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Conhecida como Idade das trevas, o período que ficou oficialmente batizado como Idade Média é lembrado como uma série de perseguições religiosas, reinados poderosos, cavaleiros andantes e o total controle da Igreja Católica exercia sobre a vida de seus seguidores.

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Kepler e as elipses eternas

Se tivéssemos que eleger o cientista mais perfeccionista de todos os tempos, provavelmente Johannes Kepler (1571-1630) levaria fácilmente o título. O alemão era tão obcecado por números e medidas que chegou até a calcular, com precisão de minutos, o tempo da própria gestação. Graças à enorme habilidade matemática, desenvolveu as tabelas astronômicas mais precisas de sua época, e tornou-se um dos astrônomos mais respeitados da Alemanha.

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Os limites do império romano

Quase 2 mil anos atrás, essa era a linha que separava o Império Romano do resto do mundo. Ali na Alemanha, o montículo é o que resta de uma muralha que chegou a ter 3 metros de altura, estendendo-se por centenas de quilômetros e protegido pelo olhar vigilante de soldados romanos em torres de observação, remota e desolada, mil quilômetros ao norte de Roma. “Aqui, a muralha era rebocada e pintada”, afirma Hüssen. “Tudo era nítido e preciso. Os romanos tinham uma ideia clara de como deviam ser as coisas.”

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12/9/2017 3:58:37 PM | Por Pierre Grimal
Livre
As mulheres e a fundação de Roma

Se é verdade que as lendas de um povo ou de uma raça nos revelam os traços mais profundos e as aspirações da sua alma, as de Roma, pelo lugar que concedem às estórias de amor, sugerem que os duros conquis­tadores do mundo dissimulavam em si uma ternura mais exigente do que eles mesmos se permitiram confessar.

A história da sua cidade começa com um romance de amor: a paixão súbita do deus Marte pela “vestal” Reia Sílvia. Mas, se formos mais atrás ainda, até ao tempo em que, sob as muralhas de Tróia, se decidiu a sorte do mundo futuro, foi ainda um romance de amor que determinou o desenrolar dos destinos e no fim do qual começa a fortuna de Roma. Este romance dos primeiros tempos é contado por um Hino Homérico.

Na montanha Ida, na Frigia, Anquises guardava os seus rebanhos. Anquises era sobrinho de Laomedonte, que reinava em Tróia. Era belo. Neste tempo, os príncipes, e às vezes os deuses, não desdenhavam fazer-se pastores. Ora, a deusa Afrodite tinha visto Anquises e sentiu-se per­dida de amor por ele. Afrodite não podia resistir a uma paixão. Sem tardar, vai ao encontro do belo pastor e conta-lhe toda uma estória que vai inventando. Ela é, diz-lhe, uma filha do rei da Frigia. O deus Hermes raptou-a e levou-a para a montanha. Está muito triste, porque ninguém vem em seu socorro! Anquises compadece-se; a conversa torna-se mais terna. Nessa mesma noite, o belo pastor e a deusa, sob o seu disfarce de mortal, unem-se um ao outro. Afrodite, satisfeita, não finge mais. Reve­la a sua divindade e anuncia a Anquises que em breve lhe dará um filho, mas recomenda-lhe formalmente que não diga a ninguém que a mãe é a deusa do amor, porque, caso contrário, Zeus, irritado por se descobrirem os segredos dos deuses, fulminaria o indiscreto com o seu raio.

Ora, alguns anos depois, Anquises embriagou-se e, por isso, perdeu a discrição. Por gabarolice, revelou aos companheiros a origem do seu filho, o pequeno Eneias. Zeus, indulgente apesar de tudo - também ele era pai, e orgulhoso dos seus filhos - , deixou-lhe a vida, contentando-se em torná-lo coxo (outros dizem em torná-lo cego). Mais tarde, quando Tróia foi tomada, Anquises deixou a sua pátria, levado aos ombros do seu filho, e foi com o pequeno grupo de troianos exilados até a Sicília onde, segundo se conta, terá morrido.

Esta lenda era muito popular em toda a bacia do Mediterrâneo e, desde o século VI a.e.c., pelo menos, tinha chegado à Itália. A imagem de Eneias levando aos ombros o velho Anquises era familiar ao fiéis que iam em peregrinação ao santuário do etrusco Veios, alguns quilômetros ao norte de Roma. Era também familiar aos Romanos, que, desde uma época muito antiga, reivindicavam origem troiana.

Na verdade, os Romanos gostavam mais de se afirmar descendentes de Eneias que de Vênus. Os caprichos da paixão amorosa inquietavam-nos. Preferiam aquela ternura mais calma de que Eneias era o símbolo e a que chamavam piedade - e que era, simultaneamente, afeição filial, devoção, levada até ao heroísmo, para com os entes queridos e sentido de um dever transcendente, anterior a qualquer lei humana, que era ex­pressão da ordem divina -, aquela piedade que consideravam uma das exigências mais profundas da vida moral.

O filho de Afrodite, vencido na sua pátria, privado da sua casa e dos seus tesouros, não quis salvar senão o pai, os deuses do seu lar e o seu próprio filho, o pequeno Ascânio. Quanto à sua mulher, Creúsa, tivera de a abandonar na cidade condenada, em obediência a um dever mais forte do que o amor humano.

Em outros tempos, as regras sociais teriam obrigado Eneias a mostrar-se mais atento à salvação da sua mulher, talvez mesmo a dar-lhe a prio­ridade em relação à salvação do pai, e os exegetas de Virgílio, que con­tou a lenda na Eneida, não deixaram de censurar ao herói o que chamam a sua desenvoltura para com Creúsa. Virgílio, no entanto, não podia nem queria alterar nada à lenda. Apenas introduziu certas emoções humanas que estavam dela ausentes - a dor de Eneias, os riscos que voluntaria­mente correu para tentar salvar a infeliz -, mas o sentido da narrativa continuou a ser claro: a “piedade” do herói para com Anquises e Ascânio é um dever divino, a sua afeição por Creúsa é apenas um amor humano. Sacrificando Creúsa, fere apenas o seu coração, se a tivesse preferido aos da sua raça seria culpado e não respeitaria a ordem do mundo.

Em outra ocasião, durante a sua interminável viagem para a Terra Pro­metida, Eneias terá de sacrificar uma vez mais a ternura do seu coração.

A sua aventura com a rainha Dido tem o mesmo significado que o aban­dono, involuntário, de Creúsa.

Depois da tempestade que o lançara, com os seus navios, para a cos­ta africana, Eneias acreditara terem terminado as suas provas. No local onde Eneias chegara, um povo novo construía uma cidade. Uma rainha, vinda de Sídon, lançava as fundações de um império. Informada da epo­peia troiana, acolheu os náufragos com benevolência, comovida com as suas desgraças e sensível à sua coragem. Também ela não fora poupada pelo destino. Vira o seu próprio irmão assassinar aquele com quem tinha casado e que amava acima de tudo o mais. Fugira do seu país para esca­par a uma morte mais do que provável e agora tentava fundar uma nova pátria entre os Númidas bárbaros. Quantos sentimentos partilhados en­tre o troiano e a rainha! Sentiam a mesma nostalgia pelo Oriente, por uma civilização que parecia ser ainda mais preciosa, porque a terra afri­cana e o Ocidente mediterrânico só ofereciam, por todo o lado, florestas selvagens ou povos nômades sem cidades nem leis. Tinham o mesmo desejo de criar, neste deserto, um oásis humano, uma “cidade” que teria os seus deuses, os seus templos, os seus lugares públicos, a sua vida coletiva, onde as qualidades e as virtudes humanas poderiam desenvol­ver-se e expandir-se. Para além disso, Dido, a rainha aventurosa, está tão só quanto Eneias na missão que se atribuiu. Ambos conduzem um povo - e estão condenados à maior das solidões.

Assim, a tentação de unir os seus destinos é para ambos imediatamente irresistível. Quase nem é necessário que os deuses intervenham. Basta uma ocasião, uma expedição de caça, uma trovoada que separa Eneias e Dido do seu séquito na montanha, o asilo cúmplice de uma gruta onde ambos se refugiam e ei-los, como anteriormente Afrodite e Anquises, unidos um ao outro. Dido julgou mesmo distinguir, nos re­lâmpagos que, por momentos, iluminaram a gruta, o fogo das tochas do himeneu. Deixou-se levar pela ilusão de que os deuses aprovam esta relação que ela aceita com felicidade. Eneias, esse, deixa-se amar. Não sente qualquer vergonha nem receio por este compromisso a que todo o seu ser se entrega. Desempenha, com total boa-fé, o seu papel de marido e de rei - até ao dia em que os deuses lhe recordam que a sua missão não é ali: a sua “Terra Prometida” espera-o. Recusará ao seu filho Ascânio e à raça de ambos a grande fortuna que lhes reserva o Destino? E o filho de Vênus, dilacerado, uma vez mais, mas sem hesitar, sacrifica o seu amor humano ao seu dever. Parte. Dido, quando ele lhe diz o que decidiu, enche-o de censuras. Fica desesperada com esta fuga diante do seu amor. Ele sabe-o, mas deixa-a, apesar disso. Ela, com cólera e vergonha, por­ que acreditou por um momento que Eneias podia substituir junto de si o marido, Siqueu, e porque, abandonada, toma consciência do seu per­júrio, decide morrer. Na parte mais alta do seu palácio, acende uma imensa fogueira, que será a sua pira funerária, e a chama ilumina o céu enquanto os navios do troiano fogem para norte.

Este “romance de Dido”, que ocupa todo um livro da Eneida, o quar­to, provavelmente não foi inventado por Virgílio. Parece que o velho poeta Névio já o tinha conhecido dois séculos antes. Pertence mais à tradição romana do que à imaginação de Virgílio. Não há dúvida de que o poeta ou o escritor que o inventou mostrou ter o sentido das exigências morais mais profundas da sua raça. Nesta ordem de ideias, a história merece a atenção de quem se propõe analisar a atitude dos Romanos perante o amor. É significativo verificar, de fato, que o herói a quem Roma tem orgulho de fazer remontar a sua origem subordine por duas vezes os desejos do coração ao cumprimento do dever, que prefira “mu­dar os seus desejos em vez de mudar a ordem do mundo”, antecipando assim uma fórmula famosa. E, no entanto, ele é filho de Vênus! Para continuar fiel à sua origem, não deveria ter colocado os “direitos” da paixão acima de qualquer dever? Não nasceu ele de um capricho de mulher apaixonada, ou, melhor, de um capricho da própria deusa do amor?

Todavia, pensavam os Romanos, um capricho de Vênus teria de ser algo mais do que um capricho de mulher. Uma vez que Vênus é uma deusa, todas as suas ações se situam no plano da Providência. Entre­gando-se a Anquises, realizou na sua carne a vontade dos Destinos, ao passo que o capricho amoroso de uma mortal é cego e deixado ao acaso. Vênus, além disso, e tanto ou mais do que Juno, a protetora dos casa­mentos legítimos, patrona da rainha Dido e inimiga de Eneias, é capaz de fazer “política”. Por isso, Vênus e Juno colaboram: ambas conduzem Eneias e Dido um para o outro. Juno imagina que, tendo colocado a rainha nos braços de Eneias, este ficará para sempre enredado. Vênus compreende muito bem o estratagema e colabora nele, mas, dissimuladamente, troça das ilusões da sua rival. Conhece os limites do seu próprio domínio, sabe que um impulso de paixão, sobretudo se satis­feito, não basta para submeter a vontade de um homem, mesmo sendo romano. Ri-se dos sofrimentos do amor, porque ela mesma os sentiu. Dido, que é mulher e não deusa, irá talvez morrer por causa deles (mas mais por cólera e vergonha do que por amor). Eneias, que é do seu sangue, irá sobreviver-lhes. E que é a morte de uma mulher quando se trata de fundar Roma?

Virgílio, o poeta e o pensador que, sem dúvida alguma, maior sensi­bilidade teve em relação às exigências íntimas da alma romana, quis situar, portanto, na aurora dos primeiros tempos uma história de amor correspondido e depois ultrapassado. Não o fez em obediência à moda literária, já que todos os poetas do seu século cantavam o amor e o usa­vam como tema principal dos seus versos, mas porque pretendia encarnar no seu herói a questão essencial do homem dividido entre a vontade e a carne, entre a ordem do mundo e o imperativo do seu próprio ser, entre o divino que o ultrapassa e a ternura que o prolonga. Quis também que este mesmo herói, ultrapassando o seu sofrimento, subordinasse, com um impulso que poderia ter parecido natural, o amor ao dever.

 

***

 

Havia muitas outras estórias de amor no dealbar destes primeiros tempos. Virgílio abandonou o seu herói depois da vitória sobre os bárba­ros italianos, mas a tradição dos historiadores anterior a Virgílio relata-nos os acontecimentos que se seguiram, ou, pelo menos, os que a lenda continha.

A lenda imaginara toda uma série de dramas que se teriam desenro­lado na cidade e no palácio construídos pelos Troianos, logo que se ins­talaram no Lácio. Não sabemos exatamente como se formaram estas lendas, que devem muitos dos seus traços à literatura grega e, muito em especial, à tragédia. Mas não os devem menos a uma certa concepção da vida amorosa e familiar que, aparentemente, os Romanos julgavam verosímil, uma vez que foi em função dela que reconstruíram os aconteci­mentos da sua mais remota história.

O rei Latino, que reinava entre os aborígenes aquando da chegada de Eneias, dera-lhe Lavínia, sua filha, em casamento. Este casamento era apenas uma união política. Como acontece frequentemente nas lendas relativas à colonização grega, o casamento de uma filha (única!) do rei indígena com o chefe dos estrangeiros deve assinalar o início de uma era de paz e colaboração entre os dois povos, até então hostis. Genro do rei, Eneias sucede-lhe muito naturalmente à frente da geração nascida dos numerosos casamentos celebrados entre os troianos e os habitantes do Lácio, na sequência do de Eneias e Lavínia. Os Romanos admitiam, por conseguinte, que uma filha pudesse transmitir ao marido uma espécie de direito sobre o reino, e, mais em geral, a herança de seu pai. De fato, na época clássica, vemos genros e filhos a participar por igual no círculo das altas personagens, crescer na sua sombra e a beneficiar da sua influên­cia política. Se é verdade, e iremos depois confirmá-lo, que a jovem, de­pois do casamento, é integrada na casa do marido, a estória de Eneias e de Lavínia evitará que esqueçamos que também o jovem marido irá gravitar em torno do sogro. As novas relações que ele assim estabelece irão enfra­quecer consideravelmente as que o uniam, até aí, à família de origem.

O casamento de Eneias e Lavínia não foi muito feliz. Uma certa tradição romanesca afirma mesmo que esta tinha ciúmes do passado do marido. De uma margem a outra do Mediterrâneo, as notícias correm céleres e Lavínia teve ecos da aventura africana. Depressa soube que a rainha Dido tinha sido abandonada e morrera. Sendo mulher, suspeitou que a ternura e os remorsos não se teriam apagado no coração de Eneias. Por outro lado, quando uma fugitiva de nome Ana se apresentou, dizen­do-se irmã da desditosa Dido e pedindo hospitalidade, Lavínia teve as suspeitas mais sombrias. Logo se desencadeia uma tragédia palaciana. Não podendo impedir Eneias de agir humanamente em relação a Ana, que tivera de fugir de Cartago por causa de uma guerra infeliz, conspi­rou para a perder. Felizmente, os deuses estavam vigilantes. Um sonho preveniu Ana contra as armadilhas de Lavínia. A meio da noite, foge. Pela manhã, quando as gentes do rei iniciaram a sua busca, viram que a pista as conduzia diretamente ao rio próximo, mas que terminava ali. Nesse momento, uma forma saiu da água e revelou que a jovem fora desposada pelo deus do rio, que se tinha transformado em ninfa e que lhe deveria ser prestado culto.

Os acontecimentos que se seguiram à morte de Eneias - ou, melhor, à sua transfiguração, porque se espalhou o rumor que tinha sido levado para o céu pelos deuses - mostraram que a atmosfera continuava pesada na família real. Ascânio, o filho de Eneias e de Creúsa, era encarado com suspeita por Lavínia. Para pôr termo a esta surda hostilidade, Ascânio resolveu deixar Lavínio, tendo partido, subindo o Tibre, para fundar a cidade de Alba Longa, que seria o berço de Roma. Portanto, os Roma­nos tinham-se comprazido em situar no palácio e na família do seu herói mais remoto os dramas do ciúme amoroso e do poder partilhado e todas as intrigas que podem destruir uma casa com lutas internas, por ter emer­gido de uniões sucessivas. É significativo que estes relatos se tenham construído em torno da pessoa de Lavínia, tão apagada no poema virgiliano. Mas isso não significa que o poeta não tenha pretendido colo­car no início da raça uma figura feminina apaixonada.

Escolheu para tal a rainha Amata, mulher do rei Latino. Amata era muito mais jovem do que Latino e tinha decidido tomar por genro, não Eneias, o estrangeiro que odiava, mas um jovem rei da região, Turno, que reinava sobre os Rútulos. Quando Latino tentou dar Lavínia a Eneias, Amata levou Turno a pegar em armas e Latino teve de aceitar a guerra entre o seu povo, arrastado pelos Rútulos, e os imigrantes troianos. Na sequência da vitória de Eneias, Amata, frustrada, suicida-se. Pessoa vio­lenta, entregue a todos os excessos da cólera e do orgulho, ela é um instrumento inconsciente e dócil do ódio de Juno.

Os sentimentos atribuídos pela lenda a Lavínia - os mesmos que a Eneida atribui à sua mãe Amata se são, talvez, adequados a heroínas de tragédias gregas, como Medeia ou Hécuba. são-no mais ainda a estas romanas, cuja personalidade iremos aprender a conhecer: consideradas oficialmente como simples companheiras, desejam desempenhar, não obstante, um papel determinante no exercício e na transmissão de um poder de que o costume e a lei as excluem. Em vão procuraríamos na lenda dos primeiros tempos romanos a figura de uma mulher “razoável”, uma alma que não seja conduzida pela paixão mais pura e ainda mais do que pelo desejo de amar, pelas paixões políticas e o instinto de poder. Resignadas, na aparência, a ter por marido aquele que quiserem dar-lhes, umas vez mães assenhoreiam-se de toda a autoridade que possam conseguir, manifestam uma vontade inflexível, intrigam e combatem sem escrúpulos nem piedade e são fúrias desenfreadas quando adivinham uma ameaça ou uma pequena oposição à sua ambição ou ao seu sonho. Dido, figura acerca da qual os comentaristas de Virgílio reiteraram à porfia o encanto melancólico, ignorando totalmente as intenções virgilianas, subordina a ternura à vontade. Recusa compreender onde reside a verdadeira vocação daquele que pretende amar. Reconhece ape­nas o fracasso das suas esperanças e, por orgulho ferido, condena-se a si mesma a morrer. Não esqueçamos, por fim, ao ler o livro IV da Eneida, que a ternura que conduz um ser em direção a outro, o sacrifício da vida pelo amado, e não contra ele, não é nas mulheres virgilianas que o ire­mos encontrar, mas em dois homens, dois amantes, um dos quais é irre­fletido e o outro heróico, Niso e Euríolo.

 

***

 

Eis, por fim, a própria Roma prestes a nascer. Reia Sílvia era filha do rei de Alba, Numitor, mas Numitor era um rei caído em desgraça, por­ que tinha sido destronado pelo seu irmão Amúlio, que condenara a jo­vem à virgindade, na esperança de apagar toda a linhagem do rei legíti­mo. Segundo uns, foi consagrada ao culto de Vesta, que a obrigava a guardar castidade durante todo o tempo em que poderia ser mãe. Segun­do outros, foi encerrada em uma prisão - como fora Danae, em Argos, pelo seu pai Acrísio. Apesar destas precauções, Reia conheceu o amor. Diz-se, por vezes, que o seu sedutor não foi outro senão o próprio Amúlio. Mais frequentemente, a proeza é atribuída a Marte, que viu a jovem na margem do rio, apaixonou-se e acercou-se dela quando estava sozinha.

De Reia nasceriam os dois gêmeos que fundaram Roma: Rômulo e Remo. O destino de Reia permanece incerto. Por vezes, diz-se que Amúlio a fez desaparecer, ao mesmo tempo que ordenava que se expusessem os gémeos nas margens do Tibre. Outras vezes, que terá sobrevivido, cati­va, como Antíope na lenda tebana, até ao dia em que o filho, imitando Anfíon e Zeto, a libertou e a devolveu ao seu verdadeiro lugar, depois de ter deposto o usurpador. Terá ela amado Marte? Foi apenas vítima da sua violência? Terá tentado reencontrar os filhos que lhe tinham sido tira­dos? Ninguém se preocupa com isso. Reia não tem mais realidade nem consistência que aquelas heroínas de comédia grega que Menandro nos apresentou e que Plauto e Terêncio, imitando-o, levaram à cena: seduzidas antes da cortina se abrir, dão à luz a criança para o final da peça, e se toda a intriga tem por tema o destino que as espera, elas mesmas não inter­vêm, deixando-se conduzir onde o destino quer.

Para a ideia que os Romanos têm do lugar do amor na cidade, é significativo que Rômulo e Remo, verdadeiramente, não tenham tido “mãe”. O seu nascimento é miraculoso. Isso coloca-os imediatamente fora do humano. Os poetas repetem naturalmente que apenas se alimen­taram na “rude teta de uma loba”.

Fundar uma cidade é assunto de homens, como se a ternura feminina e o amor não pudessem ser senão um luxo da paz. Por isso, Eneias teria podido viver amorosamente (e aburguesadamente) junto de Dido, se não tivesse tido a responsabilidade de todo um povo e o encargo de realizar os desígnios da providência divina.

Intérpretes mal intencionados das lendas romanas afirmaram, desde a Antiguidade, que a celebrada loba que se teria apiedado dos gêmeos ex­postos e os teria alimentado com o seu leite não teria sido, na realidade, senão uma beldade rústica, um pouco selvagem, a quem os favores conce­didos aos pastores da vizinhança tinham valido o nome de “loba”, que é uma designação vulgar das cortesãs. Esta interpretação “racionalista” de uma lenda maravilhosa foi imaginada em um tempo em que já não se queria acreditar em milagres e os autores cristãos adotaram-na com tanto entu­siasmo como maldade. Todavia, os autores cristãos não são os inventores desta explicação maldosa. Desde a época clássica, os historiadores deixa­ram de se preocupar com a reputação de Aca Larência, a ama de leite de Rômulo e Remo, que se tinha tomado uma das inúmeras divindades me­nores da Cidade. A sua divinização não a protegeu da calúnia.

Temos de admiti-lo: de Dido a Lavínia, de Reia Sílvia a Larência, apenas encontramos megeras, figuras insignificantes ou prostitutas vul­gares, nestas lendas das origens. O amor nobre, desinteressado, e a ter­nura serena estão delas ausentes. Somos levados a suspeitar que as mu­lheres são mencionadas apenas porque é necessário que os homens te­nham mães ou amas-de-leite. Ou não têm qualquer importância, ou, quan­do intervêm, é para desencadear as intrigas e os dramas.

 

***

 

Tudo muda, de repente, com as narrativas, aparentemente mais verídi­cas, que reconstituem os inícios da cidade e se propõem, já não contar as proezas dos heróis, mas o nascimento da sociedade romana. Talvez seja por estas narrativas serem menos gratuitas, por terem sido concebidas para dar conta do estado dos costumes. Se é possível e fácil descobrir nas len­das gregas muitos modelos prováveis para os dramas de Lavínio e Alba, percorreríamos em vão os repertórios em busca de um mito análogo à estória das Sabinas. Com esta, penetramos mais fundo na alma romana, descobrimos um dos mitos vitais da Cidade.

Os companheiros de Rômulo, que se tinham reunido provindo de todas as regiões da Itália Central, povoaram rapidamente a cidade. Eram homens jovens, aventureiros, que até então não tinham encontrado o seu lugar em nenhuma pátria. Alguns estavam manchados por crimes, ou­tros fugiam dos credores demasiado insistentes e todos desejavam ter as condições necessárias a uma existência livre e ativa. O asilo concedido por Rômulo no Capitólio prometia-lhes impunidade. O vigor dos seus braços e a fraternidade dos seus companheiros asseguravam-lhes a liber­dade. Mas não tinham mulheres. Ora, o futuro da cidade dependia da posteridade dos primeiros colonos.

Na região vizinha, havia aldeias onde viviam moças, mas os seus pais não pensavam sequer em dá-las em casamento a estes recém-vindos, cujo passado era inquietante. Por conseguinte, Rómulo e os seus homens decidiram conseguir companheiras usando a violência. Convi­daram os habitantes das aldeias próximas de Roma a assistir aos jogos que se iam celebrar em honra dos deuses e todos se aglomeraram no Grande Circo, no vale que formava uma espécie de teatro natural entre o Palatino e o Aventino e tinha uma pista maravilhosamente adaptada às corridas de cavalos. No momento em que todos os olhares estavam diri­gidos para a arena, os companheiros de Rômulo apoderam-se de todas as jovens presentes e arrastam-nas à força. Desarmados, como convém a hóspedes, os seus pais não tiveram outro recurso senão invocar os deu­ses, tomando-os por testemunhas deste crime contra o direito das pes­soas, e regressar a casa para preparar a vingança. As filhas ficaram em Roma, onde foram distribuídas entre os principais cidadãos.

Tito Lívio, que conta a lenda, concedendo-lhe praticamente todo o crédito, recorda o desespero e, sobretudo, o temor das jovens raptadas. Mas, acrescenta, Rômulo em pessoa interveio. Explicou a cada uma que os Romanos tinham sido forçados a este ato de violência devido ao orgulho dos seus vizinhos. O que mais desejavam era ter conseguido noivas que o fossem voluntariamente. Agora que estavam ali, seriam consideradas esposas legítimas, e não prisioneiras. Receberiam todas as honras e toda a consideração possíveis. Privadas da sua pátria e dos seus pais, teriam tudo isso em Roma e os seus maridos ainda seriam mais ternos com elas, por tudo terem perdido. Entretanto, cada homem repe­tia à companheira o argumento do rei, ao mesmo tempo que a acariciava, tentando desculpar o seu ato invocando a sua paixão e o ardor do seu amor. As Sabinas (é que a maior parte das jovens moças raptadas era originária de aldeias sabinas) não resistiram a esta conjugação de elo­quência e ternura e a sua cólera acalmou.

Este idílio, embelezado no decurso do tempo pela imaginação dos historiadores e dos poetas (que, por vezes, o levaram à cena), contém talvez fatos exatos. Os assaltos em massa, de aldeia em aldeia, para conquistar mulheres não são desconhecidos nas socieda­des primitivas e é possível que os primeiros habitantes de Roma te­nham recorrido a estas práticas. É possível também que seja uma lenda em que apenas se perpetua a recordação quase extinta de um rito muito antigo. Mas a realidade última que recobre importa, no fundo, muito pouco: atribuindo-lhe um certo valor histórico, os Ro­manos consideravam-na sobretudo como um mito, uma estória exem­plar que justificava toda uma ideologia do casamento. Era ela que fundava, de fato, a concepção que tinham das relações entre cônju­ges e é assim que os Romanos pensarão sempre na estória das Sabinas: uma conquista violenta que termina em ternura.

Mas o relato não terminava assim e o seu epílogo não era menos edificante. Os pais das Sabinas, de volta às suas aldeias, puseram luto. Loucos de dor e de raiva, enviaram delegações ao rei Tito Tácio, que reinava sobre os Sabinos, e persuadiram-no a iniciar hostilidades contra os Roma­nos, vizinhos sem religião nem moral. Pouco depois, um poderoso exército sabino estendia-se pela planície do Fórum, entre o Capitólio e o Palatino. Por seu lado, os companheiros de Rômulo pegaram nas armas e iniciou-se o combate. A confusão foi terrível, a luta implacável. Umas vezes os Sabinos ganhavam vantagem, outras vezes eram os Romanos. Em alguns momen­tos, a própria existência de Roma esteve comprometida e Júpiter em pessoa teve de dar novo ímpeto ao combate. Houve, por fim, uma acalmia e viu-se avançar entre os dois exércitos, em um cortejo plangente, as jovens mulheres que eram a causa inocente da carnificina: cabelos desfeitos, vestidos rasga­dos como convém a suplicantes cujo destino se vai decidir, dirigem súplicas, alternadamente, aos pais e aos maridos. Perturbados com este aparecimento inesperado dos seres que mais amam no mundo, uns e outros compreendem que esta guerra não só é criminosa, mas já não tem objeto.

À trégua que imediatamente se estabeleceu, seguiu-se um tratado formal: os dois povos decidiam unir-se em um só, transferir a sede do po­der para Roma, associando os dois reis como colegas (como serão de­pois os cônsules), e repartir a população do novo Estado em novos mol­des, isto é, em trinta “cúrias”, que foram designadas com os nomes das principais mulheres sabinas.

Mais uma vez, é difícil dizer com precisão que realidade se dissimula por trás deste episódio: exprime, sem dúvida, de maneira dramática, a ruptura a que está destinada a recém-casada; talvez conserve também a lembrança da dupla origem do povo romano. Independentemente do sen­tido da lenda, reconhecemos a singularidade de os Romanos gostarem de atribuir às mulheres um lugar e um papel privilegiados na formação da cidade. Este aspecto, por si só, seria suficiente para evidenciar a diferença fundamental que separa a sociedade romana primitiva daquela que os poe­mas homéricos nos descrevem. Em Micenas, as mulheres podem ter desempenhado um papel importante, mas a sua influência era apenas pes­soal. Em Roma, é a todo o sexo feminino que se reconhece, oficialmente, uma função essencial na sociedade e que não é apenas aquela a que a natureza o destina, que é a fecundidade. Tantas honras acumuladas não podem deixar de surpreender quem quiser tomar em consideração apenas a condição jurídica da mulher romana na época arcaica. Na realidade, a lenda ensina-nos que é necessário moderar as conclusões que se pensaria dever tirar dos textos jurídicos. O nascimento de Roma marcou, de fato, o advento da mulher e iniciou o reconhecimento de valores quase inteira­mente estranhos à idade heróica do mundo grego.

Se os companheiros de Rômulo raptaram mulheres, foi porque quiseram assegurar a Roma uma duração maior do que a sua própria vida: a violência pode fundar cidades, a energia e a coragem guerreira tornam-nas prósperas, mas só o amor pode torná-las imortais. Por esta razão, o mito das Sabinas tem o valor de uma segunda fundação: Rômulo, sobre o Palatino, pôde traçar o perímetro de uma cidade, dar-lhe muralhas, acumular nela riquezas, mas a cidade como tal começa apenas com o consentimento das Sabinas ao seu rapto. Sem ele, a obra de Rômulo não teria podido durar; só ele tinha o poder de enraizar Roma para sempre no seu solo.

Como era seu hábito, o espírito romano propendeu a dar a este acon­tecimento consequências jurídicas. Conta-se que os Romanos, aquando do tratado com os Sabinos, garantiram às suas mulheres condições de vida honrosas. Seriam poupadas a qualquer trabalho servil; não teriam outra tarefa que não fosse a de criar os seus filhos e fiar a lã. Quanto ao resto, dele se encarregariam escravas e servas. Na base das relações en­tre maridos e mulheres haveria doravante um contrato, e é notável que os seus termos não tivessem sido ditados por um vencedor que usasse da força. Os próprios maridos, com espírito de reconhecimento e de respei­to, comprometeram-se, diante dos deuses, a usar bons modos para com aquelas que, por seu lado, tinham aceito ser as suas companheiras.

A lenda das Sabinas, se era, para os Romanos, uma explicação da condição efetiva das esposas romanas, não é, evidentemente, aos olhos dos historiadores modernos, senão a imagem, projetada no passado, de um estado de fato que tentam explicar de modo diferente. Houve quem fizesse notar que a sociedade romana, no seu começo, se encontrava como que envolvida por um ambiente etrusco e que entre os Etruscos subsistiam muitos vestígios de costumes matriarcais. Na própria Roma, a história dos primeiros tempos não está deles isenta. Por exemplo, a sucessão do reino, aparentemente, foi assegurada por linha feminina. Numa, que se seguiu a Tito Tácio e a Rômulo, é genro de Tácio, e não seu filho, e, mais tarde, Anco Márcio seria, por via materna, neto de Numa. Se Tito Lívio - e toda a tradição - insiste no fato de estes reis terem sido eleitos, não deixa de ser verdade que a escolha dos Romanos, por duas vezes, se voltou para parentes, por via feminina, do rei prece­dente. Não se pode deixar de sublinhar também o papel desempenhado por Tanaquil, a mulher de Tarquínio, o Antigo, quer em levar o seu mari­do ao poder quer também, depois da morte deste, para impor aos cida­dãos o jovem Sérvio, um escravo nascido na sua casa, que inúmeros prodígios designavam como favorito dos deuses. Tanaquil é, sem dúvi­da, de origem etrusca. Surge na casa real como uma verdadeira sacerdo­tisa, interpretando as vontades divinas, o que se deve, talvez, às tradi­ções da sua raça, sempre preocupada com a adivinhação e atenta aos presságios. Mas não é menos notável que esta ciência seja possuída por uma mulher, que a utiliza com uma autoridade que ninguém ousa con­testar. Na verdade, Tanaquil não está investida em um cargo oficial, as suas previsões são “caseiras”, mas os homens da sua casa não hesitam em aceitá-las e em conformar a sua conduta aos seus conselhos. Em última instância, por intermédio deles, a sua ação exerce-se sobre o conjunto do Estado, sem que os historiadores tivessem sequer pensado em indig­nar-se com a importância assumida por uma mulher.

No entanto, a influência do mundo etrusco não foi. seguramente, a única na imposição e divulgação do respeito religioso pela mulher na so­ciedade romana. Uma lenda muito velha menciona uma antiga profetiza de nome Carmenta entre os primeiros habitantes do sítio romano. Não tem, muito provavelmente, nada de etrusco. Algumas tradições fazem dela a mãe de Evandro, um herói arcádio exilado que tinha vindo até às mar­gens do Tibre procurar asilo durante a guerra de Tróia. Fora ela, segundo diziam, que tinha escolhido o lugar da permanência de ambos, um lugar "feliz”, onde os deuses se mostrariam benévolos aos homens. Na sua ju­ventude, acrescentavam ainda, não se chamava Carmenta, mas Nicóstrate, ou Témis, ou ainda Timandra, que são nomes gregos, mas, na velhice, chamavam-lhe Carmenta, após ter dado provas das suas faculdades de profetiza, porque o nome deriva (provavelmente) da palavra latina que designa as encantações (os “encantos”) e os cantos dos profetas inspira­dos. O que quer que possamos pensar da própria lenda e dos elementos gregos que nela se incluem, uma ideia essencial se pode retirar: os Roma­nos admitiam que fora uma mulher a primeira a proferir, junto do Capitólio, os oráculos dos deuses. O nome de Carmenta era tão venerado que foi dado a uma porta da muralha mais antiga de Roma e dois altares estavam consagrados ao seu culto, em plena época clássica.

Todas as lendas tendem a mostrar que as mulheres, na mais autêntica tradição romana, eram envolvidas em uma espécie de veneração religiosa. Longe de serem excluídas da religião, eram como que as suas depositá­rias inspiradas. Podemos pensar em muitos outros exemplos fora de Roma: no da Pítia de Delfos ou na de Yéleda, ou ainda no daquelas mulheres que, nos confins do Sara, foram as únicas a deter, durante mui­to tempo, o segredo da escrita sagrada e dos ritos. A influência etrusca, impossível de negar, encontrou um terreno já preparado. Nada obsta a que as sociedades latinas e sabinas anteriores à formação da cidade romana tivessem atribuído às mulheres uma situação privilegiada. Isso explicaria bastante bem a reverência com que foram tratadas desde o tempo mais remoto a que possamos aceder na história de Roma.

A intervenção de outros fatores toma frequentemente confusa, na verdade, a imagem que julgamos divisar. A religião romana é o produto de uma síntese bastante complexa e o culto oficial tendeu a reduzir a função sagrada da mulher. Além disso, o desenvolvimento e o endurecimento das formas jurídicas na cidade contribuíram para lançar na sombra o seu verdadeiro papel, a ponto de os historiadores modernos gostarem de repetir que, para um romano, a mulher dificilmente é uma pessoa e, de qualquer modo, é um ser inferior que é necessário tutelar. Se esta é, efetivamente, a impressão que se extrai do direito mais antigo, ela não é, bem pelo con­trário, a conclusão que a mera análise das lendas sugere. A mulher romana é amada ternamente pelo marido e pelos filhos, é respeitada pelos servos e, em seu redor, subsistirá sempre como que uma aura de mistério. Terão fé nas suas “intuições” e nos presságios que se poderão retirar dos seus so­nhos e das suas palavras mais inocentes. O amor conjugal romano por parte do marido será, muito frequentemente, cheio de veneração e como que de uma humildade receosa. Vemos tudo isto, na verdade, de maneira esporádica e difícil de captar: os indícios que poderemos descobrir serão frequentemente ambíguos e seríamos talvez levados a crer que, em cada caso, se trata de excepções pessoais... se não existissem as lendas. As len­das dão-nos a garantia do valor universal de certos sentimentos e de certas tendências que constituem o que poderíamos chamar o “subconsciente da raça". Ora, poderemos conceber domínio mais favorável ao exercício destes sentimentos obscuros e inconfessados do que o diálogo, bastante com­plexo de um marido com a sua mulher, de uma mãe com os seus filhos? Os costumes e as escolhas individuais introduziam, inevitavelmente, inú­meras atenuantes nas fórmulas rígidas e necessariamente abstratas dos jurisconsultos. A lenda é como que o antídoto destas. Ao colocarem em cena, em uma situação definida, as relações das pessoas entre si, conferem-lhes uma densidade, um carácter concreto, que o jurista, em busca de uma realidade que continuamente o precede e sempre lhe escapa, não poderia ambicionar.

 

***

 

Há ainda duas outras estórias de amor que as lendas dos primeiros tempos nos oferecem. São também dois mitos que completam a imagem que tentamos definir.

A primeira estória é a de Tarpeia. Quando os Sabinos de Tito Tácio atacavam os Romanos de Rômulo, culpados de ter raptado as suas jo­vens, a cidadela do Capitólio era defendida por um certo Tarpeio, que tinha uma filha chamada Tarpeia. Não nos é dito quem era a mãe, nem como os Romanos, que tiveram de ir procurar companheiras fora da sua cidade, puderam, apesar disso, fundar famílias. No entanto, semelhantes dificuldades não embaraçam os fazedores de lendas. É-nos dito apenas que Tarpeia se encontrava com seu pai na cidadela, no início da guerra, e que, quando vieram os Sabinos, ela olhava com curiosidade, da parte superior da colina, os soldados inimigos que acampavam na planície. Entre eles distinguia-se um cavaleiro, o rei Tácio. Era bonito, jovem e atraente com as suas armas coloridas e o capacete encimado por um penacho. Não tardou muito para Tarpeia se apaixonar. A partir desse momento, não pensou senão em satisfazer a sua paixão. Que importaria a sobrevivência da sua pátria, se pudesse tornar-se esposa de Tácio? Descendo em segredo para as linhas inimigas, entrou em conversações com o rei e ofereceu-se para lhe entregar a cidadela. Mostrar-lhe-ia um caminho desconhecido e abriria uma potema, se os Sabinos lhe entre­gassem, dizia ela, “o que levavam no braço esquerdo" (referia-se aos seus braceletes e anéis de ouro). Imaginava também que o rei reconhe­cido e porque não poderia deixar de ser sensível à beleza daquela que, por ele, aceitava trair a sua pátria e o seu pai, a tomaria por mulher. Dividida entre a cupidez coquete e o amor, já imaginava um futuro de felicidade ingênua, o de uma moça simples, que nada vê para além de um “belo casamento” onde irá figurar com belos adornos.

Tito Tácio finge aceitar a proposta. Dará à jovem aquilo que pede. Fiel à sua promessa, Tarpeia conduz, pelo caminho secreto, a guarda avançada para a cidadela. Os outros guerreiros seguem-nos. Em breve, um grupo numeroso está reunido na sombra, no planalto. Chegou o mo­mento de desencadear o assalto. Então, Tácio cicia à jovem que lhe quer pagar o preço da traição. Os seus soldados, que tinha prevenido, lançam sobre ela os seus escudos, feitos de madeira e couro; em breve sucumbe sob o seu peso e morre asfixiada. Quem poderia ter pena dela? Não ob­teve “o que o Sabinos levavam no braço esquerdo”? Muitos séculos de­pois, um amontoado de armas meio apodrecidas assinalava o lugar onde Tacio punira Tarpeia e recusara o seu amor. Era a rocha maldita de onde eram precipitados os traidores à pátria.

Como a lemos em Propércio, a lenda de Tarpeia é o resultado de uma longa evolução, em que contributos relativamente recentes e embelezamentos literários enriqueceram um dado folclórico que ainda se pode determinar. Propércio fez de Tarpeia uma heroína de tragédia, uma Fedra que luta contra uma paixão que sabe culpada, a que cede no fim, ao mesmo tempo que se confessa “condenada”. São refinamentos estranhos à narrativa primitiva, mas que não encobrem o seu significado. Independentemente do pretexto que esteve na origem da lenda de Tarpeia - um amontoado de armas que apodrece, um trofeu consagrado a Vulcano ou a algum outro deus vingador, constituindo, sob a ferrugem das armas tintas de sangue, e, por isso mesmo, perigosas para a cidade, um mero lugar com um nome, a que se junta a lembrança de um demônio maléfico ou qualquer outra razão que a sutileza dos historiadores modernos não conseguiu descobrir com certeza -, esta estória soa como um aviso aos Romanos: só os homens são capazes de permanecer fiéis à pátria. O coração das mulheres deixa-se seduzir com demasiada facilidade. Tarpeia é irmã daquela Cila que, em outros tempos, na Grécia, em Mégara, traíra o seu próprio pai pelo amor do rei cretense Minos. Uma jovem que esco­lhe livremente o seu amor apenas ouve a sua paixão, o que causa à sua família, à sua pátria e, por fim, a ela mesma grandes catástrofes.

Qualquer que seja a sinceridade de Tarpeia, a sua “fé” amorosa não deveria prevalecer sobre esta outra “fé”, mais essencial, que é devida à ordem estabelecida e sobre o respeito pelas leis divinas, que colocam acima de qualquer outro valor a conservação da cidade. A estória de Tarpeia é apenas um exemplo particularmente dramático do carácter perigoso e criminoso da paixão amorosa “desregrada”. Tito Tácio, o menos romântico e, como Minos na história de Cila, o mais “justo” dos reis, não pode senão sentir-se horrorizado pela oferta de amor que Tarpeia lhe faz. Estranha moral, dir-se-á talvez, que permite ao rei sabino aceitar o benefício da traição e lhe ordena que puna brutalmente aquela que sacrificou tudo por ele! Acusar Tácio de hipocrisia seria desconhecer com gravidade um dos reflexos religiosos mais profundos do espírito romano. Tácio está em guerra contra Roma; pode utilizar todos os meios para abater o inimigo, porque o estado de guerra é, precisamente, a sus­pensão de qualquer “justiça”. Mas o ato de Tarpeia é um gesto mons­truoso, que os Romanos chamavam portentum', é um desrespeito pela ordem do mundo, como o nascimento de um ser cujo corpo não está em conformidade com a lei da sua espécie. Como os parricidas, que eram cosidos em um saco e lançados no mais profundo das águas para os elimi­nar da superfície do mundo, ou como as vestais infiéis, que eram encerradas vivas, em uma cova abaixo do solo, Tarpeia também será submersa sob um montão de escudos que a afastarão da luz, dos olhos deste Júpiter fidius, patrono da boa-fé, que está no Capitólio.

Propércio, como advogado astuto, sugere à jovem argumentos sofis­ticados que a justificam aos seus próprios olhos. Imagina Tarpeia a dizer a si mesma que a sua união com o rei sabino porá termo à cólera deste contra Roma e que o seu casamento tornar-se-á, por isso mesmo, a me­lhor garantia da paz. Mas Propércio sabe efetivamente que o argumento dissimula um sofisma: o milagre que, no dia seguinte, as mulheres sabinas irão fazer no campo de batalha está interdito a Tarpeia. A própria paixão que a possui e a que exclusivamente obedece retira-lhe o direito de ser mediadora. Esta paixão, destrutiva nos seus efeitos, não poderá acabar por ter um resultado construtivo e feliz. Tudo se passa de maneira dife­rente com as esposas legítimas, cujo poder benéfico resulta da sua acei­tação da lei do mundo. Aquilo que os modernos chamarão o "direito do amor” não é negado, certamente, pela consciência romana, mas este di­reito, segundo ela, não reside no desejo, antes começa com a plenitude da sua realização, porque o desejo é anárquico e destrutivo, enquanto o amor “feliz”, apenas com a força da sua "felicidade", é fértil e integra-se espontaneamente na ordem do mundo.

A lenda de Lucrécia, situada também nos primeiros tempos de Roma, comporta uma lição semelhante. É a estória, tomada célebre por Tito Lívio, de um atentado que provocou tal movimento de indignação que os Romanos expulsaram o seu rei, cujo filho era culpado.

Sexto Tarquínio, filho de Tarquínio, o Soberbo, encontrava-se no exército, diante da cidade de Árdea, que estava cercada. Com os outros jovens nobres, discutia, uma noite, acerca da virtude das esposas que tinham deixado em casa. Cada um elogiava, à compita, as virtudes da sua, de modo que, de comum acordo, montaram a cavalo, decididos a ir, de surpresa, ver o que se passava. Em Roma, encontraram as mulheres do palácio a divertir-se e a banquetear-se com as amigas. Passando daí a Colácia, onde residia um deles, Tarquínio Colatino, o espectáculo era muito diferente: Lucrécia, a jovem esposa de Colatino, estava sentada à lareira, fiando a lã entre as suas servas. A chegada dos senhores que acompanham o marido, esforça-se por dar-lhes bom acolhimento, im­provisa uma refeição e a noite passa-se alegremente. Ora, Sexto Tarquínio, logo que vê Lucrécia, ganha por ela uma paixão culposa. Tanta virtude e inocência tentam a sua natureza perversa. Naquele momento, nada diz. No dia seguinte de manhã, regressa ao campo militar com os outros, mas, passados alguns dias, eis que volta a Colácia. Entra na casa da jovem mulher. Esta acolhe-o sem desconfiança, oferece-lhe hospitalida­de e ordena que se lhe seja posta uma cama no quarto dos hóspedes. Mais tarde, uma vez a casa adormecida, Sexto Tarquínio insinua-se na câmara de Lucrécia, empunha a espada e, de pé, junto à cama, acorda-a, dizendo-lhe: “Silêncio! Sou Sexto Tarquínio. Estou armado; morrerás se disseres uma palavra.” A pobre mulher, aterrorizada, tenta despertar-lhe alguma piedade e suplica-lhe que a deixe em paz. Mas Sexto come­ça então a falar-lhe de amor, a tentar por todos os meios possíveis atingir os seus fins. Ela permanece inabalável. Então, usando uma artimanha infame, ameaça-a com uma morte desonrosa. Se resistir mais tempo, matá-la-á e, em seguida, cortará a garganta ao primeiro escravo que apa­recer e estenderá o seu cadáver, despojado de todo o vestuário, ao lado do corpo dela. Assim, todos acreditarão que foi surpreendida em fla­grante delito de adultério, em condições ignominiosas, e devidamente punida. Esta perspectiva atroz vence, por fim, a sua resistência. Consen­te. Triunfante. Sexto Tarquínio deixa a casa antes de amanhecer.

Logo que se vê sozinha. Lucrécia desperta as suas servas e envia um mensageiro ao marido e ao seu próprio pai. Ambos acorrem precipitada­mente. Conta-lhes a estória da sua desonra e, enquanto tentam consolá-la, mostrando-lhe que de modo nenhum é culpada, crava uma faca no peito e penetra o coração.

Aqui ainda a paixão é destruidora da ordem: não só causa a morte da vítima do perverso, mas a do próprio perverso, pois o atentado teve consequências políticas. O povo romano, indignado com esta violência, depôs o rei, cujo filho cedera a uma paixão criminosa, e foi a partir deste dia que se iniciou a República. Que não se diga que a violação de Lucrécia foi a causa acidental da expulsão dos reis. Na verdade, os Romanos esta­vam convencidos de que o crime de Sexto Tarquínio fora o resultado inelutável da monarquia. Parecia-lhes inevitável que um regime que confiava o poder absoluto a um só homem fizesse nascer neste, bem como em todos os que se encontravam associados ao seu privilégio, o desrespeito por aquilo que cada um tem de mais sagrado: o amor da sua mulher, o respeito por si mesmo, a santidade do lar. Era fatal que a monarquia, degenerando em tirania, naufragasse nas violências insensatas da paixão, maldição que os deuses enviam aos mortais culpados de impiedade.

Mas a estória exemplar de Lucrécia comporta ainda outra significação: a jovem esposa, heroína da fidelidade conjugal, recusa ouvir a voz do pai e do marido, que desculpam, muito legitimamente, o que ela chama a “sua falta”. Não admite para si nenhuma circunstância atenuante: o seu corpo foi desonrado, o seu sangue foi manchado. Este corpo deve perecer, este sangue deve ser derramado, ainda que a alma seja pura.

O rigorismo demonstrado por esta esposa romana, e que pode parecer-nos excessivo, quase bárbaro, explica-se pela convicção profunda de que esta “falta” é uma mancha material, indelével, que a separa para sempre do marido e a torna indigna de retomar o seu lugar neste lar arruinado. Está convicta do valor absoluto do ato de amor, pelo menos para a mulher, porque envolve para sempre o corpo e a alma. Obrigando-a a sofrer as suas violências, Sexto Tarquínio tornou-lhe impossível man­ter a “fé” para com o marido, e pouco importa que não tenha aquiescido. Não podia admitir que a carne, quando falta a adesão da alma, não com­promete um ser: nada está mais longe do seu espírito que este platonismo amoroso que se desenvolverá mais tarde em Roma e que, aqui como em qualquer outro lugar, ao subordinar complacentemente o corpo à alma, permitirá todos os sofismas e todos os compromissos.

Aliás, Lucrécia não é a única a pensar assim. Durante muito tempo o instinto da raça recusou admitir que uma mulher pu­desse pertencer sucessivamente a vários homens, ainda que, legalmente, tivesse esse direito, por se ter tornado livre de uma primeira união pela morte ou pelo divórcio. A marca da carne é indelével, comprometendo para sempre.

Ora, isso tem importantes consequências. Conhecemos, depois de Roma, outras morais para as quais o ato de amor é um “pecado”. E claro que Lucrécia não considera que, entregando-se ao marido, tenha manchado o seu corpo e a sua alma: a sua união com ele realizou-se de acordo com as leis divinas e humanas, ela era “boa”. Mas este ato, em si mesmo, não era indiferente. Realizado em outras condições, contrariamente às mesmas leis, tornava-se monstruoso. Não é ainda a ideia de pecado, mas tomámos o caminho que aí conduz, na medida em que admitimos que um acontecimento material, da ordem do corpo, compromete e modifica para sempre a totalidade do ser.

No fundo da alma romana, este sentimento persistirá sempre, mesmo em tempos que julgaríamos mais livres dos velhos imperativos da raça. No entender dos Romanos, o casamento legítimo possuirá sempre um valor quase sacramental, inerente à natureza das coisas: inscreve-se na ordem do mundo e contra este fato as vontades individuais nada podem. É isso o que um Sexto Tarquínio não podia compreender, sendo filho de rei, estando colocado, pelo nascimento, acima das leis e sendo incapaz de disciplinar a sua paixão anárquica.

Lucrécia e Tarpeia situam-se em lados opostos: uma é o símbolo do pudicitia, a outra, o do impudor. Mas, para ambas, o amor foi causa de morte, porque o seu ser se encontrou arrastado pelo drama da paixão incontrolada. As suas lendas traduzem a inquietação fundamental dos Romanos perante o instinto amoroso. Tal inquietação é tanto mais profunda quanto este instinto não poderia, de maneira nenhuma, ser conde­nado em si mesmo, por ser a manifestação da própria vida. A história do sentimento amoroso em Roma irá refletir, até ao fim, esta ambiguidade: umas vezes, considerá-lo-á, indulgentemente, como o impulso alegre de uma raça vigorosa e jovem, a manifestação voluptuosa dos seres; outras vezes, abandonar-se-á a ele com um ardor quase religioso, ou com um sentimento de temor semelhante ao do crente iniciado em mistérios que pressente que comprometem o seu ser mais profundo, mas cujo sentido não lhe é revelado na totalidade.

História - Civilização Romana
10/12/2017 6:27:52 PM | Por Reinaldo Dias
Livre
O setor não estatal e as parcerias estratégicas

Na segunda metade do século XX destacou-se, no cenário global, um tipo de organizações agrupadas no que se convencionou denominar terceiro setor embora não fossem novas, assumiram um papel fundamental na articulação de políticas públicas setoriais em todos os níveis. Seu papel complementar ao do Estado se tornou de tal significado que em muitos âmbitos é inconcebível se desenvolverem políticas sem a parceria com essas organizações não governamentais, sem fins lucrativos. Neste texto, pretende-se discutir o seu papel complementar às políticas oficiais e outras características que as tornam agentes essenciais de uma sociedade mais participativa. Como desdobramento natural do texto, discute-se o papel das parcerias na gestão pública, incluindo as modalidades que envolvem somente o setor privado.

O setor público não estatal e as políticas públicas

Há um aumento crescente das demandas que o Estado deve assumir para atender às necessidades da população. Ocorre que esta ampliação de atendimento de novas necessidades não vem acompanhada por uma ampliação da estrutura estatal, nem por uma crescente capacitação de agentes públicos em temos novos, emergentes, o que poderia levar a uma perda de legitimidade dos governos que gerenciam os negócios do Estado. É nesse contexto que as organizações não governamentais sem fins lucrativos surgem para suprir esta lacuna, apresentando-se como organizações bastante flexíveis do ponto de vista estrutural, e focadas em determinados temas, os que as tornam especializadas, reunindo condições de um melhor atendimento dessas questões pontuais, que podem estar relacionadas ao meio ambiente, ao idoso, ao esporte, à educação, à saúde entre outras áreas.

É nesse sentido que surge uma necessidade crescente do Poder Público de estabelecer parcerias na execução de políticas públicas. Essas parcerias, que ainda são relativas, mas crescentes, permitem a ascensão de atores sociais com poder significativo no enfrentamento de questões pontuais e que dizem respeito a prerrogativas antes exclusivas do Estado. Este é o caso das organizações do terceiro setor (ONGs, fundações, entidades filantrópicas etc.) que se mostram cada vez mais como uma alternativa no processo de reorganização do Estado, intensificando o processo de parceria entre as organizações sem fins lucrativos e o Estado, na execução de políticas públicas antes exclusivas do aparelho estatal.

Essas organizações do terceiro setor estruturam-se de modo geral em torno de um único tema, o que as torna altamente competentes no enfrentamento ou no atendimento de temas públicos. Sua especificidade, sem vínculo com o Estado, e o fato de não visarem lucro em sua atividade permitem que mantenham articulações permanentes a nível internacional, sendo capazes de obter apoio financeiro e moral às suas ações, possibilitando inclusive que façam frente ao poder do Estado quando haja necessidade, embora na maior parte das vezes ocorra um entendimento em questões específicas.

A necessidade de o Estado manter políticas sociais em função dos problemas gerados pela globalização e por uma política neoliberal predominante faz com que haja necessidade de reorganizar o seu papel e se corrigir as distorções ocorridas.

As principais distorções, como, por exemplo, a falta de transparência no manuseio dos recursos e a ausência da participação da sociedade em todo o ciclo em que se processam os benefícios sociais, deverão ser enfrentadas através da progressiva diminuição das atividades no seio do Estado e do fortalecimento dessas estruturas não governamentais sem fins lucrativos, que proliferam na sociedade e buscam melhorar as condições de vida e existência de vários segmentos da sociedade.

Essas organizações não substituem os partidos ou sindicatos, pois não apresentam propostas gerais para a sociedade ou para determinados ramos produtivos. No entanto, devido ao seu alto grau de conhecimento dos temas específicos que enfrentam, tornam-se uma alternativa de reorganização não só do Estado, que compartilhará com estas a execução dos serviços públicos, mas também de uma reorganização da sociedade como um todo, aumentando e propiciando canais de participação do cidadão, que retiram do Estado o monopólio e a responsabilidade exclusiva de execução de serviços públicos.

Por outro lado, a tendência de formação de blocos econômicos regionais com o Estado, abrindo mão de várias prerrogativas, aponta para um futuro de livre circulação de pessoas e produtos. Isto trará para o Estado maiores dificuldades no enfrentamento da questão social, pois haverá aqueles que atrairão mão de obra de outras regiões e que se tornarão caudatários da ação do Estado no território onde se encontram. A intensificação do fluxo turístico, por outro lado, causará inúmeros problemas em regiões e localidades que só poderão ser enfrentados com a parceria entre as organizações da sociedade civil e os órgãos do Estado em todos os níveis (federal, estadual e municipal).

Um mundo globalizado e integrado traz novos problemas e novas realidades em todos os campos - social, econômico, cultural etc. Necessita-se de novas abordagens que não podem ficar restritas aos velhos paradigmas, onde estão concentradas no Estado as responsabilidades de definição e execução das políticas públicas.

O terceiro setor: setor público não estatal

Como tema relativamente novo na análise social, essas organizações da sociedade civil assumiram importância crescente como alternativa de organização social, que apresentam como objetivo a prestação de serviços públicos nas mais diversas áreas - educação, saúde, lazer, turismo, direitos humanos, meio ambiente, cultura, habitação etc. - e que, no entanto, permanecem como organizações privadas sem vínculo com o Estado. Ou, dito de outro modo, podemos afirmar que o terceiro setor é constituído por organizações privadas, sem fins lucrativos, que geram bens e serviços de caráter público.

O espaço ocupado na sociedade por essas organizações constitui-se como um terceiro setor, público não estatal, onde tomam relevância novos valores, particularmente a solidariedade, em contraposição aos valores predominantes no setor privado - o lucro - e no setor público - o poder. Embora não sejam um fenômeno novo, pois sempre existiram entre o Estado e o mercado associações de todo tipo, têm assumido, nos últimos anos, papel relevante, tanto em termos econômicos como sob o ponto de vista social.

Esse terceiro setor compreende as organizações sem fins lucrativos: fundações, institutos, entidades filantrópicas, entidades de serviços sociais, entidades religiosas, as organizações não governamentais (ONGs), organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIPs), associações comunitárias e as mais diversas organizações de defesa dos direitos civis.

A caracterização mais difundida do terceiro setor foi formulada pela Johns Hopkins University, que identificou cinco aspectos principais para caracterizá-las:[1]

  1. são, em grande parte, organizadas e institucionalizadas;
  2. são privadas, ou seja, institucionalmente separadas do governo;
  3. não são distribuidoras de lucro;
  4. são autogovernadas;
  5. são, em grande parte, voluntárias.

É importante reafirmar que as organizações sem fins lucrativos não representam uma novidade no cenário social. Elas sempre existiram ao longo de todo o processo de consolidação do sistema capitalista. São organizações que não visavam ao lucro e não pertenciam ao Estado. O diferencial é que, ao longo da história, essas organizações nunca chegaram a ter o papel que vêm assumindo atualmente, chegando a se constituir numa alternativa aos dois setores tradicionalmente existentes.

O espaço das organizações do terceiro setor vem se ampliando porque se caracterizam mais como uma manifestação da cidadania em um estágio superior de organização e participação do que como uma alternativa política e social. Na realidade, a imensa maioria dessas organizações não chega a questionar as bases do sistema e caracterizam-se por se ocupar de temas pontuais, não procurando disputar o poder político e tampouco competir com os partidos.

Um aspecto que deve ser considerado na história dessas organizações é a crise de identidade que durante certo tempo impediu-as de se colocarem como uma alternativa de organização da sociedade, constituindo o que estamos chamando de espaço público não estatal.

Nascidas dentro de um processo dialético de “negação da negação”, muitas vezes não compreenderam ou não aceitaram este novo papel que chega a se constituir em um processo de evolução da sociedade como um todo. Negaram primeiro ser governo (não governamentais), e, ao ocuparem o espaço privado, preocuparam-se em marcar sua diferença com o mercado (não visam ao lucro). O que de início poderia parecer um limbo - nem privado, nem público -, hoje, na realidade, desponta como uma alternativa de organização da sociedade.

Devido ao seu crescimento, pode-se considerá-las como um pressuposto de organização social que busca o bem-estar nas suas mais variadas formas. São, de modo geral, monotemáticas: atuam em prol da ecologia, direitos humanos, crianças, paz, e um sem-número de bandeiras sempre pontuais e bastante específicas. Embora não necessitem do Estado para seu desempenho, o consideram um interlocutor [114] importante por este ser um ator que, além de deter muito poder, dispõe de significativo capital retirado do processo de acumulação.

Sua importância crescente pode ser vislumbrada por um estudo divulgado pelo IBGE, em 2008, mostrando que, em 2005, existiam 338 mil fundações privadas e associações sem fins lucrativos, que empregavam 1,7 milhões de pessoas em todo o País. Desse total, 35,2% atuavam na defesa dos direitos e interesses dos cidadãos, 24,8% eram instituições religiosas e 7,2% desenvolviam ações de saúde e educação e pesquisa.[2]

Essas organizações têm como vantagem em relação ao Estado o fato de constituírem, em sua maioria, estruturas flexíveis, de baixo custo, o que lhes permite uma maior agilidade e uma permanente capacidade inovadora na ação.

A globalização, ao colocar em crise o Estado de Bem-estar Social, com todos os aspectos negativos decorrentes, em particular o aumento da miséria e do desemprego considerado em termos globais, coloca, ao mesmo tempo, a questão do retorno ao debate da ação social do Estado e da participação (integração) da sociedade nessa ação.

As organizações do terceiro setor tornam possível a realidade de ampliar a participação da sociedade civil na execução de serviços sociais anteriormente restritos à ação “mecânica” do Estado e se colocam como uma opção para o Estado transferir parte de suas atribuições a essas entidades.

Outro aspecto a ser considerado é que a solidariedade humana, ausente na ação do Estado, é um fator necessário e absolutamente indispensável no combate à pobreza, à desigualdade e às injustiças sociais. Na sociedade globalizada, as organizações do terceiro setor apresentam esse componente fundamental da solidariedade que ocupa o “terreno abandonado pelo mercado e pelo Estado em virtude da baixa rentabilidade ou da falta de recursos financeiros".[3]

As possibilidades de aumento do desempenho das organizações do terceiro setor em um mundo globalizado crescem na medida em que aumenta sua autonomia, propiciada pelas múltiplas articulações globais e pela relativa facilidade de locomoção no cenário internacional. De fato, suas ações específicas, de modo geral, podem apresentar articulações extranacionais que lhes dão suporte e possibilitam o seu desempenho, mesmo contrariando interesses nacionais e internacionais poderosos, sejam estes econômicos ou políticos.

As ações desenvolvidas pelas ONGs, de modo geral, apresentam uma certa semelhança entre si. Induzem a uma ação da comunidade internacional, do Estado ou da sociedade em aspectos pontuais da problemática social — os meninos de [115] rua, menores explorados no trabalho, turismo sexual, discriminação de todos os tipos, direitos humanos. Diferentemente dos movimentos sociais, as ONGs não interrompem sua ação após obtida a atenção do Estado -, acompanham, fiscalizam, especializam-se e capacitam-se cada vez mais.

Uma possível sociedade com foco no bem-estar social poderia ser constituída tendo por base a articulação da sociedade, representada pelas organizações sem fins lucrativos e o Estado, fiscalizado e controlado em aspectos pontuais de sua ação por essas organizações.

Embora o terceiro setor venha assumindo papel cada vez mais relevante nas economias nacionais, muitas organizações sem fins lucrativos ainda não compreenderam ou não dimensionaram as modificações que estão em curso na sociedade, mantendo-se presas a seus objetivos específicos e evitando relacioná-los com a realidade mais geral.

Há necessidade de uma evolução, por parte de suas próprias lideranças, na compreensão do papel a ser desempenhado pelas organizações sociais. A visão particularista que permitiu durante muito tempo que essas organizações realizassem um trabalho efetivo obtendo resultados pontuais significativos deve ser substituída pela visão holística que permita situar cada ação específica da entidade dentro de um todo complexo que inclua a discussão de seu papel perante o Estado e o mercado.

Numa visão bastante crítica do setor, Jeremy Rifkin expressou que:[4]

“o problema é que os participantes do Terceiro Setor estão em um status neocolonial. Pensam como um setor subjugado. Suplicam ao governo, ao mercado e às instituições filantrópicas para obter verbas. Têm de compreender que o governo está começando a desaparecer da vida das comunidades, que seu papel é cada vez menos importante, que está passando a delegar verbas e programas. O mercado está tornando-se cada vez mais globalizado e não interno. Que vai acontecer com as fundações? A responsabilidade da vida cívica passará a ser delas e do setor não governamental. Esse é o processo de libertação”.

Embora Rifkin tenha escolhido um determinado cenário futuro para o papel a ser desempenhado pelas organizações do terceiro setor, o fato é que outras alternativas a esse papel deverão incluir do mesmo modo o terceiro setor numa posição de destaque na sociedade.

Particularidades das organizações do terceiro setor

A importância que vem assumindo o papel das organizações sociais, como já foi visto, em função da crise do Estado do Bem-estar Social, e do surgimento de novos espaços transnacionais, coloca em xeque o papel tradicional do Estado de realocador principal dos recursos escassos. Para essas organizações do terceiro setor assumirem novas responsabilidades há, em particular, a necessidade de uma maior capacidade gerencial na captação e na destinação dos recursos.

Na questão da destinação dos recursos, o que diferencia uma entidade não governamental da governamental é a sua maior eficácia no atendimento das necessidades humanas. Por se estruturar em torno de determinada necessidade social, a entidade do terceiro setor apresenta-se com o domínio do conhecimento e técnica específica no enfrentamento de determinada realidade. Por outro lado, com a crescente complexidade das sociedades humanas, o aparelho de Estado não consegue criar mecanismos eficientes no enfrentamento de todas as questões que despontam neste fim de século. São diferentes realidades - o problema da violência, crianças desamparadas, turismo predatório, grupos sociais portadores de doenças específicas, diversos aspectos do problema ambiental, marginalização de minorias, urbanização, defesa de diferentes culturas, lazer etc. - que só superficialmente o Estado pode enfrentar.

O Estado brasileiro vem tentando formalizar a parceria entre o setor público estatal e o terceiro setor de modo a aumentar a eficiência no atendimento das demandas da população. Tendo em conta essa necessidade, foi criada lei, em 1999, definindo o que são organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIP) e se estabelecendo os termos de parceria dessas organizações com o Estado.[5]

A lei das OSCIPs, de 1999, visa estabelecer parcerias do Estado com a sociedade para a gestão de serviços de natureza social, contemplando o foco no cidadão-cliente, a ênfase no desempenho, a autonomia administrativa e o controle social. O Estado mantém as suas responsabilidades no fomento a estas atividades, transferindo recursos públicos para as organizações, passando a desenvolver controles mais eficazes, com base nos resultados efetivamente alcançados.

A ideia de aumentar o papel a ser desempenhado pelas organizações do terceiro setor traz em seu bojo a visão de que estas entidades sem fins lucrativos poderiam desenvolver uma administração mais eficiente na medida em que estariam submetidas à competição, e haveria maior transparência no uso dos recursos públicos na medida em que existisse uma maior fiscalização por parte da sociedade civil. O poder público realiza contratos de gestão com essas organizações especializadas, [117] que assim prestam serviços por prazo determinado, que só será renovado se forem alcançados certos patamares de produtividade e qualidade.

O grande problema a ser resolvido pelas entidades sem fins lucrativos é a obtenção de recursos para cumprir sua finalidade. A parceria com o Estado é importante, bem como a sua independência organizacional em relação a este, para se conseguir canalizar recursos que possam ser utilizados pelas organizações não governamentais.

Por outro lado, a manutenção de independência do terceiro setor permite a obtenção de recursos, não só do Estado, mas também de organismos internacionais, outros Estados e junto ao mercado. Essa capacidade de captação de recursos nos mais diversos setores torna a organização social cada vez mais autônoma e capaz de realizar parcerias com os setores que mais contribuem para a realização do seu fim específico. Entre as formas de captação de recursos mais comuns estão: obtenção de incentivo fiscal, renúncia fiscal de empresas, resultado da prestação de serviços, acesso a programas governamentais, comercialização de produtos, obtenção de linhas institucionais de financiamento e obtenção de recursos através de parcerias empresariais.

A característica do terceiro setor de ser ‘não governamental’ e ‘não lucrativo’ não o torna imune às influências do Estado e do mercado e dos condicionamentos sociais.[6] As instituições sem fins lucrativos, como toda organização, desenvolvem cultura organizacional em que afloram todos os problemas característicos existentes em qualquer corporação: luta pelo poder, distribuição dos recursos, definição de prioridades, disputa por hegemonia e muitos outros que podem ser encontrados em qualquer compêndio de administração. No entanto, se a referência para o estudo e a gestão da organização pública é a luta e manutenção do poder, e a da organização empresarial tem por base o lucro, as instituições do terceiro setor devem ter sua administração orientadas com base na solidariedade, um valor predominante neste segmento que as distinguem dos outros dois setores.

Deste modo, os diferentes interesses que se manifestam nas organizações sociais devem ter como referência a solidariedade. Este ponto é importante, pois ao se levar os instrumentos de administração científica, próprios da administração das empresas para se aumentar a eficácia ou eficiência das organizações do terceiro setor corre-se o risco de buscar a maximização na utilização dos recursos dentro dos parâmetros próprios do setor privado - aumento do lucro. A perspectiva das organizações do terceiro setor deve ser outra, completamente diferente, como vimos. Seu parâmetro de funcionamento é a solidariedade, o atendimento das necessidades humanas tendo como base um valor subjetivo relacionado com o sentimento humano. Desse modo, a contabilidade das organizações sociais não [118] pode se restringir a uma relação de custo-benefício visando à maximização do uso dos recursos do ponto de vista contábil.

Claro está que as organizações, sociais não podem, por outro lado, cair no subjetivismo próprio das organizações públicas patrimoniais anteriores à racionalidade capitalista e que se mantiveram em muitos Estados contemporâneos, o que as tomariam algo parecido com as organizações estatais, com todos os vícios de gestão próprios do setor público: tráfico de influência, compadrio, corrupção, clientelismo etc.

A administração do terceiro setor tem essa característica nova e difícil de ser articulada. Ser uma administração onde a eficácia e a eficiência da empresa privada estejam à disposição do atendimento das demandas e necessidades humanas tendo por base a solidariedade, não a solidariedade mecânica própria das estruturas do Estado, mas aquela existente em qualquer comunidade e que permitiu diferenciar a espécie humana de outras espécies.

As organizações do terceiro setor devem manter sua identidade dentro dos marcos de seu compromisso social. E, ao mesmo tempo, dar ênfase na necessidade de aumentar a sua eficiência e eficácia e o grau de profissionalização, para cumprir as novas exigências que irão surgindo em função da diminuição do papel do Estado e sua consequente incapacidade de gerenciar todos os aspectos da realidade social.

Algumas linhas de ação são possíveis de serem delineadas de imediato:[7]

  1. Aumentar a eficiência das organizações sociais mediante sua profissionalização. Isto implica evitar a dispersão, aumentando a concentração e especialização em determinadas áreas temáticas. Melhorar continuamente a qualidade dos serviços prestados e, ao mesmo tempo, desenvolver o conhecimento cada vez maior dos custos dessas atividades;
  2. Melhorar a administração interna das organizações sociais. Dispor permanentemente de sistemas de monitoramento e avaliação de suas atividades. Aumentar a transparência de suas ações aumentando a confiança do público-alvo e de possíveis contribuintes. Estabelecer estruturas mais democráticas e eficientes, aumentando sempre a independência política em relação aos órgãos de governo e dos partidos. Isso não significa que não deva ter posicionamento político, o que é bem diferente;
  3. Melhorar a capacidade de sustentação econômica e ampliar a fonte de recursos. Há um grande número de possibilidades de arrecadação, desde a cobrança pelas atividades que realiza e que estejam dentro do campo de sua competência até o recurso ao acesso a financiamento externo, [119] internacional ou mesmo comercial. O importante é adequar a sua ação à sua capacidade de captação de recursos de modo que possam realizar suas atividades sem quebra de continuidade.

Está claro que existem outras medidas que poderão e deverão ser tomadas e que fortalecerão o aspecto de se constituírem cada vez mais como alternativa de organização da sociedade.

Foram apresentadas aqui algumas ideias que poderão contribuir ao desenvolvimento de novos métodos de gestão do terceiro setor. E, ao mesmo tempo, tentamos demonstrar que a gestão deve ser diferenciada em relação àquela existente nos outros setores em virtude das motivações de sua constituição ser diferente: o mercado estrutura-se em torno do lucro, o Estado constitui-se tendo como referência o poder, enquanto o terceiro setor tem como fundamento de sua organização a solidariedade.

Tipologia das organizações do terceiro setor: OSCIPs/ONGs/ fundações etc.

Entre as inúmeras transformações que ocorrem no início do século XXI, a que atinge o Estado, como vimos, é uma das mais importantes. Ao redefinir suas funções, o Estado passa a compartilhar com outros agentes a realização de políticas públicas, que complementam sua ação e estabelecem uma nova forma de relacionamento na sociedade, ampliando a participação do cidadão comum, explicitando uma cidadania ativa que se envolve na realização de atividades em diversas áreas como: saúde, educação, serviço social, cultura, esportes, lazer, turismo, entre outras.

Como visto, esses novos agentes que complementam a ação do Estado, atuando em áreas onde este não pode, ou não consegue, atuar constituem um novo setor, que se contrapõe aos setores privado e público, e tem sido denominado terceiro setor.

Esse fenômeno que inclui um sem-número de organizações sem fins lucrativos, marca, no início do século XXI, a consolidação de um setor alternativo de atendimento a inúmeras demandas da população. Esse setor constitui um espaço público não pertencente ao Estado, embora realize funções anteriormente exclusivas deste.

Desse modo, ao se abordar o fenômeno de reestruturação das funções do Estado, deve-se incluir na discussão a constituição de um espaço público não estatal que se desenvolve e tende a crescer, motivado, por um lado, pelas dificuldades porque passa o poder público, que vê esvaziada sua capacidade de arrecadação. Entre outros motivos, podem ser destacados a volatilidade do capital financeiro e, [120] por outro lado, o aumento da complexidade das demandas da sociedade, que busca maior qualidade de vida e passa a dar maior importância a aspectos de sua realidade antes colocados em plano secundário, como, por exemplo: lazer, turismo, práticas de alguma atividade esportiva, atividades culturais, cuidado com o meio ambiente etc.

O fato é que as relações estruturais tradicionais entre o Estado, o mercado e a sociedade, estão sendo modificadas substancialmente e vêm passando por um processo de reestruturação. Novos atores se fazem presentes no tecido social, além das organizações que formam o terceiro setor, surgiram outras estruturas transnacionais não subordinadas a nenhum Estado em particular e que gozam de autonomia relativa na proposição de políticas comuns a serem seguidas por vários Estados.[8]

O terceiro setor é formado de vários tipos de organizações que, embora tenham características comuns, também apresentam particularidades importantes que as tornam úteis em determinadas circunstâncias e não em outras. São encontradas sob as mais diversas denominações como: fundações, organizações não governamentais, entidades filantrópicas, organizações sociais sem fins lucrativos, organizações sociais entre outras.

As organizações não governamentais (ONGs)

A expressão “ONG” foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) na década de 1940, para designar entidades não oficiais que recebiam ajuda financeira para executar projetos de interesse de grupos ou comunidades. Hoje, ela diz respeito a coisas tão diferentes quanto à Associação Internacional de Uniões de Consumidores, à Anistia Internacional ou aos Amigos da Terra, uma das maiores organizações ecológicas do mundo, com filiais em 47 países.

Os membros de uma ONG participam da solução de problemas coletivos, e suas principais características são: não têm fins lucrativos; são monotemáticas, ou seja, ocupam-se de um tema pontual, especializando-se neste assunto; são formadas por vontade própria de seus associados; respeitam as posições daquele pelas (e com as) quais atuam, mantendo em suas atividades um pleno respeito pelas filiações religiosas, políticas, ou de qualquer outra natureza, dos indivíduos e grupos sociais com os quais têm contato.

As ONGs ganharam maior notoriedade a partir da sua atuação em prol do meio ambiente, principalmente na década de 1970, logo após a Conferência Mundial do Meio Ambiente Humano, organizada pela ONU em 1972 e realizada em Estocolmo [120] movimento ambientalista decorrente tinha como eixo central inúmeras ONGs que foram ganhando notoriedade, e muitas, hoje, são mundialmente conhecidas.

Ampliando o leque de atuação setorial das ONGs, estas se multiplicaram, envolvendo-se em outras questões sociais no período final da ditadura militar, na década de 1980, e definitivamente se incorporando ao cenário político-social no Brasil na década de 1990, quando o termo ONG se popularizou.

O processo de ganho de notoriedade das ONGs se deu também em função da reformulação do Estado, ou do processo da reforma do Estado brasileiro, iniciado na década de 1990. A crise econômica vivida na década de 1980 foi basicamente fiscal, ou seja, os gastos eram extremamente maiores que a receita. Tudo isso levou a uma mudança na percepção do papel do Estado, que não poderia mais continuar a financiar inúmeros programas sociais como anteriormente.[9]

Percebe-se, assim, que o processo é simultâneo: ao mesmo tempo em que as ONGs se fortaleceram, o Estado, diante de tantas crises, foi sendo reformulado e deu mais espaço para a atuação de organizações da sociedade civil. Não houve o enfraquecimento de um em detrimento do outro, mas, sim, uma mudança nas relações e no papel dessas instituições.[10]

Há vários modos de se classificar as ONGs, o mais comum é levando em consideração seus membros e as causas que defendem. Deste modo, podemos ter dois grandes grupos:[11] organizações que defendem a causa de seus membros e aquelas que defendem a causa dos outros.

O primeiro grupo é constituído por organizações que defendem a causa de seus membros sendo formadas por pessoas que lutam por seus direitos, de expressão, de inclusão etc. Por exemplo, organizações formadas por negros que lutam contra o racismo, ou por mulheres contra o sexismo, ou por gays contra o preconceito em relação à escolha sexual.

O segundo grupo é formado por organizações compostas por pessoas que se dedicam a defender o direito dos outros. São exemplos: meninos de rua, pessoas, sem-teto, usuários de drogas, vítimas de abusos contra os direitos humanos, vítimas de abuso sexual, excluídos da cidadania por pobreza ou ignorância etc.

Essa relação com o outro é uma características fundamental destas organizações, pois é segundo as reações que estabelecem com o outro que se podem entender e analisar seu papel e suas funções nas relações sociedade civil-mundo da exclusão e sociedade civil-Estado.[12]

Fundações

Uma fundação tem sua origem em um patrimônio ou conjunto de bens, enquanto uma associação se origina da vontade de um grupo de pessoas unidas por uma causa ou objetivos sociais comuns.

O art. 62. do Código Civil (Lei na 10.406, de 10 de janeiro de 2002) estabelece que, para criar uma fundação, “o seu instituidor fará, por escritura pública ou testamento, dotação especial de bens livres, especificando o fim a que se destina, e declarando, se quiser, a maneira de administrá-la. Parágrafo único. A fundação somente poderá constituir-se para fins religiosos, morais, culturais ou de assistência”.

As associações e/ou fundações de caráter beneficente, que desenvolvem ações no campo de assistência social, educação e saúde gozam de imunidade tributária - e também podem ser isentas das contribuições da cota patronal junto ao INSS.

Para fazer jus a esta imunidade tributária que significa estar livre de impostos de qualquer natureza, sejam federais, estaduais ou municipais, as organizações precisam atender ao dispositivo do Código Tributário Nacional, que, para classificá-las como entidades beneficentes sem fins lucrativos, exige que seus estatutos tenham os seguintes dispositivos:[13]

  1. não distribuir qualquer parcela de seu patrimônio ou de suas rendas a qualquer título. Isso significa que as entidades beneficentes sem fins lucrativos não distribuem lucros. Elas podem organizar serviços para obter recursos para sua manutenção, mas os resultados devem ser aplicados integralmente no cumprimento de suas finalidades;
  2. aplicar integralmente no país seus recursos na manutenção de seus objetivos institucionais. Portanto, estão proibidas de fazer qualquer remessa de receita para o exterior. Podem importar produtos que serão utilizados no cumprimento de suas finalidades;
  3. manter escrituração de suas receitas e despesas em livros revestidos das formalidades capazes de assegurar sua exatidão. Ou seja, são obrigadas a seguir as normas contábeis relativas aos balanços, escrituração e sua apresentação à fiscalização quando solicitado. Essas entidades também estão obrigadas a cumprir toda a legislação trabalhista, previdenciária e fiscal, pois sua gestão deve ser transparente, ordenada e clara.

Organização da sociedade civil de interesse público (OSCIP)

A expressão “organização da sociedade civil de interesse público” (OSCIP) se tornou mais conhecida devido a Lei n. 9.790, de 23 de março de 1999 e pelo Decreto n. 3.100 de 30 de junho de 1999, que tratam da qualificação de pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos como OSCIPs, e instituem e disciplinam o termo de parceria.

A qualificação como OSCIP diferencia, no universo do terceiro setor, as organizações que efetivamente têm finalidade pública, que recebem ou podem receber delegação para a gestão de serviço público, enquanto as demais organizações sociais exercem atividade de natureza privada, com a ajuda do Estado.

A Lei das OSCIPs tem como um dos seus principais objetivos imprimir maior agilidade gerencial aos projetos e realizar o controle pelos resultados, com garantias de que os recursos estatais sejam utilizados de acordo com os fins públicos. O termo de parceria possibilita a escolha do parceiro mais adequado do ponto de vista técnico e mais desejável dos pontos de vista social e econômico, além de favorecer a publicidade e a transparência.

Uma condição de OSCIP é mais ampla do que a de uma organização social, possibilitando o acesso a benefícios fiscais, por exemplo. No entanto, toda organização social pode também se equiparar, de certa forma, com uma OSCIP bastando para tanto ter um contrato de gestão com o Estado, que deve acontecer quando são organizações sociais de grande tamanho. Pois nos demais casos, basta um convênio para o Estado lhes transferir recursos.

A grande diferença entre organização social e OSCIP está em que a primeira recebe ou pode receber delegação para a gestão de serviço público, enquanto segunda exerce atividade de natureza privada, com a ajuda do Estado.

Psicologia - Psicologia social
7/4/2017 10:04:18 PM | Por Junito de Souza Brandão
Livre
Homero e seus poemas

Numa apresentação sumaríssima da epopéia homérica, já que o objetivo deste livro não é a literatura, mas o mito, é conveniente deixar claro um dado fundamental. A Odisséia, com os dez anos de peregrinação de Odysseús, o nosso Ulisses[1], em seu regresso ao lar, em Ítaca, após a destruição de Tróia, é bem diferente, do ponto de vista "histórico", da Ilíada. Opinam alguns estudiosos de Homero[2], no entanto, que essa diferença, quanto ao fundo histórico de ambos os poemas, não deve ser excessivamente exagerada. A base histórica da Odisséia seria a busca do estanho. Realmente o ferro era pouco e o estanho absolutamente inexistente na Hélade. Possuindo o cobre, mas necessitados e desejosos do bronze, os helenos dos "tempos heróicos" organizaram a rota do estanho. É bem verdade que a espada de ferro dos Dórios havia triunfado do punhal de bronze dos Aqueus, mas, até pelo menos o século VIII a.C, o bronze há de ser o metal nobre da nobre elite da pátria de Homero. Assim se poderia defender que a temática do périplo fantástico de -115- Ulisses teria sido o mascaramento da busca do estanho ao norte da Etrúria, com o descobrimento das rotas marítimas do Ocidente. Tratar-se-ia, desse modo, de uma genial ficção, embora assentada em esparsos fundamentos históricos, porque, no fundo, a Odisséia é o conto do nóstos, do retorno do esposo, da grande nostalgia de Ulisses. Este seria o ancestral dos velhos marinheiros, que haviam, heroicamente, explorado o mar desconhecido, cujas fábulas eram moeda corrente em todos os portos, do Oriente ao Ocidente: monstros, gigantes, ilhas flutuantes, ervas milagrosas, feiticeiras, ninfas, sereias e Ciclopes. . .

A Ilíada, ao revés, descreve um fato histórico, se bem que revestido de um engalanado maravilhoso poético. Na expressão, talvez um pouco "realista" de Page, o que o poema focaliza "são os próprios episódios do cerco de Ílion e ninguém pode lê-lo sem sentir que se trata, fundamentalmente, de um poema histórico. Os pormenores podem ser fictícios, mas a essência e as personagens, ao menos as principais, são reais. Os próprios gregos tinham isso como certo. Não punham em dúvida que houve uma Guerra de Tróia e existiram, na verdade, pessoas como Príamo e Heitor, Aquiles e Ájax, que, de um modo ou de outro, fizeram o que Homero lhes atribui. A civilização material e o pano-de-fundo

político-social, se bem que não se assemelhem a coisa alguma conhecida ou lembrada nos períodos históricos, eram considerados pelos gregos como um painel real da Grécia da época micênica, aproximadamente 1.200 a.C, quando aconteceu o cerco de Tróia".[3]

Um fato, porém, parece definitivo: uma realidade histórica está subjacente ao mito na epopéia homérica, se bem que, glorificada e transformada por vários séculos de tradição puramente oral que precederam à composição definitiva elaborada por Homero (séculos IX-VIII a.C.) e a fixação por escrito dos dois poemas (século VI a.C).

A dificuldade maior no estudo da epopéia homérica está em isolar o que realmente é micênico do que pertence a épocas posteriores, como à Idade do Ferro, à Idade Média Grega e ao ambiente histórico em que viveu o próprio poeta. Sem dúvida, também sob o ângulo político, social e religioso, os poemas homéricos são uma colcha de retalhos com rótulos de civilizações diferentes no tempo e no espaço. Não obstante todas estas dificuldades, alguns elementos micênicos podem, com boa margem de segurança, ser detectados nos dois grandes poemas. -116-

Consoante Homero, o que parece autêntico, o mundo micênico era um entrelaçamento de reinos pequenos e grandes, mais ou menos independentes, centralizados em grandes palácios, como Esparta, Atenas, Pilos, Micenas, Tebas..., mas devendo fidelidade, ou talvez vassalagem, não se sabe muito bem por quê, ao reino de Agamêmnon, com sede em Micenas. Além deste aspecto político, há outros a considerar. Maria Helena da Rocha Pereira alinha alguns elementos aqueus presentes na epopéia homérica: "Ora, os Poemas Homéricos descrevem, fundamentalmente, a civilização micênica, embora ignorem a sua forte burocratização e a abundância de escravatura, reveladas pelas tabuinhas de Pilos. Mas, entre os principais elementos micênicos, podemos apresentar: as figuras e seus epítetos; a riqueza de Micenas ('Micenas rica em ouro'); a raridade do ferro; a noção de que ánax é mais do que basileús[4]; o fausto dos funerais de Pátroclo (embora seja cremado, como os Gregos da época histórica, e não inumado, como os Micênicos); a arquitetura dos palácios, nomeadamente a presença do mégaron; objetos como o elmo de presas de Javali, a taça de Nestor, e a espada de Heitor, com um aro de ouro".[5]

Mas se comprovadamente existem elementos micênicos, de fundo e de forma, nos poemas homéricos, como pôde o bardo máximo da Hélade ter conhecimento, por vezes tão preciso, de um mundo que ele cantou cerca de quatro ou cinco séculos depois? A escrita já existia, é verdade, e cinco séculos também antes do poeta, mas aquela, a Linear B, era usada, como se falou no capítulo IV, sobretudo em documentos administrativos e comerciais e não em textos de caráter literário. Parece que os poderosos senhores do mundo aqueu julgavam indigno ou desnecessário que suas façanhas fossem gravadas em tabuinhas de argila. E realmente não era necessário, pela própria técnica poética da época. A poesia épica micênica é oral e tradicional, uma poesia não escrita e transmitida de geração a geração. Uma poesia áulica, como quer Webster[6], cheia de fórmulas de caráter religioso e militar e cuja sobrevivência se deveu aos aedos e rapsodos.[7] -117-

O já citado Page sintetiza, com maestria, como o maior de todos os vates pôde "compor" seus dois poemas épicos sem documento algum escrito sobre o passado: "Todos concordam (...) que Homero viveu centenas de anos depois dos fatos que descreveu e que não teve documentos escritos sobre o passado. O que devemos perguntar, portanto, não é 'por que ele desconhece tanto sobre a Grécia micênica?', mas 'como pôde ele ter sabido o que sabia?' A resposta é que o épico grego é uma poesia de tipo muito peculiar — é oral e tradicional. Entendo, por oral, que era composta na mente, sem a ajuda da escrita. E, por tradicional, entendo que era preservada pela memória e transmitida oralmente de geração a geração. Jamais era estática. Crescia e se modificava continuamente. A Ilíada é a última fase de um processo de crescimento e desenvolvimento que começou durante o sítio de Tróia, ou pouco depois. Esse tipo de poesia (que ocorre na poesia épica de muitas línguas além do grego) só pode ser composto, só pode ser preservado, se o poeta tiver à sua disposição um estoque de frases tradicionais — metade de versos, versos inteiros e estrofes, já prontos para quase todas as finalidades concebíveis. O poeta compõe, enquanto recita; não pode parar para pensar como continuar; deve ter pronta toda a história, antes de começar, e deve ter na memória a totalidade — ou quase totalidade — das frases de que precisará para contá-la. Os poemas homéricos são, na verdade, compostos dessa forma — não em palavras, mas em seqüências de frases feitas. Em 28.000 versos, há 25.000 frases repetidas, grandes ou pequenas".[8]

A sólida argumentação de Denys Page pode-se acrescentar ainda, como processo mnemônico, na transmissão dessa poesia oral, o uso dos epítetos, os famosos epítetos homéricos. As personagens mais importantes e as divindades maiores "têm, em média, dez epítetos que se repetem no poema todo centenas de vezes com alguma variedade".[9] São, ao todo, nos dois poemas, em estatística feita pacientemente pelo saudoso amigo e mestre Marques Leite, 4.560 epítetos.

Os poemas homéricos resultam, pois, de um longo, mas progressivo desenvolvimento da poesia oral, em que trabalharam muitas gerações. Usando significantes dos fins do século IX e meados do século VIII a.C, épocas em que foram, ao que parece, "compostas", na Ásia Menor Grega, respectivamente a Ilíada e a Odisséia, o poeta -118- nos transmite significados do século XIII ao século VIII a.C. O mérito extraordinário de Homero foi saber genialmente reunir esse acervo imenso em dois insuperáveis poemas que, até hoje, se constituem no arquétipo da época ocidental.

Esta ligeira introdução tem por objetivo mostrar que também a religião homérica é uma colcha de retalhos, uma seqüência de pequenas e grandes rupturas, de pequenos e grandes sincretismos, em que o Ocidente se fundiu com o Oriente.

As escavações arqueológicas comprovaram que havia na época aquéia "uma religião dos mortos", fato já bem salientado no capítulo V, 5. A esse respeito desejamos somente chamar a atenção para dois fatos. Os vastos túmulos encontrados particularmente em Micenas com luxuoso mobiliário fúnebre, como o célebre Tesouro do Atreu, em que o morto, "o rei Agamêmnon", aparece com o rosto coberto por rica máscara de ouro[10], atestam dois pontos importantes: primeiro, que o rei, chefe da tribo, do clã, do génos, da família enfim, torna-se, após a morte, o que ele foi em vida, "o senhor", quer dizer, o "herói", o protetor dos que lhe habitam o território, o reino; segundo, que, sendo o culto dos mortos uma religião da família e do grupo, havendo, por isso mesmo, necessidade de uma descendência para continuá-lo e transmiti-lo, esse culto é essencialmente local, indissoluvelmente ligado ao túmulo. Além da religião dos mortos, existia a religião dos deuses, em sua maioria, deuses da natureza, cujo arquétipo era o deus patriarcal indo-europeu do céu e da luz, Zeus.

Com as invasões dóricas e as migrações para a Ásia Menor, a vida grega se dividiu entre as duas margens do Egeu. Entre a Europa e a Ásia, não raro com apoio nas ilhas, começou a se plasmar o embrião de uma nova e promissora cultura. Apagados os archotes da civilização micênica, os emigrantes acenderam-nos em outra pira. Distantes das vicissitudes da mãe-pátria, abriram-se a novas influências.

Esse distanciamento, esse desenraizar-se, com todas as conseqüências que sempre lhe são inerentes, desenvolveram-lhes -119- a inde pendência e a liberdade de pensamento, bem como os emanciparam de velhas e arraigadas tradições. Livres das opressões e repressões das antigas crenças, prepararam-se com a mesma liberdade de espírito para arrostar novos problemas de ordem religiosa. A primeira grande conseqüência foi o enfraquecimento generalizado da religião dos mortos. Tratava-se de um culto, conforme se insistiu, essencialmente local e preso ao túmulo. Ora, o túmulo dos ancestrais agora estava longe demais, o culto interrompido, porque desvinculado da sepultura. Os ancestrais, os senhores, os "heróis" sobreviveram apenas no mito e a tradição religiosa não se renovou em torno dos novos senhores, mesmo porque, na Ásia Menor, se praticava a cremação: a alma do morto, separada para sempre do corpo, estava em definitivo excluída de seu domicílio e da vida de seus descendentes, não havendo, portanto, nada mais a temer nem a esperar da psiqué do falecido. De outro lado, como já se sabe, as migrações helênicas para seu novo domicílio não se fizeram em bloco: as tribos deixaram a mãe-pátria completamente fragmentadas, de acordo com as circunstâncias ou a oportunidade. Estava, por isso mesmo, rompida a tribo, o clã, o génos, a família. Pois bem, esses elementos díspares, de origens tribais e até mesmo "dialetais" diversas, ao se encontrarem em seu novo "habitat" com povos etnicamente diferentes, com outros hábitos e outra língua, confraternizaram-se mais facilmente. Eram todos exilados e a maneira mais prática de refazerem a vida era congregar o que tinham em comum, deuses e o restante. E a nova repercussão religiosa de mudança de meio fez que a religião dos deuses prevalecesse inteiramente sobre a religião dos mortos, determinando assim a formação de um autêntico politeísmo. Outro fator, no entanto, deu sua contribuição valiosa a todas essas rupturas e agregações: o recente espírito de independência face à tradição criou um ambiente propício ao desenvolvimento da arte. E a arte que floresceu, no momento, entre os Gregos da Ásia Menor foi a Epopéia.

A arte épica deve ter tido considerável influência sobre a primeira elaboração do politeísmo e sobre o destino posterior da religião grega. É claro que o politeísmo já existia, mas embrionariamente, no nome de deuses ou nas formas míticas elementares vinculadas aos nomes divinos. O politeísmo é uma forma religiosa estreitamente ligada ao mito. Só existe, com a multiplicidade des deuses, que o define, porque o mito criou esses deuses. Na realidade, o politeísmo surge na história unido ao sentimento e à noção do divino na natureza. Uma de suas grandes fontes é o mistério do -120- mundo exterior em que estamos mergulhados; a outra, mais profunda, encontra-se num segundo mistério, que está em nós mesmos. A dar crédito a Sexto Empírito (século II p.C.), filósofo grego, sistematizador do estoicismo, Aristóteles teria esboçado uma teoria da religião fundamentada no naturalismo e no humanismo: "A noção humana da divindade decorre de dois princípios: dos fenômenos que se produzem na alma e dos fatos meteóricos"[11], isto é, de fenômenos da natureza. O sentimento religioso naturalista se expressou, portanto, primeiramente pelo mito. Este, por sua vez, se manifestará na epopéia, que é poesia, arte e liberdade. O florescimento da epopéia na "diáspora" grega para a Ásia Menor, onde foi sepultada a repressão do tradicionalismo da mãe-pátria, coincidiu com o momento em que a lenda divina, libertando-se da esfera do sagrado, se emancipou da ação sacramentai, que a representava, e do hino divino, que a celebrava. O canto, à medida em que se despojava dos elementos emotivos, tornava-se objeto de narrativa.[12] Houve, assim, uma como que segunda criação dos deuses. Claro está que esses deuses continuaram a ser na Grécia da Europa e na Grécia da Ásia os deuses dos ancestrais, mas o sortilégio, que, até então, os ligava estreitamente a seu local de culto, estava para sempre rompido e a poesia acabou por transfigurar em seus ideais esses deuses já bastante dessacralizados. Seres ideais, tão vivos e verdadeiros, que, pela primeira vez, os homens com eles se confraternizaram. Gigantes que se locomoviam como raios entre o Olimpo e a terra, eram, todavia, humanos, compensando com sua humanidade o que haviam perdido em sacralidade.

Esse "humanismo divino" foi a marca da poesia, o sinal mágico de uma obra através da qual o homem entalha e concebe os deuses à sua imagem e semelhança.

Era o antropomorfismo. "O mundo grego com seus deuses é um mundo do homem", sintetiza magistralmente Kerényi.[13] Eis aí os deuses de Homero, que é ele próprio o limite de uma evolução secular. Evolução religiosa, evolução lingüística, com os dialetos jônico e eólio servindo-lhe de embasamento; evolução do verso, que, a princípio, cantado, se adaptou à recitação; evolução do mito divino e heróico, múltiplo e complexo, que acabará por se condensar num esquema homogêneo na saga troiana; evolução dos costumes, -121- com o rito da cremação; evolução, enfim, da vida material, que assiste à substituição do bronze pelo ferro. Esse feixe de evoluções se concentra em Homero, assim como sua obra condensa três fases da religião: a que reinava na Grécia continental, quando os micênicos a deixaram, a que se desenvolveu na

Ásia Menor, em condições bem diversas e, finalmente, aquela que desabrochou sob a inspiração da epopéia.

Homero fundiu estes três momentos culturais, mas não existe na Ilíada e na Odisséia nem evocação escrupulosa do passado, nem descrição exata do presente, mas a visão de um mundo ideal, composto de um passado micênico da Europa e de um presente homérico e asiático, amalgamados numa harmonia, que é realidade sem ser realidade, quer dizer, poesia e nada mais. Com efeito, os dois poemas homéricos, recheados de elementos religiosos, não são um código de vida, nem um cânon de fé. Trata-se de um documento religioso incomparável, mas imperfeito, porque omite; e parcial, mercê da liberdade com que são tratados os deuses: Zeus, Hera, Apoio, Atená. .. não passam, muitas vezes, de vagas reminiscências daquilo que realmente foram.[14]

Além do mais, os deuses que passeiam, lutam e se divertem nos poemas homéricos não são a totalidade dos deuses da Grécia e a religião, que deles se ocupa, não é toda a religião, o que está perfeitamente de acordo com o espírito da epopéia. Trata-se, com efeito, de uma poesia burguesa, destinada a "reis" e heróis, a homens de alto conturno, voltados para as armas e para o mar. Não há dúvida de que é para um mundo aristocrático que o poeta compõe sua obra. Fundindo o passado no presente, o período da realeza aquéia com a aristocracia de seu século, Homero fazia-se compreender perfeitamente por seu público, pois que o passado, vivendo na tradição, era presença constante nos lábios dos aedos e rapsodos. Por outro lado, o público de Homero era constituído, em síntese, por duas aristocracias: a aristocracia política e a aristocracia militar, mas ambas, as mais das vezes, de origem burguesa. Para elas o poeta canta, prazerosamente, as gestas guerreiras e as astúcias do homem no mar. Para elas celebra os jogos, onde o vigor se conjuga com a nobreza. O preito da força e da beleza física, símbolos do herói, contraiu, desde Homero, núpcias indissolúveis com as qualidades do espírito: o kalón, o belo, e o agathón, o bom, eis aí a síntese de uma visão humanística que remonta à Ilíada e à -122- Odisséia. Pois bem, o mundo dos deuses é a projeção dessa sociedade heróica e aristocrática. À autoridade de Agamêmnon e, não raro, à sua prepotência, correspondem a soberania e o despotismo de Zeus, assim como às revoltas dos heróis contra as arbitrariedades do "senhor" e rei de Micenas corre paralelo a manifestação de independência dos imortais contra a tirania do "senhor" e rei do Olimpo. De outro lado, se o povo está presente nos poemas homéricos apenas para servir, aplaudir e concordar nas assembléias, os deuses humildes da vegetação teriam que esperar cerca de três séculos para que, em Elêusis, se erguessem, repentinamente, em plena escuridão, milhares de archotes para saudar "a luz nova" e Dioniso, de tirso em punho, pudesse penetrar triunfalmente na pólis democrática de Atenas. .. Também a humanidade esperou séculos e séculos para que o grão de trigo, morrendo no seio da terra, produzisse frutos em abundância!

De qualquer forma, alijando o localismo, a aristocrática epopéia, por mais paradoxal que possa parecer, tendo-se tornado, com a difusão pelos "mundos gregos", um patrimônio comum, democratizou a religião e os deuses olímpicos passaram a ser deuses de todos. E se na Grécia continental, bem como em seus "pedaços" plantados na Ásia, na Europa e na África, jamais existiu unidade política, houve sempre, "em todas as Grécias", graças à religião, uma consciência de unidade racial. Ou se era grego ou se era bárbaro.

Vamos nos ocupar agora da religião homérica propriamente dita. Não se falará sobre o mito de cada um dos deuses, a não ser de passagem, nem tampouco sobre cada um dos heróis, que formigam e dão vida às epopéias homéricas, porque cada um deles, ao menos os mais importantes, terá direito a um estudo particular nos capítulos subseqüentes.

Para se ter uma idéia do conjunto, far-se-á, de início, uma síntese dos cantos de que se compõem a Ilíada e a Odisséia. Comecemos pela Ilíada.

Após uma breve proposição e invocação, o poema nos coloca in medias res, no centro dos acontecimentos, já que a Ilíada celebra, como já se mencionou, tão-somente o nono ano da Guerra de Tróia: a ira de Aquiles e suas conseqüências funestas. -123-

Canta, ó deusa, a ira funesta de Aquiles Pelida, ira que tantas desgraças trouxe aos Aqueus e fez baixar ao Hades muitas almas de destemidos heróis, dando-os a eles mesmos em repasto aos cães e a todas as aves de rapina: cumpriu-se o desígnio de Zeus, em razão da contenda, que, desde o início, lançou em discórdia o Atrida, príncipe dos guerreiros, e o divino Aquiles. (Il., I, 1-7)

I — Crises, sacerdote de Apoio, avança até as naus dos Aqueus, para resgatar sua filha Criseida, cativa de Agamêmnon. Todos os chefes desejam que assim se proceda, mas o Atrida se recusa e insulta o sacerdote. Crises regressa, mas suplica a Apoio que castigue os Aqueus. O deus envia uma peste, que dizima o exército. Aquiles pede que se reúna a assembléia, para saber do adivinho Calcas a causa de tão grande mal. Calcas responde ser necessário devolver Criseida para apaziguar a cólera de Apoio. Depois de violenta altercação com Aquiles, Agamêmnon devolve a filha de Crises, mas, em troca, manda buscar Briseida, presa do filho de Peleu. Aquiles, ferido em sua timé, em sua honra de herói, retira-se da luta e queixa-se à sua mãe Tétis, que lhe promete pedir a Zeus que o desagrave. Com a devolução de Criseida, cessa a peste. Zeus, a pedido de Tétis, consente em que os Troianos saiam vitoriosos, até que se faça condigna reparação a Aquiles. Logo que a mãe do Pelida se retira, trava-se no Olimpo séria discussão entre Zeus e Hera, que percebeu o pedido da deusa do mar e a promessa do esposo. O receoso Hefesto, filho de ambos, com habilidade, consegue contornar a grave situação. Os imortais, com um sorriso inextinguível, aproveitam para se divertir com a azáfama de Hefesto, que manquitolava pelos salões do Olimpo. E o dia terminou com um lauto banquete, ao som da citara de Apoio e da voz cadenciada das Musas. Com muito néctar e muita ambrosia...

II — Zeus, em cumprimento de sua promessa a Tétis, envia um ûlos Óneiros, um "Sonho funesto" e enganador a Agamêmnon para o empenhar na luta. Óneiros surge sob a forma de Nestor e repreende fingidamente o rei de Micenas, revelando-lhe que o próprio Zeus deseja ação imediata e os imortais todos querem a vitória aquéia e a ruína de Tróia. Agamêmnon, enganado pelo Sonho, reúne então todos os Aqueus e é, neste ponto, que se introduz o Catálogo das Naus, com os nomes dos "reinos", que as enviaram, dos chefes e o número de naus que cada herói comanda. -124-

Nas 1.183 naus deveriam ter chegado a Ílion cerca de quarenta a sessenta mil homens, num cálculo feito pelo mestre Marques Leite.[15]

 III — Os Troianos descem à planície. Os anciãos, bem como Príamo e Helena,

contemplam do alto das muralhas de Tróia o campo de batalha. Por proposta de Páris, ele próprio e Menelau decidirão em combate singular o destino de Helena e dos tesouros. Quando Alexandre está para ser vencido e morto, Afrodite o salva e transporta-o numa nuvem para os braços de Helena.

IV — Um aliado dos Troianos, Pândaro, fere Menelau com uma flechada: a luta recomeça. Ares e Apoio lutam pelos Troianos. Atená pelos Aqueus.

 V — É a primeira grande batalha. Combate encarniçado, em que Diomedes mata a Pândaro, fere Enéias e Afrodite, que vem retirar o filho do campo de combate. Grande carnificina, em que o próprio deus Ares é também ferido por Diomedes.

VI — Heitor, o grande herói Troiano, a conselho de seu irmão, o adivinho

Heleno, dirige-se à cidadela de Ílion e ordena preces públicas a Atená para aplacá-la. Despedida de Heitor e Andrômaca, uma das páginas mais emocionantes do poema.

VII — Continua a luta cruenta. Os Gregos são sempre vencidos. Encontro encarniçado entre Heitor e Ájax, sem vencedor, porque a noite interrompeu o combate. Trégua para sepultar os mortos.

 VIII — Assembléia dos imortais. Zeus proíbe os deuses de intervirem nos combates. Segunda grande batalha. Nova derrota dos Aqueus. Hera e Atená tentam socorrê-los, mas Zeus, percebendo-lhes a intenção, envia sua mensageira Íris para impedi-las e repreendê-las.

IX — Agamêmnon reúne os chefes aqueus para lhes propor o levantamento do cerco. Nestor julga que se procure aplacar a ira de Aquiles. O rei de Micenas concorda em restituir Briseida e oferece ricos presentes ao herói. Uma embaixada, formada por Fênix, Ájax e Ulisses, dirige-se à tenda do filho de Tétis e busca demovê-lo. Este não cede. -125-

X — É o episódio conhecido como Dolonia. Expedição noturna de Ulisses e Diomedes, que surpreendem o troiano Dólon. Matam-no depois de terem sabido dele o lugar exato onde acampava Reso, rei da Trácia, que viera em socorro dos Troianos. Matam Reso e roubam-lhe os cavalos.

XI — Terceira grande batalha, em que os Gregos novamente são vencidos, apesar dos feitos bélicos de Agamêmnon, que é ferido em combate. Nestor pede a Pátroclo que tente dobrar o ânimo de Aquiles ou que ele mesmo vista as armas do herói para aterrorizar os Troianos.

XII — Os Troianos atacam com êxito e chegam até o acampamento dos Aqueus.

 XIII — Em luta sangrenta, Heitor tenta chegar até os navios gregos.

XIV — É o dolo de Zeus, o Diòs apáte. Hera atrai amorosamente a Zeus para os altos do monte Ida, onde o pai dos deuses e dos homens em profunda modorra adormece nos braços quentes da esposa. Disso se aproveita Posídon para socorrer os Aqueus.

XV — Zeus desperta. Reverbera a astúcia feminina de Hera e declara que os Troianos serão os vencedores. Heitor penetra na praia, onde estão os navios gregos, e está prestes a incendiá-los. Ájax sozinho, heroicamente, consegue detê-lo.

XVI — É a Patroclia. Os Troianos conseguem afinal incendiar um navio grego. Aquiles, vendo as chamas que se levantam da nau grega, permite que seu maior amigo, Pátroclo, se revista de suas armas, mas apenas para afastar os comandados de Heitor das naus gregas. Feitos gloriosos e heróicos de Pátroclo, que, no entanto, tendo ultrapassado o métron, o "limite permissível", é morto por Heitor, que lhe arrebata as armas de Aquiles.

XVII — Combate sangrento em redor do corpo de Pátroclo. Apesar da vitória dos Troianos, Menelau consegue trazer-lhe o cadáver até os navios.

XVIII — A dor ingente de Aquiles. Tétis procura consolá-lo e, em seguida,

dirige-se às forjas de Hefesto, a fim de que este faça para o inconsolável filho de Peleu uma armadura completa. Descrição do escudo de Aquiles.

XIX — Após receber todas as satisfações de Agamêmnon e com sua timé recomposta, o filho de Tétis prepara-se para retornar ao combate. -126-

XX — Grande batalha, em que, com a anuência de Zeus, os deuses se misturam com os heróis. Hera, Atená, Posídon e Hefesto pelejam ao lado dos Gregos;

Ares, Apoio, Ártemis, Afrodite e o deus fluvial Xanto lutam pelos Troianos. Aquiles faz prodígios de co ragem, bravura e arrojo.

XXI — Aquiles, a partir daí, vai de vitória em vitória; limpa a planície de Troada, empurrando os inimigos até as muralhas de Ílion. O rio Escamandro, transbordante de guerreiros mortos por Aquiles, inunda a planície e ameaça submergir o herói e só é dominado pelo sopro ígneo de Hefesto.

XXII — Heitor aguarda Aquiles sob as muralhas de Tróia, maugrado as súplicas de Príamo. A vista do herói aqueu, Heitor foge. O Pelida o persegue três vezes em torno das muralhas de Tróia. Zeus pesa os destinos dos dois heróis: o troiano tem de morrer. Heitor é morto por Aquiles, que lhe arrasta o cadáver, coberto de pó e de sangue, até os navios. A dor e o horror se apoderam do velho Príamo, de Hécuba e de Andrômaca.

 XXIII — Vingado Pátroclo, o herói aqueu presta-lhe as últimas homenagens. Levanta-se uma gigantesca pira e as chamas devoram o cadáver de Pátroclo juntamente com mais doze jovens troianos, que Aquiles aprisionara e reservara para esta homenagem ao maior dos amigos. Jogos fúnebres em honra de Pátroclo.

XXIV — Aquiles arrasta três vezes o cadáver de Heitor à volta do túmulo de Pátroclo. Príamo vem pedir o corpo de Heitor. O herói aqueu se enternece com as palavras do velho rei de Tróia e devolve-lhe o cadáver do filho. Tréguas de doze dias. Funerais de Heitor, domador de cavalos. . .

A Odisséia nos leva a outras paragens. . .

Após dez anos da longa e sangrenta Guerra de Tróia, Ulisses, saudoso de Ítaca, de seu filho Telêmaco e de Penélope, sua esposa fidelíssima, suspira pelo regresso à pátria.

A Odisséia, Odýsseia, é, pois, o poema do regresso de Odysseús, o nosso Ulisses, e de seus sofrimentos em terra e no mar. -127-

Embora as personagens centrais estejam ligadas ao ciclo troiano, a temática do poema é bem outra. A Odisséia é o canto do nóstos, do regresso do esposo ao lar e da nostalgia da paz.

"Embora a ação seja mais concentrada, temos dois fios condutores em vez de um: as aventuras de Telêmaco e as de Ulisses, que só se reconhecem no canto XVI. Também há duas cóleras divinas a perseguir Ulisses".[16] Trata-se da ira de Posídon contra o herói, por lhe ter este cegado o filho, o Ciclope Polifemo, e a do deus Hélio, por lhe terem os companheiros de Ulisses devorado as vacas. A proposição do poema menciona a segunda e omite a primeira, se bem que esta apareça antes daquela na seqüência da narração.

Como a Ilíada, a Odisséia nos coloca in medias res: quando se inicia a narrativa, o esposo de Penélope, havia sete anos, era prisioneiro, na ilha de Ogígia, da paixão da Ninfa Calipso.

Logo após a proposição, o poema nos leva até o Olimpo e de lá à ilha de Ítaca.

Musa, fala-me do varão astuto, que, após haver destruído a cidadela sagrada de Tróia, viu as cidades de muitos povos e conheceu-lhes o espírito. No mar sofreu, em seu coração, aflições sem conta, no intento de salvar sua vida e conseguir o retorno dos companheiros. Mas, embora o desejasse, não os salvou: pereceram, os insensatos, por seu próprio desatino, eles que devoraram as vacas de Hélio Hiperíon, pelo que este não os deixou ver o dia do regresso. Conta-me, deusa, filha de Zeus, uma parte desses acontecimentos. (Od. I, 1-10)

I — Os deuses reunidos em assembléia no Olimpo, na ausência de Posídon, decidem que Ulisses regresse a Ítaca. Atená, disfarçada em Mentes, vai animar o jovem filho de Ulisses, Telêmaco, em sua luta contra os pretendentes à mão de Penélope e aconselha-o a partir em busca de notícias do pai.

II — O jovem príncipe convoca uma assembléia e solicita um navio para levá-lo a Pilos, corte de Nestor, e a Esparta, sede do reino de Menelau, a fim de buscar informações sobre o paradeiro de Ulisses. Disfarçada em Mentor, Atená promete ajudá-lo. -128-

III — Telêmaco chega a Pilos, mas nada consegue saber a respeito do pai. Nestor conta-lhe o fim trágico de Agamêmnon e aconselha-o a ir até Esparta, para o que lhe dá por companhia seu filho Pisístrato.

IV — Telêmaco e Pisístrato são recebidos por Menelau, que lhes fala do fim de Tróia e de seu tumultuado retorno a Esparta. Os pretendentes, em Ítaca, preparam uma emboscada contra Telêmaco.

V — Nova assembléia dos deuses, em que se estabelece a volta imediata de Ulisses a Ítaca. A pedido de Atená, Zeus envia Hermes à ilha de Ogígia com ordem a Calipso para deixar partir o herói. Este constrói uma jangada e faz-se ao mar. Posídon, que está vigilante, levanta uma tempestade e a jangada se despedaça. O herói consegue salvar-se e se recolhe nu à ilha dos Feaces, onde adormece.

VI — Atená aparece em sonho a Nausícaa, filha do rei dos Feaces, Alcínoo, para convencê-la a ir lavar suas roupas no rio. Depois de lavá-las, começa a jogar com suas companheiras. Ulisses, despertado pela algazarra, pede a Nausícaa que o ajude. Esta manda-lhe roupa e alimento e convida-o a ir até o palácio de seu pai, o rei Alcínoo.

VII — Ulisses apresenta-se como suplicante à rainha Arete, esposa de Alcínoo. Narra brevemente o que lhe aconteceu após sua partida da ilha de Calipso, mas não se dá a conhecer. Alcínoo concede-lhe a hospitalidade e promete mandar levá-lo a Ítaca.

VIII — Assembléia convocada para deliberar sobre os meios de reconduzir Ulisses à pátria. Grande banquete em honra do herói. Ao ouvir o aedo Demódoco cantar o seu passado glorioso, comove-se, o que leva Alcínoo a suspeitar de sua identidade. Jogos em sua honra: sai vencedor no lançamento do disco. Demódoco canta os amores de Ares e Afrodite e, depois, por solicitação de Ulisses, o estratagema do cavalo de Tróia. O herói se emociona. Alcínoo pede-lhe que conte suas aventuras.

IX — "Eu sou Ulisses". É assim que se inicia o flashback do poema. Narra sua passagem pelo país dos Cícones, dos Lotófagos e dos Ciclopes. O Ciclope Polifemo devora seis de seus companheiros. Ulisses o embebeda e, aproveitando-se de seu sono, vaza-lhe o único olho. Em seguida escapa com seus nautas por baixo das gordas ovelhas do monstro, que pede a seu pai Posídon que o vingue. Daí a perseguição implacável do deus do mar contra o herói. -129-

X — Continua a narrativa: na ilha de Éolo, de onde, por culpa de seus comandados, acaba sendo expulso como amaldiçoado dos deuses; no país dos Lestrigões, antropófagos, onde perde grande número de companheiros; na ilha de Eéia, a ilha da feiticeira Circe, que lhe transforma vinte e dois companheiros em porcos. Ulisses escapa aos sortilégios da "deusa" e obriga-a a restituir a forma humana a seus homens.

XI — A conselho de Circe, Ulisses vai ao país dos Cimérios, às bordas do Hades, para consultar a alma do adivinho cego Tirésias acerca de seu regresso a Ítaca. Ulisses não desceu à outra vida. Abriu um fosso e fez em torno do mesmo três libações a todos os mortos com mel, vinho e água, espalhando por cima farinha de cevada. Após evocar as almas dos mortos, degolou em cima do fosso duas vítimas pretas: um carneiro e uma ovelha, dádivas de Circe. "O negro sangue correu e logo as almas dos mortos, subindo do Hades, se ajuntaram". Pôde assim Ulisses conversar com sua mãe, Anticléia, com Tirésias, Aquiles e com vários outros heróis e heroínas.

XII — Ulisses retorna à ilha de Circe e, advertido por ela dos perigos que o ameaçam em seu trajeto, parte para novas aventuras. Vencida a "tentação" das Sereias, passa por Cila e Caribdes e atinge a ilha do deus Hélio Hiperíon. Contra a proibição do herói e quebrando seus próprios juramentos, os companheiros de Ulisses devoram as vacas do deus Hélio. A pedido deste, as naus gregas são fulminadas pelos raios de Zeus. Somente Ulisses escapa e chega sozinho à ilha da Ninfa Calipso.

XIII — Os marinheiros feaces deixam Ulisses adormecido em Ítaca. O navio que o levou é, ao retornar, petrificado por castigo de Posídon. Atená disfarça o herói em mendigo.

 XIV — Chega à cabana de seu fiel e humilde servidor, o porcariço Eumeu, que não o reconhece. É informado de como andam as coisas em Ítaca.

 XV — Retorno de Telêmaco. Atená lhe aparece em sonhos e indica-lhe o caminho a seguir para evitar a emboscada dos pretendentes.

XVI — Chegada de Telêmaco à cabana de Eumeu. Enquanto este vai prevenir Penélope do regresso do filho, Ulisses e Telêmaco se reconhecem e preparam o extermínio dos pretendentes. -130-

XVIII — Ulisses é obrigado a lutar com o mendigo Iro, para divertimento dos

pretendentes. Arrasta-o para fora do palácio, mas sofre, em seguida, novos ultrajes.

XIX — Ulisses, sempre desconhecido, conta a Penélope uma história que garante que o rei de Ítaca está prestes a retornar. Euricléia, a velha ama do herói, ao lavar-lhe os pés, reconhece-o por uma cicatriz na perna. Penélope, que tudo ignora, narra o ardil do véu sutil e imenso, mas anuncia seu plano para escolher um dos pretendentes.

XX — Banquete dos pretendentes. Instam com Penélope. Ulisses é insultado e maltratado.

 XXI — Penélope traz o arco de Ulisses e promete desposar aquele que

conseguir armá-lo e fazer passar a flecha pelos orifícios de doze machados em fila. Todos tentam, mas em vão. Graças à intervenção de Penélope e de Telêmaco, Ulisses consegue experimentar sua habilidade. Arma o arco sem dificuldade alguma e executa a tarefa imposta pela esposa. Terror dos pretendentes.

XXII — Ulisses depõe seus andrajos e se dá a conhecer. Com auxílio de Telêmaco, do porcariço Eumeu e do boieiro Filécio, os dois serviçais que lhe tinham ficado fiéis, massacra todos os pretendentes e maus servidores. Apenas são poupados o aedo e o arauto.

XXIII — Penélope, após longa hesitação, reconhece finalmente Ulisses, quando este provou conhecer o segredo da construção do leito conjugal.

 XXIV — Ulisses e seu pai Laerte se reencontram. As almas dos pretendentes são arrastadas por Hermes para o Hades. Revolta das famílias dos pretendentes. Laerte, Ulisses e Telêmaco lutam contra os parentes dos mortos. Atená, no entanto, intervém e restabelece a paz entre os dois partidos. -131-

Dada esta visão de conjunto, não é muito difícil caracterizar a cada um dos deuses antropomorfizados que agem nos poemas homéricos: deuses que amam, odeiam, protegem, perseguem, discutem, lutam, ferem e são feridos, aconselham, traem e mentem. . . Já se disse, com certa ironia, que em Homero há três classes de homens: povo, heróis e deuses. O que estaria bem próximo da verdade, se os deuses não fossem imortais.

É bom repetir que se os olhos do poeta estão voltados tão-somente para os grandes príncipes e heróis, é à imagem deles que o poeta concebe o mundo dos deuses. Claro está que a religião dos poemas homéricos não é original do cantor de Aquiles. As afirmativas do poeta e filósofo Xenófanes (século VI a.C.) e do historiador Heródoto (484-408 a.C.) de que os deuses são uma invenção de Homero e Hesíodo carecem inteiramente de fundamento. A religião homérica resulta de um vasto sincretismo e de influências várias, no tempo e no espaço.

De outro lado, se as histórias que o poeta atribui a esses deuses são antigas ou representam um compromisso entre o passado e o presente é um assunto, por enquanto, difícil de ser resolvido. Talvez "o compromisso" fosse mais lógico.

Seja como for, os deuses homéricos antropomorfizados, se bem que por vezes se nivelem até por baixo com os seres humanos, constituem um grande progresso para os séculos IX e VIII a.C. Tomando-se por base as epopéias homéricas, o que de saída se pode assegurar é que o poeta criou o "Estado dos deuses" subordinado à soberania de um deus maior, Zeus, já possuindo tanto aqueles quanto este algumas funções mais ou menos definidas. Zeus é o rei, os demais deuses são seus vassalos, eventualmente convocados para uma assembléia que se reúne numa utópica fortaleza real, o Olimpo. Os seus subordinados não raro são recalcitrantes, obstinados e procuram fazer prevalecer seus interesses pessoais, mas o pai dos deuses e dos homens os reduz à obediência com frases duras e ameaças terríveis, que, na realidade, quase nunca se cumprem.

"A concepção de um Estado divino sob o governo de Zeus foi tão profundamente gravada pela autoridade de Homero, que pôde atravessar incólume a transformação política que em época antiga eliminou a realeza, substituindo-a pela aristocracia ou pela -132- democracia: na terra vigorava a república, no céu, a monarquia".[17] A primeira grande característica dessas divindades "reais" é "serem luminosas e antropomórficas". Em vez de potências ctônias, assustadoras e terríveis, os deuses homéricos se apresentam inundados de luz (estamos numa religião tipicamente patriarcal), os quais agem e se comportam como seres humanos, superlativados nas qualidades e nos defeitos.

O teratomorfismo (concepção de um deus com forma animal) que, por vezes, aparece em Homero, certamente reminiscência de um antigo totem ou "influência oriental", parece residir apenas em alguns epítetos, sem que esse zoomorfismo tenha outras conseqüências práticas. Atená é denominada glaukôpis, de "olhos de coruja", que normalmente se traduz por "olhos garços" e é ainda a mesma deusa que aparece sob forma de pássaro, ave do mar, andorinha, águia marinha, e abutre; a deusa Hera é chamada boôpis, de "olhos de vaca", que se pode interpretar como "olhos grandes"; Apoio Esminteu é o "destruidor de ratos" e o mesmo deus se metamorfoseia em "abutre".

Mas nem todos os deuses homéricos revestiram-se das formas humanas: há os que permaneceram como forças da natureza. Na Ilíada, o deus-rio Escamandro ou Xanto participa da grande batalha do canto XX e, irritado com os inúmeros cadáveres lançados por Aquiles em suas correntes, o deus-rio transborda e ameaça no canto XXI submergir o herói. Foi necessário o sopro ígneo de Hefesto (luta da água contra o fogo) para fazê-lo voltar a seu leito. Para que a pira, que deveria consumir o corpo de Pátroclo, se inflamasse, foi preciso que Aquiles, no canto XXIII do mesmo poema, prometesse aos deuses-ventos Bóreas e Zéfiro ricas oferendas... Outros exemplos poderiam ser aduzidos, mas bastam estes para mostrar que nem todos os deuses homéricos se cobriram com a grandeza e com as misérias humanas.

Em geral, as divindades homéricas "distinguem-se por uma superlativação das qualidades humanas": são majestosos, brilhantes, muito altos e fortes. Possuem areté (excelência) e timé (honra), sem temor de ir além dos limites, como os heróis que não podem ultrapassar o métron, a "medida" de cada um.

Tendo princípio, mas não tendo fim, são imortais, mas não eternos. Ao que parece, a noção de eternidade só aparecerá bem depois na Grécia com Platão e Aristóteles. -133-

A todo instante estão imiscuídos, sobretudo na Ilíada, com os heróis: combatem, protegem, aconselham, mas suas teofanias, suas manifestações divinas, se fazem sob forma hierofânica, sob disfarce, e não epifânica, isto é, como realmente são. No canto XX, 131, diz taxativamente a deusa Hera, temendo que Aquiles, ao ver Apoio, se assuste: É difícil suportar a vista de deuses que se manifestam em plena luz.

Na Odisséia, embora os deuses sejam os mesmos, com as excelências e torpezas inerentes à sua concepção antropomórfica, tem-se a nítida impressão de que eles subiram alguns degraus em sua escala divina. Mantêm-se, com efeito, mais afastados dos homens e atuam mais à distância, sobretudo por meio de sonhos não enganadores, não mentirosos, como o "Sonho funesto" de Agamêmnon, enviado por Zeus no canto II da Ilíada, mas como aquele em que Atená manifesta realmente seu desejo a Nausícaa, no canto VI da Odisséia.

Mais ainda: a forma hierofânica na Odisséia está bem mais acentuada: Atená, sob a forma de Mentes no canto I ou de Mentor nos cantos II, III e em vários outros da Odisséia, torna-se realmente, no decorrer de todo o poema, a deusa tutelar, a bússola de Ulisses e Telêmaco. As assembléias dos deuses tornaram-se mais serenas e ordeiras. Talvez os deuses da Odisséia tenham envelhecido com o poeta: são mais calmos e tranqüilos. O grande ódio de Posídon e a ira de Hélio Hiperíon parecem terminar, com certa surpresa para o leitor, no canto XIII, tão logo o herói toca o solo pátrio.

A novidade maior da Odisséia, todavia, está no embrião da idéia de culpa e castigo, em que a hýbris, a violência, a insolência, a ultrapassagem do métron, que será a mola mestra da Tragédia, começa a despontar.

Na proposição do poema I, 6-9, se diz logo que "os insensatos companheiros de Ulisses pereceram por seu próprio desatino, porque devoraram as vacas do deus Hélio: este, por isso mesmo, não os deixou ver o dia do regresso".

Mais claro ainda é uma fala de Zeus, embora muito discutida, no canto I da Ilíada, 26-43, em que o pai dos deuses e o pai dos homens afirma que "os mortais culpam os deuses dos males que lhes sucedem, quando somente eles, os homens, por loucura própria e contra a vontade do destino, são os seus autores". Eis aí a ponta do véu da díke, da justiça, que se levanta. -134-

Feitas estas ligeiras observações acerca dos deuses homéricos, tomados em bloco, vamos observar agora cada um deles separadamente, mas sem perder de vista o conjunto de que cada um faz parte.

Zeus, sempre se começa por ele, é o deus indo-europeu, olímpico, patriarcal por excelência. Age ou deveria agir como árbitro, sobretudo na Ilíada, mas sua atuação é um pêndulo: oscila entre o estatuído pela Moîra, com a qual, por vezes, parece confundir-se, e suas preferências pessoais. Os Aqueus destruirão Tróia, ele o sabe, mas retarda quanto pode a ruína da cidadela de Príamo, porque prometera a Tétis "a vitória" dos Troianos, até que se dessem cabais satisfações à timé ofendida de Aquiles. Para cumprir seu desígnio é capaz de tudo: da mentira às ameaças mais contundentes. Na prova de força que dá no canto VIII, 11-27, quando proíbe os deuses de ajudarem no combate a Gregos e Troianos, ameaça lançar os recalcitrantes nas trevas eternas do Tártaro e afirma categoricamente que seu poder e força não maiores que a soma da força e do poder de todos os imortais reunidos! E desafia-os para uma competição. . . Todos se calam, porque perderam a voz, tal a violência do discurso de Zeus. Somente Atená, a filha do coração, após concordar com o poderio paterno e prestar-lhe total submissão (excelente psicóloga!), ousa pedir que os Aqueus ao menos não pereçam em massa. E Zeus sorriu e disse-lhe que fosse em paz, sem temor: com "a filha querida" ele desejava ser indulgente!

A personalidade de Zeus parece desenvolver-se em dois planos: como "preposto" da Moîra, na Ilíada, age como déspota; como chefe incontestável da família olímpica, busca quanto possível a conciliação.

Hera é a esposa rabugenta de Zeus. A deusa que nunca sorriu! Penetrando nos desígnios do marido, vive a fazer-lhe exigências e irrita-se profundamente quando não atendida com presteza. Para ela os fins sempre justificam os meios. Para atingi-los usa de todos os estratagemas a seu alcance: alia-se a outros deuses, bajula, ameaça, mente. Chegou mesmo a arquitetar uma comédia de amor, para poder fugir à severa proibição do esposo e ajudar os Aqueus.

Atraiu femininamente Zeus para os píncaros tranqüilos do monte Ida e lá, num ato de amor mais violento e quente que as batalhas que se travavam nas planícies de Tróia, prostrou o poderoso pai dos deuses e dos homens num sono profundo! É verdade que não -135- raro Zeus manifesta por ela um profundo desprezo e surgem então as ameaças e afirmativas de domínio masculino, o que mais acentua a fraqueza e a insegurança do grande deus olímpico, porque tais ameaças nunca se cumprem. Conhecedor profundo do rancor, da irritabilidade e da insolência da esposa, Zeus procura evitar, quanto possível, as cenas de insubordinação e a linguagem crua e desabrida da filha de Crono. Esquiva-se ou busca harmonizar as coisas, dando a falsa impressão de que o destino dos mortais depende mais do humor de Hera do que da onipotência do esposo. Em relação aos demais deuses e aos heróis, a deusa não tem meios-termos: ama ou odeia e na consecução destes dois sentimentos vai até o fim. Tem-se visto no comportamento de Hera, a deusa dos amores legítimos, sobretudo na influência exercida sobre Zeus, o reflexo da poderosa deusa da fecundidade (e ela realmente o foi em Creta), a cujo lado o esposo divino desempenharia um papel muito secundário: apenas o de deus masculino fecundador. A cena de amor no monte Ida simbolizaria tão-somente uma hierogamia, isto é, uma união, um casamento sagrado, visando à fertilidade.

Atená é o outro lado de Hera no coração de Zeus. Nascida sem mãe, das meninges do deus, é, já se mostrou, a filha querida, cujos desejos e rogos, mais cedo ou mais tarde, são sempre atendidos e cujas rebeldias sempre entristecem, "pois estas lhe são tanto mais penosas quanto mais querida é a filha". O canto VIII da Ilíada está aí para mostrar quanto Atená, a deusa da inteligência, é a preferida e a mimada pelo senhor do Olimpo.

Ares, ferido no canto V, 856-861, pela lança de Diomedes, guiada por Atena, sobe ensangüentado ao Olimpo e vitupera duramente a proteção de Zeus à filha de olhos garços:

Todos nós estamos revoltados contra ti. Geraste uma louca execrável, que só medita atrocidades. Todos os demais deuses que habitam o Olimpo te ouvem e cada um de nós te é submisso. A ela, todavia, jamais diriges uma palavra, um gesto de censura. Tu lhe soltas as rédeas, porque sozinho deste à luz esta filha destruidora. (Il. V, 875-880)

Apolo homérico é uma personagem divina em evolução. Ainda se está longe do deus da luz, do equilíbrio, do gnôthi s'autón, do conhece-te a ti mesmo, daquele que Platão denominou pátrios eksegetês, quer dizer, o exegeta nacional. O Apoio da Ilíada é um deus -136- mais caseiro, um deus de santuário, uma divindade provinciana. Preso à sua cidade, comporta-se como um deus tipicamente asiático: é o deus de Tróia e lá permanece. Raramente lhe ultrapassa os limites e é, por isso mesmo, pouco freqüentador do Olimpo.

A seus fiéis protege-os até o fim e, por isso mesmo, protesta com veemência na assembléia dos deuses contra os ultrajes de Aquiles ao cadáver de Heitor, seu favorito:

Sois cruéis e malfeitores, deuses. Porventura, Heitor não queimou nunca em vossa honra gordas coxas de boi ou cabras sem mancha? Agora, que nada mais é que um cadáver, não tendes coragem de protegê-lo, a fim de que possam ainda vê-lo sua mãe, seu filho, seu pai Príamo e seu povo. Eles já o teriam há muito tempo incinerado e há muito lhe teriam prestado as honras fúnebres! (Il. XXIV, 33-38)

Posídon é um deus amadurecido pelas lutas que travou, e sempre as perdeu, com seus irmãos imortais e com o próprio Zeus. O deus do mar, na Ilíada, tem como característica fundamental a prudência. Sempre que discorda, comunica-se primeiro com o irmão todo-poderoso e acata-lhe de imediato a decisão. Quando Hera planejou uma conjuração contra o esposo e convidou o deus do mar, este se irrita e responde-lhe que "Zeus é cem vezes mais forte do que todos os imortais". Mas, numa ausência prolongada do Olímpico, Posídon aproxima-se, observa e, vendo-se em segurança, admoesta e encoraja os Aqueus. Por fim, quando Hera adormece no Ida ao esposo, o deus entra diretamente na luta e se empenha tanto nos combates, que não percebe o despertar de Zeus. Foi necessário o envio de Íris para admoestá-lo. Posídon obedece in continenti e o Olímpico se felicita pela submissão do deus do tridente. Apesar de prudente e submisso a Zeus, é incrivelmente rancoroso com os mortais. Perseguiu Ulisses de modo implacável até a ilha de Ogígia, e se de lá o herói pôde partir, por decisão dos deuses, reunidos em assembléia, foi porque Posídon estava ausente, na Etiópia e daquela não participou. Curioso é que até a ilha dos Feaces Atená pouco fez para ajudar seu protegido, contentando-se em agir indiretamente junto a Zeus. A partir da corte de Alcínoo é que a "filha predileta" intervém diretamente e assegura a salvação de Ulisses. Há, segundo se crê, uma divisão de zonas de influência de cada um dos deuses: -137- um não interfere nos domínios do outro. A própria Atená, respondendo à reclamação de Ulisses de que fora por ela abandonado no vasto mar, afirma que não interveio antes para não entrar em litígio com o tio (Od. XIII, 341-343).

Tétis é uma poderosa deusa marinha. Sua residência é uma gruta submarina, mas com todas as prerrogativas devidas a uma imortal tão importante. Seu poder é tão grande junto a Zeus, que, para vingar a timé de Aquiles, os Aqueus serão derrotados até o canto XVII da Ilíada! Mãe acima de tudo, procurou evitar por todos os meios que o filho participasse da Guerra de Tróia, porque lhe conhecia o destino. Com a morte de Pátroclo, após tentar maternalmente consolar o inconsolável Aquiles, dirige-se à forja divina de Hefesto e de sua esposa Cáris. Com que dignidade e humildade, aos pés do deus, segurando-lhe os joelhos, pede, a quem tanto lhe deve, que fabrique novas armas para o Pelida (Il XVIII, 429-461). Talvez Tétis seja a mais humana das figuras divinas de Homero.

Hefesto é o deus coxo. Por tentar socorrer sua mãe Hera, que brigava com Zeus, foi por este lançado do Olimpo no espaço vazio. O deus caiu na ilha de Lemnos e ficou aleijado. Foi Tétis quem o recolheu e levou para sua gruta submarina. Hefesto sofre as limitações de seu próprio físico e serve comumente de alvo de chacota para seus irmãos imortais. Já o vimos, em meio às gargalhadas de seus pares, claudicando atarefado pelos salões do Olimpo. Infeliz no casamento com Afrodite, que o traía com Ares, soube vingar-se dos adúlteros, estendendo uma rede invisível em torno de seu próprio leito e apanhando de surpresa o casal.

Os deuses, convidados a contemplar a cena, comemoram a artimanha do marido traído com seu eterno sorriso inextinguível. Sumamente elucidativa, porém, é a explicação dada por Hefesto para a infidelidade de Afrodite: Pai Zeus e todos os demais bem-aventurados deuses sempiternos! Vinde contemplar uma cena ridícula e intolerável. Afrodite, filha de Zeus, por ser eu coxo, me desonra continuamente e prefere o pernicioso Ares, que é belo e tem membros sãos. Eu, porém, sou aleijado. A culpa, todavia, não é minha, mas de meus pais, que nunca me deveriam ter gerado. (Od. VIII, 306-312)

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Aí está o grande problema pessoal de Hefesto, que procura compensar sua deficiência física e infelicidade conjugal com excessiva serventia. É o mais prestativo e humilde dos Olímpicos, ao menos em Homero.

Ares é o menos estimado dos deuses: pelos homens e pelos imortais. De deus da guerra, o amante de Afrodite torna-se nos poemas homéricos uma personagem de comédia. Falta-lhe ainda muito para ser o flagelo dos homens.

Se na Odisséia fez o papel ridículo de sedutor punido, na Ilíada, após ser ferido por Diomedes, corre ao Olimpo, segundo se mostrou, para queixar-se a Zeus, de quem recebe ironias e insultos.

Não me venhas, ó pateta, gemer a meus pês! És o mais odioso de todos os imortais que habitam o Olimpo. Teu único prazer são a rixa, a guerra, os combates. Herdaste a violência intolerável e a insensibilidade de tua mãe, Desta Hera que, a custo, consigo dominar com palavras. (Il. V, 889-893)

Até mesmo Atená o derruba e zomba do deus da guerra!

Afrodite é o amor. Apenas amor. Seu protegido é Paris. Para ele quer Helena sempre pronta e de braços abertos para recebê-lo, mesmo quando o poltrão, que não resistiu ao primeiro ataque de Menelau, no combate singular do canto III da Ilíada, é envolto numa nuvem e transportado para "o quarto perfumado" de Helena. . . A esposa de Menelau mostra muito mais dignidade que a deusa e seu protegido. Convidada por Afrodite a dirigir-se ao "quarto perfumado" onde o "herói" repousa e a espera, Helena a princípio se recusa e aconselha a deusa do amor a ir deitar-se com ele. . . Só mediante ameaças, sobretudo a de deixá-la entregue à própria sorte e à morte certa, é que a rainha de Esparta, embora com repugnância, foi para junto do amante, a quem não poupou injúrias e escárnios (Il. III, 383-436).

Ingloriamente ferida no canto V por Diomedes, que a denomina "uma deusa sem forças", sai dando gritos e deixa seu filho Enéias, que recebera uma pedrada do mesmo Diomedes, cair de seus braços.. . Na carruagem de Ares dirige-se gemendo para o Olimpo, onde Hera e Atená mordazmente inventam para Zeus uma história deveras hilariante. Atená diz ao pai que Afrodite deve ter passado -139- a cortejar os Aqueus e, acariciando um deles, rasgou a mão delicada em algum grampo de ouro. . . Riu-se muito o pai dos deuses e dos homens. Chamou

Afrodite e deu-lhe um conselho salutar:

Não foste feita, minha filha, para os trabalhos da guerra: consagra-te somente aos doces trabalhos do himeneu... (Il. V, 428-429)

Aí estão sumariamente retratados por Homero os principais deuses da Ilíada e da Odisséia. Tragédia e comédia se entrelaçam: até nisto Homero é gênio. A ação e a reação dos deuses homéricos, sua conduta enfim, têm levado alguns a afirmar que a Ilíada é o mais irreligioso dos poemas.[18] Vai nisto um exagero. É preciso estabelecer em Homero uma dicotomia entre ética e religião. E na Ilíada ambas estão inteiramente desvinculadas. Dentro dos padrões da época, o poema de Aquiles é o primeiro grande esboço da religião helênica. De outro lado, é necessário levar em conta que os poetas, e Homero é o maior deles, são cantores, são "poetas" e não reformadores religiosos!

O estudo da escatologia (destino definitivo do indivíduo), que se encontra nos poemas homéricos, oferece dificuldades mais ou menos sérias. É que o poeta usa uma terminologia não muito precisa e, não raro, cambiante. Vamos, assim, primeiro fazer um levantamento dos termos, observando a maior incidência dos mesmos no seu respectivo campo semântico, depois se procurará estabelecer a doutrina, explicitando antes, se não o apego, ao menos a dignidade que os heróis atribuíam a esta vida.

Mas, tanto os termos quanto a doutrina terão por limite a Homero, pois que, um pouco mais tarde, ambos sofrerão alterações profundas. De início, vamos nos defrontar com moîra ou aîsa, a grande condicionadora da vida. A palavra grega moîra provém do verbo meíresthai, obter ou ter em partilha, obter por sorte,

repartir, donde Moîra é parte, lote, quinhão, aquilo que a cada um coube por sorte, o destino. Associada a Moîra tem-se, como seu sinônimo, nos poemas homéricos, a voz árcado-cipriota, um dos dialetos usados pelo poeta, Aîsa. Note-se logo o gênero feminino de ambos os -140- termos, o que remete à idéia de fiar, ocupação própria da mulher: o destino simbolicamente é "fiado" para cada um. De outro lado, Moîra e Aîsa aparecem no singular e só uma vez na Ilíada, XXIV, 49, a primeira surge no plural. O destino jamais foi personificado e, em conseqüência, Moîra e Aîsa não foram antropomorfizadas: pairam soberanas acima dos deuses e dos homens, sem terem sido elevadas à categoria de divindades distintas. A Moîra, o destino, em tese, é fixo, imutável, não podendo ser alterado nem pelos próprios deuses. Há, no entanto, os que fazem sérias restrições a esta afirmação e caem no extremo oposto: "Aos olhos de Homero, Moîra confunde-se com a vontade dos deuses, sobretudo de Zeus[19]. É bem verdade que em alguns passos dos poemas homéricos parece existir realmente uma interdependência, uma identificação da Moîra com Zeus, como nesta fala de Licáon a Aquiles:

E a Moira fatídica, mais uma vez, me colocou em tuas mãos: parece que sou odiado por Zeus pai, que novamente me entregou a ti. (Il. XXI, 82-83)

Zeus e Moiira nestes versos representam, sem dúvida, para o troiano Licáon  o mesmo flagelo que o entregou nas mãos sanguinárias de Aquiles.

Em outra passagem Zeus dá a impressão de que, se quisesse, poderia modificar a Moîra. Ao ver que seu filho Sarpédon corria grande perigo no combate e estava prestes a ser morto por Pátroclo, o Olímpico pergunta a Hera se não seria mais prudente retirá-lo da refrega. A deusa responde-lhe indignada em nome da Moîra:

Crônida terrível, que palavras disseste? Um homem mortal, há muito tempo marcado pela Aîsa e queres livrá-lo da morte nefasta? Podes fazê-lo, mas nós, os outros deuses todos, não te aprovamos. (Il. XVI, 440-443)

A inalterabilidade da Moîra, porém, está bem clara nestas palavras de Hera a respeito do destino de Aquiles: -141-

Todos nós descemos do Olimpo para participar desta batalha, a fim de que nada aconteça a Aquiles por parte dos Troianos, hoje, ao menos: mais tarde, todavia, ele deverá sofrer tudo quanto AÎSA fiou para ele, desde o dia em que sua mãe o deu à luz. (Il. XX, 125-128)

Os exemplos poderiam multiplicar-se tanto em defesa da identidade de Zeus com a Moîra quanto, e eles são em número muitíssimo mais elevado, da total independência de Aîsa face a todos os imortais.

O que se pode concluir, salvo engano, é que, por vezes, Zeus se transforma em executor das decisões da Moîra, parecendo confundir-se com a mesma.

Ainda como fator externo que, por vontade de Zeus, atua sobre o homem e lhe transtorna o juízo, encontramos em Homero a palavra Áte, que se poderia traduzir por cegueira da razão, "desvario involuntário", de cujas conseqüências o herói depois se arrepende. O texto mais citado e que mereceu um excelente comentário de R.E. Dodds é a fala de Agamêmnon no canto XIX da Ilíada, em que o herói procura se desculpar, culpando Áte, das ofensas feitas a Aquiles na assembléia do canto I, 172sqq:

— É ao filho de Peleu que desejo expressar o que penso. Examinai-o bem, Argivos, e procurai compreender a minha intenção. Muitas vezes os Aqueus me falaram a esse respeito e me censuraram. Eu não sou culpado, mas Zeus, a Moîra e a Erínia que caminha na sombra, quando na assembléia repentinamente me lançaram no espírito uma ÁTE louca, naquele dia em que eu próprio arrebatei o presente de honra de Aquiles. (Il. XIX, 83-89)

 Em contraste com os dois conceitos anteriores, mas que concorrem para elucidar também o porquê da importância atribuída pelo herói a "esta vida", estão a areté e sua natural dedução, a timé.

Agathós em grego significa bom, notável, "hábil para qualquer fim superior"; o superlativo de agathós é áristos, o mais notável, -142- o mais valente e o verbo daí formado é aristeúein, "comportar-se como o primeiro". Pois bem, areté pertence à mesma família etimológica de áristos e aristeúein e significa, por conseguinte, a "excelência", a "superioridade", que se revelam particularmente no campo de batalha e nas assembléias, através da arte da palavra. A areté, no entanto, é uma outorga de Zeus: é diminuída, quando se cai na escravatura, ou é severamente castigada, quando o herói comete uma hýbris, uma violência, um excesso, ultrapassando sua medida, o métron, e desejando igualar-se aos deuses. Uma coisa é o mundo dos homens, outra, o mundo dos deuses, são palavras de Apoio ao fogoso Diomedes (Il. V, 440-442).

Conseqüência lógica da areté é a timé, a honra que se presta ao valor do herói, e que se constitui na mais alta compensação do guerreiro. Aquiles se afasta do combate no canto I exatamente porque Agamêmnon o despojou do público reconhecimento de sua superioridade, tomando-lhe Briseida. Tétis implora a Zeus que a timé de Aquiles lhe seja restituída (Il. I, 503-510).

Neste sentido, como afirma P. Mazon, a Ilíada é "o primeiro ensaio de uma moral de honra". Apesar das palavras terríveis de Zeus acerca do ser humano:

Nada mais desgraçado que o homem entre todos os seres que respiram e se movem sobre a terra. (Il. XVII, 446-447)

os gregos homéricos, sabedores de que o além que se lhes propunha eram as trevas e o nada, fizeram desta vida miserável a sua vida, buscando prolongá-la através da glória que a seguiria. "O amor à vida torna-se, por isso mesmo, o princípio e a razão do heroísmo: aprende-se a colocar a vida num plano muito alto para sacrificá-la à glória, que há de perpetuá-la. Aquiles é a imagem de uma humanidade condenada à morte e que apressa esta morte para engrandecer sua vida no presente e perpetuar-lhe a memória no futuro".[20]

Depois de discutirmos a noção e a ação da Moîra, de Áte e a dignidade da areté e da timé, vamos, finalmente, seguir com o herói para a outra vida.

Teremos, novamente, que nos defrontar com uma terminologia assaz complicada. Tomaremos, por isso, por guia as obras formidáveis de Dodds[21] e Snell[22]. -143-

A primeira peculiaridade na conceituação do homem nos poemas homéricos, consoante Dodds, é a carência de uma concepção unitária da personalidade. Falta a noção de vontade e, por isso, não existe obviamente livre-arbítrio, uma vez que este se origina daquela. Não se encontra ainda em

Homero a distinção entre psíquico e somático, mas uma interpenetração de ambos e, assim, "qualquer função intelectual é considerada um órgão". Daí decorrem certos vocábulos que "tentam" explicar as ações e reações do ser humano e sobretudo seu destino após a morte. O primeiro deles é thymós que designa o instinto, o apetite, o alento e poderia ser definido "grosseira e genericamente", consoante Dodds, como o "órgão do sentir" (feeling). Goza de uma independência que a palavra "órgão" não nos pode sugerir, "já que estamos habituados ao conceito de organismo e unidade orgânica". O thymós pode levar o herói tanto à prática de façanhas gloriosas quanto a atos muito simples, como os de comer e beber. O guerreiro pode conversar com seu thymós, com "seu coração", com "seu ventre": tudo isto é thymós. Em síntese, para o homem homérico o thymós não é sentido como uma parte do "self": trata-se de uma espécie de voz interna independente.

Já o vocábulo nóos é mais preciso: designa o espírito, o entendimento.

Quando Circe transformou em porcos os companheiros de Ulisses, eles, não obstante, conservaram o seu nóos:

Eles verdadeiramente tinham as cabeças, a voz, corpo e pêlos de porcos, mas conservavam como antes o "espírito" (NÓOS) perfeito. (Od. X, 239-240)

Muito vizinho do campo semântico de nóos está o termo phrén, mais comumente no plural, phrénes, que se pode traduzir, ao menos as mais das vezes, por entendimento.

Psykhé, psiqué, que se perpetuou universalmente com o sentido de alma nas línguas cultas e em tantos compostos, provém do verbo psýkhein, soprar, respirar, donde psiqué, do ponto de vista etimológico, significa respiração, sopro vital, vida. Fato curioso é o que observa Dodds: "É sabido que Homero parece atribuir uma psykhé ao homem somente após sua morte ou quando está sendo ameaçado de morte, ou ao morrer ou ainda quando desmaia. A única função da psykhé mencionada em relação ao homem vivo é a de abandoná-lo".[23] -144-

É o caso entre muitos outros de Sarpédon, em que a psykhé o abandona sob a violência do golpe[24] ou como Andrômaca que exala sua psykhé, que "desmaia", ao ver o cadáver de Heitor.[25] Mas, em ambos os casos, a psique retorna através das vias respiratórias.

Quando sobrevém a morte, a psiqué então se afasta em definitivo, como na morte de Pátroclo: Ele diz: a morte que tudo termina o envolve.

A psiqué deixa-lhe os membros e sai voando para o Hades, lamentando seu destino, ao deixar o vigor da juventude. (Il. XVI, 855-857)

Com a morte do corpo, a psiqué torna-se um eídolon, uma imagem, um simulacro que reproduz, "como um corpo astral", um corpo insubstancial, os traços exatos do falecido em seus derradeiros momentos. Eis aí o eídolon de Pátroclo, que aparece em sonhos a Aquiles:

E eis que aparece a psiqué do infortunado Pátroclo, em tudo semelhante a ele: pela estatura, pelos belos olhos, pela voz; o corpo está coberto com a mesma indumentária. (Il. XXIII, 65-67)

E o eídolon do herói pede a Aquiles que lhe sepulte o corpo, ou melhor, "as cinzas", sem o que não poderá sua psique penetrar no Hades:

Sepulta-me o mais rapidamente possível, para que eu cruze as portas do Hades. (II. XXIII, 71)

Mas, quando as chamas lhe consumirem o cadáver, sua psiqué jamais sairá lá debaixo. A reencarnação na Grécia viria bem mais tarde:

Jamais sairei do Hades, quando as chamas me consumirem. (Il. XXIII, 75-76)

Aquilestenta abraçá-lo, mas o eídolon do amigo esvai-se como vapor e, com um pequeno grito, baixa ao Hades:

Ah! Sem dúvida existe nas mansões do Hades uma Psykhé, um EÍDOLON, que não tem, contudo, PHRÉN algum. (Il. XXIII, 103-104)

-145-

Quer dizer, no Hades, a psiqué, o eídolon, é uma sombra, uma imagem pálida e inconsistente, abúlica, destituída de entendimento, sem prêmio nem castigo. É que com o corpo morreram o thymós e o phrén.

Essa sombra abúlica e apática pode, no entanto, recuperar por instantes a razão, mediante aquele complicado ritual que se descreveu na síntese do canto XI da Odisséia. Neste mesmo canto, o eídolon de Aquiles, tendo recuperado "o entendimento", pôde dialogar com Ulisses e transmitir-lhe uma opinião melancólica acerca da outra vida: o grande herói preferia ser agricultor na terra, que era uma das mais humildes funções, a ser rei no Hades. Aqui está o diálogo entre Ulisses e Aquiles:

Mas tu, Aquiles, és o mais feliz dos homens do passado e do futuro, pois, enquanto vivias, nós, os Argivos, te honrávamos como aos deuses, e agora, estando aqui, tens pleno poder sobre os mortos; desse modo não deves te afligir por ter morrido. Assim disse e ele prontamente me respondeu: Ilustre Ulisses, não tentes consolar-me a respeito da morte! Eu preferia cultivar os campos a serviço de outro, de um homem pobre e de poucos recursos, a dominar sobre todos os mortos. (Od. XI, 482-491)

É assim que se nos apresenta a religião homérica. Embora encurralado pela Moîra e ameaçado constantemente por Áte, o herói, nesta vida, de que ele fez a sua vida, tem a dignidade de defender, quanto lhe é possível, a sua timé. Carente de uma concepção unitária de personalidade, com o thymós, o phrén e o nóos morrendo com o corpo, que lhe sobra para a outra vida? Apenas a psykhé, uma sombra pálida e inconsciente, um eídolon trôpego e abúlico.

Ignorando as noções de dever, de consciência, de mérito ou de falta, a outra vida ignora, ipso facto, prêmio ou punição para o homem. Aliás, como julgar, punir ou premiar um eídolon)

Quando se levantar a cortina negra da Idade Média grega que, durante três séculos, nos ocultou em parte, a face da Hélade, não mais estaremos com Homero na Ásia Menor, mas com Hesíodo na Grécia Continental. O poeta da Beócia será o assunto do próximo capítulo. -146-

 

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Caim e Abel

Adão e Eva, expulsos do Paraíso, descobriram muitas coisas novas desde que transpuseram, para sempre, as portas do ameno Jardim do Éden. A primeira delas foi que o ar se tornara súbita e desagradavelmente frio. Por isso trataram logo de vestir as roupas que seu Pai previdente lhes dera antes de sua partida. - Vista logo a sua pele, Adão - disse sua esposa Eva, quase obrígando-o a proteger-se do vento cortante que soprava livremente. Mas o Homem primordial estava, na verdade, triste demais para perceber alguma coisa. Tudo o que importava, dizia ele a todo instante, é que havia lançado fora, com a mesma inconsideração de uma criança, o afeto de seu divino Pai, além de um mundo perfeito, de onde estavam ausentes toda dor e sofrimento. Eva, contudo, parecia mais conformada. Seus olhos curiosos perscrutavam tudo quase alegremente, pois. imersa ainda na ignorância da extensão dos males que desencadeara sobre a Terra com a sua desobediência, parecia que as coisas haviam mudado muito pouco em seu novo lar-  na verdade, quase idêntico ao antigo.

Um põr-do-sol maravilhoso manchava o horizonte de um festival de cores, que seriam alegres não fosse o estado de espírito que ambos traziam.

- Não fique triste, meu amor -  disse ela, alisando as costas de Adão em um fago suave. – Nãos sei porquê, mas tenho a sensação de que nosso Pai não nos abandonou, afinal, e que segue diligentemente os nossos passos.

Adão, entretanto, parecia pouco convicto disso:

- Somos réprobos - disse, num murmúrio desanimado. - Logo o Éden estará povoado de criaturas mais dignas que nós.

Sua cabeça curvou-se ainda mais.

- Sim, logo ele terá nos esquecido totalmente e a morte nos chegará sem que Ele se digne a nos lançar um simples olhar de piedade!

- Adão! - disse sua esposa. - Agora sim está agindo como uma criança! Lembre- se de que Ele prometeu a reconciliação à nossa descendência.

- A eles, talvez - retrucou Adão, acabrunhado. - Mas nós, com toda certeza, jamais estaremos de volta à sua companhia, pois nosso destino é a morte.

- Não seja tão sombrio! Se agirmos corretamente a partir de agora, quem sabe não seremos chamados um dia, também, a partilhar dessa divina reconciliação?

- Estaremos mortos nesse dia.

- Que seja. Mas se nosso Pai teve um dia o poder de nos tirar do nada para a vida, por que não teria o poder de nos devolver a essa mesma vida? Não subestime os dons Dele, nem a Sua infinita misericórdia!

Adão silenciou, e assim continuaram os dois a caminhar vagarosamente e sem destino certo.

- Este outro pedaço do mundo parece ser infinitamente maior do que aquele  pequeno jardim que habitávamos  - disse Eva, procurando dar um outro rumo à conversa. -  Temos um mundo inteiro a desbravar!

Os dois, tendo subido ao alto de uma pequena montanha, sentaram-se numa saliência e ficaram observando, longo tempo, o sol morrer no horizonte, até que Adão tocou no ombro de Eva e disse, num tom um pouco mais animado:

- Vamos procurar um abrigo para passarmos a noite.
Eva sorriu ao descobrir que tinha, outra vez, um verdadeiro homem ao seu lado. Depois de vasculhar pelas proximidades – pois as trevas desciam rapidamente.

Encontraram, afinal, uma pequena gruta, onde foram alojar-se.
- É meio apertada, mas por hoje não há meios de encontrarmos outra melhor - disse Adão. Mas nem todos os dias de suas longas vidas seriam tão suaves quanto foi esse começo quase idílico de exílio. Já na manhã seguinte ambos tiveram uma primeira amostra das terríveis diferenças que havia entre o novo mundo que deviam desbravar e o paraíso para sempre perdido do qual tinham sido expulsos.

Logo depois de descerem de volta para a planície, Eva teve sua atenção atraída por um ruído que não lhe era nada estranho.

- Venha, Adão – disse ela, tomando o esposo pela mão. -  Acho que há um leão logo atrás daqueles arbustos!

Habituados à mansidão dos animais do Éden, ambos rumaram apressadamente para o local. Entretanto, logo ao romperem a moita depararam-se com uma visão de pesadelo: um leão, de fato, ali estava, agachado sobre algo. Porém, tão logo percebeu a presença do casal, encarou-os com um olhar tão feroz que Eva quase desfaleceu.

- Sua boca... está toda manchada de sangue! - disse ela, e no mesmo instante lembrou-se do aspecto que Adão apresentara ao provar do fruto maldito, com a boca toda lambuzada do sumo vermelho.

Somente então perceberam aquilo que o leão tentava esconder sob as suas poderosas patas.

- Meu Deus...é uma ovelha! - disse Adão, horrorizado.

Sim, era uma ovelha, ainda a debater-se num último e desesperado espasmo para tentar se livrar das garras implacáveis de seu agressor.

O homem fez um movimento na direção da fera para tentar evitar que a morte se consumasse, mas foi impedido por um grito de sua mulher:

- Não, não faça isso!

E o fez em boa hora, pois o predador, pondo-se em pé, num salto, pareceu disposto a liquidar com toda e qualquer coisa que tentasse impedi-lo de se fartar com a caça.

Adão e Eva afastaram-se levando o horror na alma, enquanto o leão, reclinado novamente sobre a ovelha, pressionava ainda mais as suas presas sobre o pescoço do animalzinho, sufocando-o lentamente.

- O mais forte, doravante, a massacrar o mais fraco! -  disse Adão, como rosto coberto pelas mãos.

Eva, sentada numa pedra, também deixou que as lágrimas corressem livremente pelo rosto, até que uma folha caiu sobre o seu cabelo, deslizando até o seu regaço. Num gesto mecânico, ela a apanhou delicadamente, apenas para vê-la esfarelar-se entre os seus dedos E então outras – muitas outras! – começaram a descer sobre si como uma lenta e persistente chuva da morte.

Os dois, abraçados, observaram aquele espetáculo deprimente, sem conseguir mover os pés do lugar, até verem-se rodeados por um tapete dourado de folhas secas e completamente mortas. O outono estava chegando e tudo na natureza parecia tornar- se sombrio, como que num prenúncio de morte. Os animais, tomados por um furor assassino, tratavam de prover-se, a qualquer custo, para os tempos difíceis que se anunciavam. Para toda a parte onde voltavam seus olhos, Adão e Eva viam cenas de ininterrupto morticínio – na terra, no céu e nas águas –, de tal sorte que Adão chegou a convencer-se de que eles próprios não estavam a salvo de se converterem, também, em presas de algum outro animal. Tendo sido retirado de todas as criaturas o privilégio da isenção da morte, a natureza parecia bradar através do vento cortante: "Nada mais de favoritos em meu reino!". O mundo passara a ser uma guerra aberta, onde ao fraco e ao imprudente estava reservada a pior parte. Tomando de um pedaço de madeira, Adão começou a desbastá-lo desesperadamente com uma pedra.

- O que está fazendo? – perguntou Eva.

- Precisamos nos defender – disse ele, arfando, na ânsia de ter logo nas mãos algo afiado que pudesse ajudá-los a se defender.

Entregue desesperadamente ao seu ofício, sentiu que algo lhe escorria pela fronte, descendo do alto da testa. Levando a mão às faces, recolheu delas uma linfa incolor e pegajosa:

- O que é isto? – disse parasita mesmo.
- Suor – respondeu Eva, cabisbaixa, esfregando o líquido entre os dedos. Adão nada mais disse – pois lembrara-se imediatamente da maldição que o Senhor lançará no dia da expulsão – E recomeçou a trabalhar arduamente. O primeiro homem sabia que desde aquele instante nada mais conseguiria obter deste mundo sem verter, em troca, grandes quantidades daquela linfa amaldiçoada.

Foi um tempo difícil aquele. Adão e Eva, submetidos à dura privação do primeiro inverno sobre a face da Terra, julgaram que dali para a frente o mundo seria sempre daquele jeito, sombrio e sem vida.

- A morte chegou também à natureza – dizia Adão, quase todos os dias, pois rara era a ocasião em que não era surpreendido pelos sinais inequívocos daquela.

Entretanto, Deus, apesar de parecer ausente todo este tempo, havia preparado algumas surpresas verdadeiramente reconfortantes, que davam ao casal original a ideia de que nem tudo estava inteiramente perdido.

- Veja, Eva, a neve começa a derreter! - disse Adão, um belo dia. à sua esposa. A mulher comeu a ver aquilo que parecia ser um verdadeiro renascimento.
De fato, um aquecimento gradual da atmosfera começara a trazer de volta à tona os sinais de um renascer de toda a natureza. Flores brotavam debaixo do solo úmido em uma profusão milagrosa, enquanto nos céus os pássaros retornavam em verdadeiras legiões, em uma alacridade ensurdecedora.

Adão e Eva observavam o dia todo os efeitos desse esplendoroso desabrochar, em especial o comportamento dos animais, que pareciam dominados por um intenso desejo de coabitarem com seus pares.

- A vida renasce, Adão querido! - disse Eva, abraçada a ele, sem perceber que ambos também estavam sob a mesma influência.

A partir daquele dia tiveram muito pouco tempo para admirar fosse o que fosse, entregues sempre a um furor sensual que os fazia esquecer de tudo o mais.

E foi sob esse estado de extrema excitação - que, em alguns momentos, lhes parecia sublime, para logo depois lhes parecer uma perfeita abominação, fruto equívoco do seu pecado – que Eva concebeu o seu primeiro filho. Tendo observado repetidas vezes os animais pejados pelos campos, não foi difícil à futura mãe associar o seu estado ao deles. “Deverei, então, tal como estes brutos, ver romperem-se minhas entranhas, em um dilúvio de sangue, para lançar ao mundo um novo ser?”, pensava, em uma angústia que crescia junto com o seu ventre, monstruosamente disforme.

Então, nove meses depois da concepção, em uma noite tempestuosa, Eva viu chegada a hora de cumprir a sua parte na maldição divina. Enquanto a chuva desabava fora da gruta, acompanhada de violentos trovões, Eva tornou-se presa de incríveis e inenarráveis tormentos, que a obrigaram a misturar os seus gritos estertorantes ao rugido selvagem dos ventos que a tempestade desencadeara.

- Oh, Senhor! Livrai-me desta aflição! - disse ela, quando, exausta já do seu martírio, elevou aos céus o seu pedido.

Como por milagre. Eva viu cessarem seus tormentos com a expulsão de dentro do seu ventre daquilo que tão terrivelmente a oprimia.

- Procriei – o com  ajuda do Senhor! – disse ela, reclinando a cabeça para o lado.

Adão, atento a tudo, aparou o novo ser em seus musculosos braços. Em um misto de nojo e estupefação, ficou alguns segundos sem saber o que faria daquele ser, tão diferente dele próprio, que só sabia gritar alucinadamente.

“Santo Deus! Então será sob esta forma miseravelmente fraca que todo homem deverá ingressar neste mundo?", pensou ele, atônito.

Eva, contudo, recebeu o filho com indizível emoção, estreitando-o imediatamente nos braços – o que, como num passe de mágica, teve o efeito de fazer com que a criança diminuísse o choro até aquietar-se completamente, de maneira tão repentina que Adão chegou mesmo a temer por sua frágil vida.

Mas o pequeno ser vingou plenamente, pois era um bebê robusto, cujos cabelos vermelhos denunciavam uma constituição sanguínea e viril. Foi chamado de Caim – pois esta palavra semítica tem os entido de "procriar" – e seu nascimento precedeu em menos de um ano ao de outra criança, de constituição mais delicada, que se chamou Abel.

Durante muito tempo a única distração dos raros momentos de folga de Adão foi observar o rápido crescimento dos seus filhos. Ao mesmo tempo em que ficava encantado, acompanhando as travessuras daquelas duas parodiazinhas infinitamente ternas e engraçadas dele mesmo, também escandalizava-se com a terrível contradição de vê-las expostas, frágeis daquele jeito, a um mundo tão selvagem e ameaçador. Quantas vezes, por exemplo, não vira nos indefesos filhotes dos animais, estraçalhados brutalmente pelas gamas de predadores, a imagem aterrorizante de seus próprios filhos!

- Eva, tudo isso é profundamente desolador! - dizia ele, nos momentos em que expunha à esposa o seu desânimo, pois sabia que a segurança dela e daqueles dois seres indefesos repousava exclusivamente sobre a sua firmeza de alma.

Durante um breve tempo a pequena família sobreviveu da cultura de alguns poucos legumes, arrancados a duras penas da terra insubmissa, até que Adão se viu obrigado a tomar a mulher e os filhos e partir em dura peregrinação, em busca de campos novos e férteis. Depois de colocar os três dentro de uma espécie rudimentar de carroça, Adão partiu com eles, em uma manhã bem cedo, para desbravar aquele mundo vasto e desabitado. Durante todo o longo trajeto, que percorreu às cegas, fez questão de ele próprio conduzir o desajeitado veiculo.

- Por que teima em esfalfar-se á frente desta coisa? – dizia Eva ao marido, o qual, preso em uma espécie de arreio improvisado, se fazia de surdo, apressando ainda mais o passo pelos campos repletos de pedras e de cardos.

Eva queria que Adão domesticasse um animal de tração qualquer para realizar a penosa tarefa, mas ele, surdo aos argumentos, recusava-se terminantemente a fazê-lo. Convicto de que não tinha o direito de estender às outras criaturas uma pena que era exclusivamente sua, Adão recusou-se soturnamente – não só daquela vez, mas até o fim da sua longa vida – a escravizar qualquer animal, mesmo o menor deles, para qualquer coisa que ele próprio pudesse realizar.

Adão, realmente, tornara-se um outro homem. Quanta diferença daquele ser puro (mas tão ingenuamente tolo!) que saíra um dia das mãos do Criador.

Esta viagem teve tantos destinos quantos foram os anos que Caim e Abel levaram para crescer e atingir a juventude. Acostumados a ajudar os pais na árdua tarefa da sobrevivência, acabaram sendo, ao mesmo tempo, amigos e inimigos um do outro.

Caim, embora tivesse um gênio mais feroz, jamais fora inimigo acerbo de seu próprio irmão, tendo ambos tido uma convivência pacifica. Somente quando um terceiro e fundamental elemento entrou em cena é que se instalou na alma de Caim (e por sua própria culpa) o veneno que o corromperia, maculando para sempre a sua alma - e também a sua carne.

Os dois irmãos cresceram. E logo atrás deles vieram uma infinidade de filhos e filhas do casal primordial, os quais, tão logo atingiram a idade da razão, partiram para o mundo, decididos a povoar por conta própria o vasto universo, de tal sorte que em pouco mais de vinte anos viram-se apenas os quatro sozinhos outra vez.

- Permaneçamos sempre juntos, nós, que começamos tudo isto – dizia sempre Adão aos dois filhos e à adorada esposa.

Caim e Abel ainda eram jovens - atendendo-se ao fato de que naqueles dias a vida humana era extraordinariamente longa (Adão, por exemplo, viveu bem mais que novecentos anos) - e viviam ocupados em seus afazeres. Caim, o primogênito, gostava de cultivar a terra, enquanto que Abel tomara gosto pelo pastoreio dos animais - tarefa que tanto repugnava a seu pai, Adão. Essa divergência de gostos entre os irmãos, que por si só não poderia jamais originar a discórdia que tão fatal seria a ambos, mostrar- se-ia, no entanto, decisiva na hora em que, fazendo cada qual uso de suas habilidades, viram-se obrigados a provar qual delas era mais agradável ao Senhor, aquele ente misterioso do qual seus pais falavam com tanto carinho, mas também com bastante medo.

E tudo deu-se assim: um dia Adão cozia alguns vegetais quando percebeu que a fumaça que saía do cedro ardente subia numa coluna retilínea, em direção aos céus. Ora, Adão sempre tivera uma profunda nostalgia das conversas que tivera com seu Pai nos dias amenos do Jardim. Então, decidido a restabelecer de alguma forma o vínculo sagrado, confeccionou com algumas pedras uma espécie de “mesa sagrada"- que nada mais era do que o protótipo rudimentar do primeiro altar – e nela fez arder alguns cereais recém-colhidos, como maneira de agradecer ao Criador pela abundância, além de tê-lo como participante, ainda que simbólico, de sua ceia.

A todos agradou essa ideia, principalmente a Eva, que ansiava por ver seus filhos receberem a bênção que ela própria perdera de seu Deus.

No mesmo dia, fez-se a queima das oferendas. Caim, tomando dos produtos da terra, fez uma fogueira enorme para si, enquanto Abel colocou sobre a sua as entranhas de algumas ovelhas abatidas. Logo as duas fogueiras começaram a arder, sob os aplausos do manso Abel. Para seu irmão, no entanto, aquilo se convertera em uma disputa surda, na qual esperava levar a melhor.

- Vejam como a fumaça de minha oferta sobe diretamente ás narinas do meu Senhor - disse ele, forçando muito as coisas, pois na verdade se alguma fumaça subia retilineamente aos céus era justamente a de seu irmão.

- Caim, não seja injusto - disse Eva. - Admita que a oferta de seu irmão Abel está sendo muito melhor acolhida pelos céus do que a sua. Cumpre a você resignar-se e acatar com humildade o veredicto do Senhor.

Mas Caim não queria ser humilde, e por isso deu as costas a todos e foi morder a mão de raiva em uma gruta afastada.

- Miserável bajulador! – rosnou ele, com os dentes cravados na mão.

Então, inesperadamente, escutou uma voz retumbante, que só poderia pertencer ao misterioso Ser.

- Porque estás escondido e de cabeça baixa? – disse a voz. – Faz o bem e poderás andar sempre de cabeça erguida. Mas se fizeres o mal, logo terás erguido diante de ti o teu pecado. Trata, pois, Caim, de refrear teus maus instintos!

Infelizmente as palavras do Senhor não deram o fruto esperado na alma de Caim, pois, na verdade, ele esperava ouvir palavras muito diferentes.

Vendo, então, que Deus não o deixava descarregar em paz o ódio que o sufocava, Caim abandonou a gruta e retornou para onde seu irmão estava, decidido a aliviar seu desgosto fazendo uma besteira. Quando enxergou o irmão, este estava inclinado sobre a oferenda.

- Obrigado, Senhor, por ter honrado a minha oferenda! - dizia ele, contritamente. - Tomo isto como sinal evidente de minha eleição!

Caim, vesgo de ódio, tomou uma grande pedra e correu até onde Abel estava. Este, contudo, estava tão absorto em sua ação de graças que não percebeu o rápido aproximar-se do Irmão. Ainda com a pedra erguida, Caim não esperou mais nada e descarregou-a com toda a força sobre a cabeça de Abel. Escutou-se um ruído terrível de algo que se rompe e logo em seguida a vítima desabou sobre os restos de sua oferenda, misturando seu sangue ao do cordeiro que ainda chiava sobre as brasas.

Certo de haver matado Abel. Caim fugiu. Entretanto, não nos lancemos afoitamente no seu encalço, pois, acostumados, neste ponto da estória, a dirigir nossas vistas ansiosas para o primeiro de todos os assassinos, esquecemos sempre de que tão ou mais importante do que o drama de Caim é a tragédia de seu irmão, caído ao solo com um rombo profundo na cabeça.

Abel, pois, jazia de bruços sobre o solo. Sem ainda estar inteiramente morto, em um gesto mecânico escarvou a terra com seus dedos encurvados, ao mesmo tempo em que sentia na boca o gosto do pó que sua respiração espalhava em pequenas nuvens. Logo em seguida virou-se, em um movimento estranho, como se duas mãos desajeitadas o tivessem virado de costas sobre a terra. Seus olhos quase vidrados ficaram voltados para o céu, e então ele soube que estava prestes a conhecer o terrível mistério da maldição suprema que Deus havia lançado a seus pais e a toda a sua descendência. Os olhos arregalados de Abel vasculhavam na claridade algo a que se apegar, enquanto seu cérebro, sem dúvida abalado pelo tremendo golpe, em vão tentava ordenar as ideias.

Abel, entretanto, era um homem de fé. Podemos ter quase a certeza de que, de alguma maneira, a imagem daquela divindade que ele jamais pôde ver, ou da qual nunca ouviu a voz, esteve presente em suas visões, ainda que de um modo dramaticamente confuso. Em pleno delírio, remexeu os olhos em um espasmo que deixou à mostra duas escleróticas muito brancas, dando ao seu rosto a aparência angustiante dos que nada podem ver. Cego para as coisas deste mundo, Abel contemplava agora as coisas divinas. Seu rosto impassível e seu peito imóvel eram a denúncia mais expressa de que o alento divino finalmente o abandonara.

E acabou-se.

Caim comia loucamente para longe do seu crime. Um misto de remorso e de receio de ser punido o impelia para longe da cena do crime. Caim pressentia que aquele ser misterioso, que lhe dirigira uma censura antes mesmo que ele cometesse o ato hediondo, poderia, a qualquer momento, voltar a falar-lhe. Além do mais, como poderia ele encarar seu pai e sua mãe depois do que fizera?

Nesse instante, porém, Caim teve seus passos detidos justamente por aquela voz.

- Caim, onde está teu irmão Abel?

Atemorizado, em um primeiro momento, o assassino encolheu-se junto a um rochedo, como um lagarto. Acuado, entretanto, por nova indagação, Caim sentiu-se tomado por uma súbita revolta e disse, abandonando seu esconderijo:

- Sei eu onde Abel está? Sou, por acaso, pastor de meu irmão?
Deus, entretanto, voltou à carga.
- Não adianta tentar me enganar, filho de Adão. A voz de teu irmão sobe até mim da terra encharcada de sangue.
O Senhor falava essas coisas, entretanto, em um tom surpreendentemente calmo. E mesmo quando sua voz retomou, mostrando que já concluíra seu julgamento pouco favorável, não foi com voz demasiado severa que se pronunciou:

- Porque tua presença tornou-se a maldiçoada neste mesmo chão onde derramou o sangue do teu irmão, condeno-te a vagar pelo mundo, como malfadado errante, sem que possas retirar mais nada desta ou de qualquer outra terra.

Caim ficou ligeiramente surpreso. Sim, era uma punição, mas nem de longe tão severa quanto se poderia esperar. Pelo menos saíra de tudo aquilo com o corpo intacto, ao contrário do irmão, que lá ficara estendido sobre o pó, inerte.

- Senhor, aceito a tua punição - disse, com ar contrito. - Meu crime pesa horrivelmente sobre mim! Mas como, a partir de hoje, estarei a salvo da ira de meus semelhantes? Todos haverão de me apedrejar como a um cão, até a morte!

- Nada temas, Caim a maldiçoado – disse a voz pois todo aquele que erguera mão contra ti será punido sete vezes mais. E para que todos te conheçam como amaldiçoado, porei um sinal sobre o teu corpo.

Caim sentiu uma espécie de paralisia tomar todos os seus membros, enquanto sua testa começava a arder, como se Deus nele desenhasse, com a ponta da unha, um estigma sangrento. Sem poder levar as mãos ao local da ardência. Caim teve de suportar o martírio até que cessasse. Então correu até a primeira fonte para ver que espécie de sinal o Senhor gravara em sua pele.

-Oh, é horrível...! Oh, odiosa marca! Tem a mesma cor rubra do sangue que derramei! Miséria e punição! Será, então, com esta marca infamante que deverei cumprir meu duro exilio, repetindo, de um modo sete vezes pior, a triste sina de meus pais.

Deus, no entanto, já havia partido, e Caim fez o mesmo instantes depois.

Os anos se passaram e Caim estabeleceu-se em diversos lugares, tentando arar a terra. Mas esta só lhe dava cardos, enquanto as pessoas o maldiziam sempre que o vento levantava a sua comprida franja. Depois de vagar por muitos anos, Caim chegou finalmente à distante terra de Nod, a leste do Éden. Aquela terra lhe pareceu bastante aprazível, a começar pelo próprio nome – pois Nod quer dizer “errante” e apesar da maldição que carregava, ainda assim encontrou uma mulher que não se importou nem um pouco com isto.

Caim e a mulher – cujo nome a tradição perdeu - casaram-se, e dessa união surgiu o pequeno Enoque (o qual não se deve confundir com outro de mesmo nome e que foi possuidor de um destino verdadeiramente invejável).

Farto de tentar plantar e colher, sem obter sucesso, Caim disse:
- Desta vez vou fazer diferente.
Tendo certa habilidade na arte de construir, começou a erguer uma casa, e depois outra, e tantas ajuntou que logo fundou a primeira cidade do mundo, que batizou com o nome de seu filho, Enoque. Este, por sua vez, retribuiu a homenagem mantendo viva a história do crime do seu pai, o qual foi cantado em versos por um descendente seu, chamado Lamec.

E assim Caim, abandonado pelo Senhor (embora protegido por uma estranha maldição), viveu ainda longos anos sob o peso do crime que cometera.

Mas com que cara teriam recebido Adão e Eva a notícia da morte de Abel e da fuga do outro filho? Evidentemente que desgosto algum – nem mesmo a expulsão de ambos do Paraíso- sequer chegaria aos pés dessa terrível provação.

- Eis, Eva desgraçada, que nos chega, enfim, das mãos do Senhor o nosso grande e verdadeiro castigo! - dizia Adão, arrancando maços inteiros de sua longa cabeleira. – Para o dia de hoje estava reservada a grande punição! Maldição eterna ao meu e ao seu pecado, Eva infausta!

Sua esposa, estupidificada pela inesperada tragédia, caíra em um pasmo mudo. Jamais pudera imaginar que a ira do Senhor pudesse, um dia, alcançar tamanho grau de dureza, apresentando-se, assim, tão despida de qualquer misericórdia.

- Deus guardou o melhor de sua ira para hoje – repetia ela, em sombria contrição. – Pois que faz do sangue do inocente apagado meu pecado. E tão mais grandioso é seu castigo, que mal posso compreendê-lo. Hosanas à justiça do Senhor! Hosanas sempre a ele!

Adão e Eva n&ati

Mitologia judaico-cristã
SERES DIVINOS
MITOS E LENDAS
A lenda de Saktivega

Na cidade de Vardhamana vivia outrora um rei glorioso de nome Paropakarin. Esse poderoso monarca tinha como esposa a rainha Kanakaprabha, que éra para ele como o fulgor do raio para a nuvem escura — e sem a inconstância caprichosa daqueles clarões que ora brilham, ora se apagam. Ganhou da rainha uma filha, que o criador parecia ter concebido para abater o orgulho ostentado pela deusa Laksmi por sua beleza. Luar iluminando o mundo, revelava-se mais e mais com o passar do tempo. O rei a chamou de Kanakarekha, lembrando o nome da rainha. Quando ela atingiu a puberdade, o rei falou reservadamente com a rainha que nesse momento viera procurá-lo: — Eis que Kanakarekha cresceu e apreocupação de casá-la com homem de nível igual ao seu começa a inquietar-me. Uma filha que continua com a família é como um canto destoante: ouvi-lo causa irritação. E é também como o conhecimento, que, se é transmitido a quem não é digno, não traz fama nem mérito, mas só arrependimento. Não sei como decidir a que rei eu a poderia dar e que esteja à altura dela.

Kanakaprabha lhe respondeu sorrindo:

— Isso é o que pensas, mas não é o que nossa filha deseja. Hoje mesmo, enquanto ela brincava com suas bonecas, eu lhe perguntei quando poderia assistir a seu casamento. E ela me pediu para não falar assim, que não a deveriam dar em casamento a ninguém, que nada me obrigava a separá-la de mim. Disse estar contente em permanecer solteira, caso contrário preferia morrer! E afirmou que havia um motivo secreto por trás de sua recusa. Tais palavras me perturbaram e é por isso que vim ter contigo. De que serviria discutir sobre possíveis pretendentes para uma filha se ela se proíbe de casar-se:

Surpreso com o que a rainha dissera, o rei se dirigiu prontamente aos aposentos da filha.

— Como é possível, minha querida, negares a ti mesma o casamento, coisa que até as filhas dos devas e dos asuras desejam a ponto de razer penitência para conseguir?

De olhos voltados para o chão, a princesa ficou em silêncio por alguns instantes, e então respondeu:

— Pai, por enquanto não é isso o que quero. Porque te achas no dever de dar-me em casamento, por que tanta insistência?

— É porque sei que não tem como livrar-se de culpa quem não casa as filhas. Toda moça solteira submete-se à autoridade da família, que é responsável por ela, pois não saberia viver independentemente. Desde o nascimento, a mulher é educada para ser entregue a algum homem. Exceto durante a infância, como deixá-la então continuar na casa paterna, sem marido? Se passa da puberdade sem casar-se, seus parentes estão condenados. Torna-se uma pária, e se alguém vier a aceitá-la como esposa, é chamado marido de pária.

— Se é assim, meu pai, deves dar-me a alguém que, sendo brâmane ou xátria, tenha visto a cidade chamada Kanakapun. Tal nomem será meu marido. Senão, ó pai, é inútil atormentar-me.

Alegrou-se o rei ao ouvir que a filha admitia uma possibilidade. Mas — pensou — como poderia saber sobre a tal cidade? Não seria ela alguma deusa, nascida na casa dele para algum propósito desconhecido? Deu-lhe seu consentimento e foi cuidar de suas tarefas cotidianas.

No dia seguinte, na sala de audiência, perguntou aos homens da corte se algum deles já vira Kanakapuri, prometendo a filha e a condição de herdeiro a quem dissesse que sim. Eles se entreolharam e responderam todos que sequer tinham ouvido falar da cidade. O rei então chamou o porteiro do palácio, e lhe deu ordem de fazer apregoar por toda a capital, ao som de tambores:

— Se algum jovem, brâmane ou xátria, já viu a cidade de Kanakapuri, que o declare! O rei lhe concederá sua filha e o fará príncipe herdeiro!

Ao escutarem a proclamação, os cidadãos, estupefatos, interrogavam-se uns aos outros sobre essa cidade, cujo nome era repetido em voz alta em cada esquina. Se nem mesmo os mais velhos haviam ouvido falar nela, como poderia alguém afirmar tê-la visto? Nenhum deles declarou que a conhecia.

Nessa ocasião, havia entre os habitantes de Vardhamana um brâmane de nome Saktideva, filho de Baladeva. Presa fácil de paixões ruins, nesse mesmo dia se arruinara no jogo. Excitado ao ouvir como a filha do rei era oferecida, disse consigo mesmo:

— Agora que perdi tudo o que possuía no jogo, não tenho cara para entrar na casa de meus pais e muito menos na de alguma cortesã. Não vejo outra solução: é preciso que eu minta, dizendo aos pregoeiros que já vi Kanakapuri. Quem poderia comprovar minha ignorância? Quem já a teria visto e quando? E — quem sabe? — talvez me case com a princesa!

Com essa ideia, Saktideva abordou os homens do rei alegando ter visto a cidade. Eles o felicitaram e o acompanharam até o porteiro do palácio. A este também disse ter visto Kanakapuri. O porteiro o saudou cortesmente e o conduziu ao rei. Mesmo diante do soberano, repetiu sem hesitação a mesma balela. Para assegurar-se de que ele dizia a verdade, o rei o encaminhou à filha. Esta, já informada da chegada dele pelo porteiro, perguntou ao jovem:

— É verdade que viste a cidade de Kanakapuri?

— Por certo que sim! Eu a vi quando percorria o mundo em meus dias de estudante.

— E que caminho tomaste para chegar até ela?

— Partindo daqui, fui até Harapura. Daí segui para Varanasi e, dias depois, para Paundravardhana. De lá, por fim, cheguei à cidade chamada Kanakapuri, e vi esse lugar de delícias para os virtuosos, semelhante à cidade de Indra, cuja beleza faz o encanto dos deuses. Foi lá que acabei de instruir-me, antes de regressar para cá.

— Ora, grande brâmane — disse ela rindo. — Não há dúvida de que viste a cidade. Mas repete mais uma vez teu itinerário.

Quando ele se preparava para prosseguir com sua farsa deslavada, a princesa mandou que suas servas o pusessem para fora. Ao pai, que veio perguntar se o brâmane dissera a verdade, ela exclamou:

— Pai, de nada te serve seres rei se te dispões a agir sem refletir. Não sabes que os espertalhões fazem troça dos ingênuos: É em vão que esse brâmane tenta enganar-me; esse mentiroso vagabundo jamais viu Kanakapuri.

Ao rei Paropakarin não restou alternativa senão mandar repetir os proclamas.

Quanto ao jovem brâmane Saktideva, coberto de vergonha por ver-se insultado pela jovem, que agora desejava ardentemente como esposa, pôs-se contrito a meditar:

— Fingindo ter visto Kanakapuri não ganhei a princesa, mas apenas humilhação. Pois bem! Para conquistar Kanakarekha errarei pela terra até encontrar essa cidade, ou então perderei a vida! De que adianta viver se não consigo que ela seja minha?

Feito esse voto, o brâmane deixou a cidade de Vardhamana e tomou o caminho do sul. Atingiu a grande floresta que recobre os montes Vinddhya, tão espessa e interminável quanto sua vontade de prosseguir. Depois de atravessá-la por alguns dias, viu um lago de água fresca e transparente em um recanto solitário. Parecia um pavilhão real, sombreado pelo guarda-sol das plantas de lótus e abanado pela agitação da plumagem dos cisnes. Saktideva fez uma pausa para banhar-se.

Notou então um eremitério na margem norte do lago, cercado de árvores frutíferas. Ali avistou, sentado ao pé de uma figueira sagrada, ladeado de outros ascetas, um velho sábio, chamado Suryatapas. Uma fieira de uma centena de contas pendia de sua orelha, como que para indicar os anos de sua vida.

Saktideva se aproximou respeitosamente e o sábio o acolheu com a amabilidade devida a um hóspede. Depois de repartir frutas e outros alimentos com ele, o sábio falou:

— Queres dizer-nos, meu amigo, de onde vens e para onde caminhas?

— Venho de Vardhamana, ó venturoso, e fiz promessa de chegar a Kanakapuri, mas não sei onde fica essa cidade. Acaso saberias?

— Meu pequeno, passei 108 anos neste eremitério, mas nunca ouvi o nome Kanakapuri nesses anos todos.

— Vejo — disse Saktideva cheio de mágoa — que estou fadado a morrer vagueando em vão pelo mundo todo.

— Se estás determinado a encontrar a cidade a todo custo, então faze como te direi. A trezentas léguas daqui, encontrarás o reino de Kampilya. Nele ergue-se o monte Uttara, no topo do qual há um eremitério. Lá reside meu irmão mais velho, Dirghatapas. Vai ao encontro dele; esse ancião pode bem conhecer essa cidade.

Com a esperança renovada, Saktideva concordou e passou ali a noite, serenamente. Na manhã seguinte, apressou-se a retomar a marcha. Atravessando diversas florestas densas, com grande esforço, penetrou no reino de Kampilya e escalou o monte Uttara. Deparou-se com o asceta Dirghatapas e o saudou, e foi recebido bondosamente por ele. Esperançoso, disse ao sábio:

— Busco a cidade de Kanakapuri, da qual me falou uma princesa. Mas ignoro onde encontrá-la. Poderias dizer-me, ó bem-aventurado, por onde devo ir? Preciso achar a cidade para ganhar a princesa. O sábio Suryatapas, teu irmão, foi quem me aconselhou a recorrer a ti.

— Velho como sou, meu filho, é a primeira vez que ouço esse nome, embora eu tenha conhecido todo tipo de gente vinda de terras distantes. Nunca me falaram dessa cidade. Mas penso que deve situar-se em algum local muito distante, provavelmente em uma ilha remota. Vou ensinar-te o modo de procurá-la. No meio do oceano há uma ilha chamada Utsthala. Nela habita Satyavrata, o rico rei dos Nisadas — que vivem da pesca. Com freqüência, ele visita tudo quanto é ilha. Provavelmente já viu a cidade de Kanakapuri ou, pelo menos, ouviu falar dela. Mas, primeiro, deves dirigir-te à cidade de Vitankapura, à beira do mar. Ao chegar, trata de obter a ajuda de algum mercador que tenha um barco, e segue em companhia dele em demanda da ilha dos Nisadas.

Saktideva, acatando os conselhos do eremita, despediu-se e partiu imediatamente. Depois de viajar por longo tempo, percorrendo várias regiões, foi dar na jóia da beira do oceano, a soberba cidade de Vitankapura. Andou inquirindo e conseguiu localizar um mercador, Samudradatta, que se preparava para velejar para a ilha de Utsthala. Fez amizade com ele e o mercador o deixou embarcar em seu navio. Quando faltava pouca distância a percorrer, formou-se inesperadamente uma nuvem negra com os contornos de um demônio, com uma língua feita de raios, e que avançava fazendo reboar o trovão. Um vendaval terrível, semelhante aos embates do destino, arrebatava para cima o que era frágil e derrubava no mar tudo que lhe resistia. Vagalhões enormes como montanhas erguiam-se impelidos pelo vento. O navio era jogado para o alto e para baixo e, dentro de poucos instantes, partiu-se em pedaços, em meio aos gritos desesperados dos marinheiros.

O mercador Samudradatta, dono do barco, salvou-se agarrado a uma prancha e, depois de algum tempo, foi recolhido por outro navio. Mas um peixe enorme, de goela pavorosa como uma caverna, engoliu Saktideva assim que ele caiu no mar, sem no entanto ferir seu corpo. Quis o destino que o peixe fosse nadando até as proximidades da ilha de Utsthala. E, por puro acaso, servidores do rei dos pescadores o capturaram. Intrigados com o tamanho da presa, arrastaram o pesado corpo e o levaram a seu soberano. O rei Satyavrata, com a curiosidade despertada à vista de tal pescado, mandou que o abrissem. Do ventre aberto saiu Saktideva, são e salvo, como se nascesse do corpo da mãe pela segunda vez. Vendo o jovem brâmane sair do peixe e saudá-lo, o rei pescador lhe perguntou, tomado de espanto:

— Ó brâmane, quem és tu? Como e por que foste morar na barriga de um peixe? Que extraordinária aventura viveste?

— Meu nome é Saktideva e sou da cidade de Vardhamana. Tenho necessidade de ir a Kanakapuri. Como não conheço o caminho, andei sem destino por longo tempo. A conselho do asceta Dirghatapas, que achava que Kanakapuri poderia situar-se em uma ilha, consegui a ajuda de um mercador e velejei com ele na direção da ilha de Utsthala, para obter informações com o rei dos pescadores, Satyavrata, que nela habita. Mas o navio foi colhido por uma tempestade e fez-se em pedaços. Quando caí no mar, o peixe me engoliu e me trouxe para cá.

— Pois fica sabendo que sou o próprio Satyavrata, e esta é precisamente a ilha de Utsthala. Contudo, apesar de já ter visitado muitas ilhas, nunca vi aquela que procuras. Apenas ouvi rumores sobre sua existência nos confins do oceano.

Percebendo a aflição de Saktideva, e movido pela afeição que sentia por seu hóspede, Satyavrata apressou-se a acrescentar:

— Brâmane, não te desesperes. Passa a noite aqui e amanhã de manhã acharei algum meio de atingires tua meta.

Providenciou para que Saktideva fosse hospedado em um mosteiro. Vishnudatta, um dos brâmanes residentes, preparou-lhe uma refeição e os dois puseram-se a conversar. Quando Saktideva narrou sobre suas andanças e respondeu brevemente às perguntas do outro sobre seu país de origem e sua família, este irrompeu em lágrimas. Descobrira que eram primos, nascidos na mesma terra. Esquecendo as fadigas da viagem, Saktideva foi tomado de alegria. O encontro de um parente em terra estrangeira é como água jorrando no deserto. Teve a sensação de que a realização de seu desejo estava próxima: com efeito, um acontecimento feliz no curso de uma expedição costuma ser sinal de sucesso.

No dia seguinte, quando o sol se ergueu sobre a ilha de Utsthala, o rei dos pescadores veio ao mosteiro visitar Saktideva. Conforme prometera, tinha algo a dizer-lhe:

— O brâmane, refleti bastante e achei um modo de cumprires teu objetivo. Há no meio do mar uma ilha magnífica, que tem o nome de Ratnakuta; e há nela uma estátua de Vishnu, consagrada pelo senhor do oceano. No décimo segundo dia da quinzena clara do mês de Asadha, celebra-se ali um festival acompanhado de uma procissão. Vem gente de todas as ilhas para cumprir zelosamente suas devoções. Porventura lá estará alguém que conheça essa ilha de Kanakapuri. Vem! Vamos juntos! O dia do festival está próximo.

Saktideva concordou e reuniu muito contente as provisões de viagem que o primo Vishnudatta preparara. Subiu com elas ao barco trazido por Satyavrata, içaram as velas e partiram. Cruzavam esse mar repleto de maravilhas, onde nadavam grandes monstros marinhos semelhantes a ilhas, quando Saktideva perguntou a Satyavrata, que estava ao leme:

— O que é aquela coisa imensa que se vê lá longe saindo do mar, com a aparência de uma montanha alta provida de asas?

— E um ser sobrenatural, uma árvore banian, figueira divina. Dizem que o turbilhão gigante a se agitar debaixo dela é a entrada do inferno. Temos de navegar evitando cuidadosamente esse lugar, pois os que se aventuram par perto não voltam mais.

Mal havia Satyavrata dito estas palavras, uma correnteza começou a puxar o barco em direção ao redemoinho. Logo que notou o perigo, Satyavrata exclamou:

— O brâmane, chegou nossa hora! Olha! O barco vai naquela direçâo e não consigo mais desviá-lo! Vamos ser jogados nesse lugar horrendo que parece a garganta da Morte, a água nos arrasta, é nosso karma inevitável. Mas o que me dá pena não é morrer, nenhum corpo é permanente, o que me atormenta é não chegares, depois de todas as dificuldades suportadas, a finalmente realizar teu sonho. Enquanto me esforço para reter o barco, tenta gaigar um galho da árvore. Talvez te apareça um jeito de escapar, belo jovem, pois não se pode prever com mais certeza os caprichos do destino do que um movimento das vagas do mar.

Enquanto Satyavrata, firme em sua resolução, pronunciava estas palavras, o barco chegou perto da figueira divina. No mesmo instante. Saktideva encheu-se de ânimo e, de um salto, foi agarrar um galho da árvore que brotava do oceano. Satyavrata, porém, era tragado pela boca míemal, sacrificando o corpo junto com o navio pelo bem de um semelhante. Rerugiado sobre o galho da árvore, cuja copa da ramagem já preenchia o espaço até onde a vista alcançava, Saktideva lamentava:

— Pereço neste lugar, depois de ter causado a perda do rei dos pescadores e sem ter podido ver Kanakapuri. Mas quem ousa depender do Destino, essa divindade que continuamente repousa o pé sobre a cabeça de cada homem?

O jovem brâmane, remoendo esses pensamentos, passou o dia montado no galho. Ao entardecer, viu aproximar-se uma revoada de aves gigantescas, que faziam o ar vibrar com seus gritos, vindas de todas as direções para pousar na árvore banian. Ao se aproximarem em vôo baixo, ao vento provocado pelas asas, elevava-se o mar em ondas ao encontro delas, como movidas pela alegria de rever amigas. Escondido atrás da folhagem, Saktideva escutou os abutres pousados nos galhos a conversar em linguagem humana. Cada ave descrevia o lugar aonde fora naquele dia, ora alguma ilha, ora uma montanha, ora uma terra distante. Um velho pássaro contou:

— Hoje estive a divertir-me em Kanakapuri. Vou voltar amanhã para alimentar-me. Ao preço de uma viagem cansativa, onde acharia coisa melhor?

Com a doçura do néctar das flores, as palavras da ave fluíram pelos ouvidos de Saktideva, aliviando seus tormentos.

— Graças aos céus, essa cidade existe, e existe também um meio de atingi-la: esta ave de corpo gigantesco me transportará!

Logo que a ave adormeceu, Saktideva foi-se chegando discretamente e se acomodou, bem escondido, entre as plumas do dorso. De manhã, as aves começaram a debandar. A que levava Saktideva nas costas alçou vôo, batendo fortemente as asas. Em um instante pairou sobre Kanakapuri, à cata de comida. Pousou em um jardim e Saktideva deixou-se escorregar para o chão, sem se fazer notar. Explorando os arredores, deparou com duas mulheres que colhiam flores. Aproximou-se cortesmente delas, que o encaravam com surpresa, e perguntou-lhes:

— Encantadoras damas, que país é este e quem sois vós?

— Amigo, esta cidade se chama Kanakapuri e é habitada por vidyadharas. Uma vidyadhari chamada Candraprabha mora aqui, e nós duas somos encarregadas de cuidar de seu jardim; estas flores que colhemos são para ela.

— Por ventura podeis providenciar, é um favor que vos peço, para que eu possa ver vossa senhora?

Atendendo a seu pedido, elas conduziram o jovem ao palácio real, no centro da cidade. Era edificado sobre colunas resplandecentes de rubi, as paredes de ouro maciço, reunindo todas as riquezas imagináveis. Vendo-o chegar, os servidores de Candraprabha foram anunciar-lhe essa chegada extraordinária de um simples mortal. Ela deu instruções ao porteiro, que sem demora encaminhou o brâmane através do palácio à sua presença. Saktideva, entrando a passos lentos, contemplava essa criatura que era uma festa para os olhos, e parecia encarnar a capacidade do Criador de produzir maravilhas. Ela, subjugada por sua bela aparência, levantou-se da cadeira cravejada de jóias magníficas antes que ele chegasse mais perto, para dar-lhe as boas-vindas com o maior respeito. Quando o viu deter-se diante dela, perguntou-lhe:

— Quem és tu, jovem auspicioso, e como pudeste vir a este lugar inacessível aos mortais?

Saktideva declinou seu país, sua casta e seu nome: depois explicou que viera por causa da recompensa prometida a quem tivesse visto a cidade: a mão da grincesa Kanakarekha. Candraprabha refletiu por um instante, exalou um suspiro profundo e falou, em voz baixa, com discrição.

— Escuta, jovem encantador, presta atenção ao que vou narrar-te. Neste país reside um rei dos vidyadharas chamado Sasikhania. Nasceram-lhe, em seqüência, quatro filhas: primeiro eu, Candraprabha. que sou a mais velha; Candrarekha foi a segunda; em terceiro lugar, Sasirekrakehka e, por último, Sasiprabha. Uma após outra fomos atingindo a puberdade na casa de nosso pai. Num dia em que me vinham as regras, minhas irmãs foram todas banhar-se no rio Mandakini. Enquanto brincavam, respingaram com toda a insolência própria da adolescência, sobre um sábio chamado Agryatapas que estava imerso em meditação. Como elas não paravam com a travessura, o sábio irritado pronunciou uma maldição: “— Meninas perversas’ Renascei todas no mundo dos mortais!”. Ao ser informado, meu pai correu a apaziguá-lo, de sorte que o grande sábio consentiu em fixar as condições — muito diferentes, aliás — pelas quais cada uma seria afinal libertada da maldição. Concedeu a todas a faculdade de se lembrar de seus nascimentos anteriores durante a permanência entre os mortais, e permitiu que conservassem seu saber sobre-humano. Em seguida, depois que elas deixaram seus corpos para ingressar no mundo dos mortais, meu pai me legou esta cidade e, triste como estava, retirou-se para praticar o ascetismo na floresta.

Depois de uma pausa, Candraprabha prosseguiu:

— Saudosa de minhas irmãs, passei a viver nesta cidade. Certa noite, a deusa Ambika me apareceu em sonho e me disse: “ — Minha filha, hás de ter como esposo um homem mortal!” E por isso resisti sempre a meu pai, que me propôs diversos vidyadharas como pretendentes, e permaneci solteira até agora. Hoje, maravilhada com tua chegada extraordinária e vencida por tua beleza, entrego-me a ti! No décimo quarto dia da próxima quinzena lunar, irei ao monte Rishabha fazer a meu pai meu pedido a teu respeito. Nesse dia, os mais ilustres vidyadharas, vindo de todas as regiões do espaço, reúnem-se ali para homenagear o deus Shiva. Meu pai irá também. Logo que tiver obtido a permissão dele, voltarei depressa e tu me desposarás!

Então Candraprabha honrou Saktideva, propiciando-lhe todo tipo de prazeres a que os vidyadharas estão acostumados. Tendo consentido em ficar, gozou nesse lugar de uma felicidade comparável à que sente um homem queimado pelo fogo de um incêndio na floresta quando mergulha em um lago de néctar. Chegado o décimo quarto dia, disse Candraprabha:

— Irei hoje apresentar a meu pai o pedido. Todos os serviçais me acompanharão, mas nada te faltará nesses dois dias em que ficarás sozinho. Cuida apenas de não subir, em nenhuma circunstância, à plataforma situada no centro do palácio!

Com isso, Candraprabha partiu, abandonando o coração com o jovem, e, em troca, levando o dele.

Vendo-se só, Saktideva distraiu-se andando de um lado para o outro, entrando em cada dependência suntuosa. Lembrou-se de que a formosa vidyadhari lhe havia proibido escalar a plataforma central. Com a curiosidade despertada, decidiu subir assim mesmo. O que é proibido tem de fato um poder irrestível sobre nossa vontade! Nesse andar superior encontrou, bem dissimulados, três pavilhões fabricados com pedras preciosas. A porta de um deles estava aberta, e ele entrou. Notou no interior um divã trabalhado com jóias magníficas, com um tecido acolchoado por cima; sobre ele havia um corpo deitado, completamente envolvido em um pano macio. Erguendo o pano, descobriu estupefato a adorável filha do rei Paropakarin, que parecia morta. Vendo- a, pensou:

— Que grande maravilha é esta? Estaria ela entorpecida sem poder despertar, ou será uma ilusão que nem sei como esconjurar? A mulher pela qual eu me exilei está aqui, diante de meus olhos, sem vida, enquanto em meu país está viva; e, mesmo aqui, sua beleza permanece inalterada! É certamente uma feitiçaria, com que o Criador me põe à prova por alguma razão!

Saiu do pavilhão e entrou sucessivamente nos outros dois, onde viu igualmente duas jovens. Admirado, foi para fora do palácio e ficou sentado, pensando. Viu então mais abaixo um belo poço e, junto à borda, um corcel com uma sela incrustada de pedrarias. Desceu cheio de curiosidade e tentou montar no cavalo, mas este com um coice o projetou no poço. Submergiu na água e logo voltou à tona, olhando em redor cheio de espanto: estava no meio de um tanque oblongo situado no parque de Vardhamana, sua cidade natal! Estava de volta à pátria, em pé dentro d’água, tal como os talos dos lótus do tanque. E já lamentava a falta de Candraprabha.

— Que diferença entre Vardhamana e a cidade dos vidvadharas! Que prodígio de magia foi este? Como foi que eu, pobre de mim, fui enganado? Quem fabricou esta ilusão? Não podemos prever o que o destino nos reserva!

Tratou de sair do tanque e dirigiu-se à casa paterna, onde contou suas aventuras e foi bem recebido pelos familiares.

Na manhã seguinte, ao sair de casa, ouviu de novo a proclamação, feita ao rufar do tambor:

— Se algum jovem, brâmane ou xátria, realmente viu a cidade de Kanakapuri, que o declare! O rei lhe concederá sua filha e o fará príncipe herdeiro! Saktideva abordou alegremente os pregoeiros e, mais uma vez, lhes disse:

— Eu, sim, já vi essa cidde!

Eles o levaram rapidamente ao rei, mas o monarca o reconheceu e deduziu que, como antes, ele estava mentindo. Saktideva insistiu:

— Ponho minha vida em jogo! Que a princesa me interrogue imediatamente e, se o que digo é falso, se não vi a cidade, que eu seja punido com a morte!

O rei mandou que pessoas de seu séquito o levassem à princesa. Quando ela viu esse brâmane com o qual já tivera uma experiência, foi logo dizendo ao rei:

— Pai, esse indivíduo vai contar-nos de novo alguma invencionice!

E Saktideva, sem mais delongas:

— Princesa, talvez te diga a verdade, talvez uma mentira. Mas uma coisa me intriga: como posso ver-te viva aqui em Vardhamana, quando te estendes sem vida sobre um divã em Kanakapuri?

Assim que ouviu Saktideva dar-lhe essa prova irrefutável, a princesa Kanakarekha disse ao rei:

— Pai, este nobre jovem verdadeiramente viu a cidade e, daqui a pouco tempo, quando eu de novo habitar naquele lugar, ele se tornará meu marido. Também desposará minhas três outras irmãs e reinará sobre os vidyadharas. Hoje devo retornar a meu corpo e a minha cidade. Com efeito, foi uma maldição lançada por um asceta que me fez renascer um dia em tua casa. O sábio, abrandando a ira, assim fixou seu término no meu caso: “— No momento em que, estando tu na condição de mortal, um ser humano descobrir teu corpo na cidade de Kanakapuri, e revelar a verdade, estarás liberta da maldição e ele será teu esposo.” Assim se explica porque eu, embora humana ainda, tenha podido lembrar-me de minha existência anterior, e tenha possuído conhecimentos sobre-humanos. Agora volto para casa, onde moram os vidyadharas, a fim de recuperar meus poderes!

Com estas palavras a princesa desapareceu, enquanto a agonia e a confusão tomavam conta do palácio.

Decepcionado pela segunda vez, rememorando como havia ganho duas criaturas adoráveis, ao custo de dificuldades quase insuperáveis, sem no entanto torná-las suas, Saktideva afastou-se do palácio real. Acusava-se por não ter sabido converter em realidade suas aspirações. Mas, um instante depois um pensamento lhe ocorreu:

— Kanakarekha me predisse que eu alcançaria meu desejo, por que então me desespero? Irei de novo a Kanakapuri, pelo mesmo caminho e, sem dúvida alguma, o destino permitirá minha chegada — seja de que jeito for!

Aqueles que são resolutos não abandonam uma missão sem atingir a meta. Decidido e confiante, Saktideva partiu de Vardhamana. Depois de uma longa viagem, novamente chegou à cidade de Vitankapura, junto às dunas do litoral. Percorrendo as ruas, viu-se cara a cara com o mercador Samudradatta, em cuja companhia havia embarcado. Duvidou de seus próprios olhos: não o vira cair no mar, quando o navio dele se partira ao meio? Surpreendeu-se ao dar com um homem que julgava morto. Samudradatta, por sua vez, também o reconheceu e, contente por ele ter sobrevivido, correu a abraçá-lo.

Em seguida convidou Saktideva a hospedar-se em sua casa e, depois das cortesias de praxe, perguntou como havia podido salvar-se após o nautrágio. O jovem brâmane contou-lhe como fora engolido por um peixe e transportado na barriga dele até a ilha de Utsthala, e então quis saber como o negociante conseguira escapar.

— Depois de cair no mar, agarrei-me a uma prancha e fiquei boiando à deriva por três dias, quando de repente vi passar um navio. Aos gritos, atraí a atenção da tripulação e eles me guindaram para bordo. No navio encontrei meu pai, que um dia havia partido para uma ilha longuinqua e depois de tanto tempo. Ele me reconheceu e enlaçou meu pescoço em lagrímas, e me pediu que lhe narrasse minha história. Expliquei como, na ausência dele e sem saber se retornaria, eu me havia dedicado aos negócios, por ser a ocupação apropriada à minha casta. E fui contando tudo até nossa expedição através do mar, terminada com o naufrágio, quando então, por ordem dele, fui recolhido a bordo e agora me alegrava de estar em sua presença. Meu pai me respondeu em tom de censura: por que eu arriscava a coda desse modo? Ele possuía muitos bens e pretendia adquirir muitos mais: nesse momento voltava com o navio carregado de ouro! Depois de reconfortar-me com essas palavras, meu pai me levou em seu navio a Vitankapura, deixando-me em casa.

Finda a narrativa de Samudradatta, Saktideva foi repousar, cassando a noite na casa do mercador. De manhã, veio falar com ele:

— O negociante, é urgente que eu me dirija de novo à ilha de Utsthala. Poderias dizer-me como devo proceder?

— Uns homens que efetuam transações em meu nome estão neste momento a ponto de ir para lá. Podes perfeitamente partir com eles.

Saktideva seguiu o conselho do mercador e navegou para a ilha de Utsthala em companhia de seus prepostos. Uma vez na ilha. lembrou-se de seu parente Vishnudatta; como da vez anterior, seria bom acomodar-se ao lado do primo no mosteiro. Foi nessa direção, tomando um caminho que atravessava o mercado.

Quis o destino que os filhos de Satyavrata, o rei dos pescadores, o notassem quando ele passava. Reconheceram-no imediatamente e exclamaram:

— Brâmane! Foste tu que partiste em companhia de nosso pai em busca de Kanakapuri. Como explicas que és o único a retornar?

— Vosso pai foi tragado pelas águas, arrastado com seu barco para uma boca do inferno que se escancarou sob o mar.

Furiosos, os filhos do rei pescador bradaram para seus homens de armas:

— Prendei este criminoso, ele matou nosso pai! Como é possível que, dentre duas pessoas no mesmo barco, uma caia nas chamas do inferno e a outra escape? Amanhã, na hora do nascer do sol, ofereceremos o assassino de nosso pai como vítima sacrificial à deusa Durga!

Os homens armados obedeceram e conduziram Saktideva acorrentado ao horripilante templo de Candika, “a Violenta”, forma terrível da esposa de Shiva. O interior do templo, como um ventre inchado, fartava-se com a ingestão contínua de seres humanos; orlado de longas enfiadas de sinos, como arcadas cheias de dentes, dir-se-ia que era a fauce da Morte. Durante a noite, temendo pela vida, Saktideva ergueu os braços encadeados e orou a Durga:

— Ó deusa, nesta tua forma — que, por teres bebido o sangue rubro vomitado pela garganta do demonio Ruru, assemelha-se ao disco do sol nascente — ergue-te, vem proteger o mundo! Ó dispensadora de favores! Concede tua proteção a mim que constantemente me prosternei diante de ti; a mim que, tendo vindo de muito longe na sede de obter aquela a quem amo, caí sem ter cometido qualquer falta nas mãos de inimigos!

Após a prece à deusa, Saktideva acabou adormecendo. Mergulhado no sono, viu uma mulher de aspecto divino aproximar-se dele, saída do santuário do templo. Como que tomada de compaixão por ele, disse estas palavras:

— O Saktideva, não tenhas medo, nada de mal te acontecerá. Os filhos do rei pescador têm uma irmã chamada Bindumati. Ao amanhecer, essa jovem, logo que te enxergar, irá pedir-te para seres seu esposo. Tu consentirás e ela fará com que te libertem. Ela não pertence à casta dos pescadores — é uma criatura celeste, decaída por causa de uma maldição.

Ao ouvir isso, ele acordou e permaneceu desperto pelo resto da noite. Quando rompeu a aurora, uma beldade dentre as filhas dos pescadores, verdadeira bebida da imortalidade a derramar-se diante de seus olhos insones, penetrou no templo da deusa. Chegou-se a ele, impelida pelo desejo, pronta a oferecer-se:

— Farei com que te soltem deste lugar, se fizeres o que quero. Até hoje recusei todos os pretendentes escolhidos por meus irmãos, e no entanto, logo que te vi, o amor me invadiu — possui-me!

Era Bindumati, filha do rei dos pescadores, que assim vinha falar-lhe. Rememorando o sonho, Saktideva, radiante, pôs-se de acordo sem hesitação. Ela fez com que o livrassem e ele desposou a linda jovem. Os irmãos se conformaram com a vontade dela, tendo recebido em sonhos a ordem de Ambika, face materna da deusa.

Saktideva deixou-se ficar na ilha de Utsthala com essa criatura divina que lhe fora dada sob forma humana. Um dia, recostado no terraço de sua morada viu passar na estrada um pária que levava um carregamento de carne de vaca. Comentou com sua amada:

— Olha, ó mulher detalhe esbelto! As vacas devem ser reverenciadas nos três mundos; como pode esse infame consumir sua carne?

— Esposo querido isto é de fato um pecado, um ato inconcebível — que mais se pode dizer? Se o poder sobrenatural das vacas me fez nascer nesta família de pescadores, tendo eu cometido uma ofensa mínima contra elas o que deveria sofrer esse indivíduo para expiar seu crime?

— Ora, que coisa! Mas dize-me, minha cara, quem és afinal: E como foi que nasceste entre os pescadores?

Como Saktideva não parava de pressioná-la com sua curiosidade, ela declarou que lhe daria uma resposta, apesar de ser um segredo, se ele concordasse em fazer aquilo que ela iria indicar depois. Ele se comprometeu por força de juramento, e só então ela lhe expôs o que teria de fazer:

— Em pouco irás arranjar mais uma esposa nesta ilha, e logo ela ficará grávida. No oitavo mês, tu lhe abrirás o ventre e arrancarás o embrião — não, não fiques horrorizado!

Ela nem terminara de falar e Saktideva já protestava, perplexo e com visível repugnância, arrependido da promessa imprudente. Não podia entender que sentido teria um ato tão contrário a seus sentimentos de compaixão.

— Pois é o que terás de fazer, e por trás disso há um motivo que não posso revelar. E agora escuta quem sou eu e como vim a nascer entre os pescadores. Fui outrora, em outra existência, uma vidyadhari, mas uma maldição me condenou a viver no mundo dos mortais. E porque, enquanto eu era ainda vidyadhari, para ajustar as cordas de minha vina cortei-as com os dentes, fui fadada a nascer na casa de um pescador. É que minha boca havia tocado em tendões esticados de bovinos, de que são feitas as cordas desse tipo de alaúde. Se só por um simples contato tive de sofrer tal rebaixamento, que castigo caberia a quem se atreve a comer a carne desses animais?

Mal terminara de falar, quando um de seus irmãos entrou precipitadamente e disse a Saktideva:

— Levanta-te e foge com tua mulher! Um javali enorme, saído não se sabe de onde, está vindo para cá, deixando incontáveis vítimas pelo caminho!

Saktideva desceu rápido do terraço, montou em um cavalo e, empunhando um chuço, precipitou-se à procura do javali. Tratou de espetá-lo, logo que o avistou. Quando o valente brâmane voltou a atacá-lo, o javali, sentindo-se ferido, fugiu e se meteu em uma caverna com Saktideva atrás dele, sempre a persegui-lo. Dentro da caverna, ele divisou uma habitação erguida na amplidão de um parque. Lá avistou uma jovem de estonteante beleza, a vir apressada em sua direção; bem poderia ser a deusa da floresta, acorrendo por amor ao encontro dele.

— Quem és, ó encantadora? E o que te perturba?

— Amigo, sou a donzela Bindurekha, filha do rei Candavikrama, que reina sobre a região do sul. Um diabólico daitya de olhos flamejantes me seqüestrou ardilosamente da casa de meu pai e me trouxe para cá. Esfomeado, tomou forma de javali e saiu à caça de uma presa. Algum herói o trespassou com seu chuço, agora mesmo. Acabou de voltar ferido e está morto. Com isso estou livre dele, e mantive intacta minha virgindade.

— Cessa de inquietar-te, princesa. Fui eu que, com meu chuço, matei esse javali.

Às perguntas dela, respondeu ser um brâmane de nome Saktideva, e ela de imediato o convidou a tornar-se seu esposo, ao que o jovem consentiu com igual presteza. Saíram juntos pela abertura da caverna. De volta à casa, ele narrou o acontecido à mulher. Com a aprovação dela, casou-se com a princesa Bindurekha.

Mais tarde, embora Saktideva coabitasse com as duas, somente uma, Bindurekha, ficou grávida. Ao completar o oitavo mês, a primeira mulher, Bindumati, veio dizer-lhe sem preâmbulos:

— Ó herói! Lembra-te do que me prometeste! Eis que chegou o oitavo mês de gravidez de tua segunda esposa. Vai! Corta a barriga dela e traze-me o embrião! Não podes faltar com a palavra dada sob juramento!

Saktideva, cheio de ternura e compaixão mas ligado pelo compromisso, ficou paralisado por um instante, sem resposta. Depois saiu, tomado de agitação, e foi procurar Bindurekha. Esta, vendo-o chegar com o semblante abatido, tentou tranqüilizá-lo:

— Caro esposo, bem seio que hoje te desespera: Bindumati te envia para que extraias o embrião que trago no ventre. Deves fazer isso a todo custo, pois o ato tem uma razão oculta. Não te aterrorizes, não estarás cometendo vilania alguma. Arranca sem remorso o embrião que carrego, tal como te mandou Bindumati.

Malgrado as palavras de Bindurekha, Saktideva continuava temeroso de incorrer em um pecado. Uma voz então veio do céu:

— Arranca sem inquietude o embrião dessa mulher, Saktideva; ele se transformará em espada!

Ouvindo as palavras divinas, não hesitou mais: fendeu o ventre da mulher, arrancou rapidamente o embrião e o brandiu no ar, seguro pelo pescoço. Apenas o empunhara e ele se transformou em uma espada, longa como a cabeleira da Fortuna, que acabava corajosamente de conquistar! O brâmane se metamorfoseou em vidyadhara, ao mesmo tempo em que Bindurekha desaparecia.

Sob sua nova forma, acorreu a contar a Bindumati o que se passara com a segunda esposa. Disse a filha do rei pescador:

— Senhor, somos três irmãs, filhas de um rei dos vidyadharas, banidas de Kanakapuri em conseqüência de uma maldição. A primeira é Kanakarekha; tu assististe ao fim de sua maldição em Vardhamana, e ela está agora de volta em sua cidade. O destino quis que, para a segunda, a maldição terminasse daquele modo extraordinário. Eu sou a terceira, e minha maldição chega agora ao fim. Hoje mesmo, carinhoso amigo, devo voltar à minha cidade, onde se encontram nossos corpos de vidyadharis. Nossa irmã mais velha, Candraprabha, sempre esteve lá, onde a encontraste. Vem tu mesmo comigo, vem ligeiro!, agora podes voar graças aos poderes mágicos de tua espada! Nosso pai, que se retirou para a solidão da floresta, dará sua permissão: tu nos tomarás, todas as quatro, como esposas — e reinarás sobre nossa cidade.

Saktideva aquiesceu e, acompanhado por Bindumati, que acabara de revelar sua verdadeira história, dirigiu-se pelo caminho dos ares para Kanakapuri. Pousando, viu inclinar-se diante dele, com Kanakarekha à frente, suas três amadas, cujas almas haviam reentrado nos corpos femininos que observara antes, estendidos sem vida sobre os sofás dos três pavilhões. Viu também a quarta, a irmã mais velha, Candraprabha, que cumpria os ritos de bom augúrio por sua chegada, e o bebia com um olhar langoroso por ter ficado por tanto tempo à espera dele. Servos e servas, cada um aplicado à sua tarefa, saudaram alegremente o recém-chegado. Uma vez na intimidade dos aposentos privados, Candraprabha revelou por fim quem era de fato cada uma:

— Caro esposo, eis minha irmã Candrarekha; foi ela uma vez a princesa Kanakarekha que encontraste na cidade de Vardhamana. Minha irmã Sasirekha, aqui presente, era Bindumati, a filha do rei dos pescadores, que desposas­te em primeiro lugar na ilha de Utsthala. Eis por fim minha caçula, Sisiprabha; era a princesa Bindurekha com quem te casaste em seguida, depois que um demônio a carregou para aquela caverna. Agora vem conosco diante de nosso pai, ó afortunado, para receber sua concordância, e depois — depressa! — trata de desposar-nos todas!

Candraprabha falara com a ousadia dos que seguem os comandos do deus cujas flechas são flores. Quando ela terminou, Saktideva se dirigiu em companhia das quatro para a floresta, ao encontro do pai delas.

Ali, como lhe suplicavam em coro as filhas prosternadas a seus pés, e como, ao mesmo tempo, uma voz vinda do céu lhe prescrevia, o soberano dos vidyadharas, o magnânimo Sasikhandapada, com o espírito jubilante, concedeu-as, sem excetuar nenhuma, a Saktideva. Em seguida transferiu-lhe o domínio real sobre a próspera Kanakapuri, assim como a totalidade de seus conhecimentos mágicos.

— És poderoso demais para que outro rei qualquer te vença!

Para culminar a sagração, atribuiu ao herói o nome de Saktivega, conforme os usos dos vidyadharas.

Recebendo vênia do sogro para despedir-se, Saktivega, rodeado de suas esposas queridas, entrou como rei em Kanakapuri, glória do mundo dos vidyadharas. Nessa cidade, onde o ouro faz refulgir os templos, e que, por localizar-se nas alturas, parece feita dos raios condensados do sol caindo com violência entre os jardins, e onde escadarias incrustadas de jóias conduzem ao jorro d’água dos chafarizes, ele atingiu a felicidade perfeita em companhia de suas quatro bem-amadas de olhos encantadores.

Mitologia Indiana
Eco e Narciso

— Não agüento mais essa tagarela da Eco — segredou um dia a deusa dos bosques a uma das suas ninfas.

De fato, não era só Artemis que não suportava mais o falatório da ninfa nenhuma das suas amigas podia mais vê-la pela frente sem fugir de sua língua incansável. Apesar de ser tão bela quanto a mais bela das ninfas, Eco tinha a mania incontrolável de falar pelos cotovelos.

— Por que não se cala de vez em quando? — diziam-lhe as amigas. — Homem algum suportará uma mulher que fale sem parar, mesmo sendo tão bela como você.

Mas Eco não se corrigia e prosseguia falando, até a exaustão. Um dia, porém, meteu-se com Hera, a esposa de Zeus, e isto foi a sua ruína.

O deus dos deuses havia dado mais uma de suas escapadas, e Hera andava por perto, farejando o seu rastro. A própria Eco já gozara dos favores de Zeus e prometera ocultar, a pedido do grande deus, os amores que ele agora mantinha com outra ninfa. A deusa dos bosques não queria saber de fofocas e por isso fazia vistas grossas ao namoro. Afinal, meter-se com o deus supremo podia trazer-lhe problemas funestos.

Certo dia, porém, Hera, tomada pela cólera, chegou quase a tempo de flagrar o esposo nos braços da tal ninfa. Eco, após alertar o casal, dissera a Zeus:

— Deixem comigo, eu a distrairei enquanto vocês escapam.

E assim fez, realmente. Tão logo Hera chegou, Eco apoderou-se dela com uma longa conversa, repleta de digressões e subterfúgios. Mas Hera, acostumada as desculpas esfarrapadas do marido, compreendeu logo a intenção da ninfa, que se achava mais esperta do que realmente era:

— Cale a boca! — disse, empurrando-a. — Pensa que me engana com sua conversa mole, sua atrevida?

Eco, assustada e com as mãos da furiosa deusa impressas nos ombros, calou-se. Mas era tarde demais.

— Porque pretendeu me fazer de boba a punirei, fazendo com que nunca mais possa dizer nada a não ser as últimas palavras que escutar — amaldiçoou Hera.

— ... as últimas palavras que escutar... —repetiu Eco, em cuja boca o feitiço já  começava a atuar.

— Ai está o que ganhou com seu atrevimento — disse Hera, vingada. — Adeus, idiota!

—... adeus, idiota... -repetiu Eco e tapou rapidamente a boca com as duas mãos.

A notícia da maldição de Hera espalhou-se ligeiro por entre as ninfas:

— Bem-feito, sua ordinária — disse um dia uma rival a Eco.

— ... sua ordinária... — respondeu Eco, que ao menos podia, às vezes, responder à altura os desaforos que escutava.

Assim vagou a ninfa por entre os bosques durante muitos anos, até que um dia, caminhando pelas montanhas, encontrou Narciso, um jovem caçador que havia se extraviado de seus colegas. Eco, ao colocar os olhos sobre a beleza do jovem, tomou-se imediatamente de amores por ele. Seguiu-o por um longo tempo imaginando qual o melhor meio de se aproximar dele, até que, ao pisar num galho solto, despertou finalmente a atenção do moço.

— O que foi isto? — perguntou o rapaz. — Há por aqui mais alguém?

— ... mais alguém... — repetiu Eco.

— Chegue mais perto — disse Narciso, sem ver ninguém.

— ... mais perto... — disse Eco e mostrou-se, finalmente, tendo antes o cuidado de ajeitar os cabelos.

Decepcionado por ver que não era nenhum de seus companheiros, Narciso simplesmente perguntou:

— Diga-me, ninfa, como faço para sair daqui?

— ... sair daqui — replicou Eco, agoniada, pois a última coisa que desejava era que ele fosse embora.

Não podendo expressar com suas próprias palavras o seu amor, sem que antes o estranho o declarasse para ela, a ninfa desesperou-se e resolveu tomar uma medida drástica. Estendendo os braços, lançou-se para ele num frenético abraço. "Talvez ele entenda os meus sentimentos", pensou.

— O que está fazendo? — exclamou Narciso, atirando-a ao solo com um empurrão. — Não quero o seu amor!

— ... quero o seu amor... — repetiu a ninfa, vendo Narciso dar-lhe as costas e escapar rapidamente por uma vereda do bosque.

Mas em matéria de amor Eco era um desastre. Consciente de seu fracasso, a pobre ninfa recolheu-se para o interior de uma caverna no bosque. Ali, após enfadar durante longos anos as paredes da gruta com seus lamentos e lágrimas, viu seu corpo, aos poucos, dissolver-se na escuridão da caverna, até passar a fazer parte dela. Da pobre ninfa só restou sua voz cava e profunda, a repetir sempre as últimas palavras que os passantes pronunciassem.

Narciso prosseguiu com suas caçadas e a tratar com rudeza as ninfas que o perseguiam. O jovem caçador era pretensioso e arrogante, e mulher alguma parecia bastar à sua vaidade. Inclusive corria uma lenda que dizia que quando Narciso nasceu, um oráculo teria anunciado que ele poderia viver muito tempo, se jamais enxergasse a si próprio. Seu pai, por via das dúvidas, quebrou todos os espelhos da casa. Temendo que o filho procurasse o próprio reflexo em alguma outra parte, adquiriu um espelho mágico, no qual Narciso via sua imagem sempre distorcida.

Mesmo assim, sua beleza era tal que o arrogante rapaz não desgrudava do bendito espelho.

— Como sou lindo... — dizia, sempre que tinha o espelho nas mãos.

Um dia, porém, durante uma caçada mais agitada, o espelho que trazia sempre em seu bolso partiu-se. Juntando os cacos pôde ver apenas, com lágrimas nos olhos, o reflexo estilhaçado da própria beleza.

— Que lindos pedaços! — ainda se admirou, numa vaidade residual e fragmentária.

Abalado e cansado da caça, Narciso meteu-se para dentro das profundezas do bosque, próximo da gruta onde Eco vivia. Ah perto havia um pequeno lago. absolutamente deserto e silencioso. Sobre suas plácidas águas nem um único cisne deslizava. As árvores, nas margens, inclinavam-se para longe do espelho cristalino de suas águas, como que tentando escapar de seu intenso reflexo.

Narciso, chegando à margem, debruçou-se para tomar alguns goles de límpida água. Ao fazê-lo, percebeu que alguém o observava de dentro da água. Fascinado com a beleza daquele semblante inigualavelmente belo, Narciso teve de admitir que era mais perfeito ainda do que o seu próprio rosto.

— Quem é você, rosto adorável, que me contempla deste jeito? — perguntou à efígie encantadoramente bela, que o mirava apaixonadamente nos olhos.

O rosto lindo, porém, não lhe respondia, nem a esta nem às outras solicitações. Por várias vezes Narciso tentou, sem sucesso, seduzir aquele rosto magnífico. Um dia debruçou-se a ponto de encostar os lábios à liquefeita boca da imagem. Porém, ao fazê-lo, viu o belo estranho turvarse, o que o encheu de pânico.

— Não, não fuja! — exclamou, assustado, descolando rapidamente os lábios da água, o que fez a imagem retomar, aos poucos, a sua anterior nitidez.

— Por que rejeita meus beijos?

Pela primeira vez Narciso descobria o que era a dor do amor não-correspondido.

Apesar do jovem erguer cada vez mais a voz, Eco, que ouvia tudo, excepcionalmente não lhe repetia as últimas palavras. Vítima da crueldade de Narciso, gozava agora, secretamente, a sua vingança. O único ruído que escapava da caverna era um riso baixinho, que o vento produzia ao passar pelas fendas das pedras.

O jovem caçador foi perdendo a sua cor. Suas faces murchavam, seu cabelo crescia desmesuradamente — a ponto da franja cair-lhe pelos olhos — e seu nariz, perfeitamente aquilino, apresentava uma coriza continuamente a escorrer. Mas nada disso era o bastante para fazer com que ele deixasse de amar aquele rosto magnificamente belo. Assim foi definhando lentamente o pobre Narciso, às margens do lago. Sem poder consumar o seu amor, acabou se transformando numa bela flor roxa de folhas brancas, sempre debruçada sobre o leito das águas.

Sua sombra infeliz embarcou no mesmo dia na barca de Caronte, atravessando o Estige rumo ao país das trevas. Mas nem o severo barqueiro pôde impedi-lo de, enquanto fazia a travessia, reclinar-se outra vez para mirar-se nas águas do rio infernal.

Mitologia Grega
Esaú e Jacó

- Lembra, Isaac? Foi exatamente aqui que, de certo modo, nos conhecemos - disse um dia Rebeca, à beira da fonte de Lahai-Roí, encostando a cabeça ao ombro do marido. Isaac sorria ao pensar no estratagema inventado pelo servo de seu pai, quando fora arrumar a sua esposa na distante terra de Haram. - Verdadeiramente tudo se deu conforme os planos dele - disse Isaac, dando novas graças ao Senhor. Eliézer, com efeito, após haver orado ao Senhor, conseguira identificar em Rebeca aquela que a providência havia destinado para ser a esposa do filho de Abraão. E foi instalados nas proximidades da velha fonte, na cidade natal de Rebeca, que ela e seu marido tiveram a ventura maior de sua vida. Rebeca, depois de lamentar-se seguidas vezes pela sua esterilidade, chegou a provocar em Isaac uma dolorosa pena, que o fez clamar certa noite ao Senhor, sob o brilho daquelas mesmas estrelas que Abraão tantas vezes vira como uma metáfora de sua futura descendência.

- Faze, meu Pai - disse ele, prostrado sobre a areia -, com que a minha doce Rebeca possa conceber, também, um filho!

Na mesma noite Isaac dormiu com sua esposa, e desta união veio o fruto de seu amor. Na verdade, dois frutos, pois desde os primeiros meses da sua gestação Rebeca sentia em seu ventre os espasmos de algo parecido a uma luta.

Assustada, ela clamava aos céus:

- Oh, Senhor! Soubesse eu quão ai de espera me aguardava!
Deus, entretanto, respondeu às suas queixas, dizendo:

- Dois povos se debatem em teu ventre. Eles disputarão um com o outro, de tal sorte que ao fim o mais fraco estará submetido ao mais forte.

Rebeca teve de sofrer o restante da gestação com todo o ânimo que pôde reunir, até que finalmente chegou a hora de lançar os dois irrequietos produtos do seu ventre para a luz do dia. O primeiro a sair foi um garoto de cabelos ruivos, que por isto mesmo mereceu o nome de Esaú (ou Ruivo). Já o segundo, que saíra com uma das mãos agarradas ao tornozelo do outro, como que para tentar tomar-lhe a dianteira, era muito diferente, e recebeu o nome de Jacó, ou seja, “aquele que domina".

Com o passar do tempo, as diferenças entre ambos foram se acentuando: enquanto Esaú o primogênito, era amante da caça – o que, por alguma razão estranha, fazia dele o predileto de seu pai -, Jacó era um espírito contemplativo, o que o tornava o predileto de Rebeca.

Rebeca, na verdade, identificava em Esaú, com seus modos rudes e seu corpo recoberto por um espesso pêlo ruivo, uma espécie de sucedâneo de Ismael, o turbulento tio dos gêmeos, que vivera sempre em meio as rudes tribos do deserto.

- Jacó, sim, puxou a mim e a Isaac – dizia ela -, e por isso deveria caber a ele o direito de herdar a bênção paterna.

A esposa de Isaac, com o passar dos anos, fora perdendo a sua candura de moça virgem e adstrita à autoridade dos pais, para adquirir a frieza do instinto maternal ameaçado. Sim, porque Esaú, embora saído de suas entranhas, tinha pouco ou quase nada do seu sangue, e era com certo asco que sentia o cheiro deste, quando ele retornava de suas correrias sanguinárias pelos campos, suarento e pegajoso.

Jacó, entretanto, apesar do gênio mais manso, também havia herdado a lábia tardia que sua mãe desenvolvera (porque uma mulher sem filhos é uma coisa, e a mesma, virada em mãe, é outra). Foi assim que, certo dia, estando Jacó sentado diante de uma pequena fogueira, a preparar sua comida, viu chegar seu irmão Esaú, completamente exaurido.


- Jacó, que bom que você está ai a cozinhar – disse, como pêlo ruivo lustroso. - O que temos para matar a nossa fome?


- Tenho uma suculenta sopa de lentilhas e um pedaço de pão fresco – disse o irmão, de olhos fitos nas labaredas do fogo, que brotando debaixo da caldeira pareciam dedos amarelados a suspendê-la sobre os gravetos.

- Deixe-me sentir o aroma – disse o Ruivo, aproximando o nariz lustroso de suor da nuvem esbranquiçada que se erguia da caldeira. - Hum! Vejo que pôs também alguns tomates!

Jacó sentiu o cheiro do irmão, e isto o irritou profundamente.


- Esta sopa só dá para um – disse ele, com franqueza.


- Não diga tal - disse o irmão. - Há na panela o bastante para dois.


- Comerei, então, por nós dois – respondeu secamente Jacó.


Esaú estava tão fraco da infrutífera caçada que teve de apoiar-se ao tronco de uma árvore, antes de retrucar:


- Estou com muita fome, Jacó.


- Eu também – disse o irmão, de maneira fria.

Esaú sentiu a água crescer em sua boca. a ponto de esconder pelos cantos dos lábios.

- O que quer em troca de um prato destas saborosas lentilhas? – disse ele, afinal.

- Quero o seu direito de primogenitura – respondeu Jacó, sempre de cócoras. Esaú refletiu longamente e terminou com uma conclusão pouco sensata.


- Está bem, mais vale estar vivo sem a primogenitura do que estar morto e enterrado junto com ela.


- Jure, então, pelo Senhor de nosso pai, que é assim que você quer.
Só depois de Esaú jurar solenemente que cedia o seu direito em troca do alimento foi que Jacó se retirou, deixando o irmão a sós com a caldeira fumegante.

Isaac envelhecera assustadoramente em seus últimos anos de vida. Transformado em um velho praticamente cego, vivia recluso em sua tenda. Rebeca, sua esposa, apesar de também ter se transformado em uma velha, ainda guardava intactos os sentidos.

- Preciso vigiar todos os atos de meu amado Isaac, antes que ingresse também na caverna de Makpelá - dizia ela, todo dia, ao levantar-se.

Um dia, então, escutou o velho Isaac chamar por seu filho dileto. - Esaú, venha até mim! – berrava ele, de dentro da tenda.


O filho peludo surgiu no mesmo instante.


- Aqui estou, meu pai - disse ele, pressuroso.

- Vá até o campo, mate um animal e faça para mim um assado saboroso - disse o velho. – Sinto que o momento de minha morte se aproxima com celeridade e quero, antes de partir, dar a você minha bênção.

Esaú tomou do arco e das flechas e saiu campo afora, como um alucinado.

Rebeca, contudo, escutara tudo do lado de fora, e tão logo vira o filho sumir-se, correu até Jacó, que estava a meditar, e lhe disse, não sem rudeza:

- Jacó, venha até a minha tenda!
Jacó seguiu a mãe, e, sob o abrigo das espessas lonas, ela disse:

- Chegou a hora de endireitarmos as coisas por aqui - disse ,com determinação. - Vá agora até o redil e mate dois cabritos. Depois prepararei um belo assado que você levará ao seu pai, que se ensaia já para deixar este mundo.

Assim que Jacó cumpriu as ordens, ela o tomou novamente pelo braço e o fez vestir as vestes de seu irmão.

- Mas minha mãe - disse o atônito Jacó -, como poderei enganar as mãos videntes de meu pai?

Rebeca, que já havia pensado no caso, tomou de alguns pedaços de pêlo de cabra e prendeu-os ao redor dos braços e do pescoço do filho.

- Pronto – disse ela, cheirando-o e apalpando-o. – O cheiro é o mesmo, e a pele é a mesma. Vá e cumpra o seu papel, que é o de ser Esaú.

Jacó, carregando nas mãos a terrina com o alimento, caminhou de maneira vacilante até a entrada da tenda do velho Isaac.

- Pai, posso entrar? - disse, engrossando um pouco a voz.


- Quem está aí? – disse o velho, inclinando a orelha direita para a entrada.


- Sou Esaú, seu filho, que retorna com a caça olorosa.


- Entre, de qualquer modo, ainda que eu saiba que não é meu filho Esaú.


Jacó paralisou-se. Por um instante sentiu vontade de jogar a terrina para o alto e sair correndo. Mas agora era tarde, não podia mais recuar, e assim, avançou.


- O que diz, meu pai? – falou, fazendo um grande esforço para tornar sua voz parecida com a do irmão.


- Como você caçou tão rápido? – disse o velho, sem lhe dar ouvidos.

- A caça veio até mim, por obra de Deus.


Isaac silenciou. Depois disse:


- Largue tudo e venha até mim.


Jacó obedeceu.


- Vejamos se você é mesmo meu filho Esaú – disse o velho, tomando  mãos de Jacó, recobertas pelo pêlo espesso da cabra.
Depois de alisar longamente as mãos e de espichar alguns fios enovelados, o ancião quase cego pareceu convencido.
- Está bem. O cheiro também me parece o mesmo – acrescentou ele, dilatando as grandes narinas avermelhadas.
- Dê-me, agora, a comida, pois o cheiro está delicioso.

Jacó deu de comer ao pai e baixou reverentemente os olhos ao ver os pedaços de carne serem consumidos pela velha boca.


- Estava muito bom – disse o velho, ao fim. - Agoradê-me de beber.


Jacó serviu-lhe um grande copo de vinho, que o velho repetiu.
Depois que esteve novamente recostado sobre os travesseiros, Isaac disse:

- Agora, Esaú, aproxime sua cabeça peluda da minha destra, eis que vou abençoá-lo.
E assim o fez, vertendo sobre a cabeça do falso Esaú a sua bênção poderosa e fazendo deste o último herdeiro legitimo e senhor da casa dos descendentes de Abraão.

- Que os filhos de sua mãe se prostrem diante de você! - disse ele, encerrando a bênção fatal.

Jacó, então, se retirou, e o fez em boa hora, pois nesse instante Esaú retornava trazendo a sua caça, que ainda precisava cozinhar.

Durante um bom tempo preparou a carne até que, estando tudo pronto, dirigiu-se com a sua terrina à tenda do pai.

- Com licença, meu pai - disse ele. - Cá estou com a delicia prometida.


- Esaú, outra vez? - disse o velho, suspendendo a cabeça. - O que você ainda quer? Já não lhe dei a minha bênção?


- Desculpe, meu pai, mas não o entendo.


Rebeca viu ao longe o pano da entrada da tenda descer. Um ligeiro e abafado altercar de vozes soou e então ela compreendeu que o filho enganado já era sabedor de sua constrangedora e irremediável situação.

- Traído! - berrou Esaú, arrancando os cabelos avermelhados. - Miseravelmente enganado!

Ainda assim tentou arrancar uma benção do velho pai, mas este não podia tomar.

- Você viverá desde hoje sob o jugo do seu irmão, até que ele, em suas andanças, se rompa naturalmente.

Foram estas as palavras mais suaves que Isaac encontrou para dizer ao filho mais amado.

Depois disso Esaú silenciou, pois sabia que, enquanto o pai vivesse, ele não poderia tirar a desforra – que outra não era se não matar o irmão usurpador.

Rebeca, no entanto, sabia perfeitamente dos propósitos do Ruivo. Por isso chegou até Isaac e disse:

- Isaac, não é bom que Jacó esteja a misturar-se com essas mulheres da qui. Faça como seu pai fez com você: não permita que seu filho se case com uma cananéia.

- Jacó não desposará nenhuma filha de Canaã, como Esaú – disse o velho cego.

Na verdade o Ruivo casara-se havia tempos com duas mulheres do lugar, as quais, desde então, infernizavam a vida de Isaac e Rebeca.

- Mande Jacó à terra de Abraão para que lá tome por esposa uma das filhas de seu irmão Labão - disseIsaac.

E assim Jacó partiu escondido, a fim de evitar a ira de Esaú. Quanto a Rebeca, a causadora de tudo, despediu-se do filho sem saber que jamais tornaria a revê-lo.

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Desenvolvimento da metalurgia no Perú

Na América do Sul, a metalurgia é um processo complexo que aparece na região andina (colômbia, Equador e norte do Peru), por volta de 1800 a.e.c. Uma vez que o ferro era desconhecido, é especialmente o ouro e o cobre que são explorados. Os sítios de Waywaka Andalahuaylas, nos Andes centrais (Apurimac), forneceram assim folhas de ouro e de cobre, marteladas e gravadas, datadas de 1500 a.e.c. Nos andes meridionais, restos de cobre foram recolhidos nos sítios de Wankarai e Chiripa, nos altos platôs bolivianos. E, no norte da Argentna (Condorwasi, Cienaga e La Aguada) e do Chile (Atacama), a utilização de ligas de cobre e prata e de bronze com arsênico e estanho é atestada a partir do 1º Milênio a.e.c.

O metal era fundido em pequenos fornos ventilados com a ajuda de tubos direcionados para o forno e nos quais era suficiente soprar para reativar o fogo. Martelado quente, permitia obter folhas que era recortadas em seguida, rebatidas e soldadas para confeccionar ornamentos (alfinetes, broches, braceletes, colares, ornamentos de nariz...) de ouro ou de cobre dourado, destinados aos dignitários locais e, mais raramente, utensílios (tesouras, facas, louça).

De 200 a 500, com o desenvolvimento das culturas Vicus, Moche, e Recuay, todas as técnicas de ourivesaria foram empregadas, como a fundição em cera perdida, a coloração, a filigrama e a utilização de uma liga de ouro e de cobre (chamada tumbago) na Colômbia, ou de ouro e prata (ou e ouro e platina) no Equador.

A revolução Russa de 1905

O quarto de século do assassinato de Alexandre II até a Revolução de 1905 foi de estagnação política. A reação do novo governo ao assassinato foi interromper o processo de reforma, afirmar publicamente a necessidade da autocracia e formular planos de contrarreformas. Estes últimos não resultaram em nada, mas o governo aproveitou toda possibilidade de bloquear a crítica, a discussão política e a organização entre o público. Apesar de retomar o patrocínio do desenvolvimento econômico nos anos 1890 sob o ministro das Finanças Sergei Witte, ele recusou-se a reconhecer as implicações da modernização continuada da sociedade, que resultava em parte das suas próprias medidas. O isolamento crescente do governo e sua própria falta interna de coordenação levaram a uma tentativa malograda de imperialismo moderno na Manchúria, tentativa que levou a uma guerra malsucedida com o Japão, que quase derrubou a monarquia.

Alexandre III tornou-se o herdeiro do trono em 1865 após a morte do seu irmão mais velho. Alexandre já tinha 20 anos na época e recebera uma educação militar um tanto estreita, ao contrário do seu irmão. Em 1866 ele desposou a princesa Dagmar da Dinamarca (Maria Fedorovna depois da sua conversão à ortodoxia) e teve um casamento estável com uma mulher inteligente e de opiniões extremamente conservadoras. O jovem herdeiro não era um intelectual, mas teve contato com ideias eslavófilas na corte e por meio do seu tutor de jurisprudência, Konstantin Pobedonostsev. Por intermédio dos guardas e de outros aristocratas ele fez amizade com o publicista conservador (e o homossexual mais destacado da aristocracia de São Petersburgo) príncipe V. M. Meshcherskii. Tratava-se de conservadores radicais com  princípios rigorosos, que só tinham desprezo pela liberdade de expressão, pela democracia e pelo governo representativo, os quais eles julgavam ser embustes aptos a conduzir à revolução. Na sua opinião, o que era necessário era a unidade da sociedade e do monarca, que eles consideravam a essência da autocracia. Na década de 1870, eles formaram uma oposição poderosa aos ministros mais liberais em torno de Alexandre II, poderosa em grande parte por causa da sua associação com o herdeiro. Como parte da sua tentativa de governo equilibrado, o tsar Alexandre II nomeou Pobedonostsev chefe do Sínodo, cargo que ele ocupou pelos próximos 24 anos. Depois que Alexandre III ascendeu ao trono, Pobedonostsev usou sua posição no Sínodo para manter acesso constante ao tsar, oferecendo-lhe conselho sobre todo tipo de assuntos muito além das questões eclesiásticas sob sua alçada. Aos olhos da sociedade liberal e de muitos funcionários do governo, ele tinha poder e influência altamente excessivos e numa direção inteiramente conservadora. “Príncipe das Trevas” era um dos seus apelidos mais gentis.

Na realidade, Alexandre escutava Pobedonostsev e Meshcherskii, mas nas suas decisões ele geralmente acompanhava os ministros, conservadores decerto, mas não inclinados a desmantelar a estrutura construída com tanto cuidado no reinado anterior. Essas estruturas ainda deixavam muitas áreas nas quais os ministros e administradores locais podiam agir com discricionariedade - nas relações com os zemstvos, em casos de exílio administrativo de liberais e socialistas, e outros. Aqui o tsar e seus subordinados quase sempre escolhiam a linha mais severa e autoritária. As “Regulamentações Temporárias” de 1881 foram dirigidas contra os revolucionários e permitiam que os governadores provinciais declarassem um estado de “segurança reforçada”, que os autorizava a prender subversivos sem julgamento, transferir casos de segurança para tribunais militares e fechar universidades e empresas. As regulamentações duraram até 1917. Em contrapartida, poucas “contrarreformas” foram realmente executadas. A autonomia universitária foi restringida mais ainda e o tsar promulgou um decreto que nomeava nobres como “capitães de terra” para monitorar a aplicação da lei nas aldeias. Tal como era sua intenção, o decreto efetivamente reforçou o poder da aristocracia no campo, e outras regulamentações que remendavam a administração local fortaleceram a burocracia contra os zemstvos, mas nenhuma dessas medidas constituiu uma mudança importante. Nas cidades o governo acabou elevando o requisito de propriedade para ser eleito para as Dumas municipais e proibiu os judeus de serem eleitos para as Dumas, mas deixou a estrutura básica intacta. O caráter reacionário do reino de Alexandre III estava mais na ausência de reação às mudanças sociais e econômicas em curso do que em qualquer tentativa concertada de retornar a uma era anterior.

Parte do novo reinado era também um nacionalismo oficial cada vez mais estridente, incluindo um antissemitismo oficial. Era mais uma mudança de tom que de substância, pois pouca coisa aconteceu em relação a novas medidas ou políticas além de uma aplicação mais rigorosa da legislação discriminatória contra os judeus, como foram as restrições de moradia fora dos limites da Zona de Residência. Em 1887 o governo introduziu a quota formal para judeus nas universidades, além das novas leis sobre o governo municipal. Houve outras investidas ocasionais de russificação, mas esta última era, com frequência, mais declaratória que real, pois o Império Russo carecia de recursos para adotar uma política firme nessa área. As propostas de substituir o alemão pelo russo nas escolas das províncias bálticas, uma campanha particular dos nacionalistas russos da época, fracassaram porque o Ministério da Educação salientou que não tinha recursos para contratar professores nem para construir escolas. Logo, as escolas das províncias bálticas continuaram em mãos locais, ou seja, alemãs. A preeminência continuada de aristocratas alemães e outros não russos na corte, no Exército e no corpo diplomático também impunha um limite muito claro ao grau de “russidade” que o governo podia reivindicar ou tentar impor.

Foi na política externa e econômica que os anos de Alexandre III trouxeram mais mudanças. Nos anos seguintes à Guerra da Crimeia, o príncipe Gorchakov mantivera o país firmemente no campo tradicional da amizade com a Prússia, tentando ao mesmo tempo aliviar a tensão com a Grã-Bretanha e a França. Quanto a isso ele só teve êxito parcial, e a posição ambígua da Alemanha de Bismarck ao final da Guerra Russo-Turca em 1878 minou a antiga aliança entre Berlim e São Petersburgo. À medida que a Alemanha aproximou-se da Áustria ao longo da década de 1880, a relação desgastou-se ainda mais, pois tanto a Rússia quanto a Áustria tinham intenções nos Bálcãs. A competição entre a Rússia e as duas potências alemãs levou ao fim da influência russa na Bulgária em 1886. O esfriamento resultante das relações russo-alemãs deixou a Rússia efetivamente isolada na Europa. A nova Alemanha, no entanto, fora construída sobre a vitória na guerra franco-prussiana e a anexação da Alsácia-Lorena, e portanto tinha a França como inimigo implacável. A Rússia e a França logo perceberam um interesse comum e, em 1893, a grande República e a autocracia do Leste assinaram um tratado que fez delas aliadas contra a Alemanha. A constelação política que durara no continente europeu desde 1815 chegara ao fim, e fora plantada a primeira semente que levaria à guerra em 1914. Até hoje, a ponte Alexandre III no centro de Paris serve de lembrete dessa aliança fatal.

Porém, a aliança ainda não era um estopim de guerra, visto que, até aquele momento, nenhum dos inimigos potenciais queria a guerra. Os laços dinásticos entre Berlim e São Petersburgo subsistiam e permitiam que ambos os lados conservassem a ilusão de que as coisas poderiam ser resolvidas. Todavia, os respectivos Exércitos não pensavam o mesmo, pois o Exército russo havia começado a repensar suas defesas ocidentais a partir da década de 1870, quando a Alemanha e a Rússia ainda eram aliadas, e o Exército alemão também agiu rapidamente para planejar uma guerra em dois frontes. Mas por enquanto a atenção dos governos e sociedades estava mais focada no Extremo Oriente. Ali, duas questões totalmente separadas vieram a se encontrar, os planos económicos de Sergei Witte e a ascensão do Japão.

Sergei Witte foi talvez o último estadista realmente dinâmico e ponderado do Império Russo, um homem com grandes planos e capacidades, bem como um ego gigante, que nunca trabalhava facilmente com outros em pé de igualdade. Ele desprezava os outros ministros de Estado - em grande parte com razão - e formulava seus planos com sua equipe, trabalhando diretamente com o tsar. A maneira como ele obteve o cargo é uma história à parte. Witte sempre alegou que seus antepassados eram holandeses e haviam ido para a Rússia através das províncias bálticas. Na verdade, seu avô era simplesmente um alemão báltico de classe média (talvez com ascendência holandesa) que serviu como tutor em famílias aristocráticas russas. O jovem Witte formou-se na Universidade de Odessa em Ciências Naturais, não em Direito Administrativo como a maioria dos futuros funcionários públicos. Ele também parece ter participado de uma obscura sociedade direitista chamada “União de São Miguel Arcanjo”, mas depois começou a trabalhar para a Ferrovia do Sudoeste, uma ferrovia privada que fazia a linha entre Odessa e Kiev. Isso lhe deu uma experiência do funcionamento de uma empresa capitalista que poucos altos funcionários russos possuíam. Alexandre III nomeou-o primeiro para o departamento de ferrovias do governo e sua ascensão foi veloz: em 1892 ele já era ministro das Finanças aos 43 anos de idade, uma conquista notável num governo cada vez mais idoso. Como os favoritos precedentes do tsar, seu poder baseava-se inteiramente na confiança do monarca, dado que Witte era arrogante demais, grosseiro demais e desacostumado demais com as sutilezas da política de Petersburgo para encontrar aliados entre os ministros. Ele considerava a maioria deles como tímidos incompetentes, mas não conseguia perceber que, sem eles, ele só podia contar com o tsar. Com Alexandre III no trono, essa atitude parecia sensata.

O grande projeto de Witte foi a Ferrovia Transiberiana, iniciada já em 1891. Essa enorme linha férrea que atravessava toda a Ásia setentrional viria a se tornar, sob muitos aspectos, um monumento a ele. Contra muitos céticos, ele tocou o projeto, primeiro com o apoio de Alexandre III e depois com o de seu filho Nicolau II. Os planos de Witte não consistiam apenas em melhorar as comunicações com o ponto mais remoto do Império. Decerto, uma mudança radical era necessária, já que as únicas formas de ir da Rússia europeia ao Pacífico eram a cavalo e de barco, o que durava vários meses, ou tomar um vapor saindo de Odessa e atravessando o canal de Suez para depois contornar a Índia e a China. Witte pretendia desenvolver a Sibéria, tanto pelos seus recursos naturais quanto pelo seu potencial como área de colonização, para satisfazer a fome dos camponeses por terra. Ao mesmo tempo, ele tinha consciência de que as potências europeias estavam recortando a China em esferas de influência, e ele não queria que a Rússia perdesse o seu quinhão. Assim, a última perna da rota da nova ferrovia sairia do lago Baikal através da Manchúria até Vladivostok, e a linha no interior do território russo seria deixada para depois. O objetivo era tomar a Manchúria como parcela da Rússia na China e como espaço para um novo estilo mais moderno de colonialismo. A meta de Witte era a “penetração pacífica” da China por motivos econômicos, mas os militares russos queriam uma base naval, e em 1896 obtiveram da China a concessão de Port Arthur, na costa sul da Manchúria. A Rússia parecia ter uma posição firme no Extremo Oriente. O único problema com esse plano brilhante era o Japão. Exatamente na década de 1890, o Japão estava dando seus primeiros passos em direção a um império na Ásia, com a derrota infligida à China e um crescente poder informal na Coreia. A presença da ferrovia russa, de Harbin e da base naval de Port Arthur irritava profundamente os japoneses e era uma consequência direta das políticas de Witte. Mas, por enquanto, a paz persistia, e a Rússia, o Japão e as potências europeias trabalhavam juntos para suprimir a Rebelião dos Boxers na China (1900).

Em 1894, Alexandre III morreu. Embora suas políticas tivessem impedido a Rússia de avançar em quase todas as áreas exceto a industrialização e a construção do império, pelo menos ele tinha sido um líder firme, capaz de tomar decisões difíceis, como Witte reconhecia. Seu filho, Nicolau II, era um homem de caráter muito diferente. Ele carecia completamente da capacidade de seu pai de assumir responsabilidades e fazer uso de seus ministros. Alexandre havia-os seguido na maioria das ocasiões, mas também dispunha-se a aceitar uma opinião minoritária e apoiá-la. Nicolau, muitas vezes, simplesmente concordava com o último que lhe dirigisse a palavra, e depois mudava de ideia novamente. Ele compartilhava as opiniões de seu pai acerca da inutilidade dos parlamentos, da liberdade de expressão e dos direitos humanos, e tinha tendência a ver a mão oculta dos judeus no liberalismo e no socialismo. Se ele não fosse o tsar, teria dado um fidalgo rural conservador ideal, pois era também gracioso, gentil e bom homem de família. Sua esposa Alexandra, a princesa alemã Alix de Hesse-Darmstadt, incentivava todas essas características, visto que era igualmente conservadora e devotada à família.

Infelizmente, a devoção de Alexandra à família e seus horizontes limitados não ajudavam a lidar com a hemofilia que seu filho, o herdeiro do trono Alexei, tinha de nascença. Sua reação foi recorrer a uma série de curandeiros, cada qual mais influente que o anterior. Para piorar, o temor plenamente justificado de terroristas aumentava o isolamento de Nicolau e sua família, o que tornava ainda mais difícil para eles compreender o que estava acontecendo em torno deles. As incessantes viagens à Crimeia e alhures, os entretenimentos ocasionais na corte e as excursões familiares no iate imperial não deixavam muito espaço para contato com o povo. As únicas aparições públicas eram cuidadosamente encenadas, muitas vezes como parte de cerimônias religiosas, o que dava ao tsar e ao povo uma visão completamente falsa das necessidades do país e da opinião pública.

No entanto, de início tudo correu bem. Nicolau era um partidário fervoroso do Extremo Oriente e do seu desenvolvimento e apoiava Witte incondicionalmente. Ele até concordou com a iniciativa controvertida do ministro de adotar o padrão-ouro na Rússia em 1897, uma medida concebida para encorajar o investimento e a industrialização, mas que não era necessariamente boa para os interesses agrários que a nobreza defendia. Depois de 1900, o apoio do tsar a Witte começou a desgastar-se. A nomeação de Viacheslav Plehve, um funcionário de carreira e uma personalidade poderosa, para chefiar o Ministério do Interior deu a Witte um rival forte e, em meados de 1903, Nicolau destituiu o ministro das Finanças. A única solução de Plehve para os problemas da Rússia era mais repressão, contra os revolucionários e contra os liberais de classe média e alta.

Todos esses grupos de oposição cresceram e consolidaram-se rapidamente nos anos 1890. Os primeiros a se organizarem foram os marxistas, que rejeitavam o terror em prol da organização dos trabalhadores para conclamar greves e combater os empregadores e o Estado por meio da ação coletiva. Os marxistas que conseguiram reunir-se e adotar um programa geral em 1898 foram imediatamente presos, e os vários grupos marxistas não se reuniram novamente antes de 1903. Quando eles se encontraram em Londres naquele ano, uma nova figura destacou-se, um diplomado da faculdade de Direito da Universidade de São Petersburgo com experiência na clandestinidade e no exílio. Tratava-se de Vladimir Il’ich Ul’ianov, cujo pseudónimo revolucionário era Lenin. Filho de um professor de Ciências de colégio e inspetor de escolas públicas em Simbirsk no Volga, Lenin havia passado do exílio na Sibéria à Europa Ocidental para editar uma revista socialista, Iskra (Centelha), por meio da qual ele e o marxismo conquistaram seguidores entre os estudantes e poucos trabalhadores que eram o celeiro do movimento revolucionário. No congresso de Londres, o partido foi refundado com um programa e estrutura mais elaborada, e os primeiros desacordos se manifestaram. O objetivo dos marxistas era derrubar o tsar e estabelecer uma República democrática (uma “revolução burguesa”). Ou seja, eles acreditavam que, enquanto essa tarefa não fosse completada, eles não deveriam almejar uma ditadura do proletariado e a introdução do socialismo. O inimigo, por enquanto, era o tsar. Portanto, eles agiriam sob as barbas da autocracia, em guerra contínua com a polícia, e Lenin acreditava que o partido devia ser sobretudo um movimento clandestino de revolucionários profissionais. Seus adversários, liderados pelo exímio Iulii Martov, pensavam que Lenin exagerava a necessidade de concentrar-se na luta clandestina e queriam um partido mais flexível. No voto da questão, Lenin ganhou por uma maioria estreita, e seus seguidores ganharam assim o nome de bolcheviques (bolshe significa “mais”), enquanto os de Martov foram chamados de mencheviques (menshe significa “menos”). Essa disputa ainda não envolvia os poucos ativistas operários e permanecia domínio exclusivo da intelligentsia do partido, pois a ela pertenciam os líderes nesses anos iniciais. O pai de Martov era um próspero empresário judeu e jornalista na imprensa judaica de língua russa, que havia frequentado os ginásios em São Petersburgo e cursado um ano de universidade antes de ser preso por atividade revolucionária. Trotsky vinha de uma família de agricultores judeus, descendentes dos colonos da Nova Rússia da época de Alexandre I. Diplomado de um colégio luterano de elite em Odessa, Leon Trotsky, como Lenin e Martov, era típico dos primeiros líderes revolucionários.

Os marxistas não foram o único grupo político a formar-se. Em 1901, os grupos revolucionários que se inspiravam na antiga tradição populista da década de 1870 reuniram-se para formar o Partido dos Socialistas Revolucionários. Eles continuavam acreditando que o capitalismo era um transplante artificial na Rússia camponesa e em tese concentravam seus esforços nas aldeias. Na prática, eles julgaram difícil organizar os camponeses, e a maioria dos seus seguidores estava nas fábricas urbanas. Os SRs, como eram chamados, também absorveram algumas ideias marxistas e produziram uma ideologia eclética cuja falta de consistência não tirava seu apelo. Eles também continuavam a acreditar que o terror contra funcionários do governo era uma ferramenta útil e, junto com os agitadores do partido SR nas fábricas, a  Organização de Combate travou uma guerra implacável contra o governo, por meio de uma série de assassinatos espetaculares. A polícia concentrou naturalmente grande parte da sua atenção nesse grupo, e de 1903 a 1908 o chefe da Organização de Combate era um agente de polícia chamado Evno Azef.

Não surpreende que os últimos a formar uma organização tenham sido os liberais. Sua aparição no cenário político era parte da agitação mais ampla na classe média e alta da Rússia que cresceu rapidamente no final do século. Desde os anos 1860, incontáveis grupos e sociedades profissionais haviam surgido, organizações de químicos e engenheiros, médicos e agrónomos. Os empresários eram particularmente ativos na formação de grupos de pressão para exigir políticas económicas favoráveis, tarifas protecionistas e um quadro jurídico mais moderno (e favorável ao empresariado) para a sua atividade. Os grupos empresariais não eram meros grupos de manufatureiros ou banqueiros que negociavam em particular com o governo. Eles reuniam-se em convenções e usavam a grande feira de Nizhnii Novgorod e as muitas exposições como fóruns de discussão pública das suas necessidades. Os jornais relatavam com minúcias esses encontros, que abordavam as diversas necessidades da Rússia mas evitavam escrupulosamente as questões constitucionais. Muitas dessas organizações foram inicialmente apoiadas ou até criadas pelo Ministério das Finanças como medida para incentivar o progresso e a maioria dos seus membros era intensamente leal em política. Contudo, com o passar do tempo, as organizações empresariais e outras ampliaram a discussão de questões sociais e económicas, exprimindo a frustração desses níveis da sociedade com um governo que eles viam cada vez mais como demasiado conservador e lento para atender as necessidades de uma sociedade em mutação.

Alguns líderes liberais da intelligentsia e da aristocracia começaram a acreditar que havia chegado a hora de organizarem-se de forma mais política. Durante décadas eles tiveram a esperança de que os zemstvos evoluiriam para um sistema de representação do público ou que novas medidas mais liberais seriam tomadas pelo governo para substituir a arbitrariedade por direitos básicos e alguma forma de consulta popular. Nada disso veio à tona, mas os zemstvos efetivamente proporcionavam um fórum em que muitos nobres liberais e outros aprenderam a lidar com as inumeráveis questões locais, o que deu-lhes experiência da vida pública e da indisposição do governo de compartilhar o poder em qualquer medida mais ampla. Em 1901 eles haviam desistido, pois o governo recusava-se a ceder, e um pequeno grupo de ativistas liberais formou um grupo clandestino, a União da Libertação. Contrários ao terror e aos métodos revolucionários, eles decidiram que somente um grupo ilegal podia ir além das questões específicas, conduzir a discussão necessária e fornecer as publicações contrabandeadas do exterior.

Em 1904, redes de ativistas de tendências variadas cobriam as principais cidades do interior da Rússia e, nas bordas ocidental e meridional, grupos nacionalistas e socialistas entre os poloneses, judeus, georgianos, arménios e outros acrescentavam outra dimensão à instabilidade. Então, em 27 de janeiro (9 de fevereiro) de 1904, a Marinha japonesa atacou a base russa em Port Arthur e afundou a maior parte da esquadra russa. A Rússia estava agora em guerra com o Japão do outro lado do globo com relação a São Petersburgo. A única linha de comunicação era a Ferrovia Transiberiana, da qual grande parte ainda tinha via única e estava incompleta. O Exército russo, longe das suas bases e atravancado por generais idosos, sofreu uma série de derrotas ao longo do ano. Em julho, um terrorista SR assassinou Plehve, e Nicolau nomeou o mais tolerante príncipe, Petr Sviatopolk-Mirskii, no seu lugar. A nomeação foi inesperada e devia-se em grande parte aos esforços da mãe de Nicolau, a imperatriz viúva Maria. Enquanto Sviatopolk-Mirskii parecia avançar em direção a certas medidas levemente liberais, outra crise estava fermentando em São Petersburgo.

Há tempos a polícia das capitais era frustrada pelo sucesso dos social-democratas e dos SRs entre os trabalhadores da cidade. Apesar das prisões constantes, eles pareciam estar fazendo um modesto progresso e alarmavam as autoridades com sua persistência obstinada e a presteza dos trabalhadores em escutá-los. Então o chefe da polícia política de Moscou, Sergei Zubatov, teve a ideia de criar um sindicato trabalhista controlado pela polícia. Ele ofereceria alguns serviços sociais modestos aos trabalhadores para amenizar sua condição, ao mesmo tempo que incutiria neles a lealdade à Igreja ortodoxa e ao tsar. Em São Petersburgo, o líder do sindicato era o frei Georgii Gapon, que logo conquistou o apoio animado dos trabalhadores e representou uma séria ameaça aos revolucionários. Por isso, quando uma greve espontânea estourou nas imensas fábricas Putilov na borda meridional da cidade, Gapon viu-se diante de um dilema. A política dos sindicatos da polícia era opor-se às greves (vistas simplesmente como violações da ordem pública no Direito russo), mas se ele escolhesse esse caminho sabia que perderia para os radicais o apoio dos trabalhadores. Ele optou por aceitar a greve, mas teve a ideia de que os trabalhadores deveriam apresentar suas queixas ao tsar. Gapon presumiu que o tsar escutaria e faria algo, o que aplacaria os trabalhadores e resolveria a greve. Quando os trabalhadores aproximaram-se do Palácio de Inverno na neve em 9/22 de janeiro de 1905, a reação do governo, apreensivo quanto à agitação na cidade, foi alinhar soldados diante do palácio e ordenar que abrissem fogo sobre a multidão desarmada. Mais de cem pessoas foram mortas e muitas outras feridas.

Dentro de poucos dias, trabalhadores de todo o país, da Polónia à Sibéria, entraram em greve às centenas de milhares. Eram movimentos espontâneos sem sindicatos, sem pagamento de greve e praticamente sem liderança. O sindicato da polícia foi imediatamente desacreditado e os partidos revolucionários ficaram sobrecarregados, pois tinham somente poucos milhares de ativistas no país inteiro.

A Revolução de 1905 que se seguiu foi um acontecimento extraordinariamente complexo. O movimento urbano de greve foi enorme, especialmente ao considerar-se a falta de experiência nesse tipo de ações por parte de quase todos os trabalhadores e a inadequação das estruturas organizacionais. Nas aldeias, pela primeira vez a agitação camponesa tornou-se suficientemente generalizada para provocar campanhas ferozes de repressão militar, muito embora os SRs e outros ainda julgassem extremamente difícil organizar de fato os camponeses. A maior parte das áreas não russas conheceu os mesmos levantes que o interior do país, com forças nacionalistas ou socialistas predominantes em diferentes áreas e diferentes épocas. As classes médias liberais geralmente apoiavam todos esses levantes, mesmo que apenas de modo passivo, e culpavam insistentemente o governo pela carnificina. O governo viu-se extremamente isolado, embora o tsar Nicolau tenha tentado aferrar-se à fantasia do campesinato leal corrompido pela intelligentsia e pelos judeus.

Para complicar tudo, a guerra com o Japão continuava e ia de mal a pior. Na primavera, os japoneses infligiram uma derrota capital ao Exército russo em Mukden. Para substituir a esquadra perdida do Extremo Oriente, a Marinha enviou a esquadra do Báltico numa jornada épica contornando a África e a Ásia Meridional até o teatro de operações. Ali ela deparou-se com a Marinha japonesa em Tsushima em maio de 1905 e foi quase inteiramente destruída. Nesse ponto, Nicolau e seu governo perceberam que não tinham outra opção além de fazer a paz. Com Theodore Roosevelt como intermediário, a paz foi assinada em Portsmouth, New Hampshire, em 23 de agosto  (2 de setembro) de 1905. A Rússia perdeu a base de Port Arthur e a metade meridional da ilha de Sakhalin, mas conservou sua ferrovia na Manchúria e suas edificações em Harbin.

Esses acontecimentos ocorreram num contexto de agitação que crescia rapidamente. Na primavera, quase 1 milhão de trabalhadores só em São Petersburgo fizeram greve por maiores ou menores jornadas de trabalho. Algumas eram políticas, mas a maioria era sobre salários, e particularmente sobre o tratamento rude e condescendente nas mãos dos diretores das fábricas. A tomada de terras e os ataques às casas da nobreza pelos camponeses atingiram o ápice no verão e espalharam-se por toda a Rússia central, a Ucrânia, a Polónia, as províncias bálticas e o Cáucaso. Na Georgia, áreas inteiras estavam fora do controle do governo e bandidos prosperaram junto com os rebeldes camponeses. Começando por Baku, arménios e azeris atacaram-se mutuamente, matando milhares. Nos Estados bálticos, o antagonismo étnico entre os proprietários rurais alemães e os camponeses letões e estonianos fez recrudescer a violência, e os cossacos russos viram-se na posição de ter de defender os nobres alemães bálticos. O ponto alto do verão de 1905 foi o motim dos marinheiros do encouraçado Potemkin, mais tarde imortalizado no filme de Sergei Eisenstein. Os marinheiros exigiram melhores condições e o fim da autocracia e apoiaram os grevistas em Odessa antes de zarpar para o internamento na Roménia. Esse e outros motins militares, que continuaram até 1906, mantiveram o governo encurralado.

Em agosto, Nicolau, sob pressão do seu governo e de sua mãe, publicou um manifesto que concedia uma legislatura representativa, mas com poderes muito limitados. O manifesto não surtiu efeito e, no outono, o movimento grevista nas cidades foi retomado com força ainda maior. Em outubro, as greves transformaram-se em greve geral, agora de característica política, dirigida contra a autocracia com apelos em prol de uma república democrática. Na ausência de outras organizações, os trabalhadores de São Petersburgo começaram a formar conselhos (em russo, soviets) no nível das fábricas e depois reuniram-se para formar um soviete municipal. De início, os social-democratas tinham dúvidas quanto aos sovietes, mas os mencheviques perceberam seu potencial. O líder mais vigoroso entre os deputados do soviete de trabalhadores de São Petersburgo era Leon Trotsky, orador vivaz e poderoso e um dos principais líderes dos mencheviques. Lenin e seus seguidores logo se juntaram ao movimento. Finalmente, em 17/30 de outubro, o tsar concedeu que a Rússia teria de ter uma legislatura representativa, a ser chamada de Duma, e algum tipo de constituição. A greve geral  terminou, mas Lenin e os bolcheviques queriam continuar impulsionando a revolução. O resultado foi uma insurreição nos distritos industriais a oeste de Moscou em dezembro de 1905, reprimida com força considerável pelo Exército e pela polícia.

O Manifesto de Outubro mudou completamente a política russa, talvez mais do que Nicolau pretendera. Witte retornou ao poder no novo cargo de primeiro-ministro. Grupos liberais e conservadores começaram a formar partidos, e alguns revolucionários saíram, pelo menos parcialmente, da clandestinidade. Os novos partidos fundaram jornais e admitiram membros, preparando-se para as eleições. Os primórdios da política de massa também trouxeram forças mais sinistras na forma da União do Povo Russo e muitos grupos menores do mesmo tipo. Tratava-se das “Centenas Negras”, devotadas à autocracia e à ortodoxia, que acusavam os judeus de serem a fonte de todos os problemas da Rússia. Intensamente nacionalistas, elas opunham-se à igualdade para todas as minorias nacionais, mas discriminaram os judeus para os pogroms sangrentos, que eles acreditavam que poriam fim à revolução, a qual, na sua visão, era obra dos poloneses e da intelligentsia, e sobretudo dos judeus. Dois deputados judeus da Duma foram vítimas do terror, além de centenas de pessoas nos pogroms. Pelo menos 400 judeus morreram apenas no pogrom de Odessa. Embora ineficazes no combate à revolução, as Centenas Negras adicionaram outro elemento de violência e caos à política russa.

O governo prometera uma constituição para a Rússia, e Witte e os ministros produziram uma com a qual o tsar concordaria. Foi a primeira constituição da Rússia, as Leis Fundamentais, escrita por Witte e outros funcionários do governo e proclamada no dia de abertura da nova Duma - 27 de abril de 1906. Na nova estrutura, a Duma deveria aprovar leis e, se o Conselho de Estado concordasse, elas seriam enviadas ao tsar para sua aprovação, sem a qual não seriam válidas. O Conselho de Estado tornou-se uma casa superior, composta principalmente por grandes dignitários do Estado nomeados pelo tsar, mas com alguns representantes da nobreza, do empresariado e das universidades. De forma um tanto inconsistente, o documento proclamou o tsar um autocrata, mas agora ele tinha de fazer leis através da Duma. Seu poder continuou predominante, pois as Leis Fundamentais reservavam ao tsar a política externa, o poder de fazer a guerra e a paz, o comando do Exército e todas as nomeações administrativas. Pela primeira vez, o tsar tinha algo semelhante a um gabinete com um primeiro-ministro (Witte de início), mas os ministros eram todos responsáveis perante o tsar, e não perante a Duma.

Era uma constituição altamente conservadora, embora não tão estranha na Europa de 1906 como pareceu depois. A concentração do poder militar e da política externa nas mãos do monarca também era uma característica das constituições alemã e austríaca, e até na Suécia os ministros ainda eram responsáveis perante o rei, não o parlamento. O que tornou o sistema russo mais peculiar foi o fracasso do gabinete em impor-se como força unificada (os resultados dependiam das personalidades) e o complexo sistema de eleição para a Duma. Esta não era eleita simplesmente com base nas regiões ou em requisitos de voto censitário, mas por meio de um complexo de distritos regionais, do voto indireto e do sistema curial. Para cada grupo social (camponeses, citadinos, trabalhadores, nobres) havia uma cúria, na qual os eleitores depositavam suas cédulas na cúria. Ainda acreditando na lealdade do campesinato e no seu conservadorismo social, as eleições para a primeira Duma que aconteceram no inverno de 1905-1906 basearam-se numa distribuição de assentos que favorecia o campesinato. Nicolau estava convencido de que somente as classes médias e altas se opunham à autocracia, mas que os camponeses estavam do seu lado.

O resultado das eleições apresentou ao governo uma Duma com a qual era impossível trabalhar. O boicote dos partidos revolucionários significava que os liberais, os Kadets (Democratas Constitucionais, oficialmente o Partido da Liberdade Popular), eram o maior partido na Duma, enquanto os camponeses, que se organizavam lentamente em partidos, eram o maior grupo. Para os Kadets, as concessões do governo ao constitucionalismo eram pequenas demais, e os deputados camponeses surpreenderam a todos votando a favor de qualquer medida que lhes proporcionasse terras. Muitos exprimiram lealdade ao tsar, mas eles também queriam terra, algo com que Nicolau e Witte não haviam contado. Nicolau dissolveu a Duma em julho, esperando que novas eleições se mostrassem mais favoráveis. Witte renunciou e seu substituto foi Petr Stolypin, um ex-governador provincial com reputação de esmagar rebeliões, mas também com interesse por reformas. O primeiro sinal destas últimas foi a lei que ele patrocinou no outono de 1906 e que permitia que os camponeses deixassem a comunidade aldeã e montassem fazendas independentes.

O movimento de greve e os distúrbios rurais amainaram gradualmente no final de 1906. Stolypin enviou batalhões punitivos ao campo para reprimir os rebeldes camponeses com execuções realizadas no ato. As eleições para a segunda Duma, no entanto, não produziram os resultados que Stolypin e o governo esperavam. Ao contrário, a nova Duma era ainda mais radical que a primeira. Os deputados camponeses agora estavam organizadas no “Grupo Trabalhista”, que exigia toda a terra para o campesinato. Finalmente, em 3 de junho de 1907, Stolypin dissolveu a Duma e praticamente não houve reação do público. A revolução havia perdido sua força.

A Revolução de 1905 foi um episódio sangrento, com cerca de 15 mil mortos, a maioria camponeses executados ou simplesmente assassinados durante represálias do governo no campo. Vários milhares de revolucionários também foram executados e muitos trabalhadores pereceram em conflitos provocados por greves ou nas diversas insurreições. Alguns proprietários rurais também sofreram e muitas propriedades foram destruídas. No final de 1905, havia surgido um “Sindicato de Todos os Camponeses Russos”, que admitiu várias centenas de milhares de membros e exigiu a entrega de toda a terra ao campesinato. O sindicato tentou evitar táticas violentas, mas seus membros tornaram-se cada vez mais radicais durante o ano de 1906 e aliaram-se com o Grupo Trabalhista na Duma. O Sindicato Camponês também foi banido. O resultado mais importante foi uma mudança radical na política russa. O desaparecimento da censura na prática, as eleições para a Duma, bem como seus debates, levaram a política dos saguões da corte e dos escritórios da burocracia ao público, e até às ruas enquanto durou a revolução. Classes sociais inteiras começaram a pensar de modo diferente: a nobreza parou de flertar com o liberalismo e congregou-se rapidamente atrás dos motes de autocracia, nacionalismo e preservação da ordem social. As classes médias e operárias urbanas abandonaram sua passividade e começaram a participar de ações políticas e a apoiar certos partidos mais radicais. Os empresários formaram pequenos partidos próprios e grupos de pressão, o campesinato ouvia os discursos dos ativistas do Sindicato Camponês e dos SRs e apreendeu a votar pelos seus interesses na questão da terra. As diversas minorias nacionais tinham agora partidos políticos ativos: na Georgia, os mencheviques combinaram socialismo com nacionalismo e tornaram-se de longe a força mais poderosa. Na Letónia, os social-democratas aliaram-se aos bolcheviques e dominaram o movimento trabalhista. Na Polónia, todos os partidos políticos passaram a agir abertamente e os Nacional-Democratas competiam com algum êxito contra grupos socialistas pela fidelidade dos trabalhadores. Entre os povos muçulmanos do Império, a intelligentsia progressista apresentou candidatos à Duma e ganhou, passando a formar um grupo muçulmano na Duma que congregava tártaros, basquírios, crimeanos, azeris e montanheses do Cáucaso Setentrional para pedir igualdade de condições. Como muitos grupos autonomistas, eles aliaram-se aos Kadets russos e participaram ativamente dos debates na Duma.

Por mais poder que o tsar e seus ministros conservassem (e ele era considerável), agora eles tinham de lidar com uma situação política totalmente nova, e poucos deles, muito menos Nicolau, estavam preparados para isso.

Os sete anos que se seguiram à dissolução da segunda Duma foram o único experimento da Rússia em tempo de paz com um governo constitucional com imprensa livre e organizações públicas ativas. O destino do país dependia da capacidade de Stolypin e outros de lidar com essa nova realidade. A repressão da revolução por Stolypin teve um sucesso aparente: centenas de ativistas foram executados, especialmente do grupo terrorista SR, e todos os partidos radicais perderam membros em penca por causa da prisão, exílio, desilusão e simples exaustão. A dissolução da Duma em 1907 foi acompanhada de um novo sistema eleitoral ainda mais indireto e não democrático. Cerca de 50% dos assentos da nova Duma foram para a nobreza, enquanto a representação dos camponeses foi cortada radicalmente, bem como o número de assentos reservados às áreas de minorias nacionais do Sul e do Oeste. A nova Duma era esmagadoramente nobre, russa e muito conservadora. A maioria dos nobres e muitos empresários apoiavam o partido Outubrista (assim chamado devido ao apoio dado ao Manifesto de Outubro do tsar), mas também havia uma extrema-direita, majoritariamente de nobres, que incluía líderes das Centenas Negras. Stolypin parecia dispor de uma situação perfeita para realizar suas modestas reformas, manter o poder do tsar e do governo e avançar em direção a uma política nacionalista mais russa no império. Na realidade, ele fez pouca coisa além do programa agrário, que mostrou ter efeito limitado. O resultado das intermináveis negociações entre o primeiro-ministro e a Duma foi somente criar uma cisão entre ele e as classes altas. Suas reformas eram demasiado radicais para os nobres, mas não profundas o bastante para satisfazer a sociedade e os liberais da Duma. O clímax foi seu plano de 1911 para introduzir o zemstvo nas províncias ocidentais, regiões onde os nobres eram predominantemente poloneses. No intuito de manipular os conselhos dos zemstvos contra os poloneses, Stolypin propôs aumentar o número de deputados camponeses, por serem os ucranianos e bielorrussos que Stolypin considerava mais leais ao tsar que os nobres poloneses. Ao mesmo tempo, o zemstvo aliviaria o fardo administrativo do Estado e, com sorte, aplacaria os liberais. No fim, o plano era astucioso demais para ser bem-sucedido. Stolypin conseguiu fazê-lo passar pela Duma, mas ele foi rejeitado pelo Conselho de Estado. Stolypin renunciou em protesto, sabendo que Nicolau julgava-o indispensável. O tsar implorou que retornasse, mas Stolypin só concordaria se Nicolau retirasse alguns dos conservadores extremistas do governo, prorrogasse a Duma e aprovasse o projeto de lei dos zemstvos ocidentais com seus poderes de emergência. O tsar concordou, mas o incidente confirmou sua suspeita crescente de que os planos de Stolypin eram abrangentes demais e que ele era demasiado poderoso e não confiável. Antes que seus desacordos chegassem a uma crise, um terrorista SR assassinou Stolypin em setembro numa récita na ópera de Kiev.

Sem Stolypin, o tsar recorreu a figuras menores para gerir o governo. A instituição do primeiro-ministro desagradava-o particularmente, e ele nomeou para o cargo homens que não dominariam o gabinete. O resultado foi a desorientação. Nenhum dos problemas que a sociedade russa enfrentava foi abordado e o governo ficou cada vez mais isolado. Entre a sociedade instruída, cresceu a percepção, até mesmo entre os conservadores, de que o tsar e o governo não entendiam o país e viviam num mundo à parte. Nenhuma questão importante foi resolvida e as medidas do governo não alcançavam nem a reforma, nem uma repressão bem-sucedida. As tentativas de usar o nacionalismo e antissemitismo para angariar apoio popular saíram pela culatra. Em 1911, a investigação de um assassinato em Kiev levou a acusações de sacrifício ritual contra Mendel Beiliss, um judeu supervisor numa fábrica de tijolos. O Ministério da Justiça em Petersburgo e a polícia “organizaram” um julgamento, e panfletos foram publicados sobre sacrifícios rituais e outros supostos crimes dos judeus. Porém, a Rússia tinha agora uma imprensa relativamente livre e os diários liberais armaram uma contracampanha furiosa. As paixões estavam tão inflamadas entre a intelligentsia que a apresentação de uma peça baseada nas obras de Dostoievski foi cancelada em São Petersburgo, sob a alegação de que o nacionalismo antissemita do grande escritor dava apoio à acusação. O julgamento ocorreu no outono de 1913 num tribunal penal ordinário em Kiev. O júri não foi convencido pelas provas da acusação e inocentou Beiliss. O resultado foi uma humilhação suprema para o governo.

Para cúmulo da desgraça, a presença de Grigorii Rasputin no tribunal acrescentou um elemento de grotesco a uma atmosfera já bastante ruim. Rasputin era um monge errante da Sibéria que havia sido introduzido na corte no final de 1905. A imperatriz Alexandra sempre tivera interesse na cura pela fé e tinha esperança de que ele pudesse ajudar seu filho hemofílico, o herdeiro Aleksei. Ela rapidamente passou a acreditar que somente Rasputin podia parar o sangramento. Por isso, este tinha acesso ilimitado à família imperial, apesar das suas visões religiosas heterodoxas e histórias (a maioria verdadeiras) de bebedeira e libertinagem. A polícia de segurança criou um destacamento inteiro para vigiar o monge com o intuito de fazer cessar os rumores que desonravam o tsar e sua esposa. Rasputin era uma preocupação genuína para os monarquistas e conservadores no governo e na Duma, e eles conseguiram levar a questão ao plenário da assembleia, provocando a ira do tsar. Ele nunca percebeu que eles estavam tentando salvar o prestígio do trono e, em vez disso, interpretou seus atos como deslealdade. Rasputin, rumores à parte, não tinha nenhum efeito político identificável, mas sua presença e suas histórias reais e exageradas minaram ainda mais a monarquia.

Se os liberais e conservadores na Duma, apesar de todas as suas frustrações, encontraram na nova ordem uma vasta arena de atividade política, os partidos revolucionários foram desmoralizados e perderam milhares de membros, especialmente da intelligentsia. A liderança foi para o exílio no Ocidente, onde passava seu tempo tentando manter o movimento vivo. Os movimentos cindiram-se: Trotsky abandonou o principal movimento menchevique e fundou seu próprio jornal em Viena, no qual comentava a política mundial sentado em cafés. Os bolcheviques eram particularmente dados a controvérsia, divididos como eram por disputas filosóficas, além das táticas e organização do partido. Lenin escreveu um livro inteiro para denunciar a tentativa de certos intelectuais bolcheviques de integrar a epistemologia do físico alemão Ernst Mach ao marxismo. Foi somente por volta de 1912 que as diversas facções aglutinaram-se em partidos organizados e restabeleceram uma rede na Rússia. Para o partido bolchevique, a oportunidade surgiu naquele ano numa conferência em Praga que finalmente consolidou a estrutura e o programa bolchevique, reafirmando a crença de Lenin na necessidade de um partido clandestino. A conferência de Praga também marcou o início de uma transição geracional entre os bolcheviques, pois a liderança da intelligentsia da juventude de Lenin cedeu aos poucos espaço a um grupo mais jovem que era mais plebeu (embora não exatamente proletário). Eles geralmente não tinham educação universitária, mas sim experiência com os procedimentos da clandestinidade e o hábito de fazer contato com os trabalhadores em luta contínua com a polícia. Um deles era um bolchevique georgiano, Soso Djugashvili, conhecido como Koba, filho de um sapateiro do Cáucaso. Ao imprimir sua marca ao movimento em toda a Rússia, ele adotou um novo pseudónimo revolucionário, Stalin. E como Joseph Stalin é que ele entraria para a história.

Enquanto Stolypin estava lutando para controlar a Duma, a formação de blocos políticos na Europa continuava. Nicolau e o Kaiser tentaram repetidas vezes uma reaproximação, mas as tentativas não deram em nada. Em 1907, a Rússia e a Grã-Bretanha assinaram um tratado que dividia esferas de influência no Irã, eliminando assim um objeto importante da sua rivalidade imperial. O resultado não era exatamente uma aliança, mas pôs fim à “Guerra Fria” que durava décadas e, dado o acordo anglo-francês, significava que a Rússia, junto com a Grã-Bretanha e a França, enfrentava agora a Alemanha e a Áustria-Hungria. Havia muitas regiões de conflito, das quais a mais importante eram os Bálcãs. A Rússia havia se aliado à Sérvia, que estava exatamente no caminho de qualquer expansão austríaca ou alemã na região, e ambas tinham grandes ambições centradas no Império Otomano. A Alemanha esperava fazer dos turcos semialiados e semidependentes na sua rivalidade mais ampla com a Grã-Bretanha. Em 1909, a Áustria, com auxílio alemão, humilhou a Rússia ao anexar a Bósnia-Herzegovina, que era um protetorado austríaco desde 1878. Uma série de guerras locais nos Bálcãs intensificou a tensão crescente. Então, em junho de 1914, o herdeiro do trono austríaco, o arquiduque Francisco Ferdinando, fez uma viagem pela nova província da Bosnia. Enquanto sua carreata avançava pela rua estreita à beira do rio em Sarajevo, um jovem nacionalista sérvio, Gavrilo Princip, saiu da multidão com um revólver e matou-o com um tiro. Para a Rússia, assim como para o restante da Europa, aquele foi um tiro fatal.

 

CIVILIZAÇÃO
Por Junito de Souza Brandão
Centro do mundo - O simbolismo do Centro na antiguidade

É pelo Centro, local sagrado, que o divino se manifesta, por hierofania, isto é, camuflado, disfarçado, metamorfoseado, ou por epifania, quer dizer, de forma direta. Esse Centro do mundo é, as mais das vezes, figurado por uma elevação: montanha, colina, pilar, pedra, árvore, omphalós (umbigo). Observe-se, porém, que se trata de um centro mítico e não geográfico; se ele é único no céu, é múltiplo na terra. Cada nação, cada cidade, cada povo, cada casa, cada família e até mesmo cada homem tem o seu centro do mundo, seu "ponto de vista", seu ponto imantado, que é concebido como o ponto de junção entre o desejo coletivo ou individual do homem e o poder sobrenatural de satisfazer a esse desejo, quer se trate de um desejo de saber ou de um desejo de amar e agir. Lá onde se congregam esse desejo e esse poder, lá é o centro do mundo. Esta noção de centro está vinculada à ideia de canal de comunicação e é, por isso mesmo, que o centro é marcado por um pilar, uma árvore cósmica, uma pedra...

Nas culturas que distinguem três níveis cósmicos, Céu, Terra, Inferno, o centro constitui o ponto de interseção desses três níveis. Assim sendo, só pelo centro se atinge o divino, porque se torna possível uma ruptura de nível e uma conseqüente comunicação entre as três regiões. O Templo de Jerusalém estava construído sobre o tehôn, isto é, sobre as águas primordiais do Caos, antes da criação. Em Roma, o mundus, por significar "o limpo, o puro", era o grande centro através do qual era possível comunicar-se com as almas dos mortos no Inferno. Em geral, cidades e locais importantes nas culturas antigas estavam localizados no centro do mundo, demarcado, como já se assinalou, por uma pedra, pilar, montanha, árvore... Na Índia, o grande centro era o Monte Meru; entre os germanos, o Hemingbjör e o freixo gigantesco yggdrasil, cuja copada tocava o Céu e cujas raízes desciam até os Infernos; na Palestina, o Tabor (que talvez signifique tabbur, isto é, "umbigo"); o Monte Garizim é expressamente chamado "umbigo da terra"; -59- o Gólgota, para os cristãos, é o verdadeiro centro do mundo: lá estaria o Éden, onde Adão foi criado e pecou, e depois redimido pelo sangue de Cristo. É exatamente pelo fato de o território, a cidade, o templo, o palácio real se encontrarem no Centro do Mundo, a saber, no píncaro da Montanha Cósmica, eram considerados como os pontos mais elevados do Cosmo e, por isso, não foram submergidos pelo dilúvio. "A terra de Israel não foi inundada pelo dilúvio", reza um texto rabínico. E, segundo uma tradição islâmica, o local mais elevado da terra é a Kâ' aba, porque "a estrela polar testemunha que a mesma se encontra voltada para o centro do Céu". O cume da Montanha Cósmica não é apenas o local mais elevado do mundo, mas também se notabiliza sobretudo por ser o (ompha-lòs tês guês), "o umbigo da terra", porque o muito santo criou o cosmo como se fora um embrião, e este cresce a partir do umbigo e depois se desenvolve e se espalha. Em determinadas estatuetas africanas a dimensão dada ao umbigo é bem mais importante que a atribuída ao membro viril, porque é do centro que provém a vida.

Na Grécia o centro do mundo era marcado pelo omphalós de Delfos.

Mas, já que os deuses, em função das culpas e erros dos homens se retiraram mais e mais para alturas inacessíveis, o único meio de atingi-los é através do Centro, e o instrumento mágico que nos conduz até eles é a escada, símbolo da ascensão para se chegar ao divino. A escada, vista em sonhos por Jacó, tocava os céus e por ela desciam os Anjos: e viu em sonhos uma escada posta sobre a terra, e a sua parte mais alta tocava no céu: e viu também os anjos de Deus subindo e descendo por ela. E o Senhor firmado na escada, que lhe dizia: Eu sou o Senhor Deus de Abraão, teu pai, e Deus de Isaac (Gn 28,12sq.). Diga-se, de passagem, que a subida pela escada até a residência do sagrado fazia parte, possivelmente, de um rito iniciático órfico. De qualquer forma essa ascensão fazia parte do rito mitraico. Nos mistérios de Mitra, a escada possuía sete degraus, cada qual confeccionado com metal diferente. O primeiro era de chumbo e correspondia "ao céu" do planeta Saturno; o segundo, de estanho, correspondia a Vênus; o terceiro, de bronze, era de Júpiter; o quarto, de ferro, consagrado a Mercúrio; o quinto, de uma liga de metais, correspondia "ao céu" de Marte; o sexto, de prata, consagrado à Lua e o sétimo de ouro, era o do Sol. Subindo essa escada cerimonial, o iniciado percorria efetivamente os sete céus, elevando-se, desta forma, até o Empíreo sagrado. -60-

A escada é vista, assim, como o caminho para a realidade absoluta, representando um rompimento de nível ontológico.

Nos textos funerários egípcios conservou-se a expressão asket pet, em que asket, "marcha", indica a escada de que dispõe Ra, uma escada real, que liga a Terra ao Céu. No Livro dos Mortos, as expressões consagradas "Uma escada me foi instalada para ver os deuses" e "Os deuses lhe dão uma escada, para que, servindo-se dela, ele suba ao Céu", patenteiam o simbolismo da escada como ponte entre a terra e o céu; uma figura plástica que marca a ruptura de nível e torna possível a passagem de um modo de ser a outro.

Além do simbolismo do Centro, há dois outros, no mito do nascimento de Apolo e Ártemis que merecem atenção. Trata-se da atitude de Ilítia em não permitir que Leto desse à luz os gêmeos e do presente que dobrou a obstinação de Hera.

A postura de Ilítia, cruzando a perna esquerda sobre a direita e impedindo, destarte, o parto de Leto, nos encaminha diretamente à crença tão difundida em todas as culturas do poder do mana. Mana é uma palavra melanésia e corresponde mais ou menos ao que os gregos denominavam (enérgueia), uma "força em ação". Pode-se conceituar mana como uma energia, uma força impessoal cósmica circulante e suscetível de ser captada e utilizada pelo homem. Deve-se levar em conta, no entanto, que desse poder oculto (é este o significado etimológico do vocábulo) dispõem cada indivíduo e cada objeto. Um ser humano é tanto mais forte e um objeto é tanto mais energético quanto maior for sua carga de mana. Monique Augras[1], desejando mostrar que a finalidade básica do canibalismo é "absorver o mana do inimigo, com o objetivo de lhe assimilar as forças, os dotes e as virtudes guerreiras", cita uma observação deveras interessante de Montaigne[2] a respeito dos hábitos dos índios do Rio de Janeiro. Diz o autor dos Ensaios que esses indígenas "assavam e comiam em comum as carnes do inimigo, enviando pedaços do mesmo aos amigos ausentes". E acrescenta Montaigne que não se tratava, "como se pensa, de alimentação". Ou seja: tratava- se de uma "função mágica e não alimentar do festim canibal". Donde se conclui que, para esses selvagens, devorar os inimigos era apossar-se de seu mana, de suas energias.

Essa energia, porém, como agudamente observa Monique, não é apenas física, mas tem ainda um caráter essencialmente anímico. -61-

Desse modo, o mana se manifesta tanto sob forma física quanto sob forma anímica, "já que no sistema animista o mundo físico é parte e símbolo do mundo espiritual".

A arquitetura dos templos egípcios é um dos exemplos escolhidos por Monique para patentear o poder e o perigo que oferece o mana.

Com efeito, esses templos obedecem a uma disposição arquitetônica tal, que o contato com o ícone do deus, a quem o templo estava consagrado, somente podia ser feito pelos sacerdotes: há primeiro um pátio ou galeria exterior para o povo; segue-se uma espécie de ante-sala para os dignitários e, por último, uma seqüência de salas cada vez mais escuras até que se atinge o santuário, onde ficava a estátua esculpida do deus, encerrada num tabernáculo. O acesso ao santuário, ao santo dos santos, era privativo dos sacerdotes, porque somente eles estavam preparados para o contato direto com a divindade. Quando Medéia, enlouquecida pelo cinismo, ingratidão e infidelidade de Jasão, quis destruir sua rival Glauce ou Creúsa, filha do rei de Corinto, Creonte, enviou-lhe como "presente de núpcias" um manto; outras versões dizem ter sido um véu e uma coroa, impregnados de um "mana tão venenoso", que bastou Creúsa colocá-los sobre o corpo para transformar-se numa tocha humana.

No Antigo Testamento há o relato de um episódio que mostra com muita clareza a força e o perigo do mana de determinados objetos, quando consagrados a uma divindade. Por ocasião da transladação da Arca da Aliança, da casa de Abinadab para Jerusalém, os bois, que a conduziam sobre um carro novo, escoiceavam e a fizeram pender. Com receio de que o precioso fardo caísse, Oza, que era guarda da Arca, tocou-a e a susteve. Por este gesto imprudente, o Senhor o feriu e Oza caiu morto. Eis o texto:

Mas, logo que chegaram à eira de Nacon, lançou Oza a mão à arca de Deus e a susteve, porque os bois escoicearam e a tinham jeito pender. E o Senhor se indignou grandemente contra Oza e o feriu pela sua temeridade e caiu morto ali mesmo, junto à arca de Deus. (2Sm 6,6-7)

Se todos os objetos do mundo físico possuem, em grau maior ou menor, sua parcela de mana, certas pessoas privilegiadas e sobretudo algumas divindades o detêm em grau superlativo. Conhecedores da força de seu mana, os deuses apareciam aos homens em sonhos -62- ou mais normalmente em forma hierofânica, disfarçando-se de todas as maneiras. Sêmele, a mãe de Dioniso, caiu fulminada e pereceu carbonizada, porque fez que seu amante, Zeus, preso por um juramento, se lhe apresentasse em forma epifânica, isto é, em toda sua majestade de deus dos raios e dos trovões.

Os exemplos poderiam multiplicar-se, mas bastam os citados, para mostrar que, fechado o mana por Ilítia, o parto de Leto seria impossível.

Civilização Grega | Religião
Por Julliette Wood
Profetas e adivinhos celtas

Como podemos descobrir o que o destino nos reserva? Só consultando os druidas, profetas ou poetas. Os druidas impressionaram os visitantes romanos com sua capacidade de prever o futuro observando o voo dos pássaros, as fases da Lua ou o movimento das estrelas. As mulheres também eram videntes, e muitas vezes eram capazes de prever o resultado das batalhas e o destino dos heróis. E todo rei celta também tinha um poeta versado na arte de compor versos proféticos.

Nosso passado é nosso futuro

Aqueles que querem prever o futuro precisam primeiro conhecer o passado - razão pela qual os videntes e magos celtas começavam suas profecias sondando os tempos de outrora, não o futuro. Sua experiência e aprendizado lhes proporcionavam um "conhecimento acurado da raça divina", que eles utilizavam como base para as suas previsões.

Essas almas talentosas relacionavam suas experiências numa litania de vidas passadas que dava ainda mais credibilidade aos seus poderes. Muitas vezes eles se transformavam em animais, plantas ou aspectos da natureza, como o vento ou a chuva; e, nessa forma, testemunhavam eventos históricos. Quanto mais diversificados os seus disfarces, mais conhecimento acumulavam para transmitir às outras pessoas. Amergin, o vidente dos Tuatha De Danann, lembra-se das suas experiências como um salmão, um touro e um javali, e também do tempo em que passou como vento e como uma onda. Tuan MacCairhill, um dos primeiros invasores da Irlanda, foi um cervo, um javali e, por fim, uma águia.

Ás vezes, períodos vividos como um animal ou um fenômeno natural são entremeados com experiências como um objeto inanimado. Depois que o garoto Gwion assumiu a forma de um grão de trigo, ele foi engolido pela feiticeira Ceridwen, que tinha se transformado numa galinha. Ele então renasceu como o bardo Taliesin.

Uma relação das vidas passadas do poeta é apresentada no Livro de Taliesin: "Na segunda vez que fui criado,/Eu fui um salmão azul,/ um cachorro, um cervo;/ um cabrito-montês no flanco da montanha,/ fui uma arca do tesouro, uma pá;/ uma trompa de beber;/ um par de línguas de fogo por um ano e um dia;/ um galo branco sarapintado entre as galinhas do Eiden, e um [84] garanhão numa estrebaria;/ fui um touro feroz;/ um grão numa colina./ (...) A galinha, minha inimiga, com uma crista e garras vermelhas me engoliu./ Durante nove noites fui uma criaturinha em seu útero;/ Amadureci ali/ Fui cerveja antes de ser um príncipe./ Já morri, já vivi".

Os antigos profetas normalmente viviam próximos à natureza por um longo período. Por exemplo, o grande mago Merlin das lendas arthurianas passou muitos anos entre as macieiras, conversando com um porquinho selvagem. A ideia de que os animais podem ver o futuro deriva da crença na sabedoria da natureza. Famosas profecias são atribuídas ao salmão e à truta. Espécies que vivem no sombrio mundo subaquático amadurecem silenciosamente até se tornarem sábios veneráveis, observando o mundo mudar à sua volta à medida que seu conhecimento crescente também aumenta seu poder de prever o futuro. Como acontece com os seres humanos, as experiências adquiridas durante uma vida longa confere sabedoria ao animal. O respeito dos celtas pela longevidade é bem ilustrado na estória "Os Animais Mais Velhos da Bretanha", que conta sobre a busca por Mabon, filho de Modron. Culhwch, Cei e Bedwyr partem com Gwrhyr, que fala a língua dos pássaros e dos animais, e descobrem que Mabon foi aprisionado. Gwrhyr primeiro se dirige ao Melro de Cilgwri. "Veja aquela bigorna", o pássaro diz a ele. "Quando eu era um jovem pássaro limpava meu bico nela toda noite. Ela é agora do tamanho de uma noz. Não, eu não sei onde o prisioneiro está, mas talvez meu velho amigo, o Cervo de Rhedynfre, possa ajudá-lo."

Eles se aproximam do cervo e lhe fazem a mesma pergunta. O cervo sacode sua magnífica galhada. "Quando vim aqui pela primeira vez, aquele toco de carvalho era apenas uma arvorezinha. Ela se transformou numa grande árvore, mas agora não passa de um toco. Eu não sei onde o seu prisioneiro está, mas levarei você até o animal que Deus fez antes de mim." Eles vão até a Coruja de Cwm Cawlwyd, mas ela também não pode ajudar: "Minhas asas se desgastaram com o tempo até se tornarem meros cotos e este vale já foi devastado muitas vezes. Mas eu levarei vocês à mais antiga criatura do mundo e talvez ela saiba". A coruja os leva onde a Águia de Gwenabwy está empoleirada numa pequena pedra gasta pelo tempo. Quando a coruja lhe pergunta se ela sabe onde Mabon está, a velha águia diz, "Esta pedra um dia foi uma grande rocha; agora está gasta. Mas eu não sei nada sobre o homem que procuram. Uma vez, quando eu estava caçando em Llyn Llyw, enterrei minhas garras num grande salmão que me puxou para dentro do lago. Nós éramos inimigos, até o dia em que ele me procurou para que eu tirasse cinqüenta anzóis das suas costas. Se ele não souber, ninguém sabe".

A águia levou os homens até o salmão de Llyn Llyw, que colocou sua cabeçorra para fora da água e disse, "Onde o rio encontra o muro de Caer Loyw, posso ouvir os lamentos de um prisioneiro em grande aflição. Subam nas minhas costas e eu os levarei até lá". Os homens subiram nas costas do salmão e ele os levou até o muro de Caer Loyw, uma imensa prisão. Do lado de fora, Cei perguntou, "De quem são estes lamentos?" E eles ouviram a resposta, "Eu sou Mabon, filho de Modron". Os guerreiros então o libertaram e o salmão os levou de volta para o lugar de onde vieram. Desse modo, graças à bravura dos guerreiros e o conhecimento das mais antigas criaturas, Mabon foi resgatado. [87]

A sabedoria do salmão

Lutando correnteza acima para desovar e dando grandes saltos para escalar impetuosas cachoeiras, o salmão resiste ao fluxo das águas e do tempo e por isso é uma criatura especial. Misterioso, valente e resoluto, ele é um mensageiro adequado entre os mundos e, por extensão, a encarnação do conhecimento. O Velho Salmão, com as costas crivadas de anzóis de pescadores frustrados, fala e dá conselhos aos galeses e aos heróis irlandeses. Comer carne de salmão confere o dom da profecia a quem o merece. O salmão nada nos rios e nascentes do Outro Mundo, alimentando-se das avelãs que caem das "árvores do conhecimento", e às vezes passam para o mundo humano para transmitir suas profecias sobre "o mundo que virá".

O modo como o salmão liga nossa realidade diária ao Outro Mundo é ilustrado na estória sobre um milagre realizado por São Asaph. A irmã dele era a esposa de Maelgwn Gwynedd, um poderoso rei galés cujo temperamento irascível era lendário. [88]

Um dia a rainha perdeu a aliança de casamento e seu irado marido imediatamente chegou à conclusão errada e acusou-a de infidelidade. Aflita, a rainha apelou para o irmão, São Asaph, pedindo ajuda. O santo foi até Maelgwn e cortou ao meio um salmão que tinha sido pescado aquela manhã; dentro do estômago do peixe o rei encontrou o brilhante anel de casamento da esposa. Ele, então, reconheceu humildemente o poder do santo e a fidelidade da esposa.

O famoso conto sobre o "salmão da sabedoria" refere-se ao bardo Finn Ecs, que busca o poder do peixe, e a Finn mac Cumhaill, o herói irlandês [89].

O mistério da cabeça

Para os celtas, a essência do ser, tanto física quanto espiritual, reside na cabeça. A imagem da cabeça aparece em todo lugar - entalhada em redondo ou como decoração em pilares, moedas, caldeirões e altares. Dotada de um poder protetor, a cabeça serve de talismã para afastar o mal. Também é um símbolo do divino e um lembrete de que a vida continua depois da morte. Autores clássicos afirmam que os celtas levavam a cabeça dos inimigos como troféus de batalha, e as penduravam nos templos, ou usavam os crânios como cálices, mas as narrativas celtas sobre cabeças apresentam um quadro mais abrangente dessa tradição.

A estória de Donn Bo, um jovem guerreiro famoso em toda a Irlanda pela sua bela voz, enfoca o poder da cabeça como repositório da vida depois da morte, e que se estende por muito tempo depois da morte do corpo. Donn Bo promete ao seu senhor, Fergal, que cantará para ele no banquete da vitória, depois da batalha que enfrentarão, mas infelizmente tanto o rei quanto o cantor perecem durante a luta e seus corpos decapitados são abandonados no campo de batalha. Na noite depois da batalha, um dos soldados vitoriosos vaga entre os cadáveres, procurando uma cabeça para levar ao salão de [90] seu senhor, onde ocorrerá o banquete da vitória. De repente, na escuridão, ele ouve uma voz entoando uma melodia e se depara com a cabeça de Donn Bo, cantando para o seu falecido mestre. O soldado recolhe a cabeça, leva-a para o salão do castelo e a coloca sobre um pilar, em meio ao banquete. Ao ouvir como o soldado encontrou a cabeça, o senhor vitorioso se dirige com cortesia a ela e pede que cante para ele, como cantou para Fergal. A cabeça então desvia os olhos dos vivos e, fitando a escuridão, canta uma canção tão doce e melancólica que todos os presentes no banquete vão às lágrimas.

Civilização Celta | Religião
Por Mário Curtis Giordani
Estrutura social e sistemas de castas na Índia

A simples menção da estrutura social na índia traz-nos imediatamente à mente o famoso sistema de castas. A sociedade anterior à invasão ariana, segundo opinião corrente, não conheceu essa divisão social. A sociedade ariana estava estruturada em três camadas que, na Índia védica, receberam a designação de brahman, ksatra e vic; os sudras não são mencionados nos Vedas. Estes aludem apenas à multidão de estranhos que se situam abaixo da população ariana. Note-se, entretanto, que essas camadas sociais não possuíam inicialmente as características de casta. Eram antes classes sociais que castas: as primeiras servem às ambições políticas, as segundas estão sujeitas a certos escrúpulos, presas a determinadas tradições.[1]

Diversas têm sido as teorias apresentadas para a explicação da constituição das castas. Para uns, o fator decisivo teria sido a especialização profissional, para outros, a raça, e para terceiros, enfim, o aparecimento das castas teria relação com as classes da época védica. O que não parece deixar dúvidas é que o regime de castas está intimamente ligado aos velhos costumes arianos e que foi constituído pelo sacerdócio bramânico.

Quais as características da casta na Índia clássica? Ocupações tradicionais, origem comum de um antepassado divino ou humano, direitos, deveres e opiniões já enraizadas no costume, endogamia estrita, eis alguns dos traços que configuram essas estranhas estraficações da sociedade.[2]

O número de castas tem variado de acordo com as circunstâncias de tempo e de lugar, mas o esquema tradicional apresenta-nos quatro castas. As três primeiras abrangem os aryas ou homens livres, a última compreende a grande massa informe.

Os brâmanes consideram-se quase seres divinos; possuem o monopólio da religião e são os principais beneficiários dessa estratificação social. Os kshátriyas, a nobreza, entre os quais se escolhem os reis, detêm o poder temporal. Educados pelos brâmanes, com eles se entendem per eitamente para conduzirem o resto da humanidade.

A casta dos vaiçyas inclui os agricultores e os comerciantes. A última casta é a dos sudras, seres inferiores, aos quais cabe os mais humildes trabalhos manuais.

Segundo a lenda, após o sacrifício solene e o retalhamento do primeiro homem, Púrusha, os brâmanes teriam surgido de sua cabeça, os kshátriyas de seus braços, os vaiçyas de suas coxas e os sudras de seus pés.[3]

Se atentássemos somente à literatura bramânica, chegaríamos à conclusão de que a forma política da Índia antiga teria sido a teocrática com a predominância da classe bramânica cuja autoridade, fundamentada no sacerdócio, nada poderia contrabalançar. A realidade, que transluz de outras fontes, foi bem diferente. Encontramos na Índia antiga numerosas repúblicas (gana) em que predominam as famílias aristocráticas. Essas repúblicas do Norte da Índia foram transformadas, como consequência da invasão macedônica, em poderosas monarquias. O imperialismo macedônico, responsável pela sujeição das cidades gregas da Ática, foi igualmente a causa da destruição das repúblicas do Pendjab. As monarquias da Índia inspiraram-se no exemplo do império macedônico e dos reinos de seus sucessores. O Budismo, que fazia tábula rasa do sistema de castas e não limitava o poder real por quaisquer ideias teocráticas, favoreceu a ambição dos monarcas. O soberano sozinho detinha o poder; utilizava-se, entretanto, para fazer funcionar o regime, do conselho de guerra, da corte de justiça, de um corpo de funcionários, etc.

Civilização Indiana | Sociedade
Por Junito de Souza Brandão
Legado Cretense

A Civilização Ocidental tem suas raízes profundamente mergulhadas na Egeida, especialmente na Creta Minoana. Claro está que a influência Minoana em nossa Civilização é indireta: processou-se, sobretudo, através da Grécia cuja civilização, no dizer de Glotz, "mãe da civilização latina e ocidental, é filha da civilização egéia". Vamos tentar resumir, nas linhas seguintes, a herança deixada pelos minoanos aos povos da Antiguidade com os quais estiveram em contato. Desses povos, claro está, os helenos figuram no primeiro plano. As atividades comerciais dos minoanos, puseram-nos em contato com as mais distantes regiões e diferentes populações. As transações de ordem econômica foram acompanhadas de intercâmbios culturais que deixaram, muitas vezes, a impressão indelével da superioridade da Civilização Minoana.

Em Chipre notamos vestígios marcantes da colonização cretense na indústria, na arte e provavelmente na escrita chamada Cipro-Minoana. Desta escrita teria sido elaborado pelos aqueus um novo sistema puramente silábico, chamado escrita cipriota e usado para grafar a língua grega.

A Síria Meridional sofreu a poderosa influência dos minoanos: Com o seguro instinto de comerciantes eméritos, ocuparam o país aonde chegavam as caravanas do Egito e da Arábia. Eram bons agricultores que aclimatavam em Canaã a vinha e a oliveira. Eram Excelentes ferreiros. Levavam consigo sua arquitetura com a base de coluna e o capital ou Kaphtor do tipo egeu.

É curioso notar que, na época da invasão dórica, quando a escrita minoana havia praticamente desaparecido do Egeu, esses cretenses radicados na Ásia dela faziam, ainda, largo uso. Hail dá-nos preciosas informações sobre a expansão cretense e o respectivo legado: Vimos que em seus primeiros dias a cultura egéia (considerando as civilizações de Creta e das Cícladas como única) alcançou os confins setentrionais do Egeu e pode ter penetrado no vale do Danúbio. Através também do Mar Negro, sua influência pode ter alcançado a Bessarábia e a Rússia Meridional: aqui, no norte, surgiu uma bela cerâmica, devendo sua inspiração a modelos egeus primitivos e pertencendo a um povo que nunca alcançou a era do metal, tendo desaparecido sem deixar descendentes, quando ainda usava instrumentos de pedra. Esses mediterrâneos, como acreditamos que tenham sido, Se haviam distanciado demasiadamente de suas bases. Pereceram por mera inadaptação do meio, tendo talvez contribuído para isso tribos mais viris indo-européias que por essa época caminhavam da Sibéria para a Europa.

O mesmo autor acrescenta: Na Ásia Menor a cultura egéia nunca se firmou. o litoral tinha sua civilização própria, sem dúvida alguma aparentada a egéia, mas distinta dela, com idéias muito diferentes sobre a cerâmica e que permaneceu fora da influência das concepções egéias até quase o fim da Idade do Bronze.

Já aludimos as relações entre minoanos e egípcios. Inegável é a mútua influência de ambas as civilizações. Entre as contribuições dos egeus aos habitantes do Nilo, podemos citar os empréstimos, feitos às formulas medicinais cretenses, contidos nos textos dos tratados médicos da XVIII dinastia.

No Ocidente a atividade minoana também não se limitou ao comércio: na Sardenha introduziram sua religião, suas técnicas e seus utensílios. Na península ibérica observa-se um florescimento cultural em pleno segundo milênio graças a irradiação da civilização cretense. O culto do Touro existente nas Baleares assinala a presença da inspiração religiosa egéia.

Passemos a principal herdeira de Creta: a civilização helênica: A herança recolhida pelos helenos é imensa e abrange os mais variados setores como a língua, a escrita, as artes, o esporte, a ciência, a agricultura, a técnica, a política e a religião.

Comecemos com a língua. É inegável a contribuição cretense para o enriquecimento da língua grega. A essa conclusão chegam os estudiosos por meio de diversos indícios entre os quais podemos citar: as terminações INTH-OS, SOS ou SSOS; o sigma inicial ou colocado entre duas vogais; a impossibilidade de explicar, por raízes indo-européias, a existência de numerosas palavras gregas, algumas das quais, frequentemente usadas nos poemas homéricos, desapareceram da linguagem comum; a falta de correspondência normal entre palavras gregas e latinas; um significativo número de vocábulos conservados pelo patoá cretense da época histórica.

Depois da língua, a escrita. Não se trata, evidentemente do alfabeto grego oriundo do congênere fenício. Aludimos aos silabários de que os helenos se utilizaram em duas ocasiões e regiões diferentes: A linear B (que os especialistas chamam silabário miceniano) e o silabário cipriota.

E em ambos os casos, o silabário era única adaptação da antiga escrita minoana.

Em relação ao legado artístico, limitemo-nos a reproduzir Cohen:

"A uma arte completamente evoluída e que soube permanecer por muito tempo jovem por meio da observação direta da natureza, os aqueus tomaram não somente os motivos decorativos ou uma técnica, mas ainda uma doutrina e um ideal".

Na literatura nascente da Grécia é inegável a contribuição da inspiração minoana. Claro está que, enquanto não dispusermos de grande quantidade de inscrições cretenses decifradas, convém ser prudente nesse assunto.

Mas um fato se impõe: na Ilíada e na Odisséia ressoam os distantes ecos da brilhante civilização cretense. Mas a lembrança das glórias passadas e das cidades desaparecidas persiste. Creta é sempre a ilha das cem cidades.

O gosto dos cretenses pelos concursos ginásticos e musicais, que acompanham as grandes solenidades, não só passou para os helenos mas constituiu nos mesmos uma nota característica que os distinguiu dos demais povos indo-europeus.

A dança, com seus acessórios já bem aperfeiçoados, a música e a poesia, constituem, no sentir de Gbotz, a mais bela herança que os gregos receberam de seus precursores. O lirismo helênico através da música e da dança está intimamente ligado ao lirismo cretense: Escutemos o aedo que acompanha os dançarinos na descrição homérica do escudo de Aquiles, e teremos uma idéia do que se cantava no teatro de Knossos; escutemos o hino das Curetas sob a forma dórica e perceberemos o eco de um hino mais antigo; escutemos, se é possível, as orações ritmadas dos sacerdotes cretenses que sobem a Pito, e ouviremos ressoar as estrofes que acompanhavam Minos sobre a montanha santa.

Os esportes cretenses, com exceção das corridas de touro cuja lembrança sobreviveu apenas em algumas regiões e deformada na tradição lendária, foram recolhidos cuidadosamente pela ginástica helênica. Em Esparta, consideravam-se os regulamentos de educação física, estabelecidos em nome de Licurgo, como provenientes de Creta.

É curioso notar que os grandes centros em que se realizaram as mais famosas competições atléticas haviam outrora pertencido à área de intensa influência cultural minoana: Olímpia, Delfos, Delos, etc.

A ciência, a técnica e a agricultura dos helenos constituem setores de maior ou menor influência minoana. A hidráulica (que se percebe tão adiantada nos palácios de Knossos), os conhecimentos astronômicos (indispensáveis aos marinheiros cretenses), os demais segredos da arte náutica (entre os quais a construção de navios), a metalurgia, eis alguns exemplos da contribuição cretense, os quais proporcionaram aos helenos um notável avanço no progresso material, sem que tivessem necessidade de trilhar as etapas evolutivas por que passaram outros povos na conquista desses resultados.

O azeite de oliva, os figos e o doce vinho das parreiras foram produtos da agricultura cretense que os helenos herdaram e perpetuaram pelos séculos em fora. Na vida político-social podemos registrar como legado de Creta aos helenos o modelo de uma sociedade organizada com vida urbana intensa, o exemplo de uma administração bem estruturada e de uma centralizada monarquia. Na vida religiosa parece ter sido imensa a contribuição minoana, como as crenças e as idéias relativas a morte e ao culto dos defuntos e o politeísmo antropomórfico. São as imagens e as lendas piedosas, transmitidas desde longa data pelos cretenses aos aqueus, que explicam a aparente rapidez com que a religião grega tomou seus caracteres essenciais, um antropomorfismo quase absoluto e uma mitologia exuberante.

Cremos que este ligeiro esboço do legado de Creta foi suficiente para dar-nos uma idéia da importância da História da civilização egéia.

Concluamos com as palavras significativas de um dos maiores estudiosos conhecedores dessa civilização: Em resumo, a História da Civilização Egéia merece mais que um interesse de curiosidade arqueológica ou mesmo estética. Ela está repleta de porvir. Os cretenses, que a criaram, dela fizeram presente aos povos circunvizinhos, graças às facilidades que lhes oferecia o Mar Egeu, e logo a comunicaram a muitos outros povos graças a complacente ubiqüidade do Mediterrâneo. Enquanto que as civilizações do Egito e da Ásia guardavam um caráter local e terrestre, uma civilização insular irradiava ao longe.

Pela atração que exerceu, tentou as nações guerreiras. Quando se espalhou sobre O contorno egeu, a supremacia passou dos cretenses aos aqueus "cretizados", de Knossos e Micenas: era uma queda.

Civilização Cretense | Sociedade
Por Jean-Jacques Maffre
Atenas, capital artística da Grécia

O mundo grego do século V a.e.c., não tinha uma capital, no sentido político do termo. Cada uma das cidades que o constituíam era independente e funcionava, pelo menos na teoria, como um Estado autônomo, com sua própria constituição, leis, organização social, moeda e sistema de pesos e medidas. Isso ocorria tanto no território de origem como nas regiões onde os gregos se instalaram no decorrer dos séculos, particularmente a Sicilia, a Itália, a Gália meridional, a Cirenaica e nas proximidades do mar Negro. Eram heterogêneas, variando de vilarejos a verdadeiras metrópoles poderosas e populosas, como Selinunte, Agrigento, Siracusa, Tarento, Coreira, Corinto, Esparta, Tehas, Atenas, Cálcis, Éfeso e Esmima. Destas, muitas podiam aspirar à qualidade de metrópoles regionais; algumas estavam à frente de ligas ou confederações. Atenas, porém, se destacava. Após ter desempenhado um papel decisivo nas guerras médicas com vitórias brilhantes sobre os persas em Maratona, no ano de 490 a.e.c, e em Salamina, no ano de 480 a.e.c., Atenas exerceu uma supremacia de fato. E, também, de direito, por meio da liga de Delos, que criou em 477 a.e.c. sob o pretexto de proteger as cidades de um retomo ofensivo das persas. Praticou, em relação a elas, uma política imperialista que se estendeu até a época de Péridcs, no segundo terço do século V a.e.c. Mas essa busca do comando, foi contestada indusive por participantes da liga, como a própria Esparta, ou recalcitantes, entre as quais se alinhavam Naxos, Tasos ou Samos, que se revoltaram contra as exigências da cidade hegemônica.

Mesmo se o desejasse, no terceiro quarto do século V a.e.c., Atenas não poderia pretender ser reconhecida como a capital política do mundo grego. Também não era a capital economica. Há, porém, um domínio no qual da pôde legitimamente ser considerada capital do mundo grego: o do pensamento e das boas-artes. Em poucas décadas, entre aproximadamente 450 e 410 a.e.c., as criações artísticas da cidade de Pérides se multiplicaram com uma rapidez e uma densidade raramente alcançadas em outras épocas, nos domínios mais diversos: arquitetura, escultura, pintura e artes decorativas. A conjuntura política era favorável: a ameaça “bárbara” cessou de pairar com o restabelecimento da paz, assinada com o rei da Pérsia em 449 a.e.c. Em 446 a.e.c., Atenas concluiu uma trégua de 30 anos com Esparta. Assim, os meios financeiros e humanos disponíveis foram totalmente colocados à disposição das artes.

O espetáculo mais fantástico foi o que iluminou a Acrópole da cidade, numa florescência de construções. O mármore branco do monte Pentélico o projeta ainda hoje, num brilho fascinante, sobre a tela do céu azul do Ático. Plutarco, no século I e.c., frisava a importância dessas realizações arquitetônicas, no célebre livro A vida de Pérides. “O que causou mais prazer aos atenienses e mais contribuiu para embelezar sua cidade, o que mais tocou a imaginaçio dos estrangeiros, o que atesta que essa potência tão consagrada da Grécia e sua antiga prosperidade não são mentiras, foram os monumentos construídos por Péricles..." O mesmo autor ainda dizia: “Os artistas esforçavam-se no desejo de se superar pela perfeição técnica do trabalho; porém o mais admirável foi a rapidez da execução. Todas essas obras, cada uma das quais parecia ter exigido várias gerações sucessivas para serem acabadas, encontraram-se todas terminadas durante o período de apogeu de uma única carreira política”.

Tesouro votivo

Ele se referia a três templos - o Partenon, o Erectéion e o templo de Atena Nike - e a um edifício civil, o Propileu, construído como uma decoração em mármore em torno da entrada solene que dava acesso, do lado ocidental, ao elevado rochoso da Acrópole. Graças às fontes literárias epigrâficas e à sequência das escavações arqueológicas feitas desde o século XIX, chegamos bem próximos de uma cronologia desses monumentos: o Partenon foi concluído entre 447 e 432 a.e.c.; o templo de Atena Nike, cuja construção foi decidida por um decreto de 449 a.e.c., foi erguido entre 427 e 424 a.e.c.; o Erectéion, iniciado entre 421 e 415 a.e.c., foi terminado entre 409 e 406 a.e.c. O maior e mais famoso edifício da Acrópole, o Partenon, dedicado a Atena, deusa defensora da cidade, sob a forma de Partenia, ou seja, de virgem. Graças ao talento do arquiteto Ictino e do escultor Fídias, esse monumento foi concluído sem delongas, após um período de lenta progressão das obras, iniciadas algumas décadas antes. Ao assumir a responsabilidade pela obra inacabada de um predecessor desconhecido, Ictino ergueu uma construção majestosa, ao mesmo tempo templo e tesouro votivo em honra da deusa protetora da cidade.

O Partenon é um dos grandes templos gregos peripteros, ou seja, cercados de colunas externas - oito nas fichadas 17 nas laterais. Era notável por sua largura excepcional (mais de 19 m), o que permitiu rara amplitude aos espaços internos. Sua nave central, de quase 11 m de largura, era envolvida por uma tripla colunata: duas, habituais, que a separam de cada nave lateral, mais uma, imaginada aqui pela primeira vez, que fazia a volta atrás da estátua de culto, em frente à parede de fundo. Assim, o conjunto da colunata, de dois andares, formava um verdadeiro estojo de mármore a envolver uma jóia de ouro e marfim: a grandiosa Atena crisdefamim esculpida por Fídias.

Exteriormente, o Partenon seguia a mais pura tradição dórica, com suas colunas, capitéis e, coroando tudo, a cornija inclinada sobre a qual se erguem, na fachada, dois frontões. Um estudo minucioso dessa estrutura mostrou que a obra fora objeto de cuidados extremos, seja para garantir sua solidez, seja por razões estéticas, para compensação das ilusões de óptica, como evitar que as linhas horizontais do monumento dessem a impressão de curvar-se no meio aos olhos de um observador localizado a uma certa distância. As colunas do peristilo não são verticais, mas levemente inclinadas para o centro do edifício, desenhando um tronco de pirâmide, o que contribui para a estabilidade do conjunto, menos propenso a tombar em caso de sismo.

Alguns refinamentos já eram visíveis cm templos do final do século VI a.e.c. ou da primeira metade do século V. Ictino, porem, os levou à perfeição. Introduziu no invólucro dórico de seu templo alguns elementos emprestados da tradição jônica. Essas particularidades se integravam ao conjunto da obra-prima: nada de efeitos exagerados, mas linhas e volumes simples e harmoniosos.

O Partenon ainda não havia sido acabado quando um outro grande arquiteto, Mnesides, começou a construção do Propileu, composto por um corpo central (25.04 m de comprimento, 18,12 m de largura, entre duas fachadas dóricas) no interior do qual uma passagem principal, parcialmente rodeada de colunas jônicas, permitia atravessar uma porta monumental ladeada por duas portas estreitas e baixas. No corpo central, de orientação leste-oeste, estavam unidas duas alas simétricas na fachada, mas de desigual profundidade, na qual a maior, ao norte, servia também de pinacoteca. O arquiteto soube vencer os problemas de declividade do terreno com sua engenhosidade. Dotou a fachada oeste, que se avistava de mais longe e se levantava pelo lado de cima da rampa de acesso à Acrópole, de uma base de quatro degraus e de colunas ligeiramente mais altas, enquanto a fachada leste, voltada para o interior da esplanada, ficou com um embasamento de um degrau que suporta colunas menos elevadas (8,54 m). Além da sua função pratica de única porta de acesso à Acrópole, o edifício tinha um papel decorativo no setor mais baixo do planalto rochoso sobre o qual a cidade inteira havia se fortificado, na sua origem.

Próximo do Propileu o arquiteto (alícrares construiu uma verdadeira jóia da ordem jônica: o pequeno templo de tetrastilo anfisrilar Atena Nike (8,27 m x 5,44 m), cujas fachadas, com bases emolduradas e capitéis abobadadas nas colunas jônicas, eram valorizadas pela sóbria nudez das longas laterais, nas quais o único elemento decorativo era o friso esculpido que percorria o alio das paredes.

Quase simetricamente ao Partenon, do lado norte da Acrópole, erguia-se o Erectéion, dedicado a Atena Polias e a Posseidon. Sabe-se o nome de um dos mestres-de-obras, Filodes. Era composto de um corpo central retangular (11,60 m x 22,76 m), ao qual se uniam dois pórticos - um ao norte, outro ao sul, ornamentado por seis cariátides. Havia abundância de elementos decorativos, esculpidos em mármore, principalmente no topo das paredes e das colunas e sobre o enquadramento da grande porta que se abria sobre o pórtico norte. Foi um precursor, cujo exemplo se irradiaria durante séculos.

Esculturas colossais

Outras obras embelezavam a Atenas de Péricles e das duas décadas posteriores à sua morte. O grande estadista deixou, como legado, seu sopro criador. Algumas, completamente destruídas, restaram para a posteridade apenas por meio de seus nomes: o templo jónico de Illssos, construído por Calícrates, ou o odeão de Péricles, construído por volta de 440 a.e.c. Há um outro templo que serguia ainda, quase intacto, sobre a colina situada a oeste da ágora da cidade: o de Hefàístos, com freqüência impropriamente chamado de Ieseu. Esse harmonioso templo dórico de mármore, iniciado por volta de 445 a.e.c. e finalizado por volta de 420 a.e.c. tem proporções externas próximas às do Partenon, apesar de ser cerca de duas vezes menor (13,71 m x 31,77 m; 6 x 13 colunas).

As esculturas também são marcantes, em Atenas. Ao artista Fídias, recorreram os administradores do santuário de Olímpia, no noroeste do Peloponeso, para a realização da estátua de culto do templo de Zeus, edificado por volta de 460 a.e.c. pelo arquiteto Libon de Elcan. Os antigos a consideravam uma das sete maravilhas do mundo. Era colossal, com mais de 10m de altura e datada de aproximadamente 450 a.e.c., ou 425. O Zeus de Fídias ficou na história, graças à descrição que dele fez Pausânias, no século 11 de nossa era. e pelas moedas que o reproduzem. Vítima de igual destruição foi outra obra do mesmo autor, a Atam Partêniaào Partenon, conhecida também, apenas pelo texto de Pausânias e pelas cópias de mármore de tamanho pequeno executadas na época romana imperial.

Havia, ainda, uma outra Atena colossal de Fídias, em bronze, representando a deusa ao ar livre, na Acrópole de Atenas, pronta para o combate. Também desapareceu. Felizmente, para a posteridade, restaram trabalhos desse grande mestre ateniense: as esculturas que ornavam as partes altas do Partenon. Esse conjunto enorme constituído por dois frontões, cada um enriquecido por mais de 20 figuras, cerca de 1,60 m de comprimento por 1 m de altura, reunia 360 personagens, entre os quais 192 cavaleiros. Não foi, com certeza, executado apenas por Fídias, mas sua personalidade impôs um estilo homogêneo, visível no talhe dos corpos, na expressão dos rostos e no movimento característico das roupas, uma feliz mistura de naturalidade e dignidade.

No terceiro quinto do século V a.e.c., Fídias não era o único escultor ateniense de renome. Mesmo que sua genialidade tenha ocultado um pouco o talento dos outros, como Alcâmenes, Agonícrito, Calímaco ou Cresilas, o retratista de Péricles, também eram muito admirados. A obra deles era mal conservada, mas trabalharam com afinco. Nem todos eram atenienses de origem: Agorácrito vinha de Paros; Cresilas, de Creta. O próprio Polideto, um dos outros destaques da escultura grega clássica, peloponense contemporâneo de Fídias, tinha reputação de ter ido a Atenas executar o retrato de um dos colaboradores de Pericles, o engenheiro Artemon, originário de Clazômenas, como o célebre filósofo Anaxágoras.

Gênios da pintura

Nenhuma região do mundo grego reuniu a mesma concentração de arquitetos e escultores eminentes como Atenas dos anos 450-420 a.e.c. A cidade de Pérides era, pelo menos por um tempo, a “escola da Grécia" em matéria de artes plásticas, para retomar uma expressão do próprio Péricles num discurso atribuído a ele por Tucídides. Desde a segunda metade do século VI a.e.c., a cidade era a capital artística do mundo grego. É o domínio da pintura em vasos, que compensa um pouco, apesar de não ser mais que um pálido e distante reflexo, o desaparecimento quase total das obras da grande pintura.

O século V a.e.c. conheceu autênticos gênios da pintura - na primeira fila deles, Polignote de Thasos, um novato que tinha ido trabalhar em Atenas provavelmente nos anos 460 a.e.c., ao lado do ateniense Micon, com o qual decorou um pórtico que rodeava a ágora, que tinham batizado stoapoikilé, ou seja, “pórtico muiticolorido”. Mesmo na época de Pérides e nos anos imediatamente posteriores, a atividade de Micon prosseguiu, inclusive com a decoração de sua própria cidade natal, e dos santuários dos Dioscuros e de Teseu.

Outros dois grandes pintores atenienses foram Panamas, sobrinho e colaborador de Fídias (as esculturas gregas eram sempre ressaltadas com a aplicação de cores), e Apollodorus, o pintor de sombras, provavelmente porque ele foi o primeiro a sugerir a profundidade de campo, pelo uso de degrades em jogos de claro-escuro.

A cerâmica ateniense era, principalmente entre 460 e 410 a.e.c, ornada por um desenho de contorno traçado, realçado por diversas cores (preto, vermelho, azul. amarelo e verde), tudo aplicado sobre um fundo de engolfo branco-creme. As peças, muito frágeis, eram pouco manuseadas, daí seu uso essencialmente funerário e com temas afins: partida do defunto para o lado de lá na barca de Caronte, o adeus ou homenagens prestadas ao morto ou gestos rituais realizados na sua tumba. Alguns pintores anônimos, aos quais os conhecedores atribuem nomes de convenção, eram especializados nessa técnica sobre fundo branco. Pode-se citar, para os anos 450-420 a.e.c., os identificados como Aquiles, Phiale, Tymbos,Thanatos, Bosanquet, Tríglifos.

Já os vasos áticos do século dc Péricles são, em sua maioria, fiéis à técnica conhecida como figuras vermelhas, da qual os pintores atenienses do barro de Cerâmica tinham quase o monopólio desde que a inventaram, por volta de 525 a.e.c. Alguns são conhecidos: Polignoto, Polion, Aison ou Aristófane, mas a maioria permaneceu anônima. Nos anos 450-430 a.e.c., Polignoto ou o artista designado apenas como pintor de Aquiles buscavam tomar atitudes plásticas com certa ênfase. O pintor de Clcophon dava um ar nobre e sutil aos personagens cujo rosto, ligeiramente inclinado, se inspirava no estilo partenoniano. O delicado pintor de Erétria anunciava, por volta de 430-420 a.e.c., o estilo conhecido como Horido que triunfaria no fim do século com o pintor de Meidias. No domínio da cerâmica pintada, Atenas continuava ainda, de longe, à frente da produção de qualidade, mesmo se, a partir do último quarto de século, já sofria a tímida concorrência dos ateliês instalados na Itália meridional e com certeza criados por pintores atenienses emigrados. Prova evidente da influencia das artes decorativas atenienses, cujos produtos foram amplamente exportados pela bacia do Mediterrâneo.

Pela qualidade excepcional das diversas realizações de seus arquitetos, pintores e escultores, pela difusão das obras que eles produziram e pela influencia de seu talento que atraía discípulos e admiradores, Atenas garantiu o título de capital artística, naqueles anos de apogeu em que a política ambiciosa de Pérides soube incentivar os impulsos criativos que declinariam gradativamente com a crise que viveria em seguida. Seu prestígio intelectual e artístico continuaria imenso, contudo, durante muito tempo. Segundo a palavra de Plutarco, falando dos monumentos da Acrópole mas que poderia ser pronunciada a propósito de muitas outras obras de arte do século de Pérides - , “parece que essas obras têm nelas um sopro sempre vivo e uma alma inacessível à velhice".

Civilização Grega | Artes
Por Mário Curtis Giordani
Índia, o país, o povo e a língua

O país - Os gregos chamaram Indos o Sindhu (rio, em língua nativa), e toda a região situada além desse rio passou a receber a mesma designação. A vasta extensão de terra, que hoje designamos por índia, situa-se entre os paralelos de 8 a 37 graus de latitude norte e possui mais de 4,6 de quilômetros quadrados de superfície, abrangendo
três regiões naturais distintas: A Barreira Montanhosa, a Planície Indo-Gangética e o Planalto peninsular. Na Barreira Montanhosa, ao norte, assinalamos a imponente cordilheira do Himalaia com suas neves eternas. A Planície Indo-Gangética estende-se entre as montanhas do norte e o planalto, desde o mar de Omã até ao golfo de Bengala por cerca de 3.000 quilômetros. As duas principais correntes de água, que cortam essa imensa região, são o Indo e o Ganges. O primeiro, depois de um longo percurso em que recebe a contribuição de diversos afluentes do Pendjab (região dos cinco rios), vai desaguar, formando um delta, no mar de Omã. Ao sul do Himalaia, corre, entre terras férteis, o Ganges, aumentando seu volume de água com afluentes entre os quais avulta o Bramaputra. Formando um luxuriante e imponente delta, as águas do Ganges vão desembocar no golfo de Bengala. A parte peninsular da Índia é constituída por vasto planalto granítico de forma triangular, o Decão, limitado ao norte pelos montes Vindhya, a leste e a oeste pelos montes Ghates.

O Indo e o Ganges são alimentados pela inesgotável reserva de gelo e neve que cobrem o Himalaia e o Tibet; os ventos que sopram regularmente do sul ao norte, através do golfo de Bengala, projetam contra a cordilheira do Himalaia uma colossal precipitação pluvial.

Encontramos na Índia regiões de grande fertilidade como o Pendjab e as terras banhadas pelo Ganges; verdadeiros desertos como o existente entre o Ganges e o Indo; zonas de mata-virgem em que se abrigam inúmeros animais ferozes tais como tigres, panteras, leopardos, cobras, etc.

As terras aráveis produzem juta, algodão, chá, arroz, trigo, cevada, etc. Completemos esse superficial esboço do cenário geográfico, em que se desenrolaram milênios de História, lembrando que o Pendjab é o vestíbulo da Índia: as vias fáceis de penetração se encontram ao noroeste: os passos de Bolan e de Khaiber são os caminhos tradicionais de invasão na fronteira ocidental.

O povo - A população da Índia apresenta uma notável complexidade racial, difícil de ser estudada. Situada na confluência de dois mundos antropológicos (raças brancas e raças amarelas), a Índia possui ainda um terceiro elemento em sua população ligado às raças negras ou aos tipos mais primitivos da Oceânia. O elemento negro que predomina no Decão não apresenta, entretanto, a cabeleira e os lábios dos negróides. H. Vallois distingue na população da Índia quatro «stocks» fundamentais: a raça veda, a raça melano-hindu, duas ou três raças brancas e uma ou duas raças amarelas[1].
A raça veda é constituída por alguns poucos milhares de indivíduos, que habitam as montanhas e as florestas do leste da ilha de Ceilão e apresentam marcada semelhança com os australianos. Em outras regiões da índia nota-se claramente algumas características da raça veda já atenuadas, provavelmente, pela miscigenação.

Os melano-hindus, que constituem um grupo racial mais evoluído que os vedas, tanto física como culturalmente, apresentam características raciais intermediárias entre brancos e negros; formam a base da população do Decão. Vedas e melano-hindus interpenetraram-se e é difícil dizer qual dos dois grupos chegou à Índia em primeiro lugar.

Os brancos, localizados sobretudo na Planície Indo-Gangética, penetraram na península depois da chegada dos dois grupos citados, obrigando os mesmos a buscarem refúgio nas montanhas e nas jungles. Esses brancos provinham do Irã e do Turquestão e introduziram na Índia a língua e a cultura indo-européia.

Do nordeste, finalmente, através do vale do Bramaputra e da Birmânia, chegaram os amarelos à região do Golfo de Bengala.

A língua - Depois de esboçarmos, de modo superficial, o panorama racial da população da Índia, digamos algumas palavras sobre as famílias linguísticas existentes na península e que são bem um indício
da complexidade dos problemas que o estudioso do passado índio deve enfrentar. Três famílias linguísticas mais importantes merecem ser anotadas:

As línguas munda - Essas línguas são faladas por uma pequena parte da população da Índia; outrora difundidas por uma área mais vasta, foram posteriormente substituídas em parte quer pelos falares arianos, quer pelos falares dravidianos, subsistindo apenas, em plena decadência, nas regiões montanhosas de difícil acesso. É interessante notar que os linguistas descobriram um parentesco entre o grupo munda e um grupo indo-chinês.

As línguas dravídicas - Até o presente não se conseguiu estabelecer decisivamente ligação alguma entre o dravidiano e qualquer outro grupo linguístico. As línguas dravídicas são faladas por uma grande parte da população. Podemos citar, como exemplo, o tamul, o canara e o telugu. Estes idiomas possuem um passado de cultura que se traduz em belas literaturas. Assim, v.g., a literatura tamul é a mais antiga e rica literatura da Índia, após a literatura sânscrita.

As línguas indo-arianas - O indo-ariano, falado atualmente na Índia, abrange diversos grupos entre os quais podemos citar, como exemplo, o grupo oriental abrangendo o bengali, o bihari, etc., e o grupo central abrangendo o hindi, o pendjabi, etc.

Os mais antigos documentos em indo-ariano são os textos védicos escritos em sânscrito. Sânscrito era a língua nobre em oposição ao prakrit, língua vulgar. O emprego do sânscrito clássico, língua de cultura, em diversos gêneros literários, lembra o uso do latim na Idade-Média.

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Neuropsicologia
TEXTOS
Por Claisy Maria Marinho-Araujo
Intervenção institucional, ampliação crítica e política da atuação em Psicologia Escolar

A Psicologia brasileira, enquanto ciência e profissão, tem uma história recente, datada a partir de 1960. É uma história marcada por mudanças e críticas, nas dimensões espistemológica, conceitual e ideológica, que redefiniram referenciais teóricos e a atividade profissional.

No início da história científica no país, a Psicologia referendou pressupostos e ações que enfatizavam concepções deterministas na constituição da subjetividade humana; em consequência, as produções da área refletiam um projeto de controle social, ideologicamente vinculado aos interesses hegemônicos da classe detentora do poder, a partir da organização socioeconômica capitalista da época.

Essas ações estiveram muito próximas da Educação, desde seus primórdios. A partir dos anos 1960, com a ampliação do sistema educacional em suas diversas modalidades, passaram a ocorrer consequentes solicitações por serviços de atendimento psicológico ligados aos estudantes de classes populares que passaram a ter acesso à escola.

Nessa época, surgiu, com uma identidade pouco definida a figura do psicólogo escolar ou psicólogo educacional, chamado. Resolver ou enfrentar as situações-problemas oriundas na escola. Tornou-se responsabilidade do psicólogo na escola o atendimento individual a alunos encaminhados com queixas escolares de diversas ordens, com um intuito claro de ajustamento às normas e condutas escolares vigentes.

A parceria Psicologia e Educação sustentavae disseminava explicações para o desenvolvimento humano e a aprendizagem pautadas em fundamentos e pressupostos vinculados ideologicamente a ações de discriminação, dominação e exclusão educacional e social. Grande parte das teorias psicológicas utilizadas para atender às demandas escolares, naturalizava e individualizava as soluções e saídas para os problemas escolares, desconsiderando ou reduzindo o papel da realidade sociale das práticas pedagógicas, prescrevendo medidas “corretivas”, “punitivas” ou marginalizadoras.

Naquele momento histórico, a Psicologia identificava-se como uma profissão associada ao conservadorismo, reprodutivismo social, tecnicismo, individualismo. Essas características refletiam-se na Psicologia Escolar, que sustentava a psicologização das questões educacionais, “tratando” os problemas escolares individualmente, de forma adaptativa e remediativa, com ênfase no ajustamento.

Para Patto (1990), esse momento histórico foi especialmente decisivo para a reformulação dos objetivos da Psicologia Escolar.Surge, especialmente a partir das reproduções dessa autora, uma crítica crucial às concepções biologizantes da dificuldade de aprendizagem, clamando por um redirecionamento de explicações e intervenções sobre o fracasso escolar que visavam a culpabilização direta ou indireta da vítima – o aluno –, desconsiderando a instituição pedagógica, seus atores e suas relações sociais.

A partir dos anos 80, a história da Psicologia Escolar registra contrapontos a essa identificação com uma ciência elitizada e descomprometida com fenômenos sociais amplos. No cenário nacional, ocorreram profundas transformações socioesconômicas advindas, principalmente, das lutas por melhores condições de trabalho, saúde, educação, além de uma nova organização política, expressa pelo surgimento de entidades representativas das diversas categorias profissionais.

A mobilização e a participação dos psicólogos junto a outros profissionais, nessas lutas sociais, fortaleceram o período de mudanças nas produções da Psicologia. Cresceram e diversificaram-se as formas de organização da categoria tanto na busca de novas práticas quanto nos debates e questionamentos teoricocientíficos.

[...]

Na última década, ocorreu a ampliação da produção e da atuação da Psicologia Escolar para outros contextos, estendendo-se “para além dos muros da escola”. Entretanto, acredita-se e defende-se que a grande contribuição do trabalho do psicólogo escolar constitui-se a apartir da imersão na escola. Esse é, ainda, um espaço institucional de efetiva atualização das potencialidades dos sujeitos e locus privilegiado para a ocorrência de processos de mediação semi-ótica, conquistado por meio do acesso ao conhecimento cultural e científico organizado, sistematizado e socialmente transformado.

Ao se sustentar essa posição, não se está optando por uma visão ingênua ou tradicional da escola como meio exclusivo de redenção ou salvação dos indivíduos, tampouco se concorda com a concepção naturalista ou liberal de que a escola seja o local propício para o “cultivo” das potencialidades “naturais” humanas ou para o preparo individual, autônomo e intelectualizado para a sobrevivência fora de seus muros. Ao contrário, concorda-se com as críticas endereçadas à escola, quando esta se apresenta como instituição que se “decola” da sociedade e de seus saberes; nega sua participação na transformação social, adotando uma postura de falsa neutralidade; enfatiza e valoriza o “encastelamento” dos saberes escolares e a emblematização de seus conteúdos com suportes para a veiculação de modelos de desenvolvimento individualizados e individualizantes, competitivos, a-críticos, subservientes e alienantes.

Por outro lado, há que se reconhecer, na escola, uma função política, um espaço singular, ainda que pautado por contradições e incoerências, mas fecundo ao exercício da cidadania e da luta em prol de uma sociedade mais justa. Um espaço que desafia a forma como psicólogo escolar, a partir de uma perspectiva dialética, em que os conflitos e as rupturas fornecem férteis espaços de transformações. Nessa perspectiva, entende-se o papel mediador da escola como fonte de superação de explicações dicotômicas ou definições limitadoras.

Entender que a escola não é nem fonte essencial das desigualdades sociais, nem reflete passivamente a ideologia dominante (atualmente difundida em inúmeros outros meios e contextos para além da escola), é defender que há, na instituição escolar, intencionalidades, finalidades, utilidades que lhe permitem reinterpretar e ressignificar a ideologia ao difundi-la ou transmiti-la. Isso a retira do lugar determinista de “fonte de opressão social”, ainda que sirva de instrumento à alienação, que, no entanto, preexiste a ela.

A escola pode ser vista como parte dinâmica de um contexto social-econômico que sofre influência da desigualdade, da ideologia da mais-valia advinda do sistema capitalista produtivo, da ênfase na qualificação como vínculo direto entre educação e produção. Mas pode, por outro lado, servir de instrumento para outro quadro social que não o da dominação, acredita-se que as “falhas” ou “incompetências” atribuídas à escola são, na verdade, a expressão dialeticamente contraditória de sua função mediadora dos “interesses dos dominados”, pois que, partindo do senso comum, de suas habilidades e capacidades, de seu conhecimento cotidiano, de sua cultura, é na escola que esta parela da sociedade irá elaborar, explicitar e ampliar seus saberes e sua consciência. Não se pode descartar, na análise a ser feita da escola, a dimensão mediadora das ações que ocorrem no processo educativo em função deste contexto extremamente complexo e multideterminado por influências não só ideológicas, mas históricas, econômicas, políticas e sociais.

Esse caráter mediador realça o enfrentamento cotidiano das forças sociais que não se reproduzem tal e qual na escola, mas que influenciam seus processos de ensino, aprendizagem, gestão e desenvolvimento das relações interpessoais. São necessárias mediações técnicas, culturais e sociopolíticas que, em vez de negar os ideais, os recriem em bases mais justas, sustentados por escolhas conscientes.

A mediação que supõe fonte de exigenação na e da escola deve reconhecer e enfrentar as lutas sociais que a perpassam, denunciando a falsa “igualdade de oportunidades” que camufla a desigualdade social, assumindo finalidades pedagógicas que preparem para a cooperação sem desconsiderar o conflito, assumindo sua função precípua de transmissão de um saber técnico e científico de alto nível, que seja capaz de transformar as relações sociais.

O espaço escolar constitui local privilegiado para aprendizagem e desenvolvimentos, pois, por um lado, nele explicitam-se contradições e antagonismos e, por outro, possibilita a articulação de interesses sociais mais justos, democráticos e solidários. No entanto, para avançar em transformações que gerem qualidade na educação e desenvolvimento saudável de seus participantes, não basta apenas reconhecer e evidenciar as contradições presentes na escola; é preciso ocupar as brechas que também são originadas por essas mesmas contradições, expandindo-as. Torna-se necessário e urgente apropriar-se de forma consciente e intencional, dessas rupturas e contrapontos, amalgamados pelo trablho coletivo e mediadas nas relações intersubjetivas que abundam no contexto escolar.

Tornar-se lúcido que essa função da escola leva a novas inquietações, pois remete a discussões sobre os direitos sociais, políticos e civis daqueles que frequentam e dos que atuam na escola. A contribuição da escola à redução das desigualdadessociais não se efetivará sem o enfrentamento crítico e corajoso dos inúmeros impedimentos que se colocam à construção da cidadania e que comparecem tanto no interior dos muros da escola (pelo currículo – formal, real, oculto), quanto fora dela, por meio de políticas públicas que atestam o descaso com necessidades, desejos e demandas concretas oriundas do contexto escolar.

Muitas vezes, o descaso de tais políticas recai, mais fortemente, sobre as populações mais desfavorecidas, que frequentam escolas públicas brasileiras nas periferias e que acabam sendo vitimizadas por atitudes de clientelismo e populismo, que transformam direitos legítimos em “favores” do Estado. Por vezes, o foco das políticas é retirar dos sujeitos o poder de reivindicação, de luta e de conquista de seus direitos, sanando-o por meio de doações que amordaçam, silenciam, imobilizam. A prática do favorecimento, dos donativos e outras ações populistas, extremamente presentes no cenário das políticas governamentais brasileiras, exercem forte atração nos menos favorecidos, geram submissão do usuário e o poder e controle do Estado.

Patto (1990) já alertava para a desmobilização em ações políticas descomprometidas com o atendimento responsável a uma demanda escolar real:

a própria construção do prédio escolar, num projeto arquitetônico padronizado pelos órgãos competentes, e sua inauguração através de solenidades, nas quais frequentemente a entrega assume um significado de favor dos governantes, constribui para uma concepção, por seus usuários, como algo que não lhes percente(p. 128).

A despeito dessa realidade, entende-se como equivocado o caráter reducionista da concepção de escola atrelada a um único e soberano instrumento de preservação dos privilégios de grupos dominantes. Há, de fato, restrições estruturais no cerne dos problemas educacionais; no entanto, não se deve minimizar as potencialidades das ações e da resistência dos atores da escola na construção de uma contraideologia. A possibilidade de formulação de uma nova hegemonia, na luta contra a opressão, tem sua gênese na dimensão contraditória das práticas sociaisque, se por um lado preservam a dominação e a desigualdade, por outro fortalecem e estimulam a libertação.

Nesse sentido, dominação, libertação e desigualade social não se redizem às questões estrturuais no interior da escola. Mais do que explica-la como reprodutora da organização social, é preciso recoloca-la como importante espaço de transformações sociais e culturais complexas, ainda que contraditórias. Legitimar mediaçõesque não só explicitem as injustiças presentes na esocla, mas, também, vislumbrem mudanças, é sustentar ações transformadoras no interior do sistema educacional, revisitando práticas, criticando limites coercitivos, orquestrando vozes nos espaços de interlocução, denunciando a opressão e a desigualdade nas oportunidades.

Mesmo que a integração entre projetos sociais e responsabilidades éticas leve o debate e as ações para além dos muros das escolas, acredita-se que é no interior desse contextoque se depositam as esperanças e expectativas, ainda que difusas, de grande parte da população, especialmente os mais desfavorecidos economicamente. E isto nos remete a um compromisso ético, uma obrigação profissional, de planetar possibilidades de trabalho que consderem a história presente em uma sala de aula, projetada e projetando a ampla e complexa trama social, na qual não deixa de comparecer o modo singular e único dos sujeitos que dela participam e a fazem.

Ao representar esse espaço repleto de diferentes mediações e múltiplas determinações, a realidade educacional retoma sua importância social como instancia fundamental para a compreensão do real e do conhecimento historicamente aumulado. É por oportunizar trocas e relações socioculturais, cognitivas e afetivas, necessárias ao desenvolvimetno psíquico, que a escola mediatiza a transformação social por meio da “transformação das consciências”.

Entende-se que a realidade que a Psicologia Escolar tem pela frente é repleta de conflitos, pois que se reconhece por meio de seus atores, sujeitos em transformação; é uma escola com descontinuidades em seus projetos e suas ações, pois que reflete politicas públias descompromissadas e descontextualizadas; é uma escola com mortificações cotidianas, pois que concretiza torturas e aflições simbólicas, expressas em diversas violências, perdas e fracassos que marcam o cotidiano escolar. Porém, apesar e para além dessas características, trata-se de uma escola cujas contradições mobilizam o desejo por mudança e a resistência ao controle; cujos desafios revigoram ações combativas e paradoxalmente afetivas; cujas desigualdades impulsionam a busca coletiva por alternativas que expressem a diversidade e validem uma justiça da diferença; cujas experiências e projetos, ainda que pontuais, sinalizem para a consolidação de uma ética baseada em princípios de justiça e solidariedade. Portanto, acredita-se que as tensões existentesna escola não impedem o emergir de forças de luta e resistência pelo restabelecimento da cidadania.

Essa escola fértil e desafiante à construção do sujeito e às transformações sociais, é espaço profícuo de atuação para a Psicologia Escolar, especialmente na educação pública. Uma Psicologia Escolar desvinculada de onipotência, de acreditar-se capaz da compreensão absoluta e da aceitação total que sustentam práticas equivocadas de “cuidado” ou “ajuda” a “sofredores”, para torna-los “felizes”, “adaptados” e “equilibrados”. Uma Psicologia Escolar que, em contrapartida, comprometa-se com a construção de concepções críticas e dialéticas sobre o homem, seu desenvolvimento, sua subjetividade, seus processos de aprendizagem e de comunicação; que, a partir dessas concepções, empenhe-se em intervenções que levem em conta as influências histórico-culturais na constituição do psiquismo humano e que sejam respaldadas por opções teóricas que consideram a interdependência entre aprendizagem, desenvolvimento, mediação, consciência e emoção.

Muitas poderão ser as contribuições da Psicologia Escolar ao seu campo específico de atuação, embora não único: a escola. E, ao assumir o compromisso com uma postura crítica e com as transformações que se fazem necessárias, especialmente no interior da escola pública brasileira, é que a Psicologia Escolar poderá sustentar e consolidar explicações e intervenções coerentes com a natureza histórica e cultural dos sujeitos.

Intervenção institucional em Psicologia Escolar: ampliação política da atuação

As reflexões e argumentos apresentados corroboram fortemente a compreensão e defesa da escola como instituição que oportuniza, por sua constituição contraditória e dialeticamente transformadora, potencialidades e desenvolvimetnos dos sujeitos que dela participam.Nessa perspectiva, defende-se, igualmente, que a função do psicólogo escolar tem sua marca principal na escola, principalmente como membro integrante da esquipe educacional.

Por outro lado, concorda-se com a compreensão de que a função social da educação não ocorre apenas na instituição escolar, mas se estende a outros contextos institucionais comprometidos e investidos da função educativa.

Nessa direção, as possibilidades de atuação desenvolvidas pelo psicólogo escolar, nas últimas décadas, vêm se ampliando, expandindo-se a outros contextos além da escola: creches, orfanatos, associações educativas e profissionais, organizações não governamentais, serviços públicos de educação e saúde, empresas de pesquisas, assessorias, instituiçãos assistenciais, empresariais, filantrópicas ou outras que contemplem, em algumas de suas ações, a dimensão educativa.

A ampliação da intervenção em Psicologia Escolar tem sido notada também em modalidades de ensino e seguimentos não tradicionalmente amparados pela área, como a educação de jovens e adultos (EJA), a educação a distência (EaD), o ensino superior.

A complexidade a extensão das demandas dirigidas aos psicólogos escolares evidenciam a necessidade premente de se desenvolverem renovados modelos de atuação, que contemplem as inúmeras potencialidades de transformação protagonizadas em tais contextos por seus atores.

Entretanto, reconhecendo e valorizando que tal ampliação da atuação da Psicologia Escolar vem expressando a consolidação da área e o reconhecimento social por suas efetivas contribuições, ainda efatiza-se que a escola constitui-se como espaço privilegiado para a atuação do psicólogo escolar.

A atuação institucional surge como alternativa para uma intervenção mais ampla na escola e que pode proporcionar aos psicólogos o desenvolvimento lúcido de competências. Essa atuação oportuniza intervenções que potencializem o trabalho em equipe, favorecendo mudanças nas concepções deterministas sobre desenvolvimento e aprendizagem, que cristalizam práticas pedagógicas e originam preconceitos e exclusão.

Corroborando esse argumento, Martinez (2010), ao analisar as formas de atuações emergentes em Psicologia Escolar, destaca a possibilidade de

Diagnóstico, análise e intervenão em nível institucional, especialmente no que diz respeito à subjetividade social da escola, visando delinear estratégias de trabalho favorecedoras das mudanças necessárias para a otimização do processo educativo.Para a autora, tal ação permite reconhecer as dimensões psicoeducativa e psicossocial da escola de forma integrada (p. 47)

Acredita-se que a ênfase na atuação institucional possa ser alncançada por meio de um novo direcionamento na análise da realidade educativa: o foco de compreensão e intervenção deve se deslocar para a conscientização e o empoderamento do coletivo da escola, contextualizdo e mediado pelas relações e pelos processos de subjetivação que, dialeticamente, ressignificam os diversos atores e suas ações.

Os caminhos para a intervenção do psicólogo escolar devem, portanto, estar ancorados na compreensão de que as relações subjetivas originam o processo interdependente de construções e apropriações de significados e sentidos que acontece entre os sujeitos, influenciando seu desenvolvimento. Para intervir nessa complexidade intersubjetiva presente nas instituições educativas, defende-se que o psicólogo deva fazer uma escolha consciente por uma atuação institucional com foco preventivo, sustentada por teorias psicológicas cujo enfoque privilegia uma visão de homem e sociedade dialeticamente constituídos em suas realções históricas e culturais.

Fundamentados por esse referencial, os psicólogos escolares podem se instrumentalizar para, dentre outras ações, criar com e entre os sujeitos institucionais um espaço de interlocução que privilegia, sobretudo, o exercicio da conscientização lúcida e intencional de concepções e ações. Nesse movimento o psicólogo escolar contribuiria para a promoção da conscientização de papéis, funções e responsabilidades dos participanetes das compelas redes interativas que permeiam os contextos educacionais.

Ao trabalhar em prol da conscientização dos sujeitos, intervindo em processos subjetivos, o psicólogo escolar estará se colocando como mediador do desenvolvimento humano nos contetos educativos, nas diversas dimensões e momentos desse desenvolvimento. Sua ação, a partir desta orientação, poderá abranger os diversos sujeitos que compartilham da subjetividade institucional, dos estudantes à equipe pedagógica, à família e aos demais atores socioinstitucionais.

As subjetividades que transversalizam a construção do conhecimento, a ação pedagócia global, os processos de gestão, a dinâmica e diversidade dos diversos contextos educativos pode constituir-se como focos privilegiados da ação da Psicologia Escolar. Para intervir nos processos relacionais e subjetivos que promovem conscientização dos atores do processo educacional, o psicólogo escolar poderá: observar a realidade institucional para mapear espaços, tempos, fazeres, crenças, concepções, dinâmicas; desenvolver uma sensibilidade de escuta dos discursos institucionais e das “vozes da escola” provocar a ressignificação das demandas e criar novos espaços para interlocução e circulação de falas e discursos dos sujeitos. Essas ações poderão ser fundamentais à intervenção psicológica coadunada ao desenvolvimento de uma conscientização que pode provocar mudanças significativas, consistentes e duradoras na prática pedagógica.

A conscientização, portanto, torna-se importante pilar da atuação em Psicologia Escolar. E essa é uma ação política, pois que, para além de um processo abstrato, caracteriza-se por uma transformação pessoal e social, que influencia mudança nos contextos e na forma de se relacionar no mundo. Assim, servindo-se da Práxis como mecanismo integrador das experiências pessoais e profissionais, o psicólogo escolar deverá oportunizar, por meio de atuações coletivas, a superação da visão conservadora de adaptação ou psicologização das práticas psicológicas nos contextos educativos.

Proposta de intervenção institucional em Psicologia Escolar

Acreditando que o locusda escola é rico em manifestações concretas de transformações, e que estas estão presentes em atividades pedagógicas cotidianas, a atuação do psicólogo escolar precisa ser estabelecida em uma dimensão preventiva diante de reais e complexas demandas que a escola, como instituição, coloca-lhe.

Privilegiar uma atuação preventiva pode gerar entendimentos equivocados ao que realmente se pretente com esta proposta de intervenção. Isto porque, ao conceito de prevenção, é comum se associar a ideia de antecipação ao ajustamento de comportamentos que se encontram fora dos padrões socialmente aceitos. Geralmente, atrela-se à compreensão de prevenção a busca por adequação das manifestações escolares dos estudantes a modelos adaptativos e normativos, no sentido de, previamente, evitar “maiores problemas futuros”. Nessa perspectiva, a prevenção assume uma conotação quase perversa, contaminada por uma sutil forma de controle social, favorecendo padronizações adaptativas a um coletivo supostamento homogêneo, cuja ideologia tende a obscurecer a característica histórica e social de casa sujeito.

Ao contrário dessa perspectiva, na forma de intervenção aqui defendida, os caminhos para uma atuação institucional preventiva são ancorados em concepções e ações orientadas para um lúcido reconhecimento coletivo desses modos de controle que proliferam por meio de práticas de ensino e avaliação, ingênuas ou alienadas. Na atuação preventiva, o psicólogo escolar, visando a superação de uma visão conservadora e adaptacionista, poderá facilitar e incentivar a construção de estratégias de ensinotão diversificadas quanto forem as possiblidades interativas de aprendizagem; promover a reflexão e a conscientização sobre as concepções deterministas de sujeito e aprendizagem; incentivar os atores educacionais a buscarem, de forma consciente e competente, a superação dos obstáculos à apropriação do conhecimento.

A partir das concepções e reflexões aqui expostas, apresenta-se uma proposta de intervenção institucional para a atuação em Psicologia Escolar, já publicada e adotada am alguns contextos.

Essa proposta caracteriza-se por uma ação dinâmica, participativa e sistemática no interior da instituição e está ancorada em quatro grandes dimensões: Mapeamento Institucional, Escuta Psicológica, Assessoria ao Trabalho Coletivo, Acompanhamento ao Processo de Ensino-aprendizagem.

Detalham-se, a seguir, sugestões para o delineamento do trabalho em cada uma dessas dimensões, ampliando a proposição inicial de Marinho-Araújo e Almeida (2005). É importante considerar que tais dimensões não se apresentam como etapas hierarquizadas em escala sequencial de prioridades, elas devem ocorrer de forma integrada, articuladas à realidade e à dinâmica da escola, dialeticamente ressignificadas em função dos contextos, tempos, espaços, considerando características pessoais e profissionais, ao longo da ação psicológica.

Como é inerente a toda ação da Psicologia na escola, essas também devem ser atividades previamente explicadas e negociadas com os gestores e demais profissionais da escola.

Assim, a constante reflexão sobre os aspectos institucionais oportunizada pelo mapeamento, realizado de forma ampla, sistemática e contínua ao longo de todo o processo de trabalho, levam a constantes e renovados direcionamentos do planejamento e das práticas dos psicólogos em sua atuação com o coletivo da escola. Algumas orientações podem ser úteis à operacionalização do mapeamento na concepção aqui descrita.

O psicólogo escolar poderá realizar uma análise de conjuntura histórica, econômica, política, geográfica, social na qual a escola e seus participantes estão inseridos. Podem ser estudadas, por exemplo, as características do contexto sociodemográfico e político-pedagógico da escola; localização, histórico, modalidades de ensino, dinâmica de funcionamento (turmas, turnos), espaço físico, recursos humanos (professores, alunos, servidores, especialistas); relação com órgãos públicos de regulação, controle, manutenção e fomento; parcerias com a comunidade. Esse conhecimento, que deve ser constantemente atualizado, promove uma clareza ao psicólogo e ao coletivo da escola com relação aos desdobramentos de tais influências nas concepções que transversalizam as práticas pedagógicas.

Uma atividade fundamental ao mapeamento institucional é a análise documental. Investigar as convergências, incoerências, aproximações, inovações existentes entre as normas prescritas e as reais práticas educativas, os discursos e as concepções dos atores educacionais pode contribuir para transformações institucionais e processos de conscientização mediados para Psicologia Escolar. É útil a esse processo de conscientização evidenciar influências ideológicas, filosóficas, epistemológicas, políticas presentes nos diversos aspectos institucionais e normatizados pelas diretrizes pedagógicas como: projeto político pedagógico, proposta pedagógica de cursos ou disciplinas, regimento escolar, projetos educacionais ou de gestão administrativa. O psicólogo deverá realizar a análise desses e de outros documentos, buscando subsídios tanto à clarificação das possíveis contradições entre o discurso e a prática, quanto às aproximações entre as diretrizes libertadoras e o planejamento intencional de ações profissionais que originem autonomia, pensamento crítico, criatividade, equidade nos processos de ensino aprendizagem.

As observações institucionais interativas também fazem parte do mapeamento e deverão constar das atividades da Psicologia na análise dinâmica do contexto escolar. Ao participar do currículo vivificado, nas amplas e múltiplas expressões que assume na escola, o psicólogo ativamente inserido poderá analisar, nas práticas pedagógicas, nas rotinas de sala de aula, nos projetos e tendências educacionais, as concepções subjacentes e orientadoras que os profissionais têm de escola, educação, ensino, desenvolvimento, aprendizagem, avaliação. Oportunizar reflexões sobre a concepção de currículo expressa na estrutura e na dinâmica do trabalho pedagógico, na organização temporal e espacial de atividades e projetos e em outras ações, pode fornecer a lucidez necessária à tomada de decisões intencionais em relação à formas de ensinar mais inclusivas e potencializadoras de desenvolvimento.

No movimento de participação ativa nas atividades curriculares, o psicólogo escolar também poderá planejar sua participação em vários espaços em que ocorrem o processo de gestão escolar: reuniões de coordenação pedagógica; reuniões de professores, gestores, especialistas; conselhos de classe; elaboração do projeto político pedagógico; definição de indicadores e diretrizes para os objetivos, conteúdos, avaliação e orientações didáticas para as modalidades de ensino. Nessas oportunidades, poderão ser analisadas concepções de aprender e de ensinar; relações estruturais entre grupos(gestores, professores, especialistas, servidores administrativos, comunidade); fóruns de deliberações horizontalizados ou centralização nas decisões; interações entre instituição e comunidade (projetos, campanhas, ações); relações entre a escola e as famílias.

Refletir sobre essas análises com a equipe escolar deve objetivar a elaboração de ações pedagógicas conjuntas, que visem potencializar a qualidade dos processos pedagógicos e a criação de uma visão compartilhada das responsabilidades e funções inerentes às ações institucionais intencionalmente planejadas. Espera-se, ainda, a partir de tais ações coletivas, impactar especialmente o professor para que seu fazer contidiano seja fundamentado por mediações de aprendizagem e desenvolvimento sustentadas por um planejamento intencional, consciente, competente e reflexivo do ensino.

As observações institucionais interativas prevêm outras inúmeras participações do psicólogo na escola como entrevistas ou conversas informais com profissionais, estudantes, famílias; trabalhos e projetos com equipes multiprofissionais; elaboração de assessorias e formação continuada aos profissionais da escola, no âmbito do conhecimento psicológico; parceria com instituições de antendimento psicológico, jurídico, médico, assistencial e outros para futuros encaminhamentos ou projetos dentre outras.

Escuta psicológica

Para realizar o mapeamento institucional é primordial o desenvolvimento de métodos de observação das situações e relaçõesnos contextos específicos em que ocorrem, porém, articulado a esses métodos, é necessário que o psicólogo desenvolva competências para criar estratégias de escuta psicológica das vozes institucionais, para compreender os aspectos intersubjetivos presentes nos processos relacinais do contexto escolar.

Acredita-se que, a partir de uma análise institucional, crítica e reflexiva sobre as inúmeras vozes da escola presentes nas concepções e nas formas de organização institucional, novas ações irão se configurar para a atuação psicológica na instituição escolar: será possível a “oxigenação”, o arejamento de discursos, significados e sentidos presentes nas falas e comunicações, oportunizando aos próprios atores a percepção das contradições e rupturas presentes no seu contexto, bem como a reflexão acerca de sua profissão, do seu papel social e das competências que lhe são exigidas.

A intervenção institucional da Psicologia Escolar não pode prescindir, portanto, de uma escuta psicológica específica, com o objetivo de fomentar processos de implicação dos profissionais quanto à mediação do desenvolvimento pessoal e dos estudantes, visando o sucesso escolar.

A defesa por uma escuta psicológica na atuação do psicólogo escolar, quando de sua invervenção institucional, não significa embasar essa atuação no modelo “clínico-médico”, orientado pelo paradigma dicotômico “saúde versus doença”, já bastante criticado na literatura sobre Psicologia Escolar e também completamente descartado neste trabalho.

Trabalhar com uma escuta psicológica coloca o psicólogo em situação de ouvir e compreender a singularidade das demandas, mas, também, de investiga-las e questioná-las, buscando, com lucidez, gerir a intersubjetividade presente nas relações.

Essa escuta psicológica pressupõe um arcabouço teórico advindo dos conhecimentos científicos da Psicologia aliado a uma sensibilidade da escuta dos processos intersubjetivos, proveniente de um envolvimento ético com sujeitos que se encontram, muitas vezes, em posições diferentes, mas que atuam ressignificando os sentidos da singularidade e da complexidade do fenômeno compartilhado. A escuta psicológica recupera e compreende, ativamente, o sujeito no interior dos sistemas simbólicos relacionais.

Para desenvolver a escuta psicológica, o psicólogo escolar deverá, de forma sensível, ética e cuidadosa, procurar estar com o outro e com o coletivo, perscrutar os fenômenos psicológico e interpsicológicos, encontrar o sujeito, o grupo e a instituição, na interdependência expressa em suas ações, histórias, significados, afetos. É necessário se disponibilizar a ouvir, ver, sentir, viver indicadores objetivos, subjetivos, simbólicos do amálgama dialético entre o psíquico e o social.

A escuta psicológica pressupõe, ainda, o reconhecimento dos próprios envolvimentos psíquicos do profissional, suas escolhas e sentimentos, mobilizados no espaço intersubjetivo e que devem ser compreendidos e mediados pelas ferramentas teóricas que a ciência psicológica disponibiliza.

O espaço de escuta psicológica na atuação dos psicólogos escolares deve desencadear ações originadas tanto da urgência do cotidiano escolar (escuta de angústias e sofrimento psíquico de estudantes, professores, gestores, profissionais, pais), quanto das atividades planejadas intencionalmente nesta perspectiva (estudo de caso, relatos de experiência, encontros para estudo ou orientação à equipe escolar, aos alunos e à família, observação e análise dos processos intersubjetivos e das condutas afetivas presentes no ensinar e aprender).

O psicólogo escolar, ao exercitar a atividade complexa da escuta psicológica torna-se ouvinte de um cenário multifônico, que geralmente grita verdades isoladas, preconceitos consolidadados, dificuldades intransponíveis; mas que, também, sussurra pequenas conquistas, barreiras superadas, sucessos inesperados. O grande desafio é transitar por esse complexo cenário aprendendo a não isolar os significados e sentidos do coro de vozes; a não amenizar conflitos ou camuflar contradições, mas recolocar em circulação falas e discursos produzidos na ambiguidade e na diversidade; a escutar, de forma global e institucional, os pedidos de ajuda disfarçados nas queixas; a provocar a ressignificação das demandas, contraditórias ou imaginárias, introduzindo-as em uma ordem simbólica; a reverberar as vozes de volta aos seus autores, mediando conscientização pessoal e coletiva a partir de outras escutas, individuais e institucionais.

A circulação de sentidos, afetos, dores, esperanças, frustrações, conquistas, abandonos, sucessos, e tantos outros fenômenos subjetivos e intersubjetivos que comparecem no contexto escolar, clamam por uma escuta qualificada cientificamente e comprometida eticamente. Tal escuta deverá auxiliar uma intervenção competente que não adepte, adeque, normatiza, naturalize esses fenômenos, mas que os recoloque, enquanto manifestações legítimas de sujeitos que criam e recriam, vivem e revivem, dinamicamente, seus próprios processos de desenvolvimento enquanto trabalham o ensino e a aprendizagem.

Assessoria ao trabalho coletivo

É importante que o psicólogo escolar desenvolva, concomitante ao mapeamento institucional e à escuta clínica, a realização de planejamentos e assessorias ao trabalho coletivo, concretizados junto ao corpo docente, à direção e à equipe técnica. Essa assessoria não é uma ação esporádica e emergencial de um psicólogo que visita a escola eventualmente ou para atender a demandas pontuais, ao contrário, é uma atividade totalmente inserida na participação cotidiana do psicólogo na escola, realizada de forma contextualizada nessas ações e junto a seus atores.

Nessas ações, o psicólogo escolar poderá apresentar grande parte do pontencial de sua atuação institucional, mediar o desenvolvimento humano dos profissionais no contexto escolar, no âmbito do conhecimento psicológico, articulado ao assessoramento das práticas pegagógicas revisitadas, poderão oportunizar segurança e bem-estar à equipe.

Na assessoria da Psicologia, pode estar previsto o desenvolvimento de competências específicas para o desempenho profissionais e a ação pedagógica, especialmente dos professores. Esses desenvolvimentos compartilhados de competências podem constituir-se como marco importante para a autoavaliação docente e um consequente redirecionamento de esforços visando às transformações e reorientações no trabalho pedagógico.

Para que tais ações sejam bem-sucedidas, é fundamental que o psicólogo construa uma relação de confiança com os profissionais da escola. A partir disso, ele poderá criar espaços de interlocução com e entre professores, coordenadores pedagógicos, especialistas, gestores em fóruns já constituídos institucionalmente (coordenações pedagógicas, reuniões de professores, conselhos de classe etc.), com o objetivo de promover reflexão, conscientização e possíveis transformações das concepções orientadoras das práticas pedagógicas (concepções de desenvolvimento, ensino e aprendizagem).

Ao instrumentalizar a equipe escolare, principalmente, o corpo docente, para estudo, planejamento, operacionalização e avaliação de ações de ensino intencionalmente planejadas, o psicólogo estará oportunizando, por essa assessoria, processos de formação continuada em serviço aos profissionais envolvidos. Essa formação pode vir a expandir-se por intermédio de outros agentes e especialistas presentes no contexto escolar atualizando os perfis profissionais. É importante que as competências e ações formativas construídas a partir da assessoria oportunizem perfis que contemplem:

a)    Habilidades de análise, reelaboração e síntese sobre sua área de conhecimento vinculada ao compromisso com o desenvolvimento global do aluno;

b)   Competências para a contrução de estratégias interdisciplinares de comunicação e de ação que orientem o trabalho na direção do sucesso escolar;

c)    Comprometimento com a função policossocial transformadora da realidade, entendida como uma das funções da escola.

Com o desenvolvimento da assessoria ao trabalho coletivo na escola, é possível ao psicólogo fornecer subsídios para que as ações escolares ocorram tanto em uma dimensão coletiva quanto individual, valorizando os saberes dos professores, sua prática, sua identidade profissional, sua experiência de vida; estimulando a experimentação e a inovação de modos de trabalho pedagógico; respeitando o tempo necessário para acomodar as inovações a as mudanças, reconhecendo a especificidade do conhecimento didático e pedagógico já produzido.

Além disso, essa assossoria pode ter como meta provocar nos professores e na equipe escolar a revisão e atualização de sua atuação, em busca da melhoria da qualidade educacional.

Acompanhamento ao processo de ensino e de aprendizagem

Nesta dimensão da intervenção institucional, a meta prioritária é melhorar o desempenho escolar dos estudantes, em busca da concretização de uma cultura de sucesso escolar. O acompanhamento dos processos de ensino e de aprendizagem deverão subsidiar o professor sobre a importância de sua mediação nesse processo.

A ênfase do trabalho do psicólogo escolar deve se voltar para a análise e intervenção na relação professor, aluno e objeto de conhecimento, compreendendo a importância desta relação como núcleo do processo de ensino e de aprendizagem e, por isso, geradora de obstáculos ou avanços à construção do conhecimento pelos estudantes. É fundamental que o psicólogo escolar identifique essa relação como unidade de análise da prática pedagógica, para que possa planejar, com intencionalidade e de forma efetiva, intervenções psicopedagógicas que visem o sucesso escolar.

No trabalho específico junto aos professores, o psicólogo escolar poderá assessorá-o na:

a)    Promoção de situações didáticas de apoio à aprendizagem incorporadas às práticas pedagógicas cotidianas;

b)   Criação de um novo foco de análise para o processo de ensino e aprendizagem, enfatizando a relação bidirecional constitutiva do ensinar e do aprender como processo não dicotomizado de articulação entre teoria e prática;

c)    Construção de alternativas teoricometodológicas de ensino e de avaliação com o foco na construção de competências dos alunos.

Para orientar metodologicamente esse acompanhamento do processo de ensino e de aprendizagem, com ênfase em uma bem-sucedida relação ensinar e aprender, defende-se a utilização sistemática da observação dinâmica de sala de aula e dos demais contextos socioeducativos. A observação não deve prescindir dos conhecimentos teoricometodológicos da ciência psicológica, chamando-se a atenção para a realização de um planejamento que contemple a especificidade de ferramentas e instrumentos a serem utilizados. Geralmente, utiliza-se como procedimento para essa assessoria: observação (participante, de contexto, interativa), entrevistas (individuais, coletivas), questionários, memorial, oficinas, grupos focais.

De modo geral, esse acompanhamento deve objetivar a disseminação de experiências educativas bem-sucedidas, ampliando as oportunidades de aperfeiçoamento em serviço de professores, coordenadores, gestores e outros atores educacionais. Os procedimentos para essas ações são diversos: observação do contexto da sala de aula e e seus processos e relações, em contraponto às observações individualizadas no aluno; participação nas coordenações pedagógicas, implementando propostas de formação em serviço; acompanhamento de reuniões e conselhos, promovendo reflexões e investigações sobre a relação de ensinar e aprender com foco na turma; coordenação de rodas de reflexão (grupos de estudo, de planejamento e oficinas sobre desenvolvimento humano).

Também se acredita ser importante, no acompanhamento do psicólogo escolar ao processo de ensinar e aprender, a realização de uma análise coparticipativa com o professor sobre a produção escolar dos alunos dos quais há queixa escolar. Como prática geral, a aprendizagem é avaliada pela natureza das produções dos outros alunos, considera-se que existem “problemas de aprendizagem”. A produção do aluno pode vir a refletir, ainda, não só o tom dos mecanismos avaliativos escolares, mas, também as estratégias de ensino tilizadas para o desenvolvimento de competências específicas e necessárias à aprendizagem.

Nesse sentido, a produção do aluno pode revelar uma avaliação norteada por princípios tradicionais ou progressistas, pode indicar o desenvolvimento escolar do aluno em relação a si mesmo, pode indicar a pertinência, ou não, dos tipos de intervenção realizados pelo professor (ou a sua ausência), pode sugerir os mecanismos pedagógicos que oportunizem exercícios imaginativos, criativos e demais processos sognitivos, importantes para a prendizagem dos alunos. Asssim, acredita-se que desenvolver no professor um olhar analítico sobre a produção do aluno pode ser um processo avaliativo importante para a reflexão sobre sua própria atuação.

Espera-se que o psicólogo escolar, ao planejar e operacionalizar tais ações, potencialize uma atuação de combate às dificuldades de aprendizagem e a outras manifestações do fracasso escolar.

Ainda como trabalho de assessoria continuada a professores e coordenadores pedagógicos, considera-se que o psicólogo escolar possa dar usa contribuição na discussão sobre os objetivos de cada área de atuação e sua vinculação às concepções de ensino e de aprendizagem, sobre as expectativas de atuação interdisciplinar e sobre outros aspectos teórico-metodológicos que norteiam o fazer pedagógico.

Considera-se, ainda, que, no âmbito da atuação da psicologia escolar, devem estar as ações ligadas às famílias dos alunos e aos servidores da escola. Entende-se, por outro lado, que tais atores estejam contemplados nas ações planejadas para a atuação institucional aqui apresentada, especialmente quando do mapeamento institucional, dos estudos de caso, das informações, orientações e escuta psicológicas, do trabalho com foco nas relações interpessoais.

É possível que também o psicólogo escolar necessite, para a instrumentalização necessária à atuação institucional, de espaços de formação continuada, onde os psicólogos de uma instituição ou de um sistema de ensino possam realizar estudos sitematizados, trocas prodissionais, atualizações e aprofundamentos teoricometodológicos, acompanhados de omentos de reflexão, autoavaliação e planejamentos conjuntos.

É importante evidenciar que a proposta de atuação institucional, relacional e preventiva do psicólogo na escola, aqui relatada, pode ser desenvolvida individualmente ou em equipes multiprofissionais, cada vez mais comuns nas escolas.

As ações propostas para compor a atuação institucional não se esgotam nas dimensões aqui detalhadas. Ao contrário, entende-se que a perspectiva institucional na atuação do psicólogo escolar, abre inúmeras possibilidades de diversificação dessa atuação.

Retomando a categorização de Martinez (2010) das atuações emergentes em Psicologia Escolar, acredita-se que várias dessas podem ser desenvolvidas no âmbito da atuação institucional aqui defendida. Algumas dessas ações emergentes já foram sinalizadas no detalhamento apresentado na presente proposta como:

participação na construção, no acompanhamento e na avaliaão da proposta pedagógica da escola, participação de seleção dos membros da equipe pedagógica e no processo de avaliação dos resultados do trabalho, contribuição para a coesão da equipe de direção pedagógica e para sua formação técnica; facilitar, de forma crítica, reflexiva e criativa, a implementação das políticas públicas (p. 47)

Por outro lado, não se pretende desqualificar as ações conhecidas como tradicionais em Psicologia Escolar, avaliação psicológica, atendimento de alunos com dificuldades escolares, orientação profissional, orientação sexual, coordenação de projetos educativos específicos em relação à violência, ao uso de drogas, dentre outros).

Ao se fazer ação pela atuação institucional, tal como foi aqui defendida, pretende-se contribuir para a visibilidade de novas formas de intervenção psicológica no contexto escolar.

Finalizando

Esse capítulo teórico se propôs a apresentar as transformações históricas da Psicologia Escolar, especialmente nas últimas três décadas; a concepção de escola como locus privilegiado da atuação da Psciologia Escolar; e uma proposta de atuação com o foco na intervenção institucional, coletiva e relacional.

Propor novas formas de atuação para o psicólogo escolar, examinar as concepções de sujeito, desenvolvimento, aprendizagem, ensino, educação subjacentes a cada uma delas, desdobra-se em um convite à reflexão do perfil profissional esperado desse psicólogo. É importante que o psicólogo escolar mobilize conhecimentos e saberes, da ciência e da experiência, em processos de construção e reconstrução de competências, visando se instrumentalizar para uma atuação ampliada a um coletivo profissional e a um cenário complexo.

Os novos paradigmas, que estão norteando a Psicologia Escolar brasileira contemporênea, o apelo a uma ética de princípios justos e solidários e a um compromisso social consciente e crítico, têm exigido posturas dos profissionais para as quais a formação lúcida e intencional, inicial ou continuada, deve ser constantemente buscada.

Defende-se que, para a consolidação da indentidade do psicólogo escolar e para o desenvolvimento intencional de competências, são necessárias propostas de formação continuada se coadunem às exigências de um perfil profissional ancorado no cotidiano do contexto no qual estará inserido.

As contribuições que a Psicologia Escolar pode e deve oferecer à sociedade, neste início de milênio, considerando seus múltiplos e diversificados campos de atuação, devem ter vículos estreitos com uma postura crítica no interior das instituições educativas, com as transformações ideológicas e éticas que se fazem necessárias no âmbito da Psicologia e da Educação, e com a sustentação e consolidação de intervenções coerentes à natureza social, histórica e cultural dos sujeitos.

Ao contrapor e neutralizar a antiga representação adaptacionista normatizadora impregada na área há décadas, a Psicologia Escolar contemporânea dissemina concepções críticas e dialéticas acerca do homem, de seu desenvolvimento, de sua subjetividade, de seus processos de aprendizagem e de sua comunicação. Suas práticas e estudos que balizem transformações inovadoras, criativas, consistentes e competentes para a atuação do psicólogo escolar.

Nesse sentido, esse trabalho assume a intervenção institucional como uma forte opção para a ampliação crítica e política da atuação em Psicologia Escolar. As ações de conscientização, justiça e equidade que se pretendem desencadear no contexto escolar podem ser potencializadas a partir da utilização adequada da diversidade teórica e metodológica do conhecimento psicológico, a fim de buscar suporte consistente para a intencionalidade dessas ações.

A intervenção institucional pode vir a se tornar referência tanto na produção teórica e conceitual, quanto para as opções da prática profissional em Psicologia Escolar.

Psicologia Escolar e Educacional | Texto
Por Cláudio da Cunha
A genética do comportamento

O estudo do comportamento animal ou etologia, teve seu início marcado pelos trabalhos de Konrad Lorenz, em 1937, com a utilização de métodos científicos controlados para testar hipóteses a respeito de reações comportamentais.

Lorenz utilizou-se dos conceitos de evolução biológica de Charles Darwin associados com os experimentos de Ivan Pavlov e outros pesquisadores, para estudar comportamentos inatos (instintos), e distingui-los dos comportamentos não inatos ou aprendidos. Lorenz entrou em confronto com ideais humanísticos e religiosos que sempre consideraram o homem como um ser destacado da natureza, sem relação comportamental com nenhum outro tipo de animal.

Embora experimentos controlados sejam muito úteis, uma da formas mais fáceis de observar a influência dos genes no comportamento animal é a seleção artificial de padrões comportamentais de animais domésticos.

Seleção artificial
Durante milhares de anos, o ser humano selecionou artificial- mente variedades de cães, gatos e outros animais por suas características físicas e comportamentais, por meio de cruzamentos seletivos. O processo é simples e não requer mais do que a paciência de fazer cruzamentos controlados entre os animais para obter variedades maiores ou menores, mais fortes ou mais inteligentes, conforme nossas necessidades.

Dentre todos os animais domesticados, os cães são os mais interessantes do ponto de vista comportamental, pois apresentam comportamentos inatos quase inalterados e outros profundamente selecionados. Os proprietários de cães podem achar estranho que um cão doméstico se enrodilhe para deitar dentro de casa, mas eles estão instintivamente “fazendo um ninho” como seus ancestrais, que dormiam sobre a vegetação. Um cão é um ser social, que precisa de uma matilha com líder (macho a), substituída modernamente pelas famílias humanas. Se o dono do cão não definir claramente quem é o líder, o cão assumirá esse papel, exigindo dormir no lugar mais confortável e, muitas vezes, rosnando e atacando o próprio dono.

Os cães selvagens precisavam de certas habilidades geneti­camente determinadas para a sua própria sobrevivência e para a sobrevivência da matilha. A antiga capacidade de identificar o que é a caça, persegui-la e trazer o alimento de volta ao grupo, são comportamentos observadas nos cães domésticos modernos quando correm atrás da roda dos carros em movimento, quando buscam objetos e trazem de volta ou mesmo quando caçam pequenos animais e trazem para dentro de casa. Cada um desses comportamentos pode ser inibido ou estimulado através de cruzamentos seletivos.

Todos os cães domésticos são derivados de ancestrais selvagens semelhantes aos lobos, mas por milhares de anos foram selecionados artificialmente por suas características físicas e de índole (comportamento). Se você necessita de um cão para guarda, companhia para as crianças ou pastoreio, há variedades com comportamentos típicos que se enquadram nessas necessidades. Se alguém mora em um apartamento e deseja companhia para uma criança, o cão deve latir pouco, ser pequeno e gostar de crianças.

Em animais domésticos, é comum a utilização do termo índole para uma tendência comportamental. Não podemos aplicar o mesmo conceito para humanos por uma questão ética, já que é quase impossível medir a influência genética de forma experimental, nem é possível a realização de experimentos controlados em nossa espécie.

Note que a tabela indica uma tendência comportamental recebida geneticamente e que obviamente só vai se manifestar de forma adequada se for acompanhada de um adestramento adequado. Novamente temos a influência mútua entre o genótipo e o meio ambiente na manifestação dos fenótipos.

A partir de cruzamentos controlados em laboratório, foram obtidas variedades de moscas Drosophila mais ou menos agressivas, simplesmente cruzando moscas com diferentes graus de agressividade, naturalmente encontradas na população. Em dez gerações, a tendência já era observada e depois de 21 gerações a agressividade dos machos tinha aumentado trinta vezes (Greenspan; Dierick, 2006).

Análises bioquímicas demonstraram que o hormônio vasopressina e os neurotransmissores dopamina, adrenalina e noradrenalina, GABA e peptídeos neuroativos atuam estimulando a agressividade em humanos e outros mamíferos, enquanto o neurotransmissor serotonina a reduz. Territorialidade e disputas por status na hierarquia social, bem como a sexualidade têm importante papel na modulação da agressividade, observada com maior intensidade e oscilações na adolescência e juventude.

Ritmos biológicos
Todos os animais apresentam sistemas que envolvem ciclos ou ritmos biológicos.

Moscas Drosophila, também apresentam comportamentos que envolvem marcação de tempo. Naturalmente surgem indivíduos com mutações gênicas que alteram seus ritmos biológicos,e, embora não consigamos observar moscas de ciclos curtos ou longos, é possível identificá-las e selecionar os indivíduos em laboratório.

Foram selecionadas moscas com ritmos alterados e o gene responsávelper (período) foi determinado como o principal responsável. Mutações per dia longo alteram o ritmo de 24 para 28 horas e a versão

per dia curto reduz o ciclo para 19 horas com um alelo presente e 16 horas com os dois alelos.

Porém as alterações de tempo se estendem também de forma equivalente para o tempo de metamorfose na passagem de pupa para adulto e no tempo de vibração das asas responsáveis pelo “canto” de acasalamento que permite o reconhecimento de machos e fêmeas da mesma espécie e entre espécies diferentes.

Esse experimento da década de 1970 demonstrou de forma clara que um gene pode determinar mais de um comportamento, mesmo que aparentemente não existam ligações entre os mesmos.

Comportamento reprodutivo
Quando duas espécies diferentes são cruzadas, como ocorre entre éguas e jumentos, são formados geralmente híbridos estéreis (mula). Por serem estéreis, não ocorre a “perpetuação da espécie”, e se não fosse pelo valor de seu trabalho selecionado artificialmente, na natureza, um híbrido que não se reproduz é um desperdício de gametas nutrientes. A expressão de sinais claros que identifiquem os parceiros sexuais da mesma espécie, fazem parte dos mecanismos de reconhecimento intraespecífico observados nas diversas formas de exibições de acasalamento ou coorte (corte).

Observamos padrões geneticamente determinados no canto da maioria das aves, das rãs e cigarras, nos diferentes padrões de luzes dos vagalumes, nas mudanças de cores de peixes e polvos, assim como nas espetaculares danças de acasalamento do cisne ou de um tizil. Todas elas são formas de demonstração de habilidades e força para as fêmeas. O mesmo acontece nos mamíferos em geral, desde cavalos, macacos e, por que não, no homem? A mudança de postura corporal de grupos de homens quando uma mulher adentra um recinto, levantando os ombros, alargando o peito e tomado a voz mais grave, chegam a ser hilárias.

Genes que regulam a fidelidade e o cuidado com a prole por machos de ratos selvagens do gênero Microtus por meio da expressão do hormônio oxitocina foram recentemente demonstrados e as pesquisas sobre a expressão do mesmo gene em outras espécies, incluindo a humana estão em andamento em vários institutos de pesquisa (Cunha, 2011).

Comportamentos inatos em humanos
O comportamento humano é geneticamente determinado?

Esta questão é provavelmente a mais complexa e perigosa, dentre as tantas indagações que podem ser feitas a respeito dos estudos sobre o comportamento. Talvez, uma das mais fortes e seculares influências negativas para os estudos de genética do comportamento seja o dito popular “filho de peixe, peixinho e”. Esta “sabedoria popular” além de ter origens muito remotas, anteriores à ciência moderna, é utilizada particularmente quando alguém quer reforçar as características geralmente ruins de um indivíduo ou grupo, associadas com a de seus ancestrais. E a interpretação fica à vontade do ouvinte, que geralmente escuta apenas o que deseja, reforçando uma ideia pré-estabelecida de imutabilidade ou predestinação comportamental.

A resposta para praticamente todas as questões sobre as características de um indivíduo recairão sobre o conceito de que o fenótipo é derivado da interação entre o genótipo e o meio ambiente.

Como o comportamento é um fenótipo (característica estudada), logo ele apresenta fatores genéticos envolvidos que podem se manifestar ou não, variando sua expressividade em diversos graus segundo os fatores do meio em que o indivíduo está inserido.

Imagine um exemplo:
sexualidade = genes que determinam o sexo + meio social e ambiental

É incontestável para um estudioso da genética a forte influência do meio social sobre a característica exemplificada, e da mesma forma para um sociólogo, que não pode negar a existência de genitais e hormônios que determinam o desenvolvimento do corpo e do cérebro em formação, antes ou depois do nascimento.

No Brasil e em outros países com tradição em futebol, a maioria dos jogadores que se destacam na atividade são dos signos de capricórnio, aquário, peixes, e áries. Influência dos astros? O calor do verão e outono aumentou a massa muscular dos recém nascidos? A concepção durante o inverno produz filhos mais fortes? Aparentemente não. Os meninos nascidos nos meses de janeiro, fevereiro e março entram atrasados na classificação das faixas etárias das turmas de futebol, são maiores que os colegas e provavelmente, por terem maior habilidade motora e força física, se destacam e se estimulam com o seu sucesso, quando comparados com a maioria. Um caso de estímulo positivo na hora certa, treino e esforço superando a habilidade inata.

O grande problema surge quando queremos quantificar a importância de cada uma das partes envolvidas na manifestação de uma característica altamente complexa como o comportamento humano. Não devemos nos ater a ideias simplistas como o “gene da maldade” ou “o gene da cooperação”, para não cairmos na armadilha das simplificações de pensamento, tal como os frenologistas que determinavam tendências comportamentais utilizando medidas cranianas (Cunha, 2011). A mídia televisiva ou mais modemamente, via internet, apresenta um padrão que utiliza “flashs” de informação que não podem durar mais que alguns segundos ou minutos, ou conter mais que algumas linhas. Logo, a visão simplista, com notícias curtas, será mais reproduzida e comentada, enquanto as ideias mais elaboradas serão sumariamente rejeitadas. Pensar demais faz com que o consumidor da informação troque de canal ou troque a página.

Comportamentos humanos altamente complexos necessitam da atividade conjunta de múltiplos fatores, e quando há fatores hereditários envolvidos, muito provavelmente a atividade é poligênica, reunidos aleatoriamente na fecundação sob ação de mecanismos indutores de variabilidade genética dos gametas e ainda com a possibilidade de variação na expressividade gênica. Logo, é muito remota a probabilidade da existência de um “gene do homossexualismo” ou qualquer outro fator hereditário único com semelhante apelo midiático.

O estudo do comportamento humano sob a ótica evolutiva e comparada a de outros animais é denominada sociobiologia, tendo seu marco fundador nos trabalhos Edward O. Wilson, no final da década de 1960. Richard Dawkins, em seu clássico livro O gene egoísta, criou um polo extremo na sociobiologia, descrevendo todos os seres vivos como máquinas de replicação de DNA, em que praticamente todas as nossas ações são simplesmente formas visíveis de comando de nossos genes, que nos usam para sua replicação.

Uma visão restrita ao meio biológico pode ser chamada por quem discorda dela de “cientificista”, “positivista” ou “mecanicista”, dentre outros termos pejorativos. A argumentação contra essa forma de interpretação é fortemente embasada pela história da humanidade.

Em certos momentos históricos, pessoas extremamente mal intencionadas e com bom grau de capacidade de convencimento podem se apropriar do conceito popular de que algo é “cientificamente comprovado” e utilizar a ideia de comportamento geneticamente determinado para convencer os mais ingénuos de que pessoas pertencentes a certos grupos de diferentes etnias, sexualidade ou religião trazem consigo a maldade, a tendência a roubo, mentira, inteligência abaixo ou acima da média, dentre outras características. Tais pessoas acabam justificando atos hediondos de racismo, sexismo e tantas outras formas de discriminação e barbárie como as que ocorreram na Segunda Guerra Mundial, usando a ciência como escudo. Eugenia, é um conceito do século XIX que avançou para o século XX, pregando a possibilidade de “pureza racial”, a partir de conceitos predefinidos como verdadeiros, sem contar, entretanto, com nenhuma base genética plausível, pois, dentre outros motivos, nem o termo genética existia quando surgiram seus primeiros defensores.

Da mesma forma, em sentido contrário, estudiosos do comportamento humano voltados para as neurociências e genética podem achar absurdo que um indivíduo portador de psicopatia do tipo “serial killer” seja considerado apenas fruto da sociedade, ou inexoravelmente fruto de violência sexual na infância, já que, dentre outras características, esse transtorno ocorre com fortíssimo viés sobre o sexo masculino. Indivíduos mal intencionados podem utilizar-se do conceito sociológico clássico de que o ser humano é intrinsecamente bom, apenas “corrompido pela sociedade”, para justificar a ausência de punições e responsabilidade para algumas pessoas com graves transtornos de comportamento que oferecem riscos reais para a sociedade.

A visão simplista, de que o nosso comportamento é totalmente derivado das inter-relações familiares e de uma essência humana completamente separada da natureza, da genética e da neurociência acirra uma discussão circular, observada em diversos textos. “Todo animal, exceto o ser humano, é movido por uma energia pré-codificada…” (Chechinato, 2007).

O debate acabou ganhando ares de disputa ideológica, e os dois “times”, nature versus nurture (natureza x criação) descrevem suas evidências para comprovar uma ou outra teoria, muitas vezes de forma passional. A disputa aparentemente nunca terá fim, pois as características fenotípicas são produzidas a partir de uma somatória de fatores.

Sob a ótica de alguns ramos da psicanálise, pai ausente associado com mãe opressora pode produzir filhos homossexuais, uma visão bastante simplista, assim como até pouco tempo atrás, nas décadas de 1960 e 70 o autismo era explicado como resultado da incapacidade materna de produzir laços afetivos com o filho, uma famosa explicação criada pelo psicólogo Bruno Betelhein, que designava as mães de crianças autistas como “mães-geladeira”. Essas simplificações tendem a definir os “culpados” de distúrbios complexos e são muito populares.

No momento atual, o imageamento cerebral por ressonância magnética (RMf) está sendo encarado como uma fonte infalível de conclusões, muitas vezes sem os critérios técnicos e estatísticos necessários, de forma semelhante ao que ocorreu com a confiança irrestrita aos métodos pseudocientíficos da frenologia do séc. XIX. Dessa forma, é bastante razoável evitarmos o domínio de formas fundamentalistas de pensamento de qualquer tipo, buscando o equilíbrio na resolução de problemas.

Dependendo de nossas crenças e experiências pessoais, podemos nos orientar em diversas formas de conhecimento, que do ponto de vista técnico, estão em constante transformação, conforme surgem novas descobertas. Cabe ao conjunto dos participantes de uma sociedade, determinar os os conceitos de justiça e ética que vão orientá-la, utilizando a ciência de maneira construtiva.

Durante muito tempo, e ainda hoje, alguns ramos da filosofia e da pedagogia partem do pressuposto de que todo conhecimento deriva da experiência, ideia conhecida popularmente como “teoria do papel em branco” linha de pensamento que contesta a existência de habilidades inatas e frontalmente contrária ao pensamento ou”doutrina das ideias inatas”ou”inatismo” postulado de diversas maneiras por alguns filósofos como Platão (428-347 a.e.c.) e Descartes (1596-1650), que acreditavam que o homem vinha ao mundo com uma alma imortal já detentora de conhecimentos universais adquiridos, esquecidos ao nascimento e relembrados durante a vida.

A teoria da “tábula rasa” ou “papel em branco” foi proposta por Jonh Locke (1632-1704), inaugurando a escola de pensamento conhecida como”empirismo britânico”, fortemente influenciada pelos novos conhecimentos científicos da era moderna. “suponhamos, pois, que a mente é, como dissemos, um papel em branco, desprovida de todos os caracteres, sem quaisquer ideias; como ela é suprida?…A isso respondo, numa palavra, da experiência…” (John Locke, Ensaio Acerca do Entendimento Humano, 1690).

As ideias inicialmente discutidas no ramo da filosofia ganharam espaço e foram apropriadas como linha de argumentação na pedagogia, no direito penal, psicologia e outras áreas do conhecimento, muitas vezes de forma nobre e humanística na defesa da igualdade entre os homens e na ênfase da sociedade como corruptora do ser humano. Infelizmente, tais ideias foram e são muitas vezes utilizadas de forma exacerbada contra novas formas de conhecimento que interferem ou alteram conceitos já definidos como verdades universais que sustentam uma peculiar zona de conforto ideológico.

É notável que, na época em que se discutiam essas diferentes doutrinas, não havia absolutamente nenhum conhecimento robusto sobre fisiologia, neurociências e genética, que vieram agregar somente no séc. XX, uma enorme diversidade de novos conceitos até então inimagináveis.
O equilíbrio entre as diferentes formas de pensamento é fundamental para a construção de uma sociedade tecnológica e eticamente superior.

Experimentos controlados para determinar e quantificar a influência de fatores genéticos no comportamento e habilidades em humano são, geralmente, barrados por questões éticas. Não é desejável para nenhum indivíduo ou grupo de indivíduos, ter suas vidas controladas para a realização de experimentos. Dessa forma, há poucas ferramentas realmente poderosas para tais análises e, dentre elas, destaca-se a comparações entre gêmeos.

Estudos com gêmeos
Gêmeos dizigóticos (bivitelinos) ou não idênticos são geneticamente diferentes, derivados de dois óvulos fecun­dados separadamente por dois espermatozóides. Disfunções hormonais que induzem a ovulação nos dois ovários concomitantemente são apontadas como a principal causa de sua ocorrência. Apresenta frequência aleatória nas populações. Nos estudos de genética, podem ser considerados como irmãos comuns.

Gêmeos monozigóticos (univitelinos) são produtos de apenas um óvulo e um espermatozóide. O fenômeno deriva da separação das células embrionárias após a fecundação e a multiplicação celular ainda nos estágios iniciais de desenvolvimento. Espécies animais como tatus, gêmeos idênticos ocorrem como regra geral (poliembrionia). Em humanos, não há estatísticas confiáveis que apontem causa hereditária clara. Supõem-se uma correlação com linhagens familiares maternas (herança citoplasmáúco do óvulo). Nos estudos de genética, os indivíduos são geneticamente idênticos ou “clones”.

Estudar o comportamento de gêmeos criados sob os cuidados da mesma família, com as mesmas condições socioeconômicas e culturais, pode explicitar o quanto que o desenvolvimento do cérebro pode ser influenciado pelo meio. Nos raros casos de gêmeos idênticos separados e criados por diferentes famílias e condições sociais, podemos analisar as tendências de atividade genética sobre as habilidades e comportamento dos indivíduos.

Nos dois casos, as conclusões realçam notáveis similaridades em relação a gostos e preferência, como a orientação religiosa e vocacional, com uma maior disparidade em atitudes sociais não religiosas e sobre interesse ocupacional. Os resultados reforçam a conclusão de que há fatores genéticos significativos, mas não predominantes no estabelecimento do comportamento humano, com destacada influência do ambiente.

Estudos sobre tendência ao alcoolismo e uso abusivo de drogas, habilidade para música ou quaisquer outras características comportamentais ganham uma grande confiabilidade estatística quando utilizam um número elevado de gêmeos idênticos e estes são comparados a grupos controle com o mesmo padrão de sexo, idade e perfil sociocultural.

Estudos utilizando filhos adotivos também são muito utilizados para análises de influência genética, com resultados semelhantes aos obtidos com gêmeos, ou seja, os fatores genéticos não são predominantes.

Distúrbios comportamentais humanos com prováveis causas hereditárias
A utilização conjunta de uma grande variedade métodos, permitiu a definição de uma série muito grande de descobertas que ligam fatores genéticos ao comportamento.

Com as tecnologias disponíveis há sessenta anos, a síndrome de Down era praticamente incompreensível. Modemamente restam ainda muitas dúvidas a respeito da origem genética ou não de diversos transtornos e comportamentos, bem como a variabilidade observada nos casos já confirmados. Porém, nos últimos anos, é possível afirmar com alto grau de certeza que certos distúrbios comportamentais têm causas predominantemente genéticas ou totalmente genéticas.

Depressão, dislexia, TDAH e autismo

O gene 5-HTT foi o primeiro identificado e correlacionado com a atividade da amígdala, principal responsável por expressões de raiva e medo. O gene está ligado a carregadores do neurotransmissor serotonina e apresenta dois polimorfismos básicos: uma versão curta e uma longa. Os portadores da versão longa apresentam mais serotonina, responsável por estados de bem-estar. Indivíduos que apresentam a versão curta reagem com mais fúria e ansiedade a situações difíceis, proporcionalmente a presença de um ou dois alelos. Após situações estressantes extremas, 17% dos portadores de dois genes longos apresentavam sinais de depressão, os heterozigotos, 34% e nos portadores de dois genes curtos, 43% apresentavam sintomas.

Casos como o transtorno bipolar do tipo familiar foram descritos com um grau bastante satisfatório de precisão em relação causal entre genes e comportamento, enquanto a esquizofrenia pode ser avaliada como ligada a vários genes (Cunha, 2011).

A dislexia, caracterizada por dificuldades de alfabetização, foi definitivamente determinada como de origem genética e hereditária a relativamente pouco tempo, conclusão muito importante para a vida dos portadores, familiares e profissionais da educação. Entre 23 e 65% dos portadores apresentam pais portadores da disfunção, bem como 40% apresentam também irmãos com dislexia. Ainda não há um total consenso sobre quais os genes associados ao distúrbio, mas até o momento, foram apontadas as regiões cromossômicas lp, 2p, 6p, 15q e 18p dos cromossomos do par 6. Os principais genes correlacionados são o KIAA0319 e DCDC2 localizados no cromossomo 6 e gene EKN1 no cromossomo 15, encontrados com maior frequência em seus portadores. Uma terminologia mais moderna para os diferentes graus de dislexia é distúrbio específico de leitura e escrita.

O transtorno de Déficit deAtenção e Hiperatividade (TDAH) é um dos transtornos psiquiátricos mais comuns em crianças e jovens (cerca de 5%), caracterizado por desatenção, hiperatividade e impulsividade, refletido principalmente no desempenho escolar. Como é um’ produto de desordem neurológica, os genes associados com a expressão de neurotransmissores e neurorreceptores são os principais candidatos e os mais pesquisados. Como em outras situações, a atividade cerebral é extremamente complexa e sua atividade normal requer a atividade conjunta de um enorme número de genes com atividade sequencial, bem como de de seus genes promotores e reguladores e assim, dificilmente o TDAH é causado por apenas um gene.

Pesquisas com gêmeos monozigóticos indicam uma correlação de aproximadamente 70% dos sintomas manifestados, assim como uma maior probabilidade de ocorrência do distúrbio em crianças que pertencem a famílias onde há outros casos, tomando claro o envolvimento da hereditariedade, sem descartar, entretanto, os fatores ambientais.

Outras formas de distúrbios comportamentais como a esquizofrenia e o transtorno maníaco-depressivo (TMD), também conhecido como transtorno bipolar, são claramente determinados por fatores hereditários (Cunha, 2011).

Dentre os distúrbios comportamentais mais importantes, o autismo e a síndrome de Asperger apresentam grandes barreiras metodológicas de estudo e suas causas ainda são bastante obscuras.

O autismo foi descrito pela primeira vez em 1943, por Leo Kaner como um distúrbio de contato afetivo e se caracteriza como uma disfunção neurológica, em que há alterações nos circuitos cerebrais, principalmente no hemisfério esquerdo do cérebro, onde estão as principais vias nervosas para comunicação, resultando em deficiência de interação social e comportamento.

Embora o problema característico do autismo seja a dificuldade de comunicação, não há um padrão único e as variações de quadro clínico são muito grandes, desde crianças com alteração quase imperceptíveis até graves e incapacitantes.Modernamente, utiliza-se o conceito de espectro autista, ou transtorno autístico, ou, ainda, transtorno do espectro autista (TEA) para representar essa diversidade.

A síndrome de Asperger, faz parte dos transtornos do espectro autista e foi reconhecida de forma isolada do autismo clico, em 1994, quando apareceu pela primeira vez no Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais (DSM-IV). O portador apresenta dificuldades de interação social, sem perdas cognitivas ou de fala. Por ser considerado como um “autista falante”, sua classificação é incerta e com diagnóstico complexo.

O autismo e Síndrome de Asperger, apresentam um forte viés de prevalência sobre o sexo masculino, assim como outras disfunções de comunicação, como a dislexia, a fala tardia e a gagueira. Suas causas já foram associadas com anóxia durante o parto, intoxicação por mercúrio, excesso de hormônio masculino durante a gestação, falta de carinho materno (“Teoria da Mãe Geladeira”, completamente descartada!) e fatores genéticos. Não há causas ambientais conhecidas e comprovadas. A correlação entre autismo e genética mais robusta está na análise de gêmeos: os monozigóticos ou idênticos, que possuem os mesmos genes, apresentam um índice de correlação da ordem de 60%, enquanto nos dizigóticos ou não idênticos, esse índice é 0%.

Já foram apontados mais de 130 genes provavelmente associados com o transtorno de espectro autista, mas o maior trabalho já feito em genômica comparativa, utilizando 10.000 índia´duos e descrito em 2009, apontou uma incidência de 20% maior nos portadores de autismo do gene CDH10 localizado no cromossomo 5 (5p14.1). Esse gene codifica proteínas que se expressam no cérebro durante o desenvolvimento embrionário e estão relacionadas com a interação intercelular, principalmente na formação de sinapses nervosas, nas regiões associadas com a linguagem e relacionamentos interpessoais.

Esse foi o primeiro trabalho em que análises estatísticas mostraram uma correlação significativa entre genes e autismo. Como há diversos graus do transtorno autístico, essa é uma primeira evidência importante, mas as conclusões finais sobre suas causas ainda estão distantes.

O transtorno do espectro autista apresenta alguns sinais que podem evidenciar o desenvolvimento anormal das crianças:

Sinais de avaliação imediata: ausência de balbuciou e gesticulação aos 12 meses, ausência de fala aos 16 meses, ausência de união de palavras aos 24 meses;
Sinais de socialização: faz pouco contato com o olhar, não sorri na presença de pessoas, prefere brincar sozinho, é muito independente, vive no seu próprio mundo, ignora outras pessoas e não se interessa por crianças;
Sinais de comportamento: crises de raiva, hiperatividade, positivos não cooperativos, não sabem brincar com brinquedos, anda na ponta dos pés, interesse demasiado por certos objetos, sensível a determinadas texturas e sons, movimentos estranhos.

Genética do comportamento | Texto
Por Duane P. Schultz
As relações entre Psicologia e Psicanálise

A psicanálise desenvolveu-se à margem da psicologia acadêmica geral e assim permaneceu durante vários anos. "A psicologia acadêmica realmente fechara as portas para a doutrina psicanalítica. Um editorial de autoria desconhecida da edição de 1924 da Journal of Abnormal Psychology lamentava a quantidade interminável de trabalhos a respeito do inconsciente escritos pelos psicólogos europeus" (Fuller, 1986, p. 123). O editorial repudiava esses trabalhos, afirmando serem essencialmente desprovidos de valor. Por causa dessa pesada declaração, poucos artigos de psicanálise passaram a ser aceitos para publicação profissional, restrição que durou por pelo menos 20 anos.

Muitos psicólogos acadêmicos criticavam veementemente a psicanálise. Em 1916, quando praticamente qualquer coisa de origem alemã era considerada suspeita por causa das agressões da Alemanha no tempo da guerra, Christine Ladd-Franklin afirmou ser a psicanálise um produto da "mente subdesenvolvida alemã". Robert Woodworth, da Columbia University, chamou a psicanálise de "religião sobrenatural", que conduzia pessoas racionais a conclusões absurdas. John B. Watson chamou-a de "voduísmo" (apud Hornstein, 1992, p. 255-256). James McKeen Cattell, que era radicalmente contra a psicanálise, descreveu Freud como um homem que "vive na terra da fantasia e dos sonhos, rodeado de monstros sexualmente pervertidos" (apud Fancher, 2000, p. 1.027).

Apesar desses e de outros ataques mordazes desferidos pelos principais psicólogos, e de uma rejeição até certo ponto discreta da psicanálise, chamada de mais uma teoria excêntrica, algumas ideias de Freud acabaram constando os livros básicos de psicologia estadunidense. Por volta da década de 1920, os mecanismos de defesa eram discutidos com seriedade, juntamente com o conceito de mente inconsciente e do conteúdo latente e manifesto dos sonhos (Popplestone e McPherson, 1994). O behaviorismo ainda continuava a ser a escola de pensamento dominante da psicologia, e a psicanálise no geral era ignorada.

Em torno das décadas de 1930 e 1940, a psicanálise chamou a atenção do público. A combinação de sexo, violência e causas ocultas e a promessa de cura de diversos problemas emocionais mostraram-se atraentes, praticamente irresistíveis. A comunidade psicológica dominante ficou furiosa! As pessoas estavam confundindo a psicanálise com a psicologia, assumindo as duas áreas como a mesma coisa. Os psicólogos abominavam essa noção de que psicologia tratava apenas de sexo, sonhos e neuroses. Os historiadores afirmam: "Mais ou menos na década de 1930, ficara claro para os psicólogos que a psicanálise não era apenas uma moda passageira e sim um sério concorrente que ameaçava as bases da psicologia científica, pelo menos na mente do público" (Morawski e Hornstein, 1991, p. 114). [380]

Para enfrentar essa ameaça, os psicólogos resolveram aplicar o método experimental. Testaram a psicanálise para determinar sua legitimidade científica. Depois de realizadas centenas de pesquisas, os psicólogos declararam, com base na experimentação, que a psicanálise era inferior à psicologia, pelo menos na visão dos experimentalistas. Embora a forma de realização desses estudos fosse questionável, os psicólogos acreditavam que os resultados restauravam a sua posição de supremacia. Ademais, essas pesquisas demonstraram que a psicologia acadêmica podia ser de suma importância para o público, já que estudava os mesmos tópicos da psicanálise (Hornstein, 1992).

Nas décadas de 1950 e 1960, o que se viu foram behavioristas adotando a terminologia da psicanálise na linguagem do comportamento. Watson dera o exemplo antes, quando definiu as emoções como um mero conjunto de hábitos e descreveu o comportamento neurótico como resultante do condicionamento inadequado. Skinner remodelou os mecanismos de defesa freudianos, empregando-os na linguagem do condicionamento operante.

A psicologia, por fim, acabou incorporando os conceitos de Freud, tornando-os parte da área em geral. O papel do inconsciente, a importância das experiências da infância e a operação dos mecanismos de defesa são alguns exemplos das noções psicanalíticas consolidadas que fazem parte da psicologia contemporânea.

A Validação Científica dos Conceitos Psicanalíticos

Como vimos anteriormente, vários conceitos de Freud foram submetidos a testes experimentais que obtiveram resultados questionáveis, entre as décadas de 1930 e 1940. Anos depois, foi realizada uma pesquisa de maior valor. Uma análise envolvendo 2.500 estudantes de várias disciplinas como psiquiatria, psicologia, antropologia e outras examinou a credibilidade científica das formulações de Freud (Fisher e Greenberg, 1977, 1996).

Embora alguns conceitos resistissem às tentativas de validação (id, ego, superego, desejo de morte, libido e ansiedade), outros foram considerados passíveis de submissão aos testes científicos. As análises confirmaram os seguintes conceitos dos estudos publicados:

  1. algumas características dos tipos de personalidade oral e anal;
  2. a ansiedade de castração;
  3. a noção de que os sonhos refletem as preocupações emocionais; e
  4. alguns aspectos do complexo de Édipo em meninos (a rivalidade com o pai e as fantasias sexuais com a mãe).

Os conceitos freudianos testados, mas não confirmados pelos resultados, são os seguintes:

  1. os sonhos satisfazem simbolicamente às vontades e aos desejos reprimidos;
  2. ao resolver o complexo de Édipo, os meninos identificam-se com o pai e aceitam os seus padrões de superego por medo;
  3. as mulheres têm uma concepção inferior de seus corpos, padrões de superego menos severos que os homens e consideram mais difícil alcançar uma identidade; e
  4. a personalidade se forma aos 5 anos de idade e muda muito pouco depois disso. [381]

Uma pesquisa posterior confirmou a influência dos processos inconscientes nos pensamentos, nas emoções e no comportamento, sugerindo que as influências inconscientes seriam mais penetrantes do que Freud afirmava (veja, por exemplo, Bornstein e Pittman, 1992; Bornsteru e Masling, 1998; Greenwald, 1992; Weinberger e Silverman, 1990). Como uma pesquisa observou, "hoje em dia se acredita que a maior parte do funcionamento [psicológico] ocorre em oposição ao que é conscientemente desejado" (Pervin, 2003, p. 225). A psicologia cognitiva readmitiu o estudo dos processos mentais inconscientes. A pesquisa também confirmou o mecanismo de defesa da repressão. As experiências com os chamados deslizes freudianos mostraram que pelo menos alguns desses equívocos verbais parecem ser, exatamente como afirmara Freud, conflitos e ansiedades inconscientes, revelando-se de forma embaraçosa.

O aspecto mais importante das tentativas científicas de analisar os princípios freudianos foi a constatação de que pelo menos alguns conceitos psicanalíticos podem ser reduzidos a proposições testáveis por meio de métodos da ciência pós-positivista.

As Críticas à Psicanálise

Os métodos de Freud para a coleta de dados foram alvo de muitas críticas. Ele extraía os insights e suas conclusões das respostas dos pacientes durante as sessões de análise. Vejamos as deficiências dessa abordagem em comparação com o método experimental de coleta de dados sistemática sob condições controladas de observação.

Primeiro, as condições sob as quais Freud coletava os dados careciam de controle e não eram sistemáticas. Ele não fazia a transcrição verbal das palavras de cada paciente mas trabalhava com anotações realizadas horas depois da sessão. "À noite, depois do trabalho, escrevo o que vou me lembrando" (Freud apud Grubrich-Simitis, 1993, p. 20). Alguns dados originais (as palavras do paciente) certamente se perderam com o passar do tempo por causa das criações da memória e das possíveis distorções e omissões. Dessa forma os dados consistiam apenas do que Freud se lembrava.

Segundo, enquanto resgatava as palavras do paciente, Freud pode tê-las reinterpretado guiado pelo desejo de encontrar material de apoio. Ele pode ter lembrado e gravado apenas o que desejava ouvir. Por outro lado, também é possível que as suas anotações fossem precisas, mas e impossível obter a confirmação, já que os dados originais não sobreviveram.

Terceiro, Freud pode haver inferido, e não efetivamente ouvido, as histórias de sedução sexual na infância com base na sua avaliação dos sintomas do paciente. Outro escritor sugeriu que, embora Freud afirmasse que a maioria das pacientes alegavam ter sido seduzidas pelo pai, a análise dos casos reais aos quais Freud se referia (...) não revela um único exemplo confirmado (...) não há evidências de nenhuma paciente que afirmasse a Freud haver sido seduzida pelo próprio pai. Não passa de uma suposição de Freud. (Kihlstrom, 1994, p. 683)

Outros críticos argumentam que Freud pode ter usado da sugestão, ou de procedimentos mais coercivos, para extrair ou implantar essas lembranças, sendo que, na realidade nenhum ato de sedução ocorrera (Powell e Boer, 1994; Showalter, 1997). Freud chegou á admitir ser possível que as recordações de sedução fossem "fantasias criadas pelas pacientes ou, talvez, eu mesmo as houvesse forçado" {apud Webster, 1995, p. 210). [382]

Quarto, a pesquisa de Freud baseou-se em uma amostragem pequena e não representativa de pessoas, limitada a ele mesmo e àqueles que optaram por fazer psicanálise com ele. Não mais do que cerca de uma dezena de casos foram detalhados nos trabalhos de Freud; a maioria desses pacientes era formada por mulheres jovens, solteiras, de boa escolaridade, classe alta. É difícil generalizar a partir dessa amostra para a população em geral.

Quinto, foram constatadas discrepâncias entre as anotações de Freud das sessões de terapia e os casos publicados supostamente com base naqueles registros. Os pesquisadores encontraram diferenças envolvendo a extensão do estudo e a sequência dos acontecimentos descobertos durante a análise, além das alegadas curas não-fundamentadas (Eagle, 1988; Mahony, 1986). Não há como determinar se às afirmações de Freud foram propositais, a fim de produzir provas para a sua posição ou se foram forçadas pelo seu inconsciente. Não há como os historiadores tentarem rastrear os erros contidos nos casos não publicados de Freud porque ele destruiu a maioria dos arquivos dos pacientes. Além disso, Freud publicou apenas seis casos depois de seu rompimento com Breuer, e nenhum deles contém provas convincentes da eficácia da psicanálise. Um biógrafo concluiu:

Alguns desses casos apresentam evidências tão duvidosas a favor da teoria psicanalítica que qualquer um ficaria curioso em saber por que Freud teve o trabalho de publicá-los. (...) Dois casos estão incompletos e a terapia se mostrou ineficaz. (...) Um terceiro caso, na verdade, não foi tratado por Freud. (Sulloway, 1992, p. 160)

Sexto, mesmo que algum registro preciso, palavra por palavra, das sessões de terapia fosse mantido, nem sempre seria possível determinar a precisão dos relatos dos pacientes. Freud realizou poucas tentativas de verificar os relatos das experiências de infância. Os críticos afirmam que ele devia ter questionado os parentes e amigos acerca dos fatos descritos. Então, resumindo, a primeira etapa - ou seja, a da coleta de dados - da construção da teoria científica mostrou-se incompleta, imperfeita e imprecisa.

Em relação à etapa seguinte, ou seja, a das suposições e generalizações a partir dos dados, não há como avaliar a forma de execução, já que Freud jamais explicou o raciocínio empregado. Além disso, os historiadores não têm como determinar a confiabilidade ou o significado estatístico dos dados, pois eles não foram quantificados nem analisados estatisticamente.

Os pesquisadores contestaram as afirmações de Freud acerca da mulher. Ele alegava que a mulher é dotada de superego pouco desenvolvido e de sentimentos de inferioridade em relação ao corpo por não possuir pênis. A analista Karen Horney abandonou o círculo psicanalítico de Freud por causa dessa afirmação e desenvolveu o próprio sistema, discordando que a mulher sentisse inveja do pênis. Ao contrário, ela sugeriu que o homem sentia inveja do útero. Hoje, grande parte dos analistas acredita que são incorretas e não comprovadas as ideias de Freud sobre o desenvolvimento psicossexual feminino

Outros neofreudianos contestaram a negação de Freud do livre-arbítrio e seu enfoque no comportamento passado, excluindo as esperanças e os objetivos futuros. Alguns criticaram Freud por desenvolver uma teoria da personalidade baseada em pessoas neuróticas, ignorando os traços emocionais dos indivíduos saudáveis. Todos esses aspectos foram usados para elaborar visões concorrentes sobre a personalidade humana. O surgimento de teorias alternativas logo conduziu a divisões dentro da família psicanalítica e à formalização das [383] escolas analíticas de pensamento derivadas.

As Contribuições da Psicanálise

Apesar desses ataques contrários, por que a psicanálise sobrevive há tanto tempo? Até certo ponto, todas as teorias do comportamento são criticadas com base na aceitabilidade científica. Os psicólogos em busca de uma teoria algumas vezes devem selecioná-la baseados em critérios distintos de precisão científica formal, e aqueles que escolhem a psicanálise não o fazem se não houver evidências comprobatórias. A psicanálise não oferece provas, pelo menos não as do tipo aceito pela ciência pós-positivista. A aceitação da psicanálise baseia-se em uma aparência intuitiva de plausibilidade.

Freud, que confiava pouco nos métodos experimentais tradicionais, argumentava que seu trabalho era científico e que havia reunido muitas provas que justificam suas conclusões. Também acreditava que as únicas pessoas qualificadas para julgarem o mérito científico de suas ideias eram os psicanalistas, como ele mesmo. Escreveu que seu sistema baseava- se em "um número incalculável de observações e experiências, e somente alguém que tivesse repetido aquelas observações feitas sobre ele mesmo, e, em outras pessoas, estaria em posição de chegar a um julgamento próprio sobre isso" (Freud, 1940, p. 144).

Independentemente da credibilidade científica do trabalho de Freud, não se pode negar o tremendo impacto que teve na psicologia acadêmica estadunidense. As ideias de Freud ainda despertam grande interesse. No entanto, quando se observa o número de pacientes e de estudantes especializando-se em análise, percebe-se uma queda na popularidade da psicanálise como terapia. A terapia cara e prolongada de Freud foi suplantada pelas psicoterapias mais curtas e mais baratas (algumas delas oriundas da psicanálise) e pelas terapias comportamentais e cognitivas. Essa tendência foi incentivada pelas medidas de economia instituídas pelos programas dirigidos de saúde. A prescrição de um medicamento proativo em uma única visita ao médico é muito mais econômica que os vários meses de sessões de psicoterapia.

O desenvolvimento de vários programas medicamentosos reduziu a necessidade de psicoterapia para alguns tipos de distúrbios mentais. Por exemplo, medicamentos como o Lítio e o Prozac fizeram com que alguns psiquiatras e psicólogos clínicos reavaliassem sua posição acerca dos fatores desencadeadores da doença mental, afastando-se da escola de pensamento psíquica e retornando à somática.

A visão somática ou bioquímica afirma que os distúrbios mentais são resultantes do desequilíbrio químico do cérebro. Para que prescrever uma psicoterapia cara e extensa se o paciente pode tomar apenas uma pílula para se sentir melhor? O tratamento medicamentoso, no entanto, não é adequado para qualquer condição ou para qualquer paciente. É interessante observar que Freud previra muito antes esse desenvolvimento no tratamento dos distúrbios mentais.

O impacto de Freud na cultura popular e na consciência estdunidense foi estrondoso e ficou evidente logo após a sua visita, em 1909, à Clark University. Os jornais publicaram várias histórias sobre ele e, já em 1920, mais de 200 livros haviam sido lançados a respeito da psicanálise (Abma, 2004). Revistas com o Ladies Home Journal, The Nation e The New Republic publicaram muitos artigos. Os livros sobre criação e educação infantil do Dr. Benjamin [384] transformaram-se em um fenômeno de vendagem e foram baseados nos ensinamentos de Freud. O famoso estúdio de cinema, MGM, ofereceu a Freud 100 mil dólares para ter colaboração em um filme sobre o amor, mas ele recusou. Em outubro de 1924, Freud era capa da revista Time, e o seu trabalho a respeito do sonho ficara tão conhecido que um musico escreveu uma canção com esse tema. Em um dos versos ouvia-se "Não me conte o seu sonho de ontem/Pois estive lendo Freud!" (apuad Fancher, 2000, p. 1.026).

O século XX viu a liberação sexual no comportamento, nas artes, na literatura e no entretenimento. Generalizou-se a crença de que a inibição ou a repressão dos impulsos sexuais podiam ser danosas. No entanto, é irônico observar como a mensagem de Freud a respeito do sexo foi tão mal interpretada. Ele jamais defendeu o afrouxamento dos códigos conduta ou o aumento da liberdade sexual. Ao contrário, na sua visão, a inibição do impulso sexual era necessária para a sobrevivência da civilização. Apesar da sua intenção, o grau de liberação sexual que marcou grande parte do século XX foi, em parte, consequência do trabalho de Freud, já que a ênfase no sexo ajudou a popularizar as suas ideias. Até mesmo nas publicações científicas, os artigos abordando o sexo chamam a atenção. Desse modo, conclui-se que, apesar da falta de rigor científico e da fragilidade metodológica, do ponto de vista pós-positivista, a psicanálise freudiana tornou-se uma força vital na psicologia moderna. Freud ainda é a figura mais frequentemente citada na literatura de pesquisa da psicologia, de acordo com os catálogos de citações publicados (veja, por exemplo, Fancher, 2000; Haagbloom, 2002). A Divisão de Psicanálise (Divisão 39) é a sexta maior dentre as 51 da APA. Em 1929, E. G. Boring escreveu no seu livro, A history of experimental psychology, que na psicologia não havia nenhum verdadeiro grande proponente da importância de Darwin ou Helmholtz. Na segunda edição, publicada 21 anos depois, Boring mudou de opinião. Refletindo os avanços da psicologia entre as décadas, escreveu sobre Freud, tecendo elogios:

Hoje ele é visto como o grande originador de tudo, o agente do Zeitgeist que concretizou a invasão da psicologia por meio do princípio do processo inconsciente. (...) Não parece possível registrar a história da psicologia nos próximos três séculos sem mencionar o nome de Freud e continuar afirmando tratar-se de história geral da psicologia. E eis aqui o melhor critério para se estabelecer a grandeza: a fama póstuma. (Boring, 1950, p. 743, 707) [385]

 

Psicanálise | Texto
ARTIGOS
A Psicologia e o Sistema Único de Saúde, quais as interfaces1
Regina Benevides

Discute-se a relação da Psicologia com o Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil tomando-se como ponto de partida uma crítica à separação entre clínica e política fortemente presente na formação e na prática profissional dos Psicólogos. Indicam-se três princípios para a construção de políticas públicas em saúde: o da inseparabilidade, o da autonomia e co-responsabilidade e o da transversalidade, estando a contribuição da Psicologia no entrecruzamento do exercício destes três princípios. O artigo destaca, ainda, a importância dos modos de fazer acontecer as políticas públicas, indicando a urgência na criação de dispositivos que dêem suporte à experimentação das políticas no jogo de conflitos de interesses, desejos e necessidades dos diferentes atores que compõem a rede de saúde.

Psicologia da Saúde
Preconceito de cor e racismo no Brasil
Antonio Sérgio Alfredo Guimarães

O autor analisa a formação do campo temático dos estudos de relações raciais, no Brasil dos anos 1940, e sua posterior superação pelos estudos de identidade racial e racismo, nos anos 1970, buscando precisar a história dos significados teóricos de dois conceitos: preconceito de cor e racismo. Retroagindo ao final do século XIX, o autor argumenta que o racialismo dogmático de então foi desbancado pelo culturalismo do começo do século XX, apenas para ceder lugar à imprecisão entre a expressão nativa "preconceito de cor" e "preconceito racial", esta última introduzida pelo paradigma das relações raciais, gerado pela Escola de Chicago. Com a superação deste, nos anos 1970, e sua substituição por paradigmas que utilizam quase exclusivamente a análise estrutural e institucional, o conceito de racismo passou a denominar de maneira imprecisa todas as dimensões da vida social e da interação entre "brancos" e "negros". O autor sugere que apenas um retorno à separação analítica das diversas formas de interação e dimensões da vida social pode restituir a esse campo disciplinar a riqueza que teve nos primórdios das ciências sociais.

Psicologia social
Violência na escola X violência da escola
Luciene R. P. Tognetta

O presente artigo versa sobre a temática da violência que envolve pares e autoridades em instituições escolares sobre dois lados distintos: o primeiro deles refere-se à violência enquanto ações agressivas e muitas vezes criminosas, contra a autoridade ou contra os pares (bullying) apresentadas por alunos, crianças e adolescentes na escola. Já o segundo aponta para a violência da própria escola, que, na tentativa de vencer tais situações utiliza sanções e de intervenções também violentas que ferem o direito de se frequentar espaços que contribuam para o desenvolvimento de pessoas autônomas e equilibradas. Entender, portanto, como as ações da escola podem superar a violência nesta instituição nos impulsiona a, primeiramente, compreender o fenômeno: por que o homem é, ou, está, violento? As explicações, do ponto de vista das teorias que estudam o desenvolvimento moral uma perspectiva interacionista, bem como de pesquisas recentes sobre o que tem indignado adolescentes de 13 a 15 anos em escolas públicas e particulares apontam para uma questão fundamental: é preciso que haja uma mudança profunda nas ações dessa instituição educativa para que crianças e adolescentes possam adequar o sentido que dão às suas vidas a um conteúdo ético. Os resultados encontrados atestam que os adolescentes entrevistados não se reconhecem em um espaço público. Crianças e adolescentes, vítimas e agressores não respeitam ao outro já que não mantém por si, um auto-respeito e nem estão, com as medidas tomadas pela escola, capazes de coordenar diferentes pontos de vista e por reciprocidade, pensar no bem a si e no bem a outro.

Psicologia social
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Astronomia
TEXTOS
Por Robert Dinwiddie
A Terra, as constelações e observações celestes

Objetos no Universo – galáxias, estrelas, planetas, nebulosas – estão espalhados ao longo de três dimensões do espaço e uma do tempo. Vistas de locais vastamente separados no Universo, suas posições relativas parecem separados no Universo, suas posições relativas parecem completamente diferentes. Para encontrar objetos no espaço, estudar seus movimentos e fazer mapas celestes os astrônomos necessitam de um referencial comum, e, para a maior parte dos casos, este referencial é a própria Terra. O elemento primário desta vista desde a Terra é a esfera celeste – uma esfera fictícia na qual os astrônomos consideram que as estrelas estão fixas. Os movimentos aparentes dos objetos celestes podem ser relacionados aos movimentos reais da Terra, dos planetas (em orbita em torno do Sol), da Lua (em órbita da Terra), e das estrelas enquanto se movimentam dentro da Via Láctea. A compreensão da esfera celeste e as convenções para denominar e encontrar objetos nela são questões essenciais em astronomia.

A esfera celeste

Durante séculos os seres humanos souberam que estrelas estão a diferentes distâncias da Terra. Mas, para registrar suas posições no céu, imaginavam que estivessem fixas em uma esfera englobando a Terra. A ideia dessa esfera também ajuda os astrônomos a compreender a localização da Terra, as horas do dia e como a época do ano afeta o que veem no céu noturno.

O céu como uma esfera

Para um observador na Terra, as estrelas parecem mover-se lentamente no céu noturno. Seu movimento é causado pela rotação da Terra, embora pareça ser o céu que está girando em torno do planeta. Para o observador, o céu pode ser imaginado como o interior de uma esfera, conhecida como esfera celeste, onde as estrelas estão fixas e que revolve em torno da Terra. Esta esfera tem características relacionadas com a esfera real da Terra. Ela tem polos norte e sul, exatamente acima do Polo Norte e do Polo Sul na superfície terrestre. A esfera celeste é como uma versão celeste de um globo – as posições da estrelas e galáxias podem ser registradas nela, assim como as cidades da Terra têm suas posições de longitude e latitude em um globo.

Efeitos de latitude

Um observador na Terra pode, no máximo, ver somente metade do céu em cada instante (suponde um céu sem nuvens e um horizonte desobstruído). A outra. Metade é oculta pela Terra. De fato, para um observador em um dos polos celetes, uma metade específica da esfera em outras latitudes a rotação da Terra continuamente traz novas partes da esfera celeste para a vista e oculta outras. Isto implica por exemplo, que um observador em uma latitude 60º N ou 60º S, pode ver até três quartos da esfera celeste ao longo do tempo; um observador no equador verá toda a esfera celeste se aguardar o tempo suficiente.

Movimentos celestes diários

À medida que a Terra gira todos os objetos celestes se movem através do céu, embora os movimentos das estrelas e dos planetas se tornem visíveis apenas à noite. Para um observador em latitudes intermediárias as estrelas nas regiões polares da esfera celeste descrevem um círculo diário ao redor do polo celeste norte ou sul. O Sol, a Lua, os planetas e as estrelas se erguem no horizonte leste, descrevem um arco através do céu e se põem no oeste. Esse movimento é inclinado para o sul (para os observadores no hemisfério norte), ou para o norte (hemisfério sul) – quanto maior a latitude do observador, mais acentuada a inclinação. As estrelas têm posições aparentemente fixas na esfera celeste, e desse modo o padrão do seu movimento se repete com precisão a cada dia sideral. Os planetas, o Sol e a Lua sempre estão em movimento em relação à esfera celeste e, assim, o período de repetição deles é diferente do observador em relação às estrelas.

Movimentos celestes anuais

À medida que a Terra orbita o Sol, esta estrela parece mover-se contra o fundo do céu. Quando o Sol está em uma região do céu, seu clarão ofusca a luz dessa porção do céu, e assim torna-se difícil observar de qualquer parte da Terra uma estrela ou objeto aí localizado. A órbita da Terra também implica que a parte da esfera celeste no lado oposto da Terra segundo o Sol – isto é, a parte visível no meio da noite – também mude. A parte visível do céu, por exemplo, à meia noite em junho, setembro, dezembro ou março é significativamente diferente – ao menos para observadores na Terra em latitudes equatoriais ou intermediárias.

Coordenadas celestes

Os astrônomos, usando o conceito da esfera celeste, podem registrar e encontrar as posições das estrelas e outros objetos no céu. Para definir a posição de um objeto os astrônomos usam um sistema de coordenadas semelhante ao de latitude e longitude da Terra. As coordenadas são chamadas declinação e ascensão reta. Declinação é medida em graus e minutos de arco (60 minutos de arco = 1º) ao norte ou sul do equador, e assim é equivalente à latitude. Ascensão reta, a equivalente da longitude, é o ângulo de um objeto à leste do meridiano celeste. O meridiano é um alinha que passa por ambos polos celestes e apor um ponto no equador celeste chamado o primeiro ponto de Áries ou ponto equinocial vernal. A ascensão reta de um objeto pode ser dada em graus e minutos de arco ou em horas e minutos. Uma hora é equivalente a 15º porque 24 horas somam os 360º de um círculo.

Ciclos celestes

Para um observador na Terra os eventos celestes ocorrem dentro de um contexto de ciclos determinados pelos movimentos da Terra, do Sol e da Lua. Esses ciclos fornecem algumas das unidades básicas para medi ro tempo, como dias e anos. Eles incluem os movimentos aparentes diários dos objetos celestes através do céu, o movimento aparente anual do Sol contra a esfera celeste, o ciclo sazonal e o ciclo mensal das fases da Lua. Outros ciclos relacionados produzem eventos, previsíveis, com eclipses lunares e solares.

Caminho celeste do Sol

À medida que a Terra viaja em torno do Sol, para um observador na Terra, o Sol parece traçar uma trilha na esfera celeste chamado eclíptica. Devido ao ofuscamento pelo Sol esse movimento não é óbio, mas o Sol se move uma pequena distância cada dia contra o fundo das estrelas. A faixa do céu estendendo-se por 9 graus de declinação em ambos os lados da eclíptica é chamada zodíaco e incorpora 24 constelações inteiras ou parte delas. O Sol passa por 13 constelações, das quais 12 formam os “signos do zodíaco”. O Sol gasta um número variável de dias em cada uma dessas 13 constelações. Atualmente o Sol atravessa cada constelação em datas muito diferentes das astrológicas. Por exemplo, diz-se que alguém que nasceu entre 21 de março e 19 de abril, é do signo de Áries, embora agora, o Sol passe por Áries entre 19 de abril e 23 de maio. Essa disparidade é parcialmente causada por um fenômeno chamado precessão.

Precessão

O eixo de rotação da Terra é inclinado em relação à eclíptica por 23,5º. Essa inclinação é essencial para causar as estações. Atualmente, o eixo aponta para uma posição na esfera celeste norte (o polo celeste norte) próxima à estrela Polar, mas não foi sempre assim. Como um pião rodopiando, a Terra executa um lento “bamboleio”, que altera a direção deste eixo com um ciclo de 25.800 anos. O bamboleio, chamado precessão, é provocado pela gravidade do Sol e da Lua. A precessão também causa a mudança gradual das localizações do polo osul celeste, do equador celeste, e de dois outros pontos de referência na esfera celeste, chamados pontos equinociais. As coordenadas das estrelas e outros objetos “fixos”, como galáxias, portanto mudam, e assim os astrônomos devem referi-las a uma época “padrão” a cada 50 anos. O padrão autal era exatamente correto em 1º de janeiro de 2000.

As estações

A óbita da Terra ao redor do Sol é de 365,25 dias e fornece uma unidade fundamental de tempo, o ano. As estações da Terra resultam da inclinação do seu eixo em relação a sua órbita. Devido à inclinação da Terra um outro hemisfério está apontado em direção ao Sol. O hemisfério que se inclina em direção ao Sol recebe mais luz solar, e portanto está mais quente. Cada ano, o hemisfério norte atinge a inclinação mínima em direção ao Sol por volta de 21 de junho – solstício de inverno no hemisfério sul e solstício de verão no hemisfério norte. Por algum tempo, em torno dessa data, a região polar norte é iluminada o dia todo enquanto a região polar sul está na escuridão. Ao contrário, em torno de 21 de dezembro, a situação é invertida. Entre os solstícios estão os equinócios, quando o eixo de rotação da Terra se coloca de lado em relação ao Sol e as durações do dia claro e da noite são iguais para todos os pontos da Terra. A inclinação da Terra também define os trópicos. O sol está no zênite ao meio dia no trópico de Câncer (23,5° N) por volta de 21 de junho, e no trópico de Capricórnio (23,5°A) por volta de 21 de dezembro, e diretamente acima do equador ao meio dia durante os equinócios.

Medindo os dias

Cada dia a Terra completa uma rotação em torno de seu eixo, e a maior parte dos locais em sua superfície passam da claridade para a sombra e de volta à claridade, produzindo o ciclo dia-noite. Contudo, há duas definições possíveis para o que seria o dia, e, apenas uma para uma delas, o dia solar, sua duração é exatamente 24 horas. Um dia solar é definido pelo movimento aparente do Sol no céu produzido pela rotação da Terra. É o intervalo de tempo que o Sol leva para retornar ao seu ponto mais alto no céu desde o mesmo ponto onde estava no dia anterior. O outro tipo de dia, o dia sideral, é definido pela rotação da Terra relativa às estrelas. É o intervalo de tempo que uma estrela leva para retornar ao ponto mais alto no céu em dias sucessivos. Um dia sideral é 4 minutos mais curto que um dia solar.

Medindo os meses

O conceito de mês é baseado na órbita da Lua em torno da Terra. Ao longo de cada órbita lunar o ângulo entre Terra, Lua e Sol muda continuamente, dando origem às fases lunares. O ciclo de fases – Lua Nova (quando a Lua está entre a Terra e o Sol), crescente, quarto, convexa, Lua Cheia (quando a terra está entre a Lua e o Sol – e depois, em ordem reversa de volta à Lua Nova, dura 29,5 dias e define o mês lunar. Contudo, o movimento orbital da Terra em torno do Sol torna mais complexa a expressão do mês, do mesmo modo como acontece com a definição do dia. De fato, em relação ao fundo das estrelas,  a Lua leva 27,3 dias para completar sua órbita. É o chamado mês sideral. A disparidade provém da alteração dos ângulos entre Sol, Terra e Lua, pelo movimento orbital da Terra. Após um mês sideral, a Lua deve ainda orbitar um pouco mais para retornar ao alinhamento original com a Terra e o Sol (um mês lunar).

Eclipses lunares

À medida que a Lua órbita a Terra periodicamente atravessa a sombra das Terra – ocorrência chamada eclipse luar – ou bloqueia a luz solar em uma parte da superfície terrestre – um eclipse solar. Eclipses não acontecem todos os meses, por que o plano da Terra não coincide como o plano orbital da Terra em torno do Sol. Contudo um eclipse do mesmo tipo corre várias vezes ao ano. Eclipses lunares ocorrem duas ou três vezes ao ano, sempre durante a Lua cheia. Os astrônomos classificam os eclipses lunares em três diferentes tipos. Em um eclipse penumbral, a Lua passa pela penumbra (sombra parcial) da Terra, provocando ligeira diminuição do brilho da \lua. Em um eclipse parcial, uma parte da Lua atravessa a umbra (sobra total) da Terra enquanto em um eclipse total a Lua toda passa pela umbra.

Eclipses solares

Um eclipse solar ocorre quando a Lua bloqueia a luz solar, impedindo-a de alcançar uma parte da Terra. Durante um eclipse total, observadores dentro de uma faixa na superfície terrestre, chamada faixa de totalidade, testemunham o Sol totalmente obscurecido pela Lua por uns poucos momentos. Fora desta área há uma região maior, onde observadores veem o Sol apenas parcialmente obscurecido. Mais comuns são os eclipses parciais, que não têm faixa de totalidade. Um terceiro tipo de eclipse solar é o anular, que ocorre quando a Lua está mais longe da terra que a média, e assim seu disco é pequeno demais para cobrir o disco do Sol. No máximo de um eclipse anular a Lua se assemelha a um disco escuro dentro de um delgado anel de luz solar. Os eclipses solares acontecem duas ou três vezes por ano, mas eclipses totais ocorrem somente uma vez a cada aproximadamente 18 meses. Durante o período de totalidade, a coroa do Sol (sua atmosfera exterior quente) torna-se visível.

Movimento planetário

Os planetas no sistema solar estão evidentemente muito mais próximos da Terra que as estrelas e, enquanto orbitam o Sol, parecem deslocar-se contra o fundo estrelado. O movimento é influenciado pela translação da Terra em torno do Sol, que muda o ponto de vista de observadores na Terra. Os planetas mais próximos do Sol movem-se mais rapidamente que os mais distantes; isto é parcialmente devido a efeitos de perspectiva mas também porque a velocidade de um planeta é maior quando ela está mais perto do Sol.

Planetas inferiores e superiores

Em termos de seus movimentos no céu como vistos da Terra os planetas são divididos em dois grupos. Os planetas inferiores, Mercúri e Vênus, são aqueles cuja órbita é mais próxima do Sol que a Terra. Eles nunca se afastam do Sol na esfera celeste – o maior ângulo com respeito ao Sol (elongação máxima) é 28° para mercúrio e 45° para Vênus. Porque eles estão próximos da Terra têm velocidade orbital elevada, ambos movem-se rapidamente contra as estrelas de fundo. Eles também apresentam fases, como as da Lua, devido à variação e ângulo entre a Terra, o planeta e o Sol. Todos os demais planetas, de Marte para fora, são chamados planetas superiores. Eles não estão “presos” ao Sol na esfera celeste, desse modo, também podem ser vistos no meio da noite. Com exceção de Marte, os planetas superiores estão muito longe da Terra para mostrarem fases distintas e se movem lentamente na esfera celeste –quanto mais longe do Sol, mais lento seus movimentos.

Movimento retrógrado

Os planetas em geral se movem no céu de oeste para leste contra o fundo sideral, noite após noite. Porém, periodicamente, um planeta move-se de leste para oeste por um breve período –  um fenômeno chamado movimento retrógrado. O movimento retrógrado é um efeito de mudança de perspectiva. Planetas como Marte mostram movimento retrógrado quando a Terra “ultrapassa” os outros planetas em oposição (quando a Terra se posiciona entre o planeta superior e o Sol). Os planetas inferiores Mercúrio e Vênus mostram movimento retrógrado em ambos os lados da conjunção inferior. Eles ultrapassam a Terra quando passam entre a Terra e o Sol.

Alinhamento no céu

Como todos os planetas orbitam o Sol aproximadamente no mesmo plano, eles nunca se afastam muito da faixa no céu chamada zodíaco. Não é incomum que vários planetas esejam na mesma parte do céu, muitas vezes dispostos mais ou menos segundo uma linha. Esses eventos, chamados conjunções planetárias, não têm significado mais profundo, mas podem ser uma visão espetacular. Outro tipo de alinhamento, denominado trânsito, ocorre quando um planeta inferior coloca-se diretamente entre a Terra e o Sol, cruzando o disco solar. Um par de trânsito de Vênus, separados por oito anos, ocorre em períodos maiores que um século, enquanto que os trânsitos de Mercúrio acontecem cerca de 12 vezes por século. Antigamente, esses trânsitos possibilitavam aos astrônomos obterem dados mais precisos sobre distâncias no Sistema Solar. Um tipo final de alinhamento é quando um corpo celeste passa à frente de outro ocultando-o. Ocultações de um planeta por outro, como Vênus encobrindo Júpiter, ocorrem umas poucas vezes por século. Em contraste, ocultações de um dos planetas brilhantes pela Lua podem ocorrer 10 ou 11 vezes por ano.

Movimentos e padrões estelares

As estrelas parecem fixas na esfera celeste, mas de fato suas posições estão mudando, ainda que muito lentamente. Há duas contribuições a este movimento: um balanço minúsculo, anual da posição no céu, denominado paralaxe; e um movimento contínuo, chamado movimento próprio. Para o registro dos movimentos das estrelas, e de suas propriedades como brilho e cor, cada estrela precisa de um nome, Os sistemas de denominação e catálogos estelares têm suas raízes nas constelações, que foram criadas para descrever os padrões formados pelas estrelas no céu.

Paralaxe

Paralaxe é uma mudança aparente na posição de um objeto relativamente próximo contra um fundo mais distante quando a posição do observador muda. Quando um observador tira duas fotografias de uma estrela próxima de lados opostos da órbita terrestre em torno do Sol, a posição da estrela contra o fundo de estrelas muda ligeiramente. Quando o observador mede o valor deste deslocamento, sabendo o diâmetro da órbita terrestre, ele pode calcular a distância até a estrela usando trigonometria. Até recentemente esta técnica era limitada a estrela dentro de poucas centenas de anos-luz, porque os deslocamentos de estrelas distantes eram pequenos demais para serem medidos com precisão. Instrumentos mais precisos a bordo de satélites, alcançaram uma precisão muito maior: aqueles a bordo do satélite Hipparchos permitem derivar distâncias estelares até alguns milhares de anos-luz da Terra. Para estrelas ainda mais distantes, o paralaxe é insignificante e outros métodos de estimar distâncias devem ser utilizados.

Movimentos próprios

Todas as estrelas da galáxia estão movendo-se em velocidades diferentes com respeito ao Sistema Solar, ao centro da galáxia, e uma com respeito à outra. Este movimento dá origem a um movimento angular aparente na esfera celeste chamado movimento próprio – medido em segundos de arco por ano. A maior parte das estrelas está tão distante que seus movimentos próprios são desprezíveis. Cerca de 200 têm movimentos próprios maiores que 1 segundo de arco por ano – ou 1 grau em 3.600 anos. A estrela de Barnard tem o maior movimento próprio, 10,3 segundos de arco por ano. Em apenas 180 anos ela percorre o equivalente ao diâmetro da Lua cheia no céu. Se os astrônomos conhecerem tanto o movimento próprio de uma estrela quanto sua distância, poderiam calcular sua velocidade transversa com relação à Terra – isto é, sua velocidade perpendicular à linha de visada desde a Terra. O outro componente da velocidade da estrela relativa à Terra é sua velocidade radial (segundo a linha de visada), derivada a partir do deslocamento Doppler das linhas espectrais da estrela.

O brilho das estrelas

O brilho de uma estrela no céu depende de sua distância até nós e de sua luminosidade intrínseca (a quantidade de enrgia que irradia no espaço por segundo). Para comparar a aparência que as estrelas teriam se estivessem à mesma distância, os astrônomos usam uma escala de brilho intrínseco, a magnitude absoluta. Nessa escala, grandes números positivos assinalam objetos fracos e números negativos, objetos luminosos. O brilho de uma estrela, como visto da Terra, é dado pela magnitude aparente. Assim, quanto menor o valor da magnitude aparente de uma estrela, mais brilhante ela é. Estrelas com magnitude aparente de +6 estão no limiar de detecção a olho nu, enquanto as magnitudes aparentes das 50 estrelas mais brilhantes estão entre +2 e 0. As quatro estrelas mais brilhantes (Sirius é a campeã) têm magnitudes aparentes negativas.

Constelações

Desde a antiguidade as pessoas veem formas imaginárias nos grupos de estrelas no céu. Usado linhas, conectaram as estrelas nesses grupos para formar figuras chamadas constelações e as denominaram conforma as formas que representavam. |cada constelação tem um nome latino, que, na maioria dos casos, é o de um animal, um objeto, como Crater (a taça), ou um personagem mitológico, como Hércules. Algumas constelações são fáceis de se reconhecer, como Órion (o Caçador); outras, como Piscis (Peixes) são menos distinguíveis. Desde 1930 um sistema acordado internacionalmente divide a esfera celeste em 88 áreas desiguais, contendo essas figuras. De fato, do ponto de vista astronômico, o termo “constelação” agora é aplicado à área contendo a figura em vez de a própria figura. Todas as estrelas dentro das fronteiras de uma constelação pertencem àquela constelação, embora elas não estejam conectadas às estrelas que produzem a figura da constelação. Dentro de algumas constelações há, às vezes, grupos distintivos de estrelas chamados asterismos; incluem o cinturão de Órion (As Três Marias) e o Arado ou “Big Dipper” (um grupo de sete estrelas na constelação da Ursa Maior). Uns poucos asterismos vão além dos limites de uma constelação. Por exemplo, a maior parte do asterismo “Quadrado de Pégaso” está em Pégaso, mas um de seus cantos está em Andrômeda.

Nomeando as estrelas

A maioria das estrelas têm antigos nomes de origem babilônica, grega ou árabe. O nome Sirius, por exemplo, vem da palavra grega significando “ardente”. A primeira nomeação sistemática das estrelas foi introduzida por Johann Bayer em 1603. Bayer distingui até 24 estrelas em uma constelação, rotulando-as com letras gregas, e em seguida recorreu a letras latinas minúsculas de aa z. Em 1712, o astrônomo inglês John Flamsteed introduziu um outro sistema, no qual as estrelas eram numeradas na ordem de sua ascensão reta de oeste para leste através de sua constelação. Estrelas usualmente são nomeadas combinando-se sua letra de Bayer ou número de Flamsteed com o nome latino da constelação (no caso genitivo) – assim 56 Cygni indica a estrela que está na posição 56 com respeito ao limite ocidental da constelação do Cisne. Desde o século 18, numerosos outros catálogos de estrelas identificaram e numeraram muito mais estrelas fracas, e sistemas especializados foram elaborados para catalogar estrelas variáveis, binárias e múltiplas.

Catálogos de objetos nebulosos

Além de estrelas individuais, vários outros tipos de objetos, como aglomerados estelares, nebulosas e galáxias, têm posições praticamente fixas na esfera celeste. A maioria desses objetos sugere borrões enevoados no céu, mesmo através de um telescópio. A primeira pessoa a catalogar esses objetos foi o astrônomo francês Charles Messier no século XVIII. Ele compilou uma lista de 110 objetos difusos, embora nenhum dos céus da região polar sul – isto porque Messier realizou suas observações em Paris, e qualquer coisa com declinação abaixo de 40° S estaria abaixo do horizonte. Em 1888, um catálogo muito maior, o chamado New General Catalogue of Nebulae e Star Clusters(NGC) foi publicado, em ais tarde expandido pelo chamado Index Catalogue(IC). Atualmente, o NGC e o IC são importantes catálogos de nebulosas, aglomerados estelares e galáxias. Sua versão atual cobre todo o céu e fornece dados de mais de 13000 objetos, todos identificados por números NGC ou IC. Além disso, centenas de catálogos especializados são utilizados, cobrindo diferentes tipos de objetos, regiões do céu e porções do espectro eletromagnético. Muitos catálogos são agora mantidos como bases de dados disponíveis na internet.

Luzes no céu

Do mesmo modo que estrelas, galáxias nebulosas, luminosas e objetos do Sistema Solarr, outros fenômenos levam à aparição de luzes no céu. Em geral estas luzes se originam de fontes ou partículas de matéria lançadas na Terra pelo Sol por vários meios indiretos, mas em alguns casos, são geradas por processos terrestres. Observadores amadores devem estar atentos a estas fontes de luz noturna para evitar confusão com fenômenos astronômicos.

Auroras

As auroras boreais (Norte) e as auroras austrais (Sul) aparecem quando as partículas carregadas do Sol, transportadas para a Terra pelo vento solar, são aprisionadas pelo campo magnético terrestre. Elas são então aceleradas para regiões acima dos polos magnéticos Norte e Sul, onde excitam partículas do gás da atmosfera superior, 100-400 km acima da superfície terrestre. A aparência e localização das auroras mudam em resposta ao vento solar. Elas são mais frequentemente visíveis a altas latitudes, próximas aos polos magnéticos da Terra, mas podem ser vistas durante perturbações no vento solar, como ocorre após ejeções de massa do Sol.

Halos de gelo

Halos atmosféricos são causados por cristais de gelo na alta atmosfera refratando luz. A luz tanto do Sol como da lua (no fundo, luz solar refletida) pode causar halos. O halo mais comum é um círculo de luz com raio de 22° em torno do Sol ou da Lua. Também podem estar presentes chapiscos de luz chamados parasselênios (ao lado da Lua) ou parélios (ao lado do Sol), arcos ou círculos de luz que parecem passar pela Lua ou pelo Sol. Todos estes fenômenos resultam dos ângulos idênticos entre as faces dos cristais de gelo atmosféricos. Mesmo que os sinais não estejam alinhados, tendem a defletir a luz em algumas direções preferenciais.

Luz zodiacal

Uma luminescência débil às vezes é vista no céu oriental antes do nascer-do-sol ou ocasionalmente no oeste depois do pôr-do-sol. Chamada luz zodiacal, é causada pela luz solar espalhada por partículas de poeira interplanetária no plano do Sistema Solar – no plano da eclíptica. A mistura de comprimento de onda é a mesma do espectro solar. Um fenômeno correlato é o gegenschein (“contra-brilho”) em alemão, que é algumas vezes perceptível em uma noite escura, longe de qualquer poluição luminosa, como uma mancha na esfera celeste diretamente oposta à posição do Sol no céu. Acredita-se que as partículas de poeira no espaço responsáveis tanto pela luz zodiacal como pelo gegenschein provem de colisões de asteroides e cometas e tem diâmetro de cerca de 1mm.

Nuvens noctilucentes

Nuvens a alturas elevadas (por volta de 80km) podem brilhar á noite por refletirem a luz solar, bem depois do pôr-do-sol. Essas nuvens noctilucentes (“brilhando a noite”), podem ser vistas depois do poente ou antes do nascer-do-sol. Acredita-se que consistem de partículas cobertas de gelo que refletem a luz solar. Nuvens noctilucentes são mais frequentemente vistas entre latitudes 50° e 65° note ou sul, de maio a agosto no Hemisfério Norte, e de novembro a fevereiro no Hemisfério Sul. Elas também podem formar-se em outras latitudes e épocas do ano.

Luzes móveis e flashes

Muitos fenômenos provocam luzes móveis e flashes no céu. Rápidos riscos de luz são provavelmente meteoros ou estrelas cadentes – partículas de poeira penetrando a atmosfera e queimando-se. Uma variante maior e muito rara é um “fireball” – simplesmente um rápido meteoro em combustão. Luzes movendo-se lentamente, com brilho constante ou intermitente são provavelmente aeronaves, satélites ou espaçonaves em órbita. Grandes flashes de luz são em geral descargas elétricas conectadas a tempestades de raios. Recentemente, os meteorologistas identificaram novos tipos de relâmpagos, entre elas os “red sprites” (duendes vermelhos) e os “blue jets” (jatos azuis). Ambos são descargas elétricas entre os todos de nuvens de tempestades e a ionosfera acima.

Astronomia a olho nu

Instrumentos ópticos não são necessários para se adquirir uma base em astronomia – nossos ancestrais observaram o céu sem eles por milhares de anos. O observador a olho nu, com algum conhecimento prévio e alguns equipamentos básicos, pode apreciar as constelações, observar os objetos mais brilhantes de céu profundo e acompanhar as trajetórias da Lua e dos planetas no céu noturno.

Observando a olho nu

Há alguns preparativos para se obter o máximo da observação a olho nu. O olho humano leva uns 20 minutos para se ajustar à escuridão e, quanto mais a pupila se abre, objetos mais fracos e mais detalhes tornam-se visíveis. Olhe um planisfério ou um guia celeste mensal para ver o que é visível no céu agora. Uma boa localização deve ser protegida das luzes da cidade, e idealmente, longe de seu brilho indireto. Tente eviar qualquer luz artificial – se necessário, use uma lanterna com um filtro vermelho. Mantenha um diário ou folhas de relatório preparadas para registrar as observações, principalmente se estiver buscando fenômenos particulares, como meteoros. Para ver estrelas fracas e objetos de céu profundo, evite noites quando a Lua ofusca o céu. Mesmo em uma noite escura, sem nuvens, a turbulência do ar pode afetar a qualidade da observação – as melhores noites são frequentemente aquelas que não ficam subitamente frias no pôr-do-sol.

Medidas no céu

Distâncias entre objetos celestes são frequentemente expressas em ângulos. O horizonte todo mede 360°, enquanto o ângulo do horizonte ao zênite (o ponto exatamente acima da cabeça) mede 90°. O Sol e a Lua têm ambos um diâmetro angular de 0,5/, enquanto uma mão esticada pode ser usada para estimar outros ângulos. Ao se estudar as cartas celestes, deve-se lembrar que uma hora de ascensão reta (R.A.) ao longo do equador celeste é equivalente a 15° de declinação, mas que os círculos de ascensão reta se estreitam em direção aos polos celestes, assim à 60°N, uma hora de diferença em R.A. é equivalente a somente 7,5° de declinação.

Saltando entre as estrelas

Um eficiente método de se orientar no céu é o “star-hopping”, que consiste em primeiro localizar umas poucas estrelas brilhantes de referência e depois saltar “hop” de estrela em estrela até áreas obscuras. Por exemplo, no Hemisfério Norte, pode-se usar como referências o Arado (na Ursa Maior) para a região próxima ao polo norte celeste e, no equador celeste, a ária em torno da constelação de Órion, incluindo o Triângulo de Inverno. “Saltando-se” pelas linhas entre certas estrelas brilhantes destas constelações pode-se encontrar outras estrelas e começar a entender o layout geral do céu. O arado é útil porque duas de suas estrelas se orientam com Polares, a estrela podar atual. Como o céu parece girar em torno dos polos celestes. Polaris é um ponto fixo no céu boreal. Já no Hemisfério Sul, não há estrela polar brilhante. Outras referências são, no Norte, o Triângulo de verão, compreendo as estrelas Veja. Deneb e Altair, e no Sul, o Cruzeiro do Sul e o Falso Cruzeiro.

Astronomia com binóculos

Para a maior parte dos principiantes em astronomia o equipamento mais útil é um binóculo. Além de ter uso fácil e confortável, o binóculo (diferentemente do telescópio) fornece imagens não-invertidas. Numerosos objetos astronômicos fascinantes podem ser observados com ele.

Características dos binóculos

Binóculos são como uma combinação de dois telescópios de baixa potência. As duas concepções principais do binóculo, chamados de prisma porro e de prisma roof, têm ópticas diferentes, mas ambos são úteis para astronomia. O mais importante ao escolher binóculos são os números principais descrevendo suas qualidades ópticas por exemplo7x50 ou 12x70. O primeiro algarismo é a magnificação. Para a maior parte dos principiantes uma magnificação 7x ou 10 é em geral adequada – com uma magnificação maior, torna-se mais difícil localizar objetos no céu. O segundo algarismo é a abertura, ou diâmetro das lentas objetivas, medida em milímetros. Este número exprime o poder coletor de luz do binóculo, que é importante para ver objetos mais fracos. Para observações do céu noturno, é preferível uma abertura de ao menos 50mm.

Usando binóculos

Não importa o tamanho do binóculo que o astrônomo escolha, pode ser difícil mantê-lo parado. Apoiar os cotovelos em algo sólido, como um muro, ou sentar-se em uma espreguiçadeira, podem ajudar a evitar que o binóculo vibre. Binóculos gigantes são pesados demais para se segurar com as mães, e assim, devem ser apoiados em um tripé. Outro problema comum é encontrar o objeto alvo no campo de visão, mesmo quando o objeto é visível a olho nu. Um método é estabelecer a posição do alvo com respeito a um objeto fácil de se localizar, e então navegar até o objeto alvo. Alternadamente, pode-se partir de uma referência reconhecível no horizonte.

Campo de visão do binóculo

O tamanho da área do céu vista por binóculos é o campo de visão, em geral, expresso como um ângulo. O campo de visão é intimamente relacionado à magnificação – maior a magnificação, menor o campo de visão. Um binóculo de média potência (10x) tem tipicamente um campo de visão de 6-8°. Isto oferece uma boa relação entre uma magnificação adequada e um campo de visão largo o suficiente para se ver a maior parte de um grande objeto como a galáxia de Andrômeda. Para se observar áreas ainda maiores, binóculos de baixa potência (5-7x), com um campo de visão de ao menos 9°, são mais adequados. Ao contrário, para olhar objetos compactos, como Júpiter e suas luas, é melhor se usar binóculos com maior magnificação e campo de visão de 3° ou mesmo menores.

Objetos para binóculos

Um primeiro objeto impressionante para um usuário de binóculo novato é a Nebulosa de Órion. Outras escolhas poderiam ser a galáxia de Andrômeda e as fabulosas nuvens de estrelas e nebulosas nas regiões de Sagitário e Escorpião na Via Láctea, incluindo a Nebulosa da Lagoa. Para observadores ao sul de 50°N, um excelente objeto para binóculos é o aglomerado estelar Omega Centauri. Para encontra-los, tudo o que é necessário são algumas cartas celestes ou software astronômico. Tente também observar a Lua, Júpiter e as suas luas, e as fases de Vênus.

Astronomia com telescópio

Telescópios são os instrumentos astronômicos por excelência – olhos artificiais que capturam e focalizam muito maior quantidade de luz que o olho humano captaria, trazendo os objetos débeis para dentro dos limites da visão humana. Eles assumem uma variedade de formas – os mais simples pouco evoluíram com respeito àqueles em uso quatro séculos atrás, enquanto que os mais avançados oferecem óptica de alta performance e controles computadorizados que eram exclusividade dos profissionais até recentemente.

Design de telescópios

A função de um telescópio é coletar luz de objetos distantes, focalizá-la e magnificá-la. Há dois meios básicos de se conseguir isto: ou usando um alente ou um espelho côncavo. Uma lente refrata a luz passando por ela, quebrando sua direção e convergindo-a para um ponto focal atrás dela. Um espelho curvado reflete os raios luminosos em trilhas convergentes para um foco na sua frente. Tanto lentes como espelhos focalizam somente raios luminosos que entram no telescópio mais ou menos paralelos, o que felizmente é o caso para objetos astronômicos, em vista de uma grande distância. Uma vez que os raios de luz ultrapassem o foco, eles passam a divergir, e é onde eles são capturados pr uma ocular que retorna os raios para caminhos paralelos, resultando em magnificação da imagem. Como os raios luminosos que entram na ocular cruzaram entre si ao passar pelo foco a imagem é, em geral, invertida. Os diferentes princípios dos telescópios baseados em lentes (refratores) e daqueles baseados em espelhos (refletores) ditam designs distintos.

Montagens

O modo como um telescópio é montado afeta seu desempenho. Os tipos mais comuns de montagem são a alto-azimutal – que permite ao instrumento mover-0se em altitude (para cima e para baixo) e em azimure (paralelo ao horizonte) – e a equatorial, que alinha os movimentos do telescópio com as linhas de declinação e ascensão reta no céu. Montantes alto-azimutais são fáceis de se executar, mas porque os objetos no céu estão constantemente mudando de altitude e azimute, acompanha-los exige um ajuste continuado de ambos. As montagens equatoriais são mais pesadas e se leva mais tempo para ajustá-las, porém, uma vez alinhadas com o polo, permitem acompanhar os objetos no céu com movimentos em torno de um único eixo.

Abertura e magnificação

Dois fatores principais afetam a imagem na ocular de um telescópio – abertura e magnificação. A abertura é o diâmetro do espelho próprio do telescópio ou da lente objetiva. A abertura está ligada ao seu “poder coletor” – o total de luz capaz de coletar. Dobrando a abertura quadruplica-se a área coletora, permitindo ao telescópio detectar objetos mais débeis. A magnificação é limitada pela abertura do telescópio, mas é controlada pelas propriedades da ocular. A potência de um ocular é identificada pela distância focal – a distância na qual ela focaliza um feito paralelo de raios luminosos. Oculares com foco mais curto produzem magnificação maior. Lentes objetivas e espelhos primários também têm distâncias focais, e dividindo esta distância focal pela distância focal da ocular obtém-se a magnificação total do conjunto. O projeto de uma ocular também afeta a porção de céu visível – o campo de visão.

Dispositivos de busca

Outro elemento vital de um telescópio é uma buscadora. Mesmo com as magnificações mais baixas o campo de visão de um telescópio é estreito demais para a navegação e, pelo simples apontamento do telescópio na direção do objeto, é improvável acha-lo. Buscadores são presas do lado de um telescópio e alinhadas precisamente na mesma direção. As buscadoras mais populares são simplesmente telescópios e baixa potência com dispositivo localizador chamado retículo, constituído por fios cruzados. Outros tipos projetam um retículo alvo preciso em uma visão do céu não-magnificada, indicando precisamente para onde o telescópio está apontando.

Telescópio computadorizado

Computadores simplificam o árduo trabalho de rastrear e observar débeis objetos de céu profundo ou cometas e asteroides obscuros. Um conhecimento básico de astronomia ainda é necessário, mas uma vez que o instrumento esteja propriamente ajustado, bases de dados computadorizadas e motores automáticos podem tornar simples a localização e acompanhamento de objetos. A maior parte dos telescópios amadores de qualidade vem com controles manuais e podem formar interfaces com computadores de mesa ou notebooks. Bases de dados de localizações e órbitas podem ser atualizadas via internet. Muitos são equipados com sistemas de navegação por satélite GPS. Com o GPS um telescópio pode identificar sua localização na superfície terrestre e usar seus motores para compensar os movimentos do céu sem que o usuário tenha que alinhar sua montagem equatorial precisamente.

Software astronômico

Telescópios computadorizados estão equipados com softwares para controlar o instrumento a partir de um computador, mas outros pacotes também estão disponíveis. Softwares de planejamento permitem que o observador organize suas observações oferecem recursos para registrar notas e armazenar imagens. Softwares de planetário de mesa recriam o céu noturno da tela de um computador em qualquer localização ou tempo desde um passo distante até um futuro remoto. Alguns programas, como o livre Celestia, podem simular a visão em qualquer lugar no Sistema Solar ou na galáxia.

Usando filtros

Os filtros fazem uma enorme diferença quando observamos com um telescópio. Eles são discos coloridos que se acoplam à ocular e filtram ceras cores da luz. Eles podem eliminar a poluição luminosa, acentuar o contraste na superfície de planetas e objetos, ou enfatizar comprimentos de onda particulares emitidos por certos fenômenos. Contudo os chamados “filtros solares”, que são presos a uma ocular são perigosos, pois trincam facilmente a nunca são confiáveis para se olhar o Sol.

Astrofotografia

Enquanto muitos astrônomos amadores gostam de desenhar os objetos que eles vêem através de seu telescópio a fotografia é o meio definitivo de se registrar o céu. Câmaras fotográficas tipo SLR (single-lens-reflex) ou refles de lente única são as mais versáteis para astrofotografia – a principal exigência é que a câmara tenha uma função que mantenha o obturador aberto e o filme exposto por tanto tempo quanto necessário. Um disparador de cabo para abrir o obturador e sem tocar na câmera também auxiliará a evitar tremores e borrões na imagem. A câmara pode ser usada independentemente, em piggybackcom um telescópio para guiagem, ou a presa ao foco principal do telescópio no luar de uma ocular. Os melhores resultados exigem filmes rápidos, especializados que reagem prontamente mesmo a níveis muito baixos de luz. Contudo, deve-se sempre fazer um teste, porque filmes rápidos têm grãos fotossensíveis maiores que resultam em uma imgem mais grosseira. Alguns astrofotógrafos vão até extremos para obter os melhores resultados resfriando seu filme a câmara toda para torna-los mais responsivos.

Astrofotografia digital

A maioria das câmaras digitais são limitadas a exposições curtas demais para capturar estrelas. Contudo, equipamentos digitais especializados, como detectores CCD (charge-coupled device), abrem possibilidades além do alcance do filme. CCDs podem ser mais sensíveis que filmes porque eles “contam” o número de fótons atingido cada parte  do chip, e o usuário pode combinar os dados de diversas exposições. Softwares de processamento de imagem podem então acentuar as imagens e extrair dados. Mesmo simples “webcams” podem registrar o céu noturno – com o software correto. Contudo mesmo o CCS com a resolução mais alta ainda não pode capturar a mesma resolução do filme.

Via Láctea | Texto
Por Robert Dinwiddie
O começo e o fim do Universo

A história do Universo pode ser traçada desde seus primeiros instantes, de acordo com a teoria do Big Bang. No modelo do Big Bang, o Universo já foi infinitamente pequeno, denso e quente. O Big Bang deu início a um processo de expansão e resfriamento que continua até hoje. Não foi uma explosão de matéria no espaço, mas uma expansão do próprio espaço, que, no princípio, trouxe o tempo e o espaço à existência. O Big Bang, contudo, não explica todas as características do Universo, e continua a ser refinado. Os cientistas o usam como um quadro para mapear a evolução continuada do Universo, passando por eventos como o desacoplamento de matéria e radiação (quando os primeiros átomos se formam e o Universo se torna transparente) e a condensação das primeiras galáxias; a formação das primeiras estrelas. O estudo do Big Bang e do balanço da gravidade do Universo e a força da chamada energia escura podem dizer qual será o fim do Universo.

O Big Bang

Espaço, tempo, energia e matéria devem ter vindo à existência 13,7 bilhões de anos atrás, no evento chamado Big Bang. Em seus primeiros momentos, o Universo era infinitamente denso, inimaginavelmente quente e continha energia pura. Mas, dentro de uma ínfima fração de segundo, surgiu um vasto número de partículas fundamentais, criadas a partir de energia, à medida que o Universo resfriava. Em poucas centenas de milhares de anos estas partículas se combinaram para formar os primeiros átomos.

No princípio

O Big Bang não foi uma explosão no espaço, mas uma expansão que ocorreu no primeiro instante depois do Big Bang, a Era de Planck, mas no final deste período, a gravidade havia se separado das outras forças da natureza, seguida pela separação da força forte. Acredita-se que este evento originou a “inflação” – uma expansão curta porém rápida. A inflação ajudaria a explicar como o Universo parece tão homogêneo e plano. Durante a inflação, surgiu uma quantidade fantástica de massa-energia, em contraposição a uma quantidade igual porém negativa de energia gravitacional. No final da inflação, a matéria começou a aparecer.

A emergência da matéria

Cerca de 1 microsegundo (10-6 segundos ou um milionésimo de segundo) depois do Big Bang, o universo jovem continha além de vastas quantidades de energia radiante, ou fótons, uma “sopa” efervescente de quarks, antiquarks, e glúos. Também estava presente uma classe de partículas fundamentais chamadas léptons (principalmente elétrons, neutrinos e suas atipartículas), formando-se a partir de energia e se aniquilando de volta à energia. O palco estava armado para os processos de formação da matéria seguinte que levaram ao presente Universo. Em primeiro lugar, quarks e glúons se uniram para formar partículas mais pesadas – em particular prótons e um menor número de nêutrons. A seguir, os nêutrons se combinaram com alguns dos prótons para formar núcleos atômicos, principalmente de hélio. Os prótons restantes, destinados a formar núcleos de hidrogênio, permaneceram não-combinados. Finalmente, após meio milhão de anos, o Universo se resfriou o suficiente para os elétrons se combinarem com os prótons livres e os núbleos de hélio – assim formando os primeiros átomos.

Saindo das trevas

O período desde o nascimento dos átomos, 300.000 anos depois do Big Bang, até a ignição das primeiras estrelas, centenas de milhões de anos mais tarde, é conhecido como a “Idade das Trevas” do Universo. O que aconteceu durante essa era, e o subsequente “Renascimento” cósmico quando a luz das estrelas preencheu o Universo, é um enigma. Os astrônomos o estão solucionando pela análise da radiação relíquia do Big Bang e do uso dos mais poderosos telescópios para perscrutar os limites do Universo.

As consequências do Big Bang

Aos 350.000 anos de idade, o Universo estava repleto de fótons propagando-se em todas as direções, de átomos de hidrogênio e hélio, de neutrinos e outras formas de matéria escura. Embora o Universo ainda estivesse quente, a 2500ºC, e preenchido de radiação, os astrônomos não veriam nenhuma luz se pudessem olhar anteriormente a esse instante. A razão disso é que o Universo, ao se expandir, distendeu os comprimentos de onda da radiação por um fator 1000. Os fótons, agora, alcançam a Terra não como luz visível, mas como fótons de baixa energia da radiação cósmica de fundo em micro-ondas (CMBR). Estes comprimentos de onda, outrora característicos de um universo incandescente, são típicos de um objeto tão frio que sua temperatura é de cerca de -270ºC, 3K (3 graus Kelvin) acima do zero absoluto.

A Idade das Trevas

A Terra pode nunca receber a luz visível do período antes das primeiras estrelas se formarem, umas poucas centenas de milhões de anos após o Big Bang, mas os cosmólogos podem reconstruir o que ocorreu durante esse período, usando outros dados, como aqueles da CMBR. A CMBR revela minúsculas flutuações da densidade da matéria, quando os primeiros átomos se formaram. Os cosmólogos acreditam que a gravidade, atuando nestas flutuações, levam a matéria a formar aglutinações e cordões. Essas irregularidades na nuvem inical de matéria provavelmente constituíram o arcabouço dos atuais objetos de grande escala, como os superaglomerados de galáxias. A evolução dessas estruturas por bilhões de anos pode ser simulada por computadores. Essas simulações baseiam-se em suposições sobre a densidade e propriedades da matéria no universo jovem, assim como a influência da energia escura. Algumas simulações se assemelham à distribuição da matéria do universo atual.

Galáxias primitivas

Os astrônomos ainda estão tentando localizar quando as primeiras estrelas se formaram e em que tipo de estruturas galácticas isso ocorreu. Estudos recentes no infravermelho, feitos com instrumentos como o Telescópio Espacial Spitzer e o Very Large Telescope [VET], revelarem o que parece ser galáxias extremamente fracas, com redshifts elevados, presentes há apenas 500 milhões de anos depois do Big Bang. Sua existência indica que precursores bem desenvolvidos, nós e massas condensadas de matéria deviam estar presentes entre 100 e 300 milhões de anos depois do Big Bang. São nessas estruturas que as primeiras estrelas devem ter se formado.

As primeiras estrelas

As primeiras estrelas, que podem ter se formado 200 milhões de anos depois do Big Bang, eram feitas quase que inteiramente de hidrogênio e hélio, com virtualmente nenhum outro elemento químico. Os físicos pensam que as nebulosas de formação estelar sem elementos pesados e condensaram em nuvens muito maiores que as de hoje. As estrelas que aí se formaram também devem ter sido muito grandes e quentes, talvez tipicamente de 100 a 1000 massas solares. Muitas podem ter durado poucos milhões de anos ou menos, antes de morrerem como supernovas. A luz ultravioleta dessas estrelas pode ter originado um momento crucial na evolução do Universo – a reionização do seu hidrogênio, transformou de um gás neutro de volta à forma ionizada (prótons e elétrons livres) vista hoje. A radiação dos quasares também pode ter reionizado o Universo.

Enriquecimento químico cósmico

Durante suas vidas e ao final delas, as primeiras estrelas massivas criaram e dispersaram novos elementos químicos no espaço e em massas protogalácticas em colapso. Um zoológico de novos elementos, como carbono, oxigênio, silício e ferro, foi formado a partir da fusão nuclear nas regiões centrais quentes dessas estrelas. Elementos mais pesados que o ferro, como bário e chumbo, formaram-se durante suas mortes violentas. Estrelas de segunda e terceira gerações, menores que as megaestrelas primordiais, formaram-se, a partir do meio interestelar enriquecido. Essas estrelas criaram mais elementos químicos, que retornaram ao meio interestelar através de ventos estelares e supernovas. Interações entre galáxias e varrimento do seu gás levaram a mais enriquecimento e dispersão, no meio intergaláctico. Esses processos de reciclagem e enriquecimento continuam. Na Via Láctea, os novos elementos químicos são essenciais par aa formação de objetos desde planetas rochosos até organismos vivos.

Vida no Universo

A única vida conhecida no Universo está na Terra. A vida aqui, no entanto, é tão ubíqua e o Universo tão enorme que os cientistas vêem chances de o processo vital manifestar-se também em outras regiões do Cosmos. Mas a vida na Terra ter sido fortuita – produto de uma série improvável de eventos – ou, como muitos acreditam, não tão inesperada.

Organismos vivos

O que é um organismo vivo? As ideias a respeito disso dependem do estudo da vida na Terra, pois não temos ideia do alcance da vida fora daqui. Os biólogos concordam sobre algumas características básicas que distinguem o vivo do não-vivo em qualquer parte do Cosmos – no mínimo, uma entidade viva deve ser capaz de se reproduzir e, ao longo do tempo, evoluir. Não estão certos, no entanto, se vírus são vivos. Embora autorrepliquem, falta ao vírus algumas características que a maioria dos biólogos considera essenciais à vida: eles não existem como células e não possuem seu próprio maquinário bioquímico. É também incerto se outras características comuns à vida terrestre, como a química do carbono e o uso da água líquida, devam inevitavelmente ser um traço da vida extraterrestre. Desacordos sobre esses pontos aumentam a complexidade das discussões sore a possibilidade de vida extraterrestre.

Origens da vida

A maioria dos cientistas concorda que o começo da vida terrestre está ligado à acumulação de moléculas orgânicas simples em uma “sopa primordial! Nos oceanos, logo após sua formação. As moléculas teriam resultado de reações químicas na atmosfera, talvez estimuladas pela energia de raios. Na sopa, ao longo de milhões de anos, os compostos orgânicos reagiram, formando moléculas cada vez maiores e mais complexas, até que surgiu uma molécula com a capacidade de auto-replicação. devido sua natureza específica, essa molécula – um gene rudimentar – tornou-se mais comum. Através de mutações, e pelo mecanismo da seleção natural, variantes desse gene desenvolveram adaptações à sobrevivência cada vez mais sofisticadas, evoluindo ara uma céula do tipo bactéria – a precursora de toda vida terrestre. Muitos biólogos evolutivos diriam que o evento decisivo nesse caso foi o aparecimento de um auto-replicador.

A raridade da Vida

Há 30 anos as condiç~eos que se pensava serem essenciais à vida, como aquelas de temperatura e umidade, eram consideradas estreitas. Desde então os cientistas descobriram extremófilos (organismos que prosperam em condições extremas) vivendo em ambientes adversos na Terra. Esses organismos podem viver em profundas camadas de gelo ou nas fumarolas de água fervente no fundo dos oceanos. Alguns vivem em comunidades desprovidas de luz solar e extraem energia de fontes químicas. Pesquisas encontraram bactérias vivendo em profundidades de 3 km da crosta terrestre, com metabolismo baseado em hidrogênio. Extremófilos estimulam a ideia de que a vida pode existir em uma ampla gama de condições. Alguns cientistas ainda têm esperanças de que vida extraterrestre possa ser descoberta no Sistema Solar, embora a exploração do locam mais provável, Marte, tenha produzido resultados negativos até agora. Além do Sistema Solar os cientistas acreditam que a vida possa ser amplamente difundida. Nesses locais mais remotos, o cientistas estão interessados na possiblidade de existência de vida inteligente, contatável. Em 1960, o radioastrônomo estadunidense Frank Drake desenvolveu uma equação para prever o número de civilizações na Galáxia capazes de comunicação interestelar. Pelo fato de apenas poucos fatores da equação poderem ser estimados acuradamente, o resultado pode variar entre menos de um a milhões de plantas, dependendo dos valores supostos.

Buscando a Vida

Há muitas abordagens para as tentativas de identificar formas de vida extraterrestres. No Sistema Solar cientistas analisam imagens de planetas e luas, e enviam sondas para buscas em Marte e a lua Titã, de Saturno. Fora do Sistema Solar o principal foco até agora foi o Busca por Inteligência Extraterrestre [SETI] – conjunto de programas que envolve a varredura do céu em busca de sinais com a aparência de artificial. Também estão em andamento buscas por planetas de tipo terrestre em torno de estrelas próximas. Finalmente, Comunicação com Inteligência Extraterrestre [CETI] envolve mensagens de humanos por transmissão de sinais rumo a estrelas alvos. Em 1974 uma mensagem CETI em código binário foi enviada em direção ao aglomerado estelar M13, a 21000 anos-luz. Em 1999, a mensagem mais elaborada “Encontro 2001) foi enviada por um radiotelescópio ucraniano em direção a algumas estrelas de tipo solar próximas. Mesmo se os alienígenas captarem a mensagem, não esperamos receber respostas antes de um século.

O destino do Universo

Embora seja possível que o Universo possa ser eterno os tipos de estrutura que existem, como planetas, estrelas e galáxias, certamente não durarão para sempre. Em algum ponto, distante no futuro, nossa galáxia e outras serão rasgadas, ou sofrerão um alonga e prolongada morte fria. Ou ainda serão inteiramente esmagadas em um reverso do Big Bang. O destino do universo depende em grande medida da natureza da energia escura – uma força misteriosa oposta à gravidade que, recentemente se descobriu, desempenha um papel fundamental no comportamento do Universo em grande escala.

Big Crunch e Big Chill

Até recentemente os cosmólogos supunham que a taxa de expansão do Universo estava se desacelerando, devido ao efeito de “frenagem” da gravidade. Também se acreditava que um único fator – a densidade de massa-energia do Universo – decidiria qual de dois destinos básicos o aguardaria. Os cosmólogos medem a densidade tanto de massa como energia em conjunto, porque, como Einsteindemonstrou, massa e energia são equivalentes e intercambiáveis. Caso essa densidade, seja acima de um valor crítico a gravidade levará o Universo a deter sua expansão e a colapsar em uma implosão ígnea aniquilando tudo, o “Big Crunch”. Mas se a densidade do Universo for menor ou igual à densidade crítica, o Universo se expandirá para sempre, embora a uma taxa gradualmente desacelerada pela gravidade. Neste caso, o Universo acabará em uma longa morte fria “Big Chill”. Pesquisas com o objetivo de resolver esta questão revelaram que as propriedades do Universo sugerem que ele é extremamente próximo de ser “plano”, com a densidade exatamente igual à densidade crítica. Embora a parte da matéria-energia do Universo necessária para torna-lo plano seja difícil de se determinar, sua densidade deveria ser próxima do valor crítico, e assim seu destino mais provável seria a expansão eterna. Contudo, no final da década de 1990, esses modelos para o destino do Universo foram abalados por novas descobertas indicando que a expansão do Universo não está em desaceleração.

Energia escura

As descobertas vieram do estudo de supernovas em galáxias remotas. O brilho aparente dessas explosões estelares pode ser usado para calcular suas distâncias, e, comparando as distâncias com os redshifts das galáxias hospedeiras, pode-se calcular a taxa de expansão do Universo em diferentes épocas de sua história. Os cálculos mostraram que a expansão estava acelerando-se e que alguma força se opunha à gravidade, a “constante cosmológica” proposta por Einstein, como parte de sua teoria da relatividade geral. E existência dessa energia escura também responde pela massa-energia faltante no Universo para que ele seja plano e modifica o número de possíveis destinos do Universo.

A geometria do espaço

Os cosmólogos baseiam suas ideias sobre o destino do Universo parcialmente em modelos matemáticos. E os modelos indicam que, dependendo de sua densidade de massa-energia, o Universo tem três possíveis geometrias, cada uma com uma diferente curvatura do espaço-tempo, que pode ser representada por uma forma 2-D. Antes da descoberta da energia escura havia uma correspondência entre essas geometrias e o destino cósmico. Considerava-se que um Universo de curvatura positiva ou um universo “fechado” terminaria em um “Big Crunch”, e um universo de curvatura negativa ou “aberto”, em um “Big Chill”. Um univeso plano também terminaria em um “Big Chill”, mas a expansão do Universo acabaria por desacelerar até uma parada virtual. Com a proposição da energia escura essa correspondência não mais existe. Se a energia escura permanecer com intensidade constante o Universo se expandirá para sempre. Se a energia escura for capaz de reversão, qualquer tipo de universo teminaria em um Big Crunch. Atualmente, o modelo mais favorecido é o de um universo plano que sofrerá uma expansão acelerada. O cenário cataclísmico do “Big Rip”, onde a energia escura cada vez mais intensa dilacera o Universo, parece menos provável.

Uma morte fria

Se o Universo se esvaecer em um Big Chill, sua morte levará muito tempo. Nos próximos 1012(1 trilhão) de anos, as galáxias esgotarão seu gás para formar novas estrelas. Em cerca de 1025(10 trilhões) de anos no futuro, a maior parte da matéria do Universo estará em cadáveres estelares como buracos negros e anãs brancas apagadas, orbitando e caindo em buracos negros supermassivos no centro das galáxias (fótons), elétrons, pósitrons e neutrinos. Toda matéria que não esteja em buracos negros será despedaçada. Após 1067anos, os buracos negros começaram a se evaporar pela emissão de partículas e radiação, e em carca de 10100anos, mesmo os buracos negros supermassivos evaporarão. Um universo inteiramente frio e escuro será um mar difuso de fotos e partículas fundamentais.

 

Observadores de um objeto afastando-se, vêem suas linhas espectrais deslocadas para maiores comprimentos de onda (deslocamento para o vermelho, redshift)

 

Einstein exprimiu sua teoria de como a massa distorce o espaço-tempo em suas “equações de campo”. Os físicos, usando essas equações, descobriram que é nos campos gravitacionais mais intensos —onde objetos massivos e densos distorcem fortemente o espaço-tempo — que a realidade mais se desvia das previsões de Newton. 

Universo | Texto
Por David Hughes
Explorando o espaço - uma história da astronomia

A história da astronomia conecta círculos de pedra pré-históricos com sondas espaciais do século XX!. È uma história de sucessivas revoluções na compreensão de nosso local no Cosmos, e nos meios pelos quais tomamos consciência dele. A geometria permitiu aos gregos fazer as primeiras medidas do Sol, Terra e Lua. Já no século XVII, instrumentos precisos derrubaram ideias centradas na Terra. O telescópio descortinou o céu apresentando muitos novos mistérios a serem explicados pela teoria da gravitação de Newton. A espectrocospia ofereceu um novo método para estudar as propriedades das estrelas e, por fim, revelou a existência de outras galáxias e a expansão do Universo. Nas útlimas décadas, o desenvolvimento do voo espacial permitiu a telescópios em órbita sondar o espaço profundo, enquanto as jornadas de umas poucas pessoas e máquinas além da órbita imediata da Terra colocaram nosso planeta relamente em perspectiva pela primeira vez.

Astronomia antiga

A história da astronomia remonta a 6.000 anos atrás, o que a torna a mais antiga das ciências. Cada uma das culturas ao longo da história estudou o Sol, a Lua, as estrelas e observou como os corpos celestes se movem no céu. As observações refletem curiosidade e encanto com o mundo natural, mas também foram impulsionadas por razões urgentes de navegação, contagem de tempo e religião.

Ciclos da vida

Povos da antiguidade eram fascinados pelos padrões de mudança repetindo-se incessantemente no mundo a seu redor. Evidências da passagem do tempo incluías alterações na temperatura do ar, no horário e posição do nascer e pôr-do-sol, nas fases da Lua, no crescimento da vegetação e no comportamento animal. Esses fenômenos eram atribuídos aos deuses ou a poderes mágicos. Milhares de anos atrás, os “primeiros” astrônomos foram provavelmente pastores ou agricultores no Oriente Médio, que observavam a noite, atentos a sinais das mudanças das estações. Os antigos egípcios se baseavam em observações astronômicas para planejar o plantio e a safra das colheitas. Sabiam que o nascimento de Sirius logo antes do nascer-do-sol anunciava a enchente do rio Nilo. A habilidade para medir períodos de tempo e registrar ciclos celestes foi essencial para o avanço da astronomia, e assim muitas culturas antigas desenvolveram calendários, relógios de sol e relógios de água. Monumentos como as pirâmides e grupos de megalitos (grandes pedras eretas) foram, de fato, os primeiros observatórios. Em cerca de 1000 a.e.c., os indianos e babilônios haviam calculado a duração do ano em 360 dias; este período levou à divisão do círculo em 360°, com cada grau representando um dia solar. Posteriormente, os antigos egípcios refinaram a duração do ano para 365,25 dias.

Fazendo mapas celestes

A astronomia sempre se ocupou com mapear e nomear as estrelas. Por volta de 3500 a.e.c., os antigos egípcios dividiram o zodíaco nas 12 constelações de hoje e agruparam as outras estrelas fora do zodíaco em suas próprias constelações. Nas antigas China e Índia, criaram-se 28 mansões lunares, ou “domicílios noturnos” para registrar o movimento da Lua em seu caminho mensal. Os antigos gregos foram os primeiros a catalogar as cerca de 1000 estrelas mais brilhantes, por volta de 150-100 a.e.c. mas, muito antes deles, observadores da Índia e Oriente Médio mantinham registros astronômicos detalhados e datados. Coleta de dados sistemática foi desenvolvida pelos sumérios e babilônios – civilizações que viviam entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia – por razões de ritual e profecia política.

Orientação e navegação

Os mais importantes feitos dos astrônomos antigos incluem como encontrar os pontos cardeais – note, sul, leste e oeste – e como usar a Estrela Polar do norte para determinar a latitude. Este conhecimento capacitou a orientação precisa de estruturas, particularmente de templos e monumentos funerários, e também auxiliou na confecção de mapas terrestres acurados. Em 3000-2000 a.e.c., os povos da Idade da Pedra do norte da Europa utilizaram alinhamentos solares nos solstícios e equinócios, fases lunares, e outros dados astronômicos para construir grandes círculos de pedra, como Stonehenge e Avebury na Inglaterra, e Newgrange na Irlanda. Altares de foto (usados por sacrifícios rituais de fogo hindus), posicionados em bases astronômicas, e datando de 3000 anos atrás foram encontrados em diversos sítios arqueológicos na Índia. Algumas das mais complexas construções projetadas de acordo com princípios astronômicos são as pirâmides do antigo Egito e exemplos tardios construídos pelos astecas e maias na América. A arquitetura antiga fornece abundante prova de conhecimento astronômico, mas há poucas evidências do seu uso em navegação antiga. Contudo, os povos navegantes da Polinésia podem ter usado as posições das estrelas para migrar através do Pacífico por volta de 1000 a.e.c.

O nascimento da astrologia

Astrologia é uma prática milenar que busca determinar como os planetas e outros objetos celestes podem influenciar a vida na Terra, em especial os assuntos humanos. Descartada como superstição, ela estabeleceu fundamentos sólidos para a observação astronômica e dedução lógica. Em seu esforço de prever os eventos futuros e buscar sinais ou portentos os antigos astrólogos tentaram “ordenar” os céus e notaram o modo como o Sol, a Lua e os planetas se comportam. Enfatizaram em particular ocorrências inesperadas como eclipses, cometas, chuvas de meteoros e o aparecimento de novas estrelas. Muitas elites políticas empregavam astrólogos e observadores dos céus, e seu trabalho era uma atividade intelectual perfeitamente respeitável até o fim do século XVII. Astrônomos também escreviam tratados astrológicos; por exemplo, em 140 e.c., Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, o mais influente de todos os tratados astrológicos.

Início da astronomia científica

A Grécia antiga foi um divisor de águas no desenvolvimento da astronomia como a ciência racional. Os acadêmicos gregos formularam leis complexas e fizeram modelos do Universo. Após o estabelecimento do Islamismo, estudiosos árabes desenvolveram métodos ainda mais acurados de observação dos céus.

Germens do pensamento científico

O mundo grego antigo conheceu uma liberdade política e intelectual sem precedentes e um espantoso progrsso científico. Por 700 anos, de cerca de 500 a.e.c. a 200 e.c. os filósofos gregos buscaram respostas para questões astronômicas fundamentais. Ainda acreditavam em um plano mestre divino e tinham ideias que soam estranhas par anos hoje – Heráclito (540-500 a.e.c.), por exemplo, sugeria que as estrelas eram acesas toda noite, e o Sol toda manhã, como lâmpadas de óleo. Mas Platão (c.427-347 a.e.c.) argumentou que a geometria é a base de toda verdade, fornecendo assim o impulso necessário para deduzir exatamente como o Cosmos funcionava. Aristóteles fixou a Terra no centro do Universo e sugeriu que os planetas eram corpos eternos movendo-0se em órbitas perfeitamente circulares. Eudoxo (408-355 a.e.c.) cartografou as constelações setentrionais e Hiparco (190-120 a.e.c.) pela primeira vez classificou as estrelas em seis ordens de magnitude.

Medindo distâncias

Os avanços na geometria e trigonometria permitiram que os gregos medisses distâncias astronômicas com razoável precisão. Por volta de 500 a.e.c. Pitágoras propôs que o Sol e a Terra, a Lua e os planetas fossem todos esféricos, uma noção que Aristóteles confirmou, no caso da Terra, pela observação da forma de sua sombra durante um eclipse solar. Em 250 a.e.c. Eratóstenes (276-194 a.e.c.) notou que a luz solar incidia diretamente no fundo de um poço em Siena, no Egito, ao meio-dia do solstício de verão. Comparando com dados sobre as sombras em Alexandria, e usando trigonometria, ele estimou a circunferência da Terra com precisão de 5%. Hiparco e Aristarco (320-230 a.e.c.) mediram a distância Terra-Lua cronometrando eclipses lunares. Infelizmente, a distância Terra-Sol não foi estimada com a mesma precisão.

O cosmos centrado na Terra

É natural que as pessoas supusessem que o Cosmos era geocêntrico, ou centrado na Terra. Afinal de contas, não percebemos o movimento da Terra quando ela gera no espaço e as estrelas parecem fixas. Pensadores antigos, como Aristarco em 280 a.e.c., contestaram este sistema e colocaram o Sol no centro, mas suas ideias não tiveram crédito. Em vez disso, Ptolomeu refinou a visão de mundo cosmológica de Aristóteles e criou uma sequência ordenada de órbitas uniformes. Sua ordem era: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e finalmente as estrelas. Isto é baseado na velocidade percebida: por exemplo, a Lua completa uma volta no céu em um mês, o Sol em um ano e Saturno em 29,5 anos. De modo a reconciliar o conceito errôneo de órbitas circulares (em contraste com elípticas) e as velocidades variáveis dos planetas, Ptolomeu foi obrigado a argumentar que cada planeta também girava em um pequeno círculo, o epiciclo, enquanto orbitava a Terra.

Astronomia árabe

Depois do declínio das cidades-estado gregas, os mais importantes avanços da astronomia foram alcançados pelos árabes. O período de domínio grewgo durou 800 anos, desde a fundação do Islamismo em 622 até o século XIV. Astrônomos trabalhando no Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e Espanha mourisca traduziram textos gregos e em sânscrito (da Índia) para o árabe e assimilaram seu conhecimento astronômico. As regras muçulmanas para s cultos ao longo do dia e do mês, e a necessidade de encontrar a direção de Meca para fazer as orações e orientar as mesquitas, significavam que havia uma urgente necessidade de se determinar o tempo e a posição com extrema precisão. Desenvolveu-se a trigonometria esférica sofisticada, funções trigonométricas e álgebra e o astrolábio (uma invenção grega, usada para calcular a hora e a latitude) foi aprimorado. A abordagem dos grandes astrônomos árabes, como Al-Battani (850-929) e Ulugh Beg (1349-1449) fundamentava-se em observação paciente. Com este fim numerosos observatórios foram construídos, dos quais os maiores estavam em Bagdá, no Iraque, em Samarkand, no Uzbequistão, e em Maraghan, no Irã. Eles alojavam grandes instrumentos, incluindo quadrantes montados em paredes, utilizados para medir a altitude de objetos astronômicos quando cruzavam o meridiano (o plano norte-sul).

A revolução copernicana

Por séculos os astrônomos basearam suas teorias na suposição de que a Terra estaria no centro do Universo. No século XVI, esta posição privilegiada foi abalada pela sugestão de que a Terra era apenas um dos vários planetas circulando o Sol. Esta revolução foi acompanhada por imensos avanços tecnológicos, em particular pela invenção de telescópios, anunciando uma nova era de pesquisa e de grandes descobertas.

Astronomia medieval

Após a queda de Roma em 476, astrônomos na Europa, Oriente Médio e àsia deixaram para trás seu relativo isolamento cultural e passaram a trocar ideias mais livremente. Isto graças, em parte, ao crescimento do comércio durante a Idade Média e em parte à expansão do Islamismo. A astronomia observacional floresceu com ênfase em conjunções planetárias, eclipses solares e lunares a as aparições de cometas e estrelas novas. Muitos astrônomos medievais eram professores universitários e se sustentavam com o ensino. Apesar dos recursos limitados fizeram avanços notáveis, incluindo um novo preciso catálogo de posições de estrelas a olho nu, planejado por Ulugh Beg *1394-1449) da Mongólia – o primeiro desde os dias de Hiparco, 1600 anos.

O Universo heliocêntrico

Pode-se datar o nascimento da astronomia em 1543, quando Nicolau Copérnico publicou seu revolucionário tratado sobre um Universo centrado no Sol, ou heliocêntrico. Ele estava insatisfeito com a imprecisão dos modelos geocêntricos das orbitas planetárias, nos quais a Terra ocupava o centro e que dominavam a astronomia desde a obra de Ptolomeu no século II. Sua teoria muito mais simples de um Sol central e uma Terra em órbita explicava muitas observações antes enigmáticas, porque agora havia dois tipos de planetas, os internos e os externos da órbita da Terra. A sequencia Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno era um ordem de período orbital e de distância crescente ao Sol. A “lanterna do Universo”, com o Copérnico o chamava, agora assumia seu lugar de direito no centro do Cosmos. Embora isso significasse que a Terra se movia em alta velocidade, a teoria já havia sido proposta por Aristarco e outros.

A noção do Espaço

Os gregos e os astrônomos posteriores colocaram as estrelas logo além de Saturno, mas isto causaria um problema se a teoria copernicana estivesse correta. Se, como Copérnico argumentava, a Terra orbitava o Sol, por que as estrelas não tinham um movimento recíproco? A única escolha para Copérnico era banir as estrelas para uma distância tão vasta que seu movimento não seria perceptível para observadores terrestres. Ele também foi o primeiro a sugerir que as estrelas brilhantes estariam mais próximas que as fracas. Contudo, ouros se perguntavam porque Deus teria criado um espaço enorme, aparentemente inútil entre a órbita de Saturno e as estrelas. Tycho Brahe (1546-1601), um nobre dinamarquês, pensava que o futuro da astronomia dependia da estimativa de distâncias verdadeiras e do registro acurado das posições planetárias em diversos tempos. Com este objetivo ele aprimorou os padrões observacionais, fabricando instrumentos de mensuração precisamente calibrados. Em 1572 suas observações pacientes da supernova na constelação de Cassiopéia o convenceram de que as estrelas não estavam todas a uma distância fixa, mas que eram objetos cambiantes que existem no “espaço”. Propor essas ideias exigia coragem, ou o apoio de patronos poderosos, devido à Inquisição, nessa época, julgar e punir os que desafiassem a visão ortodoxa da Igreja Católica em relação ao Universo.

Leis do movimento planetário

O sistema heliocêntrico copernicano ainda descrevia as órbitas planetárias em termos de epicilos – cada planeta descrevia um pequeno círculo enquanto girava em torno do corpo central. Essa visão prevalecia desde Ptolomeu mas a forma real das órbitas permanecia um mistério. Necessitava-se de duas coisas para resolver o problema. A primeira era os dados planetários precisos obtidos por Tycho Brahe. A segunda era fé nos seus dados, junto com tenacidade e gênio matemático. A última foi fornecida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), sucessor de Tycho após 1601. Com base nas observações do caminho de Marte na esfera celeste Kepler acabou por formular suas três leis do movimento planetário. Primeiramente, em 1609, ele revelou que as órbitas eram elípticas, e não circulares ou epicíclicas. O Sol está em um dos focos da elipse (a elipse tem dois focos; o círculo é um calo limite de eclipse, com um único foco). Em segundo lugar, mostrou que a linha unindo o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, assim um planeta é mais lento na parte mais exterior da sua órbita. Em terceiro lugar, em 1619, Kepler provou a relação entre o tamanho e o período da órbita. Ele alimentava concepções místicas – acreditava que o Cosmos era permeado por coras musicais, com cada planeta produzindo um tom em proporção a sua velocidade. Como todos antes da descoberta da gravidade por Newton, não tinha a menor ideia do que mantinha os planetas em suas órbitas.

As descobertas de Galileu

Galileu Galileia apresentou provas concretas de que o modelo copernicano do Universo estava correto. Em 1608 quando um fabricante de óculos flamengo inventou o telescópio a notícia se espalhou rapidamente. Galileu construiu, ele mesmo, vários telescópios em 1609, assim tornando-se o fundador da astronomia telescópica. Seus instrumentos tinham uma magnificação de 30x. Em alguns meses ele descobriu que a Lua era montanhosa, detectou as fases de Vênus, as manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Chegou mesmo a sugerir que as estrelas fosses sóis distantes. Acima de tudo ele percebeu que as fases de Vênus somente poderiam ser explicadas se os planetas orbitassem o Sol, e não a Terra. Outros achados de Galileu fundamentam a física nascente: a aceleração de um corpo independe de sua composição ou peso; e o período de balanço de um pêndulo independe de sua amplitude.

Grandes observatórios

A emergência de uma nova geração de observatórios fo um divisor de águas na história da astronomia. Observatórios haviam sido anteriormente exclusivos a um grupo seleto de pessoas, incluindo Tycho Brahe na Dinamarca e Johannes Hevelius em Danzing, Prússia (agora Gdansky, na Polônia), ou de professores universitários, como Galileu ou Giovanni Cassini de Bologna, na Itália. Então, essas unidades foram ampliadas por instituições reais bem financiadas. Luis XIV fundou a Academia de Ciências em Paris, em 1666, e o Observatório Real francês, completado em 1672. Na Inglaterra, Charles II fundou a Royal Society em 1660, o que levou à construção do Royal Greenwich Observatory, onde John Flamsteed (1646-1719) foi o primeiro astrônomo real, iniciando seu trabalho em 1676. Em breve os astrônomos estavam atacando os três principais desafios daquela época: determinar o tamanho do Sistema Solar; medir a distância até as estrelas; e achar a latitude e a longitude de locais na terra e no mar. Esta busca foi em parte impulsionada por necessidades da navegação em uma época de expansão dos impérios europeus e pelo desejo de prestígio nacional. A partir do começo do século XVIII, os observatórios se multiplicaram rapidamente, inaugurando-se instalações em Berlim, Prússia (1711), em Jaipur, Índia (1726), em Uppsala, Suécia (1730), em Vilnius, Prússia (1753), em Washington, EUA (1838), e em Pulkovo, Rússia (1839). Dedicou-se muito esforço para mapear o céu e traçar os movimentos dos corpos celestes.

Leis da atração

Um dos maiores enigmas desafiando os astrônomos de meados do século XVII era porque os planetas percorriam imensas distâncias ao redor do Sol em órbitas estáveis sem se lançar no espaço. O grande físico inglês Issac Newton (1642-1727), professor na Universidade de Cambridge, encontrou a resposta. Um objeto se moveria a velocidade constante segundo uma linha reta, a menos que fosse sujeito a uma força. No caso dos planetas, a força era a gravidade do Sol. Ele logo percebeu que a gravidade era universal. Ela controlava tanto a trajetória de um objeto caindo (como a famosa maçã que Newton viu cair de uma árvore em 1666), como a Lua orbitando a Terra e um cometa viajando rumo ao Sol vindo dos remotos confins do Sistema Solar. A gravidade explicava as três leis de Kepler e também a altura das marés. Após a morte de Newton, o retorno do cometa Halley em 1758 provou que a gravidade também era aplicável nos limites do Sistema Solar, e o uso da teoria da gravitação possibilitou o cálculo da massa da Terra e do Sol. 

O telescópio refletor e Newton

Em 1666, Newton descobriu que um prisma dispersa a luz em um arco-íris de cores. Infelizmente, as lentes de um telescópio fazem o mesmo, e a luz azul de um extremo do espectro é focalizada em um ponto diferente da luz vermelha e o ouro extremo. Isto é a chamada aberração cromática, que produz halos de luz colorida ao redor do objeto sendo visto, causando uma grave perda de qualidade de imagem. Uma solução é suar espelhos curvos para focalizar toda luz no mesmo ponto, independentemente da cor. Em 1663, o escocês James Gregory (1638-75), projetou um telescópio refletor com um grande espelho côncavo primário e um secundário côncavo menor que projetava luz de volta através de um orifício para uma lente magnificadora atrás. Newton modificou o projeto usando um espelho plano secundário para refletir a luz capturada para uma ocular montada lateralmente. Exibido em 1672 o telescópio de Newton foi imensamente aclamado.

O espaço infinito

Na metade do século XIX, a astronomia havia evoluído de uma ciência essencialmente matemática para uma disciplina que incorporava o conhecimento novo e as técnicas dos físicos e químicos. Rápidos progressos tecnológicos, particularmente a invenção da fotografia e telescópios ainda mais poderosos, permitiram aos astrônomos estudar os corpos celestes com muito mais detalhe. Eles começaram a classificar os diferentes objetos e a estudar seu comportamento.

O iluminismo

Os séculos XVIII e XIX viram grandes progressos em ciência devido a métodos científicos aprimorados. Foi um período de consolidação em astronomia, baseada em avanços nas medidas e classificação de corpos celestes. As órbitas dos cometas eram de grande interesse depois do trabalho do inglês Edmond Halley (1656-1742), que mostrou que “seu” cometa retornava a cada 76 anos. As órbitas dos planetas eram determinadas com muito mais precisão que anteriormente e detalhes de sua superfície, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter e as calotas polares de Marte foram observados. Em 1728, a velocidade da Terra foi calculada. William Herschel descobriu o sétimo planeta, Urano, em 1781, e o italiano Giuseppe Piazzi ( 1746-1826) identificou o primeiro asteroide, Ceres, em 1801. Os franceses Urbain Le Verrie e Pierre-Simon Laplace (1749-1827), e o inglês John Adams (1819) aplicaram a teoria da gravitação de Newton para prever a posição de um planeta invisível além de Urano. Netuno foi descoberto em 1846.

O cosmos estelar

Aperfeiçoamentos dos telescópios ao longo do século XVIII permitiram que a astronomia tornasse o estudo do Universo um processo dinâmico. Anteriormente as estrelas eram apenas pontos fixos de luz, com distância desconhecida, mas na década de 1710 Halley descobriu o seu movimento dando início a esforços concentrados para compreender seu comportamento. Constatou-se que muitas estrelas são duplas, orbitando em torno de um centro de massa comum, em conformidade com a gravitação newtoniana e, na década de 1780, estrelas variáveis como Algol e Delta Cephei, eram investigadas. Em 1781, o francês Charles Messier (1730-1817) publicou um catálogo de 103 “corpos difusos”, ou nebulosas (nuvens de gás e poeira). Herschel estendeu este trabalho, gastando muitas horas contando estrelas de diferentes magnitudes, em uma ambiciosa tentativa de fazer um levantamento do céu. Em 1783 ele deduziu que o Sol está se aproximando da estrela Lambda Herculis, e erroneamente concluiu que ela se situava no centro do sistema estelar galáctico. Durante as duas primeiras décadas do século XIX, Laplace desenvolveu métodos de análise matemática que resultaram no primeiro modelo para a origem do Sistema Solar.

O nascimento da astrofísica

Durante o século 19, os astrônomos continuaram a aplicar o desenvolvimento da matemática, física e química para compreender a constituição e comportamento dos planetas, cometas e estrelas. Um novo campo – a astrofísica – emergiu, conferindo propriedades físicas aos objetos no espaço. A astronomia tratava principalmente com seu movimento, enquanto a astrofísica examinava seus parâmetros básicos como raio, massa temperatura, e composição química. Em 1815, o óptico alemão Joseph Fraunhofer (1787-1826), enquanto estudava o espectro da luz solar, notou várias linhas escuras sobre ele. Mais tarde, verificou-se que estas linhas eram devidas à absorção por elementos químicos do Sol. Como ada elemento químico absorve a luz em certos comprimentos de onda, o padrão de linhas de absorção revela a sua presença. Nos anos 1860, o astrônomo britânico William Huggis (1824-1910) descobriu, por meio da espectroscopia (o estudo de espectros) que as estrelas contêm os mesmos elementos que a Terra.

Avanços instrumentais

Os telescópios tornaram-se cada vez maiores desde o princípio do século XVIII – quando astrônomos como Edmond Halley labutavam para usar desajeitados e imprecisos instrumentos com lentes objetivas de pequeno diâmetro – na metade do século XIX. As lentes dobraram em tamanho a cada 40 anos, o que implicava que a distância até os objetos visíveis mais longínquos também dobrava, e que seu número crescia por um fator oito. Sofisticaram-se as montagens dos telescópios, e a qualidade das lentes foi aperfeiçoada. Os telescópios refratores foram totalmente transformados em 1758, quando o astrônomo inglês John Dolland (1706-1761) introduziu a lente dupla, que focalizava a luz azul e a vermelha no mesmo ponto. Herschel construiu enormes telescópios refletores e, em 1524 completou-se o primeiro telescópio com montagem equatorial, na qual o eixo do instrumento era alinhado com o polo norte celeste e um relógio mecânico movia o instrumento em torno deste eixo para acompanhar as estrelas. Nos anos 1840, a fotografia começou a substituir o lápis e papel para o registro de dados. Placas fotográficas podiam ser expostas por horas, permitindo a detecção de objetos muito mais fracos que os visíveis unicamente pelo olho humano.

A forma do espaço

No começo do século XX, alguns pensavam que havia apenas uma galáxia, com o Sol no centro. Nos anos 1930, os astrônomos já haviam percebido que havia bilhões de galáxias e que o Universo estava em expansão. Também começavam a compreender as fontes de energia estelar.

Matéria e energia das estrelas

A partir de 1900, devido à compreensão da natureza da radioatividade descoberta quatro anos antes, começou-se a perceber que a Terra poderia ter mais de 1 bilhão de anos de idade. Esta ideia era consistente com estimativas anteriores feitas por geólogos e com a avaliação de Charles Darwin do tempo necessário para a seleção natural operar. Permanecia o mistério de como o Sol poderia manter-se brilhando por tanto tempo. Uma ideia era que o Sol fosse alimentado pela queda de meteoritos; outra que o Sol estava lentamente se contraindo. Nenhuma dessas teorias dava conta da longa vida do Sol. Contudo, em 1905 Albert Einstein (1879-1955) propôs que E=mc2,  e assim energia E, poderia ser produzida pela destruição de massa, m. Nos anos 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington (1882-1944) sugeriu que a fonte de energia do Sol – e de outras estrelas – fosse a fusão nuclear. O físico germano-estadunidense Hans Bethe (1906-2005) especificou então os processos básicos de fusão nuclear. É de fato uma reação nuclear que libera energia da matéria. Astrofísicos têm agora uma visão detalhada de como as estrelas obtêm sua energia e estimam que estrelas do tipo solar possam brilhar por 10 bilhões de anos.

O grande debate

Nos anos 1920 houve um debate público entre os astrônomos estadunidenses Harlow Shapley e Heber Curtis sobre a forma da nossa galáxia em particular a extensão do Universo em geral. Shapley acreditava que havia apenas uma “grande galáxia”, com a Terra a dois terços da distância até a borda. Ele dizia que o diâmetro era de 300.000 anos-luz – 10 vezes maior que a estimativa de Curtis. Este valor foi obtido com estrelas variáveis cefeídas (cujo brilho varia periodicamente) como indicadores de distância. Curtis, por outro lado, estava convencido de que muitos objetos nebulosos no céu não estavam em nossa galáxia, mas que eram de fato outras galáxias como a nossa. Ele propôs que estes “universos-ilha” estava espalhados uniformemente no céu, com alguns deles obscurecidos pelo disco galáctico, o que explicava sua distribuição acima e abaixo do plano da Via Láctea.

O universo em expansão

Os novos e enormes telescópios estadunidenses revolucionaram a astronomia do século XX. O Telescópio Hooker era tão grande que podia detectar as estrelas cefeídas da Nebulosa de Andrômeda (M31). O  fraco brilho dessas estrelas indicava eu sua distância da Terra era cerca de 10 vezes o diâmetro da Via Láctea. Heber Curtis estava correto: Andrômeda não era uma “nebulosa” mas uma galáxia. Outras “nebulosas” espirais também eram claramente galáxias. Usando o Hooker o estadunidense Edwin Hubble mostrou que as galáxias são os “blocos fundamentais” de um universo muito mais vasto que previamente imaginado. Em 1927 ele investigou características espectrais de galáxias e constatou que não somente a luz da maioria delas apresentava um deslocamento para o lado vermelho do espectro, indicando que se afastavam de nós, mas também que essa velocidade de recessão era maior para as mais fracas (mais distantes). O Universo estava em expansão e, portanto, deveria ter sido muito menor no passado. O declive do gráfico velocidade-distância indicava a idade do Universo. Os astrônomos logo perceberam que algo havia dado início à expansão, lançando as sementes da teoria do Big Bang.

Tecnologia de telescópios

A astronomia observacional estadunidense atingiu um divisor de águas nas últimas décadas do século XIX. Nos Estados Unidos novos e sofisticados observatórios e departamentos universitários foram estabelecidos, muitas vezes financiados por empresários milionários. Os astrônomos desejavam examinar objetos muito fracos e distantes, mas a limitada resistência e a transparência relativamente baixa das lentas objetivas dos telescópios impunham um limite de cerca de 1m de diâmetro – o tamanho do telescópio refrator de Yerkes, inaugurado em Williams Bay, Wisconsin, em 1897. Assim abandonou-se os refratores: era o início de uma nova era de enormes telescópios refletores. O Telescópio Hooker, de 2,5m, em Monte Wilson, na Califórnia, tornou-se operacional em 1918. Em 1948, entrou em sérvio o Telescópio Hale, de 5,2m, no Monte Palomar, na Califórnia. Em 1993, o primeiro Telescópio Keck, com um espelho de 10m, feito de espelhos segmentados, entrou em operação. Acoplado ao progressivo aumento do tamanho dos telescópios veio um enorme aumento na sensibilidade dos detectores. Placas fotográficas tornaram-se mais sensíveis e foram usadas extensivamente par mapear o céu e gerar arquivos permanentes de posições e espectros de objetos. Outro desenvolvimento crucial foi a radioastronomia. Radiotelescópios, o primeiro dos quais foi feito em 1937, passaram a captar as emissões nos longos comprimentos de onda em rádio do espaço profundo.

Astronomia da era espacial

Com o início da Era Espacial (a era do vôo espacial) nos anos 1950, a viagem além da Terra e o contato co planetas, cometas e asteroides tornou-se uma realidade. O despertar das astronomias em rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama ofereceu à humanidade novas perspectivas do Universo, revelando a existência de novos e exóticos objetos nunca antes imaginados.

Estrelas extremas

Relações entre massa, raio e luminosidade das estrelas foram primeiramente estabelecidas graças ao diagrama Hertzsprung-Russel por volta de 1911 e levaram ao reconhecimento de estrelas gigantes e anãs. Desde então encontraram-se muitos tipos extremos de estrelas. Em 1915, W.S. Adams identificou Sirius B como a primeira anã branca – uma estrela da massa do Sol mas comprimida até o volume da Terra. Em 1931 o astrofísico indiano S. Chandrasekhar, usando os novos modelos para o comportamento de partículas subatômicas, descobriu um limite superior à massa de uma anã branca. 1,4 massa solar. Acima disso, um núcleo estelar exaurido colapsará em uma estrela de nêutrons superdensa com uns poucos quilômetros de diâmetro, arrebentando o resto da estrela em uma explosão de supernova. Estrelas de nêutrons em rotação são vistas da Terra como pulsares – radiofontes pulsantes –, a primeira delas foi descoberta em 1967 por Jocelyn Bell-Burnell e Anthony Hewish, do Reino Unido. No outro extremo de massa estelar estão as anãs marrons, muitas delas descobertas recentemente, muito frias para desencadearem rações nucleares no seu centro.

Buracos negros

A possibilidade de buracos negros foi sugerida em 1783 pelo astrônomo inglês John Michell, que considerou a hipótese de um objeto tão massivo que nem a luz poderia escapar da sua gravidade. A ideia reapareceu em 1916 como resultado da teoria da relatividade geral de Einstein, mas os buracos negros permaneceram uma curiosidade até a década de 1960, quando o lançamento de satélites de astronomia de raios-X levou à descoberta de estrelas binárias de raios-X como Cygnus X-1. Binárias de raios-X exigem uma fonte compacta, massiva de erngia, que só pode ser fornecida por um buraco negro. A descoberta de buracos negros de massa estelar também abriu o caminho para se aceitar os quasares – objetos compactos, extremamente luminosos, a altos redshifts – como violentas galáxias distantes, alimentadas por buracos negros supermassivos nos seus centros.

Interior das estrelas

Com telescópios ópticos os astrônomos podem enxergar até uma profundidade de 500km abaixo da superfície solar. Infelizmente, como o Sol tem um raio de 700.000km, um imenso volume não pode ser observado diretamente. Durante os anos 1920 os astrofísicos calcularam que o centro do Sol teria uma temperatura de aproximadamente 15 milhões °C e uma densidade cerca de 150 vezes a da água. Em 1939 o físico alemão Hans Bethe mostrou como processo nucleares, agindo sob essas condições extremas, converteriam lentamente hidrogênio em hélio, liberando imensas quantidades de energia pela conversão de massa em energia. O inglês Fred Hoyle e o alemão Martin Schwarzschild estenderam esta modelo na década de 1950, mostrando como hélio é transformado em carbono e oxigênio em estrelas gigantes. Logo os astrofísicos encontraram mecanismos para a manufatura de elementos ainda mais pesados, como cobalto e ferro, nas estrelas mais massivas. Na década de 1960 os primeiros detectores de neutrinos foram usados para detectar estas partículas altamente penetrantes, liberadas pelas reações nucleares no interior do Sol, e desde os anos 1970, a técnica de heliossismologia permitiu o monitoramento das ondas sonoras ressonando através do interior solar, assim revelando sua estrutura detalhada.

Meio interestelar

A descoberta de grandes quantidades de gás e poeira entre as estrelas foi um triunfo da radioastronomia. Em 1944, o astrônomo holandês Hendrick vam de Hulst previu que o hidrogênio interestelar emitiria ondas de rádio com um comprimento de onda de 21 cm, o que foi confirmado em 1951 pelos físicos estadunidenses Harold Ewen e Edward Purcell. Em breve, radiotelescópios eram usados para mapear a distribuição do hidrogênio neutro atômico nos braços espirais da Via Láctea e de outras galáxias. Em 1974, levantamentos do comprimento de onda de 2,6mm, que age como um traçador de hidrogênio molecular, levaram à descoberta de nuvens moleculares gigantes, locais de nascimento de estrelas.

Astronomia desde o espaço

A Era Espacial começou em 4 de outubro de 1957, quando a União Soviética lançou o satélite Sputnik I, e os astrônomos rapidamente aproveitaram a capacidade de se observar fora da atmosfera terrestre. Detectores a bordo de foguetes já haviam captado sinais intrigantes em comprimentos de onda incomuns durante suas breves excursões fora da atmosfera, e o primeiro observatório orbital, o Ariel I, foi lançado pelo Reino Unido em 1961, equipado com um telescópiode ultravioleta. Outros satélites, como as séries estadunidenses Explorer, e Uhuru, rapidamente mapearam as principais fontes de ultravioleta, infravermelho e raios-X. Enquanto isso, sondas espaciais se espalhavam pelo Sistema Solar, retornando informação sobre o ambiente interplanetário e cartografando os planetas com uma variedade de câmaras, radares e outros instrumentos.

A origem do Universo

A descoberta na década de 1920 de que o Universo está em expansão desencadeou uma nova onda de reflexões cosmológicas. Em 1931, o astrônomo e padre belga Georges Lamaître sugeriu que todo o material do Universo teria começado com o uma única esfera altamente condensada – a origem da teoria do Big Bang. Em 1948, o austríaco Hermann Bondi e os britânicos Thomas Gold e Fred Hoyle propuseram uma teoria rival, da Criação Contínua, na qual matéria estaria sendo criada continuamente para preencher os vazios deixados pela expansão. Felizmente, ambas teorias poderia ser testadas pelas observações e as evidências acabaram por apoiar o Big Bang. Em 1980, Alan Guth da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, estendeu a cosmologia do Big Bang introduzindo a inflação, que auxiliava a resolver alguns problemas maiores da teoria. Mas, ainda restam questões importantes nessa área.

Planetas extra-solares

Grandes refinamentos na espectroscopia permitiram medir ligeiras variações nas velocidades estelares produzidas pela perturbação gravitacional de planetas em órbita. Em 1995, os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra descobriram um planeta com massa um pouco abaixo da metade daquela de Júpiter em torna da estrela 51 Pegasi, a 48 anos-luz. Agora se conhecem centenas de planetas extra-solares e abriu-se um novo campo da astronomia. Os astrônomos têm se surpreendido com suas descobertas – a maioria dos sistemas planetários é muito diferente do Sistema Solar. Alguns têm planetas gigantes orbitando muito próximo à estrela mãe, enquanto outros têm planetas com órbitas altamente elípticas. 

A caçada continua

Quanto mais os astrônomos sabem sobre o Universo, mais querem saber. Na década de 1970 reconheceu-se que o Universo continha muito mais material que o visível: matéria escura afeta a rotação das galáxias; a massa faltante é prevista pela teoria do Big Bang mas ainda não foi observada. A exótica “energia escura” parece acelerar a expansão do Universo. Ao lado desses grandes mistérios cosmológicos está a busca pela vida do Universo, abarcada pela nova ciência da astrobiologia. Nos últimos séculos o tamanho dos espelhos de 10mde hoje serão substituídos por gigantes ainda maiores e observações feitas além da atmosfera terrestre serão cada vez mais produtivas. O telescópio de 2,5m do Telescópio Espacial Hubble será pequeno perto do Telescópio Espacial James Webb, com espelho de 6,5m, a ser lançado em 2021. Esta nova geração de telescópios deverá finalmente captar a primeira geração de estrelas e galáxias. E, à medida que os astrônomos observarem cada vez mais longe com instrumentos cada vez mais sensíveis, inevitavelmente serão confrontados com novos mistérios e corpos exóticos não imaginados antes.

Primeiras espaçonaves

A segunda metade do século XX registrou uma revolução na nossa compreensão do Universo, desencadeada pelo desenvolvimento do vôo espacial. Pela primeira vez, em lugar de apenas olhar para o esaplo, os seres humanos e suas máquinas viajavam por ele. Revezes e riscos marcaram os primeiros tempos da exploração espacial, mas, com esses obstáculos superados, o progresso foi rápido.

Sonhadores de foguetes

A ideia da viagem espacial é tão antiga quanto o contar estórias, mas com poucas noções das leis da física ou da natureza do espaço escritores frequentemente se baseavam em meios cômicos ou absurdos de transportar fictícios viajantes espaciais. Mas, as leis newtonianas do movimento e da gravitação, em conjunto com o fato do espaço ser um vácuo, indicavam que apenas uma forma de propulsão seria capaz de levar viajantes ao espaço – o foguete. Desenvolvidos como fogos de artifício e armas na China medieval, os foguetes contém o combustível necessário para sua propulsão, impulsionados por gases ejetados pelo seu escape. Embora o escritor francês Cyrano de Bergerae (1619-1655) tivesse sugerido no século XVII seu uso para alcançar a Lua, o primeiro a considerar seriamente as realidades da viagem espacial foi o professor da escola rural soviético Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), que desenvolveu muitos dos princípios dos foguetes de combustível líquido, de múltiplos estágios, publicando-os na década de 1890.

Lançamento

Os princípios dos foguetes estavam bem desenvolvidos no começo do século XX, mas ainda havia vários problemas para fazer do voo espacial uma realidade prática. O maior deles era a eficiência do combustível. O engenheiros estadunidense Robert Goddard concebeu a ideia de combustíveis líquidos mais eficientes e em 1926, lançou um foguete de 3m de comprimento impelido por oxigênio líquido e gasolina. As ideias de Goddard e Tsiolkovsky foram adotadas por entusiastas no mundo todo, inclusive pela Sociedade para a Viagem Espacial (VfR) da Alemanha. Durante a década de 1930, muitos dos cientistas da VfR foram recrutados pelo boverno nazistas para um programa militar que prosseguiu durante a Segunda Guerra Mundial. A culminação dos seus esforços, o míssil V2, chegou tarde demais para salvar a Alemanha da derrota, mas provou que armamentos à base de foguete eram o caminho do futuro.

A corrida espacial

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, as maiores potências desejavam a tecnologia de foguetes para si. A maioria dos cientistas fugiu para o Ocidente, mas a União Soviética capturou as fábricas das V2. As razões para tal interesse tornaram-se claras quando as relações internacionais rapidamente deterioraram e começou a Guerra Fria. Ambos acreditavam que mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) impulsionados por foguetes poderiam ser a resposta para lançar a arma final – a bomba nuclear. Foi neste contexto que os Estados Unidos e a União Soviética começaram seus programas espaciais. Ambos viram que a tecnologia de mísseis poderia ser utilizada para alcançar a órbita terrestre e reconheceram que esses lançamentos demonstrariam o poder de seus foguetes e renderiam grandes benefícios de propaganda.

Em órbita

No começo dos anos 1950 União Soviética e Estados Unidos anunciaram planos de lançar satélites durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-58. O programa soviético prosseguiu em sigilo, usando seus enormes mísseis R-7 como veículos de lançamentos, enquanto os cientistas estadunidenses passavam por escrutínio público. Os planos do cientista alemão Werher von Braun de lançar um satélite com o ICBM estadunidense Redstone foram engavetados a favor do programa de pesquisa espacial Vanguard da marinha estadunidense. Pouco antes da data de lançamento do Vanguard, em novembro de 1957, os soviéticos anunciaram em 4 de outubro do mesmo ano o lançamento bem sucedido do Sputnik I. As estações de rastreamento captaram sinais de rádio do satélite e confirmaram que a União Soviética tinha tomado a dianteira na corrida espacial. A humilhação estadunidense foi total quando, em 6 de dezembro, o lançamento do Vanguard terminou em uma explosão na plataforma de lançamento. O projeto de Von Braun foi imediatamente ressuscitado, e o primeiro satélite estadunidense, o Explorer I, entrou em órbita com êxito menos de dois meses mais tarde, em 31 de janeiro de 1958.

As missões Vostok

No final da década de 1950, o próximo grande passo da corrida espacial estava claro – qual das superpotências seria a primeira a colocar uma pessoa em órbita? Os soviéticos tinham uma óbvia vantagem de potência, já que o Sputnik II, o seu segundo satélite, pesava meia tonelada, e haviam conseguido enviar sondas além da vizinhança imediata da Terra. Em 12 de abril de 1961 fizeram um anúncio que surpreendeu o mundo: o Coronel Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espalho, a bordo da Vostok I. Gagarin retornou à Terra como herói da União Soviética, e o programa espacial estadunidense, agora gerenciado pela Nasa, de novo havia ficado para trás. As missões Vostok posteriores superaram novos limites e colocaram a primeira mulher no espaço, aumentaram os tempos em órbita e mantiveram mais de uma espaçonave simultaneamente em voo.

Projeto Mercury

A resposta da Nasa ao Vostok foi o programa Mercury, que lançou seis astronautas entre 1961 e 1963. Diferentemente do programa soviético os esforços estadunidenses foram conduzidos sob os holofotes da mídia. As cápsulas espaciais Mercury eram minúsculas e leves, parcialmente porque tinham que ser transportadas pelo pequeno veículo de lançamento Redstone nos primeiros voos. A Nasa estava desenvolvendo um novo lançador, o Atlas, mas os tests da cápsula deveriam começar antes do foguete maior estar pronto. Surpreendida pelo lançamento do Vostok I, a Nasa correu para retaliar e colocou seu primeiro homem no espaço em 5 de maior. Lançado em um foguete Redstone a missão Freedom 7, de Alan Shepard, não tinha velocidade suficiente para entrar em órbita, mas alcançou uma altura de 185 km durante um voo de 15 minutos. Após um segundo voo sub-orbital, o foguete Atlas foi completado no final de 1961. Seguindo um número de testes, John Glenn foi o primeiro estadunidense em órbita em 20 de fevereiro de 1962.

Próximos passos

Dispostos a manter sua liderança na corrida espacial, os soviéticos assumiam um grande risco. Os estadunidenses tinham anunciado suas missões planejadas de dois homens do Gemini e, em um esforço para ofusca-los de antemão, o diretor do programa espacial soviético, Korolev, planejava uma missão de três homens. Era um grande desafio, pois já havia sido iniciado um trabalho com as naves Soyuz visando alcançar a Lua. Finalmente, os engenheiros soviéticos chegaram a um engenhoso compromisso Voskhod era efetivamente uma cápsula Vostok modificada com espaço suficiente para levar três tripulantes. O voo da Voskhod I, em 12 de outubro de 1964, foi um sucesso, batendo a primeira missão tripulada Gemini por cinco meses. A Voskhod II, lançada alguns dias antes do primeiro teste de voo da Gemini foi um sucesso ainda maior. Durante o voo Alexei Leonov tornou-se a primeira pessoa a caminhar no espaço. Os soviéticos haviam desferido mais um espetacular golpe de propaganda.

Exploradores robôs

Enquanto o foco da atenção pública estava principalmente no programa espacial tripulado, uma segunda corrida espacial era mantida em paralelo – cujas consequências para nossa compressão do Sistema Solar. Cada superpotência tentava superar a outra nos “primeiros” passos da exploração de outros mundos. A exploração espacial robótica teve uma acidentada história inicial, com numerosas falhas, tanto nas plataformas de lançamento, enquanto, ou durante as tentativas de pouso. Porém houve alguns sucessos notáveis: em janeiro de 1959 a Lunik ou Luna I tornou-se o primeiro objeto a escapar da gravidade terrestre e entrar em órbita em torno do Sol; a Lunik II atingiu a Lua em setembro de 1959; a Lunik III registrou as primeiras imagens do lado oculto da Lua. A Pioneer V da Nasa foi a primeira sonda deliberadamente lançada ao espaço interplanetário, entrando em órita entre a terra e Vênus em 1960, enquanto as sondas estadunidenses Mariner II e IV venceram os soviéticos na corrida rumo a outros planetas, voando para Vênus e Marte em 1962 e 1965, respectivamente.

Viagens à Lua

As missões Apolo para a Lua frequentemente são descritas como uma grande conquista da técnica humana. Vastas quantidades de recursos humanos e financeiros foram investidos em um programa com motivações científicas e de propaganda. As missões revelaram muito sobre a Lua e seus imensos avanços tecnológicos remodelaram o mundo.

Um homem na Lua

Em 25 de maio de 1961 o presidente estadunidense John F. Kennedy fez um discurso que abalou o mundo. Em uma época em que os Estados Unidos ainda tinham que colocar um astronauta em órbita da Terra, ele prometeu que seu país levaria pessoas à Lua até o fim da década. A escala do empreendimento era monumental. Astronautas não haviam se aventurado a além de 300km da superfície terrestre, e agora Kennedy dava à Nasa a missão de enviá-los a uns 400.000km de distância, pousá-los na superfície de um mundo desconhecido e trazê-los de volta com segurança. Contudo, se isto fosse realizado, a mensagem seria que os Estados Unidos agora eram uma potência espacial. A Nasa imediatamente começou a investigar os meios de se pousar na Lua. A missão estabeleceu como objetivo usar o maior foguete já construído, projetado pelo cientista de foguetes alemão Wernher von Brauns, para enviar três naves conectadas rumo à Lua – somente uma delas retornaria à Terra. O nome, Apollo, o deus grego do Sol, foi sugerido pelo diretor de voos espaciais da Nasa. Dr. Abe Silvestein.

Projeto Gemini

Cada missão Apollo envolveria diversas operações de encontro, acoplamento e desacoplamento no espaço – operações que a Nasa e seus astronautas jamais haviam tentado antes. Apenas ir à Lua e voltar exigiria um mínimo de 7 dias. Para ganhar experiência em voos espaciais de longa duração e nas delicadas manobras necessárias no Apollo, a Nasa anunciou que o programa Mercury seria substituído pelo Projeto Gemini, uma série de missões de dois tripulantes. Houve 10 missões tripuladas Gemini, entre 1964 e 1966, diversas das quais envolviam encontros entre naves, caminhadas no espaço, e mesmo acoplamentos com veículos alvo não-tripulados. Agena. A espaçonave, composta de três módulos, também representava um grande avanço. Enquanto os dois astronautas permaneciam durante a missão dentro de um módulo de reentrada, apenas 50% maior que a cápsula Mercury, os suprimentos de água e ar, o equipamento elétrico e os experimentos eram mantidos principalmente em um módulo de serviço separado. Um terceiro módulo continha foguetes para manobrar a espaçonave em órbita e freá-la antes de sua reentrada.

Preparando o caminho

Um grande desafio para os planejadores da Apollo era a falta de conhecimento sobre a Lua. À época, pouco se conhecia sobra a história lunar, a natureza das suas crateras e as propriedades de sua superfície – pensava-se seriamente na possibilidade da superfície ser de um pó tão fino que a nave afundaria. Para responder estas questões, a Nasa planejou uma série de missões robóticas para fazer levantamentos detalhado da Lua incluindo pousos – tanto de colisão quanto suaves. As primeiras foram as naves Ranger, quatro das quais colidiram com a Lua entre 1961 e 1964. Pelas fotos retransmitidas à Terra, é inteiramente coberta por crateras, até nas menores escalas, o que indica uma origem por impacto. Em 1966 teve início uma segunda fase, com as naves Lunar Orbiter e surveyor. Os orbitadores fotografaram a Lua de perto, a cerca de 0 km, buscando locais interessantes para pousos tripulados, enquanto os Surveyor efetuaram uma série de pousos suaves, confirmando a firmeza da superfície lunar.

Apollo em órbita

No final de 1966, o programa Apollo estava avançando rápido. Os enormes foguetes Saturno V estavam em construção e as naves prontas para os testes. Porém, em janeiro de 1967, a tripulação da Apollo I morreu durante um incêndio na cápsula em um ensaio de lançamento. Como consequência as missões Apollo II e III foram canceladas, e as missões Apollo IV, V e VI foram convertidas em teses de lançamento não-tripulados. Somente em outubro de 1968 os astronautas retornaram ao espaço, com o lançamento da Apollo 7. Esta missão orbital foi logo seguida pela Apollo VIII. Lançada pela primeira vez pelo Saturno V a missão da nave foi alterada para incluir uma órbita ao redor da Lua no Natal, após rumores de que os soviéticos lançariam um veículo  tripulado para alcançar a Lua. O lançamento nunca aconteceu e, depois das Apollo IX e X, a Nasa estava finalmente pronta para tentar pousar na Lua.

O primeiro pouso na Lua

A Apolo XI partiu de Cabo Kennedy (agora Canaveral), na Flórida, em 16 de julho de 1969) e entrou em óribta lunar três dias depois. Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin então embarcaram no módulo lunar “Eagle” para a descida na superfície, enquanto Mihael Collins permanecia a bordo do módulo em comando e serviço (CSM) “Columbia” em órbita lunar. Eagle tocou seguramente uma planície de lava conhecida como o Mare Tranquilitatis (Mar da Tranquilidade) e, seis horas após o poso, Neil Armstrong deixou o módulo e desceu a escada, pisando a superfície das 2h56 do dia 20 de julho. Armstrong e Aldrin permaneceram na superfícia por 21 horas, realizando uma caminhada, durante a qual implantaram uma bandeira e uma placa comemorativa, conduziram diversos experimentos coletaram rochas, e telefonaram para o presidente estadunidense Richard Nixon.

Módulo lunar

O módulo lunar, com sua aparência frágil, era um elemento vital de cada missão Apollo. Como ele nunca voaria em uma atmosfera os projetistas tiveram a liberdade de dar-lhe uma forma estritamente funcional. Embora o módulo tivesse 9,5m de largura e 7m de altura, a cabine era tão apertada que os astronautas ficaram de pé durante o voo. O grande motor de foguete, embaixo da seção superior do módulo, era usado para frear a cápsula durante o pouso na Lua e, depois, fornecer o impulso para a decolagem da superfície lunar e injeção em órbita.

Missões posteriores

A Nasa havia originalmente planejado dez missões Apollo, mas apenas seis foram completadas. Embora a Apollo XII tenha sido um sucesso, a Apollo XIII ficou famosa pelo seu acidente, quando uma falha elétrica e perda de oxigênio, pela primeira vez colocaram uma tripulação da série em grave perigo. As últimas três Apollo levavam um jipe lunar, estendendo consideravelmente a área que os astronautas poderiam explorar. Redução no interesse público e cortes de verbas da Nasa levaram ao cancelamento das três últimas missões. Os estertores finais da Apollo foram a estação espacial Skylab, que usava um foguete Saturno V, e a missão Apollo-Soyuz, um encontro entre astronautas soviéticos e estadunidenses em órbita terrestre.

Lições científicas

As missões Apollo revelaram muito aos astrônomos sobre a química e história da Lua. As rochas coletadas ainda são estudadas em todo o mundo. O registro do bombardeamento da Lua e a datação por radioisótopos das amostras revelaram o período de intenso bombardeamento a modelou o Sistema Solar durante seu primeiro bilhão de anos. Embora os soviéticos nunca tenham tentado um pouso tripulado na Lua, colocaram uma série de jipes LunoKhod no satélite e trouxeram pequenas amostras de poeira para a Terra.

Em órbita da Terra

Embora muito do foco da exploração espacial tenha sido viagens a planeta e luas distantes, a grande maioria das missões não foi além da órbita terrestre. Em torno da Terra é que o advento do voo espacial teve maior impacto. Nossa vizinhança espacial agora está repleta de satélites, tanto com propósitos científicos como comerciais.

Estações espaciais

A União Sovietica mudou a direção do seu programa espacial no final da década de 1960, priorizando postos semipermanentes em órbita. As primeiras estações espaciais soviéticas, nos anos 1970, as Salyut, eram clilindros com 13m de comprimento e no máximo 4m de largura que abrigavam tripulações de três cosmonautas por diversas semanas em condições espartanas. Embora a corrida espacial tivesse se desacelerado, a Nasa ainda se sentia obrigada a competir e, em 1973, lançou a estação Skylab, que foi visitada por três tripulações separadas ao longo de um ano. Com isso, a Nasa manteve um breve recorde de permanência no espaço. Contudo, quando voltou suas atenções para o Space Shuttle, as estações espaciais foram deixadas para os soviéticos. As mais avançadas Salyut 6 e Salyut 7 eram muito maiores que suas antecessoras e podiam ser ampliadas por módulos lançados da Terra. Na metade na década de 1980, os cosmonautas permaneciam meses em órbita, conduzindo valiosos experimentos científicos.

Potencialidades do espaço

Além das razões políticas e científicas para a exploração espacial, as últimas décadas viram o surgimento para fins práticos. Empresas privadas e países menores conseguem agora lançar satélites e o mundo foi transformado pelos seus resultados. Os satélites de comunicações nasceram dos trabalhos de Arthur C. Clarke e outros, e radiotransmissores orbitais são os responsáveis pelo Global Positioning System (GPS), que permite aos usuários encontrar sua posição em qualquer parte da Terra com precisão de poucos metros. O potencial da observação da Terra desde sua órbita tornou-se claro quando os primeiros astronautas relataram avistar nitidamente acidentes geográficos – com grande surpresa para os controladores de solo. Hoje diversos satélites de observação da Terra circulam o globo, desde os climáticos que monitoram hemisférios inteiros, até os espiões, capazes de ver detalhes inferiores a 1m. Ainda mais sofisticados são os satélites de sensorialmente remoto. Monitorando a Terra em vários comprimentos de onda, reúnem imensas quantidades de informação sobre o solo, como a direção das correntes oceânicas, a localização de depósitos mineiras e a qualidade das plantações.

Observatórios orbitais

Muitas das grandes descobertas e imagens espetaculares do Universo distante provêm de satélites. A atmosfera terrestre representa um sério problema para os astrônomos, pois filtra a maioria da radiação eletromagnética. Contudo, um telescópio no espaço coloca problemas únicos. Não só eles devem ser controlados remotamente para retornar imagens à Terra, mas também devem operar em um ambiente hostil. As flutuações de extremas temperaturas entre a iluminação solar e a escuridão podem distorcer a delicada óptica do telescópio, visto que o instrumento todo se contrai e se dilata, e assim se exige um projeto engenhoso de isolamento. Mesmo assim, o tempo de operação em órbita é limitado. Além da energia fornecida pelas células solares, os satélites demandam combustível para se reorientar no espaço e agentes resfriadores para proteger sua delicada eletrônica.

Vôos tripulados

Desde as missões Apollo, o voo espacial tripulado continuou a se desenvolver. Apesar de duas tragédias de grande impacto, em 1986 e 2003, o Space Shuttle da Nasa, a primeira espaçonave reutilizável, transformou o voo espacial em uma atividade quase rotineira. Desde seu primeiro voo em 1980, os Shuttles completaram mais de 100 missões, levando experimentos, lançando satélites, e observando a Terra e o espaço. Enquanto isso, a União Soviética desenvolver o princípio da estação espacial modular, ampliável, como a Mir (1986-2001). Os plano da Nasa de um estação espacial permanente evoluíram para um enorme projeto internacional, e quando a Estação Espacial Internacional estiver completa, o Space Shuttle terá se aposentado após 25 anos de serviço. No momento, alguns países têm planos ambiciosos do retorno do homem à Lua como estala rumo a Marte.

Além da Terra

Embora os seres humanos não tenham ainda se aventurado além da Lua, as sondas espaciais automáticas mergulharam muito mais fundo. Exploradores robóticos visitaram todos os planetas e também pesquisaram dezenas de satélites em um conjunto de corpos menores. Durante suas jornadas, transformaram nossa visão do Sistema Solar, revelando outros mundos, quase tão complexos quanto a Terra.

Primeiros passos

A primeira sonda a deixar a influência da Terra e entrar em órbita própria ao redor do Sol foi a nave soviética Lunik I (Luna I), que, em 1959, errou seu alvo, a Lua, e se tornou por acidente a primeira sonda interplanetária. Logo seguiram-se esforços deliberados da Nasa, que, entre 1960 e 1968, lançou com sucesso as Pioneer 5 a 9 em órbitas entre a Terra e Vênus. Várias dessas naves alimentadas com energia solar ainda transmitem dados científicos. Assim como havia a corrida para colocar o homem no espaço, as superpotências da Guerra Fria competiam pelo primeiro lugar na chegada a outros planetas. Em dezembro de 1962, a Mariner 2 foi a primeira sonda a realizar um sobrevôo em Vênus, medindo a temperatura extremamente alta de sua superfície, e confirmando sua rotação anormalmente lenta. A Mariner 4 sobrevoou Marte em julho de 1965, medindo sua atmosfera e fotografando seus planaltos austrais com crateras.

O sistema solar interno

Como estão mais próximos do Sol, Mercúrio e Vênus viajam mais rápidos que a Terra. Assim, a sonda deve ganhar velocidade para entrar em suas órbitas. Contudo, algumas naves superaram este desafio técnico e visitaram Vênus nos anos seguintes ao primeiro sobrevoo. Diversas sondas soviéticas tentaram o pouso na superfície hostil, apenas para serem destruídas durante a reentrada. Em 1967, Venera 4, equipada com blindagem semelhante a um tanque, enviou com êxito sinais para a Terra. Foi somente oito anos mais tarde que a Venera 9 retornou as primeiras imagens da superfície venusiana. Tanto a Nasa como os soviéticos lançaram orbitadores para fazer levantamentos do planeta desde o espaço. Em 1978, a missão Pioneer Orbiter mapeou o planeta com radar e lançou sondas atmosféricas. Em 1989, o Magellan, um orbitador da Nasa equipado com um sofisticado radar, deu início ao estudo por quatro anos do planeta, com detalhes sem precedentes. A velocidade orbital de Mercúrio representa um problema maior: até agora [2008], apenas a Mariner 10 e a Messenger o visitaram.

Perto de Marte

Os primeiros sobrevoos de Marte foram sucessos notáveis, porém não no que se refere aos trajetos de seus voos. Três sondas estadunidenses retornaram imagens de 10% da superfície marciana, mas perderam toda a evidência de vulcanismo e de água que fazem o fascínio do planeta. A sorte da Nasa mudou em 1971, quando a Mariner 9 tornou-se a primeira nave a orbitar Marte, conduzindo um levantamento fotográfico que revelou o sistema de Valles Marineris, os altíssimos vulcões da região de Tharsis, e os primeiros sinais de cânios com erosão por água. Com o redespertar do interesse pelo Planeta Vermelho, a Nasa lançou a Marte as duas naves gêmeas da missão Viking, cada uma com um lander (módulo de pouso) e um orbitador. Os orbitadores forneceram imagens e dados climáticos da superfície, além de conduzirem vários experimentos detalhados, incluindo um controverso teste de vida microbiana.

O grand tour

Os anos 1970 apresentaram uma rara oportunidade: um alinhamento de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno permitiria a uma nave viajar de um planeta a outro, usando o efeito de “estilingue gravitacional”. O chamando Grand tour levaria pouco mais que uma década. Em 1977, a Nasa lançou a Voyager 1 e 2, inicialmente tendo como alvo apenas Júpiter e Saturno. A Voyager passou por Júpiter em março de 1979 e por Saturno em novembro de 1980, fazendo a primeira aproximação rasante da sua Titã. A Voyager 2 a seguiu poucos meses depois, e, como a Voyager 1 havia completado sua missão, os cientistas da Nasa decidiram ativar seu plano de reserva, lançando sua segunda sonda ao redor de Saturno rumo a Urano, alcançando em 1986, e a Netuno, em 1989. Esta missão extremamente bem sucedida nos ofereceu os primeiros vislumbres desses gigantes exteriores gelados, de suas luas e de seus anéis. Ambas naves ainda estão viajando, além de Plutão, nos confins do sistema solar [Atualmente – 2019 –, já saíram do Sistema Solar].

Exploradores em Marte

Apesar dos sucessos dos lander Viking, as sondas não retornaram a Marte até o final da década de 1990, seguindo uma série de fracassadas missões estadunidenses e soviéticas. Em 1997, a Mars Global Surveyor da Nasa entrou em órbita em torno do planeta, equipada com câmeras de última geração, enquanto um lander, o Mars Pathfinder, liberou o jipe robô Sojourner, que coletou rochas e solo. Seguiram-se muitas outras naves, e a cada nova descoberta, a possibilidade de vida em Marte tornou-se mais plausível. Vários satélites artificiais estão em órbita ao redor do planeta, usando técnicas de sensoriamente remoto para sondar o subolo marciano. Os jipes de exploração marciana, Spirit e Opportunity descobriram evidências inegáveis sobre oceanos extensos no passado marciano. Novas missões como a Phoenix, traçam a história da água em Marte e a possibilidade de vida no planeta.

Entre as luas de Júpiter

Os sobrevoos das Voyagers sobre as enormes luas de Júpiter revelaram que elas eram mundos fascinantes merecedores de uma inspeção mais de perto. A sonda Galileo, destinada a orbitar Júpiter, foi lançada em 1989, mas somente chegou ao destino em 1995. E os resultados valeram a espera. O orbitador fez o sobrevoo rasante de um asteroide durante seu curso, e librou uma sonda na atmosfera de Júpiter, antes de começar uma missão que ultrapassaria todas as expectativas. A Galileo estudou os vulcões de Io e o sistema climático de Júpiter, enquanto deu apoio a evidência de um oceano debaixo da crosta de gelo de Europa e nas luas jovianas exteriores Ganimedes e Calisto.

Cassini e além

A Galileo foi seguida por uma missão ainda mais ambiciosa para Saturno. A Cassini, uma enorme sonda pesando 5,6 toneladas, foi lançada em 1997. Depois de uma complexa jornada durante a qual sobrevoou duas vezes Vênus e uma vez a Terra e tomou impulso em Júpiter, finalmente chegou a Saturno em 2004. A bordo havia o lander europeu Huygens, que desceu de paraquedas na atmosfera de Titã em janeiro de 2005 enviando imagens durante seu pouso e revelando um mundo no qual o metano líquido parece desempenhar o mesmo papel que a água na Terra. Cassini continuou a monitorar Saturno e a fazer voos rasantes sobre muitos dos satélites fascinantes e variados do planeta. Desse modo abrirá caminho para futuras missões orbitais ainda mais ousadas, com ao Prometheus (antes o Orbitador das Luas Geladas de Júpiter), uma nave impulsionada à energia nuclear projetada para estudar as luas de Júpiter em detalhes sem precedentes. A Prometheus será a primeira de uma nova geração de naves espaciais nucleares que abrirá o Sistema Solar a uma exploração mais rápida e ainda mais profunda.

Cometas e asteroides

Embora a maior parte das sondas tivesse os planetas como alvos os cientistas não esqueceram os corpos menores do Sistema Solar. Cometas e asteroides virtualmente inalterados desde sua formação, há 4,5 bilhões de anos, contêm indícios fascinantes sobre a criação do Sistema Solar e mesmo sobre a origem da vida. Em 1985 e 1986, quando o Cometa Halley passou novamente pelas proximidades do Sol, uma flotilha de naves dirigiu-se ao seu encontro. O NEAR (Near Earth Asteroid Rendezvous) sobrevoou o asteroide Mathilde do Cinturão principal em 1997, antes de monitorar o grande asteroide Eros por um ano. Seguiram-se missões mais ambiciosas. A Stardust, da Nasa, recolheu poeira da cauda do cometa Wild 2 em 2004, para trazer à Terra; a missão europeia Rosetta pela primeira vez colocou um lander em um cometa; e a New Horizon sobrevoará Plutão [Chegou em 2016], antes explorando o cinturão de Kuiper, o berço de muitos cometas.

O futuro do homem no espaço

É inevitável que naves tripuladas um dia se aventurem pelas profundezas do Sistema Solar. China, Rússia e Estados Unidos têm planos para um retorno à Lua, e os estadunidenses também consideram a possibilidade de uma missão a Marte. Embora possam ser abandonados, esses planos serão substituídos por outros, e no meio tempo os cientistas espaciais terão reunido os conhecimentos necessários para tornar a viagem espacial de longa duração uma realidade. A Rússia ganhou uma experiência única de microgravidade prolongada com as missões na estação espacial Mir, e a tripulação da Estação Espacial Internacional é uma fonte preciosa de informações em medicina espacial. Por outro lado, experimentos em solo, como a Biosfera 2, fornecem informações úteis sobre como os astronautas poderiam produzir seu próprio alimento, água e oxigênio em outros planetas e como uma tripulação isolada enfrentaria o confinamento em uma nave por muitos meses.

Sistema Solar | Texto
Por Robert Dinwiddie
O que é o Universo?

O Universo é tudo que existe, todo espaço e tempo e toda a matéria e energia no seu interior. O universo é inimaginavelmente vasto, e, desde sua formação, tem-se expandido, carregando e separando regiões, até a velocidade da luz, e, em alguns casos, superando-a. O Universo engloba tudo, desde o menor átomo até o maior aglomerado de galáxias, e, contudo, parece governado pelas mesmas leis básicas. Toda matéria visível (que é apenas uma pequena porcentagem da matéria total) é constituída das mesmas unidades subatômicas, e as mesmas forças fundamentais governam todas as interações entre esses elementos. O conhecimento desses princípios cósmicos operantes – desde a relatividade geral até a física quântica – fundamenta a cosmologia, o estudo do Universo como uma entidade. Os cosmólogos esperam responder questões como “Qual o tamanho do Universo?”, “Qual a sua idade?”, “Como ele opera nas maiores escalas?”.

A escala do Universo

Tudo no Universo faz parte de algo maior. A mente humana apreende com relativa facilidade a escala d terra e da Lua, mas a estrela mais próxima é remota e as galáxias mais distantes estão bilhões de vezes mais longe. Os cosmólogos, que estudam o tamanho e estrutura do Universo, usam modelos matemáticos para construir um quadro de vasta escala do Cosmos.

O tamanho do Universo

Cosmólogos podem jamais determinar exatamente o tamanho do Universo. Ele pode ser infinito. Alternativamente, poderia ter um volume finito, mas mesmo um universo finito não teria centro ou fronteira, e se curvaria sobre ele mesmo. Assim, paradoxalmente, um objeto viajando numa direção acabaria reaparecendo na direção oposta. O que é certo é que o Universo está em expansão desde sua origem no Big Bang, 13,7 bilhões de anos atrás. Estudando os padrões da radiação remanescente do Big Bang os cosmólogos podem estimar o tamanho mínimo do Universo, caso ele seja finito. Algumas partes devem estar separadas por ao menos dezenas de bilhões de anos-luz. Como um ano-luz é a distância que a luz viaja em um ano (9,46 trilhões de km), o Universo é incrivelmente grande.

O universo observável

Embora o Universo não tenha bordas e possa ser infinito, a parte dele à qual os cientistas têm acesso, é delimitada e finita. Denominada universo observável, é a região esférica em torno da Terra na qual a luz teve tempo de nos alcançar desde o início do Universo. A fronteira que separa esta região do restante do Universo é chamada horizonte de luz cósmico. A luz que chega à Terra proveniente de um objeto muito próximo deste horizonte viajou durante a maior parte da idade do Universo, isto é, 13,7 bilhões de anos. Pode-se dizer que esta luz percorreu cerca de 13,7 bilhões de anos-luz até nos alcançar. Essa distância de viagem da luz pode ser definida como distância “lookback” entre nós e o objeto remoto (já que, ao observá-lo, olhamos para trás no tempo).

Contudo, a verdadeira distância é muito maior, pois, desde quando a luz detectada na Terra deixou o objeto, ele foi arrastado para mais longe pela expansão do Universo.

Objetos celestes

O universo consiste de energia, espaço e matéria. Uma parte da matéria vagueia pelo espaço como átomos isolados ou moléculas gasosas simples. Outra se agrega em escalas diversas, desde ciscos de poeira a sóis gigantes, ou implode para formar buracos negros.

A gravidade liga todos estes objetos nas grandes nuvens e discos de matéria, as galáxias. Estas por sua vez, se ajuntam em aglomerados e formam os maiores de todos os objetos, os superaglomerados.

Gás poeira e partículas

Grande parte da matéria convencional do Universo existe como um gás tênue dentro e ao redor das galáxias, e mesmo mais diluído entre elas. O gás é constituído principalmente de átomos de hidrogênio e hélio, mas nuvens no interior das galáxias contêm átomos de elementos químicos mais pesados e moléculas simples. O gás das nuvens galácticas, está misturado com poeira —na forma de minúsculas partículas de carbono ou substâncias como silicatos (compostos de silício e oxigênio). Dentro das galáxias, gás e poeira constituem o chamado meio interestelar. Porções visíveis deste meio, muitas delas abrigando formação estelar, são as chamadas nebulosas. Algumas delas, nebulosas de emissão, produzem um brilho intenso devido a seus átomos constituintes absorverem radiação das estrelas e re-irradiarem como luz. Outras, as chamadas nebulosas escuras, são visíveis apenas como manchas que bloqueiam a luz estelar. No espaço existem também partículas de matéria na forma de raios cósmicos - partículas subatômicas de alta energia viajando a velocidades elevadíssimas através do Cosmos.

Estrelas e anãs marrons

A maior parte da luz do Universo vem das estrelas - bolas quentes de gás que geram energia a partir de fusão nuclear em seu centro. As estrelas se formam da condensação de adensamentos de gás e poeira em nebulosas, e muitas vezes, ocorrem em pares ou aglomerados. Dependendo da massa inicial as estrelas variam em cor, temperatura superficial, brilho e tempo de vida.  As estrelas mais massivas, conhecidas como gigantes e supergigantes, são as mais quentes e luminosas, mas duram apenas uns poucos milhões de anos. As estrelas de baixa massa (as mais numerosas) são pequenas, fracas, e vermelhas e podem viver bilhões de anos. Ainda menores são as anãs marrons. Estas são estrelas que falharam, com a massa e temperatura insuficientes para sustentar a fusão nuclear estelar, e emitem apenas uma débil luminosidade. Anãs marrons podem dar conta de boa parte da matéria convencional do Universo.

Remanescentes estelares

Estrelas não duram para sempre. Mesmo as menores, as anãs vermelhas, de vida mais longa, no fim se apagam. As de massa intermediária, como o Sol, expandem em grandes estrelas de baixa densidade, as chamadas gigantes vermelhas, de expelirem a maior parte de suas camadas exteriores. Elas então colapsam para formar anãs brancas que gradualmente se resfriam e se apagam. As camadas do material expulso, em expansão em volta dessas estrelas, constituem as nebulosas planetárias (embora não tenham nada a ver com planetas). Estrelas com maior massa têm fim ainda espetacular, desintegrando-se em explosões chamadas supernovas. A camada em expansão de matéria ejetada pode ser vista por milhares de anos; é o resto de supernova. Porém, nem todo material da estrela é expelido. Parte da região central colapsa em um objeto compacto extremamente denso chamado estrela de nêutrons. Estrelas de ainda maior massa colapsam em buracos negros.

Planetas e corpos menores

Acredita-se que o Sistema Solar (nossa própria estrela, o Sol, e tudo que gira em torno dele) foi formado de uma nuvem de gás e poeira que se condensou em um disco em rotação, o chamado disco protoplanetário. O material central se tornou o Sol, enquanto o material exterior formou os planetas e outros objetos menores, frios. Um planeta é uma esfera orbitando uma estrela e, diferentemente de anãs marrons, sem produzir fusão nuclear. Como há planetas e discos protoplanetários em torno de outras estrelas na nossa galáxia, é provável que planetas sejam comuns no Universo. No Sistema Solar, os planetas ou são gigantes gasosos, como Júpiter, ou corpos rochosos, menores, como a Terra e Marte. Já os corpos menores encaixam-se em diversas categorias. Luas são objetos que orbitam planetas e asteróides. Asteróides são corpos rochosos com diâmetro entre 50 m e 1.000 km. Cometas são blocos de gelo e rocha, com poucos quilômetros de diâmetro, cuja órbita chega aos confins do Sistema Solar. Planetas anões são similares a planetas, mas que, ao contrário desses, não limparam sua orbita. Meteoroides sao restos de cometas ou de asteróides destroçados.

Galáxias

O Sistema Solar ocupa apenas uma parte mínima da enorme estrutura discoidal de estrelas, gás e poeira, que é a Via Láctea. Há cerca de 100 anos, pensava-se que nossa galáxia constituía todo o Universo; poucos imaginavam a existência de qualquer coisa fora da Via Láctea. Hoje sabemos que apenas a parte observável do Universo contém mais que 100 bilhões de galáxias separadas. Elas variam de galáxias anãs, com poucas centenas de anos-luz de diâmetro e poucos milhões de estrelas a gigantes com vários trilhões de estrelas, estendendo-se por centenas de milhares de anos- luz. Além de estrelas, galáxias contêm gás, poeira e matéria escura, tudo mantido coeso pela gravidade. Há cinco formas de galáxias: espirais, espirais barradas, elípticas (desde esféricas até achatadas), lenticulares (em forma de lente), e irregulares. Astrônomos identificam as galáxias por números de um dos diversos catálogos de objetos celestes. Por exemplo, N G C 1530 indica a galáxia que é o objeto 1530 no New General Catalogue (NGC).

Buracos negros

Um buraco negro é uma região do espaço contendo no seu centro matéria comprimida até um ponto de densidade infinita, a chamada singularidade. Dentro de uma região esférica em torno da singularidade, a atração gravitacional é tão forte que nada consegue escapar, nem mesmo a luz. Buracos negros podem ser detectados, portanto, somente a partir do comportamento do material ao seu redor; aqueles
até agora descobertos tipicamente têm um disco de matéria e poeira em rotação em torno do buraco, lançando jatos de material a alta velocidade, ou emitindo radiação (como raios-X) a medida que matéria cai no buraco. Há dois tipos principais de buracos negros: os supermassivos e os estelares. Os buracos negros supermassivos, que podem ter bilhões de massas solares, habitam nos centros da maioria das galáxias, incluindo a nossa. Sua origem ainda não é bem compreendida, mas parecem ser subproduto do processo de formação de galáxias. Buracos negros estelares formam-se dos restos da explosão de estrelas supergigantes.

Aglomerados de galáxias

A gravidade agrega galáxias em aglomerados de dezenas a vários milhares de galáxias. Os diâmetros dos aglomerados variam de 3 a 30 milhões de anos-luz. Alguns têm uma região central concentrada e uma estrutura esférica bem definida; outros têm forma e estrutura irregulares. O grupo de galáxias contendo nossa própria galáxia é chamado Grupo Local. O vizinho Aglomerado de Virgo é um aglomerado irregular, com várias centenas de galáxias, situado a 50 milhões de anos-luz de nós. Cadeias de uma dúzia ou mais de aglomerados são ligadas frouxamente pela gravidade e constituem os superaglomerados, que podem ter até 200 milhões de anos-luz de extensão. Superaglomerados, por sua vez, formam espessas membranas e filamentos, entremeados com vazios de 100 milhões de anos-luz de diâmetro. As paredes e os vazios formam um rendilhado que permeia todo o universo observável.

Matéria escura e energia escura

Há muito mais matéria no Universo que aquela contida em estrelas e outros objetos visíveis. A matéria invisível é chamada “matéria escura”. Sua composição é incerta. Algumas formas dela seriam os MACHOs (objetos compactos massivos do halo) - corpos escuros planetoidais — e os WIMPs (partículas massivas fracamente interagentes) — partículas exóticas que interagem pouquíssimo com a matéria convencional. Os movimentos de galáxias em agjomerados constituem uma evidência da matéria escura. Elas se movem mais rápido que a gravidade apenas da matéria visível possa explicar; deve portanto haver uma massa adicional.

Porém, mesmo incluindo a matéria escura deduzida das observações, ela ainda é insuficiente para satisfazer as teorias de evolução do Universo. Para encontrar uma solução os cosmólogos propuseram a existência da “energia escura”, uma força que se opõe à gravidade e provoca expansão acelerada do Universo. A natureza exata da energia escura é ainda especulativa.

Matéria

Examinada na menor das escalas a matéria é composta de partículas fundamentais, algumas delas, governadas por várias forças, agrupam-se para formar átomos e íons. Mas há outras formas de matéria. A maior parte da massa do Universo consiste de “matéria escura”, cuja natureza exata é ainda desconhecida.

O que é matéria?

Matéria é tudo que possui massa – isto é, tudo que é afetado pela gravidade. A maior parte da massa da Terra é constituída por átomos e íons. Em outras partes do Universo, contudo, a matéria existe sob uma vasta gama de condições e assume uma variedade de formas. Desde o meio interestelar tênue até a matéria em buracos negros infinitamente densa. Nem toda a matéria é feita de átomos, mas toda matéria é feita de algum tipo de partícula. Certos tipos de partículas são fundamentais – isto é, elas não são compostas de subunidades menores. As partículas mais comuns da matéria convencional são os quarks e os elétrons, que constitituem os átomos e íons e formam toda matéria visível. Porém a maior parte da matéria do Universo não é convencional, mas matéria escura, constituída parcialmente de neutrinos, e talvez dos teóricos WIMPs (partículas massivas fracamente interagentes).

Átomos e íons

Átomos são compostos de dois tipos de partículas, os quarks e os elétrons. Os quarks são ligados pelos glúons, partículas sem massa mediadoras de força, em grupos de três. Estes grupos de quarks formam as partículas chamadas prótons e nêutrons. Estes se juntam nos núcleos, regiões compactas no centro dos átomos. A maior parte do átomo é espaço vazio, onde se movem os elétrons. Têm carga negativa e massa muito pequena — quase toda a massa do átomo está nos prótons e nêutrons. Átomos contêm um número igual de prótons (positivamente carregados) e elétrons (negativamente carregados), assim são eletricamente neutros. Se eles ganham ou perdem elétrons, tornam-se partículas carregadas chamadas íons.

Elementos químicos

Nem todos os átomos são iguais – eles têm diferentes números de prótons, neutros e elétrons. Uma substância constituída de átomos de uma só espécie é chamada elementos químicos, que recebe um número atômico igual ao se número de prótons, e assim de elétrons, em seus átomos. Exemplos são o hidrogênio com número atômico 1 (os átomos de hidrogênio contêm um próton e um elétron), hélio (número atômico 2) e carbono (número atômico 6). Os átomos de um dado elemento têm todos o mesmo número de prótons, e, contém a mesma configuração eletrônica, única deste elemento, e responsável por suas propriedades químicas específicas. O universo primitivo consistia quase que inteiramente de elementos mais leves, hidrogênio e hélio. A maioria dos demais, incluindo elementos comuns como oxigênio, carbono e ferro, foram criados em estrelas e explosões estelares.

Compostos químicos

A maior parte da matéria no Universo consiste de átomos não-ligados ou íons de uns poucos elementos químicos, mas uma parte significativa existe como compostos, contendo átomos de mais de um elemento, unidos por ligações químicas. Compostos aparecem em corpos como planetas e asteróides, em organismos vivos e no meio interestelar. Em compostos iônicos, como os sais, os átomos permutam elétrons, e os resultantes íons carregados são ligados por forças elétricas, e arranjados em uma rede cristalina rígida. Em compostos covalentes, como a água, os átomos formam estruturas chamadas moléculas pela partilha de elétrons entre si. Dois ou mais átomos idênticos podem combinar-se para formar moléculas de certos elementos.

Estados da matéria

A matéria convencional existe em quatro estados: sólido, líquido, gasoso, e plasma. Eles diferem com respeito à energia das partículas da matéria (moléculas, átomos, ions) e à liberdade de movimento das partículas. Substancias podem sofrer transições de um estado a outro, por exemplo, ao perder e ganhar energia. Os constituintes de um sólido estão presos por fortes ligações e mal podem se mover, enquanto em líquido, estão conectados apenas por ligações fracas e têm liberdade de movimento. Em um gás, as partículas são ligadas muito fracamente e se movem com grande liberdade, ocasionalmente colidindo. Um gás se toma um plasma quando é tão quente que colisões começam a remover elétrons dos átomos. Um plasma, portanto, consiste de íons e elétrons movendo-se com extrema energia. Como as estrelas são feitas de plasma, ele é o estado da matéria convencional mais comum no Universo seguido pelo estado gasoso.

Forças no interior da matéria

As ligações que unem os constituintes dos sólidos, líquidos, gases e plasmas são baseadas na força eletromagnética (EM). Essa força atrai as partículas de carga elétrica de sinal oposto e repele as de mesmo sinal. Essa é uma das três forças que controlam a estrutura de pequena escala da matéria. As outras são a força nuclear forte, composta de parte fundamental e residual, e a força nuclear de interação fraca. Em conjunto com a força da gravidade formam as quatro forças fundamentais da natureza. As forças EM, fraca e forte são mediadas por partículas portadoras de forças, que pertencem a um grupo de partículas chamadas bósons. A força EM, além de ligar átomos em sólidos e líquidos, prende os elétrons aos átomos. A força forte mantém coesos os prótons, os nêutrons, e os núcleos atômicos. A força fraca causa o decaimento radioativo e outras interações nucleares.

Física de partículas

Por décadas, físicos contribuíram para uma melhor compreensão da matéria e das quatro forças fundamentais. Parte da motivação foi esclarecer o que ocorreu no universo primitivo, logo após o Big Bang. A pesquisa concentrou-se em destroçar partículas em dispositivos chamados aceleradores de partículas. Estes experimentos identificaram centenas de partículas (a maior parte delas altamente instáveis), que diferiam em suas massas, cargas elétricas, outras propriedades como “spin”, e nas forças fundamentais às quais estão sujeitas. As partículas conhecidas e suas interações são comumente explicadas pela teoria de modelo padrão da física de partículas, que explica as propriedades da maioria das partículas. Uma exceção é o gráviton, partícula hipotética que se crê ser a portadora da força da gravidade. A gravidade não se ajusta ao esquema, porque a melhor teoria da gravidade (relatividade geral) é incompatível com aspectos do modelo padrão. Novas teorias, como a teoria de cordas tentam unificar gravidade com física de partículas.

Fissão e fusão nuclear

Os físicos do século 20 descobriram que os núcleos atômicos não são imutáveis mas podem ser quebrados ou fundidos. Na natureza, núcleos atômicos instáveis se partem espontaneamente, produzindo partículas e energia, sob a forma de radioatividade. De um modo similar, no processo artificial de fissão nuclear, grandes núcleos são intencionalmente cindidos em partes menores, com imensa liberação de energia. Numa escala cósmica, um fenômeno mais importante é a fusão nuclear. Neste processo núcleos atômicos se fundem, formando um núcleo maior e liberando energia. A fusão alimenta as estrelas e cria os átomos dos elementos químicos mais pesados que o berílio. A reação de fusão nuclear mais comum em estrelas é a que funde quatro núcleos de hidrogênio (prótons) num de hélio. Nesta e em outras reações de fusão, os produtos da reação têm massa ligeiramente menor que a massa combinada dos reagentes. A massa faltante se converte em imensas quantidades de energia, de acordo com a famosa equação de Einstein E=mc2, relacionando energia (E), massa (m) e a velocidade da luz (c).

Radiação

A radiação é energia na forma de ondas ou partículas emitidas por uma fonte e pode viajar através do espaço e de alguns tipos de matéria. A radiação eletromagnética (EM) inclui luz, raios-X e radiação infravermelha. A radiação de partículas consiste de partículas carregadas com altas velocidades, como raios cósmicos e partículas emitidas no decaimento radioativo. A radiação EM é de longe a mais importante na astronomia.

Radiação eletromagnética

Energia na forma de radiação EM é um dos dois principais componentes do Universo; o outro é a matéria. Este tipo de radiação é produzido pelo movimento de partículas eletricamente carregadas, como os elétrons. Uma carga em movimento produz um campo magnético. Se o movimento não é constante, então o campo magnético varia e produz um campo elétrico. Interagindo, os dois campos se sustentam mutuamente e se propagam no espaço, transferindo energia. Além da luz visível, a radiação EM inclui ondas de rádio, microondas, radiação infravermelha (calor), radiação ultravioleta, raios-X, e raios gama. Todos estes fenômenos viajam pelo espaço vazio à velocidade da luz, que é de aproximadamente 300.000 km por segundo, ou cerca de 1 bilhão de km/h.

Comportamento ondulatório

Na maior parte dos casos a radiação EM age como uma onda – uma perturbação transportando energia de um local para o outro. Ela tem propriedades como comprimento de onda (distância entre duas cristas sucessivas da onda), e frequência (número de ondas passando por um dado ponto por segundo). Sua natureza ondulatória é demonstrada por experimentos como o da fenda dupla, no qual ondas de luz se difratam (se espalham) depois de passar por fendas, e interferem uma na outra pela superposição de suas cristas e depressões. As formas de radiação EM diferem somente no comprimento de onda, mas isso afeta outras propriedades, como o poder penetrante e a capacidade de ionizar átomos.

Comportamento corpuscular

Radiação EM tem um comportamento ondulatório, mas também consiste de pequenas porções ou “quanta” de energia chamadas fótons. Eles não têm massa mas transportam uma quantia fixa de energia. A energia de um fóton depende de seu comprimento de onda – quanto mais curto, mais energético. Por exemplo, fótons de luz azul (onda curta) são mais energéticos que fotos de luz vermelha (onda longa). Uma demonstração clássica das propriedades de partículas da luz é fornecida por um fenômeno chamado efeito fotoelétrico. Se uma luz aul ilumina uma superfície de metal, ela faz com que os elétrons sejam ejetados do metal, enquanto um luz vermelha mesmo brilhante não produz esse efeito.

Analisando a luz

A radiação de um corpo celeste é uma mistura de comprimentos de onda. Quando passa através de um prisma a luz é separada nos comprimentos de onda que a compõem, formando um registro chamado espectro. O espectro de uma estrela em geral contém linhas escuras, as linhas de absorção, causadas pelos fótons de determinados comprimentos de onda absorvidos por átomos da atmosfera estelar. As linhas são usadas para identificar elementos químicos. O espectro de uma nebulosa também pode revelar sua composição. Quando lluminada por uma estrela próxima, os átomos da nebulosa emitem sua própria luz. O espectro resultante, neste caso um espectro de emissão, consiste de séries de linhas brilhantes, características de diferentes elementos.

Redshift e Blueshift

O espectro da radiação recebida por um observador se desloca em comprimentos de onda, se a fonte da radiação se move em relação ao observador — e objetos celestes estão sempre em movimento. Os astronômos podem medir os deslocamentos nos comprimentos de onda de linhas características com respeito a seus valores em laboratório, que são de fontes em repouso. Observadores de um objeto afastando-se, vêem suas linhas espectrais deslocadas para maiores comprimentos de onda (deslocamento para o vermelho, redshift). Já objetos em aproximação apresentam deslocamento das linhas para menores comprimentos de onda (deslocamento para o azul, blueshift). Galáxias distantes têm grandes redshifts, indicando que estão se afastando a enormes velocidades.

Ao longo do espectro

Objetos celestes podem emitir ao longo de todo e espectro EM, desde as ondas de rádio, passando pelo visível, até os raios gama. Alguns objetos complexos como galáxias e restos de supernovas, brilham em quase todos os comprimentos de onda. Objetos frios tendem a irradiar fótons com menor energia e portanto somente são visíveis em comprimentos de onda mais longos. Em direção ao extremo de raios gama do espectro, os fótons são cada vez mais energéticos. Raios-X de alta energia e raios gama originam-se apenas de fontes extremamente quentes, como o gás de aglomerados de galáxias ou de eventos violentos, como buracos negros engolindo matéria. Para detectar todos estes tipos de radiação e obter imagens, os astrônomos usam uma variedade de instrumentos — cada tipo de radiação tem propriedades diferentes e deve ser coletada e focalizada de um modo particular. A radiação em muitos comprimentos de onda não pode chegar até a superfície terrestre, e é detectável apenas por observatórios orbitando acima da atmosfera.

Gravidade, movimento e órbitas

Gravidade é a força atrativa que existe entre todo objeto no Universo, que tanto mantém coesas estrelas e galáxias, como faz com que um alfinete caia. A gravidade é mais fraca que outras forças fundamentais da natureza, mas, por agir a grandes distâncias, e entre todos os corpos com massa, desempenha o papel de moldar o Universo. Gravidade também é essencial para determinar órbitas e criar fenômenos como anéis planetários e buracos negros.

Gravitação newtoniana

O estudo científico da gravidade começou por volta de 1590, quando Galileu Galilei demonstrou que objetos de diferentes pesos caem com exatamente a mesma taxa de aceleração. Em 1665 ou 1666, Isaac Newton percebeu que a mesma força que causa a queda dos corpos deveria estender-se ao espaço e ser responsável por manter a Lua em sua órbita. Analisando os movimentos de diversos corpos celestes, Newton formulou sua lei da gravitação universal, segundo a qual todo corpo no universo exerce uma força atrativa (gravidade) em todo outro corpo. A lei também descreve como essa força varia com as massas dos corpos e sua separação. Até hoje permanece aplicável para a compreensão e previsão dos movimentos da maioria dos objetos astronômicos.

Leis do movimento de Newton

A partir dos seus estudos da gravitação e dos movimentos dos corpos celestes, e estendendo conceitos desenvolvidos por Galileu, Newton formulou suas três leis do movimento. Antes de Galileu e Newton pensava-se que um objeto em movimento continuaria a se mover somente se uma força agisse sobre ele. Em sua primeira lei do movimento Newton contradiz essa ideia: um objeto permanece em movimento uniforme ou em repouso a menos que uma força resultante agisse sobre ele (uma força resultante é a soma de todas as forças agindo sobre o objeto). A segunda lei de Newton afirma que a força resultante no objeto causa sua aceleração (altera sua velocidade) numa taxa diretamente proporcional à magnitude da força. Ela também sustenta que, dada uma força, quanto menor a massa do objeto maior sua aceleração. A terceira lei afirma que cada ação corresponde a uma reação igual e oposta — por exemplo, a atração gravitacional da Terra na Lua é a mesma que a atração da Lua na Terra.

Peso e queda livre

A magnitude da força gravitacional agindo sobre um objeto é chamada peso. A massa de um objeto (medida em quilogramas) é constante, enquanto que seu peso (medido em newtons) varia de acordo com a força da gravidade local. Uma massa de 1kg pesa 9,8 newtons na Terra, mas somente 1,65 newtons na Lua. O peso pode ser mensurado, e só se pode sentir a sensação de peso quando a força da gravidade encontra a reação de uma segunda força oposta a ela. Uma pessoa de pé sobre a Terra sente o peso nem tanto pela atração gravitacional, mas pela resistência do chão empurrando seus pés. Uma pessoa orbitando em torno da Terra está de fato caindo em direção à Terra sob a ação da gravidade. Tal pessoa em “queda livre” experimenta uma aparente imponderabilidade. Isto ocorre não pela falta da gravidade, mas pela ausência de uma força opondo-se à ela.

Formato da órbitas

Quando um objeto orbita outro de massa maior, ele está em queda livre em direção ao corpo maior. Ele experimenta uma aceleração gravitacional em direção ao objeto maior que curva uma trajetória, que seria retilínea, para uma trajetória curvada. Tanto a direçãodo movimento como a da aceleração mudam constantemente, produzindo um trajeto curvo. Todas as órbitas fechadas na natureza têm a forma de uma elipse. O rau de desvio de uma elipse de um círculo perfeito é chamdo excentricidade. Muitas órbitas no Sistema Solar têm baixa excentricidade – isto é, são quase circulares. Outras, como a órbita de Plutão em torno do Sol, têm uma excentricidade elevada, sendo bem alongadas. Alguns objetos celestes seguem órbitas abertas, sem retorno; as curvas destas órbitas são de dois tipos: as parábolas e as hipérboles.

Corpos compactos em rotação

Estrelas, pulsares, galáxias e planetas todos têm rotação, governada pela lei de conservação do momento angular. O momento angular de um objeto é relacionado a sua energia rotacional, que depende da distribuição de massa do objeto e da rapidez de seu giro. O momento angular de qualquer objeto em rotação permanece constante. Assim se a gravidade provocar sua contração, sua taxa de giro aumentará para compensar a redistribuição de massa. Portanto, objetos compactos em rápida rotação tendem a formar corpos difusos em lenta rotação.

Espaço e tempo

A maioria das pessoas partilha algumas noções do senso comum sobre o mundo. Uma é que o tempo passa na mesma velocidade para todos. Outra é que o comprimento de um objeto não varia. Porém, estas ideias, que já foram base sólida para as leis da física, são uma ilusão: elas se aplicam somente ao campo restrito de situações com as quais as pessoas estão familiarizadas. De fato, espaço e tempo não são absolutos, mas se distendem ou se dobram dependendo do ponto de vista relativo. E mais, a presença da matéria distorce tanto tempo como espaço para produzir gravidade.

Problemas com o universo newtoniano

Os problemas com a visão newtoniana de espaço e tempo começaram a aparecer no final do século XIX. Até então os cientistas supunham que as posições e movimentos dos objetos no espaço pudessem todos ser medidos em relação a um “referencial” absoluto, imóvel, eu imaginavam ser preenchido com um meio invisível chamado “éter”. Contudo, em 1887, um experimento para medir o movimento da Terra através desse éter produziu resultados inesperados. Em primeiro lugar, não detectou o éter. Em segundo, indicou que a luz sempre viaja à mesma velocidade relativamente a um observador, não importando seu movimento. Esta descoberta sugeria que a luz não segue as mesmas regras de movimento relativo que governa objetos do dia-a-dia, como carros e projéteis. Por exemplo, se uma pessoa correr atrás de uma bala à metade da velocidade do projétil, ela verá a bala afastar-se na metade da velocidade que relativa pessoa parada. Porém, se uma pessoa correr atrás de um onda de luz na mesma velocidade da luz, a onda continuaria a se afastar exatamente na mesma velocidade.

Relatividade especial

Em 1905, Albert Einstein rechaçou a ideia de que houvesse qualquer referencial absoluto ou “privilegiado” no Universo. Ele também rejeitou a ideia de que o tempo é absoluto, sugerindo que o tempo não corre na mesma velocidade em todas as situações. Para substituir as antigas ideias ele formulou a teoria especial da relatividade, chamada “especial” porque é restrita a referenciais com movimento retilíneo uniforme (ou seja, sem estar acelerados por uma força). Toda sua teoria baseia-se emdois princípios. O primeiro deles, o chamado princípio da relatividade, estabelece que a forma das leis físicas não muda entre referenciais em movimento uniforme entre si. O segundo afirma que a velocidade da luz é constante, independentemente da velocidade do observador ou da fonte de luz. Einstein reconheceu que esse último princípio conflita com a noção comum sobre como velocidades se somam; além disso, combinado com o primeiro princípio leva a resultados, não-intuitivos.

Efeitos da relatividade especial

Os resultados decorrentes da relatividade especial são surpreendentes. No começo do século XX, Einstein postulou que, para a luz ser a mesma em todos os referenciais, as medidas de spaço e tempo devem sofrer transformações ao se passar de um referencial a outro. Essas transformações fazem com que o comprimento de um objeto a alta velocidade seja manor que em repouso – o chamado contração de Lorentz. Além disso, o tempo de um objeto a alta velocidade parece correr mais devagar – o efeito denominado dilatação dos tempos. Assim medidas de tempo e espaço variam entre referenciais em movimento. Einstein também mostrou que um objeto ganha massa quando sua energia aumenta, e perde quando ela diminui. Isto o levou a perceber que massa e nergia são equivalentes, o que expressou na sua famosa equação E (energia) = m (massa) x e2(velocidade da luz ao quadrado).

Espaço-Tempo

Uma implicação adicional da relatividade especial e que tempo e espaço estão intimamente ligados. Quando dois eventos ocorrem em locais separados, o espaço entre eles é ambíguo, porque observadores viajando a diferentes velocidades e em distâncias diferentes. O tempo decorrido entre os eventos também depende do movimento de cada observador. Contudo, pode-se utilizar métodos matemáticos para medir a separação de eventos, com uma combinação de espaço e tempo, que forneça valores sobre os quais todos os observadores concordem. Isso levou à ideia de que os eventos no Universo não mais podem ser descritos em três dimensões, mas em um mundo quadridimensional, incorporando o tempo, o espaço-tempo. Neste sistema, a separação entre dois eventos é descrita por uma quantidade chamada intervalo espaço-tempo.

Movimento acelerado

Após completar seu estudo da relatividade no caso de referenciais em movimento uniforme (referenciais inerciais), Einstein voltou-se para movimentos não-uniformes, com aceleração. Em particular, ele examinou as relações entre gravidade e aceleração. Isso o levou a formular uma proposição chamada princípio da equivalência, que descreve gravidade e aceleração como diferentes perspectivas da mesma coisa. Especificamente, Einstein afirmou ser impossível qualquer experimento distinguir entre repouso em um campo gravitacional uniforme e aceleração. Ilustrou essa ideia com a imagem de um cientista dentro de uma caixa fechada, sob várias condições de aceleração e gravidade. Partindo do princípio da equivalência, Einstein, em 1915, acabou de desenvolver sua maior e mais complexa obra prima, a teoria da relatividade geral, que fornece uma nova descrição da gravidade.

Luz e gravidade

Visualizando experimentos em referenciais acelerados e usando o princípio da equivalência para transpô-los a situações gravitacionais. Einstein postulou que a luz, apesar de não ter massa, deveria seguir uma trajetória curvada em um campo gravitacional. Embora não tivesse evidência direta de que isso fosse verdade, estava convencido que seria assim (em 1919, observações astronômicas de um eclipse solar provaram este efeito). Prosseguindo em sua ideia, Einstein teorizou que campos gravitacionais poderiam ser produzidos por grandes massas ou concentrações de energia provocando um distorção na forma do espaço-tempo. Desse modo a luz se curva em torno de grandes massas, devido à curvatura do espaço-tempo causada pela massa. Similarmente, um planeta em órbita de uma estrela, com ao Terra em torno do Sol, segue uma trajetória curva porque o espaço-tempo é curvado na vizinhança da estrela e o caminho mais curto do planeta através desta região distorcida é uma curva.

Relatividade geral em ação

Einstein exprimiu sua teoria de como a massa distorce o espaço-tempo em suas “equações de campo”. Os físicos, usando essas equações, descobriram que é nos campos gravitacionais mais intensos —onde objetos massivos e densos distorcem fortemente o espaço-tempo — que a realidade mais se desvia das previsões de Newton. Por exemplo, Mercúrio é tão próximo do Sol que ele se move num campo gravitacional intenso (num espaço-tempo fortemente curvado). Sua órbita revolve de um modo não previsto pela mecânica de Newton, mas que a relatividade geral explica perfeitamente. A relatividade geral também fornece uma base para modelos da estrutura, desenvolvimento e destino final do Universo. Ela prevê que o Universo pode estar em expansão ou contração. Antes da introdução da teoria da relatividade, pensava-se espaço e tempo apenas como palcos onde ocorriam os eventos. Após a relatividade geral, percebeu-se que espaço e tempo são entidades dinâmicas que podem ser afetadas por massa, forças e energia.

Gravidade quântica

Embora a relatividade geral descreva com precisão o Universo em grande escala, tem pouco a dizer sobre o mundo subatômico, no qual muitos cientistas creem que a gravidade tenha sua origem. Este mundo subatômico foi modelado por outra grande teoria física, a mecânica quântica, que, por sua vez, tem pouco a dizer sobre a gravidade. Aparentemente há pouco de comum entre as interações lisas, previsíveis do espaço-tempo e matéria previstas pela relatividade geral, e o mundo subatômico descontínuo descrito pela mecânica quântica, onde mudanças de energia e matéria ocorrem em saltos discretos, os quanta. Um objetivo central da física moderna é encontrar uma teoria unificadora – uma “teoria quântica da gravidade” ou “teoria de tudo” – que unifique relatividade e mecânica quântica, e harmonize a gravidade com as outras forças fundamentais da natureza. Uma das grandes esperanças é a teoria das cordas. A maior parte das teorias de tudo supõe que o Universo tem mais dimensões que as facilmente observáveis, três do espaço e uma do tempo.

Espaço em expansão

Uma propriedade crucial do Universo é que ele está em expansão. Ele deve estar aumentando, porque as galáxias mais distantes estão distanciando-se rapidamente da Terra e as mais distantes se afastam ainda mais rápido. Supondo que o Universo sempre esteve em expansão, ele deve já ter sido menor e mais denso — algo que fundamenta a teoria do Big Bang para a origem cósmica.

Medindo a expansão

A taxa de expansão do Universo pode ser calculada comparando-se as velocidades de recessão das galáxias remotas às suas distâncias até nós. As velocidades são medidas a partir dos redshifts do espectro de sua luz. As distâncias são inferidas indiretamente. Por exemplo: detecta-se nas galáxias estrelas variáveis de uma classe chamada Cefeidas; mede-se o período da variação do seu brilho; a partir dele se deduz a luminosidade real da estrela; compara-se esta com o brilho aparente e se obtém a distância. A taxa de expansão do Universo é conhecida como a constante de Hubble. O valor desta constante é atualmente aceito como sendo cerca de 22 km/s por milhão de anos-luz. Assim, duas galáxias separadas por 1 bilhão de anos-luz afastam-se uma da outra a 22.000 km/s. Na verdade, trata-se de uma expansão bem gradual — um aumento de 1% da separação entre as galáxias leva dezenas de milhões de anos.

A natureza da expansão

A expansão do Universo apresenta várias características notáveis. Primeiro, todas as galáxias distantes se afastam, não importando se a Terra ou outro ponto no espaço esteja no centro do Universo. De fato, todos os pontos se afastam uns dos outros, e não há um centro. Em segundo lugar, numa escala local, a gravidade domina sobre a expansão cosmológica e agrega a matéria. A escala em que isso ocorre é muito grande — os aglomerados de galáxias resistem à expansão e se mantêm ligados. Em terceiro lugar, é incorreto pensar que as galáxias se afastam uma das outras, movendo-se no espaço. É o próprio espaço que se expande e arrasta as galáxias consigo. Finalmente, a taxa de expansão varia. Os cosmólogos se interessam muito em estabelecer a evolução futura da taxa de expansão, cuja forma decidirá o destino final do Universo.

Tempo e espaço em expansão

Sua expansão continuada, junto com a velocidade constante da luz, transforma o Universo em uma verdadeira máquina no tempo. A luz de uma galáxia remota leva bilhões de anos para chegar à Terra e assim os astrônomos veem a galáxia como era há bilhões de anos. De fato, quanto mais fundo os astrônomos olham no espaço, mais eles mergulham no passo da história do Universo. Nas regiões mais remotas, só há galáxias incompletamente formadas com a aparência que tinham logo após o Big Bang. As galáxias mais distantes e fracas afastam-se de nós a velocidades próximas das da luz. Se os astrônomos pudessem observar tais objetos por milhões de anos, eles as veriam evoluir mais lentamente que se estivessem próximas de nos e não tivessem sido arrastadas para tão longe. A distâncias ainda maiores, além do Universo observável, pode haver objetos que se afastaram tão rápido que sua luz nunca alcançou a Terra.

Distância Lookback

A expansão do Universo complica a expressão de distâncias de objetos muito remotos, em particular daqueles que observamos agora como eram há mais de 5 bilhões de anos. De fato, há várias definições de distância (fornecendo números distintos para objetos remotos), entre elas a distância “lookback” ou distância de “tempo de viagem da luz”, pois olhamos para trás no tempo (“lookback”) em observações profundas. Essa distância exprime quanto tempo a luz do objeto percorreu no espaço até nos alcançar. Mas, como o espaço se expandiu nesse ínterim, a distância da galáxia quando a luz começou sua jornada à Terra e menor que a distância lookback. Ao contrário, a distância “real” ao objeto remoto, a chamada distância “comóvel”, é maior que a distância lookback. Deve-se lembrar de tais distinções quando se afirma, por exemplo, que uma galáxia está a 10 bilhões de anos-luz.

Universo | Texto
Por John Updike
Visões de Marte

Mesmo depois de Copérnico ter proposto, em 1543, que o Sol, e não a Terra, ocupava o centro do nosso cosmo, a excentricidade dos movimentos celestes de Marte continuou a ser um enigma, até que, em 1609, Johannes Kepler mostrou que todas as órbitas planetárias eram elípticas (e não circulares), com o Sol situado em um dos focos da elipse. Nesse mesmo ano, pela primeira vez, Galileu observou o planeta com um telescópio. Até meados do século 17, esse equipamento foi de tal maneira aperfeiçoado que permitiu ver as calotas de gelo polares que cresciam e encolhiam segundo as estações, assim como acidentes geográficos, caso de Syrtis Major, um trecho escuro que era considerado um mar raso. O italiano Giovanni Cassini foi capaz de observar certas estruturas com a exatidão adequada para calcular a rotação do planeta. O dia marciano, concluiu, era 40 minutos mais longo que as nossas 24 horas (ele equivocou-se em apenas três minutos). Enquanto Vênus, um planeta vizinho maior e mais próximo, estava oculto por insondável cobertura de nuvens, Marte exibia uma superfície tão parecida com a terrestre que logo surgiram especulaçõe sobre a presença de formas de vida.

Telescópios potentes, ainda que prejudicados pelo efeito anuviador da espessa atmosfera de nosso planeta, tornaram possíveis mapas cada vez mais detalhados de Marte, delineando mares e até pântanos em áreas em que uma cobertura vegetal surgia e sumia ao sabor dos limites das calotas polares. Um dos mais acurados cartógrafos do planeta foi Giovanni Schiaparelli, que empregou o termo italiano canali para se referir às interligações lineares que notou entre supostos corpos dagua. O termo poderia ser traduzido para “conexões”, mas a palavra “canais” cativou a imaginação de todos, sobretudo a de Percival Lowell, um rico erudito de Boston que, em 1893, passou a defender a ideia de que os canais eram artefatos de uma civilização marciana. Como astrônomo, Lowell era amador, mas não maluco.

Ele construiu seu próprio observatório nas cercanias de Flagstaff, no Arizona, a mais de 2 mil metros de altitude e, em suas palavras, “longe da fumaça dos homens”. Seus desenhos da superfície de Marte foram considerados melhores que os de Schiaparelli até mesmo por astrônomos hostis a suas teorias. Lowell sugeriu que Marte era um planeta agonizante, cujos habitantes inteligentes estavam combatendo o ressecamento de seu globo com um sistema de canais de irrigação, os quais distribuíam a água cada vez mais rara armazenada nas calotas polares.

Tal concepção foi dramatizada por H.G. Wells em um clássico da ficção científica, A Guerra dos Mundos (1898). Os marcianos que invadem a Terra, embora de aparência medonha e impiedosos em suas ações, ainda assim são merecedores de uma dose de imparcial simpatia humana. Dotados de equipamentos avançados e inteligência apurada, eles espiam com inveja através do espaço o “nosso planeta mais cálido, esverdeado pela vegetação e acinzentado pela água”. [88]

No meio século subsequente de fantasia marciana, o planeta ocupou a posição de gêmeo espectral da Terra, sobre o qual eram projetadas nossas preocupações e angústias terrenas. Questões contemporâneas, como o colonialismo e o esgotamento dos recursos naturais encontraram espaço em utopias marcianas. Um ramo menor da ficção científica mostrou Marte como o local de uma pós-vida cristã; no livro Out of the Silent Planet (1938), C.S. Lewis inventou um mundo, Malacandra, que não conhecia o pecado original. A série de romances marcianos de Edgar Rice Burroughs apresentava o planeta como uma fronteira agreste e racialmente diversificada. Na esteira de Burroughs, os livretos de ficção acasalavam terrestres e marcianos, estes últimos em geral sob a forma de uma donzela, reunida a um viril agressor ariano originário de nosso violento planeta. Os etéreos e mulatos marcianos de olhos amarelos nas Crônicas Marcianas (1950), de Ray Bradbury, são extintos em meio à brutal pilhagem realizada por invasores humanos.

Contudo, toda a excêntrica megafauna marciana - os coriáceos amálgamas com tentáculos e cabeça desproporcional imaginados por Wells; os indivíduos quase rubros com 5 metros de altura concebidos por Garrett Serviss; os tharks cor de oliva com 3 metros e quatro braços de Burroughs; os hrossa parecidos com castores e os exímios pfiftriggi criados por Lewis; e as “criaturas grandes como ursos-polares” que Carl Sagan imaginou -, tudo isso se viu relegado ao esquecimento após a divulgação das fotos efetuadas pela sonda Mariner 4 em 14 de julho de 1965, desde uma altitude de 10 mil quilômetros. A região de Marte captada em sua primitiva câmera digital não mostrava nenhum canal, nenhuma cidade, nenhuma água e nenhum sinal de erosão. Marte era mais parecido com a Lua que com a Terra. As crateras intocadas indicavam que as condições da superfície não se tinham alterado em mais de 3 bilhões de anos. O planeta estava morto.

Duas outras sondas Mariner, lançadas em 1969, enviaram 57 imagens que, nas palavras da Nasa, “revelavam que Marte era coberto de crateras, estéril, gélido, quase sem atmosfera e inóspito a qualquer tipo de forma de vida similar às terrestres”.Noentanto, a Mariner 9, uma sonda orbital enviada em 1971, transmitiu, ao longo de 146 dias, 7 mil fotos de uma topografia variada e violenta, com imensos vulcões, dos quais o maior, o Olympus Mons, chega a 20 quilômetros de altitude, e um sistema de desfiladeiros, Valles Marineris, que se estende por 4 mil quilômetros, [89] a distância entre Nova York e Los Angeles. Enormes leitos fluviais escavados e ilhas em forma de lágrima atestam a ocorrência de inundações maciças no passado, presumivelmente de água, a condição da vida como a conhecemos aqui. Em 1976, duas sondas Viking pousaram bem na superfície marciana, e ali realizaram engenhosos experimentos químicos cujos resultados, no que tange à existência de vida no planeta, ainda hoje continuam a provocar discussões.

Nesse meio tempo, aumentou nosso conhecimento geográfico e geológico de Marte. O triunfante passeio do pequeno robô Sojourner, em 1997, foi seguido, em 2004, do êxito de dois robôs móveis, o Spirit e o Opportunity. Após quatro anos de movimentação no planeta vermelho, movidos por energia solar, os robôs gêmeos nos enviaram imagens com detalhes jamais vistos. As marcas paralelas das esteiras do Spirit e do Opportunity abrem caminho por entre rochas e poeira que durante eternidades não foram perturbadas sob céus rosados e Sol perolado.

Agora a missão Phoenix, cuja sonda possui braço articulado, coletores, imageadores e analisadores de excepcional complexidade, vai nos revelar o que há nos centímetros abaixo da superfície de pó, areia e gelo na região polar setentrional de Marte. Punhados da matéria de outro planeta terão seus elementos químicos volatilizados, separados e identificados, fornecendo mais dados sobre a história do cosmo. Enquanto isso, a Mars Reconnaissance Orbiter, a mais nova das três sondas em órbita ao largo do planeta, alimenta os computadores da Universidade do Arizona com fotos nítidas dos acidentes da superfície marciana. Algumas dessas imagens colorizadas artificialmente parecem abstratas, mas, para quem sabe ver, trazem incrível quantidade de informações científicas.

No fim das contas, o planeta vermelho não está tão morto assim: avalanches e tempestades de poeira foram registradas pelas câmeras e, nos pólos, a sublimação sazonal de gelo seco produz erosão e deslocamentos do solo. As dunas mudam de lugar; remoinhos de pó inscrevem garatujas na frágil superfície. Descubram-se ou não indícios de vida microbiana ou liquenácea em meio à montanha de dados acumulados pelos cientistas, Marte vem se tornando um vizinho cada vez mais próximo, e uma província do saber humano. Aquelas visões obscuras e fantasiosas do planeta do fogo bruxuleante acabaram nos proporcionando imagens panorâmicas e próximas mais belas que qualquer coisa imaginada. [91]

Sistema Solar | Texto
Por José Roberto V. Costa
Zoológico espacial

Estrelas, planetas rochosos e gasosos, planetas anões, satélites, cometas e asteróides... Quais as diferenças entre todos eles? Chegou a hora de tirar todas as suas dúvidas e saber quem é quem neste verdadeiro zoológico espacial. Então, sem mais demora, vamos logo a classificação desses "bichos"! O Sol é uma estrela - uma estrela anã. Existem estrelas de volumes, massas e cores variadas. Mas há algo em comum a todas elas. As estrelas são constituídas, em sua maior parte, de hidrogênio e o hélio. Esses gases estão na forma de plasma, o quarto estado da matéria. Toda estrela é um corpo celeste feito de plasma que se mantém coeso devido a força gravitacional de sua enorme massa.

Mais uma coisa: em qualquer estrela ocorrem reações termonucleares. Reações no núcleo do átomo, convertendo hidrogênio em hélio (e hélio em outros elementos) com enorme liberação de energia. Estrelas geram radiação eletromagnética (luz visível, radiação e calor) em quantidades extraordinárias.

Estrelas não são habitáveis, mas somente graças a elas a vida pode surgir em algum planeta ao redor. Planetas não emitem luz e radiação como as estrelas. Mas além disso, para que um corpo celeste ser chamado de planeta ele deve:1) estar em órbita ao redor do Sol, 2) ter uma forma arredondada e3) ser um objeto de dimensão predominante entre os demais que estiverem em órbitas vizinhas.

O resultado prático dessa definição é que o Sistema Solar fica com oito planetas: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Uranoe Netuno.

Plutão, que foi descoberto em 1930, possui características físicas e orbitais que só recentemente foram melhor compreendidas pelos astrônomos. Por isso ele passa a integrar uma nova classe de objetos, os planetas anões. Pela definição, o Sistema Solar tem hoje cinco planetas anões: Plutão, Ceres, Éris, Haumea e Makemake. Esses astros não se encaixam no item 3 da definição de planeta apresentada acima.

Planetas extrasolares
A DEFINIÇÃO DE PLANETA, porém, foi pensada para o Sistema Solar. Para os planetas fora do domínio do Sol - os chamados extrasolares ou exoplanetas - as peculiaridades de cada sistema devem ser levadas em conta. Em comum a todos os planetas está o fato desses astros não produzirem energia por meio de reações termonucleares (como fazem as estrelas).

No final, contexto e localização definem quem é planeta e quem não é. E no reino das outras estrelas os astrônomos já identificaram tipos curiosos, como a Superterra - nada mais que um planeta rochoso maior que o nosso; o Júpiter quente - um gigante gasoso cuja órbita situa-se muito próxima de sua estrela-mãe, o que torna sua atmosfera turbulenta e aquecida; e também os planetas livres ou flutuantes - como são chamados aqueles que não giram em torno de nenhuma estrela e simplesmente vagam livres pelo espaço.

Os satélites naturais (também chamados luas) são corpos celestes que circulam em torno de um planeta. Satélites não estão em órbita de uma estrela, mas podem ser arredondados ou não. As luas de Marte, por exemplo, são irregulares.

A Lua é um satélite da Terra. O centro de gravidade do sistema Terra-Lua fica abaixo da superfície terrestre (embora distante do centro da Terra). No caso dos satélites de Júpiter, o centro de gravidade fica bem mais perto do centro desse planeta.

Se as massas de dois astros forem tais que o centro de gravidade fique a meio caminho entre eles, com num haltere, teremos um sistema planetário duplo - e nenhum satélite.

Os satélites são sempre menos maciços (e menores) que os planetas em torno dos quais orbitam. Porém, isoladamente, um satélite pode ser maior que um planeta. É o caso, por exemplo, de uma das luas de Saturno, Titã - maior que o planeta Mercúrio.

Asteróides são corpos rochosos que estão em órbita do Sol, mas são pequenos e têm formas irregulares. Às vezes são chamados de planetóides. Os asteróides são feitos do material remanescente da formação do Sistema Solar.

Os que estão situados logo após a órbita de Marte, no chamado Cinturão Principal, são provavelmente restos de matéria que nunca conseguiu se agregar para formar um planeta, devido a influência gravitacional de Júpiter.

Asteróide vem do grego aster, estrela, e oide, sufixo que indica semelhança. Isso se deveu as primeiras observações desses objetos, no século XIX. Na prática não existe tal similaridade.

Estima-se que existam mais de 400 mil asteróides com diâmetro superior a 1 km. Foram catalogados pouco mais de 3 mil. Há um segundo cinturão de Asteróides depois da órbita de Netuno, chamado Cinturão de Kuiper, mas esses objetos devem ter algumas características distintas daqueles do Cinturão Principal.

Cometas são ainda menores que asteróides e também são lembranças da época da formação do Sistema Solar. Verdadeiros fósseis espaciais, os cometas, no entanto, se desgastam a cada passagem, ao exibir suas caudas que nada mais são que material de seu próprio núcleo, uma "bola de gelo suja" de dióxido de carbono, metano, amônia, água e alguns minerais.

Nunca confunda cometas com meteoros, que são as populares "estrelas cadentes". Embora também venham do espaço, meteoros são um fenômeno atmosférico. Eles riscam um céu com velocidade, todas as noites, sendo visíveis no máximo por alguns segundos.

Cometas são corpos celestes que giram em torno do Sol como os planetas e asteróides, exibindo uma ou mais caudas quando se aproximam do astro-rei. Cometas são visíveis no céu por semanas ou meses. Eles não "passam voando".

Sistema Solar | Texto
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12/28/2017 5:47:43 PM | Por Pierre Grimal
Livre
A poesia, os poetas e o amor na Roma do séc. I

Há um poeta latino cujo nome é inseparável do sentimento amoroso e que pagou esta reputação com o exílio. Se Ovídio não tivesse escrito os "Amores" e "A Arte de Amar", talvez tivesse terminado tranquilamente a sua vida em Roma, em vez de ter conhecido os rigores do Inverno cítico e a solidão nas margens do Mar Negro, nas fronteiras do Império. Mas se tivesse sido mais discreto, não possuiríamos hoje, graças a ele, o testemunho mais direto e mais vivo acerca dos amores dos Romanos durante os anos que separam a República do início do Império.

Ovídio é o autor de A Arte de Amar, obra que exala um perfume de escândalo. Não pensemos que o escândalo começou com os séculos cristãos. O próprio Augusto julgou - ou fingiu julgar - que este pequeno poema era incompatível com a dignidade romana. Augusto, que se entregou a todas as licenças durante a sua vida e que sabia aliar as aparências da virtude mais severa com os passatempos mais fúteis, não acreditou, certamente, que a opinião pública fosse completamente tola quando fingiu justificar o exílio com que castigou o poeta na idade madura com a imoralidade das suas primeiras obras. Os historiadores modernos interrogam-se sobre os motivos reais desta condenação. Falam, por vezes, com plausibilidade, de obscuros motivos “políticos ou religiosos”, mas nenhum toma muito a sério as críticas oficiais dirigidas ao poeta. Todavia, não deixa de ser verdade que o príncipe se julgou no direito de banir das bibliotecas públicas, por “imoralidade”, estes poemas amorosos e o próprio Ovídio, nas elegias que escreveu no exílio, manifesta um arrependimento que talvez não sinta, mas que julga ter de expressar para merecer o regresso.

Contudo, o que há em A Arte de Amar e nas elegias dos Amores que não se encontre já em Terêncio, ou, pior ainda, que não corresponda à prática diária dos amores romanos? De tradição imemorial, o amor às cortesãs era permitido. (Catão, concordando com esta tolerância, não lhe tinha medido, com certeza, as consequências, mas, independentemente do seu ascendente sobre os seus concidadãos, não podia esperar, durante os dezoito meses em que durou efetivamente a censura, fazer deles puritanos inflexíveis.) A Arte de Amar não tem, manifestamente, outra ambição que não seja ensinar a praticar estes amores permitidos. Ovídio pretende ser apenas um destes jovens a quem se perdoavam as extravagâncias:

"Afastai-vos - diz ele - atilhos finos, insígnias da decência, e vós, folhos, que alongais os vestidos e cobris, envolvendo-os, os pés das mulheres. Nós, o que cantamos é uma Vênus permitida e favores tolerados, e o meu poema não deveria ser acusado de nada".2

Horácio, poeta oficial, dissera mais ou menos a mesma coisa e incentivara os jovens a realizar as suas loucuras na companhia das mulheres desprotegidas das leis. Mas Augusto teria podido responder, retomando, aproximadamente, as palavras de Catão ao jovem intemperante: “Louvo Horácio por incitar os jovens a ir ver as mulheres, mas puno Ovídio porque os encoraja a passar a vida com elas!”

Ovídio tinha, aliás, uma vida familiar bastante digna e amou a sua mulher com ternura. O que ele nos diz da sua afeição por ela, durante o seu exílio, e do grande sofrimento que tiveram quando foram obrigados a separar-se3 prova, indubitavelmente, que era um “bom marido”, fiel e terno. Mas se a sua vida era casta, a sua Musa não o era. Embora Augusto, emitindo contra o poeta uma sentença de exílio, tenha sido realmente guiado, pelo menos em parte, por considerações morais, não foi um debochado quem ele puniu, mas o cronista de uma sociedade cujo imperador envelhecido, ferido nos seus afetos familiares (o exílio de Ovídio aconteceu pouco depois do escândalo da segunda Júlia), parece ter descoberto de repente que ela se comprazia em jogos perigosos.

Poetas anteriores a Ovídio - Catulo, cerca de trinta anos mais cedo, Tibulo e Propércio, na geração que precedeu imediatamente a de Ovídio - tinham falado dos seus amores. Tinham expresso em verso sentimentos que eles mesmos fortemente sentiam. Pelo contrário, Ovídio, em A Arte de Amar e nos Amores, não se inspira na sua experiência pessoal. Por mais que finja que a heroína dos Amores, a quem chama Corina, foi sua amante, recorre mais frequentemente à imaginação do que às recordações. Ele inventa a maior parte do seu “romance”, ainda que, de longe em longe, algumas peças lhe sejam inspiradas por amores reais. Mas, precisamente por esta razão, Ovídio é a testemunha do seu tempo. Os seus precursores, em larga medida, tinham dado testemunho de si mesmos. Ele, pelo contrário, representa fielmente a opinião que os seus contemporâneos tinham do amor, a ideia que tinham do papel deste na vida dos seres, a parte que se devia atribuir-lhe, os fins que prosseguia.

Ovídio é o último dos “elegíacos” latinos. Com ele. um gênero poético que se criara em Roma, e que servia, precisamente, para cantar o amor, chega ao seu termo. O que fora, em primeiro lugar, poesia pessoal e diário de uma paixão vivida quotidianamente, transforma-se com ele em uma teoria de ambição “universal”. Ele colhe os frutos de uma evolução para a qual contribuíram os sofrimentos, e as obras nascidas destes sofrimentos, dos maiores poetas que o precederam. No seu tempo, estas obras exerceram a sua ação sobre os espíritos e, graças a elas. assistimos à organização de uma experiência inteiramente nova do amor a qual, com variações individuais, encontra a sua forma definitiva nos poemas de Ovídio, Catulo, Tibulo e Propercio deram todos a sua contribuição, trabalhando, inconscientemente, para libertar o espírito novo das palas que o limitavam e coube a Ovídio elaborar como que o balanço de meio século de amores de que Roma saía transformada, após uma crise moral que arruinara definitivamente concepções com sete séculos.

Aparentemente, o amor que Ovídio descreve não é muito diferente do que encontramos no teatro de Terêncio, mas o que a ficção cômica situava na Grécia encontra-se agora transportado para Roma e é vivido quotidianamente. A Roma de Ovídio não é a “rainha das cidades”, não é a que impõe as suas leis ao gênero humano, ela é, por excelência, a cidade dos amores. Tudo nela, a acreditar em Ovídio, convida a amar: por toda a parte, as ruas, praças e pórticos oferecem inúmeras beldades vindas de todas as regiões do universo para conquistar os seus vencedores. Jovens, quase ainda umas crianças, mulheres no esplendor da juventude, mulheres mais maduras (cujo grupo é, de longe, o mais numeroso) passam e voltam a passar sob o olhar dos homens, esperando apenas quem as queira. Não há nada, nem sequer o antigo fórum, que não esteja transformado em lugar de encontros e não constitua uma armadilha para os severos jurisconsultos4. A Roma de Ovídio assemelha-se bastante, por conseguinte, à “pequena cidade” que Plauto descrevia, em que todos os olhares estavam à espreita dos estrangeiros. Mas já não são uma ou duas servas que eles saúdam com elogios duvidosos, é uma multidão imensa, sempre em mudança, sempre renovada, que parece não ter vindo a Roma senão para excitar o desejo masculino.

O amor para Ovídio, e, sem dúvida, para a maioria dos seus contemporâneos, é sobretudo o desejo. Amare, amar, significa em latim, em primeiro lugar, ser o amante ou a amante de alguém, e A Arte de Amar será a compilação dos conselhos mais eficazes para obter os favores de uma mulher. Mas, para além disso, Ovídio evita falar, como dissemos, de outras mulheres que não sejam as que vivem da sedução e cuja única preocupação, a única razão de ser, é, precisamente, conseguir e conservar amantes. Não se fala da vida conjugal, em primeiro lugar, por decência e, em segundo lugar, porque o casamento não é considerado, evidentemente, como o lugar dos “amores”. Ovídio, ainda que ame a sua mulher, limita-se aos lugares comuns tradicionais quando fala do tema das uniões legítimas. Em um certo passo do seu livro, insiste na necessidade de cada amante dar provas de bom carácter na relação com o outro:

"Que a mulher legítima e o marido busquem discutir um com o outro e se afastem - diz ele -, que se convençam que estão sempre em litígio um com o outro... Que a amiga, essa não ouça senão as palavras que deseja. Não foi a lei que te ordenou que viesses precisamente para a cama desta mulher. O que para vós faz lei e o Amor."5

Sem a imposição das leis, o amor reencontra a sua própria verdade. Ele não pode alimentar-se com mentiras, a menos que se seja muito rico e se possa, à força de presentes, manter dependente aquela que se deseja. Qualquer que seja o juízo que a nossa moral possa emitir relativamente a esta liberdade absolu