Em tempos sombrios, ser neutro é fazer parte das sombras. Democracia sim, autoritarismo nunca mais.

O nascimento da filosofia na Grécia

Filosofia - Filosofia Clássica

Entendendo Platão, um suprassumo em 5 minutos

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Sêneca saúda o amigo Lucílio: Da fugacidade da fortuna

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História - Civilização Grega

9/19/2021 4:32:14 PM | Por Giovanni Reale
O nascimento da filosofia na Grécia

A “filosofia”, seja como indicação semântica (isto é, como termo lexical), seja como conteúdo conceitual, é uma criação peculiar dos gregos. De fato, se para todos os outros componentes da civilização grega encontra-se idêntico correlativo junto a outros povos do Oriente — os quais alcançaram, antes dos gregos, níveis de progresso muito elevados —, não se encontra, ao invés, idêntico correlativo da filoso­fia ou, pelo menos, algo assimilável ao que os gregos e, posterior­mente, com os gregos, todos os ocidentais, chamaram de “filosofia”.

Crenças e cultos religiosos, manifestações artísticas de natureza diversa, conhecimentos e habilidades técnicas de diferentes espécies, instituições políticas, organizações militares existiam seja nos povos orientais que chegaram à civilização antes dos gregos, seja entre os gregos, e, conseqüentemente, é possível fazer confrontos (embora den­tro de certos limites) e estabelecer se e em que medida os gregos, nesses âmbitos, podem ser ou são efetivamente devedores dos povos do Oriente, e se pode estabelecer em que medida os gregos superaram os povos do Oriente nos vários domínios. No que diz respeito à filosofia, porém, encontramo-nos diante de um fenômeno tão novo que, como dissemos, não só não há entre os povos orientais idêntico correlativo, mas nem mesmo algo que analogicamente comporte comparação com a filosofia dos gregos ou que a prefigure de modo inequívoco.

Destacar isso significa, nem mais nem menos, reconhecer que, nesse campo, os gregos foram criadores, ou seja, que deram à civiliza­ção algo que ela não tinha e que, como veremos, revelar-se-á de alcan­ce revolucionário tal, que mudará o rosto da própria civilização. Por isso, se a superioridade dos gregos com relação aos povos orientais em outros âmbitos é — para dizer com uma imagem simplificadora — de natureza meramente quantitativa, no que se refere à filosofia a sua superioridade é de natureza qualitativa. E quem não tenha bem presen­te isso não conseguirá compreender por que a civilização de todo o Ocidente tomou, sob o impulso dos gregos, uma direção completamente [11] diferente dos rumos da civilização do Oriente; e não compreenderá por que a ciência só pôde nascer no Ocidente e não no Oriente. Ade­mais, não compreenderá por que os orientais, quando quiseram bene­ficiar-se da ciência ocidental e dos seus resultados, tiveram de apro­priar-se, em larga medida, também das categorias ou pelo menos de algumas categorias essenciais da lógica ocidental. Com efeito, foi pre­cisamente a filosofia a criar essas categorias e essa lógica, ou seja, um modo de pensar totalmente novo, e foi a filosofia a gerar, em função dessas categorias, a própria ciência e, indiretamente, algumas das prin­cipais conseqüências da ciência. Reconhecer isso significa reconhecer aos gregos o mérito de terem trazido uma contribuição verdadeiramente excepcional à história da civilização; por isso devemos justificar de maneira crítica o que dissemos e aduzir provas bem circunstanciadas.

Inconsistência da tese de uma presumível derivação da filosofia do Oriente

Na verdade, não faltaram — seja da parte de alguns dos antigos, seja da parte de modernos historiadores da filosofia, especialmente na era romântica, e da parte de ilustres orientalistas — tentativas de sus­tentar a tese de uma derivação da filosofia grega do Oriente, com base em observações de gênero diverso e de variado alcance; mas nenhum deles teve sucesso, e a crítica mais rigorosa, já a partir da segunda metade do século XIX, levantou uma série de contra-argumentos que, hoje em dia, podem ser considerados objetivamente incontestáveis. [12]

Examinemos, antes de tudo, como surgiu na antigüidade a idéia de uma presumível origem oriental da filosofia grega. Em primeiro lugar, deve-se notar que os primeiros a sustentar a derivação oriental da filo­sofia grega foram justamente os orientais, movidos por intenções que bem poderíamos chamar de nacionalistas: visavam tirar dos gregos e reivindicar para o próprio povo o particularíssimo título de glória que foi a descoberta da mais elevada forma de saber. De um lado, foram os sacerdotes egípcios que, no tempo dos Ptolomeus, ao travar conheci­mento com a especulação grega, pretenderam sustentar ser ela um de­rivado da sabedoria egípcia precedente. De outro lado, foram os he­breus de Alexandria, que absorveram a cultura helenística, a pretender sustentar uma derivação da filosofia grega das doutrinas de Moisés e dos profetas contidas na Bíblia. Mais tarde, os próprios gregos deram crédito a essas teses. O neopitagórico Numênio escreverá que Platão não é senão um “Moisés aticizante” e muitos outros sustentarão teses análogas, particularmente os neoplatônicos da última fase, ao defender a tese de que as doutrinas dos filósofos gregos não seriam mais que elaborações de doutrinas nascidas no Oriente e recebidas originalmente pelos sacerdotes orientais por divina inspiração dos deuses.
Mas essas afirmações não possuem qualquer base histórica, pelas seguintes razões:

  1. Na época clássica, nenhum dos gregos, nem os historiadores nem os filósofos, faz o mínimo aceno a uma presumível derivação da filosofia do Oriente. Heródoto (que faz derivar o orfismo, contra toda evidência, dos egípcios) não diz nada; Platão, mesmo admiran­do os egípcios, sublinha o seu espírito prático e antiespeculativo, em contraste com o espírito teórico dos gregos, e Aristóteles atribui aos egípcios unicamente a descoberta das matemáticas.
  2. A tese da origem oriental da filosofia encontrou crédito na Grécia somente a partir do momento em que a filosofia perdeu seu vigor especulativo e a confiança em si mesma e buscava não mais na razão, mas numa revelação superior, a própria fundação e justificação. [13]
  3. De outro lado, a filosofia grega, tendo-se tornado na última fase uma doutrina mística e ascética, podia facilmente encontrar analogias com certas doutrinas orientais anteriores e, portanto, crer na sua dependência delas.
  4. Por sua vez, egípcios e hebreus puderam encontrar coincidên­cias entre a sua “sabedoria” e a filosofia grega somente com a interpretação alegórica bastante arbitrária dos mitos egípcios ou das nar­rações bíblicas.

E por que os modernos afirmaram poder defender a tese das ori­gens orientais da filosofia? Em certa medida, porque acolheram como válidas as afirmações dos antigos, das quais falamos acima, sem dar-se conta da sua falta de credibilidade, não levando em conta o que acima afirmamos. Porém, de modo mais genérico, porque acreditaram descobrir analogias de conteúdo e tangências ideais entre determinadas doutrinas dos povos orientais e certas doutrinas dos filósofos gregos. Seguindo tal via, os estudiosos se deleitaram em inferir fantasiosas conclusões, que, com Gladisch, chegaram ao limite. Este estudioso alemão (que recordamos porque o paroxismo ao qual levou a tese sobre a qual refletimos representa de modo paradigmático a falta de criticidade à qual se chega seguindo certos critérios) pretendeu até mesmo poder concluir, do exame das concordâncias internas, que os cinco principais sistemas pré-socráticos derivavam, com poucas variações, dos cinco principais povos orientais, a saber:

  • o sistema pitagórico da sabedoria chinesa;
  • o sistema eleata da sabedoria indiana;
  • o siste­ma heraclitiano da sabedoria persa;
  • o sistema empedocliano da sa­bedoria  egípcia e
  • a filosofia de Anaxágoras da sabedoria judaica.

Concordamos que, levadas a tais extremos, essas teses se tornam fantasias romanescas; mas permanece o fato de que, embora atenu­adas, circunstanciadas e nuançadas, mesmo perdendo as característi­cas fantasiosas, permanecem igualmente puras conjeturas que, ade­mais, não apresentam fundamento histórico e têm contra si os se­guintes dados factuais bem precisos, que as esvaziam:

  1. É historicamente demonstrado que os povos orientais com os quais os gregos tiveram contato possuíam convicções religiosas, mitos teológi­cos e cosmológicos, mas não possuíam uma ciência filosófica no verda­deiro sentido da palavra; possuíam, nem mais nem menos, aquilo que os [14] próprios gregos possuíam antes de criar a filosofia: as descobertas arque­ológicas vindas à luz não autorizam de modo algum ir além disso.
  2. Em segundo lugar, mesmo dado (mas não concedido) que os povos orientais com os quais os gregos entraram em contato tivessem doutrinas filosóficas, a possibilidade da sua transferência para a Grécia não seria facilmente explicável. Escreveu justamente Zeller: “Quando se considere quão estreitamente os conceitos filosóficos, especialmente na infância da filosofia, estão ligados às expressões lingüísticas; quan­do se recorde quão escasso era o conhecimento de línguas estrangeiras entre os gregos, e de outro lado quão pouco os intérpretes, normalmen­te preparados só para relações comerciais e para a explicação das curiosidades, seriam capazes de levar à compreensão de um ensinamento filosófico; quando se acrescente que da utilização de escritos orientais por parte dos filósofos gregos e de traduções de tais escritos nada nos é dito, nem de longe, que mereça fé; quando se pergunte, ademais, por que meios as doutrinas dos hindus e de outros povos da Ásia oriental teriam podido, antes de Alexandre, chegar à Grécia: então se dará conta das proporções da dificuldade da questão”. E note-se que não vale a objeção de que os gregos, apesar disso, puderam extrair dos orientais certas crenças e cultos religiosos e tam­bém certas artes pelo menos no nível empírico: de fato, tais coisas são bem mais fáceis de comunicar à medida que, diferentemente da filoso­fia, como sublinha Burnet, não exigem nem uma linguagem abstrata nem o veículo de homens instruídos, sendo mais que suficiente a sim­ples imitação. Escreve Burnet: “Não conhecemos, na época da qual nos ocupamos, nenhum grego que soubesse a língua oriental bastante bem para ler um livro egípcio ou mesmo para ouvir um discurso de um sacerdote egípcio, e é só em época muito posterior que ouvimos falar de mestres orientais que escrevem ou falam grego”.
  3. Em terceiro lugar (e parece-nos que isso não foi até agora adequadamente observado), muitos estudiosos que pretendem destacar coincidências entre a sabedoria oriental e a filosofia grega, mes­mo sem dar-se perfeitamente conta, são vítimas de ilusões óticas à [15] medida que, de um lado, entendem as doutrinas orientais em função de categorias ocidentais, e, de outro, colorem as doutrinas gregas com tintas orientais, de modo que as correspondências são, em últi­ma análise, pouco ou nada dignas de fé.
  4. Enfim, mesmo que se pudesse demonstrar que certas idéias de filósofos gregos efetivamente têm antecedentes nas sabedorias orien­tais e se pudesse historicamente provar que elas beberam daquelas fontes, tais correspondências não modificariam a substância do pro­blema: a filosofia, a partir do momento em que nasceu, na Grécia, representou uma nova forma de expressão espiritual tal que, no ins­tante mesmo em que subsumia conteúdos frutos de outras formas de vida espiritual, transformava-os estruturalmente. Esta última obser­vação nos permite compreender outro fato interessantíssimo, isto é, como e por que, por obra dos gregos, se transformaram essencialmen­te aquelas mesmas artes e conhecimentos particulares, matemáticos e astronômicos, respectivamente, dos egípcios e dos babilônios.

A peculiar transformação teórica das cognições egípcias e caldaicas operada pelo espírito dos gregos

Que os gregos tenham derivado as suas primeiras cognições matemáticas e geométricas dos egípcios está fora de dúvida. Mas, como bem observa Burnet, por obra dos gregos elas se transforma­ram radicalmente.

Como podemos observar por um papiro da coleção de Rhind, a matemática egípcia devia consistir prevalentemente na determinação de operações de cálculos aritméticos com finalidades essencialmente práticas (mensuração dos cereais e dos frutos, determinação dos modos de dividir certas quantidades de coisas entre certo número de pessoas etc.) e, apesar do que se disse em contrário, isso corresponde bem ao que Platão observa nas Leis, recordando como eram ensinadas as operações aritméticas às crianças nas escolas egípcias.

Analogamente, a geometria tinha principalmente um caráter práti­co (como se pode deduzir do mesmo papiro de Rhind e de Heródoto), [16] qual seja a mensuração dos campos depois das inundações do Nilo, a construção das pirâmides e semelhantes. Mas a matemática como teoria geral dos números e a ciência geométrica teoricamente fundada e de­senvolvida foram criações dos pitagóricos. E, quanto à objeção de al­guns estudiosos a Burnet, de ter cavado um fosso muito nítido e, por­ tanto, arbitrário entre interesse prático (dos egípcios) e interesse teórico (dos gregos) e de ter operado uma cisão em si ilícita entre os dois interesses, porque à medida que os egípcios souberam determinar as regras práticas explicitaram também atividade teórica; pois bem, por inegável que seja isso, resta todavia o fato de que o destaque do mo­mento propriamente teórico e a purificação especulativa dos problemas matemático-geométricos foram próprios dos gregos; e o mesmo proce­dimento racional com o qual fundaram a filosofia permitiu-lhes purifi­car a matemática e a geometria e levá-las a um nível especulativo.

Raciocínio análogo vale para a astronomia dos babilônios, os quais, como foi notado há tempo, estudaram os fenômenos celestes com finalidades astrológicas, para fazer previsões e predições e, portanto, com finalidades utilitaristas e não propriamente científicas e especulativas. E, embora se tenha sublinhado como nas concepções da astrologia caldaica estivessem implícitos conceitos especulativos muito importan­tes, como por exemplo a idéia de que o número é instrumento de conhecimento de todas as coisas, a idéia de que todas as coisas estão ligadas por uma íntima conexão e, portanto, a idéia da unidade do todo e talvez também a idéia do caráter cíclico do cosmo e outras semelhan­tes; pois bem, permanece contudo sempre verdadeiro o ponto acima afirmado, isto é, que aos gregos cabe o mérito de ter explicitado esses conceitos, e eles puderam fazer isso em virtude do seu espírito especu­lativo, vale dizer, em virtude do espírito que criou a filosofia.

Conclusões

No estado atual da pesquisa, não se pode falar de derivação da filosofia ou da ciência especulativa do Oriente. Certamente os gregos extraíram dos povos orientais com os quais tiveram contato noções de diverso gênero, e sobre esse ponto as pesquisas poderão progressiva­mente trazer à luz novos fatos e novas perspectivas. Um ponto, po­rém, é incontestável: os gregos transformaram qualitativamente [17] aquilo que receberam. Por isso apraz-nos concluir com Mondolfo (o qual, note-se, insistiu muitíssimo na positividade e importância das influ­ências orientais sobre os gregos e sobre a fecundidade espiritual de tais influências): “[...] essas assimilações de elementos e de impulsos culturais [vindos do Oriente] não podem enfraquecer de modo algum o mérito de originalidade do pensamento grego. Ele operou a passa­gem decisiva da técnica utilitária e do mito à ciência desinteressada e pura; ele afirmou por primeiro sistematicamente as exigências lógi­cas e as necessidades especulativas da razão: ele é o verdadeiro cria­dor da ciência como sistema lógico e da filosofia como consciência racional e solução dos problemas da realidade universal e da vida”.

Mas isto que estabelecemos abre um problema ulterior: existem razões que explicam no todo ou em parte como e por que justamente os gregos e não outros povos, que chegaram à civilização antes deles, criaram a filosofia e a ciência?

Devemos agora responder a este problema. [18]

Filosofia - Filosofia Clássica
9/11/2021 3:50:05 PM | Por Odsson Ferreira
Entendendo Platão, um suprassumo em 5 minutos

Platão, o mais "nobre" dos discípulos de Sócrates, foi o seu mais fiel defensor e o que mais fez referências a ele, a tal ponto que os estudiosos chegam a ter certa dificuldade em separar as suas ideias e conceitos das de Sócrates, que nunca escreveu nada. Platão tornou-se assim, a voz socrática que ecoa ao longo dos milênios. Platão nasceu em berço de ouro no V século antes da era comum mais precisamente em 428, e morreu em 347. Sua educação, como a de qualquer cidadão de família aristocrática, foi voltada ao governo e a guerra, educado nas letras clássicas e nos esportes, fato comprovado pelo seu epiteto "Platão" que significa “costas largas”. Platão era o filósofo atleta. Não há relatos sobre sua vida amorosa, diferentemente de Aristóteles que era conhecido por seu amor ao sexo feminino.

Platão fora fortemente abalado e influenciado pelo julgamento, condenação e execução de Sócrates, fato que considerava até certo ponto como sua própria culpa.

Como já foi dito, a obra de Platão foi fortemente orientada pelos "sermões" de Sócrates, mas também o fora pelos trabalhos de Parmênides e Heráclito. Era muito preocupado com a corrupção do sistema democrático ateniense e em certa altura, abandonou a política e a cidade se tornando consultor de reis e monarcas pela Hélade. Afirmava categoricamente que era necessário refazer o Estado, assentando sua base na Justiça e na Ética, pois como filósofo racionalista, afirmava que a fonte do conhecimento verdadeiro é o intelecto puro, independentemente dos sentidos, vemos aqui as influências de Sócrates.

Depois da experiência malfadada na Sicília, quando chegou a ser vendido como escravo, voltou para Atenas e fundou a Academia, a primeira Universidade do ocidente.

O sistema defendido por Platão era divido em três partes:

Conhecimento científico, o conhecimento verdadeiro.
Comportamento ético, virtude, o que é o Homem justo?
Política, quais as características de um Estado justo?

Conhecimento científico

Platão defendia a Teoria das ideias ou formas, onde haviam dois tipos de conhecimento: o do mundo sensível, e o do mundo inteligível.

O conhecimento do mundo sensível é relacionado a Heráclito e é o mundo dos sentidos; do senso comum (Doxa); um tipo de conhecimento raso e superficial que priva o saber apenas ao que o individuo sente ou experimenta através de seus sentidos como a visão, tato, olfato, audição e paladar. Este é o mundo empírico (emperia, ou seja a experiência). Nesse sentido para Platão, a realidade é apenas uma ficção, pois os sentidos nos enganam. Os sentidos ficam apenas na superfície do que de fato existe, funcionando assim como uma barreira que dificulta chegar a realidade verdadeira. Nosso mundo é na verdade um rascunho da realidade, onde cada elemento é uma cópia irregular do conceito, da ideia ou essência, que existe apenas no mundo inteligível.

O Conhecimento do mundo inteligível é relacionado a Parmênides. Aqui não existem emoções ou paixões na busca do conhecimento. Apenas o intelecto pode acessar essa dimensão e contemplar o que é Invisível aos sentidos e visível apenas a razão. Platão afirmava que nessa instância os conceitos não são criados por nós, sendo alcançados apenas por nossa inteligência. A realidade é a ideia, a essência que só pode ser atingida pelo intelecto e não pelos sentidos. Dessa forma, Platão defende uma dialética ascendente, onde os sentidos chocam-se com o pensamento racional. É preciso questionar, duvidar, contestar os sentidos para se alcançar uma verdade que já está presente desde o nascimento. Platão é filosofo inatista, pois para ele o conhecimento é inato e a psique e o intelecto já existiam no mundo inteligível antes do mundo sensível fazendo com que o papel da educação seja o de recordar aquilo que foi esquecido.

Comportamento ético

Para Platão havia uma tripartição da alma composta pela Alma racional, que é o equivalente da classe governante de seu Estado ideal (os magistrados), é a cabeça que governa o corpo; a Alma irascível (militares), que é responsável pelas emoções, a defesa da honra e que não consegue controlar a si mesma; e a Alma concupiscível (trabalhadores e comerciantes), que é responsável pelos desejos, pelos prazeres, e bens materiais e que também não consegue controlar a si mesma.

O indivíduo sábio, como o Estado ético, é aquele onde a Alma racional governa todo esse sistema. Uma pessoa ou Estado governado por suas emoções ou desejos é um indivíduo/sociedade desequilibrado, que inevitavelmente está fadado aos equívocos do mundo sensível, e portanto, longe do verdadeiro conhecimento: o conhecimento dos conceitos e essências.

Política

Platão, talvez influenciado pelo sistema espartano, defendia uma educação rígida onde as crianças deveriam pertencer ao Estado e não aos seus pais. Logo após os 7 anos de idade, todo menino e menina deveria ser entregue ao sistema educacional para que fosse educado(a) e assim no futuro ocupar a classe a qual terá aptidão e/ou direito. Em seu sistema de Estado perfeito, não havia diferença entre gêneros, assim sendo as mulheres deveriam ocupar em pé de igualdade todos os cargos e assumir todas as responsabilidades de um homem, algo impensável e até bizarro para os atenienses do século V e IV.

Para Platão a pirâmide do Estado ideal era composta por: trabalhadores e comerciantes, na base, classe preenchida por aqueles que descobriam essa aptidão no primeiro teste de sua vida educacional, aos 12 anos; pelos militares, no meio, classe preenchida pelos que se encaixassem na segunda prova de aptidão realizada aos 20 anos de idade; e pelos magistrados, no governo, pessoas anciãs que atingiam esse nível devido ao mérito de serem aprovadas no último teste aos 50 anos e se formarem sábias, conhecedoras das verdades da vida e por tanto, aptas a governar. Dessa forma, o Estado ideal de Platão era uma Sofocracia ou Aristocracia, um Estado justo governado pelos sábios e orientado pela Ética.

O fato mais notável na política de Platão é o seu ataque a democracia, pois para ele, um governo de "qualquer um" deixa o Estado susceptível aos equívocos do domínio dos militares (emoções) e/ou comerciantes (desejos), fazendo dessa sociedade uma organização injusta, governada pela tirania militar, ou pela barganha comercial. Um comerciante ou empresário jamais governaria e legislaria de forma neutra e idônea, sendo tentado a se corromper e a defender a sua própria classe e interesses pessoais. Um militar jamais governaria sem o uso da força e do estado de terror e intimidação. Por esse motivo ele acreditava que a democracia é um sistema destinado a ser corrupto, se colapsar e por fim se tornar uma tirania, pois apenas um "super homem", assim reconhecido pela sociedade ignorante, possuiria “super poderes” para colocar ordem ao caos, que seria o destino óbvio de um Estado injusto e em desequilíbrio.

Influências

A influência do pensamento de Platão foi e ainda é esmagadora na sociedade ocidental pós-moderna, herdeira direta do pensamento clássico. Tornou-se senso comum chamar tudo que é perfeito de "platônico". O amor platônico, por exemplo, seria o amor romântico, fogo fátuo do prazer dos amantes. Um equívoco bizarro, já que o amor para Platão era justamente o contrário, pois para ele o homem/mulher perfeitos eram orientados ao desapego, ou pelo menos ao controle total dos impulsos do desejo. O verdadeiro amor platônico é o amor ao conhecimento, a essência, a pureza do conceito no mundo inteligível e não tem nada a ver com reprodução da espécie ou prazer hedônico da carne.

Há também o exemplo do cristianismo, religião usurpadora por excelência que já havia se apoderado e se inspirado nos preceitos egípcios e zooratristas mas que viu no pensamento platônico uma oportunidade ideal de unir os "desejos" de um mundo justo, no céu, para aqueles que eram marginalizados e excluídos pelas outras religiões, como bandidos, doentes, mendigos, mulheres etc. Santo Agostinho durante a idade média dedicou a sua vida a ligar o cristianismo ao pensamento socrático e platônico com a finalidade de dar uma base, um vigor intelectual a fé cristã. Lembro-me, com horror, em uma aula sobre Teorias da Educação, quando o professor que discorria sobre Platão foi interrompido por um aluno e colega que questionou se Platão fora influenciado pelo cristianismo, pois segundo esse colega, a religião era atemporal e ancestral estando além das influências culturais e do desenvolvimento da história humana. Para mim foi um desses momentos em que sentimos vergonha pelo outro. Infelizmente o nível de esclarecimento da maior parte da população brasileira é muito baixo, e onde há vazio de conhecimento, há espaço para as mais exóticas ideologias.

Filosofia - Filosofia Clássica
9/9/2021 7:46:33 PM | Por Lucius Annaeus Seneca
Sêneca saúda o amigo Lucílio: Da fugacidade da fortuna

Não acredites que um homem possa ser feliz se a sua estabilidade depende de sua fortuna. Apóia-se em bases frágeis quem faz sua felicidade depender de ele­mentos externos. Toda alegria que assim surge logo se vai; no entanto, aquela que vem do interior é firme e sólida. Ela cresce e nos acompanha até o final. Quanto aos objetos de admiração da plebe, esses são bens de apenas um dia. “Então, deles não podemos tirar proveito e prazer?” Não é isso que se diz, desde que eles de nós dependam, não nós deles.

Tudo o que vem da riqueza não gera frutos, não proporciona satisfação, se o possuidor não possui a si próprio e não toma posse do que lhe pertence. É uma tolice, Lucílio, pensar que a riqueza pode nos fazer al­gum bem ou mal; ela apenas fornece material para os nossos bens e nossos males, os elementos daquilo que junto a nós poderá se desenvolver em bem ou em mal.

Bem mais poderosa que a fortuna é nossa alma. Para o melhor ou o pior, é ela que conduz os nossos destinos, é ela a responsável pela nossa felicidade ou miséria.

Se for má, tudo se converte em maldade, mesmo aquilo que tem a aparência de bem. Se for direita e ínte­gra, corrige todos os erros da fortuna, ameniza sua infle­xibilidade, praticando a arte da tolerância, recebendo com reconhecimento e modéstia a prosperidade e com firmeza e coragem as desventuras. Apesar da sabedoria, do juízo acurado que preside a todos os seu atos, apesar do cuidado para não ir além do que lhe é permitido, não obterá esse bem fora de qualquer ameaça se, frente à incerteza das coisas, não se mantiver na certeza.

Quer observes os outros (julgamos mais facil­mente o que não nos é próximo), quer observes a ti mesmo com toda a imparcialidade, te darás conta de que nada do que desejas e sentes prazer te será útil se não te precaveres contra a inconstância da sorte e de tudo o mais que dela depende; se, em todos os momen­tos de contrariedade, repetires sem queixas: “Os deuses julgaram de forma diferente”.

Vamos um pouco além. Para procurar uma fór­mula mais corajosa, mais justa, para melhor equilibrar tua alma, dize a ti mesmo, cada vez que algo saia ao contrário do que esperavas: “Os deuses julgaram me­lhor do que eu”. Se tiveres esse equilíbrio, nada te atin­girá. Pois bem, atingimos esse estado começando por imaginar o poder das imprevisibilidades humanas antes até de experimentá-las. Ou seja, tendo mulher, filhos e patrimônio, levar em conta que talvez não os tenhamos para sempre. Assim, se os perdermos, não seremos, por isso, mais infelizes.

Desprezível é a alma obcecada pelo futuro, é infeliz antes da infelicidade, deseja ter para sempre as coisas que lhe causam prazer. Não terá descanso, e a necessidade de querer conhecer o futuro lhe fará deixar de lado o pre­sente que poderia ser melhor desfrutado. Temer a perda de algo é o mesmo que já não tê-lo mais consigo.

Não pensa que eu sou a favor da indiferença. Foge dos perigos. Fica atento a tudo que pode ser previsto. O que for que te ameaça, não espera que te atinja, pas­sa longe. Nessa situação, a confiança em ti e o firme propósito de tudo suportar serão muito importantes.

Podemos nos sentir abrigados do destino quando temos força para agüentar seus golpes. De qualquer for­ma, não é das ondas calmas que nasce a tempestade, ou seja, nada é mais lamentável e menos sábio do que o medo antecipado. Que insensatez é essa de antecipar a adversidade?

Em síntese, e para bem demonstrar esses carrascos de si próprios, digo que eles sofrem o mesmo na espera e durante as suas desgraças. Tal criatura aflige-se mais do que é preciso e antes do que é necessário. A mesma fraqueza que faz com que veja a aflição faz com que não saiba avaliá-la. O mesmo descomedimento com que julga ser feliz para sempre, que considera tudo de bom que lhe acontecer, durar e crescer sempre, faz com que esqueça que o fio sobre o qual o gênero humano oscila nada mais nos promete do que o imprevisto.

Por essa razão, considero admirável esta frase de Metrodoro para o irmão que havia perdido o filho, rapaz de grande futuro: “Todos os bens dos mortais são mor­tais”.* Ele está se referindo àqueles bens que os homens buscam precipitadamente. O verdadeiro bem não desa­parece; certo e duradouro, consiste na sabedoria e na vir­tude, sendo a única coisa imortal que cabe aos mortais.

Alguns são tão descuidados que esquecem a meta para onde cada dia os leva, que se admiram com a perda de uma ou outra coisa, como se não fossem perder tudo um dia. Todos esses bens dos quais te intitulas “possui­dor” estão contigo, mas não são teus. Para o fraco, não há nada certo; para o frágil, nada é eterno e invencí­vel. É tão necessário perder quanto morrer e, se isso for bem compreendido, torna-se um consolo. Perde sem dor, porque também perderás, um dia, tua vida.

Para minimizar os efeitos dessa perda, de que dispomos? De guardar a lembrança do perdido e, assim, não deixar desvanecer o que de proveito se tenha tido com o que se foi. Se a posse vai embora, fica para sempre o privilégio de ter possuído. Muito ingrato é aquele que, quando não tem mais nada, imagina nada dever por aquilo que tenha recebido. A sorte tira o objeto, mas deixa o fruto que nossas queixas nos fazem perder.

De todos os males que parecem infundir temor, nenhum é invencível; todos, um após outro, encontraram um vencedor. O fogo por Múcio. A cruz por Régulo. O veneno por Sócrates. O exílio por Rutílio. A morte por um golpe de espada por Catão. Que nós tenhamos também nossas vitórias.

No entanto, essas ilusórias felicidades que atraem a plebe foram, muitas vezes, desdenhadas por diversas pes­soas. Fabrício, o comandante, recusou a riqueza e pro­curou dobrá-la como censor. Tuberão julgou ser, junto com o Capitólio, digno da pobreza quando, em uma festa pública, fez uso de um prato de barro, procurando mostrar que o homem devia se contentar com coisas ain­da usadas pelos deuses. Sexto, o Pai, recusa honras, ele que nasceu para conduzir o poder. Não aceitou a toga laticlava*, oferecida por César, pois estava convicto de que o que pode ser dado também pode ser tirado. De nossa parte, façamos, da mesma forma, algo de generoso. Mar­quemos nosso lugar entre esses exemplos.

Por que falhamos? Por que nos desesperamos? Tudo o que já foi feito pode por nós ser feito. Comece­mos purificando nossa alma e seguindo a natureza, pois quem dela se afasta condena a si próprio a desejar e a tornar-se escravo da sorte. Podemos retomar o caminho correto, podemos tomar posse daquilo que nos é de direito. Recuperemos tais coisas e saberemos, que o fim, suportar as dores que de qualquer maneira atacarem o nosso corpo. Assim, diremos ao destino: “Estás tratando com um homem. Procura em outro lu­gar alguém a quem dominar”.

Graças a essas palavras, e a outras do mesmo cali­bre, que a malignidade de uma ferida é atenuada, e pre­firo, podes acreditar, que possa ser atenuada ou, pelo menos, que se mantenha estacionada e, ainda, envelhe­ça com o paciente. Estou seguro quanto ao paciente; o que se discute agora é nossa própria perda, o arrebatamento de um velho notável, que viveu uma vida plena e que, se deseja prolongá-la, é para aqueles a quem pode servir e não para si.

Viver é um ato generoso de sua parte. Um outro já quis pôr fim a seus tormentos, julga tão vergonhoso pro­curar a morte como dela fugir. “Mas como? Se o fato está posto, não devo ir?” Por que deixará de ir se não é mais útil a ninguém, nada mais tem senão o sofrimento?

Eis, meu caro Lucílio, o que se chama aprender a filosofia pela prática e exercê-la concretamente; é ver a coragem de um homem esclarecido diante da mor­te, diante da dor, quando uma se aproxima e a outra o pressiona. O que deve ser feito aprendemos com aquele que o faz.

Até o presente momento, nossos argumentos leva­ram a indagar se é possível a qualquer indivíduo resistir à dor; se a morte, ao se aproximar, chega a derrubar as grandes almas. Analisemos os fatos e os encaremos: não é a morte que fortalece esse homem diante da dor, nem é a dor que o encoraja frente à morte. Em face das duas, ele confia em si próprio. Não é a esperança da morte que o faz suportar pacientemente a dor, nem a entrega ao sofrimento que o faz morrer de bom grado. Ele suporta a dor e aguarda a morte. Passa bem!

Filosofia - Filosofia Clássica
8/28/2021 5:37:02 PM | Por Lúcia Sá Rebello
Sêneca e as contradições da condição humana

Lúcio Anneo Sêneca nasceu em Córdoba, Espa­nha. Seu pai foi Anneo Sêneca - Sêneca, o velho conhecido com o retórico e do qual restou apenas uma obra escrita, intitulada Declamações. Sêneca, o moço, loi educado em Roma, tendo estudado retórica ligada à filosofia. Em pouco tempo, tornou-se conhecido como advogado e ascendeu politicamente, passando a ser membro do senado romano e, mais tarde, questor (magistrado encarregado das finanças).

Em Roma,o triunfo político não acontecia impune­mente, e a notoriedade de Sêneca suscitou a inveja do imperador Caligula, que morreu antes de poder des­trui-lo. Dessa forma, Sêneca pôde continuar vivendo em relativa tranqüilidade, mas essa não durou muito tempo. Em 41 e.c., foi desterrado para a Córsega sob a acusação de adultério, supostamente com Júlia Livila, sobrinha do novo imperador Cláudio César Germânico. Na Córsega, Sêneca viveu cerca de dez anos com grande privação material. Dedicou-se aos estudos e re­digiu vários de seus principais tratados filosóficos, entre os quais os três intitulados Consolationes {Consolos), dos quais expõe os ideais estóicos clássicos de renúncia aos bens materiais e de busca da tranqüilidade da alma por meio do conhecimento e da contemplação.

Em 49 e.c., Messalina, primeira esposa do imperador Cláudio, foi condenada à morte. O imperador casa-se, então, com Agripina. Pouco tempo depois, ela manda chamar Sêneca para se encarregar da educação de seu filho Nero, tornando-o, em 50 e.c., pretor.

Sêneca casou-se com Pompéia Paulina e organi­zou um poderoso grupo de amigos. Logo após a morte de Cláudio, ocorrida em 54 e.c., o escritor vingou-se do imperador com um texto que foi considerado a obra-prim a das sátiras romanas, Apocolocyntosis divi Claudii (Transformação em abóbora do divino Cláudio). Nessa obra, Sêneca critica o autoritarismo do impera­dor e narra como ele é recusado pelos deuses.

Quando Nero foi nomeado imperador, Sêneca tornou-se seu principal conselheiro e tentou orientá-lo para uma política de justiça e de humanidade. Durante algum tempo, exerceu influência benéfica sobre o jo­vem, mas, aos poucos, foi forçado a adotar uma atitu­de de complacência. Chegou ao ponto de redigir uma carta ao Senado para justificar a execução de Agripina, em 59 e.c., pelo filho. Nessa ocasião, foi muito critica­do por sua postura frente à tirania e à acumulação de riquezas de Nero, incompatíveis com as suas próprias concepções filosóficas.

O escritor e filósofo destacou-se por sua ironia, arma da qual se utilizava com muita sabedoria, prin­cipalmente nas tragédias, as únicas do gênero na li­teratura da antiga Roma. Conhecidas como versões retóricas de peças gregas, elas substituem o elemen­to dramático por efeitos violentos, como mortes em cena e discursos agressivos, demonstrando uma visão mais trágica e mais individualista da existência. Sêneca deixou a vida pública em 62 e.c. Dentre seus textos, constam a compilação científica Naturales quaestiones (Problemas naturais), os tratados De tranquillitate animi (Da tranqüilidade da alma), De vita beata (Da vida beata), as cartas reunidas em Sobre abrevidade davida, (De brevitale vitae) e, talvez sua obra mais profunda, as Epistolae morales dirigidas a Lucílio. As cartas mo­rais, escritas entre os anos 63 e.c. e 65 e.c, misturam elementos epicuristas com idéias estóicas e contêm ob­servações pessoais, reflexões sobre a literatura e crítica satírica aos vícios da época.

Acusado de participar na conjuração de Pisão, em 65 e.c., Sêneca recebeu de Nero a ordem de suici­dar-se, que executou com o mesmo ânimo sereno que pregava em sua filosofia. Conta-se que sua morte foi uma lenta agonia. Abriu as veias do braço, mas o san­gue correu muito lentamente; assim, cortou as veias das pernas. Porém, como a morte demorava, pediu a seu médico que lhe desse uma dose de veneno. Como este não surtiu efeito, enquanto ditava um texto a um dos discípulos, tomava banho quente para ampliar o sangramento. Por fim, fez com que o transportassem para um banho a vapor e, ali, morreu sufocado.

Da obra

Chama-se epístola a composição datada e escrita por um indivíduo ou em nome de um grupo com o objetivo de ser recebida por um destinatário. O termo lem uso antigo e constitui gênero literário importante a partir do conjunto de textos do Novo Testamento que ficaram conhecidos por epístolas. Assim, distingue-se uma epístola de uma carta comum, pois não se destina apenas à comunicação de fatos de natureza pessoal ou familiar, aproximando-se mais da crônica histórica que procura relatar acontecimentos do passado. A utiliza­ção do termo alarga-se, posteriormente, a todo tipo de correspondência privada ou oficial, literária ou filosófi­ca, religiosa ou política, tornando-se difícil estabelecer com rigor a diferença entre uma epístola e uma carta. À arte de escrever epístolas ou formas registradas de correspondência escrita entre indivíduos dá-se o nome de epistolografia.

Na literatura latina, são referências obrigatórias do gênero epistolar as Epístolas, de Horácio, as cartas de Varrão, Plínio, Ovídio e, sobretudo, de Cícero, que fixaram um modelo que foi fartamente imitado. Como referência obrigatória, deve-se incluir os textos epistolares de Sêneca, cujo tom coloquial define que o estilo que melhor convém a uma carta não deve conter um acúmulo de conhecimentos dos diversos ramos do sa­ber ou ser afetado.

Sêneca é o mais importante representante da filo­sofia estóica em seu último período, e suas preocupa­ções são, em essência, éticas. É um filósofo de espírito mais prático que teórico. Afasta-se, em alguns pontos, do estoicismo, aceitando elementos tomados do epicurismo, o que resulta em um ecletismo de caráter moralista, preocupado com a filosofia enquanto ensi­namento e consolo para a vida.

Para Sêneca, a filosofia gira em torno da figura do “sábio”. A sabedoria e a virtude são a meta da vida moral, o único bem imortal que possuem os mortais. A sabedoria consistirá, segundo a doutrina estóica, em seguir a natureza, deixando-se guiar por suas leis e seus exemplos. Estando a natureza regida pela razão, obede­cer-lhe é obedecer à razão, podendo o homem, assim, ser feliz. A felicidade consiste em se adaptar à natureza para manter um equilíbrio que nos deixe a salvo das vaidades da fortuna e dos impulsos do desejo que obscurecem a liberdade. A liberdade, então, configura-se corno a tranqüilidade do espírito, a imperturbabilidade do ânimo frente ao destino, ou seja, a ataraxia. Segundo sêneca, “O melhor é dirigir-te para a sabedoria, onde encontrarás, ao mesm o tempo, tranqüilidade e grandes possibilidades de crescimento” (LXXIV).

As cartas que Sêneca envia ao amigo Lucílio fazem parte de um a longa tradição do gênero epistolar, que se prolonga em autores modernos. Essas cartas, escritas entre os anos 63 e 65 e.c., misturam elementos epicuristas com idéias estóicas e contêm observações pes­soais, reflexões sobre a literatura e crítica satírica dos vícios com uns na época. Não se sabe se Lucílio existiu ou se configura apenas em mero interlocutor imaginário criado pelo filósofo para desenvolver a sua filosofia à maneira de diálogo, o que foi bastante comum durante muitos séculos.

Nas cartas a Lucílio, Sêneca aborda diversas questões. É um otimista. Considera que todas as pessoas tra­zem consigo a semente de uma vida honesta, embora os bons exemplos exerçam um papel essencial na adoção das virtudes. A educação moral consiste em fazer com que os atos correspondam aos princípios éticos. Por vezes, a vontade é fraca ou deficiente. Assim, faz-se necessário um guia espiritual. O homem possui uma natureza que o predispõe quer para o bem quer para o mal, e nem sempre possui a força de vontade e a sabedoria suficientes para optar pelo bem em detrimento tio mal.

Sêneca traça um programa de heroísmo passivo, que exige uma reformulação da mente para que não se impressione com o horror das dores, da miséria e da morte. Os homens devem auxiliar uns aos outros e viver em sociedade, professando o afeto e a estima. A nature­za exige o amor dos elementos que a compõem. Causar dano a outro homem é algo irracional que vai contra a própria essência da natureza.

A morte não é um bem nem um mal, podendo tornar-se uma libertação quando as circunstâncias da vida condenam o homem a uma escravidão incompatí­vel com a liberdade. Dessa forma, está aberto o caminho para que o homem deixe a vida. Nada os obriga a viver na miséria ou no cativeiro. Essas são apenas algumas das inúmeras questões tratadas nas 29 cartas de Sêneca dirigidas a Lucílio que estão reunidas neste volume.
Sem dúvida, muitas das observações e conclusões que fazem parte dessas cartas poderiam ser aplicadas às inquietudes do mundo atual. Sêneca escreveu as mais belas máximas de pureza da vida; nele se uniram todas as perfeições do pensamento humano, a elevação do espírito e o entusiasmo pela virtude. As cartas a Lucílio demonstram sua larga experiência e contêm as refle­xões mais profundas sobre as contradições da condição humana.

Que o leitor aprecie a leitura desta obra, fruto de um grande pensador da vida e de suas imprevisibilidades.

Filosofia - Filosofia Clássica
O testa brilhante
Taliesin | (Wood, 2011, p. 9)

No Calan Gaeaf - nome pelo qual o primeiro dia de inverno era conhecido em Gales -, o príncipe Elphin mab Gwyddno, filho pródigo de Gwyddno Longshanks, encontra um misterioso saco preto num açude. Quando olha dentro dele, encontra uma criança de beleza incomparável. "Que testa bri- lhante!", exclama o príncipe em galés - tal ("testa") iesin ("brilhante") - e a criança sábia no mesmo instante toma essa frase como seu nome. Elphin monta em seu cavalo com o bebê no colo e vai para casa. O cavalo de Elphin instintivamente reconhece os poderes especiais da criança e trota devagar, para evitar machucá-la. O príncipe Elphin se apega tanto à criança que a adota como filho. Taliesin posteriormente se torna o maior bardo de Gales

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9/14/2021 4:24:35 PM | Filosofia, n. 10
A farmácia de Epicuro

O hedonismo e a busca do prazer como receita de vida e finalidade da existência. Na cultura ocidental, o homem sempre se perguntou sobre o fim último da vida, e diversas respostas marcaram diferentes momentos da história de nossa civilização.

Filosofia - Filosofia Clássica
9/12/2021 4:24:36 PM | Filosofia, n. 10
Ouse saber

Ideário iluminista sepultou as trevas da Idade Média e postulou que o conhecimento, por meio do uso da razão, é o caminho para a emancipação do homem.

Filosofia - Filosofia moderna
9/11/2021 4:50:34 PM | Filosofia, n. 10
A superação do luto

Desde Freud, no clássico Luto e Melancolia, estu­damos o luto como sendo um processo doloroso do senti­mento da perda de um ente querido; de um sonho, como o da liberdade e dignidade huma­nas, por exemplo. Ou ainda, a perda do ideal de alguém, uma profunda decepção em relação à avaliação do caráter de uma pessoa que nos seja cara.

Filosofia - Filosofia moderna
9/11/2021 4:39:33 PM | Filosofia, n. 10
A vida começa aos 70

A velhice, encarada como a etapa derradeira da vida, pode ser uma época repleta de encantos e realizações. Se for verdade que aprendemos vi­vendo, uma pessoa que vive há sete décadas é mais sábia do que um ado­lescente no auge da sua mocidade. Sua bagagem de experiências é imensamente superior.

Filosofia - Filosofia Clássica
Todas as matérias
Estar ocupado não é um fim em si mesmo

Boston - Uma amiga minha trabalhava para uma executiva de Hollywood como assistente-chefe encarregada da agenda. Esse não era o nome real do cargo, claro, mas era a descrição. Essa executiva tinha uma predileção por encher seu Palm Pilot com semanas e meses de antecedência. Quando chegava o dia, um dia invariavelmente transbordando com “emergências inesperadas”, ela mandava fazer mais uma rodada de cancelamentos. E co­meçava a preencher o futuro. Minha amiga começou a considerar isso como um ciclo de comer e vomitar. Ela acabou descrevendo sua chefe como “bulímica de tempo”.

Sempre me lembro disso porque fico pensando em quantas pessoas sofrem de transtor­nos de tempo. Quantas marcam compromissos agora com a absoluta e falsa certeza de que terão mais tempo quando chegar a hora. Será que olhamos no espelho e vemos uma ima­gem tão distorcida quanto a pessoa anoréxica que se olha no espelho?

Este ano, dois professores de marketing da Carolina do Norte publicaram pesquisas sobre o tempo e seu uso. Os estudantes pesquisados disseram repetidamente que teriam mais tem­po livre no mesmo dia da próxima semana ou do próximo mês do que tinham hoje. Caso se pedisse a esses estudantes que acrescentassem um compromisso hoje, eles responderiam que não, mas, ao se pedir que o fizessem no fururo, eles teriam mais probabilidades de dizer sim.

Esses estudantes não eram simplesmente um bando de otimistas cegos. As mesmas pessoas tinham uma visão muito mais realista de seus orçamentos e tinham menos proba­bilidades de se comprometer com mais despesas no futuro do que no presente. Nesse con­texto, tempo não era dinheiro, e sim algo mais maleável. Ao pensar sobre seu tempo livre, eles experimentaram o que os pesquisadores chamaram de "exuberância racional”. Mesmo os que já estão hoje sobrecarregados assumiriam mais uma carga no futuro.

Os norte-americanos falam muito em como seu tempo está apertado. Perguntamos uns aos outros: "Como vai você?"E a resposta é: "Ocupado”. Exportamos nossa produtivida­de, que se tontou o padrão-ouro internacional dos viciados em trabalho. Pensamos no tempo como algo que foi consumido, e não investido.

Inclusive no meu tempo de adulta, os norte-americanos perderam domingos fazendo compras e perderam o foco ao realizar múltiplas taiefas. Passamos nossa vida de plantão. Neste mundo, o herói do mês deve ser certamente Joseph Williams, o advogado de Baltimore que processou a Sears, Roebuck quando um técnico de manutenção que não foi trabalhar o deixou esperando por quatro horas. Ele ganhou um único dólar e um bonito princípio: você não pode desperdiçar o meu tempo.

Mas quantos de nós também são vítimas de nossa própria desorganização de tempo, zeladores da exuberância irracional? Também preenchemos o futuro a partir de uma an­siedade irracional sobre o tempo livre. "É difícil aprender que o tempo não será mais abundante no futuro", escreveram os pesquisadores. Bom, uma coisa é os estudantes serem enganados repetidamente, mas outra coisa é isso acontecer com aqueles de nós que já têm mais idade. O tempo, para dizer de uma maneira tranqüila, é menos abundante. A recusa a aprender a lição tem um preço alto.

Fico me perguntando se outras culturas sofrem de nosso transtorno do tempo, nossa “exuberância irracional”. Os negócios, acreditamos, são parte de nossa crença, Foi o pai-fundador, Thomas Jefferson, que nos advertiu: “Estejam determinados a nunca estar ocio­sos. A pessoa que jamais perder tempo não terá ocasião para se queixar da falta dele. É maravilhoso o quanto pode ser feito se estivermos sempre fazendo”.
Atualmente, causam-me mais simpatia as palavras do radical excêntrico Henry David Thoreau, que respondeu: “Não basta estar ocupado, as formigas também o estão, A questão é com o que nos ocupamos”.

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9/25/2021 5:31:16 PM | Por Giovanni Reale
Natureza e problemas da filosofia grega

Até agora falamos de filosofia sem determinar de modo específico o conceito: é só neste ponto que podemos fazê-lo, à luz das observações precedentes. Digamos logo de início que a tradição sustenta ter sido Pitágoras o inventor do termo, o que, se não é historicamente verificável, é veros­símil. O termo foi cunhado certamente por um espírito religioso, que pressupunha ser possível só aos deuses uma “sophia” como posse certa e total, enquanto destacava que ao homem só era possível tender à “sophia”, um contínuo aproximar-se, um amor jamais totalmente satisfeito dela, de onde justamente o nome filosofia, amor à sapiência.

Mas que entenderam os gregos por essa amada e buscada sapiência? Prescindindo das várias oscilações e incertezas que de fato se encontram no uso do termo (incertezas na verdade assaz notáveis, porque os vários autores e as várias correntes de pensamento na filosofia ou incluem amiú­de muito pouco, ou incluem demais, segundo as circunstâncias), é possí­vel estabelecer aquilo que de direito merece ser chamado de filosofia, e aquilo que também de fato, a partir de Tales, fizeram todos os que me­receram o nome de filósofos. (As incertezas surgiram porque os vários filósofos, além de ocupar-se daquilo que veremos ser propriamente filo­sofia, ocuparam-se também de numerosos outros tipos de conhecimento que pretenderam fazer entrar globalmente na filosofia, como se, sendo um o pesquisador, uma também devesse ser toda a ciência por ele possuída.)

Pois bem, a partir do seu nascimento, a ciência filosófica apresentou de modo nítido as seguintes características, que dizem respeito, respectivamente,

  1. ao seu conteúdo,
  2. o seu método,
  3. ao seu escopo,

Quanto ao conteúdo, a filosofia quer explicar a totalidade das coisas, ou seja, toda a realidade, sem exclusão de partes ou momentos dela, distinguindo-se assim estruturalmente das ciências particulares, que, ao invés, limitam-se a explicar determinados setores da realidade, grupos particulares de coisas e de fenômenos. E já na pergunta de Tales (o primeiro dos filósofos) sobre o princípio de todas as coisas, esta dimen­são da filosofia está presente em todo o seu alcance. [28]

Quanto ao método, a filosofia quer ser explicação puramente racional da totalidade que é seu objeto. O que vale em filosofia é o argumento de razão, a motivação lógica: é, numa palavra, o lógos. Não basta à filosofia constatar, verificar dados de fato, coletar expe­riências: a filosofia deve ir além do fato e das experiências para encontrar as suas razões, a causa, o princípio.

E é este caráter que confere cientificidade à filosofia. Tal caráter é comum também a outras ciências, as quais, exatamente enquanto ciên­cias, nunca são apenas constatação e verificação empírica, mas são sem­pre busca de causas e de razões. Mas a diferença está em que, enquanto as ciências particulares são busca de causas de realidades particulares ou de setores de realidade particulares, a filosofia é, ao invés, busca de causas e princípios de toda a realidade (como, de resto, impõe necessa­riamente a primeira das características acima ilustrada).

Enfim, devemos esclarecer qual é o escopo da filosofia. E sobre este ponto Aristóteles explicou melhor do que todos que a filosofia tem um caráter puramente teórico, ou seja, contemplativo: ela visa simples­mente à busca da verdade por si mesma, prescindindo das suas utiliza­ções práticas. Não se busca a filosofia por qualquer vantagem que lhe seja estranha, mas por ela mesma; ela é, pois, “livre” enquanto não se submete a qualquer utilização pragmática e, portanto, realiza-se e se resume em pura contemplação do verdadeiro. E também deste ponto de vista o nome filosofia resulta, na verdade, perfeitamente dado: amor ao saber em si mesmo, amor desinteressado ao verdadeiro.

Eis algumas afirmações de Aristóteles, particularmente iluminadoras:

Que ela não tenda a realizar alguma coisa depreende-se claramente das afirmações daqueles que por primeiro cultivaram a filosofia. De fato, os homens começaram a filosofar, agora como na origem, por causa da admi­ração: enquanto no início ficavam maravilhados diante de dificuldades mais simples, em seguida, progredindo pouco a pouco, chegaram a pôr-se proble­mas sempre maiores: por exemplo, os problemas relativos aos fenômenos da lua e os relativos ao sol e aos astros, ou os problemas relativos à geração de todo o universo. Ora, quem experimenta uma sensação de dúvida e de ma­ravilha reconhece que não sabe; e é por isso que também aquele que ama o mito é, de certo modo, filósofo: o mito, com efeito, é constituído por um conjunto de coisas que despertam admiração. Assim, se os homens filosofa­ram para libertar-se da ignorância, é evidente que buscaram o conhecimento só com a finalidade de saber e não para alcançar alguma utilidade prática. E o próprio modo segundo o qual as coisas se desenvolveram o demonstra. [29]

Quando já se possuía praticamente tudo o que era necessário para a vida e também para a prosperidade e para o bem-estar, então se começou a buscar aquela forma de conhecimento. É evidente, portanto, que nós não a busca­mos por nenhuma vantagem que lhe seja estranha; e, antes, é evidente que, como chamamos livre o homem que é fim para si mesmo e não serve a outros, assim só ela, entre todas as outras ciências, chamamos livre: só ela, de fato, é fim para si mesma1.

Tornar-se agora perfeitamente claro o discurso que até aqui con­duzimos sobre a originalidade da ciência filosófica dos gregos.

As sapiências orientais são profundamente embebidas de repre­sentações fantásticas e nelas predomina o elemento imaginativo e mítico e, portanto, carecem exatamente do caráter de cientificidade. E as próprias ciências e artes orientais (matemática e geometria egíp­cias, astronomia caldéia), embora chamando em causa a razão, care­cem do elemento da teoricidade, isto é, da liberdade especulativa e, naturalmente, como conhecimentos particulares, também do primeiro dos elementos. É, portanto, clara a absoluta originalidade dessa admi­rável síntese criativa do gênio grego que foi a filosofia, assim como sua grandeza, à qual não é retórica chamar de sublime, justamente porque leva o homem a tocar o vértice das suas possibilidades.

Com razão Aristóteles a chamará de “divina”, porque além de levar-nos a conhecer a Deus, ela possui as mesmas características que deve possuir a própria ciência que Deus possui, vale dizer, a desinteressada, livre, total contemplação da verdade. Por isso, diz ainda muito bem Aristóteles, “todas as outras ciências serão mais necessárias do que esta, mas nenhuma lhe será superior”2. [30]

E queremos concluir com esta observação, uma vez que hoje não se põe a categoria do desinteresse, mas a do interesse e do útil no vértice de tudo. Quando se afirma, na trilha do pensamento marxista ou de origem marxista, que a filosofia não deve contemplar, mas transformar a realidade e que, portanto, a filosofia antiga, que queria apenas contemplar, deve ser superada por uma forma de filosofia que penetre a realidade para mudar e fazer mudar, não se substitui sim­plesmente uma visão filosófica por outra, mata-se a filosofia: o ato de transformar a realidade, de fato, só pode ser um momento conseqüen­te à verdade buscada e encontrada, e, em vez de ser filosofar é, no máximo, corolário do filosofar. O ato de transformar só pode ser empenho ético, político, educativo e não pode ser nunca, do ponto de vista filosófico, momento primário, porque supõe estruturalmente que se saiba e se determine previamente por que, como, em que sentido e medida deve-se transformar; portanto, supõe sempre o momento teórico (vale dizer, propriamente filosófico) como condicionante. E não vale objetar, como aqueles que, com complexo de culpa diante da objeção praxística, afirmam que transformar a realidade não é, de fato, filosofia, mas que, todavia, o homem de hoje deve filosofar para mudar alguma coisa. Também esta posição é depreciativa: com efei­to, quem filosofa com este espírito perde a liberdade, e a ânsia de transformar condiciona fatalmente e perturba o momento do contem­plar; perturba-o a ponto de, invertidos os termos, submetida ao jugo da práxis, a especulação pura tornar-se ideologia e, portanto, deixar de ser filosofia.

Portanto, também nisso os gregos foram e continuam sendo mes­tres: só se é filósofo se e enquanto se é totalmente livre, ou seja, só se e enquanto, com absoluta liberdade, se contempla ou se busca o verdadeiro como tal, sem ulteriores razões determinantes. E aquilo que se consegue como efeito prático da verdade encontrada e contem­plada já está essencialmente fora do momento mais propriamente filosófico. [31]

Os problemas da filosofia antiga

Dissemos que a filosofia quer conhecer a totalidade da realidade com método racional e com finalidade puramente teórica. Ora, é claro que a totalidade da realidade não é um bloco monolítico, mas um con­junto de coisas distintas entre si, embora orgânica e estreitamente liga­ das. É claro que o problema filosófico geral deverá, necessariamente, subdividir-se e, por assim dizer, cadenciar-se em problemas mais parti­culares e determinados, ligados entre si segundo os modos e à medida que são conexas as realidades que eles têm por objeto. E é claro, a priori, que esses problemas particulares, no âmbito do problema geral, virão à luz não simultânea, mas progressivamente no tempo.

Assim, num primeiro momento, a totalidade do real, a physis, foi vista como cosmo e, portanto, o problema filosófico por excelên­cia foi o problema cosmológico: como surge o cosmo, qual o seu princípio? quais as fases e os momentos da sua geração? etc. É esta a problemática que, essencial ou, pelo menos, prioritariamente, ab­ sorve toda a primeira fase da filosofia grega.

Mas com os sofistas o quadro muda: a problemática do cosmo, por razões que explicaremos, cai na sombra, e a realidade que atrai a atenção é o homem. Por isso a filosofia dos sofistas e de Sócrates concentrará a própria atenção sobre a natureza do homem e da sua virtude ou areté, de onde nascerá o problema moral.

Com Platão e Aristóteles, a problemática filosófica se diferenci­ará e enriquecerá ulteriormente, distinguindo alguns âmbitos e seto­res de problemas que permanecerão depois em todo o curso da his­tória da filosofia como pontos de referência.

Neste ínterim, Platão descobrirá e demonstrará que a realidade, ou o ser, não é de um único gênero, e que, além do cosmo sensível, existe uma realidade inteligível supra-sensível e transcendente. Daqui derivará a distinção aristotélica de uma física ou doutrina da realidade sensível, e de uma metafísica ou doutrina da realidade supra-sensível. Ulterior­ mente, os problemas morais se especificarão, serão distinguidos os dois momentos da vida do homem como indivíduo e do homem associado, e nascerá assim a distinção dos problemas propriamente éticos dos pro­blemas propriamente políticos (problemas que, ademais, para o grego permanecem muito mais intimamente ligados do que para os modernos). [32]

Ainda com Platão e sobretudo com Aristóteles, serão fixados os problemas (já presentes nos filósofos precedentes) epistemológicos e lógicos. E, olhando bem, estes são atualização e explícita determina­ção da segunda das características que vimos ser peculiar à filosofia, ou seja, do método de busca racional. Qual é a via que o homem deve seguir para alcançar a verdade? Qual é a verdadeira contribui­ção dos sentidos, e qual a da razão? Qual é a característica do ver­dadeiro e do falso? E, mais ainda em geral, quais são as formas lógicas através das quais o homem pensa, julga, raciocina? Quais são as regras para pensar corretamente? Quais são as condições pelas quais um tipo de raciocínio pode ser qualificado como científico?
Em conexão com os problemas lógico-epistemológicos, nasce também o problema da determinação da natureza da arte e do belo, da expressão e da linguagem artística e, portanto, nascem aqueles que hoje chamamos de problemas estéticos. E, sempre em conexão com estes, nascem os problemas da determinação da natureza da retórica e do discurso retórico, isto é, do discurso que visa convencer e à habilidade para convencer.

A especulação pós-aristotélica tratará como definitivamente adqui­ridos todos esses problemas, e os agrupará em 1) físicos, 2) lógicos e 3) morais. À primeira vista, a especulação pós-aristotélica parecerá modi­ficar uma característica da filosofia: a característica da teoricidade pura, ou seja, do desinteresse prático da filosofia. De fato, as escolas helenístico-romanas visarão essencialmente construir o ideal de vida do sábio, vale dizer, ideal de vida que garanta a tranqüilidade de ânimo, a felici­dade, e resolverão os problemas físicos e lógicos unicamente em função dos problemas morais. Mas, olhando bem, o espírito puramente teórico da filosofia não é absolutamente renegado, mas só determinado diferen­temente. Com a destruição da pólis e da tradicional hierarquia dos va­lores que se sustentava sobre a pólis, o filósofo pedirá à filosofia uma nova hierarquia. E aquilo que o filósofo pedirá à filosofia não será, contudo, que ela transforme os outros e as coisas, mas a ele mesmo: pedirá à filosofia a verdade para poder viver na verdade.
Enfim, a filosofia antiga, no último período, especialmente com o neoplatonismo, se enriquecerá com uma problemática místico-religiosa: diante do cristianismo nascente e triunfante, o pensamento grego buscará indicar ao homem uma visão do Todo e um tipo de [33] vida no Todo que contraste e supere os que são pregados pelo cris­tianismo; mas apesar de conseguir, nessa tentativa, abrir ulteriores horizontes metafísicos, não se sustentará senão por breve tempo em confronto, porque o cristianismo se apresentará como portador de um verbo que dissolverá a visão grega do mundo e conduzirá o pensamento a outras margens. [34]

Filosofia - Filosofia Clássica
9/19/2021 4:47:49 PM | Por Lucius Annaeus Seneca
Sêneca saúda o amigo Lucílio: Dos cuidados com a saúde e com a paz de espírito

Adivinhas do que fugi para a minha proprieda­de em Nomento? Da cidade? Em verdade, da febre que me atacou de repente. O médico falava que a doença já estava instalada, meu pulso agitado e fora da batida normal. Dessa forma, rapidamente mandei preparar a carruagem. É verdade que a minha Paulina queria me impedir. Eu, no entanto, dizia para mim mesmo o di­tado de Galião que, ao ser atacado por uma febre em Acaia, logo embarcou, repetindo em voz alta que o mal não vinha dele, e sim daquele lugar mórbido.

Isso eu explicava para minha Paulina, sempre atenta à minha saúde. Como sei que sua vida depende da minha, para que possa cuidar dela, cuido antes de mim. Embora a velhice tenha me tornado mais forte para muitas coisas, estou perdendo este privilégio que nos traz a idade, pois lembro que existe neste velho um jovem, que é protegido. E, já que é impossível fazer com que ela me ame mais, ela consegue fazer com que eu ame a mim mesmo com mais cuidados.

É preciso, efetivamente, ser indulgente com os verdadeiros afetos e, quando as fraquezas físicas apare­cem, é necessário, por deferência aos seus, passar pelos mais cruéis sofrimentos, chamar a si a vida, às vezes, com grande tormento, reter em si o sopro da vida, uma vez que o homem de bem é obrigado a viver não o tempo que lhe apraz, mas, sim, o tempo que é o seu dever. Aquele que não crê que deve permanecer vivo pela esposa, pelo amigo, e se entrega à morte é um fraco. Entre os deveres da alma está manter-se vivo quando está envol­vido o interesse dos seus.

Ela queria ir-se, chegou até a ameaçar morrer, mas não faz isso, se rende às pessoas a quem ama. É merecedor de uma alma generosa retornar à vida por afeto a um outro, assim com o fizeram grandes homens. A perfeição humana atinge, penso, a total perfeição quando, ao renunciar ao privilégio da velhice, que é o de tornar-se mais negligente no trato pessoal, se atém à sua preservação, se estamos certos que tal conduta é cara, propícia e mesmo desejada aos seus.

Assim, tal coisa proporciona muita alegria, pois há algo mais agradável do que se sentir tão amado pela esposa a ponto de desejar ser mais cuidadoso consigo mesmo? Por isso, a minha querida Paulina pode me atribuir não apenas os temores delas, mas, sobretudo, os meus.

Desejas saber o que ganhei ao decidir a minha partida? Logo que deixei o ar poluído de Roma e o cheiro das cozinhas enfumaçadas que, quando a todo vapor, derramam, além da poeira, toda a gama de va­pores doentios, logo senti estar melhorando. Senti-me mais forte ainda ao chegar aos meus vinhedos! No bos­que, encontrei o meu alimento. Logo me recuperei e desapareceu aquela fraqueza que determinava os meus pensamentos. Recomeço a trabalhar cheio de ânimo.

A influência deste lugar não ajuda muito para esse efeito; é necessário que a alma esteja de posse total de si. Mesmo no centro do maior tumulto, ela pode, se quiser, criar para si solidão. No entanto, se com freqüência escolhe lugares especiais e o ócio, em qualquer lugar encontrará alguma coisa que a perturbe. Para aquele, segundo dizem, que reclamou a Sócrates não conseguir aproveita as suas viagens, o sábio replicou ser o ocorrido natural uma vez que aquele se levava sempre consigo.

Oh, como seria maravilhoso a alguns se conseguissem sair de si e não apenas dos lugares! O certo é que forçam, solicitam, corrompem e amedrontam a si próprios. De que adianta atravessar o mar, mudar de cidade? Como livrar-te dos males que te acometem indagas. Convém visitar outros lugares? Não; ser um outro eu. Imagina que estejas em Atenas, em Rodes. Elege livremente outra cidade qualquer. De que maneira te atingirão os costumes daquele lugar? Tu carregas os teus.

Julgas que as riquezas são um bem; a pobreza irá então te perturbar e, o que é mais grave, será apenas uma pobreza imaginária. Assim, toda a riqueza que tens se apresentará pequena se achares alguém mais rico, te sentindo em débito com relação ao que possui mais do que tu. Julgas um bem as honrarias; assim te causará mal-estar a eleição de um ou a reeleição de outro ao consulado. Sentirás inveja ainda que um mesmo nome poucas vezes se faça presente nas festas. Tamanho será o furor da ambição se imaginares sempre alguém à tua frente e nunca atrás de ti.

O pior dos males, para ti, é a morte, embora nada seja pior do que aquilo que a precede, ou seja, o temor. Tremerás diante do perigo e te agitarás em vão. Assim, de que adiantará “ter escapado de tantas cidades Argólicas e ter conseguido fugir através das forças inimigas?”*

Mesmo a paz te causará temor. Uma mente perturbada não confiará nem mesmo nos fatos mais óbvios, pois o sentimento incontrolável do medo, que ela sempre so­fre, acaba por torná-la totalmente insegura. Não evita o perigo, simplesmente foge dele; no entanto, dando as costas ao perigo estamos mais expostos a ele.

Não há maior desconforto, para ti, do que a perda daqueles que te são caros; porém, isso é tão absurdo quanto chorar pela queda das folhas das árvores de tua casa. A todos que te alegram, considera como as árvores que verdejam, deles desfrutando. “Mas hoje um, ama­nhã outro, todos cairão!” Da mesma forma que facil­mente ficas resignado com a queda das folhas, porque elas renascerão, assim deves considerar a perda dos que amas e que vês como a felicidade de tua vida, já que po­derão ser substituídos, embora não possam renascer.

“Mas não serão mais as mesmas!” E, por acaso, tu serás o mesmo? Todos os dias, todas as horas te mo­dificam. Na verdade, o que é roubado do outro de for­ma clara te escapa porque esse roubo ocorre de forma secreta. Os outros são roubados abertamente; nós, às ocultas. Tu, no entanto, não conseguirás refletir dessa maneira, nem colocarás remédio nas feridas; criarás di­ficuldades, seja esperando, seja perdendo. Se fores sábio em meio a toda essa confusão criada por ti, ameniza uma coisa com outra: não esperarás sem desespero, nem desesperarás sem esperança.

Que benefício pode trazer uma viagem a quem quer que seja? Jamais controlou prazeres, conteve pai­xões, reprimiu impulso de raiva, refreou ímpetos amo­rosos, nunca livrou a alma de qualquer um de seus males. Uma viagem jamais emitiu um julgamento ou desfez um erro. Seu efeito se iguala ao que uma criança sente quando se depara com o desconhecido, ou seja, diverte por um breve tempo enquanto é novidade.

De tudo, o espírito, que já é inconstante, é ainda mais atingido pelo mal; a agitação faz aumentar a sua necessidade de se mover por causa de sua instabilidade. Os lugares por onde se espalha com grande ardor logo são deixados de lado, assim como aquelas aves migrató­rias que retomam o seu rumo e voltam mais apressadas do que chegaram.

A viagem te dará o conhecimento dos povos, te fará observar diferentes formas de montanhas, locais que não são visitados pelos comuns, vales cavados por fontes incessantes, alguns rios que oferecem espetácu­los naturais, assim como o Nilo, com seu fluxo e refluxo no verão; assim com o o Eufrates, que some por completo para ficar sob a terra e ali traçar o seu curso invisível e dali aparecer em grande correnteza; também com o o Meandro, tema eterno dos poetas, que mistura suas curvas e, muitas vezes, perto de seu leito, curva-se, mais uma vez, antes de se fazer presente. No que diz respeito às demais coisas, a viagem não te fará melhor nem mais racional.

O campo de toda a atividade deve ser o estudo, e no meio dos sábios, para relembrar as verdades adqui­ridas e para descobrir novas. Assim, é dever retirar a alma de sua terrível escravidão, libertá-la. Enquanto ignorares o que deve ser evitado e deve ser procurado, o que é imprescindível e o que é supérfluo, o que é justo e o que é injusto, o que é honesto e o que não é honesto, jamais viajarás, serás apenas um errante.

Tua busca por aventuras de nada te será útil, pois viajas junto com tuas paixões, teu mal vai junto. Pu­desse ele não te seguir! Menos perto de ti ficariam tuas paixões, mas as levas contigo, as tens junto a ti. Dessa maneira, qualquer lugar te é incômodo; em todo lugar, em virtude da tua pouca disposição, elas te perturbam. Não é algo agradável à vista, mas um remédio necessá­rio ao doente.

Se alguém quebrou ou torceu a perna e não pode andar de carro ou barco, chama o médico para endi­reitar a fratura ou o músculo torcido. Mas e essa alma, quebrada e deslocada em tantos lugares, acreditas que as mudanças de lugar poderão recuperá-la? O ferimen­to é muito grave para ser curado a penas com uma mu­dança de lugar.

A viagem não cria um médico nem um orador; não se consegue aprender nenhuma arte apenas porque estamos em determinado lugar. Então, a mais impor­tante de todas as artes, a sabedoria, pode ser obtida em uma viagem? Nenhuma viagem, acredita, pode defender-te de tuas paixões, raivas, medos. Se fosse possível, toda a humanidade passaria em fila por ali. Tais males estarão junto a ti e te acompanharão por terras e mares enquanto estiveres carregando suas causas.

Ficas espantado por fugir em vão? Aquilo do que estás tentando te livrar está sempre junto a ti. Começa, portanto, a te corrigir, a livrar-te desse fardo. Põe um limite respeitável nesses desejos que devem ser elimi­nados. De tua alma retira toda a maldade. Se queres viagens agradáveis, cura aquilo que te acompanha. Se conviveres com os avarentos, a avareza te seguirá; se conviveres com os soberbos, o orgulho te seguirá. Teu mal jamais te abandonará se continuares freqüentando os ambientes nocivos, e a amizade com os adúlteros au­mentará o fogo da licenciosidade que há em ti.

Se queres te livrar desses vícios, é preciso livrar-te dos exemplos perniciosos. O avarento, o corrupto, o cruel e o velhaco fazem mal se estão próximos de ti, se estão em ti mesmo. Transita entre os melhores, com os Catões, com Lélio, com Tuberão. Se achares melhor, procura a companhia dos gregos, de Sócrates, de Zenão: um te ensinará a morrer quando se fizer necessá­rio; outro, a morrer antes que seja preciso.

Vive com Crisipo, com Posidônio, que te levarão ao conhecimento do divino e do humano, te mostra­rão como agir, a ser não apenas um sagaz orador, espa­lhando frases para o encanto dos ouvintes, mas sim ensinarão como revigorar a alma e proteger-se contra as ameaças. O único porto seguro nesta vida agitada e violenta é desprezar tudo o que acontece, manter-se firme em seus propósitos, receber de forma madura os golpes da sorte sem se perturbar ou se esquivar.

A natureza nos deu o dom da magnanimidade e, assim com o deu a alguns animais a ferocidade, a outros a astúcia e a outros mais o medo, deu-nos um espírito ilustre e elevado que nos estimula a procurar, em lugar de uma vida segura, uma vida honesta, semelhante à alma do universo que deve ser seguida e imitada tanto quanto possível pelos mortais. Ele, ao se expor, confia ao ser exigido e provocado.

Como senhor de todas as coisas, está acima de tudo. Assim, nenhuma atitude de subordinação lhe é permitida; nenhuma força pesará sobre si e fará abater um coração viril. “Formas terríveis de se ver, a morte e o sofrimento!”*; assim não seriam se fôssemos capazes de encará-las firmemente e revelar as trevas; à luz do dia, tornam-se risíveis aquelas coisas que nos atormentam durante a noite. “Formas terríveis de se ver, a morte e o sofrimento!” Nosso caro Virgílio não afirmou que são terríveis em si, mas sim terríveis de se ver, ou seja, o são apenas na aparência e não na realidade.

O que há nelas, pergunto, de tão terrível para ser difundido pela plebe? Diga-me, então, meu caro Lucílio, por que razão um homem digno de assim ser chamado teme o sofrimento, e um mortal, a morte? Encontro se­guidamente pessoas que acham impossível fazer aquilo para o qual se julgam incapazes e afirmam que nossos preceitos ultrapassam a capacidade humana.

Ah, tenho deles um a opinião melhor, pois podem tanto quanto os outros, apenas não tentam realizar. En­fim, quem não conseguiu após tentar? Quem não achou mais fácil na hora de cumprir a tarefa? As dificuldades não são a causa de nossa falta de audácia; é nossa falta de audácia que cria a dificuldade.

Se desejas um exemplo, dou-te o de Sócrates, um velho de grande resistência, perseguido por todas as di­ficuldades e, no entanto, invencível, seja pela pobreza, cujo fardo familiar tornava mais pesado, seja pelos rigo­res da guerra e mesmo pelos domésticos. Sua mulher? Uma megera de língua viperina. Seus filhos? Resistentes a todo ensinamento, mais parecidos com a mãe do que com o pai. Eis aqui um pouco de sua vida: uma guerra, uma tirania e uma liberdade mais cruel do que ambas.

Os combates duraram vinte e sete anos; termi­nadas as hostilidades, a cidade ateniense foi entregue a trinta tiranos, a maior parte deles inimigos do filó­sofo. O golpe final foi sua condenação, seguida de um processo no qual pesaram sobre ele sérias acusações graves. A cusavam-no de violar a religião, de corromper a juventude, levando-os a atingir os deuses, os pais de família e a República. Por fim, a prisão, o veneno. Tudo isso perturbava muito pouco a alma de Sócrates, tanto que seu semblante permanecia impassível. Percebe que elogio admirável e único! Até o seu fim, ninguém viu Sócrates mais alegre ou mais triste. Ele permaneceu constante frente a um destino tão inconstante.

Queres um outro exemplo? Eis um mais recente, o de Catão, o Jovem, contra o qual o destino se mostrou mais terrível e violento. Porém, resistiu a tudo sempre e, próximo da morte, demonstrou que um homem de coragem, embora perseguido pelo destino, sabe tanto viver como morrer. Toda a sua vida se desenrolou du­rante as guerras civis, ou em um período em que tais guerras já estavam iniciando. Dele pode-se dizer, assim com o de Sócrates, que manteve a liberdade na escravi­dão, a menos que julgues que Pompeu e Crasso fossem aliados na defesa da liberdade.

Ninguém viu Catão mudar enquanto a Repúbli­ca passava por alterações constantes. Ele se conservou o mesmo em todos os atos: como pretor, quando ex­pulso do cargo; como acusador, na província, diante da plebe; no exército, diante da morte. Resumindo, na crise pela qual a República passava, de um lado César, com o apoio de dez legiões, com as melhores tropas e com o apoio estrangeiro; de outro, Pompeu, totalmen­te só, mas forte o suficiente para encarar o que viesse. Enquanto alguns se voltavam para César e outros para Pompeu, Catão, sozinho, forma um partido - aquele da República.

Desejas imaginar esta época com o um quadro? Verás, então, de um lado a plebe e as massas popula­res prontas para a revolta; de outro, a aristocracia e a ordem dos cavaleiros - tudo o que havia de honrado e distinto - e, entre eles, os dois isolados: a República e Catão. Grande será a tua admiração ao ver “Agamênon e Príamo, e Aquiles furioso com ambos”A Assim como Aquiles, ele condena a ambos e procura desarmá-los.

Eis o julgamento que ele fazia dos dois: se César vencer, o caminho será a morte; se for Pompeu o vito­rioso, o exílio. O que tinha ele a temer se, vencendo ou sendo vencido, ele infligia a si os castigos de inimigos mais implacáveis? Dessa forma, por seu próprio decre­to, morreu.

Como vês, é possível suportar as piores fadigas. Ele conduziu a pé suas tropas pelos desertos da Áfri­ca. Podes ver que é possível suportar a sede, pois, sobre colinas ardentes, sem comboio, trazendo restos de um exército vencido, sofreu a falta de água, sempre sob sua couraça, e, quando achavam o que beber, sempre era o último a fazê-lo. Como podes perceber, é possível desprezar o poder e as ofensas. No dia em que fracassou na sua eleição, foi jogar péla na praça dos comícios. Pode-se deixar de temer os poderosos: ele provocou César e Pompeu ao mesmo tempo, em uma época na qual ninguém ousava desagradar a um a não ser que estives­ se buscando os favores de outro. Como vês, podem-se desprezar a morte e o exílio. Ele se impôs o exílio, a morte e, entre os dois, a guerra.

Podemos, então, demonstrar a mesma coragem contra as adversidades; basta ficarmos livres do jugo. Mas, antes de tudo, devemos abandonar os prazeres, aqueles que nos enfraquecem e nos levam a exigir de­ mais do destino. A seguir, deixemos de lado a riqueza que nos escraviza, larguemos o ouro, a prata e tudo o mais que cobre as casas dos que se dizem felizes. A li­berdade não nos é dada de graça. Se realmente a queres, o resto deve contar pouco. Passa bem!*

Filosofia - Filosofia Clássica
9/19/2021 4:46:56 PM | Por Lucius Annaeus Seneca
Sêneca saúda o amigo Lucílio: Dos benefícios da natureza

Cada vez que faço uma descoberta, não espero que me digas: “é nossa”; eu mesmo o digo. Indagas qual foi a descoberta? Abre a bolsa, é uma situação de muito lucro. Vou ensinar-te como ficar rico de forma rápida. Ficaste interessado! Não é para menos: vou, rapida­mente, conduzir-te às supremas riquezas. Será necessá­rio, no entanto, que tenhas um fiador. Para que faças o negócio, precisarás de um empréstimo, mas não quero que chegues a isso através de um intermediário, nem que as tuas dívidas sejam alardeadas pelos agiotas.

Tenho pronto para ti um credor, aquele que Ca­tão recomenda, ou seja, toma emprestado de ti pró­prio. Por menos que seja, suficiente será se aquilo de que necessitamos for pedido a nós mesmos. Não há, com certeza, nenhuma diferença, Lucílio, entre não de­sejar e possuir. Nos dois casos, o resultado é idêntico, isto é, não há sofrimento. Também não te recomendo que negues algo à natureza - ela é contumaz, não pode ser vencida e reclama o que lhe pertence - , mas que saibas que o excedente na natureza, longe de ser indis­pensável, apenas está a nosso dispor como algo a mais, não imprescindível.

Tenho fome: é preciso comer. Seja o pão feito com trigo de qualidade ou não, isso não importa. O que a natureza quer não é o deleite, e sim o estômago satis­feito. Tenho sede: que a água seja do reservatório mais próximo, ou seja aquela colocada entre blocos de neve para refrescar não interessa à natureza. O importante é matar a sede, esteja a água em copo de ouro, de cristal, de mirra*, de Tíbur ou na concha da mão.

Em tudo, leva em conta a finalidade das coisas, deixando de lado, portanto, o supérfluo. A fome castiga-me, pego o que está mais à mão; ela própria dará sabor ao que eu colher. O faminto não se ofende com nada.

Queres saber o que me causou prazer? Um dito que considero admirável: “O sábio é um pesquisador incansável das coisas naturais”. Fico a imaginar tua resposta: “Tu me presenteias com um prato vazio. O que isso quer dizer? Já estava pronto a abrir os cofres; já imaginava em que mares iria negociar; que impostos me beneficiariam; que mercadorias poderia exportar. É decepcionante: pregar a pobreza depois de haver prometido imensas riquezas!” Então, crês pobre aquele a quem nada falta? “Isso ele deve”, dizes tu, “a si pró­prio e à sua paciência, não à sorte.” Assim, não acredi­tas que ele seja rico apenas porque suas riquezas não podem acabar?

O que preferes: ter muito ou ter apenas o suficien­te? Aquele que tem muito deseja ter mais, o que prova não ser suficiente o que já possui. Aquele que possui o suficiente obteve o que o rico jamais poderá atingir, ou seja, o fim de seus desejos. Não julgas isso riqueza porque jamais alguém foi condenado por tal? Porque ninguém foi envenenado pelo filho ou pela esposa? Por que é tudo, na guerra e na paz, a tranqüilidade? Porque não traz perigo nem dá trabalho para administrar?

“Porém, é bem pouco não conhecer o frio, a fome ou a sede.” Júpiter mais não tem. Jamais é pouco o suficiente, jamais é muito o que não satisfaz. Alexandre, após vencer Dario e os persas, continua pobre. Estou enganado? Continua a buscar novas conquistas, a aventurar-se por mares desconhecidos, a enviar ao oceano frotas nunca vistas, pode-se dizer, a romper todas as fronteiras. Aquilo que é suficiente para a natureza não o é para esse homem!

Encontrou-se alguém que desejou mais após ter tudo - tão grande é a cegueira das mentes e o esqueci­mento que cada um tem de suas origens quando come­ça a enriquecer. Este homem, que há pouco era senhor de um pequeno território e ainda não reconhecido, ao atingir os confins da terra, se entristece por ser obriga­do a voltar através de um mundo que já lhe pertence.

O dinheiro nunca tornou alguém rico; ao contrá­rio, sempre causou mais cobiça. Queres saber por quê? É porque quem mais tem mais quer ter. Em resumo, traz até mim um homem que consideres do mesmo ní­vel de um Crasso ou de um Licínio; pede que mostre seus livros de contabilidade, que conte tudo o que pos­sui e ainda espera possuir. Este, na minha opinião, é um homem pobre; na tua, quem sabe, poderá vir a ser.

Mas aquele que se sujeitou às exigências da natu­reza está livre da sensação de pobreza e, além disso, não a teme. No entanto, para que saibas como é difícil res­tringir os próprios bens ao mínimo indispensável, esse a quem impusemos uma série de limitações, e a quem chamas de pobre, esse homem possui algo de sobra.

As riquezas, porém, deslumbram o povo, e uma casa é sempre atraída pelos olhares quando gasta muito ou é coberta, do chão ao teto, de muito ouro, ou, ainda, se depende de um grande número de escravos elegantes e bem-apresentados. A felicidade está, assim, posta às vistas do público; contudo, aquele a quem privamos do olhar do povo e do poder da fortuna possui a riqueza interior.

Na verdade, para aqueles a quem uma pobreza la­boriosa recebe o nome de riqueza, esses têm a riqueza tal como dizemos que alguém tem febre, quando é a fe­bre que nos tem. Pode-se dizer então, de forma inversa, “a febre apoderou-se dele”. Da mesma maneira, deve-se dizer “as riquezas apoderaram-se dele”. Eu tenho apenas um conselho a te dar (e que nunca repetirei o suficiente): avalia todas as coisas pelos desejos naturais, aqueles que podem ser satisfeitos de graça ou por pou­co preço; jamais confunde os vícios com os desejos.

Desejas saber em que mesa, em que prataria te será servida a refeição, se os escravos estarão bem-apresentáveis? À natureza nada mais importa do que o alimento. “Quando a sede te queima a garganta, pedes taça de ouro? E, quando tens fome, rejeitas tudo o que não seja pavão ou linguado?”*

A fome não é pretensiosa, ela quer apenas ser aplacada, não importando com o quê. Esses luxos são preocupações dos glutões, ou seja, como voltarão a se esfomear depois de estarem fartos; como voltarão a in­char a barriga mais do que enchê-la; como voltarão a provocar a sede após ter sido saciada com a primeira bebida. Horácio diz, de forma primorosa, que, para a sede, não importa o copo ou a elegância da mão que a sacia. Em verdade, se te interessa a cabeleira daquele que vai te servir, ou o brilho da taça que te é oferecida, não estás com sede.

Dentre outros benefícios, a natureza dotou-nos do principal, qual seja, livrar o fastio da necessidade.

O supérfluo admite opção: “Isto é pouco conveniente; aquilo não merece ser celebrado; este outro me fere os olhos.” O criador, ao ditar as leis da vida, desejou que mantivéssemos a opção para a nossa sobrevivência, e não para nos corromper. No primeiro caso, tudo estará à mão e de modo fácil; no segundo, as benesses serão obtidas à custa de sofrimento e de trabalho intenso.

Façamos uso, então, desse benefício da natureza, considerado como o melhor, e não esqueçamos que, se ela merece nosso reconhecimento, é, antes de tudo, porque nos permite consumir sem dificuldade aquilo que a necessidade nos faz desejar. Passa bem!

Filosofia - Filosofia Clássica
9/19/2021 4:36:56 PM | Por Giovanni Reale
As formas da vida espiritual grega que prepararam o nascimento da filosofia

Antes do nascimento da filosofia, os educadores incontrastados dos gregos foram os poetas, sobretudo Homero, cujos poemas foram, como se disse com justiça, quase a Bíblia dos gregos, no sentido de que a primitiva grecidade buscou alimento espiritual essencial e prioritariamente nos poemas homéricos, dos quais ex­traiu modelos de vida, matéria de reflexão, estímulo à fantasia e, portanto, todos os elementos essenciais à própria educação e for­mação espiritual.

Ora, os poemas homéricos, como há tempo se notou, contêm algumas dimensões que os diferenciam nitidamente de todos os poe­mas que estão nas origens dos vários povos e já manifestam algumas das características do espírito grego que criaram a filosofia.

Em primeiro lugar, foi bem observado que os dois poemas, construídos por uma imaginação tão rica e variada, transbordantes de maravilha, de situações e eventos fantásticos, não caem, senão raras vezes, na descrição do monstruoso e do disforme, como em geral acontece nas primeiras manifestações artísticas dos povos primitivos: a imaginação homérica já se estrutura segundo o sen­tido da harmonia, da eurritmia, da proporção, do limite e da medida, que se revelará, depois, uma constante da filosofia grega, a qual erigirá a medida e o limite até mesmo em princípios metafisicamente determinantes.

Ademais, observou-se também que, na poesia de Homero, a arte da motivação é uma constante, no sentido de que o poeta não narra só uma cadeia de fatos, mas busca, embora em nível fantástico-poético, as suas razões. Homero não conhece, escreve justamente Jaeger, “mera aceitação passiva de tradições nem simples narração de fatos, mas exclusivamente desenvolvimento interiormente necessário da ação de fase em fase, nexo indissolúvel entre causa e efeito [...]. A ação não se distende como uma fraca sucessão temporal: vale para ela, em [19] todos os pontos, o princípio de razão suficiente, cada evento recebe rigorosa motivação psicológica”1. Este modo poético de ver as coisas é exatamente o antecedente da pesquisa filosófica da “causa”, do “princípio”, do “porquê” das coisas.

E uma terceira característica da épica homérica prefigura a filo­sofia dos gregos: em ambos “a realidade é apresentada na sua to­talidade: o pensamento filosófico a apresenta de forma racional, en­quanto a épica a mostra de forma mítica. A ‘posição do homem no universo’, tema clássico da filosofia grega, está também presente a todo momento em Homero”2.

Enfim, os poemas homéricos foram decisivos para a fixação de determinada concepção dos deuses e do Divino, e também para a fixa­ção de alguns tipos fundamentais de vida e de caracteres éticos dos homens, os quais se tomaram verdadeiros paradigmas. Mas falaremos separadamente da importância deste fator porque, sobre este ponto, o discurso nos leva além de Homero e se estende a toda a grecidade.

Os deuses da religião pública e sua relação com a filosofia

Estudiosos afirmaram em várias ocasiões que entre religião e filosofia existem laços estruturais (Hegel dirá até mesmo que a re­ligião exprime pela via representativa a mesma verdade que a filo­sofia exprime pela via conceitual): e isso é verdade, seja quando a filosofia subsume determinados conteúdos da religião, seja, também, quando a filosofia tenta contestar a religião (neste último caso, a função contestatária permanece sempre alimentada e, portanto, con­dicionada, pelo termo contestado). Pois bem, se isso é verdade em geral, o foi de modo paradigmático entre os gregos.

Mas quando se fala de religião grega é preciso operar uma nítida distinção entre religião pública, que tem o seu mais belo modelo em Homero, e religião dos mistérios: entre a primeira e a segunda há [20] uma divisão claríssima: em mais de um aspecto, o espírito que anima a religião dos mistérios é negador do espírito que anima a religião pública. Ora, o historiador da filosofia que se detenha no primeiro aspecto da religião dos gregos, veta a si mesmo a com­preensão de todo um importantíssimo filão da especulação, que vai dos pré-socráticos a Platão e aos neoplatônicos, e falseia, por­tanto, fatalmente a perspectiva de conjunto. E isso aconteceu jus­tamente com Zeller e com o numeroso grupo dos seus seguidores (e, portanto, com o grosso da manualística que por longo tempo reafirmou a interpretação de Zeller).

O estudioso alemão soube indicar bem exatamente os nexos entre religião pública grega e filosofia grega (e, sobre este ponto nós reproduziremos as suas preciosas observações, que continuam paradigmáticas); mas depois caiu numa visão totalmente unilate­ral, desconhecendo a incidência dos mistérios, e em particular do orfismo, com as absurdas conseqüências que apontaremos.

Mas, por enquanto, vejamos a natureza e a importância da religião pública dos gregos e em que sentido e medida ela influiu sobre a filosofia. Pode-se dizer que, para o homem homérico e para o homem grego filho da tradição homérica, tudo é divino, no sentido de que tudo o que acontece é obra dos deuses. Todos os fenômenos naturais são promovidos por numes: os trovões e os raios são lançados por Zeus do alto do Olimpo, as ondas do mar são levantadas pelo tridente de Posseidon, o sol é car­regado pelo áureo carro de Apolo, e assim por diante. Mas também os fenômenos da vida interior do homem grego individual assim como a sua vida social, os destinos da sua cidade e das suas guerras são concebidos como essencialmente ligados aos deuses e condicionados por eles.

Mas quem são esses deuses? São — como há tempo se reco­nheceu acertadamente — forças naturais diluídas em formas hu­manas idealizadas, são aspectos do homem sublimados, hipostasiados; são forças do homem cristalizadas em belíssimas figuras. Em suma: os deuses da religião natural grega são homens ampli­ficados e idealizados', são, portanto, quantitativamente superiores a nós, mas não qualitativamente diferentes. Por isso a religião pública grega é certamente uma forma de religião naturalista. E tão naturalista que, como justamente observou Walter Otto, “a santidade aí não pode encontrar lugar”3, uma vez que pela sua [22] própria essência os deuses não querem, nem poderiam, elevar o homem acima de si mesmo. De fato, se a natureza dos deuses e dos homens, como dissemos, é idêntica e se diferencia somente por grau, o homem vê a si mesmo nos deuses, e, para elevar-se a eles, não deve de modo algum entrar em conflito com ele mes­mo, não deve comprimir a própria natureza ou aspectos da pró­pria natureza, não deve em nenhum sentido morrer em parte a si mesmo; deve simplesmente ser si mesmo.

Portanto, como bem diz Zeller, o que a Divindade exige do homem “não é de modo algum uma transformação interior da sua maneira de pensar, não uma luta com as suas tendências naturais e os seus impulsos; porque, ao contrário, tudo isso, que para o homem é natural, é legítimo também para a divindade; o homem mais divino é aquele que desenvolve do modo mais vigoroso as suas forças humanas; e o cumprimento do seu dever religioso consiste essencialmente nisso: que o homem faça, em honra da divindade, o que é conforme com a sua natureza”4.

Assim como foi naturalista a religião dos gregos, também “[...] a sua mais antiga filosofia foi naturalista; e mesmo quando a ética conquistou a preeminência [...], a sua divisa continuou sendo a conformidade com a natureza”5.

Isso é indubitavelmente verdadeiro e bem-estabelecido, mas ilumina apenas uma face da verdade.

Quando Tales disser que “tudo está cheio de deuses”, mover-se- á, sem dúvida, em análogo horizonte naturalista: os deuses de Tales serão deuses derivados do princípio natural de todas as coisas (água). Mas quando Pitágoras falar de transmigração das almas, Heráclito, de um destino ultraterreno das almas e Empédocles explicar a via da purificação, então o naturalismo será profundamente lesionado, e tal lesão não será compreensível senão remetendo-se à religião dos mistérios, particularmente ao orfismo.

Mas antes de dizer isso, devemos ilustrar outra característica essencial da religião grega, determinante para a possibilidade do nascimento da reflexão filosófica. [23] Os gregos não possuíam livros tidos como sagrados ou fruto de divina revelação. Eles não tinham uma dogmática teológica fixa e imodificável. (Nessa matéria, as fontes principais eram os poemas homéricos e a Teogonia de Hesíodo.) Conseqüentemente, na Grécia não podia haver sequer uma casta sacerdotal que custodiasse os dog­mas. (Os sacerdotes na Grécia tinham um poder muito limitado e uma escassa relevância, uma vez que, além de não terem a tarefa de custodiar e comunicar um dogma, não tinham nem mesmo a exclusividade de oficiar os sacrifícios.)

Ora, a falta de um dogma e de guardiães dele deixou a mais ampla liberdade à especulação filosófica, a qual não encontrou obs­táculos de caráter religioso semelhantes aos que se encontrariam entre os povos orientais, dificilmente superáveis. Justamente por isso os estudiosos destacam essa fortunosa circunstância histórica na qual se encontraram os gregos, única na antigüidade, e cujo alcance é de valor verdadeiramente inestimável.

A religião dos mistérios: incidência do orfismo sobre a constituição da problemática da filosofia antiga

O fato de uma religião dos mistérios ter florescido na Grécia constitui claro sintoma de que para muitos não bastava a religião oficial, ou seja, muitos não encontravam nela satisfação adequada para o autêntico sentido religioso.

Não nos interessa traçar aqui, nem mesmo sumariamente, uma his­tória das religiões mistéricas, dado que só o orfismo incidiu sobre a problemática filosófica de modo determinante. Os órficos consideravam como fundador do seu movimento o mítico poeta da Trácia, Orfeu (que, ao contrário do tipo de vida encarnado pelos heróis homéricos, teria cantado um tipo mais interior e espiritual de vida) e dele derivam o nome. Não sabemos a origem do movimento e como ele se difundiu na Grécia. Heródoto o faz derivar do Egito6; o que é impossível, porque os documentos egípcios não apresentam traços de doutrinas órficas e, ade­mais, o cuidado dos corpos e o seu embalsamamento contrasta nitidamente com o espírito do orfismo, que despreza o corpo como cárcere e grilhão da alma. O movimento é posterior aos poemas homéricos (que não apresentam nenhum traço dele) e a Hesíodo. É certo o seu flores­cimento ou reflorescimento no século VI a.e.c. O núcleo fundamental das crenças ensinadas pelo orfismo, despojadas das várias incrustações e amplificações que aos poucos se lhe acrescentaram, consiste nas seguin­tes proposições:

  1. No homem vive um princípio divino, um demônio, caído num corpo por causa de uma culpa originária.
  2. Esse demônio, preexistente ao corpo, é imortal e, portanto, não morre com o corpo, mas é destinado a reencarnar-se sempre de novo em corpos sucessivos através de uma série de renasci­mentos para expiar a sua culpa.
  3. A vida órfica, com as suas práticas de purificação, é a única que pode pôr fim ao ciclo das reencarnações.
  4. Por conseqüência, quem vive a vida órfica (os iniciados) goza, depois da morte, do merecido prêmio no além (a liberta­ção); para os não-iniciados há uma punição.

Note-se: muitos reconheceram que a doutrina da transmigra­ção das almas veio aos filósofos justamente através dos órficos. Porém nem todos tiraram as conseqüências que esse reconheci­mento comportava, as quais são da máxima importância.

Com o orfismo nasce a primeira concepção dualista de alma (=demônio) e corpo (=lugar de expiação da alma): pela primeira vez o homem vê contrapor-se em si dois princípios em luta um contra o outro, justamente porque o corpo é visto como cárcere e lugar de punição do demônio. Enfraquece-se a visão naturalista da qual fala­mos no parágrafo anterior e, assim, o homem começa a compreender que nem todas as tendências que percebe em si são boas, que algu­mas, ao contrário, devem ser reprimidas e comprimidas, e que é necessário purificar o elemento divino nele existente do elemento corpóreo e, portanto, mortificar o corpo.

Com isso estão lançadas as premissas de uma revolução de toda a visão da vida ligada à religião pública: a virtude dos heróis homéricos, a areté tradicional, deixa de ser a verdadeira virtude; a vida passa a ser vista segundo uma dimensão totalmente nova.

Ora, sem o orfismo não conseguiremos explicar Pitágoras, Heráclito, Empédocles, e, naturalmente, Platão e tudo o que dele deriva. E [24] quando Zeller objeta que as crenças órficas, nesses filósofos, simples­mente se acrescentam às suas teorias científicas e que nestas “ninguém poderia encontrar uma lacuna se aquela [a fé órfica] faltasse”7, demons­tra simplesmente que se põe contra a história. De fato, justamente na Sicília e na Magna Grécia, onde o orfismo foi particularmente florescen­te, as escolas filosóficas assumiram características diferentes com relação às escolas que floresceram na Asia Menor, e levantaram uma pro­blemática em parte diferente e criaram até mesmo uma têmpera teórica diferente. E se é verdade que os filósofos itálicos não saberão operar uma perfeita síntese entre doutrinas científicas e fé órfica, é igualmente verdade que se tirássemos daqueles as doutrinas órficas, perderíamos exatamente o que, justapondo-se num primeiro momento às dou­trinas naturalistas, levará, num segundo momento, à sua superação. E quando Zeller escreve ainda ulteriormente: “Só em Platão a fé na imor­talidade é fundada filosoficamente, mas dele dificilmente se poderá pensar que tal crença ser-lhe-ia impossível sem os mitos que por ela opera”8; também nesse caso Zeller se põe contra a verdade histórica, porque de fato é verificável que Platão começa a falar de imortalidade quando começa a falar dos mitos órficos. E será justamente a solicitação da visão órfica que levará Platão a empreender sua “segunda navegação”, vale dizer, a via que o levará a descobrir o mundo do supra-sensível.

As condições políticas, sociais e econômicas que favoreceram o nascimento da filosofia entre os gregos

Muito insistiram os historiadores na peculiar posição de liberda­de que distingue o grego dos povos orientais. O oriental estava preso a uma cega obediência ao poder religioso e ao poder político. No que diz respeito à religião, já vimos de que liberdade o grego gozava. Quanto às condições políticas, o discurso é mais complexo; todavia pode-se dizer que o grego gozou, também nesse campo, de uma situação de privilégio. Com a criação da polis, o grego não sentiu mais nenhuma antítese entre o indivíduo e o Estado e nenhum limite [25] à própria liberdade e, ao contrário, foi levado a compreender-se não acidentalmente, mas essencialmente como cidadão de determinado Estado, de determinada polis. O Estado se tornou e se manteve até a era helenística como o horizonte do homem grego e, portanto, os fins do Estado foram sentidos pelos cidadãos individuais como os seus próprios fins, o bem do Estado como o próprio bem, a grandeza do próprio Estado como a própria grandeza, a liberdade do próprio Estado como a própria liberdade.

Mas, concretamente, dois são os fatos políticos “que dominam sobre os outros”9, como bem o nota Zeller, no progresso da civili­zação grega anterior ao surgimento da filosofia:

  1. o nascimento de ordenamentos republicanos e
  2. a expansão dos gregos para o Orien­te e para o Ocidente com a formação das colônias. Esses dois fatos foram decisivos para o surgimento da filosofia.

Quanto ao primeiro ponto, Zeller adverte: “Nos esforços e nas lutas dessas revoluções políticas [que levaram os gregos das velhas formas aristocráticas de governo às formas republicanas e democrá­ticas] todas as forças deviam ser despertadas e exercitadas; a vida pública abria passagem à ciência, e o sentimento da jovem liberdade devia dar ao espírito do povo grego um impulso, do qual não podia ficar de fora a atividade científica. Se, pois, contemporaneamente à transformação das condições políticas, e em meio a vivas disputas, foi posto o fundamento do florescimento artístico e científico da Grécia, não se pode desconhecer a conexão dos dois fenômenos; pelo contrário, a cultura é, por isso mesmo, entre os gregos, plena­mente e da maneira mais aguda, o que ela será sempre em qualquer vida sadia de um povo: ao mesmo tempo, fruto e condição da liber­dade”10.

Mas deve-se notar um fato, que confirma isso da melhor manei­ra (e com isso nos ligamos ao segundo dos fenômenos da história grega acima recordados): a filosofia nasceu antes nas colônias que na mãe pátria; nasceu antes nas colônias do Oriente da Ásia Menor, em seguida nas colônias do Ocidente da Itália meridional, só mais tarde refluindo para a mãe pátria.

Por que isso aconteceu? Porque, como há tempo se notou, as colônias puderam, com a sua operosidade e com o seu comércio, alcançar o bem-estar e, portanto, a cultura. E por causa de certa mobilidade que a distância da mãe pátria lhes deixava, puderam também dar-se livres constituições antes daquela.

Foram as condições socioeconômicas mais favoráveis das colô­nias que permitiram o nascimento e o florescimento nelas da filoso­fia, a qual, depois, tendo passado à mãe pátria, alcançou os mais altos cimos, não em Esparta ou noutras cidades, mas justamente em Atenas, isto é, na cidade onde existiu, como o próprio Platão reco­nheceu, a maior liberdade da qual os gregos gozaram.

Filosofia - Filosofia Clássica
9/19/2021 4:32:14 PM | Por Giovanni Reale
O nascimento da filosofia na Grécia

A “filosofia”, seja como indicação semântica (isto é, como termo lexical), seja como conteúdo conceitual, é uma criação peculiar dos gregos. De fato, se para todos os outros componentes da civilização grega encontra-se idêntico correlativo junto a outros povos do Oriente — os quais alcançaram, antes dos gregos, níveis de progresso muito elevados —, não se encontra, ao invés, idêntico correlativo da filoso­fia ou, pelo menos, algo assimilável ao que os gregos e, posterior­mente, com os gregos, todos os ocidentais, chamaram de “filosofia”.

Crenças e cultos religiosos, manifestações artísticas de natureza diversa, conhecimentos e habilidades técnicas de diferentes espécies, instituições políticas, organizações militares existiam seja nos povos orientais que chegaram à civilização antes dos gregos, seja entre os gregos, e, conseqüentemente, é possível fazer confrontos (embora den­tro de certos limites) e estabelecer se e em que medida os gregos, nesses âmbitos, podem ser ou são efetivamente devedores dos povos do Oriente, e se pode estabelecer em que medida os gregos superaram os povos do Oriente nos vários domínios. No que diz respeito à filosofia, porém, encontramo-nos diante de um fenômeno tão novo que, como dissemos, não só não há entre os povos orientais idêntico correlativo, mas nem mesmo algo que analogicamente comporte comparação com a filosofia dos gregos ou que a prefigure de modo inequívoco.

Destacar isso significa, nem mais nem menos, reconhecer que, nesse campo, os gregos foram criadores, ou seja, que deram à civiliza­ção algo que ela não tinha e que, como veremos, revelar-se-á de alcan­ce revolucionário tal, que mudará o rosto da própria civilização. Por isso, se a superioridade dos gregos com relação aos povos orientais em outros âmbitos é — para dizer com uma imagem simplificadora — de natureza meramente quantitativa, no que se refere à filosofia a sua superioridade é de natureza qualitativa. E quem não tenha bem presen­te isso não conseguirá compreender por que a civilização de todo o Ocidente tomou, sob o impulso dos gregos, uma direção completamente [11] diferente dos rumos da civilização do Oriente; e não compreenderá por que a ciência só pôde nascer no Ocidente e não no Oriente. Ade­mais, não compreenderá por que os orientais, quando quiseram bene­ficiar-se da ciência ocidental e dos seus resultados, tiveram de apro­priar-se, em larga medida, também das categorias ou pelo menos de algumas categorias essenciais da lógica ocidental. Com efeito, foi pre­cisamente a filosofia a criar essas categorias e essa lógica, ou seja, um modo de pensar totalmente novo, e foi a filosofia a gerar, em função dessas categorias, a própria ciência e, indiretamente, algumas das prin­cipais conseqüências da ciência. Reconhecer isso significa reconhecer aos gregos o mérito de terem trazido uma contribuição verdadeiramente excepcional à história da civilização; por isso devemos justificar de maneira crítica o que dissemos e aduzir provas bem circunstanciadas.

Inconsistência da tese de uma presumível derivação da filosofia do Oriente

Na verdade, não faltaram — seja da parte de alguns dos antigos, seja da parte de modernos historiadores da filosofia, especialmente na era romântica, e da parte de ilustres orientalistas — tentativas de sus­tentar a tese de uma derivação da filosofia grega do Oriente, com base em observações de gênero diverso e de variado alcance; mas nenhum deles teve sucesso, e a crítica mais rigorosa, já a partir da segunda metade do século XIX, levantou uma série de contra-argumentos que, hoje em dia, podem ser considerados objetivamente incontestáveis. [12]

Examinemos, antes de tudo, como surgiu na antigüidade a idéia de uma presumível origem oriental da filosofia grega. Em primeiro lugar, deve-se notar que os primeiros a sustentar a derivação oriental da filo­sofia grega foram justamente os orientais, movidos por intenções que bem poderíamos chamar de nacionalistas: visavam tirar dos gregos e reivindicar para o próprio povo o particularíssimo título de glória que foi a descoberta da mais elevada forma de saber. De um lado, foram os sacerdotes egípcios que, no tempo dos Ptolomeus, ao travar conheci­mento com a especulação grega, pretenderam sustentar ser ela um de­rivado da sabedoria egípcia precedente. De outro lado, foram os he­breus de Alexandria, que absorveram a cultura helenística, a pretender sustentar uma derivação da filosofia grega das doutrinas de Moisés e dos profetas contidas na Bíblia. Mais tarde, os próprios gregos deram crédito a essas teses. O neopitagórico Numênio escreverá que Platão não é senão um “Moisés aticizante” e muitos outros sustentarão teses análogas, particularmente os neoplatônicos da última fase, ao defender a tese de que as doutrinas dos filósofos gregos não seriam mais que elaborações de doutrinas nascidas no Oriente e recebidas originalmente pelos sacerdotes orientais por divina inspiração dos deuses.
Mas essas afirmações não possuem qualquer base histórica, pelas seguintes razões:

  1. Na época clássica, nenhum dos gregos, nem os historiadores nem os filósofos, faz o mínimo aceno a uma presumível derivação da filosofia do Oriente. Heródoto (que faz derivar o orfismo, contra toda evidência, dos egípcios) não diz nada; Platão, mesmo admiran­do os egípcios, sublinha o seu espírito prático e antiespeculativo, em contraste com o espírito teórico dos gregos, e Aristóteles atribui aos egípcios unicamente a descoberta das matemáticas.
  2. A tese da origem oriental da filosofia encontrou crédito na Grécia somente a partir do momento em que a filosofia perdeu seu vigor especulativo e a confiança em si mesma e buscava não mais na razão, mas numa revelação superior, a própria fundação e justificação. [13]
  3. De outro lado, a filosofia grega, tendo-se tornado na última fase uma doutrina mística e ascética, podia facilmente encontrar analogias com certas doutrinas orientais anteriores e, portanto, crer na sua dependência delas.
  4. Por sua vez, egípcios e hebreus puderam encontrar coincidên­cias entre a sua “sabedoria” e a filosofia grega somente com a interpretação alegórica bastante arbitrária dos mitos egípcios ou das nar­rações bíblicas.

E por que os modernos afirmaram poder defender a tese das ori­gens orientais da filosofia? Em certa medida, porque acolheram como válidas as afirmações dos antigos, das quais falamos acima, sem dar-se conta da sua falta de credibilidade, não levando em conta o que acima afirmamos. Porém, de modo mais genérico, porque acreditaram descobrir analogias de conteúdo e tangências ideais entre determinadas doutrinas dos povos orientais e certas doutrinas dos filósofos gregos. Seguindo tal via, os estudiosos se deleitaram em inferir fantasiosas conclusões, que, com Gladisch, chegaram ao limite. Este estudioso alemão (que recordamos porque o paroxismo ao qual levou a tese sobre a qual refletimos representa de modo paradigmático a falta de criticidade à qual se chega seguindo certos critérios) pretendeu até mesmo poder concluir, do exame das concordâncias internas, que os cinco principais sistemas pré-socráticos derivavam, com poucas variações, dos cinco principais povos orientais, a saber:

  • o sistema pitagórico da sabedoria chinesa;
  • o sistema eleata da sabedoria indiana;
  • o siste­ma heraclitiano da sabedoria persa;
  • o sistema empedocliano da sa­bedoria  egípcia e
  • a filosofia de Anaxágoras da sabedoria judaica.

Concordamos que, levadas a tais extremos, essas teses se tornam fantasias romanescas; mas permanece o fato de que, embora atenu­adas, circunstanciadas e nuançadas, mesmo perdendo as característi­cas fantasiosas, permanecem igualmente puras conjeturas que, ade­mais, não apresentam fundamento histórico e têm contra si os se­guintes dados factuais bem precisos, que as esvaziam:

  1. É historicamente demonstrado que os povos orientais com os quais os gregos tiveram contato possuíam convicções religiosas, mitos teológi­cos e cosmológicos, mas não possuíam uma ciência filosófica no verda­deiro sentido da palavra; possuíam, nem mais nem menos, aquilo que os [14] próprios gregos possuíam antes de criar a filosofia: as descobertas arque­ológicas vindas à luz não autorizam de modo algum ir além disso.
  2. Em segundo lugar, mesmo dado (mas não concedido) que os povos orientais com os quais os gregos entraram em contato tivessem doutrinas filosóficas, a possibilidade da sua transferência para a Grécia não seria facilmente explicável. Escreveu justamente Zeller: “Quando se considere quão estreitamente os conceitos filosóficos, especialmente na infância da filosofia, estão ligados às expressões lingüísticas; quan­do se recorde quão escasso era o conhecimento de línguas estrangeiras entre os gregos, e de outro lado quão pouco os intérpretes, normalmen­te preparados só para relações comerciais e para a explicação das curiosidades, seriam capazes de levar à compreensão de um ensinamento filosófico; quando se acrescente que da utilização de escritos orientais por parte dos filósofos gregos e de traduções de tais escritos nada nos é dito, nem de longe, que mereça fé; quando se pergunte, ademais, por que meios as doutrinas dos hindus e de outros povos da Ásia oriental teriam podido, antes de Alexandre, chegar à Grécia: então se dará conta das proporções da dificuldade da questão”. E note-se que não vale a objeção de que os gregos, apesar disso, puderam extrair dos orientais certas crenças e cultos religiosos e tam­bém certas artes pelo menos no nível empírico: de fato, tais coisas são bem mais fáceis de comunicar à medida que, diferentemente da filoso­fia, como sublinha Burnet, não exigem nem uma linguagem abstrata nem o veículo de homens instruídos, sendo mais que suficiente a sim­ples imitação. Escreve Burnet: “Não conhecemos, na época da qual nos ocupamos, nenhum grego que soubesse a língua oriental bastante bem para ler um livro egípcio ou mesmo para ouvir um discurso de um sacerdote egípcio, e é só em época muito posterior que ouvimos falar de mestres orientais que escrevem ou falam grego”.
  3. Em terceiro lugar (e parece-nos que isso não foi até agora adequadamente observado), muitos estudiosos que pretendem destacar coincidências entre a sabedoria oriental e a filosofia grega, mes­mo sem dar-se perfeitamente conta, são vítimas de ilusões óticas à [15] medida que, de um lado, entendem as doutrinas orientais em função de categorias ocidentais, e, de outro, colorem as doutrinas gregas com tintas orientais, de modo que as correspondências são, em últi­ma análise, pouco ou nada dignas de fé.
  4. Enfim, mesmo que se pudesse demonstrar que certas idéias de filósofos gregos efetivamente têm antecedentes nas sabedorias orien­tais e se pudesse historicamente provar que elas beberam daquelas fontes, tais correspondências não modificariam a substância do pro­blema: a filosofia, a partir do momento em que nasceu, na Grécia, representou uma nova forma de expressão espiritual tal que, no ins­tante mesmo em que subsumia conteúdos frutos de outras formas de vida espiritual, transformava-os estruturalmente. Esta última obser­vação nos permite compreender outro fato interessantíssimo, isto é, como e por que, por obra dos gregos, se transformaram essencialmen­te aquelas mesmas artes e conhecimentos particulares, matemáticos e astronômicos, respectivamente, dos egípcios e dos babilônios.

A peculiar transformação teórica das cognições egípcias e caldaicas operada pelo espírito dos gregos

Que os gregos tenham derivado as suas primeiras cognições matemáticas e geométricas dos egípcios está fora de dúvida. Mas, como bem observa Burnet, por obra dos gregos elas se transforma­ram radicalmente.

Como podemos observar por um papiro da coleção de Rhind, a matemática egípcia devia consistir prevalentemente na determinação de operações de cálculos aritméticos com finalidades essencialmente práticas (mensuração dos cereais e dos frutos, determinação dos modos de dividir certas quantidades de coisas entre certo número de pessoas etc.) e, apesar do que se disse em contrário, isso corresponde bem ao que Platão observa nas Leis, recordando como eram ensinadas as operações aritméticas às crianças nas escolas egípcias.

Analogamente, a geometria tinha principalmente um caráter práti­co (como se pode deduzir do mesmo papiro de Rhind e de Heródoto), [16] qual seja a mensuração dos campos depois das inundações do Nilo, a construção das pirâmides e semelhantes. Mas a matemática como teoria geral dos números e a ciência geométrica teoricamente fundada e de­senvolvida foram criações dos pitagóricos. E, quanto à objeção de al­guns estudiosos a Burnet, de ter cavado um fosso muito nítido e, por­ tanto, arbitrário entre interesse prático (dos egípcios) e interesse teórico (dos gregos) e de ter operado uma cisão em si ilícita entre os dois interesses, porque à medida que os egípcios souberam determinar as regras práticas explicitaram também atividade teórica; pois bem, por inegável que seja isso, resta todavia o fato de que o destaque do mo­mento propriamente teórico e a purificação especulativa dos problemas matemático-geométricos foram próprios dos gregos; e o mesmo proce­dimento racional com o qual fundaram a filosofia permitiu-lhes purifi­car a matemática e a geometria e levá-las a um nível especulativo.

Raciocínio análogo vale para a astronomia dos babilônios, os quais, como foi notado há tempo, estudaram os fenômenos celestes com finalidades astrológicas, para fazer previsões e predições e, portanto, com finalidades utilitaristas e não propriamente científicas e especulativas. E, embora se tenha sublinhado como nas concepções da astrologia caldaica estivessem implícitos conceitos especulativos muito importan­tes, como por exemplo a idéia de que o número é instrumento de conhecimento de todas as coisas, a idéia de que todas as coisas estão ligadas por uma íntima conexão e, portanto, a idéia da unidade do todo e talvez também a idéia do caráter cíclico do cosmo e outras semelhan­tes; pois bem, permanece contudo sempre verdadeiro o ponto acima afirmado, isto é, que aos gregos cabe o mérito de ter explicitado esses conceitos, e eles puderam fazer isso em virtude do seu espírito especu­lativo, vale dizer, em virtude do espírito que criou a filosofia.

Conclusões

No estado atual da pesquisa, não se pode falar de derivação da filosofia ou da ciência especulativa do Oriente. Certamente os gregos extraíram dos povos orientais com os quais tiveram contato noções de diverso gênero, e sobre esse ponto as pesquisas poderão progressiva­mente trazer à luz novos fatos e novas perspectivas. Um ponto, po­rém, é incontestável: os gregos transformaram qualitativamente [17] aquilo que receberam. Por isso apraz-nos concluir com Mondolfo (o qual, note-se, insistiu muitíssimo na positividade e importância das influ­ências orientais sobre os gregos e sobre a fecundidade espiritual de tais influências): “[...] essas assimilações de elementos e de impulsos culturais [vindos do Oriente] não podem enfraquecer de modo algum o mérito de originalidade do pensamento grego. Ele operou a passa­gem decisiva da técnica utilitária e do mito à ciência desinteressada e pura; ele afirmou por primeiro sistematicamente as exigências lógi­cas e as necessidades especulativas da razão: ele é o verdadeiro cria­dor da ciência como sistema lógico e da filosofia como consciência racional e solução dos problemas da realidade universal e da vida”.

Mas isto que estabelecemos abre um problema ulterior: existem razões que explicam no todo ou em parte como e por que justamente os gregos e não outros povos, que chegaram à civilização antes deles, criaram a filosofia e a ciência?

Devemos agora responder a este problema. [18]

Filosofia - Filosofia Clássica
9/15/2021 10:53:24 AM | Por Lucius Annaeus Seneca
Sêneca saúda o amigo Lucílio: Da eternidade da alma

Ensina, tu, com razão, a elevar o pensamento para a imensidão. Uma coisa muito grande e generosa é a alma humana. Ela não tolera mais limites do que aque­les que são comuns à divindade. Por princípio, não aceita uma pátria no sentido restrito do termo, Éfeso ou Alexandria, ou qualquer outro lugar, caso exista, de maior população ou maiores construções. Sua pátria compreende tudo o que é rodeado pelo universo até os confins mais distantes, é tudo o que se encontra sob a abóbada celeste, os mares e as terras, onde o ar sepa­ra e une ao mesmo tempo o mundo dos deuses e dos homens, onde as divindades, cada uma em seu posto, cumprem uma missão específica.

Além disso, não permite que restrinjam a sua du­ração. “Todos os anos são meus”, diz ela, “não existe época proibida aos grandes espíritos; não há idade inalcançável ao pensamento. Quando surgir o dia em que se dividirá o que é humano e divino, este corpo ficará ali mesmo onde foi encontrado e me reunirei aos deu­ses. Mesmo agora não estou longe deles; apenas ainda sou detida pela existência terrestre.”

Tais esperas da vida mortal são apenas um pre­lúdio para uma outra existência, melhor e mais durá­vel. Da mesma forma como durante nove meses somos abrigados e preparados pelo ventre materno não para si, mas para onde deve nos lançar quando já somos capazes de respirar e viver ao ar livre, assim, durante esse período que vai da infância à velhice, amadurecem os para um outro nascimento.

Um outro nascimento nos aguarda, uma outra ordem das coisas. Ainda não podemos suportar o céu senão de longe, por isso prevê com coragem a hora de­cisiva não para a alma, mas para o corpo. A tudo que te rodeia, olha como móveis em um quarto de hospe­daria, pois estás de passagem. A natureza despoja tanto quem entra quanto quem sai.

Não te é permitido levar mais do que tens, e até o que trouxeste para a vida ao nascer aqui deverá ser deixado. Perderás a pele, o mais superficial de teus en­voltórios; perderás a carne e o sangue que corre pelo teu corpo; perderás os ossos e os nervos, aquilo que sus­tenta as partes informes e flácidas de teu corpo.

Esse dia que temes como o último será o de teu nascimento para a eternidade. Deposita o teu fardo. Por que hesitas, como se já não estivesses fora de um cor­po no qual estavas escondido? Hesitas, resistes. Tam­bém foste expulso com grande força do corpo de tua mãe. Gemes, choras como quando nasceste. O choro é próprio daquele que nasce, mas, na época, eras inex­periente e ignorante, podias ser perdoado. Ao saíres do aconchegante esconderijo do ventre materno, um ar fresco soprou sobre ti, depois sentiste o contato de uma mão rude e, ainda tenro e inexperiente, sentiste o estupor do desconhecido.

Agora, já não é novidade para ti apartar-te daqui­lo de que antes fazias parte. Abandona com serenidade estes membros que já não te servem mais e deixa este corpo que por tanto tempo habitaste. Ele será destruí­do, vai sumir, acabará. Por que ficas triste? É assim, também se tira a membrana que recobre o recém-nas­cido. Por que te apegas tanto a estas coisas como se tuas fossem? Apenas estás coberto por elas. Dia virá em que elas serão tiradas e, então, estarás liberto desse ventre repugnante e infecto.

Desde já, te desfaz desse invólucro e, livre de tudo o que te prende e que não é necessário, pensa, desde agora, em planos mais altos e mais sublimes. Um dia, os segredos da natureza te serão revelados, a névoa que te encobre será retirada e serás iluminado por uma brilhante luz. Imagina o fulgor das luzes de inúme­ros astros juntas em um único feixe. Nenhuma sombra abalará tal serenidade. O céu resplandecerá como um todo. O dia e a noite só ocorrem em nossa inferior atmosfera. Então, poderás dizer que viveste nas trevas, quando, em toda a plenitude, puderes contemplar a to­talidade da luz que agora apenas espreitas pelas frestas de teus olhos. O que dizer quando perceberes que isso que agora te encanta nem de longe se eqüivale à luz di­vina que vais contemplar em lugar desta?

Tal pensamento não permite que deposites no fundo de tua alma nenhuma baixeza ou crueldade. Ele nos faz perceber que os deuses são testemunhas de tudo. Faz com que possamos merecer a sua aprovação, prepara-nos para a sua presença futura e para que não percamos de vista a eternidade. Aquele que firmou em sua alma esse propósito não teme nenhum exército, ne­nhuma ameaça o deixa inquieto. Quem espera a morte nada teme.

Até mesmo aquele que pensa que a alma só existe enquanto presa ao corpo e que, quando este se dissolve, ela se esvai junto faz tudo para ser útil mesmo após a morte. E isso ocorre porque, ainda que tenha sido tirado da vista de todos, “a grande virtude do varão e a grande honra de sua raça continuam a viver em nos­so espírito”.* Pensa no quanto nos são úteis os bons exemplos e saberás que igualmente úteis são a presença e a memória dos grandes homens. Passa bem!

Filosofia - Filosofia Clássica
9/15/2021 10:48:10 AM | Por Lucius Annaeus Seneca
Sêneca saúda o amigo Lucílio: Da futilidade de planejar o futuro

Cada dia, cada hora mostram-nos o pouco que valemos e qualquer outra importante situação relem­bra nossa fragilidade esquecida. Nós, que sonhávamos com a eternidade, somos obrigados a encarar a morte. Perguntas o porquê dessa introdução? Vê bem, conheceste Cornélio Senecião, brilhante cavaleiro ro­mano e homem honrado? Sendo de origem humilde, fez fortuna com esforço próprio e abriu um longo ca­minho de sucesso. Com certeza, para a ascensão social, são essas premissas que contam.

E, do mesmo modo, o dinheiro chega lentamente onde há pobreza e permanece enquanto dela provém. Da mesma forma, Senecião alcançou a riqueza graças a duas qualidades indispensáveis nesse domínio: a arte de adquirir e a arte de conservar. Tanto um a coisa como outra era suficiente para torná-lo rico.

Esse homem, de uma extrema sobriedade e que administrava da mesma maneira a sua pessoa e fortu­na, veio visitar-me pela manhã com o de hábito. Passou todo o resto do dia e parte da noite à cabeceira de um amigo enfermo, condenado. Depois de haver jantado alegrem ente, foi acometido de u a crise aguda de angi­na e, a custo, sobreviveu até a madrugada. Assim, pou­cas horas após ter cumprido seu dever de um homem de bem, ele morreu.

Ele, que estava investindo na terra e nos mares, que entrou para a vida pública, que se aventurou em todos os tipos de negócio, estando em plena realização de suas atividades financeiras, foi repentinamente ar­rancado dessa vida. “Agora, Melibeu, enxerta as perei­ras, põe em ordem as videiras”.* Que bobagem fazer planos para o futuro quando não sabemos nem do dia seguinte. Que tolice planejar grandes projetos para o futuro. “Eu comprarei, construirei, farei em préstimos, cobranças, ocuparei cargos importantes. Depois, já idoso e cansado, me entregarei ao ócio.”

Creia-me, tudo isso é incerto mesmo para os mais felizes. Ninguém deveria fazer promessas para o futuro. Mesmo o que já possuímos pode nos escapar e, nessa hora, que pensamos estar bem, um mal pode nos arra­sar. O tempo transcorre segundo leis imutáveis, é certo, mas obscuras. E que me importam as certezas da natu­reza se eu permaneço na incerteza?

Longas navegações e tardios retornos à pátria ao final de aventuras em lugares estrangeiros, esses são nossos projetos. E o trabalho de soldado e seu esforço tardiamente remunerado, as promoções. Durante esse tempo, a morte está ao nosso lado, mas como não pen­samos nela senão com relação a outro, a idéia de nossa mortalidade, passo a passo a nós ensinada, não causa efeito senão enquanto dura a surpresa.

Há tolice maior do que ficar admirado de ver acontecer o que pode ocorrer a qualquer dia? Com certeza, há um limite já fixado para nós pelo destino, mas esse final nenhum de nós sabe enquanto está vivo ou quão próximo está. Preparemos nossa alma, então, com o se esse fim estivesse nos atingindo. Não deixem os nada para mais tarde. Acertemos nossas contas com a vida dia após dia.

O defeito maior da vida é ela não ter nada de completo e acabado, e o fato de sem pre deixarmos algo para depois. Aquele que sabe levar sua vida no dia-a- dia não precisa do tempo. Essa necessidade aparece, bem como o medo do futuro, da fome desse futuro que corrói a alma. Nada é pior do que se indagar a propó­sito do que está por vir: “Para onde isso vai me levar? Quanto tempo me resta e como será minha vida?” É isso que agita uma mente atemorizada.

Como fugir dessa inquietação? Há apenas uma maneira: não deixando nossa vida na pendência de um futuro incerto, mas que se concentre nela mesma. Em verdade, só se concentram no futuro aqueles que estão insatisfeitos com o presente. Ao contrário, se eu estiver satisfeito com o que tenho, quando a mente souber que não existe diferença entre um dia, a alma visualizará, do alto, o conjunto dos dias e dos acontecimentos que estão por vir e apenas sorrirá. De que maneira a incons­tância e a mudança do acaso podem perturbar aquele que permanece estável na instabilidade?

Portanto, meu caro Lucílio, trata de viver cada dia como se fosse uma vida inteira. O homem que está as­sim preparado, aquele que viveu cada dia de sua vida plenamente, está tranqüilo. Contudo, quem vive na esperança do amanhã deixa escapar o presente. Assim, se aproxima de um desejo insaciável acompanhado de um sentimento miserável que torna as coisas mais mi­seráveis, ou seja, o pavor da morte. Daí o vil desejo de Mecenas, que não recusa as enfermidades, aceita as de­ formações e ainda ser pregado na cruz, contanto que, através desses sofrimentos, possa continuar a viver:

Faz de mim um maneta,
Estropiado de uma perna, reumático
Coloca em minhas costas uma corcova
Faz cair meus dentes:
Enquanto me restar vida, está bem;
Mesmo na cruz, sobre a estaca, conserva a minha vida.

Isso, se acontecesse, seria o cúmulo da miséria e é esse o desejo dele! Acredita estar pedindo a vida, mas apenas está prolongando um tormento. Já o considera­ria bastante desprezível se desejasse viver até ser crucifi­cado, mas ainda diz: “Podem me aleijar, desde que ainda me reste um sopro de vida em meu corpo mutilado e impotente. Deixa-me aleijado e disforme, mas permita que eu viva um pouco mais. Podes até me crucificar e colocar em uma estaca!” Vale a pena aumentar o sofrimento, ficar dependurado com os braços abertos, tudo isso para adiar o que o suplício tem de melhor, o seu fim? Vale a pena conservar a alma para extingui-la no sofrimento? Que se pode desejar a esse homem senão que obtenha a complacência dos deuses?

O que significa esse vergonhoso poema, digno de um covarde? Esse pacto de pavor e loucura? Essa maneira ignóbil de mendigar a vida? Como imaginar que, diante de tal homem , Virgílio tenha lido um dia este verso: “É um mal assim tão grande o fato de mor­rer?”* Ele deseja os piores suplícios, os mais penosos sofrimentos, deseja ardentemente que se prolonguem, que continuem. O que pode ganhar com isso? Viver um pouco mais? Mas que tipo de vida é essa morte lenta?

Vê-se, então, um homem que prefere se afundar em suplícios, que prefere morrer membro a membro e exalar sua vida gota a gota a deixar escapar, de uma vez por todas, seu último suspiro? Vê-se um homem que deseja ser pregado na cruz, que quer ficar muito doente, deformado, sofrendo, com o peito e os ombros feridos, e que ainda quer um sopro de vida em meio a toda essa tortura? Penso que já teria muitos motivos para morrer mesmo antes de ir para a cruz.

Não digas, portanto, que a necessidade de mor­rer não seja um benefício da natureza. Muitos estão preparados para pactos ainda mais abjetos, até para trair um amigo a fim de conservar a vida, a deixar os filhos na prostituição para desfrutar de uma luz que é testemunha de tantos crimes. Deixemos, pois, de lado a paixão pela vida e saibamos que importa pouco quando sofreremos aquilo que nos está reservado. O que real­mente importa é viver bem, e não viver muito. Muitas vezes, o melhor é que a vida não dure muito tempo. Passa bem!

Filosofia - Filosofia Clássica
9/11/2021 3:50:05 PM | Por Odsson Ferreira
Entendendo Platão, um suprassumo em 5 minutos

Platão, o mais "nobre" dos discípulos de Sócrates, foi o seu mais fiel defensor e o que mais fez referências a ele, a tal ponto que os estudiosos chegam a ter certa dificuldade em separar as suas ideias e conceitos das de Sócrates, que nunca escreveu nada. Platão tornou-se assim, a voz socrática que ecoa ao longo dos milênios. Platão nasceu em berço de ouro no V século antes da era comum mais precisamente em 428, e morreu em 347. Sua educação, como a de qualquer cidadão de família aristocrática, foi voltada ao governo e a guerra, educado nas letras clássicas e nos esportes, fato comprovado pelo seu epiteto "Platão" que significa “costas largas”. Platão era o filósofo atleta. Não há relatos sobre sua vida amorosa, diferentemente de Aristóteles que era conhecido por seu amor ao sexo feminino.

Platão fora fortemente abalado e influenciado pelo julgamento, condenação e execução de Sócrates, fato que considerava até certo ponto como sua própria culpa.

Como já foi dito, a obra de Platão foi fortemente orientada pelos "sermões" de Sócrates, mas também o fora pelos trabalhos de Parmênides e Heráclito. Era muito preocupado com a corrupção do sistema democrático ateniense e em certa altura, abandonou a política e a cidade se tornando consultor de reis e monarcas pela Hélade. Afirmava categoricamente que era necessário refazer o Estado, assentando sua base na Justiça e na Ética, pois como filósofo racionalista, afirmava que a fonte do conhecimento verdadeiro é o intelecto puro, independentemente dos sentidos, vemos aqui as influências de Sócrates.

Depois da experiência malfadada na Sicília, quando chegou a ser vendido como escravo, voltou para Atenas e fundou a Academia, a primeira Universidade do ocidente.

O sistema defendido por Platão era divido em três partes:

Conhecimento científico, o conhecimento verdadeiro.
Comportamento ético, virtude, o que é o Homem justo?
Política, quais as características de um Estado justo?

Conhecimento científico

Platão defendia a Teoria das ideias ou formas, onde haviam dois tipos de conhecimento: o do mundo sensível, e o do mundo inteligível.

O conhecimento do mundo sensível é relacionado a Heráclito e é o mundo dos sentidos; do senso comum (Doxa); um tipo de conhecimento raso e superficial que priva o saber apenas ao que o individuo sente ou experimenta através de seus sentidos como a visão, tato, olfato, audição e paladar. Este é o mundo empírico (emperia, ou seja a experiência). Nesse sentido para Platão, a realidade é apenas uma ficção, pois os sentidos nos enganam. Os sentidos ficam apenas na superfície do que de fato existe, funcionando assim como uma barreira que dificulta chegar a realidade verdadeira. Nosso mundo é na verdade um rascunho da realidade, onde cada elemento é uma cópia irregular do conceito, da ideia ou essência, que existe apenas no mundo inteligível.

O Conhecimento do mundo inteligível é relacionado a Parmênides. Aqui não existem emoções ou paixões na busca do conhecimento. Apenas o intelecto pode acessar essa dimensão e contemplar o que é Invisível aos sentidos e visível apenas a razão. Platão afirmava que nessa instância os conceitos não são criados por nós, sendo alcançados apenas por nossa inteligência. A realidade é a ideia, a essência que só pode ser atingida pelo intelecto e não pelos sentidos. Dessa forma, Platão defende uma dialética ascendente, onde os sentidos chocam-se com o pensamento racional. É preciso questionar, duvidar, contestar os sentidos para se alcançar uma verdade que já está presente desde o nascimento. Platão é filosofo inatista, pois para ele o conhecimento é inato e a psique e o intelecto já existiam no mundo inteligível antes do mundo sensível fazendo com que o papel da educação seja o de recordar aquilo que foi esquecido.

Comportamento ético

Para Platão havia uma tripartição da alma composta pela Alma racional, que é o equivalente da classe governante de seu Estado ideal (os magistrados), é a cabeça que governa o corpo; a Alma irascível (militares), que é responsável pelas emoções, a defesa da honra e que não consegue controlar a si mesma; e a Alma concupiscível (trabalhadores e comerciantes), que é responsável pelos desejos, pelos prazeres, e bens materiais e que também não consegue controlar a si mesma.

O indivíduo sábio, como o Estado ético, é aquele onde a Alma racional governa todo esse sistema. Uma pessoa ou Estado governado por suas emoções ou desejos é um indivíduo/sociedade desequilibrado, que inevitavelmente está fadado aos equívocos do mundo sensível, e portanto, longe do verdadeiro conhecimento: o conhecimento dos conceitos e essências.

Política

Platão, talvez influenciado pelo sistema espartano, defendia uma educação rígida onde as crianças deveriam pertencer ao Estado e não aos seus pais. Logo após os 7 anos de idade, todo menino e menina deveria ser entregue ao sistema educacional para que fosse educado(a) e assim no futuro ocupar a classe a qual terá aptidão e/ou direito. Em seu sistema de Estado perfeito, não havia diferença entre gêneros, assim sendo as mulheres deveriam ocupar em pé de igualdade todos os cargos e assumir todas as responsabilidades de um homem, algo impensável e até bizarro para os atenienses do século V e IV.

Para Platão a pirâmide do Estado ideal era composta por: trabalhadores e comerciantes, na base, classe preenchida por aqueles que descobriam essa aptidão no primeiro teste de sua vida educacional, aos 12 anos; pelos militares, no meio, classe preenchida pelos que se encaixassem na segunda prova de aptidão realizada aos 20 anos de idade; e pelos magistrados, no governo, pessoas anciãs que atingiam esse nível devido ao mérito de serem aprovadas no último teste aos 50 anos e se formarem sábias, conhecedoras das verdades da vida e por tanto, aptas a governar. Dessa forma, o Estado ideal de Platão era uma Sofocracia ou Aristocracia, um Estado justo governado pelos sábios e orientado pela Ética.

O fato mais notável na política de Platão é o seu ataque a democracia, pois para ele, um governo de "qualquer um" deixa o Estado susceptível aos equívocos do domínio dos militares (emoções) e/ou comerciantes (desejos), fazendo dessa sociedade uma organização injusta, governada pela tirania militar, ou pela barganha comercial. Um comerciante ou empresário jamais governaria e legislaria de forma neutra e idônea, sendo tentado a se corromper e a defender a sua própria classe e interesses pessoais. Um militar jamais governaria sem o uso da força e do estado de terror e intimidação. Por esse motivo ele acreditava que a democracia é um sistema destinado a ser corrupto, se colapsar e por fim se tornar uma tirania, pois apenas um "super homem", assim reconhecido pela sociedade ignorante, possuiria “super poderes” para colocar ordem ao caos, que seria o destino óbvio de um Estado injusto e em desequilíbrio.

Influências

A influência do pensamento de Platão foi e ainda é esmagadora na sociedade ocidental pós-moderna, herdeira direta do pensamento clássico. Tornou-se senso comum chamar tudo que é perfeito de "platônico". O amor platônico, por exemplo, seria o amor romântico, fogo fátuo do prazer dos amantes. Um equívoco bizarro, já que o amor para Platão era justamente o contrário, pois para ele o homem/mulher perfeitos eram orientados ao desapego, ou pelo menos ao controle total dos impulsos do desejo. O verdadeiro amor platônico é o amor ao conhecimento, a essência, a pureza do conceito no mundo inteligível e não tem nada a ver com reprodução da espécie ou prazer hedônico da carne.

Há também o exemplo do cristianismo, religião usurpadora por excelência que já havia se apoderado e se inspirado nos preceitos egípcios e zooratristas mas que viu no pensamento platônico uma oportunidade ideal de unir os "desejos" de um mundo justo, no céu, para aqueles que eram marginalizados e excluídos pelas outras religiões, como bandidos, doentes, mendigos, mulheres etc. Santo Agostinho durante a idade média dedicou a sua vida a ligar o cristianismo ao pensamento socrático e platônico com a finalidade de dar uma base, um vigor intelectual a fé cristã. Lembro-me, com horror, em uma aula sobre Teorias da Educação, quando o professor que discorria sobre Platão foi interrompido por um aluno e colega que questionou se Platão fora influenciado pelo cristianismo, pois segundo esse colega, a religião era atemporal e ancestral estando além das influências culturais e do desenvolvimento da história humana. Para mim foi um desses momentos em que sentimos vergonha pelo outro. Infelizmente o nível de esclarecimento da maior parte da população brasileira é muito baixo, e onde há vazio de conhecimento, há espaço para as mais exóticas ideologias.

Filosofia - Filosofia Clássica
9/9/2021 8:00:09 PM | Por Lúcia Sá Rebello
Sêneca saúda o amigo Lucílio: Da velhice

Por toda parte, vejo sinais da minha velhice. Fui à minha casa de campo e me lamentei das despesas extraordinárias do edifício já em ruínas. O zelador dis­se-me que não era culpa de sua negligência, pois ele fez tudo o que era possível, mas a propriedade é velha. Esta vila foi construída por mim: qual será o meu futuro se tão podres estão as pedras do meu tempo?

Irritado com ele, aproveito o primeiro pretex­to para descarregar a minha raiva: “É evidente”, digo, “que estes plátanos estão descuidados: não têm folhas, os ramos estão secos e cheios de nós, quão tristes e ári­dos os troncos! Isso não aconteceria se alguém cavasse em torno, se lhe regasse”. Ele jura pelo meu gênio* que faz todo o necessário, que não deixa de cuidá-los, mas são árvores já muito velhas. Que isto fique entre nós: eu as plantara, eu vira suas primeiras folhas.

Olho para a porta e pergunto: “Quem é este de­crépito dado ao ócio? Por que está na porta? Onde o encontraste? Para que recolher um morto que não é nosso?”E o homem diz a ele:“Não me reconheces?Sou o Felício, aquele que presenteavas sempre com estatue­tas de argila; sou filho do zelador Filósito, eu era o teu preferido”. Eu afirmei: “Este homem está delirando! O [20] meu preferido tornou-se criança novamente? Mas, sim, pode ser, pois vejo que os dentes estão caindo.”

Devo isto à visita a minha vila: onde quer que eu fosse, parecia-me evidente a minha velhice. A barque­mos e amemos a velhice: é cheia de prazeres, se sabe­mos fazer uso dela. Agradabilíssimos são os frutos de uma estação; a infância é mais bela quando está por terminar; o último gole de vinho é o mais agradável aos que gostam de beber, aquele que entorpece, que dá à embriaguez o impulso final.

De cada prazer, o melhor é o fim. É doce a idade avançada, mas não ainda sob a decrepitude, e também eu penso que o período extremo da vida tem os seus prazeres ou, ao menos, no lugar dos prazeres, não sentir mais necessidade deles. Como é doce ter se cansado e abandonado os desejos!

“É triste, porém, ter a morte diante dos olhos”. Em primeiro lugar, tanto os velhos a têm diante dos iilhos quanto os jovens. Não somos chamados de acordo com a idade e, além disso, ninguém é tão velho que não possa esperar mais um único outro dia. Um único dia é o tamanho da vida. A existência inteira é feita de tantas partes como círculos, em que os grandes contêm os pequenos e há um que os abraça e encerra a todos, que vai do nascimento à morte. Há um círculo que separa os mós da adolescência, outro que tem dentro de si toda a Infância; depois chega o ano que reúne em si todos os instantes, cuja multiplicação forma a completude da vida. Um círculo mais estreito contém o mês, uma curva mais reduzida ainda encerra o dia, que também vai de ter início a um fim, da aurora ao poente.

Por isso Heráclito, o qual por sua linguagem foi chamado de “obscuro”, disse: “Um dia é igual a todos [21] os outros”.* Essa frase é interpretada de modos diferen­tes. De acordo com alguns, é igual em número de horas, e isto é verdade: se o dia é de vinte e quatro horas, todos os dias devem ser iguais entre si, porque as horas per­didas do dia são ganhas à noite. De acordo com outros, um dia é igual a todos porque se assemelham; também em um só dia se pode encontrar, de fato, um espaço de tempo muito grande, luz e noite se tornam iguais nas mudanças do céu, onde a noite é ora mais breve, ora mais longa. Por isso, cada dia deve ser organizado como se fosse o último e concluísse a nossa vida.

Pacúvio**, que se instalou na Síria com todos os poderes, com vinho e banquetes fúnebres, celebrava suas próprias exéquias (funerais), era levado da mesa à cama entre os aplausos dos seus convidados que can­tavam uma música.*** Nenhum dia deixava de realizar esse ritual. Aquilo que Pacúvio fazia como espetáculo nós devemos fazer imbuídos de honestidade. Vamos para a cama dormir e alegres digamos: “Vivi e percor­ri o curso que a sorte me destinou!”.**** Se um deus nos conceder um amanhã, aceitemos com alegria. É verda­deiramente feliz e dono de si o que espera o amanhã sem preocupação; aquele que diz “vivi” recebe mais um dia como lucro.

Mas já devo concluir a carta. “Assim”, dirás, “vem a mim sem nenhum presente?” Não tenhas medo: leva algo contigo. Por que digo algo? Muito!

O que seria [21] mais importante que a palavra que recomendo que te entregue? “Mal é viver na necessidade, mas não há ne­nhuma necessidade de viver sob a necessidade”*. Por que não? Por toda parte se abrem caminhos breves e laceis para a liberdade. Agradeçamos aos deuses porque ninguém pode ser mantido na vida: é possível se libertar das próprias necessidades.

“De Epicuro”, dizes, “é essa afirmação. O que tem uma outra escola a ver com a nossa?” Tudo o que é ver­dadeiro também é meu. Continuarei a te fazer ingerir Epicuro, para que os que juram sobre palavras de outro e avaliam não o que é dito, mas quem o diz, saibam que as coisas melhores fazem parte do patrimônio comum . Passa bem! [23]

Filosofia - Filosofia Clássica
9/9/2021 7:54:21 PM | Por Lúcia Sá Rebello
Sêneca saúda o amigo Lucílio: Da solidão dos filósofos

“Tu me aconselhas a evitar a multidão”, escreves, "e que me afaste e me contente com a minha consciência? Onde estão aqueles teus preceitos que recomendam morrer em ação?” O quê? Pensas que estou te aconse­lhando à inércia? Eu me refugiei e fechei as portas para poder ser útil a mais gente. Nunca passo um só dia no ócio, dedico parte da noite aos estudos. Não me aban­dono ao sono, mas sucumbo, e continuo no trabalho com olhos caídos e cansados pela vigília.

Eu me afastei não apenas dos homens, mas tam­bém das coisas, e em primeiro lugar das minhas: ajo no interesse da posteridade. Escrevo para transmitir adver­tências salutares, por exemplo, receitas de medicamen­tos úteis, que experimentei como eficazes em minhas próprias feridas, as quais, se não se curaram completa­mente, ao menos não se alastraram mais.

Mostro aos demais o caminho certo, que conheci tarde e cansado de tanto vaguear. Clamo que evitem o que agrada à plebe, que vem do acaso; que per­maneçam desconfiados e temerosos diante de todo bem fortuito. Tanto as feras quanto os peixes deixam - se apanhar por alguma esperança tola. Pensas que essas coisas são presentes do destino? São ciladas. Qualquer um que queira ter uma vida segura deve evitar o mais possível essas armadilhas que nos traem e nos tornam infelizes. Pensando tê-las, somos fisgados por elas. Esse curso conduz ao precipício; e o resultado dessa vida que [17] quer se sobressair é cair. E, depois, não se pode resistir: quando a felicidade começa a nos desviar do bem, der­ruba os bons, um por um, ou todos de uma vez; a sorte não causa ruína a ninguém, mas faz cair e despedaça.

Segue, pois, esta sã e salutar forma de vida: con­cede ao corpo apenas o que for suficiente para um bom estado de saúde. É necessário tratá-lo com severidade para que não desobedeça à mente: a comida deve acal­mar a fome, o beber, a sede, as roupas devem proteger do frio, a casa, ser abrigo contra o mau tempo. Não importa se foi construída com taipa ou com mármore importado: saiba que um teto de palha abriga o homem tão bem quanto o de ouro. Despreza tudo o que um trabalho supérfluo estabelece com o enfeite e requinte; pensa que nada é extraordinário a não ser a alma e que, para uma alma grande, nada é grande.

Digo estas coisas a mim mesmo, digo-as aos pósteros; e não te pareço mais útil do que se me apresen­tasse como advogado, ou para selar os testamentos, ou pusesse minhas mãos e voz a serviço de algum candi­dato ao senado? Acredita-me, quem menos parece agir faz coisas maiores, pois trata simultaneamente das coi­sas humanas e divinas.

Mas já é tempo de concluir esta carta e de dar a minha contribuição como disse no início. Não o farei com o que é meu, uso mais uma vez o sábio Epicuro, de quem, hoje, li estas palavras: “Consagra-te à filosofia se desejas ser verdadeiram ente livre”. Não espera o dia seguinte para se modificar quem a ela se submete e é fiel, pois, de fato, esse mesmo servir à filosofia é a liberdade.

Provavelmente me perguntarás por que eu cito tantas belas frases de Epicuro, ao invés daquelas dos estóicos: mas por que pensas que são de Epicuro e [18] não do patrimônio comum? Quantos poetas expri­mem conceitos já formulados ou que deveriam ser for­mulados pelos filósofos! Não mencionarei os trágicos nem os nossos dramas, que têm uma certa gravidade e estão entre a tragédia e a comédia. Quantos versos eloqüentíssimos são ouvidos entre os comediantes! Quan­tas frases de Publílio Siro deveriam ser recitadas não pelos atores cômicos, e sim pelos trágicos! 

Recordo que também tu expressaste o mesmo conceito melhor e com mais concisão: “Não é teu isto que a sorte fez teu”. Mas quero citar esta tua outra ainda melhor: “Um bem que pode ser dado tam­bém pode ser tomado”.

Isso não te dou como pagamento: devolvo-te um bem que já era teu. Passa bem!

Filosofia - Filosofia Clássica
Todos os textos
Os deuses do Sol
Templo do Sol de Konarak | World Heritage Sites

Na costa leste da índia existe um templo em Konarak (Templo do Sol) dedicado ao deus védico do Sol, Surya. O templo foi projetado na forma de uma imensa carruagem; como Hélio e muitos outros deuses do Sol, Surya precisava de uma carruagem para levá-lo pelo céu em suas viagens diárias. As paredes dos templos são decoradas com 12 rodas de pedra, cada uma com cerca de três metros (dez pés) de altura e oito raios. Como o círculo zodiacal, originalmente chamado de Casa da Lua pelos babilônios, o círculo eventualmente foi associado com o culto solar. Para os hindus e os celtas, o círculo foi mais do que apenas um símbolo solar - era o centro cósmico de seu mundo. Alguns deuses do Sol são retratados com raios irradiando de suas cabeças, ou rodeados por halos. Shiva tem uma auréola de chamas, enquanto Apolo e Mitra são descritos frequentemente com halos místicos. O dourado, cor do Sol, simbo­liza a eternidade e a incorruptibilidade. Para os astecas, o ouro era a luz de seu deus, e para os egípcios a carne dos deuses.

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2/9/2021 6:04:10 PM | MenteCérebro, n.197
Maconha como remédio

Realizou-se em abril [2014] na Universidade de Campinas uma ampla discussão sobre drogas, culminando no debate de três questões provocativas: Maconha faz bem? Maconha faz mal? Devemos legalizar a maconha? Mil pessoas participaram com entusiasmo, refletindo o crescente interesse sobre o assunto. Nem o mais otimista dos ativistas imaginaria que a causa da legalização da maconha poderia avançar tão rapidamente quanto nos últimos meses.

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9/5/2020 11:20:25 AM | História Viva, n. 49
Galileu Galilei na Inquisição

Com Galileu, houve uma dissidência entre os cientistas. Meio a contragosto, é verdade. Porque, animado por uma fé profunda, Galileu nunca ousou negar a existência de Deus, ou menosprezar a autoridade da Igreja. Bem longe disso. Sua erudição e eloquência persuasiva conquistaram o respeito da cúria romana que, deve-se acrescentar, jamais fez segredo de seu interesse pelas descobertas científicas.

História - Itália
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Duas almas residem no meu peito, cada uma delas anseia da outra se apartar. Uma rude me arrasta ao prazeres mundanos, e a este mundo se agarra com tenacidade. A outra ascende aos ares, e às esferas rarefeitas quer se alçar.

Johann Wolfgang von Goethe
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Janus e a porta da paz
Janus, o deus das aberturas

Jano era o deus romano das aberturas e entradas de todas as espécies. Era representado como tendo duas caras, olhando cada uma na direção oposta da outra. Em termos de localização, era o deus da passagem das portas e dos cruzamentos, e as nascentes dos rios e ribeiros eram sagradas para ele. Era também o deus dos viajantes, esses que atravessam fronteiras por terra e por mar. Em termos de tempo, era o deus do crepúsculo e da aurora, as passagens entre a noite e o dia, e da transição de mês para mês e de ano para ano. O primeiro mês do ano, janeiro, derivou do seu nome. Em Roma, as portas do seu santuário estavam abertas quando era declarada guerra e fechadas em tempo de paz (um evento muito raro na história de Roma), Este era também o deus dos inícios. Os Romanos acreditavam que todos os inícios eram cruciais para o sucesso de qualquer aventura, e consideravam-nos como portais para o futuro. Contava-se com a bênção de Jano no início de cada dia, mês e ano.

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Mitos e lendas
3/6/2021 2:48:34 PM | Atena
Atena, Zeus e Métis

Alguns helenos dizem que Atena teve um pai chamado Palas, um gigante alado libidinoso que mais tarde tentou viola-la, cujo nome ela adicionou ao seu, depois de arrancar-lhe a pele (para fazer a égide) e as asas (para coloca-las em seus próprios ombros). Isso se a égide não foi feita da pele da górgona Medusa, que, depois de decapitada por Perseu, foi esfolada por Atena.

Há quem diga que seu pai foi Itono, rei de Iron, em Ftiótide, cuja filha Iodâmia ela matara acidentalmente, ao deixa-la ver a cabeça da gorgona, transformando-a, assim, em um bloco de pedra ao adentrar seu santuário inadvertidamente a noite.

Contam ainda que Posídon era seu pai, mas que ela o teria renegado, pedindo a Zeus que a adotasse, o que ele fez com prazer.

Mas os próprios sacerdotes de Atena contam a seguinte historia sobre o seu nascimento: Zeus desejava com ardor a titânida Metis, que, para escapar de seu. assedio, se transfigurou em variadas formas, até que, finalmente, ele a agarrou e a engravidou. Um oraculo da Mãe Terra declarou, então, que o nascituro seria uma menina e que, se Metis engravidasse mais uma vez, daria à luz um filho fadado a depor Zeus, assim como Zeus depusera Cronos e como este havia deposto Urano. Portanto, apos seduzir Metis, atraindo-a para o seu leito com palavras melífluas, Zeus, de repente, abriu a boca e a engoliu, e esse foi o fim de Metis, embora ele, depois, alegasse que ela lhe dava conselhos de dentro do seu ventre. No devido tempo, Zeus foi tomado por uma intensa dor de cabeça enquanto caminhava às margens do lago Tritão, tão intensa que seu crânio parecia prestes a explodir. Ele berrou furiosamente, até que seu grito ressoou por todo o firmamento. Logo veio Hermes, que adivinhou imediatamente a causa do desconforto de Zeus e persuadiu Hefesto - ou Prometeu, segundo outra versão - a trazer sua cunha e seu malho e fazer uma brecha no crânio de Zeus, através da qual saiu Atena, toda armada, com um ressonante grito de guerra.

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J. E. Harrison descreveu corretamente a história do nascimento de Atena a partir da cabeça de Zeus como um desesperado expediente teológico para livrá-la de suas condições matriarcais. É também uma insistência dogmática sobre a sabedoria como uma prerrogativa masculina; até agora, só a deusa havia sido sábia. Hesíodo conseguiu, de fato, reconciliar três visões conflituosas em sua historia:

I. Atena, a deusa-cidade dos atenienses, era a filha partenogenica da imortal Metis, titânida do quarto dia e do planeta Mercúrio, que governava toda a sabedoria e todo o conhecimento;

II. Zeus engoliu Metis, mas sem perder com isso sua sabedoria (ou seja, os aqueus suprimiram o culto aos titãs e atribuíram toda a sabedoria a seu deus Zeus);

III. Atena era a filha de Zeus (ou seja, os aqueus insistiram para que os atenienses reconhecessem a supremacia patriarcal de Zeus).

Harrison tomou emprestado o mecanismo de seu mito de exemplos análogos: Zeus perseguindo Nemesis; Cronos engolindo seus filhos e filhos; o renascimento de Dionísio a partir da coxa de Zeus; e a abertura da cabeça da Mãe Terra feita por dois homens com machados, aparentemente para libertar Core - como a que está retratada, por exemplo, num jarro de azeite na Biblioteca Nacional de Paris. Depois, Atena torna-se a porta-voz obediente de Zeus, suprimindo deliberadamente seus próprios antecedentes. Ela emprega sacerdotes, e não sacerdotisas.

Palas, que significa "virgem", é um nome inadequado ao gigante alado, cujo atentado contra a castidade de Atena e provavelmente deduzido de uma imagem de uma cena de seu casamento ritual, em que ela aparece como Atena Láfria ao lado de um rei-bode, depois de um duelo armado com sua rival. Esse costume líbio do casamento com o bode alastrou-se pelo norte da Europa como parte das festividades do Dia de Maio. Os akans, um povo líbio, costumavam esfolar seus reis.

O repúdio à paternidade de Posídon por parte de Atena refere-se a uma mudança precoce na supremacia da cidade de Atenas.

O mito de Itono ("homem-salgueiro") representa a alegação, por parte dos itonianos, de que eles veneravam Atena antes mesmo dos atenienses. O nome de Itono demonstra que Atena teve um culto ao salgueiro em Friótide - assim como teve sua contraparte, a deusa Anata, em Jerusalém, até ser expulsa pelos sacerdotes de Jeová, a quem designaram o salgueiro fazedor de chuva como sua árvore, durante a Festa dos Tabernáculos.

Estaria condenado a morte o homem que removesse uma égide - a túnica de castidade feita de pele de cabra e usada pelas meninas líbias - sem o consentimento de sua proprietária: daí a existência da máscara gorgônea profilática colocada por cima dela, bem como da serpente escondida no saco, ou bolsa, de couro. Mas, tendo em vista que a égide de Atena é descrita como um escudo, sugiro em The White Goddess (p. 279) que ela seja um invólucro de saco para um disco sagrado, como aquele que continha o segredo alfabético de Palamedes, e do qual ele seria o inventor. Estatuetas cirenaicas segurando discos de tamanho proporcional ao do famoso disco de Festo, que tem marcada sobre ele, em forma de espiral, uma lenda sagrada, antecipam, segundo o professor Richter, Atena e sua égide. Os escudos heróicos, tão bem descritos por Homero e Hesíodo, parecem ter gerado pictogramas gravados numa faixa em espiral.

lodamia, que provavelmente significa "novilha de lo", teria sido uma antiga imagem de pedra da deusa-Lua, e a história de sua petrificação constitui uma advertência, a meninas curiosas, contra violar os Mistérios.

Seria um equívoco pensar que Atena fosse apenas ou predominantemente a deusa de Atenas. Numerosas acrópoles antigas lhe foram consagradas, inclusive Argos (Pausanias:11. 24. 3), Esparta (ibid.: 3. 17. 1), Tróia (Iliada vi. 88), Esmir (Estrabão: IV 1. 4), Epidauro (Pausanias: II. 32. S), Trezena (Pausanias: III. Z3. 10) e Feneus (Pausanias: X. 38. 5). Todos esses lugares são pré-helênicos.

Mitologia Grega
3/6/2021 2:41:17 PM | Urano
A Castração de Urano

Urano gerou os titãs com a Mãe Terra depois de haver atirado seus filhos rebeldes, os ciclopes, ao Tártaro, um lugar sombrio no mundo subterrâneo, que fica tão distante da Terra quanto a Terra do céu. Uma bigorna levaria nove dias caindo ate atingir o seu fundo. Por vingança, a Mãe Terra persuadiu os titãs a atacar o pai, e foi o que fizeram, liderados por Cronos (Saturno), o caçula dentre os sete, que ela armou com uma foice de pedra. Eles surpreenderam Urano durante o sono, e foi com a foice de pedra que o implacável Cronos o castrou, apanhando seus testículos com a mão esquerda (que tem sido desde então a mão de mau agouro) e os atirando depois, junto com a foice, ao mar, perto do cabo Drepano. Gotas de sangue, porém, escorreram do ferimento e caíram sobre a Mãe Terra, de maneira que ela deu à luz as três Erigias - Fúrias que punem crimes de parricídio e perjúrio - de nome Alecto, Tisifone e Megera. As ninfas dos freixos chamadas meliades também surgiram do sangue de Urano.

Os titãs, então, libertaram os ciclopes do Tártaro e outorgaram a soberania da Terra a Cronos.

Entretanto, pouco tempo depois de assumir o comando supremo, Cronos confinou de novo os ciclopes no Tártaro junto com os Hecatônquiros e, tomando sua irmã Réia (Cibele, entre os romanos) como esposa, governou a Elida.

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Hesíodo, que registra esse mito, era um cadmiano. Os cadmianos tinham vindo da Ásia Menor, provavelmente por ocasião do colapso do Império Hitita, trazendo consigo a historia da castração de Urano. É sabido, contudo, que o mito não é de composição hitita, visto que uma antiga versão hurrita (horita) foi descoberta. A versão de Hesíodo talvez reflita uma aliança entre os vários colonos pré-helênicos na Grécia meridional e central, cujas tribos dominantes favoreciam o culto titânico contra os primeiros invasores helênicos do norte. Tiveram sucesso na guerra, mas, em seguida, eles impuseram sua suserania aos nativos setentrionais que haviam libertado. A castração de Urano não é necessariamente metafórica, caso alguns dos guerreiros vitoriosos tenham tido sua origem na África oriental, onde, até hoje, guerreiros galas levam nas batalhas uma miniatura de foice para castrar seus inimigos. Há estreitas afinidades entre os ritos religiosos da África oriental e os da Grécia primitiva.

Os gregos tardios leem "Cronos" como Chronos, "Pai Tempo", com sua inexorável foice. Mas ele figura na companhia de um corvo, assim como Apolo, Asclépio (Esculápio), Saturno (seu correspondente romano) e Bran, um primitivo deus britânico. E Cronos provavelmente significa "corvo", como cornix em latim e corone em grego. O corvo era um pássaro oracular, que supostamente alojava-se na alma de um rei sagrado apos seu sacrifício.

Aqui, as três Erínias, ou Fúrias, que surgiram a partir das gotas do sangue de Urano, são a própria deusa tripla. Significa dizer que, durante o sacrifício do rei em prol da frutificação dos trigais e pomares, as sacerdotisas da deusa estariam usando ameaçadoras máscaras gorgoneas para afugentar os visitantes profanos. Os testículos dele parecem ter sido atirados ao mar a fim de estimular a reprodução dos peixes. As vingativas Erínias são vistas pelo mitógrafo como se advertissem Zeus (Júpiter, entre os romanos) no sentido de não emascular Cronos com a mesma foice. No entanto, sua função original era a de punir apenas as injustiças praticadas contra a mãe, não contra o pai, ou suplicar a proteção da deusa do lar.

As ninfas dos freixos são as três Fúrias numa disposição mais graciosa: o rei sagrado era dedicado ao freixo, originalmente utilizado nas cerimonias para fazer chover. Na Escandinávia, ele se tornou a árvore da magia universal. As três Nornas, ou Moiras (nome grego das Parcas romanas), distribuíam justiça debaixo de um freixo que Odin, ao reivindicar a paternidade da humanidade, transformara em seu cavalo mágico. As mulheres devem ter sido as primeiras fazedoras de chuva na Grécia e na Líbia.

As foices neolíticas de osso, denteadas com pederneira ou obsidiana, parecem ter continuado em uso ritual por muito tempo, após haverem sido suplantadas como instrumentos agrícolas por foices de bronze e de ferro.

Os hititas fazem Kumarbi (Cronos) arrancar com uma mordida os testículos do deus-céu Ann (Urano), engolir um pouco do sêmen e cuspir o resto sobre o monte Kansura, onde o sêmen se transforma numa deusa. O deus do amor, assim concebido por ele, é cortado de seu flanco por Ea, irmão de Anu. Esses dois nascimentos foram misturados pelos gregos, num conto sobre como Afrodite (Vênus, entre os romanos) surgiu de um mar impregnado pelos testículos cortados de Urano. Kumarbi, posteriormente, dá à luz uma outra criança retirada de sua coxa - assim como Dionísio (Baco, entre os romanos) renasce de Zeus -, que conduz uma charrete tempestuosa puxada por um touro e chega até Anu para pedir-lhe ajuda. A faca que separou a terra do céu aparece na mesma historia como a arma com a qual o filho de Kumarbi, o gigante nascido da terra Ullikummi, é destruído.

Mitologia Grega
11/22/2019 6:04:27 PM | Danna
A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

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