Civilização Grega - História da Civilização

Períodos de Formação da Civilização

Linha do Tempo na Era do Bronze

Civilização Minoana na Ilha de Creta A Invasão dos Jônios Invasão de Aqueus e Eólios Apogeu e decadênciada Civilização Micênica A Guerra de Tróia, histórica
3000 a.e.c.
2600-1950 a.e.c
1600-1580 a.e.c
1600-1100 a.e.c
1200 a.e.c.
Civilização Minoana na Ilha de Creta Invasão dos Jônios Invasão dos Aqueus e Eólios Civilização Micênica na Hélade A Guerra de Tróia

 

Introdução

Creta MinoanaQual é a origem dos cretenses? Há os que simplesmente escamoteiam o problema, ignorando-Ihes o passado e iniciando a história da ilha pelo Minóico Antigo, isto é, a partir de ~ 2800, quando, possivelmente, lá chegaram os anatólios. Outros, todavia, remonta, além do Minóico Antigo e, partindo da lingüística, procuram demonstrar que a língua cretense, tradicionalmente denominada pelásgico, não representa o substrato mediterrâneo anterior a chegada dos Indo-Europeus. Isolando do vocabulário grego os raros vestígios do pelásgico, seria possível reconstruir um “substrato cretense”, enriquecido com meros topônimos e, através desse substrato, provar que o pelásgico teria certo parentesco com a língua indo-européia, principalmente com os dialetos luvita e hitita. Neste caso, os cretenses seriam proto­indo-europeus, aparentados portanto com os gregos, mas que, anteriormente a estes, se teriam separado do tronco comum indo-europeu. Hipótese sedutora, mas hipótese apenas. Os anatólios teriam vindo bem depois...

Outra observação é que muito do pouco que se conhece de Creta, “este livro de imagens sem texto”, deve-se ao labor, as fadigas e a competência do verdadeiro descobridor de Cnossos, o sábio Sir Arthur Evans (1851-1941 d.e.c.). Se o dinâmico investigador de Tróia e Micenas, Heinrich Schliernann, por causa da instabilidade política de Creta, ainda submetida a dominação turca, não pôde prosseguir suas escavações, iniciadas em 1886, Evans foi mais feliz: desde 1894 o encontramos na ilha de Ariadne, onde permaneceu quase ate o fim da vida. A publicação de sua obra monumental sobre Cnossos ainda é o ponto de partida para estudos sobre Creta e o Palácio do rei Minos.

Virgílio (Eneida III, 104-105), repetindo antigas tradições, faz menção da ilha de Creta: <<Creta, ilha do grande Júpiter, jaz no meio do mar, onde se ergue o Monte Ida e (Se encontra) a origem de nossa gente>>. Muito antes, Aristóteles (Pol. 11,7, § 2) chamava a atenção para a influência que a situação excepcional de Creta exercera na História do Mar Egeu: "Por sua posição natural, Creta parece chamada a dominar todos os povos gregos estabelecidos, em grande parte, sobre
o litoral dos mares em que se estende essa grande ilha.. ."

Séculos antes do filósofo grego, o imortal Homero (Odisséia, XIX 172-180) cantara: "Há uma terra, no meio do mar vinoso, tão bela quão rica, isolada nas ondas; é a terra de Creta, com inumeráveis gentes e noventa cidades, . - entre as quais Cnossos, grande cidade desse rei Minos que o grande Zeus, de nove em nove anos, tomava como confidente".

Esses antigos autores confirmam a importância enorme do conhecimento da civilização cretense para um esclarecimento das origens da civilização ocidental. Em Creta, podemos afirmar, nasceu o primeiro e mais brilhante exemplo de civilização "européia". A atividade humana na ilha está documentada desde o Neolítico O estudioso que atualmente percorre essa região para aprofundar seus conhecimentos de História Antiga ou o turista que busca nas paragens do Egeu o descortino de novos horizontes tem oportunidade de encontrar, através de restos arqueológicos que se estratificam em diferentes camadas do solo, testemunhos mudos dos diferentes povos que dominaram Creta: turcos, venezianos, árabes, bizantinos, romanos, dórios, aqueus, minoanos...

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O País

Situada em pleno Mediterrâneo Oriental, no limite sul da bacla do Egeu, com uma superfIcie de 8.287 km, um comprirnento de 260 quilômetros e uma largura que varia de 12 a 60 quilômetros, Creta ocupa uma posicão privilegiada que explica, desde logo, a existência da antiga Talassocracia Minoana.

Aristóteles, (P01. 11,7,2) já observara: <<Eis por que Minos possuiu o império do mar e conquistou ou colonizou as ilhas>>. Com efeito, a localização de Creta, entre os três continentes, fazia da ilha, outrora, o ponto obrigatório de convergência de negociantes que aí trocavam as mercadorias das mais diferentes procedências.

A configuração topográfica apresenta maciços montanhosos cuja altitude ultrapassa os dois mil metros, vales fluviais e planícies. De oeste a leste se alinharam os Montes Lefka Ori (Montanhas Brancas) com 2.482 m, cobertos de neve durante oito meses de cada ano, o Monte Ida, (com 2.490 m) e as cadeias de Lacei (com 2.147 m).

A barreira montanhosa isola a costa setentrional da meridional, existindo, contudo, uma passagem natural a leste do Monte Ida ligando a baia de Messara ao porto de Iráklion. Nessa passagem transversal foram fundadas as grandes cidades antigas de Cnossos, Gortina e Faestos. A ilha não possui rios de maior importância: só torrentes que geralmente secam durante o verão; mas a abundância de fontes nos declives inferiores permite assegurar o abastecimento de água.

Entre os rios podemos citar, a titulo de exemplo, o Lethaios, na planície de Messara, e o Kairatos, na planície em que fora construída a cidade de Cnossos. O contorno de Creta é bastante irregular. Rochoso e abrupto em alguns lugares, apresenta, em outros, uma série de penínsulas, promontórios e balas acolhedoras. Estas se encontram principalmente ao norte: Kissamos, Khania, La Sude, Mirabello, Sítia. Ao sul encontramos a baía de Messara e os cabos de Krio, Lithinos e Gutheron <<que avançam orgulhosamente pelo mar>>.

É curioso notar que, em relação à superfície da ilha, seu litoral é consideravelmente longo.
o clima de Creta varia de acordo com a altitude. É seco e tórrido nas planícies, durante o verão; as chuvas caem regularmente no outono. As neves do Monte Ida persistem ate junho, numa latitude que pode ser chamada saariana.

Passemos aos recursos naturais. As florestas que recobriam as zonas montanhosas forneciam, outrora, madeira em abundância: <<as matas de carvalho e de cipreste que haviam dado colunas aos palácios de Minos, mastros a sua frota, ataúdes aos mortos do Egito, serviam, inúmeras vezes, de asilo a rebeldes>>.

Vinhas, oliveiras, legumes e cereais figuram entre os principais pro­dutos das férteis planícies irrigadas por uma infinidade de pequenos cursos d’água procedentes das montanhas que funcionam como permanentes reservatórios. Tulard assim resume a influência do meio geográfico na Historia de Creta: <<A costa acolhedora aos navios, a planície nutriente, a montanha refúgio, tais são os três meios geográficos que determinam e explicam a História de Creta>>.

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O Povo

Qual o tipo étnico dos habitantes da antiga Creta? Eis um problema que tem suscitado pesquisas, dificuldades e debates. Já os gregos antigos sabiam, por tradição, que a ilha de Creta fora habitada por diferentes povos, entre os quais o livro dezenove (vs. 175-177) da Odisséia menciona os Eteo-cretenses, cuja língua parece não ter sido o grego.

As fontes literárias, entretanto, não nos fornecem informações seguras sobre as características raciais dos antigos cretenses. Devemos buscá-las em duas ordens de fontes distintas: antropológicas (esqueletos) e iconográficas (pinturas, relevos, estatuetas, etc....). Salientemos, desde logo, a importância dos documentos fornecidos pela Antropologia. Pittard, em seu interessante estudo <Les Races et L’Histoire>, chama a atenção para o papel da Antropologia como ciência auxiliar da História: "Antes de a Antropologia haver revelado as variedades humanas, não se prestava atenção alguma aos <<documentos>> que utilizamos nesse livro.

Os esqueletos que se exumavam no decurso das escavações eram simplesmente esqueletos e nada mais. Abandonavam-nos a beira das Valas, quebravam-nos e sepultavam-nos de novo. Nenhum arqueólogo teria imaginado que tais ossamentos iriam fornecer a ciência meios de explicação as vezes bem desenvolvidos, esclarecer muitos acontecimentos obscuros>>.

No estudo do tipo físico dos cretenses, a Antropologia leva, sobretudo, em consideração os índices cefálicos apresentados pela cranio­metria. De acordo com esses índices encontramos em Creta, desde o Neolítico, (não ha indícios, por enquanto, da existência de civilização paleolítica) uma predominante percentagem de dolicocéfalos, tipicamente mediterrâneos. Ao lado dos dolicocéfalos encontramos uma percentagem bem menor de braquicéfalos, talvez de origem asiática. Os braquicéfalos representam "quer os restos de aborígines massacrados pela raça predominante, quer, mais provavelmente, um elemento imigrado, uma minoria vinda, provavelmente, das Cicladas onde se vêem na Idade do Cobre dolicocéfalos em Sira, mesocéfalos em Naxos, mas braquicefalos em Paros, em Oliaros, em Sifnos".

A predominância dos dolicocéfalos se acentua no curso dos séculos que vão do M.A. (Minoano Antigo) ao M.M. (Minoano Médio). Ao que parece, a raça aborígine assimila cada vez mais os descendentes dos intrusos. No Minoano recente (final da Idade do Bronze) observa-se uma transformação radical na morfologia dos habitantes de Creta: diminui consideraveirnente a população dolicocefalia enquanto que aumenta, paralelamente, o contingente de braquicéfalos e de inesocéfalos. Essa mudança brusca assinala, segundo Glúten, a chegada dos helenos. Passemos, agora, as fontes iconográficas que nos dão rnaiores esclarecimentos sobre o tipo físico dos antigos cretenses, do que os fornecidos por alguns esqueletos e algumas tIbias. Pinturas, rele­vos, pedras gravadas, indicam-nos como os minoanos viam-se a si mesmos; as pinturas existentes nos tuimulos egIpcios mostram-nos como eram vistos pelos estrangeiros.

Pequena estatura, porte gracioso, esbelteza, cintura apertada, CaracterIsticas que dão idéia de agilidade e vivacidade, eis o que nos revela a iconografia sobre o tipo fisico dos morenos habitantes da Creta Minoana. As muiheres são representadas corn a pele branca contrastando com a cor morena dos homens, fato esse que se explica pela vida mais recoihida daquelas, enquanto que estes se expunham aos raios ardentes do sol e ao vento do mar. Os bronzeados cretenses causaram admiração aos louros helenos quando estes os encontraram pela primeira vez. Quanto ao cabelo, notemos que a moda variou na ilha de Minos: no Minoano Médio encontram-se representacöes de hornens corn cabelos curtos; mais tarde, contudo, aparecem as longas cabeleiras. Encontram-se, em algumas gravuras, ambas as modas usadas simultaneamente. Mas um costume prevaleceu sempre entre os cretenses, desde os tempos neolIticos: raspar a barba. Tal hábito explica as navaihas e pincas depilatórias encontradas nos túmulos.

A muiher cretense apresenta uma fronte vertical donde se destaca bruscamente o nariz, as mais das vezes, arrebitado na extremidade. Os olhos são grandes e rasgados. A boca bem delineada apresenta lâbios carnudos e rubros. Os cabelos estão divididos em cachos sobre o pescoço e a fronte, ou caem, trançados, sobre os ombros e o peito saliente.

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A Escrita

Ha alguns anos atrás, costumava-se dizer, simplesmente, que a escrita cretense constituía um enigma insolúvel. Hoje, graças ao trabalho de modernos Chanipollioris que paciente e infatigavelmente dedicaram e dedicam parte de sua vida a decifração dos misteriosos sinais com que os habitantes da Antiga Creta materializavam seus pensamentos, o problema da escrita cretense parece encaminhar-se para uma solução que, mais tarde ou mais cedo, trará revelações interessantes no que concerne a História da Egeida.

Encontramos em Homero urna passagem que talvez tenha relação com um dos tipos da escrita cretense: "Enviou Belerofonte a Licia com funestas credenciais. Deu-lhe tabuinhas dobradas nas quais havia traçado certo número de sinais misteriosos com significado mortal" (Ilíada VI,167’, ss).
Esses "sinais misteriosos", muito mais de dois milênios após a data em que foram redigidos os versos supracitados, despertaram a atenção de Arthur Evans quando o arqueólogo começou a encontrar nas escavações os primeiros vestígios da antiga escrita. "Encontramos, escreve Evans em uma carta, uma espécie de barra de argila cozida, parecida com um cinzel de pedra, embora quebrada em uma extremidade, com sinais de escrita e algo que parecem números, o que me fez recordar em seguida uma tabuinha de argila, de época desconhecida, que eu havia copiado em Cândia, também procedente de Cnossos... e também quebrada". "Em ambas se distingue uma espécie de escrita cursiva".

Em outra carta, Evans anuncia entusiasmado: "0 grande descobrimento foram os enormes depósitos de tabuinhas de argila, inteiras ou fragmentárias, análogas as babilônicas, porém com inscrições em escrita pré-histórica de Creta. Devo ter já umas setecentas pecas". Mais tarde, Evans escreveu a seu pai: "Com respeito as inscrições pré-históricas, continuam aparecendo. Acabo de dar com o depósito maior de todos, umas centenas de pecas".

O correspondente do Times em Atenas escrevia a 10 de agosto de 1900: "O descobrimento mais importante é o da escrita cretense pré-histórica, que mostra que já se escrevia". Um fato curioso contribuiu para a conservação de milhares de inscrições encontradas em Creta: o logo que destruiu palácios e cidades e que, em outras regiões, acabou com preciosas bibliotecas, preservou, paradoxalmente, os importantes arquivos cretenses.

Isto se deu em virtude de haver o calor literalmente cozido as tabuinhas de barro cru que teriam sido fatalmente destruídas pelo correr do tempo. Evans havia reconhecido duas espécies de escrita: uma hieroglífica e outra linear. Cada um desses tipos comportava, ainda segundo Evans, duas categorias: hieroglífica A, hieroglífica B, linear A e linear B.

Observe-se que a terminologia de Evans diz respeito somente ao aspecto exterior da escrita. É discutível que os hieróglifos cretenses tenham relação com os congêneres egípcios. É possível que, como admitia Evans seguido por Hall, certos símbolos da escrita cretense derivassem dos antigos hieróglifos egípcios. A maioria, porém, dos sinais minoanos, ainda segundo os autores mencionados, deve ter sido inventada na própria ilha. Que língua estaria encoberta pelos misteriosos sinais da escrita cretense? Durante muitas décadas acreditava-se que a escrita Minoana em duas diferentes formas grafava uma antiga língua mediterrânea não indo-européia.

Em 1950 o jovem erudito norte-americano Emmet L. Bennett, após um estudo minucioso das escritas lineares A e B, publicou um artigo em que assinala diferenças importantes entre ambas, concluíndo que, embora os sinais parecessem os mesmos, as palavras deviam ser diferentes. Em 1951 foram publicados algumas centenas de tabuinhas com inscrições em linear B encontradas, anos antes, pelo Prof. Blegen, da Universidade de Cincinnati, nas escavações de Pilos no Peloponeso Ocidental.

Em 1952 Sir John Myres, amigo intimo de Evans, publicou o Segundo tomo dos <<Scripta Minoa>> deixado incompleto pelo famoso arqueólogo. Este segundo tomo continha todas as tabuinhas escritas em linear B encontradas em Cnossos. A descoberta feita em 1939 por Blegen em Pilos seguida de novas descobertas do mesmo Professor em 1952, no mesmo lugar, não deixaram dúvidas de que a linear B estava hem difundida na Grécia Continental.

Tabuinhas de Micenas e vasos de Tebas, Micenas, Orcômeno, Trento e Elêusis apresentavam igualmente inscrições em linear B. Tudo sugeria que, atrás da escrita linear B, se encontrava uma língua falada em Creta (a partir da data em que passou a ser usado o citado tipo de escrita) e no continente. Esta língua só poderia ser o grego, ou melhor, uma forma arcaica do grego. Tal suposição era uma boa pista para a decifração da escrita. Nessa decifração desempenhou importante papel Michael Ventris, mas por justiça devem também ser citados os nomes de Alice Kober, Emmett Bennett e J. Chadwick.

A Dra. Alice Kober, de Brooklyn, estudara a escrita linear B durante a guerra e escrevera de 1944 a 1950 que nas tabuinhas de Cnossos havia encontrado uma certa unidade gramatical e sugerira que, mediante o estudo da ordem das palavra, de suas inflexões e terminações, se podia conhecer a gramática da língua escrita embora não se soubesse como pronunciar as palavras. Emmett L. Bennett Jr. fora discípulo de Blegen e havia fotografado e estudado as tabuinhas descobertas pelo mestre. Em 1947, depois de ser desmobilizado do serviço criptográfico do exército dos Estados Unidos, apresentou um estudo sobre as tabuinhas com uma metódica classificação dos sinais.

Depois da publicação do tomo segundo dos Scripta Minoa, Bennett esteve em Creta a fim de estudar os originais das tabuinhas reproduzidas. John Chadwick é um filólogo de Cambridge que muito auxiliou a obra de Ventris e expôs seu trabalho no livro <The Decipherment of Linear B> (New York, Moderne Library, Randon House, 1958).

Michael Ventris, O futuro decifrador da linear B entusiasmou-se com o problema quando, aos treze anos, ouviu urna conferência de Evans (que tinha então 84 anos) sobre as tabuinhas cretenses. Ventris ficou intrigado com o enigma e resolveu dedicar-se a solução do mesmo.

"Bern cedo na vida, aprendeu Ventris os hieróglifos egípcios, e atirou-se de corpo inteiro ao estudo do latim e do grego. Nunca esmoreceu no estudo dos hieróglifos minoanos, mesmo quando dirigia um bombardeiro inglês na II Guerra Mundial, ou após a guerra ao estudar arquitetura, que se tornou a sua profissão".

Numa fase preliminar, procurou tornar conhecimento de todas as inscrições da linear B encontradas quer em Creta, quer na Grécia Continental. Todas essa inscrições foram cuidadosamente estudadas, assinalan­do-se, por exemplo, "quantas vezes aparecia determinado sinal, quantas vezes aparecia no final de urna palavra, quantas vezes no meio, quantas vezes no principio, etc..

Então, ele e outros investigadores começaram um largo processo de análise, chegando gradualmente a conhecer a aparente estrutura gramatical do antigo idioma e a relativa freqüência e relações dos sinais fonéticos em que estava escrito". Depois de penoso trabalho de investigação, classificação e análise, Ventris passou para urna nova fase: a substituição experimental dos valores fonéticos para chegar a palavras e inflexões de alguma língua conhecida.

Levando em consideração os trabalhos de Alice Kober, Ventris deteve-se em uma série de palavras por ela estudadas que se repetiam com freqüência em diferentes contextos e em formas diversas. Kober chamava essas palavras <<paradigmas>>, Ventris negava triplets e <<pensou que, provavelmente, se tratava dos nomes das principais cidades cretenses e de seus adjetivos correspondentes>>.

Com efeito, as cinco palavras identificadas eram nomes de cidades cretenses hem conhecidas: Ammisos, Cnossos, Tilissos, Faestos e Lyktos. Ventris conseguiu, assim, conhecer um determinado número de sinais com seus valores fonéticos. Ampliando a aplicação desses Valores fonéticos, organizou uma tabela que o capacitou a descobrir através da linear B uma forma arcaica da língua grega semelhante, em muitos pontos, a dos poemas homéricos.

Ulteriores experiências vieram confirmar o método descoberto pelo jovem arquiteto. Infelizmente para a ciência, Ventris veio a falecer tragicamente num acidente de automóvel em 1956. "Em pouco, Ventris progredira tanto em sem trabalho com os minoanos que ele e seus assistentes eram capazes de escrever uns aos outros na escrita minoana. Os arqueólogos de todo o mundo aplaudiram o trabalho do quieto e brilhante jovem arquiteto, e justificadamente: ele realizara a mais dificil tarefa de decifração jamais vista. Seu trabalho fora muito mais difícil que o de Champollion, o famoso cientista Frances que finalmente elucidou os hieróglifos egípcios.

Champoilion sabia que os hieróglifos representavam sons egípcios; mais ainda, tivera a Pedra de Roseta sobre a qual uma inscrição egípcia fora escrita com uma tradução grega. Assim o brilhante e talentoso Michael Ventris, por sua habilidosa e esmerada análise e comparação, resolveu o enigma de sessenta anos de Arqueologia cretense.

Na idade de vinte e sete anos, alcançou a fama mais depressa e com mais valor que muitos arqueólogos que despenderam toda a vida escavando no Mediterrâneo.

Concluamos essas linhas sobre a decifração da linear B com duas observações: Primeiro, note-se que as teorias de Ventris não foram, desde logo, aceitas por todos Os especialistas. Ainda hoje restam pontos obscuros a esclarecer.Segundo, a descoberta de Ventris acarreta importantíssimas conseqüências para o conhecimento da História de Creta: "No momento em que o palácio de Cnossos atinge seu apogeu por 1450 a.e.c, fala-se, aí, o grego. Aqueus continentais são, pois, os senhores de Cnossos e a talassocracia minoana torna-se um mito".

Apesar da decifração da linear B paira ainda um grande ponto de interrogação sobre a História Minoana. É que a linear A continua desafiando os Champollions. Essa escrita esteve em uso na ilha de Creta ainda no século XIV a.e.c. Infelizmente o material para estudo é escasso. (Temos cerca de 5.000 tabuinhas de inscrições em linear B, enquanto que menos de 200 em linear A).

Um ponto de partida para a decifração da linear A é a sua semelhança com a linear B (esta deriva daquela). A língua grafada e, evidentemente, outra. Estamos, aqui, diante de um problema parecido com o que nos oferece a etruscologia: escrita conhecida, língua desconhecida. As teorias sobre a natureza da língua escondida sob os sinais da linear A são diversas. Alguns estudiosos (Pugliese Carratelli, Meriggi, Furumarck e sobretudo R. Palmer) admitem a hipótese de que se trata de uma língua indo-européia; outros preferem a hipótese de que se trata de urna língua sermítica.

O primeiro erudito a publicar urna interpretação semíitica da linear A foi Cyrus H. Gordon. Outros defensores de interpretação semítica (embora não estejam totalmente de acordo com Gordon) são os eruditos sul-africanos Pope e Davis. Na realidade, a escrita linear A ainda não pode ser considerada como decifrada. Julgamos que um processo ulterior só será possível quando houver major quantidade de material disponível para as investigações.

Não desejamos encerrar este rápido estudo sobre a escrita cretense sem antes mencionarmos o célebre disco de Faestos descoberto em 1908 por ocasião das escavações da Missão italiana dirigida por Luigi Pernier. Trata-se de um disco de argila coberto em suas duas faces por uma inscrição espiralada em caracteres hieroglíficos. Tais sinais (são em número de 241, mas, excluindo as repetições, somam apenas 45 ti­pos) diferem completamente dos hieróglifos cretenses.

As opiniões dos entendidos divergem quanto a natureza da escrita, quanto a maneira como deve ser lida (começando-se pelo centro ou pela extremidade da circunferência) e quanto a origem (africana, asiática ou cretense).

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Cronologia Minoana

As relações comerciais entre o Egito e Creta possibilitaram aos arqueólogos, com relativa segurança, o estabelecimento de uma Cronologia Minoana. Objetos procedentes do Egito e pertencentes a dinastias diversas foram encontrados nas escavações em Creta; da mesma forma, objetos de cerâmica provenientes de Creta foram descobertos em túmulos egípcios.

"E ao mesmo tempo que esses achados, tanto os do Egito como os de Creta, eram examinados e reexaminados, discutidos e relacionados, Arthur Evans foi definindo pouco a pouco seu sistema cronológico para determinar a antiguidade de objetos encontrados em outras ilhas do Mar Egeu e no Continente. Porque, a medida que avançava o trabalho de investigação, os arqueólogos comprovavam que esta civilização, que, segundo Evans, tinha sua origem em Creta, se havia estendido a outras ilhas do Egeu e, inclusive, mais longe: a leste, ate Chipre e o litoral da Ásia Menor, e, na direção norte, ate a Grécia Continental.

Em todas essas regiões a cerâmica que se encontrava era semelhante, embora não idêntica, àquela encontrada em Creta. Enquanto no início das escavações de Evans seus achados foram considerados como micênicos, mais adiante se comprovou que se diferenciavam bastante dos descobrimentos de Micenas. Foi necessário criar uma terminologia que servisse para diferenciar as culturas características das diferentes regiões do Egeu. Assim é que se veio empregar o termo minóico para descrever os objetos pré-históricos cretenses, cicládico para os das ilhas e heládico para os do continente".

Evans, baseado na estratigrafia, estabeleceu correspondências cronológicas entre as etapas da civilização cretense e as demais existentes no Antigo Oriente Próximo e na região do Mar Egeu. O período compreendido entre o um do Neolítico e a invasão dos Aqueus em Creta recebeu de Evans a designação de Minoano, em homenagem ao lendário Minos, rei de Cnossos. Dentro do "Minoano", Evans assina­lou três épocas: Minoano Antigo, Minoano Médio e Minoano Recente. Cada época dessas recebeu, por sua vez, subdivisões.

A Cronologia de Evans chama a atenção por sua simetria que se inspirou não só em dados fornecidos pela estratigrafia, mas também nas leis universais da evolução e nas exigências do espírito humano: "Desde logo, esta tríplice divisão, quer consideremos o curso da civilização minóica como um todo ou em suas três etapas, é, em essência, lógica e cientifica. Em toda fase característica de cultura, assinalamos o período de desenvolvimento, madureza e decadência".

O grande historiador Hall observa sobre a cronologia de Evans: "A esses períodos ele deu o nome de 'Minoanos', do grande legislador e talassocrata de Creta. O nome pode ser fantasista, mas não o esquema: este repousa sobre observações cuidadosas e tabulação de fatos arqueológicos comprovados, sobre os resultados das escavações em Cnossos e em outros lugares de Creta e, pela primeira vez, nos deu um sólido arcabouço sobre o qual podemos dispor os fatos que possuímos".

Acrescentemos algumas observações a cronologia de Evans:

1.   A designacão de Minoano (ou Minóico) presta-se a malentendidos. Embora tenha a vantagem de nada prejulgar sobre a questão racial, possui, contudo os seguintes inconvenientes:

a) aplicada ao conjunto das regiões do Egeu, sugere uma unidade cultural que só existiu após a queda de Minos;

b) aplicada somente a Creta, faz remontar a distantes origens um regime político cuja lembrança só chegou aos gregos em uma data relativamente recente;

Julgamos, com Glotz, que a designação de Minoano deveria, a rigor, ser restrita exclusivamente a Creta, principalmente no período em que prevaleceu a hegemonia de Cnossos. "0 que é verdadeiro para Cnossos, não o é para Mallia onde se passa, no domínio da cerâmica, do M.M. I para o M.M. III.
Em Faestos, o M.A. é desconhecido".

2. As profundas reviravoltas na cronologia, motivadas pelas recentes descobertas arqueológicas, tiveram, evidentemente, repercussão na cronologia do Egeu. Para que o leitor tenha idéia dos problemas suscitados na cronologia de Creta pelas descobertas, citaremos apenas um exemplo:

Em Plátanos (Messara) foi descoberto numa camada correspondente ao Minoano Médio I, a, um cilindro da época de Amurai.

Ora, a data do reinado de Hamurabi tem variado num sentido decrescente: 2123-2081; 1848-1806; 1792-1750; 1728-1686... Daí a instabilidade e insegurança das tábuas cronológicas... Explica-se, assim, o aparecimento de novas teorias cronológicas como as de Glotz, Matz, Platon e Hutchinson.

Platon propôs, mesmo, um novo sistema cronológico baseado na evolução arquitetural:

  • Neolítico (anterior a 2600 a.ec.);
  • Período Pré-palacial (2600 a 2000);
  • Período Protopalacial (2000 -1700);
  • Período Neopalacial (1700-1400);
  • Período Pós-Palatial (1400-1100).

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Etapas da Evolução da Civilização de Creta
Neolítico ( Anterior a 2600a.e.c.) | Minoano Antigo (2600-2100a.e.c) | Minoano Médio (2100-1580a.e.c) | Minoano Recente (1580-1400)

Neolítico - Ao que tudo indica, o povoamento de Creta se inicia  no Neolítico com a chegada de correntes imigratórias procedentes sobretudo da Anatólia.

É grande a divergência dos especialistas quanto a duração da Idade da Pedra Polida: para Glotz, o término do Neolítico seria pelo ano de 3000 a.e.c.; Matz prefere a data de 2600 a.e.c. O prosseguimento das pesquisas arqueológicas provavelmente trará novos esclarecimentos, pois, quanto ao Neolítico, resta ainda muito a fazer, na ilha de Creta.

Baseados nos produtos de olaria, Evans distinguiu três grandes períodos neolíticos: Antigo, Médio e Recente. Um estudioso recente da Idade da Pedra em Creta, Furness acrescentou uma subdivisão ao Neolítico Antigo, distinguindo no mesmo duas fases. Não pretendemos, aqui, entrar nessas minúcias: restringir-nos-emos apenas a uma sumária descrição do que teria sido a vida neolítica em Creta.

Os primeiros habitantes da ilha viviam em grutas ou em abrigos rudimentares; mais tarde passaram a construir cabanas de forma circular feitas de ramos ou taipa com pavimentos de lajes, os quais facilitam, hoje, a tarefa dos arqueólogos na localização dessas moradas primitivas. No final do Neolitico ha um aperfeiçoamento na arte de construir com a divisão da residência em mais de uma peca e com o emprego da pedra como material de construção.

Os instrumentos e, especialmente, as armas são fabricados de osso, chifre e pedra. O grés, o calcário, a serpentina, a hematita e, principalmente, a obsidiana forneciam a matéria-prima para os mais diferentes objetos.

O uso da obsidiana (que provinha de Melos) prova a existência de relações entre Creta e as Cicladas.
A cerâmica, rude a principio, vai-se aperfeiçoando: os utensílios são ornados com incisões em forma de triângulo ou ziguezagues com incrustações.

Como viviam, durante milênios, as populações neolíticas de Creta? A colheita, a criação, a caça e a pesca eram seus principais meios de subsistência. Não praticavam a agricultura. As mulheres cuidavam da casa, fiavam e teciam. Os mortos, ao que parece, eram sepultados em pouca profundidade, pois não se encontraram túmulos. Temos um vestígio da religião dos neolíticos nas figurinhas modeladas em argila ou talhadas em esteatita, que representavam a deusa mãe, divindade de incontestável origem asiática.

Essas estatuetas são esteatopígias, isto é, apresentam um desenvolvimento anormal da parte superior das coxas.

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O Minoano Antigo (2600-2100) — Creta entra na era dos metais por influência da Anatólia e de Hissarlik. Compreende-se, assim, que a parte oriental de Creta se torne o centro da civilização cretense. Os portos de Zacro e Palaikastro, na costa oriental, as ilhas de Mochlos e Pseira, mais ao norte, atravessam urna época de notável prosperidade.

Vasiliki, nas proximidades do golfo de Mirabello, notabilizou-se por sua cerâmica. Mas é principalmente a cidade-fortaleza de Mallia que desempenha então um papel preponderante na civilização da Creta oriental: "solidamente estabelecida sobre uma plataforma natural, protegida por possantes baluartes, aparece já como a metrópole de toda a região circunvizinha e ao mesmo tempo como um lugar de trânsito entre o Nordeste de Creta e o resto da Ilha. Assim, graças ao impulso dado por influências estrangeiras, uma civilização original estava em vias de nascer em Creta; e uma forte potência territorial se constituía na região em que o tráfico com o estrangeiro era o mais intenso"

Posteriormente, o centro de gravidade da Civilização Cretense foi passando para o interior; este deslocamento é motivado pela intensificação das relações comerciais com o Ocidente: Sicillia, regiões do Adriático, Gália, Espanha, Etrúria, etc.

A foz do Kairatos assume capital importância; urna estrada é construída através da ilha, ligando Cnossos, Faestos e Calatiana. As cidades centrais passam a fazer, então, concorrência a Mallia. Nessa época a civilização asiática se difunde na ilha e se faz sentir ate ao sopé do Monte Ida.

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Minoano Médio (2100-1580 a.e.c) - Nessa época a civilização minoana atinge um notável desenvolvimento que se traduz pela intensificação das atividades industriais (principalmente da cerâmica) e das relações comerciais. A marinha mercante de Creta possibilita contatos diretos com o Egito, a Síria, a Anatólia e as regiões bárbaras do Norte.

Comercio com o Oriente

A prosperidade do litoral nordeste é eclipsada pela região central da ilha, onde se desenvolveram cidades importantes como Cnossos e Mallia, ao norte, e Faestos em Messara. Politicamente, a ilha de Creta parece estar governada por um forte poder central que preside uma confederação ou ate mesmo um verdadeiro império.

Podemos anotar duas fases distintas na evolução da Civilização cretense durante o Minoano Médio. A primeira abrange o período compreendido entre os anos 2000 e 1700 a.e.c. é a chamada época "dos primeiros palácios". Creta domina a tal ponto o Mar Egeu que as ilhas de Melos, Delos e Tera passam a simples "sucursais" dos industriais minoanos. "Este protetorado industrial ganha a Argólida e a Grécia Central as oficinas do Égina o de Siros não podem suportar a concorrência dos bronzistas, dos ceramistas e dos ourives cretenses. Chipre passa, por sua vez, sob a dependência econômica de Creta".

Com o Egito, os Keftiu (cretenses) transacionavam vasos policrômicos, jóias e armas. As invasões na Ásia Menor provocam urna retração do comércio cretense com essa região, fato esse que contribuiu para a decadência da zona oriental da ilha. Essa decadência se reflete em Mallia (onde um opulento palácio edificado pelo ano 2000 é abandonado cem anos mais tarde), em Vasiliki (onde os ceramistas deixam de exportar seus produtos e, conseqüentemente, perdem o estimulo para novas criações), em Zacro e Palaikastro (abandonadas pelos navios mercantes) e, finalmente, em Petsofa (que, com a cessação das influências religiosas asiáticas, transformara-se em simples santuário rural).

Cnossos e Faestos conhecem, então, uma época de notável prosperidade. Aquela entra em contato com a Grécia e as Cicladas; esta, por intermédio dos portos meridionais, mantêm relações com o Egito. Por volta do ano 1700 a.e.c. os "primeiros palácios" são repentinamente destruídos.

Os especialistas não chegaram ainda a um acordo sobre as causas dessa brusca destruição. Eis algumas das hipóteses aventadas para a explicação da catástrofe:

1)    Invasão indo-européia ou egípcia. — Com efeito, nessa época, as guardas avançadas dos indo-europeus atingiam as bordas do Egeu. Mas, note-se, nenhum povo estava, então, em condições de enfrentar a hegemonia marítima minoana. Quanto aos egípcios, encontravam-se demasiadamente ocupados com o domínio dos hicsos para pensarem numa invasão de Creta. Acrescente-se que em Cnossos, Haghia Triada, Gurnia e Zacro não aparecem vestígios de guerra com estrangeiros;

2)    Uma revolta dirigida por Mallia contra a preponderância de Cnossos e Faestos. — Tal hipótese, sugerida, talvez, pelo fato de o palácio de Mallia haver sido salvo da destruição, não parece provável, pois o Leste de Creta não se achava em situação de levar avante uma campanha vitoriosa contra Cnossos;

3)    Um terremoto teria sido a causa da destruição dos palácios. — Os terremotos não eram raros na região e o de 1700 poderia ter sido o "primeiro da série que periodicamente punha o palácio em ruína". Urn terremoto, entretanto, não seria suficiente para explicar as transformações profundas que se notam a seguir;

4) Mais plausível parece-nos a hipótese de urna revolta da Creta Central contra as dinastias dominantes. Camponeses ou montanheses teriam saqueado e incendiado os palácios reais auxiliados, talvez, por imigrantes do exterior. "O aparecimento de uma nova dinastia e a substituição dos antigos hieróglifos pela escrita linear dão a essa explicação muita verossimilhança".

Após a catástrofe de 1700, a civilização cretense renasce com redobrado vigor: é a fase dos segundos palácios. O florescimento minoano corresponde, na cronologia oriental, a graves acontecimentos: os hicsos dominam o Egito, os cassitas se apoderam da Babilônia, os hititas estão em plena expansão através da Ásia Menor. Tais eventos políticos provocam, naturalmente, urna retração do mercado oriental, o que leva os cretenses a intensificarem as relações comerciais com as Cicladas e a Grécia continental.

Cnossos é a mais rica e poderosa cidade da ilha, embora suas pretensões de hegemonia encontrem fortes resistências internas. Conseqüência dessa oposição deve ter sido o saque, em 1580, do Tesouro do Grande Palácio de Cnossos.

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O Minoano Recente (1580 - 1400 a.e.c.) - Podemos assinalar o período situado entre 1580 e 1450 como a idade de ouro de Creta, o apogeu da Talassocracia minoana. Minos, rei de Cnossos, impera soberanamente no mar. Alias, convém notar que a palavra Minos (donde deriva o adjetivo "minoano" ou "minóico" que Evans usou para definir a civilização cretense) indica, provavelmente, um titulo dinástico como Faraó, Ptolomeu ou César.

Tucídides, em famoso trecho, menciona o lendário Minos: "Minos é, de todos os soberanos que conhecemos por tradição, o primeiro que possuiu uma frota e o domínio do mar que chamamos, hoje, helênico; ele estendeu seu império sobre as cidades e, apôs haver expulsado os Cários, fundou, na major parte dessas ilhas, estabelecimentos duradouros, à testa dos quais colocou seus próprios filhos. Livrou de piratas, quanto foi possível, os mares para melhor assegurar a entrada dos rendimentos dai extraídos".

Outro expressivo vestígio da presença de Minos, encontramos na designação de diversos estabelecimentos coloniais esparsos em regiões corno a Lacônia, a Megárida, a Sicilia e a Sirica, com a designação de Minoa.

No apogeu, o poderio cretense se estende as seguintes zonas:

  • Cicladas. "Integradas definitivamente na Império Cretense, do qual Chipre e Rodes são as grandes guardas avançadas na Ásia Anterior";
  • Costa Oriental do Peloponeso. Dai a penetração cretense ganha a Arcádia, a Lacônia, a Beócia e a Ática "onde Minos arrecada, por intermédio de seus agentes, tributos in natura ou em homens. Sem dúvida, assim é que deve ser interpretada a lenda do contingente de moços e moças exigidos da Ática para serem sacrificados ao Minotauro".
  • Ilhas Jônicas. Daí os marinheiros minoanos atingem Corcira onde fundam uma colônia.
    No Adriático e no Tirreno Os cretenses criam entrepostos comerciais. Nas margens do Nilo. O Novo Império reata as antigas relações comerciais com os Keftiu, cujos embaixadores levam presentes e prestam homenagens a Tutmés III.

A Influencia Cretense na Grécia

Antes de falarmos sobre a decadência da ilha Minoana, impöe-se uma importante observação. O deciframento da linear B, como vimos, revela a presença da língua grega em Creta na época do apogeu minoano. Surge, naturalmente, a pergunta: já estariam os aqueus em Creta, nessa época? Respondida afirmativamente essa interrogação, seguir­se-ia a seguinte conclusão revolucionária: a Talassocracia minoana teria, em parte, sido um mito. Em vez do domínio cretense no continente helênico, ter-se-ia dado exatamente o contrário.

Não convém, entretanto, aventar hipóteses e conclusões apressadas. É bem possível que o velho dialeto aqueano tenha sido introduzido em Creta pelos próprios escribas do palácio de Cnossos, como língua diplomática.

Em 1450 tem inicio a decadência do Império Minoano. Sem a fonte preciosa de documentos escritos, é impossível descrever com Segurança o que, então, se passa na ilha. Os restos arqueológicos falam-nos de destruição e incêndio nos palácios de Faestos, ilaghia Triada e Tilissos.

Quais teriam sido os autores dessa catástrofe? Os aqueus, já Senhores de Cnossos? Em 1400 Cnossos é também vitima de um desastre, cujas causas desconhecemos. O palácio é saqueado e incendiado por um terremoto, segundo alguns, por uma revolta, segundo outros, por um ataque dos aqueus, segundo terceiros.

O fato é que a queda de Cnossos arrasta consigo outras cidades como Gurnia (reocupada pelos aqueus), Pseira, Zacro e Palaikastro. Os antigos habitantes, na medida do possível, abandonam a outrora próspera ilha emigrando para a Ásia Menor, Chipre e Palestina. Os documentos egípcios já não mais mencionam os Keftiu.

De 1400 a 1100 situa-se em Creta a época micênica. Os aqueus conquistadores misturam-se com os sobreviventes minoanos. Um soberano aqueu, amigo de Agamenon, rei de Micenas, participa, ao lado deste, da guerra de Tróia fornecendo oitenta navios, "prova de que Creta estava longe de estar arruinada".

Pelo ano 1100, os dórios atingem a ilha de Creta. Cnossos e outras cidades sofrem destruição e massacres. Minoanos e aqueanos, agora unidos diante da ameaça comum, refugiam-se e resistem nas montanhas. A vitória dos dórios é o triunfo das armas de ferro sobre as de bronze utilizadas ainda pelos micenianos. Mas " é também a vitoria da austeridade e da vida marcial sobre o luxo e o gosto das artes que Creta havia desenvolvido no mundo egeu.

A ruptura é tão brutal com o passado que a lembrança do Império de Minos se confunde doravante com sua lenda.

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Estrutura Político-Social

A falta de fontes literárias dificulta-nos, sobremaneira, o estudo das instituições político-sociais da Civilização Minoana. Devemos contentar-nos, aqui, com as hipóteses formuladas com base nas revelações fornecidas pela Arqueologia e concernentes as ruínas das diferentes construções que se levantaram em Creta através de muitos séculos. Que sejam estreitas as relações entre a organização social e a arquitetura, parece-nos, não é licito duvidar.

Ora a ilha de Creta apresenta vestígios, que remontam a diversas e remotas épocas, de casas construídas para abrigar um grande número de pessoas.

Tal fato sugere a existência do regime social do clã, da grande família. Vestígios arqueológicos de extratos mais recentes revelam uma acentuada redução na área das habitações, indicio de uma evolução social: a grande família passa a ser substituída pelas pequenas. A arquitetura funerária confirma as conclusões sugeridas pela arquitetura habitacional: em épocas mais remotas, a prática era a inumação em comum: "os membros da família se reuniam na vida de além-túmulo, corno tinham estado reunidos no mundo terrestre". Assim, por exemplo, em Palaikastro e Gurnia "certas sepulturas só puderam ser distinguidas das casas contemporâneas graças aos montes de crânios de que estavam cheias".

Observe-se que muitos desses túmulos apresentam, ao lado da quantidade considerável de restos humanos, uma surpreendente diversidade cronológica de mobiliário. Constata-se, assim, que durante séculos, o mesmo clã depositou seus membros falecidos num mesmo túmulo. A redução das dimensões da morada dos mortos, acompanha a redução da área das habitações dos vivos: sintoma da evolução social caracterizada pela desagregação do clã.

Os grandes túmulos coletivos eram recobertos por uma cúpula e é interessante notar que essa forma de coberta persistiu, como algo venerável e solene, para os sepulcros individuais de poderosos monarcas e aristocratas. "Entre esses túmulos individuais e os túmulos coletivos dos séculos distantes, existe um intervalo que separa a autonomia familiar da autoridade monárquica".

Não podemos falar da estrutura social de Creta, sem mencionar o desenvolvimento do regime urbano. Este é, alias, um dos aspectos da Civilização Cretense que maior impressão deve ter causado nos gregos quando Os mesmos invadiram a ilha. Um reflexo dessa impressão profunda encontramos em Homero que "não podia mencionar Creta sem falar, imediatamente, em homens inumeráveis e, porque desejava ser preciso ou fornecer um numero redondo, nas noventa ou cem cidades em que aqueles pululavam".

Cnossos e Faestos eram sedes de governos onde, ao lado dos palácios reais, se notavam as luxuosas residências dos aristocratas. As ruínas de Praisos nos dão uma idéia de como vivia uma população em ambiente provinciano rural; em Zacro notamos seus habitantes ocupados com transações comerciais.

Palaikastro apresenta-se-nos como uma aglomeração rural que, cada vez mais, se volta para o mar e se enriquece com o negócio". Petsofa aparece-nos como um centro religioso em que as mulheres, com vestes suntuosas e chapéus da moda e homens calçados com botas ate o meio da perna, iam fazer suas devoções; Gurnia é, por excelência, o tipo de cidade industrial em que uma multidão de artesãos encontram-se ocupados em transformar a matéria-prima proveniente quer do gado, quer da argila, da pedra ou do cobre existentes nas cercanias.

Dançarina Cretense - Detalhe de pintura em parede do palacio de CnossosO estudo da sociedade cretense ficaria incompleto se não salientássemos o papel que, na mesma, desempenhou a mulher.

"Provavelmente, na Creta Minoana, as mulheres desempenhavam um papel mais importante do que mesmo no Egito, e parece que os assuntos religiosos, talvez mesmo o próprio governo do Estado, eram em grande parte dirigidos por mulheres.

É certo que elas devem ter vivido no mesmo pé de igualdade que os homens, mais que em qualquer outra civilização antiga, e vemos nos afrescos de Cnossos claras indicações de uma franca e aberta associação de homens e mulheres na corte minoana, correspondente ao nosso conceito de "sociedade".

As ocupações das mulheres cretenses variavam desde a participação em festas solenes e em cerimônias do culto ate as ocupações mais modestas do lar.

Encontramos em Creta mulheres sacerdotisas, fiandeiras de Iã, oleiras, pugilistas, toureiras, caçadoras, etc... A fisionomia das mulheres representadas em afrescos revela a consciência da liberdade que o sexo frágil desfrutava na sociedade minoana. Esta situação social deveria refletir-se, evidentemente, na condição jurídica. Mas pisamos aqui num terreno delicado em virtude da falta de fontes.

Podemos, entretanto, afirmar que "a importância atribuída ao elemento feminino na sociedade minoana é inegável e confere a Creta uma profunda originalidade em relação a Grécia". O rei Minos (lembremos mais uma vez que esta designação deve ter um sentido dinástico) possuía diversas atribuições entre as quais sobressai a de sacerdote-rei, pois a essência do poder real é religiosa.
Minos é "o representante do deus-touro, a encarnação do Mino­tauro cuja imagem aparecia por toda a parte nas paredes e se levantava sobre a porta da morada santa".

"Minos é a personificação do deus da fecundidade, identifica-se também com o senhor do raio e da chuva, associa-se, enfim, a deusa-mãe que representa a Terra". Segundo a lenda, a que fazem referência Dionísio de Halicarnasso, Estrabão e o próprio Platão, Minos tinha, de nove em nove anos, uma entrevista secreta com Zeus seu pai (que havia tornado a forma divina de touro), no santuário do monte Iuktas, a fim de prestar-lhe contas do governo.

Se a divindade não ficasse satisfeita com o relato de Minos, este permaneceria na gruta; Se, porém, Zeus estivesse satisfeito, o rei teria seu mandato renovado por mais nove anos. Talvez o tributo lendário de sete moços e sete mocas pago pela Ática estivesse relacionado com a ida de Minos a gruta do Minotauro, misterioso labirinto. Os jovens eram destinados ao sacrifício que a população oferecia a fim de que Zeus lhe devolvesse o monarca.

"Traduzida em linguagem moderna, a lenda parece dizer que o rei-sacerdote tinha seus poderes de uma investidura religiosa, que ele era nomeado por nove anos e reelegível".As insígnias de Minos eram: um alto cetro, emblema de sua soberania, a dupla machadinha, ou bipene ou ainda o labrys (nome asiático), que simboliza o raio; a flor-de-lis que se encontrava pintada sobre o brasão do soberano, sobre as paredes e vasos do palácio, e constituía a coroa real.Ignoramos o significado deste último símbolo que poderia ser religioso, político ou simplesmente decorativo.

Tulard acentua as influências orientais no caráter religioso do soberano cretense: "encarnação do touro, Minos evoca o Apis egípcio; sua união com Pasifaé e o nascimento do Minotauro, que não deixa de apresentar analogia zoofílica com Mnévis de Heliópolis, relembram as tríades do Egito ou da Síria. Seu próprio nome se aproxima do deus-touro Minu, de Tebas. De resto, as relações do soberano cretense com os deuses evocam antes o Egito que a Mesopotâmia".

Minos estava cercado de vassalos que constituíam a sua corte e seu conselho, os quais participavam das grandes solenidades e divertimentos oferecidos pelo monarca. Este enfeixava em suas mãos, além do poder executivo, o legislativo e judiciário. A administração governamental era centralizada.

A grande quantidade de tabuinhas de argila com inscrições encontradas nas ruínas da morada real da-nos urna idéia das atividades administrativas. A burocracia real dependia de funcionários especializados, os escribas.

É bem possível que esses preciosos funcionários tenham utilizado como material de escrita, além da argila, o papiro importado do Egito. Os principais atos administrativos deviam ser autenticados pelo selo real por meio de matrizes de argila. Os altos funcionários possuíam também seu selo particular, no qual estava assinalado o titulo do possuidor.

A Minos cabia o comando do exército que se constituía, em parte, pelos contingentes feudais, em parte pela guarda do monarca. Note-se que os artistas cretenses representam, as vezes, guerreiros com vestes estrangeiras. Arcos, lanças, escudos, carros de guerra puxados por dois cavalos figuravam entre o armamento do exército cretense. Este, alias, devia ser pouco numeroso, pois, via de regra, a paz reinava no interior e a frota garantia a ilha contra os ataques externos.

A talassocracia é um dos grandes traços característicos da civilização cretense. Enquanto outros povos criavam poderosos impérios continentais, os minoanos lançavam, através do Mediterrâneo, as bases do primeiro imperialismo marítirno da História. Essa preponderância naval deixou lembranças duradouras na Antiguidade.

Heródoto (I, 171) e Tucidides (I, 4, 8) se fazem eco dessa multiissecular tradição. Segundo os mesmos, os cretenses dominaram com sua marinha todo o Egeu, destruíram a pirataria, colonizaram a maior parte das Cicladas e, exigindo dos insulares quer tributos, quer equipagens para a frota, levaram em toda a parte, onde se estabeleceram, uma prosperidade ate então desconhecida. A simples lista das cidades que tomaram o nome de Minoa informa-nos, em seu conjunto, sobre a extensão do império minoano.

Havia duas Minoa na própria Creta, havia-as nas ilhas de Delos, de Arnorgos, de Paros e de Sifnos; existia uma Minoa na Lacônia e uma outra no fundo do golfo de Saronica. Existiam Minoas desde o litoral sírio ate a Corcira e a Sicilia. Nesses limites uma multidão de cidades cujos nomes, (terminados em th, — como labirinto ou em ss — Cnossos) pertencem a uma língua pré-helênica, eram visitadas ou ocupadas pelos Minoanos.

Estes se haviam estabelecido fortemente em todo o istmo da Argólida, de Tirinto a Corinto. Sobre a costa oriental da Ática, a planície de Maratona, de Probalintos a Tricorinto, guardou sempre a lembrança do touro cretense. As regiões atingidas pela talassocracia cretense eram administradas por prepostos de Minos. Como já vimos, Tucidides menciona expressamente que Minos enviou seus próprios filhos para o governo das províncias exteriores.

Com o correr do tempo os prepostos de Minos foram adquirindo prestigio e independência. Assim é que observamos a existência em Pilos, Orcômeno, Tebas e Micenas de poderosa.s dinastias locais que vivem em espaçosos palácios, que se divertem com banquetes e caçadas e recolhem tributos dos indígenas.

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Vida Financeira e Economia

A decifração completa das tabuinhas encontradas em Cnossos fornecerá certamente indicações mais seguras sobre as finanças minoanas. Pelas descobertas arqueológicas, contudo, já podemos fazer urna idéia dos recursos de que dispunham os soberanos.

Com efeito, os palácios reais abrigavam tesouros imensos que incluíam desde o armazenamento de cereais, vinho, azeite, ate as coleções de objetos preciosos. Tesouro do Estado e Tesouro do Rei confundiam-se. Os impostos pagos pela população, os presentes e os produtos dos domínios reais (entre os quais se incluíam oficinas que fabricavam objetos de luxo e de arte) alimentavam o Tesouro que, por sua vez, mantinha o numeroso funcionalismo, subvencionava as despesas da corte, do culto e da administração em geral. Do exterior, Minos recebia também tributos: é o que nos revela uma pintura do palácio de Cnossos, onde aparecem, a moda egípcia, representantes de povos tributários que vieram render homenagens ao monarca.

Essas exigências fiscais, entretanto, como observa Glotz, deviam ser moderadas.— Sobre a vida econômica dos cretenses, estamos bem melhor informados que sobre a vida financeira.

As descobertas arqueológicas confirmaram os versos em que Homero evoca a rica e dadivosa ilha de Minos. Na idade da Pedra Polida os habitantes da ilha viviam da simples colheita, de pesca e da caça. O aumento de população tornou a agricultura necessária. As planícies situadas em torno dos maciços montanhosos se prestavam admiravelmente para o cultivo de cereais, de leguminosas, de árvores frutíferas e de plantas têxteis.

Nas ruínas de Haghia Triada e de Palaikastro foram encontrados cereais calcinados pelo fogo.
O cultivo de árvores frutíferas incluía a oliveira, a vinha e a figueira. A oliveira fornecia azeitonas para a alimentação e óleo para diversas finalidades, inclusive para exportação. "Há um fundo de verdade na lenda que faz chegar a oliveira a Olímpia por intermédio do Hercules cretense".

A vinha se difundiu em Creta, do litoral para o interior. O vinho era fabricado e consumido tanto na zona rural como na cidade. Os cretenses cultivavam também árvores que forneciam matéria prima para a indústria (como, o cipreste, que servia para a fabricação de portas e colunas dos palácios minoanos), plantas têxteis (como, o linho), plantas aromáticas (como, o absinto), e plantas medicinais (como, o asplênio, o dictamno, etc...).

Os minoanos apreciavam a beleza e delicadeza das flores: rosas, tulipas, lírios, narcisos ornamentavam não só os jardins mas também as habitações. A criação de gado, efetuada principalmente nas regiões de Praisos e Palaikastro, desempenhava importante papel na economia cretense. A alimentação (carne e lacticínios), os transportes, o vestuário, a exportação, os jogos e Os sacrifícios necessitavam do trabalho dos criadores. Os cretenses criavam mais de uma variedade da raça bovina: o bos primigenius, animal possante de grandes dimensöes capaz de prestar os mais pesados serviços; o bos brachyceros e o bos domesticus.

O cavalo só foi introduzido em Creta no Minoano Recente, talvez por intermédio do Egito e de Chipre. O asno era também objeto de criação na Antiga Creta. O gado menor (suíno, ovino e caprino) sempre foi abundante na ilha. Observe-se que as ocupações da vida pastoril eram tidas em grande conta e se reservavam aos homens.

A caça e a pesca também contribuíram para intensificar a vida econômica da ilha de Minos. A caça era não só um divertimento aristocrático, mas também um meio de vida. A lebre, a galinha d’água, O pato, a cabra selvagem, o javali, o lobo, o cervo figuram entre as vitimas dos caçadores cretenses que usavam como auxiliares famosos cães de raça, de corpo esbelto, pernas longas e orelhas pontudas.

O mar abria perspectivas imensas para a pesca. A fauna marinha estava abundantemente representada em toda a sorte de utensílios e objetos. "Enquanto que os heróis homéricos desprezavam o peixe e o deixavam para os pobres, em Creta ele aparece sobre a mesa dos reis nas baixelas dos deuses. O mar fornecia aos pescadores cretenses O precioso marisco de onde se extraia a púrpura, o múrex.

"Assim, bem antes dos fenícios, os cretenses praticavam a pesca e a indústria que deviam tornar célebres os nomes de Sidon e de Tiro".

As grandes bases da vida econômica cretense foram a indústria e o comércio. A indústria familiar abrangia o setor alimentício (cada família fabricava sua farinha, seu azeite e seu vinho) e o setor do vestuário (cada família fiava e tecia o necessário para o seu uso doméstico). O aumento da produção para satisfazer o mercado interno e, sobretudo, a exportação, exigiu, em outros setores da atividade industrial, uma especialização

Surgiram, assim, diferentes oficinas: "O oleiro, o carpinteiro, o bronzista entram em cena; tem suas oficinas,. suas marcas de fábrica, seus bairros especializados nas aglomerações. Em uma cidadezinha industrial como Gurnia, unia casa abriga uma fábrica de azeite, uma outra uma forja, uma terceira uma oficina de marcenaria; elas se concentram em torno de uma praça pública que lhes servia de mercado".

A indústria madeireira cretense exigia o trabalho de diferentes especialistas que possuía uma ferramenta adequada. Podemos avaliar a importância dessa atividade se lembrarmos que dela dependia essencialmente a construção naval. A indústria extrativa fornecia argila para a cerâmica, o calcário, o gipso, O xisto e a esteatita.

A metalurgia começou, em Creta, com o emprego do cobre. O conhecimento do estanho permitiu aos metalurgistas obter uma liga menos flexível e menos maleável que o cobre puro e mais adequada a fabricação de armas solidas e de objetos preciosos tais como vasos, etc...: "Os cretenses foram os mestres do bronze. Gurha tornou-se um dos centros desta indústria".

As descobertas arqueológicas revelam-nos a variedade e extrema habilidade dos bronzistas cretenses cujas obras eram negociadas em regiões distantes e sustentavam facilmente a concorrência dos melhores produtos da indústria egípcia e mesopotâmica. Para termos uma idéia do adiantamento da técnica metalúrgica em Creta, basta lembrar que ai se fabricavam verdadeiras fechaduras com chaves, numa época em que os gregos ainda cerravam suas portas com simples tranquetas ou ferrolhos.

Concluamos essas breves notas sobre a indústria minoana lembrando uma atividade industrial relacionada com a vida rural: a apicultura. A criação da abelha era desenvolvidíssima e contava com profissionais conhecedores dos segredos do oficio. O mel substituía o desconhecido açúcar. A cera era utilizada na fabricação de velas que deviam ser usadas nos castiçais e candelabros encontrados nas escavações.

Passemos, agora, ao que, talvez, possamos considerar o aspecto mais interessante da vida econômica cretense: o comércio.

Enumeremos, primeiramente, as causas do grande desenvolvimento comercial da ilha de Minos.
A privilegiada posição da ilha, tornava-a necessariamente um eixo de rotas comerciais: situava-se "no ponto exato onde deviam encontrar-se Os traficantes que partiam dos continentes europeu, asiático e africano para trocar seus produtos: na junção e precisamente no meio de duas grandes vias, uma das quais, dirigindo-se de Norte a Sul, ganhava, de ilha em ilha, partindo das praias brumosas da Trácia, a costa ensolarada do Egito; a outra, orientada de Leste para Oeste, ligava, através do Peloponeso, a Ásia Anterior com os países mal conhecidos que se estendiam além do Mar Jônio e do Adriático. Era lá, em particular, que o cobre de Chipre e de Rodes se reencontrava com o estanho da Europa Ocidental; e Creta, estava, assim, destinada a transformar-se no centro da civilização durante a Idade do Bronze" (Waltz, Le Monde, p. 26).

Após a posição, recordemos outro fator geográfico: o litoral recortado em baias e promontórios oferecia abrigos naturais para as embarcações. Lembremos, ainda, os regimes de ventos já mencionados no capitulo referente ao quadro geográfico da civilização grega. A abundância de madeiras possibilitava a construção de diferentes tipos de embarcação.

Vasos fabricados em ZakroO desenvolvimento da indústria cretense exigiu a exportação de seus produtos, bem como a importação de matérias-primas. Acrescentemos a tudo isso o provável espírito aventureiro de um povo cuja densidade demográfica tendia a aumentar. O comércio interno desenvolveu-se, naturalmente, em primeiro lugar.

Creta possuía uma notável rede interna de estradas cuidadosamente construídas que a cruzavam de lado a lado. Por essas estradas viajava-se a pé, em palanques, em carros de duas rodas puxadas por meio de cavalos (depois da introdução dos mesmos); as mercadorias eram transportadas em asnos, em cavalos e em carros de bois. A indústria e o comércio se caracterizavam, em cada cidade, por uma atividade diferente: manufatura em Gurnia, armamento e joalheria em Cnossos, utensílios de bronze em Praisos, armação em Pseira e Mulos, importação e exportação em Zacro.

Mas os homens de negocio cretense não se contentavam com OS lucros obtidos no comércio interno através das vias terrestres. Lançaram-se pelos "caminhos úmidos" a conquista de novos mercados. Levavam a terras distantes o azeite e o vinho cuidadosamente acondicionados em grandes jarras; plantas medicinais, armas, jóias, objetos de cerâmica e tecidos; traziam para a terra natal o cobre de Chipre, o estanho do Norte, a prata da Ibéria, perfumes e marfim do Oriente. Curioso é que Os navios cretenses também serviam o comercio entre outras regiões.

Assim é que efetuavam transporte de madeira do Líbano para o vale do Nilo. Antes de mencionarmos mais detalhadamente as regiões atingidas pela atividade comercial cretense, convém lembrar que esta suscitou a necessidade do emprego de sistemas de pesos e medidas bem como de um estalão de valor a fim de facilitar as operações mercantis. Para pesos e medidas foram adotados no Mediterrâneo Oriental, pelos III e II milênios, diversos sistemas entre os quais devemos lembrar o babilônico "sexagesimal" que admitia subdivisões decimais e duo decimais.

Corno o estalão de valor que substituísse a inconveniente troca de mercadorias fórum utilizados lingotes de cobre com peso determinado. "As inscrições sobre lingotes ou discos de ouro e de prata, destinadas a indicar seu valor, são os primeiros indícios do aparecimento de moedas no Mundo Egeu.

Passemos as relações comerciais de caráter internacional. Entre as regiões colocadas sob a influência da Talassocracia minoana figuram, em primeiro lugar, as Cicladas e outras regiões banhadas pelo Egeu. Creta exporta objetos de cerâmica e sinetes para as Cicladas. Da ilha de Melos os cretenses importam a obsidiana. Esta ilha torna-se, alias, a estação intermediária donde Os minoanos vão alcançar o golfo da Argólida e o Peloponeso ou, ainda, a Grécia Central pelo golfo de Saronica. A cidade de Micenas entra na Orbita da influência comercial e cultural de Cnossos: "A história de todas as indústrias e de todas as artes egéias começa em Creta e acaba em Micenas". A influência comercial de Cnossos não se limita ao Peloponeso, penetra a Grécia Central e chega ate a Macedônia.

As minas inesgotáveis da ilha de Chipre atraíram os comerciantes minoanos. A madeira da ilha era também objeto de intenso tráfico e fazia concorrência a congênere exportada do Líbano. De Chipre, Os cretenses chegaram a Síria e a Palestina. As relações comerciais com o país de Canaã foram interrompidas com a invasão dos hicsos, porém retomadas apos a expulsão desses pelos egípcios.
Na Ásia Menor, Tróia oferece aos minoanos cobre, prata e ouro das regiões vizinhas.

As tabuinhas de argila de Mari mencionam as relações com Kaptaru (Creta). E num túmulo de Messara descobriu-se um cilindro babilônico da época de Hamurabi. As relações comerciais entre Creta e o Egito variavam conforme as vicissitudes históricas. Pérolas, vasos, objetos de marfim eram importados do vale do Nilo que, por sua vez, recebia da ilha minoana azeite, vinho e vasos policrômicos.

Para o Ocidente também se aventuraram as naves de Minos, chegando ate a Itália, a Sicilia e a Ibéria.
A África do Norte foi igualmente visitada pelos incansáveis desbravadores do Mediterrâneo: provam-nos as descobertas efetuadas em Cartago.

"Foi por meio do comércio que os cretenses estenderam sua talassocracia. Sem dúvida, tiveram que ocupar alguns pontos nas Cicladas, enviar colônias de negociantes e de artesãos a algumas cidades ricas do continente, organizar escalas, criar portos nas ilhotas bem situadas em relação ao tráfico, tudo, em geral, de acordo com os reis indígenas. Mas eles eram os senhores do Mediterrâneo no sentido em que no mesmo não se fazia intercâmbio no qual os cretenses não estivessem interessados. Esses viajantes dos mares não se contentam em procurar por toda a parte as matérias-primas de que necessitam, de fornecer por toda a parte os produtos de sua indústria e de sua arte. Fornecedores das nações civilizadas e de povos bárbaros, estão sempre prontos a desempenhar o papel de corretores.

Transportam ao Egito as madeiras do Líbano e os lingotes da Alásia, a Argólida as louças egípcias e o marfim. Difundem o cobre cipriota ate a Sardenha e distribuem o estanho da Espanha a todos os países que, a seu exemplo, começam a produzir o bronze. Cada vez que, em um lugar, por mais distante que seja, se descobre um pedaço de bronze ou um caco de vaso anterior ao século XIV, e de proveniência oriental, pode-se perguntar Se, para chegar ate ia, esta mercadoria não terá passado, por um momento, pelas mãos dos cretenses?".

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Vida Cotidiana

Vamos assinalar, aqui, apenas alguns aspectos da vida cotidiana dos cretenses. Com o que já se escreveu e com o que diremos nos itens seguintes, o leitor fará uma idéia mais completa de como viveram os minoanos.

Comecemos com o vestuário. A suavidade do clima da ilha leva­va seus habitantes a usarem roupas leves, as vezes mesmo sumárias. Os homens, em geral, traziam desnudas as partes superiores do corpo. Nas solenidades, porém, envergavam trajes de gala. Observe-se que a tanga dos cretenses era usada com um saiote; o vestuário era ornamentado com desenhos em espiral ou cores vivas.
Na cabeça, quando não usavam cabelos longos, traziam um turbante, uma espécie de barrete, ou ainda, um chapéu chato e redondo. Para saírem, os cretenses costumavam usar calçados; no interior das residências e dos santuários, desnudavam os pés.

Os calçados dos minoanos consistiam em alpercatas e altas botas muito bem representadas pelos artistas, mesmo estrangeiros. Assim, por exemplo, vemos em pinturas egípcias os mensageiros de Minos com calcados finamente trabalhados.

As vestes femininas chamam a atenção pela variedade de tecidos, riqueza de ornamentos, jogo de cores e feitio especial que lembram o vestuário moderno. Corpetes justos e decotados constituíam, com saias amplas em forma de sino, pecas importantes do traje feminino. "Em alguns afrescos vemos as damas da corte de Minos sentadas as janelas do palácio, abertamente e sem véus. Seus vestidos tem uma aparência extraordinariamente moderna: decotados, com o colo e braços nus, Os seios cobertos ao que parece pelos peitorais de ouro ou prata reproduzindo o seu contorno, cintura fina e saias amplas com fileiras sucessivas de babados, muitíssimo parecidas com as creolinas dos meados do século dezenove".

Ruína de Teatro em FaestosComo os homens, as mulheres não usavam calçados em suas residências, mas, para saírem, possuíam sandálias bordadas, sapatos de salto e botinas. "Os penteados das damas de Cnossos do Minoano Recente, com seus laços e cachos, parecem-se muito com os das damas da corte de Carbos II Stuart. Traziam a cabeça tiaras ou diademas — uma deusa está representada com um chapéu extraordinariamente alto".

Pelo que podemos apreender das inúmeras fontes arqueológicas, o povo cretense era sadio, alegre, apreciador dos divertimentos como reuniões, teatros, danças, músicas e corridas de touros. Os minoanos amavam os jogos sob todas as formas, desde o xadrez, distração dos nobres nos palácios, ate o pugilismo.

Em Faestos e Cnossos encontram-se vestígios de antiqüíssimos teatros em cujos recintos cabiam de quatrocentos a quinhentos espectadores, que apreciavam procissões e cenas coreográficas. Numerosos monumentos atestam  não só a importância atribuída pelos cretenses a coreografia, mas também que esta arte revestia diferentes modalidades desde os passos meditados de dançarinos da corte ate as simples danças de roda.

"Todas essas danças sobreviveram ao povo que as inventou e temos, assim, a respeito delas, através da literatura grega, informações que simples imagens não podem dar". Salientemos, desde logo, que a dança cretense possuía um caráter nitidamente religioso. Os passos dos dançarinos. eram ritmados por uma música tambem imbuída de espírito sagrado. As descobertas arqueológicas dão-nos preciosas noticias sobre os instrumentos musicais então em voga. A lira já aparece em Creta como integrante da escrita hieroglífica. A flauta, a trombeta e os cinibalos eram também conhecidos.

Representação de Tourada MinóicaJá acentuamos a predileção dos minoanos pelos esportes. Homens e mulheres neles tornavam parte e para os mesmos deviam, certamente, preparar-se com longos exercícios, o que contribuiu não pouco para a flexibilidade nervosa e esbelteza que vemos tão bem representadas nas pinturas. Corridas, combates de gladiadores, pugilismo e, sobretudo, touradas fascinavam as multidões. Este último esporte nada tinha de comum com as touradas modernas. Glotz observa: "A corrida não é feita por aficionados ávidos de ver correr sangue; não comporta nem matadores prima spada, nem mesmo picadores.

Nem por isso a tourada deixava de provocar emoções e exigia agilidade, sangue frio, coragem: "o toureador, esguio e ágil, que defronta o touro na arena, torna-o pelos chifres, cavalga-o e depois salta para onde o esperam os braços da companheira, ali a emprestar a cena algo de sua graça feminil.

 
Vida Artística

"Os cretenses tiveram esse privilégio, raro na História, de dar a seus contemporâneos e a posteridade a impressão de um povo artista". Assim começa Glotz o estudo da vida artística e intelectual em Creta.

Com efeito, o aspecto artístico da civilização minoana é o que mais atenção desperta quando nos dedicamos a tarefa de reconstituir o passado pré-helênico da Egeida. Anote-se também que para o estudo das artes cretenses possuímos material de primeira ordem que fala eloqüentemente na mudez de sua fascinante beleza, que fala por si, pela sua simples presença, independentemente da decifração das escritas.

Em matéria de artes plásticas os cretenses nada ignoravam. Produziram obras-primas de arquitetura, de escultura, de pintura, de glíptica e de cerâmica. Esta arte caracteriza-se, antes de mais nada, pela sua extensão. O gosto pela expressão do belo parece ter sido instintivo nos habitantes de Creta: procuravam dar um toque artístico em todos os objetos, mesmo os mais comuns pertencentes as residências mais modestas. Esse espírito artístico impregnava de tal modo o povo minoano que ate mesmo sua atividade industrial, ao produzir os mais simples e vulgares utensílios, transformava-os espontaneamente em objetos artísticos.

Outra característica do desenvolvimento artístico de Creta foi a Liberdade. Autonomia local e individual propiciaram o ambiente para que alçassem vôo as imaginacões dos artistas. A hegemonia de Cnossos não significou imposição de ideais artísticos. Nem os objetos artísticos jamais foram privilégios de urna minoria: "Nada mostra melhor os direitos do individuo em Creta e a influência do individualismo sobre a arte, do que a inumerável quantidade de sinetes que se descobriram nas casas de todas as cidadezinhas. Eles serviam ao rei e aos altos funcionários, mas também aos particulares, que imprimiam sobre os contratos ou volumes de mercadorias a marca de sua personalidade e que, todos, a queriam não só bela como original".

Essa liberdade se reflete no contato do artista cretense com as obras de arte do exterior, sobretudo do Egito. A terra dos faraós, com efeito, impressionou vivamente a imaginação minoana. Desde os modelos para vasos de pedra ate os motivos religiosos e o costume de representar os homens com a pele vermelha e as mulheres com a pele branca, o vale do Nilo influiu decisivamente na inspiração e evolução das artes minoanas.

Cerâmica CretenseDigna de nota é também a influência das Cicladas no emprego da decoração espiralada.
Mas o artista cretense, sem desprezar a contribuição externa, soube sempre preservar sua independência e originalidade. Longe toda a imitação servil. "As inspirações, os modelos provenientes do exterior se rejuve­nescem, se tornam flexíveis, se metamorfoseiam". Glotz observa: "A liberdade em face de todos os ensinamentos e de todas as tradições, eis o traço mais característico da arte cretense".

A cooperação mútua do artesão e do artista propriamente dito, eis urna terceira característica que se observa nas rea1izações artísticas minoanas. As vezes nem mesmo se pode falar em distinção entre artista e artesão, pois, na realidade, não existiam limites nem entre os diferentes ramos artísticos e nem entre a arte propriamente dita e a indústria.

Bronzistas, ceramistas, escultores e pintores trocavam conhecimentos e auxiliavam-se mutuamente numa fecunda cooperação: "Por meio de um ensino mútuo, deram-se uma educação completa". O  amor a originalidade, a criação de coisa nova, a observação da natureza e a representação viva e movimentada, eis mais alguns traços característicos da arte minoana.

"Todas essas qualidades artísticas os cretenses desenvolveram, em geral, sobre objetos de pequenas dimensões. Eles vêem o exato, vêem o belo, não vêem o grande". Pelo gosto e pela habilidade em realizar grandes obras artísticas em reduzidos espaços, os minoanos são chamados por Glotz "os japoneses do Mediterrâneo". Passemos, agora, a um sucinto estudo da evolução da Arte Cretense em cada urna de suas grandes etapas e em seus diferentes ramos.

No Neolítico essa arte é primitiva e rudimentar; no Minoano Antigo os artistas se aperfeiçoam técnica e esteticamente; no Minoano Médio a arte é "brilhante e refinada"; no final do Minoano Recente é
"preciosa e decadente".

Neolítico. — Observa-se no Neolítico a criação de cerâmica cretense sob prováveis influências cicládico-anatolianas. Os utensílios eram modelados a mão e cozidos em fossas coloridas de negro ou do amarelo e decorados com incisões triangulares ou em ziguezagues; nessas incisões increstava-se matéria branca ou vermelha. Escavações efetuadas em túmulos de Pirgos e de Krassi revelam um aperfeiçoamento posterior da cerâmica.

Minoano Antigo. Sob a influência das correntes migratórias provenientes da Anatólia, nasce a Arte Cretense propriamente dita. Os emigrantes traziam da Ásia elementos sumero-elamitas, fato esse que vem mostrar o longo alcance da irradiação de determinados aspectos das civilizações da Ásia Ocidental.

A cerâmica atinge um notável desenvolvimento conforme se depreende da coleção de vasos de pedra encontrados em Mochlos. Os artistas cretenses trabalhavam em mármore, esteatita, calcário, e, mais raramente, em alabastro.

O progresso da glíptica nessa época, observado pela imensa quantidade de sinetes individuais (em osso, marfim ou esteatita) descobertos nas ruínas de residências, fornece ao historiador dois indícios preciosos: primeiro, indicio de que o velho regime social de clãs estava em decadência e ia sendo substituído pela autonomia da pequena família; segundo, indicio de influência mesopotâmica no desenvolvimento artístico minoano.

Palácios de Creta

Dos produtos da joalheria convém anotar, a titulo de exemplo: colares de cristal de rocha, de faiança ou de pedra; diademas, pingentes de ouro, cristal ou marfim; pinças de cobre; alfinetes com cabeça de ouro.

A escultura cretense se manifesta ora na produção de pequenos ídolos de alabastro, esteatita ou mármore, os quais se caracterizam pela deformação dos traços: cabeças disformes, pescoços demasiadamente longos, corpos atarracados.

A fantasia na representação de figuras humanas corresponde um realismo impressionante na reprodução de animais."Os vasos adotam freqüentemente formas de pássaros; o bico corresponde ao do animal; os olhos estão indicados sobre os lados (em Vasiliki ou em Haghia TrIada no M.A. II). As jóias ou a glíptica recorrem, de preferência, aos insetos, mas se encontram igualmente pratos de cristal de rocha (Mulos), rãs de ouro (Kurnasa) e, sobre selos, macacos agachados ou contrapostos (Plâtanos), touros deitados ou cabeças de pássaros (Cnossos). Os modelos remontam, muitas vezes, ao ciclo mesopotâmico e talvez hitita".

Palácio de FaestosMinoano Médio. — O Minoano Médio assiste a expansão da arte cretense. Esta arte adquire personalidade própria, embora sejam inegáveis as influências do exterior, egípcias e asiáticas.
Na arquitetura notamos construção dos primeiros palácios cretenses, que se caracterizam principalmente pela justaposição de salas ligadas entre si por meio de corredores, por terraços superpostos, pórticos e entradas monumentais, tudo sem a menor preocupação de unidade ou de simetria.

Encontramos vestígios desses palácios em Cnossos, Faestos e Mallia. A construção de Faestos apresentava três níveis: a entrada principal a oeste, belvedere e peristilo com doze colunas. O Palácio de Mallia, com um comprimento de 110 m e uma largura de 80 m, abrangia urna série de salas retangulares justapostas em torno de um pátio central, uma entrada principal, corredores, um santuário, rojas, celeiros, cisternas, e estábulos.

Nos ultirnos tempos do Minoano Médio as cenas que retratam animais vão-se tornando raras e as paisagens desaparecem completamente. A representação da figura humana passa a ocupar papel preponderante nos afrescos. Na escultura do Minoano Médio encontramos o emprego da esteatita, da argila e do marfim. Os escultores produzem estatuetas humanas representando Ídolos.

Ruínas do Palácio de MáliaA cerâmica da época recebe um impulso com as oficinas dos palácios que aperfeiçoam a técnica e buscam novas inspirações. Aparece então o desenho da espiral extraído das espirais metálicas e usado para decoração dos vasos do argila. "A cerâmica do Minoano Médio é vazada constantemente em moldes que são evidentemente imitados dos originais metálicos. O oleiro se tornou tão senhor de sua arte e de seu material que pôde moldar a argila sob a forma que escolhesse. Essa mestria foi obtida come resultado de duas invenções de importância fundamental na história da arte: o forno do cozer e o torno do oleiro.

Observemos, de passagem, que o forno e o torno parecem ter sua origem no Elam, alguns milhares de anos antes do nossa era. Daquela região essas precisas técnicas teriam sido levadas para o Egito entre a I e IV Dinastias.

Os ceramistas do Minoano Médio não se limitaram a uma simples imitação das obras metálicas: aperfeiçoaram seus produtos orlando uma louça fina e delicada e aceitando a colaboração dos pintores que dotaram os vasos com belíssima ornamentação policromia em que predominam, entre outras cores, o vermelho, e azul, o branco, em geral, sobre um fundo negro.

No final do Minoano Médio nota-se o aparecimento de um novo estilo na cerâmica chamado pelos historiadores "naturalista" ou, ainda, "realista" e que visa, sebretudo, a exatidão do desenho. Este novo estilo se prolongará pelo Minoano Recente. Concluamos essas brevíssimas notas sobre a Arte do Minoano Médio, lembrando que os joalheiros produzem, então, notáveis trabalhos em ouro, prata e pedras preciosas.

Minoano Recente. — No Minoano Recente, entre 1580 e 1450 a.e.c, a Arte Minoana atinge o apogeu corno conseqüência de uma longa e ascendente evolução iniciada nos obscuros tempos da Idade da Pedra Polida.

No que tange a Arquitetura somos informados, pelas plaquetas de faiança encontradas em Cnossos, sobre a ornamentação das casas onde se notam janelas nas fachadas e tetos em terraço. Os palácios são ampliados: multiplicam-se Os pátios e os pórticos, constroem-se degraus monumentais em torno de esplanadas calçadas com lajes, sem que, contudo, os princípios básicos da arquitetura minoana sofram modificações essenciais.

Detalhe de Pintura em parede do Palácio de CnossosA técnica dos afrescos torna-se inigualável sobretudo em Cnossos. Os pintores buscam inspiração quer em cenas da natureza quer na vida intensa do povo e da corte. A figura humana é representada com realce nas mais diferentes cenas como, por exemplo, multidões que assistem a corridas sagradas ou a festas rústicas, damas da corte que, com vestidos de apar