1ª Geração Divina ![]()
Crono - Κρόνος ![]()
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Filhos com Reia: Héstia - Deméter - Hera - Posídon - Hades - Zeus |
| Etimologia: | Em grego Κρόνος (Krónos), sem etimologia certa até o momento. Por um simples jogo de palavras, por uma espécie de homonímia forçada, Crono foi identificado muitas vezes com o Tempo personificado, já que, em grego Χρόνος (Khrónos) é o tempo. Se, na realidade, Krónos, Crono, nada tem a ver etimologicamente com Khrónos, o Tempo, semanticamente a identificação, de certa forma, é válida: Crono, devora, ao mesmo tempo que gera; mutilando a Úrano, estanca as fontas da vida, mas torna-se ele próprio uma fonte, recundando Réia. |

O Fato é que Úrano, tão logo nasciam os filhos, devolvia-os ao seio materno, temendo certamente ser destronado por um deles. Geia então resolveu libertá-los e pediu aos filhos que a vingassem e libertassem do esposo. Todos se recusaram, exceto o caçula, Crono, que odiava o pai. Entregou-lhe Geia uma foice (instrumento sagrado que corta as sementes) e quando Urano, "ávido de amor", se deitou, à noite, sobre a esposa, Crono cortou-lhe os testículos. O sangue do ferimento de Urano, no entanto caiu todo sobre Geia, concebendo esta, por isso mesmo, tempos depois, as Erínias, os Gigantes e as Ninfas Mélias ou Melíades. Os testículos, lançados ao mar, formaram, com a espuma, que saía do membro divino, uma "espumarada", de que nasceu Afrodite. Com isto, o caçula dos Titãs vingou a mãe e libertou os irmãos.
Com a façanha de Crono, Urano (céu) separou-se de Geia (terra). O Titã, após expulsar o pai, tomou seu lugar, casando-se com Réia.
Dois pontos básicos devem ser ressaltados no episódio de Crono e Urano: a castração do rei e, em consequencia, sua separação da rainha.
A castração de Urano põe fim a uma longa e initerrupta procriação, de resto inútil, uma vez que o pai devolvia os recém-nascidos ao ventre materno.
É possível que Hesíodo, cuja Teogonia está centrada nos conflitos entre gerações divinas e a luta pela soberania universal, tivesse conhecimento de certas teogonias orientais, uma vez que "a mutilação de um deus cosmocrata por seu filho, que se torna assim seu sucessor, constitui o tema dominante das teogonais hurrita, hitita e cananéia". No mito hurrita-hitita, o deus soberano era Alalu. De sua união com Bruth nasceram Anu e Gê.Estes dois últimos tiveram quatro filhos, sendo El o primogênito. Depois de uma violenta discussão com sua esposa Bruth, Alalu tenta destruir os filhos, mas El forja uma serra ou lança e expulsa o pai, castrando-o trinta e dois anos depois. Por fim, Teshup, que representa a quarta geração e corresponde a Zeus, assume, sem lutas, o poder supremo.
Mas se a castração leva obviamente à impotência, o soberano terá faltamente que ser afastado do poder. A função precípua do rei é a de fecundar. Da fecundação da rainha depende a fertilidade de todas as mulheres, da terra e do rebanho. Assim, na medida em que o rei, por força da idade, da doença ou porque se tornou sexualmente impotente, ou perdeu seu poder mágico, é alijado do trono e substituído. Na sociedade matrilinear, seu sucessor é o filho caçula, que, sendo o mais jovem, corre menos risco de interromper a fecundação.
Outro dado importante na mito de Urano é a sua separação de Geia, com a interposição entre ambos do Éter e do Ar. O tema cosmogônico da separação do Céu e da Terra, após um hieròs gámos, casamento sagrado, é muito difundido em diferentes níveis de cultura. No mito sumério, An (Céu) e Ki (Terra), após seu hieròs gámos, estavam profundamente unidos, mas seu filho En-lil, deus da atmosfera, suparou seus pais, carregou consigo a Terra e se interpôs entre ambos.
Na Mitologia egípcia, mais precisamente no sistema heliopolitano, a deusa Céu Nut estava estreitament abraçada a Geb, o deus Terra, mas Shu, personificação da atmosfera, infiltrou-se entre ambos e os separou.
No mito nagô, Orun, o "mundo sobrenatural", aproximadamente o Céu, e Aiê, "o mundo físico concreto", o que equivaleria mais ou menos à Terra, estavam, a princípio, unidos, mas algo de grave aconteceu e para sempre os separou. É que um casal de camponeses, que não tinha filhos, conseguiu afinal, gerar um menino, graças às preces da mulher a Oxalá, o deus da criação dos homens. Havia apenas uma condição: que a criança jamais ultrapassasse os limites da Terra. Crescido o rapaz, enganando o pai, ultrapassou os limites proibidos e ainda aos gritos desfiou os deuses. Oxalá, irritado, jogou seu cajado que, ao cravar-se em Aiê, separou-a para sempre de Orun. "O hálito de Olorum, o deus supremo, prencheu o espaço vazio, formando a atmosfera. É portanto o sopro de Deus que une os dois mundos".
Urano, mutilado e impotente, o deus do céu caiu na otiositas, na ociosidade, o que é, segundo Micea Eliade, uma tendência dos deuses criadores. Concluída sua obra cosmogônica, retiram-se para o céu e tornam-se di otiosi, deuses ociosos.
Quanto a Crono, depois que se apossou do governo do mundo, converteu-se num déspota pior que o pai. Temendo os Ciclopes, que ele havia libertado do Tártaro a pedido de Geia, lançou-os novamente nas trevas, bem como aos Hecatonquiros. Como Urano e Geia, depositários da mântica, quer dizer, do conhecimento do futuro, lhe houvessem predito que seria destronado por um dos filhos, que teria de Réia, passou a engoli-los, à medida em que iam nascendo: Héstia, Deméter, Hera, Hades e Posídon. Escapou tão somente Zeus. Grávida deste último, Réia fugiu para a ilha de Creta e lá, secretamente, no monte Dicta, deu à luz o caçula. Envolvendo em panos de linho uma pedra, deu-a ao marido, como se fosse a criança, e o deus, de imediato, a engoliu.
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Ref. Bibliográfica: |
AUGRAS, Monique. O Duplo e a Metamorfose. Petrópolis, Vozes, 1983, p. 57; |
| BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Greva Vol I. Petrópolis, Vozes, 2004; | |
| ELIADE, Mircea. Op. cit.,p. 78. |






