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Mitologia Grega - Principais Mitos Gregos

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Medusa

Posídon - Pintura sobre tela - Peter Paul Rubens 1577-1640Quando os homens começaram a formar suas cidades, todos os deuses do Olimpo decidiram adotá-las. Mas aconteceu que Atena e Posídon apaixonaram-se pelo mesmo lugar: a Acrópole, o primeiro sítio de Atenas, na época chamada Cecrópia, já que Cécrops era o rei. Eles levaram a disputa ao Conselho dos deuses. Zeus e os demais deuses decidiram, declararam que Atena seria a protetora da cidade, pois havia plantado a oliveira naquelas terras, garantindo assim o seu direito.

Ofendido, injuriado, Posídon perdeu a cabeça. Inundou todas as planícies das redondezas do reino, destruindo tudo o que estivesse entre ele e a cidade. Desse dia em diante, Atena se declarou sua inimiga.
Vários anos mais tarde, depois do Dilúvio e do reinado de Crânaos e quando governava em Cecrópia o rei Anfictíon, filho de Deucálion e Pirra, Posídon apaixonava-se por uma bela ninfa, filha de Fórcis e Ceto. Olhos acinzentados, cabelos encaracolados, lindos de serem vistos, Medusa era a mulher mais formosa que Posídon já havia visto. Apaixonou-se quando ela foi banhar-se em suas ondas à luz do luar. Posídon tomou a forma de uma ave e, raptando-a, levou-a ao Templo de Atena, causando a indignação da deusa. O amor de Posídon foi correspondido, até que se uniram e viveram muitos momentos felizes.

Foi então que Atena surgiu para vingar-se das mortes que ele tinha provocado em suas terras. Desceu do Olimpo, dirigiu-se à caverna a beira do mar onde estavam Posídon e Medusa, e exigiu que o deus a abandonasse, a fim de fazê-lo infeliz. Discutiram violentamente, e Atena ergueu sua lança mágica para atingi-lo. Medusa se pôs na frente do amante, tentando defendê-lo.

Atena, esquecendo-se de sua bondade natural, fez um gesto mágico e transformou-a num terrível dragão, abominável e demoníaco, causando horror a Posídon, que a viu transformar em pedra seus animais aquáticos. Totalmente desesperado, foi esconder-se em seu reino, no Arquipélago, enquanto Atena, sem saber se arrependia-se ou se ria, voltou às pressas ao Olimpo.

Posídon invocou Hécate, a deusa da magia, e implorou-lhe que tentasse quebrar aquele encanto. Mas os poderes ou pragas de Atena eram insuperáveis. Vendo-o tão triste e só, Hécate consolou-o dizendo-lhe que Medusa teria dois filhos: um gigante e um belíssimo cavalo alado. Eles nasceriam mesmo que Medusa morresse, e só nasceriam nessa condição. Seu nascimento seria a prova de que o amor produziria sempre bons frutos, mesmo por um amor impossível.

PERSEU E MEDUSA

Os Hititas, certo povo de nômades oriundos do Cáucasos, estabeleciam um reino na Capadócia, tendo Kussar por capital. No Egito, o poder das dinastias era usurpado pelos Hicsos, tornando-se a principal linhagem real do país. Enquanto isso, em Sérifos, na casa de Díctis, Perseu crescia e aprendia a viver humildemente, mas educado como um príncipe. Aprendia a cavalgar, a conduzir bigas, a manejar armas, a honrar Zeus e os demais deuses e a viver honestamente. E com os pescadores permanecera durante quinze anos. O menino cresceu e transformou-se num belo rapaz, afoito marinheiro, e muitas viagens realizou para negociar nas ilhas vizinhas. Agia como um príncipe, mas os serifenses acreditavam que ele não fosse filho de simples mortal e diziam-no filho de Zeus, o rei do Olimpo. Embora só tivesse quinze anos, era mais alto do que qualquer dos moradores da ilha; e também o mais destro de todos na corrida, na luta, no arremesso da malha e do dardo, no remo, na equitação, na música e em tudo mais quanto favorecia um homem. Era quase perfeito, tal qual um deus, cheio de virtudes, como deveria ser todo filho de Zeus. Era corajoso, leal, amável e cortês, pois o bom e velho Díctis soube educá-lo; e muito valeu a Perseu que ele assim tivesse procedido, pois Dânae e seu filho iriam enfrentar grandes reveses, e Perseu teria que apelar para a sua inteligência.

Perseu havia-se tornado um belo jovem, forte e ativo, distinguindo-se pelo jeito másculo, habilíssimo no manejo das armas, sobretudo na sua maneira nobre de se relacionar. Todos falavam na sua força e na sua beleza. E, apesar de nunca vê-lo pessoalmente, Polidectos mostrava-se curioso em conhecê-lo, mesmo que nunca vira com bons olhos a acolhida que lhe dera Díctis, seu irmão.

Um dia, desafiado pelo rei de Sérifos, Perseu viu-se obrigado a cumprir uma árdua tarefa, incomum a qualquer ser humano: trazer-lhe a cabeça de Medusa, a mais terrível das Górgonas. Consolado pelo deus Hermes, este ofereceu-lhe ajuda e prometeu-lhe que Atena também o faria prontamente, e emprestou-lhe suas sandálias aladas.

Assim, Hermes e Perseu, com o Caduceu mágico, iniciaram a jornada a pé-enxuto sobre terras e mares; e seu coração pulsou, jubiloso, pois as sandálias aladas o sustentaram durante sete dias de viagem. Passaram por Citnos, Céos e pelas aprazíveis Cíclades, a caminho da Ática; no entanto, sentindo a real necessidade de realizar um sacrifício a Zeus, pediu a Hermes para descer na Argólida e, sobre o monte Apesa, perto da estrada para Corinto, ergueu um pequeno altar e sacrificou um carneiro ao rei do Olimpo.

Perseu salva Andromeda - Pintura sobre tela - Pieter Paul Rubens 1577-1640Em seguida, alçaram vôo e passaram por Atenas e por Tebas, pelo lago Cópais, e pelo vale do Céfisos, e, mais adiante ainda, pelos picos do Oeta e do Pindos, e pelas ricas planícies da Hemônia (a futura Tessália), até que deixaram atrás as colinas ensolaradas da Hélade e defrontaram os desertos do norte. Transpuseram as montanhas da Trácia e muitas tribos bárbaras, Peônios, Dardânios e Tríbalos, até alcançarem o rio Istros (o Danúbio de hoje) e as melancólicas planícies da Cítia. Sobrevoaram o Istros e continuaram a seguir através de charnecas e pântanos, noite e dia, na direção do gelado noroeste, sem se desviar nem para a direita, nem para a esquerda, e finalmente chegaram à Terra Informe, atingindo os limites da Noite eterna, onde vivia Fórcis, gerador de alguns dos monstros mais terríveis da Terra. Nem o Sol nem a Lua jamais brilhavam sobre aquele lugar. Uma paisagem de ínvias florestas e rochas tinha ali o seu começo; chamava-se também Cistene, a Terra das Rosas da Rocha, e poderia ser alcançada igualmente pelo leste. Era a terra das trevas, que somente as Moiras e as próprias Gréias conheciam.

Anoitecia. Estavam agora num lugar inteiramente deserto, silvestre, mas bem perto da praia, coberto de um matagal rasteiro, e tão solitário e silencioso que parecia nunca ter sido habitado. Tentando localizar esse lugar, provavelmente se encontrassem próximo ao Cronianos (hoje mar Báltico). Lá avistaram as Gréias, irmãs das Górgonas, que foram obrigadas pelo herói argivo a mostrar-lhe o caminho para o país de Thule. Porém, ainda mais necessário, as Gréias ensinaram-lhe também o caminho que levava à ilha das Ninfas Hespérides, para que lhe entregassem os instrumentos para que pudesse ter êxito em sua missão.

Medusa, a “senhora”, abusava de seu poder, porque, até então, só heróis pouco astutos tinham ido combatê-la, inclusive os guerreiros de Thule, país onde as Górgonas passaram a viver depois de devastá-lo. Atacavam-na como se atacassem uma fera qualquer — e eram reduzidos a estátuas de pedra. Por isso, os Olímpicos facilitavam o caminho de Perseu.

Mas o caminho para a mansão das Hespérides era dos mais complicados. Ambos rumaram para o sul, deixando para trás as regiões geladas; passaram pela ilha Hiperboreana, pelas ilhas de estanho, e pela longa praia Ibérica, onde habitavam os povos mais estranhos e longínquos do Ocidente.

Enquanto de dia acompanhavam-nos andorinhas e gaivotas, à noite as Ninfas do mar cantavam suavemente e os Tritões sopravam seus búzios, brincando ao redor de Galatéia, sua rainha, que descansava num carro de conchas nacaradas.

Medusa e Perseu - Gravura - Boris ValejoHermes e Perseu deslizavam pelas vagas como gaivotas, sem nunca sentir-se fatigados. Atravessaram o mar, mas, para chegarem ao seu destino, era preciso atravessar um grande deserto de areia e montanhas, onde Átlas padecia. Porém, após cruzar os ares por sobre essas complicadas regiões, seguindo as explicações das bruxas Fórcides, as Gréias, achegaram-se à praia, que dava para o Rio-Oceano, e tiveram que tomar o barco encantado do Sol, única forma segura de encontrar a Ilha das Hespérides. Depois de um bom tempo, avistaram um grupo de ilhas em que outrora habitaram as Górgonas. Apostaram numa delas, Antilia. Seguindo por um caminho inóspito, entre vales e cascatas, árvores majestosas e estranhas flores e fetos, chegaram num grande pomar, onde começaram a ouvir vozes melodiosas, e compreenderam que haviam chegado ao jardim das Ninfas. E lá encontraram-nas.

Perseu ficou admirado com a beleza das Ninfas, cada uma com o seu par de olhos cintilantes, com ares de bondade e tranqüilidade. Cantavam como rouxinóis por entre as moitas, sem ao menos compreender o que cantavam. Dançavam de mãos dadas ao redor da árvore encantada, que se curvava sob o peso de magníficos Pomos de Ouro. E um enorme dragão parecia enrolado aos pés da árvore, já que só conseguiram distinguir uma pequena parte da cauda. A cabeça devia estar distante, em outro lugar, procurando por alguma presa.

As Ninfas, após a tentativa de persuadi-lo a desistir, entregaram-lhe o surrão mágico e a espada com a qual deveria decepar Medusa.

Perseu e Hermes voaram juntos rumo a Thule, no extremo norte-ocidental do mundo. Sobrevoavam as regiões bárbaras da Ivíria (a Ibéria), atravessaram as montanhas frias da Europa e alcançaram as praias que davam para o Rio-Oceano, e foi reunir-se a eles a deusa Atena.
Passaram por inúmeras dificuldades, pois Posídon tentava impedi-los de lá chegarem. Perseu só conseguiu graças ao auxílio de Atena, que o acompanhava e protegia. O deus dos mares tentava dificultar sua viagem, lançando turbilhões de água para derrubá-lo, ou ondas fortíssimas, muito altas, para agarrá-lo. Atena, pegando sua mão, fez os turbilhões perderem-se no ar, e as ondas se quebrarem nos penhascos da praia, formando largas franjas de espumas. O mar rugia e o fragor das ondas lembrava o trovão. Foi no meio desses ruídos que Hermes ouviu uma voz doce e melodiosa, quando já caía a Noite.

— Ouve, é o canto das Górgonas. Devem estar dormindo...

— Elas cantam dormindo?! Não consigo ouvir...!

E Atena, invisível a Perseu, disse-lhe:

— Vê as costas daquela ilha, lá embaixo. Chegamos no país de Thule.

— Eu não disse, Perseu? Eu sabia que ela seria a primeira a avistar a ilha e ouvir o canto das Górgonas... Lembram as Sereias e as Hárpias, tão terríveis como elas...

Perseu prestou melhor atenção. E avistou alguma coisa, no horizonte, que lembrava uma ilhota. Ao aproximarem-se, viram o mar quebrando-se em espuma à volta de sua costa rochosa, exceto num dos lados, onde havia uma praia de areia muito branca.

Desceram em terra firme. Logo, começaram a seguir as vozes melodiosas. Vinham das montanhas, onde ficava a cidade dos túlios, um povo desconhecido das populações que habitavam o sul da Europa, desde a Ibéria às costas da Ásia, do qual só se ouviam vagas e fabulosas histórias a seu respeito. Subiram uma colina e avistaram a cidade, que parecia abandonada, mas de lá vinham vozes. E Atena observou:

— Estão dormindo...

— Os túlios?

— Não, as Górgonas. A cidade está abandonada, e o doce canto é o ronco das Górgonas.

— Ah, sim, elas cantam dormindo...

Perseu ficou admirado, pois acreditava que seriam belas, como as Ninfas, pelo seu canto. Mas horríveis pelas suas histórias. Os três desceram a colina, que ficava junto às fontes do Oceano, e entraram na cidade em ruínas e, logo no portão de entrada, as primeiras figuras petrificadas. Perseu sentiu seu coração saltar pela boca ao ver que cada habitante de Thule estava, em posição e expressão de espanto e terror, transformado em pedra, como se cada um tentasse fugir ou defender-se. Era um cenário horrível!

— Infelizes.

Caminhando com muita cautela, Perseu começava a tremer as pernas, quando Atena lhe passou seu escudo.

— Toma. Vais precisar. E acende uma tocha.

Perseu acendeu uma tocha que estava presa à parede. Entraram no templo sombrio, todo em ruínas, onde encontraram várias outras figuras petrificadas, entre as quais guerreiros, velhos sacerdotes e sacerdotisas. Todos com aspecto de espanto e terror, todos transformados em pedra.

De repente, pondo em sua cabeça o elmo de Hádes, conseguiu Perseu ver as terríveis Górgonas. Estavam deitadas, profundamente adormecidas, embaladas pelo rouco rugir do mar. Elas só conseguiam dormir com aquela música estranha, que enlouqueceria qualquer mortal. A luz da Lua, que entrava pelas janelas, cintilava sobre as escamas de aço e as asas de ouro. As garras de bronze seguravam-se na rocha, enquanto os terríveis monstros pareciam sonhar. As serpentes dos cabelos pareciam estar dormindo também, embora uma ou outra vez algumas se retorcessem ou levantassem a cabeça, pondo à mostra a língua negra, como se saíssem de um pesadelo. Eram ainda mais terríveis que a própria descrição que delas faziam: Euríale representava a perversão sexual, Ésteno, a perversão social, e Medusa, a pulsão espiritual e evolutiva, mas pervertida em frívola estagnação.

Perseu evitava olhá-las de frente, ainda invisível com o gorro de Hádes na cabeça. E Hermes sussurrou-lhe ao ouvido:

— Aproveita agora. É a tua oportunidade. Se uma delas acordar, tu estás liquidado!

— Qual delas é Medusa? As três se parecem... Vou ter que me tornar visível para saber qual delas...

Perseu retirou o capacete de Hádes e pôde ver qual das Górgonas não era invisível.

— É a que está começando a mexer-se. Cuidado...! Nada de olhá-la de frente. Observa a imagem de seu rosto e de seu corpo através do escudo. E põe a coifa em tua cabeça para não seres descoberto!...

Na superfície polida do escudo podia olhar sem perigo o reflexo do rosto de Medusa, com as serpentes a se retorcerem fronte abaixo. Mas se surpreendeu, pois via, através do escudo, uma criatura belíssima e triste, apesar das serpentes que sibilavam em sua cabeça. Nunca, antes, Perseu vira nada mais extraordinário. Nem outro ser vivo até então. O monstro se agitava, todo encolhido, rangendo os dentes. Ela se agitava desassossegadamente, como se tivesse um pesadelo, e Perseu dela se apiedou. Sua plumagem era igual ao arco-íris, e seu rosto lembrava o de uma ninfa; apenas conservava as sobrancelhas contraídas e os lábios comprimidos por cuidados e mágoas; e a brancura do seu pescoço tão bem se refletia no espelho, que Perseu não teve coragem para feri-la.

Hermes, vendo-o vacilar, alertou-o:

— Não te enganes, Perseu...

E Atena preveniu-o:

— Desfere o golpe com calma. Não tira os olhos do escudo. Guia-te por ele, ao baixar, e que o teu golpe seja firme e certeiro, sim?

E o deus-mensageiro deu o sinal:

— É agora! Desfere o golpe!
Medusa - Gravura - DesconhecidoE Perseu levantou o braço e a espada de Hermes. Porém, viu que uma de suas irmãs, invisível — não para ele — aproximava-se. Rapidamente aplicou um golpe certeiro no monstro e cortou-lhe a cabeça. Sangue verde espalhou-se por toda a caverna, e teve que elevar-se no ar para não morrer. Perseu afastou-se e, ao notar que outra górgona avançava e seguido pelo poder de Atena, arremessou sua lança contra ela, tirando-lhe a vida, e um urro saiu-lhe pela bocarra. Uma das patas do monstro o atingiu, e Perseu perdeu o equilíbrio. Seu capacete despencou no chão, voltando a tornar-se visível. O ruído despertou as serpentes, que começaram a sibilar, e a górgona, agitando-se, desdobrou as asas e deixou ver as suas garras de bronze, e seu rosto desfigurou-se num medonho ser.

— Ah! jovem atrevido!

Um vento forte soprou de repente e sua tocha apagou-se, mas o brilho dos olhos da Górgona iluminavam o templo sombrio. E, parecendo um cego, tateando o caminho com a ponta da espada, quis voltar o olhar para não ser surpreendido, mas Atena gritou:

— Perseu! Levanta o escudo, protege-te!

Perseu protegeu-se atrás do escudo e viu Medusa refletida, que se aproximava demais, e sentiu que duas garras poderosas lhe pegavam com força, e o escudo caiu de sua mão e foi rolar para longe de seu alcance. Quase ao mesmo tempo um golpe forte se abateu sobre suas costas, surpreendendo-o e fazendo com que caísse de bruços e quase sem sentidos ao solo. Sua espada voou de sua mão direita.

Ainda atordoado, Perseu sentiu que duas mãos vigorosas viravam seu corpo de frente. Depois, as mesmas mãos ásperas agarraram sua cabeça e a sacudiram vivamente, ao mesmo tempo em que falava docemente:

—Vamos, querido, acorda!

Seus olhos começavam a se abrir, pensando por um momento estar dentro de um sonho, quando Atena lhe enviou uma mensagem mental:

— Jamais enfrentes o olhar de Medusa... pois será o teu fim!

Apertando as pálpebras, Perseu manteve a vista fechada, enquanto tentava se desvencilhar dos braços rijos da monstruosa criatura. Uma voz rouca gritava agora de maneira histérica em seus ouvidos:

— Abre os olhos, guerreiro, e contempla meus olhos!

Perseu, com os olhos fechados, sentiu na boca a pressão dos lábios úmidos de Medusa. O hálito frio e fétido que aspirou lhe deu a idéia de que a própria Morte o estivesse beijando. Percebendo que tinha o joelho livre, encolheu-o até a altura de seu peito e com ele arremessou para longe a górgona, com tamanha força que ela cruzou a extensão até a parede oposta, nela batendo violentamente.

Uma golfada de sangue verde foi expelida pela boca fétida de Medusa, juntamente com um grito selvagem. Atordoada pelo impacto, agora era a vez de ela tentar recobrar os sentidos.

Perseu, pondo-se ligeiramente em pé, divisou o brilho de seu escudo, alguns metros dali. Tão logo o teve outra vez, ergueu-o tentando ver pelo reflexo prateado o que se passava com a criatura. Uma forma vagamente feminina vinha em sua direção. Não teve tempo de ver o rosto de Medusa, pois com um salto ligeiro desviou-se do bote, lançando-se ao chão, mantendo sempre preso ao braço o seu precioso escudo.

E gritou a górgona:

— Morrerás como todos os outros, e colocarei depois a tua estátua bem no centro de meu templo!

Perseu manteve silêncio, concentrado apenas nos movimentos de Medusa, que continuava a mover-se ora arrastando-se ora aos saltos. Para o herói era extremamente difícil enfrentar uma adversária tendo de estar sempre de costas voltadas para ela, observando-a apenas pela refração do escudo.

Por um instante a criatura desapareceu, até que o rosto inteiro de Medusa surgiu repentinamente no espelho que Perseu tinha diante dos olhos. Seu rosto pálido era uma máscara de onde sobressaíam dois olhos de pupilas horizontais, como os répteis, e que brilhavam como o Sol. Acima deles as serpentes se agitavam, espichando para fora das bocas suas línguas fendidas e arremessando seus corpos em botes rápidos que somente a distância impedia que se tornassem fatais.

O deus Hermes, sorrateiramente, na escuridão do templo, colocou nas mãos do herói o seu herpé perdido. E Perseu, reunindo toda a sua força e decidido a por um termo no seu objetivo, gritou:

— Olha para mim, criatura medonha!

Quando Medusa percebeu o truque, era tarde demais. Ela olhou para a própria imagem refletida, que nunca vira, e surpreendeu-se ao ver sua antiga imagem de ninfa, bela e meiga. E Perseu, com um golpe de mestre, olhando através do escudo, decepou a cabeça de Medusa. Um grito horrível ecoou naquele antro, que todos os seres da ilha ouviram. A cabeça rolou, ainda viva, para um lado, enquanto que a linda imagem de Medusa no escudo tomava forma de terrível górgona, e ali permaneceu, estampada para sempre.

Perseu e Medusa - Pintur sobre tela - DesconhecidoPerseu, muito assustado, recostou-se no ar contra a parede e, ao seu lado, amparou-o Atena. A deusa, tomando o escudo de seus braços, mostrou-lhe pelo lado interno o que ainda acontecia: do sangue verde e viscoso do horrível monstro saía uma luz dourada e brilhante que, aos poucos, foi tomando forma. Lentamente foram surgindo os contornos de um maravilhoso cavalo alado, tão branco que o templo se iluminou.
O magnífico animal aproximou-se e abaixou a cabeça, balançando a crina ondulante e prateada como se o reverenciasse. Atena batizou-o Pégasos e o acariciou. Perseu, com os olhos voltados em direção da imagem no escudo, apanhou a cabeça da górgona e meteu-a no surrão, o kibisis, que, num passe de mágica, começou a distender-se o bastante para conter a cabeça do monstro. E, em seguida, usou-o a tiracolo.

E Atena disse-lhe:

— Missão cumprida, Perseu. Agora, monta em Pégasos e parte para Sérifos, aonde tu ainda tens algo a cumprir.

Perseu, em seguida, montou no dorso do animal para que este o levasse daquele lugar. Quando Perseu deixou o antro, Éos, a Aurora, começava a anunciar a vinda de seu irmão Hélios.

Enquanto isso, do corpo decapitado da Górgona, surgiu de seu sangue um gigante armado de uma espada de ouro, como que se quisesse correr para a guerra, e isso valeu-lhe o nome de Crisáor, “da espada de ouro”, que, como Pégasos, era fruto da união de Posídon com a ninfa Medusa.

O gigante Crisáor, não tendo a quem governar, na Terra Informe, o antiqüíssimo país de Thule, dirigiu-se todo-poderoso ao país dos Tartessos, na Hespéria, e tornou-se o seu rei. Uniu-se a uma oceânide, Calírroe, que lhe deu dois filhos: Équidna e Gérion; a primeira um dia iria unir-se a um descendente de Perseu, e o segundo, seria morto por ele.

A partir de então, Perseu passou a utilizar-se da cabeça decapitada de Medusa para levar êxito às suas tarefas: transformou Atlas num gigante de pedra, facilitando sua pena em sustentar o Céu sobre os ombros; do sangue que caiu do pescoço da Górgona, sobre as areias do deserto da Líbia, surgiram escorpiões e lacraias; Perseu petrificou o monstro-marinho de Tétis e transformou em pedras Fineus e seus guerreiros, que haviam tentado conspirar nas suas núpcias com a princesa Andrômeda; e transformou também em pedras Polidectos e a sua corte de homens maus, depois entregou a Díctis o trono de Sérifos. Em seguida, voltou para a Hélade e passou a governar em Tirinto, enquanto que Argos passou a pertencer a Megapentes, filho de Proetos.

Ibsen Ferreira Torres - Goiânia-GO

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