

Mais tarde, no Olimpo, Zeus exclamou, ao ver a visita: — Nereu, velho amigo, que bom vê-lo aqui no Olimpo outra vezl — O que ordena, deus supremo? — disse Nereu de longas e alvas barbas. — Quero que ceda uma de suas flihas a meu irascível irmão — disse Zeus, pondo uma mão sobre o ombro do velho amigo. — Não posso mais suportar as suas teimosias e temo que haja um confronto mais sério entre nós, caso ele não se acalme. — Pois não, Zeus poderoso — disse Nereu. — Pode escolher qualquer uma de rninhas cinqüenta filhas. Cinquenta? — exclamou Zeus, puxando o lóbulo da divina orelha. — Mas não eram cem? — Podem ser cem, como podem ser mil, deus supremo — disse o pobre Nereu, cuja memória já claudicava há muito tempo.

Depois de estudar a questão e analisar uma por uma as Nereidas, chegaram, enfim, a um consenso: — Anfitrite será a esposa de Posídon — disse Zeus, jubiloso. — Anfi-quem? — disse o pobre Nereu. — Esqueça — disse Zeus, dando uma palmadinha na face enrugada do amigo. No mesrno dia Zeus comunicou a escolha ao mal-humorado irmão, que decidiu, ainda assim, conhecer a sua futura noiva. —Vá com calma—disse Zeus. — As filhas de Nereu costumam ter o senso de independência rnuito pronunciado. Mas Posídon, que tinha o senso de prepotência ainda mais pronunciado, não se intimidou. — Onde posso ir encontrá-la? — disse, já se ajeitando. — Ela está na ilha de Naxos, junto corn suas irmãs disse Zeus.

Posídon, confiante, partiu de seu palácio azulado no fundo do mar em direção a Naxos, conduzindo seu carro puxado por golfinhos. Fazia um lindo dia de sol quando chegou às margens pedregosas da ilha. De fato, por cima dos grandes rochedos franjados pelas espumas do mar, Iá estavam as encantadoras filhas de Nereu, algumas deitadas, descansando, enquanto outras, mais animadas, executavam os passos de uma movimentada dança. De vez em quando uma delas, estirando sua longa cauda recoberta de escamas douradas, dava um mergulho repentino nas águas verdes do arquipélago: um grande borrifo verde erguia-se, então, como se elas lançassem lá do fundo um imenso punhado de esmeraldas, que subiam, faiscando, em todas as direções. Posídon, boquiaberto, pasmava para aquela cena paradisíaca. — Verdadeirarnente encantadoras... — exclamou o excitado deus, tratando, em seguida, de sentar-se ligeiro em seu carro. De repente, escutou a voz de uma das Nereidas.

— Ei, Anfitrite! Venha juntar-se a nós, sua boba! Os olhos de Posídon voltaram-se para uma grande pedra isolada, que estava situada mais para dentro do mar. A pedra tinha o formato de um leito, magnifico trabalho de polimento operado pelas perfeccionistas Ondas, que durante séculos, com toda a caima, a haviam polido ate dar-Ihe aquela conformação ideal. Em cima daquele leito solitario e da cor do chumbo estava estendida a divina Anfitrite. Era uma das poucas Nereidas a ter os cabebos negríssimos, da cor da noite, enquanto que as escamas de sua bonga cauda tinham uma brilhante cor prateada, matizada por maravilhosos reflexos azulados e cor-de-rosa que se alternavam ao menor movimento. Com as costas coladas a pedra, Anfitrite dos cabebos negros tinha a face voltada para o alto; seu braço direito, caído sobre o rosto, protegia seus olhos dos raios fortes do sol, enquanto os peitos firmes apontavarn para o céu.

Posídon empinou seu carro na direção da Nereida de esbelto corpo. Emparelhando com a rocha, Posídon esteve longo tempo a observar os traços de Anfitrite, para ver se podia confiar em suas virtudes. Mas a ninfa adoravel permanecia com o rosto quase completarnente oculto pelo braço. O deus dos mares, na verdade, só podia observar direito o nariz perfeitamente aquilino de Anfitrite e sua boca úmida e carnuda, maravilhosamente desenhada para o beijo. “Que mulher!”, pensou Posídon, quase apaixonado. “Se tais são seus iabios e seu nariz... oh, como não haveräo de ser seus divinos olhos!” Um arfar mais indiscreto do deus, contudo, despertou a atenção da formosa Anfitrite. Seu braço caiu e as pestanas de longos cilios recurvos ergueram-se, piscantes — e foi, então, como se duas estrelas houvessem se descortinado.

— Divina e encantadora Anfitrite! — disse a voz rouca ao seu lado. — A partir de hoje será minha divina esposa e a você cabera a honra de ser, para sernpre, o repositório sagrado de meu divino sêmen. Anfitrite, assustada, ao enxergar a seu lado aquele homem, de longos cabelos recobertos de mariscos e uma barba hirsuta tostada pelo sol a lhe dizer tais disparates, deu um ágil mergulho para dentro da água. Posídon ainda conseguiu agarrar um pedaço de sua cauda, mas as escamas lisas escorregaram por entre seus dedos, ate surgir a grande e quase transparente barbatana, leve e fremente como um leque, que Ihe deu uma bofetada, antes de desaparecer nas ondas. — Para onde foi... ? — bradou o deus, desesperado. E desde aquele dia Posídon perdeu Anfitrite de vista. Percorreu todos os mares, foi mil vezes ao palacio de Nereu, nas profundezas do mar, mas ninguém sabia dizer onde ela estava. Irado, Posídon corneçou a sapatear e a bater ferozmente com seu tridente por toda parte, dernolindo os imensos rochedos subterrãneos e provocando, com isso, terríveis maremotos na superficie dos oceanos. Ondas imensas eram cuspidas para o alto e montanhas inteiras arremessadas para as costas das cidades marítimas,

Levando o pânico a todos os mortais. Finalmente, Zeus, no último limite da aflição, ordenou a Nereu que revelasse o local onde a apavorada Anfitrite fora se ocultar. o pobre velho não sabia, mas sua esposa dóris, como toda boa mãe, sabia — e muito bem. Depois de um sem-número de pedidos, Zeus finalmente conseguiu obter da mãe das nereidas o que os rogos e súplicas do velho marido, é claro, não tinham podido alcançar. — Somente as carícias de sua divina filha poderão suavizar o rude temperamento de meu irmão — disse Zeus a ainda reticente Dóris. — Quando isto acontecer, e a crosta primitiva de meu irmão houver caido, vera ela que se casou com um homem gentil e atencioso, além, é claro, de ter se tornado rainha de todo um império.

— Rainha de todo urn império... — resmungou várias vezes a mãe de Anfitrite, até que finalmente cedeu, embora fizesse questão de afirmar que não fazia o menor caso de vir a se tornar mãe da “rainha de todo um império”. Revelado o esconderijo da filha de Nereu, o impaciente Posídon rumou para Ia, silenciosamente, montado em seu discreto golfinho. Dentro de uma caverna, oculta por uma floresta de liquens, estava a assustada Nereida, quando Posídon, pé ante pé, adentrou o recinto. — Anfitrite adorada! — disse ele, cujas barbas estavam lustrosas do aromatico ãmbar. — Venha comigo e garanto que não tera jamais motivos para se queixar de mim. Posídon parecia realmente mudado: trajado modestamente, sem aquele ar arogante que o caracterizava, havia deixado em casa até o seu horroroso tridente.

Posídon e Anfitrite - LadrinhosAnfitrite, cautelosa, estudou ainda, longamente, o aspecto do deus. Depois, ainda indecisa sobre se deveria ou nâo aceitar aquela proposta, perguntou: — E quanto aquele negócio de “meu repositório de sêmen”? — Oh, não, esqueça esta bobagem! — disse Posídon, baixando os olhos. — Você será, para sempre, apenas o repositório de minha divina devoção e meu divino carinho. Ainda mais corado por aquele sorriso de superioridade da divina Nereida, Posídon enterrou as unhas nas palmas das mãos e resolveu voltar ao velho estilo. — Venha, vamos de uma vez, minha rainha! — disse, encurralando-a na parede da gruta úmida e dando-Ihe um beijo intenso e apaixonado. Depois levou-a nos braços até o golfinho e retornaram para o palácio de Posídon, onde ambos, desde então, governam felizes o imenso império dos mares.

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