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Mitologia Grega - Heróis

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Heróis da Mitologia Grega

Ajax Aquilles Asclépio Belerofonte Eneias
Édipo Heitor Heracles Jasão Orfeu
Perseu Teseu Ulisses    

Eneias - Αινείας

Pais:

Anquises e Afrodite

Filhos:

Iulo

Etimologia:  

Busto de Eneias - Cópia romana de original grego - 12 a.e.c.

Eneias ou Enéias (latim Æneas, do grego Αινείας) foi um chefe troiano, filho de Anquises e de Afrodite (a romana Vénus). Na Guerra de Tróia lutou valorosamente, e tornou-se o mais importante chefe Troiano após a morte de Heitor. Era casado com Creúsa, filha do rei Príamo. Tinha um filho, Iulo (na literatura romana Ascânio).

Na tomada de Tróia, a mãe aconselha-o a deixar a sua pátria juntamente com o seu pai e o seu filho, Iulo/Ascânio, pois estava-lhe reservado um destino mais glorioso: Tróia reviveria na sua descendência. Levou o velho pai às costas, o filho Ascânio pela mão e a mulher Creúsa ia atrás dele. A sua mãe divina ajudou-os a sair da cidade em segurança. Mas algures pelo caminho Creúsa desapareceu. Mais tarde apareceu a Eneias e disse-lhe que tinha sido raptada por Cibele. Levou ainda os Penates troianos, divindades que protegiam o Estado, os governos e as instituições que regem um e o outro para assim fundar uma nova cidade.

Foge então de Tróia Eterna, que ardia em chamas, e vagueia pelo Mar Mediterrâneo em busca de uma nova pátria. Os Troianos pedem então conselho a Apolo, que os manda ir para a terra de onde era originário o seu primeiro antepassado. Anquises, douto nessa matéria, afirmava que em dias muito remotos, antes do Rei Trós fundar a cidade de Tróia, vivia na Frígia um rei chamado Teucro, cuja filha, Bátia, se casara com Dárdano, pai de Trós. Acreditavam que Teucro viera da ilha de Creta.

Puseram-se então a caminho. Ao terceiro dia aportaram em Creta, onde começaram imediatamente a construir uma cidade a que Eneias chamou Pérgamo. Lavraram a terra e semearam-na, e parecia que tudo ia correr bem, mas, inesperadamente, todo o seu trabalho foi destruído. Uma terrível seca arruinou as colheitas e desencadeou uma epidemia que se alastrou entre os troianos. Anquises interpretou isto como um sinal evidente da desaprovação divina, e aconselhou Eneias a voltar ao templo de Apolo, na Ilha de Delos, para receber novas instruções do oráculo. Na véspera da partida, os numes tutelares apareceram a Eneias e disseram-lhe que ele deveria ir para o local de origem de Dárdano, antes chamado Hespéria, agora Itália. Contando isto ao pai, Anquises lembrou-se que Cassandra profetizara que uma nova Tróia erguer-se-ía na Hespéria. Mas, claro, todos acharam que ela estava louca.

Puseram-se de novo a caminho. Os Troianos encontraram-se com a Harpías, mas, ao contrário dos Argonautas, fugiram delas. Chegaram a Épiro, terras onde se tinham estabelecido Heleno e Andrómaca. Heleno disse-lhe o que ia acontecer e o que ele deveria fazer.

A seguir estiveram na ilha do ciclope Polifemo, e salvaram um homem, Aqueménides, que fora deixado para trás pelos Argonautas. Anquises, já velho, morreu antes de deixarem a Sicília.

Depois de muito tempo aporta em Cartago e, por artimanhas de Vénus e Cupido, torna-se amante de Dido, rainha e fundadora da cidade africana. Primeiro tinha sido Juno quem queria isto, para Eneias ficar com Dido e não chegar a Itália, mas Vénus viu que o amor da rainha podia ser proveitoso para Eneias.

Porém não era ainda esse o seu destino final. Hermes, enviado por Zeus, pergunta-lhe por que estava ele construindo uma cidade que não seria do seu filho, para a sua descendência. Eneias fugira de Tróia para não se submeter aos gregos e estava agora a submeter-se a Dido e seus conterrâneos! Adverte-o, então, para que deixe Cartago e funde uma cidade e um reino para os seus. Ao deixar a cidade, mesmo a contragosto, vê Dido, extremamente apaixonada, suicidar-se numa pira funerária que tinha mandado fazer na sua fortaleza.

A viagem dos troianos para o Lácio

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Tróia em Chamas -

As primeiras labaredas começaram a iluminar a noite, ofuscando a luz da lua. Pequenas casas e residências senhoris ardiam já incontrolavelmente. Homens deixavam as casas, sem saber direito o que estava ocorrendo, para serem abatidos impiedosamente, diante das esposas e dos filhos. A ordem que havia sido dada pelo cruel Agamenon era de que se poupassem somente as crianças do sexo feminino. Os meninos deveriam também ser mortos, tal como os pais. Muito em breve a cidade despertara, finalmente para a terrível verdade: Tróia estava perdida - irremediavalmente perdida!

Os grupos de guerreiros invasores seguiam pelas ruas espalhando a morte e a destruição. As mulheres, únicas inocentes poupadas, ainda assim eram obrigadas a passar pelo flagelo dam ais cruel violação. Muitas, vendo os esposos e filhos mortos, e depois de terem passado pela abjeta humilhação, não tinham outro pedido a fazer senão que as matassem também. Algumas lançavam-se de peito desnudo às pontas das espadas, lançando terríveis gritos de dor que varavam o céu.

Tróia em Chamas - Pintura sobre tela - Pieter Schoubroeck

A defesa troiana, pega de surpresa, não pode obrar muita coisa e se limitou a algumas poucas escaramuças, nas quais pereceram apenas alguns dos invasores. Dentre os defensores, havia um que não media esforços para levar adiante a vingança: era Enéias, filh ode Anquises, um dos mais valorosos heróis das hostes de Príamo.

- Adiante, troianos, vendamos nossas vidas a um preço caro! - gritava ele, brandindo a sua acha de dois gumes sobre a cabeça dos invasores.

Enéias e o seus já haviam feito muitos mortos entre os gregos, quando se escutou um tremendo ruído partir do palácio de Príamo.

- Os assassinos vão em busca de nosso rei! - disse ele, arremessando-se com seus homens na direção do castelo.

Quando lá chegaram, assistiram a uma das cenas mais impressionantes que olhos humanos um dia já contemplaram. Postado à entrada do palácio, um grupo cerrado de defensores tentava barrar a entrada dos invasores com longas lanças e chuço afiados, enquanto os outros, empunhando também armas de igual tamanho, arremessavam-se em direção à porta. Dezenas de homens, já mortos, permaneciam espetados nos longos chuços, com as cabeças pendidas, enquanto os combatentes tentavam adiantar-se ou impedir o avanço uns dos outros.

Escadas são encostadas aos muros do castelo e gregos audazes as escalam sob uma chuva de dardos troianos. Vendo estes, no entanto, que são insuficients as suas armas apra deter os invasores, arrancam pedaços das vigas que dão sustentação ao teto e arremessam calhaus inteiros sobre os gregos.

O valoroso Enéias, vendo o insucesso da defesa, resolve subir por uma passagem secreta, junco com seus homens, até o topo da mais alta torre do castelo, de onde se avista toda a cidade e o mar adiante. Depois de escalar as centenas de degraus, chegam exaustos ao topo.

- Vamos, arranquemos todos os alicerces! - diz ele, agarrando uma alavanca e tirando pela base a sustentação do madeiramento. Lá em baixo, os invasores chegam em grupos cada vez maiores, pois sabem que no palácio real estão guardadas as maiores riquezas, além de ser o local de refúgio do rei de Tróia - e não há um só que não deseje ser o primeiro a trazer espetada em sua lança a cabeça do inimigo há tanto tempo odiado.

O processo de desmonte, no entanto, prossegue ao alto, comandado por Enéias. De repente, um fragoroso estrondo anuncia aos defensores que a torre vai desabar. Pulando para outros aposentos, os troianos escapam no último instante ao desabamento; a torre, desmanchando-se em uma miríade de pedaços, vem abaixo, agora cimentada pelo vento, que se imiscui por entre as tremendas pedras que descem assobiando. Enéias ainda tem tempo de assistir aos blocos esmagarem centenas de invasores, espirrando sangue dos mortos para o alto e em todas as direções.

Eneias, então, entregou-se à defesa de sua família. Afrodite, sua mãe, havia retirado o guerreiro daquele local onde a morte era soberana.

- Vamos, vá defender o seu velho pai, a sua esposa e o seu filho! - disse a deusa. - Lá estão o seus verdadeiros afetos.

Enéias chegou em casa a tempo de recolher todos e partir. Colocou seu velho pai sobre as costas e pela outra mão conduziu seu pequenino Iulo em meio às labaredas dos incêndios.

- Vá, não volte os olhos para trás, pois aqui não há mais nada a ser feito! - disse a deusa, com ar severo. - O seu destino é reconstruir a sagrada Tróia em outras terras, muito distantes daqui. Vá e cumpra sempre a sua missão.

A Fuga de Enéias - Pintura sobre tela - Pompeo Batoni Séc. XVIII d.e.c.

Nenhum dos gregos ousou tocar em nenhum dos três - embora a esposa de Enéias tivesse se extraviado no caminho, pois os deuses não quiseram que ela se salvasse. Havia, entretanto, ao redor daqueles três - um homem velho, e uma criança - um halo quase divino (pois que ele próprio era filho de uma deusa), que nenhum soldado grego ousou vilipendiar com sua espada. Enéias, um homem maduro, levando pela mão uma criança e carregando nas costas um alquebrado velho, era o retrato mais perfeito e acabado da existência de todos os mortais - pobres seres que também sabiam ser, de vez em quando, imensamente nobres.

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A Fuga -

Fuga de Eneias - Pintura sobre tela - Federico Barocci 1598Ao chegar no ponto de encontro, com o pai e o filho, inúmeros fugitivos de ambos os sexos se reuniram e se puseram sob as ordens de Eneias. Foram gastos alguns meses nos preparativos e, finalmente, embarcaram. O primeiro desembarque foi na costa da Trácia, e os troianos estavam se preparando para construir uma cidade, mas Eneias desistiu da idéia em face de um prodígio. Ao prepar-se para oferecer o sacrifício, arrancou alguns raminhos das árvores e, horrorizado, viu que da parte cortada escorria sangue. Tendo reptitdo o que fizera, ouviu uma voz vinda do chão que lhe gritava:

- Poupa-me, Eneias. Sou teu parente Polidoro, aqui assassinado com muitas setas, e aqui nasceu esta moita de arbustos, regada com meu sangue.

Estas palavras recordaram a Eneias que Polidoro fora um jovem príncipe de Tróia, enviado por seu pai, com grandes tesouros, ao vizinho país, a Trácia, para ali ser criado, longe dos horrores da guerra. O rei a quem ele fora confiado o havia assassinado e se apossado de seus tesouros. Eneias e seus companheiros, cosiderando que aquela terra estava maldita, manchada por tal crime, apressaram-se em partir.

Eneias em Delos - Pintura sobre tela - Claude LorrainAportaram à ilha de Delos, que havia sido uma ilha flutuante até que Zeus a prendeu com fortíssimas correntes ao fundo do mar. Apolo e Artemis haviam ali nascido, e a ilha era consagrada a Apolo, cujo oráculo Eneias consultou, recebendo uma resposta ambíqua, como de costume: "Procura tua antiga mãe; ali a raça de Eneias viverá e reduzirá todas as outras nações ao seu jugo. "os troianos ouviram com alegria estas palavras e imediatamente puseram-se a perguntar uns aos outros: "onde será a terra a que o oráculo se referiu?" Anquises lembrou-se de que, segundo uma tradição, seus antepassados tinham vindo de Creta, e para ali os troianos resolveram seguir. Chegaram a Creta e começaram a construir a cidade, mas a doença os flagelou e as plantações que haviam feito nada produziram. Nessa situação sombria, Eneias foi advertido, num sonho a deixar o país e procurar uma região ocidental, chamda Hespéria, de onde haviam emigrado Dárdano, o verdadeiro fundador de Tróia. Assim, eles se dirigiram a Hespéria, agora chamada Itália, e somente ali chegaram depois de muitas aventuras e de decorrido um lapso de tempo suficiente a um navegador moderno para dar várias vezes a volta ao mundo.

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As Harpias -

O primeiro desembarque foi na ilha das Harpias, aves repelentes, com cabeça de mulher, garras aguçadas e o rosto pálido de fome, que tinham sido mandadas pelos deuses para atormentar um certo Fineu, que Zeus privara da vista em castigo por sua insubmissão à vontade dos deuses. As aves tinham sido expulsas pelos argonautas e haviam-se refugiado na ilha onde Eneias as encontrou.

Ao entrarem no porto, os troianos viram rebanhos de gado pastando na planície. Mataram tantas reses quanto quiseram e prepararam-se para um banquete. Logo, porém, que haviam sentado à mesa, ouviram-se do alto gritos horríveis e um bando das odiosas harpias desceu, retirando a carna das travessas e fugindo com ela. Eneias e seus companheiros desembainharam as espadas e desfecharam vigorosos golpes contra os monstros, sem resultado, porém, pois estes eram muito destros e duas penas eram como armaduras impenetráveis ao aço. Uma delas, pousando um rochedo próximo, gritou:

Os troianos lutando contra as Harpias - Pintura sobre tela - François Perrier 1646-1647

- É assim, troianos, que nos tratais, aves inocentes, primeiro matando nosso gado e agora atacando a nós próprias?

Predisse então, cruéis sofrimentos aos troianos em sua futura viagem, e voou, depois de saciada a sua ira. Os viajantes trataram de deixar logo a região e dentro em pouco costeavam o litoral do Epiro. Ali desembarcaram e souberam, com espanto, que alguns exilados troianos, que para lá haviam sido levados como prisioneiros, tinham-se transformado em governantes do país, Adrômaca, viúva de Heitor, tornara-se esposa de um dos chefes gregos vitoriosos, a quem dera um filho. Tendo morreido seu marido, ela se tornara regente do país, como tutora do filho, e casara-se com um companheiro de cativeiro, Heleno, da família real de Tróia. Heleno e Andrômaca trataram os exilados com a maior hospitalidade e despediram-nos carregados de presentes.

Ulisses escapando da caverna de Polifemo - Pintura sobre tela - 1630Dali, Eneias costeou o litoral da Sicília e passou pelos país dos ciclopes, onde foram recebidos por um ser miserável cujas vestes indicavam que se tratava de um grego. Ele contou que era um dos companheiros de Ulisses, deixado ali por seu chefe, quando este partira apressadamente. Relatou a aventura de Ulisses com Polifemo e pediu aos troianos que o levassem consigo, pois não tinha meios de se sustentar ali onde não havia mais nada além de amoras silvestres e raízes, e viva sob o temor constante dos ciclopes. Enquanto ele falava, apareceu Polifemo, "um Monstro Horrível e informe, cujo único olho fora arrancado". O ciclope caminhava cautelosamente, sondando o caminho com um bastão, e chegou até a praia para lavar nas ondas o globo ocular vazio.Chegando à água, nela entrou, pois sua altura imensa lhe permitia caminhas pelo mar adentro até grande extensão, de sorte que os troianos, horrorizados, correram aos seus remos para se afastar do caminho do monstro. Ouvindo o barulho dos remos, Polifemo gritou e sua voz reboou pela costa, fazendo os outros ciclopes saírem das cavernas e dos bosques e se estenderem na praia, com ouma fila de pinheiros altíssimos. Os troianos curvaram-se sobre os remos e, dentro em pouco, perderam os ciclopes de vista.

Eneias fora advertido por Heleno que evitasse o estreito guardado pelos monstros Sila e Caríbdis, onde Ulisses perderam ali seis de seus homens, agarrados por Sila, enquanto os navegadores estavam atentos unicamente em evitar Caribdis. Seguindo o conselho de Heleno, Eneias deixou de lado a perigosa passagem e costeou a Ilha da Sicília.

A Frota de Eneias vitimas da Ira de Hera - Pintura em parade da cidade de Pompeia Hera, vendo os troianos aproximarem-se do seu destino, sentiu reviver o velho ódio contra eles, pois não podia esquecer-se da injúria que lhe infligira Páris, conferindo a outra o prêmio da beleza. "Tanta ira pode morar nos espíritos celestes?" Assim, procuraou Éolo, o rei dos ventos, o mesmo que assegurara a Ulisses ventos ravoráveis, dando-lhe os ventos contrários metidos num saco de couro. Éolo obedeceu à deusa e mandou seus filhos, Bóreas, Tífon e outros, encapelar o oceano. Irrompeu de sorte que Eneias julgou que estavam todos perdidos.

Nessa situação crítica, Posídon, ouvindo o rumor da tempestade e sabendo que não dera ordem para que fosse desencadeado um temporal, levantou a cabeça acima das ondes e viu a frota de Eneias impelida pela ventania. Conhecendo a hostilidade de Hera, não lhe foi difícil deduzir a origem daquilo, mas nem por isso foi menor sua irritação, diante da interferência em seus domínios. Chamou os ventos e depediu-os com severa reprimenda. Em seguida, apazigou as ondas e afastou as nuvens que se encontravam diante da face do sol. Desvencilhou com seu tridente alguns dos navios que haviam encalhado nos rochedos, enquanto Tritão e as ninfas do mar, carregando outros sobre os ombros, puseram-nos a flutuar novamente. Quando o mar se acalmou, os troianos procuraram o litoral mais próximo, que era a costa de cartago, onde Eneias teve a sorte de verificar que todos os navios ali chegaram a salvo, embora seriamente avariados.

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Dido e Eneias -

A Fuga de Dido | Fundação de Cartago | Eneias Chega a Cartago | A Artimanha de Afrodite | A Viagem da Fama | O Desespero de Dido

A Fuga de Dido - Dido, filha de Belo, rei de tiro, era casada som Siqueu, o homem mais rico de todo o reino. Ela o amava com todo o amor que Afrodite pode inspirar a uma mulher. Os dois viveram felizes durante alguns anos, mas um dia os deuses decidiram que era hora de começarem as tribulações em sua, até então, amena vida.

Sonho de Dido - Pintura sobre tela - Giovan Gioseffo dal SoleBelo, rei de Tiro, faleceu e subiu ao trono seu filho Pigmalião, irmão de Dido. O novo rei era o mais perverso dos homens, e tão logo empunhou o cetro tratou de tramar a morte de Dido, a fim de lhe tomar as riquezas. Assim planejou um dia um encontro com Siqueu num templo dedicado a Heracles. Ao chegar lá, encontrou o cunhado prosternado diante do altar. Sem dar-lhe qualquer chance de reação, cravou-lhe um punhal nas costas.

- Um rei não governa senão com muito ouro - disse o pérfido Pigmalião, justificando-se cinicamente perante os deuses.

Durante muito tempo este cruel assassinato permaneceu ignorado por Dido, até que um dia o espectro de seu marido Siqueu lhe apareceu num sonho, revelando o autor do seu assassinato e indicando a ela o lugar onde se ocultavam suas imensas riquezas.

- Vamos querida esposa - disse a sombra esmaecida -, tome o tesouro e parta o quanto antes desta terra, pois o punhal do seu irmão já se apresta na sua direção.

A apavorada Dido acordou muito assustada e tratou logo de providenciar secretamente a sua fuga. Como houvesse também muitas outras pessoas fartas de suportar a tirania do cruel Pigmalião, juntaram-se à viúva de Siqueu e partiram todos da antiga pátria, que desde então se lhes tornara funesta.

Fundação de Cartago - A jovem Dido chegou com os demais companheiros a uma região isolada, situada na costa da África. Ali fundou uma colônia de tírios, que passaria a se chamar Cartago. Tão logo desembarcou, a exilada Dido procurou os nativos do lugar e lhes dirigiu estas humílimas palavras:

- Eis aqui uma desvalida, persguida pelo infortúnio, que vem pedir apenas um pedaço de terra para poder viver em paz com seus antigos súditos.

Depois de encetar demoradas negociações, conseguiu obter autorização dos donos do lugar para se apossar de uma estreita faixa de terra. "suficiente para abarcar um couro de boi". Se os nativos tivessem um pouco mais de perspicácia teriam pensado melhor antes de atender a um pedido aparentemente tão singelo. Mas agora já era tarde: os exilados começavam a desmbarcar animadamente, enquanto Dido, confiante, dirigia-se até os chefes locais.

A Construção de Cartago - Pintura sobre tela - Joseph Mallord William Turner 1815

- Eis aqui o couro de boi de que lhes falei - disse a rainha, depondo no chão a pele que, mesmo espichada, não era o bastante para abarcar mais que oito homens em pé, e muito bem esprimidos.

Os nativos descerraram seus lábios escuros e seus dentes brancos faiscaram ao sol escaldante da inclemente Líbia. Então a rainha chamou um de seus comandantes, estendendo-lhe o seu punhal de cabo de marfim com lindas incrustações a ouro. Ato contínuo, arrancou um fio comprido de seus dourados cabelos, que pendeu de seus dedos como um raio faiscante do grande astro que empresta ao dia a sua luz, e disse ao servidor:

- Agora corta este couro em tiras ainda mais finas que este fio de cabelo e depois estende-as por toda esta extensão que puderes, não esquecendo de as unir, por fim, num amplo quadrado.

Tais foram as ladinas palavras que partiram dos lábios de dido, rainha dos tírios, e a partir daquele instante, rainha dos cartaginenses. A nova cidade passou a se chamar Birsa (ou "couro"), em cujo centro estava erguida a cidadela de Cartago, que logo se tornou um dos lugares mais prósperos e florescents de todo o mundo.

Eneias chega a Cartago - Eneias, como todo homem predestinado, era perseguido por sonhos divinos. Após navegar por muitos anos, um destes lhe avisou que um lugar chamado Hespéria seria o local para onde deveria rumar para fundar a nova Tróia. Mas antes de chegar lá, teve de repetir as aventuras que Ulisses e os Argonautas já tinham vivido anteriormente: o ataque das odiosas Harpias, os sorvedouros fatais de Cila e Caríbdis e o ataque inesperado do gigante Polifemo, que mesmo cego quase destroçou a sua frota.

Dido recebe Eneias em Cartago - Pintura sobre tela - desconhecidoQuando chegou, finalmente, à costa africana, a frota troiana deparou-se com uma terrível borrasca, quase em frente a Cartago. Hera, rival de Afrodite, que protegia Eneias estava decidida a liquidar com ele, e eis porquê: sendo Hera padroeira de Cartago, sabia perfeitamente, na sua condição de deusa, que Eneias estava predestinado a fundar futuramente um grande império - o maior que o mundo veria - e que sua cidade amada estava destinada, cedo ou tarde, a ser subjugada por ele.

Mas Afrodite, após muitas instâncias feitas a Zeus, conseguiu salvar Eneias e fazer com que sua frota fosse dar nos costados da cidade de Dido.

Eneias e seus homens desembarcaram em Cartago. Após perambularem pelos arredores, foram finalmente recebidos pela rainha. Em momento algum Dido sentiu-se atraída pelo forasteiro. Ela só tinha olhos para seu marido morto, e era proverbial em todos os portos da região a sua fama de recato e puritanismo. Vários pedidos de casamento haviam sido feitos inutilmente àquela poderosa rainha, que havia expandido seu reino graças ao seu tirocínio e às inesgotáveis riquezas que havia trazido de Tiro, ao ponto de torná-lo a maior potência econômica e militar da região.

Eneias conta suas aventuras a Rainha Dido - Pintura sobre tela - desconhecidoA rainha nem por isto deixou de tratar os hóspedes com toda a fidalguia que mereciam, pois lembrou-se que um dia, também, ja tivera contra si os fados funestos, não passando, como aqueles que agora arribavam às suas costas, de uma miserável errante dos mares. Durante o banquete que lhes serviu, teve Dido a oportunidade de conhecer melhor seus hóspedes, em especial o valororo Eneias, que ocupou quase todo o tempo do encontro a relatar as suas desditas, passatempo insuperável que fazia as delícias de todas as cortes daquela época.

Sim, inegável que o relato do herói troiano impressionou-a profundamente. Mas de uma vez as lágrimas lhe desceram pelo rosto como pérolas que deslizam por um tecido aveludado. Mas quem lhe provocou a paixão que a consumiria, desgraçando-a para toda a vida, foi não Eneias, mas seu filhinho, o pequeno Iulo.

O Plano de Afrodite - Afrodite assistira à chegada à ilha do seu protegido com muito temor. "Hera não descansará enquanto não destruir Eneias", pensou a deusa, roendo suas divinas unhas. "Talvez venha mesmo a instilar no coração da rainha, que até agora tem se mostrado uma soberana cordata e amável, um ódio funesto e profundo, a fim de levar Eneias, filho de Anquises, à mais negra ruína!".

Decidida, então, a impedir o pior, chamou logo seu filho Eros.

- Eros querido, preciso mais uma vez de seus préstimos.

O jovem rebento surgiu carregando suas flechas dentro da dourada aljava.

- Quero que alvejes sem piedade o coração de Dido, para que ela se tome de amores por meu favorito Eneias.

Dido recebe Eneias enquanto cupido alveja seu coração - Pintura sobre tela - Francesco Solimena 1720

O divino garoto, de louros cachos, tomou, então, a forma de Iulo, o filho de Eneias, e postou-se perto da rainha durante o banquete. Quando o grande troiano encerrou o longo excurso das suas desditas, o pequeno Iulo - na verdade Eros - pulou para os braços da rainha. Esta, encantada, como toda mulher, fez-lhe carícias de todo jeito, mas, ao descuidar-se um pouco, acabou alvejada pela seta que o garoto trazia oculta nas vestes.

Pronto! Eis aí Dido, a recatada rainha, tomada de amores pelo forasteiro e pronta para marchar rumo ao martírio.

- Agora precisamos quebrar sua última resistência - disse Afrodite, entretendo seus macios e longilíneos dedos por entre os caracóis de seu eficiente rebento.

Eneias na Corte de Dido - Pintura sobre tela - James ThornhillNa manhã seguinte, a rainha organizou uma grande caçada pelos arredores montanhosos de Cartago; conduzindo um grande cortejo, do qual faziam parte Eneias e alguns de seus próceres, chegou enfim aos cumes rochosos onde se desenrolaria a grande diversão.

- Aqui não faltará prazer a você nem a qualquer dos seus - disse Dido a Eneias, que procurava distrair com estes entretenimentos o amor que consumia seu peito com um furor cada vez maior.

Afrodite, a este tempo, já havia feito um novo pedido a Zeus, para que lançasse seus raios sobre toda a região bem no momento em que a caçada estivesse no auge. O senhor dos trovões, algo aborrecido, acabou cedendo a mais este capricho da volúvel divindade. A tarde, de início tremendament escaldante, fazia prever para vreve uma tempestade: nuvens de uma cor azuladamente metálica surgiram de repente no horizonte, e logo Bóreas furioso começou a soprar com toda a força o alento de seus pulmões. Árvores foram derrubadas, galhos voaram para totdos os lados, e um rumor de pés correndo para todos os lados precedeu o desabar da terrível tormenta. Logo a chuva descia dos céus. Tírios e troianos procuravam abrigo, e a rainha Dido, como que impulsionada por uma mão invisível, viu-se logo separada de todos.

- Oh, não, e esta agora! - disse ela, ávida por encontrar abrigo. Avistou, então uma gruta salvadora, bem no topo do morro onde stava. Para la rumou, escalando a íngreme subida cheia de barro molhado. Dido agarrova-se aos galhos das árvores para poder subir, mas sempre que estava para alcançar a entrada da gruta perdia o equilíbrio e descia rolando pelo barro encharcado até voltar ao ponto de onde saíra, qual uma desastrada Sísifo do sexo feminino.

Dido Cacando - Pintura sobre tela - desconhecidoNa quarta tentativa, entretanto, descobriu que suas vestes estavam em trapos e que seu corpo estava recoberto por uma capa de lama. Nem bem ergueu-se porém, viu a chuva desnudar-lhe inteira daquela veste natural e pouco consistente, revelando a toda a natureza o seu corpo completo e irremediável.

- Oh deuses! - clamou.

Seu lamento pareceu ter sido ouvido, pois logo alcançou o topo, desta vez sem perder o equilíbrio. Seu corpo, no entanto, estava além de nu e encharcado, coberto de feridas provocadas pelos galhos e espinhos das árvores. Descalça e nua, assim ela avançou até a entrada da gruta. Mas ao chegar lá encontrou já um habitante, que tratava de limpar do corpo a sujeita que se pegara à sua pel. Era, claro, Eneias, que aindanão dera pela presença da rainha.

Dido imediatamente recobriu com as mãos as suas vergonhas, mas, coisa estranha, não pode mover seus pés - e assim permaneceu parada diante daquele homem belo que prosseguia, diante de seus olhos, a fazer sua metódica higiene. A chuva continuava a cair implacavelmente, e os ruídos dos trovões sacudiam a gruta inteira. Tudo começava a escurecer, tanto lá fora quanto ali dentro, e não foi sem uma pequena lástima que viu as formas do amado Eneias desaparecerem aos poucos, engolidas pela escuridão da gruta. Mas ainda havia um consolo: de vez em quando algum relâmpago, que não era tão raro que não iluminasse a gruta inteira por alguns sengundos, fazia ver outra vez aquelas divinas formas, em sua inteira beleza. Dido decidiu, então, naquele misto de proteção e desvelamento que era a gruta sob os relâmpagos, simular uma chegada abrupta.

- Oh, há alguem aí? - perguntou, durante um intervalo de escuridão.

Um novo relâmpago iluminou o interior da gruta e ela viu o rosto de Eneias voltado para ela. Viu o espanto, ainda que por um brevíssimo momento, desenhado em seu rosto. Ele, por sua vez, também percebeu quem ela era. Dido, da primeira vez, deixou que seus braços pendessem livremente - havia decidido que daria ao amado apenas esta chance de vê-la tal como os deuses a haviam criado. Tudo escureceu, e quando a luz brilhou novamente Eneias estava diante de si. Ela já tinha as mãos postas em guarda, mas o homem que ela amava permanecia despreocupado de tais coisas. E tão logo a escuridão se fez outra vez, sentiu que seus braços fortes envolviam seus ombros.

A união de Dido e Enéias - Pintura sobre tela - Gaspard Dughet 1650 - 1660

- Oh forasteiro, como se atreve a agarrar uma rainha? -disse ela, com um tom de voz que autorizava o desejo dele e o seu próprio.

O ruído dos trovões e da chuva tornou-se tão intenso, e sua reprimenda, de fato, fora tão pouco convincente, que em menos de um piscar de olhos estavam ambos entregues aos adoráveis exercícios prescritos por Afrodite.

A Viagem da Fama - Na mesma noite - porque os amantes ficaram entregues a madrugada toda aos seus amores - a Fama, filha de Geia, saiu de sua caverna.

A Fama - Escultura - 421 a.e.cA Fama é uma deusa estranha: pequena, quando sai de casa, vai aumentando progressivamente de tamanho enquanto avança no cumprimento de sua missão. Por enquanto é apenas uma minúscula criatura, portando uma pequena trombeta em suas mãozinhas; uma menina, ainda. Mas é uma deusa veloz, por sua própria natureza; por isto não ainda, mas voa, agitando graciosamente suas duas asas, que escondem uma miríade de olhos, feito o arguto Argos e o pavão espaventado.

A fama é uma deusa de aparência encantadoramente bela, embora os olhos dos amantes do pudor possa parecer às vezes extradordinariamente feia.

Com suas asas amplas ela fende os ares da ardent Líbia; o dardejante carro de Apolo apenas percorreu a metade do seu percurso e a núbia Fama já é agora uma moça crescida, de espantoso viço. Seus magnetismo e charma são inigualáveis: quase nenhum outro ser tem como ela o dom maravilhoso da persuasão. Por isto a sua estada em qualquer lugar é muito rápida; não precisa mais do que alguns instantes para transmitir a sua mensagem e ser acreditada imediatamente. Suas Mensagens são quase sempre fidedignas e não tem nenhuma eiva de perversidade.

Ela está aogra na corte do rei Jarbas, na Getúlia, e já fez soar pelos ares a dua divina trombeta - pois a Fama jamais desce à terra para transmitir as suas novas - e já vai deixando aquele reino, pronta para levar adiante o seu ofício. Entretanto, logo no seu encalço, vem outro ser, de natureza semelhante. è apenas um pouco mais discreto e tem a espantosa capacidade de dobrar de tamanho e volume a cada milímetro que avança. É, assim, um imenso ser alado, que rola com asas pelos céus, tendo uma aparência francamente repulsiva: gordo - imensamente gordo -, com bochechas estufadas, que fazem lembrar o velho Bóreas, o poderoso vento do norte. Sua boca, entretanto, é pequena, quase um orifício, pois este ser não fala, mas antes cicia as suas novas.

Eneias e Ana - Gravura Medieval - Séc. XV d.a.c.Quando chega, cercado sempre pela Calúnia e pela Maledicência, amigas inseparáveis, a primeira coisa que faz é dizer, baixinho, ao primeiro que encontra, com voz maviosa e infinitamente sedutora:

- Venha, incline agora seus ávidos ouvidos a meus discretos lábios. Este deus é o Boato, irmão mais novo da graciosa Fama.

Enéias agora é o amante oficial da rainha. Seus amores já são públicos, e todos os reinos vizinhos estão informados do que se passa entre os dois.

- Dido, minha querida - diz-lhe um dia Ana, sua irmã. - Alguns viajantes que retornaram da corte do rei Jarbas dão conta de que esse soberano tem o coração tomado pela ira contra você, eis que rejeitou a mão dele sob o pretexto da castidade, para agora estar com esse que ele chama de "frígio errante e miserável". Dido, apesar de ofendida com os termos do soberano, baixa os olhos. Depois erguendo-os novamente, confessa:

- Ana, minha irmã e confidente. Não posso mais esconder: meu coração é todo de Eneias. Embora tenha jurado um dia permanecer fiel à memória de meu querido esposo Siqueu, não posso mais resistir a este sentimento que me avassala.

Hermes visita Eneias - pintura sobre tela - desconhecidoAna, que era uma irmã compreensiva, tomou o partido de dido.

- Realmente, minha irmã, você não pode mais ficar sem um rei ao lado, que dirija com mão forte os negócios do reino. Eneias é um homem forte, viril e corajoso, e tenho a certeza de que será um excelente rei para os cartaginenses.

Aos poucos todos foram se acostumando à idéia e achando perfeitamente natural que a rainha se consorciasse com aquele belo e valente forasteiro. Mas nos céus se pensava diferente, e assim, certa noite, Eneias recebeu a visita de um ser enviado com a missão de dissuadi-lo de tal idéia.

- Éneias, sou Hermes, mensageiro de Zeus! - disse o deus dos pés ligeiros, com o semblante carregado. - Por que demora tanto neste lugar? Porque perde tempo construindo uma cidade para os outros, quando você ainda tem de partir para encontrar o seu verdadeiro país e, lá sim, construir uma cidade? Fugiu aos gregos, temendo a sujeição, para agora se tornar escravo de uma mulher?

Eneias não conseguiu responder a nenhuma dessas perguntas, pois ao seu lado estava Iulo, seu pequeno filho, a quem cabia dar um reino e uma descendência. No mesmo dia Eneias começou a fazer os preparativos para a partida.

O Desespero de Dido - Cedo Dido descobriu as intenções do agora esquivo Eneias - pois qual coração não está sempre atendo aos menores gestos do ser amado?

Eneias decide deixar Dido - Gravura - desconhecido- Eneias, planeja então abandonar-me? - perguntou ela, um dia, quando o viu em meio aos preparativos de sua partida.

- Os deuses exigem que eu parta rumo ao meu destino - disse Eneias, cabisbaixo - Dido, eu amo você, mas tenho um dever, uma altíssima missão que os céus me confiaram, à qual não posso dar as costas...

- Mas dar as costas a mim você pode, depois de tudo o que fiz por você e pelos seus? - esbravejou a infeliz rainha.

- Eu não posso dar as costas, acima de tudo, a meu filho! - disse Eneias, resoluto.

- Oh, quanta ingratidão! Não pensa em mim, na minha situação? que respeito poderei infundir, agora que me desfiz de minha castidade, dos meus votos de fidelidade, que eram o único pretexto para repelir os pretendentes que a todo instante me assediavam, buscando apenas minhas riquezas e meu reino? Não sabe que no dia seguinte ao que você partir verei entrar pela barra adentro a frota do rei Jarbas, que virá exigir a minha mão, chamando-me sabem os deuses por qual nome? E que meu odioso irmão Pigmalião espera apenas uma oportunidade para vir retomar as riquezas que julgava suas pelo direito vil do assassínio?

Eneias, sem poder responder a tão altas questões, deu as costas à rainha. Só Zeus poderoso sabia o quanto lhe era agradável a ideia de permanecer na bela Cartago, na condição de rei, livre para sempre dos trabalhos que o mar impunha. A vos dos deuses, contudo, era mais forte, e ele sabia que cedo ou tarde um terrível desastre se abateria sobre ambos caso ele decidisse permanecer ali, na condição de amante indolente da bela Dido.

Dido e Eneias - Pintura sobre tela - Jean Raoux

Dido a rainha infeliz, ainda guardou alguma esperança durante algum tempo, mas quando viu que Eneias já se instalara dentro do navio que o levaria embora, fazendo dali mesmo os preparativos finais para a sua partida, tomou a decisão extrema dos desesperados: matar-se-ia. Sim, porque não suportaria ver a frota de Eneias se afastar lentamente de suas águas, sabendo que nunca - nunca mais! - iria tornar a pôr os olhos no seu amado.

Ordenou, então, que construíssem uma imensa pira na parte mais alta da sua fortaleza. Ali pretendia consumir em ardente fogo o seu corpo que o amor já consumira inteiramente por dentro, pondo um fim definitivo ao seu sofrimento. Mas para que sua irmã de nada desconfiasse, inventou-lhe um artificio.

- Ana, querida irmã - disse ela, acariciando o seu rosto -, estou prestes a me livrar de tão grande sofrimento! Eis que recebi o auxílio d euma famosa feiticeira, versada nas artes mágicas de Hécate, que me propôs a construção desta enorme pira. Ali deverei colocar as armas e a efígie do pérfido traidor que agora me abandona, desonrada e desprotegida, à sanha de meus inimigos. Tão logo as labaredas tenham destruído tudo, estarei livre, afinal, deste sentimento terrível que ameaça tragar-me, tão cedo, para as moradas sombrias de Hades.

Eneias abandonando dido - Pintura sobre tela - Giovanni RomanelliEnquanto isso, Enias dormia na popa de seu navio. Eis que, de repente, Hermes alado lhe surge outra vez e diz com voz irada e semblante alterado:

- Oh filho imprevidente de uma deusa! Como pode dormir tão sossegado sem imaginar que um coração dilacerado e vencido não esteja a tramar a sua desgraça? É assim que pretende erguer e conduzir uma nova pátria? Ai dela, então, pois não durarão em pé seus muros mais que o curso de uma lua! Ande, levante e aponte de uma vez a proa de suas naus em diração ao mar, eis que Éolo, senhor dos ventos, já ordenou que o vento oeste sopre com altíssimo vigor.

Eneias, o homem dos mil sonhos, pôs-se logo em pé e, dando rijas vozes, ordenou aos seus homens que fizessem o que o deus lhe ordenara. Depois, voltando um último olhar para o castelo de sua amada Dido, lhe lançou estas aladas palavras:

- Dido, amada, perdoa a minha fuga, mas os deuses não quiseram que permanecêssemos juntos por muito tempo. Nos Campos Elísios, quem sabe, haveremos de estar juntos algum dia. Ali saciaremos, então, de maneira infinita, todos os desejos que os fados agora não nos permitiram.

Ao amanhecer, dido obeserva eneias partindo - Pintura sobre tela - desconhecidoA suave Aurora já abria as cortinas rosadas de um novo dia quando a sofrida Dido abriu seus olhos par ao mar e recebeu a primeira punhalada do dia em seu coração: a frota de Eneias, já em alto-mar,singrava com as velas enfumadas pelo vento. No mesmo instante correu até a pira, pedindo antes à irmã que fosse providenciar algo naparte mais afastada do castelo. Assim que se viu sozinha, acendeu a flama, subindo em seguida até o alto da imensa pilha de carvalhos e pinheiros.

- Agora se despede desta vida, que deuses e fados funestos tornaram insuportável, a desgraçada Dido, rainha que um dia vingou a morte de seu amado Siqueu, embora - ai de mim ! - não tenha sabido manter-se fiel; que fundou uma cidade maravilhosa e que teve a infelicidade de um dia ver aportar em suas praias aquele homem sem palavra e coração endurecido que agora foge de seus braços para todo o sempre!

Dido, sentindo as primeiras labaredas alcançarem seus pés, ajoelhou-se e, tomando da espada que Enéias lhe deixara de presente, enterrou-a no peito.

Sua irmã, alertada pelo brilho da fogueira, acorreu para a pira, mas já era tarde demais: a alma de Dido, a infeliz rainha, já fugira, também, deixando entregue às chamas o seu corpo dilacerado, com a espada de Eneias enterrada ao peito.

O Suicidio de Dido - Pintura sobre tela - Liberale da Verona

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Eneias no Lácio -

Entrando no Hades | A Terra Prometida | Os aliados de Eneias | Niso e Euríalo | A Guerra

Afrodite e os Troianos - Pintura sobre Tela - Nicolas PoussinDepois de tocar na Ilha da Sicília, onde reinava Acestes, Príncipe de origem troiana que lhes ofereceu hospitaleira recepção, Eneias e seus companheiros reembarcaram e seguiram caminho para a Itália. Afrodite interceceu, então Junto a Posídon para permitir que seu filho chegasse afinal ao destino e ficasse livre dos perigos do mar. Posídon consentiu, estipulando apenas uma vítima como resgate para os restantes. A vítima foi Palinuro, o piloto. Enquanto ele contemplava as estrelas, segurando o leme, o deus Sono, enviado por Posido, aproximou-se sob o disfarce de Forbas e disse:

- Palinuro, o vento é favorável, omar está calmo e o navio segue direito para o seu destino. Deita por algum tempo e goza o merecido descanso. Tomarei conta do leme, em teu lugar.

- Não me fales em mar brando ou ventos favoráveis, a mim acostumadocom tantas traições - respondeu Palinuro. Deverei confiar Eneias ao acaso do tempo e dos ventos?

E continuou a segurar o leme, com os olhos fixos nas estrelas. Sono, porém, sacuriu sobre el um ramo umedecido com água do Lets e seus olhos se fecharam, apesar de todos os esforços. Então, Sono o empurrou para fora do navio e ele caiu, mas, não largando o leme, levou-o consigo. Posidon foi fiel à sua promessa e manteve o navio no rumo certo, sem leme e sem piloto, até que Eneias descobriu a perda e, profundamente pesaroso com a morte de seu fiel timoneiro, assumiu ele próprio a direção do barco.

A Sibila - Pintura sobre tela - Elihu Vedder 1872

Os navios chegaram, afinal, ao litoral da Itália e alegremente os aventureiros desenbarcaram. Enquanto sua gente tratava de construir um acampamento, Eneias procurou a morada da Sibila, que era uma caverna ligada a um templo e a um bosque consagrados a Apolo e Artemis. Eneias contemplando a cena, quando a Sibila aproximou-se dele. Mostrou estar a par das peregrinações do troiano e, sob a influência da divindade do lugar, começou a fazer profecias, apresentando previsões sombrias sobre os trabalhos e perigos que Eneias ainda teria de atravessar para afinal alcançar o sucesso. Terminou com estas palavras animadoras, que se tornaram proverbiais: "Não te curves aos infortúnios, mas avança com maior coragem." Eneias respondeu Arvore do galho de ouro - Pintura sobre tela - Turner J.M.W. 1775 - 1851que estava disposto a enfrentar o que tivesse pela frente. Tinha apenas um pedido a fazer. Como fora instruido, num sonho, a procurar a morda dos mortos, a fim de conversar com seu pai, Anquises, para dele receber uma revelação sobre o futuro seu e de sua raça, pedia ajuda da Sibila para que tivesse possibilidade de executar a tarefa. "A descida para o Averno é fácil", respondeu a Sibila. "A porta do Hades fica aberta noite e dia. Mas voltar e retornar à atmosfera superior, aí está o trabalho, aí a dificuldade" Aconselhou, em seguida, a Eneias a procurar na floresta uma árvore em que havia um galho de ouro. Este galho deveria ser arrancado e oferecido como presente a Perséfone. Se o destino fosse propício, ele ficaria na mão de Eneias, deixando o tronco da árvore; do contrário,nenhuma força seria capaz de arrancá-lo. Se arrancado, outro sucederia.

Eneias seguiu as instruções da Sibila. Afrodite, sua mãe, mandou duas de suas pombas voar diante dele para ensinar-lhe o caminho e, graças a elas, ele encontrou a árvore, arrancou o galho e com ele voltou para junto da Sibila.

Entrando no Hades - A região onde Virgílio localiza a entrada dessa morada dos mortos talvez seja, realmente, a mais adequada para dar a idéia do terrífico e do sobrenatural em qualquer ponto da superfície terrestre. É a região vulcânica perto do vesúvio, toda cortada de fendas, das quais se levantam chamas sulfúreas, enquanto o solo é sacudido pelo desprendimento de vapores, e rúidos misteriosos saem das entranhas da terra. Supõe-se que o Lago Averno ocupa a cratera de um vulcão exinto. Tem a forma de um círculo, com meia milha de largura, é muito profundo, e suas margens, muito elevadas, eram cobertas, na época de Virgílio, por densa floresta. Vapores mefíticos levantavam-se de suas águas, de modo que não havia vida em suas margens e nenhuma ave as sobrevoava. Ali, segundo o poeta, encontrava-se a gruta que dava acesso às regiões infernais e ali Eneias ofereceu sacrifícios às divindades infernais - Perséfone, Hecate e as Erínias. Logo em seguida, ouviu-se um rugido vindo das profundidades da terra, os bosques que cobriam os morros foram sacudidos e o ladrido de cães anunciaram a aproximação das divindades.

Eneias e a Sibila - Pintura sobre tela - Turner J.M.W. 1775 - 1851

- Agora - disse Sibila -, arma-te de toda a tua coragem, pois dela vais precisar.

Desceu à caverna, e Eneias acompanhou-a. Antes do limiar do Hades, passaram por um grupo de seres, que a Sibila revelou serem os Pesares, as vingativas Ansiedades, as pálidas Enfermidades, a melancólica Velhice, o Medo e a fome que induzem ao crime, o Cansaço, a Miséria e a Morte, formas horríveis de serem vistas. As Erínias ali estendiam seus leitos, e, do mesmo modo, a Discórdia, cujos cabelos eram formados de serpentes presas entre si por uma fita sangrenta. Também ali se achavam os monstros: Briareu, de cem braços; as Hidras, que silvavam; e Quimeras, ditando fogo pela boca e pelas narinas. Eneias estremeceu ao ver aquilo, desembainhou a espada e teria atacado, se a Sibila não o impedisse. Dirigiram-se, então, ao negro rio, o Cócito, onde encontraram o barqueiro Caronte, velho e esquálido, mas forte e vigoroso, que recebia em seu barco passageiros de todas as espécies, heróis magnânimos, jovens e virgens, tão numerosos quanto as folhas no outono ou os bandos de aves que voam para o sul quando se aproxima o inverno. Todos se aglomeravam para passar, ansiosos por chegarem à margem oposta. O severo barqueiro, contudo, comente levava aqueles que escolhia, empurrando os restantes para trás. Espantado com o que via, Eneias perguntou à Sibila:

Eneias, Sibila e Carote - Gravura - Desconhecido- Qual o motivo dessa discriminação?

- Aqueles que são acolhidos a bordo do barco são as almas dos que receberam os devidos ritos fúnebres; os epíritos dos outros, que ficaram insepultos, não podem passar o rio,mas vagueiam cem anos abaixo e acima de sua margem, até que finalmente sejam levados.

Eneias entristeceu-se, lembrando dos próprios companheiros que haviam perecido na tempestade. Naquele momento, avistou seu piloto Palinuro, que caíra aomar e morrera afogado. Ele implorou a Eneias, com veemência, que lhe estendesse a mão e o levasse, emsua companhia, para a margem oposta. A Sibila, pórem, o repeliu, pois isso seria transgredir as leis de Hades, mas consolou-o, revelando-lhe que os habitantes da costa para onde seu corpo fora levado pelas vagas seriam induzidos, por meio de prodígios, a lhe fazer os funerais devidos, e que o promotório tomaria nome de Cabo Palinuro, que tem até hoje. Deixando Palinuro consolado com essas palavras, os dois aproximaram-se do barco. Caronte, encarando fixamente, com severidade, o guerreiro que se aproximava, perguntou-lhe com que direito ele vinha, vivo e armado. A Sibila respondeu que eles não cometeriam qualquer violência, que o único objetivo de Enéias era ver seu pai, e, finalmente, apresentou o galho de ouro, cuja vista a ira de caronte fez-se, apressando-se ele a encostar o barco e receber a bordo os dois. A embarcação, acostumada apenas com carga muito leve dos espíritos incorpóreos, gemeu sob o peso do herói, que, juntamente com a Sibila, foi logo transportado para a outra margem.

Ali, encontraram o cão Cérbero, com pescoço eriçados de serpentes. O cão latiu por suas três gargantas, até que a Sibila lhe atirou um bolo especialmente preparado por ela, que o animal devorou vorazmente, indo depois estender-se em seu canil, adormecendo profundamente. Eneias e a Sibila desembarcaram. O primeiro som que lhes chegou aos ouvidos foi o choro de criancinhas, mortas no limiar da vida, e perto das quais estavam aqueles que haviam perecido em consequência de falsas acusações.

Minos os ouvia como juiz e examinava as ações de cada um. A categoria seguinte era a dos que haviam morrido por suas próprias mãos, odiando a vida e procurando refúgio na morte. Com que boa vontade eles agora suportariam a miséria, o trabalho e outras aflições, se pudessem retornar à vida! vinham, em seguida, regiões de tristeza, divididas em aléias isoladas, que atravessavam os espessos bosques de mirto. Por ali vagueavam aqueles que haviam caído vítimas de um amor insatisfeito e que a própria morte não libertara do sofrimento. Entre estes, Eneias julgou reconhecer o vulto de Dido, com ferimento ainda recente. A luz difusa manteve-o na incerteza por um momento, mas, ao aproximar-se, percebeu que na verdade era ela. Lágrimas caíram-lhe dos olhos e a ela se dirigiu, com palavras repassadas de amor:

- Infeliz Dido! Era então verdadeiro o rumor de que havias morrido? E, ah! Fui eu a causa? Invocou o testemunho dos deuses de que me afastei de ti com relutância e em obediência às ordens de Zeus. E não poderia acreditar que a minha ausência te custasse tanto. Pára, Imploro-te, e não me negues o último adeus.

Ela se deteve por um momento, virando o rosto e com o lhos fixados no chão; depois, silenciosamente, passou tão insensível à súplica como um rochedo. Enias seguiu-a por algum tempo; depois, com o coração pesado, juntou-se de novo à sua companheira e reiniciou a caminhada.

Eneias e Sibila - Pintura sobre tela - desconhecidoEntraram, em seguida, nos campos por onde vagueiam os herói caídos na batalha. Ali viram muitas sombras de guerreiros gregos e troianos. Os troianos rodearam Eneias e não se satisfaziam em vê-lo. Indagavam a causa de sua vindo e faziam-lhe numerosas perguntas. Os gregos, porém à vista de sua armadura, brilhando naquela atmosfera tenebrosa, reconheciam o herói e, tomados de terror, viravam as costas e fugiam, como costumavam fazer nas planícies de Tróia.

De boa vontade Eneias teria demorado com os amigos troianos, mas a Sibila o incitou a apressar-se. Chegaram a um lugar onde a estrada se dividia, uma levando ao Elísio, outra, às regiões dos condenados. Eneias viu de um lado as muralhas de uma grande cidade, em torno da qual o Flégeton rola sua águas furiosas. Diante dele estava a porta de bronze, que nem os deuses nem os homens conseguiram arrombar. Junto à porta, erguia-se uma torre de ferro,onde mantinha guarda Tisífone, a Erínia vingativa. Da cidade vinham gemidos e ranger de dentes, o ruído de ferros e arrastar de correntes. Eneias, horrorizado, perguntou à sua guia que crimes eram aqueles cujos castigos produziam os ruidos que ele ouvia.

- Aqui é o paço de fulgamento de Radamento, que desvenda os crimes praticados em vida e que o criminosopensou esconder, em vão - respondeu a Sibila. Tisífone aplica seu chicote de escorpiões e entrega o criminoso às suas irmãs, as Erínias.

Naquele momento, as portas de bronze abriram-se com pavoroso ruído e Eneias viu, no interior, uma hidra com cinquenta cabeças guardando a entrada.

A Sibila explicou-lhe que o abismo de Tártaro é tão profundo que seus recessos estavam tão abaixo de seus pés quanto o céu estava acima de suas cabeças. No fundo desse poço, jaz prostrada a raça dos titãs, que fez guerra aos deuses. Também Salmoneu, que quis competir com Zeus, e construiu uma ponte de bronze, sobre a qual conduziu seu carro, cujo ruído parecia o do trovão, atirando ao seu povo tochas ardentes imitando os raios, até que Zeus o atingiu com um raio de verdade e ensinou-lhe a diferença entre as armas mortais e as divinas. Lá também se encontra o gigante Títio, cujo corpo é tão imenso que, estendido, ocupa mais de nove acres, enquanto o abutre lhe come o fígado, que, mal é devorado, cresce de novo, de modo que o castigo não terá fim.

Eneias e Sibila no Tartaro - Pintura sobre tela - desconhecido

Eneias viu grupos sentados a mesas cobertas de iguarias, tendo perto um Erínia, que lhes arrancava o alimento dos lábios, mal se preparavam para saboreá-los. Outros sustentavam sobre a cabeça enormes rochedos que ameaçavam cair, mantendo-os, assim, num estado de constante alarme. Estes eram os que haviam odiado seus irmãos, ultrajado seus pais, iludido os amigos que nesles confiavam o uque, tendo-se enriquecido, guardavam o dinheiro apenas para si, sem permitir que outros dele compartilhassem; estes últimos constituíam o grupo mais numeroso. Ali também estavam os que violaram o voto matrimonial, lutaram por uma causa má ou se mostraram infiéis para com seus patrões. Havia um que vendera seu país a troco de ouro, outro que pervertera as leis, fazendo-as dizer uma coisa hoje e outra coisa amanhã.

Íxion lá estava, preso a uma roda que girava incessantemente, e Sísifo, cuja tarefa consistia em rolar uma enorme pedra até o alto de um morro, mas quando já se encontrava bem avançado na encosta, a pedra, impelida por uma força repentina rolava de novo para a planície. Sísifo a empurrava de novo morro acima, coberto de suor, mas em vão. Tântalo, de pé dentro de uma lagoa, com o queixo ao nível da água, sentia, no entanto, uma sede devoradora, e não encontrava meios de saciá-la, pois, quando abaixava a cabeça, a água fugia, deixando o terrono sob os seus pés inteiramente seco. Frondosas árvores carregadas de frutos - peras, romãs, maçãs e apetitosos figos - abaixavam seus galhos, mas quando ele tentava agarrá-los, o vento empurrava os galhos para fora de seu alcance.

A Sibila advertiu Eneias de que era tempo de deixarem aquelas regiões melancólicas e procurarem a cidade dos eleitos. Atravessaram uma estrada coberta de trevas e chegaram aos Campos Elísios, onde moram os felizes. Respiraram um ar mais puro e viram todos os objetos envoltos numa luz avermelhada. A região tinha um sol e estrelas próprios. Os habitantes distraíam-se de várias maneiras, alguns praticando exercícios de força e agilidade sobre a relva macia, outros dançando e cantando. Orfeu feria as cordas de sua lira, produzindo sons arrebatadores. Ali viu Eneias os fundadores do Estado troiano, heróis magnânimos, que haviam vivido em épocas mais felizes. Contemplou, com admiração, os carros de guerra e as armas reluzentes, agora descansando sem uso. As lanças estavam cravadas no solo, e os cavalos, desarreados, vagueavam pela planície. O mesmo orgulho pelas esplêndidas armaduras e pelos fogosos corcéis que os antigos heróis sentiam em vida os acompanhava ali. Eneias viu outro grupo jovialmente escutando os acordes da música. Estava num bosque de loureiros, onde o grande rio Pó tem sua origem. Ali moravam os que haviam morrido em em consequencia de ferimentos recebidos pela cusa de sua pátria e também os santos sacerdotes e os poetas que apresentaram pensamentos dignos de Apolo, e outros que contribuíram para alegrar e adornar a vida com suas descobertas nas artes úteis e tornaram sua memória abençoada, prestando serviços à humanidade. Traziam em torno da testa fitas brancas como a neve.Eneias no Hades - Pintura sobre Tela - Lucas Giordano

A Sibila dirigiu-se a esse grupo, indagando onde Anquises poderia ser encontrado. Foram encaminhados para onde deveriam procurá-lo e, dentro em pouco, o encontraram num vale verdejante, onde ele contemplava a multidão de seus descendentes, seus destinos e os fatos notáveis que praticariam nos tempos vindouros. Ao reconhecer Eneias, avançou, de braços estendidos, enquanto as lágrimas lhe escorriam pelas faces.

- Vieste afinal - exclamou - há tanto esperado, e eu te contemplo depois de tantos perigos? oh meu filho, quanto tremi por ti enquanto observava teus passos!

- oh meu pai - replicou Eneias - Tua imagem esteve sempre diante de mim para guiar-me e proteger-me.

Tentou, então, apertar seu pai entre os braços, mas apenas encontrou uma imagem incorpórea. Eneias avistou depois, diante de si, um amplo vale, com árvores que a brisa sacudia de leve, uma paisagem tranquila, por onde corria o Rio Letes. em suas margens, andava uma incontável multidão, numerosa como insetos num dia estival. Surpreso, Eneias indagou quem eram aqueles e Anquises respondeu:

- São as almas que devem receber os corpos em tempo oportuno. Enquanto isso, vivem à margem do Letes e bebem o esquecimento da sua vida anterior.

- Oh pai! - exclamou Eneias. - É possível que alguem tenha tanto amor à vida a ponto de querer deixar estas tranquilas regiões pelo mundo superior?

Anquises, revelando o futuro a Eneias - Pintura sobre tela - desconhecido

Anquises respondeu explicando o plano da criação. O criador, disse ele, fez originalmente o material do quel se compoem as almas com os quatro elementos - o fogo, o ar, a terra, e a água que, quando unidos, tomam a forma da parte mais excelente -, (fogo) e se transformam em chama. Esse material espalhara-se como a semente, entre os corpos celestes - osol, a lua e as estrelas. Dess semente, os deuses inferiores criaram o homem e todos os outros animais, misturando-a, em várias proporções, com a terra, que temperava e reduzia a sua pureza. Quanto mais a terra predomina na composição,menos puro é o indivíduo, e vemos homens e mulheres com os corpos plenamente desenvolvidos sem a pureza da infância. Desse modo, a impureza contraída pela parte espiritual está em proporção com o tempo de união do corpo com a alma. Essa impureza pode ser purgada após a morte, o que é feito ventilando as almas na corrente atmosférica, ou imergindo-as na água, ou queimando suas impurezas no fogo. Alguns poucos, dos quais Anquises dá a entender de que faz parte, são admitidos imediatamente ao Elísio, para ali ficar. Os restantes, porém depois de purgados das impurezas da terra, são devolvidos à vida, dotados de novos corpos, com a lembrança de sua antiga vida inteiramente apagada, graças à lavagem com as águas do Letes. Existem ainda, contudo, alguns tão profundamente corrompidos que não podem receber corpos humanos e são transformados em animais - leões, tigres, gatos, cães, macacos etc. Isso é o que os antigos chamavam de metempsicose, ou transmigração de almas, doutrina ainda sustentada pelos naturais da Índia, que têm escrúpulo em detruir a vida dos mais insignificantes animais, por não saber se contém alguma pessoa de seu conhecimento, sob uma forma alterada.

Após todas essas explicações, Anquises passou a mostrar a Eneias os indivíduos de sua raça, que ainda nasceriam, e a relatar-lhe as empresas que eles deveriam executar no mundo. Depois, voltou ao presente e contou ao filho os acontecimentos que o esperavam antes que ele e seus companheiros se estabelecessem definitivamente na Itália. Seriam travadas guerras, disputadas batalhas, uma esposa seria conquistada e, como resultado, fundado um Estado Troiano, do qual surgiria o poder humano, que acabaria soberano no mundo. Eneias e a Sibila despediram-se, então de Anquises, e regressaram.

A Terra Prometida - Sejas tu deusa ou mortal amada dos deuses, por mim serás sempre reverenciada - disse Eneias à Sibila, enquanto voltavam à Terra. - Quando chegar à atmosfera superior, mandarei erguer um templo em tua honra e eu mesmo oferecerei os sacrifícios.

Apolo e Sibila - Escultura - Jan Baptist Xavery 1697-1742- Não sou deusa - disse a Sibila -, não reclamo sacrifícios nem oferendas. sou mortal. No entanto, se tivesse aceito o amor de Apolo, poderia ter sido imortal. Ele prometeu-me satisfazer minha vontade, se eu tivesse concordado em ser sua. Tomei um punhado de areia e estendendo o braço que o segurava disse: "Concede-me ver tantos aniversários quantos grãos de areia há em minha mão." Infelizmente, esqueci-me de pedir a juventude perene. Também isso ele teria me concedido, se eu tivesse aceitado o seu amor, mas, ofendido com a minha recusa, ele deixou que eu envelhecesse. Minha juventude e a força da juventude de há muito passaram. Vivi setecentos anos e, para igualar o número de grãos de areia, terei ainda de ver trezentas primaveras e trezentos outonos. Meu corpo enfeza-se à medida que os anos passam, e, com o tempo, perderei a vista, mas minha voz permanecerá e as idades futuras respeitarão minha palavra.

Depois de separar-se da Sibila e voltar para sua frota, Eneias com ela costeou o litoral da Italia e ancorou na foz do Tibre. Tendo levado seu herói até aquele lugar, onde deveriam terminar suas peregrinações, o poeta invoca sua Musa para contar o estado de coisas naquela memorável ocasião. Governava o país Latino, da terceira geração descendente de Cronos. Estava o velho e sem filho varão, mas tinha uma linda filha, Lavínia, cuja mão era pretendida por muitos chefes vizinhos, um dos quais, Turno, rei dos Rútulos, era o favorito de seus pais. Latino, contudo, foi advertido, num sonho, por seu pai, Fauno, que o marido destinado a Lavínia deveria vir de uma terra estrangeira e que da sua união nasceria uma raça destinada a dominar o mundo.

As harpias, haviam predito, que antes de cessarem suas peregrinações, eles seriam levados, pela fome, a devorar suas próprias mesas. Esse portento tornou-se então verdade. Fazendo sua frugalíssima refeição sentados sobre a grama, os homens colocaram sobre os joelhos as duas bolachas e sobre as mesmas tudo aquilo que haviam conseguido colher no bosque. Tendo devorado estes últimos alimentos, tratarm de comer as bolachas e, ao ver isto, Iulo observou, jovialmente:

- Vede: estamos comenso nossas mesas.

Eneias concordou com o augúrio.

- Salve terra prometida! - exclamou. Este é o nosso lar, esta, a nossa pátria.

Tratou, então, de descobrir quem eram os habitantes do país e quem os governava. Cem homens escolhidos foram enviados à aldeia de Latino, levando presentes e solicitando amizada e aliança. Foram amistosamente acolhidos. Latino conclui imediatamente que o herói troiano não era outro senão o prometido genro, anunciado pelo oráculo. De boa vontade concordou com a aliança e enviou os mensageiros de volta cavalgando corcéis de suas estrebarias e levando presentes e mensagens amistosas.

Hera, vendo as coisas tão favoráveis aos troianos, sentiu reviver sua velha animosidade. Convocou Alecto, do Érebo, e mandou-a espalhar a discórdia. Em primeiro lugar, a Erínia apossou-se da rainha, Amata, e levou-a a se opor, por todos os meios, à nova aliança. Em seguida, Alecto correu à cidade de Turno e, tomando a forma de uma velha sacerdotisa, anunciou-lhe a noiva. Finalmente, dirigiu sua atenção apra o acampamento dos troianos, ali viu o jovem Iulo e seus companheiros divertindo-se em caçar. Aguçou, então, o faro dos cães e levou-os a descobrir no bosque um cervo manso, muito querido de Sílvia, filha de Tirreu, o pastor do rei. Um dardo atirado por Iulo feriu o animal, que só teve força para correr até a casa e morrer aos pés de sua dona. Os gritos e lágrimas desta comoveram seus irmãos e os pastores, e eles, pegando todas as armas que encontraram à mão, atacaram furiosamente o grupo de caçadores. Estes foram protegidos por seus amigos e os pastores foram afinal repelidos, depois de terem perdido dois dos seus.

Iulo Caçando a Corça de Silvia - Pintura sobre tela - Claude Lorrain (1682).

Estes fatos eram suficientes para provocar a guerra, e a rainha, Turno e os camponeses, todos, insistiram com o rei para que expulsasse os estrangeiros do país. Ele resistiu o mais que pode, mas, verificando ser inútil sua oposição, desistiu afinal e afastou-se para um retiro.

Tempo de Hera - gravura - desconhecidoEra costume no pais, quando se tratava uma guerra, que o chefe dos magistrados, trajando vestes adequadas, abrisse, solenemente, as portas do templo de Hera, que eram conservadas fechadas enquanto durava a paz. O povo exigiu que o velho rei executasse essa solenidade, mas ele se recusou a fazê-lo. Enquanto discutiam, a própria Hera, descendo do céu, bateu nas portas, com força irresistível, e as abriu. Imediatamente, as chamas da guerra cobriram o país. O povo acorreu de todos os lados, não pensando em outra coisa senão na luta.

Turno foi reconhecido por todos como chefe; outros se juntaram às forças como aliados, o principal dos quais foi Mezêncio, soldado bravo e capaz, mas de crueldade execrável. Fora chefe de uma das cidades vizinhas, mas seu povo o expulsara. Com ele, estava seu filho Lauso, jovem generoso, merecedor de um chefe melhor.

Camila, favorita de Artemis, caçadora e guerreira, à feição das amazonas, chegou com seu bando de cavaleiros e alguns soldados do seu próprio sexo para se colocar ao lado de Turno. Essa donzela não acostumara as mãos ao manejo da roca, mas aprendera a enfrentar os trabalhos da guerra e, em rapidez, ultrapassava o vento. Dava a impressão de que passava sobre os trigais sem esmagá-los ou sobre a soperfície da água em afundar.

Os aliados de Eneias - Tais eram os formáveis aliados que se juntaram contra Eneias. Era noite, e ele dormia ao ar livre, na margem do rio. Pareceu-lhe, então, que o deus daquelas águas, o Pai Tibre, levantava a cabeça acima das ondas e exclamava:

Personificação do rio Tibre - Escultura - Bourdict Pierrei- Oh filho de deusa, destinado a possuir os reinos latinos, esta é a terra prometida, aqui será tua pátria, aqui terminará a hostilidade das divindades celestes, se tu perseverares filmente. Há amigos não muito distantes. Prepara teus braços e sobe o meu curso; eu te levarei a Evandro, o chef árcade. Ele vem de há muito lutando contra Turno e os ruídos, e está disposto a tornar-se teu aliado. Levanta! Faze teus votos a Hera e apazigua sua ira. Quando tivers alcançado tua vitória, pensa, então, em mim.

Eneias acordou e, imediatamente, obedecau à visão amigável. Sacrificou a Hera e invocou o deus do rio e todas as fontes tributárias para que o ajudassem. Então, pela primeira vez uma embarcação conduzindo guerreiros armados flutuou na corrente do Tibre. O rio apalcou suas ondas e fez suas águas deslizarem de leve, enquanto, impelidos pelos rigorosos movimentos dos remadores, o barco subia rapidament o seu curso.

Cerca de meio dia, os troianos avistaram as casas dispersas da cidade nascente, onde em tempos posteriores surgiu a orgulhosa cidade de Roma, cuja glória atingiu o céu. Por acaso, o velho rei Evandro estava naquele dia celebrando as solenidades anuais em hora de Heracles e de todos os deuses. Com ele se encontravam seu filho Palas e todos os chefes da pequena comunidade. Ao verem o alto navio deslizando perto do bosque, assustaram-se e levantaram-se das mesas. Palas, porém, impediu que a solenidade fosse interrompida e, pegando uma urna, encaminhou-se apra a margem do rio, onde gritou, perguntando aos recém-vindos quemeram e qual era o seu objetivo. Segurando um ramo de oliveira, Eneias retrucou:

Eneias e o Rei Evandro - Pintura sobre tela - Pietro da Cortona sec. XVII d.e.c.

- Somos troianos, amigos vossos e inimigos dos rútulos. Procuramos Evandro e oferecemo-nos para juntar nossas armas às vossas.

Palas, espantado ao ouvir tão grande nome, convidou-os a desembarcar e, quando Eneias chegou à terra, apertou-lhe calorosamente a mão, por muito tempo. Atravessando o bosque, os troianos foram até onde estavam o rei e sua gente, sendo acolhidos da maneira mais amistosa. Sentanram-se em torno da mesa e o repasto prosseguiu.

Terminadas as solenidades, todos se dirigiram à cidade. O rei, Já curvo de velhice, caminhava entre seu filho e Eneias, apoiando-se no braço de um ou de outro, e conversando sobre vários assuntos, o que parecia tornar mais curta a caminhada. Eneias via e ouvia deleitado, observando todas as belezas do cenário e aprendendo muita coisa sobre os renomados heróis dos velhos tempos.

- Estes extensos bosques foram outrora habitados por faunos e ninfas e uma rude raça de homens que nasceram das próprias árvores e não tinham leis nem cultura social. Não sabiam como arar a terra com a ajuda de uma junda de bois, nem fazer as colheitas, nem tirar partido da abundância presente para suprir a escassez futura. Viviam como animais sob as arvores e alimenvam-se vorazmente das presas caçadas. Tais eram quando Crono, expulso do Olimpo por seus filhos, apareceu entre eles e, agrupando aqueles selvagens, formou uma sociedade, e deu-lhes leis. Seguiu-se uma época de tanta paz e fartura que, desde então os homens chamaram de Idade do Ouro o rei nado de Crono. Pouco a pouco, as coisas se mudaram e prevaleceram a sede de ouro e de sangue. A terra foi presa de sucessivos tiranos, até que a fortuna e o irreversível destino aqui me trouxeram, exilado de minha terra natal, a Arcádia.

Em Destaque, o Capitólio Romano, que se ergueria mais tarde, no explendor de Roma - MaqueteDepois de assim falar, mostrou a Eneias a rocha Tarpéia e o selvagem lugar então cobeto de mato onde, mais tarde, se ergueria o Capitólio, com toda a sua magnificência. Apontou, em seguida, para algumas muralhas desmanteladas, explicando:

- Ali ficava o janúculo, construído por Jano, e ali Satúrnia, a cidade de Crono.

Assim falando, chegaram à cabana do pobre Evandro e de lá avistaram rebanhos pastando na planície onde hoje se ergue o orgulhoso e imponente Fórum. Entraram e dentro havia uma cama feita para Eneias, bem recheada de folhas, e coberta com a pele de um urso líbio.

Na manhã seguinte, acordado pelo amanhecer e pelo canto dos pássaros sob o telhado da casa, o velho Evandro levantou-se. Vestido de uma túnica, com uma pele de pantera sobre os ombros, sandálias nos pés e a espada suspensa ao lado, foi procurar seu hóspede. Seguiam-no dois mastins, seu único séquito e guarda costas. Encontrou o herói em companhia de seu fial Acates, e tendo Palas logo se juntando a eles, o velho rei assim falou:

- Ilustre troiano, pouca coisa podemos fazer para tão grande causa. Nosso Estado é fraco, apertado de um lado pelo rio e do outro pelos rútulos. Proponho-me, porém, aliar contigo um povo numeroso e rico, apra o qual o destino te trouxe no momento propício. Os etruscos ocupam a região que fica além do rio. Seu rei era Mezêncio, um monstro de crueldade, que inventava tormentos indizíveis apra satisfazer suas vinganças. Prendia os mortos aos vivos, com as mãos nas mãos e os rostos nos rostos, e deixava as Arte etrusca em tumbadesgraçadas vítimas morrer naquel horrível amplexo. Ele escapou e refugiou-se junto de Truno, que o protege com suas armas. Os etruscos exigem que ele receba o merecido castigo e estão dispostos a sustentar pela força sua exigência; os sacerdotes, no entanto, os retêm, dizendo-lhes que é vontade do céu que nenhum natural desta terra os leve à vitória e que o chefe que lhes é destinado deve vir pelo mar. Eles me ofereceram a coroa, mas estou muito velho para assumir tão sérios compromissos e meu filho aqui nasceu, o qu eimpede de que ele seja escolhido. Tu, tanto pelo nascimento como pela idade e pela fama como guerreiro, apontado pelos deuses, terás apenas que aparecer para ser saudado como seu chefe. Contigo juntarei Palas, meu filho, minha única esperança e consolo. Sob tua direção, ele aprenderá a arte da guerra e se esforçará para imitar seus grandes feitos.

O rei ordenou, então, que fossem fornecidos cavalos aos troianos, e Enéias, com um grupo escolhido de seguidores e acompanhado de Palas, montou a cavalo e dirigiu-se à cidade etrusca, tendo o resto de seus homens nos navios. Chegou com seu grupo são e salvo ao acampamento etrusco e foram recebidos de braços abertos por Tarchon e seus concidadãos.

Niso e Euríalo - Neste ínterim, Turno reunira seus bandos e fizera todos os preparativos necessários à guerra, Hera mandou-lhe, por intermédio de Iris, uma mensagem incitanto-o a tirar proveito da ausencia de Eneias e surpreender o acampamento troiano. Assim foi feito, mas os troianos estavam precavidos e tinham recebido severas ordens de Eneias de não combater sem sua ausência; mantiveram-se, portanto, em suas trincheiras e resisitiram a todos os esforços dos rútulos para os lançar ao campo. Chegando a noite, o exército de Turno, com o moral muito elevado pela suposta superioridade, festejou e divertiu-se afinal, os soldados estenderam-se no campo e dormiram confiantes.

Nos acampamento dos troianos, a situação era muito diferente. Todos mostravam-se vigilantes, ansiosos e impacientes pelo regresso de Eneias. Niso motava guarda na entrada de todos no exército por sua simpatia pessoal e altas qualidades. Os dois eram amigos e irmãos de armas.

- Notaste a confiança e o descuido que revela o inimigo? - perguntou Niso ao seu amigo. Seus fogos são poucos e fracos e os soldados parecem todos dominados pelo vinho ou pelo sono. Sabes com quanta ansiedade desejam nossos chefes se comunicar com Eneias a fim de receberem suas ordens. Ora, estou muito inclinado a atravessar o acampamento inimigo para ir procurar o nosso chefe. Se for bem-sucedido, a glória do feito me será recompensada suficente e, se julgarem que o serviço prestado merece mais alguma coisa, que te paguem.

- Eurílao, inflamado pelo amor à aventura, replicou:

- Irias tu, Niso, recusar qeu eu compartihasse contigo tua façanha? E podereis eu deixar-te enfrentar sozinho tal perigo? Não foi para isso que meu valente pai me criou nem pretendi tal coisa pra mim, quando me juntei ao estandarte de Eneias, disposto a fazer pouco pela vida, quando comparada com a honra.

- Não duvido disso, meu amigo - replicou Niso. - Sabes, porém, quanto é duvidoso o êxito de tal empreendimento e, seja o que for que me acontecer, desejo que fiques e nada te aconteça. És mais moço do que eu e tens mais que esperar na vida. Não posso ser a causa de tal dor para tua mãe, que preferiu ficar contigo, aqui no acampamento, a viver em paz com as outras mulheres, na cidade Acesta.

- Não digas mais nada - retrucou Euríalo. - Em vão procurarás argumentos para me dissuadir. Já tomei a resolução de ir contigo. Não percamos tempo.

Chamaram a guarda e, entregando-lhe o posto de sentinela, dirigiram-se à tenda do general. Encontraram em conferência os chefes principais, que deliberavam sobre a maneira de comunicar a situação a Eneias. O oferecimento dos dois amigos foi recebido prazerosamente e ambos foram cobertos de louvores e lhes foram prometidas as mais liberais recompensas em caso de sucesso. Iulo, em particular, dirigiu-se a Euríalo afirmando-lhe sua inquebrantável amizade.

- Tenho apenas uma coisa a pedir - replicou Euríalo. - Minha velha mãe está comigo no acampamento. Por mim ela deixou a terra troiana e não quis ficar com as outras matronas na cidade Acesta. Vou partir sem me despedir dela. Não poderia suportar as suas lágrimas nem repelir seus pedidos. Tu, porém, peço-te, consola-a em seu sofrimento. Promete-me isso e enfrentarei audaciosamente quaisquer perigos que possa encontrar.

Iulo e os outros chefes comoveram-se até as lágrimas e prometeram fazer tudo o que ele pedira.

- Tua mãe será a minha - disse Iulo - e tudo que te prometi lhe será entrege se não voltares para recebê-lo.

Niso e Eurialo no Acampamento Rútulo - Gravura - DesconhecidoOs dois amigos saíram do acampamento e entraram logo no meio dos inimigos. Não encontraram vigias nem sentinelas, mas, por toda a parte, soldados dormindo estendidos na relva e entre as carroças. As leis da guerra naquele tempo não proibiam um homem valente de matar o inimigo adormecido, e os dois troianos matarm, ao passar, tantos inimigos quanto puderam, sem provocar alarme. Euríalo retirou de uma tenda um brilhante elmo de ouro e plumas. Os dois haviam passado através das linhas inimigas sem serem descobertos, quando, de súbito, apareceu diante dels uma tropa que, sob o comando de volceno, se aproximava do acampaemento. O brilhante elmo de Euríalo chamou a atenção de Volceno, que saudou os dois jovens e perguntou-lhes quem eram e de onde vinham. Em vez de responder, os dois correram para o bosque. Os cavaleiros espalharam-se em todas as direções para interceptar-lhes a fuga. Niso iludiu os perseguidores e livrou-se do perigo, mas tendo Euríalo se extraviado, voltou para procurá-lo. Entrou de novo no bosque e logo ouviu algumas vozes. Olhando através das árvores, viu todo o bando que cercava Euríalo, interrogando-o ruidosamente. Quer fazer? Com livrar o jovem, ou seria melhor morrer com ele?

Levantando os olhos para a lua, que brilhava muito clara, exclamou:

- Favorece-me, deusa!

Assim dizendo, lançou o dardo contra um dos chefes do grupo, atingindo-o nas costas e atirando-o ao chão mortalmente ferido. No meio do espanto que se seguiu, outra arma partiu e outro guerreiro caiu morto. O chefe, Volceno, não sabendo de onde haviam partido os dardos, avançou contra Euríalo, de espada desembainhada.

- Pagarás por ambos! - exclamou, e ia margulhar a espada em seu peito quando Niso, percebendo de seu esconderijo o perigo que corria o amigo, avançou gritando:

- Fui eu, fui eu! Voltai contra mim vossas espadas, rútulos. fui eu que fiz isso. Ele apenas me acompanhou como amigo.

Enquanto falava, a espada avançou e atravessou o peito de Euríalo. Sua cabeça ciu sobre o ombro, como uma flor cortada pelo arado. Niso investiu contra Volceno, mergulhando a espada em seu corpo, e foi ele próprio morto, no mesmo instante, recebendo inúmeros ferimentos.

A Guerra - Eneias chegou à cena da ação com seus aliados etruscos a tempo de socorrer o acampamento sitiado. Agora, sendo os dois exércitos aproximadamente equivalentes em poderio, a guerra se travou com mais fúria. Vendo-se empenhado em combate contra seus súditos revoltados, o tirano Mezêncio lutou como um animal feroz. Matava todos que ousavam enfrentá-lo e punha a multidão emfuga sempre que aparecia. Afinal econtrou-se com Eneias, e os exércitos deixaram de lutar para assitir ao encontro dos dois. Mezêncio atirou sua lança, que, atingindo o escudo de Eneias, desviou-se e feriu Antores, um grego que deixara a cidade natal, Argos, para acompanhar Evandro à Itália. Enéias então atirou sua lança, que atravessou o escudo de Mezêncio e o feriu na coxa. Seu filho Lauso, sem poder assitir à cena, correu para diante, colocando-se em frente ao pai, enquanto seus partidários rodeavam Mezêncio e o afastavam. Eneias manteve a espada suspensa sobre Lauso, demorando a ferir, mas o furioso jovem investiu, e ele foi compelido a desfechar o golpe fatal. Lauso caiu, e Eneias curvou-se sobre ele, compadecido.

- Infeliz jovem, que posso fazer por ti, digno de teu valor? - disse. - Conserva estas armas que soubesta usar e não temas que teu corop deixe de ser entregue a teus amigos e de receber as devidas honras fúnebres.

A Guerra contra Mezêncio - Pintura sobre tela - Desconhecido

Assim dizendo, chamou os tímidos companheiros do jovem e entregou-lhes o corpo. Enquanto isso, Mezêncio era levado até a margem do rio e nele lavado seu ferimento. Dentro em pouco, chegou ao seu conhecimento a morte de Lauso, e o ódio e o desespero tomaram o lugar do vigor. Cavalgando seu corcel, ele avançou para o meio da batalha, procurando Eneias. Tendo-o encontrado, pôs-se a correr em torno dele em círculo, atirando um dardo em seguida do outro, enquanto Eneias se defendia com o escudo, girando para não receber os dardos pelas costas. Afinal, depois de Mezêncio ter dado três voltas, Eneias arremessou su alança diretamente sobre a cabeça do cavalo, atingindo-o na testa e atirando ao chão o cavaleiro, enquanto um grito subiu de ambos os exércitos até o céu. Mezêncio não implorou misericórdia, mas apenas que seu corpo fosse poupado aos insultos dos súditos rebeldes e enterrado no mesmo túmulo de seu filho. Recebeu com coragem o golpe fatal, e sua vida e seu sangue deixaram o corpo ao mesmo tempo.

Enquanto ocorriam tais fatos em uma parte do campo de batalha, em outra Turno enfrentava o jovem Palas. A luta entre dois campeões tão desproporcionalmente dotados não poderia ser duvidosa. Palas bateu-se com bravura, mas caiu trespassado pela lança de Turno. O vencedor quase se aplacou ao ver o valente jovem morto aos seus pés e renunciou a usar o privilégio de vencedor, despojando-o de suas armas. Apenas retirou e colocou em torno do próprio corpo o boldrié, adornado de rebites e entalhes de ouro, deixando o resto para os amigos do morto.

Depois da batalha, houve uma cessação das hostilidades durante alguns dias, a fim de que os exércitos pudessem enterrar os mortos. Nesse Invervalo, Eneias desafiou Turno para decidir a luta em um combate singular, mas Turno fugiu ao desafio. Seguiu-se outra batalha, na qual se distinguiu particularmente a virgem guerreira Camila. Seus feitos de valor ultrapassaram os dos mais bravos guerreiros, e muitos troianos e etruscos caíram atravessados por seus dardos ou atingidos por seu machado de guerra. Afinal, um etrusco chamado Aruno, que a observava há muito tempo, procurando uma ocasião propícia, viu-a perseguindo um inimigo fugitivo, cuja esplêndida couraça oferecia uma presa tentadora. Atenta apenas à perseguição, a virgem não percebeu o perigo que corria, e o dardo de Arauno atingiu-a e feriu-a mortalmente. Caiu e deu o último suspiro nos braços das donzelas que a acompanhavam. Artemis, porém, que assistiu ao seu destino, não tolerou que sua morte ficasse impune. Aruno, enquanto fugia, alegre mas amendrontado, foi atingido por uma seta oculta, desfechada por uma das ninfas do séquito de Artemis, e morreu ignóbil e anonimamente.

Afinal, teve lugar a luga entre Eneias e Turno. Turno evitara o encontro enquanto pudera, mas, por fim, impelido pelos insucesso de suas armas e pelo murmúrio de seus partidários, lançou-se ao combate. Este não podia ser duvidoso. Eneias tinha a seu favor o decreto expresso do destino, a ajuda da deusa mãe em qualquer emergência e a impenetrável armadura que Hefesto, a seu pedido, fizera para o fiho. Turno, por outro lado, fora abandonado pelos aliados celestiais, tendo sido Hera expressamente proibida por Zeus de continuar ajudando-o. Turno atirou sua lança, mas esta caiu inofensiva, depois de chocar-se com o escudo de Eneias. O herói troiano atirou, então, a sua, que atravessou o escudo de Turno e feriu-o na coxa. A coragem de Turno abandonou-o, e ele implorou misericórdia; Eneias ia conceder-lhe a vida, mas, nesse instante, seus olhos pousaram no boldrié de Palas, que Turno tomara do jovem morto. Sua raiva renasceu, então, e ele o atravessou com sua espada, exclamando:

- É Palas que te imola!

Neste ponto termina a Eneida, e somos levados a deduzir que Eneias, tendo triunfado sobre seus inimigos, obteve a mão de Lavínia. A tradição acrescenta que ele fundou uma cidade a que chamou Lavinium, em homenagem à esposa. Seu filho Iulo fundou Alba Longa, berço de Rômulo e Remo e da própria Roma. Logo após, Afrodite pediu a Zeus que transformasse Eneias em imortal, e novamente o pai dos deuses e dos homens cedeu, permitindo que Afrodite desse o Nectar e Ambrosia, a bebida dos deuses, a Eneias, transformando em imortal, elevando-se assim ao Olimpo.

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