Em tempos sombrios, ser neutro é fazer parte das sombras. Democracia sim, autoritarismo nunca mais.

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10/10/2021 12:24:07 PM | Por Lucius Annaeus Seneca
Da felicidade

Todos os homens, caro Galião, querem vi­ver felizes, mas, para descobrir o que torna a vida feliz, vai-se tentando, pois não é fácil alcançar a felicidade, uma vez que quanto mais a procura­ mos mais dela nos afastamos. Podemos nos enga­nar no caminho, tomar a direção errada; quanto maior a pressa, maior a distância.

Devemos determinar, por isso, em primeiro lugar, o que desejamos e, em seguida, por onde podemos avançar mais rapidamente nesse senti­ do. Dessa forma, veremos ao longo do percurso, sendo este o adequado, o quanto nos adiantamos cada dia e o quanto nos aproximamos de nosso objetivo. No entanto, se perambularmos daqui para lá sem seguir outro guia senão os rumores e os chamados discordantes que nos levam a vários lugares, nossa curta vida se consumirá em erros, ainda que trabalhemos dia e noite para melhorar o nosso espírito.

Devemos decidir, por conseguinte, para onde vamos nos dirigir e por onde, não sem a aju­da de algum homem sábio que haja explorado o caminho pelo qual avançamos, porque a situação aqui não é a mesma que em outras viagens; nes­ tas há atalhos, e os habitantes a quem se pergunta o caminho não permitem que nos extraviemos. Quanto mais freqüentado e mais conhecido que seja o trajeto, maior é o risco de ficar à deriva.

Nada é mais importante, portanto, que não se­guir como ovelhas o rebanho dos que nos prece­deram, indo assim não aonde querem que se vá, senão aonde se deseja ir.

E, certamente, nada é pior do que nos aco­modarmos ao clamor da maioria, convencidos de que o melhor é aquilo a que todos se submetem, considerar bons os exemplos numerosos e não vi­ver racionalmente, mas sim por imitação.

Daí, a grande quantidade de pessoas que se precipitam umas sobre as outras. Como aconte­ce em uma grande catástrofe coletiva, quando as pessoas são esmagadas, ninguém cai sem arrastar a outro, e os primeiros são a perdição dos que os seguem. Isso tu podes ver acontecer ao longo da vida; ninguém erra por si só, apenas repete o erro dos outros.

É prejudicial, portanto, apegar-se aos que estão à tua frente, ainda mais quando cada um prefere crer em lugar de julgar por si mesmo, deixando de emitir juízo próprio sobre a vida. Por isso, adota-se, quase sempre, a postura alheia. As­sim, o equívoco, passando de mão em mão, acaba por nos prejudicar.

Morremos seguindo o exemplo dos demais. A saída é nos separarmos da massa e ficarmos a salvo. Mas agora as pessoas entram em conflito com a razão em defesa de sua própria desgraça. A mesma coisa acontece nas eleições. Aqueles que foram eleitos para o cargo de pretores são admi­rados pelos que os elegeram. O beneplácito po­pular é volúvel. Aprovamos algo que logo depois é condenado. Este é o resultado de toda decisão com base no parecer da maioria.

II

Quando se trata da felicidade, não é adequa­do que me respondas de acordo com o costume da separação dos votos: “A maioria está deste lado, então, do outro está a parte pior”. Em se tratando de assuntos humanos, não é bom que as coisas melhores agradem à maioria. A multidão é argumento negativo.

Busquemos o melhor, não o mais comum, aquilo que conceda uma felicidade eterna, não o que aprova o vulgo, péssimo intérprete da verdade.

Chamo vulgo tanto àqueles que vestem a clâmide quanto aos que carregam coroas. Não olho a cor das roupas que adornam os corpos, não confio nos olhos para conhecer o homem. Tenho um instrumento melhor e mais confiável para dis­cernir o verdadeiro do falso; o bem do espírito, o espírito o há de encontrar.

Se o homem tivesse a oportunidade de olhar para dentro de si próprio, como se torturaria, con­fessaria a verdade e diria: “Tudo que tenho feito até agora, preferia que não tivesse sido feito; quando penso em tudo o que disse, invejo os mudos; tudo o quanto desejei, a maldição de meus inimigos; tudo o que temi. Ó deuses justos! Melhor não tivesse de­sejado. Fiz muitas inimizades, e o ódio substituiu a amizade (se é que há amizade entre os maus), e nem sou amigo de mim mesmo. Fiz os maiores es­forços para sair da multidão e fazer-me notar por alguma qualidade: o que tenho feito senão ofere­cer-me como um alvo e mostrar à maldade onde poderia me machucar? Vê aqueles que elogiam a eloqüência, escoltam a riqueza, adulam os ben­feitores, louvam o poder? Todos são inimigos, ou podem sê-lo. Tantos são os admiradores quanto os invejosos. Por que não buscar algo realmente bom, para sentir, não para mostrar? Essas coisas que se contemplam, diante das quais as pessoas se detêm, que um mostra a outro com assombro, por fora brilham, por dentro são deploráveis.”

III

Busquemos as coisas boas, não na aparên­cia, mas sólidas e duradouras, mais belas no seu interior. Devemos descobri-las. Não estão longe, serão encontradas; apenas se precisa saber quan­do as encontramos. No entanto, passamos como cegos ao lado delas, tropeçando no que desejamos. Porém, para evitar delongas, passarei por alto as opiniões dos demais, pois é cansativo enumerá-las e rejeitá-las. Ouve a nossa.

Quando digo a nossa, não me associo a ne­nhum dos mestres estoicos. Também tenho di­reito a opinar. Portanto, seguirei um, pedirei a outro para dividir sua tese; talvez, depois de haver citado a todos, não rejeitarei qualquer coisa que decidiram os anteriores, e direi: “e ainda penso alguma coisa mais”.

Entretanto, de acordo com todos os estoicos, eu sigo a natureza. A sabedoria reside em não se afastar dela e adequar-se à sua lei e ao seu exemplo.

A felicidade é, por isso, o que está coeren­te com a própria natureza, aquilo que não pode acontecer além de si. Em primeiro lugar, a mente deve estar sã e em plena posse de suas faculdades; em segundo lugar, ser forte e ardente, magnâni­ma e paciente, adaptável às circunstâncias, cuidar sem angústia do seu corpo e daquilo que lhe pertence, atenta às outras coisas que servem para a vida, sem admirar-se de nada; usar os dons da fortuna, sem ser escrava deles.

Compreendes, ainda que não claramente, que disso advém uma constante tranqüilidade e liberdade, uma vez afastadas as coisas que nos perturbam ou nos amedrontam. Em lugar de prazeres e gozos mesquinhos e frágeis, até mes­mo prejudiciais em sua desordem, que venha uma grande, inabalável e constante alegria e, ao mesmo tempo, a paz e a harmonia da alma, a generosidade com a doçura. Qualquer tipo de maldade é resultado de alguma deficiência.

IV

O bem, como se concebe, também pode ser definido de outras maneiras, ou seja, pode ser en­tendido no mesmo sentido, mas não nas mesmas condições.

Um exército pode se estender em uma ampla frente ou concentrar-se; dispor o centro em cur­vas, arqueando as alas, ou avançar em uma linha reta, continuando igual a sua força e a vontade de lutar pela mesma causa. Da mesma forma, a defi­nição do bem supremo pode ser ampla e detalhada ou breve e concisa.

Será o mesmo, portanto, se eu disser: “O bem supremo é uma alma que despreza as coi­sas futeis e se satisfaz com a virtude”, ou, ainda, “uma força de espírito é invencível, alerta, cala no agir e atenta aos interesses da humanidade, tendo cuidado especial por aqueles que nos rodeiam”.

Pode-se ainda dizer que o homem feliz é aquele para quem não existe nem bem nem mal, apenas uma alma boa ou má; que pratica o bem, contenta-se com a virtude, não se deixa nem elevar nem abater pelo destino, não conhece bem maior do que o que pode dar a ele próprio, para quem o verdadeiro prazer será o desprezo dos prazeres.

Podes, se gostas de digressões, apresentar a mesma ideia com outras imagens sem alterar o seu significado. Nada nos impede, na verdade, de dizer que a felicidade consiste em uma alma livre, sem medo e constante, inacessível ao temor e à ganância, para quem o único bem é a dignidade e o único mal é a desonestidade, sendo todo o restante um aglo­merado de coisas que não retiram ou acrescentam nada à felicidade da vida. Em síntese, fatos que vão e vêm sem aumentar ou reduzir o bem supremo.

Este princípio, fundado sobre tal perspecti­va, queiramos ou não, acarreta serenidade e uma profunda alegria que vem do interior, pois é para seu próprio prazer, não desejando bens maiores que os próprios.

Por que é que tais coisas não hão de com­pensar os movimentos mesquinhos, frívolos e in­constantes de nosso fraco corpo? Pelo contrário, no dia em que ele dominar o prazer, também do­ minará a dor.

V

Vê, então, quão ruim e funesta servidão terão que sofrer aqueles que têm alternadamente prazeres e dores, senhores mais caprichosos e despóticos. Tem-se que encontrar, portanto, uma saída para a liberdade. Essa liberdade dá-nos a indiferença ante a sorte. Assim esses inestimáveis bens surgirão, a calma do espírito posto em segurança e a elevação; e, rejeitados todos os erros, do conhecimento da verdade irá surgir uma grande alegria, a afabilidade e o contentamento do espírito. De todos esses bens, a alma desfruta não porque são excelentes em si, mas porque brotam de seu próprio bem.

Uma vez que se começa a discutir a questão amplamente, pode-se chamar de feliz aquele que, graças à razão, não deseja nem teme. As pedras também não têm medo e tristeza, bem como os animais, mas nem por isso diz-se que são felizes aqueles que não têm consciência da felicidade.

Ponha no mesmo nível os homens os quais a natureza obtusa e a ignorância de si mesmos os reduzem ao conjunto dos animais e das coisas ina­nimadas. Não há diferença entre estes e aqueles. De fato, os animais carecem totalmente de razão. Nesses homens, ela é pequena e nociva e serve apenas para corrompê-los, pois ninguém pode ser chamado de feliz estando distante da verdade.

A vida feliz, por isso, tem o seu fundamento em uma ação simples e segura. Porque a alma é pura e livre de todo o mal quando evita os riscos, sempre disposta a permanecer onde está e a de­fender a sua posição contra os sucessos e os gol­pes da sorte.

No que se refere ao prazer, mesmo quando difundido à nossa volta, insinuando-se por todos os meios, lisonjeando o espírito com seus afagos e ganhando um após o outro, para seduzir-nos total ou parcialmente, cabe indagar: quem, den­tre os mortais, dotado de um mínimo de racionalidade, ainda que atraído, ousaria, relegando a alma, dedicar-se apenas ao corpo?

VI

Mas também a alma, dirão alguns, tem os seus prazeres. Concordo que os tem. Ela se torna centro e árbitro da sensualidade e dos prazeres. Então, enche-se de todas as coisas que tendem a deliciar os sentidos. Volta o pensamento ao pas­sado e, lembrando prazeres, recompõe sua expe­riência e indaga por aqueles ainda por vir. Assim, enquanto o corpo é abandonado aos festins pre­sentes, a mente corre com o pensamento ao en­contro de prazeres futuros. Tudo isso me parece mesquinho, já que preferir o mal ao bem é lou­cura. Ninguém pode ser feliz se não tiver a men­te sadia, e, certamente, não a tem quem opta por aquilo que vai prejudicá-lo.

É feliz, por isso, quem tem um julgamen­to correto. Feliz é aquele que, satisfeito com sua condição, desfruta dela. Feliz é quem entrega à razão a condução de toda a sua vida.

Observa agora aqueles que conceituam o bem supremo junto aos prazeres. Insistentemen­te, negam que seja possível separar o prazer e a virtude. Assim, afirmam não ser possível viver honestamente sem prazer, nem ter vida com pra­zer sem honestidade. Não vejo como coisas tão diversas podem ser conciliadas. O que proíbe separar o prazer da virtude? Acreditas que todo o princípio de bem procede da virtude e de suas bases advém aquilo que amas e desfrutas? Ora, se prazer e virtude fossem inseparáveis, então não haveria coisas agradáveis, apenas desonrosas; nem coisas honestas, apenas onerosas, só alcançadas a duras penas.

VII

Digo ainda que o prazer está ligado à vida mais infame, mas a virtude não aceita a desonestidade. Há indivíduos descontentes não por causa da fal­ta de prazer, mas em decorrência do prazer em si, o que não aconteceria se o prazer estivesse ligado à virtude. A virtude frequentemente abre mão do prazer e dele não tem necessidade. Por que, então, juntar o que é contraditório e diverso?

A virtude é algo de elevado, nobre, invencí­vel e infatigável. O prazer é fraco, servil, frágil e efêmero, cuja sede e casa são bordéis e tabernas. Você encontrará a virtude no templo, no fórum, na cúria, vigiando nossas muralhas. Anda coberta de poeira, queimada de sol e com as mãos cober­tas de calos.

O prazer, por sua vez, quase sempre anda escondido em busca de trevas, perto das casas de banho, lugares longe dos edis. Apresenta-se flácido, frouxo, cheirando a vinho e a perfume, pá­lido, quando não cheirando a formol e parecendo embalsamado como um cadáver.

O bem supremo é imortal, não desaparecerá e não está familiarizado com tédio ou arrependi­mento, pois uma alma correta não muda nunca, não se aborrece, não se altera, porque sempre se­guiu o caminho certo. Ao contrário disso, o pra­zer quanto mais deleita, logo se extingue. Sendo limitado, fica logo satisfeito. Sujeito ao tédio, logo depois do primeiro ímpeto já se mostra fadigado. Não demonstra estabilidade porque é fugaz. As­sim, não pode ter consistência aquilo que aparece e desaparece como um relâmpago, destinado a fin­dar no mesmo instante em que se faz presente. Em verdade, o fim já está próximo quando começa.

VIII

Importa que o prazer esteja presente tanto entre os bons quanto entre os maus e não delei­te menos os malvados em suas torpezas do que os bons em suas ações honestas? É por isso que os antigos recomendavam seguir a vida melhor e não a mais agradável, de modo que o prazer se torne um aliado e não o guia da vontade digna e honesta.

É a natureza quem deve nos guiar. A ela se dirige a razão em busca de conselho. Deixa que eu explique o que entendo. Se soubermos man­ter, com cuidado e serenidade, os dotes físicos e as nossas capacidades naturais como bens fugazes e de apenas um dia; se não somos escravos deles nem dominados pelas coisas exteriores; se as oca­sionais alegrias do corpo têm para nós o mesmo valor que as tropas auxiliares (devem servir e não comandar), então, por certo, tudo isso será útil para a alma.

Que o homem não se deixe corromper nem dominar pelas coisas exteriores e somente olhe para si mesmo, que confie em seu espírito e esteja preparado para o que o destino lhe envie, isto é, que seja o próprio artífice de sua vida. Que sua confiança não seja desprovida de conhecimento, nem seu conhecimento, de constância; que suas decisões sejam para sempre e não sofram qual­quer alteração. Compreende-se, sem necessidade de repetir, que tal homem será tranqüilo e organi­zado, fazendo tudo com grandeza e amabilidade. A verdadeira razão estará incluída nos sentidos e fará, a partir deles, o seu ponto de partida, uma vez que não tem mais onde apoiar-se para que possa se lançar em direção à verdade e, depois, voltar para si mesma. Assim como o mundo que engloba todas as coisas, deus, governante do uni­verso, dirige-se às coisas externas, mas novamen­te retorna a si próprio de onde estiver. Que nossa mente faça o mesmo; quando seguir seus sentidos e se estender por meio deles através de coisas ex­teriores, seja dona destas e de si própria. Desse modo, resultará uma unidade de força e de poder em conformidade com ela própria, e nascerá uma razão segura, sem hesitação ou divergência em seu ponto de vista e compreensão, nem em sua convicção. Assim, quando harmonizada em seu todo, atinge o supremo bem. Pois nada de errado ou inseguro subsiste; nada que possa escorregar ou tropeçar.

Fará tudo através de seu controle, nada de inesperado irá acontecer, e tudo ficará bem, fácil e direito, sem desvios no agir, porque preguiça e hesitações demonstram luta e inconstância. Por­ tanto, podes declarar resolutamente que o supre­mo bem é a harmonia da alma, porque as virtudes devem estar onde estão a harmonia e a unidade; os vícios são aqueles que discordam.

IX

“Mas tu mesmo”, dizes, “praticas a virtude porque esperas que te traga algum prazer.” Em pri­meiro lugar, se a virtude há de proporcionar prazer, então por isso mesmo é desejada. Não é porque ela proporciona tal satisfação que deve ser buscada e, sim, porque, sobretudo, daí advém algum prazer. O empenho em busca da virtude não ocorre em razão do prazer, mas em vista de outro objetivo, embora possa decorrer algum prazer dessa busca.

Embora em campo lavrado possam aparecer algumas flores, não foi por causa de tais plantas, ainda que proporcionem uma bela visão, que foi gasto tanto trabalho. A intenção do semeador era outra. O “a mais” é apenas um acréscimo even­tual. Dessa forma, o prazer também não é o valor nem o motivo da virtude, mas, sim, um acessó­rio dela. Não é porque deleita que agrada; mas, se agrada, então deleita.

O bem supremo reside no próprio julgamen­to e na estruturação de um espírito perfeito que, respeitando os seus limites, realiza-se plenamente de maneira a mais nada desejar. Portanto, não há nada fora da plenitude a não ser seus limites.

Enganas-te ao questionar acerca do motivo que me leva a desejar a virtude; procuras, então, buscar algo além do que consideras o máximo, dizes. Queres saber que vantagem tiro da virtude? Apenas ela mesma, ela é o maior prêmio.

Isso te parece pouca coisa? Se digo: o bem supremo é a firmeza, a previsão, a agudeza, a li­berdade, a harmonia e a dignidade de uma alma  inquebrantável, poderias ainda imaginar algo de mais grandioso a que se referem todas essas coisas? Por que falar de prazer? Eu busco o bem do homem, não a barriga que em bestas e feras é maior.

X

“Desvirtuas o que digo”, poderias replicar. “Eu também não creio que alguém possa viver fe­liz sem que viva de modo virtuoso. Isso não vale para os animais nem para quem mede a felicida­de apenas pela comida. Afirmo, claramente, que a vida que eu chamo agradável não deve ser outra senão a que esteja ligada à virtude.”

Ninguém ignora que alguns homens pen­sam apenas nos prazeres, e que a alma sugere prazeres e gozos exuberantes. Em primeiro lugar, a insolência e a excessiva autoestima; o orgulho que despreza o outro; o amor cego pelas próprias coisas; a euforia por pequenos e fúteis pretextos; a maledicência com a soberba violenta; a inércia e a indolência que, cansada pelo acúmulo de praze­res, acaba dormindo sobre si mesma.

A virtude rejeita tudo isso. Para todas essas coisas, faz-se surda. Ela avalia o prazer antes de aceitá-lo. Não o acolhe para simples deleite, ao contrário, fica feliz em poder fazer uso dele com moderação.

“O equilíbrio ao limitar o prazer é lesivo para o bem supremo.” Ao falares assim, estás privile­giando o prazer. Eu o controlo. Tu o desfrutas, eu apenas me sirvo dele. Tu acreditas que ele seja o bem supremo; para mim sequer é bem. Tu fazes tudo por prazer; eu, nada.

XI

Quando digo que nada faço apenas por pra­zer, falo daquele a quem atribuímos o conceito de prazer. Penso que não é sensato chamar sábio a quem está escravizado por alguma coisa, ainda mais pela volúpia. De fato, se estiver totalmente sujeito àquilo, como poderia vencer o perigo, a pobreza em torno da vida humana? Como su­portar a visão da morte e da dor; como enfrentar o estrépito do mundo amargo e de tantos inimigos violentos, quando se submete diante de um adversário tão débil?

Dirás: “Faz tudo o que o prazer sugerir.”

Digo: “Certo. Acontece que nem podes ima­ginar os tipos de insinuações que ele fará.”

Dirás: “Nada me aconselhará de muito sór­dido, já que tudo está ligado à virtude.”

Digo: “Não vês, mais uma vez, que o bem su­premo precisa de um tutor para ser bom? Como poderá a virtude ser guia do prazer se a fazes mera acompanhante?”

Colocas atrás quem deveria comandar. A virtude tem um papel importante a desempenhar segundo tua forma de pensar: ela é apenas pregustadora do prazer.

Vejamos agora se a virtude, assim conside­rada, ainda seria virtude, uma vez que não pode conservar o nome ao perder a função.

Para que fique claro o argumento, mostra­rei como muitos homens cercados pelos prazeres, acobertados pela sorte e seus favores, não deixam de ser vistos como indivíduos corruptos.

Olha para Nomentano e Apício que, como afirmam, buscam coisas valiosas por terra e por mar. Depois, nas mesas de banquetes, expõem animais de todas as partes do mundo.

Olha como eles, do alto de seus leitos enfei­tados com rosas, contemplam a fartura de suas festas, deliciando os ouvidos com músicas e cantos, os olhos com espetáculos e o paladar com di­ferentes sabores.

Estão vestidos com roupas delicadas. Para não deixarem de apreciar os odores, o ambiente está permeado de perfumes diversos. Neste local, acontecem orgias luxuosas.

Podes reconhecer que estão submetidos aos prazeres, mas isso não é um bem para eles, já que de alguma coisa verdadeiramente boa não estão desfrutando.

XII

“Será um mal para eles”, dizes, “porque muitas são as circunstâncias que perturbam o seu humor, sem falar nas posições antagônicas que ajudam a perturbar o espírito.”

Também posso pensar que seja assim, embo­ra loucos e volúveis, e mesmo sujeitos ao arrepen­dimento, irão experimentar tais prazeres que os deixarão afastados da inquietude e do bom-senso. Como costuma acontecer, tornam-se reféns de uma alegria enorme e de uma trepidante festivi­dade a ponto de enlouquecerem de tanto rir.

Ao contrário, os prazeres dos sábios são mo­derados, comedidos, controlados e pouco per­ceptíveis, uma vez que vêm de improviso. Ao se fazerem presentes, não são acolhidos com pompa e circunstância por parte de quem os recebe. É que o sábio os inclui em sua vida tal como peças de um jogo, misturando-os a coisas mais sérias de forma a não se destacarem.

Deixe-se, pois, de unir coisas incompatí­veis entre elas, confundindo prazer com virtude. É com tal engano que se lisonjeia os perversos. Aquele que se deixa afundar nos prazeres, bê­bado e inebriado, ao mesmo tempo em que está consciente de conviver com o prazer também crê estar com a virtude.

Ouviu falar que prazer e vir­tude são inseparáveis e, por essa razão, nomeia os vícios com o nome de sabedoria, anunciando o que deveria esconder.

Assim, não se entregam à sensualidade leva­dos por Epicuro, mas, apegados ao vício, escon­dem na filosofia a própria corrupção, lançando-se para onde o prazer é elogiado. Também não levam em consideração o quanto era moderado o prazer segundo Epicuro, mas apegam-se apenas ao nome dele, esperando encontrar justificativa e apoio para uma vida devassa e corrupta. Portanto, perdem a única coisa boa que havia entre os seus males: a vergonha do pecado. De fato, elogiam aquilo que os arruina enquanto se afundam em vícios. Por isso, sequer é possível corrigirem-se, uma vez que se aplica um título honroso para uma indolência vergonhosa. Esta é a razão por que este elogio do prazer é prejudicial: os preceitos virtuosos ficam escondidos; o que corrompe está manifesto.

XIII

Eu próprio sou de opinião (afirmo isso apesar do que dizem nossos partidários) que os preceitos de Epicuro são nobres e corretos e, se analisados sob uma perspectiva mais acurada, até severos. Ele reduz o prazer a algo pequeno e mes­quinho. A mesma lei que atribuímos à virtude, ele atribui aos prazeres; isto é, obedecer à natureza. No entanto, o que é suficiente para a natureza é muito pouco para a luxúria. Então, o que ocorre?

Existe quem chame felicidade o lazer preguiçoso, a gula e a luxúria, buscando apoio para sua con­duta devassa. Quando encontra o prazer, sob um nome atraente, não adota aquele do qual ouve fa­lar, mas, sim, aquele que já trazia consigo. Não é por isso, no entanto, que diria que a escola de Epicuro, segundo opinião da maioria, professa a perdição.

Digo, no entanto, que está desacredi­tada, e sua fama é das piores, o que, em verdade, não passa de injustiça. Quem poderia saber isso senão aquele que nela fez sua iniciação? É o as­pecto dele que dá margem a falatórios e levanta falsa esperança, da mesma forma que quando um homem muito másculo veste roupas femininas. Sua honra não é manchada, sua masculinidade continua intocável, uma vez que o corpo não sofre qualquer desonra, porém ele carrega a sineta na mão. Quem se aproxima da virtude demons­tra ter índole nobre. Ao contrário, quem segue o prazer demonstra ser fraco, degenerado, propen­so ao vício mais sórdido, a não ser que haja quem o faça enxergar a diferença entre os prazeres e, dessa maneira, possa aprender quais deles são os que se encaixam nos limites da necessidade na­tural e quais os imoderados e insaciáveis, aqueles que quanto mais procurados mais se tornam exigentes.

Que a virtude tenha precedência, pois, assim, estaremos em segurança. O prazer excessivo pre­judica; na virtude não há de se temer o excesso, porque ela mesma contém em si a medida adequa­da. Não poderia ser um bem o que padece por sua própria magnitude.

XIV

Para os que foram privilegiados com uma natureza racional, o que poderia ser-lhes ofe­recido de melhor senão a própria razão? Se é desejável tal união, se se quer que a felicidade acompanhe, a virtude deve permanecer à frente, e o prazer deve acompanhá-la, mantendo-se tão perto como a sombra de um corpo. No entanto, fazer da virtude escrava do prazer é coisa de uma alma incapaz de algo maior. Que a virtude seja quem leva o estandarte. Dos prazeres, devemos fazer uso moderado.

Algumas vezes, os prazeres poderão nos le­var a alguma concessão, mas não devem nunca nos impor nada. Mas aqueles que tenham se entregue ao comando do prazer enfrentarão duas dificuldades. Primeiro, perdem a virtude e não têm o prazer, pois por ele são dominados; ou se atormentam pela sua falta, ou se sufocam em sua abundância. Infeliz quem dele se afasta, mas mui­to mais quem por ele for soterrado. Tal ocorre quando alguém é surpreendido pela tempestade no mar Sirtes. Ou procura a praia, ou se deixa ficar a favor da violência das ondas.

Este é o resultado do excesso de prazer e de amor cego a qualquer coisa. Aquele que prefere o mal ao bem se coloca em perigo caso alcance o seu objetivo. Cansado e não sem riscos, porta-se como se estivesse à caça de animais selvagens. Mesmo após a captura, deve portar-se cautelosamente, porque, frequentemente, costumam devorar seus donos. Dessa forma, os grandes prazeres acabam trazendo tragédias a quem os cultiva, deixando-os dominados por eles.

Parece-me bom esse exemplo da caça. Como aquele que, abandonando suas ocupações e ou­tros afazeres agradáveis, procura os esconderijos das feras, contente em armar-lhes armadilhas en­quanto fecha o cerco com os latidos dos cães nos rastros dos animais, assim persegue os prazeres.

Colocando-o frente a tudo o mais, o homem des­cuida, em primeiro lugar, da liberdade. Este é o preço pago, já que prazer libertino não se compra, a ele se é vendido.

XV

Poderias contestar: “O que impede a união de virtude e prazer como uma única coisa e o es­tabelecimento do bem supremo de modo que seja ao mesmo tempo nobre e agradável?” Acontece que não pode haver uma parte do virtuoso que não seja algo virtuoso, e o bem supremo não terá sua nobreza se guardar algo distinto do íntegro. Nem mesmo a alegria que vem da virtude, em­bora seja um bem, é uma parte do bem absoluto. Assim são a alegria e a tranqüilidade, ainda que se originem de boas causas. É certo que são coi­sas boas, mas não fazem parte do bem supremo. Dele são apenas conseqüência. Qualquer um que estabeleça uma aliança entre o prazer e a virtu­de, mesmo sem colocá-los em pé de igualdade, faz com que a fragilidade de um deles debilite o quanto haja de vigor no outro, e coloca sob jugo a liberdade que só é invencível se não conhece nada de mais precioso do que ela mesma. De fato, necessita-se da sorte quando começa a escravi­dão.

Disso advém uma vida plena de ansiedade, suspeita e inquieta, que se torna temerosa frente aos acontecimentos e no aguardo dos momentos do tempo.

Dessa forma, não se propicia para a virtude uma sólida e permanente base, passa-se a restringi-la à condição de instabilidade. O que há de tão mais incerto do que a espera das coisas fortuitas e da mudança do corpo e daquilo que o afeta? Como pode obedecer a deus e aceitar de bom grado tudo o que lhe ocorre, não queixar-se do destino e encontrar o lado positivo em qualquer evento, quando até o menor estímulo de prazer ou de dor o afeta? Quem se entrega aos prazeres não pode tornar-se defensor ou salvador da pátria nem protetor de seus amigos. Assim, deve-se colocar o bem supremo num lugar de onde nada possa de lá afastá-lo. A ele não deve ter acesso nem a dor, nem a esperança, nem o medo, nem qualquer outra coi­sa que possa ameaçá-lo. Só a virtude pode dele se aproximar.

Só a virtude pode lá chegar; passo a passo do­minará o caminho, mantendo-se firme, suportan­do todos os imprevistos, sem resignação, mas com alegria, consciente de que as adversidades da vida fazem parte da lei da natureza. Como o bom solda­do, que suporta os ferimentos, acumula cicatrizes e, mesmo à morte, traspassado por dardos, ainda admira o seu comandante aos pés do qual tomba.

Terá sempre em mente o velho preceito: se­guir a deus. Em vez disso, o que reclama, cho­ra e geme é obrigado a fazer à força o que lhe é ordenado.

Deixa-se arrastar, não caminha acom­panhando os demais. É estupidez e falta de cons­ciência da própria condição afligir-nos quando nos falta algo ou somos atingidos de forma mais violenta por adversidades. Da mesma forma, ficar indignado com coisas que ocorrem tanto para os bons quanto para os maus, como doenças, luto, fraquezas e todos os demais infortúnios da vida humana. Devemos saber suportar com espírito forte tudo o que por lei universal nos é dado a en­frentar. É nossa obrigação suportar as condições da vida mortal e não nos perturbarmos com o que não está em nosso poder evitar. Nascemos em um reino onde obedecer a deus significa liberdade.

XVI

Para concluir, a verdadeira felicidade con­siste na virtude. O que essa virtude te aconselha? Ela considera como bem apenas o que está unido à virtude e como mau o que tem ligação com a maldade. Mais ainda, manda que sejas inabalável, quer frente ao mal, quer junto ao bem, de forma a que possas imitar deus dentro dos limites de tua própria capacidade. O que ganhas com isso? Pri­vilégios dignos dos deuses. Não serás forçado a nada. Não terás necessidade de nada. Serás livre, seguro e imutável. Nada tentarás executar em vão. Tudo ocorrerá conforme o teu desejo. Nada será contrário aos teus desejos nem à tua vontade.

“Então”, perguntas, “basta a virtude para vi­ver feliz?” “Se é perfeita e divina, por que então não é suficiente, ou melhor ainda, mais do que suficiente? O que faltaria àquilo que está além de qualquer desejo? Quem, ao contrário, ainda não alcançou a meta final da virtude, mesmo que já tenha empreendido longa caminhada, precisa, sim, de sorte, uma vez que ainda luta em meio aos desejos humanos enquanto não consegue os laços de tantos obstáculos da mortalidade.”

Qual a diferença, então? A diferença reside em uns estarem algemados, outros decapitados e alguns estrangulados. Aquele que tenha atingido um plano superior, elevando-se ao máximo, leva algemas frouxas. Não se encontra ainda livre, mas já prevê a futura liberdade.

XVII

Alguém, dentre os que falam contra a filoso­fia, poderá dizer: “Por que há mais coragem em tua fala do que em tua vida? Por que moderas o tom de tua voz diante dos poderosos e julgas o di­nheiro como necessário? Por que te abates diante de contrariedades? Por que choras a morte da es­posa e do amigo? Por que és tão apegado à cele­bridade? Por que te afetam as palavras maldosas?

“Por que é que a tua área cultivada produz mais do que o necessário para viveres? Por que tuas refeições não seguem teus preceitos? Por que ter um mobiliário elegante também? Por que se bebe em tua casa um vinho mais velho do que o dono? Por que instalar um aviário? Por que são plantadas árvores só para te dar mais sombra? Por que tua esposa traz nas orelhas enfeites de igual valor ao dote de uma opulenta casa? Por que teus escravos vestem belas roupas? Por que é uma arte em tua casa servir a mesa, e são colocados talhe­res de prata, e tens até um mestre para cortar a carne?”

Acrescenta ainda, se quiseres: “Por que tens propriedades para além-mar, sem sequer sa­ber quantas são elas? É uma pena que sejas tão negligente a ponto de não saber quem são os teus escravos, ou tão rico que perdes a conta de quan­tos são eles?”

Responderei logo às críticas e acusações que me fazes. Além disso, vou fazer mais objeções do que imaginas. Agora te responderei isto: “Eu não sou um sábio e, para que a tua malevolência se regozije, acrescento, nunca serei.”

É por isso que não exijo ser igual aos melho­res, apenas melhor que os maus. Basta-me que, a cada dia, eu corte um pouco os meus vícios e castigue os meus erros.

Não estou curado nem ficarei de todo sadio. Tomo mais calmante que remédios para o mal de gota e dou-me por feliz se os ataques são mais esporádicos, e as dores, um pouco menos doloro­sas. Seja como for, comparado com tua caminha­da, eu, mesmo impotente, ainda assim sou um corredor.

XVIII

Podes dizer: “Falas de uma maneira e ages de outra”. Essas mesmas censuras, ó espíritos ma­lignos e agressivos, contra indivíduos de virtudes, também foram feitas a Platão, Epicuro e Zenão. Eles também não procuravam apregoar o modo como viviam e, sim, o modo como se devia viver. Eis o motivo por que não estou falando de mim, mas da vida virtuosa em si. Quando falo contra os vícios, estou reprovando, em primeiro lugar, os meus. Portanto, se for possível, procurarei viver corretamente.

Não será a malignidade venenosa a me afas­tar dos meus objetivos, nem esse veneno, que é jogado sobre os outros, vai me impedir de elogiar não a vida que levo e, sim, a que deveria levar. Também não me impede de cultuar a virtude e de segui-la, mesmo que seja me arrastando e à gran­de distância.

Esperavas que eu escapasse da maldade que não poupou a magnitude de Rutílio e de Catão? Será que alguém se preocupa em parecer demasiado rico para aquelas pessoas para quem o cíni­co Demétrio não é bastante pobre? Mesmo contra um homem como ele, extremamente forte na luta contra todas as exigências naturais, sendo o mais pobre de todos cínicos, já que, além de ser proi­bido de ter qualquer coisa, também foi proibido de pedir, atreveram-se os difamadores a dizer que ele não era bastante pobre!

XIX

Negam que Diodoro, filósofo epicúreo, que há poucos dias terminou sua vida pelo seu pró­prio punho, agiu de acordo com os preceitos de Epicuro ao cortar o pescoço. Alguns querem ver loucura nessa ação; outros, ousadia. Ele, porém, feliz e com a consciência satisfeita, deixou com a vida testemunho sobre a tranqüilidade de seus dias passados em porto seguro.

Pronunciou uma frase que é ouvida contra a vontade, porque soa como um convite a ser imi­tado: “Vivi. Fiz a caminhada que o destino me traçou.”

Discutem a vida de um, a morte de outro e, ao ouvirem a notícia da morte de um grande ho­mem, ladram como animais de estimação ao ir ao encontro de pessoas desconhecidas. Interessa a esses que ninguém viva como uma pessoa de bem, já que a virtude alheia parece demonstrar os seus próprios vícios.

Por inveja, comparam ador­nos brilhantes deles com as suas vestes miseráveis e não avaliam quanto isso traz de prejuízo para eles mesmos. Se homens dedicados à virtude são avaros, libidinosos e ambiciosos, quem são vocês, que não suportam a virtude a ponto de sequer querer ouvir-lhe o nome.

Afirmam que nenhum daqueles faz o que prega, não vivendo de acordo com a própria dou­trina. Mesmo que isso fosse verdade, por acaso as palavras deles deixariam de ser grandiosas e su­periores a todos os infortúnios humanos, posto que se esforçam para se soltar das cruzes nas quais cada um de vocês prende seus próprios pregos? Contudo, os condenados ao suplício estão sus­pensos na própria cruz. Os que se atormentam a si mesmos terão tantas cruzes quanto desejos. Realmente, os maledicentes se enfeitam com as ofensas dos outros. Acreditam, por isso, que es­tão isentos de culpa, se não fosse o fato de alguns cuspirem, do alto do patíbulo, nos espectadores.

XX

“Os filósofos não fazem o que dizem.” É verdade que já fazem muita coisa quando falam e pensam honestamente. Se o comportamento deles fosse adequado às suas palavras, quem seria mais feliz do que eles?

Entretanto, não devemos ignorar as palavras boas e os corações repletos de bons pensamentos. O cultivo de resoluções saudáveis, independente­mente do resultado, é louvável. Não é estranho que não atinja o topo quem escala encostas íngre­mes. Mas, se tu fores humano, admira, apesar da queda, os que se esforçam para conseguir grandes escaladas. Uma alma generosa, sem olhar para as próprias forças, apenas para a da natureza, aspira atingir os mais elevados objetivos, elaborar pla­nos mais elevados do que ela pode realizar, mes­mo com um espírito forte.

Há quem proponha a si mesmo o seguinte: “Olharei a morte com o mesmo ânimo com que ouvi falar sobre isso; suportarei qualquer cansaço com espírito forte, também desprezarei as rique­zas presentes e futuras, sem ficar mais triste ou mais orgulhoso se elas estão em torno de mim ou em outro local; serei insensível aos ditames da sorte venturosa ou desafortunada; observarei to­das as terras como se minhas fossem, e as minhas como se pertencessem a todos; viverei como al­guém que sabe que nasceu para os outros e darei graças à natureza por isso.”

A natureza foi muito benevolente para co­migo, já que me entregou a todos os meus seme­lhantes e, por sua vez, tenho todos só para mim. Se tenho algo de meu, conservarei, sem ganân­cia, mas também não esbanjarei prodigamente. Acredito ser o dono daquilo que ofereci de modo consciente. Não costumo avaliar os benefícios por número e peso, mas, sim, pelo valor dado a quem os recebe. Nunca será demais o que posso oferecer a quem o merece. Farei tudo o que mi­nha consciência mandar, sem me submeter ao que os outros pensam. Mesmo que apenas eu saiba o que estou fazendo, agirei como se todos estives­sem me vendo. Ao comer e beber, o meu objetivo será apenas atender a uma necessidade natural e não encher o estômago vazio. Serei agradável para com os amigos, gentil e indulgente para com os inimigos. Cederei antes que me solicitem, adian­tando-me a todas as demandas honestas.

Sei que a minha pátria é o mundo, e que os deuses o comandam, e eles estão acima de mim e ao redor, agindo como censores de meus atos e de minhas palavras. Quando a natureza solicitar o meu espírito, ou minha razão ordenar que eu o libere, partirei dizendo que sempre cultivei a reti­dão de caráter e as melhores intenções, sem haver reduzido a liberdade de ninguém, muito menos a minha. Qualquer pessoa que pretenda, que quei­Rá, que se proponha a fazer isso estará trilhando a estrada que leva aos deuses. Caso não consiga atingir a meta, terá então sucumbido depois de ter ousado grandes coisas.

XXI

Tu, que odeias a virtude e quem a cultiva, nada de novo estás fazendo. De modo igual, quem tem algum problema na vista não suporta a luz, tal como os animais noturnos evitam o brilho do sol. Mal desponta a luz do dia, correm para seus refú­gios e, com medo da claridade, escondem-se em qualquer buraco. Geme e grita, insultando os bons. Escancara a boca e morde. Assim, rapidamente quebrarás os teus dentes antes que deixem marcas.

Como é que um adepto da filosofia pode vi­ver com essa opulência? Por que diz que despre­za riqueza e é possuidor de tantos bens? Por que acha a vida desprezível e vive?

Despreza a saúde; no entanto, trata de pre­servá-la com todo o rigor, desejando estar em ex­celente forma. Por que julga a palavra exílio como absurda e, ao mesmo tempo, diz: “Que mal existe em mudar de país?” Por que, sendo isso possível, acaba envelhecendo em sua própria terra natal?

Assegura, além disso, que não existe dife­rença entre vida longa e vida breve, mas, nada impedindo, procura viver a mais longa existên­cia possível, mantendo-se com energia até a mais avançada velhice.

Ele afirma que essas coisas devem ser igno­radas, não no sentido de que não devam ser pos­suídas e, sim, de que devam estar presentes sem ansiedade. Dessa maneira, não as joga fora, mas, vindo a perdê-las, continua sua caminhada com tranqüilidade.

Onde a sorte acolhe, com maior segurança, as riquezas senão de onde poderá retomá-las sem protesto?

Marco Catão, embora louvasse Cúrio e Coruncânio, naqueles tempos em que possuir um pouco de prata era crime punível pelos censores, tinha ele próprio quarenta vezes mais sestércios. Certamente valor menor do que possuía seu bi­savô Crasso, mas maior do que Catão, o censor. Apesar disso, se outros bens lhe fossem ofereci­dos, não os desprezaria.

Da mesma forma, o sábio, não é considera­do indigno ao ser agraciado pelo dom da fortuna. Não ama a riqueza, mas a aceita de bom grado. Permite que entre em sua casa, não a rejeita, des­de que ela enseje oportunidades para a virtude.

XXII

Assim, não resta dúvida de que o homem sá­bio tem um campo mais vasto para desenvolver o seu espírito em meio à riqueza do que na pobreza. Na pobreza, a virtude consiste em não se deixar abater, não cair em desalento. Na riqueza, existe oportunidade para a temperança, a generosidade, o discernimento, a organização, a magnificência com total liberdade.

O sábio não se despreza caso seja de estatura pequena, embora preferisse ser mais alto.

Se for franzino ou tiver um olho a menos, assim mesmo terá consciência de seu valor, pre­ferindo ser robusto, mas sem esquecer que algo de mais valioso existe dentro de si. Suportará a moléstia, mas desejará ter saúde. Existem muitas coisas, apesar de terem pouca importância para o todo, que podem faltar sem que causem prejuízo ao bem principal, embora possa propiciar alguma vantagem para a serenidade duradoura da virtu­de. Portanto, a riqueza é agradável para o sábio, assim como o vento favorável para o navegante, ou um dia ensolarado no frio do inverno.

Nenhum dentre os sábios - falo daqueles sábios para os quais a virtude é o único bem ver­dadeiro - sustenta que as vantagens da riqueza, ditas como indiferentes, não tenham o seu real valor. Também não nego que algumas coisas se­jam preferidas a outras, uma vez que a algumas delas é dado certo valor e a outras, muito mais.

E não nos devemos enganar, portanto. As ri­quezas aparecem entre as preferidas.

Dirias, então: “Por que zombas de mim, se para ti elas têm o mesmo valor que para mim?”

Deves saber que o valor não é idêntico para nós. Para mim as riquezas, se as perdesse, não me diminuiriam em nada, apenas elas seriam reduzi­das. Tu, ao contrário, ficarás abatido, sentindo-te como que privado de ti mesmo, caso te abando­nem. Para mim, as riquezas têm certo valor, para ti, têm um valor imensurável. Assim, as riquezas pertencem a mim, no teu caso, tu estás subordi­nado a elas.

XXIII

Deixa, por isso, de querer proibir aos fi­lósofos o direito de possuírem bens. Ninguém condenou a sabedoria à miséria. O sábio pode­rá possuir grandes riquezas, desde que não sejam roubadas, manchadas com o sangue dos outros, que sejam adquiridas sem prejuízo algum, sem negócio sujo. Os gastos devem ser tão honestos como os ganhos, de forma que ninguém, exceto os maldosos, possa criticar. Os bens podem ser acumulados. São ganhos limpos, porque não há quem possa reivindicá-los, embora não falte quem queira tomá-los.

Com certeza, o sábio que não rejeita os favo­res da sorte não se vangloria e também não se en­vergonha de um patrimônio adquirido por meios honestos.

Terá motivo para se sentir glorificado se, aberta a casa e convidada toda a cidade, puder di­zer: “Se alguém descobrir algo de seu, pode levar embora”.

Grande será o homem que, ditas essas palavras, continue com os mesmos bens que tinha antes. Quero dizer que, se permitiu ao povo inqui­rir sobre ele com tranqüilidade e sem preocupa­ção, e ninguém encontrou nada para reivindicar, poderá ser rico de maneira franca e aberta. O sábio não deixará transpor o limiar de sua casa dinheiro suspeito, mas não rejeitará, certa­mente, uma grande riqueza, quando dom da sor­te ou fruto da virtude.

Por que lhes negar um bom lugar? Deixe-as entrar, serão aceitas. Não haverá ostentação, mas também não ocultará um grande valor, nem o jogará fora. O primeiro gesto seria tolice, o segun­do, mesquinharia. O que lhes diria ele? “Você é inútil” ou “Eu não sei usar da riqueza?” Da mesma forma, embora possa viajar a pé, prefere fazer isso com um veículo. Assim, se puder ser rico, vai preferir ser de verdade. Possuirá uma fortuna, mas estará consciente de que é algo in­constante e instável, não permitindo, portanto, que seja um fardo para si mesmo nem para os outros.

Dará... Por que aguças os ouvidos? Por que estendes a tua bolsa?

Dará a quem merecer ou a quem tenha po­tencial para ser merecedor, sabendo escolher, com grande prudência, os mais dignos, como quem lembra que deve dar conta tanto dos gas­tos quanto dos créditos. Dará por motivos justos, pois presente errado é inútil. Terá a bolsa aberta, mas não furada, da qual muito sai, sem esbanjar demais.

XXIV

Engana-se quem pensa que é fácil doar. Ao contrário, é mais difícil, visto que se deve agir com discernimento, e não por ímpeto ou instin­to. Dou crédito a um, fico em débito com outro; presto favores àquele; tenho compaixão por este. Ajudo, para que não cometa desatinos, a quem não merece passar fome. Não darei um centavo a quem, mesmo precisando, por mais que receba, sempre quer receber mais.

A alguns apenas ofereço ajuda, enquanto que a outros, necessito convencê-los a receber. Não posso ser negligente nesse assunto, porque ao doar faço o melhor dos investimentos.

Então, dirás: “Tu dás para receber algo em tro­ca?” Respondo: “Eu dou para que não se perca. O que for doado vai ficar em um lugar onde não pode ser reclamado, mas pode ser devolvido.” O impor­tante é que o benefício seja tratado como um tesou­ro que permaneça muito bem cuidado, guardado, sendo desenterrado apenas quando for necessário.

A casa do homem rico oferece material para fazer o bem. Quem disse que devemos ser gene­rosos apenas para aqueles que usam toga? A natu­reza ordenou-me ser útil para os homens, sejam escravos ou livres, ou assim nascidos ou não. Qual a diferença se é uma liberdade legal ou concedi­da por amizade? Onde houver um ser humano, aí haverá possibilidade de se fazer o bem.

Também é possível doar dinheiro no inte­rior de nossa casa, praticando a liberalidade, as­sim chamada não por que dirigida a indivíduos livres, mas porque parte de uma alma livre.

Não existe razão para escutares de má von­tade as palavras fortes e corajosas de quem seguia pela sabedoria. Fica atento, pois uma coisa é o empenho para ser sábio, e outra, sê-lo de fato. Al­guém irá dizer-te: “Eu falo muito bem, mas ainda me encontro envolvido com muitos males”.

Não posso ser colocado em choque com meus princípios quando faço o máximo que pos­so, procuro melhorar e desejo um ideal grandio­so. Apenas depois de ter alcançado os progressos que tinha em mente é que me poderia ser exigido o confronto entre o que falo e o que concretizo.

De maneira diversa, quem já atingiu o cume da perfeição falaria assim: “Antes de tudo, não po­des emitir juízo sobre quem é melhor do que tu”.

No que diz respeito a mim, sendo despreza­do pelos maus, significa que estou no caminho certo. Para explicar-te, visto que a ninguém se deve negar, ouve o que vou dizer e qual o valor que dou pelas coisas em questão. Volto a afirmar que as riquezas não são coisas boas em si mesmas. Se realmente fossem, elas nos tornariam bons. Não me é possível definir como algo bom em si aquilo que também faz parte da vida de maus indivíduos. Enfim, estou convicto de que riquezas são úteis e proporcionam grande con­forto à vida.

XXV

Escuta agora por que não incluo as riquezas entre os bens e por que a minha atitude no que diz respeito a elas é diferente da tua, embora seja consenso que é necessário possuí-las.

Coloca-me na mais opulenta casa onde não se distingue ouro e prata. Não tenho nenhuma admiração por estas coisas, que, mesmo estando
junto a mim, estão fora de mim. Traslada-me para a ponte Sublício, entre os pobres e miseráveis. Não é por isso que pensarei ter menos valor só porque me encontro entre os que pedem esmola. Assim, o que muda? Eles não têm o que comer, mas não lhes falta o direito de viver. E daí? Seja como for, prefiro uma casa opulenta a uma ponte.

Põe-me no meio de um suntuoso e requinta­do mobiliário de luxo. Não é por esse motivo que serei mais feliz, por me encontrar sentado sobre almofadas macias ou por poder estender tapetes vermelhos sob os pés de meus convidados.

Troca o meu colchão, e não serei mais infeliz se puder descansar meus membros exaustos so­bre um pouco de feno ou dormir sobre uma cama de circo com o estofado gasto devido à velhice da costura. O que isso significa? Eu prefiro mostrar-me vestido com a pretexta e ficar agasalhado, não deixando seminus ou descobertos os ombros.

Mesmo que todos os meus dias passem se­gundo meus desejos, que novas felicitações se juntem às anteriores, não me contentarei com isso.
Mesmo que o meu espírito seja atormen­tado por todos os lados com lutos, tristeza e contrariedades de qualquer tipo, de maneira que cada momento seja motivo de choro, nem por isso terei razão para reclamação. Mesmo sob tanta desgraça, não amaldiçoarei qualquer dia de minha vida. Tomei medidas para garantir que nenhum dia seja desastroso para mim.

Então? Eu prefiro temperar as minhas ale­grias a reprimir a minha dor.

O grande Sócrates te diria o seguinte: “Fa­ça-me vencedor de todas as nações, que o carro de Baco voluptuoso leve-me a partir do Orien­te para Tebas, que os reis dos persas me façam consultas. Não é por isso que esquecerei que sou apenas um homem, mesmo sendo exaltado como um deus.”

De repente, uma desgraça pode lançar- me do alto, e, assim, serei apenas carregado tal qual enfeite em carro alheio para o desfile de um vendedor orgulhoso e feroz. Não obstante, não me sentirei menos em carro alheio do que quando me encontrava em pé no meu, triun­fante!

É isso mesmo, prefiro vencer a ser vencido. Desprezo a sorte com toda convicção, mas, se me for dado escolher, escolherei o que me for mais agradável. Aconteça o que acontecer, será uma coisa boa para mim, no entanto, será melhor ain­da ser for algo prazeroso que não cause a menor perturbação.

Então, não acho que haja qualquer força sem trabalho, porém, com relação a algumas virtudes, é preferível o uso de esporas e, com outras, o do freio.

Da mesma forma que o corpo deve ser reti­do em uma descida e ser impulsionado em uma subida, também há virtudes para um declive e outras para a escalada.

Há alguma dúvida que a constância, a tena­cidade, a perseverança impliquem cansaço, es­forço e resistência como todas as outras virtudes que se opõem às adversidades? Ao contrário, não é evidente que a liberalidade, a temperança e a mansidão seguem em disparada?

De um lado, deve-se frear o espírito para não escorregar; de outro, empurrá-lo e incentivá-lo vivamente. Por isso, na pobreza, vamos fazer uso de virtudes aptas à luta; na riqueza, daquelas mais cuidadosas, que controlam os movimentos e man­têm o equilíbrio.

Feita essa divisão, prefiro fazer uso daque­las que podem ser cultuadas na tranqüilidade em lugar de controlar as que exigem muito sangue e suor.

Por isso, o sábio disse: “Não sou eu que falo de uma maneira e vivo de outra. Ês tu que enten­des uma coisa por outra. Estás ouvindo o que te chega aos ouvidos, mas não procuras entender o significado das palavras.”

XXVI

“Então, o que há de diferente entre mim, desvairado, e ti, sábio, já que nós dois desejamos posses?”

“Muita coisa. As riquezas servem ao sábio, enquanto comandam o louco. O sábio não permi­te nada às riquezas; elas, a ti, tudo permitem. Tu, como se a titivesse sido garantida posse eterna, fi­cas preso a elas como se fosse um vínculo habitual. O sábio pensa na pobreza justamente quando está instalado na riqueza.”

Jamais um general confia na paz a ponto de deixar de lado a vigilância e a preparação para uma guerra. Embora sem combate, a guerra continua declarada.

Para ti, basta uma casa luxuosa para que te tornes arrogante, como se ela não pudesse desmo­ronar ou queimar. A riqueza te embriaga porque pensas que ela tem o poder de superar qualquer dificuldade e que o destino não poderá aniquilá-la. Ficas despreocupado em meio à riqueza sem o me­nor cuidado com o perigo que ela pode trazer.

Da mesma forma, os bárbaros, estando cer­cados, não conhecem a utilidade das máquinas de guerra e olham indiferentes o cansaço dos inimi­ gos, não compreendendo para que servem aque­las coisas construídas à distância.

O mesmo acontece contigo. Ficas envaide­do com os teus pertences e não pensas nas desgraças que ameaçam de todos os lados. Elas se preparam para arrebatar a presa valiosa. Qualquer um pode tirar a riqueza do sábio, mas não lhe ti­ram os bens verdadeiros, porque ele vive feliz no presente e está despreocupado com o futuro.

“Nada” - dirá Sócrates, ou algum outro que tenha a mesma autoridade e o mesmo poder sobre as coisas humanas - “prometi a mim mesmo com mais firmeza do que não submeter os atos de minha vida à opinião alheia. Joguem sobre mim suas duras palavras. Não pensarei estar sendo injuriado, pois parecem gemer como criaturas in­ felizes.”

Isso dirá aquele a quem foi dada a sabedoria, porque, livre de vícios, sente-se levado a julgar os outros não por raiva e, sim, por bem. Acrescenta­rá, ainda: “A opinião de vocês me abala não por­ que sou atingido, mas porque vocês continuam a praguejar contra a virtude como inimigos dela, não lhes restando nenhuma esperança de mudan­ça de atitude.”

A mim não causas nenhuma afronta. De fato, quem destrói os altares não ofende aos deu­ses, mas fica clara a sua má intenção, mesmo ali onde não consegue causar nenhum dano.

Tolero tais tolices tal como Júpiter tolera as fantasias dos poetas. Um lhe dá asas; outro, coroa; um outro o representa como adúltero, vagando pelas noites; outro o faz seqüestrador de homens livres e até de seus familiares; outro, por fim, par­ricida e usurpador do reino paterno.

Se fôssemos acreditar nisso, pareceria que os deuses nada fizeram senão tirar dos homens a vergonha do pecado.

Embora isso não me atinja, quero advertir para o seu proveito: “Olha a virtude com respei­to; confia naqueles que, tendo-a seguido durante toda a vida, demonstram tratar-se de algo muito importante e que sempre ganha novas dimen­sões de grandeza. A ela como aos deuses e a seus oráculos, tal qual sacerdote, venera. Sempre que forem citados textos sagrados, mantém silêncio respeitoso para ouvir.”

XXVII

Quando alguém agita o sistro e apregoa, sob encomenda, frivolidades mentirosas; quando o impostor finge estar ferindo os braços e ombros e o faz de leve; quando uma mulher se arrasta pelas ruas, de joelhos, gritando; quando um velho, ves­tido de linho e louro, com uma lanterna na mão, em pleno dia, grita dizendo que algum deus está irritado, vocês acodem e juram que se trata de pessoas inspiradas pelos deuses. Procedendo as­sim, estão promovendo a própria perturbação.

Sócrates, da prisão, purificada com a sua presença e tornada mais honrosa do que qualquer cúria, proclama: “Que loucura é essa, tão inimiga dos deuses e dos homens, que destrata a virtude e profana com palavras maldosas as coisas sagradas? Se puderes, elogia o bom, se não, segue o teu ca­minho. Mas, se gostas de ser infame, agridam-se mutuamente. Quando ficas furioso contra o céu, não vou dizer que cometes um sacrilégio, apenas lutas em vão.”

Eu próprio fui, certa vez, zombado por Aristófanes. Todos aqueles poetas satíricos me enve­nenaram com suas anedotas sobre mim. Minha força, no entanto, foi reforçada graças aos golpes com que pensaram destroçá-la. Foi-lhe proveito­so ser posta à prova. Ninguém entendeu o quão grande era como aqueles que, ao tentar atingi-la, sentiram o seu poder. Ninguém conhece melhor a dureza das pedras do que o escultor.

Eu sou como uma rocha isolada em meio a um mar agitado. Quando a maré baixa e as ondas não param de flagelar de todos os lados, sem descanso, nem mesmo depois de séculos de constantes investidas, não conseguem removê-la ou desgastá-la. Assaltem-me, ataquem-me. Eu vencerei a todos resistindo. Quem se atira con­tra um recife, está praticando a violência contra si próprio. Assim, procurem um alvo mais maleável para atirar os seus dardos.

Vocês têm tempo para investigar os males dos outros e lançar julgamentos como este: por que este filósofo vive em casa tão ampla? Por que oferece jantares tão lautos? Ficam a ver brotoejas nos outros quando têm o corpo coberto de feridas.

Parecem como alguém que, tendo o corpo tomado por lepra, zomba de manchas e verrugas em belos corpos.

Criticam Platão por ter pedido dinhei­ro; Aristóteles por ter recebido; Demócrito por ter negligenciado; Epicuro por ter esbanjado. A mim, criticam por causa de Alcebíades e de Fedro. Vocês seriam mais felizes se pudessem imitar os nossos vícios!

Por que não olham para os seus próprios males, que estão a atacar seu exterior e a devo­rar suas entranhas? Os assuntos humanos - ainda que conheçam pouco o seu estado - não estão em tal situação para que sobre espaço para vocês da­rem com a língua nos dentes, ferindo os que são mais dignos e melhores que vocês. Mas vocês não compreendem isso. Estão sempre demonstrando atitudes que não se ajus­tam às suas vidas. Parecem com aqueles que, des­frutando o circo ou o teatro, esquecem o luto de suas casas.

Mas eu, que vejo de cima, percebo a tem­pestade ameaçando explodir em breve, com suas nuvens já perto, prontas para arrancar e espalhar suas riquezas.

O que eu digo? Em breve? Não, agora mes­mo. Ainda que não pensem nisso, um furacão vai envolver suas almas que, ao tentarem escapar sem se desprender da volúpia, serão jogadas para o alto ou precipitadas para as profundezas.

Filosofia - Estoicismo
9/19/2021 4:32:14 PM | Por Giovanni Reale
O nascimento da filosofia na Grécia

A “filosofia”, seja como indicação semântica (isto é, como termo lexical), seja como conteúdo conceitual, é uma criação peculiar dos gregos. De fato, se para todos os outros componentes da civilização grega encontra-se idêntico correlativo junto a outros povos do Oriente — os quais alcançaram, antes dos gregos, níveis de progresso muito elevados —, não se encontra, ao invés, idêntico correlativo da filoso­fia ou, pelo menos, algo assimilável ao que os gregos e, posterior­mente, com os gregos, todos os ocidentais, chamaram de “filosofia”.

Crenças e cultos religiosos, manifestações artísticas de natureza diversa, conhecimentos e habilidades técnicas de diferentes espécies, instituições políticas, organizações militares existiam seja nos povos orientais que chegaram à civilização antes dos gregos, seja entre os gregos, e, conseqüentemente, é possível fazer confrontos (embora den­tro de certos limites) e estabelecer se e em que medida os gregos, nesses âmbitos, podem ser ou são efetivamente devedores dos povos do Oriente, e se pode estabelecer em que medida os gregos superaram os povos do Oriente nos vários domínios. No que diz respeito à filosofia, porém, encontramo-nos diante de um fenômeno tão novo que, como dissemos, não só não há entre os povos orientais idêntico correlativo, mas nem mesmo algo que analogicamente comporte comparação com a filosofia dos gregos ou que a prefigure de modo inequívoco.

Destacar isso significa, nem mais nem menos, reconhecer que, nesse campo, os gregos foram criadores, ou seja, que deram à civiliza­ção algo que ela não tinha e que, como veremos, revelar-se-á de alcan­ce revolucionário tal, que mudará o rosto da própria civilização. Por isso, se a superioridade dos gregos com relação aos povos orientais em outros âmbitos é — para dizer com uma imagem simplificadora — de natureza meramente quantitativa, no que se refere à filosofia a sua superioridade é de natureza qualitativa. E quem não tenha bem presen­te isso não conseguirá compreender por que a civilização de todo o Ocidente tomou, sob o impulso dos gregos, uma direção completamente [11] diferente dos rumos da civilização do Oriente; e não compreenderá por que a ciência só pôde nascer no Ocidente e não no Oriente. Ade­mais, não compreenderá por que os orientais, quando quiseram bene­ficiar-se da ciência ocidental e dos seus resultados, tiveram de apro­priar-se, em larga medida, também das categorias ou pelo menos de algumas categorias essenciais da lógica ocidental. Com efeito, foi pre­cisamente a filosofia a criar essas categorias e essa lógica, ou seja, um modo de pensar totalmente novo, e foi a filosofia a gerar, em função dessas categorias, a própria ciência e, indiretamente, algumas das prin­cipais conseqüências da ciência. Reconhecer isso significa reconhecer aos gregos o mérito de terem trazido uma contribuição verdadeiramente excepcional à história da civilização; por isso devemos justificar de maneira crítica o que dissemos e aduzir provas bem circunstanciadas.

Inconsistência da tese de uma presumível derivação da filosofia do Oriente

Na verdade, não faltaram — seja da parte de alguns dos antigos, seja da parte de modernos historiadores da filosofia, especialmente na era romântica, e da parte de ilustres orientalistas — tentativas de sus­tentar a tese de uma derivação da filosofia grega do Oriente, com base em observações de gênero diverso e de variado alcance; mas nenhum deles teve sucesso, e a crítica mais rigorosa, já a partir da segunda metade do século XIX, levantou uma série de contra-argumentos que, hoje em dia, podem ser considerados objetivamente incontestáveis. [12]

Examinemos, antes de tudo, como surgiu na antigüidade a idéia de uma presumível origem oriental da filosofia grega. Em primeiro lugar, deve-se notar que os primeiros a sustentar a derivação oriental da filo­sofia grega foram justamente os orientais, movidos por intenções que bem poderíamos chamar de nacionalistas: visavam tirar dos gregos e reivindicar para o próprio povo o particularíssimo título de glória que foi a descoberta da mais elevada forma de saber. De um lado, foram os sacerdotes egípcios que, no tempo dos Ptolomeus, ao travar conheci­mento com a especulação grega, pretenderam sustentar ser ela um de­rivado da sabedoria egípcia precedente. De outro lado, foram os he­breus de Alexandria, que absorveram a cultura helenística, a pretender sustentar uma derivação da filosofia grega das doutrinas de Moisés e dos profetas contidas na Bíblia. Mais tarde, os próprios gregos deram crédito a essas teses. O neopitagórico Numênio escreverá que Platão não é senão um “Moisés aticizante” e muitos outros sustentarão teses análogas, particularmente os neoplatônicos da última fase, ao defender a tese de que as doutrinas dos filósofos gregos não seriam mais que elaborações de doutrinas nascidas no Oriente e recebidas originalmente pelos sacerdotes orientais por divina inspiração dos deuses.
Mas essas afirmações não possuem qualquer base histórica, pelas seguintes razões:

  1. Na época clássica, nenhum dos gregos, nem os historiadores nem os filósofos, faz o mínimo aceno a uma presumível derivação da filosofia do Oriente. Heródoto (que faz derivar o orfismo, contra toda evidência, dos egípcios) não diz nada; Platão, mesmo admiran­do os egípcios, sublinha o seu espírito prático e antiespeculativo, em contraste com o espírito teórico dos gregos, e Aristóteles atribui aos egípcios unicamente a descoberta das matemáticas.
  2. A tese da origem oriental da filosofia encontrou crédito na Grécia somente a partir do momento em que a filosofia perdeu seu vigor especulativo e a confiança em si mesma e buscava não mais na razão, mas numa revelação superior, a própria fundação e justificação. [13]
  3. De outro lado, a filosofia grega, tendo-se tornado na última fase uma doutrina mística e ascética, podia facilmente encontrar analogias com certas doutrinas orientais anteriores e, portanto, crer na sua dependência delas.
  4. Por sua vez, egípcios e hebreus puderam encontrar coincidên­cias entre a sua “sabedoria” e a filosofia grega somente com a interpretação alegórica bastante arbitrária dos mitos egípcios ou das nar­rações bíblicas.

E por que os modernos afirmaram poder defender a tese das ori­gens orientais da filosofia? Em certa medida, porque acolheram como válidas as afirmações dos antigos, das quais falamos acima, sem dar-se conta da sua falta de credibilidade, não levando em conta o que acima afirmamos. Porém, de modo mais genérico, porque acreditaram descobrir analogias de conteúdo e tangências ideais entre determinadas doutrinas dos povos orientais e certas doutrinas dos filósofos gregos. Seguindo tal via, os estudiosos se deleitaram em inferir fantasiosas conclusões, que, com Gladisch, chegaram ao limite. Este estudioso alemão (que recordamos porque o paroxismo ao qual levou a tese sobre a qual refletimos representa de modo paradigmático a falta de criticidade à qual se chega seguindo certos critérios) pretendeu até mesmo poder concluir, do exame das concordâncias internas, que os cinco principais sistemas pré-socráticos derivavam, com poucas variações, dos cinco principais povos orientais, a saber:

  • o sistema pitagórico da sabedoria chinesa;
  • o sistema eleata da sabedoria indiana;
  • o siste­ma heraclitiano da sabedoria persa;
  • o sistema empedocliano da sa­bedoria  egípcia e
  • a filosofia de Anaxágoras da sabedoria judaica.

Concordamos que, levadas a tais extremos, essas teses se tornam fantasias romanescas; mas permanece o fato de que, embora atenu­adas, circunstanciadas e nuançadas, mesmo perdendo as característi­cas fantasiosas, permanecem igualmente puras conjeturas que, ade­mais, não apresentam fundamento histórico e têm contra si os se­guintes dados factuais bem precisos, que as esvaziam:

  1. É historicamente demonstrado que os povos orientais com os quais os gregos tiveram contato possuíam convicções religiosas, mitos teológi­cos e cosmológicos, mas não possuíam uma ciência filosófica no verda­deiro sentido da palavra; possuíam, nem mais nem menos, aquilo que os [14] próprios gregos possuíam antes de criar a filosofia: as descobertas arque­ológicas vindas à luz não autorizam de modo algum ir além disso.
  2. Em segundo lugar, mesmo dado (mas não concedido) que os povos orientais com os quais os gregos entraram em contato tivessem doutrinas filosóficas, a possibilidade da sua transferência para a Grécia não seria facilmente explicável. Escreveu justamente Zeller: “Quando se considere quão estreitamente os conceitos filosóficos, especialmente na infância da filosofia, estão ligados às expressões lingüísticas; quan­do se recorde quão escasso era o conhecimento de línguas estrangeiras entre os gregos, e de outro lado quão pouco os intérpretes, normalmen­te preparados só para relações comerciais e para a explicação das curiosidades, seriam capazes de levar à compreensão de um ensinamento filosófico; quando se acrescente que da utilização de escritos orientais por parte dos filósofos gregos e de traduções de tais escritos nada nos é dito, nem de longe, que mereça fé; quando se pergunte, ademais, por que meios as doutrinas dos hindus e de outros povos da Ásia oriental teriam podido, antes de Alexandre, chegar à Grécia: então se dará conta das proporções da dificuldade da questão”. E note-se que não vale a objeção de que os gregos, apesar disso, puderam extrair dos orientais certas crenças e cultos religiosos e tam­bém certas artes pelo menos no nível empírico: de fato, tais coisas são bem mais fáceis de comunicar à medida que, diferentemente da filoso­fia, como sublinha Burnet, não exigem nem uma linguagem abstrata nem o veículo de homens instruídos, sendo mais que suficiente a sim­ples imitação. Escreve Burnet: “Não conhecemos, na época da qual nos ocupamos, nenhum grego que soubesse a língua oriental bastante bem para ler um livro egípcio ou mesmo para ouvir um discurso de um sacerdote egípcio, e é só em época muito posterior que ouvimos falar de mestres orientais que escrevem ou falam grego”.
  3. Em terceiro lugar (e parece-nos que isso não foi até agora adequadamente observado), muitos estudiosos que pretendem destacar coincidências entre a sabedoria oriental e a filosofia grega, mes­mo sem dar-se perfeitamente conta, são vítimas de ilusões óticas à [15] medida que, de um lado, entendem as doutrinas orientais em função de categorias ocidentais, e, de outro, colorem as doutrinas gregas com tintas orientais, de modo que as correspondências são, em últi­ma análise, pouco ou nada dignas de fé.
  4. Enfim, mesmo que se pudesse demonstrar que certas idéias de filósofos gregos efetivamente têm antecedentes nas sabedorias orien­tais e se pudesse historicamente provar que elas beberam daquelas fontes, tais correspondências não modificariam a substância do pro­blema: a filosofia, a partir do momento em que nasceu, na Grécia, representou uma nova forma de expressão espiritual tal que, no ins­tante mesmo em que subsumia conteúdos frutos de outras formas de vida espiritual, transformava-os estruturalmente. Esta última obser­vação nos permite compreender outro fato interessantíssimo, isto é, como e por que, por obra dos gregos, se transformaram essencialmen­te aquelas mesmas artes e conhecimentos particulares, matemáticos e astronômicos, respectivamente, dos egípcios e dos babilônios.

A peculiar transformação teórica das cognições egípcias e caldaicas operada pelo espírito dos gregos

Que os gregos tenham derivado as suas primeiras cognições matemáticas e geométricas dos egípcios está fora de dúvida. Mas, como bem observa Burnet, por obra dos gregos elas se transforma­ram radicalmente.

Como podemos observar por um papiro da coleção de Rhind, a matemática egípcia devia consistir prevalentemente na determinação de operações de cálculos aritméticos com finalidades essencialmente práticas (mensuração dos cereais e dos frutos, determinação dos modos de dividir certas quantidades de coisas entre certo número de pessoas etc.) e, apesar do que se disse em contrário, isso corresponde bem ao que Platão observa nas Leis, recordando como eram ensinadas as operações aritméticas às crianças nas escolas egípcias.

Analogamente, a geometria tinha principalmente um caráter práti­co (como se pode deduzir do mesmo papiro de Rhind e de Heródoto), [16] qual seja a mensuração dos campos depois das inundações do Nilo, a construção das pirâmides e semelhantes. Mas a matemática como teoria geral dos números e a ciência geométrica teoricamente fundada e de­senvolvida foram criações dos pitagóricos. E, quanto à objeção de al­guns estudiosos a Burnet, de ter cavado um fosso muito nítido e, por­ tanto, arbitrário entre interesse prático (dos egípcios) e interesse teórico (dos gregos) e de ter operado uma cisão em si ilícita entre os dois interesses, porque à medida que os egípcios souberam determinar as regras práticas explicitaram também atividade teórica; pois bem, por inegável que seja isso, resta todavia o fato de que o destaque do mo­mento propriamente teórico e a purificação especulativa dos problemas matemático-geométricos foram próprios dos gregos; e o mesmo proce­dimento racional com o qual fundaram a filosofia permitiu-lhes purifi­car a matemática e a geometria e levá-las a um nível especulativo.

Raciocínio análogo vale para a astronomia dos babilônios, os quais, como foi notado há tempo, estudaram os fenômenos celestes com finalidades astrológicas, para fazer previsões e predições e, portanto, com finalidades utilitaristas e não propriamente científicas e especulativas. E, embora se tenha sublinhado como nas concepções da astrologia caldaica estivessem implícitos conceitos especulativos muito importan­tes, como por exemplo a idéia de que o número é instrumento de conhecimento de todas as coisas, a idéia de que todas as coisas estão ligadas por uma íntima conexão e, portanto, a idéia da unidade do todo e talvez também a idéia do caráter cíclico do cosmo e outras semelhan­tes; pois bem, permanece contudo sempre verdadeiro o ponto acima afirmado, isto é, que aos gregos cabe o mérito de ter explicitado esses conceitos, e eles puderam fazer isso em virtude do seu espírito especu­lativo, vale dizer, em virtude do espírito que criou a filosofia.

Conclusões

No estado atual da pesquisa, não se pode falar de derivação da filosofia ou da ciência especulativa do Oriente. Certamente os gregos extraíram dos povos orientais com os quais tiveram contato noções de diverso gênero, e sobre esse ponto as pesquisas poderão progressiva­mente trazer à luz novos fatos e novas perspectivas. Um ponto, po­rém, é incontestável: os gregos transformaram qualitativamente [17] aquilo que receberam. Por isso apraz-nos concluir com Mondolfo (o qual, note-se, insistiu muitíssimo na positividade e importância das influ­ências orientais sobre os gregos e sobre a fecundidade espiritual de tais influências): “[...] essas assimilações de elementos e de impulsos culturais [vindos do Oriente] não podem enfraquecer de modo algum o mérito de originalidade do pensamento grego. Ele operou a passa­gem decisiva da técnica utilitária e do mito à ciência desinteressada e pura; ele afirmou por primeiro sistematicamente as exigências lógi­cas e as necessidades especulativas da razão: ele é o verdadeiro cria­dor da ciência como sistema lógico e da filosofia como consciência racional e solução dos problemas da realidade universal e da vida”.

Mas isto que estabelecemos abre um problema ulterior: existem razões que explicam no todo ou em parte como e por que justamente os gregos e não outros povos, que chegaram à civilização antes deles, criaram a filosofia e a ciência?

Devemos agora responder a este problema. [18]

Filosofia - Filosofia Clássica
9/11/2021 3:50:05 PM | Por Odsson Ferreira
Entendendo Platão, um suprassumo em 5 minutos

Platão, o mais "nobre" dos discípulos de Sócrates, foi o seu mais fiel defensor e o que mais fez referências a ele, a tal ponto que os estudiosos chegam a ter certa dificuldade em separar as suas ideias e conceitos das de Sócrates, que nunca escreveu nada. Platão tornou-se assim, a voz socrática que ecoa ao longo dos milênios. Platão nasceu em berço de ouro no V século antes da era comum mais precisamente em 428, e morreu em 347. Sua educação, como a de qualquer cidadão de família aristocrática, foi voltada ao governo e a guerra, educado nas letras clássicas e nos esportes, fato comprovado pelo seu epiteto "Platão" que significa “costas largas”. Platão era o filósofo atleta. Não há relatos sobre sua vida amorosa, diferentemente de Aristóteles que era conhecido por seu amor ao sexo feminino.

Platão fora fortemente abalado e influenciado pelo julgamento, condenação e execução de Sócrates, fato que considerava até certo ponto como sua própria culpa.

Como já foi dito, a obra de Platão foi fortemente orientada pelos "sermões" de Sócrates, mas também o fora pelos trabalhos de Parmênides e Heráclito. Era muito preocupado com a corrupção do sistema democrático ateniense e em certa altura, abandonou a política e a cidade se tornando consultor de reis e monarcas pela Hélade. Afirmava categoricamente que era necessário refazer o Estado, assentando sua base na Justiça e na Ética, pois como filósofo racionalista, afirmava que a fonte do conhecimento verdadeiro é o intelecto puro, independentemente dos sentidos, vemos aqui as influências de Sócrates.

Depois da experiência malfadada na Sicília, quando chegou a ser vendido como escravo, voltou para Atenas e fundou a Academia, a primeira Universidade do ocidente.

O sistema defendido por Platão era divido em três partes:

Conhecimento científico, o conhecimento verdadeiro.
Comportamento ético, virtude, o que é o Homem justo?
Política, quais as características de um Estado justo?

Conhecimento científico

Platão defendia a Teoria das ideias ou formas, onde haviam dois tipos de conhecimento: o do mundo sensível, e o do mundo inteligível.

O conhecimento do mundo sensível é relacionado a Heráclito e é o mundo dos sentidos; do senso comum (Doxa); um tipo de conhecimento raso e superficial que priva o saber apenas ao que o individuo sente ou experimenta através de seus sentidos como a visão, tato, olfato, audição e paladar. Este é o mundo empírico (emperia, ou seja a experiência). Nesse sentido para Platão, a realidade é apenas uma ficção, pois os sentidos nos enganam. Os sentidos ficam apenas na superfície do que de fato existe, funcionando assim como uma barreira que dificulta chegar a realidade verdadeira. Nosso mundo é na verdade um rascunho da realidade, onde cada elemento é uma cópia irregular do conceito, da ideia ou essência, que existe apenas no mundo inteligível.

O Conhecimento do mundo inteligível é relacionado a Parmênides. Aqui não existem emoções ou paixões na busca do conhecimento. Apenas o intelecto pode acessar essa dimensão e contemplar o que é Invisível aos sentidos e visível apenas a razão. Platão afirmava que nessa instância os conceitos não são criados por nós, sendo alcançados apenas por nossa inteligência. A realidade é a ideia, a essência que só pode ser atingida pelo intelecto e não pelos sentidos. Dessa forma, Platão defende uma dialética ascendente, onde os sentidos chocam-se com o pensamento racional. É preciso questionar, duvidar, contestar os sentidos para se alcançar uma verdade que já está presente desde o nascimento. Platão é filosofo inatista, pois para ele o conhecimento é inato e a psique e o intelecto já existiam no mundo inteligível antes do mundo sensível fazendo com que o papel da educação seja o de recordar aquilo que foi esquecido.

Comportamento ético

Para Platão havia uma tripartição da alma composta pela Alma racional, que é o equivalente da classe governante de seu Estado ideal (os magistrados), é a cabeça que governa o corpo; a Alma irascível (militares), que é responsável pelas emoções, a defesa da honra e que não consegue controlar a si mesma; e a Alma concupiscível (trabalhadores e comerciantes), que é responsável pelos desejos, pelos prazeres, e bens materiais e que também não consegue controlar a si mesma.

O indivíduo sábio, como o Estado ético, é aquele onde a Alma racional governa todo esse sistema. Uma pessoa ou Estado governado por suas emoções ou desejos é um indivíduo/sociedade desequilibrado, que inevitavelmente está fadado aos equívocos do mundo sensível, e portanto, longe do verdadeiro conhecimento: o conhecimento dos conceitos e essências.

Política

Platão, talvez influenciado pelo sistema espartano, defendia uma educação rígida onde as crianças deveriam pertencer ao Estado e não aos seus pais. Logo após os 7 anos de idade, todo menino e menina deveria ser entregue ao sistema educacional para que fosse educado(a) e assim no futuro ocupar a classe a qual terá aptidão e/ou direito. Em seu sistema de Estado perfeito, não havia diferença entre gêneros, assim sendo as mulheres deveriam ocupar em pé de igualdade todos os cargos e assumir todas as responsabilidades de um homem, algo impensável e até bizarro para os atenienses do século V e IV.

Para Platão a pirâmide do Estado ideal era composta por: trabalhadores e comerciantes, na base, classe preenchida por aqueles que descobriam essa aptidão no primeiro teste de sua vida educacional, aos 12 anos; pelos militares, no meio, classe preenchida pelos que se encaixassem na segunda prova de aptidão realizada aos 20 anos de idade; e pelos magistrados, no governo, pessoas anciãs que atingiam esse nível devido ao mérito de serem aprovadas no último teste aos 50 anos e se formarem sábias, conhecedoras das verdades da vida e por tanto, aptas a governar. Dessa forma, o Estado ideal de Platão era uma Sofocracia ou Aristocracia, um Estado justo governado pelos sábios e orientado pela Ética.

O fato mais notável na política de Platão é o seu ataque a democracia, pois para ele, um governo de "qualquer um" deixa o Estado susceptível aos equívocos do domínio dos militares (emoções) e/ou comerciantes (desejos), fazendo dessa sociedade uma organização injusta, governada pela tirania militar, ou pela barganha comercial. Um comerciante ou empresário jamais governaria e legislaria de forma neutra e idônea, sendo tentado a se corromper e a defender a sua própria classe e interesses pessoais. Um militar jamais governaria sem o uso da força e do estado de terror e intimidação. Por esse motivo ele acreditava que a democracia é um sistema destinado a ser corrupto, se colapsar e por fim se tornar uma tirania, pois apenas um "super homem", assim reconhecido pela sociedade ignorante, possuiria “super poderes” para colocar ordem ao caos, que seria o destino óbvio de um Estado injusto e em desequilíbrio.

Influências

A influência do pensamento de Platão foi e ainda é esmagadora na sociedade ocidental pós-moderna, herdeira direta do pensamento clássico. Tornou-se senso comum chamar tudo que é perfeito de "platônico". O amor platônico, por exemplo, seria o amor romântico, fogo fátuo do prazer dos amantes. Um equívoco bizarro, já que o amor para Platão era justamente o contrário, pois para ele o homem/mulher perfeitos eram orientados ao desapego, ou pelo menos ao controle total dos impulsos do desejo. O verdadeiro amor platônico é o amor ao conhecimento, a essência, a pureza do conceito no mundo inteligível e não tem nada a ver com reprodução da espécie ou prazer hedônico da carne.

Há também o exemplo do cristianismo, religião usurpadora por excelência que já havia se apoderado e se inspirado nos preceitos egípcios e zooratristas mas que viu no pensamento platônico uma oportunidade ideal de unir os "desejos" de um mundo justo, no céu, para aqueles que eram marginalizados e excluídos pelas outras religiões, como bandidos, doentes, mendigos, mulheres etc. Santo Agostinho durante a idade média dedicou a sua vida a ligar o cristianismo ao pensamento socrático e platônico com a finalidade de dar uma base, um vigor intelectual a fé cristã. Lembro-me, com horror, em uma aula sobre Teorias da Educação, quando o professor que discorria sobre Platão foi interrompido por um aluno e colega que questionou se Platão fora influenciado pelo cristianismo, pois segundo esse colega, a religião era atemporal e ancestral estando além das influências culturais e do desenvolvimento da história humana. Para mim foi um desses momentos em que sentimos vergonha pelo outro. Infelizmente o nível de esclarecimento da maior parte da população brasileira é muito baixo, e onde há vazio de conhecimento, há espaço para as mais exóticas ideologias.

Filosofia - Filosofia Clássica
9/9/2021 7:46:33 PM | Por Lucius Annaeus Seneca
Sêneca saúda o amigo Lucílio: Da fugacidade da fortuna

Não acredites que um homem possa ser feliz se a sua estabilidade depende de sua fortuna. Apóia-se em bases frágeis quem faz sua felicidade depender de ele­mentos externos. Toda alegria que assim surge logo se vai; no entanto, aquela que vem do interior é firme e sólida. Ela cresce e nos acompanha até o final. Quanto aos objetos de admiração da plebe, esses são bens de apenas um dia. “Então, deles não podemos tirar proveito e prazer?” Não é isso que se diz, desde que eles de nós dependam, não nós deles.

Tudo o que vem da riqueza não gera frutos, não proporciona satisfação, se o possuidor não possui a si próprio e não toma posse do que lhe pertence. É uma tolice, Lucílio, pensar que a riqueza pode nos fazer al­gum bem ou mal; ela apenas fornece material para os nossos bens e nossos males, os elementos daquilo que junto a nós poderá se desenvolver em bem ou em mal.

Bem mais poderosa que a fortuna é nossa alma. Para o melhor ou o pior, é ela que conduz os nossos destinos, é ela a responsável pela nossa felicidade ou miséria.

Se for má, tudo se converte em maldade, mesmo aquilo que tem a aparência de bem. Se for direita e ínte­gra, corrige todos os erros da fortuna, ameniza sua infle­xibilidade, praticando a arte da tolerância, recebendo com reconhecimento e modéstia a prosperidade e com firmeza e coragem as desventuras. Apesar da sabedoria, do juízo acurado que preside a todos os seu atos, apesar do cuidado para não ir além do que lhe é permitido, não obterá esse bem fora de qualquer ameaça se, frente à incerteza das coisas, não se mantiver na certeza.

Quer observes os outros (julgamos mais facil­mente o que não nos é próximo), quer observes a ti mesmo com toda a imparcialidade, te darás conta de que nada do que desejas e sentes prazer te será útil se não te precaveres contra a inconstância da sorte e de tudo o mais que dela depende; se, em todos os momen­tos de contrariedade, repetires sem queixas: “Os deuses julgaram de forma diferente”.

Vamos um pouco além. Para procurar uma fór­mula mais corajosa, mais justa, para melhor equilibrar tua alma, dize a ti mesmo, cada vez que algo saia ao contrário do que esperavas: “Os deuses julgaram me­lhor do que eu”. Se tiveres esse equilíbrio, nada te atin­girá. Pois bem, atingimos esse estado começando por imaginar o poder das imprevisibilidades humanas antes até de experimentá-las. Ou seja, tendo mulher, filhos e patrimônio, levar em conta que talvez não os tenhamos para sempre. Assim, se os perdermos, não seremos, por isso, mais infelizes.

Desprezível é a alma obcecada pelo futuro, é infeliz antes da infelicidade, deseja ter para sempre as coisas que lhe causam prazer. Não terá descanso, e a necessidade de querer conhecer o futuro lhe fará deixar de lado o pre­sente que poderia ser melhor desfrutado. Temer a perda de algo é o mesmo que já não tê-lo mais consigo.

Não pensa que eu sou a favor da indiferença. Foge dos perigos. Fica atento a tudo que pode ser previsto. O que for que te ameaça, não espera que te atinja, pas­sa longe. Nessa situação, a confiança em ti e o firme propósito de tudo suportar serão muito importantes.

Podemos nos sentir abrigados do destino quando temos força para agüentar seus golpes. De qualquer for­ma, não é das ondas calmas que nasce a tempestade, ou seja, nada é mais lamentável e menos sábio do que o medo antecipado. Que insensatez é essa de antecipar a adversidade?

Em síntese, e para bem demonstrar esses carrascos de si próprios, digo que eles sofrem o mesmo na espera e durante as suas desgraças. Tal criatura aflige-se mais do que é preciso e antes do que é necessário. A mesma fraqueza que faz com que veja a aflição faz com que não saiba avaliá-la. O mesmo descomedimento com que julga ser feliz para sempre, que considera tudo de bom que lhe acontecer, durar e crescer sempre, faz com que esqueça que o fio sobre o qual o gênero humano oscila nada mais nos promete do que o imprevisto.

Por essa razão, considero admirável esta frase de Metrodoro para o irmão que havia perdido o filho, rapaz de grande futuro: “Todos os bens dos mortais são mor­tais”.* Ele está se referindo àqueles bens que os homens buscam precipitadamente. O verdadeiro bem não desa­parece; certo e duradouro, consiste na sabedoria e na vir­tude, sendo a única coisa imortal que cabe aos mortais.

Alguns são tão descuidados que esquecem a meta para onde cada dia os leva, que se admiram com a perda de uma ou outra coisa, como se não fossem perder tudo um dia. Todos esses bens dos quais te intitulas “possui­dor” estão contigo, mas não são teus. Para o fraco, não há nada certo; para o frágil, nada é eterno e invencí­vel. É tão necessário perder quanto morrer e, se isso for bem compreendido, torna-se um consolo. Perde sem dor, porque também perderás, um dia, tua vida.

Para minimizar os efeitos dessa perda, de que dispomos? De guardar a lembrança do perdido e, assim, não deixar desvanecer o que de proveito se tenha tido com o que se foi. Se a posse vai embora, fica para sempre o privilégio de ter possuído. Muito ingrato é aquele que, quando não tem mais nada, imagina nada dever por aquilo que tenha recebido. A sorte tira o objeto, mas deixa o fruto que nossas queixas nos fazem perder.

De todos os males que parecem infundir temor, nenhum é invencível; todos, um após outro, encontraram um vencedor. O fogo por Múcio. A cruz por Régulo. O veneno por Sócrates. O exílio por Rutílio. A morte por um golpe de espada por Catão. Que nós tenhamos também nossas vitórias.

No entanto, essas ilusórias felicidades que atraem a plebe foram, muitas vezes, desdenhadas por diversas pes­soas. Fabrício, o comandante, recusou a riqueza e pro­curou dobrá-la como censor. Tuberão julgou ser, junto com o Capitólio, digno da pobreza quando, em uma festa pública, fez uso de um prato de barro, procurando mostrar que o homem devia se contentar com coisas ain­da usadas pelos deuses. Sexto, o Pai, recusa honras, ele que nasceu para conduzir o poder. Não aceitou a toga laticlava*, oferecida por César, pois estava convicto de que o que pode ser dado também pode ser tirado. De nossa parte, façamos, da mesma forma, algo de generoso. Mar­quemos nosso lugar entre esses exemplos.

Por que falhamos? Por que nos desesperamos? Tudo o que já foi feito pode por nós ser feito. Comece­mos purificando nossa alma e seguindo a natureza, pois quem dela se afasta condena a si próprio a desejar e a tornar-se escravo da sorte. Podemos retomar o caminho correto, podemos tomar posse daquilo que nos é de direito. Recuperemos tais coisas e saberemos, que o fim, suportar as dores que de qualquer maneira atacarem o nosso corpo. Assim, diremos ao destino: “Estás tratando com um homem. Procura em outro lu­gar alguém a quem dominar”.

Graças a essas palavras, e a outras do mesmo cali­bre, que a malignidade de uma ferida é atenuada, e pre­firo, podes acreditar, que possa ser atenuada ou, pelo menos, que se mantenha estacionada e, ainda, envelhe­ça com o paciente. Estou seguro quanto ao paciente; o que se discute agora é nossa própria perda, o arrebatamento de um velho notável, que viveu uma vida plena e que, se deseja prolongá-la, é para aqueles a quem pode servir e não para si.

Viver é um ato generoso de sua parte. Um outro já quis pôr fim a seus tormentos, julga tão vergonhoso pro­curar a morte como dela fugir. “Mas como? Se o fato está posto, não devo ir?” Por que deixará de ir se não é mais útil a ninguém, nada mais tem senão o sofrimento?

Eis, meu caro Lucílio, o que se chama aprender a filosofia pela prática e exercê-la concretamente; é ver a coragem de um homem esclarecido diante da mor­te, diante da dor, quando uma se aproxima e a outra o pressiona. O que deve ser feito aprendemos com aquele que o faz.

Até o presente momento, nossos argumentos leva­ram a indagar se é possível a qualquer indivíduo resistir à dor; se a morte, ao se aproximar, chega a derrubar as grandes almas. Analisemos os fatos e os encaremos: não é a morte que fortalece esse homem diante da dor, nem é a dor que o encoraja frente à morte. Em face das duas, ele confia em si próprio. Não é a esperança da morte que o faz suportar pacientemente a dor, nem a entrega ao sofrimento que o faz morrer de bom grado. Ele suporta a dor e aguarda a morte. Passa bem!

Filosofia - Filosofia Clássica
Azulejos portugueses

Os azulejos decorativos encontram pela primeira vez o caminho para o interior da península Ibérica como uma das muitas contribuições da cultura islâmica: a pa­lavra tanto espanhola como portuguesa que os desig­na, azulejo, não é derivada, como poderia se imaginar, de sua cor predominantemente azul, mas do termo árabe az-zulayj, que significa “pequena pedra”. Foi em Portugal onde adquiriram toda a sua glória na arquite­tura e na decoração. Durante quase um século após a expulsão dos muçulmanos continuaram importando azulejos, mas em 1550 foram estabelecidas fábricas em Lisboa que utilizaram artistas flamencos. Em meados do século XVII, a indústria era auto-suficiente e os próxi­mos 200 anos marcaram o auge de sua popularidade. Desenhos pictóricos complexos e a inclusão de letras complementaram os desenhos tradicionais. Nas mãos de artistas e artesãos hábeis, o azulejo se transformou em uma forma de arte importante, cuja tradição conti­nua até hoje.

<<Expandir>>
9/14/2021 4:24:35 PM | Filosofia, n. 10
A farmácia de Epicuro

O hedonismo e a busca do prazer como receita de vida e finalidade da existência. Na cultura ocidental, o homem sempre se perguntou sobre o fim último da vida, e diversas respostas marcaram diferentes momentos da história de nossa civilização.

Filosofia - Filosofia Clássica
9/12/2021 4:24:36 PM | Filosofia, n. 10
Ouse saber

Ideário iluminista sepultou as trevas da Idade Média e postulou que o conhecimento, por meio do uso da razão, é o caminho para a emancipação do homem.

Filosofia - Filosofia moderna
9/11/2021 4:50:34 PM | Filosofia, n. 10
A superação do luto

Desde Freud, no clássico Luto e Melancolia, estu­damos o luto como sendo um processo doloroso do senti­mento da perda de um ente querido; de um sonho, como o da liberdade e dignidade huma­nas, por exemplo. Ou ainda, a perda do ideal de alguém, uma profunda decepção em relação à avaliação do caráter de uma pessoa que nos seja cara.

Filosofia - Filosofia moderna
9/11/2021 4:39:33 PM | Filosofia, n. 10
A vida começa aos 70

A velhice, encarada como a etapa derradeira da vida, pode ser uma época repleta de encantos e realizações. Se for verdade que aprendemos vi­vendo, uma pessoa que vive há sete décadas é mais sábia do que um ado­lescente no auge da sua mocidade. Sua bagagem de experiências é imensamente superior.

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O Escorial
Toledo e o Real Mosteiro de El Escorial e o Vale do Caído de Madrid | musement

A imagem mais conhecida de Felipe II é a de um monar­ca sedentário que passou seu tempo planejando como governar o mundo de seu retiro no Escorial, nas profun­dezas do coração da Espanha. Entretanto, durante a maior parte de sua vida foi extremamente ativo. Presen­te (e nominalmente ao comando) na esmagadora derro­ta imposta aos franceses em San Quintín (1557), sentiu-se inspirado para agradecer a Deus pela vitória, construindo uma igreja de grandeza sem paralelo e de­ dicando-a a São Lourenço, em cujo dia havia sido trava­ da a batalha. Foi durante um de suas costumeiras saídas para caçar - um exercício tão extenuante e com frequên­cia tão perigoso quanto a guerra - que descobriu o local ideal para concretizar sua ideia: uma projeção rochosa da Serra de Guadarrama, voltada para o sul, cerca de 40 quilômetros ao norte de Madri. Ali, entre 1563 e 1584, ocorreu a construção de São Lourenço do Escoriai, des­crita pelo cronista José de Siguenza como sendo “uma incrível conjugação de planificação, trabalho, gerencia­mento, barulho, habilidade, riqueza fabulosa e univer­sal criatividade”. Ao plano original de Felipe de cons­truir apenas uma igreja, foram acrescentados novos planos para um palácio real e um mosteiro, e o Escorial acabou transformando-se num complexo de edifícios multifuncionais único entre os palácios da realeza, um lugar para preces e contemplação, para a administração, para descansar depois da caça, para guardar a enor­me coleção de livros, manuscritos, pinturas e relíquias santas de Felipe, e onde os ossos de seus antepassados poderiam descansar. E, acima de tudo, foi o quartel-general de uma hegemonia européia que não era apenas política e militar, mas um símbolo multifacetado da civi­lização espanhola.

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10/20/2021 4:16:25 PM | Por Marcus Tullius Cicero
Lélio, ou a Amizade

1. Quinto Múcio Cévola, o áugure, costumava evocar seguidamente, através de anedotas pre­cisas saborosas, a lembrança de Caio Lélio, seu sogro, e não hesitava, toda vez que falavam dele, em qualificá-lo de sábio. De minha parte, eu fora colocado por meu pai na escola de Cévola, ao passar a usar a toga viril: sempre que me fosse possível e permitido, jamais deixava a sombra do velho. Minha memória registrava assim inúmeros debates por ele sabiamente conduzidos, inúmeras formulações concisas e oportunas, e esforçava-me por desenvolver meus conhecimentos ao contato de sua experiência. Após sua morte, relacionei-me com seu primo, o pontífice Cévola, uma figura de nossa cidade excepcional, ouso dizer, por seu talen­to e seu senso de justiça. Mas falarei dele noutra ocasião: voltemos ao áugure.

2. Com frequência o revejo em sua casa, sen­tado, como sempre, em sua sala de recepção, espe­cialmente uma vez em que lá me encontrava com um grupo de familiares: no decorrer da conversação havia surgido o caso que todos, ou quase todos, discutiam então. Certamente recordas, Ático - pois eras muito ligado a Públio Sulpício - , a época em que, tribuno da plebe, Públio se indispusera num ódio mortal com Quinto Pompeio, por ocasião de sua eleição consular: tendo sido os dois homens até aquele momento de sua vida indefectíveis aliados e amigos íntimos, que clima de espanto misturado de injúrias os envolvia!

3. Naquela oportunidade, Cévola, à guisa de comentário a esse triste caso, nos relatou uma série de reflexões de Lélio sobre a amizade, que este último emitira diante dele e de seu outro genro, Caio Fânio, filho de Marco, alguns dias após a morte de Cipião, o Africano. Guardei na memória, com nitidez, a substância dessa conversação, que exponho aqui, neste livro, à minha maneira: nele introduzi, de certo modo, os próprios interlocutores, para evitar a intervenção demasiado freqüente de “eu disse” ou “ele disse” e, ao mesmo tempo, para dar a impressão de os protagonistas conversarem diante de nós.

4. Várias vezes me incitaste a escrever algo sobre a amizade: o assunto me pareceu valer efetivamente a pena, para a edificação de todos
e em razão de nossa intimidade recíproca; assim apliquei-me de bom grado a servir toda a gente, dando-te essa satisfação. Em Catão, o Velho (Cato maior, De Senectuté), que trata da velhice em tua intenção, eu havia confiado a um Catão encanecido a argumentação, porque ninguém me parecia mais apto a falar dessa idade que um personagem cuja existência de velho fora tão longa e que. durante essa mesma velhice, se cobrira de honras mais do que ninguém. Desta vez, já que nossos pais nos ensinaram que a intimidade entre Caio Lélio e Públio Cipião foi a mais memorável que existiu, é a pessoa de Lélio que me pareceu adequada para desenvolver as idéias das quais precisamente Cévola se lembrava por tê-lo ouvido discorrer. De resto, esse gênero de exposição, posta sob a autoridade de homens do passado, e dos mais ilustres, não sei por que razão me parece ter mais peso. Assim, quando me releio, experimento às vezes a bizarra impressão de que é Catão, e não eu, quem fala.

5. Em suma, do mesmo modo que, na intenção de um velho, um outro velho dissertava sobre a velhice, neste livro é a um amigo que, como amigo atento, escrevi sobre a amizade. Catão então se expressava: era certamente o homem mais velho naquele tempo, e o mais avisado; agora é Lélio, igualmente sábio - pelo menos lhe foi dada essa reputação - e famoso pela glória que lhe valeu a amizade, quem falará da amizade. Gostaria que, por um momento, desviasses teu espírito de mim, que imaginasses ouvir discorrer o próprio Lélio. Caio Fânio e Quinto Múcio vêm ver seu sogro após a morte de Cipião, o Africano; são eles que iniciam a conversação, Lélio responde: toda a dissertação sobre a amizade é dele, e ao lê-la descobrirás a ti mesmo.

II

6. Fânio - É muito triste, Lélio. Jamais houve homem melhor que o Africano, nem mais ilustre... Deves saber que todos os olhares estão fixados agora sobre ti: não há outro, como tu, a quem chamem e a quem considerem realmente sábio. Há pouco atribuíam esse título a Marco Catão, e sabemos que Lúcio Acílio, no tempo de nossos pais, era também chamado sábio. Mas ambos por outras razões: Acílio, por sua sagacidade bem conhecida em direito civil; Catão, por sua experiência numa série de domínios: citavam-se suas participações no senado e no fórum, as mais diversas previsões clarividentes, atos firmemente assentados, respos­tas mordazes; em conseqüência, sábio já era quase um cognome que ele tinha em sua velhice.

7. Em troca, a teu respeito, as razões são outras: é por natureza e por temperamento, mas sobretudo por vontade e instrução que és sábio. E não na acepção vulgar, mas no sentido que as pessoas cultas dão correntemente ao qualificativo de “sábio”. Um título com o qual ninguém, em nosso conhecimento, foi agraciado na Grécia - os chamados “Sete Sábios”, com efeito, a julgar pelos mais finos especialistas no assunto, não figuram realmente no número dos sábios —, exceto um único homem, que vivia em Atenas: precisamente aquele que o oráculo de Delfos havia julgado “o mais sábio”. Concedem-te essa mesma sabedoria, ao te verem considerar tudo o que te concerne como dependendo de ti, e tudo o que acontece aos humanos como inferior à virtude.

Eis por que alguns me perguntam, a Cévola igualmente, creio, qual o segredo que te ajuda a suportar a morte do Africano, tanto mais que nas últimas Nonas, quando nos reunimos nos jardins do áugure Décimo Bruto, como de hábito, para ali meditarmos juntos, tu não vieste, tu que sempre respeitaste pontualmente aquela jornada e aquela obrigação.

8. Cévola - É verdade que muitos. Caio Lélio, fazem-me a mesma pergunta que a Fânio; respon­do-lhes. por tê-lo observado, que suportas com calma a dor infligida pela morte daquele que foi ao mesmo tempo um homem eminente e teu mais caro amigo; que não saberias ser indiferente, que isso não faz parte de tua sensibilidade; e que, se não compareceste à nossa reunião, no dia das Nonas, foi a meu ver por razão de saúde, e não de luto.

Lélio - Percebeste acertadamente, Cévola, e é verdade: o que me constrangeu a faltar àquela obri­gação, que sempre cumpri quando me achava bem de saúde, não foi o desgosto: nenhuma dificuldade desse gênero, em minha opinião, pode constranger um homem de caráter a ceder no cumprimento de seu dever.

9. Quanto a ti, Fânio, ao dizeres que me atribuem tantas qualidades, nas quais aliás não me reconheço e que de maneira nenhuma recla­mo, certamente te comportas como amigo; mas, parece-me, não fazes perfeitamente justiça a Catão. Com efeito, ou jamais houve sábio, o que eu acreditaria mais naturalmente, ou, se houve algum, foi ele. De qualquer modo, para citar ape­nas isto, não suportou ele a morte de seu filho? Lembrava-me de Paulo, de Galo: mas seus filhos eram garotos; quanto a Catão, ele perdeu um homem maduro e admirado.

10. Por conseguinte, guarda-te de estimar quem quer que seja mais que Catão, mesmo aquele que Apolo, como disseste, julgou "o mais sábio : num, são os atos que se mostram admiráveis, no  outro, as palavras. Mas, para falar desse assunto, e doravante dirijo-me aos dois juntos, eis aqui meu ponto de vista.

III

Se eu negasse minha emoção por ter perdido Cipião, teria razão de fazê-lo? Cabe às pessoas avisadas responder. Mas, sem dúvida, eu mentiria. Forçosamente contrista-me ser privado de um amigo como, acredito, jamais se verá outro igual e, posso certificá-lo, jamais se viu outro igual. Entretanto, não tenho necessidade de remédio. Consolo-me a mim mesmo e pelo melhor dos consolos: procurando não incidir no erro que ator­menta geralmente as pessoas após o falecimento de seus amigos. Não penso que um infortúnio tenha atingido Cipião; atingiu a mim, se atingiu alguém; suportar tristemente suas próprias misérias não é amar um amigo: é amar a si mesmo.

11. Quanto a ele, quem ousaria verdadeira­mente negar que tenha tido um papel brilhante na existência? Pois, a menos que desejasse - ele não  pensava nisto em absoluto — obter a imortalidade, o que não obteve ele daquilo que é lícito a um ho­mem desejar? Ele que, a partir de sua adolescência, ultrapassou continuamente, com uma incrível força de caráter, as mais altas esperanças que, desde sua infância, seus concidadãos haviam depositado nele; que, sem jamais ter lutado para conseguir o con­sulado, foi cônsul duas vezes, a primeira antes da idade legal, a segunda numa idade para ele normal, mas quase demasiado tarde para a república, que, por ter destruído duas cidades irredutivelmente hostis ao nosso poderio, pôs um termo não apenas às guerras da época, mas também às que delas te­riam decorrido no futuro. O que dizer de seu caráter tão sociável, da veneração que tinha por sua mãe, de sua generosidade para com suas irmãs, de sua bondade para com os familiares, de sua preocupa­ção de justiça em relação a todo mundo?

Estais a par de tudo isso. Quanto ao grau de afeição que lhe votavam seus concidadãos, sua consternação, por ocasião dos funerais, deu a medida dela! Assim, o que poderia acrescentar a isso uma prorrogação de alguns anos? Pois a velhice, mesmo quando não é penosa - e recordo Catão, um ano antes de sua morte, explicando-o a Cipião e a mim nos subtrai aquele verdor do qual Cipião ainda gozava.

12. De fato, no plano da fortuna e da glória, sua vida terá sido tão plena que ele nada podia acrescentar-lhe; e ele morreu tão bruscamente
que nem teve tempo de dar-se conta. Um caso de morte sobre o qual, aliás, dificilmente podemos nos pronunciar; estais ao par daquilo que suspeitamos.

O que em troca podemos dizer com certeza é que, para Públio Cipião, entre tantos dias de sua exis­tência que o terão visto no topo da celebridade e da alegria, a jornada mais brilhante foi aquela em que. ao anoitecer, deixando o senado, os senadores, o povo romano, os aliados e os latinos o acompa­nharam de volta para casa: era também a véspera de deixar a vida, de modo que tão elevado grau de dignidade foi como o trampolim graças ao qual entrou diretamente na casa dos deuses do céu, em vez de descer aos mundos infernais.

 IV

13. Com efeito, não poderia filiar-me às teses daqueles que, recentemente, começaram a afirmar que os espíritos perecem juntamente com os corpos e que tudo é destruído pela morte. Dou mais cré­dito à autoridade dos antigos, e mesmo de nossos ancestrais, que atribuíram aos mortos direitos tão sagrados: o que seguramente não teriam feito se julgassem que nada mais lhes concernia; à autori­dade daqueles que estiveram sobre nosso solo e puseram a Magna Grécia, arruinada hoje mas então florescente, sob o ensinamento de suas instituições e de suas concepções; ou ainda à autoridade daquele que o oráculo de Apolo havia julgado “o mais sá­bio”: um sábio que, nesse ponto, não diz ora isto, ora aquilo, como na maioria dos casos, mas sempre a mesma coisa: que as almas dos homens são divi­nas e que, tão logo saídas do corpo, veem abrir-se diante delas o retorno para o céu, tanto mais direto quanto pertenceram a humanos particularmente bons e justos.

14. Coisas que Cipião considerava do mesmo modo: como se houvesse pressentido o que o esperava, poucos dias antes de sua morte, em presença de Filo e de Manílio, e de vários outros, entre os quais tu também, Cévola, pois tinhas vindo comigo, ele dissertou sobre a república durante três dias seguidos, uma exposição cujo final tratava es­sencialmente sobre a imortalidade das almas: ele dizia ter tido durante o sono, graças a uma visão, revelações do Africano a esse respeito.

Se portanto é verdade que, no momento da morte, a alma dos melhores escapa com tanta fa­cilidade à prisão assim como às cadeias do corpo, quem então, vos pergunto, terá conhecido uma corrida mais tranqüila em direção aos deuses que Cipião? Por conseguinte, receio que afligir-se com o que lhe aconteceu procederia mais da inveja que da amizade. Se, afirmo, a outra tese é que é exata - se a mesma morte afeta igualmente as almas e os corpos, e se nenhuma consciência subsiste - , então não há nada de bom na morte, mas nada de mau tampouco, evidentemente. Pois o desaparecimento da consciência, para o homem de quem falamos, eqüivale praticamente a que não tivesse nascido em absoluto, ele que no entanto nasceu, com o que nos felicitamos e o que para nossa cidade, enquanto ela existir, será motivo de alegria.

15, Por isso, mais acima, eu dizia que ele conheceu todos os favores de um destino que, comigo, se mostrou antes desagradável: em boa lógica, tendo entrado primeiro na vida, eu também deveria ter saído primeiro. Todavia, a lembrança de nossa amizade me dá tanto prazer que tenho o sentimento de ter vivido feliz, pois vivi na com­panhia de Cipião, pois juntos nos preocupamos ao mesmo tempo com assuntos públicos e privados; juntos compartilhamos a vida familiar e a vida militar, e reside aí toda a força da amizade, a mais nobre cumplicidade no plano das escolhas, dos interesses, das idéias. Assim, essa reputação de sabedoria, que Fânio evocava para nós há pouco, não me traz, sobretudo falsa como ela é, senão uma satisfação mínima em comparação com a lembrança de nossa amizade, que, espero, durará eternamente. E convenço-me tanto mais disso quanto não saberiam nomear, em toda a extensão dos séculos, senão três ou quatro pares de amigos: tal raridade me autoriza, parece-me, a confiar que a amizade de Cipião e Lélio permanecerá legen­dária nas gerações futuras.

16. Fânio - Sem dúvida nenhuma, Lélio, é o que acontecerá. Mas, já que acabas de fazer alusão à amizade e já que temos tempo à nossa disposição, me darias um grande prazer - a Cévola também, espero, se, como o fazes habitualmente em relação a outros assuntos sobre os quais te questionam, nos expusesses uma concepção da amizade: qual é para ti seu valor, a que princípios ela deve obedecer.

Cévola - Sim, isso me agradaria de fato e eu ia precisamente fazer-te a mesma solicitação antes que Fânio a fizesse. Assim, proporcionarias incontestavelmente um prazer a nós dois.

V

17. Lélio - Acreditem, eu consentiria nisso sem reticências se tivesse confiança em mim: primeiro, o assunto é magnífico e, depois, como o disse Fânio, temos tempo à nossa disposição. Mas quem sou eu ou, sejamos claros, tenho em mim os recursos necessários para improvisar sobre tal questão? Os doutos estão habituados, sobretudo os gregos, a que lhes coloquem questões que eles debatem quanto se quiser na mesma hora: é uma grande arte e isso requer um treinamento considerável. Por conseguinte, para explorar o que se pode dizer sobre a amizade, penso que deveríeis interrogar aqueles que fazem profissão de fé desse tipo de exercícios. De minha parte, tudo o que posso fazer é vos incitar a preferir a amizade a todos os bens desta terra; com efeito, nada se harmoniza melhor com a natureza, nada esposa melhor os momentos, positivos ou negativos, da existência.

18. Antes de mais nada, a amizade, estou con­vencido, só pode existir nos homens de bem. Sobre essa noção, não me pronunciarei categoricamente, como alguns cujo raciocínio teórico é mais exi­gente, por certo justificadamente, mas sem grande proveito para o governo das pessoas comuns. Eles afirmam que ninguém é homem de bem exceto o sábio. Admitamos. Mas eis que essa sabedoria, eles a definem de tal modo que nenhum mortal até hoje pôde segui-la; ora, a nossa, há necessidade que ela leve em conta o que constitui o costume e a vida corrente, não o que faz a substância dos sonhos e das aspirações. Eu jamais poderia dizer que Caio Fabrício, Mânio Cúrio, Tibério Coruncânio, que nossos antepassados tinham como sábios, o fossem verdadeiramente, se aplicasse as normas de nossos brilhantes teóricos: que eles guardem portanto para si a definição da palavra sabedoria, com o que esta comporta de desejável e de obscuro, e nos conce­dam que nossos concidadãos eram homens de bem. Mesmo a isso, infelizmente, eles não consentirão: recusarão que esse título possa ser dado a pessoas que não são “sábias”.

19. Em suma, decidiremos, como se diz, com nosso bom senso primário. Todas as pessoas que, em sua conduta, em sua vida, deram prova de leal­dade, de integridade, de equidade, de generosidade, que não trazem dentro de si cupidez, nem paixões, nem inconstância, e são dotadas de uma grande força de alma, como o foram os homens que eu há pouco nomeava, podem todas, penso, ser contadas entre as pessoas de bem: isso as caracteriza, já que elas seguem, tanto quanto um ser humano é capaz, a natureza, que é o melhor dos guias para viver de maneira correta.

Nesse sentido, penso discernir que somos feitos para que exista entre todos os humanos algo de so­cial, e tanto mais quanto os indivíduos têm acesso a uma proximidade mais íntima. Assim, nossos con­cidadãos contam mais para nós que os estrangeiros; nossos parentes próximos, mais que as outras pessoas. Entre parentes, a natureza dispôs com efeito uma espécie de amizade; mas ela não é de uma resistência a toda prova. Assim a amizade vale mais que o parentesco, em razão de o parentesco poder se esvaziar de toda afeição, a amizade não: retire-se a afeição, não haverá mais amizade digna desse nome, mas o parentesco subsiste.

20. A força que a amizade encerra torna-se inteiramente clara para o espírito se considerarmos o seguinte: em meio à infinita sociedade do gênero humano, que a própria natureza dispôs, um vínculo é contraído e cerrado tão intimamente que a afeição se acha unicamente condensada entre duas pessoas, ou raramente mais que duas.

VI

Assim, a amizade não é senão uma unanimida­de em todas as coisas, divinas e humanas, acom­panhada de afeto e de benevolência: pergunto-me se ela não seria, excetuada a sabedoria, o que o homem recebeu de melhor dos deuses imortais. Alguns amam mais as riquezas, outros a saúde, outros o poder, outros as honrarias, muitos prefe­rem ainda os prazeres. Essa última escolha é a dos brutos, mas as escolhas precedentes são precárias e incertas, repousam menos sobre nossas resoluções que sobre os caprichos da fortuna. Quanto aos que colocam na virtude o soberano bem, sua escolha é certamente luminosa, já que é essa mesma virtude que faz nascer a amizade e a conserva, pois, sem virtude, não há amizade possível!

21. Tão logo definirmos a virtude a partir de nossos hábitos de vida e de pensamento, em vez de avaliá-la, como alguns doutos personagens, de acordo com o esplendor verbal, contaremos efe­tivamente no rol dos homens de bem aqueles que são tidos como tais: os Paulo Emílio, Catão, Galo, Cipião, Filo. Estes últimos constituem modelos satisfatórios para a vida corrente: portanto, não falemos mais daqueles que absolutamente jamais encontramos.

22. Sendo assim, uma amizade entre homens de bem possui tão grandes vantagens que mal posso descrevê-las. Para começar, em que pode consistir uma “vida vivível”, como diz Ênio, que não encon­trasse um descanso na afeição partilhada com um amigo? Que há de mais agradável que ter alguém a quem se ousa contar tudo como a si mesmo? De que seria feita a graça tão intensa de nossos sucessos, sem um ser para se alegrar com eles tanto quanto nós? E em relação a nossos reveses, seriam mais difíceis de suportar sem essa pessoa, para quem eles são ainda mais penosos que para nós mes­mos. Por outro lado, os outros privilégios a que as pessoas aspiram só existem em função de uma única forma de utilização: as riquezas, para serem gastas; o poder, para ser cortejado; as honrarias, para suscitarem os elogios; os prazeres, para deles se obter satisfação; a saúde, para não termos de padecer a dor e podermos contar com os recursos de nosso corpo. Quanto à amizade, ela contém uma série de possibilidades. Em qualquer direção que a gente se volte, ela está lá, prestativa, jamais excluí­da de alguma situação, jamais importuna, jamais embaraçosa. Por isso, nem água nem fogo, como se diz, nos são mais prestimosos que a amizade. E aqui não se trata da amizade comum ou medíocre, que no entanto proporciona igualmente satisfação e utilidade, mas da verdadeira, da perfeita, à qual me refiro, tal como existiu entre os poucos personagens citados. Pois a amizade torna mais maravilhosos os favores da vida, e mais leves, porque comunicados e partilhados, seus golpes duros.

VII

23. Ora, se a amizade encerra todas as van­tagens, e a valer, ela as ultrapassa todas, porque aureola o futuro de otimismo e não admite nem a desmoralização dos espíritos nem sua capitulação. De fato, observar um verdadeiro amigo eqüivale a observar uma versão exemplar de si mesmo, os ausentes são então presentes, os indigentes são ricos, os fracos, cheios de força e, o que é mais difícil de explicar, os mortos são vivos, na medida em que o respeito, a lembrança, o pesar de seus amigos continuam ligados a eles. De modo que a morte de uns não parece ser uma infelicidade, e a vida dos outros suscita a estima. Enfim, se afastássemos da ordem natural o relacionamento de amistosa simpatia, nenhuma casa, nenhuma cidade restariam de pé, e a agricultura não poderia subsistir. Se não se percebe claramente qual a força da amizade e da concórdia, pode-se ter uma ideia disso através das dissensões e das discórdias. Com efeito, que casa é bastante sólida, que cidade possui uma coesão suficiente para não se arriscar, pelos ódios e os desentendimentos, a ser completamente arruinada? É por aí que se pode avaliar o que há de bom na amizade.

24. Um sábio homem de Agrigento exprime inclusive em poemas em grego, ao que dizem, esta ideia visionária de que, fixas ou móveis, todas
as coisas na natureza e em todo o universo se estruturam graças à amizade, e se desconjuntam por causa da discórdia. O que todos os mortais, aparentemente, ao mesmo tempo compreendem e demonstram nos fatos: se sucede de alguém ajudar um amigo em perigo, seja intervindo, seja prestando-lhe socorro, quem lhe regateará felicitações entusiastas? Que clamores em todo o teatro, recentemente, durante a nova peça de meu hóspede e amigo Marco Pacúvio: era no momento em que, diante do rei que ignorava qual dos dois era Orestes, Pílades dizia que Orestes era ele, para ser executado no lugar de seu amigo, enquanto Orestes, em conformidade à verdade, continuava a afirmar que ele era Orestes! Todos os especta­dores se levantaram para aplaudir uma ficção: que não teriam feito, em vossa opinião, diante de uma realidade? A própria natureza demonstrava claramente sua força, naquele instante em que homens aprovavam em outrem um ato de lealdade do qual eles próprios eram incapazes. Aí está: creio ter explicado da melhor maneira que pude minha concepção da amizade. Se quereis mais - não duvido que haveria ainda muito a dizer ide interrogar os que fazem profissão de discutir sobre essas questões.

25. Fânio - Preferimos interrogar a ti. Pois com frequência questionei e escutei - sem esprazer, admito - essas pessoas; mas tua maneira de explicar tem algo de diferente.

Cévola - Então, que não terias dito, Fânio, se tivesses estado, da outra vez, nos jardins de Cipião, quando se discutiu sobre a república e seu funcio­namento? Que defensor da justiça ele foi, face à eloqüência adestrada de Filo!

Fânio - Certamente era fácil, para um homem profundamente justo, defender a justiça.
Cévola - E então? Não seria a amizade, ela, um assunto fácil para alguém que a cultivou com tanta lealdade, constância e justiça, que isso lhe valeu seu mais belo título de glória?

VIII

26. Lélio - Estais querendo me coagir! Que dizer, se o “fazeis pela boa causa”? Usais incontestavelmente a força! Já é difícil resistir aos desejos
de dois genros, mas se, por acréscimo, eles estão cheios de boas intenções, a resistência não é mais sequer justificável!

Na maioria das vezes, portanto, ao refletir sobre a amizade, tenho o hábito de voltar ao ponto que me parece fundamental: será por fraqueza e indigência que se busca a amizade, cada um visando por sua vez, através de uma reciprocidade dos serviços, receber do outro e devolver-lhe esta ou aquela coisa que não pode obter por seus próprios meios, ou seria isto apenas uma de suas manifestações, a amizade tendo principalmente uma outra origem, mais interessante e mais bela, escondida na própria natureza? Com efeito, o amor, de onde provém a palavra amizade, é no primeiro fundamento sim­patia recíproca. Quanto aos favores, não é raro que sejam obtidos também de pessoas iludidas por uma aparente amizade e um desvelo de circunstância: ora, na amizade nada é fingido, nada é simulado, tudo é verdadeiro e espontâneo.

27. Isso tenderia a provar que a amizade se origina da natureza, parece-me, e não da indigência; que ela é uma inclinação da alma associada a um certo sentimento de amor, e não uma especu­lação sobre a amplitude dos benefícios que dela resultarão.

Pode-se constatar esse estado de coisas mesmo em alguns animais, que amam seus filhotes por um tempo determinado e são igualmente amados: o sentimento deles é evidente. No homem, isso é mais evidente ainda: primeiro, porque existe uma ternura especial entre pais e filhos, impossível de destruir exceto por um crime execrável; depois, quando o mesmo sentimento de amor surge de um encontro fortuito com uma pessoa cujas maneiras e o caráter coincidem com os nossos, porque ela nos parece interiormente iluminada, por assim dizer, de probidade e de virtude.

28. Afirmo que nada é mais amável que a virtude, nada favorece tanto o afeiçoar-se, já que virtude e probidade, de certo modo, nos fazem sentir afeição mesmo por pessoas que jamais vimos. Quem não evocaria sem uma benevolente simpatia a memória de Caio Fabrício, de Mânio Cúrio, mesmo sem tê-los conhecido? Em contrapartida, quem não odiaria Tarquínio, o Soberbo, Espúrio Cássio, Espúrio Mélio? Dois chefes militares rivalizaram conosco em armas pela supremacia da Itália: Pirro e Aníbal. A honestidade do primeiro nos impede de sentir em relação a ele demasiada animosidade; o segundo, sua crueldade o tomará para sempre odioso à nossa cidade.

IX

29. Se há tanta força no valor moral para que o amemos, seja nas pessoas que jamais vimos, seja, o que é mais impressionante, inclusive num inimigo, devemos nos espantar que o coração dos homens se comova quando lhe parece, nas pessoas com as quais pensa em atar relações íntimas, perceber virtude e retidão? De resto, o sentimento se confirma por um benefício recebido, por uma tendência manifesta, por um convívio regular. Coisas que, alimentando aquele primeiro movimento da alma e do amor, fazem maravilhosamente resplandecer a intensidade de uma afeição.

Mas quando se afirma que ela provém da fraqueza, baseando-se no fato de haver, na ami­zade, alguém que dá a um outro o que este deseja, abandona-se a origem da amizade à abjeção e à mesquinharia total: faz-se dela algo nascido, por assim dizer, do constrangimento e da indigência. Se fosse assim, todo aquele que se julgasse o mais interiormente desvalido seria o mais apto à ami­zade. A realidade é bem diferente.

Pois aquele que tem mais confiança em si, aquele que está tão bem armado de virtude e de sabedoria que não tem necessidade de ninguém e sabe que traz tudo dentro de si, este sobressai sem­pre na arte de ganhar amizades e de conservá-las. Quê! O Africano? Necessidade de mim? Senhor! De jeito nenhum. Nem eu dele tampouco, mas eu admirava a força de sua personalidade: ele, por seu lado, talvez não julgasse ruim meu temperamento: ele me apreciou. O hábito de nos vermos fez crescer nossa simpatia recíproca. Mas ainda que muitas vantagens importantes tenham resultado disso, certamente não foi a ambição de obtê-las que pro­vocou nossa afeição.

31. Com efeito, quando somos generosos e bondosos, quando não exigimos reconheci­mento - não contando com nenhum proveito próprio, tendo apenas uma vontade espontânea de ser generoso —, é então, penso, que convém, não movidos por uma esperança mercantil, mas convencidos de que o amor traz em si seu fruto, querer atar amizade.

32. Assim, estamos muito distantes das pes­soas que, a exemplo dos animais, reduzem tudo à volúpia. Isso não é surpreendente. Como poderiam se voltar para algo de elevado, de magnífico, de divino, elas que rebaixaram toda preocupação ao nível de uma coisa tão vil e desprezível?

Eis o que basta para eliminá-las de nossa conver­sação, mas conservemos no espírito que é a natureza que engendra o sentimento da afeição e a ternura nascida da simpatia, uma vez estabelecida a prova da lealdade. Os que a procuram se abordam e depois se freqüentam mais de perto, para se beneficiarem da presença daquele por quem começaram a se afeiçoar, e de sua personalidade; para instaurarem uma reciprocidade e uma igualdade de afetos: mostram-se então mais inclinados a prestar serviço que a exigir retorno, e entre eles se estabelece uma nobre rivali­dade. É assim que ao mesmo tempo serão obtidas da amizade as maiores vantagens e, por esta se originar da natureza e não da fraqueza, seu crescimento será mais intenso e mais verdadeiro. Pois, se o interesse cimentasse as amizades, à menor mudança de interesses as veríamos desfazerem-se. Mas, assim como a natureza não poderia mudar, as verdadeiras amizades são eternas. Eis portanto a origem da amizade, a menos que tenhais algo a contestar. 

Fânio - Não, podes prosseguir, Lélio. Res­pondo também por ele, pois minha condição de mais velho me dá esse direito.

33. Cévola - Não contestarei esse ponto. So­mos todos ouvidos!

X

Lélio - Então escutai bem, meus excelentes rapazes, o que discutíamos com frequência, Cipião e eu. a propósito da amizade. Nada é mais difícil apesar de tudo, dizia ele, que conservar intacta uma amizade até o último dia da vida. Pois seguidamente acontece que ora os interesses, ora as sensibilidades políticas divergem; com frequência também o caráter dos homens se altera, ele dizia, por causa de alguns reveses, ou por causa do fardo crescente da idade. E, a título de exemplo, traçava um paralelo com o início da vida, quando nossas mais vivas amizades da infância são seguidamente abandonadas com a toga pretexta.

34. Se elas resistem, acrescentava, acabam sen­do destruídas durante a adolescência por diversas rivalidades, ou pela perspectiva de um casamento, ou porque os dois amigos não são capazes de obter as mesmas oportunidades na vida. E mesmo para aqueles cuja amizade resistiu por mais tempo, ela é abalada quando intervém rivalidades de carreira política: a mais desastrosa das calamidades que afeta as amizades, para a maior parte dos homens, vem do atrativo do lucro e, entre os melhores, da concorrência por certos postos de magistrados e pela glória; essa concorrência provoca frequente­mente as mais irremediáveis desavenças entre os maiores amigos.

35. Outras violentas dissensões surgem, e na maioria das vezes com razão, quando se exige de um amigo algo de inconveniente, como ajudar a saciar uma paixão ou ser cúmplice de uma in­justiça. Os que se recusam o fazem com a maior honestidade; no entanto, os amigos pelos quais não se deixaram arrastar os acusam de faltar aos deveres da amizade; ora, os que ousam pedir não importa o que a um amigo atestam, por seu pedido mesmo, que nenhum escrúpulo os detém se se trata de favorecer a causa de um amigo. Suas recriminações têm geralmente por efeito não apenas secar as afeições mais antigas, mas engendrar igualmente ódios eternos. Tais são as múltiplas ameaças, quase fatais, que pesam sobre a amizade: para conseguir eludi-las todas, Cipião dizia que havia a sabedoria, mas também a sorte, pensava.

XI

36. Por isso veremos primeiramente, se o permitis, até onde a afeição tem o direito de ir, em amizade. Se Coriolano tinha amigos, eram eles obrigados a usar armas com Coriolano contra sua pátria?

Será que os amigos deviam apoiar Vecelino, ou Mélio, quando armavam intrigas para serem reis?

37. Quando Tibério Graco maltratou a repúbli­ca, vimo-lo ser abandonado por Quinto Tuberão e os amigos de sua geração. Ao contrário. Caio Blóssio Cumano, um hóspede de vossa família, Cévola, quando veio rogar-me - porque eu era conselheiro oficial junto aos cônsules Lenate e Rupílio - perdoar-lhe suas atitudes, julgou desculpar-se assim: como Tibério Graco havia feito grandes coisas, Caio estava convencido de que devia segui-lo quaisquer que fossem seus empreendi­mentos. Eu disse:

“Mesmo se ele quisesse que fosses atear fogo no templo do Capitólio? - Ele jamais teria desejado isso, respondeu, mas, se o quisesse, eu o teria feito. Imaginai a impiedade dessa voz criminosa! E ele havia de fato feito coisas do gênero, e mesmo outras que não confessava: não apenas subscreveu as intrigas temerárias de Tibério Graco, mas as inspirou: não encontrou um simples companheiro, mas um instigador para suas loucuras. De modo que esse terrível desvio o levou, apavorado por uma nova comissão de inquérito, a fugir para a Ásia: lá juntou-se às forças inimigas, mas acabou pagando suas empreitadas contra a república com um castigo severo e justo. É que não há nenhuma desculpa para as más ações, mesmo se é por amizade que agimos mal. Com efeito, como a convicção de virtude é a alcoviteira da amizade, é difícil conservar essa amizade se faltamos à virtude.

38. Suponhamos que adotássemos como regra conceder aos amigos tudo o que eles querem, ou obter deles tudo o que queremos: seria preciso que fôssemos de uma perfeita sabedoria para que isso não ocasionasse falta de nossa parte. Mas falamos de amigos que estão diante de nós, que vemos ou dos quais nos transmitiram a memória, aqueles que uma vida normal nos fez conhecer: é dessa catego­ria que cumpre tirar nossos exemplos, e escolher aqueles que mais se aproximam da sabedoria.

39. Sabemos que Papo Emílio foi amigo íntimo de Lúscino - nossos pais nos contaram - , e que eles foram duas vezes cônsules, e depois colegas durante sua censura; ademais, as ligações que mantinham com Mânio Cúrio e Tibério Coruncânio, eles pró­prios extremamente ligados, permaneceram em todas as memórias. Não é sequer imaginável sus­peitar um deles tendo exigido de um amigo o que quer que fosse de contrário à lealdade, à fé jurada, à república. Pois, no caso de tais personagens, de que serviria esclarecer que, mesmo se um deles tivesse pedido, ele nada teria obtido, sabendo-se que eram homens rigorosamente irreprocháveis e que é tão criminoso satisfazer quanto formular semelhante pedido? Ao passo que, na verdade, Tibério Graco foi efetivamente escorado por Caio Carbo, Caio Cato e seu irmão Caio Graco, pouco incitado na época, extremamente agressivo hoje.

XII

40. Em amizade, será portanto uma lei nada pedir de vergonhoso e não ceder a nenhuma súplica dessa espécie. É uma desculpa escandalosa, com efeito, e inteiramente inadmissível, pretender que, embora prejudicando o Estado por más ações, defendeu-se a causa de um amigo.
Isso se aplica particularmente a nós, prezados Fânio e Cévola: ocupamos uma posição tal que nosso dever é prever de longe os acontecimentos que farão o destino da república. Ela já se desviou um bocado da direção e do percurso traçados por nossos ancestrais.

41. Tibério Graco tentou ocupar o lugar de rei, ou melhor, realmente reinou durante alguns meses. Havia o povo romano alguma vez ouvido
ou visto semelhante coisa? Após sua morte, não posso falar sem lágrimas daquilo que seus fiéis e seus próximos fizeram a Públio Cipião. Quanto a  Carbo, nós o suportamos como pudemos, por causa da execução recente de Tibério Graco. Mas o que esperar do tribunato de Caio Graco? Os presságios não são bons. A coisa volta a rastejar, se ramifica, e na encosta do desastre, quando tomou impulso, arrebata tudo. Já vistes, no que se refere ao modo de votar, que danos provocaram, a dois anos de intervalo, as leis Gabinia e Cassia. Parece-me já ver o povo dissociado do senado, o arbítrio da populaça decidir sobre as mais graves questões. Pois é mais fácil aprender a agitar as multidões de todas as maneiras do que resistir a elas.

42. Por que falei disso? Porque, sem amigos, ninguém empreenderia tais coisas. Eis portanto a lição a tirar para as pessoas honestas: se a sorte as fez cair contra a vontade numa amizade desse tipo, elas não devem se considerar manietadas a ponto de não ousarem dessolidarizar-se de amigos que agem mal em alguma questão importante. Quanto aos indivíduos culpados de malversações, cumpre instaurar para eles um castigo, que não deverá ser menor para os seguidores que para os instigadores de crimes contra a pátria. Quem foi mais ilustre na Grécia que Temístocles? Quem, mais poderoso? General dos exércitos, ele havia livrado a Grécia da escravidão por ocasião da guerra contra os persas; mas, forçado ao exílio pelo ciúme de seus inimigos, ele não suportou a injustiça de sua ingrata pátria, como o deveria ter feito: fez o que Coriolano fizera entre nós vinte anos antes. Mas eles não encontraram ninguém para ajudá-los contra sua pátria: é por isso que ambos escolheram dar-se a morte.

43. Uma associação de pessoas sem fé nem lei não poderia portanto se abrigar sob a escusa da amizade: devemos antes nos vingar dela por todos os suplícios possíveis, a fim de que ninguém se julgue autorizado a seguir cegamente um amigo, sobretudo quando este põe sua pátria a ferro e fogo; aliás, a observar como andam as coisas, pergunto-me se não é isso que nos espreita num futuro próximo. Ora, o futuro da república após minha morte não me preocupa menos, a mim, que sua evolução presente.

XIII

44. Essa é portanto a primeira lei que se deve instaurar em amizade: não pedir a nossos amigos senão coisas honestas, não prestar a nossos ami­gos senão serviços honestos, sem sequer esperar que no-los peçam, permanecer sempre confiante, banir a hesitação, ousar dar um conselho em total liberdade. No domínio da amizade, é preciso que predomine a autoridade dos amigos mais avisados. e que essa influência se aplique em acautelar os outros, não só com franqueza mas com suficiente energia, se a situação o exigir, para que o conselho seja posto em prática.

45. Notemos que alguns personagens, conside­rados, conforme o que deixei dito, como sábios na Grécia, propuseram teorias a meu ver bastante estranhas; mas não há nada que esses homens não saibam desenvolver através de argúcias: para uns, todo leque de amizades um tanto vasto deve ser evitado, a fim de não precisarmos, estando sós, nos apoquentar com um monte de pessoas; nossos pró­prios problemas já são o bastante, e mais do que o bastante, implicar-se demais nos dos outros só pode ser ruim; o mais judicioso é deixar, tanto quanto possível, a rédea no pescoço de nossas amizades, de modo a poder, a nosso critério, apertá-la forte ou soltá-la. Para ser feliz, o principal, com efeito, é a tranqüilidade, que um espírito não pode gozar se está, sozinho, preocupado com uma multidão de pessoas.

46. Mas outros sustentam teses muito mais indignas, aludi brevemente a isso há pouco: seria por necessidade de assistência e de proteção, e não de simpatia e de afeição, que se busca a amizade; segundo esse princípio, é na medida em que al­guém possui menos solidez e menos forças viris que mais buscará a amizade; é o que explicaria por que as frágeis mulheres buscam mais a proteção da amizade que os homens; e os infelizes, mais que os reputados felizes.

47. Bela sabedoria, essa! Dir-se-ia que eles retiram o sol do mundo, os que retiram a amizade da vida, quando nada de melhor, nada de mais agra­dável recebemos dos deuses imortais. De fato, que tranqüilidade é essa, aparentemente sedutora, mas que, pensando bem, deve ser rejeitada em muitos casos? Sem contar que não é muito nobre recusar seu apoio a um empreendimento ou a uma ação honestos, somente para evitar complicações, nem desinteressar-se após ter começado a apoiá-los. E se fugimos das preocupações, temos que fugir também da virtude, que implica necessariamente sua parte de preocupação porque ela despreza e detesta tudo o que lhe é contrário: assim a bondade detesta a malícia, a temperança a paixão, a coragem a covardia; por isso vê-se que a injustiça faz padecer sobretudo os justos, a covardia os fortes, a infâmia as pessoas honestas. Em suma, o característico de um espírito bem constituído é alegrar-se com o que é bom e padecer com o contrário.

48. Desse ponto de vista, se a dor aflige a alma do sábio - e muito certamente é o que se passa, a menos que toda humanidade esteja erradicada de sua alma -, que razão justificaria eliminar-se completamente de nossa vida a amizade, pelo único motivo de que ela nos impõe alguns desagrados?

Qual seria a diferença, uma vez suprimida da alma a emoção, não digo entre um animal e um homem, mas entre um homem e um tronco de árvore, ou uma pedra, ou qualquer outra coisa do mesmo gênero? Fechemos portanto nossos ouvidos aos discursos dos indivíduos que gostariam que a virtude fosse dura e como que de ferro, quando em muitos casos, entre os quais a amizade, ela é terna e condescendente, dilatando-se, diríamos, para acolher a felicidade de um amigo, contraindo-se para fazer frente às suas dificuldades. Vista sob esse ângulo, a ansiedade que frequentemente so­mos levados a sentir por um amigo não é capaz de expulsar a amizade de nossa vida; como tampouco iremos repudiar as virtudes porque elas ocasionam não poucas preocupações e desagrados.

XIV

Pelo fato de haver amizade, como eu disse mais acima, a afeição, se transparece algum indício de virtude ao qual uma alma similar pode se ligar e se associar, não deixa, quando isso acontece, de se levantar como o sol.

49. Que há de mais absurdo do que ser atraído por vaidades como a honraria, a glória, a edificação de monumentos, a vestimenta e o culto do corpo, e não sê-lo por uma alma ornada de virtude, que saberia amar ou, melhor dizendo, dar amor por amor? Nada oferece mais satisfação, com efeito, do que ser recompensado por sua cortesia, nada é mais sedutor do que trocar alternadamente atenções e bons serviços.

50. Se acrescentarmos ainda, e temos o direito de fazê-lo, que nada tem tanta força de sedução e de atração quanto a semelhança que conduz à ami­zade, seguramente nos concederão ser verdadeiro que os homens de bem amam os homens de bem e se associam a eles, como se estivessem ligados pelo parentesco e pela natureza. Nada é mais ávido de seu semelhante nem mais rapace que a natureza. Partindo daí, prezados Fânio e Cévola, para mim é evidente que se cons­tata uma simpatia quase inevitável dos bons entre si, que é o princípio da amizade instaurado pela natureza. Mas essa mesma bondade se estende também ao conjunto das pessoas. Com efeito, a virtude não é inumana, nem avara, nem orgulhosa: tem mesmo por hábito proteger povos inteiros e agir da melhor maneira por seus interesses, o que seguramente não faria se lhe repugnasse amar as pessoas.

51. Parece-me, por outro lado, que os que atribuem às amizades motivações baixamente utilitárias escamoteiam, assim fazendo, o mais amável núcleo da amizade. Pois não é tanto os serviços prestados por um amigo, mas a afeição desse amigo, em si, que dá prazer: o que um amigo
nos oferece só nos faz felizes na medida em que é oferecido com afeição; e a indigência está longe de levar a cultivar a amizade, se pensarmos que os indivíduos que menos precisam de outrem - no plano dos recursos, das riquezas, da virtude princi­palmente, na qual reside o principal amparo - são os mais generosos e os mais obsequiosos. De resto, não sei se é uma coisa boa nossos amigos jamais sentirem falta de algo. Com efeito, em que domínio nosso interesse mútuo teria podido se manifestar, se jamais Cipião tivesse a necessidade de um conselho ou de algum serviço de minha parte, seja na vida civil ou no exército? Assim, não foi a amizade que decorreu da utilidade, mas a utilidade que decorreu da amizade.

XV

52. Preservaremo-nos portanto de escutar ho­mens afeitos aos prazeres, quando dissertam sobre a amizade sem ter sobre o assunto conhecimentos práticos nem teóricos. Quem, de fato, sustentaria, diante dos deuses e dos homens, que sonha não amar ninguém e não ser amado por ninguém, ape­nas para se ver submerso em todas as riquezas e para viver na opulência absoluta? Eis aí a existên­cia dos tiranos, indiscutivelmente, na qual não há nenhuma sinceridade, nenhuma ternura, nenhuma afeição duradoura em que se possa confiar: tudo nela é sempre suspeito e alarmante, não há lugar para a amizade.

53. Sim, quem amaria uma pessoa que ele teme ou uma pessoa que ele julga temê-lo? Muitos, no entanto, se mostram obsequiosos em torno dessas pessoas, por hipocrisia, enquanto as coisas duram. Mas se porventura, como acontece comumente, elas caem, então descobre-se o quanto eram desprovidas de amigos. É o que Tarquínio, dizem, teria obser­vado durante seu exílio: ele teria descoberto nesse momento quem era leal ou desleal entre seus ami­gos, pelo fato de não mais poder, em sua situação, retribuir nem a uns nem a outros.

54. Parece-me surpreendente de resto, consi­derando sua soberba e seu caráter odioso, que ele tenha podido ter um amigo qualquer. Seja como for, assim como o caráter do personagem que acabo de evocar dificilmente lhe permitiu fazer verdadeiros amigos, o poder de que dispõem muitos homens poderosos é incompatível com toda amizade fiel. É que a Fortuna não apenas é cega, mas sobretudo torna cegos, na maior parte do tempo, os que ela favorece; eles tombam facilmente na arrogância e na fatuidade, e nada poderia ser mais insuportável que um imbecil feliz. Assim, podemos ver pessoas, até então de um convívio agradável, se metamorfosearem: sob o efeito do comando, do poder, do êxito nos negócios, ei-los a desdenhar suas antigas amizades para cultivar novas.

55. Mas que há de mais estúpido, quando se dispõe de riquezas, facilidades, consideração, que oferecer-se tudo o que o dinheiro pode proporcionar, cavalos, domésticos, roupas luxuosas, baixela preciosa, e não fazer amigos, que são, como eu disse, o melhor e mais belo ornamento da vida? Pois, ao se oferecerem todos esses bens materiais, não sabem quem tirará proveito deles, nem para quem trabalham tanto: qualquer desses bens ma­teriais será de quem souber apoderar-se deles à força, enquanto na amizade cada um conserva um direito de propriedade firme e inalienável; de sorte que, se nos restam os bens materiais, que são mais ou menos dons da Fortuna, uma vida abandonada e desertada pelos amigos não pode ter um aspecto muito risonho. Mas é o bastante sobre esse ponto.

XVI

56. Todavia, há também em amizade limites, e quase fronteiras, a instaurar para a afeição. So­bre essa questão, vejo apresentarem-se três teses diferentes, nenhuma das quais me satisfaz: para uma, devemos sentir em relação a um amigo o mesmo sentimento que em relação a nós mesmos, para a outra, nossa bondade para com os amigos deve corresponder à sua bondade para conosco segundo uma estrita e simétrica reciprocidade, para a terceira, a estima que cada um faz de si dita a estima que seus amigos devem fazer dele.

57. Não subscrevo nenhuma dessas três má­ximas inteiramente. A primeira já não é verda­deira, quando diz que devemos agir em relação aos amigos como o faríamos em relação a nós mesmos. Quantas vezes, com efeito, fazemos por nossos amigos coisas que jamais faríamos para nós mesmos, recorrer a um personagem indigno, suplicar, ou então atacar violentamente alguém e invectivá-lo com excessiva paixão! Tudo aquilo que, em relação a nossos próprios assuntos, não seria muito honroso, torna-se inteiramente nobre quando se faz por amigos, e há muitos domínios nos quais frequentemente homens de bem consentem em perder ou em não obter certas vantagens, a fim de que sejam seus amigos, ao invés deles próprios, os beneficiados.

58. Há também a outra máxima, que define a amizade por uma equivalência de serviços e de atenções recíprocos. É votar a amizade a uma contabilidade demasiado vulgar, demasiado mes­quinha, sim, querer essa paridade rigorosa entre o que se dá e o que se recebe. A amizade verdadeira parece-me ser mais rica e mais desinteressada: ela não fica, severa, a controlar se está dando mais do que recebeu. E, para dizer tudo, não se deve temer que um de nossos benefícios se perca, que uma de nossas proposições seja deixada de lado: em amizade, jamais se carrega em excesso o prato da balança.

59. Quanto à terceira máxima, a estima que cada um faz de si dita a estima que os amigos de­vem fazer dele, é realmente a pior das definições! Não é raro, com efeito, em algumas pessoas, que o moral esteja muito baixo, ou que a esperança de uma melhora de sua existência seja muito pequena. Não cabe portanto a um amigo manter com uma pessoa a mesma relação que mantém consigo mes­mo: ele deverá antes esforçar-se por elevar o moral de seu amigo, conseguindo aos poucos insuflar-lhe otimismo e pensamentos positivos.

Percebe-se que uma nova definição da amizade verdadeira resta por estabelecer, voltarei a isso assim que tiver exposto aquela que Cipião mais costumava reprovar: segundo ele, não se podia encontrar frase mais hostil à amizade que a do personagem que dizia: “Importa amar como se o
futuro nos reservasse odiar”', ele não podia real­mente acreditar que, como se pensa, Bias dissera isso, ele que é reputado ser um dos Sete Sábios; essa máxima provinha de alguém infame, ambicioso, que reduzia tudo à preocupação com seu próprio poder. Como poderíamos ser amigos de alguém que imaginamos capaz de tornar-se inimigo? Mais ainda: teríamos que desejar e esperar que o amigo cometesse faltas o mais seguidamente possível, que assim se expusesse a todo momento à reprovação: inversamente, os atos de retidão e os privilégios dos amigos inspirariam necessariamente ansiedade, sofrimento, ciúme.

60. Por isso tal regra de conduta, não importa quem tenha sido seu inventor, serve apenas para destruir a amizade. A regra que caberia antes en­sinar é escolher o leque de nossas amizades com bastante cuidado para jamais começarmos a amar alguém que corremos o risco de um dia odiar. Ade­mais, se ocorresse de não termos sido muito felizes na escolha de nossas afeições, Cipião pensava que deveríamos suportá-la, e não prepararmo-nos para tempos de inimizades.

XVII

61. Eis portanto os limites a respeitar, em minha opinião: se os costumes dos amigos forem bem civilizados, eles instaurarão entre si uma comunhão em todas as coisas, ambições, projetos, sem nenhuma exceção; além disso, se eventualmente precisarmos assistir amigos em projetos não muito convenientes, nos quais estão em jogo sua pessoa ou sua reputação, permitir-nos-emos um desvio de conduta, contanto não fira gravemente a honra. Com efeito, até certo ponto, há concessões que podem ser feitas à amizade sem ser preciso re­nunciar à nossa reputação, ou sem perder de vista que a simpatia dos cidadãos, no domínio político, não é uma arma a subestimar: o fato de ser ignóbil buscá-la através de adulações e demagogia não implica de maneira nenhuma que a virtude, que suscita também a afeição, deva ser rejeitada.

62. Ora - retorno com frequência a Cipião, cujas conversas giravam sempre em torno da amizade -, ele se queixava de que os homens se empenham mais em todas as outras atividades: cada um sabe dizer quantas cabras e carneiros possui, mas não quantos amigos; quando as pessoas adquirem esses animais, fazem-no com o maior cuidado, enquanto na escolha de seus amigos são negligentes e não sabem em que tipo de sinais, de marcas, se quiserem, irão confiar para reconhecer os que seriam capazes de amizade. Nesse sentido, são as pessoas seguras, estáveis, constantes que devemos escolher, uma espécie muito rara. Ora, é difícil julgá-las corretamente sem a prova dos fatos, e justamente essa prova só pode realizar-se dentro da própria amizade. De sorte que a amizade precede o julgamento e suprime toda possibilidade de colocação à prova.

63. Alguém ponderado, portanto, saberá con­ter, como por uma trela, o impulso espontâneo de sua simpatia, com o qual se comportará da mesma forma que com cavalos a serem testados: assim, na perspectiva de uma amizade, sondar-se-á primeiro de algum modo o caráter dos amigos. Há alguns que, em muitos casos, por um pouco de dinheiro deixam transparecer sua volubilidade; já outros, que uma pequena quantia não pôde abalar, cedem diante de uma grande. É verdade que descobrimos aqueles que consideram sórdido preferir o dinheiro à amizade, mas onde encontraremos os que não fazem passar as honrarias, as magistraturas, os comandos militares, o poder, o prestígio à frente da amizade, e que, nos momentos em que tais pri­vilégios se medem com as exigências da amizade, preferem de longe esta última? A natureza, com efeito, é frouxa quando lhe é preciso desprezar o poder: mesmo se o obtiveram com prejuízo de uma amizade, os homens pensam que sua responsabilidade será justificada, por não ter sido sem um mo­tivo de importância capital que faltaram à amizade.

64. Isso explica por que é tão difícil encontrar verdadeiras amizades entre os que se preocupam com as honrarias e os assuntos públicos. Onde se descobriria alguém que pusesse a glória de um amigo antes da sua? Onde? E nem me refiro a todo o sofrimento, a toda a dificuldade que sentimos, na maioria das vezes, em compartilhar as infelicidades dos outros! Não é fácil encontrar pessoas que con­cordem com isso. No entanto, o poeta Ênio disse muito justamente: O amigo certo se vê nos dias incertos. Resta que duas coisas demonstram aqui, na maioria das pessoas, a inconstância e a fraqueza de caráter: quando tudo vai bem elas não levam isso em conta, quando tudo vai mal elas desertam. Por conseguinte, aquele que nos dois casos se mostrar profundo, constante, estável na amizade, é um homem que devemos considerar como de uma es­sência raríssima, quase divina.

XVIII

65. No entanto, essa estabilidade, essa constân­cia são uma confirmação daquilo que buscamos na amizade: a lealdade. Com efeito, nada é estável no que é desleal. Para nosso igual, devemos escolher também uma pessoa franca, afável, com quem po­demos nos entender, isto é, que reage às coisas da mesma maneira que nós. Tudo isso está relacionado à fidelidade. Não pode haver de fato lealdade num en­tendimento complicado e tortuoso e, afirmo, aquele que não reage às mesmas coisas, cujo temperamento não está em harmonia com o nosso, não poderia se mostrar nem fiel nem estável. Acrescentemos que ele não deve ser daqueles que têm prazer em lançar acusações ou em acreditar nas que se apresentam. Todos esses traços estão relacionados àquela cons­tância sobre a qual reflito há muito tempo. Assim, se verifica o que eu disse no começo: só pode existir amizade entre homens de bem. Com efeito, é próprio do homem de bem, que nos é lícito chamar então um sábio, ater-se, em amizade, a estas duas regras de conduta: primeiro, nunca admitir o que é fingido ou simulado; pois é mais honesto odiar abertamente que dissimular, sob uma face hipócrita, seu sentimento. A seguir, não se contentar em rechaçar as acusações feitas por alguém, mas preservar-se a si mesmo de uma suspeita que leve a imaginar constantemente que o amigo teria algo de reprovável.

66. Acrescentemos a isso uma certa afabili­dade na conversação e nas maneiras, com a qual não se deve esquecer de condimentar a amizade. Se a austeridade e o rigor em tudo têm nobreza, a amizade deve no entanto ser mais distendida, mais espontânea, mais agradável, e mais inclinada, de maneira geral, à amenidade e ao convívio.

XIX

67. Nesse domínio, porém, coloca-se um pro­blema um pouco delicado: não se deveria, em alguns casos, dar prioridade a amigos recentes, dignos dessa amizade, sobre os antigos, como te­mos o costume de dar prioridade aos cavalos novos sobre os velhos? Hesitação indigna de um homem! Pois não se pode admitir, como o fazemos noutros domínios, saciedade na amizade: a mais antiga, como os vinhos que suportam o envelhecimento, deve ser a melhor, e se diz a verdade quando se diz que é preciso ter comido muito sal juntos antes de cumprir nossos deveres de amizade.

68. É que se os novos relacionamentos, como plantas que nos fazem esperar que amadurecerão o fruto desejado, evidentemente não devem ser rejeitados, há todavia que conservar à antiguidade seu lugar. Com efeito, há uma força muito profunda na antiguidade e no hábito. Mesmo no caso de um cavalo, para retomar a comparação, ninguém deixará de montar, se nada o impede, com mais gosto aquele ao qual está habituado do que um novo animal que jamais fez trabalhar. Essa questão do hábito, aliás, não vale apenas para o reino animal, mas igualmente para as coisas inanimadas, como a predileção que sentimos por certos lugares, mesmo montuosos e eriçados de florestas, onde residimos mais tempo que noutras partes.

69. É no entanto da maior importância em amizade apagar a diferença de nível social com um inferior. Pois às vezes há personalidades excepcionais, como o era Cipião dentro, digamos, de nosso círculo. Ora, jamais, seja com Filo, com Rupílio, ou com Múmio, ele se colocou acima, nem com nenhum de seus amigos de uma posi­ção social inferior. Assim, com seu irmão Quinto Máximo, personagem notável mas que não se lhe equiparava, e que lhe era mais avançado em idade, Cipião comportava-se como diante de um superior, e queria que através dele pudesse se realçar a ima­gem de todos os familiares.

70. Maneira de agir que os homens em seu conjunto deveriam imitar, se acaso adquiriram al­guma superioridade por sua virtude, seu gênio, sua fortuna, compartilhando tudo isso com os familia­res e os íntimos, ou, se seus pais são humildes de nascimento, se têm parentes pouco brilhantes pelo espírito ou a fortuna, elevando seu nível de recursos e obtendo-lhes honrarias e dignidades. A exemplo daqueles personagens das peças de teatro que, por algum tempo, conheceram a servidão, na ignorância de seu sangue e da nobreza de sua origem, mas que, uma vez descobertos e restabelecidos em sua filiação real ou divina, não deixam de conservar sua afeição pelos pastores que haviam tomado por seus pais durante muitos anos. Comportamento que, obviamente, com mais razão ainda, se impõe em relação aos pais autênticos e incontestáveis. É que o benefício obtido do talento, da virtude e de toda espécie de excelência culmina quando a ele são associadas as pessoas de nosso meio.

XX

71. Assim, os que detêm uma superioridade na rede das amizades e alianças devem saber se colocar no mesmo plano que os menos brilhantes; do mesmo modo, os mais modestos não devem se queixar de serem superados por seus amigos, seja em gênio, em fortuna ou em dignidade. A maioria deles tem sempre uma reclamação ou uma queixa a fazer, e tanto mais acerba se julgam ser lícito fazer valer algum serviço prestado por obséquio, por amizade, e ao preço de um certo esforço. Odiosa espécie, na verdade, a das pessoas que vos lançam no rosto seus serviços, que compete a quem dele se beneficiou lembrar-se espontaneamente, e não a quem os propôs lembrar constantementel

72. Deste modo, os que têm uma posição des­tacada não devem se contentar em torná-la menos visível na amizade, devem também de algum modo elevar a posição dos mais modestos. Há com efei­to pessoas que tornam as amizades difíceis, pelo fato de se julgarem desprezadas: semelhante coisa geralmente só ocorre aos que, eles próprios, se consideram desprezíveis, e há que empenhar-se em tirar-lhes tal opinião do espírito por palavras, mas sobretudo por atos.

73. Quanto a isso, para começar, não prome­teremos mais do que podemos realizar, nem o que a pessoa que afeiçoamos e queremos ajudar não poderá enfrentar. Com efeito, mesmo para alguém eminente, é impossível elevar todos os seus parentes às dignidades supremas: se Cipião pôde obter o consulado para Públio Rupílio, para seu irmão Lúcio ele não o conseguiu. Mesmo supondo que se pudesse oferecer tudo o que se quer a alguém, é preciso no entanto verificar se o outro é capaz.

74. Como regra geral, só se julgarão as ami­zades quando elas já tiverem sido fortalecidas e confirmadas, tanto pela evolução do caráter quanto pelas épocas da vida, e não é porque, na juventude, as pessoas se freqüentaram na caça ou no jogo de pela que devem se considerar inseparáveis daqueles que amaram, no tempo em que compartilhavam a mesma paixão. Se fosse assim, caberia às amas de leite e aos preceptores, por direito de antiguidade, reclamar a maior parcela de afeição: longe de mim o pensamento de que devamos negligenciá-los, mas não é deste modo que as coisas se passam. Aliás, as amizades não poderiam permanecer estáveis. Pois as diferenças entre os temperamentos acarretam interesses diferentes, cuja divergência desfaz as amizades: que outra razão haveria para o fato de as pessoas de bem não poderem ser amigas de pessoas desonestas, nem estas amigas daquelas, senão que houve entre elas o desvio de temperamentos e de gostos mais considerável que pode haver?

75. Pode-se também colocar justamente como princípio, nas amizades, que uma afeição imoderada, como acontece muito seguidamente, não deve frear amigos a caminho de grandes conquis­tas. Assim, e retorno ao teatro, Neoptólemo não teria tomado Troia se houvesse consentido, por ter sido educado na casa de seu avô Licômedes, em ceder às abundantes lágrimas do velho que queria impedi-lo de prosseguir seu caminho. E é freqüente sobrevirem importantes acontecimentos que levam a afastar-se dos amigos! Quem deseja evitar isso porque há o risco de lhe ser difícil su­portar os lamentos, tem uma natureza fraca, frouxa e, precisamente por essa razão, encontra-se numa situação inteiramente falsa no plano da amizade.

76. Aliás, em todas as coisas, é preciso levar em conta tanto o que se exige de um amigo quanto o que se admite dever-lhe conceder.

XXI

Há inclusive um gênero de flagelo que exige às vezes romper amizades. Pois nossa conversa doravante irá passar das ligações íntimas entre sábios para as amizades vulgares. Com frequência, inesperadamente, alguns graves defeitos de amigos se manifestam, seja em relação a seus próprios ami­gos, seja em relação a outras pessoas, e infelizmente é sobre os amigos que recai a desonra. As amizades desse tipo, convém deixá-las se afrouxarem até o desaparecimento completo, pois, como ouvi Catão dizer, elas devem antes ser descosidas que rasgadas, a menos que um escândalo absolutamente intolerá­vel surja, a ponto de não mais se poder fazer algo correto e razoável para evitar que se produzam imediatamente conflito e ruptura.

77. Mas se ocorrerem certas mudanças de caráter ou de gostos, como é comum acontecer, ou divergências de partidos no seio da república, deveremos cuidar para não dar a impressão de que, com o fim da amizade, é um ódio que começa. Nada é mais vergonhoso do que fazer a guerra a alguém com quem se viveu numa estreita afeição. Cipião, como o sabeis, abandonou, em meu favor, sua amizade com Quinto Pompeio; e foram divergências no seio da república que o afastaram de nosso colega Metelo: em ambos os casos, ele agiu com uma autoridade ponderada e uma distância moral que não deram margem a nenhum rancor.

78. Resulta disso que a primeira das coisas a fazer é evitar os conflitos entre amigos; se tal coisa acontecer, que a amizade pareça ter-se extinguido naturalmente, em vez de ter sido sufocada. Cumpre de fato zelar, sobretudo, para que a amizade não se transforme num ódio funesto, engendrando discus­sões, insultos, acusações injuriosas. Se apesar de tudo isso ocorrer - dentro dos limites do tolerável, é claro -, será preciso, à guisa de homenagem à antiga amizade, demonstrar resignação, e assim a falta recairá sobre quem profere calúnias e não sobre quem as sofre. De qualquer maneira, face a todos os ultrajes e prejuízos desse gênero, a única precaução e medida de previdência consiste em não se apressar em amar, sobretudo pessoas que não são dignas disso.

79. São dignos de amizade aqueles que têm dentro de si uma qualidade intrínseca que os faz amar. Espécie evidentemente rara, como tudo o que é excelente e raro: nada mais difícil de descobrir que o que é, em sua categoria, perfeito em todos os aspectos. Mas a maioria das pessoas, entre as coisas humanas, não dão nenhum valor às que se acompanham de um proveito essencial, e entre seus amigos amam sobretudo, a exemplo de seus animais, aqueles dos quais esperam tirar o máximo de benefícios.

80. Assim, elas se privam daquela amizade, a mais bela e a mais autenticamente natural, à qual aspiramos por ela mesma e por causa dela mesma, porque não possuem dentro de si o arquétipo do que é a realidade da amizade, sua qualidade e sua grandeza. Com efeito, cada um ama sua própria pessoa, não para receber de si os dividendos dessa afeição, mas porque sua pessoa em si lhe é cara. Se não transpusermos isso ao semelhante no domínio da amizade, jamais descobriremos um verdadeiro amigo, o qual é para nós como um outro nós mesmos.

81. Se verificamos, entre as aves, os peixes, os animais dos campos, domésticos, selvagens, primeiro que eles amam a si mesmos (sentimento que, evidentemente, nasce junto com todo ser animado), a seguir que buscam e desejam seres animados da mesma espécie aos quais se ligarem, e que fazem isso com manifestações de desejo e de amor bastante próximas às dos humanos, como é que a natureza não levaria ainda mais um homem a amar a si mesmo, e a buscar um outro homem cujo espírito se mesclaria ao seu de maneira tão íntima que os dois seriam quase um só?

XXII

82. Mas a maioria das pessoas, por ausência de discernimento, para não dizer por impudência, que­rem ter um amigo tal como não saberiam ser elas próprias: gostariam de receber de seus amigos o que não lhes dão. Convém, preliminarmente, sermos nós mesmos homens de bem, antes de buscarmos alguém semelhante a nós. Entre homens assim, a estabilidade na amizade, da qual falamos já há um bom tempo, poderá se consolidar contanto que, por um lado, os homens unidos pela afeição controlem suas paixões, enquanto os outros são subjugados por elas, e, por outro, se comprazam na equidade e na justiça, se apoiem mutuamente em tudo, nada exijam do outro a não ser honestidade e retidão; e não apenas se freqüentem e se amem, mas se respeitem. Pois a amizade carece de seu maior ornamento quando falta o respeito.

83. É portanto um erro pernicioso de certas pessoas imaginar que em amizade a porta está aberta a todos os abusos e a todos os atos indignos: a amizade nos foi dada pela natureza como auxiliar de nossas virtudes, não como cúmplice de nos­sos vícios, a fim de que a virtude, não podendo alcançar sozinha o soberano bem, o alcançasse ligada e apoiada à virtude de outrem. Se portanto, entre as pessoas, tal comunidade existe, existiu ou existirá, sua associação deve ser considerada como o melhor e o mais ditoso caminho rumo à perfeição natural.

84. Em tal círculo de amizade, afirmo, acham-se todos os bens que os homens julgam ser neces­sário buscar, consideração, glória, tranqüilidade de espírito e alegria, de modo que, quando esse círculo existe, a vida é feliz, e sem ele não poderia sê-lo. E como aí se encontra o melhor e o mais importante, se quisermos alcançá-lo temos de dedicar todos os nossos cuidados à virtude: sem ela, não obteremos nem a amizade nem qualquer desses bens dignos de ser cobiçados; aqueles que, tendo negligenciado a virtude, imaginam ter amigos, percebem que se enganaram tão logo uma grave dificuldade os obri­ga a colocar seus supostos amigos à prova.

85. Por todas essas razões - e cabe repeti-lo várias vezes é quando se pôde julgar que convém ligar-se, e não julgar após ter-se ligado.

Aliás, em muitos casos a negligência nos pune, sobretudo quando se trata de escolher e de ligar-se a amigos. Com efeito, tomamos nossas decisões demasiado tarde e agimos inoportunamente, apesar da advertência de um velho provérbio. Pois, implicados por diversos lados num tecido de relações cotidianas e profissionais, é repentina­mente, tropeçando em algum aborrecimento, que rompemos, em pleno curso, nossas amizades.

XXIII

86. Tamanho descuido em relação a uma coisa absolutamente necessária merece uma reprovação severa. A amizade, com efeito, é a única dentre as questões humanas cuja utilidade é unanimemente reconhecida por todos. A despeito disso muitos desprezam a própria virtude, dizendo que ela é ape­nas poeira nos olhos e ostentação; muitos olham a riqueza de cima e, contentes com pouco, encontram satisfação numa alimentação e num bem-estar de uma sobriedade refinada; quanto às honrarias, pelas quais alguns ardem de cobiça, quantos as desde­nham, a ponto de julgarem que não há nada mais vão, nada mais inconsistente! O mesmo em relação ao resto: o que se afigura a uns admirável, aos olhos de muitos outros não vale nada. Sobre a amizade, em troca, as pessoas todas têm um único e mesmo sentimento; os que se consagraram à política e os que se dedicam ao conhecimento e à ciência, os que administram tranquilamente seus negócios e os que se entregaram por inteiro aos prazeres: sem amizade a vida não é nada, pelo menos se quiser­mos, de um jeito ou de outro, viver como homens.

87. Pois a amizade se insinua, não sei como, em todas as existências e não admite nenhuma concepção de vida onde ela não entraria. Melhor ainda: imaginemos alguém de uma natureza tão rude e selvagem que deteste e evite o comércio dos homens, como foi o caso de um certo Tímon em Atenas, ao que consta: mesmo tal indivíduo não saberia resistir à necessidade de buscar alguém junto ao qual expelir a bile de sua amargura. Com­preenderíamos melhor ainda se porventura um deus nos tirasse da multidão dos homens, nos pusesse num lugar solitário e lá, embora nos fornecendo com fartura tudo o que a natureza pode desejar, nos privasse de toda possibilidade de rever humanos. Quem teria a alma suficientemente temperada para suportar esse gênero de vida, e para evitar que a solidão retirasse de seus prazeres todo o seu sabor?

88. Assim, é verdade o que o filósofo grego Arquitas de Tarento, creio, tinha o hábito de dizer, e que ouvi de nossos avós, que por sua vez o ouviram dos seus: “Suponhamos que alguém suba ao céu e lá penetre com o olhar a natureza do mundo e o esplendor dos astros: ele achará desagradável esse maravilhamento com o qual se encantaria se não tivesse alguém a quem contá-lo”. Assim, a natureza não ama o que é solitário e se apoia sempre numa espécie de tutor, porque na mais profunda amizade se acha também a mais profunda doçura.

XXIV

Ora, apesar da natureza nos transmitir por tan­tos sinais o que ela quer, busca e deseja, fazemos ouvidos moucos, não sei por que, e as advertências que ela nos prodigaliza escapam a nosso entendi­mento. Certamente, servimo-nos da amizade de numerosas e diversas formas, de modo que resultam outros tantos motivos de suspeitas e de vexações que compete ao sábio seja evitar, seja abrandar, seja suportar.

Em todo caso, há uma forma de suscetibilidade a corrigir, em amizade, para conservar-lhe ao mesmo tempo sua utilidade e sua confiabilidade: com frequência somos obrigados a fazer aos amigos advertências, e até mesmo repreensões, e cumpre que o amigo em questão as aceite, quando forem feitas numa boa intenção.

89. Entretanto, sem que eu compreenda bem a razão, o que disse um de meus amigos em Andria tem fundamento:

A complacência engendra os amigos, a verdade o ódio.

Funesta verdade, pois faz nascer o ódio que é o veneno da amizade: mas complacência mais funesta ainda, porque, ao tolerar as faltas, deixa o amigo deslizar em direção ao abismo; todavia, mais culpado é aquele que, não contente de des­denhar a verdade, deixa a complacência levá-lo a atos indignos. Em tudo isso, portanto, deve-se ponderar, procurando evitar tanto ser categórico na advertência quanto injurioso na repreensão,
24. Título de uma peça de teatro do dramaturgo Terêncio. mas que essa “complacência” - não relutamos em empregar a palavra de Terêncio - repouse sobre a cortesia e rejeite a adulação, auxiliar dos vícios, que não é digna de um amigo como tampouco de um homem livre. Uma coisa é viver com um tirano, outra com um amigo.

90. Quanto àqueles cujos ouvidos se fecharam tanto à verdade que são incapazes de ouvi-la pela boca de um amigo, pode-se desesperar de sua sal­vação. A esse respeito, Catão, como sempre, disse uma frase famosa:

“As vezes é mais compensador ter que lidar com rudes inimigos que com certos amigos, apa­rentemente melífluos: com frequência aqueles dizem a verdade, estes jamais. ”

E o mais surpreendente nesse caso é que as pessoas que advertimos não ficam tristes com o que deveria penalizá-las, mas zangadas com o que não deveria tocá-las; pois a falta cometida não as aborrece em absoluto, em troca têm dificuldade de admitir repreensões: o que caberia, no entanto, é sofrermos por termos sido culpados de um delito, e alegrarmo-nos por nos infligirem uma correção.

XXV

91. Fazer e receber advertências é portanto o critério da amizade verdadeira, contanto seja feito com isenção de espírito, sem maldade, e que o outro aceite pacientemente, sem irritar-se: assim devemos nos persuadir de que não há flagelo maior na amizade que a adulação, a bajulação, a baixa complacência. Pois, chame-se com os nomes que se quiser, é preciso estigmatizar esse vício das pessoas frívolas e hipócritas, cuja palavra busca sempre agradar, jamais exprimir a verdade.

92. Como a simulação em todos os domínios é nefasta - já que ela desvia da verdade nosso julga­mento e o deforma - , ela repugna particularmente à amizade: ela arruina a verdade, sem a qual a palavra amizade não tem o menor valor. Pois, se a força da amizade reside no fato de reunir de certo modo vários espíritos num só, como isso poderia se realizar-se dentro de cada um não se pudesse encontrar um espírito único e estável, mas volúvel, inconstante, múltiplo?

93. Com efeito, que pode haver de mais ins­tável, de mais errante que um espírito que gira como um catavento ao sabor das impressões, das decisões de outra pessoa, e até mesmo de um franzir de cenhos ou de um sinal de cabeça?

Dizem não, digo não. Sim? sim!

Em suma, dei-me a mim mesmo como lei consentir a tudo, diz também Terêncio, mas desta vez através do personagem de Gnathon, um tipo de amigo que geralmente é um tanto leviano freqüentar.

94. No entanto há muitos como Gnathon, e, ainda que superiores a ele pela posição, a fortuna ou a reputação, sua complacência permanece insuportável, quando sua inconsistência é acrescida de um certo prestígio.

95. Mas identificar o adulador ou o amigo verdadeiro, e distingui-los, é tão fácil, com um pouco de aplicação, quanto discernir tudo o que é falsidade e imitação em geral do que é autêntico e verdadeiro. A assembléia do povo, em parte consti­tuída por gente bastante ignorante, sabe facilmente reconhecer o que diferencia o demagogo, isto é, um cidadão complacente e irresponsável, e o cidadão responsável, sério e ponderado. 

96. A que adulações, recentemente, não recor­reu Caio Papírio para influenciar a dita assembléia, quando ele apresentava uma lei sobre a reeleição dos tribunos da plebe! Nós o combatemos; mas não direi nada de meu papel: prefiro falar de Cipião.

Que gravidade, deuses imortais, que grandeza havia em seu discurso: facilmente se teria acreditado ser ele o chefe do povo romano, e não um de seus ci­dadãos! Mas vós estáveis lá e esse discurso circula nas mãos de todos. A tal ponto que uma lei vinda do povo foi rechaçada pelo voto do povo. Para voltar a um exemplo que me concerne: vós recordais, na época do consulado de Quinto Máximo, irmão de Cipião, e de Lúcio Mancino, o quanto se afigurava popular a lei de Caio Licínio Crasso sobre o es­tatuto sacerdotal. Nela, a nomeação dos membros do colégio era entregue à arbitragem do povo. E foi ele o primeiro a querer, no fórum, dirigir-se ao povo para consultá-lo. No entanto, seu discurso aliciador não pesou muito face à religião dos deu­ses imortais, defendida por mim. Isso aconteceu quando eu era pretor, cinco anos antes de ser eleito ao consulado: assim, a própria causa, bem mais do que uma grande autoridade da defesa, assegurou o feliz desfecho desse caso.

 XXVI

97. Se nesse palco que é a assembléia, onde ficções e suposições dominam a cena, a verdade conserva seu valor, certamente à condição de ser revelada e demonstrada, como se deverá agir em relação à amizade - da qual a verdade é o único critério, e na qual, se não consentimos em nos mos­trar, como se diz, de coração aberto, nada haverá de confiável, de positivo, em amar e ser amado - quan­do se ignora o quanto ela corresponde à verdade? Essa complacência, porém, mesmo perniciosa, não pode prejudicar ninguém, a não ser aquele que a acolhe e faz dela suas delícias. Disso resulta que o mais autocomplacente, o mais contente consigo, será também o que dará mais ouvidos aos tagarelas complacentes.

98. Claro está que a virtude também ama a si mesma: ela se conhece, evidentemente, bem de perto, e sabe a que ponto merece ser amada. Mas, de minha parte, não é da virtude, no sentido estrito, que falo, mas da concepção que as pessoas fazem dela. As pessoas que podem se honrar da referida virtude são menos numerosas que as que querem se passar por tais. São estas que a complacência afaga agradavelmente: tão logo lhes é dirigida uma velhacaria que vai no sentido do que elas querem, ficam convencidas de que essas balelas são a prova de seu mérito. Portanto é nulo esse tipo de amizade, no qual um não quer ouvir a verdade, enquanto o outro está pronto a mentir. A complacência dos parasitas de comédia não nos pareceria tão divertida se os fanfarrões não existissem:

Tais realmente metem muito reconhecimento ?

Teria sido suficiente responder: “Muito...” “Enormemente!”, responde o outro: o obsequioso jamais perde a ocasião, não importa em que domínio, de encarecer ainda mais os desejos de grandeza da pessoa que ele quer envolver.

99. Por conseguinte, mesmo que essa triste e vã adulação não tenha muito crédito senão junto àqueles que se comprazem nela e a atraem, convém prevenir as pessoas mais ponderadas e mais sérias a prestarem atenção para não se deixarem cair na armadilha de uma complacência hábil. O adulador que manobra abertamente não pode passar desper­cebido, a não ser de um perfeito idiota; mas para evitar que o adulador hábil, oculto, consiga se in­sinuar, é preciso ser muito crítico. Pois é bem mais difícil detectar aquele que pratica a complacência pela contradição: para adular, ele faz de conta que contesta, depois entrega as armas no último minuto dando a impressão de capitular totalmente, para que aquele com quem discutiu pareça ter sido mais perspicaz que ele. Mas que há de mais vergonhoso que ser logrado? Para que isso não aconteça, é preciso estar muito viligante.

Hoje vais me envolver e lograr magistralmente, como àqueles estúpidos velhos de comédia!...

100. Mesmo nas peças de teatro, é particular­mente estúpida a figura do velho imprevidente e crédulo! Mas pergunto-me agora por que razão, tendo partido da amizade dos homens perfeitos, ou seja, dos sábio - falo daquela sabedoria que parece poder descer entre os humanos a discussão derivou para as amizades de baixa categoria. Voltemos portanto a nosso primeiro debate, que concluiremos em breve.

XXVII

A virtude, insisto: a virtude, meus bons Caio Fânio e Quinto Múcio, ao mesmo tempo nos concilia as amizades e no-las conserva. É nela que reside a concordância geral de todas as coisas, a estabilidade, a constância: quando elevou e fez resplandecer sua luz, e depois percebeu e reconhe­ceu a mesma luz em outrem, ela se aproxima dele e recebe, em recompensa, uma parte do brilho que vem do outro; no centro dessas interferências, passa a brilhar, seja a figura do amor, seja a figura da amizade. Ambas, com efeito, derivam do verbo amar; entretanto, amar não é senão querer bem o ser que se ama, sem que se trate de preencher uma falta ou de obter um benefício: o qual desabrocha sozinho, no contexto da amizade, mesmo que de maneira nenhuma tenha sido buscado.

101. Essa afeição, no tempo de nossa juven­tude, nós a tivemos por homens velhos. Lúcio Paulo, Marco Catão, Caio Galo, Públio Nasica, Tibério Graco, o sogro de nosso Cipião. Velhos por nossa vez, encontramos uma forma de quietu­de na afeição dos jovens, a vossa, ou a de Quinto Tuberão; na verdade, experimento igualmente um prazer genuíno na afetuosa assiduidade dos jovens Públio Rutílio e Aulo Virgínio. E posto que a vida e a natureza são articuladas de tal modo que uma geração suceda à outra, é acima de tudo desejável acompanhar os que partiram ao mesmo tempo que nós, e chegar com eles, como se diz, ao final da corrida.

102. Mas, como o humano é frágil e perecível, teremos sempre de buscar ao redor de nós pesso­as que amaremos e por quem seremos amados, privada de afeição e de simpatia, a vida não tem qualquer alegria. Para mim, afirmo, Cipião, embora subitamente arrebatado, vive e viverá sempre: amei a virtude desse homem brilhante, e essa virtude não se extinguiu. Não sou o único a ver seu brilho passar diante de meus olhos, eu que sempre a tive a meu alcance, firme como uma lanterna: ela brilhará e será um farol para nossos descendentes. Ninguém jamais conceberá ambições ou esperanças um pou­co elevadas sem pensar que deve tomar por modelo a memória e a imagem de Cipião.

103. Em suma, não há nada, em tudo o que recebi da fortuna ou da natureza, que eu possa comparar à sua amizade: nela eu encontrava uma comunidade de concepções políticas, conselhos para meus assuntos privados, um descanso cheio de satisfação. Jamais o ofendi no menor detalhe, tanto quanto pude perceber; nada ouvi dele que eu não quisesse ter ouvido. Tínhamos uma única e mesma casa, o mesmo estilo de vida, e isso nos aproximava; e não apenas o tempo passado no exército, mas também nossos passeios no campo nos reuniam.

104. Que dizer também de nossos esforços para saber sempre mais e para aprender coisas novas, estudos que nos mantiveram afastados do olhar das multidões e ocuparam nossas horas de lazer?

Se a recordação dessas imagens, a emoção que a elas permanece ligada, morresse juntamente com Cipião, eu seria totalmente incapaz de suportar a falta de um homem que foi o mais próximo de mim, e que eu mais amava. Mas essas imagens não se extinguiram, minha meditação e minha memória tendem antes a conservá-las e aumentá-las, e, mesmo que eu fosse radicalmente despojado delas, a própria idade me traria um poderoso consolo. Pois, de todo modo, doravante não terei mais de passar muito tempo no meio dessas saudades; todo sofrimento breve é obrigatoriamente suportável, mesmo que intenso.

Eis o que eu tinha a dizer sobre a amizade. E como não há amizade sem virtude, exorto-vos a reservar à virtude tal importância que, exceto ela, em vosso pensamento nada seja preferível à amizade.

Filosofia - Estoicismo
10/20/2021 4:13:00 PM | Por Marcus Tullius Cicero
Saber envelhecer

Qual será então minha recompensa, Tito, se alivio tua pena e se apazíguo o tormento que te faz sofrer? Pois me é permitido, não é mesmo, Atico?, dirigir-me a ti com os mesmos versos que os dirigidos a Flaminino, esse homem sem recursos mas cheio de boa-fé. Estou certo, de resto, que não irás. como Flaminino, te inquietar assim, Tito, dias e noites1. Conheço tua ponderação e a impavidez de teu caráter; sei igualmente que não trouxeste de Atenas so­ mente um sobrenome, mas também uma cultura e uma sabedoria. Suspeito porém que te perturbas às vezes mais que eu com o rumo que tomam os acontecimentos2. Consolar-te seria um empreendimento demasiado árduo, deixemo-lo para mais tarde.

Em troca, hoje pareceu-me útil escrever-te sobre a velhice.

Com efeito, gostaria que fôssemos aliviados, tu e eu, desse fardo que já nos pesa ou - fatalmente - nos pesará. Um fardo que suportas e suportarás, como sa­bes tudo suportar, com paciência e razão. Mas isso não poderia te impedir de ser o objeto da dedicatória desta obra sobre a velhice que eu tinha vontade de escrever. Ela será útil a nós dois. No que me concerne, senti tal prazer em escrevê-la que esqueci os inconvenientes dessa idade; mais ainda, a velhice afigurou-se-me re­pentinamente doce e harmoniosa. Jamais os benefícios da filosofia serão suficientemente enaltecidos! Contanto seja praticada, ela permite atravessar sem desagrado todas as épocas da vida. Mas, de tudo isso, falamos com frequência e tomaremos a falar ainda; o livro que te dedico aqui trata da velhice. Atribuí as palavras que ele enuncia não a Titono3, como o fez Aríston de Ceos - pois lhe dariam pouco crédito sobre esse assunto mas ao velho Marco Catão. Para dar mais força à exposição, coloquei frente a ele Lélio e Cipião, maravilhados ante sua capacidade de suportar a velhice.

E portanto a eles que Catão responde. Se sua erudição te parece aqui maior que em seus livros, imputa isto à literatura grega que ele
muito admirava, como sabemos, em seus velhos dias. Mas por que dizer mais? Deixemos Catão te expor tudo o que penso da velhice.

Cipião: Gaio Lélio e eu admiramos tua imensa sabedoria em muitos domínios, Catão! Mas uma coisa nos espanta acima de tudo: jamais pareceste achar a velhice penosa. No entanto, a maior parte dos velhos diz que ela é mais pesada de suportar que o Etna!

Catão: Pareceis vos maravilhar. Cipião e Lélio, de uma coisa em verdade bem normal. Por certo, os que não obtêm dentro de si os recursos necessários para viver na felicidade acharão execráveis todas as idades da vida. Mas todo aquele que sabe tirar de si próprio o essencial não poderia julgar ruins as necessidades da natureza. E a velhice, seguramente, faz parte delas! Todos os homens desejam alcança-la, mas, ao ficarem velhos, se lamentam. Eis aí a inconsequência da estupidez! Queixam-se de que ela chegue mais furtivamente do que a esperavam. Quem então os forçou a se enganar assim? E por qual prodígio a velhice sucederia mais depressa à adolescência do que esta última sucede à infância? Enfim, por que diabos a velhice seria menos penosa para quem vive oitocentos anos do que para quem se contenta com oitenta? Uma vez transcorrido o tempo, por longo que seja, nada mais consolará uma velhice idiota...

Vós que costumais admirar minha sabedoria - possa ela ser digna de vossa opinião e de meu nome! -, reparai que somos sábios se seguimos a natureza como um deus, curvando-nos às suas coerções. Ela é o melhor dos guias. Aliás, não seria verossímil que, tendo disposto tão bem os outros períodos da vida, ela se precipitasse no último ato como o faria um poeta sem talento. Simplesmente, era preciso que houvesse um fim; que, à imagem das bagas e dos frutos, a vida, espontaneamente, chegada sua hora, murchasse e caísse por terra. A tudo isso o sábio deve consentir pacificamente. Pretender resistir à natureza não teria mais sentido do que querer - como os gigantes - guerrear contra os deuses.

Lélio: De pleno acordo, Catão! Mas já que esperamos e mesmo queremos nos tomar velhos, ficaríamos felizes, Cipião e eu, de aprender con­tigo (e com muito tempo de antecedência) como suportar da melhor maneira os assaltos progressivos da idade.

Catão: Responderei de bom grado, Lélio, so­ bretudo se, como dizes, isto vos é agradável.

Lélio: Sim, nós o desejamos, se isso não te aborrece. Gostaríamos que, após a longa estrada que percorreste e que teremos de percorrer por nossa vez, nos descrevesses o lugar onde chegaste.

Catão: Farei o melhor possível, Lélio. Com frequência escutei os lamentos das pessoas de mi­ nha idade. (Cada qual com seu igual, diz um velho provérbio!) Assim ouvi Gaio Salinator e Espúrio Albino, dois antigos cônsules de minha geração, queixarem-se amargamente de estarem privados dos prazeres sem os quais, supunham, a vida nada mais vale; ou, ainda, de serem agora negligenciados pelos mesmos que os honravam outrora. Escutan­ do-os, eu tinha a impressão de que se enganavam de culpado. Será de fato a idade que devemos in­ criminar? Nesse caso, eu também deveria padecer dos mesmos inconvenientes, e, comigo, todas as pessoas idosas. Ora, sei de muitos que vivem sua velhice sem jeremiadas, aceitam alegremente estar liberados da carne e são respeitados pelos que os cercam. É portanto ao caráter de cada um, e não à velhice propriamente, que devemos imputar todas essas lamentações. Os velhos inteligentes, agradá­ veis e divertidos suportam facilmente a velhice, ao passo que a acrimônia, o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade.

Lélio: Certamente, Catão! Mas poderiam te objetar que teu poder, tua riqueza e teu prestígio tomam tua velhice mais suportável. Não é o caso da maioria...

Catão: Há verdade no que dizes, Lélio, mas isso não explica tudo. Conta-se que um serifiano [habitante da ilha grega de Serifos], querendo discutir com Temístocles, disse-lhe que este devia seu renome menos à sua própria glória que à de sua pátria. Temístocles respondeu: “Por Hércules! Se eu fosse serifiano e tu ateniense, nem por isso serias mais ilustre”. Pode-se raciocinar do mesmo modo a propósito da velhice. Na extrema indigência, mes­mo o sábio não poderia considerá-la leve; quanto ao imbecil, ele ajulgará pesada mesmo na riqueza.

Para dizer tudo, Cipião e Lélio, as melhores armas para a velhice são o conhecimento e a prática das virtudes. Cultivados em qualquer idade, eles dão frutos soberbos no término de uma existência bem vivida. Eles não somente jamais nos abando­nam, mesmo no último momento da vida - o que já é muito importante - como também a simples consciência de ter vivido sabiamente, associada à lembrança de seus próprios benefícios, é uma sensação das mais agradáveis.

Quando eu era jovem, amei como a um compa­nheiro de minha idade o velho Quinto Máximo4, o que reconquistou Tarento. Havia nesse homem um ar de gravidade jovial e cortês que não se perdera com os anos. Certamente, no começo de nossa ami­zade, embora de uma idade respeitável, ele não era ainda muito velho. Seu primeiro consulado datava de um ano após meu nascimento; jovem recruta, eu o acompanhei diante de Cápua durante seu quarto consulado, e depois, cinco anos mais tarde, diante de Tarento. Questor, exerci esse cargo sob o con­sulado de Tuditano e Cetego, enquanto ele. então muito velho, fazia votar a lei Cincia destinada a proibir presentes e gratificações aos advogados. Não obstante sua idade, ele conduzia ainda a guerra como um jovem, mas sabendo temperar o ímpeto juvenil de Aníbal. Nosso amigo Ênio exprime tudo isso soberbamente:

Um homem, dando tempo ao tempo, soube restabelecer nosso governo. A todos os ru­mores, preferiu a salvação. E a glória desse herói resplandeceu assim ainda mais.

E que controle, que habilidade na tomada de Tarento! Salinator, que se refugiara na cidadela após ter perdido a cidade, gabou-se diante dele dizendo: “Foi graças a mim, Quinto Fábio, que retomaste Tarento”. Ao que o ouvi responder soltando uma gargalhada: “Mas claro! Se não a tivesses perdido, eu jamais a teria retomado”. Ele foi tão brilhante sob a toga quanto sob o uniforme. Por ocasião de seu segundo consulado, apesar da apatia de seu colega Espúrio Carvílio, resistiu o quanto pôde ao tribuno da plebe Gaio Flamínio, que queria, contra a opinião do Senado, distribuir as terras públicas do Picenum e da Gália aos particulares. Quando foi áugure, ousou dizer que se agia sempre sob bons auspícios ao buscar a salvação do Estado, ao passo que todas as decisões que colocavam o Estado em perigo eram necessariamente tomadas sob maus auspícios.

Desse homem conheço numerosos fatos e gestos notáveis, mas nada é mais digno de admiração que a maneira como suportou a morte de seu filho, um ex-cônsul de grande renome. O elogio fúnebre que pronunciou nessa ocasião circulou muito; quando o lemos, que filósofo encontraria graça aos nossos olhos? Esse homem não era apenas admirável em público, à vista de todos, era mais sublime ainda na vida privada, em sua casa. Que conversação! Que julgamento! Que conhecimento da Antiguidade! Que ciência do direito augural! Singularmente culto para um romano, ele conhecia, além da his­tória romana, a do mundo inteiro. De minha parte, saboreava apaixonadamente suas conversas, como se eu pressentisse o que ia acontecer, a saber: que, ele morto, eu não mais teria mestre.

Por que ter falado tão longamente de Máximo? Para vos mostrar a que ponto seria um erro julgar infeliz sua velhice. Por certo, nem todo mundo tem a chance de ser um Cipião ou um Máximo, que colecionam as cidades tomadas de assalto, os combates vitoriosos em terra ou no mar. as guerras conduzidas até a vitória... Mas uma vida tranqüila, honorável e distinta pode do mesmo modo levar a uma velhice pacífica e suave. Tal foi, dizem, a de Platão, que morreu aos oitenta anos em pleno trabalho de escrita; ou ainda a de Isócrates, que afirma ter redigido seu livro O Panatenaico em seu nonagésimo quarto ano e que viveu, depois, cinco anos ainda. Seu mestre, Górgias de Leôncio, viveu aliás cento e sete anos sem interromper jamais seus estudos nem suas pesquisas. Como lhe perguntas­ sem por que se obstinava em viver tanto tempo, ele respondeu: “Nada tenho a reprovar à velhice”.

Luminosa resposta, e digna de um homem culto!

São suas próprias faltas, suas insuficiências, que os imbecis imputam à velhice. Não é o caso de Ênio, que citei há pouco. Ênio, como um cavalo valente, muitas vezes vitorioso na arena de Olímpia e que, cumulado de velhice, hoje repousa...

Ele compara sua velhice à de um cavalo va­lente e vitorioso! Podeis aliás lembrar-vos dele facilmente: dezoito anos após sua morte foram eleitos os dois cônsules Tito Flaminino e Mânio Acílio. Foi portanto sob o segundo consulado de Cepião e de Filipo que ele morreu. Quanto a mim, aos sessenta e cinco anos defendi, com voz forte e a plenos pulmões, a lei Voconia5, enquanto Ênio, aos setenta - pois ele chegou a essa idade -, su­portava tão bem a pobreza e a velhice, esses dois fardos reputados os mais pesados, que quase dava a impressão de se alegrar com elas.

O que reprovam à velhice?

Pensando bem, vejo quatro razões possíveis para acharem a velhice detestável. 1) Ela nos afastaria da vida ativa. 2) Ela enfraqueceria nosso corpo. 3) Ela nos privaria dos melhores prazeres. 4) Ela nos aproximaria da morte.

Muito bem. Se estais de acordo, examinemos essas razões e vejamos um pouco a justeza desses argumentos.

A velhice afasta da vida ativa e subtrai dos as­suntos públicos? De quais? Daqueles que, sozinho, um homem jovem e vigoroso pode enfrentar? Não há assuntos públicos que, mesmo sem força física, os velhos podem perfeitamente conduzir graças à sua inteligência? Porventura restava de braços cru­zados Quinto Máximo? De braços cruzados também Lúcio Paulo, o Macedônio, teu próprio pai, o sogro do excelente homem que foi meu filho? E os outros velhos, os Fabrício, Cúrio ou Coruncânio, quando punham sua sabedoria e sua autoridade a serviço do Estado, não faziam nada?

Ápio Cláudio6 era não apenas velho, mas cego. Isto porém não o impediu de se insurgir quando o Senado se preparava para assinar o tratado de paz com Pirro, nem de pronunciar estas fortes palavras que Ênio transcreveu em versos:

Fossa razão, até então, era correta, Onde foi que ela se desencaminhou para ter se tornado assim e outras coisas mais, ditas sem rodeios!

Vós conheceis o poema de Ênio. Mas pode-se ler tam­bém o discurso autêntico de Ápio Cláudio. Esse feito notável se produzia dezessete anos após seu segundo consulado. Ora, dez anos haviam trans­corrido entre os dois; além disso, sabe-se que ele havia sido inicialmente censor, antes de seu pri­meiro consulado. Outras tantas provas de que era realmente muito velho no momento dessa guerra contra Pirro... E no entanto, é exatamente assim que o descreve a tradição.

Os que negam à velhice a capacidade de tomar parte dos assuntos públicos não provam nada, por­tanto. É como se dissessem que, num barco, o piloto repousa, tranquilamente sentado na popa, apoiado ao timão, enquanto os outros escalam os mastros, se ocupam sobre o convés ou esvaziam a latrina. Em verdade, se a velhice não está incumbida das mesmas tarefas que a juventude, seguramente ela faz mais e melhor. Não são nem a força, nem a agili­dade física, nem a rapidez que autorizam as grandes façanhas; são outras qualidades, como a sabedoria, a clarividência, o discernimento. Qualidades das quais a velhice não só não está privada, mas, ao contrário, pode muito especialmente se valer.

Porventura julgais-me ocioso, a mim que estive implicado em todo tipo de guerras - como soldado, tribuno, legado ou cônsul -, porque não mais participo de nenhuma? Na verdade, doravante sugiro ao Senado as campanhas a empreender e as táticas a empregar; previno os desígnios som­brios de Cartago recomendando que lhe declarem guerra. Cartago que só cessarei de temer após sua destruição...

Possam os deuses te permitir, Cipião, levar a cabo todos os empreendimentos de teu avô!7 Eis já trinta e três anos que ele morreu, mas a lembrança desse herói corre de um ano a outro. Morreu um ano antes que eu fosse censor e nove anos após meu consulado, durante o qual ele próprio foi eleito cônsul pela segunda vez. Acaso ele lamentaria ter ficado velho, se tivesse vivido cem anos? Por certo que não. Sem dúvida, seria incapaz de atacar, pular, saltar, lançar o dardo ou brandir sua espada no corpo a corpo... Em compensação, seguramente se serviria de sua reflexão e de seu julgamento. Se essas qualidades não existissem entre os velhos, nossos antepassados jamais teriam chamado o conselho supremo Senado, isto é, “assembléia dos anciãos” .

Em Esparta, os magistrados mais importantes são “velhos” que obtêm inclusive sua glória desse nome. E se vos derdes o trabalho de aprender um pouco de História estrangeira, vereis que numero­sos Estados desmoronaram por culpa de homens jovens, e que outros foram mantidos e restabelecidos por velhos.

Vejamos! Como pudestes deixar vosso país deteriorar-se tão rapidamente?

A essa questão colocada pelo poeta Névio, em O Jogo, a primeira das respostas é sempre:

Sob a influência de novos oradores, de jovens loucos!

Sem dúvida alguma, a irreflexão é própria da idade em flor, e a sabedoria, da maturidade.

O fio da lembrança

Certo. Mas com a velhice, dirão, a memória declina!

É o que acontece, com efeito, se não a culti­vamos ou se carecemos de vivacidade de espírito. Temístocles conhecia de cor o nome de todos os seus concidadãos; pensais que, ao envelhecer, ele passou a chamar Aristides de Lisímaco? No que me concerne, conheço bem o nome de meus con­temporâneos e também o de seus pais e avós. Ao ler os epitáfios funerários, não temo perder o fio da lembrança, como se diz; muito pelo contrário, essa leitura me refresca a memória. E, além disso, jamais vi um velho esquecer o lugar onde escondeu seu dinheiro. Os velhos se lembram sempre daquilo que os interessa: promessas sob caução, identidade de seus devedores e credores, etc.

E os jurisconsultos? Os pontífices? Os áugures? Os filósofos? Certamente são idosos, mas que me­mória! Aliás, os velhos a conservam tanto melhor quanto permanecem intelectualmente ativos. Isso é tão verdadeiro para os homens públicos, os homens célebres, quanto para os particulares tranqüilos e sem ambição. Quando já era bastante idoso, Sófocles escrevia ainda tragédias. Por esse motivo, acusaram-no de negligenciar seus negócios fami­liares e seus filhos o fizeram comparecer à justiça. Assim como é corrente, em Roma, retirar aos pais julgados incapazes a administração de seus bens, eles queriam que os juizes, levando em conta seu desatino, o impedissem de gerir seu patrimônio. Conta-se então que o velho, lendo a estes últimos a peça que acabava de escrever - Édipo em Colona -, perguntou-lhes se, em sua opinião, era a obra de um débil. E foi após essa leitura que os juizes decidiram absolvê-lo.

Assim, a idade o constrangeu a cessar sua atividade? E o que dizer em relação a Homero ou Hesíodo. Simonides ou Estesicoro? E em relação a todos de quem já falei? E em relação a Isócrates e Górgias? E os primeiros filósofos, Pitágoras e Demócrito, e Platão, e Xenócrates, e depois deles Zenão e Cleantes ou o estoico Diógenes que vós mesmos vistes em Roma, acaso um único deles viu-se reduzido à inatividade pela velhice? Ao contrário, não estudaram e trabalharam até o fim?

A lira de Sócrates

Seja! Ponhamos de lado esses divinos estu­dos! Eu poderia igualmente vos citar camponeses romanos do país sabino, vizinhos e amigos meus que, por nada deste mundo, quereriam se abster dos principais trabalhos agrícolas: semear, colher ou enceleirar as colheitas. Também entre eles isso não é muito espantoso: ninguém é bastante velho para não esperar viver um ano mais. E é sem esperança precisa de se beneficiarem que eles se entregam a esses trabalhos:

Ele planta árvores que crescerão para outros, como diz nosso caro Cecílio Estácio em Os Sinefebos.

Não, não há nenhuma hesitação nesse campo­nês, por mais velho que seja, se lhe perguntassem para quem semeia:

Para os deuses imortais que querem que eu, tendo recebido esses bens de meus ancestrais, os transmita a meus descendentes.

Cecílio Estácio é muito mais convincente ao fazer falar assim esse velho preocupado com a geração futura, do que quando escreve:

Por Pólux! Mesmo se não trouxesses nenhuma outra calamidade, velhice, já é muito, quando se vive muito tempo, nos obrigares a sofrer tantos desagrados. é esquecer as satisfações.

Aliás, os adolescentes são vítimas dos mesmos desagrados... Mas Cecílio está redondamente en­ganado quando nos diz:

Pior, na velhice, é sentir que desagradamos a todo o mundo.

O certo seria agradar e não desagradar! Se os velhos veem encanto nos adolescentes de boa natureza, se a velhice é aliviada pela deferência da juventude, os adolescentes, por seu lado, apreciam os preceitos dos velhos que sabem lhes dar o gosto das virtudes morais. No que me concerne, tenho a impressão de vos ser tão agradável quanto o sois para mim.

Assim, percebeis que, longe de ser passiva e inerte, a velhice é sempre atarefada, fervilhante, ocupada em atividades relacionadas com o passado e os gostos de cada um. E certos velhos, em vez de se repetirem, continuam mesmo a estudar coisas novas. Sólon, por exemplo, se deleita, em seus versos, de aprender todo dia alguma coisa nova, ao envelhecer. Fiz como ele, descobrindo a literatura grega numa idade avançada. Entreguei-me a esse estudo com avidez, como se quisesse estancar uma sede premente. Recolhi todos os exemplos que vos cito aqui. Ao ficar sabendo que Sócrates agiu do mesmo modo estudando a lira, cogitei fazer o mesmo. (Os antigos gostavam de dedicar-se à lira.) Mas foi à literatura que finalmente consagrei meus esforços.

As forças da idade

A falta de vigor. É o segundo inconveniente suposto da velhice. Confesso não sentir essa falta; tampouco quando adolescente eu lamentava não possuir a força do touro ou do elefante. É preciso servir-se daquilo que se tem e, não importa o que se faça, fazê-lo em função de seus meios. Que frase mais pungente a de Mílon de Crotona! Envelhecido, e observando no estádio atletas em treinamento, eis que ele olha seus próprios bíceps e exclama num lamento: “Ai, os meus estão agora arruinados!”. Não são apenas teus bíceps que estão arruinados, imbecil, mas tu mesmo! Pois não é a ti mas a teus bíceps e abdominais que devias teu renome. Em vão buscar-se-ia um pensamento desse gênero num Sexto Elio, ou, muitos anos antes dele, num Tibério Coruncânio, ou, mais recentemente, num Públio Crasso. Ao formularem regras de direito para seus concidadãos, estes permaneceram clarividentes até seu último suspiro.

É antes para o orador que eu temeria os incon­venientes da velhice. Seu ofício, com efeito, exige não apenas espírito mas também pulmões sólidos e força física. É verdade que, não sei por qual proces­so, o timbre da voz, quando envelhecemos, adquire um certo brilho. De minha parte, e vós sabeis minha idade, não perdi minha voz. Todavia, é bom que um homem idoso se exprima pausada e suavemente. Aliás, o discurso tranqüilo de um velho eloqüente basta às vezes para reter sua audiência. E, se não se consegue isso, ao menos pode-se dar (como o estou fazendo) lições a um Cipião e a um Lélio. Que há de mais agradável que uma velhice cercada de jovens estudiosos?

Reconhecer-se-á à velhice suficiente vigor para instruir os adolescentes, para formá-los e prepará-los aos deveres de seu futuro encargo? E que outra tarefa mais bela do que esta? Em minha opinião, Cneu e Públio Cipião8, assim como teus dois antepassados Lúcio Emílio Paulo e Cipião, o Africano, tinham sorte de estarem cercados de jovens de qualidade. Jamais deveríamos lamentar os que ensinam os bons princípios, mesmo quando suas forças declinam ou enfraquecem. Aliás, esses enfraquecimentos físicos são com frequência mais imputáveis aos excessos da juventude que aos da idade madura. A herança de uma juventude volup­tuosa ou libertina é um corpo extenuado.

Numa frase que lhe atribui Xenofonte, o ve­lho Ciro, moribundo, assegura que não se sentia, envelhecido, mais fraco que em sua juventude. Lembro-me de ter visto, em criança, o quanto Lúcio Metelo havia conservado forças, ele que, nomeado grande pontífice após seu segundo con­sulado, exerceu seu sacerdócio durante vinte e dois anos, com tanto vigor que não tinha a lamentar sua juventude.

Enfim, nada direi de mim mesmo, embora essa tentação seja própria dos velhos e em geral a perdoem. Vós observastes que, em Homero, Nestor não cessa de exibir seus méritos. Vendo crescer uma terceira geração, ele não teme, ao cobrir a si próprio de elogios merecidos, passar por presunçoso ou tagarela. Como o diz Homero:

De sua boca escorriam palavras mais doces que o mel.

Para essa espécie de doçura não há nenhuma necessidade de força física. Agamêmnon, o chefe dos gregos, teria aliás preferido ter a seu lado dez Nestor que dez Ajax. E sua convicção era certa: se os tivesse tido, Troia logo seria conquistada.

Um boi sobre os ombros

Voltemos a mim. Estou em meu octagésimo quarto ano de vida e, claro, gostaria de poder me glorificar do mesmo modo que Ciro. Mas sejamos francos: não sou mais o homem vigoroso que foi o simples soldado, o questor durante a guerra Púnica, o cônsul na Espanha ou ainda, quatro anos mais tar­de, o tribuno militar combatendo nas Termópilas sob o consulado de Mânio Acílio Glabrião. No entanto, como podeis constatá-lo, a velhice não me exauriu nem me abateu completamente. E ninguém pode me censurar um enfraquecimento qualquer: nem a Cú­ ria, nem a tribuna dos oradores, nem meus amigos, meus clientes ou meus hóspedes. Com efeito, jamais assumi aquele provérbio muito antigo e famoso que recomenda ser velho cedo se quisermos sê-lo por muito tempo. De minha parte, prefiro ser velho por menos tempo do que sê-lo prematuramente. Por essa razão, j amais recusei uma conversa a ninguém.

Ah, evidentemente, tenho menos força que cada um de vós dois! Mas vós também não tendes o vigor do centurião Tito Pôncio. Isso quer dizer que ele %os é superior? O essencial é usar suas forças com parcimônia e adaptar seus esforços a seus próprios meios. Então não sentimos mais frustração nem fraqueza. Conta-se que Mílon fez sua entrada no estádio de Olímpia carregando um boi sobre os ombros. O que vale mais? Ter esse vigor físico ou aquele, inteiramente intelectual, de Pitágoras? Em suma, usemos tal vantagem quando a tivermos e não a lamentemos quando ela desapareceu. Acaso os adolescentes deveriam lamentar a infância e depois, tendo amadurecido, chorar a adolescência? A vida segue um curso muito preciso e a natureza dota cada idade de qualidades próprias. Por isso a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos, a maturidade da velhice são coisas naturais que devemos apreciar cada uma em seu tempo.

Suponho que sabes, Cipião, o que ainda é capaz de fazer Masinissa, rei da Numídia9 aos noventa anos. Quando ele empreende uma viagem a pé, segue até o fim sem montar a cavalo; quando é a  cavalo que viaja, jamais desce dele. Quer chova ou faça frio, vai com a cabeça descoberta. Seu corpo é seco e vigoroso. Assim ele assume todos os deveres e os encargos de um rei. Isso prova que o exercício físico e a temperança permitem conservar até na velhice um pouco da resistência de outrora.

A velhice seria sem forças?

Mas ninguém exige dela ser forte! As leis e os costumes são feitos de modo a dispensarem nossa idade dos encargos que exigem um mínimo de vigor. Assim jamais nos exigem ir além de nossas forças, permitem-nos mesmo permanecer aquém. Objetar-me-ão que muitos velhos são tão fracos que não podem mais sequer assumir qualquer dos encargos ligados a uma função ou simplesmente à vida. Mas esse defeito não é próprio da velhice; é uma questão de saúde. Como era fraco teu pai adotivo, o filho de Cipião, o Africano! Que saúde precária ou mesmo nula! Apesar disso, ele foi a segunda chama da cidade, ele cuja sólida cultura se somava à grandeza de alma de seu pai. Por que espantar-se de que certos velhos sejam fracos quan­do os próprios adolescentes nem sempre escapam a essa fatalidade? Compreendei bem isto, Lélio e Cipião: é preciso resistir à velhice e combater seus inconvenientes à força de cuidados; é preciso lutar contra ela como se luta contra a doença; conservar a saúde, praticar exercícios apropriados, comer e beber para recompor as forças sem arruiná-las. Mas não basta estar atento ao corpo; é preciso ainda mais ocupar-se do espírito e da alma. Ambos, com efeito, se arriscam ser extintos pela velhice como a chama de uma lâmpada privada de óleo. E se o corpo se afadiga sob o peso dos exercícios, o espírito se ali­ via exercitando-se. Quando Cecílio fala dos “velhos tolos de comédia”, ele pensa naqueles caquéticos, molengões, sem memória, defeito que não se deve imputar à velhice propriamente dita mas a uma velhice preguiçosa, indolente e embotada. O atre­vimento e a libertinagem, se são mais freqüentes entre os adolescentes que entre os velhos, nem por isso são próprios de todos os adolescentes; somente dos menos virtuosos; assim também, o disparate, essa forma senil da estupidez, é próprio dos velhos inconseqüentes, e somente deles.

Ápio10, ao ficar velho e cego, tinha o encargo de quatro filhos na força da idade, de cinco filhas, de uma grande casa e de uma vasta clientela. Ele conservava o espírito tenso como a corda de um arco e não se abandonava languidamente à velhi­ ce. Não apenas preservava intacto seu prestígio como também mantinha sua autoridade sobre os familiares. Seus escravos o temiam, seus filhos o respeitavam, mas todos lhe queriam bem. Em sua casa, tradição e autoridade paterna permaneciam a regra.

A velhice só e honrada na medida em que resiste, afirma seu direito, não deixa ninguém roubar-lhe seu poder e conserva sua ascendência sobre os familiares até o último suspiro. Gosto de descobrir o verdor num velho e sinais de velhice num adolescente. Aquele que compreender isso envelhecerá talvez em seu corpo, jamais em seu espírito.

Trabalho atualmente no sétimo livro de minhas Origens. Reúno todos os testemunhos sobre a Antiguidade. Organizo, nesse exato momento, todos os discursos que pronunciei a favor de causas célebres. Ocupo-me do direito augural, pontifical e civil. Estudo assiduamente a literatura grega e, para exercitar minha memória, aplico o método caro aos pitagóricos: toda noite, procuro lembrar- me de tudo o que fiz, disse e ouvi na jornada. Eis como mantenho meu espírito, eis a ginástica a que submeto minha inteligência. Suando e me esfalfando dessa maneira, não me ocorreria pensar em me lamentar sobre o declínio de minhas forças físicas. Meus amigos podem sempre contar comigo. Vou ao Senado regularmente e sem que me forcem. Faço ali proposições maduramente refletidas e as defendo com todas as minhas forças intelectuais —não físicas. E se eu não fosse mais capaz de fazer isso, restar-me-ia o lazer de distrair-me em meu divã pensando em tudo o que doravante me é interdito. Graças ao que foi minha vida, não cheguei a esse ponto. Permaneço ativo. Dedicando nossa vida ao estudo, empenhando-nos em trabalhar sem descanso, não sentimos a aproximação subreptícia da velhice. Envelhecemos insensivelmente, sem ter consciência disso, e, em vez de sermos brutalmente atacados pela idade, é aos poucos que nos extinguimos.

Do bom uso da volúpia

Chegamos agora ao terceiro agravo feito com frequência à velhice: ela seria privada de prazeres. Mas que maravilhosa dádiva nos proporciona a idade se ela nos poupa do que a adolescência tem de pior! Escutai, excelentes jovens, o que dizia outrora Arquitas de Tarento, homem de primeiro plano cujas palavras me foram ditas, em minhaju­ ventude, quando eu estava em Tarento com Quinto Máximo". Não há pior calamidade para o homem que o prazer do sexo, dizia ele; não há flagelo mais funesto que essa dádiva da natureza. A busca de­senfreada da volúpia é uma paixão possessiva, sem controle. Ela é a causa da maior parte das traições em relação à pátria, da queda dos Estados, das conivências funestas com o inimigo. Não há um crime, uma prevaricação que a concupiscência não possa inspirar. É por causa dela que se cometem violações, adultérios e outras torpezas. Se a inteli­gência constitui a mais bela dádiva feita ao homem pela natureza - ou pelos deuses - , o instinto sexual é seu pior inimigo. Onde reina a devassidão, ob­viamente não há lugar para a temperança; lá onde o prazer triunfa, a virtude não poderia sobreviver. Para fazer compreender isso melhor, Arquitas sugeria que se imaginasse um homem no auge da excitação voluptuosa. Nesse estado de extremo gozo, como poderia formular o menor pensamento, refletir ou meditar legitimamente? Assim, nada é mais detestável que o prazer. Quando ele é inten­so e perdura, é capaz de obscurecer totalmente o  espírito. Tais foram as palavras pronunciadas por Arquitas durante uma conversação com o samnita Gaio Pôncio (cujo filho triunfou dos cônsules Es­púrio Postumo e Tito Vetúrio em Caudinium). Meu anfitrião, Nearco de Tarento, sempre devotado a Roma, dizia-me tê-las ouvido de seus pais e seus avós. O próprio Platão de Atenas teria assistido a essa conversação: descobri que ele se encontrava de fato em Tarento durante o consulado de Lúcio Camilo e de Ápio Cláudio.

Por que contei tudo isso? Para vos fazer compreender que, se o bom senso e a sabedoria não são suficientes para nos manter afastados da devassidão, cumpre agradecer também à velhice por nos livrar dessa deplorável paixão. A volúpia corrompe o julgamento, perturba a razão, turva os olhos do espírito, se posso me exprimir assim, e nada tem a ver com a virtude. Foi a contragosto que excluí do Senado, sete anos após seu consulado, Lúcio Flaminino, irmão do muito enérgico Tito Flaminino. Mas julguei ser meu dever sancionar a devassidão. Quando era cônsul na Gália, ele se deixara convencer por uma prostituta12, por oca­sião de um festim, a decapitar a machado um dos  prisioneiros condenados por crime. Enquanto seu irmão fora censor, justamente antes que eu próprio o fosse, ele havia escapado ao castigo. Mas nem Flaco13 nem eu pudemos tolerar tão escandalosas depravações que somavam ao opróbrio privado a desonra do poder.

Com frequência ouvi pessoas mais velhas - que diziam tê-lo sabido da boca dos velhos quando elas próprias eram crianças - evocarem o testemunho de Gaio Fabrício. Este repetia, sempre com espanto, o que lhe teria dito o tessálio Cíneas, por ocasião de uma embaixada junto ao rei Pirro: havia em Atenas um indivíduo14que, embora gabando-se de ser um sábio, afirmava que a busca do prazer devia determinar todos os nossos atos. Mário Cúrio e Tibério Coruncânio desejavam vivamente, por sua parte, que os samnitas - e o próprio Pirro - fossem seduzidos pelas teorias desse homem, pois assim, chafurdados na devassidão, eles seriam bem mais fáceis de vencer. Mário Cúrio fora amigo daquele Públio Décio que, cinco anos antes dele, e cônsul pela quarta vez, havia escolhido a morte para salvar o Estado. Fabrício e Coruncânio também o haviam conhecido, e todos, como o atestam a vida e o heroísmo de Décio, acreditavam firmemente num ideal bastante nobre, naturalmente belo e sublime, para convencer todo homem a devotar-lhe a vida sem considerar o prazer.

Por que falar tanto do prazer? Porque, em vez de censurar a velhice, devemos nos felicitar que ela não nos faça lamentar demais os prazeres. Ao renunciarmos aos banquetes, às mesas que desabam sob os pratos e as taças inumeráveis, renunciamos ao mesmo tempo à embriaguez, à indigestão e à insônia.

Certamente, incapazes que somos de resistir a todas as tentações, temos que ceder, aqui e ali, ao prazer. (Platão escreve formosamente que ele é “a isca do mal”, os homens deixam-se fisgar por ele como peixes.) Se a velhice deve evitar banquetes excessivos, ela pode muito bem desfrutar o prazer das refeições equilibradas. Criança, vi com frequên­cia o velho Gaio Duílio - primeiro vencedor dos cartagineses no mar - retomando do jantar. Imbuí­ do de sua glória, ele tinha a petulância de se fazer escoltar por um portador de tocha e um tocador de flauta; nenhum particular havia se permitido isso antes dele.

A felicidade da partilha

Mas falei bastante dos outros, voltemos a mim! Primeiramente, sempre estive cercado de confrades. Instituíram-se as confrarias durante minha questura, quando se adotou o culto de Cibele, a “Grande Mãe”, vindo da Frigia. É portanto com meus con­frades que eu festejava, com toda a simplicidade apesar dos ardores da juventude. Ora, quanto mais avançava a idade, tanto mais nos moderávamos. E, nesses banquetes, eu apreciava menos o prazer dos sentidos que a companhia de meus amigos e suas conversas. Nossos antepassados tiveram de fato razão de chamar “convívio” (viver junto) o fato de reunir-se em tomo de uma mesa, julgando assim que ele implicava uma certa comunhão de vida. Os gregos são menos bem inspirados: falam de “bebidas em comum” ou de “comidas em comum”, dando assim a impressão de privilegiarem o menos importante. De minha parte, é porque amo a con­versação que me aprazem as refeições prolongadas; não apenas com pessoas da minha idade - restam poucas - mas também da vossa, e especialmente convosco. Sou grato portanto à velhice por ter agu­çado meu gosto pela conversação ao mesmo tempo que abrandava meu interesse pelos pratos e pelos vinhos. Admitindo que há prazer em comer - e não - tendo colocar-me como adversário encarniçado : prazer, muito natural dentro de certos limites quero também reconhecer que a velhice não é insensível a ele. Quanto a mim, gosto de presidir a _ma refeição como o faziam nossos antepassados; gosto dos discursos pronunciados com um copo de vinho à mão depois do banquete principal, como quer a tradição; gosto das taças “muito pequenas " que, como no Banquete de Xenofonte, "se cobrem de gotas de orvalho”; gosto do frescor das salas de refeições de verão, assim como, no inverno, gosto das salas de refeições bem aquecidas e ensolaradas... Aliás, perpetuo esses modestos rituais, mesmo em país sabino; cada dia convido vizinhos à minha mesa e prolongamos a refeição até bem tarde da noite, discutindo sobre várias coisas.

Objetar-me-ão que os velhos não sentem mais tão intensamente aquela espécie de cócegas que o prazer proporciona. É verdade, mas eles tampouco sentem falta disso. Não se sofre por ser privado daquilo de que não se tem saudades. Alguém perguntava um dia a Sófocles, já idoso, se ainda lhe ocorria fazer amor. Ele deu esta resposta admirável: “Os deuses me preservam disso! É com o maior prazer que me subtraí a essa tirania, como quem se livra de um mes­tre grosseiro e exaltado”. Os devassos sentem mais duramente, por certo, e mais cruelmente, a privação da volúpia; mas as pessoas saciadas, apaziguadas, acham preferível ser liberadas do prazer. Sem desejo, não há frustração: logo, é preferível não desejar. E se a juventude permanece a idade dos prazeres, esses são apenas gozos fúteis, como acabo de mostrá-lo.

Além disso, se a velhice não os aproveita da mesma maneira, ela não está totalmente privada deles. Claro que Turpião Ambívio diverte sobretudo os espectadores da primeira fila, mas os do fundo aproveitam igualmente seu espetáculo. Do mesmo modo. a juventude, que vê os prazeres de perto, os usufrui intensamente, mas a velhice, que os consi­dera de mais longe, tira deles um proveito suficiente.

Uma vez liberada a alma, se posso dizer, das obrigações da volúpia, da ambição, das rivalidades e das paixões de toda espécie, as pessoas têm o direito de se isolarem para viverem enfim, como se diz, “consigo mesmas”! Se podemos nos ali­mentar de estudos e de conhecimentos, nada mais agradável que uma velhice tranqüila. Gaio Galo, um amigo de teu pai, Cipião, estudava sem parar o céu e a terra, chegando a calcular quase todas as suas medidas. Quantas vezes foi surpreendido, em pleno dia, completando os desenhos das constela­ções observadas durante a noite! Quantas vezes foi. isto trabalhando em plena noite, quando havia se levantado de manhã cedo! Que prazer ele sentia em nos predizer os eclipses da lua ou do sol!

E que dizer das pesquisas menos técnicas mas que mesmo assim exigem um espírito penetrante! Qual não terá sido o prazer de Névio ao trabalhar em sua Guerra Púnical E de Plauto, em seu Truculentus ou em seu Pseudolusl Eu mesmo conheci Lívio Andronico velho, ele que havia produzido uma peça de teatro seis anos antes de meu nascimento, sob o consulado de Cento e Tuditano, e cuja vida se prolongou até minha adolescência. Para que falar das pesquisas de Públio Licínio Crasso sobre o direito pontificai e o direito civil, ou as do nosso Públio Cipião15, nomeado recentemente grande Pontífice? Todos esses velhos que acabo de nomear estão ligados com paixão a seus estudos. E Marco Catego! Ênio o chama - e lhe cai bem - “a medula da persuasão”. Com que aplicação, mesmo velho, ele se exercitava na eloqüência! Os prazeres da mesa, do jogo ou das prostitutas seriam capazes de rivalizar com essas felicidades? O saber se vale das competências acumuladas e se enriquece à medida que envelhecemos. Assim, é digno de seu autor aquele verso de Sólon em que ele afirma que aproveita cada dia de sua velhice para adquirir novos conhecimentos. Sim, nenhum prazer é superior ao do espírito.

A velhice nos campos

Chego agora às alegrias da agricultura. Para mim, seu encanto é incomparável. De modo ne­nhum elas são incompatíveis com a velhice e me parecem convir muito bem a uma vida de sábio. Os agricultores têm uma espécie de crédito na terra; esta jamais se recusa ao trabalho deles e sempre restitui o que recebeu com juros às vezes modestos, mas geralmente consideráveis. Aliás, não é apenas o que o solo produz que me agrada, é também a potência generosa da própria terra. Quando suas profundezas revolvidas e trabalhadas recebem o grão semeado, elas primeiro o retêm protegido da luz - donde o nome occatio dado ao esterroamento - , depois calor e pressão o fazem eclodir e germinar. Dele surge um broto verde que, das raízes, logo se eleva num caule nodoso e embainhado em sua casca. Quando sai para fora desta, faz desabrochar uma espiga de grãos bem ordenados, protegidos, por trás da muralha de suas pontas, da voracidade dos passarinhos.

Devo lembrar como se planta, cresce e se corta a vinha? Não me canso desse prazer. (Ides conhecer assim o que descansa e distrai minha velhice.) Não insistirei sobre o vigor próprio a todos os produtos da terra, capazes de engendrar troncos e ramos de belo porte a partir de sementes tão minúsculas quanto as do figo, da uva e de outros frutos. As pequenas vagens, os chantões, sarmentos, plantas vivas ou mergulhões de videira não encantam toda gente? A vinha, sabemos, tende a vergar-se se não for sustentada. Vemo-la agarrar-se espontaneamen­te a tudo o que encontra com suas gavinhas que são outras tantas mãos. Quando ela impele em todos os sentidos suas ramagens serpentinas e vagabundas, o agricultor, armado de uma lâmina, vem cortá-la adestradamente para impedi-la de produzir uma floresta de sarmentos anárquica e desmesurada. Na primavera, sobre os nós dos sarmentos, surgem excrescências que chamamos botões e dos quais nascerá o cacho de uvas. Este logo aumenta de tamanho graças à seiva que tira do solo e ao calor do sol. No início, seu gosto é muito ácido, mas aos poucos se torna açucarado.

As parras que o protegem detêm os raios mais penetrantes do sol, sem todavia privá-lo de um calor benfazejo.

Pode-se imaginar algo mais proveitoso e mais belo que esse cacho de uvas? Como já vos disse, não é o caráter rentável da vinha que mais me seduz, é todo o resto: a maneira de cultivá-la, a natureza mesma da planta, as fileiras de chantões, a reunião dos sarmentos, a ligadura e a mergulhia, a poda de alguns sarmentos que favorece o desenvolvimento dos outros. Devo ainda mencionar a irrigação, a cava, a sachadura que revolvem e fertilizam a ter­ ra? Direi a utilidade da adubação? Tratei de todas essas questões em meu livro sobre os trabalhos dos campos. Hesíodo, por mais instruído que fosse, não diz uma palavra a respeito em sua obra sobre a agricultura. Homero, em troca, vários séculos antes, nos mostra Laertes cultivando e adubando seu campo para se consolar da ausência de seu filho. O encanto da agricultura não se resume ali­ ás às colheitas, campinas, vinhedos e arbustos; é preciso também contar com as hortas e os vergéis, o gado no pasto, as colmeias de abelhas e as flores inumeráveis. Enfim, somando-se ao prazer de plan­tar, há o de enxertar, a mais engenhosa descoberta da agricultura.

Eu poderia enumerar muitos outros prazeres campestres, mas percebo que já falei demais. Perdoai-me! A velhice é tagarela - convém confessá-lo para não dar a impressão de sempre absolvê-la - e deixei-me arrastar por meu amor pelos campos!

Eis a vida que Mânio Cúrio escolheu para terminar seus dias após triunfar dos samnitas, dos sabinos e de Pirro. Quando contemplo sua casa, não distante da minha, só posso admirar - e, mesmo assim, insuficientemente - sua modéstia e a virtude de sua época. Ele se achava sentado junto à lareira quando os samnitas vieram propor-lhe uma grande quantidade de ouro. Ele os repeliu sem hesitar, dizendo que à riqueza preferia a autoridade sobre os ricos. Como tal grandeza de alma não tomaria agradável a velhice?

Mas voltemos aos camponeses para melhor falar de mim mesmo. Naquela época, os senadores - isto é, os velhos - viviam nos campos: Lúcio Quíncio Cincinato estava lavrando a terra quando vieram lhe anunciar que fora nomeado ditador. E foi por ordem sua que Gaio Servílio Ahala16, chefe dos cavaleiros, deu morte a Espúrio Mélio, que queria tomar o poder. É em suas quintas que vinham buscar Cúrio e os outros senadores para que fossem ao Senado. Donde o nome de “cor­reios” dado aos que os convocavam. Dirão que era lamentável a velhice dos que encontravam assim um passatempo na agricultura? De minha parte, duvido que possa haver uma outra mais feliz. Não apenas se é útil, a agricultura beneficiando a todos, mas dela se tira igualmente todo o prazer que falei. Usufrui-se assim em abundância de tudo o que é necessário à vida na terra e mesmo ao culto dos deuses. E, como tudo isso é conforme ao desejo dos homens, há uma reconciliação com o prazer. Um dono de casa atento e eficiente man­tém sempre bem abastecidos sua adega de vinho e de azeite, seu guarda-comidas. Sua quinta é bem provida de porcos, cabritos, cordeiros, frangos; nela há leite, queijo e mel em abundância. Quanto à horta, os próprios agricultores chamam-na o “segundo guarda-comidas”. E a caça que prati­cam nos momentos de lazer permite aumentar um pouco mais a provisão de alimentos.

O parque de Ciro

Cantarei ainda o verde das pradarias, as aleias de árvores, o esplendor dos vinhedos ou dos campos de oliveiras? Sejamos breves: nada é mais proveitoso nem mais belo que um campo cuidadosamente cultivado. Ora, a todos esses prazeres campestres a velhice não representa nenhum obstáculo; pelo contrário, ela nos convida e nos encoraja a eles. Com efeito, onde ela poderia melhor desfrutar o suave calor do sol ou de uma lareira, o frescor salubre da sombra ou da água? Deixemos a outros as armas, os cavalos e as lanças, a clava e os projéteis! A outros a caça e a corrida! Uma boa velhice pode mesmo abster-se disso sem desprazer. Que nos deixem, a nós, velhos, os jogos de ossinhos e de dados.

Os livros de Xenofonte são preciosos sob mui­tos aspectos. Peço-vos que os leiais atentamente, como aliás o fazeis. Em O Econômico, obra de­dicada à gestão do patrimônio, vede o elogio que ele faz da agricultura! E, para mostrar que a seus olhos nenhum labor é mais digno de um rei que os trabalhos dos campos, ele relata em seu livro algumas palavras de Sócrates. Numa conversação com Critóbulo, Sócrates evoca o rei da Pérsia,

Ciro, o jovem, que se distinguiu por seu gênio e o prestígio de seu reinado. Este recebeu em sua casa, em Sardes, o lacedemônio Lisandro, homem irreprochável, que chegou carregado de presentes da parte dos aliados de seu anfitrião. Ciro mostrou-se afável e cortês. Levou-o a visitar um parque soberbamente conservado. Lisandro extasiava-se diante da altura das árvores plantadas em quincunce, o solo arado e limpo de ervas daninhas, os perfumes sutis exalados pelas flores. Ele exprimiu toda a sua admiração pelos cuidados e a habilidade do jardi­neiro que havia traçado e arrumado aquele parque. “Fui eu que organizei tudo isso! Os alinhamentos e a disposição geral são obra minha. E muitas árvores foram plantadas por mim mesmo!” Então Lisandro considerou com atenção aquele rei elegantemente vestido de púrpura, com seus enfeites persas carre­gados de ouro e pedras preciosas. Depois declarou: “Há muita razão em te dizerem feliz, Ciro, pois em ti a fortuna se alia à virtude”.

Os velhos podem gozar dessa mesma fortuna. A idade, mesmo avançada, não impede de praticar a agricultura. Se acreditarmos no que diz a tradição, Marco Valério Corvino, que viveu até cem anos, havia se retirado no campo e lá cultivava a terra. Quarenta e seis anos haviam transcorrido entre seu primeiro e seu sexto consulado. Assim o período de sua vida considerada como ativa por nossos antepassados fora não apenas longo mas cumulado de honras. Entretanto, o final de sua vida foi ainda mais feliz, pois ele teve mais autoridade e menos trabalho. A autoridade natural, eis o verdadeiro coroamento da velhice!

Que autoridade e que prestígio teve justamente Lúcio Cecílio Metelo! E Aulo Atílio Calatino, cujo epitáfio diz:

Esse homem que todas as famílias reconhecem figurou entre os mais destacados do povo.

Conhece-se na íntegra a inscrição gravada em seu túmulo. Seu prestígio não foi usurpado, já que todos concordaram em fazer seu elogio. Que homem foi também, ainda ontem, Públio Crasso, nosso grande Pontífice! E Marco Lépido, que lhe sucedeu! Que dizer de Paulo Emílio, de Cipião, o Africano, e de Quinto Fábio Máximo, de quem falei há pouco? Sua autoridade não se devia apenas ao que diziam mas à maneira como sabiam, com um simples gesto, exprimir sua vontade. O prestígio dos velhos, sobretudo quando exerceram cargos públicos, compensa largamente todos os prazeres da juventude.

Não esqueçais, porém, que todos os elogios que faço da velhice se dirigem àquela cujos trun­fos remontam à adolescência. Como eu o disse um dia com o assentimento de todos, é evidente que uma velhice reduzida a defender sua própria causa seria lastimável. Os cabelos brancos e as rugas não conferem, por si sós, uma súbita res­peitabilidade. Esta é sempre a recompensa de um passado exemplar.

Eis alguns sinais de respeito que podem parecer frívolos mas que têm para nós seu valor: vêm nos visitar, buscam nossa companhia, afastam-se à nossa passagem, cedem-nos o lugar, levantam-se em nossa presença, escoltam-nos, consultam-nos e nos acompanham de volta a casa... Claro, essas ho­menagens são tanto melhor observadas, em Roma e noutras partes, quanto correspondem aos costumes. Lisandro comprazia-se em dizer que nenhum lugar era mais favorável à velhice que Esparta, seu país. Em nenhuma outra parte se reservam tantas defe­rências aos velhos, em nenhuma outra eles são tão honrados. Melhor ainda: conta-se que em Atenas, durante os jogos, um velho, que entrara num teatro lotado e para quem seus concidadãos não haviam reservado lugar, dirigiu-se então até a delegação lacedemônia que ocupava um espaço reservado.

Imediatamente, todos se levantaram para lhe dar lugar, enquanto a multidão aplaudia repetidas vezes. Um dos lacedemônios declarou então que, se os atenienses conheciam os costumes, tinham aversão de conformar-se a eles. Uma das mais belas tradições de vosso colégio, o dos áugures, ilustra aliás nosso assunto: lá se recolhem primeiro as opiniões dos mais idosos antes de consultar os que estão num posto mais elevado ou mesmo os que detêm o poder verdadeiro.

Que prazeres físicos podem se comparar a todas essas satisfações proporcionadas pelo prestígio? Os que dele se beneficiam me parecem de certo modo ter desempenhado a peça até o final, sem titubear no último ato como maus atores.

Os rabugentos e os outros

Ouve-se ainda dizer que os velhos são mal-humorados, atormentados, irascíveis e rabugentos - e mesmo avarentos, examinando bem. Mas esses são defeitos inerentes a cada indivíduo, não à velhice. O mau humor e as outras manias que citei são aliás relativamente escusáveis. Injustificadas, por certo, mas compreensíveis. Tais pessoas se julgam desprezadas, depreciadas, caídas no ridículo. Além disso, um corpo debilitado nos torna ainda mais vulneráveis a esses ataques. O que não impede que um caráter sólido e bons hábitos permitam atenuar tais inconvenientes. Na vida ocorre o mesmo que no teatro, quando pensamos, por exemplo, nos dois irmãos dos Adelfos de Terêncio: que acrimônia na casa de um, que urbanidade na casa do outro! Assim como o vinho, o caráter não azeda necessariamente com a idade. Agrada-me que a velhice seja grave, mas com moderação, como em relação a tudo. Não aceito que ela seja carrancuda. Quanto à avareza dos velhos, eu a compreendo mal. Não é insensato, quando o caminho a percorrer diminui, querer aumentar seu viático?

Diante da morte

Resta a quarta razão de temer a velhice, a que desola e acabrunha particularmente as pessoas de minha idade: a aproximação da morte. Ela é incon­testável. Mas como é lastimável o velho que, após ter vivido tanto tempo, não aprendeu a olhar a morte de cima! Cumpre ou desprezá-la completamente, se pensamos que ela ocasiona o desaparecimento da alma, ou desejá-la, se ela confere a essa alma sua imortalidade. Não há outra alternativa.

Por que eu temeria a morte se, depois dela, não sou mais infeliz, quem sabe até mais feliz? Aliás, quem pode estar seguro, mesmo jovem, de estar ainda vivo até o anoitecer? Mais ainda: os jovens correm mais o risco de morrer que nós. Adoecem mais facilmente, e mais gravemente; são mais difíceis de tratar. Assim, não são mui­tos a chegar à velhice. Se fosse de outro modo, o mundo viveria melhor e mais razoavelmente, já que a inteligência, o julgamento e a sabedoria são próprios dos velhos, sem os quais jamais teria havido cidades.

Mas retorno à morte que nos espreita. Por que fazer disso motivo de queixa à velhice, se é um risco que a juventude compartilha? De minha parte, foi após o desaparecimento de meu excelente filho que me dei conta de que a morte sobrevêm a qualquer idade; e tu, Cipião, foi após a de teus irmãos, pro­metidos no entanto a um brilhante futuro.

Alimentaria o jovem, apesar de tudo, a esperança de viver ainda muito tempo, enquanto isso é interdito ao velho? Mas vejam, é uma esperança insensata: que pode haver de mais insano que ter por certo o que não o é e por verdadeiro o que é falso?

E o velho, por sua vez, nada mais teria a esperar? 

Então sua posição é melhor que a do adolescente. Aquilo com que este sonha, ele já o obteve. O ado­lescente quer viver muito tempo, o velho já viveu muito tempo! E, grandes deuses!, que quer dizer “muito tempo” para a natureza humana? Tomemos a duração máxima calculada sobre uma vida tão longa quanto a do rei dos tartéssios [antigos habi­tantes da Andaluzia], (Li que em Gades [Cádis], um certo Argantônio reinou oitenta e viveu cento e vinte anos.) Mesmo nesse caso, não me decido a considerar “longo” o que de todo modo tem um fim. Quando esse fim chega, o passado desapareceu. Dele vos resta apenas o que vos puderam trazer a prática das virtudes e as ações bem conduzidas. Quanto às horas, elas se evadem, assim como os dias, os meses, os anos. O tempo perdido jamais retorna e ninguém conhece o futuro. Contentemo-nos com o tempo que nos é dado a viver, seja qual for!

Para ser aplaudido, o ator não tem necessidade de desempenhar a peça inteira. Basta que seja bom nas cenas em que aparece. Do mesmo modo, o sábio não é obrigado a ir até o aplauso final. Uma existência, mesmo curta, é sempre suficientemente longa para que se possa viver na sabedoria e na honra. E se acaso ela se prolonga, não iremos nos queixar, como tampouco fazem os camponeses, de que após a clemência da primavera venham o verão e o outono. A primavera, em suma, representa a adolescência e a promessa de seus frutos; as outras estações são as da colheita, da seara.

Os frutos da velhice, tenho dito e repetido, são todas as lembranças do que anteriormente se adquiriu. Ora, tudo o que é conforme à natureza deve se considerar como bom. Que há de mais natural para um velho que a perspectiva de morrer? Quando a morte golpeia a juventude, a natureza resiste e se rebela. Assim como a morte de um ado­lescente me faz pensar numa chama viva apagada sob um jato d’água, a de um velho se assemelha a um fogo que suavemente se extingue. Os frutos verdes devem ser arrancados à força da árvore que os carrega; quando estão maduros, ao contrário, eles caem naturalmente. Do mesmo modo, a vida é arrancada à força aos adolescentes, enquanto deixa aos poucos os velhos quando chega sua hora. Consinto de tão boa vontade tudo isso que, quanto mais me aproximo da morte, parece que vou me aproximando da terra como quem chega ao porto após uma longa travessia.

Aliás, não há um termo preestabelecido à ve­lhice. Vive-se muito bem enquanto se é capaz de assumir os encargos de sua função e de desprezar a morte. A tal ponto que, nesse domínio, os velhos podem se revelar mais corajosos e mais enérgicos que os jovens. Eis o que respondeu, ao que consta, Sólon17 ao tirano Pisístrato que lhe perguntava o que lhe dava a força de resistir tão valentemente. “A velhice!”. A maneira mais bela de morrer é, com a inteligência intacta e os sentidos despertos, deixar a natureza desfazer lentamente o que ela fez. Aquele que construiu um barco ou erigiu um prédio é o mais indicado para destruí-lo; assim também, é pela natureza que o cimentou que o homem é melhor desagregado. Ora, o cimento dificilmente se desagrega quando é fresco, mas facilmente se é velho. Conclusão: os velhos não devem nem se apegar desesperadamente nem renunciar sem razão ao pouco de vida que lhes resta.

Pitágoras proíbe que abandonemos nosso posto - ou seja, a vida - sem a ordem formal do comandante-em-chefe que no-lo designou —ou seja, Deus. Em seu epitáfio, o sábio Sólon declara, por sua vez, que não deseja morrer sem ser saudado  pela dor e pelas lágrimas de seus amigos. Em suma, ele deseja, parece-me, ser amado pelos seus. Mas prefiro muito mais o que disse Ênio:

Que ninguém me homenageie com suas lágri­mas, que ninguém chore sobre meu túmulo!

A seu ver, não devíamos nos afligir com a mor­te, já que ela dava acesso à eternidade. Pode acon­tecer que se sinta uma certa apreensão no momento de morrer, mas isso dura pouco. Após a morte, ou não há nada, ou essa apreensão se transforma em beatitude. E é desde a adolescência que convém se preparar para o desprezo da morte. Sem essa preparação, nenhuma serenidade é possível. Cada um de nós deve morrer, com efeito; hoje mesmo, talvez. Mas com a obsessão da morte que pode sobrevir a qualquer momento, como conservar o espírito calmo?

Não creio que seja necessário estender-se sobre esse ponto quando evoco precedentes: não falemos de Lúcio Bruto18, que morreu libertando sua pátria, nem dos dois Décio, que lançaram seus cavalos a galope de encontro a uma morte voluntária, nem de Marco Atílio19, que marchou ao suplício para respeitar sua palavra dada ao inimigo, nem dos dois Cipião que quiseram, com seus corpos, barrar o caminho aos cartagineses, nem de teu avô. Lúcio Paulo20, que pagou com a vida a imprudência de seu colega por ocasião do desonroso desastre de Cannes, nem de Marco Marcelo21, que o inimigo mais cruel não ousou privar das honras fúnebres. Falemos de nossas legiões que, como relatei em As Origens, partiram ao combate alegres e orgulhosas mas sem esperança de retorno. O que jovens igno­rantes e até mesmo camponeses desprezam poderia fazer tremer velhos instruídos?

Em geral, parece-me, perdemos o apetite de viver quando nossas paixões são saciadas. Devem os adolescentes lamentar a perda do que adoravam quando crianças? E poderiam os homens maduros ter saudade do que amavam quando adolescentes?

Também eles têm seus gostos, que não são os dos velhos. A velhice, enfim, tem suas inclinações próprias. E estas por sua vez se desvanecem como desapareceram as das idades precedentes. Quando esse momento chega, a saciedade que sentimos nos prepara naturalmente para a proximidade da morte.

Por que eu hesitaria em vos dizer tudo o que penso da morte? Estou tanto melhor situado para compreendê-la à medida que me aproximo dela. Tenho certeza de que vossos pais, o teu, Cipião, e o teu, Lélio, esses homens admiráveis que foram meus amigos, vivem ainda e daquela verdadeira vida que é a única a merecer esse nome. Encerrados que estamos na prisão de nosso corpo, cumprimos de certo modo uma missão necessária, uma tarefa ingrata: pois a alma, de origem celeste, foi pre­cipitada das alturas onde habitava e se encontra como que enterrada na matéria. É um lugar con­trário à sua natureza divina e eterna. Creio que os deuses imortais distribuíram as almas em corpos de homens para ajudar estes a imitarem a ordem celeste, escolhendo a firmeza moral e o espírito de moderação.

Foi refletindo por mim mesmo, mas também graças à autoridade e à notoriedade dos maiores filósofos, que cheguei a essa convicção. Assim descobri que Pitágoras e os pitagóricos - quase compatriotas, outrora chamados filósofos italiotas (da Itália meridional) - jamais duvidaram que nos­sas almas fossem a emanação do espírito divino que anima o universo. Também me foram expostas as teses sobre a imortalidade da alma desenvolvidas por Sócrates no dia mesmo de sua morte, ele que o oráculo de Delfos (Apolo) proclamara o mais sábio de todos os homens. O que mais? Quereis saber minha convicção, meu sentimento? A substância que engloba uma viva inteligência, uma vasta me­mória do passado, uma sólida presciência do futuro, tantos talentos, saber e descobertas, não poderia ser mortal. A alma está sempre em movimento: este não tem começo - a alma é seu próprio motor - e não terá fim, pois a alma não abandonará a si mesma. Além disso, como a alma é homogênea por natureza e não contém elemento estranho díspar, ela não pode ser fracionada. Ora, sem fracionamento não há morte possível.

E ademais temos a prova de que os homens sabem o essencial do que devem saber antes mes­mo de nascerem. Confrontadas a estudos difíceis, as crianças rapidamente adquirem tantos conheci­mentos que parecem não aprendê-los pela primeira vez, mas lembrar-se deles. É mais ou menos o que disse Platão.

Em Xenofonte, Ciro, o Grande, pronuncia estas palavras ao morrer:

Meus caríssimos filhos, não creiais, quando eu vos tiver deixado, que não serei mais nada e que desaparecerei. Enquanto eu vivia entre vós, não discerníeis minha alma mas compreendíeis, por meus atos e gestos, que ela estava em meu corpo. Estai certos de sua exis­tência, mesmo se nada mais a torna visível.

Os grandes homens, após sua morte, não seriam tão duradouramente venerados se não emanasse de sua alma algo que conserva sua lembrança. Jamais pude acreditar que a alma, viva enquanto habitava o corpo, morresse ao deixá-lo; nem que, ao se evadir do corpo de um insensato, ela permanecesse insensata. Creio ao contrário que, desvencilhada de seu invólucro carnal, voltando a serpura e homo­gênea, a alma volta a ser sábia. Aliás, quando o corpo se desagrega, após a morte, percebe-se bem de onde vinham e para onde retornam os elementos que o constituíam. Somente a alma, esteja presente ou não, jamais se mostra.

Vós constatais, além disso, que nada se asseme­lha tanto à morte quanto o sono. E a alma do adormecido manifesta claramente sua natureza divina: em repouso, relaxada, esta prevê com frequência o futuro. Isso nos dá uma ideia do que ela será no dia em que estiver totalmente
livre de sua prisão corporal. Se o que creio é verdadeiro, ele acrescentou, então honrai-me como a um deus. Se a alma, ao contrário, morre com o corpo, é venerando os deuses, organiza­dores e guardiães do universo, que cultivareis como bonsfilhos minha lembrança.

Tais foram as palavras pronunciadas por Ciro no momento de sua morte. Mas vejamos, se o preferirdes, o que se passa entre nós.

XXXXXXX

Jamais me farão acreditar, Cipião, que teu pai Lúcio Emílio Paulo, o Macedônio, teus dois avós, Paulo Emílio e Cipião, o Africano, seu pai e seu tio, e tantos outros heróis que é inútil citar, tenham se dado tanto trabalho para passar à posteridade se nela não acreditassem. Acaso crês —eu me envio flores, é um reflexo de velho —que teria passado meus dias e minhas noites atarefado, em tempo de guerra como em tempo de paz, se julgasse que minha glória se deteria com minha vida? Não teria sido melhor, nesse caso, deixar-me docemente viver, sem esforço nem trabalho? Ignoro a razão, mas minha alma desperta sempre pressagiou o futuro, como se tivesse adivi­nhado que, uma vez deixada a vida, ela finalmente viveria. Não, se fosse verdade que as almas não são imortais, os grandes homens não desdobrariam tan­ tos esforços para alcançar a glória e a imortalidade.

E se o sábio morre com tanta serenidade en­ quanto um imbecil morre com tão grande pavor, não será porque a alma do primeiro, lúcida e clarividente, percebe que voa assim em direção ao melhor, enquanto a do segundo, obtusa, é incapaz disso? No que me concerne, grande é minha im­ paciência de reencontrar vossos pais que estimei e respeitei; de rever todos aqueles que pessoalmente conheci, de conhecer aqueles de quem me falaram, de quem li as façanhas e sobre os quais eu mesmo escrevi. Teriam muita dificuldade, no momento da grande partida, de me reter para me fazer ferver num caldeirão como Pélias22. E, mesmo se um deus me oferecesse generosamente voltar a ser um bebê dando vagidos em seu berço, eu recusaria ser leva­ do de volta ao ponto de partida após ter percorrido, por assim dizer, toda a arena.

Que há portanto de positivo na vida? Não ofe­rece ela sobretudo provações? Seguramente, ela comporta muitas vantagens, mas, seja como for, no final restam apenas a saciedade e o término. Não tenho vontade de queixar-me sobre a morte como o fizeram com frequência alguns, inclusive entre os sábios; tampouco vou lamentar ter vivido, posto que, minha vida o testemunha, não fui inútil. Aliás, deixo a vida não como quem sai de sua casa mas como quem sai de um albergue onde foi recebido. A natureza, com efeito, nos oferece uma pousada provisória e não um domicílio. Oh, como será bela a jornada quando eu partir para juntar-me, no além, à assembléia divina formada pelas almas, quando eu deixar o tumulto e o lamacento caos deste mundo! Então reencontrarei não apenas todos os homens de quem falei aqui, mas sobretudo meu querido Catão, o melhor de todos, o filho mais amável e o mais respeitoso. Fui eu que queimei seu corpo quando ele é que deveria ter queimado o meu. Mas sua alma não me abandonou; ela vela sobre mim desde aquele lugar aonde ela sabe que devo ir. Viram-me aceitar corajosamente meu luto; não era resignação de minha parte. Eu apenas reconfortava-me à ideia de que a separação e o afastamento seriam de curta
duração.

Eis assim por que, Cipião - e para ti e para Lélio era um motivo de espanto considero a velhice tão fácil de suportar.

Ela me parece bastante leve, até mesmo agradá­vel. E, se me engano sobre a imortalidade da alma, é com muito gosto. Enquanto eu viver, recusarei sempre que me privem desse “erro” que me é tão doce. Se, como pensam certos pequenos filósofos, não há nada após a morte, então não preciso temer as zombarias dos filósofos desaparecidos. Se não estamos prometidos à imortalidade, mesmo assim continua sendo desejável extinguir-se no momento oportuno. A natureza fixa os limites convenientes da vida como de qualquer outra coisa. Quanto à velhice, em suma, ela é a cena final dessa peça que constitui a existência. Se estamos fatigados dela, então partamos, sobretudo se estamos saciados.

 Eis aí tudo o que vos tinha a dizer sobre a velhice. Desejo-vos que a alcanceis para verificar, por vós mesmos, a justeza de minhas palavras.

Filosofia - Estoicismo
10/10/2021 12:24:07 PM | Por Lucius Annaeus Seneca
Da felicidade

Todos os homens, caro Galião, querem vi­ver felizes, mas, para descobrir o que torna a vida feliz, vai-se tentando, pois não é fácil alcançar a felicidade, uma vez que quanto mais a procura­ mos mais dela nos afastamos. Podemos nos enga­nar no caminho, tomar a direção errada; quanto maior a pressa, maior a distância.

Devemos determinar, por isso, em primeiro lugar, o que desejamos e, em seguida, por onde podemos avançar mais rapidamente nesse senti­ do. Dessa forma, veremos ao longo do percurso, sendo este o adequado, o quanto nos adiantamos cada dia e o quanto nos aproximamos de nosso objetivo. No entanto, se perambularmos daqui para lá sem seguir outro guia senão os rumores e os chamados discordantes que nos levam a vários lugares, nossa curta vida se consumirá em erros, ainda que trabalhemos dia e noite para melhorar o nosso espírito.

Devemos decidir, por conseguinte, para onde vamos nos dirigir e por onde, não sem a aju­da de algum homem sábio que haja explorado o caminho pelo qual avançamos, porque a situação aqui não é a mesma que em outras viagens; nes­ tas há atalhos, e os habitantes a quem se pergunta o caminho não permitem que nos extraviemos. Quanto mais freqüentado e mais conhecido que seja o trajeto, maior é o risco de ficar à deriva.

Nada é mais importante, portanto, que não se­guir como ovelhas o rebanho dos que nos prece­deram, indo assim não aonde querem que se vá, senão aonde se deseja ir.

E, certamente, nada é pior do que nos aco­modarmos ao clamor da maioria, convencidos de que o melhor é aquilo a que todos se submetem, considerar bons os exemplos numerosos e não vi­ver racionalmente, mas sim por imitação.

Daí, a grande quantidade de pessoas que se precipitam umas sobre as outras. Como aconte­ce em uma grande catástrofe coletiva, quando as pessoas são esmagadas, ninguém cai sem arrastar a outro, e os primeiros são a perdição dos que os seguem. Isso tu podes ver acontecer ao longo da vida; ninguém erra por si só, apenas repete o erro dos outros.

É prejudicial, portanto, apegar-se aos que estão à tua frente, ainda mais quando cada um prefere crer em lugar de julgar por si mesmo, deixando de emitir juízo próprio sobre a vida. Por isso, adota-se, quase sempre, a postura alheia. As­sim, o equívoco, passando de mão em mão, acaba por nos prejudicar.

Morremos seguindo o exemplo dos demais. A saída é nos separarmos da massa e ficarmos a salvo. Mas agora as pessoas entram em conflito com a razão em defesa de sua própria desgraça. A mesma coisa acontece nas eleições. Aqueles que foram eleitos para o cargo de pretores são admi­rados pelos que os elegeram. O beneplácito po­pular é volúvel. Aprovamos algo que logo depois é condenado. Este é o resultado de toda decisão com base no parecer da maioria.

II

Quando se trata da felicidade, não é adequa­do que me respondas de acordo com o costume da separação dos votos: “A maioria está deste lado, então, do outro está a parte pior”. Em se tratando de assuntos humanos, não é bom que as coisas melhores agradem à maioria. A multidão é argumento negativo.

Busquemos o melhor, não o mais comum, aquilo que conceda uma felicidade eterna, não o que aprova o vulgo, péssimo intérprete da verdade.

Chamo vulgo tanto àqueles que vestem a clâmide quanto aos que carregam coroas. Não olho a cor das roupas que adornam os corpos, não confio nos olhos para conhecer o homem. Tenho um instrumento melhor e mais confiável para dis­cernir o verdadeiro do falso; o bem do espírito, o espírito o há de encontrar.

Se o homem tivesse a oportunidade de olhar para dentro de si próprio, como se torturaria, con­fessaria a verdade e diria: “Tudo que tenho feito até agora, preferia que não tivesse sido feito; quando penso em tudo o que disse, invejo os mudos; tudo o quanto desejei, a maldição de meus inimigos; tudo o que temi. Ó deuses justos! Melhor não tivesse de­sejado. Fiz muitas inimizades, e o ódio substituiu a amizade (se é que há amizade entre os maus), e nem sou amigo de mim mesmo. Fiz os maiores es­forços para sair da multidão e fazer-me notar por alguma qualidade: o que tenho feito senão ofere­cer-me como um alvo e mostrar à maldade onde poderia me machucar? Vê aqueles que elogiam a eloqüência, escoltam a riqueza, adulam os ben­feitores, louvam o poder? Todos são inimigos, ou podem sê-lo. Tantos são os admiradores quanto os invejosos. Por que não buscar algo realmente bom, para sentir, não para mostrar? Essas coisas que se contemplam, diante das quais as pessoas se detêm, que um mostra a outro com assombro, por fora brilham, por dentro são deploráveis.”

III

Busquemos as coisas boas, não na aparên­cia, mas sólidas e duradouras, mais belas no seu interior. Devemos descobri-las. Não estão longe, serão encontradas; apenas se precisa saber quan­do as encontramos. No entanto, passamos como cegos ao lado delas, tropeçando no que desejamos. Porém, para evitar delongas, passarei por alto as opiniões dos demais, pois é cansativo enumerá-las e rejeitá-las. Ouve a nossa.

Quando digo a nossa, não me associo a ne­nhum dos mestres estoicos. Também tenho di­reito a opinar. Portanto, seguirei um, pedirei a outro para dividir sua tese; talvez, depois de haver citado a todos, não rejeitarei qualquer coisa que decidiram os anteriores, e direi: “e ainda penso alguma coisa mais”.

Entretanto, de acordo com todos os estoicos, eu sigo a natureza. A sabedoria reside em não se afastar dela e adequar-se à sua lei e ao seu exemplo.

A felicidade é, por isso, o que está coeren­te com a própria natureza, aquilo que não pode acontecer além de si. Em primeiro lugar, a mente deve estar sã e em plena posse de suas faculdades; em segundo lugar, ser forte e ardente, magnâni­ma e paciente, adaptável às circunstâncias, cuidar sem angústia do seu corpo e daquilo que lhe pertence, atenta às outras coisas que servem para a vida, sem admirar-se de nada; usar os dons da fortuna, sem ser escrava deles.

Compreendes, ainda que não claramente, que disso advém uma constante tranqüilidade e liberdade, uma vez afastadas as coisas que nos perturbam ou nos amedrontam. Em lugar de prazeres e gozos mesquinhos e frágeis, até mes­mo prejudiciais em sua desordem, que venha uma grande, inabalável e constante alegria e, ao mesmo tempo, a paz e a harmonia da alma, a generosidade com a doçura. Qualquer tipo de maldade é resultado de alguma deficiência.

IV

O bem, como se concebe, também pode ser definido de outras maneiras, ou seja, pode ser en­tendido no mesmo sentido, mas não nas mesmas condições.

Um exército pode se estender em uma ampla frente ou concentrar-se; dispor o centro em cur­vas, arqueando as alas, ou avançar em uma linha reta, continuando igual a sua força e a vontade de lutar pela mesma causa. Da mesma forma, a defi­nição do bem supremo pode ser ampla e detalhada ou breve e concisa.

Será o mesmo, portanto, se eu disser: “O bem supremo é uma alma que despreza as coi­sas futeis e se satisfaz com a virtude”, ou, ainda, “uma força de espírito é invencível, alerta, cala no agir e atenta aos interesses da humanidade, tendo cuidado especial por aqueles que nos rodeiam”.

Pode-se ainda dizer que o homem feliz é aquele para quem não existe nem bem nem mal, apenas uma alma boa ou má; que pratica o bem, contenta-se com a virtude, não se deixa nem elevar nem abater pelo destino, não conhece bem maior do que o que pode dar a ele próprio, para quem o verdadeiro prazer será o desprezo dos prazeres.

Podes, se gostas de digressões, apresentar a mesma ideia com outras imagens sem alterar o seu significado. Nada nos impede, na verdade, de dizer que a felicidade consiste em uma alma livre, sem medo e constante, inacessível ao temor e à ganância, para quem o único bem é a dignidade e o único mal é a desonestidade, sendo todo o restante um aglo­merado de coisas que não retiram ou acrescentam nada à felicidade da vida. Em síntese, fatos que vão e vêm sem aumentar ou reduzir o bem supremo.

Este princípio, fundado sobre tal perspecti­va, queiramos ou não, acarreta serenidade e uma profunda alegria que vem do interior, pois é para seu próprio prazer, não desejando bens maiores que os próprios.

Por que é que tais coisas não hão de com­pensar os movimentos mesquinhos, frívolos e in­constantes de nosso fraco corpo? Pelo contrário, no dia em que ele dominar o prazer, também do­ minará a dor.

V

Vê, então, quão ruim e funesta servidão terão que sofrer aqueles que têm alternadamente prazeres e dores, senhores mais caprichosos e despóticos. Tem-se que encontrar, portanto, uma saída para a liberdade. Essa liberdade dá-nos a indiferença ante a sorte. Assim esses inestimáveis bens surgirão, a calma do espírito posto em segurança e a elevação; e, rejeitados todos os erros, do conhecimento da verdade irá surgir uma grande alegria, a afabilidade e o contentamento do espírito. De todos esses bens, a alma desfruta não porque são excelentes em si, mas porque brotam de seu próprio bem.

Uma vez que se começa a discutir a questão amplamente, pode-se chamar de feliz aquele que, graças à razão, não deseja nem teme. As pedras também não têm medo e tristeza, bem como os animais, mas nem por isso diz-se que são felizes aqueles que não têm consciência da felicidade.

Ponha no mesmo nível os homens os quais a natureza obtusa e a ignorância de si mesmos os reduzem ao conjunto dos animais e das coisas ina­nimadas. Não há diferença entre estes e aqueles. De fato, os animais carecem totalmente de razão. Nesses homens, ela é pequena e nociva e serve apenas para corrompê-los, pois ninguém pode ser chamado de feliz estando distante da verdade.

A vida feliz, por isso, tem o seu fundamento em uma ação simples e segura. Porque a alma é pura e livre de todo o mal quando evita os riscos, sempre disposta a permanecer onde está e a de­fender a sua posição contra os sucessos e os gol­pes da sorte.

No que se refere ao prazer, mesmo quando difundido à nossa volta, insinuando-se por todos os meios, lisonjeando o espírito com seus afagos e ganhando um após o outro, para seduzir-nos total ou parcialmente, cabe indagar: quem, den­tre os mortais, dotado de um mínimo de racionalidade, ainda que atraído, ousaria, relegando a alma, dedicar-se apenas ao corpo?

VI

Mas também a alma, dirão alguns, tem os seus prazeres. Concordo que os tem. Ela se torna centro e árbitro da sensualidade e dos prazeres. Então, enche-se de todas as coisas que tendem a deliciar os sentidos. Volta o pensamento ao pas­sado e, lembrando prazeres, recompõe sua expe­riência e indaga por aqueles ainda por vir. Assim, enquanto o corpo é abandonado aos festins pre­sentes, a mente corre com o pensamento ao en­contro de prazeres futuros. Tudo isso me parece mesquinho, já que preferir o mal ao bem é lou­cura. Ninguém pode ser feliz se não tiver a men­te sadia, e, certamente, não a tem quem opta por aquilo que vai prejudicá-lo.

É feliz, por isso, quem tem um julgamen­to correto. Feliz é aquele que, satisfeito com sua condição, desfruta dela. Feliz é quem entrega à razão a condução de toda a sua vida.

Observa agora aqueles que conceituam o bem supremo junto aos prazeres. Insistentemen­te, negam que seja possível separar o prazer e a virtude. Assim, afirmam não ser possível viver honestamente sem prazer, nem ter vida com pra­zer sem honestidade. Não vejo como coisas tão diversas podem ser conciliadas. O que proíbe separar o prazer da virtude? Acreditas que todo o princípio de bem procede da virtude e de suas bases advém aquilo que amas e desfrutas? Ora, se prazer e virtude fossem inseparáveis, então não haveria coisas agradáveis, apenas desonrosas; nem coisas honestas, apenas onerosas, só alcançadas a duras penas.

VII

Digo ainda que o prazer está ligado à vida mais infame, mas a virtude não aceita a desonestidade. Há indivíduos descontentes não por causa da fal­ta de prazer, mas em decorrência do prazer em si, o que não aconteceria se o prazer estivesse ligado à virtude. A virtude frequentemente abre mão do prazer e dele não tem necessidade. Por que, então, juntar o que é contraditório e diverso?

A virtude é algo de elevado, nobre, invencí­vel e infatigável. O prazer é fraco, servil, frágil e efêmero, cuja sede e casa são bordéis e tabernas. Você encontrará a virtude no templo, no fórum, na cúria, vigiando nossas muralhas. Anda coberta de poeira, queimada de sol e com as mãos cober­tas de calos.

O prazer, por sua vez, quase sempre anda escondido em busca de trevas, perto das casas de banho, lugares longe dos edis. Apresenta-se flácido, frouxo, cheirando a vinho e a perfume, pá­lido, quando não cheirando a formol e parecendo embalsamado como um cadáver.

O bem supremo é imortal, não desaparecerá e não está familiarizado com tédio ou arrependi­mento, pois uma alma correta não muda nunca, não se aborrece, não se altera, porque sempre se­guiu o caminho certo. Ao contrário disso, o pra­zer quanto mais deleita, logo se extingue. Sendo limitado, fica logo satisfeito. Sujeito ao tédio, logo depois do primeiro ímpeto já se mostra fadigado. Não demonstra estabilidade porque é fugaz. As­sim, não pode ter consistência aquilo que aparece e desaparece como um relâmpago, destinado a fin­dar no mesmo instante em que se faz presente. Em verdade, o fim já está próximo quando começa.

VIII

Importa que o prazer esteja presente tanto entre os bons quanto entre os maus e não delei­te menos os malvados em suas torpezas do que os bons em suas ações honestas? É por isso que os antigos recomendavam seguir a vida melhor e não a mais agradável, de modo que o prazer se torne um aliado e não o guia da vontade digna e honesta.

É a natureza quem deve nos guiar. A ela se dirige a razão em busca de conselho. Deixa que eu explique o que entendo. Se soubermos man­ter, com cuidado e serenidade, os dotes físicos e as nossas capacidades naturais como bens fugazes e de apenas um dia; se não somos escravos deles nem dominados pelas coisas exteriores; se as oca­sionais alegrias do corpo têm para nós o mesmo valor que as tropas auxiliares (devem servir e não comandar), então, por certo, tudo isso será útil para a alma.

Que o homem não se deixe corromper nem dominar pelas coisas exteriores e somente olhe para si mesmo, que confie em seu espírito e esteja preparado para o que o destino lhe envie, isto é, que seja o próprio artífice de sua vida. Que sua confiança não seja desprovida de conhecimento, nem seu conhecimento, de constância; que suas decisões sejam para sempre e não sofram qual­quer alteração. Compreende-se, sem necessidade de repetir, que tal homem será tranqüilo e organi­zado, fazendo tudo com grandeza e amabilidade. A verdadeira razão estará incluída nos sentidos e fará, a partir deles, o seu ponto de partida, uma vez que não tem mais onde apoiar-se para que possa se lançar em direção à verdade e, depois, voltar para si mesma. Assim como o mundo que engloba todas as coisas, deus, governante do uni­verso, dirige-se às coisas externas, mas novamen­te retorna a si próprio de onde estiver. Que nossa mente faça o mesmo; quando seguir seus sentidos e se estender por meio deles através de coisas ex­teriores, seja dona destas e de si própria. Desse modo, resultará uma unidade de força e de poder em conformidade com ela própria, e nascerá uma razão segura, sem hesitação ou divergência em seu ponto de vista e compreensão, nem em sua convicção. Assim, quando harmonizada em seu todo, atinge o supremo bem. Pois nada de errado ou inseguro subsiste; nada que possa escorregar ou tropeçar.

Fará tudo através de seu controle, nada de inesperado irá acontecer, e tudo ficará bem, fácil e direito, sem desvios no agir, porque preguiça e hesitações demonstram luta e inconstância. Por­ tanto, podes declarar resolutamente que o supre­mo bem é a harmonia da alma, porque as virtudes devem estar onde estão a harmonia e a unidade; os vícios são aqueles que discordam.

IX

“Mas tu mesmo”, dizes, “praticas a virtude porque esperas que te traga algum prazer.” Em pri­meiro lugar, se a virtude há de proporcionar prazer, então por isso mesmo é desejada. Não é porque ela proporciona tal satisfação que deve ser buscada e, sim, porque, sobretudo, daí advém algum prazer. O empenho em busca da virtude não ocorre em razão do prazer, mas em vista de outro objetivo, embora possa decorrer algum prazer dessa busca.

Embora em campo lavrado possam aparecer algumas flores, não foi por causa de tais plantas, ainda que proporcionem uma bela visão, que foi gasto tanto trabalho. A intenção do semeador era outra. O “a mais” é apenas um acréscimo even­tual. Dessa forma, o prazer também não é o valor nem o motivo da virtude, mas, sim, um acessó­rio dela. Não é porque deleita que agrada; mas, se agrada, então deleita.

O bem supremo reside no próprio julgamen­to e na estruturação de um espírito perfeito que, respeitando os seus limites, realiza-se plenamente de maneira a mais nada desejar. Portanto, não há nada fora da plenitude a não ser seus limites.

Enganas-te ao questionar acerca do motivo que me leva a desejar a virtude; procuras, então, buscar algo além do que consideras o máximo, dizes. Queres saber que vantagem tiro da virtude? Apenas ela mesma, ela é o maior prêmio.

Isso te parece pouca coisa? Se digo: o bem supremo é a firmeza, a previsão, a agudeza, a li­berdade, a harmonia e a dignidade de uma alma  inquebrantável, poderias ainda imaginar algo de mais grandioso a que se referem todas essas coisas? Por que falar de prazer? Eu busco o bem do homem, não a barriga que em bestas e feras é maior.

X

“Desvirtuas o que digo”, poderias replicar. “Eu também não creio que alguém possa viver fe­liz sem que viva de modo virtuoso. Isso não vale para os animais nem para quem mede a felicida­de apenas pela comida. Afirmo, claramente, que a vida que eu chamo agradável não deve ser outra senão a que esteja ligada à virtude.”

Ninguém ignora que alguns homens pen­sam apenas nos prazeres, e que a alma sugere prazeres e gozos exuberantes. Em primeiro lugar, a insolência e a excessiva autoestima; o orgulho que despreza o outro; o amor cego pelas próprias coisas; a euforia por pequenos e fúteis pretextos; a maledicência com a soberba violenta; a inércia e a indolência que, cansada pelo acúmulo de praze­res, acaba dormindo sobre si mesma.

A virtude rejeita tudo isso. Para todas essas coisas, faz-se surda. Ela avalia o prazer antes de aceitá-lo. Não o acolhe para simples deleite, ao contrário, fica feliz em poder fazer uso dele com moderação.

“O equilíbrio ao limitar o prazer é lesivo para o bem supremo.” Ao falares assim, estás privile­giando o prazer. Eu o controlo. Tu o desfrutas, eu apenas me sirvo dele. Tu acreditas que ele seja o bem supremo; para mim sequer é bem. Tu fazes tudo por prazer; eu, nada.

XI

Quando digo que nada faço apenas por pra­zer, falo daquele a quem atribuímos o conceito de prazer. Penso que não é sensato chamar sábio a quem está escravizado por alguma coisa, ainda mais pela volúpia. De fato, se estiver totalmente sujeito àquilo, como poderia vencer o perigo, a pobreza em torno da vida humana? Como su­portar a visão da morte e da dor; como enfrentar o estrépito do mundo amargo e de tantos inimigos violentos, quando se submete diante de um adversário tão débil?

Dirás: “Faz tudo o que o prazer sugerir.”

Digo: “Certo. Acontece que nem podes ima­ginar os tipos de insinuações que ele fará.”

Dirás: “Nada me aconselhará de muito sór­dido, já que tudo está ligado à virtude.”

Digo: “Não vês, mais uma vez, que o bem su­premo precisa de um tutor para ser bom? Como poderá a virtude ser guia do prazer se a fazes mera acompanhante?”

Colocas atrás quem deveria comandar. A virtude tem um papel importante a desempenhar segundo tua forma de pensar: ela é apenas pregustadora do prazer.

Vejamos agora se a virtude, assim conside­rada, ainda seria virtude, uma vez que não pode conservar o nome ao perder a função.

Para que fique claro o argumento, mostra­rei como muitos homens cercados pelos prazeres, acobertados pela sorte e seus favores, não deixam de ser vistos como indivíduos corruptos.

Olha para Nomentano e Apício que, como afirmam, buscam coisas valiosas por terra e por mar. Depois, nas mesas de banquetes, expõem animais de todas as partes do mundo.

Olha como eles, do alto de seus leitos enfei­tados com rosas, contemplam a fartura de suas festas, deliciando os ouvidos com músicas e cantos, os olhos com espetáculos e o paladar com di­ferentes sabores.

Estão vestidos com roupas delicadas. Para não deixarem de apreciar os odores, o ambiente está permeado de perfumes diversos. Neste local, acontecem orgias luxuosas.

Podes reconhecer que estão submetidos aos prazeres, mas isso não é um bem para eles, já que de alguma coisa verdadeiramente boa não estão desfrutando.

XII

“Será um mal para eles”, dizes, “porque muitas são as circunstâncias que perturbam o seu humor, sem falar nas posições antagônicas que ajudam a perturbar o espírito.”

Também posso pensar que seja assim, embo­ra loucos e volúveis, e mesmo sujeitos ao arrepen­dimento, irão experimentar tais prazeres que os deixarão afastados da inquietude e do bom-senso. Como costuma acontecer, tornam-se reféns de uma alegria enorme e de uma trepidante festivi­dade a ponto de enlouquecerem de tanto rir.

Ao contrário, os prazeres dos sábios são mo­derados, comedidos, controlados e pouco per­ceptíveis, uma vez que vêm de improviso. Ao se fazerem presentes, não são acolhidos com pompa e circunstância por parte de quem os recebe. É que o sábio os inclui em sua vida tal como peças de um jogo, misturando-os a coisas mais sérias de forma a não se destacarem.

Deixe-se, pois, de unir coisas incompatí­veis entre elas, confundindo prazer com virtude. É com tal engano que se lisonjeia os perversos. Aquele que se deixa afundar nos prazeres, bê­bado e inebriado, ao mesmo tempo em que está consciente de conviver com o prazer também crê estar com a virtude.

Ouviu falar que prazer e vir­tude são inseparáveis e, por essa razão, nomeia os vícios com o nome de sabedoria, anunciando o que deveria esconder.

Assim, não se entregam à sensualidade leva­dos por Epicuro, mas, apegados ao vício, escon­dem na filosofia a própria corrupção, lançando-se para onde o prazer é elogiado. Também não levam em consideração o quanto era moderado o prazer segundo Epicuro, mas apegam-se apenas ao nome dele, esperando encontrar justificativa e apoio para uma vida devassa e corrupta. Portanto, perdem a única coisa boa que havia entre os seus males: a vergonha do pecado. De fato, elogiam aquilo que os arruina enquanto se afundam em vícios. Por isso, sequer é possível corrigirem-se, uma vez que se aplica um título honroso para uma indolência vergonhosa. Esta é a razão por que este elogio do prazer é prejudicial: os preceitos virtuosos ficam escondidos; o que corrompe está manifesto.

XIII

Eu próprio sou de opinião (afirmo isso apesar do que dizem nossos partidários) que os preceitos de Epicuro são nobres e corretos e, se analisados sob uma perspectiva mais acurada, até severos. Ele reduz o prazer a algo pequeno e mes­quinho. A mesma lei que atribuímos à virtude, ele atribui aos prazeres; isto é, obedecer à natureza. No entanto, o que é suficiente para a natureza é muito pouco para a luxúria. Então, o que ocorre?

Existe quem chame felicidade o lazer preguiçoso, a gula e a luxúria, buscando apoio para sua con­duta devassa. Quando encontra o prazer, sob um nome atraente, não adota aquele do qual ouve fa­lar, mas, sim, aquele que já trazia consigo. Não é por isso, no entanto, que diria que a escola de Epicuro, segundo opinião da maioria, professa a perdição.

Digo, no entanto, que está desacredi­tada, e sua fama é das piores, o que, em verdade, não passa de injustiça. Quem poderia saber isso senão aquele que nela fez sua iniciação? É o as­pecto dele que dá margem a falatórios e levanta falsa esperança, da mesma forma que quando um homem muito másculo veste roupas femininas. Sua honra não é manchada, sua masculinidade continua intocável, uma vez que o corpo não sofre qualquer desonra, porém ele carrega a sineta na mão. Quem se aproxima da virtude demons­tra ter índole nobre. Ao contrário, quem segue o prazer demonstra ser fraco, degenerado, propen­so ao vício mais sórdido, a não ser que haja quem o faça enxergar a diferença entre os prazeres e, dessa maneira, possa aprender quais deles são os que se encaixam nos limites da necessidade na­tural e quais os imoderados e insaciáveis, aqueles que quanto mais procurados mais se tornam exigentes.

Que a virtude tenha precedência, pois, assim, estaremos em segurança. O prazer excessivo pre­judica; na virtude não há de se temer o excesso, porque ela mesma contém em si a medida adequa­da. Não poderia ser um bem o que padece por sua própria magnitude.

XIV

Para os que foram privilegiados com uma natureza racional, o que poderia ser-lhes ofe­recido de melhor senão a própria razão? Se é desejável tal união, se se quer que a felicidade acompanhe, a virtude deve permanecer à frente, e o prazer deve acompanhá-la, mantendo-se tão perto como a sombra de um corpo. No entanto, fazer da virtude escrava do prazer é coisa de uma alma incapaz de algo maior. Que a virtude seja quem leva o estandarte. Dos prazeres, devemos fazer uso moderado.

Algumas vezes, os prazeres poderão nos le­var a alguma concessão, mas não devem nunca nos impor nada. Mas aqueles que tenham se entregue ao comando do prazer enfrentarão duas dificuldades. Primeiro, perdem a virtude e não têm o prazer, pois por ele são dominados; ou se atormentam pela sua falta, ou se sufocam em sua abundância. Infeliz quem dele se afasta, mas mui­to mais quem por ele for soterrado. Tal ocorre quando alguém é surpreendido pela tempestade no mar Sirtes. Ou procura a praia, ou se deixa ficar a favor da violência das ondas.

Este é o resultado do excesso de prazer e de amor cego a qualquer coisa. Aquele que prefere o mal ao bem se coloca em perigo caso alcance o seu objetivo. Cansado e não sem riscos, porta-se como se estivesse à caça de animais selvagens. Mesmo após a captura, deve portar-se cautelosamente, porque, frequentemente, costumam devorar seus donos. Dessa forma, os grandes prazeres acabam trazendo tragédias a quem os cultiva, deixando-os dominados por eles.

Parece-me bom esse exemplo da caça. Como aquele que, abandonando suas ocupações e ou­tros afazeres agradáveis, procura os esconderijos das feras, contente em armar-lhes armadilhas en­quanto fecha o cerco com os latidos dos cães nos rastros dos animais, assim persegue os prazeres.

Colocando-o frente a tudo o mais, o homem des­cuida, em primeiro lugar, da liberdade. Este é o preço pago, já que prazer libertino não se compra, a ele se é vendido.

XV

Poderias contestar: “O que impede a união de virtude e prazer como uma única coisa e o es­tabelecimento do bem supremo de modo que seja ao mesmo tempo nobre e agradável?” Acontece que não pode haver uma parte do virtuoso que não seja algo virtuoso, e o bem supremo não terá sua nobreza se guardar algo distinto do íntegro. Nem mesmo a alegria que vem da virtude, em­bora seja um bem, é uma parte do bem absoluto. Assim são a alegria e a tranqüilidade, ainda que se originem de boas causas. É certo que são coi­sas boas, mas não fazem parte do bem supremo. Dele são apenas conseqüência. Qualquer um que estabeleça uma aliança entre o prazer e a virtu­de, mesmo sem colocá-los em pé de igualdade, faz com que a fragilidade de um deles debilite o quanto haja de vigor no outro, e coloca sob jugo a liberdade que só é invencível se não conhece nada de mais precioso do que ela mesma. De fato, necessita-se da sorte quando começa a escravi­dão.

Disso advém uma vida plena de ansiedade, suspeita e inquieta, que se torna temerosa frente aos acontecimentos e no aguardo dos momentos do tempo.

Dessa forma, não se propicia para a virtude uma sólida e permanente base, passa-se a restringi-la à condição de instabilidade. O que há de tão mais incerto do que a espera das coisas fortuitas e da mudança do corpo e daquilo que o afeta? Como pode obedecer a deus e aceitar de bom grado tudo o que lhe ocorre, não queixar-se do destino e encontrar o lado positivo em qualquer evento, quando até o menor estímulo de prazer ou de dor o afeta? Quem se entrega aos prazeres não pode tornar-se defensor ou salvador da pátria nem protetor de seus amigos. Assim, deve-se colocar o bem supremo num lugar de onde nada possa de lá afastá-lo. A ele não deve ter acesso nem a dor, nem a esperança, nem o medo, nem qualquer outra coi­sa que possa ameaçá-lo. Só a virtude pode dele se aproximar.

Só a virtude pode lá chegar; passo a passo do­minará o caminho, mantendo-se firme, suportan­do todos os imprevistos, sem resignação, mas com alegria, consciente de que as adversidades da vida fazem parte da lei da natureza. Como o bom solda­do, que suporta os ferimentos, acumula cicatrizes e, mesmo à morte, traspassado por dardos, ainda admira o seu comandante aos pés do qual tomba.

Terá sempre em mente o velho preceito: se­guir a deus. Em vez disso, o que reclama, cho­ra e geme é obrigado a fazer à força o que lhe é ordenado.

Deixa-se arrastar, não caminha acom­panhando os demais. É estupidez e falta de cons­ciência da própria condição afligir-nos quando nos falta algo ou somos atingidos de forma mais violenta por adversidades. Da mesma forma, ficar indignado com coisas que ocorrem tanto para os bons quanto para os maus, como doenças, luto, fraquezas e todos os demais infortúnios da vida humana. Devemos saber suportar com espírito forte tudo o que por lei universal nos é dado a en­frentar. É nossa obrigação suportar as condições da vida mortal e não nos perturbarmos com o que não está em nosso poder evitar. Nascemos em um reino onde obedecer a deus significa liberdade.

XVI

Para concluir, a verdadeira felicidade con­siste na virtude. O que essa virtude te aconselha? Ela considera como bem apenas o que está unido à virtude e como mau o que tem ligação com a maldade. Mais ainda, manda que sejas inabalável, quer frente ao mal, quer junto ao bem, de forma a que possas imitar deus dentro dos limites de tua própria capacidade. O que ganhas com isso? Pri­vilégios dignos dos deuses. Não serás forçado a nada. Não terás necessidade de nada. Serás livre, seguro e imutável. Nada tentarás executar em vão. Tudo ocorrerá conforme o teu desejo. Nada será contrário aos teus desejos nem à tua vontade.

“Então”, perguntas, “basta a virtude para vi­ver feliz?” “Se é perfeita e divina, por que então não é suficiente, ou melhor ainda, mais do que suficiente? O que faltaria àquilo que está além de qualquer desejo? Quem, ao contrário, ainda não alcançou a meta final da virtude, mesmo que já tenha empreendido longa caminhada, precisa, sim, de sorte, uma vez que ainda luta em meio aos desejos humanos enquanto não consegue os laços de tantos obstáculos da mortalidade.”

Qual a diferença, então? A diferença reside em uns estarem algemados, outros decapitados e alguns estrangulados. Aquele que tenha atingido um plano superior, elevando-se ao máximo, leva algemas frouxas. Não se encontra ainda livre, mas já prevê a futura liberdade.

XVII

Alguém, dentre os que falam contra a filoso­fia, poderá dizer: “Por que há mais coragem em tua fala do que em tua vida? Por que moderas o tom de tua voz diante dos poderosos e julgas o di­nheiro como necessário? Por que te abates diante de contrariedades? Por que choras a morte da es­posa e do amigo? Por que és tão apegado à cele­bridade? Por que te afetam as palavras maldosas?

“Por que é que a tua área cultivada produz mais do que o necessário para viveres? Por que tuas refeições não seguem teus preceitos? Por que ter um mobiliário elegante também? Por que se bebe em tua casa um vinho mais velho do que o dono? Por que instalar um aviário? Por que são plantadas árvores só para te dar mais sombra? Por que tua esposa traz nas orelhas enfeites de igual valor ao dote de uma opulenta casa? Por que teus escravos vestem belas roupas? Por que é uma arte em tua casa servir a mesa, e são colocados talhe­res de prata, e tens até um mestre para cortar a carne?”

Acrescenta ainda, se quiseres: “Por que tens propriedades para além-mar, sem sequer sa­ber quantas são elas? É uma pena que sejas tão negligente a ponto de não saber quem são os teus escravos, ou tão rico que perdes a conta de quan­tos são eles?”

Responderei logo às críticas e acusações que me fazes. Além disso, vou fazer mais objeções do que imaginas. Agora te responderei isto: “Eu não sou um sábio e, para que a tua malevolência se regozije, acrescento, nunca serei.”

É por isso que não exijo ser igual aos melho­res, apenas melhor que os maus. Basta-me que, a cada dia, eu corte um pouco os meus vícios e castigue os meus erros.

Não estou curado nem ficarei de todo sadio. Tomo mais calmante que remédios para o mal de gota e dou-me por feliz se os ataques são mais esporádicos, e as dores, um pouco menos doloro­sas. Seja como for, comparado com tua caminha­da, eu, mesmo impotente, ainda assim sou um corredor.

XVIII

Podes dizer: “Falas de uma maneira e ages de outra”. Essas mesmas censuras, ó espíritos ma­lignos e agressivos, contra indivíduos de virtudes, também foram feitas a Platão, Epicuro e Zenão. Eles também não procuravam apregoar o modo como viviam e, sim, o modo como se devia viver. Eis o motivo por que não estou falando de mim, mas da vida virtuosa em si. Quando falo contra os vícios, estou reprovando, em primeiro lugar, os meus. Portanto, se for possível, procurarei viver corretamente.

Não será a malignidade venenosa a me afas­tar dos meus objetivos, nem esse veneno, que é jogado sobre os outros, vai me impedir de elogiar não a vida que levo e, sim, a que deveria levar. Também não me impede de cultuar a virtude e de segui-la, mesmo que seja me arrastando e à gran­de distância.

Esperavas que eu escapasse da maldade que não poupou a magnitude de Rutílio e de Catão? Será que alguém se preocupa em parecer demasiado rico para aquelas pessoas para quem o cíni­co Demétrio não é bastante pobre? Mesmo contra um homem como ele, extremamente forte na luta contra todas as exigências naturais, sendo o mais pobre de todos cínicos, já que, além de ser proi­bido de ter qualquer coisa, também foi proibido de pedir, atreveram-se os difamadores a dizer que ele não era bastante pobre!

XIX

Negam que Diodoro, filósofo epicúreo, que há poucos dias terminou sua vida pelo seu pró­prio punho, agiu de acordo com os preceitos de Epicuro ao cortar o pescoço. Alguns querem ver loucura nessa ação; outros, ousadia. Ele, porém, feliz e com a consciência satisfeita, deixou com a vida testemunho sobre a tranqüilidade de seus dias passados em porto seguro.

Pronunciou uma frase que é ouvida contra a vontade, porque soa como um convite a ser imi­tado: “Vivi. Fiz a caminhada que o destino me traçou.”

Discutem a vida de um, a morte de outro e, ao ouvirem a notícia da morte de um grande ho­mem, ladram como animais de estimação ao ir ao encontro de pessoas desconhecidas. Interessa a esses que ninguém viva como uma pessoa de bem, já que a virtude alheia parece demonstrar os seus próprios vícios.

Por inveja, comparam ador­nos brilhantes deles com as suas vestes miseráveis e não avaliam quanto isso traz de prejuízo para eles mesmos. Se homens dedicados à virtude são avaros, libidinosos e ambiciosos, quem são vocês, que não suportam a virtude a ponto de sequer querer ouvir-lhe o nome.

Afirmam que nenhum daqueles faz o que prega, não vivendo de acordo com a própria dou­trina. Mesmo que isso fosse verdade, por acaso as palavras deles deixariam de ser grandiosas e su­periores a todos os infortúnios humanos, posto que se esforçam para se soltar das cruzes nas quais cada um de vocês prende seus próprios pregos? Contudo, os condenados ao suplício estão sus­pensos na própria cruz. Os que se atormentam a si mesmos terão tantas cruzes quanto desejos. Realmente, os maledicentes se enfeitam com as ofensas dos outros. Acreditam, por isso, que es­tão isentos de culpa, se não fosse o fato de alguns cuspirem, do alto do patíbulo, nos espectadores.

XX

“Os filósofos não fazem o que dizem.” É verdade que já fazem muita coisa quando falam e pensam honestamente. Se o comportamento deles fosse adequado às suas palavras, quem seria mais feliz do que eles?

Entretanto, não devemos ignorar as palavras boas e os corações repletos de bons pensamentos. O cultivo de resoluções saudáveis, independente­mente do resultado, é louvável. Não é estranho que não atinja o topo quem escala encostas íngre­mes. Mas, se tu fores humano, admira, apesar da queda, os que se esforçam para conseguir grandes escaladas. Uma alma generosa, sem olhar para as próprias forças, apenas para a da natureza, aspira atingir os mais elevados objetivos, elaborar pla­nos mais elevados do que ela pode realizar, mes­mo com um espírito forte.

Há quem proponha a si mesmo o seguinte: “Olharei a morte com o mesmo ânimo com que ouvi falar sobre isso; suportarei qualquer cansaço com espírito forte, também desprezarei as rique­zas presentes e futuras, sem ficar mais triste ou mais orgulhoso se elas estão em torno de mim ou em outro local; serei insensível aos ditames da sorte venturosa ou desafortunada; observarei to­das as terras como se minhas fossem, e as minhas como se pertencessem a todos; viverei como al­guém que sabe que nasceu para os outros e darei graças à natureza por isso.”

A natureza foi muito benevolente para co­migo, já que me entregou a todos os meus seme­lhantes e, por sua vez, tenho todos só para mim. Se tenho algo de meu, conservarei, sem ganân­cia, mas também não esbanjarei prodigamente. Acredito ser o dono daquilo que ofereci de modo consciente. Não costumo avaliar os benefícios por número e peso, mas, sim, pelo valor dado a quem os recebe. Nunca será demais o que posso oferecer a quem o merece. Farei tudo o que mi­nha consciência mandar, sem me submeter ao que os outros pensam. Mesmo que apenas eu saiba o que estou fazendo, agirei como se todos estives­sem me vendo. Ao comer e beber, o meu objetivo será apenas atender a uma necessidade natural e não encher o estômago vazio. Serei agradável para com os amigos, gentil e indulgente para com os inimigos. Cederei antes que me solicitem, adian­tando-me a todas as demandas honestas.

Sei que a minha pátria é o mundo, e que os deuses o comandam, e eles estão acima de mim e ao redor, agindo como censores de meus atos e de minhas palavras. Quando a natureza solicitar o meu espírito, ou minha razão ordenar que eu o libere, partirei dizendo que sempre cultivei a reti­dão de caráter e as melhores intenções, sem haver reduzido a liberdade de ninguém, muito menos a minha. Qualquer pessoa que pretenda, que quei­Rá, que se proponha a fazer isso estará trilhando a estrada que leva aos deuses. Caso não consiga atingir a meta, terá então sucumbido depois de ter ousado grandes coisas.

XXI

Tu, que odeias a virtude e quem a cultiva, nada de novo estás fazendo. De modo igual, quem tem algum problema na vista não suporta a luz, tal como os animais noturnos evitam o brilho do sol. Mal desponta a luz do dia, correm para seus refú­gios e, com medo da claridade, escondem-se em qualquer buraco. Geme e grita, insultando os bons. Escancara a boca e morde. Assim, rapidamente quebrarás os teus dentes antes que deixem marcas.

Como é que um adepto da filosofia pode vi­ver com essa opulência? Por que diz que despre­za riqueza e é possuidor de tantos bens? Por que acha a vida desprezível e vive?

Despreza a saúde; no entanto, trata de pre­servá-la com todo o rigor, desejando estar em ex­celente forma. Por que julga a palavra exílio como absurda e, ao mesmo tempo, diz: “Que mal existe em mudar de país?” Por que, sendo isso possível, acaba envelhecendo em sua própria terra natal?

Assegura, além disso, que não existe dife­rença entre vida longa e vida breve, mas, nada impedindo, procura viver a mais longa existên­cia possível, mantendo-se com energia até a mais avançada velhice.

Ele afirma que essas coisas devem ser igno­radas, não no sentido de que não devam ser pos­suídas e, sim, de que devam estar presentes sem ansiedade. Dessa maneira, não as joga fora, mas, vindo a perdê-las, continua sua caminhada com tranqüilidade.

Onde a sorte acolhe, com maior segurança, as riquezas senão de onde poderá retomá-las sem protesto?

Marco Catão, embora louvasse Cúrio e Coruncânio, naqueles tempos em que possuir um pouco de prata era crime punível pelos censores, tinha ele próprio quarenta vezes mais sestércios. Certamente valor menor do que possuía seu bi­savô Crasso, mas maior do que Catão, o censor. Apesar disso, se outros bens lhe fossem ofereci­dos, não os desprezaria.

Da mesma forma, o sábio, não é considera­do indigno ao ser agraciado pelo dom da fortuna. Não ama a riqueza, mas a aceita de bom grado. Permite que entre em sua casa, não a rejeita, des­de que ela enseje oportunidades para a virtude.

XXII

Assim, não resta dúvida de que o homem sá­bio tem um campo mais vasto para desenvolver o seu espírito em meio à riqueza do que na pobreza. Na pobreza, a virtude consiste em não se deixar abater, não cair em desalento. Na riqueza, existe oportunidade para a temperança, a generosidade, o discernimento, a organização, a magnificência com total liberdade.

O sábio não se despreza caso seja de estatura pequena, embora preferisse ser mais alto.

Se for franzino ou tiver um olho a menos, assim mesmo terá consciência de seu valor, pre­ferindo ser robusto, mas sem esquecer que algo de mais valioso existe dentro de si. Suportará a moléstia, mas desejará ter saúde. Existem muitas coisas, apesar de terem pouca importância para o todo, que podem faltar sem que causem prejuízo ao bem principal, embora possa propiciar alguma vantagem para a serenidade duradoura da virtu­de. Portanto, a riqueza é agradável para o sábio, assim como o vento favorável para o navegante, ou um dia ensolarado no frio do inverno.

Nenhum dentre os sábios - falo daqueles sábios para os quais a virtude é o único bem ver­dadeiro - sustenta que as vantagens da riqueza, ditas como indiferentes, não tenham o seu real valor. Também não nego que algumas coisas se­jam preferidas a outras, uma vez que a algumas delas é dado certo valor e a outras, muito mais.

E não nos devemos enganar, portanto. As ri­quezas aparecem entre as preferidas.

Dirias, então: “Por que zombas de mim, se para ti elas têm o mesmo valor que para mim?”

Deves saber que o valor não é idêntico para nós. Para mim as riquezas, se as perdesse, não me diminuiriam em nada, apenas elas seriam reduzi­das. Tu, ao contrário, ficarás abatido, sentindo-te como que privado de ti mesmo, caso te abando­nem. Para mim, as riquezas têm certo valor, para ti, têm um valor imensurável. Assim, as riquezas pertencem a mim, no teu caso, tu estás subordi­nado a elas.

XXIII

Deixa, por isso, de querer proibir aos fi­lósofos o direito de possuírem bens. Ninguém condenou a sabedoria à miséria. O sábio pode­rá possuir grandes riquezas, desde que não sejam roubadas, manchadas com o sangue dos outros, que sejam adquiridas sem prejuízo algum, sem negócio sujo. Os gastos devem ser tão honestos como os ganhos, de forma que ninguém, exceto os maldosos, possa criticar. Os bens podem ser acumulados. São ganhos limpos, porque não há quem possa reivindicá-los, embora não falte quem queira tomá-los.

Com certeza, o sábio que não rejeita os favo­res da sorte não se vangloria e também não se en­vergonha de um patrimônio adquirido por meios honestos.

Terá motivo para se sentir glorificado se, aberta a casa e convidada toda a cidade, puder di­zer: “Se alguém descobrir algo de seu, pode levar embora”.

Grande será o homem que, ditas essas palavras, continue com os mesmos bens que tinha antes. Quero dizer que, se permitiu ao povo inqui­rir sobre ele com tranqüilidade e sem preocupa­ção, e ninguém encontrou nada para reivindicar, poderá ser rico de maneira franca e aberta. O sábio não deixará transpor o limiar de sua casa dinheiro suspeito, mas não rejeitará, certa­mente, uma grande riqueza, quando dom da sor­te ou fruto da virtude.

Por que lhes negar um bom lugar? Deixe-as entrar, serão aceitas. Não haverá ostentação, mas também não ocultará um grande valor, nem o jogará fora. O primeiro gesto seria tolice, o segun­do, mesquinharia. O que lhes diria ele? “Você é inútil” ou “Eu não sei usar da riqueza?” Da mesma forma, embora possa viajar a pé, prefere fazer isso com um veículo. Assim, se puder ser rico, vai preferir ser de verdade. Possuirá uma fortuna, mas estará consciente de que é algo in­constante e instável, não permitindo, portanto, que seja um fardo para si mesmo nem para os outros.

Dará... Por que aguças os ouvidos? Por que estendes a tua bolsa?

Dará a quem merecer ou a quem tenha po­tencial para ser merecedor, sabendo escolher, com grande prudência, os mais dignos, como quem lembra que deve dar conta tanto dos gas­tos quanto dos créditos. Dará por motivos justos, pois presente errado é inútil. Terá a bolsa aberta, mas não furada, da qual muito sai, sem esbanjar demais.

XXIV

Engana-se quem pensa que é fácil doar. Ao contrário, é mais difícil, visto que se deve agir com discernimento, e não por ímpeto ou instin­to. Dou crédito a um, fico em débito com outro; presto favores àquele; tenho compaixão por este. Ajudo, para que não cometa desatinos, a quem não merece passar fome. Não darei um centavo a quem, mesmo precisando, por mais que receba, sempre quer receber mais.

A alguns apenas ofereço ajuda, enquanto que a outros, necessito convencê-los a receber. Não posso ser negligente nesse assunto, porque ao doar faço o melhor dos investimentos.

Então, dirás: “Tu dás para receber algo em tro­ca?” Respondo: “Eu dou para que não se perca. O que for doado vai ficar em um lugar onde não pode ser reclamado, mas pode ser devolvido.” O impor­tante é que o benefício seja tratado como um tesou­ro que permaneça muito bem cuidado, guardado, sendo desenterrado apenas quando for necessário.

A casa do homem rico oferece material para fazer o bem. Quem disse que devemos ser gene­rosos apenas para aqueles que usam toga? A natu­reza ordenou-me ser útil para os homens, sejam escravos ou livres, ou assim nascidos ou não. Qual a diferença se é uma liberdade legal ou concedi­da por amizade? Onde houver um ser humano, aí haverá possibilidade de se fazer o bem.

Também é possível doar dinheiro no inte­rior de nossa casa, praticando a liberalidade, as­sim chamada não por que dirigida a indivíduos livres, mas porque parte de uma alma livre.

Não existe razão para escutares de má von­tade as palavras fortes e corajosas de quem seguia pela sabedoria. Fica atento, pois uma coisa é o empenho para ser sábio, e outra, sê-lo de fato. Al­guém irá dizer-te: “Eu falo muito bem, mas ainda me encontro envolvido com muitos males”.

Não posso ser colocado em choque com meus princípios quando faço o máximo que pos­so, procuro melhorar e desejo um ideal grandio­so. Apenas depois de ter alcançado os progressos que tinha em mente é que me poderia ser exigido o confronto entre o que falo e o que concretizo.

De maneira diversa, quem já atingiu o cume da perfeição falaria assim: “Antes de tudo, não po­des emitir juízo sobre quem é melhor do que tu”.

No que diz respeito a mim, sendo despreza­do pelos maus, significa que estou no caminho certo. Para explicar-te, visto que a ninguém se deve negar, ouve o que vou dizer e qual o valor que dou pelas coisas em questão. Volto a afirmar que as riquezas não são coisas boas em si mesmas. Se realmente fossem, elas nos tornariam bons. Não me é possível definir como algo bom em si aquilo que também faz parte da vida de maus indivíduos. Enfim, estou convicto de que riquezas são úteis e proporcionam grande con­forto à vida.

XXV

Escuta agora por que não incluo as riquezas entre os bens e por que a minha atitude no que diz respeito a elas é diferente da tua, embora seja consenso que é necessário possuí-las.

Coloca-me na mais opulenta casa onde não se distingue ouro e prata. Não tenho nenhuma admiração por estas coisas, que, mesmo estando
junto a mim, estão fora de mim. Traslada-me para a ponte Sublício, entre os pobres e miseráveis. Não é por isso que pensarei ter menos valor só porque me encontro entre os que pedem esmola. Assim, o que muda? Eles não têm o que comer, mas não lhes falta o direito de viver. E daí? Seja como for, prefiro uma casa opulenta a uma ponte.

Põe-me no meio de um suntuoso e requinta­do mobiliário de luxo. Não é por esse motivo que serei mais feliz, por me encontrar sentado sobre almofadas macias ou por poder estender tapetes vermelhos sob os pés de meus convidados.

Troca o meu colchão, e não serei mais infeliz se puder descansar meus membros exaustos so­bre um pouco de feno ou dormir sobre uma cama de circo com o estofado gasto devido à velhice da costura. O que isso significa? Eu prefiro mostrar-me vestido com a pretexta e ficar agasalhado, não deixando seminus ou descobertos os ombros.

Mesmo que todos os meus dias passem se­gundo meus desejos, que novas felicitações se juntem às anteriores, não me contentarei com isso.
Mesmo que o meu espírito seja atormen­tado por todos os lados com lutos, tristeza e contrariedades de qualquer tipo, de maneira que cada momento seja motivo de choro, nem por isso terei razão para reclamação. Mesmo sob tanta desgraça, não amaldiçoarei qualquer dia de minha vida. Tomei medidas para garantir que nenhum dia seja desastroso para mim.

Então? Eu prefiro temperar as minhas ale­grias a reprimir a minha dor.

O grande Sócrates te diria o seguinte: “Fa­ça-me vencedor de todas as nações, que o carro de Baco voluptuoso leve-me a partir do Orien­te para Tebas, que os reis dos persas me façam consultas. Não é por isso que esquecerei que sou apenas um homem, mesmo sendo exaltado como um deus.”

De repente, uma desgraça pode lançar- me do alto, e, assim, serei apenas carregado tal qual enfeite em carro alheio para o desfile de um vendedor orgulhoso e feroz. Não obstante, não me sentirei menos em carro alheio do que quando me encontrava em pé no meu, triun­fante!

É isso mesmo, prefiro vencer a ser vencido. Desprezo a sorte com toda convicção, mas, se me for dado escolher, escolherei o que me for mais agradável. Aconteça o que acontecer, será uma coisa boa para mim, no entanto, será melhor ain­da ser for algo prazeroso que não cause a menor perturbação.

Então, não acho que haja qualquer força sem trabalho, porém, com relação a algumas virtudes, é preferível o uso de esporas e, com outras, o do freio.

Da mesma forma que o corpo deve ser reti­do em uma descida e ser impulsionado em uma subida, também há virtudes para um declive e outras para a escalada.

Há alguma dúvida que a constância, a tena­cidade, a perseverança impliquem cansaço, es­forço e resistência como todas as outras virtudes que se opõem às adversidades? Ao contrário, não é evidente que a liberalidade, a temperança e a mansidão seguem em disparada?

De um lado, deve-se frear o espírito para não escorregar; de outro, empurrá-lo e incentivá-lo vivamente. Por isso, na pobreza, vamos fazer uso de virtudes aptas à luta; na riqueza, daquelas mais cuidadosas, que controlam os movimentos e man­têm o equilíbrio.

Feita essa divisão, prefiro fazer uso daque­las que podem ser cultuadas na tranqüilidade em lugar de controlar as que exigem muito sangue e suor.

Por isso, o sábio disse: “Não sou eu que falo de uma maneira e vivo de outra. Ês tu que enten­des uma coisa por outra. Estás ouvindo o que te chega aos ouvidos, mas não procuras entender o significado das palavras.”

XXVI

“Então, o que há de diferente entre mim, desvairado, e ti, sábio, já que nós dois desejamos posses?”

“Muita coisa. As riquezas servem ao sábio, enquanto comandam o louco. O sábio não permi­te nada às riquezas; elas, a ti, tudo permitem. Tu, como se a titivesse sido garantida posse eterna, fi­cas preso a elas como se fosse um vínculo habitual. O sábio pensa na pobreza justamente quando está instalado na riqueza.”

Jamais um general confia na paz a ponto de deixar de lado a vigilância e a preparação para uma guerra. Embora sem combate, a guerra continua declarada.

Para ti, basta uma casa luxuosa para que te tornes arrogante, como se ela não pudesse desmo­ronar ou queimar. A riqueza te embriaga porque pensas que ela tem o poder de superar qualquer dificuldade e que o destino não poderá aniquilá-la. Ficas despreocupado em meio à riqueza sem o me­nor cuidado com o perigo que ela pode trazer.

Da mesma forma, os bárbaros, estando cer­cados, não conhecem a utilidade das máquinas de guerra e olham indiferentes o cansaço dos inimi­ gos, não compreendendo para que servem aque­las coisas construídas à distância.

O mesmo acontece contigo. Ficas envaide­do com os teus pertences e não pensas nas desgraças que ameaçam de todos os lados. Elas se preparam para arrebatar a presa valiosa. Qualquer um pode tirar a riqueza do sábio, mas não lhe ti­ram os bens verdadeiros, porque ele vive feliz no presente e está despreocupado com o futuro.

“Nada” - dirá Sócrates, ou algum outro que tenha a mesma autoridade e o mesmo poder sobre as coisas humanas - “prometi a mim mesmo com mais firmeza do que não submeter os atos de minha vida à opinião alheia. Joguem sobre mim suas duras palavras. Não pensarei estar sendo injuriado, pois parecem gemer como criaturas in­ felizes.”

Isso dirá aquele a quem foi dada a sabedoria, porque, livre de vícios, sente-se levado a julgar os outros não por raiva e, sim, por bem. Acrescenta­rá, ainda: “A opinião de vocês me abala não por­ que sou atingido, mas porque vocês continuam a praguejar contra a virtude como inimigos dela, não lhes restando nenhuma esperança de mudan­ça de atitude.”

A mim não causas nenhuma afronta. De fato, quem destrói os altares não ofende aos deu­ses, mas fica clara a sua má intenção, mesmo ali onde não consegue causar nenhum dano.

Tolero tais tolices tal como Júpiter tolera as fantasias dos poetas. Um lhe dá asas; outro, coroa; um outro o representa como adúltero, vagando pelas noites; outro o faz seqüestrador de homens livres e até de seus familiares; outro, por fim, par­ricida e usurpador do reino paterno.

Se fôssemos acreditar nisso, pareceria que os deuses nada fizeram senão tirar dos homens a vergonha do pecado.

Embora isso não me atinja, quero advertir para o seu proveito: “Olha a virtude com respei­to; confia naqueles que, tendo-a seguido durante toda a vida, demonstram tratar-se de algo muito importante e que sempre ganha novas dimen­sões de grandeza. A ela como aos deuses e a seus oráculos, tal qual sacerdote, venera. Sempre que forem citados textos sagrados, mantém silêncio respeitoso para ouvir.”

XXVII

Quando alguém agita o sistro e apregoa, sob encomenda, frivolidades mentirosas; quando o impostor finge estar ferindo os braços e ombros e o faz de leve; quando uma mulher se arrasta pelas ruas, de joelhos, gritando; quando um velho, ves­tido de linho e louro, com uma lanterna na mão, em pleno dia, grita dizendo que algum deus está irritado, vocês acodem e juram que se trata de pessoas inspiradas pelos deuses. Procedendo as­sim, estão promovendo a própria perturbação.

Sócrates, da prisão, purificada com a sua presença e tornada mais honrosa do que qualquer cúria, proclama: “Que loucura é essa, tão inimiga dos deuses e dos homens, que destrata a virtude e profana com palavras maldosas as coisas sagradas? Se puderes, elogia o bom, se não, segue o teu ca­minho. Mas, se gostas de ser infame, agridam-se mutuamente. Quando ficas furioso contra o céu, não vou dizer que cometes um sacrilégio, apenas lutas em vão.”

Eu próprio fui, certa vez, zombado por Aristófanes. Todos aqueles poetas satíricos me enve­nenaram com suas anedotas sobre mim. Minha força, no entanto, foi reforçada graças aos golpes com que pensaram destroçá-la. Foi-lhe proveito­so ser posta à prova. Ninguém entendeu o quão grande era como aqueles que, ao tentar atingi-la, sentiram o seu poder. Ninguém conhece melhor a dureza das pedras do que o escultor.

Eu sou como uma rocha isolada em meio a um mar agitado. Quando a maré baixa e as ondas não param de flagelar de todos os lados, sem descanso, nem mesmo depois de séculos de constantes investidas, não conseguem removê-la ou desgastá-la. Assaltem-me, ataquem-me. Eu vencerei a todos resistindo. Quem se atira con­tra um recife, está praticando a violência contra si próprio. Assim, procurem um alvo mais maleável para atirar os seus dardos.

Vocês têm tempo para investigar os males dos outros e lançar julgamentos como este: por que este filósofo vive em casa tão ampla? Por que oferece jantares tão lautos? Ficam a ver brotoejas nos outros quando têm o corpo coberto de feridas.

Parecem como alguém que, tendo o corpo tomado por lepra, zomba de manchas e verrugas em belos corpos.

Criticam Platão por ter pedido dinhei­ro; Aristóteles por ter recebido; Demócrito por ter negligenciado; Epicuro por ter esbanjado. A mim, criticam por causa de Alcebíades e de Fedro. Vocês seriam mais felizes se pudessem imitar os nossos vícios!

Por que não olham para os seus próprios males, que estão a atacar seu exterior e a devo­rar suas entranhas? Os assuntos humanos - ainda que conheçam pouco o seu estado - não estão em tal situação para que sobre espaço para vocês da­rem com a língua nos dentes, ferindo os que são mais dignos e melhores que vocês. Mas vocês não compreendem isso. Estão sempre demonstrando atitudes que não se ajus­tam às suas vidas. Parecem com aqueles que, des­frutando o circo ou o teatro, esquecem o luto de suas casas.

Mas eu, que vejo de cima, percebo a tem­pestade ameaçando explodir em breve, com suas nuvens já perto, prontas para arrancar e espalhar suas riquezas.

O que eu digo? Em breve? Não, agora mes­mo. Ainda que não pensem nisso, um furacão vai envolver suas almas que, ao tentarem escapar sem se desprender da volúpia, serão jogadas para o alto ou precipitadas para as profundezas.

Filosofia - Estoicismo
10/10/2021 12:22:02 PM | Por Lucius Annaeus Seneca
Da tranquilidade da alma

Examinando a mim mesmo, ó Sêneca, apa­recem alguns vícios expostos tão abertamente que poderia segurá-los com a mão, outros mais obscu­ros e escondidos, outros ainda que não são contí­nuos, mas que voltam a intervalos intermitentes, os quais afirmo serem os mais incômodos, como inimigos escondidos que atacam nas ocasiões mais oportunas, contra os quais não se pode estar tão preparado como na guerra nem tão seguro como na paz.

De fato, o estado em que me encontro (por que não te confessarei a verdade como a um mé­dico?) é o de não estar, de boa fé, liberto daque­las coisas que eu temia e odiava, nem totalmente submetido a elas. Neste estado, não sendo o pior, é o mais lamentável e incômodo, porque não es­ tou doente nem são.

E não é o caso tu me dizeres que todas as virtudes são tênues nos seus princípios, e que com o tempo adquirem dureza e robustez. Não ignoro também que nas coisas pelas quais se trabalha pelas aparências, digo pela dignidade e pela fama de eloqüência e o que quer que ve­nha do sufrágio alheio, com o tempo se conso­lidam inteiramente. E as coisas que comunicam as verdadeiras forças, tal como para agradar, se revestem de falsas aparências, esperam anos até que paulatinamente a duração lhes dê cor. Mas eu temo que o costume, que consolida as coisas, não fixe este vício mais profundamente em mim. Tanto dos males quanto dos bens, uma longa familiaridade induz ao amor.

Seja qual for esta debilidade da alma, que nem se inclina fortemente ao que é certo nem ao que é depravado, não consigo expor tudo de uma única vez, mas apenas por partes. Eu te direi o que está me acontecendo, e tu encontrarás um nome para essa doença.

Confesso que tenho um grande amor pela parcimônia: agrada-me uma cama que não seja adornada de modo exagerado, sem vestes retiradas da arca e prensadas para recuperar o brilho. Prefiro roupas que sejam caseiras e baratas e que, sem exa­geros, sejam conservadas e guardadas para o uso.

Agrada-me uma comida que não tenha sido preparada nem observada por muitos escravos domésticos, com muitos preparativos, nem mui­ tos dias antes, mas que seja comum e de fácil pre­ paro, que não tenha nada de rebuscado nem de exótico, que seja encontrada em qualquer lugar, que não seja pesada nem ao bolso nem ao corpo, que não saia por onde entrou.1

Agrada-me o criado inculto e o escravo rude, a pesada prata do meu rústico pai, sem o nome do artífice, e uma mesa não tão vistosa pela  variedade de cores, nem famosa na cidade pelas suas sucessões de donos elegantes, mas, que posta em uso, não desperte a volúpia de nenhum dos convidados nem lhes acenda a inveja.

Embora tais coisas me agradem, alegra-me a alma o aparato de algum pedagogo2, o qual, ves­tido com muito cuidado e com mais ouro do que se fosse para um desfile, é cortejado por outros também elegantes. Já a casa em que pisam é pre­ ciosa, as riquezas estão disseminadas por todos os cantos, os tetos são refulgentes, e sempre há um povo que assiste aos jantares e ao desperdício dos patrimônios. O que direi dessas águas, reluzentes até o fundo e que circundam aos próprios convi­dados e dos banquetes dignos desse cenário?

Vindo eu de um longo período de frugali­dade, me circundou com tamanho esplendor o luxo que resplandece ao redor. Minha vista titu­beia um pouco, mais facilmente reajo com a alma do que com os olhos. Eu me retiro não pior, mas mais triste entre os meus parcos bens. Não estou satisfeito, e me ocorre a dúvida de que outras coi­sas seriam melhores. Nenhuma dessas coisas me muda, mas todas me deixam abalado.

Resolvi seguir os comandos dos preceptores e me envolver nos assuntos públicos. Aí me entusiasmam as honras e os fasces3, não por andar vestido de púrpura e cercado de varas, mas para ser mais útil aos amigos, aos familiares, a todos os cidadãos e, de modo geral, a todos os mortais. De modo mais concreto, sigo a Zenão, a Cleanto e a Crisipo. Ne­nhum deles se envolveu com a política, mas nunca deixaram de enviar para lá seus discípulos.

Quando algo insólito me atinge, eu que não estou acostumado a tais impactos; quando acon­tece algo indigno, tal como, rotineiramente, acon­tece na vida, ou alguma coisa de difícil resolução; quando fatos pequenos e sem importância tomam muito tempo, volto-me para o meu retiro. Da mesma maneira como acontece com o rebanho fatigado, que rapidamente retorna para o curral, volto para casa cada vez mais apressado. Não há nada de mais relaxante do que ficar entre as pare­ des de nosso lar. Que ninguém me furte um úni­co dia, já que nunca poderia me compensar tão grande perda. Neste local, a alma fica dedicada a si mesma, pode ser cultivada, nada nem nenhum juízo alheio pode afetá-la. Livre dos cuidados par­ticulares e públicos, dedica-se à tranqüilidade.

Desde que uma leitura excitante elevou a minha alma, e nobres exemplos a estimularam, compraz-me ir ao foro, dar a palavra a uns, traba­ lho a outros e, mesmo que não sirvam para nada, visam a uma utilidade. Dessa forma, refreio, no foro, a soberba daqueles que, em virtude de sua prosperidade, se tornam insolentes.

Baseado em meus estudos, acredito ser me­lhor contemplar as próprias coisas e falar movido por elas, emitindo palavras adequadas aos fatos, de modo que, para onde quer que levem, o dis­ curso siga esta espontaneidade. Por que, então, compor obras que durem séculos? Queres fazer isso para que os pósteros não te esqueçam? Nasceste para morrer: causa menos incômodo um funeral silencioso.

Às vezes, a minha alma se eleva com a mag­nitude do pensamento, torna-se ávida por pala­vras e aspira às alturas. Assim, o discurso já não é mais meu. Esquecido das normas e dos critérios rigorosos, elevo-me e falo com uma boca que não é mais minha.

Não me detendo em detalhes, atento para o fato de que, em minhas preocupações, sou acom­panhado por certa timidez cheia de boas inten­ções. Temo me inclinar paulatinamente para elas ou, o que é mais preocupante, ficar sempre pen­ dente e que talvez isso seja mais forte do que eu havia previsto. Isso porque as coisas costumeiras nos parecem familiares e sempre são julgadas de modo benevolente.

Penso que muitos poderiam ter chegado à sabedoria se não pensassem já serem sábios, se não tivessem dissimulado para si mesmos algu­mas coisas e se não tivessem passado por outras tantas com os olhos fechados. Não há razão para pensares que a adulação alheia nos é mais perigo­ saque a nossa própria. Quem ousa dizer a verda­de para si mesmo? Quem, posto entre a multidão daqueles que elogiam e lisonjeiam, não elogia a si mesmo ainda mais?

Rogo, pois, se tens algum remédio com o qual possas refrear essa flutuação, para que me consideres digno de dever a ti a minha tranqüi­lidade.
Sei que esses movimentos da alma não são perigosos nem trazem qualquer inquietação mais tumultuosa. Lançando mão de uma imagem que expresse o que sinto, digo que não me cansa a tempestade, mas, sim, a náusea. Portanto, afasta o que quer que seja este mal e socorre ao náufrago que já avista a terra.

II

Desde há muito, Sereno, eu questiono, em silêncio, a que se poderia comparar semelhante estado de espírito e não encontro exemplo mais adequado que o daqueles que, tendo saído de uma longa e grave enfermidade, ainda sentem pe­quenos incômodos. Embora já estejam livres das seqüelas, já estejam curados, ainda se inquietam com suspeitas e fazem com que os médicos lhes tomem o pulso, interpretando como doença todo pequeno mal-estar.

O corpo deles, ó Sereno, está curado, em­ bora não esteja acostumado à saúde, assim como o mar, já tranqüilo, sempre tem certa agitação, mesmo depois que passou a tormenta. Não é pre­ ciso aqueles recursos drásticos aos quais já se re­ correu anteriormente, como resistir a si mesmo, censurar-se e atormentar-se. Neste momento, é necessário que tenhas confiança em ti mesmo e creias que vais pelo caminho reto, sem se deixar chamar para veredas transversais como de muitos que vão de um lado para outro, enquanto alguns se extraviam bem próximos do caminho.

O que tu queres, pois, é grande, de máxima importância e próximo de um deus: não ser aba­ lado. Os gregos chamam a este estado estável da alma de eutymia, sobre tal tema existe uma exce­lente obra de Demócrito. Eu o chamo de tranqüi­lidade. Assim, não é preciso imitar ou traduzir as palavras pela sua forma; a própria coisa deve ser designada por algum nome, que deve ter a força da nomenclatura grega e não a aparência. Portanto, investiguemos de que modo a alma deverá prosseguir sempre de modo igual e no mesmo ritmo. Ou seja, estar em paz consigo mesmo, e que essa alegria não se interrompa, mas permaneça em estado plácido, sem elevar-se, sem abater-se. A isso eu chamo tranqüilidade. Investiguemos como alcançá-la. Isso feito, tu tomarás desse remédio universal a teu gosto.

Examinando tal mal-estar, cada um reconhe­ce qual a parte dele é sua. Ao mesmo tempo, compreenderás quão pequeno é teu problema pessoal em relação ao de outros, presos a uma profissão brilhante ou a um título importante. Em tal situa­ção, mais por vergonha do que por decisão pró­pria, impera a simulação.

Todos eles estão na mesma situação, tanto os que estão envergonhados por sua própria le­viandade - pelo tédio e pela contínua mudança de propósitos, aos quais agrada sempre mais o que foi abandonado - quanto aqueles que rela­xam e passam a vida bocejando. Acrescente a es­tes os que, não de modo diferente daqueles aos quais o sono é difícil, se reviram de um lado e de outro até que venha o quieto descanso. Tratando sempre de reformar o estado de sua vida, perma­necem por último naquele que os surpreendeu no ódio às mudanças, pois a velhice é preguiço­sa para a novidade. Acrescente também aqueles pouco dados a mudanças, não por obstinados, mas por inércia, já que vivem como não gosta­ riam, mas como sempre o fizeram.

São inumeráveis as propriedades do vício, mas o seu efeito é um só: o aborrecer-se consi­go mesmo. Isto nasce do desequilíbrio da alma e dos desejos tímidos ou pouco prósperos, visto que não ousam tanto quanto desejam ou não o conseguem. Dessa forma, realizam-se apenas na esperança. Sempre são instáveis e volúveis. Por todas as vias tentam realizar seus desejos. Eles se instruem e se conduzem para coisas desonestas e difíceis e, quando o seu trabalho é frustrado, atormentam-se não por terem desejado o mal, mas por tê-lo desejado em vão.

Então eles se arrependem de terem começa­ do e temem recomeçar. Daí advém uma agitação que não encontra saída, porque não podem nem dominar nem se submeter aos seus desejos. Em conseqüência, reflete-se a indecisão de uma vida que pouco se expande e o torpor de uma alma em meio aos seus desejos fracassados.

Todos os males se agravam quando, lon­ge dessa incômoda angústia, obtém-se a paz na tranqüilidade ou nos estudos solitários, os quais não pode suportar uma alma dedicada às coisas cívicas, desejosa de ação e, por natureza, inquieta. Ou seja, não encontra consolo em si mesma. Por isso, privado dos deleites que as mesmas ocupa­ções proporcionam aos que as perseguem, não suporta a casa, a solidão e as paredes. Desgostoso, vê-se como um ser abandonado.

Daí o tédio e o desgosto para consigo mes­ mo. Tal o desassossego que em lugar nenhum encontra descanso, projetando uma aflitiva in­ tolerância da própria inércia, cujos motivos não ousa confessar. Assim, seus desejos, fechados em sua estreiteza, sem possibilidade de evadir-se, acabam por sufocar a si mesmos.

Por esse motivo, advêm tristeza, fraqueza e milhares de flutuações de uma mente tomada pela indecisão. Ela mantém em suspenso as espe­ranças suscitadas e se frustra na desolação.

Consequentemente, aquela disposição de de­ testar o seu próprio repouso e de se queixar por não ter nada para fazer, e também de invejar forte­ mente o sucesso do próximo. A inércia não dese­jada alimenta a inveja, ambiciona a ruína de todos, porque não conseguiu atingir o seu próprio êxito.

Dessa aversão pelo sucesso alheio e do de­sespero em virtude de seus fracassos, a alma exaspera-se contra a sorte e queixa-se do tempo, esconde-se e afunda na autocomiseração, porque entediada e com vergonha de si própria. Por na­tureza, a alma humana é ágil e pronta ao movi­ mento, grata a tudo aquilo que lhe excite e lhe distraia, e mais gratos ainda são aqueles nascidos com os piores instintos, os quais sentem prazer com a confusão em suas obrigações.

Assim como certas feridas instigam as mãos para que as machuquem e, do mesmo modo, se deleita o corpo tomado pela sarna com o ato de coçar, assim também digo que, para essas mentes, não é diferente. Nelas irrompem desejos como fe­ridas cujo tormento eqüivale à sensação de prazer.

Existem, pois, algumas coisas que, também com dor, deleitam o nosso corpo, como esticar-se e mudar de lado na cama, sentindo alívio com a mudança de posição. A mesma situação ocorria com Aquiles4, ora de bruços, ora de costas, mu­ dando muitas vezes a sua posição, como é pró­prio do doente, não suportando nada por muito tempo e fazendo das mudanças lenitivo para suas dores.

Daí o empreender vagas peregrinações e o percorrer praias e mares desconhecidos, tanto na terra como no mar, sempre em busca de emoções, experimentando o que não tem no fastio da situa­ção presente.

Então diz: “Agora, vamos à Campanha”. Já enfastiado das coisas delicadas, clama: “Que se vejam as coisas selvagens, recorramos às florestas de Brúcio e da Lacônia”.

De fato, nos lugares desertos desfruta-se algo ameno, onde os olhos lascivos aliviam-se na feiu­ra das regiões inóspitas. “Vamos a Tarento e a seu famoso porto e seus invernos de céu límpido e à região bastante opulenta para seu antigo povo.” Ou então: “Retornemos para Roma, pois nossos ouvidos já descansaram demais dos aplausos e da algazarra dos circos. Sentimos falta até de ver cor­rer sangue humano.”

Uma coisa sucede a outra, e os espetáculos se transformam em outros espetáculos. Como disse Lucrécio: “Desse modo, cada um foge de si mesmo”. Mas em que isso é proveitoso, se, de fato, não se foge? Seguimos a nós mesmos e não conseguimos jamais nos desembaraçar de nossa própria companhia!

Assim, devemos saber que o mal contra o qual trabalhamos não vem dos lugares, mas de nós mesmos; somos fracos para tolerar qualquer incômodo, não suportamos trabalhos, prazeres, desconfortos por muito tempo.

Isso levou muitos à morte, porque, frequen­temente mudando seus propósitos, voltavam sem­ pre para o mesmo ponto de partida, não deixando espaço para as novidades. Assim, a vida começou a lhes entediar e também o próprio mundo, até que, sem perspectiva, ouça aquele clamor: “Até quando sempre as mesmas coisas?!”

III

Tu me perguntas o que penso que deves fa­zer contra este tédio. De acordo com Atenodoro, o melhor seria te ocupares intensamente, fazendo parte dos interesses da república, ocupando car­ gos públicos, participando de compromissos so­ ciais. Desse modo, assim como existem pessoas que passam o dia no sol para o exercício do cor­po, o que, de fato, é muito útil aos atletas, que consagram a maior parte do tempo para nutrir e fortalecer seus músculos e sua força, a única coisa à qual se dedicam, do mesmo modo para nós, que preparamos a alma para as guerras civis, é mui­ to mais interessante nos atermos longamente ao nosso trabalho.

Quem quer que tenha o firme propósito de se tornar útil aos cidadãos e, em geral, a to­ dos os mortais, ao mesmo tempo quem trabalha e produz, deve administrar, de acordo com suas condições, tanto as coisas comuns quanto as par­ticulares.

“Mas”, tu dizes, “já que é tão insana a ambi­ção dos homens e são tantos os caluniadores que distorcem as coisas retas no mais torpe sentido, que a simplicidade está pouco segura, e, visto que no futuro serão mais numerosos os obstáculos que os auxílios, convém se retirar do foro e do serviço público.

Também existe lugar na vida privada para que uma alma grande possa se desenvolver am­plamente, do mesmo modo que a fúria do leão e de outros animais não diminui em suas jaulas, as­ sim também ocorre com os homens, cujas maio­ res ações são as que realiza no recolhimento.”

Assim, pois, ao se recolher, onde quer que o seu repouso seja acolhido, o indivíduo irá querer ser útil a todos e a cada um em particular com seu talento, sua voz e seu conselho.

Pois não apenas é proveitoso aos assuntos públicos quem promove candidatos, defende os réus e delibera sobre paz e guerra, mas também quem exorta a juventude; quem, com a falta de bons preceptores, infunde virtude às almas; quem prende ou retrai os que correm em direção do dinheiro e da luxúria e, se nada mais consegue, certamente os retarda e age, de modo particular, para o bem privado e público.

Por acaso serve melhor ao bem público o pretor que emite sentenças entre estrangeiros e cidadãos ou, se é pretor urbano, ao repassar as sentenças de seu assessor, estaria realizando ta­refa mais importante que o filósofo que ensina o que vêm a ser justiça e dever, o que é piedade, paciência, fortaleza, desprezo pela morte, enten­dimento acerca dos deuses e, finalmente, como é seguro e gratificante estar com a consciência tranqüila?

Portanto, se empregas em estudos o tem­po que subtraíste dos deveres, não significa que faltaste com as tuas obrigações. Não é soldado apenas aquele que está no fronte de combate e defende ambos os lados, esquerdo e direito, mas também aquele que defende as portas e permane­ce em lugar de menor perigo, assim como não é em vão servir como vigia e guardar o armamento.

Tais ocupações, embora não sejam sangrentas, também fazem parte dos serviços militares.

Se te recolhes aos estudos, fugirás de todo o fastio da vida. Não será porque te aborrece o dia que escolherás a noite, nem a presença de pessoas te será excessivamente pesada. Atrairás a amizade de muitos homens e também os melhores acor­rerão a ti. Isso porque a virtude, ainda que esteja obscura, nunca se esconde, mas emite os seus si­nais. Quem quer que seja digno dela captará os seus vestígios.

Assim, pois, se prescindirmos de toda co­municação, renunciarmos ao gênero humano e vivermos voltados unicamente para nós mesmos, resultará uma solidão vazia de ação. E, sem nada para fazer, começaremos a construir alguns edifí­cios, a derrubar outros, a remover o mar, a con­duzir as águas contra as dificuldades dos terrenos, a gastar mal o tempo que a natureza nos conce­deu para consumir proveitosamente. Alguns o utilizam com parcimônia, outros prodigamente. Uns gastam fazendo cálculos escrupulosos. Ou­tros nada poupam, coisa muito estúpida. Fre­quentemente, alguém muito velho não tem outro argumento para provar que viveu muito a não ser a sua idade.

IV

Parece-me, caríssimo Sereno, que Atenedoro se rendeu cedo demais às circunstâncias do tem­po, retirou-se muito cedo. Nem eu negaria que de vez em quando se deve ceder, mas gradualmente, salvaguardando as insígnias e a dignidade militar. Com certeza, fica mais seguro e respeitado pelos inimigos quem se rende com as armas na mão.

Isso eu penso ser conveniente para a virtude e para quem a cultiva; ou seja, se o destino preva­lece e impede a faculdade de agir, não fuja logo dando as costas desarmadas, buscando onde se esconder, como se existisse algum lugar onde se possa escapar do destino. Deve-se agir com mais cautela com relação aos deveres públicos. Com cuidado deve-se buscar algo que seja útil para o Estado.

Não podes ser militar? Busca a função públi­ca. Estás relegado à vida privada? Procura patro­cinar causas. Foste condenado ao silêncio? Então ajuda aos cidadãos de modo calado. É perigoso o ingresso no fórum? Nas casas, nos espetáculos, nos banquetes, age como um amigo fiel, um com­panheiro de temperamento afável. Perdeste teus deveres de cidadão? Cumpre os de homem.

Por isso, nós, com grande ânimo, não nos enclausuramos nas muralhas de uma única cida­de, mas temos comunicação com a Terra inteira e proclamamos que a nossa pátria é o mundo, para dar à virtude um mais largo campo de ação. O tribunal se fechou para ti e foste proibido de falar na tribuna ou nos comícios? Olha ao teu redor e verás quão vasta região está aberta e quanta gente há. Assim, nunca uma grande parte se fechará para ti sem que reste uma maior ainda.

Mas veja que todo esse mal pode não ser teu. Talvez o que não queiras seja servir à república como cônsul, prítane5, ceryx6 ou sufete.7 Por que não? Para seres militar, por acaso, não queres outro cargo a não ser o de general ou tribuno? Mesmo que outros estejam antes de ti no combate e a que sor­ te te mantenha na retaguarda, luta de lá com a voz, com a exortação, com exemplo e com ânimo.

Ainda que com as mãos cortadas, perma­nece em pé no combate e contribui com os teus companheiros, persistindo firme em teu posto e ajudando com teu clamor.

Espero que te comportes da mesma manei­ra. Se o destino te afasta dos cargos de poder da república, ainda assim permanece firme e ajuda com teus brados inflamados. Se alguém te aperta a garganta, permanece firme e ajuda com o teu silêncio. Nunca é inútil o trabalho de um bom cidadão. Ele sempre coopera seja pelo que ouve ou pelo que vê, seja pela fisionomia ou pelos ges­tos, seja pela tácita obstinação ou até pelo modo como caminha.

Tal como certos medicamentos que, em­bora não sejam ingeridos ou tocados, agem pelo odor, assim também é a virtude, que difunde a sua utilidade à distância e de modo oculto. Ela ou se espalha livremente e usa do seu direito, ou tem precários meios de se expandir e é coagida a recolher suas velas, ou parada e muda se man­tém estreitamente cercada ou ainda publicamen­te aberta, é de todo modo proveitosa. Por que tu pensas que é de pouca utilidade o exemplo da­quele que, em recolhimento, vive bem?

Assim, o melhor é misturar o repouso com a ação, sempre que a vida ativa não trouxer im­pedimentos ocasionais ou por circunstâncias políticas. Em todo caso, nunca se fecham comple­tamente todos os espaços de modo que não haja lugar a algum gesto de virtude.

V

Poderias, por acaso, encontrar uma cidade mais miserável do que Atenas quando despeda­çada por trinta tiranos?8 Eles haviam assassinado 1,3 mil cidadãos, dentre os melhores da cidade, e nem assim davam fim à sua própria crueldade, que, pelo contrário, se tornava mais terrível. Na­ quela cidade, havia o Areópago, o mais sagrado dos tribunais, onde se reunia o Senado do povo, semelhante ao nosso Senado. Ali, todos os dias, encontravam-se os verdugos e ainda a infeliz cúria que se tornara apertada para os trinta tiranos!

Poderia, assim, ter descanso uma cidade como aquela, onde havia tantos satélites9 quanto tiranos? Não se podia oferecer aos corações nenhuma esperança de recobrar a liberdade, nem em lugar nenhum aparecia remédio contra tão grande força dos males. Onde, pois, esta triste cidade encontraria outros tantos Harmódios?10

Sócrates encontrava-se entre eles. Consola­va os senadores que choravam e exortava os que estavam desesperados com relação ao futuro da república. Além disso, reprovava os ricos, que te­miam pelas suas riquezas e, muito tarde, se ar­rependeram de sua avareza. E, a quem quisesse, oferecia o exemplo de um homem que caminha­va livre com trinta dominadores ao redor.

Ainda assim, essa mesma Atenas levou a morte, no cárcere, àquele que havia insultado todo o bando dos tiranos. A liberdade não to­lerou que fosse livre. Isso é para que saibas que, mesmo numa república oprimida, existe ocasião para que um homem sábio se manifeste e, mesmo numa república florescente e feliz, muitas vezes reinam petulância, inveja e outros milhares de ví­cios inertes.

Portanto, conforme a república se apresente e a sorte nos permita, assim vamos ou nos expan­dir ou nos retrair, mas, de todo modo, sempre haveremos de nos mover sem nos deixar entor­pecer pelas amarras do medo.

Além do mais, um homem de valor sem­pre está rodeado de perigos iminentes e, mes­mo morrendo entre as armas e as algemas, não macula a sua virtude nem a esconde, porque foi guardada e não enterrada.

Se não me engano, Cúrio Dentato dizia que preferia estar morto a viver como morto. O úl­timo dos males é sair do número dos vivos antes de morrer. Mas, se te coube viver num tempo menos propício da república, deves te dedicar mais ao repouso e às letras, tal como, numa navegação perigosa, encontras abrigo num porto. Não esperes então que os negócios te deixem, mas tu mesmo deves te desprender deles.

VI

Primeiro, devemos examinar a nós mesmos; em seguida, os negócios que vamos empreender; por fim, aqueles pelos quais e com os quais iremos trabalhar.

Antes de tudo, é necessário estimar a própria capacidade, pois, muitas vezes, parece que pode­mos suportar mais do que realmente podemos. Assim, um fracassa por sua confiança na eloquência; outro, porque exigiu do seu patrimônio mais do que podia; um terceiro, de saúde debilitada, ficou sobrecarregado pelo trabalho penoso.

A uns, a timidez é pouco adequada para os cargos públicos, que requerem a cabeça erguida; a outros, a inflexibilidade não os torna aptos para a vida social; outros, ainda, não têm controle so­bre a sua ira, e qualquer indignação os faz lançar palavras agressivas; há aqueles também que não sabem se conter com civilidade nem se abster de gracejos perigosos.

Para todos estes, é mais útil o recolhimento que os negócios públicos. Uma natureza feroz e impaciente deve evitar as irritações nocivas à liberdade.

Deves considerar, pois, se a tua natureza te torna mais apto para as ações ou para o estudo ocioso e contemplativo, e deves te inclinar ao que com força te atrai: Isócrates11 retirou Éforo12 do foro com mão firme quando percebeu que ele era mais útil na composição de registros de história. Talentos forçados respondem mal; se a natureza é relutante, o trabalho é infrutífero.

Depois, devemos examinar as obras que em­preendemos e comparar as nossas forças com as coisas que vamos tentar fazer, pois sempre deve ser maior a força daquele que trabalha do que a da obra a ser realizada, visto que, obrigatoriamente, se as cargas forem maiores que o carregador, elas irão oprimi-lo com seu peso.

Além do mais, existem outras atividades que não são tão grandes nem fecundas, trazendo mui­tos outros afazeres. Devemos fugir delas, pois, uma vez que nos aproximamos, não existe uma saída fácil. Apenas se deve pôr a mão naquelas coisas que se sabe que têm fim, ou que se pode fazer, ou ainda as que certamente se pode esperar concluir. Dei­xemos de lado todas as atividades que vão além da medida e não terminam onde deveriam.

 

VII

Deve-se ter uma cuidadosa escolha dos homens, para sabermos quais são dignos de que lhes consagremos uma parte da nossa vida ou se é proveitoso que com eles percamos tempo, pois alguns nos imputam como dever aquilo que vo­luntariamente lhes concedemos.

Atenodoro dizia que nem sequer iria jantar com alguém que pensasse que não lhe devia nada por isso. Penso que compreendes que muito me­ nos iria à casa daqueles que igualam os jantares aos deveres dos amigos, os que contam os pratos pelas dádivas, como se a falta de moderação fosse uma honra aos outros.

Aliás, tire-lhes as testemunhas e os especta­dores que não se deleitaram com um banquete secreto.

Nada, pois, é mais proveitoso a uma alma do que uma amizade fiel e doce. Quão bom é en­contrar corações preparados para guardar todo segredo. Tu temes menos a consciência deles que a tua própria. A conversa deles alivia a solidão. As sentenças deles se tornam conselhos. O seu grace­jo dissipa a tristeza, a própria presença deleita!

Tanto quanto for possível, devemos escolhê-los dentre os isentos de paixões desregradas, porque os vícios entram sutilmente e passam para quem está próximo e prejudicam pelo contato.

Assim, como em uma epidemia, deve-se cui­dar de não nos aproximarmos de corpos já infec­tados e ardendo na doença, porque atraímos os perigos com a própria respiração.

Assim, na escolha dos amigos, devemos ter trabalho de escolher os menos maculados. O iní­cio da doença resulta da mistura dos doentes com os sãos.

Nem por isso te aconselharei que não sigas ou não atraias ninguém exceto o sábio. Onde, pois, encontrar este que há tantos séculos se busca? O melhor é mesmo o menos mau.

Apenas terias a faculdade de eleição mais feliz se encontrasses bons amigos entre Platões e Xenofontes e em toda a ala de discípulos de Sócrates, ou se tivesses poder de voltar à época de Catão, que produziu muitos homens dignos da era dele. Não obstante, gerou também os piores criminosos de todos os tempos. Tanto uns quan­to outros foram necessários para que se pudesse valorizar a figura de Catão. Os bons para aprova­rem seus méritos, e os maus para testarem o seu valor. Agora, porém, com tanta falta dos homens bons, a eleição se faz menos cansativa e exigente.

Deve-se evitar, no entanto, os tristes e aque­les que deploram todas as coisas, para os quais tudo é motivo de brigas, mesmo que eles demonstrem fidelidade e benevolência, pois é ini­migo da tranqüilidade o companheiro inquieto e que geme por tudo.

VIII

Passemos, agora, ao patrimônio, que é a maior fonte dos sofrimentos humanos.

Se comparares todas as outras coisas que nos angustiam - como mortes, doenças, medos, dese­jos, intolerância de dores e de trabalhos - com os danos que nos traz a riqueza, a parte desta certa­mente pesará muito mais.

Assim, deve-se considerar quão mais leve é a dor de não tê-la do que de perdê-la, e compreen­demos com isso que a pobreza é matéria de tormentos menores porque oferece menores danos. Erras, pois, se pensas que os ricos sofrem com mais ânimo as perdas. Nos maiores e nos meno­res corpos a dor das feridas é igual.

Bion13 elegantemente disse que não causa menos moléstia a um calvo que a um cabeludo que lhe arranquem algum cabelo. O mesmo se aplica tanto ao pobre quanto ao rico. Para eles, o tormento é igual, pois tanto a um quanto a outro o dinheiro adere de tal modo que não pode ser tirado sem dor.

Porém, como já disse, é mais tolerável e fácil não adquirir do que perder, e por isso verás mais alegres aqueles a quem a sorte nunca olhou do que aqueles a quem a sorte abandonou.

Diógenes14, homem de alma brilhante, per­cebeu isso e agiu de modo que nada lhe pudesse ser tirado. Tu chamas a isso de pobreza, escassez, necessidade. Podes dar a essa segurança o pior dos nomes. Pensarei que esse homem não é feliz se encontrar algum outro que não possa perder nada. Ou eu me engano, ou ser rei é viver entre avarentos, espiões, ladrões e plagiadores, sendo ele o único a abrigo de prejuízo.

Se alguém duvida da felicidade de Diógenes, pode o mesmo duvidar do estado dos deuses imor­tais, se de fato vivem de modo feliz, porque não tem prédios, nem hortas, nem campos preciosos  cultivados por outro colono, nem grande ren­da no foro. Não te envergonhas por te fascinares com as riquezas? Olha então para o mundo e verás os deuses desnudos, aqueles que tudo dão e nada têm. Disso, tu pensas que o pobre é semelhante aos deuses, pois se despoja de todos os bens fortuitos?

Proclamas mais feliz Demétrio Pompeano, que não se envergonhou de ser mais rico que o próprio Pompeu? Quotidianamente lhe era dada a lista de seus escravos como se ele fosse general de um exército, a ele que, pouco tempo antes, era riqueza ter dois substitutos de escravos e  uma cela um pouco mais larga.

Por sua vez, o único servo de Diógenes fu­giu, e, quando este o descobriu, considerou que não valia a pena reconduzi-lo. Então exclamou: “Seria vergonhoso que Manes não pudesse viver sem Diógenes e que Diógenes não pudesse viver sem Manes”.

Para mim é como se tivesse dito: “O destino cuida de seus próprios assuntos! Nada tens de ti com Diógenes. Meu servo fugiu. Quem está livre sou eu.”

A família pede o que vestir e comer; assim, devo satisfazer o apetite de tantos animais vorazes, comprar roupas, cuidar dos mais rapaces e utilizar os serviços daqueles que estão sempre chorando e maldizendo.

Mais feliz é quem não deve nada a ninguém a não ser a si mesmo, a quem é fácil negar. Como não temos tanta força, certamente devemos estrei­tar o patrimônio para que estejamos menos expos­tos às injurias da sorte. Na guerra, são mais hábeis os corpos que podem se contrair e se proteger com os escudos que aqueles cujo grande tamanho os deixa expostos às feridas.

Com relação ao dinheiro, o melhor critério consiste em não cair na pobreza nem dela afastar-se totalmente.

IX

Esta medida de contenção só nos agradará se antes tomar-se gosto pela parcimônia, sem a qual nenhuma riqueza é o bastante, já que a modéstia também pode levar ao desperdício. Como se trata de recurso que está ao alcance de nossas mãos, se assumirmos a parcimônia, a própria pobreza poderá converter-se em riqueza.

Convém nos afastar da pompa e medir a utitidade das coisas, e não a sua beleza exterior.

A comida deve aplacar a fome, a bebida, a sede, sendo, portanto, o prazer reduzido ao apenas ne­cessário.

Aprendamos a nos apoiar em nossos pró­prios membros; moderemos o nosso comer e o nosso vestir não a modismos, mas ao que nos ensinaram os antepassados.

Aprendamos a cultivar o comedimento, a re­frear a luxúria, a moderar a ânsia de glória, a suavi­zar a ira, a olhar com simpatia a pobreza, a cultivar a frugalidade; embora essas coisas envergonhem a muitos, empregando remédios mais simples para os desejos naturais. Aprendamos a eliminar os de­sejos licenciosos e a tensão em relação ao futuro. Devemos agir de modo que se possa pedir as rique­zas a nós mesmos e não ao destino.

Nunca pode tanta variedade e iniqüidade de casos ser assim repelida, do mesmo modo que não se pode livrar das tormentas a frota lançada ao mar.

Convém diminuir nossas atividades para que os arroubos do destino caiam no vazio. Por isso, às vezes os exílios e as calamidades se tor­nam um remédio, e leves incômodos curam os de maior proporção.

Quando a alma pouco ouve os preceitos, não pode mais se curar de modo suave, não seria então para o seu bem que lhe fossem prescritas a pobre­za, a infâmia e a ruína, já que um mal se opõe a outro mal?

Portanto, devemos nos acostumar a jantar sozinhos, a servir-nos de poucos escravos, a usar as roupas de modo adequado e a morar em casas menores. Não apenas nas corridas e nas lutas do circo, sobretudo na vida, precisamos não ir além dos limites que nos são impostos.

Até mesmo os gastos com os estudos, em­bora sejam os melhores gastos, só serão razoáveis se tiverem moderação. Para que inúmeros livros e bibliotecas dos quais o dono, durante uma vida inteira, lê apenas os índices? Uma infinidade de li­vros sobrecarrega, mas não instrui. Melhor ater-se a poucos autores do que errar por muitos.

Quarenta mil livros arderam em Alexan­dria. Belíssimo monumento de régia opulência elogiou outro, assim também como Lívio, que disse ter sido uma obra máxima da elegância e do cuidado dos reis.

Não foi, porém, do meu ponto de vista, nem elegância nem cuidado, mas estudada luxúria, ou melhor, não foi estudada, pois não para os estudos, apenas para o espetáculo essas obras foram reunidas. Tal como acontece com muitos que, embora desconheçam as primeiras letras, fa­zem dos livros não instrumentos de estudos, mas apenas ornamentos das salas de jantar. Assim, juntem-se apenas os livros que sejam suficientes, nenhum por ostentação.

Dirias: “É mais honesto gastar o dinheiro com livros do que com vasos de Corinto e com quadros”. Cabe-me responder que sempre é vi­cioso o que está em excesso.

Qual o motivo de tua complacência com quem coleciona armários de cipreste e de marfim e busca livros de autores desconhecidos ou não recomendados para bocejar entre tantos milhares de livros, uma vez que se compraz apenas com as capas e os títulos?

Verás, pois, na casa dos homens mais ilus­tres, qualquer livro que tenha sido escrito sobre oratória e história, tendo as estantes abarrotadas até o teto.

Hoje, como as piscinas nas termas, a biblioteca também é um ornamento obrigatório em qualquer casa de prestígio.

Eu perdoaria tal mania se o erro fosse por um exagerado desejo dos estudos. Agora, estas conquistadas obras dos gênios consagrados, instaladas em torno das estátuas de seus autores, são compradas apenas para adorno das paredes.

X

Porém te encontras numa situação de vida difícil. A adversidade pública ou privada te pren­deu com um laço que não podes nem desatar, nem romper.

Considera que os prisioneiros apenas no princípio se afligem com as algemas e os grilhões que impedem seus passos. Porém, quando resolvem não mais se irritarem e se propõem a suportá-los, a necessidade lhes ensina a levá-los com fortaleza, e o costume, com facilidade. De fato, em qualquer gênero de vida, encontrarás distrações, compensações e deleites, desde que queiras avaliar como leves os teus males, em lu­gar de fazê-los insuportáveis.

Sabendo das desgraças para as quais nasce­mos, a natureza fez do hábito um alívio para a calamidade, tornando logo costumeiras as mais graves.

Ninguém resistiria se a força das coisas adversas fosse a mesma na continuidade como o é no primeiro golpe.

Estamos algemados ao destino. Para alguns, as algemas são douradas e frouxas; para outros, são apertadas e sórdidas. Que diferença faz?

A mesma prisão cerca a todos, tanto os que estão presos quanto os que aprisionam, a não ser que talvez penses que é mais leve a algema no bra­ço esquerdo.

A uns prendem as honras, a outros, a opu­lência. A alguns a notoriedade oprime, a outros, a obscuridade. Alguns inclinam suas cabeças sob o domínio alheio, outros sob o seu próprio. Alguns têm como único lugar o exílio, outros, o sacerdó­cio. Enfim, toda vida é servidão.

Cada qual, portanto, deve conformar-se à sua condição e, queixando-se dela o mínimo pos­sível, apreender tudo o que ela tem de favorável. Não existe nada de tão amargo que não encontre consolo numa alma equilibrada.

Frequentemente, áreas exíguas se tornam aptas para muitos usos devido à arte do arquiteto e uma boa disposição torna habitável mesmo um lugar estreito. Usa a razão nas dificuldades. As si­tuações mais duras podem se suavizar, as aper­tadas podem se afrouxar, e as pesadas, se tornar mais leves, é só saber levá-las.

Além do mais, os desejos não devem ser lançados para muito longe, mas permitamos que desabrochem nas proximidades, já que, de todo, não são passíveis de clausura.

Abandonando essas coisas que não podem ser feitas ou apenas podem ser feitas de modo muito difícil, sigamos as coisas próximas e que alimentam a nossa esperança. Saibamos que to­das as coisas são igualmente volúveis; embora ex­teriormente possam ter diversas faces, por dentro são igualmente vãs.

Não invejemos a sorte dos que estão em po­sição privilegiada. O que parece ser altura é, na verdade, um precipício.

Aqueles a quem uma sorte iníqua colocou em uma encruzilhada, estarão mais seguros diminuindo as coisas que são por si elevadas, conduzindo seu destino tanto quanto for possível no nível da normalidade.

Muitos são os que devem se manter em seu pedestal, do qual não podem descer a não ser caindo. Por isso procuram demonstrar que são pesados aos outros, não porque se comprazem em pairar sobre eles e, sim, por serem a isso obri­gados. Assim, por sua justiça, mansidão, humani­dade e generosidade, preparam-se para enfrentar as adversidades do destino, já que tal esperança lhes deixa mais seguros.

Porém, nada poderá nos defender dessas flu­tuações da alma, a não ser determinar limites à ambição de crescimento, assim como não deixar a última palavra ao arbítrio do destino. É certo que alguns desejos incitam a alma, mas, sendo limita­dos, não se tornarão nem imensos nem incertos.

XI

Meu discurso se dirige aos imperfeitos, aos medíocres e doentes, não ao sábio. Este não deve andar timidamente nem de modo vacilante, já que tem tanta confiança em si que não receia ir ao encontro do destino, ao qual não fará nenhu­ma concessão. Nem tem por que temê-lo, porque não apenas os escravos, as posses, a dignidade, até o seu corpo, os olhos e as mãos com tudo o que faça a vida mais agradável, e até a si próprio, tudo está entre as coisas precárias. Tem consciência de que a vida é algo que lhe foi dado de emprésti­mo e, por isso, sujeita à restituição, sem tristeza, quando lhe for reclamada.

Não perde a autoestima por saber que não é dono de si. Ao contrário, faz tudo tão diligente­mente, tão cuidadosamente quanto um homem religioso e santo guarda o que lhe é confiado.

E, quando coagido a devolver, não se queixa da sorte e diz: “Obrigado pelo que tive e utilizei. Eu cultivei teus bens com grande esforço, mas, já que ordenas, cedo e devolvo agradecido e de bom grado. Se ainda queres que eu tenha algo teu, eu o guardarei. Se decidires o contrário, eu te entrego a prata, a casa e a minha família. Devolvo-te tudo.”

Se a natureza reclama suas dádivas, já que foi ela, primeiro, que nos deu, eu diria “Recebe esta alma melhor do que quando a concedeste”. Não sou evasivo nem fujo. Acolha-a pronta e acabada de quem a recebeu. Leva-a.

Retornar de onde se veio, qual é o problema disso? Mal vive aquele que não sabe morrer bem. Assim, pois, primeiro deve-se diminuir o valor disto e situar a vida na categoria de coisa descartável.

Odiamos os gladiadores, como dizia Cícero, se desejam conservar a vida de qualquer forma. No entanto, nós os aplaudimos se demonstram desprezo por ela. Saibas que o mesmo ocorre conosco. Com frequência, a causa do morrer é o medo da morte.

O destino, que se diverte conosco, diz: “Por que hei de te conservar, animal ruim e covarde? Tu serás mais ferido e golpeado por não saberes receber os golpes. Porém, tu viverás mais tempo e morrerás mais rapidamente se esperares o ferro sem desviar a cabeça nem te protegeres com as mãos, mas o receberes amistosamente.”

Aquele que teme a morte nunca fará nada com dignidade. Porém, aquele que sabe estar a sorte decidida desde quando foi concebido vive em conformidade com o determinado e o procu­rará com a mesma fortaleza de alma de modo que nada ocorra a partir disso que seja imprevisto.

Considerando o que quer que possa ocorrer no futuro, suavizará o ímpeto de todos os males, porque, para os que estão preparados e esperando, não trazem nada de novo. Vêm graves apenas para os que estão descuidados e esperam apenas coisas felizes.

Existe a doença, o cativeiro, a ruína, o fogo. Nenhuma dessas coisas é surpresa. Eu sabia em que tumultuosa hospedaria a natureza me enclau­surou. Muitas vezes houve lamento na minha vi­zinhança; muitas vezes, na frente da minha porta, tochas e archotes precederam exéquias prematuras; frequentemente, soa ao meu lado o fragor de um edifício que desmorona. A noite levou a muitos daqueles que o fórum, a cúria, o discur­so uniram a mim, e as mãos, que estavam unidas pela amizade, foram separadas pela morte. Então vou me admirar quando, por ventura, os perigos me atinjam, aqueles que sempre me rondam?

Grande parte dos homens não pensa sobre a tempestade ao embarcar.

Nunca me envergonharei de citar uma sentença boa de um mau autor. Publílio, mais veemente que os gênios trágicos e cômicos, sem­pre que deixava as mímicas ineptas e as palavras chulas destinadas aos espectadores, entre muitas outras coisas mais fortes, dizia isto: “O que pode ferir a alguém pode ferir a qualquer um”.

Se essa sentença for avaliada no seu significado pleno, considerando todos os males, embora livre deles, mas também sujeito aos mesmos, seja precavido, já que não resta tempo quando o perigo chega.

“Eu não pensava que isto iria acontecer. Nunca acreditaria que isso aconteceria um dia.”

Ora, por que não? Quais são as riquezas que a miséria, a fome e a mendicância não alcançam? Qual dignidade, com sua toga pretexta, seu bastão augural e calçados patrícios, não é acom­panhada de sordidez, acusações públicas, mil máculas e o extremo desprezo? Que reino existe cuja ruína não esteja preparada além da degradação do tirano e do carrasco? Não é necessário um gran­de intervalo de tempo, mas poucas horas bastam para se ir do trono até os pés do dominador.

Sei, portanto, que toda condição é variável, e o que quer que caia sobre outro pode também ocorrer a ti. És rico? Mas por acaso mais do que Pompeu? A ele, quando Gaio, seu antigo paren­te e novo hóspede, lhe abriu a casa de César para fechar a sua, faltou pão e água. E ele, que possuía tantos rios que nasciam e morriam em seus do­mínios, mendigou água da chuva. Passou fome e sede no palácio desse parente, enquanto isso, seu herdeiro lhe preparava funerais públicos.

Tu que desfrutaste das maiores honras, por acaso foram tão grandes ou tão inesperadas ou tão universais quanto as de Sejano? Pois no mesmo dia em que o Senado o acompanhou, o povo o esquartejou. Daquele a quem tanto os deuses quanto os homens haviam concedido tudo o que se pudesse querer, nada sobrou para que o carras­co pudesse recolher. És rei? Oxalá não sejas como Creso, que mandou acender e viu extinguir-se a sua própria fogueira, e sobreviveu não apenas ao seu reino, mas também à sua própria morte. Não te enviarei à Jugurta, a quem o povo romano, no transcur­so de um único ano, temeu e viu prisioneiro. Não se viu Ptolomeu, rei da África, nem Mitrídates, rei da Armênia, presos entre os guardas de Gaio. Um foi mandado para o exílio, o outro optou por melhor destino.

Em meio a tantas subidas e descidas contí­nuas das coisas, se não tens ideia de tudo quanto pode acontecer no futuro, darás força para o que age contra ti. Por outro lado, poderás desarmá-las se fores tu a vê-las antes.

XII

Em vista disso, não devemos trabalhar para coisas inúteis nem por motivos inúteis, isto é, não devemos desejar o que não podemos conseguir, ou, se o conseguimos, que não compreendamos muito tarde e com vergonha a inutilidade dos nossos desejos, ou seja, que o trabalho não seja indigno nem desagradável e sem efeito ou que o efeito do trabalho seja indigno. Quase sempre a tristeza advém a partir disso, seja por causa do fracasso, seja pelo resultado vergonhoso.

É preciso diminuir as idas e vindas, às quais se entregam grande parte dos homens que perambulam por casas, teatros e mercados, intrometendo-se nos negócios alheios, como se estivessem sempre ocupados.

Se perguntas a alguém ao sair de casa: “Aon­de vais? Qual o teu destino?” Ele te responderá: “Por Hércules, não sei! Mas verei algumas pessoas, farei alguma coisa!”

Vagam sem propósito, buscando alguma ocupação. Não fazem o que tinham proposto, mas o que se apresenta naquele momento. O percurso deles é sem proveito, igual à formiga que sobe e desce pela árvore, indo até o ponto mais alto e des­cendo para a base do tronco sem nada produzir.

Muitos conduzem a sua vida de modo se­melhante. Deles, não sem razão, alguém diria que são de uma inércia inquieta.

Terias pena de alguns que correm como se fossem apagar um incêndio. Até mesmo atro­pelam os que encontram e se precipitam sobre os demais, Para onde se dirigem? Correm para saudar alguém que não lhes responderá ou para acompanhar os funerais de algum homem desconhecido ou assistir à solenidade de qualquer espe­cialista em novas núpcias ou escoltar uma liteira, levando-a por muitos lugares.

Depois, em casa, quando voltam exauridos por nada, juram não saber por que saíram, onde foram, para, no dia seguinte, errarem pelos mesmos descaminhos.

Assim, todo trabalho tem um objetivo, tem algo em vista. Não é uma atividade válida que move os inquietos, mas, como os loucos, são as falsas imagens das coisas que os movem, pois nem esses se movem sem alguma esperança. Por isso os prende a aparência de alguma coisa cuja
inutilidade a mente decrépita não apreende.

Do mesmo modo, acontece a cada um desses que, para aumentar a multidão, circulam pela ci­dade em causas vãs e levianas. Nada tendo no que trabalhar, saem de casa ao nascer do sol, depois de terem, sem resposta, batido à porta e saudado aos escravos-porteiros. Ninguém é mais difícil do que a eles de serem encontrados em casa.

Desse mal depende e se origina aquele vício odioso: o de ouvir e investigar os segredos públi­cos, inteirando-se de muitas coisas perigosas de divulgar e até mesmo de ouvir.

 

XIII

Penso que Demócrito professa tal doutrina quando diz: “Quem quiser viver tranquilamente, não faça muitas coisas nem particulares nem pú­blicas”. Claro que se referia às coisas desnecessárias, pois, se são úteis, tanto privada quanto publica­ mente, não apenas muitas, mas inúmeras devem ser feitas. No entanto, quando nenhum dever obriga, devemos restringir nossas ações.

Quem faz muitas coisas com frequência coloca-se sob o poder do destino. O mais segu­ro é provocá-lo raramente. Ao contrário, pensar sempre sobre ele e nada esperar de sua fidelidade. “Navegarei, a não ser que aconteça alguma coi­sa”; “serei pretor, a não ser que algo o impeça”; ‘ a negociação será bem-sucedida, a não ser que algo
intervenha”.

É por isso que dizemos que nada acontece contra a vontade para o sábio. Não o eximimos dos azares da vida e, sim, dos erros. Assim, se as coisas não acontecem como ele quis, ao menos não fugiram de sua previsão. O que se prevê é que há sempre algo por vir que poderia criar obstáculos para a realização de nossos propósitos. Certamente o pesar causado por uma decepção é bem menor quando o suces­so não foi previsto com antecipação e plena se­gurança.

XIV

Devemos também ter flexibilidade e não nos entregarmos obstinadamente às nossas decisões de maneira que possamos transitar para aquilo que o acaso traz. Não temamos a mudança nos projetos e nas situações, de modo que a leviandade, inimigo vício da quietude, não nos surpreenda.

Certamente, a obstinação perturba, pois fre­quentemente o destino lhe extorque algo. Por sua vez, a leviandade é muito mais grave, pois nunca se fixa em coisa nenhuma.

Esses dois defeitos perturbam a tranqüilida­de, porque, de um lado, opõem-se à mudança e, de outro, nada toleram.

Certamente a alma deve ser resguardada de todas as coisas externas. Confia em ti. Alegra-te contigo. Afasta-te o quanto podes das coisas alheias.

Dedica-te a ti mesmo. Não te sensibilizes com pre­juízos materiais. Enfim, procura interpretar com benevolência os fatos adversos.

Anunciado o naufrágio, o nosso Zenão, quan­do ouviu que todas as suas coisas estavam submer­sas, disse: “A sorte me manda filosofar de modo mais desprendido”. Quando o tirano ameaçava de morte o filósofo Teodoro34e de deixá-lo sem se­pultura, ele perguntou: “Tens com o que te alegrar, pois meu sangue está em teu poder; mas, no que diz respeito à sepultura, és um tolo se pensas que me interessa se vou apodrecer sobre ou debaixo da terra”.

Júlio Cano, homem grande entre os pri­meiros, cuja admiração não há de contestar quem nasceu no nosso século, após ter discutido com  Gaio, ao sair, comentou o novo Faláride: “Para que não te iludas com vã esperança, mandei que te conduzissem à execução”. Ao que ele replicou: “Eu te agradeço, ótimo príncipe”.

O que ele sentia, não tenho certeza, pois me ocorrem muitas coisas. Quis ofender o príncipe e mostrar quão grande era sua crueldade, já que, depois dela, a morte seria um benefício? Ou jo­gou-lhe no rosto sua costumeira demência? Pois lhe agradeciam aqueles cujos filhos havia assas­sinado e cujos bens havia roubado. Ou aceitava livremente a morte como se fosse a liberdade? O que quer que seja, respondeu com grande alma.

Poderia ser dito que, depois disso, Gaio po­deria deixar que ele vivesse. Cano não pressentiu isso. A fidelidade de Gaio a tais ordens era famosa. Acreditas, pois, que os dez dias anteriores ao seu suplício passaram com alguma preocupação? É difícil de acreditar nas coisas que aquele homem disse, no que fez e na tranqüilidade que manteve.

Jogava xadrez.37 Quando o centurião que buscava o grupo de condenados ordenou que também o tirassem, chamado, contou as suas pe­dras e disse ao seu companheiro: “Veja, não minta  depois da minha morte que tu venceste”. Então, acenando ao centurião, disse: “Tu serás testemu­nha de que estou ganhando por um ponto”. Pen­ as que Cano se importava com aquele tabuleiro? Ele zombava de seu carrasco.

Aos amigos que estavam tristes por perder tal homem, disse: “Por que estão tristes? Vocês questionam se as almas são imortais, eu já sabe­ rei.” Não deixou de investigar a verdade no seu próprio fim e fez de sua morte uma questão.

Aquele seu filósofo38o acompanhava. Quan­do já estavam próximos do túmulo em que quotidianamente se fazia sacrifício a César, nosso deus, lhe perguntou: “Cano, em que estás pensando agora? Ou o que está na tua mente?” “Eu me pro­pus”, respondeu Cano, “a observar se naquele velocíssimo momento sente-se a alma expirar.” E prometeu que, se descobrisse, voltaria aos amigos e lhes indicaria o estado das almas.

is a tranqüilidade em meio à tempestade, eis uma alma digna da eternidade, que chama o seu destino de prova da verdade, que, no último mo­ mento, interroga a sua alma que exala e aprende não apenas no momento da morte, mas a partir da própria morte. Ninguém filosofou por mais tempo. Tão grande homem não será esquecido nunca. Sim, iremos louvar teu nome pelas gerações futuras. Tu, vítima ilustre, patrimônio imortal em meio às calamidades promovidas por Gaio.

XV

Mas em nada interessam as causas da triste­ za particular, já que, às vezes, nos ocupa o ódio pelo gênero humano, quando se pensa quão rara é a simplicidade, quão desconhecida é a inocência e como raramente, salvo algum interesse, perma­nece a fidelidade. Dessa forma, faz-se presente a maldade interessada nos lucros e danos, impul­sionada pela ambição que não se contém em seus limites.

Então a alma penetra na escuridão, porque diante da falência das virtudes, das quais nada mais se espera, já que não as possui, só lhe resta penetrar nas trevas.

Diante disso, devemos nos esforçar para que todos os vícios nos pareçam não como odiosos, mas como ridículos, e imitar antes Demócrito que a Heráclito. Este sempre que se encontrava em público, chorava; aquele ria. Tudo o que faze­ mos, a um parecia misérias; a outro, idiotices.
Deve-se, pois, aceitar todas as coisas e su­ portá-las com bom humor. É mais adequado à natureza humana rir que lamentar a vida.
Além do mais, serve melhor ao gênero hu­mano quem dele ri do que quem o deplora.

Aquele que ri tem alguma esperança, po­rém aquele que chora estupidamente não espe­ra que possa se corrigir. Enfim, quem contempla o conjunto da realidade humana demonstra ter maior grandeza de alma ao não conter o riso do que quem não consegue reter as lágrimas. Sim­plesmente deixa-se levar por leve emoção, já que nada de grandioso, sério ou digno de lástima se faz presente nas falsas aparências.

Que cada um reflita sobre o porquê de estar­ mos tristes ou alegres e saberá que a verdade é o que Bion dizia: “Nem todos os negócios dos ho­ mens são semelhantes nos seus princípios, nem a vida deles é mais santa ou severa do que quando foram concebidos”.

Mas é bastante aceitar placidamente os cos­tumes públicos e os vícios humanos sem cair no riso ou em lágrimas, porque se atormentar com os males alheios é uma eterna miséria e se deleitar com tais males é um prazer desumano.

Assim, é inútil chorar porque alguém enter­ ra o seu filho ou ficar entristecido.

Convém se conduzir de tal modo que, em teus próprios males, dês à dor o quanto a natu­reza pede, não o quanto os costumes cobram. De fato, muitos derramam lágrimas por simples os­ tentação, uma vez que mantêm olhos secos sem­pre que o espectador se vai, julgando ser torpe não fazê-lo quando todos o fazem. Tão profundamente se fixou este mal de estar dependente da opinião alheia que simula até uma coisa tão sim­ples como a dor.

XVI

Segue-se a parte que, não sem razão, cos­tuma nos entristecer e conduzir à precaução. Quando homens de bem são levados para fins desastrosos. Assim, Sócrates é coagido a morrer no cárcere, Rutílio a viver no exílio, Pompeu e Cí­ cero a entregarem suas cabeças a seus clientes, e Catão, imagem viva da virtude, joga-se sobre sua espada, fazendo perecer consigo, ao mesmo tem­po, a república.

Impossível não se perturbar com o fato de a sorte distribuir prêmios tão iníquos. E então o que cada um pode esperar para si quando vê os melhores sofrerem coisas tão horríveis?

Que fazer diante de tudo isso?

Olha como cada um deles suportou o sofri­ mento, sendo forte. Oxalá desejes ter a mesma firmeza de espírito.

Se foram fracos e covardes diante da mor­ te, nada se perdeu. Ou são dignos de terem suas virtudes como modelo, ou sua covardia os torna até indignos de pena. De fato, o que há de mais vergonhoso que homens insignes, morrendo de modo heroico, fizessem de nós covardes?

Louvemos o que é digno de louvor e diga­ mos: “Quanto mais forte, tanto mais feliz! Fugiste de todas as quedas, inveja, doença; saíste da prisão, não pareceste aos deuses digno de má sorte, mas indigno de que a sorte pudesse fazer algo contra ti.” Porém, aos que fogem e que da própria morte voltam para a vida, deve-se empurrá-los para o carrasco.

Não choro a ninguém que esteja alegre nem a ninguém que se lamenta. Aquele enxugou as minhas lágrimas, este, com seu choro, fez com que não fosse digno de nenhuma lágrima. Eu vou chorar por Hércules, que foi queimado vivo; por Régulo, que foi crivado de dardos; por Catão, que suportou suas feridas. Todos estes alcançaram, pelo empenho de uma parte mínima da própria existência, agiram de forma a se fazerem eternos, e a morte foi para eles a porta para a imortalidade.

XVII

Também causa preocupação o fato de al­guém tomar atitudes que não demonstram aos outros o que cada um é realmente. Assim, é a vida de muitos, falsa e pronta para a ostentação. De fato, o constante autocontrole atormenta tanto quanto o receio de ser pego num papel diverso daquele que está acostumado a representar.

Nunca nos livraremos dessa preocupação, já que cada olhar que examina é também questionador.

De fato, ocorrem muitos incidentes que nos ex­ põem contra a nossa vontade. Portanto, não é se­gura a vida daqueles que vivem sob uma máscara.

Quanto prazer tem a simplicidade sincera e autêntica, que nada esconde de seus costu­mes! No entanto, essa vida corre perigo de ser desprezada, se ela for exposta a todos. De fato, existem aqueles que se enfastiam do que veem muito de perto. Mas não existe perigo de que a virtude se torne vil ao se aproximar dos olhos, e é melhor ser incomodado pela simplicidade do que por uma perpétua dissimulação. Desse modo, sejamos moderados, pois há muita dife­ rença entre viver com simplicidade e viver com negligência.

XVIII

Faz-se necessário muito recolhimento para dentro de si próprio.

O contato com aqueles que são de outro nível atinge o nosso equilíbrio, renova paixões e excita debilidades latentes e tudo o que não esteja bem curado.
Solidão e companhia devem ser mescladas e alternadas. Esta desperta o desejo de viver entre os homens, aquela, conosco mesmos. Portanto, uma é remédio para outra. A solidão irá curar a aversão da multidão, e a multidão, o tédio da so­lidão.

 XIX

Igualmente, não se deve manter a men­ te fixa apenas num único objetivo, ela deve ser conduzida, por vezes, às distrações. Sócrates não se envergonhava de divertir-se jogando com os meninos. Catão relaxava o espírito com o vinho, quando se sentia cansado das preocupações da vida pública. Cipião exercitava seu corpo triun­fante e militar através da dança. Não como agora costumam fazer, com trejeitos afeminados, mas como os antigos costumavam fazer, nos jogos e nas festas, dançando virilmente, sem serem, por isso, desconsiderados, mesmo que tenham sido vistos pelos seus inimigos.

Deve-se dar à alma algum descanso. Repou­sando, ela se torna mais atilada para a ação.

Assim como não se deve exigir demais dos campos férteis, porque uma fertilidade nunca interrompida os esgotaria, também o trabalho contínuo abate o ímpeto das almas, cujas forças se recuperariam com um pouco de descanso e de distração. Quando o esforço é demais, ele trans­ mite à mente certo esgotamento e frouxidão.

Certos homens não tenderiam tanto para passatempos e jogos se disso não tirassem al­ gum deleite. A frequência, no entanto, absorve do espírito toda a força. Também o sono é muito necessário ao descanso, porém, se for contínuo, levará à morte. Existe muita diferença entre o afrouxar e o desligar.

Os legisladores instituíram os dias festivos para coagirem publicamente os homens a se ale­grarem, interpondo ao trabalho uma interrupção necessária. Portanto, como já disse, grandes ho­ mens se davam mensalmente alguns dias de férias. Outros, enfim, alternavam uma jornada de traba­lho com outra de lazer.

Lembremos o grande orador Asínio Polião, que de nada se ocupava após as quatro horas da tarde. Ele não lia nem uma carta depois dessa hora, para que não surgissem novas preocupa­ções. Assim, em duas horas repunha as energias gastas durante o dia. Alguns cessavam suas ativi­dades ao meio-dia, reservando as horas da tarde para os trabalhos mais leves.

Nossos antepassados vetavam, após as qua­tro horas, sessão no Senado.

À noite, os soldados dividem as vigílias, e delas estão livres os que retornaram de alguma expedição.

XX

Convém ser condescendente com a alma e dar-lhe algum descanso que atue como um ali­ mento restaurador. Os passeios devem ser feitos em lugares abertos, para que a alma se fortifique com o ar puro. Às vezes, um passeio, uma viagem com mudança de região. Isso proporciona ener­gia renovada.

Igualmente, uma refeição alegre e uma be­bida mais abundante, podendo chegar à em­briaguez, não para nos afogarmos, mas para nos divertirmos, porque dissolve as preocupações, comove até o íntimo da alma e cura não apenas a tristeza, mas também outras doenças. Baco39foi chamado de livre não por soltar a língua, mas por libertar a alma da servidão das preocupações e fazê-la mais forte e audaz para todos os desejos.

Assim como para a liberdade, a moderação também é saudável em relação ao vinho. Comenta-se que Sólon e Arcesilau eram dados ao uso do vinho. No entanto, a embriaguez de Catão foi reprovada. Quem quer que fosse que o repro­vava, é mais fácil tornar o vício honesto do que manchar a dignidade de Catão.

Mas não se deve fazer referência a isso com frequência, para que o indivíduo não seja levado pelos maus costumes. De toda forma, é necessá­rio, de vez em quando, afrouxar as rédeas, para interromper, de leve, a moderação e levá-la à exultação e à liberdade.

 Demos crédito ao poeta grego: “De vez em quando é alegre enlouquecer”. Também Platão afirmava: “Em vão se dirige às portas das musas quem tem o domínio de si”.43E ainda Aristóteles: “Nunca existiu um grande gênio sem nenhuma mistura de loucura”.

O espírito, quando despreza as coisas vul­gares e costumeiras e se ergue ao alto por um instinto sagrado, então, por fim, entoa palavras divinas com boca mortal. Enquanto o espírito está atrelado a si mesmo, o sublime fica inatingí­vel. É necessário que se afaste do costumeiro, que se liberte e, soltando o freio, arrebate consigo o cavaleiro, que é conduzido às alturas, aonde ja­mais chegaria só por si mesmo.

Aqui estão, meu caro Sereno, os meios para conquistar a tranqüilidade e a forma como podes recuperá-la, já que tens como resistir aos vícios quando aparecem sub-repticiamente. Porém, e isso já deves saber, nenhum deles é suficiente­mente forte para conservar um bem tão frágil se não houver intenso e assíduo cuidado.

Filosofia - Estoicismo
10/10/2021 12:17:46 PM | Por Lucius Annaeus Seneca
Da vida retirada

Os vícios nos acompanham constantemen­te. Mesmo que não buscássemos nenhuma outra coisa saudável, retirar-se, por si só, ainda poderia ser proveitoso, pois nos tornaria melhores do que somos. Que pensar então da utilidade de se retirar para perto de homens qualificados e escolher um exemplo para orientar a nossa vida? Isso, a não ser em uma vida retirada, não pode ser conse­guido. Somente assim pode ser alcançado aquilo com que sonhamos, em um lugar onde ninguém interfere em nossas ações, para não deixarmos de lado nossos propósitos. Somente dessa forma pode-se conduzir a vida segundo um único prin­cípio, em lugar de fragmentá-la com projetos di­versificados.

Por exemplo, dentre todos os males, o pior de todos é quando resolvemos mudar nossos de­feitos. Passar de uma coisa para outra pode agradar, mas, ao mesmo tempo, é vergonhoso, uma vez que nossas decisões tornam-se levianas. Hesi­tamos e somos levados para cá e para lá. Abrimos mão de nossos anseios, reclamamos do que aban­donamos, as mudanças se alternam entre a nossa ambição e o nosso arrependimento. Dependemos inteiramente dos julgamen­tos alheios, e parece-nos melhor aquele que tem muitos pretendentes e adoradores e não o que deve ser elogiável e desejável. Nem avaliamos o caminho do bem e do mal por si, mas pela quan­ tidade de pistas, sendo que nenhuma assinala re­torno.

Pergunta: “O que dizes, Sêneca? Abando­nas os teus pares? Teus amigos estoicos dizem com certeza ‘que até o último momento da vida estaremos em ação, não desistiremos de traba­lhar para o bem comum, de ajudar cada um, até considerar o poder de dar auxílio ao inimigo debilitado pela idade. Somos os que não damos privilégio a nenhuma idade e, como diz aquele homem respeitadíssimo, apertamos nossos cabe­los brancos com capacete-, nós estamos entre os que, mesmo diante da morte, não ficamos para­dos e, se as circunstâncias permitirem, nem mes­mo para própria morte será dado descanso.’ Por que nos repassas os preceitos de Epicuro junto aos princípios de Zenão? Por que, em lugar de trair Zenão, visto que ele te causa aborrecimen­tos, não o abandonas completamente?”

Quero provar que não estou em conflito com a doutrina estoica, nem eles estão contra os próprios ensinamentos. Mesmo que eu os abandobasse, seria desculpado, porque continuaria se­guindo os exemplos deles.

O que passo a dizer será dividido em duas partes. Em primeiro lugar, alguém pode, desde a primeira idade, se entregar inteiramente à contemplação da verdade e buscar a razão de vi­ver, praticando de forma reservada. Depois, vou mostrar que, em idade já avançada, o homem, com plena capacidade, pode continuar servin­do e orientando os demais, tal como as virgens vestais, que gastaram muitos anos entre vários ofícios para aprender funções sagradas. Depois, passavam a ensinar aos outros aquilo que tinham aprendido.

II

Demonstrarei que isso também agrada aos estoicos, não porque eu siga uma lei que proíbe dizer algo contra Zenão e Crisipo, mas porque a própria situação me faz seguir a opinião deles, pois, se alguém está ligado à posição de uma úni­ca pessoa, seu lugar não é na cúria e, sim, entre as facções partidárias. Se tudo fosse bem explicado e sendo a verdade professada abertamente, nada te­ríamos de mudar em nossas decisões. Agora bus­camos a verdade na companhia daqueles mesmos que nos ensinam a respeito dela.

As duas maiores correntes filosóficas, a dos epicuristas e a dos estoicos, discordam entre si sobre esse tema, embora por caminhos diversos concordem com a vida retirada. Epicuro diz: “O sábio não deve ter acesso a negócio público a não ser que seja obrigado”. Zenão fala: “Exerça função pública, a não ser que haja algum empecilho”.

Dessa forma, um ordena, por princípio, a vida retirada, outro pressupõe para isso uma cau­sa, mas o termo “causa” tem sentido amplo. Se a república estiver tão corrompida que não possa ser ajudada, se estiver toda tomada pelo mal, o sá­bio iria dedicar-se ao não realizável, empenhar-se para não conseguir nenhum resultado. Acrescen­te-se que, se tiver pouca autoridade e pouca força, a própria república não iria aceitá-lo se a saúde o impedisse. Assim como não se lança ao mar um navio com o casco danificado, nem se alistaria no exército quem estivesse debilitado, da mesma for­ma não se deve empreender uma caminhada para a qual se sabe não estar capacitado.

Portanto, aquele com plena capacidade fí­sica, antes de procurar problemas, pode colocar-se em segurança e, imediatamente, dedicar-se a artes nobres, vivendo em ócio justificado, culti­vando virtudes que podem ser praticadas no mais absoluto retiro.

O que se exige do homem é que seja útil ao maior número de semelhantes, se possível. Caso não consiga, sirva a poucos, ou aos mais próximos, ou a si mesmo.

Ao tornar-se útil para os demais, acaba por iniciar um trabalho comunitário. Da mesma for­ma como quem se degenera prejudica não apenas a si, mas também a todos os quais poderia prestar auxílio caso fosse melhor, quem se aprimora ape­nas por isso já beneficia os outros, já que apronta quem vai poder beneficiá-los no futuro.

III

Suponhamos que haja duas repúblicas: uma grande e verdadeiramente pública na qual vivem homens e deuses e na qual nada se vê apenas por um ângulo, medindo a sua extensão pelo percur­so do sol. A outra é aquela que nos foi dada ao nascer. É a dos atenienses ou a dos cartagineses ou qualquer outra que não pertença a todos os homens, apenas a alguns deles. Há indivíduos que se dedicam ao mesmo tempo a ambas; ou­tros apenas à menor e outros, ainda, somente à maior.

À república maior, mesmo na vida retirada, podemos servir, o que me parece até ser melhor, podendo ainda inquirir o que é a virtude; se há uma ou muitas; se é a natureza ou a prática que faz os homens bons; se aquilo que abrange as ter­ras e os mares e o que neles está inserido é apenas uma coisa ou muitos corpos espalhados por deus; se a matéria da qual tudo nasce é alguma coisa contínua e plena ou descontínua e vazia ou uma mistura de partes sólidas; onde está deus; se sua obra está espalhada no exterior da matéria ou in­cluída no conjunto; se o mundo é eterno ou deve ser olhado como coisa efêmera inserida no tem­po. Aquele que contempla tudo isso presta que serviço a deus? Oxalá suas obras tão grandiosas não fiquem sem testemunhas!

Costumamos dizer que o bem supremo consiste em viver de acordo com a natureza. A natureza gerou-nos tanto para a contemplação quanto para a ação.

Agora podemos provar o que dissemos anteriormente. Por que agora? Isso não ficaria provado de maneira suficiente se cada um buscasse dentro de si próprio o desejo que possui para buscar o desconhecido e a curiosidade dian­te da narração de uma história?

Alguns navegam e enfrentam os trabalhos de uma peregrinação muito longa apenas pelo prê­mio de conhecer algo longínquo e oculto. É isso que reúne a multidão para os espetáculos; é isso que leva a buscar coisas não aparentes, a questio­nar as secretas, a remexer antiguidades, a ouvir sobre costumes dos povos bárbaros.

A natureza deu-nos um espírito curioso e consciente de sua perícia e beleza; criou-nos para a contemplação desses grandes espetáculos. Tudo isso perderia a sua riqueza de coisas grandiosas, excelsas, tão nitidamente estruturadas, tão bri­lhantes e formosas, se ficasse visível apenas para a solidão!

Para que saibas que ela quer que tudo isso fosse admirado e não apenas avistado, observa, então, o local onde nos situou, isto é, colocou-nos em meio dela própria e concedeu-nos o po­der de observar todos os seres ao nosso redor. Não fez o homem apenas ereto, mas, sobretudo, deu-lhe habilidade para a contemplação. A fim de que, desde o nascer do sol até o ocaso, pudesse observar o curso dos astros e para que seu rosto girasse, deu-lhe uma cabeça erguida, colocando-a sobre ombros flexíveis. Direcionando o curso de seis constelações durante o dia e de seis outras no decorrer da noite, a natureza não oculta nada de si mesma, pondo diante dos olhos humanos tais ma­ravilhas que estimulam a curiosidade para outras.

Mas nem por isso já vimos tudo o que existe, já que a nossa visão descortina o caminho para a investigação e apresenta-nos os fundamentos da verdade de maneira que a averiguação pas­sa do claro para o escuro, pondo a descoberto o que existe de mais antigo no universo, como, por exemplo, procurar a origem dos astros que se mostram como elementos distintos entre si; qual foi a lei que separou elementos ligados entre si e os que se encontram misturados; quem indicou o lugar para cada um deles; se os elementos mais pesados caíram sozinhos e os mais leves alçaram voo, ou, independente do peso dos corpos, uma outra força mais forte determinou a lei de cada um deles; se é verdade, segundo dizem, que o ho­mem é constituído de espírito divino; se particulas e fagulhas de astros caíram sobre a Terra e ai ficaram escondidas em lugar inacessível.

IV

O nosso pensamento invade as barreiras do céu e não se contenta em saber apenas o que está ao nosso alcance. Alguém poderia perguntar, afir­mando: “examino o que está localizado além de nosso mundo para saber se é uma grande vasti­dão ou está circunscrito por alguns limites; qual a forma dos elementos estranhos; são disformes ou confusos ou com igual volume em cada parte; se estão ligados com o nosso mundo ou dele separa­dos; se vagueiam pelo espaço; se é com elementos indivisíveis que se compõe tudo o que surgiu ou surgirá; ou, ainda, se a matéria de tudo isso é es­pessa e móvel ao mesmo tempo; se os elementos são opostos entre si ou se não estão em conflito já que contribuem para um mesmo fim por cami­nhos diferentes”.

Uma vez que veio ao mundo para descobrir tais problemas, vê como é pequeno o tempo de que o homem dispõe, embora se dedique a isso por inteiro. Ainda que não permita que lhe per­turbem nem se descuide, ainda que controle seu tempo com muito cuidado e estenda as suas ho­ras até o fim de sua vida, desde que o destino não retire nada do que recebeu da natureza, o homem é por demais mortal para compreender as coisas imortais.

Assim, vivo segundo a natureza, já que a ela me entreguei totalmente, já que sou seu ad­mirador e servo. Entretanto, a natureza quer que eu faça duas coisas: agir e dedicar-me à reflexão. Tanto uma quanto outra realizo, pois não pode haver contemplação sem alguma forma de ação.

V

“Mas faz diferença”, dizes, “dedicar-se ao es­tudo da natureza apenas levado pelo prazer, não pedindo nada mais que a contemplação, sem visar a qualquer outro objetivo, uma vez que ela, com seus atrativos, já proporciona satisfação?”

A isso, respondo que é importante saber qual o propósito de dedicar-se à vida pública, ou seja, se é apenas para estar sempre ocupado e sem tempo para voltar os olhos das coisas humanas para as divinas.

Da mesma forma que desejas as coisas sem o mínimo apreço pelas virtudes, sem cultivar o espírito, agindo de forma injusta através de atos não dignos de aprovação - já que todos os ele­mentos devem estar ligados -, assim uma virtude distanciada da vida retirada é um bem imperfeito e doente, uma vez que inativa não demonstra ne­nhuma aprendizagem.

Ninguém pode negar que a virtude deve provar a sua eficiência em obras e não apenas ficar refletindo sobre o que faz; deve, às vezes, entregar-se inteiramente a uma tarefa e pôr-se a fazer algo com empenho e resolutamente pela sua prática. Se o atraso na execução não ocorre por causa do sábio, então não é o agente que está em falta e, sim, aquilo que deve ser feito. Por que ra­zão, então, condená-lo a ficar recluso?

Com que propósito o sábio se retira para o sossego? É para ter certeza de que, também ali, deve praticar atos que serão de utilidade para toda a posteridade. Certamente, sabemos que tanto Zenão como Crisipo realizaram obras mais so­berbas do que comandar exércitos, ocupar cargos públicos, promulgar leis. Até as promulgaram, mas não apenas para uma cidade e, sim, para toda a humanidade. Por que, então, não seria conve­niente ao homem honesto e digno a vida retirada, graças a qual se organizam os séculos futuros. É através dessa que se divulga uma mensagem não apenas para um pequeno auditório e, sim, para homens de todas as nações, sejam os que ali se encontram, sejam os que hão de vir.

Em síntese, pergunto, se Cleanto, Crisipo e Zenão viveram de acordo com seus ideais. Não duvido que responderás que viveram da mesma forma como ensinaram, porém nenhum deles ad­ministrou república alguma. Dirás ainda que não tiveram a fortuna e a dignidade que costumam ter os que são aceitos na gerência dos negócios públicos. Mas nem por isso levaram uma vida negligente e tediosa. Agiram de modo que o seu sossego fosse mais útil aos homens do que as ati­vidades e o suor de muitos outros. Dessa forma, são percebidos como grandes empreendedores, apesar de não terem exercido cargos públicos.

VI

Além disso, há três modos de vida. Cabe ques­tionar qual o melhor: o que se consagra ao prazer, o que se consagra à contemplação ou aquele que se dedica à ação? Primeiramente, abandonando qualquer discussão e o implacável ódio que se de­ clara aos que decidem trilhar caminhos diferentes dos nossos, vejamos se todas essas doutrinas, de diferentes denominações, não estariam levando a um mesmo caminho sob um ou outro aspec­to. Mesmo o que preconiza a doutrina do prazer não abandona a contemplação, como o que só se dedica à contemplação também não está afastado do prazer, e o terceiro, embora dedicando a vida às atividades, não está livre da contemplação.

Dirás que existe uma sensível diferença en­tre alguma coisa ser proposital ou estar direcio­nada para alguma intenção. Evidentemente, há diferença, porém uma coisa não acontece sem a outra. Nem contemplação sem ação, nem ação sem contemplação, nem o terceiro, que conside­ramos negativo, demonstra ter um prazer apático, uma vez que captura aquilo que a razão assinala como estável para si. Por esse motivo, também a comitiva do prazer é ativa.

E por que não seria? É ativa porque Epicuro declara, em algum lugar, que se afastaria do pra­zer e até suportaria a dor se o prazer fosse amenizado pelo arrependimento, ou uma dor menor substituísse outra mais séria.

Por que importa dizer tais coisas? Importa deixar claro que a contemplação agrada a todos. Uns a desejam como fim último; nós a temos como um porto de passagem, não como porto de chegada.

Acrescente-se a tudo isso que, segundo a lei de Crisipo, é lícito viver uma vida retirada. Não digo resignar-se a ela, mas escolher voluntariamente esse modo de vida. Dizem que o sábio não deve aproximar-se de qualquer tipo de negócio público. Não importa qual o caminho que ele es­colhe para o descanso final. Pode acontecer que os negócios públicos não o escolham; pode acon­tecer que ele não os escolha; pode, enfim, aconte­cer que nem existam. O fato é que tais negócios faltarão para os que os buscarem com disposição destrutiva.

Pergunto, então, de qual república o sábio deve aproximar-se? A dos atenienses, na qual Só­crates foi condenado e da qual Aristóteles teve de fugir para que não tivesse o mesmo destino? Da­quela na qual a inveja persegue a virtude? Assim dirás que o sábio não deve se aproximar de tal tipo de república?

Se ele se acerca da república de Cartago, na qual a revolta é constante e a liberdade hostiliza os melhores, sofrendo a justiça e a hones­tidade igual aviltamento, enquanto a crueldade contra os inimigos é enorme com reflexos sobre os cidadãos, então dessa também ele fugirá.

Se eu decidisse percorrer uma a uma todas as repúblicas atuais, não acharia nenhuma que estivesse à altura para receber o sábio, ou que o sábio pudesse dela fazer parte. Já que não se pode encontrar a república de nossos sonhos, então nos invade a necessidade de descanso, porque não encontramos nenhum lugar que possa substituir a vida retirada.

Se alguém disser que navegar é ótimo, mas, em seguida, advertir que não se deve fazê-lo por águas onde são freqüentes os naufrágios e nas quais as tempestades desorientam os pilotos, ­ concluo que esse indivíduo me aconselha a não en­frentar o mar, por mais que louve a navegação.

Filosofia - Estoicismo
10/2/2021 3:32:06 PM | Por Lucius Annaeus Seneca
Sêneca saúda o amigo Lucílio: Da viagem

Pensas que só a ti isso aconteceu e te admiras como se fosse uma coisa nova o fato de em tão longa peregrinação e em tanta variedade de lugares não teres tirado a tristeza e a gravidade da mente? Deves mudar o Animo, não o céu. Mesmo que atravesses o vasto mar, mesmo que, como diz o nosso Virgílio, “se percam a terra e as cidades”, os vícios te seguem e te perseguem onde quer que vás.

Sendo perguntado sobre isso, Sócrates disse: “Por que te admiras de que em nada as viagens te beneficiem quando te levas contigo? Vai atrás de ti a mesma causa que te faz fugir.” A quem pode ajudar a novidade das terras? A quem o conhecimento das cidades ou dos lugares? Toda essa agitação é em vão. Perguntas por que essa fuga não te ajuda; ora, tu foges de ti mesmo. É o peso da alma que deves deixar, antes disso, nenhum lu­gar te agradará.

Julgas, agora, que a tua condição seja tal qual aque­la que o nosso Virgílio apresenta naquela sacerdotisa exaltada e muito instigada e que tem em si um espírito que não é o seu: “A sacerdotisa se agita para que possa expulsar do seu peito um grande deus”. Vai daqui para la a fim de sacudir o peso que te oprime e que volta mais grave devido à tua própria agitação; assim como em um navio a carga imóvel pesa menos e a que está disposta de modo desigual se move de um lado para outro, fazendo afundar o flanco que mais pesa. Qualquer coisa que faças a fazes contra ti e no mesmo movimento te prejudicas, pois tu carregas um homem doente.

No entanto, quando te livrares desse mal, toda mudança de lugar se tornará alegre. Mesmo se fores lançado em terras distantes, ou fores transferido para qualquer país bárbaro, aquela distância, qualquer que seja, te parecerá acolhedora. Mais importante não é o lugar, mas o estado de ânimo, pois o ânimo não se tor­na escravo de nenhum lugar. Vive com essa convicção: “Não nasci para um único lugar, a minha pátria é este mundo inteiro”.

Se isso fosse claro para ti, não te admirarias que não te ajudassem as diversas regiões para as quais cons­tantemente migras, cansado daquelas onde vivias antes; as primeiras te teriam agradado se as tivesses conside­rado como se fossem tuas. Agora não peregrinas, mas erras e te deixas levar de um lugar para outro, de modo que o que buscas, isto é, viver bem, encontra-se em to­dos os lugares.

Pode existir um lugar tão conturbado quanto o fórum? Também aqui se pode viver tranqüilamente, se for necessário. Mas se é possível dispor livremente de nós mesmos, fugiria para longe da proximidade do fó­rum, pois como os lugares insalubres minam uma saúde muito firme, assim, também, lugares perigosos atacam os espíritos ainda não perfeitos e convalescentes.

Discordo daqueles que se jogam no meio das on­das e que, atraídos por uma vida tumultuosa, lutam, cotidianamente, com grande ânimo, contra as difi­culdades das coisas. O sábio o suporta, não o escolhe, prefere a paz à luta; não é muito útil abandonar-se aos próprios vícios se é preciso lutar contra os alheios.

“Trinta tiranos”, fala, “rodearam Sócrates, mas não puderam quebrantar seu espírito.” Que importa quantos são os senhores? A servidão é uma só; se alguém despreza, por maior que seja a dominação, é livre. É tempo de terminar, mas não sem antes pagar os pedágios. “Ter consciência dos próprios pecados é o início da salvação.” Esta frase, dita por Epicuro, parece-me ser das mais sábias, pois quem ignora pecar não quer ser corrigido; é necessário que reconheças a culpa antes de te emendares.

Alguns se vangloriam dos seus vícios; e tu pensas que busca remédio quem enumera os seus vícios como se fossem virtudes? Por isso, tanto quanto possas, re­preende-te a ti mesmo, faze um exame de consciência; assume primeiro o papel do acusador, depois o de juiz e, por último, o de intercessor. Em algum as ocasiões, sê duro contigo mesmo. Passa bem!

Filosofia - Filosofia Clássica
10/2/2021 3:28:53 PM | Por Epicuro
Carta sobre felicidade

Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer por meio da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la.

Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.

Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade.

Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que têm dos deuses. ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefícios aos maus e os maiores benefícios aos bons. Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com os seus semelhantes e consi­deram estranho tudo que seja diferente deles. Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.

Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo, portanto, quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.

O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não viver não é um mal. Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve. Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em honestamente morrer. Mas pior ainda é aquele que diz: bom seria não ter nascido, mas, uma vez nascido, transpor o mais depressa possível as portas do Hades.

Se ele diz isso com plena convicção, por que não se vai desta vida? Pois é livre para fazê-lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, foi um frívolo em falar de coisas que brincadeira não admitem.

Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.

Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a dire­cionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo.

Uma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se aplaca, e o ser vivo, não tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir.

É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha e toda recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.

Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem. Consideramos ainda a autossuficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil.

 

Xxxx

Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita.
Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosa­ mente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte.
Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concor­ dam com ele, ou o interpretam erroneamente,
mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos. De todas essas coisas, a prudência é o princípio
e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem pru­ dência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade.

Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas. Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta
de modo absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa sofri­ mentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o louvor?
Mais vale aceitar o mito dos deuses, do que ser escravo do destino dos naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses por meio das homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável.
Entendendo que a sorte não é uma divin­ dade, como a maioria das pessoas acredita (pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo incerto, o sábio não crê que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o início de grandes bens e de grandes males. A seu ver, é preferível ser desafortunado e sábio, a ser afortunado e tolo; na prática, é melhor que um bom projeto não chegue a bom termo, do que chegue a ter êxito um projeto mau.
Medita, pois, todas estas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absoluta­ mente a um mortal o homem que vive entre bens imortais.

Filosofia - Filosofia Clássica
9/30/2021 3:55:58 PM | Por Giovanni Reale
Os mitos teogônicos e cosmológicos

Já foi há muito tempo observado que o antecedente da cosmolo­gia filosófica é constituído pelas teogonias e cosmogonias mítico-poéticas, das quais é muito rica a literatura grega, e cujo protótipo paradigmático é a Teogonia de Hesíodo, a qual, explorando o patri­mônio da precedente tradição mitológica, traça uma imponente sínte­se de todo o material, reelaborando-o e sistematizando-o organica­mente. A Teogonia de Hesíodo narra o nascimento de todos os deu­ses; e, dado que alguns deuses coincidem com partes do universo e com fenômenos do cosmo, além de teogonia ela se torna também cosmogonia, ou seja, explicação fantástica da gênese do universo e dos fenômenos cósmicos.

Hesíodo imagina, no proêmio, ter tido, aos pés do Hélicon, na Beócia, uma visão das Musas, e ter recebido delas a revelação da verdade da qual ele se faz, mediatamente, arauto. Em primeiro lugar, diz ele, gerou-se o Caos, em seguida gerou-se Gea (a Terra), em cujo seio amplo estão todas as coisas, e nas profundidades da Terra gerou- se o Tártaro escuro, e, por fim, Eros (o Amor) que, depois, deu origem a todas as outras coisas. Do Caos nasceram Erebo e Noite, dos quais se geraram o Éter (o Céu superior) e Emera (o Dia). E da Terra sozinha se geraram Urano (o Céu estrelado), assim como o mar e os montes; depois, juntando-se com o Céu, a Terra gerou Oceano e os rios.

Procedendo no mesmo estilo, Hesíodo narra a origem dos vários deuses e numes divinos. Zeus pertence à última geração: de fato, foi gerado de Crono e de Rea (que, por sua vez, tinham sido gerados da Terra e de Urano); e, como Zeus, fazem parte da última geração todos os outros deuses do Olimpo homérico, vale dizer, os deuses que o grego então venerava.

Ora, como dissemos, é indubitável que a Teogonia de Hesíodo e, em geral, as representações teogônico-cosmológicas são o anteceden­te da cosmologia filosófica; todavia, é igualmente indiscutível que entre essas tentativas e a cosmologia filosófica (mesmo a mais primi­tiva, isto é, a de Tales) há uma nítida diferença. Para compreender a diferença entre uma e outra, voltemos às três características que acima indicamos como distintivas da filosofia, ou seja, a) a representação da totalidade do real, b) o método de explicação racional, c) o puro [41] interesse teórico. Ora, não há dúvida de que as teogonias possuem a primeira e a terceira dessas características, mas carecem da segunda, que é qualificante e determinante. Elas procedem com o mito, com a representação fantástica, com a imaginação poética, com intuitivas analogias sugeridas pela experiência sensível; portanto, permanecem aquém do lógos, ou seja, aquém da explicação racional.

E quando Aristóteles disse que o amante do mito é de algum modo filósofo1, disse-o referindo-se exatamente ao fato de que, como a filosofia, o mito nasce para satisfazer a admiração ou o puro desejo de saber, não por fins pragmáticos2: mas o mito permanece mito, parente da filosofia, não filosofia.

É dado que sobre este ponto, recentemente, se discutiu, e alguns acreditaram poder negar a existência dessa diferença, é bom que nos detenhamos em reafirmar alguns conceitos que consideramos essenciais. Jaeger escreveu: “Na Teogonia hesiodiana reina de alto a baixo o mais obstinado intelecto construtivo, com toda a coerência de um ordenamen­to e de uma pesquisa racional. Na sua cosmologia, por outra parte, há ainda uma força inata de intuição mítica, a qual permanece eficaz, além do limite no qual costumamos apontar o começo do reino da filosofia ‘científica’, nas doutrinas dos ‘físicos’ e sem a qual nos resultaria in­compreensível a maravilhosa fecundidade filosófica daquele antiquíssi­mo período científico. As forças naturais de atração e de repulsão da doutrina de Empédocles, o Amor e o Ódio, têm a mesma origem espi­ritual do Eros cosmogônico de Hesíodo. O início da filosofia científica não coincide, pois, nem com o do pensamento racional nem com o fim do pensamento mítico. Encontramos ainda a mais genuína mitogonia no núcleo da filosofia de Platão e de Aristóteles, como no mito platônico da alma ou na intuição aristotélica do amor das coisas para com o motor imóvel do mundo”3. Mas Jaeger é vítima de uma ilusão de ótica: nin­guém nega que antes do advento da filosofia existisse a razão e ninguém afirma que na Teogonia hesiodiana (assim como na épica homérica) não existam mais que mito e fantasia e nada de razão; assim como ninguém nega, ao contrário, que na filosofia permaneçam por muito tempo elementos míticos e fantásticos. Mas o ponto essencial está no papel de­terminante que desempenham uns e outros fatores; e veremos logo que, enquanto em Hesíodo ou nos autores de teogonias, o papel determinante é dado ao elemento fantástico-poético-mitológico, em Tales será, ao invés, dado ao lógos e à razão: e é precisamente por isso que a tradição chamou Tales de primeiro filósofo, dando-se perfeitamente conta de que no seu discurso algo mudara radicalmente com relação ao discurso dos poetas, e que esse algo assinalava a passagem do mito ao lógos.

De resto, note-se que na Teogonia hesiodiana falta exatamente o ponto que qualifica a cosmologia filosófica, vale dizer, a tentativa de individuar o primeiro princípio imprincipiado, a fonte absoluta de tudo. E o próprio Jaeger, contradizendo a tese da qual falamos acima, revela-o escrevendo: “O pensamento genealógico de Hesíodo considera advindo também o caos. Ele não diz: no princípio era o caos, mas: primeiro adveio o caos, depois a terra etc. Neste ponto se apresenta a questão de se não deve haver também um início do devir que, por sua vez, não seja advindo. A tal questão Hesíodo não res­ponde, nem sequer a põe. Isso pressupõe uma lógica de pensamento ainda muito longe dele”4.

Mas, note-se, não põe a questão e não pode pô-la, justamente porque a fantasia, que se alimenta do sensível e das analogias extraí­das do sensível, quando chega ao caos se apaga, e, não sabendo mais imaginar formas ulteriores, se detém; e a fantasia pode se representar como gerando o próprio caos, vale dizer, a realidade primeira, jus­tamente porque vê que tudo é gerado (deuses e coisas); para repre­sentar-se isso em sentido contrário, ela deveria ir contra si mesma e, portanto, negar-se. E é exatamente isso que fará a filosofia desde o seu nascimento: irá contra a fantasia, a imaginação e os sentidos e inferirá suas figuras especulativas com a força do lógos, contestando o mito e as aparências sensíveis, criando algo completamente novo.

E quando se diz que a Teogonia é de grande importância para o advento da futura filosofia, diz-se algo justo: mas o advento da filosofia pressupõe a aquisição do novo plano do lógos, isto é, uma revolução, como em seguida veremos.

Filosofia - Filosofia Clássica
9/25/2021 5:31:16 PM | Por Giovanni Reale
Natureza e problemas da filosofia grega

Até agora falamos de filosofia sem determinar de modo específico o conceito: é só neste ponto que podemos fazê-lo, à luz das observações precedentes. Digamos logo de início que a tradição sustenta ter sido Pitágoras o inventor do termo, o que, se não é historicamente verificável, é veros­símil. O termo foi cunhado certamente por um espírito religioso, que pressupunha ser possível só aos deuses uma “sophia” como posse certa e total, enquanto destacava que ao homem só era possível tender à “sophia”, um contínuo aproximar-se, um amor jamais totalmente satisfeito dela, de onde justamente o nome filosofia, amor à sapiência.

Mas que entenderam os gregos por essa amada e buscada sapiência? Prescindindo das várias oscilações e incertezas que de fato se encontram no uso do termo (incertezas na verdade assaz notáveis, porque os vários autores e as várias correntes de pensamento na filosofia ou incluem amiú­de muito pouco, ou incluem demais, segundo as circunstâncias), é possí­vel estabelecer aquilo que de direito merece ser chamado de filosofia, e aquilo que também de fato, a partir de Tales, fizeram todos os que me­receram o nome de filósofos. (As incertezas surgiram porque os vários filósofos, além de ocupar-se daquilo que veremos ser propriamente filo­sofia, ocuparam-se também de numerosos outros tipos de conhecimento que pretenderam fazer entrar globalmente na filosofia, como se, sendo um o pesquisador, uma também devesse ser toda a ciência por ele possuída.)

Pois bem, a partir do seu nascimento, a ciência filosófica apresentou de modo nítido as seguintes características, que dizem respeito, respectivamente,

  1. ao seu conteúdo,
  2. o seu método,
  3. ao seu escopo,

Quanto ao conteúdo, a filosofia quer explicar a totalidade das coisas, ou seja, toda a realidade, sem exclusão de partes ou momentos dela, distinguindo-se assim estruturalmente das ciências particulares, que, ao invés, limitam-se a explicar determinados setores da realidade, grupos particulares de coisas e de fenômenos. E já na pergunta de Tales (o primeiro dos filósofos) sobre o princípio de todas as coisas, esta dimen­são da filosofia está presente em todo o seu alcance. [28]

Quanto ao método, a filosofia quer ser explicação puramente racional da totalidade que é seu objeto. O que vale em filosofia é o argumento de razão, a motivação lógica: é, numa palavra, o lógos. Não basta à filosofia constatar, verificar dados de fato, coletar expe­riências: a filosofia deve ir além do fato e das experiências para encontrar as suas razões, a causa, o princípio.

E é este caráter que confere cientificidade à filosofia. Tal caráter é comum também a outras ciências, as quais, exatamente enquanto ciên­cias, nunca são apenas constatação e verificação empírica, mas são sem­pre busca de causas e de razões. Mas a diferença está em que, enquanto as ciências particulares são busca de causas de realidades particulares ou de setores de realidade particulares, a filosofia é, ao invés, busca de causas e princípios de toda a realidade (como, de resto, impõe necessa­riamente a primeira das características acima ilustrada).

Enfim, devemos esclarecer qual é o escopo da filosofia. E sobre este ponto Aristóteles explicou melhor do que todos que a filosofia tem um caráter puramente teórico, ou seja, contemplativo: ela visa simples­mente à busca da verdade por si mesma, prescindindo das suas utiliza­ções práticas. Não se busca a filosofia por qualquer vantagem que lhe seja estranha, mas por ela mesma; ela é, pois, “livre” enquanto não se submete a qualquer utilização pragmática e, portanto, realiza-se e se resume em pura contemplação do verdadeiro. E também deste ponto de vista o nome filosofia resulta, na verdade, perfeitamente dado: amor ao saber em si mesmo, amor desinteressado ao verdadeiro.

Eis algumas afirmações de Aristóteles, particularmente iluminadoras:

Que ela não tenda a realizar alguma coisa depreende-se claramente das afirmações daqueles que por primeiro cultivaram a filosofia. De fato, os homens começaram a filosofar, agora como na origem, por causa da admi­ração: enquanto no início ficavam maravilhados diante de dificuldades mais simples, em seguida, progredindo pouco a pouco, chegaram a pôr-se proble­mas sempre maiores: por exemplo, os problemas relativos aos fenômenos da lua e os relativos ao sol e aos astros, ou os problemas relativos à geração de todo o universo. Ora, quem experimenta uma sensação de dúvida e de ma­ravilha reconhece que não sabe; e é por isso que também aquele que ama o mito é, de certo modo, filósofo: o mito, com efeito, é constituído por um conjunto de coisas que despertam admiração. Assim, se os homens filosofa­ram para libertar-se da ignorância, é evidente que buscaram o conhecimento só com a finalidade de saber e não para alcançar alguma utilidade prática. E o próprio modo segundo o qual as coisas se desenvolveram o demonstra. [29]

Quando já se possuía praticamente tudo o que era necessário para a vida e também para a prosperidade e para o bem-estar, então se começou a buscar aquela forma de conhecimento. É evidente, portanto, que nós não a busca­mos por nenhuma vantagem que lhe seja estranha; e, antes, é evidente que, como chamamos livre o homem que é fim para si mesmo e não serve a outros, assim só ela, entre todas as outras ciências, chamamos livre: só ela, de fato, é fim para si mesma1.

Tornar-se agora perfeitamente claro o discurso que até aqui con­duzimos sobre a originalidade da ciência filosófica dos gregos.

As sapiências orientais são profundamente embebidas de repre­sentações fantásticas e nelas predomina o elemento imaginativo e mítico e, portanto, carecem exatamente do caráter de cientificidade. E as próprias ciências e artes orientais (matemática e geometria egíp­cias, astronomia caldéia), embora chamando em causa a razão, care­cem do elemento da teoricidade, isto é, da liberdade especulativa e, naturalmente, como conhecimentos particulares, também do primeiro dos elementos. É, portanto, clara a absoluta originalidade dessa admi­rável síntese criativa do gênio grego que foi a filosofia, assim como sua grandeza, à qual não é retórica chamar de sublime, justamente porque leva o homem a tocar o vértice das suas possibilidades.

Com razão Aristóteles a chamará de “divina”, porque além de levar-nos a conhecer a Deus, ela possui as mesmas características que deve possuir a própria ciência que Deus possui, vale dizer, a desinteressada, livre, total contemplação da verdade. Por isso, diz ainda muito bem Aristóteles, “todas as outras ciências serão mais necessárias do que esta, mas nenhuma lhe será superior”2. [30]

E queremos concluir com esta observação, uma vez que hoje não se põe a categoria do desinteresse, mas a do interesse e do útil no vértice de tudo. Quando se afirma, na trilha do pensamento marxista ou de origem marxista, que a filosofia não deve contemplar, mas transformar a realidade e que, portanto, a filosofia antiga, que queria apenas contemplar, deve ser superada por uma forma de filosofia que penetre a realidade para mudar e fazer mudar, não se substitui sim­plesmente uma visão filosófica por outra, mata-se a filosofia: o ato de transformar a realidade, de fato, só pode ser um momento conseqüen­te à verdade buscada e encontrada, e, em vez de ser filosofar é, no máximo, corolário do filosofar. O ato de transformar só pode ser empenho ético, político, educativo e não pode ser nunca, do ponto de vista filosófico, momento primário, porque supõe estruturalmente que se saiba e se determine previamente por que, como, em que sentido e medida deve-se transformar; portanto, supõe sempre o momento teórico (vale dizer, propriamente filosófico) como condicionante. E não vale objetar, como aqueles que, com complexo de culpa diante da objeção praxística, afirmam que transformar a realidade não é, de fato, filosofia, mas que, todavia, o homem de hoje deve filosofar para mudar alguma coisa. Também esta posição é depreciativa: com efei­to, quem filosofa com este espírito perde a liberdade, e a ânsia de transformar condiciona fatalmente e perturba o momento do contem­plar; perturba-o a ponto de, invertidos os termos, submetida ao jugo da práxis, a especulação pura tornar-se ideologia e, portanto, deixar de ser filosofia.

Portanto, também nisso os gregos foram e continuam sendo mes­tres: só se é filósofo se e enquanto se é totalmente livre, ou seja, só se e enquanto, com absoluta liberdade, se contempla ou se busca o verdadeiro como tal, sem ulteriores razões determinantes. E aquilo que se consegue como efeito prático da verdade encontrada e contem­plada já está essencialmente fora do momento mais propriamente filosófico. [31]

Os problemas da filosofia antiga

Dissemos que a filosofia quer conhecer a totalidade da realidade com método racional e com finalidade puramente teórica. Ora, é claro que a totalidade da realidade não é um bloco monolítico, mas um con­junto de coisas distintas entre si, embora orgânica e estreitamente liga­ das. É claro que o problema filosófico geral deverá, necessariamente, subdividir-se e, por assim dizer, cadenciar-se em problemas mais parti­culares e determinados, ligados entre si segundo os modos e à medida que são conexas as realidades que eles têm por objeto. E é claro, a priori, que esses problemas particulares, no âmbito do problema geral, virão à luz não simultânea, mas progressivamente no tempo.

Assim, num primeiro momento, a totalidade do real, a physis, foi vista como cosmo e, portanto, o problema filosófico por excelên­cia foi o problema cosmológico: como surge o cosmo, qual o seu princípio? quais as fases e os momentos da sua geração? etc. É esta a problemática que, essencial ou, pelo menos, prioritariamente, ab­ sorve toda a primeira fase da filosofia grega.

Mas com os sofistas o quadro muda: a problemática do cosmo, por razões que explicaremos, cai na sombra, e a realidade que atrai a atenção é o homem. Por isso a filosofia dos sofistas e de Sócrates concentrará a própria atenção sobre a natureza do homem e da sua virtude ou areté, de onde nascerá o problema moral.

Com Platão e Aristóteles, a problemática filosófica se diferenci­ará e enriquecerá ulteriormente, distinguindo alguns âmbitos e seto­res de problemas que permanecerão depois em todo o curso da his­tória da filosofia como pontos de referência.

Neste ínterim, Platão descobrirá e demonstrará que a realidade, ou o ser, não é de um único gênero, e que, além do cosmo sensível, existe uma realidade inteligível supra-sensível e transcendente. Daqui derivará a distinção aristotélica de uma física ou doutrina da realidade sensível, e de uma metafísica ou doutrina da realidade supra-sensível. Ulterior­ mente, os problemas morais se especificarão, serão distinguidos os dois momentos da vida do homem como indivíduo e do homem associado, e nascerá assim a distinção dos problemas propriamente éticos dos pro­blemas propriamente políticos (problemas que, ademais, para o grego permanecem muito mais intimamente ligados do que para os modernos). [32]

Ainda com Platão e sobretudo com Aristóteles, serão fixados os problemas (já presentes nos filósofos precedentes) epistemológicos e lógicos. E, olhando bem, estes são atualização e explícita determina­ção da segunda das características que vimos ser peculiar à filosofia, ou seja, do método de busca racional. Qual é a via que o homem deve seguir para alcançar a verdade? Qual é a verdadeira contribui­ção dos sentidos, e qual a da razão? Qual é a característica do ver­dadeiro e do falso? E, mais ainda em geral, quais são as formas lógicas através das quais o homem pensa, julga, raciocina? Quais são as regras para pensar corretamente? Quais são as condições pelas quais um tipo de raciocínio pode ser qualificado como científico?
Em conexão com os problemas lógico-epistemológicos, nasce também o problema da determinação da natureza da arte e do belo, da expressão e da linguagem artística e, portanto, nascem aqueles que hoje chamamos de problemas estéticos. E, sempre em conexão com estes, nascem os problemas da determinação da natureza da retórica e do discurso retórico, isto é, do discurso que visa convencer e à habilidade para convencer.

A especulação pós-aristotélica tratará como definitivamente adqui­ridos todos esses problemas, e os agrupará em 1) físicos, 2) lógicos e 3) morais. À primeira vista, a especulação pós-aristotélica parecerá modi­ficar uma característica da filosofia: a característica da teoricidade pura, ou seja, do desinteresse prático da filosofia. De fato, as escolas helenístico-romanas visarão essencialmente construir o ideal de vida do sábio, vale dizer, ideal de vida que garanta a tranqüilidade de ânimo, a felici­dade, e resolverão os problemas físicos e lógicos unicamente em função dos problemas morais. Mas, olhando bem, o espírito puramente teórico da filosofia não é absolutamente renegado, mas só determinado diferen­temente. Com a destruição da pólis e da tradicional hierarquia dos va­lores que se sustentava sobre a pólis, o filósofo pedirá à filosofia uma nova hierarquia. E aquilo que o filósofo pedirá à filosofia não será, contudo, que ela transforme os outros e as coisas, mas a ele mesmo: pedirá à filosofia a verdade para poder viver na verdade.
Enfim, a filosofia antiga, no último período, especialmente com o neoplatonismo, se enriquecerá com uma problemática místico-religiosa: diante do cristianismo nascente e triunfante, o pensamento grego buscará indicar ao homem uma visão do Todo e um tipo de [33] vida no Todo que contraste e supere os que são pregados pelo cris­tianismo; mas apesar de conseguir, nessa tentativa, abrir ulteriores horizontes metafísicos, não se sustentará senão por breve tempo em confronto, porque o cristianismo se apresentará como portador de um verbo que dissolverá a visão grega do mundo e conduzirá o pensamento a outras margens. [34]

Filosofia - Filosofia Clássica
9/19/2021 4:47:49 PM | Por Lucius Annaeus Seneca
Sêneca saúda o amigo Lucílio: Dos cuidados com a saúde e com a paz de espírito

Adivinhas do que fugi para a minha proprieda­de em Nomento? Da cidade? Em verdade, da febre que me atacou de repente. O médico falava que a doença já estava instalada, meu pulso agitado e fora da batida normal. Dessa forma, rapidamente mandei preparar a carruagem. É verdade que a minha Paulina queria me impedir. Eu, no entanto, dizia para mim mesmo o di­tado de Galião que, ao ser atacado por uma febre em Acaia, logo embarcou, repetindo em voz alta que o mal não vinha dele, e sim daquele lugar mórbido.

Isso eu explicava para minha Paulina, sempre atenta à minha saúde. Como sei que sua vida depende da minha, para que possa cuidar dela, cuido antes de mim. Embora a velhice tenha me tornado mais forte para muitas coisas, estou perdendo este privilégio que nos traz a idade, pois lembro que existe neste velho um jovem, que é protegido. E, já que é impossível fazer com que ela me ame mais, ela consegue fazer com que eu ame a mim mesmo com mais cuidados.

É preciso, efetivamente, ser indulgente com os verdadeiros afetos e, quando as fraquezas físicas apare­cem, é necessário, por deferência aos seus, passar pelos mais cruéis sofrimentos, chamar a si a vida, às vezes, com grande tormento, reter em si o sopro da vida, uma vez que o homem de bem é obrigado a viver não o tempo que lhe apraz, mas, sim, o tempo que é o seu dever. Aquele que não crê que deve permanecer vivo pela esposa, pelo amigo, e se entrega à morte é um fraco. Entre os deveres da alma está manter-se vivo quando está envol­vido o interesse dos seus.

Ela queria ir-se, chegou até a ameaçar morrer, mas não faz isso, se rende às pessoas a quem ama. É merecedor de uma alma generosa retornar à vida por afeto a um outro, assim com o fizeram grandes homens. A perfeição humana atinge, penso, a total perfeição quando, ao renunciar ao privilégio da velhice, que é o de tornar-se mais negligente no trato pessoal, se atém à sua preservação, se estamos certos que tal conduta é cara, propícia e mesmo desejada aos seus.

Assim, tal coisa proporciona muita alegria, pois há algo mais agradável do que se sentir tão amado pela esposa a ponto de desejar ser mais cuidadoso consigo mesmo? Por isso, a minha querida Paulina pode me atribuir não apenas os temores delas, mas, sobretudo, os meus.

Desejas saber o que ganhei ao decidir a minha partida? Logo que deixei o ar poluído de Roma e o cheiro das cozinhas enfumaçadas que, quando a todo vapor, derramam, além da poeira, toda a gama de va­pores doentios, logo senti estar melhorando. Senti-me mais forte ainda ao chegar aos meus vinhedos! No bos­que, encontrei o meu alimento. Logo me recuperei e desapareceu aquela fraqueza que determinava os meus pensamentos. Recomeço a trabalhar cheio de ânimo.

A influência deste lugar não ajuda muito para esse efeito; é necessário que a alma esteja de posse total de si. Mesmo no centro do maior tumulto, ela pode, se quiser, criar para si solidão. No entanto, se com freqüência escolhe lugares especiais e o ócio, em qualquer lugar encontrará alguma coisa que a perturbe. Para aquele, segundo dizem, que reclamou a Sócrates não conseguir aproveita as suas viagens, o sábio replicou ser o ocorrido natural uma vez que aquele se levava sempre consigo.

Oh, como seria maravilhoso a alguns se conseguissem sair de si e não apenas dos lugares! O certo é que forçam, solicitam, corrompem e amedrontam a si próprios. De que adianta atravessar o mar, mudar de cidade? Como livrar-te dos males que te acometem indagas. Convém visitar outros lugares? Não; ser um outro eu. Imagina que estejas em Atenas, em Rodes. Elege livremente outra cidade qualquer. De que maneira te atingirão os costumes daquele lugar? Tu carregas os teus.

Julgas que as riquezas são um bem; a pobreza irá então te perturbar e, o que é mais grave, será apenas uma pobreza imaginária. Assim, toda a riqueza que tens se apresentará pequena se achares alguém mais rico, te sentindo em débito com relação ao que possui mais do que tu. Julgas um bem as honrarias; assim te causará mal-estar a eleição de um ou a reeleição de outro ao consulado. Sentirás inveja ainda que um mesmo nome poucas vezes se faça presente nas festas. Tamanho será o furor da ambição se imaginares sempre alguém à tua frente e nunca atrás de ti.

O pior dos males, para ti, é a morte, embora nada seja pior do que aquilo que a precede, ou seja, o temor. Tremerás diante do perigo e te agitarás em vão. Assim, de que adiantará “ter escapado de tantas cidades Argólicas e ter conseguido fugir através das forças inimigas?”*

Mesmo a paz te causará temor. Uma mente perturbada não confiará nem mesmo nos fatos mais óbvios, pois o sentimento incontrolável do medo, que ela sempre so­fre, acaba por torná-la totalmente insegura. Não evita o perigo, simplesmente foge dele; no entanto, dando as costas ao perigo estamos mais expostos a ele.

Não há maior desconforto, para ti, do que a perda daqueles que te são caros; porém, isso é tão absurdo quanto chorar pela queda das folhas das árvores de tua casa. A todos que te alegram, considera como as árvores que verdejam, deles desfrutando. “Mas hoje um, ama­nhã outro, todos cairão!” Da mesma forma que facil­mente ficas resignado com a queda das folhas, porque elas renascerão, assim deves considerar a perda dos que amas e que vês como a felicidade de tua vida, já que po­derão ser substituídos, embora não possam renascer.

“Mas não serão mais as mesmas!” E, por acaso, tu serás o mesmo? Todos os dias, todas as horas te mo­dificam. Na verdade, o que é roubado do outro de for­ma clara te escapa porque esse roubo ocorre de forma secreta. Os outros são roubados abertamente; nós, às ocultas. Tu, no entanto, não conseguirás refletir dessa maneira, nem colocarás remédio nas feridas; criarás di­ficuldades, seja esperando, seja perdendo. Se fores sábio em meio a toda essa confusão criada por ti, ameniza uma coisa com outra: não esperarás sem desespero, nem desesperarás sem esperança.

Que benefício pode trazer uma viagem a quem quer que seja? Jamais controlou prazeres, conteve pai­xões, reprimiu impulso de raiva, refreou ímpetos amo­rosos, nunca livrou a alma de qualquer um de seus males. Uma viagem jamais emitiu um julgamento ou desfez um erro. Seu efeito se iguala ao que uma criança sente quando se depara com o desconhecido, ou seja, diverte por um breve tempo enquanto é novidade.

De tudo, o espírito, que já é inconstante, é ainda mais atingido pelo mal; a agitação faz aumentar a sua necessidade de se mover por causa de sua instabilidade. Os lugares por onde se espalha com grande ardor logo são deixados de lado, assim como aquelas aves migrató­rias que retomam o seu rumo e voltam mais apressadas do que chegaram.

A viagem te dará o conhecimento dos povos, te fará observar diferentes formas de montanhas, locais que não são visitados pelos comuns, vales cavados por fontes incessantes, alguns rios que oferecem espetácu­los naturais, assim como o Nilo, com seu fluxo e refluxo no verão; assim com o o Eufrates, que some por completo para ficar sob a terra e ali traçar o seu curso invisível e dali aparecer em grande correnteza; também com o o Meandro, tema eterno dos poetas, que mistura suas curvas e, muitas vezes, perto de seu leito, curva-se, mais uma vez, antes de se fazer presente. No que diz respeito às demais coisas, a viagem não te fará melhor nem mais racional.

O campo de toda a atividade deve ser o estudo, e no meio dos sábios, para relembrar as verdades adqui­ridas e para descobrir novas. Assim, é dever retirar a alma de sua terrível escravidão, libertá-la. Enquanto ignorares o que deve ser evitado e deve ser procurado, o que é imprescindível e o que é supérfluo, o que é justo e o que é injusto, o que é honesto e o que não é honesto, jamais viajarás, serás apenas um errante.

Tua busca por aventuras de nada te será útil, pois viajas junto com tuas paixões, teu mal vai junto. Pu­desse ele não te seguir! Menos perto de ti ficariam tuas paixões, mas as levas contigo, as tens junto a ti. Dessa maneira, qualquer lugar te é incômodo; em todo lugar, em virtude da tua pouca disposição, elas te perturbam. Não é algo agradável à vista, mas um remédio necessá­rio ao doente.

Se alguém quebrou ou torceu a perna e não pode andar de carro ou barco, chama o médico para endi­reitar a fratura ou o músculo torcido. Mas e essa alma, quebrada e deslocada em tantos lugares, acreditas que as mudanças de lugar poderão recuperá-la? O ferimen­to é muito grave para ser curado a penas com uma mu­dança de lugar.

A viagem não cria um médico nem um orador; não se consegue aprender nenhuma arte apenas porque estamos em determinado lugar. Então, a mais impor­tante de todas as artes, a sabedoria, pode ser obtida em uma viagem? Nenhuma viagem, acredita, pode defender-te de tuas paixões, raivas, medos. Se fosse possível, toda a humanidade passaria em fila por ali. Tais males estarão junto a ti e te acompanharão por terras e mares enquanto estiveres carregando suas causas.

Ficas espantado por fugir em vão? Aquilo do que estás tentando te livrar está sempre junto a ti. Começa, portanto, a te corrigir, a livrar-te desse fardo. Põe um limite respeitável nesses desejos que devem ser elimi­nados. De tua alma retira toda a maldade. Se queres viagens agradáveis, cura aquilo que te acompanha. Se conviveres com os avarentos, a avareza te seguirá; se conviveres com os soberbos, o orgulho te seguirá. Teu mal jamais te abandonará se continuares freqüentando os ambientes nocivos, e a amizade com os adúlteros au­mentará o fogo da licenciosidade que há em ti.

Se queres te livrar desses vícios, é preciso livrar-te dos exemplos perniciosos. O avarento, o corrupto, o cruel e o velhaco fazem mal se estão próximos de ti, se estão em ti mesmo. Transita entre os melhores, com os Catões, com Lélio, com Tuberão. Se achares melhor, procura a companhia dos gregos, de Sócrates, de Zenão: um te ensinará a morrer quando se fizer necessá­rio; outro, a morrer antes que seja preciso.

Vive com Crisipo, com Posidônio, que te levarão ao conhecimento do divino e do humano, te mostra­rão como agir, a ser não apenas um sagaz orador, espa­lhando frases para o encanto dos ouvintes, mas sim ensinarão como revigorar a alma e proteger-se contra as ameaças. O único porto seguro nesta vida agitada e violenta é desprezar tudo o que acontece, manter-se firme em seus propósitos, receber de forma madura os golpes da sorte sem se perturbar ou se esquivar.

A natureza nos deu o dom da magnanimidade e, assim com o deu a alguns animais a ferocidade, a outros a astúcia e a outros mais o medo, deu-nos um espírito ilustre e elevado que nos estimula a procurar, em lugar de uma vida segura, uma vida honesta, semelhante à alma do universo que deve ser seguida e imitada tanto quanto possível pelos mortais. Ele, ao se expor, confia ao ser exigido e provocado.

Como senhor de todas as coisas, está acima de tudo. Assim, nenhuma atitude de subordinação lhe é permitida; nenhuma força pesará sobre si e fará abater um coração viril. “Formas terríveis de se ver, a morte e o sofrimento!”*; assim não seriam se fôssemos capazes de encará-las firmemente e revelar as trevas; à luz do dia, tornam-se risíveis aquelas coisas que nos atormentam durante a noite. “Formas terríveis de se ver, a morte e o sofrimento!” Nosso caro Virgílio não afirmou que são terríveis em si, mas sim terríveis de se ver, ou seja, o são apenas na aparência e não na realidade.

O que há nelas, pergunto, de tão terrível para ser difundido pela plebe? Diga-me, então, meu caro Lucílio, por que razão um homem digno de assim ser chamado teme o sofrimento, e um mortal, a morte? Encontro se­guidamente pessoas que acham impossível fazer aquilo para o qual se julgam incapazes e afirmam que nossos preceitos ultrapassam a capacidade humana.

Ah, tenho deles um a opinião melhor, pois podem tanto quanto os outros, apenas não tentam realizar. En­fim, quem não conseguiu após tentar? Quem não achou mais fácil na hora de cumprir a tarefa? As dificuldades não são a causa de nossa falta de audácia; é nossa falta de audácia que cria a dificuldade.

Se desejas um exemplo, dou-te o de Sócrates, um velho de grande resistência, perseguido por todas as di­ficuldades e, no entanto, invencível, seja pela pobreza, cujo fardo familiar tornava mais pesado, seja pelos rigo­res da guerra e mesmo pelos domésticos. Sua mulher? Uma megera de língua viperina. Seus filhos? Resistentes a todo ensinamento, mais parecidos com a mãe do que com o pai. Eis aqui um pouco de sua vida: uma guerra, uma tirania e uma liberdade mais cruel do que ambas.

Os combates duraram vinte e sete anos; termi­nadas as hostilidades, a cidade ateniense foi entregue a trinta tiranos, a maior parte deles inimigos do filó­sofo. O golpe final foi sua condenação, seguida de um processo no qual pesaram sobre ele sérias acusações graves. A cusavam-no de violar a religião, de corromper a juventude, levando-os a atingir os deuses, os pais de família e a República. Por fim, a prisão, o veneno. Tudo isso perturbava muito pouco a alma de Sócrates, tanto que seu semblante permanecia impassível. Percebe que elogio admirável e único! Até o seu fim, ninguém viu Sócrates mais alegre ou mais triste. Ele permaneceu constante frente a um destino tão inconstante.

Queres um outro exemplo? Eis um mais recente, o de Catão, o Jovem, contra o qual o destino se mostrou mais terrível e violento. Porém, resistiu a tudo sempre e, próximo da morte, demonstrou que um homem de coragem, embora perseguido pelo destino, sabe tanto viver como morrer. Toda a sua vida se desenrolou du­rante as guerras civis, ou em um período em que tais guerras já estavam iniciando. Dele pode-se dizer, assim com o de Sócrates, que manteve a liberdade na escravi­dão, a menos que julgues que Pompeu e Crasso fossem aliados na defesa da liberdade.

Ninguém viu Catão mudar enquanto a Repúbli­ca passava por alterações constantes. Ele se conservou o mesmo em todos os atos: como pretor, quando ex­pulso do cargo; como acusador, na província, diante da plebe; no exército, diante da morte. Resumindo, na crise pela qual a República passava, de um lado César, com o apoio de dez legiões, com as melhores tropas e com o apoio estrangeiro; de outro, Pompeu, totalmen­te só, mas forte o suficiente para encarar o que viesse. Enquanto alguns se voltavam para César e outros para Pompeu, Catão, sozinho, forma um partido - aquele da República.

Desejas imaginar esta época com o um quadro? Verás, então, de um lado a plebe e as massas popula­res prontas para a revolta; de outro, a aristocracia e a ordem dos cavaleiros - tudo o que havia de honrado e distinto - e, entre eles, os dois isolados: a República e Catão. Grande será a tua admiração ao ver “Agamênon e Príamo, e Aquiles furioso com ambos”A Assim como Aquiles, ele condena a ambos e procura desarmá-los.

Eis o julgamento que ele fazia dos dois: se César vencer, o caminho será a morte; se for Pompeu o vito­rioso, o exílio. O que tinha ele a temer se, vencendo ou sendo vencido, ele infligia a si os castigos de inimigos mais implacáveis? Dessa forma, por seu próprio decre­to, morreu.

Como vês, é possível suportar as piores fadigas. Ele conduziu a pé suas tropas pelos desertos da Áfri­ca. Podes ver que é possível suportar a sede, pois, sobre colinas ardentes, sem comboio, trazendo restos de um exército vencido, sofreu a falta de água, sempre sob sua couraça, e, quando achavam o que beber, sempre era o último a fazê-lo. Como podes perceber, é possível desprezar o poder e as ofensas. No dia em que fracassou na sua eleição, foi jogar péla na praça dos comícios. Pode-se deixar de temer os poderosos: ele provocou César e Pompeu ao mesmo tempo, em uma época na qual ninguém ousava desagradar a um a não ser que estives­ se buscando os favores de outro. Como vês, podem-se desprezar a morte e o exílio. Ele se impôs o exílio, a morte e, entre os dois, a guerra.

Podemos, então, demonstrar a mesma coragem contra as adversidades; basta ficarmos livres do jugo. Mas, antes de tudo, devemos abandonar os prazeres, aqueles que nos enfraquecem e nos levam a exigir de­ mais do destino. A seguir, deixemos de lado a riqueza que nos escraviza, larguemos o ouro, a prata e tudo o mais que cobre as casas dos que se dizem felizes. A li­berdade não nos é dada de graça. Se realmente a queres, o resto deve contar pouco. Passa bem!*

Filosofia - Filosofia Clássica
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Marat, o amigo do povo
A morte de Marat | Jacques-Louis David [1793]

13 de julho de 1793. Fazer jornalismo naquelas épocas não era fácil. Charlotte sabia muito bem. por isso insistia tanto em falar com Jean-Paul.Tantas vezes bateu na porta da casa dele que, finalmente, conseguiu entrar. O jornalista estava deitado em uma banheira tentando diminuir a dor e a coceira de um terrível eczema que se espalhava pelo seu corpo. Jean-Paul não se intimidava com a doença adquirida nas suas fugas pelos esgotos de Paris. Charlotte sabia que nada abalava o jornalista e o seu jornal O Amigo do Povo.

Marat tornara-se muito popular graças ao jornal que publicava desde 1789, ano em que se iniciou o movimento para desbancar os donos do poder. Acreditava fielmente que era possível organizar os miseráveis e influir na construção da nova ordem. Acreditava sinceramente na liderança de Robespierre, que assumiu por 12 meses a liderança da Revolução. O ano de 1793 era decisivo para impedir a volta da burguesia ao poder. Qualquer vacilação poderia jogar por terra os esforços dos revolucionários.

O médico Marat não esquecia jamais a palavra de jacobino quando defendeu a condenação do rei Luis XVI à morte “ Que posição a sã política prescreve para cimentar a República nascente? É gravar profundamente nos corações o desprezo pela realeza e provocar o estupor dos partidários do rei. Portanto, apresentar ao universo seu crime como um problema; sua causa como o objeto de discussão mais imponente, mais religiosa, mais difícil que possa ocupar os representantes do povo francês; colocar uma distância incomensurável entre a sim­ples lembrança do que ele foi e a dignidade de um cidadão é precisamente ter descoberto o segredo de torná-lo ainda perigoso para a liberdade".

As 914 edições do jornal não podiam ser regulares naqueles tempos. Charlotte Corday sentou-se ao seu lado na banheira e passou a debater os rumos da Revolução. Marat tinha uma prancha no colo e preparava mais uma edição. Apoiava a Convenção, as condenações do Tribunal Revolucionário e os esforços que o governo por intermédio do Terror fazia para impedir a contra-revolução. Por sustentar esse ideal, sofrerá perseguições. Mas jamais se arre­pendeu de liderar os miseráveis que não tinham nada a perder com a Revolução a não ser os grilhões enferrujados desde as épocas medievais. Era chegado o novo tempo. Abaixo a nobreza, os privilégios feudais, o clero, o rei e os girondinos traidores. Havia uma conspiração no ar. Marat a denunciara. Os conspiradores tinham um plano, primeiro eliminar Marat, um elo entre a liderança revolucionária e os miseráveis, depois um golpe de Estado e o envio de todos para a guilhotina.

A burguesia não queria o aprofundamento da Revolução para além do que já tivesse alcançado. Queria liberdade comercial e política, mas não queria ver os seus bens ameaçados pela malta lide­rada por Marat. Urgia parar o carro da Revolução. Marat era incansável, intransigente, incorrup­tível e aliado fiel de Robespierre e do Comitê de Salvação Pública. Calou os argumentos de Char­lotte Corday, que queria que ele interferisse na cassação de 29 deputados girondinos que, amea­çados de morte, tiveram de fugir. Ela insistia e acusava o governo de violar os direitos do cidadão pelos quais tantos tinham morrido. Depois de muito argumentar conseguiu convencer Jean-Paul Ma­rat a anotar os nomes dos perseguidos. Após resis­tir muito, o editor de O Amigo do Povo curvou-sc=e para anotar os nomes na prancha que tinha no colo. Charlotte Corday tinha uma faca.

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2/9/2021 6:04:10 PM | MenteCérebro, n.197
Maconha como remédio

Realizou-se em abril [2014] na Universidade de Campinas uma ampla discussão sobre drogas, culminando no debate de três questões provocativas: Maconha faz bem? Maconha faz mal? Devemos legalizar a maconha? Mil pessoas participaram com entusiasmo, refletindo o crescente interesse sobre o assunto. Nem o mais otimista dos ativistas imaginaria que a causa da legalização da maconha poderia avançar tão rapidamente quanto nos últimos meses.

Ciências naturais - Biologia
9/5/2020 11:20:25 AM | História Viva, n. 49
Galileu Galilei na Inquisição

Com Galileu, houve uma dissidência entre os cientistas. Meio a contragosto, é verdade. Porque, animado por uma fé profunda, Galileu nunca ousou negar a existência de Deus, ou menosprezar a autoridade da Igreja. Bem longe disso. Sua erudição e eloquência persuasiva conquistaram o respeito da cúria romana que, deve-se acrescentar, jamais fez segredo de seu interesse pelas descobertas científicas.

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Rituais violentos entre os maias
Sacrifício humano maia | Ilustração artística

Restos de cerâmicas, objetos queimados e outros artefatos comprovam a realização de rituais violentos de destruição entre os maias e outras civilizações da América Central, informam pesquisadores da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos.

Arqueólogos acreditavam que invasores deixavam restos de objetos em construções após a saída de reis. Novas pesquisas descrevem evidências de que muitos depósitos resultaram de rituais predatórios contra palácios e seus habitantes.

Um ritual típico consistia na derrubada e incineração de construções. Em entrevista ao Discovery Channel. Takeshi Inomata, da Universidade do Arizona, explicou que os rituais envolviam a dispersão de restos de vasos de cerâmica e de instrumentos de pedra despedaçados, assim como de ornamentos de jade e conchas.

A demolição representava a derrota espiritual do inimigo, segundo as descobertas publicadas no livro The Archaeology of Settlement Abandonment in Middle America. Os maias acreditavam que as construções e os objetos possuíam poderes sobrenaturais, e que era necessário libertar seus espíritos antes de as estruturas serem destruídas, segundo um dos editores do livro.

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3/6/2021 2:48:34 PM | Atena
Atena, Zeus e Métis

Alguns helenos dizem que Atena teve um pai chamado Palas, um gigante alado libidinoso que mais tarde tentou viola-la, cujo nome ela adicionou ao seu, depois de arrancar-lhe a pele (para fazer a égide) e as asas (para coloca-las em seus próprios ombros). Isso se a égide não foi feita da pele da górgona Medusa, que, depois de decapitada por Perseu, foi esfolada por Atena.

Há quem diga que seu pai foi Itono, rei de Iron, em Ftiótide, cuja filha Iodâmia ela matara acidentalmente, ao deixa-la ver a cabeça da gorgona, transformando-a, assim, em um bloco de pedra ao adentrar seu santuário inadvertidamente a noite.

Contam ainda que Posídon era seu pai, mas que ela o teria renegado, pedindo a Zeus que a adotasse, o que ele fez com prazer.

Mas os próprios sacerdotes de Atena contam a seguinte historia sobre o seu nascimento: Zeus desejava com ardor a titânida Metis, que, para escapar de seu. assedio, se transfigurou em variadas formas, até que, finalmente, ele a agarrou e a engravidou. Um oraculo da Mãe Terra declarou, então, que o nascituro seria uma menina e que, se Metis engravidasse mais uma vez, daria à luz um filho fadado a depor Zeus, assim como Zeus depusera Cronos e como este havia deposto Urano. Portanto, apos seduzir Metis, atraindo-a para o seu leito com palavras melífluas, Zeus, de repente, abriu a boca e a engoliu, e esse foi o fim de Metis, embora ele, depois, alegasse que ela lhe dava conselhos de dentro do seu ventre. No devido tempo, Zeus foi tomado por uma intensa dor de cabeça enquanto caminhava às margens do lago Tritão, tão intensa que seu crânio parecia prestes a explodir. Ele berrou furiosamente, até que seu grito ressoou por todo o firmamento. Logo veio Hermes, que adivinhou imediatamente a causa do desconforto de Zeus e persuadiu Hefesto - ou Prometeu, segundo outra versão - a trazer sua cunha e seu malho e fazer uma brecha no crânio de Zeus, através da qual saiu Atena, toda armada, com um ressonante grito de guerra.

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J. E. Harrison descreveu corretamente a história do nascimento de Atena a partir da cabeça de Zeus como um desesperado expediente teológico para livrá-la de suas condições matriarcais. É também uma insistência dogmática sobre a sabedoria como uma prerrogativa masculina; até agora, só a deusa havia sido sábia. Hesíodo conseguiu, de fato, reconciliar três visões conflituosas em sua historia:

I. Atena, a deusa-cidade dos atenienses, era a filha partenogenica da imortal Metis, titânida do quarto dia e do planeta Mercúrio, que governava toda a sabedoria e todo o conhecimento;

II. Zeus engoliu Metis, mas sem perder com isso sua sabedoria (ou seja, os aqueus suprimiram o culto aos titãs e atribuíram toda a sabedoria a seu deus Zeus);

III. Atena era a filha de Zeus (ou seja, os aqueus insistiram para que os atenienses reconhecessem a supremacia patriarcal de Zeus).

Harrison tomou emprestado o mecanismo de seu mito de exemplos análogos: Zeus perseguindo Nemesis; Cronos engolindo seus filhos e filhos; o renascimento de Dionísio a partir da coxa de Zeus; e a abertura da cabeça da Mãe Terra feita por dois homens com machados, aparentemente para libertar Core - como a que está retratada, por exemplo, num jarro de azeite na Biblioteca Nacional de Paris. Depois, Atena torna-se a porta-voz obediente de Zeus, suprimindo deliberadamente seus próprios antecedentes. Ela emprega sacerdotes, e não sacerdotisas.

Palas, que significa "virgem", é um nome inadequado ao gigante alado, cujo atentado contra a castidade de Atena e provavelmente deduzido de uma imagem de uma cena de seu casamento ritual, em que ela aparece como Atena Láfria ao lado de um rei-bode, depois de um duelo armado com sua rival. Esse costume líbio do casamento com o bode alastrou-se pelo norte da Europa como parte das festividades do Dia de Maio. Os akans, um povo líbio, costumavam esfolar seus reis.

O repúdio à paternidade de Posídon por parte de Atena refere-se a uma mudança precoce na supremacia da cidade de Atenas.

O mito de Itono ("homem-salgueiro") representa a alegação, por parte dos itonianos, de que eles veneravam Atena antes mesmo dos atenienses. O nome de Itono demonstra que Atena teve um culto ao salgueiro em Friótide - assim como teve sua contraparte, a deusa Anata, em Jerusalém, até ser expulsa pelos sacerdotes de Jeová, a quem designaram o salgueiro fazedor de chuva como sua árvore, durante a Festa dos Tabernáculos.

Estaria condenado a morte o homem que removesse uma égide - a túnica de castidade feita de pele de cabra e usada pelas meninas líbias - sem o consentimento de sua proprietária: daí a existência da máscara gorgônea profilática colocada por cima dela, bem como da serpente escondida no saco, ou bolsa, de couro. Mas, tendo em vista que a égide de Atena é descrita como um escudo, sugiro em The White Goddess (p. 279) que ela seja um invólucro de saco para um disco sagrado, como aquele que continha o segredo alfabético de Palamedes, e do qual ele seria o inventor. Estatuetas cirenaicas segurando discos de tamanho proporcional ao do famoso disco de Festo, que tem marcada sobre ele, em forma de espiral, uma lenda sagrada, antecipam, segundo o professor Richter, Atena e sua égide. Os escudos heróicos, tão bem descritos por Homero e Hesíodo, parecem ter gerado pictogramas gravados numa faixa em espiral.

lodamia, que provavelmente significa "novilha de lo", teria sido uma antiga imagem de pedra da deusa-Lua, e a história de sua petrificação constitui uma advertência, a meninas curiosas, contra violar os Mistérios.

Seria um equívoco pensar que Atena fosse apenas ou predominantemente a deusa de Atenas. Numerosas acrópoles antigas lhe foram consagradas, inclusive Argos (Pausanias:11. 24. 3), Esparta (ibid.: 3. 17. 1), Tróia (Iliada vi. 88), Esmir (Estrabão: IV 1. 4), Epidauro (Pausanias: II. 32. S), Trezena (Pausanias: III. Z3. 10) e Feneus (Pausanias: X. 38. 5). Todos esses lugares são pré-helênicos.

Mitologia Grega
3/6/2021 2:41:17 PM | Urano
A Castração de Urano

Urano gerou os titãs com a Mãe Terra depois de haver atirado seus filhos rebeldes, os ciclopes, ao Tártaro, um lugar sombrio no mundo subterrâneo, que fica tão distante da Terra quanto a Terra do céu. Uma bigorna levaria nove dias caindo ate atingir o seu fundo. Por vingança, a Mãe Terra persuadiu os titãs a atacar o pai, e foi o que fizeram, liderados por Cronos (Saturno), o caçula dentre os sete, que ela armou com uma foice de pedra. Eles surpreenderam Urano durante o sono, e foi com a foice de pedra que o implacável Cronos o castrou, apanhando seus testículos com a mão esquerda (que tem sido desde então a mão de mau agouro) e os atirando depois, junto com a foice, ao mar, perto do cabo Drepano. Gotas de sangue, porém, escorreram do ferimento e caíram sobre a Mãe Terra, de maneira que ela deu à luz as três Erigias - Fúrias que punem crimes de parricídio e perjúrio - de nome Alecto, Tisifone e Megera. As ninfas dos freixos chamadas meliades também surgiram do sangue de Urano.

Os titãs, então, libertaram os ciclopes do Tártaro e outorgaram a soberania da Terra a Cronos.

Entretanto, pouco tempo depois de assumir o comando supremo, Cronos confinou de novo os ciclopes no Tártaro junto com os Hecatônquiros e, tomando sua irmã Réia (Cibele, entre os romanos) como esposa, governou a Elida.

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Hesíodo, que registra esse mito, era um cadmiano. Os cadmianos tinham vindo da Ásia Menor, provavelmente por ocasião do colapso do Império Hitita, trazendo consigo a historia da castração de Urano. É sabido, contudo, que o mito não é de composição hitita, visto que uma antiga versão hurrita (horita) foi descoberta. A versão de Hesíodo talvez reflita uma aliança entre os vários colonos pré-helênicos na Grécia meridional e central, cujas tribos dominantes favoreciam o culto titânico contra os primeiros invasores helênicos do norte. Tiveram sucesso na guerra, mas, em seguida, eles impuseram sua suserania aos nativos setentrionais que haviam libertado. A castração de Urano não é necessariamente metafórica, caso alguns dos guerreiros vitoriosos tenham tido sua origem na África oriental, onde, até hoje, guerreiros galas levam nas batalhas uma miniatura de foice para castrar seus inimigos. Há estreitas afinidades entre os ritos religiosos da África oriental e os da Grécia primitiva.

Os gregos tardios leem "Cronos" como Chronos, "Pai Tempo", com sua inexorável foice. Mas ele figura na companhia de um corvo, assim como Apolo, Asclépio (Esculápio), Saturno (seu correspondente romano) e Bran, um primitivo deus britânico. E Cronos provavelmente significa "corvo", como cornix em latim e corone em grego. O corvo era um pássaro oracular, que supostamente alojava-se na alma de um rei sagrado apos seu sacrifício.

Aqui, as três Erínias, ou Fúrias, que surgiram a partir das gotas do sangue de Urano, são a própria deusa tripla. Significa dizer que, durante o sacrifício do rei em prol da frutificação dos trigais e pomares, as sacerdotisas da deusa estariam usando ameaçadoras máscaras gorgoneas para afugentar os visitantes profanos. Os testículos dele parecem ter sido atirados ao mar a fim de estimular a reprodução dos peixes. As vingativas Erínias são vistas pelo mitógrafo como se advertissem Zeus (Júpiter, entre os romanos) no sentido de não emascular Cronos com a mesma foice. No entanto, sua função original era a de punir apenas as injustiças praticadas contra a mãe, não contra o pai, ou suplicar a proteção da deusa do lar.

As ninfas dos freixos são as três Fúrias numa disposição mais graciosa: o rei sagrado era dedicado ao freixo, originalmente utilizado nas cerimonias para fazer chover. Na Escandinávia, ele se tornou a árvore da magia universal. As três Nornas, ou Moiras (nome grego das Parcas romanas), distribuíam justiça debaixo de um freixo que Odin, ao reivindicar a paternidade da humanidade, transformara em seu cavalo mágico. As mulheres devem ter sido as primeiras fazedoras de chuva na Grécia e na Líbia.

As foices neolíticas de osso, denteadas com pederneira ou obsidiana, parecem ter continuado em uso ritual por muito tempo, após haverem sido suplantadas como instrumentos agrícolas por foices de bronze e de ferro.

Os hititas fazem Kumarbi (Cronos) arrancar com uma mordida os testículos do deus-céu Ann (Urano), engolir um pouco do sêmen e cuspir o resto sobre o monte Kansura, onde o sêmen se transforma numa deusa. O deus do amor, assim concebido por ele, é cortado de seu flanco por Ea, irmão de Anu. Esses dois nascimentos foram misturados pelos gregos, num conto sobre como Afrodite (Vênus, entre os romanos) surgiu de um mar impregnado pelos testículos cortados de Urano. Kumarbi, posteriormente, dá à luz uma outra criança retirada de sua coxa - assim como Dionísio (Baco, entre os romanos) renasce de Zeus -, que conduz uma charrete tempestuosa puxada por um touro e chega até Anu para pedir-lhe ajuda. A faca que separou a terra do céu aparece na mesma historia como a arma com a qual o filho de Kumarbi, o gigante nascido da terra Ullikummi, é destruído.

Mitologia Grega
11/22/2019 6:04:27 PM | Danna
A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

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