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TEXTOS
3/31/2020 2:08:06 PM | Por Richard Hycner
Texto indicado para estudantes de Psicologia
Em Direção a uma Psicoterapia Dialógica

Este capítulo descreve alguns dos temas principais que surgem a partir de uma abordagem dialógica na psicoterapia. Ele se fundamenta na compreensão do “entre” e das relações “EU-TU” e “EU-1SSO”, discutidos no primeiro capítulo. Além disso, explora alguns aspectos do que significa considerar a psicoterapia como basicamente dialógica em sua abordagem, processo e objetivo. De acordo com a afirmação sucinta de Friedman (1985a), “a cura através do encontro significa o desvelamento concreto na terapia da "ontologia do entre’” (p. 152).

Antes de tudo, em uma abordagem dialógica genuína o terapeuta  é visto como “alguém que está a serviço do dialógico”. Isso signi­fica, no seu sentido mais profundo, que a individualidade do tera­peuta rende-se (pelo menos momentaneamente) ao serviço do “entre”. Isso pode parecer desconcertante para aqueles terapeutas que vêem sua tarefa primordialmente como uma ajuda para que o cliente se diferencie e se individualize. Predomina aqui a suposição de que a melhor forma de ensinar-lhe é ter um terapeuta que modele essa “individualidade”. A partir de uma perspectiva dialógica, é insuficien­te! Nessa perspectiva, a verdadeira singularidade surge da relação genuína com os outros e com o mundo. A individualidade é apenas um dos pólos em uma alternância rítmica global entre separação e relação, e ambas ocorrem dentro da esfera do “entre”.

Consequentemente, em uma psicoterapia de abordagem dialógica, o terapeuta caminha sempre por uma “vereda estreita”. Buber usou essa expressão para descrever sua filosofia de responder a um momento único, em vez de adotar um sistema filosófico que fornecesse respostas abstratas sem relação com a realidade única presente. Isso também aplica-se ao trabalho do psicoterapeuta. O terapeuta não “...descansa no planalto amplo de um sistema que inclui uma série de pressupostos acerca do absoluto, mas caminha sobre uma vereda estreita e pedregosa que permeia os abismos, onde não há segurança do conhecimento expresso, mas a certeza do encontro que se man­tém não revelado” (Buber, 1965a, p. 184, grifos do autor). Isso não significa que o terapeuta esqueça completamente todo o conhecimen­to adquirido no treinamento, mas trata-se de um conhecimento temperado pela percepção da pessoa como um todo e do que essa pessoa única precisa em determinado momento. Durante toda a terapia, há uma dialética entre enfatizar a objetividade e a subjetivi­dade. Mesmo aqui, ela se desenrola no “entre”.

“Caminhar por uma vereda estreita” significa que o terapeuta não tem garantia de segurança. As suposições teóricas são somente a “entrée” , mas não constituem um substituto para o encontro. Segundo Buber, “Embora nenhum médico possa prescindir de uma tipologia, ele sabe que em algum momento a pessoa incomparável do paciente irá se defrontar com a pessoa incomparável do médico; [56] tanto quanto possível, ele põe de lado sua tipologia e aceita esse algo imprevisível que acontece entre terapeuta e paciente” (1967, p. 164). Certamente, é um desafio para o terapeuta: como utilizar a segurança da teoria e ainda assim não utilizá-la como uma defesa indiscriminada contra o desconhecido? Como responder à singularidade e ainda assim apreciar nossa base comum de humanidade? O tera­peuta, ao estabelecer um diálogo com toda a amplitude das possibili­dades humanas, engaja-se em uma tarefa verdadeiramente paradoxal — uma tarefa na qual a segurança é restrita e há somente a certeza do encontro com o desconhecido, o único, o “nunca-antes-experienciado”.

No cerne da abordagem dialógica é predominante a preocupação com a natureza rica e variada da pessoa como um todo. Não há meramente a focalização de um único aspecto, seja ele a dimensão/ intrapsíquica, a interpessoal ou a transpessoal (Wilber, 1984). É certo que em estágios diferentes da terapia ou em qualquer momento de uma determinada sessão, um ou outro aspecto precisa ser enfatizado. No todo, entretanto, o terapeuta dialógico procura ver o contexto inteiro assim como a dialética entre essas dimensões centrais da existência.

Dado o forte Zeitgeist analítico da sociedade moderna, o terapeuta é fortemente tentado a analisar a experiência do cliente sob a forma de “causas” psicológicas, diagnosticando-o e tratando-o a partir daí. Na terapia existe sempre a necessidade de ajudar o cliente a remover as “máscaras” que o impedem de manter contato genuíno com os outros e com as necessidades humanas mais profundas.

No entanto, retirar as máscaras pode facilmente tornar-se o foco principal. Em conseqüência, o terapeuta perde a visão da pessoa como um todo. Esse é um risco natural da profissão. Erving Polster (1979) observou de forma sucinta: “E muito difícil resistir à ‘função de detetive’ em terapia”. A ênfase excessiva nesta atitude conduz ao que Buber (1957b) chama “o erro de ver através e desmascarar”. Para ele, “a essência do erro se dá quando um elemento na existência física e espiritual do homem, que inicialmente não era notado, ou o era pouco, passa a ser agora descoberto, ou esclarecido e a ser [57]  identificado com a estrutura total do homem, ao invés de ser inserido nessa estrutura” (p. 226).

Talvez com demasiada freqüência deixamos de nos perguntar qual é o contexto da existência da pessoa que faz com que, em determinado momento, uma motivação ou comportamento prévaleça sobre os demais. Para Buber, “a questão central deve ser: o que existe entre esse elemento e o outro; em que medida e de que modo isso pode delimitá-los e ser delimitado por eles” (1957b, p. 226). Sob esse ponto de vista, nenhum aspecto é visto como absoluto. Cada comportamento “precisa” ser compreendido e desesperadamente “pede” por isso, dentro do contexto maior da existência da pessoa. Desmascarar o motivo que está por trás de cada comportamento isolado torna-se um exercício estéril. Buber afirma de forma muito bonita: “O homem não é para ser visto ‘através’, mas para ser percebido de forma cada vez mais completa no seu mostrar-se e no seu esconder-se e na relação dos dois entre si ”(1957b, p. 227, grifos do autor).

Nessa perspectiva, a “patologia” é vista como um distúrbio da existência inteira e como uma “declaração” do que precisa ser atendido para que a existência dessa pessoa se torne mais integra­da. “Desmascarar” as causas e os motivos psicológicos subjacentes não é o foco principal. É mais importante considerá-los em relação àquilo que, na existência humana precisa permanecer “escondido”, pois é profundo, misterioso e talvez vulnerável demais para ser exposto diretamente à luz da consciência. Não ser direto pode, algumas vezes, constituir-se em uma atitude de compaixão. A condição humana deve ser, ao mesmo tempo, revelada e “escondida” (Friedman, 1974). A “patologia” ocorre quando as duas dimensões estão significativamente desequilibradas entre si.

Buber assinala em seus trabalhos que o psicoterapeuta, assim como o educador e os pais, precisa praticar o que ele chama de “inclusão”. Está se referindo a “...um impulso audacioso — que exige uma mobilização muito intensa do próprio ser — para dentro da vida do outro” (1965b, p. 81)31. O terapeuta precisa lutar [58]  vigorosamente para experienciar o que o cliente está experienciando. Nas melhores condições, é apenas uma experiência momentânea, pois não é possível manter indefinidamente a postura inclusiva. Ao mesmo tempo, o terapeuta precisa também manter-se centrado em si mesmo. A inclusão é um movimento de ir e vir: estar centrado na própria existência e ainda assim ser capaz de passar para o “outro lado”. Em relação ao terapeuta, Buber diz: “Você pode ver, sentir e experienciar colocando-se nos dois lados. Do seu próprio lado, vendo, observando, conhecendo, e ajudando o outro — do seu próprio lado e também do lado dele. Eu me aventuraria a dizer que você pode experienciar com muita força o lado dele da situação” (1965b, p. 171).

A experiência que Buber descreve não é a mesma usualmente chamada de empatia (Friedman, 1985a). Para ele, empatia é um sentimento — um sentimento que reside “dentro” do-indivíduo. Inclusão, em vez disso, significa voltar a existência inteira para o outro, e é uma tentativa intensa de experienciar a experiência, da outra pessoa tanto quanto a sua própria. Enquanto, para Buber, a empatia ignora um dos dois pólos existenciais do diálogo, no momento verdadeiro da inclusão nenhum lado do diálogo é ignorado. A inclusão ocorre quando uma pessoa, “... sem negligenciar nenhum aspecto da realidade percebida em sua atividade, ao mesmo tempo vive o evento comum aos dois a partir do ponto de vista do outro” (Buber, 1965a, p.97).

Certamente, não é por acaso que os seres humanos raramente pratiquem o “experienciar o outro lado”. Isso requer um senso muito forte do próprio “centro”, assim como flexibilidade existencial e psicológica para “passar” para o outro lado. E uma oscilação ontológica, em certo sentido. Qualquer um que alguma vez tenha tentado isso, com certeza experienciou o medo da perda de seu próprio senso de self. Contudo, é isso precisamente que é necessário, perder o senso rígido de self, para entrar na realidade total da outra pessoa. Entretanto, da mesma forma que no momento “EU-TU”, não se pode “visar” a inclusão. É preciso um esforço consciente nesse sentido, mas o momento não pode ser forçado. Esses são o dilema e o desafio constantes do terapeuta. [59] Um último aspecto precisa ser discutido em relação à inclusão. Um dos indicadores de que uma pessoa está pronta para encerrar uma terapia é quando o cliente começa a experienciar a situação do lado do terapeuta. Isto é, o cliente faz comentários do tipo: “Deve ter sido muito duro para você no princípio da terapia”; ou “Acho que nunca vi isso antes do seu ponto de vista”; ou o cliente pode até tornar-se mais interessado na saúde do terapeuta, ou em outros aspectos de sua vida. O cliente é capaz, agora, de praticar a inclusão. O self do cliente reconhece e aprecia a singularidade do self do terapeuta e, extrapolando, também o self dos outros. Esta é a base para qualquer diálogo genuíno: a disponibilidade do cliente para experimentar relações verdadeiras com os outros.

Segundo Buber, no cerne da abordagem dialógica está a questão da confirmação. Para ele, a base subjacente de toda psicopatologia é a ausência de confirmação que cada um de nós sofre no esforço para nos tornarmos seres humanos. Diferentemente dos animais, que parecem não questionar sua “nature­za animal”, o ser humano precisa ser confirmado pelos outros, pa­ra se perceber como um ser humano. “...Secreta e timidamente, ele espera por um Sim que lhe permita ser e que só pode chegar até ele vindo de uma pessoa para outra. E de um homem para o outro que é passado o pão celestial de ser o seu próprio ser” (Buber, 1965b, p.71).

Buber enfatiza que uma vez recebido esse “Sim”— o “pão sagrado” vindo dos outros — estaremos capacitados a nos centrar em nossa própria existência, de modo a nos mantermos firmes em nosso próprio chão. E claro que não se trata de algo que acontece apenas uma vez na vida, de forma que a pessoa se sinta, desse momento em diante, confirmada para sempre. E muito mais: uma espiral complexa de acontecimentos que duram a vida toda e através dos quais há, em alguma medida, necessidade e prontidão na existência para esta confirmação tão crucial. São esses os momentos de graça.

Devido à necessidade desesperada de confirmação acabamos nos tornando “falsos eus” (Laing, 1965) ou, o que Buber chama de “parecer”. Estamos tão sedentos de confirmação que, se não a recebemos por sermos quem somos, nos esforçaremos para obter qualquer coisa semelhante. Isto é, tentaremos consegui-la nos “mostrando” da maneira que pensamos que a outra pessoa deseja. Criaremos uma impressão — nos empenhando em alguma forma de [60] “parecer”, a fim de receber aprovação. Não somos nós mesmos. A ironia, é claro, está em que isto nunca é uma confirmação genuína e a pessoa, no fundo, sabe disso. Porém, esse reconhecimento de nosso existir, mesmo como um “falso self’, é preferível à ausência de reconhecimento (May, 1969).

Todos os seres humanos desenvolvem o “parecer” em alguma medida, a fim de sobreviver psicologicamente. Ainda assim, bem no íntimo da pessoa, a alma clama pelo reconhecimento de que esta pessoa única existe. Almeja o reconhecimento como indivíduo separado e, ao mesmo tempo, como um ser humano semelhante aos demais. A extraordinária peça O Homem Elefante ilustra de forma tocante como é crucial para os seres humanos terem sua existência reconhecida, por mais diferentes que possam ser, física ou psico­logicamente. A questão da confirmação reconhece, explicitamente, a conexão íntima entre os homens e os limites da autovalidação individual.

Conseqüentemente, que o cliente sinta-se confirmado pelo tera­peuta é o alicerce firme da terapia; situação que proporciona uma oportunidade única para receber a “bênção”. Como resultado, a terapia pode se tornar o protótipo para que a pessoa seja confirmada em outras situações.

Um reconhecimento existencial tão profundo inicia-se com a validação da singularidade. O diálogo genuíno começa quando cada pessoa considera a outra “...como o ser único que é. Eu me torno consciente dele, consciente de que ele é diferente, essencialmente diferente de mim, de uma maneira definida e única que lhe é peculiar. Aceito quem assim enxergo de tal forma que posso, plenamente, direcionar o que lhe digo de acordo com a pessoa que é” (Buber, 1965b, p. 79). Confirmar o outro significa fazer o esforço terrível de se voltar para a outra pessoa e afirmar sua existência única e separada — sua “alteridade”. Significa também, ao mesmo tempo, reconhecer o vínculo humano comum da relação com outras pessoas.

O significado de “confirmação” aqui é mais que o que se entende comumente por aceitação, embora esta seja, certamente, uma parte da confirmação. Para Buber, a aceitação significa: “Aceito-o assim como você é... mas isso não é ainda o que eu quero dizer com confirmar o outro. Porque aceitar é somente aceitar como ele invariavelmente é nesse momento, nesta realidade que lhe é própria” [61]  (1965b, pp. 181-182). A aceitação, como tal, não coloca qualquer “exigência” existencial inter-humana na outra pessoa para que ela seja diferente do que é. A confirmação, por outro lado, reconhece e afirma a existência dessa pessoa, mesmo que talvez seu comportamento atual seja inaceitável. De fato, pode até haver muito disputa com o outro, ao mesmo tempo que se confirma sua existência.

“Talvez, de vez em quando, eu deva fazer uma oposição cerrada a seu ponto de vista sobre o assunto de nossa conversa. Mas aceito esta pessoa, o portador de uma convicção; aceito-a em sua forma característica de ser, de onde surgiu esta convicção — ainda que deva tentar mostrar, pouco a pouco, o erro dessa mesma convicção. Reconheço a pessoa com quem estou lutando: luto com ela como seu parceiro; eu a confirmo como criatura e como criação; eu confirmo aquele que está contra mim como meu opositor.” (Buber, 1965b, p. 79, grifos do autor.)

A aceitação é o prelúdio para a verdadeira confirmação: “Eu - diria que toda relação existencial verdadeira entre duas pessoas , começa com a aceitação” (Buber, 1965b, p. 181). É preciso admitir que ambas as dimensões estão intrinsecamente entrelaçadas e é difícil, se não impossível, na maior parte do tempo, distingui-las claramente.

O “objetivo” da psicoterapia dialógica é que, eventualmente, haja a possibilidade de uma relação mútua entre terapeuta e cliente (Friedman, 1985a, 1985b), embora isso não aconteça obrigatoriamente. Evidentemente, esse não é um “objetivo” alcançável em muitas situações (como veremos depois, ao discutirmos os “limites do diálogo”). Seria melhor falarmos da mutualidade como um subpro­duto da terapia dialógica, em vez de considerá-la um objetivo em si mesmo. Ou seja, à medida que o terapeuta estabelece uma relação genuína com o cliente, e enquanto percorrem os muitos estágios da terapia, o cliente, de início hesitantemente, e depois com passos mais audaciosos, começa a se sentir seguro de seu espaço. O cliente tem a sensação, simultaneamente, de ser um indivíduo separado e de estar centrado e em relação, o que lhe dá a confirmação necessária na terapia, o cliente agora está mais capacitado a experienciar a outra pessoa como “TU”. [62]

Frequentemente isto só pode ocorrer depois que muitos dos conflitos “intrapsíquicos” ou “velhos modelos” tiverem sido trabalhados (Trüb, 1952/1964). Antes disso, o terapeuta é, de muitas formas, uma “pseudopessoa” para o cliente. Essa é a verdade sobre o conceito de transferência. Entretanto, esse conceito, por si mesmo, não consegue ir muito longe. Para Rollo May (1983), “a transferência deve ser entendida como a distorção do encontro. Já que na psicanálise não havia uma norma para o encontro humano e nem um espaço adequado para a relação EU-TU, surgiu a necessidade de um excesso de simplificação e da diluição das relações de amor” (p. 19, grifo do autor). É apenas trabalhando com esses conflitos “transferenciais” que o terapeuta pode ser visto como uma pessoa “real”. Como disse um cliente de maneira comovente: “Estou finalmente começando a permitir sua entrada”.

A questão da utilização de “técnicas” torna-se figura na psicoterapia dialógica. As técnicas precisam surgir do contexto da relação. Quando há um certo impasse na sessão terapêutica, é totalmente apropriado utilizar uma “técnica” que possa ser útil. Não há nada de errado com as técnicas propriamente ditas, desde que não sejam impostas arbitrariamente na situação. Há sempre a exigência de uma relação de confiança que dê “permissão” ao terapeuta para usar certas técnicas. As técnicas precisam surgir do “entre”.

O terapeuta deve evitar os perigos do objetivismo, ou do subjetivismo extremados. E uma tarefa semelhante à de Prometeu. Certamente, é difícil ensinar a arte de responder no “entre”. Parece que o terapeuta, em grande medida, está em uma situação idêntica à de um ótimo músico de jazz, sempre improvisando. É claro que há muito treinamento nos aspectos técnicos da música, como ler as notas musicais e tocar as escalas; pode, inclusive, até haver um treinamento mais formal, como na música clássica. Entretanto, na situação de improvisação, o treino técnico torna-se apenas um pano de fundo importante a partir do qual o músico é capaz de improvisar. Como Buber afirma sucintamente: “O verdadeiro mestre responde à singularidade” (1967, p. 168).

Finalmente, há a estimulante questão sobre a possibilidade de uma mutualidade verdadeira entre terapeuta e cliente (Friedman, 1985a, 1985b). Quando o cliente chega ao consultório, existe inicialmente uma situação relacional desequilibrada. Não há e nem poderia haver [63] mutualidade total entre terapeuta e cliente nessa primeira fase. Buber levantou essa importante questão (freqüentemente mal compreendida) em seu diálogo público com Carl Rogers. Em relação ao terapeuta, ele diz: “A diferença essencial entre o seu papel e o dele nessa situação é óbvia. Ele vem para ser ajudado por você. Você não está para ser ajudado por ele. E não somente isso: você é capaz, em certa medida, de ajudá-lo” (Buber, 1965b, p. 171). De fato, essa unilateralidade e a humildade que advém do reconhecimento, pelo cliente, dessa situação desequilibrada, podem ser essenciais para a ocorrência da cura genuína.

Existem também limites que surgem no trabalho com certas formas de neurose e psicose. Os limites específicos para o diálogo genuíno são bem diferentes, dependendo de se estar trabalhando, por exemplo, com uma personalidade narcisista ou com alguém que poderia ser diagnosticado como uma personalidade obsessiva-compulsiva grave. Obviamente, também há diferenças significativas no trabalho com os neuróticos, se comparados com aqueles que manifes­tam comportamentos psicóticos. Como afirma Buber (1965b):

“Pos­so falar com um esquizofrênico até o ponto em que ele esteja disposto a deixar que eu entre em seu mundo particular, que lhe é próprio e onde geralmente o acesso não é permitido a mim e nem a outros. Mas ele permite a entrada de algumas pessoas. E assim sendo, pode ser que ele me deixe entrar também. Mas no momento em que ele se fecha, não posso entrar” (p. 175).

Até mesmo indivíduos “saudáveis”, em determinados momentos não ultrapassam certos níveis de desenvolvimento, pois não estão prontos para fazê-lo. Isso não é resistência no sentido estrito do termo. Alguma parte muito profunda e sábia dessa pessoa pode pressentir, intuitivamente, que ela não tem suporte interno ou externo para se arriscar a entrar numa relação mais íntima, mas muito mais ameaçadora.

É necessário ter um enorme senso de segurança para arriscar o próprio self em um contato íntimo com o outro. Nem mesmo a melhor terapia pode violar o princípio dialógico básico de que existem sempre dois lados numa interação: cada pessoa pode impor limites para estabelecer até onde ela deseja ir no “entre”. Até no diálogo genuíno há o “problema de limites”. Em outras palavras: [64]  “Eu faço algo, tento algo, desejo algo e empenho todo meu pensar existente nesse fazer. Então, em um dado momento, defronto-me com um muro, com uma fronteira, com um limite que não posso ignorar. Isso também se aplica ao que me interessa mais do que qualquer coisa: o diálogo humano efetivo”. (Buber, 1965b, p. 175) [65]

Psicologia - Gestalt
3/31/2020 2:07:26 PM | Por Richard Hycner
Texto indicado para estudantes de Psicologia
Psicoterapia dialógica, uma introdução

Este trabalho é um estudo cuidadoso de uma abordagem psicoterapêutica baseada na filosofia do diálogo — a psicoterapia dialógica. O esforço para tornar compreensível uma psicoterapia de base dialógica surge de uma profunda crença pessoal: a fundamen­tação de nossas teorias, métodos e práticas terapêuticas em uma abrangente filosofia do diálogo pode ampliar significativamente o conhecimento da psicoterapia, da patologia e da própria existência [21]  humana. Embora atualmente várias psicoterapias tragam implícita esta abordagem, nenhuma delas a utiliza como contexto explícito e foco de seu impulso para a cura.

As últimas duas décadas têm presenciado um excesso de técnicas psicoterápicas. Parece que surgiram técnicas suficientes para resolver qualquer problema psicológico imaginável. Ainda assim, elas nos deixaram ansiando por algo mais. Evidentemente não há nada errado com a técnica per se. Todos nós precisamos de técnicas. Ironicamen­te, entretanto, uma ênfase excessiva na orientação técnica fomenta os próprios problemas que ela se propõe a resolver. Quando as técnicas têm supremacia, o lado humano fica obscurecido.

Novos e importantes avanços no processo psicoterapêutico não se concretizarão com a descoberta de mais técnicas. Deseja-se algo mais — algo além da mera técnica. A técnica precisa estar baseada na relação entre pessoa e pessoa — o inter-humano. Este livro é um estudo de uma psicoterapia do inter-humano.

A psicoterapia dialógica não está identificada com nenhuma escola específica de pensamento psicoterapêutico, orientação teórica ou técnicas. Os princípios básicos desta postura são que a abordagem global, o processo e o objetivo da psicoterapia precisam estar assentados em uma perspectiva dialógica. Por “abordagem” entendemos a orientação global pessoal e filosófica do terapeuta para com o trabalho psicoterapêutico; o “processo” refere-se à interação de fato entre cliente e terapeuta; e “objetivo” significa o “resultado” da terapia — no caso, o aumento da habilidade relacional do cliente.

O termo “dialógico” não se refere ao “discurso” como tal, mas ao fato de que a existência humana, em seu nível mais fundamental é inerentemente relacional. Um modelo individualista de pessoa, ao [22] contrário, pressupõe primeiramente a existência de indivíduos como “entidades” separadas e considera o relacional como um fenômeno secundário. É difícil para as pessoas, no mundo moderno, aceitarem que “a individualidade” é somente um dos pólos de uma relação bipolar. Por outro lado, a teoria sistêmica de terapia familiar tende a obscurecer a singularidade do indivíduo. É necessária uma aborda­gem que abranja ambas as realidades. Como conseqüência, a abor­dagem dialógica exige uma mudança radical de paradigma dos modelos psicológicos do self isolado ou da abordagem sistêmica para a esfera do “inter-humano”.

O principal expositor da filosofia do inter-humano no século XX — a filosofia dialógica — foi Martin Buber. Buber foi um filósofo, educador e humanista que sentiu o colapso do relacionamento na civilização moderna. Ele tinha muita consciência de que a ênfase tecnocrática da sociedade moderna provoca um distanciamento maior entre as pessoas. A orientação tecnocrática moderna obscurece a dimensão central — o status ontológico — da esfera relacional em nossa vida. Desenfatizar do inter-humano resulta em isolamento, alienação e no inevitável narcisismo dos dias modernos. Isso cria uma obsessão com o self — a hiperconsciência. A realidade da outra pessoa está escondida por este foco acanhado. A fobia moderna de intimidade é um reflexo disso. O relacional fica subjugado por uma ênfase excessiva no individual. A ênfase excessiva no individual cria uma separação não somente entre as pessoas e em nosso relacionamento com a natureza, mas também dentro de nossa própria psique. A perspectiva dialógica é um esforço para sanar essas rupturas.

A dimensão do inter-humano manifesta-se no evento relacional — o diálogo — entre pessoas. Para Buber, o significado do inter-humano “...não será encontrado em qualquer um dos dois parceiros, nem nos dois juntos, mas somente no diálogo entre eles, no entre que é vivido por ambos” (1965b, p. 75). Sua realidade é maior que cada um dos indivíduos envolvidos. E também maior do que a soma total dos dois indivíduos. Ambos os aspectos são parte de uma esfera mais ampla — o inter-humano. Tanto o individual quanto a relação estão contidos na esfera do entre. [23] A publicação em 1923 do famoso trabalho de Buber, EU e TU, foi decisiva para nossa compreensão da natureza relacionai existência humana. Para ele, o dialógico acontece na esfera do entre e é marcado por duas polaridades EU-TU e EU-ISSO. Ambas são um reflexo das duas atitudes primárias que o ser humano pode assumir ao se relacionar com os outros e com o mundo em geral. A relação EU-TU é uma atitude de genuíno interesse na pessoa com quem estamos interagindo verdadeiramente como pessoa. Isso significa que valorizamos sua “alteridade”. Alteridade significa o reconhe­cimento e nítida separação do outro em relação a nós, sem que fique esquecida nossa relação e nossa humanidade comum subjacente. A pessoa é um fim em si mesma e não um meio para atingir um fim; e reconhecemos que somos uma parte dessa pessoa.

A relação EU-TU começa quando voltamos nosso “ser” para o de nosso parceiro. Podemos apenas nos preparar para a possibili­dade do encontro EU-TU. Não podemos “forçar” sua ocorrência. “O TU me encontra pela graça e não é encontrado pela procura” (Buber, 1923/1958b, p. 11). E um momento de “graça”, ao mesmo tempo em que é necessária a disponibilidade do outro para entrar em uma relação desta natureza comigo. O diálogo genuíno só pode ser mútuo. O momento EU-TU não pode ser mantido para sempre. Temos que aprender a aceitar “... o encanto de sua chegada e a nostalgia solene de sua partida...” (Buber, 1923/1958b, p. 33).

Em contraste, a relação EU-ISSO ocorre quando a outra pessoa é, essencialmente, um “objeto” para nós — utilizado, primariamente, como meio para um fim. Existem muitos mal-entendidos relacionados com a atitude EU-ISSO. A atitude EU-ISSO é um aspecto necessário na vida humana. Não é a existência da atitude EU-ISSO que está “errada”, mas sim a predominância esmagadora com que se manifesta na moderna sociedade tecnocrática. Todo mundo, alguma vez, tenciona atingir certos propósitos. Até o encontro EU-TU precisa depois tornar-se um fato objetivo. “Mas essa é a grande, melancolia de nosso destino, a de que cada TU, em nosso mundo, precisa tornar-se um ISSO” (Buber, 1923/1958b, p. 16). O problema só aparece quando a atitude tencionante domina nossa existência. O perigo é não conseguirmos reconhecer como é limitadora, no final, uma relação EU-ISSO, e seguirmos aplicando-a indiscriminadamente a [24] situações que clamam por um encontro genuíno entre pessoas. A atitude EU-ISSO, torna-se então a orientação primária em relação aos outros. A ênfase excessiva no conhecimento técnico e no materialismo, no final do século XX, é o resultado direto da preponderância da atitude EU-ISSO. A consciência moderna está tão permeada por essa atitude que algumas vezes fica difícil retroceder e discernir claramente.

Os termos EU-TU e EU-ISSO indicam a natureza recíproca de nossa orientação relacional. Eles criam o contexto para a atitude com a qual os outros aproximam-se de nós. Uma abertura genuí­na para com os outros tende a evocar uma resposta recíproca. Se os outros sentem-se tratados como objetos por nós, provavelmente irão se aproximar com intenções. A atitude com que me aproximo do outro é, também, a atitude com que me aproximo de mim mesmo. Se valorizo o outro, isso reflete minha própria autovalorização. Se transformo o outro em objeto, também serei um objeto.

A vida humana consiste de ambos os relacionamentos, EU-TU e EU-ISSO. Toda troca humana tem essas duas dimensões, muitas vezes simultaneamente. Em última análise, entretanto, o diálogo genuíno somente pode emergir se duas pessoas estiverem disponíveis para ir além da atitude EU-ISSO e valorizarem, aceitarem e apreciarem verdadeiramente a alteridade da outra pessoa. Basicamente, isso requer a transcendência da nossa individualidade. Isso significa estar disponível para conhecer e entrar, como descreve Buber, na esfera do entre.

Por “entre ”, Buber refere-se à esfera da qual todos participamos quando estamos envolvidos e verdadeiramente interessados em outra pessoa: transcendemos o senso de identidade que normalmente conhecemos. Ele, poeticamente, descreve isso como “do lado de lá do subjetivo, do lado de cá do objetivo, na vereda estreita onde EU e TU nos encontramos, aí fica o reino do entre” (1965a, p. 204). O entre não é um fenômeno físico-objetivo, nem tampouco psicológico-subjetivo; é um fenômeno ontológico. O ontológico refere-se aos aspectos fundamentais da nossa existência— os “dados” da existência humana.[25]  Juntamente com as dimensões do EU-TU e EU-ISSO, o entre é um elemento constitutivo próprio da existência humana. É aquele reino indescritível, que é maior que a soma de duas ou mais identidades. É o ponto de contato além das nossas identidades individuais. Buber enfatiza que o caráter ontológico da existência requer: distância e relação. O inter-humano é a esfera na qual estamos ao mesmo tempo separados e em relação. Somos tanto uma-parte-de outros seres humanos como estamos apartados deles. A existência sadia é todo aquele fugaz equilíbrio rítmico entre separação e relação.

Esse trabalho é um esforço de fundamentação. O seu valor final emergirá do diálogo que ele possa estabelecer com os leitores e do grau em que ele os encoraja a seguir além do que está sendo dito aqui. Esperamos que a voz que hesitantemente emerge neste livro, evoque a resposta de uma outra voz, para “...que tenhamos um diálogo”.

Psicologia - Gestalt
3/23/2020 3:17:44 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Psicanálise: os antecedentes

O menino olhava fixamente, com horror, enquanto sua mãe estava sendo levada carregada para o quarto. Foi uma visão que jamais esqueceu. Ele olhava o rosto dela; tão jovem e bonita, mas ele estava perplexo, e assustado com a expressão calma dela. Será que ela só estava dormindo ou será que estava morta? Seu olhar vagava pelas pessoas que a carregavam, mas elas não pareciam ser pessoas, não pareciam seres humanos. Eram muito altas, e estavam vestidas com roupas estranhas, mas era o rosto delas que o assustava mais. Pareciam ser algum tipo de criatura semelhante a um pássaro, com bicos muito longos. De repente acordou chorando e gritando de seu sonho, seu pesadelo. Pulou da cama e correu para o quarto de seus pais. Somente quando viu por si mesmo que sua mãe estava viva foi que conseguiu se acalmar e voltar a dormir.
Trinta anos depois, aquele sonho ainda representava uma experiência altamente emocional para Sigmund Freud e quando aplicou suas próprias técnicas para analisar sonhos, ele finalmente entendeu por quê. O significado superficial era obvio: um menino com medo de perder a mãe. Não havia nada incomum ou suspeito a respeito disso. Mas quanto mais Freud pensava a respeito daquele sonho, mais compreendia que ele revelava um significado mais sutil, sinistro, até mesmo chocante.

Freud se concentrava no aspecto mais estranho do sonho - nas criaturas que se pareciam com pássaros de bicos longos.

Que significado poderiam ter? O que poderiam revelar sobre os desejos inconscientes de um menino de sete anos de idade? Ele também se lembrava de um amigo de infância, um jovem muito mais vivido do que ele próprio. Esse menino gostava de conversar sobre sexo, um assunto proibido, havia ensinado a Freud uma expressão popular em alemão para se referir a relações sexuais. A palavra era vögeln.

Já adulto, Freud conhecia naturalmente a palavra, e também que era derivada de uma outra palavra alemã que significava pássaro. As criaturas em seu pesadelo tinham rostos semelhantes aos de pássaros. Assim que fez a ligação, entendeu o verdadeiro significado de seu sonho. Simbolizava o desejo sexual de um menino de 7 anos por sua mãe. Inconscientemente, ele desejava fazer amor com ela.

Se a criança é o pai para o homem, como diz o provérbio popular - e como Freud acreditava - então podemos ver a semelhante para a criança que sonhou perder sua mãe, e o médico de meia-idade que desembaraçou a meada de seu sonho, e, no processo, iniciou outra revelação em psicologia.

O desenvolvimento da Psicanálise

O termo "psicanálise" e o nome Sigmund Freud são amplamente conhecidos no mundo moderno. Outros nomes de destaque na história da psicologia, tais como Fechner, Wundt e Titchener, são pouco conhecidos fora da área, diferentemente de Freud, que mantém até hoje alto grau de notoriedade entre o público em geral. Ele apareceu na capa da revista Times três vezes, sendo a última, cerca de 60 anos após a sua morte. No 150° aniversário de sua morte, em 2006, sua foto apareceu na capa da Newsweek e foi tratado como celebridade em um extenso editorial no Wall Street Journal. O jornalista da Newsweek o descreveu como "uma força inexorável que cativou a todos nós" (Adler, 2006, p. 43). Freud foi certamente uma pessoa fundamental na história da civilização e que alterou o modo que as pessoas têm de pensar sobre si mesmas.

E, sem dúvida, ele concordaria em que está entre as poucas figuras da história da civilização a provocar uma alteração na visão que o ser humano tem de si mesmo. O próprio Freud sugeria três grandes mudanças ocorridas no ego humano coletivo em todo o registro histórico (Freud, 1917). A primeira, quando Copérnico (1473-1543), o astrônomo polonês, demonstrou que a Terra não era o centro do universo, mas apenas um dos muitos planetas a girarem em [347] torno do Sol. A segunda mudança ocorreu no século XIX, quando Charles Darwin mostrou não ser o homem uma espécie única e distinta ocupando um papel de destaque na criação, mas apenas uma espécie superior proveniente de formas inferiores de vida animal. E finalmente, a terceira mudança, provocada por Freud, ao afirmar não ser o homem agente racional da própria vida, pois se encontra sob a influência de forças inconscientes que não percebe e sobre as quais tem pouco ou nenhum controle.

Cronologicamente, a psicanálise se sobrepõe às demais escolas de pensamento da psicologia. Observe a situação em 1895, quando Freud publicou o primeiro livro, marcando o início formal do novo movimento: Wundt estava com 63 anos, e Titchener, com 2S depois de passar apenas dois anos em Cornell, estava começando a desenvolver a psicologia estrutural. O espírito do funcionalismo começava a florescer nos Estados Unidos. Nem o behaviorismo nem a psicologia da Gestalt haviam sido propostos; Watson tinha então, 17 anos, e Wertheimer, 15.

Todavia, em 1939, ano da morte de Freud, o universo da psicologia havia mudado completamente. A psicologia wundtiana, o estruturalismo titcheriano e a psicologia funcional já faziam parte do passado. A psicologia da Gestalt era transplantada da Alemanha para os Estados Unidos, e o behaviorismo constituía a forma dominante da psicologia estadunidense.

Apesar das divergências básicas, as escolas de psicologia abordadas até aqui com partilhavam uma herança acadêmica e deviam grande parte da inspiração e forma a Wilhelm Wundt. Os conceitos e métodos científicos dessas escolas foram aprimorados em laboratórios, bibliotecas e salas de conferências, e todos abordavam temas tais como a sensação, a percepção e a aprendizagem. Entretanto, a psicanálise não era um produto das universidades nem uma ciência pura; ela surgiu dentro das tradições da medicina e da psiquiatria a partir das tentativas de tratamento de pessoas rotuladas pela sociedade como doentes mentais. Desse modo, a psicanálise não foi (e não é) uma escola de pensamento diretamente comparável com as aqui estudadas até o momento.

Desde o início, a psicanálise distinguia-se do pensamento psicológico geral tanto em relação aos objetivos como no tocante aos métodos e ao objeto de estudo. A psicanálise possui como objeto de estudo a psicopatologia - ou o comportamento anormal - em parte negligenciada pelas demais escolas de pensamento, e adota como principal método a observação clínica, e não a experimentação controlada de laboratório. E ainda trata do inconsciente, tópico praticamente ignorado por outros sistemas de pensamento.

Wundt e Titchener não admitiam no seu sistema a ideia de forças inconscientes por não serem objetos passíveis de aplicação do método introspectivo, não podendo, assim, ser reduzidas em elementos sensoriais. Os funcionalistas, concentrados exclusivamente no estudo do consciente, não viam validade no uso da mente inconsciente, embora James admitisse a noção desses processos. Angell, no seu livro básico publicado em 1904, não dedica mais de duas páginas, no final, ao inconsciente. Na obra de referência publicada em 1921, Woodworth dedica-se um pouco mais à questão, tratando-a como um tema para reflexão. Watson, é claro, não vislumbrava espaço no seu sistema behaviorista para o inconsciente tanto como para o consciente. Menosprezava o inconsciente, tratando-o como algo ainda não verbalizado pelo indivíduo. Freud foi o responsável pela introdução da noção de inconsciente na psicologia. [348]

As influências Anteriores sobre a Psicanálise

As três principais fontes de influência no movimento psicanalítico foram as reflexões:

  1. filosóficas a respeito do fenômeno psicológico inconsciente;
  2. as primeiras ideias sobre a psicopatologia;
  3. a teoria da evolução.

As Teorias da Mente inconsciente

No início do século XVIII, o filósofo e matemático alemão Gottfried Wilhelm Leibnitz (1646-1716) desenvolveu uma ideia que chamou de monadologia. As mônadas não eram apenas átomos físicos como também elementos individuais de toda a realidade. Assim, as mônadas não eram compostas totalmente de matéria no sentido da palavra empregada pelos físicos. Cada mônada era uma entidade psíquica não estendida que, mesmo sendo de natureza mental, continha algumas propriedades de matéria física. A união de mônadas suficientes criava uma extensão.

Monadologia: teoria de Leibnitz sobre as entidades psíquicas, denominadas mônadas, similares às percepções.

As mônadas eram comparadas à percepção. Leibnitz acreditava que os fatos mentais (a atividade das mônadas) possuíam graus diferentes de consciência, variando do completamente inconsciente para o claramente consciente. Os graus de consciência inferiores eram denominados petites perceptions (percepções minúsculas); a realização consciente dessas percepções era denominada de apercepção. Por exemplo, o som da quebra das ondas na praia é uma apercepção composta de gotas individuais de água (aspercepções minúsculas). Conscientemente, não se percebe cada gota d'água individual, no entanto, quando gotículas se juntam em uma quantidade suficiente, produz-se a apercepcão.

Um século depois, o filósofo e educador alemão Johann Friedrich Herbart (1776-1841) aprimorou a noção de Leibnitz acerca do inconsciente, transformando-a no conceito de limiar de consciência. Refletindo o impacto do Zeitgeist mecanicista, Herbart considerava inconscientes as ideias no nível abaixo do limiar proposto. Quando ela surge no nível consciente do conhecimento, é apercebida (usando o termo de Leibnitz). No entanto, para que a ideia apareça no consciente, ela deve ser compatível com as já existentes na consciência. As incompatíveis não podem coexistir na consciência, e as irrelevantes são expulsas da consciência e tornam-se ideias inibidas. Estas (semelhantes às percepções minúsculas de Leibnitz) existem abaixo do limiar de consciência. De acordo com Herbart, surgem conflitos entre as ideias à medida que elas lutam pela realização consciente. Ele propôs fórmulas matemáticas para avaliar seu funcionamento mecânico, conforme elas entram na consciência ou dali são rejeitadas.

Fechner também estudava o inconsciente e, embora aceitasse a noção de limiar, foi a sua analogia entre a mente e o iceberg que provocou maior impacto em Freud. Fechner afirmava [349] que, assim como a maior porção do iceberg, grande parte da mente fica escondida debaixo da superfície e é influenciada por forças não-observáveis.

É interessante observar que o trabalho de Fechner, ao qual a psicologia experimental deve bastante, também influenciou a psicanálise. Freud fez várias referências à obra Elements of psychophysics, de Fechner, em seus livros e elaborou muitos dos principais conceitos (por exemplo, o do princípio do prazer, o da energia psíquica e o da agressâo) com base nos trabalhos de Fechner. Nas cartas que escreveu a um amigo da juventude Freud contava que, no fim da sua adolescência e já por volta dos 20 anos, gostava de ler as obras satíricas de um tal de Dr. Mises, pseudônimo usado por Fechner para satirizar as tendências da ciência e da medicina (veja Boehlich, 1990).

As discussões acerca do inconsciente dominavam o Zeitgeist intelectual europeu na década de 1880, quando Freud iniciou a prática clínica. O tema não só despertou o interesse somente dos profissionais, como também era frequentemente abordado na conversas do público erudito. O livro intitulado Philosophy of the unconscious tornara-se tão popular que foi publicado em nove edições (Hartmann, 1869/1884). Na década de 1870, no mínimo meia dúzia de livros publicados na Alemanha mencionava a palavra "inconsciente” no título.

A noção da capacidade das forças inconscientes de suplantar e dominar a porção mais racional do indivíduo logo estava presente na literatura popular. No romance do escritor Robert Louis Stevenson, Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O médico e o monstro), publicado em 1889 o bom doutor bebe uma poção misteriosa que liberta um lado diferente da sua personalidade, dotado de todas as formas de imperfeição. Essa personalidade inferior, essa exigente presença amoral, gradualmente consome a personalidade moral, integra e racional.

Observa-se, assim, não haver sido Freud o primeiro a discutir com seriedade a mente humana inconsciente. Freud reconhecia que outros escritores e filósofos antes dele abordaram profundamente esse tema, mas alegava ser ele o descobridor da forma científica para o estudo do inconsciente.

As primeiras ideias sobre Psicopatologia

Como já observamos, para um novo movimento ganhar destaque é necessário haver algum objeto de contestação. Como não foi desenvolvido dentro do ambiente acadêmico, o movimento psicanalítico não se opunha à forma de psicologia de Wundt ou a qualquer outra escola de pensamento dominante na época. Para compreender qual era o alvo da contestação de Freud, é necessário observar as tendências predominantes na área em que ele atuava: o tratamento dos distúrbios mentais.

A história do tratamento da doença mental é tanto fascinante, quanto deprimente. O reconhecimento da doença mental data de 2000 a.e.c. Os babilônios acreditavam na possessão demoníaca como a causa da doença mental, um estado tratado humanitariamente com uma combinação de magia e orações. As antigas culturas hebraicas consideravam a doença mental uma punição pelos pecados e contavam com a cura por meio da magia e da oração. Os filósofos gregos - notadamente Sócrates, Platão e Aristóteles - afirmavam ser o distúrbio mental resultante de processos de pensamento desordenados. Prescreviam o método persuasivo de cura por meio da força das palavras.

No século IV, com o estabelecimento do cristianismo, o distúrbio mental voltou a ser atribuído aos espíritos demoníacos. O tratamento imposto pela Igreja por mais de mil [350] anos consistia na tortura e na execução daqueles considerados possuídos pelo demônio. Iniciada no século XV, e prosseguindo por 300 anos, a inquisição conduzida pela Igreja perseguia a heresia e a bruxaria, identificando implacavelmente os sintomas de doenças mentais, para os quais a única cura estava na punição severa.

Por volta do século XVIII, a doença mental passou a ser vista como um comportamento irracional. As pessoas portadoras de doenças mentais ficavam confinadas em instituições semelhantes a prisões. Embora não fossem mais torturadas ou condenadas à morte, não recebiam nenhum tipo de tratamento. Às vezes, os pacientes eram exibidos publicamente como animais de zoológico. Alguns passavam anos acorrentados às camas ou com braços e pernas presos com barras de ferro. Outros tinham arcos de ferro em volta do pescoço, presos por correntes em ganchos pendurados na parede, assim como um cão com coleira. Essas prisões ficaram conhecidas como asilos para lunáticos e eram descritas como “cemitérios para os mortos-vivos" (Scull, MacKenzie e Hervey, 1996, p. 118).

Tratamentos mais humanos. Juan Luis Vives (1492-1540), um estudioso espanhol, foi um dos primeiros a exigir tratamento mais sensível e humano para os indivíduos portadores de doenças mentais. No entanto, em virtude das barreiras linguísticas e geográficas, seus apelos por tratamentos mais tolerantes ficaram restritos à Espanha. Somente após o final do século XVIII suas ideias foram acolhidas em outras regiões.

O médico francês Philippe Pinel (1745-1826) considerava a doença mental um fenômeno natural passível de tratamento por meio de métodos da ciência natural. Ele tirou as correntes dos pacientes tratando-os com decência e ouvindo pacientemente as suas queixas. Registrou e arquivou minuciosamente os dados dos casos clínicos e dos índices de cura.

O doente mental, longe de ser um indivíduo culpado e merecedor de castigo, é uma pessoa doente, cujo estado de sofrimento merece toda a consideração dispensada à humanidade sofredora. Alguém deve tentar restaurar a razão desse indivíduo usando métodos simples. (Pinel apud Wade, 1995, p. 25)

Sob a direção de Pinel, o número de pacientes graves curados cresceu significativamente. Com seu exemplo, pacientes foram libertados das correntes na Europa e nos Estados Unidos, e o estudo das doenças mentais foi ampliado. "O esclarecimento científico resultou (...) no tratamento do ser humano como uma máquina que, quando quebra, precisa ser consertada. Esse conserto era realizado em sanatorios dotados de equipamentos e aparelhagens, invenções resultantes da Revolução Industrial (Brems, Thevenin e Routh, 1991, p. 12).

Nos Estados Unidos, a reformadora mais influente dos sanatórios foi Dorothea Dix (1802-1887), pessoa extremamente religiosa e que sofria de depressão. Impressionada com os resultados obtidos por Pinel com os pacientes, ela se empenhou ao máximo e usou sua capacidade de persuasão para repetir o sucesso por ele obtido. Viajou pelos Estados Unidos, reivindicando e obtendo, dos deputados estaduais, a imposição de um tratamento mais humanitário ao doente mental. Ela dizia: "Venho como advogada de homens e mulheres insanos, estúpidos, esquecidos e desamparados; de seres humilhados e condenados a condições que provocariam verdadeiro horror até nos mais insensíveis" (apud Grob, 1994, p. 46).[1] [351]

O primeiro psiquiatra a abrir uma clínica formal nos Estados Unidos foi Benja-Rush (1745-1813), um dos signatários da Declaração de Independência. Rush fundou o primeiro hospital exclusivo para o tratamento de distúrbios emocionais. Trabalhando dentro da conhecida tradição mecanicista, afirmava que tudo no universo, "inclusive a mente a moralidade humana, podia ser explicado com base nas leis da física e inserido na estrutara racional e científica" (Gamwell e Tomes, 1995, p. 19). Por exemplo, Rush acreditava no excesso ou na falta de sangue como a causa de alguns comportamentos irracionais. O remédio era simples: bastava drenar ou injetar mais sangue nos pacientes.

Ele chegou a criar uma cadeira giratória que rodava o infeliz do paciente em uma enorme velocidade, muitas vezes fazendo-o desmaiar. Como uma das primeiras formas de tratamento de choque, Rush mergulhava os pacientes em água gelada. Também se credita a ele a primeira técnica de sedação. O paciente ficava preso em uma cadeira tranquilizante, com tiras amarradas em volta do peito, dos pulsos e dos tornozelos; blocos de madeira presos em um torno exerciam pressão sobre a sua cabeça.

Embora hoje essas técnicas pareçam cruéis, lembre-se de que Rush estava tentando ajudar as pessoas portadoras de doenças mentais em vez de simplesmente jogá-las em instituições que ignoravam as suas necessidades. Ele reconhecia que os pacientes estavam doentes, e não possuídos pelo demônio.

Durante o século XIX, os psiquiatras dividiam-se entre duas visões: a somática e a psíquica. Os psiquiatras da visão somática afirmavam ser o comportamento anormal resultante de causas físicas como lesão cerebral, falta de estimulação nervosa ou tensão excessiva dos nervos. Os da escola psíquica baseavam-se nas causas psicológicas e emocionais para explicar o comportamento anormal. No geral, a visão somática predominava, sustentada nas ideias do filósofo alemão Immanuel Kant, que ridicularizava a noção de doença mental resultante, de alguma forma, de problemas emocionais.

A psicanálise desenvolveu-se como uma revolta contra a orientação somática. Com os avanços no tratamento das doenças mentais, alguns cientistas se convenciam de que os fatores emocionais tinham maior importância que as lesões cerebrais ou outras causas físicas.

O movimento da Igreja Emmanuel. A inclinação à visão psíquica da doença mental foi impulsionada nos Estados Unidos pelo sucesso surpreendente do Movimento de Cura da Igreja Emmanuel, comprovando a eficácia da psicoterapia. Com o enfoque nos benefícios proporcionados pela terapia da palavra, os promotores do movimento conscientizavam o público e a comunidade médica acerca da importância dos fatores psicológicos como prováveis causas da doença mental (Caplan, 1998; Gifford, 1997). O movimento, iniciado por Elwood Worcester, reitor da Igreja Emmanuel, de Boston, Massachusetts, exerceu muita influência no período, mais ou menos, de 1906 a 1910. O reverendo Worcester era um religioso diferenciado, já que possuía o título de Ph.D. em filosofia e psicologia da University of Leipzig, na Alemanha, onde estudou sob a orientação de Wilhelm Wundt. Assim, Worcester foi mais um dos discípulos de Wundt a desviar-se de sua orientação, abandonando a abordagem wundtiana e seguindo a psicologia experimental, passando a aplicá-la aos problemas da vida real.

O movimento começou em 1906 quando Worcester anunciou publicamente em uma palestra para seus paroquianos que estaria disposto a se encontrar na manhã seguinte com qualquer pessoa que tivesse problemas psicológicos e que quisesse discuti-los. Ele achava que alguns apareceriam, mas ficou surpreso, pois 200 apareceram. (Beniamin e Baker, 2004, p.49). [352] 

Obviamente, havia interesse pelo que Worcester estava oferecendo. As sessões de terapia da palavra, tanto individuais quanto coletivas, eram conduzidas por líderes religiosos de diversas denominações e contavam muito com o poder de sugestão e com a autoridade moral do religioso para impor aos pacientes a orientação sobre o comportamento adequado. A terapia rapidamente tornou-se popular nos Estados Unidos e logo foi reforçada com uma série de artigos da revista Good Housekeeping, publicada por quase dois anos. Em 1908, o livro escrito por Worcester e mais dois colegas, Religion and medicine: the moral control of nervous disorders, foi aclamado pela imprensa como a publicação mais importante a respeito da "psicoterapia científica” (Caplan, 1998, p. 297).

Em 1909, foi publicado um periódico chamado Psychotherapy, que englobava "psicologia, medicina e religião profundas” (Zaretsky, 2004, p. 80). Não tão incidentalmente, como veremos, 1909 também foi o ano da única visita de Freud aos Estados Unidos.

Embora o público acolhesse com entusiasmo o movimento, a comunidade médica e os psicólogos clínicos, como Witmer e Münsterberg, opunham-se à ideia de atuação dos religiosos como psicoterapeutas. No entanto, foi principalmente devido à popularidade do movimento da Igreja Emmanuel que Freud e sua psicanálise foram muito bem recebidos nos Estados Unidos quando esteve no país, em 1909, para transmitir as suas ideias. O conceito de terapia da palavra já fazia parte da consciência nacional.

A hipnose. O interesse no fenômeno da hipnose também impulsionou o enfoque crescente nas causas psíquicas do distúrbio mental. Sua aplicação no tratamento dos distúrbios emocionais teve origem em uma misteriosa e obscura força chamada "magnetismo animal”, conceito introduzido pelo médico vienense Franz Anton Mesmer (1734-1815), que era meio cientista e meio artista.

Mesmer acreditava ser o corpo humano dotado de uma força magnética que funcionava como os ímãs usados pelos físicos. Esse magnetismo animal era capaz de penetrar nos objetos e atuar sobre eles a distância. O magnetismo animal também era capaz de curar distúrbios nervosos, restaurando o equilíbrio entre o nível magnético do paciente e o nível prevalecente no ambiente.

No início, Mesmer afirmava reverter a doença mental, fazendo o paciente agarrar barras de ferro imantadas. Depois, alegava que bastava ele mesmo tocar ou bater nas mãos do paciente para que a sua força magnética fosse transmitida para os corpos dos doentes. Como era de se esperar, a comunidade médica vienense considerou-o um charlatão.

Mesmer fez um estrondoso sucesso em Paris, onde conduzia sessões de terapia em grupo em uma sala fracamente iluminada, com música suave de fundo e perfume de flores de laranjeira no ar. Vestindo um roupão de cor lilás, orquestrava resultados, muitas vezes, dramáticos. Os pacientes, amarrados uns aos outros com cordas, ficavam empoleirados em volta de uma banheira cheia de fluido magnetizado, agarrados às hastes de ferro que saíam do recipiente. Mesmer e seus assistentes magnetizadores caminhavam entre os pacientes, passando as mãos nos corpos daquelas pessoas perturbadas. Muitos sofriam convulsões ou entravam em transe antes de voltar à consciência, curados milagrosamente (Wade, 1995).

Quando uma comissão de investigação pronunciou-se contra as chamadas curas de Mesmer, ele fugiu para a Suíça. No entanto, a popularidade do mesmerismo se espalhou, principalmente nos Estados Unidos, onde rapidamente tornou-se uma espécie de brincadeira de salão. Um historiador da cultura da época relatou que, por volta de meados do século XIX, [353] somente na região nordeste do país, havia cerca de 20 a 30 mil praticantes de mesmerismo. Muitos deles utilizavam a sua (...) força para controlar o comportamento e as atitudes dos indivíduos que mesmerizavam, para espanto do público, que, muitas vezes, chegava a ser de cerca de duas a três mil pessoas. (Reynolds, 1995, p. 260)

Na Inglaterra, o mesmerismo recebeu novo nome e ganhou mais credibilidade quan  do James Braid (1795-1860) chamou o estado de aparente catalepsia de neuro-hipnologia expressão da qual eventualmente se derivou o termo hipnose. O trabalho cuidadoso e o desprezo pela divulgação exagerada renderam à hipnose alguma respeitabilidade cientí  fica (veja Schmit, 2005).

A hipnose obteve maior reconhecimento profissional dentro do círculo médico em virtude do trabalho do médico francês Jean Martin Charcot (1825-1893), diretor da clínica neurológica de Salpêtrière, um hospital parisiense para mulheres com doenças mentais. Charcot obteve algum êxito tratando pacientes histéricas por meio da hipnose. Sua contribuição mais importante foi a descrição dos sintomas da histeria e do uso da hipnose, adotando a terminologia médica, facilitando assim a aceitação da técnica pela Academia Francesa de Ciências. Todavia, seu trabalho abordava principalmente os aspectos neurológicos, enfatizando os distúrbios físicos, tais como a paralisia. A maioria dos médicos continuou a atribuir a histeria às causas somáticas ou físicas até 1889, quando Pierre Janet (1859-1947), aluno de Charcot, tornou-se diretor do laboratório de psicologia da Salpêtrière.[2]

Janet rejeitava a opinião de que a histeria fosse como um problema físico e entendia-a como um distúrbio mental causado por deterioração da memória, por ideias fixas e forças inconscientes. Ele adotava a hipnose como método de tratamento. Desse modo, durante os primeiros anos da carreira de Sigmund Freud, a sociedade médica prestava muita atenção à hipnose e às causas psicológicas da doença mental. Veremos mais adiante que o trabalho de Janet antecipou muitas das ideias de Freud.

Os trabalhos de Charcot e de Janet no tratamento dos distúrbios mentais ajudaram a mudar os conceitos dos psiquiatras da perspectiva somática (física) para a psíquica (mental). Os médicos começaram a pensar na cura dos distúrbios emocionais por meio de tratamento da mente e não do corpo. Quando Freud começou a divulgar suas ideias, o termo "psicoterapia" já era amplamente utilizado nos Estados Unidos e na Europa.[354]

A influência de Charles Darwin

Em 1979, Frank J. Sulloway, famoso historiador da ciência, publicou a obra Freud: biologist of the mind (1979), na qual afirma que o trabalho de Darwin influenciou o pensamento de Freud. Sulloway chegou a essa conclusão com base em uma nova interpretação dos dados históricos. Estudou as informações disponíveis, mas partiu de uma visão que ninguém mais adotara. Ele verificou os livros da biblioteca pessoal de Freud, onde encontrou muitas cópias dos trabalhos de Darwin. Constatou que Freud lera todos e fizera anotações nas margens, além de haver elogiado os trabalhos para os colegas e nas próprias publicações Sulloway afirmou que Darwin "provavelmente fez mais que qualquer outra pessoa, abrino o caminho para Sigmund Freud e a revolução da psicanálise" (Sulloway, 1979, p.238). Uma pesquisa mais recente confirmou a importância de Darwin na teoria psicanalítica de Freud. Mais ao final da vida, Freud insistia em afirmar que o estudo da teoria da evolução de Darwin foi parte fundamental do programa de formação de psicanalistas (Ritvo, 1990). Darwin discutiu várias ideias usadas posteriormente por Freud como temas centrais a psicanálise, inclusive os conflitos e processos mentais inconscientes, o significado dos sonhos, o simbolismo oculto de alguns comportamentos e a importância do impulso sexual. No geral, Darwin concentrou-se, assim como Freud faria posteriormente, nos aspectos irracionais do pensamento e do comportamento.

As teorias de Darwin também influenciaram as ideias de Freud a respeito do desenvolvimento infantil. Darwin doou suas anotações e o material não publicado a Romanes, que, mais tarde, escreveu dois livros, baseados nesse material, sobre a evolução humana e a animal. Sulloway encontrou cópias dos livros de Romanes nas prateleiras da biblioteca de Freud com os comentários de próprio punho escritos nas margens. Romanes estudou e aprofundou o conceito de Darwin sobre a continuidade do comportamento emocional da infância até a fase adulta, e sobre a sugestão do surgimento do impulso sexual já nos bebês com sete semanas de vida. Ambos os temas tornaram-se centrais na psicanálise freudiana.

Ademais, Darwin afirmava que os seres humanos eram conduzidos pelas forças biológicas do amor e da fome, o que ele considerava a base de todo comportamento. Menos de uma década depois, o psiquiatra alemão Richard von Krafft-Ebing expôs visão semelhante, de que a satisfação sexual e a autopreservação seriam os únicos instintos fisiológicos humanos. Dessa maneira, cientistas respeitados estavam seguindo a visão de Darwin e reconhecendo o sexo como uma motivação humana básica.

Outras influências

Durante o período universitário, Freud fora exposto às ideias do mecanicismo, tal como representado pelos fisiologistas, incluindo Helmholtz, que fora aluno de Johannes Müller. Eles se uniram para defender a posição de que as únicas forças ativas existentes no organismo seriam as físicas e químicas. Freud foi influenciado por essa orientação mecanicista defendida por Ernst Brücke, seu principal professor, e quando, mais tarde, formulou a teoria sobre o comportamento humano, ela seria determinista! Realmente, ele se referia à teoria como determinismo psíquico.

Outro aspecto do Zeitgeist refletido no trabalho de Freud foi a atitude em relação ao sexo na Viena do final do século XIX, onde viveu e trabalhou. A noção popularmente conhecida de que a discussão aberta de Freud a respeito do sexo fora considerada chocante por causa da sociedade repressora da época é uma visão equivocada. Embora a inibição sexual fosse um assunto típico de Freud e das suas pacientes da alta classe média, essa não era uma atitude cultural generalizada. Viena, naquela época, era uma sociedade permissiva (mesmo a Inglaterra vitoriana e a América puritana não eram assim tão puritanas e inibidas como normalmente costuma-se imaginar). As décadas de 1880 e 1890 foram caracterizadas por uma interrupção da sublimação vitoriana da sexualidade. A paixão, a prostituição e a pornografia floresciam. [355]

O interesse pelo sexo estava evidente na vida cotidiana, bem como na literatura científica. Anos antes de Freud elaborar a teoria baseada no sexo, outras pesquisas foram publicadas a respeito da patologia sexual, da sexualidade infantil e da repressão dos impulsos sexuais e também dos seus efeitos na saúde física e mental. Em 1845, o médico alemão Adolf Patze afirmou que o impulso sexual podia ser detectado já em criancas de 3 anos, afirmação reiterada em 1867 por Henry Maudsley, um psiquiatra britânico. Em 1886 Krartt-Ebing publicou um livro sensacional, Psychopathia sexualis. E, em 1897 um médico vienense, Albert Moll, escreveu sobre a sexualidade infantil e o amor do filho pelos pais do sexo oposto, antecipando a teoria do complexo de Édipo elaborada por Freud.

Um colega de Freud em Viena, o neurologista Moritz Benedikt, obteve curas drásticas de mulheres histéricas, fazendo-as falar sobre a sua vida sexual. O psicólogo francês Alfred Binet publicou um trabalho sobre as perversões sexuais. Mesmo a palavra "libido" de grande significado na psicanálise de Freud, já era usada praticamente com o mesmo sentido por ele atribuído. Desse modo, o componente sexual do trabalho de Freud já constava de uma forma ou outra, de outros trabalhos. Principalmente por causa da receptividade imperante no Zeitgeist profissional e público, as ideias de Freud chamaram muito a atenção.

O conceito de catarse também já era conhecido antes de Freud publicá-lo em seu trabalho. Em 1880, um ano antes de Freud se formar em medicina, um tio da sua noiva escreveu a respeito do conceito aristotélico de catarse, que seria uma forma de tratamento das dificuldades emocionais, fazendo o paciente relembrar e descrever os conflitos inconscientes. Catarse tornou-se assunto popular nas conversas da elite e, por volta de 1890, havia mais de 140 publicações na Alemanha abordando-a (Sulloway, 1979). [356]

Catarse: processo de redução ou eliminação de um complexo, transferindo-o para o consciente permitindo, assim, a sua expressão.

Muitas das ideias de Freud a respeito da simbologia dos sonhos já foram antecipadas na filosofia no século XVII. Embora ele afirmasse ser o único cientistas a demosntrar interesse pelos sonhos, os fatos históricos o desmentem: três contemporâneos de Freud já os estudavam. Na sua proposta, Charcot afirmava que o trauma psicológico relacionado com a histeria era revelado nos sonhos do paciente. Janet dizia que as causas da histeria estavam contidas nos sonhos e usava a sua análise como ferramenta terapêutica. Krafft-Ebing alegava que os desejos sexuais inconscientes podiam ser encontrados nos sonhos (Sand, 1992).

Embora o pensamento de Freud sofresse diversas influências, não podemos esquecer a sua genialidade, bem como a de todos os demais fundadores de outras escolas. Com base em suas habilidades de unir as tramas de diversas ideias e tendências um coerente sistema foi tecido. O próprio Freud reconhecia seus precursores. Em 1924, disse que a psicanálise “não caiu pronta do céu. Seu ponto de partida está nas ideias antigas, desenvolvidas posteriormente; a psicanálise surgiu das sugestões anteriores que foram aperfeiçoadas” (apud Grubich-Simitis, 1993, p. 265).

Sigmund Freud (1856-1939) e a evolução da Psicanálise

Sigmund Freud nasceu em 6 de maio de 1856, em Freiberg, na Morávia (hoje Pribor, na República Tcheca).[1] Seu pai era comerciante e trabalhava com lãs. Quando os negócios fracassaram na Morávia, mudou-se com a família para Leipzig e, quando Freud estava com 4 anos, para Viena, cidade em que Freud permaneceu por quase 80 anos. Seu pai, 20 anos mais velho que a mãe, era severo e autoritário. Quando garoto, Freud sentia ao mesmo tempo medo e amor pelo pai. A mãe era protetora e carinhosa; com ela, o jovem Freud tinha uma ligação de paixão. Esse medo do pai e a atração sexual pela mãe foi o que ele mais tarde chamou de complexo de Édipo. Veremos que grande parte da sua teoria possuía base autobiográfica, resultante das experiências e recordações da própria infância.

A mãe de Freud tinha imenso orgulho do primogênito, dedicando-lhe constantes atenção e apoio. Ela estava totalmente convencida de que ele teria um futuro grandioso. Entre as características da personalidade do Freud adulto, notavam-se a autoconfiança, a ambição, o desejo de grandes realizações e o sonho com fama e glória. Ele disse: "Um homem que foi sem dúvida alguma o preferido da mãe mantém durante a vida o sentimento de um conquistador e a confiança no êxito que muitas vezes induz à concretização do sucesso" (apud Jones, 1953, p. 5).

Um dentre oito filhos, Freud demonstrava considerável habilidade intelectual, que a família procurava incentivar. Seu quarto era o único provido de lamparina a óleo, que proporcionava melhor iluminação para estudar do que as velas usadas pelos irmãos. Os pais não permitiam que os irmãos e as irmãs de Freud tocassem instrumentos musicais, temendo que o som perturbasse o jovem estudante. Apesar desse tratamento especial, Freud parecia ressentir-se dos irmãos.

Freud ingressou no ensino médio um ano antes do usual e era considerado um aluno brilhante, formando-se com distinção aos 17 anos. Falava alemão e hebraico em casa e, na escola, estudava latim, grego, francês e inglês. Além disso, estudava sozinho italiano e espanhol. Exposto à teoria da evolução de Darwin, interessou-se pela visão científica do conhecimento, decidindo assim estudar medicina. Não se sentia inclinado à prática médica, no entanto acreditava que a formação em medicina o guiaria para a carreira da pesquisa científica.

Iniciou os estudos em 1873 na University of Vienna. Por causa do interesse em frequentar cursos - como filosofia - que não faziam parte da grade curricular de medicina, levou oito anos para se formar. Especializou-se em biologia, tendo dissecado mais de 400 enguias machos para determinar a estrutura dos testículos. Suas descobertas foram inconclusivas, mas é interessante observar que sua primeira pesquisa já envolvia o sexo. Mudou para a fisiologia e realizou um trabalho sobre a espinha dorsal do peixe, passando seis anos debruçado sobre o microscópio no instituto fisiológico.

Durante esses anos na universidade, Freud realizou experiências com cocaína, que naquela época não era uma substância proibida. Ele próprio fez uso da droga e a fornecia para a noiva, as irmãs e os amigos, além de haver introduzido a substância na prática médica. Ficou entusiasmado com o seu efeito e disse que a droga amenizava a sua depressão e a indigestão crônica de que sofria. Convencido de haver encontrado na cocaína a droga milagrosa para a cura de todas as doenças desde a ciática até o enjoo, esperava obter com essa descoberta o reconhecimento por que tanto ansiava, o que não se concretizou.

Koller, um dos colegas médicos de Freud, depois de ouvir sem querer uma conversa em que ele falava da droga, conduziu a própria pesquisa e descobriu a possibilidade do uso da cocaína como anestésico para o olho humano, facilitando, assim, os procedimentos cirúrgicos para o tratamento dos distúrbios oculares. Assim, Koller alcancou a fama que Freud almejava.

Freud publicou um trabalho falando sobre os benefícios da cocaína, pesquisa considerada desde então parcialmente responsável pela disseminação do uso da droga na Europa e nos Estados Unidos, que durou até a década de 1920. Freud foi muito criticado por defener o uso da cocaína para outros fins além da cirurgia ocular e por disseminar essa praga pelo mundo. Ele tentou, pelo resto da vida, apagar as lembranças do seu endosso ao uso da droga e omitiu da própria bibliografia as referências a essas publicações. Acredita-se que Freud parou de usar droga depois de terminar a escola de medicina, mas uma análise das suas cartas (dados históricos descobertos mais recentemente) revelou que ele teria usado a droga por pelo menos mais 10 anos, até chegar à meia-idade (Masson, 1985).

Freud queria continuar a pesquisa científica em um laboratório acadêmico, no entanto Ernst Brucke, o professor da escola de medicina e diretor do instituto fisiológico onde ele trabalhava, desencorajou-o por razões econômicas. Freud era pobre demais para se sustentar e aguardar durante anos o surgimento de alguma rara posição acadêmica. Sabendo que Brucke estava certo, decidiu realizar os exames de medicina e começar a atender pacientes particulares para melhorar suas condições financeiras. Recebeu o título de doutor em medicina em 1881 e começou a clinicar como neurologista. Não considerava a carreira nem um pouco mais interessante do que imaginava, mas o dinheiro falava mais alto Freud e Martha Bernays ficaram noivos, mas adiaram várias vezes o casamento até finalmente terem condições de arcar com as despesas; mesmo assim, tiveram de tomar um emprestimo e penhorar seus relógios.

Durante os quatro anos de noivado, Freud tinha ciúmes de qualquer pessoa que chamasse a atenção ou despertasse o afeto de Martha, até mesmo dos familiares. Ele lhe escreveu, dizendo:

A partir de hoje, você passa a ser visita para a sua família. Não deixarei você para ninguém. (...) Se não gosta tanto assim de mim para renunciar à sua família, então deve me abandonar e arruinar a sua vida. (...) Sim, a minha personalidade é realmente tirânica (apud Appignanesi e Forrester, 1992, p.30-31).

As longas horas de trabalho de Freud impediram-no de passar muito tempo com esposa e filhos, que no total foram seis. Saía de férias sozinho ou com a cunhada Minna, porque Martha não conseguia acompanhar o ritmo das longas caminhadas aos pontos turísticos.

O caso de Anna O. 

O médico Josef Breuer (1842-1925), que ganhou notoriedade com o estudo sobre a respiração e o funcionamento dos canais semicirculares do ouvido, ajudou o jovem Freud. O bem-sucedido e sofisticado Breuer aconselhava Freud, emprestava-lhe dinheiro e aparentemente o considerava um irmão mais novo precoce. Para Freud, Breuer tinha a figura de um pai. Os dois muitas vezes discutiam a respeito dos pacientes de Breuer, inclusive da paciente de 21 anos, Anna O., cujo caso se tornou fundamental no desenvolvimento da psicanálise.

Inteligente e atraente, Anna O. apresentava sintomas profundos de histeria, incluindo paralisia, perda de memória, deterioração mental, náuseas e distúrbios visuais e orais. Os primeiros sintomas apareceram quando ela cuidava do pai, que sempre a mimara e estava morrendo. Dizem que ela nutria por ele uma espécie de paixão (Ellenberger, 1972, p. 274).

Breuer começou o tratamento de Anna usando a hipnose. Ele pensava que, enquanto estivesse hipnotizada, ela se lembraria de experiências específicas que pudessem ter originado alguns dos sintomas. Ao falar sobre as experiências durante a hipnose, frequentemente ela se sentia aliviada dos sintomas. Durante mais de um ano, Breuer atendia Anna O. diariamente. Ela relatava os incidentes perturbadores ocorridos durante o dia e, depois de falar, algumas vezes alegava sentir-se aliviada dos sintomas. Ela se referia às conversas como uma limpeza de chaminé ou o que chamou de cura da palavra. Conforme prosseguiam as sessões, Breuer percebia (assim ele disse a Freud) que os incidentes de que Anna se lembrava estavam relacionados com pensamentos ou eventos que ela repudiava. Revivendo as experiências perturbadoras durante a sessão de hipnose, os sintomas eram reduzidos ou eliminados.

A esposa de Breuer começou a ficar com ciúmes da relação emocional muito próxima criada entre os dois. A jovem paciente exibia o que se tornou conhecido como transferência positiva para Breuer. Em outras palavras, ela estava transferindo o amor que sentia pelo seu pai para o terapeuta. Essa transferência fora incentivada pela semelhança física entre o pai e Breuer. Além disso, talvez Breuer também estivesse nutrindo uma ligação emocional com a paciente. Um historiador observou: "os seus dotes joviais, o charmoso ar de desamparo e até mesmo o seu nome (...) despertaram em Breuer os desejos edipianos adormecidos que ele sentia pela própria mãe" (Gay, 1988, p. 68). Breuer acabou sentindo-se ameaçado com a situação e disse a Anna que não podia mais tratar dela. Dali a poucas horas, Anna foi acometida de dores histéricas comparáveis às de um parto. Breuer acabou com essa condição usando a hipnose. Assim, reza a lenda que ele teria viajado com a esposa para Veneza em uma espécie de segunda lua-de-mel, durante a qual ela teria engravidado. [359]

Essa história transformou-se em um mito perpetuado por diversas gerações de psicanalistas e historiadores. Ela ilustra mais um exemplo de dado histórico distorcido. Nesse caso, a história persistiu durante mais de 100 anos. Breuer e a esposa realmente viajaram para Veneza, mas a data de nascimento dos seus filhos revela que nenhum deles foi concebido naquela época (Ellenberger, 1972).

Análises posteriores dos registros históricos revelaram que Anna O. (cujo nome real era Bertha Pappenheim) não foi curada com os tratamentos catárticos de Breuer. Depois que ele deixou de vê-la, foi internada e passava horas diante da foto do pai, dizendo que ia visitar o seu túmulo. Ela teve alucinações e convulsões, neuralgia facial e dificuldades recorrentes na fala e também viciou-se em morfina; Breuer prescrevera a droga para aliviar a dor facial (Webster, 1995). "Viver com uma seringa [de morfina] não é uma situação invejável", escreve ela (apud Ramos, 2003, p. 239).

Breuer disse a Freud que Bertha enlouquecera; acreditava que ela sofreria até morrer. Não se sabe bem ao certo como Bertha Pappenheim superou os problemas emocionais, mas ela acabou se tornando assistente social e feminista, apoiando a educação feminina. Publicou vários contos, escreveu uma peça sobre os direitos da mulher e acabou sendo homenageada com a criação de um selo postal alemão (Shepherd, 1993).

O relato de Breuer acerca do caso de Anna O. foi importante para o desenvolvimento da psicanálise por ter apresentado a Freud o método catártico, a chamada cura por meio da conversa, que mais tarde viria a figurar com destaque em seus trabalhos.

Os fatores sexuais da neurose

Em 1885, Freud recebeu uma pequena bolsa de pós-graduação que lhe permitiu passar vários meses em Paris estudando com Charcot. Observou como Charcot aplicava a hipnose para tratar a histeria e logo passou a considerá-lo mais uma figura importante e a imaginar como seria benéfico para a sua carreira caso se casasse com a filha dele. Freud chegou a escrever uma carta a Martha, descrevendo a filha de Charcot como uma moça muito atraente (Gelfand, 1992).

Charcot chamou a atenção de Freud para o papel do sexo no comportamento histérico. Em uma festa, Freud ouviu uma conversa de Charcot em que dizia que as dificuldades de certo paciente teriam fundo sexual: "Nesse tipo de caso é sempre uma questão de órgãos genitais - sempre, sempre, sempre" (apud Freud, 1914, p. 14).

Depois de Freud voltar a Viena, novamente foi lembrado da provável origem sexual dos distúrbios emocionais. Rudolph Chrobak, famoso ginecologista, pediu a Freud para examinar o caso de uma mulher que sofria de ataques de ansiedade aliviados somente quando ela ficava sabendo o tempo todo onde se encontrava o seu médico. Chrobak disse a Freud que a origem da ansiedade estava na impotência do marido da paciente. Depois de 18 anos, o casamento dos dois ainda não se havia consumado. Freud afirmou que Chrobak lhe teria dito: "Há somente uma única prescrição para tamanha doença e é bem familiar para nós, no entanto, não é de bom tom prescrevê-la. Segue-se: Rx Penis normalis dosim repetatur! [X doses repetidas de pênis normal!]" (Freud, 1914). Posteriormente, Chrobak negou ter pronunciado tal observação (Ritvo, 1990, p. 75).

Freud adotou os métodos hipnóticos e catárticos de Breuer para tratar dos seus pacientes, mas não estava satisfeito com a hipnose e logo acabou abandonando-a. Embora a técnica se mostrasse aparentemente eficaz no alívio ou na eliminação de alguns sintomas, raramente proporcionava a cura prolongada. Muitos pacientes retornavam com novas queixas. [360]

Ademais Freud descobriu que não conseguia hipnotizar com facilidade e profundamente alguns pacientes. Continuou a usar o método catártico como tratamento e elaborou a partir da catarse a técnica de livre associação.

Na livre associação, o paciente fica deitado no divã e o terapeuta o encoraja a falar livre e espontaneamente, dando completa vazão a qualquer ideia, mesmo sendo embaraçosa, sem importância ou aparentemente tola. O objetivo do sistema de psicanálise de Freud era trazer para a mente consciente as memórias ou os pensamentos reprimidos, supostamente causadores do comportamento anormal do paciente. Freud acreditava não haver nada de aleatório nas ideias que invadiam a mente do paciente, reveladas durante as sessões de livre associação. As experiências assim resgatadas seriam predeterminadas e não deviam ser censuradas pela escolha consciente do paciente. A natureza do conflito do paciente forçava essas ideias a invadirem a consciência, devendo elas, assim, serem exteriorizadas para o terapeuta.

Empregando a técnica da livre associação, Freud descobriu que as lembranças dos seus pacientes remetiam à infância e que muitas das experiências reprimidas das quais se lembravam estavam relacionadas a questões sexuais. Percebendo os fatores sexuais como prováveis causas do estresse emocional e consciente dos trabalhos recentes sobre a patologia sexual, Freud começou a prestar mais atenção no conteúdo sexual revelado nas narrativas dos pacientes. Mais ou menos em 1898, disse estar convencido de que "as principais e mais imediatas causas, para fins práticos, do distúrbio neurótico estão nos fatores oriundos da vida sexual" (apud Breger, 2000, p. 117).

Os estudos sobre a histeria

Em 1895, Freud e Breuer publicaram Studies on hysteria, livro considerado o marco formal da psicanálise, embora Freud viesse a adotar a palavra "psicanálise" somente um ano depois (Rosenzweig, 1992). O livro apresentava trabalhos de ambos e diversos casos médicos, inclusive o de Anna O. A obra recebeu algumas criticas negativas, mas foi bastante elogiada nas publicações literárias e científicas de toda a Europa como uma contribuição extremamente valiosa para a área. Era um início sólido, ainda que modesto, do reconhecimento almejado por Freud.

Breuer relutara em publicar o livro e os dois discutiram sobre a convicção de Freud em creditar exclusivamente ao sexo o comportamento neurótico, argumento não convincente para Breuer, que concordava que os fatores sexuais seriam importantes, mas não estava totalmente certo de ser o sexo a única explicação. Disse a Freud não haver provas suficientes nas quais se basear para chegar a tal conclusão. Apesar de concordarem em publicar o livro, a discussão abalou a amizade dos dois. [361]

Freud acreditava estar correto e não via necessidade de coletar mais informações para sustentar seu ponto de vista. No entanto, uma das razões para a relutância em coletar mais evidências científicas seria a demora, que podia dar chance a outro pesquisador de publicar a ideia e reivindicar sua prioridade. Freud pode haver revelado mais a sua ambição de sucesso que a precaução científica ao publicar o trabalho com base em poucas evidências.

Breuer sentiu-se incomodado com a atitude dogmática de Freud em relação ao seu trabalho e, em alguns anos, a amizade entre os dois estava totalmente rompida. Freud ficou desgostoso, entretanto, mais tarde, viria a reconhecer publicamente o mérito do trabalho de Breuer a respeito da histeria e, na época da morte de Breuer em 1925, estava mais amadurecido. Escreveu um obituário tocante, reconhecendo as realizações do seu mentor. Além disso, enviou uma carta de condolência ao filho de Breuer, mencionando a "magnífica função desempenhada pelo seu falecido pai na criação da nossa nova ciência” (apud Hirschmüller, 1989, p. 321).

A controvérsia sobre a sedução infantil

Freud não tinha nenhuma dúvida do papel determinante do sexo na neurose. Observou que a maioria das pacientes relatava traumáticas experiências sexuais vividas na infância, muitas vezes envolvendo membros da própria família. Também passou a crer que as condições neuróticas não ocorriam nas pessoas com vida sexual normal.

Em um trabalho apresentado para a Sociedade Vienense de Psiquiatria e Neurologia em 1896, Freud relatou que, usando informações extraídas por meio da técnica da livre associação, os pacientes revelaram ter sido seduzidos na infância, e o sedutor normalmente era um parente mais velho, muitas vezes o pai. Mais tarde, Freud assegurou serem esses traumas de sedução a causa do comportamento neurótico do adulto. Eles hesitavam em descrever os detalhes das experiências de sedução vividas, como se os acontecimentos fossem de alguma forma irreais ou como se nunca houvessem ocorrido. Os pacientes titubeavam ao falar, dando a impressão de não conseguirem lembrar-se totalmente dos fatos.

O grupo recebeu a pesquisa de Freud com ceticismo. Krafft-Ebing, presidente da Sociedade, declarou que o trabalho soava mais como uma "história infantil científica" (apud Jones, 1953, p. 263). Freud rebateu e afirmou que seus críticos eram burros, e que fossem para o inferno. No geral, creditou-se a reação negativa ao trabalho de Freud ao choque e à fúria do público em virtude da afirmação sobre a grande frequência com que ocorria o abuso sexual infantil. Um pesquisador contemporâneo de Freud apresentou outro argumento, de que a "oposição à afirmação da teoria da sedução fora baseada ou na crença na predominância constitutiva das bases [somáticas] dos distúrbios nervosos ou, mais comumente, com base na alegação de não serem confiáveis as descobertas obtidas por meio dos procedimentos clínicos adotados por Freud" (Esterson, 2002, p. 117-118). Qualquer que seja a explicação mais válida, o fato é que o trabalho estava muito longe do sucesso almejado por Freud.

Cerca de um ano depois, Freud mudou de opinião e passou a afirmar que, na maioria dos casos, as experiências de sedução infantil descritas pelos pacientes eram irreais - não haviam efetivamente ocorrido. Em princípio, Freud ficou chocado ao tomar consciência de que os pacientes relatavam fantasias e não fatos, já que sua teoria sobre a neurose estava totalmente baseada na crença dos traumas adquiridos de experiências sexuais da infância como responsáveis pelo comportamento irracional na vida adulta. No entanto, após refletir [362] muito Freud chegou à conclusão de que, para os pacientes, as suas fantasias eram praticamente reais. E, como envolviam sexo, o fator sexual continuava a ser a raiz do problema. Com esse raciocínio, Freud manteve a noção básica do sexo como a causa da neurose.

Quase um século depois, em 1984, um psicanalista com uma rápida passagem como diretor dos arquivos de Freud, Jeffrey Masson, afirmou que Freud havia mentido a respeito da realidade das experiências sexuais de infância dos seus pacientes. Masson alegou que os abusos sexuais relatados pelos pacientes de Freud realmente ocorreram, e que ele decidira chamar essas seduções de fantasias com a intenção de que seu sistema fosse mais facilmente aceito entre os colegas e o público em geral (Masson, 1984). Os pesquisadores mais renomados refutaram as afirmações de Masson, alegando serem inconvincentes as evidências por ele apresentadas (veja Gay, 1988; Krüll, 1986; Malcolm, 1984). Esse debate recebeu ampla cobertura da mídia estadunidense. Em uma entrevista publicada no jornal Washington Post (19 fev. 1984), os estudiosos da vida de Freud, Paul Roazen e Peter Gay, descreveram a teoria de Masson como uma brincadeira e uma calúnia, "uma séria distorção da história da psicanálise". Devemos observar que Freud jamais abandonara a crença de que, algumas vezes, os abusos sexuais infantis realmente ocorriam; na verdade, o que ele reavaliou foi o seu ponto de vista, questionando se todas aquelas experiências relatadas pelos pacientes efetivamente teriam acontecido. Freud disse ser "difícil de acreditar que tais atos pervertidos contra crianças fossem assim tão frequentes" (Freud, 1954, p. 215-216).

Mais tarde, provas indicaram ser tão frequentes os abusos sexuais contra crianças a ponto de Freud não estar preparado para admitir. Um escritor declarou que a "real ocorrência de incesto entre pai e filha é muito superior ao que a literatura no geral estaria disposta a reconhecer" (Lerman, 1986, p. 65). Essa conscientização levou alguns psicanalistas a sugerirem a aceitação do conceito original de Freud acerca da teoria da sedução como explicação para a neurose. Não é possível afirmar com certeza se Freud propositadamente omitira a verdade, assim como afirmou Masson, ou se realmente chegou a acreditar que os relatos dos pacientes eram fantasiosos.

Na década de 1930, Sandor Ferenczi, um discípulo de Freud, concluiu que os sintomas do complexo de Édipo apresentados por seus pacientes eram resultantes dos atos de abusos sexuais, e não de fantasias. Quando ele descrevia as suas constatações no congresso de psicanálise em 1932, Freud tentou impedi-lo de falar. Com o fracasso da tentativa, Freud liderou a oposição contra a visão de Ferenczi.

Outra razão para que Freud mudasse de opinião a respeito da teoria da sedução seria que, caso ela fosse verdadeira, todos os pais, inclusive o seu, seriam considerados culpados por atos perversos contra os filhos (Krüll, 1986).

A vida sexual de Freud

Independentemente da posição final em relação à teoria da sedução, o próprio Freud apresentava uma atitude negativa em relação ao sexo e enfrentou dificuldades sexuais. Ele escreveu sobre os riscos da sexualidade (também entre as pessoas normais, não neuróticas) e afirmou que todos deviam lutar para superar essa "necessidade tipicamente animal". Considerava o ato sexual degradante, contaminador da mente e do corpo. Aos 41 anos, abdicou do sexo. "A excitação sexual não tem mais a menor utilidade para uma pessoa como eu" (Freud, 1954, p. 227). Algumas vezes sofria de impotência, em outras, abstinha-se [363] do sexo porque não gostava de preservativos e dos coitos interrompidos, métodos contraceptivos que eram padrão naquela época.

Freud responsabilizava a esposa pelo fim da sua vida sexual e interpretou alguns dos próprios sonhos como o retrato do ressentimento por ela o haver forçado a desistir do sexo. Um biógrafo escreveu: "Ele ficou ressentido porque ela engravidava com facilidade, ficava muito indisposta durante a gravidez e recusava-se a manter qualquer tipo de atividade sexual além [dos atos de procriação]" (Elms, 1994, p. 45). Os conflitos sexuais de Freud aparentemente foram responsáveis pela sua atração e por sua fascinação por mulheres bonitas, que pareciam gravitar em torno do seu círculo de alunas. Um amigo chegou a comentar que entre os alunos de Freud "havia tantas mulheres atraentes que parecia não se dever apenas a um fator contingencial" (Roazen, 1993, p. 138).

Logo Freud tornou-se um exemplo de referência da própria teoria. Suas frustrações sexuais apareciam na forma de neuroses. Ele descreveu um episódio de neurose profunda ocorrido no ano em que abdicara do sexo, envolvendo "estados mentais bizarros e não inteligíveis conscientemente - pensamentos perturbados e dúvidas veladas, raramente uma clareza aqui e ali. (...) Não tenho noção do que aconteceu comigo” (Freud, 1954 p. 210-212). Os sintomas físicos problemáticos incluíam dores de cabeça e enxaquecas dificuldades urinárias e cólon espástico. Achava que ia morrer, preocupava-se com o coração e ficava ansioso ao pensar em viajar e permanecer em lugares abertos.

Autodiagnosticara-se com uma neurose de ansiedade e neurastenia resultantes do acúmulo de tensão sexual. Havia concluído anteriormente ser a neurastenia masculina resultante da masturbação e estar a neurose de ansiedade relacionada às práticas anormais como o coito interrompido e a abstinência. Definindo dessa forma os próprios sintomas "sua vida pessoal estava profundamente envolvida na própria teoria, já que baseava-se nela para tentar interpretar e resolver seus problemas. (...) A teoria de Freud sobre a verdadeira neurose consiste, assim, em uma teoria dos próprios sintomas neuróticos" (Krüll, 1986 p. 14, 20). Reconhecendo a necessidade de se submeter à psicanálise, Freud continuou a analisar a si mesmo por meio da análise dos seus sonhos.

A análise dos sonhos

Freud percebeu que os sonhos dos pacientes podiam ser uma rica fonte de material emocional significativo, além de conter pistas para as causas subjacentes de um distúrbio. Por sua crença positivista na existência de uma causa para tudo, presumiu que os acontecimentos do sonho não eram totalmente desprovidos de significado. Muito provavelmente os sonhos eram resultantes de algum fato da mente inconsciente. Ele percebeu a impossibilidade da realização de uma autoanálise utilizando o método da livre associação, já que seria impossível desempenhar o papel de paciente e de terapeuta ao mesmo tempo; assim, decidiu analisar os próprios sonhos. Ao despertar logo de manhã, realizava uma análise dos sonhos pessoais. Escrevia as estórias dos sonhos da noite anterior e, em seguida, realizava a livre associação com o material obtido. [364]

Por meio da exploração do sonho, Freud acabou percebendo certa hostilidade que nutria pelo pai. Lembrou-se pela primeira vez da sua paixão sexual infantil pela mãe e sonhou ter desejos sexuais pela irmã mais velha. Essa intensa exploração do próprio inconsciente tornou-se a base da sua teoria. Desse modo, grande parte do sistema psicanalítico foi formulada pela análise dos próprios episódios neuróticos e das suas experiências da infância. Freud chegou a comentar com perspicácia que "O meu paciente mais importante fui eu mesmo" (apud Gay, 1988, p. 96).

Prosseguiu com a autoanálise por cerca de dois anos, culminando com a publicação de The interpretation of  dreams (1900), hoje considerada a sua principal obra. Mais tarde Freud chegou a declarar que o livro continha "a mais valiosa de todas as descobertas a mim contemplada' (apud Forrester, 1998). Ele esboçara pela primeira vez a teoria do complexo de Édipo, baseando-se muito nas experiências da própria infância. Embora os elogios não fossem unânimes, o livro recebeu mais críticas favoráveis. As publicações profissionais apresentaram resenhas do livro, assim como as revistas e os jornais de Viena, Berlim e de outras cidades da Europa. Em Zurique, Carl Jung leu o livro e tornou-se adepto da psicanálise.

Freud adotava a análise dos sonhos como técnica de psicanálise-padrão e dedicava a última meia hora de cada dia para analisar os próprios sonhos. É interessante observar que dos mais de 40 sonhos de Freud descritos no livro, poucos tinham conteúdo sexual, apesar da sua afirmação de os sonhos normalmente envolverem desejos sexuais infantis. O principal tema presente nos sonhos de Freud era a ambição, característica da sua personalidade que ele próprio não admitia (Welsh, 1994).

O auge do sucesso

Freud continuou a escrever e a publicar suas ideias. A partir de 1900, ele terminava pelo menos um trabalho importante ao ano, o que correspondia a um livro. É difícil ser ignorado quando se é tão prolixo, quando se aplica uma teoria abrangente a um assunto tão diversificado quanto a sexualidade, criatividade, destrutibilidade, perda, culpa, ansiedade, e a tendência a repetir experiências traumáticas. (Messer e McWilliams, 2003, p. 76)

Nos anos seguintes a 1900, Freud aprofundou suas ideias. Em 1901, publicou The psychopathology of every day life, apresentando a descrição do famoso ato falho. Freud sugeriu que, no comportamento cotidiano, as ideias inconscientes em busca de expressão afetam nossos pensamentos e nossas ações. O que parece ser apenas um ato falho ou um ato de esquecimento normalmente é reflexo de motivos não reconhecidos, porém, reais.

A obra Three essays on the theory of sexuality foi publicada em 1905. Três anos antes, alguns alunos levaram Freud a promover um grupo de discussão semanal sobre a psicanálise. [365]

Conta-se que o tema da primeira reunião teria sido a psicologia da fabricacão de charutos (Kerr, 1993). Dentre os primeiros discípulos estavam Jung e Adler, que mais tarde desenvolveram sistemas importantes em oposição a Freud. Mas a maioria dos participantes do grupo era considerada "neuróticos marginais" (Gardner, 1993, p. 51). Anna Freud chamava-os de excêntricos, sonhadores e conhecedores do sofrimento neurótico das própria experiências" (apud Coles, 1998, p. 144). Um dos membros do grupo, Herbert Nunberg lembrou-se de que "eles discutiam não apenas os problemas dos outros, como também as próprias dificuldades, revelando os conflitos internos, confessando se masturbarem, suas fantasias e lembranças relacionadas aos pais, amigos, esposas e filhos" (apud Breger 2000, p. 178).

Por causa do rompimento da amizade com Breuer, Freud não admitia nenhuma divergência a respeito do papel da sexualidade apresentado na sua teoria. Os discípulos ou alunos que não aceitassem essa premissa ou que de algum modo tentassem modificá-la eram excomungados. Freud dizia: "A psicanálise é criação minha; durante 10 anos fui a única pessoa a se preocupar com ela. (...) Ninguém além de mim sabe mais a respeito da psicanálise" (Freud, 1914, p. 7). Até mesmo um seguidor leal e dedicado observou que "Freud não era simplesmente o pai da psicanálise, mas também seu tirano!" (Sadger, 2005, p.40)

Entre os anos de 1900 e 1910, o status de Freud havia melhorado. As consultas particulares aumentavam, e os colegas ficavam atentos às suas declarações. Em 1909, ele e Jung foram convidados por G. Stanley Hall a discursar no 20° aniversário da Clark Universitv em Massachusetts. Freud realizou palestras e recebeu um título honorário de doutor em psicologia, "Talvez a pessoa mais profundamente afetada pelas palestras de Freud fosse ele mesmo. Aqui, para um público muito, muito superior a qualquer outro que comandara na Europa, ele se apresentava como um cientista e terapeuta realizador de importantes descobertas empíricas, e o público respondia com lisonjas" (Kerr, 1993, p. 243-244).

Ali ele conheceu famosos psicólogos estadunidenses como James, Titchener e Cattell. As palestras de Freud foram publicadas na American Journal of Psychology e traduzidas para diversos idiomas (Freud, 1909/1910). A APA discutiu o seu trabalho na convenção anual.

A American Psychoanalytic Association [Associação Americana de Psicanálise] foi fundada em 1911, seguida de outras sociedades psicanalíticas fundadas em Nova York, Boston, Chicago e Washington, DC.

O conceito de Freud acerca da mente inconsciente também foi recebido com entusiasmo pelo público estadunidense. As pessoas já demonstravam interesse pelo assunto, graças aos trabalhos do psicólogo canadense H. Addington Bruce. Entre 1903 e 1917, Bruce escreveu 63 artigos de revista e sete livros falando sobre o inconsciente, despertando, assim o interesse do público (Dennis, 1991).

Embora Freud tenha sido muito bem acolhido e tenha recebido muitas homenagens durante a viagem, guardou várias impressões negativas a respeito dos Estados Unidos. Criticou a qualidade da comida estadunidense, a escassez de banheiros públicos, a dificuldade do idioma e a informalidade dos modos do estadunidense. Ficou ofendido quando um guia turístico nas cataratas do Niágara dirigiu-se a ele chamando-o de "velho amigo". Disse a um biógrafo: "Os Estados Unidos são um equívoco; um equívoco gigantesco, é verdade, mas, ainda assim, um equívoco" (Jones, 1955, p. 60). Com o passar do tempo, não mudou de opinião. Quatorze anos depois da visita aos Estados Unidos, perguntaram-lhe por que ele parecia odiar o país. Ele respondeu: "Não odeio os Estados Unidos. Sinto pena dos estadunidenses! Sinto muito por Colombo haver descoberto a América!" (apud Rabkin, 1990, p. 34). Para fazer justiça, é necessário mencionar que Freud também afirmava não gostar de Viena, onde vivera por quase 80 anos. [366]

A família psicanalítica oficial logo se dividiria com o surgimento de discórdias e divergências a respeito de algumas ideias de Freud. As situações frequentemente acabavam em alguma dissidência. Em 1911, Freud rompeu com Adler e, três anos mais tarde, com Jung, a quem via como um filho de alma e herdeiro da psicanálise. Freud ficara furioso e em um jantar em família reclamou da deslealdade dos dois. Então, a sua tia comentou: “o seu problema Sigi, é que você simplesmente não entende as pessoas” (apud Hillgard, 1987, p. 641).

Em 1923, no auge da fama, Freud foi diagnosticado com câncer na boca. Nos 16 anos seguintes sofreu dores constantes e passou por 33 cirurgias para remover partes do céu da boca e da mandíbula superior. Submeteu-se à radioterapia e ao tratamento com raios X, assim como à vasectomia, que os médicos acreditavam ser capaz de reverter o crescimento do tumor. Precisou utilizar um aparelho especial, já que as cirurgias na boca lhe haviam afetado a fala, dificultando, muitas vezes, a sua compreensão. Embora continuasse a atender os pacientes e os discípulos, esquivava-se do contato com as outras pessoas. Não largou o hábito de fumar 20 charutos por dia, mesmo depois de diagnosticada a doença.

Depois de Hitler assumir o poder na Alemanha, a posição oficial nazista tornou-se clara: os livros de Freud foram queimados publicamente em um comício em Berlim, em maio de 1933. Enquanto atirava os livros na fogueira, um líder nazista gritava: “Contra a supervalorização da atividade sexual destruidora das almas – e em nome da nobreza do espírito humano – ofereço às chamas os escritos do tal Sigmund Freud” (apud Schur, 1972, p. 446). Freud comentou: “Que evolução! Na idade média eu seria atirado na fogueira; hoje, eles se contentam em atirar meus livros” (apud Jones. 1957, p. 182).

Por volta de 1934, os psicólogos e psicanalistas judeus mais prudentes haviam emigrado. A campanha nazista para erradicar a psicanáliie da Alemanha fora bem sucedida; o conhecimento de Freud, que um dia fora tão disseminado, estava praticamente extinto. Um aluno do Institute for Psychological Research and Psychotherapy [Instituto de Pesquisas Psicológicas e Psicoterapica], criado pelos nazistas em Berlim, lembrou-se de que o “nome de Freud nunca era mencionado, e os seus livros ficavam trancados em um armário” (The New York Times. 3 jul. 1984). Até hoje, diversos livros importantes não estão disponíveis em alemão.

Apesar dos riscos, Freud insistia em permanecer em Viena. Em março de 1938 as tropas alemãs foram recebidas com entusiasmo na Áustria. Logo depois os nazistas invadiram sua casa. Uma semana depois, sua filha Anna foi presa e permaneceu detida. Esse ato finalmente convencera Freud a deixar o país para preservar sua segurança. Os nazistas concordaram em deixar Freud partir para a Inglaterra. A fim de obter um visto de saída, Freud teve de assinar um documento atestando haver sido tratado com consideração e respeito pela Gestapo (polícia secreta). Assinou o documento e parece ter acrescentado um comentário irônico "Recomendo a Gestapo de todo o coração a qualquer pessoa" (apud Jones, 1957, p. 226) Assim afirmou Ernest Jones, amigo e biógrafo de Freud, que supostamente relatara o incidente como ele lhe havia contado. Dados históricos descobertos mais recentemente - o documento original assinado por Freud -revelaram não existir tal comentário (Decker, 1991).

A pesar de Freud ter sido bem recebido na Inglaterra, sua saúde se deteriorava e ele não pôde usufruir do último ano de vida. Em seu diário e nas cartas escritas para os amigos talava das dores que sofria por causa do câncer que se espalhara. Tive de cancelar meu trabalho por 12 dias, e me deito com dor e garrafas de água no divã que é destinado aos outros” (Freud, 1939/1992, p. 229). Mesmo assim, permaneceu lúcido e trabalhando quase até o último momento.

Anos antes, ao escolher Max Schur como seu médico particular, Freud o fez prometer que não o deixaria sofrer sem necessidade. No dia 21 de setembro de 1939, Freud cobrou-o da promessa: “Você prometeu não me abandonar quando a minha hora chegar. Agora só me resta a tortura, o que não faz o menor sentido” (apud Schur, 1972, p. 520). O médico aplicou uma superdosagem de morfina em um período de 24 horas pondo fim aos anos de sofrimento de Freud.

A Psicanálise como um Método de Tratamento

Freud sentia que o método de livre associação nem sempre funcionava, de fato, livremente. Cedo ou tarde os pacientes chegavam a um ponto das recordações que se sentiam incapacitados ou indispostos para continuar. Freud pensava que essas resistências indicavam que os pacientes teriam trazido à tona lembranças vergonhosas demais para encararem. Desse modo, a resistência seria uma espécie de proteção contra a angústia emocional. A simples presença do sofrimento, no entanto, indicava que o processo de análise estava próximo da origem do problema e o analista devia prosseguir naquela linha de pensamento.

A descoberta de Freud acerca da resistência dos pacientes levou-o a formular o prin  cípio fundamental da repressão, descrita como o processo de expulsão ou exclusão de qualquer ideia, lembrança e desejo inaceitáveis da consciência, deixando-os, no entanto, operar no inconsciente. Freud referia-se à repressão como a única explicação possível para a resistência. Ele escreveu que "a essência da repressão está simplesmente em se distanciar de algo, mantendo-o longe do consciente." Além disso, ele considerava a repressão como "a base sobre a qual está toda a estrutura da psicanálise" (apud Boag, 2006, p. 74). As ideias ou os impulsos desagradáveis não apenas eram expulsos da consciência, como também forçados a permanecer fora. O terapeuta deve ajudar o paciente a trazer esse material repri  mido para o consciente a fim de enfrentá-lo e aprender a lidar com ele.

Freud admitia que a eficácia do tratamento de pacientes neuróticos dependia do desenvolvimento de uma relação pessoal e íntima entre paciente e terapeuta. Vimos anteriormente [371] como a transferência de Anna O. em relação a Breuer o perturbara a ponto de eit decidir deixar de atendê-la. Para Freud, a transferência constituía uma parte necessária do processo terapêutico. Uma das metas da terapia seria afastar a dependência praticamente infantil do paciente em relação ao terapeuta e ajudá-lo a assumir um papel mais independente na condução da própria vida.

Outro método de tratamento importante na psicanálise freudiana consistia na análise dos sonhos. Freud acreditava nos sonhos como representações da satisfação dissimulação dos desejos reprimidos. A essência de um sonho seria a concretização dos desejos do indivíduo. Para Freud, os fatos do sonho ocorrem em dois níveis. O conteúdo manifesto dc sonho seria a verdadeira história do paciente expressa por meio das lembranças dos fatos sonhados, enquanto o conteúdo latente, ou seja, o sentido simbólico ou oculto, expressaria o verdadeiro significado do sonho.

Freud acreditava que, quando descreviam os sonhos, os pacientes estavam expressando simbolicamente os desejos proibidos (o conteúdo latente do sonho). Embora muitos símbolos associados ao sonho sejam atribuídos exclusivamente ao indivíduo que o está relatando, acredita-se em símbolos comuns a todos (veja na Tabela 13.1). Todavia, apesar da aparente universalidade desses símbolos, a interpretação de determinado sonho para fins terapêuticos demanda o conhecimento dos conflitos específicos do paciente. [372] Nem todos os sonhos têm como causa conflitos emocionais. Alguns são provenientes por simples estímulos, tais como a temperatura do quarto, o contato com alguém ou a ingestão excessiva de comida antes de dormir. Portanto, nem todo sonho contém material simbólico ou reprimido.

Apesar da crescente popularidade da psicanálise como terapia, Freud tinha poucc interesse pessoal no valor potencial do tratamento do seu sistema. Sua principal preocupação não estava na cura dos pacientes, mas na explicação da dinâmica do comportamento humano. Identificava-se mais como cientista do que como terapeuta e considerava os métodos de livre associação e de análise dos sonhos simples instrumentos de coleta de dados para os estudos de caso. Para Freud, a aplicação terapêutica dessas técnicas era um fator secundário em relação ao uso científico que delas fazia.

Talvez por sua relativa falta de interesse no tratamento dos pacientes, Freud era descrito como um terapeuta impessoal e até indiferente. Postava a cadeira na cabeceira do divã de psicanálise porque não queria que os pacientes o encarassem. Algumas vezes pegava no sono durante as sessões de análise e reconhecia: "Não possuo a paixão necessária para ajudar as pessoas" (apud Jones, 1955, p. 446). Sua paixão era a pesquisa a partir da qual elaborava a teoria para explicar o funcionamento da personalidade humana.

Um dos pacientes americanos de Freud lembrou-se de que seu cachorro, um chow chamado Jofi, participava das sessões de terapia. Quando Jofi começava a riscar a porta para sair, Freud dizia: "Jofi não aprova o que você está dizendo". Quando o cachorro arranhava a porta novamente para voltar para a sala, Freud dizia: "Jofi queria lhe dar outra chance". Em uma ocasião, quando o paciente tornou-se bastante emotivo, Jofi pulou nele e Freud disse: "Está vendo? Jofi está feliz por você ter descoberto a causa de sua ansiedade" (apud Grinker, 2001, p. 39).

A metodologia e o conteúdo do sistema de Freud eram totalmente diferenciados em relação à psicologia experimental tradicional daquela época. Apesar da formação científica, Freud não adotava métodos de pesquisa experimentais, baseando-se na livre associação, na análise dos sonhos e na compilação das informações dos casos. Não coletava dados de experiências controladas nem utilizava a estatística para analisar os resultados. Embora não acreditasse muito no tratamento experimental formal, afirmava realizar um trabalho científico e que os casos e a sua autoanálise ofereciam ampla sustentação às suas conclusões. Freud dizia:

Quando me impus a tarefa de trazer à luz o que o ser humano mantém oculto dentro de si, não por meio da força compulsória da hipnose, mas observando o conteúdo da fala e do que ele revela, considerei a tarefa mais difícil do que realmente era. O indivíduo dotado de olhos para ver e ouvidos para escutar pode convencer-se da incapacidade de qualquer mortal de manter um segredo. Se os lábios estão silenciosos, ele conversa com as próprias pontas dos dedos; a traição esvai-se por todos os poros. E assim, a tarefa de tornar consciente as reentrâncias mais ocultas da mente é provavelmente exequível. (Freud, 1901/1905, p. 77-78)

Freud elaborou, reavaliou e ampliou suas ideias em função das evidências que ele próprio interpretava. Sua capacidade crítica foi seu orientador mais importante na elaboração da teoria. Afirmava que somente os psicanalistas que adotavam os seus métodos estariam qualificados a julgar o valor científico do seu trabalho. Ele ignorava a crítica dos demais, principalmente dos não-simpatizantes da psicanálise. A psicanálise era o seu sistema, exclusivamente seu. [373]

A Psicanálise como um Sistema de Personalidade

O sistema de Freud não abrangia todos os tópicos geralmente abordados nos livros básicos de psicologia, mas abordava áreas normalmente ignoradas por outros psicólogos: as forças motivadoras do inconsciente, os conflitos entre essas forças e os efeitos desses conflitos  no comportamento.

Os Instintos [pulsões]

Instintos são a força propulsora ou motivadora da personalidade, o incentivo biológico impulsor da energia mental. Apesar da aceitação do emprego da palavra "instinto" no idioma inglês, esse termo não condiz com a real intenção de Freud. Ele não costumara adotar a palavra equivalente em alemão, Instinkt, ao se referir à personalidade humana mas, sim, ao descrever o impulso inato do animal. O termo usado por Freud para a força motivadora humana era Trieb, cuja melhor tradução seria impulso ou força propulsora (Bettelheim, 1982). Os instintos freudianos não consistem em predisposições herdadas significado geralmente aceito para instinto, mas se referem a fontes internas de estimulação corporal. A função do instinto é remover ou reduzir essa estimulação por meio de algum comportamento, como o ato de comer, beber ou manter relações sexuais.

Freud não tentou criar uma lista detalhada de todos os instintos humanos possíveis mas os agrupou em duas categorias gerais: instintos de vida [pulsões de vida] e instintos de morte [pulsões de morte]. Entre os instintos de vida estão a fome, a sede e o sexo. Esses instintos estão relacionados com a autopreservação e a sobrevivência das espécies e, assim, constituem as forças criativas sustentadoras da vida. A forma de energia por meio da qual se manifestam os instintos de vida chama-se libido. O instinto de morte consiste em uma força destrutiva que pode se direcionar para o interior, na forma de masoquismo ou suicídio, ou para o exterior por meio de agressão ou ódio. À medida que amadurecia, Freud convencia-se da agressão como um motivador tão forte quanto o sexo para o comportamento humano.

O conceito de instinto de morte é mais um exemplo da natureza autobiográfica do sistema de Freud. Ele desenvolveu a noção do instinto de morte quando ela se tornou alvo de preocupação pessoal. O câncer se agravava, ele testemunhava os horrores da guerra e a sua filha Sofia falecera com 20 anos, deixando dois filhos pequenos. Ficara arrasado com essa perda. Pouco menos de três semanas depois, escreveu a respeito do instinto de morte. [374]

Uma revisão mais recente de sua obra observa que o câncer de Freud ainda não havia sido diagnosticado quando ele propôs o instinto da morte, e sua filha ainda estava viva. Entretanto, é possível que a morte dela tenha influenciado suas revisões posteriores sobre o conceito (veja Runyan, 2006).

Ele também observou a tendência à agressividade em si próprio. Os colegas o descreviam como um bom inimigo, e alguns dos seus trabalhos indicam alto grau de agressividade. Essa inclinação também pode ser detectada na amargura e no caráter definitivo dos seus rompimentos com os dissidentes dentro do movimento psicanalítico.

O conceito de agressão como um aspecto motivador foi muito mais bem recebido pelos psicanalistas do que a noção do instinto de morte. Um analista comentou que o instinto de morte devia ser "relegado à lata de lixo da história" (Becker, 1973, p. 99). Outro insinuou que, se Freud fosse realmente um gênio, o instinto de morte seria o exemplo de um gênio em um péssimo dia (veja Eissler, 1971). [375]

Os Níveis de Personalidade

Nos primeiros trabalhos, Freud sugeria a divisão da vida mental em duas partes: consciente e inconsciente. A porção consciente, assim como a parte visível do iceberg, seria pequena e insignificante, preservando apenas uma visão superficial de toda a personalidade. A imensa e poderosa porção inconsciente - assim como a parte submersa do iceberg - conteria os instintos, ou seja, as forças propulsoras de todo comportamento humano.

Nos trabalhos posteriores, Freud reavaliou essa distinção simples entre o consciente e o inconsciente e propôs os conceitos de id, ego e superego. O id correspondente à sua noção inicial de inconsciente, seria a parte mais primitiva e menos acessível da personalidade. Entre as forças poderosas do id estariam os instintos do sexo e da agressividade. Freud afirmou: "Nós chamamos de (...) um caldeirão cheio de excitações fervescentes. [O id] desconhece o julgamento de valores, o bem e o mal, a moralidade" (Freud, 1933, p. 74). As forças do id buscam a satisfação imediata sem tomar conhecimento das circunstâncias da realidade. Funcionam de acordo com o princípio do prazer, preocupadas em reduzir a tensão mediante a busca do prazer e evitando a dor. A palavra em alemão usada por Freud para id era es, que queria dizer "isso", termo sugerido pelo psicanalista Georg Groddeck, que enviara a Freud o manuscrito do seu livro intitulado The book of it (Isbister, 1985).

O id contém a nossa energia psíquica básica, ou a libido, e se expressa por meio da redução de tensão. Assim, agimos na tentativa de reduzir essa tensão a um nível mais tolerável. Para satisfazer às necessidades e manter um nível confortável de tensão, é necessário interagir com o mundo real. Por exemplo, as pessoas famintas devem ir em busca de comida, caso queiram descarregar a tensão induzida pela fome. Portanto, é necessário estabelecer alguma espécie de ligação adequada entre as demandas do id e a realidade.

O ego serve como mediador, um facilitador da interação entre o id e as circunstâncias do mundo externo. O ego representa a razão ou a racionalidade, ao contrário da paixão insistente e irracional do id. Freud chamava o ego de ich, traduzido para o inglês como [375] “I” ( eu em português). Ele não gostava da palavra ego e raramente a usava. Enquanto a id anseia cegamente e ignora a realidade, o ego tem consciência da realidade, manipula-o e, dessa forma, regula o id. O ego obedece ao princípio da realidade, refreando as demandas em busca do prazer até encontrar o objeto apropriado para satisfazer a necessidade e reduzir a tensão.

O ego não existe sem o id; ao contrário, o ego extrai sua força do id. O ego existe para ajudar o id e está constantemente lutando para satisfazer os instintos do id. Freud comparava a interação entre o ego e o id com o cavaleiro montando um cavalo. O cavalo fornece energia para mover o cavaleiro pela trilha, mas a força do animal deve ser conduzida ou refreada com as rédeas, senão ele pode refugar e derrubar o montador. Do mesmo modo. o id deve ser guiado ou contido, senão acaba derrotando o ego racional.

A terceira parte da estrutura da personalidade definida por Freud, o superego, desenvolve-se desde o início da vida, quando a criança assimila as regras de comportamento ensinadas pelos pais ou responsáveis mediante o sistema de recompensas e punições. O comportamento inadequado sujeito à punição torna-se parte da consciência da criança uma porção do superego. O comportamento aceitável para os pais ou para o grupo social e que proporcione a recompensa torna-se parte do ego-ideal, a outra porção do superego. Dessa forma, o comportamento infantil é controlado inicialmente pelas ações dos pais: no entanto, uma vez formado o superego, o comportamento é determinado pelo autocontrole. Nesse ponto, a pessoa administra as próprias recompensas ou punições. O termo cunhado por Freud para o superego foi über-ich, que significava literalmente "sobre-eu".

O superego representa a moralidade. Freud descreveu-o como o "defensor da luta em busca da perfeição - o superego é, resumindo, o máximo assimilado psicologicamente pelo indivíduo do que é considerado o lado superior da vida humana" (Freud, 1933, p. 67). Observe, então, que, obviamente, o superego estará em conflito com o id. Ao contrário do ego, que tenta adiar a satisfação do id para os momentos e lugares mais adequados, o superego tenta inibir a completa satisfação do id.

Assim, Freud imaginava a constante luta dentro da personalidade quando o ego é pressionado pelas forças contrárias insistentes. O ego deve tentar retardar os ímpetos agressivos e sexuais do id, perceber e manipular a realidade para aliviar a tensão resultante, e lidar com a busca do superego pela perfeição. E, quando o ego é pressionado demais, o resultado é a condição definida por Freud como ansiedade. O ego é, portanto, pressionado nos três lados, ameaçado por perigos persistentes do id, da realidade e do superego. O resultado inevitável, quando o ego se torna severamente estressado, é o desenvolvimento da ansiedade. [376]

A Ansiedade

A ansiedade funciona como um alerta das ameaças contra o ego. Freud descreveu três tipos de ansiedade. A ansiedade objetiva surge do medo dos perigos reais. Os outros dois tipos, a ansiedade neurótica e a ansiedade moral, derivam da ansiedade objetiva.

A ansiedade neurótica surge diante do reconhecimento dos perigos potenciais inerentes à satisfação dos instintos do id. Não se trata dos instintos propriamente ditos, mas do temor à provável punição em consequência de algum comportamento indiscriminado dominado pelo id. Em outras palavras, a ansiedade neurótica é o medo da punição por expressar os desejos impulsivos.

A ansiedade moral surge do medo da consciência. Quando realizamos, ou mesmo pensamos em realizar, algum ato contrário aos valores morais da nossa consciência, é bem provável sentirmos culpa ou vergonha. O nível de ansiedade moral resultante depende do quão desenvolvida é a nossa consciência. As pessoas com menos virtudes apresentam menos ansiedade moral.

A ansiedade provoca a tensão, motivando o indivíduo a tomar alguma atitude para reduzi-la. De acordo com a teoria de Freud, o ego desenvolve um sistema de proteção - os chamados mecanismos de defesa - que consistem nas negações inconscientes ou distorções da realidade. Alguns desses mecanismos de defesa estão descritos abaixo:

  • Negação - A negação da existência de uma ameaça externa ou de um acontecimento traumático; por exemplo: uma pessoa com doença terminal pode negar a iminência da morte;
  • Deslocamento - A transferência dos impulsos do id de uma ameaça ou de um objeto não-disponível para um objeto disponível; por exemplo: a transferência para uma criança da hosti­lidade de um indivíduo em relação ao chefe;
  • Projeção - A atribuição de um impulso perturbador a outra pessoa; por exemplo: o indivíduo afirma que não odeia o professor e que, ao contrário, é o professor quem o odeia;
  • Racionalização - A reinterpretação do comportamento para torná-lo mais aceitável e menos ameaça­dor; por exemplo: o indivíduo afirma que o emprego do qual foi despedido não era tão bom assim;
  • Formação de reação - A expressão de um impulso do id, que é o oposto do que impulsiona a pessoa; por exemplo: o indivíduo perturbado por causa de paixões sexuais pode tornar-se um combatente feroz da pornografia;
  • Regressão - O retorno a um período anterior, menos frustrante da vida, acompanhado da exibição de um comportamento dependente e infantil característico desse período mais seguro;
  • Repressão - A negação da existência de um fator provocador da ansiedade, ou seja, a eliminação involuntária de algumas lembranças ou percepções da consciência que provoquem desconforto;
  • Sublimação - A alteração ou o deslocamento dos impulsos do id desviando a energia instintiva para os comportamentos socialmente aceitáveis; por exemplo: desviar a energia sexual para um comportamento de criação artística.  [376]

Os Estágios Psicossexuais do Desenvolvimento da Personalidade

Freud estava convencido da origem dos distúrbios neuróticos dos seus pacientes nas experiências da infância. Assim, foi um dos primeiros teóricos a enfatizar a importância do desenvolvimento infantil. Acreditava que a personalidade adulta já estava quase totalmente formada aos 5 anos.

De acordo com a sua teoria psicanalítica do desenvolvimento, as crianças passam por uma série de estágios psicossexuais. Durante esse período, acredita-se que elas sejam dotadas de autoerotismo, ou seja, obtêm prazer sexual estimulando as zonas erógenas do próprio corpo ou sendo estimuladas pelos pais durante as atividades normais de cuidados com a criança. Cada estágio do desenvolvimento concentra-se em uma zona erógena específica.

O estágio oral estende-se do nascimento ao segundo ano de vida. Durante esse período, a estimulação da boca, como o ato de sugar, de morder e de engolir, é a principal fonte de satisfação sensual. A satisfação inadequada (a carência ou o excesso) pode produzir uma personalidade do tipo oral, ou seja, uma pessoa preocupada com os hábitos bucais como fumar, beijar e comer. Freud acreditava que uma ampla variedade de comportamentos do adulto, desde o otimismo em excesso ao sarcasmo e ao cinismo, podia ser atribuída aos acontecimentos do estágio oral.

No estágio anal, a satisfação é transferida da boca para o ânus, e a criança obtém o prazer na região anal. Esse estágio coincide com o treino da higiene íntima e, nesse período, a criança pode expelir ou reter as fezes. Qualquer uma dessas situações demonstra o desprezo pelos desejos dos pais. Os conflitos durante esse estágio podem produzir um adulto anal-expulsivo, que se caracteriza pela sujeira, desperdício e extravagância, ou um adulto-retentor, caracterizado pelo excesso de limpeza, arrumação e compulsão.

Durante o estágio fálico, que ocorre por volta dos 4 anos, a satisfação erótica envolve fantasias sexuais, além de carícias e exibições dos órgãos genitais. O complexo de Édipo [378] ocorre nesse estágio. Freud deu esse nome ao complexo por causa da lenda grega segundo a qual Édipo, sem saber, mata o pai e casa-se com a mãe. Freud sugeriu que as crianças sentem-se atraídas sexualmente pelos pais do sexo oposto e enxergavam os pais do mesmo sexo como rivais. As suas experiências da infância confirmam esse conceito. Ele declarou: "No meu caso, eu amava a minha mãe e sentia ciúmes do meu pai" (Freud, 1954, p. 223).

Normalmente, as crianças superam o complexo de Édipo identificando-se com os pais do mesmo sexo. Ademais, acabam substituindo a paixão sexual pelos pais do sexo oposto por uma espécie de afeição mais aceitável socialmente. Todavia, as atitudes em relação ao sexo oposto desenvolvidas durante esse estágio persistem, vindo a influenciar as relações com os membros do outro sexo durante a vida adulta. Uma consequência da identificação com os pais do mesmo sexo ocorre em função do desenvolvimento do superego. Adotando os modos e as atitudes dos pais do mesmo sexo, as crianças assumem os padrões de superego dos pais.

A criança que sobrevive às dificuldades desses estágios iniciais entra em um período de latência dos 5 aos 12 anos, até o início da puberdade, quando começa o estágio genital. Nesse período, o comportamento heterossexual torna-se importante e o indivíduo começa - preparar-se para o casamento e a paternidade ou maternidade.

O mecanicismo e o Determinismo no Sistema de Freud

Assim como vimos anteriormente, os psicólogos estruturalistas e, mais tarde, os behavioristas consideravam os seres humanos semelhantes às máquinas. A mente e depois o comportamento humano foram reduzidos aos componentes mais elementares. Pode parecer surpreendente, mas a visão mecanicista influenciou até mesmo Freud, que abordava a mente humana a partir de uma perspectiva tão distinta. Freud acreditava, com o mesmo entusiasmo dos experimentalistas, que todos os acontecimentos mentais, até mesmo os sonhos, seriam predeterminados; nada ocorreria por acaso ou por livre iniciativa. Toda ação possui um motivo ou uma causa consciente ou inconsciente. Além disso, Freud aceitava a ideia da possibilidade de redução de qualquer fenômeno seguindo os princípios das ciências naturais. Com a adoção da palavra "análise", como parte do sistema de psicanálise, Freud reconhecia os métodos analíticos até então adotados na física e na química (Haynal, 1993).

Em 1895, Freud decidiu desenvolver o próprio conceito de psicologia científica, tentando demonstrar que a psicologia devia fincar raízes nos princípios da física, e que os fenômenos mentais exibiam muitas das características dos processos neurofisiológicos em que eram baseados. A meta da psicologia seria a "representação dos processos [mentais] como estados determinados quantitativamente de partículas materiais específicas" (Freud, 1895, p. 359).

Ele não chegou a concluir o projeto; no entanto, é possível perceber nos seus últimos trabalhos as ideias e a terminologia adotadas com base na física, principalmente na mecânica, elétrica e hidráulica. Seus trabalhos que seguem essa linha são outro exemplo de dados perdidos na história, já que permaneceram desconhecidos por mais de 50 anos. Até então, ninguém conhecia esse tipo de abordagem da psicologia pensada por Freud.
Apesar de Freud mudar a intenção de modelar a psicologia com base na física quando descobriu que o objeto de estudo escolhido - a personalidade humana - não podia ser estudado por meio das técnicas da química e da física, continuou fiel ao positivismo e ao determinismo que alimentaram a psicologia experimental. E, embora influenciado por essa visão, não ficou preso a ela. Quando percebeu que a abordagem não era adequada mudou ou descartou a filosofia. No fim, acabou demonstrando o quão limitador seria o conceito mecanicista da natureza humana. [380]

As Relações entre a Psicanálise e a Psicologia

A psicanálise desenvolveu-se à margem da psicologia acadêmica geral e assim permaneceu durante vários anos. "A psicologia acadêmica realmente fechara as portas para a doutrina psicanalítica. Um editorial de autoria desconhecida da edição de 1924 da Journal of Abnormal Psychology lamentava a quantidade interminável de trabalhos a respeito do inconsciente escritos pelos psicólogos europeus" (Fuller, 1986, p. 123).

O editorial repudiava esses trabalhos, afirmando serem essencialmente desprovidos de valor. Por causa dessa pesada declaração, poucos artigos de psicanálise passaram a ser aceitos para publicação profissional, restrição que durou por pelo menos 20 anos. Muitos psicólogos acadêmicos criticavam veementemente a psicanálise. Em 1916, quando praticamente qualquer coisa de origem alemã era considerada suspeita por causa das agressões da Alemanha no tempo da guerra, Christine Ladd-Franklin afirmou ser a psicanálise um produto da "mente subdesenvolvida alemã". Robert Woodworth, da Columbia University, chamou a psicanálise de "religião sobrenatural", que conduzia pessoas racionais a conclusões absurdas. John B. Watson chamou-a de "voduísmo" (apud Hornstein, 1992, p. 255-256). James McKeen Cattell, que era radicalmente contra a psicanálise, descreveu Freud como um homem que "vive na terra da fantasia e dos sonhos, rodeado de monstros sexualmente pervertidos" (apud Fancher, 2000, p. 1.027).

Apesar desses e de outros ataques mordazes desferidos pelos principais psicólogos, e de uma rejeição até certo ponto discreta da psicanálise, chamada de mais uma teoria excêntrica, algumas ideias de Freud acabaram constando os livros básicos de psicologia estadunidense. Por volta da década de 1920, os mecanismos de defesa eram discutidos com seriedade, juntamente com o conceito de mente inconsciente e do conteúdo latente e manifesto dos sonhos (Popplestone e McPherson, 1994). O behaviorismo ainda continuava a ser a escola de pensamento dominante da psicologia, e a psicanálise no geral era ignorada.

Em torno das décadas de 1930 e 1940, a psicanálise chamou a atenção do público. A combinação de sexo, violência e causas ocultas e a promessa de cura de diversos problemas emocionais mostraram-se atraentes, praticamente irresistíveis. A comunidade psicológica dominante ficou furiosa! As pessoas estavam confundindo a psicanálise com a psicologia, assumindo as duas áreas como a mesma coisa. Os psicólogos abominavam essa noção de que psicologia tratava apenas de sexo, sonhos e neuroses. Os historiadores afirmam: "Mais ou menos na década de 1930, ficara claro para os psicólogos que a psicanálise não era apenas uma moda passageira e sim um sério concorrente que ameaçava as bases da psicologia científica, pelo menos na mente do público" (Morawski e Hornstein, 1991, p. 114). [380]

Para enfrentar essa ameaça, os psicólogos resolveram aplicar o método experimental. Testaram a psicanálise para determinar sua legitimidade científica. Depois de realizadas centenas de pesquisas, os psicólogos declararam, com base na experimentação, que a psicanálise era inferior à psicologia, pelo menos na visão dos experimentalistas. Embora a forma de realização desses estudos fosse questionável, os psicólogos acreditavam que os resultados restauravam a sua posição de supremacia. Ademais, essas pesquisas demonstraram que a psicologia acadêmica podia ser de suma importância para o público, já que estudava os mesmos tópicos da psicanálise (Hornstein, 1992).

Nas décadas de 1950 e 1960, o que se viu foram behavioristas adotando a terminologia da psicanálise na linguagem do comportamento. Watson dera o exemplo antes, quando definiu as emoções como um mero conjunto de hábitos e descreveu o comportamento neurótico como resultante do condicionamento inadequado. Skinner remodelou os mecanismos de defesa freudianos, empregando-os na linguagem do condicionamento operante.

A psicologia, por fim, acabou incorporando os conceitos de Freud, tornando-os parte da área em geral. O papel do inconsciente, a importância das experiências da infância e a operação dos mecanismos de defesa são alguns exemplos das noções psicanalíticas consolidadas que fazem parte da psicologia contemporânea.

A Validação Científica dos Conceitos Psicanalíticos

Como vimos anteriormente, vários conceitos de Freud foram submetidos a testes experimentais que obtiveram resultados questionáveis, entre as décadas de 1930 e 1940. Anos depois, foi realizada uma pesquisa de maior valor. Uma análise envolvendo 2.500 estudantes de várias disciplinas como psiquiatria, psicologia, antropologia e outras examinou a credibilidade científica das formulações de Freud (Fisher e Greenberg, 1977, 1996).
Embora alguns conceitos resistissem às tentativas de validação (id, ego, superego, desejo de morte, libido e ansiedade), outros foram considerados passíveis de submissão aos testes científicos. As análises confirmaram os seguintes conceitos dos estudos publicados:

  1. algumas características dos tipos de personalidade oral e anal;
  2. a ansiedade de castração;
  3. a noção de que os sonhos refletem as preocupações emocionais; e
  4. alguns aspectos do complexo de Édipo em meninos (a rivalidade com o pai e as fantasias sexuais com a mãe).

Os conceitos freudianos testados, mas não confirmados pelos resultados, são os seguintes:

  1. os sonhos satisfazem simbolicamente às vontades e aos desejos reprimidos;
  2. ao resolver o complexo de Édipo, os meninos identificam-se com o pai e aceitam os seus padrões de superego por medo;
  3. as mulheres têm uma concepção inferior de seus corpos, padrões de superego menos severos que os homens e consideram mais difícil alcançar uma identidade; e
  4. a personalidade se forma aos 5 anos de idade e muda muito pouco depois disso. [381]

Uma pesquisa posterior confirmou a influência dos processos inconscientes nos pensamentos, nas emoções e no comportamento, sugerindo que as influências inconscientes seriam mais penetrantes do que Freud afirmava (veja, por exemplo, Bornstein e Pittman, 1992; Bornsteru e Masling, 1998; Greenwald, 1992; Weinberger e Silverman, 1990). Como um pesquisada observou, "hoje em dia se acredita que a maior parte do funcionamento [psicológico] ocorre em oposição ao que é conscientemente desejado" (Pervin, 2003, p. 225). No Capítulo 15, veremos que a psicologia cognitiva readmitiu o estudo dos processos mentais inconscientes. A pesquisa também confirmou o mecanismo de defesa da repressão.

As experiência com os chamados deslizes freudianos mostraram que pelo menos alguns desses equívocos verbais parecem ser, exatamente como afirmara Freud, conflitos e ansiedades inconscientes, revelando-se de forma embaraçosa.

O aspecto mais importante das tentativas científicas de analisar os princípios freudianos foi a constatação de que pelo menos alguns conceitos psicanalíticos podem ser reduzidos a proposições testáveis por meio de métodos da ciência [pós-positivista].

As Críticas à Psicanálise

Os métodos de Freud para a coleta de dados foram alvo de muitas críticas. Ele extraía os insights e suas conclusões das respostas dos pacientes durante as sessões de análise. Vejamos as deficiências dessa abordagem em comparação com o método experimental de coleta de dados sistemática sob condições controladas de observação.

Primeiro, as condições sob as quais Freud coletava os dados careciam de controle e não eram sistemáticas. Ele não fazia a transcrição verbal das palavras de cada paciente mas trabalhava com anotações realizadas horas depois da sessão. "À noite, depois do trabalho, escrevo o que vou me lembrando" (Freud apud Grubrich-Simitis, 1993, p. 20). Alguns dados originais (as palavras do paciente) certamente se perderam com o passar do tempo por causa das criações da memória e das possíveis distorções e omissões. Dessa forma os dados consistiam apenas do que Freud se lembrava.

Segundo, enquanto resgatava as palavras do paciente, Freud pode tê-las reinterpretado guiado pelo desejo de encontrar material de apoio. Ele pode ter lembrado e gravado apenas o que desejava ouvir. Por outro lado, também é possível que as suas anotações fossem precisas, mas é impossível obter a confirmação, já que os dados originais não sobreviveram.

Terceiro, Freud pode haver inferido, e não efetivamente ouvido, as histórias de sedução sexual na infância com base na sua avaliação dos sintomas do paciente. Outro escritor sugeriu que, embora Freud afirmasse que a maioria das pacientes alegavam ter sido seduzidas pelo pai,
a análise dos casos reais aos quais Freud se referia (...) não revela um único exemplo confirmado (...) nao há evidências de nenhuma paciente que afirmasse a Freud haver sido seduzida pelo próprio pai. Não passa de uma suposição de Freud. (Kihlstrom, 1994, p. 683)

Outros críticos argumentam que Freud pode ter usado da sugestão, ou de procedimentos mais coercivos, para extrair ou implantar essas lembranças, sendo que, na realidade nenhum ato de sedução ocorrera (Powell e Boer, 1994; Showalter, 1997). Freud chegou á admitir ser possível que as recordações de sedução fossem "fantasias criadas pelas pacientes ou, talvez, eu mesmo as houvesse forçado" {apud Webster, 1995, p. 210). [382]

Quarto, a pesquisa de Freud baseou-se em uma amostragem pequena e não representativa de pessoas, limitada a ele mesmo e àqueles que optaram por fazer psicanálise com ele. Não mais do que cerca de uma dezena de casos foram detalhados nos trabalhos de Freud; a maioria desses pacientes era formada por mulheres jovens, solteiras, de boa escolaridade, classe alta. É difícil generalizar a partir dessa amostra para a população em geral.

Quinto, foram constatadas discrepâncias entre as anotações de Freud das sessões de terapia e os casos publicados supostamente com base naqueles registros. Os pesquisadores encontraram diferenças envolvendo a extensão do estudo e a sequência dos acontecimentos descobertos durante a análise, além das alegadas curas não-fundamentadas (Eagle, 1988; Mahony, 1986). Não há como determinar se às afirmações de Freud foram propositais, a fim de produzir provas para a sua posição ou se foram forçadas pelo seu inconsciente. Não há como os historiadores tentarem rastrear os erros contidos nos casos não publicados de Freud porque ele destruiu a maioria dos arquivos dos pacientes. Além disso, Freud publicou apenas seis casos depois de seu rompimento com Breuer, e nenhum deles contém provas convincentes da eficácia da psicanálise. Um biógrafo concluiu:

Alguns desses casos apresentam evidências tão duvidosas a favor da teoria psicanalítica que qualquer um ficaria curioso em saber por que Freud teve o trabalho de publicá-los. (...) Dois casos estão incompletos e a terapia se mostrou ineficaz. (...) Um terceiro caso, na verdade, não foi tratado por Freud. (Sulloway, 1992, p. 160)

Sexto, mesmo que algum registro preciso, palavra por palavra, das sessões de terapia fosse mantido, nem sempre seria possível determinar a precisão dos relatos dos pacientes. Freud realizou poucas tentativas de verificar os relatos das experiências de infância. Os críticos afirmam que ele devia ter questionado os parentes e amigos acerca dos fatos descritos. Então, resumindo, a primeira etapa - ou seja, a da coleta de dados - da construção da teoria científica mostrou-se incompleta, imperfeita e imprecisa.

Em relação à etapa seguinte, ou seja, a das suposições e generalizações a partir dos dados, não há como avaliar a forma de execução, já que Freud jamais explicou o raciocínio empregado. Além disso, os historiadores não têm como determinar a confiabilidade ou o significado estatístico dos dados, pois eles não foram quantificados nem analisados estatisticamente.

Os pesquisadores contestaram as afirmações de Freud acerca da mulher. Ele alegava que a mulher é dotada de superego pouco desenvolvido e de sentimentos de inferioridade em relação ao corpo por não possuir pênis. A analista Karen Horney (Capítulo 14) abandonou o círculo psicanalítico de Freud por causa dessa afirmação e desenvolveu o próprio sistema, discordando que a mulher sentisse inveja do pênis. Ao contrário, ela sugeriu que o homem sentia inveja do útero. Hoje, grande parte dos analistas acredita que são incorretas e não comprovadas as ideias de Freud sobre o desenvolvimento psicossexual feminino. O Capítulo 14 apresenta trabalhos de outros teóricos que discordavam da ênfase de Freud nas forças biológicas, principalmente no sexo, como sendo determinantes da personalidade. Esses teóricos consideravam mais importante o impacto das forças sociais no desenvolvimento da personalidade.

Outros neofreudianos contestaram a negação de Freud do livre-arbítrio e seu enfoque no comportamento passado, excluindo as esperanças e os objetivos futuros. Alguns criticaram Freud por desenvolver uma teoria da personalidade baseada em pessoas neuróticas, ignorando os traços emocionais dos indivíduos saudáveis. Todos esses aspectos foram usados para elaborar visões concorrentes sobre a personalidade humana. O surgimento de teorias alternativas logo conduziu a divisões dentro da família psicanalítica e à formalização das [383] escolas analíticas de pensamento derivadas. O surgimento dessas teorias alternativas logo levou a divisões dentro da família psicanalítica e à formalização das escolas analíticas de pensamento derivadas, algumas das quais serão exploradas no Capítulo 14.

As Contribuições da Psicanálise

Apesar desses ataques contrários, por que a psicanálise sobrevive há tanto tempo? Até certo ponto, todas as teorias do comportamento são criticadas com base na aceitabilidade científica. Os psicólogos em busca de uma teoria algumas vezes devem selecioná-la baseados em critérios distintos de precisão científica formal, e aqueles que escolhem a psicanálise não o fazem se não houver evidências comprobatórias. A psicanálise não oferece provas, pelo menos não as do tipo aceito pela ciência. A aceitação da psicanálise baseia-se em uma aparência intuitiva de plausibilidade.

Freud, que confiava pouco nos métodos experimentais tradicionais, argumentava que seu trabalho era científico e que havia reunido muitas provas que justificam suas conclusões. Também acreditava que as únicas pessoas qualificadas para julgarem o mérito científico de suas ideias eram os psicanalistas, como ele mesmo. Escreveu que seu sistema baseava-se em "um número incalculável de observações e experiências, e somente alguém que tivesse repetido aquelas observações feitas sobre ele mesmo, e, em outras pessoas, estaria em posição de chegar a um julgamento próprio sobre isso" (Freud, 1940, p. 144).

Independentemente da credibilidade científica do trabalho de Freud, não se pode negar o tremendo impacto que teve na psicologia acadêmica estadunidense. As ideias de Freud ainda despertam grande interesse. No entanto, quando se observa o número de pacientes e de estudantes especializando-se em análise, percebe-se uma queda na popularidade da psicanálise como terapia. A terapia cara e prolongada de Freud foi suplantada pelas psicoterapias mais curtas e mais baratas (algumas delas oriundas da psicanálise) e pelas terapias comportamentais e cognitivas. Essa tendência foi incentivada pelas medidas de economia instituídas pelos programas dirigidos de saúde. A prescrição de um medicamento proativo em uma única visita ao médico é muito mais econômica que os vários meses de sessões de psicoterapia.

O desenvolvimento de vários programas medicamentosos reduziu a necessidade de psicoterapia para alguns tipos de distúrbios mentais. Por exemplo, medicamentos como o Lítio e o Prozac fizeram com que alguns psiquiatras e psicólogos clínicos reavaliassem sua posição acerca dos fatores desencadeadores da doença mental, afastando-se da escola de pensamento psíquica e retornando à somática.

A visão somática ou bioquímica afirma que os distúrbios mentais são resultantes do desequilíbrio químico do cérebro. Para que prescrever uma psicoterapia cara e extensa se o paciente pode tomar apenas uma pílula para se sentir melhor? O tratamento medicamentoso, no entanto, não é adequado para qualquer condição ou para qualquer paciente. É interessante observar que Freud previra muito antes esse desenvolvimento no tratamento dos distúrbios mentais.

O impacto de Freud na cultura popular e na consciência estadunidense foi estrondoso e ficou evidente logo após a sua visita, em 1909, à Clark University. Os jornais publicaram várias histórias sobre ele e, já em 1920, mais de 200 livros haviam sido lançados a respeito da psicanálise (Abma, 2004). Revistas com o Ladies Home Journal, The Nation e The New Republic publicaram muitos artigos. Os livros sobre criação e educação infantil do Dr. Benjamin [384] transformaram-se em um fenômeno de vendagem e foram baseados nos ensinamentos de Freud. O famoso estúdio de cinema, MGM, ofereceu a Freud 100 mil dólares para ter colaboração em um filme sobre o amor, mas ele recusou. Em outubro de 1924, Freud foi capa da revista Time, e o seu trabalho a respeito do sonho ficara tão conhecido que um músico escreveu uma canção com esse tema. Em um dos versos ouvia-se "Não me conte o sonho de ontem/Pois estive lendo Freud!" (apuá Fancher, 2000, p. 1.026).

Em 2005, a BBC (British Broadcasting Company) produziu um documentário de quatro horas para a televisão sobre a influência freudiana na sociedade ocidental. "O século do Eu mostrou como suas teorias afetaram marketing e publicidade, campanhas políticas e relações públicas, particularmente como foram desenvolvidas nos Estados Unidos por seu sobrinho, Edward Bernays (Stevens, 2005). Como podemos observar, esse
entusiasmo público pelas ideias de Freud ocorreu muito mais cedo do que sua aceitação pela psicologia acadêmica.

O século XX viu a liberação sexual no comportamento, nas artes, na literatura e no entretenimento. Generalizou-se a crença de que a inibição ou a repressão dos impulsos sexuais podiam ser danosas. No entanto, é irônico observar como a mensagem de Freud a respeito do sexo foi tão mal interpretada. Ele jamais defendeu o afrouxamento dos códigos de conduta ou o aumento da liberdade sexual. Ao contrário, na sua visão, a inibição do impulso sexual era necessária para a sobrevivência da civilização. Apesar da sua intenção, o grau de liberação sexual que marcou grande parte do século XX foi, em parte, consequência do trabalho de Freud, já que a ênfase no sexo ajudou a popularizar as suas ideias. Até mesmo nas publicações científicas, os artigos abordando o sexo chamam a atenção. Desse modo, conclui-se que, apesar da falta de rigor científico e da fragilidade metodológica, a psicanálise freudiana tornou-se uma força vital na psicologia moderna. Freud ainda é a figura mais frequentemente citada na literatura de pesquisa da psicologia, de acordo com os catálogos de citações publicados (veja, por exemplo, Fancher, 2000; Haagbloom
ít 2002). A Divisão de Psicanálise (Divisão 39) é a sexta maior dentre as 51 da APA. Em 1929, E. G. Boring escreveu no seu livro, A history of experimental psychology, que na psicologia não havia nenhum verdadeiro grande proponente da importância de Darwin ou Helmholtz. Na segunda edição, publicada 21 anos depois, Boring mudou de opinião. Refletindo os avanços da psicologia entre as décadas, escreveu sobre Freud, tecendo elogios:

Hoje ele é visto como o grande originador de tudo, o agente do Zeitgeist que concretizou a invasão da psicologia por meio do princípio do processo inconsciente. (...) Não parece possível registrar a história da psicologia nos próximos três séculos sem mencionar o nome de Freud e continuar afirmando tratar-se de história geral da psicologia. E eis aqui o melhor critério para se estabelecer a grandeza: a fama póstuma. (Boring, 1950, p. 743, 707) [385]
 

Psicologia - Psicanálise
3/20/2020 3:32:24 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
A Psicologia da Gestalt

Tenerife, localizada a 200 milhas da costa da África, é a ilha mais famosa na história da psicologia; talvez seja a única ilha na história da psicologia. No entanto, o trabalho de um psicólogo alemão que vivia ali na segunda década do século XX é, sem sombra de dúvida, uma parte significativa da história dessa disciplina.

Wolfgang Köhler estudou macacos no Tenerife. Esses animais tinham sido trei­nados ou condicionados a se comportar de determinada maneira. Mas até Köhler ir para Tenerife, acreditava-se que a única maneira de animais aprenderem era por meio de tentativa e erro, isto é, tropeçando acidentalmente na resposta correta - aquela que levava comida como recompensa. A maioria das pesquisas sobre animais já realizadas até aqui envolve animais ensina­dos a se comportar da maneira como o experimentador ou treinador queira.

Köhler não tinha interesse em treinar os macacos que encontrou na ilha. Seu objetivo era observá-los para ver como solucionavam problemas. Ele acreditava que eram mais inteligentes do que pessoas ensinadas e que eram capazes de resolver problemas de maneira muito semelhante aos humanos. E assim colocou seus macacos em gaiolas grandes e deu-lhes instrumentos que usariam para obter comida, enquanto se sentava para observar o que faziam.

Uma macaca, Nueva, pegou uma vara que Köhler havia colocado em sua gaiola. Esfregou-a no chão por um período curto e em seguida perdeu interesse e a deixou de lado. Dez minutos depois, algumas frutas foram colocadas do lado de fora. Ela esticou um dos braços pelas grades da gaiola em direção à fruta, mas não conseguiu alcançá-la. Começou a choramingar e a gemer, e em seguida jogou-se no chão num gesto muito eloquente de desespero", Köhler escreveu. Após diversos minutos ela olhou a vara, parou de cho­ramingar, e repentinamente a agarrou. Ela esticou a vara pelas grades da gaiola e arrastou a fruta até que estivesse perto o suficiente para que pudesse alcançá-la com sua mão. Uma hora depois Köhler repetiu o experimento. Dessa vez Nueva mostrou certa hesitação. Pegou a vara e a usou como instrumento mais habilmente do que da primeira vez, e assim conseguiu obter a fruta mais rapidamente. Na terceira vez, ela pegou a vara de imediato, reagindo ainda mais rapidamente.

Ficou evidente para Köhler que Nueva não havia hesitado, usando a técnica de tentativa e erro para sua aprendizagem, e que esta havia acontecido no decorrer dos movimentos realizados ao acaso, até que ela tocou a comida com a vara.

Ao contrário, seus movimentos tinham um objetivo em mente, eram propositados e deliberados. Isso era diferente do comportamento dos gatos na caixa quebra-cabeça, ou dos ratos no labirinto de Thorndike.

Nueva e os outros chimpanzés estudados no Tenerife exibiram uma maneira diferente de aprender, e suas ações levaram a uma outra revolução na psicologia, a outra maneira de abordar o estudo da mente e do comportamento.

A Revolta da Gestalt

Até aqui a evolução da psicologia desde as ideias iniciais de Wundt e a elaboração dessas noções por Titchener, passou pela escola de pensamento funcionalista, bem como pelas áreas aplicadas da psicologia, até chegar ao behaviorismo de Watson e Skinner e ao desafio cognitivo nesse movimento. Mais ou menos na mesma época em que a revolução behaviorista aglutinava forças nos Estados Unidos, a revolução da Gestalt tomava conta da psicologia na Alemanha. Essa revolução consistia em mais um pro­testo contra a psicologia wundtiana, e viria mais tarde a se tornar um testemunho das ideias de Wundt, como fonte de inspiração para o surgimento de novas visões, e como base para o lançamento de novos sistemas de psicologia.

Nesse ataque contra a psicologia dominante, a psicologia da Gestalt concentrava-se principalmente na natureza elementar do trabalho de Wundt. Apenas para relembrar, os elementos sensoriais formavam a base da psicologia wundtiana; e os psicólogos da Gestalt fizeram desse enfoque o alvo do seu ataque. Wolfgang Köhler, fundador da psicologia da Gestalt, afirmou: "Ficamos chocados com a tese de que todo fato psicológico (...) consti­tui-se de átomos inertes não-relacionados e que as associações consistem praticamente nos únicos fatores que combinam esses átomos, introduzindo, assim, a ação" (Köhler, 1959, p. 728)..

Para compreender o protesto da Gestalt, retornemos ao ano de 1912. O behaviorismo de Watson começava a atacar Wundt e Titchener e também o funcionalismo. A pesquisa sobre animais realizada nos laboratórios de Thorndike e de Pavlov exercia grande impacto. A psicanálise de Freud já completava uma década. Embora o movi­mento dos psicólogos da Gestalt contra a posição de Wundt ocorresse concomitantemente ao surgimento do behaviorismo nos Estados Unidos, os dois movimentos foram totalmente independentes. E ainda que ambas as escolas de pensamento tenham iniciado como uma oposição às mesmas ideias, ou seja, contra o enfoque de Wundt nos elementos sensoriais, as duas acabaram opondo-se entre si.

As diferenças entre a psicologia da Gestalt e o behaviorismo logo ficaram evidentes. Os psicólogos da Gestalt admitiam o valor da consciência embora criticassem a tentativa de reduzi-la a elementos ou átomos. Os psicólogos behavioristas recusavam-se a reconhecer o valor do conceito de consciência na psicologia científica.

Os psicólogos da Gestalt comparavam a abordagem da psicologia de Wundt (do modo como a interpretavam) com a construção de uma casa, em que os elementos (os tijolos) seriam unidos pela argamassa mediante o processo de associação. Afirmavam que, ao olharmos pela janela, enxergamos efetivamente as árvores e o céu, e não os denomina­dos elementos sensoriais, como o brilho e as tonalidades, os quais, de alguma forma, se conectariam para formar a nossa percepção de árvore e de céu.

Além disso, os psicólogos da Gestalt acusavam Wundt de afirmar que a percepção dos objetos era meramente a soma ou a junção dos elementos, formando-se uma espécie de pacote. Insistiam em alegar que, ao se combinarem, os elementos sensoriais formariam um novo padrão ou uma nova configuração. Por exemplo, se juntarmos um grupo de notas musicais, surge uma melodia ou um tom por essa combinação, algo novo que não existia em nenhuma das notas elementares individuais. Essa ideia se encontra na expressão conhecida: o todo é diferente da soma das partes. Para fazer justiça a Wundt, devemos observar que ele reconheceu essa questão, formulando a doutrina da síntese criativa.

A Percepção: o que os Olhos Não Veem

Para ilustrar a diferença entre a abordagem de Wundt e a da Gestalt acerca da percepção, suponha que você seja aluno de um laboratório de psicologia alemão do estilo de Wundt no início do século XX.

O psicólogo responsável pede-lhe para descrever um objeto sobre a mesa, e você responde:

"Um livro."

"Sim, é claro que é um livro", ele concorda, "mas o que você está realmente vendo?"

Intrigado, você pergunta: "Mas o que você quer dizer com 'o que eu realmente estou vendo?' Eu disse que estou vendo um livro. Um livro pequeno, de capa vermelha." O psicólogo insiste. "Qual a sua real percepção do objeto? Descreva-o com a maior precisão possível."

"Você está dizendo que não é um livro? Isso é alguma piada?"

Ele demonstra certa impaciência. "Sim, isso é realmente um livro. Não se trata de nenhuma brincadeira. Eu apenas gostaria que você descrevesse exatamente o que está vendo, nem mais, nem menos."

Você vai ficando cada vez mais desconfiado e diz: "Bem, olhando deste ângulo, a capa do livro parece um paralelogramo vermelho-escuro".

"Isso!" ele diz, satisfeito. "Ótimo, você está vendo uma espécie de tira vermelho-escuro com o formato de um paralelogramo. E o que mais?"

"Há uma borda branca meio acinzentada abaixo dela e mais para baixo outra linha fina, do mesmo tom vermelho-escuro. Debaixo de tudo, vejo a mesa." Ele se retrai. "Em volta do objeto vejo umas manchas marrons com algumas listras paralelas, meio ondu­ladas, em marrom-claro."

"Ótimo, ótimo!" E ele agradece a sua colaboração.

Você fica parado ali, olhando para o livro sobre a mesa, e sente-se um pouco cons­trangido por ter-se deixado induzir pelo insistente psicólogo a uma análise desse tipo. Ele o deixou muito desconfiado, a ponto de não ter mais certeza do que realmente estava vendo ou pensava que estava vendo... Essa cautela o fez descrever o que percebia com as sensações, quando apenas um momento antes tinha certeza de observar um livro sobre a mesa.

Os seus devaneios são interrompidos de repente pela presença de um psicólogo que se parece vagamente com Wilhelm Wundt. "Obrigado por ajudar a comprovar mais uma vez a minha teoria da percepção. Você comprovou", ele diz, "que o livro que via nada mais é do que um composto de sensações elementares. Quando tentava precisar e dizer exatamente o que realmente via, teve de se expressar em padrões de cor, e não do objeto em si. As sensações de cor é que são as características primárias, e todo objeto visual pode ser reduzido a essas sensações. A sua percepção do livro é construída com base nas sensações, assim como a molécula é constituída a partir dos átomos."

Ao que parece, esse breve discurso é um sinal para o início da batalha. "É um absur­do!", grita uma pessoa do outro lado do salão. "Bobagem! Qualquer idiota sabe que o livro é o fato perceptual primário, imediato, direto e incontestável." O psicólogo que agora olha para você possui certa semelhança com William James, mas parece ter sotaque alemão, e o seu rosto está tão vermelho de raiva que não há como ter certeza. "Essa redução da percepção em sensações de que você está falando não passa de um jogo intelectual. Um objeto não é um pacote de sensações. Qualquer homem que vê manchas vermelhas-escuras quando devia enxergar um livro deve estar doente!"

Quando a briga começa a esquentar, você fecha a porta devagarinho e desaparece. Você acaba de ter o que queria: uma ilustração de que há duas atitudes diferentes, duas formas distintas de falar sobre as informações que os nossos sentidos nos proporcionam. (Miller, 1962, p. 103-105)

Os psicólogos da Gestalt acreditam que há mais na percepção do que os olhos veem. Em outras palavras, a percepção vai muito além dos elementos sensoriais, dos dados físi­cos básicos proporcionados aos órgãos dos sentidos.

As Influências Anteriores sobre a Psicologia da Gestalt

Assim como em todo movimento, as ideias contestadoras da Gestalt tiveram origem em con­ceitos anteriores. A base da posição da Gestalt, ou seja, o enfoque na unidade da percepção, encontra-se no trabalho do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) que, curiosamente, escrevia os seus livros confortavelmente vestido de roupão e calçando chinelos. Kant alegava que, quando percebemos o que chamamos de objeto, encontramos os estados mentais que parecem compostos de partes e pedaços. Essa ideia é semelhante à proposta dos elementos sensoriais defendida pelos empiristas ingleses e associacionistas. No entanto, para Kant, esses elementos são organizados de forma que tenham algum sentido, e não por meio de processos de associação. Durante o processo de percepção, a mente forma ou cria uma experiência completa. Desse modo, a percepção não é uma impressão passiva e uma combinação de elementos sensoriais, como afirmavam os empiristas e associa­cionistas, mas uma organização ativa dos elementos, de modo que forme uma experiência coerente. Assim, a mente molda e forma os dados originais da percepção.

Franz Brentano, da University of Vienna, opôs-se ao enfoque de Wundt acerca dos elementos da experiência consciente e propôs à psicologia o estudo do ato da experiência. Ele considerava artificial a introspeccão utilizada por Wundt e defendia uma observação menos rígida e mais direta da experiência na forma como ela ocorre. A visão de Brentano estava mais próxima dos métodos mais recentes dos psicólo­gos da Gestalt.

Ernst Mach (1838-1916), professor de física da University of Prague, exerceu influência mais direta sobre o pensamento da Gestalt com a obra The analysis of sensations (1885). Nesse livro, Mach discutia os padrões espaciais, como as figuras geométricas, bem como os padrões temporais, como as melodias, e os considerava sensações. Essas sensações de forma do espaço e de forma do tempo independem dos elementos individuais. Por exem­plo, a forma do espaço de um círculo pode ser branca ou preta, grande ou pequena e ainda manter a qualidade elementar circular.

Mach alegava que a percepção de um objeto não muda, ainda que modifiquemos nossa orientação em relação a ele. Uma mesa continua a ser uma mesa se a olharmos de lado, de cima ou de algum ângulo. Do mesmo modo, o tom continua o mesmo em nossa percepção inclusive quando a forma do tempo é modificada, ou seja, quando é executado mais lenta ou rapidamente.

Christian von Ehrenfels (1859-1932) estudou as ideias de Mach e propôs qualidades de experiência que não podem ser explicadas como combinações de elementos sensoriais. Chamou essas qualidades de Gestalt Qualitäten (qualidades de forma), que são percepções baseadas em algo além da aglutinação de sensações individuais. A melodia é uma qualidade de forma porque parece a mesma até quando transposta para outra nota. Ela independe das sensações de que é composta. Para Ehrenfels e os seus seguidores, a forma em si era um elemento criado pela mente em operação sobre os elementos sensoriais. Desse modo, a mente seria dotada de capacidade para criar formas a partir de sensações elementares.

Max Wertheimer, um dos três principais fundadores da psicologia da Gestalt, percebeu que, do trabalho de Ehrenfels, com quem estudara em Praga, vinha o maior incentivo para o movimento da Gestalt.

William James, que se opôs à tendência do elementarismo na psicologia, também foi precursor da escola de psicologia da Gestalt. James considerava os elementos da cons­ciência como abstrações artificiais. Afirmava que as pessoas veem os objetos como uma unidade; Como Pacotes Armados de sensações. Outros principais fundadores da psicologia da Gestalt, Kurt Koffka e Wolfgang Kõhler, tomaram contato com o trabalho de James quando foram alunos de Stumpf.

Outra influência anterior foi o movimento ocorrido na filosofia e na psicologia alemã; conhecido como fenomenologia, doutrina baseada na descrição imparcial da experiência imediata na forma como ela ocorre. A experiência não é analisada nem reduzida em ele­mentos ou abstraída de alguma forma artificial. Ela envolve uma experiência praticamente ingênua de senso comum, e não uma experiência relatada por um observador treinado dotado de orientação ou tendência sistemática.

Um grupo de psicólogos fenomenologistas trabalhou na Universidade de Gõttingen de 1909 a 1915, isto é, no período em que o movimento da Gestalt esta­va começando a se desenvolver. O trabalho desses psicólogos precedeu a escola formal da Gestalt, que mais tarde acabou adotando a visão desse estudo.

As Mudanças do Zeitgeist na Física

O Zeitgeist - mais especificamente, a atmosfera intelectual predominante na física - exerceu grande influência no desenvolvimento da Psicologia da Gestalt. Nas últimas décadas do século XIX, as noções da física tornavam-se cada vez menos atomísticas com o reconhecimento e a aceitação dos campos de força - regiões ou espaços atravessados por linhas de força, por exemplo, por corrente elétrica.

O exemplo clássico desse conceito é o magnetismo, propriedade difícil de explicar com base na visão tradicional de Galileu ou Newton. Por exemplo, quando limalhas de ferro são sacudidas em uma folha de papel colocada sobre um ímã, os pedacinhos formam um padrão característico. Embora as limalhas não toquem no ímã, são obviamente afetadas pelo campo de força existente em torno do magneto. Acreditava-se que a luz e a eletrici­dade funcionavam da mesma forma. Esses campos de força eram considerados entidades novas, e não apenas a soma dos efeitos dos elementos ou das partículas individuais.

Desse modo, a noção do atomismo ou elementarismo, tão influente no estabelecimento de grande parte mais recente ciência da psicologia, estava sendo reconsiderada na física. Os físicos descreviam campos e entidades orgânicas completas, proporcionando assim munição e apoio para a visão revolucionária dos psicólogos da Gestalt a respeito da percepção. As noções oferecidas pelos psicólogos da Gestalt refletiam a nova física. Mais uma vez, os psicólogos esforçavam-se para imitar as ciências naturais já estabelecidas.

Houve uma conexão pessoal no impacto da nova física sobre a psicologia da Gestalt. Köhler havia estudado com Max Planck, um dos criadores da física moderna, e afirmou que, por influência de Planck, percebera haver uma conexão entre a aula de física e o conceito de unidade da Gestalt. Köhler testemunhou diretamente na física a crescente relutância em lidar com os átomos e a substituição dessa ideia pelo enfoque no conceito mais amplo dos campos, e afirmou: "A partir de então, a psicologia da Gestalt transformou-se em uma espécie de aplicação da física de campo nas áreas essenciais da psicologia" (1969, p. 77).

Entretanto, Watson aparentemente não tomou conhecimento da nova física. Sua escola de pensamento behaviorista manteve a abordagem reducionista, enfatizando os elementos - os do comportamento. Essa visão é compatível com a antiga perspectiva atomística da física.

Fenômeno Phi um desafio à Psicologia Wundtiana

A psicologia da Gestalt desenvolveu-se por um estudo de pesquisa conduzido, em 1910, por Max Wertheimer. Enquanto viajava de trem pela Alemanha durante as férias, ocor­reu-lhe a ideia de realizar uma experiência para visualizar um movimento quando ele não estivesse efetivamente acontecendo. Abandonou seus planos de viagem, desceu do trem em Frankfurt, comprou um estroboscópio de brinquedo e analisou suas sensações internas em um estudo preliminar que realizou no quarto de um hotel. Mais tarde, con­duziu um programa de pesquisa mais abrangente na Universidade de Frankfurt, com dois psicólogos, Koffka e Köhler.

O problema de pesquisa de Wertheimer, para a qual Koffka e Köhler serviram como sujeitos, envolvia a percepção do movimento aparente, ou seja, do movimento quando não há efetivamente o movimento físico. Wertheimer referia-se a essa percepção como "impressão" do movimento. Usando o taquistoscópio, projetava a luz através de duas fen­das, uma vertical e a outra com ângulo de 20 ou 30 graus da vertical. Se a luz era projetada primeiro por uma fenda e depois através da outra, com um intervalo relativamente longo entre elas (mais de 200 milissegundos), os sujeitos enxergavam algo como duas luzes sucessivas, primeiro em uma fenda e depois na outra. Quando o intervalo entre as luzes era menor, os observadores percebiam duas luzes que pareciam contínuas. Com um bom intervalo entre as luzes, cerca de 60 milissegundos, eles enxergavam um único feixe de luz que parecia se mover de uma fenda a outra, voltando novamente ao lugar.

Essas descobertas podem parecer pouco importantes. Os cientistas conhecem o fenô­meno há anos, e ele parece fazer parte do senso comum. No entanto, de acordo com a posição predominante na psicologia, que era dominada pela visão de Wundt, toda expe­riência consciente era passível de análise em elementos sensoriais. Portanto, como explicar a percepção do movimento aparente como uma soma de elementos individuais, quando os elementos eram simplesmente duas fendas fixas de luz? Seria possível adicionar um estímulo fixo a outro para produzir uma sensação de movimento? Não, não era possível, e foi exatamente esse o ponto demonstrado de modo simples e brilhante por Wertheimer, o qual confrontou a explicação baseada no sistema de Wundt.

Wertheimer acreditava que o fenômeno na forma verificada no laboratório era tão elementar quanto uma sensação, mas era diferente de uma sensação ou de uma série delas. Denominou essa noção de fenômeno phi. E como Wertheimer explicava o fenômeno phi quando a psicologia da época não conseguia encontrar nenhuma explicação? Sua resposta era tão simples quanto sua pesquisa. O movimento aparente dispensa qualquer explicação. Ele existe assim como é percebido e não pode ser reduzido em um elemento mais simples.

Para Wundt, a introspecção do estímulo produzia apenas duas linhas de luz e nada mais, no entanto não importa quão rigorosamente um observador realizasse a introspec­ção dos dois feixes de luz, a experiência de uma única linha em movimento persistia. Qualquer tentativa de análise fracassava. Toda a experiência, que consistia no movimento aparente do feixe de uma fenda a outra, era distinta da soma das partes (as duas linhas fixas). Desse modo, a psicologia associacionista e elementarista, rebatida, não fora capaz de sustentar o seu ponto de vista.

Wertheimer publicou os resultados da pesquisa, em 1912, no artigo intitulado “Expe­rimental studies of perception of moviment" ("Estudos experimentais de percepção do movi­mento"), considerado o marco formal da escola de pensamento da psicologia da Gestalt.

Max Wertheimer (1880-1943)

Max Wertheimer frequentou as escolas locais até completar 18 anos. Estudou direito na University of Prague, mudou sua graduação para filosofia, participou das aulas de Ehrenfels e então seguiu para a Univerdadide of Berlin para prosseguir o estu­do de filosofia e psicologia. Obteve o doutorado, em 1904, da University of Würzburg, sob a orientação de Oswald Külpe. Seguiu para a University of Frankfurt para lecionar e realizar pesquisas, obtendo uma posição acadêmica em 1929. Durante a Primeira Guerra Mundial, realizou pesquisas militares com os aparelhos de escuta dos submarinos e dos fortes localizados nas regiões portuárias.

Na década de 1920, na Universidade de Berlin, Wertheimer desempenhou alguns de seus trabalhos mais produtivos para o desenvolvimento da psicologia da Gestalt. Um discípulo seu lembra-se de que as paredes do escritório de Wertheimer eram pintadas de vermelho vivo. Aparentemente ele achava que cores fortes eram estimulantes, e que, se as paredes fossem pintadas de cinza, ou verde-claro, ou outra cor maçante, as pessoas não trabalhariam tão bem como se fossem pintadas de cores excitantes como o vermelho" (King e Wetheimer, 2005, p. 188).

O estilo das aulas de Wertheimer era estimulante e sua imaginação também era muito viva; alguns alunos achavam que isso facilitava o entendimento, mas outros achavam confuso e obscuro. Uma aluna, entusiasmada pela paixão, zelo e convicções do professor, acreditava, a princípio, que poucos sabiam sobre o que Wertheimer estava falando. "De­morou praticamente um ano para que eu, particularmente, indo a duas ou três aulas por semana, entendesse o que ele dizia. Quando entendíamos, ficávamos muito satisfeitos! Nossa vida mudava, toda nossa visão sobre ela modificava. De repente, tudo ficava colorido e cheio de vida e começava a fazer sentido" (King e Wertheimer, 2004, p. 171).

A vida daquela aluna mudou significativamente. Aos 22 anos de idade ela se casou com seu professor de 43 anos, apesar de ter lhe avisado sobre sua obsessão pelo trabalho. "Deve sempre se lembrar", ele lhe disse, "que estarei sempre à minha mesa trabalhando. Preciso criar a teoria da Gestalt" (King e Wetheimer, 2005, p. 172). Ele não estava exagerando.

Em 1921 Wertheimer, Koffka, e Kõhler assistidos por Kurt Goldstein e Hans Gruhle, fundaram o periódico Psychological Research, que se tornou a publicação oficial da escola de pensamento da Gestalt. O governo nazista suspendeu sua publicação em 1938, mas ela foi retomada após a guerra, em 1949.

Wertheimer fazia parte do primeiro grupo de estudiosos a fugir da Alemanha nazista para os Estados Unidos, chegando em Nova York em 1933. Associou-se à New School for Social Research, onde permaneceu até sua morte, 10 anos mais tarde. Embora seus anos nos Estados Unidos tivessem sido produtivos, teve dificuldade em se adaptar a uma nova língua e cultura.

Wertheimer impressionou muito o jovem psicólogo Abraham Maslow, que aparente­mente ficou tão admirado que começou a estudar as características pessoais de Wethei­mer. Por essas observações sobre Weitheimer e outros, Maslow desenvolveu o conceito de autorrealização e posteriormente promoveu a escola de pensamento da psicologia humanística.

Kurt Koffka (1886-1941)

Kurt Koffka, nascido em Berlim, foi o mais criativo dentre os fundadores da psicologia da Gestalt. Interessado em ciência e filosofia, frequentou a Universidade de Berlin. Estudou psi­cologia com Carl Stumpf, obtendo o Ph.D. em 1909. No ano seguinte, começou a longa e frutífera relação com Wertheimer e Köhler, na Universidade Frankfurt. Koffka afirmou:

Pessoalmente, a simpatia era recíproca, tínhamos o mesmo entusiasmo, o mesmo tipo de formação e nos encontrávamos diariamente para discutir todas as questões, sob o sol (...) ainda [posso] sentir a emoção da experiência quando começou a me ocorrer o verdadeiro significado do fenômeno phi. (...) e que agora, no formato final, tornara-se objeto mani­pulável, finalmente ingressou no sistema da psicologia. (apud Ash, 1995, p. 120, 131)

Em 1911, Koffka aceitou uma posição na Universidade de Giessen, a 64 quilômetros de Frankfurt, onde permaneceu até 1924. Durante a Primeira Guerra Mundial, trabalhou em uma clínica psiquiátrica, tratando de pacientes afásicos e com danos cerebrais.

Depois da guerra, percebendo que os psicólogos estadunidenses estavam tomando conhe­cimento dos desenvolvimentos da psicologia da Gestalt, na Alemanha, Koffka escreveu um artigo para a revista estadunidense Psychological Bulletin intitulado "Perception: an introduction to the Gestalt-Theorie" ("Percepção: uma introdução à teoria da Gestalt") (Koffka, 1922). Apresentou os conceitos básicos da psicologia da Gestalt, acompanhados dos resultados e das consequências de várias pesquisas.

Apesar da importância do artigo como a primeira explicação completa do movimen­to da Gestalt para psicólogos estadunidenses, ele parece ter provocado mais danos do que benefícios. A palavra percepção, usada no título, criou um enorme equívoco, dando a impressão de que os psicólogos da Gestalt lidavam exclusivamente com percepção e de que movimento não era importante para as outras áreas da psicologia. A psicologia da Gestalt, na verdade, preocupava-se mais amplamente com os processos cognitivos, as questões relacionadas ao pensamento, a aprendizagem e outros aspectos da experiência consciente. O psicólogo Michael Wertheimer, filho de Max Wertheimer, deu a seguinte explicação para o enfoque inicial da Gestalt em relação à percepção:

A principal razão para que os primeiros psicólogos da Gestalt se concentrassem em suas publicações sistemáticas sobre a percepção deve-se ao Zeitgeist: a psicologia de Wundt, contra a qual os gestálticos se rebelaram, recebia muito apoio das pesquisas sobre sensa­ção e percepção, então os psicólogos da Gestalt escolheram a percepção como arena para atacar Wundt no próprio reduto. (Michael Wertheimer, 1979, p. 134)

Em 1921, Koffka publicou "The growth of the mind", um livro a respeito da psicologia do desenvolvimento infantil, que teve sucesso na Alemanha e nos Estados Unidos. Koffka lecionou como professor visitante na Cornell University e na University of Wisconsin, e, em 1927, foi indicado para lecionar na Smith College, em Northampton, Massachusetts, onde permaneceu até a morte, em 1941. Em 1935, publicou Principies of Gestalt psychology, obra de difícil leitura que, portanto, não se tornou a abordagem definitiva da psicologia da Gestalt, contrariando as expectativas do autor.

Wolfgang Köhler (1887-1967)

Wolfgang Köhler foi o porta-voz do movimento da Gestalt. Seus livros, escritos com cui­dado e precisão, tornaram-se trabalhos-padrão na psicologia da Gestalt. Os estudos de física realizados com Max Planck convenceram Köhler de que a psicologia devia aliar-se à física e que as Gestalten (formas ou padrões) ocorriam não apenas na física, mas também na psicologia.

Nascido na Estônia, Köhler estava com 5 anos quando a família se mudou para o norte da Alemanha. Estudou em universidades em Tübingen, Bonn e Berlim, e doutorou-se orien­tado por Stumpf, na Universidade de Berlin, em 1909. Seguiu para a Universidade de Frankfurt, chegando pouco tempo antes de Wertheimer e seu estroboscópio de brinquedo.

Em 1913, a convite da Academia de Ciência da Prússia, viajou para o Tenerife, nas ilhas Canárias, próximo à costa noroeste da África, para estudar os chimpanzés. Seis meses depois da sua chegada, começou a Primeira Guerra Mundial, e Köhler informou à Alemanha não ter condições de retornar (outros cidadãos alemães conseguiram voltar ao país durante a guerra). Um psicólogo chegou a insinuar, baseado na sua interpretação idiossincrática dos dados históricos, que Köhler talvez fosse um espião alemão e que o seu local de pesquisa não passava de um disfarce para as atividades de espionagem (Ley, 1990). Acusaram-no também de transmitir informações sobre os movimentos das frotas aliadas por meio de um potente radiotransmissor escondido no alto da sua casa. No entan­to, as provas que sustentam essas acusações são circunstanciais e foram contestadas pelos seguidores de Köhler e por outros historiadores (in Lück, 1990).

Seja como espião ou como um cientista desamparado por causa da guerra, Köhler passou os sete anos seguintes estudando o comportamento dos chimpanzés. Registrou o trabalho no clássico volume The mentality of the apes (1917), lançado em segunda edição em 1924 e traduzido para o inglês e o francês. Embora no começo considerasse interessante a pesquisa com os chimpanzés, logo se cansou de trabalhar com os animais, e declarou:

Dois anos observando macacos todos os dias; qualquer um acaba se transformando em um 'chimpanzoide' (...) e não consegue mais perceber facilmente qualquer característica do animal" (apud Ash, 1995, p. 167).

Em 1920, Köhler retornou à Alemanha. Vendeu os chimpanzés para o zoológico de Berlim, que, entretanto, por não suportarem a mudança climática, não sobreviveram muito tempo. Dois anos depois, Köhler substituiu Stumpf como professor de psicologia da Universidade de Berlin. A razão mais provável para essa honrosa indicação teria sido a publi­cação de Static and stationary physical Gestalts (1920), livro bastante elogiado em virtude do seu elevado grau de erudição. Nele, Köhler sugere que a teoria da Gestalt consistia em uma lei geral da natureza que pode ser amplamente aplicada em todas as ciências.

Na metade da década de 1920, Köhler se divorciou da esposa e casou com uma jovem aluna sueca rica, e depois disso, cortou contato com os quatro filhos do primeiro casa­mento. Cerca de 60 anos depois, sua segunda esposa disse em uma entrevista que Köhler se opunha ao casamento por princípio, vendo-o como uma "imposição à sua liberdade," e que não gostava da vida familiar. Ele achava que "todos deveriam ser livres" (apud Ley, 1990, p. 201). Não muito tempo depois disso Köhler desenvolveu um tremor nas mãos, que era mais notado quando estava aborrecido. Seus assistentes de laboratório observavam todas as manhãs o tremor das mãos dele para avaliar o grau do seu humor.

No ano letivo de 1925-1926, Köhler lecionou na Harvard University e na Clark Uni­versity, onde também ensinou os estudantes de pós-graduação a dançarem o tango. Em 1929, publicou Gestalt psychology, uma descrição completa do movimento da Gestalt. Deixou a Alemanha nazista em 1935 por causa de divergências com o governo. Depois de criticar o regime em suas aulas, uma gangue de nazistas invadiu a classe. As ameaças não o impediram de correr riscos que facilmente levariam à sentença de morte. Motivado pela demissão dos professores judeus das universidades alemãs, escreveu uma carta corajosa criticando o nazismo, e enviou-a para um jornal de Berlim. À tarde, a carta foi publicada, e ele e alguns amigos permaneceram em casa, aguardando a Gestapo para prendê-lo; mas a temida batida na porta jamais ocorreu.

Um historiador contemporâneo comentou que Köhler foi o único psicólogo não ju­deu na Alemanha a protestar publicamente contra as demissões dos intelectuais judeus (Geuter, 1987). A maioria dos professores e dos alunos apoiou com entusiasmo o governo nazista desde o princípio. Um professor chamou Adolf Hitler de "grande psicó­logo" e outro elogiou-o, dizendo ser um homem de "visão, corajoso e emocionalmente profundo" (apud Ash, 1995, p. 342). Os líderes da German Psychological Society [Socie­dade Alemã de Psicologia] apoiaram imediatamente o regime nazista, demitiram editores judeus, mesmo antes das leis que determinariam tais demissões, e rendiam homenagens públicas a Hitler. Nas reuniões da sociedade, proclamavam a "influência demoníaca" dos judeus (Mandler, 2002b, p. 197).

Depois de emigrar para os Estados Unidos, Köhler lecionou na Swarthmore College, Pensilvânia, publicou diversos livros e editou a revista gestáltica Psychological Research. Em 1956, recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica da APA, órgão que em 1959, elegeu-o seu presidente.

A Natureza da Revolta da Gestalt

As ideias dos psicólogos da Gestalt contradiziam grande parte da tradição acadêmica da psicologia alemã. Nos Estados Unidos, o behaviorismo não se constituiu em uma revolta tão imediata contra a psicologia wundtiana e contra o estruturalismo de Titchener, por­ que o funcionalismo já provocara mudanças básicas na psicologia estadunidense. O caminho para a revolução da Gestalt, na Alemanha, não contou com efeitos assim moderados. - declarações dos psicólogos da Gestalt eram consideradas total heresia.

Como a maioria dos revolucionários intelectuais, os líderes da Gestalt exigiam com­pleta revisão da antiga ordem. Köhler declarou:

Estamos entusiasmados com o que descobrimos, e ainda mais com a perspectiva de constatar mais fatos reveladores. (...) a inspiração não veio apenas da novidade do nosso trabalho. Ocorreu também uma grande onda de alívio - como se estivéssemos fugindo de uma prisão. A prisão era a psicologia tal como era ensinada nas universidades, quando ainda éramos estudantes. (Köhler, 1959, p. 728)

Depois que Wertheimer passou a estudar a percepção do movimento aparente, os psicólogos da Gestalt começaram a se dedicar a outro fenômeno perceptual. A experiên­cia da constância perceptual produziu apoio adicional para as suas visões. Por exemplo quando paramos em frente a uma janela, uma imagem retangular é projetada na nossa retina, mas, quando paramos de lado, a imagem da retina transforma-se em um trapezoide, embora, é claro, continuemos a perceber a janela no formato retangular. A percepção sobre a janela permanece constante, embora a informação sensorial (a imagem projetada na retina) mude.

O mesmo ocorre com a constância do tamanho e do brilho em que os elementos sensoriais mudam, mas não a percepção. Nesses casos, assim como no movimento apa­rente, a experiência perceptual é dotada da qualidade da totalidade ou da integridade não encontrada em nenhuma parte componente. Assim, existe uma diferença entre o caráter da estimulação sensorial e da percepção em si. A percepção não pode ser explicada simplesmente como um conjunto de elementos ou a soma das partes.

A percepção é um todo, uma Gestalt, e qualquer tentativa de analisá-la ou reduzi-la em elementos a destruirá.

Começar com os elementos é começar de forma errada, já que eles são produtos da refle­xão e da abstração, derivados remotamente a partir da experiência imediata e utilizados para explicá-la. A psicologia da Gestalt tenta retornar à percepção simples, à experiência imediata (...) e insiste em afirmar que não encontra ali conjuntos de elementos, mas uni­dades completas; não massas de sensações, mas árvores, nuvens e céu. E essa afirmação convida todos à verificação, simplesmente abrindo os olhos e olhando apenas para o mundo de forma simples e cotidiana. (Heidbreder, 1933, p. 331)

A própria palavra Gestalt criou dificuldades. Diferentemente do termo funcionalismo ou behaviorismo, ela não expressa a ideia principal do movimento. Além disso, não exis­te equivalente exato na língua inglesa, embora hoje o termo já faça parte da linguagem cotidiana da psicologia. Os termos equivalentes mais comuns seriam "forma", "formato" e "configuração".

Na obra Gestalt psychology (1929), Köhler afirmou que a palavra era empregada de duas maneiras na Alemanha. Uma que denota a forma ou o formato como propriedade dos objetos. Nesse sentido, Gestalt refere-se às propriedades gerais expressas em questões como angular ou simétrico e descreve as características como a forma triangular de uma figura geométrica ou o ritmo de uma melodia. A segunda forma denota a unidade ou a entidade concreta que tem como atributo uma forma ou um formato específico. E, nesse sentido, a palavra diz respeito a, digamos, triângulos, e não à noção do formato triangu­lar da figura.

Assim, Gestalt pode ser usada para se referir a objetos ou às suas características formais. Além disso, o termo não se restringe ao campo visual nem mesmo a todo o campo senso­rial. Ele pode abranger a aprendizagem, o pensamento, as emoções e o comportamento (Köhler, 1947). É nesse sentido geral e funcional da palavra que os psicólogos da Gestalt tentaram lidar com toda a área de atuação da psicologia.

Os Princípios da GestoIt sobre a Organização Perceptual

Wertheimer apresentou os princípios de organização perceptual da escola de psicologia da Gestalt em um artigo publicado em 1923. Ele alegava que percebemos os objetos do mesmo modo que observamos o movimento aparente, como unidades completas e não como agrupamentos de sensações individuais. Esses princípios da Gestalt seriam as regras fundamentais por meio das quais organizamos nosso universo perceptual.
Uma premissa subjacente estabelece que a organização perceptual ocorre instantanea­mente, sempre que percebemos diversos padrões ou formatos. As minúsculas partes do campo perceptual unem-se para formar estruturas distintas das originais. A organização perceptual é espontânea e inevitável, sempre que vemos ou ouvimos. Normalmente, não precisamos aprender a formar padrões, como afirmavam os associacionistas, embora algumas percepções de nível superior, como nomear os objetos, dependam da aprendizagem.

De acordo com a teoria da Gestalt, o cérebro é um sistema dinâmico em que todos os elementos ativos interagem em determinado momento. A área visual do cérebro não responde separadamente aos elementos individuais do estímulo visual, conectando-os mediante algum processo mecânico de associação. Ao contrário, os elementos similares, ou bem próximos, tendem a se combinar, e os elementos diferentes ou distantes, a não se combinar.

Listamos a seguir vários princípios de organização perceptual ilustrados na Figura 12.1.

  1. Proximidade. As partes bem próximas umas das outras no tempo e no espaço parecem unidas e tendem a ser percebidas juntas. Na Figura 12 1(a) percebemos círculos nas três colunas duplas e não apenas como um grande conjunto;
  2. Continuidade. Ha uma tendência de a nossa percepcão seguir uma direção para conectar os elementos de modo que eles pareçam contínuos ou fluir, em uma direção especifica. Na Figura 12.1(a), a tendência é seguir as colunas com pequenos círculos de cima para baixo;
  3. Semelhança. As parte similares tendem a ser vistas juntas, formando um grupo. Figura 12.1 (b ), os círculos e os pontos parecem juntos, e a tendência é perceber três quadrados, mesmo que as figuras estejam incompletas;
  4. Preenchimento. Há uma tendência da nossa percepção em completar as figuras incompletas, de preencher as lacunas. Na Figura 12.1(c), é possível perceber três quadrados, mesmo que as figuras estejam incompletas.
  5. Simplicidade. Há uma tendência de vermos a figura como tendo boa qualidade sob as condições de estímulos; a psicologia da Gestalt chama essa característica de Pragnanz ou boa forma. Uma boa Gestalt é simétrica, simples e estável e não pode ser mais simples nem mais organizada. Os quadrados na Figura 12.1(c) são boas Gestalts porque são claramente percebidos como completos e organizados;
  6. Figura/fundo. Ha uma tendencia de organizar as percepções do objeto a figura sendo visto e do fundo (a base) sobre o qual ele aparece. A figura parece mais substancial e também a destacar-se do fundo. Na Figura 12.1(d), ela e a base são reversíveis; e possível ver dois rostos ou um vaso, dependendo de como a percepção é organizada.

Esses princípios de organização não dependem dos processos mentais superiores nem de experiências passadas, pois estão nos próprios estímulos. Wertheimer chamou-os de fatores periféricos, reconhecendo também que os fatores centrais dentro do organismo influenciam a percepção. Por exemplo, sabe-se que os processos mentais superiores de familiaridade e de atitude afetam a percepção. No entanto, em geral, os psicólogos da Gestalt concentram-se mais nos fatores periféricos da organização perceptual do que nos efeitos da aprendizagem ou da experiência.

Os Estudos da Gestalt sobre a Aprendizagem: ínsight e a Mentalidade dos Macacos

Mencionamos anteriormente a longa visita de Köhler ao Tenerife (1913-1920), onde ele investigou a inteligência dos chimpanzés demonstrada por meio das habilidades na solução de problemas. Essas experiências foram realizadas tanto dentro como em volta das jaulas dos animais e envolveram apetrechos muito simples, como as barras das jaulas (usadas para bloquear o acesso), bananas, varas para puxar as frutas para dentro das jaulas e cai­xas que serviam de apoio para os animais tentarem alcançar as frutas penduradas no teto. Com base na visão de percepção da Gestalt, Köhler interpretou os resultados da pesquisa animal analisando toda a situação e as relações entre os estímulos. Acreditava que a reso­lução de problemas estava relacionada com a reestruturação do campo perceptual.

Em um dos estudos, colocou-se uma banana do lado de fora, com um barbante amar­rado chegando até a jaula. O macaco agarrou o barbante e puxou a banana para dentro, quase sem titubear. Köhler concluiu que, nessa situação, o animal percebera facilmente todo o problema. No entanto, se vários fios saíssem da jaula em direção à banana, o maca­co não saberia imediatamente qual deles puxar para obter a fruta. Assim, Köhler observou que, nessa situação, o animal não conseguia visualizar claramente todo o problema.

Em outro estudo, colocou-se um pedaço da fruta do lado de fora, pouco além do alcan­ce do animal. Quando se colocou uma vara perto das grades, em frente à fruta, os dois objetos foram percebidos como parte da mesma situação, e o animal rapidamente usou a vara para puxar a fruta. Mas, se a vara era colocada no fundo da jaula, então os dois objetos (a vara e a banana) não eram prontamente vistos como parte do mesmo problema. Nesse caso, era preciso reestruturar o campo perceptual para o chimpanzé resolver a questão.

Outra experiência consistiu em colocar uma banana fora da jaula e além do alcance do animal e, do lado de dentro, duas varas ocas de bambu que não eram de tamanho sufi­ciente para puxar a fruta. Para isso, o animal tinha de juntar as duas (inserindo a ponta de uma dentro da extremidade da outra) para criar outra do tamanho que precisava.

Assim, para solucionar o problema, o animal tinha de perceber uma nova relação entre as duas varas. 

O trecho a seguir, extraído do livro de Köhler, descreve mais estudos e observações acerca da aprendizagem dos chimpanzés. Köhler discute os esforços dos animais para aprenderem a usar os acessórios a fim de que eles obtenham a comida que, de outro modo, não conseguiriam. Essas experiências mostram como os animais aprendem as usar caixas para alcançar o objeto de estímulo, normalmente uma banana suspensa no teto da jaula. Observe como Köhler empregou uma linguagem não-técnica para descrever o trabalho. Ele se concentrou na personalidade e nas diferenças individuais dos seus sujeitos de pesquisa.

Não adotou nenhuma forma de medição ou experimentação, nenhum tratamento expe­rimental rigoroso, grupos de controle nem análises estatísticas. Köhler descreveu suas observações das reações dos animais às situações criadas.


Texto original 

Trecho sobre a Psicologia da Gestalt, Extraído de The Mentalitv of Apes (1927), de Wolfgang Kõhler

O chimpanzé não recebeu da vida apenas alguma aptidão especial para ajudá-lo a alcançar os objetos colocados no alto, empilhando os materiais de construção; ao contrário ele é capaz de realizar muito por esforço próprio, quando as circunstâncias assim exigirem e quando hou­ver material disponível.

O ser humano adulto tende a não perceber as reais dificuldades do chimpanzé diante dessa construção, por assumir que o fato de acrescentar um segundo material de construção ao pri­meiro é apenas uma repetição do ato de posicionar o primeiro no chão (debaixo do objetivo); que, quando a primeira caixa está no chão, é como se a sua superfície fosse do mesmo nível do solo e, portanto, o único fator novo nesse processo de construção seria o levantamento efetivo do material. Assim, as únicas dúvidas seriam se os animais realizam ordenadamente o seu trabalho, se manipulam as caixas desajeitadamente ou de outra forma. (...)

Todavia, a existência de outra dificuldade específica se tornaria óbvia ao se observar mais detalhadamente a primeira tentativa de Sultão durante a realização dessa tarefa quan­do Sultão [considerado o chimpanzé mais inteligente] apanha e levanta peia primeira vez a segunda caixa, balançando-a estranhamente sobre a primeira, mas não a põe em cima dela. Na segunda vez, coloca-a em cima da que está no chão, com o lado maior virado no sentido vertical aparentemente sem qualquer hesitação, mas a construção ainda fica muito baixa já que o objetivo foi pendurado, sem querer, alto demais.

A experiência continua imediatamente, com o objetivo pendurado agora a aproximada­mente dois metros da lateral, em um ponto mais baixo do teto, e com a construção de Sultão mantida no mesmo lugar. Entretanto, o fracasso de Sultão parece provocar um efeito posterior perturbador, por muito tempo ele ignora as caixas, diferentemente das outras vezes, em que achava uma nova solução, em geral repetindo prontamente a ação. (...)

Mais tarde, durante a experiência, um curioso incidente ocorre: o animal volta a adotar os métodos antigos, tenta puxar o tratador pelas mãos para conduzi-lo até o objetivo, sendo repelido, tenta fazer o mesmo comigo, e novamente é rejeitado. Em seguida, orientamos o tratador para que, caso Sultão tente puxá-lo novamente, ele finja ceder, mas, assim que o animal subir nos seus ombros, deve se ajoelhar e ficar bem baixo.

Logo isso realmente acontece: depois de arrastar o tratador até ficar debaixo do objetivo Sultão sobe nos seus ombros e o homem rapidamente dobra os joelhos. O animal sai de cima dele, resmungando, segura-o com as duas mãos pelos quadris, e tenta com toda a força empurra-lo para cima. Uma forma surpreendente de tentar aprimorar o instrumento humano!

Agora que Sultão não toma mais conhecimento das caixas, já que descobriu a solução sozinho, parece razoável remover o motivo do seu fracasso. Coloquei as caixas uma sobre a outra para Suitão, debaixo do objetivo, exatamente como ele fizera da primeira vez, e deixei-o pegar o objetivo.

Em relação ao esforço de Sultão em empurrar o tratador, tentando endireitá-lo, desejo logo de início refutar a acusação de equívoco na interpretação da "leitura do animal"; trata-se apenas de uma descrição do procedimento, e não há nenhuma possibilidade de equívoco. Todavia, a fim de evitar qualquer suspeita, por se tratar de um caso isolado (suspeita, de qualquer modo, injustificável, considerando que Sultão tenta utilizar tanto o tratador como a mim, não apenas uma, mas várias vezes, como um apoio), devo acrescentar resumidamente a descrição de outros casos semelhantes:

Sultão não consegue resolver o problema quando o objetivo está do lado de fora e além do seu alcance; eu me encontro perto dele, dentro da jaula. Depois de todo tipo de tenta­tiva fracassada, o animal aproxima-se de mim, segura o meu braço, arrasta-me em direção às grades, puxando, ao mesmo tempo, o meu braço com toda a força na sua direção, e, em seguida, empurra o meu braço pelas grades, na direção do objetivo. Como eu não pego o objetivo, vai em direção ao tratador, e tenta fazer o mesmo com ele.

Mais tarde ele repete o procedimento, apenas com uma diferença: primeiro, ele tem de me chamar com lamúrias, como se estivesse suplicando, já que dessa vez estou do lado de fora. Nesse caso, assim como no primeiro, ofereci tanta resistência que o animal quase não conseguiu superá-la e não me largou até que a minha mão efetivamente alcançasse o objetivo; no entanto não lhe fiz o favor (para o bem das futuras experiências) de levá-lo até ele.

Devo mencionar ainda que, em um dia quente, os animais tiveram de esperar mais tempo que o normal pela tigela d'água, de modo que, por fim, eles simplesmente tentaram agarrar as mãos, os pés ou os joelhos do tratador e empurrá-lo com toda força em direção à porta, atrás da qual normalmente ficava guardada a jarra d'água. Durante algum tempo, esse com­ cortamento tornou-se rotineiro; se o homem tentava alimentá-los com as bananas, Chica calmamente as tirava da mão do tratador e as colocava de lado, e o empurrava na direção da porta (Chica estava sempre com sede).

Talvez seja um equívoco pensar que os chimpanzés não tenham noção ou que sejam estúpidos em relação a essas questões. Devo acrescentar que os animais percebem o corpo humano com certa facilidade, quando vestido com roupas comuns, como camisa e calças e sem qualquer tipo de casaco. Se alguma coisa os deixa intrigados, eles investigam imediata­mente, e qualquer grande mudança na maneira de vestir ou na aparência (por exemplo, uma barba) faz com que Grande e Chica realizem prontamente uma investigação minuciosa.

Depois do auxílio encorajador a Sultão, as caixas foram deixadas novamente de lado. Um novo objetivo é pendurado no mesmo ponto no teto da jaula. Sultão imediatamente empilha as duas caixas, mas no mesmo lugar em que o objetivo fora pendurado, bem no início da experiên­cia, e onde ficara a sua primeira construção. Em cerca de 100 casos usando as caixas, essa foi a única ocasião em que esse tipo de estupidez foi cometido. Sultão parece confuso quando está fazendo isso, e provavelmente muito cansado, já que a experiência durou mais de uma hora e em um local quente. Sultão continuou a empurrar as caixas de um lado a outro, praticamente ao acaso, até colocá-las novamente uma sobre a outra e debaixo do objetivo; ele pega a fruta e nós o deixamos sair. Somente em uma ocasião o vi assim tão confuso e perturbado. 

No dia seguinte, fica claro que deve haver uma dificuldade específica contida no problema em si. Sultão carrega uma caixa e coloca-a debaixo do objetivo, mas não traz a segunda caixa; por fim, acabamos empilhando-as e assim ele alcança a meta. o novo problema que se segue imediatamente (a construção novamente foi destruída) não o induz a trabalhar; ele continua tentando usar o observador como apoio; e assim, mais uma vez, montamos a construção para ele. No terceiro problema, debaixo do objetivo, Suitão coloca uma caixa, puxa a outra e a põe ao lado, mas pára no momento crítico: seu comportamento provoca total perplexidade; ele continua olhando para o objetivo e, ao mesmo tempo, tenta desajeitadamente agarrar a segunda caixa. Então, quasa de repente, ele a agarra com firmeza, faz um movimento seguro, colocando-a sobre a primeira. Sua longa indecisão é totalmente contraditória em relação a essa solução repentina.

Dois dias depois, repetimos a experiência; o objetivo é novamente pendurado em outro ponto. Sultão coloca uma caixa um pouco inclinada debaixo do objetivo, traz a segunda - começa a levantá-la, todo o tempo olhando para o objetivo, quando a deixa cair novamente. Depois de diversas ações (tentando subir até o teto, empurrando o observador para cima), ele recomeça a construir; coloca cuidadosamente a primeira caixa com o lado maior no sentido vertical debaixo do objetivo, e agora faz enorme esforço para colocar a segunda em cima a caixa gira e balança de um lado a outro e acaba ficando sobre a outra, mas com o lado menor no sentido vertical e com a parte aberta presa em um dos cantos. Sultão sobe nelas e imediatamente destrói a construção, jogando tudo no chão.

Muito cansado, fica deitado em um canto da sala, dali olhando as duas caixas e o objetivo. Somente depois de passado um tempo razoável, ele retoma o trabalho; coloca uma caixa no sentido vertical e tenta alcançar o objetivo; desce, pega a segunda e finalmente, com muito cuidado, consegue colocá-la no sentido vertical sobre a primeira, mas as duas não estão exatamente uma sobre a outra, por isso, cada vez que ele tenta subir, as caixas começam a desabar. Somente depois de uma longa tentativa, durante a qual o animal nitidamente age quase cegamente, deixando o sucesso ou o fracasso por conta de movimentos aleatórios consegue colocar a caixa de cima em posição mais segura, finalmente atingindo o objetivo.

Depois dessa tentativa, Sultão passou a usar sempre e imediatamente a segunda caixa, e acima de tudo, sem hesitar quanto ao lugar em que deveria colocá-la.


Comentários

Para Köhler, esses estudos e outros similares proporcionavam evidências do insight, a espontânea e aparente apreensão ou compreensão das relações. Sultão finalmente obteve o insight do problema depois de várias tentativas, assimilando as relações entre as caixas e a banana pendurada sobre a sua cabeça. A palavra em alemão que Köhler usou para des­crever esse fenômeno foi Einsicht, traduzida para o inglês como insight ou compreensão.

Não tem nenhum condicionamento acontecendo, ele escreveu; "ao contrário, depois de um determinado ponto, o animal entende o que está ocorrendo, e então, o comporta­mento resultante é, logicamente, perfeito" (apnd Ley, 1990, p. 182). Em outro exemplo de descoberta simultânea e independente, o psicólogo estadunidense de animais Robert Yerkes encontrou evidências, em experiências com orangotangos, para sustentar o conceito de insight, e a denominou "aprendizagem ideacional".

Na decada de 1930, Ivan Pavlov repetiu algumas das pesquisas de Köhler em que o macaco precisava colocar uma caixa sobre a outra para alcançar a comida suspensa no teto. Constatou que os animais levavam diversos meses para resolver o problema. Questionou a hipótese de Köhler de que os macacos obtinham o insight da situação e chamou de "caótico" o comportamento dos animais na solução do problema. Pavlov disse que as respostas por ele obtidas não eram tão diferentes daquelas da aprendizagem por ensaio-e-erro da pesquisa de Thorndike (Windholz, 1997).

Em 1974, o tratador dos chimpanzés de Köhler, Manuel Gonzalez y Garcia, descreveu a pesquisa em uma entrevista. Contou diversas histórias sobre os animais, e principal­mente de Sultão que costumava ajudá-lo a alimentar os outros animais. Gonzalez dava a Sultão cachos de bananas para segurar. "Mediante uma ordem, 'duas para cada', Sultão caminhava recinto e distribuía duas bananas para cada um dos macacos". Um dia, Sultão viu o tratador pintando uma porta. Quando o homem saiu, o animal pegou o pincel e começou a imitar o comportamento que observara. Em outra ocasião, o o caçula de Köhler, Claus, sentou-se em frente da jaula, tentando sem êxito empurrar uma banana entre as grades. Sultão, dentro da gaiola e aparentemente sem fome, girou a banana 90 graus, de modo que a fruta pudesse passar entre as barras, enquanto Köhler dizia a seu filho que Sultão era mais esperto do que ele.

Certa vez, Sultão de algum modo encorajou Claus a subir uma árvore até o topo e o menino se recusava a descer, apesar das ordens severas de seu pai. Quando Claus final­mente desceu, Kohler o agarrou, abaixou seus shorts, e deu uma surra nele. Logo depois disso, Sultão agarrou Kohler, e abaixou suas calças por trás. Cerca de 70 anos depois Claus contou essa história para um entrevistador, com os olhos brilhando de prazer. Köhler acreditava que o insight e as habilidades para resolver problemas demonstrados pelos chimpanzés eram diferentes da aprendizagem por ensaio-e-erro descrita por Thorn­dike. Köhler criticava o trabalho de Thorndike, alegando que as condições experimentais eram artificiais e que permitiam a demonstração apenas de comportamentos aleatórios dos animais. E afirmou que os gatos das caixas-problema de Thorndike não exploravam todo o mecanismo que os libertava (todos os elementos pertencentes a toda a situação) e assim apresentavam apenas respostas de ensaio-e-erro.

Do mesmo modo, um animal dentro do labirinto não pode ver todo o padrão ou o formato, mas apenas o corredor que encontra. Portanto, os animais não têm muita opção a nao ser arriscar um caminho por vez. Na visão da Gestalt, o organismo deve estar apto a perceber as relações entre as várias partes do problema antes que a aprendizagem por insight ocorra. 

Esses estudos a respeito do insight sustentavam o conceito global ou molar dos psicólogos da Gestalt em relação ao comportamento, ao contrário da visão atomística e mole­cular promovida pelos behavioristas. A pesquisa também reforça a ideia da Gestalt de que a aprendizagem envolve a reorganização ou reestruturação do ambiente psicológico do indivíduo.

O Pensamento Humano Produtivo

O livro de Wertheimer a respeito do pensamento produtivo (Wertheimer. 1945), publicado após a sua morte, apresentou os princípios da Gestalt sobre a aprendizagem aplicados a pensamento criativo humano. Sua proposta afirmava que o pensamento forma-se com um todo. O aprendiz assim considera a situação, e o professor deve apresentá-la igualmente É possível notar as diferenças entre esse método e o do ensaio-e-erro, em que a solução do problema, em certo sentido, fica oculta, e o aprendiz pode cometer erros antes de alcançar a resposta correta.

Os casos apresentados no livro de Wertheimer vão de processos de pensamento infan­til na solução de problemas de geometria até processos cognitivos complexos, como o do físico Albert Einstein na elaboração da teoria da relatividade. Em diversas faixas etárias e vários níveis de dificuldade, Wertheimer constatou evidências para sustentar a ideia de que o problema como um todo deve dominar as partes. Acreditava que os detalhes de um problema devessem ser considerados apenas em relação à situação inteira. Ademais, a solução do problema deve seguir do todo para as partes, e não o contrário.

Em um ambiente de sala de aula, por exemplo, se o professor organizar ou arrumar os elementos dos exercícios, como as palavras ou os números, em uma unidade com sen­tido, os alunos obterão mais facilmente o insight e assimilarão os problemas e as soluções. Wertheimer mostrou que, uma vez compreendido, o princípio básico de uma solução pode ser transferido ou aplicado em outras situações.

Ele desafiou as práticas educativas tradicionais, como a repetição mecânica de estru­turas e a aprendizagem dirigida, derivadas da abordagem associacionista. Considerava a repetição pouco produtiva e citava como prova a incapacidade de um aluno resolver a variação de um problema quando a solução fora adquirida por outro método e não assimi­lada por um insight. Concordava, no entanto, que nomes e datas deviam ser aprendidos por memorização, por meio de associação reforçada por repetição. Desse modo, admitia ser a repetição útil em alguns casos, mas insistia em que esse método produzia um desem­penho mecânico e não a compreensão ou um pensamento produtivo ou criativo.

O lsomorfismo

Satisfeitos por estabelecerem que os seres humanos percebem unidades organizadas e não conjuntos de elementos sensoriais, os psicólogos da Gestalt mudaram o enfoque para os mecanismos cerebrais envolvidos na percepção. Tentaram desenvolver uma teoria sobre correlatos neurológicos subjacentes das Gestalts percebidas. Descreviam o córtex cerebral como um sistema dinâmico, em que os elementos ativos interagem em um determinado momento. Essa ideia contradiz o conceito de semelhança entre o homem e a máquina, que compara a atividade neural a uma central telefônica, conectando mecanicamente as ligações sensoriais recebidas de acordo com os princípios da associação. Nessa visão associacionista, o cérebro opera de forma passiva e é incapaz de organizar ou modificar ativamente os elementos sensoriais recebidos. Essa última teoria também implica a cor­respondência direta entre a percepção e o seu equivalente neurológico.

Com base na sua pesquisa sobre o movimento aparente, Wertheimer sugeriu que a atividade cerebral é um processo integral de configuração. Como o movimento aparente e o real são percebidos de forma idêntica, os respectivos processos corticais também devem ser similares, ou seja, devem ocorrer processos cerebrais correspondentes.

Em outras palavras, deve haver uma correspondência entre a experiência consciente ou psicológica e a cerebral subjacente, responsável pelo fenômeno phi. Essa ideia é denomi­nada isomorfismo, princípio já aceito na biologia e na química. Os psicólogos da Gestalt compararam a percepção com um mapa, no sentido de ser idêntica ("iso") na forma ou formato ("morfo") ao que representa, sem ser uma cópia literal. No entanto, a percepção não é um guia confiável para perceber o mundo real.

Kohler aprofundou a posição de Wertheimer no trabalho Static and stationary physical gestalts (1920), em que afirmou comportarem-se os processos corticais de modo semelhan­te aos campos de força. Sugeriu que, tal como o comportamento de um campo de força eletromagnética em volta de um ímã, os campos de atividade neurais são estabelecidos por processos eletromecânicos do cérebro em resposta aos impulsos sensoriais.

A Expansão da Psicologia da Gestalt

Em meados da década de 1920, o movimento da Gestalt era uma escola de pensamento coerente, dominante e poderosa na Alemanha. Centralizado no Psychological Institute da University of Berlin, o movimento atraía muitos alunos de diversos países. O instituto estava instalado em uma das alas do antigo Palácio Imperial e orgulhava-se de possuir um dos maiores laboratórios do mundo, equipado para investigar diversas questões psicológicas do ponto de vista da Gestalt. A revista Psychological Research era muito lida e respeitada.

Depois de os nazistas assumirem o poder na Alemanha, em 1933, suas ações repressoras contra intelectuais e judeus forçaram muitos pesquisadores, inclusive os fundadores da psicologia da Gestalt, a deixarem o país. O núcleo da Gestalt se transferiu para os Estados unidos, disseminando-se por meio de contatos pessoais, bem como pelas publicações dos trabalhos. Mesmo antes da fundação formal da escola, muitos psicólogos estadunidenses haviam estudado com seus futuros líderes, absorvendo suas ideias. Herbert Langfeld, da Princeton University, conheceu Koffka em Berlim e enviou seu aluno E. C. Tolman à Ale­manha, o qual serviu como sujeito de pesquisa no programa de Koffka. Robert Ogden, da Cornell University, também conheceu Koffka. O pesquisador da personalidade, Gordon Allport, da Harvard University, passou um ano na Alemanha e declarou ter ficado muito impressionado com a qualidade da pesquisa experimental da Gestalt.

Alguns livros de Koffka e de Köhler foram traduzidos do alemão para o inglês, e rese­nhas foram publicadas nas revistas estadunidenses de psicologia. Uma série de artigos escritos pelo psicólogo estadunidense Harry Helson e publicados na American Journal of Psychology também ajudou a divulgar a teoria da Gestalt nos Estados Unidos (Helson, 1925, 1926). Koffka e Köhler estiveram nesse país para dar aulas e conferências em universidades. Koffka deu 30 palestras em três anos e, em 1929, Köhler foi um dos conferencistas a apresentar as diretrizes básicas do 9º Congresso Internacional de Psicologia, na Yale University (o outro palestrante foi Ivan Pavlov, que foi cuspido por um dos chimpasses de Robert Yerkes).

Assim, a psicologia da Gestalt vinha chamando a atenção nos Estados Unidos, por por diversas razões, a sua aceitação como escola de pensamento foi lenta. Primeiro que o behaviorismo estava no auge da popularidade. Segundo, porque havia uma barria linguística, isto é, as principais publicações da Gestalt eram em alemão, e a necessidade de tradução atrasava a divulgação completa e precisa daquela visão. Terceiro, com: já mencionamos, porque muitos psicólogos pensavam equivocadamente que a Gestalt se ocupava-se apenas à percepção. Quarto, porque os fundadores Wertheimer, Koffka e Kõhler instalaram-se em faculdades pequenas nos Estados Unidos, que não ofereciam programas de pós-graduação, portanto era difícil atraírem discípulos para transmitir suas ideias. Quinto, e o mais importante, porque a psicologia estadunidense havia avançado muito além das ideias de Wundt e Titchener, às quais os psicólogos da Gestalt estavam se opondo. O behaviorismo já era o segundo estágio da oposição estadunidense. Consequentemente a psicologia estadunidense, muito mais do que a alemã, já superara a posição elementarista de Wundt. Os psicólogos estadunidenses acreditavam que os psicólogos da Gestalt estavam lutando contra um inimigo que já haviam derrotado. Os psicólogos da Gestalt chegaram aos Estados Unidos protestando contra algo que não fazia mais sentido.

Esse cenário era arriscado para a sobrevivência da escola da Gestalt. Temos testemu­nhado por toda a história que o movimento revolucionário depende de uma oposição para sobreviver, algo para combater, se deseja promover suas ideias com êxito. Todavia, quando os psicólogos da Gestalt chegaram aos Estados Unidos, encontraram pouca oposição.

A Batalha contra o Behaviorismo

Quando os psicólogos da Gestalt perceberam quais eram as tendências na psicologia estadunidense, imediatamente estudaram o novo alvo. Se não havia sentido em protestar contra a psicologia wundtiana, que já desaparecera da psicologia estadunidense, então podiam atacar as qualidades reducionistas típicas da escola de pensamento behaviorista. Assim, os psicólo­gos da Gestalt alegavam que o behaviorismo, do mesmo modo que a psicologia de Wundt. também se dedicava a abstrações artificiais. Para eles, não fazia muita diferença se a análise era feita com base na redução introspectiva em elementos mentais ou na redução objetiva em unidades condicionadas de estímulo-resposta (Watson). O resultado era o mesmo: uma abordagem molecular em vez de molar. Os psicólogos da Gestalt também contestavam o fato de os behavioristas não aceitarem a validade da introspecção e descartarem qualquer reconhecimento da consciência. Koffka acusava de insensato o desenvolvimento de uma psicologia sem o conceito de consciência, como faziam os behavioristas, porque significava que a psicologia era pouco mais do que uma coleção de pesquisas com animais.

As batalhas entre psicólogos da Gestalt e behavioristas começaram a inflar emocional e pessoalmente. Uma ocasião, quando Clark Hull, E. C. Tolman, Wolfgang Köhler e vários psicólogos saíram para beber algumas cervejas depois de um encontro científico na Filadélfia, em 1941, Köhler disse a Hull que ouvira falar que ele teria usado uma expressão insultante durante as suas aulas, "aqueles malditos gestaltistas". Hull ficou embaraçado e disse esperar que as divergências científicas não se transformassem em agressões pessoais.

Köhler respondeu que ele estava "ávido por discutir mais assuntos de forma lógica e científica. mas, quando as pessoas tentam transformar o homem em uma espécie de máquina caça-níqueis, então ele se vê obrigado a brigar". Deu um murro sobre a mesa "fazendo um barulho bem alto" para deixar bem clara a sua opinião (apud Amsel e Rashotte, 1984, p.23).

A Psicologia da Gestalt na Alemanha Nazista

Embora os fundadores da escola de pensamento da psicologia da Gestalt tivessem fugido da Alemanha na época da guerra, alguns de seus discípulos permaneceram no país durante o período nazista, que terminou com os alemães derrotados pelos aliados, em 1945, Esses adeptos da Gestalt continuaram a conduzir pesquisas, concentrando-se nos estudos da visão e da percepção de profundidade. O instituto psicológico de Köhler continuou a funcionar na University of Berlin, embora, assim como todas as universidades alemãs daquela época, ela não se caracterizasse mais pela liberdade acadêmica nem pela receptividade às pesquisas! Um estadunidense, em visita ao instituto em 1936, comentou sobre a "absoluta aridez do clima intelectual desse ex-baluarte da escola da Gestalt" (apud Ash, 1995, p. 340). As atividades de pesquisa da maioria dos psicólogos alemães durante a Segunda Guerra Mundial foram direcionadas ao esforço de guerra, principalmente na avaliação do pessoal militar. A pes­quisa prática e aplicada teve precedência sobre a ciência pura e a construção teórica.

A Teoria de Campo: Kurt Lewin (1890-1947)

A psicologia da Gestalt refletia a tendência científica, do final do século XIX, do estudo com base nas relações de campo e não no modelo atomístico e elementarista. A teoria de campo surgiu dentro da psicologia como um conceito equivalente ao dos campos de força da física. Na psicologia atual, o termo teoria de campo geralmente refere-se às ideias de Kurt Lewin. O trabalho de Lewin segue a orientação gestáltica, mas ultrapassa os limites da posição ortodoxa da Gestalt, para incluir as necessidades humanas, a personalidade e as influências sociais no comportamento.

A Biografia de Lewin

Kurt Lewin nasceu em Mogilno, Alemanha, e estudou nas universidades de Friburgo, Munique e Berlim. Recebeu o Ph.D. em psicologia de Carl Stumpf, na University of Berlin em 1914, onde também estudou matemática e física. Durante a Primeira Guerra Mundial, serviu no exército alemão e foi ferido em combate, recebendo a medalha da Cruz de Ferro, da Alemanha. Retornou à University of Berlin e dedicou-se à pesquisa da Gestalt a respeito da associação e motivação com tanto entusiasmo que várias vezes foi considerado colega dos três fundadores da Gestalt. Apresentou uma versão da teoria de campo aos psicólogos estadunidenses no Congresso Internacional de Psicologia, realizado em 1929, na Yale.

Desse modo, Lewin já era conhecido nos Estados Unidos quando chegou à Stanford em 1932, como professor visitante. No ano seguinte, decidiu deixar a Alemanha por causa da ameaça nazista. Escreveu a Kohler, dizendo: "Agora acredito que não há outra alternativa para mim a não ser emigrar, mesmo que a minha vida seja despedaçada" (1993, p. 158, 160). Passou dois anos na Cornell University e, em seguida, seguiu para a University of Iowa. Sua pesquisa a respeito da psicologia social infantil rendeu-lhe um convite para desenvolver o novo Research Center for Group Dynamics [Centro de Pesquisa para a Dinâmica de Grupo] no Massachusetts Institute of Technology. Embora tenha sido poucos anos após aceitar essa posição, seu programa foi tão eficaz que o centro pesquisa, agora localizado na University of Michigan, permanece ativo até hoje.

O Espaço Vital

Por toda a carreira de 30 anos, Lewin dedicou-se à área amplamente definida da motivação humana, descrevendo o comportamento humano no total contexto social e físico (Lewin 1936, 1939). Seu conceito geral de psicologia era prático, concentrado nas questões sociais que afetam a nossa vida pessoal e profissional. Buscava humanizar as fábricas da época de modo que o trabalho se tornasse mais uma fonte de satisfação pessoal do que apenas uma forma de ganhar a vida.

O conhecimento a respeito da teoria de campo da física fez com que ele imagina-se que as atividades psicológicas de um indivíduo também ocorrem em uma espécie de campo psicológico, chamado espaço vital - que compreende todos os acontecimentos do passado, do presente e do futuro que nos afetam. Do ponto de vista psicológico, cada um desses fatos determina algum tipo de comportamento em uma situação específica.

Dessa forma, o espaço vital consiste na necessidade de as pessoas interagirem com o ambiente psicológico. O espaço vital exibe diversos graus de desenvolvimento em função da quantidade e do tipo de experiência acumulados. Como o bebê tem pouca experiência, possui poucas regiões diferenciadas no seu espaço vital. Um adulto extremamente culto e sofisticado é dotado de um espaço vital complexo e bem diferenciado, exibindo grande variedade de experiências.

Lewin tentou criar um modelo matemático para representar esse conceito teórico de processos psicológicos. Em virtude do interesse em um único indivíduo (um único caso e não em grupos nem no desempenho médio, a análise estatística não tinha muito valor para esse fim. Ele escolheu a topologia, uma forma de geometria, para criar um diagrama do espaço vital, mostrando os objetivos possíveis de uma pessoa e os caminhos que con­duziam a essas metas em qualquer momento determinado.

No mapa topológico, usado para criar o diagrama de todas as formas de comportamen­to e de fenômenos psicológicos, Lewin usava setas (vetores) para representar a direção do movimento do indivíduo em busca da meta. Acrescentou a noção de peso a essas opções (valências) para referir-se ao valor positivo ou negativo dos objetos, dentro do espaço vital. Os objetos atraentes ou que satisfizessem às necessidades humanas recebiam valência posi­tiva, enquanto os ameaçadores recebiam valência negativa. Esses diagramas chegaram a ser chamados de "psicologia do quadro-negro".

No exemplo simples apresentado na Figura 12.2, uma criança deseja ir ao cinema, mas está proibida pelos pais. A elipse representa o espaço vital; C representa a criança. A seta é o vetor indicando que C está motivada a atingir o objetivo de ir ao cinema, portan­to tem valor positivo. A linha vertical é a barreira estabelecida pelos pais, que impedem C de atingir a meta, logo, tem valência negativa.

Figura 12.2

A Motivação e o Efeito de Zeigarnik

Lewin propôs a existência de um estado básico de balanço ou equilíbrio entre o indivíduo e o ambiente. Qualquer perturbação desse equilíbrio provoca uma tensão que, por sua vez, conduz a alguma ação em um esforço de aliviar a tensão e restabelecer o equilíbrio. Assim, para explicar a motivação humana, Lewin acreditava que o comportamento envolve um círculo de estados de tensão ou estados de necessidade seguidos de atividade e alívio.

Em 1927, Bluma Zeigarnik realizou um experimento, sob a supervisão de Lewin, para testar essa proposição. Os indivíduos recebiam uma série de tarefas e lhes era permitido terminar algumas, mas eles eram interrompidos antes de completarem outras. Lewin fez algumas previsões:

  1. Um sistema de tensão será criado quando o indivíduo receber uma tarefa para realizar;
  2. Quando a tarefa for concluída, a tensão desaparecerá;
  3. Se a tarefa não for concluída, a persistência da tensão resultará na maior proba­bilidade de o indivíduo lembrar-se da tarefa.

Os resultados de Zeigarnik confirmaram as previsões. As pessoas lembravam-se das tarefas não concluídas com mais facilidade do que das completadas. Desde então, esse efeito passou a se chamar efeito de Zeigarnik.

A inspiração para essa pesquisa de Lewin a respeito da motivação surgiu da sua obser­vação de um garçom do café situado do outro lado da rua do Psychological Institute em Berlim. Uma tarde, ao reunir-se com alguns alunos da pós-graduação no café, alguém comentou estar surpreso com a habilidade aparente do garçom em lembrar-se do pedido de cada um sem anotar nada. Algum tempo depois de pagar a conta, Lewin chamou o garçom e perguntou-lhe o que eles haviam consumido. O garçom, indignado, respondeu que não se lembrava mais. (Ash, 1995, p. 271).

Uma vez paga a conta, a tarefa do garçom havia terminado e a tensão, desaparecido. Ele não precisava mais se lembrar do que cada um tinha pedido.

A Psicologia Social

O interesse de Lewin na psicologia social começou na década de 1930. Seus esforços pioneiros na área foram suficientes para justificar a sua importância na história da psi­cologia. Sua extraordinária realização na psicologia social foi a criação da dinâmica de grupo, aplicação dos conceitos psicológicos aos comportamentos individual e coletivo. Assim como o indivíduo e o seu ambiente formam um campo psicológico, o grupo e o seu ambiente formam o campo social. Os comportamentos sociais ocorrem em enti­dades sociais coexistentes, tais como subgrupos, membros de grupo, barreiras e canais de comunicação, e delas resultam. O comportamento coletivo em algum determinado momento é uma função da situação de todo o campo. Lewin conduziu pesquisas sobre o comportamento em várias situações sociais. Uma experiência que se tornou clássica reunia tipos de liderança autoritários, democráticos e neutros dentro de um grupo de garotos (Lewin, Lippitt e White, 1939). Os resultados mostraram que os garotos do grupo autoritário tornavam-se bem agressivos. Os do grupo democrático eram gentis uns com os outros e completavam mais tarefas que os dos demais grupos. A pesquisa de Lewin deu início a novas áreas da pesquisa social e impulsionou o crescimento da psicologia social.

Além disso, ele enfatizou a pesquisa da ação social, o estudo de problemas sociais relevantes visando a introdução de mudanças. Refletindo a preocupação pessoal com as questões raciais, conduziu estudos em comunidades acerca da moradia integrada, da igualdade de oportunidade profissional e do desenvolvimento e da prevenção da discri­minação na infância. Seu trabalho transformou essas questões polêmicas em estudos de pesquisa controlados, aplicando o rigor do método experimental sem a artificialidade do laboratório acadêmico.

Lewin promoveu o treinamento da sensibilidade dos educadores e dos empresários para reduzir o conflito entre grupos e desenvolver o potencial individual. Os grupos de treinamento da sensibilidade (grupos-T) foram precursores dos famosos grupos de encon­tros das décadas de 1960 e 1970.

Em geral, os programas experimentais e as descobertas das pesquisas de Lewin são mais aceitos pelos psicólogos do que muitos dos seus conceitos teóricos. Sua influência na psicologia infantil e social foi bastante considerável, e muitos dos seus conceitos e técnicas são usados na personalidade e na motivação.

As Críticas à Psicologia da Gestalt

Os críticos da escola de pensamento da psicologia da Gestalt alegavam que a organização aos processos perceptuais, como no fenômeno phi, não era tratada como um problema científico a ser investigado, mas como um fenômeno cuja existência era simplesmente aceita. Era como se fosse uma negação da existência do problema.

Além disso, os psicólogos experimentais acusavam de vaga a posição da Gestalt e afir­mavam que os conceitos básicos não eram definidos com o rigor suficiente para possuírem algum significado científico. Os psicólogos da Gestalt rebatiam essas acusações, afirmando que, em uma ciência jovem, as tentativas de explicação e definição podem estar incomple­tas, o que não significa que sejam vagas.

Outros psicólogos alegavam que os proponentes da Gestalt estavam ocupados demais com a teoria, em detrimento da pesquisa e dos dados empíricos. Embora a escola da Gestalt assumisse a orientação teórica, também enfatizou a experimentação e produziu conside­rável quantidade de pesquisa.

Ligada a essa visão existe a afirmação de que o trabalho experimental da Gestalt era inferior à pesquisa da psicologia behaviorista porque lhe faltavam controles adequados, e dados não-quantificáveis não eram passíveis de análise estatística. Os psicólogos da Gestalt sustentavam que grande parte da sua pesquisa era propositadamente menos quantitativa do que as outras escolas consideravam necessário, já que, nesse sistema, os resultados qualitativos tinham precedência. A maioria das pesquisas da Gestalt tem caráter exploratório, investigando os problemas psicológicos em um modelo diferente.

A noção de Köhler acerca do insight também foi questionada. As tentativas de repro­duzir a experiência dos chimpanzés e as duas varas proporcionaram pouca comprovação sobre o papel do insight na aprendizagem. Esses últimos estudos sugereriam que a solução do problema não ocorre de repente e pode depender da aprendizagem ou da experiência anterior (veja, por exemplo, Windholz e Lamal, 1985).

Ademais, alguns psicólogos consideravam que os psicólogos da Gestalt adotavam hipóteses fisiológicas pobremente definidas. Os pesquisadores da Gestalt reconheciam a teorização da área apenas como uma tentativa, mas acreditavam que as especulações eram aliadas válidas para o sistema.

As Contribuições da Psicologia da Gestalt

O movimento da Gestalt deixou uma permanente marca na psicologia e influenciou o trabalho a respeito da percepção, da aprendizagem, do pensamento, da personalidade, da psicologia social e da motivação. Ao contrário do seu maior rival na época - o behaviorismo -, a psicologia da Gestalt manteve uma identidade separada. Seus maiores princípios o foram absorvidos pelo principal pensamento psicológico. Ela continuou a promover o  interesse na experiência consciente como um problema legitimo para a psicologia os anos em que o behaviorismo dominava. O enfoque da Gestalt na experiência consciente era diferente da abordagem de e Titchener, pois se concentrava em uma versão moderna da fenomenologia. Os contemporâneos da posição da Gestalt acreditam realmente na ocorrência da experiência consciente, sendo ela, portanto, um objeto de estudo legítimo. Eles reconheciam no entanto, nâo ser possível investigá-la com a mesma precisão e objetividade do - comportamento manifesto. A abordagem fenomenológica da psicologia tem mais manifestaçâo entre os psicólogos europeus do que entre os estadunidenses, mas sua influência pode ser percebida no movimento da psicologia humanista estadunidense. Muitos aspectos da psicologia cognitiva contemporânea também devem sua origem à psicologia da Gestalt.

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Cultos de mistério
Isis e Toth

Havia muitos cultos de mistério, como os mistérios de ísis que, mais tarde, foi prestigiado pelas mulheres gregas e romanas da classe alta. Até mesmo o impe­rador romano Calígula tomou parte do culto de ísis, e ela se tornou uma das principais divindades em todo o Mediterrâneo no período helenístico. Ainda mais tarde, templos dedicados a ísis eram encontrados na Europa, África e Ásia, e ela era considerada a "Rainha do Céu” pelos seguidores do culto. Havia também o culto que misturou Osíris com o Touro Ápis para criar a divindade única Serápis. Um dos deuses mais antigos, Toth, inspirou ainda outro culto de mistério baseado em escritos secretos que supostamente conteriam todos os segredos do universo. Tal culto teve início em tempos pré-históricos, tornou-se importante por volta de 2000 a.e.c. e ainda é um culto proeminente hoje em dia, expresso com o os livros de Hermes Trimegisto.

BARTLETT, Sarah. Cultos de mistério. IN: __________. A bíblia da mitologia. São Paulo/SP: Editora Pensamento, 2011. Cap. 2, p. 77.
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A Guerra de Tróia

Antecedentes - Quando Tiestes assassinou o irmão Atreu e exigiu ser rei de Micenas, os filhos de Atreu, Agamêmnon e Menelau fugiram para Esparta para salvar a vida. O rei Tindareu desta cidade acabou por ajudá-los a destronar Tiestes e entregar o reinado a Agamémnon, o filho mais velho. Foi então a vez de Tiestes e Egisto fugirem para salvarem as respetivas vidas. Agamêmnon provou ser um grande general e comandante de homens, pelo que vários reis da Grécia não tardaram a prestar-lhe homenagem.

Matou o primo, o segundo Tântalo, e casou com a viúva, Clitemnestra, como saque de guerra. Esta era irmã gêmea de Helena, que iria passar a ser conhecida como Helena de Tróia. A mãe delas era a bela Leda, rainha de Esparta, uma das muitas mulheres mortais que Zeus (Júpiter) achou irresistíveis.

Um dia, quando Leda passeava junto ao rio Eurotas, Zeus transformou-se num magnífico cisne e foi desta forma que a violou. Leda deu à luz quatro filhos: Helena, Clitemnestra, Castor e Polidectes (Pólux). Alguns dizem que Helena e os dois rapazes se desenvolveram de um só ovo, e eram filhos de Zeus; outros referem que Helena e Polidectes eram os filhos de Zeus e que Clitemnestra e Castor eram filhos do rei Tíndaro de Esparta. Clitemnestra, todos concordam, era de proveniência mortal.

Esta e os irmãos gêmeos Castor e Polidectes (também conhecidos como Dioscuros, o que significa filhos de Zeus) avançaram para salvar Clitemnestra, mal souberam que Agamêmnon a tinha levado à força, mas este apelou ao pai dela, Tíndaro, e obteve consentimento para se casarem. Então Menelau pediu a Tíndaro a mão da outra filha de Leda, Helena. Quando ela era criança já tinha sido violada e casada à força com Teseu, e quando atingiu a idade para ter um casamento adequado, era tão bela que os muitos pretendentes iniciaram uma guerra por causa dela. Tíndaro queria casá-la com Menelau e entregou-lhe o reino de Esparta, mas este não sabia como evitar a violência dos outros pretendentes. Pediu ajuda ao sensato Ulisses, rei da Ítaca, que tinha ido para Esparta com todos os outros pretendentes, embora consciente das suas escassas hipóteses, já que era o pobre rei de uma ilha rochosa.

Ulisses respondeu-lhe: «Eu ajudo-te, se tu também me ajudares. Eu quero casar com Penélope, filha de ícaro, e preciso de alguém poderoso para interceder por mim.» Quando Tíndaro concordou, Ulisses aconselhou-o a fazer jurar a todos os pretendentes de Helena que aceitariam que fosse ela a escolher [169] quem queria para marido e que o ajudariam se alguém tentasse prejudicar o casamento. E foi por esta razão que tantos governantes gregos acorreram em auxilio de Menelau quando ele perdeu Helena.

Agamêmnon e Clitemnestra tiveram quatro filhos, um filho, Orestes, e três filhas, Electra, Crisótemis e Ifianassa (Ifigênia); Menelau e Helena tiveram também quatro filhos, três rapazes e uma moça, Hermíone. Ambos os casais pareciam prosperar e ter vidas felizes, mas a maldição sobre a casa de Atreu não tinha acabado, e a deusa Afrodite (Vênus) também estava zangada com Tíndaro por este negligenciar a adoração que lhe devia, pelo que decidiu castigar Clitemnestra e Helena pela ofensa do pai. Com os problemas em preparação, nem a família real de Micenas nem os parentes em Esparta tinham qualquer hipótese de um casamento livre de conflitos.

A Maçã (Pomo) da Discórdia

Foi a deusa da discórdia, Éris, quem deu início à cadeia de acontecimentos que levou ao rapto de Helena e a que Clitemnestra assassinasse o marido.

Muitos anos antes e muito longe de Micenas ou de Esparta, Éris tinha assistido ao casamento de Peleu e da deusa do mar Tétis, a mesma deusa por quem Zeus tinha ansiado e cujo filho estava destinado a destituir o pai. O rei dos deuses arranjou o casamento entre Peleu e Tétis para impedir uma guerra nos céus, mas Éris astutamente pôs em movimento uma questão que conduziria à maior guerra entre os homens de toda a mitologia grega, a Guerra de Tróia. Ela atirou para cima da mesa do banquete uma maçã de ouro com a seguinte inscrição: «Para a mais bela» e riu cheia de maldade quando as deusas discutiram por causa da maçã. Hera (Juno), Atena (Minerva) e Afrodite estavam todas elas convencidas de que tinham direito a ela, e quando nenhum dos deuses conseguia pôr fim à discussão, Zeus enviou-as para um juiz humano, o príncipe Paris de Tróia.

Este era filho do rei Príamo e da rainha Hécuba, de Tróia. Antes de ele ter nascido, a mãe teve um sonho em que tinha um filho incendiário que punha fogo a toda a Tróia. O adivinho Aesacus interpretou o sonho dizendo que o filho que ela carregava dentro dela haveria de destruir o reino e aconselhou-a a expor a criança na montanha, a fim de evitar que o sonho se tornasse realidade. O bebê Paris foi exposto no Monte Ida, mas uma ursa amamentou-o e depois foi adotado pelos pastores. Apenas o chefe de todos eles, Agelau, sabia a verdade sobre o parentesco da criança. Paris apaixonou-se pela náiade Enone, famosa pelas suas [170] artes de curandeira e que vivia uma vida sem preocupações de um pescador da Ida. Talvez o tivesse escolhido como juiz por ser um jovem simples e sem problemas ou talvez o rei dos deuses já se tivesse decidido por uma guerra que havia de consumir a juventude da Grécia e de Tróia nos dez anos seguintes. Era fácil a Zeus usar uma discussão entre as deusas para induzir Paris a raptar Helena e causar a Guerra de Tróia.

As três deusas desceram ao Monte Ida, com Hermes (Mercúrio), que era o mensageiro dos deuses, para dizer a Paris o que Zeus pretendia que ele fizesse. Ele não sabia o que fazer, pois fosse qual fosse a deusa que ele escolhesse, iria ganhar duas inimigas poderosas. Ele implorou-lhes que aceitassem a decisão sem se sentirem ofendidas e depois exigiu que as deusas se pusessem na frente dele nuas. Quando ele mostrou alguma hesitação, Hera disse: «Escolhe-me a mim, pastor, e farei de ti rei de toda a Ásia e dar-te-ei toda a riqueza que quiseres.»

Atenas num pescar de olhos acrescentou: -olhe-me a mim e dar-te-ei sabedoria e prudência, e ganharás todas as batalhas.» Afrodite guardou-se para o fim e murmurou: «Escolhe-me a mim e dar-te-ei a mulher mais bela do mundo.»

Paris ficou muito excitado com esta promessa e deu a maçã a Afrodite, deusa do desejo sexual.

Hera e Atena tinham prometido a Paris que não ficariam ofendidas, mas intimamente estavam a ferver de raiva e prometeram a si mesmas que a vitória de Afrodite significaria a destruição de Tróia.

Paris seguiu do Monte Ida para Tróia a fim de tomar parte nos jogos atléticos e ganhou todos os eventos em que participou. Os príncipes de Tróia, os outros filhos de Príamo, ficaram furiosos e quiseram matar este individuo que os tinha envergonhado a todos.

Então Agelau gritou:

«Este é o vosso irmão, Paris.» Hécuba e Príamo ficaram encantados, apesar de um oráculo os ter avisado que deviam matá-lo imediatamente, ou Tróia seria destruída. Quando Príamo, anos atrás, tinha concordado em expor o bebê na montanha, essa decisão tinha-lhe causado um enorme envelhecimento e muitos anos de arrependimento. Agora, fosse qual fosse a condenação do oráculo, recusava-se a matar o filho uma segunda vez.

«Preferia ver Tróia a arder», disse ele, numa premonição do destino, mais exata que qualquer oráculo.

Preparação para a Guerra

Paris esqueceu-se completamente de Enone e passou a estar obcecado com a ideia de conquistar a mais bela mulher do mundo - e quem poderia ser senão Helena, [171] filha de Zeus e de Leda e mulher do rei Menelau de Esparta? 

Ele disse à família que ia em busca de Hesíone, a mulher que tinha sido levada por Héracles uma geração antes, mas, na verdade, estava a planejar visitar Esparta e, de alguma forma, atrair Helena ao barco. Navegou para a Grécia e visitou o palácio de Menelau, onde foi tratado com a hospitalidade devida a um príncipe de Tróia. Passados poucos dias, Menelau partiu para Creta, deixando a mulher para tratar do hospede. Afrodite retirou a Helena todas as suas capacidades de raciocinar e de contenção e, em seu lugar, colocou uma paixão avassaladora por Paris. Assim, quando Menelau regressou, hospede e esposa tinham sucumbido à tentação e partido para Tróia.

Quando Menelau foi informado de que a mulher havia partido com Paris, de vontade ou sob coação, voltou-se para o irmão pedindo auxílio. Agamêmnon começou por pedir ao rei de Tróia a devolução de Helena, e quando [172] Príamo recusou, enviou mensageiros a todos os reinos da Grécia para recordar aos pretendentes de Helena o juramento que tinham feito. Intimou-os a juntarem os seus soldados e arranjarem navios para uma expedição a Tróia a fim de levarem Helena de volta a casa.

Quase toda a gente obedeceu, mas, pelo menos, duas pessoas opuseram-se a esta expedição: o jovem príncipe da iÍtaca, Ulisses, queria ficar em casa, como homem sensível que era, com a esposa Penélope e o filho recém-nascido Telêmaco. Quando Agamêmnon e Menelau foram a Ítaca para o convocarem e aos seus homens para a guerra, Ulisses fingiu-se de louco, pondo a canga numa donzela e um boi a lavrar e depois semeou a terra com sal em vez de sementes. Os reis sabiam da reputação de artífice de Ulisses e resolveram testar até onde ia a sua loucura. Puseram então o bebê Telêmaco no chão junto à lâmina do arado. Ulisses parou de lavrar e admitiu que estava suficientemente são para ir para Tróia com os outros.

O jovem Aquiles, filho de Pélias e de Tétis, teria gostado muito de ir para a guerra, mas a mãe queria mantê-lo na segurança do lar, pelo que o vestiu de mulher para enganar o mensageiro, Ulisses. Mas ele estava avisado do estratagema e resolveu representar também o seu papel. Pilhou no palácio alguns presentes de que as mulheres costumam gostar, como roupas finas e jóias, e entre elas também uma espada e um escudo. Tinha também dado ordem aos homens para baterem com as espadas nos escudos e tocarem a trompeta de guerra fora do palácio. Mal Aquiles ouviu aquele barulho, pegou na espada e no escudo e correu para fora. Tétis chorou amargamente, pois um oráculo tinha-lhe dito que Aquiles só teria uma longa vida se permanecesse em casa. Ela sabia muito bem que a carreira dele em Tróia seria violenta, gloriosa e curta. 

A armada grega reuniu-se em Áulis. Então a maldição sobre a casa de Atreu voltou a manifestar-se, com ventos desfavoráveis que retiveram a frota no porto. Os homens começaram a falar em abandonar a expedição pois os deuses estavam claramente contra. O adivinho Calças disse ao rei que a única forma de apaziguar os deuses era através do sacrifício da própria filha Ifigênia à deusa Ártemis (Diana). Agamêmnon mandou buscar Clitemnestra e Ifigênia, dizendo que queria casar a filha com o jovem herói Aquiles, o qual ficou ofendido com este embuste, mas o rei fez bastante pior quando sacrificou a própria filha cortando-lhe o pescoço. Há também quem diga que quando a faca começou a cortar, Ártemis substituiu a moça por um jovem veado, mas na maior parte das versões deste mito, Agamêmnon mata mesmo a filha. A mulher, Clitemnestra, regressou a Micenas, planejando vingar-se quando ele voltasse de Tróia. Os ventos sopraram de feição, a frota içou as velas e a guerra ia começar. [173]

A Guerra de Tróia

A guerra durou 10 anos, como todos os adivinhos tinham profetizado. Os navios gregos ancoraram suficientemente perto de Tróia para as suas tropas poderem avançar com os carros para uma batalha de um dia frente às muralhas da cidade. Encontravam-se, porém, também suficientemente perto para as tropas de Tróia avançarem nos seus carros para lhes lançarem fogo. A maior parte dos guerreiros lutou com grande heroísmo. Muitos homens morreram devido a ferimentos e outros por doença. No entanto, nove anos depois da chegada, os Gregos não tinham conseguido franquear os portões de Tróia nem os Troianos tinham podido expulsá-los.

Os deuses do Olimpo seguiam com muito interesse esta guerra, já que alguns dos guerreiros eram seus filhos ou netos. Ares (Marte) e Apolo tomaram partido por Tróia, assim como Afrodite (Vênus), que não provou ser uma grande lutadora na batalha, enquanto Atena (Minerva) era a favor dos Gregos e em especial de Ulisses, Hera (Juno) e Posídon (Netuno) também apoiaram os Gregos contra os Troianos, e Zeus (Júpiter) deixou que a guerra se arrastasse por 10 anos, tal como era previsto que durasse.

No décimo ano, o adivinho Calças, que tinha sido troiano mas que deixara a cidade ao prever a sua queda, quis que a filha Briseida se viesse juntar a ele no exército grego. Pediu por isso ao rei Agamêmnon que enviasse emissários ao rei Príamo de Tróia, pedindo-lhe que deixasse sair Briseida para se juntar ao pai. Com o consentimento de Príamo assim aconteceu e, passado pouco tempo, partilhava a cama com Aquiles. Aconteceu, em seguida, que Crises, um sacerdote de Apolo, pediu a Agamêmnon que lhe devolvesse a filha, que este tinha capturado e mantido como concubina. Quando o rei recusou, Apolo lançou uma doença sobre os Gregos que só passou quando ela foi libertada. Agamêmnon exigiu então Briseida de Aquiles para substituir a filha de Crises. Aquiles teve de obedecer ao seu líder, mas ficou muito ressentido e recusou-se a continuar o combate.

Dado que o melhor guerreiro decidiu não lutar mais, os Gregos propuseram uma trégua a ambos os exércitos.

O amante de Helena, Paris, e o marido ultrajado, Menelau, deveriam travar o combate um contra o outro. Paris era um arqueiro excelente mas não muito dotado na luta corpo a corpo, pelo que Menelau estava a ganhar o combate quando Afrodite envolveu Paris numa bruma que não permitia que o adversário o visse, podendo assim, graças à deusa, regressar à cidade e aos braços de Helena. Em seguida, o herói dos Troianos, o príncipe Heitor, desafiou Aquiles para uma luta apenas entre os dois, mas este continuou a negar-se a combater.

Os Gregos escolheram então Aias (Ajax) como o segundo melhor combatente e este lutou com Heitor durante quatro horas, sem que nenhum deles ganhasse vantagem sobre o outro. Quando já estava tão escuro que mal se viam, tiveram de suspender o combate. Os Troianos concordaram em respeitar uma trégua para os Gregos retirarem os mortos do campo de batalha e os poderem enterrar, mas, logo que esta tarefa fosse cumprida, os Troianos voltariam à carga até expulsarem os Gregos. Mais um dia de luta como este e os Troianos ganhariam a guerra.

Os Gregos estavam à beira do pânico generalizado. Aquiles ameaçava agora pegar nos soldados e navegar de regresso a casa. Então, o rei Ulisses surgiu com um plano engenhoso.

Ele e o amigo Diomedes rastejaram das tendas gregas e realizaram [174] um ataque súbito às tendas onde dormiam os aliados dos troianos.

Mataram um deles, o rei Reso, e roubaram os seus cavalos. Um oráculo tinha predito que Tróia manter-se-ia invulnerável se estes cavalos comessem comida troiana e bebessem água do rio Escamandro que corre junto à cidade de Tróia.

Tal não aconteceu, e quando os troianos descobriram o seu desaparecimento, ficaram de cabeça perdida e recuaram de todos os territórios que tinham conquistado no dia anterior. No dia seguinte, a batalha agitou-se de um a outro lado, com Hera a apoiar os Gregos e Zeus ajudando os Troianos até eles terem atingido os barcos gregos e começarem a incendiá-los. Nessa altura, Aquiles cedeu. Continuou a não lutar, mas enviou o amigo e amante Pátroclo para o combate em vez dele, levando a sua armadura e o seu carro para o campo de batalha. Os Troianos recuaram, enlouquecidos ao pensarem que Aquiles tinha voltado à luta. Os barcos foram salvos e Pátroclo conduziu um assalto às muralhas de Tróia. Apolo interveio, atingindo Pátroclo e perturbando-lhe o cérebro, pelo que Heitor de Tróia não teve dificuldade em matá-lo. Aquiles esqueceu o seu orgulho ferido e o ressentimento com o desgosto da perda do amigo e, solenemente, prometeu que vingaria Pátroclo no corpo morto de Heitor. [175]

A Morte de Heitor

Aquiles estava agora impaciente por voltar ao campo de batalha, mas a sua armadura tinha sido levada por Heitor que a tirou do corpo de Pátroclo. A mãe de Aquiles, Tétis, entregou-lhe novas armas forjadas por Hefesto (Vulcano). Usando as novas armas e ostentando o seu novo e esplêndido escudo, Aquiles forçou os Troianos a recuarem até ao Rio Escamandro e mesmo para lá dele até às muralhas de Tróia. Todos os Troianos estavam aterrorizados pelo medo de enfrentarem a cólera de Aquiles - todos, quer dizer, à exceção de Heitor, que se tinha preparado convenientemente para lutar com ele numa luta singular, como há muito desejava. O pai de Heitor, o rei Príamo, e a mãe, a rainha Hécuba, choravam com medo de que o amado filho pudesse morrer. A mulher de Heitor, Andrómaca, também chorava, enquanto segurava o pequeno filho de ambos, Astíanax, para dizer adeus ao pai.

Como num último adeus, Príamo, Hécuba, Andrómaca e o bebê olharam do cimo das muralhas enquanto Heitor atravessava o grande portão de Tróia.

Heitor - usando a armadura do próprio Aquiles que tinha tirado a Pátroclo - deixou-se ficar parado até Aquiles se aproximar e, então, estremeceu de horror e fugiu. Deu três voltas correndo em torno das muralhas tentando passar por um dos portões, mas Aquiles estava demasiado próximo. Por fim, Heitor virou-se para enfrentar o inimigo e Aquiles enfiou-lhe a lança na garganta, tendo ainda tido tempo para implorar a Aquiles que os Troianos pudessem recolher o seu corpo para lhe darem uma sepultura, mas ele recusou. Furou-lhe os artelhos e passou-lhe correias de couro pelos pés, que depois atou ao carro e deu três voltas a Tróia antes de arrastar o corpo para a tenda. Toda a cidade de Tróia receou que a morte de Heitor significasse a sua queda iminente.

Aquiles ainda infligiu outras violências ao corpo de Heitor como arrastá-lo três vezes por dia em volta da sepultura de Pátroclo. Os deuses detestaram este comportamento ultrajante e encheram-se de piedade de Heitor, cuja sombra não podia encontrar o caminho para o mundo dos mortos sem um enterro adequado. Apolo impediu que o corpo apodrecesse, e Zeus enviou o mensageiro Hermes (Mercúrio) para ajudar o rei Príamo a ir à tenda de Aquiles, secretamente, durante a noite, para resgatar o corpo do seu amado filho. Aquiles concordou na troca do corpo pelo seu peso em ouro e os Troianos amontoaram tudo o que encontraram num dos pratos de uma enorme balança, enquanto o corpo permanecia no outro. A princesa Políxena, uma das filhas de Príamo e de Hécuba, foi pôr as pulseiras no monte e Aquiles apaixonou-se por ela ao primeiro olhar, mas também não o suficiente para abandonar a guerra por ela.

Apesar de Heitor estar morto, continuava a haver muitos guerreiros em Tróia e novos aliados iam chegando. Entre estes estava Pentesileia, a Amazona. Fora ela que matara a mulher de Teseu, Antíope, pelo que já não podia ser nada nova por altura da guerra de Tróia, que aconteceu passada uma geração. Esta chegou durante o funeral de Heitor e partiu para a luta após 11 dias de luto. [176]

Aquiles haveria de a matar durante o combate, um ato de que se arrependeu quando viu, demasiado tarde, que o inimigo era, afinal, uma bela mulher. Pouco depois chegou um novo aliado, vindo de muito longe, Mémnon da Etiópia. Zeus pesou os destinos de Aquiles e de Mémnon na sua balança de pratos e o de Mémnon provou ser mais pesado. Não tardou a jazer morto, atravessado pela lança de Aquiles.

A Morte de Aquiles

Aquiles parecia ser invencível com o ódio pela morte do amigo Pátroclo. Forçava agora os Troianos para dentro da cidade e seguia-os através da Porta de Céias. Parecia que até ao fim do dia a guerra estaria terminada, com os gregos prontos a passarem para lá dos portões. Mas Aquiles foi ferido por uma flecha disparada pelo príncipe Paris, ajudado por Apolo, e que lhe acertou num calcanhar. Não tinha o aspeto de ser uma grande ferida, mas, afinal, provou ser mortal, pois o calcanhar era a única parte vulnerável do seu corpo. A mãe, Tétis, soube por um oráculo que o filho iria destituir o pai e ela quis proteger Aquiles, quando era bebê, dos perigos que enfrentaria numa batalha, que previa ir enfrentar em adulto. Mergulhou o bebê no Rio Estige, segurando-o por um calcanhar, e as águas tornaram todo o seu corpo invulnerável, à exceção do calcanhar (esta estória está na origem do nome «tendão de Aquiles» que é dado ao tendão no tornozelo, que os atletas lesionam com facilidade).

Foi este ponto fraco que Paris atingiu, e então o resto do corpo de Aquiles perdeu a proteção concedida pelo [177] deus. Paris disparou uma segunda flecha e Aquiles caiu morto atingido no coração. Era agora a vez dos gregos recuarem, transportando o cadáver de Aquiles para a respectiva tenda. A deusa Tétis foi até lá para chorar a morte do filho, fazendo-se acompanhar por nove Musas e as nereidas, as ninfas dos mares, filhas de Nereu. Aquiles desceu ao reino dos mortos onde Ulisses viria a encontrá-lo anos mais tarde, quando fazia a viagem de regresso da expedição a Tróia. Lá, o grande Aquiles haveria de dizer a Ulisses que preferia ser o último dos homens vivos, um pobre escravo, que a maior das sombras dos mortos, um rei no reino das trevas. Ele era o maior dos guerreiros gregos da sua geração, embora o julgamento final dele tivesse declarado que tinha desperdiçado a vida na guerra e nas suas glórias. A morte de Aquiles conduziu [178] a uma outra entre os gregos, quando Ulisses e Ájax competiam pela armadura que Hefesto lhe tinha dado. Ulisses foi considerado o guerreiro mais valente e foi-lhe atribuída a armadura como prêmio.

Ájax planeou uma vingança assassina sobre todos os Gregos.

Nessa noite, Atena enlouqueceu Ajax, pelo que confundiu vacas e ovelhas com guerreiros gregos, atou-as, insultou-as e depois matou-as. De manhã, ao constatar como o seu comportamento tinha sido ridículo, profundamente envergonhado e desgostoso, suicidou-se.

Sem Aquiles, os gregos procuravam agora ajuda nas profecias, para saberem se haveria alguma condição imposta pelos deuses, que pudessem cumprir, para conquistarem Tróia. Encontraram três predições: deviam ir buscar o filho de Aquiles, Neoptólemo, Filoctetes devia usar o seu arco no combate, e o Paládio tinha de ser roubado de Tróia. Para cumprirem estas profecias, os Gregos viraram-se para Ulisses, que tinha uma reputação merecida de ser eloquente e muito protegido por Atena.

Foi fácil para ele navegar até Ciros e trazer Neoptólemo, mas Filoctetes era muito mais difícil de persuadir. Quando Héracles jazia moribundo sobre a pira fúnebre, foi a Filoctetes que ele deu o seu arco. Este tinha partido com os outros heróis gregos para Tróia, mas muito antes de lá chegaram, tinha sido mordido por uma serpente e a ferida não sarava, escorrendo pus e emanando um fedor de tal forma fétido que os outros guerreiros o abandonaram na ilha de Lemnos. Era agora incumbência de Ulisses recuperá-lo para a causa grega. Para isso, tentou todas as formas de lisonja e adulação, mas Filoctetes estava irremovível. Só quando Héracles apareceu e lhe disse para ir para Tróia é que ele concordou em deixar Lemnos. Os médicos do exército grego curaram-lhe a ferida e foi ele quem disparou o arco de Héracles que matou Paris.

A Queda de Tróia

Ulisses começou então a pensar numa maneira de roubar o Paládio, que era uma estátua de Palas, amigo de Atena, que ela tinha matado em criança e que, segundo se diz, teria caído do céu. Atena protegeu os gregos durante a Guerra de Tróia, mas a presença do Paládio na cidade, com todo o seu significado pessoal implícito, impediam-na de participar na sua destruição. Roubar a estátua não havia de ser tarefa fácil, como não seria Ulisses conseguir entrar na cidade em guerra, mas ele tinha mesmo de ir buscar o Paládio genuíno, já que os troianos tinham feito muitas cópias, sabendo que o original era crucial à sobrevivência do reino.

Ulisses disfarçou-se de pedinte e arranjou forma de chegar ao quarto de Helena, no palácio de Príamo. Como Paris estava morto, o sogro tinha-a casado com outro dos seus filhos, Deífobo, mas ela estava desejosa de sair de Tróia. Helena era a única pessoa que Ulisses não podia enganar e ela reconheceu-o através do seu disfarce de pedinte.

Ela quis ajudá-lo e explicou-lhe onde estavam guardadas as estátuas e que poderia facilmente identificar a verdadeira já que era a menor. Ulisses afastou-se de Tróia mas voltou outra vez com o amigo Diomedes. Entraram no palácio através dos esgotos e trouxeram a estátua pelo mesmo caminho. Tróia tinha perdido a sua proteção. [179]

O Cavalo de madeira

A dado momento, Atena ajudou Ulisses a imaginar um estratagema brilhante: a construção de um cavalo de madeira. Este era uma criatura enorme, oca por dentro e capaz de abrigar 30 guerreiros. Era mais alto que a grande Porta de Céias de Tróia, pelo que os Troianos teriam de derrubar uma parte do portão se o quisessem meter dentro da cidade. Os Gregos gravaram uma inscrição na parte lateral do cavalo, onde dizia que ele era uma oferenda para Atena como recompensa pelo roubo do Paládio. Seguidamente, fizeram ostensivos preparativos para abandonarem a costa de Tróia, lançando fogo às tendas.

Quando os Gregos se foram, os Troianos aproximaram-se, primeiramente com todo o cuidado, depois correndo e gritando de alegria por o inimigo ter abandonado a luta e assim não ser preciso mais nenhum homem morrer.

Só duas pessoas em toda a cidade de Tróia pensavam de modo diferente, Cassandra, a filha de Príamo e de Hécuba, a quem tinha sido dado o poder da adivinhação pelo deus Sol Apolo, quando este lhe fez a corte. Porém, quando ela o repeliu, lançou-lhe uma maldição, exclamando: «Tu irás predizer a verdade, mas nunca ninguém acreditará em ti.» Agora Cassandra andava de um lado para o outro numa roda viva tentando que os Troianos não acreditassem nos Gregos, especialmente quando dessem presentes. Ninguém se deu ao trabalho se a ouvir.

Laocoonte, que era sacerdote tanto de Apolo como de Posídon, fez o mesmo aviso de Cassandra. Pressentindo que dentro do cavalo estavam muitos homens armados, tentou prová-lo com a sua lança, mas, de repente, surgiram duas enormes serpentes, vindas do mar, ondularam à volta de Laocoonte e dos dois filhos, tendo-os arrastado para as águas onde se afogaram, antes de escorregarem em direção a uma estátua de Atena, na cidadela de Tróia. Os Troianos ficaram [180] aterrados com este presságio, e alertados para o perigo subsequente. Atena já não lhe assegurava proteção, tal como nem Apolo nem Posídon protegiam o sacerdote. Algum deus impelia os Troianos para o seu destino, pelo que eles não deram atenção a estes avisos. Puxaram o cavalo de madeira para dentro da cidade, após terem demolido o portão para que ele passasse e depois festejaram pela noite fora.

Dentro do cavalo, Ulisses aguardava juntamente com os melhores guerreiros gregos. Enquanto os troianos continuavam a festejar, Helena aproximou-se do cavalo com o novo marido Deífobo e quase arruinou o plano de Ulisses. Ela chamou pelos guerreiros que estavam dentro do cavalo, fazendo várias vozes, imitando as das respectivas mulheres. Ela enganou todos, exceto Ulisses, que se apercebeu da estratégia de Helena, e Neoptólemo, que ainda não tinha mulher. Ulisses manteve a porta fechada e sussurrou aos amigos que as mulheres deles não podiam de repente ter chegado todas a Tróia, e eles ficaram envergonhados por terem caído na armadilha de Helena. Esta continuou a chamar com voz sedutora, mas ninguém foi tentado a lançar-se nos seus braços. Ninguém sabe a razão pela qual ela fez isto. Terá sido uma última tentativa de Afrodite para salvar Tróia, que a inspirou? Ou Helena seria uma mulher de humores, inconstante como o vento, primeiro traindo o marido, depois a nova casa e agora tentando trair de novo os gregos?

O Fim da casa de tróia

Helena partiu e passado pouco tempo todos os troianos estavam a dormir. Ulisses abriu a porta e os guerreiros gregos saltaram de dentro do cavalo de madeira e avançaram pela cidade, prontos a derrotar os inimigos agora indefesos. Começaram a incendiar as casas e a juntar as mulheres para as levarem como escravas. Os fogos serviram de sinal aos barcos gregos que se apressaram a voltar. Agamêmnon e o resto do exército correram pela Porta de Céias e juntaram-se à matança. O filho de Aquiles, Neoptólemo, usou a sua espada contra o velho rei Príamo que se tinha refugiado no altar de Zeus. Também matou o bebê de Heitor, Astíanax, para se assegurar de que não crescia para se vingar dele e o matar.

Andrômaca foi feita prisioneira como ela tinha previsto naquele dia fatídico em que viu o marido morto fora das muralhas de Tróia. [181]

A velha Hécuba fez o que pôde para combater os gregos, até que morreu. Então a sua sombra tornou-se num cão, um seguidor de Hécate. Polixena, que Aquiles amara, foi sacrificada na sepultura dele. Cassandra foi levada por Agamêmnon como despojo de guerra. A casa real de Tróia foi destruída.

Menelau correu em busca de Helena. Uns dizem que se desvaneceu em frente aos seus olhos pois não era senão um fantasma de Helena, e que ele viria a encontrar sua verdadeira e leal Helena no Egito, onde ela se tinha refugiado durante os dez anos que durou a Guerra de Tróia. Segundo outra versão, a verdadeira Helena viveu em Tróia, casou primeiro com Paris, depois com Deífobo e que ficou à espera de Menelau para o matar. Ela não disse nada em sua defesa. A única coisa que fez foi destapar o peito. Menelau recordou a sua paixão por aquela bela mulher e foi como se a guerra nunca tivesse acontecido. Afrodite sorriu ao ver marido e mulher nos braços um do outro. Para este casal, não houve mais provações. Contudo, para o resto dos gregos, à exceção do esperto e prudente Nestor, o regresso à Grécia haveria de ser problemático, por vezes, mortal. [182]

Mitologia Grega
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MITOS, FÁBULAS E LENDAS
A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

Mitologia Celta
As tarefas impossíveis de Culhwch

Um dos contos mais populares de Mabinogion narra a estória de Culhwch e Olwen. Culhwch é de sangue real, pois é primo de Arthur. O seu nascimento foi invulgar. Antes de ele ter nascido, a mãe, Golenddyd, ganhou uma profunda antipatia por porcos, pois quando passava por uma vara deles, assustou-se e deu à luz um filho que abandonou. Um guardador de porcos pegou nele e levou-o para os pais criarem. Golenddyd morreu e o marido, Cilydd, voltou a casar com uma mulher que tinha uma filha que ela queria casar com Culhwch. Mas ele não quis, afirmando ser ainda muito jovem. A rainha então rogou uma praga a Culhwch, segundo a qual ele só viria a casar com Olwen, filha de Ysbaddeden, o Chefe dos Gigantes. Bastou a Culhwch ouvir o nome dela para se apaixonar profundamente.

Culhwch decidiu então pedir ajuda a Arthur para encontrar esta donzela e partiu num grande esplendor, completamente armado com machados de guerra, espada dourada e uma pequena machadinha que «podia fazer o ar sangrar.» Tinha também um chifre de marfim, dois galgos e montava um cavalo fantástico. Quando Culhwch chegou à corte de Arthur o porteiro tentou barrar-lhe a entrada, mas ele ameaçou dar três gritos de tal intensidade que as mulheres ficariam estéreis e as que estivessem grávidas abortariam.

É claro que ele passou. Encontrou-se com Arthur que se deixou convencer a ajudá-lo a procurar Olwen. As buscas decorreram durante um ano, sem sucesso. Por fim, juntaram um grupo dos melhores cavaleiros, cada um deles abençoado com peculiaridades extraordinárias. Um deles, Kay, tinha uma espada que provocava feridas que nenhum médico podia tratar; outro, Bedwyr, o mais veloz de todos, e Gwalchmai, que nunca voltava de uma missão sem a cumprir.

Após mais dia buscas, Olwen foi finalmente encontrada.

Ela correspondeu ao amor de Culhwch, mas explicou que o pai Ysbaddeden estava destinado a morrer quando se casasse. Olwen pediu a Culhwch que aceitasse qualquer condição que o pai lhe impusesse. Culhwch aproximou-se do Chefe dos Gigantes que lhe ordenou uma longa série de «tarefas impossíveis.» A mais intimidante delas consistia em recuperar uma tesoura, uma navalha da barba e um pente que estava entre as orelhas do grande e destruidor javali Twrch Trwyth. Apesar de tudo, Culhwch aceitou de boa vontade toda as tarefas. Ele e Arthur conseguiram atrair a ajuda de Mabon, o caçador que tinha estado preso num castelo após ter sido roubado. Na ocasião, ele tinha sido libertado Era conhecido como «o jovem» se bem que fosse o mais velho de todos os seres. Mabon Culhwch e os cavaleiros foram ajudados por animais mágicos: a Águia de Gwemabwy, o Melro de Kilgory, o Veado de Rhedynvre, Salmão de Llyn Law e outros bichos encantados. Um dos homens de Arthur, Gwrhyr, tim a capacidade de falar com cada um deles na sua própria linguagem. Após uma longa perseguição através do sul do País de Gales, da Cornualha e da Irlanda, durante a qual o diabólico javali devastou uma grande parte da terra, foi enfim possível, com a ajuda de Mabo dominá-lo e conduzi-lo para o mar. A navalha da barba, a tesoura e o pente foram entregue: e Culhwch pôde finalmente casar com Olwe.

Mitologia Celta
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FATOS HISTÓRICOS
A batalha de Kadesh

Na primavera de 1274 a.e.c., Ramsés II, no comando de quatro divisões de cavaleiros e de soldados de infantaria, dirige-se da fronteira oriental do delta do Nilo para a costa de Canaã. No ano anterior, interveio militarmente em Amurru para retomar dos hititas os territórios dos quais se haviam apoderado. A segunda campanha tem por objetivo a tomada da fortaleza de Kadesh, situada nas margens do rio Oronte e que ocupa uma posição estratégica entre a Palestina e a Síria, entre o Mediterrâneo e o Eufrates. Um mês após sua partida, o faraó e suas quatro divisões chegam perto de Kadesh. Ramsés veste então seus trajes de guerra, os do deus Montu, seu protetor. Com o capacete, kheprech, cujas fitas flutuam ao vento, munido de seu arco e de sua aljava, avança a frente da primeira divisão dedicada ao deus Amon.

As outras divisões, as de Rá, Ptah e Seth, estão longe, atrás dele. Ramsés e seus homens chegam perto do Oronte e prendem dois beduínos escondidos nesse local. Interrogados, os dois homens garantem que as divisões hititas estão longe ainda, ao norte, em terras de Alepo. Sem procurar verificar essas informações, Ramsés atravessa o rio por um vau com sua divisão e avança pela planície próxima de Kadesh para estabelecer seu acampamento. Sem dúvida pensa em sitiar a cidade a partir do dia seguinte. Mas batedores egípcios enviados para reconhecimento do terreno surpreendem dois espiões hititas, capturam-nos e os interrogam com brutalidade. Confessam que o rei hitita, Muwatalli, já está de prontidão com suas tropas e seus carros bem ao lado de Kadesh, a 3 ou 4 quilômetros do acampamento egípcio.

Ramsés, ciente do perigo, envia o vizir Paser, com uma escolta, ao encontro da divisão de Ptah para fazer acelerar sua marcha. O faraó e sua tropa perscrutam com angústia a  linha do horizonte. Infelizmente, as primeiras nuvens de poeira anunciam o ataque das tropas hititas, duas vezes

mais numerosas que o conjunto das divisões egípcias. Os carros inimigos aparecem na desembocadura do rio e descem a colina em direção a planície. Os gritos e o barulho de armas se acrescentam a confusão geral. Os carros hititas são impressionantes, largos, pesados, puxados por três cavalos e conduzidos por um cocheiro e dois combatentes.

Os carros egípcios, muito mais leves e menos sólidos, são puxados por dois cavalos e dirigidos por um cocheiro e um só combatente. Os relinchos dos animais feridos se juntam aos gritos de terror. Cercadas, as fileiras egípcias se desfazem. Uma parte dos carros titias avança para o oeste para devastar o acampamento egípcio, a outra se dirige contra Ramsés e seus poucos fiéis, que não fugiram.

Quando tudo parece perdido, tropas de vigilância compostas de aliados da costa de Amurru, que estão acampadas a alguma distância, chegam como reforço e entram sem hesitar na confusão. Os hititas, surpreendidos, devem doravante combater em duas frentes, o que permite ao faraó. retomar a ofensiva com seus fiéis. Aos poucos, os carros hititas recuam em direção do Oronte.

Cavaleiros hititas são rechaçados até a margem do rio; alguns se afogam, os cavalos se dispersam, a confusão aumenta. Ramsés torna-se dono do terreno. Finalmente vê chegar a primeira divisão de Ptah, comandada por seu vizir. Mas o combate terminou. Os egípcios reúnem os feridos, recolhem os despojos e as armas abandonadas pelos hititas. O faraó deixa então explodir seu furor, pois a divisão de Rá o abandonou e a de Amon se dispersou no pânico do início da batalha. Quanto a de Seth, ela só chega no crepúsculo.

Durante a noite, Ramsés, inquieto, teme uma ofensiva das divisões hititas que ainda não participaram do combate. Mas sabe também que o rei Muwatalli perdeu chefes de valor durante o combate.

Muito antes da aurora, o faraó decide tomar a iniciativa do combate. Seu ataque fulminante paralisa a estratégia dos carros e da infantaria hititas.

Muwatalli pressente que não pode entrar em uma batalha de longa duração com forças em parte desorganizadas.

Prefere negociar e envia um emissário ao acampamento egípcio, portando uma carta pedindo paz. Ramsés consulta seus comandantes e acaba por aceitar a cessão dos combates, mas adia a assinatura de um acordo de paz. Na verdade, não quer renunciar nem a terra de Amurru, nem a suas pretensões sobre a fortaleza de Kadesh. O armistício não se conclui com a paz.

O faraó pode em seguida dar ordens de levantar acampamento e retomar a estrada meridional para Gaza e para o delta do Nilo. Muwatalli tem consciência de que isso não passa de uma trégua? Conserva Amurru, mas logo no nordeste o perigo assírio chama-o a intervir sem tardar em Hanigalbat, principado situado no alto Eufrates, perto da fortaleza de Karkemish: a regiâo . ameaçada pelas tropas do rei da Assíria, Salmanasar I.

Civilização Egípcia
Revolução Russa de 1917

A Revolução Russa de 1917 foi uma das muitas consequências da Primeira Guerra Mundial. A guerra submeteu o Estado e a sociedade russa a tensões que nenhum dos dois podia suportar. O resultado foram seis anos de guerra e tumulto que criaram a União Soviética. A participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial não foi um acidente. Depois da Guerra Russo-Japonesa, a política externa da Rússia voltou-se para o oeste. Em 1907, a Rússia concluiu um tratado com sua rival de longa data, a Grã-Bretanha, para estabelecer um domínio conjunto sobre o Irã. Os russos tomaram controle da parte setentrional do país até Teerã, e os britânicos do Sul. Esse compromisso pôs fim à competição imperial anglo-russa na Ásia e fez que a Rússia se tornasse um aliado efetivo da Grã-Bretanha, bem como da França. Os únicos inimigos imagináveis eram a Alemanha e a Áustria. O acordo sobre a Pérsia armou o palco para os eventos de 1914, mas foram as rivalidades imperiais nos Bálcãs que proporcionaram a fagulha para a explosão. Ali, a Rússia enfrentava um Império Otomano ressurgente, aliado com a Alemanha e a Áustria, seguidas pela Bulgária. Nesse ponto, o único aliado da Rússia era a diminuta Sérvia, que estava exatamente no caminho da expansão austro-alemã no Sul. Uma série de crises nos Bálcãs nesses anos mostrou repetidamente a fraqueza da Rússia na região: ela não tinha aliados formais além da Sérvia, nem o poder informal derivado dos laços comerciais estabelecidos pelos alemães e austríacos, bem como os franceses e britânicos. Quando Gavrilo Princip assassinou o arquiduque austríaco em Sarajevo em 1914, Viena lançou um ultimato à Sérvia e a Rússia teve de apoiar a resistência sérvia. A credibilidade básica da Rússia estava em jogo, e o resultado foi a guerra. Ela não havia buscado a guerra, mas desviado em direção à crise, tal como estava fazendo em muitas outras áreas.

Se o governo do Império Russo depois da morte de Stolypin meramente vagava no fluxo dos acontecimentos, nem a sociedade russa nem o movimento revolucionário demonstravam a mesma passividade. Os anos imediatamente anteriores à Primeira Guerra Mundial foram anos de crescimento econômico dinâmico para as ilhas de indústria moderna no mar de atraso rural. O desenvolvimento industrial significava crescimento no tamanho e, em certa medida, na sofisticação da classe operária, e os partidos revolucionários estavam prontos para fazer uso dele. Em alguns lugares, os trabalhadores recorreram novamente à greve. Em 1912, no rio Lena, na Sibéria, várias centenas de trabalhadores pereceram quando os soldados e a polícia reprimiram uma greve nas minas de ouro de propriedade inglesa. Por volta dessa época, os partidos revolucionários haviam se recuperado da derrota de 1905-1907. Os bolcheviques, mencheviques e SRs estavam razoavelmente bem organizados e o movimento trabalhista recuperou-se. Na primavera de 1914, uma onda de greves varreu São Petersburgo, e nela os bolcheviques pareciam pela primeira vez ser a liderança, e não os mencheviques ou SRs. Todavia, o restante do país estava relativamente sossegado, e as notícias da guerra atingiram a Rússia como um raio. Na verdade, a Rússia havia dedicado muito esforço à reconstrução do Exército e da Marinha desde a guerra com o Japão, e um dos numerosos fatores que aguilhoavam o Estado-Maior alemão e o Kaiser a forçar uma guerra imediata era o temor de que a Rússia seria muito mais difícil de derrotar dentro de poucos anos. Na verdade, tanto o planejamento quanto o equipamento ainda eram deficientes. Por insistência do tsar, enormes somas haviam sido gastas para reconstruir a esquadra do Báltico, que no fim era pequena demais para desafiar a Marinha alemã e nunca deixou o porto. A indústria de armamentos da Rússia ainda era inadequada para abastecer um Exército moderno e sua rede de transporte, adequada em tempos de paz, era pequena demais para a mobilização e abastecimento velozes do Exército na fronteira ocidental. Para piorar as coisas, o avanço rápido do Exército alemão pela Bélgica e pela França gerou uma crise no fronte. Sob intensa pressão da França, os russos lidaram com a crise enviando um Exército despreparado para a Prússia Oriental, uma expedição que terminou em derrota em Tannenberg em agosto de 1914. Assim, a Rússia iniciou a guerra com uma derrota.

Em casa, a guerra produziu de início uma orgia de patriotismo. Sob aclamação universal, o governo mudou o nome alemão São Petersburgo para Petrogrado, uma tradução russa, mais ou menos, do mesmo. Liberais e reacionários na Duma uniram-se numa plataforma de guerra e a intelligentsia, como seus pares a oeste, despejou uma enxurrada de propaganda anti-inimigo e delírios nacionalistas. Os trabalhadores também foram arrastados pela febre e o movimento de greve na capital evaporou-se. A polícia reprimiu fortemente os partidos revolucionários, particularmente os bolcheviques, e dentro de poucos dias seus líderes que estavam na Rússia desapareceram na prisão e no exílio na Sibéria. Stalin estava entre eles. Os bolcheviques foram objeto de ira particular do governo por causa da sua posição acerca da guerra, uma posição que transformou um obscuro grupo marxista num movimento mundial que reordenou fundamentalmente o século XX. Afinal, foi da reação de Lenin à guerra, e não como resposta à Revolução Russa posterior, que o comunismo nasceu.

Antes de 1914, os partidos socialistas europeus haviam prometido reiteradamente, nas suas reuniões internacionais, opor-se a todas as guerras entre os Estados europeus por serem nocivas aos interesses da classe operária. Tratava-se de grandes e poderosos partidos de massa, que controlavam sindicatos trabalhistas importantes e ofereciam serviços sociais e culturais elaborados, no que eram totalmente diversos do pequeno bando de combatentes clandestinos de Lenin. Quando os governos pronunciaram declarações bombásticas de guerra em julho e agosto de 1914, a expectativa era a de que os socialistas se opusessem à guerra e até fizessem greve, como haviam ameaçado antes, no intuito de pôr fim a ela. Nada disso aconteceu. Ao contrário, os líderes socialistas pronunciaram-se quase unanimemente a favor da guerra e juntaram-se ao coro de patriotismo e ódio nos seus respectivos países. Os poucos que discordaram sentiram-se obrigados pela disciplina do partido a ficarem quietos e seguir a liderança. Entre os russos, o ancião fundador do marxismo russo, Plekhanov, pronunciou-se a favor da guerra, e os mencheviques adotaram uma posição de compromisso, não conclamando a uma vitória russa, mas não se opondo à guerra. Entre os socialistas europeus, somente os bolcheviques de Lenin e um punhado de dissidentes mencheviques como Trotsky opuseram-se à guerra desde o primeiro dia.

Lenin não era um pacifista, e seu programa para a guerra não consistia apenas em opor-se a ela. Ele proclamou que a derrota do Império Russo seria o melhor resultado para a Rússia e conclamou todos os socialistas, na Rússia e alhures, a transformar a guerra internacional numa guerra civil.

Em outras palavras, ele estava lançando um apelo à insurreição armada em tempo de guerra. Essa posição parecia-lhe a única atitude marxista correta, mas por que tão poucos socialistas europeus concordaram? Segundo ele, eles haviam traído a classe operária que deveriam liderar, mas por quê? Desesperado com o futuro, Lenin voltou-se para a teoria marxista para tentar entender o que tinha acontecido. Ele releu a Metafísica de Aristóteles (em grego; ele era produto do ginásio russo) e a Ciência da Lógica de Hegel para tentar recapturar o sentido original da dialética como Hegel e Marx a compreendiam. Ele também realizou um longo estudo dos eventos económicos recentes. Seu objetivo era entender o apoio dado à guerra pelos socialistas europeus. Sua conclusão foi que a resposta estava no imperialismo, na riqueza excessiva gerada pelos impérios europeus na África e na Ásia, alimentada pela concentração crescente do capital. O império era o verdadeiro objetivo das potências beligerantes, ocultado sob um jargão enganador de liberdade ou honra nacional. A riqueza do império também produzira uma aristocracia trabalhista, contente com o status quo e portanto relutante em causar problemas em tempo de guerra. A curto prazo, ela se beneficiaria com o imperialismo. Ambas as conclusões viriam a ter efeitos decisivos após a Revolução Russa, mas por enquanto a leitura fez pouco mais que manter Lenin ocupado enquanto o mundo afundava cada vez mais no lodaçal sangrento da guerra.

À medida que as baixas acumulavam-se aos milhões, a oposição à guerra começou a surgir entre os socialistas na Europa Ocidental. Os primeiros a abandonar as fileiras foram os pertencentes à ala esquerda dos social-democratas alemães, Rosa Luxemburg, Karl Liebknecht e seus seguidores, que votaram contra os créditos de guerra no Reichstag em dezembro de 1914. Dentro de pouco tempo, os socialistas antiguerra estavam realizando pequenas reuniões na Suíça para exigir o fim da guerra e discutir táticas, e mesmo ali Lenin, com seu apelo intransigente à revolução, era minoria. Pela primeira vez, os bolcheviques russos chamaram a atenção do mundo como um bando diminuto de revolucionários que se aferravam à sua posição mesmo quando ela parecia condená-los ao isolamento e à derrota. Sua posição começou a angariar apoio entre socialistas ocidentais e, dessas pequenas reuniões de grupos na Suíça, surgiu um movimento mundial com consequências decisivas para a Rússia, bem como para a China, o Vietnã e outros países.

As consequências dessas reuniões obscuras estavam num futuro distante. Enquanto isso, na Rússia, a situação deteriorava-se gradualmente e não oferecia consolo nem ao tsar e seu governo, nem aos bolcheviques. No começo da guerra, Nicolau suspendeu a Duma, na esperança de governar sozinho. A derrota inicial na Prússia Oriental foi seguida, na primavera de 1915, por uma retirada geral russa da Polónia, o que acabou levando a uma crise no governo. A Duma foi convocada novamente no verão e os Kadets e conservadores moderados conseguiram formar um “Bloco Progressista”, que ofereceu cooperar com o governo no esforço de guerra. Por fim, o governo teve de apelar aos zemstvos e diversos comités de empresários para resolver as crises de abastecimento, mas só o fez com relutância e tarde demais. Surgiram novas agências para regular a economia para a guerra, como na Alemanha e outras potências beligerantes, mas a Rússia carecia da infra-estrutura para fazê-las funcionar. O governo regulou os preços dos cereais para abastecer o Exército e as cidades com comida barata, mas o resultado foi que os camponeses passaram a semear menos e a produção de alimentos começou a cair, piorando a situação.

No final de 1915, o próprio Nicolau assumiu o comando do Exército e mudou-se de Petrogrado para Stavka, o quartel-general do Exército perto de Mogilev. Sua mudança não ajudou o Exército e só desorganizou ainda mais o governo na capital, pois o tsar continuava a ser a única autoridade e agora era ainda mais difícil conseguir sua atenção. Suas consultas reiteradas à imperatriz Alexandra e a Rasputin provavelmente não tiveram muito impacto sobre a política, mas acabaram por indispor ainda mais o público. O Exército russo teve êxitos mitigados, já que pouco podia fazer contra os alemães, mas obteve uma vitória importante contra a Áustria em 1916 (a “Ofensiva Brusilov”, comandada pelo general Aleksei Brusilov) e contra os turcos. Erzurum, na Anatólia Oriental, caiu nas mãos do general Nikolai Yudenich no mesmo ano. Esses sucessos não puderam mudar a estagnação geral da guerra nem interromper a carnificina. As baixas russas aproximavam-se de cerca de 2 milhões de mortos, 2,5 milhões de feridos e 5 milhões de prisioneiros de guerra. Na Duma, o líder dos Kadets, Pavel Miliukov, falou de traição em altas esferas (uma referência à imperatriz Alexandra, entre outros) e, em dezembro de 1916, um grupo de jovens aristocratas temerosos quanto ao destino da monarquia assassinou Rasputin. Primeiro convidaram-no para jantar e serviram-lhe comida e vinho com altas doses de veneno. Depois, ao notarem que isso não surtia efeito na sua constituição corpulenta, eles atiraram nele e puseram-no sob o gelo dos canais de São Petersburgo. Rasputin se fora, e logo foi a vez da monarquia.

 

Sob muitos aspectos, a queda da dinastia Romanov foi quase um anticlímax. No final de fevereiro de 1917, o agravamento da situação alimentar em São Petersburgo levou a longas filas em padarias e outras lojas de produtos alimentícios nos bairros operários da cidade. No Dia Internacional da Mulher (23 de fevereiro/8 de março, um feriado socialista), muitas mulheres trabalhadoras, exaustas de ficar nas filas de comida depois das longas jornadas de trabalho, entraram em greve. Em poucas horas, os homens nas fábricas ouviram a notícia e também entraram em greve, fechando rapidamente a cidade inteira. Os estudantes e as classes médias aderiram a eles. O governo mobilizou soldados, que atiraram nos manifestantes, matando várias dúzias deles. Contudo, no dia seguinte, os mesmos soldados que haviam atirado recusaram-se a lutar e amotinaram-se, levando outros regimentos com eles, até os cossacos. Os ministros e a Duma enviaram telegramas cada vez mais desesperados ao tsar, e Nicolau retornou às pressas de Stavka. Antes que ele chegasse à capital, representantes do governo vieram ao seu encontro e convenceram-no a abdicar. Foi o que ele fez, em 2/15 de março, e a monarquia chegou abruptamente ao fim.

 

REVOLUÇÃO

Mesmo antes da abdicação do tsar, dois novos governos estavam sendo formados em Petrogrado. Quando o governo do tsar ruiu, os líderes da Duma formaram um Governo Provisório liderado pelo príncipe Georgii Lvov, o chefe da União dos Zemstvos, um fidalgo rural liberal diplomado em Direito e com folha de serviço nos conselhos locais e na Duma. Seu ministro das Relações Exteriores era o líder do partido Kadet, o historiador Pavel Miliukov. A única voz mais ou menos radical era a de Aleksandr Kerenskii, um advogado conhecido pelo trabalho de defesa em julgamentos políticos e membro do “Grupo Trabalhista” da Duma, socialistas agrários próximos da ala direita dos SRs. Seu pai fora diretor do colégio de Simbirsk quando Lenin era aluno lá. Esses homens eram a fina flor da Rússia liberal em termos amplos, mas como grupo não faziam ideia de como liderar as massas e passavam grande parte do seu tempo preocupando-se com as reações dos aliados da Rússia na guerra, a Grã-Bretanha, a França e logo mais os Estados Unidos. Sua solução preferida para todos os problemas que a Rússia enfrentava era convocar uma Assembleia Constituinte a fim de escrever uma constituição para uma república democrática que satisfizesse o desejo dos camponeses por terra e as queixas dos trabalhadores. Entrementes, eles dariam prosseguimento à guerra, na esperança de uma vitória aliada sobre a Alemanha. 

 

O outro “governo” era o soviete de Petrogrado. Respondendo à instigação dos mencheviques, os trabalhadores de quase todas as fábricas da cidade elegeram delegados para um soviete municipal que contava quase mil membros. Sua primeira medida foi a “Ordem n° 1”, na qual especificava que o Exército devia ser gerido por sovietes de soldados eleitos e que os oficiais só exerceriam o comando durante as operações. Nesse momento em que os partidos revolucionários passaram a agir abertamente pela primeira vez na história russa, os mencheviques e os SRs, não os bolcheviques, impuseram rapidamente seu domínio sobre o soviete de Petrogrado e na maioria das outras cidades. A tática menchevique era recusar apoio ao Governo Provisório e ao mesmo tempo empurrá-lo numa direção mais radical, uma posição de compromisso insustentável. Logo de início, o problema da guerra teve de ser abordado. Se os mencheviques russos diferiam da maioria dos socialistas europeus por argumentarem que a guerra devia ser encerrada sem vitória para nenhum lado, eles não tinham nenhum plano factível para interrompê-la, nem defendiam uma revolução socialista imediata. Sua posição refletia, de fato, uma genuína hostilidade popular à guerra, e em maio Miliukov e outros tiveram de deixar o Governo Provisório, pois queriam levar a guerra a um final vitorioso e o soviete não aceitava isso. Lvov organizou um novo governo com vários socialistas moderados, incluindo Kerenskii, que ficou encarregado do Exército e da Marinha e lançou uma nova ofensiva no fronte. Sovietes também foram formados em Moscou e outras cidades, no Exército e até em algumas regiões rurais. Eles representavam apenas trabalhadores, soldados e camponeses, não as classes médias ou altas. Reeleitos em intervalos de poucas semanas, os sovietes locais refletiam o humor popular muito de perto.

Em todas essas deliberações durante os primeiros meses da revolução, os bolcheviques continuaram minoria nos sovietes. Lenin ouviu falar da queda do tsar na Suíça e conseguiu retornar à Rússia através da Alemanha, tendo convencido o governo alemão de que ele era mais uma ameaça ao esforço de guerra da Rússia que ao da Alemanha. Ele viajou num trem cujas portas foram lacradas até que ele chegasse à Suécia neutra, e atravessou a Finlândia para chegar a Petrogrado em 3/16 de abril de 1917, onde recebeu as boas-vindas tumultuadas dos seus seguidores. Ele descobriu que os líderes bolcheviques, incluindo Stalin, haviam retornado do exílio e estavam começando a organizar-se. No entanto, todos eles careciam de uma ideia clara do que deveria ser sua plataforma. A de Lenin era absolutamente clara, tal como expressa nas “Teses de Abril”. A queda do tsar, ele escreveu, significava que a revolução burguesa, a qual o partido havia almejado em 1905, havia terminado. Naquele momento havia no país um poder dual, os sovietes junto com o Governo Provisório. O objetivo era agora a tomada do poder pelo proletariado com a meta de transformar a Rússia numa sociedade socialista. O instrumento dessa tomada seriam os sovietes, principalmente os de soldados e trabalhadores. A meta imediata dos bolcheviques era, portanto, obter uma maioria no soviete de Petrogrado e outros.

A história dos poucos meses seguintes é a da realização desse objetivo. Foi a situação da Rússia que a tornou possível, dado que o país inteiro entrou numa crise profunda. O colapso do antigo governo deixou pouca autoridade efetiva em seu lugar e grande parte dela estava acuada pela multidão revolucionária. Nas aldeias, os camponeses simplesmente tomaram as terras durante o verão. Em muitos lugares houve violência, mas no mais das vezes eles simplesmente ignoraram os proprietários nobres e começaram a arar os campos deles para uso próprio. Às vezes eles entravam nas mansões dos aristocratas e pediam-lhes educadamente que saíssem. Seja como for que tenha ocorrido, a tomada das terras pelos camponeses foi uma mudança cataclísmica na sociedade russa, que pôs fim em poucos meses a uma ordem social que durara séculos. A maioria dos nobres não eram mais senhores da terra, mas refugiados pobres nas grandes cidades. Nas cidades, os trabalhadores usaram sua liberdade recém-conquistada para exigir uma jornada de oito horas e salários mais altos, e para formar comités de fábrica que tentavam tomar o controle dos locais de trabalho.

Os partidos de esquerda saíram todos da clandestinidade e tentaram tornar-se organizações de massa. A época da clandestinidade revolucionária havia terminado. De início, os mais bem-sucedidos foram os SRs, com suas tradições de ação direta e apelo ao campesinato. Pela primeira vez, eles conseguiram realmente organizar números significativos de camponeses no seu partido, e seus seguidores oriundos da classe operária eram muito numerosos. Mas eles tinham um problema grave - a guerra. Mesmo antes de 1917, alguns SRs haviam se pronunciado contra a guerra, com uma posição muito próxima da de Lenin, mas continuavam a fazer parte do partido maior. À medida que a crise aprofundou-se no verão de 1917, a cisão ampliou-se. Os mencheviques, que sempre tiveram a esperança de formar um partido de massas em condições mais livres, beneficiaram-se enormemente com a nova liberdade. Quando os sovietes realizaram seu primeiro congresso de delegados de toda a Rússia em junho, os SRs e os mencheviques tinham quase 300 deputados cada, e os bolcheviques apenas pouco mais de 100. A moderação parecia triunfar, mas o clima mudou muito rápido.

 

Pela primeira vez, os bolcheviques estavam tornando-se também um partido de massas. Em vez de poucos milhares de revolucionários profissionais, o partido cresceu rapidamente até incluir 200 mil filiados, com concentração maior nas grandes cidades e especialmente em Petrogrado. A maioria esmagadora desses novos membros era composta de jovens operários, a maior parte deles com menos de 25 anos. À medida que mais e mais revolucionários retornavam do exterior, os bolcheviques também começaram a atrair dissidentes dos mencheviques, dos quais o mais importante foi Trotsky, cuja oposição à guerra levou-o a aderir a Lenin pela primeira vez. Trotsky era um orador poderoso e seus discursos eram uma arma capital para arregimentar as massas para o bolchevismo. Os novos membros transformaram o partido bolchevique, especialmente no nível das bases, cujo radicalismo veio à tona no início de julho. Os bolcheviques de Petrogrado organizaram uma manifestação armada que parecia estar assumindo ares de reivindicação do poder. O Governo Provisório, com apoio do soviete municipal, conseguiu reprimi-la e prender muitos líderes bolcheviques. Lenin fugiu para a Finlândia e Trotsky acabou preso. Em reação a esses eventos, Kerenskii sucedeu o príncipe Lvov no cargo de primeiro-ministro. Durante algumas semanas a onda revolucionária pareceu recuar, mas isso não durou. A guerra prosseguia, o descontentamento no Exército desdobrava-se num colapso gradual da disciplina e Kerenskii substituiu Brusilov pelo general Lavr Kornilov como comandante em chefe, esperando que Kornilov pudesse restaurar a ordem no Exército. A tarefa estava além dos seus poderes. A rede de transportes do país, já enfraquecida pela guerra, começou a ruir, assim como muitas indústrias e serviços essenciais. Nas cidades, os sovietes organizaram os Guardas Vermelhos, que contribuíam tanto para a desordem quanto para a ordem. As organizações e grupos revolucionários “expropriaram” prédios para uso próprio, dos quais o exemplo mais famoso foi a tomada pelo soviete de Petrogrado dos edifícios do Instituto Smolnyi em Petrogrado, a escola aristocrática de meninas fundada pela imperatriz Elizabete. Ela passou a servir de quartel-general bolchevique. Para as classes média e alta, foi o começo da anarquia; para os trabalhadores, era a aurora de um novo mundo, caótico, mas que lhes pertencia. Discussões e reuniões intermináveis tumultuavam ainda mais o trabalho das fábricas, mas também formavam um eleitorado para reivindicações cada vez mais radicais. A vida em Petrogrado era febril, e nas províncias só um pouco mais calma. Moscou e todas as cidades e povoados com algum tipo de indústria fervilhavam com reuniões, discursos e manifestações. Nos extremos do país,  surgiram movimentos nacionalistas com exigências de autonomia. Em Kiev, grupos de intelectuais nacionalistas e ativistas partidários proclamaram-se a Rada ucraniana (conselho) junto com o Governo Provisório e os sovietes locais. Outros grupos foram formados no Báltico e no Cáucaso, embora nenhum deles ainda defendesse uma independência efetiva.

Os dias de julho haviam posto um entrave na organização bolchevique e sua ascensão à primazia entre os trabalhadores. Então, no final de agosto, o general Kornilov avançou sobre a capital com o Corpo de Cavalaria de Montanha, composto de povos muçulmanos do Cáucaso setentrional (chechenos e circassianos), a fim de restaurar a disciplina e a ordem no país. Diante desse desafio, Kerenskii teve de recorrer ao soviete de Petrogrado, que armou os trabalhadores. Os bolcheviques haviam ganhado força desde os dias de julho. Agora eles eram cruciais para derrotar Kornilov, e seus líderes saíram da cadeia novamente para a liberdade. A incapacidade de Kerenskii de defender a revolução por si mesmo foi o último golpe contra o seu poder e, a partir da derrota de Kornilov em 1/14 de setembro, o Governo Provisório só fez derivar. O foco da ação havia sido transferido para os sovietes. Durante o episódio de Kornilov e logo depois dele, os bolcheviques finalmente obtiveram a maioria nos sovietes de Petrogrado e Moscou. Conforme as semanas avançavam e a crise económica e militar continuava a piorar, outro Congresso dos Sovietes foi organizado, mais uma vez com delegados do país todo. Nele as divisões do partido SR desempenhariam um papel decisivo, dado que os bolcheviques haviam ganhado claramente a maioria dos trabalhadores da cidade, mas nas aldeias eles não tinham nenhuma organização. A ala esquerda do partido SR, cada vez mais radicalizada pela revolução, exigia um fim imediato para a guerra e estava pronta para aderir aos bolcheviques. Em 10/23 de outubro, Lenin retornou de seu esconderijo na Finlândia e reuniu os líderes bolcheviques. Com o apoio de Trotsky e Stalin, ele superou os pessimistas na liderança, Zinoviev e Kamenev, e o Comité Central bolchevique votou a tomada do poder. Com os votos dos SRs de esquerda, os bolcheviques capturaram a liderança do Congresso dos Sovietes e, em 25 de outubro/7 de novembro de 1917, os Guardas Vermelhos avançaram sobre o Palácio de Inverno para desalojar o Governo Provisório. Restavam somente poucas centenas de defensores no palácio, oficiais cadetes e o “Batalhão da Morte Feminino”, uma unidade formada principalmente de mulheres de classe média para lutar na guerra. A um sinal do cruzador naval Aurora, ancorado no rio Neva, vários milhares de Guardas Vermelhos andaram rapidamente através do frio outonal e tomaram o palácio com um mínimo de tiros e feridos. As tentativas de saquear a adega e os numerosos tesouros do palácio foram logo reprimidas e os ministros do Governo Provisório foram escoltados para a prisão na Fortaleza de São Pedro e São Paulo. Kerenskii escapou para o sul num carro da embaixada dos Estados Unidos numa vã tentativa de angariar apoio no fronte.

Ao contar com a maioria no Congresso dos Sovietes, os bolcheviques e os SRs de esquerda tomaram o poder e proclamaram a Rússia uma república socialista e soviética. Os mencheviques e os SRs de direita deixaram o Congresso em protesto enquanto Trotsky relegou-os ao “monturo da história”. A primeira ação dos Vermelhos foi organizar o novo governo. O Congresso dos Sovietes elegeu um governo de Comissários do Povo com Lenin à sua frente e Trotsky como comissário do povo para Relações Exteriores. As outras posições ficaram com bolcheviques e SRs de esquerda de destaque. Entre estes últimos, o mais significativo era Joseph Stalin como comissário das nacionalidades. Trotsky foi para o Ministério das Relações Exteriores, na Ponte dos Cantores perto do Palácio de Inverno, apagou as luzes e mandou todo mundo ir para casa. Pelos próximos poucos meses, ele geriu a política externa de um pequeno escritório no Instituto Smolnyi.

O novo governo soviético chegou ao poder com amplo apoio dos trabalhadores e intensa oposição das velhas classes altas, das classes médias e da intelligentsia. Essas divisões refletiam-se na Assembleia Constituinte que se reuniu em 5/18 de janeiro de 1918. Convocadas pelo Governo Provisório, as eleições para a Assembleia haviam ocorrido no outono, antes e depois da tomada do poder pelos bolcheviques. Nas cidades, os bolcheviques desbarataram os socialistas moderados (SRs e mencheviques), deixando os Kadets, cada vez mais conservadores e nacionalistas, como o segundo partido urbano. No campo, porém, os SRs obtiveram o maior número de votos, embora a maioria dos candidatos não tivesse declarado se apoiava a esquerda ou a direita, o que confundia o resultado. A Assembleia reuniu-se por cerca de 13 horas, depois do que a guarda bolchevique de marinheiros Vermelhos simplesmente mandou os deputados irem para casa. Eles obedeceram. Poucos dias depois, um outro Congresso de Deputados Soviéticos proclamou o novo Estado, a República Socialista Federativa Soviética da Rússia, com declarações altissonantes dos direitos dos trabalhadores, camponeses e minorias nacionais.

 

Guerra civil e poder dos sovietes

A essa altura, a guerra civil já havia começado, pois grupos de oficiais militares na Rússia meridional reuniram-se para organizar a resistência ao novo governo, e o descontentamento crescia entre os cossacos do Don. O líder cossaco Kaledin formou um governo cossaco improvisado no Don e os Vermelhos logo avançaram contra ele. Ao longo de toda a guerra civil, os cossacos seriam a fundação da resistência ao poder soviético. Eles viviam nas bordas meridional e oriental da Rússia, e já não eram mais os rebeldes do século XVIII. Eles combinavam a agricultura camponesa com o serviço militar e, com a posse garantida de suas terras, representavam os servidores mais leais do tsar desde os anos 1790. As hostes maiores e mais prósperas dos cossacos ficavam no Don, e ali ocorria a resistência mais feroz à nova ordem. Ao mesmo tempo, os intelectuais nacionalistas na Rada de Kiev declararam-se o poder supremo da Ucrânia. Um fronte cossaco-ucraniano parecia estar se formando contra os Vermelhos no Sul. Um ajuntamento disparatado de Guardas Vermelhos e marinheiros foi suficiente para derrotar os cossacos do Don e a Rada em janeiro de 1918. Enquanto isso, o caos espalhava-se pelo país, junto com episódios de resistência em outros lugares. No final de dezembro de 1917, para conter essas ameaças, as autoridades soviéticas formaram a Cheka, a Comissão Extraordinária para a Luta contra o Banditismo e a Contrarrevolução, uma organização que combinava funções de polícia de segurança com uma espécie de Exército político. Seu primeiro chefe foi um comunista polonês, Felix Dzerzhinskii, incorruptível e implacável.

A rápida derrota da oposição aos bolcheviques não significava que a ordem havia retornado. A guerra havia arruinado a economia russa. A inflação estava fora de controle, as redes de transporte e a distribuição de alimentos vinham entrando em colapso. O aquecimento e a energia elétrica desapareceram em Petrogrado e noutras grandes cidades e os trabalhadores começaram a retornar às suas aldeias nativas quando podiam. Na antiga capital do Império Russo, as luzes apagavam-se nos grandes palácios, a nobreza fugiu para o sul em busca de calor e comida, junto com grande parte da intelligentsia e das classes médias. À medida que o Exército se desintegrava, milhões de soldados atulhavam os trens ao ir para casa, levando consigo rifles e granadas de mão. Gangues criminosas aterrorizavam muitas cidades. As primeiras medidas dos bolcheviques só aceleraram a desintegração, pois o novo governo começou a construir o novo Estado socialista em meio ao caos. Os trabalhadores interpretavam amiúde que o socialismo significava que eles deviam expulsar fisicamente os proprietários e gerentes das fábricas, bem como eleger comités de trabalhadores para administrar as usinas. Esses comités não tinham meios para obter suprimentos ou distribuir os produtos e, no caos social geral, a disciplina do trabalho ruiu. Era um círculo vicioso. Os bolcheviques toleraram isso por vários meses, como parte da necessidade de dissolver a velha ordem, mas na primavera de 1918 a economia em frangalhos e as necessidades da guerra civil forçaram-nos a voltar atrás e começar a nomear administradores únicos, antigos trabalhadores ou ativistas do partido, para gerir as fábricas. Em tese, esses gerentes Vermelhos eram responsáveis perante o recém-criado Conselho Supremo da Economia e os diversos Comissariados do Povo (Indústria, Comércio, Agricultura, Trabalho, Abastecimento). Esse foi o embrião do Estado soviético.

Por enquanto, a prioridade dos bolcheviques era a mera sobrevivência. O primeiro ponto da ordem do dia em novembro de 1917 era a guerra e, imediatamente após a revolução bolchevique, o novo governo proclamou uma trégua com a Alemanha e seus aliados e abriu as negociações. Trotsky foi para Brest-Litovsk na fronteira polonesa, agora sob ocupação alemã, para tentar conclamar a paz. As exigências alemãs eram exorbitantes e Trotsky vacilava, proclamando que a política correta era “nem a guerra nem a paz”. Os alemães responderam com uma ofensiva maciça que ocupou toda a Ucrânia, a Bielorrússia e as províncias bálticas. Os nacionalistas locais proclamaram sua independência da Petrogrado vermelha, mas os Exércitos do Kaiser não lhes deram atenção. Os alemães instalaram um regime fantoche em Kiev com o general russo Pavel Skoropadskii, um ex-adido do tsar que havia repentinamente descoberto suas raízes ucranianas, como seu instrumento. Os Guardas Vermelhos eram uma força demasiado amadora e, por conseguinte, os bolcheviques formaram um Exército de verdade, o Exército Vermelho dos Operários e Camponeses, mas o novo exército não conseguiu frear os alemães. O governo mudou-se para Moscou, mais longe das linhas alemãs. Mesmo assim, alguns líderes comunistas, especialmente Nikolai Bukharin, e os SRs de esquerda queriam continuar a travar uma “guerra revolucionária”. Lenin percebeu que era loucura e convenceu a liderança a acatar as condições alemãs. A paz veio em março, com a perda de todos os territórios ocidentais para a Alemanha e a Áustria, mas era a paz e o Kaiser reconheceu a República vermelha. Os SRs de esquerda renunciaram em protesto, deixando os bolcheviques inteiramente encarregados do novo Estado.

O fiasco de Brest-Litovsk incentivou a oposição aos Vermelhos no Sul. As áreas cossacas meridionais ergueram-se novamente em revolta, dessa vez aliadas ao Exército de Voluntários do general Mikhail Alekseev, formado por oficiais do antigo Exército. No Don, o novo Exército Vermelho conseguiu repelir os Brancos, que fugiram para o Sul em direção ao rio Kuban, mas logo surgiram outros problemas. Combates acirrados começaram em maio de 1918, numa região totalmente diferente do país, após as ações da Legião Tcheco-Eslovaca. A Legião Tcheco-Eslovaca tinha sido formada sob o tsar e era composta de prisioneiros de guerra, ex-soldados austro-húngaros de nacionalidade tcheca e eslovaca, para auxiliar os Aliados contra a Áustria e a Alemanha. Depois da paz soviética com a Alemanha, eles queriam continuar a lutar, e o novo governo permitiu que eles deixassem o país através da Sibéria até o Japão e os Estados Unidos para poderem continuar a guerra na França. Uma série de choques com autoridades soviéticas locais fez com que eles tomassem o controle das linhas férreas da Rússia europeia até o oceano Pacífico. Em Samara, em junho, protegidos pelos tchecos, alguns deputados SR da Assembleia Constituinte dispersada formaram um governo que tentou dar seguimento às práticas da democracia parlamentar. Ele também conseguiu arregimentar um “Exército do Povo” que avançou em direção a Moscou contra os Vermelhos.

Para Lenin e os bolcheviques, era uma verdadeira crise, agravada pela revolta dos seus aliados recentes, os SRs de esquerda. Fora do poder e enfurecidos pela paz com a Alemanha, os SRs de esquerda tentaram uma revolta em Moscou, assassinando nesse ínterim o embaixador alemão. Revoltas semelhantes aconteceram em outras cidades russas, todas reprimidas com rapidez, mas indicativas de oposição séria ao novo governo. No entanto, a principal ameaça era a Legião Tcheco-Eslovaca e seus aliados russos, que vinham do leste, e o periclitante Exército Vermelho, formado de milícias mal treinadas com oficiais inexperientes, bateu em retirada. Foi o momento em que Trotsky mostrou pela primeira vez sua têmpera de comandante militar, assim como seu caráter impiedoso ao impor ordem e disciplina. Ele recorreu intensamente aos oficiais do antigo Exército do tsar e manteve suas famílias como reféns para garantir sua lealdade. Além disso, os comissários políticos nomeados para cada unidade militar deviam manter e inspirar credibilidade. Oficiais que fracassaram, comissários e simples soldados foram fuzilados às centenas a mando de Trotsky. Com essa nova organização, o Exército Vermelho recapturou as cidades do Volga e repeliu de volta para os Urais o Exército do Povo, que se desintegrava rapidamente.

Essas crises selaram o destino do ex-tsar Nicolau e sua família. Sua presença em Tobolsk, na Sibéria, para onde o Governo Provisório havia-os enviado, era próxima demais dos centros emergentes de resistência, e por isso os Vermelhos levaram-nos para Ekaterinburg, nos Urais. Em julho  de 1918, diante da aproximação dos Brancos, os soviéticos ordenaram que a família imperial fosse executada, o fim derradeiro da dinastia Romanov, que havia governado a Rússia por três séculos. A casa onde eles viveram e foram mortos permaneceu despercebida durante décadas até 1977, quando um chefe excessivamente zeloso do Partido Comunista, Boris Yeltsin, mandou deitá-la por terra. Enquanto isso, em Moscou, Lenin foi alvo dos tiros de um assassino no final de agosto. A reação da Cheka foi declarar o Terror Vermelho, prendendo milhares de pessoas das classes média e alta. Algumas foram executadas imediatamente, outras mantidas como reféns contra futuras tentativas.

No outono de 1918, o novo Exército Vermelho retomou a maior parte do Volga e dos Urais e o Exército do Povo esfacelou-se. Mais para leste, em Omsk, na Sibéria, outro Exército Branco havia surgido, composto de cossacos siberianos e unidades formadas por ex-oficiais imperiais determinados a combater os Vermelhos. Em novembro, o almirante Alexander Kolchak tomou o poder como governante supremo da Rússia e dissolveu os resquícios da liderança SR da Assembleia Constituinte. Kolchak também fuzilou muitos SRs, bem como quaisquer outros bolcheviques ou ativistas de esquerda que conseguiu encontrar. Kolchak era um ditador militar e não haveria mais brincadeiras com democracia. Ademais, um novo elemento estava entrando em jogo, pois a Primeira Guerra Mundial terminou em 11 de novembro e delegados aliados, britânicos, franceses, norte-americanos e japoneses, chegaram em Omsk. Os aliados também eram favoráveis à ditadura, e logo mobilizaram-se para apoiar Kolchak como líder da oposição ao bolchevismo.

Se Kolchak era o líder supremo titular, seu Exército Branco não era o único em campo. Depois que os Vermelhos retomaram o Don no início de 1918, o Exército de Voluntários havia se deslocado para o sul durante o inverno para estabelecer-se no Kuban. A morte de Alekseev e do seu substituto Kornilov (da tentativa de putsch de 1917) numa rápida sucessão levou à ascensão do general Anton Denikin como comandante supremo do Exército de Voluntários no Sul. Enquanto Trotsky estava ocupado no Volga, Denikin resistiu, e no Don os cossacos ergueram-se novamente mais para o final de 1918. Com apoio secreto dos alemães, eles tentaram avançar para o norte e leste. Eles ainda eram fracos demais para vencer a resistência Vermelha, mas mesmo assim conseguiram isolar grande parte das áreas cruciais de produção de cereais e, se cruzassem o Volga, eles teriam uma chance remota de unir-se a Kolchak. Em Tsaritsyn, no Volga, os cossacos e os Brancos estavam diante de Joseph Stalin, enviado de início apenas para organizar as entregas de cereais, mas que logo assumiu o controle do aparato militar e revigorou a resistência. Seu aliado entre os soldados era Kliment Voroshilov, que havia fugido para leste com uma milícia disparatada de trabalhadores do Donbas escapando do avanço alemão. Stalin e Voroshilov também estavam descontentes com a política de Trotsky de uso intensivo de oficiais profissionais do Exército do tsar, mas Lenin apoiava Trotsky nesse ponto e eles tiveram de recuar. Unidades Vermelhas comandadas por oficiais profissionais foram decisivas para defender a linha, mas em Tsaritsyn o Comissário das Nacionalidades teve sua primeira experiência bélica. Os cossacos não cruzaram o rio e Kolchak estava milhares de quilómetros a leste, impossibilitado de juntar-se a eles.

Atrás de todas essas linhas de frente, os Vermelhos começaram a construir uma utopia. Enquanto o marxismo oferecia uma análise detalhada do capitalismo e do caminho projetado para a revolução proletária, esse não oferecia quase nada além de generalidades sobre o socialismo. O agravamento da crise de abastecimento causado pelo caos crescente e pela tomada da Ucrânia pelos alemães levara à proclamação da “ditadura da comida” em maio de 1918. Sob o Comissariado do Povo para o Abastecimento, destacamentos armados foram para o campo arrebanhar o “excedente” de cereais a preços fixos pré-revolucionários, ou simplesmente o confiscavam. A ideia era desencavar os estoques supostamente retidos pelos kulaks e comerciantes com a ajuda dos camponeses pobres organizados em comités, mas na realidade era difícil fazer a distinção entre os camponeses, e as medidas afetavam toda a sociedade rural. A hiperinflação contínua e o desaparecimento do dinheiro agravaram o colapso económico em curso, e os Vermelhos instituíram o racionamento e um sistema de cooperativas para distribuir alimentos e bens de consumo.

No início de 1919, as autoridades soviéticas formalizaram o sistema de entregas obrigatórias de cereais, a ser complementado por uma alocação centralizada de bens de consumo aos camponeses. Cerca de 60 mil homens foram mobilizados num “exército alimentar” para arrancar cereais dos agricultores. Os camponeses reagiram reduzindo o tamanho de suas culturas, o que mergulhou as cidades numa crise ainda mais profunda. Essas novas medidas, que eram em parte produto da ideologia e em parte da necessidade de guerra, duraram toda a guerra civil. Os bolcheviques sempre foram hostis aos mercados, e o colapso dos transportes e o caos geral romperam os laços normais de mercado. Essa situação deu-lhes a oportunidade de instituir esquemas utópicos de distribuição por meio da alocação central de produtos. Praticamente todas as fábricas e todo o comércio foram nacionalizados. Pequenas lojas de varejo desapareceram, enquanto os municípios soviéticos tentavam criar grandes fábricas municipais de pão em vez de pequenas padarias de bairro, o que agravava a situação alimentar. Foi esse sistema que ficou conhecido como “comunismo de guerra”. A realidade logo interveio, pois as autoridades soviéticas locais violavam regularmente as regras, e a impossibilidade de um controle central pleno levou as maiores fábricas e até o Exército Vermelho a criar seus próprios sistemas de aquisição de alimentos, incluindo uma quantidade substancial de fazendas operadas pelas fábricas e pelo Exército. Os únicos mercados remanescentes eram os mercados de pulgas e o mercado negro, que tornavam a simples sobrevivência mais fácil para grande parte da população urbana. As novas instituições económicas centrais eram incapazes de implementar seus esquemas, pois não se tratava de estruturas burocráticas sofisticadas, mas sim de pequenos escritórios onde trabalhavam antigos ativistas revolucionários sem nenhuma   experiência relevante, assistidos por alguns engenheiros ou economistas e dos trabalhadores mais qualificados.

O Estado soviético emergente era também um partido-Estado, visto que o partido bolchevique aumentou de tamanho para mais de 300 mil membros no início de 1919. Esses homens e mulheres eram o quadro do novo Estado. Os mencheviques e SRs remanescentes foram eliminados da vida política até o final de 1918, e as novas instituições exigiam funcionários leais para administrá-las. O próprio partido tornou-se mais centralizado, especialmente com o estabelecimento do Politburo (Escritório Político) acima do Comité Central em 1919. O novo Politburo incluía somente Lenin, Kamenev, Trotsky, Stalin e Nikolai Krestinskii como membros plenos; Zinoviev, Bukharin e Mikhail Kalinin foram incluídos como candidatos. Esse era o núcleo da liderança bolchevique. Zinoviev era filho de fazendeiros leiteiros judeus da Ucrânia e fora próximo de Lenin nos anos de exílio europeu. Depois que o governo mudou-se para Moscou em 1918, Zinoviev chefiou a organização do partido em Petrogrado, administrando de fato a cidade até 1926 e, ao mesmo tempo, liderando a nova Internacional Comunista. Lev Kamenev era filho de um trabalhador ferroviário judeu, mas tinha tido alguma educação universitária e era casado com a irmã de Trotsky. Após 1917, ele atuou como suplente de Lenin e administrou a organização do partido em Moscou. Bukharin, o melhor educado dos bolcheviques depois de Lenin, tinha algo de teórico marxista e havia passado algum tempo na Europa Ocidental e brevemente nos Estados Unidos. Ele era um pouco mais jovem que os outros e pessoalmente popular no partido. Como Lenin, ele também era um russo genuíno, tal como Krestinskii e Kalinin, que eram figuras menores. Krestinskii serviu como comissário de Finanças, enquanto Kalinin, o único operário do grupo e até nascido numa família camponesa, chefiava o Comité Executivo Central dos Sovietes - em outras palavras, ele era tecnicamente o chefe de governo. Todos eles compartilhavam, incluindo Stalin, sólidas credenciais de bolchevismo inabalável. Trotsky, em contrapartida, era um ex-menchevique exuberante que mal se encaixava no grupo.

A pessoa crucial na totalidade do partido e do governo era Lenin. Até 1917 ele havia passado sua vida como organizador e jornalista revolucionário, produzindo montanhas de artigos para explicar sua posição e denunciar seus adversários. Ele também era mais intelectual que os outros, como mostram seus escritos sobre filosofia e a economia do imperialismo. Nessas questões, somente Bukharin se aproximava dele. Como orador ele era claro e capaz de comover uma plateia, mas não no nível de Trotsky ou Zinoviev.

 

Ao tomar o poder em 1917, ele provou ter capacidades políticas e administrativas muito superiores às da maioria dos seus camaradas, assim como uma vontade poderosa e a capacidade de tomar decisões. Ele absorveu-se rapidamente nos detalhes do governo, incluindo a miríade de problemas económicos que surgiram quando os bolcheviques nacionalizaram a economia. Ele tentou e, em grande parte, conseguiu impor à liderança do partido um espírito de trabalho de equipe, fazendo que camaradas belicosos e muitas vezes arrogantes trabalhassem juntos. Quando ele defendia sua posição pessoalmente, conseguia convencer seus adversários sem menosprezá-los (o que já não acontecia com suas polêmicas escritas). Ainda que todos os outros líderes por vezes discordassem dele, ele continuava a ser o líder incontestado do partido, e portanto do Estado.

Essa liderança altamente eficaz controlava um aparato estatal muito imperfeito, mas tinha, além do partido, outros instrumentos de poder. O Exército Vermelho possuía um contingente de 5 milhões ao final da guerra civil, mas os “exércitos trabalhistas” representavam grande parte da sua força teórica e ele assumia muitas funções económicas, fornecendo cavalos para a lavoura e restaurando o serviço ferroviário. A Cheka garantia a segurança interna, eliminava adversários ativos e potenciais e tentava reprimir o número crescente de bandos criminosos nas cidades. Havia cerca de 25 mil pessoas na Cheka ao final da guerra civil, mas ela também controlava mais de 100 mil soldados de segurança interna, infantaria e cavalaria. O partido, o Exército e a Cheka tornaram possível a vitória vermelha, mas não podiam conter a crise económica que se agravava e a anarquia que se alastrava. O quase colapso do transporte ferroviário implicava que as cidades setentrionais só podiam ser abastecidas com grande dificuldade. Petrogrado sofreu particularmente, pois perdeu cerca de três quartos da sua população em 1920. Com a mudança do governo para Moscou, os Vermelhos evacuaram uma série de fábricas estratégicas junto com seus trabalhadores e equipamentos, e centenas de milhares de trabalhadores foram trabalhar em Moscou e aderiram ao aparato do partido, à Cheka ou ao Exército Vermelho. Muitos simplesmente foram para seus lares em suas aldeias nativas à procura de comida, ambiente aquecido e trabalho. À medida que a ordem desmoronava, as doenças começavam a espalhar-se. Tifo, gripe e outras moléstias tornaram-se epidêmicas.

A primavera de 1919 trouxe vida nova para os movimentos Brancos. O fim da guerra na Europa em novembro de 1918 implicou a retirada das tropas alemãs dos territórios ocidentais. Nas províncias bálticas e na Ucrânia, os nacionalistas locais declararam independência dos bolcheviques, mas o Exército Vermelho logo devolveu o poder aos soviéticos. Os Vermelhos expulsaram o Diretório nacionalista ucraniano de Kiev. Diante da aproximação das Forças Vermelhas, o exército de camponeses do Diretório simplesmente evaporou-se. Guiados pelo seu líder militar Semyon Petliura, os nacionalistas ucranianos deslocaram-se para oeste, executando um massacre feroz dos judeus em Proskurov em seu caminho. Kolchak manteve a Sibéria e os Urais e Denikin avançou para o norte durante a primavera, tomando o Donbas, grande parte da Ucrânia e a Rússia meridional. Denikin conseguiu chegar até Orei, avançando muito atrás das linhas Vermelhas com grupos substanciais de cavalaria. A mobilidade da guerra civil valorizava a cavalaria, e os cossacos e oficiais de cavalaria do antigo Exército eram um desafio formidável. Os Vermelhos reagiram com o Primeiro Exército de Cavalaria de Semen Budennyi, formado em meio às batalhas contra Denikin, que era inicialmente um bando disparatado de homens mal disciplinados adestrados na marra pelo carisma de Budennyi. Em julho, a mobilização em massa dos Vermelhos permitiu-lhes enviar Exércitos substanciais contra Denikin e freá-lo. Atrás de suas linhas na Ucrânia meridional, um novo Exército surgiu aparentemente do nada, o Exército anarquista de Nestor Makhno, um ex-sargento do Exército Imperial russo e um líder de guerrilha nato. Makhno destroçou as comunicações de Denikin e, com os Vermelhos empurrando-o do norte, ele teve de bater em retirada.

Denikin era um general consumado, mas essa era uma guerra política. Os governos Brancos eram ditaduras militares com ministros civis recrutados entre antigos liberais para dar-lhes um mínimo de credibilidade. Sua política social estava fadada a desagradar as massas, pois eles opunham-se não somente aos Vermelhos, mas também a qualquer coisa que os trabalhadores vissem como conquistas da revolução. Nas cidades, somente as classes média e alta os apoiavam. Os massacres de judeus eram frequentes. No campo, sua política favorecia inevitavelmente os proprietários nobres contra os camponeses e não podia explorar o antagonismo rural às medidas bolcheviques. Para piorar as coisas, os governos Brancos financiavam suas operações imprimindo dinheiro, e os camponeses relutavam em vender cereais em troca de uma moeda sem valor. Tal como os Vermelhos, os Brancos recorreram ao confisco de cereais. Como nas áreas sob controle Vermelho, os camponeses reduziram sua agricultura à subsistência, o que gerou escassez de alimentos nas regiões agrícolas mais ricas no campo, na Sibéria Ocidental e no Sul. Conforme a resistência a eles aumentou, os Brancos só podiam reagir com repressão, e as cidades que os Brancos ocuparam presenciaram execuções em massa. Atrás das linhas Brancas na Sibéria e na Ucrânia, os camponeses formaram bandos armados para confrontar os Brancos. Não somente Makhno, mas também centenas de bandos camponeses focados apenas em preservar seu próprio território impediram que os Brancos tivessem controle efetivo do campo.

Nem a intervenção estrangeira pôde salvar os Brancos. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, os Aliados tinham livre acesso à Rússia pelo mar Negro e por outros lugares, mas a exaustão da guerra implicava que, na prática, eles podiam oferecer pouca coisa em termos de soldados. O Japão enviou cerca de 60 mil para a Sibéria como parte de um plano para tomar controle do território russo (indispondo assim os Estados Unidos), mas as outras potências enviaram menos tropas. Uma breve intervenção em Odessa e outras cidades meridionais em 1919 terminou após alguns meses apenas, apesar de a Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos continuarem a enviar armas. Elas não serviram para muita coisa, pois os gargalos de transporte (especialmente na Sibéria) seguravam os suprimentos nos portos e a corrupção generalizada fazia que armas e munição terminassem muitas vezes nas mãos dos Vermelhos. Para piorar as coisas, os oficiais que formavam o núcleo do movimento Branco eram intensamente patrióticos e muitos ficaram ofendidos com a necessidade de recorrer a Exércitos estrangeiros. A intervenção enfraquecia o moral tanto quanto o reforçava.

No outono de 1919, os Vermelhos empurraram as tropas de Kolchak de volta para a Sibéria, as primeiras vitórias do futuro marechal soviético M. N. Tukhachevskii, um oficial da guarda aristocrático que se tornara adepto da revolução. O Exército Vermelho finalmente derrotou Kolchak, capturou-o e executou-o em Irkutsk, na Sibéria. Houve outra tentativa de vitória Branca: o general Yudenich, o vencedor de Erzurum em 1916, liderou uma expedição que partiu da Estónia em direção a Petrogrado. Zinoviev pensou que a cidade era indefensável, opinião com a qual Lenin concordou. Trotsky e Stalin objetaram veementemente e convenceram Lenin a deixá-los defender a cidade. Eles correram para o norte em direção a Petrogrado, e Trotsky montou pessoalmente a cavalo para incentivar as tropas. Em outubro de 1919, Yudenich começou a retirada de volta para a Estónia. No Sul, Denikin abandonou o comando no início de 1920 e partiu para o exílio. O restante do Exército Branco retirou-se para a Crimeia e formou um novo Exército e governo sob o comando do barão Peter Wrangel. Nessa altura, o novo Estado polonês invadiu a Ucrânia. O objetivo dos poloneses era conquistar as terras detidas pela Polónia antes das partições do século XVIII e, para tanto, eles aliaram-se  a Petliura, que assim desacreditou-se mais ainda junto ao campesinato ucraniano, para quem os poloneses eram apenas proprietários rurais nobres e, portanto, seus inimigos. O Exército Vermelho reposicionou-se para oeste para conter a nova ameaça, mobilizando cerca de meio milhão de soldados. Lenin estava convencido de que os Vermelhos deviam ir até Varsóvia, na tentativa de ajudar a espalhar a revolução na Europa, bem como de derrotar os poloneses. Trotsky tinha dúvidas. O Exército Vermelho, levado até diante de Varsóvia pelo brilhante mas errático Tukhachevskii, avançou longe demais para oeste numa tentativa de cercar a cidade. Abriu-se um imenso buraco nas linhas Vermelhas, mas os soldados Vermelhos mais ao sul liderados por Budennyi, com Stalin como comandante político, retardaram o avanço em direção ao norte para ajudar a tapar o buraco. Os poloneses, com aconselhamento e armas francesas, acorreram para o norte numa manobra de simplicidade brilhante a fim de cercar as tropas de Tukhachevskii. Os Vermelhos retiraram-se bem para leste, no que foi sua maior derrota na guerra civil, e celebraram a paz com a Polónia. O tratado estabeleceu uma fronteira que deu à Polónia vastas áreas da Bielorrússia Ocidental e da Ucrânia, mas não as principais cidades, Kiev, Odessa e Minsk.

No momento crítico da guerra contra a Polónia, o barão Wrangel havia avançado sobre a retaguarda Vermelha vindo da Crimeia. Agora ele era a única força hostil que sobrava em campo contra os bolcheviques. No final de 1920, o Exército Vermelho atravessou o istmo e penetrou na Crimeia com a ajuda dos irregulares de Makhno, e a causa Branca estava acabada. Os últimos refugiados, soldados e civis evacuaram as cidades meridionais sob os canhões da Marinha britânica, numa cena caótica que marcou o final derradeiro da velha Rússia.

A revolução e a guerra civil foram sobretudo um acontecimento russo, mas que teve efeitos profundos para as várias nacionalidades que compunham a periferia deste Império. Na Polónia, o nacionalismo superou as distinções de classe e o socialismo, e a transição para um governo independente foi (internamente) bastante suave. Na Finlândia, uma cruenta guerra civil em 1918 entre os social-democratas locais e os Brancos levou à vitória Branca depois que o Kaiser enviou uma força expedicionária para auxiliar o barão Gustav Mannerheim, um antigo general imperial russo. Nas províncias bálticas, o colapso da ocupação alemã também levou à guerra civil, pois Riga, em particular, possuía uma classe operária grande e muito radical. A Grã-Bretanha, contudo, via o Báltico como esfera de influência sua e transportou soldados Freikorps, paramilitares nacionalistas alemães de direita, em 1919 para expulsar os Vermelhos. Depois os britânicos instalaram um governo nacionalista no seu lugar e expulsaram os Freikorps também. Os Vermelhos do Báltico foram para o exílio na Rússia soviética, proporcionando em especial um componente capital para a Cheka e o Exército Vermelho. Na Ucrânia, a tarefa dos Vermelhos foi facilitada pelo fato de que todas as cidades eram de língua russa. A maior minoria urbana era judaica, não ucraniana, e o movimento nacionalista local era uma pequena camada de intelectuais que tentavam liderar o campesinato. Seus exércitos eram totalmente desorganizados e, além disso, eles hesitavam em ser claros sobre a questão da terra, crucial para os camponeses. Os Vermelhos liquidaram-nos com facilidade.

No Cáucaso, os Vermelhos também foram vitoriosos. O tratado de Brest-Litovsk levara à ocupação turco-alemã do Cáucaso, e o fim da guerra acarretou sua retirada. Os Vermelhos tentaram fazer uma revolução na sequência, mas os partidos nacionalistas locais tomaram o poder com auxílio dos britânicos. Como a Grã-Bretanha estava atarefada ocupando o Oriente Médio próximo, ela tinha poucos recursos sobrando, e os governos locais foram deixados à própria sorte. Em 1920, o Exército Vermelho avançou para o sul sob o comando do conterrâneo georgiano e amigo próximo de Stalin, Sergo Ordjonikidze, e tomou Baku. O pequeno Exército azeri era liderado principalmente por oficiais turcos, que agora eram adeptos da resistência de Kemal Ataturk às potências ocidentais na Anatólia e saudaram os Vermelhos como aliados. Ademais, Baku era uma cidade de maioria não azeri, mas russa, georgiana e arménia, uma população atraída pelo petróleo para uma cidade que era em grande parte europeia. Os Vermelhos tinham muitos aliados. Eles agiram rapidamente para afastar os nacionalistas arménios e, poucos meses depois, foi a vez dos mencheviques georgianos. Surgiu uma nova república soviética, a Federação Transcaucasiana, que congregava toda a região sob um mesmo governo. Na Ásia Central, a resistência aos Vermelhos terminou em 1922, e os japoneses acabaram sendo persuadidos a retirar-se da Sibéria Oriental, de forma que em todo lugar, menos a oeste, as antigas fronteiras foram restabelecidas.

A nova Rússia soviética que se formou fora devastada por anos de guerra e revolução, e sua economia estava em frangalhos. Talvez 1 milhão de homens haviam morrido nos numerosos frontes da guerra civil e (as estimativas variam) 5 ou 6 milhões de civis - a maior parte deles de tifo e outras doenças epidêmicas, seguidas pela fome. Execuções e represálias em massa por todos os lados foram responsáveis pelo restante da mortandade. Cerca  de 1 ou 2 milhões de russos, incluindo grande parte das velhas classes altas e da intelligentsia, deixou o país para nunca mais voltar. Os transportes e a produção estavam paralisados. Por enquanto, os soviéticos mantinham a política de comunismo de guerra e mobilizavam os Exércitos de Trabalho sob Trotsky para reparar os danos. Essa política não era viável e a resistência à nova ordem cresceu por todo o país. Lenin percebeu que algum tipo de compromisso era necessário, uma política económica que proporcionasse espaço suficiente para que a população, particularmente o campesinato, trabalhasse sem direção do Estado. Esse compromisso viria a ser chamado de Nova Política Económica e inaugurou uma era inteiramente nova na história da Rússia soviética e dos outros Estados soviéticos sob o domínio do Partido Comunista.

 

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CIVILIZAÇÃO
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O Deserto Oriental na época dos faraós

A leste do Egito existiam várias fontes importantes de minerais. A que se situava mais ao norte era o Sinai, que fornecia turquesas, extraídas pelos Egípcios desde a 3ª dinastia até ao fim do Novo Império, mas não mais tarde (teve-se recentemente notícia de descobertas datando do inicio do período dinástico). As principais escavações de ruínas egípcias ficam no Sinai ocidental, no uadi Maghara e Serabit el-Khadim, tende havido, em certos períodos, um povoamento egípcio permanente nesta região. O Sinai é também fonte de cobre, e em Timna, próximo de Eilat, foram escavadas minas de cobre contemporâneas das 18ª - 20ª dinastias egípcias. Estas minas eram provavelmente exploradas pela população local, sob controle egípcio, não havendo indícios de que os Egípcios extraíssem eles próprios cobre em qualquer outro local do Sinai. É possível que, tal como acontecia com o comércio de cereais entre o Egito e o Próximo Oriente, os Egípcios extraíssem cobre, não considerando, porém, essa atividade suficientemente prestigiosa para a registrarem. Caso contrário, talvez utilizassem mão-de-obra local, como em Timna, ou comprassem cobre à população local, ou adquirissem a maior parte de que necessitavam noutro local.

O deserto oriental do Egito fornecia grande quantidade de pedras para a construção e pedras semi-preciosas e era o caminho para o mar Vermelho. Algumas pedreiras localizavam-se perto do vale do Nilo, como era o caso de Gebel Ahmar (quartzito) e de Hatnub (alabastro egípcio), mas outras, particularmente as de grauvaque (pedra dura e negra), em uadi Hammamat, e as de ouro, na sua maior parte ao sul da latitude de Koptos, implicavam expedições em grande escala. Sem o domínio egípcio sobre a população nômade local, ou sem a sua colaboração, estas minas não podiam ter sido exploradas. Este controle era-lhes igualmente necessário para poderem utilizar as três principais vias de acesso ao mar Vermelho que seguem pelo uadi Gasssus ate Safaga, pelo uadi Hammamat ate Quseir e pelo uadi Abbad ate Berenike, existindo igualmente um caminho menos importante que vai de cerca de 80 km ao sul de Cairo até ao golfo de Suez, de cuja existência há provas que datam do reinado de Ramsés II. O testemunho mais antigo da utilização destas rotas data do fim do período pré-dinástico (uadi el-Qash, de Koptos a Berenike), podendo estar relacionada com o comércio do mar Vermelho ou com a exploração mineira. Existem provas da utilização das rotas mais ao norte em todos os principais períodos da história egípcia e mais ao sul a partir do Novo Império.

Nos confins do uadi Gassus encontrava-se um templo da 12ª dinastia e em 1976 foram descobertas ruínas do porto egípcio próxima, da mesma época. Existem mais vestígios, das 25ª e 26ª dinastias (700-525 a.e.c.), e este padrão manteve-se provavelmente durante o período persa (séculos VI-V a.e.c.), altura em que existiam ligações com o lrã, contornando a costa arábica. O período romano esta representado em sítios como Quseir e Berenike, que eram portos de comércio com a África oriental e com a Índia. Embora não existam provas de que os contatos dos Egípcios tivessem chegado tão longe, tais portos deviam ser utilizados para o comércio com as terras quase míticas do Ponto, que aparece referido em textos a partir do Antigo Império. A localização do Ponto não esta rigorosamente estabelecida, sendo, para os Egípcios, uma região com várias associações idealizadas, mas é muito provável que se tratasse da região da moderna Eritréia ou Somália, onde há notícia de recentes descobertas dos períodos helenístico e romano, Os artigos que vinham do Ponto eram quase todos exóticos ou de luxo, sendo o mais importante o incenso. Não se sabe se o comércio com o país do Ponto era a única razão para a navegação no mar Vermelho, para além do acesso a algumas zonas do Sinai. Há noticia de terem sido encontradas pérolas egípcias de 18ª dinastia na costa ao sul do rio Juba, perto do equador, mas isto não significa que os Egípcios tivessem chegado eles próprios ate aí.

Civilização Egípcia | Geografia
Por John Baines & Jaromir Málek
O Deserto Ocidental na época dos faraós

As restantes regiões a tratar eram mais periféricas em relação ao Egito e só podiam ser mantidas quando havia um governo forte. Os oásis do deserto ocidental produziam algumas culturas valiosas, por exemplo, uvas e as melhores tâmaras, e eram também pontos de ligação importantes no comércio com as regiões remotas. Do norte para o sul, eram essencialmente quatro os oásis governados pelo Egito: Bahariya, Farafra, el—Dakhla e el—Kharga (a leste de el—Dakhla), sendo os dois últimos, de longe, os mais importantes. Para além destes, o mais remoto oásis a oeste de Siwa foi incorporado no Egito no período tardio, tendo adquirido renome mundial graças a fracassada missão de Cambises em 525 a.e.c (soube-se recentemente que foram encontrados no deserto vestígios do exército de Cambises), e a posterior consulta aí efetuada por Alexandre Magno ao oráculo. Existem também oásis menores, ao ocidente do Nilo e mais para sul, Kurkur, Dunqul e Salima, que são pontes de paragem onde não foram encontrados quaisquer vestígios da Antiguidade.

Há testemunhas, datando dos Impérios Médio e Novo, de pessoas que fugiam da justiça ou a perseguições para os oásis de el-Kharga e el-Dakhla, enquante na 21ª dinastia os exilados políticos eram para laá banidos. Nesse aspecto, esta região era uma faceta da Sibéria egípcia, sendo outro o de trabalho forçado em condições horríveis, com enormes perdas de vidas, nas minas do deserto oriental.

Toda a zona a ocidente do vale do Nilo se chamava, na Antiguidade, Líbia. A região costeira ao ocidente de Alexandria, até a Cineraica, albergava provavelmente a maioria da população Líbia e era menos inóspita do que parece atualmente. Quase todos os vestígios egípcios ali encontrados datam do reinado de Ramsés II, que construiu fortalezas ao longo da costa ate Zawyet Umm el-Rakham, a 340 km ao ocidente de Alexandria, e do período greco-romano, quando os Ptolomeus construíram, nos estilos grego e egípcio, em Tolmeita, na Cirenaica, a 1000 km de Alexandria.

Durante quase toda a história do Egito os oásis constituíram um posto avançado contra os Líbios, que tentaram, em vários períodos, infiltrar-se. Nos reinados de Merenre e de Pepi II, o chefe de expedição Harkhu foi várias vezes até Yam, zona que fica, provavelmente, na região moderna de Kerma e Dongola, ao sul da 3ª catarata do Nilo. Numa dessas ocasiões, Harkhuf seguiu pela estrada do deserto, deixando o vale do Nilo perto de Abydos e passando, certamente, por el-Dakhla. Ao chegar verificou que o governador de Yam tinha ido "correr com o chefe do território líbio para o canto ocidental do céu — descoberta esta provavelmente relacionada com a estrada do ocidente, utilizada nesta expedição. Este pormenor mostra que, para os Egípcios, a "Líbia" se estendia até cerca de 1500 km ao sul do mar. As ruínas do Fezzan, que datam, provavelmente, do tempo de Cristo, revelam a possibilidade de o Sul da Líbia ter sido povoado na Antiguidade, enquanto a zona de Uweinat o foi no 3º milênio antes da era Cristã. Em períodos mais antigos a cultura dos Líbios era semelhante a dos Egípcios e é possível que falassem um dialeto da mesma língua, mas os contatos entre eles foram, durante o período dinástico, em boa parte hostis.

Dos oásis ocidentais sai um caminho, conhecido hoje por Darb el—Arba’in "o caminho dos 40 dias", que leva a el-Fasher, capital da província de Darfur, no Sudão ocidental. Harkhuf utilizou a primeira parte deste caminho, mas é possível que, já na Antiguidade, estivesse totalmente aberto ao comércio. Harkhuf viajava com burros, mas a exploração eficaz de tais caminhos deve ter dependido do camelo, introduzido no Egito, ao que parece, nos séculos VI-V a.e.c.

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Em Direção a uma Psicoterapia Dialógica

Este capítulo descreve alguns dos temas principais que surgem a partir de uma abordagem dialógica na psicoterapia. Ele se fundamenta na compreensão do “entre” e das relações “EU-TU” e “EU-1SSO”, discutidos no primeiro capítulo. Além disso, explora alguns aspectos do que significa considerar a psicoterapia como basicamente dialógica em sua abordagem, processo e objetivo. De acordo com a afirmação sucinta de Friedman (1985a), “a cura através do encontro significa o desvelamento concreto na terapia da "ontologia do entre’” (p. 152).

Antes de tudo, em uma abordagem dialógica genuína o terapeuta  é visto como “alguém que está a serviço do dialógico”. Isso signi­fica, no seu sentido mais profundo, que a individualidade do tera­peuta rende-se (pelo menos momentaneamente) ao serviço do “entre”. Isso pode parecer desconcertante para aqueles terapeutas que vêem sua tarefa primordialmente como uma ajuda para que o cliente se diferencie e se individualize. Predomina aqui a suposição de que a melhor forma de ensinar-lhe é ter um terapeuta que modele essa “individualidade”. A partir de uma perspectiva dialógica, é insuficien­te! Nessa perspectiva, a verdadeira singularidade surge da relação genuína com os outros e com o mundo. A individualidade é apenas um dos pólos em uma alternância rítmica global entre separação e relação, e ambas ocorrem dentro da esfera do “entre”.

Consequentemente, em uma psicoterapia de abordagem dialógica, o terapeuta caminha sempre por uma “vereda estreita”. Buber usou essa expressão para descrever sua filosofia de responder a um momento único, em vez de adotar um sistema filosófico que fornecesse respostas abstratas sem relação com a realidade única presente. Isso também aplica-se ao trabalho do psicoterapeuta. O terapeuta não “...descansa no planalto amplo de um sistema que inclui uma série de pressupostos acerca do absoluto, mas caminha sobre uma vereda estreita e pedregosa que permeia os abismos, onde não há segurança do conhecimento expresso, mas a certeza do encontro que se man­tém não revelado” (Buber, 1965a, p. 184, grifos do autor). Isso não significa que o terapeuta esqueça completamente todo o conhecimen­to adquirido no treinamento, mas trata-se de um conhecimento temperado pela percepção da pessoa como um todo e do que essa pessoa única precisa em determinado momento. Durante toda a terapia, há uma dialética entre enfatizar a objetividade e a subjetivi­dade. Mesmo aqui, ela se desenrola no “entre”.

“Caminhar por uma vereda estreita” significa que o terapeuta não tem garantia de segurança. As suposições teóricas são somente a “entrée” , mas não constituem um substituto para o encontro. Segundo Buber, “Embora nenhum médico possa prescindir de uma tipologia, ele sabe que em algum momento a pessoa incomparável do paciente irá se defrontar com a pessoa incomparável do médico; [56] tanto quanto possível, ele põe de lado sua tipologia e aceita esse algo imprevisível que acontece entre terapeuta e paciente” (1967, p. 164). Certamente, é um desafio para o terapeuta: como utilizar a segurança da teoria e ainda assim não utilizá-la como uma defesa indiscriminada contra o desconhecido? Como responder à singularidade e ainda assim apreciar nossa base comum de humanidade? O tera­peuta, ao estabelecer um diálogo com toda a amplitude das possibili­dades humanas, engaja-se em uma tarefa verdadeiramente paradoxal — uma tarefa na qual a segurança é restrita e há somente a certeza do encontro com o desconhecido, o único, o “nunca-antes-experienciado”.

No cerne da abordagem dialógica é predominante a preocupação com a natureza rica e variada da pessoa como um todo. Não há meramente a focalização de um único aspecto, seja ele a dimensão/ intrapsíquica, a interpessoal ou a transpessoal (Wilber, 1984). É certo que em estágios diferentes da terapia ou em qualquer momento de uma determinada sessão, um ou outro aspecto precisa ser enfatizado. No todo, entretanto, o terapeuta dialógico procura ver o contexto inteiro assim como a dialética entre essas dimensões centrais da existência.

Dado o forte Zeitgeist analítico da sociedade moderna, o terapeuta é fortemente tentado a analisar a experiência do cliente sob a forma de “causas” psicológicas, diagnosticando-o e tratando-o a partir daí. Na terapia existe sempre a necessidade de ajudar o cliente a remover as “máscaras” que o impedem de manter contato genuíno com os outros e com as necessidades humanas mais profundas.

No entanto, retirar as máscaras pode facilmente tornar-se o foco principal. Em conseqüência, o terapeuta perde a visão da pessoa como um todo. Esse é um risco natural da profissão. Erving Polster (1979) observou de forma sucinta: “E muito difícil resistir à ‘função de detetive’ em terapia”. A ênfase excessiva nesta atitude conduz ao que Buber (1957b) chama “o erro de ver através e desmascarar”. Para ele, “a essência do erro se dá quando um elemento na existência física e espiritual do homem, que inicialmente não era notado, ou o era pouco, passa a ser agora descoberto, ou esclarecido e a ser [57]  identificado com a estrutura total do homem, ao invés de ser inserido nessa estrutura” (p. 226).

Talvez com demasiada freqüência deixamos de nos perguntar qual é o contexto da existência da pessoa que faz com que, em determinado momento, uma motivação ou comportamento prévaleça sobre os demais. Para Buber, “a questão central deve ser: o que existe entre esse elemento e o outro; em que medida e de que modo isso pode delimitá-los e ser delimitado por eles” (1957b, p. 226). Sob esse ponto de vista, nenhum aspecto é visto como absoluto. Cada comportamento “precisa” ser compreendido e desesperadamente “pede” por isso, dentro do contexto maior da existência da pessoa. Desmascarar o motivo que está por trás de cada comportamento isolado torna-se um exercício estéril. Buber afirma de forma muito bonita: “O homem não é para ser visto ‘através’, mas para ser percebido de forma cada vez mais completa no seu mostrar-se e no seu esconder-se e na relação dos dois entre si ”(1957b, p. 227, grifos do autor).

Nessa perspectiva, a “patologia” é vista como um distúrbio da existência inteira e como uma “declaração” do que precisa ser atendido para que a existência dessa pessoa se torne mais integra­da. “Desmascarar” as causas e os motivos psicológicos subjacentes não é o foco principal. É mais importante considerá-los em relação àquilo que, na existência humana precisa permanecer “escondido”, pois é profundo, misterioso e talvez vulnerável demais para ser exposto diretamente à luz da consciência. Não ser direto pode, algumas vezes, constituir-se em uma atitude de compaixão. A condição humana deve ser, ao mesmo tempo, revelada e “escondida” (Friedman, 1974). A “patologia” ocorre quando as duas dimensões estão significativamente desequilibradas entre si.

Buber assinala em seus trabalhos que o psicoterapeuta, assim como o educador e os pais, precisa praticar o que ele chama de “inclusão”. Está se referindo a “...um impulso audacioso — que exige uma mobilização muito intensa do próprio ser — para dentro da vida do outro” (1965b, p. 81)31. O terapeuta precisa lutar [58]  vigorosamente para experienciar o que o cliente está experienciando. Nas melhores condições, é apenas uma experiência momentânea, pois não é possível manter indefinidamente a postura inclusiva. Ao mesmo tempo, o terapeuta precisa também manter-se centrado em si mesmo. A inclusão é um movimento de ir e vir: estar centrado na própria existência e ainda assim ser capaz de passar para o “outro lado”. Em relação ao terapeuta, Buber diz: “Você pode ver, sentir e experienciar colocando-se nos dois lados. Do seu próprio lado, vendo, observando, conhecendo, e ajudando o outro — do seu próprio lado e também do lado dele. Eu me aventuraria a dizer que você pode experienciar com muita força o lado dele da situação” (1965b, p. 171).

A experiência que Buber descreve não é a mesma usualmente chamada de empatia (Friedman, 1985a). Para ele, empatia é um sentimento — um sentimento que reside “dentro” do-indivíduo. Inclusão, em vez disso, significa voltar a existência inteira para o outro, e é uma tentativa intensa de experienciar a experiência, da outra pessoa tanto quanto a sua própria. Enquanto, para Buber, a empatia ignora um dos dois pólos existenciais do diálogo, no momento verdadeiro da inclusão nenhum lado do diálogo é ignorado. A inclusão ocorre quando uma pessoa, “... sem negligenciar nenhum aspecto da realidade percebida em sua atividade, ao mesmo tempo vive o evento comum aos dois a partir do ponto de vista do outro” (Buber, 1965a, p.97).

Certamente, não é por acaso que os seres humanos raramente pratiquem o “experienciar o outro lado”. Isso requer um senso muito forte do próprio “centro”, assim como flexibilidade existencial e psicológica para “passar” para o outro lado. E uma oscilação ontológica, em certo sentido. Qualquer um que alguma vez tenha tentado isso, com certeza experienciou o medo da perda de seu próprio senso de self. Contudo, é isso precisamente que é necessário, perder o senso rígido de self, para entrar na realidade total da outra pessoa. Entretanto, da mesma forma que no momento “EU-TU”, não se pode “visar” a inclusão. É preciso um esforço consciente nesse sentido, mas o momento não pode ser forçado. Esses são o dilema e o desafio constantes do terapeuta. [59] Um último aspecto precisa ser discutido em relação à inclusão. Um dos indicadores de que uma pessoa está pronta para encerrar uma terapia é quando o cliente começa a experienciar a situação do lado do terapeuta. Isto é, o cliente faz comentários do tipo: “Deve ter sido muito duro para você no princípio da terapia”; ou “Acho que nunca vi isso antes do seu ponto de vista”; ou o cliente pode até tornar-se mais interessado na saúde do terapeuta, ou em outros aspectos de sua vida. O cliente é capaz, agora, de praticar a inclusão. O self do cliente reconhece e aprecia a singularidade do self do terapeuta e, extrapolando, também o self dos outros. Esta é a base para qualquer diálogo genuíno: a disponibilidade do cliente para experimentar relações verdadeiras com os outros.

Segundo Buber, no cerne da abordagem dialógica está a questão da confirmação. Para ele, a base subjacente de toda psicopatologia é a ausência de confirmação que cada um de nós sofre no esforço para nos tornarmos seres humanos. Diferentemente dos animais, que parecem não questionar sua “nature­za animal”, o ser humano precisa ser confirmado pelos outros, pa­ra se perceber como um ser humano. “...Secreta e timidamente, ele espera por um Sim que lhe permita ser e que só pode chegar até ele vindo de uma pessoa para outra. E de um homem para o outro que é passado o pão celestial de ser o seu próprio ser” (Buber, 1965b, p.71).

Buber enfatiza que uma vez recebido esse “Sim”— o “pão sagrado” vindo dos outros — estaremos capacitados a nos centrar em nossa própria existência, de modo a nos mantermos firmes em nosso próprio chão. E claro que não se trata de algo que acontece apenas uma vez na vida, de forma que a pessoa se sinta, desse momento em diante, confirmada para sempre. E muito mais: uma espiral complexa de acontecimentos que duram a vida toda e através dos quais há, em alguma medida, necessidade e prontidão na existência para esta confirmação tão crucial. São esses os momentos de graça.

Devido à necessidade desesperada de confirmação acabamos nos tornando “falsos eus” (Laing, 1965) ou, o que Buber chama de “parecer”. Estamos tão sedentos de confirmação que, se não a recebemos por sermos quem somos, nos esforçaremos para obter qualquer coisa semelhante. Isto é, tentaremos consegui-la nos “mostrando” da maneira que pensamos que a outra pessoa deseja. Criaremos uma impressão — nos empenhando em alguma forma de [60] “parecer”, a fim de receber aprovação. Não somos nós mesmos. A ironia, é claro, está em que isto nunca é uma confirmação genuína e a pessoa, no fundo, sabe disso. Porém, esse reconhecimento de nosso existir, mesmo como um “falso self’, é preferível à ausência de reconhecimento (May, 1969).

Todos os seres humanos desenvolvem o “parecer” em alguma medida, a fim de sobreviver psicologicamente. Ainda assim, bem no íntimo da pessoa, a alma clama pelo reconhecimento de que esta pessoa única existe. Almeja o reconhecimento como indivíduo separado e, ao mesmo tempo, como um ser humano semelhante aos demais. A extraordinária peça O Homem Elefante ilustra de forma tocante como é crucial para os seres humanos terem sua existência reconhecida, por mais diferentes que possam ser, física ou psico­logicamente. A questão da confirmação reconhece, explicitamente, a conexão íntima entre os homens e os limites da autovalidação individual.

Conseqüentemente, que o cliente sinta-se confirmado pelo tera­peuta é o alicerce firme da terapia; situação que proporciona uma oportunidade única para receber a “bênção”. Como resultado, a terapia pode se tornar o protótipo para que a pessoa seja confirmada em outras situações.

Um reconhecimento existencial tão profundo inicia-se com a validação da singularidade. O diálogo genuíno começa quando cada pessoa considera a outra “...como o ser único que é. Eu me torno consciente dele, consciente de que ele é diferente, essencialmente diferente de mim, de uma maneira definida e única que lhe é peculiar. Aceito quem assim enxergo de tal forma que posso, plenamente, direcionar o que lhe digo de acordo com a pessoa que é” (Buber, 1965b, p. 79). Confirmar o outro significa fazer o esforço terrível de se voltar para a outra pessoa e afirmar sua existência única e separada — sua “alteridade”. Significa também, ao mesmo tempo, reconhecer o vínculo humano comum da relação com outras pessoas.

O significado de “confirmação” aqui é mais que o que se entende comumente por aceitação, embora esta seja, certamente, uma parte da confirmação. Para Buber, a aceitação significa: “Aceito-o assim como você é... mas isso não é ainda o que eu quero dizer com confirmar o outro. Porque aceitar é somente aceitar como ele invariavelmente é nesse momento, nesta realidade que lhe é própria” [61]  (1965b, pp. 181-182). A aceitação, como tal, não coloca qualquer “exigência” existencial inter-humana na outra pessoa para que ela seja diferente do que é. A confirmação, por outro lado, reconhece e afirma a existência dessa pessoa, mesmo que talvez seu comportamento atual seja inaceitável. De fato, pode até haver muito disputa com o outro, ao mesmo tempo que se confirma sua existência.

“Talvez, de vez em quando, eu deva fazer uma oposição cerrada a seu ponto de vista sobre o assunto de nossa conversa. Mas aceito esta pessoa, o portador de uma convicção; aceito-a em sua forma característica de ser, de onde surgiu esta convicção — ainda que deva tentar mostrar, pouco a pouco, o erro dessa mesma convicção. Reconheço a pessoa com quem estou lutando: luto com ela como seu parceiro; eu a confirmo como criatura e como criação; eu confirmo aquele que está contra mim como meu opositor.” (Buber, 1965b, p. 79, grifos do autor.)

A aceitação é o prelúdio para a verdadeira confirmação: “Eu - diria que toda relação existencial verdadeira entre duas pessoas , começa com a aceitação” (Buber, 1965b, p. 181). É preciso admitir que ambas as dimensões estão intrinsecamente entrelaçadas e é difícil, se não impossível, na maior parte do tempo, distingui-las claramente.

O “objetivo” da psicoterapia dialógica é que, eventualmente, haja a possibilidade de uma relação mútua entre terapeuta e cliente (Friedman, 1985a, 1985b), embora isso não aconteça obrigatoriamente. Evidentemente, esse não é um “objetivo” alcançável em muitas situações (como veremos depois, ao discutirmos os “limites do diálogo”). Seria melhor falarmos da mutualidade como um subpro­duto da terapia dialógica, em vez de considerá-la um objetivo em si mesmo. Ou seja, à medida que o terapeuta estabelece uma relação genuína com o cliente, e enquanto percorrem os muitos estágios da terapia, o cliente, de início hesitantemente, e depois com passos mais audaciosos, começa a se sentir seguro de seu espaço. O cliente tem a sensação, simultaneamente, de ser um indivíduo separado e de estar centrado e em relação, o que lhe dá a confirmação necessária na terapia, o cliente agora está mais capacitado a experienciar a outra pessoa como “TU”. [62]

Frequentemente isto só pode ocorrer depois que muitos dos conflitos “intrapsíquicos” ou “velhos modelos” tiverem sido trabalhados (Trüb, 1952/1964). Antes disso, o terapeuta é, de muitas formas, uma “pseudopessoa” para o cliente. Essa é a verdade sobre o conceito de transferência. Entretanto, esse conceito, por si mesmo, não consegue ir muito longe. Para Rollo May (1983), “a transferência deve ser entendida como a distorção do encontro. Já que na psicanálise não havia uma norma para o encontro humano e nem um espaço adequado para a relação EU-TU, surgiu a necessidade de um excesso de simplificação e da diluição das relações de amor” (p. 19, grifo do autor). É apenas trabalhando com esses conflitos “transferenciais” que o terapeuta pode ser visto como uma pessoa “real”. Como disse um cliente de maneira comovente: “Estou finalmente começando a permitir sua entrada”.

A questão da utilização de “técnicas” torna-se figura na psicoterapia dialógica. As técnicas precisam surgir do contexto da relação. Quando há um certo impasse na sessão terapêutica, é totalmente apropriado utilizar uma “técnica” que possa ser útil. Não há nada de errado com as técnicas propriamente ditas, desde que não sejam impostas arbitrariamente na situação. Há sempre a exigência de uma relação de confiança que dê “permissão” ao terapeuta para usar certas técnicas. As técnicas precisam surgir do “entre”.

O terapeuta deve evitar os perigos do objetivismo, ou do subjetivismo extremados. E uma tarefa semelhante à de Prometeu. Certamente, é difícil ensinar a arte de responder no “entre”. Parece que o terapeuta, em grande medida, está em uma situação idêntica à de um ótimo músico de jazz, sempre improvisando. É claro que há muito treinamento nos aspectos técnicos da música, como ler as notas musicais e tocar as escalas; pode, inclusive, até haver um treinamento mais formal, como na música clássica. Entretanto, na situação de improvisação, o treino técnico torna-se apenas um pano de fundo importante a partir do qual o músico é capaz de improvisar. Como Buber afirma sucintamente: “O verdadeiro mestre responde à singularidade” (1967, p. 168).

Finalmente, há a estimulante questão sobre a possibilidade de uma mutualidade verdadeira entre terapeuta e cliente (Friedman, 1985a, 1985b). Quando o cliente chega ao consultório, existe inicialmente uma situação relacional desequilibrada. Não há e nem poderia haver [63] mutualidade total entre terapeuta e cliente nessa primeira fase. Buber levantou essa importante questão (freqüentemente mal compreendida) em seu diálogo público com Carl Rogers. Em relação ao terapeuta, ele diz: “A diferença essencial entre o seu papel e o dele nessa situação é óbvia. Ele vem para ser ajudado por você. Você não está para ser ajudado por ele. E não somente isso: você é capaz, em certa medida, de ajudá-lo” (Buber, 1965b, p. 171). De fato, essa unilateralidade e a humildade que advém do reconhecimento, pelo cliente, dessa situação desequilibrada, podem ser essenciais para a ocorrência da cura genuína.

Existem também limites que surgem no trabalho com certas formas de neurose e psicose. Os limites específicos para o diálogo genuíno são bem diferentes, dependendo de se estar trabalhando, por exemplo, com uma personalidade narcisista ou com alguém que poderia ser diagnosticado como uma personalidade obsessiva-compulsiva grave. Obviamente, também há diferenças significativas no trabalho com os neuróticos, se comparados com aqueles que manifes­tam comportamentos psicóticos. Como afirma Buber (1965b):

“Pos­so falar com um esquizofrênico até o ponto em que ele esteja disposto a deixar que eu entre em seu mundo particular, que lhe é próprio e onde geralmente o acesso não é permitido a mim e nem a outros. Mas ele permite a entrada de algumas pessoas. E assim sendo, pode ser que ele me deixe entrar também. Mas no momento em que ele se fecha, não posso entrar” (p. 175).

Até mesmo indivíduos “saudáveis”, em determinados momentos não ultrapassam certos níveis de desenvolvimento, pois não estão prontos para fazê-lo. Isso não é resistência no sentido estrito do termo. Alguma parte muito profunda e sábia dessa pessoa pode pressentir, intuitivamente, que ela não tem suporte interno ou externo para se arriscar a entrar numa relação mais íntima, mas muito mais ameaçadora.

É necessário ter um enorme senso de segurança para arriscar o próprio self em um contato íntimo com o outro. Nem mesmo a melhor terapia pode violar o princípio dialógico básico de que existem sempre dois lados numa interação: cada pessoa pode impor limites para estabelecer até onde ela deseja ir no “entre”. Até no diálogo genuíno há o “problema de limites”. Em outras palavras: [64]  “Eu faço algo, tento algo, desejo algo e empenho todo meu pensar existente nesse fazer. Então, em um dado momento, defronto-me com um muro, com uma fronteira, com um limite que não posso ignorar. Isso também se aplica ao que me interessa mais do que qualquer coisa: o diálogo humano efetivo”. (Buber, 1965b, p. 175) [65]

Gestalt

PSICÓLOGOS E OUTRAS PERSONALIDADES
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Em Direção a uma Psicoterapia Dialógica

Este capítulo descreve alguns dos temas principais que surgem a partir de uma abordagem dialógica na psicoterapia. Ele se fundamenta na compreensão do “entre” e das relações “EU-TU” e “EU-1SSO”, discutidos no primeiro capítulo. Além disso, explora alguns aspectos do que significa considerar a psicoterapia como basicamente dialógica em sua abordagem, processo e objetivo. De acordo com a afirmação sucinta de Friedman (1985a), “a cura através do encontro significa o desvelamento concreto na terapia da "ontologia do entre’” (p. 152).

Antes de tudo, em uma abordagem dialógica genuína o terapeuta  é visto como “alguém que está a serviço do dialógico”. Isso signi­fica, no seu sentido mais profundo, que a individualidade do tera­peuta rende-se (pelo menos momentaneamente) ao serviço do “entre”. Isso pode parecer desconcertante para aqueles terapeutas que vêem sua tarefa primordialmente como uma ajuda para que o cliente se diferencie e se individualize. Predomina aqui a suposição de que a melhor forma de ensinar-lhe é ter um terapeuta que modele essa “individualidade”. A partir de uma perspectiva dialógica, é insuficien­te! Nessa perspectiva, a verdadeira singularidade surge da relação genuína com os outros e com o mundo. A individualidade é apenas um dos pólos em uma alternância rítmica global entre separação e relação, e ambas ocorrem dentro da esfera do “entre”.

Consequentemente, em uma psicoterapia de abordagem dialógica, o terapeuta caminha sempre por uma “vereda estreita”. Buber usou essa expressão para descrever sua filosofia de responder a um momento único, em vez de adotar um sistema filosófico que fornecesse respostas abstratas sem relação com a realidade única presente. Isso também aplica-se ao trabalho do psicoterapeuta. O terapeuta não “...descansa no planalto amplo de um sistema que inclui uma série de pressupostos acerca do absoluto, mas caminha sobre uma vereda estreita e pedregosa que permeia os abismos, onde não há segurança do conhecimento expresso, mas a certeza do encontro que se man­tém não revelado” (Buber, 1965a, p. 184, grifos do autor). Isso não significa que o terapeuta esqueça completamente todo o conhecimen­to adquirido no treinamento, mas trata-se de um conhecimento temperado pela percepção da pessoa como um todo e do que essa pessoa única precisa em determinado momento. Durante toda a terapia, há uma dialética entre enfatizar a objetividade e a subjetivi­dade. Mesmo aqui, ela se desenrola no “entre”.

“Caminhar por uma vereda estreita” significa que o terapeuta não tem garantia de segurança. As suposições teóricas são somente a “entrée” , mas não constituem um substituto para o encontro. Segundo Buber, “Embora nenhum médico possa prescindir de uma tipologia, ele sabe que em algum momento a pessoa incomparável do paciente irá se defrontar com a pessoa incomparável do médico; [56] tanto quanto possível, ele põe de lado sua tipologia e aceita esse algo imprevisível que acontece entre terapeuta e paciente” (1967, p. 164). Certamente, é um desafio para o terapeuta: como utilizar a segurança da teoria e ainda assim não utilizá-la como uma defesa indiscriminada contra o desconhecido? Como responder à singularidade e ainda assim apreciar nossa base comum de humanidade? O tera­peuta, ao estabelecer um diálogo com toda a amplitude das possibili­dades humanas, engaja-se em uma tarefa verdadeiramente paradoxal — uma tarefa na qual a segurança é restrita e há somente a certeza do encontro com o desconhecido, o único, o “nunca-antes-experienciado”.

No cerne da abordagem dialógica é predominante a preocupação com a natureza rica e variada da pessoa como um todo. Não há meramente a focalização de um único aspecto, seja ele a dimensão/ intrapsíquica, a interpessoal ou a transpessoal (Wilber, 1984). É certo que em estágios diferentes da terapia ou em qualquer momento de uma determinada sessão, um ou outro aspecto precisa ser enfatizado. No todo, entretanto, o terapeuta dialógico procura ver o contexto inteiro assim como a dialética entre essas dimensões centrais da existência.

Dado o forte Zeitgeist analítico da sociedade moderna, o terapeuta é fortemente tentado a analisar a experiência do cliente sob a forma de “causas” psicológicas, diagnosticando-o e tratando-o a partir daí. Na terapia existe sempre a necessidade de ajudar o cliente a remover as “máscaras” que o impedem de manter contato genuíno com os outros e com as necessidades humanas mais profundas.

No entanto, retirar as máscaras pode facilmente tornar-se o foco principal. Em conseqüência, o terapeuta perde a visão da pessoa como um todo. Esse é um risco natural da profissão. Erving Polster (1979) observou de forma sucinta: “E muito difícil resistir à ‘função de detetive’ em terapia”. A ênfase excessiva nesta atitude conduz ao que Buber (1957b) chama “o erro de ver através e desmascarar”. Para ele, “a essência do erro se dá quando um elemento na existência física e espiritual do homem, que inicialmente não era notado, ou o era pouco, passa a ser agora descoberto, ou esclarecido e a ser [57]  identificado com a estrutura total do homem, ao invés de ser inserido nessa estrutura” (p. 226).

Talvez com demasiada freqüência deixamos de nos perguntar qual é o contexto da existência da pessoa que faz com que, em determinado momento, uma motivação ou comportamento prévaleça sobre os demais. Para Buber, “a questão central deve ser: o que existe entre esse elemento e o outro; em que medida e de que modo isso pode delimitá-los e ser delimitado por eles” (1957b, p. 226). Sob esse ponto de vista, nenhum aspecto é visto como absoluto. Cada comportamento “precisa” ser compreendido e desesperadamente “pede” por isso, dentro do contexto maior da existência da pessoa. Desmascarar o motivo que está por trás de cada comportamento isolado torna-se um exercício estéril. Buber afirma de forma muito bonita: “O homem não é para ser visto ‘através’, mas para ser percebido de forma cada vez mais completa no seu mostrar-se e no seu esconder-se e na relação dos dois entre si ”(1957b, p. 227, grifos do autor).

Nessa perspectiva, a “patologia” é vista como um distúrbio da existência inteira e como uma “declaração” do que precisa ser atendido para que a existência dessa pessoa se torne mais integra­da. “Desmascarar” as causas e os motivos psicológicos subjacentes não é o foco principal. É mais importante considerá-los em relação àquilo que, na existência humana precisa permanecer “escondido”, pois é profundo, misterioso e talvez vulnerável demais para ser exposto diretamente à luz da consciência. Não ser direto pode, algumas vezes, constituir-se em uma atitude de compaixão. A condição humana deve ser, ao mesmo tempo, revelada e “escondida” (Friedman, 1974). A “patologia” ocorre quando as duas dimensões estão significativamente desequilibradas entre si.

Buber assinala em seus trabalhos que o psicoterapeuta, assim como o educador e os pais, precisa praticar o que ele chama de “inclusão”. Está se referindo a “...um impulso audacioso — que exige uma mobilização muito intensa do próprio ser — para dentro da vida do outro” (1965b, p. 81)31. O terapeuta precisa lutar [58]  vigorosamente para experienciar o que o cliente está experienciando. Nas melhores condições, é apenas uma experiência momentânea, pois não é possível manter indefinidamente a postura inclusiva. Ao mesmo tempo, o terapeuta precisa também manter-se centrado em si mesmo. A inclusão é um movimento de ir e vir: estar centrado na própria existência e ainda assim ser capaz de passar para o “outro lado”. Em relação ao terapeuta, Buber diz: “Você pode ver, sentir e experienciar colocando-se nos dois lados. Do seu próprio lado, vendo, observando, conhecendo, e ajudando o outro — do seu próprio lado e também do lado dele. Eu me aventuraria a dizer que você pode experienciar com muita força o lado dele da situação” (1965b, p. 171).

A experiência que Buber descreve não é a mesma usualmente chamada de empatia (Friedman, 1985a). Para ele, empatia é um sentimento — um sentimento que reside “dentro” do-indivíduo. Inclusão, em vez disso, significa voltar a existência inteira para o outro, e é uma tentativa intensa de experienciar a experiência, da outra pessoa tanto quanto a sua própria. Enquanto, para Buber, a empatia ignora um dos dois pólos existenciais do diálogo, no momento verdadeiro da inclusão nenhum lado do diálogo é ignorado. A inclusão ocorre quando uma pessoa, “... sem negligenciar nenhum aspecto da realidade percebida em sua atividade, ao mesmo tempo vive o evento comum aos dois a partir do ponto de vista do outro” (Buber, 1965a, p.97).

Certamente, não é por acaso que os seres humanos raramente pratiquem o “experienciar o outro lado”. Isso requer um senso muito forte do próprio “centro”, assim como flexibilidade existencial e psicológica para “passar” para o outro lado. E uma oscilação ontológica, em certo sentido. Qualquer um que alguma vez tenha tentado isso, com certeza experienciou o medo da perda de seu próprio senso de self. Contudo, é isso precisamente que é necessário, perder o senso rígido de self, para entrar na realidade total da outra pessoa. Entretanto, da mesma forma que no momento “EU-TU”, não se pode “visar” a inclusão. É preciso um esforço consciente nesse sentido, mas o momento não pode ser forçado. Esses são o dilema e o desafio constantes do terapeuta. [59] Um último aspecto precisa ser discutido em relação à inclusão. Um dos indicadores de que uma pessoa está pronta para encerrar uma terapia é quando o cliente começa a experienciar a situação do lado do terapeuta. Isto é, o cliente faz comentários do tipo: “Deve ter sido muito duro para você no princípio da terapia”; ou “Acho que nunca vi isso antes do seu ponto de vista”; ou o cliente pode até tornar-se mais interessado na saúde do terapeuta, ou em outros aspectos de sua vida. O cliente é capaz, agora, de praticar a inclusão. O self do cliente reconhece e aprecia a singularidade do self do terapeuta e, extrapolando, também o self dos outros. Esta é a base para qualquer diálogo genuíno: a disponibilidade do cliente para experimentar relações verdadeiras com os outros.

Segundo Buber, no cerne da abordagem dialógica está a questão da confirmação. Para ele, a base subjacente de toda psicopatologia é a ausência de confirmação que cada um de nós sofre no esforço para nos tornarmos seres humanos. Diferentemente dos animais, que parecem não questionar sua “nature­za animal”, o ser humano precisa ser confirmado pelos outros, pa­ra se perceber como um ser humano. “...Secreta e timidamente, ele espera por um Sim que lhe permita ser e que só pode chegar até ele vindo de uma pessoa para outra. E de um homem para o outro que é passado o pão celestial de ser o seu próprio ser” (Buber, 1965b, p.71).

Buber enfatiza que uma vez recebido esse “Sim”— o “pão sagrado” vindo dos outros — estaremos capacitados a nos centrar em nossa própria existência, de modo a nos mantermos firmes em nosso próprio chão. E claro que não se trata de algo que acontece apenas uma vez na vida, de forma que a pessoa se sinta, desse momento em diante, confirmada para sempre. E muito mais: uma espiral complexa de acontecimentos que duram a vida toda e através dos quais há, em alguma medida, necessidade e prontidão na existência para esta confirmação tão crucial. São esses os momentos de graça.

Devido à necessidade desesperada de confirmação acabamos nos tornando “falsos eus” (Laing, 1965) ou, o que Buber chama de “parecer”. Estamos tão sedentos de confirmação que, se não a recebemos por sermos quem somos, nos esforçaremos para obter qualquer coisa semelhante. Isto é, tentaremos consegui-la nos “mostrando” da maneira que pensamos que a outra pessoa deseja. Criaremos uma impressão — nos empenhando em alguma forma de [60] “parecer”, a fim de receber aprovação. Não somos nós mesmos. A ironia, é claro, está em que isto nunca é uma confirmação genuína e a pessoa, no fundo, sabe disso. Porém, esse reconhecimento de nosso existir, mesmo como um “falso self’, é preferível à ausência de reconhecimento (May, 1969).

Todos os seres humanos desenvolvem o “parecer” em alguma medida, a fim de sobreviver psicologicamente. Ainda assim, bem no íntimo da pessoa, a alma clama pelo reconhecimento de que esta pessoa única existe. Almeja o reconhecimento como indivíduo separado e, ao mesmo tempo, como um ser humano semelhante aos demais. A extraordinária peça O Homem Elefante ilustra de forma tocante como é crucial para os seres humanos terem sua existência reconhecida, por mais diferentes que possam ser, física ou psico­logicamente. A questão da confirmação reconhece, explicitamente, a conexão íntima entre os homens e os limites da autovalidação individual.

Conseqüentemente, que o cliente sinta-se confirmado pelo tera­peuta é o alicerce firme da terapia; situação que proporciona uma oportunidade única para receber a “bênção”. Como resultado, a terapia pode se tornar o protótipo para que a pessoa seja confirmada em outras situações.

Um reconhecimento existencial tão profundo inicia-se com a validação da singularidade. O diálogo genuíno começa quando cada pessoa considera a outra “...como o ser único que é. Eu me torno consciente dele, consciente de que ele é diferente, essencialmente diferente de mim, de uma maneira definida e única que lhe é peculiar. Aceito quem assim enxergo de tal forma que posso, plenamente, direcionar o que lhe digo de acordo com a pessoa que é” (Buber, 1965b, p. 79). Confirmar o outro significa fazer o esforço terrível de se voltar para a outra pessoa e afirmar sua existência única e separada — sua “alteridade”. Significa também, ao mesmo tempo, reconhecer o vínculo humano comum da relação com outras pessoas.

O significado de “confirmação” aqui é mais que o que se entende comumente por aceitação, embora esta seja, certamente, uma parte da confirmação. Para Buber, a aceitação significa: “Aceito-o assim como você é... mas isso não é ainda o que eu quero dizer com confirmar o outro. Porque aceitar é somente aceitar como ele invariavelmente é nesse momento, nesta realidade que lhe é própria” [61]  (1965b, pp. 181-182). A aceitação, como tal, não coloca qualquer “exigência” existencial inter-humana na outra pessoa para que ela seja diferente do que é. A confirmação, por outro lado, reconhece e afirma a existência dessa pessoa, mesmo que talvez seu comportamento atual seja inaceitável. De fato, pode até haver muito disputa com o outro, ao mesmo tempo que se confirma sua existência.

“Talvez, de vez em quando, eu deva fazer uma oposição cerrada a seu ponto de vista sobre o assunto de nossa conversa. Mas aceito esta pessoa, o portador de uma convicção; aceito-a em sua forma característica de ser, de onde surgiu esta convicção — ainda que deva tentar mostrar, pouco a pouco, o erro dessa mesma convicção. Reconheço a pessoa com quem estou lutando: luto com ela como seu parceiro; eu a confirmo como criatura e como criação; eu confirmo aquele que está contra mim como meu opositor.” (Buber, 1965b, p. 79, grifos do autor.)

A aceitação é o prelúdio para a verdadeira confirmação: “Eu - diria que toda relação existencial verdadeira entre duas pessoas , começa com a aceitação” (Buber, 1965b, p. 181). É preciso admitir que ambas as dimensões estão intrinsecamente entrelaçadas e é difícil, se não impossível, na maior parte do tempo, distingui-las claramente.

O “objetivo” da psicoterapia dialógica é que, eventualmente, haja a possibilidade de uma relação mútua entre terapeuta e cliente (Friedman, 1985a, 1985b), embora isso não aconteça obrigatoriamente. Evidentemente, esse não é um “objetivo” alcançável em muitas situações (como veremos depois, ao discutirmos os “limites do diálogo”). Seria melhor falarmos da mutualidade como um subpro­duto da terapia dialógica, em vez de considerá-la um objetivo em si mesmo. Ou seja, à medida que o terapeuta estabelece uma relação genuína com o cliente, e enquanto percorrem os muitos estágios da terapia, o cliente, de início hesitantemente, e depois com passos mais audaciosos, começa a se sentir seguro de seu espaço. O cliente tem a sensação, simultaneamente, de ser um indivíduo separado e de estar centrado e em relação, o que lhe dá a confirmação necessária na terapia, o cliente agora está mais capacitado a experienciar a outra pessoa como “TU”. [62]

Frequentemente isto só pode ocorrer depois que muitos dos conflitos “intrapsíquicos” ou “velhos modelos” tiverem sido trabalhados (Trüb, 1952/1964). Antes disso, o terapeuta é, de muitas formas, uma “pseudopessoa” para o cliente. Essa é a verdade sobre o conceito de transferência. Entretanto, esse conceito, por si mesmo, não consegue ir muito longe. Para Rollo May (1983), “a transferência deve ser entendida como a distorção do encontro. Já que na psicanálise não havia uma norma para o encontro humano e nem um espaço adequado para a relação EU-TU, surgiu a necessidade de um excesso de simplificação e da diluição das relações de amor” (p. 19, grifo do autor). É apenas trabalhando com esses conflitos “transferenciais” que o terapeuta pode ser visto como uma pessoa “real”. Como disse um cliente de maneira comovente: “Estou finalmente começando a permitir sua entrada”.

A questão da utilização de “técnicas” torna-se figura na psicoterapia dialógica. As técnicas precisam surgir do contexto da relação. Quando há um certo impasse na sessão terapêutica, é totalmente apropriado utilizar uma “técnica” que possa ser útil. Não há nada de errado com as técnicas propriamente ditas, desde que não sejam impostas arbitrariamente na situação. Há sempre a exigência de uma relação de confiança que dê “permissão” ao terapeuta para usar certas técnicas. As técnicas precisam surgir do “entre”.

O terapeuta deve evitar os perigos do objetivismo, ou do subjetivismo extremados. E uma tarefa semelhante à de Prometeu. Certamente, é difícil ensinar a arte de responder no “entre”. Parece que o terapeuta, em grande medida, está em uma situação idêntica à de um ótimo músico de jazz, sempre improvisando. É claro que há muito treinamento nos aspectos técnicos da música, como ler as notas musicais e tocar as escalas; pode, inclusive, até haver um treinamento mais formal, como na música clássica. Entretanto, na situação de improvisação, o treino técnico torna-se apenas um pano de fundo importante a partir do qual o músico é capaz de improvisar. Como Buber afirma sucintamente: “O verdadeiro mestre responde à singularidade” (1967, p. 168).

Finalmente, há a estimulante questão sobre a possibilidade de uma mutualidade verdadeira entre terapeuta e cliente (Friedman, 1985a, 1985b). Quando o cliente chega ao consultório, existe inicialmente uma situação relacional desequilibrada. Não há e nem poderia haver [63] mutualidade total entre terapeuta e cliente nessa primeira fase. Buber levantou essa importante questão (freqüentemente mal compreendida) em seu diálogo público com Carl Rogers. Em relação ao terapeuta, ele diz: “A diferença essencial entre o seu papel e o dele nessa situação é óbvia. Ele vem para ser ajudado por você. Você não está para ser ajudado por ele. E não somente isso: você é capaz, em certa medida, de ajudá-lo” (Buber, 1965b, p. 171). De fato, essa unilateralidade e a humildade que advém do reconhecimento, pelo cliente, dessa situação desequilibrada, podem ser essenciais para a ocorrência da cura genuína.

Existem também limites que surgem no trabalho com certas formas de neurose e psicose. Os limites específicos para o diálogo genuíno são bem diferentes, dependendo de se estar trabalhando, por exemplo, com uma personalidade narcisista ou com alguém que poderia ser diagnosticado como uma personalidade obsessiva-compulsiva grave. Obviamente, também há diferenças significativas no trabalho com os neuróticos, se comparados com aqueles que manifes­tam comportamentos psicóticos. Como afirma Buber (1965b):

“Pos­so falar com um esquizofrênico até o ponto em que ele esteja disposto a deixar que eu entre em seu mundo particular, que lhe é próprio e onde geralmente o acesso não é permitido a mim e nem a outros. Mas ele permite a entrada de algumas pessoas. E assim sendo, pode ser que ele me deixe entrar também. Mas no momento em que ele se fecha, não posso entrar” (p. 175).

Até mesmo indivíduos “saudáveis”, em determinados momentos não ultrapassam certos níveis de desenvolvimento, pois não estão prontos para fazê-lo. Isso não é resistência no sentido estrito do termo. Alguma parte muito profunda e sábia dessa pessoa pode pressentir, intuitivamente, que ela não tem suporte interno ou externo para se arriscar a entrar numa relação mais íntima, mas muito mais ameaçadora.

É necessário ter um enorme senso de segurança para arriscar o próprio self em um contato íntimo com o outro. Nem mesmo a melhor terapia pode violar o princípio dialógico básico de que existem sempre dois lados numa interação: cada pessoa pode impor limites para estabelecer até onde ela deseja ir no “entre”. Até no diálogo genuíno há o “problema de limites”. Em outras palavras: [64]  “Eu faço algo, tento algo, desejo algo e empenho todo meu pensar existente nesse fazer. Então, em um dado momento, defronto-me com um muro, com uma fronteira, com um limite que não posso ignorar. Isso também se aplica ao que me interessa mais do que qualquer coisa: o diálogo humano efetivo”. (Buber, 1965b, p. 175) [65]

Gestalt
Psicoterapia dialógica, uma introdução

Este trabalho é um estudo cuidadoso de uma abordagem psicoterapêutica baseada na filosofia do diálogo — a psicoterapia dialógica. O esforço para tornar compreensível uma psicoterapia de base dialógica surge de uma profunda crença pessoal: a fundamen­tação de nossas teorias, métodos e práticas terapêuticas em uma abrangente filosofia do diálogo pode ampliar significativamente o conhecimento da psicoterapia, da patologia e da própria existência [21]  humana. Embora atualmente várias psicoterapias tragam implícita esta abordagem, nenhuma delas a utiliza como contexto explícito e foco de seu impulso para a cura.

As últimas duas décadas têm presenciado um excesso de técnicas psicoterápicas. Parece que surgiram técnicas suficientes para resolver qualquer problema psicológico imaginável. Ainda assim, elas nos deixaram ansiando por algo mais. Evidentemente não há nada errado com a técnica per se. Todos nós precisamos de técnicas. Ironicamen­te, entretanto, uma ênfase excessiva na orientação técnica fomenta os próprios problemas que ela se propõe a resolver. Quando as técnicas têm supremacia, o lado humano fica obscurecido.

Novos e importantes avanços no processo psicoterapêutico não se concretizarão com a descoberta de mais técnicas. Deseja-se algo mais — algo além da mera técnica. A técnica precisa estar baseada na relação entre pessoa e pessoa — o inter-humano. Este livro é um estudo de uma psicoterapia do inter-humano.

A psicoterapia dialógica não está identificada com nenhuma escola específica de pensamento psicoterapêutico, orientação teórica ou técnicas. Os princípios básicos desta postura são que a abordagem global, o processo e o objetivo da psicoterapia precisam estar assentados em uma perspectiva dialógica. Por “abordagem” entendemos a orientação global pessoal e filosófica do terapeuta para com o trabalho psicoterapêutico; o “processo” refere-se à interação de fato entre cliente e terapeuta; e “objetivo” significa o “resultado” da terapia — no caso, o aumento da habilidade relacional do cliente.

O termo “dialógico” não se refere ao “discurso” como tal, mas ao fato de que a existência humana, em seu nível mais fundamental é inerentemente relacional. Um modelo individualista de pessoa, ao [22] contrário, pressupõe primeiramente a existência de indivíduos como “entidades” separadas e considera o relacional como um fenômeno secundário. É difícil para as pessoas, no mundo moderno, aceitarem que “a individualidade” é somente um dos pólos de uma relação bipolar. Por outro lado, a teoria sistêmica de terapia familiar tende a obscurecer a singularidade do indivíduo. É necessária uma aborda­gem que abranja ambas as realidades. Como conseqüência, a abor­dagem dialógica exige uma mudança radical de paradigma dos modelos psicológicos do self isolado ou da abordagem sistêmica para a esfera do “inter-humano”.

O principal expositor da filosofia do inter-humano no século XX — a filosofia dialógica — foi Martin Buber. Buber foi um filósofo, educador e humanista que sentiu o colapso do relacionamento na civilização moderna. Ele tinha muita consciência de que a ênfase tecnocrática da sociedade moderna provoca um distanciamento maior entre as pessoas. A orientação tecnocrática moderna obscurece a dimensão central — o status ontológico — da esfera relacional em nossa vida. Desenfatizar do inter-humano resulta em isolamento, alienação e no inevitável narcisismo dos dias modernos. Isso cria uma obsessão com o self — a hiperconsciência. A realidade da outra pessoa está escondida por este foco acanhado. A fobia moderna de intimidade é um reflexo disso. O relacional fica subjugado por uma ênfase excessiva no individual. A ênfase excessiva no individual cria uma separação não somente entre as pessoas e em nosso relacionamento com a natureza, mas também dentro de nossa própria psique. A perspectiva dialógica é um esforço para sanar essas rupturas.

A dimensão do inter-humano manifesta-se no evento relacional — o diálogo — entre pessoas. Para Buber, o significado do inter-humano “...não será encontrado em qualquer um dos dois parceiros, nem nos dois juntos, mas somente no diálogo entre eles, no entre que é vivido por ambos” (1965b, p. 75). Sua realidade é maior que cada um dos indivíduos envolvidos. E também maior do que a soma total dos dois indivíduos. Ambos os aspectos são parte de uma esfera mais ampla — o inter-humano. Tanto o individual quanto a relação estão contidos na esfera do entre. [23] A publicação em 1923 do famoso trabalho de Buber, EU e TU, foi decisiva para nossa compreensão da natureza relacionai existência humana. Para ele, o dialógico acontece na esfera do entre e é marcado por duas polaridades EU-TU e EU-ISSO. Ambas são um reflexo das duas atitudes primárias que o ser humano pode assumir ao se relacionar com os outros e com o mundo em geral. A relação EU-TU é uma atitude de genuíno interesse na pessoa com quem estamos interagindo verdadeiramente como pessoa. Isso significa que valorizamos sua “alteridade”. Alteridade significa o reconhe­cimento e nítida separação do outro em relação a nós, sem que fique esquecida nossa relação e nossa humanidade comum subjacente. A pessoa é um fim em si mesma e não um meio para atingir um fim; e reconhecemos que somos uma parte dessa pessoa.

A relação EU-TU começa quando voltamos nosso “ser” para o de nosso parceiro. Podemos apenas nos preparar para a possibili­dade do encontro EU-TU. Não podemos “forçar” sua ocorrência. “O TU me encontra pela graça e não é encontrado pela procura” (Buber, 1923/1958b, p. 11). E um momento de “graça”, ao mesmo tempo em que é necessária a disponibilidade do outro para entrar em uma relação desta natureza comigo. O diálogo genuíno só pode ser mútuo. O momento EU-TU não pode ser mantido para sempre. Temos que aprender a aceitar “... o encanto de sua chegada e a nostalgia solene de sua partida...” (Buber, 1923/1958b, p. 33).

Em contraste, a relação EU-ISSO ocorre quando a outra pessoa é, essencialmente, um “objeto” para nós — utilizado, primariamente, como meio para um fim. Existem muitos mal-entendidos relacionados com a atitude EU-ISSO. A atitude EU-ISSO é um aspecto necessário na vida humana. Não é a existência da atitude EU-ISSO que está “errada”, mas sim a predominância esmagadora com que se manifesta na moderna sociedade tecnocrática. Todo mundo, alguma vez, tenciona atingir certos propósitos. Até o encontro EU-TU precisa depois tornar-se um fato objetivo. “Mas essa é a grande, melancolia de nosso destino, a de que cada TU, em nosso mundo, precisa tornar-se um ISSO” (Buber, 1923/1958b, p. 16). O problema só aparece quando a atitude tencionante domina nossa existência. O perigo é não conseguirmos reconhecer como é limitadora, no final, uma relação EU-ISSO, e seguirmos aplicando-a indiscriminadamente a [24] situações que clamam por um encontro genuíno entre pessoas. A atitude EU-ISSO, torna-se então a orientação primária em relação aos outros. A ênfase excessiva no conhecimento técnico e no materialismo, no final do século XX, é o resultado direto da preponderância da atitude EU-ISSO. A consciência moderna está tão permeada por essa atitude que algumas vezes fica difícil retroceder e discernir claramente.

Os termos EU-TU e EU-ISSO indicam a natureza recíproca de nossa orientação relacional. Eles criam o contexto para a atitude com a qual os outros aproximam-se de nós. Uma abertura genuí­na para com os outros tende a evocar uma resposta recíproca. Se os outros sentem-se tratados como objetos por nós, provavelmente irão se aproximar com intenções. A atitude com que me aproximo do outro é, também, a atitude com que me aproximo de mim mesmo. Se valorizo o outro, isso reflete minha própria autovalorização. Se transformo o outro em objeto, também serei um objeto.

A vida humana consiste de ambos os relacionamentos, EU-TU e EU-ISSO. Toda troca humana tem essas duas dimensões, muitas vezes simultaneamente. Em última análise, entretanto, o diálogo genuíno somente pode emergir se duas pessoas estiverem disponíveis para ir além da atitude EU-ISSO e valorizarem, aceitarem e apreciarem verdadeiramente a alteridade da outra pessoa. Basicamente, isso requer a transcendência da nossa individualidade. Isso significa estar disponível para conhecer e entrar, como descreve Buber, na esfera do entre.

Por “entre ”, Buber refere-se à esfera da qual todos participamos quando estamos envolvidos e verdadeiramente interessados em outra pessoa: transcendemos o senso de identidade que normalmente conhecemos. Ele, poeticamente, descreve isso como “do lado de lá do subjetivo, do lado de cá do objetivo, na vereda estreita onde EU e TU nos encontramos, aí fica o reino do entre” (1965a, p. 204). O entre não é um fenômeno físico-objetivo, nem tampouco psicológico-subjetivo; é um fenômeno ontológico. O ontológico refere-se aos aspectos fundamentais da nossa existência— os “dados” da existência humana.[25]  Juntamente com as dimensões do EU-TU e EU-ISSO, o entre é um elemento constitutivo próprio da existência humana. É aquele reino indescritível, que é maior que a soma de duas ou mais identidades. É o ponto de contato além das nossas identidades individuais. Buber enfatiza que o caráter ontológico da existência requer: distância e relação. O inter-humano é a esfera na qual estamos ao mesmo tempo separados e em relação. Somos tanto uma-parte-de outros seres humanos como estamos apartados deles. A existência sadia é todo aquele fugaz equilíbrio rítmico entre separação e relação.

Esse trabalho é um esforço de fundamentação. O seu valor final emergirá do diálogo que ele possa estabelecer com os leitores e do grau em que ele os encoraja a seguir além do que está sendo dito aqui. Esperamos que a voz que hesitantemente emerge neste livro, evoque a resposta de uma outra voz, para “...que tenhamos um diálogo”.

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Explorando o espaço - uma história da astronomia

A história da astronomia conecta círculos de pedra pré-históricos com sondas espaciais do século XX!. È uma história de sucessivas revoluções na compreensão de nosso local no Cosmos, e nos meios pelos quais tomamos consciência dele. A geometria permitiu aos gregos fazer as primeiras medidas do Sol, Terra e Lua. Já no século XVII, instrumentos precisos derrubaram ideias centradas na Terra. O telescópio descortinou o céu apresentando muitos novos mistérios a serem explicados pela teoria da gravitação de Newton. A espectrocospia ofereceu um novo método para estudar as propriedades das estrelas e, por fim, revelou a existência de outras galáxias e a expansão do Universo. Nas útlimas décadas, o desenvolvimento do voo espacial permitiu a telescópios em órbita sondar o espaço profundo, enquanto as jornadas de umas poucas pessoas e máquinas além da órbita imediata da Terra colocaram nosso planeta relamente em perspectiva pela primeira vez.

Astronomia antiga

A história da astronomia remonta a 6.000 anos atrás, o que a torna a mais antiga das ciências. Cada uma das culturas ao longo da história estudou o Sol, a Lua, as estrelas e observou como os corpos celestes se movem no céu. As observações refletem curiosidade e encanto com o mundo natural, mas também foram impulsionadas por razões urgentes de navegação, contagem de tempo e religião.

Ciclos da vida

Povos da antiguidade eram fascinados pelos padrões de mudança repetindo-se incessantemente no mundo a seu redor. Evidências da passagem do tempo incluías alterações na temperatura do ar, no horário e posição do nascer e pôr-do-sol, nas fases da Lua, no crescimento da vegetação e no comportamento animal. Esses fenômenos eram atribuídos aos deuses ou a poderes mágicos. Milhares de anos atrás, os “primeiros” astrônomos foram provavelmente pastores ou agricultores no Oriente Médio, que observavam a noite, atentos a sinais das mudanças das estações. Os antigos egípcios se baseavam em observações astronômicas para planejar o plantio e a safra das colheitas. Sabiam que o nascimento de Sirius logo antes do nascer-do-sol anunciava a enchente do rio Nilo. A habilidade para medir períodos de tempo e registrar ciclos celestes foi essencial para o avanço da astronomia, e assim muitas culturas antigas desenvolveram calendários, relógios de sol e relógios de água. Monumentos como as pirâmides e grupos de megalitos (grandes pedras eretas) foram, de fato, os primeiros observatórios. Em cerca de 1000 a.e.c., os indianos e babilônios haviam calculado a duração do ano em 360 dias; este período levou à divisão do círculo em 360°, com cada grau representando um dia solar. Posteriormente, os antigos egípcios refinaram a duração do ano para 365,25 dias.

Fazendo mapas celestes

A astronomia sempre se ocupou com mapear e nomear as estrelas. Por volta de 3500 a.e.c., os antigos egípcios dividiram o zodíaco nas 12 constelações de hoje e agruparam as outras estrelas fora do zodíaco em suas próprias constelações. Nas antigas China e Índia, criaram-se 28 mansões lunares, ou “domicílios noturnos” para registrar o movimento da Lua em seu caminho mensal. Os antigos gregos foram os primeiros a catalogar as cerca de 1000 estrelas mais brilhantes, por volta de 150-100 a.e.c. mas, muito antes deles, observadores da Índia e Oriente Médio mantinham registros astronômicos detalhados e datados. Coleta de dados sistemática foi desenvolvida pelos sumérios e babilônios – civilizações que viviam entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia – por razões de ritual e profecia política.

Orientação e navegação

Os mais importantes feitos dos astrônomos antigos incluem como encontrar os pontos cardeais – note, sul, leste e oeste – e como usar a Estrela Polar do norte para determinar a latitude. Este conhecimento capacitou a orientação precisa de estruturas, particularmente de templos e monumentos funerários, e também auxiliou na confecção de mapas terrestres acurados. Em 3000-2000 a.e.c., os povos da Idade da Pedra do norte da Europa utilizaram alinhamentos solares nos solstícios e equinócios, fases lunares, e outros dados astronômicos para construir grandes círculos de pedra, como Stonehenge e Avebury na Inglaterra, e Newgrange na Irlanda. Altares de foto (usados por sacrifícios rituais de fogo hindus), posicionados em bases astronômicas, e datando de 3000 anos atrás foram encontrados em diversos sítios arqueológicos na Índia. Algumas das mais complexas construções projetadas de acordo com princípios astronômicos são as pirâmides do antigo Egito e exemplos tardios construídos pelos astecas e maias na América. A arquitetura antiga fornece abundante prova de conhecimento astronômico, mas há poucas evidências do seu uso em navegação antiga. Contudo, os povos navegantes da Polinésia podem ter usado as posições das estrelas para migrar através do Pacífico por volta de 1000 a.e.c.

O nascimento da astrologia

Astrologia é uma prática milenar que busca determinar como os planetas e outros objetos celestes podem influenciar a vida na Terra, em especial os assuntos humanos. Descartada como superstição, ela estabeleceu fundamentos sólidos para a observação astronômica e dedução lógica. Em seu esforço de prever os eventos futuros e buscar sinais ou portentos os antigos astrólogos tentaram “ordenar” os céus e notaram o modo como o Sol, a Lua e os planetas se comportam. Enfatizaram em particular ocorrências inesperadas como eclipses, cometas, chuvas de meteoros e o aparecimento de novas estrelas. Muitas elites políticas empregavam astrólogos e observadores dos céus, e seu trabalho era uma atividade intelectual perfeitamente respeitável até o fim do século XVII. Astrônomos também escreviam tratados astrológicos; por exemplo, em 140 e.c., Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, o mais influente de todos os tratados astrológicos.

Início da astronomia científica

A Grécia antiga foi um divisor de águas no desenvolvimento da astronomia como a ciência racional. Os acadêmicos gregos formularam leis complexas e fizeram modelos do Universo. Após o estabelecimento do Islamismo, estudiosos árabes desenvolveram métodos ainda mais acurados de observação dos céus.

Germens do pensamento científico

O mundo grego antigo conheceu uma liberdade política e intelectual sem precedentes e um espantoso progrsso científico. Por 700 anos, de cerca de 500 a.e.c. a 200 e.c. os filósofos gregos buscaram respostas para questões astronômicas fundamentais. Ainda acreditavam em um plano mestre divino e tinham ideias que soam estranhas par anos hoje – Heráclito (540-500 a.e.c.), por exemplo, sugeria que as estrelas eram acesas toda noite, e o Sol toda manhã, como lâmpadas de óleo. Mas Platão (c.427-347 a.e.c.) argumentou que a geometria é a base de toda verdade, fornecendo assim o impulso necessário para deduzir exatamente como o Cosmos funcionava. Aristóteles fixou a Terra no centro do Universo e sugeriu que os planetas eram corpos eternos movendo-0se em órbitas perfeitamente circulares. Eudoxo (408-355 a.e.c.) cartografou as constelações setentrionais e Hiparco (190-120 a.e.c.) pela primeira vez classificou as estrelas em seis ordens de magnitude.

Medindo distâncias

Os avanços na geometria e trigonometria permitiram que os gregos medisses distâncias astronômicas com razoável precisão. Por volta de 500 a.e.c. Pitágoras propôs que o Sol e a Terra, a Lua e os planetas fossem todos esféricos, uma noção que Aristóteles confirmou, no caso da Terra, pela observação da forma de sua sombra durante um eclipse solar. Em 250 a.e.c. Eratóstenes (276-194 a.e.c.) notou que a luz solar incidia diretamente no fundo de um poço em Siena, no Egito, ao meio-dia do solstício de verão. Comparando com dados sobre as sombras em Alexandria, e usando trigonometria, ele estimou a circunferência da Terra com precisão de 5%. Hiparco e Aristarco (320-230 a.e.c.) mediram a distância Terra-Lua cronometrando eclipses lunares. Infelizmente, a distância Terra-Sol não foi estimada com a mesma precisão.

O cosmos centrado na Terra

É natural que as pessoas supusessem que o Cosmos era geocêntrico, ou centrado na Terra. Afinal de contas, não percebemos o movimento da Terra quando ela gera no espaço e as estrelas parecem fixas. Pensadores antigos, como Aristarco em 280 a.e.c., contestaram este sistema e colocaram o Sol no centro, mas suas ideias não tiveram crédito. Em vez disso, Ptolomeu refinou a visão de mundo cosmológica de Aristóteles e criou uma sequência ordenada de órbitas uniformes. Sua ordem era: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e finalmente as estrelas. Isto é baseado na velocidade percebida: por exemplo, a Lua completa uma volta no céu em um mês, o Sol em um ano e Saturno em 29,5 anos. De modo a reconciliar o conceito errôneo de órbitas circulares (em contraste com elípticas) e as velocidades variáveis dos planetas, Ptolomeu foi obrigado a argumentar que cada planeta também girava em um pequeno círculo, o epiciclo, enquanto orbitava a Terra.

Astronomia árabe

Depois do declínio das cidades-estado gregas, os mais importantes avanços da astronomia foram alcançados pelos árabes. O período de domínio grewgo durou 800 anos, desde a fundação do Islamismo em 622 até o século XIV. Astrônomos trabalhando no Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e Espanha mourisca traduziram textos gregos e em sânscrito (da Índia) para o árabe e assimilaram seu conhecimento astronômico. As regras muçulmanas para s cultos ao longo do dia e do mês, e a necessidade de encontrar a direção de Meca para fazer as orações e orientar as mesquitas, significavam que havia uma urgente necessidade de se determinar o tempo e a posição com extrema precisão. Desenvolveu-se a trigonometria esférica sofisticada, funções trigonométricas e álgebra e o astrolábio (uma invenção grega, usada para calcular a hora e a latitude) foi aprimorado. A abordagem dos grandes astrônomos árabes, como Al-Battani (850-929) e Ulugh Beg (1349-1449) fundamentava-se em observação paciente. Com este fim numerosos observatórios foram construídos, dos quais os maiores estavam em Bagdá, no Iraque, em Samarkand, no Uzbequistão, e em Maraghan, no Irã. Eles alojavam grandes instrumentos, incluindo quadrantes montados em paredes, utilizados para medir a altitude de objetos astronômicos quando cruzavam o meridiano (o plano norte-sul).

A revolução copernicana

Por séculos os astrônomos basearam suas teorias na suposição de que a Terra estaria no centro do Universo. No século XVI, esta posição privilegiada foi abalada pela sugestão de que a Terra era apenas um dos vários planetas circulando o Sol. Esta revolução foi acompanhada por imensos avanços tecnológicos, em particular pela invenção de telescópios, anunciando uma nova era de pesquisa e de grandes descobertas.

Astronomia medieval

Após a queda de Roma em 476, astrônomos na Europa, Oriente Médio e àsia deixaram para trás seu relativo isolamento cultural e passaram a trocar ideias mais livremente. Isto graças, em parte, ao crescimento do comércio durante a Idade Média e em parte à expansão do Islamismo. A astronomia observacional floresceu com ênfase em conjunções planetárias, eclipses solares e lunares a as aparições de cometas e estrelas novas. Muitos astrônomos medievais eram professores universitários e se sustentavam com o ensino. Apesar dos recursos limitados fizeram avanços notáveis, incluindo um novo preciso catálogo de posições de estrelas a olho nu, planejado por Ulugh Beg *1394-1449) da Mongólia – o primeiro desde os dias de Hiparco, 1600 anos.

O Universo heliocêntrico

Pode-se datar o nascimento da astronomia em 1543, quando Nicolau Copérnico publicou seu revolucionário tratado sobre um Universo centrado no Sol, ou heliocêntrico. Ele estava insatisfeito com a imprecisão dos modelos geocêntricos das orbitas planetárias, nos quais a Terra ocupava o centro e que dominavam a astronomia desde a obra de Ptolomeu no século II. Sua teoria muito mais simples de um Sol central e uma Terra em órbita explicava muitas observações antes enigmáticas, porque agora havia dois tipos de planetas, os internos e os externos da órbita da Terra. A sequencia Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno era um ordem de período orbital e de distância crescente ao Sol. A “lanterna do Universo”, com o Copérnico o chamava, agora assumia seu lugar de direito no centro do Cosmos. Embora isso significasse que a Terra se movia em alta velocidade, a teoria já havia sido proposta por Aristarco e outros.

A noção do Espaço

Os gregos e os astrônomos posteriores colocaram as estrelas logo além de Saturno, mas isto causaria um problema se a teoria copernicana estivesse correta. Se, como Copérnico argumentava, a Terra orbitava o Sol, por que as estrelas não tinham um movimento recíproco? A única escolha para Copérnico era banir as estrelas para uma distância tão vasta que seu movimento não seria perceptível para observadores terrestres. Ele também foi o primeiro a sugerir que as estrelas brilhantes estariam mais próximas que as fracas. Contudo, ouros se perguntavam porque Deus teria criado um espaço enorme, aparentemente inútil entre a órbita de Saturno e as estrelas. Tycho Brahe (1546-1601), um nobre dinamarquês, pensava que o futuro da astronomia dependia da estimativa de distâncias verdadeiras e do registro acurado das posições planetárias em diversos tempos. Com este objetivo ele aprimorou os padrões observacionais, fabricando instrumentos de mensuração precisamente calibrados. Em 1572 suas observações pacientes da supernova na constelação de Cassiopéia o convenceram de que as estrelas não estavam todas a uma distância fixa, mas que eram objetos cambiantes que existem no “espaço”. Propor essas ideias exigia coragem, ou o apoio de patronos poderosos, devido à Inquisição, nessa época, julgar e punir os que desafiassem a visão ortodoxa da Igreja Católica em relação ao Universo.

Leis do movimento planetário

O sistema heliocêntrico copernicano ainda descrevia as órbitas planetárias em termos de epicilos – cada planeta descrevia um pequeno círculo enquanto girava em torno do corpo central. Essa visão prevalecia desde Ptolomeu mas a forma real das órbitas permanecia um mistério. Necessitava-se de duas coisas para resolver o problema. A primeira era os dados planetários precisos obtidos por Tycho Brahe. A segunda era fé nos seus dados, junto com tenacidade e gênio matemático. A última foi fornecida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), sucessor de Tycho após 1601. Com base nas observações do caminho de Marte na esfera celeste Kepler acabou por formular suas três leis do movimento planetário. Primeiramente, em 1609, ele revelou que as órbitas eram elípticas, e não circulares ou epicíclicas. O Sol está em um dos focos da elipse (a elipse tem dois focos; o círculo é um calo limite de eclipse, com um único foco). Em segundo lugar, mostrou que a linha unindo o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, assim um planeta é mais lento na parte mais exterior da sua órbita. Em terceiro lugar, em 1619, Kepler provou a relação entre o tamanho e o período da órbita. Ele alimentava concepções místicas – acreditava que o Cosmos era permeado por coras musicais, com cada planeta produzindo um tom em proporção a sua velocidade. Como todos antes da descoberta da gravidade por Newton, não tinha a menor ideia do que mantinha os planetas em suas órbitas.

As descobertas de Galileu

Galileu Galileia apresentou provas concretas de que o modelo copernicano do Universo estava correto. Em 1608 quando um fabricante de óculos flamengo inventou o telescópio a notícia se espalhou rapidamente. Galileu construiu, ele mesmo, vários telescópios em 1609, assim tornando-se o fundador da astronomia telescópica. Seus instrumentos tinham uma magnificação de 30x. Em alguns meses ele descobriu que a Lua era montanhosa, detectou as fases de Vênus, as manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Chegou mesmo a sugerir que as estrelas fosses sóis distantes. Acima de tudo ele percebeu que as fases de Vênus somente poderiam ser explicadas se os planetas orbitassem o Sol, e não a Terra. Outros achados de Galileu fundamentam a física nascente: a aceleração de um corpo independe de sua composição ou peso; e o período de balanço de um pêndulo independe de sua amplitude.

Grandes observatórios

A emergência de uma nova geração de observatórios fo um divisor de águas na história da astronomia. Observatórios haviam sido anteriormente exclusivos a um grupo seleto de pessoas, incluindo Tycho Brahe na Dinamarca e Johannes Hevelius em Danzing, Prússia (agora Gdansky, na Polônia), ou de professores universitários, como Galileu ou Giovanni Cassini de Bologna, na Itália. Então, essas unidades foram ampliadas por instituições reais bem financiadas. Luis XIV fundou a Academia de Ciências em Paris, em 1666, e o Observatório Real francês, completado em 1672. Na Inglaterra, Charles II fundou a Royal Society em 1660, o que levou à construção do Royal Greenwich Observatory, onde John Flamsteed (1646-1719) foi o primeiro astrônomo real, iniciando seu trabalho em 1676. Em breve os astrônomos estavam atacando os três principais desafios daquela época: determinar o tamanho do Sistema Solar; medir a distância até as estrelas; e achar a latitude e a longitude de locais na terra e no mar. Esta busca foi em parte impulsionada por necessidades da navegação em uma época de expansão dos impérios europeus e pelo desejo de prestígio nacional. A partir do começo do século XVIII, os observatórios se multiplicaram rapidamente, inaugurando-se instalações em Berlim, Prússia (1711), em Jaipur, Índia (1726), em Uppsala, Suécia (1730), em Vilnius, Prússia (1753), em Washington, EUA (1838), e em Pulkovo, Rússia (1839). Dedicou-se muito esforço para mapear o céu e traçar os movimentos dos corpos celestes.

Leis da atração

Um dos maiores enigmas desafiando os astrônomos de meados do século XVII era porque os planetas percorriam imensas distâncias ao redor do Sol em órbitas estáveis sem se lançar no espaço. O grande físico inglês Issac Newton (1642-1727), professor na Universidade de Cambridge, encontrou a resposta. Um objeto se moveria a velocidade constante segundo uma linha reta, a menos que fosse sujeito a uma força. No caso dos planetas, a força era a gravidade do Sol. Ele logo percebeu que a gravidade era universal. Ela controlava tanto a trajetória de um objeto caindo (como a famosa maçã que Newton viu cair de uma árvore em 1666), como a Lua orbitando a Terra e um cometa viajando rumo ao Sol vindo dos remotos confins do Sistema Solar. A gravidade explicava as três leis de Kepler e também a altura das marés. Após a morte de Newton, o retorno do cometa Halley em 1758 provou que a gravidade também era aplicável nos limites do Sistema Solar, e o uso da teoria da gravitação possibilitou o cálculo da massa da Terra e do Sol. 

O telescópio refletor e Newton

Em 1666, Newton descobriu que um prisma dispersa a luz em um arco-íris de cores. Infelizmente, as lentes de um telescópio fazem o mesmo, e a luz azul de um extremo do espectro é focalizada em um ponto diferente da luz vermelha e o ouro extremo. Isto é a chamada aberração cromática, que produz halos de luz colorida ao redor do objeto sendo visto, causando uma grave perda de qualidade de imagem. Uma solução é suar espelhos curvos para focalizar toda luz no mesmo ponto, independentemente da cor. Em 1663, o escocês James Gregory (1638-75), projetou um telescópio refletor com um grande espelho côncavo primário e um secundário côncavo menor que projetava luz de volta através de um orifício para uma lente magnificadora atrás. Newton modificou o projeto usando um espelho plano secundário para refletir a luz capturada para uma ocular montada lateralmente. Exibido em 1672 o telescópio de Newton foi imensamente aclamado.

O espaço infinito

Na metade do século XIX, a astronomia havia evoluído de uma ciência essencialmente matemática para uma disciplina que incorporava o conhecimento novo e as técnicas dos físicos e químicos. Rápidos progressos tecnológicos, particularmente a invenção da fotografia e telescópios ainda mais poderosos, permitiram aos astrônomos estudar os corpos celestes com muito mais detalhe. Eles começaram a classificar os diferentes objetos e a estudar seu comportamento.

O iluminismo

Os séculos XVIII e XIX viram grandes progressos em ciência devido a métodos científicos aprimorados. Foi um período de consolidação em astronomia, baseada em avanços nas medidas e classificação de corpos celestes. As órbitas dos cometas eram de grande interesse depois do trabalho do inglês Edmond Halley (1656-1742), que mostrou que “seu” cometa retornava a cada 76 anos. As órbitas dos planetas eram determinadas com muito mais precisão que anteriormente e detalhes de sua superfície, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter e as calotas polares de Marte foram observados. Em 1728, a velocidade da Terra foi calculada. William Herschel descobriu o sétimo planeta, Urano, em 1781, e o italiano Giuseppe Piazzi ( 1746-1826) identificou o primeiro asteroide, Ceres, em 1801. Os franceses Urbain Le Verrie e Pierre-Simon Laplace (1749-1827), e o inglês John Adams (1819) aplicaram a teoria da gravitação de Newton para prever a posição de um planeta invisível além de Urano. Netuno foi descoberto em 1846.

O cosmos estelar

Aperfeiçoamentos dos telescópios ao longo do século XVIII permitiram que a astronomia tornasse o estudo do Universo um processo dinâmico. Anteriormente as estrelas eram apenas pontos fixos de luz, com distância desconhecida, mas na década de 1710 Halley descobriu o seu movimento dando início a esforços concentrados para compreender seu comportamento. Constatou-se que muitas estrelas são duplas, orbitando em torno de um centro de massa comum, em conformidade com a gravitação newtoniana e, na década de 1780, estrelas variáveis como Algol e Delta Cephei, eram investigadas. Em 1781, o francês Charles Messier (1730-1817) publicou um catálogo de 103 “corpos difusos”, ou nebulosas (nuvens de gás e poeira). Herschel estendeu este trabalho, gastando muitas horas contando estrelas de diferentes magnitudes, em uma ambiciosa tentativa de fazer um levantamento do céu. Em 1783 ele deduziu que o Sol está se aproximando da estrela Lambda Herculis, e erroneamente concluiu que ela se situava no centro do sistema estelar galáctico. Durante as duas primeiras décadas do século XIX, Laplace desenvolveu métodos de análise matemática que resultaram no primeiro modelo para a origem do Sistema Solar.

O nascimento da astrofísica

Durante o século 19, os astrônomos continuaram a aplicar o desenvolvimento da matemática, física e química para compreender a constituição e comportamento dos planetas, cometas e estrelas. Um novo campo – a astrofísica – emergiu, conferindo propriedades físicas aos objetos no espaço. A astronomia tratava principalmente com seu movimento, enquanto a astrofísica examinava seus parâmetros básicos como raio, massa temperatura, e composição química. Em 1815, o óptico alemão Joseph Fraunhofer (1787-1826), enquanto estudava o espectro da luz solar, notou várias linhas escuras sobre ele. Mais tarde, verificou-se que estas linhas eram devidas à absorção por elementos químicos do Sol. Como ada elemento químico absorve a luz em certos comprimentos de onda, o padrão de linhas de absorção revela a sua presença. Nos anos 1860, o astrônomo britânico William Huggis (1824-1910) descobriu, por meio da espectroscopia (o estudo de espectros) que as estrelas contêm os mesmos elementos que a Terra.

Avanços instrumentais

Os telescópios tornaram-se cada vez maiores desde o princípio do século XVIII – quando astrônomos como Edmond Halley labutavam para usar desajeitados e imprecisos instrumentos com lentes objetivas de pequeno diâmetro – na metade do século XIX. As lentes dobraram em tamanho a cada 40 anos, o que implicava que a distância até os objetos visíveis mais longínquos também dobrava, e que seu número crescia por um fator oito. Sofisticaram-se as montagens dos telescópios, e a qualidade das lentes foi aperfeiçoada. Os telescópios refratores foram totalmente transformados em 1758, quando o astrônomo inglês John Dolland (1706-1761) introduziu a lente dupla, que focalizava a luz azul e a vermelha no mesmo ponto. Herschel construiu enormes telescópios refletores e, em 1524 completou-se o primeiro telescópio com montagem equatorial, na qual o eixo do instrumento era alinhado com o polo norte celeste e um relógio mecânico movia o instrumento em torno deste eixo para acompanhar as estrelas. Nos anos 1840, a fotografia começou a substituir o lápis e papel para o registro de dados. Placas fotográficas podiam ser expostas por horas, permitindo a detecção de objetos muito mais fracos que os visíveis unicamente pelo olho humano.

A forma do espaço

No começo do século XX, alguns pensavam que havia apenas uma galáxia, com o Sol no centro. Nos anos 1930, os astrônomos já haviam percebido que havia bilhões de galáxias e que o Universo estava em expansão. Também começavam a compreender as fontes de energia estelar.

Matéria e energia das estrelas

A partir de 1900, devido à compreensão da natureza da radioatividade descoberta quatro anos antes, começou-se a perceber que a Terra poderia ter mais de 1 bilhão de anos de idade. Esta ideia era consistente com estimativas anteriores feitas por geólogos e com a avaliação de Charles Darwin do tempo necessário para a seleção natural operar. Permanecia o mistério de como o Sol poderia manter-se brilhando por tanto tempo. Uma ideia era que o Sol fosse alimentado pela queda de meteoritos; outra que o Sol estava lentamente se contraindo. Nenhuma dessas teorias dava conta da longa vida do Sol. Contudo, em 1905 Albert Einstein (1879-1955) propôs que E=mc2,  e assim energia E, poderia ser produzida pela destruição de massa, m. Nos anos 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington (1882-1944) sugeriu que a fonte de energia do Sol – e de outras estrelas – fosse a fusão nuclear. O físico germano-estadunidense Hans Bethe (1906-2005) especificou então os processos básicos de fusão nuclear. É de fato uma reação nuclear que libera energia da matéria. Astrofísicos têm agora uma visão detalhada de como as estrelas obtêm sua energia e estimam que estrelas do tipo solar possam brilhar por 10 bilhões de anos.

O grande debate

Nos anos 1920 houve um debate público entre os astrônomos estadunidenses Harlow Shapley e Heber Curtis sobre a forma da nossa galáxia em particular a extensão do Universo em geral. Shapley acreditava que havia apenas uma “grande galáxia”, com a Terra a dois terços da distância até a borda. Ele dizia que o diâmetro era de 300.000 anos-luz – 10 vezes maior que a estimativa de Curtis. Este valor foi obtido com estrelas variáveis cefeídas (cujo brilho varia periodicamente) como indicadores de distância. Curtis, por outro lado, estava convencido de que muitos objetos nebulosos no céu não estavam em nossa galáxia, mas que eram de fato outras galáxias como a nossa. Ele propôs que estes “universos-ilha” estava espalhados uniformemente no céu, com alguns deles obscurecidos pelo disco galáctico, o que explicava sua distribuição acima e abaixo do plano da Via Láctea.

O universo em expansão

Os novos e enormes telescópios estadunidenses revolucionaram a astronomia do século XX. O Telescópio Hooker era tão grande que podia detectar as estrelas cefeídas da Nebulosa de Andrômeda (M31). O  fraco brilho dessas estrelas indicava eu sua distância da Terra era cerca de 10 vezes o diâmetro da Via Láctea. Heber Curtis estava correto: Andrômeda não era uma “nebulosa” mas uma galáxia. Outras “nebulosas” espirais também eram claramente galáxias. Usando o Hooker o estadunidense Edwin Hubble mostrou que as galáxias são os “blocos fundamentais” de um universo muito mais vasto que previamente imaginado. Em 1927 ele investigou características espectrais de galáxias e constatou que não somente a luz da maioria delas apresentava um deslocamento para o lado vermelho do espectro, indicando que se afastavam de nós, mas também que essa velocidade de recessão era maior para as mais fracas (mais distantes). O Universo estava em expansão e, portanto, deveria ter sido muito menor no passado. O declive do gráfico velocidade-distância indicava a idade do Universo. Os astrônomos logo perceberam que algo havia dado início à expansão, lançando as sementes da teoria do Big Bang.

Tecnologia de telescópios

A astronomia observacional estadunidense atingiu um divisor de águas nas últimas décadas do século XIX. Nos Estados Unidos novos e sofisticados observatórios e departamentos universitários foram estabelecidos, muitas vezes financiados por empresários milionários. Os astrônomos desejavam examinar objetos muito fracos e distantes, mas a limitada resistência e a transparência relativamente baixa das lentas objetivas dos telescópios impunham um limite de cerca de 1m de diâmetro – o tamanho do telescópio refrator de Yerkes, inaugurado em Williams Bay, Wisconsin, em 1897. Assim abandonou-se os refratores: era o início de uma nova era de enormes telescópios refletores. O Telescópio Hooker, de 2,5m, em Monte Wilson, na Califórnia, tornou-se operacional em 1918. Em 1948, entrou em sérvio o Telescópio Hale, de 5,2m, no Monte Palomar, na Califórnia. Em 1993, o primeiro Telescópio Keck, com um espelho de 10m, feito de espelhos segmentados, entrou em operação. Acoplado ao progressivo aumento do tamanho dos telescópios veio um enorme aumento na sensibilidade dos detectores. Placas fotográficas tornaram-se mais sensíveis e foram usadas extensivamente par mapear o céu e gerar arquivos permanentes de posições e espectros de objetos. Outro desenvolvimento crucial foi a radioastronomia. Radiotelescópios, o primeiro dos quais foi feito em 1937, passaram a captar as emissões nos longos comprimentos de onda em rádio do espaço profundo.

Astronomia da era espacial

Com o início da Era Espacial (a era do vôo espacial) nos anos 1950, a viagem além da Terra e o contato co planetas, cometas e asteroides tornou-se uma realidade. O despertar das astronomias em rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama ofereceu à humanidade novas perspectivas do Universo, revelando a existência de novos e exóticos objetos nunca antes imaginados.

Estrelas extremas

Relações entre massa, raio e luminosidade das estrelas foram primeiramente estabelecidas graças ao diagrama Hertzsprung-Russel por volta de 1911 e levaram ao reconhecimento de estrelas gigantes e anãs. Desde então encontraram-se muitos tipos extremos de estrelas. Em 1915, W.S. Adams identificou Sirius B como a primeira anã branca – uma estrela da massa do Sol mas comprimida até o volume da Terra. Em 1931 o astrofísico indiano S. Chandrasekhar, usando os novos modelos para o comportamento de partículas subatômicas, descobriu um limite superior à massa de uma anã branca. 1,4 massa solar. Acima disso, um núcleo estelar exaurido colapsará em uma estrela de nêutrons superdensa com uns poucos quilômetros de diâmetro, arrebentando o resto da estrela em uma explosão de supernova. Estrelas de nêutrons em rotação são vistas da Terra como pulsares – radiofontes pulsantes –, a primeira delas foi descoberta em 1967 por Jocelyn Bell-Burnell e Anthony Hewish, do Reino Unido. No outro extremo de massa estelar estão as anãs marrons, muitas delas descobertas recentemente, muito frias para desencadearem rações nucleares no seu centro.

Buracos negros

A possibilidade de buracos negros foi sugerida em 1783 pelo astrônomo inglês John Michell, que considerou a hipótese de um objeto tão massivo que nem a luz poderia escapar da sua gravidade. A ideia reapareceu em 1916 como resultado da teoria da relatividade geral de Einstein, mas os buracos negros permaneceram uma curiosidade até a década de 1960, quando o lançamento de satélites de astronomia de raios-X levou à descoberta de estrelas binárias de raios-X como Cygnus X-1. Binárias de raios-X exigem uma fonte compacta, massiva de erngia, que só pode ser fornecida por um buraco negro. A descoberta de buracos negros de massa estelar também abriu o caminho para se aceitar os quasares – objetos compactos, extremamente luminosos, a altos redshifts – como violentas galáxias distantes, alimentadas por buracos negros supermassivos nos seus centros.

Interior das estrelas

Com telescópios ópticos os astrônomos podem enxergar até uma profundidade de 500km abaixo da superfície solar. Infelizmente, como o Sol tem um raio de 700.000km, um imenso volume não pode ser observado diretamente. Durante os anos 1920 os astrofísicos calcularam que o centro do Sol teria uma temperatura de aproximadamente 15 milhões °C e uma densidade cerca de 150 vezes a da água. Em 1939 o físico alemão Hans Bethe mostrou como processo nucleares, agindo sob essas condições extremas, converteriam lentamente hidrogênio em hélio, liberando imensas quantidades de energia pela conversão de massa em energia. O inglês Fred Hoyle e o alemão Martin Schwarzschild estenderam esta modelo na década de 1950, mostrando como hélio é transformado em carbono e oxigênio em estrelas gigantes. Logo os astrofísicos encontraram mecanismos para a manufatura de elementos ainda mais pesados, como cobalto e ferro, nas estrelas mais massivas. Na década de 1960 os primeiros detectores de neutrinos foram usados para detectar estas partículas altamente penetrantes, liberadas pelas reações nucleares no interior do Sol, e desde os anos 1970, a técnica de heliossismologia permitiu o monitoramento das ondas sonoras ressonando através do interior solar, assim revelando sua estrutura detalhada.

Meio interestelar

A descoberta de grandes quantidades de gás e poeira entre as estrelas foi um triunfo da radioastronomia. Em 1944, o astrônomo holandês Hendrick vam de Hulst previu que o hidrogênio interestelar emitiria ondas de rádio com um comprimento de onda de 21 cm, o que foi confirmado em 1951 pelos físicos estadunidenses Harold Ewen e Edward Purcell. Em breve, radiotelescópios eram usados para mapear a distribuição do hidrogênio neutro atômico nos braços espirais da Via Láctea e de outras galáxias. Em 1974, levantamentos do comprimento de onda de 2,6mm, que age como um traçador de hidrogênio molecular, levaram à descoberta de nuvens moleculares gigantes, locais de nascimento de estrelas.

Astronomia desde o espaço

A Era Espacial começou em 4 de outubro de 1957, quando a União Soviética lançou o satélite Sputnik I, e os astrônomos rapidamente aproveitaram a capacidade de se observar fora da atmosfera terrestre. Detectores a bordo de foguetes já haviam captado sinais intrigantes em comprimentos de onda incomuns durante suas breves excursões fora da atmosfera, e o primeiro observatório orbital, o Ariel I, foi lançado pelo Reino Unido em 1961, equipado com um telescópiode ultravioleta. Outros satélites, como as séries estadunidenses Explorer, e Uhuru, rapidamente mapearam as principais fontes de ultravioleta, infravermelho e raios-X. Enquanto isso, sondas espaciais se espalhavam pelo Sistema Solar, retornando informação sobre o ambiente interplanetário e cartografando os planetas com uma variedade de câmaras, radares e outros instrumentos.

A origem do Universo

A descoberta na década de 1920 de que o Universo está em expansão desencadeou uma nova onda de reflexões cosmológicas. Em 1931, o astrônomo e padre belga Georges Lamaître sugeriu que todo o material do Universo teria começado com o uma única esfera altamente condensada – a origem da teoria do Big Bang. Em 1948, o austríaco Hermann Bondi e os britânicos Thomas Gold e Fred Hoyle propuseram uma teoria rival, da Criação Contínua, na qual matéria estaria sendo criada continuamente para preencher os vazios deixados pela expansão. Felizmente, ambas teorias poderia ser testadas pelas observações e as evidências acabaram por apoiar o Big Bang. Em 1980, Alan Guth da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, estendeu a cosmologia do Big Bang introduzindo a inflação, que auxiliava a resolver alguns problemas maiores da teoria. Mas, ainda restam questões importantes nessa área.

Planetas extra-solares

Grandes refinamentos na espectroscopia permitiram medir ligeiras variações nas velocidades estelares produzidas pela perturbação gravitacional de planetas em órbita. Em 1995, os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra descobriram um planeta com massa um pouco abaixo da metade daquela de Júpiter em torna da estrela 51 Pegasi, a 48 anos-luz. Agora se conhecem centenas de planetas extra-solares e abriu-se um novo campo da astronomia. Os astrônomos têm se surpreendido com suas descobertas – a maioria dos sistemas planetários é muito diferente do Sistema Solar. Alguns têm planetas gigantes orbitando muito próximo à estrela mãe, enquanto outros têm planetas com órbitas altamente elípticas. 

A caçada continua

Quanto mais os astrônomos sabem sobre o Universo, mais querem saber. Na década de 1970 reconheceu-se que o Universo continha muito mais material que o visível: matéria escura afeta a rotação das galáxias; a massa faltante é prevista pela teoria do Big Bang mas ainda não foi observada. A exótica “energia escura” parece acelerar a expansão do Universo. Ao lado desses grandes mistérios cosmológicos está a busca pela vida do Universo, abarcada pela nova ciência da astrobiologia. Nos últimos séculos o tamanho dos espelhos de 10mde hoje serão substituídos por gigantes ainda maiores e observações feitas além da atmosfera terrestre serão cada vez mais produtivas. O telescópio de 2,5m do Telescópio Espacial Hubble será pequeno perto do Telescópio Espacial James Webb, com espelho de 6,5m, a ser lançado em 2021. Esta nova geração de telescópios deverá finalmente captar a primeira geração de estrelas e galáxias. E, à medida que os astrônomos observarem cada vez mais longe com instrumentos cada vez mais sensíveis, inevitavelmente serão confrontados com novos mistérios e corpos exóticos não imaginados antes.

Primeiras espaçonaves

A segunda metade do século XX registrou uma revolução na nossa compreensão do Universo, desencadeada pelo desenvolvimento do vôo espacial. Pela primeira vez, em lugar de apenas olhar para o esaplo, os seres humanos e suas máquinas viajavam por ele. Revezes e riscos marcaram os primeiros tempos da exploração espacial, mas, com esses obstáculos superados, o progresso foi rápido.

Sonhadores de foguetes

A ideia da viagem espacial é tão antiga quanto o contar estórias, mas com poucas noções das leis da física ou da natureza do espaço escritores frequentemente se baseavam em meios cômicos ou absurdos de transportar fictícios viajantes espaciais. Mas, as leis newtonianas do movimento e da gravitação, em conjunto com o fato do espaço ser um vácuo, indicavam que apenas uma forma de propulsão seria capaz de levar viajantes ao espaço – o foguete. Desenvolvidos como fogos de artifício e armas na China medieval, os foguetes contém o combustível necessário para sua propulsão, impulsionados por gases ejetados pelo seu escape. Embora o escritor francês Cyrano de Bergerae (1619-1655) tivesse sugerido no século XVII seu uso para alcançar a Lua, o primeiro a considerar seriamente as realidades da viagem espacial foi o professor da escola rural soviético Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), que desenvolveu muitos dos princípios dos foguetes de combustível líquido, de múltiplos estágios, publicando-os na década de 1890.

Lançamento

Os princípios dos foguetes estavam bem desenvolvidos no começo do século XX, mas ainda havia vários problemas para fazer do voo espacial uma realidade prática. O maior deles era a eficiência do combustível. O engenheiros estadunidense Robert Goddard concebeu a ideia de combustíveis líquidos mais eficientes e em 1926, lançou um foguete de 3m de comprimento impelido por oxigênio líquido e gasolina. As ideias de Goddard e Tsiolkovsky foram adotadas por entusiastas no mundo todo, inclusive pela Sociedade para a Viagem Espacial (VfR) da Alemanha. Durante a década de 1930, muitos dos cientistas da VfR foram recrutados pelo boverno nazistas para um programa militar que prosseguiu durante a Segunda Guerra Mundial. A culminação dos seus esforços, o míssil V2, chegou tarde demais para salvar a Alemanha da derrota, mas provou que armamentos à base de foguete eram o caminho do futuro.

A corrida espacial

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, as maiores potências desejavam a tecnologia de foguetes para si. A maioria dos cientistas fugiu para o Ocidente, mas a União Soviética capturou as fábricas das V2. As razões para tal interesse tornaram-se claras quando as relações internacionais rapidamente deterioraram e começou a Guerra Fria. Ambos acreditavam que mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) impulsionados por foguetes poderiam ser a resposta para lançar a arma final – a bomba nuclear. Foi neste contexto que os Estados Unidos e a União Soviética começaram seus programas espaciais. Ambos viram que a tecnologia de mísseis poderia ser utilizada para alcançar a órbita terrestre e reconheceram que esses lançamentos demonstrariam o poder de seus foguetes e renderiam grandes benefícios de propaganda.

Em órbita

No começo dos anos 1950 União Soviética e Estados Unidos anunciaram planos de lançar satélites durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-58. O programa soviético prosseguiu em sigilo, usando seus enormes mísseis R-7 como veículos de lançamentos, enquanto os cientistas estadunidenses passavam por escrutínio público. Os planos do cientista alemão Werher von Braun de lançar um satélite com o ICBM estadunidense Redstone foram engavetados a favor do programa de pesquisa espacial Vanguard da marinha estadunidense. Pouco antes da data de lançamento do Vanguard, em novembro de 1957, os soviéticos anunciaram em 4 de outubro do mesmo ano o lançamento bem sucedido do Sputnik I. As estações de rastreamento captaram sinais de rádio do satélite e confirmaram que a União Soviética tinha tomado a dianteira na corrida espacial. A humilhação estadunidense foi total quando, em 6 de dezembro, o lançamento do Vanguard terminou em uma explosão na plataforma de lançamento. O projeto de Von Braun foi imediatamente ressuscitado, e o primeiro satélite estadunidense, o Explorer I, entrou em órbita com êxito menos de dois meses mais tarde, em 31 de janeiro de 1958.

As missões Vostok

No final da década de 1950, o próximo grande passo da corrida espacial estava claro – qual das superpotências seria a primeira a colocar uma pessoa em órbita? Os soviéticos tinham uma óbvia vantagem de potência, já que o Sputnik II, o seu segundo satélite, pesava meia tonelada, e haviam conseguido enviar sondas além da vizinhança imediata da Terra. Em 12 de abril de 1961 fizeram um anúncio que surpreendeu o mundo: o Coronel Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espalho, a bordo da Vostok I. Gagarin retornou à Terra como herói da União Soviética, e o programa espacial estadunidense, agora gerenciado pela Nasa, de novo havia ficado para trás. As missões Vostok posteriores superaram novos limites e colocaram a primeira mulher no espaço, aumentaram os tempos em órbita e mantiveram mais de uma espaçonave simultaneamente em voo.

Projeto Mercury

A resposta da Nasa ao Vostok foi o programa Mercury, que lançou seis astronautas entre 1961 e 1963. Diferentemente do programa soviético os esforços estadunidenses foram conduzidos sob os holofotes da mídia. As cápsulas espaciais Mercury eram minúsculas e leves, parcialmente porque tinham que ser transportadas pelo pequeno veículo de lançamento Redstone nos primeiros voos. A Nasa estava desenvolvendo um novo lançador, o Atlas, mas os tests da cápsula deveriam começar antes do foguete maior estar pronto. Surpreendida pelo lançamento do Vostok I, a Nasa correu para retaliar e colocou seu primeiro homem no espaço em 5 de maior. Lançado em um foguete Redstone a missão Freedom 7, de Alan Shepard, não tinha velocidade suficiente para entrar em órbita, mas alcançou uma altura de 185 km durante um voo de 15 minutos. Após um segundo voo sub-orbital, o foguete Atlas foi completado no final de 1961. Seguindo um número de testes, John Glenn foi o primeiro estadunidense em órbita em 20 de fevereiro de 1962.

Próximos passos

Dispostos a manter sua liderança na corrida espacial, os soviéticos assumiam um grande risco. Os estadunidenses tinham anunciado suas missões planejadas de dois homens do Gemini e, em um esforço para ofusca-los de antemão, o diretor do programa espacial soviético, Korolev, planejava uma missão de três homens. Era um grande desafio, pois já havia sido iniciado um trabalho com as naves Soyuz visando alcançar a Lua. Finalmente, os engenheiros soviéticos chegaram a um engenhoso compromisso Voskhod era efetivamente uma cápsula Vostok modificada com espaço suficiente para levar três tripulantes. O voo da Voskhod I, em 12 de outubro de 1964, foi um sucesso, batendo a primeira missão tripulada Gemini por cinco meses. A Voskhod II, lançada alguns dias antes do primeiro teste de voo da Gemini foi um sucesso ainda maior. Durante o voo Alexei Leonov tornou-se a primeira pessoa a caminhar no espaço. Os soviéticos haviam desferido mais um espetacular golpe de propaganda.

Exploradores robôs

Enquanto o foco da atenção pública estava principalmente no programa espacial tripulado, uma segunda corrida espacial era mantida em paralelo – cujas consequências para nossa compressão do Sistema Solar. Cada superpotência tentava superar a outra nos “primeiros” passos da exploração de outros mundos. A exploração espacial robótica teve uma acidentada história inicial, com numerosas falhas, tanto nas plataformas de lançamento, enquanto, ou durante as tentativas de pouso. Porém houve alguns sucessos notáveis: em janeiro de 1959 a Lunik ou Luna I tornou-se o primeiro objeto a escapar da gravidade terrestre e entrar em órbita em torno do Sol; a Lunik II atingiu a Lua em setembro de 1959; a Lunik III registrou as primeiras imagens do lado oculto da Lua. A Pioneer V da Nasa foi a primeira sonda deliberadamente lançada ao espaço interplanetário, entrando em órita entre a terra e Vênus em 1960, enquanto as sondas estadunidenses Mariner II e IV venceram os soviéticos na corrida rumo a outros planetas, voando para Vênus e Marte em 1962 e 1965, respectivamente.

Viagens à Lua

As missões Apolo para a Lua frequentemente são descritas como uma grande conquista da técnica humana. Vastas quantidades de recursos humanos e financeiros foram investidos em um programa com motivações científicas e de propaganda. As missões revelaram muito sobre a Lua e seus imensos avanços tecnológicos remodelaram o mundo.

Um homem na Lua

Em 25 de maio de 1961 o presidente estadunidense John F. Kennedy fez um discurso que abalou o mundo. Em uma época em que os Estados Unidos ainda tinham que colocar um astronauta em órbita da Terra, ele prometeu que seu país levaria pessoas à Lua até o fim da década. A escala do empreendimento era monumental. Astronautas não haviam se aventurado a além de 300km da superfície terrestre, e agora Kennedy dava à Nasa a missão de enviá-los a uns 400.000km de distância, pousá-los na superfície de um mundo desconhecido e trazê-los de volta com segurança. Contudo, se isto fosse realizado, a mensagem seria que os Estados Unidos agora eram uma potência espacial. A Nasa imediatamente começou a investigar os meios de se pousar na Lua. A missão estabeleceu como objetivo usar o maior foguete já construído, projetado pelo cientista de foguetes alemão Wernher von Brauns, para enviar três naves conectadas rumo à Lua – somente uma delas retornaria à Terra. O nome, Apollo, o deus grego do Sol, foi sugerido pelo diretor de voos espaciais da Nasa. Dr. Abe Silvestein.

Projeto Gemini

Cada missão Apollo envolveria diversas operações de encontro, acoplamento e desacoplamento no espaço – operações que a Nasa e seus astronautas jamais haviam tentado antes. Apenas ir à Lua e voltar exigiria um mínimo de 7 dias. Para ganhar experiência em voos espaciais de longa duração e nas delicadas manobras necessárias no Apollo, a Nasa anunciou que o programa Mercury seria substituído pelo Projeto Gemini, uma série de missões de dois tripulantes. Houve 10 missões tripuladas Gemini, entre 1964 e 1966, diversas das quais envolviam encontros entre naves, caminhadas no espaço, e mesmo acoplamentos com veículos alvo não-tripulados. Agena. A espaçonave, composta de três módulos, também representava um grande avanço. Enquanto os dois astronautas permaneciam durante a missão dentro de um módulo de reentrada, apenas 50% maior que a cápsula Mercury, os suprimentos de água e ar, o equipamento elétrico e os experimentos eram mantidos principalmente em um módulo de serviço separado. Um terceiro módulo continha foguetes para manobrar a espaçonave em órbita e freá-la antes de sua reentrada.

Preparando o caminho

Um grande desafio para os planejadores da Apollo era a falta de conhecimento sobre a Lua. À época, pouco se conhecia sobra a história lunar, a natureza das suas crateras e as propriedades de sua superfície – pensava-se seriamente na possibilidade da superfície ser de um pó tão fino que a nave afundaria. Para responder estas questões, a Nasa planejou uma série de missões robóticas para fazer levantamentos detalhado da Lua incluindo pousos – tanto de colisão quanto suaves. As primeiras foram as naves Ranger, quatro das quais colidiram com a Lua entre 1961 e 1964. Pelas fotos retransmitidas à Terra, é inteiramente coberta por crateras, até nas menores escalas, o que indica uma origem por impacto. Em 1966 teve início uma segunda fase, com as naves Lunar Orbiter e surveyor. Os orbitadores fotografaram a Lua de perto, a cerca de 0 km, buscando locais interessantes para pousos tripulados, enquanto os Surveyor efetuaram uma série de pousos suaves, confirmando a firmeza da superfície lunar.

Apollo em órbita

No final de 1966, o programa Apollo estava avançando rápido. Os enormes foguetes Saturno V estavam em construção e as naves prontas para os testes. Porém, em janeiro de 1967, a tripulação da Apollo I morreu durante um incêndio na cápsula em um ensaio de lançamento. Como consequência as missões Apollo II e III foram canceladas, e as missões Apollo IV, V e VI foram convertidas em teses de lançamento não-tripulados. Somente em outubro de 1968 os astronautas retornaram ao espaço, com o lançamento da Apollo 7. Esta missão orbital foi logo seguida pela Apollo VIII. Lançada pela primeira vez pelo Saturno V a missão da nave foi alterada para incluir uma órbita ao redor da Lua no Natal, após rumores de que os soviéticos lançariam um veículo  tripulado para alcançar a Lua. O lançamento nunca aconteceu e, depois das Apollo IX e X, a Nasa estava finalmente pronta para tentar pousar na Lua.

O primeiro pouso na Lua

A Apolo XI partiu de Cabo Kennedy (agora Canaveral), na Flórida, em 16 de julho de 1969) e entrou em óribta lunar três dias depois. Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin então embarcaram no módulo lunar “Eagle” para a descida na superfície, enquanto Mihael Collins permanecia a bordo do módulo em comando e serviço (CSM) “Columbia” em órbita lunar. Eagle tocou seguramente uma planície de lava conhecida como o Mare Tranquilitatis (Mar da Tranquilidade) e, seis horas após o poso, Neil Armstrong deixou o módulo e desceu a escada, pisando a superfície das 2h56 do dia 20 de julho. Armstrong e Aldrin permaneceram na superfícia por 21 horas, realizando uma caminhada, durante a qual implantaram uma bandeira e uma placa comemorativa, conduziram diversos experimentos coletaram rochas, e telefonaram para o presidente estadunidense Richard Nixon.

Módulo lunar

O módulo lunar, com sua aparência frágil, era um elemento vital de cada missão Apollo. Como ele nunca voaria em uma atmosfera os projetistas tiveram a liberdade de dar-lhe uma forma estritamente funcional. Embora o módulo tivesse 9,5m de largura e 7m de altura, a cabine era tão apertada que os astronautas ficaram de pé durante o voo. O grande motor de foguete, embaixo da seção superior do módulo, era usado para frear a cápsula durante o pouso na Lua e, depois, fornecer o impulso para a decolagem da superfície lunar e injeção em órbita.

Missões posteriores

A Nasa havia originalmente planejado dez missões Apollo, mas apenas seis foram completadas. Embora a Apollo XII tenha sido um sucesso, a Apollo XIII ficou famosa pelo seu acidente, quando uma falha elétrica e perda de oxigênio, pela primeira vez colocaram uma tripulação da série em grave perigo. As últimas três Apollo levavam um jipe lunar, estendendo consideravelmente a área que os astronautas poderiam explorar. Redução no interesse público e cortes de verbas da Nasa levaram ao cancelamento das três últimas missões. Os estertores finais da Apollo foram a estação espacial Skylab, que usava um foguete Saturno V, e a missão Apollo-Soyuz, um encontro entre astronautas soviéticos e estadunidenses em órbita terrestre.

Lições científicas

As missões Apollo revelaram muito aos astrônomos sobre a química e história da Lua. As rochas coletadas ainda são estudadas em todo o mundo. O registro do bombardeamento da Lua e a datação por radioisótopos das amostras revelaram o período de intenso bombardeamento a modelou o Sistema Solar durante seu primeiro bilhão de anos. Embora os soviéticos nunca tenham tentado um pouso tripulado na Lua, colocaram uma série de jipes LunoKhod no satélite e trouxeram pequenas amostras de poeira para a Terra.

Em órbita da Terra

Embora muito do foco da exploração espacial tenha sido viagens a planeta e luas distantes, a grande maioria das missões não foi além da órbita terrestre. Em torno da Terra é que o advento do voo espacial teve maior impacto. Nossa vizinhança espacial agora está repleta de satélites, tanto com propósitos científicos como comerciais.

Estações espaciais

A União Sovietica mudou a direção do seu programa espacial no final da década de 1960, priorizando postos semipermanentes em órbita. As primeiras estações espaciais soviéticas, nos anos 1970, as Salyut, eram clilindros com 13m de comprimento e no máximo 4m de largura que abrigavam tripulações de três cosmonautas por diversas semanas em condições espartanas. Embora a corrida espacial tivesse se desacelerado, a Nasa ainda se sentia obrigada a competir e, em 1973, lançou a estação Skylab, que foi visitada por três tripulações separadas ao longo de um ano. Com isso, a Nasa manteve um breve recorde de permanência no espaço. Contudo, quando voltou suas atenções para o Space Shuttle, as estações espaciais foram deixadas para os soviéticos. As mais avançadas Salyut 6 e Salyut 7 eram muito maiores que suas antecessoras e podiam ser ampliadas por módulos lançados da Terra. Na metade na década de 1980, os cosmonautas permaneciam meses em órbita, conduzindo valiosos experimentos científicos.

Potencialidades do espaço

Além das razões políticas e científicas para a exploração espacial, as últimas décadas viram o surgimento para fins práticos. Empresas privadas e países menores conseguem agora lançar satélites e o mundo foi transformado pelos seus resultados. Os satélites de comunicações nasceram dos trabalhos de Arthur C. Clarke e outros, e radiotransmissores orbitais são os responsáveis pelo Global Positioning System (GPS), que permite aos usuários encontrar sua posição em qualquer parte da Terra com precisão de poucos metros. O potencial da observação da Terra desde sua órbita tornou-se claro quando os primeiros astronautas relataram avistar nitidamente acidentes geográficos – com grande surpresa para os controladores de solo. Hoje diversos satélites de observação da Terra circulam o globo, desde os climáticos que monitoram hemisférios inteiros, até os espiões, capazes de ver detalhes inferiores a 1m. Ainda mais sofisticados são os satélites de sensorialmente remoto. Monitorando a Terra em vários comprimentos de onda, reúnem imensas quantidades de informação sobre o solo, como a direção das correntes oceânicas, a localização de depósitos mineiras e a qualidade das plantações.

Observatórios orbitais

Muitas das grandes descobertas e imagens espetaculares do Universo distante provêm de satélites. A atmosfera terrestre representa um sério problema para os astrônomos, pois filtra a maioria da radiação eletromagnética. Contudo, um telescópio no espaço coloca problemas únicos. Não só eles devem ser controlados remotamente para retornar imagens à Terra, mas também devem operar em um ambiente hostil. As flutuações de extremas temperaturas entre a iluminação solar e a escuridão podem distorcer a delicada óptica do telescópio, visto que o instrumento todo se contrai e se dilata, e assim se exige um projeto engenhoso de isolamento. Mesmo assim, o tempo de operação em órbita é limitado. Além da energia fornecida pelas células solares, os satélites demandam combustível para se reorientar no espaço e agentes resfriadores para proteger sua delicada eletrônica.

Vôos tripulados

Desde as missões Apollo, o voo espacial tripulado continuou a se desenvolver. Apesar de duas tragédias de grande impacto, em 1986 e 2003, o Space Shuttle da Nasa, a primeira espaçonave reutilizável, transformou o voo espacial em uma atividade quase rotineira. Desde seu primeiro voo em 1980, os Shuttles completaram mais de 100 missões, levando experimentos, lançando satélites, e observando a Terra e o espaço. Enquanto isso, a União Soviética desenvolver o princípio da estação espacial modular, ampliável, como a Mir (1986-2001). Os plano da Nasa de um estação espacial permanente evoluíram para um enorme projeto internacional, e quando a Estação Espacial Internacional estiver completa, o Space Shuttle terá se aposentado após 25 anos de serviço. No momento, alguns países têm planos ambiciosos do retorno do homem à Lua como estala rumo a Marte.

Além da Terra

Embora os seres humanos não tenham ainda se aventurado além da Lua, as sondas espaciais automáticas mergulharam muito mais fundo. Exploradores robóticos visitaram todos os planetas e também pesquisaram dezenas de satélites em um conjunto de corpos menores. Durante suas jornadas, transformaram nossa visão do Sistema Solar, revelando outros mundos, quase tão complexos quanto a Terra.

Primeiros passos

A primeira sonda a deixar a influência da Terra e entrar em órbita própria ao redor do Sol foi a nave soviética Lunik I (Luna I), que, em 1959, errou seu alvo, a Lua, e se tornou por acidente a primeira sonda interplanetária. Logo seguiram-se esforços deliberados da Nasa, que, entre 1960 e 1968, lançou com sucesso as Pioneer 5 a 9 em órbitas entre a Terra e Vênus. Várias dessas naves alimentadas com energia solar ainda transmitem dados científicos. Assim como havia a corrida para colocar o homem no espaço, as superpotências da Guerra Fria competiam pelo primeiro lugar na chegada a outros planetas. Em dezembro de 1962, a Mariner 2 foi a primeira sonda a realizar um sobrevôo em Vênus, medindo a temperatura extremamente alta de sua superfície, e confirmando sua rotação anormalmente lenta. A Mariner 4 sobrevoou Marte em julho de 1965, medindo sua atmosfera e fotografando seus planaltos austrais com crateras.

O sistema solar interno

Como estão mais próximos do Sol, Mercúrio e Vênus viajam mais rápidos que a Terra. Assim, a sonda deve ganhar velocidade para entrar em suas órbitas. Contudo, algumas naves superaram este desafio técnico e visitaram Vênus nos anos seguintes ao primeiro sobrevoo. Diversas sondas soviéticas tentaram o pouso na superfície hostil, apenas para serem destruídas durante a reentrada. Em 1967, Venera 4, equipada com blindagem semelhante a um tanque, enviou com êxito sinais para a Terra. Foi somente oito anos mais tarde que a Venera 9 retornou as primeiras imagens da superfície venusiana. Tanto a Nasa como os soviéticos lançaram orbitadores para fazer levantamentos do planeta desde o espaço. Em 1978, a missão Pioneer Orbiter mapeou o planeta com radar e lançou sondas atmosféricas. Em 1989, o Magellan, um orbitador da Nasa equipado com um sofisticado radar, deu início ao estudo por quatro anos do planeta, com detalhes sem precedentes. A velocidade orbital de Mercúrio representa um problema maior: até agora [2008], apenas a Mariner 10 e a Messenger o visitaram.

Perto de Marte

Os primeiros sobrevoos de Marte foram sucessos notáveis, porém não no que se refere aos trajetos de seus voos. Três sondas estadunidenses retornaram imagens de 10% da superfície marciana, mas perderam toda a evidência de vulcanismo e de água que fazem o fascínio do planeta. A sorte da Nasa mudou em 1971, quando a Mariner 9 tornou-se a primeira nave a orbitar Marte, conduzindo um levantamento fotográfico que revelou o sistema de Valles Marineris, os altíssimos vulcões da região de Tharsis, e os primeiros sinais de cânios com erosão por água. Com o redespertar do interesse pelo Planeta Vermelho, a Nasa lançou a Marte as duas naves gêmeas da missão Viking, cada uma com um lander (módulo de pouso) e um orbitador. Os orbitadores forneceram imagens e dados climáticos da superfície, além de conduzirem vários experimentos detalhados, incluindo um controverso teste de vida microbiana.

O grand tour

Os anos 1970 apresentaram uma rara oportunidade: um alinhamento de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno permitiria a uma nave viajar de um planeta a outro, usando o efeito de “estilingue gravitacional”. O chamando Grand tour levaria pouco mais que uma década. Em 1977, a Nasa lançou a Voyager 1 e 2, inicialmente tendo como alvo apenas Júpiter e Saturno. A Voyager passou por Júpiter em março de 1979 e por Saturno em novembro de 1980, fazendo a primeira aproximação rasante da sua Titã. A Voyager 2 a seguiu poucos meses depois, e, como a Voyager 1 havia completado sua missão, os cientistas da Nasa decidiram ativar seu plano de reserva, lançando sua segunda sonda ao redor de Saturno rumo a Urano, alcançando em 1986, e a Netuno, em 1989. Esta missão extremamente bem sucedida nos ofereceu os primeiros vislumbres desses gigantes exteriores gelados, de suas luas e de seus anéis. Ambas naves ainda estão viajando, além de Plutão, nos confins do sistema solar [Atualmente – 2019 –, já saíram do Sistema Solar].

Exploradores em Marte

Apesar dos sucessos dos lander Viking, as sondas não retornaram a Marte até o final da década de 1990, seguindo uma série de fracassadas missões estadunidenses e soviéticas. Em 1997, a Mars Global Surveyor da Nasa entrou em órbita em torno do planeta, equipada com câmeras de última geração, enquanto um lander, o Mars Pathfinder, liberou o jipe robô Sojourner, que coletou rochas e solo. Seguiram-se muitas outras naves, e a cada nova descoberta, a possibilidade de vida em Marte tornou-se mais plausível. Vários satélites artificiais estão em órbita ao redor do planeta, usando técnicas de sensoriamente remoto para sondar o subolo marciano. Os jipes de exploração marciana, Spirit e Opportunity descobriram evidências inegáveis sobre oceanos extensos no passado marciano. Novas missões como a Phoenix, traçam a história da água em Marte e a possibilidade de vida no planeta.

Entre as luas de Júpiter

Os sobrevoos das Voyagers sobre as enormes luas de Júpiter revelaram que elas eram mundos fascinantes merecedores de uma inspeção mais de perto. A sonda Galileo, destinada a orbitar Júpiter, foi lançada em 1989, mas somente chegou ao destino em 1995. E os resultados valeram a espera. O orbitador fez o sobrevoo rasante de um asteroide durante seu curso, e librou uma sonda na atmosfera de Júpiter, antes de começar uma missão que ultrapassaria todas as expectativas. A Galileo estudou os vulcões de Io e o sistema climático de Júpiter, enquanto deu apoio a evidência de um oceano debaixo da crosta de gelo de Europa e nas luas jovianas exteriores Ganimedes e Calisto.

Cassini e além

A Galileo foi seguida por uma missão ainda mais ambiciosa para Saturno. A Cassini, uma enorme sonda pesando 5,6 toneladas, foi lançada em 1997. Depois de uma complexa jornada durante a qual sobrevoou duas vezes Vênus e uma vez a Terra e tomou impulso em Júpiter, finalmente chegou a Saturno em 2004. A bordo havia o lander europeu Huygens, que desceu de paraquedas na atmosfera de Titã em janeiro de 2005 enviando imagens durante seu pouso e revelando um mundo no qual o metano líquido parece desempenhar o mesmo papel que a água na Terra. Cassini continuou a monitorar Saturno e a fazer voos rasantes sobre muitos dos satélites fascinantes e variados do planeta. Desse modo abrirá caminho para futuras missões orbitais ainda mais ousadas, com ao Prometheus (antes o Orbitador das Luas Geladas de Júpiter), uma nave impulsionada à energia nuclear projetada para estudar as luas de Júpiter em detalhes sem precedentes. A Prometheus será a primeira de uma nova geração de naves espaciais nucleares que abrirá o Sistema Solar a uma exploração mais rápida e ainda mais profunda.

Cometas e asteroides

Embora a maior parte das sondas tivesse os planetas como alvos os cientistas não esqueceram os corpos menores do Sistema Solar. Cometas e asteroides virtualmente inalterados desde sua formação, há 4,5 bilhões de anos, contêm indícios fascinantes sobre a criação do Sistema Solar e mesmo sobre a origem da vida. Em 1985 e 1986, quando o Cometa Halley passou novamente pelas proximidades do Sol, uma flotilha de naves dirigiu-se ao seu encontro. O NEAR (Near Earth Asteroid Rendezvous) sobrevoou o asteroide Mathilde do Cinturão principal em 1997, antes de monitorar o grande asteroide Eros por um ano. Seguiram-se missões mais ambiciosas. A Stardust, da Nasa, recolheu poeira da cauda do cometa Wild 2 em 2004, para trazer à Terra; a missão europeia Rosetta pela primeira vez colocou um lander em um cometa; e a New Horizon sobrevoará Plutão [Chegou em 2016], antes explorando o cinturão de Kuiper, o berço de muitos cometas.

O futuro do homem no espaço

É inevitável que naves tripuladas um dia se aventurem pelas profundezas do Sistema Solar. China, Rússia e Estados Unidos têm planos para um retorno à Lua, e os estadunidenses também consideram a possibilidade de uma missão a Marte. Embora possam ser abandonados, esses planos serão substituídos por outros, e no meio tempo os cientistas espaciais terão reunido os conhecimentos necessários para tornar a viagem espacial de longa duração uma realidade. A Rússia ganhou uma experiência única de microgravidade prolongada com as missões na estação espacial Mir, e a tripulação da Estação Espacial Internacional é uma fonte preciosa de informações em medicina espacial. Por outro lado, experimentos em solo, como a Biosfera 2, fornecem informações úteis sobre como os astronautas poderiam produzir seu próprio alimento, água e oxigênio em outros planetas e como uma tripulação isolada enfrentaria o confinamento em uma nave por muitos meses.

Sistema Solar

ASTRÔNOMOS, E OUTRAS PERSONALIDADES
Por ocupação principal
TEXTOS
Descobrindo o Sistema Solar

Quem foi descoberto primeiro, a Terra ou Marte? A pergunta, em princípio tola, na verdade tem fundamento. Não há como saber quem foi o autor da façanha, mas o fato é que bem antes de alguém descobrir que a Terra era um planeta, tivemos a certeza de que Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno eram! Descobrir planetas no céu até que foi fácil. Mas daí para nossos antepassados deduzirem que também habitavamos um deles foi outra história. Na Antiguidade, ao observar o céu, certas pessoas notaram que alguns astros faziam um trajeto muito estranho. Se você já passou uma noite ao ar livre deve ter percebido que um grupo qualquer de estrelas "move-se" em bloco pelo céu, do leste para o oeste, mantendo as mesmas distâncias aparentes entre si. Mas existe uma classe de astros que subjuga essa ordem celeste. Ao observá-los em relação às estrelas próximas veremos, ao longo dos dias, que ora estarão adiante delas, ora ficarão para trás.


Depois retomarão o caminho e seguirão adiante, mas sem estar sempre com um grupo específico de estrelas. Esse movimento em ziguezague deu-lhes o apelido de errantes. Ou planetas, em latim.

Problema deles
ERAM CINCO OS PLANETAS. Havia um que "corria" próximo ao Sol, ziguezagueando veloz em seu caminho, às vezes pouco antes do nascer, outras vezes pouco depois que o astro-rei se escondia no horizonte. Deram-lhe o nome de Hermes, o mensageiro dos deuses. Nós usamos até hoje o nome latino: Mercúrio.

Também havia um outro que vagava por perto, tão belo e cintilante que lhe deram um significado feminino: era Afrodite. Ou Vênus, a deusa da beleza.

Outro errante costumava brilhar em vermelho cor de sangue no meio da noite. Para os antigos era Ares, um planeta ferido de morte - ou Marte, o deus da guerra. Eram todos nomes de deuses da mitologia greco-romana. Mas não deuses quaisquer, eram os manda-chuvas do Olimpo. O poderoso Zeus, senhor supremo, também estava lá. Para os antigos era o planeta mais brilhante depois de Vênus, com uma coloração branco-alaranjada, sereno, como um deus deve ser. Era Júpiter.


Por fim, havia aquele que os gregos chamavam de Cronos, o senhor do tempo, pai de Júpiter e o mais jovem entre os Titãs. Para nós ficou Saturno, o senhor dos anéis.

Todos errantes no céu, senhores de seus próprios caminhos. Mas a Terra, que os gregos chamavam Gaia, não era um planeta: não vagávamos sem rumo pelo céu, estávamos bem presos ao chão e tudo parecia girar à nossa volta. Errantes eram os outros.

Tem mais um ali
MAS AFINAL, NADA HAVIA DE ERRADO com o movimento dos planetas. Como a Terra, eles simplesmente giravam em torno do Sol. Ao contrário das estrelas, que de tão distantes parecem fixas no firmamento. O efeito conjunto do movimento da Terra e de um planeta provoca a ilusão de que ele está regredindo no céu.

Na verdade, as estrelas também se movem, mas como estão muito longe custamos a perceber, do mesmo modo que quando viajamos de carro percebemos muito mais facilmente o deslocamento aparente dos postes ao longo da estrada que das nuvens no horizonte. O tempo passou. Inventaram o telescópio e esqueceram-se dos deuses gregos. Um belo dia um astrônomo inglês descobriu um novo planeta. Ninguém podia vê-lo a olho nu mas ele tinha o mesmo movimento errático dos demais.


O pior é que lhe deram o nome de Jorge, em homenagem ao rei Jorge III da Inglaterra. Sorte que o bom senso prevaleceu e a comunidade científica rejeitou o nome e o chamou de Urano, céu em grego. Sessenta e cinco anos mais tarde, em 1846, foi a vez de Netuno - na mitologia grega, Poseidon, o deus dos mares.

Plutão só foi descoberto no século XX (em 1930) e desde então ainda não completou uma volta em torno do Sol. Para Hades, também uma divindade do Olimpo, ainda não se passou nem um ano desde que o encontraram. Asteróides em dose dupla

AS DESCOBERTAS NÃO PARARAM POR AÍ. Em 1951 o astrônomo de origem holandesa Gerard Kuiper (1905-1973) propôs a existência de um segundo cinturão de asteróides além da órbita de Plutão.

Muitos desses corpos seriam compostos por materiais voláteis, que evaporariam caso chegassem perto do Sol, formando longas caudas de gás e poeira. Hoje essa região é conhecida como Cinturão de Kuiper.

Em 1992 foram descobertos Smiley e Karla, dois pequenos corpos na região proposta por Kuiper. Hoje se conhecem mais de 600 objetos no cinturão de Kuiper, entre eles Quaoar, com 1.250 km, quase a metade do tamanho de Plutão e um volume superior à soma de todos os asteróides conhecidos.

O Sistema Solar atual é formado pelo Sol, os nove planetas conhecidos, um anel de asteróides entre Marte e Júpiter e outro chamado Cinturão de Kuiper, localizado depois da órbita de Netuno. Sem falar nos cometas. E quanto à Terra? Bem, afinal alguém descobriu que fazíamos parte da família do Sol. Isso foi por volta do ano 500 antes de Cristo. Hoje, é irresistível brincar com a idéia de que enquanto o Brasil fazia 500 anos, a Terra, cujo dia também se comemora em 22 de abril, "completava 2.500 anos". Feliz aniversário!

Sistema Solar
Explorando o espaço - uma história da astronomia

A história da astronomia conecta círculos de pedra pré-históricos com sondas espaciais do século XX!. È uma história de sucessivas revoluções na compreensão de nosso local no Cosmos, e nos meios pelos quais tomamos consciência dele. A geometria permitiu aos gregos fazer as primeiras medidas do Sol, Terra e Lua. Já no século XVII, instrumentos precisos derrubaram ideias centradas na Terra. O telescópio descortinou o céu apresentando muitos novos mistérios a serem explicados pela teoria da gravitação de Newton. A espectrocospia ofereceu um novo método para estudar as propriedades das estrelas e, por fim, revelou a existência de outras galáxias e a expansão do Universo. Nas útlimas décadas, o desenvolvimento do voo espacial permitiu a telescópios em órbita sondar o espaço profundo, enquanto as jornadas de umas poucas pessoas e máquinas além da órbita imediata da Terra colocaram nosso planeta relamente em perspectiva pela primeira vez.

Astronomia antiga

A história da astronomia remonta a 6.000 anos atrás, o que a torna a mais antiga das ciências. Cada uma das culturas ao longo da história estudou o Sol, a Lua, as estrelas e observou como os corpos celestes se movem no céu. As observações refletem curiosidade e encanto com o mundo natural, mas também foram impulsionadas por razões urgentes de navegação, contagem de tempo e religião.

Ciclos da vida

Povos da antiguidade eram fascinados pelos padrões de mudança repetindo-se incessantemente no mundo a seu redor. Evidências da passagem do tempo incluías alterações na temperatura do ar, no horário e posição do nascer e pôr-do-sol, nas fases da Lua, no crescimento da vegetação e no comportamento animal. Esses fenômenos eram atribuídos aos deuses ou a poderes mágicos. Milhares de anos atrás, os “primeiros” astrônomos foram provavelmente pastores ou agricultores no Oriente Médio, que observavam a noite, atentos a sinais das mudanças das estações. Os antigos egípcios se baseavam em observações astronômicas para planejar o plantio e a safra das colheitas. Sabiam que o nascimento de Sirius logo antes do nascer-do-sol anunciava a enchente do rio Nilo. A habilidade para medir períodos de tempo e registrar ciclos celestes foi essencial para o avanço da astronomia, e assim muitas culturas antigas desenvolveram calendários, relógios de sol e relógios de água. Monumentos como as pirâmides e grupos de megalitos (grandes pedras eretas) foram, de fato, os primeiros observatórios. Em cerca de 1000 a.e.c., os indianos e babilônios haviam calculado a duração do ano em 360 dias; este período levou à divisão do círculo em 360°, com cada grau representando um dia solar. Posteriormente, os antigos egípcios refinaram a duração do ano para 365,25 dias.

Fazendo mapas celestes

A astronomia sempre se ocupou com mapear e nomear as estrelas. Por volta de 3500 a.e.c., os antigos egípcios dividiram o zodíaco nas 12 constelações de hoje e agruparam as outras estrelas fora do zodíaco em suas próprias constelações. Nas antigas China e Índia, criaram-se 28 mansões lunares, ou “domicílios noturnos” para registrar o movimento da Lua em seu caminho mensal. Os antigos gregos foram os primeiros a catalogar as cerca de 1000 estrelas mais brilhantes, por volta de 150-100 a.e.c. mas, muito antes deles, observadores da Índia e Oriente Médio mantinham registros astronômicos detalhados e datados. Coleta de dados sistemática foi desenvolvida pelos sumérios e babilônios – civilizações que viviam entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia – por razões de ritual e profecia política.

Orientação e navegação

Os mais importantes feitos dos astrônomos antigos incluem como encontrar os pontos cardeais – note, sul, leste e oeste – e como usar a Estrela Polar do norte para determinar a latitude. Este conhecimento capacitou a orientação precisa de estruturas, particularmente de templos e monumentos funerários, e também auxiliou na confecção de mapas terrestres acurados. Em 3000-2000 a.e.c., os povos da Idade da Pedra do norte da Europa utilizaram alinhamentos solares nos solstícios e equinócios, fases lunares, e outros dados astronômicos para construir grandes círculos de pedra, como Stonehenge e Avebury na Inglaterra, e Newgrange na Irlanda. Altares de foto (usados por sacrifícios rituais de fogo hindus), posicionados em bases astronômicas, e datando de 3000 anos atrás foram encontrados em diversos sítios arqueológicos na Índia. Algumas das mais complexas construções projetadas de acordo com princípios astronômicos são as pirâmides do antigo Egito e exemplos tardios construídos pelos astecas e maias na América. A arquitetura antiga fornece abundante prova de conhecimento astronômico, mas há poucas evidências do seu uso em navegação antiga. Contudo, os povos navegantes da Polinésia podem ter usado as posições das estrelas para migrar através do Pacífico por volta de 1000 a.e.c.

O nascimento da astrologia

Astrologia é uma prática milenar que busca determinar como os planetas e outros objetos celestes podem influenciar a vida na Terra, em especial os assuntos humanos. Descartada como superstição, ela estabeleceu fundamentos sólidos para a observação astronômica e dedução lógica. Em seu esforço de prever os eventos futuros e buscar sinais ou portentos os antigos astrólogos tentaram “ordenar” os céus e notaram o modo como o Sol, a Lua e os planetas se comportam. Enfatizaram em particular ocorrências inesperadas como eclipses, cometas, chuvas de meteoros e o aparecimento de novas estrelas. Muitas elites políticas empregavam astrólogos e observadores dos céus, e seu trabalho era uma atividade intelectual perfeitamente respeitável até o fim do século XVII. Astrônomos também escreviam tratados astrológicos; por exemplo, em 140 e.c., Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, o mais influente de todos os tratados astrológicos.

Início da astronomia científica

A Grécia antiga foi um divisor de águas no desenvolvimento da astronomia como a ciência racional. Os acadêmicos gregos formularam leis complexas e fizeram modelos do Universo. Após o estabelecimento do Islamismo, estudiosos árabes desenvolveram métodos ainda mais acurados de observação dos céus.

Germens do pensamento científico

O mundo grego antigo conheceu uma liberdade política e intelectual sem precedentes e um espantoso progrsso científico. Por 700 anos, de cerca de 500 a.e.c. a 200 e.c. os filósofos gregos buscaram respostas para questões astronômicas fundamentais. Ainda acreditavam em um plano mestre divino e tinham ideias que soam estranhas par anos hoje – Heráclito (540-500 a.e.c.), por exemplo, sugeria que as estrelas eram acesas toda noite, e o Sol toda manhã, como lâmpadas de óleo. Mas Platão (c.427-347 a.e.c.) argumentou que a geometria é a base de toda verdade, fornecendo assim o impulso necessário para deduzir exatamente como o Cosmos funcionava. Aristóteles fixou a Terra no centro do Universo e sugeriu que os planetas eram corpos eternos movendo-0se em órbitas perfeitamente circulares. Eudoxo (408-355 a.e.c.) cartografou as constelações setentrionais e Hiparco (190-120 a.e.c.) pela primeira vez classificou as estrelas em seis ordens de magnitude.

Medindo distâncias

Os avanços na geometria e trigonometria permitiram que os gregos medisses distâncias astronômicas com razoável precisão. Por volta de 500 a.e.c. Pitágoras propôs que o Sol e a Terra, a Lua e os planetas fossem todos esféricos, uma noção que Aristóteles confirmou, no caso da Terra, pela observação da forma de sua sombra durante um eclipse solar. Em 250 a.e.c. Eratóstenes (276-194 a.e.c.) notou que a luz solar incidia diretamente no fundo de um poço em Siena, no Egito, ao meio-dia do solstício de verão. Comparando com dados sobre as sombras em Alexandria, e usando trigonometria, ele estimou a circunferência da Terra com precisão de 5%. Hiparco e Aristarco (320-230 a.e.c.) mediram a distância Terra-Lua cronometrando eclipses lunares. Infelizmente, a distância Terra-Sol não foi estimada com a mesma precisão.

O cosmos centrado na Terra

É natural que as pessoas supusessem que o Cosmos era geocêntrico, ou centrado na Terra. Afinal de contas, não percebemos o movimento da Terra quando ela gera no espaço e as estrelas parecem fixas. Pensadores antigos, como Aristarco em 280 a.e.c., contestaram este sistema e colocaram o Sol no centro, mas suas ideias não tiveram crédito. Em vez disso, Ptolomeu refinou a visão de mundo cosmológica de Aristóteles e criou uma sequência ordenada de órbitas uniformes. Sua ordem era: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e finalmente as estrelas. Isto é baseado na velocidade percebida: por exemplo, a Lua completa uma volta no céu em um mês, o Sol em um ano e Saturno em 29,5 anos. De modo a reconciliar o conceito errôneo de órbitas circulares (em contraste com elípticas) e as velocidades variáveis dos planetas, Ptolomeu foi obrigado a argumentar que cada planeta também girava em um pequeno círculo, o epiciclo, enquanto orbitava a Terra.

Astronomia árabe

Depois do declínio das cidades-estado gregas, os mais importantes avanços da astronomia foram alcançados pelos árabes. O período de domínio grewgo durou 800 anos, desde a fundação do Islamismo em 622 até o século XIV. Astrônomos trabalhando no Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e Espanha mourisca traduziram textos gregos e em sânscrito (da Índia) para o árabe e assimilaram seu conhecimento astronômico. As regras muçulmanas para s cultos ao longo do dia e do mês, e a necessidade de encontrar a direção de Meca para fazer as orações e orientar as mesquitas, significavam que havia uma urgente necessidade de se determinar o tempo e a posição com extrema precisão. Desenvolveu-se a trigonometria esférica sofisticada, funções trigonométricas e álgebra e o astrolábio (uma invenção grega, usada para calcular a hora e a latitude) foi aprimorado. A abordagem dos grandes astrônomos árabes, como Al-Battani (850-929) e Ulugh Beg (1349-1449) fundamentava-se em observação paciente. Com este fim numerosos observatórios foram construídos, dos quais os maiores estavam em Bagdá, no Iraque, em Samarkand, no Uzbequistão, e em Maraghan, no Irã. Eles alojavam grandes instrumentos, incluindo quadrantes montados em paredes, utilizados para medir a altitude de objetos astronômicos quando cruzavam o meridiano (o plano norte-sul).

A revolução copernicana

Por séculos os astrônomos basearam suas teorias na suposição de que a Terra estaria no centro do Universo. No século XVI, esta posição privilegiada foi abalada pela sugestão de que a Terra era apenas um dos vários planetas circulando o Sol. Esta revolução foi acompanhada por imensos avanços tecnológicos, em particular pela invenção de telescópios, anunciando uma nova era de pesquisa e de grandes descobertas.

Astronomia medieval

Após a queda de Roma em 476, astrônomos na Europa, Oriente Médio e àsia deixaram para trás seu relativo isolamento cultural e passaram a trocar ideias mais livremente. Isto graças, em parte, ao crescimento do comércio durante a Idade Média e em parte à expansão do Islamismo. A astronomia observacional floresceu com ênfase em conjunções planetárias, eclipses solares e lunares a as aparições de cometas e estrelas novas. Muitos astrônomos medievais eram professores universitários e se sustentavam com o ensino. Apesar dos recursos limitados fizeram avanços notáveis, incluindo um novo preciso catálogo de posições de estrelas a olho nu, planejado por Ulugh Beg *1394-1449) da Mongólia – o primeiro desde os dias de Hiparco, 1600 anos.

O Universo heliocêntrico

Pode-se datar o nascimento da astronomia em 1543, quando Nicolau Copérnico publicou seu revolucionário tratado sobre um Universo centrado no Sol, ou heliocêntrico. Ele estava insatisfeito com a imprecisão dos modelos geocêntricos das orbitas planetárias, nos quais a Terra ocupava o centro e que dominavam a astronomia desde a obra de Ptolomeu no século II. Sua teoria muito mais simples de um Sol central e uma Terra em órbita explicava muitas observações antes enigmáticas, porque agora havia dois tipos de planetas, os internos e os externos da órbita da Terra. A sequencia Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno era um ordem de período orbital e de distância crescente ao Sol. A “lanterna do Universo”, com o Copérnico o chamava, agora assumia seu lugar de direito no centro do Cosmos. Embora isso significasse que a Terra se movia em alta velocidade, a teoria já havia sido proposta por Aristarco e outros.

A noção do Espaço

Os gregos e os astrônomos posteriores colocaram as estrelas logo além de Saturno, mas isto causaria um problema se a teoria copernicana estivesse correta. Se, como Copérnico argumentava, a Terra orbitava o Sol, por que as estrelas não tinham um movimento recíproco? A única escolha para Copérnico era banir as estrelas para uma distância tão vasta que seu movimento não seria perceptível para observadores terrestres. Ele também foi o primeiro a sugerir que as estrelas brilhantes estariam mais próximas que as fracas. Contudo, ouros se perguntavam porque Deus teria criado um espaço enorme, aparentemente inútil entre a órbita de Saturno e as estrelas. Tycho Brahe (1546-1601), um nobre dinamarquês, pensava que o futuro da astronomia dependia da estimativa de distâncias verdadeiras e do registro acurado das posições planetárias em diversos tempos. Com este objetivo ele aprimorou os padrões observacionais, fabricando instrumentos de mensuração precisamente calibrados. Em 1572 suas observações pacientes da supernova na constelação de Cassiopéia o convenceram de que as estrelas não estavam todas a uma distância fixa, mas que eram objetos cambiantes que existem no “espaço”. Propor essas ideias exigia coragem, ou o apoio de patronos poderosos, devido à Inquisição, nessa época, julgar e punir os que desafiassem a visão ortodoxa da Igreja Católica em relação ao Universo.

Leis do movimento planetário

O sistema heliocêntrico copernicano ainda descrevia as órbitas planetárias em termos de epicilos – cada planeta descrevia um pequeno círculo enquanto girava em torno do corpo central. Essa visão prevalecia desde Ptolomeu mas a forma real das órbitas permanecia um mistério. Necessitava-se de duas coisas para resolver o problema. A primeira era os dados planetários precisos obtidos por Tycho Brahe. A segunda era fé nos seus dados, junto com tenacidade e gênio matemático. A última foi fornecida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), sucessor de Tycho após 1601. Com base nas observações do caminho de Marte na esfera celeste Kepler acabou por formular suas três leis do movimento planetário. Primeiramente, em 1609, ele revelou que as órbitas eram elípticas, e não circulares ou epicíclicas. O Sol está em um dos focos da elipse (a elipse tem dois focos; o círculo é um calo limite de eclipse, com um único foco). Em segundo lugar, mostrou que a linha unindo o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, assim um planeta é mais lento na parte mais exterior da sua órbita. Em terceiro lugar, em 1619, Kepler provou a relação entre o tamanho e o período da órbita. Ele alimentava concepções místicas – acreditava que o Cosmos era permeado por coras musicais, com cada planeta produzindo um tom em proporção a sua velocidade. Como todos antes da descoberta da gravidade por Newton, não tinha a menor ideia do que mantinha os planetas em suas órbitas.

As descobertas de Galileu

Galileu Galileia apresentou provas concretas de que o modelo copernicano do Universo estava correto. Em 1608 quando um fabricante de óculos flamengo inventou o telescópio a notícia se espalhou rapidamente. Galileu construiu, ele mesmo, vários telescópios em 1609, assim tornando-se o fundador da astronomia telescópica. Seus instrumentos tinham uma magnificação de 30x. Em alguns meses ele descobriu que a Lua era montanhosa, detectou as fases de Vênus, as manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Chegou mesmo a sugerir que as estrelas fosses sóis distantes. Acima de tudo ele percebeu que as fases de Vênus somente poderiam ser explicadas se os planetas orbitassem o Sol, e não a Terra. Outros achados de Galileu fundamentam a física nascente: a aceleração de um corpo independe de sua composição ou peso; e o período de balanço de um pêndulo independe de sua amplitude.

Grandes observatórios

A emergência de uma nova geração de observatórios fo um divisor de águas na história da astronomia. Observatórios haviam sido anteriormente exclusivos a um grupo seleto de pessoas, incluindo Tycho Brahe na Dinamarca e Johannes Hevelius em Danzing, Prússia (agora Gdansky, na Polônia), ou de professores universitários, como Galileu ou Giovanni Cassini de Bologna, na Itália. Então, essas unidades foram ampliadas por instituições reais bem financiadas. Luis XIV fundou a Academia de Ciências em Paris, em 1666, e o Observatório Real francês, completado em 1672. Na Inglaterra, Charles II fundou a Royal Society em 1660, o que levou à construção do Royal Greenwich Observatory, onde John Flamsteed (1646-1719) foi o primeiro astrônomo real, iniciando seu trabalho em 1676. Em breve os astrônomos estavam atacando os três principais desafios daquela época: determinar o tamanho do Sistema Solar; medir a distância até as estrelas; e achar a latitude e a longitude de locais na terra e no mar. Esta busca foi em parte impulsionada por necessidades da navegação em uma época de expansão dos impérios europeus e pelo desejo de prestígio nacional. A partir do começo do século XVIII, os observatórios se multiplicaram rapidamente, inaugurando-se instalações em Berlim, Prússia (1711), em Jaipur, Índia (1726), em Uppsala, Suécia (1730), em Vilnius, Prússia (1753), em Washington, EUA (1838), e em Pulkovo, Rússia (1839). Dedicou-se muito esforço para mapear o céu e traçar os movimentos dos corpos celestes.

Leis da atração

Um dos maiores enigmas desafiando os astrônomos de meados do século XVII era porque os planetas percorriam imensas distâncias ao redor do Sol em órbitas estáveis sem se lançar no espaço. O grande físico inglês Issac Newton (1642-1727), professor na Universidade de Cambridge, encontrou a resposta. Um objeto se moveria a velocidade constante segundo uma linha reta, a menos que fosse sujeito a uma força. No caso dos planetas, a força era a gravidade do Sol. Ele logo percebeu que a gravidade era universal. Ela controlava tanto a trajetória de um objeto caindo (como a famosa maçã que Newton viu cair de uma árvore em 1666), como a Lua orbitando a Terra e um cometa viajando rumo ao Sol vindo dos remotos confins do Sistema Solar. A gravidade explicava as três leis de Kepler e também a altura das marés. Após a morte de Newton, o retorno do cometa Halley em 1758 provou que a gravidade também era aplicável nos limites do Sistema Solar, e o uso da teoria da gravitação possibilitou o cálculo da massa da Terra e do Sol. 

O telescópio refletor e Newton

Em 1666, Newton descobriu que um prisma dispersa a luz em um arco-íris de cores. Infelizmente, as lentes de um telescópio fazem o mesmo, e a luz azul de um extremo do espectro é focalizada em um ponto diferente da luz vermelha e o ouro extremo. Isto é a chamada aberração cromática, que produz halos de luz colorida ao redor do objeto sendo visto, causando uma grave perda de qualidade de imagem. Uma solução é suar espelhos curvos para focalizar toda luz no mesmo ponto, independentemente da cor. Em 1663, o escocês James Gregory (1638-75), projetou um telescópio refletor com um grande espelho côncavo primário e um secundário côncavo menor que projetava luz de volta através de um orifício para uma lente magnificadora atrás. Newton modificou o projeto usando um espelho plano secundário para refletir a luz capturada para uma ocular montada lateralmente. Exibido em 1672 o telescópio de Newton foi imensamente aclamado.

O espaço infinito

Na metade do século XIX, a astronomia havia evoluído de uma ciência essencialmente matemática para uma disciplina que incorporava o conhecimento novo e as técnicas dos físicos e químicos. Rápidos progressos tecnológicos, particularmente a invenção da fotografia e telescópios ainda mais poderosos, permitiram aos astrônomos estudar os corpos celestes com muito mais detalhe. Eles começaram a classificar os diferentes objetos e a estudar seu comportamento.

O iluminismo

Os séculos XVIII e XIX viram grandes progressos em ciência devido a métodos científicos aprimorados. Foi um período de consolidação em astronomia, baseada em avanços nas medidas e classificação de corpos celestes. As órbitas dos cometas eram de grande interesse depois do trabalho do inglês Edmond Halley (1656-1742), que mostrou que “seu” cometa retornava a cada 76 anos. As órbitas dos planetas eram determinadas com muito mais precisão que anteriormente e detalhes de sua superfície, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter e as calotas polares de Marte foram observados. Em 1728, a velocidade da Terra foi calculada. William Herschel descobriu o sétimo planeta, Urano, em 1781, e o italiano Giuseppe Piazzi ( 1746-1826) identificou o primeiro asteroide, Ceres, em 1801. Os franceses Urbain Le Verrie e Pierre-Simon Laplace (1749-1827), e o inglês John Adams (1819) aplicaram a teoria da gravitação de Newton para prever a posição de um planeta invisível além de Urano. Netuno foi descoberto em 1846.

O cosmos estelar

Aperfeiçoamentos dos telescópios ao longo do século XVIII permitiram que a astronomia tornasse o estudo do Universo um processo dinâmico. Anteriormente as estrelas eram apenas pontos fixos de luz, com distância desconhecida, mas na década de 1710 Halley descobriu o seu movimento dando início a esforços concentrados para compreender seu comportamento. Constatou-se que muitas estrelas são duplas, orbitando em torno de um centro de massa comum, em conformidade com a gravitação newtoniana e, na década de 1780, estrelas variáveis como Algol e Delta Cephei, eram investigadas. Em 1781, o francês Charles Messier (1730-1817) publicou um catálogo de 103 “corpos difusos”, ou nebulosas (nuvens de gás e poeira). Herschel estendeu este trabalho, gastando muitas horas contando estrelas de diferentes magnitudes, em uma ambiciosa tentativa de fazer um levantamento do céu. Em 1783 ele deduziu que o Sol está se aproximando da estrela Lambda Herculis, e erroneamente concluiu que ela se situava no centro do sistema estelar galáctico. Durante as duas primeiras décadas do século XIX, Laplace desenvolveu métodos de análise matemática que resultaram no primeiro modelo para a origem do Sistema Solar.

O nascimento da astrofísica

Durante o século 19, os astrônomos continuaram a aplicar o desenvolvimento da matemática, física e química para compreender a constituição e comportamento dos planetas, cometas e estrelas. Um novo campo – a astrofísica – emergiu, conferindo propriedades físicas aos objetos no espaço. A astronomia tratava principalmente com seu movimento, enquanto a astrofísica examinava seus parâmetros básicos como raio, massa temperatura, e composição química. Em 1815, o óptico alemão Joseph Fraunhofer (1787-1826), enquanto estudava o espectro da luz solar, notou várias linhas escuras sobre ele. Mais tarde, verificou-se que estas linhas eram devidas à absorção por elementos químicos do Sol. Como ada elemento químico absorve a luz em certos comprimentos de onda, o padrão de linhas de absorção revela a sua presença. Nos anos 1860, o astrônomo britânico William Huggis (1824-1910) descobriu, por meio da espectroscopia (o estudo de espectros) que as estrelas contêm os mesmos elementos que a Terra.

Avanços instrumentais

Os telescópios tornaram-se cada vez maiores desde o princípio do século XVIII – quando astrônomos como Edmond Halley labutavam para usar desajeitados e imprecisos instrumentos com lentes objetivas de pequeno diâmetro – na metade do século XIX. As lentes dobraram em tamanho a cada 40 anos, o que implicava que a distância até os objetos visíveis mais longínquos também dobrava, e que seu número crescia por um fator oito. Sofisticaram-se as montagens dos telescópios, e a qualidade das lentes foi aperfeiçoada. Os telescópios refratores foram totalmente transformados em 1758, quando o astrônomo inglês John Dolland (1706-1761) introduziu a lente dupla, que focalizava a luz azul e a vermelha no mesmo ponto. Herschel construiu enormes telescópios refletores e, em 1524 completou-se o primeiro telescópio com montagem equatorial, na qual o eixo do instrumento era alinhado com o polo norte celeste e um relógio mecânico movia o instrumento em torno deste eixo para acompanhar as estrelas. Nos anos 1840, a fotografia começou a substituir o lápis e papel para o registro de dados. Placas fotográficas podiam ser expostas por horas, permitindo a detecção de objetos muito mais fracos que os visíveis unicamente pelo olho humano.

A forma do espaço

No começo do século XX, alguns pensavam que havia apenas uma galáxia, com o Sol no centro. Nos anos 1930, os astrônomos já haviam percebido que havia bilhões de galáxias e que o Universo estava em expansão. Também começavam a compreender as fontes de energia estelar.

Matéria e energia das estrelas

A partir de 1900, devido à compreensão da natureza da radioatividade descoberta quatro anos antes, começou-se a perceber que a Terra poderia ter mais de 1 bilhão de anos de idade. Esta ideia era consistente com estimativas anteriores feitas por geólogos e com a avaliação de Charles Darwin do tempo necessário para a seleção natural operar. Permanecia o mistério de como o Sol poderia manter-se brilhando por tanto tempo. Uma ideia era que o Sol fosse alimentado pela queda de meteoritos; outra que o Sol estava lentamente se contraindo. Nenhuma dessas teorias dava conta da longa vida do Sol. Contudo, em 1905 Albert Einstein (1879-1955) propôs que E=mc2,  e assim energia E, poderia ser produzida pela destruição de massa, m. Nos anos 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington (1882-1944) sugeriu que a fonte de energia do Sol – e de outras estrelas – fosse a fusão nuclear. O físico germano-estadunidense Hans Bethe (1906-2005) especificou então os processos básicos de fusão nuclear. É de fato uma reação nuclear que libera energia da matéria. Astrofísicos têm agora uma visão detalhada de como as estrelas obtêm sua energia e estimam que estrelas do tipo solar possam brilhar por 10 bilhões de anos.

O grande debate

Nos anos 1920 houve um debate público entre os astrônomos estadunidenses Harlow Shapley e Heber Curtis sobre a forma da nossa galáxia em particular a extensão do Universo em geral. Shapley acreditava que havia apenas uma “grande galáxia”, com a Terra a dois terços da distância até a borda. Ele dizia que o diâmetro era de 300.000 anos-luz – 10 vezes maior que a estimativa de Curtis. Este valor foi obtido com estrelas variáveis cefeídas (cujo brilho varia periodicamente) como indicadores de distância. Curtis, por outro lado, estava convencido de que muitos objetos nebulosos no céu não estavam em nossa galáxia, mas que eram de fato outras galáxias como a nossa. Ele propôs que estes “universos-ilha” estava espalhados uniformemente no céu, com alguns deles obscurecidos pelo disco galáctico, o que explicava sua distribuição acima e abaixo do plano da Via Láctea.

O universo em expansão

Os novos e enormes telescópios estadunidenses revolucionaram a astronomia do século XX. O Telescópio Hooker era tão grande que podia detectar as estrelas cefeídas da Nebulosa de Andrômeda (M31). O  fraco brilho dessas estrelas indicava eu sua distância da Terra era cerca de 10 vezes o diâmetro da Via Láctea. Heber Curtis estava correto: Andrômeda não era uma “nebulosa” mas uma galáxia. Outras “nebulosas” espirais também eram claramente galáxias. Usando o Hooker o estadunidense Edwin Hubble mostrou que as galáxias são os “blocos fundamentais” de um universo muito mais vasto que previamente imaginado. Em 1927 ele investigou características espectrais de galáxias e constatou que não somente a luz da maioria delas apresentava um deslocamento para o lado vermelho do espectro, indicando que se afastavam de nós, mas também que essa velocidade de recessão era maior para as mais fracas (mais distantes). O Universo estava em expansão e, portanto, deveria ter sido muito menor no passado. O declive do gráfico velocidade-distância indicava a idade do Universo. Os astrônomos logo perceberam que algo havia dado início à expansão, lançando as sementes da teoria do Big Bang.

Tecnologia de telescópios

A astronomia observacional estadunidense atingiu um divisor de águas nas últimas décadas do século XIX. Nos Estados Unidos novos e sofisticados observatórios e departamentos universitários foram estabelecidos, muitas vezes financiados por empresários milionários. Os astrônomos desejavam examinar objetos muito fracos e distantes, mas a limitada resistência e a transparência relativamente baixa das lentas objetivas dos telescópios impunham um limite de cerca de 1m de diâmetro – o tamanho do telescópio refrator de Yerkes, inaugurado em Williams Bay, Wisconsin, em 1897. Assim abandonou-se os refratores: era o início de uma nova era de enormes telescópios refletores. O Telescópio Hooker, de 2,5m, em Monte Wilson, na Califórnia, tornou-se operacional em 1918. Em 1948, entrou em sérvio o Telescópio Hale, de 5,2m, no Monte Palomar, na Califórnia. Em 1993, o primeiro Telescópio Keck, com um espelho de 10m, feito de espelhos segmentados, entrou em operação. Acoplado ao progressivo aumento do tamanho dos telescópios veio um enorme aumento na sensibilidade dos detectores. Placas fotográficas tornaram-se mais sensíveis e foram usadas extensivamente par mapear o céu e gerar arquivos permanentes de posições e espectros de objetos. Outro desenvolvimento crucial foi a radioastronomia. Radiotelescópios, o primeiro dos quais foi feito em 1937, passaram a captar as emissões nos longos comprimentos de onda em rádio do espaço profundo.

Astronomia da era espacial

Com o início da Era Espacial (a era do vôo espacial) nos anos 1950, a viagem além da Terra e o contato co planetas, cometas e asteroides tornou-se uma realidade. O despertar das astronomias em rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama ofereceu à humanidade novas perspectivas do Universo, revelando a existência de novos e exóticos objetos nunca antes imaginados.

Estrelas extremas

Relações entre massa, raio e luminosidade das estrelas foram primeiramente estabelecidas graças ao diagrama Hertzsprung-Russel por volta de 1911 e levaram ao reconhecimento de estrelas gigantes e anãs. Desde então encontraram-se muitos tipos extremos de estrelas. Em 1915, W.S. Adams identificou Sirius B como a primeira anã branca – uma estrela da massa do Sol mas comprimida até o volume da Terra. Em 1931 o astrofísico indiano S. Chandrasekhar, usando os novos modelos para o comportamento de partículas subatômicas, descobriu um limite superior à massa de uma anã branca. 1,4 massa solar. Acima disso, um núcleo estelar exaurido colapsará em uma estrela de nêutrons superdensa com uns poucos quilômetros de diâmetro, arrebentando o resto da estrela em uma explosão de supernova. Estrelas de nêutrons em rotação são vistas da Terra como pulsares – radiofontes pulsantes –, a primeira delas foi descoberta em 1967 por Jocelyn Bell-Burnell e Anthony Hewish, do Reino Unido. No outro extremo de massa estelar estão as anãs marrons, muitas delas descobertas recentemente, muito frias para desencadearem rações nucleares no seu centro.

Buracos negros

A possibilidade de buracos negros foi sugerida em 1783 pelo astrônomo inglês John Michell, que considerou a hipótese de um objeto tão massivo que nem a luz poderia escapar da sua gravidade. A ideia reapareceu em 1916 como resultado da teoria da relatividade geral de Einstein, mas os buracos negros permaneceram uma curiosidade até a década de 1960, quando o lançamento de satélites de astronomia de raios-X levou à descoberta de estrelas binárias de raios-X como Cygnus X-1. Binárias de raios-X exigem uma fonte compacta, massiva de erngia, que só pode ser fornecida por um buraco negro. A descoberta de buracos negros de massa estelar também abriu o caminho para se aceitar os quasares – objetos compactos, extremamente luminosos, a altos redshifts – como violentas galáxias distantes, alimentadas por buracos negros supermassivos nos seus centros.

Interior das estrelas

Com telescópios ópticos os astrônomos podem enxergar até uma profundidade de 500km abaixo da superfície solar. Infelizmente, como o Sol tem um raio de 700.000km, um imenso volume não pode ser observado diretamente. Durante os anos 1920 os astrofísicos calcularam que o centro do Sol teria uma temperatura de aproximadamente 15 milhões °C e uma densidade cerca de 150 vezes a da água. Em 1939 o físico alemão Hans Bethe mostrou como processo nucleares, agindo sob essas condições extremas, converteriam lentamente hidrogênio em hélio, liberando imensas quantidades de energia pela conversão de massa em energia. O inglês Fred Hoyle e o alemão Martin Schwarzschild estenderam esta modelo na década de 1950, mostrando como hélio é transformado em carbono e oxigênio em estrelas gigantes. Logo os astrofísicos encontraram mecanismos para a manufatura de elementos ainda mais pesados, como cobalto e ferro, nas estrelas mais massivas. Na década de 1960 os primeiros detectores de neutrinos foram usados para detectar estas partículas altamente penetrantes, liberadas pelas reações nucleares no interior do Sol, e desde os anos 1970, a técnica de heliossismologia permitiu o monitoramento das ondas sonoras ressonando através do interior solar, assim revelando sua estrutura detalhada.

Meio interestelar

A descoberta de grandes quantidades de gás e poeira entre as estrelas foi um triunfo da radioastronomia. Em 1944, o astrônomo holandês Hendrick vam de Hulst previu que o hidrogênio interestelar emitiria ondas de rádio com um comprimento de onda de 21 cm, o que foi confirmado em 1951 pelos físicos estadunidenses Harold Ewen e Edward Purcell. Em breve, radiotelescópios eram usados para mapear a distribuição do hidrogênio neutro atômico nos braços espirais da Via Láctea e de outras galáxias. Em 1974, levantamentos do comprimento de onda de 2,6mm, que age como um traçador de hidrogênio molecular, levaram à descoberta de nuvens moleculares gigantes, locais de nascimento de estrelas.

Astronomia desde o espaço

A Era Espacial começou em 4 de outubro de 1957, quando a União Soviética lançou o satélite Sputnik I, e os astrônomos rapidamente aproveitaram a capacidade de se observar fora da atmosfera terrestre. Detectores a bordo de foguetes já haviam captado sinais intrigantes em comprimentos de onda incomuns durante suas breves excursões fora da atmosfera, e o primeiro observatório orbital, o Ariel I, foi lançado pelo Reino Unido em 1961, equipado com um telescópiode ultravioleta. Outros satélites, como as séries estadunidenses Explorer, e Uhuru, rapidamente mapearam as principais fontes de ultravioleta, infravermelho e raios-X. Enquanto isso, sondas espaciais se espalhavam pelo Sistema Solar, retornando informação sobre o ambiente interplanetário e cartografando os planetas com uma variedade de câmaras, radares e outros instrumentos.

A origem do Universo

A descoberta na década de 1920 de que o Universo está em expansão desencadeou uma nova onda de reflexões cosmológicas. Em 1931, o astrônomo e padre belga Georges Lamaître sugeriu que todo o material do Universo teria começado com o uma única esfera altamente condensada – a origem da teoria do Big Bang. Em 1948, o austríaco Hermann Bondi e os britânicos Thomas Gold e Fred Hoyle propuseram uma teoria rival, da Criação Contínua, na qual matéria estaria sendo criada continuamente para preencher os vazios deixados pela expansão. Felizmente, ambas teorias poderia ser testadas pelas observações e as evidências acabaram por apoiar o Big Bang. Em 1980, Alan Guth da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, estendeu a cosmologia do Big Bang introduzindo a inflação, que auxiliava a resolver alguns problemas maiores da teoria. Mas, ainda restam questões importantes nessa área.

Planetas extra-solares

Grandes refinamentos na espectroscopia permitiram medir ligeiras variações nas velocidades estelares produzidas pela perturbação gravitacional de planetas em órbita. Em 1995, os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra descobriram um planeta com massa um pouco abaixo da metade daquela de Júpiter em torna da estrela 51 Pegasi, a 48 anos-luz. Agora se conhecem centenas de planetas extra-solares e abriu-se um novo campo da astronomia. Os astrônomos têm se surpreendido com suas descobertas – a maioria dos sistemas planetários é muito diferente do Sistema Solar. Alguns têm planetas gigantes orbitando muito próximo à estrela mãe, enquanto outros têm planetas com órbitas altamente elípticas. 

A caçada continua

Quanto mais os astrônomos sabem sobre o Universo, mais querem saber. Na década de 1970 reconheceu-se que o Universo continha muito mais material que o visível: matéria escura afeta a rotação das galáxias; a massa faltante é prevista pela teoria do Big Bang mas ainda não foi observada. A exótica “energia escura” parece acelerar a expansão do Universo. Ao lado desses grandes mistérios cosmológicos está a busca pela vida do Universo, abarcada pela nova ciência da astrobiologia. Nos últimos séculos o tamanho dos espelhos de 10mde hoje serão substituídos por gigantes ainda maiores e observações feitas além da atmosfera terrestre serão cada vez mais produtivas. O telescópio de 2,5m do Telescópio Espacial Hubble será pequeno perto do Telescópio Espacial James Webb, com espelho de 6,5m, a ser lançado em 2021. Esta nova geração de telescópios deverá finalmente captar a primeira geração de estrelas e galáxias. E, à medida que os astrônomos observarem cada vez mais longe com instrumentos cada vez mais sensíveis, inevitavelmente serão confrontados com novos mistérios e corpos exóticos não imaginados antes.

Primeiras espaçonaves

A segunda metade do século XX registrou uma revolução na nossa compreensão do Universo, desencadeada pelo desenvolvimento do vôo espacial. Pela primeira vez, em lugar de apenas olhar para o esaplo, os seres humanos e suas máquinas viajavam por ele. Revezes e riscos marcaram os primeiros tempos da exploração espacial, mas, com esses obstáculos superados, o progresso foi rápido.

Sonhadores de foguetes

A ideia da viagem espacial é tão antiga quanto o contar estórias, mas com poucas noções das leis da física ou da natureza do espaço escritores frequentemente se baseavam em meios cômicos ou absurdos de transportar fictícios viajantes espaciais. Mas, as leis newtonianas do movimento e da gravitação, em conjunto com o fato do espaço ser um vácuo, indicavam que apenas uma forma de propulsão seria capaz de levar viajantes ao espaço – o foguete. Desenvolvidos como fogos de artifício e armas na China medieval, os foguetes contém o combustível necessário para sua propulsão, impulsionados por gases ejetados pelo seu escape. Embora o escritor francês Cyrano de Bergerae (1619-1655) tivesse sugerido no século XVII seu uso para alcançar a Lua, o primeiro a considerar seriamente as realidades da viagem espacial foi o professor da escola rural soviético Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), que desenvolveu muitos dos princípios dos foguetes de combustível líquido, de múltiplos estágios, publicando-os na década de 1890.

Lançamento

Os princípios dos foguetes estavam bem desenvolvidos no começo do século XX, mas ainda havia vários problemas para fazer do voo espacial uma realidade prática. O maior deles era a eficiência do combustível. O engenheiros estadunidense Robert Goddard concebeu a ideia de combustíveis líquidos mais eficientes e em 1926, lançou um foguete de 3m de comprimento impelido por oxigênio líquido e gasolina. As ideias de Goddard e Tsiolkovsky foram adotadas por entusiastas no mundo todo, inclusive pela Sociedade para a Viagem Espacial (VfR) da Alemanha. Durante a década de 1930, muitos dos cientistas da VfR foram recrutados pelo boverno nazistas para um programa militar que prosseguiu durante a Segunda Guerra Mundial. A culminação dos seus esforços, o míssil V2, chegou tarde demais para salvar a Alemanha da derrota, mas provou que armamentos à base de foguete eram o caminho do futuro.

A corrida espacial

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, as maiores potências desejavam a tecnologia de foguetes para si. A maioria dos cientistas fugiu para o Ocidente, mas a União Soviética capturou as fábricas das V2. As razões para tal interesse tornaram-se claras quando as relações internacionais rapidamente deterioraram e começou a Guerra Fria. Ambos acreditavam que mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) impulsionados por foguetes poderiam ser a resposta para lançar a arma final – a bomba nuclear. Foi neste contexto que os Estados Unidos e a União Soviética começaram seus programas espaciais. Ambos viram que a tecnologia de mísseis poderia ser utilizada para alcançar a órbita terrestre e reconheceram que esses lançamentos demonstrariam o poder de seus foguetes e renderiam grandes benefícios de propaganda.

Em órbita

No começo dos anos 1950 União Soviética e Estados Unidos anunciaram planos de lançar satélites durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-58. O programa soviético prosseguiu em sigilo, usando seus enormes mísseis R-7 como veículos de lançamentos, enquanto os cientistas estadunidenses passavam por escrutínio público. Os planos do cientista alemão Werher von Braun de lançar um satélite com o ICBM estadunidense Redstone foram engavetados a favor do programa de pesquisa espacial Vanguard da marinha estadunidense. Pouco antes da data de lançamento do Vanguard, em novembro de 1957, os soviéticos anunciaram em 4 de outubro do mesmo ano o lançamento bem sucedido do Sputnik I. As estações de rastreamento captaram sinais de rádio do satélite e confirmaram que a União Soviética tinha tomado a dianteira na corrida espacial. A humilhação estadunidense foi total quando, em 6 de dezembro, o lançamento do Vanguard terminou em uma explosão na plataforma de lançamento. O projeto de Von Braun foi imediatamente ressuscitado, e o primeiro satélite estadunidense, o Explorer I, entrou em órbita com êxito menos de dois meses mais tarde, em 31 de janeiro de 1958.

As missões Vostok

No final da década de 1950, o próximo grande passo da corrida espacial estava claro – qual das superpotências seria a primeira a colocar uma pessoa em órbita? Os soviéticos tinham uma óbvia vantagem de potência, já que o Sputnik II, o seu segundo satélite, pesava meia tonelada, e haviam conseguido enviar sondas além da vizinhança imediata da Terra. Em 12 de abril de 1961 fizeram um anúncio que surpreendeu o mundo: o Coronel Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espalho, a bordo da Vostok I. Gagarin retornou à Terra como herói da União Soviética, e o programa espacial estadunidense, agora gerenciado pela Nasa, de novo havia ficado para trás. As missões Vostok posteriores superaram novos limites e colocaram a primeira mulher no espaço, aumentaram os tempos em órbita e mantiveram mais de uma espaçonave simultaneamente em voo.

Projeto Mercury

A resposta da Nasa ao Vostok foi o programa Mercury, que lançou seis astronautas entre 1961 e 1963. Diferentemente do programa soviético os esforços estadunidenses foram conduzidos sob os holofotes da mídia. As cápsulas espaciais Mercury eram minúsculas e leves, parcialmente porque tinham que ser transportadas pelo pequeno veículo de lançamento Redstone nos primeiros voos. A Nasa estava desenvolvendo um novo lançador, o Atlas, mas os tests da cápsula deveriam começar antes do foguete maior estar pronto. Surpreendida pelo lançamento do Vostok I, a Nasa correu para retaliar e colocou seu primeiro homem no espaço em 5 de maior. Lançado em um foguete Redstone a missão Freedom 7, de Alan Shepard, não tinha velocidade suficiente para entrar em órbita, mas alcançou uma altura de 185 km durante um voo de 15 minutos. Após um segundo voo sub-orbital, o foguete Atlas foi completado no final de 1961. Seguindo um número de testes, John Glenn foi o primeiro estadunidense em órbita em 20 de fevereiro de 1962.

Próximos passos

Dispostos a manter sua liderança na corrida espacial, os soviéticos assumiam um grande risco. Os estadunidenses tinham anunciado suas missões planejadas de dois homens do Gemini e, em um esforço para ofusca-los de antemão, o diretor do programa espacial soviético, Korolev, planejava uma missão de três homens. Era um grande desafio, pois já havia sido iniciado um trabalho com as naves Soyuz visando alcançar a Lua. Finalmente, os engenheiros soviéticos chegaram a um engenhoso compromisso Voskhod era efetivamente uma cápsula Vostok modificada com espaço suficiente para levar três tripulantes. O voo da Voskhod I, em 12 de outubro de 1964, foi um sucesso, batendo a primeira missão tripulada Gemini por cinco meses. A Voskhod II, lançada alguns dias antes do primeiro teste de voo da Gemini foi um sucesso ainda maior. Durante o voo Alexei Leonov tornou-se a primeira pessoa a caminhar no espaço. Os soviéticos haviam desferido mais um espetacular golpe de propaganda.

Exploradores robôs

Enquanto o foco da atenção pública estava principalmente no programa espacial tripulado, uma segunda corrida espacial era mantida em paralelo – cujas consequências para nossa compressão do Sistema Solar. Cada superpotência tentava superar a outra nos “primeiros” passos da exploração de outros mundos. A exploração espacial robótica teve uma acidentada história inicial, com numerosas falhas, tanto nas plataformas de lançamento, enquanto, ou durante as tentativas de pouso. Porém houve alguns sucessos notáveis: em janeiro de 1959 a Lunik ou Luna I tornou-se o primeiro objeto a escapar da gravidade terrestre e entrar em órbita em torno do Sol; a Lunik II atingiu a Lua em setembro de 1959; a Lunik III registrou as primeiras imagens do lado oculto da Lua. A Pioneer V da Nasa foi a primeira sonda deliberadamente lançada ao espaço interplanetário, entrando em órita entre a terra e Vênus em 1960, enquanto as sondas estadunidenses Mariner II e IV venceram os soviéticos na corrida rumo a outros planetas, voando para Vênus e Marte em 1962 e 1965, respectivamente.

Viagens à Lua

As missões Apolo para a Lua frequentemente são descritas como uma grande conquista da técnica humana. Vastas quantidades de recursos humanos e financeiros foram investidos em um programa com motivações científicas e de propaganda. As missões revelaram muito sobre a Lua e seus imensos avanços tecnológicos remodelaram o mundo.

Um homem na Lua

Em 25 de maio de 1961 o presidente estadunidense John F. Kennedy fez um discurso que abalou o mundo. Em uma época em que os Estados Unidos ainda tinham que colocar um astronauta em órbita da Terra, ele prometeu que seu país levaria pessoas à Lua até o fim da década. A escala do empreendimento era monumental. Astronautas não haviam se aventurado a além de 300km da superfície terrestre, e agora Kennedy dava à Nasa a missão de enviá-los a uns 400.000km de distância, pousá-los na superfície de um mundo desconhecido e trazê-los de volta com segurança. Contudo, se isto fosse realizado, a mensagem seria que os Estados Unidos agora eram uma potência espacial. A Nasa imediatamente começou a investigar os meios de se pousar na Lua. A missão estabeleceu como objetivo usar o maior foguete já construído, projetado pelo cientista de foguetes alemão Wernher von Brauns, para enviar três naves conectadas rumo à Lua – somente uma delas retornaria à Terra. O nome, Apollo, o deus grego do Sol, foi sugerido pelo diretor de voos espaciais da Nasa. Dr. Abe Silvestein.

Projeto Gemini

Cada missão Apollo envolveria diversas operações de encontro, acoplamento e desacoplamento no espaço – operações que a Nasa e seus astronautas jamais haviam tentado antes. Apenas ir à Lua e voltar exigiria um mínimo de 7 dias. Para ganhar experiência em voos espaciais de longa duração e nas delicadas manobras necessárias no Apollo, a Nasa anunciou que o programa Mercury seria substituído pelo Projeto Gemini, uma série de missões de dois tripulantes. Houve 10 missões tripuladas Gemini, entre 1964 e 1966, diversas das quais envolviam encontros entre naves, caminhadas no espaço, e mesmo acoplamentos com veículos alvo não-tripulados. Agena. A espaçonave, composta de três módulos, também representava um grande avanço. Enquanto os dois astronautas permaneciam durante a missão dentro de um módulo de reentrada, apenas 50% maior que a cápsula Mercury, os suprimentos de água e ar, o equipamento elétrico e os experimentos eram mantidos principalmente em um módulo de serviço separado. Um terceiro módulo continha foguetes para manobrar a espaçonave em órbita e freá-la antes de sua reentrada.

Preparando o caminho

Um grande desafio para os planejadores da Apollo era a falta de conhecimento sobre a Lua. À época, pouco se conhecia sobra a história lunar, a natureza das suas crateras e as propriedades de sua superfície – pensava-se seriamente na possibilidade da superfície ser de um pó tão fino que a nave afundaria. Para responder estas questões, a Nasa planejou uma série de missões robóticas para fazer levantamentos detalhado da Lua incluindo pousos – tanto de colisão quanto suaves. As primeiras foram as naves Ranger, quatro das quais colidiram com a Lua entre 1961 e 1964. Pelas fotos retransmitidas à Terra, é inteiramente coberta por crateras, até nas menores escalas, o que indica uma origem por impacto. Em 1966 teve início uma segunda fase, com as naves Lunar Orbiter e surveyor. Os orbitadores fotografaram a Lua de perto, a cerca de 0 km, buscando locais interessantes para pousos tripulados, enquanto os Surveyor efetuaram uma série de pousos suaves, confirmando a firmeza da superfície lunar.

Apollo em órbita

No final de 1966, o programa Apollo estava avançando rápido. Os enormes foguetes Saturno V estavam em construção e as naves prontas para os testes. Porém, em janeiro de 1967, a tripulação da Apollo I morreu durante um incêndio na cápsula em um ensaio de lançamento. Como consequência as missões Apollo II e III foram canceladas, e as missões Apollo IV, V e VI foram convertidas em teses de lançamento não-tripulados. Somente em outubro de 1968 os astronautas retornaram ao espaço, com o lançamento da Apollo 7. Esta missão orbital foi logo seguida pela Apollo VIII. Lançada pela primeira vez pelo Saturno V a missão da nave foi alterada para incluir uma órbita ao redor da Lua no Natal, após rumores de que os soviéticos lançariam um veículo  tripulado para alcançar a Lua. O lançamento nunca aconteceu e, depois das Apollo IX e X, a Nasa estava finalmente pronta para tentar pousar na Lua.

O primeiro pouso na Lua

A Apolo XI partiu de Cabo Kennedy (agora Canaveral), na Flórida, em 16 de julho de 1969) e entrou em óribta lunar três dias depois. Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin então embarcaram no módulo lunar “Eagle” para a descida na superfície, enquanto Mihael Collins permanecia a bordo do módulo em comando e serviço (CSM) “Columbia” em órbita lunar. Eagle tocou seguramente uma planície de lava conhecida como o Mare Tranquilitatis (Mar da Tranquilidade) e, seis horas após o poso, Neil Armstrong deixou o módulo e desceu a escada, pisando a superfície das 2h56 do dia 20 de julho. Armstrong e Aldrin permaneceram na superfícia por 21 horas, realizando uma caminhada, durante a qual implantaram uma bandeira e uma placa comemorativa, conduziram diversos experimentos coletaram rochas, e telefonaram para o presidente estadunidense Richard Nixon.

Módulo lunar

O módulo lunar, com sua aparência frágil, era um elemento vital de cada missão Apollo. Como ele nunca voaria em uma atmosfera os projetistas tiveram a liberdade de dar-lhe uma forma estritamente funcional. Embora o módulo tivesse 9,5m de largura e 7m de altura, a cabine era tão apertada que os astronautas ficaram de pé durante o voo. O grande motor de foguete, embaixo da seção superior do módulo, era usado para frear a cápsula durante o pouso na Lua e, depois, fornecer o impulso para a decolagem da superfície lunar e injeção em órbita.

Missões posteriores

A Nasa havia originalmente planejado dez missões Apollo, mas apenas seis foram completadas. Embora a Apollo XII tenha sido um sucesso, a Apollo XIII ficou famosa pelo seu acidente, quando uma falha elétrica e perda de oxigênio, pela primeira vez colocaram uma tripulação da série em grave perigo. As últimas três Apollo levavam um jipe lunar, estendendo consideravelmente a área que os astronautas poderiam explorar. Redução no interesse público e cortes de verbas da Nasa levaram ao cancelamento das três últimas missões. Os estertores finais da Apollo foram a estação espacial Skylab, que usava um foguete Saturno V, e a missão Apollo-Soyuz, um encontro entre astronautas soviéticos e estadunidenses em órbita terrestre.

Lições científicas

As missões Apollo revelaram muito aos astrônomos sobre a química e história da Lua. As rochas coletadas ainda são estudadas em todo o mundo. O registro do bombardeamento da Lua e a datação por radioisótopos das amostras revelaram o período de intenso bombardeamento a modelou o Sistema Solar durante seu primeiro bilhão de anos. Embora os soviéticos nunca tenham tentado um pouso tripulado na Lua, colocaram uma série de jipes LunoKhod no satélite e trouxeram pequenas amostras de poeira para a Terra.

Em órbita da Terra

Embora muito do foco da exploração espacial tenha sido viagens a planeta e luas distantes, a grande maioria das missões não foi além da órbita terrestre. Em torno da Terra é que o advento do voo espacial teve maior impacto. Nossa vizinhança espacial agora está repleta de satélites, tanto com propósitos científicos como comerciais.

Estações espaciais

A União Sovietica mudou a direção do seu programa espacial no final da década de 1960, priorizando postos semipermanentes em órbita. As primeiras estações espaciais soviéticas, nos anos 1970, as Salyut, eram clilindros com 13m de comprimento e no máximo 4m de largura que abrigavam tripulações de três cosmonautas por diversas semanas em condições espartanas. Embora a corrida espacial tivesse se desacelerado, a Nasa ainda se sentia obrigada a competir e, em 1973, lançou a estação Skylab, que foi visitada por três tripulações separadas ao longo de um ano. Com isso, a Nasa manteve um breve recorde de permanência no espaço. Contudo, quando voltou suas atenções para o Space Shuttle, as estações espaciais foram deixadas para os soviéticos. As mais avançadas Salyut 6 e Salyut 7 eram muito maiores que suas antecessoras e podiam ser ampliadas por módulos lançados da Terra. Na metade na década de 1980, os cosmonautas permaneciam meses em órbita, conduzindo valiosos experimentos científicos.

Potencialidades do espaço

Além das razões políticas e científicas para a exploração espacial, as últimas décadas viram o surgimento para fins práticos. Empresas privadas e países menores conseguem agora lançar satélites e o mundo foi transformado pelos seus resultados. Os satélites de comunicações nasceram dos trabalhos de Arthur C. Clarke e outros, e radiotransmissores orbitais são os responsáveis pelo Global Positioning System (GPS), que permite aos usuários encontrar sua posição em qualquer parte da Terra com precisão de poucos metros. O potencial da observação da Terra desde sua órbita tornou-se claro quando os primeiros astronautas relataram avistar nitidamente acidentes geográficos – com grande surpresa para os controladores de solo. Hoje diversos satélites de observação da Terra circulam o globo, desde os climáticos que monitoram hemisférios inteiros, até os espiões, capazes de ver detalhes inferiores a 1m. Ainda mais sofisticados são os satélites de sensorialmente remoto. Monitorando a Terra em vários comprimentos de onda, reúnem imensas quantidades de informação sobre o solo, como a direção das correntes oceânicas, a localização de depósitos mineiras e a qualidade das plantações.

Observatórios orbitais

Muitas das grandes descobertas e imagens espetaculares do Universo distante provêm de satélites. A atmosfera terrestre representa um sério problema para os astrônomos, pois filtra a maioria da radiação eletromagnética. Contudo, um telescópio no espaço coloca problemas únicos. Não só eles devem ser controlados remotamente para retornar imagens à Terra, mas também devem operar em um ambiente hostil. As flutuações de extremas temperaturas entre a iluminação solar e a escuridão podem distorcer a delicada óptica do telescópio, visto que o instrumento todo se contrai e se dilata, e assim se exige um projeto engenhoso de isolamento. Mesmo assim, o tempo de operação em órbita é limitado. Além da energia fornecida pelas células solares, os satélites demandam combustível para se reorientar no espaço e agentes resfriadores para proteger sua delicada eletrônica.

Vôos tripulados

Desde as missões Apollo, o voo espacial tripulado continuou a se desenvolver. Apesar de duas tragédias de grande impacto, em 1986 e 2003, o Space Shuttle da Nasa, a primeira espaçonave reutilizável, transformou o voo espacial em uma atividade quase rotineira. Desde seu primeiro voo em 1980, os Shuttles completaram mais de 100 missões, levando experimentos, lançando satélites, e observando a Terra e o espaço. Enquanto isso, a União Soviética desenvolver o princípio da estação espacial modular, ampliável, como a Mir (1986-2001). Os plano da Nasa de um estação espacial permanente evoluíram para um enorme projeto internacional, e quando a Estação Espacial Internacional estiver completa, o Space Shuttle terá se aposentado após 25 anos de serviço. No momento, alguns países têm planos ambiciosos do retorno do homem à Lua como estala rumo a Marte.

Além da Terra

Embora os seres humanos não tenham ainda se aventurado além da Lua, as sondas espaciais automáticas mergulharam muito mais fundo. Exploradores robóticos visitaram todos os planetas e também pesquisaram dezenas de satélites em um conjunto de corpos menores. Durante suas jornadas, transformaram nossa visão do Sistema Solar, revelando outros mundos, quase tão complexos quanto a Terra.

Primeiros passos

A primeira sonda a deixar a influência da Terra e entrar em órbita própria ao redor do Sol foi a nave soviética Lunik I (Luna I), que, em 1959, errou seu alvo, a Lua, e se tornou por acidente a primeira sonda interplanetária. Logo seguiram-se esforços deliberados da Nasa, que, entre 1960 e 1968, lançou com sucesso as Pioneer 5 a 9 em órbitas entre a Terra e Vênus. Várias dessas naves alimentadas com energia solar ainda transmitem dados científicos. Assim como havia a corrida para colocar o homem no espaço, as superpotências da Guerra Fria competiam pelo primeiro lugar na chegada a outros planetas. Em dezembro de 1962, a Mariner 2 foi a primeira sonda a realizar um sobrevôo em Vênus, medindo a temperatura extremamente alta de sua superfície, e confirmando sua rotação anormalmente lenta. A Mariner 4 sobrevoou Marte em julho de 1965, medindo sua atmosfera e fotografando seus planaltos austrais com crateras.

O sistema solar interno

Como estão mais próximos do Sol, Mercúrio e Vênus viajam mais rápidos que a Terra. Assim, a sonda deve ganhar velocidade para entrar em suas órbitas. Contudo, algumas naves superaram este desafio técnico e visitaram Vênus nos anos seguintes ao primeiro sobrevoo. Diversas sondas soviéticas tentaram o pouso na superfície hostil, apenas para serem destruídas durante a reentrada. Em 1967, Venera 4, equipada com blindagem semelhante a um tanque, enviou com êxito sinais para a Terra. Foi somente oito anos mais tarde que a Venera 9 retornou as primeiras imagens da superfície venusiana. Tanto a Nasa como os soviéticos lançaram orbitadores para fazer levantamentos do planeta desde o espaço. Em 1978, a missão Pioneer Orbiter mapeou o planeta com radar e lançou sondas atmosféricas. Em 1989, o Magellan, um orbitador da Nasa equipado com um sofisticado radar, deu início ao estudo por quatro anos do planeta, com detalhes sem precedentes. A velocidade orbital de Mercúrio representa um problema maior: até agora [2008], apenas a Mariner 10 e a Messenger o visitaram.

Perto de Marte

Os primeiros sobrevoos de Marte foram sucessos notáveis, porém não no que se refere aos trajetos de seus voos. Três sondas estadunidenses retornaram imagens de 10% da superfície marciana, mas perderam toda a evidência de vulcanismo e de água que fazem o fascínio do planeta. A sorte da Nasa mudou em 1971, quando a Mariner 9 tornou-se a primeira nave a orbitar Marte, conduzindo um levantamento fotográfico que revelou o sistema de Valles Marineris, os altíssimos vulcões da região de Tharsis, e os primeiros sinais de cânios com erosão por água. Com o redespertar do interesse pelo Planeta Vermelho, a Nasa lançou a Marte as duas naves gêmeas da missão Viking, cada uma com um lander (módulo de pouso) e um orbitador. Os orbitadores forneceram imagens e dados climáticos da superfície, além de conduzirem vários experimentos detalhados, incluindo um controverso teste de vida microbiana.

O grand tour

Os anos 1970 apresentaram uma rara oportunidade: um alinhamento de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno permitiria a uma nave viajar de um planeta a outro, usando o efeito de “estilingue gravitacional”. O chamando Grand tour levaria pouco mais que uma década. Em 1977, a Nasa lançou a Voyager 1 e 2, inicialmente tendo como alvo apenas Júpiter e Saturno. A Voyager passou por Júpiter em março de 1979 e por Saturno em novembro de 1980, fazendo a primeira aproximação rasante da sua Titã. A Voyager 2 a seguiu poucos meses depois, e, como a Voyager 1 havia completado sua missão, os cientistas da Nasa decidiram ativar seu plano de reserva, lançando sua segunda sonda ao redor de Saturno rumo a Urano, alcançando em 1986, e a Netuno, em 1989. Esta missão extremamente bem sucedida nos ofereceu os primeiros vislumbres desses gigantes exteriores gelados, de suas luas e de seus anéis. Ambas naves ainda estão viajando, além de Plutão, nos confins do sistema solar [Atualmente – 2019 –, já saíram do Sistema Solar].

Exploradores em Marte

Apesar dos sucessos dos lander Viking, as sondas não retornaram a Marte até o final da década de 1990, seguindo uma série de fracassadas missões estadunidenses e soviéticas. Em 1997, a Mars Global Surveyor da Nasa entrou em órbita em torno do planeta, equipada com câmeras de última geração, enquanto um lander, o Mars Pathfinder, liberou o jipe robô Sojourner, que coletou rochas e solo. Seguiram-se muitas outras naves, e a cada nova descoberta, a possibilidade de vida em Marte tornou-se mais plausível. Vários satélites artificiais estão em órbita ao redor do planeta, usando técnicas de sensoriamente remoto para sondar o subolo marciano. Os jipes de exploração marciana, Spirit e Opportunity descobriram evidências inegáveis sobre oceanos extensos no passado marciano. Novas missões como a Phoenix, traçam a história da água em Marte e a possibilidade de vida no planeta.

Entre as luas de Júpiter

Os sobrevoos das Voyagers sobre as enormes luas de Júpiter revelaram que elas eram mundos fascinantes merecedores de uma inspeção mais de perto. A sonda Galileo, destinada a orbitar Júpiter, foi lançada em 1989, mas somente chegou ao destino em 1995. E os resultados valeram a espera. O orbitador fez o sobrevoo rasante de um asteroide durante seu curso, e librou uma sonda na atmosfera de Júpiter, antes de começar uma missão que ultrapassaria todas as expectativas. A Galileo estudou os vulcões de Io e o sistema climático de Júpiter, enquanto deu apoio a evidência de um oceano debaixo da crosta de gelo de Europa e nas luas jovianas exteriores Ganimedes e Calisto.

Cassini e além

A Galileo foi seguida por uma missão ainda mais ambiciosa para Saturno. A Cassini, uma enorme sonda pesando 5,6 toneladas, foi lançada em 1997. Depois de uma complexa jornada durante a qual sobrevoou duas vezes Vênus e uma vez a Terra e tomou impulso em Júpiter, finalmente chegou a Saturno em 2004. A bordo havia o lander europeu Huygens, que desceu de paraquedas na atmosfera de Titã em janeiro de 2005 enviando imagens durante seu pouso e revelando um mundo no qual o metano líquido parece desempenhar o mesmo papel que a água na Terra. Cassini continuou a monitorar Saturno e a fazer voos rasantes sobre muitos dos satélites fascinantes e variados do planeta. Desse modo abrirá caminho para futuras missões orbitais ainda mais ousadas, com ao Prometheus (antes o Orbitador das Luas Geladas de Júpiter), uma nave impulsionada à energia nuclear projetada para estudar as luas de Júpiter em detalhes sem precedentes. A Prometheus será a primeira de uma nova geração de naves espaciais nucleares que abrirá o Sistema Solar a uma exploração mais rápida e ainda mais profunda.

Cometas e asteroides

Embora a maior parte das sondas tivesse os planetas como alvos os cientistas não esqueceram os corpos menores do Sistema Solar. Cometas e asteroides virtualmente inalterados desde sua formação, há 4,5 bilhões de anos, contêm indícios fascinantes sobre a criação do Sistema Solar e mesmo sobre a origem da vida. Em 1985 e 1986, quando o Cometa Halley passou novamente pelas proximidades do Sol, uma flotilha de naves dirigiu-se ao seu encontro. O NEAR (Near Earth Asteroid Rendezvous) sobrevoou o asteroide Mathilde do Cinturão principal em 1997, antes de monitorar o grande asteroide Eros por um ano. Seguiram-se missões mais ambiciosas. A Stardust, da Nasa, recolheu poeira da cauda do cometa Wild 2 em 2004, para trazer à Terra; a missão europeia Rosetta pela primeira vez colocou um lander em um cometa; e a New Horizon sobrevoará Plutão [Chegou em 2016], antes explorando o cinturão de Kuiper, o berço de muitos cometas.

O futuro do homem no espaço

É inevitável que naves tripuladas um dia se aventurem pelas profundezas do Sistema Solar. China, Rússia e Estados Unidos têm planos para um retorno à Lua, e os estadunidenses também consideram a possibilidade de uma missão a Marte. Embora possam ser abandonados, esses planos serão substituídos por outros, e no meio tempo os cientistas espaciais terão reunido os conhecimentos necessários para tornar a viagem espacial de longa duração uma realidade. A Rússia ganhou uma experiência única de microgravidade prolongada com as missões na estação espacial Mir, e a tripulação da Estação Espacial Internacional é uma fonte preciosa de informações em medicina espacial. Por outro lado, experimentos em solo, como a Biosfera 2, fornecem informações úteis sobre como os astronautas poderiam produzir seu próprio alimento, água e oxigênio em outros planetas e como uma tripulação isolada enfrentaria o confinamento em uma nave por muitos meses.

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Solilóquios de Marco Aurélio - Livro VI

1. A substância do conjunto universal é dócil e maleável. E a razão que a governa não tem em si nenhum motivo para fazer mal, pois não tem maldade, e nem faz mal algum nem nada recebe mal daquela. Tudo se origina e chega a seu fim de acordo com ela.

2. Seja indiferente para ti passar frio ou calor, se cumpres com teu dever, passar a noite em vigia ou saciar-te de dormir, ser criticado ou elogiado, morrer ou fazer outra coisa. Pois uma das ações da vida é também aquela pela qual morremos. Assim, basta também para este ato “dispor bem o presente” .

3. Olhe o interior; que de nenhuma coisa te escape nem sua peculiar qualidade nem seu mérito.

4. Todas as coisas que existem rapidamente serão transformadas e, ou evaporarão, se a substância é uma, ou se dispersarão.

5. A razão que governa sabe como se encontra, o que faz e sobre qual matéria. 

6. A melhor maneira de defender-te é não te assemelhar a eles.

7. Regozija-te e repouse em uma só coisa: em passar de uma ação útil à sociedade a outra ação útil à sociedade, tendo sempre Deus presente.

8. O guia interior é o que desperta a si mesmo, que se gira e se faz a si mesmo com quer, e faz que todo acontecimento lhe pareça tal como ele quer.

9. Todas e cada uma das coisas chegam ao seu fim de acordo com a natureza do conjunto, e não segundo outra natureza que abarque o mundo exteriormente, ou esteja incluída em seu interior, ou esteja desvinculada no exterior.

10. Barulho, entrelaçamento e dispersão, ou bem união, ordem e providência. Se efetivamente é o primeiro, por qual desejo demorar minha estância em uma mistura azarada e confusão? E por que terá importância outra coisa que não seja saber como “converter-me um dia em terra?”. E por que perturbar-me? Pois a dispersão me alcançará, faça o que faça. E se é o segundo, venero, persisto e confio no que governa.

11. Sempre que te vejas obrigado pelas circunstancias a sentir-te confuso, retorne a ti mesmo rapidamente e não te desvies fora de teu ritmo mais do que o necessário. Pois serás mais dono da harmonia graças a teu contínuo retomá-la.

12. Se tivesses simultaneamente uma madrasta e uma mãe, atenderias àquela, mas, contudo, as visitas a tua mãe seriam contínuas. Isso tu tens agora: o palácio e a filosofia. Assim, pois, retorne frequentemente a ela e nela repouse; graças a esta, as coisas de lá te parecem suportáveis e tu és suportável entre eles.

13. Assim como se tem um conceito das carnes e peixes e comestíveis semelhantes, sabendo que isso é um cadáver de peixe, aquele cadáver de um pássaro ou de um porco; e também que o Falerno é suco de uva, e a toga pretexta lã de ovelha tingida com sangue de marisco; e em relação ao ato sexual, que é uma fricção do intestino e uma ejaculação acompanhada de certa convulsão. Como, de fato, esses conceitos alcançam seus objetos e penetram em seu interior, de modo que se pode ver o que são! Assim, é preciso agir ao longo da vida inteira, e quando as coisas te derem a impressão de serem dignas de crédito em excesso, analise-as e observe seu nulo valor, e despoje-as da ficção, pela qual se vangloriam. Pois o orgulho é um terrível enganador da razão, e quando pensas ocupar-te principalmente das coisas sérias, então, ainda assim, te enganas. Olhe, por exemplo, o que diz Crates sobre o próprio Xenócrates.

14. A maior parte das coisas que o vulgo admira se referem às mais gerais, às constituídas por uma espécie de ser ou natureza: pedras, madeira, figueiras, vinhas e oliveiras. As pessoas um pouco mais comedidas tendem a admirar os seres animados, como os rebanhos de vacas, ovelhas ou, simplesmente, a propriedade de escravos. E as pessoas ainda mais agraciadas, as coisas realizadas pelo espírito racional, mas não o universal, e sim aquele que tanto é hábil nas artes ou engenhoso de outras maneiras (ou simplesmente capaz de adquirir multidão de escravos). Mas o que honra a alma racional universal e social não direciona seu olhar a nenhuma das demais coisas, e diante de tudo, procure conservar sua alma em disposição e movimento em acordo com a razão e o bem comum, e colabore com seu semelhante para alcançar esse objetivo.

15. Coloque sempre seu empenho em chegar a ser algumas coisas, em outras coloque seu afã em persistir, mas uma parte do que chega a ser já se extinguiu. Fluxos e alterações renovam incessantemente o mundo, assim como o passo ininterrupto do tempo proporciona sempre nova a eternidade infinita. Em meio a esse rio, sobre o qual não é possível deter-se, que coisa entre as que passam correndo poderiam ser estimadas? Como se alguém começasse a se apaixonar pelas aves que voam ao nosso redor, e logo desaparecem diante de nossos olhos. Tal é de certa forma a vida de cada um, como a exalação do sangue e a inspiração do ar. Pois, assim como o inspirar uma vez o ar e expulsá-lo, coisa que fazemos a cada momento, também é devolver ali, de onde retiraste pela primeira vez, toda a faculdade respiratória, que tu adquiriste ontem ou anteontem, recém chegado ao mundo.

16. Nem é valoroso transpirar como as plantas, nem respirar como o gado e as feras, nem ser impressionado pela imaginação, nem ser movido como uma marionete pelos impulsos, nem agrupar-se como rebanhos, nem alimentar-se; pois isso é semelhante à evacuação das sobras de comida. O que vale à pena, então? Ser aplaudido? Não. Assim, tampouco ser aplaudido pelo bater de línguas, porque os elogios do vulgo são bater de línguas. Portanto, renunciaste também à vangloria. O que sobra como digno de estima? Opino que o mover-se e manter-se de acordo com a própria constituição, fim ao qual conduzem as ocupações e as artes. Porque toda arte aponta para esse objetivo, para que a coisa constituída seja adequada à obra que motivou sua constituição. E tanto o homem que se ocupa do cultivo da vinha, como o domador de cavalos, e o que adestra cães, perseguem esse resultado. E a que objetivo tendem com afinco os métodos de educação e ensino? A vista está, pois, o que é digno de estima. E se nisso tens êxito, nenhuma outra coisa te preocupará. E não deixarás de estimar muitas outras coisas? Então nem serás livre, nem te bastarás a ti mesmo, nem estarás isento de paixões. Será necessário que invejes, tenhas ciúme, receies os que possam tirar-lhe os seus bens, e terás necessidade de conspirar contra os que têm o que tu estimas. Em resumo, forçosamente a pessoa que sente falta de alguns daqueles bens estará perturbada e, além disso, censurará muitas vezes aos deuses. Mas o respeito e a estima ao teu próprio pensamento farão de ti um homem satisfeito contigo mesmo, perfeitamente adaptado aos que convivem ao teu lado e em concordância com os deuses, isso é, um homem que louva o que lhe foi concedido e designado.

17. Para cima, para baixo, em círculo, são os movimentos dos elementos. Mas o movimento da virtude não se encontra em nenhum desses, mas é algo um tanto divino e segue seu curso favorável por um caminho difícil de conceber.

18. Curiosa atuação! Não querem falar bem dos homens de seu tempo e que vivem ao seu lado, e, em troca, têm em grande estima serem elogiados pelas gerações vindouras, a quem nunca viram nem verão. Isso vem a ser como se te afligisses, porque teus antepassados não tiveram para ti palavras de elogio.

19. Não penses, se algo te resulta difícil e doloroso, que isso seja impossível para o homem; antes bem, se algo é possível e natural ao homem, pense que também está ao teu alcance.

20. Nos exercícios dos ginásios, alguém nos arranhou com suas unhas e nos feriu com uma cabeçada. Entretanto, nem o colocamos de manifesto, nem nos incomodamos, nem suspeitamos mais tarde dele como conspirador. Mas sim, certamente, nos colocamos em guarda, mas não como se fosse um inimigo, nem com receio, mas esquivando-o benevolamente. Algo parecido ocorre nas demais conjunturas da vida. Deixemos de lado muitos receios mútuos dos que nos exercitamos como nos ginásios. Porque é possível, como dizia, evitá-los sem mostrar receio nem aversão.

21. Se alguém pode refutar-me e provar de modo conclusivo que penso ou procedo incorretamente, de bom grado mudarei minha forma de agir. Pois persigo a verdade, que nunca prejudicou ninguém; ao contrario, sim se prejudica o que persiste em seu próprio engano e ignorância.

22. Eu, pessoalmente, faço o que devo; o demais não me atrai, porque é algo que carece de vida, ou de razão, ou anda extraviado e desconhece o caminho.

23. Aos animais irracionais e, em geral, às coisas e aos objetos submetidos aos sentidos, que carecem de razão, tu, posto que estás dotado de entendimento, trate-os com magnanimidade e liberalidade; mas aos homens, como dotados de razão, trate-os ademais sociavelmente.

24. Alexandre, da Macedonia e seu tropeiro, uma vez mortos, encontram-se em uma mesma situação; pois, ou foram reabsorvidos pelas razões geradoras do mundo ou foram igualmente desagregados em átomos.

25. Perceba quantas coisas, no mesmo lapso de tempo, brevíssimo, brotam simultaneamente em cada um de nós, tanto corporais como espirituais. E assim não te surpreenderás de que muitas coisas, mais ainda, todos os acontecimentos da vida residam ao mesmo tempo no ser único e universal, que chamamos mundo.

26. Se alguém te faz a pergunta de como se escreve o nome de Antonino, não soletrarias cada uma de suas letras? E no caso de que se aborrecessem, replicarias tu também te aborrecendo? Não seguirias enumerando tranquilamente cada uma das letras? Da mesma forma, também aqui, considere que todo dever se cumpre mediante certos cálculos. É preciso olhá-los com atenção sem perturbar-se nem incomodar-se com os que se incomodam, e cumprir metodicamente o proposto.

27. Quão cruel é não permitir aos homens que dirijam seus impulsos ao que lhes parece apropriado e conveniente! E o certo é que, de algum modo, não estás de acordo em que façam isso, sempre que te aborreces com eles por suas falhas. Porque se mostram absolutamente arrastados ao que consideram apropriado e conveniente para si. “Mas não é assim”. Consequentemente, esclareça-os e demonstre a eles, mas sem irritar-se.

28. A morte é o descanso da reação sensitiva, do impulso instintivo que nos move como fantoches, da evolução do pensamento, do tributo que nos impõe a carne.

29. É vergonhoso que, no decorrer de uma vida na qual teu corpo não desfalece, neste desfaleça primeiramente tua alma.

30. Cuidado! Não te convertas em um César, não te manches sequer, porque costuma ocorrer. Mantenha-te, portanto, simples, bom, puro, respeitável, sem arrogância, amigo do justo, piedoso, benévolo, afável, firme no cumprimento do dever. Lute por conservar-te tal qual a filosofia quis fazer-te. Respeite os deuses, ajude a salvar os homens. Breve é a vida. O único fruto da vida terrena é uma piedosa disposição e atos úteis à comunidade. Em tudo, proceda como discípulo de Antonino; sua constância em agir conforme a razão, sua equanimidade em tudo, a serenidade de seu rosto, a ausência nele de vangloria, seu afa no que se refere à compreensão das coisas. E lembra-te de como não haveria omitido absolutamente nada sem uma profunda análise prévia e sem uma compreensão com clareza; e como suportava sem replicar os que lhe censuravam injustamente; e como não tinha presa por nada; e como não aceitava as calúnias; e como era escrupuloso indagador dos costumes e dos feitos; mas não era insolente, nem lhe atemorizava a agitação, nem era desconfiado, nem charlatão. E como tinha bastante com pouco, para sua casa, por exemplo, para seu leito, para sua vestimenta, para sua alimentação, para seu serviço; e como era diligente e amistoso; e capaz de permanecer na mesma tarefa até o entardecer, graças à sua dieta frugal, sem ter necessidade de evacuar os resíduos fora da hora de costume; e sua firmeza e uniformidade na amizade; e sua capacidade de suportar aos que se opunham sinceramente a suas opiniões e de alegrar-se, se alguém lhe mostrava algo melhor; e como era respeitoso com os deuses sem superstição, para que assim te surpreendas, como a ele, a última hora com boa consciência.

31. Retorna a ti e reanima-te, e uma vez que tenhas saído de teu sonho e tenhas compreendido que te perturbavam pesadelos, novamente desperto, olhe essas coisas como olhavas aquelas.

32. Sou um composto de alma e corpo. Portanto, para o corpo tudo é indiferente, pois não é capaz de distinguir; mas ao espírito lhe são indiferentes quantas atividades não lhe são próprias, e, em troca, quantas atividades lhe são próprias, todas elas estão sob seu domínio. E, apesar disso, somente a atividade presente lhe preocupa, pois suas atividades futuras e passadas lhe são também, desde este momento, indiferentes.

33. Não é contrario à natureza nem o trabalho da mão nem tampouco o do pé, desde que o pé cumpra a tarefa própria do pé, e a mão, a da mão. Do mesmo modo, pois, tampouco é contrario à natureza o trabalho do homem, como homem, desde que cumpra a tarefa própria do homem. E, se não é contrário à sua natureza, tampouco lhe é nocivo.

34. Que classe de prazeres desfrutaram bandidos, lascivos, parricidas, tiranos!

35. Não vês como os artesãos se colocam de acordo, até certo ponto, com os profanos, mas não deixam de cumprir as regras de seu ofício e não aceitam renunciar a ele? Não é surpreendente que o arquiteto e o médico respeitem mais a razão de seu próprio ofício que o homem a sua própria, que compartilha com os deuses?

36. Asia, Europa, cantos do mundo; o mar inteiro, uma gota de água; o Atos, um pequeno monte do mundo; todo o tempo presente, um instante da eternidade; tudo é pequeno, mutável, passageiro. Tudo procede de lá, arrancando daquele princípio norteador ou derivando dele. Assim, a boca do leão, o veneno e tudo o que faz mal, como as espinhas, como o lodo, são parte daquelas coisas veneráveis e belas. Não te imagines, pois, que essas coisas são alheias a aquele a quem tu veneras; mas antes, reflita sobre a fonte de todas as coisas.

37. Quem viu o presente, tudo viu: a saber, quantas coisas surgiram desde a eternidade e quantas coisas permanecerão até o infinito. Pois tudo tem uma mesma origem e um mesmo aspecto.

38. Medite com frequência sobre a conexão de todas as coisas existentes no mundo e em sua mútua relação. Pois, de certa forma, todas as coisas se entrelaçam umas com as outras e todas, nesse sentido, são amigas entre si; pois uma está à continuação da outra devido ao movimento ordenado, do hábito comum e da unidade da substância.

39. Amolda-te às coisas nas quais tens sorte; e aos homens com os quais tens de conviver, ame-os, mas de verdade.

40. Um instrumento, uma ferramenta, um objeto qualquer, se realiza o trabalho para o qual foi construído, é bom; ainda que esteja fora dali o que os construiu. Mas tratando-se das coisas que se mantêm unidas por natureza, em seu interior reside e persiste o poder construtor; por essa razão é preciso ter um respeito especial por ele e considerar, caso te comportes e procedas de acordo com seu propósito, que todas as coisas ocorrem segundo a inteligência. Assim também ao Todo suas coisas ocorrem conforme a inteligência.

 41. Em qualquer coisa das alheias a tua livre vontade, que consideres boa ou má para ti, é inevitável que, segundo a evolução de tal dano ou da perda de semelhante bem, censures os deuses e odeies os homens como responsáveis de tua queda ou privação, ou como suspeitos de sê-lo. Também nós cometemos muitas injustiças devido às diferenças em relação a essas coisas. Mas no caso de que julguemos bom e mau unicamente o que depende de nós, nenhum motivo nos resta para culpar os deuses nem para manter uma atitude hostil frente aos homens.

42. Todos nós colaboramos para o cumprimento de um só fim, uns consciente e Consequentemente, outros sem sabê-lo; como Heráclito, creio, diz que, inclusive os que dormem, são operários e colaboradores do que acontece no mundo. Um colabora de uma maneira, outro de outra, e inclusive, por acréscimo, o que critica e tenta se opor e destruir o que faz. Porque também o mundo tinha necessidade de gente assim. Em conseqüência, pense com quem formarás partido adiante. Pois o que governa o conjunto do universo te dará um trato estupendo em tudo e te acolherá em certo posto entre seus colaboradores e pessoas dispostas a colaborar. Mas não ocupes um posto tal, como o vulgo e ridículo da tragédia que recorda Crisipo.

43. Acaso o sol acha justo fazer o que é próprio da chuva? Acaso Esculápio o que é próprio da deusa, portadora dos frutos? E o que dizer de cada um dos astros? Não são diferentes e, entretanto, cooperam na mesma tarefa?

44. Se, efetivamente, os deuses deliberaram sobre mim e sobre o que deve me acontecer, bem deliberaram; porque não é tarefa fácil conceber um deus sem decisão. E por qual razão iriam desejar causar-me dano? Qual seria seu ganho ou da comunidade, que é sua máxima preocupação? E se não deliberaram em particular sobre mim, sim, ao menos, o fizeram profundamente sobre o bem comum, e dado que essas coisas me acontecem por conseqüência com este, devo abraçá-las e amá-las. Mas se é certo que sobre nada deliberam (dar crédito a isso é impiedade; não façamos sacrifícios, nem súplicas, nem juramentos, nem os demais ritos que todos e cada um fazem na idéia de que vão destinados a deuses presentes e que convivem com nós), se é certo que sobre nada do que nos concerne deliberam, então me é possível deliberar sobre mim mesmo e indagar sobre minha conveniência. E a cada um lhe convém o que está de acordo co sua constituição e natureza, e minha natureza é racional e sociável. Minha cidade e minha pátria, enquanto Marco Aurélio, é Roma, mas enquanto homem, é o mundo. Em conseqüência, o que beneficia a essas cidades é meu único bem.

45. O que acontece a cada um importa ao conjunto. Isso deveria ser suficiente. Mas ademais, en geral, verás, se percebeste atentamente, que o que é útil a um homem, o é também a outros homens. Aceite agora “a utilidade” na acepção mais comum, aplicada às coisas indiferentes.

46. Assim como os jogos do anfiteatro e de lugares semelhantes te inspiram repugnância, pelo fato de que sempre as mesmas coisas são vistas, e a uniformidade faz o espetáculo fastidioso, assim também ocorre ao considerar a vida em seu conjunto; porque todas as coisas, de cima para baixo, são as mesmas e procedem das mesmas. Até quando, pois?

47. Medite sem cessar na morte de homens de todas as classes, de todo tipo de profissões e de toda sorte de raças. De maneira que podes descender nessa enumeração até Filístio, Febo e Origânio. Passe agora aos outros tipos de gente. E preciso, pois, que nos desloquemos para lá, para onde se encontra tão grande número de hábeis oradores, tantos filósofos e veneráveis: Heráclito, Pitágoras, Sócrates, tantos heróis com anterioridade, e, depois, tantos generais, tiranos. E, além desses, Eudóxio, Hiparco, Arquimedes, outras naturezas agudas, magnânimos, diligentes, trabalhadores, ridicularizadores da mesma vida humana, mortal e efêmera, como Menipo, e todos os de sua classe. Medite sobre todos esses que há tempo nos deixaram. O que há nisso, pois, de terrível para eles? E c que há de terrível para os que de nenhuma forma são nomeados? Uma só coisa vale à pena: passar a vida em companhia da verdade e da justiça, benévolo com os mentirosos e com os injustos.

48. Sempre que queiras alegrar-te, pense nos méritos dos que vivem contigo, por exemplo, a energia no trabalho de um, a discrição de outro, a liberalidade de um terceiro e qualquer outra qualidade de outro. Porque nada produz tanta satisfação como os exemplos das virtudes, ao manifestarem-se no caráter dos que vivem conosco e ao serem agrupadas na medida do possível. Por essa razão devem ser tidas sempre à mão.

49. Ficas incomodado por pesar tantas libras e não trezentas? Da mesma forma, também, porque deves viver um número determinado de anos e não mais. Porque assim como te contentas com a parte de substância que te foi designada, assim também com o tempo.

50. Tente persuadi-los; mas aja, inclusive contra a sua vontade, sempre que a razão da justiça o imponha. Entretanto, se alguém se opuser fazendo uso de alguma violência, mude para a complacência e para o bom trato, sirva-te dessa dificuldade para outra virtude e tenha presente que com discrição te movias, que não pretendias coisas impossíveis. Qual era, pois, tua pretensão? Alcançar tal impulso em certa maneira. E o consegues. Aquelas coisas às quais nos movemos, chegam a concretizar-se.

51. O que ama a fama considera bem próprio a atividade alheia; o que ama o prazer, seu próprio apreço; o homem inteligente, ao contrario, sua própria atividade.

52. Cabe a possibilidade, no que concerne a isso, de não haver conjectura alguma e de não turbar a alma; pois as coisas, por si mesmas, não têm uma natureza capaz de criar nossos juízos.

53. Acostuma-te a não estar distraído ao que diz outro, e inclusive, na medida de tuas possibilidades, adentre a alma do que fala.

54. O que não beneficia a colméia, tampouco beneficia a abelha.

55. Se os marinheiros insultassem seu piloto ou os enfermos o médico, se dedicariam a outra coisa além de colocar em prática os meios para salvar a tripulação, o primeiro, e para curar os que estão sob tratamento, o segundo?

56. Quanto, em companhia dos quais entrei no mundo, já partiram!

57. Aos ictéricos lhes parece amargo o mel; aos que foram mordidos por um cachorro raivoso são hidrófobos, e os pequenos gostam da bola. Por que, pois, aborrecer-te? Parece-te menos poderoso o erro que a bílis no ictérico e o veneno no homem mordido por um animal raivoso?

58. Ninguém te impedirá de viver segundo a razão de tua própria natureza; nada te ocorrerá contra a razão da natureza comum.

59. Quem são aqueles a quem quer agradar! E por quais ganhos, e graças a quais procedimentos! Quão rapidamente o tempo sepultará todas as coisas e quantas já sepultou!

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TEXTOS
Solilóquios de Marco Aurélio - Livro VII

1. O que é a maldade? É o que tens visto muitas vezes. E a propósito de tudo o que acontece, tenhas presente que isso é o que tens visto muitas vezes. Em resumo, de baixo para cima, encontrarás as mesmas coisas, das que estão cheias as histórias, as antigas, as médias e as contemporâneas, das quais estão cheias agora as cidades e as casas. Nada novo; tudo é habitual e efêmero.

2. As máximas vivem. Como, de outro modo, poderiam morrer, a não ser que se extinguissem as imagens que lhes correspondem? Em tuas mãos está reavivá-las constantemente. Posso, em relação a isso, conceber que é preciso. E se, como é natural, posso, por que perturbar-me? O que está fora, de minha inteligência nenhuma relação tem com a inteligência. Aprenda isso e estarás no que é correto. É possível reviver. Olhe novamente as coisas como as tens visto, pois nisso consiste o reviver.

3. Vão desejo à pompa, representações em cena, rebanhos de gado menor e maior, lutas com lança, ossos jogados aos cães, migalhas destinadas aos viveiros de peixes, fatigas e colônias de formigas, idas e voltas de ratos assustados, fantoches movidos por fios. Convém, pois, presenciar esses espetáculos benevolamente e sem rebeldia, mas seguir e observar com atenção que o mérito de cada um é tanto maior quanto meritória é a tarefa objeto de seus alas.

4. É preciso seguir, palavra por palavra, o que se diz, e, em todo impulso, seu resultado; e, no segundo caso, ver diretamente a que objetivo aponta a tentativa; e no primeiro, velar por seu significado.

5. Minha inteligência é suficiente para isso ou não? Se é suficiente, sirvo-me dela para esta ação como se fosse um instrumento concedido pela natureza do conjunto universal. Mas se não me basta, cedo a obra a quem seja capaz de cumpri-la melhor, a não ser, por outro lado, que isso seja de minha incumbência, ou bem coloco as mãos à obra como possa, com a colaboração da pessoa capaz de fazer, com a ajuda do meu guia interior, o que nesse momento é oportuno e benéfico à comunidade. Porque o que estou fazendo por mim mesmo, ou em colaboração com outro, deve tender, exclusivamente, ao benefício e à boa harmonia com a comunidade.

6. Quantos homens, que foram muito celebrados, caíram já no esquecimento! E quantos homens que os celebraram já há tempos partiram?

7. Não sintas vergonha de ser socorrido. Pois está estabelecido que cumpras a tarefa imposta como um soldado no assalto a uma muralha. Que farias, pois, se, vítima de ferimentos na perna, não pudesses tu somente escalar as fortalezas e, em troca, isso te fosse possível com ajuda de outro?

8. Não te inquiete o futuro; pois irás a seu encontro, se for preciso, com a mesma razão que agora utilizas para as coisas presentes.

 9. Todas as coisas se encontram entre si e seu comum vínculo é sagrado e quase nenhuma é estranha à outra, porque todas estão coordenadas e contribuem à ordem do mesmo mundo. Que um é o mundo, composto de todas as coisas; um é deus que se estende através de todas elas, única a substância, única a lei, uma só razão comum de todos