Períodos de Formação da Civilização 

Linha do Tempo na Era Negra ou Idade das Trevas 
| 1200 a.e.c. | 1200 a.e.c |
1200-900 a.e.c |
800 a.e.c |
| Invasão dos Dórios | 1ª Diáspora Grega | Formação da Comunidade Gentílica | Homero e seus Poemas Épicos |
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| Homero |
A Illada, ao revés, descreve urn fato histórico, se bem que revestido de um engalanado maravilhoso poético. Na expressão, talvez urn pouco “realista” de Page, o que o poema focaliza “são os próprios episódios do cerco de Ilion e ninguém pode lé-lo sem sentir que se trata, fundamentalmente, de um poema histórico. Os pormenores podem ser fictIcios, mas a essência e as personagens, ao menos as principais, são reais. Os próprios gregos tinham isso como certo. Não punham em dúvida que houve uma Guerra de Tróia e existiram, na verdade, pessoas como Príamo e Heitor, Aquiles e Ajax, que, de um modo ou de outro, fizeram o que Homero ihes atribui. A civilizacão material e o pano-de-fundo politico-social, se bern que não se assemelhem a coisa algurna conhecida ou lembrada nos períodos históricos, eram considerados pelos gregos como um painel real da Grécia da época micênica, aproximadamente 1.200 a.e.c. quando aconteceu o cerco de Tróia.
A dificuldade maior no estudo da epopéia homérica esté em isolar o que realmente é micênico do que pertence a épocas posteriores, como a Idade do Ferro, a Idade do Caos dório e ao ambiente histórico em que viveu o próprio poeta. Sem dúvida, também sob o angulo politico, social e religioso, os poemas homéricos são uma colcha de retalhos com rótulos de civilizações diferentes no tempo e no espaco. Não obstante todas estas dificuldades, alguns elementos micênicos podem, com boa margem de segurança, ser detectados nos dois grandes poemas. Consoante Homero, o que parece autêntico, o mundo micênico era um entrelaçamento de reinos pequenos e grandes, mais ou menos independentes, centralizados em grandes palácios, como Esparta, Atenas, Pilos, Micenas, Tebas..., mas devendo fidelidade, ou talvez vassalagem, não se sabe muito bem por quê, ao reino de Agamémnon, com sede em Micenas. Além deste aspecto politico, há outros a considerar. Maria Helena da Rocha Pereira alinha alguns elementos aqueus presentes na epopéia homérica: “Ora, os Poemas Homéricos descrevem, fundamentalmente, a civilizaçao micênica, embora ignorem a sua forte burocratização e a abundância de escravatura, reveladas pelas tabuinhas de Pilos. Mas, entre os principais elementos micênicos, podemos apresentar: as figuras e seus epitetos; a riqueza de Micenas (“Micenas rica em ouro”); a raridade do ferro, a noção de que ánaks é mais do que basileús; o fausto dos funerais de Pátroclo (embora seja cremado, como os gregos da epoca histórica, e não inumado, como os Micênicos); a arquitetura dos palácios, nomeadamente a presenca do mégaron; objetos como o elmo de presas de javali, a taça de Nestor, e a espada de Heitor, com um aro de ouro”. Mas se comprovadamente existem elementos micênicos, de fundo e de forma, nos poemas homéricos, como pôde o bardo máximo da Hélade ter conhecimento, por vezes tão preciso, de um mundo que ele cantou cerca de quatro ou cinco séculos depois? A escrita jé existia, é verdade, e cinco séculos também antes do poeta, mas aquela, a Linear B, era usada, sobretudo em documentos administrativos e comerciais e não em textos de caráter literário. Parece que os poderosos senhores do mundo aqueu julgavam indigno ou desnecessário que suas façanhas fossem gravadas em tabuinhas de argila. E realmente não era necessério, pela própria técnica poética da época. A poesia épica micênica é oral e tradicional, uma poesia não escrita e transmitida de geracão a geração. Uma poesia áulica, cheia de fórmulas de caráter religioso e miitar e cuja sobrevivéncia se deveu aos aedos e rapsodos. Page sintetiza, corn maestria, como o maior de todos os vates pôde “compor” seus dois poemas épicos sem documento algum escrito sobre o passado: “Todos concordam (...) que Homero viveu centenas de anos depois dos fatos que descreveu e que não teve documentos escritos sobre o passado. O que devemos perguntar, portanto, não é por que ele desconhece tanto sobre a Grécia micênica?’, mas como pôde ele ter sabido o que sabia? A resposta é que a épica grega é uma poesia de tipo muito peculiar, é oral e tradicional. Entendo, por oral, que era composta na mente, sem a ajuda da escrita. E, por tradicional, entendo que era preservada pela memória e transmitida oralmente de geração a geração. Jamais era estética. Crescia e se modificava continuarnente. A Iliada é a última fase de um processo de crescimento e desenvolvimento que começou durante o sítio de Tróia, ou pouco depois. Esse tipo de poesia (que ocorre na poesia épica de muitas linguas além do grego) so pode ser composto, so pode ser preservado, se o poeta tiver a sua disposição um estoque de frases tradicionais — metade de versos, versos inteiros e estrofes, já prontos para quase todas as finalidades concebIveis. Ó poeta compôe, enquanto recita; não pode parar para pensar como continuar; deve ter pronta toda a história, antes de começar, e deve ter na memória a totalidade — ou quase totalidade — das frases de que precisará para contá-la. Os poemas homéricos são, na verdade, compostos dessa forma — não em palavras, mas em seqüéncias de frases feitas. Em 28.000 versos, há 25.000 frases repetidas, grandes ou pequenas”. A sólida argumentacão de Denys Page pode-se acrescentar ainda, como processo mnemônico, na transmissão dessa poesia oral, o uso dos epítetos, os famosos epitetos homéricos. As personagens mais importantes e as divindades maiores “tem, em media, dez epitetos que se repetem no poema todo centenas de vezes com alguma variedade”.São, ao todo, nos dois poemas, em estatistica feita pacienternente por Marques Leite, 4.560 epitetos. Os poemas homéricos resultam, pois, de um longo, mas progressivo desenvolvirnento da poesia oral, em que trabalhararn muitas gerações. Usando significantes dos fins do século IX e meados do século VIII a.e.c., épocas em que foram, ao que parece, “compostas”, na Ásia Menor Grega, respectivamente a Iliada e a Odisséia, o poeta nos transrnite significados do século XIII ao século VIII a.e.c. O mérito extraordinário de Homero foi saber genialmente reunir esse acervo imenso em dois insuperáveis poemas que, ate hoje, se constituern no arquétipo da épica ocidental. ▲Topo ▲-----------------------------------------------------
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Numa apresentação sumaríssima da epopéia homérica, é conveniente deixar claro urn dado fundamental. A Odisséia, com os dez anos de peregrinação de Odysseus, o nosso Ulisses em seu regresso ao lar, em Itaca, após a destruição de Tróia, é bem diferente, do ponto de vista “histórico”, da Iliada. Opinam alguns estudiosos de Homero, no entanto, que essa diferença, quanto ao fundo histórico de ambos os poemas, não deve ser excessivamente exagerada. A base histórica da Odisséia seria a busca do estanho. Realmente o ferro era pouco e o estanho absolutamente inexistente na Hélade. Possuindo o cobre, mas necessitados e desejosos do bronze, os helenos dos “tempos heróicos” organizaram a rota do estanho. bem verdade que a espada de ferro dos dórios havia triunfado do punhal de bronze dos aqueus, mas, até pelo menos o século VIII a.e.c., o bronze há de ser o metal nobre da nobre elite da pátria de Homero. Assim se poderia defender que a temática do périplo fantástico de Ulisses teria sido o mascaramento da busca do estanho ao norte da Etruria, com o descobrimento das rotas rnarítimas do Ocidente. Tratar-se-ia, desse modo, de uma genial ficção, embora assentada em esparsos fundamentos históricos, porque, no fundo, a Odisséia é o conto do nóstos, do retorno do esposo, da grande nostalgia de Ulisses. Este seria o ancestral dos velhos marinheiros, que haviam, heroicamente, explorado o mar desconhecido, cujos mitos eram moeda corrente em todos os portos, do Oriente ao Ocidente: monstros, gigantes, ilhas flutuantes, ervas milagrosas, feiticeiras, ninfas, sereias e Ciclopes.

