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Mitologia Grega - Principais Mitos Gregos

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Filemon e Baucis

Zeus e Hermes desfarçados de mentigosZeus, estando um dia ocioso no Olimpo, chamou seu filho Hermes e disse: — Venha, vamos dar uma volta pelo mundo e testar a hospitalidade dos mortais. Hermes, que adorava passear, concordou imediatamente. Já estava saindo junto com seu pai, quando este o deteve: — Espere, deixe aqui as suas asas. — Por quê, meu pai? — perguntou Hermes. — Não seja tonto — disse Zeus. — Se nos apresentarmos como deuses, obviamente que seremos bem recebidos por todos. Hermes concordou e, após desfazer-se de suas asas, seguiu junto com ele.

Tão logo chegaram à Terra, começaram a percorrer as estradas da Frígia, como se fossem dois pobres andarilhos. Em alguns instantes estavam suados e cobertos de pó. De repente, avistaram uma bela casa de campo. Bateram à porta por um longo tempo, até que surgiu do alto de uma janela uma pequenina cabeça. O que querem, vagabundos? — gritou alguém, com irritação. — Somos viajantes, bom amigo, e precisamos descansar — respondeu Hermes. — Dêem o fora! — disse a pessoa à janela, desaparecendo em seguida. Os dois viajantes, desgostosos com seu primeiro insucesso, partiram sem nada dizer. Era um dia quente e úmido, e o sol estava exatamente acima de suas cabeças. Enquanto retornavam seu caminho, Hermes tentava acalmar a ira de seu pai, que já se preparava para lançar naquela casa um de seus terríveis e vingativos raios. — Calma, pai! Não podemos tornar como exemplo um único caso. Tente¬mos aquela outra casa, lá adiante.

De fato, um pouco mais além havia uma outra casa, um pouco menor do que a anterior, mas muito bem cuidada. Os dois andarilhos chegaram à porta e outra vez prepararam-se para pedir abrigo. — Veja, pai, parece que há aqui alguma festa — disse Hermes, ao escutar no interior um alarido de risos e de pratos. — Certamente que também nos convidarão para ela. — Zeus, no entanto, tinha um ar cético.   Hermes, temendo o pior, antes de bater à porta passou a manga de sua túnica esfarrapada pelo rosto, a fim de melhorar o seu aspecto. Enquanto isto Zeus já tornara a frente e esmurrava a porta. Depois de quase pô-la abaixo, viu surgir um rosto gordo e inchado. — Pois não, senhores! — disse o homem, com um forte hálito de vinho. — Boa-tarde, meu bom homem disse Hermes. — Somos viajantes, e o sol inclemente impede que prossigamos nossa jornada. Poderíamos fazer aqui nosso descanso e uma breve refeição, para que possamos renovar nossas forças? — Desculpem-me, mas não posso recebê-los agora — disse o bêbado. — Minha filha casa hoje e estou recebendo agora os meus convidados. Mas, tornado por um acesso brusco de generosidade. chamou a criada e disse-lhe: — Traga um prato com alguma coisa para estes dois aí! Depois, virando as costas, sumiu-se de novo para o interior da casa. Trinta minutos se passaram até que a criada, abrindo uma fresta mínirna na porta, passou pelo vão um pequeno prato, com as sobras ajuntadas de dois ou três convidados.

— Deixem o prato aí e desapareçam — disse a criada, com uma voz áspera. Mas, ao introduzir o prato no estreito vão, ela o inclinara de tal modo que virara no chão a metade do seu conteúdo. Cinco ossos com alguns nacos de carne era tudo o que restava da estreita generosidade daquela alegre e festiva casa. Hermes ainda os estudava, na esperança de encontrar algo que pudesse revelar¬-se corno um sinal de autêntica generosidade, sem ousar erguer os olhos para seu colérico pal. Zeus, por sua vez, depois de mirar com fúria a casa, partiu, procu¬rando de qualquer modo controlar o seu gênio. Já era adiantado da tarde quando chegaram, sedentos e famintos, à porta de uma terceira casa. Esta, embora modesta, parecia ainda a salvo da miséria. De dentro das suas paredes escapava o ruído contínuo e vigoroso de um sopro, como se um grande fole trabalhasse ali sem trégua. Hermes bateu à porta uma, duas, dez vezes. Um murmúrio fez-se ouvir de uma das janelas. ao alto. Uma sombra por detrás da cortina revelava que alguém espiava, desconfiado. De repente, po¬rém, liberta do medo, a pessoa afastou, de par em par, os dois panos. Era uma mulher, que segurava um lençol à frente do seu torso nu. — O que querem, mendigos? — perguntou a mulher, impaciente, enquanto ajeitava os cabe!os. Zeus e Hermes entreolharam-se, em dúvida. — Vamos lá, que tenho mais o que fazer — exclamou a mulher, deixando cair a proteção, com um ar distraído.

As suas costas, uma voz masculina disparou um desaforo. — Só queremos um pouco de repouso e algum alimento! — disse Hermes. — Eles querem repouso! — disse a mulher, virando-se para dentro, num tom de deboche.   Um homem surgiu, então, por detrás dela e disparou outro desaforo aos andarilhos, fechando em seguida, com estrondo, a janela. Zeus e Hermes tiveram de seguir novamente o seu caminho sob o ruído estridente do fole que começara a trabalhar lá dentro, outra vez, a toda prova. Já estavam exaustos, quando chegaram, afinal, à frente de uma humilde choça, coberta de palha. Com receio de derrubar a frágil porta, Zeus bateu palmas, enquanto Hermes, um pouco mais atrás, apenas o observava, sem acreditar em mais nada. De dentro da choupana, entretanto, surgiu o rosto enrugado de um velho. — Bom-dia, meu senhor — disse Zeus. — Somos dois andarilhos e gostaría-mos... Antes, porém, que Zeus concluísse, a porta foi escancarada. — Entrem, por favor — disse o velho, dando-lhes a passagem. Os dois, surpresos, entraram na casa. Embora já estivesse um pouco escu¬ro ali dentro, a casa ainda não tinha iluminação alguma. Da penumbra avançou para eles uma velhinha, toda encurvada, que os cumprimentou de maneira dis¬creta. Ele chamava-se Filemón, e ela, Báucis. Casados há muitos anos, viviam desde então naquela modesta casa, enfrentando juntos as privações naturais da pobreza. Não tinham criados nem filhos.

Zeus e Hermes banqueteado na causa humilde de Filemon e Baucis— Por favor, sentem-se aqui — disse Filemón, estendendo duas cadeiras aos visitantes, tomando antes o cuidado de forrá-las com um pouco de palha limpa. Enquanto isto, Báucis tentava reavivar um resto de fogo que ainda se es¬condia por debaixo das cinzas. Filemon, por sua vez, arrancou alguns gravetos da cobertura da choça, retirando também dos caibros um pouco da palha que protegia a casa das constantes chuvas. Báucis dirigiu-se à horta e de lá retornou trazendo um maço de verduras e as lançou com gosto dentro de uma vasíllia. Filemón pegou a faca e cortou um bom pedaço do toucinho que pendia do teto, lançando-o na sopa, indo logo em seguida conversar com seus visitantes, para que estes não se sentissem abandonados. Báucis pegou a melhor toalha que possuíam, toda velha e cheia de furos de traças; ergueu-a para o alto duas ou três vezes, inflando-a, até que a peça desa¬bou exaurida sobre a madeira escura da mesa, com o ânimo triste e abatido das mortalhas. A sopa, a essa altura, já estava pronta. Báucis trouxe logo para a mesa a panela de barro fumegante. Em seguida, depositou sobre a mesa um cesto con¬tendo um pão, ainda em bom estado, e um pequeno pedaço de queijo. Para com¬pletar -, o velho anfitrião retirou de seu esconderijo uma garrafa de vinho. — Os senhores nos perdoem se não for o bastante — disse o velho, obsequioso, depositando a garrafa diante de Zeus —, mas é a única que nos restou. Começaram todos, assim, a se regalar como podiam com aquela prosaica refeição. — O senhor não bebe? — disse-lhe, de modo vago, Zeus. O velho, afetando uma dor de lado, fez que não. No entanto, ao voltar olhos para sua querida garrafa, percebeu que ela estava, diante de si, cheia até o gargalo, embora os visitantes estivessem com seus copos também cheios, até as bordas.

Filemon e Baucis tranformando-se em duas árvoresCompreendendo tudo, o velho ergueu-se, assombrado: — Zeus todo-poderoso! — exclamou Filemón, virando-se para sua espo-sa. — Báucis, é o pai dos deuses quem temos diante de nós! A pobre velha, engasgando-se, teve de ser socorrida pelo filho de Zeus, antes de entender direito o que se passava. — Que vergonha! — exclamava Filemón, cobrindo o rosto com as mãos. — Veja, Báucis, querida, o que ternos a coragem de servir para Zeus e seu filho... Zeus, entretanto, acalmou os dois velhos, dizendo-se muito satisfeito com aquela refeição. E ordenou aos amáveis anfitriões: — Agora, levantem-se e me acompanhem. Zeus saiu porta afora, levando atrás de Si OS dois velhos. que, apoiados com dificuldade em seus cajados, procuravam acompanhar o passo firme dos dois deuses. Subiram todos à montanha vizinha e, uma vez ali. Zeus perguntou-lhes o que mais desejavam na vida. Depois de conversarem baixinho por um bom tempo. os dois velhinhos chegaram a um acordo. — Queríamos a graça de não sobrevivermos um ao outro — disse Filemón. Tão logo terminou de falar, um terrível temporal desabou sobre a campina onde ficava a humilde choça. Os dois velhos, alertados. viram então todo o vale cobrir-se de água, fazendo desaparecer todas as outras casas onde os deuses ha¬viam sido mal recebidos.

Passaram, assim, mortos, na corrente raivosa das águas, o primeiro anfitrião, que sequer lhes ouvira o pedido. depois o velho bêbado, junto com dezenas de seus convidados, e, finalmente, o casa! de amantes, abra¬çados em meio à correnteza. A modesta choupana de Filemón e Báucis também parecia ruir, o que arrancou de Báucis um grito de terror: — Filemón querido, nossa casa também se vai! No entanto, no lugar da choupana que ruíra, colunas de mármore levanta¬vam-se. Escorado sobre elas repousava um magnífico e solene teto de ouro. Paredes, também do mais fino mármore, fixavam-se, além de uma magnífica porta prateada, onde figuravam os mais belos baixos-relevos. — A partir de hoje vocês serão os sacerdotes exclusivos deste templo! — dis¬se-lhes Zeus, retirando-se com seu filho, sob os olhos agradecidos dos velhos. Passaram a viver ali, em meio à fartura, Filemon e Baucis, até a mais extrema velhice — pois Zeus ainda lhes acrescentou muitos anos de vida, reple¬tos de saúde. Mas, como tudo tem um fim para os mortais, um dia, quando ambos estavam sentados nos degraus do palácio, Baucis deu um grito: — Filemon, o que é isto em seus pés? Um tufo de ervas começara a surgir do velho, enquanto ele falava. O mes¬mo fenômeno repetia-se com a sua esposa, que já tinha as pernas inteiras recobertas de vegetação. Aos poucos seus corpos foram recobrindo-se de folhas, até que em poucos minutos viram-se ambos transformados em duas belas e imponentes ar¬vores, de raízes e galhos entrelaçados para sempre.

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