Templodeapolo.net

Na terra grega, o povo grego

História - Civilização Grega

A poesia de Safo de Lesbos

História - Civilização Grega

O sistema de Clientela e Patronato na Roma imperial

História - Civilização Romana

Em Direção a uma Psicoterapia Dialógica

Psicologia - Gestalt

Psicanálise: os antecedentes

Psicologia - Psicanálise

Redes sociais

O espaço é aquilo, que de maior existe, porque ele contém tudo...

Tales de Mileto
Todas as citações
{+} Tales de Mileto
+
+
MATÉRIAS
12/31/2019 3:55:18 PM | MenteCérebro, n.141
Imagens de um cérebro apaixonado

Com ajuda da ressonância magnética funcional, pesquisadores descobriram como o amor subverte nossa vida emocional. 

Psicologia - Neuropsicologia
12/28/2019 5:45:14 PM | MenteCérebro, n.141
Prazer, hormônios e vínculo

Pesquisas recentes lançam nova luz sobre os mecanismos do prazer e do amor e mostram semelhanças entre desejo sexual e vontade de comer chocolate. Romeu e Julieta só estariam viciados um no outro?

Psicologia - Neuropsicologia
Todos as matérias
+
NOTÍCIAS
Uol Notícias
10 Jan , 2020, 11:23h
Por que alguns gregos voltaram a cultuar os deuses da mitologia
Mitologia - Mitologia Grega
Uol Notícias
17 Dec , 2019, 17:41h
Navio romano naufragado é encontrado com 6 mil peças de vasos
Ciências humanas - Arqueologia
BBC Brasil
7 Nov , 2017, 13:45h
Cientistas descobrem fósseis de um dos primeiros ancestrais do homem e outros mamíferos
Ciências naturais - Paleontologia
Todas as notícias
Enough Sleep Could Reduce Risk of Injury, Study Finds
Healthy Lifestyle
Why Teenagers Reject Parents’ Solutions to Their Problems
Psychology
Struggling to quit sugar? You might not be sleeping enough
Healthy Lifestyle
Conflicting studies point to meat moderation as health diet
Healthy Lifestyle

 

+
TEXTOS
4/12/2020 4:26:57 PM | Por André Bonnard
Livre
A Ilíada e o Humanismo de Homero

A Ilíada de Homero - primeira grande conquista do povo grego: conquista da poesia - e o poema do homem na guerra, dos homens consagrados a guerra pelas suas paixões e pelos deuses. Ali um grande poeta fala da nobreza do homem frente a esse flagelo detestável, do homem arrebatado por Ares, bebedor de sangue... o mais odioso dos deuses. Ali fala da coragem dos heróis que matam e morrem com simplicidade, do sacrifício voluntario dos defensores da pátria, da dor das mulheres, do adeus do pai ao filho que o continuara, da suplica dos velhos. E muitas outras coisas: a ambição dos chefes, a sua cupidez, as querelas, as injurias com que se cumulam, e mais a covardia, a vaidade, o egoísmo, lado a lado com a bravura, a amizade, a ternura. A piedade mais forte que a vingança. Fala do amor da glória que eleva o homem a altura dos deuses. Fala desses deuses onipotentes e da sua serenidade. As suas paixões ciosas, o seu caprichoso interesse e a sua profunda indiferença pela turba dos mortais.

Acima de todas as coisas, este poema, onde reina a morte, fala do amor da vida, e também da honra do homem, mais alta que a vida e mais forte que os deuses.

É natural que um tema como este - o homem na guerra - tenha enchido o primeiro poema épico do povo grego, sempre devorado pela guerra. Para desenvolver este tema, Homero escolheu um episodio semi-fabuloso da histórica guerra de Troia, que se situa no principio do século XII antes da nossa era. Esta guerra teve por causa - sabemo-lo - a rivalidade econômica das primeiras tribos gregas instaladas seja na Grécia propriamente dita, os Aqueus de Micenas, seja sobre a costa asiática do Egeu, os Eólios de Troia.

O episodio escolhido pelo poeta, que dá a todo o poema a sua unidade de ação, é o da cólera de Aquiles; da sua querela com Agamemnon, rei de Micenas e chefe da expedição contra Troia, e das conseqüências funestas desta querela para os Gregos-Aqueus que assediavam Troia.

Eis a trama da ação. Agamemnon, chefe supremo, exige de Aquiles, o mais valente dos Gregos, muralha do exercito, que ele lhe ceda uma bela cativa, Briseida, que lhe coubera quando da partilha de um saque. Aquiles recusa-se, indignado, a ser privado de um bem que lhe pertence. Na assembléia do povo armado, onde esta exigência lhe é feita, insulta gravemente Agamemnon ("O ser vestido de impudência, avaro..., descarado, focinho de cão..., odre de vinho, coração de servo..."), queixa-se de suportar sempre o fardo mais pesado do combate e de receber em troca uma parte inferior a de Agamêmnon, covarde como soldado, ávido como general, "rei devorador do seu povo". Pronuncia diante de todos os seus camaradas o juramento solene de se retirar da batalha e de se fechar na sua tenda, de braços cruzados, enquanto não tiver recebido de Agamêmnon reparação da afronta infligida à sua bravura. Assim faz.

Aquiles, primeiro herói da Ilíada, e o coração e a charneira de toda a ação do poema. A sua retirada - é, com ela, a das suas tropas - tem para o exercito dos Aqueus as mais graves conseqüências. Na planície, sob os muros de Troia, sofrem três derrotas, cada uma mais desastrosa que as outras. Até aí sempre assaltantes, estão reduzidos a defensiva, vêem os Troianos, pela primeira vez em dez anos, atreverem-se a acampar, à noite, na planície. Os Gregos constroem um campo entrincheirado: de sitiantes tornam-se sitiados. Até mesmo este campo é forçado pelos Troianos, conduzidos por Heitor, o mais valoroso dos filhos de Príamo. O inimigo prepara-se para deitar fogo aos barcos dos Gregos, para lançar o seu exercito ao mar.

Ao longo destas duras batalhas, que enchem de carnificina e de proezas, de coragem desesperada mas infatigável, uma boa parte do poema, a ausência de Aquiles não é outra coisa, na opinião dos seus companheiros como na nossa, que o sinal evidente da sua força e do seu poder. Ausência-presença que comanda todos os movimentos e momentos do combate. Os mais valente dos chefes aqueus - o maciço Ajax, filho de Telamon, o rápido Ajax, filho de Oileu, o fogoso Diomedes, muitos outros mais, em vão se esforçam por substituir Aquiles. Mas estes valentes substitutos do valor de Aquiles não são mais que o dinheiro miúdo do jovem herói que - força, rapidez, fogosidade e

bravura - encarna por si só toda a virtude guerreira, sem falha nem fraqueza. Possuindo tudo e recusando tudo, provoca a derrota de todos.

Numa noite trágica, entre dois desastres, enquanto na sua tenda se atormenta na inatividade a que se condenou e que lhe pesa, Aquiles vê vir do campo dos Gregos uma embaixada de que fazem parte dois dos grandes chefes do exercito: Ajax, o primeiro defensor dos Gregos depois de Aquiles, tão teimoso como um burro puxado por crianças, o sutil Ulisses que conhece todas as voltas do coração e da palavra. A estes dois guerreiros se juntou o velho que criou a infância de Aquiles, o tocante Fenis, que lhe faz ouvir a palavra e como que o apelo insistente de seu pai.

Os três lhe suplicam que volte ao combate, que não falte à lealdade que o soldado deve aos seus camaradas, que salve o exercito. Em nome de Agamêmnon fazem-lhe promessas de presentes e de honrarias esplendidas. Mas Aquiles, menos ligado ainda pelo seu juramento que pelo amor-próprio, aos argumentos, às lágrimas, à própria honra, responde com um não brutal. E vai mais longe: declara que no dia seguinte retomará os caminhos do mar com as suas tropas e voltará ao lar, preferindo uma velhice obscura à gloria imortal, que escolhera, de morrer novo diante de Troia.

Esta versão da sua primeira escolha - a vida agora preferida à gloria - aviltá-lo-ia, se nela se pudesse manter.

Mas vem o dia seguinte e Aquiles não parte. E nesse dia que os Troianos forçam as defesas dos Gregos e que Heitor, agarrando-se à popa de uma nave defendida por Ajax, grita aos seus companheiros que lhe levem o fogo que desencadeará o incêndio da frota. Aquiles, na outra extremidade do campo, vê erguer-se a labareda do primeiro barco grego incendiado, essa labareda que dita a derrota dos Gregos é a sua própria desonra. Naquele momento não pode mostrar-se insensível às suplicas do mais querido dos seus companheiros, Patrocolo, a quem considera como a melhor metade de si mesmo. Patrocolo, em lágrimas, pede ao seu chefe que lhe permita combater em seu lugar, revestido dessas ilustres armas de Aquiles que não deixarão de amedrontar os Troianos. Aquiles aproveita a ocasião para fazer voltar ao combate, pelo menos, as suas tropas. Ele próprio arma Patroclo, põe-no à frente dos soldados, incita-o. Pátroclo repele os Troianos para fora do campo, longe dos barcos. Mas nesta brilhante contra-ofensiva que dirige, esbarra com Heitor que lhe faz frente. Heitor mata Patroclo em combate singular, não sem que Apolo invisível tenha ajudado a esta morte que, obtida pela intervenção de um deus, se assemelha a um assassínio.

A dor de Aquiles, ao saber a sorte do seu amigo, é assustadora. Jazendo no chão, recusando alimentar-se, arrancando os cabelos, sujando as roupas e o rosto de cinza, Aquiles soluça e pensa em morrer. (O suicídio é, aos olhos dos Gregos, o vergonhoso refugio dos covardes.) Por mais viva que tenda sido anteriormente a ferida infligida ao seu amor-próprio por Agamêmnon, a morte de Patroclo cava em Aquiles abismos de sofrimento e de paixão que o fazem esquecer o resto. Mas é esta mesma dor que o restitui à vida e à ação, desencadeando nele uma tempestade de furor, uma raiva de vingança contra Heitor assassino de Patroclo e contra o seu povo.

Assim se opera no poema, numa peripécia patética, pedida por Homero a psicologia de Aquiles, herói e motor da Ilíada, uma reviravolta completa da ação dramática, que parecia imobilizada definitivamente pela inflexibilidade desse mesmo herói que não cede jamais a nada senão à própria violência passional.

Aquiles volta ao combate. A quarta batalha da Ilíada começa. E a sua batalha, a da carnificina terrível que ele faz de todos os Troianos que encontra no caminho. Derrotado o exercito troiano, em parte exterminado, em parte afogado no rio para o qual Aquiles o fez recuar, o desmoralizado resto retira para o interior da cidade. Só Heitor fica do lado de fora das portas, apesar das suplicas de seu pai e sua mãe, para enfrentar o mortal inimigo da sua pátria.

O combate singular de Heitor e de Aquiles é o ponto culminante da Ilíada. Heitor combate como um valente, com o coração todo cheio de amor que dedica à mulher, ao filho, à sua terra. Aquiles é mais forte. Os próprios deuses que protegiam Heitor se afastam dele. Aquiles fere-o mortalmente. Leva para o campo dos Gregos o corpo de Heitor, não sem o ter ultrajado: ata o inimigo pelos pés à retaguarda do seu carro de guerra e com uma chicotada faz correr os cavalos, "e o corpo de Heitor era assim arrastado na poeira, os seus cabelos negros desmanchados, a cabeça suja de terra - essa cabeça antes tão bela, que Zeus agora entregava aos inimigos para que eles a ultrajem sobre o solo da pátria".

O poema não termina com esta cena. Aquiles, a quem Priamo vai suplicar na sua tenda, entrega-lhe o corpo do desgraçado filho. Heitor é sepultado pelo povo troiano com as honras fúnebres. Os lamentos das mulheres, os cantos de luto que elas improvisam, falam da desgraça e da gloria daquele que deu a vida pelos seus.

Tal e a ação deste poema imenso, conduzida com mestria por um artista de gênio. Mesmo que o poeta Homero, a quem o atribuem os antigos, não tenha inventado cada um dos múltiplos episódios, esses episódios estão aqui reunidos e ligados por ele numa esplendida unidade.

No decurso dos quatro séculos que separam a guerra de Troia da composição da Ilíada, que devemos situar no século VIII, muitos poetas sem duvida compuseram numerosas narrativas sobre esta guerra e já mesmo sobre a cólera de Aquiles. Estes poetas improvisavam em versos cujo ritmo era próximo do da linguagem falada, mas numa cadencia mais regular e mais nobre. Estes versos eram fluentes e fáceis de fixar. A Ilíada, que procede destes poemas improvisados, é ainda uma espécie de fluxo poético continuo, que carreia no seu curso muitas das formas estranhas da velha linguagem dos antepassados eólios, linguagem meio esquecida, mas que, enriquecida de epítetos esplendidos, dá a toda a epopéia uma sonoridade cintilante e um brilho sem igual.

Os poemas que tinham aberto o caminho a Homero transmitiam-se, por certo, de memória. (Verificou-se em improvisadores modernos de poesia época, os serbios, por exemplo, no século XIX, a faculdade de reter de cor e de transmitir sem escrita até oitenta mil versos.) Os improvisadores gregos, predecessores de Homero, recitavam os seus poemas, por fragmentos, nas casas senhoriais. Estes senhores não eram já os chefes ladrões da época de Micenas, eram sobretudo grandes proprietários rurais que se deleitavam com ouvir celebrar os cometimentos guerreiros do tempo passado. Vem uma altura em que aparecem no mundo grego os primeiros mercadores. E nas cidades da Jônia, na Ásia Menor, precisamente ao sul da terra eólia, em Mileto, Esmirna e outros portos. Homero vive no século VIII, numa destas cidades da costa jônia, não podemos precisar qual. É a época em que vai desencadear-se a luta das classes com uma violência súbita, como talvez em nenhum outro momento da historia. Nesta luta, o povo miserável, que não possui terras ou as possui medíocres, conduzido pela classe dos mercadores, vai tentar arrancar aos nobres proprietários o privilegio quase exclusivo que eles se tinham arrogado sobre o solo. No mesmo golpe arrancam à classe possidente a sua cultura, apropriam-se dela e com ela afeiçoam as primeiras obras-primas do povo grego.

Recentes trabalhos sugeriram que o nascimento da Ilíada, no século VIII, na Jônia, se coloca no momento em que a poesia improvisada e ainda flutuante se fixa numa obra de arte escrita e elaborada. O aparecimento da primeira epopéia, a mais bela da herança humana, esta ligado ao nascimento desta nova classe de burgueses comerciantes. São os comerciantes que difundem subitamente o uso antigo, mas pouco espalhado, da escrita. Um poeta jônio - um poeta de gênio a quem a tradição da o nome de Homero - eleva ao nível da obra de arte uma parte por ele escolhida da matéria tradicional épica improvisada. Ele compõe e escreve enfim, sobre papiro, a nossa Ilíada.

E o mesmo que dizer que a classe burguesa da valor artístico, da forma a uma cultura poética até ai informe. Ao mesmo tempo, esta cultura poética é posta por ela, nas recitações publicas, ao serviço de toda a cidade, ao serviço do povo.

Se quisermos caracterizar o gênio de Homero, diremos, antes de mais, que é um grande, um prodigioso criador de personagens.

A Ilíada é um mundo povoado, e povoado pelo seu criador de criaturas originais, diferentes umas das outras, como o são os seres vivos. Homero teria o direito de se apropriar da frase de Balzac: "Eu faço concorrência ao registro civil." Esta faculdade de criar seres em grande número, distintos uns dos outros, com o seu estado civil, os seus sinais característicos, o seu comportamento próprio (hoje diríamos: com a sua impressão digital), possui-a Homero no mais alto grau, como Balzac e também como Shakespeare, como os maiores criadores de personagens de todos os tempos.

Para fazer viver uma personagem - sem a descrever: pode dizer-se que Homero não descreve nunca -, basta por vezes ao poeta da Ilíada atribuir-lhe um só gesto, uma palavra única. Assim há centenas de soldados que morrem nos combates da Ilíada. Certas personagens entram no poema apenas para nele morrerem. E sempre ou quase sempre é um sentimento diferente em relação à morte que exprime esse gesto pelo qual o poeta dá a vida no instante mesmo em que a retira. "E Diores tombou no pó, de costas, estendendo os braços para os seus companheiros." Criou muitas vezes um poeta um ser para tão pouco e por tão pouco tempo? Um simples gesto, mas que nos toca no fundo, dando-nos a conhecer Diores no seu grande amor da vida.

Vejamos um quadro um pouco mais desenvolvido. Uma imagem de vida e uma imagem de morte.

"Polidoro era o mais novo dos filhos de Priamo e o mais amado deles. Na corrida, triunfava de todos. Nesse dia, por criancice, para mostrar o vigor dos seus jarretes, saltou e pôs-se a correr em frente das linhas..." Nesse momento, Aquiles fere-o. «...e ele caiu, gritando, sobre os joelhos, e uma nuvem negra envolvia os seus olhos, ao mesmo tempo que, amparando com as mãos as entranhas, tombava de vez".

E eis a morte de Harpalo. É um valente, mas que não consegue dominar um movimento de medo instintivo.

Virando costas, recuou para o grupo dos companheiros, ao mesmo tempo que olhava para todos os lados, receoso de que uma flecha de bronze lhe viesse ferir a carne.

E ferido e, no chão, o seu corpo exprime ainda a sua revolta, torcendo-se "como um verme".

A atitude tranqüila do corpo de Cebreno exprime, pelo contrário, a simplicidade com que o herói, cuja bravura e sem macula, entrou na morte. Ao redor dele continua o tumulto da batalha: ele repousa no esquecimento e na paz.

Os Troianos e os Aqueus lançavam-se uns contra os outros, procurando despedaçar-se... Em volta de Cebreno, centenas de dardos agudos iam cravar-se no alvo... Centenas de grandes pedras rebentavam os escudos dos combatentes. Mas ele, Cebreno, grande, ocupando um grande espaço, jazia no pó, para sempre esquecido dos cavalos e dos carros.

E assim que Homero vai direito ao homem. Com um gesto, uma atitude, por mais insignificante que seja a personagem que nos da a ver, caracteriza o que faz o fundo de cada ser humano.

Quase todas as personagens da Ilíada são soldados. A maior parte destes soldados são bravos. Mas é notável que nenhum seja bravo da mesma maneira. A bravura de Ajax, filho de Telamon, é pesada: bravura de resistência. Ajax é um homem grande, de largos ombros, "enorme". Esta bravura é como um bloco que ninguém remove. Uma comparação (que escandalizava os nossos clássicos pela sua vulgaridade não épica (!) e a qual se fez já alusão) define-a na sua teimosia. "Muitas vezes um burro, na berma de um campo, resiste às crianças. Como que escorado, podem partir-lhe em cima pau apos pau: uma vez que entrou no trigo basto, faro a colheita. As crianças castigam-no de pancadas. Pueris violências! Não o farão mexer-se dali enquanto não se fartar. Assim combatia o grande Ajax..."

Ajax tem a coragem da obstinação. Pouca impetuosidade na ofensiva, a sua massa de ,javali a isso se não presta. Pesado de espírito como de corpo. Não estúpido, antes limitado. Há coisas que ele não compreende. Assim, na embaixada dos chefes junto de Aquiles, não compreende que o herói se obstine por causa de Briseida: Por causa de uma só mulher! , exclama, quando vimos oferecer-te sete, belíssimas, e ainda por cima montes de outros presentes.

A rudeza de Ajax serve-o admiravelmente na defensiva. Deram-lhe ordem de ficar onde o puseram, e ai fica. Limitado no sentido etimologico da palavra: a maneira de um limite que e posto ali para dizer que ndo se deve passar alem. O poeta chama-lhe uma torre, um muro. Bravura de betdo.

Ei-lo no barco que defende, caminhando no castelo da proa "a grandes passadas", dominando todo o espaço a guardar, matando a lançadas metódicas os assaltantes um após outro, ou armando-se, se preciso for, de um enorme choque de abordagem. A sua eloqüência é a de um soldado. Diz-se em três palavras: não arredar pé. "Com quem mais contam?", grita ele... "Só nós temos a nós... Logo, a salvação está nas nossas mãos." O desanimo é outra coisa que não compreende. Sabe que uma batalha não é um ,baile, como ele mesmo diz, mas um lugar onde, no corpo a corpo pomos em contato os braços e a coragem com os do inimigo. Então "sabe-se num instante, e ainda bem, se se vai morrer ou continuar vivo". Eis os pensamentos simples que fazem, no meio do combate, nascer o sorriso no rosto terrível de Ajax.

A bravura de Ajax é a do espartano ou do romano antecipado, do espartano a quem o regulamento militar proibia recuar, de Horácio Cocles sobre a sua ponte. Bravura de todos os bons soldados que se deixam matar para agüentar. Heroísmo pintado por Homero muito antes que Plutarco o tenha passado ao copiador, ao alcance do primeiro homem de letras que apareça. Diferente é a bravura de Diomedes. Coragem, não de resistência, mas de ímpeto. Não bravura espartana, mas fúria francese. Diomedes tem a fogosidade e o atrevimento da juventude, tem a labareda. É ele o mais jovem dos heróis da Ilíada, depois de Aquiles. A sua juventude é atrevida para com os mais velhos. Na cena noturna do conselho dos chefes, Diomedes mostra-se impetuoso a atacar a conduta de Agamêmnon: pede que o rei dos reis apresente desculpas a Aquiles. Entretanto, no campo de batalha, é um soldado disciplinado, aceita tudo do general-comandante, mesmo as mais injustas censuras.

Diomedes e um soldado sempre pronto a marchar, tem alma de voluntario. Apos um duro dia de batalha, é ainda ele que se oferece para um perigoso reconhecimento noturno no campo troiano. Gosta de fazer mais que o seu dever. Uma embriaguez leva-o para o mais aceso do combate. Quando todos os chefes fogem diante de Heitor, Diomedes é ainda empurrado para a frente pela coragem que nele habita. A sua lança participa desta embriaguez: "A minha lança esta louca entre as minhas mãos, leva o próprio velho Nestor a precipitar-se contra Heitor. É preciso que Zeus, que quer a vitoria de Heitor, expulse com relâmpagos os dois bravos do campo de batalha. "A labareda branca jorrou terrível e caiu, entre o odor do enxofre queimado, mesmo a frente do carro de Diomedes. Os cavalos amedrontados procuram esconder-se debaixo do carro, as rédeas escapam-se nas mãos de Nestor, Mas Diomedes não tremeu.

Homero deu a Diomedes a coragem mais brilhante de todo o poema. O soldado combate tão longe dos seus que,do filho de Tideu (Diomedes), diz o poeta, não podeis saber se luta do lado dos de Tróia ou dos Aqueus.

As comparações de que Homero usa para o mostrar aos nossos olhos tem sempre um caráter arrastante: ele é a água duma torrente que na planície derruba as sebes dos pomares e esses diques de terra com que os camponeses procuram deter a água que transborda. Para acentuar a qualidade desta coragem brilhante, Homero acende em pleno combate uma labareda simbólica no alto do capacete de Diomedes.

Este herói recebe enfim do poeta o privilegio único de combater contra os deuses. Nem Aquiles nem nenhum dos outros se arriscam a enfrentar os Imortais que se juntam aos combates dos mortais. Só Diomedes, em cenas de uma singular grandeza, leva a temeridade ao ponto de perseguir e atacar Afrodite, Apolo, e depois o próprio Ares. Ataca a deusa da beleza que tentava furtar-lhe um adversário troiano que ele derrubava. Fere-a e faz correr o sangue. "O seu dardo agudo, através do ligeiro véu tecido pelas Graças, penetra na pele delicada do braço, e, acima do punho da deusa, jorra o sangue imortal. Do mesmo modo, fere Ares, e o deus dos combates solta um rugido como o de dez mil guerreiros. Tudo isto sem arrogância. Não há presunção ímpia em Diomedes. Nada além desse fogo interior que o impele a todas as audácias. Diomedes é um apaixonado. Mas que diferença singular a que há entre o apaixonado sombrio que e Aquiles e Diomedes, o apaixonado luminoso! Diomedes é um entusiasta.

Entusiasta: a palavra designa em grego (a etimologia o indica) um homem que traz em si o sopro divino. Uma deusa e amiga de Diomedes: a belicosa mas sábia Atena habita nele, confunde com a dele a sua alma. Sobe ao lado de Diomedes no carro. É ela que o lança no coração da peleja, ela que o enche de força e de coragem - "Ama-me, Atena!" grita-lhe Diomedes -, ela que aponta aos seus golpes o ardente Ares, esse furioso, o Mal encarnando, diz Atena, deus detestado pelos homens e pelos deuses, porque desencadeia a guerra hedionda, esse deus que entre os Gregos sempre teve poucos templos e altares.

A fé que deposita na palavra de Atena é, para Diomedes, a fonte profunda da coragem.

Esta fé da, por momentos, a este soldado aqueu um ar de parentesco com um cavaleiro da nossa Idade Media. Diomedes e o único da Ilíada que pode ser denominado cavaleiresco. Um dia, antes de iniciar o combate com um troiano de quem ignora o nome, sabe, no momento em que o vai ferir, que esse nome e Glaucos e esse homem o neto de um hospede de seu avô. Então o bravo Diomedes sentiu grande alegria e, cravando a lança na terra nutriente, dirigiu ao seu nobre adversário estas palavras plenas de amizade: "Em verdade tu és um hospede da minha casa paterna e os nossos lagos vem de velha data... Não me lembro de meu pai, era muito pequeno quando ele morreu... Por ele e por teu pai, sejamos doravante amigos um para o outro. Tu, na Argólida, serás sempre o meu hospede, e eu serei o teu na Licia, no dia em que for a essa terra. Evitemos as nossas lanças na batalha. Tenho outros Troianos a matar e tu outros Aqueus... Troquemos as nossas armas, para que todos saibam que nos orgulhamos de ser amigos e hospedes por nossos pais..." Dito isto, os dois guerreiros saltam dos carros, apertam as mãos e firmam amizade.

A cena é irradiante. Homero não podia atribuir este gesto generoso a nenhum outro dos seus heróis que ao entusiasta Diomedes.

Cena surpreendente, mas cujo fim nos surpreende mais ainda. Assim ela se conclui: "Mas nesse instante Zeus confundiu o espírito de Glaucos, que deu a Diomedes apenas de ouro em troca de arenas de bronze - o valor de cem bois pelo de nove".

O poeta não nos diz que o seu favorito tenha ficado satisfeito. Dá-o no entanto a entender, uma vez que Diomedes não faz notar a Glaucos o erro. Este grão de capacidade na alma cavalheiresca de Diomedes é o contraveneno do idealismo convencional que ameaça de perigo mortal toda a obra cujas personagens são heróis. Profundo realismo de Homero na pintura do coração humano.

Não há só soldados na Ilíada, há mulheres, há velhos. E entre os soldados não há apenas valentes, há Paris.

Os estranhos amores de Paris e de Helena estavam, segundo a tradição, na origem da guerra de Troia. Continuam presentes e ativos, com uma força singular, no conflito da Ilíada.

Paris era o sedutor e o raptor de Helena. Primeiro autor da guerra, era também vencedor de Aquiles, a quem matava com a sua flecha. É de crer que houve um tempo em que, nas epopéias do ciclo de Troia anteriores a Ilíada, Paris era apresentado como o herói da guerra que provocara, o campeão de Troia e de Helena.

Parece ter sido o próprio Homero que, substituindo-o neste nobre papel por seu irmão Heitor, personagem mais recente no ciclo troiano, fez de Paris o covarde da Ilíada. Em todo o caso, o instinto dramático de Homero coloca Paris nos antípodas de Heitor e mantém, através de todo o poema, um conflito permanente entre os dois irmãos. Heitor é o puro herói, o protetor e salvador de Troia, Paris é quase o covarde no estado puro, é "o flagelo da sua pátria".

Não é que Paris não experimente por repentes o prestigio do ideal do seu tempo: quereria ser bravo, mas, ser bravo em atos - o seu coração é o seu belo corpo de covarde, no instante decisivo, recusam-se. Com muitos gemidos e desculpas, promete a Heitor segui-lo ao combate, que abandonou sem razão que colha. Explicações miseráveis: "Retirei-me para o meu quarto, para me entregar ao desgosto". Promessas vacilantes «Agora minha mulher me aconselha com doces palavras que volte ao combate...» (Estas doces palavras tínhamo-las nós ouvido antes. Uma salva de injúrias que Páris engolia quase sem resposta.) E continua: «E eu próprio creio bem que será melhor assim... Espera-me, pois. Deixa apenas que envergue a minha armadura. Ou antes, parte, eu te seguirei, e penso que me juntarei a ti.» Para um soldado, não falta desenvoltura ao tom.

Certos pormenores materiais desenham ainda a cobardia de Páris. O arco é a sua arma preferida. Permite-lhe evitar o corpo a corpo que faz «tremer os seus joelhos e empalidecer as faces». Para desferir o arco, esconde-se atrás dos seus camaradas ou da estela dum túmulo. Se fere um inimigo, «salta para fora do esconderijo, a rir às gargalhadas».

Contudo, Páris nao é o cobarde absoluto. O medo afasta-o da peleja, mas acontece que a vaidade, o desejo de gloríola lá o reconduz. Porque Páris é vaidoso da sua beleza, vaidoso da pele de pantera que traz sobre os ombros mesmo no combate, vaidoso do seu penteado em caracóis que é um penteado de mulher. É vaidoso das suas armas, que passa o tempo a polir no aposento das mulheres, enquanto os outros se batem. Tudo isto, trajes e beleza – e a sua maneira de «mirar as raparigas», a sua paixão das mulheres, os seus triunfos de sedutor—, não deixou de fazer de Páris, em Tróia, uma personagem talvez desprezada, mas importante. De bom grado ele juntaria aos seus diversos títulos de «subornador», com que Heitor o vergasta como insultos, o título de bravo guerreiro. Com a condição de obter com pouco trabalho com o seu arco — esse certificado de bravura. Apanhado neste conflito da gloríola e do medo, Páris sai dele com o desembaraço e as reticências meio sinceras que marcam de facto a sua própria incerteza sobre os sentimentos que, afinal, prevalecerão em si. Este belo rapaz, cobarde e vaidoso, em cujo leito Afrodite lança Helena revoltada, será, afinal, apenas desprezível?

A análise psicológica no simples plano humano não permite responder a esta questão. Não atinge Páris no seu cerne. A pessoa de Páris só se explica se reconhecermos que ela é o lugar duma experiência a que teremos de chamar religiosa. Insultado por Heitor, Páris admite sem dificuldade que o seu irmão o censurou justamente da sua cobardia. O que ele não aceita é a injúria feita à sua beleza e aos seus amores. Ele replica ao irmão, não sem justo orgulho: «Não tens o direito de me censurar pelos dons encantadores da loura Afrodite. Não devemos desprezar os dons gloriosos dos deuses. É o Céu que os outorga, e nós não temos meio de fazer nós próprios a nossa escolha.» Como se tornou altivo o tom do leviano Páris! Chegou a sua vez de dar lições a Heitor. Os dons que recebeu do Céu, não os «escolhe» o homem, foram-lhe «dados». Foi de Afrodite que ele recebeu a graça da beleza, o desejo e o dom de inspirar o amor. Amor e beleza, dons gratuitos, coisas divinas. Páris não permite que os rebaixem, que insultem assim uma divindade. Não escolheu, foi objecto de uma escolha: tem a consciência de ser um eleito. (O facto de ele receber o divino na sua carne não deve impedir-nos de admitir que Páris faz uma experiência religiosa autêntica.)

A partir daqui compreendemos a perfeita coerência do carácter de Páris. A sua paixão não é a de um simples gozador, é uma consagração. Não lhe dá apenas o prazer dos sentidos — embora lho dê, indiscutivelmente — , aproxima-o da condição da divindade. A sua leviandade, a sua indiferença, atingem a serenidade dos deuses bem-aventurados. Não há mais questões a pôr. Desprendido doutros cuidados que não sejam os de Afrodite, vai buscar à consciência de ser o representante dela entre os homens contentamento, plenitude, autoridade. A sua vida é simplificada porque é dirigida.

É certo que, no mundo da guerra onde vive, se comporta como um cobarde. A sua vontade é fraca ou nula. Mas esta fraqueza fundamental, é capaz de a encher completamente a força de Afrodite. Páris achou no abandono à vontade divina uma forma de fatalismo que o dispensa do esforço e o liberta do remorso. A sua piedade justifica a sua imoralidade. E que grandeza no seu apelo ardente a Helena quando Afrodite, depois de o arrancar à lança de Melenau, o transporta ao leito perfumado onde sua mulher, à força, vai ter com ele: «Vamos! deitemo-nos e saboreemos o prazer do amor. Nunca o desejo a este ponto se apoderou de mim, apertando-me a alma. Não, nem mesmo no dia em que, arrebatando-te da tua bela Lacedemónia, ganhei o mar com os meus barcos, e na ilha de Crânao me uni a ti no amor — não, não, nunca como te amo nesta hora em que a volúpia do desejo me possui.»

Afrodite fala pela boca de Páris, Afrodite força cósmica, e confere-lhe grandeza, por mais pobre que seja o instrumento que escolheu — esse cobarde que o povo troiano «revestiria de vontade de uma túnica de pedras!»

A uma distância infinita de Páris, Helena, sensível mais do que sensual, coloca-se, pelo seu carácter, no pólo inverso de Páris. Moral diante do seu amante amoral, resiste à paixão que Afrodite lhe inflige, quereria recusar-se ao prazer que esta a obriga a partilhar. A amoralidade de Páris procedia da sua piedade, a moralidade de Helena revolta-a contra a deusa.

Ambos belos e ambos apaixonados, a sua beleza e a sua paixão são dons que eles não podem afastar e que constituem o seu destino.

Contudo, a natureza de Helena era feita para a ordem e a regra. Ela evoca com pena o tempo em que tudo lhe era fácil, no respeito e na ternura dos laços familiares. «Deixei o meu quarto nupcial, os parentes, a minha família que­rida... Por isso, entre lágrimas vou penando.» Julga-se a si mesma com severidade, acha natural o juízo severo feito sobre ela pelo povo troiano.

Helena ainda se consolaria do seu destino se Páris fosse valente, se tivesse honra, como era o caso de seu marido Menelau, que ela dá como exemplo de coragem ao amante. Nada dispunha pois a moral Helena a desempenhar, na glória que a poesia confere, o papel da mulher adúltera, instrumento de raínha de dois povos. Paradoxalmente, Homero fez desta esposa culpada, por quem Aqueus e Troianos se exterminam, uma mulher simples que só pedia que a deixassem viver obscuramente a sua vida de boa esposa e de terna mãe. Há paradoxo desde que os deuses entram nas nossas vidas— pelo menos estes deuses homéricos que não apreciam muito a moral que nós inventámos para nos defendermos deles. Afrodite apoderou-se de Helena para manifestar a sua omnipotência. Verga a sua vítima sob a dupla fatalidade da beleza e do desejo furioso que inspira aos homens. Helena torna-se a imagem da própria Afrodite.

E é esta inquietação religiosa que se apossa dos homens na sua presença. Qualquer coisa que, por um instante, lança os velhos de Tróia em êxtase e tremor e faz desatinar a experiência. Quando a vêem subir às muralhas onde estão reunidos, estranhamente dizem: «É justo que, por uma tal mulher, Aqueus e Troianos sofram longas provações, porque ela se assemelha, de maneira terrível, às deusas imortais.» Terríveis velhos estes, que justificam a selvática matança de dois povos pela simples beleza de Helena!

Contudo, nem todos os Troianos se enganam. Nem Príamo nem Heitor confundem Helena, mulher simples e bondosa, Helena que se odeia a si mesma, Helena que odeia a sua paixão incompreensível e contudo a ama, como ama Páris, no sentido de que não poderá nunca desligar-se dele – essa Helena que é toda humana, não a confundem com a beleza fatal que está nela como uma labareda destruidora, manifestação da omnipotência divina. «Para mim», diz Príamo, «não és tu a culpada, mas os deuses.»

Helena não é senhora das consequências da sua beleza. Essa beleza, não a quis ela nem a cultivou. Recebeu-a como uma maldição do Céu, tanto como um dom. A sua beleza é também a sua fatalidade.

Eis agora, após estas estrelas brilhantes, mas de segunda grandeza, os astros cintilantes da Ilíada, Aquiles e Heitor. Nestes dois sóis do poema, Homero ilumina dois modos tão essenciais da vida humana que é difícil vivê-la a uma certa altitude sem participar de um e de outro. Aquiles aparece em primeiro lugar como uma imagem da juventude e da força. Jovem pela idade (anda pelos vinte e sete anos), é-o sobretudo pelo calor do sangue, pela fogosidade das suas cóleras. Juventude indomada, que cresceu na guerra e que não aceitou ainda nem sequer conheceu o freio da vida social.

Aquiles é a juventude e é a força. Uma força segura de si mesma, que os fracos imploram para se defenderem dos humores dos grandes. Assim faz Calcas, o adivinho, no limiar da Ilíada. Interrogado por Agamémnon sobre a causa da peste que caiu sobre a armada, Calcas hesita em responder. Sabe que é perigoso dizer a verdade aos poderosos. Implora a protecção de Aquiles. O jovem herói promete-lhe a sua força sem reserva: «Tranquiliza-te, Calcas. Ninguém entre os Aqueus, vivo eu e com os olhos abertos, levantará contra ti mãos violentas... ainda que designasses Agamémnon, que se glorifica de ser o mais poderoso dos Aqueus.» Eis a primeira imagem de Aquiles, irradiante de força.

Mais adiante, quando, desafiado por Agamémnon, rompe em ameaças, essa força afirma-se com orgulho no amplo juramento (que apenas citarei parcialmente) que Aquiles faz de não mais agir. «Sim, por este ceptro sem folhas nem ramos, que não reverdecerá mais depois que o bronze o cortou duma árvore da montanha... em verdade, por este ceptro entregue aos Aqueus por Zeus para que eles ditem a justiça, e em seu nome mantenham as leis, não tardará que o pesar da ausência de Aquiles invada todos os filhos dos gregos, e tu gemerás de impotência de os salvar quando eles caírem numerosos sobre os golpes mortais de Heitor, e tu sentir-te-ás irritado e dilacerado no mais fundo da alma por teres ultrajado o mais bravo dos Aqueus. — Assim falou o filho de Peleu e, lançando ao chão o ceptro dos pregos de ouro, sentou-se.»

A partir daí, e durante mais de dezoito cantos, a Força está imóvel. Imagem tão impressionante nesta imobilidade mortal para os Gregos, como na sua fúria nos cantos de batalha de Aquiles. Porque nós sabemos que, para salvar o exército, bastaria que Aquiles, que «se sentou», se levantasse. Ulisses, no centro da sua ausência, diz-lhe: «Levanta-te e salva o exército...»

Finalmente, a Força levanta-se. «E Aquiles levantou-se... Uma alta clari­dade irradiava da sua cabeça até ao Céu, e ele avançou até à borda do fosso.

Ali, de pé, soltou um grito, e esta voz suscitou entre os Troianos um tumulto indizível.» Para pintar a força de Aquiles, Homero tem comparações de grande poder. Aquiles é semelhante a um vasto incêndio que estrondeia nas gargantas profundas da montanha; a espessa floresta arde, o vento sacode e rola as labaredas, assim se precipitava Aquiles, como um deus, matando todos aqueles a quem perseguia, e a terra negra escorria sangue.

Ou ainda tira o poeta, não já de um flagelo natural, mas da imagem dum trabalho pacifico, um ponto de comparação do furor destruidor de Aquiles. «Tal como dois bois de larga fronte calcam a cevada branca numa eira circular e como os grãos sob as patas dos animais que mugem se escapam das hastes frágeis, assim, impelidos pelo magnânimo Aquiles, os cavalos pisavam os cadáveres e os escudos. E todo o eixo estava inundado de sangue e os taipais do carro escorriam das gotas de sangue que saltavam das rodas e dos cascos dos cavalos. E o filho de Peleu era ávido de glória, e o sangue sujava as suas mãos inevitáveis.»

Força destruidora, força maculada de sangue, assim surge Aquiles nos cantos mais terríveis do poema. Aquiles é atroz. Raramente um poeta levou o horror mais longe que em cenas como a da morte do adolescente Licáon. A súplica desta criança desarmada, a lembrança do seu primeiro encontro com Aquiles no pomar de seu pai, a história do seu salvamento inesperado, tudo isto enternece, mas apenas para tornar mais brutal a resposta de Aquiles, mais selvática a morte e mais horrível o gesto de agarrar o cadáver pelos pés e de o lançar aos peixes do Escamandro entre imprecações.

Em tudo isto, é ainda um homem, ou nada mais que um bruto, este filho duma deusa? Um homem em todo o caso, pela sua extrema sensibilidade às paixões. É aqui que está a mola psíquica da força de Aquiles: sensível às paixões, e da maneira mais aguda, devorado pela amizade, pelo amor-próprio, e pela glória, e pelo ódio. A força de Aquiles, o mais vulnerável dos homens, só se declara, com uma violência inaudita, no fluxo da paixão. Aquiles, que parece aos olhos horrorizados de Licáon, aos nossos, tão insensível, tão inflexível, só é inflexível porque está todo ele retesado por uma paixão que o endurece como o ferro, só é insensível a tudo porque é unicamente sensível a ela. Nada de sobre-humano, nada de divino neste homem, se o divino é o impassível. Aquiles nada domina, tudo sofre. Briseida, Agamémnon, Pátroclo, Heitor — a vida desencadeia nele, destes quatro pontos cardeais do seu hori­zonte sentimental, uma tormenta após outra, de amor ou de ódio. A sua alma é como um vasto céu, jamais sereno, onde a paixão amontoa e faz rebentar incessantes tempestades.

A calma nunca passa de aparência. Assim, na cena de reconciliação com Agamémnon, Aquiles, para quem este títere que tanto o ulcerou já não conta, está pronto a todas as concessões, até as mais generosas, e de repente, porque tardam em partir, a paixão nova que o possui, a amizade que pede vingança, faz rebentar a calma da superfície. Ele grita: «O meu amigo está morto, deitado na minha tenda, traspassado pelo bronze agudo, os pés para a entrada, e os meus companheiros choram em redor dele... E eu, eu não tenho outro desejo no coração que a carnificina, o sangue e o gemido dos guerreiros.»

Aquiles é uma sensibilidade violentamente abalada pelo objecto que deseja, lamenta ou detesta no momento presente, cega para todo o resto. A imagem passional pode mudar: é Agamémnon, Pátroclo ou Heitor. Mas logo que tomou posse da alma, ela põe em movimento todo o ser e desencadeia a necessidade da acção. A paixão é. em Aquiles, uma obsessão que só pela acção pode ser aliviada.

Este encadeamento — paixão, sofrimento, acção — é Aquiles. Mesmo depois da morte de Heitor, quando parece que a paixão saciada (mas não está na sua natureza sê-lo alguma vez) o deveria deixar em paz.

«Acabada a luta. os soldados dispersaram-se, voltaram às naves, a fim de comer e gozar do suave sono. Mas Aquiles chorava, lembrando-se do compa­nheiro querido, e o sono, que a tudo doma, não o visitava a ele. Andava de um lado para o outro, deplorando a perda da força de Pátroclo e do seu coração heróico. E lembrava-se das coisas realizadas e dos males sofridos em comum, de todos os seus combates e dos perigos enfrentados no mar infinito. A esta lembrança, as lágrimas caíam-lhe, ora deitado de lado, ora de costas, ora com o rosto contra a terra. Depois levantou-se bruscamente, com o coração intu­mescido de dor, e foi ao acaso pela borda do mar, até ao momento em que, quando a Aurora aparecia por cima das vagas e dos promontórios, atou Heitor atrás do carro e duas vezes em volta do túmulo de Pátroclo o arrastou. Depois voltou à sua tenda para repousar e deixar Heitor estendido, com o rosto no pó.»

Viu-se neste texto como a imagem passional, sobretudo no silêncio noc­turno, invade o campo da consciência, faz subir na alma todas as recordações, torna a dor pungente, até que se desencadeie a acção que, por um momento, liberta da angústia.

Eis a primeira chave de Aquiles: paixões fortes que se aliviam graças a violentas ações.

Um homem assim, começa por parecer um puro indivíduo. O demónio do poder, que se alimenta e se acresce de todas as suas vitórias, parece ter-se tomado a lei única da pessoa de Aquiles. O herói quebra e pisa todos os laços que o ligavam à comunidade dos seus camaradas, a todos os outros homens. A paixão, pela acção dissolvente e anárquica que lhe é própria, aniquila nele o sentido da honra, vota-o à mais desumana crueldade. Quando Heitor vencido e moribundo lhe dirige o apelo mais pungente que na Ilíada se encontra, rogando-lhe apenas que o seu corpo seja entregue aos seus. Aquiles responde: «Cão, não supliques nem pelos meus joelhos nem pelos meus pais. Tão verdade como eu quereria ter a força de cortar o teu corpo em pedaços e de comer a tua carne crua pelo mal que me fizeste, ninguém afastará dos cães a tua cabeça, ainda que me oferecessem dez ou vinte vezes o teu resgate, ainda que Príamo pusesse na balança o teu peso em ouro... Não, tua mãe não te
chorará num leito fúnebre. Os cães e as aves te devorarão todo.»

Neste caminho deserto por onde Aquiles avança, é para a solidão mais inumana que ele marcha. Vota-se à sua própria destruição. Vêmo-lo já na cena em que fala de abandonar o exército, sem cuidar do desastre dos seus Atreve-se a declarar preferir a velhice à glória. Viver velho, remoendo dia apos dia o seu rancor, é negar o sentido da sua vida. Não o pode fazer.

Em verdade, Aquiles ama a vida, ama-a prodigiosamente e sempre no instante e no ato. Sempre pronto a apoderar-se do que ela lhe traz de emoção e de acção, estreitamente cingido ao presente, agarra com avidez tudo quanto cada acontecimento lhe oferece. Pronto para matar, pronto para a cólera, pronto para a ternura e mesmo para a piedade, a tudo acolhe, não à maneira do sage antigo, com uma igual indiferença, mas à maneira duma natureza robusta, faminta, que se alimenta de tudo com igual ardor. Extraindo mesmo do sofrimento a alegria. Da morte de Pátroclo tira ele a alegria da carnificina, e o poeta diz-nos, no mesmo momento, que «uma dor horrível enchia o coração de Aquiles» e que «as suas armas eram asas que o impeliam e erguiam o príncipe dos povos». Este arrebatamento da vida é em Aquiles tão forte que tudo nele parece desafiar a morte. Nunca pensa nela, a morte não existe para ele, de tal maneira está ligado ao presente. Duas vezes é avisado: se matar Heitor, morrerá. Responde: que me importa? Antes morrer que ficar junto das naves, «inútil fardo da terra». Ao seu cavalo Xanto, que singularmente toma a palavra para lhe anunciar a morte no próximo combate, responde com indiferença: «Para quê anunciar a minha morte?... Sei que o meu destino é morrer longe de meu pai e de minha mãe. E contudo não me deterei antes de ter fartado os Troianos de combates. — Assim falou e, com grandes gritos, impeliu os cavalos para as fileiras da frente.»

A sageza de Aquiles é, aqui, profunda. Ama a vida o bastante para preferir a intensidade dela à duração. É este o sentido da escolha que fizera na juventude: a glória conquistada na ação, eis uma forma de vida que lhe inspira um amor ainda mais violento que uma vida que decorresse sem história. Esta escolha, após um instante de fraqueza, é mantida com firmeza. A morte em glória é também a imortalidade na memória dos homens. Aquiles escolheu viver até nós e para além de nós.

Assim o indivíduo Aquiles se liga pelo amor da glória à comunidade dos homens de todos os tempos. A glória não é para ele apenas um túmulo solene, é sim a pátria comum dos homens vivos.

Há ainda uma cena da Ilíada, a mais bela, em que Aquiles, de outro modo, revela a humanidade profunda do seu ser. Uma noite em que trouxera, depois de o ter arrastado atrás do carro, o corpo de Heitor para a sua tenda, recorda, no silêncio, o amigo morto. De súbito, Príamo, o velho pai privado do seu filho, apresenta-se perante ele, com risco da vida. Ajoelha aos pés de Aquiles, «beija aquelas mãos assassinas que lhe mataram tantos filhos». Fala do pai de Aquiles, Peleu, que vive ainda na sua terra distante e se regozija à ideia de que o filho está vivo. Ousa suplicar a Aquiles que lhe restitua o corpo de Heitor para que este receba honras fúnebres. Aquiles é tocado até ao fundo da alma pela invocação de seu pai. Levanta docemente o velho e, durante alguns instantes, choram ambos, um por seu pai e por Pátroclo, o outro por Heitor. Aquiles promete a Príamo restituir-lhe o corpo do filho. Assim se conclui, numa cena de extrema beleza e de humanidade tanto mais luminosa quanto a não esperávamos de Aquiles, o retrato deste duro herói da paixão e da glória.

E agora, admirável Heitor, gostaríamos de falar de ti em termos líricos. Mas Homero, que trata todas as suas personagens com igual imparcialidade, que não faz nunca juízos sobre eles, no-lo proíbe. O poeta quer ser apenas o estanho do vidro, que permite às suas criaturas reflectirem-se no espelho da sua arte.

Contudo, Homero não consegue esconder-nos a sua amizade por Heitor. Ao passo que os traços da pessoa de Aquiles os foi buscar à mais antiga tradição da epopeia, Homero modelou Heitor com as suas próprias mãos, usando talvez, quando muito, um esboço rudimentar anterior. Heitor é a sua criatura de eleição. Mais do que nenhuma outra, o poeta diz nela a sua fé no homem. Não nos esqueçamos também de fixar este ponto: ao escrever um poema no quadro geral da guerra de Tróia, o que implica a vitória dos Gregos, poema no qual não esconde o seu patriotismo helênico, Homero vem a escolher o chefe dos inimigos para encarnar, nele, a mais alta nobreza humana que pode conceber. Há aqui uma prova de humanismo que não é rara entre os Gregos.

Como Aquiles e como a maior parte das personagens de epopeia, Heitor é bravo e forte. Comparações brilhantes, jamais tingidas de sangue, desenham a sua força e a sua beleza. «Tal como o garanhão, alimentado de cevada abundante e longo tempo preso à manjedoura, parte de súbito o laço, e, num galope que faz ressoar o solo, corre a mergulhar-se nas águas do claro rio, e depois, de cabeça erguida, sacudindo as crinas, orgulhoso da sua beleza, salta até onde pastam as éguas, assim Heitor, etc...»

Tão bravo como Aquiles, a bravura de Heitor é no entanto de uma quali­dade inteiramente diferente. Não é bravura de natureza, mas de razão. Cora­gem conquistada sobre a sua própria natureza, disciplina que se impôs a si próprio. A paixão de Aquiles pode comprazer-se na guerra; Heitor, esse, detesta a guerra. Di-lo com simplicidade a Andrómaca: teve de «aprender» a ser bravo, a combater na primeira fila dos Troianos. A sua coragem é a mais alta coragem, a única que, segundo Sócrates, merece esse nome, porque, não ignorando o medo, o supera. Quando Heitor vê avançar ao seu encontro Ájax «monstruoso, com o seu sorriso no rosto medonho», não pode reprimir um movimento de temor instintivo. Movimento apenas corporal: o seu coração começa a «bater» mais forte no peito. Mas domina este medo físico. Para vencê-lo, apela para a sua «ciência» do combate. «Ájax», diz, «não procures assustar-me como a uma criança débil... Eu possuo a ciência de tudo quanto diz respeito à batalha. Sei a maneira de derrubar homens... Sei, à esquerda, à direita, opor o escudo de couro que é a minha boa ferramenta de guerra... Sei, no corpo a corpo, dançar a dança do cruel Ares.»

Heitor não ignora a tentação da cobardia. Tendo ficado às portas de Tróia para enfrentar Aquiles, para matá-lo ou ser morto por ele, ainda lhe é fácil afastar as súplicas que, do alto das muralhas, lhe dirigem seu pai e sua mãe para que entre na cidade. Estas súplicas dilaceram-no, representando-lhe o incêndio de Tróia, o extermínio ou a escravização dos seus, que se seguiriam à sua morte. O respeito humano basta-lhe contudo para repelir a tentação. Mas depois, abandonado a si mesmo, estranhos pensamentos, no silêncio do seu coração, perturbam este valente. Pensa na morte certa, se trava combate. Não será tempo ainda de o evitar? Porque não voltar, com efeito, para o abrigo das muralhas? Por um momento, pensa mesmo em implorar a Aquiles, em depor as armas junto da muralha para se oferecer sem defesa ao adversário. Porque não propor-lhe um acordo em nome dos Troianos? (Porque não, realmente?) Durante um momento compraz-se nestas imaginações, pormenoriza as cláusulas dum contrato razoável. De repente, tem um sobressalto. A sua loucura, a sua fraqueza aparecem-lhe claramente. Retoma o domínio de si. «Em que pensa o meu espírito?» Não, não implorará a Aquiles. Não se deixará matar como uma mulher. Não entrará desonrado em Tróia. O tempo dos devaneios passou, tão longe dele agora como os amores da mocidade. «Já não se trata hoje de falar do carvalho ou do rochedo, como o rapaz e a rapariga que ternamente conver­sam entre si.» Trata-se de olhar a morte de frente, trata-se de saber morrer como um valente. Para lutar contra a cobardia, não há somente o respeito humano, o amor-próprio, há a honra, mais alta que a vida.
Aquiles não precisa de reflectir para ser bravo. Heitor é bravo por um acto de reflexão e de razão.

Esta razão tão firme arranca-lhe por vezes palavras belas. Um dia em que seu irmão Polidamas, odedecendo a um presságio sinistro e aliás verídico, o convida a interromper o combate, Heitor, que não pode duvidar de que o presságio seja seguro, mas que quer combater apesar de tudo, replica-lhe: «O melhor presságio é combater pela nossa terra.» Palavras surpreendentes numa época em que os presságios têm grande autoridade e não se deixam facilmente desafiar, sobretudo para um homem piedoso como Heitor.

Mas só a honra e a razão nao explicam Heitor. É preciso falar das fontes profundas, das fontes afectivas da sua coragem. A honra não é para Heitor um conceito do espírito, um «ideal», é combater pela terra que ama, morrer por ela se preciso for, combater para salvar sua mulher e seu filho da morte ou da escravatura. A coragem de Heitor não é a coragem do sage: não se funda, como a de Sócrates, por exemplo, na indiferença pelos bens terrenos, alimenta- -se, pelo contrário, do amor que lhes dedica.

Heitor ama a sua pátria. Ama «a santa ílion e o povo de Príamo de lanças de freixo». Ama-os até ao ponto de os defender contra todas as esperanças. Porque ele sabe que Tróia está perdida. «Sim, eu sei-o, um dia a Santa Tróia perecerá...» Mas o amor, justamente, não se detém em tais certezas: nós defendemos até à última hora aqueles a quem amamos. Toda a ação de Heitor se orienta para a salvação de Tróia. Ao passo que Aquiles não liga importância a sentimentos sociais, Heitor está firme no amor que dedica à sua cidade, aos seus concidadãos, a seu pai, que é também seu rei. A Aquiles, chefe ainda meio selvagem duma tribo em guerra e a quem a guerra ainda mais desciviliza, a quem ela rebaixa por vezes ao nível do bruto, opõe-se Heitor, o filho da cidade que defende o seu território e a quem esta impõe, mesmo na guerra, a sua disciplina social. Aquiles é anárquico, Heitor é cívico. Aquiles quer matar em Heitor aquele a quem odeia. Heitor apenas deseja matar o inimigo mortal de Tróia. «Permitam os deuses», roga ele, ao lançar o seu último dardo, «que tu recebas o ferro da minha lança no teu corpo. A guerra seria menos pesada para os Troianos se eu te matasse: és tu o seu pior flagelo.» A guerra não impede Heitor de ser ao mesmo tempo cívico e civilizado: o seu patriotismo não precisa do ódio ao inimigo.

Civilizado é-o ainda no sentido de que está sempre pronto a concluir um pacto com o adversário. Tem o sentimento claro de que o que une os homens pode vencer o que os separa. E diz a Ájax: «Façamos um ao outro gloriosos presentes, para que digam tanto os Aqueus como os Troianos: bateram-se por causa da guerra que devora as vidas e separaram-se depois de terem firmado um pacto de amizade.»

Em Aquiles, que o odeia, Heitor vê ainda um dos seus semelhantes, com o qual não lhe parece quimérico querer tratar: pensa em propor-lhe entregar aos Gregos Helena e os tesouros roubados por Páris, sem falar duma parte das riquezas de Tróia. Não há nisto apenas uma tentação de cobardia. Há também a persistência dum velho sonho de Heitor: um pacto que reconciliaria os inimigos. Há sobretudo essa repulsa profunda pela violência, que inspira toda a sua conduta, mesmo no instante decisivo em que a razão condena imediata­ mente o projecto como uma fantasia.

Mais tarde ainda, precisamente antes do combate, propõe a Aquiles um último pacto, humano e razoável. Ele sabe que este combate é o último. («Eu te vencerei, ou tu me vencerás», diz.) Mas a ideia do pacto domina-o ainda. «Façamos um pacto e demos o prémio aos deuses. Não penso, por mim, infligir-te monstruosos ultrajes, se Zeus me outorgar resistir e arrancar-te a vida. Apenas te despojarei das tuas armas ilustres, depois entregarei o teu corpo aos Aqueus, Aquiles. Faze o mesmo comigo.»

Aquiles repele-o com brutalidade. «Heitor, não venhas falar-me de pactos entre nós, maldito! Seria o mesmo que falar de acordo leal entre os leões e os homens, entre os lobos e as ovelhas...» E acrescenta estas palavras que marcam bem o sentido da proposta de Heitor, ao mesmo tempo que definem Aquiles: «Não nos é permitido amarmo-nos, tu e eu.»

Ao passo que Aquiles não sai do particular em que a paixão o encerra, Heitor move-se no universal. Este entendimento que ele esboçava, este pro­jecto do pacto, é nada mais nada menos que o princípio, ainda elementar, mas seguro, do direito das gentes.

Mas o amor enérgico que Heitor dedica ao seu país, e que parece já alargar-se à comunidade dos homens, assenta numa base mais profunda e mais viva. Heitor ama os seus. Heitor está solidamente enraizado no amor duma mulher e duma criança. Todo o resto daí deriva. A pátria não é apenas, para ele, os muros e a cidadela de Tróia e o povo troiano (não se trata, escusado seria dizer, duma concepção de Estado a defender), a pátria são as vidas que lhe são preciosas entre todas as vidas, e que ele quer salvar, na liberdade. Nada mais carnal que o amor de Heitor pela sua terra. Andrómaca e Astianax são as imagens concretas mais claras, mais peremptórias, da pátria. Ele o diz a Andrómaca antes de a deixar para ir combater: 

«Sei que o dia virá em que a santa Tróia perecerá, e Príamo, e o bravo povo de Príamo. Mas nem a desgraça futura dos Troianos, nem a de minha mãe, do rei Príamo e de meus irmãos corajosos, que cairão sob os golpes dos guerreiros inimigos, me afligem tanto como a tua, quando um Aqueu coura­ çado de bronze te roubar a liberdade e te levar, chorosa. E tu tecerás os panos do estrangeiro, e tu levarás a água das fontes... Porque a dura necessidade assim o há-de querer... E uma grande dor te pungirá ao pensares neste esposo que terás perdido, único que poderia ter afastado de ti a servidão. Mas que a pesada terra me cubra morto antes que eu ouça os teus gritos, antes que te veia arrancada daqui.»

Andromaca ainda há pouco suplicava a Heitor que não se expusesse ao combate. Agora não pode mais, porque sabe que ele defende a sua mútua ternura. Ha nesta última conversa dos dois esposos qualquer coisa de muito raro na literatura antiga: a perfeita igualdade no amor que eles se testemunham ao mesmo mvel, amam-se ao mesmo nível. Heitor não ama em Andrómaca, nem em seu filho, bens que lhe pertençam: ama, neles, seres de um valor igual ao seu.

Tais são os «bem-amados» que Heitor defende até ao fim. Quando está diante de Aquiles — imagem do seu destino — , desarmado e perdido, ainda se bate contra toda a esperança, faz ainda um pacto com a esperança.

E o momento em que já os deuses o abandonam. Heitor julgava ter a seu lado seu irmao Deífobo, mas era Atena que, para o enganar/tomara a forma do irmao. Lançado o ultimo dardo, quebrada a espada, pede uma arma a Deífobo. Mas não há mais ninguém, está sozinho. Então conhece o seu destino, fixa-o agora na deslumbrante claridade da morte. «Ai de mim! eis que os deuses me chamam para a morte. Julgava meu irmão a meu lado, mas ele está nas nossas muralhas. Atena enganou-me. Agora a má sorte está perto, aqui, já não há rerugio... Eis que o destino me arrebata.» 

Inteiramente lúcido, Heitor conhece o seu destino, vê a morte de tão perto que lhe parece tocá-la. Mas dir-se-ia que a esta mesma visão ele vai buscar uma força nova. Logo acrescenta: «Eis que o destino me arrebata. Mas em verdade, não quero morrer sem lutar... Farei qualquer coisa de grande que os homens do futuro saberão...»

O instante da morte é ainda o da luta. Heitor responde ao destino com uma acção de homem — uma acção que a comunidade dos homens considerará grande.

Assim o humanismo de Homero nos propõe nesta personagem uma ima­gem do homem, ao mesmo tempo verdadeira e exaltante. Heitor é um homem que se define no amor dos seus, no conhecimento dos valores universais e até ao seu ultimo suspiro, no esforço e na luta. Parece, ao morrer, lançar à morte um desafio. O seu grito de homem — esse grito de homem em trabalhos de uma humanidade melhor — quer ele que seja ouvido pelos «homens do futuro» por nos. Aquiles, Heitor: oposição não apenas de dois temperamentos humanos, mas de dois estádios da evolução humana.

A grandeza de Aquiles ilumina-se aos clarões de incêndio de um mundo que parece em vias de desaparecer, esse mundo aqueu da pilhagem e da guerra. Mas estará esse mundo bem morto? Não sobreviverá ele ainda no nosso tempo?

Heitor anuncia o mundo das cidades, das comunidades que defendem o seu solo e o seu direito. Fala da sageza dos pactos, das afeições familiares que prefiguram a vasta fraternidade dos homens.

Nobreza da Ilíada, grito de verdade vindo até nós. Altura e justeza que o poema recebe destas duas grandes figuras contrárias de Aquiles e de Heitor. Contradição ligada ao desenvolvimento da história e que bate ainda nos nossos corações.

Mitologia - Mitologia Grega
4/12/2020 3:21:39 PM | Por André Bonnard
Livre
Na terra grega, o povo grego

A ultima das expedições guerreiras dos príncipes aqueus, que levaram consigo os seus numerosos vassalos, foi a não lendária mas histórica guerra de Troia. A cidade de Troia-ilion, que era também uma cidade helênica, situada a pequena distância dos Dardanelos, enriquecera cobrando direitos aos mercadores que, para passar o mar Negro, tomavam o caminho de terra, ao longo do estreito, a fim de evitar as correntes, levando aos ombros barcos e mercadorias. Os Troianos espoliavam-nos largamente a passagem. Estes ratoneiros foram pilhados por seu turno. Ilion foi tomada e incendiada após um longo cerco, no principio do século XII (cerca de 1200). Numerosas lendas, aliás belas, mascaravam as razões verdadeiras, que eram razões econômicas, não heróicas, desta rivalidade de salteadores. A Ilíada dá-nos algumas. Os arqueólogos que fizeram escavações em Troia, no século passado, encontraram, nos restos de uma cidade que mostra sinais de incêndio e que a terra de uma colina recobria há mais de três mil anos, objetos da mesma época que os encontrados em Micenas. Os ladrões não escapam aos pacientes inquéritos dos arqueólogos-policiais.

Entretanto, novas tribos helênicas - Eólios, Jônios, por fim, Dórios - invadiram, depois dos Aqueus, o solo da Grécia. A invasão dos Dórios, os últimos a chegar, situa-se por volta de 1100. Enquanto que os Aqueus se tinham civilizado um pouco em contato com os Cretenses, os Dórios continuavam a ser muito primitivos. Contudo, conheciam o uso do ferro: com este metal tinham feito diversas armas. Entre os Aqueus, o ferro era ainda tão raro que o consideravam um metal tão precioso como o ouro e a prata.

Foi com estas armas novas, mais resistentes e sobretudo mais longas (espadas de ferro contra punhais de bronze), que os Dórios invadiram a Grécia como uma tempestade. Micenas e Tirinto são por sua vez destruídas e saqueadas. A civilização aquéia, inspirada na dos Egeus, afunda-se no esquecimento. Torna-se por muito tempo uma terra meio fabulosa da historia. A Grécia, rasgada pela invasão Doria, esta povoada agora unicamente de tribos gregas. A historia grega pode começar. Ela começa na noite dos séculos XI, X e IX. Mas o dia está perto.

Que terra era esta que iria tornar-se a Hélade? Que recursos primeiros, que obstáculos oferecia a um povo primitivo para uma longa duração histórica, uma marcha tacteante para a civilização?

Dois caracteres importa revelar: a montanha e o mar.

A Grécia é um pais muito montanhoso, embora os seus pontos mais altos não atinjam nunca três mil metros. Mas a montanha está por toda a parte, corre e trepa em todas as direções, por vezes muito abrupta. Os antigos marinhavam-na por carreiros que subiam a direito, sem se dar ao trabalho de zigue-zaguear. Degraus talhados na rocha, no mais escarpado da encosta. Esta montanha anárquica dava um país dividido numa multidão de pequenos cantões, a maior parte dos quais, aliás, tocavam o mar. Daqui resultava uma compartimentarão favorável à forma política a que os Gregos chamam cidade.

Forma cantonal do Estado. Pequeno território fácil de defender. Natural de amar. Nenhuma necessidade de ideologia para isto nem de carta geográfica. Subindo a uma elevação, cada qual abraça, com um olhar, o seu país inteiro. No pé das encostas ou na planície, algumas aldeias. Uma povoação construída sobre uma acrópole, eis a capital. Ao mesmo tempo, fortaleza onde se refugiam os camponeses em caso de agressão, e, nos tempos de paz, que pouco dura entre tantas cidades, praça de mercado. Esta acrópole fortificada é o núcleo da cidade quando nasce o regime urbano. A cidade não é construída a beira-mar - cuidado com os piratas! -, suficientemente próxima dele, no entanto, para instalar um porto.

As aldeias e os seus campos, uma povoação fortificada, meio citadina, eis os membros esparsos e juntos dum Estado grego. A cidade de Atenas não é menos a campina e as suas lavouras que a cidade e as suas lojas, o porto e os seus barcos, e todo o povo dos Atenienses atrás do seu muro de montanhas, com a sua janela largamente aberta para o mar: e o cantão a que se chama Ática.

Outras cidades, as dúzias, noutras molduras semelhantes. Entre estas cidades numerosas, múltiplas rivalidades: políticas, econômicas - e a guerra ao cabo delas. Nunca se assinam tratados de paz entre cidades gregas, apenas tréguas: contratos a curto prazo, cinco anos, dez, trinta anos, o Maximo. Mas antes de passado o prazo já a guerra recomeçou. As guerras de trinta anos e mais são mais numerosas na historia grega que as pazes de trinta anos.

Mas a eterna rivalidade grega merece por vezes um nome mais belo: emulação. Emulação desportiva, cultural. O concurso é uma das formas preferidas da atividade grega. Os grandes concursos desportivos de Olímpia e outros santuários fazem largar as armas das mãos dos beligerantes. Durante estes dias de festa, os embaixadores, os atletas, as multidões circulam livremente por todas as estradas da Grécia. Há também em todas as cidades formas múltiplas de concursos entre os cidadãos. Em Atenas, concursos de tragédias, de comedias, de poesia lírica. A recompensa é insignificante: uma coroa de hera para os poetas ou um cesto de figos, mas a gloria é grande. Por vezes um monumento a consagra. Apos a Antígona, Sófocles foi eleito general! E saiu-se com honra de operações que teve de conduzir. Em Delfos, sob o signo de Apolo ou de Dioniso, concursos de canto acompanhado de lira ou de flauta. Arias militares, cantos de luto ou de bodas. Em Esparta e em toda a parte concursos de dança. Em Atenas e em outros lugares, concursos de beleza. Entre homens ou entre mulheres, conforme os sítios. O vencedor do concurso de beleza masculina recebe, em Atenas, um escudo.

A gloria das vitorias desportivas alcançadas nos grandes concursos nacionais não pertence somente à nação: é a gloria da cidade do vencedor. Os maiores poetas - Pindaro e Simonides - celebram essas vitorias em esplendidas arquiteturas líricas onde a musica e a dança se juntam à poesia para dizerem ao povo a grandeza da comunidade dos cidadãos de que o atleta vencedor não é mais que delegado. Acontece o vencedor receber a mais alta recompensa que pode honrar um benfeitor da pátria: ser pensionado - alimentado, instalado - no pritaneu, que é a câmara municipal da cidade.

Tal como os exércitos, enquanto duram os jogos nacionais, os tribunais folgam, adiam-se execuções capitais. Tréguas que não duram mais de alguns dias, por vezes trinta.

A guerra crônica das cidades é um mal que acabara por ser mortal ao povo grego. Os Gregos nunca foram além - quando muito, em imaginação - da forma do Estado cidade-cantão. A linha do horizonte das colinas que limitam e defendem a cidade parece limitar, ao mesmo tempo que a visão, a vontade de cada povo de ser grego antes de ser ateniense, tebano ou espartano. As ligas, alianças ou confederações de cidades são precárias, prontas a desfazer-se, a desagregar-se por dentro, mais do que a sucumbir aos golpes de fora. A cidade forte que constitui o núcleo dessas alianças não leva muito tempo a tratar como súditos aqueles a quem continua a chamar, por cortesia, aliados: faz da liga um império cujo jugo pesa muito em contribuições militares e em tributos.

No entanto, não há uma cidade grega que não tenha a consciência vivíssima de pertencer à comunidade helênica. Da Sicilia a Ásia, das cidades da costa africana às que ficam para lá do Bosforo, até a Crimeia e ao Caucaso, o corpo helênico é do mesmo sangue, escreve Herodoto, fala a mesma língua, tem os mesmos deuses, os mesmos templos, os mesmos sacrifícios, os mesmos usos, os mesmos costumes. Fazer aliança com o Bárbaro, contra outros Gregos, é trair.

O Bárbaro, termo não pejorativo, é simplesmente o estrangeiro, e o não-Grego, aquele que fala essas línguas que soam bar-bar-bar, tão estranhas que parecem línguas de aves. A andorinha também fala bárbaro. O Grego não despreza os Bárbaros, admira a civilização dos Egípcios, dos Caldeus e de muitos outros: sente-se diferente deles porque tem a paixão da liberdade e não quer ser ,escravo de ninguém.

O Bárbaro nasceu para a escravatura, o Grego para a liberdade: por isto mesmo morreu Ifigênia. (Pontinha de racismo).

Perante a agressão bárbara, os Gregos unem-se. Não todos, nem por muito tempo: Salamina e Plateia, Grécia unida por um ano, não mais. Tema oratório, não realidade viva. Em Plateia, o exercito grego combate, ao mesmo tempo que aos Persas, numerosos contingentes doutras cidades gregas que se deixaram alistar pelo invasor. A grande guerra da independência nacional e ainda uma guerra intestina. Mais tarde, as divergências das cidades abrirão a porta à Macedônia, aos Romanos.

A montanha protege e separa, o mar amedronta mas une. Os Gregos não estavam encerrados nos seus compartimentos montanhosos. O mar envolvia todo o pais, penetrava profundamente nele. Havia pouquíssimos cantões, mesmo recuados, que o mar não atingisse.

Mar temível, mas tentador é mais aliciante que qualquer outro. Sob um céu claro, na atmosfera límpida, o olhar do nauta descobre a terra duma ilha montanhosa a cento e cinqüenta quilômetros de distância. Vê-a como um escudo pousado sobre o mar..

As costas do mar grego oferecem portos numerosos, ora praias de declive suave, para onde os marinheiros podem a noite puxar os seus leves barcos, ora portos de água profunda, protegidos por paredes rochosas, onde as grandes naves de comercio e os navios de guerra podem ancorar ao abrigo dos ventos. Um dos nomes que o mar toma em grego significa estrada. Ir pelo mar, é ir pela estrada. O mar Egeu é uma estrada que, de ilha em ilha, conduz o marinheiro da Europa à Ásia sem que ele perca nunca a terra de vista. Estas cadeias de ilhotas parecem calhaus lançados por garotos num regato para o atravessarem, saltando de um para outro.

Não há um cantão grego de onde não se distingue, subindo a qualquer elevação, uma toalha de água que reflete no horizonte. Nem um ponto do Egeu que esteja a mais de sessenta quilômetros de terra. Nem um ponto da terra grega a mais de noventa quilômetros do mar.

As viagens são baratas. Algumas dracmas e estamos no cabo do mundo conhecido. Alguns séculos de desconfiança e pirataria, e os Gregos, mercadores ou poetas, por vezes uma coisa e outra, tomam contato amigável com as velhas civilizações que os precederam. As viagens de Racine e de La Fontaine não vão além de Ferte-Milon ou Chateau-Thierry. As viagens de Sólon, de Esquilo, de Heródoto e de Platão chegam ao Egito, à Ásia Menor e Babilônia, à Cirenaica e a Sicilia. Não há um Grego que não saiba que os Bárbaros são civilizados há milhares de anos e que tem muito para ensinar ao povo do "Nós-Gregos-somos-crianças". O mar grego não é a pesca do atum e da sardinha, é a via das permutas com os outros homens, a viagem ao pais das grandes obras de arte e das invenções surpreendentes, do trigo que cresce basto nas vastas planícies, do ouro que se esconde na terra e nos rios, a viagem ao pais das maravilhas, tendo por única bussola a carta noturna das estrelas. Para além do mar, há uma grande abundancia de terra desconhecida para descobrir, cultivar e povoar. Todas as grandes cidades, a partir do século VIII, vão plantar rebentos nas cidades novas em terra nova. Os marinheiros de Mileto fundam noventa cidades nas margens do mar Negro. E de caminho fundam também a astronomia.

Concluindo: o Mediterrâneo é um lago grego de caminhos familiares. As cidades instalam-se nas margens dele "como rãs ao redor de um charco", diz Platão. Evoe ou coaxo! O mar civilizou os Gregos.

Alias, foi só à força que o povo grego se tornou um povo de marinheiros. E o grito do ventre faminto que arma os barcos e os lança ao mar. A Grécia era um pais pobre. A Grécia foi criada na escola da pobreza. (Outra vez Heródoto.) O solo é pobre, e ingrato. Nas encostas e, muitas vezes, pedregoso. O clima é seco de mais. Apos uma Primavera precoce e efêmera, com uma magnífica e brusca floração das arvores e dos prados, o Sol não se cobre nunca mais. O Verão instala-se como rei e queima tudo. As cigarras zangarreiam na poeira. Durante meses, nem uma nuvem no céu. Muitas vezes, nem uma gota de água cai em Atenas de meados de Maio ao fim de Setembro. Com o Outono vem a chuva, e no Inverno rebentam as tempestades. Borrascas de neve, mas que não se agüentam dois dias. A chuva cai em grossas pancadas, em tromba. Ha sítios em que a oitava parte ou mesmo a quarta parte da chuva de um ano, cai em um só dia. Os rios, meio secos, tornam-se correntes temerosas, de água rugidora e devoradora que come a delgada camada de terra das encostas calvas e a arrasta para o mar. A desejada água torna-se um flagelo. Em cestos vales fechados, as chuvas formam baixos pantanosos. Deste modo, o camponês tinha que lutar, ao mesmo tempo, contra a seca que queimava os centeios e contra a inundação que lhe afogava os prados. E mal o podia fazer. Construía os seus campos nas encostas, em terraços, e transportava em cestos, de um muro para outro, a terra que resvalara do seu bocado. Tentava irrigar os campos, drenar os fundos pantanosos e limpar as bocas por onde havia de escoar-se a água dos lagos. Todo este trabalho, feito com ferramentas de hotentote, era duríssimo e insuficiente. Teria sido preciso repovoar de árvores a montanha nua, mas isso não sabia ele. Ao principio, a montanha grega era bastante arborizada. Pinheiros e plátanos, ulmeiros e carvalhos coroavam-na de bosques centenários. A caça pululava. Mas desde os tempos primitivos os Gregos derrubaram árvores, fosse para construir aldeias, fosse para fazer carvão. A floresta perdeu-se. No século V, colinas e picos perfilavam já contra o céu as mesmas arestas secas de hoje. A Grécia ignorante entregou-se ao sol, a água desregrada, a pedra.

Lutava-se pela sombra de um burro.

Sobre este solo duro, sobre este céu caprichosamente implacável, davam-se bem oliveiras e vinhas, menos bem os cereais, cuja raiz não pode ir buscar a umidade suficientemente funda. Não falemos das charruas, ramos em forquilha ou grosseiros arados de madeira que mal arranhavam a terra. Abandonando os cereais, os Gregos vão buscar o trigo as terras mais afortunadas da Sicilia ou das regiões a que hoje chamamos Ucrânia e Romênia. Toda a política imperialista de Atenas grande cidade, no século V, e, antes de mais, política do trigo. Para alimentar o seu povo, Atenas tem de se manter senhora dos caminhos do mar, em particular dos estreitos que são a chave do mar Negro.

O azeite e as vinhas são a moeda de troca e o orgulho da filha deserdada do mundo antigo. O produto precioso da oliveira cinzenta, dom de Atena, responde as necessidades alimentares da vida quotidiana: cozinham com azeite, alumiam-se com azeite, à falta de água lavam-se com azeite, esfregam-se, alimentam de azeite a pele sempre seca.

Quanto ao vinho, maravilhoso presente de Dioniso, só nos dias de festa o bebem, ou a noite, entre amigos, e sempre cortado com água.

"Bebamos. Para que esperar a luz da lâmpada? só resta da luz do dia um quase nada. Traz para baixo, menino, as grandes taças coloridas. O vinho foi dado aos homens pelo filho de Zeus e de Semele para que esqueçam as suas penas. Enche-as até a borda com uma parte de vinho e duas partes de água, e que uma taça empurre a outra..." (O Ramuz! Não, Alceu.)

"Não plantes nenhuma outra arvore antes de teres plantado vinha." (Outra vez o velho Alceu de Lesbos, antes de Horacio.) O vinho, espelho da verdade, fresta por onde se vê o homem por dentro!

A vinha, amparada em tanchões, ocupa as encostas, arquitetadas em terraços, da terra grega. Na planície plantam-na entre as arvores dos pomares, empada de uma para outra.

O Grego é sóbrio. O clima assim o exige, repetem os livros. Sem duvida, mas a pobreza nao o exige menos. O Grego vive de pão de cevada e de centeio, amassado em bolos chatos, de legumes, de peixe, de frutos, de queijo e de leite de cabra. E muito alho.

Carne - caça, criação, cordeiro e porco -, só nos dias de festa, como o vinho, não falando dos senhores (os "gordos", como se diz).

Desta pobreza de regime e de vida (é claro, esta gente do Meio-dia é preguiçosa, vive de coisa nenhuma, regalada de bom sol), a causa não está apenas no solo ingrato ou mesmo nos processos elementares de cultura. Acima de tudo, resulta da desigual repartição da terra pelos seus habitantes.

No começo, as tribos que ocupavam a região tinham feito da terra uma propriedade coletiva do clã. Cada aldeia tinha o seu chefe de clã, responsável pela cultura do solo do distrito, pelo trabalho de cada um e pela distribuição dos produtos da terra. O clã agrupa um certo numero de famílias - no sentido amplo de gente duma casa -, cada uma das quais recebe uma extensão de terra para cultivar. Não há, nesses tempos primitivos, propriedade privada: a terra devoluta não pode ser vendida ou comprada, e não se reparte por morte do chefe de família. É inalienável. Em compensação, o parcelamento pode ser refeito, a terra outra vez distribuída, segundo as necessidades de cada família.

Esta terra comum é cultivada em comum pelos membros da casa. Os frutos da cultura são repartidos sob a garantia de uma divindade que se chama Moira, cujo nome quer dizer parte e sorte, e que presidira igualmente a repartição, por sorteio, dos lotes de terra. Entretanto, uma parte do domínio, mais ou menos metade, é sempre posta de pousio: é preciso deixar repousar a terra, não se pratica ainda, de um ano para outro, a cultura alternada de produtos diferentes. O rendimento é muito baixo.

Mas as coisas não ficam por aqui. O antigo comunismo rural, forma de propriedade própria do estado da vida primitiva (ver os Batongas da Africa do Sul, ou certos povos de Bengala), começa a desagregar-se a partir da época dos salteadores aqueus. A monarquia de Micenas era militar. A guerra exige um comando unificado. Após uma campanha proveitosa, o rei dos reis e os reis subalternos, seus vassalos, talhavam para si a parte de ledo, na partilha do saque como na redistribuição da terra. Ou então certos chefes apropriam-se simplesmente das terras de que apenas eram administradores. O edifício da sociedade comunitária, onde se introduzem graves desigualdades, destrói-se pelo topo. A propriedade privada cria-se em beneficio dos grandes.

Instala-se também por outra maneira, sinal de progresso... Alguns indivíduos podem ser, por razões diversas, excluídos dos clãs. Podem também sair deles de sua própria vontade. O espírito de aventura leva muitos a tomar o caminho do mar. Outros ocupam, fora dos limites do domínio do clã, terras que haviam sido julgadas demasiado medíocres para ser cultivadas. Forma-se uma classe de pequenos proprietários à margem dos clãs: a propriedade deixa de ser comunal, torna-se, por fases, individual. Esta classe e pobríssima, mas muito ativa. Quebrou os laços com o clã: rompe-os por vezes com a terra. Estes homens formam guildas de artífices: oferecem aos clãs as ferramentas que fabricam, ou simplesmente trabalho artesanal como carpinteiros, ferreiros, etc. Entre estes "artífices", não esqueçamos nem os médicos nem os poetas. Agrupados em corporações, os médicos tem regras, receitas, bálsamos e remédios que vão propondo de aldeia em aldeia: estas receitas são sua exclusiva propriedade. Do mesmo modo, as belas narrativas em verso, improvisadas e transmitidas por tradição oral nas corporações de poetas, são propriedade dessas corporações.

Todos estes novos grupos sociais nascem e se desenvolvem no quadro da "cidade". E aqui temos as cidades divididas em duas metades de força desigual: os grandes proprietários rurais, por um lado, e, por outro, uma classe de pequenos proprietários mal favorecidos, de artífices, de simples trabalhadores do campo, de marinheiros,  tudo gente de ofício, "demiurgos", diz o Grego, turba miserável ao princípio.

Todo o drama da historia grega, toda a sua grandeza futura se enraíza no aparecimento e no progresso destes novos grupos sociais. Nasceu uma nova classe que vai tentar arrancar aos "grandes" os privilégios que fazem deles os senhores da cidade. É que só estes proprietários nobres são magistrados, sacerdotes, juízes e generais. Mas a turba popular depressa tem por seu lado o numero. Quer refundar a cidade na igualdade dos direitos de todos. Mete-se na luta, abre o caminho para a soberania popular. Aparentemente desarmada, marcha à conquista da democracia. O poder e os desses são contra ela. Mesmo assim, a vitoria será sua.

Eis, sumariamente indicadas, algumas das circunstâncias cuja ação conjunta permite e condiciona o nascimento da civilização grega. Repare-se que não foram somente as condições naturais (clima, solo e mar), como o não foi o momento histórico (herança de civilizações anteriores), nem as simples condições sociais (conflito dos pobres e dos ricos, o "motor" da história), mas sim a convergência de todos estes elementos, tornados no seu conjunto, que constituíram uma conjuntura favorável ao nascimento da civilização grega.

E então o "milagre grego"? - perguntarão certos sábios ou assim chamados. Não há "milagre grego". A noção de milagre é fundamentalmente anti-cientifica, e é também não-helenica. O milagre não explica nada: substitui uma explicação por pontos de exclamação.

O povo grego não faz mais que desenvolver, nas condições em que se encontra, com os meios que tem a mão, e sem que seja necessário apelar para dons particulares de que o Céu lhe teria feito dom, uma evolução começada antes dele e que permite a espécie humana viver e melhorar a sua vida.

Um exemplo só. Os Gregos parecem ter inventado, como que por milagre, a ciência. Inventam-na, com efeito, no sentido moderno da palavra: inventam o método cientifico. Mas se o fazem é porque, antes deles, os Caldeus, os Egípcios, outros ainda, tinham reunido numerosas observações dos astros ou sobre as figuras geométricas, observações que permitiam, por exemplo, aos marinheiros, dirigirem-se no mar, aos camponeses medir os seus campos, fixar a data dos seus trabalhos.

Os Gregos aparecem no momento em que, destas observações sobre as propriedades das figuras e o curso regular dos astros, se tornava possível extrair leis, formular uma explicação dos fenômenos. Fazem-no, enganam-se muitas vezes, recomeçam. Não há nada aqui de miraculoso, mas apenas um novo passo do lento progresso da humanidade.

Tirar-se-iam outros exemplos, e com abundância, dos outros domínios da atividade humana.

Toda a civilização grega tem o homem como ponto de partida e como objeto. Procede das suas necessidades, procura a sua utilidade e o seu progresso. Para ai chegar, desbrava ao mesmo tempo o mundo e o homem, e um pelo outro. O homem e o mundo são, para ela, espelhos um do outro, espelhos que se defrontam e se lêem mutuamente.

A civilização grega articula um no outro o mundo e o homem. Casa-os na luta e no combate, numa fecunda amizade, que tem por nome Harmonia.

História - Civilização Grega
4/12/2020 1:25:12 PM | Por André Bonnard
Livre
A poesia de Safo de Lesbos

Safo é um país estranho, cheio de maravilhas. Um "enigma", uma "maravilha", diziam já os antigos. A expressão é exata na sua simplicidade: um enigma: a palavra aplica-se ao mesmo tempo à sua vida e à sua pessoa, diversamente interpretadas. Um enigma, uma maravilha: muito mais ainda estas palavras se aplicam a sua poesia, mutilada embora como esta.

Safo presidia em Mitilene de Lesbos, por alturas da ano de 600, a uma confraria de moças consagradas à Afrodite, às Graças e às Musas. Ela chama a sua casa "a morada das servas das Musas". Mais tarde dir-se-á, entre os Pitagóricos, em Alexandria depois, um "Museu". A instituição de Safo não é outra coisa que uma "escola" colocada sob o patrocínio das divindades femininas do amor, da beleza e da cultura.

Um fato que não deve ser desprezado, é ter esta escola a forma de uma confraria religiosa. A comunidade do culto estabelecia entre as moças e a sua educadora laços muito fortes. A poesia de Safo é, em certo sentido, uma poesia de amor mútuo que unia, em Afrodite, as fieis da deusa. No entanto, não se julgue que a finalidade proposta por Safo às moças a sua guarda fosse a consagração à divindade. Safo não era de modo algum sacerdotisa de Afrodite. A associação cultural é, nessa época, a forma natural de todas as casas de educação. As antigas escolas de filosofia, as primeiras escolas medicas, são também confrarias religiosas, o que não significa que tenham formado sacerdotes de Asclépio. Mas do mesmo modo que os médicos instruíam os fieis deste deus na arte de curar, Safo tentava, ajudada pela deusa, ensinar as moças de Mitilene uma ante de viver - a arte de ser mulher.

Cultivava-se muito a musica, a dança e a poesia no circulo de Safo. Contudo, a casa das Musas não é um conservatório ou uma academia, tal como não é um seminário. As artes não são ensinadas por si próprias e ainda menos para se fazer profissão delas. Para Safo, trata-se de ajudar as moças que vivem com ela por essa vida partilhada, pela pratica das artes, pela devoção à Afrodite, pelo culto das Musas - a realizar, na sociedade onde cedo irão tomar lugar, um ideal de beleza feminina que as deusas a quem honram primeiramente encarnaram.

Estas moças hão de casar-se. Casada também e mãe de família - mãe de uma menina que ela compara a um braçado de ranúnculos - era simplesmente para o casamento, realização da mulher na alegria e na beleza, que Safo preparava as moças que lhe tinham sido confiadas.

Isto implica ser então a condição da mulher em Lesbos muito diferente da que era na maior parte das cidades gregas. Uma coisa é certa: a mulher, em Mitilene, anima a vida da cidade com o seu encanto, os seus trajes, o seu espírito. O casamento fá-la entrar, como em toda a região eólica (recordemos Andromaca), em pé de igualdade na sociedade dos homens. Participa na cultura musical e poética do seu tempo. Rivaliza com os homens no domínio das artes. Se os costumes eólicos reservavam um tal lugar a esposa, não é de surpreender que tenham ao mesmo tempo exigido escolas onde as moças se formassem para esse papel que se esperava das mulheres.

Instruídas por Safo, as alunas das Musas preparam-se para encarnar um dia, na cidade de Mitilene, as perfeições de Afrodite. O fulgor da beleza feminina ilumina toda a poesia de Safo. A mulher, segundo Safo, deve ter o rosto banhado de moveis claridades. Os seus olhos são cheios de graça, o seu caminhar inspira o desejo. O objetivo da cultura é a conquista da beleza. Atenta dos presentes e as lições de Afrodite, que é o seu guia e seu modelo, que lhe ensina a amar as flores e o mar, que lhe revela o encanto do mundo sensível e acima de tudo a embriagadora beleza do corpo feminino, a adolescente cresce em beleza e em graça, a beleza exalta as suas feições, a beleza torna-a feliz e espalha em toda a sua pessoa essa profusão de alegria que Safo saúda como uma luz estelar.

Num ambiente de festas sempre renovadas, as moças, sob o olhar da deusa, cujo próximo poder sobre a vida pressentiam, levavam uma existência quase monacal, rigorosa e fervente ao mesmo tempo, mas em que os pensamentos, em vez de dirigidos para o celibato, eram inclinados para o encontro do esposo. A cultura poética que Safo lhes inculcava em estrofes ardentes, onde ela falava da onipotência de Afrodite e que o coro das adolescentes cantava em uníssono, era aquilo a que os antigos chamavam uma "erótica", uma cultura do amor. Ao lado de Safo, em quem desde há muito habitava Afrodite, na alegria e na dor, as moças, lentamente, iniciavam-se na sua vocação de mulheres. Começavam a sentir mover-se dentro de si, ao mesmo tempo, o coração e os sentidos e, se a tal o destino as chamava, despertavam para a paixão.

Que relações de ardente amizade uma tal educação - esse céu de fogo onde reinava Cipris - terá feito nascer entre Safo e as suas amigas, eis o que a poesia nos diz. Pois é em poesia que se liberta esta alma solitária, em presença da beleza que fez nascer e crescer à sua volta.

Igual aos deuses me parece

aquele que, face a face, sentado junto de ti,

escuta a tua voz tão suave,

e esse riso encantador que, juro,

enlouquece no meu peito o coração.

Mal te vejo, um instante que seja,

nem já sequer um som me passa os lábios,

mas a minha língua se resseca,

um fogo sutil de súbito me corre sob a pele,

os meus olhos deixam de ver,

os meus ouvidos zumbem,

cobre-se-me o corpo de suor,

um estremecimento me percorre toda,

torno-me mais verde que a erva.

E parece-me que vou morrer...

Eis-nos no circulo da paixão. Eros é soberano. O desejo fere, e Safo conta os golpes.

Este poema é a narrativa de um combate. Atacada por Eros na sua carne, Safo vê desmoronar-se a cada assalto a segurança que punha nas diversas partes do seu mecanismo vital. Todas as sensações que nos ligam ao mundo, que nos tranqüilizam sobre a nossa existência, as imagens, os sons, o ritmo regular do coração, o afluxo do sangue rubro ao rosto, tudo isto lhe foge sucessivamente. Assiste ao desregramento dos seus órgãos e tem, de algum modo, de enlouquecer e morrer com cada um deles. Morre com o coração que desfalece, com a garganta privada de som, com a língua subitamente seca; o fogo espalha-se nas veias, os olhos recusam a sua função, os ouvidos não ouvem mais que o palpitar das artérias, toda a carne começa a tremer, lívida já como um cadáver... Contudo, depois de ver os seus diversos órgãos arrancados pela paixão do seu ofício, depois de ter atravessado estas mortes orgânicas, falta-lhe ainda sofrer a sua própria morte. O mal que a invade não tem já diante de si, na conquista progressiva do ser, mais que a pura consciência do eu, privada dos seus apoios naturais: por sua vez a submerge. O sujeito toma o conhecimento paradoxal do seu estado de morto (um pouco falta, afasta, a justa, o absurdo). O ultimo verso intato diz exatamente:

Pouco falta para eu me sentir morta...

Em parte alguma a arte de Safo é mais desnudada que nesta ode. Em parte alguma, mais fisiológica a sua poesia. Fatos, nada mais que fatos. Nada que não seja a notação precisa, rigorosa, dos efeitos físicos do desejo. Pouquíssimos adjetivos nestes versos - desses adjetivos que tão bem sabem, na lírica amorosa, lançar sobre o fenômeno físico drapejamentos sentimentais. Aqui, por todo o lado, verbos e nomes: uma arte de coisas e de acontecimentos.

A parte da alma é quase nula. O corpo poderia pedir auxilio a alma, atirar para ela o fardo do sofrimento. Bastaria a Safo refugiar-se em qualquer álibi do seu sofrimento físico, ciúme, ódio ou tristeza da separação. A dor moral faz as vezes da morfina. As circunstancias prestavam-se a esta evasão. Um filólogo descobriu, na origem deste poema, a partida de uma amiga que abandona a casa das servas das Musas para se casar. Aquele que os primeiros versos mostram sentado, ao lado do objeto da paixão de Safo, e sem duvida o noivo. Mas o poema nada sabe da dor do adeus. Safo não acalenta complacentemente no seu coração este terno sentimento. Não se embriaga de desgosto para esquecer o seu suplicio. O sofrimento do corpo ocupa-a, só por si, a toda ela. Do amor Safo conhece essa tempestade ensurdecedora que se desencadeia na sua carne.

Safo nada tem a esconder: a sua arte e retidão e candura. É verdadeira. Não cora de nenhum dos fenômenos de que o seu corpo é sede. Ela diz: língua e ouvidos; ela diz suor e estremecimento. Esta arte está nos antipodal do agradável: não é agradável estar suado. Safo escorre de suor: não se envergonha disso, não tira dai gloria, reconhece-o apenas.

Safo também não descreve o objeto do seu desejo. Tal objeto está fora do nosso alcance: apenas são notados, com uma palavra e uma exatidão que não hesita, os acontecimentos de que ele é o principio. Mas aonde vai dar a ação dramática aqui iniciada? A uma única coisa, que não deixa qualquer duvida: a destruição do ser pela paixão.

Um fogo arde diante de nos, na escuridão. O poeta situa-o no coração de uma larga zona de obscuridade. Nada, na sua arte, nos desvia da labareda - nenhum sentimento, qualquer que seja, nenhuma descrição do objeto amado -, a fim de que ele arda solitário e vencedor, cumprindo a sua obra de morte. Esta claridade cingida de trevas é a paixão de Safo.

O historiador da literatura pode aqui maravilhar-se: toca num começo absoluto. Eurípedes, Catulo, Racine falaram do amor com o acento de Safo: Safo, com o acento de ninguém. Ela é nova, inteiramente nova.

Em vão apuramos o ouvido a outras vozes mais antigas do amor. Adromaca a Heitor:

"Heitor, tu és meu pai, minha mãe, meu irmão; tu-és meu marido cheio de juventude...".

Paris a Helena:

"Mulher, deitemo-nos no chão e saboreemos o amor. Nunca como hoje o desejo me tomou, nem mesmo no dia em que, depois de te ter roubado da bela Esparta, me uni a ti sobre o leito rochoso de uma ilhota. Mais ainda te amo e te desejo hoje..."

Arquíloco falando de Neobule:

"A sua cabeleira lançava sombra sobre os seus ombros e sobre as suas costas... Com os seus cabelos perfumados e o seu seio, ela teria dado o amor a um velho..."

Mimnermo pensando em Nanno:

"Que vida, que prazeres sem a loura Afrodite? Ah! Que eu morra quando estas doces coisas me não tocarem já, presentes de mel, leito amoroso - deslumbrantes flores da juventude!..."

Pensa-se nestas diversas vozes do amor. Cada uma delas tem o seu acento próprio. Mas como é estranhamente distinta, entre todas, a ressonância de Safo! Nem a ternura de Andrômaca, nem o ardente apelo à volúpia de Paris a Helena que o despreza, nem o olhar reto, ousado e comedido que Arquíloco levanta para Neobule, nem a melancolia de Mimnermo que se recorda de Nanno. Não, é Safo apenas, Safo ardente e grave.

Ardente. Até aqui, nunca Eros queimou. Aqueceu os sentidos, confortou o coração. Levou ao sacrifício, a volúpia, a ternura, ao leito. Nunca queimou, nunca destruiu. A cada um daqueles em quem habitava, alguma coisa dava - a coragem, o prazer, o doçra das lembranças... Apenas a Safo nada dá, tudo retira.

Um deus privado de sentido. "invencível" e "inapreensível"», diz ao mesmo tempo uma das palavras que ela lhe aplica em outra passagem. Nada se pode fazer para o apanhar na armadilha. O amor desconcerta, tanto quanto desanima. Une os contrários: a sua doçura e amargura. A imaginação não pode representá-lo. Na obra de Safo, onde irradia a figura de Afrodite, Eros não se reveste de qualquer forma humana. O robusto adolescente, o seguro arqueiro, não aparece nos versos conservados. Dir-se-ia que o tipo não foi ainda inventado (de que não há a certeza). Digamos antes que Safo não pode escolher figurá-lo assim. Para ela, Eros é uma força obscura que se insinua nos membros e os "desfaz": só o percebe através do suplicio que ele inflige ao seu corpo, e o seu pensamento forceja por descobrir-lhe um rosto. Invisível e secreto, o ser que a habita só metaforicamente se exprime. As imagens que lhe dão vida poética descobrem a sua natureza insidiosa e brutal. São tiradas das forças cegas do mundo físico ou do caminhar inquietante do animal.

Outra vez Eros que dissolve os membros me tortura, doce e amargo, monstro invencível.

Mas toda a tradução se esmaga aqui sob o peso excessivo das palavras. Um só adjetivo encerra a doçura e a amargura de Eros, denunciando assim a natureza incompreensível do deus. A palavra traduzida por "monstro" significa o animal que rasteja. O amor de Safo não tem asas, e ainda serpente. Quanto a palavra "invencível" (contra a qual nada podem as "maquinas"), sente-se nela palpitar, em grego, a impotência do homo faber para reduzir esta força indomada. As palavras dadas por "monstro invencível" dariam mais ou menos: Eros, "animal que não cai na armadilha".

Animal rastejante, ser monstruoso, força imperiosa tanto quanto impensável, tal é o Eros que caminha nos membros de Safo.

Outra metáfora ainda, tirada do império das forças naturais:

-Eros sacudiu a minha alma, como o vento da montanha que se abate sobre os carvalhos.

A experiência que Safo tem do amor é a de um formação que a deixa abatida, jazente, sem que dele nada possa entender. A alma de Safo e ameaçada de dezenraizamento por esta força privada de sentido.

Temível para o homem, como o animal ou a tempestade, a paixão só como um deus destruidor se dá a conhecer aquele a quem derruba...

... E, no entanto, Safo enfrenta estas tempestades. Para além da região dos temporais, Safo reserva em si mesma um céu de uma inalterável serenidade. Um sonho de ouro mora neste coração desolado.

Toda a paixão tem um objeto. O prazer ou a dor de que ela nos trespassa, lançam-nos para esse objeto ou dele nos afastam. Entregamo-nos a dor, ao sofrimento, como nos entregamos à noite que nos restituíra o dia.

Mas qual é então o objeto da paixão de Safo? Esta pesquisa leva-nos a penetrar na região mais misteriosa da sua poesia. A mais inexplorada também, apesar das hipóteses grosseiras de que a antipoesia (por isto entendo eu uma certa filologia) semeou este caminho.

Não se trata, com efeito, de determinar o nome ou o sexo desse objeto. Aquilo que Safo nos não entrega, aquilo que só sabemos, por vezes, graças ao acaso de um gênero (quando o zelo de um filólogo pela virtude não corrige a terminação reveladora), não temos nós que o perseguir para além do texto e como por efracção do texto. Muito menos quando esse texto, falando-nos de si mesmo, nos descobre horizontes poéticos muito mais vastos que as considerações históricas que extrairíamos do conhecimento de um estado civil e da verificação de uma perversão da sexualidade.

Que há pois nesse objeto que se propõe a paixão?

Voltemos a ler alguns versos do poema já longamente analisado:

...escuta a tua voz tão suave

e esse riso encantador

que enlouquece no meu peito o coração...

Nada mais que isto, nada menos que isto. Um som que vem ferir o ouvido: mais não é preciso para abrasar o corpo e a alma.

-Mal te vejo, um instante que seja...

Do objeto amado, basta a percepção mais fluída, a do som, ou uma imagem apenas entrevista, para desencadear a paixão em toda a sua extensão. A oposição entre a exigüidade da causa e a intensidade do efeito colhe-nos de súbito. São tão vastos os espaços da paixão que este poema de Safo percorre, como limitada é a visão que ela nos dá do seu objeto. Conhecemos tudo do seu sofrimento, esgotamo-lo membro a membro. Não conhecemos daquilo que ela ama senão esse aspeto singular da voz e do riso. Não descrito, o objeto impõe-nos a sua autoridade. "O que, dir-se-á, tanto sofrimento por coisa tão pouca!... Mas nós sabemos que não se trata de coisa pouca.

Em todos os fragmentos de Safo onde se exprime a paixão, por pouco que a sua extensão ou a sua densidade permitam entrever o processo da criação poética, e sempre em oposição a toda a decorrência descritiva, a toda a enumeração das qualidades do objeto amado, que nascem o movimento passional e a poesia que o faz conhecer. De cada vez, é preciso e basta que um só traço da pessoa amada faça ouvir o seu apelo, e logo todo o ser se comove. No seio dessa perturbação, em resposta a esse apelo, jorra então a fonte poética.

O apelo, é um simples gesto que o dá, o passo de uma ausente, o brilho de um rosto desaparecido, é a delicadeza de uma garganta, é uma fronte coroada de flores, é a graça de um braço que se levanta. Pode ser mesmo a ausência de graça:

Atis, há muito tempo já que eu te amava,

tu não eras para mim senão uma criança pequena e sem graça.

Bastará a partida desta criança sem graça, que troca a casa da sua amiga pela escola rival de Andrômeda, para provocar o fragor de paixão já citado, mas que devemos aqui reportar ao seu objeto:

Outra vez Eros que dissolve os membros me tortura,

doce e amargo, monstro invencível,

ô Atis! E tu, cansada de prender a mim

o teu cuidado, voas para Andromeda.

Assim, a paixão e a poesia de Safo obedecem a apelos tênues, aquilo a que podemos chamar ,sinais. Esta poesia dos sinais - este simbolismo no sentido primeiro da palavra - está nos antipodal da poesia descritiva. Um sinal não é uma sinaletica. A poesia descritiva participa sempre um pouco do estilo dos passaportes. Enumerando as feições de um rosto, passando em revista os elementos de uma paisagem, acontece-lhe esquecer que as pessoas e as coisas se manifestam mais essencialmente num gesto imprevisto, num aspeto acidental, do que através da análise dos seus elementos. O timbre da voz, a lembrança de um andar penetram a apaixonada Safo de sofrimento e de prazer. Estes sinais asseguram ao amante que a amante é insubstituível. Por isso mesmo, podem dar-lhe toda ela. A presença total obedece ao apelo do sinal particular. O sinal liga-nos ao objeto, sujeita-nos a ele. Esta sujeição dá-nos prazer.

Alias, nada aumenta mais que a ausência do poder do objeto amado sobre a alma de Safo. Ela descreve:

Hoje ninguém mais se lembra

 de Anactória ausente.

Ah! gostaria de contemplar o seu andar arrebatador

e o brilho deslumbrante do seu rosto...

Anactória está ausente. Duas imagens dela vêm ferir a amante-poeta. Como um exame, as imagens voam em volta dela. Mas um poeta não é um registrador de imagens. Uma só, ou poucas dentre todas a trespassam com o seu dardo. Imagens doravante eleitas. Imagens que oferecem a amante - ao poeta - o ser que eles desejam. Duas imagens dão Anactória a Safo. Um andar arrebatador (ou "desejável"); um rosto cintilante da luz móbil das estrelas, um rosto de brilho estelar.

Dois sinais: e a ausência da amiga torna-se presença...

Há noites em que o apelo da ausente se torna mais estranho, mais misterioso. No silêncio noturno, quando se cala a realidade sensível, quando se entorpecem de lembranças e de desejos a carne e a alma dobradas sobre si mesmas no leito solitário, eis que uma voz - ao mesmo tempo uma voz e uma luz - se aproxima em ondas impalpáveis, procurando o seu caminho no coração da obscuridade. Para a distinguir através do espaço, os sentidos cegos parecem palpar a sombra e alongar-se infinitamente para o objeto bem-amado.

Arignota viveu em outro tempo em Mitilene, entre as moças que Safo dirigia. Apaixonou-se pela terna Atis, que foi uma outra amiga da poetisa. Depois deixou aquelas a quem amava, para ir viver na Lidia, no outro lado do mar. Safo partilha do sofrimento de Atis, a quem dirige o seu poema; recorda-lhe as alegrias da vida partilhada com Arignota; escuta com ela a voz da amiga desaparecida que, de Sardes, para além das vagas do mar, procura alcançá-las. Este poema, pela própria natureza das emoções que exprime, é de interpretação muito delicada.

Muitas vezes, na longínqua Sardes,

o pensamento da querida Arignota, ó Atis,

vem procurar-nos aqui, a ti e a mim.

No tempo em que vivíamos juntas,

tu foste verdadeiramente para ela uma deusa,

e do teu canto ela fazia as suas delicias.

Agora, entre as mulheres da Lidia,

ela brilha, como apos o por do sol

brilha a lua de raios cor-de-rosa,

entre as estrelas que faz desvanecer.

Ela espalha a sua luz sobre as ondas marinhas,

ilumina os prados em flor.

É a hora em que caem as belas gotas de orvalho,

em que renascem a rosa, a delicada angélica

e o perfume do meliloto.

Então, nas suas longas caminhadas errantes,

Arignota lembra-se da doce Atis,

com a alma grave de desejo, o coração inchado de desgostos.

E, lá longe, o seu apelo agudo convida-nos a juntar-nos a ela,

e a noite de sutis ouvidos

procura transmitir, para além das vagas que nos separam,

estas palavras que não se compreendem,

esta voz misteriosa...

Hesitamos em tocar num tal poema. Como reter esta água nas redes de um comentário? E para que? Talvez para saborear duas vezes o seu prazer. O poema está ligado, como outros de Safo, ao silêncio da noite e à luz dos astros. Na escuridão, os reflexos luminosos ganham um valor maior, o sentido do ouvido atinge mais acuidade. Ao mesmo tempo, o mundo interior das lembranças, dos pesares, dos desejos, liberto pelo silêncio noturno, dá um sentido secreto aos sons e às vagas luminosidades distinguidas. A lua ergueu-se sobre o mar de Mitilene, parece uma forma rósea surgida da terra da Ásia. Será a lua? Será um sinal de Arignota?...

Uma luz espalha-se sobre as águas e os prados. Será a claridade da lua? Ou será o brilho da beleza da amiga? Um e outra. E como se o pensamento do poeta de súbito balouçasse diante deste sonho lunar... Parece que Safo vê subir no céu um fantasma que vem ate aos seus pés tocar as flores do seu jardim. A imagem demora-se um instante entre essas flores que retomam vida na frescura da manhã.

Depois, de repente, a imagem apaga-se e cede o lugar a uma outra imagem mais precisa, mais imperiosa. O apelo do reflexo torna-se o apelo de uma voz. Ergue-se um grito, agudo como os gritos dos sonhos. Porque é realmente no ambiente do sonho que o poema paira. Estranhas palavras procuram atravessar o espaço e ao mesmo tempo perfurar essa zona insonora que isola o sonhador. Arignota fala. Entorpecida pelo desejo de Atis, entorpecida de pesares. Ela chama com palavras, que tem um sentido preciso, indiscutível: ordenam a Atis e a Safo que se juntem a Arignota. Contudo - e é aqui que o caráter onírico do poema é mais evidente -, se a mensagem que as palavras pronunciadas transmitem e certa, "não se compreendem", como palavras, são imperceptíveis, "misteriosas"; e como se estivessem carregadas de um sentido segundo, dolorosamente inacessível. O ouvido aguça-se na noite para as apreender, ou antes, a própria noite torna-se ouvidos para as ouvir e transmitir: e só ouve ressoar o incompreensível.

Vemos, nestes versos, desligar-se a poesia de Safo da realidade, a qual parecia estreitamente colada no poema da sua tortura física, e instalar-se no sonho. E é a ausência da amiga e o afastamento do objeto amado que permitem operar-se a transferência. Os seres que se movem no mundo poético a que ela nos faz aceder, existem a maneira dos seres que povoam os nossos sonhos. Nada de confuso há neles. A sensação que nos dão da sua existência e, pelo contrario, de extrema nitidez. São mesmo carregados de uma presença mais forte que a dos seres ordinários. A mensagem que nos dirigem não é de modo algum equivoca. Contudo, este sentimento tão forte que temos da sua realidade e quase inteiramente desligado das percepções que geralmente nos certificam da existência dos objetos. Se tomam, para se fazerem entender, a linguagem dos sentidos, se se mostram e se nos falam, esta aparência sensível e como uma espécie de disfarce, e não é este disfarce que no-los faz reconhecer e compreender. Arignota não é reconhecida e ouvida pela forma lunar que reveste e pelas palavras incompreensíveis que pronuncia. E para além da linguagem dos sentidos que ela é apreendida. A poesia de Safo parece realizar aqui o milagre de nos fazer tocar, fora do mundo sensível, aquilo a que seriamos tentados a chamar presenças puras. (Mas esta expressão não tem, certamente, qualquer sentido.)

História - Civilização Grega
4/12/2020 1:22:35 PM | Por Elizabeth Dimock
Livre
Origens ancestrais, Monte Quênia

Os povos que vivem nos sopés à volta do Monte Quênia, todos eles acreditam
ser descendentes de Gikuyu, o qual foi chamado por Mogai (o ser supremo) que lhe deu uma grande quantidade de terra que incluía rios e vales, florestas e todos os animais e plantas que lá viviam. Mogai também tinha criado a montanha, chamada Kere-Nyaga (Monte Quênia), que passou a ser o local
onde Mogai descansava quando viajava à volta do mundo. Mogai levou Gikuyu para o cimo da montanha e mostrou-lhe toda a terra que lhe tinha dado, apontando para um sítio onde cresciam figos bravos junto ao centro do país. Foi aí que Gikuyu fez a sua casa.

Todos os filhos de Gikuyu conhecem esta história sobre a origem deste povo, e conhecem também o capítulo seguinte, no qual Mogai prometeu a Gikuyu e à sua mulher, Mumbi, que os filhos e filhas cresceriam e se multiplicariam. Nasceram nove filhas, mas como poderiam multiplicar-se
se não tinham maridos?

Mogai voltou a trazer a salvação. Disse a Gikuyu
que sacrificasse uma cabra gorda que haveria de dar
à luz nove belos jovens. Houve uma grande festa quando Gikuyu levou os nove jovens para casa. As filhas aceitaram-nos como maridos, com a condição
de eles consentirem que fossem as mulheres a dirigir
a casa e de todos viverem juntos na mesma aldeia.
Até hoje, todos os Gikuyu acreditam que descendem
de um dos nove clãs chamados Wacheera, Wanjiko, Wairimo, Wamboi, Wangari, Wanjiro, Wangoi,
Waithera e Warigia.

Os Gikuyu dizem que, durante um grande número
de gerações, todas as mulheres reinaram nas suas casas. No entanto, a narrativa que os homens fazem da estória sugere que as mulheres eram severas na governação e, por fim, o acordo inicial teve de ser quebrado, o status quo foi alterado e foi dado aos homens o papel de chefes da casa.

Mitologia - Mitologia Africana
Todos os textos
Dollfuss o chanceler austríaco
Engelbert Dollfuss, chanceler austríaco

Nascido em 4 de outubro de 1892, em Texing (Baixa Áustria), Engelbert Dollfuss estudou Direito em Viena e Economia em Berlim. Na Primeira Guerra Mundial, lutou nos Alpes. Depois, trabalhou para o Ministério da Agricultura como secretário da Associação de Trabalhadores Rurais. Em 1930, como membro do Partido Social- Cristão, foi designado presidente das ferrovias austríacase, em 1931, ministrada Agricultura. Assumiu o posto de chanceler em 20 de maio de 1932. Chefiou um governo de diretrizes conservadoras, em contraste com a oposição dos social-democratas e dos nazistas pangermânicos. Em 1933, dissolveu o Parlamento e decretou uma nova Constituição. Em 1934, passou a ser o ditador da Áustria, com base na Lei de Plenos Poderes, de 1917. Colocou em vigor uma Constituição corporativa, que originou uma forma de Estado chamada Stándestaat, suspendendo todos os partidos, exceto seu próprio, o Vaterlándische Front. Foi assassinado em Viena pelos nazistas pangermânicos, em 25 de julho de 1934 - resultado de uma conspiração preparada secretamente na Alemanha para facilitar o Anschluss (a união da Áustria com a Alemanha).

CARDONA, Gabriel. Prelúdio do conflito. in:__________. 70º Aniversário da II Guerra Mundial, v. 1: 1919-1939 - Hitler desafia a ordem mundial. São Paulo/SP: p.20.
Mitologia
SEÇÕES
MITOLOGIAS DA CIVILIZAÇÃO
Nascimento de Atena

- Zeus, preciso muito lhe falar — disse um dia Geia, sua avó. A velha deusa, que engendrara Crono, o pai devorador de filhos, tivera um sonho profético no qual a antiga e violenta maldição familiar de filhos destronarem os pais ameaçava recomeçar. — Agora será com você, Zeus, que a história vai se repetir! — disse Geia, perfurando as nuvens com sua bengala de pedra. Na mente da deusa passou, como num relâmpago, todo o seu tormento do passado com o brutal Urano, que a obrigara a esconder em seu ventre todos os filhos gerados por ele. Depois enxergou seu filho Crono chegando em casa com a foice ensangüentada e o ar aliviado do jovem que triunfa, afinal, sobre a tirania decrépita dos pais. “Seu odioso marido está mutilado e o poder agora é todo meu !“, dissera o jovem deus, ao destronar o próprio pai.

— Não diga tolices, minha avó! — bradou o pai dos deuses, despertando Geia de seu devaneio. — Quem se atreverá a levantar mão ímpia contra o soberano do mundo? A velha deusa sorriu. Fora esta mesma frase que Crono envelhecido repetira, um pouco antes de seu próprio filho Zeus expulsá-lo do trono, tornando-se o novo e supremo mandatário do Universo.

Zeus, entretanto, era muito jovem e estava mais preocupado em conquistar o coração da sua amada Métis, a deusa da Prudência.— Não se case com ela — advertiu Geia, com severidade —, pois de seu ventre sairá aquele que trará a sua ruína. — A deusa meiga e de olhos mansos como a corça será capaz, então, de gerar um tal monstro? — disse Zeus, alisando sua negra e ainda curta barba. — Sim, seu tonto, a meiga e de olhos mansos como a corça! — bradou Geia, cujas palavras, com a idade, iam perdendo o mel da paciência.

— Na verdade serão dois filhos; o primeiro será uma mulher, a mais justa e sensata das deusas, que só lhe trará alegria e motivo de orgulho... Zeus sentiu um alivio percorrer suas divinas entranhas.— .. Mas cuidado com o segundo! — prosseguiu a deusa. — Ele será o flagelo de sua existência. Muito mais insubmisso do que seu pai ou você próprio, ele o destronara sangrentamente, tomando o seu lugar para todo o sempre. E com o filho dele acontecerá o mesmo, e assim por diante, ate que alguém decida pôr um fim a esta orgia de parricídios.

Durante um longo tempo os dois estiveram em silêncio. De vez em quando Zeus erguia os olhos para a avó, que permanecia parada a sua frente, apoiada ao seu cajado; em seus olhos inflamados pela profecia brilhava ainda, com a mesma intensidade, a luz ofuscante da determinação.— Está bem, vovó — disse, afinal, o pai dos olímpicos —, você venceu. Vou falar com a adorável Métis.

No mesmo dia Zeus dirigiu-se a morada da deusa, que ficava no fundo do oceano.— Adorável Métis, meiga e de olhos mansos... — disse Zeus interrompendo-se.— Oh, é você, meu querido Zeus ! — exclamou a deusa, caindo em seus braços. — Estava morta de saudades... “Tão meiga e tão feminil ao mesmo tempo!”, pensava, enquanto deslizava os dedos pelas curvas simetricamente perfeitas das costas da encantadora Métis.Num instante estavam ambos sobre o leito. Zeus, esquecido das advertências de sua avó, passou o resto do dia nos braços da divina amada, descobrindo a cada instante, em seu corpo, novos e insuspeitados mistérios.

Ao final do dia, entretanto, ela voltou-se para ele e disse: — Zeus, regozije-se: estou grávida!

 

— Grávida?! — exclamou o deus olímpico. — Sim, seremos ambos pais de uma bela menina! Zeus ficou paralisado por alguns instantes. De repente, porém, como quem toma uma súbita decisão, tomou-a nos braços e disse, num tom enigmático:— Está enganada: ambos seremos mães. Nem bem dissera isto, Zeus abriu desmesuradamente a boca — onde ele vira isto antes? — e engoliu a pobre Métis! — Pronto, minha amada — exclamou ele. — Agora estamos unidos para sempre.Imediatamente o deus retornou para junto da avó, como obediente neto que era, e lhe comunicou, cheio de orgulho: — Minha avó, acabei de comer a formosa Métis! — Menino sujo! — gritou a velha, dando uma bastonada em sua cabeça. Custou um pouco, mas afinal Zeus conseguiu fazer a velha entender o que quisera dizer e acabou mesmo elogiado por ela.

Os dias passaram e as apreensões foram se desvanecendo, ate que, certa manhã, Zeus acordou com uma terrível dor de cabeça. — Céus, o que é isto em minha cabeça? — gritava. Todos os deuses acorreram para ver que gritos eram aqueles.o deus dos deuses gemia, enquanto os demais se agitavam em torno. — Sua cabeça cresceu assustadoramente! — disse Hermes, espantado. — E da ambrosia... Eu disse pra não abusar! — gritava, aflita, a sua mãe, Réia.— Calem a boca, todos, e chamem Hefesto — gritou Zeus , com as duas mãos postas na cabeça.

Dali a instantes surgiu o deus das forjas, coberto de fuligem.— O que houve, meu divino pai?~— Tenho algo dentro da cabeça! Descubra o que é — exclamou Zeus. — Sim, de fato, parece haver algo muito grande dentro dela... — respondeu Hefesto, espantado com o gigantesco tamanho da cabeça de seu genitor. — O que será?— Mas foi o que lhe perguntei! — respondeu Zeus , colérico. — Vamos, pegue suas ferramentas, abra minha cabeça e retire logo dai de dentro seja lá o que for que esteja me atormentando!

Hefesto abriu seu maravilhoso estojo. Dentro dele, em pequenos compartimentos, estavam dispostas em perfeita simetria as suas extraordinárias e eficientes ferramentas.— Hmm... Martelo, broca, chave, pé-de-cabra... Calma, meu pai, que a coisa já vai! O deus dos artífices encontrou, afinal, o seu melhor martelo e avançou destemidamente para o pai.

Um calafrio de horror percorreu os nervos e tendões de Zeus. “E se a velha Geia estiver certa, e for ele, afinal, o filho que me tirará o cetro:", pensou Zeus de olhos arregalados ao ver avançar o filho imundo, com aspecto de demônio, balançando o martelo gigantesco, como para lhe tomar o peso.— Este não falha, meu divino pai! — disse Hefesto, arreganhando seus quatro negros dentes, e vibrou o martelo ao primeiro golpe.o pobre Zeus sentiu o mundo rodar. Vibrou o martelo ao segundo golpe.Uma rachadura surgiu de alto a baixo em sua cabeça.— Só mais uma, pai! — disse Hefesto, respirando fundo e erguendo o martelo o mais alto que pode.

Vibrou o martelo ao terceiro golpe. Um jato de luz ofuscante escapou pela rachadura, fazendo com que os deuses corressem para todos os lados. De dentro da cabeça de Zeus surgiu, então, uma outra cabeça, revestida com um magnífico capacete dourado. Um grito de espanto varreu o Olímpio inteiro. Logo em seguida surgiu o resto do corpo da criatura — uma mulher, vestida inteira, dos pés a cabeça, com uma reluzente armadura. Todos os deuses estavam boquiabertos, e ate Apolo, que conduzia no alto o seu flamejante carro do sol, parou por um instante para observar aquele fantástico prodígio.

A mulher saltou para o chão e deu um grito de guerra, o mais alto que o Olímpio já havia escutado. — Honra e Paz para você, divino pai e senhor absoluto do Universo! — disse a criatura, após encerrar a sua magnífica dança marcial. — Sou Atena, sua filha, gerada de seu sêmen para cumprir as suas ordens. Zeus ficou encantado com a nova deusa que surgia — parida por ele próprio! — e com suas filiais e piedosas palavras.

Assim veio ao mundo a mais benemérita das divindades: Atena, deusa da sabedoria, do trabalho e das artes. E quanto as negras previsões da velha Terra, que ameaçavam Zeus com a chegada de um segundo e destruidor filho, deram, felizmente, em nada. Zeus ousou então debochar da anciã: Minha avó, suas profecias são furadas!— Imbecil, furada e sua cabeça-de-vento! — disse a velhinha, que nada tinha de caduca. — Bem se vê que fugiu o resto de sabedoria que havia na cachola. E depois de assestar uma bela pancada na cabeça do neto, completou:— Pois honre a mim, então, que sou a única divindade competente o bastante para fazer reverter uma funesta profecia.

Mitologia Grega
SERES MÍTICOS
+
Por letra inicial
A
B
C
D
E
F
G
H
I
J
K
L
M
N
O
P
Q
R
S
T
U
V
X
Y
W
Z
Por espécie
Por especialidade
MITOS, FÁBULAS E LENDAS
A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

Mitologia Celta
As tarefas impossíveis de Culhwch

Um dos contos mais populares de Mabinogion narra a estória de Culhwch e Olwen. Culhwch é de sangue real, pois é primo de Arthur. O seu nascimento foi invulgar. Antes de ele ter nascido, a mãe, Golenddyd, ganhou uma profunda antipatia por porcos, pois quando passava por uma vara deles, assustou-se e deu à luz um filho que abandonou. Um guardador de porcos pegou nele e levou-o para os pais criarem. Golenddyd morreu e o marido, Cilydd, voltou a casar com uma mulher que tinha uma filha que ela queria casar com Culhwch. Mas ele não quis, afirmando ser ainda muito jovem. A rainha então rogou uma praga a Culhwch, segundo a qual ele só viria a casar com Olwen, filha de Ysbaddeden, o Chefe dos Gigantes. Bastou a Culhwch ouvir o nome dela para se apaixonar profundamente.

Culhwch decidiu então pedir ajuda a Arthur para encontrar esta donzela e partiu num grande esplendor, completamente armado com machados de guerra, espada dourada e uma pequena machadinha que «podia fazer o ar sangrar.» Tinha também um chifre de marfim, dois galgos e montava um cavalo fantástico. Quando Culhwch chegou à corte de Arthur o porteiro tentou barrar-lhe a entrada, mas ele ameaçou dar três gritos de tal intensidade que as mulheres ficariam estéreis e as que estivessem grávidas abortariam.

É claro que ele passou. Encontrou-se com Arthur que se deixou convencer a ajudá-lo a procurar Olwen. As buscas decorreram durante um ano, sem sucesso. Por fim, juntaram um grupo dos melhores cavaleiros, cada um deles abençoado com peculiaridades extraordinárias. Um deles, Kay, tinha uma espada que provocava feridas que nenhum médico podia tratar; outro, Bedwyr, o mais veloz de todos, e Gwalchmai, que nunca voltava de uma missão sem a cumprir.

Após mais dia buscas, Olwen foi finalmente encontrada.

Ela correspondeu ao amor de Culhwch, mas explicou que o pai Ysbaddeden estava destinado a morrer quando se casasse. Olwen pediu a Culhwch que aceitasse qualquer condição que o pai lhe impusesse. Culhwch aproximou-se do Chefe dos Gigantes que lhe ordenou uma longa série de «tarefas impossíveis.» A mais intimidante delas consistia em recuperar uma tesoura, uma navalha da barba e um pente que estava entre as orelhas do grande e destruidor javali Twrch Trwyth. Apesar de tudo, Culhwch aceitou de boa vontade toda as tarefas. Ele e Arthur conseguiram atrair a ajuda de Mabon, o caçador que tinha estado preso num castelo após ter sido roubado. Na ocasião, ele tinha sido libertado Era conhecido como «o jovem» se bem que fosse o mais velho de todos os seres. Mabon Culhwch e os cavaleiros foram ajudados por animais mágicos: a Águia de Gwemabwy, o Melro de Kilgory, o Veado de Rhedynvre, Salmão de Llyn Law e outros bichos encantados. Um dos homens de Arthur, Gwrhyr, tim a capacidade de falar com cada um deles na sua própria linguagem. Após uma longa perseguição através do sul do País de Gales, da Cornualha e da Irlanda, durante a qual o diabólico javali devastou uma grande parte da terra, foi enfim possível, com a ajuda de Mabo dominá-lo e conduzi-lo para o mar. A navalha da barba, a tesoura e o pente foram entregue: e Culhwch pôde finalmente casar com Olwe.

Mitologia Celta
+
Narrativas
História
SEÇÕES
CIVILIZAÇÕES

FATOS HISTÓRICOS
O surgimento da escrita na Mesopotâmia

Por volta de 3300 a.e.c. aparecem em Uruk os primeiros verdadeiros textos escritos. Os princípios básicos dessa escrita são simples: reproduzem elementos reais representados de maneira estilizada sobre a argila. São pictogramas (desenhos figurativos). Nesse sistema, um desenho representa um animal, um vegetal ou um objeto útil. Pouco a pouco, “codifica-se” a representação de certas noções: por exemplo, um pássaro e um ovo desenhados lado a lado permitem evocar a idéia de dar à luz. São introduzidos também elementos puramente abstratos como as anotações de quantidades.

Os pictogramas dão lugar então a ideogramas: um sinal representa uma palavra da língua. A partir de então, a escrita funciona com sinais e não mais com desenhos, e a noção de “representação explícita” desaparece progressivamente. Os sinais se simplificam em combinações de “cunhas”, mais fáceis de imprimir na argila mole que linhas curvas.

À medida que as vastas potencialidades desse sistema aparecem, os sumérios compõem lentamente um processo de escrita no qual, para cada palavra, é necessário um desenho correspondente. Recorrem então a agrupamentos de sentidos em torno de um único sinal. Por exemplo, um só e mesmo sinal designa a “boca”, o “dente”, o “ato de comer”, a “palavra” etc. Depois, ao lado do valor de evocação de uma palavra inteira (ideograma) por meio de um sinal, atribui-se a este um ou vários valores fonéticos elementares (do tipo: “la”, “bi”, mas também “ab” ou “ib”). No final desse processo, os sumérios dispõem, por volta de 2600 a.e.c., de uma escrita com cerca de um milhar de sinais, constituídos de agrupamentos de “cunhas” inscritas na argila e que só possuem uma remota relação com o desenho-prictograma original. Esses sinais devem ser lidos ora como palavras inteiras (valor ideogramático), ora como fonogramas (sinais-som), que, combinados com os sinais vizinhos, permitem escrever uma palavra para a qual não existe ideograma adequado, por exemplo, uma forma verbal conjugada ou um nome próprio.

Esse sistema pode parecer muito complicado, visto que cada sinal pode ter ao mesmo tempo vários valores fonéticos e vários valores ideogramáticos, e que nada indica, a priori, qual deve ser escolhido. Entretanto, pode-se constatar que o sistema de escrita cuneiforme dos sumérios foi construído de maneira muito pragmática. Representa, na época de Urukagina, uma espécie de ponto de equilíbrio entre o número total de sinais razoavelmente memorizáveis e a quantidade dos valores que possui cada um desses sinais. Deve-se também ter em mente que essa escrita não é concebida com um simples “instrumento, mas veicula ao mesmo tempo uma concepção do mundo, a maneira de representá-lo e, com isso, de dominá-lo. De modo significativo, constata-se que, a volta de 2600 a.e.c., se encontram listas nas quais são registradas, de maneira ordenada, todas as espécies de realidades: nomes de cidades, nomes de ofícios, nomes de divindades, nomes de animais, como se colocar por escrito a realidade do mundo permitisse compreender melhor os mecanismos de seu funcionamento íntimo.

Mesmo simplificando desse modo, o sistema da escrita cuneiforme não está ao alcance de todos. Permanece privilégio de especialistas, os técnicos da escrita. Os escribas possuem ao mesmo tempo a arte de escrever, a de contar, o conhecimento das fórmulas jurídicas, epistolares, administrativas. Aprenderam a estabelecer listas de pessoal, a registrar movimentos de produtos ou de animais, a elaborar balanços, a reunir dados estatísticos. Sabem também redigir as inscrições oficiais pelas quais o rei celebra sua bravura ou sua piedade, ou as fórmulas religiosas pelas quais se pode enternecer o coração dos deuses.

Mas o aspecto mais importante dessa prática da escrita reside realmente na possibilidade conferida doravante aos grandes organismos econômicos das diversas cidades-Estado sumérias, palácios e templos, de praticar uma gestão escrita de seus recursos, de controlá-la e, por fim, de otimizá-la.

 

Civilização Suméria
Início da construção do Templo de Salomão

No início do 1º milênio a.e.c, o reino de Israel, fortificado e engrandecido por Davi (1005-979 a.e.c.) que lhe deu como capital Jerusalém, está no auge de seu poderio. Abrange uma grande parte do Médio Oriente ocidental, desde o anel sírio do rio Eufrates a nordeste até a fronteira egípcia (chamada “torrente do Egito”, na Bíblia) a sudoeste. Seus vizinhos mais perigosos são os filisteus e os povos de Edom, de Moab e de Amon, que foram vencidos. O filho do rei Davi e de Betsabeia, Salomão (970-931 a.e.c.), quer fazer de seu reino um Estado poderoso e de sua capital, Jerusalém, uma cidade prestigiosa.

Entre os trabalhos empreendidos em Jerusalém, por Salomão, o templo ocupa um lugar todo particular, uma vez que é destinado a abrigar o objeto mais precioso do povo de Israel, a Arca da Aliança, que contém as Tábuas da Lei dadas por Javé a Moisés no monte Sinai. A Arca constitui o sinal visível da presença de Javé no meio de seu povo. A paz que reina no reino de Israel, a prosperidade que o acompanha e a abundância dos recursos de que dispõe o poder real, por meio dos impostos e do sistema de corveia instaurado por Salomão, permitem levar a termo, em sete anos (967-960 a.e.c.), a edificação do templo.

Quando Davi se apoderou de Jerusalém, em torno do ano 998, instalou a Arca da Aliança em seu palácio. Para dar-lhe uma morada digna, projeta construir um edifício imponente. No local mais elevado de Jerusalém, no monte Moriá, onde a tradição situa o sacrifício de Isaac por Abraão, Davi compra uma eira para bater os cereais de um tal de Oman ou Arauna, “o Jebuseu”. A primeira coisa que o rei faz é instalar ali um altar para sacrifícios, e Javé aprecia o holocausto que lhe é oferecido. No entanto, quando Davi quer edificar um templo de pedra, o profeta Natan, falando em nome de deus, dissuade-o: essa tarefa é reservada a seu filho e sucessor, Salomão.

Em 967 a.e.c, os trabalhos finalmente começam: os operários aterram primeiramente o fosso setentrional que separa “a cidade de Davi” do monte Moriá. Depois, aumentam o palácio real e o ligam por um adro à esplanada sobre a qual vão construir o templo. Salomão quer assim relembrar a estreita associação entre poder do rei e poder divino.

Ao mesmo tempo em que respeita os princípios fundamentais do culto de Javé, o templo é construído segundo modelos estrangeiros. Arquitetos são colocados à disposição de Salomão por seu aliado, o rei de Tiro. Hiram. Este fornece também os troncos de cedro e de zimbro destinados à cobertura, aos lambris e ao pavimento do templo. Salomão impõe a seus vassalos serviço de corveia para ajudar os habitantes de Tiro a cortar as árvores no monte Líbano e transportá-las até o mar, de onde são encaminhadas até a costa de Israel.

Durante sete anos, centenas de operários trabalham na esplanada do monte Moriá. As paredes do edifício são constituídas de blocos de pedra retangulares, talhadas nas pedreiras de extração por operários vindos de Tiro e de Biblos. Assim, nenhum barulho de cunha, de martelo ou de instrumento de ferro ressoou no recinto sagrado, cuja santidade é dessa forma preservada.

Para a consagração do templo, em setembro de 960, Salomão reúne os anciãos do povo de Israel, todos os chefes de tribo e os príncipes de Israel. Em presença dessa grande assembleia, os sacerdotes e os levitas tomam a arca sob a tenda onde havia sido depositada por Davi e sobem até o templo. Eles fazem a arca entrar no Santo dos Santos e a depositam entre dois querubins (de madeira de oliveira, chapeada de ouro e de 5 metros de altura) de asas estendidas.

Uma música triunfal ressoa no edifício: os cantores glorificam o deus, acompanhados pelas trombetas dos sacerdotes, pelas harpas e pelos címbalos dos levitas. De acordo com os relatos bíblicos, Javé manifesta então sua presença sob forma de uma nuvem que invade o templo.

A divindade não se encarna num objeto material ou num ídolo, mas indica claramente o lugar privilegiado onde sua glória e sua potência se revelam. É ali que o povo deve dirigir-lhe orações e súplicas. Assim é relembrada solenemente a aliança privilegiada entre Javé e o povo de Israel. Manifestando sua aprovação, o deus reconhece que o único e verdadeiro santuário de Israel é doravante o Templo de Jerusalém.

Um gigantesco sacrifício de vários milhares de bois e carneiros encerra a cerimônia de consagração. Todo o povo reunido permanece no local durante sete dias e sete noites. No oitavo dia, Salomão manda voltar para casa todos os seus súditos, que retornam “com a alegria no coração por causa de todo o bem que o deus havia feito a Israel, seu povo”.

Um templo para a glória de um deus solitário

No Médio Oriente ocidental, os filisteus, os cananeus ou os fenícios prestam culto a seus múltiplos deuses em templos onde a divindade é encarnada numa estátua ou num símbolo - às vezes um bétilo, uma simples pedra erguida. As mesas de oferenda e os altares são cercados de reservas de água lustral e de bosques sagrados. O acesso ao espaço interno do templo em geral só é permitido aos sacerdotes, detentores de conhecimentos mágicos que permitem entrar em contato com a divindade.

Israel é um caso isolado, pois seu deus único não se encarna materialmente como “os ídolos ancestrais” dos povos vizinhos. Essa especificidade é consequência de acontecimentos ocorridos vários séculos antes. Segundo a tradição bíblica, os hebreus, dedicados à criação de ovelhas, vieram instalar-se no Egito seguindo José, filho de Jacó (cognominado de Israel): José chega ao Egito por meio de seus irmãos, em razão de deportações ou da seca, o que os obriga a levar também seus rebanhos. Os doze filhos de Jacó, os Ben Israel, são os ancestrais fundadores das doze tribos de Israel: Ruben, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zabulon, Dan, Neftali, Gad, Aser, José (dele saíram duas tribos: a de Manassés e a de Efraim), Benjamin. Mas, no decorrer dos anos, a situação desse povo no Egito piora e eles se tornam dependentes, obrigados a um trabalho penoso e perpétuo. Graças à mediação de Moisés, o povo dos Ben Israel dá início à sua saída do Egito sob o reinado do faraó Ramsés II (1279-1213 a.e.c.)?. Antes, Moisés havia passado vários anos no deserto do Sinai, onde o deus se havia revelado a ele e lhe havia dado a missão de fazer sair do Egito os descendentes de Israel e conduzi-los até o país de Canaã. Esta terra então lhe será confiada, com a condição de observar estritamente as leis dadas pelo deus e de prestar-lhe um culto exclusivo. Na realidade, os Ben Israel, que saíram do Egito em torno de 1250 a.e.c.?, representam apenas um milhar de indivíduos. Mas esse período do Êxodo/expulsão e seus diversos episódios (passagem do mar Vermelho, estada no deserto, redação das Tábuas da Lei, conquista violenta do país de Canaã)? criam entre o povo de Israel e Javé uma relação de todo peculiar.

O resto do povo de Israel, que não participou do Êxodo/expulsão e que vive nos altos platôs situados entre o mar Morto e a Galileia, é constituído de clãs de origem nômade sedentarizados no final do 2º milênio. A unidade do conjunto, as doze tribos procedentes de Jacó/Israel, será estabelecida pela ficção de uma origem comum. Com um ancestral comum e com um território único, essas comunidades se reúnem no culto de Javé, que se manifestou, segundo o folclore, - por ocasião do episódio do deserto - sob forma de nuvem, envolvendo o santuário portátil da Arca da Aliança. Na origem, um simples cofre de madeira fabricado pelos hebreus durante seu Êxodo/expulsão no deserto, a arca contém as Tábuas da Lei. Graças a barras enfiadas em anéis, pode ser facilmente transportada. Uma tenda feita de peles de ovelha a recobre. A precariedade dessa instalação recorda permanentemente o período da fuga pelo deserto. A Arca está também presente nos combates travados pelos hebreus na conquista da terra de Canaã.

Desde sua instalação no país, o povo de Israel entra em contato com vizinhos hostis, especialmente filisteus, originários dos povos do mar, que estão estabelecidos na planície costeira. A arqueologia, de resto, mostrou que nos séculos XII e XI a.e.c., à parte as cidades dos filisteus da costa, as antigas cidades de Canaâ estão praticamente em ruínas. Mas, nas terras altas da Cisjordânia, constata-se o surgimento de pequenos centros rurais que se desenvolvem do leste para o oeste.

Esse período ininterrupto de conflitos entre os clãs hebraicos e seus vizinhos impõe uma evolução política: a partir de 1150-1130 a.e.c. destacam-se, à frente das diferentes tribos, líderes investidos de um poder de decisão para toda a comunidade e funcionando muitas vezes como chefes de guerra. Levam o título de juizes. Por exemplo, a aliança de Barac, chefe dos hebreus da Galileia, com a profetisa Débora, da confederação israelita da montanha de Efraim, permite vencer Sisera, um dos chefes dos povos do mar. Mais tarde, os sucessos militares de Gídeâo, da tribo de Manassés, levam uma parte do povo a querer proclamá-lo rei. Mas ele se recusa a fundar uma dinastia. Um dos juizes mais famosos é Sansaão, da tribo de Dan, que luta vitoriosamente contra os filisteus. Mas, traído por sua amante, Dalila, é entregue aos filisteus e morre no desabamento do templo do deus Dagon, que o próprio Sansão provocou, apoiando-se numa parede.

Aos poucos surge a ideia de que Israel tem necessidade de um dirigente único e que os juizes, se permitem a cada tribo manter sua individualidade, não são adequados para constituir o verdadeiro Estado que o povo exige. Pela mediação de um profeta, Samuel, Javé atribui ao povo de Israel esse poder monárquico. Por outro lado, ao mesmo tempo em que o adverte sobre os riscos gerados por sua liberdade, relembra que o rei deverá sempre permanecer sujeito à vontade divina. É a Saul (1025-1005 a.e.c.), da tribo de Benjamin que Samuel confere a primeira unção de óleo, que faz “o ungido do Senhor". Com um exército de 3 mi homens, Saul obtém várias vitórias sobre os filisteus. Ele também recebe a ajuda de um jovem pastor da tribo de Judá, chamado Davi, que vence o gigante filisteu Golias. Saul oferece sua filha em casamento. Entretanto, cai em seguida numa melancolia paranóica e procura eliminar Davi que tem de fugir. A morte de SauL após a debandada de seu exército diante dos filisteus, abre a Davi, estabelecido em Hebron, o caminho do trono. Acaba por ser reconhecido pelas tribos do norte de Israel e instala então sua capital em Jerusalém.

Depois da sangrenta derrota de Eben-Ezer em torno de 1050, os filisteus se apoderam da Arca da Aliança, mas são forçados a restituí-la seis meses depois. Até o reinado de Davi, a Arca reside em diferentes cidades de IsraeL primeiro em Gilgal. Depois em Siquém e, finalmente em Silo. Na época de Davi, ela está na colina de Qiriat Yearim, no limite entre os territórios de Israel e de Judá. Quando Davi faz de Jerusalém a capital política de seu reino, decide transferir para ela a Arca. Sua intenção era de demonstrar que a cidade é também o centro do culto para todo o povo de Israel.

Davi organiza e dirige o reino de Israel, e o eleva a uma potência nunca atingida até então. O fim de seu reinado glorioso, entretanto, é marcado por confusões que provocam dissenções e conspirações: Davi se envolve primeiro em um amor proibido com Betsabeia, futura mãe de Salomão, casada com um de seus generais, do qual se livra mandando matá-lo em combate. Depois, os filhos de Davi se dilaceram entre si: seu filho primogênito, Amnon, estupra sua meia-irmã Tamar. Absalão, irmão de Tamar, mata Amnon e depois se exila. O rei acaba por perdoá-lo e ele retorna a Jerusalém. Absalão continua suas intrigas e acaba por forçar seu pai a partir para o exílio. Graças a uma parte da população que permanece fiel, Davi enfrenta os conjurados: Absalão é morto e a paz é restabelecida em todo o reino. No fim de sua vida, Davi, ameaçado por uma nova conspiração, designa Salomão como seu único herdeiro legítimo.

A edificação do primeiro Templo de Jerusalém, entre 967 e 960 a.e.c., é a maior obra de Salomão, ao lado das construções das muralhas, de palácios, de fortalezas militares que, segundo a Bíblia, teria multiplicado em seu reino. O favor divino teria dotado a Salomão um senso particularmente desenvolvido de justiça e equidade, e sua fama se difunde por todo o Oriente Próximo. A rainha do reino de Sabá, no sul da península arábica, vem até Jerusalém para encontrá-lo. A construção e a consagração do templo constituem o apogeu da monarquia israelita. É neste momento que Javé concede mais claramente seus favores ao povo de Israel, antes que sejam cometidas faltas que provocam a cólera divina, a partir do fim do reinado de Salomão.

A partir do reinado de Davi, o relato bíblico nos mostra que uma profunda separação existia entre o sul do reino (Judá) e os territórios do norte (Israel). Quando uma dificuldade ocorre, os dois territórios seguem caminhos opostos. O reinado de Salomão, período de potência e de prosperidade, mascara essa oposição, mas esta se manifesta rapidamente após sua morte. Jeroboão, da tribo de Efraim (no norte), reúne os descontentes e exige de Roboão, filho de Salomão, uma redução dos impostos. Diante de sua recusa, cria um reino de Israel independente que reúne dez tribos. Assim Roboão reina apenas sobre as duas tribos de Judá e de Benjamin, no sul. Em torno de 930, a ruptura é consumada. Samaria se torna a capital do reino de Israel ao norte, Jerusalém permanece a de Judá, no sul. Há alguns anos, essa visão das coisas foi posta seriamente sob suspeita, a ponto de se chegar até mesmo a duvidar profundamente, se não da existência, pelo menos da importância dos reinados de Davi e de Salomão como a Bíblia os apresenta. Os argumentos invocados são sobretudo de ordem arqueológica; alega-se, por exemplo, que as vastas construções descobertas em Meggido, e Haçor, e Geser, cuja construção era atribuída a Salomão, são, de fato, mais recentes, remontando a um século mais tarde pelo menos. Além disso, a exploração arqueológica efetuada na própria Jerusalém não permitiu descobrir vestígio tangível de construções de prestígio que datam do século X a.e.c. Parece, ao contrário, que o território, cuja capital era Jerusalém e se tornou o reino de Judá, não contava nessa época senão com alguns milhares de habitantes, enquanto a parte setentrional, correspondendo a Israel depois da cisão, reunia cerca de 80 mil habitantes. Mesmo que não se trate se não de estimativas, o contraste é claro, o que leva a concluir que o início do século X não conheceu nem um vasto reino de Israel unificado, nem uma magnífica capital em Jerusalém, nem prestigiosos monumentos como o templo descrito pelo folclore bíblico.

Certamente, descobertas recentes provaram que a existência de “uma casa real de Davi” é atestada por pelo menos uma inscrição real de meados do século IX. Não há, portanto, razão para pôr em dúvida a existência verdadeira de um soberano com esse nome nem a de seu filho Salomão. Ambos exerceram realmente um poder local sobre Jerusalém, pequena povoação das altas terras de Judá no século X; suas proezas ou seu carisma transformaram essa lembrança em lenda nas gerações seguintes. No entanto, se um templo para Javé foi construído a partir dessa época em Jerusalém, não possuía o caráter excepcional que a Bíblia descreve. Parece, por outro lado, que o monoteísmo ainda não era a regra e que subsistiram, em todo o território de Judá no século X, formas ancestrais de culto nos “lugares altos” (expressão bíblica que designa os cumes das montanhas). A própria Bíblia, por exemplo, recrimina Salomão de ter, por amor a suas mulheres estrangeiras, prestado culto a Astarte, deusa de Sidon, e de ter construído santuários ao deus do povo de Moab, Kemosh, ou ao deus do povo de Amon, Milkom.

Como foi apresentada, essa dúvida se baseia exclusivamente na arqueologia de fatos comprováveis e muitas lacunas podem também ser explicadas pelo passar do tempo. Ela tem, contudo, o mérito de trazer à tona o fato de que a Bíblia em si não pode servir de única fonte de referência, mas apenas como um livro ilustrado com a cultura folclórica fantástica e rica de um povo. Com efeito, a transcrição de uma tradição oral que possui reais elementos históricos é acompanhada de seleção e de uma reconstrução voluntária da lógica dos acontecimentos. O ponto fundamental a tomar em consideração não é mais então o fato em si, mas o relato que dele é feito: aí é que reside a historicidade da fonte bíblica.

Se houve realmente um templo construído em 967 a.e.c. em Jerusalém para nele instaurar o culto de Javé, pareceria sem dúvida muito distante daquele do qual os livros bíblicos nos fornecem medidas e descrição. Mas, por meio do relato do “Livro dos Reis”, são destacados os traços essenciais da religião de Israel: a afirmação do monoteísmo, a recusa da encarnação de outro modo que não a divina, a recusa das práticas ancestrais do culto, às quais cederão, contudo, alguns dos sucessores de Salomão. Nela se relembra, por fim, a escolha da casa de Davi para governar o país, e sua estreita subordinação aa uma suposta vontade divina, diante de quem permanece perpetuamente responsável por suas decisões e seus atos. Nesse sentido, o relato da construção do primeiro Templo de Jerusalém é um fato histórico, rico de desenvolvimentos ulteriores.

Civilização Hebráica
GOVERNANTES
+
Por civilização
CIVILIZAÇÃO
Por André Bonnard
Na terra grega, o povo grego

A ultima das expedições guerreiras dos príncipes aqueus, que levaram consigo os seus numerosos vassalos, foi a não lendária mas histórica guerra de Troia. A cidade de Troia-ilion, que era também uma cidade helênica, situada a pequena distância dos Dardanelos, enriquecera cobrando direitos aos mercadores que, para passar o mar Negro, tomavam o caminho de terra, ao longo do estreito, a fim de evitar as correntes, levando aos ombros barcos e mercadorias. Os Troianos espoliavam-nos largamente a passagem. Estes ratoneiros foram pilhados por seu turno. Ilion foi tomada e incendiada após um longo cerco, no principio do século XII (cerca de 1200). Numerosas lendas, aliás belas, mascaravam as razões verdadeiras, que eram razões econômicas, não heróicas, desta rivalidade de salteadores. A Ilíada dá-nos algumas. Os arqueólogos que fizeram escavações em Troia, no século passado, encontraram, nos restos de uma cidade que mostra sinais de incêndio e que a terra de uma colina recobria há mais de três mil anos, objetos da mesma época que os encontrados em Micenas. Os ladrões não escapam aos pacientes inquéritos dos arqueólogos-policiais.

Entretanto, novas tribos helênicas - Eólios, Jônios, por fim, Dórios - invadiram, depois dos Aqueus, o solo da Grécia. A invasão dos Dórios, os últimos a chegar, situa-se por volta de 1100. Enquanto que os Aqueus se tinham civilizado um pouco em contato com os Cretenses, os Dórios continuavam a ser muito primitivos. Contudo, conheciam o uso do ferro: com este metal tinham feito diversas armas. Entre os Aqueus, o ferro era ainda tão raro que o consideravam um metal tão precioso como o ouro e a prata.

Foi com estas armas novas, mais resistentes e sobretudo mais longas (espadas de ferro contra punhais de bronze), que os Dórios invadiram a Grécia como uma tempestade. Micenas e Tirinto são por sua vez destruídas e saqueadas. A civilização aquéia, inspirada na dos Egeus, afunda-se no esquecimento. Torna-se por muito tempo uma terra meio fabulosa da historia. A Grécia, rasgada pela invasão Doria, esta povoada agora unicamente de tribos gregas. A historia grega pode começar. Ela começa na noite dos séculos XI, X e IX. Mas o dia está perto.

Que terra era esta que iria tornar-se a Hélade? Que recursos primeiros, que obstáculos oferecia a um povo primitivo para uma longa duração histórica, uma marcha tacteante para a civilização?

Dois caracteres importa revelar: a montanha e o mar.

A Grécia é um pais muito montanhoso, embora os seus pontos mais altos não atinjam nunca três mil metros. Mas a montanha está por toda a parte, corre e trepa em todas as direções, por vezes muito abrupta. Os antigos marinhavam-na por carreiros que subiam a direito, sem se dar ao trabalho de zigue-zaguear. Degraus talhados na rocha, no mais escarpado da encosta. Esta montanha anárquica dava um país dividido numa multidão de pequenos cantões, a maior parte dos quais, aliás, tocavam o mar. Daqui resultava uma compartimentarão favorável à forma política a que os Gregos chamam cidade.

Forma cantonal do Estado. Pequeno território fácil de defender. Natural de amar. Nenhuma necessidade de ideologia para isto nem de carta geográfica. Subindo a uma elevação, cada qual abraça, com um olhar, o seu país inteiro. No pé das encostas ou na planície, algumas aldeias. Uma povoação construída sobre uma acrópole, eis a capital. Ao mesmo tempo, fortaleza onde se refugiam os camponeses em caso de agressão, e, nos tempos de paz, que pouco dura entre tantas cidades, praça de mercado. Esta acrópole fortificada é o núcleo da cidade quando nasce o regime urbano. A cidade não é construída a beira-mar - cuidado com os piratas! -, suficientemente próxima dele, no entanto, para instalar um porto.

As aldeias e os seus campos, uma povoação fortificada, meio citadina, eis os membros esparsos e juntos dum Estado grego. A cidade de Atenas não é menos a campina e as suas lavouras que a cidade e as suas lojas, o porto e os seus barcos, e todo o povo dos Atenienses atrás do seu muro de montanhas, com a sua janela largamente aberta para o mar: e o cantão a que se chama Ática.

Outras cidades, as dúzias, noutras molduras semelhantes. Entre estas cidades numerosas, múltiplas rivalidades: políticas, econômicas - e a guerra ao cabo delas. Nunca se assinam tratados de paz entre cidades gregas, apenas tréguas: contratos a curto prazo, cinco anos, dez, trinta anos, o Maximo. Mas antes de passado o prazo já a guerra recomeçou. As guerras de trinta anos e mais são mais numerosas na historia grega que as pazes de trinta anos.

Mas a eterna rivalidade grega merece por vezes um nome mais belo: emulação. Emulação desportiva, cultural. O concurso é uma das formas preferidas da atividade grega. Os grandes concursos desportivos de Olímpia e outros santuários fazem largar as armas das mãos dos beligerantes. Durante estes dias de festa, os embaixadores, os atletas, as multidões circulam livremente por todas as estradas da Grécia. Há também em todas as cidades formas múltiplas de concursos entre os cidadãos. Em Atenas, concursos de tragédias, de comedias, de poesia lírica. A recompensa é insignificante: uma coroa de hera para os poetas ou um cesto de figos, mas a gloria é grande. Por vezes um monumento a consagra. Apos a Antígona, Sófocles foi eleito general! E saiu-se com honra de operações que teve de conduzir. Em Delfos, sob o signo de Apolo ou de Dioniso, concursos de canto acompanhado de lira ou de flauta. Arias militares, cantos de luto ou de bodas. Em Esparta e em toda a parte concursos de dança. Em Atenas e em outros lugares, concursos de beleza. Entre homens ou entre mulheres, conforme os sítios. O vencedor do concurso de beleza masculina recebe, em Atenas, um escudo.

A gloria das vitorias desportivas alcançadas nos grandes concursos nacionais não pertence somente à nação: é a gloria da cidade do vencedor. Os maiores poetas - Pindaro e Simonides - celebram essas vitorias em esplendidas arquiteturas líricas onde a musica e a dança se juntam à poesia para dizerem ao povo a grandeza da comunidade dos cidadãos de que o atleta vencedor não é mais que delegado. Acontece o vencedor receber a mais alta recompensa que pode honrar um benfeitor da pátria: ser pensionado - alimentado, instalado - no pritaneu, que é a câmara municipal da cidade.

Tal como os exércitos, enquanto duram os jogos nacionais, os tribunais folgam, adiam-se execuções capitais. Tréguas que não duram mais de alguns dias, por vezes trinta.

A guerra crônica das cidades é um mal que acabara por ser mortal ao povo grego. Os Gregos nunca foram além - quando muito, em imaginação - da forma do Estado cidade-cantão. A linha do horizonte das colinas que limitam e defendem a cidade parece limitar, ao mesmo tempo que a visão, a vontade de cada povo de ser grego antes de ser ateniense, tebano ou espartano. As ligas, alianças ou confederações de cidades são precárias, prontas a desfazer-se, a desagregar-se por dentro, mais do que a sucumbir aos golpes de fora. A cidade forte que constitui o núcleo dessas alianças não leva muito tempo a tratar como súditos aqueles a quem continua a chamar, por cortesia, aliados: faz da liga um império cujo jugo pesa muito em contribuições militares e em tributos.

No entanto, não há uma cidade grega que não tenha a consciência vivíssima de pertencer à comunidade helênica. Da Sicilia a Ásia, das cidades da costa africana às que ficam para lá do Bosforo, até a Crimeia e ao Caucaso, o corpo helênico é do mesmo sangue, escreve Herodoto, fala a mesma língua, tem os mesmos deuses, os mesmos templos, os mesmos sacrifícios, os mesmos usos, os mesmos costumes. Fazer aliança com o Bárbaro, contra outros Gregos, é trair.

O Bárbaro, termo não pejorativo, é simplesmente o estrangeiro, e o não-Grego, aquele que fala essas línguas que soam bar-bar-bar, tão estranhas que parecem línguas de aves. A andorinha também fala bárbaro. O Grego não despreza os Bárbaros, admira a civilização dos Egípcios, dos Caldeus e de muitos outros: sente-se diferente deles porque tem a paixão da liberdade e não quer ser ,escravo de ninguém.

O Bárbaro nasceu para a escravatura, o Grego para a liberdade: por isto mesmo morreu Ifigênia. (Pontinha de racismo).

Perante a agressão bárbara, os Gregos unem-se. Não todos, nem por muito tempo: Salamina e Plateia, Grécia unida por um ano, não mais. Tema oratório, não realidade viva. Em Plateia, o exercito grego combate, ao mesmo tempo que aos Persas, numerosos contingentes doutras cidades gregas que se deixaram alistar pelo invasor. A grande guerra da independência nacional e ainda uma guerra intestina. Mais tarde, as divergências das cidades abrirão a porta à Macedônia, aos Romanos.

A montanha protege e separa, o mar amedronta mas une. Os Gregos não estavam encerrados nos seus compartimentos montanhosos. O mar envolvia todo o pais, penetrava profundamente nele. Havia pouquíssimos cantões, mesmo recuados, que o mar não atingisse.

Mar temível, mas tentador é mais aliciante que qualquer outro. Sob um céu claro, na atmosfera límpida, o olhar do nauta descobre a terra duma ilha montanhosa a cento e cinqüenta quilômetros de distância. Vê-a como um escudo pousado sobre o mar..

As costas do mar grego oferecem portos numerosos, ora praias de declive suave, para onde os marinheiros podem a noite puxar os seus leves barcos, ora portos de água profunda, protegidos por paredes rochosas, onde as grandes naves de comercio e os navios de guerra podem ancorar ao abrigo dos ventos. Um dos nomes que o mar toma em grego significa estrada. Ir pelo mar, é ir pela estrada. O mar Egeu é uma estrada que, de ilha em ilha, conduz o marinheiro da Europa à Ásia sem que ele perca nunca a terra de vista. Estas cadeias de ilhotas parecem calhaus lançados por garotos num regato para o atravessarem, saltando de um para outro.

Não há um cantão grego de onde não se distingue, subindo a qualquer elevação, uma toalha de água que reflete no horizonte. Nem um ponto do Egeu que esteja a mais de sessenta quilômetros de terra. Nem um ponto da terra grega a mais de noventa quilômetros do mar.

As viagens são baratas. Algumas dracmas e estamos no cabo do mundo conhecido. Alguns séculos de desconfiança e pirataria, e os Gregos, mercadores ou poetas, por vezes uma coisa e outra, tomam contato amigável com as velhas civilizações que os precederam. As viagens de Racine e de La Fontaine não vão além de Ferte-Milon ou Chateau-Thierry. As viagens de Sólon, de Esquilo, de Heródoto e de Platão chegam ao Egito, à Ásia Menor e Babilônia, à Cirenaica e a Sicilia. Não há um Grego que não saiba que os Bárbaros são civilizados há milhares de anos e que tem muito para ensinar ao povo do "Nós-Gregos-somos-crianças". O mar grego não é a pesca do atum e da sardinha, é a via das permutas com os outros homens, a viagem ao pais das grandes obras de arte e das invenções surpreendentes, do trigo que cresce basto nas vastas planícies, do ouro que se esconde na terra e nos rios, a viagem ao pais das maravilhas, tendo por única bussola a carta noturna das estrelas. Para além do mar, há uma grande abundancia de terra desconhecida para descobrir, cultivar e povoar. Todas as grandes cidades, a partir do século VIII, vão plantar rebentos nas cidades novas em terra nova. Os marinheiros de Mileto fundam noventa cidades nas margens do mar Negro. E de caminho fundam também a astronomia.

Concluindo: o Mediterrâneo é um lago grego de caminhos familiares. As cidades instalam-se nas margens dele "como rãs ao redor de um charco", diz Platão. Evoe ou coaxo! O mar civilizou os Gregos.

Alias, foi só à força que o povo grego se tornou um povo de marinheiros. E o grito do ventre faminto que arma os barcos e os lança ao mar. A Grécia era um pais pobre. A Grécia foi criada na escola da pobreza. (Outra vez Heródoto.) O solo é pobre, e ingrato. Nas encostas e, muitas vezes, pedregoso. O clima é seco de mais. Apos uma Primavera precoce e efêmera, com uma magnífica e brusca floração das arvores e dos prados, o Sol não se cobre nunca mais. O Verão instala-se como rei e queima tudo. As cigarras zangarreiam na poeira. Durante meses, nem uma nuvem no céu. Muitas vezes, nem uma gota de água cai em Atenas de meados de Maio ao fim de Setembro. Com o Outono vem a chuva, e no Inverno rebentam as tempestades. Borrascas de neve, mas que não se agüentam dois dias. A chuva cai em grossas pancadas, em tromba. Ha sítios em que a oitava parte ou mesmo a quarta parte da chuva de um ano, cai em um só dia. Os rios, meio secos, tornam-se correntes temerosas, de água rugidora e devoradora que come a delgada camada de terra das encostas calvas e a arrasta para o mar. A desejada água torna-se um flagelo. Em cestos vales fechados, as chuvas formam baixos pantanosos. Deste modo, o camponês tinha que lutar, ao mesmo tempo, contra a seca que queimava os centeios e contra a inundação que lhe afogava os prados. E mal o podia fazer. Construía os seus campos nas encostas, em terraços, e transportava em cestos, de um muro para outro, a terra que resvalara do seu bocado. Tentava irrigar os campos, drenar os fundos pantanosos e limpar as bocas por onde havia de escoar-se a água dos lagos. Todo este trabalho, feito com ferramentas de hotentote, era duríssimo e insuficiente. Teria sido preciso repovoar de árvores a montanha nua, mas isso não sabia ele. Ao principio, a montanha grega era bastante arborizada. Pinheiros e plátanos, ulmeiros e carvalhos coroavam-na de bosques centenários. A caça pululava. Mas desde os tempos primitivos os Gregos derrubaram árvores, fosse para construir aldeias, fosse para fazer carvão. A floresta perdeu-se. No século V, colinas e picos perfilavam já contra o céu as mesmas arestas secas de hoje. A Grécia ignorante entregou-se ao sol, a água desregrada, a pedra.

Lutava-se pela sombra de um burro.

Sobre este solo duro, sobre este céu caprichosamente implacável, davam-se bem oliveiras e vinhas, menos bem os cereais, cuja raiz não pode ir buscar a umidade suficientemente funda. Não falemos das charruas, ramos em forquilha ou grosseiros arados de madeira que mal arranhavam a terra. Abandonando os cereais, os Gregos vão buscar o trigo as terras mais afortunadas da Sicilia ou das regiões a que hoje chamamos Ucrânia e Romênia. Toda a política imperialista de Atenas grande cidade, no século V, e, antes de mais, política do trigo. Para alimentar o seu povo, Atenas tem de se manter senhora dos caminhos do mar, em particular dos estreitos que são a chave do mar Negro.

O azeite e as vinhas são a moeda de troca e o orgulho da filha deserdada do mundo antigo. O produto precioso da oliveira cinzenta, dom de Atena, responde as necessidades alimentares da vida quotidiana: cozinham com azeite, alumiam-se com azeite, à falta de água lavam-se com azeite, esfregam-se, alimentam de azeite a pele sempre seca.

Quanto ao vinho, maravilhoso presente de Dioniso, só nos dias de festa o bebem, ou a noite, entre amigos, e sempre cortado com água.

"Bebamos. Para que esperar a luz da lâmpada? só resta da luz do dia um quase nada. Traz para baixo, menino, as grandes taças coloridas. O vinho foi dado aos homens pelo filho de Zeus e de Semele para que esqueçam as suas penas. Enche-as até a borda com uma parte de vinho e duas partes de água, e que uma taça empurre a outra..." (O Ramuz! Não, Alceu.)

"Não plantes nenhuma outra arvore antes de teres plantado vinha." (Outra vez o velho Alceu de Lesbos, antes de Horacio.) O vinho, espelho da verdade, fresta por onde se vê o homem por dentro!

A vinha, amparada em tanchões, ocupa as encostas, arquitetadas em terraços, da terra grega. Na planície plantam-na entre as arvores dos pomares, empada de uma para outra.

O Grego é sóbrio. O clima assim o exige, repetem os livros. Sem duvida, mas a pobreza nao o exige menos. O Grego vive de pão de cevada e de centeio, amassado em bolos chatos, de legumes, de peixe, de frutos, de queijo e de leite de cabra. E muito alho.

Carne - caça, criação, cordeiro e porco -, só nos dias de festa, como o vinho, não falando dos senhores (os "gordos", como se diz).

Desta pobreza de regime e de vida (é claro, esta gente do Meio-dia é preguiçosa, vive de coisa nenhuma, regalada de bom sol), a causa não está apenas no solo ingrato ou mesmo nos processos elementares de cultura. Acima de tudo, resulta da desigual repartição da terra pelos seus habitantes.

No começo, as tribos que ocupavam a região tinham feito da terra uma propriedade coletiva do clã. Cada aldeia tinha o seu chefe de clã, responsável pela cultura do solo do distrito, pelo trabalho de cada um e pela distribuição dos produtos da terra. O clã agrupa um certo numero de famílias - no sentido amplo de gente duma casa -, cada uma das quais recebe uma extensão de terra para cultivar. Não há, nesses tempos primitivos, propriedade privada: a terra devoluta não pode ser vendida ou comprada, e não se reparte por morte do chefe de família. É inalienável. Em compensação, o parcelamento pode ser refeito, a terra outra vez distribuída, segundo as necessidades de cada família.

Esta terra comum é cultivada em comum pelos membros da casa. Os frutos da cultura são repartidos sob a garantia de uma divindade que se chama Moira, cujo nome quer dizer parte e sorte, e que presidira igualmente a repartição, por sorteio, dos lotes de terra. Entretanto, uma parte do domínio, mais ou menos metade, é sempre posta de pousio: é preciso deixar repousar a terra, não se pratica ainda, de um ano para outro, a cultura alternada de produtos diferentes. O rendimento é muito baixo.

Mas as coisas não ficam por aqui. O antigo comunismo rural, forma de propriedade própria do estado da vida primitiva (ver os Batongas da Africa do Sul, ou certos povos de Bengala), começa a desagregar-se a partir da época dos salteadores aqueus. A monarquia de Micenas era militar. A guerra exige um comando unificado. Após uma campanha proveitosa, o rei dos reis e os reis subalternos, seus vassalos, talhavam para si a parte de ledo, na partilha do saque como na redistribuição da terra. Ou então certos chefes apropriam-se simplesmente das terras de que apenas eram administradores. O edifício da sociedade comunitária, onde se introduzem graves desigualdades, destrói-se pelo topo. A propriedade privada cria-se em beneficio dos grandes.

Instala-se também por outra maneira, sinal de progresso... Alguns indivíduos podem ser, por razões diversas, excluídos dos clãs. Podem também sair deles de sua própria vontade. O espírito de aventura leva muitos a tomar o caminho do mar. Outros ocupam, fora dos limites do domínio do clã, terras que haviam sido julgadas demasiado medíocres para ser cultivadas. Forma-se uma classe de pequenos proprietários à margem dos clãs: a propriedade deixa de ser comunal, torna-se, por fases, individual. Esta classe e pobríssima, mas muito ativa. Quebrou os laços com o clã: rompe-os por vezes com a terra. Estes homens formam guildas de artífices: oferecem aos clãs as ferramentas que fabricam, ou simplesmente trabalho artesanal como carpinteiros, ferreiros, etc. Entre estes "artífices", não esqueçamos nem os médicos nem os poetas. Agrupados em corporações, os médicos tem regras, receitas, bálsamos e remédios que vão propondo de aldeia em aldeia: estas receitas são sua exclusiva propriedade. Do mesmo modo, as belas narrativas em verso, improvisadas e transmitidas por tradição oral nas corporações de poetas, são propriedade dessas corporações.

Todos estes novos grupos sociais nascem e se desenvolvem no quadro da "cidade". E aqui temos as cidades divididas em duas metades de força desigual: os grandes proprietários rurais, por um lado, e, por outro, uma classe de pequenos proprietários mal favorecidos, de artífices, de simples trabalhadores do campo, de marinheiros,  tudo gente de ofício, "demiurgos", diz o Grego, turba miserável ao princípio.

Todo o drama da historia grega, toda a sua grandeza futura se enraíza no aparecimento e no progresso destes novos grupos sociais. Nasceu uma nova classe que vai tentar arrancar aos "grandes" os privilégios que fazem deles os senhores da cidade. É que só estes proprietários nobres são magistrados, sacerdotes, juízes e generais. Mas a turba popular depressa tem por seu lado o numero. Quer refundar a cidade na igualdade dos direitos de todos. Mete-se na luta, abre o caminho para a soberania popular. Aparentemente desarmada, marcha à conquista da democracia. O poder e os desses são contra ela. Mesmo assim, a vitoria será sua.

Eis, sumariamente indicadas, algumas das circunstâncias cuja ação conjunta permite e condiciona o nascimento da civilização grega. Repare-se que não foram somente as condições naturais (clima, solo e mar), como o não foi o momento histórico (herança de civilizações anteriores), nem as simples condições sociais (conflito dos pobres e dos ricos, o "motor" da história), mas sim a convergência de todos estes elementos, tornados no seu conjunto, que constituíram uma conjuntura favorável ao nascimento da civilização grega.

E então o "milagre grego"? - perguntarão certos sábios ou assim chamados. Não há "milagre grego". A noção de milagre é fundamentalmente anti-cientifica, e é também não-helenica. O milagre não explica nada: substitui uma explicação por pontos de exclamação.

O povo grego não faz mais que desenvolver, nas condições em que se encontra, com os meios que tem a mão, e sem que seja necessário apelar para dons particulares de que o Céu lhe teria feito dom, uma evolução começada antes dele e que permite a espécie humana viver e melhorar a sua vida.

Um exemplo só. Os Gregos parecem ter inventado, como que por milagre, a ciência. Inventam-na, com efeito, no sentido moderno da palavra: inventam o método cientifico. Mas se o fazem é porque, antes deles, os Caldeus, os Egípcios, outros ainda, tinham reunido numerosas observações dos astros ou sobre as figuras geométricas, observações que permitiam, por exemplo, aos marinheiros, dirigirem-se no mar, aos camponeses medir os seus campos, fixar a data dos seus trabalhos.

Os Gregos aparecem no momento em que, destas observações sobre as propriedades das figuras e o curso regular dos astros, se tornava possível extrair leis, formular uma explicação dos fenômenos. Fazem-no, enganam-se muitas vezes, recomeçam. Não há nada aqui de miraculoso, mas apenas um novo passo do lento progresso da humanidade.

Tirar-se-iam outros exemplos, e com abundância, dos outros domínios da atividade humana.

Toda a civilização grega tem o homem como ponto de partida e como objeto. Procede das suas necessidades, procura a sua utilidade e o seu progresso. Para ai chegar, desbrava ao mesmo tempo o mundo e o homem, e um pelo outro. O homem e o mundo são, para ela, espelhos um do outro, espelhos que se defrontam e se lêem mutuamente.

A civilização grega articula um no outro o mundo e o homem. Casa-os na luta e no combate, numa fecunda amizade, que tem por nome Harmonia.

Civilização Grega | Sociedade
Por André Bonnard
A poesia de Safo de Lesbos

Safo é um país estranho, cheio de maravilhas. Um "enigma", uma "maravilha", diziam já os antigos. A expressão é exata na sua simplicidade: um enigma: a palavra aplica-se ao mesmo tempo à sua vida e à sua pessoa, diversamente interpretadas. Um enigma, uma maravilha: muito mais ainda estas palavras se aplicam a sua poesia, mutilada embora como esta.

Safo presidia em Mitilene de Lesbos, por alturas da ano de 600, a uma confraria de moças consagradas à Afrodite, às Graças e às Musas. Ela chama a sua casa "a morada das servas das Musas". Mais tarde dir-se-á, entre os Pitagóricos, em Alexandria depois, um "Museu". A instituição de Safo não é outra coisa que uma "escola" colocada sob o patrocínio das divindades femininas do amor, da beleza e da cultura.

Um fato que não deve ser desprezado, é ter esta escola a forma de uma confraria religiosa. A comunidade do culto estabelecia entre as moças e a sua educadora laços muito fortes. A poesia de Safo é, em certo sentido, uma poesia de amor mútuo que unia, em Afrodite, as fieis da deusa. No entanto, não se julgue que a finalidade proposta por Safo às moças a sua guarda fosse a consagração à divindade. Safo não era de modo algum sacerdotisa de Afrodite. A associação cultural é, nessa época, a forma natural de todas as casas de educação. As antigas escolas de filosofia, as primeiras escolas medicas, são também confrarias religiosas, o que não significa que tenham formado sacerdotes de Asclépio. Mas do mesmo modo que os médicos instruíam os fieis deste deus na arte de curar, Safo tentava, ajudada pela deusa, ensinar as moças de Mitilene uma ante de viver - a arte de ser mulher.

Cultivava-se muito a musica, a dança e a poesia no circulo de Safo. Contudo, a casa das Musas não é um conservatório ou uma academia, tal como não é um seminário. As artes não são ensinadas por si próprias e ainda menos para se fazer profissão delas. Para Safo, trata-se de ajudar as moças que vivem com ela por essa vida partilhada, pela pratica das artes, pela devoção à Afrodite, pelo culto das Musas - a realizar, na sociedade onde cedo irão tomar lugar, um ideal de beleza feminina que as deusas a quem honram primeiramente encarnaram.

Estas moças hão de casar-se. Casada também e mãe de família - mãe de uma menina que ela compara a um braçado de ranúnculos - era simplesmente para o casamento, realização da mulher na alegria e na beleza, que Safo preparava as moças que lhe tinham sido confiadas.

Isto implica ser então a condição da mulher em Lesbos muito diferente da que era na maior parte das cidades gregas. Uma coisa é certa: a mulher, em Mitilene, anima a vida da cidade com o seu encanto, os seus trajes, o seu espírito. O casamento fá-la entrar, como em toda a região eólica (recordemos Andromaca), em pé de igualdade na sociedade dos homens. Participa na cultura musical e poética do seu tempo. Rivaliza com os homens no domínio das artes. Se os costumes eólicos reservavam um tal lugar a esposa, não é de surpreender que tenham ao mesmo tempo exigido escolas onde as moças se formassem para esse papel que se esperava das mulheres.

Instruídas por Safo, as alunas das Musas preparam-se para encarnar um dia, na cidade de Mitilene, as perfeições de Afrodite. O fulgor da beleza feminina ilumina toda a poesia de Safo. A mulher, segundo Safo, deve ter o rosto banhado de moveis claridades. Os seus olhos são cheios de graça, o seu caminhar inspira o desejo. O objetivo da cultura é a conquista da beleza. Atenta dos presentes e as lições de Afrodite, que é o seu guia e seu modelo, que lhe ensina a amar as flores e o mar, que lhe revela o encanto do mundo sensível e acima de tudo a embriagadora beleza do corpo feminino, a adolescente cresce em beleza e em graça, a beleza exalta as suas feições, a beleza torna-a feliz e espalha em toda a sua pessoa essa profusão de alegria que Safo saúda como uma luz estelar.

Num ambiente de festas sempre renovadas, as moças, sob o olhar da deusa, cujo próximo poder sobre a vida pressentiam, levavam uma existência quase monacal, rigorosa e fervente ao mesmo tempo, mas em que os pensamentos, em vez de dirigidos para o celibato, eram inclinados para o encontro do esposo. A cultura poética que Safo lhes inculcava em estrofes ardentes, onde ela falava da onipotência de Afrodite e que o coro das adolescentes cantava em uníssono, era aquilo a que os antigos chamavam uma "erótica", uma cultura do amor. Ao lado de Safo, em quem desde há muito habitava Afrodite, na alegria e na dor, as moças, lentamente, iniciavam-se na sua vocação de mulheres. Começavam a sentir mover-se dentro de si, ao mesmo tempo, o coração e os sentidos e, se a tal o destino as chamava, despertavam para a paixão.

Que relações de ardente amizade uma tal educação - esse céu de fogo onde reinava Cipris - terá feito nascer entre Safo e as suas amigas, eis o que a poesia nos diz. Pois é em poesia que se liberta esta alma solitária, em presença da beleza que fez nascer e crescer à sua volta.

Igual aos deuses me parece

aquele que, face a face, sentado junto de ti,

escuta a tua voz tão suave,

e esse riso encantador que, juro,

enlouquece no meu peito o coração.

Mal te vejo, um instante que seja,

nem já sequer um som me passa os lábios,

mas a minha língua se resseca,

um fogo sutil de súbito me corre sob a pele,

os meus olhos deixam de ver,

os meus ouvidos zumbem,

cobre-se-me o corpo de suor,

um estremecimento me percorre toda,

torno-me mais verde que a erva.

E parece-me que vou morrer...

Eis-nos no circulo da paixão. Eros é soberano. O desejo fere, e Safo conta os golpes.

Este poema é a narrativa de um combate. Atacada por Eros na sua carne, Safo vê desmoronar-se a cada assalto a segurança que punha nas diversas partes do seu mecanismo vital. Todas as sensações que nos ligam ao mundo, que nos tranqüilizam sobre a nossa existência, as imagens, os sons, o ritmo regular do coração, o afluxo do sangue rubro ao rosto, tudo isto lhe foge sucessivamente. Assiste ao desregramento dos seus órgãos e tem, de algum modo, de enlouquecer e morrer com cada um deles. Morre com o coração que desfalece, com a garganta privada de som, com a língua subitamente seca; o fogo espalha-se nas veias, os olhos recusam a sua função, os ouvidos não ouvem mais que o palpitar das artérias, toda a carne começa a tremer, lívida já como um cadáver... Contudo, depois de ver os seus diversos órgãos arrancados pela paixão do seu ofício, depois de ter atravessado estas mortes orgânicas, falta-lhe ainda sofrer a sua própria morte. O mal que a invade não tem já diante de si, na conquista progressiva do ser, mais que a pura consciência do eu, privada dos seus apoios naturais: por sua vez a submerge. O sujeito toma o conhecimento paradoxal do seu estado de morto (um pouco falta, afasta, a justa, o absurdo). O ultimo verso intato diz exatamente:

Pouco falta para eu me sentir morta...

Em parte alguma a arte de Safo é mais desnudada que nesta ode. Em parte alguma, mais fisiológica a sua poesia. Fatos, nada mais que fatos. Nada que não seja a notação precisa, rigorosa, dos efeitos físicos do desejo. Pouquíssimos adjetivos nestes versos - desses adjetivos que tão bem sabem, na lírica amorosa, lançar sobre o fenômeno físico drapejamentos sentimentais. Aqui, por todo o lado, verbos e nomes: uma arte de coisas e de acontecimentos.

A parte da alma é quase nula. O corpo poderia pedir auxilio a alma, atirar para ela o fardo do sofrimento. Bastaria a Safo refugiar-se em qualquer álibi do seu sofrimento físico, ciúme, ódio ou tristeza da separação. A dor moral faz as vezes da morfina. As circunstancias prestavam-se a esta evasão. Um filólogo descobriu, na origem deste poema, a partida de uma amiga que abandona a casa das servas das Musas para se casar. Aquele que os primeiros versos mostram sentado, ao lado do objeto da paixão de Safo, e sem duvida o noivo. Mas o poema nada sabe da dor do adeus. Safo não acalenta complacentemente no seu coração este terno sentimento. Não se embriaga de desgosto para esquecer o seu suplicio. O sofrimento do corpo ocupa-a, só por si, a toda ela. Do amor Safo conhece essa tempestade ensurdecedora que se desencadeia na sua carne.

Safo nada tem a esconder: a sua arte e retidão e candura. É verdadeira. Não cora de nenhum dos fenômenos de que o seu corpo é sede. Ela diz: língua e ouvidos; ela diz suor e estremecimento. Esta arte está nos antipodal do agradável: não é agradável estar suado. Safo escorre de suor: não se envergonha disso, não tira dai gloria, reconhece-o apenas.

Safo também não descreve o objeto do seu desejo. Tal objeto está fora do nosso alcance: apenas são notados, com uma palavra e uma exatidão que não hesita, os acontecimentos de que ele é o principio. Mas aonde vai dar a ação dramática aqui iniciada? A uma única coisa, que não deixa qualquer duvida: a destruição do ser pela paixão.

Um fogo arde diante de nos, na escuridão. O poeta situa-o no coração de uma larga zona de obscuridade. Nada, na sua arte, nos desvia da labareda - nenhum sentimento, qualquer que seja, nenhuma descrição do objeto amado -, a fim de que ele arda solitário e vencedor, cumprindo a sua obra de morte. Esta claridade cingida de trevas é a paixão de Safo.

O historiador da literatura pode aqui maravilhar-se: toca num começo absoluto. Eurípedes, Catulo, Racine falaram do amor com o acento de Safo: Safo, com o acento de ninguém. Ela é nova, inteiramente nova.

Em vão apuramos o ouvido a outras vozes mais antigas do amor. Adromaca a Heitor:

"Heitor, tu és meu pai, minha mãe, meu irmão; tu-és meu marido cheio de juventude...".

Paris a Helena:

"Mulher, deitemo-nos no chão e saboreemos o amor. Nunca como hoje o desejo me tomou, nem mesmo no dia em que, depois de te ter roubado da bela Esparta, me uni a ti sobre o leito rochoso de uma ilhota. Mais ainda te amo e te desejo hoje..."

Arquíloco falando de Neobule:

"A sua cabeleira lançava sombra sobre os seus ombros e sobre as suas costas... Com os seus cabelos perfumados e o seu seio, ela teria dado o amor a um velho..."

Mimnermo pensando em Nanno:

"Que vida, que prazeres sem a loura Afrodite? Ah! Que eu morra quando estas doces coisas me não tocarem já, presentes de mel, leito amoroso - deslumbrantes flores da juventude!..."

Pensa-se nestas diversas vozes do amor. Cada uma delas tem o seu acento próprio. Mas como é estranhamente distinta, entre todas, a ressonância de Safo! Nem a ternura de Andrômaca, nem o ardente apelo à volúpia de Paris a Helena que o despreza, nem o olhar reto, ousado e comedido que Arquíloco levanta para Neobule, nem a melancolia de Mimnermo que se recorda de Nanno. Não, é Safo apenas, Safo ardente e grave.

Ardente. Até aqui, nunca Eros queimou. Aqueceu os sentidos, confortou o coração. Levou ao sacrifício, a volúpia, a ternura, ao leito. Nunca queimou, nunca destruiu. A cada um daqueles em quem habitava, alguma coisa dava - a coragem, o prazer, o doçra das lembranças... Apenas a Safo nada dá, tudo retira.

Um deus privado de sentido. "invencível" e "inapreensível"», diz ao mesmo tempo uma das palavras que ela lhe aplica em outra passagem. Nada se pode fazer para o apanhar na armadilha. O amor desconcerta, tanto quanto desanima. Une os contrários: a sua doçura e amargura. A imaginação não pode representá-lo. Na obra de Safo, onde irradia a figura de Afrodite, Eros não se reveste de qualquer forma humana. O robusto adolescente, o seguro arqueiro, não aparece nos versos conservados. Dir-se-ia que o tipo não foi ainda inventado (de que não há a certeza). Digamos antes que Safo não pode escolher figurá-lo assim. Para ela, Eros é uma força obscura que se insinua nos membros e os "desfaz": só o percebe através do suplicio que ele inflige ao seu corpo, e o seu pensamento forceja por descobrir-lhe um rosto. Invisível e secreto, o ser que a habita só metaforicamente se exprime. As imagens que lhe dão vida poética descobrem a sua natureza insidiosa e brutal. São tiradas das forças cegas do mundo físico ou do caminhar inquietante do animal.

Outra vez Eros que dissolve os membros me tortura, doce e amargo, monstro invencível.

Mas toda a tradução se esmaga aqui sob o peso excessivo das palavras. Um só adjetivo encerra a doçura e a amargura de Eros, denunciando assim a natureza incompreensível do deus. A palavra traduzida por "monstro" significa o animal que rasteja. O amor de Safo não tem asas, e ainda serpente. Quanto a palavra "invencível" (contra a qual nada podem as "maquinas"), sente-se nela palpitar, em grego, a impotência do homo faber para reduzir esta força indomada. As palavras dadas por "monstro invencível" dariam mais ou menos: Eros, "animal que não cai na armadilha".

Animal rastejante, ser monstruoso, força imperiosa tanto quanto impensável, tal é o Eros que caminha nos membros de Safo.

Outra metáfora ainda, tirada do império das forças naturais:

-Eros sacudiu a minha alma, como o vento da montanha que se abate sobre os carvalhos.

A experiência que Safo tem do amor é a de um formação que a deixa abatida, jazente, sem que dele nada possa entender. A alma de Safo e ameaçada de dezenraizamento por esta força privada de sentido.

Temível para o homem, como o animal ou a tempestade, a paixão só como um deus destruidor se dá a conhecer aquele a quem derruba...

... E, no entanto, Safo enfrenta estas tempestades. Para além da região dos temporais, Safo reserva em si mesma um céu de uma inalterável serenidade. Um sonho de ouro mora neste coração desolado.

Toda a paixão tem um objeto. O prazer ou a dor de que ela nos trespassa, lançam-nos para esse objeto ou dele nos afastam. Entregamo-nos a dor, ao sofrimento, como nos entregamos à noite que nos restituíra o dia.

Mas qual é então o objeto da paixão de Safo? Esta pesquisa leva-nos a penetrar na região mais misteriosa da sua poesia. A mais inexplorada também, apesar das hipóteses grosseiras de que a antipoesia (por isto entendo eu uma certa filologia) semeou este caminho.

Não se trata, com efeito, de determinar o nome ou o sexo desse objeto. Aquilo que Safo nos não entrega, aquilo que só sabemos, por vezes, graças ao acaso de um gênero (quando o zelo de um filólogo pela virtude não corrige a terminação reveladora), não temos nós que o perseguir para além do texto e como por efracção do texto. Muito menos quando esse texto, falando-nos de si mesmo, nos descobre horizontes poéticos muito mais vastos que as considerações históricas que extrairíamos do conhecimento de um estado civil e da verificação de uma perversão da sexualidade.

Que há pois nesse objeto que se propõe a paixão?

Voltemos a ler alguns versos do poema já longamente analisado:

...escuta a tua voz tão suave

e esse riso encantador

que enlouquece no meu peito o coração...

Nada mais que isto, nada menos que isto. Um som que vem ferir o ouvido: mais não é preciso para abrasar o corpo e a alma.

-Mal te vejo, um instante que seja...

Do objeto amado, basta a percepção mais fluída, a do som, ou uma imagem apenas entrevista, para desencadear a paixão em toda a sua extensão. A oposição entre a exigüidade da causa e a intensidade do efeito colhe-nos de súbito. São tão vastos os espaços da paixão que este poema de Safo percorre, como limitada é a visão que ela nos dá do seu objeto. Conhecemos tudo do seu sofrimento, esgotamo-lo membro a membro. Não conhecemos daquilo que ela ama senão esse aspeto singular da voz e do riso. Não descrito, o objeto impõe-nos a sua autoridade. "O que, dir-se-á, tanto sofrimento por coisa tão pouca!... Mas nós sabemos que não se trata de coisa pouca.

Em todos os fragmentos de Safo onde se exprime a paixão, por pouco que a sua extensão ou a sua densidade permitam entrever o processo da criação poética, e sempre em oposição a toda a decorrência descritiva, a toda a enumeração das qualidades do objeto amado, que nascem o movimento passional e a poesia que o faz conhecer. De cada vez, é preciso e basta que um só traço da pessoa amada faça ouvir o seu apelo, e logo todo o ser se comove. No seio dessa perturbação, em resposta a esse apelo, jorra então a fonte poética.

O apelo, é um simples gesto que o dá, o passo de uma ausente, o brilho de um rosto desaparecido, é a delicadeza de uma garganta, é uma fronte coroada de flores, é a graça de um braço que se levanta. Pode ser mesmo a ausência de graça:

Atis, há muito tempo já que eu te amava,

tu não eras para mim senão uma criança pequena e sem graça.

Bastará a partida desta criança sem graça, que troca a casa da sua amiga pela escola rival de Andrômeda, para provocar o fragor de paixão já citado, mas que devemos aqui reportar ao seu objeto:

Outra vez Eros que dissolve os membros me tortura,

doce e amargo, monstro invencível,

ô Atis! E tu, cansada de prender a mim

o teu cuidado, voas para Andromeda.

Assim, a paixão e a poesia de Safo obedecem a apelos tênues, aquilo a que podemos chamar ,sinais. Esta poesia dos sinais - este simbolismo no sentido primeiro da palavra - está nos antipodal da poesia descritiva. Um sinal não é uma sinaletica. A poesia descritiva participa sempre um pouco do estilo dos passaportes. Enumerando as feições de um rosto, passando em revista os elementos de uma paisagem, acontece-lhe esquecer que as pessoas e as coisas se manifestam mais essencialmente num gesto imprevisto, num aspeto acidental, do que através da análise dos seus elementos. O timbre da voz, a lembrança de um andar penetram a apaixonada Safo de sofrimento e de prazer. Estes sinais asseguram ao amante que a amante é insubstituível. Por isso mesmo, podem dar-lhe toda ela. A presença total obedece ao apelo do sinal particular. O sinal liga-nos ao objeto, sujeita-nos a ele. Esta sujeição dá-nos prazer.

Alias, nada aumenta mais que a ausência do poder do objeto amado sobre a alma de Safo. Ela descreve:

Hoje ninguém mais se lembra

 de Anactória ausente.

Ah! gostaria de contemplar o seu andar arrebatador

e o brilho deslumbrante do seu rosto...

Anactória está ausente. Duas imagens dela vêm ferir a amante-poeta. Como um exame, as imagens voam em volta dela. Mas um poeta não é um registrador de imagens. Uma só, ou poucas dentre todas a trespassam com o seu dardo. Imagens doravante eleitas. Imagens que oferecem a amante - ao poeta - o ser que eles desejam. Duas imagens dão Anactória a Safo. Um andar arrebatador (ou "desejável"); um rosto cintilante da luz móbil das estrelas, um rosto de brilho estelar.

Dois sinais: e a ausência da amiga torna-se presença...

Há noites em que o apelo da ausente se torna mais estranho, mais misterioso. No silêncio noturno, quando se cala a realidade sensível, quando se entorpecem de lembranças e de desejos a carne e a alma dobradas sobre si mesmas no leito solitário, eis que uma voz - ao mesmo tempo uma voz e uma luz - se aproxima em ondas impalpáveis, procurando o seu caminho no coração da obscuridade. Para a distinguir através do espaço, os sentidos cegos parecem palpar a sombra e alongar-se infinitamente para o objeto bem-amado.

Arignota viveu em outro tempo em Mitilene, entre as moças que Safo dirigia. Apaixonou-se pela terna Atis, que foi uma outra amiga da poetisa. Depois deixou aquelas a quem amava, para ir viver na Lidia, no outro lado do mar. Safo partilha do sofrimento de Atis, a quem dirige o seu poema; recorda-lhe as alegrias da vida partilhada com Arignota; escuta com ela a voz da amiga desaparecida que, de Sardes, para além das vagas do mar, procura alcançá-las. Este poema, pela própria natureza das emoções que exprime, é de interpretação muito delicada.

Muitas vezes, na longínqua Sardes,

o pensamento da querida Arignota, ó Atis,

vem procurar-nos aqui, a ti e a mim.

No tempo em que vivíamos juntas,

tu foste verdadeiramente para ela uma deusa,

e do teu canto ela fazia as suas delicias.

Agora, entre as mulheres da Lidia,

ela brilha, como apos o por do sol

brilha a lua de raios cor-de-rosa,

entre as estrelas que faz desvanecer.

Ela espalha a sua luz sobre as ondas marinhas,

ilumina os prados em flor.

É a hora em que caem as belas gotas de orvalho,

em que renascem a rosa, a delicada angélica

e o perfume do meliloto.

Então, nas suas longas caminhadas errantes,

Arignota lembra-se da doce Atis,

com a alma grave de desejo, o coração inchado de desgostos.

E, lá longe, o seu apelo agudo convida-nos a juntar-nos a ela,

e a noite de sutis ouvidos

procura transmitir, para além das vagas que nos separam,

estas palavras que não se compreendem,

esta voz misteriosa...

Hesitamos em tocar num tal poema. Como reter esta água nas redes de um comentário? E para que? Talvez para saborear duas vezes o seu prazer. O poema está ligado, como outros de Safo, ao silêncio da noite e à luz dos astros. Na escuridão, os reflexos luminosos ganham um valor maior, o sentido do ouvido atinge mais acuidade. Ao mesmo tempo, o mundo interior das lembranças, dos pesares, dos desejos, liberto pelo silêncio noturno, dá um sentido secreto aos sons e às vagas luminosidades distinguidas. A lua ergueu-se sobre o mar de Mitilene, parece uma forma rósea surgida da terra da Ásia. Será a lua? Será um sinal de Arignota?...

Uma luz espalha-se sobre as águas e os prados. Será a claridade da lua? Ou será o brilho da beleza da amiga? Um e outra. E como se o pensamento do poeta de súbito balouçasse diante deste sonho lunar... Parece que Safo vê subir no céu um fantasma que vem ate aos seus pés tocar as flores do seu jardim. A imagem demora-se um instante entre essas flores que retomam vida na frescura da manhã.

Depois, de repente, a imagem apaga-se e cede o lugar a uma outra imagem mais precisa, mais imperiosa. O apelo do reflexo torna-se o apelo de uma voz. Ergue-se um grito, agudo como os gritos dos sonhos. Porque é realmente no ambiente do sonho que o poema paira. Estranhas palavras procuram atravessar o espaço e ao mesmo tempo perfurar essa zona insonora que isola o sonhador. Arignota fala. Entorpecida pelo desejo de Atis, entorpecida de pesares. Ela chama com palavras, que tem um sentido preciso, indiscutível: ordenam a Atis e a Safo que se juntem a Arignota. Contudo - e é aqui que o caráter onírico do poema é mais evidente -, se a mensagem que as palavras pronunciadas transmitem e certa, "não se compreendem", como palavras, são imperceptíveis, "misteriosas"; e como se estivessem carregadas de um sentido segundo, dolorosamente inacessível. O ouvido aguça-se na noite para as apreender, ou antes, a própria noite torna-se ouvidos para as ouvir e transmitir: e só ouve ressoar o incompreensível.

Vemos, nestes versos, desligar-se a poesia de Safo da realidade, a qual parecia estreitamente colada no poema da sua tortura física, e instalar-se no sonho. E é a ausência da amiga e o afastamento do objeto amado que permitem operar-se a transferência. Os seres que se movem no mundo poético a que ela nos faz aceder, existem a maneira dos seres que povoam os nossos sonhos. Nada de confuso há neles. A sensação que nos dão da sua existência e, pelo contrario, de extrema nitidez. São mesmo carregados de uma presença mais forte que a dos seres ordinários. A mensagem que nos dirigem não é de modo algum equivoca. Contudo, este sentimento tão forte que temos da sua realidade e quase inteiramente desligado das percepções que geralmente nos certificam da existência dos objetos. Se tomam, para se fazerem entender, a linguagem dos sentidos, se se mostram e se nos falam, esta aparência sensível e como uma espécie de disfarce, e não é este disfarce que no-los faz reconhecer e compreender. Arignota não é reconhecida e ouvida pela forma lunar que reveste e pelas palavras incompreensíveis que pronuncia. E para além da linguagem dos sentidos que ela é apreendida. A poesia de Safo parece realizar aqui o milagre de nos fazer tocar, fora do mundo sensível, aquilo a que seriamos tentados a chamar presenças puras. (Mas esta expressão não tem, certamente, qualquer sentido.)

Civilização Grega | Artes
+
Tópicos
BATALHAS
Guerras Egípcias
Civilização Egípcia
Civilização Hitita
Século XIII a.e.c.
1285
-
Segunda Guerra Púnica
Civilização Romana - Númidas
Civilização Cartaginesa - Gauleses - Espanhóis - Númidas
Século III a.e.c.
202
Setembro
+
Guerras
PERSONALIDADES
+
Por letra inicial
A
B
C
D
E
F
G
H
I
J
K
L
M
N
O
P
Q
R
S
T
U
V
X
Y
W
Z
Por ocupação
MAPAS / INFOGRÁFICOS
Egito durante o período grego (332-240 a.e.c.)
Civilização Grega
Batalha de Megiddo
Civilização Egípcia
+
Temas
Psicologia
SEÇÕES
PSICOLOGIAS
Em Direção a uma Psicoterapia Dialógica

Este capítulo descreve alguns dos temas principais que surgem a partir de uma abordagem dialógica na psicoterapia. Ele se fundamenta na compreensão do “entre” e das relações “EU-TU” e “EU-1SSO”, discutidos no primeiro capítulo. Além disso, explora alguns aspectos do que significa considerar a psicoterapia como basicamente dialógica em sua abordagem, processo e objetivo. De acordo com a afirmação sucinta de Friedman (1985a), “a cura através do encontro significa o desvelamento concreto na terapia da "ontologia do entre’” (p. 152).

Antes de tudo, em uma abordagem dialógica genuína o terapeuta  é visto como “alguém que está a serviço do dialógico”. Isso signi­fica, no seu sentido mais profundo, que a individualidade do tera­peuta rende-se (pelo menos momentaneamente) ao serviço do “entre”. Isso pode parecer desconcertante para aqueles terapeutas que vêem sua tarefa primordialmente como uma ajuda para que o cliente se diferencie e se individualize. Predomina aqui a suposição de que a melhor forma de ensinar-lhe é ter um terapeuta que modele essa “individualidade”. A partir de uma perspectiva dialógica, é insuficien­te! Nessa perspectiva, a verdadeira singularidade surge da relação genuína com os outros e com o mundo. A individualidade é apenas um dos pólos em uma alternância rítmica global entre separação e relação, e ambas ocorrem dentro da esfera do “entre”.

Consequentemente, em uma psicoterapia de abordagem dialógica, o terapeuta caminha sempre por uma “vereda estreita”. Buber usou essa expressão para descrever sua filosofia de responder a um momento único, em vez de adotar um sistema filosófico que fornecesse respostas abstratas sem relação com a realidade única presente. Isso também aplica-se ao trabalho do psicoterapeuta. O terapeuta não “...descansa no planalto amplo de um sistema que inclui uma série de pressupostos acerca do absoluto, mas caminha sobre uma vereda estreita e pedregosa que permeia os abismos, onde não há segurança do conhecimento expresso, mas a certeza do encontro que se man­tém não revelado” (Buber, 1965a, p. 184, grifos do autor). Isso não significa que o terapeuta esqueça completamente todo o conhecimen­to adquirido no treinamento, mas trata-se de um conhecimento temperado pela percepção da pessoa como um todo e do que essa pessoa única precisa em determinado momento. Durante toda a terapia, há uma dialética entre enfatizar a objetividade e a subjetivi­dade. Mesmo aqui, ela se desenrola no “entre”.

“Caminhar por uma vereda estreita” significa que o terapeuta não tem garantia de segurança. As suposições teóricas são somente a “entrée” , mas não constituem um substituto para o encontro. Segundo Buber, “Embora nenhum médico possa prescindir de uma tipologia, ele sabe que em algum momento a pessoa incomparável do paciente irá se defrontar com a pessoa incomparável do médico; [56] tanto quanto possível, ele põe de lado sua tipologia e aceita esse algo imprevisível que acontece entre terapeuta e paciente” (1967, p. 164). Certamente, é um desafio para o terapeuta: como utilizar a segurança da teoria e ainda assim não utilizá-la como uma defesa indiscriminada contra o desconhecido? Como responder à singularidade e ainda assim apreciar nossa base comum de humanidade? O tera­peuta, ao estabelecer um diálogo com toda a amplitude das possibili­dades humanas, engaja-se em uma tarefa verdadeiramente paradoxal — uma tarefa na qual a segurança é restrita e há somente a certeza do encontro com o desconhecido, o único, o “nunca-antes-experienciado”.

No cerne da abordagem dialógica é predominante a preocupação com a natureza rica e variada da pessoa como um todo. Não há meramente a focalização de um único aspecto, seja ele a dimensão/ intrapsíquica, a interpessoal ou a transpessoal (Wilber, 1984). É certo que em estágios diferentes da terapia ou em qualquer momento de uma determinada sessão, um ou outro aspecto precisa ser enfatizado. No todo, entretanto, o terapeuta dialógico procura ver o contexto inteiro assim como a dialética entre essas dimensões centrais da existência.

Dado o forte Zeitgeist analítico da sociedade moderna, o terapeuta é fortemente tentado a analisar a experiência do cliente sob a forma de “causas” psicológicas, diagnosticando-o e tratando-o a partir daí. Na terapia existe sempre a necessidade de ajudar o cliente a remover as “máscaras” que o impedem de manter contato genuíno com os outros e com as necessidades humanas mais profundas.

No entanto, retirar as máscaras pode facilmente tornar-se o foco principal. Em conseqüência, o terapeuta perde a visão da pessoa como um todo. Esse é um risco natural da profissão. Erving Polster (1979) observou de forma sucinta: “E muito difícil resistir à ‘função de detetive’ em terapia”. A ênfase excessiva nesta atitude conduz ao que Buber (1957b) chama “o erro de ver através e desmascarar”. Para ele, “a essência do erro se dá quando um elemento na existência física e espiritual do homem, que inicialmente não era notado, ou o era pouco, passa a ser agora descoberto, ou esclarecido e a ser [57]  identificado com a estrutura total do homem, ao invés de ser inserido nessa estrutura” (p. 226).

Talvez com demasiada freqüência deixamos de nos perguntar qual é o contexto da existência da pessoa que faz com que, em determinado momento, uma motivação ou comportamento prévaleça sobre os demais. Para Buber, “a questão central deve ser: o que existe entre esse elemento e o outro; em que medida e de que modo isso pode delimitá-los e ser delimitado por eles” (1957b, p. 226). Sob esse ponto de vista, nenhum aspecto é visto como absoluto. Cada comportamento “precisa” ser compreendido e desesperadamente “pede” por isso, dentro do contexto maior da existência da pessoa. Desmascarar o motivo que está por trás de cada comportamento isolado torna-se um exercício estéril. Buber afirma de forma muito bonita: “O homem não é para ser visto ‘através’, mas para ser percebido de forma cada vez mais completa no seu mostrar-se e no seu esconder-se e na relação dos dois entre si ”(1957b, p. 227, grifos do autor).

Nessa perspectiva, a “patologia” é vista como um distúrbio da existência inteira e como uma “declaração” do que precisa ser atendido para que a existência dessa pessoa se torne mais integra­da. “Desmascarar” as causas e os motivos psicológicos subjacentes não é o foco principal. É mais importante considerá-los em relação àquilo que, na existência humana precisa permanecer “escondido”, pois é profundo, misterioso e talvez vulnerável demais para ser exposto diretamente à luz da consciência. Não ser direto pode, algumas vezes, constituir-se em uma atitude de compaixão. A condição humana deve ser, ao mesmo tempo, revelada e “escondida” (Friedman, 1974). A “patologia” ocorre quando as duas dimensões estão significativamente desequilibradas entre si.

Buber assinala em seus trabalhos que o psicoterapeuta, assim como o educador e os pais, precisa praticar o que ele chama de “inclusão”. Está se referindo a “...um impulso audacioso — que exige uma mobilização muito intensa do próprio ser — para dentro da vida do outro” (1965b, p. 81)31. O terapeuta precisa lutar [58]  vigorosamente para experienciar o que o cliente está experienciando. Nas melhores condições, é apenas uma experiência momentânea, pois não é possível manter indefinidamente a postura inclusiva. Ao mesmo tempo, o terapeuta precisa também manter-se centrado em si mesmo. A inclusão é um movimento de ir e vir: estar centrado na própria existência e ainda assim ser capaz de passar para o “outro lado”. Em relação ao terapeuta, Buber diz: “Você pode ver, sentir e experienciar colocando-se nos dois lados. Do seu próprio lado, vendo, observando, conhecendo, e ajudando o outro — do seu próprio lado e também do lado dele. Eu me aventuraria a dizer que você pode experienciar com muita força o lado dele da situação” (1965b, p. 171).

A experiência que Buber descreve não é a mesma usualmente chamada de empatia (Friedman, 1985a). Para ele, empatia é um sentimento — um sentimento que reside “dentro” do-indivíduo. Inclusão, em vez disso, significa voltar a existência inteira para o outro, e é uma tentativa intensa de experienciar a experiência, da outra pessoa tanto quanto a sua própria. Enquanto, para Buber, a empatia ignora um dos dois pólos existenciais do diálogo, no momento verdadeiro da inclusão nenhum lado do diálogo é ignorado. A inclusão ocorre quando uma pessoa, “... sem negligenciar nenhum aspecto da realidade percebida em sua atividade, ao mesmo tempo vive o evento comum aos dois a partir do ponto de vista do outro” (Buber, 1965a, p.97).

Certamente, não é por acaso que os seres humanos raramente pratiquem o “experienciar o outro lado”. Isso requer um senso muito forte do próprio “centro”, assim como flexibilidade existencial e psicológica para “passar” para o outro lado. E uma oscilação ontológica, em certo sentido. Qualquer um que alguma vez tenha tentado isso, com certeza experienciou o medo da perda de seu próprio senso de self. Contudo, é isso precisamente que é necessário, perder o senso rígido de self, para entrar na realidade total da outra pessoa. Entretanto, da mesma forma que no momento “EU-TU”, não se pode “visar” a inclusão. É preciso um esforço consciente nesse sentido, mas o momento não pode ser forçado. Esses são o dilema e o desafio constantes do terapeuta. [59] Um último aspecto precisa ser discutido em relação à inclusão. Um dos indicadores de que uma pessoa está pronta para encerrar uma terapia é quando o cliente começa a experienciar a situação do lado do terapeuta. Isto é, o cliente faz comentários do tipo: “Deve ter sido muito duro para você no princípio da terapia”; ou “Acho que nunca vi isso antes do seu ponto de vista”; ou o cliente pode até tornar-se mais interessado na saúde do terapeuta, ou em outros aspectos de sua vida. O cliente é capaz, agora, de praticar a inclusão. O self do cliente reconhece e aprecia a singularidade do self do terapeuta e, extrapolando, também o self dos outros. Esta é a base para qualquer diálogo genuíno: a disponibilidade do cliente para experimentar relações verdadeiras com os outros.

Segundo Buber, no cerne da abordagem dialógica está a questão da confirmação. Para ele, a base subjacente de toda psicopatologia é a ausência de confirmação que cada um de nós sofre no esforço para nos tornarmos seres humanos. Diferentemente dos animais, que parecem não questionar sua “nature­za animal”, o ser humano precisa ser confirmado pelos outros, pa­ra se perceber como um ser humano. “...Secreta e timidamente, ele espera por um Sim que lhe permita ser e que só pode chegar até ele vindo de uma pessoa para outra. E de um homem para o outro que é passado o pão celestial de ser o seu próprio ser” (Buber, 1965b, p.71).

Buber enfatiza que uma vez recebido esse “Sim”— o “pão sagrado” vindo dos outros — estaremos capacitados a nos centrar em nossa própria existência, de modo a nos mantermos firmes em nosso próprio chão. E claro que não se trata de algo que acontece apenas uma vez na vida, de forma que a pessoa se sinta, desse momento em diante, confirmada para sempre. E muito mais: uma espiral complexa de acontecimentos que duram a vida toda e através dos quais há, em alguma medida, necessidade e prontidão na existência para esta confirmação tão crucial. São esses os momentos de graça.

Devido à necessidade desesperada de confirmação acabamos nos tornando “falsos eus” (Laing, 1965) ou, o que Buber chama de “parecer”. Estamos tão sedentos de confirmação que, se não a recebemos por sermos quem somos, nos esforçaremos para obter qualquer coisa semelhante. Isto é, tentaremos consegui-la nos “mostrando” da maneira que pensamos que a outra pessoa deseja. Criaremos uma impressão — nos empenhando em alguma forma de [60] “parecer”, a fim de receber aprovação. Não somos nós mesmos. A ironia, é claro, está em que isto nunca é uma confirmação genuína e a pessoa, no fundo, sabe disso. Porém, esse reconhecimento de nosso existir, mesmo como um “falso self’, é preferível à ausência de reconhecimento (May, 1969).

Todos os seres humanos desenvolvem o “parecer” em alguma medida, a fim de sobreviver psicologicamente. Ainda assim, bem no íntimo da pessoa, a alma clama pelo reconhecimento de que esta pessoa única existe. Almeja o reconhecimento como indivíduo separado e, ao mesmo tempo, como um ser humano semelhante aos demais. A extraordinária peça O Homem Elefante ilustra de forma tocante como é crucial para os seres humanos terem sua existência reconhecida, por mais diferentes que possam ser, física ou psico­logicamente. A questão da confirmação reconhece, explicitamente, a conexão íntima entre os homens e os limites da autovalidação individual.

Conseqüentemente, que o cliente sinta-se confirmado pelo tera­peuta é o alicerce firme da terapia; situação que proporciona uma oportunidade única para receber a “bênção”. Como resultado, a terapia pode se tornar o protótipo para que a pessoa seja confirmada em outras situações.

Um reconhecimento existencial tão profundo inicia-se com a validação da singularidade. O diálogo genuíno começa quando cada pessoa considera a outra “...como o ser único que é. Eu me torno consciente dele, consciente de que ele é diferente, essencialmente diferente de mim, de uma maneira definida e única que lhe é peculiar. Aceito quem assim enxergo de tal forma que posso, plenamente, direcionar o que lhe digo de acordo com a pessoa que é” (Buber, 1965b, p. 79). Confirmar o outro significa fazer o esforço terrível de se voltar para a outra pessoa e afirmar sua existência única e separada — sua “alteridade”. Significa também, ao mesmo tempo, reconhecer o vínculo humano comum da relação com outras pessoas.

O significado de “confirmação” aqui é mais que o que se entende comumente por aceitação, embora esta seja, certamente, uma parte da confirmação. Para Buber, a aceitação significa: “Aceito-o assim como você é... mas isso não é ainda o que eu quero dizer com confirmar o outro. Porque aceitar é somente aceitar como ele invariavelmente é nesse momento, nesta realidade que lhe é própria” [61]  (1965b, pp. 181-182). A aceitação, como tal, não coloca qualquer “exigência” existencial inter-humana na outra pessoa para que ela seja diferente do que é. A confirmação, por outro lado, reconhece e afirma a existência dessa pessoa, mesmo que talvez seu comportamento atual seja inaceitável. De fato, pode até haver muito disputa com o outro, ao mesmo tempo que se confirma sua existência.

“Talvez, de vez em quando, eu deva fazer uma oposição cerrada a seu ponto de vista sobre o assunto de nossa conversa. Mas aceito esta pessoa, o portador de uma convicção; aceito-a em sua forma característica de ser, de onde surgiu esta convicção — ainda que deva tentar mostrar, pouco a pouco, o erro dessa mesma convicção. Reconheço a pessoa com quem estou lutando: luto com ela como seu parceiro; eu a confirmo como criatura e como criação; eu confirmo aquele que está contra mim como meu opositor.” (Buber, 1965b, p. 79, grifos do autor.)

A aceitação é o prelúdio para a verdadeira confirmação: “Eu - diria que toda relação existencial verdadeira entre duas pessoas , começa com a aceitação” (Buber, 1965b, p. 181). É preciso admitir que ambas as dimensões estão intrinsecamente entrelaçadas e é difícil, se não impossível, na maior parte do tempo, distingui-las claramente.

O “objetivo” da psicoterapia dialógica é que, eventualmente, haja a possibilidade de uma relação mútua entre terapeuta e cliente (Friedman, 1985a, 1985b), embora isso não aconteça obrigatoriamente. Evidentemente, esse não é um “objetivo” alcançável em muitas situações (como veremos depois, ao discutirmos os “limites do diálogo”). Seria melhor falarmos da mutualidade como um subpro­duto da terapia dialógica, em vez de considerá-la um objetivo em si mesmo. Ou seja, à medida que o terapeuta estabelece uma relação genuína com o cliente, e enquanto percorrem os muitos estágios da terapia, o cliente, de início hesitantemente, e depois com passos mais audaciosos, começa a se sentir seguro de seu espaço. O cliente tem a sensação, simultaneamente, de ser um indivíduo separado e de estar centrado e em relação, o que lhe dá a confirmação necessária na terapia, o cliente agora está mais capacitado a experienciar a outra pessoa como “TU”. [62]

Frequentemente isto só pode ocorrer depois que muitos dos conflitos “intrapsíquicos” ou “velhos modelos” tiverem sido trabalhados (Trüb, 1952/1964). Antes disso, o terapeuta é, de muitas formas, uma “pseudopessoa” para o cliente. Essa é a verdade sobre o conceito de transferência. Entretanto, esse conceito, por si mesmo, não consegue ir muito longe. Para Rollo May (1983), “a transferência deve ser entendida como a distorção do encontro. Já que na psicanálise não havia uma norma para o encontro humano e nem um espaço adequado para a relação EU-TU, surgiu a necessidade de um excesso de simplificação e da diluição das relações de amor” (p. 19, grifo do autor). É apenas trabalhando com esses conflitos “transferenciais” que o terapeuta pode ser visto como uma pessoa “real”. Como disse um cliente de maneira comovente: “Estou finalmente começando a permitir sua entrada”.

A questão da utilização de “técnicas” torna-se figura na psicoterapia dialógica. As técnicas precisam surgir do contexto da relação. Quando há um certo impasse na sessão terapêutica, é totalmente apropriado utilizar uma “técnica” que possa ser útil. Não há nada de errado com as técnicas propriamente ditas, desde que não sejam impostas arbitrariamente na situação. Há sempre a exigência de uma relação de confiança que dê “permissão” ao terapeuta para usar certas técnicas. As técnicas precisam surgir do “entre”.

O terapeuta deve evitar os perigos do objetivismo, ou do subjetivismo extremados. E uma tarefa semelhante à de Prometeu. Certamente, é difícil ensinar a arte de responder no “entre”. Parece que o terapeuta, em grande medida, está em uma situação idêntica à de um ótimo músico de jazz, sempre improvisando. É claro que há muito treinamento nos aspectos técnicos da música, como ler as notas musicais e tocar as escalas; pode, inclusive, até haver um treinamento mais formal, como na música clássica. Entretanto, na situação de improvisação, o treino técnico torna-se apenas um pano de fundo importante a partir do qual o músico é capaz de improvisar. Como Buber afirma sucintamente: “O verdadeiro mestre responde à singularidade” (1967, p. 168).

Finalmente, há a estimulante questão sobre a possibilidade de uma mutualidade verdadeira entre terapeuta e cliente (Friedman, 1985a, 1985b). Quando o cliente chega ao consultório, existe inicialmente uma situação relacional desequilibrada. Não há e nem poderia haver [63] mutualidade total entre terapeuta e cliente nessa primeira fase. Buber levantou essa importante questão (freqüentemente mal compreendida) em seu diálogo público com Carl Rogers. Em relação ao terapeuta, ele diz: “A diferença essencial entre o seu papel e o dele nessa situação é óbvia. Ele vem para ser ajudado por você. Você não está para ser ajudado por ele. E não somente isso: você é capaz, em certa medida, de ajudá-lo” (Buber, 1965b, p. 171). De fato, essa unilateralidade e a humildade que advém do reconhecimento, pelo cliente, dessa situação desequilibrada, podem ser essenciais para a ocorrência da cura genuína.

Existem também limites que surgem no trabalho com certas formas de neurose e psicose. Os limites específicos para o diálogo genuíno são bem diferentes, dependendo de se estar trabalhando, por exemplo, com uma personalidade narcisista ou com alguém que poderia ser diagnosticado como uma personalidade obsessiva-compulsiva grave. Obviamente, também há diferenças significativas no trabalho com os neuróticos, se comparados com aqueles que manifes­tam comportamentos psicóticos. Como afirma Buber (1965b):

“Pos­so falar com um esquizofrênico até o ponto em que ele esteja disposto a deixar que eu entre em seu mundo particular, que lhe é próprio e onde geralmente o acesso não é permitido a mim e nem a outros. Mas ele permite a entrada de algumas pessoas. E assim sendo, pode ser que ele me deixe entrar também. Mas no momento em que ele se fecha, não posso entrar” (p. 175).

Até mesmo indivíduos “saudáveis”, em determinados momentos não ultrapassam certos níveis de desenvolvimento, pois não estão prontos para fazê-lo. Isso não é resistência no sentido estrito do termo. Alguma parte muito profunda e sábia dessa pessoa pode pressentir, intuitivamente, que ela não tem suporte interno ou externo para se arriscar a entrar numa relação mais íntima, mas muito mais ameaçadora.

É necessário ter um enorme senso de segurança para arriscar o próprio self em um contato íntimo com o outro. Nem mesmo a melhor terapia pode violar o princípio dialógico básico de que existem sempre dois lados numa interação: cada pessoa pode impor limites para estabelecer até onde ela deseja ir no “entre”. Até no diálogo genuíno há o “problema de limites”. Em outras palavras: [64]  “Eu faço algo, tento algo, desejo algo e empenho todo meu pensar existente nesse fazer. Então, em um dado momento, defronto-me com um muro, com uma fronteira, com um limite que não posso ignorar. Isso também se aplica ao que me interessa mais do que qualquer coisa: o diálogo humano efetivo”. (Buber, 1965b, p. 175) [65]

Gestalt

PSICÓLOGOS E OUTRAS PERSONALIDADES
Por área e/ou origem
TEXTOS
Teoria organísmica

Desde que Descartes, no século XVII, dividiu o indivíduo em duas entidades separadas mas inter-relacionadas — corpo e mente — e Wundt, no século XIX, se­guindo a tradição britânica, atomizou a mente, reduzindo-a a elementos isolados de sensações, sentimentos e imagens, tem havido tentativas de voltar a reunir a mente ao corpo, tratando o indivíduo como um todo unificado. Uma tentativa notável, que tem atraído grande número de seguidores nos últimos anos, se conhece como sendo o ponto de vista organísmico ou holista. Esse ponto de vista encontrou sua expressão na psicobiologia de Adolf Meyer (Meyer, 1948; Rennie, 1943), na recente orientação médica chamada psicossomática (Dunbar, 1954) e no traba­lho básico de Coghill sobre o desenvolvi­mento do sistema nervoso em relação ao comportamento (1929). O mais importan­te precursor médico do conceito organís­mico é Hughlings Jackson, o eminente neurologista inglês (1931). Jan Smuts, soldado e grande estadista inglês da Áfri­ca do Sul, é reconhecido como o precursor filosófico da teoria organísmica; seu fa­moso livro Holism and evolution (1926) exerceu uma grande influência sobre ou­tros. O general Smuts construiu a palavra holismo da raiz grega holos, que quer di­zer completo, inteiro, todo. A teoria orga­nísmica tem sido exposta por J. R. Kantor (1924, 1933, 1947), R. H. Wheeler (1940 veja-se também Hilgard, 1948), Heinz Werner (1948), Gardner Murphy (1947) e Carl Rogers (1948). A teoria organísmica alimentou-se do famoso artigo de John Dewey The reflex arc concept in psychology (1896). Na sementeira onde germinou a teoria organísmica estão Aristóteles, Goethe, Spinoza e William James. Embora nem todos esses autores tenham apresentado teorias organísmicas acabadas, a verdade é que seus conceitos apontam para essa direção.

Ao lado do ponto de vista organísmico, encontramos o movimento gestaltísta iniciado por Wertheimer, Koffka e Köhler, os quais, pouco antes da I Guerra Mundial, lideraram a revolta contra o tipo de análise mental feita por Wundt seus seguidores. Esse movimento defendia uma nova espécie de analise da experiência consciente. Partindo do campo perceptivo como um todo, passaram a distinguir nele figura e fundo e depois estudaram as propriedades de cada um desses componentes e sua influência mútua. No campo da aprendizagem, substituíram a doutrina da associação pelo conceito de insight. Uma pessoa aprende uma tarefa como um todo significativo e não de modo fragmentário. Embora a psicologia da forma (Gestalt) tenha tido enorme in­fluência no pensamento moderno e seja compatível com a teoria organísmica, ela não pode ser considerada, estritamente fa­lando, uma psicologia organísmica. A ra­zão disso é que a psicologia gestaltista de Wertheimer, Koffka e Kõhler tem limi­tado sua atenção aos fenômenos de to­mada de consciência e muito pouco tem dito sobre o organismo ou a personali­dade como um todo. A teoria organísmi­ca tomou por empréstimo muitos dos con­ceitos da psicologia gestaltista e os dois pontos de vista estão irmanados. A psi­cologia organísmica pode ser considerada como uma extensão dos princípios gestaltistas ao organismo como um todo.

O expoente mais destacado da teoria organísmica é Kurt Goldstein, eminente neuropsiquiatra. Em grande parte como resultado de suas observações realizadas em soldados portadores de lesão cerebral, durante a I Guerra Mundial, e dos seus estudos anteriores sobre distúrbios da lin­guagem, Goldstein chegou à conclusão de que determinado sintoma não pode ser compreendido somente a partir de certa lesão orgânica, senão também pelo orga­nismo como um todo. Este se comporta como um todo unificado e não como um conjunto de partes. O corpo e a mente não são entidades separadas, e nem mesmo a mente é constituída por faculdades ou elementos independentes. O organismo é uma só unidade; o que ocorre em uma parte afeta o todo. O psicólogo estuda o organismo de um ponto de vista, o fisiologista de outro; entretanto, ambas as disciplinas necessitam operar dentro do cam­po da teoria organísmica.

Isto porque qualquer fenômeno, tanto psicológico como fisiológico, se passa sempre dentro do contexto do organismo total, a menos que ele tenha sido isolado artificialmente desse contexto. As leis do todo governam o funcionamento das di­ferentes partes desse todo. Portanto, é ne­cessário descobrir as leis pelas quais o [30] organismo inteiro funciona, para que possa compreender a função de qualquer de seus componentes. Este é o princípio básico da teoria organísmica.

As principais características da teoria organísmica, no que diz respeito à psico­logia da pessoa, podem ser assim resu­midas:

  1. A teoria organísmica destaca a unidade, a integração, a consistência e a coe­rência da pessoa normal. A organização é um estado natural do organismo; a desorganização é patológica e, freqüentemente, é conseqüência do impacto do meio ambiente agressivo ou ameaçador, ou, em menor grau, de anomalias intra-orgânicas;
  2. A teoria organísmica começa conce­bendo o organismo como um sistema orga­nizado e procura analisá-lo, diferenciando o todo em suas partes constituintes. Um elemento nunca é abstraído do todo ao qual pertence, nem estudado como enti­dade separada; ele é sempre considerado como parte integrante do organismo total. Os teóricos organismistas crêem impossí­vel compreender o todo estudando direta­mente as partes e os segmentos isolados, pois o todo funciona de acordo com leis que não se podem encontrar nas partes. O atomismo é desconcertante, porque, uma vez reduzido o organismo aos seus elementos, torna-se necessário postular um princípio “organizador” que os inte­gre em um todo organizado. A teoria or­ganísmica não requer um princípio orga­nizador, porque a organização está implí­cita no sistema e não permite que a inte­gridade do organismo se perca ou se des­trua pela análise;
  3. A teoria organísmica parte do pressuposto de que o indivíduo é motiva­do por um impulso dominante e não por uma pluralidade de impulsos. Goldstein dá a esse impulso dominante a denomina­ção de auto-realização, o que significa que, o homem luta continuamente para realizar suas potencialidades inerentes, por todos os meios ao seu alcance. Este propósito único dá direção e unidade à vida da pessoa;
  4. Embora não considere o indivíduo como um sistema fechado, a teoria organísmica tende a diminuir a influência pri­mária e diretiva do meio externo sobre o desenvolvimento normal e a ressaltar as potencialidades de crescimento inerentes ao organismo. O organismo seleciona os aspectos do meio em que vai reagir e, salvo em circunstâncias raras e anormais, o meio não pode forçar o indivíduo a se compor­tar de forma estranha à sua natureza: se o organismo não pode controlar o meio, trata de adaptar-se a ele. Em geral, a teoria organísmica crê que as potencialidades do indivíduo lhe permitem desen­volver-se em forma ordenada, em um meio apropriado; isso produzirá uma per­sonalidade sã e integrada, mesmo que as forças ambientais nocivas possam, em da­do momento, destruir ou mutilar a pessoa. Não há nada que seja naturalmente "mau” no organismo; faz-se “mau” por interfe­rência do ambiente inadequado. Neste ponto a teoria organísmica tem muito em comum com as idéias do filósofo Jean Jacques Rousseau, segundo o qual o ho­mem é naturalmerite bom, mas pode ser pervertido por um meio ambiente que lhe negue a oportunidade de atuar e desen­volver-se conforme sua natureza;
  5. A teoria organísmica utiliza-se fre­qüentemente dos princípios da Gestalt e acredita que as preocupações dos gestaltistas em relação às funções isoladas do or­ganismo, tais como a percepção e a apren­dizagem, constituem a base para a com­preensão do organismo total. A teoria or­ganísmica ampliou essas bases, incluindo em seu campo tudo o que o organismo é e faz. Mesmo que existam muitos aspectos da teoria organísmica que nos lembrem Lewin, a verdade é que a topologia é de caráter estritamente psicológico e não in­clui o organismo biológico;
  6. A teoria organísmica acredita que se pode aprender mais com o estudo amplo de uma só pessoa do que em uma inves­tigação extensiva de uma função psicoló­gica isolada e abstraída de muitos indiví­duos. Por esta razão, a teoria organísmica tende a ser mais popular junto aos psicólogos clínicos, que se preocupam mais com a totalidade, do que junto aos psicó­logos experimentais, interessados em pro­cessos separados ou funções, tais como a percepção e a aprendizagem.


Kurt Goldstein

Kurt Goldstein especializou-se em neu­rologia e psiquiatria na Alemanha, onde conseguiu uma posição eminente como mé­dico cientista e professor, antes de se trans­ferir para os Estados Unidos, em 1935, depois que os nazistas tomaram o poder. Nasceu na Alta Silésia, então parte da Alemanha e agora da Polônia, em 6 de novembro de 1878. Obteve o grau de mé­dico na Universidade de Breslau, na Baixa Silésia, em 1903. Fez estágios com vários cientistas, médicos famosos, durante vários anos, antes de ser aceito para o cargo de ensino e investigação no Hospital Psiquiá­trico de Koenigsberg. Durante os oito anos em que permaneceu nesse cargo, rea­lizou grande volume de investigações e escreveu muitos artigos, que lhe deram prestígio e o levaram a ser nomeado, aos 36 anos de idade, professor de Neurologia e Psiquiatria, e Diretor do Instituto de Neurologia da Universidade de Frankfurt. Durante a I Guerra Mundial, foi Diretor do Hospital Militar para Soldados com [31] Lesões Cerebrais, cooperando no estabele­cimento de um instituto para investigações de seqüelas dessas lesões. Foi aí, nesse ins­tituto, que Goldstein realizou os estudos fundamentais, que deram base a seu ponto de vista organísmico (Gelb e Goldstein, 1920). Em 1930, transferiu-se para a Uni­versidade de Berlim na qualidade de pro­fessor de neurologia e psiquiatria e, tam­bém aí, serviu como Diretor do Departa­mento de Neurologia e Psiquiatria no Hospital Moabita. Quando Hitler assumiu o poder na Alemanha, Goldstein se encon­trava preso, e só foi solto com a condição de que deixasse o país. Foi então para Amsterdam, onde completou seu livro mais importante, Der Aufbau des organismus, posteriormente traduzido para o inglês com o título de The organism (1939). Quando chegou aos Estados Unidos, em 1935. foi trabalhar um ano do Instituto Psiquiátrico de Nova York, e depois foi designado chefe do Laboratório de Neurofisiologia no Hospital Montefiore, na cidade de Nova York, e professor clínico de neurologia do Colégio de Médicos e Cirurgiões da Universidade de Colúmbia. Durante esse período realizou conferências sobre psicopatologia no Departamento de Psicologia da Universidade de Colúmbia e foi convidado a participar do Ciclo de Conferências William James, na Universidade de Harvard, conferências que foram publicadas sob o título de Human nature in the light of psychopa­thology (1940). Durante os anos da guerra foi professor clínico de Neurologia da Tufts Medical School, em Boston, e publicou um livro sobre as seqüelas de lesões cerebrais de guerra (1942). Em 1945, voltou à cidade de Nova York para dedicar-se à clínica particular de neuropsiquiatria e psicoterapia. Associou-se à Uni­versidade de Colúmbia e à New School for Social Research e se tornou professor convidado na Universidade de Brandeis, viajando mensalmente para Waltham. Lá se associou a dois outros teóricos holistas, Andras Angyal e Abraham Maslow. Seu livro mais recente trata da linguagem e seus distúrbios (1948), campo no qual realizou investigações durante toda a sua vida profissional. Em seus últimos anos, identificou-se mais intimamente com a fenomenologia e com a psicologia existen­cial. Goldstein morreu em Nova York no dia 19 de setembro de 1965, aos oitenta e seis anos de idade. Sua autobiografia foi publicada postumamente. Um volume em sua homenagem (Simmel, 1968) inclui a relação completa de suas obras.

Estrutura do organismo

O organismo se compõe de membros diferenciados mas articulados, que não se separam e nem se isolam uns dos outros [32] exceto em condições anormais ou artifi­ciais, como, por exemplo, sob forte ansie­dade. A organização inicial do funciona­mento organísmico é a de figura e fundo. Uma figura é qualquer processo que emer­ge de um fundo. Em termos de percepção, é aquilo que ocupa o centro de nossa atenção. Quando, por exemplo, uma pes­soa está vendo um objeto em uma sala, a percepção do objeto se transforma em uma figura contra um fundo, que seria a sala. Em termos de ação, a figura é a prin­cipal atividade do organismo. Quando se lê um livro, a leitura é a figura que se destaca de outras atividades, tais como torcer o cabelo, morder um lápis, ouvir o murmúrio de vozes na sala contígua e perceber a própria respiração. A figura tem um limite definido, ou contorno, que a encerra ou a separa do que a rodeia. O fundo é contínuo; não só circunda a fi­gura, como também se estende atrás dela.

É um tapete, sobre o qual foi colocado um objeto, ou é um céu, no qual passa um avião. Um membro, parte do organis­mo, pode destacar-se, como uma figura contra o fundo, que é o todo do organis­mo; contudo, mantém-se ligado à estrutura total desse organismo. Que é que faz com que a figura emerja do fundo total do or­ganismo? Isso é determinado pela tarefa que o organismo requer no momento. Assim, quando um organismo faminto en­frenta a tarefa de procurar alimento, qual­ quer processo que o ajude a executar essa tarefa se destaca como figura. Pode ser a
lembrança de um local em que se alimen­tou anteriormente, ou a percepção de objetos alimentícios no ambiente que o rodeia, ou uma atividade que produzirá alimento. Entretanto, se o organismo ti­vesse que mudar, como no caso de uma pessoa faminta que se assusta, surgiria um novo processo, como figura apropriada para a tarefa de resolver o problema do susto. Portanto, surgem novas figuras, à medida que mudam as tarefas do orga­nismo.

Goldstein distingue entre figuras naturais, que estão funcionalmente envolvidas em um fundo representado pela totalidade do organismo, e figuras não-naturais, que se apresentam isoladas do organismo total e cujo fundo é também uma parte isolada do organismo. Essas figuras não naturais são produzidas por ocorrências traumá­ticas e por situações sem significado para a pessoa. Goldstein acredita que muitos experimentos psicológicos, planejados para estudar conexões isoladas de estímulo-resposta, têm pouca ou nenhuma rela­ção com o comportamento natural do or­ganismo e, dessa forma, proporcionam pouco conhecimento útil das leis por meio das quais o organismo funciona.

Por meio de que critério pode uma fi­gura natural se distinguir de uma não-natural? Goldstein diz que a figura é natu­ral quando representa uma preferência de uma pessoa e quando o comportamento é ordenado, flexível e apropriado para a si­tuação. É não-natural se representa uma tarefa imposta à pessoa e se resulta em um comportamento rígido e mecânico. Uma pessoa em transe hipnótico, via de regra, se comporta artificialmente, pois, no estado dissociado da hipnose, o comportamento é separado da personalidade. Os atos de tal pessoa não representam suas preferências e sim as do hipnotizador e são, muitas vezes, inadequadas à situação. O indivíduo é mais um autômato que uma pessoa. Uma criança que aprendeu as palavras de uma canção e as canta sem saber o que está cantando exemplifica a classe de comportamento automático que Golds­tein caracteriza como figura não-natural. Embora dê valor à natureza plástica e flexível dos processos naturais, em oposi­ção ao caráter rígido dos processos não-naturais, Goldstein reconhece que as ativi­dades preferidas podem permanecer cons­tantes, através da vida, sem perder sua relação íntima com o organismo total. Os traços e os hábitos, necessariamente, não perdem contato com a matriz total em que [33] estavam inseridos. Goldstein atribui mui­tas constantes ao organismo, tais como li­miares sensoriais, realizações motoras, ca­racterísticas intelectuais, fatores emocio­nais etc. Essas constantes são inatas e operam como agentes seletivos do compor­tamento. Entretanto, elas são também moldadas e modeladas, de certo modo pela experiência e pelo treino, de sorte que suas manifestações concretas sempre trazem a marca da cultura na qual a pessoa foi criada.

Embora não tenha muito a dizer com relação à estrutura do organismo, fora da diferenciação entre figura e fundo, Golds­tein assinala que há três diferentes classes de comportamento, que são: realizações, isto é, atividades voluntárias e conscien­temente experimentadas; atitudes, isto é, os sentimentos, o humor e as outras expe­riências internas; e os processos, funções orgânicas que só podem ser experimenta­das indiretamente (1937, p. 307 ss.).

Outra distinção estrutural, de que Goldstein muito se utiliza, é aquela entre comportamento concreto e abstrato. O comportamento concreto consiste em reagir a um estímulo de maneira bastante automática e direta, enquanto que o com­portamento abstrato consiste na ação do organismo sobre o estímulo. Por exemplo, no comportamento concreto uma pessoa percebe a configuração do estímulo, e a sua reação é a que lhe vem no momento, enquanto que no comportamento abstrato esta pessoa pensa no padrão do estímulo, no que ele significa, na sua relação com outras configurações, como pode ser usa­do e quais são suas propriedades conceptuais. A diferença entre comportamento concreto e abstrato é a diferença entre uma reação direta a um estímulo e uma reação após pensar nele.

A dinâmica do organismo

Os principais conceitos dinâmicos apresentados por Goldstein são: 1) o processo de equalização ou de centralização do organismo; 2) a auto-realização; 3) pôr-se em acordo com o meio ambiente.

Equalização

Goldstein postula uma provisão de ener­gia que é constante e que tende a distri-buir-se uniformemente por todo o organis­mo. Essa energia constante e uniformente distribuída representa o estado de tensão normal no organismo, e é a esse estado normal que o indivíduo sempre retorna, ou procura retornar, depois que um estímulo muda a tensão. O retorno a esse estado normal é o processo de equali­zação. Por exemplo, uma pessoa ouve un som proveniente de sua direita e vira-se, para essa direção. Ao voltar-se, restabelece o equilíbrio do sistema perturbado pelo som. Comer quando faminto, descansar quando cansado, espreguiçar-se quando contraído são outros exemplos do processo de equalização.
O objetivo de uma pessoa normal e saudável não é simplesmente descarregar tensão, mas distribuí-la. O nível no qual a tensão se equilibra representa a centralização do organismo. Essa centralização habilita o organismo a realizar, eficientemente, seu trabalho de competir com ambiente e de realizar-se a si mesmo, em atividades posteriores, de acordo com sua natureza. A centralização total, ou equilíbrio completo, é um estado holístico ideal raramente conseguido.

O princípio da equalização explica a consistência, a coerência e a ordenação do comportamento, apesar da influências e estímulos perturbadores. Goldstein não acredita que as fontes de distúrbios sejam principalmente intra-orgânicas, exceto em circunstâncias anormais ou catastróficas [34] que produzem isolamento e conflito inter­no. Em meio ambiente adequado, o orga­nismo permanecerá sempre em relativo equilíbrio. As redistribuições de energia e o desequilíbrio do organismo resultam de interferências ambientais e, às vezes, de conflitos internos. O resultado da ma­turação e da experiência é o desenvolvi­mento de maneiras preferíveis de compor­tamento, maneiras que diminuem as inter­ferências e os conflitos a um mínimo, pre­servando o equilíbrio do organismo. A vida de um indivíduo se torna mais cen­trada e menos sujeita a mudanças casuais do meio externo e interno à medida que ele envelhece.

Auto-realização

Este é o motivo básico de Goldstein; na verdade, segundo ele, é o único motivo que o organismo possui. As necessidades que parecem ser diferentes dele, tais como a fome, o sexo, o desejo de poder, o desejo de realização, a curiosidade, são apenas manifestações do propósito soberano da vida ou seja a auto-realização. Quando uma pessoa tem fome, realiza-se comendo, quando deseja o poder, realiza-se obtendo poder. A satisfação de alguma necessidade é um requisito prévio para a auto-realiza­ ção do organismo total. A auto-realização é uma tendência criativa da natureza hu­mana. É o princípio orgânico pelo qual o organismo se desenvolve plenamente. A pessoa ignorante, que deseja saber, sente um vazio interior; sente-se incompleta. Mediante a cultura e o estudo, seu desejo de saber pode ser satisfeito e, então, o va­zio desaparece. Uma nova pessoa surge, um ser no qual a aprendizam substituiu a ignorância. Seu desejo se torna reali­dade. Toda necessidade é como um estado  deficitário que leva a pessoa a superá-lo, É como se fora um buraco para ser ta­pado. Esta satisfação da necessidade é o que significa a auto-realização.

Embora a auto-realização seja um fenô­meno de natureza universal, os fins espe­cíficos pelos quais as pessoas lutam variam de pessoa para pessoa. Isso se deve a que as pessoas possuem diferentes potenciali­dades inatas, que moldam seus objetivos e dirigem as linhas de seu desenvolvimento e crescimento individual, bem como dife­rentes ambientes e culturas, aos quais de­vem ajustar-se e dos quais devem retirar os recursos necessários para crescer.

Como podem ser determinadas as po­tencialidades do indivíduo? Goldstein opina que o melhor modo é averiguar o que a pessoa prefere fazer e o que realiza melhor. Suas preferências correspondem às suas potencialidades. Isso significa que, para conhecer o que uma pessoa procura realizar, devemos inteirar-nos do que ela gosta de fazer e daquilo que é capaz. O jogador de futebol realiza as potenciali­dades desenvolvidas durante o próprio jogo; o advogado, por sua vez, desenvolve suas potencialidades por meio do exercí­cio da profissão.

Em geral, Goldstein concede maior im­portância à motivação consciente do que à inconsciente. O inconsciente, para ele, é o fundo para o qual flui o material consciente, quando não faz falta para a auto-realização em uma determinada situa­ção, e do qual emerge quando é apropria­do para a auto-realização. “Todas as pe­culiaridades que Freud enumera como ca­racterísticas do inconsciente correspondem às mudanças que o comportamento normal enfrenta por causa do isolamento provo­cado pela enfermidade” (1939, p. 323).

“Pôr-se em acordo” com o meio ambiente

Embora Goldstein, como teórico organísmico, dê maior ênfase aos determinantes internos do comportamento e ao prin­cípio de que o organismo encontra o am­biente que é mais apropriado para sua auto-realização, ele não adota a posição extremista de que o organismo é imune [35]  aos acontecimentos do meio externo. Re­conhece a importância do mundo objetivo, tanto como fonte de transtorno, com o qual o indivíduo tem que competir, quan­to como fonte de recursos por meio dos quais o organismo cumpre o seu destino.

Isso significa que o meio ambiente inter­vém no organismo, estimulando e superestimulando, de modo que transtorna o equi­líbrio orgânico. Por outro lado, o orga­nismo desequilibrado busca no ambiente o necessário para equilibrar a tensão in­terior. Em outras palavras, existe uma interação constante entre o organismo e o meio ambiente.

A pessoa tem de entrar num acordo com o ambiente, porque este proporciona os meios pelos quais se torna possível a auto-realização, mesmo que contenha os fatores de obstrução que se apresentam sob a for­ma de ameaças e pressões, as quais dificul­tam a auto-realização. Algumas vezes, as ameaças do ambiente são tão fortes que o comportamento do indivíduo é paralisado pela ansiedade, e isso o incapacita a pro­gredir e a lograr os objetivos que tem em vista. Outras vezes, a auto-realização é bloqueada pela carência de condições e de objetos necessários no meio.
Goldstein diz-nos que um organismo são e normal é “aquele no qual a tendên­cia à auto-realização atua a partir do inte­rior do indivíduo — sobrepondo-se aos problemas que surgem na luta com o mun­do — não como produto de ansiedade, mas sim pelo prazer da conquista” (1939, p. 305). Essa frase sugere que pôr-se em acordo com o ambiente consiste, principal­mente, em dominá-lo, e o indivíduo que não o consegue tem de aceitar as dificul­dades e ajustar-se, o melhor possível, à realidade do mundo exterior. Se as discrepâncias entre as aspirações do organismo e a realidade do meio são demasiado grandes, o organismo fracassa ou tem que limitar suas ambições tratando de reali­zar dentro de um nível de existência inferior.

No parágrafo a seguir, Goldstein ofe­rece-nos um sumário bem conciso de seus pontos de vista sobre a dinâmica e orga­nização do organismo.

Existe uma contínua alteração quanto à “par­te” do organismo que permanece em primeiro plano... e quanto à que fica no fundo. O primeiro plano é determinado pela tarefa que o organismo deve realizar em determinado momento, ou seja, pela situação na qual se encontra, e pelas exigências a que deve aten­der. As tarefas são determinadas pela “natureza” do organismo, por sua “essência”, que se torna realidade através das mudanças am­bientais que atuam sobre ela. As expressões dessa realidade são as realizações do organis­mo. Por meio delas, o organismo pode fazer face às respectivas exigências do meio e, dessa forma, realizar-se. A possibilidade de se afir­mar no mundo, conservando ao mesmo tempo seu caráter, depende de uma espécie de “acor­do” do organismo com seu meio. Isso tem que ocorrer de tal modo que cada mudança do organismo, determinada pelos estímulos do meio, seja equalizada após certo tempo, de sorte que o organismo recupere aquele estado “normal” que corresponde à sua natureza e que lhe é adequado. Somente quando isto se dá, é que é possível que as mesmas ocorrên­cias ambientais produzam mudanças semelhan­tes, levem aos mesmos efeitos e às mesmas experiências. Somente sob essa condição pode o organismo manter sua constância e sua iden­tidade. Se essa equalização, no sentido de nor­malizar o estado, não ocorrer, os mesmos acontecimentos ambientais produzirão mudan­ças diversas no organismo. Dessa forma, o meio perderia sua constância para o organismo e mudaria continuamente. Tornar-se-ia impos­sível uma seqüência ordenada de realizações. O organismo manter-se-ia em contínuo estado de inquietação, estaria em perigo sua existên­cia e realmente seria continuamente “outro” organismo. Contudo, não é isso o que real­mente ocorre. Ao contrário, podemos verifi­car que as realizações do organismo apresen­tam uma constância relativamente grande com flutuações em torno de uma média constante. Se não existisse essa relativa constância nem seria possível reconhecer o organismo como tal; nem se poderia falar de um organismo es­pecífico (1939, p. 111-112).

O desenvolvimento do organismo

Embora o conceito de auto-realização sugira a existência de padrões ou estágios [36] de desenvolvimento, através dos quais o organismo progride, Goldstein pouco tem a dizer a respeito do curso do crescimento, salvo algumas generalidades sobre o fato de que o comportamento se torna mais uniforme e ordenado e mais adequado ao ambiente à medida que a pessoa enve­lhece. Goldstein sugere a existência de ta­refas típicas para certos níveis de idade, mas não especifica quais são essas tare­fas, ou se são as mesmas para todos os indivíduos. A importância da hereditariedade está implícita, mas sua contribuição específica não está explícita. Goldstein também não apresenta uma teoria da aprendizagem. É verdade que ele fala da “reorganização” de antigos padrões em padrões novos e mais eficazes da “repres­são de atitudes e necessidades que se con­trapõem ao desenvolvimento da persona­lidade global”, da aquisição de modos pre­feridos de comportamento, da emergência da figura a partir de um fundo, da fixação de padrões de comportamento através de estímulos traumáticos, ou por meio da re­petição de estímulos isolados, das mudan­ças de ajustamento e das formações subs­titutas, mas essas noções não chegam a formar uma teoria da aprendizagem. Elas parecem mais próprias de uma teoria gestaltista da aprendizagem.

Goldstein afirma que uma criança ex­posta a situações que possa enfrentar desenvolver-se-á normalmente, por meio da maturidade e do treino. À medida que sur­gem novos problemas ela constrói novos padrões para solucioná-los. As reações que se fazem inúteis para os fins de auto-realização desaparecem. Contudo, se as condi­ções do meio são muito difíceis para as capacidades da criança, ela desenvolverá reações impróprias para o princípio da auto-realização. Nesse caso, o processo tende a isolar-se dos padrões de vida do indivíduo. O isolamento de um processo é a condição primária para o desenvolvi­mento de estados patológicos. Por exem­plo, o homem não é nem agressivo nem passivo por natureza, mas, para satisfazer suas necessidades, tem, muitas vezes, que se converter em agressivo e, outras vezes, em passivo, conforme as circunstâncias. Entretanto, um hábito muito arraigado, tanto de agressão como de passividade, exerce influência destrutiva sobre a perso­nalidade, surgindo em momentos impró­prios e sob formas contrárias aos interes­ ses da personalidade total.

Gestalt
A Gestalt-Terapia, História e Fundamentos

Gestalt significa configuração, forma, todo ou totalidade. Trata-se da configuração de algo que toma forma ao se completar, ou seja, qual­quer todo estruturado ou organizado. Tudo que tem uma forma estruturada, um sentido perceptual, ou cognitivo, ou afetivo ou social, é uma Gestalt, um todo com forma ou com sentido, algo completo e que faz sentido. Gary Yontef caracteriza a Gestait-terapia com base em três princípios, e cada um
deles incluí os demais:

  1. a Gestalt-terapia é fenomenológica e seu objetivo e metodologia são a awareness;
  2. a Gestalt-terapia baseia-se no existencialismo dialógico; e
  3. a base conceitual da Gestalt-terapia e sua visão de mundo estão alicerçadas no Holismo e na Teoria de Campo.

Já Jorge Ponciano Ribeiro - que formaliza a compreensão dos fundamentos teóricos e filosóficos da abordagem, no seu Iivro pionei­ro - amplia essa caracterização alegando que a Gestalt-terapia, necessaria­mente, assume um posicionamento existencialista, mas que ela nem sem­pre é dialógica. O autor enfatiza que a essência do existencialismo é o sentido de respeito e responsabilidade pela própria existência e pelo ou­tro. Por isso, o terapeuta deve respeitar a experiência do cliente como a autoridade máxima para a compreensão do seu funcionamento e para seu ajustamento criativo.

A Gestalt-terapia é um modelo pautado pela filosofia fenomenológico-existencial. A expressão fenomenológico-existencial é a mais [83] correntemente utilizada, embora não tenha consenso nem entre os estudiosos da área, nem entre os próprios teóricos da Gestalt-terapia. Há autores que consideram um erro epistemológico usar a expressão fenomenológico-existencial e argumentam que essa nomeação associa indiscriminadamente duas abordagens que, por vezes, se excluem. Além disso, essa expressão refere-se a abordagens distintas, tais como a Logoterapia, o Psicodrama, a Abordagem Centrada na Pessoa ou, mesmo, a Gestalt-terapia.

O recorrente nesse modelo é que clientes e terapeutas deve estar, necessariamente, em diálogo, isto é, precisam comunicar suas pers­pectivas um ao outro, com o propósito de mostrarem-se o mais verdadei­ramente possível. Assim, a ênfase dada ao processo psicoterapêutico recai sobre o diálogo, ou sobre a relação dialógica, pois é a partir dela que se alcança o objetivo da Gestalt-terapia - a awareness. Tomando por base a filosofia dialógica de Martin Buber, a Gestalt-terapia propõe-se a pro­mover o diálogo, facilitando ao cliente o reconhecimento de suas formas incompletas de relacionamento com o mundo, consigo e com os outros.

A Gestalt-terapia tem como objetivo tornar os clientes conscien­tes do que estão fazendo, como o fazem, como podem transformar-se e, ao mesmo tempo, aprenderem a aceitarem-se e a valorizarem-se. Para atingir tais objetivos, a Gestalt-terapia faz uso de procedimentos que aju­dam o cliente a solucionar, da melhor forma possível, as questões concre­tas de seu cotidiano (sua dor, seu desespero, sua angústia, sua necessida­de de escolher, de superar seus limites etc.) mediante uma metodologia clínica que investiga, aprofunda e esclarece essa experiência, de modo a torná-la plena de sentido para o cliente.

Essa abordagem apoia-se na metodologia do contato e da awa­reness, fazendo uso de experimentos e do diálogo, como procedimentos. O terapeuta em ação usa diversos instrumentos, e os mais importantes na Gestalt-terapia são o corpo, a fala e a própria relação terapêutica.
Essa forma de trabalhar fundamenta-se na crença de que o ho­mem é um ser em relação, presente no mundo, repleto de possibilidades e apto, ao conhecer-se, a realizar suas escolhas e a dirigir sua vida. Para a Gestalt-terapia, o cliente deve descobrir o sentido de sua vida (sentimen­tos, pensamentos e ações) no contexto em que ele vive e entender que essa forma de existir lhe fornece informações acerca de si mesmo e das pessoas com as quais convive. [84] Ao conhecer-se melhor, o cliente escolhe melhor. A cada deci­são acertada, há o aumento do autossuporte. O desenvolvimento do clien­te, como pessoa, é alcançado por meio da atitude intencional do terapeuta em aceitá-lo e confirmá-lo no que ele está vivendo, isto é, por meio da atitude inclusiva do terapeuta. Ao sentir-se verdadeiramente confirmado, o cliente pode abrir-se a novas possibilidades de ser, descobrir novas possibilidades no ambiente e ajustar-se criativamente.

Breve histórico

Friedrich Salomon Perls (1893-1970), ou Fritz Perls, como ficou conhecido, é considerado o principal fundador e divulgador da Gestalt-terapia. Perls, de ascendência judaica, nasceu em Berlim e cres­ceu sob a influência de um pai comerciante, sedutor, irritadiço e vaidoso, e de uma mãe amante da arte, do teatro, da ópera - características que o acompanharam por toda sua vida. Sempre teve um temperamento questionador, mostrando-se irrequieto e intempestivo, e muito criativo. Logo cedo, aos treze anos, interessou-se pelo, que o influenciou por toda sua vida. Nessa fase, aprendeu a detectar sutilezas da entonação de voz e da linguagem corporal, elementos tão explorados posteriormente em seu trabalho terapêutico.

Perls descreve-se como "um obscuro menino judeu classe mé­dia, passando por um psicanalista medíocre até chegar ao possível criador de um ‘novo’ método de tratamento e expoente de uma filosofia viável que poderia fazer algo pela humanidade”.

Graduou-se em medicina e tornou-se neuropsiquiatra. Durante a Primeira Guerra Mundial, foi para as trincheiras cuidar dos feridos, oca­sião em que sua atenção foi despertada para os fenômenos psicossomáticos. Após a guerra, trabalhou como médico-assistente de Kurt Golds­tein, teórico da Psicologia Organísmica. Perls relata que já naquela época ouvia, ainda sem entender a extensão do significado, a expressão autorrealizaçâo. Essa experiência repercutiu posteriormente na Gestalt-terapia, que tem a Psicologia Organísmica como uma das bases teóricas. O enfoque organísmico contrapôs-se, nesse momento, à visão associacionista ainda vigente. [85]

Kurt Goldstein pesquisava distúrbios perceptivos em pessoas com problemas cerebrais, tendo como base a Psicologia da esco­la que buscava identificar as leis que regem a percepção, por meio do estudo dos fenômenos da percepção sensorial. Um dos conceitos dessa teoria, de grande influência para a Gestalt-terapia é o de figura-e-fundo

Perls conheceu, nesse período, Lore Posner, que ficou conheci­da por Laura Perls, após casar-se e mudar-se para os Estados Unidos da América. Estudante de Psicologia, fora aluna e assistente de Max Wertheimer, um dos fundadores da Psicologia da Gestalt. Ela tornou-se esposa e parceira intelectual de Fritz em praticamente todas as obras. Yontef atribui a Laura o papel de co-fundadora da Gestalt-terapia, apesar de ter escrito poucos trabalhos com seu nome; ela bem teve contato com Martin Buber e Paul Tillich, e deles recebeu in­fluências: “Boa parte da Gestalt, as influências existenciais e fenomenológicas da Gestalt-terapia vieram dela”.

Perls, paralelamente à sua formação de psicanalista, foi subme­tido a várias análises com terapeutas diferentes, com destaque para Karen Horney e Wilhelm Reich. A importância de Reich é destacada, pois ele foi um psicanalista que se interessou mais pelo presente que pelas «escavações arqueológicas da primeira infância e procurou descobrir proces­sos de cura. Fazia uma análise ativa, não hesitando tocar o corpo de seus clientes.

Nesse processo, Perls, enfim, sentiu-se compreendido e energizado, e o corpo, os gestos, o olhar, a entonação da voz passaram a fazer parte da terapia que realizava. Além disso, ele tinha uma preocupa­ção não só com a estrutura da fala, mas também com a sua forma.

Em 1933, Perls, Laura e seus filhos fugiram da Alemanha, na qual a perseguição aos judeus já havia começado, e instalaram-se em Johannesburg, em 1934, onde fundou o Instituto Sul-Africano de Psicaná­lise. Logo eles se tornaram psicanalistas reconhecidos, mas já sob forte influência da Teoria Organísmica, da Psicologia da Gestalt e de Reich.

No ano de 1936, aconteceu o Congresso Internacional de Psica­nálise em Praga. Perls preparou sua comunicação e esperava submetê-la à
apreciação de Freud e de toda comunidade psicanalítica, porém, [86] a acolhida fria, tanto de Freud quanto de seus (como por exemplo, de Reich), se transformou em um grande desapontamento. Esse desencon­tro motívou-o a desenvolver alguns conceitos que já estavam sendo experienciados e que o afastavam da psicanálise clássica. Em 1940, ele termi­nou a redação do seu primeiro livro, intitulado Ego, hunger and agression, escrito com a colaboração de Laura e publicado em 1942 (na Africa do Sul), mas que só teve sua edição inglesa em 1947. Esse livro tem como subtítulo uma revisão da teoria e método de Freud. Não só questiona a psicanálise como propõe a Terapia da Concentração, em substituição ao método da associação livre.

(...) desde esse primeiro livro começaram se esboçar várias noções que desembocariam (...), no nascimento oficial da Gestalt-terapia: impor­tância do momento presente, a do corpo, a procura de uma abordagem mais sintética do que analítica, a contestação da neurose de transfe­rência (...). Preconizava um contato direto e autêntico entre o paciente e seu analista (...). Tratava também de uma abordagem do organismo e de seu meio (...) e a obra termina com a exposição de uma "Terapia da concentração", compreendendo técnicas de utilização da primeira pessoa do singular, responsabilidade pelos sentimentos, concentração no corpo e nas sensações.

Pearls ainda na Africa do Sul, teve contato com Jan Smuts, idealizador do Holismo, e se encantou com sua consideração do organismo como um todo, em interdependência estreita com seu meio e com o uni­verso (tese muito próxima, segundo ele, da perspectiva organísmica que já conhecia, por intermédio de Goldstein).

Em 1946, Perls e sua família emigraram para os Estados Unidos da América, em razão do crescente movimento de apartheid na Africa do Sul e, no solo norte-americano, nasceu a Gestalt-terapia, apesar de suas raizes estarem referenciadas na cultura alemã, de seu método advir do pensamento europeu e de sua concepção ter sido elaborada na Africa do Sul, entre os anos de 1933 e 1946. Em 1950, foi constituído o grupo dos sete, composto por Fritz Perls, Laura Perls, Paul Goodman, Isadore From, Paul Weisz, Eliot Shapiro e Silvester Eastman. Mais tarde, Ralph Hefferline foi chamado para participar do grupo, sua posição de professor universitário era importante para avalizá-lo, ao publicar suas teses. Esse
grupo estudava a Fenomenologia, o Existencialismo e o Zen-budismo, [87] além de articular os pensamentos da Gestalt-terapia. Muitos consideram esse grupo como o fundador da Gestalt-terapia.

Em 1951, foi publicada a obra - excitement and growth in the human personality, cujos autores foram Peris, Hefferline e Goodman. Foi a primeira aparição pública da expressão Gestalt-terapia, e delimitou o início oficial da nova prática. Houve grande discussão acerca da nomenclatura da nova abordagem, e vários outros nomes haviam sido anteriormente suscitados:

  1. Laura Perls sugerira Psicanálise Existencial, porém houve rejeição em virtude da associação da expressão com a filo­sofia sartreana, que era considerada pessimista demais nos EUA;
  2. Hefferline propusera Terapia Integrativa;
  3. Fritz Perls inicialmente queria Terapia Experiencial ou Terapia da Concentração, que se opunha à livre associação da Psicanálise.

Por fim, decidiram-se por Gestalt-terapia proposta de Fritz Perls, que acreditava ser um bom nome para o marke­ting da nova abordagem. Laura Perls foi contra, alegando que, embora a Gestalt-terapia fosse diferente da Psicologia da Gestalt, poderia ser con­fundida com ela. 

A Gestalt-terapia, desde seu início oficial, enfatizou a aware­ness (objetivo dessa abordagem), a importância da experiência imediata (Fenomenologia) e a ênfase ao contato e ao diálogo (sob influência do pensamento de Martin Buber). Perls, Hefferline e Goodman defende­ram a concepção de que o ser humano pode ser agente transformador de sua própria vida e do meio em que vive, destacando a importância do ajustamento criativo como processo humano vital. No ano seguinte ao lançamento do Gestalt-therapy, Fritz e Laura Perls deram outro passo
significativo na divulgação e aprofundamento desta abordagem ao funda­rem o primeiro instituto de Gestalt - The Gestalt Institute of New York - seguido em 1954, pelo de Cleveland. Logo, Perls entregou a direção dos institutos a Laura, Goodman e Weisz, dando início à sua interminável peregrinação pelos Estados Unidos da América, a fim de divulgar o novo método, que por mais de quinze anos teve repercussão modesta.

Em 1962, Perls entrou em contato com o Zen-budismo ao viver em um mosteiro no Japão, local no qual apreendeu alguns princípios que se incorporaram à filosofia da Gestalt-terapia. São eles: permitir o fluir da experiência, aceitar o que se é e a possibilidade de aprender a lidar com o
vazio, o qual é fértil de possibilidades, e, muitas vezes, precede o ato [88] criativo. Peris havia tido um contato anterior com o conceito de vazio fértil, ao encontrar, logo no início de sua vida adulta, Salomon Friedlander, pensador que desenvolveu conceitos provenientes do pensamento oriental: indiferença criativa, polaridades, o próprio vazio fértil e pensa­mento diferencial.

Ao final de sua vida, Perls coordenava workshops em Esalen (EUA), local em que fora criado um Centro de Desenvolvimento do Po­tencial Humano. Perls instalou-se nesse centro como residente, e, além dos laboratórios, realizava um programa de formação em Gestalt-terapia. Em 1969, adquiriu um hotel em Cowichan (EUA), onde todos viviam em comunidade, participavam do trabalho coletivo e faziam sessões de tera­pia ou de formação. Ele declarou, nessa época, que pela primeira vez na vida estava em paz.

Assim viveu Perls, o principal porta-voz da Gestalt-terapia.

No Brasil, a Gestalt-terapia surgiu em meados de 1970 com Thérèse A. Tellegen, uma holandesa que emigrou para esse país. Seu primeiro contato com a nova abordagem ocorreu em Londres. Em segui­da, estudou com os Polster em San Diego (EUA). Nessa época, ao lado de Jean Clark Juliano - também pioneira da Gestalt no Brasil - realizou trabalhos no Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Mé­dicas da Santa Casa de São Paulo. Tellegen foi responsável pela primeira publicação de Gestalt no Brasil, intitulada Elementos da psicoterapia guestáltica, em 1972, no Boletim de Psicologia da Sociedade de Psicolo­gia de São Paulo. A Gestalt-terapia foi inicialmente conhecida no Brasil como uma abordagem eminentemente prática, visto que as primeiras obras traduzidas para o português foram Tornar-se presente: experimen­tos de crescimento em Gestalt-terapia, de John Stevens, e Gestalt-terapia explicada de Perls, nos anos de 1976 e 1977. São textos nos quais os autores descrevem um conjunto de experimentos utilizados em Gestalt-terapia e essas publicações dão demasiada ênfase à técnica.

Em decorrência, os brasileiros conheceram a prática da Gestalt-terapia antes mesmo de terem acesso às reflexões teóricas, filosóficas, metodológicas e epistemológicas dessa abordagem. Um exemplo é a data de tradução para o português do Gestalt-therapy - livro considerado, por muitos, como o mais importante da Gestalt-terapia. A obra foi escrita em 1951, mas somente traduzida para o português em 1997, 27 anos após o [89] surgimento dessa abordagem no Brasil e 46 anos após sua primeira edição em inglês.

Em meio a essas adversidades, percebe-se que, aos poucos houve uma adaptação e amadurecimento da teoria e da prática gestáltica no Brasil. Em 1984, Thérèse A. Tellegen publicou o primeiro livro brasileiro de Gestalt – Gestalt e grupos: uma perspectiva sistêmica. No ano seguinte, Jorge Ponciano Ribeiro publicou Gestalt-terapia: refazendo um caminho, o primeiro livro brasileiro a tratar dos fundamentos teórico-conceituais, filosóficos e metodológico da nova abordagem. A partir de então, seguiram-se várias publicações de autores brasileiros e a cada dia mais se amplia a área de atuação da Gestalt-terapia.

A amplitude da Gestalt-terapia no Brasil pode ser notada na obra de Ribeiro, com sua destacada produção e seu pioneirismo no desenvolvimento e na abertura de novos campos da Gestalt-terapia, tal como o trabalho com grupos, em Gestalt-terapia - processo grupal uma abordagem fenomenológica da teoria de campo e holística (1994), e a psicoterapia de curta duração, em Gestalt-terapia de curta duração dentre outros.

Atualmente, a Gestalt-terapia no Brasil, já em fase adulta, tem tarefa de propagar as reflexões alcançadas e o compromisso em dar continuidade ao aprofundamento, à revisão e à ampliação da teoria e da prática gestáltica.

Fundamentações Teórico-Filosóficas e Metodológicas

A Gestalt-terapia sofreu várias influências teóricas, filosóficas e metodológicas. Algumas influências foram diretas, como mostra o histó­rico dessa abordagem, e outras, de maneira indireta. Tradicionalmente, a Gestalt-terapia subdivide seus fundamentos em três teorias de base: a Psicologia de Gestalt, de Wertheimer, Kohler e Koffka, a Teoria Orçanismica Holistica, de Goldstein, que abrange as reflexões acerca de uma concepção de mundo de Smuts, fundador da Teoria Holistica, e a de Campo, de Lewin.

Dois são tomados como os fundamentos filosóficos principais - o Humanismo e o Existencialismo - e a Fenomenologia, e constituem [90] suporte metodológico para a clínica gestáltica. Existem várias correntes humanistas, existencialistas e fenomenológicas, no entanto, nesta discus­são. É necessário esclarecer que não existe uma transposição dessas cor­rentes para a Psicologia, e, de forma específica, para a psicoterapia, mas “frequentemente a interpretação e a aplicação do texto a um momento psicoterapêutico terão caráter certamente analógico”. Alguns exemplos clínicos serão apresentados com base nos depoimentos dos colaboradores. Será destacado, em negrito, o que o fragmento tenta ilustrar.

Psicologia da Gestalt

Trata-se de um dos mais importantes sistemas psicológicos da atualidade, organizado como uma escola - a Escola Gestaltista ou o taltismo - em tom o de um princípio: a ideia de, Gestalt palavra alemã sem tradução específica, mas que significa, como já foi dito, configura­ção, todo, totalidade, ou forma, daí esse sistema ser ainda conhecido como Psicologia da Forma. Uma boa parte das idéias desenvolvidas por essa escola e teoria foi incorporada na estruturação (posterior) da moder­na perspectiva clínica chamada de Gestalt-terapia. O movimento gestal­tista surgiu em oposição ao Elementarismo wundtiano e titcheneriano, e ao Behaviorismo watsoniano. Foi Max Wertheimer (1880-1943) o pri­meiro promotor do movimento gestaltista, quando, em 1912, publicou uma pesquisa sobre o movimento aparente. Posteriormente, Wertheimer veio a ser assessorado por Kurt Koffka (1886-1941) e Wolfgang Kohler (1887-1967). Outros expoentes da Psicologia da Gestalt merecem desta­que, em especial Kurt Lewin (1890-1947), o criador da Teoria do Campo e precursor da dinâmica de grupo; e Kurt Goldstein (1878-1965), idealizador da Teoria Organísmica.

O movimento fenomenológico foi uma influência fundamental para a Psicologia da Gestalt, pois, metodologicamente, propõe a descri­ção da experiência imediata, da forma como ela ocorre. Portanto, nessa metodologia, a experiência não é reduzida a elementos, mas é respeitada como fenômeno que se revela. A Psicologia da Gestalt tende a definir a Psicologia como o estudo da experiência imediata do organismo total.

Embora os gestaltistas queiram incluir todo o espectro da Psicologia em sua perspectiva, privilegiam o estudo da percepção, em relação às demais áreas. Esse movimento articula-se em torno de algumas idéias básicas, e a mais importante delas é que “o todo é diferente da soma de suas partes” [91] ou seja, que a qualidade do todo não é apenas mais um elemento, e que as qualidades do todo determinam as características das partes. Deriva deste princípio a lei da pragnância a clareza, equilíbrio e harmonia da Ges­talt, segundo a qual a organização de qualquer todo é tão boa quanto as condições vigentes. 

Essas idéias constroem um modelo dinâmico da Gestalt, em que as forças físicas determinam uma organização. A relação entre todo-parte é fundamental para a compreensão da Psicologia da Gestalt. Quando al­guém se depara com alguma coisa, sua percepção ocorre como um todo, e somente depois ele decompõe o todo em partes, pois a percepção do todo é anterior às partes. Toda Gestalt existe em uma relação de figura que se destaca sobre um fundo mais geral. A figura forma-se mais claramente que o fundo, isto é, possui uma estrutura mais perfeita e é mais resistente à mudança.

Um dos principais objetivos da escola gestaltista é a elaboração de leis e princípios sobre a organização da percepção. Para Wertheimer, a percepção humana está estruturada e tem um caráter único. Se for estrutu­rada de outro modo, será uma estrutura totalmente diferente e nova. Em outras palavras, uma alteração em partes do todo altera necessariamente o todo. As principais leis relativas a esse tema são as seguintes: proximidade (os elementos próximos no tempo e no espaço tendem a ser percebi­dos juntos); similaridade (elementos semelhantes tendem a ser percebidos como pertencentes à mesma estrutura); e pregnância (refere-se ao princípio do fechamento ou princípio do equilíbrio, ou seja, as figuras são vistas de um modo tão bom quanto forem possíveis as condições do estímulo).

Afinal, qual a relação entre a Psicologia da Gestalt e a Gestalt-terapia? Há uma conexão de linhagem histórica entre a Psicologia da Gestalt e a Gestalt-terapia, a qual se deve muito a Laura Perls: ao estudar os escritos de Laura Peris, pode-se perceber que ela antecipou idéias-chaves na Gestalt-terapia, relacionadas à Psicologia da Gestalt, as quais antecederam os escritos de Fritz Perls. Há ainda correlações da Psico­logia da Gestalt com a Gestalt-terapia na ideia que, “como psicoterapeutas que se alimentam da Psicologia da Gestalt, investigamos a teoria e o método da awareness criativa, a formação figura-fundo como sendo o centro coerente dos discernimentos”. [92] Alguns princípios da Psicologia da Gestalt utilizados pela Ges­talt-terapia tiveram uma configuração própria, como por exemplo, o príncipio figura-fundo, e o princípio da boa forma (lei da pregnâncía), cuja tendência é a procura do ser humano para a completude. Outro princípio fundamental da Gestalt-terapia e que recebeu influência indireta da Psico­logia da Gestalt é o do aqui-agora, que será discutido posteríormente.

Este princípio também recebeu influência de Lewin, do Exístencíalísmo e do Zen-budismo.]

Na prática clínica da Gestalt-terapia, assim como na Psicologia da Gestalt, observa-se que o cliente primeiro percebe a realidade como um todo, como uma totalidade:

Na época [início da psicoterapia], eu tinha uma coisa comigo, de que eu precisava de uma psicoterapia porque eu tinha contraído diabetes [todo]... Depois que eufiquei sabendo dos detalhes da doença: É uma doença que está com a tacha leve, que só com alimentação e exercí­cios pode melhorar etc [parte].

E que a alteração da parte altera o todo:

O que antes era o fim do mundo: - "Eu vou morrer " (...). Hoje não. já vejo que tem tratamento, tem alternativa.

Outro conceito da Gestalt-terapia que recebeu influência, sobre­tudo, da Psicologia da Gestalt, e que é nitidamente percebido na prática clínica, é o conceito de figura-fundo. Percebe-se, na clínica, a importância em ajudar o cliente a eleger a figura ou seu tema e, sobretudo, entender que
aquela figura emergiu de um fundo, que o sustenta e lhe dá sentido.

Teoria Organismica Holística

A Teoria Organísmica tenta superar a divisão do homem em cor­po e mente, e sugere que se entenda o indivíduo como um todo unificado. Trata-se de um movimento que recebeu influência de Jan Smuts, reconhe­cido como o precursor filosófico da Teoria Holística, que usou a palavra
holismo, cuja raiz grega, holos, quer dizer completo, inteiro, todo.

Smuts defende a ideia que o universo é uma grande totalidade, no qual suas partes estão intrinsecamente conectadas umas às outras - tudo está em tudo, uma coisa envolve a outra e nada é independente. Em [93] consequência, a totalidade constitui o poder de regular e coordenar a estrutura e o funcionamento das partes: “a teoria holística vê a pessoa como um sistema uno, integral, consistente e coerente, porque vê o organismo como ai organizado e em permanente organização de relação pessoa-mundo".

Kurt Goldstein, principal pensador da Teoria Organísmica, ao estudar os lesionados cerebrais durante a Primeira Guerra Mundial, che­gou à conclusão de que determinado sintoma não poderia ser compreendido somente com base em certa lesão orgânica, mas também em relação ao organismo como uma totalidade; assim, as leis do todo gover­nam o funcionamento das suas diferentes partes, e, ainda, o que ocorre em uma parte afeta o todo, concepção semelhante à da Psicologia da Ges­talt. A diferença é que a Psicologia da Gestalt preocupa-se com o todo da percepção, ao passo que a Teoria Organísmica se refere ao todo do orga­nismo - corpo e mente. Portanto, é necessário descobrir as leis se­gundo as quais o organismo inteiro funciona.

Seguem-se as principais características da Teoria Organísmica, no que diz respeito ao funcionamento da pessoa:

  1. há unidade, integração, consistência e coerência na pessoa normal, pois a organização é um estado natural do organis­mo; e a desorganização é patológica;
  2. o organismo é um sistema organizado, e o todo é diferente de suas partes; um elemento é sempre considerado como parte integrante do organismo total, e o todo é regido por leis que não se encontram nas partes;
  3. o indivíduo é motivado por um impulso dominante de autorrealização, e luta para realizar suas potencialidades;
  4. existem potencialidades inerentes do organismo para cres­cer; se o organismo não pode controlar o meio, trata de adaptar-se a ele.

Para a Teoria Organísmica, pode-se aprender mais em um estudo compreensivo da pessoa do que em uma investigação extensiva de um sintoma.

Por estas razões, a Teoria Organísmica tende a ser muito popular entre os gestalt-terapeutas, que se preocupam, também, com a totalidade. A Teoria Organísmica rompe epistemologicamente com o modo então exis­tente de conceber a realidade, ao defender que a totalidade explica a parte, mas “não é, no entanto, o número de partes que um objeto contém que faz simples ou complexo, explicável ou não. É sua relação com a vida.  [94] 

Os principais conceitos dinâmicos da Teoria Organísmica defi­nidos por Goldstein são:

  1. equalização ou centragem do organismo;
  2. autorrealização; e
  3. pôr-se em acordo com o meio ambiente.

No tocante à equalização ou centragem do organismo, Goldstein postula que a energia é constante e tende a distribuir-se uniformemente por todo o organismo após um estado de tensão. No entanto, o equilíbrio completo é um estado holístico ideal, raramente conseguido. Ao passo que na equalização a pessoa busca o equilíbrio no interior do organismo, na centragem, a pes­soa busca o equilíbrio fora do organismo, isto é, busca no mundo o que é bom para ela. 

A autorrealização, segundo Goldstein, é o único motivo que possui o organismo. A satisfação de alguma necessidade é um requi­sito básico para a autorrealização do organismo total.

Por-se em acordo com o meio ambiente significa existir uma interação constante entre o organismo e o meio ambiente. Algumas vezes, as ameaças do ambiente são tão fortes que o comportamento do indivíduo é paralisado pela ansiedade; outras vezes, a autorrealização é bloqueada pela carência de condições e de objetos necessários no meio.

A teoria até então apresentada vem ao encontro da prática clíni­ca na Gestalt-terapia em razão de seus princípios direcionarem o terapeu­ta no atendimento clínico. O gestalt-terapeuta, assim como a Teoria Or­ganísmica, vê a pessoa como um todo - corpo e mente - e não como partes isoladas. Esse sistema uno deve ser uma constante busca do clien­te, como revela um deles:

Um pessoa veio e me abraçou na redação e falou: “Eu chorei na sua matéria ". Aquilo foi maravilhoso! Porque, assim, era eu conse­guindo me colocar no meu trabalho (...). Porque eram duas coisas muito separadas: eu era muito sério no meu trabalho e aí eu guarda­va a emoção muito para mim. Meu exercício de... de regar mesmo o resto da minha vida com a minha emoção. Não deixar ela só guarda­da em um determinado lugar.

Outro ponto comum entre a Teoria Organísmica e a Gestalt-terapia é a crença na autorrealização. Este princípio ajuda o terapeuta a incentivar o cliente a delinear seus projetos e a caminhar rumo a suas realizações, o que aconteceu com um deles: 

Aí eu tive que retomar e  ver porque eu estava ali [curso de Nutrição] (...). Eu vi que: - “Nossa! É isso que eu quero, que eu [95] gosto". Me deixei mesmo... e ter uma postura muito diferentede assumir mesmo aquilo ali, de que é isso que eu quero, de estudar, de correr atrás dos estágios e das oportunidades que a vida me oferecia (...). E me apaixonar do jeito que eu me apaixonei [pela profissão].

Percebe-se que a cada conquista do cliente, maior é a chance de atualização de suas potencialidades e de acreditar em seu crescimento e desenvolvimento: “De conseguir olhar para e dizer: - ‘Voce merece andar mais, você merece ir mais além e você tem todas as condições para ir além ’”. A cadaderrota do cliente, o terapeuta deve ajudá-lo a integrar esse fracasso à sua vida e lhe dar suporte para que ele saiba lidar
com suas limitações ou até mesmo a investir em seus projetos em um momento oportuno: “A profissão que eu sempre tive vontade, que eu
tenho desde a época do vestibular, mas pelas circunstâncias eu não fiz Psicologia e tal (...). Fui questionando essas coisas, não é?”.

Na busca de seus objetivos, muitas vezes o cliente precisa pôr-se em acordo com o meio ambiente: “Eu achei que a terapia fosse me livrar desses fantasmas e me colocar num paraíso. E eu descobri ao lon­go do processo que ela só ia me proporcionar a fazer as pazes com um monte de coisas ”. Quanto mais o cliente tem clareza de sua figura, maior a sua energia para buscar satisfazer sua necessidade, mesmo que o meio lhe seja adverso. A Gestalt-terapia relaciona esse princípio com o concei­to de ajustamento criativo, que será discutido posteriormente.

A crença do terapeuta de que o cliente tem a tendência de retor­nar ao seu estado de equilíbrio ou homeostase é muito importante em seu trabalho, pois, dessa forma, ele é capaz de manter a calma diante das de­sorganizações temporárias do cliente e pode entender que, muitas vezes, a resistência, ou um sintoma, por exemplo, são modos de equilíbrio possíveis naquele momento, como se percebe nessa fala: “Eu entrei um processo de depressão, mas hoje eu acho que ele era necessário, era preciso [risos]. Eu não ia sair dessa psicoterapia se eu não entrasse realmente nessa dor e não olhasse".

Teoria de Campo

Kurt Lewin (1890-1947) foi o idealizador da Teoria de Campo. Seus estudos iniciais ocorreram em Berlim, com outros psicólogos da Psicologia da Gestalt (Wertheimer e Köhler), o que justifica a afirmação de que a primeira manifestação importante da influência da Teoria de Campo apareceu no movimento gestaltista. [96] 

Para Lewin, o campo tem diversos pontos e fontes de força, formando uma rede. A percepção depende dessa rede. Assim, coisas e pessoas só são compreendidas se percebidas em uma relação total com o ambiente que os cerca. Em outras palavras, a pessoa só se faz compreensível no contexto total no qual se encontra. Yontef conceitua campo como “uma totalidade de forças que se influenciam mutuamente e que juntas formam um todo unificado e interativo”. Desse modo, a ênfase dada pela Teoria de Campo ao processo, ao relacionamento e às forças dinâmicas existentes no campo, fornece uma base segura para a compreensão de fenômenos complexos.

Na Teoria de Campo, o comportamento, portanto, é função do campo. Uma pessoa (P) é um universo fechado, em um universo mais amplo. Decorrem, então, duas propriedades: a) que define a separação do mundo por meio de um limite contínuo - ou diferencia a pessoa (P) de qualquer outra coisa (Não pessoa ou NP); e b) relação parte-todo, que remete à inclusão da pessoa em um universo mais amplo. Lewin destaca a importância de compreender um comportamento em relação ao meio que o circunda, ou seja, compreender o campo, até por­ que “toda psicologia científica deve tomar em conta situações totais, isto é, o estado da pessoa e do meio ambiente”.

A teoria de Lewin (1973) é estrutural, e seus conceitos funda­mentais são pessoa, meio e espaço vital. O espaço vital (V) é aquele em que ocorre o comportamento, que também é função do campo. Em uma fórmula simples [V = P + M], em que (V) é o espaço vital, (P) é pessoa, e (M) é o meio psicológico. Assim, compreende-se que a pessoa ao mesmo tempo se individualiza (é um universo fechado) e se comuniza (inclui-se em um universo mais amplo). O espaço vital é o universo do psicológico (o todo da realidade psicológica). Contém a totalidade dos fatos possí­veis, capazes de determinar o comportamento do indivíduo, o que define o comportamento como função do campo, na fórmula lewiniana, [C =
f(V)]. Assim, Lewin define que a pessoa e o meio são interdependentes, ou seja, há uma interdependência entre a região (P) e a região (M), que formam o campo vital (V). A realidade é, então, definida pela permeabi­lidade entre as regiões.

Em suas palavras, o espaço vital psicológico indica “a totalida­de de fatos que determinam o comportamento de um indivíduo num certo [97] momento”, ou seja, todos os fatos, todos aqueles que tenham efeitos, sejam conscientes ou não. Define-se assim o princípio da temporaneidade, que é a relação temporal do evento com as condições dinâmicas que o produzem (ou a relação entre as partes do espaço vital).

Somente a situação presente, apenas o que existe concretamente pode ter efeitos. Contrariamente, pois, aos demais modelos psicológicos, a ênfase ao presente, na perspectiva da Psicologia dinâmica de Lewin, define que a influência da história prévia da pessoa é indireta: a estrutura da pessoa e as características psicológicas do meio am­biente em cada momento, em cada ponto dependem, de um modo de­cisivo da história prévia (...). Contudo, devemos considerar essa in­fluência da história prévia como indireta na psicologia dinâmica.

Os eventos passados só podem ter uma posição nos encadeamentos históricos causais, cujas interligações geram a situação presente. Além do princípio da contemporaneidade, Lewin apresenta os princípios da conexão (interação de dois ou mais fatos) e da concreção (só os fatos concretos que existem no espaço vital podem ter efeitos).

Esses três princípios são discutidos em decorrência dos estudos da loco­moção e comunicação (ocorrências), isto é, as formas como as regiões se interagem. As ocorrências (influência de uma região sobre a outra) possi­bilitam a reestruturação do espaço vital, além da alteração no número de regiões, posição dessas regiões, mudanças nas delimitações e alterações nas qualidades de superfície das regiões. “As regiões do meio estão conectadas, quando a pessoa pode realizar uma locomoção entre elas. Diz-se que as regiões da pessoa estão conectadas quando podem comunicar- se entre si”. Para entender a locomoção, é preciso compreender os con­ceitos dinâmicos de Lewin: energia, tensão, necessidade, valência, força ou vetor. Esses conceitos dependem da situação e das propriedades do campo.

Há uma complexidade e interação entre esses conceitos. Lewin defende que a pessoa é um sistema complexo de energia. A energia é liberada quando a pessoa tenta retomar ao equilíbrio, após um estado de desequilíbrio. O desequilíbrio é produzido pelo aumento de tensão em uma parte do sistema, como resultado de estímulo externo, ou de mudan­ça interna. O aumento de tensão ou a liberação de energia na região intrapessoal é causada pelo aparecimento de uma necessidade. Ao surgir a necessidade, a pessoa precisa locomover-se e, na locomoção, há também [98] o conceito de valência. Valência é o valor da região para a pessoa. Existem duas espécies de valor: positivo e negativo. A região de valor positivo, ao contrário do valor negativo, é aquele que contém um objetivo que reduz a tensão quando a pessoa nela penetra. No entanto, uma valência não é uma força ou vetor. A força ou vetor dirige a pessoa através do seu meio psicológico, mas não provê a pessoa do poder motivador da valência para locomover-se.

Lewin define sua teoria como um sistema de conceitos relacio­nados com fatos observáveis, de tal forma que os fatos empíricos podem ser deduzidos dos conceitos. Assim, leis empíricas são relações funcionais de dados observáveis e devem referir-se a leis dinâmicas; em outras palavras, toda ciência é e deve ser empírica. Entretanto, não pode se fe­char simplesmente nos dados, mas centrar-se nas relações funcionais dos dados. Portanto, para Lewin, teoria é igual a sistema de conceitos, mais as leis dinâmicas. Outros autores ressaltam a contribuição da Teoria de Campo na Psicologia e, particularmente, na construção teórica e prática da Gestalt-terapia. Yontef vai além, ao sustentar que a Teoria de Cam­po é a fundamentação teórica que melhor se adequa ao sistema da Gestalt-terapia, sobretudo por possibilitar a superação da dicotomia entre biológi­co e social, conferindo-lhe uma visão holística na Teoria de Campo.

Segundo Ribeiro, “a Teoria de Campo vê a realidade como campos ou como um grande campo unificado, onde a realidade maior acontece”. O autor afirma ainda que o campo está em constante mu­dança, provocada por alterações nos subcampos. Observa-se que o clien­te percebe essas mudanças: “Depois que eu fiz grupo eu tive um outro olhar sobre qualquer pessoa, sabe? Um olhar mais emotivo mesmo, um olhar menos frio, menos julgador, menos crítico, um olhar de falar assim, é... tentar entender mesmo: - “Isso é assim, mas tem um porquê".

Embo­ra ocorra esse processo mutável, existe algo que mantém ao longo do tempo:

Eu continuo sendo a mesma pessoa que passou anos aqui fazendo te­rapia. Não mudou. A minha essência é a mesma. Eu vou continuar parando e olhando para uma figura no meio da Avenida Paulista e vou me emocionar, e vou querer saber por que ela está ali, o que leva ela a estar ali, a estar na rua, a n coisas. Porque isso é meu, esse olhar é meu.

Assim como para a Teoria de Campo, a Gestalt-terapia entende que uma pessoa (P), singular (diferenciada), e ao mesmo tempo inserida em um campo (parte-todo), só pode ser compreendida em um contexto atual (aqui-agora). Para tanto, procuram-se resgatar as conexões e as relações entre os diversos elementos do campo. A cliente declara:

Eu fui resgatando... um lado que era meu e que estava escondido, abafado, não estava sendo vivido. Hoje eu consigo ser eu mesma (...). É muito prazeroso ser realmente o que a gente é (...). Estou mais perto da minha idade e do meu jeito de ser.

Tanto a Teoria de Campo quanto a Gestalt-terapia consideram que o todo é diferente da soma de suas partes. Cada parte (cada pessoa) só pode ser entendida no contexto do todo (sua história, seu ambiente), ou seja, o comportamento é função do campo. A cliente compreende essa condição:

Acho que se eu não tivesse esse momento aqui para conversar sobre is­so, para ter essa visão de todos os lados da história, do todo, de mim dentro daquilo ali, de tudo que... tudo que me influenciava, eu teria leva­do o curso, sem saber se era realmente aquilo que queria (...). A profis­são me tocou, eu vi que: - “Nossa! E isso que eu quero, que eu gosto" (...). E ter uma postura muito diferente, de assumir mesmo aquilo ali.

A modificação de uma parte implica a mudança da totalidade. O processo, por ser circular e não linear, possibilita que a interferência em um ponto modifique o conjunto. Trata-se, pois, de uma perspectiva “sistêmica”. A Gestalt-terapia também faz uso dos conceitos dinâmicos da Teoria de Campo quando investiga, com o cliente, onde está sua ener­gia, qual a sua necessidade, o quê e como tem feito para alcançar seus objetivos, e se sua direção tem sido, para os campos de Valencia, positiva ou não. O cliente relata:

E meu pai estava sentado comigo, no meu quarto, enchendo balão. E, de repente, eu me toquei que era uma companhia, era uma presença, que eu queria muito perto de mim, e que eu só fui ter aos 27, 28 anos de idade. E trouxe isso para a terapia, a gente trabalhou isso e eu tive coragem de chegar pro meu pai depois e conversar com ele sobre isso. [100]

Existencialismo

O Existencialismo reuniu os mais diversos pensadores, desde seus antecessores, Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Soeren Aabye Kier­kegaard (1813-1855), passando por pensadores como Gabriel Marcel (1889-1973), Albert Camus (1913-1960), Emmanuel Levinas (1905-1995), Jean-Paul Sartre (1905-1980), Karl Jaspers (1889-1969), Martin Heidegger (1889-1976), Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), Simone de Beauvoir (1908-1986) e Martin Buber (1868-1965).

Não há, portanto, um Existencialismo, mas vários, e, assim, cada pensador enfatiza algum aspecto da existência. Melhor seria falar de “filo­sofias da existência", de modo a não causar maiores confusões ou mesmo respeitar as diversidades e singularidades de pensamento. No entanto, co­mo todos esses pensamentos caracterizam-se por uma crítica aos funda­mentos da ciência moderna, e pela relevância do sujeito humano em rela­ção à técnica, faremos uso do lugar-comum “existencialismo" e de “filo­sofias da existência" de modo indiscriminado, de modo a apreender apenas
as dimensões conceituais. Pode-se dizer que o Existencialismo teve em Kierkegaard e Nietszche seus primeiros expoentes, mas tornou-se mundialmente conhecido a partir da publicação, em 1945, do livro de Sartre, O existencialismo é um humanismo, passando a ser sucessivamente associado à sua figura. Entre os anos 1945 e 1960, esse movimento invadiu a vida política e literária, o teatro, o cinema, e, evidentemente, a filosofia.

O Existencialismo é uma corrente filosófica que fascina pelos seus questionamentos absolutamente atuais. Os filósofos da existência buscaram - no esteio do pessimismo do período entre guerras - entender o homem como um sujeito situado, ou seja, como uma realidade em contato com outros sujeitos e com o mundo. Assim, as filosofias da existência resgatam noções esquecidas, como angústia, desespero, ansiedade, morte, relação, sentido, subjetividade, significado, diálogo, liberdade, vivido, dentre outras.

As filosofias da existência procuram opor a realidade da exis­tência ao essencialismo filosófico. Para os pensadores dessa abordagem, o homem não é um sujeito pré-determinado, mas um sujeito concreto, singular, responsável, livre, repleto de possibilidades, e que se constitui por meio de suas escolhas. Considera-se, portanto, a liberdade como o cerne do Existencialismo, visto que cada pessoa é definida por aquilo que ela faz, tanto que somente a própria pessoa pode criar seus valores, por [101] meio da própria liberdade e sob sua responsabilidade. Em decorrência, a subjetividade tem um lugar destacado nessas filosofias.

Até então, a ciência procurava definir o homem pelos seus condicionantes essenciais, ou elementos definidores. Em oposição à prerrogativa
vigente, Sartre apresentou a máxima: a existência precede a essência. Primeiro é preciso existir, para depois definir-se. Para definir-se, o homem
deve lançar mão da sua liberdade, ou seja, deve escolher e, dessa forma responsabilizar-se por sua escolha. Para Sartre, portanto, o homem não pode fugir à sua responsabilidade, já que não pode não escolher. Nesse sentido, "o homem nada mais é do que aquilo que ele decide ser, do que aquilo que ele projeta ser; sua essência surge como uma resultante de seus atos”.

Se existir é escolher, existir é angústia, pois “o homem que se compromete e percebe que não é apenas aquele que escolhe ser, mas que é também um legislador, escolhendo, ao mesmo tempo que a si mesmo, a humanidade inteira, não poderia escapar ao senso da sua total e profunda responsabilidade”. É angustiante escolher em razão da responsabilida­de direta ante os outros homens que a escolha envolve. Os existencialistas fundamentam-se em alguns princípios, a fim de compreenderem a exis­tência do ser humano. Um dos princípios do existencialismo é a singularidade do homem, o que foi identificado por uma cliente:

Perguntei: - “E aí, você conversou com ele”? Ela me respondeu bem assim: - "Não, não vou conversar com ele, porque eu não sou mãe dele, eu sou filha, eu quero ser cuidada. Achei uma visão muito radical (...). Eu também sou filha, eu também quero ser cuidada, mas infeliz­mente a gente não tem os pais para cuidar da gente. Eles não nasce­ram para cuidarem da gente” (...). Eu acho que você deve fazer até onde você puder ”, E é o que eu faço. Também não acho certo, se ter daquilo ali e levar uma vida como se não existisse. 

Outro princípio é o da autorresponsabilidade e da possibilidade de a própria pessoa dar forma à sua existência, evidenciando que o próprio homem se faz, como declara um cliente: “Se eu tiver consciência de que eu quero fazer, mesmo se der errado alguma coisa eu não vou responsabilizar ninguém. Foi uma coisa minha, foi um processo meu, eu resolvi, eu fui".

Ser singular não é ser egoísta, mas é uma proposta rigorosa de assumir-se [102] totalmente na liberdade responsável (...), de modo que o homem possa dar respostas diferenciadas entre suas necessidades e as exigências que vêm de fora. Há ainda outros princípios a destacar, segundo comentadores da Gestalt-terapia: no tocante ao método, “os existencialistas são fenomenólogos",; a filosofia existencialista é dinâmica, conceito importantís­simo para a Gestalt-terapia; e “a existência humana é sempre um ser(estar)-no-mundo e é sempre um ser(estar)-com-os-outros".

Todavia, na perspectiva heideggeriana, a perspectiva psicológi­ca existencialista não é individualista. Além de Heidegger, outro impor­tante filósofo da modernidade que enfatiza o homem como ser de relação é Martin Buber. Em 1923, Buber publicou um livro que o tornou famoso, e no qual expõe sua perspectiva filosófica: trata-se do EU e TU. Neste livro, Buber destaca que o homem não existe só, mas em relação. Como assinala no início do seu livro, “ não há eu em si” . Só se é quando em relação. Para atingir a plenitude da existência, o homem deve engajar-se no diálogo com outro homem.

Assim, Buber propõe uma filosofia pautada por dois conceitos: o Eu-Tu, que define o diálogo, a abertura da existência do homem como ser-no-mundo e como ser de relações, que se caracteriza pela vivência e pela confirmação de si e do outro como existentes; e o EU-ISSO, que caracteriza a relação objetiva, típica do discurso da ciência, que coloca o sujeito à parte da sua realidade, ou seja, destaca o sujeito do mundo.

A Gestalt-terapia é um caminho e uma forma de o homem ex­pressar-se diante da vida, de encontrar um modo particular de estar no mundo e de lidar com ele, como relata um cliente: “Eu fico me ques­tionando: - “Pra que, por que eu fiz isso, se seria bom se eu não tivesse dissimulando, ou não Ah, tem horas que o caso é de dissimular mes­mo”. Na Gestalt-terapia, o homem também é percebido como uma pessoa singular, concreta, livre e, ao mesmo tempo, circunstancial, responsável pelas suas escolhas. Suas escolhas vão ao encontro de seus valores, suas crenças e seus projetos. Uma cliente assegura:

Me ajudou a ir olhando mesmo, se era realmente o que eu queria. Olhar o sentido de estar ali. Tá, eu escolhi porque era legal, mas ago­ra eu não estou achando legal? Então, tá, então eu posso não [103] continuar, mas porque eu estou continuando? Entendeu? Então, ver os vários motivos pelos quais eu estava ali, e ver o que me fazia estar ali ou não. O que me fazia desistir, o que me fazia continuar. E ver principalmente se era o que realmente eu queria, porque eu tinha a opção de não querer.

Por isso, o objetivo da Gestalt-terapia é a awareness, pois ao tomar consciência de si, do outro e do mundo, o sujeito torna-se cônscio de seu projeto de vida, de como esse projeto vem sendo realizado, se está de acordo com o que se pretendia para sua vida e a vida ao seu redor. A revelação do cliente é esclarecedora:

Eu abandonei tudo, eu mudei de uma cidade para outra, eu larguei um trabalho de nove anos, eu larguei uma relação de sete anos, eu larguei uma família que eu sempre morei, eu larguei a terapia, eu larguei uma vida que eu tinha construído com muito tesão, com muito prazer e parti para uma etapa nova (...). Eu sempre quis morar em São Paulo.

O Existencialismo é a base filosófica que permite ao gestalt-terapeuta ter uma visão mais ampla do sujeito humano, e direcionar seu trabalho para esse sujeito que se constitui à medida que é. Além dessa visão de homem, o gestalt-terapeuta precisa de um método para trabalhar (no caso, o método fenomenológico) e de uma atitude dialógica para en­contrar o cliente.

Humanismo

Embora a preocupação com o ser humano, de alguma forma, sempre tenha existido, foi o Humanismo que buscou a compreensão do homem em sua totalidade (como unidade psique-corpo-espírito). Com o Humanismo, procurou-se integrar o homem, como um todo, ao meio em que vivia e, assim, dar-lhe uma identidade como ser humano. Enfim, o homem passou a ser o centro do universo.

Erasmo de Rotterdam (1467-1536) foi o mais notável dos pri­meiros humanistas, sempre pregando a paz, a tolerância, a concórdia, levantando a bandeira do Humanismo como sinal de uma nova humani­dade, unida pelo amor e reciprocidade, acima das diferenças de línguas, [104] raças e credos. Homem bastante religioso, Erasmo de Rotterdam acredi­tava na liberdade essencial do homem e no poder criador do indivíduo, e exaltava a dignidade e a liberdade do homem. 

Etimologicamente, Humanismo é tudo aquilo que se volta para o humano, que é relativo ao homem e que o define como o ser criador de seu próprio ser, à medida que o humano, através de sua história, gera sua própria natureza. Isto não significa “ser o homem o senhor absoluto e prepotente do universo, mas que o universo deve ser pensado a partir do homem. O mundo que caminha além do homem, sem o homem, ainda que através dele, é um mundo caminhando para a desumanização".

As raízes espirituais e históricas da Psicologia Humanística são o Humanismo e o Existencialismo. A Gestalt-terapia deve ser conside­rada como agregada à escola da Psicologia Humanística, o que significa que contém e promove a ideia do homem como centro, como valor posi­tivo, como capaz de autogerir-se e regular-se. A Psicologia Humanista, ou terceira força, constituiu-se nos anos 1960, na Psicologia estadunidense, como uma alternativa ao Comportamentalismo e à Psicanálise. Desenvolveu-se como movimento de combate ao sentimento de desumanização e à
massificação do indivíduo no século XX. No campo específico da Psico­logia, a adoção da denominação humanista foi uma tentativa de tomar a Psicologia uma ciência humana.

Os temas centrais dessa perspectiva são: a) ênfase à experiência consciente (em contraposição ao determinismo ambiental do Behaviorismo e à noção de inconsciente da Psicanálise); b) crença na natureza hu­mana, como uma totalidade; c) ênfase à questão da liberdade - muitas vezes confundida com livre-arbítrio - e na espontaneidade, além do po­der criador do ser humano; d) importância dos temas humanos como ob­jetos de estudo (assim, temas como motivação, emoção, sensação são objetos fundamentais).

O questionamento humanista passou a ser fundamental, pois in­terroga a ação técnica sobre o ser humano. Atualmente, vive-se em uma sociedade altamente intelectualizada e tecnicista, esquecida de questões básicas como a relação humana. A filosofia humanista tenta reverter a [105] ênfase dada ao desenvolvimento tecnológico e à ciência desconectada da totalidade da existência humana, em detrimento de valores que foram resgatados por essa filosofia. Uma cliente assinala: “ Eu não consigo separar que a pessoa simplesmente come como metabolismo. Ela come, tem um metabolismo e, também, tem uma história, e o seu metabo­lismo vem do estado dela, não tem como, não tem como"

Fenomenologia

No capítulo 1, discutimos algumas idéias básicas da Fenomeno­logia. Neste tópico, pretende-se mostrar como que Gestalt-terapia pode se apropriar metodologicamente da Fenomenologia, e quais são suas possi­bilidades na conduta do psicólogo ante as tarefas psicoterapêuticas. É
recente a aplicação dos postulados da Fenomenologia à prática psicotera- pêutica. O primeiro pensador que buscou estabelecer essa relação foi Ludwig Binswanger, nas primeiras duas décadas do século XX. Petrelli esclarece que a contribuição de Binswanger para a psicoterapia consistiu
em destacá-la como uma “modalidade coexistencial de duas pessoas que se põem, intencionalmente, uma diante da outra, expondo uma para outra a autenticidade da própria singularidade e subjetividade - de forma plena, no terapeuta; de forma potencial, no outro, o cliente”184. A atitude de uma pessoa colocar-se genuinamente uma ante a outra é comum nos depoi­mentos dos colaboradores, como o faz uma cliente ao referir-se à terapia de grupo: “No início dessa terapia de grupo, eu me propus a tentar ser verda­deira, porque me incomodava essa questão de eu não ser ”.
Nesse contexto, a presença constante do terapeuta é fundamen­tal para que a presença potencial do cliente seja despertada. A presença do terapeuta realiza-se por intermédio de uma investigação compreensi­va do fenômeno, confirmada por uma colaboradora: “Eu te sentia inteira, durante as sessões, realmente estava escutando. Eu tenho muita dificuldade lá fora, lá fora da psicoterapia, de achar que as pessoas não
me escutando”.

A Fenomenologia, aplicada à Psicologia, pode ser entendida como uma postura, uma atitude que nos abre todo um leque de possibilidades para plenificar o encontro com o fenômeno. Trata-se de um encontro que ocorre no aqui-agora, e terapeuta e cliente interagem em eus campos fenomenológicos, com a intenção de ampliarem seus [106] conhecimentos sobre o fenômeno que se apresenta. Nesse momento, o terapeu­ta apresenta-se corno pessoa existente diante do cliente, e, também, como co-existentividade. O fenômeno revela-se à consciência à medida que o terapeuta se encontra em uma atitude de observador atento à realidade que se mostra, sem a priori sobre o fato; o contrário se dá quando existem preconceitos, que embaçam a percepção do fenômeno em si. O cliente também percebe melhor o fenômeno quando se despoja dos seus pró­prios preconceitos:

No grupo, eu pude olhar mesmo, e querer ver, querer conhecer, sabe? E ver que cada pessoa, todo mundo, por melhor ou pior que ela seja, as pessoas sempre tem alguma coisa muito interessante. Sempre eu vou aprender com as pessoas, sabe? Sempre... Então isso... isso tirou muito preconceito... muita barreira de não me deixar envolver mesmo.

Nesta perspectiva, entende-se que a fonte de todo conhecimen­to autêntico está na experiência imediata de si e de outrem. Na relação imediata, não deve existir qualquer teoria entre terapeuta e cliente, apenas um encontro face a face, qualidade apontada por Buber, quando ele se refere ao diálogo como realidade existencial, que implica envol­vimento e colocação presente da pessoa. A afirmação do autor é cor­roborada por uma cliente: “Tem muito isso não minha profissão das pessoas não se envolverem, das pessoas serem frias. Eu já acho que... a terapia me fez assim, me deixar envolver. Claro que é um envolvimento consciente”.

Ribeiro acrescenta que, para realizar essa tarefa, o terapeuta de­ve fazer a redução fenomenológica para “encontrar com o cliente nele, com ele, através dele”. Na redução fenomenológica, suspende-se todo o conhecimento e toda expectativa em relação à natureza do fenômeno, o que dificulta possíveis direcionamentos terapêuticos, conscientes ou não, tanto que, por um momento, o terapeuta deve reter seu saber acumulado. Assim, o risco de o terapeuta misturar-se com o cliente diminui e aumentam as chances de atingir a totalidade de sua essência. Atingir a totalidade consiste em perceber o sentido existencial do fenômeno obser­vado e integrá-lo à totalidade do cliente. Por isso, assim como a Fenomenologia, a psicoterapia deve não deve ter uma atitude ingênua de descre­ver apenas o que se vê, mas deve investigar o que se percebe no contexto [107] do cliente, enfim, deve olhar para o todo que aparece. Nunca se pode perder a originalidade do cliente.

A Psicologia, baseada na Fenomenologia, tem como fundamen­to a valorização da subjetividade consciente e suas inter-relações, por isso, a preocupação com a experiência consciente. Nesse contexto, os psicólogos encontram ambiente propício para o estudo da vivência como experiência consciente, como mundo vivido. Ao focalizar a experiência do cliente, o terapeuta atua fenomenológica e humanisticamente. Petrelli assegura que ser fenomenólogo é transformar “a vivên­cia de uma realidade contingente e particular em uma vivência de signifi­cados absolutos e universais", pois uma vivência aparentemente sim­ples esconde uma grandeza imensurável. No entanto, o saber deve acompanhar a vida - "primum vivere, deinde philosophare" ou seja, o signi­ficado da realidade surge após a experiência imediata. A ética de um fe­nomenólogo, depois do respeito às diferenças do ser humano, realiza-se por uma presença humilde e ativa, não só com o seu cliente, mas no mundo. [108]

Gestalt
+
Tópicos
Astronomia
SEÇÕES
ASSUNTOS
Explorando o espaço - uma história da astronomia

A história da astronomia conecta círculos de pedra pré-históricos com sondas espaciais do século XX!. È uma história de sucessivas revoluções na compreensão de nosso local no Cosmos, e nos meios pelos quais tomamos consciência dele. A geometria permitiu aos gregos fazer as primeiras medidas do Sol, Terra e Lua. Já no século XVII, instrumentos precisos derrubaram ideias centradas na Terra. O telescópio descortinou o céu apresentando muitos novos mistérios a serem explicados pela teoria da gravitação de Newton. A espectrocospia ofereceu um novo método para estudar as propriedades das estrelas e, por fim, revelou a existência de outras galáxias e a expansão do Universo. Nas útlimas décadas, o desenvolvimento do voo espacial permitiu a telescópios em órbita sondar o espaço profundo, enquanto as jornadas de umas poucas pessoas e máquinas além da órbita imediata da Terra colocaram nosso planeta relamente em perspectiva pela primeira vez.

Astronomia antiga

A história da astronomia remonta a 6.000 anos atrás, o que a torna a mais antiga das ciências. Cada uma das culturas ao longo da história estudou o Sol, a Lua, as estrelas e observou como os corpos celestes se movem no céu. As observações refletem curiosidade e encanto com o mundo natural, mas também foram impulsionadas por razões urgentes de navegação, contagem de tempo e religião.

Ciclos da vida

Povos da antiguidade eram fascinados pelos padrões de mudança repetindo-se incessantemente no mundo a seu redor. Evidências da passagem do tempo incluías alterações na temperatura do ar, no horário e posição do nascer e pôr-do-sol, nas fases da Lua, no crescimento da vegetação e no comportamento animal. Esses fenômenos eram atribuídos aos deuses ou a poderes mágicos. Milhares de anos atrás, os “primeiros” astrônomos foram provavelmente pastores ou agricultores no Oriente Médio, que observavam a noite, atentos a sinais das mudanças das estações. Os antigos egípcios se baseavam em observações astronômicas para planejar o plantio e a safra das colheitas. Sabiam que o nascimento de Sirius logo antes do nascer-do-sol anunciava a enchente do rio Nilo. A habilidade para medir períodos de tempo e registrar ciclos celestes foi essencial para o avanço da astronomia, e assim muitas culturas antigas desenvolveram calendários, relógios de sol e relógios de água. Monumentos como as pirâmides e grupos de megalitos (grandes pedras eretas) foram, de fato, os primeiros observatórios. Em cerca de 1000 a.e.c., os indianos e babilônios haviam calculado a duração do ano em 360 dias; este período levou à divisão do círculo em 360°, com cada grau representando um dia solar. Posteriormente, os antigos egípcios refinaram a duração do ano para 365,25 dias.

Fazendo mapas celestes

A astronomia sempre se ocupou com mapear e nomear as estrelas. Por volta de 3500 a.e.c., os antigos egípcios dividiram o zodíaco nas 12 constelações de hoje e agruparam as outras estrelas fora do zodíaco em suas próprias constelações. Nas antigas China e Índia, criaram-se 28 mansões lunares, ou “domicílios noturnos” para registrar o movimento da Lua em seu caminho mensal. Os antigos gregos foram os primeiros a catalogar as cerca de 1000 estrelas mais brilhantes, por volta de 150-100 a.e.c. mas, muito antes deles, observadores da Índia e Oriente Médio mantinham registros astronômicos detalhados e datados. Coleta de dados sistemática foi desenvolvida pelos sumérios e babilônios – civilizações que viviam entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia – por razões de ritual e profecia política.

Orientação e navegação

Os mais importantes feitos dos astrônomos antigos incluem como encontrar os pontos cardeais – note, sul, leste e oeste – e como usar a Estrela Polar do norte para determinar a latitude. Este conhecimento capacitou a orientação precisa de estruturas, particularmente de templos e monumentos funerários, e também auxiliou na confecção de mapas terrestres acurados. Em 3000-2000 a.e.c., os povos da Idade da Pedra do norte da Europa utilizaram alinhamentos solares nos solstícios e equinócios, fases lunares, e outros dados astronômicos para construir grandes círculos de pedra, como Stonehenge e Avebury na Inglaterra, e Newgrange na Irlanda. Altares de foto (usados por sacrifícios rituais de fogo hindus), posicionados em bases astronômicas, e datando de 3000 anos atrás foram encontrados em diversos sítios arqueológicos na Índia. Algumas das mais complexas construções projetadas de acordo com princípios astronômicos são as pirâmides do antigo Egito e exemplos tardios construídos pelos astecas e maias na América. A arquitetura antiga fornece abundante prova de conhecimento astronômico, mas há poucas evidências do seu uso em navegação antiga. Contudo, os povos navegantes da Polinésia podem ter usado as posições das estrelas para migrar através do Pacífico por volta de 1000 a.e.c.

O nascimento da astrologia

Astrologia é uma prática milenar que busca determinar como os planetas e outros objetos celestes podem influenciar a vida na Terra, em especial os assuntos humanos. Descartada como superstição, ela estabeleceu fundamentos sólidos para a observação astronômica e dedução lógica. Em seu esforço de prever os eventos futuros e buscar sinais ou portentos os antigos astrólogos tentaram “ordenar” os céus e notaram o modo como o Sol, a Lua e os planetas se comportam. Enfatizaram em particular ocorrências inesperadas como eclipses, cometas, chuvas de meteoros e o aparecimento de novas estrelas. Muitas elites políticas empregavam astrólogos e observadores dos céus, e seu trabalho era uma atividade intelectual perfeitamente respeitável até o fim do século XVII. Astrônomos também escreviam tratados astrológicos; por exemplo, em 140 e.c., Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, o mais influente de todos os tratados astrológicos.

Início da astronomia científica

A Grécia antiga foi um divisor de águas no desenvolvimento da astronomia como a ciência racional. Os acadêmicos gregos formularam leis complexas e fizeram modelos do Universo. Após o estabelecimento do Islamismo, estudiosos árabes desenvolveram métodos ainda mais acurados de observação dos céus.

Germens do pensamento científico

O mundo grego antigo conheceu uma liberdade política e intelectual sem precedentes e um espantoso progrsso científico. Por 700 anos, de cerca de 500 a.e.c. a 200 e.c. os filósofos gregos buscaram respostas para questões astronômicas fundamentais. Ainda acreditavam em um plano mestre divino e tinham ideias que soam estranhas par anos hoje – Heráclito (540-500 a.e.c.), por exemplo, sugeria que as estrelas eram acesas toda noite, e o Sol toda manhã, como lâmpadas de óleo. Mas Platão (c.427-347 a.e.c.) argumentou que a geometria é a base de toda verdade, fornecendo assim o impulso necessário para deduzir exatamente como o Cosmos funcionava. Aristóteles fixou a Terra no centro do Universo e sugeriu que os planetas eram corpos eternos movendo-0se em órbitas perfeitamente circulares. Eudoxo (408-355 a.e.c.) cartografou as constelações setentrionais e Hiparco (190-120 a.e.c.) pela primeira vez classificou as estrelas em seis ordens de magnitude.

Medindo distâncias

Os avanços na geometria e trigonometria permitiram que os gregos medisses distâncias astronômicas com razoável precisão. Por volta de 500 a.e.c. Pitágoras propôs que o Sol e a Terra, a Lua e os planetas fossem todos esféricos, uma noção que Aristóteles confirmou, no caso da Terra, pela observação da forma de sua sombra durante um eclipse solar. Em 250 a.e.c. Eratóstenes (276-194 a.e.c.) notou que a luz solar incidia diretamente no fundo de um poço em Siena, no Egito, ao meio-dia do solstício de verão. Comparando com dados sobre as sombras em Alexandria, e usando trigonometria, ele estimou a circunferência da Terra com precisão de 5%. Hiparco e Aristarco (320-230 a.e.c.) mediram a distância Terra-Lua cronometrando eclipses lunares. Infelizmente, a distância Terra-Sol não foi estimada com a mesma precisão.

O cosmos centrado na Terra

É natural que as pessoas supusessem que o Cosmos era geocêntrico, ou centrado na Terra. Afinal de contas, não percebemos o movimento da Terra quando ela gera no espaço e as estrelas parecem fixas. Pensadores antigos, como Aristarco em 280 a.e.c., contestaram este sistema e colocaram o Sol no centro, mas suas ideias não tiveram crédito. Em vez disso, Ptolomeu refinou a visão de mundo cosmológica de Aristóteles e criou uma sequência ordenada de órbitas uniformes. Sua ordem era: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e finalmente as estrelas. Isto é baseado na velocidade percebida: por exemplo, a Lua completa uma volta no céu em um mês, o Sol em um ano e Saturno em 29,5 anos. De modo a reconciliar o conceito errôneo de órbitas circulares (em contraste com elípticas) e as velocidades variáveis dos planetas, Ptolomeu foi obrigado a argumentar que cada planeta também girava em um pequeno círculo, o epiciclo, enquanto orbitava a Terra.

Astronomia árabe

Depois do declínio das cidades-estado gregas, os mais importantes avanços da astronomia foram alcançados pelos árabes. O período de domínio grewgo durou 800 anos, desde a fundação do Islamismo em 622 até o século XIV. Astrônomos trabalhando no Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e Espanha mourisca traduziram textos gregos e em sânscrito (da Índia) para o árabe e assimilaram seu conhecimento astronômico. As regras muçulmanas para s cultos ao longo do dia e do mês, e a necessidade de encontrar a direção de Meca para fazer as orações e orientar as mesquitas, significavam que havia uma urgente necessidade de se determinar o tempo e a posição com extrema precisão. Desenvolveu-se a trigonometria esférica sofisticada, funções trigonométricas e álgebra e o astrolábio (uma invenção grega, usada para calcular a hora e a latitude) foi aprimorado. A abordagem dos grandes astrônomos árabes, como Al-Battani (850-929) e Ulugh Beg (1349-1449) fundamentava-se em observação paciente. Com este fim numerosos observatórios foram construídos, dos quais os maiores estavam em Bagdá, no Iraque, em Samarkand, no Uzbequistão, e em Maraghan, no Irã. Eles alojavam grandes instrumentos, incluindo quadrantes montados em paredes, utilizados para medir a altitude de objetos astronômicos quando cruzavam o meridiano (o plano norte-sul).

A revolução copernicana

Por séculos os astrônomos basearam suas teorias na suposição de que a Terra estaria no centro do Universo. No século XVI, esta posição privilegiada foi abalada pela sugestão de que a Terra era apenas um dos vários planetas circulando o Sol. Esta revolução foi acompanhada por imensos avanços tecnológicos, em particular pela invenção de telescópios, anunciando uma nova era de pesquisa e de grandes descobertas.

Astronomia medieval

Após a queda de Roma em 476, astrônomos na Europa, Oriente Médio e àsia deixaram para trás seu relativo isolamento cultural e passaram a trocar ideias mais livremente. Isto graças, em parte, ao crescimento do comércio durante a Idade Média e em parte à expansão do Islamismo. A astronomia observacional floresceu com ênfase em conjunções planetárias, eclipses solares e lunares a as aparições de cometas e estrelas novas. Muitos astrônomos medievais eram professores universitários e se sustentavam com o ensino. Apesar dos recursos limitados fizeram avanços notáveis, incluindo um novo preciso catálogo de posições de estrelas a olho nu, planejado por Ulugh Beg *1394-1449) da Mongólia – o primeiro desde os dias de Hiparco, 1600 anos.

O Universo heliocêntrico

Pode-se datar o nascimento da astronomia em 1543, quando Nicolau Copérnico publicou seu revolucionário tratado sobre um Universo centrado no Sol, ou heliocêntrico. Ele estava insatisfeito com a imprecisão dos modelos geocêntricos das orbitas planetárias, nos quais a Terra ocupava o centro e que dominavam a astronomia desde a obra de Ptolomeu no século II. Sua teoria muito mais simples de um Sol central e uma Terra em órbita explicava muitas observações antes enigmáticas, porque agora havia dois tipos de planetas, os internos e os externos da órbita da Terra. A sequencia Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno era um ordem de período orbital e de distância crescente ao Sol. A “lanterna do Universo”, com o Copérnico o chamava, agora assumia seu lugar de direito no centro do Cosmos. Embora isso significasse que a Terra se movia em alta velocidade, a teoria já havia sido proposta por Aristarco e outros.

A noção do Espaço

Os gregos e os astrônomos posteriores colocaram as estrelas logo além de Saturno, mas isto causaria um problema se a teoria copernicana estivesse correta. Se, como Copérnico argumentava, a Terra orbitava o Sol, por que as estrelas não tinham um movimento recíproco? A única escolha para Copérnico era banir as estrelas para uma distância tão vasta que seu movimento não seria perceptível para observadores terrestres. Ele também foi o primeiro a sugerir que as estrelas brilhantes estariam mais próximas que as fracas. Contudo, ouros se perguntavam porque Deus teria criado um espaço enorme, aparentemente inútil entre a órbita de Saturno e as estrelas. Tycho Brahe (1546-1601), um nobre dinamarquês, pensava que o futuro da astronomia dependia da estimativa de distâncias verdadeiras e do registro acurado das posições planetárias em diversos tempos. Com este objetivo ele aprimorou os padrões observacionais, fabricando instrumentos de mensuração precisamente calibrados. Em 1572 suas observações pacientes da supernova na constelação de Cassiopéia o convenceram de que as estrelas não estavam todas a uma distância fixa, mas que eram objetos cambiantes que existem no “espaço”. Propor essas ideias exigia coragem, ou o apoio de patronos poderosos, devido à Inquisição, nessa época, julgar e punir os que desafiassem a visão ortodoxa da Igreja Católica em relação ao Universo.

Leis do movimento planetário

O sistema heliocêntrico copernicano ainda descrevia as órbitas planetárias em termos de epicilos – cada planeta descrevia um pequeno círculo enquanto girava em torno do corpo central. Essa visão prevalecia desde Ptolomeu mas a forma real das órbitas permanecia um mistério. Necessitava-se de duas coisas para resolver o problema. A primeira era os dados planetários precisos obtidos por Tycho Brahe. A segunda era fé nos seus dados, junto com tenacidade e gênio matemático. A última foi fornecida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), sucessor de Tycho após 1601. Com base nas observações do caminho de Marte na esfera celeste Kepler acabou por formular suas três leis do movimento planetário. Primeiramente, em 1609, ele revelou que as órbitas eram elípticas, e não circulares ou epicíclicas. O Sol está em um dos focos da elipse (a elipse tem dois focos; o círculo é um calo limite de eclipse, com um único foco). Em segundo lugar, mostrou que a linha unindo o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, assim um planeta é mais lento na parte mais exterior da sua órbita. Em terceiro lugar, em 1619, Kepler provou a relação entre o tamanho e o período da órbita. Ele alimentava concepções místicas – acreditava que o Cosmos era permeado por coras musicais, com cada planeta produzindo um tom em proporção a sua velocidade. Como todos antes da descoberta da gravidade por Newton, não tinha a menor ideia do que mantinha os planetas em suas órbitas.

As descobertas de Galileu

Galileu Galileia apresentou provas concretas de que o modelo copernicano do Universo estava correto. Em 1608 quando um fabricante de óculos flamengo inventou o telescópio a notícia se espalhou rapidamente. Galileu construiu, ele mesmo, vários telescópios em 1609, assim tornando-se o fundador da astronomia telescópica. Seus instrumentos tinham uma magnificação de 30x. Em alguns meses ele descobriu que a Lua era montanhosa, detectou as fases de Vênus, as manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Chegou mesmo a sugerir que as estrelas fosses sóis distantes. Acima de tudo ele percebeu que as fases de Vênus somente poderiam ser explicadas se os planetas orbitassem o Sol, e não a Terra. Outros achados de Galileu fundamentam a física nascente: a aceleração de um corpo independe de sua composição ou peso; e o período de balanço de um pêndulo independe de sua amplitude.

Grandes observatórios

A emergência de uma nova geração de observatórios fo um divisor de águas na história da astronomia. Observatórios haviam sido anteriormente exclusivos a um grupo seleto de pessoas, incluindo Tycho Brahe na Dinamarca e Johannes Hevelius em Danzing, Prússia (agora Gdansky, na Polônia), ou de professores universitários, como Galileu ou Giovanni Cassini de Bologna, na Itália. Então, essas unidades foram ampliadas por instituições reais bem financiadas. Luis XIV fundou a Academia de Ciências em Paris, em 1666, e o Observatório Real francês, completado em 1672. Na Inglaterra, Charles II fundou a Royal Society em 1660, o que levou à construção do Royal Greenwich Observatory, onde John Flamsteed (1646-1719) foi o primeiro astrônomo real, iniciando seu trabalho em 1676. Em breve os astrônomos estavam atacando os três principais desafios daquela época: determinar o tamanho do Sistema Solar; medir a distância até as estrelas; e achar a latitude e a longitude de locais na terra e no mar. Esta busca foi em parte impulsionada por necessidades da navegação em uma época de expansão dos impérios europeus e pelo desejo de prestígio nacional. A partir do começo do século XVIII, os observatórios se multiplicaram rapidamente, inaugurando-se instalações em Berlim, Prússia (1711), em Jaipur, Índia (1726), em Uppsala, Suécia (1730), em Vilnius, Prússia (1753), em Washington, EUA (1838), e em Pulkovo, Rússia (1839). Dedicou-se muito esforço para mapear o céu e traçar os movimentos dos corpos celestes.

Leis da atração

Um dos maiores enigmas desafiando os astrônomos de meados do século XVII era porque os planetas percorriam imensas distâncias ao redor do Sol em órbitas estáveis sem se lançar no espaço. O grande físico inglês Issac Newton (1642-1727), professor na Universidade de Cambridge, encontrou a resposta. Um objeto se moveria a velocidade constante segundo uma linha reta, a menos que fosse sujeito a uma força. No caso dos planetas, a força era a gravidade do Sol. Ele logo percebeu que a gravidade era universal. Ela controlava tanto a trajetória de um objeto caindo (como a famosa maçã que Newton viu cair de uma árvore em 1666), como a Lua orbitando a Terra e um cometa viajando rumo ao Sol vindo dos remotos confins do Sistema Solar. A gravidade explicava as três leis de Kepler e também a altura das marés. Após a morte de Newton, o retorno do cometa Halley em 1758 provou que a gravidade também era aplicável nos limites do Sistema Solar, e o uso da teoria da gravitação possibilitou o cálculo da massa da Terra e do Sol. 

O telescópio refletor e Newton

Em 1666, Newton descobriu que um prisma dispersa a luz em um arco-íris de cores. Infelizmente, as lentes de um telescópio fazem o mesmo, e a luz azul de um extremo do espectro é focalizada em um ponto diferente da luz vermelha e o ouro extremo. Isto é a chamada aberração cromática, que produz halos de luz colorida ao redor do objeto sendo visto, causando uma grave perda de qualidade de imagem. Uma solução é suar espelhos curvos para focalizar toda luz no mesmo ponto, independentemente da cor. Em 1663, o escocês James Gregory (1638-75), projetou um telescópio refletor com um grande espelho côncavo primário e um secundário côncavo menor que projetava luz de volta através de um orifício para uma lente magnificadora atrás. Newton modificou o projeto usando um espelho plano secundário para refletir a luz capturada para uma ocular montada lateralmente. Exibido em 1672 o telescópio de Newton foi imensamente aclamado.

O espaço infinito

Na metade do século XIX, a astronomia havia evoluído de uma ciência essencialmente matemática para uma disciplina que incorporava o conhecimento novo e as técnicas dos físicos e químicos. Rápidos progressos tecnológicos, particularmente a invenção da fotografia e telescópios ainda mais poderosos, permitiram aos astrônomos estudar os corpos celestes com muito mais detalhe. Eles começaram a classificar os diferentes objetos e a estudar seu comportamento.

O iluminismo

Os séculos XVIII e XIX viram grandes progressos em ciência devido a métodos científicos aprimorados. Foi um período de consolidação em astronomia, baseada em avanços nas medidas e classificação de corpos celestes. As órbitas dos cometas eram de grande interesse depois do trabalho do inglês Edmond Halley (1656-1742), que mostrou que “seu” cometa retornava a cada 76 anos. As órbitas dos planetas eram determinadas com muito mais precisão que anteriormente e detalhes de sua superfície, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter e as calotas polares de Marte foram observados. Em 1728, a velocidade da Terra foi calculada. William Herschel descobriu o sétimo planeta, Urano, em 1781, e o italiano Giuseppe Piazzi ( 1746-1826) identificou o primeiro asteroide, Ceres, em 1801. Os franceses Urbain Le Verrie e Pierre-Simon Laplace (1749-1827), e o inglês John Adams (1819) aplicaram a teoria da gravitação de Newton para prever a posição de um planeta invisível além de Urano. Netuno foi descoberto em 1846.

O cosmos estelar

Aperfeiçoamentos dos telescópios ao longo do século XVIII permitiram que a astronomia tornasse o estudo do Universo um processo dinâmico. Anteriormente as estrelas eram apenas pontos fixos de luz, com distância desconhecida, mas na década de 1710 Halley descobriu o seu movimento dando início a esforços concentrados para compreender seu comportamento. Constatou-se que muitas estrelas são duplas, orbitando em torno de um centro de massa comum, em conformidade com a gravitação newtoniana e, na década de 1780, estrelas variáveis como Algol e Delta Cephei, eram investigadas. Em 1781, o francês Charles Messier (1730-1817) publicou um catálogo de 103 “corpos difusos”, ou nebulosas (nuvens de gás e poeira). Herschel estendeu este trabalho, gastando muitas horas contando estrelas de diferentes magnitudes, em uma ambiciosa tentativa de fazer um levantamento do céu. Em 1783 ele deduziu que o Sol está se aproximando da estrela Lambda Herculis, e erroneamente concluiu que ela se situava no centro do sistema estelar galáctico. Durante as duas primeiras décadas do século XIX, Laplace desenvolveu métodos de análise matemática que resultaram no primeiro modelo para a origem do Sistema Solar.

O nascimento da astrofísica

Durante o século 19, os astrônomos continuaram a aplicar o desenvolvimento da matemática, física e química para compreender a constituição e comportamento dos planetas, cometas e estrelas. Um novo campo – a astrofísica – emergiu, conferindo propriedades físicas aos objetos no espaço. A astronomia tratava principalmente com seu movimento, enquanto a astrofísica examinava seus parâmetros básicos como raio, massa temperatura, e composição química. Em 1815, o óptico alemão Joseph Fraunhofer (1787-1826), enquanto estudava o espectro da luz solar, notou várias linhas escuras sobre ele. Mais tarde, verificou-se que estas linhas eram devidas à absorção por elementos químicos do Sol. Como ada elemento químico absorve a luz em certos comprimentos de onda, o padrão de linhas de absorção revela a sua presença. Nos anos 1860, o astrônomo britânico William Huggis (1824-1910) descobriu, por meio da espectroscopia (o estudo de espectros) que as estrelas contêm os mesmos elementos que a Terra.

Avanços instrumentais

Os telescópios tornaram-se cada vez maiores desde o princípio do século XVIII – quando astrônomos como Edmond Halley labutavam para usar desajeitados e imprecisos instrumentos com lentes objetivas de pequeno diâmetro – na metade do século XIX. As lentes dobraram em tamanho a cada 40 anos, o que implicava que a distância até os objetos visíveis mais longínquos também dobrava, e que seu número crescia por um fator oito. Sofisticaram-se as montagens dos telescópios, e a qualidade das lentes foi aperfeiçoada. Os telescópios refratores foram totalmente transformados em 1758, quando o astrônomo inglês John Dolland (1706-1761) introduziu a lente dupla, que focalizava a luz azul e a vermelha no mesmo ponto. Herschel construiu enormes telescópios refletores e, em 1524 completou-se o primeiro telescópio com montagem equatorial, na qual o eixo do instrumento era alinhado com o polo norte celeste e um relógio mecânico movia o instrumento em torno deste eixo para acompanhar as estrelas. Nos anos 1840, a fotografia começou a substituir o lápis e papel para o registro de dados. Placas fotográficas podiam ser expostas por horas, permitindo a detecção de objetos muito mais fracos que os visíveis unicamente pelo olho humano.

A forma do espaço

No começo do século XX, alguns pensavam que havia apenas uma galáxia, com o Sol no centro. Nos anos 1930, os astrônomos já haviam percebido que havia bilhões de galáxias e que o Universo estava em expansão. Também começavam a compreender as fontes de energia estelar.

Matéria e energia das estrelas

A partir de 1900, devido à compreensão da natureza da radioatividade descoberta quatro anos antes, começou-se a perceber que a Terra poderia ter mais de 1 bilhão de anos de idade. Esta ideia era consistente com estimativas anteriores feitas por geólogos e com a avaliação de Charles Darwin do tempo necessário para a seleção natural operar. Permanecia o mistério de como o Sol poderia manter-se brilhando por tanto tempo. Uma ideia era que o Sol fosse alimentado pela queda de meteoritos; outra que o Sol estava lentamente se contraindo. Nenhuma dessas teorias dava conta da longa vida do Sol. Contudo, em 1905 Albert Einstein (1879-1955) propôs que E=mc2,  e assim energia E, poderia ser produzida pela destruição de massa, m. Nos anos 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington (1882-1944) sugeriu que a fonte de energia do Sol – e de outras estrelas – fosse a fusão nuclear. O físico germano-estadunidense Hans Bethe (1906-2005) especificou então os processos básicos de fusão nuclear. É de fato uma reação nuclear que libera energia da matéria. Astrofísicos têm agora uma visão detalhada de como as estrelas obtêm sua energia e estimam que estrelas do tipo solar possam brilhar por 10 bilhões de anos.

O grande debate

Nos anos 1920 houve um debate público entre os astrônomos estadunidenses Harlow Shapley e Heber Curtis sobre a forma da nossa galáxia em particular a extensão do Universo em geral. Shapley acreditava que havia apenas uma “grande galáxia”, com a Terra a dois terços da distância até a borda. Ele dizia que o diâmetro era de 300.000 anos-luz – 10 vezes maior que a estimativa de Curtis. Este valor foi obtido com estrelas variáveis cefeídas (cujo brilho varia periodicamente) como indicadores de distância. Curtis, por outro lado, estava convencido de que muitos objetos nebulosos no céu não estavam em nossa galáxia, mas que eram de fato outras galáxias como a nossa. Ele propôs que estes “universos-ilha” estava espalhados uniformemente no céu, com alguns deles obscurecidos pelo disco galáctico, o que explicava sua distribuição acima e abaixo do plano da Via Láctea.

O universo em expansão

Os novos e enormes telescópios estadunidenses revolucionaram a astronomia do século XX. O Telescópio Hooker era tão grande que podia detectar as estrelas cefeídas da Nebulosa de Andrômeda (M31). O  fraco brilho dessas estrelas indicava eu sua distância da Terra era cerca de 10 vezes o diâmetro da Via Láctea. Heber Curtis estava correto: Andrômeda não era uma “nebulosa” mas uma galáxia. Outras “nebulosas” espirais também eram claramente galáxias. Usando o Hooker o estadunidense Edwin Hubble mostrou que as galáxias são os “blocos fundamentais” de um universo muito mais vasto que previamente imaginado. Em 1927 ele investigou características espectrais de galáxias e constatou que não somente a luz da maioria delas apresentava um deslocamento para o lado vermelho do espectro, indicando que se afastavam de nós, mas também que essa velocidade de recessão era maior para as mais fracas (mais distantes). O Universo estava em expansão e, portanto, deveria ter sido muito menor no passado. O declive do gráfico velocidade-distância indicava a idade do Universo. Os astrônomos logo perceberam que algo havia dado início à expansão, lançando as sementes da teoria do Big Bang.

Tecnologia de telescópios

A astronomia observacional estadunidense atingiu um divisor de águas nas últimas décadas do século XIX. Nos Estados Unidos novos e sofisticados observatórios e departamentos universitários foram estabelecidos, muitas vezes financiados por empresários milionários. Os astrônomos desejavam examinar objetos muito fracos e distantes, mas a limitada resistência e a transparência relativamente baixa das lentas objetivas dos telescópios impunham um limite de cerca de 1m de diâmetro – o tamanho do telescópio refrator de Yerkes, inaugurado em Williams Bay, Wisconsin, em 1897. Assim abandonou-se os refratores: era o início de uma nova era de enormes telescópios refletores. O Telescópio Hooker, de 2,5m, em Monte Wilson, na Califórnia, tornou-se operacional em 1918. Em 1948, entrou em sérvio o Telescópio Hale, de 5,2m, no Monte Palomar, na Califórnia. Em 1993, o primeiro Telescópio Keck, com um espelho de 10m, feito de espelhos segmentados, entrou em operação. Acoplado ao progressivo aumento do tamanho dos telescópios veio um enorme aumento na sensibilidade dos detectores. Placas fotográficas tornaram-se mais sensíveis e foram usadas extensivamente par mapear o céu e gerar arquivos permanentes de posições e espectros de objetos. Outro desenvolvimento crucial foi a radioastronomia. Radiotelescópios, o primeiro dos quais foi feito em 1937, passaram a captar as emissões nos longos comprimentos de onda em rádio do espaço profundo.

Astronomia da era espacial

Com o início da Era Espacial (a era do vôo espacial) nos anos 1950, a viagem além da Terra e o contato co planetas, cometas e asteroides tornou-se uma realidade. O despertar das astronomias em rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama ofereceu à humanidade novas perspectivas do Universo, revelando a existência de novos e exóticos objetos nunca antes imaginados.

Estrelas extremas

Relações entre massa, raio e luminosidade das estrelas foram primeiramente estabelecidas graças ao diagrama Hertzsprung-Russel por volta de 1911 e levaram ao reconhecimento de estrelas gigantes e anãs. Desde então encontraram-se muitos tipos extremos de estrelas. Em 1915, W.S. Adams identificou Sirius B como a primeira anã branca – uma estrela da massa do Sol mas comprimida até o volume da Terra. Em 1931 o astrofísico indiano S. Chandrasekhar, usando os novos modelos para o comportamento de partículas subatômicas, descobriu um limite superior à massa de uma anã branca. 1,4 massa solar. Acima disso, um núcleo estelar exaurido colapsará em uma estrela de nêutrons superdensa com uns poucos quilômetros de diâmetro, arrebentando o resto da estrela em uma explosão de supernova. Estrelas de nêutrons em rotação são vistas da Terra como pulsares – radiofontes pulsantes –, a primeira delas foi descoberta em 1967 por Jocelyn Bell-Burnell e Anthony Hewish, do Reino Unido. No outro extremo de massa estelar estão as anãs marrons, muitas delas descobertas recentemente, muito frias para desencadearem rações nucleares no seu centro.

Buracos negros

A possibilidade de buracos negros foi sugerida em 1783 pelo astrônomo inglês John Michell, que considerou a hipótese de um objeto tão massivo que nem a luz poderia escapar da sua gravidade. A ideia reapareceu em 1916 como resultado da teoria da relatividade geral de Einstein, mas os buracos negros permaneceram uma curiosidade até a década de 1960, quando o lançamento de satélites de astronomia de raios-X levou à descoberta de estrelas binárias de raios-X como Cygnus X-1. Binárias de raios-X exigem uma fonte compacta, massiva de erngia, que só pode ser fornecida por um buraco negro. A descoberta de buracos negros de massa estelar também abriu o caminho para se aceitar os quasares – objetos compactos, extremamente luminosos, a altos redshifts – como violentas galáxias distantes, alimentadas por buracos negros supermassivos nos seus centros.

Interior das estrelas

Com telescópios ópticos os astrônomos podem enxergar até uma profundidade de 500km abaixo da superfície solar. Infelizmente, como o Sol tem um raio de 700.000km, um imenso volume não pode ser observado diretamente. Durante os anos 1920 os astrofísicos calcularam que o centro do Sol teria uma temperatura de aproximadamente 15 milhões °C e uma densidade cerca de 150 vezes a da água. Em 1939 o físico alemão Hans Bethe mostrou como processo nucleares, agindo sob essas condições extremas, converteriam lentamente hidrogênio em hélio, liberando imensas quantidades de energia pela conversão de massa em energia. O inglês Fred Hoyle e o alemão Martin Schwarzschild estenderam esta modelo na década de 1950, mostrando como hélio é transformado em carbono e oxigênio em estrelas gigantes. Logo os astrofísicos encontraram mecanismos para a manufatura de elementos ainda mais pesados, como cobalto e ferro, nas estrelas mais massivas. Na década de 1960 os primeiros detectores de neutrinos foram usados para detectar estas partículas altamente penetrantes, liberadas pelas reações nucleares no interior do Sol, e desde os anos 1970, a técnica de heliossismologia permitiu o monitoramento das ondas sonoras ressonando através do interior solar, assim revelando sua estrutura detalhada.

Meio interestelar

A descoberta de grandes quantidades de gás e poeira entre as estrelas foi um triunfo da radioastronomia. Em 1944, o astrônomo holandês Hendrick vam de Hulst previu que o hidrogênio interestelar emitiria ondas de rádio com um comprimento de onda de 21 cm, o que foi confirmado em 1951 pelos físicos estadunidenses Harold Ewen e Edward Purcell. Em breve, radiotelescópios eram usados para mapear a distribuição do hidrogênio neutro atômico nos braços espirais da Via Láctea e de outras galáxias. Em 1974, levantamentos do comprimento de onda de 2,6mm, que age como um traçador de hidrogênio molecular, levaram à descoberta de nuvens moleculares gigantes, locais de nascimento de estrelas.

Astronomia desde o espaço

A Era Espacial começou em 4 de outubro de 1957, quando a União Soviética lançou o satélite Sputnik I, e os astrônomos rapidamente aproveitaram a capacidade de se observar fora da atmosfera terrestre. Detectores a bordo de foguetes já haviam captado sinais intrigantes em comprimentos de onda incomuns durante suas breves excursões fora da atmosfera, e o primeiro observatório orbital, o Ariel I, foi lançado pelo Reino Unido em 1961, equipado com um telescópiode ultravioleta. Outros satélites, como as séries estadunidenses Explorer, e Uhuru, rapidamente mapearam as principais fontes de ultravioleta, infravermelho e raios-X. Enquanto isso, sondas espaciais se espalhavam pelo Sistema Solar, retornando informação sobre o ambiente interplanetário e cartografando os planetas com uma variedade de câmaras, radares e outros instrumentos.

A origem do Universo

A descoberta na década de 1920 de que o Universo está em expansão desencadeou uma nova onda de reflexões cosmológicas. Em 1931, o astrônomo e padre belga Georges Lamaître sugeriu que todo o material do Universo teria começado com o uma única esfera altamente condensada – a origem da teoria do Big Bang. Em 1948, o austríaco Hermann Bondi e os britânicos Thomas Gold e Fred Hoyle propuseram uma teoria rival, da Criação Contínua, na qual matéria estaria sendo criada continuamente para preencher os vazios deixados pela expansão. Felizmente, ambas teorias poderia ser testadas pelas observações e as evidências acabaram por apoiar o Big Bang. Em 1980, Alan Guth da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, estendeu a cosmologia do Big Bang introduzindo a inflação, que auxiliava a resolver alguns problemas maiores da teoria. Mas, ainda restam questões importantes nessa área.

Planetas extra-solares

Grandes refinamentos na espectroscopia permitiram medir ligeiras variações nas velocidades estelares produzidas pela perturbação gravitacional de planetas em órbita. Em 1995, os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra descobriram um planeta com massa um pouco abaixo da metade daquela de Júpiter em torna da estrela 51 Pegasi, a 48 anos-luz. Agora se conhecem centenas de planetas extra-solares e abriu-se um novo campo da astronomia. Os astrônomos têm se surpreendido com suas descobertas – a maioria dos sistemas planetários é muito diferente do Sistema Solar. Alguns têm planetas gigantes orbitando muito próximo à estrela mãe, enquanto outros têm planetas com órbitas altamente elípticas. 

A caçada continua

Quanto mais os astrônomos sabem sobre o Universo, mais querem saber. Na década de 1970 reconheceu-se que o Universo continha muito mais material que o visível: matéria escura afeta a rotação das galáxias; a massa faltante é prevista pela teoria do Big Bang mas ainda não foi observada. A exótica “energia escura” parece acelerar a expansão do Universo. Ao lado desses grandes mistérios cosmológicos está a busca pela vida do Universo, abarcada pela nova ciência da astrobiologia. Nos últimos séculos o tamanho dos espelhos de 10mde hoje serão substituídos por gigantes ainda maiores e observações feitas além da atmosfera terrestre serão cada vez mais produtivas. O telescópio de 2,5m do Telescópio Espacial Hubble será pequeno perto do Telescópio Espacial James Webb, com espelho de 6,5m, a ser lançado em 2021. Esta nova geração de telescópios deverá finalmente captar a primeira geração de estrelas e galáxias. E, à medida que os astrônomos observarem cada vez mais longe com instrumentos cada vez mais sensíveis, inevitavelmente serão confrontados com novos mistérios e corpos exóticos não imaginados antes.

Primeiras espaçonaves

A segunda metade do século XX registrou uma revolução na nossa compreensão do Universo, desencadeada pelo desenvolvimento do vôo espacial. Pela primeira vez, em lugar de apenas olhar para o esaplo, os seres humanos e suas máquinas viajavam por ele. Revezes e riscos marcaram os primeiros tempos da exploração espacial, mas, com esses obstáculos superados, o progresso foi rápido.

Sonhadores de foguetes

A ideia da viagem espacial é tão antiga quanto o contar estórias, mas com poucas noções das leis da física ou da natureza do espaço escritores frequentemente se baseavam em meios cômicos ou absurdos de transportar fictícios viajantes espaciais. Mas, as leis newtonianas do movimento e da gravitação, em conjunto com o fato do espaço ser um vácuo, indicavam que apenas uma forma de propulsão seria capaz de levar viajantes ao espaço – o foguete. Desenvolvidos como fogos de artifício e armas na China medieval, os foguetes contém o combustível necessário para sua propulsão, impulsionados por gases ejetados pelo seu escape. Embora o escritor francês Cyrano de Bergerae (1619-1655) tivesse sugerido no século XVII seu uso para alcançar a Lua, o primeiro a considerar seriamente as realidades da viagem espacial foi o professor da escola rural soviético Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), que desenvolveu muitos dos princípios dos foguetes de combustível líquido, de múltiplos estágios, publicando-os na década de 1890.

Lançamento

Os princípios dos foguetes estavam bem desenvolvidos no começo do século XX, mas ainda havia vários problemas para fazer do voo espacial uma realidade prática. O maior deles era a eficiência do combustível. O engenheiros estadunidense Robert Goddard concebeu a ideia de combustíveis líquidos mais eficientes e em 1926, lançou um foguete de 3m de comprimento impelido por oxigênio líquido e gasolina. As ideias de Goddard e Tsiolkovsky foram adotadas por entusiastas no mundo todo, inclusive pela Sociedade para a Viagem Espacial (VfR) da Alemanha. Durante a década de 1930, muitos dos cientistas da VfR foram recrutados pelo boverno nazistas para um programa militar que prosseguiu durante a Segunda Guerra Mundial. A culminação dos seus esforços, o míssil V2, chegou tarde demais para salvar a Alemanha da derrota, mas provou que armamentos à base de foguete eram o caminho do futuro.

A corrida espacial

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, as maiores potências desejavam a tecnologia de foguetes para si. A maioria dos cientistas fugiu para o Ocidente, mas a União Soviética capturou as fábricas das V2. As razões para tal interesse tornaram-se claras quando as relações internacionais rapidamente deterioraram e começou a Guerra Fria. Ambos acreditavam que mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) impulsionados por foguetes poderiam ser a resposta para lançar a arma final – a bomba nuclear. Foi neste contexto que os Estados Unidos e a União Soviética começaram seus programas espaciais. Ambos viram que a tecnologia de mísseis poderia ser utilizada para alcançar a órbita terrestre e reconheceram que esses lançamentos demonstrariam o poder de seus foguetes e renderiam grandes benefícios de propaganda.

Em órbita

No começo dos anos 1950 União Soviética e Estados Unidos anunciaram planos de lançar satélites durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-58. O programa soviético prosseguiu em sigilo, usando seus enormes mísseis R-7 como veículos de lançamentos, enquanto os cientistas estadunidenses passavam por escrutínio público. Os planos do cientista alemão Werher von Braun de lançar um satélite com o ICBM estadunidense Redstone foram engavetados a favor do programa de pesquisa espacial Vanguard da marinha estadunidense. Pouco antes da data de lançamento do Vanguard, em novembro de 1957, os soviéticos anunciaram em 4 de outubro do mesmo ano o lançamento bem sucedido do Sputnik I. As estações de rastreamento captaram sinais de rádio do satélite e confirmaram que a União Soviética tinha tomado a dianteira na corrida espacial. A humilhação estadunidense foi total quando, em 6 de dezembro, o lançamento do Vanguard terminou em uma explosão na plataforma de lançamento. O projeto de Von Braun foi imediatamente ressuscitado, e o primeiro satélite estadunidense, o Explorer I, entrou em órbita com êxito menos de dois meses mais tarde, em 31 de janeiro de 1958.

As missões Vostok

No final da década de 1950, o próximo grande passo da corrida espacial estava claro – qual das superpotências seria a primeira a colocar uma pessoa em órbita? Os soviéticos tinham uma óbvia vantagem de potência, já que o Sputnik II, o seu segundo satélite, pesava meia tonelada, e haviam conseguido enviar sondas além da vizinhança imediata da Terra. Em 12 de abril de 1961 fizeram um anúncio que surpreendeu o mundo: o Coronel Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espalho, a bordo da Vostok I. Gagarin retornou à Terra como herói da União Soviética, e o programa espacial estadunidense, agora gerenciado pela Nasa, de novo havia ficado para trás. As missões Vostok posteriores superaram novos limites e colocaram a primeira mulher no espaço, aumentaram os tempos em órbita e mantiveram mais de uma espaçonave simultaneamente em voo.

Projeto Mercury

A resposta da Nasa ao Vostok foi o programa Mercury, que lançou seis astronautas entre 1961 e 1963. Diferentemente do programa soviético os esforços estadunidenses foram conduzidos sob os holofotes da mídia. As cápsulas espaciais Mercury eram minúsculas e leves, parcialmente porque tinham que ser transportadas pelo pequeno veículo de lançamento Redstone nos primeiros voos. A Nasa estava desenvolvendo um novo lançador, o Atlas, mas os tests da cápsula deveriam começar antes do foguete maior estar pronto. Surpreendida pelo lançamento do Vostok I, a Nasa correu para retaliar e colocou seu primeiro homem no espaço em 5 de maior. Lançado em um foguete Redstone a missão Freedom 7, de Alan Shepard, não tinha velocidade suficiente para entrar em órbita, mas alcançou uma altura de 185 km durante um voo de 15 minutos. Após um segundo voo sub-orbital, o foguete Atlas foi completado no final de 1961. Seguindo um número de testes, John Glenn foi o primeiro estadunidense em órbita em 20 de fevereiro de 1962.

Próximos passos

Dispostos a manter sua liderança na corrida espacial, os soviéticos assumiam um grande risco. Os estadunidenses tinham anunciado suas missões planejadas de dois homens do Gemini e, em um esforço para ofusca-los de antemão, o diretor do programa espacial soviético, Korolev, planejava uma missão de três homens. Era um grande desafio, pois já havia sido iniciado um trabalho com as naves Soyuz visando alcançar a Lua. Finalmente, os engenheiros soviéticos chegaram a um engenhoso compromisso Voskhod era efetivamente uma cápsula Vostok modificada com espaço suficiente para levar três tripulantes. O voo da Voskhod I, em 12 de outubro de 1964, foi um sucesso, batendo a primeira missão tripulada Gemini por cinco meses. A Voskhod II, lançada alguns dias antes do primeiro teste de voo da Gemini foi um sucesso ainda maior. Durante o voo Alexei Leonov tornou-se a primeira pessoa a caminhar no espaço. Os soviéticos haviam desferido mais um espetacular golpe de propaganda.

Exploradores robôs

Enquanto o foco da atenção pública estava principalmente no programa espacial tripulado, uma segunda corrida espacial era mantida em paralelo – cujas consequências para nossa compressão do Sistema Solar. Cada superpotência tentava superar a outra nos “primeiros” passos da exploração de outros mundos. A exploração espacial robótica teve uma acidentada história inicial, com numerosas falhas, tanto nas plataformas de lançamento, enquanto, ou durante as tentativas de pouso. Porém houve alguns sucessos notáveis: em janeiro de 1959 a Lunik ou Luna I tornou-se o primeiro objeto a escapar da gravidade terrestre e entrar em órbita em torno do Sol; a Lunik II atingiu a Lua em setembro de 1959; a Lunik III registrou as primeiras imagens do lado oculto da Lua. A Pioneer V da Nasa foi a primeira sonda deliberadamente lançada ao espaço interplanetário, entrando em órita entre a terra e Vênus em 1960, enquanto as sondas estadunidenses Mariner II e IV venceram os soviéticos na corrida rumo a outros planetas, voando para Vênus e Marte em 1962 e 1965, respectivamente.

Viagens à Lua

As missões Apolo para a Lua frequentemente são descritas como uma grande conquista da técnica humana. Vastas quantidades de recursos humanos e financeiros foram investidos em um programa com motivações científicas e de propaganda. As missões revelaram muito sobre a Lua e seus imensos avanços tecnológicos remodelaram o mundo.

Um homem na Lua

Em 25 de maio de 1961 o presidente estadunidense John F. Kennedy fez um discurso que abalou o mundo. Em uma época em que os Estados Unidos ainda tinham que colocar um astronauta em órbita da Terra, ele prometeu que seu país levaria pessoas à Lua até o fim da década. A escala do empreendimento era monumental. Astronautas não haviam se aventurado a além de 300km da superfície terrestre, e agora Kennedy dava à Nasa a missão de enviá-los a uns 400.000km de distância, pousá-los na superfície de um mundo desconhecido e trazê-los de volta com segurança. Contudo, se isto fosse realizado, a mensagem seria que os Estados Unidos agora eram uma potência espacial. A Nasa imediatamente começou a investigar os meios de se pousar na Lua. A missão estabeleceu como objetivo usar o maior foguete já construído, projetado pelo cientista de foguetes alemão Wernher von Brauns, para enviar três naves conectadas rumo à Lua – somente uma delas retornaria à Terra. O nome, Apollo, o deus grego do Sol, foi sugerido pelo diretor de voos espaciais da Nasa. Dr. Abe Silvestein.

Projeto Gemini

Cada missão Apollo envolveria diversas operações de encontro, acoplamento e desacoplamento no espaço – operações que a Nasa e seus astronautas jamais haviam tentado antes. Apenas ir à Lua e voltar exigiria um mínimo de 7 dias. Para ganhar experiência em voos espaciais de longa duração e nas delicadas manobras necessárias no Apollo, a Nasa anunciou que o programa Mercury seria substituído pelo Projeto Gemini, uma série de missões de dois tripulantes. Houve 10 missões tripuladas Gemini, entre 1964 e 1966, diversas das quais envolviam encontros entre naves, caminhadas no espaço, e mesmo acoplamentos com veículos alvo não-tripulados. Agena. A espaçonave, composta de três módulos, também representava um grande avanço. Enquanto os dois astronautas permaneciam durante a missão dentro de um módulo de reentrada, apenas 50% maior que a cápsula Mercury, os suprimentos de água e ar, o equipamento elétrico e os experimentos eram mantidos principalmente em um módulo de serviço separado. Um terceiro módulo continha foguetes para manobrar a espaçonave em órbita e freá-la antes de sua reentrada.

Preparando o caminho

Um grande desafio para os planejadores da Apollo era a falta de conhecimento sobre a Lua. À época, pouco se conhecia sobra a história lunar, a natureza das suas crateras e as propriedades de sua superfície – pensava-se seriamente na possibilidade da superfície ser de um pó tão fino que a nave afundaria. Para responder estas questões, a Nasa planejou uma série de missões robóticas para fazer levantamentos detalhado da Lua incluindo pousos – tanto de colisão quanto suaves. As primeiras foram as naves Ranger, quatro das quais colidiram com a Lua entre 1961 e 1964. Pelas fotos retransmitidas à Terra, é inteiramente coberta por crateras, até nas menores escalas, o que indica uma origem por impacto. Em 1966 teve início uma segunda fase, com as naves Lunar Orbiter e surveyor. Os orbitadores fotografaram a Lua de perto, a cerca de 0 km, buscando locais interessantes para pousos tripulados, enquanto os Surveyor efetuaram uma série de pousos suaves, confirmando a firmeza da superfície lunar.

Apollo em órbita

No final de 1966, o programa Apollo estava avançando rápido. Os enormes foguetes Saturno V estavam em construção e as naves prontas para os testes. Porém, em janeiro de 1967, a tripulação da Apollo I morreu durante um incêndio na cápsula em um ensaio de lançamento. Como consequência as missões Apollo II e III foram canceladas, e as missões Apollo IV, V e VI foram convertidas em teses de lançamento não-tripulados. Somente em outubro de 1968 os astronautas retornaram ao espaço, com o lançamento da Apollo 7. Esta missão orbital foi logo seguida pela Apollo VIII. Lançada pela primeira vez pelo Saturno V a missão da nave foi alterada para incluir uma órbita ao redor da Lua no Natal, após rumores de que os soviéticos lançariam um veículo  tripulado para alcançar a Lua. O lançamento nunca aconteceu e, depois das Apollo IX e X, a Nasa estava finalmente pronta para tentar pousar na Lua.

O primeiro pouso na Lua

A Apolo XI partiu de Cabo Kennedy (agora Canaveral), na Flórida, em 16 de julho de 1969) e entrou em óribta lunar três dias depois. Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin então embarcaram no módulo lunar “Eagle” para a descida na superfície, enquanto Mihael Collins permanecia a bordo do módulo em comando e serviço (CSM) “Columbia” em órbita lunar. Eagle tocou seguramente uma planície de lava conhecida como o Mare Tranquilitatis (Mar da Tranquilidade) e, seis horas após o poso, Neil Armstrong deixou o módulo e desceu a escada, pisando a superfície das 2h56 do dia 20 de julho. Armstrong e Aldrin permaneceram na superfícia por 21 horas, realizando uma caminhada, durante a qual implantaram uma bandeira e uma placa comemorativa, conduziram diversos experimentos coletaram rochas, e telefonaram para o presidente estadunidense Richard Nixon.

Módulo lunar

O módulo lunar, com sua aparência frágil, era um elemento vital de cada missão Apollo. Como ele nunca voaria em uma atmosfera os projetistas tiveram a liberdade de dar-lhe uma forma estritamente funcional. Embora o módulo tivesse 9,5m de largura e 7m de altura, a cabine era tão apertada que os astronautas ficaram de pé durante o voo. O grande motor de foguete, embaixo da seção superior do módulo, era usado para frear a cápsula durante o pouso na Lua e, depois, fornecer o impulso para a decolagem da superfície lunar e injeção em órbita.

Missões posteriores

A Nasa havia originalmente planejado dez missões Apollo, mas apenas seis foram completadas. Embora a Apollo XII tenha sido um sucesso, a Apollo XIII ficou famosa pelo seu acidente, quando uma falha elétrica e perda de oxigênio, pela primeira vez colocaram uma tripulação da série em grave perigo. As últimas três Apollo levavam um jipe lunar, estendendo consideravelmente a área que os astronautas poderiam explorar. Redução no interesse público e cortes de verbas da Nasa levaram ao cancelamento das três últimas missões. Os estertores finais da Apollo foram a estação espacial Skylab, que usava um foguete Saturno V, e a missão Apollo-Soyuz, um encontro entre astronautas soviéticos e estadunidenses em órbita terrestre.

Lições científicas

As missões Apollo revelaram muito aos astrônomos sobre a química e história da Lua. As rochas coletadas ainda são estudadas em todo o mundo. O registro do bombardeamento da Lua e a datação por radioisótopos das amostras revelaram o período de intenso bombardeamento a modelou o Sistema Solar durante seu primeiro bilhão de anos. Embora os soviéticos nunca tenham tentado um pouso tripulado na Lua, colocaram uma série de jipes LunoKhod no satélite e trouxeram pequenas amostras de poeira para a Terra.

Em órbita da Terra

Embora muito do foco da exploração espacial tenha sido viagens a planeta e luas distantes, a grande maioria das missões não foi além da órbita terrestre. Em torno da Terra é que o advento do voo espacial teve maior impacto. Nossa vizinhança espacial agora está repleta de satélites, tanto com propósitos científicos como comerciais.

Estações espaciais

A União Sovietica mudou a direção do seu programa espacial no final da década de 1960, priorizando postos semipermanentes em órbita. As primeiras estações espaciais soviéticas, nos anos 1970, as Salyut, eram clilindros com 13m de comprimento e no máximo 4m de largura que abrigavam tripulações de três cosmonautas por diversas semanas em condições espartanas. Embora a corrida espacial tivesse se desacelerado, a Nasa ainda se sentia obrigada a competir e, em 1973, lançou a estação Skylab, que foi visitada por três tripulações separadas ao longo de um ano. Com isso, a Nasa manteve um breve recorde de permanência no espaço. Contudo, quando voltou suas atenções para o Space Shuttle, as estações espaciais foram deixadas para os soviéticos. As mais avançadas Salyut 6 e Salyut 7 eram muito maiores que suas antecessoras e podiam ser ampliadas por módulos lançados da Terra. Na metade na década de 1980, os cosmonautas permaneciam meses em órbita, conduzindo valiosos experimentos científicos.

Potencialidades do espaço

Além das razões políticas e científicas para a exploração espacial, as últimas décadas viram o surgimento para fins práticos. Empresas privadas e países menores conseguem agora lançar satélites e o mundo foi transformado pelos seus resultados. Os satélites de comunicações nasceram dos trabalhos de Arthur C. Clarke e outros, e radiotransmissores orbitais são os responsáveis pelo Global Positioning System (GPS), que permite aos usuários encontrar sua posição em qualquer parte da Terra com precisão de poucos metros. O potencial da observação da Terra desde sua órbita tornou-se claro quando os primeiros astronautas relataram avistar nitidamente acidentes geográficos – com grande surpresa para os controladores de solo. Hoje diversos satélites de observação da Terra circulam o globo, desde os climáticos que monitoram hemisférios inteiros, até os espiões, capazes de ver detalhes inferiores a 1m. Ainda mais sofisticados são os satélites de sensorialmente remoto. Monitorando a Terra em vários comprimentos de onda, reúnem imensas quantidades de informação sobre o solo, como a direção das correntes oceânicas, a localização de depósitos mineiras e a qualidade das plantações.

Observatórios orbitais

Muitas das grandes descobertas e imagens espetaculares do Universo distante provêm de satélites. A atmosfera terrestre representa um sério problema para os astrônomos, pois filtra a maioria da radiação eletromagnética. Contudo, um telescópio no espaço coloca problemas únicos. Não só eles devem ser controlados remotamente para retornar imagens à Terra, mas também devem operar em um ambiente hostil. As flutuações de extremas temperaturas entre a iluminação solar e a escuridão podem distorcer a delicada óptica do telescópio, visto que o instrumento todo se contrai e se dilata, e assim se exige um projeto engenhoso de isolamento. Mesmo assim, o tempo de operação em órbita é limitado. Além da energia fornecida pelas células solares, os satélites demandam combustível para se reorientar no espaço e agentes resfriadores para proteger sua delicada eletrônica.

Vôos tripulados

Desde as missões Apollo, o voo espacial tripulado continuou a se desenvolver. Apesar de duas tragédias de grande impacto, em 1986 e 2003, o Space Shuttle da Nasa, a primeira espaçonave reutilizável, transformou o voo espacial em uma atividade quase rotineira. Desde seu primeiro voo em 1980, os Shuttles completaram mais de 100 missões, levando experimentos, lançando satélites, e observando a Terra e o espaço. Enquanto isso, a União Soviética desenvolver o princípio da estação espacial modular, ampliável, como a Mir (1986-2001). Os plano da Nasa de um estação espacial permanente evoluíram para um enorme projeto internacional, e quando a Estação Espacial Internacional estiver completa, o Space Shuttle terá se aposentado após 25 anos de serviço. No momento, alguns países têm planos ambiciosos do retorno do homem à Lua como estala rumo a Marte.

Além da Terra

Embora os seres humanos não tenham ainda se aventurado além da Lua, as sondas espaciais automáticas mergulharam muito mais fundo. Exploradores robóticos visitaram todos os planetas e também pesquisaram dezenas de satélites em um conjunto de corpos menores. Durante suas jornadas, transformaram nossa visão do Sistema Solar, revelando outros mundos, quase tão complexos quanto a Terra.

Primeiros passos

A primeira sonda a deixar a influência da Terra e entrar em órbita própria ao redor do Sol foi a nave soviética Lunik I (Luna I), que, em 1959, errou seu alvo, a Lua, e se tornou por acidente a primeira sonda interplanetária. Logo seguiram-se esforços deliberados da Nasa, que, entre 1960 e 1968, lançou com sucesso as Pioneer 5 a 9 em órbitas entre a Terra e Vênus. Várias dessas naves alimentadas com energia solar ainda transmitem dados científicos. Assim como havia a corrida para colocar o homem no espaço, as superpotências da Guerra Fria competiam pelo primeiro lugar na chegada a outros planetas. Em dezembro de 1962, a Mariner 2 foi a primeira sonda a realizar um sobrevôo em Vênus, medindo a temperatura extremamente alta de sua superfície, e confirmando sua rotação anormalmente lenta. A Mariner 4 sobrevoou Marte em julho de 1965, medindo sua atmosfera e fotografando seus planaltos austrais com crateras.

O sistema solar interno

Como estão mais próximos do Sol, Mercúrio e Vênus viajam mais rápidos que a Terra. Assim, a sonda deve ganhar velocidade para entrar em suas órbitas. Contudo, algumas naves superaram este desafio técnico e visitaram Vênus nos anos seguintes ao primeiro sobrevoo. Diversas sondas soviéticas tentaram o pouso na superfície hostil, apenas para serem destruídas durante a reentrada. Em 1967, Venera 4, equipada com blindagem semelhante a um tanque, enviou com êxito sinais para a Terra. Foi somente oito anos mais tarde que a Venera 9 retornou as primeiras imagens da superfície venusiana. Tanto a Nasa como os soviéticos lançaram orbitadores para fazer levantamentos do planeta desde o espaço. Em 1978, a missão Pioneer Orbiter mapeou o planeta com radar e lançou sondas atmosféricas. Em 1989, o Magellan, um orbitador da Nasa equipado com um sofisticado radar, deu início ao estudo por quatro anos do planeta, com detalhes sem precedentes. A velocidade orbital de Mercúrio representa um problema maior: até agora [2008], apenas a Mariner 10 e a Messenger o visitaram.

Perto de Marte

Os primeiros sobrevoos de Marte foram sucessos notáveis, porém não no que se refere aos trajetos de seus voos. Três sondas estadunidenses retornaram imagens de 10% da superfície marciana, mas perderam toda a evidência de vulcanismo e de água que fazem o fascínio do planeta. A sorte da Nasa mudou em 1971, quando a Mariner 9 tornou-se a primeira nave a orbitar Marte, conduzindo um levantamento fotográfico que revelou o sistema de Valles Marineris, os altíssimos vulcões da região de Tharsis, e os primeiros sinais de cânios com erosão por água. Com o redespertar do interesse pelo Planeta Vermelho, a Nasa lançou a Marte as duas naves gêmeas da missão Viking, cada uma com um lander (módulo de pouso) e um orbitador. Os orbitadores forneceram imagens e dados climáticos da superfície, além de conduzirem vários experimentos detalhados, incluindo um controverso teste de vida microbiana.

O grand tour

Os anos 1970 apresentaram uma rara oportunidade: um alinhamento de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno permitiria a uma nave viajar de um planeta a outro, usando o efeito de “estilingue gravitacional”. O chamando Grand tour levaria pouco mais que uma década. Em 1977, a Nasa lançou a Voyager 1 e 2, inicialmente tendo como alvo apenas Júpiter e Saturno. A Voyager passou por Júpiter em março de 1979 e por Saturno em novembro de 1980, fazendo a primeira aproximação rasante da sua Titã. A Voyager 2 a seguiu poucos meses depois, e, como a Voyager 1 havia completado sua missão, os cientistas da Nasa decidiram ativar seu plano de reserva, lançando sua segunda sonda ao redor de Saturno rumo a Urano, alcançando em 1986, e a Netuno, em 1989. Esta missão extremamente bem sucedida nos ofereceu os primeiros vislumbres desses gigantes exteriores gelados, de suas luas e de seus anéis. Ambas naves ainda estão viajando, além de Plutão, nos confins do sistema solar [Atualmente – 2019 –, já saíram do Sistema Solar].

Exploradores em Marte

Apesar dos sucessos dos lander Viking, as sondas não retornaram a Marte até o final da década de 1990, seguindo uma série de fracassadas missões estadunidenses e soviéticas. Em 1997, a Mars Global Surveyor da Nasa entrou em órbita em torno do planeta, equipada com câmeras de última geração, enquanto um lander, o Mars Pathfinder, liberou o jipe robô Sojourner, que coletou rochas e solo. Seguiram-se muitas outras naves, e a cada nova descoberta, a possibilidade de vida em Marte tornou-se mais plausível. Vários satélites artificiais estão em órbita ao redor do planeta, usando técnicas de sensoriamente remoto para sondar o subolo marciano. Os jipes de exploração marciana, Spirit e Opportunity descobriram evidências inegáveis sobre oceanos extensos no passado marciano. Novas missões como a Phoenix, traçam a história da água em Marte e a possibilidade de vida no planeta.

Entre as luas de Júpiter

Os sobrevoos das Voyagers sobre as enormes luas de Júpiter revelaram que elas eram mundos fascinantes merecedores de uma inspeção mais de perto. A sonda Galileo, destinada a orbitar Júpiter, foi lançada em 1989, mas somente chegou ao destino em 1995. E os resultados valeram a espera. O orbitador fez o sobrevoo rasante de um asteroide durante seu curso, e librou uma sonda na atmosfera de Júpiter, antes de começar uma missão que ultrapassaria todas as expectativas. A Galileo estudou os vulcões de Io e o sistema climático de Júpiter, enquanto deu apoio a evidência de um oceano debaixo da crosta de gelo de Europa e nas luas jovianas exteriores Ganimedes e Calisto.

Cassini e além

A Galileo foi seguida por uma missão ainda mais ambiciosa para Saturno. A Cassini, uma enorme sonda pesando 5,6 toneladas, foi lançada em 1997. Depois de uma complexa jornada durante a qual sobrevoou duas vezes Vênus e uma vez a Terra e tomou impulso em Júpiter, finalmente chegou a Saturno em 2004. A bordo havia o lander europeu Huygens, que desceu de paraquedas na atmosfera de Titã em janeiro de 2005 enviando imagens durante seu pouso e revelando um mundo no qual o metano líquido parece desempenhar o mesmo papel que a água na Terra. Cassini continuou a monitorar Saturno e a fazer voos rasantes sobre muitos dos satélites fascinantes e variados do planeta. Desse modo abrirá caminho para futuras missões orbitais ainda mais ousadas, com ao Prometheus (antes o Orbitador das Luas Geladas de Júpiter), uma nave impulsionada à energia nuclear projetada para estudar as luas de Júpiter em detalhes sem precedentes. A Prometheus será a primeira de uma nova geração de naves espaciais nucleares que abrirá o Sistema Solar a uma exploração mais rápida e ainda mais profunda.

Cometas e asteroides

Embora a maior parte das sondas tivesse os planetas como alvos os cientistas não esqueceram os corpos menores do Sistema Solar. Cometas e asteroides virtualmente inalterados desde sua formação, há 4,5 bilhões de anos, contêm indícios fascinantes sobre a criação do Sistema Solar e mesmo sobre a origem da vida. Em 1985 e 1986, quando o Cometa Halley passou novamente pelas proximidades do Sol, uma flotilha de naves dirigiu-se ao seu encontro. O NEAR (Near Earth Asteroid Rendezvous) sobrevoou o asteroide Mathilde do Cinturão principal em 1997, antes de monitorar o grande asteroide Eros por um ano. Seguiram-se missões mais ambiciosas. A Stardust, da Nasa, recolheu poeira da cauda do cometa Wild 2 em 2004, para trazer à Terra; a missão europeia Rosetta pela primeira vez colocou um lander em um cometa; e a New Horizon sobrevoará Plutão [Chegou em 2016], antes explorando o cinturão de Kuiper, o berço de muitos cometas.

O futuro do homem no espaço

É inevitável que naves tripuladas um dia se aventurem pelas profundezas do Sistema Solar. China, Rússia e Estados Unidos têm planos para um retorno à Lua, e os estadunidenses também consideram a possibilidade de uma missão a Marte. Embora possam ser abandonados, esses planos serão substituídos por outros, e no meio tempo os cientistas espaciais terão reunido os conhecimentos necessários para tornar a viagem espacial de longa duração uma realidade. A Rússia ganhou uma experiência única de microgravidade prolongada com as missões na estação espacial Mir, e a tripulação da Estação Espacial Internacional é uma fonte preciosa de informações em medicina espacial. Por outro lado, experimentos em solo, como a Biosfera 2, fornecem informações úteis sobre como os astronautas poderiam produzir seu próprio alimento, água e oxigênio em outros planetas e como uma tripulação isolada enfrentaria o confinamento em uma nave por muitos meses.

Sistema Solar

ASTRÔNOMOS, E OUTRAS PERSONALIDADES
Por ocupação principal
TEXTOS
Descobrindo o Sistema Solar

Quem foi descoberto primeiro, a Terra ou Marte? A pergunta, em princípio tola, na verdade tem fundamento. Não há como saber quem foi o autor da façanha, mas o fato é que bem antes de alguém descobrir que a Terra era um planeta, tivemos a certeza de que Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno eram! Descobrir planetas no céu até que foi fácil. Mas daí para nossos antepassados deduzirem que também habitavamos um deles foi outra história. Na Antiguidade, ao observar o céu, certas pessoas notaram que alguns astros faziam um trajeto muito estranho. Se você já passou uma noite ao ar livre deve ter percebido que um grupo qualquer de estrelas "move-se" em bloco pelo céu, do leste para o oeste, mantendo as mesmas distâncias aparentes entre si. Mas existe uma classe de astros que subjuga essa ordem celeste. Ao observá-los em relação às estrelas próximas veremos, ao longo dos dias, que ora estarão adiante delas, ora ficarão para trás.


Depois retomarão o caminho e seguirão adiante, mas sem estar sempre com um grupo específico de estrelas. Esse movimento em ziguezague deu-lhes o apelido de errantes. Ou planetas, em latim.

Problema deles
ERAM CINCO OS PLANETAS. Havia um que "corria" próximo ao Sol, ziguezagueando veloz em seu caminho, às vezes pouco antes do nascer, outras vezes pouco depois que o astro-rei se escondia no horizonte. Deram-lhe o nome de Hermes, o mensageiro dos deuses. Nós usamos até hoje o nome latino: Mercúrio.

Também havia um outro que vagava por perto, tão belo e cintilante que lhe deram um significado feminino: era Afrodite. Ou Vênus, a deusa da beleza.

Outro errante costumava brilhar em vermelho cor de sangue no meio da noite. Para os antigos era Ares, um planeta ferido de morte - ou Marte, o deus da guerra. Eram todos nomes de deuses da mitologia greco-romana. Mas não deuses quaisquer, eram os manda-chuvas do Olimpo. O poderoso Zeus, senhor supremo, também estava lá. Para os antigos era o planeta mais brilhante depois de Vênus, com uma coloração branco-alaranjada, sereno, como um deus deve ser. Era Júpiter.


Por fim, havia aquele que os gregos chamavam de Cronos, o senhor do tempo, pai de Júpiter e o mais jovem entre os Titãs. Para nós ficou Saturno, o senhor dos anéis.

Todos errantes no céu, senhores de seus próprios caminhos. Mas a Terra, que os gregos chamavam Gaia, não era um planeta: não vagávamos sem rumo pelo céu, estávamos bem presos ao chão e tudo parecia girar à nossa volta. Errantes eram os outros.

Tem mais um ali
MAS AFINAL, NADA HAVIA DE ERRADO com o movimento dos planetas. Como a Terra, eles simplesmente giravam em torno do Sol. Ao contrário das estrelas, que de tão distantes parecem fixas no firmamento. O efeito conjunto do movimento da Terra e de um planeta provoca a ilusão de que ele está regredindo no céu.

Na verdade, as estrelas também se movem, mas como estão muito longe custamos a perceber, do mesmo modo que quando viajamos de carro percebemos muito mais facilmente o deslocamento aparente dos postes ao longo da estrada que das nuvens no horizonte. O tempo passou. Inventaram o telescópio e esqueceram-se dos deuses gregos. Um belo dia um astrônomo inglês descobriu um novo planeta. Ninguém podia vê-lo a olho nu mas ele tinha o mesmo movimento errático dos demais.


O pior é que lhe deram o nome de Jorge, em homenagem ao rei Jorge III da Inglaterra. Sorte que o bom senso prevaleceu e a comunidade científica rejeitou o nome e o chamou de Urano, céu em grego. Sessenta e cinco anos mais tarde, em 1846, foi a vez de Netuno - na mitologia grega, Poseidon, o deus dos mares.

Plutão só foi descoberto no século XX (em 1930) e desde então ainda não completou uma volta em torno do Sol. Para Hades, também uma divindade do Olimpo, ainda não se passou nem um ano desde que o encontraram. Asteróides em dose dupla

AS DESCOBERTAS NÃO PARARAM POR AÍ. Em 1951 o astrônomo de origem holandesa Gerard Kuiper (1905-1973) propôs a existência de um segundo cinturão de asteróides além da órbita de Plutão.

Muitos desses corpos seriam compostos por materiais voláteis, que evaporariam caso chegassem perto do Sol, formando longas caudas de gás e poeira. Hoje essa região é conhecida como Cinturão de Kuiper.

Em 1992 foram descobertos Smiley e Karla, dois pequenos corpos na região proposta por Kuiper. Hoje se conhecem mais de 600 objetos no cinturão de Kuiper, entre eles Quaoar, com 1.250 km, quase a metade do tamanho de Plutão e um volume superior à soma de todos os asteróides conhecidos.

O Sistema Solar atual é formado pelo Sol, os nove planetas conhecidos, um anel de asteróides entre Marte e Júpiter e outro chamado Cinturão de Kuiper, localizado depois da órbita de Netuno. Sem falar nos cometas. E quanto à Terra? Bem, afinal alguém descobriu que fazíamos parte da família do Sol. Isso foi por volta do ano 500 antes de Cristo. Hoje, é irresistível brincar com a idéia de que enquanto o Brasil fazia 500 anos, a Terra, cujo dia também se comemora em 22 de abril, "completava 2.500 anos". Feliz aniversário!

Sistema Solar
Explorando o espaço - uma história da astronomia

A história da astronomia conecta círculos de pedra pré-históricos com sondas espaciais do século XX!. È uma história de sucessivas revoluções na compreensão de nosso local no Cosmos, e nos meios pelos quais tomamos consciência dele. A geometria permitiu aos gregos fazer as primeiras medidas do Sol, Terra e Lua. Já no século XVII, instrumentos precisos derrubaram ideias centradas na Terra. O telescópio descortinou o céu apresentando muitos novos mistérios a serem explicados pela teoria da gravitação de Newton. A espectrocospia ofereceu um novo método para estudar as propriedades das estrelas e, por fim, revelou a existência de outras galáxias e a expansão do Universo. Nas útlimas décadas, o desenvolvimento do voo espacial permitiu a telescópios em órbita sondar o espaço profundo, enquanto as jornadas de umas poucas pessoas e máquinas além da órbita imediata da Terra colocaram nosso planeta relamente em perspectiva pela primeira vez.

Astronomia antiga

A história da astronomia remonta a 6.000 anos atrás, o que a torna a mais antiga das ciências. Cada uma das culturas ao longo da história estudou o Sol, a Lua, as estrelas e observou como os corpos celestes se movem no céu. As observações refletem curiosidade e encanto com o mundo natural, mas também foram impulsionadas por razões urgentes de navegação, contagem de tempo e religião.

Ciclos da vida

Povos da antiguidade eram fascinados pelos padrões de mudança repetindo-se incessantemente no mundo a seu redor. Evidências da passagem do tempo incluías alterações na temperatura do ar, no horário e posição do nascer e pôr-do-sol, nas fases da Lua, no crescimento da vegetação e no comportamento animal. Esses fenômenos eram atribuídos aos deuses ou a poderes mágicos. Milhares de anos atrás, os “primeiros” astrônomos foram provavelmente pastores ou agricultores no Oriente Médio, que observavam a noite, atentos a sinais das mudanças das estações. Os antigos egípcios se baseavam em observações astronômicas para planejar o plantio e a safra das colheitas. Sabiam que o nascimento de Sirius logo antes do nascer-do-sol anunciava a enchente do rio Nilo. A habilidade para medir períodos de tempo e registrar ciclos celestes foi essencial para o avanço da astronomia, e assim muitas culturas antigas desenvolveram calendários, relógios de sol e relógios de água. Monumentos como as pirâmides e grupos de megalitos (grandes pedras eretas) foram, de fato, os primeiros observatórios. Em cerca de 1000 a.e.c., os indianos e babilônios haviam calculado a duração do ano em 360 dias; este período levou à divisão do círculo em 360°, com cada grau representando um dia solar. Posteriormente, os antigos egípcios refinaram a duração do ano para 365,25 dias.

Fazendo mapas celestes

A astronomia sempre se ocupou com mapear e nomear as estrelas. Por volta de 3500 a.e.c., os antigos egípcios dividiram o zodíaco nas 12 constelações de hoje e agruparam as outras estrelas fora do zodíaco em suas próprias constelações. Nas antigas China e Índia, criaram-se 28 mansões lunares, ou “domicílios noturnos” para registrar o movimento da Lua em seu caminho mensal. Os antigos gregos foram os primeiros a catalogar as cerca de 1000 estrelas mais brilhantes, por volta de 150-100 a.e.c. mas, muito antes deles, observadores da Índia e Oriente Médio mantinham registros astronômicos detalhados e datados. Coleta de dados sistemática foi desenvolvida pelos sumérios e babilônios – civilizações que viviam entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia – por razões de ritual e profecia política.

Orientação e navegação

Os mais importantes feitos dos astrônomos antigos incluem como encontrar os pontos cardeais – note, sul, leste e oeste – e como usar a Estrela Polar do norte para determinar a latitude. Este conhecimento capacitou a orientação precisa de estruturas, particularmente de templos e monumentos funerários, e também auxiliou na confecção de mapas terrestres acurados. Em 3000-2000 a.e.c., os povos da Idade da Pedra do norte da Europa utilizaram alinhamentos solares nos solstícios e equinócios, fases lunares, e outros dados astronômicos para construir grandes círculos de pedra, como Stonehenge e Avebury na Inglaterra, e Newgrange na Irlanda. Altares de foto (usados por sacrifícios rituais de fogo hindus), posicionados em bases astronômicas, e datando de 3000 anos atrás foram encontrados em diversos sítios arqueológicos na Índia. Algumas das mais complexas construções projetadas de acordo com princípios astronômicos são as pirâmides do antigo Egito e exemplos tardios construídos pelos astecas e maias na América. A arquitetura antiga fornece abundante prova de conhecimento astronômico, mas há poucas evidências do seu uso em navegação antiga. Contudo, os povos navegantes da Polinésia podem ter usado as posições das estrelas para migrar através do Pacífico por volta de 1000 a.e.c.

O nascimento da astrologia

Astrologia é uma prática milenar que busca determinar como os planetas e outros objetos celestes podem influenciar a vida na Terra, em especial os assuntos humanos. Descartada como superstição, ela estabeleceu fundamentos sólidos para a observação astronômica e dedução lógica. Em seu esforço de prever os eventos futuros e buscar sinais ou portentos os antigos astrólogos tentaram “ordenar” os céus e notaram o modo como o Sol, a Lua e os planetas se comportam. Enfatizaram em particular ocorrências inesperadas como eclipses, cometas, chuvas de meteoros e o aparecimento de novas estrelas. Muitas elites políticas empregavam astrólogos e observadores dos céus, e seu trabalho era uma atividade intelectual perfeitamente respeitável até o fim do século XVII. Astrônomos também escreviam tratados astrológicos; por exemplo, em 140 e.c., Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, o mais influente de todos os tratados astrológicos.

Início da astronomia científica

A Grécia antiga foi um divisor de águas no desenvolvimento da astronomia como a ciência racional. Os acadêmicos gregos formularam leis complexas e fizeram modelos do Universo. Após o estabelecimento do Islamismo, estudiosos árabes desenvolveram métodos ainda mais acurados de observação dos céus.

Germens do pensamento científico

O mundo grego antigo conheceu uma liberdade política e intelectual sem precedentes e um espantoso progrsso científico. Por 700 anos, de cerca de 500 a.e.c. a 200 e.c. os filósofos gregos buscaram respostas para questões astronômicas fundamentais. Ainda acreditavam em um plano mestre divino e tinham ideias que soam estranhas par anos hoje – Heráclito (540-500 a.e.c.), por exemplo, sugeria que as estrelas eram acesas toda noite, e o Sol toda manhã, como lâmpadas de óleo. Mas Platão (c.427-347 a.e.c.) argumentou que a geometria é a base de toda verdade, fornecendo assim o impulso necessário para deduzir exatamente como o Cosmos funcionava. Aristóteles fixou a Terra no centro do Universo e sugeriu que os planetas eram corpos eternos movendo-0se em órbitas perfeitamente circulares. Eudoxo (408-355 a.e.c.) cartografou as constelações setentrionais e Hiparco (190-120 a.e.c.) pela primeira vez classificou as estrelas em seis ordens de magnitude.

Medindo distâncias

Os avanços na geometria e trigonometria permitiram que os gregos medisses distâncias astronômicas com razoável precisão. Por volta de 500 a.e.c. Pitágoras propôs que o Sol e a Terra, a Lua e os planetas fossem todos esféricos, uma noção que Aristóteles confirmou, no caso da Terra, pela observação da forma de sua sombra durante um eclipse solar. Em 250 a.e.c. Eratóstenes (276-194 a.e.c.) notou que a luz solar incidia diretamente no fundo de um poço em Siena, no Egito, ao meio-dia do solstício de verão. Comparando com dados sobre as sombras em Alexandria, e usando trigonometria, ele estimou a circunferência da Terra com precisão de 5%. Hiparco e Aristarco (320-230 a.e.c.) mediram a distância Terra-Lua cronometrando eclipses lunares. Infelizmente, a distância Terra-Sol não foi estimada com a mesma precisão.

O cosmos centrado na Terra

É natural que as pessoas supusessem que o Cosmos era geocêntrico, ou centrado na Terra. Afinal de contas, não percebemos o movimento da Terra quando ela gera no espaço e as estrelas parecem fixas. Pensadores antigos, como Aristarco em 280 a.e.c., contestaram este sistema e colocaram o Sol no centro, mas suas ideias não tiveram crédito. Em vez disso, Ptolomeu refinou a visão de mundo cosmológica de Aristóteles e criou uma sequência ordenada de órbitas uniformes. Sua ordem era: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e finalmente as estrelas. Isto é baseado na velocidade percebida: por exemplo, a Lua completa uma volta no céu em um mês, o Sol em um ano e Saturno em 29,5 anos. De modo a reconciliar o conceito errôneo de órbitas circulares (em contraste com elípticas) e as velocidades variáveis dos planetas, Ptolomeu foi obrigado a argumentar que cada planeta também girava em um pequeno círculo, o epiciclo, enquanto orbitava a Terra.

Astronomia árabe

Depois do declínio das cidades-estado gregas, os mais importantes avanços da astronomia foram alcançados pelos árabes. O período de domínio grewgo durou 800 anos, desde a fundação do Islamismo em 622 até o século XIV. Astrônomos trabalhando no Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e Espanha mourisca traduziram textos gregos e em sânscrito (da Índia) para o árabe e assimilaram seu conhecimento astronômico. As regras muçulmanas para s cultos ao longo do dia e do mês, e a necessidade de encontrar a direção de Meca para fazer as orações e orientar as mesquitas, significavam que havia uma urgente necessidade de se determinar o tempo e a posição com extrema precisão. Desenvolveu-se a trigonometria esférica sofisticada, funções trigonométricas e álgebra e o astrolábio (uma invenção grega, usada para calcular a hora e a latitude) foi aprimorado. A abordagem dos grandes astrônomos árabes, como Al-Battani (850-929) e Ulugh Beg (1349-1449) fundamentava-se em observação paciente. Com este fim numerosos observatórios foram construídos, dos quais os maiores estavam em Bagdá, no Iraque, em Samarkand, no Uzbequistão, e em Maraghan, no Irã. Eles alojavam grandes instrumentos, incluindo quadrantes montados em paredes, utilizados para medir a altitude de objetos astronômicos quando cruzavam o meridiano (o plano norte-sul).

A revolução copernicana

Por séculos os astrônomos basearam suas teorias na suposição de que a Terra estaria no centro do Universo. No século XVI, esta posição privilegiada foi abalada pela sugestão de que a Terra era apenas um dos vários planetas circulando o Sol. Esta revolução foi acompanhada por imensos avanços tecnológicos, em particular pela invenção de telescópios, anunciando uma nova era de pesquisa e de grandes descobertas.

Astronomia medieval

Após a queda de Roma em 476, astrônomos na Europa, Oriente Médio e àsia deixaram para trás seu relativo isolamento cultural e passaram a trocar ideias mais livremente. Isto graças, em parte, ao crescimento do comércio durante a Idade Média e em parte à expansão do Islamismo. A astronomia observacional floresceu com ênfase em conjunções planetárias, eclipses solares e lunares a as aparições de cometas e estrelas novas. Muitos astrônomos medievais eram professores universitários e se sustentavam com o ensino. Apesar dos recursos limitados fizeram avanços notáveis, incluindo um novo preciso catálogo de posições de estrelas a olho nu, planejado por Ulugh Beg *1394-1449) da Mongólia – o primeiro desde os dias de Hiparco, 1600 anos.

O Universo heliocêntrico

Pode-se datar o nascimento da astronomia em 1543, quando Nicolau Copérnico publicou seu revolucionário tratado sobre um Universo centrado no Sol, ou heliocêntrico. Ele estava insatisfeito com a imprecisão dos modelos geocêntricos das orbitas planetárias, nos quais a Terra ocupava o centro e que dominavam a astronomia desde a obra de Ptolomeu no século II. Sua teoria muito mais simples de um Sol central e uma Terra em órbita explicava muitas observações antes enigmáticas, porque agora havia dois tipos de planetas, os internos e os externos da órbita da Terra. A sequencia Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno era um ordem de período orbital e de distância crescente ao Sol. A “lanterna do Universo”, com o Copérnico o chamava, agora assumia seu lugar de direito no centro do Cosmos. Embora isso significasse que a Terra se movia em alta velocidade, a teoria já havia sido proposta por Aristarco e outros.

A noção do Espaço

Os gregos e os astrônomos posteriores colocaram as estrelas logo além de Saturno, mas isto causaria um problema se a teoria copernicana estivesse correta. Se, como Copérnico argumentava, a Terra orbitava o Sol, por que as estrelas não tinham um movimento recíproco? A única escolha para Copérnico era banir as estrelas para uma distância tão vasta que seu movimento não seria perceptível para observadores terrestres. Ele também foi o primeiro a sugerir que as estrelas brilhantes estariam mais próximas que as fracas. Contudo, ouros se perguntavam porque Deus teria criado um espaço enorme, aparentemente inútil entre a órbita de Saturno e as estrelas. Tycho Brahe (1546-1601), um nobre dinamarquês, pensava que o futuro da astronomia dependia da estimativa de distâncias verdadeiras e do registro acurado das posições planetárias em diversos tempos. Com este objetivo ele aprimorou os padrões observacionais, fabricando instrumentos de mensuração precisamente calibrados. Em 1572 suas observações pacientes da supernova na constelação de Cassiopéia o convenceram de que as estrelas não estavam todas a uma distância fixa, mas que eram objetos cambiantes que existem no “espaço”. Propor essas ideias exigia coragem, ou o apoio de patronos poderosos, devido à Inquisição, nessa época, julgar e punir os que desafiassem a visão ortodoxa da Igreja Católica em relação ao Universo.

Leis do movimento planetário

O sistema heliocêntrico copernicano ainda descrevia as órbitas planetárias em termos de epicilos – cada planeta descrevia um pequeno círculo enquanto girava em torno do corpo central. Essa visão prevalecia desde Ptolomeu mas a forma real das órbitas permanecia um mistério. Necessitava-se de duas coisas para resolver o problema. A primeira era os dados planetários precisos obtidos por Tycho Brahe. A segunda era fé nos seus dados, junto com tenacidade e gênio matemático. A última foi fornecida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), sucessor de Tycho após 1601. Com base nas observações do caminho de Marte na esfera celeste Kepler acabou por formular suas três leis do movimento planetário. Primeiramente, em 1609, ele revelou que as órbitas eram elípticas, e não circulares ou epicíclicas. O Sol está em um dos focos da elipse (a elipse tem dois focos; o círculo é um calo limite de eclipse, com um único foco). Em segundo lugar, mostrou que a linha unindo o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, assim um planeta é mais lento na parte mais exterior da sua órbita. Em terceiro lugar, em 1619, Kepler provou a relação entre o tamanho e o período da órbita. Ele alimentava concepções místicas – acreditava que o Cosmos era permeado por coras musicais, com cada planeta produzindo um tom em proporção a sua velocidade. Como todos antes da descoberta da gravidade por Newton, não tinha a menor ideia do que mantinha os planetas em suas órbitas.

As descobertas de Galileu

Galileu Galileia apresentou provas concretas de que o modelo copernicano do Universo estava correto. Em 1608 quando um fabricante de óculos flamengo inventou o telescópio a notícia se espalhou rapidamente. Galileu construiu, ele mesmo, vários telescópios em 1609, assim tornando-se o fundador da astronomia telescópica. Seus instrumentos tinham uma magnificação de 30x. Em alguns meses ele descobriu que a Lua era montanhosa, detectou as fases de Vênus, as manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Chegou mesmo a sugerir que as estrelas fosses sóis distantes. Acima de tudo ele percebeu que as fases de Vênus somente poderiam ser explicadas se os planetas orbitassem o Sol, e não a Terra. Outros achados de Galileu fundamentam a física nascente: a aceleração de um corpo independe de sua composição ou peso; e o período de balanço de um pêndulo independe de sua amplitude.

Grandes observatórios

A emergência de uma nova geração de observatórios fo um divisor de águas na história da astronomia. Observatórios haviam sido anteriormente exclusivos a um grupo seleto de pessoas, incluindo Tycho Brahe na Dinamarca e Johannes Hevelius em Danzing, Prússia (agora Gdansky, na Polônia), ou de professores universitários, como Galileu ou Giovanni Cassini de Bologna, na Itália. Então, essas unidades foram ampliadas por instituições reais bem financiadas. Luis XIV fundou a Academia de Ciências em Paris, em 1666, e o Observatório Real francês, completado em 1672. Na Inglaterra, Charles II fundou a Royal Society em 1660, o que levou à construção do Royal Greenwich Observatory, onde John Flamsteed (1646-1719) foi o primeiro astrônomo real, iniciando seu trabalho em 1676. Em breve os astrônomos estavam atacando os três principais desafios daquela época: determinar o tamanho do Sistema Solar; medir a distância até as estrelas; e achar a latitude e a longitude de locais na terra e no mar. Esta busca foi em parte impulsionada por necessidades da navegação em uma época de expansão dos impérios europeus e pelo desejo de prestígio nacional. A partir do começo do século XVIII, os observatórios se multiplicaram rapidamente, inaugurando-se instalações em Berlim, Prússia (1711), em Jaipur, Índia (1726), em Uppsala, Suécia (1730), em Vilnius, Prússia (1753), em Washington, EUA (1838), e em Pulkovo, Rússia (1839). Dedicou-se muito esforço para mapear o céu e traçar os movimentos dos corpos celestes.

Leis da atração

Um dos maiores enigmas desafiando os astrônomos de meados do século XVII era porque os planetas percorriam imensas distâncias ao redor do Sol em órbitas estáveis sem se lançar no espaço. O grande físico inglês Issac Newton (1642-1727), professor na Universidade de Cambridge, encontrou a resposta. Um objeto se moveria a velocidade constante segundo uma linha reta, a menos que fosse sujeito a uma força. No caso dos planetas, a força era a gravidade do Sol. Ele logo percebeu que a gravidade era universal. Ela controlava tanto a trajetória de um objeto caindo (como a famosa maçã que Newton viu cair de uma árvore em 1666), como a Lua orbitando a Terra e um cometa viajando rumo ao Sol vindo dos remotos confins do Sistema Solar. A gravidade explicava as três leis de Kepler e também a altura das marés. Após a morte de Newton, o retorno do cometa Halley em 1758 provou que a gravidade também era aplicável nos limites do Sistema Solar, e o uso da teoria da gravitação possibilitou o cálculo da massa da Terra e do Sol. 

O telescópio refletor e Newton

Em 1666, Newton descobriu que um prisma dispersa a luz em um arco-íris de cores. Infelizmente, as lentes de um telescópio fazem o mesmo, e a luz azul de um extremo do espectro é focalizada em um ponto diferente da luz vermelha e o ouro extremo. Isto é a chamada aberração cromática, que produz halos de luz colorida ao redor do objeto sendo visto, causando uma grave perda de qualidade de imagem. Uma solução é suar espelhos curvos para focalizar toda luz no mesmo ponto, independentemente da cor. Em 1663, o escocês James Gregory (1638-75), projetou um telescópio refletor com um grande espelho côncavo primário e um secundário côncavo menor que projetava luz de volta através de um orifício para uma lente magnificadora atrás. Newton modificou o projeto usando um espelho plano secundário para refletir a luz capturada para uma ocular montada lateralmente. Exibido em 1672 o telescópio de Newton foi imensamente aclamado.

O espaço infinito

Na metade do século XIX, a astronomia havia evoluído de uma ciência essencialmente matemática para uma disciplina que incorporava o conhecimento novo e as técnicas dos físicos e químicos. Rápidos progressos tecnológicos, particularmente a invenção da fotografia e telescópios ainda mais poderosos, permitiram aos astrônomos estudar os corpos celestes com muito mais detalhe. Eles começaram a classificar os diferentes objetos e a estudar seu comportamento.

O iluminismo

Os séculos XVIII e XIX viram grandes progressos em ciência devido a métodos científicos aprimorados. Foi um período de consolidação em astronomia, baseada em avanços nas medidas e classificação de corpos celestes. As órbitas dos cometas eram de grande interesse depois do trabalho do inglês Edmond Halley (1656-1742), que mostrou que “seu” cometa retornava a cada 76 anos. As órbitas dos planetas eram determinadas com muito mais precisão que anteriormente e detalhes de sua superfície, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter e as calotas polares de Marte foram observados. Em 1728, a velocidade da Terra foi calculada. William Herschel descobriu o sétimo planeta, Urano, em 1781, e o italiano Giuseppe Piazzi ( 1746-1826) identificou o primeiro asteroide, Ceres, em 1801. Os franceses Urbain Le Verrie e Pierre-Simon Laplace (1749-1827), e o inglês John Adams (1819) aplicaram a teoria da gravitação de Newton para prever a posição de um planeta invisível além de Urano. Netuno foi descoberto em 1846.

O cosmos estelar

Aperfeiçoamentos dos telescópios ao longo do século XVIII permitiram que a astronomia tornasse o estudo do Universo um processo dinâmico. Anteriormente as estrelas eram apenas pontos fixos de luz, com distância desconhecida, mas na década de 1710 Halley descobriu o seu movimento dando início a esforços concentrados para compreender seu comportamento. Constatou-se que muitas estrelas são duplas, orbitando em torno de um centro de massa comum, em conformidade com a gravitação newtoniana e, na década de 1780, estrelas variáveis como Algol e Delta Cephei, eram investigadas. Em 1781, o francês Charles Messier (1730-1817) publicou um catálogo de 103 “corpos difusos”, ou nebulosas (nuvens de gás e poeira). Herschel estendeu este trabalho, gastando muitas horas contando estrelas de diferentes magnitudes, em uma ambiciosa tentativa de fazer um levantamento do céu. Em 1783 ele deduziu que o Sol está se aproximando da estrela Lambda Herculis, e erroneamente concluiu que ela se situava no centro do sistema estelar galáctico. Durante as duas primeiras décadas do século XIX, Laplace desenvolveu métodos de análise matemática que resultaram no primeiro modelo para a origem do Sistema Solar.

O nascimento da astrofísica

Durante o século 19, os astrônomos continuaram a aplicar o desenvolvimento da matemática, física e química para compreender a constituição e comportamento dos planetas, cometas e estrelas. Um novo campo – a astrofísica – emergiu, conferindo propriedades físicas aos objetos no espaço. A astronomia tratava principalmente com seu movimento, enquanto a astrofísica examinava seus parâmetros básicos como raio, massa temperatura, e composição química. Em 1815, o óptico alemão Joseph Fraunhofer (1787-1826), enquanto estudava o espectro da luz solar, notou várias linhas escuras sobre ele. Mais tarde, verificou-se que estas linhas eram devidas à absorção por elementos químicos do Sol. Como ada elemento químico absorve a luz em certos comprimentos de onda, o padrão de linhas de absorção revela a sua presença. Nos anos 1860, o astrônomo britânico William Huggis (1824-1910) descobriu, por meio da espectroscopia (o estudo de espectros) que as estrelas contêm os mesmos elementos que a Terra.

Avanços instrumentais

Os telescópios tornaram-se cada vez maiores desde o princípio do século XVIII – quando astrônomos como Edmond Halley labutavam para usar desajeitados e imprecisos instrumentos com lentes objetivas de pequeno diâmetro – na metade do século XIX. As lentes dobraram em tamanho a cada 40 anos, o que implicava que a distância até os objetos visíveis mais longínquos também dobrava, e que seu número crescia por um fator oito. Sofisticaram-se as montagens dos telescópios, e a qualidade das lentes foi aperfeiçoada. Os telescópios refratores foram totalmente transformados em 1758, quando o astrônomo inglês John Dolland (1706-1761) introduziu a lente dupla, que focalizava a luz azul e a vermelha no mesmo ponto. Herschel construiu enormes telescópios refletores e, em 1524 completou-se o primeiro telescópio com montagem equatorial, na qual o eixo do instrumento era alinhado com o polo norte celeste e um relógio mecânico movia o instrumento em torno deste eixo para acompanhar as estrelas. Nos anos 1840, a fotografia começou a substituir o lápis e papel para o registro de dados. Placas fotográficas podiam ser expostas por horas, permitindo a detecção de objetos muito mais fracos que os visíveis unicamente pelo olho humano.

A forma do espaço

No começo do século XX, alguns pensavam que havia apenas uma galáxia, com o Sol no centro. Nos anos 1930, os astrônomos já haviam percebido que havia bilhões de galáxias e que o Universo estava em expansão. Também começavam a compreender as fontes de energia estelar.

Matéria e energia das estrelas

A partir de 1900, devido à compreensão da natureza da radioatividade descoberta quatro anos antes, começou-se a perceber que a Terra poderia ter mais de 1 bilhão de anos de idade. Esta ideia era consistente com estimativas anteriores feitas por geólogos e com a avaliação de Charles Darwin do tempo necessário para a seleção natural operar. Permanecia o mistério de como o Sol poderia manter-se brilhando por tanto tempo. Uma ideia era que o Sol fosse alimentado pela queda de meteoritos; outra que o Sol estava lentamente se contraindo. Nenhuma dessas teorias dava conta da longa vida do Sol. Contudo, em 1905 Albert Einstein (1879-1955) propôs que E=mc2,  e assim energia E, poderia ser produzida pela destruição de massa, m. Nos anos 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington (1882-1944) sugeriu que a fonte de energia do Sol – e de outras estrelas – fosse a fusão nuclear. O físico germano-estadunidense Hans Bethe (1906-2005) especificou então os processos básicos de fusão nuclear. É de fato uma reação nuclear que libera energia da matéria. Astrofísicos têm agora uma visão detalhada de como as estrelas obtêm sua energia e estimam que estrelas do tipo solar possam brilhar por 10 bilhões de anos.

O grande debate

Nos anos 1920 houve um debate público entre os astrônomos estadunidenses Harlow Shapley e Heber Curtis sobre a forma da nossa galáxia em particular a extensão do Universo em geral. Shapley acreditava que havia apenas uma “grande galáxia”, com a Terra a dois terços da distância até a borda. Ele dizia que o diâmetro era de 300.000 anos-luz – 10 vezes maior que a estimativa de Curtis. Este valor foi obtido com estrelas variáveis cefeídas (cujo brilho varia periodicamente) como indicadores de distância. Curtis, por outro lado, estava convencido de que muitos objetos nebulosos no céu não estavam em nossa galáxia, mas que eram de fato outras galáxias como a nossa. Ele propôs que estes “universos-ilha” estava espalhados uniformemente no céu, com alguns deles obscurecidos pelo disco galáctico, o que explicava sua distribuição acima e abaixo do plano da Via Láctea.

O universo em expansão

Os novos e enormes telescópios estadunidenses revolucionaram a astronomia do século XX. O Telescópio Hooker era tão grande que podia detectar as estrelas cefeídas da Nebulosa de Andrômeda (M31). O  fraco brilho dessas estrelas indicava eu sua distância da Terra era cerca de 10 vezes o diâmetro da Via Láctea. Heber Curtis estava correto: Andrômeda não era uma “nebulosa” mas uma galáxia. Outras “nebulosas” espirais também eram claramente galáxias. Usando o Hooker o estadunidense Edwin Hubble mostrou que as galáxias são os “blocos fundamentais” de um universo muito mais vasto que previamente imaginado. Em 1927 ele investigou características espectrais de galáxias e constatou que não somente a luz da maioria delas apresentava um deslocamento para o lado vermelho do espectro, indicando que se afastavam de nós, mas também que essa velocidade de recessão era maior para as mais fracas (mais distantes). O Universo estava em expansão e, portanto, deveria ter sido muito menor no passado. O declive do gráfico velocidade-distância indicava a idade do Universo. Os astrônomos logo perceberam que algo havia dado início à expansão, lançando as sementes da teoria do Big Bang.

Tecnologia de telescópios

A astronomia observacional estadunidense atingiu um divisor de águas nas últimas décadas do século XIX. Nos Estados Unidos novos e sofisticados observatórios e departamentos universitários foram estabelecidos, muitas vezes financiados por empresários milionários. Os astrônomos desejavam examinar objetos muito fracos e distantes, mas a limitada resistência e a transparência relativamente baixa das lentas objetivas dos telescópios impunham um limite de cerca de 1m de diâmetro – o tamanho do telescópio refrator de Yerkes, inaugurado em Williams Bay, Wisconsin, em 1897. Assim abandonou-se os refratores: era o início de uma nova era de enormes telescópios refletores. O Telescópio Hooker, de 2,5m, em Monte Wilson, na Califórnia, tornou-se operacional em 1918. Em 1948, entrou em sérvio o Telescópio Hale, de 5,2m, no Monte Palomar, na Califórnia. Em 1993, o primeiro Telescópio Keck, com um espelho de 10m, feito de espelhos segmentados, entrou em operação. Acoplado ao progressivo aumento do tamanho dos telescópios veio um enorme aumento na sensibilidade dos detectores. Placas fotográficas tornaram-se mais sensíveis e foram usadas extensivamente par mapear o céu e gerar arquivos permanentes de posições e espectros de objetos. Outro desenvolvimento crucial foi a radioastronomia. Radiotelescópios, o primeiro dos quais foi feito em 1937, passaram a captar as emissões nos longos comprimentos de onda em rádio do espaço profundo.

Astronomia da era espacial

Com o início da Era Espacial (a era do vôo espacial) nos anos 1950, a viagem além da Terra e o contato co planetas, cometas e asteroides tornou-se uma realidade. O despertar das astronomias em rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama ofereceu à humanidade novas perspectivas do Universo, revelando a existência de novos e exóticos objetos nunca antes imaginados.

Estrelas extremas

Relações entre massa, raio e luminosidade das estrelas foram primeiramente estabelecidas graças ao diagrama Hertzsprung-Russel por volta de 1911 e levaram ao reconhecimento de estrelas gigantes e anãs. Desde então encontraram-se muitos tipos extremos de estrelas. Em 1915, W.S. Adams identificou Sirius B como a primeira anã branca – uma estrela da massa do Sol mas comprimida até o volume da Terra. Em 1931 o astrofísico indiano S. Chandrasekhar, usando os novos modelos para o comportamento de partículas subatômicas, descobriu um limite superior à massa de uma anã branca. 1,4 massa solar. Acima disso, um núcleo estelar exaurido colapsará em uma estrela de nêutrons superdensa com uns poucos quilômetros de diâmetro, arrebentando o resto da estrela em uma explosão de supernova. Estrelas de nêutrons em rotação são vistas da Terra como pulsares – radiofontes pulsantes –, a primeira delas foi descoberta em 1967 por Jocelyn Bell-Burnell e Anthony Hewish, do Reino Unido. No outro extremo de massa estelar estão as anãs marrons, muitas delas descobertas recentemente, muito frias para desencadearem rações nucleares no seu centro.

Buracos negros

A possibilidade de buracos negros foi sugerida em 1783 pelo astrônomo inglês John Michell, que considerou a hipótese de um objeto tão massivo que nem a luz poderia escapar da sua gravidade. A ideia reapareceu em 1916 como resultado da teoria da relatividade geral de Einstein, mas os buracos negros permaneceram uma curiosidade até a década de 1960, quando o lançamento de satélites de astronomia de raios-X levou à descoberta de estrelas binárias de raios-X como Cygnus X-1. Binárias de raios-X exigem uma fonte compacta, massiva de erngia, que só pode ser fornecida por um buraco negro. A descoberta de buracos negros de massa estelar também abriu o caminho para se aceitar os quasares – objetos compactos, extremamente luminosos, a altos redshifts – como violentas galáxias distantes, alimentadas por buracos negros supermassivos nos seus centros.

Interior das estrelas

Com telescópios ópticos os astrônomos podem enxergar até uma profundidade de 500km abaixo da superfície solar. Infelizmente, como o Sol tem um raio de 700.000km, um imenso volume não pode ser observado diretamente. Durante os anos 1920 os astrofísicos calcularam que o centro do Sol teria uma temperatura de aproximadamente 15 milhões °C e uma densidade cerca de 150 vezes a da água. Em 1939 o físico alemão Hans Bethe mostrou como processo nucleares, agindo sob essas condições extremas, converteriam lentamente hidrogênio em hélio, liberando imensas quantidades de energia pela conversão de massa em energia. O inglês Fred Hoyle e o alemão Martin Schwarzschild estenderam esta modelo na década de 1950, mostrando como hélio é transformado em carbono e oxigênio em estrelas gigantes. Logo os astrofísicos encontraram mecanismos para a manufatura de elementos ainda mais pesados, como cobalto e ferro, nas estrelas mais massivas. Na década de 1960 os primeiros detectores de neutrinos foram usados para detectar estas partículas altamente penetrantes, liberadas pelas reações nucleares no interior do Sol, e desde os anos 1970, a técnica de heliossismologia permitiu o monitoramento das ondas sonoras ressonando através do interior solar, assim revelando sua estrutura detalhada.

Meio interestelar

A descoberta de grandes quantidades de gás e poeira entre as estrelas foi um triunfo da radioastronomia. Em 1944, o astrônomo holandês Hendrick vam de Hulst previu que o hidrogênio interestelar emitiria ondas de rádio com um comprimento de onda de 21 cm, o que foi confirmado em 1951 pelos físicos estadunidenses Harold Ewen e Edward Purcell. Em breve, radiotelescópios eram usados para mapear a distribuição do hidrogênio neutro atômico nos braços espirais da Via Láctea e de outras galáxias. Em 1974, levantamentos do comprimento de onda de 2,6mm, que age como um traçador de hidrogênio molecular, levaram à descoberta de nuvens moleculares gigantes, locais de nascimento de estrelas.

Astronomia desde o espaço

A Era Espacial começou em 4 de outubro de 1957, quando a União Soviética lançou o satélite Sputnik I, e os astrônomos rapidamente aproveitaram a capacidade de se observar fora da atmosfera terrestre. Detectores a bordo de foguetes já haviam captado sinais intrigantes em comprimentos de onda incomuns durante suas breves excursões fora da atmosfera, e o primeiro observatório orbital, o Ariel I, foi lançado pelo Reino Unido em 1961, equipado com um telescópiode ultravioleta. Outros satélites, como as séries estadunidenses Explorer, e Uhuru, rapidamente mapearam as principais fontes de ultravioleta, infravermelho e raios-X. Enquanto isso, sondas espaciais se espalhavam pelo Sistema Solar, retornando informação sobre o ambiente interplanetário e cartografando os planetas com uma variedade de câmaras, radares e outros instrumentos.

A origem do Universo

A descoberta na década de 1920 de que o Universo está em expansão desencadeou uma nova onda de reflexões cosmológicas. Em 1931, o astrônomo e padre belga Georges Lamaître sugeriu que todo o material do Universo teria começado com o uma única esfera altamente condensada – a origem da teoria do Big Bang. Em 1948, o austríaco Hermann Bondi e os britânicos Thomas Gold e Fred Hoyle propuseram uma teoria rival, da Criação Contínua, na qual matéria estaria sendo criada continuamente para preencher os vazios deixados pela expansão. Felizmente, ambas teorias poderia ser testadas pelas observações e as evidências acabaram por apoiar o Big Bang. Em 1980, Alan Guth da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, estendeu a cosmologia do Big Bang introduzindo a inflação, que auxiliava a resolver alguns problemas maiores da teoria. Mas, ainda restam questões importantes nessa área.

Planetas extra-solares

Grandes refinamentos na espectroscopia permitiram medir ligeiras variações nas velocidades estelares produzidas pela perturbação gravitacional de planetas em órbita. Em 1995, os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra descobriram um planeta com massa um pouco abaixo da metade daquela de Júpiter em torna da estrela 51 Pegasi, a 48 anos-luz. Agora se conhecem centenas de planetas extra-solares e abriu-se um novo campo da astronomia. Os astrônomos têm se surpreendido com suas descobertas – a maioria dos sistemas planetários é muito diferente do Sistema Solar. Alguns têm planetas gigantes orbitando muito próximo à estrela mãe, enquanto outros têm planetas com órbitas altamente elípticas. 

A caçada continua

Quanto mais os astrônomos sabem sobre o Universo, mais querem saber. Na década de 1970 reconheceu-se que o Universo continha muito mais material que o visível: matéria escura afeta a rotação das galáxias; a massa faltante é prevista pela teoria do Big Bang mas ainda não foi observada. A exótica “energia escura” parece acelerar a expansão do Universo. Ao lado desses grandes mistérios cosmológicos está a busca pela vida do Universo, abarcada pela nova ciência da astrobiologia. Nos últimos séculos o tamanho dos espelhos de 10mde hoje serão substituídos por gigantes ainda maiores e observações feitas além da atmosfera terrestre serão cada vez mais produtivas. O telescópio de 2,5m do Telescópio Espacial Hubble será pequeno perto do Telescópio Espacial James Webb, com espelho de 6,5m, a ser lançado em 2021. Esta nova geração de telescópios deverá finalmente captar a primeira geração de estrelas e galáxias. E, à medida que os astrônomos observarem cada vez mais longe com instrumentos cada vez mais sensíveis, inevitavelmente serão confrontados com novos mistérios e corpos exóticos não imaginados antes.

Primeiras espaçonaves

A segunda metade do século XX registrou uma revolução na nossa compreensão do Universo, desencadeada pelo desenvolvimento do vôo espacial. Pela primeira vez, em lugar de apenas olhar para o esaplo, os seres humanos e suas máquinas viajavam por ele. Revezes e riscos marcaram os primeiros tempos da exploração espacial, mas, com esses obstáculos superados, o progresso foi rápido.

Sonhadores de foguetes

A ideia da viagem espacial é tão antiga quanto o contar estórias, mas com poucas noções das leis da física ou da natureza do espaço escritores frequentemente se baseavam em meios cômicos ou absurdos de transportar fictícios viajantes espaciais. Mas, as leis newtonianas do movimento e da gravitação, em conjunto com o fato do espaço ser um vácuo, indicavam que apenas uma forma de propulsão seria capaz de levar viajantes ao espaço – o foguete. Desenvolvidos como fogos de artifício e armas na China medieval, os foguetes contém o combustível necessário para sua propulsão, impulsionados por gases ejetados pelo seu escape. Embora o escritor francês Cyrano de Bergerae (1619-1655) tivesse sugerido no século XVII seu uso para alcançar a Lua, o primeiro a considerar seriamente as realidades da viagem espacial foi o professor da escola rural soviético Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), que desenvolveu muitos dos princípios dos foguetes de combustível líquido, de múltiplos estágios, publicando-os na década de 1890.

Lançamento

Os princípios dos foguetes estavam bem desenvolvidos no começo do século XX, mas ainda havia vários problemas para fazer do voo espacial uma realidade prática. O maior deles era a eficiência do combustível. O engenheiros estadunidense Robert Goddard concebeu a ideia de combustíveis líquidos mais eficientes e em 1926, lançou um foguete de 3m de comprimento impelido por oxigênio líquido e gasolina. As ideias de Goddard e Tsiolkovsky foram adotadas por entusiastas no mundo todo, inclusive pela Sociedade para a Viagem Espacial (VfR) da Alemanha. Durante a década de 1930, muitos dos cientistas da VfR foram recrutados pelo boverno nazistas para um programa militar que prosseguiu durante a Segunda Guerra Mundial. A culminação dos seus esforços, o míssil V2, chegou tarde demais para salvar a Alemanha da derrota, mas provou que armamentos à base de foguete eram o caminho do futuro.

A corrida espacial

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, as maiores potências desejavam a tecnologia de foguetes para si. A maioria dos cientistas fugiu para o Ocidente, mas a União Soviética capturou as fábricas das V2. As razões para tal interesse tornaram-se claras quando as relações internacionais rapidamente deterioraram e começou a Guerra Fria. Ambos acreditavam que mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) impulsionados por foguetes poderiam ser a resposta para lançar a arma final – a bomba nuclear. Foi neste contexto que os Estados Unidos e a União Soviética começaram seus programas espaciais. Ambos viram que a tecnologia de mísseis poderia ser utilizada para alcançar a órbita terrestre e reconheceram que esses lançamentos demonstrariam o poder de seus foguetes e renderiam grandes benefícios de propaganda.

Em órbita

No começo dos anos 1950 União Soviética e Estados Unidos anunciaram planos de lançar satélites durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-58. O programa soviético prosseguiu em sigilo, usando seus enormes mísseis R-7 como veículos de lançamentos, enquanto os cientistas estadunidenses passavam por escrutínio público. Os planos do cientista alemão Werher von Braun de lançar um satélite com o ICBM estadunidense Redstone foram engavetados a favor do programa de pesquisa espacial Vanguard da marinha estadunidense. Pouco antes da data de lançamento do Vanguard, em novembro de 1957, os soviéticos anunciaram em 4 de outubro do mesmo ano o lançamento bem sucedido do Sputnik I. As estações de rastreamento captaram sinais de rádio do satélite e confirmaram que a União Soviética tinha tomado a dianteira na corrida espacial. A humilhação estadunidense foi total quando, em 6 de dezembro, o lançamento do Vanguard terminou em uma explosão na plataforma de lançamento. O projeto de Von Braun foi imediatamente ressuscitado, e o primeiro satélite estadunidense, o Explorer I, entrou em órbita com êxito menos de dois meses mais tarde, em 31 de janeiro de 1958.

As missões Vostok

No final da década de 1950, o próximo grande passo da corrida espacial estava claro – qual das superpotências seria a primeira a colocar uma pessoa em órbita? Os soviéticos tinham uma óbvia vantagem de potência, já que o Sputnik II, o seu segundo satélite, pesava meia tonelada, e haviam conseguido enviar sondas além da vizinhança imediata da Terra. Em 12 de abril de 1961 fizeram um anúncio que surpreendeu o mundo: o Coronel Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espalho, a bordo da Vostok I. Gagarin retornou à Terra como herói da União Soviética, e o programa espacial estadunidense, agora gerenciado pela Nasa, de novo havia ficado para trás. As missões Vostok posteriores superaram novos limites e colocaram a primeira mulher no espaço, aumentaram os tempos em órbita e mantiveram mais de uma espaçonave simultaneamente em voo.

Projeto Mercury

A resposta da Nasa ao Vostok foi o programa Mercury, que lançou seis astronautas entre 1961 e 1963. Diferentemente do programa soviético os esforços estadunidenses foram conduzidos sob os holofotes da mídia. As cápsulas espaciais Mercury eram minúsculas e leves, parcialmente porque tinham que ser transportadas pelo pequeno veículo de lançamento Redstone nos primeiros voos. A Nasa estava desenvolvendo um novo lançador, o Atlas, mas os tests da cápsula deveriam começar antes do foguete maior estar pronto. Surpreendida pelo lançamento do Vostok I, a Nasa correu para retaliar e colocou seu primeiro homem no espaço em 5 de maior. Lançado em um foguete Redstone a missão Freedom 7, de Alan Shepard, não tinha velocidade suficiente para entrar em órbita, mas alcançou uma altura de 185 km durante um voo de 15 minutos. Após um segundo voo sub-orbital, o foguete Atlas foi completado no final de 1961. Seguindo um número de testes, John Glenn foi o primeiro estadunidense em órbita em 20 de fevereiro de 1962.

Próximos passos

Dispostos a manter sua liderança na corrida espacial, os soviéticos assumiam um grande risco. Os estadunidenses tinham anunciado suas missões planejadas de dois homens do Gemini e, em um esforço para ofusca-los de antemão, o diretor do programa espacial soviético, Korolev, planejava uma missão de três homens. Era um grande desafio, pois já havia sido iniciado um trabalho com as naves Soyuz visando alcançar a Lua. Finalmente, os engenheiros soviéticos chegaram a um engenhoso compromisso Voskhod era efetivamente uma cápsula Vostok modificada com espaço suficiente para levar três tripulantes. O voo da Voskhod I, em 12 de outubro de 1964, foi um sucesso, batendo a primeira missão tripulada Gemini por cinco meses. A Voskhod II, lançada alguns dias antes do primeiro teste de voo da Gemini foi um sucesso ainda maior. Durante o voo Alexei Leonov tornou-se a primeira pessoa a caminhar no espaço. Os soviéticos haviam desferido mais um espetacular golpe de propaganda.

Exploradores robôs

Enquanto o foco da atenção pública estava principalmente no programa espacial tripulado, uma segunda corrida espacial era mantida em paralelo – cujas consequências para nossa compressão do Sistema Solar. Cada superpotência tentava superar a outra nos “primeiros” passos da exploração de outros mundos. A exploração espacial robótica teve uma acidentada história inicial, com numerosas falhas, tanto nas plataformas de lançamento, enquanto, ou durante as tentativas de pouso. Porém houve alguns sucessos notáveis: em janeiro de 1959 a Lunik ou Luna I tornou-se o primeiro objeto a escapar da gravidade terrestre e entrar em órbita em torno do Sol; a Lunik II atingiu a Lua em setembro de 1959; a Lunik III registrou as primeiras imagens do lado oculto da Lua. A Pioneer V da Nasa foi a primeira sonda deliberadamente lançada ao espaço interplanetário, entrando em órita entre a terra e Vênus em 1960, enquanto as sondas estadunidenses Mariner II e IV venceram os soviéticos na corrida rumo a outros planetas, voando para Vênus e Marte em 1962 e 1965, respectivamente.

Viagens à Lua

As missões Apolo para a Lua frequentemente são descritas como uma grande conquista da técnica humana. Vastas quantidades de recursos humanos e financeiros foram investidos em um programa com motivações científicas e de propaganda. As missões revelaram muito sobre a Lua e seus imensos avanços tecnológicos remodelaram o mundo.

Um homem na Lua

Em 25 de maio de 1961 o presidente estadunidense John F. Kennedy fez um discurso que abalou o mundo. Em uma época em que os Estados Unidos ainda tinham que colocar um astronauta em órbita da Terra, ele prometeu que seu país levaria pessoas à Lua até o fim da década. A escala do empreendimento era monumental. Astronautas não haviam se aventurado a além de 300km da superfície terrestre, e agora Kennedy dava à Nasa a missão de enviá-los a uns 400.000km de distância, pousá-los na superfície de um mundo desconhecido e trazê-los de volta com segurança. Contudo, se isto fosse realizado, a mensagem seria que os Estados Unidos agora eram uma potência espacial. A Nasa imediatamente começou a investigar os meios de se pousar na Lua. A missão estabeleceu como objetivo usar o maior foguete já construído, projetado pelo cientista de foguetes alemão Wernher von Brauns, para enviar três naves conectadas rumo à Lua – somente uma delas retornaria à Terra. O nome, Apollo, o deus grego do Sol, foi sugerido pelo diretor de voos espaciais da Nasa. Dr. Abe Silvestein.

Projeto Gemini

Cada missão Apollo envolveria diversas operações de encontro, acoplamento e desacoplamento no espaço – operações que a Nasa e seus astronautas jamais haviam tentado antes. Apenas ir à Lua e voltar exigiria um mínimo de 7 dias. Para ganhar experiência em voos espaciais de longa duração e nas delicadas manobras necessárias no Apollo, a Nasa anunciou que o programa Mercury seria substituído pelo Projeto Gemini, uma série de missões de dois tripulantes. Houve 10 missões tripuladas Gemini, entre 1964 e 1966, diversas das quais envolviam encontros entre naves, caminhadas no espaço, e mesmo acoplamentos com veículos alvo não-tripulados. Agena. A espaçonave, composta de três módulos, também representava um grande avanço. Enquanto os dois astronautas permaneciam durante a missão dentro de um módulo de reentrada, apenas 50% maior que a cápsula Mercury, os suprimentos de água e ar, o equipamento elétrico e os experimentos eram mantidos principalmente em um módulo de serviço separado. Um terceiro módulo continha foguetes para manobrar a espaçonave em órbita e freá-la antes de sua reentrada.

Preparando o caminho

Um grande desafio para os planejadores da Apollo era a falta de conhecimento sobre a Lua. À época, pouco se conhecia sobra a história lunar, a natureza das suas crateras e as propriedades de sua superfície – pensava-se seriamente na possibilidade da superfície ser de um pó tão fino que a nave afundaria. Para responder estas questões, a Nasa planejou uma série de missões robóticas para fazer levantamentos detalhado da Lua incluindo pousos – tanto de colisão quanto suaves. As primeiras foram as naves Ranger, quatro das quais colidiram com a Lua entre 1961 e 1964. Pelas fotos retransmitidas à Terra, é inteiramente coberta por crateras, até nas menores escalas, o que indica uma origem por impacto. Em 1966 teve início uma segunda fase, com as naves Lunar Orbiter e surveyor. Os orbitadores fotografaram a Lua de perto, a cerca de 0 km, buscando locais interessantes para pousos tripulados, enquanto os Surveyor efetuaram uma série de pousos suaves, confirmando a firmeza da superfície lunar.

Apollo em órbita

No final de 1966, o programa Apollo estava avançando rápido. Os enormes foguetes Saturno V estavam em construção e as naves prontas para os testes. Porém, em janeiro de 1967, a tripulação da Apollo I morreu durante um incêndio na cápsula em um ensaio de lançamento. Como consequência as missões Apollo II e III foram canceladas, e as missões Apollo IV, V e VI foram convertidas em teses de lançamento não-tripulados. Somente em outubro de 1968 os astronautas retornaram ao espaço, com o lançamento da Apollo 7. Esta missão orbital foi logo seguida pela Apollo VIII. Lançada pela primeira vez pelo Saturno V a missão da nave foi alterada para incluir uma órbita ao redor da Lua no Natal, após rumores de que os soviéticos lançariam um veículo  tripulado para alcançar a Lua. O lançamento nunca aconteceu e, depois das Apollo IX e X, a Nasa estava finalmente pronta para tentar pousar na Lua.

O primeiro pouso na Lua

A Apolo XI partiu de Cabo Kennedy (agora Canaveral), na Flórida, em 16 de julho de 1969) e entrou em óribta lunar três dias depois. Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin então embarcaram no módulo lunar “Eagle” para a descida na superfície, enquanto Mihael Collins permanecia a bordo do módulo em comando e serviço (CSM) “Columbia” em órbita lunar. Eagle tocou seguramente uma planície de lava conhecida como o Mare Tranquilitatis (Mar da Tranquilidade) e, seis horas após o poso, Neil Armstrong deixou o módulo e desceu a escada, pisando a superfície das 2h56 do dia 20 de julho. Armstrong e Aldrin permaneceram na superfícia por 21 horas, realizando uma caminhada, durante a qual implantaram uma bandeira e uma placa comemorativa, conduziram diversos experimentos coletaram rochas, e telefonaram para o presidente estadunidense Richard Nixon.

Módulo lunar

O módulo lunar, com sua aparência frágil, era um elemento vital de cada missão Apollo. Como ele nunca voaria em uma atmosfera os projetistas tiveram a liberdade de dar-lhe uma forma estritamente funcional. Embora o módulo tivesse 9,5m de largura e 7m de altura, a cabine era tão apertada que os astronautas ficaram de pé durante o voo. O grande motor de foguete, embaixo da seção superior do módulo, era usado para frear a cápsula durante o pouso na Lua e, depois, fornecer o impulso para a decolagem da superfície lunar e injeção em órbita.

Missões posteriores

A Nasa havia originalmente planejado dez missões Apollo, mas apenas seis foram completadas. Embora a Apollo XII tenha sido um sucesso, a Apollo XIII ficou famosa pelo seu acidente, quando uma falha elétrica e perda de oxigênio, pela primeira vez colocaram uma tripulação da série em grave perigo. As últimas três Apollo levavam um jipe lunar, estendendo consideravelmente a área que os astronautas poderiam explorar. Redução no interesse público e cortes de verbas da Nasa levaram ao cancelamento das três últimas missões. Os estertores finais da Apollo foram a estação espacial Skylab, que usava um foguete Saturno V, e a missão Apollo-Soyuz, um encontro entre astronautas soviéticos e estadunidenses em órbita terrestre.

Lições científicas

As missões Apollo revelaram muito aos astrônomos sobre a química e história da Lua. As rochas coletadas ainda são estudadas em todo o mundo. O registro do bombardeamento da Lua e a datação por radioisótopos das amostras revelaram o período de intenso bombardeamento a modelou o Sistema Solar durante seu primeiro bilhão de anos. Embora os soviéticos nunca tenham tentado um pouso tripulado na Lua, colocaram uma série de jipes LunoKhod no satélite e trouxeram pequenas amostras de poeira para a Terra.

Em órbita da Terra

Embora muito do foco da exploração espacial tenha sido viagens a planeta e luas distantes, a grande maioria das missões não foi além da órbita terrestre. Em torno da Terra é que o advento do voo espacial teve maior impacto. Nossa vizinhança espacial agora está repleta de satélites, tanto com propósitos científicos como comerciais.

Estações espaciais

A União Sovietica mudou a direção do seu programa espacial no final da década de 1960, priorizando postos semipermanentes em órbita. As primeiras estações espaciais soviéticas, nos anos 1970, as Salyut, eram clilindros com 13m de comprimento e no máximo 4m de largura que abrigavam tripulações de três cosmonautas por diversas semanas em condições espartanas. Embora a corrida espacial tivesse se desacelerado, a Nasa ainda se sentia obrigada a competir e, em 1973, lançou a estação Skylab, que foi visitada por três tripulações separadas ao longo de um ano. Com isso, a Nasa manteve um breve recorde de permanência no espaço. Contudo, quando voltou suas atenções para o Space Shuttle, as estações espaciais foram deixadas para os soviéticos. As mais avançadas Salyut 6 e Salyut 7 eram muito maiores que suas antecessoras e podiam ser ampliadas por módulos lançados da Terra. Na metade na década de 1980, os cosmonautas permaneciam meses em órbita, conduzindo valiosos experimentos científicos.

Potencialidades do espaço

Além das razões políticas e científicas para a exploração espacial, as últimas décadas viram o surgimento para fins práticos. Empresas privadas e países menores conseguem agora lançar satélites e o mundo foi transformado pelos seus resultados. Os satélites de comunicações nasceram dos trabalhos de Arthur C. Clarke e outros, e radiotransmissores orbitais são os responsáveis pelo Global Positioning System (GPS), que permite aos usuários encontrar sua posição em qualquer parte da Terra com precisão de poucos metros. O potencial da observação da Terra desde sua órbita tornou-se claro quando os primeiros astronautas relataram avistar nitidamente acidentes geográficos – com grande surpresa para os controladores de solo. Hoje diversos satélites de observação da Terra circulam o globo, desde os climáticos que monitoram hemisférios inteiros, até os espiões, capazes de ver detalhes inferiores a 1m. Ainda mais sofisticados são os satélites de sensorialmente remoto. Monitorando a Terra em vários comprimentos de onda, reúnem imensas quantidades de informação sobre o solo, como a direção das correntes oceânicas, a localização de depósitos mineiras e a qualidade das plantações.

Observatórios orbitais

Muitas das grandes descobertas e imagens espetaculares do Universo distante provêm de satélites. A atmosfera terrestre representa um sério problema para os astrônomos, pois filtra a maioria da radiação eletromagnética. Contudo, um telescópio no espaço coloca problemas únicos. Não só eles devem ser controlados remotamente para retornar imagens à Terra, mas também devem operar em um ambiente hostil. As flutuações de extremas temperaturas entre a iluminação solar e a escuridão podem distorcer a delicada óptica do telescópio, visto que o instrumento todo se contrai e se dilata, e assim se exige um projeto engenhoso de isolamento. Mesmo assim, o tempo de operação em órbita é limitado. Além da energia fornecida pelas células solares, os satélites demandam combustível para se reorientar no espaço e agentes resfriadores para proteger sua delicada eletrônica.

Vôos tripulados

Desde as missões Apollo, o voo espacial tripulado continuou a se desenvolver. Apesar de duas tragédias de grande impacto, em 1986 e 2003, o Space Shuttle da Nasa, a primeira espaçonave reutilizável, transformou o voo espacial em uma atividade quase rotineira. Desde seu primeiro voo em 1980, os Shuttles completaram mais de 100 missões, levando experimentos, lançando satélites, e observando a Terra e o espaço. Enquanto isso, a União Soviética desenvolver o princípio da estação espacial modular, ampliável, como a Mir (1986-2001). Os plano da Nasa de um estação espacial permanente evoluíram para um enorme projeto internacional, e quando a Estação Espacial Internacional estiver completa, o Space Shuttle terá se aposentado após 25 anos de serviço. No momento, alguns países têm planos ambiciosos do retorno do homem à Lua como estala rumo a Marte.

Além da Terra

Embora os seres humanos não tenham ainda se aventurado além da Lua, as sondas espaciais automáticas mergulharam muito mais fundo. Exploradores robóticos visitaram todos os planetas e também pesquisaram dezenas de satélites em um conjunto de corpos menores. Durante suas jornadas, transformaram nossa visão do Sistema Solar, revelando outros mundos, quase tão complexos quanto a Terra.

Primeiros passos

A primeira sonda a deixar a influência da Terra e entrar em órbita própria ao redor do Sol foi a nave soviética Lunik I (Luna I), que, em 1959, errou seu alvo, a Lua, e se tornou por acidente a primeira sonda interplanetária. Logo seguiram-se esforços deliberados da Nasa, que, entre 1960 e 1968, lançou com sucesso as Pioneer 5 a 9 em órbitas entre a Terra e Vênus. Várias dessas naves alimentadas com energia solar ainda transmitem dados científicos. Assim como havia a corrida para colocar o homem no espaço, as superpotências da Guerra Fria competiam pelo primeiro lugar na chegada a outros planetas. Em dezembro de 1962, a Mariner 2 foi a primeira sonda a realizar um sobrevôo em Vênus, medindo a temperatura extremamente alta de sua superfície, e confirmando sua rotação anormalmente lenta. A Mariner 4 sobrevoou Marte em julho de 1965, medindo sua atmosfera e fotografando seus planaltos austrais com crateras.

O sistema solar interno

Como estão mais próximos do Sol, Mercúrio e Vênus viajam mais rápidos que a Terra. Assim, a sonda deve ganhar velocidade para entrar em suas órbitas. Contudo, algumas naves superaram este desafio técnico e visitaram Vênus nos anos seguintes ao primeiro sobrevoo. Diversas sondas soviéticas tentaram o pouso na superfície hostil, apenas para serem destruídas durante a reentrada. Em 1967, Venera 4, equipada com blindagem semelhante a um tanque, enviou com êxito sinais para a Terra. Foi somente oito anos mais tarde que a Venera 9 retornou as primeiras imagens da superfície venusiana. Tanto a Nasa como os soviéticos lançaram orbitadores para fazer levantamentos do planeta desde o espaço. Em 1978, a missão Pioneer Orbiter mapeou o planeta com radar e lançou sondas atmosféricas. Em 1989, o Magellan, um orbitador da Nasa equipado com um sofisticado radar, deu início ao estudo por quatro anos do planeta, com detalhes sem precedentes. A velocidade orbital de Mercúrio representa um problema maior: até agora [2008], apenas a Mariner 10 e a Messenger o visitaram.

Perto de Marte

Os primeiros sobrevoos de Marte foram sucessos notáveis, porém não no que se refere aos trajetos de seus voos. Três sondas estadunidenses retornaram imagens de 10% da superfície marciana, mas perderam toda a evidência de vulcanismo e de água que fazem o fascínio do planeta. A sorte da Nasa mudou em 1971, quando a Mariner 9 tornou-se a primeira nave a orbitar Marte, conduzindo um levantamento fotográfico que revelou o sistema de Valles Marineris, os altíssimos vulcões da região de Tharsis, e os primeiros sinais de cânios com erosão por água. Com o redespertar do interesse pelo Planeta Vermelho, a Nasa lançou a Marte as duas naves gêmeas da missão Viking, cada uma com um lander (módulo de pouso) e um orbitador. Os orbitadores forneceram imagens e dados climáticos da superfície, além de conduzirem vários experimentos detalhados, incluindo um controverso teste de vida microbiana.

O grand tour

Os anos 1970 apresentaram uma rara oportunidade: um alinhamento de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno permitiria a uma nave viajar de um planeta a outro, usando o efeito de “estilingue gravitacional”. O chamando Grand tour levaria pouco mais que uma década. Em 1977, a Nasa lançou a Voyager 1 e 2, inicialmente tendo como alvo apenas Júpiter e Saturno. A Voyager passou por Júpiter em março de 1979 e por Saturno em novembro de 1980, fazendo a primeira aproximação rasante da sua Titã. A Voyager 2 a seguiu poucos meses depois, e, como a Voyager 1 havia completado sua missão, os cientistas da Nasa decidiram ativar seu plano de reserva, lançando sua segunda sonda ao redor de Saturno rumo a Urano, alcançando em 1986, e a Netuno, em 1989. Esta missão extremamente bem sucedida nos ofereceu os primeiros vislumbres desses gigantes exteriores gelados, de suas luas e de seus anéis. Ambas naves ainda estão viajando, além de Plutão, nos confins do sistema solar [Atualmente – 2019 –, já saíram do Sistema Solar].

Exploradores em Marte

Apesar dos sucessos dos lander Viking, as sondas não retornaram a Marte até o final da década de 1990, seguindo uma série de fracassadas missões estadunidenses e soviéticas. Em 1997, a Mars Global Surveyor da Nasa entrou em órbita em torno do planeta, equipada com câmeras de última geração, enquanto um lander, o Mars Pathfinder, liberou o jipe robô Sojourner, que coletou rochas e solo. Seguiram-se muitas outras naves, e a cada nova descoberta, a possibilidade de vida em Marte tornou-se mais plausível. Vários satélites artificiais estão em órbita ao redor do planeta, usando técnicas de sensoriamente remoto para sondar o subolo marciano. Os jipes de exploração marciana, Spirit e Opportunity descobriram evidências inegáveis sobre oceanos extensos no passado marciano. Novas missões como a Phoenix, traçam a história da água em Marte e a possibilidade de vida no planeta.

Entre as luas de Júpiter

Os sobrevoos das Voyagers sobre as enormes luas de Júpiter revelaram que elas eram mundos fascinantes merecedores de uma inspeção mais de perto. A sonda Galileo, destinada a orbitar Júpiter, foi lançada em 1989, mas somente chegou ao destino em 1995. E os resultados valeram a espera. O orbitador fez o sobrevoo rasante de um asteroide durante seu curso, e librou uma sonda na atmosfera de Júpiter, antes de começar uma missão que ultrapassaria todas as expectativas. A Galileo estudou os vulcões de Io e o sistema climático de Júpiter, enquanto deu apoio a evidência de um oceano debaixo da crosta de gelo de Europa e nas luas jovianas exteriores Ganimedes e Calisto.

Cassini e além

A Galileo foi seguida por uma missão ainda mais ambiciosa para Saturno. A Cassini, uma enorme sonda pesando 5,6 toneladas, foi lançada em 1997. Depois de uma complexa jornada durante a qual sobrevoou duas vezes Vênus e uma vez a Terra e tomou impulso em Júpiter, finalmente chegou a Saturno em 2004. A bordo havia o lander europeu Huygens, que desceu de paraquedas na atmosfera de Titã em janeiro de 2005 enviando imagens durante seu pouso e revelando um mundo no qual o metano líquido parece desempenhar o mesmo papel que a água na Terra. Cassini continuou a monitorar Saturno e a fazer voos rasantes sobre muitos dos satélites fascinantes e variados do planeta. Desse modo abrirá caminho para futuras missões orbitais ainda mais ousadas, com ao Prometheus (antes o Orbitador das Luas Geladas de Júpiter), uma nave impulsionada à energia nuclear projetada para estudar as luas de Júpiter em detalhes sem precedentes. A Prometheus será a primeira de uma nova geração de naves espaciais nucleares que abrirá o Sistema Solar a uma exploração mais rápida e ainda mais profunda.

Cometas e asteroides

Embora a maior parte das sondas tivesse os planetas como alvos os cientistas não esqueceram os corpos menores do Sistema Solar. Cometas e asteroides virtualmente inalterados desde sua formação, há 4,5 bilhões de anos, contêm indícios fascinantes sobre a criação do Sistema Solar e mesmo sobre a origem da vida. Em 1985 e 1986, quando o Cometa Halley passou novamente pelas proximidades do Sol, uma flotilha de naves dirigiu-se ao seu encontro. O NEAR (Near Earth Asteroid Rendezvous) sobrevoou o asteroide Mathilde do Cinturão principal em 1997, antes de monitorar o grande asteroide Eros por um ano. Seguiram-se missões mais ambiciosas. A Stardust, da Nasa, recolheu poeira da cauda do cometa Wild 2 em 2004, para trazer à Terra; a missão europeia Rosetta pela primeira vez colocou um lander em um cometa; e a New Horizon sobrevoará Plutão [Chegou em 2016], antes explorando o cinturão de Kuiper, o berço de muitos cometas.

O futuro do homem no espaço

É inevitável que naves tripuladas um dia se aventurem pelas profundezas do Sistema Solar. China, Rússia e Estados Unidos têm planos para um retorno à Lua, e os estadunidenses também consideram a possibilidade de uma missão a Marte. Embora possam ser abandonados, esses planos serão substituídos por outros, e no meio tempo os cientistas espaciais terão reunido os conhecimentos necessários para tornar a viagem espacial de longa duração uma realidade. A Rússia ganhou uma experiência única de microgravidade prolongada com as missões na estação espacial Mir, e a tripulação da Estação Espacial Internacional é uma fonte preciosa de informações em medicina espacial. Por outro lado, experimentos em solo, como a Biosfera 2, fornecem informações úteis sobre como os astronautas poderiam produzir seu próprio alimento, água e oxigênio em outros planetas e como uma tripulação isolada enfrentaria o confinamento em uma nave por muitos meses.

Sistema Solar
+
Tópicos
Filosofia
SEÇÕES
FILOSOFIAS
Solilóquios de Marco Aurélio - Livro VI

1. A substância do conjunto universal é dócil e maleável. E a razão que a governa não tem em si nenhum motivo para fazer mal, pois não tem maldade, e nem faz mal algum nem nada recebe mal daquela. Tudo se origina e chega a seu fim de acordo com ela.

2. Seja indiferente para ti passar frio ou calor, se cumpres com teu dever, passar a noite em vigia ou saciar-te de dormir, ser criticado ou elogiado, morrer ou fazer outra coisa. Pois uma das ações da vida é também aquela pela qual morremos. Assim, basta também para este ato “dispor bem o presente” .

3. Olhe o interior; que de nenhuma coisa te escape nem sua peculiar qualidade nem seu mérito.

4. Todas as coisas que existem rapidamente serão transformadas e, ou evaporarão, se a substância é uma, ou se dispersarão.

5. A razão que governa sabe como se encontra, o que faz e sobre qual matéria. 

6. A melhor maneira de defender-te é não te assemelhar a eles.

7. Regozija-te e repouse em uma só coisa: em passar de uma ação útil à sociedade a outra ação útil à sociedade, tendo sempre Deus presente.

8. O guia interior é o que desperta a si mesmo, que se gira e se faz a si mesmo com quer, e faz que todo acontecimento lhe pareça tal como ele quer.

9. Todas e cada uma das coisas chegam ao seu fim de acordo com a natureza do conjunto, e não segundo outra natureza que abarque o mundo exteriormente, ou esteja incluída em seu interior, ou esteja desvinculada no exterior.

10. Barulho, entrelaçamento e dispersão, ou bem união, ordem e providência. Se efetivamente é o primeiro, por qual desejo demorar minha estância em uma mistura azarada e confusão? E por que terá importância outra coisa que não seja saber como “converter-me um dia em terra?”. E por que perturbar-me? Pois a dispersão me alcançará, faça o que faça. E se é o segundo, venero, persisto e confio no que governa.

11. Sempre que te vejas obrigado pelas circunstancias a sentir-te confuso, retorne a ti mesmo rapidamente e não te desvies fora de teu ritmo mais do que o necessário. Pois serás mais dono da harmonia graças a teu contínuo retomá-la.

12. Se tivesses simultaneamente uma madrasta e uma mãe, atenderias àquela, mas, contudo, as visitas a tua mãe seriam contínuas. Isso tu tens agora: o palácio e a filosofia. Assim, pois, retorne frequentemente a ela e nela repouse; graças a esta, as coisas de lá te parecem suportáveis e tu és suportável entre eles.

13. Assim como se tem um conceito das carnes e peixes e comestíveis semelhantes, sabendo que isso é um cadáver de peixe, aquele cadáver de um pássaro ou de um porco; e também que o Falerno é suco de uva, e a toga pretexta lã de ovelha tingida com sangue de marisco; e em relação ao ato sexual, que é uma fricção do intestino e uma ejaculação acompanhada de certa convulsão. Como, de fato, esses conceitos alcançam seus objetos e penetram em seu interior, de modo que se pode ver o que são! Assim, é preciso agir ao longo da vida inteira, e quando as coisas te derem a impressão de serem dignas de crédito em excesso, analise-as e observe seu nulo valor, e despoje-as da ficção, pela qual se vangloriam. Pois o orgulho é um terrível enganador da razão, e quando pensas ocupar-te principalmente das coisas sérias, então, ainda assim, te enganas. Olhe, por exemplo, o que diz Crates sobre o próprio Xenócrates.

14. A maior parte das coisas que o vulgo admira se referem às mais gerais, às constituídas por uma espécie de ser ou natureza: pedras, madeira, figueiras, vinhas e oliveiras. As pessoas um pouco mais comedidas tendem a admirar os seres animados, como os rebanhos de vacas, ovelhas ou, simplesmente, a propriedade de escravos. E as pessoas ainda mais agraciadas, as coisas realizadas pelo espírito racional, mas não o universal, e sim aquele que tanto é hábil nas artes ou engenhoso de outras maneiras (ou simplesmente capaz de adquirir multidão de escravos). Mas o que honra a alma racional universal e social não direciona seu olhar a nenhuma das demais coisas, e diante de tudo, procure conservar sua alma em disposição e movimento em acordo com a razão e o bem comum, e colabore com seu semelhante para alcançar esse objetivo.

15. Coloque sempre seu empenho em chegar a ser algumas coisas, em outras coloque seu afã em persistir, mas uma parte do que chega a ser já se extinguiu. Fluxos e alterações renovam incessantemente o mundo, assim como o passo ininterrupto do tempo proporciona sempre nova a eternidade infinita. Em meio a esse rio, sobre o qual não é possível deter-se, que coisa entre as que passam correndo poderiam ser estimadas? Como se alguém começasse a se apaixonar pelas aves que voam ao nosso redor, e logo desaparecem diante de nossos olhos. Tal é de certa forma a vida de cada um, como a exalação do sangue e a inspiração do ar. Pois, assim como o inspirar uma vez o ar e expulsá-lo, coisa que fazemos a cada momento, também é devolver ali, de onde retiraste pela primeira vez, toda a faculdade respiratória, que tu adquiriste ontem ou anteontem, recém chegado ao mundo.

16. Nem é valoroso transpirar como as plantas, nem respirar como o gado e as feras, nem ser impressionado pela imaginação, nem ser movido como uma marionete pelos impulsos, nem agrupar-se como rebanhos, nem alimentar-se; pois isso é semelhante à evacuação das sobras de comida. O que vale à pena, então? Ser aplaudido? Não. Assim, tampouco ser aplaudido pelo bater de línguas, porque os elogios do vulgo são bater de línguas. Portanto, renunciaste também à vangloria. O que sobra como digno de estima? Opino que o mover-se e manter-se de acordo com a própria constituição, fim ao qual conduzem as ocupações e as artes. Porque toda arte aponta para esse objetivo, para que a coisa constituída seja adequada à obra que motivou sua constituição. E tanto o homem que se ocupa do cultivo da vinha, como o domador de cavalos, e o que adestra cães, perseguem esse resultado. E a que objetivo tendem com afinco os métodos de educação e ensino? A vista está, pois, o que é digno de estima. E se nisso tens êxito, nenhuma outra coisa te preocupará. E não deixarás de estimar muitas outras coisas? Então nem serás livre, nem te bastarás a ti mesmo, nem estarás isento de paixões. Será necessário que invejes, tenhas ciúme, receies os que possam tirar-lhe os seus bens, e terás necessidade de conspirar contra os que têm o que tu estimas. Em resumo, forçosamente a pessoa que sente falta de alguns daqueles bens estará perturbada e, além disso, censurará muitas vezes aos deuses. Mas o respeito e a estima ao teu próprio pensamento farão de ti um homem satisfeito contigo mesmo, perfeitamente adaptado aos que convivem ao teu lado e em concordância com os deuses, isso é, um homem que louva o que lhe foi concedido e designado.

17. Para cima, para baixo, em círculo, são os movimentos dos elementos. Mas o movimento da virtude não se encontra em nenhum desses, mas é algo um tanto divino e segue seu curso favorável por um caminho difícil de conceber.

18. Curiosa atuação! Não querem falar bem dos homens de seu tempo e que vivem ao seu lado, e, em troca, têm em grande estima serem elogiados pelas gerações vindouras, a quem nunca viram nem verão. Isso vem a ser como se te afligisses, porque teus antepassados não tiveram para ti palavras de elogio.

19. Não penses, se algo te resulta difícil e doloroso, que isso seja impossível para o homem; antes bem, se algo é possível e natural ao homem, pense que também está ao teu alcance.

20. Nos exercícios dos ginásios, alguém nos arranhou com suas unhas e nos feriu com uma cabeçada. Entretanto, nem o colocamos de manifesto, nem nos incomodamos, nem suspeitamos mais tarde dele como conspirador. Mas sim, certamente, nos colocamos em guarda, mas não como se fosse um inimigo, nem com receio, mas esquivando-o benevolamente. Algo parecido ocorre nas demais conjunturas da vida. Deixemos de lado muitos receios mútuos dos que nos exercitamos como nos ginásios. Porque é possível, como dizia, evitá-los sem mostrar receio nem aversão.

21. Se alguém pode refutar-me e provar de modo conclusivo que penso ou procedo incorretamente, de bom grado mudarei minha forma de agir. Pois persigo a verdade, que nunca prejudicou ninguém; ao contrario, sim se prejudica o que persiste em seu próprio engano e ignorância.

22. Eu, pessoalmente, faço o que devo; o demais não me atrai, porque é algo que carece de vida, ou de razão, ou anda extraviado e desconhece o caminho.

23. Aos animais irracionais e, em geral, às coisas e aos objetos submetidos aos sentidos, que carecem de razão, tu, posto que estás dotado de entendimento, trate-os com magnanimidade e liberalidade; mas aos homens, como dotados de razão, trate-os ademais sociavelmente.

24. Alexandre, da Macedonia e seu tropeiro, uma vez mortos, encontram-se em uma mesma situação; pois, ou foram reabsorvidos pelas razões geradoras do mundo ou foram igualmente desagregados em átomos.

25. Perceba quantas coisas, no mesmo lapso de tempo, brevíssimo, brotam simultaneamente em cada um de nós, tanto corporais como espirituais. E assim não te surpreenderás de que muitas coisas, mais ainda, todos os acontecimentos da vida residam ao mesmo tempo no ser único e universal, que chamamos mundo.

26. Se alguém te faz a pergunta de como se escreve o nome de Antonino, não soletrarias cada uma de suas letras? E no caso de que se aborrecessem, replicarias tu também te aborrecendo? Não seguirias enumerando tranquilamente cada uma das letras? Da mesma forma, também aqui, considere que todo dever se cumpre mediante certos cálculos. É preciso olhá-los com atenção sem perturbar-se nem incomodar-se com os que se incomodam, e cumprir metodicamente o proposto.

27. Quão cruel é não permitir aos homens que dirijam seus impulsos ao que lhes parece apropriado e conveniente! E o certo é que, de algum modo, não estás de acordo em que façam isso, sempre que te aborreces com eles por suas falhas. Porque se mostram absolutamente arrastados ao que consideram apropriado e conveniente para si. “Mas não é assim”. Consequentemente, esclareça-os e demonstre a eles, mas sem irritar-se.

28. A morte é o descanso da reação sensitiva, do impulso instintivo que nos move como fantoches, da evolução do pensamento, do tributo que nos impõe a carne.

29. É vergonhoso que, no decorrer de uma vida na qual teu corpo não desfalece, neste desfaleça primeiramente tua alma.

30. Cuidado! Não te convertas em um César, não te manches sequer, porque costuma ocorrer. Mantenha-te, portanto, simples, bom, puro, respeitável, sem arrogância, amigo do justo, piedoso, benévolo, afável, firme no cumprimento do dever. Lute por conservar-te tal qual a filosofia quis fazer-te. Respeite os deuses, ajude a salvar os homens. Breve é a vida. O único fruto da vida terrena é uma piedosa disposição e atos úteis à comunidade. Em tudo, proceda como discípulo de Antonino; sua constância em agir conforme a razão, sua equanimidade em tudo, a serenidade de seu rosto, a ausência nele de vangloria, seu afa no que se refere à compreensão das coisas. E lembra-te de como não haveria omitido absolutamente nada sem uma profunda análise prévia e sem uma compreensão com clareza; e como suportava sem replicar os que lhe censuravam injustamente; e como não tinha presa por nada; e como não aceitava as calúnias; e como era escrupuloso indagador dos costumes e dos feitos; mas não era insolente, nem lhe atemorizava a agitação, nem era desconfiado, nem charlatão. E como tinha bastante com pouco, para sua casa, por exemplo, para seu leito, para sua vestimenta, para sua alimentação, para seu serviço; e como era diligente e amistoso; e capaz de permanecer na mesma tarefa até o entardecer, graças à sua dieta frugal, sem ter necessidade de evacuar os resíduos fora da hora de costume; e sua firmeza e uniformidade na amizade; e sua capacidade de suportar aos que se opunham sinceramente a suas opiniões e de alegrar-se, se alguém lhe mostrava algo melhor; e como era respeitoso com os deuses sem superstição, para que assim te surpreendas, como a ele, a última hora com boa consciência.

31. Retorna a ti e reanima-te, e uma vez que tenhas saído de teu sonho e tenhas compreendido que te perturbavam pesadelos, novamente desperto, olhe essas coisas como olhavas aquelas.

32. Sou um composto de alma e corpo. Portanto, para o corpo tudo é indiferente, pois não é capaz de distinguir; mas ao espírito lhe são indiferentes quantas atividades não lhe são próprias, e, em troca, quantas atividades lhe são próprias, todas elas estão sob seu domínio. E, apesar disso, somente a atividade presente lhe preocupa, pois suas atividades futuras e passadas lhe são também, desde este momento, indiferentes.

33. Não é contrario à natureza nem o trabalho da mão nem tampouco o do pé, desde que o pé cumpra a tarefa própria do pé, e a mão, a da mão. Do mesmo modo, pois, tampouco é contrario à natureza o trabalho do homem, como homem, desde que cumpra a tarefa própria do homem. E, se não é contrário à sua natureza, tampouco lhe é nocivo.

34. Que classe de prazeres desfrutaram bandidos, lascivos, parricidas, tiranos!

35. Não vês como os artesãos se colocam de acordo, até certo ponto, com os profanos, mas não deixam de cumprir as regras de seu ofício e não aceitam renunciar a ele? Não é surpreendente que o arquiteto e o médico respeitem mais a razão de seu próprio ofício que o homem a sua própria, que compartilha com os deuses?

36. Asia, Europa, cantos do mundo; o mar inteiro, uma gota de água; o Atos, um pequeno monte do mundo; todo o tempo presente, um instante da eternidade; tudo é pequeno, mutável, passageiro. Tudo procede de lá, arrancando daquele princípio norteador ou derivando dele. Assim, a boca do leão, o veneno e tudo o que faz mal, como as espinhas, como o lodo, são parte daquelas coisas veneráveis e belas. Não te imagines, pois, que essas coisas são alheias a aquele a quem tu veneras; mas antes, reflita sobre a fonte de todas as coisas.

37. Quem viu o presente, tudo viu: a saber, quantas coisas surgiram desde a eternidade e quantas coisas permanecerão até o infinito. Pois tudo tem uma mesma origem e um mesmo aspecto.

38. Medite com frequência sobre a conexão de todas as coisas existentes no mundo e em sua mútua relação. Pois, de certa forma, todas as coisas se entrelaçam umas com as outras e todas, nesse sentido, são amigas entre si; pois uma está à continuação da outra devido ao movimento ordenado, do hábito comum e da unidade da substância.

39. Amolda-te às coisas nas quais tens sorte; e aos homens com os quais tens de conviver, ame-os, mas de verdade.

40. Um instrumento, uma ferramenta, um objeto qualquer, se realiza o trabalho para o qual foi construído, é bom; ainda que esteja fora dali o que os construiu. Mas tratando-se das coisas que se mantêm unidas por natureza, em seu interior reside e persiste o poder construtor; por essa razão é preciso ter um respeito especial por ele e considerar, caso te comportes e procedas de acordo com seu propósito, que todas as coisas ocorrem segundo a inteligência. Assim também ao Todo suas coisas ocorrem conforme a inteligência.

 41. Em qualquer coisa das alheias a tua livre vontade, que consideres boa ou má para ti, é inevitável que, segundo a evolução de tal dano ou da perda de semelhante bem, censures os deuses e odeies os homens como responsáveis de tua queda ou privação, ou como suspeitos de sê-lo. Também nós cometemos muitas injustiças devido às diferenças em relação a essas coisas. Mas no caso de que julguemos bom e mau unicamente o que depende de nós, nenhum motivo nos resta para culpar os deuses nem para manter uma atitude hostil frente aos homens.

42. Todos nós colaboramos para o cumprimento de um só fim, uns consciente e Consequentemente, outros sem sabê-lo; como Heráclito, creio, diz que, inclusive os que dormem, são operários e colaboradores do que acontece no mundo. Um colabora de uma maneira, outro de outra, e inclusive, por acréscimo, o que critica e tenta se opor e destruir o que faz. Porque também o mundo tinha necessidade de gente assim. Em conseqüência, pense com quem formarás partido adiante. Pois o que governa o conjunto do universo te dará um trato estupendo em tudo e te acolherá em certo posto entre seus colaboradores e pessoas dispostas a colaborar. Mas não ocupes um posto tal, como o vulgo e ridículo da tragédia que recorda Crisipo.

43. Acaso o sol acha justo fazer o que é próprio da chuva? Acaso Esculápio o que é próprio da deusa, portadora dos frutos? E o que dizer de cada um dos astros? Não são diferentes e, entretanto, cooperam na mesma tarefa?

44. Se, efetivamente, os deuses deliberaram sobre mim e sobre o que deve me acontecer, bem deliberaram; porque não é tarefa fácil conceber um deus sem decisão. E por qual razão iriam desejar causar-me dano? Qual seria seu ganho ou da comunidade, que é sua máxima preocupação? E se não deliberaram em particular sobre mim, sim, ao menos, o fizeram profundamente sobre o bem comum, e dado que essas coisas me acontecem por conseqüência com este, devo abraçá-las e amá-las. Mas se é certo que sobre nada deliberam (dar crédito a isso é impiedade; não façamos sacrifícios, nem súplicas, nem juramentos, nem os demais ritos que todos e cada um fazem na idéia de que vão destinados a deuses presentes e que convivem com nós), se é certo que sobre nada do que nos concerne deliberam, então me é possível deliberar sobre mim mesmo e indagar sobre minha conveniência. E a cada um lhe convém o que está de acordo co sua constituição e natureza, e minha natureza é racional e sociável. Minha cidade e minha pátria, enquanto Marco Aurélio, é Roma, mas enquanto homem, é o mundo. Em conseqüência, o que beneficia a essas cidades é meu único bem.

45. O que acontece a cada um importa ao conjunto. Isso deveria ser suficiente. Mas ademais, en geral, verás, se percebeste atentamente, que o que é útil a um homem, o é também a outros homens. Aceite agora “a utilidade” na acepção mais comum, aplicada às coisas indiferentes.

46. Assim como os jogos do anfiteatro e de lugares semelhantes te inspiram repugnância, pelo fato de que sempre as mesmas coisas são vistas, e a uniformidade faz o espetáculo fastidioso, assim também ocorre ao considerar a vida em seu conjunto; porque todas as coisas, de cima para baixo, são as mesmas e procedem das mesmas. Até quando, pois?

47. Medite sem cessar na morte de homens de todas as classes, de todo tipo de profissões e de toda sorte de raças. De maneira que podes descender nessa enumeração até Filístio, Febo e Origânio. Passe agora aos outros tipos de gente. E preciso, pois, que nos desloquemos para lá, para onde se encontra tão grande número de hábeis oradores, tantos filósofos e veneráveis: Heráclito, Pitágoras, Sócrates, tantos heróis com anterioridade, e, depois, tantos generais, tiranos. E, além desses, Eudóxio, Hiparco, Arquimedes, outras naturezas agudas, magnânimos, diligentes, trabalhadores, ridicularizadores da mesma vida humana, mortal e efêmera, como Menipo, e todos os de sua classe. Medite sobre todos esses que há tempo nos deixaram. O que há nisso, pois, de terrível para eles? E c que há de terrível para os que de nenhuma forma são nomeados? Uma só coisa vale à pena: passar a vida em companhia da verdade e da justiça, benévolo com os mentirosos e com os injustos.

48. Sempre que queiras alegrar-te, pense nos méritos dos que vivem contigo, por exemplo, a energia no trabalho de um, a discrição de outro, a liberalidade de um terceiro e qualquer outra qualidade de outro. Porque nada produz tanta satisfação como os exemplos das virtudes, ao manifestarem-se no caráter dos que vivem conosco e ao serem agrupadas na medida do possível. Por essa razão devem ser tidas sempre à mão.

49. Ficas incomodado por pesar tantas libras e não trezentas? Da mesma forma, também, porque deves viver um número determinado de anos e não mais. Porque assim como te contentas com a parte de substância que te foi designada, assim também com o tempo.

50. Tente persuadi-los; mas aja, inclusive contra a sua vontade, sempre que a razão da justiça o imponha. Entretanto, se alguém se opuser fazendo uso de alguma violência, mude para a complacência e para o bom trato, sirva-te dessa dificuldade para outra virtude e tenha presente que com discrição te movias, que não pretendias coisas impossíveis. Qual era, pois, tua pretensão? Alcançar tal impulso em certa maneira. E o consegues. Aquelas coisas às quais nos movemos, chegam a concretizar-se.

51. O que ama a fama considera bem próprio a atividade alheia; o que ama o prazer, seu próprio apreço; o homem inteligente, ao contrario, sua própria atividade.

52. Cabe a possibilidade, no que concerne a isso, de não haver conjectura alguma e de não turbar a alma; pois as coisas, por si mesmas, não têm uma natureza capaz de criar nossos juízos.

53. Acostuma-te a não estar distraído ao que diz outro, e inclusive, na medida de tuas possibilidades, adentre a alma do que fala.

54. O que não beneficia a colméia, tampouco beneficia a abelha.

55. Se os marinheiros insultassem seu piloto ou os enfermos o médico, se dedicariam a outra coisa além de colocar em prática os meios para salvar a tripulação, o primeiro, e para curar os que estão sob tratamento, o segundo?

56. Quanto, em companhia dos quais entrei no mundo, já partiram!

57. Aos ictéricos lhes parece amargo o mel; aos que foram mordidos por um cachorro raivoso são hidrófobos, e os pequenos gostam da bola. Por que, pois, aborrecer-te? Parece-te menos poderoso o erro que a bílis no ictérico e o veneno no homem mordido por um animal raivoso?

58. Ninguém te impedirá de viver segundo a razão de tua própria natureza; nada te ocorrerá contra a razão da natureza comum.

59. Quem são aqueles a quem quer agradar! E por quais ganhos, e graças a quais procedimentos! Quão rapidamente o tempo sepultará todas as coisas e quantas já sepultou!

Estoicismo

FILÓSOFOS
+
Filosofias
Escolas filosóficas
Períodos filosóficos
TEXTOS
Solilóquios de Marco Aurélio - Livro VII

1. O que é a maldade? É o que tens visto muitas vezes. E a propósito de tudo o que acontece, tenhas presente que isso é o que tens visto muitas vezes. Em resumo, de baixo para cima, encontrarás as mesmas coisas, das que estão cheias as histórias, as antigas, as médias e as contemporâneas, das quais estão cheias agora as cidades e as casas. Nada novo; tudo é habitual e efêmero.

2. As máximas vivem. Como, de outro modo, poderiam morrer, a não ser que se extinguissem as imagens que lhes correspondem? Em tuas mãos está reavivá-las constantemente. Posso, em relação a isso, conceber que é preciso. E se, como é natural, posso, por que perturbar-me? O que está fora, de minha inteligência nenhuma relação tem com a inteligência. Aprenda isso e estarás no que é correto. É possível reviver. Olhe novamente as coisas como as tens visto, pois nisso consiste o reviver.

3. Vão desejo à pompa, representações em cena, rebanhos de gado menor e maior, lutas com lança, ossos jogados aos cães, migalhas destinadas aos viveiros de peixes, fatigas e colônias de formigas, idas e voltas de ratos assustados, fantoches movidos por fios. Convém, pois, presenciar esses espetáculos benevolamente e sem rebeldia, mas seguir e observar com atenção que o mérito de cada um é tanto maior quanto meritória é a tarefa objeto de seus alas.

4. É preciso seguir, palavra por palavra, o que se diz, e, em todo impulso, seu resultado; e, no segundo caso, ver diretamente a que objetivo aponta a tentativa; e no primeiro, velar por seu significado.

5. Minha inteligência é suficiente para isso ou não? Se é suficiente, sirvo-me dela para esta ação como se fosse um instrumento concedido pela natureza do conjunto universal. Mas se não me basta, cedo a obra a quem seja capaz de cumpri-la melhor, a não ser, por outro lado, que isso seja de minha incumbência, ou bem coloco as mãos à obra como possa, com a colaboração da pessoa capaz de fazer, com a ajuda do meu guia interior, o que nesse momento é oportuno e benéfico à comunidade. Porque o que estou fazendo por mim mesmo, ou em colaboração com outro, deve tender, exclusivamente, ao benefício e à boa harmonia com a comunidade.

6. Quantos homens, que foram muito celebrados, caíram já no esquecimento! E quantos homens que os celebraram já há tempos partiram?

7. Não sintas vergonha de ser socorrido. Pois está estabelecido que cumpras a tarefa imposta como um soldado no assalto a uma muralha. Que farias, pois, se, vítima de ferimentos na perna, não pudesses tu somente escalar as fortalezas e, em troca, isso te fosse possível com ajuda de outro?

8. Não te inquiete o futuro; pois irás a seu encontro, se for preciso, com a mesma razão que agora utilizas para as coisas presentes.

 9. Todas as coisas se encontram entre si e seu comum vínculo é sagrado e quase nenhuma é estranha à outra, porque todas estão coordenadas e contribuem à ordem do mesmo mundo. Que um é o mundo, composto de todas as coisas; um é deus que se estende através de todas elas, única a substância, única a lei, uma só razão comum de todos os seres inteligentes, uma também a verdade, porque também uma é a perfeição dos seres do mesmo gênero e dos seres que participam da mesma razão.

10. Tudo o que é material se desvanece rapidamente na substância do conjunto universal; toda causa se funde rapidamente na razão do conjunto universal; a lembrança de todas as coisas fica em um instante sepultada na eternidade.

11. Para o ser racional o mesmo ato está de acordo com a natureza e com a razão.

12. Direito ou endireitado.

13. Como existem os membros do corpo nos indivíduos, também os seres racionais foram constituídos, por esse motivo, para uma idêntica colaboração, ainda que em seres diferentes. E mais te ocorrerá esse pensamento se muitas vezes fizer essa reflexão contigo mesmo. Sou um membro do sistema constituído por seres racionais. Mas se dissesses que és parte, com a mudança da letra “R”, não amas ainda de coração os homens, ainda não te alegras integramente de fazer-lhes favores; mais ainda, se o fazes simplesmente como um dever, significa que ainda não compreendes que fazes um bem a ti mesmo.

14. Aconteça exteriormente o que se queira aos que estão expostos a serem afetados por este acidente. Pois aqueles, se querem, se queixarão de seus sofrimentos; mas eu, se não imagino que o acontecido é um mal, ainda não sofri dano algum. E de mim depende não imaginá-lo.

15. Digam ou façam o que queiram, meu dever é ser bom. Como se o ouro, a esmeralda ou a púrpura dissessem sempre isso: “Façam ou digam o que queiram, meu dever é ser esmeralda e conservar minha própria cor”.

16. Meu guia interior não se altera por si mesmo; quero dizer, não se assusta nem se aflige. E se algum outro é capaz de assustá-lo ou afligi-lo, que o faça. Pois ele, por si mesmo, não se moverá conscientemente a semelhantes alterações. Preocupe-se o corpo, se pode, de não sofrer nada. E se sofre, manifeste-o. Também o espírito animal, que se assusta, que se aflige. Mas o que, em resumo, pensa sobre essas considerações, não há nenhum temor que sofra, pois sua condição não lhe impulsionará a um juízo semelhante. O guia interior, por sua mesma condição, carece de necessidade, a não ser que as crie, e por isso mesmo não tem tribulações nem obstáculos, a não ser que se perturbe e se ponha obstáculos a si mesmo.

17. A felicidade é um bom numenou um bom “espírito familiar”. Que fazes, pois, aqui, ó imaginação? Vá, pelos deuses, como vieste! Não te necessito. Vieste segundo teu antigo costume. Não me aborreço contigo; unicamente, vá.

18. A mudança é temida? E que pode acontecer sem mudança? Existe algo mais querido e familiar à natureza do conjunto universal? Poderias tu mesmo lavar-te com água quente, se a lenha não se transformasse? Poderias alimentar-te se os alimentos não se transformassem? E outra coisa qualquer entre as úteis, poderia cumprir-se sem transformação? Não percebes, pois, que tua própria transformação é algo similar e igualmente necessária à natureza do conjunto universal?

19. Pela substância do conjunto universal, como através de uma torrente, cooperam todos os corpos, naturais e colaboradores do conjunto universal, como nossos membros entre si. Quantos Crisipos, quantos Sócrates, quantos Epítetos absorveu já o tempo! Idêntico pensamento tenhas tu em relação a todo tipo de homem e a todas as coisas.

20. Apenas uma coisa me inquieta: o temor de que faça algo que minha constituição de homem não quer, ou da maneira que não quer, ou o que agora não quer.

21. Próximo está seu esquecimento de tudo, próximo também o esquecimento de tudo em relação a ti.

22. Próprio do homem é amar inclusive os que tropeçam. E isso se consegue quando pensas que são teus familiares e que pecam por ignorância e contra sua vontade e que, dentro de pouco tempo, ambos estarão mortos e que, ante tudo, não te prejudicou, posto que não fez o teu guia interior pior do que era antes.

23. A natureza do conjunto universal, valendo-se da substância do conjunto universal, como de uma cera, modelou agora um potro; depois, o fundiu e utilizou sua matéria para formar um arbusto, depois, um homenzinho, e mais tarde outra coisa. E cada um desses seres subsistiu por pouquíssimo tempo. Mas não é nenhum mal um cofre ser desmontado nem tampouco ser montado.

24. O semblante rancoroso é demasiado contrário à natureza. Quando se afeta reiteradamente, sua beleza morre e finalmente se extingue, de maneira que torna-se impossível reavivá-la. Tente, ao menos, ser consciente disso, na convicção de que é contrário à razão. Porque se desaparece a compreensão do agir mal, que motivo para seguir vivendo nos sobra?

25. Tudo quanto vês, enquanto ainda não é, será transformado pela natureza que governa o conjunto universal, e outras coisas fará de sua substância, e ao mesmo tempo outras da substância daquela, a fim de que o mundo sempre rejuvenesça.

26. Cada vez que alguém cometa uma falta contra ti, medite sobre que conceito do mal ou do bem tinha ao cometer dita falta. Porque, uma vez que tenhas examinado isso, terás compaixão dele e nem te surpreenderás, nem te irritarás com ele. Já que compreenderás tu também o mesmo conceito do bem que ele, ou outro similar. Em consequência, é preciso que lhe perdoemos. Mas ainda se não chegues a compartilhar com seu conceito do bem e do mal, serás mais facilmente benévolo com seu extravio.

27. Não imagines as coisas ausentes como já presentes; antes, selecione dentre as presentes as mais favoráveis, e, à vista disso, lembre-se como as buscarias, se não estivessem presentes. Mas ao mesmo tempo tenha precaução, não deixes que, por comprazer-te a tal ponto em seu prazer, habitua-te a subestimá-las, de maneira que, se alguma vez não estivessem presentes, pudesses sentir-te inquieto.

28. Recolha-te em ti mesmo. O guia interior racional pode, por natureza, bastar-se a si mesmo praticando a justiça e, segundo essa prática, conservando a calma.

29. Apague a imaginação. Detenha o impulso de marionete. Circunscreva-te ao momento presente. Compreenda o que te acontece ou a outro. Divida e separe o objeto dado em seu aspecto causal e material. Pense em tua hora posterior. A falta cometida por aquele, deixe-a ali onde se originou.

30. Compare o pensamento com as palavras. Submerge teu pensamento nos acontecimentos e nas causas que o produziram.

31. Faça resplandecer em ti a simplicidade, o pudor e a indiferença no relativo ao que é intermediário entre a virtude e o vício. Ame o gênero humano. Siga a Deus. Aquele diz: “tudo é convencional, e em realidade só existem os elementos”. E basta lembrar que nem todas as coisas são convencionais, mas poucas.

32. Sobre a morte: ou dispersão, se existem átomos; ou extinção ou mudança, se existe unidade.

33. Sobre a dor: o que é insuportável mata, o que se prolonga é tolerável. E a inteligência, retirando-se, conserva sua calma e não aja em detrimento do guia interior. E em relação às partes danificadas pela dor, se há alguma possibilidade, manifestem-se sobre o particular.

34. Sobre a fama: examine quais são seus pensamentos, quais coisas evitam e quais perseguem. E que, assim como as dunas ao amontoar-se uma sobre outras ocultam as primeiras, assim também na vida os acontecimentos anteriores são rapidamente encobertos pelos posteriores.

35. E a aquele pensamento que, cheio de grandeza, alcança a contemplação de todo tempo e de toda essência, crês que lhe parece grande coisa a vida humana? Impossível, disse. Então, tampouco tal homem considerará terrível a morte? De forma alguma.

36. “Cabe ao rei fazer o bem e receber calúnias”.

37. É vergonhoso que o semblante aceite acomodar-se e alienar-se como ordena a inteligência, e que, em troca, ela seja incapaz de acomodar-se e seguir sua linha.

38. “Não devemos nos irritar com as coisas, pois a elas nada lhes importa”.

39. “Oxalá pudesses dar motivos de regozijo aos deuses imortais e a nós!”.

40. “Ceifar a vida, tal como uma espiga madura, e que um exista e o outro não”.

41. “Se os deuses me esqueceram e esqueceram meus dois filhos, também isso tem sua razão”. 

42. “O bem e a justiça estão comigo”.

43. Não associar-se a suas lamentações, nem a seus estremecimentos.

44. “Mas eu te responderia com esta justa razão: estás equivocado, amigo, se pensas que um homem deve calcular o risco de viver ou morrer, inclusive sendo insignificante a sua valia, e, em troca, pensas que não deve examinar, quando age, se são justas ou não suas ações e próprias de um homem bom ou mau”.

45. “Assim é, atenienses, em verdade. Onde quer que um esteja por considerar que é o melhor ou no posto que seja designado pelo general, ali deve, no meu entender, permanecer e correr risco, sem ter em conta em absoluto nem a morte nem nenhuma outra coisa com preferência à infâmia”.

46. Porque não deve o homem que valorize sê-lo preocupar-se com a duração da vida, tampouco deve ter excessivo apego a ela, mas confiar à divindade esses cuidados e dar crédito às mulheres quando afirmam que ninguém poderia evitar o destino. A obrigação que lhe incumbe é examinar de que modo, durante o tempo que viverá, poderá viver melhor.

47. Contemple o curso dos astros, como se tu evoluísses com ele, e considere sem cessar as transformações mútuas dos elementos. Porque esses pensamentos purificam a vida das sujeiras da vida terrena.

48. Belo o texto de Platão: “preciso é que quem faz discursos sobre os homens examine também o que acontece na terra, como do alto de um monte: manadas de tribunais, regiões desertas, populações bárbaras diversas, festas, trovões, reuniões públicas, toda a mistura e a conjunção harmoniosa procedente dos contrários”.

49. Com a observação dos acontecimentos passados e de tantas transformações que se produzem agora, também o futuro é possível prever. Porque inteiramente igual será seu aspecto e não será possível sair do ritmo dos acontecimentos atuais. Em consequência, ter investigado a vida humana durante quarenta anos ou durante dez mil é a mesma coisa. Pois, o que mais verás?

50. “O que nasceu da terra à terra retorna; o que germinou de uma semente etérea volta novamente à abóboda celeste”. Ou também isso: dissolução dos entrelaçamentos nos átomos e dispersão semelhante dos elementos impassíveis.

51. “Com manjares, bebidas e feitiços, tratando de desviar o curso, para não morrer”. “É forçoso suportar o sopro do vento impulsionado pelos deuses entre sofrimentos sem lamentos”.

52. É melhor lutador; mas não mais generoso com os cidadãos, nem mais reservado, nem mais disciplinado nos acontecimentos, nem mais benévolo cornos menosprezados dos vizinhos.

53. Quando pode cumprir-se uma tarefa de acordo com a razão comum aos deuses e aos homens, nada há que temer ali. Quando é possível obter um beneficio graças a uma atividade bem embasada e que progrida de acordo com sua constituição, nenhum prejuízo deve suspeitar-se ali.

54. Em toda parte e continuamente, de ti depende estar piedosamente satisfeito com a presente conjectura, comportar-te com justiça com os homens presentes e colocar toda tua arte ao serviço da impressão presente, a fim de que nada se infiltre em ti de maneira imperceptível.

55. Não direciones seu olhar para guias interiores alheios, antes, dirija seu olhar diretamente ao ponto aonde te conduz a natureza do conjunto universal por meio dos acontecimentos que te sucedem, e a tua própria pelas obrigações que te exige. Cada um deve fazer o que corresponde a sua constituição. Os demais seres foram constituídos por causas dos seres racionais e, em toda outra coisa, os seres inferiores por causas dos superiores, mas os seres racionais foram constituídos para ajudarem-se mutuamente. Em consequência, o que prevalece na constituição humana é a sociabilidade. Em segundo lugar, a resistência às paixões corporais, pois é próprio do movimento racional e intelectual demarcar limites e não ser derrotado nunca nem pelo sensitivo nem pelo instintivo. Pois ambos são de natureza animal, enquanto que o movimento intelectual quer prevalecer e não ser subjugado por aqueles. Em terceiro lugar, na constituição racional não ocorre a precipitação nem a possibilidade de engano. Assim, que o guia interior, que possui essas virtudes, cumpra sua tarefa com retidão, e possua o que lhe pertence.

56. Como homem que já morreu e que não viveu até hoje, deves passar o resto de tua vida de acordo com a natureza.

57. Amar unicamente o que te acontece e o que é traçado pelo destino. Pois, o que pode adaptar-se melhor a ti?

58. Em cada acontecimento, conservar ante os olhos aqueles aos quais lhes aconteciam as mesmas coisas, e logo se afligiam, se estranhavam, censuravam. E agora, onde estão aqueles? Em nenhuma parte. O que, então? Queres proceder de igual modo? Não queres deixar estas atitudes estranhas aos que as provocam e as sofrem, e aplicar-te inteiramente a pensar como servir-te dos acontecimentos? Os aproveitarás bem e terás matéria. Preste atenção e seja teu único desejo ser bom em tudo o que faças. E tenha presente estas máximas: o que importa são os atos, não os resultados.

59. Cave em teu interior. Dentro se encontra a fonte do bem, e é uma fonte capaz de brotar continuamente, se não deixas de escavar.

60. É preciso que o corpo fique solidamente fixo e não se distorça, nem no movimento nem no repouso. Porque do mesmo modo que a inteligência se manifesta em certa maneira no rosto, conservando-se sempre harmonioso e agradável à vista, assim também deve exigir-se no corpo inteiro. Mas todas essas precauções devem ser observadas sem afetação.

61. A arte de viver assemelha-se mais à luta que à dança no que se refere a estar firmemente disposto a fazer frente aos acidentes, inclusive imprevistos.

62. Considere sem interrupção quem são esses dos quais desejas que contribuam com seu testemunho, e quais guias interiores têm; pois, nem censurarás aos que tropeçam involuntariamente, nem terás necessidade de seu testemunho, se diriges teu olhar às fontes de suas opiniões e de seus instintos.

63. “Toda alma, afirmam, se vê privada contra sua vontade da verdade”. Igualmente também da justiça, da prudência, da benevolência e de toda virtude semelhante. E é bastante necessário que o tenhas presente em todo momento, pois serás mais condescendente com todos”.

64. Em qualquer caso de dor, reflita: não é indecoroso nem tampouco deteriorará a inteligência que me governa; pois não a destrói, nem no aspecto racional, nem no aspecto social. Nas maiores dores, entretanto, lembra-te da máxima de Epicuro: nem é insuportável a dor, nem eterna, se te lembras de teus limites e não imaginas além da conta. Lembra-te também de que muitas coisas, que são o mesmo que a dor, nos incomodam e não percebemos, assim, por exemplo, a sonolência, o calor exagerado, a inaptidão. Depois, sempre que te aborreças com alguma dessas coisas, diga para ti mesmo: cedi à dor.

65. Cuide de não experimentar com os homens não-humanos algo parecido ao que estes experimentam em relação aos homens.

66. De onde sabemos se Telauges não tinha melhor disposição que Sócrates? Pois não basta o fato de que Sócrates tenha morrido com mais glória nem que tenha dialogado com os sofistas com muito mais habilidade nem que tenha passado toda a noite sobre gelo mais pacientemente nem que, havendo recebido a ordem de prender Salaminio, tenha decidido opor-se com maior coragem, nem que tenha congregado tanta gente pelas ruas. Sobre o que não se sabe precisamente nem se é certo. Mas é preciso examinar o seguinte: que tipo de alma tinha Sócrates e se podia conformar-se com ser justo nas relações com os homens e piedoso em suas relações com os deuses, sem indignar-se com a maldade, sem tampouco ser escravo da ignorância de ninguém, sem aceitar como coisa estranha nada do que era designado pelo conjunto universal ou resistir a ela como insuportável, sem tampouco dar ocasião a sua inteligência a consentir nas paixões da carne.

67. A natureza não te misturou com o composto de tal modo, que não te permitisse fixar-te uns limites e fazer o que te incumbe e é tua obrigação. Porque é possível em demasia converter-te em homem divino e não ser reconhecido por ninguém. Tenha sempre presente isso e ainda mais o que direi: em muito pouco radica a vida feliz. E não porque tenhas escassa confiança em chegar a ser um dialético ou um físico, renuncies com base nisso a ser livre, modesto, sociável e obediente a Deus.

68. Passa a vida sem violências em meio do maior júbilo, ainda que todos clamem contra ti as maldições que queiram, ainda que as feras despedacem os pobres membros dessa massa pastosa que te circunda e sustenta. Porque, o que impede que, no meio de tudo isso, tua inteligência se conserve calma, tenha um juízo verdadeiro do que acontece em torno de ti e esteja disposta a fazer uso do que está ao seu alcance? De maneira que eu juízo possa dizer ao que aconteça: “Tu, és isso em essência, ainda que te mostres diferente em aparências”. E teu uso possa dizer ao que aconteça: “Te buscava. Pois para mim o presente é sempre matéria de virtude racional, social e, em resumo, matéria da arte humana ou divina”. Porque tudo o que acontece se faz familiar a Deus ou ao homem, e nem é novo nemé difícil de manejar, mas conhecido e fácil de manejar.

69. A perfeição moral consiste nisso: em passar cada dia como se fosse o último, sem convulsões, sem entorpecimentos, sem hipocrisias.

70. Os deuses, que são imortais, não se irritam pelo fato de que durante tão longo período de tempo devam suportar de um modo ou outro, repetidamente, os malvados, que são de tais características e tão numerosos. Mas ainda, preocupam-se com eles de muitas maneiras diferentes. E tu, que quase estás a ponto de terminar, renuncias, e isso sendo tu um dos malvados?

71. É ridículo não tentar evitar tua própria maldade, o que é possível, e, em troca, tentar evitar a dos demais, o que é impossível.

72. O que a faculdade racional e sociável encontra desprovido de inteligência e sociabilidade, com muita razão o julga inferior a si mesma.

73. Quando tenhas feito um favor e outro o tenha recebido, que terceira coisa ainda continuas buscando, como os ignorantes?

74. Ninguém se cansa de receber favores, e a ação de favorecer está de acordo com a natureza. Não te canses, pois, de receber favores ao mesmo tempo em que tu o fazes.

75. A natureza universal empreendeu a criação do mundo. E agora, ou tudo o que acontece se produz por consequência, ou é irracional inclusive o mais sobressalente, objetivo ao qual o guia do mundo dirige seu impulso próprio. A lembrança desse pensamento te fará em muitos aspectos mais sereno.

Estoicismo
Solilóquios de Marco Aurélio - Livro VI

1. A substância do conjunto universal é dócil e maleável. E a razão que a governa não tem em si nenhum motivo para fazer mal, pois não tem maldade, e nem faz mal algum nem nada recebe mal daquela. Tudo se origina e chega a seu fim de acordo com ela.

2. Seja indiferente para ti passar frio ou calor, se cumpres com teu dever, passar a noite em vigia ou saciar-te de dormir, ser criticado ou elogiado, morrer ou fazer outra coisa. Pois uma das ações da vida é também aquela pela qual morremos. Assim, basta também para este ato “dispor bem o presente” .

3. Olhe o interior; que de nenhuma coisa te escape nem sua peculiar qualidade nem seu mérito.

4. Todas as coisas que existem rapidamente serão transformadas e, ou evaporarão, se a substância é uma, ou se dispersarão.

5. A razão que governa sabe como se encontra, o que faz e sobre qual matéria. 

6. A melhor maneira de defender-te é não te assemelhar a eles.

7. Regozija-te e repouse em uma só coisa: em passar de uma ação útil à sociedade a outra ação útil à sociedade, tendo sempre Deus presente.

8. O guia interior é o que desperta a si mesmo, que se gira e se faz a si mesmo com quer, e faz que todo acontecimento lhe pareça tal como ele quer.

9. Todas e cada uma das coisas chegam ao seu fim de acordo com a natureza do conjunto, e não segundo outra natureza que abarque o mundo exteriormente, ou esteja incluída em seu interior, ou esteja desvinculada no exterior.

10. Barulho, entrelaçamento e dispersão, ou bem união, ordem e providência. Se efetivamente é o primeiro, por qual desejo demorar minha estância em uma mistura azarada e confusão? E por que terá importância outra coisa que não seja saber como “converter-me um dia em terra?”. E por que perturbar-me? Pois a dispersão me alcançará, faça o que faça. E se é o segundo, venero, persisto e confio no que governa.

11. Sempre que te vejas obrigado pelas circunstancias a sentir-te confuso, retorne a ti mesmo rapidamente e não te desvies fora de teu ritmo mais do que o necessário. Pois serás mais dono da harmonia graças a teu contínuo retomá-la.

12. Se tivesses simultaneamente uma madrasta e uma mãe, atenderias àquela, mas, contudo, as visitas a tua mãe seriam contínuas. Isso tu tens agora: o palácio e a filosofia. Assim, pois, retorne frequentemente a ela e nela repouse; graças a esta, as coisas de lá te parecem suportáveis e tu és suportável entre eles.

13. Assim como se tem um conceito das carnes e peixes e comestíveis semelhantes, sabendo que isso é um cadáver de peixe, aquele cadáver de um pássaro ou de um porco; e também que o Falerno é suco de uva, e a toga pretexta lã de ovelha tingida com sangue de marisco; e em relação ao ato sexual, que é uma fricção do intestino e uma ejaculação acompanhada de certa convulsão. Como, de fato, esses conceitos alcançam seus objetos e penetram em seu interior, de modo que se pode ver o que são! Assim, é preciso agir ao longo da vida inteira, e quando as coisas te derem a impressão de serem dignas de crédito em excesso, analise-as e observe seu nulo valor, e despoje-as da ficção, pela qual se vangloriam. Pois o orgulho é um terrível enganador da razão, e quando pensas ocupar-te principalmente das coisas sérias, então, ainda assim, te enganas. Olhe, por exemplo, o que diz Crates sobre o próprio Xenócrates.

14. A maior parte das coisas que o vulgo admira se referem às mais gerais, às constituídas por uma espécie de ser ou natureza: pedras, madeira, figueiras, vinhas e oliveiras. As pessoas um pouco mais comedidas tendem a admirar os seres animados, como os rebanhos de vacas, ovelhas ou, simplesmente, a propriedade de escravos. E as pessoas ainda mais agraciadas, as coisas realizadas pelo espírito racional, mas não o universal, e sim aquele que tanto é hábil nas artes ou engenhoso de outras maneiras (ou simplesmente capaz de adquirir multidão de escravos). Mas o que honra a alma racional universal e social não direciona seu olhar a nenhuma das demais coisas, e diante de tudo, procure conservar sua alma em disposição e movimento em acordo com a razão e o bem comum, e colabore com seu semelhante para alcançar esse objetivo.

15. Coloque sempre seu empenho em chegar a ser algumas coisas, em outras coloque seu afã em persistir, mas uma parte do que chega a ser já se extinguiu. Fluxos e alterações renovam incessantemente o mundo, assim como o passo ininterrupto do tempo proporciona sempre nova a eternidade infinita. Em meio a esse rio, sobre o qual não é possível deter-se, que coisa entre as que passam correndo poderiam ser estimadas? Como se alguém começasse a se apaixonar pelas aves que voam ao nosso redor, e logo desaparecem diante de nossos olhos. Tal é de certa forma a vida de cada um, como a exalação do sangue e a inspiração do ar. Pois, assim como o inspirar uma vez o ar e expulsá-lo, coisa que fazemos a cada momento, também é devolver ali, de onde retiraste pela primeira vez, toda a faculdade respiratória, que tu adquiriste ontem ou anteontem, recém chegado ao mundo.

16. Nem é valoroso transpirar como as plantas, nem respirar como o gado e as feras, nem ser impressionado pela imaginação, nem ser movido como uma marionete pelos impulsos, nem agrupar-se como rebanhos, nem alimentar-se; pois isso é semelhante à evacuação das sobras de comida. O que vale à pena, então? Ser aplaudido? Não. Assim, tampouco ser aplaudido pelo bater de línguas, porque os elogios do vulgo são bater de línguas. Portanto, renunciaste também à vangloria. O que sobra como digno de estima? Opino que o mover-se e manter-se de acordo com a própria constituição, fim ao qual conduzem as ocupações e as artes. Porque toda arte aponta para esse objetivo, para que a coisa constituída seja adequada à obra que motivou sua constituição. E tanto o homem que se ocupa do cultivo da vinha, como o domador de cavalos, e o que adestra cães, perseguem esse resultado. E a que objetivo tendem com afinco os métodos de educação e ensino? A vista está, pois, o que é digno de estima. E se nisso tens êxito, nenhuma outra coisa te preocupará. E não deixarás de estimar muitas outras coisas? Então nem serás livre, nem te bastarás a ti mesmo, nem estarás isento de paixões. Será necessário que invejes, tenhas ciúme, receies os que possam tirar-lhe os seus bens, e terás necessidade de conspirar contra os que têm o que tu estimas. Em resumo, forçosamente a pessoa que sente falta de alguns daqueles bens estará perturbada e, além disso, censurará muitas vezes aos deuses. Mas o respeito e a estima ao teu próprio pensamento farão de ti um homem satisfeito contigo mesmo, perfeitamente adaptado aos que convivem ao teu lado e em concordância com os deuses, isso é, um homem que louva o que lhe foi concedido e designado.

17. Para cima, para baixo, em círculo, são os movimentos dos elementos. Mas o movimento da virtude não se encontra em nenhum desses, mas é algo um tanto divino e segue seu curso favorável por um caminho difícil de conceber.

18. Curiosa atuação! Não querem falar bem dos homens de seu tempo e que vivem ao seu lado, e, em troca, têm em grande estima serem elogiados pelas gerações vindouras, a quem nunca viram nem verão. Isso vem a ser como se te afligisses, porque teus antepassados não tiveram para ti palavras de elogio.

19. Não penses, se algo te resulta difícil e doloroso, que isso seja impossível para o homem; antes bem, se algo é possível e natural ao homem, pense que também está ao teu alcance.

20. Nos exercícios dos ginásios, alguém nos arranhou com suas unhas e nos feriu com uma cabeçada. Entretanto, nem o colocamos de manifesto, nem nos incomodamos, nem suspeitamos mais tarde dele como conspirador. Mas sim, certamente, nos colocamos em guarda, mas não como se fosse um inimigo, nem com receio, mas esquivando-o benevolamente. Algo parecido ocorre nas demais conjunturas da vida. Deixemos de lado muitos receios mútuos dos que nos exercitamos como nos ginásios. Porque é possível, como dizia, evitá-los sem mostrar receio nem aversão.

21. Se alguém pode refutar-me e provar de modo conclusivo que penso ou procedo incorretamente, de bom grado mudarei minha forma de agir. Pois persigo a verdade, que nunca prejudicou ninguém; ao contrario, sim se prejudica o que persiste em seu próprio engano e ignorância.

22. Eu, pessoalmente, faço o que devo; o demais não me atrai, porque é algo que carece de vida, ou de razão, ou anda extraviado e desconhece o caminho.

23. Aos animais irracionais e, em geral, às coisas e aos objetos submetidos aos sentidos, que carecem de razão, tu, posto que estás dotado de entendimento, trate-os com magnanimidade e liberalidade; mas aos homens, como dotados de razão, trate-os ademais sociavelmente.

24. Alexandre, da Macedonia e seu tropeiro, uma vez mortos, encontram-se em uma mesma situação; pois, ou foram reabsorvidos pelas razões geradoras do mundo ou foram igualmente desagregados em átomos.

25. Perceba quantas coisas, no mesmo lapso de tempo, brevíssimo, brotam simultaneamente em cada um de nós, tanto corporais como espirituais. E assim não te surpreenderás de que muitas coisas, mais ainda, todos os acontecimentos da vida residam ao mesmo tempo no ser único e universal, que chamamos mundo.

26. Se alguém te faz a pergunta de como se escreve o nome de Antonino, não soletrarias cada uma de suas letras? E no caso de que se aborrecessem, replicarias tu também te aborrecendo? Não seguirias enumerando tranquilamente cada uma das letras? Da mesma forma, também aqui, considere que todo dever se cumpre mediante certos cálculos. É preciso olhá-los com atenção sem perturbar-se nem incomodar-se com os que se incomodam, e cumprir metodicamente o proposto.

27. Quão cruel é não permitir aos homens que dirijam seus impulsos ao que lhes parece apropriado e conveniente! E o certo é que, de algum modo, não estás de acordo em que façam isso, sempre que te aborreces com eles por suas falhas. Porque se mostram absolutamente arrastados ao que consideram apropriado e conveniente para si. “Mas não é assim”. Consequentemente, esclareça-os e demonstre a eles, mas sem irritar-se.

28. A morte é o descanso da reação sensitiva, do impulso instintivo que nos move como fantoches, da evolução do pensamento, do tributo que nos impõe a carne.

29. É vergonhoso que, no decorrer de uma vida na qual teu corpo não desfalece, neste desfaleça primeiramente tua alma.

30. Cuidado! Não te convertas em um César, não te manches sequer, porque costuma ocorrer. Mantenha-te, portanto, simples, bom, puro, respeitável, sem arrogância, amigo do justo, piedoso, benévolo, afável, firme no cumprimento do dever. Lute por conservar-te tal qual a filosofia quis fazer-te. Respeite os deuses, ajude a salvar os homens. Breve é a vida. O único fruto da vida terrena é uma piedosa disposição e atos úteis à comunidade. Em tudo, proceda como discípulo de Antonino; sua constância em agir conforme a razão, sua equanimidade em tudo, a serenidade de seu rosto, a ausência nele de vangloria, seu afa no que se refere à compreensão das coisas. E lembra-te de como não haveria omitido absolutamente nada sem uma profunda análise prévia e sem uma compreensão com clareza; e como suportava sem replicar os que lhe censuravam injustamente; e como não tinha presa por nada; e como não aceitava as calúnias; e como era escrupuloso indagador dos costumes e dos feitos; mas não era insolente, nem lhe atemorizava a agitação, nem era desconfiado, nem charlatão. E como tinha bastante com pouco, para sua casa, por exemplo, para seu leito, para sua vestimenta, para sua alimentação, para seu serviço; e como era diligente e amistoso; e capaz de permanecer na mesma tarefa até o entardecer, graças à sua dieta frugal, sem ter necessidade de evacuar os resíduos fora da hora de costume; e sua firmeza e uniformidade na amizade; e sua capacidade de suportar aos que se opunham sinceramente a suas opiniões e de alegrar-se, se alguém lhe mostrava algo melhor; e como era respeitoso com os deuses sem superstição, para que assim te surpreendas, como a ele, a última hora com boa consciência.

31. Retorna a ti e reanima-te, e uma vez que tenhas saído de teu sonho e tenhas compreendido que te perturbavam pesadelos, novamente desperto, olhe essas coisas como olhavas aquelas.

32. Sou um composto de alma e corpo. Portanto, para o corpo tudo é indiferente, pois não é capaz de distinguir; mas ao espírito lhe são indiferentes quantas atividades não lhe são próprias, e, em troca, quantas atividades lhe são próprias, todas elas estão sob seu domínio. E, apesar disso, somente a atividade presente lhe preocupa, pois suas atividades futuras e passadas lhe são também, desde este momento, indiferentes.

33. Não é contrario à natureza nem o trabalho da mão nem tampouco o do pé, desde que o pé cumpra a tarefa própria do pé, e a mão, a da mão. Do mesmo modo, pois, tampouco é contrario à natureza o trabalho do homem, como homem, desde que cumpra a tarefa própria do homem. E, se não é contrário à sua natureza, tampouco lhe é nocivo.

34. Que classe de prazeres desfrutaram bandidos, lascivos, parricidas, tiranos!

35. Não vês como os artesãos se colocam de acordo, até certo ponto, com os profanos, mas não deixam de cumprir as regras de seu ofício e não aceitam renunciar a ele? Não é surpreendente que o arquiteto e o médico respeitem mais a razão de seu próprio ofício que o homem a sua própria, que compartilha com os deuses?

36. Asia, Europa, cantos do mundo; o mar inteiro, uma gota de água; o Atos, um pequeno monte do mundo; todo o tempo presente, um instante da eternidade; tudo é pequeno, mutável, passageiro. Tudo procede de lá, arrancando daquele princípio norteador ou derivando dele. Assim, a boca do leão, o veneno e tudo o que faz mal, como as espinhas, como o lodo, são parte daquelas coisas veneráveis e belas. Não te imagines, pois, que essas coisas são alheias a aquele a quem tu veneras; mas antes, reflita sobre a fonte de todas as coisas.

37. Quem viu o presente, tudo viu: a saber, quantas coisas surgiram desde a eternidade e quantas coisas permanecerão até o infinito. Pois tudo tem uma mesma origem e um mesmo aspecto.

38. Medite com frequência sobre a conexão de todas as coisas existentes no mundo e em sua mútua relação. Pois, de certa forma, todas as coisas se entrelaçam umas com as outras e todas, nesse sentido, são amigas entre si; pois uma está à continuação da outra devido ao movimento ordenado, do hábito comum e da unidade da substância.

39. Amolda-te às coisas nas quais tens sorte; e aos homens com os quais tens de conviver, ame-os, mas de verdade.

40. Um instrumento, uma ferramenta, um objeto qualquer, se realiza o trabalho para o qual foi construído, é bom; ainda que esteja fora dali o que os construiu. Mas tratando-se das coisas que se mantêm unidas por natureza, em seu interior reside e persiste o poder construtor; por essa razão é preciso ter um respeito especial por ele e considerar, caso te comportes e procedas de acordo com seu propósito, que todas as coisas ocorrem segundo a inteligência. Assim também ao Todo suas coisas ocorrem conforme a inteligência.

 41. Em qualquer coisa das alheias a tua livre vontade, que consideres boa ou má para ti, é inevitável que, segundo a evolução de tal dano ou da perda de semelhante bem, censures os deuses e odeies os homens como responsáveis de tua queda ou privação, ou como suspeitos de sê-lo. Também nós cometemos muitas injustiças devido às diferenças em relação a essas coisas. Mas no caso de que julguemos bom e mau unicamente o que depende de nós, nenhum motivo nos resta para culpar os deuses nem para manter uma atitude hostil frente aos homens.

42. Todos nós colaboramos para o cumprimento de um só fim, uns consciente e Consequentemente, outros sem sabê-lo; como Heráclito, creio, diz que, inclusive os que dormem, são operários e colaboradores do que acontece no mundo. Um colabora de uma maneira, outro de outra, e inclusive, por acréscimo, o que critica e tenta se opor e destruir o que faz. Porque também o mundo tinha necessidade de gente assim. Em conseqüência, pense com quem formarás partido adiante. Pois o que governa o conjunto do universo te dará um trato estupendo em tudo e te acolherá em certo posto entre seus colaboradores e pessoas dispostas a colaborar. Mas não ocupes um posto tal, como o vulgo e ridículo da tragédia que recorda Crisipo.

43. Acaso o sol acha justo fazer o que é próprio da chuva? Acaso Esculápio o que é próprio da deusa, portadora dos frutos? E o que dizer de cada um dos astros? Não são diferentes e, entretanto, cooperam na mesma tarefa?

44. Se, efetivamente, os deuses deliberaram sobre mim e sobre o que deve me acontecer, bem deliberaram; porque não é tarefa fácil conceber um deus sem decisão. E por qual razão iriam desejar causar-me dano? Qual seria seu ganho ou da comunidade, que é sua máxima preocupação? E se não deliberaram em particular sobre mim, sim, ao menos, o fizeram profundamente sobre o bem comum, e dado que essas coisas me acontecem por conseqüência com este, devo abraçá-las e amá-las. Mas se é certo que sobre nada deliberam (dar crédito a isso é impiedade; não façamos sacrifícios, nem súplicas, nem juramentos, nem os demais ritos que todos e cada um fazem na idéia de que vão destinados a deuses presentes e que convivem com nós), se é certo que sobre nada do que nos concerne deliberam, então me é possível deliberar sobre mim mesmo e indagar sobre minha conveniência. E a cada um lhe convém o que está de acordo co sua constituição e natureza, e minha natureza é racional e sociável. Minha cidade e minha pátria, enquanto Marco Aurélio, é Roma, mas enquanto homem, é o mundo. Em conseqüência, o que beneficia a essas cidades é meu único bem.

45. O que acontece a cada um importa ao conjunto. Isso deveria ser suficiente. Mas ademais, en geral, verás, se percebeste atentamente, que o que é útil a um homem, o é também a outros homens. Aceite agora “a utilidade” na acepção mais comum, aplicada às coisas indiferentes.

46. Assim como os jogos do anfiteatro e de lugares semelhantes te inspiram repugnância, pelo fato de que sempre as mesmas coisas são vistas, e a uniformidade faz o espetáculo fastidioso, assim também ocorre ao considerar a vida em seu conjunto; porque todas as coisas, de cima para baixo, são as mesmas e procedem das mesmas. Até quando, pois?

47. Medite sem cessar na morte de homens de todas as classes, de todo tipo de profissões e de toda sorte de raças. De maneira que podes descender nessa enumeração até Filístio, Febo e Origânio. Passe agora aos outros tipos de gente. E preciso, pois, que nos desloquemos para lá, para onde se encontra tão grande número de hábeis oradores, tantos filósofos e veneráveis: Heráclito, Pitágoras, Sócrates, tantos heróis com anterioridade, e, depois, tantos generais, tiranos. E, além desses, Eudóxio, Hiparco, Arquimedes, outras naturezas agudas, magnânimos, diligentes, trabalhadores, ridicularizadores da mesma vida humana, mortal e efêmera, como Menipo, e todos os de sua classe. Medite sobre todos esses que há tempo nos deixaram. O que há nisso, pois, de terrível para eles? E c que há de terrível para os que de nenhuma forma são nomeados? Uma só coisa vale à pena: passar a vida em companhia da verdade e da justiça, benévolo com os mentirosos e com os injustos.

48. Sempre que queiras alegrar-te, pense nos méritos dos que vivem contigo, por exemplo, a energia no trabalho de um, a discrição de outro, a liberalidade de um terceiro e qualquer outra qualidade de outro. Porque nada produz tanta satisfação como os exemplos das virtudes, ao manifestarem-se no caráter dos que vivem conosco e ao serem agrupadas na medida do possível. Por essa razão devem ser tidas sempre à mão.

49. Ficas incomodado por pesar tantas libras e não trezentas? Da mesma forma, também, porque deves viver um número determinado de anos e não mais. Porque assim como te contentas com a parte de substância que te foi designada, assim também com o tempo.

50. Tente persuadi-los; mas aja, inclusive contra a sua vontade, sempre que a razão da justiça o imponha. Entretanto, se alguém se opuser fazendo uso de alguma violência, mude para a complacência e para o bom trato, sirva-te dessa dificuldade para outra virtude e tenha presente que com discrição te movias, que não pretendias coisas impossíveis. Qual era, pois, tua pretensão? Alcançar tal impulso em certa maneira. E o consegues. Aquelas coisas às quais nos movemos, chegam a concretizar-se.

51. O que ama a fama considera bem próprio a atividade alheia; o que ama o prazer, seu próprio apreço; o homem inteligente, ao contrario, sua própria atividade.

52. Cabe a possibilidade, no que concerne a isso, de não haver conjectura alguma e de não turbar a alma; pois as coisas, por si mesmas, não têm uma natureza capaz de criar nossos juízos.

53. Acostuma-te a não estar distraído ao que diz outro, e inclusive, na medida de tuas possibilidades, adentre a alma do que fala.

54. O que não beneficia a colméia, tampouco beneficia a abelha.

55. Se os marinheiros insultassem seu piloto ou os enfermos o médico, se dedicariam a outra coisa além de colocar em prática os meios para salvar a tripulação, o primeiro, e para curar os que estão sob tratamento, o segundo?

56. Quanto, em companhia dos quais entrei no mundo, já partiram!

57. Aos ictéricos lhes parece amargo o mel; aos que foram mordidos por um cachorro raivoso são hidrófobos, e os pequenos gostam da bola. Por que, pois, aborrecer-te? Parece-te menos poderoso o erro que a bílis no ictérico e o veneno no homem mordido por um animal raivoso?

58. Ninguém te impedirá de viver segundo a razão de tua própria natureza; nada te ocorrerá contra a razão da natureza comum.

59. Quem são aqueles a quem quer agradar! E por quais ganhos, e graças a quais procedimentos! Quão rapidamente o tempo sepultará todas as coisas e quantas já sepultou!

Estoicismo
+
Tópicos
Ciências humanas e sociais
SEÇÕES
CIÊNCIAS
O evolucionismo como resposta as perguntas da origem do homem

Os Humanos como Problema Científico  - A aceitação da teoria da evolução muitas vezes é discutida e debatida como a substituição de uma explicação - ou mito, ou conto, dependendo do ponto de vista - por outra. Para a maioria dos europeus criados na tradição judaico-cristã, essa história, obviamente, era o Génesis, a criação do mundo por Deus, e de Adão e Eva como o primeiro homem e a primeira mulher. Essa cosmologia específica explicava tanto a natureza humana como a rela­ção da humanidade com a natureza. Embora muitas vezes haja elementos universais nesses mitos, a diversidade de conteúdo é enorme, expressando, em geral, a variedade das crenças e das práticas culturais. Entre os Baroba da Amazônia, por exemplo, os humanos foram criados pela jiboia enquanto ela nadava rio acima, vomitando cada clã ao longo do caminho.

A ideia de que o darwinismo nada mais é do que um outro conto é satisfatória em muitos sentidos, e tem especial popularidade no contexto da expansão de algumas visões modernas, que veem todo o conhecimento, essencialmente, como um texto ou uma narrativa. Em alguns sentidos, isso pode ser verdade: a cosmologia da ciência ocidental desempenha muitas das mesmas funções que a da mitologia tradicional. A teoria da evolução situa os humanos num contexto e fornece a muitos uma base para a descrição e a compreensão da natureza humana. Misha Landau demonstrou como diversas interpretações da evolução humana assumem a estrutura dos mitos clássicos e dos contos de fadas. Esses contos contêm um herói, uma luta, um presente e um triunfo. Na evolução humana, há um herói que parte de um lar carente e tumultuado (ou seja, ele era um macaco), que luta contra a adversidade (as florestas desaparecem e o heroico hominídeo tem que se haver nas savanas crestadas), descobre ou recebe um presente que é a chave do sucesso (que pode ser qualquer coisa, desde andar ereto até as ferramen­tas, a inteligência, a linguagem, dependendo das preferências e, talvez, dos dados disponíveis), para então triunfar (isto é, transformar-se num humano moderno e adquirir o aparato da civilização). Essa congruência entre os contos tradicionais e os científicos é notável. Além disso, a cosmologia evolucionista frequentemente corrobora muitos dos pontos de vista não científicos, éticos e metafísicos da cultura ocidental de hoje. Esses pontos de vista podem ir desde a crença na insignificância dos humanos, tanto como espécie quanto como indivíduos (afinal, os humanos são apenas um minúsculo grão num único instante de um vasto universo), até a suposição de que os humanos são inatamente sexistas, ou agressivos, ou racistas, ou monógamos. Na ver­dade, ela pode corroborar, por meio da genética, a ideia de que a humanidade possui uma essência. Ao contrário de serem incessantemente remodelados pelo ambiente no qual vivem, pode-se afirmar que os humanos possuam uma natureza particular - a natureza humana, com ênfase na natureza. 

Pode, portanto, ser perfeitamente respeitável subestimar o impacto das ideias evolucionistas. O que mudou, então, se uma narrativa foi substituída por uma outra, de estrutura e propósito similares? Algo mudou, entretanto. O fato de que os modelos evolucionistas atuais podem atuar como um mito da criação não deve levar à crença de que não há também algo de novo, uma vez que uma explicação evolucionista pode ir, e de fato vai, além do poder explicativo dos demais mitos, e opera de modo diferente. Nesse contexto, o legado de Darwin foi significativo. Esse legado aponta para duas direções, primeiramente fazendo com que a pergunta sobre por que os seres humanos existem seja técnica e não filosófica, e, em segundo lugar, situando as origens no contexto do método científico, e não mais no da crença. 

Em A origem das espécies e A linhagem do homem, Charles Darwin colo­cou não apenas mais uma narrativa da origem dos humanos, mas, o que é mais importante, um mecanismo científico por meio do qual os humanos poderiam ter surgido sem necessidade de intervenção divina. Esse meca­nismo era a seleção natural, aplicando-se igualmente a ratos e homens. Os humanos não foram o ato de uma criação especial, sendo, ao contrário, apenas uma parte de um continuum de mudanças evolucionárias. A ciência, sob a forma da biologia evolucionista, havia estendido seu alcance até a mais básica das questões filosóficas - por que os seres humanos existem? 

O darwinismo e a teoria da evolução não forneceram uma resposta automática a essa pergunta, nem puseram fim à especulação irracional. O que fizeram foi fornecer uma nova estrutura na qual a pergunta poderia ser respondida. Essa estrutura é essencialmente naturalista e materialista. Os humanos surgiram, e tomaram a forma que tomaram, não por algum plano preconcebido ou algum grande desígnio, mas em consequência da interação de linhagens e linhas específicas de evolução com novas pressões seletivas. O legado de Darwin foi uma maneira totalmente nova de fazer perguntas sobre os humanos e sobre seu lugar na Terra e no universo. É des­necessário dizer que isso não pôs fim às especulações filosóficas, históricas ou religiosas sobre a espécie humana e seu lugar no mundo. Na verdade, em alguns casos, o legado de Darwin inaugurou todo um novo gênero de narrativas seculares, muito frouxamente embasadas nas ideias evolucionistas, ou fortemente antagónicas às explicações da teoria da evolução. 

Ao contrário de estreitar o alcance das especulações sobre as origens e a natureza humana, a biologia evolucionista deu trela a todos os tipos de ideias fantasiosas. Algumas destas eram explicitamente antidarwinianas, fundamentando-se na premissa de que um mecanismo tão aleatório quan­to a seleção natural não poderia ser responsável por nossa complexidade. Uma das rotas preferidas para fugir das limitações da biologia envolvia seres extraterrestres. Van Daniken, em seu livro, The Chariots of the Gods, conseguiu ganhar muito dinheiro sugerindo que embora a evolução possa ter produzido as espécies de tipo comum, foi necessário que astronautas visitassem a Terra, vindos de outro planeta, para que as sementes da civili­zação fossem plantadas. 

Mesmo inserida nos eminentemente vastos limites do darwinismo, a especulação quanto à origem dos humanos foi longe. Elaine Morgan muito fez para popularizar a ideia de que os humanos, apesar de descenderem de primatas arbóreos, foram, na verdade, o produto de uma fase aquática da evolução. E o que é mais fantástico, chegou a ser sugerido que os humanos seriam o resultado da miscigenação - o resultado aleatório de cruzamento interespécies entre chimpanzés e orangotangos.

Essas histórias sobre a história de nossa espécie tentam ser evolucionistas, embora guardando com a corrente principal da biologia evolucionista o mesmo tipo de relação que o Pernalonga tem com um coelho real. Elas, entretanto, refletem uma reação geral à teoria darwiniana que é amplamente encontrada em círculos tanto científicos como não científicos. No entanto, o legado de Darwin, a evolução por meio da seleção natural, continua sendo uma ferramenta tão poderosa quanto o era à época em que foi desenvolvida. O que a teoria da evolução por meio da seleção natural faz, em essência, é transformar questões filosóficas e metafísicas muito vastas em algo que em geral são questões técnicas, diretas e, até mesmo, bastante tediosas. A pergunta “de onde vêm os humanos?” exige não uma resposta geral, mas uma resposta específica quanto a tempo e lugar. A pergunta “o que é especificamente humano?” conduz ao campo da anatomia e do comportamento comparativos. Tomada seriamente, a evolução não necessariamente limita a imaginação, mas exige que essa imaginação seja disciplinada por fatos empíricos e por mecanismos praticáveis. Isso não significa que as respostas sejam fáceis de obter, ou que elas terão aceitação ampla. Se há uma quali­dade prosaica nas explicações sobre a humanidade, que muitas vezes são insatisfatórias, essa qualidade consiste na natureza da moderna biologia evolucionista. Mas, ao fazer perguntas muito básicas, muito simples e di­retas, pode-se chegar a respostas muito poderosas, complexas e elegantes. 

A Ciência - Fazer as Pequenas Perguntas 

Peter Medawar uma vez definiu a ciência como a arte do solúvel. Embo­ra essa definição refletisse as predileções do bioquímico, também conseguiu chegar ao cerne do método científico - a importância de fazer perguntas que possam ser respondidas. No The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy (O guia do mochileiro das galáxias), de Douglas Adams, um potente computador foi construído para responder à pergunta sobre o significado “da vida, do universo e de tudo”. Além de levar um tempo exorbitante para encontrar a respos­ta, que, por sinal, ao ser encontrada, mostrou-se incompreensível, a pergunta fez pouco mais que dar emprego aos filósofos pagos para especular sobre a resposta. O problema é que a pergunta quebrou a regra de Medawar a respeito da ciência - ela era insolúvel. Ao contrário de outros campos do conhecimento, a ciência funciona melhor não fazendo perguntas vastas e grandiosas, e tampouco ignorando essas perguntas, mas fragmentando-as em pedaços passíveis de serem respondidos. Problemas e perguntas devem ser passíveis de solução, mesmo que isso signifique que essas soluções nada mais sejam que passos em direção a um objetivo distante. Para alguém que queira saber a resposta para a vida, o universo e tudo, formular a pergunta nessa forma assoberbante não é a maneira correta de abordá-la. Na ciência, o conhecimento é particularizado, construído peça a peça. Cada peça, por si só, muitas vezes é incompreensível e insípida, mas o resultado é muito eficaz. Em lugar de enormes extensões de arcos inferenciais, temos um edifício sólido. O que lhe falta em glamour e silhuetas espetaculares é compensado pela durabilidade. 

De que modo essa excursão natureza da ciência adentro pode nos ajudar com as perguntas feitas sobre os humanos? O ponto simples é que embora todas as sociedades e culturas tenham se feito perguntas sobre as origens da humanidade, a característica distintiva das abordagens evolucionistas é essa ausência de perguntas grandiosas, bem como uma preocupação muitas vezes obsessiva com os detalhes. A linhagem do homem, de Darwin, por exemplo, é uma obra-prima de irrelevâncias aparentes. Qualquer pessoa, ao ler um livro recente sobre a evolução humana, provavelmente ficará pasma com os detalhes anatômicos extraídos dos fósseis. O hiato entre essas observações anatômicas e as questões que geralmente interessam às pessoas - de onde vêm os humanos? - parece ridiculamente vasto. E, entretanto, é exatamente esse elo que constitui o ponto crucial de uma abordagem científica da humanidade e de seu lugar no mundo biológico. Se quisermos responder à pergunta feita no começo deste texto, essa deve então ser a abordagem cor­reta. Embora talvez não tenha grande apelo para os que se sentem atraídos pelo exótico da ficção científica, ou pelos meandros da metafísica, o verda­deiro triunfo do darwinismo foi a tradução de perguntas irrespondíveis em perguntas que, quando modestamente adequadas, podem ser respondidas. 

As origens da humanidade e, em última análise, a natureza humana, não são questões filosóficas, mas técnicas. A tarefa que temos pela frente é encontrar uma maneira de examinar os detalhes técnicos sem perder de vista as questões mais amplas para as quais supõe-se que esses detalhes possam fornecer uma resposta. O caminho para esse fim não é simplesmente registrar os dados sobre os fósseis e sobre a vida dos primatas, mas colocar esses conjuntos de dados numa estrutura teórica sólida. 

Que tipos de perguntas podem ser feitos? É óbvio que, perante o que foi discutido acima, uma resposta à pergunta “por que existem seres humanos?” não pode ser alcançada partindo-se de uma formulação tão exorbitantemente geral do problema da natureza da espécie humana. Ao contrário, a grande per­gunta tem que ser fragmentada em uma série de perguntas mais manejáveis, cujo efeito cumulativo irá revelar o que aconteceu no passado evolucionário e, por inferência, documentar as principais características da humanidade. Assim, por exemplo, a pergunta “quando nos tornamos humanos?” será colocada aqui. Embora possa parecer uma pergunta direta sobre os fósseis já catalogados, na prática descobriremos que ela depende não apenas das tecnicalidades da datação dos fósseis, mas dos critérios pelos quais a humanidade é definida. Responder a essa pergunta, por sua vez, nos fornece a base para a interpretação das ideias sobre a antiguidade humana e seus efeitos nos homens atuais. Faz alguma diferença a humanidade ter milhões de anos, centenas de milhares de anos ou apenas alguns milhares. A capacidade de responder perguntas relativamente simples depende dos critérios usados para definir a humanidade - seriam eles a linguagem, a cultura, o bipedalismo, a inteli­gência, a fabricação de ferramentas, ou outras características? Aqui também, fragmentando essa investigação em suas partes componentes, estaremos em condições de tentar entender qual a função de cada um desses fatores, como eles se comparam com o que é encontrado no restante do mundo animal e por que razão eles teriam evoluído. Por que, por exemplo, os humanos têm cérebros grandes? A resposta a essa pergunta é necessária para examinar como os cérebros grandes ocorrem entre pássaros e mamíferos, que vantagens eles oferecem e por que razão, de fato, eles não são mais comuns. 

Essa abordagem da ciência é reducionista - a tentativa de explicar os fe­nômenos pelas suas partes e entidades elementares, partindo de um mínimo de pressuposições sobre essas partes e entidades. O reducionismo muitas vezes é contrastado com uma abordagem holística, que enfoca os fenômenos como um todo, na forma como eles se constituem em sua totalidade. Cada método tem suas vantagens e desvantagens. É muitas vezes afirmado que o reducionismo perde de vista a essência da relação entre as partes como um todo. Para entender o motor de combustão interna, por exemplo, pouco se pode aprender olhando-se o carburador e o pistão isoladamente. É apenas o todo funcional que de fato constitui o motor. Nesse sentido, o holismo pode oferecer uma compreensão bem mais profunda de fenômenos complexos. No entanto, na prática, costuma ser muito difícil estudar as coisas como um todo. Os processos e mecanismos de fato envolvidos - o movimentos dos pistons - pode-se perder na nebulosidade do todo. Ao longo dos anos, a maior parte das informações foi extraída da adoção de uma abordagem reducionista, ao menos como hipótese de trabalho. Essa abordagem significa um número mínimo de pressuposições e oferece a esperança, no que diz respeito aos problemas da evolução, de se chegar a efetivamente perceber, antes de tudo, como os diferentes componentes se encaixaram uns nos outros. Por exemplo, com a evolução humana, a pior pressuposição possível é de que o pacote completo - bipedalismo, cérebros grandes, cultura, linguagem - surgiu de uma só vez e sempre se articulava de uma única maneira. Ao examinarmos esses componentes isoladamente, há pelo menos a esperança de desvendar como evoluíram as características dos hominídeos e dos humanos, e como elas vieram a tomar a forma que tomaram. 

A Ciência da Evolução 

Não há, é claro, razão alguma para a pergunta “por que os humanos?” não poder ser feita em diversos contextos, e é extremamente provável que ela sempre o será. A vida intelectual seria extremamente monótona se hou­vesse apenas uma única maneira de fazer algo. Este texto, entretanto, está limitado a fazer e responder à pergunta sobre por que os seres humanos existem dentro de uma estrutura evolucionista. Há razões para afirmar, não que este seja o único modo de formular a pergunta, que ele é o único modo que pode fornecer algumas respostas passíveis de verificação e de exame empíricos. A teoria da evolução tem alguma primazia quando se trata de humanos, exatamente por que ela é uma teoria que abrange não apenas os humanos, mas todo o mundo vivo. Esse, na verdade, é o poder (e a ameaça) da biologia evolucionista: tentar colocar os humanos, de maneira simples, embora não fácil, na mesma estrutura que as demais espécies. 

A primazia da teoria da evolução deriva de diversas fontes. Primeiramente, há os dados factuais dos fósseis catalogados, que mostra que o mundo biológico nunca foi estável, tendo passado por grandes transforma­ções, tanto na estrutura dos organismos e de seus ecossistemas quanto nos grupos taxonômicos que existiram em uma determinada época. Embora seja difícil pensar na história geológica como dinâmica, ela contudo for­nece as melhores provas de que, ao longo de extensos períodos de tempo, verificou-se um padrão de mudanças contínuas. Do nosso ponto de vista, uma das implicações desse fato é que os humanos nem sempre existiram, e que pela maior parte (99,99999%) do tempo em que a vida existiu na Terra, ela soube se haver perfeitamente bem sem o Homo sapiens, e mesmo sem as formas estreitamente relacionadas a ele. A evolução oferece uma estrutura para que se possa tentar entender como um mundo do qual os humanos estavam ausentes transformou-se num mundo no qual eles conseguiram existir e ter êxito. Além do mais, a história dos fósseis, ao mostrar a enorme diversidade da vida ao longo do tempo, fornece uma estrutura comparativa apropriada para que se possa avaliar o que há de novo nos seres humanos como organismos biológicos e, por conseguinte, por que razão eles evoluí­ram, quando e onde eles o fizeram. 

Em segundo lugar, toda a matéria viva compartilha do mesmo material químico e é construída sobre a mesma molécula replicante, o DNA (ácido desoxirribonucleico). Isso indica a unidade da vida, o fato de que as diferen­tes formas de vida não tiveram origens separadas. Ainda é surpreendente, embora seja fato conhecido, que todas as plantas e animais, e organismos uni e multicelulares se utilizem exatamente do mesmo código genético. A flexibilidade dessa molécula é, em si, fantástica, mas em termos mais mundanos, ela fornece provas suplementares para o fato da evolução, bem como sobre um dos mecanismos por meio dos quais ela opera - a hereditariedade. Os genes são, essencialmente, a maneira de transmissão de informação (para a construção de novos indivíduos) de uma geração a outra. A fidelidade do mecanismo de cópia que está no cerne da estrutura do DNA é a base sobre a qual a continuidade e a similaridade são mantidas nas formas vivas, ao passo que os erros que ocasionalmente acontecem formam a base para a introdução das novidades - os componentes neces­sários ao surgimento de novas espécies. 

E o que talvez seja o mais importante, a evolução não é apenas um pro­cesso ou acontecimento que ocorre ao longo do tempo, mas sim o resultado de um mecanismo operativo pelo qual as transformações se dão. É comum a ideia equivocada de que a grande contribuição de Charles Darwin foi a descoberta da evolução. Não foi assim. A ideia da evolução, e até mesmo as indicações que apontam para ela, já eram bem conhecidas no início do século XIX, e até mesmo antes. O conceito simples de que o mundo e seus sistemas biológicos não permaneceram estáveis é óbvio e atraente. O problema não era o fato da evolução, mas o mecanismo capaz de impeli-la. Era isso que interessava aos biólogos e geólogos que antecederam a Darwin e aos que foram contemporâneos seus. Muitos mecanismos haviam sido sugeridos, inclusive a alternativa mais conhecida ao darwinismo, o lamarckismo. 

Lamarck era biólogo e chegou à conclusão de que a evolução havia ocor­rido por razões bastante semelhantes às que convenceram Darwin. Lamarck pensava que os organismos se transformavam por trazerem, dentro de si, um impulso à mudança, uma necessidade de se autoaperfeiçoar. Isso significava que as coisas que um indivíduo aprendia ou adquiria durante sua vida, e que melhoravam suas chances de sobrevivência, seriam passadas à geração seguinte. Esse era o conceito de herança de características herdadas. Como mecanismo evolucionário, contudo, ele não servia, porque logo ficou claro que não havia mecanismo por meio do qual essa informação nova pudesse ser transmitida. Ainda mais problemático era o fato de que, durante a vida de um indivíduo, haveria uma enorme quantidade de novas aquisições. Muitas dessas aquisições seriam benéficas, tais como maior destreza, ou até mesmo sabedoria, mas muitas outras estavam longe de ser vantajosas. Quanto mais velho você fica, mais seus dentes caem, ou você contrai artrite, ou câncer, ou uma das tantas doenças degenerativas. Os filhos nascidos após essas doenças terem se desenvolvido nos pais iriam adquirir também essas características? Em outras palavras, não havia um mecanismo de escolha, nem meios reais de transmissão de características por hereditariedade.

A grande contribuição de Darwin foi fornecer o mecanismo adequado, que ele chamou de seleção natural. Como a teoria de Lamarck, ela usava a ideia de transmissão hereditária, sendo as modificações baseadas em algum meio pelo qual as características ampliariam as chances de sobrevivência. Darwin, entretanto, acrescentou o fator-chave do sucesso reprodutivo, o número de filhos gerados, omitindo qualquer participação da herança de características adquiridas. (Deve-se admitir que, sob o peso das críticas le­vantadas à época, ocasionadas pelo fato de que Darwin não havia desvendado a natureza exata da hereditariedade, ele se tornou progressivamente mais lamarckiano a cada nova edição de seu livro.) Esse mecanismo não apenas convenceu os biólogos evolucionistas que então surgiam, mas também veio a se transformar numa ferramenta tremendamente poderosa, não apenas para investigar o grande padrão da evolução ao longo de vastos períodos de tempo, mas também para compreender os detalhes do comportamento animal e da adaptação em pequena escala. Embora a biologia evolucionista de hoje seja muito diferente da disciplina que floresceu em fins do século XIX e inícios do século XX, que se interessava particularmente por origens e parentescos, por uma escala de progresso e pela caracterização das estruturas anatômicas, ela ainda depende fortemente da ideia darwiniana fundamental - a seleção natural - e talvez esteja mais próxima da intenção original de Darwin do que grande parte da biologia dos anos intermediários. 

No entanto, muitas críticas foram feitas à evolução darwiniana. Uma delas é que é frequentemente descrita como não sendo passível de verifi­cação. Esse ponto de vista foi defendido, entre outros, por Karl Popper, levando a que outros cientistas viessem a tratar a teoria da evolução com certa arrogância, se é que não com desprezo. O raciocínio é o seguinte. A evolução é um acontecimento histórico, já ocorreu num passado longínquo e, portanto, não foi submetida a observação direta. Sem observação direta, não é possível testar o fato da evolução. Esse, certamente, é um problema de grandes dimensões, mas a verificabilidade da evolução não reside nos dados fornecidos pelos fósseis já catalogados. A evolução pode ser tomada como significando duas coisas diferentes e, como veremos abaixo, a distin­ção é importante. Uma delas é o processo ao longo do tempo, e a outra é o mecanismo específico que causa essas mudanças. Esse mecanismo é passível de verificação e, de fato, já o foi muitas vezes; portanto, não há razão para afirmar que a teoria não pode ser verificada. O fato de que a biologia evolucionista tem, necessariamente, que ser uma ciência histórica realmente representa uma limitação, mas essa é uma limitação compartilhada com a astronomia e a cosmologia. É impossível observar diretamente a formação das estrelas ou dos planetas, quanto mais as origens do sistema solar e do próprio universo, mas, mesmo assim, é possível aos cientistas investigar esses acontecimentos e testar teorias científicas de grande precisão. 

Uma outra crítica muitas vezes levantada contra o status científico da biologia evolucionista é que ela se baseia em uma tautologia - ou seja, se a evolução é a sobrevivência dos mais aptos, quem sobrevive senão o mais apto, e quem é apto senão os sobreviventes? É pena, talvez, que o que não passa de um slogan cujo propósito é simplificar uma teoria elegante tenha assumido o lugar da representação completa dessa teoria. O slogan, tomado por si só, é tautológico, mas omite a lógica precisa da formulação darwiniana, que separa os “sobreviventes” dos "aptos”, ou, pelo menos, os põem em contexto. Na prática, a teoria da seleção natural é empiricamente verificável e construída sobre uma série de observações concretas. 

A seleção natural significa, simplesmente, sucesso reprodutivo diferen­ciado, ou seja, que dada uma população de organismos reprodutores, e dado que os indivíduos pertencentes àquela população têm proles de diferentes tamanhos, a seleção natural é o mecanismo que determina esse índice dife­renciado de reprodução e sobrevivência. Esse mecanismo se encontra no cerne da teoria da evolução. Em certo sentido, é o pedaço da teoria que faz todo o trabalho, selecionando os indivíduos a cada geração, determinando assim a direção das mudanças evolucionárias. Qualquer teoria da evolução teria que contar com um mecanismo desse tipo, e sua simplicidade é sua força. Entre­tanto, nessa forma simplista, ela é apenas uma afirmativa. Para que a seleção natural funcione, certas condições têm que ser atendidas. 

A primeira delas é que os organismos têm que se reproduzir. Se não houvesse reprodução, o jogo da vida teria que começar do zero a cada gera­ção que morresse. Nos primórdios das formas de vida, quando as moléculas replicantes eram menos eficientes, talvez fosse isso o que de fato acontecia, apesar de a seleção natural estar, mesmo assim, em operação, selecionando a molécula replicante mais eficiente.

A segunda condição é de que deve haver algum modo de hereditarieda­ de - isto é, que a prole deve se parecer com seus pais mais do que se parece com a população em geral. Aqui estamos no campo da genética, mas quando Darwin escreveu A origem das espécies, esse era o aspecto menos compreen­ dido e o que lhe causou os problemas mais críticos. Se as informações que determinam as características do genitor podem ser transmitidas para a prole, então os traços que propiciam a sobrevivência e o potencial reprodutivo dos pais irão ocorrer com maior frequência em cada geração subsequente, dependendo do número de filhos. Se não houvesse modo de transmissão hereditária, o traço vantajoso de um genitor simplesmente se perderia a cada nova geração. Não poderia haver mudança evolucionária. Foi a ausên­ cia dessa condição que fez do lamarckismo uma teoria da evolução inviável.

Em terceiro lugar, deve haver uma variação interna à população. Mesmo que as duas primeiras condições sejam preenchidas, se todos os indivíduos de uma população forem fenotípica e geneticamente idênticos, a seleção natural não poderá operar. A sobrevivência diferenciada não terá efeito porque, como todos os indivíduos são iguais, as gerações serão idênticas entre si. Era por essa razão que o próprio Darwin preocupava-se tanto com o problema da variação, dedicando os dois primeiros capítulos de seu A origem das espécies: a “Variação sob Domesticação” e “Variação sob a Natureza”. Essa foi, aliás, uma das principais linhas de demonstração empregadas contra a teoria da criação especial de tipos imutáveis - se Deus havia criado um determinado número de tipos de plantas e animais, a não ser que ele ou ela fosse in­ competente não havia razão alguma para que houvesse variação entre eles. Darwin deu-se a um grande trabalho para demonstrar que mesmo os mais humildes tipos de criaturas possuíam variação.

Por fim - e essa condição talvez seja a que mais de perto se associe às ideias de Darwin há a competição. Imagine um mundo no qual todas as condições delineadas acima estivessem presentes. No entanto, se os recur­ sos necessários para sustentar a população fossem infinitos, não haveria reprodução diferenciada. Um indivíduo poderia ter todos os filhos possíveis, e, portanto, não haveria mudanças de uma geração a outra, apenas uma ex­ pansão constante e contínua. É claro, porém, que um mundo como esse não existe. Esse mundo, na verdade, é teoricamente impossível, uma vez que o próprio tempo consiste num recurso (tempo para ter filhos etc.) e, portanto, enquanto houver o tempo, haverá pelo menos alguma limitação. Na prática, é claro, todos os recursos são limitados - energia, água, abrigo, cônjuges em potencial e assim por diante. Foi o demógrafo do século XVIII Malthus quem primeiro apontou o desequilíbrio entre o potencial de expansão dos recursos e o potencial reprodutivo da população. Darwin colocou essa ideia como a condição central para que a seleção natural operasse. Se os recursos são limitados, nem todos os indivíduos irão sobreviver e reproduzir, ou eles irão se reproduzir com diferentes níveis de sucesso. Dadas as condições da reprodução, da variação e da transmissão hereditária, os indivíduos mais bem adaptados à aquisição dos recursos necessários à sobrevivência e à reprodução deixarão mais filhos, e esses filhos portarão a característica do genitor que lhes conferiu essa vantagem competitiva.

Há também as condições sob as quais a seleção natural tem que ocorrer. Cada uma delas é independentemente derivada, e cada uma delas é facilmen­ te submetida à verificação empírica. É possível observar a reprodução dos organismos, os mecanismos da hereditariedade já foram compreendidos, a ocorrência de variação pode ser bem estabelecida, e já o foi em boa parte, e a natureza finita dos recursos do mundo é praticamente um truísmo. Enca­ rar a teoria da seleção natural dessa maneira mostra que, longe de não ser verificável, ela é, na verdade, uma necessidade lógica derivada de um certo número de observações simples.

Se essas condições existirem, a seleção natural será, necessariamente, a consequência. Essa distinção entre evolução e seleção natural é útil. A seleção natural é o mecanismo de mudança, que depende de determinadas condi­ ções. A evolução é o resultado dessas condições, e os padrões evolucionários variarão na medida em que essas condições variarem. O fato de que elas variam explica a enorme diversidade de formas de vida, bem como o próprio padrão da evolução. Algumas das condições - a competição, em especial - variam mais que as outras. O sistema genético, por exemplo, é comum a todos os organismos, e há uma quantidade limitada de variação na maneira como ele opera, que depende em boa parte da presença ou da ausência de sistemas de reprodução sexual. Os sistemas genéticos, por sinal, não são apenas as condições necessárias para a evolução, mas também limitações de grande importância. O padrão específico de hereditariedade encontrado em todos os sistemas vivos - o sistema mendeliano - significa que a transmissão hereditária restringe-se aos pais e sua prole. Em condições normais, não é possível passar informações ou características genéticas a qualquer indivíduo que não seja parte dessa prole. Se isso fosse possível, poder-se-ia esperar que a evolução ocorresse de modo radicalmente diferente, talvez muito mais caótica. Aliás, pode-se argumentar que é isso que ocorre com as mudanças culturais, nas quais itens de informação cultural podem ser transmitidos de qualquer indivíduo a qualquer outro. Consequentemente, o que poderíamos chamar de evolução cultural é muito mais complicado do que a evolução biológica. No entanto, esta última é nosso assunto principal, neste livro.

Além da evolução - as transformações ao longo do tempo - há ainda ou­ tra consequência da seleção natural, que é a adaptação. Em seu sentido mais simples, ela se refere à qualidade do encaixe entre um organismo e seu meio ambiente. Quanto melhor encaixado for um indivíduo em seu ambiente, mais adaptado ele será. A adaptação é uma consequência da seleção natural, uma vez que são os indivíduos mais bem adaptados a seus ambientes que deixarão o maior número de filhos e, caso as outras condições estejam presentes, ao longo do tempo a população tomar-se-á adaptada a seu ambiente. Sem o princípio subjacente da seleção natural, entretanto, não haveria razão por que esperar uma série adaptada de plantas e animais. A adaptação oferece também a base para que examinemos as características de qualquer animal e nos perguntemos por que razão elas teriam ocorrido. Podemos agora ver como as perguntas grandiosas - por que os seres humanos existem? - podem ser fragmentadas em uma série de perguntas mais fáceis de responder - por que os seres humanos são bípedes? por que eles têm cérebros grandes, e assim por diante. A seleção natural e o princípio da adaptação permitem que o ser humano seja dissecado em pedaços, e fazem com que possamos investigar o problema de por que razão os humanos foram montados da maneira como o foram.
Venho examinando a natureza da evolução em algum detalhe. Por quê? Uma das razões é que, apesar, ou mesmo por causa da sua simplicidade, ela é uma teoria que muitas vezes é mal compreendida e, portanto, vale a pena repassar seus princípios básicos. Uma outra razão é que, embora a evolução muitas vezes seja o objeto último da investigação, na prática, o que interessa à maioria dos biólogos evolucionistas são as mudanças nos padrões de con­ dições e limitações. Uma análise da evolução não é o simples mapeamento das transformações ao longo do tempo, mas uma tentativa de situar essas transformações dentro do arcabouço das limitações e das condições do mundo biológico. Esse, na verdade, é o propósito subjacente deste livro - mostrar como o padrão da evolução humana, descoberto a partir do mundo fóssil e preservado em nossas próprias características, bem como nas de outros ani­ mais, é compreensível pelos princípios fundamentais da biologia evolucionista.

Os Humanos antes da Humanidade

Qualquer que seja o mecanismo, a ideia mais compreensível da teoria da evolução é que há mudanças ao longo do tempo. Isso nos permite vis­ lumbrar (e os dados que possuímos sobre os fósseis podem documentá-lo) um mundo no qual não havia humanos. No entanto, antes do surgimento dos humanos, dada a continuidade do processo evolucionário, tem que ter havido algo semelhante aos humanos e, antes destes, algo ainda um pouco mais diferente, e assim por diante, até atingirmos a sopa primeva. A conti­ nuidade entre todas as coisas vivas é um elemento essencial do pensamento evolucionista, e permanece sendo uma das consequências de maior alcance da ideia darwiniana. A continuidade das formas de vida é um fato poderoso, a partir do qual muitas inferências podem ser feitas. A primeira e a mais óbvia é que toda a matéria viva compartilha de determinadas características. O traço mais universal é o próprio DNA, a molécula replicante da vida, o que prova o fato da evolução. Quanto mais aparentados entre si são os or­ ganismos, maior é o número de características que eles terão em comum. A continuidade se constitui na prova sobre a qual se baseiam as reconstru­ ções da história da vida neste planeta, bem como a classificação de todas as coisas vivas. A continuidade, portanto, embasa o princípio da comparação na biologia, e são essas comparações que lançam luz sobre como e por que a evolução ocorreu e continua ocorrendo.

Nosso foco não é a totalidade da evolução, mas apenas uma parte muito pequena dela. Os humanos são apenas uma espécie numa família que inclui até vinte espécies, numa ordem que contém vinte ou mais famílias vivas e muitas outras já extintas. E essa ordem (os primatas) é apenas uma das mais de 25 ordens de mamíferos. Poderíamos continuar ao longo da diversidade da vida, até chegarmos ao que se estima serem as bilhões de espécies existentes no planeta hoje - para não falar das já extintas, ainda mais numerosas. Aqui, são as extintas que nos interessam. Uma consequência direta da aceitação das ideias evolucionistas foi a procura ativa por animais e plantas extintos, e pelas fases passadas da vida na Terra. Em nenhuma área essa procura foi tão intensa quanto na evolução humana. Talvez haja apenas uma espécie viva da família dos hominídeos, mas, no passado, houve muitas outras.

Os hominídeos extintos demonstram a continuidade entre os humanos e os demais macacos. Em outras palavras, eles mostram que o princípio da continuidade se aplica tanto aos humanos quanto aos outros animais. As espécies hominídeas extintas mostram também que o que vemos como o hiato entre os humanos e os outros animais - um dos fundamentos do argumento de que as ideias evolucionistas não se aplicam aos humanos - é uma ilusão. Esse hiato foi criado pelo acidente da extinção. Se os atuais macacos fossem extintos, o hiato seria ainda maior; se um Neanderthal vivo fosse encontrado nas tundras da Sibéria, o hiato se estreitaria, entre­
tanto, nada teria mudando nos humanos. Os hominídeos fósseis mostram também que o mundo, no passado, foi povoado por formas intermediárias.

Essas formas intermediárias são os elos perdidos que os jornalistas tanto gostam de citar quando qualquer fóssil é encontrado, e que os criacionistas também adoram, basicamente em razão de eles estarem perdidos. Eles são, também, os humanos antes da evolução. Eles nos fornecem as provas diretas de que a evolução ocorreu, e do rumo tomado por ela. Eles nos oferecem a base para testar e refutar teorias específicas sobre a evolução humana. Eles são também a base comparativa correta para pensar os humanos como eles são, hoje. E o mais importante neste caso: eles fornecem os indícios sobre o contexto específico no qual ocorreu a evolução humana, e sobre os detalhes - a época, o lugar, em termos locais, mais que globais - que de fato determina­ ram o rumo tomado pela evolução. Os humanos antes da humanidade não eram verdadeiramente humanos, mas sim espécies com identidade própria, que sobreviveram, em muitos casos, por centenas de milhares de anos. Eles não existiram por estarem “evoluindo em direção aos humanos”, mas porque possuíam adaptações que facilitavam sua sobrevivência. Eles são o legado da revolução darwiniana que melhor pode responder à pergunta sobre por que há humanos. Sem as ideias de Darwin, a maior parte deles nem sequer teria sido encontrada ou, se o fosse, estaria além das possibilidades da interpre­ tação científica. Os “humanos antes da humanidade” do título (hominídeos, na terminologia científica aqui usada), que foram descobertos no acervo de fósseis de que dispomos, fornecem as provas diretas sobre o nosso passado. Historicamente seu significado reside na sua própria existência, como prova do processo evolucionário em si. Minha intenção aqui é tentar vincular os pa­ drões dos humanos antes da humanidade às condições que determinaram seu destino evolucionário. A humanidade, ela própria, é apenas parte da história.

Ao longo deste livro examinarei esses outros tipos de criaturas e tentarei reconstruir suas vidas e seus comportamentos, bem como mapear seu sur­ gimento e desaparecimento. Há poucas dúvidas quanto a que eles estejam entre os animais mais interessantes que já viveram. Eles provavelmente se situavam em algum ponto do continuum entre os humanos e os outros primatas e, no entanto, foram extintos. Portanto, podem ilustrar a evolução de animais complexos, em meio ambientes complexos. No entanto, como em alguns casos eles são também nossos ancestrais, e em outros casos primos evolucionários próximos que não sobreviveram, eles também nos informam sobre o caminho que levou até a humanidade. O que ficará claro é que essas criaturas há tanto desaparecidas, cujos mundos só podemos vislumbrar vagamente, são necessárias para a reconstrução da biologia evo- lucionista de nossa espécie, por representarem a única maneira que temos para precisar a época, o lugar e o contexto no qual ser um humano fazia sentido evolucionário. Seria erróneo ver esses hominídeos quer como huma­ nos quer como degraus na escala que levou à humanidade, mas, mesmo as­ sim, eles nos servem de indicações sobre a razão de existirem humanos, hoje.

Para colocar essas criaturas em contexto, será necessário levar em conta a época em que elas viveram e sua relação com os humanos atuais. Mas, primeiramente, o fato de vermos os humanos como organismos biológicos, e não como heróis criados por alguma divindade, coloca um problema para a ciência.

Antropologia

CIENTISTAS SOCIAIS
+
Ciências humanas e sociais