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3/8/2019 7:18:25 PM | História Viva, n. 01
As razões de Judas

Judas é, desde sempre, a encarnação do traidor, aquele que entregou seu mestre por uns trocados. Pela primeira vez, um advogado procura restabelecer a verdade no processo, dissecando as causas, pesando os argumentos da acusação, o que deve ser esclarecido sobre o apóstolo maldito.

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8/1/2018 8:06:59 PM | National Geographic, n. 105
Alfred Wallace, e a seleção natural de Darwin

Esse é um caso clássico na história da ciência: versa sobre como a biologia evolutiva veio a se estabelecer - a quase simultânea formulação da agora famosa teoria darwiniana, por obra do próprio Darwin e de um jovem adventício, Alfred Russel Wallace. Pouca gente hoje tem noção disso. Wallace, conhecido em seu tempo como o parceiro júnior de Darwin e por outras contribuições à ciência e ao pensamento social, caiu na obscuridade depois de sua morte, em 1913.

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4 Nov , 2019, 13:14h
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11/10/2019 1:09:57 PM | Por André Bonnard
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Na terra grega, o povo grego

A ultima das expedições guerreiras dos príncipes aqueus, que levaram consigo os seus numerosos vassalos, foi a não lendária mas histórica guerra de Troia. A cidade de Troia-ilion, que era também uma cidade helênica, situada a pequena distância dos Dardanelos, enriquecera cobrando direitos aos mercadores que, para passar o mar Negro, tomavam o caminho de terra, ao longo do estreito, a fim de evitar as correntes, levando aos ombros barcos e mercadorias. Os Troianos espoliavam-nos largamente a passagem. Estes ratoneiros foram pilhados por seu turno. Ilion foi tomada e incendiada após um longo cerco, no principio do século XII (cerca de 1200). Numerosas lendas, aliás belas, mascaravam as razões verdadeiras, que eram razões econômicas, não heróicas, desta rivalidade de salteadores. A Ilíada dá-nos algumas. Os arqueólogos que fizeram escavações em Troia, no século passado, encontraram, nos restos de uma cidade que mostra sinais de incêndio e que a terra de uma colina recobria há mais de três mil anos, objetos da mesma época que os encontrados em Micenas. Os ladrões não escapam aos pacientes inquéritos dos arqueólogos-policiais.

Entretanto, novas tribos helênicas - Eólios, Jônios, por fim, Dórios - invadiram, depois dos Aqueus, o solo da Grécia. A invasão dos Dórios, os últimos a chegar, situa-se por volta de 1100. Enquanto que os Aqueus se tinham civilizado um pouco em contato com os Cretenses, os Dórios continuavam a ser muito primitivos. Contudo, conheciam o uso do ferro: com este metal tinham feito diversas armas. Entre os Aqueus, o ferro era ainda tão raro que o consideravam um metal tão precioso como o ouro e a prata.

Foi com estas armas novas, mais resistentes e sobretudo mais longas (espadas de ferro contra punhais de bronze), que os Dórios invadiram a Grécia como uma tempestade. Micenas e Tirinto são por sua vez destruídas e saqueadas. A civilização aquéia, inspirada na dos Egeus, afunda-se no esquecimento. Torna-se por muito tempo uma terra meio fabulosa da historia. A Grécia, rasgada pela invasão Doria, esta povoada agora unicamente de tribos gregas. A historia grega pode começar. Ela começa na noite dos séculos XI, X e IX. Mas o dia está perto.

Que terra era esta que iria tornar-se a Hélade? Que recursos primeiros, que obstáculos oferecia a um povo primitivo para uma longa duração histórica, uma marcha tacteante para a civilização?

Dois caracteres importa revelar: a montanha e o mar.

A Grécia é um pais muito montanhoso, embora os seus pontos mais altos não atinjam nunca três mil metros. Mas a montanha está por toda a parte, corre e trepa em todas as direções, por vezes muito abrupta. Os antigos marinhavam-na por carreiros que subiam a direito, sem se dar ao trabalho de zigue-zaguear. Degraus talhados na rocha, no mais escarpado da encosta. Esta montanha anárquica dava um país dividido numa multidão de pequenos cantões, a maior parte dos quais, aliás, tocavam o mar. Daqui resultava uma compartimentarão favorável à forma política a que os Gregos chamam cidade.

Forma cantonal do Estado. Pequeno território fácil de defender. Natural de amar. Nenhuma necessidade de ideologia para isto nem de carta geográfica. Subindo a uma elevação, cada qual abraça, com um olhar, o seu país inteiro. No pé das encostas ou na planície, algumas aldeias. Uma povoação construída sobre uma acrópole, eis a capital. Ao mesmo tempo, fortaleza onde se refugiam os camponeses em caso de agressão, e, nos tempos de paz, que pouco dura entre tantas cidades, praça de mercado. Esta acrópole fortificada é o núcleo da cidade quando nasce o regime urbano. A cidade não é construída a beira-mar - cuidado com os piratas! -, suficientemente próxima dele, no entanto, para instalar um porto.

As aldeias e os seus campos, uma povoação fortificada, meio citadina, eis os membros esparsos e juntos dum Estado grego. A cidade de Atenas não é menos a campina e as suas lavouras que a cidade e as suas lojas, o porto e os seus barcos, e todo o povo dos Atenienses atrás do seu muro de montanhas, com a sua janela largamente aberta para o mar: e o cantão a que se chama Ática.

Outras cidades, as dúzias, noutras molduras semelhantes. Entre estas cidades numerosas, múltiplas rivalidades: políticas, econômicas - e a guerra ao cabo delas. Nunca se assinam tratados de paz entre cidades gregas, apenas tréguas: contratos a curto prazo, cinco anos, dez, trinta anos, o Maximo. Mas antes de passado o prazo já a guerra recomeçou. As guerras de trinta anos e mais são mais numerosas na historia grega que as pazes de trinta anos.

Mas a eterna rivalidade grega merece por vezes um nome mais belo: emulação. Emulação desportiva, cultural. O concurso é uma das formas preferidas da atividade grega. Os grandes concursos desportivos de Olímpia e outros santuários fazem largar as armas das mãos dos beligerantes. Durante estes dias de festa, os embaixadores, os atletas, as multidões circulam livremente por todas as estradas da Grécia. Há também em todas as cidades formas múltiplas de concursos entre os cidadãos. Em Atenas, concursos de tragédias, de comedias, de poesia lírica. A recompensa é insignificante: uma coroa de hera para os poetas ou um cesto de figos, mas a gloria é grande. Por vezes um monumento a consagra. Apos a Antígona, Sófocles foi eleito general! E saiu-se com honra de operações que teve de conduzir. Em Delfos, sob o signo de Apolo ou de Dioniso, concursos de canto acompanhado de lira ou de flauta. Arias militares, cantos de luto ou de bodas. Em Esparta e em toda a parte concursos de dança. Em Atenas e em outros lugares, concursos de beleza. Entre homens ou entre mulheres, conforme os sítios. O vencedor do concurso de beleza masculina recebe, em Atenas, um escudo.

A gloria das vitorias desportivas alcançadas nos grandes concursos nacionais não pertence somente à nação: é a gloria da cidade do vencedor. Os maiores poetas - Pindaro e Simonides - celebram essas vitorias em esplendidas arquiteturas líricas onde a musica e a dança se juntam à poesia para dizerem ao povo a grandeza da comunidade dos cidadãos de que o atleta vencedor não é mais que delegado. Acontece o vencedor receber a mais alta recompensa que pode honrar um benfeitor da pátria: ser pensionado - alimentado, instalado - no pritaneu, que é a câmara municipal da cidade.

Tal como os exércitos, enquanto duram os jogos nacionais, os tribunais folgam, adiam-se execuções capitais. Tréguas que não duram mais de alguns dias, por vezes trinta.

A guerra crônica das cidades é um mal que acabara por ser mortal ao povo grego. Os Gregos nunca foram além - quando muito, em imaginação - da forma do Estado cidade-cantão. A linha do horizonte das colinas que limitam e defendem a cidade parece limitar, ao mesmo tempo que a visão, a vontade de cada povo de ser grego antes de ser ateniense, tebano ou espartano. As ligas, alianças ou confederações de cidades são precárias, prontas a desfazer-se, a desagregar-se por dentro, mais do que a sucumbir aos golpes de fora. A cidade forte que constitui o núcleo dessas alianças não leva muito tempo a tratar como súditos aqueles a quem continua a chamar, por cortesia, aliados: faz da liga um império cujo jugo pesa muito em contribuições militares e em tributos.

No entanto, não há uma cidade grega que não tenha a consciência vivíssima de pertencer à comunidade helênica. Da Sicilia a Ásia, das cidades da costa africana às que ficam para lá do Bosforo, até a Crimeia e ao Caucaso, o corpo helênico é do mesmo sangue, escreve Herodoto, fala a mesma língua, tem os mesmos deuses, os mesmos templos, os mesmos sacrifícios, os mesmos usos, os mesmos costumes. Fazer aliança com o Bárbaro, contra outros Gregos, é trair.

O Bárbaro, termo não pejorativo, é simplesmente o estrangeiro, e o não-Grego, aquele que fala essas línguas que soam bar-bar-bar, tão estranhas que parecem línguas de aves. A andorinha também fala bárbaro. O Grego não despreza os Bárbaros, admira a civilização dos Egípcios, dos Caldeus e de muitos outros: sente-se diferente deles porque tem a paixão da liberdade e não quer ser ,escravo de ninguém.

O Bárbaro nasceu para a escravatura, o Grego para a liberdade: por isto mesmo morreu Ifigênia. (Pontinha de racismo).

Perante a agressão bárbara, os Gregos unem-se. Não todos, nem por muito tempo: Salamina e Plateia, Grécia unida por um ano, não mais. Tema oratório, não realidade viva. Em Plateia, o exercito grego combate, ao mesmo tempo que aos Persas, numerosos contingentes doutras cidades gregas que se deixaram alistar pelo invasor. A grande guerra da independência nacional e ainda uma guerra intestina. Mais tarde, as divergências das cidades abrirão a porta à Macedônia, aos Romanos.

A montanha protege e separa, o mar amedronta mas une. Os Gregos não estavam encerrados nos seus compartimentos montanhosos. O mar envolvia todo o pais, penetrava profundamente nele. Havia pouquíssimos cantões, mesmo recuados, que o mar não atingisse.

Mar temível, mas tentador é mais aliciante que qualquer outro. Sob um céu claro, na atmosfera límpida, o olhar do nauta descobre a terra duma ilha montanhosa a cento e cinqüenta quilômetros de distância. Vê-a como um escudo pousado sobre o mar..

As costas do mar grego oferecem portos numerosos, ora praias de declive suave, para onde os marinheiros podem a noite puxar os seus leves barcos, ora portos de água profunda, protegidos por paredes rochosas, onde as grandes naves de comercio e os navios de guerra podem ancorar ao abrigo dos ventos. Um dos nomes que o mar toma em grego significa estrada. Ir pelo mar, é ir pela estrada. O mar Egeu é uma estrada que, de ilha em ilha, conduz o marinheiro da Europa à Ásia sem que ele perca nunca a terra de vista. Estas cadeias de ilhotas parecem calhaus lançados por garotos num regato para o atravessarem, saltando de um para outro.

Não há um cantão grego de onde não se distingue, subindo a qualquer elevação, uma toalha de água que reflete no horizonte. Nem um ponto do Egeu que esteja a mais de sessenta quilômetros de terra. Nem um ponto da terra grega a mais de noventa quilômetros do mar.

As viagens são baratas. Algumas dracmas e estamos no cabo do mundo conhecido. Alguns séculos de desconfiança e pirataria, e os Gregos, mercadores ou poetas, por vezes uma coisa e outra, tomam contato amigável com as velhas civilizações que os precederam. As viagens de Racine e de La Fontaine não vão além de Ferte-Milon ou Chateau-Thierry. As viagens de Sólon, de Esquilo, de Heródoto e de Platão chegam ao Egito, à Ásia Menor e Babilônia, à Cirenaica e a Sicilia. Não há um Grego que não saiba que os Bárbaros são civilizados há milhares de anos e que tem muito para ensinar ao povo do "Nós-Gregos-somos-crianças". O mar grego não é a pesca do atum e da sardinha, é a via das permutas com os outros homens, a viagem ao pais das grandes obras de arte e das invenções surpreendentes, do trigo que cresce basto nas vastas planícies, do ouro que se esconde na terra e nos rios, a viagem ao pais das maravilhas, tendo por única bussola a carta noturna das estrelas. Para além do mar, há uma grande abundancia de terra desconhecida para descobrir, cultivar e povoar. Todas as grandes cidades, a partir do século VIII, vão plantar rebentos nas cidades novas em terra nova. Os marinheiros de Mileto fundam noventa cidades nas margens do mar Negro. E de caminho fundam também a astronomia.

Concluindo: o Mediterrâneo é um lago grego de caminhos familiares. As cidades instalam-se nas margens dele "como rãs ao redor de um charco", diz Platão. Evoe ou coaxo! O mar civilizou os Gregos.

Alias, foi só à força que o povo grego se tornou um povo de marinheiros. E o grito do ventre faminto que arma os barcos e os lança ao mar. A Grécia era um pais pobre. A Grécia foi criada na escola da pobreza. (Outra vez Heródoto.) O solo é pobre, e ingrato. Nas encostas e, muitas vezes, pedregoso. O clima é seco de mais. Apos uma Primavera precoce e efêmera, com uma magnífica e brusca floração das arvores e dos prados, o Sol não se cobre nunca mais. O Verão instala-se como rei e queima tudo. As cigarras zangarreiam na poeira. Durante meses, nem uma nuvem no céu. Muitas vezes, nem uma gota de água cai em Atenas de meados de Maio ao fim de Setembro. Com o Outono vem a chuva, e no Inverno rebentam as tempestades. Borrascas de neve, mas que não se agüentam dois dias. A chuva cai em grossas pancadas, em tromba. Ha sítios em que a oitava parte ou mesmo a quarta parte da chuva de um ano, cai em um só dia. Os rios, meio secos, tornam-se correntes temerosas, de água rugidora e devoradora que come a delgada camada de terra das encostas calvas e a arrasta para o mar. A desejada água torna-se um flagelo. Em cestos vales fechados, as chuvas formam baixos pantanosos. Deste modo, o camponês tinha que lutar, ao mesmo tempo, contra a seca que queimava os centeios e contra a inundação que lhe afogava os prados. E mal o podia fazer. Construía os seus campos nas encostas, em terraços, e transportava em cestos, de um muro para outro, a terra que resvalara do seu bocado. Tentava irrigar os campos, drenar os fundos pantanosos e limpar as bocas por onde havia de escoar-se a água dos lagos. Todo este trabalho, feito com ferramentas de hotentote, era duríssimo e insuficiente. Teria sido preciso repovoar de árvores a montanha nua, mas isso não sabia ele. Ao principio, a montanha grega era bastante arborizada. Pinheiros e plátanos, ulmeiros e carvalhos coroavam-na de bosques centenários. A caça pululava. Mas desde os tempos primitivos os Gregos derrubaram árvores, fosse para construir aldeias, fosse para fazer carvão. A floresta perdeu-se. No século V, colinas e picos perfilavam já contra o céu as mesmas arestas secas de hoje. A Grécia ignorante entregou-se ao sol, a água desregrada, a pedra.

Lutava-se pela sombra de um burro.

Sobre este solo duro, sobre este céu caprichosamente implacável, davam-se bem oliveiras e vinhas, menos bem os cereais, cuja raiz não pode ir buscar a umidade suficientemente funda. Não falemos das charruas, ramos em forquilha ou grosseiros arados de madeira que mal arranhavam a terra. Abandonando os cereais, os Gregos vão buscar o trigo as terras mais afortunadas da Sicilia ou das regiões a que hoje chamamos Ucrânia e Romênia. Toda a política imperialista de Atenas grande cidade, no século V, e, antes de mais, política do trigo. Para alimentar o seu povo, Atenas tem de se manter senhora dos caminhos do mar, em particular dos estreitos que são a chave do mar Negro.

O azeite e as vinhas são a moeda de troca e o orgulho da filha deserdada do mundo antigo. O produto precioso da oliveira cinzenta, dom de Atena, responde as necessidades alimentares da vida quotidiana: cozinham com azeite, alumiam-se com azeite, à falta de água lavam-se com azeite, esfregam-se, alimentam de azeite a pele sempre seca.

Quanto ao vinho, maravilhoso presente de Dioniso, só nos dias de festa o bebem, ou a noite, entre amigos, e sempre cortado com água.

"Bebamos. Para que esperar a luz da lâmpada? só resta da luz do dia um quase nada. Traz para baixo, menino, as grandes taças coloridas. O vinho foi dado aos homens pelo filho de Zeus e de Semele para que esqueçam as suas penas. Enche-as até a borda com uma parte de vinho e duas partes de água, e que uma taça empurre a outra..." (O Ramuz! Não, Alceu.)

"Não plantes nenhuma outra arvore antes de teres plantado vinha." (Outra vez o velho Alceu de Lesbos, antes de Horacio.) O vinho, espelho da verdade, fresta por onde se vê o homem por dentro!

A vinha, amparada em tanchões, ocupa as encostas, arquitetadas em terraços, da terra grega. Na planície plantam-na entre as arvores dos pomares, empada de uma para outra.

O Grego é sóbrio. O clima assim o exige, repetem os livros. Sem duvida, mas a pobreza nao o exige menos. O Grego vive de pão de cevada e de centeio, amassado em bolos chatos, de legumes, de peixe, de frutos, de queijo e de leite de cabra. E muito alho.

Carne - caça, criação, cordeiro e porco -, só nos dias de festa, como o vinho, não falando dos senhores (os "gordos", como se diz).

Desta pobreza de regime e de vida (é claro, esta gente do Meio-dia é preguiçosa, vive de coisa nenhuma, regalada de bom sol), a causa não está apenas no solo ingrato ou mesmo nos processos elementares de cultura. Acima de tudo, resulta da desigual repartição da terra pelos seus habitantes.

No começo, as tribos que ocupavam a região tinham feito da terra uma propriedade coletiva do clã. Cada aldeia tinha o seu chefe de clã, responsável pela cultura do solo do distrito, pelo trabalho de cada um e pela distribuição dos produtos da terra. O clã agrupa um certo numero de famílias - no sentido amplo de gente duma casa -, cada uma das quais recebe uma extensão de terra para cultivar. Não há, nesses tempos primitivos, propriedade privada: a terra devoluta não pode ser vendida ou comprada, e não se reparte por morte do chefe de família. É inalienável. Em compensação, o parcelamento pode ser refeito, a terra outra vez distribuída, segundo as necessidades de cada família.

Esta terra comum é cultivada em comum pelos membros da casa. Os frutos da cultura são repartidos sob a garantia de uma divindade que se chama Moira, cujo nome quer dizer parte e sorte, e que presidira igualmente a repartição, por sorteio, dos lotes de terra. Entretanto, uma parte do domínio, mais ou menos metade, é sempre posta de pousio: é preciso deixar repousar a terra, não se pratica ainda, de um ano para outro, a cultura alternada de produtos diferentes. O rendimento é muito baixo.

Mas as coisas não ficam por aqui. O antigo comunismo rural, forma de propriedade própria do estado da vida primitiva (ver os Batongas da Africa do Sul, ou certos povos de Bengala), começa a desagregar-se a partir da época dos salteadores aqueus. A monarquia de Micenas era militar. A guerra exige um comando unificado. Após uma campanha proveitosa, o rei dos reis e os reis subalternos, seus vassalos, talhavam para si a parte de ledo, na partilha do saque como na redistribuição da terra. Ou então certos chefes apropriam-se simplesmente das terras de que apenas eram administradores. O edifício da sociedade comunitária, onde se introduzem graves desigualdades, destrói-se pelo topo. A propriedade privada cria-se em beneficio dos grandes.

Instala-se também por outra maneira, sinal de progresso... Alguns indivíduos podem ser, por razões diversas, excluídos dos clãs. Podem também sair deles de sua própria vontade. O espírito de aventura leva muitos a tomar o caminho do mar. Outros ocupam, fora dos limites do domínio do clã, terras que haviam sido julgadas demasiado medíocres para ser cultivadas. Forma-se uma classe de pequenos proprietários à margem dos clãs: a propriedade deixa de ser comunal, torna-se, por fases, individual. Esta classe e pobríssima, mas muito ativa. Quebrou os laços com o clã: rompe-os por vezes com a terra. Estes homens formam guildas de artífices: oferecem aos clãs as ferramentas que fabricam, ou simplesmente trabalho artesanal como carpinteiros, ferreiros, etc. Entre estes "artífices", não esqueçamos nem os médicos nem os poetas. Agrupados em corporações, os médicos tem regras, receitas, bálsamos e remédios que vão propondo de aldeia em aldeia: estas receitas são sua exclusiva propriedade. Do mesmo modo, as belas narrativas em verso, improvisadas e transmitidas por tradição oral nas corporações de poetas, são propriedade dessas corporações.

Todos estes novos grupos sociais nascem e se desenvolvem no quadro da "cidade". E aqui temos as cidades divididas em duas metades de força desigual: os grandes proprietários rurais, por um lado, e, por outro, uma classe de pequenos proprietários mal favorecidos, de artífices, de simples trabalhadores do campo, de marinheiros,  tudo gente de ofício, "demiurgos", diz o Grego, turba miserável ao princípio.

Todo o drama da historia grega, toda a sua grandeza futura se enraíza no aparecimento e no progresso destes novos grupos sociais. Nasceu uma nova classe que vai tentar arrancar aos "grandes" os privilégios que fazem deles os senhores da cidade. É que só estes proprietários nobres são magistrados, sacerdotes, juízes e generais. Mas a turba popular depressa tem por seu lado o numero. Quer refundar a cidade na igualdade dos direitos de todos. Mete-se na luta, abre o caminho para a soberania popular. Aparentemente desarmada, marcha à conquista da democracia. O poder e os desses são contra ela. Mesmo assim, a vitoria será sua.

Eis, sumariamente indicadas, algumas das circunstâncias cuja ação conjunta permite e condiciona o nascimento da civilização grega. Repare-se que não foram somente as condições naturais (clima, solo e mar), como o não foi o momento histórico (herança de civilizações anteriores), nem as simples condições sociais (conflito dos pobres e dos ricos, o "motor" da história), mas sim a convergência de todos estes elementos, tornados no seu conjunto, que constituíram uma conjuntura favorável ao nascimento da civilização grega.

E então o "milagre grego"? - perguntarão certos sábios ou assim chamados. Não há "milagre grego". A noção de milagre é fundamentalmente anti-cientifica, e é também não-helenica. O milagre não explica nada: substitui uma explicação por pontos de exclamação.

O povo grego não faz mais que desenvolver, nas condições em que se encontra, com os meios que tem a mão, e sem que seja necessário apelar para dons particulares de que o Céu lhe teria feito dom, uma evolução começada antes dele e que permite a espécie humana viver e melhorar a sua vida.

Um exemplo só. Os Gregos parecem ter inventado, como que por milagre, a ciência. Inventam-na, com efeito, no sentido moderno da palavra: inventam o método cientifico. Mas se o fazem é porque, antes deles, os Caldeus, os Egípcios, outros ainda, tinham reunido numerosas observações dos astros ou sobre as figuras geométricas, observações que permitiam, por exemplo, aos marinheiros, dirigirem-se no mar, aos camponeses medir os seus campos, fixar a data dos seus trabalhos.

Os Gregos aparecem no momento em que, destas observações sobre as propriedades das figuras e o curso regular dos astros, se tornava possível extrair leis, formular uma explicação dos fenômenos. Fazem-no, enganam-se muitas vezes, recomeçam. Não há nada aqui de miraculoso, mas apenas um novo passo do lento progresso da humanidade.

Tirar-se-iam outros exemplos, e com abundância, dos outros domínios da atividade humana.

Toda a civilização grega tem o homem como ponto de partida e como objeto. Procede das suas necessidades, procura a sua utilidade e o seu progresso. Para ai chegar, desbrava ao mesmo tempo o mundo e o homem, e um pelo outro. O homem e o mundo são, para ela, espelhos um do outro, espelhos que se defrontam e se lêem mutuamente.

A civilização grega articula um no outro o mundo e o homem. Casa-os na luta e no combate, numa fecunda amizade, que tem por nome Harmonia.

História - Civilização Grega
10/20/2019 2:34:18 PM | Por Michael Roaf
Livre
Proto-História na Mesopotâmia

A revolução neolítica está na origem de uma transformação radical das condições de vida do homem pré-histórico. A descoberta, fundamental, da agricultura e da criação de gado tem como corolário imediato uma libertação: o homem deixa de estar sujeito às vicissitudes da caça e coleta. O habitat estabiliza-se no meio de uma paisagem já transformada. Comunidades aldeãs fazem, então, o seu aparecimento. Na Mesopotâmia, a história destas comunidades é ainda demasiado pouco conhecida para que seja possível traçar um quadro de conjunto. Os nossos conhecimentos neste domínio estão totalmente dependentes das escavações arqueológicas que ainda se encontram nos seus inícios, no que se refere a estas épocas altas. Demasiado raras, reduzidas com freqüência a simples sondagens, carecendo de meios, elas ainda só clarificam alguns momentos, importantes sem dúvida, da ponto-história.

A cronologia é imprecisa, a datação com carbono 14 dá resultados demasiado vagos; o método estratigráfico é mais satisfatório: parte do principio segundo o qual as sucessivas camadas de ocupação do solo revelam uma ordem cronológica que vai do mais recente para o mais antigo, isto é, para o mais profundo. A comparação dos resultados obtidos em vários locais e o ponto de referência dos níveis contemporâneos permitem estabelecer uma cronologia relativa. A partir dai, podem distinguir-se vários períodos. Mas a ausência de terminologia precisa constitui um obstáculo suplementar. Com efeito, concordou-se em designar as grandes épocas de acordo com o nome do local onde foram identificadas pela primeira vez, o que pode dar origem a uma certa confusão.

Em Maio de 1948 descobriram-se, a leste de Kirkuk, os vestígios do mais antigo estabelecimento sedentário conhecido. Trata-se da aldeia de Kalaat Jarmo que remontaria a meados do VII milênio (cerca de 6750 segundo a datação com carbono 14). As escavações puseram à luz do dia umas vinte casas de paredes de lama - calcula-se em cerca de 150 pessoas a população da aldeia-, algumas sepulturas, vasos de pedra, fragmentos de obsidiana, figurinhas de animais e de "deusas-mães" em argila. A utensilagem desenterrada é exclusivamente lítica. Verifica-se ausência total de cerâmica. Numerosas ossadas de cabras, de carneiros, de bois, de porcos e de cães demonstram a domesticação destes animais. Presença de grãos de trigo e de cevada documenta o desenvolvimento d agricultura.

No VI milênio, a civilização de Hassuna - do nome de uma aldeia do vale do Tigre, a sul de Mossul - conhece a cerâmica. Esta é feita à Mao, raramente polida; é pintada ou incisa, por vezes ambas as coisas. A pintura e baça, de cor vermelha-escura ou preta. Os temas decorativos são simples, sempre de inspiração não figurativa. As construções são feitas de taipa. A utensilagem, que ilustra a importância crescente da agricultura e da criação de gado (foices, machados, raspadeiras, buris) é essencialmente de pedra e de osso.

Também do VI milênio, a civilização de Samarra, denominada de acordo com o local de Samarra a norte de Bagdá, foi conhecida desde 1912. Encontramo-la em Nínive, em Baghuz, no Eufrates médio, e até na planície de Antioquia. As construções são de tijolo cru em formato grande. A cerâmica é monocromática, variando o tom do vermelho ao violáceo. Os motivos, de inspirarão figurativa, mostram um gosto manifesto pela esquematização e pela abstração; vê-se, por exemplo, uma dança de cabritos-montanheses que se transforma em cruz de Malta. A cruz gamada, outro motivo freqüentemente utilizado, tem talvez uma origem semelhante numa dança de quatro mulheres esguedelhadas.

Tell Halaf - A civilização de Tell Halaf, no V milênio, mostra-se já muito mais complexa. Desde os vales do Tigre (Arpatchiya, Ninive) e de Habur (Tell Brak, Chagar Bazar, Tell Halaf), estende-se ao longo do Eufrates (Karkemish) e exerce a sua influência até ao Mediterrâneo (Ras Shamra) e Cilicia no Oeste, ao Sul do Iraque a Leste e a região do lago de Van no Lorte. É bem conhecida desde as escavações do local de Arpatchiya, perto de Mossul. Fica-se impressionado pela freqüência de edifícios circulares, alguns dos quais são precedidos de um vestíbulo retangular. Desconhece-se ainda qual seria o destino destes tholoi. Foram já considerados fortalezas; celeiros, fornos, túmulos, santuários... É natural que não sejam simples casas de habitação. Constituem pelo menos uma componente característica civilização de Tell Halaf. A cerâmica é de altíssima qualidade, ricamente decorada de temas naturalistas ou abstratos. Motivos novos, como bucrânicos e os duplos machados gozam de grande favor, ao passo que a cruz gamada desaparece totalmente. O tema da "deusa mãe" está igualmente bem representado. Marcas de campânulas de argila e sinetes de pedras diversas testemunham o aparecimento da gliptica. A variedade das pedras utilizadas dá uma idéia da extensão das relações comerciais. A pedra, o osso, a argila continuam a ser os materiais preferidos para a utensilagem. Uma baixela de pedra foi encontrada em Arpatchiya. A grande novidade da época é a invenção de um processo para a fundição de certos metais, muito particularmente o cobre e o chumbo.

É sem dúvida na época de Tell Halaf que o sul do Iraque começa ser habitado. Tal fatos pode mesmo ter-se dado antes, se tivermos como ponto de referência alguns fragmentos de louça encontrados em Kish, Ur e Girsu, aparentados com a cerâmica de Hassuna. Os principais locais conhecidos nesta região são Kalaa Hadj Mohammed e Eridu. Kalaa Hadj Mohammed é um pequeno estabelecimento aldeão próximo de Uruk. Foi Iá descoberta uma cerâmica feita à Mao, de pintura geralmente brilhante e sempre monocromática (castanho-escuro, arroxeado, verde ou vermelho). Os temas decorativos são geométricos. Eridu, nas margens de uma laguna do Eufrates, é um local muito mais importante. Encontram-se ai nada menos que dezoito níveis de ocupação. No nível XVI pode salientar-se o plano completo de um edifício. Trata-se de uma construção quadrangular dividida em duas por meio de pedras salientes. Um nicho contendo um pequeno pódio está implantado na parede do fundo. Um segundo pódio ergue-se no meio do compartimento. A presença deste nicho, a orientação dos ângulos para os pontos cardeais e o fato de a edícula se encontrar sob o zigurate mais recente de Ur-nammu fazem pensar que se está na presença de um templo. Quanto a cerâmica, ela é monocromática e decorada com motivos geométricos simples.

El Obeid

Com a segunda metade do v milênio abre-se o período de El Obeid, que tira o seu nome de um sitio próximo da cidade de Ur. A nova civilização seria originária do Sul. Alguns arqueólogos consideram, de fatos, que os níveis antigos de Eridu são a sua primeira manifestação. Seja como for, esta civilização estende-se pouco a pouco, e não sem violência, a toda à Mesopotâmia (El Obeid, Eridu, Gasur, Tepe Gawra, Ninive, Chagar Bazar, Ukair) e as regiões vizinhas (planície de Antioquia, Turquia, Irã). A aldeia de Arpatchiya apresenta as marcas das destruições e das pilhagens que acompanharam a sua progressão. Dois estabelecimentos são particularmente representativos desta doca: Eridu, no Sul (níveis VI e VII), e Tepe Gawra, no Norte (niveis XIX a XII).

O templo do nível VI de Eridu, construção de 23m por 12m, apresenta paredes regularmente aparelhadas de tijolo cru, o que supõe o use de molde para fabrico de tijolos. Construído sobre uma grande plataforma, tem um plano complexo que prefigura o do templo sumério: grande sala central rodeada por um rosário de pequenos compartimentos anexos e provida de um altar numa das suas extremidades. No nível XIII de Tepe Gawra descobriu-se um conjunto de três templos construídos sobre uma esplanada de 30m2. Um dos templos, de dimensões ligeiramente mais reduzidas que o de Eridu, 20m por 9m, apresenta um plano quase semelhante. Um queima-perfumes fornece indicações preciosas sobre a construção destes edifícios: nas suas paredes está figurado um edifício que comporta sete portas sobrepujadas de janelas triangulares e separadas por caneluras verticais.

A cerâmica utiliza, doravante, uma argila bem depurada. Introduz-se o uso da roda de oleiro. A decoração é monocromática, predominam os temas geométricos. Começam a aparecer timidamente figuras animais. Em Tepe Gawra pode mesmo observar-se uma representação humana, muito esquematizada é certo. Por outro lado, chegaram até nos figurinhas em terracota. Algumas dentre elas apresentam um fácies qualificado tradicionalmente de "ofidiano". A utensilagem continua a ser simples, a pedra e a argila são os materiais mais usados. A glíptica é abundante, sobretudo no Norte. É no domínio da metalurgia que se verifica a principal descoberta da época: assiste-se a implantação de um processo mais econômico de fundição do metal; dai uma maior difusão de objetos manufaturados em metal, o que supõe alem disso a possibilidade de fundir este ultimo em moldes. O povo de Obeid controlou igualmente e tirou partido da forca do vento, como o testemunha um modelo de barca em terracota proveniente de um túmulo de Eridu e que traz a indicação do sitio do mastro.

Em resumo, verifica-se que as comunidades camponesas, originalmente estabelecidas no sopé das montanhas, deixaram no VI milênio a zona do sopé e espalharam-se pelos vales dos rios para finalmente desembocarem na planície propriamente dita. As sondagens efetuadas no local de Bukras, ao vale do Eufrates, nas imediações da foz do Habur, ilustram as dificuldades desta progressão. Dos três níveis sucessivos de ocupação, só o primeiro e o terceiro forneceram um mobiliário de caráter agrícola; o segundo reflete um abandono momentâneo da atividade sedentária, sendo a utensilagem de tipo Paleolítico Superior. Não se conhecem as razões deste recuo, também verificado noutros lugares. Seja como for, a progressão dos estabelecimentos sedentários para regiões secas, onde a irrigação é necessária dada a insuficiência das chuvas, não pode fazer-se sem a invenção de técnicas agrícolas novas e cada vez mais aperfeiçoadas.

A terra é a única fonte de riqueza, fornece o alimento assim como o material de construção. Para obter as matérias-primas que lhe faltam, a aldeia deve mostrar-se capaz de produzir um excedente alimentar. Este último serve de moeda de troca para as transações comerciais. Nada se sabe acerca da organização política e social. Quanto às crenças religiosas, estamos reduzidos a simples conjecturas. É possível que, na época de Obeid, um deus-lua tenha sido venerado em Ur e que um culto do deus das águas tenha sido praticado em Eridu. Único elemento positivo fornecido pela arqueologia, o culto das "deusas-mães" é universalmente atestado.

É uma segunda revolução que marca os verdadeiros inícios da história mesopotâmica: a revolução urbana. As perturbações que daí decorrem verificam-se na charneira dos IV e III milênios. Terão os seus prolongamentos até cerca de 2.100 antes da nossa era. Este longo período é tradicionalmente subdividido pelos arqueólogos e pelos historiadores em várias fases: épocas de Uruk e de Djemdet Nasr, dinástica arcaica, império de Acádia. Uma tal divisão pode parecer cômoda para o estabelecimento de pontos de referencia cronológicos relativamente precisos, mas só debilmente reflete a natureza dos acontecimentos que se desenrolam. Na realidade, estamos na presença de um período particularmente homogêneo, precisamente o da revolução urbana, que começa quando da construção dos primeiros templos de Uruk e termina com a urbanização da Mesopotâmia do Norte sob os reis de Acádia.

Os primórdios

As incoerências no material arqueológico traduzem toda a confusão que presidiu aos primeiros passos da urbanização, nas épocas de Uruk e de Djemdet Nasr, uma e outra caracterizadas pela sua cerâmica. A de Uruk só progressivamente vai suplantando a de Obeid, sempre presente nas camadas arqueológicas. Vermelha ou cinzenta, conforme o grau de cozedura, não traz qualquer decoração. Ao mesmo tempo, aparecem formas novas. Reconhece-se nela a influência das artes do metal. Quanto à cerâmica de Djemdet Nasr, ela é inteiramente diferente. O uso da policromia e vela introduzido, a decoração geométrica e os temas naturalistas conhecem um novo desenvolvimento.

É igualmente estranho ver os templos da época de Uruk, construídos com tanto cuidado, abandonados muito pouco tempo depois. O conjunto arquitetônico descoberto no bairro de E.ana em Uruk é datado do nível IV. Trata-se de uma vasta esplanada delimitada por dois templos, uma sala de colunas e uma instalação de banhos. Um terceiro templo de dimensões impressionantes, 80m por 30m, erguia-se a nordeste desta esplanada; foram encontradas as suas fundações em calcário. Todos estes templos apresentam o mesmo plano: uma grande sala cruciforme flanqueada por múltiplos compartimentos anexos. Algumas construções estão decoradas com mosaicos compostos de cones vermelhos, brancos e pretos, variadamente dispostos e figurando diagonais, gregas, triângulos e losangos. Um tal trabalho exigiria a presença de equipes coerentes, construtores e decoradores, de uma mão-de-obra numerosa que obedecia a instruções precisas e utilizando planos e esboços preparados antecipadamente e até aos mínimos pormenores. Tais realizações não podem conceber-se no quadro de uma economia camponesa.

Ora, a passagem da época de Uruk para a de Djemdet Nasr é marcada por uma mudança completa das práticas culturais, mudança cujo sentido e alcance nos escapam. Os templos do bairro de E.ana são destruídos, o seu mobiliário é reunido num edifício especialmente arranjado para esse efeito e um novo templo é construído num outro bairro, o de Kulaba. Presentemente, o templo levanta-se no cimo de uma alta plataforma, antepassado provável do zigurate.

Mas o aparecimento da cidade é, antes de tudo, um desfraldar de novidades. A invenção da roda revoluciona a arte do oleiro que, de ocupação doméstica passa a ser trabalho de especialista. O cilindro-sinete substitui o selo; o gravador encontra ai uma superfície gráfica muito maior, pode a partir de então ornar com motivos gravados todo o revestimento cilíndrico do sinete que se aplica sobre a argila. Esta nova superfície gráfica suscita composições novas, nas quais as cenas rituais detém um lugar considerável. As artes do metal conhecem um grande florescimento, como o atesta a oficina de ferreiro descoberta em Uruk. O papel que os ferreiros devem ter desempenhado no processo de urbanização foi muitas vezes avançado pelos historiadores e pelos arqueólogos; alguns especialistas consideram-no absolutamente essencial, mas é difícil aceitar tais opiniões. É verdade que os nomes de Sippar e de Bad-tibira, cidades reputadas aos olhos dos antigos pela sua altíssima Antiguidade, evocam, aparentemente, o metal e a arte do ferreiro, mas trata-se muito provavelmente de etimologias populares ou segundas.

A grande inovação do tempo é, sem dívida, a da escrita. As primeiras tabuinhas inscritas datam do nível IV de Uruk. Sendo a pedra rara, utiliza-se sobretudo a argila como suporte do texto. A escrita é ainda um sistema muito imperfeito que irá melhorando de descoberta em descoberta. Procura-se condensar-se numa pequena superfície um numero importante de signos que exprimem um pensamento. As tabuinhas desta época estão cobertas de pitctogramas que representam a silhueta dos objetos designados ou, mais geralmente, obedecem a uma simbólica que se encontra também na arte pictórica. A escrita, nos seus inícios, não procura reproduzir a flexão gramatical de uma frase ou de uma proposição, contentando-se com fixar na argila as palavras, os pontos essenciais da mensagem que se quer transmitir. Apos alguns séculos de pesquisas, a descoberta do valor fonético do signo permitira transcrever de modo mais perfeito a língua falada. Ao mesmo tempo, como não é fácil desenhar, sem rebarbas, linhas curvas em argila, os escribas optam por quebrar os contornos dos desenhos e representar o signo pretendido por um conjunto de curtas incisões em forma de cunhas. O sistema torna-se cada vez mais abstrato. Assim nasceu a escrita cuneiforme.

A vida na cidade

As cidades continuam a estar profundamente lizz das aos campos: os quintais e pomares penetram-nas, camponeses e trabalhadores agricolas vivem nelas, os celeiros e as tulhas erguem-se no se% interior. O ritmo de vida continua a ser o dos trabalhos dos campos.

Ignoramos o grau de organização atingido pela cidade nova. Algumaa representações figuradas provenientes de Uruk mostram um homem barbudo, vestido com uma túnica e com um turbante na cabeça. Armado com o arco ou a lama, recebe a submissão dos vencidos, assiste à execução dos, prisioneiros ou caça o leão. Tratar-se-á do chefe da comunidade ou este é encarnado por outra personagem bem reconhecível nos documentos pela saia emalhada com que está vestido e que parece desempenhar um papel importante nas cerimônias ligadas ao culto da deusa Inanna? No estado atual das fontes é impossível dizê-lo. Um certo número de documentos, todos eles originários de Uruk exceto um único encontrado em Tell Billa, traz um desenho próximo do sinal gráfico en. Este signo designará mais tarde o "senhor" ou o "sacerdote"; mais precisamente em Uruk, en será o titulo real. Poderá atribuir-se esse valor ao nosso desenho? Não poderemos afirmá-lo categoricamente.

A residência do príncipe, sede do poder executivo, não é conhecida. É talvez o templo, que domina o conjunto da cidade com a sua massa imponente e desempenha um papel essencial na vida econômica em virtude das suas propriedades fundiárias. Textos épicos mais recentes descrevem a recepção oferecida pelo rei de Uruk a uma embaixada estrangeira: a cena desenrola-se no pátio do templo. Mas o que talvez seja verdade em Uruk não o é necessariamente noutro lado. As escavações de Djemdet Nasr revelaram os vestígios de uma construção imponente que não é necessariamente um templo. Geralmente qualificado de "palácio-templo" pelos arqueólogos, a sua função precisa continua a ser um enigma. De resto, ainda esta incompletamente escavado.

No domínio das artes figurativas, os temas da guerra e da caça fazem o seu aparecimento. Uma estela de Uruk representa uma caça ao leão. A execução dos prisioneiros nus, acocorados, com os braços ligados atrás das costas, é bem atestada pela glíptica. Encontradas em Uruk, estatuetas de personagens nus, igualmente acocoradas, braços e pernas atados, evocam a mesma cena.

As idéias religiosas do tempo ainda não nos são claramente perceptíveis. Os arqueólogos alemães pensam que em Uruk apenas terá havido dois templos simultaneamente ao serviço na cidade: estar-se-ia, portanto, em presença do culto de uma díade divina. As tabuinhas inscritas e os relevos permitem-nos identificar um certo numero de divindades. As principais dentre elas são Inanna, deusa da fecundidade, An, deus do céu, e Enlil, deus da atmosfera.

A Mesopotâmia do Norte

No norte da Mesopotâmia, foi em Tepe Gwara que foram as descobertas mais espetaculares. Estamos na presença de uma cidade fortificada. A muralha é fendida por duas grandes portas flanqueadas de torres e ligadas entre si por uma grande artéria que divide a cidade em duas. No centro da aglomeração encontra-se uma cidadela de plano circular a qual se tem acesso por uma rampa única. É de notar o fato de a construção principal que domina a cidade não ser o templo, mas a cidadela. O templo é de dimensões modestas. É concebido segundo um plano inteiramente diferente dos do Sul: e, segundo a expressão de Andrae, do tipo do Herdhaustempel com uma grande sala única. O fim do período marcado pela construção de uma acrópole que apresenta um grupo de quatro tempos, como se o elemento religioso ganhasse uma importância crescente na economia da cidade à medida que esta se desenvolvia.

Ao lado das descobertas feitas em Tepe Gwara, as escavações das outras cidades da Mesopotâmia do Norte parecem secundarias. Foi descoberta uma muralha em Gray Resh. Quanto ao templo de Tell Brak, designado pelo nome de Eye-temple pelos arqueólogos por causa das curiosas figurinhas de olhos proeminentes que lá foram encontradas, esta decorado com mosaicos, reflete talvez uma influencia meridional.

O povoamento da Mesopotâmia

Os primeiros habitantes da Mesopotâmia não eram seguramente Sumérios. É tudo o que é possível afirmar com base nos nossos conhecimentos lingüísticos. Com efeito, a etimologia suméria não explica numerosos nomes geográficos - sem falar dos do Tigre e do Eufrates -, nem muitos termos técnicos referentes à agricultura (charrua, feitor, pastor, palmeira, etc.) ou ao artesanato (ferreiro, carpinteiro, tecelão, oleiro, etc.). A arqueologia mantém-se muda quanto a este problema e os resultados da antropologia são vagos.

É só na época de Djemdet Nasr que um texto de Uruk menciona o nome próprio sumério En.li.ti ("Enlil mantém em vida"). É o primeiro testemunho de uma presença suméria no sul do Iraque. Quem são os Sumérios? De onde vieram? Quando chegaram? As hipóteses pululam, mas certezas não ha nenhuma. Seja como for, a simbiose com as populações mais antigas faz-se rapidamente, impondo aos Sumérios o seu alto nível cultura.

Julgamos poder afirmar que, a quando da chegada dos Sumérios, populações semíticas movimentam-se já na região baixa mesopotâmica; um certo número de termos técnicos sumérios derivam, de fato, de raízes semíticas (comprar, cebola, escravo, etc.).

A tradição mesopotâmica

O mito grafo sumério conservará, nos seus escritos, a recordação das origens longínquas da sua historia. Lembrar-se-á do tempo em que fora preciso arrancar as areias movediças, aos pântanos e as lagunas o próprio solo sobre o qual se erguerão os principais focos da sua civilização. Duas cidades, na sua opinião, detém um lugar especial. Em primeiro lugar, Eridu, a morada do deus Enki, o organizador do mundo, e a primeira residência real depois de a realeza ter descido do céu. É em Eridu que a tradição fixa a morada dos Sete Sábios que transmitiram o seu saber a toda a humanidade. Em seguida vem Uruk, para onde a deusa Inanna trouxe os poderes divinos que regulam a ordem do mundo, depois de os ter retirado a Enki, no decurso de um banquete oferecido em sua honra. Pondo em relevo o papel preponderante que estas duas cidades desempenharam na alta Antiguidade mesopotâmica, a arqueologia parece confirmar os dados da tradição.

Susiana (Elam). - Separada do sul da Mesopotâmia por pântanos e lagunas, em contato com o planalto iraniano através dos altos vales dos rios, a planície susiana sofre a influência dos seus dois vizinhos. O seu local mais importante é Susa. A mais antiga civilização conhecida é aparentada a de Obeid. Deixou uma cerâmica de altíssima qualidade cujos temas decorativos lembram os da Mesopotâmia. Esta alta civilização conhece uma paragem brutal em pleno desabrochar. Susa sofre, de fato, a repercussão da revolução urbana. A partir dai, abre-se uma nova fase da historia da cidade, dominada pelo aparecimento de uma escrita pictográfica totalmente independente do sistema mesopotâmico, a escrita proto-elamita. No seu conjunto, os textos encontrados tem um claro caráter econômico, embora a escrita ainda não esteja decifrada. Segundo toda a verossimilhança, trata-se de inventá

História - Neolítico
10/20/2019 2:09:14 PM | Por Federico A. Arborio Mella
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Introdução ao Estudo da Babilônia

Bâb-ili, no dialeto assírio-babilônio quer dizer “porta dos deuses” (no persa antigo abirush), e refere-se ao antigo reino da Mesopotâmia, conhecido originariamente como Shumer e depois como Shumer e Acádia, entre os rios Tigre e Eufrates, ao sul da atual Bagdá, Iraque. Quando a civilização suméria entrou em decadência, a Mesopotâmia foi unificada por obra dos semitas (2000-1600 a.e.c.). Desponta nesse tempo a figura de Hammurabi. Uma das mais valiosas descobertas arqueológicas é a magnífica coleção de leis (séc XVIII a.e.c.) denominada Código de Hammurabi, que, junto com outros documentos e cartas pertencentes a diferentes períodos, proporcionam um amplo quadro da estrutura social e da organização econômica do Império da Babilônia. Mais de 1200 anos se passaram desde o glorioso reinado de Hammurabi até a conquista da Babilônia pelos persas.

Durante esse longo período, a estrutura social e a organização econômica, a arte e a arquitetura, a ciência e a literatura, o sistema judicial e as crenças religiosas babilônias sofreram considerável mudança. Baseados na cultura suméria, os feitos culturais da Babilônia deixaram uma profunda impressão no mundo antigo e particularmente nos hebreus e gregos. A influência babilônia é evidente na cultura do Oriente Médio, inclusive no livro sagrado de judeus, a torá, e cristãos, a bíblia.

O país era constituído por 12 cidades cercadas de povoados e aldeias. No alto da estrutura política estava o rei, monarca absoluto que exercia os poderes legislativo, judiciário e executivo. Abaixo dele havia um grupo de governadores e administradores selecionados. Os prefeitos e conselhos de anciãos da cidade eram encarregados da administração local. Os babilônios modificaram e transformaram a herança suméria para adequá-la à sua própria cultura e maneira de ser influenciaram os países vizinhos, especialmente os reino da Assíria, que adotou praticamente por completo a cultura babilônia. As escavações arqueológicas realizadas permitiram que fossem encontradas importantes obras de literatura.

Por volta do século XXI a.e.c., amorritas, vindos dos desertos da Arábia, invadem as cidades-estado sumérias e acadianas. Posteriormente, em 1895 a.e.c. é fundada a cidade de Babel, que viria a se tornar a capital da Babilônia. Está se iniciando o Primeiro Império Babilônio, que se tornará um poderoso estado. Sob o reinado de Hammurabi, a Mesopotâmia é mais uma vez unificada e o Império Babilônio estende-se da Suméria até o golfo pérsico. Em 1759 a.e.c., Hammurabi arrasa Mari e anexa a Assíria. Em 1594 a.e.c., os hititas destroem a capital e põem fim ao Império Antigo da Babilônia.

Em 539 a.e.c., após um novo período de hegemonia liderado pelo rei Nabucodonosor II, a Babilônia é incorporada ao Império Persa pelo rei Ciro II, o grande. O progresso econômico da era de Nabucodonosor II, leva ao embelezamento das cidades, em especial, Babel, com a construção de palácios, templos, o grande zigurate conhecido como Torre de Babel e os jardins suspensos – considerados uma das “sete maravilhas do mundo antigo”. A região toda era cortada por canais que tiravam água do Eufrates, fertilizando as lavouras e proporcionando um clima agradável à população.

O panteão babilônio tem seu ponto alto nas divindades, Marduk, e Sin, e também em Ishtar, a deusa da guerra, e Samas, o deus da justiça. É famoso o poema Enuma Elis, um tipo de salmo recitado na Mesopotâmia, por ocasião das festas de ano novo, em homenagem a Marduk que, a cada ano, representando as culturas agrárias, casava-se com Ishtar. Todas – ou quase todas – as festas do Oriente Médio tinham conotação religiosa e eram ligadas às estações do ano, às colheitas, plantio ou fecundação.

A cultura babilônia transcreveu obras literárias mesopotâmias para o acadiano e instituiu impostos em benefício das obras públicas. Procurando desvendar seu destino, criaram a Astrologia, e a Astronomia. Aperfeiçoaram a Matemática ao criar o círculo de 360 graus e a hora de 60 minutos. Hoje se pode visitar as ruínas da Babilônia, situadas a 100 quilômetros de Bagdá. É impossível imaginar a cultura universal sem o contributo dos países da Mesopotâmia, e em especial a Babilônia.

História - Civilização Babilônica
10/20/2019 1:50:32 PM | Por Pierre Grimal
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As mulheres e a fundação de Roma

Se é verdade que as lendas de um povo ou de uma raça nos revelam os traços mais profundos e as aspirações da sua alma, as de Roma, pelo lugar que concedem às estórias de amor, sugerem que os duros conquis­tadores do mundo dissimulavam em si uma ternura mais exigente do que eles mesmos se permitiram confessar. A história da sua cidade começa com um romance de amor: a paixão súbita do deus Marte pela “vestal” Reia Sílvia. Mas, se formos mais atrás ainda, até ao tempo em que, sob as muralhas de Tróia, se decidiu a sorte do mundo futuro, foi ainda um romance de amor que determinou o desenrolar dos destinos e no fim do qual começa a fortuna de Roma. Este romance dos primeiros tempos é contado por um Hino Homérico.

Na montanha Ida, na Frigia, Anquises guardava os seus rebanhos. Anquises era sobrinho de Laomedonte, que reinava em Tróia. Era belo. Neste tempo, os príncipes, e às vezes os deuses, não desdenhavam fazer-se pastores. Ora, a deusa Afrodite tinha visto Anquises e sentiu-se per­dida de amor por ele. Afrodite não podia resistir a uma paixão. Sem tardar, vai ao encontro do belo pastor e conta-lhe toda uma estória que vai inventando. Ela é, diz-lhe, uma filha do rei da Frigia. O deus Hermes raptou-a e levou-a para a montanha. Está muito triste, porque ninguém vem em seu socorro! Anquises compadece-se; a conversa torna-se mais terna. Nessa mesma noite, o belo pastor e a deusa, sob o seu disfarce de mortal, unem-se um ao outro. Afrodite, satisfeita, não finge mais. Reve­la a sua divindade e anuncia a Anquises que em breve lhe dará um filho, mas recomenda-lhe formalmente que não diga a ninguém que a mãe é a deusa do amor, porque, caso contrário, Zeus, irritado por se descobrirem os segredos dos deuses, fulminaria o indiscreto com o seu raio.

Ora, alguns anos depois, Anquises embriagou-se e, por isso, perdeu a discrição. Por gabarolice, revelou aos companheiros a origem do seu filho, o pequeno Eneias. Zeus, indulgente apesar de tudo - também ele era pai, e orgulhoso dos seus filhos - , deixou-lhe a vida, contentando-se em torná-lo coxo (outros dizem em torná-lo cego). Mais tarde, quando Tróia foi tomada, Anquises deixou a sua pátria, levado aos ombros do seu filho, e foi com o pequeno grupo de troianos exilados até a Sicília onde, segundo se conta, terá morrido.

Esta lenda era muito popular em toda a bacia do Mediterrâneo e, desde o século VI a.e.c., pelo menos, tinha chegado à Itália. A imagem de Eneias levando aos ombros o velho Anquises era familiar ao fiéis que iam em peregrinação ao santuário do etrusco Veios, alguns quilômetros ao norte de Roma. Era também familiar aos Romanos, que, desde uma época muito antiga, reivindicavam origem troiana.

Na verdade, os Romanos gostavam mais de se afirmar descendentes de Eneias que de Vênus. Os caprichos da paixão amorosa inquietavam-nos. Preferiam aquela ternura mais calma de que Eneias era o símbolo e a que chamavam piedade - e que era, simultaneamente, afeição filial, devoção, levada até ao heroísmo, para com os entes queridos e sentido de um dever transcendente, anterior a qualquer lei humana, que era ex­pressão da ordem divina -, aquela piedade que consideravam uma das exigências mais profundas da vida moral.

O filho de Afrodite, vencido na sua pátria, privado da sua casa e dos seus tesouros, não quis salvar senão o pai, os deuses do seu lar e o seu próprio filho, o pequeno Ascânio. Quanto à sua mulher, Creúsa, tivera de a abandonar na cidade condenada, em obediência a um dever mais forte do que o amor humano.

Em outros tempos, as regras sociais teriam obrigado Eneias a mostrar-se mais atento à salvação da sua mulher, talvez mesmo a dar-lhe a prio­ridade em relação à salvação do pai, e os exegetas de Virgílio, que con­tou a lenda na Eneida, não deixaram de censurar ao herói o que chamam a sua desenvoltura para com Creúsa. Virgílio, no entanto, não podia nem queria alterar nada à lenda. Apenas introduziu certas emoções humanas que estavam dela ausentes - a dor de Eneias, os riscos que voluntaria­mente correu para tentar salvar a infeliz -, mas o sentido da narrativa continuou a ser claro: a “piedade” do herói para com Anquises e Ascânio é um dever divino, a sua afeição por Creúsa é apenas um amor humano. Sacrificando Creúsa, fere apenas o seu coração, se a tivesse preferido aos da sua raça seria culpado e não respeitaria a ordem do mundo.

Em outra ocasião, durante a sua interminável viagem para a Terra Pro­metida, Eneias terá de sacrificar uma vez mais a ternura do seu coração.

A sua aventura com a rainha Dido tem o mesmo significado que o aban­dono, involuntário, de Creúsa.

Depois da tempestade que o lançara, com os seus navios, para a cos­ta africana, Eneias acreditara terem terminado as suas provas. No local onde Eneias chegara, um povo novo construía uma cidade. Uma rainha, vinda de Sídon, lançava as fundações de um império. Informada da epo­peia troiana, acolheu os náufragos com benevolência, comovida com as suas desgraças e sensível à sua coragem. Também ela não fora poupada pelo destino. Vira o seu próprio irmão assassinar aquele com quem tinha casado e que amava acima de tudo o mais. Fugira do seu país para esca­par a uma morte mais do que provável e agora tentava fundar uma nova pátria entre os Númidas bárbaros. Quantos sentimentos partilhados en­tre o troiano e a rainha! Sentiam a mesma nostalgia pelo Oriente, por uma civilização que parecia ser ainda mais preciosa, porque a terra afri­cana e o Ocidente mediterrânico só ofereciam, por todo o lado, florestas selvagens ou povos nômades sem cidades nem leis. Tinham o mesmo desejo de criar, neste deserto, um oásis humano, uma “cidade” que teria os seus deuses, os seus templos, os seus lugares públicos, a sua vida coletiva, onde as qualidades e as virtudes humanas poderiam desenvol­ver-se e expandir-se. Para além disso, Dido, a rainha aventurosa, está tão só quanto Eneias na missão que se atribuiu. Ambos conduzem um povo - e estão condenados à maior das solidões.

Assim, a tentação de unir os seus destinos é para ambos imediatamente irresistível. Quase nem é necessário que os deuses intervenham. Basta uma ocasião, uma expedição de caça, uma trovoada que separa Eneias e Dido do seu séquito na montanha, o asilo cúmplice de uma gruta onde ambos se refugiam e ei-los, como anteriormente Afrodite e Anquises, unidos um ao outro. Dido julgou mesmo distinguir, nos re­lâmpagos que, por momentos, iluminaram a gruta, o fogo das tochas do himeneu. Deixou-se levar pela ilusão de que os deuses aprovam esta relação que ela aceita com felicidade. Eneias, esse, deixa-se amar. Não sente qualquer vergonha nem receio por este compromisso a que todo o seu ser se entrega. Desempenha, com total boa-fé, o seu papel de marido e de rei - até ao dia em que os deuses lhe recordam que a sua missão não é ali: a sua “Terra Prometida” espera-o. Recusará ao seu filho Ascânio e à raça de ambos a grande fortuna que lhes reserva o Destino? E o filho de Vênus, dilacerado, uma vez mais, mas sem hesitar, sacrifica o seu amor humano ao seu dever. Parte. Dido, quando ele lhe diz o que decidiu, enche-o de censuras. Fica desesperada com esta fuga diante do seu amor. Ele sabe-o, mas deixa-a, apesar disso. Ela, com cólera e vergonha, por­ que acreditou por um momento que Eneias podia substituir junto de si o marido, Siqueu, e porque, abandonada, toma consciência do seu per­júrio, decide morrer. Na parte mais alta do seu palácio, acende uma imensa fogueira, que será a sua pira funerária, e a chama ilumina o céu enquanto os navios do troiano fogem para norte.

Este “romance de Dido”, que ocupa todo um livro da Eneida, o quar­to, provavelmente não foi inventado por Virgílio. Parece que o velho poeta Névio já o tinha conhecido dois séculos antes. Pertence mais à tradição romana do que à imaginação de Virgílio. Não há dúvida de que o poeta ou o escritor que o inventou mostrou ter o sentido das exigências morais mais profundas da sua raça. Nesta ordem de ideias, a história merece a atenção de quem se propõe analisar a atitude dos Romanos perante o amor. É significativo verificar, de fato, que o herói a quem Roma tem orgulho de fazer remontar a sua origem subordine por duas vezes os desejos do coração ao cumprimento do dever, que prefira “mu­dar os seus desejos em vez de mudar a ordem do mundo”, antecipando assim uma fórmula famosa. E, no entanto, ele é filho de Vênus! Para continuar fiel à sua origem, não deveria ter colocado os “direitos” da paixão acima de qualquer dever? Não nasceu ele de um capricho de mulher apaixonada, ou, melhor, de um capricho da própria deusa do amor?

Todavia, pensavam os Romanos, um capricho de Vênus teria de ser algo mais do que um capricho de mulher. Uma vez que Vênus é uma deusa, todas as suas ações se situam no plano da Providência. Entre­gando-se a Anquises, realizou na sua carne a vontade dos Destinos, ao passo que o capricho amoroso de uma mortal é cego e deixado ao acaso. Vênus, além disso, e tanto ou mais do que Juno, a protetora dos casa­mentos legítimos, patrona da rainha Dido e inimiga de Eneias, é capaz de fazer “política”. Por isso, Vênus e Juno colaboram: ambas conduzem Eneias e Dido um para o outro. Juno imagina que, tendo colocado a rainha nos braços de Eneias, este ficará para sempre enredado. Vênus compreende muito bem o estratagema e colabora nele, mas, dissimuladamente, troça das ilusões da sua rival. Conhece os limites do seu próprio domínio, sabe que um impulso de paixão, sobretudo se satis­feito, não basta para submeter a vontade de um homem, mesmo sendo romano. Ri-se dos sofrimentos do amor, porque ela mesma os sentiu. Dido, que é mulher e não deusa, irá talvez morrer por causa deles (mas mais por cólera e vergonha do que por amor). Eneias, que é do seu sangue, irá sobreviver-lhes. E que é a morte de uma mulher quando se trata de fundar Roma?

Virgílio, o poeta e o pensador que, sem dúvida alguma, maior sensi­bilidade teve em relação às exigências íntimas da alma romana, quis situar, portanto, na aurora dos primeiros tempos uma história de amor correspondido e depois ultrapassado. Não o fez em obediência à moda literária, já que todos os poetas do seu século cantavam o amor e o usa­vam como tema principal dos seus versos, mas porque pretendia encarnar no seu herói a questão essencial do homem dividido entre a vontade e a carne, entre a ordem do mundo e o imperativo do seu próprio ser, entre o divino que o ultrapassa e a ternura que o prolonga. Quis também que este mesmo herói, ultrapassando o seu sofrimento, subordinasse, com um impulso que poderia ter parecido natural, o amor ao dever.

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Havia muitas outras estórias de amor no dealbar destes primeiros tempos. Virgílio abandonou o seu herói depois da vitória sobre os bárba­ros italianos, mas a tradição dos historiadores anterior a Virgílio relata-nos os acontecimentos que se seguiram, ou, pelo menos, os que a lenda continha.

A lenda imaginara toda uma série de dramas que se teriam desenro­lado na cidade e no palácio construídos pelos Troianos, logo que se ins­talaram no Lácio. Não sabemos exatamente como se formaram estas lendas, que devem muitos dos seus traços à literatura grega e, muito em especial, à tragédia. Mas não os devem menos a uma certa concepção da vida amorosa e familiar que, aparentemente, os Romanos julgavam verosímil, uma vez que foi em função dela que reconstruíram os aconteci­mentos da sua mais remota história.

O rei Latino, que reinava entre os aborígenes aquando da chegada de Eneias, dera-lhe Lavínia, sua filha, em casamento. Este casamento era apenas uma união política. Como acontece frequentemente nas lendas relativas à colonização grega, o casamento de uma filha (única!) do rei indígena com o chefe dos estrangeiros deve assinalar o início de uma era de paz e colaboração entre os dois povos, até então hostis. Genro do rei, Eneias sucede-lhe muito naturalmente à frente da geração nascida dos numerosos casamentos celebrados entre os troianos e os habitantes do Lácio, na sequência do de Eneias e Lavínia. Os Romanos admitiam, por conseguinte, que uma filha pudesse transmitir ao marido uma espécie de direito sobre o reino, e, mais em geral, a herança de seu pai. De fato, na época clássica, vemos genros e filhos a participar por igual no círculo das altas personagens, crescer na sua sombra e a beneficiar da sua influên­cia política. Se é verdade, e iremos depois confirmá-lo, que a jovem, de­pois do casamento, é integrada na casa do marido, a estória de Eneias e de Lavínia evitará que esqueçamos que também o jovem marido irá gravitar em torno do sogro. As novas relações que ele assim estabelece irão enfra­quecer consideravelmente as que o uniam, até aí, à família de origem.

O casamento de Eneias e Lavínia não foi muito feliz. Uma certa tradição romanesca afirma mesmo que esta tinha ciúmes do passado do marido. De uma margem a outra do Mediterrâneo, as notícias correm céleres e Lavínia teve ecos da aventura africana. Depressa soube que a rainha Dido tinha sido abandonada e morrera. Sendo mulher, suspeitou que a ternura e os remorsos não se teriam apagado no coração de Eneias. Por outro lado, quando uma fugitiva de nome Ana se apresentou, dizen­do-se irmã da desditosa Dido e pedindo hospitalidade, Lavínia teve as suspeitas mais sombrias. Logo se desencadeia uma tragédia palaciana. Não podendo impedir Eneias de agir humanamente em relação a Ana, que tivera de fugir de Cartago por causa de uma guerra infeliz, conspi­rou para a perder. Felizmente, os deuses estavam vigilantes. Um sonho preveniu Ana contra as armadilhas de Lavínia. A meio da noite, foge. Pela manhã, quando as gentes do rei iniciaram a sua busca, viram que a pista as conduzia diretamente ao rio próximo, mas que terminava ali. Nesse momento, uma forma saiu da água e revelou que a jovem fora desposada pelo deus do rio, que se tinha transformado em ninfa e que lhe deveria ser prestado culto.

Os acontecimentos que se seguiram à morte de Eneias - ou, melhor, à sua transfiguração, porque se espalhou o rumor que tinha sido levado para o céu pelos deuses - mostraram que a atmosfera continuava pesada na família real. Ascânio, o filho de Eneias e de Creúsa, era encarado com suspeita por Lavínia. Para pôr termo a esta surda hostilidade, Ascânio resolveu deixar Lavínio, tendo partido, subindo o Tibre, para fundar a cidade de Alba Longa, que seria o berço de Roma. Portanto, os Roma­nos tinham-se comprazido em situar no palácio e na família do seu herói mais remoto os dramas do ciúme amoroso e do poder partilhado e todas as intrigas que podem destruir uma casa com lutas internas, por ter emer­gido de uniões sucessivas. É significativo que estes relatos se tenham construído em torno da pessoa de Lavínia, tão apagada no poema virgiliano. Mas isso não significa que o poeta não tenha pretendido colo­car no início da raça uma figura feminina apaixonada.

Escolheu para tal a rainha Amata, mulher do rei Latino. Amata era muito mais jovem do que Latino e tinha decidido tomar por genro, não Eneias, o estrangeiro que odiava, mas um jovem rei da região, Turno, que reinava sobre os Rútulos. Quando Latino tentou dar Lavínia a Eneias, Amata levou Turno a pegar em armas e Latino teve de aceitar a guerra entre o seu povo, arrastado pelos Rútulos, e os imigrantes troianos. Na sequência da vitória de Eneias, Amata, frustrada, suicida-se. Pessoa vio­lenta, entregue a todos os excessos da cólera e do orgulho, ela é um instrumento inconsciente e dócil do ódio de Juno.

Os sentimentos atribuídos pela lenda a Lavínia - os mesmos que a Eneida atribui à sua mãe Amata se são, talvez, adequados a heroínas de tragédias gregas, como Medeia ou Hécuba. são-no mais ainda a estas romanas, cuja personalidade iremos aprender a conhecer: consideradas oficialmente como simples companheiras, desejam desempenhar, não obstante, um papel determinante no exercício e na transmissão de um poder de que o costume e a lei as excluem. Em vão procuraríamos na lenda dos primeiros tempos romanos a figura de uma mulher “razoável”, uma alma que não seja conduzida pela paixão mais pura e ainda mais do que pelo desejo de amar, pelas paixões políticas e o instinto de poder. Resignadas, na aparência, a ter por marido aquele que quiserem dar-lhes, umas vez mães assenhoreiam-se de toda a autoridade que possam conseguir, manifestam uma vontade inflexível, intrigam e combatem sem escrúpulos nem piedade e são fúrias desenfreadas quando adivinham uma ameaça ou uma pequena oposição à sua ambição ou ao seu sonho. Dido, figura acerca da qual os comentaristas de Virgílio reiteraram à porfia o encanto melancólico, ignorando totalmente as intenções virgilianas, subordina a ternura à vontade. Recusa compreender onde reside a verdadeira vocação daquele que pretende amar. Reconhece ape­nas o fracasso das suas esperanças e, por orgulho ferido, condena-se a si mesma a morrer. Não esqueçamos, por fim, ao ler o livro IV da Eneida, que a ternura que conduz um ser em direção a outro, o sacrifício da vida pelo amado, e não contra ele, não é nas mulheres virgilianas que o ire­mos encontrar, mas em dois homens, dois amantes, um dos quais é irre­fletido e o outro heróico, Niso e Euríolo.

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Eis, por fim, a própria Roma prestes a nascer. Reia Sílvia era filha do rei de Alba, Numitor, mas Numitor era um rei caído em desgraça, por­ que tinha sido destronado pelo seu irmão Amúlio, que condenara a jo­vem à virgindade, na esperança de apagar toda a linhagem do rei legíti­mo. Segundo uns, foi consagrada ao culto de Vesta, que a obrigava a guardar castidade durante todo o tempo em que poderia ser mãe. Segun­do outros, foi encerrada em uma prisão - como fora Danae, em Argos, pelo seu pai Acrísio. Apesar destas precauções, Reia conheceu o amor. Diz-se, por vezes, que o seu sedutor não foi outro senão o próprio Amúlio. Mais frequentemente, a proeza é atribuída a Marte, que viu a jovem na margem do rio, apaixonou-se e acercou-se dela quando estava sozinha.

De Reia nasceriam os dois gêmeos que fundaram Roma: Rômulo e Remo. O destino de Reia permanece incerto. Por vezes, diz-se que Amúlio a fez desaparecer, ao mesmo tempo que ordenava que se expusessem os gémeos nas margens do Tibre. Outras vezes, que terá sobrevivido, cati­va, como Antíope na lenda tebana, até ao dia em que o filho, imitando Anfíon e Zeto, a libertou e a devolveu ao seu verdadeiro lugar, depois de ter deposto o usurpador. Terá ela amado Marte? Foi apenas vítima da sua violência? Terá tentado reencontrar os filhos que lhe tinham sido tira­dos? Ninguém se preocupa com isso. Reia não tem mais realidade nem consistência que aquelas heroínas de comédia grega que Menandro nos apresentou e que Plauto e Terêncio, imitando-o, levaram à cena: seduzidas antes da cortina se abrir, dão à luz a criança para o final da peça, e se toda a intriga tem por tema o destino que as espera, elas mesmas não inter­vêm, deixando-se conduzir onde o destino quer.

Para a ideia que os Romanos têm do lugar do amor na cidade, é significativo que Rômulo e Remo, verdadeiramente, não tenham tido “mãe”. O seu nascimento é miraculoso. Isso coloca-os imediatamente fora do humano. Os poetas repetem naturalmente que apenas se alimen­taram na “rude teta de uma loba”.

Fundar uma cidade é assunto de homens, como se a ternura feminina e o amor não pudessem ser senão um luxo da paz. Por isso, Eneias teria podido viver amorosamente (e aburguesadamente) junto de Dido, se não tivesse tido a responsabilidade de todo um povo e o encargo de realizar os desígnios da providência divina.

Intérpretes mal intencionados das lendas romanas afirmaram, desde a Antiguidade, que a celebrada loba que se teria apiedado dos gêmeos ex­postos e os teria alimentado com o seu leite não teria sido, na realidade, senão uma beldade rústica, um pouco selvagem, a quem os favores conce­didos aos pastores da vizinhança tinham valido o nome de “loba”, que é uma designação vulgar das cortesãs. Esta interpretação “racionalista” de uma lenda maravilhosa foi imaginada em um tempo em que já não se queria acreditar em milagres e os autores cristãos adotaram-na com tanto entu­siasmo como maldade. Todavia, os autores cristãos não são os inventores desta explicação maldosa. Desde a época clássica, os historiadores deixa­ram de se preocupar com a reputação de Aca Larência, a ama de leite de Rômulo e Remo, que se tinha tomado uma das inúmeras divindades me­nores da Cidade. A sua divinização não a protegeu da calúnia.

Temos de admiti-lo: de Dido a Lavínia, de Reia Sílvia a Larência, apenas encontramos megeras, figuras insignificantes ou prostitutas vul­gares, nestas lendas das origens. O amor nobre, desinteressado, e a ter­nura serena estão delas ausentes. Somos levados a suspeitar que as mu­lheres são mencionadas apenas porque é necessário que os homens te­nham mães ou amas-de-leite. Ou não têm qualquer importância, ou, quan­do intervêm, é para desencadear as intrigas e os dramas.

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Tudo muda, de repente, com as narrativas, aparentemente mais verídi­cas, que reconstituem os inícios da cidade e se propõem, já não contar as proezas dos heróis, mas o nascimento da sociedade romana. Talvez seja por estas narrativas serem menos gratuitas, por terem sido concebidas para dar conta do estado dos costumes. Se é possível e fácil descobrir nas len­das gregas muitos modelos prováveis para os dramas de Lavínio e Alba, percorreríamos em vão os repertórios em busca de um mito análogo à estória das Sabinas. Com esta, penetramos mais fundo na alma romana, descobrimos um dos mitos vitais da Cidade.

Os companheiros de Rômulo, que se tinham reunido provindo de todas as regiões da Itália Central, povoaram rapidamente a cidade. Eram homens jovens, aventureiros, que até então não tinham encontrado o seu lugar em nenhuma pátria. Alguns estavam manchados por crimes, ou­tros fugiam dos credores demasiado insistentes e todos desejavam ter as condições necessárias a uma existência livre e ativa. O asilo concedido por Rômulo no Capitólio prometia-lhes impunidade. O vigor dos seus braços e a fraternidade dos seus companheiros asseguravam-lhes a liber­dade. Mas não tinham mulheres. Ora, o futuro da cidade dependia da posteridade dos primeiros colonos.

Na região vizinha, havia aldeias onde viviam moças, mas os seus pais não pensavam sequer em dá-las em casamento a estes recém-vindos, cujo passado era inquietante. Por conseguinte, Rómulo e os seus homens decidiram conseguir companheiras usando a violência. Convi­daram os habitantes das aldeias próximas de Roma a assistir aos jogos que se iam celebrar em honra dos deuses e todos se aglomeraram no Grande Circo, no vale que formava uma espécie de teatro natural entre o Palatino e o Aventino e tinha uma pista maravilhosamente adaptada às corridas de cavalos. No momento em que todos os olhares estavam diri­gidos para a arena, os companheiros de Rômulo apoderam-se de todas as jovens presentes e arrastam-nas à força. Desarmados, como convém a hóspedes, os seus pais não tiveram outro recurso senão invocar os deu­ses, tomando-os por testemunhas deste crime contra o direito das pes­soas, e regressar a casa para preparar a vingança. As filhas ficaram em Roma, onde foram distribuídas entre os principais cidadãos.

Tito Lívio, que conta a lenda, concedendo-lhe praticamente todo o crédito, recorda o desespero e, sobretudo, o temor das jovens raptadas. Mas, acrescenta, Rômulo em pessoa interveio. Explicou a cada uma que os Romanos tinham sido forçados a este ato de violência devido ao orgulho dos seus vizinhos. O que mais desejavam era ter conseguido noivas que o fossem voluntariamente. Agora que estavam ali, seriam consideradas esposas legítimas, e não prisioneiras. Receberiam todas as honras e toda a consideração possíveis. Privadas da sua pátria e dos seus pais, teriam tudo isso em Roma e os seus maridos ainda seriam mais ternos com elas, por tudo terem perdido. Entretanto, cada homem repe­tia à companheira o argumento do rei, ao mesmo tempo que a acariciava, tentando desculpar o seu ato invocando a sua paixão e o ardor do seu amor. As Sabinas (é que a maior parte das jovens moças raptadas era originária de aldeias sabinas) não resistiram a esta conjugação de elo­quência e ternura e a sua cólera acalmou.

Este idílio, embelezado no decurso do tempo pela imaginação dos historiadores e dos poetas (que, por vezes, o levaram à cena), contém talvez fatos exatos. Os assaltos em massa, de aldeia em aldeia, para conquistar mulheres não são desconhecidos nas socieda­des primitivas e é possível que os primeiros habitantes de Roma te­nham recorrido a estas práticas. É possível também que seja uma lenda em que apenas se perpetua a recordação quase extinta de um rito muito antigo. Mas a realidade última que recobre importa, no fundo, muito pouco: atribuindo-lhe um certo valor histórico, os Ro­manos consideravam-na sobretudo como um mito, uma estória exem­plar que justificava toda uma ideologia do casamento. Era ela que fundava, de fato, a concepção que tinham das relações entre cônju­ges e é assim que os Romanos pensarão sempre na estória das Sabinas: uma conquista violenta que termina em ternura.

Mas o relato não terminava assim e o seu epílogo não era menos edificante. Os pais das Sabinas, de volta às suas aldeias, puseram luto. Loucos de dor e de raiva, enviaram delegações ao rei Tito Tácio, que reinava sobre os Sabinos, e persuadiram-no a iniciar hostilidades contra os Roma­nos, vizinhos sem religião nem moral. Pouco depois, um poderoso exército sabino estendia-se pela planície do Fórum, entre o Capitólio e o Palatino. Por seu lado, os companheiros de Rômulo pegaram nas armas e iniciou-se o combate. A confusão foi terrível, a luta implacável. Umas vezes os Sabinos ganhavam vantagem, outras vezes eram os Romanos. Em alguns momen­tos, a própria existência de Roma esteve comprometida e Júpiter em pessoa teve de dar novo ímpeto ao combate. Houve, por fim, uma acalmia e viu-se avançar entre os dois exércitos, em um cortejo plangente, as jovens mulheres que eram a causa inocente da carnificina: cabelos desfeitos, vestidos rasga­dos como convém a suplicantes cujo destino se vai decidir, dirigem súplicas, alternadamente, aos pais e aos maridos. Perturbados com este aparecimento inesperado dos seres que mais amam no mundo, uns e outros compreendem que esta guerra não só é criminosa, mas já não tem objeto.

À trégua que imediatamente se estabeleceu, seguiu-se um tratado formal: os dois povos decidiam unir-se em um só, transferir a sede do po­der para Roma, associando os dois reis como colegas (como serão de­pois os cônsules), e repartir a população do novo Estado em novos mol­des, isto é, em trinta “cúrias”, que foram designadas com os nomes das principais mulheres sabinas.

Mais uma vez, é difícil dizer com precisão que realidade se dissimula por trás deste episódio: exprime, sem dúvida, de maneira dramática, a ruptura a que está destinada a recém-casada; talvez conserve também a lembrança da dupla origem do povo romano. Independentemente do sen­tido da lenda, reconhecemos a singularidade de os Romanos gostarem de atribuir às mulheres um lugar e um papel privilegiados na formação da cidade. Este aspecto, por si só, seria suficiente para evidenciar a diferença fundamental que separa a sociedade romana primitiva daquela que os poe­mas homéricos nos descrevem. Em Micenas, as mulheres podem ter desempenhado um papel importante, mas a sua influência era apenas pes­soal. Em Roma, é a todo o sexo feminino que se reconhece, oficialmente, uma função essencial na sociedade e que não é apenas aquela a que a natureza o destina, que é a fecundidade. Tantas honras acumuladas não podem deixar de surpreender quem quiser tomar em consideração apenas a condição jurídica da mulher romana na época arcaica. Na realidade, a lenda ensina-nos que é necessário moderar as conclusões que se pensaria dever tirar dos textos jurídicos. O nascimento de Roma marcou, de fato, o advento da mulher e iniciou o reconhecimento de valores quase inteira­mente estranhos à idade heróica do mundo grego.

Se os companheiros de Rômulo raptaram mulheres, foi porque quiseram assegurar a Roma uma duração maior do que a sua própria vida: a violência pode fundar cidades, a energia e a coragem guerreira tornam-nas prósperas, mas só o amor pode torná-las imortais. Por esta razão, o mito das Sabinas tem o valor de uma segunda fundação: Rômulo, sobre o Palatino, pôde traçar o perímetro de uma cidade, dar-lhe muralhas, acumular nela riquezas, mas a cidade como tal começa apenas com o consentimento das Sabinas ao seu rapto. Sem ele, a obra de Rômulo não teria podido durar; só ele tinha o poder de enraizar Roma para sempre no seu solo.

Como era seu hábito, o espírito romano propendeu a dar a este acon­tecimento consequências jurídicas. Conta-se que os Romanos, aquando do tratado com os Sabinos, garantiram às suas mulheres condições de vida honrosas. Seriam poupadas a qualquer trabalho servil; não teriam outra tarefa que não fosse a de criar os seus filhos e fiar a lã. Quanto ao resto, dele se encarregariam escravas e servas. Na base das relações en­tre maridos e mulheres haveria doravante um contrato, e é notável que os seus termos não tivessem sido ditados por um vencedor que usasse da força. Os próprios maridos, com espírito de reconhecimento e de respei­to, comprometeram-se, diante dos deuses, a usar bons modos para com aquelas que, por seu lado, tinham aceito ser as suas companheiras.

A lenda das Sabinas, se era, para os Romanos, uma explicação da condição efetiva das esposas romanas, não é, evidentemente, aos olhos dos historiadores modernos, senão a imagem, projetada no passado, de um estado de fato que tentam explicar de modo diferente. Houve quem fizesse notar que a sociedade romana, no seu começo, se encontrava como que envolvida por um ambiente etrusco e que entre os Etruscos subsistiam muitos vestígios de costumes matriarcais. Na própria Roma, a história dos primeiros tempos não está deles isenta. Por exemplo, a sucessão do reino, aparentemente, foi assegurada por linha feminina. Numa, que se seguiu a Tito Tácio e a Rômulo, é genro de Tácio, e não seu filho, e, mais tarde, Anco Márcio seria, por via materna, neto de Numa. Se Tito Lívio - e toda a tradição - insiste no fato de estes reis terem sido eleitos, não deixa de ser verdade que a escolha dos Romanos, por duas vezes, se voltou para parentes, por via feminina, do rei prece­dente. Não se pode deixar de sublinhar também o papel desempenhado por Tanaquil, a mulher de Tarquínio, o Antigo, quer em levar o seu mari­do ao poder quer também, depois da morte deste, para impor aos cida­dãos o jovem Sérvio, um escravo nascido na sua casa, que inúmeros prodígios designavam como favorito dos deuses. Tanaquil é, sem dúvi­da, de origem etrusca. Surge na casa real como uma verdadeira sacerdo­tisa, interpretando as vontades divinas, o que se deve, talvez, às tradi­ções da sua raça, sempre preocupada com a adivinhação e atenta aos presságios. Mas não é menos notável que esta ciência seja possuída por uma mulher, que a utiliza com uma autoridade que ninguém ousa con­testar. Na verdade, Tanaquil não está investida em um cargo oficial, as suas previsões são “caseiras”, mas os homens da sua casa não hesitam em aceitá-las e em conformar a sua conduta aos seus conselhos. Em última instância, por intermédio deles, a sua ação exerce-se sobre o conjunto do Estado, sem que os historiadores tivessem sequer pensado em indig­nar-se com a importância assumida por uma mulher.

No entanto, a influência do mundo etrusco não foi. seguramente, a única na imposição e divulgação do respeito religioso pela mulher na so­ciedade romana. Uma lenda muito velha menciona uma antiga profetiza de nome Carmenta entre os primeiros habitantes do sítio romano. Não tem, muito provavelmente, nada de etrusco. Algumas tradições fazem dela a mãe de Evandro, um herói arcádio exilado que tinha vindo até às mar­gens do Tibre procurar asilo durante a guerra de Tróia. Fora ela, segundo diziam, que tinha escolhido o lugar da permanência de ambos, um lugar "feliz”, onde os deuses se mostrariam benévolos aos homens. Na sua ju­ventude, acrescentavam ainda, não se chamava Carmenta, mas Nicóstrate, ou Témis, ou ainda Timandra, que são nomes gregos, mas, na velhice, chamavam-lhe Carmenta, após ter dado provas das suas faculdades de profetiza, porque o nome deriva (provavelmente) da palavra latina que designa as encantações (os “encantos”) e os cantos dos profetas inspira­dos. O que quer que possamos pensar da própria lenda e dos elementos gregos que nela se incluem, uma ideia essencial se pode retirar: os Roma­nos admitiam que fora uma mulher a primeira a proferir, junto do Capitólio, os oráculos dos deuses. O nome de Carmenta era tão venerado que foi dado a uma porta da muralha mais antiga de Roma e dois altares estavam consagrados ao seu culto, em plena época clássica.

Todas as lendas tendem a mostrar que as mulheres, na mais autêntica tradição romana, eram envolvidas em uma espécie de veneração religiosa. Longe de serem excluídas da religião, eram como que as suas depositá­rias inspiradas. Podemos pensar em muitos outros exemplos fora de Roma: no da Pítia de Delfos ou na de Yéleda, ou ainda no daquelas mulheres que, nos confins do Sara, foram as únicas a deter, durante mui­to tempo, o segredo da escrita sagrada e dos ritos. A influência etrusca, impossível de negar, encontrou um terreno já preparado. Nada obsta a que as sociedades latinas e sabinas anteriores à formação da cidade romana tivessem atribuído às mulheres uma situação privilegiada. Isso explicaria bastante bem a reverência com que foram tratadas desde o tempo mais remoto a que possamos aceder na história de Roma.

A intervenção de outros fatores toma frequentemente confusa, na verdade, a imagem que julgamos divisar. A religião romana é o produto de uma síntese bastante complexa e o culto oficial tendeu a reduzir a função sagrada da mulher. Além disso, o desenvolvimento e o endurecimento das formas jurídicas na cidade contribuíram para lançar na sombra o seu verdadeiro papel, a ponto de os historiadores modernos gostarem de repetir que, para um romano, a mulher dificilmente é uma pessoa e, de qualquer modo, é um ser inferior que é necessário tutelar. Se esta é, efetivamente, a impressão que se extrai do direito mais antigo, ela não é, bem pelo con­trário, a conclusão que a mera análise das lendas sugere. A mulher romana é amada ternamente pelo marido e pelos filhos, é respeitada pelos servos e, em seu redor, subsistirá sempre como que uma aura de mistério. Terão fé nas suas “intuições” e nos presságios que se poderão retirar dos seus so­nhos e das suas palavras mais inocentes. O amor conjugal romano por parte do marido será, muito frequentemente, cheio de veneração e como que de uma humildade receosa. Vemos tudo isto, na verdade, de maneira esporádica e difícil de captar: os indícios que poderemos descobrir serão frequentemente ambíguos e seríamos talvez levados a crer que, em cada caso, se trata de excepções pessoais... se não existissem as lendas. As len­das dão-nos a garantia do valor universal de certos sentimentos e de certas tendências que constituem o que poderíamos chamar o “subconsciente da raça". Ora, poderemos conceber domínio mais favorável ao exercício destes sentimentos obscuros e inconfessados do que o diálogo, bastante com­plexo de um marido com a sua mulher, de uma mãe com os seus filhos? Os costumes e as escolhas individuais introduziam, inevitavelmente, inú­meras atenuantes nas fórmulas rígidas e necessariamente abstratas dos jurisconsultos. A lenda é como que o antídoto destas. Ao colocarem em cena, em uma situação definida, as relações das pessoas entre si, conferem-lhes uma densidade, um carácter concreto, que o jurista, em busca de uma realidade que continuamente o precede e sempre lhe escapa, não poderia ambicionar.

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Há ainda duas outras estórias de amor que as lendas dos primeiros tempos nos oferecem. São também dois mitos que completam a imagem que tentamos definir.

A primeira estória é a de Tarpeia. Quando os Sabinos de Tito Tácio atacavam os Romanos de Rômulo, culpados de ter raptado as suas jo­vens, a cidadela do Capitólio era defendida por um certo Tarpeio, que tinha uma filha chamada Tarpeia. Não nos é dito quem era a mãe, nem como os Romanos, que tiveram de ir procurar companheiras fora da sua cidade, puderam, apesar disso, fundar famílias. No entanto, semelhantes dificuldades não embaraçam os fazedores de lendas. É-nos dito apenas que Tarpeia se encontrava com seu pai na cidadela, no início da guerra, e que, quando vieram os Sabinos, ela olhava com curiosidade, da parte superior da colina, os soldados inimigos que acampavam na planície. Entre eles distinguia-se um cavaleiro, o rei Tácio. Era bonito, jovem e atraente com as suas armas coloridas e o capacete encimado por um penacho. Não tardou muito para Tarpeia se apaixonar. A partir desse momento, não pensou senão em satisfazer a sua paixão. Que importaria a sobrevivência da sua pátria, se pudesse tornar-se esposa de Tácio? Descendo em segredo para as linhas inimigas, entrou em conversações com o rei e ofereceu-se para lhe entregar a cidadela. Mostrar-lhe-ia um caminho desconhecido e abriria uma potema, se os Sabinos lhe entre­gassem, dizia ela, “o que levavam no braço esquerdo" (referia-se aos seus braceletes e anéis de ouro). Imaginava também que o rei reconhe­cido e porque não poderia deixar de ser sensível à beleza daquela que, por ele, aceitava trair a sua pátria e o seu pai, a tomaria por mulher. Dividida entre a cupidez coquete e o amor, já imaginava um futuro de felicidade ingênua, o de uma moça simples, que nada vê para além de um “belo casamento” onde irá figurar com belos adornos.

Tito Tácio finge aceitar a proposta. Dará à jovem aquilo que pede. Fiel à sua promessa, Tarpeia conduz, pelo caminho secreto, a guarda avançada para a cidadela. Os outros guerreiros seguem-nos. Em breve, um grupo numeroso está reunido na sombra, no planalto. Chegou o mo­mento de desencadear o assalto. Então, Tácio cicia à jovem que lhe quer pagar o preço da traição. Os seus soldados, que tinha prevenido, lançam sobre ela os seus escudos, feitos de madeira e couro; em breve sucumbe sob o seu peso e morre asfixiada. Quem poderia ter pena dela? Não ob­teve “o que o Sabinos levavam no braço esquerdo”? Muitos séculos de­pois, um amontoado de armas meio apodrecidas assinalava o lugar onde Tacio punira Tarpeia e recusara o seu amor. Era a rocha maldita de onde eram precipitados os traidores à pátria.

Como a lemos em Propércio, a lenda de Tarpeia é o resultado de uma longa evolução, em que contributos relativamente recentes e embelezamentos literários enriqueceram um dado folclórico que ainda se pode determinar. Propércio fez de Tarpeia uma heroína de tragédia, uma Fedra que luta contra uma paixão que sabe culpada, a que cede no fim, ao mesmo tempo que se confessa “condenada”. São refinamentos estranhos à narrativa primitiva, mas que não encobrem o seu significado. Independentemente do pretexto que esteve na origem da lenda de Tarpeia - um amontoado de armas que apodrece, um trofeu consagrado a Vulcano ou a algum outro deus vingador, constituindo, sob a ferrugem das armas tintas de sangue, e, por isso mesmo, perigosas para a cidade, um mero lugar com um nome, a que se junta a lembrança de um demônio maléfico ou qualquer outra razão que a sutileza dos historiadores modernos não conseguiu descobrir com certeza -, esta estória soa como um aviso aos Romanos: só os homens são capazes de permanecer fiéis à pátria. O coração das mulheres deixa-se seduzir com demasiada facilidade. Tarpeia é irmã daquela Cila que, em outros tempos, na Grécia, em Mégara, traíra o seu próprio pai pelo amor do rei cretense Minos. Uma jovem que esco­lhe livremente o seu amor apenas ouve a sua paixão, o que causa à sua família, à sua pátria e, por fim, a ela mesma grandes catástrofes.

Qualquer que seja a sinceridade de Tarpeia, a sua “fé” amorosa não deveria prevalecer sobre esta outra “fé”, mais essencial, que é devida à ordem estabelecida e sobre o respeito pelas leis divinas, que colocam acima de qualquer outro valor a conservação da cidade. A estória de Tarpeia é apenas um exemplo particularmente dramático do carácter perigoso e criminoso da paixão amorosa “desregrada”. Tito Tácio, o menos romântico e, como Minos na história de Cila, o mais “justo” dos reis, não pode senão sentir-se horrorizado pela oferta de amor que Tarpeia lhe faz. Estranha moral, dir-se-á talvez, que permite ao rei sabino aceitar o benefício da traição e lhe ordena que puna brutalmente aquela que sacrificou tudo por ele! Acusar Tácio de hipocrisia seria desconhecer com gravidade um dos reflexos religiosos mais profundos do espírito romano. Tácio está em guerra contra Roma; pode utilizar todos os meios para abater o inimigo, porque o estado de guerra é, precisamente, a sus­pensão de qualquer “justiça”. Mas o ato de Tarpeia é um gesto mons­truoso, que os Romanos chamavam portentum', é um desrespeito pela ordem do mundo, como o nascimento de um ser cujo corpo não está em conformidade com a lei da sua espécie. Como os parricidas, que eram cosidos em um saco e lançados no mais profundo das águas para os elimi­nar da superfície do mundo, ou como as vestais infiéis, que eram encerradas vivas, em uma cova abaixo do solo, Tarpeia também será submersa sob um montão de escudos que a afastarão da luz, dos olhos deste Júpiter fidius, patrono da boa-fé, que está no Capitólio.

Propércio, como advogado astuto, sugere à jovem argumentos sofis­ticados que a justificam aos seus próprios olhos. Imagina Tarpeia a dizer a si mesma que a sua união com o rei sabino porá termo à cólera deste contra Roma e que o seu casamento tornar-se-á, por isso mesmo, a me­lhor garantia da paz. Mas Propércio sabe efetivamente que o argumento dissimula um sofisma: o milagre que, no dia seguinte, as mulheres sabinas irão fazer no campo de batalha está interdito a Tarpeia. A própria paixão que a possui e a que exclusivamente obedece retira-lhe o direito de ser mediadora. Esta paixão, destrutiva nos seus efeitos, não poderá acabar por ter um resultado construtivo e feliz. Tudo se passa de maneira dife­rente com as esposas legítimas, cujo poder benéfico resulta da sua acei­tação da lei do mundo. Aquilo que os modernos chamarão o "direito do amor” não é negado, certamente, pela consciência romana, mas este di­reito, segundo ela, não reside no desejo, antes começa com a plenitude da sua realização, porque o desejo é anárquico e destrutivo, enquanto o amor “feliz”, apenas com a força da sua "felicidade", é fértil e integra-se espontaneamente na ordem do mundo.

A lenda de Lucrécia, situada também nos primeiros tempos de Roma, comporta uma lição semelhante. É a estória, tomada célebre por Tito Lívio, de um atentado que provocou tal movimento de indignação que os Romanos expulsaram o seu rei, cujo filho era culpado.

Sexto Tarquínio, filho de Tarquínio, o Soberbo, encontrava-se no exército, diante da cidade de Árdea, que estava cercada. Com os outros jovens nobres, discutia, uma noite, acerca da virtude das esposas que tinham deixado em casa. Cada um elogiava, à compita, as virtudes da sua, de modo que, de comum acordo, montaram a cavalo, decididos a ir, de surpresa, ver o que se passava. Em Roma, encontraram as mulheres do palácio a divertir-se e a banquetear-se com as amigas. Passando daí a Colácia, onde residia um deles, Tarquínio Colatino, o espectáculo era muito diferente: Lucrécia, a jovem esposa de Colatino, estava sentada à lareira, fiando a lã entre as suas servas. A chegada dos senhores que acompanham o marido, esforça-se por dar-lhes bom acolhimento, im­provisa uma refeição e a noite passa-se alegremente. Ora, Sexto Tarquínio, logo que vê Lucrécia, ganha por ela uma paixão culposa. Tanta virtude e inocência tentam a sua natureza perversa. Naquele momento, nada diz. No dia seguinte de manhã, regressa ao campo militar com os outros, mas, passados alguns dias, eis que volta a Colácia. Entra na casa da jovem mulher. Esta acolhe-o sem desconfiança, oferece-lhe hospitalida­de e ordena que se lhe seja posta uma cama no quarto dos hóspedes. Mais tarde, uma vez a casa adormecida, Sexto Tarquínio insinua-se na câmara de Lucrécia, empunha a espada e, de pé, junto à cama, acorda-a, dizendo-lhe: “Silêncio! Sou Sexto Tarquínio. Estou armado; morrerás se disseres uma palavra.” A pobre mulher, aterrorizada, tenta despertar-lhe alguma piedade e suplica-lhe que a deixe em paz. Mas Sexto come­ça então a falar-lhe de amor, a tentar por todos os meios possíveis atingir os seus fins. Ela permanece inabalável. Então, usando uma artimanha infame, ameaça-a com uma morte desonrosa. Se resistir mais tempo, matá-la-á e, em seguida, cortará a garganta ao primeiro escravo que apa­recer e estenderá o seu cadáver, despojado de todo o vestuário, ao lado do corpo dela. Assim, todos acreditarão que foi surpreendida em fla­grante delito de adultério, em condições ignominiosas, e devidamente punida. Esta perspectiva atroz vence, por fim, a sua resistência. Consen­te. Triunfante. Sexto Tarquínio deixa a casa antes de amanhecer.

Logo que se vê sozinha. Lucrécia desperta as suas servas e envia um mensageiro ao marido e ao seu próprio pai. Ambos acorrem precipitada­mente. Conta-lhes a estória da sua desonra e, enquanto tentam consolá-la, mostrando-lhe que de modo nenhum é culpada, crava uma faca no peito e penetra o coração.

Aqui ainda a paixão é destruidora da ordem: não só causa a morte da vítima do perverso, mas a do próprio perverso, pois o atentado teve consequências políticas. O povo romano, indignado com esta violência, depôs o rei, cujo filho cedera a uma paixão criminosa, e foi a partir deste dia que se iniciou a República. Que não se diga que a violação de Lucrécia foi a causa acidental da expulsão dos reis. Na verdade, os Romanos esta­vam convencidos de que o crime de Sexto Tarquínio fora o resultado inelutável da monarquia. Parecia-lhes inevitável que um regime que confiava o poder absoluto a um só homem fizesse nascer neste, bem como em todos os que se encontravam associados ao seu privilégio, o desrespeito por aquilo que cada um tem de mais sagrado: o amor da sua mulher, o respeito por si mesmo, a santidade do lar. Era fatal que a monarquia, degenerando em tirania, naufragasse nas violências insensatas da paixão, maldição que os deuses enviam aos mortais culpados de impiedade.

Mas a estória exemplar de Lucrécia comporta ainda outra significação: a jovem esposa, heroína da fidelidade conjugal, recusa ouvir a voz do pai e do marido, que desculpam, muito legitimamente, o que ela chama a “sua falta”. Não admite para si nenhuma circunstância atenuante: o seu corpo foi desonrado, o seu sangue foi manchado. Este corpo deve perecer, este sangue deve ser derramado, ainda que a alma seja pura.

O rigorismo demonstrado por esta esposa romana, e que pode parecer-nos excessivo, quase bárbaro, explica-se pela convicção profunda de que esta “falta” é uma mancha material, indelével, que a separa para sempre do marido e a torna indigna de retomar o seu lugar neste lar arruinado. Está convicta do valor absoluto do ato de amor, pelo menos para a mulher, porque envolve para sempre o corpo e a alma. Obrigando-a a sofrer as suas violências, Sexto Tarquínio tornou-lhe impossível man­ter a “fé” para com o marido, e pouco importa que não tenha aquiescido. Não podia admitir que a carne, quando falta a adesão da alma, não com­promete um ser: nada está mais longe do seu espírito que este platonismo amoroso que se desenvolverá mais tarde em Roma e que, aqui como em qualquer outro lugar, ao subordinar complacentemente o corpo à alma, permitirá todos os sofismas e todos os compromissos.

Aliás, Lucrécia não é a única a pensar assim. Durante muito tempo o instinto da raça recusou admitir que uma mulher pu­desse pertencer sucessivamente a vários homens, ainda que, legalmente, tivesse esse direito, por se ter tornado livre de uma primeira união pela morte ou pelo divórcio. A marca da carne é indelével, comprometendo para sempre.

Ora, isso tem importantes consequências. Conhecemos, depois de Roma, outras morais para as quais o ato de amor é um “pecado”. E claro que Lucrécia não considera que, entregando-se ao marido, tenha manchado o seu corpo e a sua alma: a sua união com ele realizou-se de acordo com as leis divinas e humanas, ela era “boa”. Mas este ato, em si mesmo, não era indiferente. Realizado em outras condições, contrariamente às mesmas leis, tornava-se monstruoso. Não é ainda a ideia de pecado, mas tomámos o caminho que aí conduz, na medida em que admitimos que um acontecimento material, da ordem do corpo, compromete e modifica para sempre a totalidade do ser.

No fundo da alma romana, este sentimento persistirá sempre, mesmo em tempos que julgaríamos mais livres dos velhos imperativos da raça. No entender dos Romanos, o casamento legítimo possuirá sempre um valor quase sacramental, inerente à natureza das coisas: inscreve-se na ordem do mundo e contra este fato as vontades individuais nada podem. É isso o que um Sexto Tarquínio não podia compreender, sendo filho de rei, estando colocado, pelo nascimento, acima das leis e sendo incapaz de disciplinar a sua paixão anárquica.

Lucrécia e Tarpeia situam-se em lados opostos: uma é o símbolo do pudicitia, a outra, o do impudor. Mas, para ambas, o amor foi causa de morte, porque o seu ser se encontrou arrastado pelo drama da paixão incontrolada. As suas lendas traduzem a inquietação fundamental dos Romanos perante o instinto amoroso. Tal inquietação é tanto mais profunda quanto este instinto não poderia, de maneira nenhuma, ser conde­nado em si mesmo, por ser a manifestação da própria vida. A história do sentimento amoroso em Roma irá refletir, até ao fim, esta ambiguidade: umas vezes, considerá-lo-á, indulgentemente, como o impulso alegre de uma raça vigorosa e jovem, a manifestação voluptuosa dos seres; outras vezes, abandonar-se-á a ele com um ardor quase religioso, ou com um sentimento de temor semelhante ao do crente iniciado em mistérios que pressente que comprometem o seu ser mais profundo, mas cujo sentido não lhe é revelado na totalidade.

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As primeiras crenças populares criaram um panteão de deuses e qualquer coisa desde um anão (Bes) até um escaravelho (Khepri) podia ser deificada. Havia mi­lhares de divindades, sendo que todas tinham personificações úteis na vida diá­ria. Muitos deuses locais acabaram sendo incluídos na mitologia religiosa mais formal. Havia muito pouca exclusividade na religião egípcia, e tamanhas varie­dade, diversidade e riqueza de crenças resultaram em centenas de estórias e ci­clos míticos numerosos demais para serem abordados aqui. A Enéade - A mitologia religiosa de maior influência que chegou até nós foi o ciclo conhe­cido como a Enéade, relativo a nove deuses. Girava em torno de Rá, em seu as­pecto como o Sol, e seu tema principal era a luz (Osíris) versus a escuridão (Seth). Ele também diz respeito à estória de Rá, enquanto navegava pelo céu de dia e de­saparecia no Mundo Inferior à noite. Essa foi a fonte primária para o primeiro culto da reencarnação. A Ogdóade - Outro importante ciclo mítico, envolvendo oito deuses e conhecido como Og­dóade, surgiu no Alto Egito, mas não era constituído propriamente de seres e sim, de personificações de ideias abstratas. Cada um deles possuía uma forma masculina e feminina. Assim, os deuses das trevas eram Kek e Keket, os da invisibilidade, Amon e Amaunet. Amon mais tarde se tornou o deus supremo de todos os deuses, se fundiu com o Sol e foi adorado como Amon-Rá. 

BARTLETT, Sarah. Cultos de mistério. IN: __________. A bíblia da mitologia. São Paulo/SP: Editora Pensamento, 2011. Cap. 2, p. 77.
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A Arca de Noé

Depois de ter gerado os infaustos Caim e Abel, Adão foi pai, ainda, de inumerável prole. O tronco mais nobre desta verdadeira árvore da vida que foi Adão chamou-se Set. Dele veio, algumas gerações mais tarde, um certo Enoque, homônimo do filho de Caim, mas tão infinitamente superior ao filho deste que mereceu o maior dos favores de Deus, sendo dispensado de morrer. O Criador, de fato, extremamente agradado de sua fidelidade, arrebatou-o aos céus, um certo dia, como a um Ganimedes ancião, quando completara 365 anos de idade. Também a seu filho Matusalém esteve reservada outra graça – um pouco menor que a conferida a Enoque, mas ainda assim invejável -, pois que chegou a viver mais do que qualquer outro ser humano sobre a Terra. O bom Matusalém, enfim, viveu nada menos que 969 anos de idade - ou *31 menos que mil*, como diziam os amigos, para acentuar ainda mais o maravilhoso prodígio.

Matusalém ainda vivia quando já andava pelo mundo o seu netinho Noé. Este patriarca ilustre, que a tradição nos apresenta sempre como um ancião severo - que, de fato, realmente foi, especialmente no período da grande tribulação -, era, no entanto, nos seus verdes dias, um menino muito alegre e que, como todos os outros, também gostava de brincar. Um desses brinquedos já era um sinal de sua futura eleição. Era assim que, desde o raiar do dia, o pequeno Noé já andava por toda parte à cata de insetos e pequenos animaizinhos para juntá-los, sempre aos pares, encerrando-os depois em minúsculas caixinhas. Tão logo reunia nova parelha, corria radiante até o avô lhe estendia a caixinha, num grande sorriso ainda sem dentes.

O bom Matusalém recebia o presente com um sorriso divertido e o colocava de lado, para mais tarde soltar os pequeninos prisioneiros – pois o moleque, incansável na sua obra, esquecia-se sempre de libertá-los.

Mas o pequeno Noé cresceu, afinal, e tornou-se um robusto jovem, casando-se mais tarde com uma dedicada mulher (que a tradição identificou, posteriormente, como Naamá). Para sustentar a esposa e seus três filhos, o incansável Noé fez-se carpinteiro, talvez o melhor que já houve em todos os tempos.

Entretanto, no mundo, as coisas andavam de mal a pior, em termos morais. Totalmente corrompida, a raça humana entregara-se a todos os excessos, de tal sorte que um dia, enquanto Noé – já um velho de veneráveis barbas – trabalhava em sua oficina, foi visitado pela voz de Deus.

- Noé, largue a enxó e ouça a voz do Senhor!
O velho carpinteiro, tomado pelo assombro, obedeceu.
- Estou farto desta humanidade corrompida – disse Deus, com uma nota evidente de amargura. – Por isso decidi apagar da face da Terra os sinais não só da presença dela, como também dos animais que por aí andam e das aves que voam pelos céus.

Noé, pálido pelo simples de fato de estar diante da presença divina, ficou estupefato diante daquele terrível anúncio.

- Exterminar... a todos, meu Senhor? – disse ele, quase incrédulo.
- Não – disse a voz. – A ti e aos teus pouparei do castigo.
Noé sentiu-se um pouco mais aliviado, mas não a ponto de esquecer da

desgraça que poria fim aos dias de todas as coisas vivas sobre a Terra.
- Farei desabar sobre a Terra inteira todas as águas represadas no céu, de tal sorte que em muito pouco tempo tudo perecerá debaixo d'água – disse Deus.
Um estupor de espanto substituiu as feições normalmente serenas do patriarca.

- Mas como poderá minha família escapar à tuaira, Senhor?
- Assim será, se fizeres como agora vou te dizer.
Então Deus ordenou a Noé que construísse uma grande arca, de três pavimentos, a qual encheria de todas as espécies de animais – um casal para cada espécie; deveria embarcar nela junto com os seus familiares, e lá deveriam permanecer durante quarenta dias e quarenta noites, que seria o tempo de duração para o Dilúvio,

- Esteja alerta – concluiu a voz, em um tom admoestatório -, pois quando começar a grande tribulação, daqui a sete dias, não haverá muito tempo para providências.

No mesmo dia Noé reuniu a esposa e os três filhos, além das noras, e deu-lhes a conhecer o terrível veredicto proferido pelo Senhor.

- Comecemos imediatamente a construir a Arca - disse aos filhos, que, apesar de um tanto incrédulos, não ousaram pôr em dúvida a veracidade das palavras do velho pai.

Nos sete dias seguintes Noé e seus parentes não conheceram um único segundo de descanso, consumindo todo o tempo a recolher material para a construção da arca, além de reunir animais aos pares, deixando-os ajuntados em uma espécie de redil enorme construído nos fundos da casa. Naamá, a esposa de Noé, também ficou encarregada de juntar quantidades enormes de alimento para manter vivos a família e os animais durante a longa quarentena sobre as águas. Durante todos esses dias de preparativos - mesmo naquele que antecedeu ao sétimo -, não se viu uma única nuvem cruzar os céus, pois Deus queria testar a fé de Noé, ver se ele era digno de sua escolha. Noé, contudo, nem por um instante, durante todo esse período, ergueu os olhos para o céu; ao contrário, manteve-os sempre voltados para a terra, pois sabia que o tempo urgia.

- Depressa com o betume! – dizia ele a seus filhos, que engrossavam em uma caldeira o material destinado a calafetar todas as frestas da grande nave.

Aos poucos a imensa arca foi ganhando forma, suspensa sobre dois gigantescos tripés de madeira que Noé fizera erguer, com a ajuda de outros homens, os quais, assalariados para tal, o faziam com empenho, mas também com grandes mostras de deboche.

- O velho endoideceu – dizia um, enquanto enfiava as cunhas das junturas.
- Também, seiscentos anos nas barbas...! - dizia outro, a serrar uma tábua.
E não só entres estes, mas também em meio à população do lugar se espalhou a maledicência. a ponto dos fofoqueiros se reunirem em pequenos bandos para perturbar o trabalho do velho marceneiro;

- Lá vem a chuva, Noé! Larga a arca e dá no pé!

Mas o forte ancião, a quem a escolha divina dava uma segurança acima de qualquer escárnio, continuava inquebrantável em sua obra.

E assim foi até que chegou a noite que antecedeu o dia fatal.

Uma verdadeira multidão acompanhou o extraordinário movimento daquela última e memorável noite sobre a terra. Sob a luz espectral de dezenas de archotes, uma extraordinária procissão de animais começou a subir a enorme rampa que dava acesso aos dois primeiros pavimentos da enorme arca.

Foi, realmente, um espetáculo magnífico, uma noite de sonho que antecedeu o pesadelo: debaixo de uma mistura de aplausos e assobios, subiam os animais, tendo por fundo o grande disco prateado da lua. Elefantes prodigiosos, leões selvagens, tigres inquietos, zebras - toda espécie, enfim, de animais de grande porte precederam a dos menores, como ovelhas, lobos, coelhos, cães e vários tipos de animais domésticos.

- Venha logo, Mimi! - disse Jafé ao velho gato de estimação, que surgira com a fêmea no seu manso passo aveludado.

Logo atrás veio o grande cortejo dos insetos, guardados em pequenas caixas, o que trouxe de imediato à memória de Noé o seu brinquedo antigo, além do saudoso avô, fazendo com que seus olhos se enchessem subitamente de lágrimas.

E assim, ainda antes que a aurora se anunciasse com seu rubor no horizonte, estavam já todas as criaturas irracionais acomodadas no interior da grande arca suspensa sobre os dois gigantescos tripés.

Então foi a vez de Noé e sua família adentrarem a grande nau. Apoiado em seu bastão, o velho patriarca subiu levando ao lado a esposa, os filhos e as noras, debaixo do riso delirante da multidão. Noé, porém, assim que pisou no terceiro pavimento, sentiu uma pena tão grande daquelas pobres almas chafurdadas no pecado, que lhes dirigiu, ainda, um último apelo:

- PorcosI Até quando desafiarão a ira do Senhor?

Um coro sonoro de risos estourou lá embaixo, com alguns chegando mesmo a lançar objetos sobre a arca.

Entretanto, apesar do tom de deboche, a maioria daquelas pessoas eram mais supersticiosas do que cínicas, e por isso resolveram esperar até o fim para ver no que ia dar aquilo tudo. “Vai que o velho maluco estava certo?", pensavam secretamente.

Mas quando o sol surgiu outra vez no horizonte, espalhando amplamente os seus raios, a expectativa do povo esmoreceu. Entendendo que aquela anedota já se estendera em demasia, aos poucos a multidão começou a dissolver-se, indo no rumo de suas mesquinhas tarefas cotidianas. Logo a barca ficou entregue á solidão, debaixo de um sol abrasador.

- Meu pai, como faremos para zarpar aqui de cima? – disse o jovem Cam ao velho marceneiro, ao perceber que não teriam quaisquer meios de fazer a arca se liberar dos dois tripés onde estava assentada.

- Deus o fará- disse Noé, laconicamente.

Mal Noé terminara de pronunciar essas palavras e uma pequenina nuvem surgiu, bem ao longe, no horizonte. Avançando velozmente, foi logo sucedida por mais algumas, e logo atrás, por um exército de outras, de uma cor ferruginosa verdadeiramente assustadora.

- Veja, Noé! - disse Naamá.
O ancião voltou suas barbas naquela direção e disse, com vigor na voz:
- Chegou a hora de o Senhor demonstrar todo o seu poder!
Um rumor surdo, como que de rochedos a rolar sobre a cúpula côncava dos céus, desceu do alto, enquanto o firmamento escurecia como a mais negra das noites. Apesar de as nuvens correrem alucinadamente pelos céus, na terra o ar estava morbidamente parado. Então uma lufada de vento surgiu de repente, levantando uma nuvem de pó e indo de encontro à arca. Os tripulantes oscilaram para trás, como se uma mão invisível os tivesse empurrado ao mesmo tempo.

- Sem! – berrou Noé.- Recolha as escadas!

Imediatamente Sem deu cumprimento às ordens do pai. Outra lufada abateu-se sobre a arca, fazendo com que os tripés de madeira que a sustentavam rangessem. Jafé viu a arca desprendendo-se das escoras e indo mergulhar sobre o solo ainda seco, num espalhar de madeira e animais. Mas sua visão foi obstada pelo ruído desses mesmos animais, os quais, inquietos com a escuridão, começaram a remexer-se nos pisos abaixo, fazendo tremer a arca toda com os golpes surdos de suas patas.

Noé mirava o céu, em uma espécie de transe místico, quando sentiu nas barbas a primeira gota da chuva prometida. E então, o temporal verdadeiramente começou. Em uma fração de segundos, a chuva fina evoluiu para uma tempestade de impressionante violência. As águas caiam dos céus com tanta intensidade que parecia que o mundo recebia sobre si o jorro continuo de uma gigantesca cachoeira. Em menos de um minuto a terra desapareceu sob os olhos dos marinheiros improvisados, e a única coisa que puderam ver lá embaixo eram formas opacas a correr alucinadamente de lá para cá, com as pernas já submersas até os joelhos.

- Pobres coitados! – gritava Naamá.

- Silêncio, mulher! - disse-lhe Noé, com autoridade. – Quer atrair, também sobre nós, a ira que o Senhor destinou aos imprevidentes?

Uma legião de desesperados – que a chuva espessa tornava meros vultos - arremessava-se aos tripés, tentando escalá-los desesperadamente para alcançarem o primeiro pavimento da arca. Entretanto, um a um, iam sendo arrancados antes que conseguissem alcançar seu objetivo, mergulhando de ponta cabeça para a morte. Apenas um destemido conseguira colocar a mão sobre a madeira lustrosa da grande nau, mas. sem poder encontrar um apoio, fora perdendo aos poucos o fôlego, até que, afinal, vencido pela adversidade, foi juntar-se à massa dos desgraçados no turbilhão das águas.

Rapidamente as casas foram sendo engolidas pela elevação das águas. Pessoas e animais rodopiavam como bonecos desengonçados em gigantescos redemoinhos até desaparecerem na vastidão do grande mar no qual a Terra ia se convertendo.

- Meu pai, a água está quase alcançando o casco da arca! – berrou Jafé.


- Segurem-se todosl - disse Noé, sabendo perfeitamente o que os aguardava.

Tão logo o nível das águas alcançou o casco, a arca foi subitamente impelida para cima, provocando um violento movimento que fez todas as juntas da mesma rangerem. Ao mesmo tempo, o barulho dos animais em desespero atroou a arca inteira. Uma gritaria sobrenatural elevou-se de todas aquelas criaturas espremidas em seus compartimentos, em um grito único de mil vozes estridentes e desparelhas que fez eriçarem os cabelos de toda a família de Noé.

O tripé dianteiro, entretanto, tendo perdido sua base de sustentação, saiu fora do lugar e terminou sendo levado pelas águas, o que fez a arca, ainda presa ao tripé traseiro, mergulhar a proa violentamente para baixo. Agarrado a escoras e cordames, Noé viu a proa onde estava inclinar-se de tal modo que chegou a ficar em uma posição horizontal sobre as águas abaixo de si.

- O Senhor nos reerguerá! – bradou ele, frente a frente com a morte.

No mesmo instante o tripé traseiro, não suportando o peso inteiro da arca, partiu- se em dois sob as águas revoltas, e desta vez a popa da embarcação, até então suspensa, desceu para as profundezas com toda a força. Convertida num balanço diabólico, a arca oscilou várias vezes, fazendo com que a proa fosse arremessada ora para as nuvens, ora para um vórtice profundo, a ponto de colocar grande quantidade de água para dentro. Noé e seus familiares, solidamente agarrados, estiveram submetidos a este vaivém continuo até que a arca, finalmente liberta de seus dois entraves, conseguiu estabilizar-se livremente sobre a água.

A chuva, entretanto, continuava a cair com fúria inacreditável. Tudo era escuridão, somente quebrada pelos estilhaços dos relâmpagos, que permitiam aos ocupantes da arca ter uma brevíssima visão do que acontecia ao redor.

- Oh, não há mais nada sobre o mundo! - lamentava-se a esposa de Noé.

- Quando não existir mais o Senhor, então me unirei aos seus lamentos - disse Noé, entrando para o interior da nave, pois agora nada mais havia a fazer senão entregar-se aos desígnios do Criador, uma vez que a arca não tinha leme algum.

Enquanto a chuva durou, não foi possível distinguir o dia da noite, de tal sorte que o mais exato seria dizer que a arca navegou no curso de oitenta noites. Empurrada pelo ímpeto desencontrado das águas, a arca de Noé flutuou durante todo o tempo, porém não tão mansamente quanto se podia esperar de uma nau comandada pelo Senhor. Depois de sofrer diversos abalroamentos, a arca começou a apresentar algumas sérias avarias.

- Não imaginaram, de certo, que o Senhor os colocaria aqui dentro para que estivessem a se fartar o tempo todo – disse o patriarca à família, vendo em tudo, sempre, a mão de Deus. – O Senhor tem duas mãos: com a destra nos a bençoa e com a outra nos experimenta.

A maior parte dos quarenta dias passados sobre as águas – que não devem ser tomados, necessariamente, ao pé da letra, pois quarenta era um número genérico usado pelos cronistas para representar um tempo muito longo (assim como os quarenta anos que  os fugitivos do Egito passariam no deserto) – os sobreviventes do dilúvio gastaram em dar de comer à verdadeira legião de animais encerrada na arca, além de mantê-la limpa, expulsando do seu interior a quantidade enorme de dejetos.

Então aproximou-se. finalmente, o termo do prazo dado por Deus para que a chuva cessasse. Sem e Jafé estavam de pé, ao abrigo da grande coberta, observando o temporal, que continuava a cair com semelhante intensidade.

- É nacreditável! – disse Jafé a seu irmão, apontando para o cume de uma elevadíssima montanha, quase inteiramente submersa pela água.- Até ondeirá a elevação das águas?

- O Senhor é quem sabe-  disse Sem, piedosamente, mas também com grande temor em sua alma.

Entretanto, naquele mesmo dia a chuva começou a amainar, enquanto um grande sopro varria a superfície das águas, tornando-a prateada. Noé e os demais foram chamados aos gritos pelos dois irmãos, e logo surgiram todos juntos para contemplar o abrandamento da ira de Deus.

- Nada pode ser mais doce sobre a Terra do que o momento em que a ira do Senhor começa a aplacar-se – disse Noé, com os olhos rasos d'água.

Em seguida o comandante da arca ergueu uma ação de graças junto com toda a sua família. Em resposta, surgiu no grande teto coberto de nuvens escuras uma pequena brecha por onde insinuou-se um estreito porém vivido raio de sol, que foi bater em cheio sobre a arca.

- Bendito seja o Senhor! – disse a esposa de Noé.
- É o primeiro sinal da reconciliação! – disse Sem, com um alivio profundo. As águas, porém, continuavam muito altas, e a arca ainda navegou o dia e a noite inteiros sem que fosse possível imaginar haver alguma parte seca em toda a Terra.

- É cedo, ainda – disse Noé.

E realmente era. Mas em breve um pequeno susto, muito parecido com aquele que dera início à imprevisível jornada, veio alterar a situação. Repentinamente, a arca cessou de navegar.
- Acho que encalhamos – disse Jafé, correndo de um lado a outro da borda da nave para ver se enxergava algo.
Mas ainda não era possível saber exatamente no que eles haviam encalhado, o que só aconteceu quando as águas baixaram mais um pouco.
- Se não estou enganado, meu pai - disse ainda o mesmo Jafé - , acho que encalhamos sobre o Monte Ararat.
De fato, a arca havia encalhado sobre uma encosta daquela montanha, localizada na Armênia. A medida que as águas baixavam, a arca foi ajustando-se sobre o terreno elevado, de tal sorte que em alguns dias já podiam avistar boa parte da montanha abaixo de seus pés.

- Chegou a hora – disse Noé, saindo do convés.

Logo em seguida retomou trazendo um corvo sobre o pulso, à maneira dos falcões.

- Vá, ave escolhida - disse Noé, liberando-a para o vôo. - Vá e somente regresse se não houver solo onde pousar.

E assim fez o corvo, regressando depois de algum tempo, pois ainda não havia nada sobre a superfície da Terra senão água. Mais adiante Noé soltou uma pomba, que não teve melhor sorte. Mas na segunda tentativa, esta regressou trazendo no bico um ramo de oliveira.

- Glória a Deus! – disseram todos, pois agora tinham certeza de que a água já havia secado em algum lugar da Terra o suficiente para descobrir a vegetação.

Sete dias depois. Noé soltou novamente a pomba, mas desta feita ela não regressou, dando a todos a certeza de que já havia condições sobre a Terra para ser novamente habitada.

- Vamos descer! Vamos descer! – disseram as noras de Noé.

- Aquietem-se- disse o sogro, rudemente. – Sabem vocês, por acaso, se o Senhor já decretou a hora do retomo?

Um silêncio obediente seguiu-se ás palavras do velho, pois naqueles piedosos dias uma palavra do patriarca era o bastante para pôr fim a qualquer alarido.

Algum tempo depois, o próprio Senhor tratou de confirmar a atitude de seu servo, declarando a Noé, com suas próprias palavras:

- Já podes desembarcar. Noé. Leva contigo os teus e todos os animais, pois a terra já está completamente seca. Ali homens, animais e toda espécie de seres poderão procriar livremente, enchendo-a novamente de vida.

As rampas foram baixadas e os casais de animais começaram a descer, cada qual tomando o seu rumo para poder se multiplicar e povoar a Terra inteira, até que não restasse mais nenhum dentro da arca.

Assim que Noé pôs seu pé sobre o solo, mandou erigir um altar a Deus e ofereceu-lhe um holocausto com alguns animais (o que deve ter feito com as crias dos casais, pois senão alguma espécie inevitavelmente seria extinta).

Quando a fumaça chegou ao nariz do Senhor, este regozijou-se a tal ponto que afirmou jamais voltar a infligir um flagelo igual àquele a Terra e a todas as suas criaturas. (Deus, depois de ter se arrependido de criar o Homem e os demais seres, parecia agora arrependido de quase tê-los exterminado.)

Outra vez o Senhor entregou às mãos do homem o império de toda a natureza, declarando que maldito seria aquele que tornasse a verter o sangue de outro homem. Ele estava, de fato, tão feliz com aquele recomeço de sua criação que estendeu por sobre o céu um grande arco colorido.

- Este é o sinal da aliança que solenemente renovo com o Homem – disse o Criador -. E desde hoje, todas as vezes que vir este arco suspenso sobre as nuvens me lembrarei da aliança que fiz convosco neste dia, suspendendo todo e qualquer novo dilúvio.

Depois da nova aliança, Noé estabeleceu-se com sua família em tendas, para dar início à nova era. O patriarca, feliz em poder ser o novo Adão, abandonou o seu oficio de marceneiro e decidiu tornar-se agricultor.

- Plantarei a vinha e verei o que dela sairá – disse Noé.

De fato, algum tempo depois, a vinha brotou com extraordinária vitalidade. Noé, provando dos frutos da videira, teve a ideia de transformá-la numa bebida saborosa, dando origem ao vinho. O velho patriarca gostou tanto da bebida que se embriagou.

Coube ao seu filho Cam a sorte funesta de entrar inadvertidamente na tenda do pai e encontrá-lo caído sobre os tapetes e inteiramente nu.

- Sem...! Jafé..! - gritou ele, saindo da tenda, ansioso para contar a novidade. - Venham ver em que estado se encontra nosso venerável pai!

Os dois irmãos correram até lá, mas, tendo sido informados em qual estado iriam encontrar o velho, tiveram a precaução de apanhar um manto e de cobrir seus próprios olhos.

- Cubramo-lo de uma vez, antes que as mulheres o vejam neste estado e percam todo o respeito que lhe devem – disse Jafé a Sem, lançando sobre a nudez do pai o manto protetor.

No dia seguinte, entretanto. Noé, ao ficar sabendo da atitude de Cam, bradou:

- Maldito seja Cam! Por causa de seu desrespeito, sua descendência será serva de Sem e de Jafé!

Depois deste incidente as coisas tomaram o rumo normal, e Noé pôde desfrutar ainda de anos bastantes para ver sua raça multiplicar-se, morrendo apenas aos 950 anos de idade (contando apenas 19 anos menos que seu avô Matusalém).

Dos três ramos de sua descendência – Sem, Cam e Jafé - fez-se a base para as raças futuras que se espalhariam por toda a Terra. Sem, o mais importante, segundo a ótica divina, se tornaria o tronco dos hebreus ou “semitas" (palavra derivada de Sem): Jafé viria a ser o tronco das nações gentias: e finalmente a Cam seria atribuída a descendência de todos os habitantes de Canaã, bem como dos povos de pele escura das partes da África.

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A estória de Enéias

Eneias era filho de Vênus (Afrodite) e de Anquises, e tornou-se rei de Dárdano. Por Aquiles lhe ter roubado o gado, lutou na Guerra de Tróia ao lado dos troianos. Pôde contar com a ajuda frequente da mãe que, apesar de não poder lutar a seu lado, o protegia nas situações problemáticas. Netuno (Posídon) e Apolo também lhe davam proteção, pois todos os deuses sabiam que ele tinha de sobreviver à guerra para descobrir um novo reino. Apenas Juno (Hera) se atreveu a mostrar o seu rancor por ele, continuando a cismar no passado, quando Vênus deu a maçã a Paris, e prevendo o futuro, no qual os descendentes de Eneias estariam destinados a destruir a sua cidade de Cartago. Os outros deuses enviavam presságios e visões para ajudar Eneias a sobreviver à queda de Tróia, prometendo-lhe que haveria de governar um novo reino na Itália. Quando os Gregos saquearam Tróia, Eneias escapou, salvando piedosamente os seus deuses domésticos e o velho pai que transportou aos ombros. Pela mão levou o filho pequeno, Ascânio, e a mulher Creúsa seguiu-os, mas acabou por se perder, não tendo sido possível voltar a achá-la.

Eneias fez-se ao mar com uma pequena frota de refugiados, primeiro para a Trácia, depois para Creta e, em seguida, para Itália. Pelo caminho, visitou a ilha onde as Harpias se tinham refugiado quando os Argonautas as afastaram de Fineu e, tal como este, também Eneias teve os alimentos conspurcados com os seus excrementos.

O povo que o acompanhava atacou-as sem sucesso, tendo com isso apenas ganho o lançamento de uma praga por parte da Harpia Celeno que lhes garantiu que passariam tanta fome que comeriam as mesas, antes de construírem as muralhas da nova cidade. Eneias encontrou Andrômaca vivendo feliz em Epiro com o novo marido troiano, Heleno, após Neoptólemo ter morrido. Estavam a construir uma nova cidade servindo-se do modelo de Tróia, com uma miniatura da Porta Céias e um pequeno curso de água em substituição do Rio Escamandro. Mas não estava no destino de Eneias permanecer aqui.

Heleno informou-o como poderia passar em segurança entre os perigosos gêmeos de Cila e Cáribdis. A pequena frota passou pelo Etna em erupção e salvou um marinheiro grego que tinha sido deixado para trás por Ulisses na sua fuga da caverna do Ciclope havia três meses. Continuaram a navegar para a Sicília, onde Anquises morreu, e dali seguiram para Itália. Poderiam lá ter chegado sem incidentes, se Juno não tivesse intervido. Mas a deusa tinha pedido a Éolo, o guardião dos ventos, que enviasse uma tempestade. Entraram em ação os ventos de leste e de sul e depois o de sudoeste que danificaram os barcos de Eneias. Todos os refugiados estavam em perigo de afogamento, mas Netuno ordenou a Éolo que chamasse os ventos de volta e os exaustos troianos encontraram um porto de abrigo na Líbia.

No dia seguinte, tendo Vênus por guia, Eneias encontrou o caminho para a cidade de Cartago, que ainda estava em construção. Era dirigida pela rainha Dido, uma viúva que vivera em Tiro, de onde tinha fugido à perseguição dos irmãos. Esta deu as boas-vindas aos troianos e ofereceu-lhes ajuda se quisessem prosseguir viagem, ou um novo lar em Cartago. Nessa noite, durante a festa de boas-vindas, o filho de Vênus, Cupido (Eros) disfarçou-se de Ascânio e inspirou em Dido um amor apaixonado por Eneias.

Ela começou a pensar casar-se com ele e rezou a todos os deuses pedindo apoio, especialmente a Juno, a deusa [198] do casamento. Juno estava ansiosa para que Cartago, e não Roma, cumprisse as profecias de um novo império, pelo que ouviu as preces de Dido. No dia seguinte, quando os troianos e tiranos tinham ido caçar, foram apanhados por uma violenta tempestade e Dido e Eneias encontraram proteção numa gruta. Aí casaram tendo Juno celebrado o casamento e os céus sido testemunhas - uma cerimônia que Eneias achou fácil de repudiar quando Júpiter (Zeus) o chamou para cumprir o seu destino e lhe ordenou que deixasse Dido. Ela chorou, depois reprovou, em seguida amaldiçoou-o e, finalmente, quando os troianos remaram precipitadamente mar adentro, suicidou-se com a espada que ele tinha deixado.

Descida ao Mundo dos Mortos

Os ventos não estavam favoráveis à viagem para Itália, pelo que Eneias ordenou à frota que navegasse mais uma vez para a Sicília, a terra onde o pai morrera um ano antes. Mandou que fossem feitos jogos fúnebres complicados, em que [199] os homens faziam competições de remo, corrida, boxe e com setas e arcos. Entretanto, as mulheres troianas choravam a morte de Anquises, e Juno enviou íris, o mensageiro dos deuses, disfarçado de uma destas mulheres, para trazer novas dificuldades a Eneias. Ela lembrou às mulheres os penosos anos que tinham andado sem destino e sugeriu-lhes que a Sicília seria um bom local para construir uma nova cidade.

Por fim, ela persuadiu-as a lançarem fogo aos barcos, a fim de forçarem Eneias a ficar. Júpiter enviou de imediato uma forte chuva para apagar os fogos, mas quatro barcos já estavam destruídos e os restantes não podiam transportar todos os troianos.

A sombra de Anquises apareceu a Eneias recomendando-lhe que deixasse para trás todos os mais velhos, sem forças para lutar, demasiado cansados para prosseguir viagem ou demasiado relutantes em partir. Eles poderiam fundar a sua própria cidade, Acesta, na Sicília, enquanto os melhores e mais fortes seguiam para Itália.

Apenas um homem morreu na curta viagem até Itália, Palinuro, o homem do leme, que foi dominado pelo Sono (Hipno), deus do sono, e caiu ao mar.

Os barcos chegaram sãos e salvos a Cumas onde a Sibila de Apolo vivia, fazendo as suas profecias numa enorme e escura caverna. Esta informou-os de que chegariam em segurança ao país de destino, mas que depois seriam atormentados por uma guerra. Eneias pediu à Sibila que o ajudasse a ir ao mundo dos mortos como vivo para visitar o pai que ele tanto amava. «Fácil é descer», replicou a Sibila, «visto que a porta está aberta em Averno, mas o difícil é regressar. Tens de ir à floresta e encontrar um ramo de ouro, consagrado à deusa Juno. Só os escolhidos pelo destino podem pegar no ramo e logo que ele é quebrado da árvore, esta desenvolve outro também em ouro, destinado a outro herói. Se conseguires achar o ramo e quebrá-lo, esse será o sinal de que tens autorização para entrar e sair.»

A VIAGEM

As pombas de Vênus conduziram Eneias à floresta, voando um pouco, parando para se alimentarem, voltando a voar, [200] até que chegaram ao ramo de ouro, brilhando como as cintilantes folhas do azevinho no inverno. Eneias quebrou o ramo com facilidade e entrou na escura garganta de Averno com a Sibila, após fazer sacrifícios a Hécate, Proserpina (Perséfone) e Plutão (Hades), a Nox (Nix) e Gaia, a deusa da Noite e da Terra. Passaram pela velha Doença, Fome e Medo e Penúria, Guerra e Morte, Sono e Sonhos, e pelas Fúrias.

Encontraram os monstros da mitologia grega, os Centauros, as Górgonas e as Harpias, a Quimera e a Hidra, mas eram apenas fantasmas e não podiam fazer mal. Eneias continuou a andar no constante crepúsculo cinzento do mundo dos mortos até ao rio Aqueronte e Coeito, até à barca do rio Estige e ao velho barqueiro Quironte. Viu as sombras da morte agrupadas em torno da barca, tão secas como as folhas no outono, e viu Quironte a embarcar as sombras dos que tinham sido devidamente sepultados e a afastar os que tinham ficado sem sepultura.

Viu o desaparecido homem do leme, Palinuro, que disse que o corpo dele podia ser encontrado na espuma junto à costa da Itália. Este implorou a Eneias que espalhasse terra sobre o seu corpo para ele poder atravessar o rio Estige, mas os deuses não permitiram.

Quironte tentou proibir Eneias de atravessar o Estige mas o ramo de ouro era um salvo-conduto. Mal o homem vivo entrou na barca, as suas tábuas rangeram sob o peso e entrou água. Do outro lado do Estige, Cérbero latia, mas a Sibila deu-lhe um bolo de papoila e ele caiu a dormir. Eneias prosseguiu, ouvindo os lamentos dos bebês que tinham morrido logo após o nascimento, depois os lamentos dos julgados, condenados e executados, embora inocentes. Viu as sombras dos suicidas, ansiando pela vida que tinham desperdiçado, e daqueles que morreram por amor. Dido andava por aqui, como a Lua meia encoberta por uma nuvem e quando ela viu Eneias, a face adquiriu um brilho sinistro e depois voltou-se e seguiu. 

Ele suplicou-lhe que ficasse e que fizesse as pazes com ele, mas em vão.

Depois encontrou outras sombras famosas de mortos da Guerra de Tróia e mesmo antes dela, alguns impacientes por falar com ele, outros retrocedendo como se ele lhes pudesse provocar uma segunda morte. Viu a grande muralha de Dis com Flegetonte a servir de fosso e uma Fúria como guardiã. Como ele não era um homem cruel, Eneias não foi autorizado a passar para lá destas muralhas e só ouviu o que a Sibila lhe contou sobre os tormentos dos condenados.

Ela apressou-se a conduzi-lo aos Campos Elísios onde finalmente ele encontrou o pai e tentou abraçá-lo, mas os seus braços passavam através do corpo do fantasma. Anquises deu ao filho um relatório profético tranquilizado: sobre os futuros dirigentes do reino italiano que iria ser fundado por Eneias.

O REGRESSO

Em seguida, Eneias voltou ao mundo de cima, o dos vivos através dos portões de marfim, pelos quais os sonhos falsos viajam em cada noite. A sua frota voltou a içar as velas, passou em segurança pela ilha de Circe e chegou à foz do Rio Tibre. Esta terra era governada pelo rei Latino, cuja filha Lavínia era cortejada por muitos homens, mas aquele que os pais aprovavam era Turno, só que as previsões eram desfavoráveis e recomendavam que se casasse com um estrangeiro que haveria de fundar um império.

Eneias e os seus estavam a comer a primeira refeição em terra, fazendo montinhos de fruta e de legumes sobre bolos de trigo que tinham colocado no chão.

Em seguida comeram os bolos e, ao fazê-lo, cumpriam a maldição das Harpias de que eles comeriam as próprias mesas. Podiam agora começar a construir as muralhas da nova cidade, enquanto negociavam a terra com o rei Latino. Reconhecendo que este era o estrangeiro de que a profecia falara, Latino estava feliz por casar a filha com Eneias, mas Turno declarou guerra a este pretendente.

Foi uma guerra curta e sangrenta que acabou com a vitória dos troianos. Eneias foi rei da nova cidade durante três anos, mas o filho, Ascânio haveria de governar Alba Longa durante os 30 anos que se seguiram e uns 300 anos mais tarde a grande cidade de Roma seria fundada ali pelos descendentes dele, Rômulo e Remo. [201]

Mitologia Romana
O regresso de Ulisses

Tal como a maior parte dos sistemas míticos, a mitologia grega está cheia de astutos. As mitologias dos inuítes, dos nórdicos, dos nativos americanos e dos africanos, por exemplo, estão também cheias de figuras astuciosas, mas estas pertencem normalmente ao mundo sobrenatural. Na mitologia grega, tanto os deuses como os humanos desempenham papéis ardilosos. Hermes (Mercúrio) era um astuto proeminente, sempre a pregar partidas a Apolo, quase desde o nascimento. Da estória dos pais dos deuses, com Reia enganando o marido e levando-o a engolir uma pedra, até à dos Titãs Prometeu e Epimeteu, a mitologia grega preza mais a astúcia que a força bruta. Entre os humanos, Ulisses era o mestre da esperteza da mitologia grega, com a mulher Penélope representando a farsa em casa, tal como ele na sua longa viagem até voltar para ela, mas muitos outros heróis - mesmo o poderoso Héracles (Hércules) que não era famoso pela sua inteligência - teve alguma astúcia em certos casos de necessidade.

Autólico e Sísifo

Ulisses era o mais expedito, astuto e engenhoso dos homens, o que não surpreende visto ser descendente de Hermes. A mãe dele, Anticleia, era filha do rei dos ladrões, Autólico, que era filho de Hermes.

O pai deu a Autólico o poder de transformar a aparência de todos os animais, o que lhe permitia ter uma excelente manada proveniente dos vizinhos. Continuou a roubar vacas ao rei Sísifo de Efira, alterando-as de castanho para branco, pondo chifres às que não tinham, transformando as reses velhas em novas e até as fêmeas em machos. Sísifo sabia que alguém lhe andava a roubar as vacas e reparou que a manada de Autólico crescia na medida em que a sua diminuía, embora as reses fossem [188] completamente diferentes. Sísifo achava que o ladrão era Autólico mas não via forma de o provar.

Um dia, porém, teve uma inspiração. Decidiu gravar as letras SIS nos cascos de todas as vacas e na manhã seguinte pôde encontrar estas marcas dos cascos indo da sua manada para os campos de Autólico. Este, ao ser interpelado, negou categoricamente que tivesse roubado alguma vaca. «Foi tudo obra tua», acusou ele. «Os teus homens levaram as minhas vacas para os teus campos e gravaram letras nos seus cascos, para mos roubares.»

Sísifo ganhou esta batalha de astúcia, mas perdeu no conflito que teve com Zeus (Júpiter), que se deu quando o rei dos deuses se apaixonou por Egina, que era filha do deus-rio Asopo. Este procurou-a por todo o lado e Sísifo foi suficientemente impetuoso para denunciar Zeus. Asopo partiu para ir resgatar a filha e encontrou-a nos braços de Zeus, que tinha deixado os raios pendurados numa árvore. Este limitou-se a transformar-se numa pedra até Asopo passar. Em seguida, retomou a sua forma do Olimpo, pegou na arma e atirou um raio ao deus-rio.

A partir deste ataque, Asopo passou a coxear.

Sísifo foi condenado a uma punição eterna no reino dos mortos devido à sua indiscrição. Zeus pediu a Hades (Plutão) para levar o rei para o mundo dos mortos, mas quando Hades foi à procura dele, Sísifo recusou-se a ir. Primeiro disse que a tarefa de guiar as almas até ao mundo dos mortos pertencia a Hermes e não a Hades, e depois afirmou que não tinha chegado a altura de ele morrer. Por fim, Sísifo perguntou a Hades como é que ele planejava arrastá-lo para o mundo das sombras. «Com esta nova invenção de Hefesto (Vulcano) - as algemas», respondeu ele. «Mostra-me como é que funcionam», pediu Sísifo, e no momento seguinte Hades estava algemado à parede.

Sísifo manteve Hades preso durante um mês inteiro, o que fez com que ninguém pudesse morrer, e que Ares (Marte) perdesse completamente a paciência com o homem que estava a tirar toda a piada às suas batalhas. Ameaçou desmembrar Sísifo e, finalmente e com relutância, o rei libertou Hades e acompanhou-o na estrada sombria até ao mundo dos mortos. Em seguida ele tentou as suas palavras de ouro com Perséfone (Proserpina) que o autorizou a regressar a casa pois não tinha ainda sido sepultado e o barqueiro Caronte mantinha a sua sombra no Rio Estige. Sísifo foi punido e o seu castigo consistiu em empurrar uma pedra por uma colina acima - uma pedra semelhante àquela em que Zeus se tinha transformado. Quando a pedra chegava ao cimo, rolava para trás passando sobre o corpo de Sísifo até chegar à base. Sísifo tinha de a empurrar até ao cimo uma e outra vez, para todo o sempre.

A filha de Autólico, Anticleia, casou com o rei Laertes, da ítaca, uma pequena ilha rochosa. O filho de ambos, Ulisses, foi crescendo e viria a ser tão esperto como o avô, mas não o suficiente para conseguir escapar ao dever de combater na Guerra de Tróia. Viriam a passar 10 anos até a guerra terminar e 20 anos até a mulher Penélope e o filho Telémaco voltarem a vê-lo.

Ulisses e os Ciclopes

Ulisses partiu de Tróia exatamente ao mesmo tempo que todos os outros guerreiros gregos que sobreviveram, mas nenhum deles levou tanto tempo a regressar a casa como ele. Os ventos e os mares estiveram sempre contra desde a partida. Devido a uma tempestade, os seus barcos foram atirados para a terra dos Lotófagos. Estes comedores de lótus levavam uma vida ditosa, não fazendo mais nada para além de comer, beber e dormir. Os frutos de lótus provocavam-lhes um esquecimento total, pelo que não se ofendiam nem se preocupavam, não tendo qualquer ideia para o futuro nem do passado. Ulisses enviou alguns dos seus homens a terra para procurarem água e os Lotófagos ofereceram aos marinheiros os frutos [189] e lótus. Como os homens nunca mais regressavam, o próprio Ulisses decidiu ir em busca deles. Encontrou-os sentados no chão, mastigando lótus, sorrindo e não pensando em nada. Ulisses teve de enviar outros marinheiros para os levarem para os barcos e depois voltou a partir, antes que mais algum fosse tentado.

A terra que encontraram a seguir foi uma ilha fértil, cheia de cursos de água e aqui apanharam e mataram algumas cabras para aumentar as provisões. Ulisses e os seus homens foram explorar o continente vizinho onde encontraram uma grande gruta com uma enorme pedra junto da abertura. A gruta era claramente o abrigo de alguém, tendo uma zona para fazer o lume e outra vedada para guardar as cabras e as ovelhas. Na parte de trás da gruta encontravam-se borregos e crianças, mas o dono não estava. Ulisses e os seus homens recolheram alguns queijos que encontraram na gruta. Também acharam vinho, mas Ulisses tinha trazido uma grande quantidade de vinho para a expedição e pensava partilhá-lo com o dono da gruta em troca da sua hospitalidade.

O solo agitou-se sob o peso do dono da cava quando ele entrou. Era um Ciclope, um descendente dos gigantes com um olho no centro da testa que tinham lutado ao lado de Zeus contra os Titãs. Toda a ilha era habitada pelos Ciclopes, sendo a maior parte deles bastante sociáveis, mas este, Polifemo, tinha-se transformado numa espécie de eremita após ter perdido Galateia. Comia carne crua enquanto os outros Ciclopes a cozinhavam, tal como as pessoas civilizadas. Polifemo meteu o rebanho dentro da caverna e fechou a entrada com a pedra. Avistou então Ulisses e os marinheiros e perdeu pouco tempo com conversas, agarrando logo um marinheiro que partiu aos bocados e foi metendo pela garganta abaixo.

Em seguida, agarrou outro para completar a refeição.

Os outros não podiam fazer mais nada para além de se colarem às paredes da gruta. Viram o Ciclope adormecer e ficaram a aguardar mais mortes pela manhã. [190] 

ENGANANDO O CICLOPE

De manhã, o Ciclope devorou mais homens e levou o rebanho para fora da caverna, tendo voltado a fechá-la com a pedra. Nesta altura, Ulisses já tinha pensado num plano. Pegou no enorme bastão de Polifemo e afiou-o numa das pontas com a espada, depois endureceu-o no fogo. Nessa noite, depois do Ciclope regressar e matar mais dois homens, Ulisses disse-lhe: «Ciclope, que graça tem a carne sem vinho? Nós temos muito e bom vinho que gostaríamos de partilhar contigo. Se queres saber o meu nome, chamo-me "Ninguém"». O Ciclope pareceu um pouco surpreendido pelo comportamento dos prisioneiros, mas também não via nenhuma razão para recusar uma tal oferta de vinho. Ulisses serviu-lhe uma malga gigante cheia de vinho a que não tinha misturado água, depois outra e outra até que Polifemo estava tão bêbado que caiu inconsciente. [191] Ulisses aqueceu a ponta do cacete no lume, depois ele e os seus homens ergueram-no até à testa do Ciclope que ressonava, e enfiaram-no pelo olho dentro. Polifemo agarrou-se ao olho carbonizado gritando de choque e de dor. Os outros Ciclopes apareceram para saber o que provocara tal barulheira. «Quem é que te está a ferir?», perguntaram eles através da pedra que servia de porta e Polifemo respondeu: «Ninguém». E eles foram-se embora. Tacteou em busca dos inimigos para os matar, mas eles escapavam-lhe com facilidade, embora continuassem cativos. Mais cedo o mais tarde, prometera ele, havia de os encontrar e comê-los a todos.

A certa altura, Polifemo rodou um pouco a pedra para que as ovelhas pudessem sair. À medida que cada uma passava, o Ciclope corria-lhe a mão pelo lombo, para se certificar de que nenhum homem tentava escapar. Ulisses sussurrou então aos seus homens que se pendurassem por debaixo do ventre dos carneiros, para que o gigante não se apercebesse quando os animais saíssem transportando-os.

O próprio Ulisses pendurou-se num grande carneiro que foi o último a sair. Mal se viram cá fora correram velozmente para o barco.

O herói ordenou aos homens que remassem para o alto mar e, pouco depois já estavam bastante afastados, pelo que Ulisses não conseguiu resistir à vontade de escarnecer de Polifemo que tinha vindo a correr para a praia, onde andava de um lado para o outro tentando apanhá-los.

«Eu sou Ulisses, saqueador de cidades!», gabou-se. Polifemo pegou numa enorme pedra a atirou-a na direção do som, tendo caído perto do barco, mas os marinheiros remaram o mais depressa que puderam para se afastarem mais antes que a próxima pedra lhes acertasse. Polifemo implorou vingança ao pai, Posídon (Neptuno), e, até ao fim da viagem de regresso a casa, Ulisses teve de suportar todas as tempestades que o deus dos mares lhe lançou ao caminho.

As Sereias

Numa das ilhas por onde Ulisses teve de passar, viviam as Sereias. Tinham forma de mulheres até à cintura, grande: asas, pernas com penas, e garras. O seu canto despertava o desejo em todos os homens, e era uma tentação que atraí; os marinheiros para a morte. A ilha estava cheia de ossos dos homens que elas tinham devorado. Ulisses tinha sido avisado do perigo, pelo que deu bocados de cera a todo os seus homens, para que os pusessem nos ouvidos e assim não pudessem ouvir o cantar das Sereias. Mas Ulisses era um curioso insaciável e quis ouvir esse som irresistível. Ordenou por isso, aos seus homens, que o atassem ao mastro do navio e que não o soltassem enquanto estivessem ao alcance do som vindo da ilha, por mais que ele mandasse ou implorasse. Os outros homens podiam ser tentados com cânticos de amor, mas para Ulisses, as Sereias cantaran o conhecimento e a sabedoria. Ele debateu-se contra as amarras que o prendiam e tentou convencer a tripulação a soltá-lo mas eles mantiveram-no preso até se encontrarem em segurança, após terem passado a ilha. E foi assim que Ulisses foi o único homem a ouvir cantar as Sereias e a sobreviver. [192]

O REGRESSO DE ULISSES

Uma das ilhas que Ulisses visitou era governada por Éolo, que controlava os ventos. Entregou a Ulisses um saco de couro que continha todos os ventos, à exceção do Vento Oeste que os conduziria em segurança até Ítaca. Mas os homens de Ulisses pensaram que Éolo lhe tinha dado um tesouro secreto, que ele não iria partilhar com eles e, enquanto Ulisses dormia, abriram o saco. Saíram velozmente os ventos e o barco foi empurrado para trás até se encontrar de novo na ilha de Éolo que, desta vez, se recusou a ajudá-los reconhecendo que pelo menos um deus estava a impedir Ulisses de regressar. Pouco tempo depois deste episódio, ele perdeu todos os seus barcos à exceção de um, ao entrarem na terra dos Lotófagos, gigantes e canibais parecidos com o Ciclope. Perdeu então a maior parte dos homens.

O vento empurrou o barco restante para outra ilha de aspeto agradável, governada por Circe. Uns dizem que ela era filha de Hélio (Sol), outros que era filha de Hécate. Tinha o poder de transformar os seres humanos em animais e a maior parte dos bichos que existiam na ilha tinham, em tempos, sido humanos. Alguns dos homens de Ulisses foram até ao palácio dela e pediram-lhe ajuda. Ela sentou-os à mesa, alimentou-os com toda a generosidade antes de lhes acenar com a varinha de condão e de os transformar em porcos. Apenas um homem escapou para contar aos outros. Ulisses foi em seu socorro e no caminho encontrou Hermes (Mercúrio) que lhe mostrou uma planta insignificante chamada moli, que o iria proteger contra as magias de Circe. Ulisses sentou-se à mesa com ela e comeu o que lhe ofereceu, esperando não estar a comer carne humana.

Em seguida, Circe agitou a varinha mágica, tentando transformá-lo num animal, mas a moli evitou-o.

Ela apercebeu-se de imediato que algum deus estava a protegê-lo e, sem mais demoras, convidou-o para ir para a cama com ela. Ulisses concordou sob a condição de ela voltar a transformar todos os animais em homens. Ulisses ficou com ela tempo suficiente para ser pai de três filhos.

Quando recomeçou a ter vontade de voltar a casa, Circe disse-lhe o que tinha a fazer para chegar a Ítaca. Teria de descer ao mundo das trevas em vivo e pedir conselhos ao adivinho Tirésias. Ela forneceu-lhe as direções para o mundo dos mortos e explicou-lhe como era possível recuperar as vozes dos mortos durante uns momentos. [193] Era necessário dar-lhes a beber o sangue de ovelhas acabadas de matar. Todas as sombras se juntariam à volta dele, ansiosas por saborear o sangue, mas ele teria de guardar o resto para Tirésias poder beber e falar. Ulisses encontrou a entrada para o mundo dos mortos e matou a ovelha que Circe lhe tinha dado. Entre as sombras que se aglomeravam à sua volta estava a da mãe, Anticleia, e a do grande guerreiro Aquiles. Ulisses certificou-se de que Tirésias tinha espaço para poder chegar ao sangue e, após ter bebido, o adivinho falou. Avisou Ulisses de que deveria manter os seus homens sob controle quando chegassem à ilha do Sol, caso contrário o deus tornar-se-ia um inimigo. Ele iria ter problemas também em Ítaca e mesmo quando estivesse em segurança em casa, as suas viagens não teriam terminado. Teria de voltar a partir, com um remo sobre um ombro, até chegar a uma região onde não se conheciam os remos. Só então poderia apaziguar a ira de Posídon (Netuno) e voltar a casa em paz.

Perdas e Ganhos

Ulisses passou por muitas outras provas na sua viagem, até que perdeu todos os seus homens e o único barco que restava. Seis deles pereceram durante a passagem entre Cila e Cáribdis. Cila era um monstro marinho com seis cabeças, cada uma das quais devorou um dos marinheiros de Ulisses quando tentavam evitar o redemoinho de Cáribdis. O resto da tripulação morreu como castigo por terem matado e comido o gado de Hélio na ilha de Trinácia, enquanto Ulisses dormia. Zeus (Júpiter) enviou uma tempestade que submergiu o barco, e só Ulisses sobreviveu, trepando pelo mastro quebrado acima até ser atirado para [194] uma praia da ilha Ogígia, onde vivia a ninfa Calipso, que o prendeu durante sete anos como seu amante, tendo-lhe oferecido a imortalidade o que não o impediu de todos o dias olhar em direção a Ítaca e chorar.

Por fim, Zeus enviou Hermes para obrigar Calipso a libertá-lo. Ulisses construiu uma jangada, e depois de esta ter sido afundada numa nova tentativa de Posídon para lhe pôr um fim, nadou por mares tempestuosos até chegar a uma ilha habitada pelos Feaces.

O rei Alcínoo e a rainha Arete governavam esta ilha e tinham uma filha chamada Nausícaa. Atena (Minerva) enviou um sonho à princesa, sugerindo-lhe que fosse à praia lavar a roupa. Aí ela encontrou Ulisses, nu e necessitando de ajuda, pelo que o levou para o palácio dos pais.

O rei e a rainha teriam tido muito gosto em casar a filha com este estrangeiro que os cativou com as suas estórias de astúcia e bravura, mas Ulisses só desejava voltar a casa. Ofereceram-lhe o mais rico dos presentes e deixaram-no partir num dos seus barcos, o qual haveria de aportar numa praia de Ítaca enquanto ele dormia, tendo sido deixado à beira-mar com todos os presentes empilhados ao lado. Posídon ainda teve oportunidade de se vingar uma última vez dos marinheiros que o tinham ajudado, transformando o barco e a tripulação em pedra, mas só depois de terem, finalmente, levado Ulisses ao destino.

Problemas em ítaca

Ulisses estava agora de volta à sua amada ilha, mas tinha mais problemas para enfrentar. Dezessete anos depois de ele ter partido para Tróia, uma multidão de pretendentes começou a cortejar a mulher, Penélope, que os repudiava convencida de que ele continuava vivo. Estes faziam festas todos os dias no seu palácio, comendo as provisões e bebendo o vinho. Penélope decidiu mantê-los à distância por estar certa de que o marido havia de voltar.

Ela não podia repudiá-los abertamente, visto que dispunha de pouco apoio. O pai de Ulisses estava demasiado velho para lutar e o filho Telémaco não podia libertar-se sozinho dos pretendentes. Mas Penélope era tão astuta como o marido. Ela disse aos interessados que estava a tecer uma mortalha para o sogro Laertes. Todos os dias durante três anos, ela tecia a mortalha e todas as noites desmanchava o que tinha feito. Por fim, uma das mulheres que a serviam denunciou o estratagema aos pretendentes. Agora ela tinha de concluir o trabalho e garantiu-lhes que iria escolher um deles, visto que o filho Telémaco já era um homem, tal como Ulisses lhe tinha recomendado.

Telémaco tinha crescido durante a longa ausência do pai e Atena inspirou-o a partir em sua busca, pois corria riscos, já que os pretendentes não hesitariam em matá-lo para herdarem Ítaca. Atena pensou que seria melhor enviar Telémaco em visita aos velhos companheiros de Ulisses, dos tempos da Guerra de Tróia: Menelau e Helena em Esparta e Nestor em Pilos. O jovem não encontrou vestígios do pai, mas regressou a casa carregado de presentes e com a amizade de alguns dos homens mais poderosos da Grécia.

ULISSES, O MENDIGO

Quando Ulisses despertou na praia de Ítaca, Atena disfarçou-o de mendigo pelo que ele pôde verificar como estavam as coisas no reino, sem ser reconhecido. Encontrou refúgio no guardador de porcos que se tinha mantido leal ao amo (embora não o tivesse reconhecido). Telémaco regressou nesta altura da sua viagem e Ulisses revelou-lhe quem era. Começaram a tramar a vingança a infligir aos pretendentes, com a ajuda de Atena.

Como primeiro passo, Ulisses chegou ao palácio [195] como mendigo. Cá fora, num monte de excrementos de animais, encontrava-se um cão velho.

Era Argos, o cão fiel de Ulisses que tinha sido abandonado e condenado a morrer naquele monte de estéreo e que o reconheceu imediatamente, tendo tido força para levantar a cabeça numa saudação, mas nada mais.

O cão teve a alegria de saber que o seu dono tinha regressado e, em seguida, deixou cair a cabeça e morreu.

No palácio, Ulisses testou os limites da insolência dos pretendentes, consentindo que troçassem dele e até que lhe atirassem com peças de mobília. Penélope repreendeu-os por terem tal comportamento para com um hóspede e pedinte, um ato que os deuses não deixariam de punir. Estas palavras proféticas tiveram pouca influência na conduta insolente dos indivíduos. Mais tarde, naquela noite, Penélope decidiu inquirir o mendigo que lhe garantiu que Ulisses vinha a caminho de casa. Ela chorou ao ouvir notícias do marido e ofereceu-lhe uma cama para passar a noite e ordenou a Euricleia, a velha criada da família, que lhe lavasse os pés. Esta lavou-lhe os pés e as pernas e, de repente, deu um grito ao ver uma longa cicatriz que Ulisses tinha desde criança, após um ferimento de caça. Ele agarrou-a pelo pescoço e sussurrou-lhe que tinha de se manter calada.

Atena inspirou Penélope com a ideia de desafiar os pretendentes para uma competição de arqueiros.

Ela decidiu que tinha de escolher um daqueles desagradáveis homens, pelo menos para que Telêmaco pudesse ficar com alguma das ricas propriedades do pai. Disse-lhes que casaria, se bem que contrariada, com o que fosse capaz de esticar o grande arco de Ulisses e de disparar uma seta através das argolas dos seus 12 machados. Nenhum deles conseguiu esticar o arco, e Telêmaco ordenou que este fosse entregue ao mendigo para que experimentasse. Esticou-o sem qualquer dificuldade e disparou a seta através de todos os machados. A seguir virou-se para os pretendentes disparando setas. Telêmaco tinha escondido todas as armas no palácio, e o pai e o filho, juntamente com os leais guardadores de porcos e de vacas, chacinaram todos aqueles miseráveis até se formarem pilhas de corpos mortos no chão do palácio.

Ulisses contou então à mulher, Penélope, quem era.

Esta tinha um espírito tão arguto como o marido e exigiu uma prova, algo que só Ulisses e ela soubessem. Então ela disse-lhe: «Vou mandar tirar a cama do nosso quarto e colocá-la noutro onde tu irás dormir.»

Ora um dos pés da cama deles tinha sido decorado pelo marido com uma árvore viva que crescia no meio da casa. Ulisses ficou furioso ao pensar que alguém tivesse cortado o pé da cama para a poder mover. Quando Penélope ouviu isto, ficou certa de que ele era realmente o seu amado esposo. Os anos de espera e de sofrimento tinham finalmente terminado.

O povo de Itaca descobriu no dia seguinte que todos os pretendentes, príncipes e lordes da ilha e das terras vizinhas tinham morrido às mãos de Ulisses, de Telêmaco e dos dois servos leais. Alguns dos habitantes de Ítaca perceberam que um deus estava a ajudar Ulisses e reconheceram que todos aqueles homens tinham merecido morrer, devido ao seu péssimo comportamento.

Outros armaram-se com o intuito [196] de se vingarem, pelo que a deusa Atena voltou a intervir a fim de que o seu muito querido herói, Ulisses, pudesse ter paz assim como a esposa fiel.

O Ulisses de Dante

Tirésias tinha profetizado que esta não seria a conclusão das viagens de Ulisses, mas foi aqui que o poema épico de Homero, A Odisséia, o deixa. Nos milênios que se seguiram desde o poema de Homero, numerosos escritores têm criado continuações para esta intricada estória. No século XII o poeta italiano Dante escreveu a respeito de Ulisses e de Diomedes no seu «Inferno» (parte de A Divina Comédia), que é um poema visionário da sua própria descida ao mundo dos mortos (cristão).

O Ulisses de Dante arde eternamente no Inferno devido ao seu roubo do Paládio e da criação do Cavalo de Tróia. Ulisses relatou o final da sua viagem a Dante, guiado eternamente pelo seu desejo de saber. Nem a velhice nem o amor da esposa e do filho puderam segurá-lo em casa, tendo ele morrido no mar, enquanto continuava a procurar os limites da capacidade humana de pesquisa e inquirição. [197]

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FATOS HISTÓRICOS
Desenvolvimento da metalurgia no Perú

Na América do Sul, a metalurgia é um processo complexo que aparece na região andina (colômbia, Equador e norte do Peru), por volta de 1800 a.e.c. Uma vez que o ferro era desconhecido, é especialmente o ouro e o cobre que são explorados. Os sítios de Waywaka Andalahuaylas, nos Andes centrais (Apurimac), forneceram assim folhas de ouro e de cobre, marteladas e gravadas, datadas de 1500 a.e.c. Nos andes meridionais, restos de cobre foram recolhidos nos sítios de Wankarai e Chiripa, nos altos platôs bolivianos. E, no norte da Argentna (Condorwasi, Cienaga e La Aguada) e do Chile (Atacama), a utilização de ligas de cobre e prata e de bronze com arsênico e estanho é atestada a partir do 1º Milênio a.e.c.

O metal era fundido em pequenos fornos ventilados com a ajuda de tubos direcionados para o forno e nos quais era suficiente soprar para reativar o fogo. Martelado quente, permitia obter folhas que era recortadas em seguida, rebatidas e soldadas para confeccionar ornamentos (alfinetes, broches, braceletes, colares, ornamentos de nariz...) de ouro ou de cobre dourado, destinados aos dignitários locais e, mais raramente, utensílios (tesouras, facas, louça).

De 200 a 500, com o desenvolvimento das culturas Vicus, Moche, e Recuay, todas as técnicas de ourivesaria foram empregadas, como a fundição em cera perdida, a coloração, a filigrama e a utilização de uma liga de ouro e de cobre (chamada tumbago) na Colômbia, ou de ouro e prata (ou e ouro e platina) no Equador.

Civilização Moche
A Europa nasce em Creta

Uma ilha abençoada pelos deuses, onde Zeus uniu-se à bela Europa, um rei todo-poderoso e tirânico, um monstro preso num labirinto, esses elementos que constituem o mito de Teseu são praticamente os únicos que, desde o I milênio a.e.c., os antigos conhecem do passado mítico de Creta, cujos últimos palácios desapareceram no século XIV a.e.c. Mal se recordam que, muito tempo antes, essa ilha era uma potência predominante no Mediterrâneo oriental. Homero a classifica como terra tão bonita quanto rica, isolada entre ondas. terra de inumeráveis homens, daí 90 cidades cujas línguas se mesclam.

Durante três milênios a civilização cretense e conhecida apenas por lendas. No inicio do século XX, a historia aparece como mito. Arqueólogos começam a se interessar por Creta. Os vestígios descobertos no sitio de Knossos incitam um etnólogo inglês, Arthur Evans, a escavar sistematicamente o terreno que comprou. A descoberta dos vestígios de uma grande construção que ele julga ser o palácio de Minos, a exumação de afrescos, de múltiplos objetos e placas de argila recobertas de escrita, revelam que uma civilização realmente brilhante existiu em Creta de 2000 a 1400 a.e.c. Na falta de designação melhor. Evans a chama de "minoica". Desde essa descoberta fundamental, as escavações prosseguem em Knossos e em outros sítios arqueológicos cretenses. Pouco a pouco se reconstitui a historia de Creta, o país onde aparece pela primeira vez uma civilização europeia. Evans restaurou as paredes do palácio e ornou suas salas com pinturas de cores vivas. Essas restituições, à luz de descobertas posteriores, são hoje muito controvertidas.

No inicio do 2° milênio a.e.c., foram construídos os primeiros palácios monumentais situados dentro de aglomerações urbanas. É provável que o sistema palaciano cretense resulte de um processo que tem sua origem em Creta durante a fase do bronze antigo (de 3000 a 2000 a.e.c.). Creta é dividida em grandes provincias, cada uma delas colocada sob a dominação de um palácio (Knossos, Malia, Faistos, Zakros).

Per volta de 1750 a 1700 a.e.c., os primeiros palácios desaparecem brutalmente sem que seja provável atribuir essa destruição geral a um terremoto ou a invasões decorrentes de guerras. A reconstrução dos palácios é imediata. É o inicio da segunda fase da civilização minoica, mais brilhante e mais elaborada que a precedente. Por volta de 1450 a.e.c., uma destruição total dos palácios ocorre de novo, tão misteriosa quanto a primeira. A maioria dos locais minoicos é abandonada, e micênicos, vindos do continente grego, ocupam a ilha. Contrariamente ao que se acreditava por muito tempo, a erupção do vulcão de Thera (hoje Santorin), remontando sem duvida ao inicio do século XVI a.e.c., não tem nenhuma relação com o fim da civilização dos palácios cretenses.

Tirando proveito de sua situação privilegiada no mar Mediterrâneo, na encruzilhada de três continentes (Europa, África e Ásia), Creta comercializa com as Cíclades, com Rodes e Chipre e com o Oriente. Enquanto os egípcios, os babilônios e os assírios fizeram fortuna em terra, os minoicos fundaram sua riqueza no mar. Graças à sua importante frota, exportam seus excedentes agrícolas e objetos manufaturados e importam os metais de que necessitam. Os historiadores gregos Heródoto e Tucídides evocam de maneira muito vaga uma "talassocracia" (potencia marítima) cretense, exercida pelo rei Minos sobre o conjunto das Cíclades. Mas esse termo é abusivo, pois nada permite afirmar que os cretenses conquistaram as ilhas do mar Egeu e nelas estabeleceram colônias. Eles se contentaram em controlar todo o comercio nessa parte do mar Mediterrâneo.

O palácio cretense reflete perfeitamente a pacifica doçura de viver que parece ter sido a característica principal do período minoico. Nenhuma muralha defensiva o cerca, os afrescos não representam cenas únicas e as armas são inofensivas, destinadas somente as cerimonias de pompa. O conjunto do palácio é uma verdadeira cidade, centro da vida politica, religiosa e econômica. O espaço que o palácio abrange é considerável: 13 mil metros quadrados para o de Knossos, com seu vasto conjunto de construções agrupadas em torno de uma praça central. Os bairros são repartidos segundo suas funções. Os aposentos suntuosos do rei, que encerram a sala do trono e a do culto, e os da rainha ficam próximos da praça central. Todas as outras construções, erigidas em torno de pequenos pátios, são ligadas à praça central por meio de galerias de colunas que tem por particularidade serem mais largas no alto que na base. Lances de degraus permitem o acesso aos andares superiores, e terraços são construídos entre as casas. O projeto do palácio é muito complexo, o que levou Evans a crer que o palácio de Knossos era o lendário Labirinto.

Tudo é organizado para permitir que a luz penetre. As salas suntuosas abrem-se para o exterior por grandes janelas separadas por pilares. Por toda parte reluzem cores vivas: ha motivos pintados sobre os revestimentos dos pisos e das paredes, afrescos monumentais recobrem as paredes mais extensas, pilares são pintados de vermelho vivo.

Uma grande parte do palácio tem uma vocação econômica: um setor agrupa os escritórios administrativos, outro contem ateliês nos quais trabalham funcionários. Os arqueólogos puderam reconhecer os ateliês dos ceramistas e dos gravadores de sigilos, assim como o forno de um fundidor de cobre. Depósitos conservam o excedente da produção agrícola e os impostos recolhidos in natura. Os cereais e outros produtos agrícolas são conservados em enormes pithoi, que são jarras de terracota.

Em volta de todo o palácio estão casas para moradia, coladas umas às outras em ruelas estreitas. Ao longo do litoral, vários estaleiros navais fabricam os navios de que os cretenses necessitam para percorrer o mar Mediterrâneo oriental. Para a pesca e a cabotagem, utilizam barcos redondos de madeira movidos a remo. Para o comercio, possuem grandes embarcações à vela.

Bem menos conhecida é a vida nos campos. Vestígios de habitações rurais, no entanto, agrupadas em vilarejos, mostram que os camponeses cretenses viviam em casas de tijolo e de madeira, construídas sobre blocos de calcário. Existem também grandes mansões de campo pertencentes a ricos proprietários que fazem cultivar suas terras por homens livres ou escravos. Em toda a ilha, pratica-se a policultura: cereais, leguminosas (fava, ervilha, grão-de-bico), videiras e oliveiras. Os camponeses devem levar ao palácio uma parte de sua produção como forma de imposto.

O episódio de Teseu que entra no Labirinto, cumpre reportar-se aos ritos religiosos dos cretenses. Eles os celebram em dois tipos de santuários, erguidos quer em locais naturais (fontes, cavernas, elevações), quer no âmbito palaciano. A religião minoica nos é conhecida apenas por suas representações em imagens. Nas salas do palácio reservadas ao culto existem altares de flancos arqueados, bacias lustrais (para fins de purificação), mesas de três pés para oferendas, símbolos como os machados duplos e os chifres duplos que servem para santificar o local, um rhyton (vaso para libações) em forma de cabeça de touro e afrescos que ilustram cerimonias religiosas. Os artistas pintaram procissões, danças sagradas, provas de atletismo e tauromaquia de valor religioso. Estatuetas femininas de quadris largos e brandindo serpentes foram interpretadas como deusas da fecundidade. Talvez se trate, no entanto, de sacerdotisas. De acordo com indícios extraídos dos vestígios arqueol6gicos, pareceria, portanto, que os cretenses não adoravam divindades masculinas. Mas, para além dessas formas externas da religião, nada permite apreender em que consistiam as crenças reais dos minoicos.

Descoberta a 12 quil6metros de Knossos; a caverna de Skotino foi reconhecida como o verdadeiro Labirinto, destinado a submeter os jovens a provas iniciáticas. Suas galerias subterrâneas descem ate 55 metros de profundidade dispondo-se em quatro níveis. Os futuros iniciados deveriam percorrer um circuito tortuoso que se tornava ainda mais difícil por rupturas de nível e becos sem saída. Blocos calcários esculpidos representam cabeças monstruosas. No fim do circuito encontrava-se um altar de pedra, que deveria estar cercado de oferendas variadas e das cinzas dos sacrifícios.

Na mitologia grega, a história de Creta começa com a chegada de Europa na ilha. Para a história mundial, o continente Europa encontrou em Creta o berço de sua civilização.

A civilização de Creta, incluindo as ilhas periféricas das quais a mais importante é Thera, usufruiu de uma cultura refinada e de avanços técnicos excepcionais para sua época, algo que mesmo durante o período clássico (mais de 1000 anos depois), Atenas ou nenhuma outra cidade conseguiria alcançar plenamente. Toda a fama dessa riqueza e requinte alcançou a civilização egípcia, com quem os cretenses mantinham ativo comércio na época do médio império dos faraós. Muitos anos depois, Platão ouviu estórias maravilhosas provenientes do Egito de um povo maravilhoso, de tecnologias avançadas que viveu há muitos anos e que sucumbiu devido a um desastre natural. De posse desses conhecimentos transmitidos por vias orais, Platão tinha às mãos os ingredientes necessários para elaborar alguns de seus mais famosos diálogos... Nascia aí a lenda de Atlântida. (Odsson Ferreira)

 

Teseu e o Minotauro

Quando os marinheiros que trabalham no cais de Knossos veem aparecer no horizonte uma nave de velas negras, se apressam em prevenir os habitantes da cidade, que se precipitam para o porto. Todos, com efeito, sabem que se trata do navio que vem entregar ao rei de Creta, Minos, os reféns atenienses.

Minos é um dos soberanos mais poderosos da mitologia grega. Tem por mãe a princesa originaria de Tiro, Europa, que Zeus, sob forma de touro branco, seduziu e carregou em seus ombros ate à costa de Creta. Minos herdou de seu divino pai uma sabedoria excepcional. Foi ele quem deu a seu povo leis diretamente inspiradas em Zeus e fez dos cretenses um povo civilizado. Minos é também um rei autoritário e implacável. Um de seus filhos, Androgeu, vindo a Atenas para participar dos jogos atenienses, e assassinado provavelmente por ordem de Egeu, rei de Atenas. Para vingar sua morte, Minos exige que, todos os anos, os atenienses lhe enviem um tributo constituído de sete rapazes e sete moças. Ao chegarem em Knossos, são encerrados no Labirinto - edifício extraordinário imaginado pelo arquiteto Dédalo - , de tal modo que é impossível sair dele. Os meandros do Labirinto e seus corredores traçados como armadilhas conduzem ao antro do Minotauro. Esse monstro hibrido, com corpo de homem e cabeça de touro, é fruto dos amores contra a natureza da mulher de Minos, Pasifae, e de um touro que o deus do Mar, Posídon, deu a Creta. Escondido no fundo do Labirinto, o Minotauro vigia os jovens reféns para devora-los.

Quando Atenas, pela terceira vez, deve pagar seu tributo, Teseu, filho do rei Egeu, se apresenta como voluntário para fazer parte dos reféns. Promete a seu pai que vai matar o Minotauro e, desse modo, libertar Atenas do funesto tributo expiatório. Teseu tem, como Héracles (filho ao, mesmo tempo de Zeus e de Anfitrião), a particularidade de ter dois pais: um deus, Posídon, e um homem, Egeu, rei de Atenas. Além disso, tem a ambição de igualar as proezas de Héracles, para gozar de uma fama tão grande como a dele. Assim, começa sua carreira heroóica exterminando forças monstruosas. Libertou os habitantes da Ática matando muitos criminosos temidos. Matar o Minotauro seria para ele o auge de suas proezas salvadoras. Teseu é também um herói leviano, sempre pronto a seduzir as mulheres, mas igualmente pronto a abandona-las.

Com muito esforço, Teseu consegue convencer seu pai; que teme enviar seu filho a morte. No momento em que o navio enviado por Minos para levar os reféns - e que traz, em sinal de Iuto, velas negras - aporta em Creta, Egeu faz o piloto prometer que, na volta, vai içar velas brancas se Teseu tiver conseguido vencer o Minotauro.

Na chegada do navio cretense ao porto de Knossos, entre os habitantes reunidos para assistir ao desembarque, encontra-se a própria filha de Minos, Ariane. À vista de Teseu, a princesa se sente imediatamente colhida por uma violenta paixão por ele. Em troca de uma promessa de casamento, dá ao herói um novelo de linha, segurando em sua mão uma das pontas do fio. Teseu avança no Labirinto, desenrolando o novelo. Chegando à presença do Minotauro, o herói o mata a socos.

Depois, graças ao fio de Ariane, consegue reencontrar o caminho que o leva para fora. Imediatamente faz embarcar todos os seus companheiros em seu navio. Por medida de precaução, fende o casco dos outros navios cretenses para impedi-los de seguir a seu encalço.

O regresso triunfal de Teseu a Atenas é marcado por dois episódios. Ariane, que fazia parte da viagem, é abandonada por Teseu por ocasião de uma escala na ilha de Naxos. Dioniso, de passagem pela ilha, a recolherá e fará dela sua esposa. Mais tarde, à vista das costas da Ática, a alegria é tamanha no navio que o piloto esquece de trocar as velas. Egeu, que vigia o regresso do navio, vê as velas negras e acredita que o Minotauro matou seu filho. Desesperado, lanca-se no mar, que leva dai em diante seu nome.

Teseu, saudado pelos atenienses como benfeitor e libertador, sucede a seu pai. Ele confedera todas as cidades da Ática a autoridade de Atenas. Ate o século IV a.e.c., os atenienses veneraram uma embarcação arcaica que teria sido aquela da expedição para Creta. Teseu tem a particularidade de ser para os gregos ao mesmo tempo um herói mitol6gico e um personagem histórico.

Civilização Cretense
CIVILIZAÇÃO
Por André Bonnard
Na terra grega, o povo grego

A ultima das expedições guerreiras dos príncipes aqueus, que levaram consigo os seus numerosos vassalos, foi a não lendária mas histórica guerra de Troia. A cidade de Troia-ilion, que era também uma cidade helênica, situada a pequena distância dos Dardanelos, enriquecera cobrando direitos aos mercadores que, para passar o mar Negro, tomavam o caminho de terra, ao longo do estreito, a fim de evitar as correntes, levando aos ombros barcos e mercadorias. Os Troianos espoliavam-nos largamente a passagem. Estes ratoneiros foram pilhados por seu turno. Ilion foi tomada e incendiada após um longo cerco, no principio do século XII (cerca de 1200). Numerosas lendas, aliás belas, mascaravam as razões verdadeiras, que eram razões econômicas, não heróicas, desta rivalidade de salteadores. A Ilíada dá-nos algumas. Os arqueólogos que fizeram escavações em Troia, no século passado, encontraram, nos restos de uma cidade que mostra sinais de incêndio e que a terra de uma colina recobria há mais de três mil anos, objetos da mesma época que os encontrados em Micenas. Os ladrões não escapam aos pacientes inquéritos dos arqueólogos-policiais.

Entretanto, novas tribos helênicas - Eólios, Jônios, por fim, Dórios - invadiram, depois dos Aqueus, o solo da Grécia. A invasão dos Dórios, os últimos a chegar, situa-se por volta de 1100. Enquanto que os Aqueus se tinham civilizado um pouco em contato com os Cretenses, os Dórios continuavam a ser muito primitivos. Contudo, conheciam o uso do ferro: com este metal tinham feito diversas armas. Entre os Aqueus, o ferro era ainda tão raro que o consideravam um metal tão precioso como o ouro e a prata.

Foi com estas armas novas, mais resistentes e sobretudo mais longas (espadas de ferro contra punhais de bronze), que os Dórios invadiram a Grécia como uma tempestade. Micenas e Tirinto são por sua vez destruídas e saqueadas. A civilização aquéia, inspirada na dos Egeus, afunda-se no esquecimento. Torna-se por muito tempo uma terra meio fabulosa da historia. A Grécia, rasgada pela invasão Doria, esta povoada agora unicamente de tribos gregas. A historia grega pode começar. Ela começa na noite dos séculos XI, X e IX. Mas o dia está perto.

Que terra era esta que iria tornar-se a Hélade? Que recursos primeiros, que obstáculos oferecia a um povo primitivo para uma longa duração histórica, uma marcha tacteante para a civilização?

Dois caracteres importa revelar: a montanha e o mar.

A Grécia é um pais muito montanhoso, embora os seus pontos mais altos não atinjam nunca três mil metros. Mas a montanha está por toda a parte, corre e trepa em todas as direções, por vezes muito abrupta. Os antigos marinhavam-na por carreiros que subiam a direito, sem se dar ao trabalho de zigue-zaguear. Degraus talhados na rocha, no mais escarpado da encosta. Esta montanha anárquica dava um país dividido numa multidão de pequenos cantões, a maior parte dos quais, aliás, tocavam o mar. Daqui resultava uma compartimentarão favorável à forma política a que os Gregos chamam cidade.

Forma cantonal do Estado. Pequeno território fácil de defender. Natural de amar. Nenhuma necessidade de ideologia para isto nem de carta geográfica. Subindo a uma elevação, cada qual abraça, com um olhar, o seu país inteiro. No pé das encostas ou na planície, algumas aldeias. Uma povoação construída sobre uma acrópole, eis a capital. Ao mesmo tempo, fortaleza onde se refugiam os camponeses em caso de agressão, e, nos tempos de paz, que pouco dura entre tantas cidades, praça de mercado. Esta acrópole fortificada é o núcleo da cidade quando nasce o regime urbano. A cidade não é construída a beira-mar - cuidado com os piratas! -, suficientemente próxima dele, no entanto, para instalar um porto.

As aldeias e os seus campos, uma povoação fortificada, meio citadina, eis os membros esparsos e juntos dum Estado grego. A cidade de Atenas não é menos a campina e as suas lavouras que a cidade e as suas lojas, o porto e os seus barcos, e todo o povo dos Atenienses atrás do seu muro de montanhas, com a sua janela largamente aberta para o mar: e o cantão a que se chama Ática.

Outras cidades, as dúzias, noutras molduras semelhantes. Entre estas cidades numerosas, múltiplas rivalidades: políticas, econômicas - e a guerra ao cabo delas. Nunca se assinam tratados de paz entre cidades gregas, apenas tréguas: contratos a curto prazo, cinco anos, dez, trinta anos, o Maximo. Mas antes de passado o prazo já a guerra recomeçou. As guerras de trinta anos e mais são mais numerosas na historia grega que as pazes de trinta anos.

Mas a eterna rivalidade grega merece por vezes um nome mais belo: emulação. Emulação desportiva, cultural. O concurso é uma das formas preferidas da atividade grega. Os grandes concursos desportivos de Olímpia e outros santuários fazem largar as armas das mãos dos beligerantes. Durante estes dias de festa, os embaixadores, os atletas, as multidões circulam livremente por todas as estradas da Grécia. Há também em todas as cidades formas múltiplas de concursos entre os cidadãos. Em Atenas, concursos de tragédias, de comedias, de poesia lírica. A recompensa é insignificante: uma coroa de hera para os poetas ou um cesto de figos, mas a gloria é grande. Por vezes um monumento a consagra. Apos a Antígona, Sófocles foi eleito general! E saiu-se com honra de operações que teve de conduzir. Em Delfos, sob o signo de Apolo ou de Dioniso, concursos de canto acompanhado de lira ou de flauta. Arias militares, cantos de luto ou de bodas. Em Esparta e em toda a parte concursos de dança. Em Atenas e em outros lugares, concursos de beleza. Entre homens ou entre mulheres, conforme os sítios. O vencedor do concurso de beleza masculina recebe, em Atenas, um escudo.

A gloria das vitorias desportivas alcançadas nos grandes concursos nacionais não pertence somente à nação: é a gloria da cidade do vencedor. Os maiores poetas - Pindaro e Simonides - celebram essas vitorias em esplendidas arquiteturas líricas onde a musica e a dança se juntam à poesia para dizerem ao povo a grandeza da comunidade dos cidadãos de que o atleta vencedor não é mais que delegado. Acontece o vencedor receber a mais alta recompensa que pode honrar um benfeitor da pátria: ser pensionado - alimentado, instalado - no pritaneu, que é a câmara municipal da cidade.

Tal como os exércitos, enquanto duram os jogos nacionais, os tribunais folgam, adiam-se execuções capitais. Tréguas que não duram mais de alguns dias, por vezes trinta.

A guerra crônica das cidades é um mal que acabara por ser mortal ao povo grego. Os Gregos nunca foram além - quando muito, em imaginação - da forma do Estado cidade-cantão. A linha do horizonte das colinas que limitam e defendem a cidade parece limitar, ao mesmo tempo que a visão, a vontade de cada povo de ser grego antes de ser ateniense, tebano ou espartano. As ligas, alianças ou confederações de cidades são precárias, prontas a desfazer-se, a desagregar-se por dentro, mais do que a sucumbir aos golpes de fora. A cidade forte que constitui o núcleo dessas alianças não leva muito tempo a tratar como súditos aqueles a quem continua a chamar, por cortesia, aliados: faz da liga um império cujo jugo pesa muito em contribuições militares e em tributos.

No entanto, não há uma cidade grega que não tenha a consciência vivíssima de pertencer à comunidade helênica. Da Sicilia a Ásia, das cidades da costa africana às que ficam para lá do Bosforo, até a Crimeia e ao Caucaso, o corpo helênico é do mesmo sangue, escreve Herodoto, fala a mesma língua, tem os mesmos deuses, os mesmos templos, os mesmos sacrifícios, os mesmos usos, os mesmos costumes. Fazer aliança com o Bárbaro, contra outros Gregos, é trair.

O Bárbaro, termo não pejorativo, é simplesmente o estrangeiro, e o não-Grego, aquele que fala essas línguas que soam bar-bar-bar, tão estranhas que parecem línguas de aves. A andorinha também fala bárbaro. O Grego não despreza os Bárbaros, admira a civilização dos Egípcios, dos Caldeus e de muitos outros: sente-se diferente deles porque tem a paixão da liberdade e não quer ser ,escravo de ninguém.

O Bárbaro nasceu para a escravatura, o Grego para a liberdade: por isto mesmo morreu Ifigênia. (Pontinha de racismo).

Perante a agressão bárbara, os Gregos unem-se. Não todos, nem por muito tempo: Salamina e Plateia, Grécia unida por um ano, não mais. Tema oratório, não realidade viva. Em Plateia, o exercito grego combate, ao mesmo tempo que aos Persas, numerosos contingentes doutras cidades gregas que se deixaram alistar pelo invasor. A grande guerra da independência nacional e ainda uma guerra intestina. Mais tarde, as divergências das cidades abrirão a porta à Macedônia, aos Romanos.

A montanha protege e separa, o mar amedronta mas une. Os Gregos não estavam encerrados nos seus compartimentos montanhosos. O mar envolvia todo o pais, penetrava profundamente nele. Havia pouquíssimos cantões, mesmo recuados, que o mar não atingisse.

Mar temível, mas tentador é mais aliciante que qualquer outro. Sob um céu claro, na atmosfera límpida, o olhar do nauta descobre a terra duma ilha montanhosa a cento e cinqüenta quilômetros de distância. Vê-a como um escudo pousado sobre o mar..

As costas do mar grego oferecem portos numerosos, ora praias de declive suave, para onde os marinheiros podem a noite puxar os seus leves barcos, ora portos de água profunda, protegidos por paredes rochosas, onde as grandes naves de comercio e os navios de guerra podem ancorar ao abrigo dos ventos. Um dos nomes que o mar toma em grego significa estrada. Ir pelo mar, é ir pela estrada. O mar Egeu é uma estrada que, de ilha em ilha, conduz o marinheiro da Europa à Ásia sem que ele perca nunca a terra de vista. Estas cadeias de ilhotas parecem calhaus lançados por garotos num regato para o atravessarem, saltando de um para outro.

Não há um cantão grego de onde não se distingue, subindo a qualquer elevação, uma toalha de água que reflete no horizonte. Nem um ponto do Egeu que esteja a mais de sessenta quilômetros de terra. Nem um ponto da terra grega a mais de noventa quilômetros do mar.

As viagens são baratas. Algumas dracmas e estamos no cabo do mundo conhecido. Alguns séculos de desconfiança e pirataria, e os Gregos, mercadores ou poetas, por vezes uma coisa e outra, tomam contato amigável com as velhas civilizações que os precederam. As viagens de Racine e de La Fontaine não vão além de Ferte-Milon ou Chateau-Thierry. As viagens de Sólon, de Esquilo, de Heródoto e de Platão chegam ao Egito, à Ásia Menor e Babilônia, à Cirenaica e a Sicilia. Não há um Grego que não saiba que os Bárbaros são civilizados há milhares de anos e que tem muito para ensinar ao povo do "Nós-Gregos-somos-crianças". O mar grego não é a pesca do atum e da sardinha, é a via das permutas com os outros homens, a viagem ao pais das grandes obras de arte e das invenções surpreendentes, do trigo que cresce basto nas vastas planícies, do ouro que se esconde na terra e nos rios, a viagem ao pais das maravilhas, tendo por única bussola a carta noturna das estrelas. Para além do mar, há uma grande abundancia de terra desconhecida para descobrir, cultivar e povoar. Todas as grandes cidades, a partir do século VIII, vão plantar rebentos nas cidades novas em terra nova. Os marinheiros de Mileto fundam noventa cidades nas margens do mar Negro. E de caminho fundam também a astronomia.

Concluindo: o Mediterrâneo é um lago grego de caminhos familiares. As cidades instalam-se nas margens dele "como rãs ao redor de um charco", diz Platão. Evoe ou coaxo! O mar civilizou os Gregos.

Alias, foi só à força que o povo grego se tornou um povo de marinheiros. E o grito do ventre faminto que arma os barcos e os lança ao mar. A Grécia era um pais pobre. A Grécia foi criada na escola da pobreza. (Outra vez Heródoto.) O solo é pobre, e ingrato. Nas encostas e, muitas vezes, pedregoso. O clima é seco de mais. Apos uma Primavera precoce e efêmera, com uma magnífica e brusca floração das arvores e dos prados, o Sol não se cobre nunca mais. O Verão instala-se como rei e queima tudo. As cigarras zangarreiam na poeira. Durante meses, nem uma nuvem no céu. Muitas vezes, nem uma gota de água cai em Atenas de meados de Maio ao fim de Setembro. Com o Outono vem a chuva, e no Inverno rebentam as tempestades. Borrascas de neve, mas que não se agüentam dois dias. A chuva cai em grossas pancadas, em tromba. Ha sítios em que a oitava parte ou mesmo a quarta parte da chuva de um ano, cai em um só dia. Os rios, meio secos, tornam-se correntes temerosas, de água rugidora e devoradora que come a delgada camada de terra das encostas calvas e a arrasta para o mar. A desejada água torna-se um flagelo. Em cestos vales fechados, as chuvas formam baixos pantanosos. Deste modo, o camponês tinha que lutar, ao mesmo tempo, contra a seca que queimava os centeios e contra a inundação que lhe afogava os prados. E mal o podia fazer. Construía os seus campos nas encostas, em terraços, e transportava em cestos, de um muro para outro, a terra que resvalara do seu bocado. Tentava irrigar os campos, drenar os fundos pantanosos e limpar as bocas por onde havia de escoar-se a água dos lagos. Todo este trabalho, feito com ferramentas de hotentote, era duríssimo e insuficiente. Teria sido preciso repovoar de árvores a montanha nua, mas isso não sabia ele. Ao principio, a montanha grega era bastante arborizada. Pinheiros e plátanos, ulmeiros e carvalhos coroavam-na de bosques centenários. A caça pululava. Mas desde os tempos primitivos os Gregos derrubaram árvores, fosse para construir aldeias, fosse para fazer carvão. A floresta perdeu-se. No século V, colinas e picos perfilavam já contra o céu as mesmas arestas secas de hoje. A Grécia ignorante entregou-se ao sol, a água desregrada, a pedra.

Lutava-se pela sombra de um burro.

Sobre este solo duro, sobre este céu caprichosamente implacável, davam-se bem oliveiras e vinhas, menos bem os cereais, cuja raiz não pode ir buscar a umidade suficientemente funda. Não falemos das charruas, ramos em forquilha ou grosseiros arados de madeira que mal arranhavam a terra. Abandonando os cereais, os Gregos vão buscar o trigo as terras mais afortunadas da Sicilia ou das regiões a que hoje chamamos Ucrânia e Romênia. Toda a política imperialista de Atenas grande cidade, no século V, e, antes de mais, política do trigo. Para alimentar o seu povo, Atenas tem de se manter senhora dos caminhos do mar, em particular dos estreitos que são a chave do mar Negro.

O azeite e as vinhas são a moeda de troca e o orgulho da filha deserdada do mundo antigo. O produto precioso da oliveira cinzenta, dom de Atena, responde as necessidades alimentares da vida quotidiana: cozinham com azeite, alumiam-se com azeite, à falta de água lavam-se com azeite, esfregam-se, alimentam de azeite a pele sempre seca.

Quanto ao vinho, maravilhoso presente de Dioniso, só nos dias de festa o bebem, ou a noite, entre amigos, e sempre cortado com água.

"Bebamos. Para que esperar a luz da lâmpada? só resta da luz do dia um quase nada. Traz para baixo, menino, as grandes taças coloridas. O vinho foi dado aos homens pelo filho de Zeus e de Semele para que esqueçam as suas penas. Enche-as até a borda com uma parte de vinho e duas partes de água, e que uma taça empurre a outra..." (O Ramuz! Não, Alceu.)

"Não plantes nenhuma outra arvore antes de teres plantado vinha." (Outra vez o velho Alceu de Lesbos, antes de Horacio.) O vinho, espelho da verdade, fresta por onde se vê o homem por dentro!

A vinha, amparada em tanchões, ocupa as encostas, arquitetadas em terraços, da terra grega. Na planície plantam-na entre as arvores dos pomares, empada de uma para outra.

O Grego é sóbrio. O clima assim o exige, repetem os livros. Sem duvida, mas a pobreza nao o exige menos. O Grego vive de pão de cevada e de centeio, amassado em bolos chatos, de legumes, de peixe, de frutos, de queijo e de leite de cabra. E muito alho.

Carne - caça, criação, cordeiro e porco -, só nos dias de festa, como o vinho, não falando dos senhores (os "gordos", como se diz).

Desta pobreza de regime e de vida (é claro, esta gente do Meio-dia é preguiçosa, vive de coisa nenhuma, regalada de bom sol), a causa não está apenas no solo ingrato ou mesmo nos processos elementares de cultura. Acima de tudo, resulta da desigual repartição da terra pelos seus habitantes.

No começo, as tribos que ocupavam a região tinham feito da terra uma propriedade coletiva do clã. Cada aldeia tinha o seu chefe de clã, responsável pela cultura do solo do distrito, pelo trabalho de cada um e pela distribuição dos produtos da terra. O clã agrupa um certo numero de famílias - no sentido amplo de gente duma casa -, cada uma das quais recebe uma extensão de terra para cultivar. Não há, nesses tempos primitivos, propriedade privada: a terra devoluta não pode ser vendida ou comprada, e não se reparte por morte do chefe de família. É inalienável. Em compensação, o parcelamento pode ser refeito, a terra outra vez distribuída, segundo as necessidades de cada família.

Esta terra comum é cultivada em comum pelos membros da casa. Os frutos da cultura são repartidos sob a garantia de uma divindade que se chama Moira, cujo nome quer dizer parte e sorte, e que presidira igualmente a repartição, por sorteio, dos lotes de terra. Entretanto, uma parte do domínio, mais ou menos metade, é sempre posta de pousio: é preciso deixar repousar a terra, não se pratica ainda, de um ano para outro, a cultura alternada de produtos diferentes. O rendimento é muito baixo.

Mas as coisas não ficam por aqui. O antigo comunismo rural, forma de propriedade própria do estado da vida primitiva (ver os Batongas da Africa do Sul, ou certos povos de Bengala), começa a desagregar-se a partir da época dos salteadores aqueus. A monarquia de Micenas era militar. A guerra exige um comando unificado. Após uma campanha proveitosa, o rei dos reis e os reis subalternos, seus vassalos, talhavam para si a parte de ledo, na partilha do saque como na redistribuição da terra. Ou então certos chefes apropriam-se simplesmente das terras de que apenas eram administradores. O edifício da sociedade comunitária, onde se introduzem graves desigualdades, destrói-se pelo topo. A propriedade privada cria-se em beneficio dos grandes.

Instala-se também por outra maneira, sinal de progresso... Alguns indivíduos podem ser, por razões diversas, excluídos dos clãs. Podem também sair deles de sua própria vontade. O espírito de aventura leva muitos a tomar o caminho do mar. Outros ocupam, fora dos limites do domínio do clã, terras que haviam sido julgadas demasiado medíocres para ser cultivadas. Forma-se uma classe de pequenos proprietários à margem dos clãs: a propriedade deixa de ser comunal, torna-se, por fases, individual. Esta classe e pobríssima, mas muito ativa. Quebrou os laços com o clã: rompe-os por vezes com a terra. Estes homens formam guildas de artífices: oferecem aos clãs as ferramentas que fabricam, ou simplesmente trabalho artesanal como carpinteiros, ferreiros, etc. Entre estes "artífices", não esqueçamos nem os médicos nem os poetas. Agrupados em corporações, os médicos tem regras, receitas, bálsamos e remédios que vão propondo de aldeia em aldeia: estas receitas são sua exclusiva propriedade. Do mesmo modo, as belas narrativas em verso, improvisadas e transmitidas por tradição oral nas corporações de poetas, são propriedade dessas corporações.

Todos estes novos grupos sociais nascem e se desenvolvem no quadro da "cidade". E aqui temos as cidades divididas em duas metades de força desigual: os grandes proprietários rurais, por um lado, e, por outro, uma classe de pequenos proprietários mal favorecidos, de artífices, de simples trabalhadores do campo, de marinheiros,  tudo gente de ofício, "demiurgos", diz o Grego, turba miserável ao princípio.

Todo o drama da historia grega, toda a sua grandeza futura se enraíza no aparecimento e no progresso destes novos grupos sociais. Nasceu uma nova classe que vai tentar arrancar aos "grandes" os privilégios que fazem deles os senhores da cidade. É que só estes proprietários nobres são magistrados, sacerdotes, juízes e generais. Mas a turba popular depressa tem por seu lado o numero. Quer refundar a cidade na igualdade dos direitos de todos. Mete-se na luta, abre o caminho para a soberania popular. Aparentemente desarmada, marcha à conquista da democracia. O poder e os desses são contra ela. Mesmo assim, a vitoria será sua.

Eis, sumariamente indicadas, algumas das circunstâncias cuja ação conjunta permite e condiciona o nascimento da civilização grega. Repare-se que não foram somente as condições naturais (clima, solo e mar), como o não foi o momento histórico (herança de civilizações anteriores), nem as simples condições sociais (conflito dos pobres e dos ricos, o "motor" da história), mas sim a convergência de todos estes elementos, tornados no seu conjunto, que constituíram uma conjuntura favorável ao nascimento da civilização grega.

E então o "milagre grego"? - perguntarão certos sábios ou assim chamados. Não há "milagre grego". A noção de milagre é fundamentalmente anti-cientifica, e é também não-helenica. O milagre não explica nada: substitui uma explicação por pontos de exclamação.

O povo grego não faz mais que desenvolver, nas condições em que se encontra, com os meios que tem a mão, e sem que seja necessário apelar para dons particulares de que o Céu lhe teria feito dom, uma evolução começada antes dele e que permite a espécie humana viver e melhorar a sua vida.

Um exemplo só. Os Gregos parecem ter inventado, como que por milagre, a ciência. Inventam-na, com efeito, no sentido moderno da palavra: inventam o método cientifico. Mas se o fazem é porque, antes deles, os Caldeus, os Egípcios, outros ainda, tinham reunido numerosas observações dos astros ou sobre as figuras geométricas, observações que permitiam, por exemplo, aos marinheiros, dirigirem-se no mar, aos camponeses medir os seus campos, fixar a data dos seus trabalhos.

Os Gregos aparecem no momento em que, destas observações sobre as propriedades das figuras e o curso regular dos astros, se tornava possível extrair leis, formular uma explicação dos fenômenos. Fazem-no, enganam-se muitas vezes, recomeçam. Não há nada aqui de miraculoso, mas apenas um novo passo do lento progresso da humanidade.

Tirar-se-iam outros exemplos, e com abundância, dos outros domínios da atividade humana.

Toda a civilização grega tem o homem como ponto de partida e como objeto. Procede das suas necessidades, procura a sua utilidade e o seu progresso. Para ai chegar, desbrava ao mesmo tempo o mundo e o homem, e um pelo outro. O homem e o mundo são, para ela, espelhos um do outro, espelhos que se defrontam e se lêem mutuamente.

A civilização grega articula um no outro o mundo e o homem. Casa-os na luta e no combate, numa fecunda amizade, que tem por nome Harmonia.

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Civilização Grega | Sociedade
Por Michael Roaf
Proto-História na Mesopotâmia

A revolução neolítica está na origem de uma transformação radical das condições de vida do homem pré-histórico. A descoberta, fundamental, da agricultura e da criação de gado tem como corolário imediato uma libertação: o homem deixa de estar sujeito às vicissitudes da caça e coleta. O habitat estabiliza-se no meio de uma paisagem já transformada. Comunidades aldeãs fazem, então, o seu aparecimento. Na Mesopotâmia, a história destas comunidades é ainda demasiado pouco conhecida para que seja possível traçar um quadro de conjunto. Os nossos conhecimentos neste domínio estão totalmente dependentes das escavações arqueológicas que ainda se encontram nos seus inícios, no que se refere a estas épocas altas. Demasiado raras, reduzidas com freqüência a simples sondagens, carecendo de meios, elas ainda só clarificam alguns momentos, importantes sem dúvida, da ponto-história.

A cronologia é imprecisa, a datação com carbono 14 dá resultados demasiado vagos; o método estratigráfico é mais satisfatório: parte do principio segundo o qual as sucessivas camadas de ocupação do solo revelam uma ordem cronológica que vai do mais recente para o mais antigo, isto é, para o mais profundo. A comparação dos resultados obtidos em vários locais e o ponto de referência dos níveis contemporâneos permitem estabelecer uma cronologia relativa. A partir dai, podem distinguir-se vários períodos. Mas a ausência de terminologia precisa constitui um obstáculo suplementar. Com efeito, concordou-se em designar as grandes épocas de acordo com o nome do local onde foram identificadas pela primeira vez, o que pode dar origem a uma certa confusão.

Em Maio de 1948 descobriram-se, a leste de Kirkuk, os vestígios do mais antigo estabelecimento sedentário conhecido. Trata-se da aldeia de Kalaat Jarmo que remontaria a meados do VII milênio (cerca de 6750 segundo a datação com carbono 14). As escavações puseram à luz do dia umas vinte casas de paredes de lama - calcula-se em cerca de 150 pessoas a população da aldeia-, algumas sepulturas, vasos de pedra, fragmentos de obsidiana, figurinhas de animais e de "deusas-mães" em argila. A utensilagem desenterrada é exclusivamente lítica. Verifica-se ausência total de cerâmica. Numerosas ossadas de cabras, de carneiros, de bois, de porcos e de cães demonstram a domesticação destes animais. Presença de grãos de trigo e de cevada documenta o desenvolvimento d agricultura.

No VI milênio, a civilização de Hassuna - do nome de uma aldeia do vale do Tigre, a sul de Mossul - conhece a cerâmica. Esta é feita à Mao, raramente polida; é pintada ou incisa, por vezes ambas as coisas. A pintura e baça, de cor vermelha-escura ou preta. Os temas decorativos são simples, sempre de inspiração não figurativa. As construções são feitas de taipa. A utensilagem, que ilustra a importância crescente da agricultura e da criação de gado (foices, machados, raspadeiras, buris) é essencialmente de pedra e de osso.

Também do VI milênio, a civilização de Samarra, denominada de acordo com o local de Samarra a norte de Bagdá, foi conhecida desde 1912. Encontramo-la em Nínive, em Baghuz, no Eufrates médio, e até na planície de Antioquia. As construções são de tijolo cru em formato grande. A cerâmica é monocromática, variando o tom do vermelho ao violáceo. Os motivos, de inspirarão figurativa, mostram um gosto manifesto pela esquematização e pela abstração; vê-se, por exemplo, uma dança de cabritos-montanheses que se transforma em cruz de Malta. A cruz gamada, outro motivo freqüentemente utilizado, tem talvez uma origem semelhante numa dança de quatro mulheres esguedelhadas.

Tell Halaf - A civilização de Tell Halaf, no V milênio, mostra-se já muito mais complexa. Desde os vales do Tigre (Arpatchiya, Ninive) e de Habur (Tell Brak, Chagar Bazar, Tell Halaf), estende-se ao longo do Eufrates (Karkemish) e exerce a sua influência até ao Mediterrâneo (Ras Shamra) e Cilicia no Oeste, ao Sul do Iraque a Leste e a região do lago de Van no Lorte. É bem conhecida desde as escavações do local de Arpatchiya, perto de Mossul. Fica-se impressionado pela freqüência de edifícios circulares, alguns dos quais são precedidos de um vestíbulo retangular. Desconhece-se ainda qual seria o destino destes tholoi. Foram já considerados fortalezas; celeiros, fornos, túmulos, santuários... É natural que não sejam simples casas de habitação. Constituem pelo menos uma componente característica civilização de Tell Halaf. A cerâmica é de altíssima qualidade, ricamente decorada de temas naturalistas ou abstratos. Motivos novos, como bucrânicos e os duplos machados gozam de grande favor, ao passo que a cruz gamada desaparece totalmente. O tema da "deusa mãe" está igualmente bem representado. Marcas de campânulas de argila e sinetes de pedras diversas testemunham o aparecimento da gliptica. A variedade das pedras utilizadas dá uma idéia da extensão das relações comerciais. A pedra, o osso, a argila continuam a ser os materiais preferidos para a utensilagem. Uma baixela de pedra foi encontrada em Arpatchiya. A grande novidade da época é a invenção de um processo para a fundição de certos metais, muito particularmente o cobre e o chumbo.

É sem dúvida na época de Tell Halaf que o sul do Iraque começa ser habitado. Tal fatos pode mesmo ter-se dado antes, se tivermos como ponto de referência alguns fragmentos de louça encontrados em Kish, Ur e Girsu, aparentados com a cerâmica de Hassuna. Os principais locais conhecidos nesta região são Kalaa Hadj Mohammed e Eridu. Kalaa Hadj Mohammed é um pequeno estabelecimento aldeão próximo de Uruk. Foi Iá descoberta uma cerâmica feita à Mao, de pintura geralmente brilhante e sempre monocromática (castanho-escuro, arroxeado, verde ou vermelho). Os temas decorativos são geométricos. Eridu, nas margens de uma laguna do Eufrates, é um local muito mais importante. Encontram-se ai nada menos que dezoito níveis de ocupação. No nível XVI pode salientar-se o plano completo de um edifício. Trata-se de uma construção quadrangular dividida em duas por meio de pedras salientes. Um nicho contendo um pequeno pódio está implantado na parede do fundo. Um segundo pódio ergue-se no meio do compartimento. A presença deste nicho, a orientação dos ângulos para os pontos cardeais e o fato de a edícula se encontrar sob o zigurate mais recente de Ur-nammu fazem pensar que se está na presença de um templo. Quanto a cerâmica, ela é monocromática e decorada com motivos geométricos simples.

El Obeid

Com a segunda metade do v milênio abre-se o período de El Obeid, que tira o seu nome de um sitio próximo da cidade de Ur. A nova civilização seria originária do Sul. Alguns arqueólogos consideram, de fatos, que os níveis antigos de Eridu são a sua primeira manifestação. Seja como for, esta civilização estende-se pouco a pouco, e não sem violência, a toda à Mesopotâmia (El Obeid, Eridu, Gasur, Tepe Gawra, Ninive, Chagar Bazar, Ukair) e as regiões vizinhas (planície de Antioquia, Turquia, Irã). A aldeia de Arpatchiya apresenta as marcas das destruições e das pilhagens que acompanharam a sua progressão. Dois estabelecimentos são particularmente representativos desta doca: Eridu, no Sul (níveis VI e VII), e Tepe Gawra, no Norte (niveis XIX a XII).

O templo do nível VI de Eridu, construção de 23m por 12m, apresenta paredes regularmente aparelhadas de tijolo cru, o que supõe o use de molde para fabrico de tijolos. Construído sobre uma grande plataforma, tem um plano complexo que prefigura o do templo sumério: grande sala central rodeada por um rosário de pequenos compartimentos anexos e provida de um altar numa das suas extremidades. No nível XIII de Tepe Gawra descobriu-se um conjunto de três templos construídos sobre uma esplanada de 30m2. Um dos templos, de dimensões ligeiramente mais reduzidas que o de Eridu, 20m por 9m, apresenta um plano quase semelhante. Um queima-perfumes fornece indicações preciosas sobre a construção destes edifícios: nas suas paredes está figurado um edifício que comporta sete portas sobrepujadas de janelas triangulares e separadas por caneluras verticais.

A cerâmica utiliza, doravante, uma argila bem depurada. Introduz-se o uso da roda de oleiro. A decoração é monocromática, predominam os temas geométricos. Começam a aparecer timidamente figuras animais. Em Tepe Gawra pode mesmo observar-se uma representação humana, muito esquematizada é certo. Por outro lado, chegaram até nos figurinhas em terracota. Algumas dentre elas apresentam um fácies qualificado tradicionalmente de "ofidiano". A utensilagem continua a ser simples, a pedra e a argila são os materiais mais usados. A glíptica é abundante, sobretudo no Norte. É no domínio da metalurgia que se verifica a principal descoberta da época: assiste-se a implantação de um processo mais econômico de fundição do metal; dai uma maior difusão de objetos manufaturados em metal, o que supõe alem disso a possibilidade de fundir este ultimo em moldes. O povo de Obeid controlou igualmente e tirou partido da forca do vento, como o testemunha um modelo de barca em terracota proveniente de um túmulo de Eridu e que traz a indicação do sitio do mastro.

Em resumo, verifica-se que as comunidades camponesas, originalmente estabelecidas no sopé das montanhas, deixaram no VI milênio a zona do sopé e espalharam-se pelos vales dos rios para finalmente desembocarem na planície propriamente dita. As sondagens efetuadas no local de Bukras, ao vale do Eufrates, nas imediações da foz do Habur, ilustram as dificuldades desta progressão. Dos três níveis sucessivos de ocupação, só o primeiro e o terceiro forneceram um mobiliário de caráter agrícola; o segundo reflete um abandono momentâneo da atividade sedentária, sendo a utensilagem de tipo Paleolítico Superior. Não se conhecem as razões deste recuo, também verificado noutros lugares. Seja como for, a progressão dos estabelecimentos sedentários para regiões secas, onde a irrigação é necessária dada a insuficiência das chuvas, não pode fazer-se sem a invenção de técnicas agrícolas novas e cada vez mais aperfeiçoadas.

A terra é a única fonte de riqueza, fornece o alimento assim como o material de construção. Para obter as matérias-primas que lhe faltam, a aldeia deve mostrar-se capaz de produzir um excedente alimentar. Este último serve de moeda de troca para as transações comerciais. Nada se sabe acerca da organização política e social. Quanto às crenças religiosas, estamos reduzidos a simples conjecturas. É possível que, na época de Obeid, um deus-lua tenha sido venerado em Ur e que um culto do deus das águas tenha sido praticado em Eridu. Único elemento positivo fornecido pela arqueologia, o culto das "deusas-mães" é universalmente atestado.

É uma segunda revolução que marca os verdadeiros inícios da história mesopotâmica: a revolução urbana. As perturbações que daí decorrem verificam-se na charneira dos IV e III milênios. Terão os seus prolongamentos até cerca de 2.100 antes da nossa era. Este longo período é tradicionalmente subdividido pelos arqueólogos e pelos historiadores em várias fases: épocas de Uruk e de Djemdet Nasr, dinástica arcaica, império de Acádia. Uma tal divisão pode parecer cômoda para o estabelecimento de pontos de referencia cronológicos relativamente precisos, mas só debilmente reflete a natureza dos acontecimentos que se desenrolam. Na realidade, estamos na presença de um período particularmente homogêneo, precisamente o da revolução urbana, que começa quando da construção dos primeiros templos de Uruk e termina com a urbanização da Mesopotâmia do Norte sob os reis de Acádia.

Os primórdios

As incoerências no material arqueológico traduzem toda a confusão que presidiu aos primeiros passos da urbanização, nas épocas de Uruk e de Djemdet Nasr, uma e outra caracterizadas pela sua cerâmica. A de Uruk só progressivamente vai suplantando a de Obeid, sempre presente nas camadas arqueológicas. Vermelha ou cinzenta, conforme o grau de cozedura, não traz qualquer decoração. Ao mesmo tempo, aparecem formas novas. Reconhece-se nela a influência das artes do metal. Quanto à cerâmica de Djemdet Nasr, ela é inteiramente diferente. O uso da policromia e vela introduzido, a decoração geométrica e os temas naturalistas conhecem um novo desenvolvimento.

É igualmente estranho ver os templos da época de Uruk, construídos com tanto cuidado, abandonados muito pouco tempo depois. O conjunto arquitetônico descoberto no bairro de E.ana em Uruk é datado do nível IV. Trata-se de uma vasta esplanada delimitada por dois templos, uma sala de colunas e uma instalação de banhos. Um terceiro templo de dimensões impressionantes, 80m por 30m, erguia-se a nordeste desta esplanada; foram encontradas as suas fundações em calcário. Todos estes templos apresentam o mesmo plano: uma grande sala cruciforme flanqueada por múltiplos compartimentos anexos. Algumas construções estão decoradas com mosaicos compostos de cones vermelhos, brancos e pretos, variadamente dispostos e figurando diagonais, gregas, triângulos e losangos. Um tal trabalho exigiria a presença de equipes coerentes, construtores e decoradores, de uma mão-de-obra numerosa que obedecia a instruções precisas e utilizando planos e esboços preparados antecipadamente e até aos mínimos pormenores. Tais realizações não podem conceber-se no quadro de uma economia camponesa.

Ora, a passagem da época de Uruk para a de Djemdet Nasr é marcada por uma mudança completa das práticas culturais, mudança cujo sentido e alcance nos escapam. Os templos do bairro de E.ana são destruídos, o seu mobiliário é reunido num edifício especialmente arranjado para esse efeito e um novo templo é construído num outro bairro, o de Kulaba. Presentemente, o templo levanta-se no cimo de uma alta plataforma, antepassado provável do zigurate.

Mas o aparecimento da cidade é, antes de tudo, um desfraldar de novidades. A invenção da roda revoluciona a arte do oleiro que, de ocupação doméstica passa a ser trabalho de especialista. O cilindro-sinete substitui o selo; o gravador encontra ai uma superfície gráfica muito maior, pode a partir de então ornar com motivos gravados todo o revestimento cilíndrico do sinete que se aplica sobre a argila. Esta nova superfície gráfica suscita composições novas, nas quais as cenas rituais detém um lugar considerável. As artes do metal conhecem um grande florescimento, como o atesta a oficina de ferreiro descoberta em Uruk. O papel que os ferreiros devem ter desempenhado no processo de urbanização foi muitas vezes avançado pelos historiadores e pelos arqueólogos; alguns especialistas consideram-no absolutamente essencial, mas é difícil aceitar tais opiniões. É verdade que os nomes de Sippar e de Bad-tibira, cidades reputadas aos olhos dos antigos pela sua altíssima Antiguidade, evocam, aparentemente, o metal e a arte do ferreiro, mas trata-se muito provavelmente de etimologias populares ou segundas.

A grande inovação do tempo é, sem dívida, a da escrita. As primeiras tabuinhas inscritas datam do nível IV de Uruk. Sendo a pedra rara, utiliza-se sobretudo a argila como suporte do texto. A escrita é ainda um sistema muito imperfeito que irá melhorando de descoberta em descoberta. Procura-se condensar-se numa pequena superfície um numero importante de signos que exprimem um pensamento. As tabuinhas desta época estão cobertas de pitctogramas que representam a silhueta dos objetos designados ou, mais geralmente, obedecem a uma simbólica que se encontra também na arte pictórica. A escrita, nos seus inícios, não procura reproduzir a flexão gramatical de uma frase ou de uma proposição, contentando-se com fixar na argila as palavras, os pontos essenciais da mensagem que se quer transmitir. Apos alguns séculos de pesquisas, a descoberta do valor fonético do signo permitira transcrever de modo mais perfeito a língua falada. Ao mesmo tempo, como não é fácil desenhar, sem rebarbas, linhas curvas em argila, os escribas optam por quebrar os contornos dos desenhos e representar o signo pretendido por um conjunto de curtas incisões em forma de cunhas. O sistema torna-se cada vez mais abstrato. Assim nasceu a escrita cuneiforme.

A vida na cidade

As cidades continuam a estar profundamente lizz das aos campos: os quintais e pomares penetram-nas, camponeses e trabalhadores agricolas vivem nelas, os celeiros e as tulhas erguem-se no se% interior. O ritmo de vida continua a ser o dos trabalhos dos campos.

Ignoramos o grau de organização atingido pela cidade nova. Algumaa representações figuradas provenientes de Uruk mostram um homem barbudo, vestido com uma túnica e com um turbante na cabeça. Armado com o arco ou a lama, recebe a submissão dos vencidos, assiste à execução dos, prisioneiros ou caça o leão. Tratar-se-á do chefe da comunidade ou este é encarnado por outra personagem bem reconhecível nos documentos pela saia emalhada com que está vestido e que parece desempenhar um papel importante nas cerimônias ligadas ao culto da deusa Inanna? No estado atual das fontes é impossível dizê-lo. Um certo número de documentos, todos eles originários de Uruk exceto um único encontrado em Tell Billa, traz um desenho próximo do sinal gráfico en. Este signo designará mais tarde o "senhor" ou o "sacerdote"; mais precisamente em Uruk, en será o titulo real. Poderá atribuir-se esse valor ao nosso desenho? Não poderemos afirmá-lo categoricamente.

A residência do príncipe, sede do poder executivo, não é conhecida. É talvez o templo, que domina o conjunto da cidade com a sua massa imponente e desempenha um papel essencial na vida econômica em virtude das suas propriedades fundiárias. Textos épicos mais recentes descrevem a recepção oferecida pelo rei de Uruk a uma embaixada estrangeira: a cena desenrola-se no pátio do templo. Mas o que talvez seja verdade em Uruk não o é necessariamente noutro lado. As escavações de Djemdet Nasr revelaram os vestígios de uma construção imponente que não é necessariamente um templo. Geralmente qualificado de "palácio-templo" pelos arqueólogos, a sua função precisa continua a ser um enigma. De resto, ainda esta incompletamente escavado.

No domínio das artes figurativas, os temas da guerra e da caça fazem o seu aparecimento. Uma estela de Uruk representa uma caça ao leão. A execução dos prisioneiros nus, acocorados, com os braços ligados atrás das costas, é bem atestada pela glíptica. Encontradas em Uruk, estatuetas de personagens nus, igualmente acocoradas, braços e pernas atados, evocam a mesma cena.

As idéias religiosas do tempo ainda não nos são claramente perceptíveis. Os arqueólogos alemães pensam que em Uruk apenas terá havido dois templos simultaneamente ao serviço na cidade: estar-se-ia, portanto, em presença do culto de uma díade divina. As tabuinhas inscritas e os relevos permitem-nos identificar um certo numero de divindades. As principais dentre elas são Inanna, deusa da fecundidade, An, deus do céu, e Enlil, deus da atmosfera.

A Mesopotâmia do Norte

No norte da Mesopotâmia, foi em Tepe Gwara que foram as descobertas mais espetaculares. Estamos na presença de uma cidade fortificada. A muralha é fendida por duas grandes portas flanqueadas de torres e ligadas entre si por uma grande artéria que divide a cidade em duas. No centro da aglomeração encontra-se uma cidadela de plano circular a qual se tem acesso por uma rampa única. É de notar o fato de a construção principal que domina a cidade não ser o templo, mas a cidadela. O templo é de dimensões modestas. É concebido segundo um plano inteiramente diferente dos do Sul: e, segundo a expressão de Andrae, do tipo do Herdhaustempel com uma grande sala única. O fim do período marcado pela construção de uma acrópole que apresenta um grupo de quatro tempos, como se o elemento religioso ganhasse uma importância crescente na economia da cidade à medida que esta se desenvolvia.

Ao lado das descobertas feitas em Tepe Gwara, as escavações das outras cidades da Mesopotâmia do Norte parecem secundarias. Foi descoberta uma muralha em Gray Resh. Quanto ao templo de Tell Brak, designado pelo nome de Eye-temple pelos arqueólogos por causa das curiosas figurinhas de olhos proeminentes que lá foram encontradas, esta decorado com mosaicos, reflete talvez uma influencia meridional.

O povoamento da Mesopotâmia

Os primeiros habitantes da Mesopotâmia não eram seguramente Sumérios. É tudo o que é possível afirmar com base nos nossos conhecimentos lingüísticos. Com efeito, a etimologia suméria não explica numerosos nomes geográficos - sem falar dos do Tigre e do Eufrates -, nem muitos termos técnicos referentes à agricultura (charrua, feitor, pastor, palmeira, etc.) ou ao artesanato (ferreiro, carpinteiro, tecelão, oleiro, etc.). A arqueologia mantém-se muda quanto a este problema e os resultados da antropologia são vagos.

É só na época de Djemdet Nasr que um texto de Uruk menciona o nome próprio sumério En.li.ti ("Enlil mantém em vida"). É o primeiro testemunho de uma presença suméria no sul do Iraque. Quem são os Sumérios? De onde vieram? Quando chegaram? As hipóteses pululam, mas certezas não ha nenhuma. Seja como for, a simbiose com as populações mais antigas faz-se rapidamente, impondo aos Sumérios o seu alto nível cultura.

Julgamos poder afirmar que, a quando da chegada dos Sumérios, populações semíticas movimentam-se já na região baixa mesopotâmica; um certo número de termos técnicos sumérios derivam, de fato, de raízes semíticas (comprar, cebola, escravo, etc.).

A tradição mesopotâmica

O mito grafo sumério conservará, nos seus escritos, a recordação das origens longínquas da sua historia. Lembrar-se-á do tempo em que fora preciso arrancar as areias movediças, aos pântanos e as lagunas o próprio solo sobre o qual se erguerão os principais focos da sua civilização. Duas cidades, na sua opinião, detém um lugar especial. Em primeiro lugar, Eridu, a morada do deus Enki, o organizador do mundo, e a primeira residência real depois de a realeza ter descido do céu. É em Eridu que a tradição fixa a morada dos Sete Sábios que transmitiram o seu saber a toda a humanidade. Em seguida vem Uruk, para onde a deusa Inanna trouxe os poderes divinos que regulam a ordem do mundo, depois de os ter retirado a Enki, no decurso de um banquete oferecido em sua honra. Pondo em relevo o papel preponderante que estas duas cidades desempenharam na alta Antiguidade mesopotâmica, a arqueologia parece confirmar os dados da tradição.

Susiana (Elam). - Separada do sul da Mesopotâmia por pântanos e lagunas, em contato com o planalto iraniano através dos altos vales dos rios, a planície susiana sofre a influência dos seus dois vizinhos. O seu local mais importante é Susa. A mais antiga civilização conhecida é aparentada a de Obeid. Deixou uma cerâmica de altíssima qualidade cujos temas decorativos lembram os da Mesopotâmia. Esta alta civilização conhece uma paragem brutal em pleno desabrochar. Susa sofre, de fato, a repercussão da revolução urbana. A partir dai, abre-se uma nova fase da historia da cidade, dominada pelo aparecimento de uma escrita pictográfica totalmente independente do sistema mesopotâmico, a escrita proto-elamita. No seu conjunto, os textos encontrados tem um claro caráter econômico, embora a escrita ainda não esteja decifrada. Segundo toda a verossimilhança, trata-se de inventá

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10/17/2019 6:22:41 PM | Por Pierre Lévêque
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Egito, um dom do Nilo

O vale do Nilo e o domínio da cheia - A civilização egípcia deve muito ao enquadramento natural onde nasceu; de fato, ela só existe graças ao Nilo, e a geografia desempenhou um papel importante na sua evolução histórica. No fim da época terciaria, o baixo vale do Nilo forma um golfo marinho desde a costa atual do Mediterrâneo até as proximidades de El Kab. Depósitos de calcário marinho enchem pouco a pouco este golfo e, em seguida, um amplo movimento de agitação leva o calcário a 180-200m acima do nível do mar e o Nilo, então muito vigoroso, remodela o seu leito nesses depósitos terciários. Cava-se um vale muito largo, que o aluvião enche progressivamente de lodo, à medida que o debito do rio se torna mais vagaroso. Assim se cria a oposição fundamental entre o limo do vale, a terra negra, fértil, Kemet, e as molduras de areias e de rochedos queimados no sol, Desde, a terra vermelha.

Encontram-se assim, no local, os elementos de base para o povoamento humano: o rico limo para as culturas, rodeado de falésias que vão fornecer, primeiro, o sílex para o armamento e, depois, o calcário para a construção.

Entre o Norte do Egito, o Delta, onde o vale é muito longo, e o Sul, o Said, estreito corredor de terras cultiváveis apertado entre dois desertos, o único elo de ligação é o Nilo e a sua cheia fertilizadora. O Egito é pois "um dom do Nilo", segundo a demasiado citada expressão de Herótodo, que continua, no entanto, a manter toda a sua verdade. Com efeito, neste pais em que a exposição ao sol é quase permanente, onde a partir de 2400 a.e.c., e até a nossa época, não há praticamente precipitações, pelo menos no Alto Egito, a seca é inexorável. Sob a mesma latitude que o Sara e o Nedjed, e nas mesmas condições climáticas, o Egito seria tal como eles um deserto, se não houvesse o rio; mas este não bastaria para assegurar a riqueza do pais se não trouxesse, com a sua cheia, a água e o limo indispensáveis.

O fenômeno da inundação é muito complexo. As chuvas de monção da Primavera, abatendo-se sobre o maciço etíope, determinam a subida dos afluentes abissínios do Nilo: Sobat, Nilo Azul, Atbara. De Julho até ao fim de Outubro, as águas e o limo arrancado as margens abissínias vão cobrir o vale, no Egito. Contudo, esta cheia benfeitora pode também assumir o aspecto de catástrofe: ou é demasiado brutal e a corrente leva tudo atrás de si, ou é demasiado fraca e deixa as terras ressequidas e na impossibilidade de serem cultivadas.

Assim, pode dizer-se com razão que a civilização egípcia nasceu quando a cheia foi controlada. Os meios empregados para tal foram complexos e executados progressivamente. De inicio, os Egípcios ergueram diques de proteção ao longo do rio; em seguida, por meio de um conjunto de canais e de depósitos de retenção, aprenderam pouco a pouco a controlar a inundação. Uma vez controlada a violência da corrente, as águas puderam então permanecer por mais tempo sobre os campos, depositando neles o limo fertilizante. Finalmente, aplainando cuidadosamente o Vale, a rede de canais permite levar a água a terras que a simples cheia não teria atingido. Se o Nilo e a sua cheia são fenômenos da natureza, o Egito, em contra-partida, é de fato uma criação humana, um Oasis, palavra que nos vem do egípcio antigo, no sentido pleno do termo.

O segundo meio utilizado pelo homem para atenuar as falhas do Nilo foi a constituição sistemática de reservas nos anos de boa cheia para ocorrer às necessidades quando das inundações insuficientes. O "Tesouro real" é essencialmente um celeiro, e uma boa administração deve proceder de modo que o celeiro esteja sempre cheio. Esta necessidade contribuiu certamente para estabelecer, no Egito, um regime político autoritário e centralizado. Exigiu, além disso, desde muito cedo a instalação de uma administração eficaz, para permitir a população viver e prosperar, fosse qual fosse a cheia. Em contrapartida, a configuração geográfica tende a fragmentação do poder. Com efeito, o Egito é cerca de trinta e cinco vezes mais longo que largo. Onde quer que esteja instalada a sede da administração central, está sempre muito afastada de certas províncias com as quais só com lentidão se pode comunicar. Recentemente, comparamos de modo prosaico o Egito a um tubo de rega: o seu ralo seria o Delta com os sete braços do Nilo, constituindo o Alto Egito o tubo propriamente dito; mais poeticamente, o Egito foi também comparado a um lótus cuja flor constituiria o Delta, o caule meavel o Said, e um botão o Fayum. Seja qual for a imagem adotada, é muito difícil determinar o centro de um tal pais.

Por outro lado, a largura do Vale não é uniforme. Quando as falésias Líbia e arábica se afastam uma da outra, abrem-se pequenas bacias naturais, aparadas umas das outras por estrangulamentos do Vale, onde as falésias se aproximam. Estas pequenas bacias, mais ou menos ricas consoante a sua ascensão, tendem a constituir entidades políticas independentes a partir do momento em que o poder central enfraquece.

A historia do Egito oscila, assim, entre duas tendências opostas: ora para um poder absoluto fortemente centralizado, ora para dispersão em pequenos principados. A concentração do poder correspondem às grandes épocas da historia egípcia: Antigo Império, Médio Império, Novo Império da XVIII à a XX dinastia. Em contrapartida, a tendência para o esboroamento do poder desemboca na fragmentação do pais em pequenos reinos, fragmentação essa que leva geralmente à anarquia e, com muita freqüência, à fome, porque a exploração do Vale deixa de ser assegurada de maneira -continua; essas épocas são conhecidas dos historiadores sob o nome de Primeiro e Segundo Períodos Intermediários, mas o mesmo fenômeno reproduziu-se periodicamente desde a XXI dinastia até à conquista macedônia.

Os recursos naturais

Os recursos naturais do Egito eram, pelo menos no Neolítico, variados e abundantes. A floresta-galeria era então bastante densa ainda no Alto Egito. A dessecação progressiva dos desertos limítrofes fazia dela o refúgio de uma fauna abundante: macacos, elefantes, leopardos, cobras e serpentes encontravam nela um terreno que lhes era favorável. A savana e os desertos que rodeavam o vale inundável eram ricos em herbívoros, lebres, ouriços-cacheiros, gamos, gazelas, cabritos-monteses, antílopes diversos - como o "addax", o orix, o búfalo -, girafas, burros e bois selvagens, avestruzes, que eram acompanhados de grandes e pequenos predadores tais como leões, panteras, linces, hienas, cães selvagens, raposas, águias, falcões e abutres, assim como de outros hospedes, temíveis uns, como os escorpiões e as víboras de antenas, pacíficos outros, como as galinhas-do-mato e as codornizes.

As margens do rio, mais ou menos pantanosas, abrigavam numerosos hipopótamos, crocodilos, lontras, grandes lagartos como o varano, assim como javalis, mangustos e ginetos. Inúmeras aves aquáticas viviam ao longo do Nilo: patos, gansos, garças-reais, pelicanos, flamingos, grous, íbis, verdizelas, poupas, garças de poupa, jabirus, porque o Vale servia já, tal como atualmente, servia de passagem para as aves migradoras. As águas do rio, por fim, continham múltiplas espécies de peixes, e a tartaruga fluvial não era rara.

É esta fauna selvagem que fornece aos caçadores e pescadores das épocas altas as suas presas habituais, e aos criadores de gado do Neolítico e das primeiras dinastias numerosos espécimes para domesticar ou para cruzar com os animais domésticos vindos da Ásia ou do Sul.

A flora é um pouco menos rica: gramíneas variadas da savana e das margens do rio, arbustos e arvores como os espinhosos, terebintos, tamargueiras, jujubeiras, acácias, sicomoros, perseas, assim como as palmeiras, tamareira ou palmeira mediterrânica. Os pântanos continham numerosas plantas aquáticas: "potagometon", lótus azul e rosa, cana, junco, e sobretudo o papiro de múltiplas utilizações: cordas, esteiras, sandálias, barcos.

A riqueza da fauna e da flora selvagens irá diminuir à partir do Pré-dinastico, e sobretudo, a partir de 2500 a.e.c. O seu empobrecimento só parcialmente será compensado pelos contributos vindos do exterior. A exploraçação do Vale pelos agricultores é o principal responsável por este empobrecimento: a construção dos diques ao longo do rio destrói a floresta-galeria, o nivelamento do solo elimina os pântanos, a destruirão pela caça dos animais nefastos para as culturas reduz o número dos animais. A fauna recua pouco a pouco, e a flora selvagem - arborescente sobretudo - torna-se mais rara. Além disso, o fim do "Subpluvial" neolítico africano, por volta de 2400 a.e.c., transforma em deserto a savana que até aquela altura cobria ainda os planaltos tanto a Oeste como a Leste do Nilo. Esta dessecação progressiva diminui os recursos em caça e as possibilidades de criação de gado dos habitantes do Vale.

Contudo, a partir do Neolítico, e talvez antes, quer por importação da Ásia no Leste e da África no Sul e no Oeste, quer selecionando eles próprios sementes e reprodutores, os Egípcios modificam os recursos da natureza selvagem: a cevada, desde a pré-história, e a espelta substituem as gramíneas primitivas; lentilhas, feijões, alhos, pepinos, cebolas e alhos-porros tomam o lugar das plantas que cobriam a subfloresta da floresta-galeria desaparecida; aparecem o linho e a vinha, e a moringa fornece o óleo. Se as tentativas de domesticação da gazela, do orix e da hiena se malogram, em contrapartida os rebanhos de vacas, de cabras, de carneiros e de porcos multiplicam-se.

Esta transformação é muito progressiva. O Egito do Antigo Império, até pelo menos cerca de 2200, graças a uma umidade relativa mais forte que atualmente, é ainda pastoril; o gado desempenha, na economia do país, um papel pelo menos igual ao da grande cultura. A partir do Médio Império, a cultura domina, a criação de gado perde importância e o Egito faz apelo ao exterior para preencher as suas necessidades em gado.

O vale, via de comunicação

O Egito, pela sua posição geográfica, na charneira, se assim se pode dizer, da África e da Ásia, foi sempre um lugar de permutas internacionais, pacificas ou violentas. O vale do Nilo constitui uma via de comunicação privilegiada entre o mundo mediterrânico e a África longínqua. Pelo istmo de Suez, está em contato com o corredor siro-palestino e, por ai, com a Mesopotâmia e a Anatólia. Estes laços, que já estão estabelecidos no Neolítico, tem a sua marca mesmo na língua e na escrita: se a morfologia e a sintaxe estão por vezes próximas do semítico, em contrapartida os sinais hieroglíficos propriamente ditos apresentam uma fauna e uma flora puramente africanas. À Ásia, o Egito media madeira de construção, já que as árvores do vale eram difíceis de trabalhar e impróprias para fornecer as belas, longas tabuas e traves feitas à partir dos cedros e pinheiros do Líbano. O mineral de cobre vinha sobretudo do Sinai, assim como as turquesas. À estas importações de base juntavam-se o lápis-lazúli que transitava pela Ásia, e, a partir do Médio Império, o gado e numerosos produtos fabricados. Da África vinham o ébano e essências, tendo a floresta-galeria subsistido durante mais tempo no alto vale do Nilo; o marfim e sem duvida a obsidiana provinham também do Sul, aos quais há que juntar talvez um pouco de cobre no Antigo Império e principalmente, a partir do Médio Império, o ouro, o gado, os animais exóticos - vivos ou sob forma de peles - e por fim, de boa ou de má vontade, a mão-de-obra humana.

Pelo Mediterrâneo, o Egito esteve em contato, pelo menos através de intermediários, com o mundo egeu que, desde o Médio Império, lhe fornece objetos fabricados, assim como o cobre cipriota, a prata ciliciana e o marfim sírio. No mar Vermelho, os navegadores egípcios iam até ao estreito de Bab-el-Mandeb para obter, na costa africana, o incenso, especiarias, ébano, marfim, ouro, animais como os babuínos, ou peles de leopardo. No Oeste, o Egito estava em relação com os Líbios que cultivavam os territórios na costa do Mediterrâneo e os Oasis escalonados paralelamente ao Nilo, de Siwa no Norte até Khargeh no Sul. Embora pouco numerosos, e sem duvida limitados em quantidade, os produtos da Líbia, gado de pequeno porte, azeite, vinho, parecem ter sido sempre muito apreciados dos Egípcios; mais abundantes na época alta: no período pré-dinástico e até ao meio do Antigo Império, desempenham então um papel econômico importante que não se limita às necessidades do ritual religioso, como até há pouco se julgava. Se se juntarem a todos estes recursos, de proveniência tanto local como externa, as numerosissimas pedras que se encontravam com abundância nas cadeias montanhosas líbia e arábica, desde os sílex, alabastros, calcários, grés e granitos, até aos xistos, basaltos, quartzitos e dioritos, sem esquecer as pequenas pedras semi-preciosas (jaspe, ametista, cornalina), vê-se que o Egito dispunha de tudo aquilo de que podia ter necessidade uma civilização antiga. Só o ferro era pouco abundante, mas só ganhara importância mesmo no fim da história egípcia.

A população e a vida quotidiana

Depois dos recursos naturais, contêm mencionar os recursos humanos. Quando da dessecação progressiva dos desertos limítrofes, a partir do Paleolítico superior e, depois, a seguir ao fim do III milênio a.e.c., o vale do Nilo recolheu uma grande parte das tribos que não podiam subsistir no deserto. A este fundo, essencialmente africano branco, juntam-se periodicamente infiltrações vindas da Ásia pelo istmo de Suez, e também do Sul, de modo que os Egípcios antigos não constituem uma raça pura. Parece, todavia, que o elemento africano branco, aparentado aos Líbios e aos Núbios, terá sido sempre predominante.

É impossível precisar qual poderá ter sido o montante da população egípcia na época faraônica; de resto, ele deve ter variado consideravelmente ao longo dos séculos. Sugeriu-se a cifra de cinco milhões, o que provavelmente será um Maximo, situando-se a media sem dúvida entre três e quatro milhões. O Egito estava, pois, longe de conhecer o sobrepovoamento. Veremos que ele só poderá desempenhar um papel importante na Ásia com a ajuda dos recursos em homens do alto vale do Nilo: e mesmo assim esse papel será muito limitado no tempo.

O quadro onde se desenvolveu a civilização egípcia, quadro esse que acabamos de descrever, marcou fortemente a vida quotidiana dos habitantes. A inundação produtiva impôs um ritmo rigoroso a essa vida.

Depois de a água se retirar dos campos, entre Outubro e Dezembro conforme a latitude, os camponeses tinham de semear imediatamente na terra ainda úmida, ou melhor, na própria lama. Com efeito, uma vez semeada, a semente nunca mais recebia qualquer rega, natural ou artificial, até a completa maturação da planta. Havia, pois, que aproveitar ao máximo a umidade retida no solo. Enquanto esperavam pela ceifa, começada a partir de Março, os camponeses tratavam das hortas e dos pomares plantados nas margens do rio ou dos canais, onde era fácil regar por meio de baldes, primeiro, e, mais tarde, recorrendo a cegonha. Os Egípcios só conhecerão a saquieh ou nora mesmo no fim da sua historia, e a irrigação permanecerá sempre anual, e não perene como o é atualmente graças às barragens.

No principio de Junho o mais tardar, a ceifa estava feita e o grão recolhido nos celeiros. Era necessário, de imediato, de Maio a Julho, preparar a chegada da nova inundação: reparar os diques ao longo das margens, limpar os canais assoreados, levantar de novo os aterros que constituíam os "reservatórios" de irrigarão que, escalonados do Sul ao Norte, retardavam e dominavam o ímpeto da cheia. E para este trabalho, que só seria eficaz se fosse executado a tempo e com cuidado, que a uma autoridade central era indispensável. A partir de Julho, a inundação começa a fazer-se sentir. De Julho até ao fim de Outubro, o Egito era inteiramente coberto pelas águas lodosas do rio, e as aldeias do vale apenas comunicavam entre si através dos diques que serviam também de estradas.

O camponês deixava, então, de poder trabalhar nos campos, mas nem por isso esse era para ele um período de descanso. Com efeito, o Nilo constituía a única estrada que permitia circular de uma extremidade a outra do país; por isso, tirando partido da inundação que penetrava em todo o lado na própria orla do deserto, a administração mandava fazer, nessa época, os grandes transportes de materiais de construção, designadamente pedra e madeira, que eram trazidos para a edificação dos templos e, sobretudo, dos túmulos reais construídos na orla do deserto. Este trabalho exigia longas e numerosas "empreitadas". A inundação era também a época em que os -rápidos das cataratas, cobertos de água, eram mais fáceis de transpor, era portanto a altura em que era preciso empreender as grandes expedições comerciais ou militares para o Sul.

Assim, o ritmo da vida egípcia estabelece-se com rigor: do fim de Julho a meados de Novembro, o Vale está inundado, é a época dos grandes transportes materiais e das expedições para o Sul; de meados de Novembro a meados de Março, sementeiras e manutenção das culturas hortícolas; de meados de Marco a meados de Julho, ceifa e preparativos para a chegada da nova cheia.

O calendário

Aqui se encontra a origem do calendário egípcio antigo que é um calendário agrícola; o ano esta nele dividido em três estações de quatro meses cada uma: Akhet (inundação), Peret (crescimento das plantas), Shemu (ceifa, etc.). Estas estações correspondem rigorosamente ao esquema dos trabalhos agrícolas que descrevemos. Cada mês tem trinta dias, ou seja, um total de 360 dias.

O primeiro dia do ano coincidia com o primeiro dia do primeiro mês da inundação. Primitivamente, os Egípcios tiveram de determinar este dia observando diretamente a subida efetiva das águas, variando assim o primeiro dia de Akhet de um ano para o outro, e arriscando-se o ultimo mês de Shemu a ser umas vezes mais longo outras vezes mais curto. No entanto, bastante rapidamente, talvez sob a III dinastia, eles acabaram por ligar o fenômeno natural da subida das águas a um fenômeno astronômico: o aparecimento no céu, na altura do pôr-do-sol, da estrela Sepedet, Sothis em grego (a nossa Sírio), a que se chama o nascer heliaco de Sothis. Este fenômeno, abaixo da latitude de Mines, produz-se a 14 de Junho gregoriano (19 de Julho juliano); ora, é efetivamente por esta altura que o inicio da inundação, primeiro muito lenta, pode ser observado em Mênfis. A partir daí, o ano oficial começou no dia do nascer heliaco de Sothis e durou 365 dias; porque os Egípcios tinham observado que este fenômeno se repetia após 365 dias; acrescentaram, portanto, cinco dias suplementares ao ano de 360 dias, em grego os "dias epagómenos".

Se o nascer heliaco de Sothis tivesse sido observado todos os anos, os Egípcios teriam encontrado o calendário perfeito. No entanto, as coisas não se passaram assim. No novo calendário adotado, sem dúvida por volta de 2773 a.e.c. sob o reinado de Djoser, o primeiro dia do ano voltava regularmente a 365 dias após a celebração do anterior. Sendo o ano solar real de 365 dias e um quarto (6 horas), dai se seguiu um desfasamento, de ano para ano, com o ano oficial. Ao fim de 120 anos, havia um mês de diferença entre os dois, e só após 1460 anos o primeiro dia do ano astronômico coincidia de novo com o primeiro dia de Akhet. É aquilo a que se chama um período sotiaco.

O desfasamento entre ano astronômico e ano "faraônico" forneceu à Egiptologia uma cronologia de base segura. Com efeito, por diversas vezes, os Egípcios anotaram o dia do ano oficial em que efetivamente se tinha dado o nascer heliaco de Sothis. Sabendo por um texto de Censorinus que esse nascer heliaco e o primeiro do ano oficial tinham coincidido em 139 da nossa era, calculou-se primeiramente que o mesmo fenômeno devia ter-se verificado em 1317 e 2773 a.e.c.; isso permitia fixar a data da adoção do calendário que só podia ser uma dessas duas datas. Admitia-se até há pouco que essa adoção se tivesse feito um período sotiaco antes, ou seja, em 4323 a.e.c., mas essa data, que se situa em plena época neolítica, foi abandonada. Não permitindo a data de 1317 incluir o reinado de todos os faraós conhecidos graças às fontes, dai se segue que a adoção do calendário deva ter sido feita em 2773 a.e.c.

Graças às observações dos escribas, algumas datas precisas balizam a história do Egito: o ano 7 de Sesóstris III cai em 1877 a.e.c., o ano 9 de Amenófis I em 1545 e o reinado de Tutmés III deve incluir o ano 1469. Foi a partir destas datas-referências que, combinando fontes literárias e arqueológicas, se pode estabelecer uma cronologia que, no pormenor, pode prestar-se à discussão, mas no seu conjunto se mantém sólida.

O calendário "oficial" ou "civil", de uso sobretudo administrativo, tão ,hábil para o estabelecimento da cronologia, nunca substituiu, para os Egípcios, na vida de todos os dias, um calendário lunar em uso desde o período proto-dinástico. Foi sempre com base nas fases da lua que foram fixadas as grandes festas religiosas. Assinalou-se mesmo, após a adoção do calendário "civil", a existência de um segundo calendário lunar, melhorado, de modo que se deve falar não "do" mas "dos" calendários egípcios.

As fontes da história egípcia

O Egito não parece ter tido "historiadores", como os Gregos e Roma possuíram. Contudo, esta fora de dúvida que, nos seus arquivos, os templos conservavam Anais de caráter histórico, nos quais estavam consignados os nomes dos reis, a duração do seu reinado e, por vezes, os principais acontecimentos que tinham ocorrido. Poucos desses documentos chegaram até nós. O mais antigo, gravado em uma laje de diorito negro, e conhecido sob o nome de Pedra de Palermo (local onde se conserva). Redigido sob a V dinastia, apresenta os nomes dos faraós desde o fim do Pré-dinástico recente, quando a monarquia ainda não era unificada, e conseqüentemente encontram-se nele, separados, os nomes dos reis do Alto Egito e os dos reis do Baixo Egito. O monumento está infelizmente em mau estado de conservação e são por isso numerosas as lacunas. Onde esté completa, a Pedra de Palermo é das mais preciosas, porquanto apresenta, ano após ano, o nome do faraó reinante, o acontecimento marcante do ano e, ao que parece, a altura atingida pela inundação. Fica-se pelo caso do sexto rei da V dinastia, Ne-user-ré.

O Papiro de Turim, redigido sob Ramsés II (1290-1224), deve ter sido imposto segundo anais do tipo dos da Pedra de Palermo: é uma lista de nomes de reis com a duração do seu reinado em anos, meses e dias. A lista começa com os deuses e semi-deuses aos quais atribui reinados de uma duração fantástica; os faraós históricos estão agrupados e, de lugar em lugar, o papiro apresenta o total dos anos de reinado do grupo. Infelizmente, o Papiro de Turim, que se fica pela XIX dinastia, é também ele muito incompleto.

À Pedra de Palermo e ao Papiro de Turim convém juntar as Listas reais monumentais. Compiladas também elas a partir de anais originais, citam seqüência de nomes de reis por ordem cronológica, mas sem apresentarem datas. Destinadas a assegurar, nos templos, o culto funerário dos grandes antepassados, tem a desvantagem de fazerem uma escolha entre os reis, alguns dos quais não são nomeados. As mais célebres destas listas são: a Lista de Karnak, atualmente no Museu do Louvre, composta sob Tutmés III(1504¬-1450), comportava originalmente 61 nomes que nem sempre estão dispostos com rigor; a Tábua de Abydos, gravada numa parede deste tempo sob Sethi I (1312-1298), enumera 76 reis; a Tabua de Sakkara, por fim, que data de Ramsés II (1301-1235), encontrada num tumulo de funcionário, comportava as vinhetas de 57 reis das quais subsistem apenas 50.

No século III a.e.c., a pedido de Ptolomeu II Filadelfo, um sacerdote egípcio, Maneton, escreveu em grego uma historia completa do Egito faraônico. Maneton serviu-se certamente dos anais conservados nos templos, mas a sua obra Aegyptiaca perdeu-se e só a conhecemos através de um sumario ou Epítome redigido segundo o original por vários cronógrafos. Os apologistas judeus e cristãos serviram-se com freqüência deste Epítome que nos chegou graças a eles. Maneton repartira a história dos Faraós, desde as origens até a conquista de Alexandre, em trinta e uma dinastias. O Epítome apresenta, para cada dinastia, o seu lugar de origem, a lista dos reis que a compõem com a duração do seu reinado e, por vezes, raramente, uma curta frase que menciona um acontecimento marcante do reinado.

História - Civilização Egípcia
10/17/2019 2:49:08 PM | Por John Baines & Jaromir Málek
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Sexualidade egípcia

É possível que os homens, que deixaram os testemunhos de que dispomos, se preocupassem em acentuar a sexualidade das mulheres para os seus próprios fins - que eram ao mesmo tempo religioso e de prazer - , mas não para a promoverem como força independente e subversiva. A sua atitude em relação à sexualidade era ambivalente. Nas histórias, a sedutora malvada é um tema comum e a poesia amorosa do Novo Império é freqüentemente escrita nas palavras da mulher ardente, neste caso sem os mesmos tons moralísticos. Embora as histórias tivessem elementos religiosos, ambas estas fontes dão-nos um ponto de vista secular sobre o assunto.

Em termos religiosos, no entanto, a sexualidade era importante devido à sua relação com a criação, e, por associação, com o renascimento e a vida para além da morte. Era também significativa para o caráter de algumas divindades - Hathor entre as deusas e Min entre os deuses. Num contexto funerário, as referência eróticas veladas nas cenas dos túmulos podiam ter dois objetivos: assegurar o renascimento na outra vida através da potência ou proporcionar ao morto uma existência agradável. As cenas de conteúdo erótico incluem algumas de caça nos pântanos, onde o morto é acompanhado pela mulher, vestida um tanto incongruentemente com o seu fato mais requintado, com uma pesada cabeleira e levando na mão dois símbolos de Hathor. As cabeleiras pesadas, em especial quando associadas à nudez, era, por vezes, sinais eróticos. Numa história do Novo Império a mulher malvada acusa o irmão do marido de tentar seduzi-la, informando ter-lhe ele dito:

"Vem, vamos passar uma hora deitados. Põe a tua cabeleira".

Temas como este são mais raros em períodos anteriores, sendo o melhor exemplo uma cena do túmulo de Mereruka, da 6ª dinastia, em Sakkara, onde o proprietário e a mulher estão sentados frente a frente numa cama e ela toca harpa para ele ouvir. Tal cena tinha, em parte, por finalidade proporcionar um ambiente erótico para o defundo no outro mundo. Uma fórmula mágica ou uma estatueta feminina colocadas num túmulo podiam ter a mesma finalidade, mas com uma conotação menos conjugal. Uma fórmula mágica do Médio Império dos Textos dos Sarcófagos tem este começo simples "A cópula de um homem na necrópole." Num plano mitológico, podem ver-se as mesmas preocupações no Livro dos Mortos, onde Osíris se queixa ao deus criador, Aton, de que após o fim do mundo "Já não haverá ali prazer [sexual]", ao que Aton responde:

"Dei transfiguração em vez de água, ar e prazer", considerados aqui três condições prévias da vida, "e paz de espírito em vez de pão e cerveja."

Existe apenas um documento obsceno de dimensão relativamente significativa, que data de finais do Novo Império. Este documento é constituído por um conjunto de desenhos em papiro, com pequenas legendas mostrando uma variedade de encontros sexuais entre um homem (ou talvez homens) gordo e devasso e uma mulher (ou mulheres) vestida apenas de cabeleira, colar, pulseiras e um cinto. O papiro contém igualmente esboços humorísticos de animais desempenhando papéis humanos - bem conhecido - , sugerindo que a parte obscena pode ser também humorística. Mais ou menos da mesma época há um caso de piritanismo, em que umas pinturas de dançarinas nuas e de mulheres sumariamente vestidas, num túmulo da 18ª dinastia, foram vestidas por um dono posterior. Nas habitações do período tardio encontram-se com freqüência objetos obscenos, sobretudo estatuetas de homens com enormes pênis, que existiram também mais tarde mas que se perderam quase todos devido à escassez de material em locais de habitação. Eram possivelmente fórmulas mágicas destinadas a aumentar a potência dos homens.

Se a potência era uma preocupação dos homens, numa altura em que a taxa de mortalidade era tão elevada, a fertilidade era inevitavelmente importante para as mulheres - bem como para os homens. Em todas as famílias, exceto nas mais ricas, os filhos eram de importância vital pela sua contribuição em trabalho, especialmente na agricultura, e, num outro nível, para assegurarem a continuidade da família, de que o traço mais óbvio era a prática comum de se pôr a um filho o nome do avô. Conhecem-se textos ginecológicos, incluindo receitas para perturbações reprodutivas, prognósticos de nascimento, contracepção e aborto, mas é pouco provável que quaisquer deles, exceto talvez os do aborto, fossem muito eficazes. Chegaram até nós, vindas de relicários de Hathor assim como de povoações e túmulos, numerosas pequenas figuras de gesso, representando mulheres cujas formas realçam os órgãos genitais. A explicação mais plausível para a sua existência é a de serem oferecidas pelas mulheres para a sua própria fertilidade. É de notar que não são conformes às normas de representação egípcias. É possível que sejam originárias de uma classe de população diferente da maioria das obras pictóricas ou que fossem consideradas como estando fora dos cânones por qualquer outra razão. Até aos templos modernos, a oferta de tais objetos era, possivelmente, um meio tão eficaz de ajudar à concepção de um filho como ir ao médico.

História - Civilização Egípcia
10/17/2019 2:42:11 PM | Por Mirella Faur
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Yggdrasil, a Árvore Cósmica

O conceito de uma “Árvore da Vida ou do Mundo”, de um “Eixo, Coluna ou Pilar Cósmico”, existia em diversas culturas e religiões antigas e era uma imagem mítica muito antiga, dominante na Europa e Ásia, encontrada nos mitos escandinavos, bálticos, germânicos, fino-úgricos e celtas. Nas tradições xamânicas de várias tribos siberianas (samoiedos, iacutos, tungues, tártaros, altaicos, mongóis), da Melanésia e do Pacífico, além dos outros povos (fino-úgricos, turcos, ibéricos, eslavos e celtas), é comum a representação de uma árvore que liga o céu, a terra e o mundo subterrâneo e que serve como uma escada ou ponte entre diversos mundos. Esses mundos ou planos sutis (dos deuses, seres sobrenaturais, ancestrais, espíritos e homens) podiam ser alcançados pelos xamãs em estado alterado de consciência ou pelos sensitivos em projeção ou desdobramento astral. A função da árvore era ligar o céu à terra, a águia celeste à serpente telúrica. Por ser uma imagem de “outro mundo” além do tempo e do espaço, não se podem definir os detalhes da localização exata, nem os termos racionais de direção e distância.

Os xamãs eram treinados para se “deslocar” em viagens astrais para outras realidades ou mundos, desdobramento descrito de forma metafórica como uma “subida” feita por degraus cortados no tronco, por uma escada ou ponte, levados por um pássaro totêmico ou aliado. Nessa jornada, eles podiam atravessar portais, perambular por vários mundos, ascender ao mundo divino ou descer até o reino dos mortos, seus ancestrais.

A “árvore” ou o “pilar” marcava o centro do universo e unia as diversas regiões cósmicas. Seus detalhes e suas características diferiam de uma cultura para outra, mas tinham como traços comuns os galhos que tocavam o céu, as raízes mergulhando no mundo subterrâneo, o tronco sustentando vários mundos e as folhagens ocultando figuras indefinidas. Essas figuras podiam ser almas à espera do renascimento, animais aliados ou ferozes (representando as forças contrárias que tentavam destruir a árvore) ou seres sobrenaturais. O número de galhos variava entre sete, nove ou treze e o dos mundos podia chegar até 33 ou 99 [92] (múltiplos de números sagrados). Uma característica básica da Árvore do Mundo é o fato de sua vida ser destruída e renovada continuamente; por isso ela se tornou símbolo da constante e eterna regeneração do universo. Algumas tribos siberianas acreditavam que os deuses se alimentavam dos seus frutos e que as almas viviam entre os seus galhos e folhagens. Na tradição nórdica contava-se que nas folhas deYggdrasil eram escritos os destinos dos homens pelas Nornes com runas, e embaixo dos seus galhos se reuniam os concílios dos deuses.

Yggdrasil era descrita como uma imensa árvore (freixo ou teixo) cujos ga­ lhos se estendiam sob a terra e alcançavam o céu. Seu tronco era sustentado por três raízes, uma chegando até o mundo dos deuses Aesir, outra até a morada dos gigantes de gelo e a terceira penetrando no reino dos mortos, regido pela deusa Hei. A visualização linear das três raízes é difícil, mas ela é metafórica, represen­ tando as três fontes de poder e origem deYggdrasil: o mundo superior, mediano e subterrâneo. O topo da árvore, chamado Lerad (doador da paz) sombreava o salão de Odin, enquanto o restante dos galhos cobria os mundos.

No poema “Võluspa”, a vidente (volva ou vala) enumera nove mundos in­ tercalados no espaço, em vários níveis e separados por montanhas, desertos desolados pelo frio e a escuridão, rios, vales e pontes, a mais famosa sendo a do Arco-Íris, Bifrost ou Asabiu, que ligava o céu e a terra e parecia uma estrutura metálica brilhando nos matizes do arco-íris. As outras pontes podiam ser frágeis e suspensas sobre abismos, finas como a lâmina da espada (que exigia um po­ der sobrenatural de quem tentasse atravessá-la) ou resistente como Gjallarbru, a “ponte do eco”, que levava ao reino da deusa Hei.

Bifrost era constituída de fogo, água e ar e servia de passagem para as di­ vindades que se deslocavam de Asgard (sua morada) para Midgard e os outros mundos, com exceção de Thor, proibido de atravessá-la para não provocar sua queda com seus passos pesados e seus gritos trovejantes. Bifrost —talvez origina­ riamente aVia Láctea —era guardada pelo deus Heimdall, dono de uma espada resplandecente, dotado de visão e audição extraordinárias e cuja corneta iria anunciar o início do Ragnarõk e a destruição da ponte pelos gigantes de fogo. Na ponte Bifrost havia um portal chamado Helgrind ou Valgrind, que separava o plano dos vivos do reino dos mortos e que se abria para a passagem dos xamãs nos seus deslocamentos, bem como para o retorno dos mortos que visitavam Midgard em datas específicas.

Sob cada uma das três raízes de Yggdrasil brotava uma nascente, com nomes e funções diferentes. A nascente de Urdh ou Wyrd nascia sob a raiz superior e pertencia às Xornes, as Senhoras do Destino. Diariamente elas tiravam água da [93] fonte, molhavam as raízes da árvore e as cobriam em seguida com argila branca, para manter a umidade e conservar a vitalidade da árvore. As Nornes decidiam os destinos e os traçavam em rimas sobre as folhas e os galhos deYggdrasil ou as gravavam sobre os galhos. Ao redor da fonte de Urdh as divindades Aesir se reuniam todos os dias em busca de orientação, conselhos e presságios futuros conferidos pelas Nornes; lá também era a sede dos seus concílios, que visavam apaziguar conflitos ou disputas e resolver problemas.

Sob a segunda raiz de Yggdrasil nascia a fonte de Mimir, considerada a “fonte do conhecimento”, repositório da sabedoria e da memória ancestrais. Nela o guardião Heimdall guardava sua corneta (ou um dos seus ouvidos) e era lá que se encontrava a cabeça decapitada do deus Mimir, preservada por Odin com er­ vas e encantamentos rúnicos e que o aconselhava em suas decisões e ações. Essa nascente guardava também as runas, que eram a própria essência da sabedoria e magia universal; foi ali que Odin sacrificou um olho para poder beber dela e alcançar esse conhecimento pela autoimolação. A fonte de Mimir fornecia infor­ mações e auxílio àqueles que dela bebiam, fossem eles deuses ou seres humanos devidamente preparados e com a consciência ampliada.

A terceira nascente —Hvergelmir —jorrava da raiz inferior de Yggdrasil e dela originavam-se 11 (ou 12) rios —Elivagar —, que se espalhavam sobre os campos de Midgard. Em seu espelho d’água nadava um casal de cisnes, cuja harmonia e integração simbolizam a união da polaridade feminina e masculina.

Em uma gruta, na proximidade da nascente, escondia-se o aterrorizador dra­ gão Nidhogg, que roia incessantemente a raiz da árvore, ajudado nessa tarefa des­ truidora por inúmeras criaturas peçonhentas (serpentes, répteis ou dragões), a derrubada deYggdrasil sendo o sinal para o fim dos deuses e a destruição dos mun­dos. As forças destrutivas visavam a exterminação da Arvore da Vida, na tentativa de impedir o nascimento de novos mundos e espécies, enquanto a fonte de Hver­ gelmir simbolizava o cerne dos processos de geração e a energia da expansão.

As três fontes podem ser vistas em conjunto como uma só fonte tripla – do Wjrd – e são responsáveis pelas forças da criação (Hvergelmir), definição da sua evolução (Mimir) e determinação do destino (Urdh), de acordo com as leis das Nornas. As fontes, as raízes e o mundo subterrâneo eram cobertos por uma extensa relva verdejante, que separava a árvore dos outros planos e níveis. O orvalho retido na relva alimentava enxames de abelhas, cujo mel servia para a preparação do hidromel pelos deuses.
Vários animais habitavam entre as folhagens e nos galhos deYggdrasil, alguns deles citados também nos mitos de outras culturas como a iraniana, mesopotâmica, [94] siberiana ou dos nativos da Indonésia (citados anteriormente). No topo da árvore ficava Aar, uma águia, que tudo enxergava e cujo bater de asas causava os ventos e em cuja testa se apoiava um falcão, que lhe servia de mensageiro. Existia uma inimizade perpétua entre a águia e o dragão Niddhog e um esquilo —Ratatosk —, que corria para cima e para baixo da árvore, levando mensagens, possivelmente hostis, tentando acirrar a disputa entre eles.

O combate entre uma serpente e uma águia é um fato natural e seu uso como símbolo é óbvio: a águia é um pássaro celeste e a serpente ou dragão, uma cria­tura terrestre, portanto são polos opostos. O esquilo representa o xamã, viajan­te entre os mundos que atua como intermediário entre o céu e a terra, assim como a própria árvore conecta essas dimensões, polarizadas como princípios e energias (masculina e feminina).

Entre as folhagens sempre verdes de Yggdrasil pastavam quatro cervos (Dain, Dvalin, Duneyr e Durathor), um bode e uma cabra, Heidrun, de cujas tetas escor­ria o hidromel. Enquanto o bode e os cervos devoravam as folhas e os galhos e roíam a casca da árvore —representando outra tentativa de destruição —, o leite da cabra era puro mel e dos seus chifres pingavam gotas de orvalho sobre o gramado ao redor, que iam alimentar as abelhas. Observamos novamente uma polaridade —destrutiva/nutriz, bode, cervos/cabra — que contribui para a ma­nutenção do equilíbrio e assegura a sobrevivência da árvore. Representações dos monstros da escuridão — serpente, dragão — existem nas inscrições do Período das Migrações (na ilha de Gotland) e se tornaram predominantes no culto de Odin, substituindo a sua antiga simbologia ligada à cura e proteção dos mortos.

O significado do nome de Yggdrasil é objeto de controvérsias. A interpreta­ção mais comum é como “cavalo de Ygg”, sendo Ygg usado como um dos nomes de Odin e uma referência à sua autoimolação. “Cavalgar a forca” era uma expres­ são familiar nas línguas arcaicas (norueguesa e inglesa) e equivalente a “morrer enforcado”. Outros nomes de Yggdrasil eram: Leradr (abrigo), Hoddmimir (tesou­ro de Mimir), Minameidr (pilar de Mimir), nomes que reforçam o simbolismo de proteção, sustentação e nutrição da árvore.

Um dos aspectos mais importantes dessa árvore sagrada é sua capacidade de gerar e sustentar a vida, simbolizada pelo orvalho transformado em mel pelas abelhas e que servia para a preparação do hidromel, considerado pelos deuses o elixir da juventude e da sabedoria.Yggdrasil também era abrigo das almas à espera do seu renascimento, cujos destinos eram inscritos pelas Nornas nas suas folhas. Portanto, cada vez que uma folha caía, um homem morria. Esse simbolismo era muito importante nos so­nhos iniciáticos e oraculares dos xamãs de diversas tribos da Ásia nórdica e central. [95]

A imagem da Árvore do Mundo na mitologia nórdica é reminiscência da exis­tência das antigas florestas seculares, apesar de não ser muito encontrada na arte viking. Existe, no entanto, uma impressionante pedra memorial de 500 d.e.c. sob o piso de uma igreja em Sanda, na ilha de Gotland, que representa um diagrama do cosmos, mesmo que não corresponda a uma realidade linear. Nela aparece um disco maior e dois menores cercados por serpentes, representando possivelmente o dia e a noite, a roda do sol e da lua. No centro há uma árvore e sob ela um tipo de dragão e um navio, talvez simbolizando a viagem dos mortos para o Além.

Na tradição saxã, o equivalente de Yggdrasil era o Pilar Cósmico (Irminsul), associado com o deus Irmin, cuja estátua foi destruída por Carlos Magno em 772. Irmin era equiparado com Odin e acreditava-se que ele possuía uma carruagem de bronze, cujo barulho era percebido pelos seres humanos como o ruído do trovão e com a qual percorria a Via Láctea, denominada pelos antigos germânicos de “cami­nho de Irmin”. Outras fontes identificam Irmin com Heidall, Hermod e Tiwaz.

Na alienação ao cristianismo, a imagem da Árvore do Mundo nórdica foi substituída pela da cruz cristã; originariamente existia um simbolismo oculto da Arvore do Conhecimento do Jardim de Éden, que personificava a dualidade do bem e do mal, mas ela foi depois transformada em símbolo de sofrimento e dor, pela transgressão de Eva ao comer os seus frutos proibidos. [96] O tronco de Yggdrasil sustenta e atravessa vários mundos, considerados par­te da árvore, ou se estendendo para além dela em diversos níveis, porém per­ manecendo conectados entre si por caminhos e passagens. O mapa exato da localização dos Nove Mundos de Yggdrasil é bastante complexo e aparece com os mundos aparentemente sobrepostos, pois eles não são lineares, mas entrela­çados e sem estrutura geométrica definida.

No centro de Yggdrasil, para onde convergem todas as linhas de comunica­ção entre os planos, está Midgard, a Terra do Meio, o próprio planeta Terra, que une e funde o poder dos outros mundos, com os quais se conecta pelas raízes, galhos e o tronco de Yggdrasil. Midgard é cercado por um mar em cujas profun­dezas habita a temível Serpente do Mundo, Midgardsomr, enroscada ao redor de si mesma e mordendo a própria cauda.

Midgard é o mundo da realidade física e material, das experiências emo­cionais e sensoriais, do desenvolvimento intelectual e do aprimoramento es­piritual. É condicionado pelos fatores do tempo e do espaço, as forças do bem e do mal sendo iguais em intensidade; cada ação, a consequência de uma es­colha ou decisão. Midgard resultou da interação entre o fogo de Muspelheim e o gelo de Nifelheim, mas seus aspectos negativos — raiva, violência, cobiça, maldade, estagnação — o aproximam de Jõtunheim. É localizado acima da raiz terrestre de Yggdrasil, embaixo da qual nasce a fonte de Mimir, sendo a mora­da da humanidade e visitada através da ponte Bifrost pelas divindades e seres sobrenaturais de outras dimensões. Seu elemento é a terra, suas cores, tons de marrom e verde, seu simbolismo é a mudança e o movimento da Roda do Ano. Midgard é regido pelas divindades da terra que fornecem o desenvolvimento do ser e sua evolução espiritual.

Acima de Midgard, no eixo vertical, encontra-se Ljossalfheim, a morada dos elfos claros e a dimensão mental. Os elfos claros têm uma estrutura etérea sutil, que os torna invisíveis aos seres humanos, com exceção dos sensitivos, videntes e xamãs. Ljossalfheim é o reino da imaginação, criatividade e expan­são mental, onde os pensamentos conscientes podem se transformar em atos positivos. É regido pela deusa solar Sunna e pelo Frey, o deus da fertilidade, seu guardião sendo Delling, o elfo da aurora, consorte de Nott, a deusa da noite e pai de Dag, o dia. Suas cores são amarelo, azul e verde claro; seus elementos, o ar e a luz solar. Ljossalfheim representa a iluminação da mente e a hiperconsciência, que se estende para além do tempo e espaço. Por seu intermédio é feito o intercâmbio entre as frequências humanas mais elevadas e as vibrações mais acessíveis das divindades. [97]

Oposto a ele e abaixo de Midgard, no interior da terra, encontra-se SrartalJheim, o reino dos elfos escuros e dos anões. E o plano de modelação e trans­mutação da matéria bruta telúrica em materiais mais refinados, como metais, cristais e pedras preciosas. Os elfos escuros temem a luz solar, que pode petri­ficá-los, e por isso vivem em grutas, rochedos e florestas.Tanto eles quanto os anões habitam em comunidades solidárias e unidas contra a aproximação huma­na. Esses seres representam a inteligência primária que plasma aquilo que será manifestado depois em Midgard. Seus elementos são: terra, metais e cristais, pedras preciosas e as cores a eles correspondentes. O guardião é o anão Modsognir, e Svartalfheim pode ser equiparado ao aspecto subconsciente da psique, colocado a serviço do Eu consciente.

Na base de Yggdrasil, em seu nível mais profundo, conhecido como o Mun­do Subterrâneo, existe o reino da deusa Hei ou Nifelhel, a morada dos mortos (daqueles que não morreram nos campos de batalha, mas de doenças e velhi­ce). Hei é um plano de silêncio, repouso e espera do renascimento, conside­rado o portal para a regeneração e recriação da vida após a morte. Hei está em oposição exata a Asgard e pode ser alcançado através da ponte Gjallarbru “a ponte do eco”, que passa por cima do escuro e caudaloso rio Gjoll e é guardada pela auxiliar de Hei, Mordgud. Enquanto Bifrost é uma ponte estreita e flame­jante, Gjallarbru é larga e escura e tem um portal — Helgrind ou Valgrind — que é aberto para os mortos que vão visitar Midgard, mas permanece fechado para os vivos que querem ir até Hei.

No nível psicológico, Hei simboliza o inconsciente, a sede dos impulsos e dos instintos atávicos, dos aspectos sombrios e ocultos do ser. Ele tem a natureza du­pla da própria deusa, cuja metade é uma linda e jovem mulher, enquanto a outra metade, é uma velha (ou uma caveira), sendo a personificação dos dois portais: da morte (o túmulo) e da vida (o útero), as portas de saída e entrada do espírito no mundo material. Seus elementos são granizo, o frio, a escuridão; suas cores, marrom, cinza, preto.

No topo do eixo vertical de Yggdrasil situa-se Asgard, o reino celeste, a mo­radia das divindades, regido por Odin e Frigga. Sinónimo do céu, plano divino ou mundo superior, Asgard representa a evolução da consciência, o eu superior, o crescimento espiritual, que pode ser alcançado apenas por um esforço consciente e persistente, com determinação, fé e a ajuda de um guia espiritual, de uma Disir (ancestral) ou Valquíria. Asgard corresponde à raiz superior de Yggdrasil (que abriga a fonte de Urdh), situada no centro e acima de Midgard, oposta a Hei. Seu elemento é o éter, suas cores, ouro, prata, branco; seu guardião, o deus Heimdall, [98] permite ou proíbe a passagem pela ponte Bifrost. O mundo de Asgard é di­vidido em 12 reinos constituindo as moradas dos deuses: Thor, Ullr, Odin, Frigga, Skadhi, Baldur, Heimdall, Freyja, Forsetti, Njordh e Vidar, além da fortaleza de Valhalla.

Os outros quatro mundos estão situados em eixos horizontais, na diagonal sobre o tronco e interligados por caminhos entrelaçados.

Na direção Norte, acima da raiz subterrânea (a mais profunda) está situado Niflheim (não confundir com Nifelhel), um mundo frio, escuro e coberto de névoa, que participou junto com Muspelheim da criação de Midgard, do vazio primordial de Ginungagap; é dali que sai no Ragnarõk o navio dos mortos, Naglfari, conduzido por Loki. Niflheim é um mundo de ilusão, um estado indefinido entre o real e o irreal, o tangível e o intangível, o espaço vazio da mente e do corpo. Os seus elementos são: gelo, névoa e água; as cores, cinza e preto; seu guardião é o dragão Nidhogg (que rói as raízes de Yggdrasil).

Para o sul, na diagonal em relação ao eixo de Yggdrasil, encontra-se Muspe­lheim, o reino do fogo, polo oposto e complementar de Niflheim, cocriador de Midgard. Sua energia é expansiva, intensa, luminosa, mas em excesso torna-se explosiva e calcinante. Muspelheim é o habitat dos gigantes do fogo, Muspilli, possuidores de um imenso potencial transformador ou destruidor, que irão ini­ciar a destruição dos mundos no Ragnarõk conduzidos por Surt, o guardião da espada flamejante. Seu elemento é o fogo; as cores, vermelho e laranja; o regente, o gigante Surt.

Na direção Leste, acima da fonte de Mimir e de Midgard, mas situado na dia­gonal, localiza-se Jótunheim ou Etin-Home, a morada dos Jótnar, Etin ou Thursar, os gigantes de gelo e inimigos dos deuses Aesír. Esse é um mundo estagnado, desprovido de crescimento mental e espiritual, em que prevalece a desmotivação que leva à acomodação e inércia, impedindo o desenvolvimento dos recur­sos existentes em cada ser e a expansão da consciência. Os elementos são: gelo, rochas, vento; as cores, cinza e vermelho escuro; o regente é o gigante Thrym.

Diferentes dos gigantes ocupados apenas com roubos, intrigas e guerras, as gigantas ultrapassam os bloqueios e as limitações e evoluem espiritualmente, algumas delas recebendo o status de “deusas” pelos seus dons ou por se casarem com deuses.

No lado oposto de Jõtunheim, na direção Oeste e também conectado com Midgard, situa-se Vanaheim, a morada das divindades Vanir, regentes da fertili­dade, sexualidade e plenitude. Esse mundo é a sede das forças modeladoras dos processos orgânicos, das qualidades de prosperidade, paz e potencial mágico. [99]

Os seus elementos são terra e água; as cores, verde, azul-escuro e vermelho dourado; seus regentes, Frey e Freyja.

Os Nove Mundos de Yggdrasil existem como realidades subjetivas e objeti­vas, exploradas ou ocultas, no nosso universo interior. Yggdrasil pode ser vista como uma metáfora de todos os aspectos da vida, dos ciclos e fases da existên­cia, dos mistérios espirituais e das fontes ancestrais de sabedoria.

Depende da nossa postura e do nosso empenho no caminho espiritual es­colhermos uma dessas opções: permanecermos apenas no mundo material de Midgard, ficarmos bloqueados pela estagnação de Jötunheim, mergulharmos nas sombras de Fiel ou nos elevarmos às riquezas de Asgard. Os caminhos exis­tem, precisamos encontrar os portais, passarmos pelos testes para receber a permissão de abri-los, oferecendo em troca a nossa transformação e dedicação para ampliarmos nossa percepção, visão e consciência.

O mito do Ragnarök pode ser analisado e compreendido em vários níveis. Para o buscador ou iniciado, ele descreve a jornada cíclica da alma, com as suas fases de destruição e regeneração, etapas inerentes e necessárias para maior expansão e evolução. A possibilidade de melhoramento em cada ciclo depende das forças envolvidas no conflito, da determinação e do esforço permanente para garantir a transmutação e renovação, aceitando-se a morte do “velho” e o nascimento do “novo” (como um estado de consciência, estágio de evolução ou fase da vida).

Mitologia - Mitologia Nórdica
O planeta Marte

O planeta Marte recebeu o nome do deus romano, Marte, o equivalente ao deus grego, Ares. O nome do deus continua vivo na nossa língua, para além do nome do planeta, na terminologia de guerra, como em «marcial» e «tribunal marcial». O planeta tem uma cor avermelhada o que é facilmente associado ao sangue derramado na batalha. Os astrônomos deram aos dois pequenos satélites de Marte, homenageando os dois filhos de Afrodite (Vênus) e Ares (Marte) - Fobos e Deimos. Ares não era muito estimado entre os deuses do Olimpo, mas o planeta Marte tem um Monte Olimpo, que é o maior vulcão que foi encontrado no nosso Sistema Solar.

MILLS, Alice. A era clássica. IN.: GORDON Cheers (org.). Mitologia: Mitologias de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter, 2011. Cap. 1 p. 58
10/16/2019 4:41:34 PM | Por Robert Graves
Livre
Os feitos e a natureza de Hefesto

Hefesto, o deus ferreiro, era tão fraco quando nasceu que sua mãe, Hera, desgostosa, atirou-o do alto do Olimpo para se livrar da vergonha que o lamentável aspecto de seu filho lhe causava. Contudo, ele sobreviveu a essa desventura sem qualquer dano físico, porque, ao cair no mar, Tetis e Eurinome estavam por perto para resgata-lo. Essas amáveis deusas o abrigaram em uma gruta submarina, onde ele instalou sua primeira forja e recompensou a gentileza das duas, confeccionando-lhes todo tipo de adornos e objetos uteis.

Um dia, passados já nove anos, Hera se encontrou com Tetis, que por acaso portava um broche feito por Hefesto, e perguntou:

- Minha querida, em que parte do mundo você encontrou essa joia maravilhosa?

Tetis hesitou antes de responder, mas Hera forçou-a a lhe contar a verdade. Em seguida, levou Hefesto para o Olimpo, onde o instalou numa forja muito mais sofisticada, com vinte foles que funcionavam dia e noite. Passou a trata-lo com grande deferência e arranjou seu casamento com Afrodite.

Hefesto reconciliou-se de tal modo com Hera que se atreveu a repreender o próprio Zeus por tê-la pendurado pelos pulsos no Céu, quando ela se rebelou contra ele. Manter-se calado teria sido uma atitude bem mais prudente, pois Zeus, enfurecido, atirou-o do Olimpo pela segunda vez. Sua queda durou um dia inteiro. Quando finalmente tocou o chão da ilha de Lemnos, quebrou as suas pernas, e, embora fosse imortal, seu corpo estava quase sem vida quando foi encontrado pelos ilhéus. Depois, tendo sido perdoado, ele recuperou seu lugar Olimpo, mas só conseguia andar apoiado em muletas de ouro.

Embora feio e mal-humorado, Hefesto era dotado de grande força nos braços e nos ombros e realizava qualquer trabalho com uma habilidade ímpar. Certa vez, fabricou uma serie de mulheres mecânicas douradas que, além de a ajuda-lo na forja, eram capazes de falar e realizar as mais difíceis tarefas que ele lhes encomendasse. Possuía também uma serie de trípodes com rodas de ouro, dispostos ao redor de sua oficina, que podiam se deslocar sozinhos pelo palácio celestial e participar das reuniões dos deuses.

Hefesto e Atena compartilhavam templos em Atenas, e é possível que seu nome tenha sido uma forma arcaica de hemero phaistos, "aquele que brilha de dia" (ou seja, o Sol), ao passo que Atena era a deusa-Lua, "a que brilha a noite", padroeira dos ferreiros e de todas as artes mecânicas. Em geral não se aceita que cada ferramenta, arma ou utensílio da Idade do Bronze possuísse propriedades mágicas, nem que o ferreiro fosse uma espécie de feiticeiro. Assim, das três pessoas que formavam a tríade lunar Brigite, uma regia os poetas, outra, os ferreiros e a terceira, os médicos. Quando a deusa foi destronada, o ferreiro foi alçado a categoria de divindade. A coxeadura do deus ferreiro é uma tradição que se encontra em regiões muito distantes entre si, como a África ocidental e a Escandinávia. Em tempos primitivos, é possível que se aleijassem propositalmente os ferreiros para evitar que eles fugissem e se aliassem as tribos inimigas. Mas existia também uma dança da perdiz claudicante, que se executava nas orgias eróticas relacionadas aos mistérios da arte da forjadura. Portanto é igualmente possível que Hefesto, depois de se casar com Afrodite, mancasse apenas uma vez por ano: no Festival da Primavera.

A metalurgia chegou à Grécia através das ilhas do Egeu. A importação de bronze e ouro da Helade, finamente forjados, talvez explique o mito de que Hefesto foi guardado em uma gruta na ilha de Lemnos por Tetis e Eurinome, títulos da deusa do mar que criou o universo. Os nove anos que ele passou na caverna demonstram sua subordinação à Lua. Sua queda, assim como a queda de Cefalo, Talo (on Alcale), Cirão, Ifito) e outros, era o destino habitual do rei sagrado ao termino de seu reinado, em muitas partes da Grécia. As muletas de ouro talvez tivessem a função de elevar do chão o seu calcanhar sagrado.

Parece que os vinte trípodes fabricados por Hefesto tem praticamente a mesma origem dos Gasteroquiros que construíram Tirinto: discos solares dourados com três pernas, como o emblema heráldico da ilha de Man, posicionados, sem duvida, ao redor de algum ícone primitivo que retratava Hefesto casando-se com Afrodite. Eles representam os anos de três estações e indicam a duração de seu reinado. O rei morre no inicio do vigésimo ano, quando se produz uma grande aproximação entre o tempo solar e o lunar. Esse ciclo foi reconhecido oficialmente em Atenas somente em fins do século V a.e.c., embora tenha sido descoberto cem anos antes. Hefesto foi relacionado as forjas de Vulcano, nas ilhas vulcânicas de Lipari, porque Lemnos, sede de seu culto, é vulcânica, e porque um jorro de gás natural asfaltico originário do cume do monte Mosquilo levava anos ardendo incessantemente. Um jorro similar, descrito pelo bispo Metodio no século IV da era cristã, ardia no monte Lemnos, na Licia, e continuou ativo ate 1801. Hefesto detinha um santuário em ambos os montes. Lemnos (provavelmente do termo leibein, "a que derramá') era o nome da Grande Deusa dessa ilha matriarcal.

Mitologia - Mitologia Grega
10/16/2019 4:38:48 PM | Por Robert Graves
Livre
Os feitos e a natureza de Artemis

Artemis (Diana), irmã de Apolo, anda armada de arco-e-flecha e, como ele, possui tanto o poder de lanrçar pragas ou morte súbita sobre os mortais quarto o de curá-los. Ela é a protetora das crianças pequenas e de todos os animais no período de lactancia, mas também adora a caça, sobretudo a de cervos. Artemis tinha apenas três anos de idade quando, um dia, sentada sobre os joelhos de seu pai, Zeus, ele lhe perguntou que presentes desejava. Ela respondeu, sem pestanejar: "Peço que me conceda virgindade eterna e me dê tantos nomes quantos tem meu irmão Apolo; um arco-e-flecha como o dele; o dom de trazer a luz; uma túnica de caça da cor do açafrão, com uma bainha vermelha que me chegue até os joelhos; sessenta jovens oceanidas, todas da mesma idade, para que sejam minhas damas de honra; vinte ninfas fluviais da cidade cretense de Amniso, para que cuidem dos meus borzeguins e alimentem meus sabujos quando eu não estiver caçando; todas as montanhas do mundo e, finalmente, qualquer cidade que você possa escolher para mim, mas só uma será suficiente, pois tenho a intenção de viver nas montanhas o maior tempo possível. Infelizmente, as parturientes me invocarão muitas vezes, já que minha mãe Leto carregou-me em seu ventre e me pariu sem dores e, por isso, as Moiras me fizeram padroeira do parto."

Ela se esticou para tocar a barba de Zeus, e ele sorriu orgulhoso, dizendo: "Com filhas como você, não tenho motivos para temer a fúria ciumenta de Hera! Você terá tudo isso e muito mais: não uma, mas trinta cidades, e uma parte será sua em muitas outras, tanto no arquipélago como na terra firme. E desde agora eu a nomeio guardiã de seus portos e estradas."

Artemis lhe agradeceu, saltou de cima de seus joelhos e se dirigiu primeiramente ao monte Leuco, em Creta, e depois ao oceano, onde escolheu numerosas ninfas de nove anos de idade como suas assistentes. As mães, encantadas, permitiram que suas filhas fossem. A convite de Hefesto, ela foi visitar os ciclones na ilha de Lipara e os encontrou forjando um cocho para cavalos, encomendado por Posídon. Brontes, que havia recebido ordens para realizar todos os seus desejos, colocou-a sobre seus joelhos, mas ela, incomodada com suas caricias, arrancou-lhe um punhado de pelos do peito, deixando-lhe uma zona pelada que permaneceu ate o dia da sua morte, dando a todos a impressão de que ele tinha sarna. As ninfas ficaram aterrorizadas com a aparência selvagem dos ciclopes e com o ruído da forja - e não era para menos, pois toda menina desobediente ouvia da mãe a ameaça de ser mandada para Brontes, Arges ou Esteropes. Mas Artemis teve a ousadia de ordenar aos ciclopes que abandonassem por um instante o cocho de Posídon e lhe fizessem um arco de prata com uma aljava cheia de flechas. Em troca, eles poderiam comer a primeira presa que ela caçasse. Com suas novas armas ela seguiu para a Arcádia, onde Pã ocupava-se em esquartejar um lince, para dar de comer a seus cães. Ele lhe deu três sabujos de orelhas caídas - dois rajados e um pintado, que, juntos, seriam capazes de arrastar leões vivos até seus canis -, bem como sete galgos velozes de Esparta.

Após capturar dois pares vivos de corças cornudas, ela as atrelou a uma carruagem dourada com bocais de ouro e se pôs rumo ao norte através do monte Hemo, da Trácia. No Olimpo mísio, fabricou sua primeira tocha de pinho e a acendeu nas brasas de uma arvore derrubada por um raio. Experimentou seu arco de prata quatro vezes: os dois primeiros alvos foram árvores; o terceiro, um animal selvagem; o quarto, uma cidade com homens injustos.

Depois voltou a Grécia, onde as ninfas amnisias desatrelaram e enxugaram suas corças, alimentaram-nas com o mesmo trevo servido aos corcéis de Zeus, abundante no pasto de Hera, e deram-lhes de beber numa gamela de ouro.

Uma vez, o deus fluvial Alfeu, filho de Tetis, teve a ousadia de apaixonar-se por Artemis e de persegui-la por toda a Grécia. Mas ela conseguiu chegar a Letrini, na Élida (ou, como dizem alguns, até a distante ilha de Ortigia, perto de Siracusa), onde cobriu o próprio rosto e, ao mesmo tempo, o de todas as ninfas com lodo branco, tornando-se indistinguível entre elas. Alfeu viu-se obrigado a se retirar, sendo objeto de risadas zombeteiras.

Artemis exigia de suas damas de honra a mesma castidade perfeita que praticava. Quando percebeu que uma delas, Calisto, filha de Licaão, fora seduzida por Zeus e estava gravida, transformou-a numa ursa e chamou a matilha para persegui-la e destroça-la, o que só não aconteceu graças a intervenção de Zeus, que a agarrou e a levou para o Céu, colocando, mais tarde, sua imagem entre as estrelas. Mas alguns dizem que foi Zeus quem transformou Calisto numa ursa e que, enciumada, Hera tratou de fazer com que Artemis a caçasse por engano. O filho de Calisto, Arcas, foi salvo e se tornou o ancestral dos arcades.

Em outra ocasião, Acteon, filho de Aristeu, estava apoiado em uma rocha perto de Orcomeno quando viu por acaso que Artemis se banhava em um ribeirão próximo e pôs-se a observa-la. Para evitar que ele se gabasse junto aos companheiros de que ela se desnudara em sua presença, Artemis o transformou em um cervo e o despedaçou com sua própria matilha de cinquenta sabujos.

A Donzela do Arco de Prata, que os gregos incluíram na família olímpica, era o membro mais jovem da tríade de Artemis - sendo "Artemis" mais um título da deusa-Lua tripla. Portanto, tinha direito de alimentar suas corças com trevo, símbolo da tríade. Seu arco de prata representava a Lua nova Já a Artemis olímpica era mais que uma donzela Em outros lugares, como, por exemplo, em Éfeso, ela era adorada em sua segunda pessoa, ou seja, como ninfa, uma Afrodite orgiástica com um consorte masculino, sendo seus emblemas principais a tamareira, o cervo e a abelha. Seus poderes de obstetrícia pertencem, antes, a Velha, assim como suas flechas da morte, e as sacerdotisas de nove anos são o sinal de que o numero mortal da Lua é três vezes três. Faz lembrar a "Senhora das Coisas Selvagens" cretense, aparentemente a suprema ninfa-deusa das antigas sociedades totêmicas. O banho ritual em que foi surpreendida por Acteon, assim como as corças cornudas de sua carruagem e as codornizes de Ortígia, parece mais apropriado a ninfa do que a donzela. Ao que parece, Acteon foi um rei sagrado do culto pré-helênico do cervo, dilacerado no fim do seu reinado de cinquenta meses, ou seja, na metade do Grande Ano. Seu co-regente, ou tanist, reinou no tempo restante. O correto era que a ninfa tomasse seu banho depois do assassinato, e não antes. Há numerosos paralelismos com esse costume ritual nos mitos irlandês e galês, bem como registros de que, mesmo no primeiro século da era cristã, um homem vestido em pêlo de cervo era periodicamente perseguido e morto no monte Liceu na Arcádia. Os sabujos eram provavelmente brancos e de orelhas vermelhas, como os "sabujos do inferno" da mitologia celta Havia uma quinta corça cornuda que escapou de Artemis.

O mito da perseguição de Alfeu a Artemis parece ter o mesmo molde de sua inútil perseguição a Aretusa, que fez com que ela se transformasse em uma fonte e ele, em um rio. É possível que esse mito tenha sido inventado para explicar o gesso, ou a argila branca, com que as sacerdotisas de Artemis Alfeia cobriram seus rostos em Letrini e Ortigia, em homenagem a Deusa Branca. Alph significa tanto brancura como cereal; alphos é lepra; alphe, beneficio; alphiton, cevadinha; Alphito era a Deusa Branca do Cereal em seu aspecto de Porca. A estátua mais famosa de Artemis em Atenas se chamava "a do rosto branco". O significado de Artemis é duvidoso. Pode provir de artemes, "de membros fortes"; de artao, já que os espartanos a chamavam Artamis, "a que despedaça; ou de afro e themis, "a suprema convocadora". Também é possível que a sílaba themis signifique "água', já que a Lua era considerada a origem de todas as águas.

Ortigia, "ilha das codornizes", perto de Delos, também estava consagrada a Artemis.

O mito de Calisto foi contado para oferecer uma explicação às duas meninas vestidas de ursas que apareciam no festival ático em homenagem a Artemis Braurônia, bem como a tradicional conexão entre Artemis e a Ursa Maior. Mas pode-se pressupor uma versão anterior do mito, em que Zeus consegue seduzir Artemis, apesar de sua tentativa de fugir dele, primeiro transformando-se em ursa e, depois, cobrindo o rosto com gesso. Artemis era, originalmente, a regente das estrelas, mas foi obrigada a entrega-las a Zeus.

Há duvidas quanto ao motivo de Brontes ter seu pelo arrancado. Pode ser que Calimaco tenha feito uma referencia espirituosa ao desgaste da tinta, no peito do ciclope, em alguma imagem conhecida que faça referencia ao episodio.

Como "Senhora das Coisas Selvagens" ou padroeira de todos os clãs totêmicos, Artemis recebia anualmente a oferenda de um holocausto vivo de animais, plantas e pássaros totêmicos. Esse sacrifício sobreviveu até a época clássica em Patras, cidade no Calidao (Pausanias: IV 32. 6), onde ela era chamada de Artemis Láfria. Em Messenia, recebia um sacrifício análogo dos coribantes, representantes de um clã totêmico (IV 32. 9), e em Hierápolis há registros de um outro, em que as vitimas eram penduradas nas arvores de um bosque artificial criado dentro do templo da deusa (Luciano: Sobre a deusa síria 41).

A oliveira era consagrada a Atena; a tamareira, a Isis e Lat. Há um sinete, do período minóico médio, que retrata a deusa de pé ao lado de uma palmeira, vestida com uma saia de folhas de palmeira, segurando uma pequena palmeira e com o olhar voltado para um bezerro de Ano-novo nascendo de dentro de um ramo de tamareira. Do outro lado da árvore há um touro agonizante, evidentemente o touro real do Ano-velho.

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Temer perder alguma coisa é o mesmo que já não tê-la consigo. (...) desprezível é a alma obsecada pelo futuro, inflez antes da infelicidade (...); não terá descanso, e a necessidade de conhecer o futuro a fará deixar de lado o presente, que poderia ser melhor desfrutado...

Lucius Annaeus Seneca
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A Lua
Diana | A bíblia da mitologia, 2011, p. 35

A Lua tinha profundas implicações sobre os ciclos de nascimento, vida e morte, afetando as marés, ligada aos ciclos menstruais das mulheres, a fertilidade da Terra e a época das colheitas, e cerimónias de iniciação. De fato, os antigos acre­ditavam que a Lua controlava esses eventos, e ela foi associada a deusas, como as gregas Artemis e Hécate; a deusa romana Diana; Nantu, a bela deusa da Lua, dos jivaros do Equador; e Heng-O, do mito chinês, que foi viver uma existência solitária na Lua.

Outras divindades arquetípicas são as deusas misto de amante e prostituta, como Afrodite, Ishtar e Inanna. A eterna juventude aparece como Narciso, Jacinto e Éros, e o trapaceiro aparece globalmente como Enki, Coniraya, Gaio Azul e Tjinimin.

BARTLETT, Sarah. Divindades como arquétipos. IN.: __________. A bíblia da mitologia. São Paulo/SP: Editora Pensamento, 2011. Cap. 1 p. 37.
8/3/2018 3:10:18 PM | National Geographic, n. 150
Os limites do império romano

Quase 2 mil anos atrás, essa era a linha que separava o Império Romano do resto do mundo. Ali na Alemanha, o montículo é o que resta de uma muralha que chegou a ter 3 metros de altura, estendendo-se por centenas de quilômetros e protegido pelo olhar vigilante de soldados romanos em torres de observação, remota e desolada, mil quilômetros ao norte de Roma. “Aqui, a muralha era rebocada e pintada”, afirma Hüssen. “Tudo era nítido e preciso. Os romanos tinham uma ideia clara de como deviam ser as coisas.”

História - Civilização Romana
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Sneferu, cujo nome não é amplamente reconhecido, mas a contribuição para a cultura egípcia e mundial é a mais duradoura, foi o faraó que deu ao mundo as pirâmides. O egiptólogo Bob Brier mostra como essas grandes realizações arquitetônicas foram construídas e que obstáculos tiveram de ser superados para tal feito. Abordando segredos e discussões a cerca dos simbolismos desses magníficos monumentos em uma visita dentro de uma das pirâmides do Sneferu para explorar seus conceitos, agitando história.

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