Argentina, Bolívia, Chile (nova constituição), Estados Unidos. A onda democrática varre a América. Quando chega ao Brasil?

Pesquisas relacionadas à Psicologia existencial

Psicologia - Psicologia existencial

Cuidado, amor e vontade

Psicologia - Psicologia existencial

Liberdade e destino

Psicologia - Psicologia existencial

Shanhaijing, o livro chinês das bestas do mundo

Mitologia - Mitologia Chinesa

O que é uma teoria?

Psicologia - Epistemologia

11/9/2020 2:32:35 PM | Por Gregory J. Feist, Jess Feist, Tomi-Ann Roberts
Pesquisas relacionadas à Psicologia existencial

A teoria existencial de Rollo May tem sido moderadamente influente como um método de psicoterapia, mas não estimulou quase nenhuma pesquisa empírica direta. Essa situação está, sem dúvida, relacionada à postura crítica que May adotou em relação à medição objetiva e quantitativa. Qualquer teoria que enfatize a conexão entre sujeito e ob­jeto e a singularidade de cada indivíduo não é favorável a uma pesquisa de grande amostra com design experimental ou de questionário. De fato, May argumentou que a ciência moderna é racionalista em excesso, objetiva em demasia, e que é necessária uma nova ciência para compreender a pessoa viva, total.

Um tópico existencial a receber atenção empírica foi a ansiedade existencial. May (1967) definiu ansiedade como “a apreensão desencadeada por uma ameaça a algum valor que o indivíduo mantenha como essencial para sua exis­tência como um self (p. 72). Quando eventos ameaçam nossa existência física ou psicológica, experimentamos an­siedade existencial, e a mais forte entre as ameaças a nos­sa existência é a morte. Na verdade, May e Yalom (1989) argumentaram que "uma tarefa importante no desenvol­vimento é lidar com o terror da eliminação” (p. 367). Em certo sentido, a vida é o processo de enfrentamento e con­frontação com a morte.

Uma abordagem existencial para o estudo do terror e da morte foi realizada no "manejo do terror”, um ramo experi­mental moderno da psicologia existencial. Uma ligação con­ceitual entre a psicologia existencial e a Teoria do Manejo do Terror (TMT) foi apresentada pelo psiquiatra norte-ameri­cano Ernest Becker, inspirado por Kierkegaard e Otto Rank. Um argumento básico desses existencialistas (e de escritores como Camus e Sartre) é que os humanos são, antes de tudo, motivados pelo medo da morte. Além do mais, muitos desses pensadores veem a criatividade humana, a cultura e o significado como defesas inconscientes contra a mortalida­de. O trabalho de Becker, em particular, foi uma importante fonte de inspiração para os teóricos do manejo do terror.

Evidência da mortalidade e negação de nossa natureza animal

A TMT assumiu tal pressuposto básico e o testou por meio dos mais inteligentes e bem-projetados estudos experi­mentais da psicologia social e da personalidade realizados recentemente.

Ainda que os humanos façam parte do reino animal e, portanto, sejam mortais, eles são únicos na compreen­são do mundo e únicos na percepção de sua singularida­de. Os humanos, há muito tempo, acreditam ser mais do que apenas corpos: eles têm uma alma, um espírito, uma mente.

Ao longo dos séculos, os humanos aprenderam a repudiar seus selves corporais. Por exemplo, as funções corporais continuam entre os maiores tabus e as mais pesadas sanções das normas sociais. Ser “aculturado" é estar no controle completo da natureza biológica de ser humano. De acordo com os teóricos do manejo do ter­ror, o ponto crucial da negação de nossa natureza cor­poral e animal provém do medo existencial da morte e da decadência do corpo. Conforme exposto por Sheldon Solomon e colaboradores, "os humanos não poderiam funcionar com equanimidade se acreditassem que não eram inerentemente mais significantes do que os ma­cacos, os lagartos e os feijões” (Solomon, Greenberg, 8t Pyszczynski, 1991, p. 91).

Jamie Goldenberg e colaboradores realizaram um estudo para investigar até onde a evidência da mortalida­de levaria a uma maior negação da natureza animal pelos humanos. De forma mais específica, seu raciocínio foi: “As culturas promovem normas para ajudar os homens a se diferenciar dos animais. Essa distinção dá origem à importante função psicológica de proteger contra as preo­cupações enraizadas acerca da mortalidade" (Goldenberg, Pyszczynski, Greenberg, Solomon, Kluck, & Cornwell, 2001, p. 427). Cultura, sob tal perspectiva, é o mecanis­mo pelo qual a consciência da morte é regulada. Ou seja, as visões de mundo culturais (religião, política e normas sociais) e a autoestima funcionam para defender contra pensamentos mórbidos, de modo que, quando a morte se torna evidente por meio de desastres, falecimento de uma pessoa amada ou imagem de morte, as pessoas respondem se apegando mais às visões de mundo culturais e reforçan­do sua autoestima. Elas fazem isso, por exemplo, tornando-se mais patrióticas, apegando-se mais firmemente a seu grupo ou querendo punir de modo mais duro aqueles que violam as normas culturais e as leis. Além disso, na emoção de repulsa, percebemos mais claramente as defesas cultu­rais contra nossa natureza animal. Tudo o que nos faz lem­ brar nossa natureza animal e, em última instância, a morte é respondido com um forte sentimento de repulsa.

Goldenberg e colaboradores (2001) estavam interessa­dos no efeito oposto: o aumento da consciência da morte aumenta a reação de repulsa? Além disso, eles se pergun­tavam se o efeito aumentaria após uma demora ou uma distração, porque os pensamentos de morte seriam menos conscientes. Para testar a previsão de que a consciência da morte aumentaria os sentimentos de repulsa e de que o efeito aumentaria conforme se tornasse menos conscien­te, eles manipularam a evidência da morte em universitá­rios (60% do sexo feminino). A variável em avaliação era o quanto de repulsa os participantes expressavam em um questionário. As variáveis independentes eram se a própria mortalidade se tornava evidente ou não e se havia um [227] atraso na medida da repulsa ou não. A repulsa foi medida pela Escala de Sensibilidade à Repulsa (Disgust Sensitivity Scale), sem sua subescala de "morte" (Haidt, McCauley, & Rozin, 1994). As respostas foram organizadas em uma es­cala Likert de 9 pontos, e exemplos de itens incluíam afir­mações como: "Você vê larvas em um pedaço de carne em um balde de lixo na rua"; “Se vejo alguém vomitar, isso me deixa com o estômago nauseado"; e “Isso me incomodaria”. Os pensamentos de morte se tornaram evidentes quando foi solicitado aos participantes que escrevessem o que eles achavam que aconteceria a eles quando morressem fisica­mente. A condição neutra (não evidente) simplesmente fez os participantes escreverem o que eles sentiam assistindo à TV. A demora foi manipulada com a inclusão de um jogo de palavras que levou cinco minutos para ser completado por metade dos participantes. Na condição de demora, os par­ticipantes escreveram pensamentos (sobre morte ou TV), concluíram o jogo de palavras e, então, completaram a me­dida de repulsa. Na condição imediata, o jogo de palavras precedeu a escrita acerca da tarefa de morte.

Os resultados da manipulação corroboraram a hipóte­se. As reações de repulsa foras maiores depois que a morte foi tornada evidente e ainda mais quando houve um in­tervalo de tempo entre a evidência da mortalidade e as avaliações de repulsa. Os participantes na condição neutra (TV) e de demora mostraram o mesmo nível de repulsa que os participantes na condição imediata e de evidência de morte. Goldenberg e colaboradores interpretaram es­ses resultados como apoio para o pressuposto básico do manejo do terror de que as pessoas se distanciam dos ani­mais, porque os animais as fazem lembrar-se do corpo fí­sico e da morte.

As pesquisas baseadas na TMT e na sensibilidade à repulsa se desenvolveram em um corpus de trabalho im­pressionante que aponta para a conclusão geral de que a repulsa humana, particularmente a repulsa relacionada às características humanas que nos lembram nossa natureza animal (como a amamentação), serve à função de defen­der contra a ameaça existencial apresentada pela morte inevitável.

Forma física como uma defesa contra a consciência da mortalidade

Se os pensamentos de morte produzem tanta ansiedade e são criadas defesas contra eles, como a maioria dos estudos sobre manejo do terror demonstrou, devemos pensar que é óbvio que, se lembradas de sua mortalidade, as pessoas ficam, então, motivadas a fazer coisas que diminuam a probabilidade de morrer como, por exemplo, ter compor­tamentos saudáveis, como se exercitar.

Conforme implícito na seção anterior, a TMT defen­de ativamente duas categorias distintas de defesa contra a morte: consciente e inconsciente. As defesas conscientes também são referidas como defesas proximais e assumem a forma de “não eu, não agora" e são vistas na supressão ativa de pensamentos de morte, bem como no distancia­mento e na negação da própria vulnerabilidade. Quando a própria morte é ativa inconscientemente, então as defesas distais são ativadas. Elas envolvem a defesa e a identifica­ção com crenças culturais e ideologias e o aumento da autoestima.

Com a distinção entre defesas proximais e distais como um guia, Jamie Arndt, Jeff Schimel e Jamie Golden­ berg (2003) concluíram que a intenção de se exercitar é um caminho ideal para estudar os diferentes efeitos dos dois tipos de defesa. A intenção de se exercitar é, obviamente, uma defesa proximal, uma vez que as pessoas são motiva­das pelo desejo de serem saudáveis e evitar doenças. Ela também é uma defesa distal, já que reforça a autoestima e a imagem corporal. Em apoio a esse raciocínio, saúde e aparência costumam ser a primeira e a segunda razão dadas em pesquisas sobre por que as pessoas decidem se exercitar. O estudo de Amdt e colaboradores examinou o prognóstico de que a evidência da mortalidade deveria, assim, aumentar ambas as razões para querer se exercitar, isto é, melhorar a forma física e ter melhor aparência (au­toestima). Os pesquisadores examinaram uma combinação de defesas proximais e distais (demora). Eles também re­crutaram participantes para quem o exercício era impor­tante para a autoestima e participantes para quem não era importante.

Os participantes eram universitários (50% do sexo feminino) e lhes foi dito que estavam participando de um estudo sobre a relação entre personalidade e forma física. Eles receberam questionários para completar que incluíam uma manipulação da evidência de morte semelhante às descritas anteriormente (p. ex., Cox et al., 2007; Golden­ berg et al., 2001). Mas, desta vez, a condição de controle abordou a dor associada a um procedimento dentário sim­ples. A dor de dente foi escolhida como controle para ex­plicar a negatividade geral associada à dor física.

Depois da manipulação da evidência da mortalidade, metade dos par­ticipantes (grupo de espera) recebeu uma tarefa de leitura (cinco páginas triviais de um trabalho de Camus que não tinha nenhuma referência à morte ou a outras questões existenciais). Em outras palavras, depois da manipulação com evidência de morte ou procedimento odontológico, os participantes leram a passagem de Camus (grupo de es­pera) ou responderam imediatamente o questionário mais elaborado de intenções relacionadas a forma física (grupo imediato), consistindo de sete perguntas acerca da inten­ção de se exercitarem (tais como o quanto mais do que o normal eles pretendem se exercitar durante o próximo mês). Essas perguntas foram padronizadas e reunidas para criar uma medida geral da intenção de se exercitar.

Os resultados mostraram que somente no grupo ime­diato a evidência da mortalidade comparada ao [228] procedimento dentário doloroso levou a um maior desejo por exer­cícios. Também houve um efeito global importante para a autoestima associada a forma física, com os participantes para quem a forma física é importante para a autoestima geral pretendendo fazer mais exercícios depois da evidên­cia da mortalidade do que aqueles para quem não era tão importante. Além disso, houve um efeito significativo para a evidência da mortalidade: independentemente da condi­ção de imediatismo, os participantes que foram conscien­tizados da mortalidade pretendiam fazer mais exercícios do que aqueles que foram levados a pensar em realizar um procedimento dentário doloroso. O imediatismo também teve um efeito global importante, com os participantes que retardaram a resposta às perguntas sobre suas intenções quanto à forma física, alegando que se exercitariam mais do que aqueles que responderam imediatamente. Por fim, foi encontrada uma interação, em que as intenções de for­ma física aumentavam após evidência da mortalidade ape­nas entre aqueles para quem a forma física era uma fonte importante de autoestima.
De modo geral, os resultados desse estudo confir­mam a importância de se distinguir entre defesas proximais (conscientes) e distais (inconscientes) contra a morte. O estudo também confirma a ideia de que as pes­soas podem muito bem ser motivadas para realizar comportamentos que lutam contra a morte e a doença (i. e., exercícios) quando a própria mortalidade é evidenciada, em especial se o exercício for uma fonte relevante para a autoestima.

Em suma, o manejo do terror parece apoiar o princípio fundamental da psicologia existencial de que a ansiedade consciente ou inconsciente produzida por pensamentos de morte é uma força poderosa por trás de boa parte do com­ portamento humano.

Existe alguma vantagem na consciência da mortalidade?

Até o momento, as pesquisas sobre TMT, como a citada há pouco, focaram quase que exclusivamente o que May deno­minou de "ansiedade neurótica” gerada pela consciência da mortalidade, o lado mais obscuro de nossas defesas contra o medo de não ser. Porém, May (1958a), assim como todos os existencialistas, argumentou que um enfrentamento corajoso da inevitabilidade da morte possibilita que nos elevemos acima de uma existência defensiva e conformista até o Dasein. As preocupações existenciais podem facilitar o crescimento humano?

Pesquisas mais recentes estão con­firmando que, de fato, os humanos podem existir criativa­mente dentro da ameaça da não existência.
Kenneth Vail e colaboradores (2012) realizaram uma revisão da literatura sobre o impacto de pensamentos cons­cientes e inconscientes de morte e encontraram evidências de resultados positivos orientados para o crescimento em cada um. Além das motivações pela saúde e pela forma física geradas pela consciência proximal da mortalidade discutida anteriormente, outros estudos demonstraram que pensamentos conscientes de morte podem ajudar os seres humanos a reverem as prioridades de seus objetivos de vida. Heidegger (1926/1962) se referiu a esse fenômeno como "experiência de despertar”, e hoje com frequência nos referimos a ele como um “teste de realidade". Por exemplo, estudos longitudinais mostraram que contemplações cons­cientes diárias da mortalidade levavam as pessoas a dar maior valor aos objetivos pessoais intrínsecos, em compa­ração aos objetivos extrínsecos orientados para o status em sua vida (Heflick, Goldenberg, Keroack, 8c Cooper, 2011; Lykins, Segerstrom, Averill, Evans, 8c Kemeny, 2007).

Contudo, foram descobertos resultados positivos de­ correntes também da percepção não consciente da morte. Por exemplo, Gailliot e colaboradores (2008) realizaram um estudo de campo engenhoso em que um colaborador falava em voz alta em um telefone celular, cujo som al­cançava os transeuntes, acerca do valor de se ajudar os outros. Os participantes tinham 40% mais de probabili­dade de realmente ajudar um segundo colaborador se esti­vessem passando por um cemitério do que se estivessem a um quarteirão de distância, fora de visão das lápides! Outro estudo, de Schimel, Wohl e Williams (2006), cons­tatou que os valores das pessoas empáticas as preparam para serem gentis como um meio de manejar a consciên­cia da mortalidade. Esses pesquisadores pediram aos fãs de um time de hóquei local que preenchessem uma escala de empatia e, então, fossem lembrados da morte. A se­guir, eles liam a respeito de um jogador, do time da casa ou do time rival, que cometeu faltas agressivas durante um jogo. A evidência da mortalidade sempre levou-os a desculpar o jogador do time da casa, é claro, mas também levou os fãs mais empáticos a desculpar também o joga­dor do time oposto.

Outros estudos ainda demonstraram que nossos encontros mais diretos com a morte são especialmente propensos a nos conduzir em direção a objetivos de cres­cimento pró-sociais e pessoais. Vail e cola­boradores (2012) acreditam que isso ocorre porque tais encontros misturam processos conscientes e inconscien­tes de manejo do terror. Os indivíduos que experienciam trauma ou a morte de um ente amado com frequência precisam reconstruir “o sistema de significados da ne­gação da morte” que eles mantinham anteriormente, mudando de uma compreensão egoísta de seu mundo para uma compreensão existencial mais orientada para o crescimento. Dessa forma, existencialistas como Rollo May seguramente estavam certos em enfatizar a verdade irônica de que a morte pode ser boa para a vida no âmbi­to psicológico. [229] 

Psicologia - Psicologia existencial
10/29/2020 8:26:25 PM | Por Sarah Bartlett
Shanhaijing, o livro chinês das bestas do mundo

Estranhos e maravilhosos monstros e dragões abundam na mitologia chinesa. Ainda restam fragmentos de um livro intitulado Shanhaijing (O Livro das Montanhas e Mares), que pode ter mais de 2 mil anos de idade essa extraordinária enciclopédia lista, criaturas estranhas e a aterrorizantes que os antigos chineses acreditavam existirem na terra.

O Shanhaijing foi originalmente escrito como se o autor tivesse conhecimento direto e experiência pessoal de tais aberrações. Aqui estão algumas breves descrições dessas criaturas bizarras.

  • Há pessoas estranhas que vivem em Qizhong, cujos pes são virados paia trás. Eles caminham sobre os dedos dos pés, porque seus calcanhares estão na frente de suas pernas, mas algumas pessoas alegam que eles realmente andam de frente para trás;
  • No sudoeste, há criaturas com testas proeminentes e peitos que se elevam como grandes cestos acima de suas cabeças;
  • Existem pássaros chamados biyi com apenas um olho e uma asa.
Se alguém conseguir montar nas costas de um biyi em pleno voo, essa pessoa viverá mil anos;
  • No sul, existem criaturas que são metade homem, metade pássaro. Elas usam suas asas como apoio, já que não têm pernas. Elas ficam próximas ao litoral para capturar grandes camarões, e acredita-se que descendam de um homem que cometeu suicídio No Mar Meridional;
  • Mais a oeste, em Xuanyuan, há criaturas com cabeças humanas e corpos de serpente. Elas vivem por milhares de anos, e sua cauda de serpente termina no pescoço;
  • A leste, existem criaturas semelhantes a macacos, que comem carvão enquanto ainda está candente e carregam as brasas com eles. São eternamente incandescentes, de modo que ninguém pode tocá-los sem ser chamuscado;
  • Ainda mais para o leste há criaturas mutantes que são negras da cintura para baixo e seguram serpentes em cada uma das mãos. Elas têm uma serpente verde dependurada em uma das orelhas e uma vermelha na outra;
  • No Mar da China Meridional vivem sereias e tritões chamados Jiaoren. Eles tecem suas sedas a noite toda e podem ser ouvidos por aqueles que estão na praia ou pescando em noites tranquilas de luar. Os Jiaoren choram como as pessoas, mas suas lágrimas transformam-se em pérolas. Eles têm pele bonita e cabelos fartos que chegam até o final de sua cauda. Se eles beberem vinho, sua pele fica da cor da flor de pêssego.
Mitologia - Mitologia Chinesa
10/28/2020 9:45:00 PM | Por Jess Feist
O que é uma teoria?

A palavra "teoria” possui a distinção dúbia de ser um dos termos mais usados indevidamente e mais pouco com­preendido da língua inglesa. Algumas pessoas contrastam teoria com verdade ou fato, mas essa antítese demonstra uma ausência fundamental de compreensão de todos os três termos. Na ciência, as teorias são ferramentas usadas para gerar pesquisa e organizar observações, porém nem “verdade” nem “fato” possuem um lugar em uma termino­logia científica.

Definição de teoria

Uma teoria científica é um conjunto de pressupostos rela­cionados que permite que os cientistas usem o raciocínio lógico dedutivo para formular hipóteses verificáveis. Essa definição precisa de maior explicação. Em primeiro lugar, uma teo­ria é um conjunto de pressupostos. Um único pressuposto nunca pode atender a todas as exigências de uma teoria adequada. Um único pressuposto, por exemplo, não pode servir para integrar várias observações, algo que uma teo­ria útil deve fazer.

Em segundo lugar, uma teoria é um conjunto de pres­supostos relacionados. Pressupostos isolados não podem gerar hipóteses significativas, nem possuem consistência interna - dois critérios de uma teoria útil.

Em terceiro, uma palavra-chave na definição é pressu­postos. Os componentes de uma teoria não são fatos com­provados no sentido de que sua validade tenha sido absolu­tamente estabelecida. Eles são, no entanto, aceitos como se fossem verdade. Este é um passo prático, dado de forma que os cientistas possam conduzir pesquisas úteis, cujos resulta­dos continuam a construir e a reformular a teoria original.

Em quarto lugar, o raciocínio lógico dedutivo é usado pelo pesquisador para formular hipóteses. Os princípios de uma teoria devem ser especificados com uma precisão suficiente e com uma consistência lógica que permitam aos cientistas deduzir hipóteses claramente propostas. As hi­póteses não são componentes da teoria, mas derivam dela. O trabalho de um cientista imaginativo é começar com a teoria geral e, por meio do raciocínio dedutivo, chegar a uma hipótese particular que pode ser verificada. Se as pro­posições teóricas gerais forem ilógicas, elas permanecem estéreis e incapazes de gerar hipóteses. Além do mais, se um pesquisador usa uma lógica falha na dedução de hipó­teses, a pesquisa resultante não apresentará significado e não contribuirá para o processo contínuo de construção da teoria.

A parte final da definição inclui o qualificador verifi­cável. A menos que uma hipótese possa ser verificada de alguma maneira, ela será inútil. A hipótese não precisa ser verificada imediatamente, mas deve sugerir a possibilidade de os cientistas, no futuro, desenvolverem os meios necessários para tanto.

A teoria e suas relações

As pessoas, às vezes, confundem teoria com filosofia, ou especulação, ou hipótese, ou taxonomia. Ainda que a teoria  esteja relacionada a cada um desses conceitos, ela não é o mesmo que qualquer um deles.

Filosofia

Primeiramente, a teoria está relacionada à filosofia, po­rém é um termo muito mais delimitado. Filosofia significa amor à sabedoria, e os filósofos são pessoas que buscam a sabedoria por meio do pensamento e do raciocínio. Os filósofos não são cientistas; eles normalmente não conduzem estudos controlados em sua busca pela sabedoria. A filosofia abrange várias ramificações, uma das quais é a epistemologia, ou a natureza do conhecimento. A teoria se relaciona mais intimamente a esse ramo da filosofia, porque ela é uma ferramenta usada pelos cientistas em sua busca pelo conhecimento.

As teorias não lidam com “o deve ser" ou o "deveria ser". Portanto, um conjunto de princípios sobre como se deve viver a vida não pode ser uma teoria. Tais princípios envolvem valores e são o próprio campo da filosofia. Ape­sar de as teorias não serem livres de valores, elas são construídas sobre evidências científicas obtidas de uma forma relativamente imparcial. Assim, não existem teorias sobre por que a sociedade deve ajudar os desabrigados ou sobre o que constitui uma grande arte.

A filosofia lida com o que tem que ser ou deveria ser; a teoria não. A teoria lida com conjuntos amplos de afirma­ções se-então, porém o aspecto bom ou ruim dos resulta­dos dessas afirmações está além do domínio da teoria. Por exemplo, uma teoria pode nos dizer que as crianças são criadas em isolamento, completamente separadas do con­tato humano, então elas não desenvolverão linguagem hu­mana, não exibirão comportamento parental, e assim por diante. No entanto, essa afirmação não diz nada a respeito da moralidade de tal método de criação de uma criança.

Especulação

Em segundo lugar, as teorias se baseiam na especulação, po­rém elas são muito mais do que mera pressuposição de gabi­nete. Elas não se originam da mente de um grande pensador isolado das observações empíricas. Elas estão intimamente ligadas a dados reunidos de modo empírico e à ciência.

Qual é a relação entre teoria e ciência? Ciência é o ramo de estudo interessado na observação e classificação dos dados e na verificação das leis gerais por meio do teste das hipóteses. As teorias são ferramentas úteis emprega­das pelos cientistas para fornecer significado e organização para as observações. Além disso, as teorias proporcionam um terreno fértil para a produção de hipóteses verificá­veis. Sem algum tipo de teoria para reunir as observações e apontar para direções de possíveis pesquisas, a ciência es­taria muito prejudicada.

As teorias não são fantasias inúteis fabricadas por estudiosos pouco práticos que temem sujar suas mãos na maquinaria da investigação científica. Na verdade, as teo­rias são bastante práticas e são essenciais para o avanço de qualquer ciência. Especulação e observação empírica são os dois pilares da construção da teoria, porém a es­peculação não deve correr muito à frente da observação controlada.

Hipótese

Ainda que teoria seja um conceito mais delimitado do que filosofia, é um termo mais amplo do que hipótese. Uma boa teoria é capaz de gerar muitas hipóteses. Uma hipó­tese é uma suposição ou palpite fundamentado suficien­temente específico para que sua validade seja verificada por meio do método científico. Uma teoria é muito geral para se prestar à verificação direta, mas uma única teoria abrangente é capaz de gerar milhares de hipóteses. As hi­póteses, então, são mais específicas do que as teorias que as concebem. Entretanto, a prole não deve ser confundida com o genitor.

Obviamente, existe uma relação íntima entre uma teo­ria e uma hipótese. Usando o raciocínio dedutivo (partindo do geral para o específico), um pesquisador pode obter hi­póteses verificáveis a partir de uma teoria útil e, então, ve­rificar essas hipóteses. Os resultados desses testes - confir­mam ou contradizem as hipóteses - realimentam a teoria. Empregando o raciocínio indutivo (partindo do específico para o geral), o pesquisador, então, altera a teoria conside­rando esses resultados. À medida que a teoria se amplia e se modifica, outras hipóteses podem ser extraídas dela e, quando verificadas, reformulam a teoria.

Taxonomia

Uma taxonomia é uma classificação das coisas de acordo com suas relações naturais. As taxonomias são essenciais para o desenvolvimento de uma ciência, porque, sem a classificação dos dados, a ciência não poderia progredir. A mera classificação, no entanto, não constitui uma teoria. Contudo, as taxonomias podem evoluir para teorias quan­do começam a gerar hipóteses verificáveis e a explicar os achados de pesquisa. Por exemplo, Robert McCrae e Paul Costa começaram sua pesquisa classificando as pessoas em cinco traços de personalidade estáveis. Por fim, essa pes­quisa sobre a taxonomia - Big Five - levou a mais do que uma mera classificação; ela se transformou em uma teoria, capaz de sugerir hipóteses e oferecer explicações para os resultados de pesquisa.

Por que diferentes teorias?

Se as teorias da personalidade são verdadeiramente cien­tíficas, por que há tantas teorias diferentes? Existem teo­rias alternativas porque a própria natureza de uma teoria permite que o teórico faça especulações a partir de um ponto de vista particular. O teórico deve ser o mais objetivo possível quando reúne os dados, mas suas decisões quanto a quais dados são coletados e como esses dados são interpretados são pessoais. As teorias não são leis imutáveis; elas são construídas, não sobre fatos provados, mas sobre pressupostos, que estão sujeitos à interpretação individual.

Todas as teorias são um reflexo da origem pessoal dos autores, de suas experiências infantis, de sua filosofia de vida, de suas relações interpessoais e de sua maneira única de ver o mundo. Como as observações são influenciadas pela estrutura de referência do observador, pode haver muitas teorias diferentes. Entretanto, teorias divergentes podem ser úteis. A utilidade de uma teoria não depende de seu valor prático ou de sua concordância com outras teorias; ela depende da capacidade de gerar pesquisa e de explicar os dados obtidos e outras observações.

As personalidades dos teóricos e suas teorias da personalidade

Como as teorias da personalidade se desenvolvem a partir das próprias personalidades dos teóricos, um estudo des­sas personalidades é apropriado. Em anos recentes, uma subdisciplina da psicologia chamada psicologia da ciência começou a examinar os traços pessoais dos cientistas; isto é, ela investiga o impacto dos processos psicológicos e das características pessoais de um cientista no desenvolvimen­to de suas teorias e pesquisa (Feist, 1993,1994,2006; Feist & Gorman, 1998; Gholson, Shadish, Neimeyer, & Houts, 1989). Em outras palavras, a psicologia da ciência examina como as personalidades dos cientistas, seus processos cog­nitivos, histórias desenvolvimentais e experiência social afetam o tipo de ciência que eles desenvolvem e as teorias que eles criam. Na verdade, inúmeras investigações (Hart, 1982; Johnson, Germer, Efran, 8c Overton, 1988; Simonton, 2000; Zachar 8c Leong, 1992) demonstraram que as diferenças da personalidade influenciam a orientação teó­rica de um indivíduo, bem como sua inclinação a se voltar para o lado “duro” ou “leve” de uma disciplina.

Uma compreensão das teorias da personalidade se apoia nas informações referentes ao mundo histórico, so­cial e psicológico de cada teórico no momento de sua for­mulação teórica. ... Na verdade, as diferenças de personalidade entre os teóricos explicam as discordâncias fundamentais entre aqueles que se voltam para o lado quantitativo da psicologia (behavioristas, teóricos da aprendizagem social e teóricos dos traços) e aqueles que se voltam para o lado clínico e qualitativo da psicologia (psica­nalistas, humanistas e existencialistas).

Ainda que a personalidade de um teórico molde par­cialmente sua teoria, ela não deve ser a única determinante daquela teoria. Da mesma forma, sua aceitação de uma ou outra teoria não deve se apoiar em valores e predileções pessoais. Ao avaliar e escolher uma teoria, deve-se reco­nhecer o impacto da história pessoal do teórico sobre a teoria, mas, em última análise, é preciso examiná-la com base nos critérios científicos que são independentes da­ quela história pessoal. Alguns observadores (Feist, 2006; Feist 8i Gorman, 1998) distinguiram entre ciência como processo e ciência como produto. O processo científico pode ser influenciado pelas características pessoais do cientista, porém a utilidade final do produto científico é e deve ser avaliada independentemente do processo. Assim, a avalia­ção de cada uma das teorias ... deve se apoiar mais nos critérios objetivos do que em predile­ ções e empatias.

O que torna uma teoria útil?

Uma teoria útil possui uma interação mútua e dinâmica com os dados da pesquisa. Em primeiro lugar, uma teoria gera inúmeras hipóteses que podem ser investigadas por meio da pesquisa, produzindo, assim, dados de pesqui­ sa. Tais dados retornam para a teoria e a reestruturam. A partir dessa teoria recém-delineada, os cientistas podem extrair outras hipóteses, levando a mais pesquisa e dados, o que, por sua vez, reestrutura e aumenta a teoria ainda mais. Tal relação cíclica continua enquanto a teoria se mos­trar útil.

Em segundo lugar, uma teoria útil organiza os dados de pesquisa em uma estrutura significativa e fornece uma explicação para os resultados da pesquisa científica. Essa relação entre teoria e dados de pesquisa é apresentada na Figura 1.1. Quando uma teoria não é mais capaz de gerar pesquisa adicional ou de explicar dados de pesquisa relacio­nados, ela perde sua utilidade e é deixada de lado em favor de uma que seja mais útil.

Além de promover a pesquisa e explicar os dados de pesquisa, uma teoria útil deve se prestar à confirmação ou à negação, proporcionar ao praticante um guia de ação, ser coerente com ela mesma e ser o mais simples possível. [São] seis critérios: uma teoria útil (1) gera pesquisa, (2) é refutável, (3) organiza os dados, (4) orienta a ação, (5) é internamente coerente e (6) é parcimoniosa.

Gera pesquisa

O critério mais importante de uma teoria útil é a capaci­dade de estimular e orientar mais pesquisa. Sem uma teo­ria adequada para apontar o caminho, muitos dos achados empíricos presentes da ciência teriam permanecido desco­nhecidos. Na astronomia, por exemplo, o planeta Netuno foi descoberto porque a teoria do movimento gerou a hi­pótese de que a irregularidade do caminho de Urano fosse causada pela presença de outro planeta. A teoria útil [6] forneceu aos astrônomos um roteiro que guiou sua pesquisa e a descoberta do novo planeta.
Uma teoria útil gera dois tipos diferentes de pesquisa: pesquisa descritiva e teste da hipótese. A pesquisa descri­tiva, que pode ampliar uma teoria existente, preocupa-se com a medida, a catalogação e a classificação das unidades empregadas na construção da teoria. A pesquisa descritiva tem um relacionamento simbiótico com a teoria. Por um lado, ela fornece os fundamentos para a teoria; por outro, ela recebe seu impulso da teoria dinâmica em expansão. Quanto mais útil a teoria, mais pesquisa é gerada por ela; quanto maior a quantidade de pesquisa descritiva, a teoria torna-se mais completa.

O segundo tipo de pesquisa gerada por uma teoria útil, o teste da hipótese, conduz a uma verificação indireta da utilidade da teoria. Como já observamos, uma teoria útil gera muitas hipóteses, que, quando verificadas, somam-se a uma base de dados que pode reestruturar e ampliar a teo­ria. (Ver Fig. 1.1.)

É refutável

Uma teoria também deve ser avaliada segundo sua capa­cidade de ser confirmada ou negada; ou seja, ela deve ser refutável. Para tanto, uma teoria deve mostrar-se suficien­temente precisa para sugerir pesquisas que possam apoiar ou não seus princípios principais. Se uma teoria for tão vaga e nebulosa que tanto os resultados positivos quanto os negativos da pesquisa podem ser interpretados como apoio, então essa teoria não será refutável e deixará de ser útil. Refutação, no entanto, não é o mesmo que falsidade; isto simplesmente significa que os resultados de pesquisa negativos refutam a teoria e forçam o teórico a descartá-la ou modificá-la.

Uma teoria refutável é responsável pelos resultados experimentais. A Figura 1.1 descreve uma conexão circu­lar e mutuamente reforçadora entre teoria e pesquisa; cada uma forma uma base para a outra. A ciência é distinguida da não ciência por sua capacidade de rejeitar idéias que não são apoiadas empiricamente, mesmo que pareçam lógicas e racionais. Por exemplo, Aristóteles usou a lógica para ar­gumentar que corpos mais leves caem em velocidades mais lentas do que corpos mais pesados. Ainda que seu argu­mento possa ter concordado com o “bom senso”, ele tinha um problema: estava empiricamente errado.

As teorias que se baseiam profundamente em transfor­mações não observáveis no inconsciente são muito difíceis de verificar ou refutar. Por exemplo, a teoria de Freud sugere que muitos de nossos comportamentos e emoções são mo­tivados por tendências inconscientes que são diretamente opostas às que expressamos. Por exemplo, o ódio incons­ciente pode ser expresso como amor consciente, ou o medo inconsciente dos próprios sentimentos homossexuais pode assumir a forma de hostilidade exagerada em relação a indi­víduos homossexuais. Como a teoria de Freud leva em con­sideração tais transformações no inconsciente, ela é quase impossível de verificar ou refutar. Uma teoria que consegue explicar tudo não explica nada.

Organiza os dados

Uma teoria útil também deve ser capaz de organizar os da­dos da pesquisa que são compatíveis entre si. Sem alguma organização ou classificação, os achados da pesquisa per­manecem isolados e sem significado. A menos que os da­dos sejam organizados em alguma estrutura inteligível, os cientistas ficam sem uma direção clara a seguir na busca de maior conhecimento. Eles não podem fazer perguntas inteligentes sem uma estrutura teórica que organize suas informações.

Sem perguntas inteligentes, a pesquisa adi­cional é restringida.

Uma teoria útil da personalidade deve ser capaz de integrar o que é sabido atualmente a respeito do compor­tamento humano e do desenvolvimento da personalidade. Ela deve ser capaz de moldar tantos fragmentos de infor­mação quanto seja possível dentro de um arranjo que faça sentido. Se uma teoria da personalidade não oferecer uma explicação razoável de, pelo menos, alguns tipos de com­portamento, ela deixa de ser útil.

Orienta a ação

O quarto critério de uma teoria útil é sua capacidade de orientar as pessoas no árduo caminho dos problemas do dia a dia. Por exemplo, pais, professores, administradores e psicoterapeutas são confrontados continuamente com uma avalanche de perguntas para as quais eles tentam encontrar respostas viáveis. A boa teoria oferece uma es­trutura para que se encontrem muitas dessas respostas.[7]

Sem uma teoria útil, as pessoas tropeçam na escuridão das técnicas de tentativa e erro; com uma orientação teórica sólida, elas podem discernir um curso de ação adequado.

Para o psicanalista freudiano e o conselheiro rogeriano, as respostas à mesma pergunta são muito diferentes. Para a pergunta: “Como posso tratar melhor este pacien­te?”, o terapeuta psicanalítico responde nestes termos: as psiconeuroses são causadas por conflitos sexuais in­fantis que se tornaram inconscientes, então posso ajudar melhor esse paciente examinando tais repressões e permi­tindo que o paciente reviva as experiências na ausência de conflito. Para essa mesma pergunta, o terapeuta rogeriano responde: Se, para crescer psicologicamente, as pessoas precisam de empatia, consideração positiva incondicional e uma relação com um terapeuta congruente, então posso ajudar mais esse paciente proporcionando uma atmosfera de aceitação, não ameaçadora. Observe-se que ambos os terapeutas construíram suas respostas dentro de uma es­trutura se-então, muito embora as duas respostas requerem cursos de ação bastante diferentes.

Também incluído nesse critério, está até que ponto a teoria estimula pensamento e ação em outras disciplinas, como arte, literatura (incluindo filmes e novelas), direi­to, sociologia, filosofia, religião, educação, administração empresarial e psicoterapia. A maioria das teorias ... teve alguma influência em áreas além da psicologia. Por exemplo, a teoria de Freud promoveu pes­quisas sobre lembranças recuperadas, um tópico muito importante para os profissionais do direito. Também a teoria de Jung é de grande interesse para muitos teólogos e capturou a imaginação de escritores populares como Joseph Campbell. Igualmente, as idéias de Alfred Adler, Erik Erikson, B. F. Skinner, Abraham Maslow, Carl Ro­gers, Rollo May e outros teóricos da personalidade pro­duziram interesse e ação em uma ampla gama de campos acadêmicos.

É internamente coerente

Uma teoria útil não precisa ser coerente com outras teo­rias, mas precisa ser coerente consigo mesma. Uma teoria internamente coerente é aquela cujos componentes são compatíveis de modo lógico. As limitações de âmbito são cuidadosamente definidas, e a teoria não oferece explica­ções que vão além desse âmbito. Além disso, uma teoria internamente coerente usa a linguagem de uma forma também coerente; isto é, ela não emprega o mesmo termo para significar duas coisas diferentes, nem aplica dois ter­mos distintos para se referir ao mesmo conceito.
Uma boa teoria usa conceitos e termos definidos de forma clara e operacional. Uma definição operacional é aquela que define unidades em termos de eventos ou com­portamentos observáveis que podem ser mensurados. Por exemplo, um indivíduo extrovertido pode ser operacionalmente definido como uma pessoa que atinge determinado escore em um inventário de personalidade específico.

É parcimoniosa

Quando duas teorias são iguais em sua capacidade de gerar pesquisa, ser refutável, dar significado aos dados, orientar o praticante e ser autocoerentes, a mais simples é a prefe­rida. Esta é a lei da parcimônia. Na verdade, é claro, duas teorias nunca são exatamente iguais nessas outras com­petências, mas, em geral, as teorias simples são mais úteis do que aquelas que ficam atoladas sob o peso de conceitos complicados e linguagem esotérica.

Ao construir uma teoria da personalidade, os psi­cólogos devem começar em uma escala limitada e evitar fazer rápidas generalizações que expliquem todo o com­portamento humano. Esse curso de ação foi seguido pela maioria dos teóricos discutidos neste livro. Por exemplo, Freud começou com uma teoria baseada em grande par­te nas neuroses histéricas e, durante um período de anos, gradualmente, ampliou-a para incluir cada vez mais da per­sonalidade total.

Pesquisa em teoria da personalidade

Conforme apontamos anteriormente, o critério primário para uma teoria útil é a capacidade de gerar pesquisa. Tam­bém observamos que as teorias e os dados de pesquisa têm uma relação cíclica: a teoria dá significado aos dados, e os dados resultam da pesquisa experimental concebida para verificar as hipóteses geradas pela teoria. Nem todos os dados, no entanto, provêm da pesquisa experimental. Boa parte deles é oriunda de observações que cada um de nós faz todos os dias. Observar significa simplesmente notar algo, prestar atenção. Você vem observando personalidades humanas durante o mesmo tempo em que está vivo. Você observa que algumas pessoas são falantes e descontraídas; outras são quietas e reservadas. Você pode até mesmo ter rotulado tais pessoas como extrovertidas ou introvertidas. Estes são rótulos precisos? Uma pessoa extrovertida é igual a outra? Um extrovertido sempre é falante e descontraído? Todas as pessoas podem ser classificadas como introverti­das ou extrovertidas?

Ao fazer observações e indagações, você está reali­zando as mesmas coisas que os psicólogos, isto é, observar comportamentos humanos e tentar dar um sentido a essas observações. Contudo, os psicólogos, assim como outros cientistas, tentam ser sistemáticos, de modo que suas predições sejam coerentes e precisas.

Para melhorar sua capacidade de predizer, os psicólogos da personalidade desenvolveram inúmeras técnicas de ava­liação, incluindo inventários de personalidade. Boa parte das pesquisas ... se baseou em vários instrumentos de avaliação, os quais [8] pretendem medir diferentes dimensões da personalidade. Para que esses instrumentos sejam úteis, eles devem ser confiá­veis e válidos. A fidedignidade de um instrumento de me­dida nos diz até que ponto ele produz resultados coerentes.

Os inventários de personalidade podem ser confiáveis e, no entanto, carecerem de validade ou precisão. Validade é o grau em que um instrumento mede o que ele deve me­dir. Os psicólogos da personalidade interessam-se princi­palmente por dois tipos de validade: validade do construto e validade preditiva. Validade do construto é o quanto um instrumento mede algum construto hipotético. Construtos como extroversão, agressividade, inteligência e estabilidade emocional não possuem existência física; eles são construtos hipotéticos que devem se relacionar ao com­portamento observável. Três tipos importantes de validade de construto são validade convergente, validade divergente e validade discriminante. Um instrumento de medida tem validade de construto divergente quando os escores desse instrumento são altamente correlacionados (convergem) com escores em uma variedade de medidas desse mesmo construto. Por exemplo, um inventário de personalidade que tenta medir a extroversão deve se correlacionar com outras medidas de extroversão ou outros fatores, como so­ciabilidade e assertividade, que sabidamente acompanham [9] a extroversão. Um inventário possui validade de construto divergente se ele tem correlações baixas ou insignificantes com outros inventários que não medem esse construto. Por exemplo, um inventário que se propõe a medir a extroversão não deve estar altamente correlacionado a conveniên­cia social, estabilidade emocional, honestidade ou autoestima. Por fim, um inventário tem validade discriminante se ele distinguir dois grupos de pessoas que são diferentes. Por exemplo, um inventário de personalidade que mede a extroversão deve produzir escores mais altos para pessoas reconhecidas como extrovertidas do que para aquelas vis­tas como introvertidas

A segunda dimensão da validade é a validade preditiva, ou até que ponto um teste prediz algum comportamento futuro. Por exemplo, um teste de extroversão possui vali­dade preditiva se ele se correlacionar com comportamen­tos futuros, como fumar cigarros, ter bom desempenho em provas acadêmicas, correr riscos ou algum outro critério independente. O valor final de um instrumento de medida é o grau em que ele consegue predizer algum comporta­mento ou alguma condição futura.

A maioria dos primeiros teóricos da personalidade não usou inventários de avaliação padronizados. Ainda que Freud, Adler e Jung tenham desenvolvido uma forma de instrumento projetivo, nenhum deles usou a técnica com precisão suficiente para estabelecer sua fidedignidade e validade. No entanto, suas teorias geraram inúmeros in­ventários de personalidade padronizados, na medida em que pesquisadores e clínicos procuraram medir unidades de personalidade propostas por esses teóricos. Os teóricos da personalidade posteriores, especialmente Julian Rot­ ter, Hans Eysenk e os Teóricos dos Cinco Fatores desen­volveram e usaram inúmeras medidas da personalidade e se basearam fortemente nelas para a construção de seus modelos teóricos.

Psicologia - Epistemologia
10/27/2020 3:35:42 PM | Por Gregory J. Feist
Conceito de humanidade para Abe Maslow

Maslow acreditava que todos podemos ser autorrealizados; nossa natureza humana traz consigo um grande potencial para sermos bons seres humanos. Se ainda não atingimos esse alto nível de funcionamento, é porque estamos, de alguma maneira, incapacitados ou patológicos. Não conseguimos sa­tisfazer nossas necessidades de autorrealização quando nos­sas necessidades de nível mais baixo ficam bloqueadas: ou seja, quando não conseguimos satisfazer nossas necessidades de alimento, segurança, amor e pertencimento e estima. Essa compreensão levou Maslow a postular uma hierarquia de ne­cessidades básicas que devem ser regularmente satisfeitas an­tes que nos tornemos humanos de modo integral.

Maslow concluiu que a verdadeira natureza humana é vista apenas nas pessoas autorrealizadas e que “parece não haver razão intrínseca para que todos não sejam dessa ma­neira. Aparentemente, todos os bebês têm possibilidades para autorrealização, porém a maioria é excluída delas” (Lowry, 1973, p. 91). Em outras palavras, as pessoas autorrealizadas [188] não são indivíduos comuns com algo acrescentado, e sim pes­soas comuns com nada retirado. Isto é, se comida, segurança, amor e estima não forem retirados das pessoas, então elas avançarão naturalmente em direção à autorrealização.

Maslow era, em geral, otimista e esperançoso com os humanos, porém reconhecia que as pessoas são capazes de grandes maldades e destruição. O mal, no entanto, provém da frustração ou da não satisfação das necessidades básicas, e não da natureza essencial do indivíduo.

Quando as necessi­dades básicas não são satisfeitas, as pessoas podem roubar, enganar, mentir ou matar.

Maslow acreditava que a sociedade, assim como os indi­víduos, pode ser melhorada, mas o crescimento para ambos é lento e doloroso. No entanto, os pequenos avanços parecem fazer parte da história evolucionária da humanidade. Infe­lizmente, a maioria das pessoas “está condenada a desejar o que não tem” (Maslow, 1970, p. 70). Ou seja, embora todas as pessoas tenham potencial para autorrealização, a maioria viverá lutando por comida, segurança ou amor. Grande parte das sociedades, acreditava Maslow, enfatiza as necessidades mais baixas e baseia seus sistemas educacionais e políticos em um conceito inválido de humanidade.

Verdade, amor, beleza e similares são necessidades ins­tintivas e são tão básicas para a natureza humana quanto são a fome, o sexo e a agressividade. Todas as pessoas possuem o potencial para lutar pela autorrealização, assim como têm a motivação para procurar por comida e proteção. Como Mas­low sustentava que as necessidades básicas são estruturadas da mesma forma para todas as pessoas e que os indivíduos satisfazem essas necessidades no próprio ritmo, sua teoria holístico-dinâmica da personalidade coloca ênfase moderada na singularidade e nas semelhanças.

De um ponto de vista histórico e individual, os humanos são animais evolutivos, no processo de se tornarem cada vez mais completamente humanos. Isto é, conforme a evolução progride, os humanos gradualmente se tornam mais motiva­dos pelas meta motivações e pelos valores B. Existem neces­sidades de nível alto, pelo menos como potencialidade, em todos. Como as pessoas visam à autorrealização, a abordagem de Maslow pode ser considerada teleológica e propositada.

A visão de Maslow sobre a humanidade é difícil de classi­ficar em dimensões como determinismo versus livre-arbítrio, consciente versus inconsciente ou determinantes biológicos versus sociais. Em geral, o comportamento das pessoas mo­tivado por necessidades fisiológicas e de segurança é deter­minado por forças externas, enquanto o comportamento dos indivíduos autorrealizados é, pelo menos em parte, moldado pelo livre-arbítrio.

Na dimensão da consciência versus inconsciência, Maslow defendia que as pessoas autorrealizadas costumam ser mais conscientes do que os outros em relação ao que elas estão fazendo e por quê. No entanto, a motivação é tão complexa que as pessoas podem ser impulsionadas por diversas neces­sidades ao mesmo tempo, e mesmo os indivíduos sadios nem sempre estão plenamente conscientes de todas as razões subjacentes a seu comportamento.

Quanto às influências biológicas versus sociais Maslow insistiu em que essa dicotomia é falsa. Os indivíduos são mol­dados pela biologia e pela sociedade, e as duas não podem ser separadas. A dotação genética inadequada não condena uma pessoa a uma vida não satisfatória, da mesma forma que um ambiente social pobre não impede o crescimento. Quando as pessoas atingem a autorrealização, elas experimentam uma sinergia maravilhosa entre os aspectos biológico, social e espi­ritual de suas vidas. Os autorrealizados obtêm mais satisfação física com os prazeres sensuais; eles experimentam relações interpessoais mais profundas e mais ricas; e obtêm prazer com qualidades espirituais como beleza, verdade, bondade, justiça e perfeccionismo.

Psicologia - Teoria holístico-dinâmica
Manter a integridade científica na busca de relevância e aplicação

É uma situação difícil: uma universitária em início de curso em uma “profissão do cam­po da saúde” está fazendo uma apresentação sobre crenças espirituais e saúde aos cientis­tas experientes de nosso centro de pesquisa. Ela discutia de que forma sua profissão pode­ria realizar pesquisas nessa área, que melhorariam a prática e atrairiam financiamentos. Ela citou importantes nomes e livros atuais da psicologia positiva. Infelizmente, não sabia responder a questões básicas sobre os mecanismos por meio dos quais se desenvolvem comportamentos específicos, nem explicar os mecanismos de mudança. Ela não sabia for­mular um modelo teórico testável. Sendo eu o psicólogo no painel com algum conhecimento do assunto, os colegas levantaram algumas questões - e algumas sobrancelhas de desa­provação - em minha direção.

A psicologia positiva deveria ser incluída em projetos de pesquisa de grande escala para melhor se entenderem esses constructos e sua relevância para a saúde e o bem-estar, mas devemos manter elevadas expectativas em relação ao rigor e à integridade científicos. A aceitação e a inclusão acarretam riscos de que se renuncie às qualidades essenciais que esperamos das teorias, dos constructos e das medidas (e as equipes multidisciplinares são visivelmente intolerantes com as teorias em busca de aplicabilidade e relevância). Se a integridade científica for comprometida, a psicologia positiva pode hastear a bandeira da impopularidade a alturas dos mentalismos do tipo “cargo cult” e formulações que servem para qualquer pessoa ou situação.

<<Expandir>>
9/5/2020 11:20:25 AM | História Viva, n. 49
Galileu Galilei na Inquisição

Com Galileu, houve uma dissidência entre os cientistas. Meio a contragosto, é verdade. Porque, animado por uma fé profunda, Galileu nunca ousou negar a existência de Deus, ou menosprezar a autoridade da Igreja. Bem longe disso. Sua erudição e eloquência persuasiva conquistaram o respeito da cúria romana que, deve-se acrescentar, jamais fez segredo de seu interesse pelas descobertas científicas.

História - Itália
9/5/2020 10:13:56 AM | Leituras da História, n. 05
Prostitutas, de deusas à escória da sociedade

Por volta de 3.000 a.e.c., tribos nômades passaram a criar gado e tornaram-se conscientes do papel masculino na reprodução. As sociedades matriarcais da deusa começaram a ser subjugadas. As primeiras civilizações da era histórica desenvolveram-se na Mesopotâmia e no Egito, e nasceram desse levante.

História - Civilização Suméria
9/3/2020 8:00:21 PM | História Viva, n. 104
Em Sarajevo, atentados em série

Tudo começou em 1913, em Viena, quando o herdeiro do trono, o arquiduque Francisco Ferdinando, resolveu que, no ano seguinte, iria inspecionar as tropas da guarnição na Bósnia-Herzegovina. Sua mulher, Sofia, o acompanharia. Quebrando a etiqueta imperial, ela, uma esposa morganática, seria autorizada a aparecer a seu lado, até mesmo no dia 28 de junho, data que lembrava a Francisco Ferdinando a humilhação sofrida, em 1900, às vésperas de seu casamento, quando teve de renunciar ao trono por seus filhos.

História - Primeira Guerra Mundial
7/27/2020 8:09:30 PM | História Viva, n. 01
Napoleão, o senhor da guerra

Durante a revolução, Napoleão Bonaparte é um oficial como os outros. Ou quase. Por seu gênio militar, será reconhecido e condecorado no exterior, o grande triunfo para se impor perante os franceses.

História - França
Todas as matérias
A revolução dos Cravos

A rebelião do exército em 25 de abril de 1974 marcou o início de um autêntico processo revolucionário em Portu­gal que durou até novembro de 1975. Os primeiros dias, particularmente em Lisboa, foram eufóricos. Não se dis­parou um só tiro em defesa do regime ditatorial quando os soldados tomaram posse das ruas, saudados como he­róis pela multidão cheia de júbilo. Os observadores co­mentaram o grande número de rostos felizes nas ruas; houve um que afirmou finalmente ter descoberto que os portugueses tinham dentes, “agora que se podia vê-los sorrir”. A libertação de prisioneiros políticos causou gran­de regozijo. Por todo o país, a perspectiva da volta da de­mocracia e do fim das impopulares guerras coloniais foi amplamente bem recebida.

Em apenas dois meses, nada menos que 50 partidos po­líticos surgiram em Portugal. Os militares continuaram no controle do executivo, mas a direção futura da revolu­ção estava longe de ser clara. Uma onda de greves assolou o país em meados de 1974, e ascensão do partido comu­nista era vista com nervosismo. O apoio aos principais partidos políticos - os comunistas, os socialistas e os de­mocratas populares, de centro - se expandiu enorme­mente em 1974-1975, mas em meados de 1975 explodi­ram rebeliões civis nas áreas rurais como reação à tendência esquerdista da revolução. A rebelião ocorreu nas regiões em que os camponeses ricos dominavam a economia local; a maioria dos distúrbios ocorreu a não mais de 120 quilômetros de Lisboa, dentro da área agríco­la ao norte da cidade. A revolta rural mudou o rumo da re­volução. Em novembro de 1975, elementos moderados recuperaram o controle dos militares, e a revolução, para todos os efeitos, terminou.

<<Expandir>>
11/22/2020 1:42:53 PM | Por Gregory J. Feist, Jess Feist, Tomi-Ann Roberts
Princípios básicos da análise fatorial

Um conhecimento abrangente das operações matemáticas envolvidas na análise fatorial não é essencial para a com­preensão das teorias dos traços e fatores da personalidade, mas uma descrição geral dessa técnica mostra-se útil. Para usar a análise fatorial, iniciam-se observações específicas de muitos indivíduos. Tais observações são, então, quantificadas de alguma maneira; por exemplo, a altura é medida em centímetros; o peso, em quilos; a aptidão, em escores de testes; o desempenho no trabalho, por meio de escalas de classificação; e assim por diante.

Suponhamos que temos mil dessas medidas em 5 mil pessoas. O próximo pas­so é determinar quais dessas variáveis (escores) estão relacionadas a quais outras variáveis e em que medida. Para tanto, calculamos o coeficiente de correlação entre cada variável e cada um dos outros 999 escores. (Um coeficiente de corre­lação é um procedimento matemático que expressa o grau de correspondência entre dois conjuntos de escores). Corre­lacionar as mil variáveis com os outros 999 escores envolve­ria 499.500 correlações individuais (1.000 multiplicado por 999, dividido por 2). Os resultados desses cálculos demanda­riam uma tabela de intercorrelações, ou uma matriz, com mil linhas e mil colunas. Algumas dessas correlações seriam altas e positivas, algumas perto de zero, e outras seriam negativas. Por exemplo, poderíamos observar uma correlação positiva alta entre o comprimento da perna e a altura, porque uma é parcialmente uma medida da outra. Também poderíamos encontrar uma correlação positiva entre uma medida de ha­bilidade de liderança e os índices em equilíbrio social. Essa relação poderia existir porque cada uma faz parte de um tra­ço subjacente mais básico: autoconfiança.

Com mil variáveis separadas, nossa tabela de intercor­relações seria muito complicada. Nesse ponto, vamos nos voltar para a análise fatorial, que pode explicar um grande número de variáveis com um número menor de dimensões mais básicas. Essas dimensões mais básicas podem ser chamadas de traços, isto é, fatores que representam um grupo de variáveis intimamente relacionadas. Por exemplo, po­demos encontrar intercorrelações positivas entre escores de testes em álgebra, geometria, trigonometria e cálculo. Agora, identificamos um grupo de escores que podemos chamar de fator M, que representa a habilidade matemáti­ca. De forma similar, podemos identificar inúmeros outros fatores, ou unidades da personalidade derivadas por meio da análise fatorial. O número de fatores, é claro, será me­nor do que o número original de observações.

Nosso passo seguinte é determinar até que ponto cada escore individual contribui para os vários fatores. As corre­lações dos escores com os fatores são denominadas cargas fatoriais. Por exemplo, se os escores em álgebra, geome­tria, trigonometria e cálculo contribuem de forma significativa para o fator M, mas não para outros fatores; eles têm cargas fatoriais altas em matemática. As cargas fatoriais apontam uma pureza dos vários fatores e possibilitam a interpretação de seus significados.

Os traços gerados por meio da análise fatorial podem ser unidirerionais ou bidirerionais. Os traços unidirecionais encontram-se em uma escala de zero até alguma grande quantidade. Altura, peso e capacidade intelectual são exemplos de traços unidirerionais. Em contraste, os traços bidirerionais se estendem de um polo até o polo oposto, com zero representando um ponto intermediário. Introversão versus extroversão, liberalismo versus conser­vadorismo e domínio social versus timidez são exemplos de traços bidirerionais.

Para que os fatores derivados matematicamente te­nham significado psicológico, os eixos em que os escores são marcados costumam ser virados ou rotados em uma [254] relação matemática específica entre eles. Essa rotação pode ser ortogonal ou oblíqua, mas os defensores da teoria dos cinco fatores favorecem a rotação ortogonal. A Figura 13.1 mostra que os eixos rotados ortogonalmente estão em ângulos retos entre si. Quando os escores na variável x aumentam, os escores no eixo y podem ter qualquer valor; ou seja, eles não têm relação com os escores no eixo x.

O método oblíquo, que foi defendido por Cattell, pre­sume alguma correlação positiva ou negativa e se refere a um ângulo inferior ou superior a 90°. A Figura 13.2 des­creve um diagrama de escores em que x e y estão positiva­mente correlacionados entre si; ou seja, quando os escores na variável x aumentam, os escores no eixo y também têm tendência a aumentar. Observe que a correlação não é per­feita; algumas pessoas podem ter escore alto na variável x, mas relativamente baixo na y, e vice-versa. Uma correlação perfeita (r = 1,00) resultaria em x e y ocupando a mesma linha. Psicologicamente, a rotação ortogonal, em geral, re­sulta em apenas alguns traços significativos, enquanto os métodos oblíquos costumam produzir um número maior. [255]

Figuras 12.1 e 12.2

Psicologia - Teoria dos cinco fatores (Big Five)
11/22/2020 1:42:08 PM | Por Gregory J. Feist, Jess Feist, Tomi-Ann Roberts
O trabalho pioneiro de Raymond B. Cattell

Uma figura importante nos primeiros anos da psicometria foi Raymond B. Cattell (1905-1998), que nasceu na Inglaterra, mas passou a maior parte de sua carreira nos Estados Unidos. Cattell teve apenas uma influência indireta sobre McCrae e Costa. Estes, no entanto, compartilharam técni­cas e idéias, mesmo que suas abordagens também tivessem algumas diferenças reais. Como a familiaridade com a teo­ria dos traços de Cattell ajuda a compreender a teoria dos cinco fatores de McCrae e Costa, discutimos brevemente o trabalho de Cattell e o comparamos com o de McCrae e Costa.

Em primeiro lugar, tanto Cattell quanto McCrae e Cos­ta usaram um método indutivo de coleta de dados, ou seja, eles começaram sem idéias preconcebidas referentes ao número, ao nome dos traços ou aos tipos. Outros teóri­cos fatoriais, no entanto, usaram o método dedutivo, ou seja, eles tinham hipóteses preconcebidas antes de começa­rem a coleta dos dados.

Em segundo, Cattell usou três diferentes meios de ob­servação para examinar as pessoas a partir do maior núme­ro de ângulos possível. As três fontes de dados incluíam um registro da vida da pessoa (dados L; do inglês life), derivado de observações feitas por outras pessoas; autorrelatos (da­ dos Q; do inglês questionnaires) obtidos de questionários e outras técnicas concebidas para possibilitar que as pessoas façam descrições subjetivas de si mesmas; e testes objetivos (dados T). que medem aspectos como inteligência, rapidez de resposta e outras atividades concebidas para instigar o desempenho máximo da pessoa. Em contraste, cada um dos cinco fatores bipolares de McCrae e Costa está limitado a res­postas a questionários. Esses autorrelatos restringem os pro­cedimentos de McCrae e Costa aos fatores de personalidade.

Em terceiro, Cattell dividiu os traços em traços comuns (compartilhados por muitos) e traços singulares (peculiares a um indivíduo). Ele também distinguiu os traços de fundo dos indicadores de traços, ou traços superficiais. Cattell ain­da classifico uos traços em temperamento, motivação e habi­lidade. Os traços de temperamento se referem a como uma pessoa se comporta; os de motivação tratam de porque ela se comporta; e os traços de habilidade abordam até onde ou a que velocidade ela pode realizar.

Em quarto, a abordagem multifacetada de Cattell re­sultou em 35 traços primários, ou de primeira ordem, os quais medem, principalmente, a dimensão do tempera­mento na personalidade. Desses fatores, 23 caracterizam a população normal e 12 medem a dimensão patológica. Os traços normais maiores e estudados com mais frequência são os 16 fatores da personalidade encontrados no Ques­tionário de 16 Fatores da Personalidade (16-PF Scale) de Cattell (1949). Em comparação, o Inventário de Personalidade-NEO (NEO-PI) de Costa e McCrae produz escores em apenas cinco fatores da personalidade.
 

Psicologia - Teoria dos cinco fatores (Big Five)
11/20/2020 2:02:38 PM | Por Gregory J. Feist, Jess Feist, Tomi-Ann Roberts
Conceito de humanidade para Gordon Allport

Allport possuía uma visão, basicamente, otimista e esperan­çosa da natureza humana. Ele rejeitava as visões psicanalítica e comportamental de humanidade como excessivamente deterministas e mecanicistas. Ele acreditava que nosso desti­no e nossos traços não são determinados por motivos incons­cientes que se originam na infância, mas por escolhas cons­cientes que fazemos no presente. Não somos simplesmente autômatos que reagem de modo cego às forças de recom­pensa e punição. Ao contrário, somos capazes de interagir com o ambiente e torná-lo reativo a nós. Não só procuramos reduzir as tensões como também estabelecer novas. Deseja­mos a mudança e o desafio; e somos reativos, intencionais e flexíveis.

Como as pessoas possuem o potencial de aprender uma variedade de respostas em muitas situações, o crescimento psicológico pode acontecer em qualquer idade. A personali­dade não é estabelecida no início da infância, muito embora, para algumas pessoas, as influências infantis permaneçam fortes. As experiências do início da infância são importantes somente se continuam existindo no presente. Ainda que a segurança e o amor precoces deixem marcas duradouras, as crianças precisam de mais do que amor: Elas necessitam de uma oportunidade para moldarem sua própria existência com criatividade, para resistirem à conformidade e para se­rem indivíduos livres e autodirecionados.

Mesmo que a sociedade tenha algum poder de moldar a personalidade, Allport acreditava que ela possui a respos­ta para a natureza da humanidade. Os fatores que moldam a personalidade, defendia Allport, não são tão importantes quanto a própria personalidade. A hereditariedade, o am­biente e a natureza do organismo são importantes; porém, as pessoas são essencialmente proativas e livres para seguir os ditames predominantes da sociedade ou para traçar o curso da própria vida.

As pessoas, no entanto, não são completamente livres. Allport (1961) adotou uma abordagem da liberdade limitada. Ele, com frequência, era crítico daquelas visões que permi­tem a liberdade absoluta, mas também se opunha às visões [249] psicanalftica e comportamental, as quais ele considerava que negavam o livre-arbítrío. A posição de Allport era intermediá­ria. Ainda que exista o livre-arbítrio, algumas pessoas são mais capazes de fazer escolhas do que outras. Uma pessoa sadia tem mais liberdade do que uma criança ou um adulto grave­mente perturbado. A pessoa reflexiva e muito inteligente tem mais capacidade para a livre escolha do que a não reflexiva e com pouca inteligência.

Mesmo que a liberdade seja limitada, Allport defendia que ela pode ser expandida. Quanto mais insight pessoal um indivíduo desenvolve, maior é a liberdade de escolha des­sa pessoa. Quanto mais objetiva uma pessoa se torna - isto é, quanto menores as preocupações consigo e o egoísmo - maior o grau de liberdade dessa pessoa.

Educação e conhecimento também expandem a quanti­dade de liberdade que temos. Quanto maior nosso conheci­mento de uma área particular, mais ampla é nossa liberdade nessa área. Ter uma educação geral extensa significa que, até certo ponto, a pessoa tem uma escolha mais ampla de em­pregos, atividades recreativas, materiais de leitura e amigos.

Por fim, nossa liberdade pode ser expandida por nosso modo de escolha. Se aderimos teimosamente a um curso de ação familiar apenas porque ele é mais confortável, nossa liberdade permanece, em grande parte, restrita. Todavia, se adotamos um modo de mente aberta para a solução de pro­blemas, então ampliamos nossa perspectiva e aumentamos nossas alternativas; ou seja, expandimos nossa liberdade para escolher (Allport, 1955).

A visão de Allport de humanidade é mais teleolôgica do que causal. A personalidade, até certo ponto, é influenciada pelas experiências passadas, mas os comportamentos que nos tornam humanos são motivados por nossas expectativas do futuro. Em outras palavras, somos indivíduos sadios uma vez que estabelecemos e buscamos propósitos e aspirações futu­ras. Cada um de nós é diferente dos outros, não tanto porque temos impulsos básicos distintos, mas porque temos objetivos e intenções autoconstruídas diferentes.

O crescimento da personalidade sempre ocorre dentro de um contexto social, porém Allport colocou ênfase apenas moderada nos fatores sociais. Ele reconheceu a importância das influências ambientais para ajudar a moldar a personali­dade, mas insistia em que a personalidade tem alguma vida própria. A cultura pode influenciar nossa linguagem, nossa moral, nossos valores, nossa moda, porém a forma como cada um de nós reage às forças culturais depende de nossa perso­nalidade única e de nossa motivação básica.

Em suma, Allport tinha uma visão otimista da humani­dade, afirmando que as pessoas têm, pelo menos, liberdade limitada. Os seres humanos são orientados para o objetivo, proativos e motivados por uma variedade de forças, a maioria das quais está dentro do terreno da consciência. As experiên­cias infantis iniciais são de importância relativamente menor e são significativas apenas quando existem no presente. Tan­to as diferenças quanto as semelhanças entre as pessoas são importantes, mas as diferenças individuais e a singularidade recebem muito maior ênfase na psicologia de Allport. [250]

Psicologia - Psicologia individual
11/20/2020 1:46:54 PM | Por Gregory J. Feist, Jess Feist, Tomi-Ann Roberts
Críticas à teoria de Allport

Allport baseou sua teoria da personalidade mais na espe­culação filosófica e no bom senso do que em investigações científicas. Ele nunca teve a pretensão de que sua teoria fosse completamente nova ou abrangente; ao contrário, ele era eclético, utilizando de modo cuidadoso conceitos de ou­tras teorias e reconhecendo que seus detratores poderiam ter coisas importantes a dizer. Coerente com essa atitude tolerante, Allport (1968) reconheceu que seus adversários poderiam estar certos, pelo menos em parte.

Para Allport, entende-se que a maioria da população é constituída de indivíduos conscientes, que olham para a frente e buscam a tensão. Para aqueles que acham que as teorias deterministas perderam de vista a pessoa proativa, a visão de Allport de humanidade é filosoficamente inovadora. No entanto, como com qualquer outra teoria, ela pre­cisa ser avaliada a partir de uma base científica.

É provável que Allport tenha feito mais do que qual­ quer outro psicólogo para definir a personalidade e clas­sificar outras acepções do termo. Porém, seus escritos constituem uma teoria no sentido de estabelecer um con­junto de pressupostos relacionados que geram hipóteses verificáveis? Segundo esse critério, as propostas de Allport se classificam com um “sim" qualificado. Trata-se de uma teoria limitada, que oferece explicações para um âmbito restrito da personalidade, a saber, certos tipos de motiva­ção. Os motivos funcionalmente autônomos dos adultos sadios no âmbito psicológico são abordados de modo ade­quado pela teoria de Allport. Mas e quanto aos motivos das crianças e dos adultos mentalmente perturbados? O que os move e por quê? E quanto aos adultos sadios que [248] se comportam de maneira estranha? O que explica essas incoerências? Que explicação Allport apresentou para so­nhos bizarros, fantasias e alucinações de indivíduos ma­duros? Infelizmente, essa explicação da personalidade não é ampla o suficiente para responder de modo adequado a tais perguntas.

Apesar de suas limitações como uma teoria útil, a abordagem da personalidade de Allport é estimulante e es­clarecedora. Qualquer pessoa interessada na construção de uma teoria da personalidade deve, primeiro, familiarizar-se com os escritos de Allport. Poucos psicólogos fizeram tanto esforço para colocar a teoria da personalidade em perspectiva; poucos foram tão cuidadosos na definição de termos, na categorização de definições prévias ou no ques­tionamento de quais unidades devem ser empregadas na teoria da personalidade. O trabalho de Allport estabeleceu um padrão para o pensamento claro e a precisão que futu­ros teóricos deveriam imitar.

A teoria gerou pesquisa? Segundo esse critério, a teoria de Allport recebe uma classificação moderada. A sua ROS, o Estudo dos valores e seu interesse pelo preconceito o con­duziram a múltiplos estudos científicos da religião, dos va­lores e do preconceito.

Segundo o critério de refutabilidade, a teoria de Allport deve receber uma classificação baixa. O conceito de quatro orientações religiosas um tanto independentes pode ser verificado ou refutado, porém a maioria dos outros insights de Allport está além da capacidade da ciência de determinar se alguma outra explicação poderia ser igualmente apropriada.

Uma teoria útil proporciona uma organização para as observações. A teoria de Allport satisfaz esse critério? Mais uma vez, apenas para um âmbito restrito dos motivos adultos a teoria oferece uma organização significativa para as observações. Muito do que é conhecido acerca da personalidade humana não pode ser facilmente integrado à teoria de Allport. De forma mais específica, os comporta­mentos motivados por forças inconscientes, assim como aqueles estimulados por impulsos primários, não foram explicados de modo adequado por Allport. Ele reconheceu a existência desses tipos de motivações, mas pareceu se contentar em permitir que as explicações psicanalíticas e comportamentais permanecessem sem maior elaboração. Tal limitação, no entanto, não invalida a teoria de Allport. Aceitar a validade de outros conceitos teóricos é uma abor­dagem legítima da construção da teoria.

Ciaomo um guia para os profissionais, a teoria de Allport tem utilidade moderada. Ela certamente serve como uma baliza para o professor e o terapeuta, iluminando a visão da personalidade que sugere que as pessoas devem ser tra­tadas como indivíduos. Os detalhes, no entanto, são deixa­dos sem especificação.

Nos dois critérios finais de uma teoria útil, a psicolo­gia do indivíduo de Allport é classificada como alta. Sua linguagem precisa torna a teoria coerente internamente e parcimoniosa. [249]

Psicologia - Psicologia individual
11/20/2020 12:13:27 PM | Por Gregory J. Feist, Jess Feist, Tomi-Ann Roberts
Pesquisas relacionadas à Psicologia individual

Mais do que qualquer outro teórico da personalidade, Gor­don Allport manteve um interesse ativo por toda a vida no estudo científico da religião e publicou seis conferências sobre o assunto, sob o título O indivíduo e sua religião (The individual and his religion) (Allport, 1950). Em nível pessoal, Allport era um devoto episcopal; e, por quase 30 anos, rea­lizou meditações na Capela Appleton, na Universidade de Harvard (Allport, 1978).

Orientação religiosa intrínseca versus extrínseca

Allport acreditava que um comprometimento religioso profundo era uma marca do indivíduo maduro, mas ele também achava que nem todos os freqüentadores da igreja tinham uma orientação religiosa madura. Alguns, na ver­dade, eram altamente preconceituosos. Allportt (1966) ofereceu uma explicação possível para essa observação re­latada com frequência. Ele sugeriu que igreja e preconcei­to oferecem a mesma segurança status, pelo menos para algumas pessoas, as quais podem se sentir confortáveis e autojustificadas com suas atitudes preconceituosas e sua participação na igreja.

Para compreender a relação entre freqüentar a igreja e preconceito, Allport e J. Michael Ross (1967) desenvolve­ram a Escala de Orientação Religiosa (ROS, Religious Orien­tation Scale), a qual é aplicável somente aos que freqüentam a igreja. A ROS consiste em 20 itens - 11 extrínsecos e 9 intrínsecos. Exemplos de itens extrínsecos são “O objetivo primário daquele que reza é obter alívio e proteção"; “O que a religião mais me oferece é conforto quando a tristeza e o infortúnio atacam"; e “Uma razão para que eu seja membro da igreja é que essa afiliação ajuda a firmar uma pessoa na comunidade". Exemplos de itens intrínsecos incluem “Mi­nhas crenças religiosas são o que realmente se encontra por trás de toda a minha abordagem de vida" e “Esforço-me mui­to para transferir a minha religião para todas as minhas ou­tras relações na vida" (p. 436). Allport e Ross consideravam que as pessoas com uma orientação extrínseca têm uma vi­são utilitária da religião; ou seja, elas a veem como um meio para um fim. Sua religião é egoísta, uma religião de conforto e conveniência social. Suas crenças são frágeis e facilmente moldadas, quando conveniente. Em contraste, um segundo grupo de pessoas tem uma orientação intrínseca. Essas pes­soas vivem sua religião e a consideram o motivo principal em sua fé religiosa. Em vez de usarem a religião para algum fim, elas colocam outras necessidades em harmonia com seus valores religiosos. Elas possuem uma crença internali­zada e a seguem integralmente. [246]

Pesquisas anteriores constataram que, falando de modo geral, ser religioso é bom para a saúde. Freqüentar a igreja regularmente tende a estar associado a sentir-se me­lhor e viver por mais tempo (Powell, Shahabi, & Thoresen, 2003). Porém, a explicação ainda não está inteiramente compreendida. As pessoas que freqüentem a igreja podem apenas tender a cuidar melhor de si do que aquelas que não freqüentam. Ou talvez exista algo peculiar à religião que encoraje uma saúde melhor. Um aspecto da religião que pode afetar a conexão entre religião e saúde é o conceito de Allport de orientação religiosa. Recentemente, pesquisado­res começaram a investigar as implicações na saúde de ter uma orientação intrínseca versus extrínseca. ... as atividades motivadas intrinsecamente são, em geral, melhores do que aquelas atividades que são motivadas extrinsecamente. Assim, os pesquisa­dores previram que aqueles que possuem seus valores re­ligiosos internalizados (orientação intrínseca) estarão em melhor situação do que aqueles que usam a religião para alcançar algum fim (orientação extrínseca).

Kevin Masters e colaboradores (2005) conduziram um estudo examinando orientação religiosa e saúde cardiovas­cular. A pressão arterial aumenta e diminui dependendo de uma variedade de fatores, incluindo estressores no am­biente, mas, às vezes, as pessoas possuem pressão arterial cronicamente alta. Nesse caso, ela impõe um aumento de estresse ao coração e é uma preocupação de saúde impor­tante para muitas pessoas, sobretudo em idosos, porque torna os indivíduos mais suscetíveis a uma variedade de condições cardíacas, incluindo ataques cardíacos. Para examinar a relação entre orientação religiosa e hipertensão arterial, Masters e colaboradores (2005) trouxeram para o laboratório 75 pessoas entre 60 e 80 anos e pediram que completassem a ROS e algumas tarefas enquanto os pes­quisadores monitoravam com atenção sua pressão arterial.

As tarefas foram concebidas para serem moderadamente estressantes e com probabilidade de elevar a pressão arterial em pessoas que são em particular propensas a tal condição. De forma mais específica, as tarefas envolviam resolver alguns problemas matemáticos e um encontro
hipotético com uma companhia de seguros que está se re­cusando a cobrir um procedimento médico que potencialmente salvaria a vida delas. Os pesquisadores constataram que, conforme previsto, aqueles que possuíam uma orien­tação religiosa intrínseca não experimentaram o mesmo aumento na pressão arterial que aqueles que apresentavam uma orientação extrínseca. Essa pesquisa demonstrou que uma orientação religiosa intrínseca serve como um amor­tecedor contra estressores prováveis de serem experimen­tados na vida diária. Aqueles que possuem uma orientação religiosa intrínseca provavelmente encontram os mesmos estressores que qualquer pessoa, porém seus corpos rea­gem de forma diferente e de maneira saudável. Existe algo em ter uma fé religiosa intrínseca profunda que ajuda as pessoas a lidarem com estressores do dia a dia de uma for­ma que não é prejudicial à saúde física.

A religião pode ser boa para a saúde, mas, para que re­cebam os benefícios da religião, é importante que as pes­soas sejam religiosas pelas razões certas. Não é suficiente simplesmente ir à igreja, ao templo ou à sinagoga uma vez por semana. Uma pessoa deve estar freqüentando esses serviços porque ela, de fato, acredita na mensagem de sua religião escolhida e a tem internalizada como uma forma de ter uma vida boa. Também é importante observar que, embora Allport considerasse o comprometimento religioso como uma marca da pessoa madura saudável, ele achava a religião útil porque ela oferece uma filosofia de vida uni­ficadora. Se ter uma filosofia de vida unificadora que não está baseada em uma religião organizada é benéfico para a saúde da mesma forma que a orientação religiosa intrínse­ca ainda permanece uma área para pesquisa futura.

Como reduzir o preconceito: contato ideal

Lembre-se de que Gordon Allport interessou-se incialmente pela diferença entre orientação religiosa intrínseca e extrínseca porque observou que muitas pessoas que se identificavam como religiosas também eram bastante pre­conceituosas. Allport, no entanto, também ficou interes­sado no preconceito de uma forma mais geral, e desenvol­ver maneiras de reduzir o preconceito racial era de suma importância para ele. Allport (1954) propôs que um dos componentes fundamentais para a redução do preconcei­to era o contato: se os membros dos grupos majoritários e minoritários interagissem mais sob condições ideais, ha­ veria menos preconceito. Esta ficou conhecida como a hipótese do contato, e as condições ideais eram relativamente simples: (1) status igual entre os dois grupos, (2) objetivos comuns, (3) cooperação entre os grupos e (4) apoio de uma figura de autoridade, leis ou costume. Por exemplo, se vi­zinhos afro-americanos e euro-americanos se unem para formar um grupo de vigilância no bairro com o objetivo comum de tornar a vizinhança mais segura e tal progra­ma for endossado pelo prefeito ou pelo departamento de polícia da cidade, então tal interação e o esforço do grupo provavelmente levariam à redução no preconceito entre os residentes do bairro.

Ainda que o próprio Allport tenha realizado algumas pesquisas sobre o tema da redução do preconceito (Allport, 1954), um de seus alunos, Thomas Pettigrew, continuou o trabalho que ele começou (Pettigrew et al., 2011; Pettigrew 8c Tropp, 2006; Tropp & Pettigrew, 2005). Thomas Pettigrew e Linda Tropp desenvolveram um extenso programa de pes­quisa direcionado para a investigação das condições sob as quais o contato entre os grupos pode reduzir o preconceito.

Em duas metanálises complexas de mais de 500 estu­dos e mais de 250 mil participantes, Pettigrew, Tropp e co­ laboradores (2006, 2011) examinaram a validade da [247] hipótese do contato de Allport. Eles constataram que, de fato, o contato entre os grupos reduz o preconceito e que as quatro condições de Allport para o contato ideal entre os grupos facilitam esse efeito. Além do mais, embora o conceito de contato ideal tenha sido, a princípio, conceitualizado como uma forma de reduzir o preconceito racial (Allport, 1954), as pesquisas demonstraram que ele também funciona para minimizar atitudes preconceituosas em relação a outros grupos estigmatizados, como idosos, deficientes, mental­mente doentes e homossexuais (Pettigrew et al., 2011). Os estudos, em geral, mostram efeitos maiores para medidas em testes de relacionamento do que para indicadores como estereotipia, significando que o contato ideal nos ajuda a gostar mais do “outgroup”, muito embora os estereótipos so­bre eles possam persistir (Tropp & Pettigrew, 2005).

Uma descoberta fascinante de todos esses anos de pes­quisa sobre o contato ideal é a importância especial da ami­zade entre grupos na redução do preconceito. Conforme assinalam Pettigrew e colaboradores (2011), amizade en­volve um contato ampliado em uma variedade de contex­tos, e isso facilita atitudes fortes e positivas em relação ao “outgroup" que são resistentes à mudança. Um estudo parti­cularmente comovente realizado no norte da Irlanda ilus­tra essa força da amizade. Nele, a amizade entre católicos e protestantes gerou confiança e perdão do outro grupo religioso, e tal efeito foi mais forte entre aqueles que tinham sofrido diretamente violência religiosa na área (Hewstone, Caims, Vod, Hamberger, & Niens, 2006).

Alguns dos estudos incluídos nas revisões de Thomas Pettigrew e Linda Tropp (2006, 2011) envolviam méto­dos relativamente simples de apenas perguntar às pes­soas quantos amigos elas tinham que eram de um grupo minoritário (uma medida de contato) e, então, fazê-las completar várias medidas de autorrelato concebidas para captar até que ponto os partidpantes endossam visões es­tereotipadas dos grupos minoritários. Entretanto, outros estudos incluídos na revisão abordavam uma metodologia mais complexa, em que os participantes eram designados aleatoriamente para grupos que envolviam contato ideal com membros de um grupo minoritário ou para grupos que não envolviam o contato ideal prescrito por Allport. Ainda que os dois tipos de estudos tenham constatato que o contato ideal reduz o preconceito, os experimentos em que as pessoas foram designadas aleatoriamente para se envolverem em contato ideal ou não apresentam a redu­ção mais considerável no preconceito (Pettigrew & Tropp, 2006). Obviamente, não há razão para que esse contato ideal ocorra em um laboratório, e os achados de Pettigrew e Tropp (2006) demonstram o grande potendal para pro­gramas comunitários a serem desenvolvidos com base na prescrição de Allport para a redução do preconceito. Se tais programas fossem implementados, as pesquisas mostram que as relações entre grupos majoritários e minoritários provavelmente melhorariam muito.

De modo geral, Gordon Allport foi um psicólogo da personalidade bastante perspicaz, cujas idéias continuam a inspirar os psicólogos hoje. Apesar de suas idéias, sem dú­vida, continuarem a abrilhantar a pesquisa em psicologia da personalidade, seus métodos para redução do precon­ceito enriqueceram de modo silencioso a vida de pessoas que, talvez sem saber, beneficiaram-se com o profundo comprometimento de Allport em reduzir o preconceito em nossa sociedade.

Como assinalam Pettigrew e colaboradores (2011), as opiniões sobre o contato entre grupos estão muito dividi­das. Alguns acreditam que "boas cercas fazem bons vizi­nhos”. Ou seja, o contato entre grupos só causa conflito; portanto, é melhor que cuidemos de nossa vida. Outros, como Allport, acreditam que a interação é essencial para reduzir o preconceito e o conflito entre os grupos. Décadas de pesquisas feitas por seus alunos resolveram tal discor­dância e mostraram que Allport estava certo: a única ma­neira de reduzir o conflito e o preconceito é interagir com aqueles que consideramos “diferentes". [248]

Psicologia - Psicologia individual
11/20/2020 12:07:27 PM | Por Gregory J. Feist, Jess Feist, Tomi-Ann Roberts
O estudo do individuo

Pelo fato de a psicologia historicamente lidar com as leis e as características gerais que as pessoas têm em comum, Allport defendia insistentemente o desenvolvimento e o [243] uso de métodos de pesquisa que estudem o indivíduo. Para equilibrar a abordagem normativa ou grupal predominan­te, ele sugeriu que os psicólogos empregassem métodos que abordassem os comportamentos motivacionais e esti­lísticos de uma pessoa.

Ciência morfogênica

Em seus primeiros escritos, Allport distinguiu entre duas abordagens científicas: a nomotética, que busca as leis ge­rais; e a idiográfica, que se refere ao que é peculiar ao caso único. Como o termo “idiográfico” foi, com frequência, uti­lizado erroneamente, mal entendido e mal grafado (sendo confundido com "ideográfico”, a representação de idéias por meio de símbolos gráficos), Allport (1968) abandonou essa nomenclatura em seus escritos posteriores e falava de procedimentos morfogênicos.Tanto “idiográfico” quanto “morfogênico” são relativos ao indivíduo, porém “idiográfico" nâo sugere estrutura ou padrão. Em contraste, “mor­fogênico" refere-se a propriedades padronizadas de todo o organismo e permite comparações intrapessoais. O padrão ou a estrutura das disposições pessoais de um indivíduo é importante. Por exemplo, Tyrone pode ser inteligente, introvertido e fortemente motivado pelas necessidades de realização, mas a maneira única que sua inteligência está relacionada a sua introversão e a cada uma de suas neces­sidades de realização forma um padrão estruturado. Esses padrões individuais são o tema da ciência morfogênica.
Quais são os métodos da psicologia morfogênica? Allport (1962) listou muitos: alguns, completamente morfogênicos; outros, parcialmente.

Exemplos de métodos completamente morfogênicos são relatos integrais, entre­vistas, sonhos, confissões, diários, cartas, alguns questio­nários, documentos expressivos, documentos projetivos, trabalhos literários, formas de arte, escritos automáticos, rabiscos, apertos de mão, padrões de voz, gestos corporais, caligrafia, marcha e autobiografias.

Quando Allport conheceu Hans Eysenck, o famoso analista dos fatores, britânico e partidário da ciência nomo­tética, ele disse que Eysenck um dia escreveria uma autobiografia. Eysenck (1997b), de fato, acabou publi­cando uma autobiografia, em que ele admitia que Allport estava certo e que métodos morfogênicos como descrição da própria vida e do trabalho podem ter validade.

As abordagens semimorfogênicas incluem escalas de autoclassificação, como a checklist de adjetivos; testes padro­nizados, em que as pessoas são comparadas com elas mes­mas, em vez de com um grupo de normas; o Estudo dos valo­res (1960), de Allport-Vemon-Lindzey; e a técnica Q-sort, de Stephenson (1953).

Coerente com o senso comum, mas contrário a mui­tos psicólogos, Allport estava disposto a aceitar, por seu próprio valor, as declarações de autorrevelação da maioria dos participantes em um estudo. Um psicólogo que deseje aprender a dinâmica pessoal dos indivíduos precisa simplesmente pedir-lhes que pensem em si mesmos. As res­postas a perguntas diretas devem ser aceitas como válidas, a menos que a pessoa seja uma criança pequena, um indiví­duo psicótico ou extremamente defensivo. Allport (1962) disse que “com frequência, fracassamos em consultar a mais rica de todas as fontes de dados, ou seja, o próprio autoconhecimento do sujeito" (p. 413).

Os diários de Marion Taylor

Durante o final da década de 1930, Allport e sua esposa Ada tomaram conhecimento de uma fonte extremamente rica de dados pessoais de uma mulher, a quem chamaram de Marion Taylor. A essência desses dados foram os diá­rios de quase uma vida, mas as informações pessoais sobre Marion Taylor também incluíam descrições dela feitas por sua mãe, sua irmã mais moça, seu professor favorito, dois de seus amigos e um vizinho, bem como anotações em um livro do bebê, registros escolares, escores em vários testes psicológicos, material autobiográfico e dois encontros pessoais com Ada Allport.

Nicole Barenbaum (1997) preparou um breve relato da vida de Marion Taylor. Taylor nasceu em 1902, em Illinois, mudou-se para a Califórnia com seus pais e sua irmã mais moça, em 1908, e começou a escrever seu diário em 1911. Logo após seu 13° aniversário, os registros em seu diário se tornaram mais pessoais, incluindo fantasias e sentimentos secretos. Ela, por fim, formou-se na faculdade, fez mestra­do e se tornou professora de psicologia e biologia. Ela se casou aos 31 anos e não teve filhos.

Ainda que uma riqueza de documentos pessoais sobre Marion Taylor tenha sido disponibilizada para Ada e Gor­don Allport, os Allport optaram por não publicar um relato da história dela. Barenbaum (1997) apresentou algumas razões possíveis para isso, mas, devido a importantes lacu­nas na correspondência entre Marion Taylor e Ada Allport, agora é impossível saber com certeza por que os Allport não publicaram a história desse caso. O trabalho deles com Marion provavelmente os ajudou a organizar e a publicar um segundo caso: a história de Jenny Gove Masterson, ou­tro pseudônimo.

As cartas de Jenny

A abordagem morfogênica de Allport do estudo das vidas é mais bem ilustrada em suas famosas Cartas de Jenny. Essas cartas revelam a história de uma mulher mais velha e seus intensos sentimentos de amor/ódio por seu filho, Ross. Entre março de 1926 (quando ela tinha 58 anos) e outubro de 1937 (quando ela morreu), Jenny escreveu uma série de 301 cartas ao ex-colega de quarto de Ross na faculda­ de, Glenn, e a sua esposa, Isabel, que quase certamente eram Gordon e Ada Allport (Winter, 1993). Allport, ori­ginalmente, publicou partes dessas cartas em anonimato [244] (Anônimo, 1946) e, então, mais tarde, publicou-as em mais detalhes com o próprio nome (Allport, 1965).

Nascida na Irlanda em 1868 e filha de pais protestan­tes, Jenny era a mais velha em uma família de sete filhos, que incluía cinco irmãs e um irmão. Quando tinha 5 anos, a família mudou-se para o Canadá; quando tinha 18 anos, seu pai morreu e ela foi forçada a abandonar a escola e ir trabalhar para ajudar no sustento da família. Depois de nove anos, seu irmão e suas irmãs já podiam se sustentar; e Jenny, que sempre tinha sido considerada rebelde, escan­dalizou a família ao se casar com um homem divorciado, uma decisão que a afastou ainda mais de sua família conservadoramente religiosa.

Depois de apenas dois anos de casamento, o marido de Jenny morreu. Pouco mais de um mês depois, nasceu seu filho Ross. Isso ocorreu em 1897, o mesmo ano em que nasceu Gordon Allport, o futuro colega de quarto de Ross. Os 17 anos seguintes foram de luta para Jenny. Seu mun­do girava em torno do filho, e ela trabalhava arduamente para garantir que ele tivesse tudo o que queria. Ela disse a Ross que, à parte a arte, o mundo era um lugar miserável e que era seu dever se sacrificar pelo filho, porque ela era responsável pela existência dele.

Quando Ross saiu de casa para ir à faculdade, Jenny continuou a economizar para poder pagar todas as contas dele. Quando Ross começou a se interessar por mulheres, a relação idílica mãe-filho chegou ao fim. Os dois discutiam com frequência e com rispidez sobre as amigas dele. Jenny se referia a cada uma delas como prostituta, incluindo a mulher com quem Ross se casou. Com o casamento, Jenny e Ross ficaram temporariamente distanciados.

Mais ou menos na mesma época, Jenny começou uma correspondência de 11 anos e meio com Glenn e Isabel (Gordon e Ada), em que ela revelava muito sobre sua vida e sua personalidade. As primeiras cartas mostravam que ela estava profundamente preocupada com dinheiro, morte e Ross. Ela achava que o filho era ingrato e que a tinha aban­donado por outra mulher, além do mais uma prostituta! Ela continuou com sua amargura em relação ao filho até que ele e sua esposa se divorciaram. Ela, então, mudou-se para o apartamento ao lado do de Ross e, por um curto pe­ríodo de tempo, ela foi feliz. Mas, em seguida, Ross estava saindo com outras mulheres, e Jenny, inevitavelmente, encontrava algo de errado em cada uma delas. Suas cartas estavam outra vez cheias de animosidade por Ross, uma atitude desconfiada e cética em relação aos outros e uma abordagem mórbida e dramática da vida.

Com três anos de correspondência, Ross morreu subi­tamente. Após sua morte, as cartas de Jenny expressavam uma atitude mais favorável em relação ao filho. Agora ela não tinha que dividi-lo com alguém. Agora ele estava segu­ro - não havia mais prostitutas.

Durante os oito anos seguintes, Jenny continuou es­crevendo para Glenn e Isabel, e eles costumavam respon­der. No entanto, eles serviam, principalmente, como ou­vintes neutros e não como conselheiros ou confidentes. Jenny continuou a ser excessivamente preocupada com morte e dinheiro. Ela acusava cada vez mais os outros por sua infelicidade e intensificou suas suspeitas e hostilidade em relação a seus cuidadores. Depois que Jenny morreu, Isabel (Ana) comentou que, ao final de tudo, Jenny “conti­nuava a mesma de sempre" (Allport, 1965, p. 156).

Essas cartas representam uma fonte incomumente rica de material morfogênico. Durante anos, elas foram objeto de análise e estudo detalhados da parte de Allport e seus alunos, que procuraram montar a estrutura de uma personalidade única, identificando disposições pessoais que eram centrais àquela pessoa. Allport e seus alunos usaram três técnicas para examinar a personalidade de Jenny. Primeiro, Alfred Baldwin (1942) desenvolveu uma técnica denominada análise da estrutura pessoal para exa­minar cerca de um terço das cartas. Para analisar a estru­tura pessoal de Jenny, Baldwin usou dois procedimentos estritamente morfogênicos, frequência e contiguidade, para reunir evidências. O primeiro simplesmente envolve uma notação da frequência com que um item aparece no material do caso. Por exemplo, com que frequência Jenny menciona Ross, ou dinheiro, ou ela mesma? Contiguidade refere-se à proximidade de dois itens nas cartas. Com que frequência a categoria “Ross - desfavorável” ocorre em ín­tima correspondência com “ela mesma - autossacrifício"? Freud e outros psicanalistas usaram de forma intuitiva essa técnica da contiguidade para descobrir uma associa­ção entre dois itens na mente inconsciente de um pacien­te. Baldwin, no entanto, refinou o método determinando, estatisticamente essas correspondências que ocorrem com mais frequência do que poderia ser esperado apenas pelo acaso.

Usando a análise da estrutura pessoal, Baldwin identi­ficou três grupos de categorias nas cartas de Jenny. O pri­meiro relacionava-se a Ross, mulheres, o passado e ela mesma - autossacrifício. O segundo tratava da busca de Jenny por
um emprego, e o terceiro grupo girava em torno de sua ati­tude em relação a dinheiro e morte. Os três grupos são independentes uns dos outros, muito embora um único tema, como dinheiro, possa aparecer em todos os três.

Segundo, Jeffrey Paige (1966) usou uma análise fatorial para extrair disposições pessoais primárias reveladas pelas cartas de Jenny. Ao todo, Paige identificou oito fa­tores: agressividade, possessividade, aíiliação, autonomia, aceitação familiar, sexualidade, consciência e martírio. O estudo de Paige é interessante porque identificou oito fatores, um número que corresponde muito bem à quan­tidade de disposições centrais - 5 a 10 - que, segundo a hipótese anterior de Allport, seriam encontradas na maio­ria das pessoas.

O terceiro método de estudo das cartas de Jenny foi uma técnica de senso comum usada por Allport (1965). [245]

Seus resultados são muito semelhantes aos de Baldwin e Paige. Allport pediu a 36 juizes que listassem o que eles consideravam as características essenciais de Jenny. Eles registraram 198 adjetivos descritivos, muitos dos quais eram sinônimos e se sobrepuseram. Allport, então, agru­pou os termos em oito grupos: (1) belicoso-desconfiado, (2) autocentrado (possessivo), (3) independente-autônomo, (4) dramático-intenso, (5) estético-artístico, (6) agres­sivo, (7) cético-mórbido e (8) sentimental.

Comparando essa abordagem clínica de senso comum com o estudo fatorial de Paige, Allport (1966) traçou al­guns paralelos interessantes (ver Tab. 12.1). Por meio das cartas de Jenny, então, constatamos que ela possuía cerca de oito traços centrais que caracterizavam os últimos 12 anos de sua vida - se não sua vida inteira. Ela era agressiva, desconfiada, possessiva, estética, sentimental, mórbida, dramática e autocentrada. Tais disposições centrais eram fortes o suficiente para que ela fosse descrita em termos si­milares por Isabel (Ada Allport), que a conhecia bem, e por pesquisadores independentes, que estudaram suas cartas (Allport, 1965).

Tabela 12.1

A grande concordância entre a abordagem clínica de senso comum de Allport e o método analítico fatorial de Paige não comprova a validade de qualquer uma das duas. No entanto, indica a viabilidade dos estudos morfogênicos. Os psicólogos podem analisar uma pessoa e identificar disposições centrais com coerência mesmo quando usam procedimentos diferentes. [246]

Psicologia - Psicologia individual
11/18/2020 11:47:56 AM | Por Gregory J. Feist, Jess Feist, Tomi-Ann Roberts
Abordagem de Allport da teoria da personalidade

As respostas a três perguntas inter-reladonadas revelam a abordagem de Allport da teoria da personalidade: (1) O que é personalidade? (2) Qual é o papel da motivação consciente na teoria da personalidade? (3) Quais são as características da pessoa psicologicamente sadia? [236]

O que é personalidade?

Poucos psicólogos foram tão meticulosos e exaustivos quanto Allport na definição de termos. Sua busca de uma definição da personalidade é clássica. Ele rastreou a eti­mologia da palavra persona até as raízes gregas, incluindo o significado em latim antigo e etrusco. .... a palavra “personalidade" provavelmente tem origem em persona, que se refere à máscara proveniente do teatro grego antigo e usada pelos atores romanos du­rante o primeiro e o segundo século antes de Cristo. Após rastrear a história do termo, Allport especificou 49 defini­ções de personalidade usadas em teologia, filosofia, direi­to, sociologia e psicologia. Ele, então, apresentou uma 50" definição, que, em 1937, era “a organização dinâmica dentro do indivíduo daqueles sistemas psicofísicos que determinam seus ajustes únicos a seu ambiente" (Allport, 1937, p. 48). Em 1961, ele mudou a última sentença para “que deter­minam seu comportamento e pensamento característicos" (Allport, 1961, p. 28). Amudança foi significativa e refletia a propensão de Allport à exatidão, Em 1961, ele percebeu que a sentença “ajustes a seu ambiente” poderia implicar que as pessoas meramente se adaptam a seu ambiente. Em sua última definição, Allport transmitia a ideia de que o comportamento é expressivo, além de adaptativo. As pes­soas não só se ajustam ao próprio ambiente como intera­gem e se refletem nele, de modo a fazer com que também o ambiente se molde a elas.

Allport escolheu cuidadosamente cada sentença de sua definição, para que cada palavra transmitisse com precisão o que ele queria dizer. A expressão organização dinâmica im­plica uma integração ou inter-relação de vários aspectos da personalidade. A personalidade é organizada e padroniza­da. No entanto, a organização está sempre sujeita a mu­dança: daí o qualificador “dinâmica”. A personalidade não é uma organização estática; ela está constantemente cres­cendo ou mudando. O termo psicofísicos enfatiza a impor­tância dos aspectos psicológicos e físicos da personalidade.

Outra palavra na definição que implica ação é determinam, sugerindo que “a personalidade é alguma coisa e faz alguma coisa” (Allport, 1961, p. 29). Em outras palavras, a personalidade não é meramente a máscara que usamos, nem é apenas o comportamento. Ela se refere ao indivíduo por trás da fachada, à pessoa por trás da ação.

Por característicos, Allport sugeria “individual" ou “úni­co”. A palavra “caráter” originalmente significava uma mar­ca ou gravação, termos que conferem sabor ao que Allport queria dizer com "característicos". Todas as pessoas regis­tram sua marca única ou gravação em sua personalidade, e seu comportamento e pensamento característicos as distinguem de todas as demais pessoas. As características são marcadas com uma gravação única, uma estampa ou registro, que ninguém mais consegue duplicar. As palavras comportamento e pensamento apenas se referem a algo que a pessoa faz. Trata-se de termos globais que pretendem in­cluir comportamentos internos (pensamentos) e externos, como palavras e ações.

A abrangente definição da personalidade de Allport sugere que os seres humanos são as duas coisas: produto e processo; as pessoas têm uma estrutura organizada; ao mesmo tempo, elas possuem a capacidade de mudar. Pa­drão coexiste com crescimento; ordem, com diversificação.
Em resumo, a personalidade é tanto física quanto psicológica; ela inclui comportamentos explícitos e pensa­mentos encobertos; ela não somente é alguma coisa, mas faz alguma coisa. A personalidade é substância e mudança, produto e processo, estrutura e crescimento.

Qual é o papel da motivação consciente?

Mais do que qualquer outro teórico, Allport enfatizou a im­portância da motivação consciente. Os adultos sadios são, em geral, conscientes do que estão fazendo e de suas razões para fazê-lo. Sua ênfase na motivação consciente remonta a seu encontro em Viena com Freud e sua reação emocio­nal à pergunta do médico vienense: “E aquele menino era você?". A resposta de Freud tinha a implicação de que seu visitante de 22 anos estava falando inconscientemente da própria mania de limpeza ao revelar a história do me­nino limpo no bonde. Allport (1967) insistia em que sua motivação era bem consciente - ele simplesmente queria conhecer as idéias de Freud acerca da fobia por sujeira em uma criança tão pequena.
Ainda que Freud presumisse um significado incons­ciente subjacente para a história do menino no bonde, Allport estava inclinado a aceitar os autorrelatos de modo mais literal. “Essa experiência ensinou-me que a psicolo­gia profunda, por todos os seus méritos, pode mergulhar muito fundo e que os psicólogos fariam muito bem em dar total reconhecimento aos motivos manifestos antes de sondarem o inconsciente”(Allport, 1967, p. 8).

Entretanto, Allport (1961) não ignorou a existência ou mesmo a importância dos processos inconscientes. Ele reconheceu o fato de que alguma motivação é incitada por impulsos ocultos e impulsos sublimados. Ele acreditava, por exemplo, que a maioria dos comportamentos compul­sivos é de repetições automáticas, em geral autodestrutivas e motivadas por tendências inconscientes. Eles com frequência se originam na infância e mantêm um aspecto infantil na vida adulta.

Quais são as características da pessoa sadia?

Muito antes de Abraham Maslow ter torna­do popular o conceito de autoatualização, Gordon Allport (1937) formulou hipóteses profundas acerca dos atributos da personalidade madura. O interesse de Allport na pes­soa psicologicamente sadia remonta a 1922, ano em que [237] ele concluiu seu doutorado. Não tendo habilidade particu­lar em matemática, biologia, medicina ou manipulações laboratoriais, Allport (1967) foi forçado a “encontrar [seu] próprio caminho no terreno humanista da psicologia" (p. 8). Esse terreno o conduziu a um estudo da personalidade psicologicamente madura.

Alguns pressupostos gerais sâo necessários para com­preender a concepção de Allport da personalidade madura. Primeiro, as pessoas psicologicamente maduras sáo carac­terizadas pelo comportamento proativo; ou seja, elas não reagem aos estímulos externos, mas são capazes de agir conscientemente sobre seu ambiente de formas novas e inovadoras e fazem o ambiente reagir a elas. O comporta­mento proativo não é apenas direcionado para reduzir ten­sões, mas também para criar novas.

Além disso, as personalidades maduras têm maior pro­babilidade do que as perturbadas de serem motivadas por processos conscientes, o que lhes permite maior flexibili­dade e autonomia em comparação às pessoas que não são sadias, que permanecem dominadas por motivos inconscientes que se originam das experiências da infância.

As pessoas sadias, em geral, experimentaram uma in­fância relativamente livre de traumas, muito embora seus anos posteriores possam ser temperados por conflito e sofrimento. Os indivíduos psicologicamente sadios não deixam de ter suas deficiências e idiossincrasias que os tomam únicos. Além disso, idade não é um requisito para maturidade, apesar de as pessoas sadias parecerem mais maduras conforme ficam mais velhas.
Quais, então, são os requisitos específicos para a saúde psicológica? Allport (1961) identificou seis critérios para a personalidade madura.

O primeiro é uma extensão do senso de self. As pessoas maduras procuram continuamente se identificar com eventos externos e deles participar. Elas não são autocentradas, mas são capazes de se envolver em problemas e atividades que não estão focadas nelas. Elas desenvolvem um interesse altruísta pelo trabalho, pelo esporte e pela recreação. Interesse social, família e vida espiritual são importantes para elas. Por fim, essas atividades externas se toram parte do próprio ser. Allport (1961) resumiu esse primeiro critério afirmando: “Todos possuem amor por si mesmos, mas somente a ampliação do self é a marca da maturidade." (p.285).

Segundo, as personalidades maduras são caracteriza­das por uma “relação cordial do self com os outros". (Allport, 1961, p. 285). Elas possuem a capacidade de amar os ou­tros de maneira íntima e compassiva. A relação cordial, é claro, depende da capacidade de ampliar o senso de self. Somente olhando além de si mesmas é que as pessoas maduras podem amar os outros de modo não possessivo e desinteressado. Os indivíduos psicologicamente sadios tratam as outras pessoas com respeito e percebem que as necessidades, os desejos e as esperanças dos outros não são completamente estranhos aos deles. Além disso, expres­sam uma atitude sexual sadia e não exploram os outros para gratificação pessoal.

Um terceiro critério é asegurança emocional ou autoaceitação. Os indivíduos maduros se aceitam pelo que são e pos­suem o que Allport (1961) chamou de equilíbrio emocional. Essas pessoas psicologicamente sadias não ficam perturba­das em demasia quando as coisas não ocorrem conforme planejado ou quando elas estão apenas “tendo um dia ruim". Elas não se apegam a irritações menores e reconhecem que as frustrações e inconveniências fazem parte da vida.

Quarto, as pessoas psicologicamente sadias também possuem uma percepção realista do ambiente. Elas não vi­vem em um mundo de fantasia ou torcem a realidade para que se encaixe em seus próprios desejos. Elas são orientadas para o problema, em vez de autocentradas, e estão em contato com o mundo como é visto pela maioria das pessoas.

Um quinto critério é insight e humor. As pessoas ma­duras se conhecem e, portanto, não têm necessidade de atribuir os próprios erros e fraquezas aos outros. Elas tam­bém têm um senso de humor não hostil, o qual lhes dá a capacidade de rirem de si mesmas, em vez de se basearem em temas sexuais ou agressivos para produzir riso nos ou­tros. Allport (1961) acreditava que insight e humor estão intimamente relacionados e podem ser aspectos da mesma coisa, ou seja, a objetificação do self. Os indivíduos sadios veem-se objetivamente. Eles são capazes de perceber as incongruências e os absurdos na vida e não têm a necessida­ de de fingir ou de se vangloriar.

O critério final de maturidade é uma filosofia de vida unificadora. As pessoas sadias possuem uma visão clara do propósito da vida. Sem essa visão, seu insight seria va­zio e estéril e seu humor seria trivial e cínico. A filosofia de vida unificadora pode ou não ser religiosa, mas Allport
(1954,1963), em nível pessoal, parece ter achado que uma orientação religiosa madura é um ingrediente essencial na vida da maioria dos indivíduos maduros. Ainda que muitas pessoas freqüentadoras da igreja tenham filosofia religiosa imatura e preconceitos raciais e étnicos limitados, aquelas muito religiosas são relativamente livres desses precon­ceitos. A pessoa com uma atitude religiosa madura e uma filosofia de vida unificadora tem uma consciência bem-desenvolvida e, muito provavelmente, um forte desejo de servir aos outros. [238]

Psicologia - Psicologia do indivíduo
11/11/2020 12:43:52 PM | Por Ana Clara Gonçalves Bittencourt
Psicologia positiva e psicoterapias

As fronteiras da Psicologia estão constantemente em um processo de mudança e a sua expansão historicamente, deu-se de forma contundente por época da inserção dessa ciência no mercado de trabalho após a Segunda Guerra Mundial. A Psicologia tinha como um dos seus pilares cuidar das doenças mentais, fazer diagnósticos e estabelecer meios para tratar os transtornos mentais, sendo essa, en­tão, uma das suas três importantes missões. As outras duas missões da Psicologia - tornar boa a vida das pessoas e elencar os talentos superiores dos indivíduos - ficaram negligenciadas por longos anos (SNYDER & LO­ PEZ, 2009).

A Psicologia Positiva instaura um novo paradigma no que se refere ao entendimento sobre as potencialidades humanas, a felicidade e o bem-es­tar. (SELIGMAN, 2011). Esses estudos se encontram em expansão no Brasil e estão ganhando notoriedade cada vez maior ao serem propagados em diversos segmentos nos quais suas aplicabilidades são possíveis. A Psicolo­gia Positiva que é composta portrês pilares - o nível subjetivo, relacionado aos estudos dos conteúdos sobre felicidade e bem-estar; o nível indivi­dual, que diz respeito aos traços e características individuais positivas e o nível coletivo, voltado para as virtudes cívicas e instituições com funciona­mento positivo (SELIGMAN & CSIKSZENTMIHALYI, 2000) - vem ganhando espaço também no contexto da Psicologia Clínica.

Inúmeros estudiosos da Psicologia Positiva apontam os aspectos sau­dáveis - potencialidades, virtudes, forças de caráter, pontos fortes, emoções positivas, felicidade, otimismo, esperança, resiliência, dentre tantos outros aspectos funcionais - como sendo fatores preditivos da saúde mental e física (SNYDER & LOPEZ, 2009), além de serem verdadeiras molas pro­pulsoras para o alcance de mudanças positivas na vida. [59]

O movimento científico da Psicologia Positiva foi retratado na edição especial de 2000 do periódico American Psychologist, mostrando que esse movimento é uma "tentativa de levar os psicólogos contemporâneos a adotarem uma visão mais aberta e apreciativa dos potenciais, das motiva­ções e das capacidades humanas". (SHELDON & KING, 2001, p. 216).

Psicologia Positiva e seu crescimento no Brasil

Encontramos relatos dos avanços da Psicologia Positiva e de suas apli­cações no Brasil quer seja no contexto individual ou coletivo, desenhando um novo panorama onde os psicólogos mostram interesse em conhecer essas abordagens científicas com a intenção de usá-las para tornar melhor a vida das pessoas. No Brasil, a porta de entrada para a Psicologia Positiva, aplicada ao contexto clínico, ocorreu com os estudos sobre resiliência, em função dos fatores de vulnerabilidade e das situações de risco existentes no contexto brasileiro, destacando sua importância para a determinação de novos horizontes para pesquisas nas áreas das ciências humanas e so­ciais. (YUNES, 2003).

A expansão da Psicologia Positiva no Brasil foi retratada através de um estudo realizado por Paludo e Koller no ano de 2007. À época, já conside­ravam que a Psicologia Positiva estava em processo de expansão dentro da ciência psicológica, ganhando mais relevância no Brasil apenas mais recentemente. De acordo com o entendimento dessas estudiosas, acima referenciadas, é importante compreender o surgimento da Psicologia Po­sitiva no Brasil para que exista uma maior e melhor apropriação dos seus princípios pelos psicólogos em âmbito nacional. De acordo com Pureza et al. (2012), foi realizada uma pesquisa de re­visão sistemática da literatura científica em Psicologia Positiva no Brasil. Essa pesquisa considerou o período das primeiras publicações (anos 90) até 2012. Os fundamentos psicológicos que receberam destaque nessa pesquisa foram: o bem-estar, a felicidade, os pontos fortes e as virtudes humanas. O descritor utilizado foi "Psicologia Positiva" e a revisão foi rea­lizada com base nos dados de publicações nacionais SciELO, BVS e BDTD.

Através dessa pesquisa, no que se refere aos construtos teóricos, ob­servou-se que o bem-estar continua sendo o tema central da maioria dos [60] estudos e, também, foram identificados sete diferentes instrumentos de pesquisa utilizados para avaliação de diferentes construtos da Psicologia Positiva. Como o leitor pode perceber, a Psicologia Positiva vem fazendo um caminho promissor no Brasil, a partir de investigações sobre as potencialidades humanas com suas aplicações, também, no contexto da Psicologia Clínica.

Contribuições da Psicologia Positiva e sua interface com a Psicologia Clínica

Entre as principais contribuições da Psicologia Positiva para a Psicolo­gia Clínica destacam-se a construção de instrumentos de avaliação, métodos preventivos, aprimoramento de técnicas de avaliação psicológica destinadas a identificar as virtudes e os aspectos positivos humanos. (SELIGMAN, 2002).

Esse saber científico pode ser estendido a diversas áreas do conheci­mento, tendo em vista que abrange as potencialidades humanas em qual­quer segmento da vida do indivíduo e, por esse motivo, há que se falar da multidisciplinaridade desse saber. Uma multidisciplinaridade legitimada não somente no tocante ao campo da Psicologia, mas, também, em outras tantas áreas. Essa multidisciplinaridade contribuiu para a dimensão da Psi­cologia Positiva tanto no contexto de pesquisa quanto da prática dos seus preceitos, demarcando a proposta de desenvolver um campo da ciência voltado para uma "vida que vale a pena". (CORRÊA, 2016).

E, de acordo com Pureza et al. (2012), as investigações apontam a efe­tividade de intervenções através dos construtos propostos pela Psicologia Positiva, sugerindo a aproximação desta com as áreas da Psicologia Clínica, da Saúde e da Educação. (PUREZA et al, 2012).
No que se refere ao campo da Psicologia Clínica, a Psicologia Positiva pode ser empregada para a prevenção e a promoção de saúde focando a melhora da qualidade de vida. Portanto, as contribuições desse novo sa­ber científico para a Psicologia Clínica são significativas, pois possibilitam a identificação e o desenvolvimento dos aspectos positivos e preservados do indivíduo no contexto psicoterapêutico. Esses aspectos, uma vez potencia­lizados, tornam-se um fator de proteção para o próprio indivíduo e levam à ampliação da sensação de bem-estar e à conquista de uma vida mais feliz. [61]

Em um sentido mais completo, a aplicação da Psicologia Positiva na Psicoterapia tem como objetivos principais: abordar os recursos positivos dos clientes, por exemplo, as emoções positivas; possibilitar a mudança de estruturas cognitivas pessimistas para pensamentos otimistas; estimular o aumento da resiliência para o enfrentamento; desenvolver e fortalecer as forças de caráter, além de tratar as queixas apresentadas pelos clientes (SELIGMAN, RASHID & PARKS). 

Seligman, Rashid e Parks (2006) desenvolveram a Psicoterapia Positiva elaborada a partir de atendimentos para pacientes deprimidos. E de acordo com esses estudos a Psicoterapia Positiva agrada um conjunto de técnicas que possuem mais eficácia se utilizadas assomadamente com os princípios terapêuticos básicos propostos pelas abordagens teóricas da Psicologia (Seligman, 2011). 

Nesse sentido, imbuído do desejo de mostrar aos indivíduos a importância de se viver bem, Seligman (2011) propõe que o bem-estar depende de uma busca constante de viver com mais emoções positivas, ser engajado naquilo que se faz, ter relacionamentos significativos, encontrar sentido na vida e ter realização. A proposta da Teoria de Seligman sobre o Bem-Estar se adequa e pode ser perfeitamente funcional no trabalho psicoterápico, uma vez que conduzir os clientes para a descoberta de suas próprias potencialidades, sem claro, negligenciar as difuncionalidades e fraquezas, favorece experiências positivas e transformadoras uma vez que se cria, nesse sentido, um círculo virtuoso onde a vivência de emoções positivas no Setting terapêutico tende a aumentar o grau de comprometimento do cliente em tornar-se uma pessoa melhor e mais saudável.

De acordo com Paludo & Koller (2007), a Psicoterapia Positiva visa fortalecer os aspectos saudáveis dos indivíduos. Nesse sentido, focar nas virtudes e forças de caráter é uma das propostas que se aplica perfeitamente a esse contexto, pois, segundo esses estudiosos, ao ampliar as forças pessoais dos clientes possibilita a eles a busca por mudanças mais saudáveis na vida. Como se pode perceber, alavancar esses recursos internos positivos nos clientes, no contexto da Psicoterapia, é de total relevância, uma vez que funcionam como fatores de proteção para problemas futuros, para a saúde e o bem-estar (SCORSOLINI-COMIN & POLETTO, 2016). [62]

A relação das descobertas do movimento científico da Psicologia Po­sitiva com a Psicologia Clínica encontra-se no cerne dos objetivos da Parte II desta obra. Objetivamos mostrar aos psicoterapeutas: que os princípios desse "novo olhar" podem ser aplicados no processo de Psicoterapia para ajudar os seus pacientes a se desenvolverem e se fortalecerem para lidar com o momentos adversos da vida tornando-os mais resilientes; que ao identificarem, maperarem e aprimorarem os aspectos positivos dos seus pacientes estão instrumentalizando-os, de forma mais palpável, para que se tornem pessoas mais felizes; que os pacientes ao edificarem uma visão mais positiva de si mesmos estarão facilitando a construção de uma vida com mais sentido; e que estarão proporcionando experiências com maior bem-estar.

Como o leitor pode perceber, o campo investigativo acerca das con­tribuições da Psicologia Positiva para que as pessoas alcancem uma vida melhor vem crescendo e ganhando um espaço que, aos poucos, está con­solidando-se. E, no contexto da Psicoterapia, essas contribuições mostram que são crescentes as possibilidades dessas aplicações com o intuito de ajudar os clientes a se desenvolverem e se fortalecerem não somente para enfrentarem os transtornos pelos quais são acometidos, mas também para buscarem viver com maior bem-estar e ter uma vida mais satisfatória e plena.

O espaço da Psicoterapia é um contexto no qual os princípios da Psicologia Positiva podem ser empregados, de forma contun­dente, contabilizando resultados significativos favorecedores do desen­volvimento de pessoas mais felizes. Mostrar aos clientes que todos nós somos dotados de características positivas que nos tornam mais funcio­nais e proativos, proporciona o aumento do otimismo, da esperança, da motivação e de vários outros sentimentos positivos, além de estimular o comprometimento desses para buscarem os resultados na Psicoterapia e, consequentemente, a evolução satisfatória das queixas. [63]

Psicologia - Psicologia positiva
11/10/2020 5:07:16 PM | Por Gregory J. Feist, Jess Feist, Tomi-Ann Roberts
Conceito de humanidade para Rollo May

Assim como Erik Erikson, May apresentou uma nova maneira de olhar para as coisas. Sua visão da humanida­de é mais ampla e mais profunda do que as visões da maioria dos outros teóricos da personalidade. Ele via as pessoas como seres complexos, capazes de um grande bem ou de um mal imenso. De acordo com May, as pessoas se distanciaram do mun­do natural, das outras pessoas e, sobretudo, de si mesmas. Conforme as pessoas se alienam mais dos outros e de si mes­mas, elas renunciam partes de sua consciência. Elas ficam me­nos conscientes de si mesmas como sujeitos, isto é, conscientes de experimentar o self. Quando o subjetivo é obscurecido, [230] as pessoas perdem parte de sua capacidade de fazer escolhas. Essa progressão, no entanto, não é inevitável. May acreditava que as pessoas, dentro dos limites do destino, têm a capacida­ de de fazer livres escolhas. Cada escolha faz recuar as frontei­ras do determinismo e permite novas escolhas. As pessoas, em geral, têm muito mais potencial para a liberdade do que per­cebem. No entanto, a livre escolha não existe sem ansiedade. Escolha demanda coragem para confrontar o próprio destino, olhar para dentro e reconhecer o mal e o bem.

Escolha também implica ação. Sem ação, a escolha é meramente um desejo, um desejo inútil. A ação vem acom­panhada de responsabilidade. Liberdade e responsabilidade são sempre comensuráveis. Uma pessoa não pode ter mais liberdade do que responsabilidade, nem pode ficar algema­da a mais responsabilidade do que à liberdade. Os indivíduos sadios recebem bem tanto a liberdade quanto a responsabili­dade, mas eles percebem que a escolha costuma ser dolorosa, produz ansiedade e é difícil.

Segundo May, muitas pessoas renunciaram à capacidade de escolher, mas a própria capitulação, ele insistia, era uma escolha. Por fim, cada um de nós é responsável pelas escolhas que fazemos, e essas escolhas definem cada um de nós como seres humanos únicos. May, portanto, deve ser classificado como alto na dimensão do livre-arbítrio.

A teoria de May é otimista ou pessimista? Ainda que, por vezes, tenha pintado um quadro sóbrio da humanidade, May não era pessimista. Ele via a era atual como meramente um platô na busca da humanidade por novos símbolos e novos mitos que irão gerar a espécie com espírito renovado.

Apesar de May ter reconhecido o impacto potencial das ex­periências da infância na personalidade adulta, ele favoreceu claramente a teleologia em detrimento da causalidade. Cada um de nós tem um objetivo particular ou destino que precisa descobrir e desafiar, ou, então, arriscar a alienação e a neurose. May assumia uma postura moderada na questão das forças conscientes versus inconscientes. Por natureza, as pessoas têm uma enorme capacidade de autoconsciência, mas, com frequência, essa capacidade permanece não cultivada. As pessoas, às vezes, não possuem a coragem para enfrentar seu destino ou reconhecer o mal que existe dentro de sua cultura, assim como dentro de si mesmas. Consciência e escolhas estão inter-reladonadas. Conforme as pessoas fazem mais escolhas, elas adquirem mais conhecimento de quem são; ou seja, elas desenvolvem um maior sentimento de ser. Esse sentimento aguçado de ser, por sua vez, facilita a capacidade de fazer mais escolhas. Uma consciência do self e uma capacidade para livre-arbítrio são distintivas de saúde psicológica.

May também assumiu uma posição intermediária quan­to às influências sociais versus biológicas. A sociedade contri­bui para a personalidade principalmente por meio das rela­ções interpessoais. Nossas relações com outras pessoas podem ter um efeito libertador ou escravizador. Os relacionamentos doentios, como os que Philip experimentou com sua mãe e irmã, podem abafar o crescimento pessoal e nos deixar incapazes de participar de um encontro sadio com outra pessoa. Sem a capacidade de nos relacionarmos com as pessoas como pessoas, a vida se torna sem sentido e desenvolvemos um sen­timento de alienação não somente dos outros, mas também de nós mesmos. A biologia ainda contribui para a personali­dade. Fatores biológicos, como gênero, tamanho físico, pré disposição a doenças e, por fim, a morte em si, moldam o destino, Todos precisam viver dentro das fronteiras do destino, mas essas fronteiras podem ser expandidas.

Na dimensão da singularidade versus semelhanças, a visão de May da humanidade definitivamente tende para a singularidade. Cada um de nós é responsável por moldar a própria personalidade dentro dos limites impostos pelo destino. Não existem dois de nós que façam a mesma sequência de escolhas, e não há dois de nós que desenvolvam formas idênticas de olhar para as coisas. A ênfase de May na fenomenologia implica percepções individuais e, portanto, persona­lidades únicas. [231]

Psicologia - Psicologia existencial
11/9/2020 5:01:12 PM | Por Gregory J. Feist, Jess Feist, Tomi-Ann Roberts
Críticas à teoria de existencial de May

O existencialismo, em geral, e a psicologia de May, em particular, foram criticados como sendo anti-intelectuais e antiteóricos. May reconheceu a alegação de que sua visão não se adequava ao conceito tradicional de teoria, porém de­fendeu com firmeza sua psicologia contra a acusação de ser anti-intelectual e anticientífica. Ele apontou a esterilidade dos métodos científicos convencionais e a incapacidade de­les para revelar o caráter ontológico de seres humanos com vontade, atenção e atuantes.

May defendia que uma nova psicologia científica precisa reconhecer características humanas como a sin­gularidade, a liberdade pessoal, o destino, as experiências fenomenológicas e, especialmente, a capacidade de nos relacionarmos com nós mesmos como objetos e sujeitos. Uma nova ciência dos humanos também precisa incluir éti­ca. “As ações dos seres humanos viventes, autoconscientes, nunca são automáticas, mas envolvem alguma avaliação das conseqüências, alguma potencialidade para o bem ou para o mal" (May, 1967, p. 199).
Até que essa nova ciência adquira maior maturidade, precisamos avaliar a visão de May pelos mesmos crité­rios usados para cada um dos outros teóricos da perso­nalidade. Primeiro, as idéias de May geraram pesquisa científica? May não formulou sua visão em uma estrutura teórica, sugere-se uma escassez de hipóteses em seus es­critos. Algumas pesquisas, como as investigações de Jeff Greenberg e colaboradores sobre o manejo do terror, re­lacionam-se, em geral, com a psicologia existencial, mas esses estudos não derivam especificamente da teoria de May. Conforme o primeiro critério de uma teoria útil, portanto, a psicologia existencial de May recebe um es­core muito baixo.

Segundo, as idéias de May podem ser verificadas ou refutadas? Mais uma vez, apsicologia existencial, em geral, e a teoria de May, em particular, precisam ser classificadas como muito baixas com base em tal critério. A teoria é mui­to amorfa para sugerir hipóteses específicas que poderiam confirmar ou refutar seus conceitos principais.

Terceiro, a psicologia orientada filosoficamente de May ajuda a organizar o que se sabe atualmente acerca da natureza humana? Nesse critério, May receberia uma clas­sificação média. Comparado com a maioria dos teóricos discutidos neste livro, May seguiu mais de perto a máxima de Gordon Allport: “Não se esqueça do que você decidiu esquecer" (Allport, 1968, p. 23). May não esqueceu que ele excluiu discursos sobre os estágios do desenvolvimento, as forças motivacionais básicas e outros fatores que tendem a segmentar a experiência humana. Os escritos filosóficos de May alcançaram profundamente os longínquos recessos da experiência humana e exploraram aspectos da humanidade não examinados por outros teóricos da personalidade. Sua popularidade deveu-se, em parte, a sua habilidade de tocar os leitores individualmente, de se conectar com sua huma­nidade. Ainda que suas idéias possam afetar as pessoas de maneiras que outros teóricos não conseguiram, o uso de certos conceitos foi, por vezes, incoerente e confuso. Além do mais, ele decidiu negligenciar vários tópicos importan­tes na personalidade humana, como, por exemplo, desen­volvimento, cognição, aprendizagem e motivação.

Como um guia prático para a ação, a teoria de May é muito fraca. Mesmo com um grande conhecimento da per­sonalidade humana, May reuniu suas visões mais a partir de fontes filosóficas do que científicas. De fato, ele não fazia objeção a ser chamado de filósofo e, muitas vezes, refere-se a si mesmo como filósofo-terapeuta.

De acordo com o critério de coerência a psicolo­gia existencial de May, mais uma vez, fica aquém. Ele apre­sentou uma variedade de definições para conceitos como ansiedade, culpa, intencionalidade, vontade e destino. Infelizmente, nunca apresentou definições operacionais des­ses termos. Tal terminologia imprecisa contribuiu para a falta de pesquisas sobre as idéias de May.

O critério final de uma teoria útil é a parcimônia e, se­gundo esse padrão, a psicologia de May recebe uma classi­ficação moderada. Seus escritos, por vezes, eram compli­cados e estranhos, mas, para seu crédito, ele lidava com questões complexas e não tentou simplificar demais a per­sonalidade humana. [230]

Psicologia - Psicologia existencial
Todos os textos
Panorama da Teoria pós-freudiana

Erikson não tinha curso superior de qualquer tipo, mas a falta de educação formal não o impediu de ga­nhar fama mundial em uma variedade impressionante de campos, incluindo psicanálise, antropologia, psico-história e educação. Diferentemente dos primeiros teóricos psicodinâmicos, que cortaram todas as ligações com a psicanálise freu­diana, Erikson pretendia que sua teoria da personalidade ampliasse, em vez de repudiar, os pressupostos de Freud e oferecesse uma nova “maneira de olhar para as coisas" (Erikson, 1963, p. 403). Sua teoria pós-freudiana am­pliou os estágios do desenvolvimento infantil de Freud até a adolescência, a idade adulta e a velhice. Erikson sugeriu que, em cada estágio, uma luta psicossocial contribui para a formação da personalidade. A partir da adolescência, essa luta assume a forma de uma crise de identidade - um ponto de virada na vida do indivíduo que pode fortalecer ou enfraquecer a personalidade.

Erikson considerava sua teoria pós-freudiana como uma extensão da psicanálise, algo que Freud poderia ter feito. Mesmo tendo usado a teoria freudiana como funda­mento para sua abordagem da personalidade do ciclo de vida, Erikson diferia de Freud em vários aspectos. Mais que elabo­rar os estágios psicossexuais para além da infância, Erikson coloca mais ênfase nas influências sociais e históricas.

A teoria pós-freudiana de Erikson, como a de outros teóricos da personalidade, é um reflexo de seu histórico, que incluía arte, extensas viagens, experiências com uma variedade de culturas e uma vida inteira de busca pela pró­pria identidade.

<<Expandir>>
7/20/2020 8:16:52 PM | Psicanálise, n. 25
Chantagem emocional

Você tem medo de ser reprovado ou tem medo do outro? Você sente que deve a alguém uma obrigação, mesmo quando se trata de algo que você não deseja fazer ou que é ruim para você? Você se sente culpado quando não cede às solicitações do outro? Situações deste tipo fazem você se sentir que não é uma pessoa boa? De acordo com a autora Susan Forward, se você respondeu sim a qualquer destas pergun­ tas, existe uma grande chance de que você possa “sucumbir” à chantagem emocional do outro.

Psicologia - Psicanálise
7/10/2020 7:16:58 PM | MenteCérebro, n.141
Mentira, um componente da inteligência social

Psicólogos, antropólogos e neurobiólogos confirmam: mentir não é apenas um processo cognitivo complexo, mas também um componente decisivo de nossa competência social.

Psicologia - Neuropsicologia
Todas as matérias
Pensar por si só é ser livre e ser livre é coisa muito séria...
Renato Manfredini Júnior
Todas as citações
{+} Renato Manfredini Júnior
REDES SOCIAIS
NOTÍCIAS
Uol Notícias
10 Jan , 2020, 11:23h
Por que alguns gregos voltaram a cultuar os deuses da mitologia
Mitologia - Mitologia Grega
Uol Notícias
17 Dec , 2019, 17:41h
Navio romano naufragado é encontrado com 6 mil peças de vasos
Ciências humanas - Arqueologia
BBC Brasil
7 Nov , 2017, 13:45h
Cientistas descobrem fósseis de um dos primeiros ancestrais do homem e outros mamíferos
Ciências naturais - Paleontologia
Agência AFP
, h
Ausência de dinossauros nos trópicos foi causada por tempo quente e seco
Ciências naturais - Paleontologia
Mais notícias
ASTRONOMIA
Astrobiologia
Astrônomos
Documentários
História da astronomia
Sistema solar
Universo
Via láctea
CIÊNCIAS HUMANAS
Antropologia
Arqueologia
Cientistas
Documentários
Pedagogia
Sociologia
Textos
CIÊNCIAS NATURAIS
Biologia
Cientistas
Documentários
Física
História da ciência
Paleontologia
FILOSOFIA
Documentários
Filósofos
Textos
HISTÓRIA
Batalhas
Cidades
Documentários
Governantes
Historiadores
Mapas
Personalidades
MITOLOGIA
Antropogênese
Apocalipse
Cosmogonia
Documentários
Mitógrafos
Mitos e lendas
Seres míticos
Vida após a morte
PSICOLOGIA
Documentários
História da psicologia
Matérias de revistas
Psicólogos
Textos
10 tips for coping with wildfire smoke, from a public health expert
Health
Ocean on Jupiter’s Moon Europa May Have Supported Life
Science
Enough Sleep Could Reduce Risk of Injury, Study Finds
Healthy Lifestyle
Why Teenagers Reject Parents’ Solutions to Their Problems
Psychology
Struggling to quit sugar? You might not be sleeping enough
Healthy Lifestyle
O café dos Quatro Gatos
Cardápio desenhado por Pablo Picasso com 17 anos

Entre 1897 e 1907, o Cafè dels Quatre Gats (Café dos Quatro Gatos), constituiu o expoente máximo da vida boêmia da virada de século em Barcelona. Fundado pe­los pintores Santiago Rusinol e Ramón Casas, ambos fi­guras de ponta do movimento modernista, situava-se na Casa Marti de Josep Puig i Cadafalch, onde serviu ao mesmo tempo como ponto de encontro e cervejaria para a comunidade artística e intelectual da cidade. Seu nome deriva de uma expressão típica catalã que signifi­ca “somente unas poucas pessoas”;os “quatro gatos”, no entanto, eram comumente identificados como Rusi­nol e Casas, o folclorista e marionetista Miquel Utrillo, e o idiossincrático gerente do café, Pere Romeu, que também era pintor, embora nunca tenha desfrutado de muito sucesso.

A intimidade festiva dos cafés era há muito tempo um traço característico da vida urbana na Espanha. Madri tinha vários cafés literários famosos, como o Café Gijón, onde escritores, políticos e intelectuais se reuniam em grupos regulares de discussão informal (tertúlias). No entanto, somente Os Quatro Gatos conseguiria renome internacional como o equivalente ibérico dos cafés boêmios da Rive Gauche parisiense, um reflexo, em parte, da maior vibração da capital catalã.

Avida no café Os Quatro Gatos era uma longa tertú­lia. Entre os clientes regulares estavam Pablo Picasso e Isidre Nonell, além dos próprios “quatro gatos”. Eram organizadas exposições e conferências; muitos músicos, entre eles Enrique Granados e Isaac Albéniz, davam re­citais, enquanto os artistas e escritores associados com o café publicavam sua própria revista ilustrada, “Pèl e ploma” (“Pelo e pluma”, em referência a que nela ti­nham lugar tanto os pincéis dos pintores quanto a plu­ma dos escritores). Para estes homens, a arte tinha de proporcionar os meios de superar o materialismo da Barcelona moderna e industrial. Rusinol acreditava em praticar “a religião da arte e a verdade..., dominando o mundo mau e profano”. Com este fim fundou Os Qua­ tro Gatos. No entanto - embora se tornasse uma lenda artística - não foi um sucesso comercial. O café fechou após somente seis anos.

<<Expandir>>
DICIONÁRIOS
SERES DIVINOS
Por espécie
Por especialidade
Mitos e lendas
11/22/2019 6:04:27 PM | Danna
A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

Mitologia Celta
11/22/2019 5:49:58 PM | Culhwch
As tarefas impossíveis de Culhwch

Um dos contos mais populares de Mabinogion narra a estória de Culhwch e Olwen. Culhwch é de sangue real, pois é primo de Arthur. O seu nascimento foi invulgar. Antes de ele ter nascido, a mãe, Golenddyd, ganhou uma profunda antipatia por porcos, pois quando passava por uma vara deles, assustou-se e deu à luz um filho que abandonou. Um guardador de porcos pegou nele e levou-o para os pais criarem. Golenddyd morreu e o marido, Cilydd, voltou a casar com uma mulher que tinha uma filha que ela queria casar com Culhwch. Mas ele não quis, afirmando ser ainda muito jovem. A rainha então rogou uma praga a Culhwch, segundo a qual ele só viria a casar com Olwen, filha de Ysbaddeden, o Chefe dos Gigantes. Bastou a Culhwch ouvir o nome dela para se apaixonar profundamente.

Culhwch decidiu então pedir ajuda a Arthur para encontrar esta donzela e partiu num grande esplendor, completamente armado com machados de guerra, espada dourada e uma pequena machadinha que «podia fazer o ar sangrar.» Tinha também um chifre de marfim, dois galgos e montava um cavalo fantástico. Quando Culhwch chegou à corte de Arthur o porteiro tentou barrar-lhe a entrada, mas ele ameaçou dar três gritos de tal intensidade que as mulheres ficariam estéreis e as que estivessem grávidas abortariam.

É claro que ele passou. Encontrou-se com Arthur que se deixou convencer a ajudá-lo a procurar Olwen. As buscas decorreram durante um ano, sem sucesso. Por fim, juntaram um grupo dos melhores cavaleiros, cada um deles abençoado com peculiaridades extraordinárias. Um deles, Kay, tinha uma espada que provocava feridas que nenhum médico podia tratar; outro, Bedwyr, o mais veloz de todos, e Gwalchmai, que nunca voltava de uma missão sem a cumprir.

Após mais dia buscas, Olwen foi finalmente encontrada.

Ela correspondeu ao amor de Culhwch, mas explicou que o pai Ysbaddeden estava destinado a morrer quando se casasse. Olwen pediu a Culhwch que aceitasse qualquer condição que o pai lhe impusesse. Culhwch aproximou-se do Chefe dos Gigantes que lhe ordenou uma longa série de «tarefas impossíveis.» A mais intimidante delas consistia em recuperar uma tesoura, uma navalha da barba e um pente que estava entre as orelhas do grande e destruidor javali Twrch Trwyth. Apesar de tudo, Culhwch aceitou de boa vontade toda as tarefas. Ele e Arthur conseguiram atrair a ajuda de Mabon, o caçador que tinha estado preso num castelo após ter sido roubado. Na ocasião, ele tinha sido libertado Era conhecido como «o jovem» se bem que fosse o mais velho de todos os seres. Mabon Culhwch e os cavaleiros foram ajudados por animais mágicos: a Águia de Gwemabwy, o Melro de Kilgory, o Veado de Rhedynvre, Salmão de Llyn Law e outros bichos encantados. Um dos homens de Arthur, Gwrhyr, tim a capacidade de falar com cada um deles na sua própria linguagem. Após uma longa perseguição através do sul do País de Gales, da Cornualha e da Irlanda, durante a qual o diabólico javali devastou uma grande parte da terra, foi enfim possível, com a ajuda de Mabo dominá-lo e conduzi-lo para o mar. A navalha da barba, a tesoura e o pente foram entregue: e Culhwch pôde finalmente casar com Olwe.

Mitologia Celta
11/19/2019 7:57:26 PM | Math Ap Mathonwy
Math Ap Mathonwy e os dois sobrinhos

A história complicada de Math Ap Mathonwy, Lorde de Gwynedd, no Norte, constitui o quarto livro de Mabinogion. Tal como sucede em muitos destes contos, nela existe decepção e magia, e oscila com facilidade para trás e para a frente entre este e o Outro Mundo. É uma história de magia na qual o mal é punido, mas apenas na medida certa. Quando Math, um mago, não estava fora a vigiar as suas terras ou em alguma guerra, ele tinha de pousar os pés no regaço de uma donzela. Ele tinha dois sobrinhos, filhos da deusa Don, Gilfaethwy e Gwydion, que desejavam a virgem onde o tio pousava os pés e cujo nome era Goewin. Os irmãos, que tinham sido treinados na arte da magia pelo próprio Math, planejaram uma forma de o distraírem, começando uma guerra com Pryderi, Lorde de Dyfed, no Sul. Gwydion intrujou Pryderi com os seus porcos brancos mágicos e, tal como planejara, rebentou a guerra entre as cidades de Gwynedd e Dyfed.

Enquanto Math estava na guerra os irmãos por magia, violaram Goerin e depois regressaram ao campo de batalha. Em seguida Gwydion matou Pryderi, através das suas magias. Quando Math regressou, a sua ira ao descobrir o que tinha sucedido a Goewin levou-o a punir os dois irmãos, transformando-os durante três anos consecutivos em pares de animais: um veado e uma corça; um javali e uma porca; um lobo e uma loba, forçando-os a seguir as respectivas naturezas. Os irmãos alternavam o gênero masculino e feminino e em cada ano produziam um descendente. No fim deste período, Math perdoou os sobrinhos e voltou a dar-lhes a forma humana assim como aos descendentes, que, no mínimo, mantiveram os nomes de animais.

 

Mitologia Celta
Todos mitos
PERSONALIDADES
Por ocupação
Filmes
Rei Arthur
2004 
Germanus
2003 
Tróia
2004 
Nero
2004 Parte 1
Nero
2004 Parte 2
A lenda de Beowulf
2007 
Todos os filmes
Documentários
Rainha do Nilo Ep. 04
Império romano
Netflix
Extinct, a Horizon Guide to Dinosaurs 
BBC
Frederico, o Grande - O enigma da Prússia 
BBC
Núbia Ep. 01
Lost Kingdoms of Africa
BBC
Produtoras
Documentários séries
Todos os documentários
Explore o templodeapolo.net
Astronomia
Ciências humanas
Ciências naturais
Filosofia
História
Mitologia
Psicologia
Templodeapolo.net
2020 - v.11.98
CONTATO
RECLAMAÇÕES DE DIREITOS
POLÍTICA DE PRIVACIDADE
SOBRE O TEMPLO
Templodeapolo.net desde 2007 - Todos os textos publicados e seus respectivos direitos são de resposabilidade de seus autores e editoras - Textos que não incluam a autoria não são propriedade do editor deste sítio. Para receber as referências nestes casos, clique no link respectivo e solicite autoria e referências. - O Templodeapolo.net não possui nenhuma finalidade comercial. Não há propaganda e esperamos continuar assim. A proposta do sítio é puramente acadêmica, consistindo na publicação de textos com temas variados, classificados e organizados contextualmente para facilitar as pesquisas e navegação. - Caso você seja autor de algum material publicado sem sua devida autorização, por favor entre em contato para remoção imediata. - O editor, Odsson Ferreira, é psicologo graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás - PUCGO. Pós graduado lato sensu em Psicologia Positiva pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS. Templodeapolo.net ® Todos os direitos reservados aos seus respectivos proprietários.