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3/8/2019 7:18:25 PM | História Viva, n. 01
As razões de Judas

Judas é, desde sempre, a encarnação do traidor, aquele que entregou seu mestre por uns trocados. Pela primeira vez, um advogado procura restabelecer a verdade no processo, dissecando as causas, pesando os argumentos da acusação, o que deve ser esclarecido sobre o apóstolo maldito.

História - Civilização Hebráica
8/3/2018 3:10:18 PM | National Geographic, n. 150
Os limites do império romano

Quase 2 mil anos atrás, essa era a linha que separava o Império Romano do resto do mundo. Ali na Alemanha, o montículo é o que resta de uma muralha que chegou a ter 3 metros de altura, estendendo-se por centenas de quilômetros e protegido pelo olhar vigilante de soldados romanos em torres de observação, remota e desolada, mil quilômetros ao norte de Roma. “Aqui, a muralha era rebocada e pintada”, afirma Hüssen. “Tudo era nítido e preciso. Os romanos tinham uma ideia clara de como deviam ser as coisas.”

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NOTÍCIAS
BBC Brasil
7 Nov , 2017, 13:45h
Cientistas descobrem fósseis de um dos primeiros ancestrais do homem e outros mamíferos
Ciências naturais - Paleontologia
Agência AFP
, h
Ausência de dinossauros nos trópicos foi causada por tempo quente e seco
Ciências naturais - Paleontologia
Terra
, h
MG - em 2 horas, paleontólogos acham quatro fósseis em sítio
Ciências naturais - Paleontologia
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TEXTOS
12/12/2019 12:07:22 PM | Por Paulo Dalgalarrondo
Livre
O surgimento da teoria evolucionista e seleção natural

Um grande número de sociedades e culturas formularam, e ainda formulam, ideias, concepções e histórias sobre a origem do mundo, dos diferentes seres vivos e do ser humano. Entre muitos povos indígenas, tais concepções ocorrem por meio de mitos de origem, narrativas que relatam o surgimento e a história do mundo, dos seres da natureza e dos homens. Muitas dessas sociedades formularam tais origens como algo que ocorreu de modo abrupto, em que os seres já surgiram prontos, em sua forma definitiva. Assim, o mundo teria sido criado não só pronto, mas também perfeito; não haveria nada mais a ser mudado ou substancialmente transformado; mudanças nessa ordem originária só poderiam conduzir à degradação, a uma espécie de “queda fundamental”, que revelaria os descaminhos dos seres no mundo.

Uma das visões contemporâneas do mundo ocidental, expressa pelas ciências da vida, é distinta desse tipo de perspectiva. Segundo a ciência dos últimos 200 a 250 anos, os seres vivos teriam surgido de formas simples, ancestrais, que foram se transformando, evoluindo, para formas derivadas, em geral mais complexas do que as ancestrais.

A noção ocidental, entretanto, nem sempre foi assim. Nas origens do pensamento ocidental (que podem ser traçadas até a combinação sui generis de vertente greco-romana com a hebraico-cristã), o mundo, os seres da natureza e o homem surgiram em sua forma acabada, mas com o potencial de serem aperfeiçoados. Na Antiguidade, os filósofos das colônias gregas na Ásia Menor, os chamados filósofos jônicos ou pré-socráticos, foram os primeiros, no século VI a.e.c., a formular teorias originais e independentes de noções religiosas sobre a origem e a evolução do cosmos e da vida. Ainda que a maior parte dos escritos desses filósofos tenha se perdido e tenham nos restado apenas fragmentos, pelos trechos que sobreviveram, é possível notar que eles formularam teses sumamente interessantes e perspicazes, implicando noções transformistas de distintos matizes em relação aos seres vivos.

Depois dos filósofos pré-socráticos

Não foram, entretanto, as teses dos filósofos pré-socráticos as que, a partir da Antiguidade, mais influenciaram o Ocidente nos períodos subsequentes (Idade Média, Renascença e Modernidade). Foram os filósofos do auge do pensamento grego, Platão (427-347 a.e.c.) e Aristóteles (384-322 a.e.c.). Suas teorias sobre a natureza não contemplavam uma visão transformista. Pelo contrário, as semelhanças e diferenças entre os animais obrigavam a uma ordenação em grupos determinados e relativamente fixos, separando-os formalmente e rejeitando a perspectiva transformista.

Para o historiador das ideias Arthur Lovejoy (1873-1962), em Platão encontra-se a origem de uma das mais persitentes e poderosas pressuposições do pensamento ocidental, a de que há um “esquema geral das coisas”, um “padrão constitutivo do universo”, que, de forma condensada, é traduzido pela expressão “a grande cadeia do ser” (também denominada scala naturae, échelle des êtres ou chain of being). É a ideia de que o universo corresponde a um esquema inteligível e racional; uma crença sobre a estrutura da natureza, retomada no início do século XVIII por Gottfried Leibniz (1646-1716), que, de diversas formas, influencia as teses da ciência moderna.

Aristóteles é, com justiça, considerado fundador das ciências da vida como disciplina. Em suas obras naturalísticas que restaram, História dos animais, As partes dos animais e A geração dos animais (além de opúsculos como Marcha dos animais, Movimento dos animais e Pequeno tratado de história natural), assim como em obras de anatomia e botânica que se perderam, revela o estudo de cerca de 400 animais que buscou classificar, tendo dissecado cerca de 50 deles. Realizou observações anatômicas, embriológicas e etológicas detalhadas de animais terrestres e aquáticos (moluscos, peixes), fez observações sobre cetáceos e morcegos, tendo insights em ecologia e biogeografia. Obviamente, muitas de suas observações e, sobretudo, conclusões são falsas aos olhos da ciência de hoje, mas sua obra naturalística não deixa de ser notável. A vida é vista por ele como um princípio imaterial que anima a matéria, e a natureza está ordenada por uma inteligência suprema (noção aristotélica de Enteléquia). Assim, sua biologia tem caráter vitalista e finalista. O conceito de espécie na biologia de Aristóteles é bastante complexo, articulando a visão fixista e essencialista do platonismo com componentes de uma visão gradualista, que ele mesmo desenvolveu. Aristóteles, além disso, introduziu noções como de homologia entre partes e órgãos dos animais.

As noções platónicas e aristotélicas em relação à natureza marcaram de forma penetrante o pensamento do ocidente durante toda a Idade Média, pois foram elas que serviram de referência aos "pensadores" oficiais do cristianismo e do mundo intelectual ocidental até a modernidade. Tanto para Aristóteles como para Platão, os seres são a manifestação de suas essências metafísicas. Para Aristóteles, a natureza constitui uma hierarquia, a chamada scala naturae, com o homem no topo. Assim, nessa perspectiva, todos os outros seres vivos representam determinada degradação em relação à forma humana, que expressaria o auge das espécies vivas. Tais degradações, que formam a série animal, preveem também a separação entre animais inferiores e superiores.

A visão cristã tradicional do período medieval sustentava que as espécies teriam sido criadas de uma só vez por Deus e seriam perfeitas e imutáveis, posto serem criações de Deus. Quase não se veem naturalistas na Idade Média. Exceções são Alberto Magno (1193-1280) e Frederico II de Hohenstaufen (1194- 1250). Alberto Magno redigiu um tratado (De animalibus, 1270) sobre anatomia comparada de animais, incluindo invertebrados terrestres e marinhos, assim como o homem, obra baseada em Aristóteles e Galeno. Frederico II escreveu um notável tratado de falconaria (De arte venandi cum avibus), na verdade uma obra enciclopédica sobre aves em geral. Todavia, a biologia medieval não pôde ousar, tendo que se restringir a descrições e obedecer os cânones da Igreja. Alguns eruditos islâmicos (Ibn Sina ou Avicena [980-1037] e Al-Zahrawi ou Abulcasis [936-1013]), assim como judeus (Moisés Maimónides ou Rambam [1135-1204], que redige um Traité des poisons, sobre animais e plantas venenosas e medicinais), dão contribuições originais, mas sem ainda afetar a rigidez das concepções medievais.

Baseados nas narrativas sobre genealogias contidas no Antigo Testamento, vários autores cristãos "calcularam" a idade do mundo, incluindo a das plantas e dos animais existentes. Segundo pensadores como Theophilus de Antióquia (falecido entre 183 e 185 d.e.c.), Lactantius (240-320 d.e.c.) e Santo Agostinho (354-430 d.e.c.), a Terra, os seres vivos e o ser humano deveriam ter em torno de 6 mil anos. Exprimindo as concepções ortodoxas da Igreja, é conhecida a afirmação categórica do arcebispo James Ussher, em 1664, o qual, apoiado pela leitura cuidadosa da Bíblia, em particular do Antigo Testamento, declarou que o dia da criação teria ocorrido em 26 de outubro de 4004 a.e.c., mais precisamente às 9 horas da manhã. Assim, a Terra tinha, quando o arcebispo fez seus cálculos, 5.668 anos de idade (um pouco menos do que os 4 bilhões de anos que se supõe atualmente). Nos dois séculos seguintes à afirmação do bispo, as descobertas geológicas e de fósseis de plantas e animais colocaram em evidência que a idade da Terra e da vida neste planeta deveria ser bem mais antiga do que supôs James Ussher.

Com o fim da Idade Média, a observação naturalística foi retomada no Renascimento. Alguns zoólogos franceses (Pierre Belon, 1517-1564; Guillaume Rondelet, 1507-1556) fizeram detalhadas observações de plantas e animais na Europa e no Oriente Próximo. Naturalistas espanhóis (Oviedo, Acosta, Hérnandez) acompanharam os conquistadores das Américas, descrevendo a flora e a fauna desconhecidas dessas regiões. Leonardo da Vinci (1452-1519), por sua vez, fez importantes estudos anatômicos do corpo humano e de animais, investigou o voo dos pássaros, o mecanismo da visão e a fisiologia sexual. Leonardo também chegou a afirmar que fósseis eram restos de animais e que as rochas que os conservam devem ter se erguido de um ponto mais baixo do que o nível do mar. O belga André Vésale (1514-1564) revolucionou a anatomia humana com sua obra De humanis corporis fabrica (1543).

 

No século XVII, William Harvey (1578-1657) descreveu com precisão a então desconhecida circulação do sangue (1628). O microscópio é inventado e permite a Hooke (1635-1703) relatar os aspectos de organismos vivos invisíveis a olho nu (Micrographia, 1665). Jan Swammerdam (1637-1680) realiza dissecções de insetos (abelha, piolho, ephemeroptera), criando a anatomia de invertebrados, e Marcello Malpighi, por meio do microscópio, descreve elementos da estrutura do córtex cerebral, reconhecendo as células piramidais.

Cabe notar que, mesmo após a Renascença, a Igreja continuou a influenciar por meio de seu controle as visões sobre origens do mundo e do homem. Em 1616, por exemplo, o filósofo italiano Lucilio Vanini (1585-1619), que, como Giordano Bruno (1548-1600), desafiava os dogmas da Igreja, foi o primeiro autor a sugerir que o homem descende de primatas símios (em sua obra De Admimndis Naturae Reginae Deaeque Mortalium Aj-canis). Foi, por isso e por outras teses suas sobre a natureza e sobre Deus (teses algo panteístas), condenado a ter sua língua cortada e, depois, assim como Bruno, executado.

Um dos aspectos mais importantes das ciências naturais no século XVII é a criação de sociedades e academias científicas, nas quais se relata e se discute os achados e teorias científicas, como, na Itália, a Accademia del Cimento (Academia de Experiências), de 1657, fundada por discípulos de Galileu, Viviani e Torricelli; na Inglaterra, o Gresham College, de 1596, apoiado por Francis Bacon, depois a Royal Society of London for Improving Natural Knowledge (Londres, 1660); na França, primeiro o Jardin Royal dês Plantes Medicinales ou Jardim do Rei (1635), criado por Luís XIII, que será denominado posteriormente Muséum National d’Histoire Naturelle, depois a Académie des Sciences de Paris (1666), onde debateram Descartes e Pascal; e, na Alemanha, a Academia de Ciência de Rostock, de 1620, a Academia Naturae Curiosorum (em Schweinfurt, 1652) e a Academia de Ciências de Berlim, no início do século XVIII. Essas são, entre outras, as condições para o incremento de um vigoroso movimento científico naturalista na Europa nos séculos XVIII e XIX. Nesses séculos, era de se esperar que os naturalistas pesquisassem e debatessem sobre a origem e a transformação dos seres vivos existentes nos diversos pontos do planeta, assim como se dedicassem ao estudo comparativo da morfologia dos distintos animais e de seus sistemas nervosos.

O surgimento do pensamento evolucionista moderno no século XVIII

Preparado pelo surgimento da nova ciência dos séculos XVI e XVII, o século XVIII foi época de intensos debates e disputas entre noções fixistas e transformistas da vida. O sueco Carl von Linné, ou Carolus Linnaeus (1707-1778), conhecido por seu sistema binominal de nomenclatura das espécies vivas, defendeu, em seus anos iniciais, uma noção fixista das espécies, pois “o Ser Infinito (Deus) produziu as espécies diversas na origem do universo” (Classificado plantarum, 1738). Nesse sentido, ele acompanhava o importante botânico inglês, John Ray (1627-1705), o qual afirmava que “jamais uma espécie nasceu da semente de outra espécie” (Historia plantamm, 1686). No final de sua vida, Linnaeus, provavelmente influenciado pela observação de mutações em plantas, admite aspectos transformistas nas espécies que estudara, pois as espécies (tais como as que sofrem mutações) “são filhas do tempo” (Amaenitates academicae, 1779).

Já no início do século XVIII, o filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) retoma a perspectiva aristotélica de continuidade entre os seres (assim como a concepção platônica relacionada à “grande cadeia do ser”), defendendo, entretanto, que, se todos os seres formam uma só cadeia na qual as diferentes classes de organismos se relacionam tão estreitamente umas com as outras, é quase impossível precisar o ponto em que uma começa e outra termina. Tal noção se traduz pelo aforismo citado por Leibniz, “Natura non saltum facit”, a natureza não dá saltos. As plantas e os animais, que são definidos como espécies pelo processo de geração (Leibniz já utiliza uma noção de espécie próxima à contemporânea) vieram, ou podem ter vindo, diz ele, de uma mesma origem ou semente, ou seja, de uma única e mesma espécie. Em seus Novos ensaios, escreve:

Tudo procede por graus na natureza, e nada em saltos, sendo que esta regra a respeito das mudanças constitui uma parte da minha lei sobre a continuidade. Entretanto, a beleza da natureza, que quer percepções distintas, exige aparências de saltos e, por assim dizer, quedas de música nos fenômenos, e tem prazer em mesclar as espécies. [...] Aliás, aprovo a pesquisa sobre as analogias: as plantas, os insetos e a anatomia comparativa dos animais fornecerão sempre mais analogias, sobretudo se continuarmos a servir-nos do microscópio ainda mais do que se faz agora.

Em meados do século XVIII, o pensamento do naturalista suíço Charles Bonnet (1720-1793) acompanha as noções de Leibniz. Em sua obra Contemplation de la nature (1764), Bonnet diz que, “entre o degrau mais baixo e o mais elevado da perfeição corporal ou espiritual, há um número infinito de graus intermediários, que compõem a cadeia universal. Ela une todos os seres, liga todos os mundos, abraça todas as esferas”.

Os dois maiores transformistas do século XVIII foram o naturalista Pierre - Louis Moreau de Maupertuis (1698-1759) e o filósofo iluminista Denis Diderot (1713-1784). Maupertuis propõe, precedendo em certo sentido Charles Darwin, um princípio de eliminação dos indivíduos menos aptos à sobrevivência. Na natureza, um número grande de indivíduos nas várias espécies, segundo ele, é composto por partes e órgãos que não satisfazem a suas necessidades; todos eles irão perecer. Os organismos que vemos hoje são os poucos sobreviventes de um destino cego que os produziu (Essai de cosmologie, 1750). Na mesma linha de Maupertuis, o filósofo iluminista Denis Diderot defendia que os seres vivos não representavam espécies fixas, mas seres em contínua transformação. Já em 1754, em seus Pensamentos sobre a interpretação da natureza, Diderot se pergunta, pensando na organização anatômica e funcional dos animais: “é impossível não acreditar que não houve um primeiro animal, protótipo de todos os outros animais, sobre o qual a natureza não fez mais do que alongar, encurtar, transformar, multiplicar ou obliterar certos órgãos?”.

Poucos anos depois, em sua obra Diálogo de D’Alembert e Diderot, ele é ainda mais explícito sobre a necessidade de uma teoria transformista que explique as mudanças que os organismos vivos sofreram ao longo de sua existência na Terra. Diderot afirma que:

Se a questão da prioridade do ovo sobre a galinha ou da galinha sobre o ovo vos embaraça, é porque supondes que os animais foram originalmente o que são agora. Que loucura! Não sabemos o que foram, assim como não sabemos o que se tornarão. O vermezinho imperceptível que se agita na lama encaminha-se talvez para o estado de grande animal; o animal enorme, que nos apavora por sua grandeza, encaminha-se talvez para o estado de vermezinho, é talvez uma produção particular momentânea deste planeta.

No início do século XVIII, o principal naturalista representante do fixismo era o profícuo e polígrafo Georges Marie Leclerc, conde de Buffon (1707-1788). Opositor dos praticantes da nomenclatura lineliana, recusou também a ideia de Leibniz de uma gradação insensível entre os seres. Nenhuma espécie foi produzida pela degeneração (o modelo de transformação). Os animais foram criados pela graça do Criador, e permanecem inalterados em sua forma e estrutura. No final da vida, entretanto, Buffon admitiu a possibilidade de um transformismo limitado, no qual espécies nobres não se transformam, mas gêneros e espécies menos nobres podem sofrer transformações, como o cavalo, a zebra e o asno, que teriam se originado de um mesmo molde.

Também se opõem ao naturalismo materialista de Maupertuis e Diderot, intelectuais filiados ao movimento romântico, como Goethe (1749-1832) e Lorens Oken (1779-1851), que formulam que o conhecimento da natureza pode ser ganho não apenas pela razão materialista e empiricista, mas pela intuição que transcende as experiências sensoriais (por isso, fundam uma anatomia transcendentalista ligada à Natuiphilosophie). Oken e outros trancendentalistas postulam, entretanto, em perspectiva transformista, que toda matéria, tanto inorgânica como orgânica, pode ser colocada e analisada em uma série linear progressiva (na perspectiva da scala naturae) e o desenvolvimento do organismo passa através de todos os grupos de animais abaixo dele (forma inicial da lei do paralelismo)', assim, todos os animais seriam, em relação ao homem, permanências de formas embrionárias que ainda não chegaram ao estágio humano.

Na segunda metade do século XVIII, os naturalistas franceses são testemunhas de um caloroso debate entre o principal cientista de sua época, Georges Cuvier (1769-1832), e o menos prestigiado Étienne Geoffroy Saint-Hilaire (1772-1844). Cuvier, excelente anatomista comparativo, vê na estrutura dos organismos uma harmonia organizada, um sistema fechado, único e perfeito, em que todas as partes se correspondem mutuamente; nenhuma parte ou órgão, como, por exemplo, nos carnívoros, os intestinos, a mandíbula, os dentes afiados, as pernas e as patas, as capacidades perceptivas da visão e do olfato e os mecanismos instintivos neuronais de atração por presas, poderiam se transformar de maneira independente. Se uma parte mudasse, todo o organismo deveria mudar. Assim, Curvier rejeita o transformismo e mesmo a scala naturae. Como paleontólogo, Cuvier reconhece a antiguidade dos fósseis, mas cria uma engenhosa “teoria catastrófica” (série de dilúvios, terremotos, maremotos) para explicá-los, a qual produz o cenário hipotético de fases em que as espécies são destruídas e depois novas espécies são recriadas do zero. Já Saint-Hilaire é assumidamente transformista e continualista. Focado na estrutura dos grupos de animais, ele postula haver uma unidade de composição orgânica na natureza. A semelhança da estrutura esquelética nos vertebrados, por exemplo, revela um princípio de conexão entre essas espécies; em todos vertebrados a medula espinal está alojada em um tubo ósseo, o que é prova inconteste da existência de um mesmo modelo.

É também no século XVIII que a paleontologia começa a se constituir de modo mais consistente; Giovanni Arduino (1714-1795) propõe a classificação de colunas geológicas relativas à evolução temporal e a períodos geológicos sequenciais da Terra: (coluna no estádio) primário (onde não se observam fósseis); secundário (coluna deformada e já com fósseis); terciário (com fósseis e com organização horizontal) e quaternário ou vulcânico (onde além de fósseis se verificam distintos tipos de areia e cascalho espalhados). No final desse século, o escocês James Hutton (1726-1797) propõe que os processos geológicos sejam vistos como um ciclo, sem começo e sem fim. Em relação à evolução dos organismos, Erasmus Darwin (1731-1802), médico, naturalista, poeta e avô de Charles Darwin, revelou intuições originais interessantes em suas obras biológicas. Para ele, a variedade de espécies animais e botânicas pode ter tido sua origem de um “pequeno número de ordens naturais, e os mestiços animais ou vegetais que puderam perpetuar suas espécies o fizeram e deram nascimento a numerosas famílias de animais ou de vegetais que existem atualmente” (Zoonomia, 1794). Intuindo no sentido da seleção natural de seu neto, ele diz que “os animais mais fortes e mais ativos são os implicados na perpetuação da espécie, que, desse modo, deve se aperfeiçoar”. Contudo, logo em seguida, alia-se à noção mais lamarckiana, quando diz que, “durante uma longa sucessão de gerações, por esforços contínuos realizados para busca de alimentos, os animais adquirem características que são transmitidas aos descendentes, resultando em uma melhora constante de suas partes, para obter seus objetivos desejados” (Zoonomia, 1794).

Todavia, a figura mais importante na transição do século XVIII para o XIX é, sem dúvida, Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, o Cavaleiro de Lamarck (1744-1829). Suas teses são bem conhecidas, pois são ensinadas até hoje nas escolas para mostrar seus erros e os acertos de Darwin. Comete-se, entretanto, bastante injustiça com Lamarck, pois ele foi um naturalista dos mais argutos e um teórico sofisticado. Suas teses evolucionistas basearam-se em duas ideias bem marcadas: a existência de uma gradação insensível entre os animais e a afirmação de que seus hábitos de vida influenciam a sua constituição e são transmitidos para as gerações subsequentes. Charles Darwin, que muito admirava Lamarck, concordava plenamente com essas duas teses principais, não tendo se oposto a Lamarck (como ensinam alguns livros escolares), mas, com a intuição genial de sua teoria da seleção natural, expandia e introduzia novos mecanismos evolutivos (segundo pensava o próprio Darwin), em vez de derrubar a teoria evolucionista de Lamarck. A bióloga e historiadora da ciência Lilian Al-Chueyr Pereira Martins realizou minuciosa leitura da obra de Lamarck, revelando como ele produziu uma obra avançada para sua época, abordando desde assuntos como química, origem da vida, desenvolvimento biológico, até a sua elaborada teoria da evolução.

O século XIX e o surgimento do darwinismo

Assim, no final do século XVIII e no início do XIX, a scala naturae de Aristóteles foi, em certo sentido, colocada de ponta-cabeça. Muitos cientistas passaram, de modo crescente, a defender uma visão oposta à de Aristóteles: as séries animais não representam séries de sucessivas degradações a partir do ser humano perfeito, mas, pelo contrário, os seres vivos evoluem, progridem de formas simples para formas cada vez mais complexas. Também nessa visão linear, nós, humanos, continuamos no topo, mas os outros seres vivos não são mais vistos como formas degeneradas, mas antes como formas pregressas ou primitivas (também em relação ao humano).

É no século XIX que a perspectiva de surgimento e transformação da vida como um processo natural, não controlado por forças sobrenaturais, que implica uma evolução biológica das espécies e de seus órgãos e sistemas, irá se consolidar. De fato, os naturalistas do final do século XVIII e início do XIX, como Erasmus Darwin, Saint-Hilaire e Lamark, tornaram-se cada vez mais convencidos de que os seres vivos atuais são o resultado de um lento processo evolutivo.

Por conta disso, os naturalistas do século XIX foram gradativamente se convencendo que deveria haver uma relação de parentesco entre os diversos seres vivos, entre as diferentes espécies. Nessa linha, as espécies biológicas não pareciam ser imutáveis, e as relações de semelhança entre elas deveriam ter algum significado, não apenas teológico (o plano de criação de Deus), mas natural, biológico. Era necessária, pois, uma teoria bem construída da mudança biológica para se compreender como fósseis de animais extintos há milhares de anos poderiam se relacionar com espécies vivas, atuais.

Cabe lembrar que foi também ao longo do século XIX que paleontólogos descreveram um grande número de fósseis vegetais e animais, incrementando as necessidades de teorização em termos de evolução biológica. Embora no século XVII o reverendo Robert Plot (1640-1696) já tivesse descrito ossos de dinossauros (atribuindo-os a elefantes), foi em 1824 que o geólogo inglês William Buckland (1784-1856) descreveu o primeiro dinossauro (um megalossauro). Em 1842, Sir Richard Owen propõe o termo dinosauria para designar três fósseis encontrados desse grupo. O paleontólogo norte-americano Othniel Charles Marsch (1831- 1899) coletou cerca de 80 novos gêneros de dinossauros, demonstrando a amplidão da vida fóssil; rivalizou com Edward Drinker Cope (1840-1897), que descreveu cerca de 65 novos gêneros de dinossauros. A competição dos dois no sentido de quem coletara o maior número de dinossauros fósseis ficou conhecida como “guerra dos ossos”. As evidências no sentido de transformações morfológicas temporais dos animais se avolumavam. Assim, faziam-se necessárias teorizações mais consistentes e mais bem amparadas em fatos naturalísticos.

Charles Darwin (1809-1882) investigou os seres vivos ao longo de sua vida para, ao final, chegar a algumas noções aparentemente simples que revolucionaram a ciência (e também, em certo sentido, a sociedade). Após uma infância e juventude colecionando besouros e aranhas, aos 22 anos de idade, empreendeu uma longa viagem como naturalista, em um pequeno navio real inglês, o Beagle, viagem cujo trajeto era ao redor do mundo, mas delongava-se na América do Sul. Por quatro anos e nove meses, de 27 de dezembro de 1831 a 2 de outubro de 1836, Darwin teve que suportar enjoos terríveis, vómitos, diarreias e dores de cabeça intensas, pois ele era extremamente sensível aos balanços do barco e ficava muito debilitado durante a viagem, para poder observar material geológico, plantas, insetos, aves, répteis e mamíferos, espécies vivas e fósseis, resgatados por nativos nas regiões que percorreu. Coletou tudo o que pôde, anotou em diários que somam vários volumes, dissecou animais, conservou-os em álcool e enviou-os para a Inglaterra, para estudos posteriores.

Além disso, antes e depois da viagem, Darwin cultivou plantas e criou animais em sua casa, escreveu um grande número de cartas para criadores de animais e agricultores, fazendo sempre perguntas sobre o processo de aperfeiçoamento das crias, tudo para entender como as espécies se modificam, sob a orientação dos homens, em hortas, pomares, granjas e criadouros, ou na natureza intocada. A mudança das espécies (Darwin quase não usa a palavra evolução), já aceita por muitos, foi o tema de sua vida, o mecanismo principal de tal transformação, a seleção natural (cujo esboço foi feito em 1842 e a publicação completa em 1859, em A origem das espécies), a descoberta, o longo insight que o transformaria em uma das principais referências da ciência biológica moderna (a “descoberta” da seleção natural, feita, diga-se de passagem, em paralelo por ele e Alfred Russel Wallace [1823-1913],[1] é até hoje tema de disputas entre simpatizantes de Darwin ou de Wallace).

A partir de suas observações detalhadas, Darwin logo concluiu que, se ocorreram mudanças nas espécies (ele se tornou cada vez mais seguro disso), tais mudanças não foram abruptas, mas muito lentas e graduais. Como a potencialidade para a reprodução das espécies é muito grande, mas as condições ambientais (sobretudo a quantidade de alimento disponível) são limitadas, ocorre uma constante luta pela sobrevivência. Os indivíduos mais aptos, mais bem adaptados para obter alimentos, escapar de predadores e reproduzir a contento, irão sobreviver e transmitir aos seus descendentes suas características. Além disso, a variação que se observa entre indivíduos, em determinados contextos ambientais, ora fixos, ora em intensa mudança, e sua seleção através da luta pela vida favorecem o surgimento de subpopulações diferenciadas dentro da espécie, as chamadas subespécies. Muito lentamente, tais subpopulações mais bem adaptadas às condições ambientais cambiantes dão origem a novas espécies.

Ao longo de incansáveis estudos, observações e reflexões, impedidos intermitentemente apenas por uma misteriosa doença crónica, Darwin percebeu que a evolução não poderia ser um processo linear, como pensava Lamarck (em linhas paralelas), mas um processo no qual ocorrem divergências a partir de ancestrais comuns.” No centro do modelo, em vez de linhas paralelas, Darwin propõe a árvore. Assim, duas espécies muito parecidas entre si deveriam ser descendentes de uma única espécie, que teria existido no passado e se extinguido. Dessa forma, concluiu Darwin, todas as espécies, parecidas ou muito distantes, são, de alguma forma, aparentadas entre si.

A evolução das espécies poderia, portanto, ser esquematizada por meio de uma “árvore da vida”. O mecanismo de tal processo não seria apenas a aquisição de caracteres adquiridos e a transmissão aos descendentes (a proposta de Lamarck, que, como referido. Darwin também aceitava, porém a considerava secundária em importância), mas a seleção dos indivíduos mais aptos à sobrevivência e à reprodução, cujos caracteres seriam transmitidos aos seus descendentes.

Segundo aquele que foi um dos principais biólogos evolucionistas do século XX, Emst Mayr, a teoria evolutiva em meados e finais do século XIX. ou seja, ao tempo de Darwin, deve ser desmembrada em cinco aspectos básicos, em relação aos quais os grandes naturalistas nem sempre concordavam. Assim, fariam parte das concepções darwinianas de evolução a ideia de uma descendência comum (espécies diferentes provêm de ancestrais comuns, até o extremo de todos os seres vivos provirem de uma única matriz comum), o caráter gradual da evolução das diferentes espécies (a transformação evolutiva sempre procede gradualmente, nunca aos saltos), a multiplicação das espécies (a diversidade de espécies ocorre continuamente e é produzida por adaptação diferencial), a seleção natural (que ocorre em duas etapas, a produção de variação e sua discriminação por seleção e eliminação, ou seja, diferentes taxas de sobrevivência e reprodução). A seleção natural foi o componente mais ousado e inovador do evolucionismo de Darwin, e que sofreu mais resistência por seus contemporâneos. O quinto aspecto básico é a especiação populacional. Segundo Mayr. embora Darwin, em A origem das espécies, revele ainda certa confusão acerca do conceito de espécie e especiação, pensava a especiação como um processo geográfico, tendo lentamente intuído um “princípio de divergência”, abrindo caminho para a noção de especiação simpátrica.          

No final do século XIX e início do XX, várias sínteses foram buscadas no sentido de tornar a teoria da evolução mais abrangente, com êxitos variados. O paleontólogo de vertebrados norte-americano Edward Drinker Cope (1840-1897) propôs uma interessante lei de não especialização de formas basais, que afirmava que as formas basais, ancestrais, deveriam possuir características anatômicas capazes de ter dado origem aos diversos tipos e estruturas mais especializadas na história do filo. Compatível com essa proposta de Cope, foi sugerido que as formas mais apicais, mais ramificadas nas árvores dos filos, tenderiam a ser mais especializadas. Posteriormente, foi formulada uma lei de complexidade morfológica crescente (pelo sueco Erik H. O. Stensiö, 1891-1984, e pelo inglês David M. S. Watson, 1886-1973), que afirmava que, ao se estudar as camadas geológicas, os fósseis revelavam modificações progressivas da flora e da fauna, as quais indicavam transições de formas simples para formas mais complexas.

Mais ousado, entretanto, foi o paleontólogo belga Louis Dollo (1851-1931), que defendeu que a evolução deveria ser vista como um processo irreversível, asseverando que a evolução ocorria por saltos bruscos, que um organismo não pode voltar, mesmo que parcialmente, a um estado anterior já realizado por seus ancestrais, que todas as organizações irão, por fim, se extinguir, após percorrerem um longo percurso evolutivo. A evolução, para Dollo, seria, então, descontínua, irreversível e limitada. Dessas várias hipóteses, a irreversibilidade parece ter maior sustentação empírica. A evolução em saltos foi retomada, de forma mais sofisticada, através da teoria de equilíbrio pontuado (punctuated equilibria), formulada por Niles Eldredge e Stephen Jay Gould. Ela propõe que mudanças morfológicas rápidas no surgimento de novos grupos (ciados) filogenéticos são mais importantes do que processos graduais (gradualismo filético). O estado normal da linhagem é a ausência de mudança (stasis), com longos períodos de estagnação e, de tempos em tempos, ocorre a especiação, sendo que tais eventos de especiação seriam rápidos e revolucionários. Eles baseiam tal teoria no fato paleontológico de que a stasis é frequente no registro fóssil. Houve grande debate, nos anos 1970 e 1980, entre a visão de equilíbrio pontuado e o gradualismo (defendido por Mayr e outros). Atualmente, ao que parece, aceita-se que ambos os processos ocorrem; em alguns grupos de organismos prevalece a evolução e a especiação gradual; em outros, o equilíbrio pontuado.

Admite-se hoje que a evolução seja vista como o processo biológico fundamental que coloca a mudança dos organismos ao longo do tempo como elemento central das ciências da vida, ocorrendo mudança na forma ou na anatomia dos  organismos e também em suas funções (fisiologia) e comportamentos. Nesse sentido, relembramos aqui a frase lapidar de Dobzhansky, “nada na biologia faz sentido, exceto à luz da evolução”.

Assim, o processo evolutivo inclui praticamente todas as dimensões da vida, desde as formas dos organismos, em todos os níveis, incluindo as sequências de DNA, a estrutura celular, até a anatomia macroscópica, bem como a fisiologia do organismo, seu comportamento individual e social. A evolução pode também ser definida sucintamente, como postulou Darwin, como "descendência com modificações", ou melhor, mudança ao longo do tempo por meio de descendência com modificações. Outro modo de definir evolução, apoiando-se mais na genética de populações é como “mudança de frequência gênica de uma geração para outra".

Contudo, em que nível da vida dos organismos ocorre a evolução? Os biólogos evolucionistas concordam que ela ocorre em níveis diversos; no indivíduo, em famílias e em populações de indivíduos, mas também no nível genômico (evolução de genes, estruturas moleculares, DNA. RNA, nucleotídeos ou conjunto deles), no nível celular e dos órgãos e em sistemas orgânicos. Há considerável debate sobre quais são, em ordem de importância, as “unidades de seleção" que implicam os benefícios das adaptações produzidas pela seleção. Seriam, por exemplo, os genes, como postularam Williams e Dawkins, ou os indivíduos (como defende Mayr) ou, ainda, as populações (tese defendida inicialmente por Vero C. Wynne-Edwards [1906-1997], e atualmente por J. H. Koeslag)? Além da seleção natural, percebida por Darwin como o principal mecanismo da evolução biológica, outros mecanismos também são relevantes para a evolução: a seleção sexual e a seleção grupal (vistas por muitos como variantes da seleção natural), a deriva genética (processos aleatórios que ocorrem em populações pequenas, nas quais alelos podem, devido ao acaso, se perder ou permanecer), assim como uma série de processos de evolução neutra, sem implicar seleção.

Hoje, os biólogos evolucionistas concordam que a vida complexa surgiu e evoluiu na Terra apenas uma vez; todos os organismos que existem são linhagens evolutivas de um ancestral comum. Assim, a vida de todos os organismos baseia-se em um padrão molecular único que passa de geração para geração, mesmo sendo também basicamente modificável.

O entomologista alemão Willi Hennig (1913-1976) revigorou o estudo das relações evolutivas entre as espécies, formulando um método comparativo rigoroso de reconstrução das relações filogenéticas, denominado cladística. Esse termo reflete a ênfase de Hennig na correta identificação dos ciados, isto é, dos grupos de organismos que compartilham um ancestral comum. Assim, todos os taxa classificados corretamente segundo a perspectiva filogenética devem representar grupos monofiléticos (com apenas um ancestral comum). Um ciado é simplesmente um galho de uma árvore evolutiva; os galhos são conectados entre si através de um (ou um grupo de) ancestral comum.

No método de Hennig, as relações evolutivas são reconstruídas por um processo denominado “análise de caracteres” (character analysis). Um caracter é um aspecto morfológico, funcional ou comportamental observável, podendo ser uma estrutura anatômica (como o corpo caloso no cérebro dos mamíferos placentários), um padrão comportamental de acasalamento ou uma proteína ou sequência de DNA. Considera-se, então, o maior número de caracteres possíveis que identificam uma espécie e adota-se a noção de que espécies mais proximamente relacionadas filogeneticamente compartilham mais conjuntos de caracteres do que espécies mais longínquas. Para reconstruir a árvore evolutiva, busca-se o menor número de mudanças que expliquem a contento os padrões observados de caracteres; esta é a chamada “solução de máxima parcimónia”. Segundo Joseph Travis, apenas Carolus Linnaeus rivaliza com Hennig em influência sobre o processo de classificação dos organismos vivos.

Outro aspecto a salientar é que, em biologia evolutiva, busca-se explicar as semelhanças entre as espécies através de dois conceitos fundamentais; homologia e analogia. Quando diferentes espécies possuem características semelhantes porque elas as herdaram de um ancestral comum, diz-se que tais características são homólogas. Todos os mamíferos compartilham uma área cortical somatossensorial primária semelhante (Sl, área da percepção do sentido tátil) como uma divisão do isocórtex. Tanto humanos como monotremos, como o ornitorrinco, apresentam tal área cortical em seus cérebros por terem um ancestral comum. Assim, possuir tal área é um exemplo de homologia entre mamíferos.

Quando certas características semelhantes evoluíram de forma independente, diz-se que elas são análogas ou homeoplásicas. Alguns autores preferem o termo “análogo” para semelhanças em termos de função e “homeoplásico” para semelhanças aparentes, morfológicas. Assim, embora os membros anteriores de todos os vertebrados tenham evoluído de forma homóloga, o fato de morcegos e aves terem transformado tais membros anteriores em asas ocorreu de forma independente do ponto de vista evolutivo, sendo, portanto, as asas das aves e dos morcegos caracteres análogos e não homólogos. Quando semelhanças análogas evoluem produzindo órgãos parecidos funcional ou anatomicamente, diz-se que ocorreu uma evolução paralela ou convergente.

Teoria sintética da evolução ou síntese moderna

A partir dos anos 1920, vários geneticistas e bioestatísticos passaram a trabalhar com os princípios da evolução, buscando dar a eles uma base experimental mais sólida. A teoria sintética da evolução foi o esforço bastante exitoso de integrar a teoria evolutiva de Darwin com a teoria genética de Gregor Mendel (1822- 1884). Apesar de Mendel ter publicado seu trabalho enunciando os princípios da hereditariedade nos anos 1860, foi apenas no início do século XX que sua contribuição revolucionária foi, de fato, assimilada.

Nos anos 1920, muitos geneticistas pensavam que a noção de Darwin de que a evolução ocorria de forma profundamente gradual, continuista, era incompatível com a visão atomística da genética de Mendel, que havia sido erigida  sobre elementos discretos, caracteres fenotípicos determinados por genes hipotéticos que estariam na base da hereditariedade dos seres vivos. Foi um grupo de matemáticos e geneticistas (sobretudo o matemático britânico Ronald Fisher e os geneticistas J.B.S. Haldane, também britânico, e o norte-americano Sewall Wright ) que produziu modelos que prediziam que os genes mendelianos se arranjam, se misturam e separam-se por si mesmos, e são transmitidos em grupos, o que tomou tal modelo compatível com o gradualismo da teoria evolutiva de Darwin. Foi ficando claro que a maioria dos genes transmite caracteres de modo poligênico, em que muitos genes contribuem, assim, para traços fenotípicos contínuos (como a altura de uma pessoa) e bem menos frequentemente se encontram traços discretos ou dicotômicos transmitidos por um gene apenas (herança monogênica, dita mendeliana). Assim, a seleção natural de Darwin, utilizando-se do conceito de genes formulados por Mendel, era, de fato, compatível com um suave e gradativo processo de variações observáveis nos seres vivos.

Fisher, Haldane e Wright contribuíram para o início de uma vigorosa disciplina, a genética de populações, tornando claro que a evolução se relaciona mais a populações do que a organismos individuais. A evolução ocorre, nessa perspectiva, sempre que acontecem mudanças na frequência global dos genes de uma população, ainda que tais mudanças não sejam claramente perceptíveis.

Em 1908, o matemático inglês G. F. Hardy e o médico alemão W. Weinberg propuseram um princípio de equilíbrio de frequências de genes alelos, que passou a ser conhecido como equilíbrio de Hardy-Weinberg. Tal princípio tem uma sólida base matemática (que não abordaremos aqui) e parte de sete pressupostos para provar a ocorrência da evolução (concebida, então, como mudança da frequência de genes em uma população em sucessivas gerações). Se as sete condições estiverem presentes, não há evolução. Dito de outra forma, a evolução pressupõe que um ou mais desses pressupostos sejam rompidos. São eles: 1) não haver mutação; 2) não haver seleção natural; 3) existência de populações muito grandes (assim não há deriva genética); 4) não haver migração; 5) os cruzamentos entre os indivíduos devem ser regidos pelo acaso; 6) não deve haver diferenças nas frequências dos genótipos entre machos e fêmeas; 7) não deve haver mistura genética entre as gerações.

Tal princípio ganhou grande importância em genética de populações e teoria evolutiva, pois fornecia um padrão relativamente simples para comparação da frequência-padrão de genes em populações reais ao longo das gerações. Se a frequência gênica predita pela lei de Hardy-Weinberg não é obtida ao longo das gerações estudadas, então algo alterou o equilíbrio. Talvez os cruzamentos não se deram seguindo o acaso, talvez genes novos foram introduzidos na população, ou alguma pressão seletiva afetou a população (ocorrendo, p. ex., seleção natural). Talvez se trate de uma população pequena em que a deriva genética exerceu seu efeito. Enfim, se as frequências gênicas sob investigação não se mantêm constantes, então algo deve estar produzindo a mudança. A base para estudos experimentais em evolução se tornou disponível de forma simples e aplicável.

Além disso, foram fundamentais para a aceitação ampla da teoria da evolução e da síntese moderna no século XX as obras de autores como o biólogo inglês Julian Huxley, o geneticista nascido na Ucrânia Tehodosius Dobzhansky (Genetics and the Origins of Species, 1937), o taxonomista alemão Ernst Mayr (iSystematics and the Origins of Species, 1942), o paleontólogo norte-americam George Gaylord Simpson (Tempo and Mode in Evolution, 1944) e o botânico, também norte-americano, George Ledyard Stebbins Jr. (Variation and Evolution in Plants, 1950).

A síntese moderna envolveu, portanto, os campos da genética, paleontologia, sistemática, zoologia e botânica, estabelecendo cinco princípios evolutivos principais: 1) há uma imensa variação intrapopulacional e geográfica nos caracteres fenotípicos; 2) em última análise, tal variação é devida apenas à mutação genética e à recombinação; 3) tal variação é necessária para que a seleção natural funcione; 4) as variações geográficas de caracteres são adaptativas e, finalmente. 5) os fenômenos macroevolucionários, assim como os microevolucionários, são regidos por variação fenotípica e seleção natural. A esses princípios correspondem rejeições de noções assentadas na biologia do século XIX e do início do XX, tais como: 1) a scala naturae ou “grande cadeia do ser”, como compreendida pela tradição intelectual ocidental, ou simplesmente não existe, ou não faz sentido: 2) noções como ortogênese (evolução para formas cada vez mais perfeitas) e a transmissão de caracteres adquiridos não ocorrem, são fantasias teóricas apenas: 3) não há “animais primitivos viventes” ou “fósseis vivos” (todo organismo vivente é o produto de um processo evolutivo particular), pois apenas os caracteres podem ser considerados mais basais ou mais derivados, e os caracteres podem se tomar mais complexos ou mais simples com o passar do tempo evolutivo.

Nessa mesma linha, na segunda metade do século XX, os biólogos evolucionistas chegaram à conclusão que os processos macroevolutivos (evolução de novas espécies) e microevolutivos (evolução de sistemas orgânicos intraespecíficos) são, em essência, os mesmos. Há, em conclusão, quatro forças evolutivas: seleção natural, mutação, migração e deriva genética.

A partir dos anos 1980, a comparação dos genes do desenvolvimento de várias espécies de grupos taxonômicos diversos fez emergir uma nova perspectiva em biologia, a que integra a biologia do desenvolvimento com a biologia evolucionista, aproximando a genética molecular e a embriologia dos conceitos fundamentais da evolução. Assim nasceu o que se passou a chamar de “evo-devo”, de evolution-development. Trata-se da descoberta de que a maioria dos genes reconhecidos como organizadores da construção corporal de invertebrados, como a drosófila (mosca-de-frutas), são os mesmos genes que organizam a constituição corporal da maioria dos animais, inclusive mamíferos e a espécie humana. Todos os animais complexos, artrópodes, moluscos, répteis, aves ou mamíferos, compartilham um “kit de ferramentas” comum que contém os genes ditos “mestres”, que, como verdadeiros maestros, coordenam a formação e a diferenciação do corpo de seus organismos.

O estudo desses genes e a compreensão de mecanismos de desenvolvimento dos organismos abriram novas perspectivas para o estudo da evolução. A noção, permitida, inclusive, pela análise dos genomas de diversas espécies, revelou que moscas, camundongos e humanos compartilham um grande número de genes fundamentais para suas constituições. Assim, ficamos sabendo que 21% dos genes do Homo sapiens são compartilhados com todos os seres vivos, procariotos e eucariotos, outros 32% são homólogos aos de todos os eucariotos (organismos com membrana nuclear e organelas). Além desses 53% de genes compartilhados até com organismos unicelulares, outros 24% são compartilhados apenas com animais multicelulares (somando, então, 77% dos genes). Por fim, compartilhamos mais 22% de nossos genes apenas com os outros vertebrados. Dessa forma, compartilhamos 99% de todos os nossos genes com um camundongo. Tais dados da evo-devo e da genômica contemporânea apoiam de forma contundente o genial insight de Darwin sobre a descendência comum de todos os seres vivos deste planeta.

A investigação sobre o desenvolvimento dos organismos e sua articulação com seus processos evolutivos filogenéticos foi, recentemente, aplicada ao caso humano (com inspiração no projeto evo-devo). O antropólogo e psiquiatra de crianças Melvin Konner escreveu uma longa e preciosa obra analisando a evolução (filogenética) da infância humana, mostrando como a compreensão do desenvolvimento da criança humana ganha nova luz sob a perspectiva do evolucionismo darwiniano.

Origem e a evolução do homem segundo Darwin

Charles Darwin reconhece, em sua autobiografia, que o livro mais importante que escreveu foi A origem das espécies, publicado em novembro de 1859 (“Trata-se, sem dúvida, da principal obra de minha vida”). Nele, todas as provas possíveis que pôde reunir a favor da evolução e da transformação das espécies são apresentadas, juntamente com uma teoria central destinada a explicar o mecanismo pelo qual novas espécies surgem e desaparecem, a seleção natural. Em A origem das espécies, Darwin não quis expor a evolução de qualquer espécie em particular e evitou deliberadamente discutir como isso teria ocorrido no caso do homem. Ele acreditava que incluir o homem no debate sobre a evolução das espécies favoreceria a rejeição de seu livro por parte das mentes mais conservadoras e religiosas do mundo intelectual da época. Contudo, a questão do lugar do homem na natureza era, de fato, um tema central para Darwin e seus interlocutores científicos mais próximos.

O cirurgião, paleontólogo e professor de anatomia comparada Thomas Henry Huxley, amigo e colaborador, conhecido como “o buldogue de Darwin”, publicou, em 1863, um livro apresentando “Evidências do lugar do homem na natureza” (Evidences as to Man’s Place in Nature), analisando em detalhes os símios mais parecidos com o ser humano. Nessa obra, Huxley descreve os conhecimentos acumulados por viajantes, exploradores e alguns poucos naturalistas sobre os grandes símios: gibões, mandris, orangotangos, chimpanzés e gorilas. Analisa aspectos anatômicos e comportamentais desses primatas. Huxley defendia a ancestralidade símia do homem com base em semelhanças anatômicas, afirmando que a proximidade entre o homem e esses grandes símios era maior do que entre estes e outros primatas.

Huxley também ficou conhecido por seu intenso debate com Sir Richard Owen (1804-1892). Chamado o “Cuvier inglês”, por sua grande erudição em anatomia comparada, Owen era um dos principais especialistas em anatomia de primatas. Em 1857, Owen afirmou enfaticamente que o cérebro humano era tão distinto, que separava o ser humano de todos os outros mamíferos, criando para o Homo sapiens uma subclasse especial, Archencephala (para ele, com o sentido de ruling brain, ou “cérebro dirigente”). Tal distinção baseava-se em três critérios: 1) apenas humanos possuiriam o lobo cerebral posterior que se estende inteiramente sobre o cerebelo; 2) apenas humanos possuiriam o como posterior do ventrículo lateral; e 3) apenas humanos apresentariam o hippo  campus minor (o hipocampo, uma estrutura muito importante para a memória, situada na parte medial do lobo temporal. Além disso, Owen, o mais prestigiado anatomista comparativo da Inglaterra, rejeitava a um só tempo a teoria da evolução de Darwin, a seleção natural e a origem primata do ser humano. Huxley procurou desmontar ponto por ponto os argumentos de Owen, mostrando, ao que parece, evidências mais convincentes. O debate Owen-Huxley durou dois anos, chegando à imprensa geral. O escritor Charles Kingsley, em seu livro para crianças The Water Babies, de 1863, ironizou os dois, dizendo que “os macacos têm hippopotamus majors, assim como os homens... Não se pode confiar em nada a não ser no teste do hippopoamus majors”.

As polêmicas em tomo da ascendência do homem estavam borbulhando. Da mesma forma que Huxley publicara Evidences as to Man’s Place in Nature, o também amigo de Darwin e mais importante geólogo inglês daquele século, Charles Lyell, havia, no mesmo ano de 1863, publicado o livro Antiquity of Man. Darwin não poderia ficar fora do debate sobre o lugar e a origem da espécie humana. Além disso, sua convicção de que o homem, apesar das acentuadas diferenças em relação aos animais, era, ao final, um animal como os outros, marcava sua mente de naturalista. As diferenças intelectuais, comportamentais, linguísticas e mesmo morais entre o homem e os animais eram, sobretudo, de grau, e não de qualidade ou essência. Entre o homem e seus parentes animais (e não apenas os primatas, mas também cães, gatos, aves e mesmo insetos) haveria uma continuidade inescapável.

Curiosamente, a obra sobre a origem do homem, The Descent of Man, publicada em 1871, é um livro aparentemente duplo; seu título completo é The Descent of Man and Selection in Relation to Sex. A seleção sexual, mecanismo complementar à seleção natural, tratava do mecanismo por meio do qual, na escolha e na relação entre os parceiros sexuais, fêmeas escolhem determinadas características dos machos, estes lutam entre si ou competem mediante caracteres visíveis, como a plumagem, ou comportamentos, como danças, cantos e outros atos exibicionistas para ganhar a preferência das fêmeas do bando. Tal mecanismo seleciona caracteres eventualmente relacionados a maior força e capacidade de luta, mas também outros caracteres em princípio inúteis. Isso intrigava Darwin desde sempre. Analisemos, contudo, um pouco mais devagar o livro sobre a origem do homem.

A parte destinada exclusivamente à origem do homem tem sete capítulos, a seleção sexual tem mais 11, e, na parte de conclusões, mais três capítulos. Os sete capítulos da origem do homem relatam as evidências anatômicas, embriológicas e, sobretudo, comportamentais e mentais que demonstram como o homem descende de espécies anteriores, intermediárias entre o homem moderno e os macacos antropoides; Darwin as designa como “early progenitors of man”, “our early semi-human progenitors”, “primeval men” e “ape-like progenitors”. No início do Capítulo VI, Darwin resume as principais teses defendidas no livro:

O homem passou por variações numerosas, ligeiras e diversificadas, que foram provocadas pelas próprias causas gerais, reguladas e transmitidas segundo as mesmas leis gerais válidas para os animais inferiores. O homem multiplicou-se tão rápido que, necessariamente, ficou exposto à luta pela existência (struggle for existence) e, portanto, à seleção natural. [...] O seu corpo é construído no mesmo plano homológico dos outros mamíferos.

Passa pelas mesmas fases de desenvolvimento embriológico. Conserva algumas estruturas rudimentares e fora de uso que, sem dúvida, em outras épocas deviam ser úteis. Neles reaparecem, ocasionalmente, alguns caracteres que temos razão de crer que os seus primeiros antepassados possuíram. [...] Essas características, por outro lado, são inteligíveis, pelo menos em larga medida, somente no caso de o homem descender, juntamente com os outros mamíferos, de algumas formas inferiores desconhecidas.

Do início ao fim do livro Darwin busca demonstrar com uma infinidade de exemplos da zoologia e da etnologia de sua época, sejam observações dele próprio ou de outros, que o homem é, ao final, como as outras espécies, um animal que pertence à natureza. Como todo organismo, ele foi e é sujeito à evolução. Tal evolução ocorre principalmente por ação da seleção natural. Os organismos e, entre eles, os símios antropoides de quem o Homo sapiens descende, são produzidos em número superior às capacidades do meio de sustentá-los, devendo, por isso, lutar pela existência, e tal luta seleciona os mais bem adaptados ao seu meio.

Além disso, nos animais, principalmente nos “mais evoluídos”, operam outros mecanismos evolutivos, como a seleção sexual e a seleção grupal. Na seleção sexual, os machos lutam entre si pelas fêmeas e estas escolhem os machos mais bonitos, com o canto ou plumagem mais atraente. Para Darwin, a seleção sexual teria sido responsável pela origem das diferentes raças humanas, já que ele acreditava que características como corpo sem pelos, cor da pele e dos cabelos têm pouca relevância para a sobrevivência, mas são caracteres externos que as fêmeas (principalmente) escolhem como mais ou menos atraentes. Isso culminou na origem das diferentes raças humanas, após o surgimento e a migração pelo mundo do Homo sapiens original. A seleção grupal explicaria por que sobreviveriam características como o altruísmo de certos indivíduos que se prejudicam individualmente (sendo eliminados antes de se reproduzirem) em prol do grupo.

Pode-se ver na obra The Descent of Man a análise de quase todas as questões que ocuparam as pesquisas do século XX sobre a origem e a evolução da espécie humana. Como foi possível que o Homo sapiens surgisse de espécies anteriores, primatas antropoides mais antigos que originaram o homem e os seus primos chimpanzés e gorilas? Darwin expõe teorias suas sobre o papel fundamental da linguagem nessa evolução (e na evolução do cérebro humano), a questão do bipedalismo e da posição ereta, como os instintos sociais e a sociabilidade devem ter sido elementos fundamentais para a sobrevivência dos grupos de hominíneos, o surgimento da inteligência humana para produzir o fogo, os instrumentos de pedra, armas e armadilhas, o papel da arte e da música. Enfim, Darwin estabeleceu um grande projeto de investigação científica, seguido, de modo consciente ou não, pela maioria dos paleoantropólogos até hoje.

 

Ciências naturais - Biologia
12/12/2019 12:04:19 PM | Por Douglas Palmer
Livre
A Origem da Vida

No decurso da formação do nosso sistema solar, a Terra foi criada pela aglutinação de grandes fragmentos de rocha e de gelo, a par de poeira e de gás. A colisão destas peças, há quatro mil e seiscentos milhões de anos, libertou grandes quantidades de energia, aquecendo o globo até aos cinco mil graus centígrados.

Seguiu-se uma «fusão», que durou cem milhões de anos, no decurso da qual o interior da Terra adquiriu a sua forma atual. Minerais pesados de ferro e de níquel afundaram-se, formando um núcleo quente e denso comum raio de cerca de quatro mil quilômetros, e os minerais mais leves deslocaram-se para a superfície, constituindo, há perto de quatro mil e quinhentos milhões de anos, uma crosta exterior. Entre o núcleo e a crosta, formou-se então uma massa rochosa quente, com a espessura de dois mil e novecentos quilômetros, chamada manto, a qual, devido à convecção de calor no sentido ascendente, a partir deste interior quente, ainda modela a superfície da Terra, por intermédio, por exemplo, de vulcões e de sismos.

Erupções vulcânicas de gás e de vapor em larga escala deram origem à atmosfera primitiva e às primeiras águas na superfície terrestre, mas os geólogos ainda não têm a certeza quanto à formação da terra, ou da crosta continental, As rochas mais leves, compostas de silicatos, podem ter ascendido o suficiente para formarem «ilhas» há cerca de quatro mil milhões de anos, supondo-se que foram colisões entre estas «ilhas» que criaram as primeiras grandes massas de terra, perto de mil milhões de anos mais tarde.

Por essa época a crosta já tinha arrefecido o suficiente para permitir o aparecimento de vida microscópica, mas a forma exata como ela surgiu permanece uma das questões mais controversas da ciência atual. No início dos anos 50, Stanley Miller, da Universidade de Chicago, demonstrou experimentalmente que era possível criar aminoácidos, um dos componentes fundamentais da vida, a partir de uma atmosfera primitiva, de água e de alguns relâmpagos, e mais recentemente outros cientistas especularam quanto à possibilidade de as primeiras moléculas orgânicas terem origem no exterior da Terra, sendo depois trazidas para a sua superfície por meteoros que bombardearam o nosso planeta há cerca de quatro bilhões de anos. Contudo, seja qual for a sua origem, os primeiros micróbios tiveram de sobreviver em condições extremas, sem oxigênio e sem proteção dos raios ultravioletas do Sol.

Os vestígios fósseis mais antigos que se conhecem da vida na Terra foram achados em rochas sedimentares depositadas no leito oceânico há cerca de 3,5 bilhões de anos. Estes organismos microscópicos existiram em ambiente desprovido de oxigênio e sujeitos a extremos de temperatura e de acidez.

A VIDA EM CONDIÇÕES EXTREMAS

A descoberta, no início dos anos 80, de organismos primitivos atuais, que vivem em diversas condições extremas, proporcionou-nos valiosos dados sobre a forma como os antigos organismos microscópicos sobreviviam. As águas termais do Parque de Yellowstone, no estado de Wyoming, nos Estados Unidos, abrigam bactérias «termófilas», que prosperam em água que atinge a temperatura de oitenta e cinco graus centígrados, enquanto no extremo oposto as bactérias «psicrófilas» preferem os mares de gelo da Antárctida, onde a temperatura ronda os cinco graus centígrados. Por sua vez, as «alcalífilas» vivem em lagos alcalinos e as «acidófilas» em águas ácidas.

A descoberta de fontes de água quente no leito dos oceanos também revelou a existência de bactérias «quimiossintéticas», que reproduzem as suas células sem necessidade de luz solar. Estas bactérias são unicelulares e podem suportar temperaturas superiores a cem graus centígrados, sobrevivendo à base de sais minerais dissolvidos na água em ebulição.

Todas estas bactérias «extremófilas» pertencem ao grupo mais primitivo de organismos conhecidos, as arquibactérias, que, tal como as eubactérias (incluindo as algas azul-esverdeadas), são grupos de organismos primitivos com células pequenas desprovidas de núcleo. Esta característica diferencia-as de formas de vida mais complexas (como os animais e as plantas), que possuem células maiores providas de núcleo. As arquibactérias podem sobreviver a extremos, como água em ebulição, gelo, ácidos, alcalis e escuridão, e são também «anaeróbicas», ou seja, podem resistir sem oxigênio. No início da era Pré-Câmbriana, a atmosfera da Terra compunha-se quase inteiramente de azoto e dióxido de carbono, de modo que todas as formas de vida eram anaeróbicas.

ESTROMATÓLITOS

Os vestígios fósseis mais antigos visíveis a olho nu são os estromatólitos, curiosas estruturas laminadas que se encontram nas plataformas continentais pouco profundas, ricas em calcário e que remontam, os primeiros, a mais de três bilhões de anos — são os fósseis pré-câmbrianos primitivos mais comuns. Os estromatólitos foram criados pelo processo de fotossíntese das algas azul-esverdeadas (ou cianobactérias), que formaram inicialmente tapetes no leito dos mares, e, à medida que estes se cobriam de sedimentos, os organismos migravam para cima, criando uma sucessão de camadas que se acumulavam num montículo laminado que podia atingir um metro de altura por trinta centímetros de diâmetro. Montículos semelhantes estão ainda hoje em formação nas águas tropicais quentes, os quais são muito característicos e se conservam facilmente na forma de fósseis.

VESTÍGIOS DE CARBONO

Muito embora os mais antigos corpos fósseis tenham 3,5 bilhões de anos, rochas duzentos milhões de anos mais velhas podem revelar vestígios de organismos ainda mais antigos. Estas brochas formaram-se quando a Terra ainda era relativamente jovem, sendo, por isso, sujeitas às elevadas temperaturas e pressões existentes na época, mas os fósseis não podiam sobreviver a esses processos, pelo que não existe nenhum para além do limite acima indicado. Contudo, alguns componentes químicos da vida podem resistir a elevadas temperaturas e pressões, de modo que é possível achar vestígios de vida mesmo quando o corpo não se pode recuperar.

Muito poucas rochas com mais de 3,5 bilhões de anos são visíveis à superfície da Terra e um dos poucos lugares onde estão expostas é em Isua, no Oeste da Gronelândia. Estas rochas, com 3,7 bilhões de anos, contêm vestígios de carbono que se pensa constituírem os restos de bactérias fotossintéticas microscópicas, chamadas fotoautotróficas, as quais viveram nas águas superficiais e cujos restos foram depositados no leito marinho, acumulando-se nos seus sedimentos.

Atualmente, organismos planctônicos semelhantes às antigas bactérias fotoautotróficas estão na base da maioria das cadeias alimentares marinhas.

Ciências naturais - Biologia
12/12/2019 11:46:13 AM | Por Douglas Palmer
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Um planeta dinâmico

No decurso de sua longa história biológica, a Terra sofreu grandes modificações, que afetaram a distribuição e os contornos dos seus continentes, o clima, as formas de vida e a extensão e a profundidade dos oceanos. As causas de muitas dessas mudanças foram os movimentos das placas tectónicas - grandes blocos da camada superficial da Terra -, deslocações que foram, por sua vez, geradas por gigantescos fluxos de material quente semifundido no interior da Terra. As placas compõem-se de crusta continental, de crusta oceânica (leitos dos oceanos) ou de ambas. Nova crusta oceânica está em formação contínua em estruturas em expansão que se chamam dorsais e se situam nas profundezas dos oceanos.

Quando uma nova crusta oceânica é adicionada a uma placa que já contém um continente, este afasta-se da dorsal. Ao longo de centenas de milhões de anos, sequências destes movimentos fizeram os continentes percorrer milhares de quilómetros na superfície da Terra e, em alguns casos, com movimento de rotação.

O movimento das placas provoca, por vezes, a colisão dos continentes, e o resultado pode ser a formação de extensas cordilheiras montanhosas, mas também leva a crusta oceânica a afundar-se para o interior da Terra em algumas margens das placas, o que pode causar sismos e atividade vulcânica, com efeitos em larga escala, incluindo mudanças climáticas. As flutuações dos climas, por seu turno, afetam fatores como o nível das águas do mar e a distribuição mundial de plantas e de animais.

Ciências naturais - Geologia
12/11/2019 3:26:14 PM | Por
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Como a Escola de Chicago transformou país latino-americano em laboratório do neoliberalismo

O golpe de Estado que depôs o presidente socialista Salvador Allende em 1973 e iniciou o governo do general Augusto Pinochet marcou um ponto de inflexão na economia chilena. No lugar do Estado de bem-estar social e regulador, foi ganhando força um projeto macroeconômico de viés desestatizante, liderado por grupo de jovens economistas apelidados jocosamente de "Chicago Boys". Nesta guinada neoliberal sob Pinochet, conviviam relativas liberdades econômicas e repressão violenta a direitos civis.

Privatizações, abertura ao mercado externo, reforma trabalhista e redução do gasto público e do papel do Estado em áreas-chave, como saúde e educação. As sementes da implementação dos itens dessa cartilha desestatizante foram plantadas pelos Estados Unidos duas décadas antes no Chile.

Em 1955, professores da Escola de Chicago visitaram o país a fim de firmar convênios. Nos anos seguintes, passaram a influenciar a formulação de políticas econômicas por meio principalmente de alunos que foram bolsistas em Chicago, escola que atribuía a crise econômica ao excessivo intervencionismo estatal na atividade produtiva privada. 

O contexto geopolítico da Guerra Fria favoreceu a transformação do Chile em uma espécie de laboratório neoliberal por quase uma década, com influência até hoje na economia chilena, a exemplo da obsessão com equilíbrio fiscal e controle inflacionário.

A experiência se tornou exemplar - para o bem e para o mal - na América Latina. O presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PSL), que visita o Chile neste fim de semana, fez elogios ao governo Pinochet, que inspira a proposta de reforma da Previdência formulada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, este também um dos Chicago Boys. 

Mas quem eram esses jovens economistas chilenos e qual foi o impacto da política neoliberal inspirada em Milton Friedman, principal nome da Escola de Chicago e prêmio Nobel de Economia?

Escola de Chicago x Keynes

No pós-guerra, a escola econômica dominante era ligada ao britânico John Maynard Keynes (1883-1946). Em oposição à ortodoxia liberal que dominara o pensamento econômico europeu e o americano até o início dos anos 1930, os keynesianos representavam o principal paradigma heterodoxo.

Em Chicago, um grupo de economistas afirmava que a origem dos desastres econômicos daquele século não estava em limites do capitalismo, mas na mão pesada do Estado.

Milton Friedman e Frank Knight, professores de Chicago, se associaram ao economista austríaco Friedrich von Hayek, num grupo que acusava o Estado de bem-estar social de fortalecer o marxismo na União Soviética e em outros países.

Para Friedman, o desemprego, obsessão da escola dominante keynesiana, era resultado das políticas assistenciais do Estado de bem-estar, que desestimulariam os menos arrojados a procurarem trabalho.

Ascensão dos economistas e 'soft power' dos EUA

Segundo o economista Felipe Alejandro Guerrero Rojas, em dissertação de mestrado em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná, os profissionais formados em Economia avançaram em posições centrais no aparelho do Estado chileno, em vagas antes ocupadas por advogados e engenheiros. 

Na esteira da tecnocracia que teve início nos anos 1960, esses profissionais se consolidaram a partir da década de 1970 também como uma elite política no país.

Parte importante dos economistas chilenos desse período foi influenciada pela Escola de Chicago, que levou sua agenda ao país em 1955. Naquele ano, uma missão de professores americanos visitou Santiago a fim de firmar convênio com Universidade Católica do Chile. 

A partir dali, haveria bolsas de estudos para alunos chilenos nos Estados Unidos, subsidiadas pelo governo americano, e estágios no Chile para professores de Chicago. 

As universidades passaram a estudar também os problemas econômicos chilenos, como inflação, desenvolvimento agrícola, investimento público e balança comercial. E a elaborar propostas.

Quando retornaram do período de estudos em Chicago, os jovens economistas chilenos formaram um grupo organizado e alguns deles se tornariam professores da Universidade Católica do Chile. A atuação se aproximou também da política, com um flerte com o candidato de direita à Presidência Jorge Alessandri, que seria derrotado pelo socialista Salvador Allende, desenvolvimentista que ampliou o papel do Estado.

Esse processo é interrompido em 11 de setembro de 1973 com o golpe de Estado, apoiado também pelos neoliberais, que inicialmente se tornaram assessores técnicos dos homens de confiança dos militares colocados nos postos-chave no governo Pinochet - cargos que os Chicago Boys ocupariam mais à frente. 

Segundo Guerrero Rojas, os Chicago Boys também trouxeram mudanças na tomada de decisão do Estado chileno a partir de princípios "técnicos e científicos", e não mais por postulados políticos e ideológicos. "Esse modelo tinha a pretensão de construir uma 'sociedade tecnificada'; uma sociedade onde os mais capacitados tomam decisões técnicas para as quais foram treinados", afirma em seu estudo. 

E completa: "A partir desse modelo, os Chicago Boys puderam se constituir como elite política e desenvolver políticas baseadas nos princípios neoliberais. Mesmo com a redemocratização e a vitória dos partidos de oposição ao governo de Pinochet nas eleições de 1990, o governo da Concertación não conseguiu romper com essa forma de Estado". 

Que mudanças os Chicago Boys implementaram no Chile?

No início dos anos 1970, sob Allende, a economia do Chile era marcada por dependência da exportação de minérios, altas barreiras alfandegárias, aumento de gastos públicos e salários, controle de preços e expropriação de empresas.

Como consequência, a política econômica resultou em hiperinflação (em 1973, chegou aos 606% anuais), aumento do déficit público e do desemprego, redução das reservas cambiais e desindustrialização.

O golpe que derrubou Allende foi seguido de ajustes econômicos gradativos, influenciados pelos Chicago Boys.

"O Chile foi pioneiro na adoção do neoliberalismo: os princípios de interesse individual, propriedade privada e supremacia do mercado financeiro foram implementados aqui antes mesmo do Consenso de Washington, de 1989 [quando foi formulado um 'receituário' de medidas neoliberais à América Latina, como privatizações, austeridade fiscal e reformas tributárias]", afirmou o professor de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de Valparaíso Guillermo Holzmann.

O avanço da influência dos Chicago Boys viveu um ápice em 1975, quando Milton Friedman visitou o Chile, fez conferências e se reuniu com Pinochet. O economista de Chicago buscava também convencer o militar a adotar, em vez de uma mudanças paulatinas, um "tratamento de choque" neoliberal para recuperar a economia. A pressão deu certo.

A estratégia passava por equilíbrio fiscal, desregulamentação, abertura ao capital externo e controle de inflação, entre outras medidas. Era o oposto do antecessor Allende. Previsto por Friedman, o choque foi duro naquele ano, e o PIB caiu 13,3%. Dois anos depois, porém, o Chile voltou a um crescimento consistente no patamar de 7%. 

Qual foi o resultado da experiência neoliberal?

"É complexo analisar o desempenho econômico do governo militar chileno", disse Steve Hanke, acadêmico da Universidade Johns Hopkins que assessorou diversos governos latino-americanos. "Nos primeiros anos da era Pinochet houve um 'boom', quando as medidas iniciais ajudaram a estabilizar o caos da economia socialista."

Para ele, é "evidente" que a atual prosperidade chilena se baseia em medidas adotadas durante a era Pinochet. Hanke cita como exemplo a continuidade do sistema de seguridade social baseado em fundos de previdência privada, um dos programas emblemáticos do governo militar.

Mas houve uma guinada já durante o governo militar. "Uma parte importante das medidas neoliberais implementadas no início dos anos 1970 foram revertidas nos anos 1980 pelo próprio governo militar. Um exemplo muito claro disso foi sua política de desregulamentação financeira e mudanças no tipo de câmbio. Ambas, que favoreciam o capital financeiro, levaram o Chile a uma crise na década seguinte e acabaram revertidas", afirmou Óscar Landerretche, da Universidade do Chile.

Segundo ele, após a ditadura, "não havia seguro de saúde universal, seguro-desemprego, gratuidade no ensino superior, nem pilares solidários no sistema de previdência".

No setor previdenciário, a mudança para um regime de capitalização - no qual cada indivíduo faz sua própria poupança - também causou forte impacto social anos depois. Quando o novo modelo começou a produzir os seus primeiros aposentados, o valor das aposentadorias se mostrou baixo: 90,9% recebem menos de 149.435 pesos (cerca de R$ 694,08). 

O período, classificado por alguns economistas como "milagre econômico", durou até 1982, ano em que o Chile sofreu uma queda recorde do PIB (13,4%) e a duplicação da inflação. A economia chilena só se recuperaria em 1984, quando começaria a chamada "era dourada".

Apesar de todos os avanços de indicadores econômicos no governo militar, a distribuição de renda praticamente não mudou - a desigualdade se tornaria alvo das principais mudanças adotadas na redemocratização chilena, com aumento do gasto público sem desequilíbrio fiscal.

"Essas políticas neoliberais acabam resultando em concentração de renda. Apenas um grupo movimenta a economia, enquanto você precisa de estímulo às outras classes consumirem. Após a ditadura militar, os governos passam a criar uma série de políticas socioeconômicas para reduzir essa desigualdade social", afirmou Guerrero Rojas, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná. 

Noah Smith, colunista da agência de notícias Bloomberg, resumiu o debate em um tuíte em novembro do ano passado.

"O crescimento anualizado do PIB real per capita no Chile sob Pinochet (1973-1990) foi de 1,6%. O crescimento anualizado do PIB real per capita no Chile nos 17 anos posteriores a Pinochet (1990-2007) chegou a 4,36%. Pinochet está bastante superdimensionado", escreveu ele.

Ciências humanas - Sociologia
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O nome Palas Atena

Atena (Minerva) era uma deusa prudente, uma característica herdada da mãe, Métis (que significa «prudência» em grego), mas no início da vida ela procedeu uma vez sem pensar e arrependeu-se para sempre. Ela e o amigo mortal Palas estavam a brincar um com o outro, testando as respetivas forças como guerreiros, atirando lanças um ao outro. Palas protegia-se com um escudo, mas a força da deusa era demasiada para ele, pelo que acabou por atingi-lo, ferindo-o de morte. Atena lamentou amargamente a sua perda e, em sua memória, passou a chamar-se Palas Atena, para no futuro sempre se recordar das diferenças entre a força insignificante dos seres humanos e a pujança imortal de uma deusa.

MILLS, Alice. A era clássica. IN.: GORDON Cheers (org.). Mitologia: Mitologias de todo o mundo. Lisboa/PT: Caracter, 2011. Cap. 1 p. 97
Mitologia
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MITOLOGIAS DA CIVILIZAÇÃO
Os sete anos de fome

Ano 18 do Hórus Netjerirkhet, o rei do Alto e do Baixo Egipto Netjerirkhet, o das Duas Senhoras Netjerirkhet, o Hórus de Ouro Djoser, sob o príncipe hereditário e governador dos domínios do Sul, chefe dos Núbios em Abu-Elefantina, Mesir. Foi levado até ele este decreto real. Para que saibas: Estou no mais profundo desespero no meu trono, os do palácio estão preocupados, o meu coração está em grande aflição, porque há sete anos não há cheia do Nilo. Quase não restam mais cereais, ninguém tem muito que comer e não entra nos cofres qualquer receita. As pessoas mal podem andar, as crianças choram e os velhos, desalentados, sentam-se no chão, com os joelhos para cima. Há privações até na corte e os templos foram fechados. Todos sofrem. Num esforço para descobrir o que eu podia fazer, interroguei o principal sacerdote leitor de Imhotep. Em que lugar é que o Nilo cresce? Que deus mora ali, para que eu possa pedir-lhe ajuda?

«Irei imediatamente até Hermópolis», disse o sacerdote leitor. «Farei uma breve pesquisa na biblioteca do templo local para descobrir que conselho pode ser selecionado dos escritos divinos.»

Quase imediatamente, o sacerdote leitor regressou com os resultados da sua pesquisa. Disse ele: «Há uma cidade no meio do Nilo chamada Elefantina. Está situada bem no começo das coisas. E o lugar de onde Rá envia vida para todos e é a fonte da vida, o lugar de onde o Nilo fertilizante em sua cheia salta em frente para impregnar a terra. O deus do lugar é Khnum. É ele quem distribui as terras do Egito a cada deus e controla os cereais, as aves, os peixes e tudo aquilo de que eles vivem. Há ali uma corda de agrimensor e uma paleta de escriba para fazer a avaliação das colheitas. No lado nascente da cidade há grandes montanhas que contêm todas as espécies de minerais preciosos e pedras duras. Há ali magníficas pedreiras de onde é retirado o excelente material usado em todos os templos do Alto e do Baixo Egito, nos estábulos sagrados, nos túmulos reais e em todas as estátuas erguidas nos templos e nos santuários. Os produtos das montanhas são levados a Khnum juntamente com todas as plantas e flores que crescem nos arredores. E no meio do rio há um lugar de descanso admirável que fica coberto por ocasião da cheia do Nilo.»

O sacerdote disse-me então o que podia ser encontrado nesse agradável lugar e em suas vizinhanças. Primeiro, relacionou por ordem de importância os deuses e deusas que eram venerados no grande templo de Khnum na ilha de Elefantina, tanto as divindades que moram ali por direito próprio como as que chegam em visita e são bem recebidas. Enumerou então pormenorizadamente todas as espécies de pedras que podem ser obtidas nas montanhas vizinhas, pedras para construção, pedras para estátuas e pedras preciosas usadas na arte dos joalheiros. Falou também dos metais raros que eram extraídos das mesmas montanhas.

Disse-me muitas outras coisas a respeito de Elefantina, até que eu tive uma ideia muito completa das suas riquezas. Quando ele acabou, fiquei cheio de alegria em saber que havia tal lugar no meu reino. Mandei que os livros sagrados fossem desenrolados, fiz purificações, organizei procissões e fiz ofertas completas de todas as espécies de comidas e bebidas aos deuses e deusas de Elefantina, cujos nomes foram mencionados.

Algum tempo depois, estava eu dormindo tranquilamente e sonhei que o grande deus Khnum estava diante de mim. Fiz imediatamente tudo o que me era possível para que ele me fosse propício, dando-lhe adoração e fazendo-lhe o meu pedido.

O deus dirigiu-se a mim de maneira muito amistosa: «Sou Khnum, que te criou; com meus braços eu te protejo e te ajudo. Ponho à tua disposição os intermináveis depósitos de minerais preciosos, como ninguém conheceu ainda. No entanto, não há obras em andamento. Deverás construir templos, restaurar as construções que estão em ruínas e recuperar as estátuas, pois eu sou o grande deus criador que tudo determina. Sou Nun, que existiu desde os tempos mais primitivos, e sou Hapi no período da cheia a correr livremente. Atuo sobre os homens e oriento-os nos momentos em que enfrentam o destino. Sou Tatenen, pai dos deuses, sou o grande Chu, grande no céu. O meu santuário tem dois portões, dos quais posso deixar escoar-se a água para a cheia. E a cheia que dá vida a tudo, e o que ela irriga continua a viver. Farei o rio subir de novo para ti e não haverá mais anos sem inundação. As flores desabrocharão e todas as plantas irão crescer um milhão de vezes mais sob os auspícios de Renenutet. As privações cessarão e todos os celeiros se encherão. O povo do Egito será mais feliz do que nunca.»

Quando despertei do sono, o sonho enchia-me o espírito. Todos os seus pormenores estavam fixados nitidamente na minha consciência. Com alegria no coração e conhecimento seguro de que o resultado seria bom para a minha infeliz terra, chamei o meu principal escriba e ditei um decreto em honra de meu pai, Khnum, e líder da Núbia. Continha todos os dispositivos que ele especificara no meu sonho. Dizia o seguinte:

Em primeiro lugar, em troca de tudo o que o deus tinha feito por mim, oferecia-lhe uma grande extensão de terras dos dois lados do rio, estendendo-se para o Sul de Elefantina até Takompso.

Todos os que cultivam campos nesse território, tanto nas margens do rio como nas áreas recentemente recuperadas, deverão entregar as colheitas nos celeiros de Khnum. Além disso, todos os homens que vivem de apanhar peixes, caçar animais grandes e pequenos, apanhar aves em armadilhas e caçar leões terão de pagar um décimo de tudo o que conseguirem com os seus esforços, cabendo a renda a Khnum. Todos os filhotes de animais domesticados no território especificado deverão também ser entregues.

Além disso, todos os animais marcados para o sacrifício e todas as oferendas devem ser dadas a Khnum, inclusive todos os produtos que chegarem da fronteira da Núbia - ouro, marfim, ébano, todas as espécies de plantas, minerais e madeiras - e o que puder ser cobrado aos Núbios em matéria de impostos atrasados. Não deve haver da parte dos funcionários qualquer interferência que possa desviar o que deve ir de direito para o templo de Khnum.

Por fim, todo esse território, inclusive as partes rochosas e a boa terra arável, deve pertencer a Khnum. Devem ser designados funcionários para morar ali e fiscalizar o trabalho de todos os que lidarem com metais preciosos ou não e de todos os artesãos; providenciarão para que o dízimo de tudo o que se faça seja remetido para o templo de Khnum. O mesmo dízimo será imposto sobre o rendimento do comércio e das pedreiras.

Os trabalhadores que laboram nas oficinas anexas ao templo de Khnum não terão falta de metais preciosos e de outros materiais necessários para fazer novas estátuas e vasos rituais e para reparar o que estiver danificado. E tudo deverá ficar como anteriormente estava.

Foram esses os termos do meu decreto e eu ordenei que o mesmo fosse gravado numa pedra em lugar sagrado e escrito numa placa depositada no santuário do deus. Na verdade, tudo aconteceu como eu sonhei. Ordenei também que os sacerdotes e outros funcionários fizessem o meu nome viver eternamente no templo de Khnum, senhor de Elefantina.

Mitologia Egípcia
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MITOS, FÁBULAS E LENDAS
A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

Mitologia Celta
As tarefas impossíveis de Culhwch

Um dos contos mais populares de Mabinogion narra a estória de Culhwch e Olwen. Culhwch é de sangue real, pois é primo de Arthur. O seu nascimento foi invulgar. Antes de ele ter nascido, a mãe, Golenddyd, ganhou uma profunda antipatia por porcos, pois quando passava por uma vara deles, assustou-se e deu à luz um filho que abandonou. Um guardador de porcos pegou nele e levou-o para os pais criarem. Golenddyd morreu e o marido, Cilydd, voltou a casar com uma mulher que tinha uma filha que ela queria casar com Culhwch. Mas ele não quis, afirmando ser ainda muito jovem. A rainha então rogou uma praga a Culhwch, segundo a qual ele só viria a casar com Olwen, filha de Ysbaddeden, o Chefe dos Gigantes. Bastou a Culhwch ouvir o nome dela para se apaixonar profundamente.

Culhwch decidiu então pedir ajuda a Arthur para encontrar esta donzela e partiu num grande esplendor, completamente armado com machados de guerra, espada dourada e uma pequena machadinha que «podia fazer o ar sangrar.» Tinha também um chifre de marfim, dois galgos e montava um cavalo fantástico. Quando Culhwch chegou à corte de Arthur o porteiro tentou barrar-lhe a entrada, mas ele ameaçou dar três gritos de tal intensidade que as mulheres ficariam estéreis e as que estivessem grávidas abortariam.

É claro que ele passou. Encontrou-se com Arthur que se deixou convencer a ajudá-lo a procurar Olwen. As buscas decorreram durante um ano, sem sucesso. Por fim, juntaram um grupo dos melhores cavaleiros, cada um deles abençoado com peculiaridades extraordinárias. Um deles, Kay, tinha uma espada que provocava feridas que nenhum médico podia tratar; outro, Bedwyr, o mais veloz de todos, e Gwalchmai, que nunca voltava de uma missão sem a cumprir.

Após mais dia buscas, Olwen foi finalmente encontrada.

Ela correspondeu ao amor de Culhwch, mas explicou que o pai Ysbaddeden estava destinado a morrer quando se casasse. Olwen pediu a Culhwch que aceitasse qualquer condição que o pai lhe impusesse. Culhwch aproximou-se do Chefe dos Gigantes que lhe ordenou uma longa série de «tarefas impossíveis.» A mais intimidante delas consistia em recuperar uma tesoura, uma navalha da barba e um pente que estava entre as orelhas do grande e destruidor javali Twrch Trwyth. Apesar de tudo, Culhwch aceitou de boa vontade toda as tarefas. Ele e Arthur conseguiram atrair a ajuda de Mabon, o caçador que tinha estado preso num castelo após ter sido roubado. Na ocasião, ele tinha sido libertado Era conhecido como «o jovem» se bem que fosse o mais velho de todos os seres. Mabon Culhwch e os cavaleiros foram ajudados por animais mágicos: a Águia de Gwemabwy, o Melro de Kilgory, o Veado de Rhedynvre, Salmão de Llyn Law e outros bichos encantados. Um dos homens de Arthur, Gwrhyr, tim a capacidade de falar com cada um deles na sua própria linguagem. Após uma longa perseguição através do sul do País de Gales, da Cornualha e da Irlanda, durante a qual o diabólico javali devastou uma grande parte da terra, foi enfim possível, com a ajuda de Mabo dominá-lo e conduzi-lo para o mar. A navalha da barba, a tesoura e o pente foram entregue: e Culhwch pôde finalmente casar com Olwe.

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Revolução Russa de 1917

A Revolução Russa de 1917 foi uma das muitas consequências da Primeira Guerra Mundial. A guerra submeteu o Estado e a sociedade russa a tensões que nenhum dos dois podia suportar. O resultado foram seis anos de guerra e tumulto que criaram a União Soviética. A participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial não foi um acidente. Depois da Guerra Russo-Japonesa, a política externa da Rússia voltou-se para o oeste. Em 1907, a Rússia concluiu um tratado com sua rival de longa data, a Grã-Bretanha, para estabelecer um domínio conjunto sobre o Irã. Os russos tomaram controle da parte setentrional do país até Teerã, e os britânicos do Sul. Esse compromisso pôs fim à competição imperial anglo-russa na Ásia e fez que a Rússia se tornasse um aliado efetivo da Grã-Bretanha, bem como da França. Os únicos inimigos imagináveis eram a Alemanha e a Áustria. O acordo sobre a Pérsia armou o palco para os eventos de 1914, mas foram as rivalidades imperiais nos Bálcãs que proporcionaram a fagulha para a explosão. Ali, a Rússia enfrentava um Império Otomano ressurgente, aliado com a Alemanha e a Áustria, seguidas pela Bulgária. Nesse ponto, o único aliado da Rússia era a diminuta Sérvia, que estava exatamente no caminho da expansão austro-alemã no Sul. Uma série de crises nos Bálcãs nesses anos mostrou repetidamente a fraqueza da Rússia na região: ela não tinha aliados formais além da Sérvia, nem o poder informal derivado dos laços comerciais estabelecidos pelos alemães e austríacos, bem como os franceses e britânicos. Quando Gavrilo Princip assassinou o arquiduque austríaco em Sarajevo em 1914, Viena lançou um ultimato à Sérvia e a Rússia teve de apoiar a resistência sérvia. A credibilidade básica da Rússia estava em jogo, e o resultado foi a guerra. Ela não havia buscado a guerra, mas desviado em direção à crise, tal como estava fazendo em muitas outras áreas.

Se o governo do Império Russo depois da morte de Stolypin meramente vagava no fluxo dos acontecimentos, nem a sociedade russa nem o movimento revolucionário demonstravam a mesma passividade. Os anos imediatamente anteriores à Primeira Guerra Mundial foram anos de crescimento econômico dinâmico para as ilhas de indústria moderna no mar de atraso rural. O desenvolvimento industrial significava crescimento no tamanho e, em certa medida, na sofisticação da classe operária, e os partidos revolucionários estavam prontos para fazer uso dele. Em alguns lugares, os trabalhadores recorreram novamente à greve. Em 1912, no rio Lena, na Sibéria, várias centenas de trabalhadores pereceram quando os soldados e a polícia reprimiram uma greve nas minas de ouro de propriedade inglesa. Por volta dessa época, os partidos revolucionários haviam se recuperado da derrota de 1905-1907. Os bolcheviques, mencheviques e SRs estavam razoavelmente bem organizados e o movimento trabalhista recuperou-se. Na primavera de 1914, uma onda de greves varreu São Petersburgo, e nela os bolcheviques pareciam pela primeira vez ser a liderança, e não os mencheviques ou SRs. Todavia, o restante do país estava relativamente sossegado, e as notícias da guerra atingiram a Rússia como um raio. Na verdade, a Rússia havia dedicado muito esforço à reconstrução do Exército e da Marinha desde a guerra com o Japão, e um dos numerosos fatores que aguilhoavam o Estado-Maior alemão e o Kaiser a forçar uma guerra imediata era o temor de que a Rússia seria muito mais difícil de derrotar dentro de poucos anos. Na verdade, tanto o planejamento quanto o equipamento ainda eram deficientes. Por insistência do tsar, enormes somas haviam sido gastas para reconstruir a esquadra do Báltico, que no fim era pequena demais para desafiar a Marinha alemã e nunca deixou o porto. A indústria de armamentos da Rússia ainda era inadequada para abastecer um Exército moderno e sua rede de transporte, adequada em tempos de paz, era pequena demais para a mobilização e abastecimento velozes do Exército na fronteira ocidental. Para piorar as coisas, o avanço rápido do Exército alemão pela Bélgica e pela França gerou uma crise no fronte. Sob intensa pressão da França, os russos lidaram com a crise enviando um Exército despreparado para a Prússia Oriental, uma expedição que terminou em derrota em Tannenberg em agosto de 1914. Assim, a Rússia iniciou a guerra com uma derrota.

Em casa, a guerra produziu de início uma orgia de patriotismo. Sob aclamação universal, o governo mudou o nome alemão São Petersburgo para Petrogrado, uma tradução russa, mais ou menos, do mesmo. Liberais e reacionários na Duma uniram-se numa plataforma de guerra e a intelligentsia, como seus pares a oeste, despejou uma enxurrada de propaganda anti-inimigo e delírios nacionalistas. Os trabalhadores também foram arrastados pela febre e o movimento de greve na capital evaporou-se. A polícia reprimiu fortemente os partidos revolucionários, particularmente os bolcheviques, e dentro de poucos dias seus líderes que estavam na Rússia desapareceram na prisão e no exílio na Sibéria. Stalin estava entre eles. Os bolcheviques foram objeto de ira particular do governo por causa da sua posição acerca da guerra, uma posição que transformou um obscuro grupo marxista num movimento mundial que reordenou fundamentalmente o século XX. Afinal, foi da reação de Lenin à guerra, e não como resposta à Revolução Russa posterior, que o comunismo nasceu.

Antes de 1914, os partidos socialistas europeus haviam prometido reiteradamente, nas suas reuniões internacionais, opor-se a todas as guerras entre os Estados europeus por serem nocivas aos interesses da classe operária. Tratava-se de grandes e poderosos partidos de massa, que controlavam sindicatos trabalhistas importantes e ofereciam serviços sociais e culturais elaborados, no que eram totalmente diversos do pequeno bando de combatentes clandestinos de Lenin. Quando os governos pronunciaram declarações bombásticas de guerra em julho e agosto de 1914, a expectativa era a de que os socialistas se opusessem à guerra e até fizessem greve, como haviam ameaçado antes, no intuito de pôr fim a ela. Nada disso aconteceu. Ao contrário, os líderes socialistas pronunciaram-se quase unanimemente a favor da guerra e juntaram-se ao coro de patriotismo e ódio nos seus respectivos países. Os poucos que discordaram sentiram-se obrigados pela disciplina do partido a ficarem quietos e seguir a liderança. Entre os russos, o ancião fundador do marxismo russo, Plekhanov, pronunciou-se a favor da guerra, e os mencheviques adotaram uma posição de compromisso, não conclamando a uma vitória russa, mas não se opondo à guerra. Entre os socialistas europeus, somente os bolcheviques de Lenin e um punhado de dissidentes mencheviques como Trotsky opuseram-se à guerra desde o primeiro dia.

Lenin não era um pacifista, e seu programa para a guerra não consistia apenas em opor-se a ela. Ele proclamou que a derrota do Império Russo seria o melhor resultado para a Rússia e conclamou todos os socialistas, na Rússia e alhures, a transformar a guerra internacional numa guerra civil.

Em outras palavras, ele estava lançando um apelo à insurreição armada em tempo de guerra. Essa posição parecia-lhe a única atitude marxista correta, mas por que tão poucos socialistas europeus concordaram? Segundo ele, eles haviam traído a classe operária que deveriam liderar, mas por quê? Desesperado com o futuro, Lenin voltou-se para a teoria marxista para tentar entender o que tinha acontecido. Ele releu a Metafísica de Aristóteles (em grego; ele era produto do ginásio russo) e a Ciência da Lógica de Hegel para tentar recapturar o sentido original da dialética como Hegel e Marx a compreendiam. Ele também realizou um longo estudo dos eventos económicos recentes. Seu objetivo era entender o apoio dado à guerra pelos socialistas europeus. Sua conclusão foi que a resposta estava no imperialismo, na riqueza excessiva gerada pelos impérios europeus na África e na Ásia, alimentada pela concentração crescente do capital. O império era o verdadeiro objetivo das potências beligerantes, ocultado sob um jargão enganador de liberdade ou honra nacional. A riqueza do império também produzira uma aristocracia trabalhista, contente com o status quo e portanto relutante em causar problemas em tempo de guerra. A curto prazo, ela se beneficiaria com o imperialismo. Ambas as conclusões viriam a ter efeitos decisivos após a Revolução Russa, mas por enquanto a leitura fez pouco mais que manter Lenin ocupado enquanto o mundo afundava cada vez mais no lodaçal sangrento da guerra.

À medida que as baixas acumulavam-se aos milhões, a oposição à guerra começou a surgir entre os socialistas na Europa Ocidental. Os primeiros a abandonar as fileiras foram os pertencentes à ala esquerda dos social-democratas alemães, Rosa Luxemburg, Karl Liebknecht e seus seguidores, que votaram contra os créditos de guerra no Reichstag em dezembro de 1914. Dentro de pouco tempo, os socialistas antiguerra estavam realizando pequenas reuniões na Suíça para exigir o fim da guerra e discutir táticas, e mesmo ali Lenin, com seu apelo intransigente à revolução, era minoria. Pela primeira vez, os bolcheviques russos chamaram a atenção do mundo como um bando diminuto de revolucionários que se aferravam à sua posição mesmo quando ela parecia condená-los ao isolamento e à derrota. Sua posição começou a angariar apoio entre socialistas ocidentais e, dessas pequenas reuniões de grupos na Suíça, surgiu um movimento mundial com consequências decisivas para a Rússia, bem como para a China, o Vietnã e outros países.

As consequências dessas reuniões obscuras estavam num futuro distante. Enquanto isso, na Rússia, a situação deteriorava-se gradualmente e não oferecia consolo nem ao tsar e seu governo, nem aos bolcheviques. No começo da guerra, Nicolau suspendeu a Duma, na esperança de governar sozinho. A derrota inicial na Prússia Oriental foi seguida, na primavera de 1915, por uma retirada geral russa da Polónia, o que acabou levando a uma crise no governo. A Duma foi convocada novamente no verão e os Kadets e conservadores moderados conseguiram formar um “Bloco Progressista”, que ofereceu cooperar com o governo no esforço de guerra. Por fim, o governo teve de apelar aos zemstvos e diversos comités de empresários para resolver as crises de abastecimento, mas só o fez com relutância e tarde demais. Surgiram novas agências para regular a economia para a guerra, como na Alemanha e outras potências beligerantes, mas a Rússia carecia da infra-estrutura para fazê-las funcionar. O governo regulou os preços dos cereais para abastecer o Exército e as cidades com comida barata, mas o resultado foi que os camponeses passaram a semear menos e a produção de alimentos começou a cair, piorando a situação.

No final de 1915, o próprio Nicolau assumiu o comando do Exército e mudou-se de Petrogrado para Stavka, o quartel-general do Exército perto de Mogilev. Sua mudança não ajudou o Exército e só desorganizou ainda mais o governo na capital, pois o tsar continuava a ser a única autoridade e agora era ainda mais difícil conseguir sua atenção. Suas consultas reiteradas à imperatriz Alexandra e a Rasputin provavelmente não tiveram muito impacto sobre a política, mas acabaram por indispor ainda mais o público. O Exército russo teve êxitos mitigados, já que pouco podia fazer contra os alemães, mas obteve uma vitória importante contra a Áustria em 1916 (a “Ofensiva Brusilov”, comandada pelo general Aleksei Brusilov) e contra os turcos. Erzurum, na Anatólia Oriental, caiu nas mãos do general Nikolai Yudenich no mesmo ano. Esses sucessos não puderam mudar a estagnação geral da guerra nem interromper a carnificina. As baixas russas aproximavam-se de cerca de 2 milhões de mortos, 2,5 milhões de feridos e 5 milhões de prisioneiros de guerra. Na Duma, o líder dos Kadets, Pavel Miliukov, falou de traição em altas esferas (uma referência à imperatriz Alexandra, entre outros) e, em dezembro de 1916, um grupo de jovens aristocratas temerosos quanto ao destino da monarquia assassinou Rasputin. Primeiro convidaram-no para jantar e serviram-lhe comida e vinho com altas doses de veneno. Depois, ao notarem que isso não surtia efeito na sua constituição corpulenta, eles atiraram nele e puseram-no sob o gelo dos canais de São Petersburgo. Rasputin se fora, e logo foi a vez da monarquia.

 

Sob muitos aspectos, a queda da dinastia Romanov foi quase um anticlímax. No final de fevereiro de 1917, o agravamento da situação alimentar em São Petersburgo levou a longas filas em padarias e outras lojas de produtos alimentícios nos bairros operários da cidade. No Dia Internacional da Mulher (23 de fevereiro/8 de março, um feriado socialista), muitas mulheres trabalhadoras, exaustas de ficar nas filas de comida depois das longas jornadas de trabalho, entraram em greve. Em poucas horas, os homens nas fábricas ouviram a notícia e também entraram em greve, fechando rapidamente a cidade inteira. Os estudantes e as classes médias aderiram a eles. O governo mobilizou soldados, que atiraram nos manifestantes, matando várias dúzias deles. Contudo, no dia seguinte, os mesmos soldados que haviam atirado recusaram-se a lutar e amotinaram-se, levando outros regimentos com eles, até os cossacos. Os ministros e a Duma enviaram telegramas cada vez mais desesperados ao tsar, e Nicolau retornou às pressas de Stavka. Antes que ele chegasse à capital, representantes do governo vieram ao seu encontro e convenceram-no a abdicar. Foi o que ele fez, em 2/15 de março, e a monarquia chegou abruptamente ao fim.

 

REVOLUÇÃO

Mesmo antes da abdicação do tsar, dois novos governos estavam sendo formados em Petrogrado. Quando o governo do tsar ruiu, os líderes da Duma formaram um Governo Provisório liderado pelo príncipe Georgii Lvov, o chefe da União dos Zemstvos, um fidalgo rural liberal diplomado em Direito e com folha de serviço nos conselhos locais e na Duma. Seu ministro das Relações Exteriores era o líder do partido Kadet, o historiador Pavel Miliukov. A única voz mais ou menos radical era a de Aleksandr Kerenskii, um advogado conhecido pelo trabalho de defesa em julgamentos políticos e membro do “Grupo Trabalhista” da Duma, socialistas agrários próximos da ala direita dos SRs. Seu pai fora diretor do colégio de Simbirsk quando Lenin era aluno lá. Esses homens eram a fina flor da Rússia liberal em termos amplos, mas como grupo não faziam ideia de como liderar as massas e passavam grande parte do seu tempo preocupando-se com as reações dos aliados da Rússia na guerra, a Grã-Bretanha, a França e logo mais os Estados Unidos. Sua solução preferida para todos os problemas que a Rússia enfrentava era convocar uma Assembleia Constituinte a fim de escrever uma constituição para uma república democrática que satisfizesse o desejo dos camponeses por terra e as queixas dos trabalhadores. Entrementes, eles dariam prosseguimento à guerra, na esperança de uma vitória aliada sobre a Alemanha. 

 

O outro “governo” era o soviete de Petrogrado. Respondendo à instigação dos mencheviques, os trabalhadores de quase todas as fábricas da cidade elegeram delegados para um soviete municipal que contava quase mil membros. Sua primeira medida foi a “Ordem n° 1”, na qual especificava que o Exército devia ser gerido por sovietes de soldados eleitos e que os oficiais só exerceriam o comando durante as operações. Nesse momento em que os partidos revolucionários passaram a agir abertamente pela primeira vez na história russa, os mencheviques e os SRs, não os bolcheviques, impuseram rapidamente seu domínio sobre o soviete de Petrogrado e na maioria das outras cidades. A tática menchevique era recusar apoio ao Governo Provisório e ao mesmo tempo empurrá-lo numa direção mais radical, uma posição de compromisso insustentável. Logo de início, o problema da guerra teve de ser abordado. Se os mencheviques russos diferiam da maioria dos socialistas europeus por argumentarem que a guerra devia ser encerrada sem vitória para nenhum lado, eles não tinham nenhum plano factível para interrompê-la, nem defendiam uma revolução socialista imediata. Sua posição refletia, de fato, uma genuína hostilidade popular à guerra, e em maio Miliukov e outros tiveram de deixar o Governo Provisório, pois queriam levar a guerra a um final vitorioso e o soviete não aceitava isso. Lvov organizou um novo governo com vários socialistas moderados, incluindo Kerenskii, que ficou encarregado do Exército e da Marinha e lançou uma nova ofensiva no fronte. Sovietes também foram formados em Moscou e outras cidades, no Exército e até em algumas regiões rurais. Eles representavam apenas trabalhadores, soldados e camponeses, não as classes médias ou altas. Reeleitos em intervalos de poucas semanas, os sovietes locais refletiam o humor popular muito de perto.

Em todas essas deliberações durante os primeiros meses da revolução, os bolcheviques continuaram minoria nos sovietes. Lenin ouviu falar da queda do tsar na Suíça e conseguiu retornar à Rússia através da Alemanha, tendo convencido o governo alemão de que ele era mais uma ameaça ao esforço de guerra da Rússia que ao da Alemanha. Ele viajou num trem cujas portas foram lacradas até que ele chegasse à Suécia neutra, e atravessou a Finlândia para chegar a Petrogrado em 3/16 de abril de 1917, onde recebeu as boas-vindas tumultuadas dos seus seguidores. Ele descobriu que os líderes bolcheviques, incluindo Stalin, haviam retornado do exílio e estavam começando a organizar-se. No entanto, todos eles careciam de uma ideia clara do que deveria ser sua plataforma. A de Lenin era absolutamente clara, tal como expressa nas “Teses de Abril”. A queda do tsar, ele escreveu, significava que a revolução burguesa, a qual o partido havia almejado em 1905, havia terminado. Naquele momento havia no país um poder dual, os sovietes junto com o Governo Provisório. O objetivo era agora a tomada do poder pelo proletariado com a meta de transformar a Rússia numa sociedade socialista. O instrumento dessa tomada seriam os sovietes, principalmente os de soldados e trabalhadores. A meta imediata dos bolcheviques era, portanto, obter uma maioria no soviete de Petrogrado e outros.

A história dos poucos meses seguintes é a da realização desse objetivo. Foi a situação da Rússia que a tornou possível, dado que o país inteiro entrou numa crise profunda. O colapso do antigo governo deixou pouca autoridade efetiva em seu lugar e grande parte dela estava acuada pela multidão revolucionária. Nas aldeias, os camponeses simplesmente tomaram as terras durante o verão. Em muitos lugares houve violência, mas no mais das vezes eles simplesmente ignoraram os proprietários nobres e começaram a arar os campos deles para uso próprio. Às vezes eles entravam nas mansões dos aristocratas e pediam-lhes educadamente que saíssem. Seja como for que tenha ocorrido, a tomada das terras pelos camponeses foi uma mudança cataclísmica na sociedade russa, que pôs fim em poucos meses a uma ordem social que durara séculos. A maioria dos nobres não eram mais senhores da terra, mas refugiados pobres nas grandes cidades. Nas cidades, os trabalhadores usaram sua liberdade recém-conquistada para exigir uma jornada de oito horas e salários mais altos, e para formar comités de fábrica que tentavam tomar o controle dos locais de trabalho.

Os partidos de esquerda saíram todos da clandestinidade e tentaram tornar-se organizações de massa. A época da clandestinidade revolucionária havia terminado. De início, os mais bem-sucedidos foram os SRs, com suas tradições de ação direta e apelo ao campesinato. Pela primeira vez, eles conseguiram realmente organizar números significativos de camponeses no seu partido, e seus seguidores oriundos da classe operária eram muito numerosos. Mas eles tinham um problema grave - a guerra. Mesmo antes de 1917, alguns SRs haviam se pronunciado contra a guerra, com uma posição muito próxima da de Lenin, mas continuavam a fazer parte do partido maior. À medida que a crise aprofundou-se no verão de 1917, a cisão ampliou-se. Os mencheviques, que sempre tiveram a esperança de formar um partido de massas em condições mais livres, beneficiaram-se enormemente com a nova liberdade. Quando os sovietes realizaram seu primeiro congresso de delegados de toda a Rússia em junho, os SRs e os mencheviques tinham quase 300 deputados cada, e os bolcheviques apenas pouco mais de 100. A moderação parecia triunfar, mas o clima mudou muito rápido.

 

Pela primeira vez, os bolcheviques estavam tornando-se também um partido de massas. Em vez de poucos milhares de revolucionários profissionais, o partido cresceu rapidamente até incluir 200 mil filiados, com concentração maior nas grandes cidades e especialmente em Petrogrado. A maioria esmagadora desses novos membros era composta de jovens operários, a maior parte deles com menos de 25 anos. À medida que mais e mais revolucionários retornavam do exterior, os bolcheviques também começaram a atrair dissidentes dos mencheviques, dos quais o mais importante foi Trotsky, cuja oposição à guerra levou-o a aderir a Lenin pela primeira vez. Trotsky era um orador poderoso e seus discursos eram uma arma capital para arregimentar as massas para o bolchevismo. Os novos membros transformaram o partido bolchevique, especialmente no nível das bases, cujo radicalismo veio à tona no início de julho. Os bolcheviques de Petrogrado organizaram uma manifestação armada que parecia estar assumindo ares de reivindicação do poder. O Governo Provisório, com apoio do soviete municipal, conseguiu reprimi-la e prender muitos líderes bolcheviques. Lenin fugiu para a Finlândia e Trotsky acabou preso. Em reação a esses eventos, Kerenskii sucedeu o príncipe Lvov no cargo de primeiro-ministro. Durante algumas semanas a onda revolucionária pareceu recuar, mas isso não durou. A guerra prosseguia, o descontentamento no Exército desdobrava-se num colapso gradual da disciplina e Kerenskii substituiu Brusilov pelo general Lavr Kornilov como comandante em chefe, esperando que Kornilov pudesse restaurar a ordem no Exército. A tarefa estava além dos seus poderes. A rede de transportes do país, já enfraquecida pela guerra, começou a ruir, assim como muitas indústrias e serviços essenciais. Nas cidades, os sovietes organizaram os Guardas Vermelhos, que contribuíam tanto para a desordem quanto para a ordem. As organizações e grupos revolucionários “expropriaram” prédios para uso próprio, dos quais o exemplo mais famoso foi a tomada pelo soviete de Petrogrado dos edifícios do Instituto Smolnyi em Petrogrado, a escola aristocrática de meninas fundada pela imperatriz Elizabete. Ela passou a servir de quartel-general bolchevique. Para as classes média e alta, foi o começo da anarquia; para os trabalhadores, era a aurora de um novo mundo, caótico, mas que lhes pertencia. Discussões e reuniões intermináveis tumultuavam ainda mais o trabalho das fábricas, mas também formavam um eleitorado para reivindicações cada vez mais radicais. A vida em Petrogrado era febril, e nas províncias só um pouco mais calma. Moscou e todas as cidades e povoados com algum tipo de indústria fervilhavam com reuniões, discursos e manifestações. Nos extremos do país,  surgiram movimentos nacionalistas com exigências de autonomia. Em Kiev, grupos de intelectuais nacionalistas e ativistas partidários proclamaram-se a Rada ucraniana (conselho) junto com o Governo Provisório e os sovietes locais. Outros grupos foram formados no Báltico e no Cáucaso, embora nenhum deles ainda defendesse uma independência efetiva.

Os dias de julho haviam posto um entrave na organização bolchevique e sua ascensão à primazia entre os trabalhadores. Então, no final de agosto, o general Kornilov avançou sobre a capital com o Corpo de Cavalaria de Montanha, composto de povos muçulmanos do Cáucaso setentrional (chechenos e circassianos), a fim de restaurar a disciplina e a ordem no país. Diante desse desafio, Kerenskii teve de recorrer ao soviete de Petrogrado, que armou os trabalhadores. Os bolcheviques haviam ganhado força desde os dias de julho. Agora eles eram cruciais para derrotar Kornilov, e seus líderes saíram da cadeia novamente para a liberdade. A incapacidade de Kerenskii de defender a revolução por si mesmo foi o último golpe contra o seu poder e, a partir da derrota de Kornilov em 1/14 de setembro, o Governo Provisório só fez derivar. O foco da ação havia sido transferido para os sovietes. Durante o episódio de Kornilov e logo depois dele, os bolcheviques finalmente obtiveram a maioria nos sovietes de Petrogrado e Moscou. Conforme as semanas avançavam e a crise económica e militar continuava a piorar, outro Congresso dos Sovietes foi organizado, mais uma vez com delegados do país todo. Nele as divisões do partido SR desempenhariam um papel decisivo, dado que os bolcheviques haviam ganhado claramente a maioria dos trabalhadores da cidade, mas nas aldeias eles não tinham nenhuma organização. A ala esquerda do partido SR, cada vez mais radicalizada pela revolução, exigia um fim imediato para a guerra e estava pronta para aderir aos bolcheviques. Em 10/23 de outubro, Lenin retornou de seu esconderijo na Finlândia e reuniu os líderes bolcheviques. Com o apoio de Trotsky e Stalin, ele superou os pessimistas na liderança, Zinoviev e Kamenev, e o Comité Central bolchevique votou a tomada do poder. Com os votos dos SRs de esquerda, os bolcheviques capturaram a liderança do Congresso dos Sovietes e, em 25 de outubro/7 de novembro de 1917, os Guardas Vermelhos avançaram sobre o Palácio de Inverno para desalojar o Governo Provisório. Restavam somente poucas centenas de defensores no palácio, oficiais cadetes e o “Batalhão da Morte Feminino”, uma unidade formada principalmente de mulheres de classe média para lutar na guerra. A um sinal do cruzador naval Aurora, ancorado no rio Neva, vários milhares de Guardas Vermelhos andaram rapidamente através do frio outonal e tomaram o palácio com um mínimo de tiros e feridos. As tentativas de saquear a adega e os numerosos tesouros do palácio foram logo reprimidas e os ministros do Governo Provisório foram escoltados para a prisão na Fortaleza de São Pedro e São Paulo. Kerenskii escapou para o sul num carro da embaixada dos Estados Unidos numa vã tentativa de angariar apoio no fronte.

Ao contar com a maioria no Congresso dos Sovietes, os bolcheviques e os SRs de esquerda tomaram o poder e proclamaram a Rússia uma república socialista e soviética. Os mencheviques e os SRs de direita deixaram o Congresso em protesto enquanto Trotsky relegou-os ao “monturo da história”. A primeira ação dos Vermelhos foi organizar o novo governo. O Congresso dos Sovietes elegeu um governo de Comissários do Povo com Lenin à sua frente e Trotsky como comissário do povo para Relações Exteriores. As outras posições ficaram com bolcheviques e SRs de esquerda de destaque. Entre estes últimos, o mais significativo era Joseph Stalin como comissário das nacionalidades. Trotsky foi para o Ministério das Relações Exteriores, na Ponte dos Cantores perto do Palácio de Inverno, apagou as luzes e mandou todo mundo ir para casa. Pelos próximos poucos meses, ele geriu a política externa de um pequeno escritório no Instituto Smolnyi.

O novo governo soviético chegou ao poder com amplo apoio dos trabalhadores e intensa oposição das velhas classes altas, das classes médias e da intelligentsia. Essas divisões refletiam-se na Assembleia Constituinte que se reuniu em 5/18 de janeiro de 1918. Convocadas pelo Governo Provisório, as eleições para a Assembleia haviam ocorrido no outono, antes e depois da tomada do poder pelos bolcheviques. Nas cidades, os bolcheviques desbarataram os socialistas moderados (SRs e mencheviques), deixando os Kadets, cada vez mais conservadores e nacionalistas, como o segundo partido urbano. No campo, porém, os SRs obtiveram o maior número de votos, embora a maioria dos candidatos não tivesse declarado se apoiava a esquerda ou a direita, o que confundia o resultado. A Assembleia reuniu-se por cerca de 13 horas, depois do que a guarda bolchevique de marinheiros Vermelhos simplesmente mandou os deputados irem para casa. Eles obedeceram. Poucos dias depois, um outro Congresso de Deputados Soviéticos proclamou o novo Estado, a República Socialista Federativa Soviética da Rússia, com declarações altissonantes dos direitos dos trabalhadores, camponeses e minorias nacionais.

 

Guerra civil e poder dos sovietes

A essa altura, a guerra civil já havia começado, pois grupos de oficiais militares na Rússia meridional reuniram-se para organizar a resistência ao novo governo, e o descontentamento crescia entre os cossacos do Don. O líder cossaco Kaledin formou um governo cossaco improvisado no Don e os Vermelhos logo avançaram contra ele. Ao longo de toda a guerra civil, os cossacos seriam a fundação da resistência ao poder soviético. Eles viviam nas bordas meridional e oriental da Rússia, e já não eram mais os rebeldes do século XVIII. Eles combinavam a agricultura camponesa com o serviço militar e, com a posse garantida de suas terras, representavam os servidores mais leais do tsar desde os anos 1790. As hostes maiores e mais prósperas dos cossacos ficavam no Don, e ali ocorria a resistência mais feroz à nova ordem. Ao mesmo tempo, os intelectuais nacionalistas na Rada de Kiev declararam-se o poder supremo da Ucrânia. Um fronte cossaco-ucraniano parecia estar se formando contra os Vermelhos no Sul. Um ajuntamento disparatado de Guardas Vermelhos e marinheiros foi suficiente para derrotar os cossacos do Don e a Rada em janeiro de 1918. Enquanto isso, o caos espalhava-se pelo país, junto com episódios de resistência em outros lugares. No final de dezembro de 1917, para conter essas ameaças, as autoridades soviéticas formaram a Cheka, a Comissão Extraordinária para a Luta contra o Banditismo e a Contrarrevolução, uma organização que combinava funções de polícia de segurança com uma espécie de Exército político. Seu primeiro chefe foi um comunista polonês, Felix Dzerzhinskii, incorruptível e implacável.

A rápida derrota da oposição aos bolcheviques não significava que a ordem havia retornado. A guerra havia arruinado a economia russa. A inflação estava fora de controle, as redes de transporte e a distribuição de alimentos vinham entrando em colapso. O aquecimento e a energia elétrica desapareceram em Petrogrado e noutras grandes cidades e os trabalhadores começaram a retornar às suas aldeias nativas quando podiam. Na antiga capital do Império Russo, as luzes apagavam-se nos grandes palácios, a nobreza fugiu para o sul em busca de calor e comida, junto com grande parte da intelligentsia e das classes médias. À medida que o Exército se desintegrava, milhões de soldados atulhavam os trens ao ir para casa, levando consigo rifles e granadas de mão. Gangues criminosas aterrorizavam muitas cidades. As primeiras medidas dos bolcheviques só aceleraram a desintegração, pois o novo governo começou a construir o novo Estado socialista em meio ao caos. Os trabalhadores interpretavam amiúde que o socialismo significava que eles deviam expulsar fisicamente os proprietários e gerentes das fábricas, bem como eleger comités de trabalhadores para administrar as usinas. Esses comités não tinham meios para obter suprimentos ou distribuir os produtos e, no caos social geral, a disciplina do trabalho ruiu. Era um círculo vicioso. Os bolcheviques toleraram isso por vários meses, como parte da necessidade de dissolver a velha ordem, mas na primavera de 1918 a economia em frangalhos e as necessidades da guerra civil forçaram-nos a voltar atrás e começar a nomear administradores únicos, antigos trabalhadores ou ativistas do partido, para gerir as fábricas. Em tese, esses gerentes Vermelhos eram responsáveis perante o recém-criado Conselho Supremo da Economia e os diversos Comissariados do Povo (Indústria, Comércio, Agricultura, Trabalho, Abastecimento). Esse foi o embrião do Estado soviético.

Por enquanto, a prioridade dos bolcheviques era a mera sobrevivência. O primeiro ponto da ordem do dia em novembro de 1917 era a guerra e, imediatamente após a revolução bolchevique, o novo governo proclamou uma trégua com a Alemanha e seus aliados e abriu as negociações. Trotsky foi para Brest-Litovsk na fronteira polonesa, agora sob ocupação alemã, para tentar conclamar a paz. As exigências alemãs eram exorbitantes e Trotsky vacilava, proclamando que a política correta era “nem a guerra nem a paz”. Os alemães responderam com uma ofensiva maciça que ocupou toda a Ucrânia, a Bielorrússia e as províncias bálticas. Os nacionalistas locais proclamaram sua independência da Petrogrado vermelha, mas os Exércitos do Kaiser não lhes deram atenção. Os alemães instalaram um regime fantoche em Kiev com o general russo Pavel Skoropadskii, um ex-adido do tsar que havia repentinamente descoberto suas raízes ucranianas, como seu instrumento. Os Guardas Vermelhos eram uma força demasiado amadora e, por conseguinte, os bolcheviques formaram um Exército de verdade, o Exército Vermelho dos Operários e Camponeses, mas o novo exército não conseguiu frear os alemães. O governo mudou-se para Moscou, mais longe das linhas alemãs. Mesmo assim, alguns líderes comunistas, especialmente Nikolai Bukharin, e os SRs de esquerda queriam continuar a travar uma “guerra revolucionária”. Lenin percebeu que era loucura e convenceu a liderança a acatar as condições alemãs. A paz veio em março, com a perda de todos os territórios ocidentais para a Alemanha e a Áustria, mas era a paz e o Kaiser reconheceu a República vermelha. Os SRs de esquerda renunciaram em protesto, deixando os bolcheviques inteiramente encarregados do novo Estado.

O fiasco de Brest-Litovsk incentivou a oposição aos Vermelhos no Sul. As áreas cossacas meridionais ergueram-se novamente em revolta, dessa vez aliadas ao Exército de Voluntários do general Mikhail Alekseev, formado por oficiais do antigo Exército. No Don, o novo Exército Vermelho conseguiu repelir os Brancos, que fugiram para o Sul em direção ao rio Kuban, mas logo surgiram outros problemas. Combates acirrados começaram em maio de 1918, numa região totalmente diferente do país, após as ações da Legião Tcheco-Eslovaca. A Legião Tcheco-Eslovaca tinha sido formada sob o tsar e era composta de prisioneiros de guerra, ex-soldados austro-húngaros de nacionalidade tcheca e eslovaca, para auxiliar os Aliados contra a Áustria e a Alemanha. Depois da paz soviética com a Alemanha, eles queriam continuar a lutar, e o novo governo permitiu que eles deixassem o país através da Sibéria até o Japão e os Estados Unidos para poderem continuar a guerra na França. Uma série de choques com autoridades soviéticas locais fez com que eles tomassem o controle das linhas férreas da Rússia europeia até o oceano Pacífico. Em Samara, em junho, protegidos pelos tchecos, alguns deputados SR da Assembleia Constituinte dispersada formaram um governo que tentou dar seguimento às práticas da democracia parlamentar. Ele também conseguiu arregimentar um “Exército do Povo” que avançou em direção a Moscou contra os Vermelhos.

Para Lenin e os bolcheviques, era uma verdadeira crise, agravada pela revolta dos seus aliados recentes, os SRs de esquerda. Fora do poder e enfurecidos pela paz com a Alemanha, os SRs de esquerda tentaram uma revolta em Moscou, assassinando nesse ínterim o embaixador alemão. Revoltas semelhantes aconteceram em outras cidades russas, todas reprimidas com rapidez, mas indicativas de oposição séria ao novo governo. No entanto, a principal ameaça era a Legião Tcheco-Eslovaca e seus aliados russos, que vinham do leste, e o periclitante Exército Vermelho, formado de milícias mal treinadas com oficiais inexperientes, bateu em retirada. Foi o momento em que Trotsky mostrou pela primeira vez sua têmpera de comandante militar, assim como seu caráter impiedoso ao impor ordem e disciplina. Ele recorreu intensamente aos oficiais do antigo Exército do tsar e manteve suas famílias como reféns para garantir sua lealdade. Além disso, os comissários políticos nomeados para cada unidade militar deviam manter e inspirar credibilidade. Oficiais que fracassaram, comissários e simples soldados foram fuzilados às centenas a mando de Trotsky. Com essa nova organização, o Exército Vermelho recapturou as cidades do Volga e repeliu de volta para os Urais o Exército do Povo, que se desintegrava rapidamente.

Essas crises selaram o destino do ex-tsar Nicolau e sua família. Sua presença em Tobolsk, na Sibéria, para onde o Governo Provisório havia-os enviado, era próxima demais dos centros emergentes de resistência, e por isso os Vermelhos levaram-nos para Ekaterinburg, nos Urais. Em julho  de 1918, diante da aproximação dos Brancos, os soviéticos ordenaram que a família imperial fosse executada, o fim derradeiro da dinastia Romanov, que havia governado a Rússia por três séculos. A casa onde eles viveram e foram mortos permaneceu despercebida durante décadas até 1977, quando um chefe excessivamente zeloso do Partido Comunista, Boris Yeltsin, mandou deitá-la por terra. Enquanto isso, em Moscou, Lenin foi alvo dos tiros de um assassino no final de agosto. A reação da Cheka foi declarar o Terror Vermelho, prendendo milhares de pessoas das classes média e alta. Algumas foram executadas imediatamente, outras mantidas como reféns contra futuras tentativas.

No outono de 1918, o novo Exército Vermelho retomou a maior parte do Volga e dos Urais e o Exército do Povo esfacelou-se. Mais para leste, em Omsk, na Sibéria, outro Exército Branco havia surgido, composto de cossacos siberianos e unidades formadas por ex-oficiais imperiais determinados a combater os Vermelhos. Em novembro, o almirante Alexander Kolchak tomou o poder como governante supremo da Rússia e dissolveu os resquícios da liderança SR da Assembleia Constituinte. Kolchak também fuzilou muitos SRs, bem como quaisquer outros bolcheviques ou ativistas de esquerda que conseguiu encontrar. Kolchak era um ditador militar e não haveria mais brincadeiras com democracia. Ademais, um novo elemento estava entrando em jogo, pois a Primeira Guerra Mundial terminou em 11 de novembro e delegados aliados, britânicos, franceses, norte-americanos e japoneses, chegaram em Omsk. Os aliados também eram favoráveis à ditadura, e logo mobilizaram-se para apoiar Kolchak como líder da oposição ao bolchevismo.

Se Kolchak era o líder supremo titular, seu Exército Branco não era o único em campo. Depois que os Vermelhos retomaram o Don no início de 1918, o Exército de Voluntários havia se deslocado para o sul durante o inverno para estabelecer-se no Kuban. A morte de Alekseev e do seu substituto Kornilov (da tentativa de putsch de 1917) numa rápida sucessão levou à ascensão do general Anton Denikin como comandante supremo do Exército de Voluntários no Sul. Enquanto Trotsky estava ocupado no Volga, Denikin resistiu, e no Don os cossacos ergueram-se novamente mais para o final de 1918. Com apoio secreto dos alemães, eles tentaram avançar para o norte e leste. Eles ainda eram fracos demais para vencer a resistência Vermelha, mas mesmo assim conseguiram isolar grande parte das áreas cruciais de produção de cereais e, se cruzassem o Volga, eles teriam uma chance remota de unir-se a Kolchak. Em Tsaritsyn, no Volga, os cossacos e os Brancos estavam diante de Joseph Stalin, enviado de início apenas para organizar as entregas de cereais, mas que logo assumiu o controle do aparato militar e revigorou a resistência. Seu aliado entre os soldados era Kliment Voroshilov, que havia fugido para leste com uma milícia disparatada de trabalhadores do Donbas escapando do avanço alemão. Stalin e Voroshilov também estavam descontentes com a política de Trotsky de uso intensivo de oficiais profissionais do Exército do tsar, mas Lenin apoiava Trotsky nesse ponto e eles tiveram de recuar. Unidades Vermelhas comandadas por oficiais profissionais foram decisivas para defender a linha, mas em Tsaritsyn o Comissário das Nacionalidades teve sua primeira experiência bélica. Os cossacos não cruzaram o rio e Kolchak estava milhares de quilómetros a leste, impossibilitado de juntar-se a eles.

Atrás de todas essas linhas de frente, os Vermelhos começaram a construir uma utopia. Enquanto o marxismo oferecia uma análise detalhada do capitalismo e do caminho projetado para a revolução proletária, esse não oferecia quase nada além de generalidades sobre o socialismo. O agravamento da crise de abastecimento causado pelo caos crescente e pela tomada da Ucrânia pelos alemães levara à proclamação da “ditadura da comida” em maio de 1918. Sob o Comissariado do Povo para o Abastecimento, destacamentos armados foram para o campo arrebanhar o “excedente” de cereais a preços fixos pré-revolucionários, ou simplesmente o confiscavam. A ideia era desencavar os estoques supostamente retidos pelos kulaks e comerciantes com a ajuda dos camponeses pobres organizados em comités, mas na realidade era difícil fazer a distinção entre os camponeses, e as medidas afetavam toda a sociedade rural. A hiperinflação contínua e o desaparecimento do dinheiro agravaram o colapso económico em curso, e os Vermelhos instituíram o racionamento e um sistema de cooperativas para distribuir alimentos e bens de consumo.

No início de 1919, as autoridades soviéticas formalizaram o sistema de entregas obrigatórias de cereais, a ser complementado por uma alocação centralizada de bens de consumo aos camponeses. Cerca de 60 mil homens foram mobilizados num “exército alimentar” para arrancar cereais dos agricultores. Os camponeses reagiram reduzindo o tamanho de suas culturas, o que mergulhou as cidades numa crise ainda mais profunda. Essas novas medidas, que eram em parte produto da ideologia e em parte da necessidade de guerra, duraram toda a guerra civil. Os bolcheviques sempre foram hostis aos mercados, e o colapso dos transportes e o caos geral romperam os laços normais de mercado. Essa situação deu-lhes a oportunidade de instituir esquemas utópicos de distribuição por meio da alocação central de produtos. Praticamente todas as fábricas e todo o comércio foram nacionalizados. Pequenas lojas de varejo desapareceram, enquanto os municípios soviéticos tentavam criar grandes fábricas municipais de pão em vez de pequenas padarias de bairro, o que agravava a situação alimentar. Foi esse sistema que ficou conhecido como “comunismo de guerra”. A realidade logo interveio, pois as autoridades soviéticas locais violavam regularmente as regras, e a impossibilidade de um controle central pleno levou as maiores fábricas e até o Exército Vermelho a criar seus próprios sistemas de aquisição de alimentos, incluindo uma quantidade substancial de fazendas operadas pelas fábricas e pelo Exército. Os únicos mercados remanescentes eram os mercados de pulgas e o mercado negro, que tornavam a simples sobrevivência mais fácil para grande parte da população urbana. As novas instituições económicas centrais eram incapazes de implementar seus esquemas, pois não se tratava de estruturas burocráticas sofisticadas, mas sim de pequenos escritórios onde trabalhavam antigos ativistas revolucionários sem nenhuma   experiência relevante, assistidos por alguns engenheiros ou economistas e dos trabalhadores mais qualificados.

O Estado soviético emergente era também um partido-Estado, visto que o partido bolchevique aumentou de tamanho para mais de 300 mil membros no início de 1919. Esses homens e mulheres eram o quadro do novo Estado. Os mencheviques e SRs remanescentes foram eliminados da vida política até o final de 1918, e as novas instituições exigiam funcionários leais para administrá-las. O próprio partido tornou-se mais centralizado, especialmente com o estabelecimento do Politburo (Escritório Político) acima do Comité Central em 1919. O novo Politburo incluía somente Lenin, Kamenev, Trotsky, Stalin e Nikolai Krestinskii como membros plenos; Zinoviev, Bukharin e Mikhail Kalinin foram incluídos como candidatos. Esse era o núcleo da liderança bolchevique. Zinoviev era filho de fazendeiros leiteiros judeus da Ucrânia e fora próximo de Lenin nos anos de exílio europeu. Depois que o governo mudou-se para Moscou em 1918, Zinoviev chefiou a organização do partido em Petrogrado, administrando de fato a cidade até 1926 e, ao mesmo tempo, liderando a nova Internacional Comunista. Lev Kamenev era filho de um trabalhador ferroviário judeu, mas tinha tido alguma educação universitária e era casado com a irmã de Trotsky. Após 1917, ele atuou como suplente de Lenin e administrou a organização do partido em Moscou. Bukharin, o melhor educado dos bolcheviques depois de Lenin, tinha algo de teórico marxista e havia passado algum tempo na Europa Ocidental e brevemente nos Estados Unidos. Ele era um pouco mais jovem que os outros e pessoalmente popular no partido. Como Lenin, ele também era um russo genuíno, tal como Krestinskii e Kalinin, que eram figuras menores. Krestinskii serviu como comissário de Finanças, enquanto Kalinin, o único operário do grupo e até nascido numa família camponesa, chefiava o Comité Executivo Central dos Sovietes - em outras palavras, ele era tecnicamente o chefe de governo. Todos eles compartilhavam, incluindo Stalin, sólidas credenciais de bolchevismo inabalável. Trotsky, em contrapartida, era um ex-menchevique exuberante que mal se encaixava no grupo.

A pessoa crucial na totalidade do partido e do governo era Lenin. Até 1917 ele havia passado sua vida como organizador e jornalista revolucionário, produzindo montanhas de artigos para explicar sua posição e denunciar seus adversários. Ele também era mais intelectual que os outros, como mostram seus escritos sobre filosofia e a economia do imperialismo. Nessas questões, somente Bukharin se aproximava dele. Como orador ele era claro e capaz de comover uma plateia, mas não no nível de Trotsky ou Zinoviev.

 

Ao tomar o poder em 1917, ele provou ter capacidades políticas e administrativas muito superiores às da maioria dos seus camaradas, assim como uma vontade poderosa e a capacidade de tomar decisões. Ele absorveu-se rapidamente nos detalhes do governo, incluindo a miríade de problemas económicos que surgiram quando os bolcheviques nacionalizaram a economia. Ele tentou e, em grande parte, conseguiu impor à liderança do partido um espírito de trabalho de equipe, fazendo que camaradas belicosos e muitas vezes arrogantes trabalhassem juntos. Quando ele defendia sua posição pessoalmente, conseguia convencer seus adversários sem menosprezá-los (o que já não acontecia com suas polêmicas escritas). Ainda que todos os outros líderes por vezes discordassem dele, ele continuava a ser o líder incontestado do partido, e portanto do Estado.

Essa liderança altamente eficaz controlava um aparato estatal muito imperfeito, mas tinha, além do partido, outros instrumentos de poder. O Exército Vermelho possuía um contingente de 5 milhões ao final da guerra civil, mas os “exércitos trabalhistas” representavam grande parte da sua força teórica e ele assumia muitas funções económicas, fornecendo cavalos para a lavoura e restaurando o serviço ferroviário. A Cheka garantia a segurança interna, eliminava adversários ativos e potenciais e tentava reprimir o número crescente de bandos criminosos nas cidades. Havia cerca de 25 mil pessoas na Cheka ao final da guerra civil, mas ela também controlava mais de 100 mil soldados de segurança interna, infantaria e cavalaria. O partido, o Exército e a Cheka tornaram possível a vitória vermelha, mas não podiam conter a crise económica que se agravava e a anarquia que se alastrava. O quase colapso do transporte ferroviário implicava que as cidades setentrionais só podiam ser abastecidas com grande dificuldade. Petrogrado sofreu particularmente, pois perdeu cerca de três quartos da sua população em 1920. Com a mudança do governo para Moscou, os Vermelhos evacuaram uma série de fábricas estratégicas junto com seus trabalhadores e equipamentos, e centenas de milhares de trabalhadores foram trabalhar em Moscou e aderiram ao aparato do partido, à Cheka ou ao Exército Vermelho. Muitos simplesmente foram para seus lares em suas aldeias nativas à procura de comida, ambiente aquecido e trabalho. À medida que a ordem desmoronava, as doenças começavam a espalhar-se. Tifo, gripe e outras moléstias tornaram-se epidêmicas.

A primavera de 1919 trouxe vida nova para os movimentos Brancos. O fim da guerra na Europa em novembro de 1918 implicou a retirada das tropas alemãs dos territórios ocidentais. Nas províncias bálticas e na Ucrânia, os nacionalistas locais declararam independência dos bolcheviques, mas o Exército Vermelho logo devolveu o poder aos soviéticos. Os Vermelhos expulsaram o Diretório nacionalista ucraniano de Kiev. Diante da aproximação das Forças Vermelhas, o exército de camponeses do Diretório simplesmente evaporou-se. Guiados pelo seu líder militar Semyon Petliura, os nacionalistas ucranianos deslocaram-se para oeste, executando um massacre feroz dos judeus em Proskurov em seu caminho. Kolchak manteve a Sibéria e os Urais e Denikin avançou para o norte durante a primavera, tomando o Donbas, grande parte da Ucrânia e a Rússia meridional. Denikin conseguiu chegar até Orei, avançando muito atrás das linhas Vermelhas com grupos substanciais de cavalaria. A mobilidade da guerra civil valorizava a cavalaria, e os cossacos e oficiais de cavalaria do antigo Exército eram um desafio formidável. Os Vermelhos reagiram com o Primeiro Exército de Cavalaria de Semen Budennyi, formado em meio às batalhas contra Denikin, que era inicialmente um bando disparatado de homens mal disciplinados adestrados na marra pelo carisma de Budennyi. Em julho, a mobilização em massa dos Vermelhos permitiu-lhes enviar Exércitos substanciais contra Denikin e freá-lo. Atrás de suas linhas na Ucrânia meridional, um novo Exército surgiu aparentemente do nada, o Exército anarquista de Nestor Makhno, um ex-sargento do Exército Imperial russo e um líder de guerrilha nato. Makhno destroçou as comunicações de Denikin e, com os Vermelhos empurrando-o do norte, ele teve de bater em retirada.

Denikin era um general consumado, mas essa era uma guerra política. Os governos Brancos eram ditaduras militares com ministros civis recrutados entre antigos liberais para dar-lhes um mínimo de credibilidade. Sua política social estava fadada a desagradar as massas, pois eles opunham-se não somente aos Vermelhos, mas também a qualquer coisa que os trabalhadores vissem como conquistas da revolução. Nas cidades, somente as classes média e alta os apoiavam. Os massacres de judeus eram frequentes. No campo, sua política favorecia inevitavelmente os proprietários nobres contra os camponeses e não podia explorar o antagonismo rural às medidas bolcheviques. Para piorar as coisas, os governos Brancos financiavam suas operações imprimindo dinheiro, e os camponeses relutavam em vender cereais em troca de uma moeda sem valor. Tal como os Vermelhos, os Brancos recorreram ao confisco de cereais. Como nas áreas sob controle Vermelho, os camponeses reduziram sua agricultura à subsistência, o que gerou escassez de alimentos nas regiões agrícolas mais ricas no campo, na Sibéria Ocidental e no Sul. Conforme a resistência a eles aumentou, os Brancos só podiam reagir com repressão, e as cidades que os Brancos ocuparam presenciaram execuções em massa. Atrás das linhas Brancas na Sibéria e na Ucrânia, os camponeses formaram bandos armados para confrontar os Brancos. Não somente Makhno, mas também centenas de bandos camponeses focados apenas em preservar seu próprio território impediram que os Brancos tivessem controle efetivo do campo.

Nem a intervenção estrangeira pôde salvar os Brancos. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, os Aliados tinham livre acesso à Rússia pelo mar Negro e por outros lugares, mas a exaustão da guerra implicava que, na prática, eles podiam oferecer pouca coisa em termos de soldados. O Japão enviou cerca de 60 mil para a Sibéria como parte de um plano para tomar controle do território russo (indispondo assim os Estados Unidos), mas as outras potências enviaram menos tropas. Uma breve intervenção em Odessa e outras cidades meridionais em 1919 terminou após alguns meses apenas, apesar de a Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos continuarem a enviar armas. Elas não serviram para muita coisa, pois os gargalos de transporte (especialmente na Sibéria) seguravam os suprimentos nos portos e a corrupção generalizada fazia que armas e munição terminassem muitas vezes nas mãos dos Vermelhos. Para piorar as coisas, os oficiais que formavam o núcleo do movimento Branco eram intensamente patrióticos e muitos ficaram ofendidos com a necessidade de recorrer a Exércitos estrangeiros. A intervenção enfraquecia o moral tanto quanto o reforçava.

No outono de 1919, os Vermelhos empurraram as tropas de Kolchak de volta para a Sibéria, as primeiras vitórias do futuro marechal soviético M. N. Tukhachevskii, um oficial da guarda aristocrático que se tornara adepto da revolução. O Exército Vermelho finalmente derrotou Kolchak, capturou-o e executou-o em Irkutsk, na Sibéria. Houve outra tentativa de vitória Branca: o general Yudenich, o vencedor de Erzurum em 1916, liderou uma expedição que partiu da Estónia em direção a Petrogrado. Zinoviev pensou que a cidade era indefensável, opinião com a qual Lenin concordou. Trotsky e Stalin objetaram veementemente e convenceram Lenin a deixá-los defender a cidade. Eles correram para o norte em direção a Petrogrado, e Trotsky montou pessoalmente a cavalo para incentivar as tropas. Em outubro de 1919, Yudenich começou a retirada de volta para a Estónia. No Sul, Denikin abandonou o comando no início de 1920 e partiu para o exílio. O restante do Exército Branco retirou-se para a Crimeia e formou um novo Exército e governo sob o comando do barão Peter Wrangel. Nessa altura, o novo Estado polonês invadiu a Ucrânia. O objetivo dos poloneses era conquistar as terras detidas pela Polónia antes das partições do século XVIII e, para tanto, eles aliaram-se  a Petliura, que assim desacreditou-se mais ainda junto ao campesinato ucraniano, para quem os poloneses eram apenas proprietários rurais nobres e, portanto, seus inimigos. O Exército Vermelho reposicionou-se para oeste para conter a nova ameaça, mobilizando cerca de meio milhão de soldados. Lenin estava convencido de que os Vermelhos deviam ir até Varsóvia, na tentativa de ajudar a espalhar a revolução na Europa, bem como de derrotar os poloneses. Trotsky tinha dúvidas. O Exército Vermelho, levado até diante de Varsóvia pelo brilhante mas errático Tukhachevskii, avançou longe demais para oeste numa tentativa de cercar a cidade. Abriu-se um imenso buraco nas linhas Vermelhas, mas os soldados Vermelhos mais ao sul liderados por Budennyi, com Stalin como comandante político, retardaram o avanço em direção ao norte para ajudar a tapar o buraco. Os poloneses, com aconselhamento e armas francesas, acorreram para o norte numa manobra de simplicidade brilhante a fim de cercar as tropas de Tukhachevskii. Os Vermelhos retiraram-se bem para leste, no que foi sua maior derrota na guerra civil, e celebraram a paz com a Polónia. O tratado estabeleceu uma fronteira que deu à Polónia vastas áreas da Bielorrússia Ocidental e da Ucrânia, mas não as principais cidades, Kiev, Odessa e Minsk.

No momento crítico da guerra contra a Polónia, o barão Wrangel havia avançado sobre a retaguarda Vermelha vindo da Crimeia. Agora ele era a única força hostil que sobrava em campo contra os bolcheviques. No final de 1920, o Exército Vermelho atravessou o istmo e penetrou na Crimeia com a ajuda dos irregulares de Makhno, e a causa Branca estava acabada. Os últimos refugiados, soldados e civis evacuaram as cidades meridionais sob os canhões da Marinha britânica, numa cena caótica que marcou o final derradeiro da velha Rússia.

A revolução e a guerra civil foram sobretudo um acontecimento russo, mas que teve efeitos profundos para as várias nacionalidades que compunham a periferia deste Império. Na Polónia, o nacionalismo superou as distinções de classe e o socialismo, e a transição para um governo independente foi (internamente) bastante suave. Na Finlândia, uma cruenta guerra civil em 1918 entre os social-democratas locais e os Brancos levou à vitória Branca depois que o Kaiser enviou uma força expedicionária para auxiliar o barão Gustav Mannerheim, um antigo general imperial russo. Nas províncias bálticas, o colapso da ocupação alemã também levou à guerra civil, pois Riga, em particular, possuía uma classe operária grande e muito radical. A Grã-Bretanha, contudo, via o Báltico como esfera de influência sua e transportou soldados Freikorps, paramilitares nacionalistas alemães de direita, em 1919 para expulsar os Vermelhos. Depois os britânicos instalaram um governo nacionalista no seu lugar e expulsaram os Freikorps também. Os Vermelhos do Báltico foram para o exílio na Rússia soviética, proporcionando em especial um componente capital para a Cheka e o Exército Vermelho. Na Ucrânia, a tarefa dos Vermelhos foi facilitada pelo fato de que todas as cidades eram de língua russa. A maior minoria urbana era judaica, não ucraniana, e o movimento nacionalista local era uma pequena camada de intelectuais que tentavam liderar o campesinato. Seus exércitos eram totalmente desorganizados e, além disso, eles hesitavam em ser claros sobre a questão da terra, crucial para os camponeses. Os Vermelhos liquidaram-nos com facilidade.

No Cáucaso, os Vermelhos também foram vitoriosos. O tratado de Brest-Litovsk levara à ocupação turco-alemã do Cáucaso, e o fim da guerra acarretou sua retirada. Os Vermelhos tentaram fazer uma revolução na sequência, mas os partidos nacionalistas locais tomaram o poder com auxílio dos britânicos. Como a Grã-Bretanha estava atarefada ocupando o Oriente Médio próximo, ela tinha poucos recursos sobrando, e os governos locais foram deixados à própria sorte. Em 1920, o Exército Vermelho avançou para o sul sob o comando do conterrâneo georgiano e amigo próximo de Stalin, Sergo Ordjonikidze, e tomou Baku. O pequeno Exército azeri era liderado principalmente por oficiais turcos, que agora eram adeptos da resistência de Kemal Ataturk às potências ocidentais na Anatólia e saudaram os Vermelhos como aliados. Ademais, Baku era uma cidade de maioria não azeri, mas russa, georgiana e arménia, uma população atraída pelo petróleo para uma cidade que era em grande parte europeia. Os Vermelhos tinham muitos aliados. Eles agiram rapidamente para afastar os nacionalistas arménios e, poucos meses depois, foi a vez dos mencheviques georgianos. Surgiu uma nova república soviética, a Federação Transcaucasiana, que congregava toda a região sob um mesmo governo. Na Ásia Central, a resistência aos Vermelhos terminou em 1922, e os japoneses acabaram sendo persuadidos a retirar-se da Sibéria Oriental, de forma que em todo lugar, menos a oeste, as antigas fronteiras foram restabelecidas.

A nova Rússia soviética que se formou fora devastada por anos de guerra e revolução, e sua economia estava em frangalhos. Talvez 1 milhão de homens haviam morrido nos numerosos frontes da guerra civil e (as estimativas variam) 5 ou 6 milhões de civis - a maior parte deles de tifo e outras doenças epidêmicas, seguidas pela fome. Execuções e represálias em massa por todos os lados foram responsáveis pelo restante da mortandade. Cerca  de 1 ou 2 milhões de russos, incluindo grande parte das velhas classes altas e da intelligentsia, deixou o país para nunca mais voltar. Os transportes e a produção estavam paralisados. Por enquanto, os soviéticos mantinham a política de comunismo de guerra e mobilizavam os Exércitos de Trabalho sob Trotsky para reparar os danos. Essa política não era viável e a resistência à nova ordem cresceu por todo o país. Lenin percebeu que algum tipo de compromisso era necessário, uma política económica que proporcionasse espaço suficiente para que a população, particularmente o campesinato, trabalhasse sem direção do Estado. Esse compromisso viria a ser chamado de Nova Política Económica e inaugurou uma era inteiramente nova na história da Rússia soviética e dos outros Estados soviéticos sob o domínio do Partido Comunista.

 

Rússia
Aperfeiçoamento da escrita na Suméria

O país de Sumer, na Baixa Mesopotâmia. é constituído durante o 3º milênio a.e.c. de um conjunto de principados urbanos ou cidades-Estado, fortemente unidas por uma língua, uma escrita e uma religião comuns. A organização política, social e econômica é muito semelhante entre as cidades, mas rivalidades políticas ou econômicas constantes opõem-nas umas às outras. Um dos principais fatores de conflito é o controle dos recursos da água, determinantes para a prática da agricultura irrigada. O mais conhecido desses confrontos é o das cidades-Estado de Lagash e de Umma, que se opõem durante mais de um século, entre 2500 e 2400 a.e.c. Apesar de uma longa série de vitórias de Lagash, essa guerra terminou com sua derrota e a destruição de suas principais cidades: a própria Lagash, mas tamhém a cidade de Girsu, mais ao norte.

O último rei de Lagash, Urukagina, decide, no início de seu reinado, proceder a certo número de reformas, que julga indispensáveis para manter a supremacia do Estado de Lagash sobre o sudeste do país de Sumer. Urukagina começa por abrandar as taxas, muitas vezes abusivas, pesadas para a população. Aparece assim como o primeiro soberano da história mesopotâmica a integrar uma preocupação de justiça e de equidade no exercício do poder. O rei alterará também as relações entre a autoridade real e os templos. Algumas gerações antes, Enentarzid, ao mesmo tempo rei e sumo sacerdote de Ningirsu, o deus principal de Lagash, acumulava poder real e poder religioso, misturando os interesses econômicos do palácio com os templos, o que provocava confusão e desperdício. Urukagina confere autonomia aos templos: as terras do templo da grande deusa Bawa, constituindo anteriormente “a casa da rainha”, voltam a tornar-se “domínio de Bawa”. Mas essa reforma é ilusória, porque os responsáveis administrativos não mudam e a família real conserva seu poder sobre a gestão dos principais templos e a responsabilidade pelo bom funcionamento do culto: Urukagina controla o templo do deus Ningirsu, a rainha Sasag controla o de Bawa, seus filhos, o de Shulshagana. Essa gestão é conduzida naturalmente para resguardar da melhor maneira possível o interesse dos santuários. Mas, quando as necessidades do Estado os exigem, os recursos dos templos, em homens e nos produtos mais diversos, podem ser mobilizados a seu serviço.

Após ter rechaçado vitoriosamente as tropas de Uruk, Urukagina é atacado e vencido pelo rei de Umma, Lugalzaggesi. Este dirige suas forças para o centro do principado de Lagash, onde pilha e queima vários santuários. Pouco depois, triunfa sobre Uruk e unifica sob sua autoridade todo o sul sumério, antes de cair, por sua vez, sob os golpes de Sargão da Acádia.

No fim do século XIX. o arqueólogo francês Ernest de Sarzec descobriu no sítio de Girsu os primeiros vestígios dos sumérios. Nos níveis mais antigos do sítio, foram descobertos grande número de estátuas, objetos votivos e vários milhares de placas de escrita cuneiforme, que, uma vez decifradas, permitiram reconstituir o funcionamento de uma cidade-Estado suméria.

Os aproximadamente 1.200 documentos escritos, encontrados no templo de Bawa em Girsu, constituem os primeiros arquivos administrativos da Mesopotâmia e fornecem uma base sólida para reconstruir o que era a gestão de um grande organismo religioso sumério na época de Urukagina. Pesquisas recentes permitiram mostrar que, por meio das simples listas de nomes próprios, de distribuições de rações alimentares, de recenseamentos de rebanhos, surge não somente um sistema econômico, mas também a consequência direta dos acontecimentos militares do reinado de Urukagina.

Desde o início de seu reinado, Urukagina envolve-se em guerras com as outras cidades-Estado. A situação econômica torna-se mais difícil e a contabilidade do templo reflete essa realidade. Os registros de entrega de cevada e de espelta mostram uma diminuição da ordem de mais de 30%. Certos setores de despesas, como a “preparação da cerveja do rei”, desaparecem. A cerveja das rações correntes é diminuída numa proporção de 30% a 50%. Um pastor vê seu rebanho passar de 38 a 22 carneiros.

O estado de guerra acarreta também o estabelecimento de listas de recrutamento, nas quais são contados homens pertencentes aos grupos de trabalhadores do templo. A mais antiga lista registra 43 pessoas: pescadores de água doce, oleiros, arboricultores, dos juncais. Três anos mais tarde, quando do segundo assalto de Uruk contra Girsu, uma nova lista conta cerca de cem homens fornecidos pelo templo sob as ordens de quatro oficiais. No ano seguinte, uma tijoleta registra 167 soldados, tomados entre os agricultores, os pescadores e os pastores. Reunindo todos os dados, constata-se que o templo de Bawa dispõe de uma mão-de-obra de 400 trabalhadores, da qual 40% foram integrados no exército. O templo participa também no esforço de guerra pela fabricação, em seus próprios ateliês, de machados duplos e de pontas de lança.

Por volta de 3300 a.e.c. aparecem em Uruk os primeiros verdadeiros textos escritos. Os princípios básicos dessa escrita são simples: reproduzem elementos reais representados de maneira estilizada sobre a argila. São pictogramas (desenhos figurativos). Nesse sistema, um desenho representa um animal, um vegetal ou um objeto útil. Pouco a pouco, “codifica-se" a representação de certas noções: por exemplo, um pássaro e um ovo desenhados lado a lado permitem evocar a ideia de dar à luz. São introduzidos também elementos puramente abstratos como as anotações de quantidades.

Os pictogramas dão lugar então a ideogramas: um sinal re-presenta uma palavra da língua. A partir de então, a escrita funciona com sinais e não mais com desenhos, e a noção de “representaçâo explícita” desaparece progressivamente. Os sinais se simplificam em combinações de “cunhas”, mais fáceis de imprimir na argila mole que linhas curvas.

À medida que as vastas potencialidades desse sistema aparecem, os sumérios compõem lentamente um processo de escrita no qual, para cada palavra, é necessário um desenho correspondente. Recorrem então a agrupamentos de sentidos em torno de um único sinal. Por exemplo, um só e mesmo sinal designa a “boca", o “dente”, o “ato de comer”, a “palavra” etc. Depois, ao lado do valor de evocação de uma palavra inteira (ideograma) por meio de um sinal, atribui-se a este um ou vários valores fonéticos elementares (do tipo: “ba”, “bí”, mas também “ab” ou “ib”). No final desse processo, os sumérios dispõem, por volta de 2600 a.e.c., de uma escrita com cerca de um milhar de sinais, constituídos de agrupamentos de “cunhas” inscritas na argila e que só possuem uma remota relação com o desenho-pictograma original. Esses sinais devem ser lidos ora como palavras inteiras (valor ideogramático), ora como fonogramas (sinais-som), que combinados com os sinais vizinhos, permitem escrever uma palavra para a qual não existe ideograma adequado, por exemplo, uma forma verbal conjugada ou um nome próprio.

Essa escrita não é concebida como um simples “instrumento”, mas veicula ao mesmo tempo uma concepção do mundo.

Esse sistema pode parecer muito complicado, visto que cada sinal pode ter ao mesmo tempo vários valores fonéticos e vários valores ideogramáticos, e que nada indica, a príori, qual ser escolhido. Entretanto, pode-se constatar que o sistema de escrita cunéiforme dos sumérios foi construído de maneira muito pragmática. Representa, na época de Urukagina, uma espécie de ponto de equilíbrio entre o número total de sinais razoavelmente memorizáveis e a quantidade dos valores que possui cada um desses sinais. Deve-se também ter em mente que essa escrita não é concebida como um simples “instrumento”, mas veicula ao mesmo tempo uma concepção do mundo, a maneira de representá-lo e, com isso, de dominá-lo. De modo significativo, constata-se que, a partir dos primeiros corpos importantes de textos cunéiformes, por volta de 2600 a.e.c., se encontram listas nas quais são registradas, de maneira ordenada, todas as espécies de realidades: nomes de cidades, nomes de ofícios, nomes de divindades, nomes de animais, se colocar por escrito a realidade do mundo permitisse compreender melhor os mecanismos de seu funcionamento íntimo.

Mesmo simplificado desse modo, o sistema da escrita cuneiforme não está ao alcance de todos. Permanece privilégio de especialistas, os técnicos da escrita. Os escribas possuem ao mesmo tempo a arte de escrever, a de contar, o conhecimento das fórmulas jurídicas, espistolares, administrativas. Aprenderam a estabelecer listas de pessoal, a registrar movimentos de produtos ou de animais, a elaborar balanços, a reunir dados estatísticos. Sabem também redigir as inscrições oficiais pelas quais o rei celebra sua bravura ou sua piedade, ou as fórmulas religiosas pelas quais se pode enternecer o coração dos deuses.

Mas o aspecto mais importante dessa prática da escrita reside realmente na possibilidade conferida doravante aos grandes organismos econômicos das diversas cidades-Estado sumérias, palácios e templos, de praticar uma gestão escrita de seus recursos, de controlá-la e, por fim, de otimizá-la.

Civilização Suméria
GOVERNANTES
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Por civilização
CIVILIZAÇÃO
Por Luiz Alexandre Rossi
Adivinhação, exorcismo e a cura de doenças na suméria

Os sumérios acreditavam que o desejo dos deuses é manifesto na natureza e que, com uma habilidade própria, ele pode ser lido e interpretado, dando ao piedoso orante uma luz em relação à intenção divina. Sacerdotes especialistas eram os encarregados da responsabilidade de adivinhar o desejo do céu inspecionando os órgãos (especialmente o fígado) de animais sacrificados ou estudando os corpos celestiais com suas mudanças e movimentos.

Ao lado dos deuses havia numerosos seres sobrenaturais, bons e maus: demônios, espíritos, espectros, que assumem diferentes formas e costumam combinar características humanas e animais. Julgava-se que alguns demônios eram responsáveis pelas doenças e outras desgraças, o que dava lugar a complicações rituais destinadas a afastar o mal.

A doença era relacionada a pecados ou a possessão demoníaca. Por causa disso, especialistas em curas espirituais eram convocados para assistir o doente a fim de descobrir qual deus ele tinha ofendido ou ainda encontrar qual espírito hostil o estava possuindo e, dessa forma, a partir de ritos apropriados, exorcizá—lo. Ao mesmo tempo, amuletos eram pendurados nas paredes ou portas das casas com o objetivo de manter para fora os espíritos maus, que tentavam entrar. Os sumérios não viam os ataques dos demônios como penalidade pelo pecado e, nesse sentido, a sua não era uma religião ética, como seria o hebraísmo. Eles adotavam rituais mágicos como defesa contra demônios e nulificação do mal que eles faziam. O “feitiço” se torna a personificação de demônios, junto com muitas doenças.

Ao combater os demônios, os sumérios se recusam a confiar nos ritos mágicos conduzidos por humanos. A fim de retratar a atividade maléfica dos demônios, encantadores apresentam um diálogo entre o deus Enki e seu filho Asalluhi. Esse diálogo segue um formato padrão, no qual o filho pede socorro ao pai contra os demônios, mas recebe a resposta de que ele próprio pode fazer a mesma coisa que o pai.

Um sacerdote era o responsável por recitar encantações e conduzir os ritos. Muitos deles não eram magicamente definidos e consistiam somente de um sacrifício; no caso do pobre, uma mão cheia de alimento era o suficiente como oferenda. Em todo caso, devemos considerar que nem todos os ritos eram designados a um determinado sacerdote; não existe nenhuma palavra apropriada para caracterizar a atividade desses homens a serviço do indivíduo. Muitos encantadores também eram médicos que também prescreviam medicamentos.

 

Civilização Suméria | Religião
Por Jean Bottéro
Amor e sexo na Suméria e Babilônia

Ao lado do Egito, a Mesopotâmia é o mais antigo país a conhecer e a utilizar a escrita, da qual nos deixou, entre 3000 a.e.c. e o início de nossa era, um monumental amontoado de peças: algo como meio milhão de tabuletas, desde os mais minuciosos cálculos de boticários até as criações mais desenfreadas do imaginário. Seria bastante surpreendente se, nessa gigantesca confusão, esquadrinhada há mais de um século pelos assiriólogos, não encontrássemos, entre outros tesouros, material que nos permitisse ter uma ideia da vida sexual e amorosa dos antiquíssimos habitantes do país onde nasceu, na virada do quarto para o terceiro milênio antes de nossa era, a primeira grande civilização verdadeiramente digna desse nome, complexa e refinada em todos os domínios da existência.

E se os mesopotâmios ignoravam muito de nossos "tabus" em torno do sexo e de seu uso, eles, ao contrário de nossos contemporâneos, não gostavam de se valer exageradamente, pelo menos por escrito, de suas preocupações, capacidades e proezas nessa área. Estas lhe pareciam demasiado naturais para que valesse a pena dissertar a respeito. De resto, até mesmo na porção mais personalizada de sua literatura e correspondência, parecem ter conservado um estranho pudor em relação aos sentimentos mais íntimos: não encontramos a menor declaração de amor, nem sequer de efusão ou ternura. Tais movimentos do coração só se dão a ver raramente e são mais sugeridos do que expressos. É o que vemos na missiva em que a rainha de Mari, por volta de 1780 a.e.c., deseja a seu esposo em campanha que retorne o mais breve possível ao país natal, "tranquilo e satisfeito", e convida-o a usar as lãs que preparou e que lhe envia pelo mesmo mensageiro.

Se, portanto, em meio à herança literária deles, não se pode esperar encontrar muita coisa a respeito do que o amor - sentimento, paixão ou simples diversão - possa ter desencadeado em termos de experiências ou de dramas pessoais, resta um amplo material que permite vislumbrar como esses velhos ancestrais o compreendiam, como o praticavam e muitos dos prazeres e dores que ele podia trazer às suas vidas. Como imaginaram seus deuses a partir da superlativação de seu próprio modelo, inúmeras peças que têm por tema esses altos personagens nos revelam tanto - ou até mais - quanto se simples mortais estivessem em cena. Encontraremos mais adiante exemplos sugestivos.

Na Mesopotâmia, como entre nós, impulsos e capacidades amorosas foram tradicionalmente canalizados pela coerção coletiva, visando a assegurar o que se considerava a própria célula do corpo social, a família, e prover, assim, a sua continuidade. A vocação primordial de cada homem e mulher, seu "destino", como se dizia, associando as coisas a uma vontade radical dos deuses, era, portanto, o casamento. E reputavam-se como marginais, destinados a uma existência languescente e infeliz,o rapaz que permaneceu solitário (...), não tendo tomado uma mulher nem criado filhos, e a jovem (que não fora) nem deflorada nem engravidada, (de quem) nenhum marido tinha desafivelado e tirado o vestido (para) apertá-la contra si e fazer-lhe experimentar o prazer, (até que) suas mamas se inchassem de leite (e) ela se tornasse mãe.

O casamento, normalmente monogâmico, se fazia muito cedo, arranjado pelos pais dos futuros esposos desde a infância, às vezes antes mesmo do nascimento, com o risco de só reuni-los quando a esposa estivesse núbil. Era então que esta deixava a família para "ser introduzida na casa paterna de seu esposo", onde permaneceria até a morte, a menos que fosse estéril e incapaz de realizar sua função essencial; nesse caso, o marido podia repudiá-la.

Essa instituição não bastou para esgotar, se assim se pode dizer, todas as possibilidades amorosas, o que pode ser percebido em primeiro lugar pela faculdade concedida a cada homem de, ao sabor de suas fantasias e, principalmente, de suas capacidades econômicas, levar para casa "segundas esposas" ou concubinas. Mas isso se vê sobretudo pela quantidade de "acidentes de percurso", aventuras ou dramas conjugais assinalados aqui e ali nos manuais de casuística jurisprudencial que foram equivocadamente chamados de "códigos de leis", nas peças de processos judiciários e nos tratados divinatórios, nos quais os presságios e o futuro, dos quais estavam carregados, não transpunham praticamente nada além do "já vivido".

Encontram-se homens que se lançam "em plena rua" sobre mulheres para seduzi-las ou violá-las; ou que se deitam com elas em segredo, sejam ou não casadas, sob o risco de serem surpreendidos pelo marido, pelo pai ou por testemunhas incômodas. Encontram-se mulheres dando suas escapulidas e fazendo-se maldizer; outras consideradas "fáceis", outras que enganam seus esposos, sem nenhum pudor ou às escondidas, mediante os bons ofícios de amigas complacentes ou de alcoviteiras; outras, ainda, que abandonam "até oito vezes" o lar ou se tornam prostitutas; outras, enfim, que vão a ponto de se livrar do marido incômodo denunciando-o, mandando matá-lo ou até mesmo trucidando-o com as próprias mãos...

Caso fossem descobertas, tais faltas eram severamente punidas pelos juizes, inclusive com pena de morte: as dos homens, se houvessem causado dano grave a terceiros; as das mulheres porque, secretas, podiam prejudicar a coesão da família. Sem contar que, naquele país de arraigada cultura patriarcal, o homem era, de pleno direito, o senhor absoluto de sua mulher, assim como de seus servidores, seu gado e seus bens.

Ao lado do amor "assujeitado" às necessidades da sociedade, havia lugar para o que chamei de amor "livre", praticado por cada um visando ao próprio prazer. Para que não prejudicasse ninguém, era assegurado por "especialistas", que exerciam o que chamaríamos de prostituição. Considerando os gostos e pontos de venda do tempo e do país, de acordo com os quais o amor não era necessariamente homossexual, esses empregados do amor "livre" eram profissionais de ambos os sexos.

Contudo, diferentemente do que ocorre entre nós, há fortes chances de que seu ofício fosse bastante colorido de religiosidade. Não apenas participavam, nessa qualidade, de cerimônias litúrgicas, em particular em certos santuários, como lhes fora dada como patrona e modelo a deusa chamada Inana em sumério e Ishtar em acádio, a mais notória do panteão, onde tinha o título de "Hierodula": prostituta sobrenatural.

Esses oficiantes do amor "livre" eram aparentemente numerosos, sobretudo em torno de certos templos. Eram tratados como marginais e relegados à fronteira do espaço socializado das cidades, na região das muralhas, e parecem não ter sido protegidos contra maus-tratos, humilhação e desprezo. Um mito sumério nos sugere a razão: eles tinham, em suma, "faltado ao próprio destino" - as mulheres, o de ter apenas um esposo, para dar-lhe filhos, e os homens, o de desempenhar no amor um papel masculino.

Semelhante julgamento depreciativo dos que viviam a serviço do amor "livre" não impedia que este gozasse, como atividade humana, da mais alta estima e que constituísse uma prerrogativa essencial do que chamaríamos de cultura refinada. Outro mito sumério nos explica isso sem rodeios, e a prova está na história de Enkidu, o futuro amigo e companheiro de Gilgamesh no início de A epopeia de Gilgamesh em acádio.

Nascido e criado na estepe, com animais selvagens como única companhia, espécie de fera poderosa e de "belo animal", Enkidu descobre o amor verdadeiro - não mais bestial, mas com uma mulher de verdade, experimentada e lasciva - graças a uma prostituta que lhe é enviada para amansá-lo:

Ela deixou cair sua echarpe/ E descobriu a vulva, para que ele pudesse gozar dela./ Ousadamente, ele a beijou na boca ("tirou-lhe o fôlego")/ E tirou-lhe as vestes./ Deitou-se então sobre ela,/ Que mostrou a esse selvagem,/ O que pode fazer uma mulher,/ Enquanto ele, com suas carícias, a mimava.

Após "seis dias e seis noites", ele se encontra completamente subjugado por essa feiticeira e disposto a segui-la a qualquer lugar. Ela o faz, então, deixar a estepe natao e seus companheiros animais, que, aliás, desde então fogem dele, e leva-o para a cidade, onde, graças a ela, "torna-se um homem" no sentido pleno da palavra: cultivado e civilizado. Foi o amor "livre" que, da natureza, introduziu-o na cultura. Não se pode deixar mais claro o quanto essa possibilidade de exercer livre e plenamente, se necessário com a ajuda de "peritos", as capacidades amorosas nativas era considerada um dos privilégios da alta civilização.

É evidente que, até onde sabemos, nenhuma interdição explícita, nenhuma inibição, consciente ou não, vinha frear o exercício dessa prerrogativa. Fazer amor era uma atividade natural, tão culturalmente enobrecida quanto o ato de comer era magnificado pela cozinha. Em nome do que alguém se sentiria destituído, diminuído ou culpado diante dos deuses ao praticar o amor, como quer que fosse, se, ao fazê-lo -   isso é evidente numa sociedade tão civilizada -, não prejudicasse terceiros nem infringisse nenhum dos interditos habituais que esquadrinhavam a vida cotidiana? Por exemplo, em certos dias do ano (no dia 6 do mês de Tashrit - setembro/outubro - para citar apenas um, era desaconselhado ou proibido, não se sabe por que razão, fazer amor. E mais: determinadas mulheres pareciam ter sido, por alguma razão, "reservadas" aos deuses, algumas totalmente, outras em parte, e constituía uma falta grave dormir com aquelas ou fazer um filho nestas.

Exceto por essas restrições, não apenas a prática do amor não apresentava o menor problema "de consciência", como também os deuses em pessoa estavam sempre dispostos, por menos que isso lhes fosse solicitado pelos ritos, a contribuir para seu êxito. Resta-nos, assim, um certo número de orações e de exercícios devotos "para (favorecer) o amor de um homem em relação a uma mulher", "de uma mulher em relação a um homem", ou ainda "de um homem em relação a um homem" (embora a simetria esperada, "de uma mulher em relação a uma mulher", não figurasse na lista, sabemos por outras fontes que o amor sáfíco não era evidentemente desconhecido); outros, "para seduzir uma mulher"; "para conseguir fazer amor" (literalmente "rir", um desses inúmeros sinônimos imagéticos, presentes em toda linguagem erótica, para designar a união dos sexos); outros, "para o caso em que um homem ainda não tivesse logrado dormir com uma mulher"; outros ainda, "para que uma mulher se deixasse seduzir" etc.

Outros procedimentos, análogos, espécies de encantamentos, porém mais ou menos subordinados à ajuda implorada aos deuses, e que por isso devem ser considerados mais "sacramentais" do que "mágicos" - grandes quantidades deles foram encontradas, relativas a todos os setores da vida individual ou social -, são talvez ainda mais eloqüentes. Um catálogo, em parte perdido, enumerava pelo menos setenta desses procedimentos, mas não foram encontrados mais do que trinta, muitos em mau estado. Todos são colocados na boca da parceira ("a mulher" e não "a esposa"!), com o objetivo de que o amante, "resistindo" até o fim, lhe assegurasse o prazer físico que ela tinha o direito de esperar, dada a aproximação dele. Essa capacidade do homem de levar sem falta sua amante até o orgasmo era chamada, na língua erótica, nish libbi, literalmente "nascer do coração" - metáfora transparente.

Tais "preces" são notáveis. Dirigidas aos deuses e deusas, sublinham a que ponto prazer sexual e sentimento religioso eram compatíveis. Atestam também que, em uma sociedade aparentemente tão "machista", como se diz hoje, a mulher, no amor, era, de fato, igual ao homem: tinha direito como ele ao prazer, não era um objeto nem um instrumento, mas uma verdadeira parceira-o que vale a pena sublinhar.

Sou Ardente

O próprio conteúdo dessas devoções é particularmente saboroso: faz com que entremos, se podemos dizer assim, na intimidade do casal em ação. Encontramos uma amante inflamada, agitada e meio louca, que fala sem parar e urra de desejo e prazer. São excelentes documentos da vida amorosa. Eis um exemplo feito apenas de gritos, mas muito eloqüentes!

(Prece.) Excite-se! Excite-se! Enrijeça! Enrijeça! Excite-se como um cervo! Enrijeça como um touro selvagem! (...) Faça amor comigo seis vezes como um corço! Sete vezes como um cervo! Doze vezes como um perdigão! (Animais reputados por seu vigor sexual.) Faça amor comigo porque sou jovem! Faça amor comigo porque sou ardente! Faça amor comigo como um cervo! E eu, protegida pelo deus Ningirsu (que deveria ter sobre o presente artigo uma autoridade que não nos é de nenhum outro modo atestada), te acalmarei!

E já que estamos na alcova, permaneçamos nela mais um pouco graças a um documento bastante inesperado e muito sugestivo. Trata-se do capítulo dedicado às relações conjugais e sexuais de um enorme tratado divinatório. Não encontramos nele aspectos rotineiros, banais e constantes -           nada se diz, por exemplo, sobre "posições" universalmente adotadas e mais comuns -, mas apenas fantasias inabituais ou acidentes que podiam ocorrer durante as brincadeiras.

Acontecia, por exemplo, que se escolhesse um local excêntrico, em vez de limitar-se a seu lugar de costume, "o quarto de dormir": era possível que se pusesse na cabeça "fazer amor sobre o teto da casa", "sobre o umbral da porta", "no meio de um campo ou de um pomar", "num lugar deserto", "num caminho sem saída" ou ainda "em plena rua", seja com uma mulher qualquer, sobre a qual o homem se "lançava", seja com uma prostituta; e podia-se também, sozinho ou com a parceira, ir nesse intuito "à taberna", que fazia as vezes de bodega e de bordel ao mesmo tempo...

Diversas "posições" pouco habituais podiam ser adotadas: "de pé", "numa cadeira", "transversalmente" ao leito ou à parceira, "pegando-a por trás" ou mesmo "sodomizando-a"; ou então "cavalgado por ela", e até mesmo "preferindo fazer o papel feminino"... Fazia-se também amor homossexual e, nesse caso, ou sodomizava-se "alguém de seu meio" - em outros termos, um não profissional - ou "um dos próprios domésticos" ou "dos servidores", se não se recorresse a um liomossexuàl qualificado; ou ainda, preferia-se tão deliberadamente "submeter-se a outros homens" que acabava-se sendo tomado por um profissional.

É notável que nunca tenha sido encontrada, nesses documentos ou em outros, a menor alusão ao uso sexual da boca, de modo que podemos nos perguntar se a felação e a cunilíngua - bem conhecidas na época em outras partes, como, por exemplo, no Egito - não eram objeto de uma aversão particular ou de um interdito consuetudinário. Em compensação, a sodomia era comum, com as mulheres assim como com os homens, prática atestada não apenas por numerosas estatuetas, mas também por textos que falam dela sem desvio. Encontra-se essa prática até mesmo como "contraceptiva": um tratado de extispício - ou exame do estado das entranhas do animal sacrificado - menciona uma sacerdotisa que "se faz sodomizar para evitar ficar grávida".

A esse quadro da vida sexual, os textos médicos acrescentam alguns toques. Assinalam-se doenças que o paciente deve ter contraído, aparentemente por contágio, "enquanto estava na cama com uma mulher" - em outras palavras, fazendo amor com ela - e afecções propriamente venéreas, que eram chamadas de "doenças do coito". Duas ou três passagens, que têm algo de comovente porque o retrato, em suma, ainda nos é familiar, chegam a descrever "o mal de amor":

Quando o paciente não para de tossicar; a palavra lhe falta com frequência; ele fala constantemente sozinho e ri sem razão em todo canto (...); fica deprimido, com a garganta apertada, sem o menor prazer em comer ou beber, e não cessa de repetir, em meio a grandes suspiros: "Ah! meu pobre coração!" -, ele está sofrendo do mal de amor.

E o texto, que - exceto por doenças específicas - só se ocupa do sexo masculino, acrescenta a seguinte observação, que não posso evitar achar enternecedora: "Para o homem e para a mulher, é a mesma coisa!"

Suspiros e arrebatamentos

Isso ultrapassa a dimensão do simples erotismo e nos introduz no domínio do amor-sentimento. É na literatura propriamente dita, sobretudo na poesia, que temos mais chances de encontrar alguns ecos desses suspiros, desses arrebatamentos, dessa chama, dessa doçura, dessa ternura, por vezes dessas tempestades e desse furor, que traduzem a ligação visceral com "o outro", a irreprimível necessidade que se sente dele: o verdadeiro amor do coração, que com certeza pode despertar o erotismo e apoderar-se dele, mas que não precisa verdadeiramente dele para alimentar-se e, de toda maneira, o anima, o torna algo nobre e o coloca à altura do homem.

Poemas e cantos de amor "profanos" são raros nas belas cartas mesopotâmicas que recuperamos. A única peça ainda inteira em nossa posse, de cerca de cinqüenta linhas, das quais nos restam dois terços, é, contudo, muito notável. Composta aproximadamente em 1750 a.e.c., em um acádio arcaico e ultraconciso, com vocabulário particular e obscuro, cheia de traços que, 38 séculos depois, nos escapam, ela é dividida em curtas "estrofes", que constituem os elementos de um diálogo entre dois amantes. Ao menos fica claro que tudo se passa apenas no plano dos sentimentos e do coração: não há a menor alusão ao sexo, o menor erotismo no discurso!

O tema é simples: a amante suspeita que seu bem-amado tem fraquezas por outra. Ela se queixa; grita seu amor, que floresce naturalmente em um ciúme ao mesmo tempo terno e veemente. Mas ela se diz convencida a reconquistar o inconstante com sua lealdade! Eis, ao acaso das estrofes, como se expressa:

Permanecerei fiel a você,/ Que Ishtar-a-Soberana seja minha testemunha:/ Meu amor prevalecerá,/E aquela má língua (sua rival!) ficará desconcertada./ Doravante, agarro-me a você/ E compensarei seu amor com o meu! (...)

Mas não, ela não ama você!/ Que Ishtar-a-Soberana a desconcerte/E que ela perca, como eu, o sono/

E permaneça noites abalada e arrasada! (...)

Sim! Vou abraçar meu querido:/ Vou cobri-lo de beijos/ E não vou parar de comê-lo com os olhos!/

Assim triunfarei sobre minha rival;/ Assim reencontrarei meu bem-amado! (...)

Pois é seu encanto que procuro/ E de seu amor que tenho sede!

Diante dessas declarações comoventes e ardentes, o papel do apaixonado não é dos melhores: como todos os homens nesses casos - e, estamos vendo, desde os tempos mais remotos! -, ele se contenta com negações, mau humor e respostas enviesadas, que de modo algum desanimam sua interlocutora:

Não diga nada!/ Chega de tanto discurso!/ Não é preciso falar para dizer nada!/ Mas não, não estou mentindo!/ Na verdade, é o mesmo que agarrar vento/

Esperar seriedade de uma mulher! (...)

Não acredite no que lhe repetem:/ Que você não seria mais a única para meus olhos! Mas se você quer a verdade,/ Seu amor agora, para mim, não passa/ De perturbação e desgosto! (...)

E, no entanto, vencido ao final pela fidelidade, discrição e ternura de sua apaixonada, volta para ela, como ela esperava:

Sim! Você é a única que conta!/ Seu rosto é sempre tão bonito!/Ele é como antes/ Quando eu me abraçava você/ E você repousava a cabeça em mim!/ Agora só chamarei você de "Encantadora"/ E "Sábia" será seu único título para mim!/ Que Ishtar seja minha testemunha:/ Doravante sua rival será nossa inimiga!

 

É só por esta noite!

Trata-se, repito, de um documento único, e é digno de real interesse que tenha sido dedicado a exaltar o amor puro e desinteressado de uma mulher ao mesmo tempo que ofusca o sentimento que lhe dedica o homem amado por ela. A prova de que muitos outros poemas ou contos amorosos análogos - evidentemente que não todos no mesmo sentido - foram escritos e difundidos, mesmo que a sorte não os tenha conservado para nós ou que nossos arqueólogos ainda não os tenham exumado, reside em um catálogo do fim do segundo milênio antes de nossa era, que reunia, por seu "título" (em outros termos, suas primeiras palavras), quase quatrocentos deles, dos quais restam cerca de um quarto. Como esses títulos são suficientemente eloqüentes por si mesmos, eis alguns, que compõem um belo quadro dos senfiamentos amorosos:

Vá embora, sono! Quero apertar meu querido em meus braços!

Quando você fala comigo, quase me mata de me encher o coração!

Ah! eu piscaria para você com o olho direito...

Estou apaixonada por seus encantos!

Não fechei o olho a noite inteira:/ Sim, fiquei de vigília a noite toda, meu querido!

Oh, felicidade! O dia só me trouxe boas notícias!

Uma, que não me vale, pôs na cabeça que quer me suplantar...

É só por esta noite! Só por hoje!

Como ela é encantadora! Como é bela!

Ela está buscando o belo Jardim do prazer que você vai lhe dar!

A maior parte dos poemas e cantos de amor que foram preservados giram em torno da deusa em que se viam ao mesmo tempo a Protetora e o Modelo sobrenaturais do "amor livre": Inanna/Ishtar.

Imaginados a partir do padrão dos homens, os deuses também tinham suas esposas, e até concubinas; fundavam famílias, tinham filhos. Nesse plano, tudo acontecia entre eles sem problemas, e não conhecemos mitos ou lendas que - como entre os gregos - repercutam tempestades e dissabores conjugais entre divindades.

Mas os deuses também praticavam o amor "livre". Foi sobretudo a personalidade excepcional de Inanna/Ishtar, toralmente independente, sem o menor laço conjugal ou materno, entregue apenas aos próprios caprichos e às próprias paixões, que inspirou, na matéria, inúmeras narrativas e cantos. Atribuíam-se a ela muitas aventuras, mas foi da primeira que se guardou a lembrança mais viva e comovente, e dela resta uma documentação mitológica e lírica impressionante. Trata-se de seu "amor de juventude" com Dumuzi (em sumério)/Tammuz (em acádio), um soberano arcaico, que fora outrora heroicizado e depois alçado à fileira dos deuses; era considerado um pastor. Contava-se que Inanna havia, de início, hesitado entre ele e o deus lavrador Enkidu - provável eco de uma situação econômica e social determinada mas que, devido ao seu recuo, nos escapa inteiramente, nesse país em que agricultores e criadores de gado miúdo, principais agentes na produção dos recursos locais, rivalizaram por muito tempo.

Um documento em sumério a descrevia sonhando com o amor:

Quando me tiver banhado para o Senhor, para Dumuzi,/ Quando tiver adornado o ventre/ Coberto meu rosto de creme,/ Quando tiver pintado os olhos de khol,/ Quando suas mãos encantadoras me apertarem as costas,/ Quando, deitado em frente a mim, ele apalpar meus seios leitosos e suculentos,/ Quando puser a mão em minha vulva preciosa,/ Quando seu membro, semelhante a uma proa, trouxer-lhe a vida,/ Então, eu também o acariciarei longamente (...)/ Ele colocará sua mão em minha mão, seu coração contra o meu coração:/ Que doce repouso dormir com sua mão em minha mão!/ Que suave prazer apertar seu coração contra o meu coração!

Acontecia-lhe também sair, furtivamente como uma adolescente apaixonada, para ir ao encontro de seu querido sob as estrelas, "que cintilavam como ela", e depois demorar-se sob suas carícias e perguntar-se, de repente, vendo a noite avançar, como ia explicar à mãe sua ausência e seu atraso:

Deixe-me! Tenho que voltar!/ Deixe-me, Dumuzi! Tenho que voltar!/ Que mentira vou contar à minha mãe?/ Que mentira vou contar à minha mãe Ningal?" E Dumuzi lhe sugeria a resposta: ela fingiria ter sido levada por suas amigas para ouvir música e dançar...

Parece realmente que nos referimos aos dias de hoje!

Os amores de Inanna e Dumuzi foram também celebrados na liturgia, especialmente na virada do terceiro para o segundo milênio a.e.c., de acordo com nossas informaç

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Os arquétipos e o inconsciente coletivo

A hipótese de um inconsciente coletivo pertence àquele tipo de conceito que a princípio o público estranha, mas logo dele se apropria, passando a usá-lo como uma representação corrente, tal como aconteceu com o conceito do inconsciente em geral. A ideia filosófica do inconsciente, tal como é encontrada principalmente em CG, CARUS e E. v. HARTMANN, depois de ter desaparecido sem deixar vestígios significativos na onda avassaladora do materialismo e do empirismo, reapareceu pouco a pouco no âmbito da psicologia médica, orientada para as ciências naturais.
A princípio o conceito do inconsciente limitava-se a designar o estado dos conteúdos reprimidos ou esquecidos. O inconsciente, em FREUD, apesar de já aparecer - pelo menos metaforicamente - como sujeito atuante, nada mais é do que o espaço de concentração desses conteúdos esquecidos e recalcados, adquirindo um significado prático graças a eles. Assim sendo, segundo FREUD, o inconsciente é de natureza exclusivamente pessoal , muito embora ele tenha chegado a discernir as formas de pensamento arcaíco-mitológícas do inconsciente.
Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é indubitavelmente pessoal. Nós a denominamos inconsciente pessoal. Este porém repousa sobre uma camada mais profunda, que já não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais profunda é o que chamamos inconsciente coletivo. Eu optei pelo termo "coletivo" pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal; isto é, contrariamente à psique pessoal ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são 'cum grano salis' os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos. Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos, constituindo portanto um substrato psíquico comum de natureza psíquica suprapessoal que existe em cada indivíduo. [15]

Uma existência psíquica só pode ser reconhecida pela presença de conteúdos capazes de serem conscientizados. Só podemos falar, portanto, de um inconsciente na medida em que comprovarmos os seus conteúdos. Os conteúdos do inconsciente pessoal são principalmente os complexos de tonalidade emocional, que constituem a intimidade pessoal da vida anímica. Os conteúdos do inconsciente coletivo, por outro lado, são chamados arquétipos.

O termo archetypus já se encontra em FILO JUDEU como referência à imago dei no homem. Em IRÍNEU também, onde se lê: "Mundi fabricator non a semetipso fecit haec, sed de alienis archetypis transtulit " (O criador do mundo não fez essas coisas diretamente a partir de si mesmo, mas copiou-as de outros arquétipos). No Corpus Hermeücum , Deus é denominado το αρχέτυπον φως (a luz arquetípica). Em DIONÍSIO AREOPAGITA encontramos esse termo diversas vezes como "De coelesti hierarchia"' : αι αύλαι άρχετυπιαι (os arquétipos imateriais), bem como "De divinis nominibus " . O termo arquétipo não é usado por AGOSTINHO, mas sua ideia no entanto está presente; por exemplo em ''De divers is quaestionibus ", "ideae... quae ipsae format ae non sunt... quae in divina inielligentia continentur" . (ideias... que não são formadas, mas estão contidas na inteligência divina). "Archetypus" é uma perífrase explicativa do είδος platônico. Para aquilo que nos ocupa, a denominação é precisa e de grande ajuda, pois nos diz que, no concernente aos conteúdos do inconsciente coletivo, estamos tratando de tipos arcaicos - ou melhor - primordiais, isto é, de imagens universais que existiram desde os tempos mais remotos. O termo représentations collectives, [16] usado por LÉVY-BRUHL para designar as figuras simbólicas da cosmovisão primitiva, poderia também ser aplicado aos conteúdos inconscientes, uma vez que ambos têm praticamente o mesmo significado. Os ensinamentos tribais primitivos tratam de arquétipos de um modo peculiar. Na realidade, eles não são mais conteúdos do inconsciente, pois já se transformaram em fórmulas conscientes, transmitidas segundo a tradição, geralmente sob forma de ensinamentos esotéricos. Estes são uma expressão típica para a transmissão de conteúdos coletivos, originariamente provindos do inconsciente.

Outra forma bem conhecida de expressão dos arquétipos é encontrada no mito e no conto de fada. Aqui também, no entanto, se trata de formas cunhadas de um modo específico e transmitidas através de longos períodos de tempo. O conceito de "archetypus" só se aplica indiretamente às représentations collectives, na medida em que designar apenas aqueles conteúdos psíquicos que ainda não foram submetidos a qualquer elaboração consciente. Neste sentido, representam, portanto, um dado anímico imediato. Como tal, o arquétipo difere sensivelmente da formula historicamente elaborada. Especialmente em níveis mais altos dos ensinamentos secretos, os arquétipos aparecem sob uma forma que revela seguramente a influência da elaboração consciente, a qual julga e avalia. Sua manifestação imediata, como a encontramos em sonhos e visões, é muilo mais individual, incompreensível e ingênua do que nos mitos, por exemplo. O arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente, o qual se modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo matizes que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifesta.

O significado do termo "archetypus" fica sem dúvida mais claro quando se relaciona com o mito, o ensinamento esotérico e o conto de fada. O assunto se complica, porém, se tentarmos fundamentá-lo psicologicamente. Até hoje os estudiosos da mitologia contentavam-se em recorrer a ideias solares, lunares, meteorológicas, vegetais, etc. O fato de que os mitos são antes de mais nada manifestações da essência da alma foi negado de modo absoluto até nossos dias. O homem primitivo não se interessa pelas explicações objetivas do óbvio, mas, por outro lado, tem uma necessidade imperativa, ou melhor, a sua alma inconsciente é impelida irresistívelmente a assimilar toda experiência externa sensorial a [17] acontecimentos anímicos. Para o primitivo não basta ver o Sol nascer e declinar; esta observação exterior deve corresponder - para eíe - a um acontecimento anímico, isto é, o Sol deve representar em sua trajetória o destino de um deus ou herói que, no fundo, habita unicamente a alma do homem. Todos os acontecimentos mítologizados da natureza, tais como o verão e o inverno, as fases da lua, as estações chuvosas, etc, não são de modo algum alegorias destas, experiências objetivas, mas sim, expressões simbólicas do drama interno e inconsciente da alma, que a consciência humana consegue apreender através de projeção - isto é, espelhadas nos fenômenos da natureza. A projeção é tão radical que foram necessários vários milênios de civilização para desligá-la de algum modo de seu objeto exterior. No caso da astrologia, por exemplo, chegou-se a considerar esta antiquíssima scientia intuitiva como absolutamente herética, por não conseguir separar das estrelas a caracterológia psicológica. Mesmo hoje, quem acredita ainda na astrologia, sucumbe quase invariavelmente à antiga superstição da influência dos astros. Ε todo aquele que é capaz de calcular um horóscopo deveria saber que desde os dias de HIPARCO DE ALEXANDRIA o ponto vernal é fixado em 0” de Áries e assim todo horóscopo se baseia num zodíaco arbitrário, porque desde essa época o ponto vernal avançou gradativamente para os graus iniciais de Peixes devido à precessão dos equinócios.

O homem primitivo é de uma tal subjetividade que é de admirar-se o fato de não termos relacionado antes os mitos com os acontecimentos anímicos. Seu conhecimento da natureza é essencialmente a linguagem e as vestes externas do processo anímico inconsciente. Mais precisamente pelo fato de esse processo ser inconsciente é que o homem pensou em tudo, menos na alma, para explicar o mito. Ele simplesmente ignorava que a alma contém todas as imagens das quais surgiram os mitos, e que nosso inconsciente é um sujeito atuante e padecente, cujo drama o homem primitivo encontra analogicamente em todos os fenômenos grandes e pequenos da natureza.
"As estrelas do teu próprio destino jazem em teu peito", diz Seni a Wallenstein, dito que resgataria a astrologia, por pouco que soubéssemos [18] deste segredo do coração. Mas até então o homem pouco se interessara por isso. Nem mesmo ouso afirmar que as coisas tenham melhorado atualmente.

O ensinamento tribal é sagrado e perigoso. Todos os ensinamentos secretos procuram captar os acontecimentos invisíveis da alma, e todos se arrogam a autoridade suprema. O que é verdadeiro em relação ao ensinamento primitivo o é, em maior grau, no tocante às religiões dominantes do mundo. Elas contêm uma sabedoria revelada, originalmente oculta, e exprimem os segredos da alma em imagens magníficas. Seus templos e suas escrituras sagradas anunciam em imagens e palavras a doutrina santificada desde eras remotas, acessível a todo coração devoto, toda visão sensível, todo pensamento que atinge a profundeza. Sim, somos obrigados mesmo a dizer que quanto mais bela, mais sublime e abrangente se tornou a imagem transmitida pela tradição, tanto mais afastada está da experiência individual. Só nos resta intuí-la e senti-la, mas a experiência originária se perdeu.

Por que é a psicologia a mais nova das ciências empíricas? Por que não se descobriu há muito o inconsciente e não se resgatou o seu tesouro de imagens eternas? Simplesmente porque tínhamos uma fórmula religiosa para todas as coisas da alma - muito mais bela e abrangente do que a experiência direta. Se a visão cristã do mundo esmaeceu para muitos, as câmaras dos tesouros simbólicos do Oriente ainda repletos de maravilhas podem nutrir por muito tempo ainda o desejo de contemplar, usando novas vestes. Além do mais, estas imagens - sejam elas cristãs, budistas ou o que for - são lindas, misteriosas e plenas de intuição. Na verdade, quanto mais nos aproximarmos delas e com elas nos habituarmos, mais se desgastarão, de tal modo que só restará a sua exterioridade banal, em seu paradoxo quase isento de sentido. O mistério do nascimento virginal ou a homoousia do Filho com o Pai, ou a Trindade, que não é uma tríade, não propiciam mais o vôo da fantasia filosófica. Tomaram-se meros objetos de fé. Não surpreende, portanto, que a necessidade religiosa, o sentido da fé e a especulação filosófica do europeu culto se sintam atraídos pelos símbolos do Oriente - pelas grandiosas concepções da divindade na índia e pelos abismos da filosofia taoísta na China - tal como outrora o coração e o espírito do homem da Antiguidade foram seduzidos pelas ideias cristãs. Há muitos que se entregaram inicialmente aos símbolos cristãos a ponto de se emaranharem numa neurose kierkegaardiana, ou cuja relação com Deus - devido ao crescente depauperamento da simbólica, evoluiu para uma insuportável e sofisticada relação Eu-Tu - para [19] caírem depois vítimas da novidade mágica e exótica da simbólica oriental. O sucumbir à nova simbólica não significa necessariamente sempre uma derrota; apenas prova a abertura e vitalidade do sentimento religioso. Observamos a mesma coisa nos orientais cultos, que não raro se sentem atraídos pelo símbolo cristão e pela ciência tão inadequada à mente oriental, desenvolvendo mesmo uma invejável compreensão dos mesmos. Render-se ou sucumbir a estas imagens eternas é até mesmo normal. É por isso que existem tais imagens. Sua função é atrair, convencer, fascinar e subjugar. Elas são criadas a partir da matéria originária da revelação e representam a sempre primeira experiência da divindade. Por isso proporcionam ao homem o pressentimento do divino, protegendo-o ao mesmo tempo da experiência direta do divino. Graças ao labor do espírito humano através dos séculos, tais imagens foram depositadas num sistema abrangente de pensamentos ordenadores do mundo, e ao mesmo tempo são representadas por uma instituição poderosa e venerável que se expandiu, chamada Igreja.

O melhor exemplo que ilustra o que penso é o místico e eremita suíço NICOLAU DE FLÜE, canonizado recentemente. Talvez sua experiência mais importante foi a chamada visão da Trindade que obcecou seu espírito a ponto de tê-la mandado pintar na parede de sua cela, A visão foi representada numa pintura da época e está preservada na Igreja paroquial de Sachsein: é uma mandata dividida em seis partes, cujo centro é o semblante coroado de Deus. Sabe-se que o BRUDER KLAUS investigou a natureza de sua visão com a ajuda de um livrinho ilustrado de um místico alemão, numa tentativa de compreender sua experiência primordial. Durante anos ocupou-se com esse trabalho. É o que designo por "elaboração" do símbolo. Sua reflexão sobre a natureza da visão, influenciada pelos diagramas místicos que usou como fio condutor, levou-o necessariamente à conclusão de que deveria ter visto a própria Santíssima Trindade e, portanto, o Summum bonum, o amor eterno. A representação expurgada de Sächseln corresponde a esta visão.

A experiência original, no entanto, fora bem diversa. Em seu êxtase, a visão que aparecera a BRUDER KLAUS era tão terrível que seu próprio rosto se desfigurou de tal modo que as pessoas se assustavam, temendo-o. É que ele se defrontara com uma visão de máxima intensidade. WOELFLIN escreve a respeito: "Todos os que se aproximavam dele ficavam assustados. Sobre a causa deste terror, ele mesmo costumava [20] dizer que havia visto uma luz penetrante, representando um semblante humano. Ao visualizá-lo temera que seu coração explodisse em estilhaços. Por isso, tomado de pavor, desviara o rosto, caindo por terra. Eis a razão pela qual o seu rosto inspirava terror aos outros".
Essa visão tem sido relacionada com a. de Apocalipse 1,13s, isto é, com aquela estranha imagem apocalíptica de Cristo, só ultrapassada em estranheza e monstruosidade pelo cordeiro terrífico de sete olhos e sete chifres (Apocalipse 5,6s). É difícil relacionar esta figura com o Cristo dos Evangelhos. Logo de início esta visão foi interpretada pela tradição de uma determinada maneira. O humanista KARL BOVILLUS escreve em 1508 a um amigo: "Quero falar-te acerca de um semblante que certa vez lhe aparecera no céu, numa noite estrelada, quando ele se encontrava absorto em oração e contemplação. Viu a forma de um rosto humano, de expressão terrível, cheia de ira, ameaçadora" etc.
Esta interpretação coincide perfeitamente com a amplificação moderna do Apocalipse 1,13 , Além disso não devemos esquecer as demais visões de BRUDER KLAUS; por exemplo, a de Cristo vestindo pele de urso, do Deus homem e mulher, e dele próprio (BRUDER KLAUS) como Filho, etc. Tais visões apresentam características muito pouco dogmáticas.

A imagem da Trindade na Igreja de Sächseln, bem como a simbólica da roda no chamado Tratado do Peregrino foram relacionadas tradicionalmente com essa grande visão. BRUDER KLAUS mostrou a imagem da roda ao peregrino que o visitava. É evidente que essa imagem o preocupara. BLANKE, contrariamente à tradição, nega que haja qualquer relação [21] entre a visão e a representação da Trindade. Acho exagerado tal ceticismo. Deve ter havido algum motivo para que BRUDER KLAUS se interessasse pela imagem da roda. Visões semelhantes provocam muitas vezes confusão mental e desintegração {o coração que "explode em estilhaços"). A experiência nos ensina que o "círculo protetor", a mandala, é o antídoto tradicional para os estados mentais caóticos. É, portanto, bastante compreensível que BRUDER KLAUS ficasse fascinado pelo símbolo da roda, A interpretação da visão terrível como uma experiência de Deus não me parece fora de propósito. Relacionar a grande visão com o quadro da Trindade de Sächseln, ou seja, com o símbolo da roda, parece-me portanto provável, inclusive por motivos internos e psicológicos.

Esta visão, sem dúvida alguma, apavorante, irrompendo como um vulcão na visão de mundo religiosa de BRUDER KLAUS sem qualquer prelúdio dogmático ou comentário exegético, exigiu um longo trabalho de assimilação a fim de ordenar a estrutura total da alma, restaurando seu equilíbrio alterado. A elaboração dessa vivência ocorreu sobre a base outrora inabalável do dogma, o qual provou a sua força de assimilação, transformando algo de terrivelmente vivo na beleza salvifíca da ideia da Trindade. Mas a elaboração também poderia ter ocorrido no terreno totalmente diverso da visão e sua realidade numinosa -provavelmente em prejuízo do conceito cristão de Deus e em prejuízo ainda maior do próprio BRUDER KLAUS que, neste caso, não se teria tornado um santo, mas sim um herético (ou um lunático), cuja vida terminaria numa fogueira.

Este exemplo demonstra a utilidade do símbolo dogmático: ele formula uma vivência anímica tão tremenda quanto perigosamente decisiva, que se chama "experiência de Deus"; devido à sua suprema intensidade reveste-se de uma forma suportável para a capacidade de compreensão humana, sem comprometer o alcance dessa experiência ou prejudicar a transcendência de seu significado. A visão da ira divina que também encontramos - em certo sentido - em JACOB BÖHME não condiz com a imagem de Deus no Novo Testamento, do Pai amoroso e celeste. Este fato poderia ter gerado um conflito interno. O espírito da época até mesmo ter-se-ia prestado a isso - fins do século XV, época de um NICOLAU DE CUSA que com sua fórmula do "complexio oppositomm" antecipava o cisma iminente! Pouco tempo depois, o conceito javístico de Deus foi alvo de uma série de renascimentos no Protestantismo. Javé é um conceito de Deus que ainda contém opostos inseparáveis. [22] 
BRUDER KLAUS rompeu com o convencional e com a tradição, ao abandonar sua casa e família, indo morar sozinho por muito tempo, mergulhando seu olhar tão profundamente no espelho escuro, que a experiência primordial miraculosa e terrífica o colheu. Nesta situação, a imagem dogmática da divindade, desenvolvida através dos séculos, teve nele o efeito de uma poção salular de cura. Ajudou-o a assimilar a irrupção fatal de uma imagem arquetípica, a fim de evitar seu próprio estraçalhamento. ÂNGELO SILÉSIO não foi tão feliz; as contradições internas o desintegraram, pois em sua época a firmeza da Igreja que garante o dogma já estava abalada.

JACOB BÖHME também conhece um Deus do "fogo da ira", um verdadeiro absconditus. Por um lado, ele foi capaz de transpor a profunda e dilacerante contradição interior através da fórmula cristã de Paí-Filho, incorporando especulativa mente sua visão de mundo, a qual, apesar de gnóstica, era cristã em todos os pontos essenciais. De outro modo ter-se-ia tomado um dualista. Por outro lado, não há dúvida de que a alquimia veio em seu auxílio, pois há muito tempo ele vinha abrindo o caminho da união dos opostos. Em todo caso, os vestígios do conflito ainda são visíveis em sua mandala acrescentada às "Quarenta questões acerca da alma", mostrando a natureza da divindade. A mandala é dividida em duas metades, uma escura e outra luminosa, e os semicírculos que lhes correspondem, em lugar de se completarem fechando o círculo, dão-se as costas um ao outro.

O dogma substitui o inconsciente coletivo, na medida em que o formula de modo abrangente. O estilo de vida católico neste sentido desconhece completamente tais problemas psicológicos. Quase toda a vida do inconsciente coletivo foi canalizada para as ideias dogmáticas de natureza arquetípica, fluindo como uma torrente controlada no simbolismo do credo e do ritual. Ela manifesta-se na interioridade da alma do católico. O inconsciente coletivo, tal como hoje o conhecemos, nunca foi assunto de psicologia, pois antes da Igreja cristã existiam os antigos mistérios, cuja origem remonta às brumas do neolítíco. A humanidade sempre teve em abundância imagens poderosas que a protegiam magicamente contra as coisas abissais da alma, assustadoramente vivas. As figuras do inconsciente sempre foram expressas através de imagens protetoras e curativas, e assim expelidas da psique para o espaço cósmico. [23] 

A íconociastia da Reforma abriu literalmente uma fenda na muralha protetora das imagens sagradas e desde então elas vêm desmoronando umas após as outras. Tornaram-se precárias por colidirem com a razão desperta. Além do mais, muito antes seu significado já fora esquecido. Terá sido realmente um esquecimento? Ou, no fundo, o homem jamais soube o que significavam, e só recentemente a humanidade protestante percebeu que não temos a menor ideia do que quer dizer o nascimento virginal, a divindade de Cristo, e as complexidades da Trindade? Até parece que essas imagens simplesmente surgiam e eram aceitas sem questionamento, sem reflexão, tal como as pessoas enfeitam as árvores de Natal e escondem ovos de Páscoa, sem saberem o que tais costumes significam. O fato é que as imagens arquetípicas têm um sentido a priori tão profundo que nunca questionamos seu sentido real. Por isso os deuses morrem, porque de repente descobrimos que eles nada significam, que foram feitos pela mão do homem, de madeira ou pedra, puras inutilidades. Na verdade o homem apenas descobriu que até então jamais havia pensado acerca de suas imagens. Ε quando começa a pensar sobre elas, recorre ao que se chama '"razão"; no fundo, porém, esta razão nada mais é do que seus preconceitos e miopias.

A história da evolução do protestantismo é uma Íconociastia crônica. Um muro após o outro desabava. Ε nem foi tão difícil esta destruição, uma vez que a autoridade da Igreja já estava abalada. Sabemos como as coisas entraram em colapso, uma a uma, tanto as grandes como as pequenas, no coletivo e no individual, e como surgiu a alarmante pobreza dos símbolos atualmente reinantes. Com isso, a Igreja também perdeu sua força; uma fortaleza, despojada de seus bastiões e casamatas; uma casa, cujas paredes foram demolidas e que fica exposta a todos os ventos e perigos do mundo. Um colapso deveras lamentável, que fere o senso histórico, pois a desintegração do Protestantismo em centenas de denominações diferentes é o sinal inconfundível de que a inquietação perdura.

O homem protestante foi relegado a uma falta de proteção de tal ordem que faria tremer o homem natural. A consciência esclarecida nega-se a reconhecer tal fato, mas procura em silêncio em outro lugar o que foi perdido na Europa. Buscam-se imagens efetivas, formas de pensamento que tranquilizem inquietações do coração e da mente e os tesouros do Oriente são encontrados.

A rigor, podemos duvidar disto. Ninguém obrigou os romanos a importarem cultos asiáticos, como se fossem bens de consumo. Se o cristianismo tivesse sido de falo tão estranho e inadequado aos povos [24] germânicos, eles o teriam rejeitado facilmente, depois do declínio do prestígio das legiões romanas. Mas o cristianismo permaneceu, porque corresponde ao modelo arquetípico vigente. No entanto, com o correr dos séculos, ele transformou-se em algo que teria causado espanto ao seu fundador, caso ainda estivesse vivo; e o cristianismo de negros e indianos também tinham motivo a considerações históricas. Por que, então, o Ocidente não deveria assimilar formas orientais? Os romanos viajavam a Eleusis, à Samotrácia e ao Egito, a fim de serem iniciados. Parece até mesmo que havia no Egito um verdadeiro turismo desse tipo.
Os deuses helênicos e romanos morriam da mesma doença que os nossos símbolos cristãos: naquele tempo, como hoje, os homens perceberam que nada pensavam a respeito. Contrariamente, os deuses estrangeiros ainda tinham mana inexaurido. Seus nomes eram estranhos e incompreensíveis e seus atos portentosamente obscuros, bem diversos da desgastada chronique scandaleuse do Olimpo. Os símbolos asiáticos pelo menos não eram compreensíveis, não sendo portanto vulgares como os deuses convencionais. O fato de que o povo aceitasse o novo tão impensadamente quanto havia rejeitado o velho não constituía problema nessa época.

Hoje seria isto um problema? Será que podemos vestir como uma roupa nova símbolos já feitos, crescidos em solo exótico, embebidos de sangue estrangeiro, falados em línguas estranhas, nutridos por uma cultura estranha, evoluídos no contexto de uma história estranha? Um mendigo que se envolve numa veste real; um rei que se disfarça em mendigo? Sem dúvida, isto é possível. Ou há dentro de nós uma ordem de não participar às mascaradas, mas talvez até de costurarmos nossa própria vestimenta?

Estou convencido de que o depauperamento crescente dos símbolos tem um sentido. O desenvolvimento dos símbolos tem uma consequência interior. Tudo aquilo sobre o que nada pensávamos e a que, portanto, faltava uma conexão adequada com a consciência em desenvolvimento, foi perdido. Tentar cobrir a nudez com suntuosas vestes orientais, tal como fazem os teósofos, seria cometer uma infídelidade para com a nossa história. Não caímos no estado de mendicância para depois posar como um rei indiano de teatro. Mais vale, na minha opinião, reconhecer abertamente nossa pobreza espiritual pela falta de símbolos, do que fingir possuir algo, de que decididamente não somos os herdeiros legítimos. Certamente somos os herdeiros de direito da simbólica cristã, mas de algum modo desperdiçamos essa herança. Deixamos cair em ruínas a casa construída por nosso pai, e agora tentamos invadir palácios orientais que [25] nossos pais jamais conheceram. Aquele que perdeu os símbolos históricos e não pode contentar-se com um substitutivo, encontra-se hoje em situação difícil; diante dele o nada bocejante, do qual ele se aparta atemorizado. Pior ainda: o vácuo é preenchido com absurdas ideias político-sociais e todas elas se caracterizam por sua desolação espiritual. Mas quem não consegue conviver com esses pedantismos doutrinários vê-se forçado a recorrer seriamente à sua confiança em Deus, embora em geral se constate que o medo é ainda mais convincente. Tal medo decerto não é injustificado, pois onde o perigo é maior, Deus parece aproximar-se. É perigoso confessar a própria pobreza espiritual, pois o pobre cobiça e quem cobiça atrai fatalidade. Um drástico provérbio suíço diz: "Por detrás de cada rico há um demônio e atrás de cada pobre, dois".

Da mesma forma que os votos de pobreza material, no cristianismo, afastavam a mente dos bens do mundo, a pobreza espiritual renuncia às falsas riquezas do espírito, a fim de fugir não só dos míseros resquícios de um grande passado, a "Igreja" protestante, mas também de todas as seduções do perfume exótico, a fim de voltara si mesma, onde à fria luz da consciência, a desolação do mundo se expande até as estrelas.
Já herdamos essa pobreza de nossos pais. Lembro-me das aulas que meu pai me ministrava, preparando-me para a confirmação. O catecismo me entediava indizívelmertte. Certa vez, ao folhear o meu livrinho, à espera de encontrar algo de interessante, meus olhos se detiveram no parágrafo sobre a Trindade. Isso me interessava e esperava impaciente que chegássemos a essa passagem nas auías. Ao chegar a hora esperada, meu pai disse: "Vamos saltar esse capitulo, pois eu mesmo nada entendo do seu conteúdo". Assim ficou sepultada minha última esperança. Admirei a honestidade do meu pai, mas isso não me ajudou a superar o tédio mortal que a partir de então me causava toda conversa religiosa.

Nosso intelecto realizou tremendas proezas enquanto desmoronava nossa morada espiritual. Estamos profundamente convencidos de que apesar dos mais modernos e potentes telescópios refletores construídos nos Estados Unidos, não descobriremos nenhum empíreo nas mais longínquas nebulosas; sabemos também que o nosso olhar errará desesperadamente através do vazio mortal dos espaços íncomensuráveis. As coisas não melhoram quando a física matemática nos revela o mundo do infinitamente pequeno. Finalmente, desenterramos a sabedoria de todos os tempos e povos, descobrindo que tudo o que há de mais caro e precioso já foi dito na mais bela linguagem. Estendemos as mãos como crianças ávidas e. ao apanhá-lo, pensamos possuí-lo. No entanto, o que possuímos [26] não tem mais validade e as mãos se cansam de reter, pois a riqueza está em toda a parte, até onde o olhar alcança. O que julgávamos possuir se transforma em água e mais de um aprendiz de feiticeiro acabou se afogando nessas águas por ele mesmo invocadas - caso não tenha sucumbido antes ao delírio de que esta sabedoria é boa e aquela outra, má. É destes adeptos que provêm os doentes preocupantes, os que julgam ter uma missão profética. Isto porque a cisão artificial entre a sabedoria verdadeira e a falsa cria uma tamanha tensão na alma, que dela surge uma solidão e uma dependência como a do morfinômano, o qual sempre espera encontrar companheiros de vício.

Uma vez que nossa herança natural se evola, dizemos com HERÁCLITO que todo espírito também desce de sua altura ígnea. Quando o espírito se torna pesado, transforma-se em água e o intelecto tomado de presunção luciferina usurpa o trono onde reinava o espírito. O espírito pode reivindicar legitimamente o “patrias potestas" (pátrio poder) sobre a alma; não porém o intelecto nascido da terra, por ser espada ou martelo do homem e não um criador de mundos espirituais, um pai da alma. No tocante a isso, KLAGES acertou no alvo e SCHELER, com seu restabelecimento do espírito, foi suficientemente modesto, pois ambos são filhos de uma época na qual o espirito não paira mais no alto, mas está embaixo, não é mais fogo, mas se tornou água.

Portanto, o caminho da alma que procura o pai perdido - tal como Sofia procurando Bythos - leva à água, ao espelho escuro que repousa em seu fundo. Aquele que escolher o estado de pobreza espiritual, a verdadeira herança de um protestantismo vivido até as últimas conseqüências, chega ao caminho da alma que conduz à água. Esta no entanto não é uma expressão metafórica, mas um símbolo vivo da psique escura. A melhor ilustração do que acabo de dizer é um caso concreto escolhido entre muitos:

Um teólogo protestante tem frequentemente um mesmo sonho: Ele encontra-se numa encosta ao pé da qual há um vale profundo e, neste, um lago escuro, No sonho ele sabe que algo sempre o impede de aproximar-se do lago. Mas agora decide ir até a água. Ao aproximar-se da margem tudo fica mais escuro e lugubre e uma rajada de vento passa subitamente sobre a água. Entra em pânico e acorda.
Este sonho mostra-nos o simbolismo natural. O sonhador desce à sua própria profundeza, e o caminho o leva à água misteriosa. Ocorre então o milagre da piscina de Betesda. Um anjo desce e toca a água que adquire então um poder curativo. No sonho, é o vento, o pneuma, que sopra [27] onde quer. É necessário que um homem desça até a água, a fim de que se produza o milagre da vivificaçâo (da água). O sopro do espírito que passa sobre a superficie escura é sinistro, como tudo aquilo cuja causa não somos ou então desconhecemos. É o indício de uma presença invisível de um nume cuja vida não se deve nem à expectativa humana nem à maquinação da vontade. Vive por si só e um calafrio perpassa o corpo da pessoa que acreditava ser o "espírito" apenas algo em que se crê, se faz, se lê nos livros ou é assunto de conversa, Mas quando ocorre espontaneamente, uma assombração e um terror primitivo se apoderam da mente ingênua. Os anciãos da tribo dos elgonyi, no Quênia, descreveram-me o deus noturno como aquele que ''provoca o medo". "Ele chega a nós", diziam, "como uma rajada fria de vento que nos faz tiritar, ou então passa assobiando em redemoinho pelo capim alto"; um Pan africano que na hora fantasmagórica do meio-dia toca sua flauta, assustando os pastores.

No sonho, o sopro do pneuma amedrontou outro pastor, um pastor do rebanho, que na escuridão da noite pisou na margem coberta de j une o s perto da água no vale profundo da alma. Sim, aquele espírito ígneo descera outrora ao reino da natureza, às árvores e rochas e às águas da alma tal como o ancião que no Zarathustra de NIETZSCHE , cansado da humanidade, retirou-se para a floresta, a fim de resmungar com os ursos em louvor ao Criador.

Temos, seguramente, de percorrer o caminho da água, que sempre tende a descer, se quisermos resgatar o tesouro, a preciosa herança do Pai. No hino gnóstíco à alma", o Filho é enviado pelos pais à procura da pérola perdida que caíra da coroa real do Pai. Ela jaz no fundo de um poço profundo, guardada por um dragão, na terra dos egípcios - mundo de concupiscência e embriaguez com todas as suas riquezas físicas e espirituais. O filho e herdeiro parte à procura da jóia, e se esquece de si mesmo e de sua tarefa na orgia dos prazeres mundanos dos egípcios, até que uma carta do pai o lembra do seu dever. Ele põe-se então a caminho em direção à água e mergulha na profundeza sombria do poço, em cujo fundo encontra a pérola, para oferecê-la então à suprema divindade.

Este hino, atribuído a BARDESANES, data de uma época que em muitos aspectos se assemelha à nossa. A humanidade estava à procura e à [28] espera, e foi o peixe “leva tus de profundo" (tirado do profundo) - da fonte que se tomou o símbolo do Salvador, portador da cura.
Ao escrever essas linhas, recebi uma carta de Vancouver, de alguém que eu não conhecia. O remetente intrigado com seus sonhos que giravam sempre em torno do tema da água escreve: "Almost every time I dream it is about water: either I am having a bath, or water-closet is overflowing, or a pipe is bursting, or my home has drifted down to the water edge, or I see an acquaintance about to sink into water, or I am trying to get out of water, or I am having a bath and the tub is about to overflow, etc."

A água é o símbolo mais comum do inconsciente. O lago no vale é o inconsciente que, de certo modo, fica abaixo da consciência, razão pela qual muitas vezes é chamado de "subconsciente", não raro com uma conotação pejorativa de uma consciência inferior. A água é o "espirito do vale", o dragão aquático do Tao, cuja natureza se assemelha à água - um yang incluído no yin. Psicologicamente a água significa o espírito que se tornou inconsciente. Por isso, o sonho do teólogo diz corretamente que ele pode experimentar na água o efeito do espírito vivo como um milagre de cura na piscina de Betesda. A descida às profundezas sempre parece preceder a subida. Outro teólogo sonhou que avistara uma espécie de Castelo do Graal sobre uma montanha. Ele caminhava por uma estrada que parecia conduzir diretamente ao pé da montanha e à subida. Ao aproximar-se da montanha, porem, descobriu, para seu grande, desaponto, que um abismo o separava da montanha, uma garganta profunda e escura onde corria, rumorejando, uma água do submundo. Havia um atalho íngreme que levava ao fundo e subia penosamente do outro lado. A perspectiva não era das melhores. O sonhador então acorda. Aqui também ele almeja alcançar alturas luminosas, mas depara primeiro com a necessidade de mergulhar numa profundeza escura, que se revela como condição indispensável para uma ascensão maior, O homem prudente percebe o perigo nas profundezas e o evita, mas também desperdiça o bem que conquistaria numa façanha corajosa, embora imprudente. [29] 

O testemunho do sonho encontra uma violenta resistência por parte da mente consciente, que só conhece o "espirito" como algo que se encontra no alto. O "espírito" parece sempre vir de cima, enquanto tudo o que é turvo e reprovável vem de baixo. Segundo esse modo de ver o espírito significa a máxima liberdade, um flutuar sobre os abismos, uma evasão do cárcere do mundo ctônico, por isso um refúgio para todos os pusilânimes que não querem "tornar-se" algo diverso. Mas a água é tangível e terrestre, também é o fluido do corpo dominado pelo instinto, sangue e fluxo de sangue, o odor do animal e a corporalidade cheia de paixão. O inconsciente é a psique que alcança, a partir da luz diurna de uma consciência espiritual, e moralmente lúcida, o sistema nervoso designado há muito tempo por "simpático". Este não controla como o sistema cérebro-espinal a percepção e a atividade muscular e através delas o meio ambiente; mantém no entanto o equilíbrio da vida sem os órgãos dos sentidos, através das vias misteriosas de excitação, que não só anunciam a natureza mais profunda de outra vida, mas também irradia sobre eia um efeito interno. Neste sentido, trata-se de um sistema extremamente coletivo: a base operativa de toda participation mystique, ao passo que a função cérebro-espinal culmina na distinção diferenciada do eu, e só apreende o superficial e exterior sempre por meio do espaço. Esta função capta tudo como "fora", ao passo que o sistema simpático tudo vivência como "dentro".

O inconsciente é considerado geralmente como uma espécie de intimidade pessoal encapsulada, mais ou menos o que a Bíblia chama de "coração", considerando-o como a fonte de todos os maus pensamentos. Nas câmaras do coração moram os terríveis espíritos sanguinários, a ira súbita e a fraqueza dos sentidos. Este é o modo como o inconsciente é visto pelo lado consciente. A consciência, porém, parece ser essencialmente uma questão de cérebro, o qual vê tudo, separa e vê isoladamente, inclusive o inconsciente, encarado sempre como meu inconsciente. Pensa-se por isso de um modo geral que quem desce ao inconsciente chega a uma atmosfera sufocante de subjetividade egocêntrica, ficando neste beco sem saída à mercê do ataque de todos os animais ferozes abrigados na caverna do submundo anímico.
Verdadeiramente, aquele que olha o espelho da água vê em primeiro lugar sua própria imagem. Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que neile se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com  Α persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira. [30] 

Esta é a primeira prova de coragem no caminho interior, uma prova que basta para afugentar a maioria, pois o encontro consigo mesmo pertence às coisas desagradáveis que evitamos, enquanto pudermos projetar o negativo à nossa volta. Se formos capazes de ver nossa própria sombra, e suportá-la, sabendo que existe, só teríamos resolvido uma pequena parte do problema. Teríamos, pelo menos, trazido à tona o inconsciente pessoal. A sombra, porém, é uma parte viva da personalidade e por isso quer comparecer de alguma forma. Não é possível anulá-la argumentando, ou torná-ta inofensiva através da racionalização. Este problema é extremamente difícil, pois não desafia apenas o homem total, mas também o adverte acerca do seu desamparo e impotência. As naturezas fortes - ou deveríamos chamá-ias fracas? - tal alusão não é agradável. Preferem inventar o mundo heróico, além do bem e do mal, e cortam o nó górdio em vez de desatá-lo. No entanto, mais cedo ou mais tarde, as contas terão que ser acertadas. Temos porém que reconhecer: há problemas simplesmente insolúveis por nossos próprios meios. Admiti-lo tem a vantagem de tornar-nos verdadeiramente honestos e autênticos. Assim se coloca a base para uma reação compensatória do inconsciente coletivo; em outras palavras, tendemos a dar ouvidos a uma ideia auxiliadora, ou a perceber pensamentos cuja manifestação não permitíamos antes. Talvez prestemos atenção a sonhos que ocorrem em tais momentos, ou pensemos acerca de acontecimentos ocorridos no mesmo período. Se tivermos tal atitude, forças auxiliadoras adormecidas na nossa natureza mais profunda poderão despertar e vir em nosso auxílio, pois o desamparo e a fraqueza são vivência eterna e eterna questão da humanidade. Há também uma eterna resposta a tal questão, senão o homem teria sucumbido há muito tempo. Depois de fazermos todo o possível resta somente o recurso de fazer aquilo que se faria se soubéssemos o quê. Mas em que medida o homem se conhece a si mesmo? Bem pouco, como a experiência revela. Assim sendo, resta muito espaço para o inconsciente. Como se sabe, a oração exige uma atitude semelhante. Por isso tem um efeito correspondente.

A reação necessária e da qual o inconsciente coletivo precisa se expressa através de representações formadas arquetipicamente. O encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a própria sombra. A sombra é, no entanto, um desfiladeiro, um portal estreito cuja dolorosa exiguidade não poupa quem quer que desça ao poço profundo. Mas para sabermos quem somos, temos de conhecer-nos a nós mesmos, porque o que se segue à morte é de uma amplitude ilimitada, cheia de incertezas inauditas, aparentemente sem dentro nem fora, sem em cima, nem embaixo, sem um aqui ou um lá, sem meu nem teu, sem bem, nem [31] mal. É o mundo da água, onde todo vivente flutua em suspenso, onde começa o reino do "simpático" da alma de todo ser vivo, onde sou inseparavelmente isto e aquilo, onde vivencio o outro em mim, e o outro que não sou, me vivência.

O inconsciente coletivo é tudo, menos um sistema pessoal encapsulado, é objetividade ampla como o mundo e aberta ao mundo. Eu sou o objeto de todos os sujeitos, numa total inversão de minha consciência habitual, em que sempre sou sujeito que tem objetos. Lá eu estou na mais direta ligação com o mundo, de forma que facilmente esqueço quem sou na realidade. "Perdido em si mesmo" é uma boa expressão para caracterizar este estado. Este si-mesmo, porém, é o mundo, ou melhor, um mundo, se uma consciência pudesse vê-lo. Por isso, devemos saber quem somos.

Mal o inconsciente nos toca e já o somos, na medida em que nos tornamos inconscientes de nós mesmos. Este é o perigo originário que o homem primitivo conhece instintivamente, por estar ainda tão próximo deste pleroma, e que é objeto de seu pavor. Sua consciência ainda é insegura e se sustenta sobre pés vacilantes. Ele é ainda infantil, recém-saído das águas primordiais. Uma onda do inconsciente pode facilmente arrebatá-lo e ele se esquecer de quem era, fazendo coisas nas quais não se reconhece. Por isso, os primitivos temem os afetos (emoções) descontrolados, pois neles a consciência submerge com facilidade, dando espaço à possessão. Todo o esforço da humanidade concentrou-se por isso na consolidação da consciência. Os ritos serviam para esse fim, assim como as représentations collectives, os dogmas; eles eram os muros construídos contra os perigos do inconsciente, os perils of the soul. O rito primitivo, consiste, pois, em exorcizar os espíritos, quebrar feitiços, desviando dos maus agouros; consiste também em propiciação, purificação e coisas análogas, isto é, na produção mágica do acontecimento auxiliador.

São esses muros erigidos desde os primórdíos que se tomaram mais tarde os fundamentos da Igreja. Portanto, são estes os muros que desabam quando os símbolos perdem a sua vitalidade. Então o nível das águas sobe, e catástrofes incomensuráveis se precipitam sobre a humanidade. O chefe religioso dos pueblos de Taos, denominado Loco Tenente Goberaador, disse certa vez: "Os americanos deveriam parar de perseguir nossa religião, pois se esta desaparecer e não pudermos mais ajudar nosso pai, o Sol, a atravessar o céu, os americanos e o mundo inteiro sofrerão com isso: dentro de dez anos o sol não vai mais nascer". Isto significa que a noite virá e a luz da consciência vai extinguir-se, irrompendo o mar escuro do inconsciente. [32]

Seja ela primitiva ou não, a humanidade encontra-se sempre no limiar das ações que ela mesma faz, mas não controla. Para citar um exemplo: todos querem a paz e o mundo inteiro se prepara para a guerra, segundo o axioma Si vis pacem, para helium. A humanidade nada pode contra a humanidade e os deuses, como sempre, lhe indicam os caminhos do destino. Chamamos hoje os deuses de "fatores", palavra que provém de facere, fazer. Os que fazem ficam por detrás dos cenários do teatro do mundo. Tanto no grande, como no pequeno. Na consciência, somos nossos próprios senhores; aparentemente somos nossos próprios "fatores". Mas se ultrapassarmos o pórtico da sombra, percebemos aterrorizados que somos objetos de fatores. Saber isso é decididamente desagradável, pois nada decepciona mais do que a descoberta de nossa insuficiência. É até mesmo um motivo de pânico primitivo porque significa questionar a supremacia da consciência em que acreditamos e a qual protegemos medrosamente, pois na realidade ela é o segredo do sucesso humano. Mas uma vez que a ignorância não é motivo de segurança, sendo pelo contrário uma agravante da insegurança, é melhor, apesar do medo, saber o que nos ameaça. A formulação correta da questão já é meio caminho andado na solução de qualquer problema. Em todo caso é certo que o maior perigo reside na imprevisibilidade da reação psíquica. As pessoas de maior discernimento já compreenderam há muito que as condições históricas externas de qualquer tipo constituem meras ocasiões para os verdadeiros perigos que ameaçam a existência, ou seja, os sistemas político-sociais delirantes, os quais não devem ser considerados como consequências necessárias de condições externas, mas sim como decisões precipitadas pelo inconsciente coletivo.

Esta problemática é nova, pois em todas as épocas precedentes acreditava-se em deuses de um modo ou de outro. Foi necessário um depauperamento dos símbolos para que se descobrisse de novo os deuses como fatores psíquicos, ou seja, como arquétipos do inconsciente. Essa descoberta, sem dúvida alguma, parece inverossímil até os dias atuais. Para ser convincente é necessária aquela experiência esboçada no sonho do teólogo, pois só assim pode ser experimentada a ação espontânea do espírito movendo-se sobre as águas. Desde que as estrelas caíram do céu e nossos símbolos mais altos empalideceram, uma vida secreta governa o inconsciente. É por isso que temos hoje uma psicologia, e falamos do inconsciente. Tudo isto seria supérfluo, e o é de fato, numa época e numa forma de cultura que possui símbolos. Estes são espíritos do alto e assim pois o [33] espírito também está no alto. Por isso seria tolice e insensatez para tais pessoas desejar a vivência do inconsciente e investigá-lo, pois ele nada contém além do silencioso e imperturbável domínio da natureza. Nosso inconsciente, porém, contém a água viva, espírito que se tomou natureza, e por isso está perturbado. O céu tornou-se para nós espaço cósmico físico, o empíreo divino, uma encantadora lembrança de como as coisas eram outrora. Mas "nosso coração arde" e uma secreta intranquilidade corrói as raízes do nosso ser. Podemos indagar com a Vohtspâ:

O que murmura Wotan sobre a cabeça de Mimír? A fonte já está fervendo.
Para nós, tratar com o inconsciente é uma questão vital - uma questão de ser ou não ser espiritual. Todos aqueles que já tiveram experiências semelhantes àquelas mencionadas no sonho sabem que o tesouro jaz no fundo da água e tentam retirá-lo de lá. Como nunca conseguem esquecer quem são, não podem em hipótese alguma perder sua consciência. Pretendem manter-se firmemente ancorados na terra, e assim, para não abandonar a analogia - tornam-se pescadores que agarram tudo o que flutua na água com anzol e rede. Há tolos contumazes que não compreendem a atividade dos pescadores, mas estes últimos não se perturbam quanto ao significado secular de sua ação, pois o símbolo de seu oficio é muitos séculos mais antigo do que a história imperecível do Santo Graal. Mas nem todo homem é um pescador. Às vezes esta figura se detém no estágio preliminar instintivo, e neste caso se toma uma lontra, como a conhecemos por exemplo nos contos de OSCAR A.H. SCHMITZ".

Quem olha dentro da água vê sua própria imagem, mas atrás dele surgem seres vivos; possivelmente peixes, habitantes inofensivos da profundeza - inofensivos se o ego não fosse mal-assombrado para muita gente. Trata-se de seres aquáticos de um tipo especial. Às vezes, o pescador apanha uma ninfa em sua rede, um peixe feminino, semi-humano. Ninfas são criaturas fascinantes:

“A meias ela o atraia
A meias ele se dava
£ nunca mais o encontraram". [34] 

A sereia é um estágio ainda mais instintivo de um ser mágico feminino, que designamos pelo nome de anima. Também podem ser ondinas, me!usinas, ninfas do bosque, graças ou filhas do rei dos Elfos, lâmias e súcubus que atordoam os jovens, sugando-lhes a vida. Essas figuras seriam projeções de estados emocionais nostálgicos e de fantasias condenáveis, dirá o crítico moralista. Impossível não admitir que esta constatação é de certa forma verdadeira. Mas será esfa toda a verdade? Será a sereia apenas um produto de um afrouxamento moral? Não existiram tais seres em épocas remotas, em que a consciência humana nascente ainda se encontrava por inteiro ligada à natureza? Seguramente devem ter existido primeiro os espíritos na floresta, no campo, nos cursos de água, muito antes dos questionamentos da consciência moral. Além disso, esses seres eram tão temidos como sedutores, de modo que seus estranhos encantos eróticos não passavam de características parciais. A consciência era, então, bem mais simples e o domínio sobre ela absurdamente pequeno. Uma quantidade infinita do que agora sentimos como parte integrante de nossa própria natureza psíquica ainda volteia alegremente em tomo do homem primitivo em amplas projeções.

O termo "projeção" não é muito apropriado, pois nada foi arrojado fora da alma; o que ocorre é que a psique atingiu sua complexidade atual através de uma série de atos de introjeção. Essa complexidade tem aumentado proporcionalmente à desespirítualização da natureza. Uma entidade inquietante da floresta de outrora chama-se agora "fantasia erótica", o que vem complicar penosamente nossa vida anímica. Ela vem ao nosso encontro sob a forma de uma ninfa, mas se comporta como um súcubo; ela assume as mais diversas formas, como uma bruxa, e é de uma autonomia insuportável que, a bem dizer, não seria própria de um conteúdo psíquico. Eventualmente, provoca fascinações, que poderiam ser tomadas como a melhor bruxaria, ou desencadeia estados de terror que nem a aparição do próprio diabo poderia suplantar. Ela é um ser provocante que cruza nosso caminho nas mais diversas modalidades e disfarces, pregando-nos peças de todo tipo, provocando ilusões felizes e infelizes, depressões e êxtases, emoções descontroladas, etc. Nem mesmo no estado de introjeção mais sensato a ninfa se despoja de sua natureza travessa. A bruxa não parou de misturar suas poções imundas de amor e [35] morte, mas o seu veneno mágico é refinado, produz intriga e auto-engano. Invisível, sem dúvida, mas nem por isso menos perigosa.

Mas de onde nos vem a coragem de chamar este ser élfico de anima? "Anima" significa alma e designa algo de extremamente maravilhoso e notável. Mas nem sempre foi assim. Não podemos esquecer que este tipo de arma é uma representação dogmática, cujo objetivo é exorcizar e capturar algo de inquietantemente autônomo e vivo, A palavra alemã Seele (alma) é muito próximo da palavra grega αΐόλος (através de sua forma gótica saiwaló) que significa "movente", "iridescente", portanto, algo semelhante a uma borboleta - em grego ψυχή - que, inebriada, passa de flor em flor e vive de mel e amor. Na tipologia gnóstica o άνθρωπος ψυ- χικός (o homem psíquico) fica hierarquicamente abaixo do πνευματι- κός (espiritual), e finalmente também existem as almas más, que têm de queimar no inferno por toda a eternidade. Até a alma totalmente inocente de um recém-nascido não batizado é privada pelo menos da contemplação de Deus. Entre os primitivos ela é um sopro mágico de vida (daí o termo "anima") ou chama. Uma palavra não canônica do Senhor diz acertadamente: "Quem esitá perto de mim está perto do fogo'" . Em HERÁCLITO, em seu estágio mais elevado, a alma é ígnea e seca, pois ψυχή é parente próxima do "alento fresco" - ψύχειν significa bafejar, ψυχρός é frio, e ψύχος, fresco...

Um ser que tem alma é um ser vivo. Alma é o que vive no homem, aquilo que vive por si só gera vida; por isso Deus insuflou em Adão um sopro vivo a fim de que ele tivesse vida. Com sua astúcía e seu jogo de ilusões a alma seduz para a vida a inércia da matéria que não quer viver. Ela (a alma) convence-nos de coisas inacreditáveis para que a vida seja vivida. A alma é cheia de ciladas e armadilhas para que o homem tombe, caia por terra, nela se emaranhe e fique preso, para que a vida seja vivida. Assim como Eva, no paraíso, não sossegou até convencer Adão da excelência da maçã proibida. Se não fosse a mobilidade e iridescência da alma, o homem estagnaria em sua maior paixão, a inércia. Um certo tipo de razoabilidade é seu advogado, e um certo tipo de moralidade acrescenta sua bênção. Porém, ter alma é a ousadia da vida, pois a alma é um daimon doador de vida, que conduz seu jogo élfico sobre e sob a existência humana, motivo pelo qual no interior do dogma ele é ameaçado e [36] propiciado com castigos e bênçãos unilaterais que de longe ultrapassam os merecimentos humanamente possíveis. Céu e inferno são destinos da alma e não do cidadão, que em sua nudez e estupidez não saberia o que fazer consigo numa Jerusalém celeste.

A anima não é alma no sentido dogmático, nem uma anima rationalis, que é um conceito filosófico, mas um arquétipo natural que soma satisfatoriamente todas as afirmações do inconsciente, da mente primitiva, da história da linguagem e da religião. Ela é um "factor" no sentido próprio da palavra. Não podemos fazê-la, mas ela é sempre o a priori de humores, reações, impulsos e de todas as espontaneidades psíquicas. Ela é algo que vive por si mesma e que nos faz viver; é uma vida por detrás da consciência, que nela não pode ser completamente integrada, mas da qual pelo contrário esta última emerge. Afinal de contas, a vida psíquica é em sua maior parte uma vida inconsciente e cerca a consciência de todos os lados: pensamento este suficientemente óbvio quando registramos a quantidade de preparação inconsciente necessária, por exemplo, para o reconhecimento de uma percepção dos sentidos.

Embora pareça que a totalidade da vida anímica inconsciente pertence à anima, esta é apenas um arquétipo entre muitos. Por isso, ela não é a única característica do inconsciente, mas um de seus aspectos. Isto é mostrado por sua feminilidade. O que não é eu, isto é, masculino, é provavelmente feminino; como o não-eu é sentido como não pertencente ao eu, e por isso está fora do eu, a imagem da anima é geralmente projetada em mulheres. O sexo oposto, até certo ponto, é inerente a cada sexo, pois biologicamente falando é só o maior número de genes masculinos que determina a masculinidade. O número menor de genes femininos parece determinar o caráter feminino, que devido à sua posição subordinada permanece habitualmente inconsciente.

Com o arquétipo da anima entramos no reino dos deuses, ou seja, na área que a metafísica reservou para si. Tudo o que é tocado pela anima torna-se numinoso, isto é, incondicional, perigoso, tabu, mágico. Ela é a serpente no paraíso do ser humano inofensivo, cheio de bons propósitos e intenções. Ela convence com suas razões a não lidar-se com o inconsciente, pois isso destruiria ínibições morais e desencadearia forças que seria melhor permanecerem inconscientes. Como quase sempre, ela não está totalmente errada; pois a vida não é somente o lado bom, é também o lado mau. Porque a anima quer vida, ela quer o bom e o mau. No reino da vida dos elfos, tais categorias não existem. Tanto a vida do corpo como a [37] vida psíquica têm a indiscreção de se portarem muito melhor e serem mais saudáveis sem a moral convencional.
A anima acredita no “καλόν κάγαθόν", conceito primitivo anterior à descoberta do conflito entre estética e moral. Foi necessário um longo processo de diferenciação cristã para que se tornasse claro que o bom nem sempre é belo e o belo não é necessariamente bom. O paradoxo desse casamento de ideias não era um problema para os antigos, nem para o homem primitivo. A anima é conservadora e se prende à humanidade mais antiga de um modo exasperante. Ela prefere aparecer em roupagem histórica, com predileção pela Grécia e pelo Egito. Em relação a isto lembremos os clássicos RIDER HAGGARD e PIERRE BENOIT. O sonho do renascimento conhecido como a “Hypnerotomachia de Porfífio" e o Fausto de GOETHE, também foram ao fundo da Antiguidade para apreender le vrai mot de la situation. Pohfilo conjurou a Rainha Vênus. Goethe, a Helena de Tróia. ANGELA JAFFÉ esboçou uma imagem viva da anima na época do Biedermeier e dos românticos. Não vamos multiplicar o número das testemunhas insuspeitas, pois elas nos fornecem material e simbolismo autêntico para enriquecer a nossa meditação. Se quisermos saber como a anima aparece na sociedade moderna, recomendo a leitura do Private life of Helen of Troy de ERSKINE. Ela não é uma criação superficial, pois o sopro da eternidade paira sobre tudo o que é verdadeiramente vivo. A anima é vida além de todas as categorias e por isso pode dispensar qualquer louvor ou ultraje. A Rainha do Céu, que por acaso irrompeu na vida - será que alguém já considerou o pobre destino na lenda de Maria transposta para as estrelas divinas? A vida desregrada e sem sentido, que não se satisfaz com a própria abundância, é objeto de pavor e repulsa para um homem ajustado à sua civilização; não podemos censurá-lo por isso, pois ela também é a mãe de todos os disparates e tragédias. Assim, desde os primórdios, o homem nascido na terra com seu sadio instinto animal está em luta com sua alma e seus demônios. Se essa alma fosse univocamente escura, seria simples. Infelizmente não é assim, pois essa mesma anima pode aparecer como um anjo de luz, como psicopompos, e conduzi-lo até o significado mais alto, como sabemos pelo Fausto. [38] Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é a obra-prima. A relação com a anima é outro teste de coragem, uma prova de fogo para as forças espirituais e morais do homem. Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham fora de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções. Para o filho, a anima oculta-se no poder dominador da mãe e a ligação sentimental com ela dura às vezes a vida inteira, prejudicando gravemente o destino do homem ou, inversamente, animando a sua coragem para os atos mais arrojados. Para o homem da Antiguidade a anima aparece sob a forma de deusa ou bruxa; por outro lado, o homem medieval substituiu a deusa pela Rainha do Céu e pela Mãe Igreja. O inundo despido de símbolos do protestante produziu, antes de mais nada, um sentimentalismo mórbido, agravando o conflito moral que, por ser insuportável, conduziu logicamente ao "além do bem e do mal" de NIETZSCHE. Nos centros civilizados este estado de coisas manifesta-se na crescente instabilidade dos casamentos. O índice de divórcios nos Estados Unidos já foi ultrapassado em muitos países europeus, o que prova que a anima se encontra preferivelmente na projeção no sexo oposto, o que ocasiona relacionamentos magicamente complicados. Devido às suas consequências patológicas este fato contribuiu para o surgimento da psicologia moderna que, em sua forma freudiana, acha que a causa essencial de todos os distúrbios é a sexualidade, opinião que apenas exacerba os conflitos já existentes. Há uma confusão aqui entre causa e efeito. O distúrbio sexual não é a causa das dificuldades neuróticas, mas, como estas, é um dos efeitos patológicos criados pela adaptação deficiente da consciência, isto é, a consciência confronta-se com situações e tarefas que não estão ao seu alcance. Ela (a consciência) não compreende como seu mundo se alterou, e que atitude deveria tomar para adaptar-se novamente. "Le peuple porte le sceaux d'un hiver qu'on n'explique pas", como diz uma inscrição em uma esteia coreana.

Tanto no que concerne à sombra como à anima não basta conhecer-lhes os conceitos e refletir sobre eles. Nem podemos vivenciar seus conteúdos pela intuição ou pela empatia. É inútil decorar uma lista de arquétipos. Estes são complexos de vivência que sobrevem aos indivíduos como destino e seus efeitos são sentidos em nossa vida mais pessoal. A [39] anima não vem ao nosso encontro como deusa, mas sim como equivoco talvez sumamente pessoal, ou como a maior ousadia. Quando, por exemplo, um velho e conceituado professor de setenta anos resolve abandonar sua família para casar-se com uma atriz ruiva de 20 anos - já sabemos - os deuses vieram buscar outra vítima. Assim se revela em nós a poderosíssima força demoníaca. Até há pouco tempo essa jovem teria sido eliminada por ser considerada bruxa.
Segundo minha experiência há muitas pessoas inteligentes e cultas que compreendem a ideia da anima e sua relativa autonomia facilmente, bem como a fenomenologia do animus nas mulheres. Os psicólogos enfrentam uma dificuldade maior neste sentido, provavelmente porque não são obrigados a confrontar-se com os fatos concretos que caracterizam a psicologia do inconsciente. Ε se além de tudo são médicos, seu ponto de vista sômato-psicológico os perturba, por acharem que os processos psicológicos podem ser expressos através de conceitos intelectuais, biológicos ou fisiológicos. Mas a psicologia não é biologia nem fisiologia, nem outra ciência, mas unicamente o que diz respeito ao conhecimento da alma.

A imagem que até então tracei da anima não é completa. Ela não deixa de ser um impulso caótico da vida, mas ao lado disso é também algo extremamente significativo; um saber secreto ou uma sabedoria oculta, algo que curiosamente contrasta com a sua natureza. Remeto aqui novamente aos autores acima citados. RIDER HAGGARD a chama She Wisdom's Daughter (Filha da Sabedoria); a Rainha da Atlântida de BENOIT tem pelo menos uma excelente biblioteca, constando de seu acervo um livro de Platão, o qual havia desaparecido. Helena de Tróia em sua reencarnação é überta do prostíbulo em Tiro pelo sábio Simão, o Mago, e o acompanha em suas viagens. Deixei de mencionar no início, propositaimente, este aspecto característico da anima, porque o primeiro encontro com ela, em geral, leva-nos a inferir algo que nada tem a ver com a sabedoria. Este aspecto só se apresenta a quem se confronta com a anima. Somente através de um árduo trabalho é possível reconhecer progressivamente que por detrás do jogo cruel do destino humano se esconde algo semelhante a um propósito secreto, o qual parece corresponder a um conhecimento superior das leis da vida. É justamente o mais [40] inesperado, as coisas mais angustiosas e caóticas que revelam um significado profundo. Ε quanto mais este sentido é conscientizado, tanto mais a anima perde seu caráter impetuoso e compulsivo. Pouco a pouco vão se criando diques contra a inundação do caos, pois o que tem sentido se separa do que não o tem. Quando o sentido e o não sentido não são mais idênticos, a força do caos enfraquece, por subtração; o sentido arma-se com a força do sentido, e o não-sentido, com a força do não-sentido. Assim surge um novo cosmos. Não se trata de uma nova descoberta da psicologia médica mas de uma verdade milenar - da riqueza da experiência da vida vem o ensinamento que o pai transmite ao filho.

Sabedoria e loucura aparecem na natureza élfica como uma só e mesma coisa; e o são realmente quando a anima as representa. A vida é ao mesmo tempo significativa e louca. Se não rirmos de um dos aspectos e não especularmos acerca do outro, a vida se torna banal; e sua escala se reduz ao mínimo. Então só existe um sentido pequeno e um não-sentido igualmente pequeno. No fundo, nada significa algo, pois antes de existirem seres humanos pensantes não havia quem interpretasse os fenômenos. As interpretações só são necessárias aos que não entendem. Só o incompreensível tem que ser significado. O homem despertou num mundo que não compreendeu; por isso quer interpretá-lo.

Assim sendo, a anima e com eila a vida não tem sentido na medida em que não oferecem interpretação. No entanto, elas têm uma natureza passível de interpretação, pois em todo caos há um cosmos, em toda desordem uma ordem secreta, em todo capricho uma lei permanente, uma vez que o que atua repousa no seu oposto. Para reconhecê-lo é necessário uma compreensão humana discernente, que tudo decompõe em seus julgamentos antinômicos. No momento em que essa compreensão humana se confronta com a anima, o capricho caótico desta última faz com que se pressinta uma ordem secreta, e, então, postulamos uma disposição, um sentido e um propósito além de sua essência, mas isso não corresponderia à verdade. Na realidade, de início não somos capazes de refletir friamente e nenhuma ciência e filosofia pode ajudar-nos e o ensinamento religioso tradicional só nos auxilia ocasionalmente. Encontramo-nos presos e emaranhados numa vivência sem meta e o julgamento com todas as suas categorias revela-se impotente. A interpretação humana é falha porque se criou uma situação de vida turbulenta que não se adequa a [41] nenhuma das categorias tradicionais. É um momento de colapso. Mergulha- mos numa profundidade última - como diz acertadamente APULEIO. "ad instar voluntariae mortis". Trata-se da renúncia a nossos próprios poderes, não artificialmente desejada, mas naturalmente imposta; não de uma submissão e humilhação voluntárias acionadas pela moral, mas uma derrota completa e inequívoca, coroada pelo pavor pânico da desmoralização. Só quando todas as muletas e arrimos forem quebrados e não se puder mais contar com qualquer proteção pela retaguarda, só então nos será dada a possibilidade de vivenciar um arquétipo, que até então se oculta na significativa falta de sentido da anima. É o arquétipo do significado ou do sentido, tal como a anima é o arquétipo da vida.

O significado sempre nos parece ser o acontecimento mais recente, porque - por alguma razão - supomos que somos nós mesmos que o outorgamos e porque acreditamos também que o mundo maior pode existir sem ser interpretado. Mas como outorgamos sentido? De que fonte, em última análise, extraímos o significado? As formas que usamos para outorgar sentido são categorias históricas que remontam às brumas da Antiguidade, fato que não levamos suficientemente em conta. Para dar sentido servimo-nos de certas matrizes linguísticas que, por sua vez, derivam de imagens primordiais. Podemos abordar essa questão como quer que seja e sempre nos confrontaremos com a história da linguagem e dos motivos que nos reconduzem direto ao mundo maravilhoso dos primitivos.

Tomemos, por exemplo, a palavra ideia. Ela remonta ao conceito do ειδως de PLATÃO, e as ideias eternas são imagens primordiais, ενύπε-ρουρανίφ τόπω (em lugar supracelestial) guardadas como formas eternamente transcendentes. O olho do vidente as percebe como imagines et lares, ou como imagens do sonho ou da visão reveladora. Ou tomemos o conceito da energia, que designa um acontecimento físico. Antigamente, era o fogo misterioso dos alquimistas, o phlogiston, ou a força do calor inerente à matéria, tal como o calor primordial dos estóícos, ou o κυρ bx\ ζωον (o fogo eternamente vivo) de Heráclito, que já se aproxima muito da noção primitiva de uma onipresente força viva de crescimento e mágico poder de cura, habitualmente designado por mana.

Não quero acumular exemplos desnecessários. Basta saber que não existe uma só ideia ou concepção essencial que não possua antecedentes históricos. Em última análise, estes se fundamentam em formas arquetípicas primordiais, cuja concretude data de uma época em [42] que a consciência ainda não pensava, mas percebia. O pensamento era objeto da percepção interior, não era pensado, mas sentido como fenômeno, por assim dizer, visto ou ouvido. O pensamento era essencialmente revelação; não era algo inventado, mas imposto ou algo que nos convencia por sua realidade imediata. O pensar precede a consciência do eu primitivo e esta é mais seu objeto do que sujeito. Mas nem mesmo nós escalamos ainda o último pico da consciência e temos portanto um pensar preexistente, de que não temos consciência enquanto nos apoiarmos em símbolos tradicionais: na linguagem do sonho, enquanto o pai ou rei não tiverem morrido.

Eu gostaria de dar um exemplo acerca do modo pelo qual o inconsciente "pensa" e "prepara" soluções. Trata-se do caso de um jovem estudante de teologia que não conheço pessoalmente. Ele tinha dificuldades no tocante à sua convicção religiosa. Nessa época teve o seguinte sonho:
Ele estava na presença de um velho bonito, todo vestido de preto. Sabia que era um mago branco. Este acabara de falar longamente com ele, mas o sonhador não se lembrava do que ouvira. Somente se lembrava das seguintes palavras: "E para isto precisamos da ajuda de um mago negro". Neste momento abriu-se uma porta e um velho semelhante ao primeiro entrou, mas estava vestido de branco. Ele disse ao mago branco: "Preciso de teu conselho", lançando um olhar interrogativo e de soslaio ao sonhador. O mago branco então falou: "Podes falar sem receio, ele é inocente ". O mago negro começou então a contar sua história. Ele viera de um país distante, onde ocorrera algo estranho. O país era governado por um velho rei que estava prestes a morrer, Ele -orei- escolhera para si um túmulo. Pois naquele país havia um grande número de túmulos dos velhos tempos, e o rei escolhera para si o mais belo. Segundo a lenda, uma virgem nele estava sepultada. O rei ordenou que o túmulo fosse aberto a fim de prepará-lo para si. Mas quando os ossos foram expostos ao ar, reanimaram-se subitamente, transformando-se num cavalo negro, que fugiu imediatamente para o deserto e nele desapareceu. O mago negro ouvira falar dessa historia e logo pôs-se a caminho para seguir o cavalo. Depois de muitos dias seguindo os seus rastros, chegou ao deserto, atravessou-o até encontrar de novo campos verdes. La encontrou o cavalo pastando e descobriu alguma coisa, precisando por isso do conselho do mago [43] branco. Encontrara as chaves do paraíso e não sabia o que fazer com elas. Neste momento emocionante o sonhador acordou.

À luz do que expusemos, não é difícil atinar com o significado do sonho: o velho rei é o símbolo predominante que deseja o descanso eterno, e isso no mesmo lugar em que outras "dominantes" análogas jazem enterradas. Sua escolha recai sobre o túmulo da anima, que dorme o sono da morte qual uma Bela Adormecida, enquanto um princípio válido (principe ou princeps) regula e exprime a vida. Mas quando o rei chega a seu final, ela recobra a vida e se transforma no cavalo negro que, segundo a parábola de Platão exprime o caráter indomável da natureza passional. Quem quer que o siga chega ao deserto, isto é, a um país selvagem, distante dos homens - imagem do isolamento espiritual e moral. Mas é lá que estão as chaves do paraíso.

Mas o que é paraíso? Obviamente o Jardim do Éden com a árvore da vida e do conhecimento bifronte e seus quatro rios. Na versão cristã também é a cidade celeste do Apocalipse, o qual, como o Jardim do Éden, é concebida como mandala. Mas a mandala é um símbolo de individuação. É portanto o mago negro que encontra a chave para a solução das dificuldades de fé que oprimem o sonhador, as chaves que abrem o caminho da individuação. O par de opostos deserto-paraíso significa portanto o outro par de opostos isolamento-individuação ou o tornar-se si-mesmo.

Esta parte do sonho é ao mesmo tempo uma notável paráfrase da palavra do Senhor editada e completada por HUNT e GRENFELL, onde o caminho para o reino dos céus é mostrado pelos animais e onde se lê na admonição: "Por isso conhecei-vos a vós mesmos, pois sois a Cidade e a Cidade é o Reino”. Além disso também é uma paráfrase da serpente do paraíso que persuadiu nossos primeiros pais a cometer o pecado, e conduziu posteriormente à redenção da humanidade pelo Filho de Deus. Este nexo causai, como se sabe, propiciou a identificação ofídica de serpente com o Soter (Salvador). O cavalo negro e o mago negro são elementos meio maléficos, cuja relação como bem é indicada pela troca do vestuário. Ambos os magos são os dois aspectos do velho sábio, o mestre superior e protetor, do arquétipo do espirito, representando o significado preexistente, oculto na vida caótica. Ele é o pai da alma, a qual, miraculosamente, também é sua virgem mãe, razão pela qual os alquimistas o denominaram [44] "filho antiquíssimo da mãe". O mago negro e o cavalο negro correspondem à descida ao obscuro nos sonhos anteriormente mencionados.

Que lição insuportável e difícil para um jovem estudante de teologia! Felizmente ele não percebeu que o pai de iodos os profetas lhe falara nos sonhos, colocando-lhe ao alcance da mão um grande segredo. Espantamo-nos decerto com a inoportunidade de tais ocorrências. Por que este desperdício? Devemos admitir que não sabemos a influência que tal sonho exerceu sobre o sonhador a longo prazo, mas devemos ressaltar que para mim, pelo menos, este sonho teve um grande significado. Não se perdeu, mesmo que o sonhador não o tivesse compreendido,
O mestre deste sonho tenta obviamente representar o bem e o mal, em sua função conjunta, provavelmente como uma resposta ao conflito moral ainda não resolvido na alma cristã. Com esta relativiização peculiar dos opostos encontramo-nos perto das ideias do Oriente, do "nirdvandva" (nirvana) da filosofia hindu, de libertação dos opostos, indicada como uma solução possível para a conciliação do conflito. Quão perigosamente significativa é a relatividade oriental do bem e do mal evidencia-se na perguntada sabedoria indiana: "Quem demora mais para alcançar a perfeição, o homem que ama Deus, ou aquele que o odeia?" A resposta é: "O homem que ama Deus precisa de sete reencarnações para alcançar a perfeição e aquele que odeia Deus precisa de apenas três, pois quem o odeia, pensará mais nele do que quem o ama". A libertação dos opostos pressupõe uma equivalência funcional dos mesmos, o que é contraditório para o sentimento cristão. No entanto, como o exemplo do sonho mostra, a cooperação ordenada dos opostos morais é uma verdade natural reconhecida pelo Oriente. O mais claro exemplo disto nós o encontramos na filosofia taoista. Mas na tradição cristã também há várias afirmações que se aproximam deste ponto de vista. Bastaria lembrar a parábola do administrador infiel.

Nosso sonho não é o único que diz respeito a isso, pois a tendência para relativizar os opostos é uma característica notável do inconsciente. Devemos porém acrescentar que isto só é verdade nos casos de sensibilidade moral exagerada; em outros casos o inconsciente pode apontar inexoravelmente para o caráter irreconciliável dos opostos. Como regra geral, o ponto de vista do inconsciente é compensatório em relação à atitude consciente. Por isso, podemos dizer que o sonho citado pressupõe as condições e dúvidas específicas de uma consciência teológica protestante. Isto significa uma limitação de sua asserção a uma área problemática determinada. Mas, mesmo com esta limitação quanto à validade, os sonhos demonstram a supremacia do seu ponto de vista. Por isso, o significado [45] do sonho é expresso adequadamente pela voz e opinião de um mago sábio, o qual supera em todos os sentidos a consciência do sonhador. O mago é sinônimo do velho sábio, que remonta diretamente à figura do xamâ na sociedade primitiva. Como a anima, ele é um daimon imortal que penetra com a luz do sentido a obscuridade caótica da vida. Ele é o iluminador. o professor e mestre, um psicopompo (guia das almas) de cuja personificação nem NIETZSCHE, o "destruidor das tábuas da Lei", pôde escapar. NIETZSCHE invocou, através de sua reencarnação no Zaratustra. o espírito superior de uma idade quase homérica, para tornar-se portador e porta-voz de sua própria iluminação e êxtase dionisíaco. Para ele, Deus tinha morrido, mas o daimon da sabedoria tornou-se, por assim dizer, seu desdobramento físico. Ele mesmo diz:

Então, de repente, amiga! Um tornou-se Dois - Ε Zaratustra passou a meu lado...

Para NIETZSCHE, Zaratustra é mais do que uma figura poética, é uma confissão involuntária. Ele também se perdera na obscuridade de uma vida descristianizada, distante de Deus. Por isso, veio a ele o revelador e iluminador como fonte expressiva de sua alma. Esta é a origem da linguagem hierátíca do Zaratustra, pois este é o estilo do arquétipo.

Na vivência deste arquétipo, o homem moderno experimenta a forma mais arcaica do pensar, como uma atividade autônoma cujo objeto somos nós mesmos. Hermes Trismegisto, ou o Thoth da literatura hermética, Orfeu, o Poimandres e seu parentesco com o Poimen de Hermes, são outras formulações da mesma experiência. Se o nome "Lucifer" não fosse marcado pelo preconceito, seria provavelmente o nome mais adequado para este arquétipo. Bastou-me por isso designá-lo como o arquétipo do velho sábio, ou do sentido. Como todos os arquétipos, este também tem um aspecto positivo e outro negativo, mas não entrarei aqui em maiores detalhes. O leitor encontrará uma exposição detalhada da dupla face do "velho sábio" em meu ensaio sobre a "Fenomenologia do espírito no conto de fadas".

Os três arquétipos acerca dos quais já falamos - a sombra, a anima e o velho sábio - são algo que se apresenta de um modo personificado na experiência direta. No que foi dito acima, tentei indicar quais são as [46] condições psicológicas e gerais que dão origem a tal experiência. Mas o que afirmei não passou de racionalizações abstratas. Na realidade, deveríamos dar uma descrição do processo tal como se apresenta na experiência imediata. No decorrer desse processo os arquétipos aparecem como personalidades atuantes em sonhos e fantasias. O processo mesmo constitui outra categoria de arquétipos que poderíamos chamar de arquétipos de transformação. Estes não são personalidades, mas sim situações típicas, lugares, meios, caminhos, etc, simbolizando cada qual um tipo de transformação. Tal como as personalidades, estes arquétipos também são símbolos verdadeiros e genuínos que não podemos interpretar exaustivamente, nem como σημεϊα (sinais), nem como alegorias. São símbolos genuínos na medida em que eles são ambíguos, cheios de pressentimentos e, em última análise, inesgotáveis. Os princípios fundamentais, os άρχαί do inconsciente, são indescritíveis, dada a riqueza de referências, apesar de serem reconhecíveis. O intelecto discriminado sempre procura estabelecer o seu significado unívoco e perde o essencial, pois a única coisa que é possível constatar e que corresponde à sua natureza é a multiplicidade de sentido, a riqueza de referências quase ilimitadas que impossibilita toda e qualquer formulação unívoca, Além disso, esses arquétipos são por princípio paradoxais a exemplo do espírito que os alquimistas consideravam como senex et iuvenis simut.

Se quisermos ter uma ideia do processo simbólico podemos tomar como exemplo as séries de imagens alquímicas, embora tais símbolos sejam em sua maioria tradicionais, mesmo que de obscura procedência e significação. O sistema dos chacras tântrícos, ou o sistema nervoso místico da ioga chinesa" são exemplos notáveis. A série de imagens do taro também parecem ser derivados dos arquétipos de transformação, opinião que foi reforçada para mim através de uma conferência esclarecedora do Professor BERNOUILLI.

O processo simbólico é uma vivência na imagem e da imagem. Seu desenvolvimento apresenta geralmente uma estrutura enantiodrómica, tal como o texto do / Ching, apresentando portanto um ritmo de negativo e positivo, de perda e ganho, de escuro e claro. Seu início é quase sempre caracterizado por um beco sem saída ou qualquer outra situação [47] impossível; sua meta, em amplo sentido, é a iluminação ou consciência superior, através da qual a situação inicial é superada num nível superior. Em relação ao fator tempo, o processo pode ser comprimido num único sonho ou num curto momento de vivência, ou então estender-se por meses ou anos. dependendo da situação inicial do indivíduo envolvido no processo e da meta a ser atingida. É óbvio que a riqueza dos símbolos oscila extraordinariamente. Tudo, no entanto, é vivenciado numa forma imagética, isto é, simbolicamente, não se tratando porém de perigos fictícios, mas de riscos muito reais, dos quais pode depender todo um destino. O perigo principal é sucumbir à influência fascinante dos arquétipos, o que pode acontecer mais facilmente quando as imagens arquetípicas não são conscientizadas. Caso exista uma predisposição psicótica pode acontecer que as figuras arquetípicas - as quais possuem uma certa autonomia graças à sua numinosidade natural - escapem ao controle da consciência, alcançando uma total independência, ou seja, gerando fenômenos de possessão. No caso de uma possessão pela anima, por exemplo, o paciente quer transformar-se por autocastração numa mulher chamada Maria, ou então receia que algo semelhante aconteça violentamente. O melhor exemplo disto é o livro de SCHREBER". Os pacientes descobrem muitas vezes toda uma mitologia de anima, com numerosos temas arcaicos. Um caso deste tipo foi publicado há tempos por NELKEN. Outro paciente descreveu suas próprias experiências em um livro e comentou-as . Menciono estes casos porque ainda há pessoas que pensam serem os arquétipos quimeras subjetivas do meu cérebro.

As coisas que vem à tona brutalmente nas doenças mentais permanecem ainda veladas na neurose, mas não deixam de influenciar a consciência. Quando, no entanto, a análise peneira no pano de fundo dos fenômenos da consciência, ela descobre as mesmas figuras arquetípicas que avivam os delírios psicóticos. Finalmente, numerosos documentos histórico-literários comprovam que tais arquétipos existem praticamente por toda parte, tratando-se portanto de fantasias normais e não de produtos monstruosos de insanidade. O elemento patológico não reside na existência destas ideias, mas na dissociação da consciência que não consegue mais controlar o inconsciente. Em todos os casos de dissociação é [48] portanto necessário integrar o inconsciente na consciência. Trata-se de um processo sintético que denominei "processo de índividuação".

Este processo corresponde ao decorrer natural de uma vida, em que o indivíduo se torna o que sempre foi. Ε porque o homem tem consciência, um desenvolvimento desta espécie não decorre sem dificuldades; muitas vezes ele é vário e perturbado, porque a consciência se desvia sempre de novo da base arquetípica instintual, pondo-se em oposição a ela. Disto resulta a necessidade de uma síntese das duas posições. Isto implica uma psicoterapia mesmo no nível primitivo, onde ele toma a forma de rituais de reparação. Como exemplos menciono a identificação regressiva dos aborígines australianos com os ancestrais no período alcheringa, a identificação com os filhos do Sol entre os pueblos de Taos, a apoteose de Hélio no mistério de ísis, em APULEIO, etc. O método terapêutico da psicologia complexa consiste por um lado numa tomada de consciência, o mais completa possível, dos conteúdos inconscientes constelados, e por outro lado numa síntese dos mesmos com a consciência através do ato cognitivo. Dado que o homem civilizado possui um grau de dissociabilidade muito elevado e dele se utiliza continuamente a fim de evitar qualquer possibilidade de risco, não é garantido que o conhecimento seja acompanhado da ação correspondente. Pelo contrário, devemos contar com a extrema ineficácia do conhecimento e insistir por isso numa aplicação significativa do mesmo. O conhecimento por si mesmo não basta, nem implica alguma força moral. Nestes casos vemos claramente como a cura da neurose é um problema moral.

Uma vez que os arquétipos são relativamente autônomos como todos os conteúdos numinosos, não se pode integrá-los simplesmente por meios racionais, mas requerem um processo dialético, isto é, um confronto propriamente dito que muitas vezes é realizado pelo paciente em forma de diálogo. Assim ele concretiza, sem o saber, a definição alquimica da meditação, como colloquium cum suo angelo bonot como diálogo interior com seu anjo bom. Este processo tem um decurso dramático, com muitas peripécias. Ele é expresso ou acompanhado por símbolos oníricos, relacionados com as representations colectives, as quais sempre retrataram os processos animicos da transformação sob a forma de temas mitológicos . [49] No breve espaço de uma conferência devo contentar-me com a apresentação de poucos exemplos ide arquétipos. Escolhi os que na análise do inconsciente masculino desempenham o papel principal; também procurei esboçar rapidamente o processo psíquico da transformação em que eles se manifestam. A partir da primeira publicação desta conferência, as figuras aqui comentadas da sombra, da anima e do velho sábio, juntamente com as respectivas figuras do inconsciente feminino, foram elaboradas com maiores detalhes nas minhas contribuições ao símbolismo do si-mesmo, além de ter sido analisado mais profundamente o processo da individuação em sua relação com o simbolismo alquímico. [50]
 

Psicologia Analítica

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Os arquétipos e o inconsciente coletivo

A hipótese de um inconsciente coletivo pertence àquele tipo de conceito que a princípio o público estranha, mas logo dele se apropria, passando a usá-lo como uma representação corrente, tal como aconteceu com o conceito do inconsciente em geral. A ideia filosófica do inconsciente, tal como é encontrada principalmente em CG, CARUS e E. v. HARTMANN, depois de ter desaparecido sem deixar vestígios significativos na onda avassaladora do materialismo e do empirismo, reapareceu pouco a pouco no âmbito da psicologia médica, orientada para as ciências naturais.
A princípio o conceito do inconsciente limitava-se a designar o estado dos conteúdos reprimidos ou esquecidos. O inconsciente, em FREUD, apesar de já aparecer - pelo menos metaforicamente - como sujeito atuante, nada mais é do que o espaço de concentração desses conteúdos esquecidos e recalcados, adquirindo um significado prático graças a eles. Assim sendo, segundo FREUD, o inconsciente é de natureza exclusivamente pessoal , muito embora ele tenha chegado a discernir as formas de pensamento arcaíco-mitológícas do inconsciente.
Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é indubitavelmente pessoal. Nós a denominamos inconsciente pessoal. Este porém repousa sobre uma camada mais profunda, que já não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais profunda é o que chamamos inconsciente coletivo. Eu optei pelo termo "coletivo" pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal; isto é, contrariamente à psique pessoal ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são 'cum grano salis' os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos. Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos, constituindo portanto um substrato psíquico comum de natureza psíquica suprapessoal que existe em cada indivíduo. [15]

Uma existência psíquica só pode ser reconhecida pela presença de conteúdos capazes de serem conscientizados. Só podemos falar, portanto, de um inconsciente na medida em que comprovarmos os seus conteúdos. Os conteúdos do inconsciente pessoal são principalmente os complexos de tonalidade emocional, que constituem a intimidade pessoal da vida anímica. Os conteúdos do inconsciente coletivo, por outro lado, são chamados arquétipos.

O termo archetypus já se encontra em FILO JUDEU como referência à imago dei no homem. Em IRÍNEU também, onde se lê: "Mundi fabricator non a semetipso fecit haec, sed de alienis archetypis transtulit " (O criador do mundo não fez essas coisas diretamente a partir de si mesmo, mas copiou-as de outros arquétipos). No Corpus Hermeücum , Deus é denominado το αρχέτυπον φως (a luz arquetípica). Em DIONÍSIO AREOPAGITA encontramos esse termo diversas vezes como "De coelesti hierarchia"' : αι αύλαι άρχετυπιαι (os arquétipos imateriais), bem como "De divinis nominibus " . O termo arquétipo não é usado por AGOSTINHO, mas sua ideia no entanto está presente; por exemplo em ''De divers is quaestionibus ", "ideae... quae ipsae format ae non sunt... quae in divina inielligentia continentur" . (ideias... que não são formadas, mas estão contidas na inteligência divina). "Archetypus" é uma perífrase explicativa do είδος platônico. Para aquilo que nos ocupa, a denominação é precisa e de grande ajuda, pois nos diz que, no concernente aos conteúdos do inconsciente coletivo, estamos tratando de tipos arcaicos - ou melhor - primordiais, isto é, de imagens universais que existiram desde os tempos mais remotos. O termo représentations collectives, [16] usado por LÉVY-BRUHL para designar as figuras simbólicas da cosmovisão primitiva, poderia também ser aplicado aos conteúdos inconscientes, uma vez que ambos têm praticamente o mesmo significado. Os ensinamentos tribais primitivos tratam de arquétipos de um modo peculiar. Na realidade, eles não são mais conteúdos do inconsciente, pois já se transformaram em fórmulas conscientes, transmitidas segundo a tradição, geralmente sob forma de ensinamentos esotéricos. Estes são uma expressão típica para a transmissão de conteúdos coletivos, originariamente provindos do inconsciente.

Outra forma bem conhecida de expressão dos arquétipos é encontrada no mito e no conto de fada. Aqui também, no entanto, se trata de formas cunhadas de um modo específico e transmitidas através de longos períodos de tempo. O conceito de "archetypus" só se aplica indiretamente às représentations collectives, na medida em que designar apenas aqueles conteúdos psíquicos que ainda não foram submetidos a qualquer elaboração consciente. Neste sentido, representam, portanto, um dado anímico imediato. Como tal, o arquétipo difere sensivelmente da formula historicamente elaborada. Especialmente em níveis mais altos dos ensinamentos secretos, os arquétipos aparecem sob uma forma que revela seguramente a influência da elaboração consciente, a qual julga e avalia. Sua manifestação imediata, como a encontramos em sonhos e visões, é muilo mais individual, incompreensível e ingênua do que nos mitos, por exemplo. O arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente, o qual se modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo matizes que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifesta.

O significado do termo "archetypus" fica sem dúvida mais claro quando se relaciona com o mito, o ensinamento esotérico e o conto de fada. O assunto se complica, porém, se tentarmos fundamentá-lo psicologicamente. Até hoje os estudiosos da mitologia contentavam-se em recorrer a ideias solares, lunares, meteorológicas, vegetais, etc. O fato de que os mitos são antes de mais nada manifestações da essência da alma foi negado de modo absoluto até nossos dias. O homem primitivo não se interessa pelas explicações objetivas do óbvio, mas, por outro lado, tem uma necessidade imperativa, ou melhor, a sua alma inconsciente é impelida irresistívelmente a assimilar toda experiência externa sensorial a [17] acontecimentos anímicos. Para o primitivo não basta ver o Sol nascer e declinar; esta observação exterior deve corresponder - para eíe - a um acontecimento anímico, isto é, o Sol deve representar em sua trajetória o destino de um deus ou herói que, no fundo, habita unicamente a alma do homem. Todos os acontecimentos mítologizados da natureza, tais como o verão e o inverno, as fases da lua, as estações chuvosas, etc, não são de modo algum alegorias destas, experiências objetivas, mas sim, expressões simbólicas do drama interno e inconsciente da alma, que a consciência humana consegue apreender através de projeção - isto é, espelhadas nos fenômenos da natureza. A projeção é tão radical que foram necessários vários milênios de civilização para desligá-la de algum modo de seu objeto exterior. No caso da astrologia, por exemplo, chegou-se a considerar esta antiquíssima scientia intuitiva como absolutamente herética, por não conseguir separar das estrelas a caracterológia psicológica. Mesmo hoje, quem acredita ainda na astrologia, sucumbe quase invariavelmente à antiga superstição da influência dos astros. Ε todo aquele que é capaz de calcular um horóscopo deveria saber que desde os dias de HIPARCO DE ALEXANDRIA o ponto vernal é fixado em 0” de Áries e assim todo horóscopo se baseia num zodíaco arbitrário, porque desde essa época o ponto vernal avançou gradativamente para os graus iniciais de Peixes devido à precessão dos equinócios.

O homem primitivo é de uma tal subjetividade que é de admirar-se o fato de não termos relacionado antes os mitos com os acontecimentos anímicos. Seu conhecimento da natureza é essencialmente a linguagem e as vestes externas do processo anímico inconsciente. Mais precisamente pelo fato de esse processo ser inconsciente é que o homem pensou em tudo, menos na alma, para explicar o mito. Ele simplesmente ignorava que a alma contém todas as imagens das quais surgiram os mitos, e que nosso inconsciente é um sujeito atuante e padecente, cujo drama o homem primitivo encontra analogicamente em todos os fenômenos grandes e pequenos da natureza.
"As estrelas do teu próprio destino jazem em teu peito", diz Seni a Wallenstein, dito que resgataria a astrologia, por pouco que soubéssemos [18] deste segredo do coração. Mas até então o homem pouco se interessara por isso. Nem mesmo ouso afirmar que as coisas tenham melhorado atualmente.

O ensinamento tribal é sagrado e perigoso. Todos os ensinamentos secretos procuram captar os acontecimentos invisíveis da alma, e todos se arrogam a autoridade suprema. O que é verdadeiro em relação ao ensinamento primitivo o é, em maior grau, no tocante às religiões dominantes do mundo. Elas contêm uma sabedoria revelada, originalmente oculta, e exprimem os segredos da alma em imagens magníficas. Seus templos e suas escrituras sagradas anunciam em imagens e palavras a doutrina santificada desde eras remotas, acessível a todo coração devoto, toda visão sensível, todo pensamento que atinge a profundeza. Sim, somos obrigados mesmo a dizer que quanto mais bela, mais sublime e abrangente se tornou a imagem transmitida pela tradição, tanto mais afastada está da experiência individual. Só nos resta intuí-la e senti-la, mas a experiência originária se perdeu.

Por que é a psicologia a mais nova das ciências empíricas? Por que não se descobriu há muito o inconsciente e não se resgatou o seu tesouro de imagens eternas? Simplesmente porque tínhamos uma fórmula religiosa para todas as coisas da alma - muito mais bela e abrangente do que a experiência direta. Se a visão cristã do mundo esmaeceu para muitos, as câmaras dos tesouros simbólicos do Oriente ainda repletos de maravilhas podem nutrir por muito tempo ainda o desejo de contemplar, usando novas vestes. Além do mais, estas imagens - sejam elas cristãs, budistas ou o que for - são lindas, misteriosas e plenas de intuição. Na verdade, quanto mais nos aproximarmos delas e com elas nos habituarmos, mais se desgastarão, de tal modo que só restará a sua exterioridade banal, em seu paradoxo quase isento de sentido. O mistério do nascimento virginal ou a homoousia do Filho com o Pai, ou a Trindade, que não é uma tríade, não propiciam mais o vôo da fantasia filosófica. Tomaram-se meros objetos de fé. Não surpreende, portanto, que a necessidade religiosa, o sentido da fé e a especulação filosófica do europeu culto se sintam atraídos pelos símbolos do Oriente - pelas grandiosas concepções da divindade na índia e pelos abismos da filosofia taoísta na China - tal como outrora o coração e o espírito do homem da Antiguidade foram seduzidos pelas ideias cristãs. Há muitos que se entregaram inicialmente aos símbolos cristãos a ponto de se emaranharem numa neurose kierkegaardiana, ou cuja relação com Deus - devido ao crescente depauperamento da simbólica, evoluiu para uma insuportável e sofisticada relação Eu-Tu - para [19] caírem depois vítimas da novidade mágica e exótica da simbólica oriental. O sucumbir à nova simbólica não significa necessariamente sempre uma derrota; apenas prova a abertura e vitalidade do sentimento religioso. Observamos a mesma coisa nos orientais cultos, que não raro se sentem atraídos pelo símbolo cristão e pela ciência tão inadequada à mente oriental, desenvolvendo mesmo uma invejável compreensão dos mesmos. Render-se ou sucumbir a estas imagens eternas é até mesmo normal. É por isso que existem tais imagens. Sua função é atrair, convencer, fascinar e subjugar. Elas são criadas a partir da matéria originária da revelação e representam a sempre primeira experiência da divindade. Por isso proporcionam ao homem o pressentimento do divino, protegendo-o ao mesmo tempo da experiência direta do divino. Graças ao labor do espírito humano através dos séculos, tais imagens foram depositadas num sistema abrangente de pensamentos ordenadores do mundo, e ao mesmo tempo são representadas por uma instituição poderosa e venerável que se expandiu, chamada Igreja.

O melhor exemplo que ilustra o que penso é o místico e eremita suíço NICOLAU DE FLÜE, canonizado recentemente. Talvez sua experiência mais importante foi a chamada visão da Trindade que obcecou seu espírito a ponto de tê-la mandado pintar na parede de sua cela, A visão foi representada numa pintura da época e está preservada na Igreja paroquial de Sachsein: é uma mandata dividida em seis partes, cujo centro é o semblante coroado de Deus. Sabe-se que o BRUDER KLAUS investigou a natureza de sua visão com a ajuda de um livrinho ilustrado de um místico alemão, numa tentativa de compreender sua experiência primordial. Durante anos ocupou-se com esse trabalho. É o que designo por "elaboração" do símbolo. Sua reflexão sobre a natureza da visão, influenciada pelos diagramas místicos que usou como fio condutor, levou-o necessariamente à conclusão de que deveria ter visto a própria Santíssima Trindade e, portanto, o Summum bonum, o amor eterno. A representação expurgada de Sächseln corresponde a esta visão.

A experiência original, no entanto, fora bem diversa. Em seu êxtase, a visão que aparecera a BRUDER KLAUS era tão terrível que seu próprio rosto se desfigurou de tal modo que as pessoas se assustavam, temendo-o. É que ele se defrontara com uma visão de máxima intensidade. WOELFLIN escreve a respeito: "Todos os que se aproximavam dele ficavam assustados. Sobre a causa deste terror, ele mesmo costumava [20] dizer que havia visto uma luz penetrante, representando um semblante humano. Ao visualizá-lo temera que seu coração explodisse em estilhaços. Por isso, tomado de pavor, desviara o rosto, caindo por terra. Eis a razão pela qual o seu rosto inspirava terror aos outros".
Essa visão tem sido relacionada com a. de Apocalipse 1,13s, isto é, com aquela estranha imagem apocalíptica de Cristo, só ultrapassada em estranheza e monstruosidade pelo cordeiro terrífico de sete olhos e sete chifres (Apocalipse 5,6s). É difícil relacionar esta figura com o Cristo dos Evangelhos. Logo de início esta visão foi interpretada pela tradição de uma determinada maneira. O humanista KARL BOVILLUS escreve em 1508 a um amigo: "Quero falar-te acerca de um semblante que certa vez lhe aparecera no céu, numa noite estrelada, quando ele se encontrava absorto em oração e contemplação. Viu a forma de um rosto humano, de expressão terrível, cheia de ira, ameaçadora" etc.
Esta interpretação coincide perfeitamente com a amplificação moderna do Apocalipse 1,13 , Além disso não devemos esquecer as demais visões de BRUDER KLAUS; por exemplo, a de Cristo vestindo pele de urso, do Deus homem e mulher, e dele próprio (BRUDER KLAUS) como Filho, etc. Tais visões apresentam características muito pouco dogmáticas.

A imagem da Trindade na Igreja de Sächseln, bem como a simbólica da roda no chamado Tratado do Peregrino foram relacionadas tradicionalmente com essa grande visão. BRUDER KLAUS mostrou a imagem da roda ao peregrino que o visitava. É evidente que essa imagem o preocupara. BLANKE, contrariamente à tradição, nega que haja qualquer relação [21] entre a visão e a representação da Trindade. Acho exagerado tal ceticismo. Deve ter havido algum motivo para que BRUDER KLAUS se interessasse pela imagem da roda. Visões semelhantes provocam muitas vezes confusão mental e desintegração {o coração que "explode em estilhaços"). A experiência nos ensina que o "círculo protetor", a mandala, é o antídoto tradicional para os estados mentais caóticos. É, portanto, bastante compreensível que BRUDER KLAUS ficasse fascinado pelo símbolo da roda, A interpretação da visão terrível como uma experiência de Deus não me parece fora de propósito. Relacionar a grande visão com o quadro da Trindade de Sächseln, ou seja, com o símbolo da roda, parece-me portanto provável, inclusive por motivos internos e psicológicos.

Esta visão, sem dúvida alguma, apavorante, irrompendo como um vulcão na visão de mundo religiosa de BRUDER KLAUS sem qualquer prelúdio dogmático ou comentário exegético, exigiu um longo trabalho de assimilação a fim de ordenar a estrutura total da alma, restaurando seu equilíbrio alterado. A elaboração dessa vivência ocorreu sobre a base outrora inabalável do dogma, o qual provou a sua força de assimilação, transformando algo de terrivelmente vivo na beleza salvifíca da ideia da Trindade. Mas a elaboração também poderia ter ocorrido no terreno totalmente diverso da visão e sua realidade numinosa -provavelmente em prejuízo do conceito cristão de Deus e em prejuízo ainda maior do próprio BRUDER KLAUS que, neste caso, não se teria tornado um santo, mas sim um herético (ou um lunático), cuja vida terminaria numa fogueira.

Este exemplo demonstra a utilidade do símbolo dogmático: ele formula uma vivência anímica tão tremenda quanto perigosamente decisiva, que se chama "experiência de Deus"; devido à sua suprema intensidade reveste-se de uma forma suportável para a capacidade de compreensão humana, sem comprometer o alcance dessa experiência ou prejudicar a transcendência de seu significado. A visão da ira divina que também encontramos - em certo sentido - em JACOB BÖHME não condiz com a imagem de Deus no Novo Testamento, do Pai amoroso e celeste. Este fato poderia ter gerado um conflito interno. O espírito da época até mesmo ter-se-ia prestado a isso - fins do século XV, época de um NICOLAU DE CUSA que com sua fórmula do "complexio oppositomm" antecipava o cisma iminente! Pouco tempo depois, o conceito javístico de Deus foi alvo de uma série de renascimentos no Protestantismo. Javé é um conceito de Deus que ainda contém opostos inseparáveis. [22] 
BRUDER KLAUS rompeu com o convencional e com a tradição, ao abandonar sua casa e família, indo morar sozinho por muito tempo, mergulhando seu olhar tão profundamente no espelho escuro, que a experiência primordial miraculosa e terrífica o colheu. Nesta situação, a imagem dogmática da divindade, desenvolvida através dos séculos, teve nele o efeito de uma poção salular de cura. Ajudou-o a assimilar a irrupção fatal de uma imagem arquetípica, a fim de evitar seu próprio estraçalhamento. ÂNGELO SILÉSIO não foi tão feliz; as contradições internas o desintegraram, pois em sua época a firmeza da Igreja que garante o dogma já estava abalada.

JACOB BÖHME também conhece um Deus do "fogo da ira", um verdadeiro absconditus. Por um lado, ele foi capaz de transpor a profunda e dilacerante contradição interior através da fórmula cristã de Paí-Filho, incorporando especulativa mente sua visão de mundo, a qual, apesar de gnóstica, era cristã em todos os pontos essenciais. De outro modo ter-se-ia tomado um dualista. Por outro lado, não há dúvida de que a alquimia veio em seu auxílio, pois há muito tempo ele vinha abrindo o caminho da união dos opostos. Em todo caso, os vestígios do conflito ainda são visíveis em sua mandala acrescentada às "Quarenta questões acerca da alma", mostrando a natureza da divindade. A mandala é dividida em duas metades, uma escura e outra luminosa, e os semicírculos que lhes correspondem, em lugar de se completarem fechando o círculo, dão-se as costas um ao outro.

O dogma substitui o inconsciente coletivo, na medida em que o formula de modo abrangente. O estilo de vida católico neste sentido desconhece completamente tais problemas psicológicos. Quase toda a vida do inconsciente coletivo foi canalizada para as ideias dogmáticas de natureza arquetípica, fluindo como uma torrente controlada no simbolismo do credo e do ritual. Ela manifesta-se na interioridade da alma do católico. O inconsciente coletivo, tal como hoje o conhecemos, nunca foi assunto de psicologia, pois antes da Igreja cristã existiam os antigos mistérios, cuja origem remonta às brumas do neolítíco. A humanidade sempre teve em abundância imagens poderosas que a protegiam magicamente contra as coisas abissais da alma, assustadoramente vivas. As figuras do inconsciente sempre foram expressas através de imagens protetoras e curativas, e assim expelidas da psique para o espaço cósmico. [23] 

A íconociastia da Reforma abriu literalmente uma fenda na muralha protetora das imagens sagradas e desde então elas vêm desmoronando umas após as outras. Tornaram-se precárias por colidirem com a razão desperta. Além do mais, muito antes seu significado já fora esquecido. Terá sido realmente um esquecimento? Ou, no fundo, o homem jamais soube o que significavam, e só recentemente a humanidade protestante percebeu que não temos a menor ideia do que quer dizer o nascimento virginal, a divindade de Cristo, e as complexidades da Trindade? Até parece que essas imagens simplesmente surgiam e eram aceitas sem questionamento, sem reflexão, tal como as pessoas enfeitam as árvores de Natal e escondem ovos de Páscoa, sem saberem o que tais costumes significam. O fato é que as imagens arquetípicas têm um sentido a priori tão profundo que nunca questionamos seu sentido real. Por isso os deuses morrem, porque de repente descobrimos que eles nada significam, que foram feitos pela mão do homem, de madeira ou pedra, puras inutilidades. Na verdade o homem apenas descobriu que até então jamais havia pensado acerca de suas imagens. Ε quando começa a pensar sobre elas, recorre ao que se chama '"razão"; no fundo, porém, esta razão nada mais é do que seus preconceitos e miopias.

A história da evolução do protestantismo é uma Íconociastia crônica. Um muro após o outro desabava. Ε nem foi tão difícil esta destruição, uma vez que a autoridade da Igreja já estava abalada. Sabemos como as coisas entraram em colapso, uma a uma, tanto as grandes como as pequenas, no coletivo e no individual, e como surgiu a alarmante pobreza dos símbolos atualmente reinantes. Com isso, a Igreja também perdeu sua força; uma fortaleza, despojada de seus bastiões e casamatas; uma casa, cujas paredes foram demolidas e que fica exposta a todos os ventos e perigos do mundo. Um colapso deveras lamentável, que fere o senso histórico, pois a desintegração do Protestantismo em centenas de denominações diferentes é o sinal inconfundível de que a inquietação perdura.

O homem protestante foi relegado a uma falta de proteção de tal ordem que faria tremer o homem natural. A consciência esclarecida nega-se a reconhecer tal fato, mas procura em silêncio em outro lugar o que foi perdido na Europa. Buscam-se imagens efetivas, formas de pensamento que tranquilizem inquietações do coração e da mente e os tesouros do Oriente são encontrados.

A rigor, podemos duvidar disto. Ninguém obrigou os romanos a importarem cultos asiáticos, como se fossem bens de consumo. Se o cristianismo tivesse sido de falo tão estranho e inadequado aos povos [24] germânicos, eles o teriam rejeitado facilmente, depois do declínio do prestígio das legiões romanas. Mas o cristianismo permaneceu, porque corresponde ao modelo arquetípico vigente. No entanto, com o correr dos séculos, ele transformou-se em algo que teria causado espanto ao seu fundador, caso ainda estivesse vivo; e o cristianismo de negros e indianos também tinham motivo a considerações históricas. Por que, então, o Ocidente não deveria assimilar formas orientais? Os romanos viajavam a Eleusis, à Samotrácia e ao Egito, a fim de serem iniciados. Parece até mesmo que havia no Egito um verdadeiro turismo desse tipo.
Os deuses helênicos e romanos morriam da mesma doença que os nossos símbolos cristãos: naquele tempo, como hoje, os homens perceberam que nada pensavam a respeito. Contrariamente, os deuses estrangeiros ainda tinham mana inexaurido. Seus nomes eram estranhos e incompreensíveis e seus atos portentosamente obscuros, bem diversos da desgastada chronique scandaleuse do Olimpo. Os símbolos asiáticos pelo menos não eram compreensíveis, não sendo portanto vulgares como os deuses convencionais. O fato de que o povo aceitasse o novo tão impensadamente quanto havia rejeitado o velho não constituía problema nessa época.

Hoje seria isto um problema? Será que podemos vestir como uma roupa nova símbolos já feitos, crescidos em solo exótico, embebidos de sangue estrangeiro, falados em línguas estranhas, nutridos por uma cultura estranha, evoluídos no contexto de uma história estranha? Um mendigo que se envolve numa veste real; um rei que se disfarça em mendigo? Sem dúvida, isto é possível. Ou há dentro de nós uma ordem de não participar às mascaradas, mas talvez até de costurarmos nossa própria vestimenta?

Estou convencido de que o depauperamento crescente dos símbolos tem um sentido. O desenvolvimento dos símbolos tem uma consequência interior. Tudo aquilo sobre o que nada pensávamos e a que, portanto, faltava uma conexão adequada com a consciência em desenvolvimento, foi perdido. Tentar cobrir a nudez com suntuosas vestes orientais, tal como fazem os teósofos, seria cometer uma infídelidade para com a nossa história. Não caímos no estado de mendicância para depois posar como um rei indiano de teatro. Mais vale, na minha opinião, reconhecer abertamente nossa pobreza espiritual pela falta de símbolos, do que fingir possuir algo, de que decididamente não somos os herdeiros legítimos. Certamente somos os herdeiros de direito da simbólica cristã, mas de algum modo desperdiçamos essa herança. Deixamos cair em ruínas a casa construída por nosso pai, e agora tentamos invadir palácios orientais que [25] nossos pais jamais conheceram. Aquele que perdeu os símbolos históricos e não pode contentar-se com um substitutivo, encontra-se hoje em situação difícil; diante dele o nada bocejante, do qual ele se aparta atemorizado. Pior ainda: o vácuo é preenchido com absurdas ideias político-sociais e todas elas se caracterizam por sua desolação espiritual. Mas quem não consegue conviver com esses pedantismos doutrinários vê-se forçado a recorrer seriamente à sua confiança em Deus, embora em geral se constate que o medo é ainda mais convincente. Tal medo decerto não é injustificado, pois onde o perigo é maior, Deus parece aproximar-se. É perigoso confessar a própria pobreza espiritual, pois o pobre cobiça e quem cobiça atrai fatalidade. Um drástico provérbio suíço diz: "Por detrás de cada rico há um demônio e atrás de cada pobre, dois".

Da mesma forma que os votos de pobreza material, no cristianismo, afastavam a mente dos bens do mundo, a pobreza espiritual renuncia às falsas riquezas do espírito, a fim de fugir não só dos míseros resquícios de um grande passado, a "Igreja" protestante, mas também de todas as seduções do perfume exótico, a fim de voltara si mesma, onde à fria luz da consciência, a desolação do mundo se expande até as estrelas.
Já herdamos essa pobreza de nossos pais. Lembro-me das aulas que meu pai me ministrava, preparando-me para a confirmação. O catecismo me entediava indizívelmertte. Certa vez, ao folhear o meu livrinho, à espera de encontrar algo de interessante, meus olhos se detiveram no parágrafo sobre a Trindade. Isso me interessava e esperava impaciente que chegássemos a essa passagem nas auías. Ao chegar a hora esperada, meu pai disse: "Vamos saltar esse capitulo, pois eu mesmo nada entendo do seu conteúdo". Assim ficou sepultada minha última esperança. Admirei a honestidade do meu pai, mas isso não me ajudou a superar o tédio mortal que a partir de então me causava toda conversa religiosa.

Nosso intelecto realizou tremendas proezas enquanto desmoronava nossa morada espiritual. Estamos profundamente convencidos de que apesar dos mais modernos e potentes telescópios refletores construídos nos Estados Unidos, não descobriremos nenhum empíreo nas mais longínquas nebulosas; sabemos também que o nosso olhar errará desesperadamente através do vazio mortal dos espaços íncomensuráveis. As coisas não melhoram quando a física matemática nos revela o mundo do infinitamente pequeno. Finalmente, desenterramos a sabedoria de todos os tempos e povos, descobrindo que tudo o que há de mais caro e precioso já foi dito na mais bela linguagem. Estendemos as mãos como crianças ávidas e. ao apanhá-lo, pensamos possuí-lo. No entanto, o que possuímos [26] não tem mais validade e as mãos se cansam de reter, pois a riqueza está em toda a parte, até onde o olhar alcança. O que julgávamos possuir se transforma em água e mais de um aprendiz de feiticeiro acabou se afogando nessas águas por ele mesmo invocadas - caso não tenha sucumbido antes ao delírio de que esta sabedoria é boa e aquela outra, má. É destes adeptos que provêm os doentes preocupantes, os que julgam ter uma missão profética. Isto porque a cisão artificial entre a sabedoria verdadeira e a falsa cria uma tamanha tensão na alma, que dela surge uma solidão e uma dependência como a do morfinômano, o qual sempre espera encontrar companheiros de vício.

Uma vez que nossa herança natural se evola, dizemos com HERÁCLITO que todo espírito também desce de sua altura ígnea. Quando o espírito se torna pesado, transforma-se em água e o intelecto tomado de presunção luciferina usurpa o trono onde reinava o espírito. O espírito pode reivindicar legitimamente o “patrias potestas" (pátrio poder) sobre a alma; não porém o intelecto nascido da terra, por ser espada ou martelo do homem e não um criador de mundos espirituais, um pai da alma. No tocante a isso, KLAGES acertou no alvo e SCHELER, com seu restabelecimento do espírito, foi suficientemente modesto, pois ambos são filhos de uma época na qual o espirito não paira mais no alto, mas está embaixo, não é mais fogo, mas se tornou água.

Portanto, o caminho da alma que procura o pai perdido - tal como Sofia procurando Bythos - leva à água, ao espelho escuro que repousa em seu fundo. Aquele que escolher o estado de pobreza espiritual, a verdadeira herança de um protestantismo vivido até as últimas conseqüências, chega ao caminho da alma que conduz à água. Esta no entanto não é uma expressão metafórica, mas um símbolo vivo da psique escura. A melhor ilustração do que acabo de dizer é um caso concreto escolhido entre muitos:

Um teólogo protestante tem frequentemente um mesmo sonho: Ele encontra-se numa encosta ao pé da qual há um vale profundo e, neste, um lago escuro, No sonho ele sabe que algo sempre o impede de aproximar-se do lago. Mas agora decide ir até a água. Ao aproximar-se da margem tudo fica mais escuro e lugubre e uma rajada de vento passa subitamente sobre a água. Entra em pânico e acorda.
Este sonho mostra-nos o simbolismo natural. O sonhador desce à sua própria profundeza, e o caminho o leva à água misteriosa. Ocorre então o milagre da piscina de Betesda. Um anjo desce e toca a água que adquire então um poder curativo. No sonho, é o vento, o pneuma, que sopra [27] onde quer. É necessário que um homem desça até a água, a fim de que se produza o milagre da vivificaçâo (da água). O sopro do espírito que passa sobre a superficie escura é sinistro, como tudo aquilo cuja causa não somos ou então desconhecemos. É o indício de uma presença invisível de um nume cuja vida não se deve nem à expectativa humana nem à maquinação da vontade. Vive por si só e um calafrio perpassa o corpo da pessoa que acreditava ser o "espírito" apenas algo em que se crê, se faz, se lê nos livros ou é assunto de conversa, Mas quando ocorre espontaneamente, uma assombração e um terror primitivo se apoderam da mente ingênua. Os anciãos da tribo dos elgonyi, no Quênia, descreveram-me o deus noturno como aquele que ''provoca o medo". "Ele chega a nós", diziam, "como uma rajada fria de vento que nos faz tiritar, ou então passa assobiando em redemoinho pelo capim alto"; um Pan africano que na hora fantasmagórica do meio-dia toca sua flauta, assustando os pastores.

No sonho, o sopro do pneuma amedrontou outro pastor, um pastor do rebanho, que na escuridão da noite pisou na margem coberta de j une o s perto da água no vale profundo da alma. Sim, aquele espírito ígneo descera outrora ao reino da natureza, às árvores e rochas e às águas da alma tal como o ancião que no Zarathustra de NIETZSCHE , cansado da humanidade, retirou-se para a floresta, a fim de resmungar com os ursos em louvor ao Criador.

Temos, seguramente, de percorrer o caminho da água, que sempre tende a descer, se quisermos resgatar o tesouro, a preciosa herança do Pai. No hino gnóstíco à alma", o Filho é enviado pelos pais à procura da pérola perdida que caíra da coroa real do Pai. Ela jaz no fundo de um poço profundo, guardada por um dragão, na terra dos egípcios - mundo de concupiscência e embriaguez com todas as suas riquezas físicas e espirituais. O filho e herdeiro parte à procura da jóia, e se esquece de si mesmo e de sua tarefa na orgia dos prazeres mundanos dos egípcios, até que uma carta do pai o lembra do seu dever. Ele põe-se então a caminho em direção à água e mergulha na profundeza sombria do poço, em cujo fundo encontra a pérola, para oferecê-la então à suprema divindade.

Este hino, atribuído a BARDESANES, data de uma época que em muitos aspectos se assemelha à nossa. A humanidade estava à procura e à [28] espera, e foi o peixe “leva tus de profundo" (tirado do profundo) - da fonte que se tomou o símbolo do Salvador, portador da cura.
Ao escrever essas linhas, recebi uma carta de Vancouver, de alguém que eu não conhecia. O remetente intrigado com seus sonhos que giravam sempre em torno do tema da água escreve: "Almost every time I dream it is about water: either I am having a bath, or water-closet is overflowing, or a pipe is bursting, or my home has drifted down to the water edge, or I see an acquaintance about to sink into water, or I am trying to get out of water, or I am having a bath and the tub is about to overflow, etc."

A água é o símbolo mais comum do inconsciente. O lago no vale é o inconsciente que, de certo modo, fica abaixo da consciência, razão pela qual muitas vezes é chamado de "subconsciente", não raro com uma conotação pejorativa de uma consciência inferior. A água é o "espirito do vale", o dragão aquático do Tao, cuja natureza se assemelha à água - um yang incluído no yin. Psicologicamente a água significa o espírito que se tornou inconsciente. Por isso, o sonho do teólogo diz corretamente que ele pode experimentar na água o efeito do espírito vivo como um milagre de cura na piscina de Betesda. A descida às profundezas sempre parece preceder a subida. Outro teólogo sonhou que avistara uma espécie de Castelo do Graal sobre uma montanha. Ele caminhava por uma estrada que parecia conduzir diretamente ao pé da montanha e à subida. Ao aproximar-se da montanha, porem, descobriu, para seu grande, desaponto, que um abismo o separava da montanha, uma garganta profunda e escura onde corria, rumorejando, uma água do submundo. Havia um atalho íngreme que levava ao fundo e subia penosamente do outro lado. A perspectiva não era das melhores. O sonhador então acorda. Aqui também ele almeja alcançar alturas luminosas, mas depara primeiro com a necessidade de mergulhar numa profundeza escura, que se revela como condição indispensável para uma ascensão maior, O homem prudente percebe o perigo nas profundezas e o evita, mas também desperdiça o bem que conquistaria numa façanha corajosa, embora imprudente. [29] 

O testemunho do sonho encontra uma violenta resistência por parte da mente consciente, que só conhece o "espirito" como algo que se encontra no alto. O "espírito" parece sempre vir de cima, enquanto tudo o que é turvo e reprovável vem de baixo. Segundo esse modo de ver o espírito significa a máxima liberdade, um flutuar sobre os abismos, uma evasão do cárcere do mundo ctônico, por isso um refúgio para todos os pusilânimes que não querem "tornar-se" algo diverso. Mas a água é tangível e terrestre, também é o fluido do corpo dominado pelo instinto, sangue e fluxo de sangue, o odor do animal e a corporalidade cheia de paixão. O inconsciente é a psique que alcança, a partir da luz diurna de uma consciência espiritual, e moralmente lúcida, o sistema nervoso designado há muito tempo por "simpático". Este não controla como o sistema cérebro-espinal a percepção e a atividade muscular e através delas o meio ambiente; mantém no entanto o equilíbrio da vida sem os órgãos dos sentidos, através das vias misteriosas de excitação, que não só anunciam a natureza mais profunda de outra vida, mas também irradia sobre eia um efeito interno. Neste sentido, trata-se de um sistema extremamente coletivo: a base operativa de toda participation mystique, ao passo que a função cérebro-espinal culmina na distinção diferenciada do eu, e só apreende o superficial e exterior sempre por meio do espaço. Esta função capta tudo como "fora", ao passo que o sistema simpático tudo vivência como "dentro".

O inconsciente é considerado geralmente como uma espécie de intimidade pessoal encapsulada, mais ou menos o que a Bíblia chama de "coração", considerando-o como a fonte de todos os maus pensamentos. Nas câmaras do coração moram os terríveis espíritos sanguinários, a ira súbita e a fraqueza dos sentidos. Este é o modo como o inconsciente é visto pelo lado consciente. A consciência, porém, parece ser essencialmente uma questão de cérebro, o qual vê tudo, separa e vê isoladamente, inclusive o inconsciente, encarado sempre como meu inconsciente. Pensa-se por isso de um modo geral que quem desce ao inconsciente chega a uma atmosfera sufocante de subjetividade egocêntrica, ficando neste beco sem saída à mercê do ataque de todos os animais ferozes abrigados na caverna do submundo anímico.
Verdadeiramente, aquele que olha o espelho da água vê em primeiro lugar sua própria imagem. Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que neile se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com  Α persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira. [30] 

Esta é a primeira prova de coragem no caminho interior, uma prova que basta para afugentar a maioria, pois o encontro consigo mesmo pertence às coisas desagradáveis que evitamos, enquanto pudermos projetar o negativo à nossa volta. Se formos capazes de ver nossa própria sombra, e suportá-la, sabendo que existe, só teríamos resolvido uma pequena parte do problema. Teríamos, pelo menos, trazido à tona o inconsciente pessoal. A sombra, porém, é uma parte viva da personalidade e por isso quer comparecer de alguma forma. Não é possível anulá-la argumentando, ou torná-ta inofensiva através da racionalização. Este problema é extremamente difícil, pois não desafia apenas o homem total, mas também o adverte acerca do seu desamparo e impotência. As naturezas fortes - ou deveríamos chamá-ias fracas? - tal alusão não é agradável. Preferem inventar o mundo heróico, além do bem e do mal, e cortam o nó górdio em vez de desatá-lo. No entanto, mais cedo ou mais tarde, as contas terão que ser acertadas. Temos porém que reconhecer: há problemas simplesmente insolúveis por nossos próprios meios. Admiti-lo tem a vantagem de tornar-nos verdadeiramente honestos e autênticos. Assim se coloca a base para uma reação compensatória do inconsciente coletivo; em outras palavras, tendemos a dar ouvidos a uma ideia auxiliadora, ou a perceber pensamentos cuja manifestação não permitíamos antes. Talvez prestemos atenção a sonhos que ocorrem em tais momentos, ou pensemos acerca de acontecimentos ocorridos no mesmo período. Se tivermos tal atitude, forças auxiliadoras adormecidas na nossa natureza mais profunda poderão despertar e vir em nosso auxílio, pois o desamparo e a fraqueza são vivência eterna e eterna questão da humanidade. Há também uma eterna resposta a tal questão, senão o homem teria sucumbido há muito tempo. Depois de fazermos todo o possível resta somente o recurso de fazer aquilo que se faria se soubéssemos o quê. Mas em que medida o homem se conhece a si mesmo? Bem pouco, como a experiência revela. Assim sendo, resta muito espaço para o inconsciente. Como se sabe, a oração exige uma atitude semelhante. Por isso tem um efeito correspondente.

A reação necessária e da qual o inconsciente coletivo precisa se expressa através de representações formadas arquetipicamente. O encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a própria sombra. A sombra é, no entanto, um desfiladeiro, um portal estreito cuja dolorosa exiguidade não poupa quem quer que desça ao poço profundo. Mas para sabermos quem somos, temos de conhecer-nos a nós mesmos, porque o que se segue à morte é de uma amplitude ilimitada, cheia de incertezas inauditas, aparentemente sem dentro nem fora, sem em cima, nem embaixo, sem um aqui ou um lá, sem meu nem teu, sem bem, nem [31] mal. É o mundo da água, onde todo vivente flutua em suspenso, onde começa o reino do "simpático" da alma de todo ser vivo, onde sou inseparavelmente isto e aquilo, onde vivencio o outro em mim, e o outro que não sou, me vivência.

O inconsciente coletivo é tudo, menos um sistema pessoal encapsulado, é objetividade ampla como o mundo e aberta ao mundo. Eu sou o objeto de todos os sujeitos, numa total inversão de minha consciência habitual, em que sempre sou sujeito que tem objetos. Lá eu estou na mais direta ligação com o mundo, de forma que facilmente esqueço quem sou na realidade. "Perdido em si mesmo" é uma boa expressão para caracterizar este estado. Este si-mesmo, porém, é o mundo, ou melhor, um mundo, se uma consciência pudesse vê-lo. Por isso, devemos saber quem somos.

Mal o inconsciente nos toca e já o somos, na medida em que nos tornamos inconscientes de nós mesmos. Este é o perigo originário que o homem primitivo conhece instintivamente, por estar ainda tão próximo deste pleroma, e que é objeto de seu pavor. Sua consciência ainda é insegura e se sustenta sobre pés vacilantes. Ele é ainda infantil, recém-saído das águas primordiais. Uma onda do inconsciente pode facilmente arrebatá-lo e ele se esquecer de quem era, fazendo coisas nas quais não se reconhece. Por isso, os primitivos temem os afetos (emoções) descontrolados, pois neles a consciência submerge com facilidade, dando espaço à possessão. Todo o esforço da humanidade concentrou-se por isso na consolidação da consciência. Os ritos serviam para esse fim, assim como as représentations collectives, os dogmas; eles eram os muros construídos contra os perigos do inconsciente, os perils of the soul. O rito primitivo, consiste, pois, em exorcizar os espíritos, quebrar feitiços, desviando dos maus agouros; consiste também em propiciação, purificação e coisas análogas, isto é, na produção mágica do acontecimento auxiliador.

São esses muros erigidos desde os primórdíos que se tomaram mais tarde os fundamentos da Igreja. Portanto, são estes os muros que desabam quando os símbolos perdem a sua vitalidade. Então o nível das águas sobe, e catástrofes incomensuráveis se precipitam sobre a humanidade. O chefe religioso dos pueblos de Taos, denominado Loco Tenente Goberaador, disse certa vez: "Os americanos deveriam parar de perseguir nossa religião, pois se esta desaparecer e não pudermos mais ajudar nosso pai, o Sol, a atravessar o céu, os americanos e o mundo inteiro sofrerão com isso: dentro de dez anos o sol não vai mais nascer". Isto significa que a noite virá e a luz da consciência vai extinguir-se, irrompendo o mar escuro do inconsciente. [32]

Seja ela primitiva ou não, a humanidade encontra-se sempre no limiar das ações que ela mesma faz, mas não controla. Para citar um exemplo: todos querem a paz e o mundo inteiro se prepara para a guerra, segundo o axioma Si vis pacem, para helium. A humanidade nada pode contra a humanidade e os deuses, como sempre, lhe indicam os caminhos do destino. Chamamos hoje os deuses de "fatores", palavra que provém de facere, fazer. Os que fazem ficam por detrás dos cenários do teatro do mundo. Tanto no grande, como no pequeno. Na consciência, somos nossos próprios senhores; aparentemente somos nossos próprios "fatores". Mas se ultrapassarmos o pórtico da sombra, percebemos aterrorizados que somos objetos de fatores. Saber isso é decididamente desagradável, pois nada decepciona mais do que a descoberta de nossa insuficiência. É até mesmo um motivo de pânico primitivo porque significa questionar a supremacia da consciência em que acreditamos e a qual protegemos medrosamente, pois na realidade ela é o segredo do sucesso humano. Mas uma vez que a ignorância não é motivo de segurança, sendo pelo contrário uma agravante da insegurança, é melhor, apesar do medo, saber o que nos ameaça. A formulação correta da questão já é meio caminho andado na solução de qualquer problema. Em todo caso é certo que o maior perigo reside na imprevisibilidade da reação psíquica. As pessoas de maior discernimento já compreenderam há muito que as condições históricas externas de qualquer tipo constituem meras ocasiões para os verdadeiros perigos que ameaçam a existência, ou seja, os sistemas político-sociais delirantes, os quais não devem ser considerados como consequências necessárias de condições externas, mas sim como decisões precipitadas pelo inconsciente coletivo.

Esta problemática é nova, pois em todas as épocas precedentes acreditava-se em deuses de um modo ou de outro. Foi necessário um depauperamento dos símbolos para que se descobrisse de novo os deuses como fatores psíquicos, ou seja, como arquétipos do inconsciente. Essa descoberta, sem dúvida alguma, parece inverossímil até os dias atuais. Para ser convincente é necessária aquela experiência esboçada no sonho do teólogo, pois só assim pode ser experimentada a ação espontânea do espírito movendo-se sobre as águas. Desde que as estrelas caíram do céu e nossos símbolos mais altos empalideceram, uma vida secreta governa o inconsciente. É por isso que temos hoje uma psicologia, e falamos do inconsciente. Tudo isto seria supérfluo, e o é de fato, numa época e numa forma de cultura que possui símbolos. Estes são espíritos do alto e assim pois o [33] espírito também está no alto. Por isso seria tolice e insensatez para tais pessoas desejar a vivência do inconsciente e investigá-lo, pois ele nada contém além do silencioso e imperturbável domínio da natureza. Nosso inconsciente, porém, contém a água viva, espírito que se tomou natureza, e por isso está perturbado. O céu tornou-se para nós espaço cósmico físico, o empíreo divino, uma encantadora lembrança de como as coisas eram outrora. Mas "nosso coração arde" e uma secreta intranquilidade corrói as raízes do nosso ser. Podemos indagar com a Vohtspâ:

O que murmura Wotan sobre a cabeça de Mimír? A fonte já está fervendo.
Para nós, tratar com o inconsciente é uma questão vital - uma questão de ser ou não ser espiritual. Todos aqueles que já tiveram experiências semelhantes àquelas mencionadas no sonho sabem que o tesouro jaz no fundo da água e tentam retirá-lo de lá. Como nunca conseguem esquecer quem são, não podem em hipótese alguma perder sua consciência. Pretendem manter-se firmemente ancorados na terra, e assim, para não abandonar a analogia - tornam-se pescadores que agarram tudo o que flutua na água com anzol e rede. Há tolos contumazes que não compreendem a atividade dos pescadores, mas estes últimos não se perturbam quanto ao significado secular de sua ação, pois o símbolo de seu oficio é muitos séculos mais antigo do que a história imperecível do Santo Graal. Mas nem todo homem é um pescador. Às vezes esta figura se detém no estágio preliminar instintivo, e neste caso se toma uma lontra, como a conhecemos por exemplo nos contos de OSCAR A.H. SCHMITZ".

Quem olha dentro da água vê sua própria imagem, mas atrás dele surgem seres vivos; possivelmente peixes, habitantes inofensivos da profundeza - inofensivos se o ego não fosse mal-assombrado para muita gente. Trata-se de seres aquáticos de um tipo especial. Às vezes, o pescador apanha uma ninfa em sua rede, um peixe feminino, semi-humano. Ninfas são criaturas fascinantes:

“A meias ela o atraia
A meias ele se dava
£ nunca mais o encontraram". [34] 

A sereia é um estágio ainda mais instintivo de um ser mágico feminino, que designamos pelo nome de anima. Também podem ser ondinas, me!usinas, ninfas do bosque, graças ou filhas do rei dos Elfos, lâmias e súcubus que atordoam os jovens, sugando-lhes a vida. Essas figuras seriam projeções de estados emocionais nostálgicos e de fantasias condenáveis, dirá o crítico moralista. Impossível não admitir que esta constatação é de certa forma verdadeira. Mas será esfa toda a verdade? Será a sereia apenas um produto de um afrouxamento moral? Não existiram tais seres em épocas remotas, em que a consciência humana nascente ainda se encontrava por inteiro ligada à natureza? Seguramente devem ter existido primeiro os espíritos na floresta, no campo, nos cursos de água, muito antes dos questionamentos da consciência moral. Além disso, esses seres eram tão temidos como sedutores, de modo que seus estranhos encantos eróticos não passavam de características parciais. A consciência era, então, bem mais simples e o domínio sobre ela absurdamente pequeno. Uma quantidade infinita do que agora sentimos como parte integrante de nossa própria natureza psíquica ainda volteia alegremente em tomo do homem primitivo em amplas projeções.

O termo "projeção" não é muito apropriado, pois nada foi arrojado fora da alma; o que ocorre é que a psique atingiu sua complexidade atual através de uma série de atos de introjeção. Essa complexidade tem aumentado proporcionalmente à desespirítualização da natureza. Uma entidade inquietante da floresta de outrora chama-se agora "fantasia erótica", o que vem complicar penosamente nossa vida anímica. Ela vem ao nosso encontro sob a forma de uma ninfa, mas se comporta como um súcubo; ela assume as mais diversas formas, como uma bruxa, e é de uma autonomia insuportável que, a bem dizer, não seria própria de um conteúdo psíquico. Eventualmente, provoca fascinações, que poderiam ser tomadas como a melhor bruxaria, ou desencadeia estados de terror que nem a aparição do próprio diabo poderia suplantar. Ela é um ser provocante que cruza nosso caminho nas mais diversas modalidades e disfarces, pregando-nos peças de todo tipo, provocando ilusões felizes e infelizes, depressões e êxtases, emoções descontroladas, etc. Nem mesmo no estado de introjeção mais sensato a ninfa se despoja de sua natureza travessa. A bruxa não parou de misturar suas poções imundas de amor e [35] morte, mas o seu veneno mágico é refinado, produz intriga e auto-engano. Invisível, sem dúvida, mas nem por isso menos perigosa.

Mas de onde nos vem a coragem de chamar este ser élfico de anima? "Anima" significa alma e designa algo de extremamente maravilhoso e notável. Mas nem sempre foi assim. Não podemos esquecer que este tipo de arma é uma representação dogmática, cujo objetivo é exorcizar e capturar algo de inquietantemente autônomo e vivo, A palavra alemã Seele (alma) é muito próximo da palavra grega αΐόλος (através de sua forma gótica saiwaló) que significa "movente", "iridescente", portanto, algo semelhante a uma borboleta - em grego ψυχή - que, inebriada, passa de flor em flor e vive de mel e amor. Na tipologia gnóstica o άνθρωπος ψυ- χικός (o homem psíquico) fica hierarquicamente abaixo do πνευματι- κός (espiritual), e finalmente também existem as almas más, que têm de queimar no inferno por toda a eternidade. Até a alma totalmente inocente de um recém-nascido não batizado é privada pelo menos da contemplação de Deus. Entre os primitivos ela é um sopro mágico de vida (daí o termo "anima") ou chama. Uma palavra não canônica do Senhor diz acertadamente: "Quem esitá perto de mim está perto do fogo'" . Em HERÁCLITO, em seu estágio mais elevado, a alma é ígnea e seca, pois ψυχή é parente próxima do "alento fresco" - ψύχειν significa bafejar, ψυχρός é frio, e ψύχος, fresco...

Um ser que tem alma é um ser vivo. Alma é o que vive no homem, aquilo que vive por si só gera vida; por isso Deus insuflou em Adão um sopro vivo a fim de que ele tivesse vida. Com sua astúcía e seu jogo de ilusões a alma seduz para a vida a inércia da matéria que não quer viver. Ela (a alma) convence-nos de coisas inacreditáveis para que a vida seja vivida. A alma é cheia de ciladas e armadilhas para que o homem tombe, caia por terra, nela se emaranhe e fique preso, para que a vida seja vivida. Assim como Eva, no paraíso, não sossegou até convencer Adão da excelência da maçã proibida. Se não fosse a mobilidade e iridescência da alma, o homem estagnaria em sua maior paixão, a inércia. Um certo tipo de razoabilidade é seu advogado, e um certo tipo de moralidade acrescenta sua bênção. Porém, ter alma é a ousadia da vida, pois a alma é um daimon doador de vida, que conduz seu jogo élfico sobre e sob a existência humana, motivo pelo qual no interior do dogma ele é ameaçado e [36] propiciado com castigos e bênçãos unilaterais que de longe ultrapassam os merecimentos humanamente possíveis. Céu e inferno são destinos da alma e não do cidadão, que em sua nudez e estupidez não saberia o que fazer consigo numa Jerusalém celeste.

A anima não é alma no sentido dogmático, nem uma anima rationalis, que é um conceito filosófico, mas um arquétipo natural que soma satisfatoriamente todas as afirmações do inconsciente, da mente primitiva, da história da linguagem e da religião. Ela é um "factor" no sentido próprio da palavra. Não podemos fazê-la, mas ela é sempre o a priori de humores, reações, impulsos e de todas as espontaneidades psíquicas. Ela é algo que vive por si mesma e que nos faz viver; é uma vida por detrás da consciência, que nela não pode ser completamente integrada, mas da qual pelo contrário esta última emerge. Afinal de contas, a vida psíquica é em sua maior parte uma vida inconsciente e cerca a consciência de todos os lados: pensamento este suficientemente óbvio quando registramos a quantidade de preparação inconsciente necessária, por exemplo, para o reconhecimento de uma percepção dos sentidos.

Embora pareça que a totalidade da vida anímica inconsciente pertence à anima, esta é apenas um arquétipo entre muitos. Por isso, ela não é a única característica do inconsciente, mas um de seus aspectos. Isto é mostrado por sua feminilidade. O que não é eu, isto é, masculino, é provavelmente feminino; como o não-eu é sentido como não pertencente ao eu, e por isso está fora do eu, a imagem da anima é geralmente projetada em mulheres. O sexo oposto, até certo ponto, é inerente a cada sexo, pois biologicamente falando é só o maior número de genes masculinos que determina a masculinidade. O número menor de genes femininos parece determinar o caráter feminino, que devido à sua posição subordinada permanece habitualmente inconsciente.

Com o arquétipo da anima entramos no reino dos deuses, ou seja, na área que a metafísica reservou para si. Tudo o que é tocado pela anima torna-se numinoso, isto é, incondicional, perigoso, tabu, mágico. Ela é a serpente no paraíso do ser humano inofensivo, cheio de bons propósitos e intenções. Ela convence com suas razões a não lidar-se com o inconsciente, pois isso destruiria ínibições morais e desencadearia forças que seria melhor permanecerem inconscientes. Como quase sempre, ela não está totalmente errada; pois a vida não é somente o lado bom, é também o lado mau. Porque a anima quer vida, ela quer o bom e o mau. No reino da vida dos elfos, tais categorias não existem. Tanto a vida do corpo como a [37] vida psíquica têm a indiscreção de se portarem muito melhor e serem mais saudáveis sem a moral convencional.
A anima acredita no “καλόν κάγαθόν", conceito primitivo anterior à descoberta do conflito entre estética e moral. Foi necessário um longo processo de diferenciação cristã para que se tornasse claro que o bom nem sempre é belo e o belo não é necessariamente bom. O paradoxo desse casamento de ideias não era um problema para os antigos, nem para o homem primitivo. A anima é conservadora e se prende à humanidade mais antiga de um modo exasperante. Ela prefere aparecer em roupagem histórica, com predileção pela Grécia e pelo Egito. Em relação a isto lembremos os clássicos RIDER HAGGARD e PIERRE BENOIT. O sonho do renascimento conhecido como a “Hypnerotomachia de Porfífio" e o Fausto de GOETHE, também foram ao fundo da Antiguidade para apreender le vrai mot de la situation. Pohfilo conjurou a Rainha Vênus. Goethe, a Helena de Tróia. ANGELA JAFFÉ esboçou uma imagem viva da anima na época do Biedermeier e dos românticos. Não vamos multiplicar o número das testemunhas insuspeitas, pois elas nos fornecem material e simbolismo autêntico para enriquecer a nossa meditação. Se quisermos saber como a anima aparece na sociedade moderna, recomendo a leitura do Private life of Helen of Troy de ERSKINE. Ela não é uma criação superficial, pois o sopro da eternidade paira sobre tudo o que é verdadeiramente vivo. A anima é vida além de todas as categorias e por isso pode dispensar qualquer louvor ou ultraje. A Rainha do Céu, que por acaso irrompeu na vida - será que alguém já considerou o pobre destino na lenda de Maria transposta para as estrelas divinas? A vida desregrada e sem sentido, que não se satisfaz com a própria abundância, é objeto de pavor e repulsa para um homem ajustado à sua civilização; não podemos censurá-lo por isso, pois ela também é a mãe de todos os disparates e tragédias. Assim, desde os primórdios, o homem nascido na terra com seu sadio instinto animal está em luta com sua alma e seus demônios. Se essa alma fosse univocamente escura, seria simples. Infelizmente não é assim, pois essa mesma anima pode aparecer como um anjo de luz, como psicopompos, e conduzi-lo até o significado mais alto, como sabemos pelo Fausto. [38] Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é a obra-prima. A relação com a anima é outro teste de coragem, uma prova de fogo para as forças espirituais e morais do homem. Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham fora de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções. Para o filho, a anima oculta-se no poder dominador da mãe e a ligação sentimental com ela dura às vezes a vida inteira, prejudicando gravemente o destino do homem ou, inversamente, animando a sua coragem para os atos mais arrojados. Para o homem da Antiguidade a anima aparece sob a forma de deusa ou bruxa; por outro lado, o homem medieval substituiu a deusa pela Rainha do Céu e pela Mãe Igreja. O inundo despido de símbolos do protestante produziu, antes de mais nada, um sentimentalismo mórbido, agravando o conflito moral que, por ser insuportável, conduziu logicamente ao "além do bem e do mal" de NIETZSCHE. Nos centros civilizados este estado de coisas manifesta-se na crescente instabilidade dos casamentos. O índice de divórcios nos Estados Unidos já foi ultrapassado em muitos países europeus, o que prova que a anima se encontra preferivelmente na projeção no sexo oposto, o que ocasiona relacionamentos magicamente complicados. Devido às suas consequências patológicas este fato contribuiu para o surgimento da psicologia moderna que, em sua forma freudiana, acha que a causa essencial de todos os distúrbios é a sexualidade, opinião que apenas exacerba os conflitos já existentes. Há uma confusão aqui entre causa e efeito. O distúrbio sexual não é a causa das dificuldades neuróticas, mas, como estas, é um dos efeitos patológicos criados pela adaptação deficiente da consciência, isto é, a consciência confronta-se com situações e tarefas que não estão ao seu alcance. Ela (a consciência) não compreende como seu mundo se alterou, e que atitude deveria tomar para adaptar-se novamente. "Le peuple porte le sceaux d'un hiver qu'on n'explique pas", como diz uma inscrição em uma esteia coreana.

Tanto no que concerne à sombra como à anima não basta conhecer-lhes os conceitos e refletir sobre eles. Nem podemos vivenciar seus conteúdos pela intuição ou pela empatia. É inútil decorar uma lista de arquétipos. Estes são complexos de vivência que sobrevem aos indivíduos como destino e seus efeitos são sentidos em nossa vida mais pessoal. A [39] anima não vem ao nosso encontro como deusa, mas sim como equivoco talvez sumamente pessoal, ou como a maior ousadia. Quando, por exemplo, um velho e conceituado professor de setenta anos resolve abandonar sua família para casar-se com uma atriz ruiva de 20 anos - já sabemos - os deuses vieram buscar outra vítima. Assim se revela em nós a poderosíssima força demoníaca. Até há pouco tempo essa jovem teria sido eliminada por ser considerada bruxa.
Segundo minha experiência há muitas pessoas inteligentes e cultas que compreendem a ideia da anima e sua relativa autonomia facilmente, bem como a fenomenologia do animus nas mulheres. Os psicólogos enfrentam uma dificuldade maior neste sentido, provavelmente porque não são obrigados a confrontar-se com os fatos concretos que caracterizam a psicologia do inconsciente. Ε se além de tudo são médicos, seu ponto de vista sômato-psicológico os perturba, por acharem que os processos psicológicos podem ser expressos através de conceitos intelectuais, biológicos ou fisiológicos. Mas a psicologia não é biologia nem fisiologia, nem outra ciência, mas unicamente o que diz respeito ao conhecimento da alma.

A imagem que até então tracei da anima não é completa. Ela não deixa de ser um impulso caótico da vida, mas ao lado disso é também algo extremamente significativo; um saber secreto ou uma sabedoria oculta, algo que curiosamente contrasta com a sua natureza. Remeto aqui novamente aos autores acima citados. RIDER HAGGARD a chama She Wisdom's Daughter (Filha da Sabedoria); a Rainha da Atlântida de BENOIT tem pelo menos uma excelente biblioteca, constando de seu acervo um livro de Platão, o qual havia desaparecido. Helena de Tróia em sua reencarnação é überta do prostíbulo em Tiro pelo sábio Simão, o Mago, e o acompanha em suas viagens. Deixei de mencionar no início, propositaimente, este aspecto característico da anima, porque o primeiro encontro com ela, em geral, leva-nos a inferir algo que nada tem a ver com a sabedoria. Este aspecto só se apresenta a quem se confronta com a anima. Somente através de um árduo trabalho é possível reconhecer progressivamente que por detrás do jogo cruel do destino humano se esconde algo semelhante a um propósito secreto, o qual parece corresponder a um conhecimento superior das leis da vida. É justamente o mais [40] inesperado, as coisas mais angustiosas e caóticas que revelam um significado profundo. Ε quanto mais este sentido é conscientizado, tanto mais a anima perde seu caráter impetuoso e compulsivo. Pouco a pouco vão se criando diques contra a inundação do caos, pois o que tem sentido se separa do que não o tem. Quando o sentido e o não sentido não são mais idênticos, a força do caos enfraquece, por subtração; o sentido arma-se com a força do sentido, e o não-sentido, com a força do não-sentido. Assim surge um novo cosmos. Não se trata de uma nova descoberta da psicologia médica mas de uma verdade milenar - da riqueza da experiência da vida vem o ensinamento que o pai transmite ao filho.

Sabedoria e loucura aparecem na natureza élfica como uma só e mesma coisa; e o são realmente quando a anima as representa. A vida é ao mesmo tempo significativa e louca. Se não rirmos de um dos aspectos e não especularmos acerca do outro, a vida se torna banal; e sua escala se reduz ao mínimo. Então só existe um sentido pequeno e um não-sentido igualmente pequeno. No fundo, nada significa algo, pois antes de existirem seres humanos pensantes não havia quem interpretasse os fenômenos. As interpretações só são necessárias aos que não entendem. Só o incompreensível tem que ser significado. O homem despertou num mundo que não compreendeu; por isso quer interpretá-lo.

Assim sendo, a anima e com eila a vida não tem sentido na medida em que não oferecem interpretação. No entanto, elas têm uma natureza passível de interpretação, pois em todo caos há um cosmos, em toda desordem uma ordem secreta, em todo capricho uma lei permanente, uma vez que o que atua repousa no seu oposto. Para reconhecê-lo é necessário uma compreensão humana discernente, que tudo decompõe em seus julgamentos antinômicos. No momento em que essa compreensão humana se confronta com a anima, o capricho caótico desta última faz com que se pressinta uma ordem secreta, e, então, postulamos uma disposição, um sentido e um propósito além de sua essência, mas isso não corresponderia à verdade. Na realidade, de início não somos capazes de refletir friamente e nenhuma ciência e filosofia pode ajudar-nos e o ensinamento religioso tradicional só nos auxilia ocasionalmente. Encontramo-nos presos e emaranhados numa vivência sem meta e o julgamento com todas as suas categorias revela-se impotente. A interpretação humana é falha porque se criou uma situação de vida turbulenta que não se adequa a [41] nenhuma das categorias tradicionais. É um momento de colapso. Mergulha- mos numa profundidade última - como diz acertadamente APULEIO. "ad instar voluntariae mortis". Trata-se da renúncia a nossos próprios poderes, não artificialmente desejada, mas naturalmente imposta; não de uma submissão e humilhação voluntárias acionadas pela moral, mas uma derrota completa e inequívoca, coroada pelo pavor pânico da desmoralização. Só quando todas as muletas e arrimos forem quebrados e não se puder mais contar com qualquer proteção pela retaguarda, só então nos será dada a possibilidade de vivenciar um arquétipo, que até então se oculta na significativa falta de sentido da anima. É o arquétipo do significado ou do sentido, tal como a anima é o arquétipo da vida.

O significado sempre nos parece ser o acontecimento mais recente, porque - por alguma razão - supomos que somos nós mesmos que o outorgamos e porque acreditamos também que o mundo maior pode existir sem ser interpretado. Mas como outorgamos sentido? De que fonte, em última análise, extraímos o significado? As formas que usamos para outorgar sentido são categorias históricas que remontam às brumas da Antiguidade, fato que não levamos suficientemente em conta. Para dar sentido servimo-nos de certas matrizes linguísticas que, por sua vez, derivam de imagens primordiais. Podemos abordar essa questão como quer que seja e sempre nos confrontaremos com a história da linguagem e dos motivos que nos reconduzem direto ao mundo maravilhoso dos primitivos.

Tomemos, por exemplo, a palavra ideia. Ela remonta ao conceito do ειδως de PLATÃO, e as ideias eternas são imagens primordiais, ενύπε-ρουρανίφ τόπω (em lugar supracelestial) guardadas como formas eternamente transcendentes. O olho do vidente as percebe como imagines et lares, ou como imagens do sonho ou da visão reveladora. Ou tomemos o conceito da energia, que designa um acontecimento físico. Antigamente, era o fogo misterioso dos alquimistas, o phlogiston, ou a força do calor inerente à matéria, tal como o calor primordial dos estóícos, ou o κυρ bx\ ζωον (o fogo eternamente vivo) de Heráclito, que já se aproxima muito da noção primitiva de uma onipresente força viva de crescimento e mágico poder de cura, habitualmente designado por mana.

Não quero acumular exemplos desnecessários. Basta saber que não existe uma só ideia ou concepção essencial que não possua antecedentes históricos. Em última análise, estes se fundamentam em formas arquetípicas primordiais, cuja concretude data de uma época em [42] que a consciência ainda não pensava, mas percebia. O pensamento era objeto da percepção interior, não era pensado, mas sentido como fenômeno, por assim dizer, visto ou ouvido. O pensamento era essencialmente revelação; não era algo inventado, mas imposto ou algo que nos convencia por sua realidade imediata. O pensar precede a consciência do eu primitivo e esta é mais seu objeto do que sujeito. Mas nem mesmo nós escalamos ainda o último pico da consciência e temos portanto um pensar preexistente, de que não temos consciência enquanto nos apoiarmos em símbolos tradicionais: na linguagem do sonho, enquanto o pai ou rei não tiverem morrido.

Eu gostaria de dar um exemplo acerca do modo pelo qual o inconsciente "pensa" e "prepara" soluções. Trata-se do caso de um jovem estudante de teologia que não conheço pessoalmente. Ele tinha dificuldades no tocante à sua convicção religiosa. Nessa época teve o seguinte sonho:
Ele estava na presença de um velho bonito, todo vestido de preto. Sabia que era um mago branco. Este acabara de falar longamente com ele, mas o sonhador não se lembrava do que ouvira. Somente se lembrava das seguintes palavras: "E para isto precisamos da ajuda de um mago negro". Neste momento abriu-se uma porta e um velho semelhante ao primeiro entrou, mas estava vestido de branco. Ele disse ao mago branco: "Preciso de teu conselho", lançando um olhar interrogativo e de soslaio ao sonhador. O mago branco então falou: "Podes falar sem receio, ele é inocente ". O mago negro começou então a contar sua história. Ele viera de um país distante, onde ocorrera algo estranho. O país era governado por um velho rei que estava prestes a morrer, Ele -orei- escolhera para si um túmulo. Pois naquele país havia um grande número de túmulos dos velhos tempos, e o rei escolhera para si o mais belo. Segundo a lenda, uma virgem nele estava sepultada. O rei ordenou que o túmulo fosse aberto a fim de prepará-lo para si. Mas quando os ossos foram expostos ao ar, reanimaram-se subitamente, transformando-se num cavalo negro, que fugiu imediatamente para o deserto e nele desapareceu. O mago negro ouvira falar dessa historia e logo pôs-se a caminho para seguir o cavalo. Depois de muitos dias seguindo os seus rastros, chegou ao deserto, atravessou-o até encontrar de novo campos verdes. La encontrou o cavalo pastando e descobriu alguma coisa, precisando por isso do conselho do mago [43] branco. Encontrara as chaves do paraíso e não sabia o que fazer com elas. Neste momento emocionante o sonhador acordou.

À luz do que expusemos, não é difícil atinar com o significado do sonho: o velho rei é o símbolo predominante que deseja o descanso eterno, e isso no mesmo lugar em que outras "dominantes" análogas jazem enterradas. Sua escolha recai sobre o túmulo da anima, que dorme o sono da morte qual uma Bela Adormecida, enquanto um princípio válido (principe ou princeps) regula e exprime a vida. Mas quando o rei chega a seu final, ela recobra a vida e se transforma no cavalo negro que, segundo a parábola de Platão exprime o caráter indomável da natureza passional. Quem quer que o siga chega ao deserto, isto é, a um país selvagem, distante dos homens - imagem do isolamento espiritual e moral. Mas é lá que estão as chaves do paraíso.

Mas o que é paraíso? Obviamente o Jardim do Éden com a árvore da vida e do conhecimento bifronte e seus quatro rios. Na versão cristã também é a cidade celeste do Apocalipse, o qual, como o Jardim do Éden, é concebida como mandala. Mas a mandala é um símbolo de individuação. É portanto o mago negro que encontra a chave para a solução das dificuldades de fé que oprimem o sonhador, as chaves que abrem o caminho da individuação. O par de opostos deserto-paraíso significa portanto o outro par de opostos isolamento-individuação ou o tornar-se si-mesmo.

Esta parte do sonho é ao mesmo tempo uma notável paráfrase da palavra do Senhor editada e completada por HUNT e GRENFELL, onde o caminho para o reino dos céus é mostrado pelos animais e onde se lê na admonição: "Por isso conhecei-vos a vós mesmos, pois sois a Cidade e a Cidade é o Reino”. Além disso também é uma paráfrase da serpente do paraíso que persuadiu nossos primeiros pais a cometer o pecado, e conduziu posteriormente à redenção da humanidade pelo Filho de Deus. Este nexo causai, como se sabe, propiciou a identificação ofídica de serpente com o Soter (Salvador). O cavalo negro e o mago negro são elementos meio maléficos, cuja relação como bem é indicada pela troca do vestuário. Ambos os magos são os dois aspectos do velho sábio, o mestre superior e protetor, do arquétipo do espirito, representando o significado preexistente, oculto na vida caótica. Ele é o pai da alma, a qual, miraculosamente, também é sua virgem mãe, razão pela qual os alquimistas o denominaram [44] "filho antiquíssimo da mãe". O mago negro e o cavalο negro correspondem à descida ao obscuro nos sonhos anteriormente mencionados.

Que lição insuportável e difícil para um jovem estudante de teologia! Felizmente ele não percebeu que o pai de iodos os profetas lhe falara nos sonhos, colocando-lhe ao alcance da mão um grande segredo. Espantamo-nos decerto com a inoportunidade de tais ocorrências. Por que este desperdício? Devemos admitir que não sabemos a influência que tal sonho exerceu sobre o sonhador a longo prazo, mas devemos ressaltar que para mim, pelo menos, este sonho teve um grande significado. Não se perdeu, mesmo que o sonhador não o tivesse compreendido,
O mestre deste sonho tenta obviamente representar o bem e o mal, em sua função conjunta, provavelmente como uma resposta ao conflito moral ainda não resolvido na alma cristã. Com esta relativiização peculiar dos opostos encontramo-nos perto das ideias do Oriente, do "nirdvandva" (nirvana) da filosofia hindu, de libertação dos opostos, indicada como uma solução possível para a conciliação do conflito. Quão perigosamente significativa é a relatividade oriental do bem e do mal evidencia-se na perguntada sabedoria indiana: "Quem demora mais para alcançar a perfeição, o homem que ama Deus, ou aquele que o odeia?" A resposta é: "O homem que ama Deus precisa de sete reencarnações para alcançar a perfeição e aquele que odeia Deus precisa de apenas três, pois quem o odeia, pensará mais nele do que quem o ama". A libertação dos opostos pressupõe uma equivalência funcional dos mesmos, o que é contraditório para o sentimento cristão. No entanto, como o exemplo do sonho mostra, a cooperação ordenada dos opostos morais é uma verdade natural reconhecida pelo Oriente. O mais claro exemplo disto nós o encontramos na filosofia taoista. Mas na tradição cristã também há várias afirmações que se aproximam deste ponto de vista. Bastaria lembrar a parábola do administrador infiel.

Nosso sonho não é o único que diz respeito a isso, pois a tendência para relativizar os opostos é uma característica notável do inconsciente. Devemos porém acrescentar que isto só é verdade nos casos de sensibilidade moral exagerada; em outros casos o inconsciente pode apontar inexoravelmente para o caráter irreconciliável dos opostos. Como regra geral, o ponto de vista do inconsciente é compensatório em relação à atitude consciente. Por isso, podemos dizer que o sonho citado pressupõe as condições e dúvidas específicas de uma consciência teológica protestante. Isto significa uma limitação de sua asserção a uma área problemática determinada. Mas, mesmo com esta limitação quanto à validade, os sonhos demonstram a supremacia do seu ponto de vista. Por isso, o significado [45] do sonho é expresso adequadamente pela voz e opinião de um mago sábio, o qual supera em todos os sentidos a consciência do sonhador. O mago é sinônimo do velho sábio, que remonta diretamente à figura do xamâ na sociedade primitiva. Como a anima, ele é um daimon imortal que penetra com a luz do sentido a obscuridade caótica da vida. Ele é o iluminador. o professor e mestre, um psicopompo (guia das almas) de cuja personificação nem NIETZSCHE, o "destruidor das tábuas da Lei", pôde escapar. NIETZSCHE invocou, através de sua reencarnação no Zaratustra. o espírito superior de uma idade quase homérica, para tornar-se portador e porta-voz de sua própria iluminação e êxtase dionisíaco. Para ele, Deus tinha morrido, mas o daimon da sabedoria tornou-se, por assim dizer, seu desdobramento físico. Ele mesmo diz:

Então, de repente, amiga! Um tornou-se Dois - Ε Zaratustra passou a meu lado...

Para NIETZSCHE, Zaratustra é mais do que uma figura poética, é uma confissão involuntária. Ele também se perdera na obscuridade de uma vida descristianizada, distante de Deus. Por isso, veio a ele o revelador e iluminador como fonte expressiva de sua alma. Esta é a origem da linguagem hierátíca do Zaratustra, pois este é o estilo do arquétipo.

Na vivência deste arquétipo, o homem moderno experimenta a forma mais arcaica do pensar, como uma atividade autônoma cujo objeto somos nós mesmos. Hermes Trismegisto, ou o Thoth da literatura hermética, Orfeu, o Poimandres e seu parentesco com o Poimen de Hermes, são outras formulações da mesma experiência. Se o nome "Lucifer" não fosse marcado pelo preconceito, seria provavelmente o nome mais adequado para este arquétipo. Bastou-me por isso designá-lo como o arquétipo do velho sábio, ou do sentido. Como todos os arquétipos, este também tem um aspecto positivo e outro negativo, mas não entrarei aqui em maiores detalhes. O leitor encontrará uma exposição detalhada da dupla face do "velho sábio" em meu ensaio sobre a "Fenomenologia do espírito no conto de fadas".

Os três arquétipos acerca dos quais já falamos - a sombra, a anima e o velho sábio - são algo que se apresenta de um modo personificado na experiência direta. No que foi dito acima, tentei indicar quais são as [46] condições psicológicas e gerais que dão origem a tal experiência. Mas o que afirmei não passou de racionalizações abstratas. Na realidade, deveríamos dar uma descrição do processo tal como se apresenta na experiência imediata. No decorrer desse processo os arquétipos aparecem como personalidades atuantes em sonhos e fantasias. O processo mesmo constitui outra categoria de arquétipos que poderíamos chamar de arquétipos de transformação. Estes não são personalidades, mas sim situações típicas, lugares, meios, caminhos, etc, simbolizando cada qual um tipo de transformação. Tal como as personalidades, estes arquétipos também são símbolos verdadeiros e genuínos que não podemos interpretar exaustivamente, nem como σημεϊα (sinais), nem como alegorias. São símbolos genuínos na medida em que eles são ambíguos, cheios de pressentimentos e, em última análise, inesgotáveis. Os princípios fundamentais, os άρχαί do inconsciente, são indescritíveis, dada a riqueza de referências, apesar de serem reconhecíveis. O intelecto discriminado sempre procura estabelecer o seu significado unívoco e perde o essencial, pois a única coisa que é possível constatar e que corresponde à sua natureza é a multiplicidade de sentido, a riqueza de referências quase ilimitadas que impossibilita toda e qualquer formulação unívoca, Além disso, esses arquétipos são por princípio paradoxais a exemplo do espírito que os alquimistas consideravam como senex et iuvenis simut.

Se quisermos ter uma ideia do processo simbólico podemos tomar como exemplo as séries de imagens alquímicas, embora tais símbolos sejam em sua maioria tradicionais, mesmo que de obscura procedência e significação. O sistema dos chacras tântrícos, ou o sistema nervoso místico da ioga chinesa" são exemplos notáveis. A série de imagens do taro também parecem ser derivados dos arquétipos de transformação, opinião que foi reforçada para mim através de uma conferência esclarecedora do Professor BERNOUILLI.

O processo simbólico é uma vivência na imagem e da imagem. Seu desenvolvimento apresenta geralmente uma estrutura enantiodrómica, tal como o texto do / Ching, apresentando portanto um ritmo de negativo e positivo, de perda e ganho, de escuro e claro. Seu início é quase sempre caracterizado por um beco sem saída ou qualquer outra situação [47] impossível; sua meta, em amplo sentido, é a iluminação ou consciência superior, através da qual a situação inicial é superada num nível superior. Em relação ao fator tempo, o processo pode ser comprimido num único sonho ou num curto momento de vivência, ou então estender-se por meses ou anos. dependendo da situação inicial do indivíduo envolvido no processo e da meta a ser atingida. É óbvio que a riqueza dos símbolos oscila extraordinariamente. Tudo, no entanto, é vivenciado numa forma imagética, isto é, simbolicamente, não se tratando porém de perigos fictícios, mas de riscos muito reais, dos quais pode depender todo um destino. O perigo principal é sucumbir à influência fascinante dos arquétipos, o que pode acontecer mais facilmente quando as imagens arquetípicas não são conscientizadas. Caso exista uma predisposição psicótica pode acontecer que as figuras arquetípicas - as quais possuem uma certa autonomia graças à sua numinosidade natural - escapem ao controle da consciência, alcançando uma total independência, ou seja, gerando fenômenos de possessão. No caso de uma possessão pela anima, por exemplo, o paciente quer transformar-se por autocastração numa mulher chamada Maria, ou então receia que algo semelhante aconteça violentamente. O melhor exemplo disto é o livro de SCHREBER". Os pacientes descobrem muitas vezes toda uma mitologia de anima, com numerosos temas arcaicos. Um caso deste tipo foi publicado há tempos por NELKEN. Outro paciente descreveu suas próprias experiências em um livro e comentou-as . Menciono estes casos porque ainda há pessoas que pensam serem os arquétipos quimeras subjetivas do meu cérebro.

As coisas que vem à tona brutalmente nas doenças mentais permanecem ainda veladas na neurose, mas não deixam de influenciar a consciência. Quando, no entanto, a análise peneira no pano de fundo dos fenômenos da consciência, ela descobre as mesmas figuras arquetípicas que avivam os delírios psicóticos. Finalmente, numerosos documentos histórico-literários comprovam que tais arquétipos existem praticamente por toda parte, tratando-se portanto de fantasias normais e não de produtos monstruosos de insanidade. O elemento patológico não reside na existência destas ideias, mas na dissociação da consciência que não consegue mais controlar o inconsciente. Em todos os casos de dissociação é [48] portanto necessário integrar o inconsciente na consciência. Trata-se de um processo sintético que denominei "processo de índividuação".

Este processo corresponde ao decorrer natural de uma vida, em que o indivíduo se torna o que sempre foi. Ε porque o homem tem consciência, um desenvolvimento desta espécie não decorre sem dificuldades; muitas vezes ele é vário e perturbado, porque a consciência se desvia sempre de novo da base arquetípica instintual, pondo-se em oposição a ela. Disto resulta a necessidade de uma síntese das duas posições. Isto implica uma psicoterapia mesmo no nível primitivo, onde ele toma a forma de rituais de reparação. Como exemplos menciono a identificação regressiva dos aborígines australianos com os ancestrais no período alcheringa, a identificação com os filhos do Sol entre os pueblos de Taos, a apoteose de Hélio no mistério de ísis, em APULEIO, etc. O método terapêutico da psicologia complexa consiste por um lado numa tomada de consciência, o mais completa possível, dos conteúdos inconscientes constelados, e por outro lado numa síntese dos mesmos com a consciência através do ato cognitivo. Dado que o homem civilizado possui um grau de dissociabilidade muito elevado e dele se utiliza continuamente a fim de evitar qualquer possibilidade de risco, não é garantido que o conhecimento seja acompanhado da ação correspondente. Pelo contrário, devemos contar com a extrema ineficácia do conhecimento e insistir por isso numa aplicação significativa do mesmo. O conhecimento por si mesmo não basta, nem implica alguma força moral. Nestes casos vemos claramente como a cura da neurose é um problema moral.

Uma vez que os arquétipos são relativamente autônomos como todos os conteúdos numinosos, não se pode integrá-los simplesmente por meios racionais, mas requerem um processo dialético, isto é, um confronto propriamente dito que muitas vezes é realizado pelo paciente em forma de diálogo. Assim ele concretiza, sem o saber, a definição alquimica da meditação, como colloquium cum suo angelo bonot como diálogo interior com seu anjo bom. Este processo tem um decurso dramático, com muitas peripécias. Ele é expresso ou acompanhado por símbolos oníricos, relacionados com as representations colectives, as quais sempre retrataram os processos animicos da transformação sob a forma de temas mitológicos . [49] No breve espaço de uma conferência devo contentar-me com a apresentação de poucos exemplos ide arquétipos. Escolhi os que na análise do inconsciente masculino desempenham o papel principal; também procurei esboçar rapidamente o processo psíquico da transformação em que eles se manifestam. A partir da primeira publicação desta conferência, as figuras aqui comentadas da sombra, da anima e do velho sábio, juntamente com as respectivas figuras do inconsciente feminino, foram elaboradas com maiores detalhes nas minhas contribuições ao símbolismo do si-mesmo, além de ter sido analisado mais profundamente o processo da individuação em sua relação com o simbolismo alquímico. [50]
 

Psicologia Analítica
O psicodiagnóstico clínico na atualidade

O psicodiagnóstico está recuperando-se de uma época de crise durante a qual poderíamos dizer que havia caído no descrédito da maioria dos profissionais da saúde mental. Considero imprescindível revalorizar a etapa diagnóstica no trabalho clínico e sustento que um bom diagnóstico clínico está na base ea orientação vocacional e profissional, do trabalho como peritos forenses ou trabalhistas, etc. Se somos consultados é porque existe um problema, alguém sofre ou está incomodado e devemos indagar a verdadeira causa disso.

Fazer um diagnóstico psicológico não significa necessariamente o mesmo que fazer um psicodiagnóstico. Este temo implica automaticamente a administração de testes e estes nem sempre são necessários ou convenientes.

Mas um diagnóstico psicológico tão preciso quanto possível é imprescindível por diversas razões:

1.             Para saber o que ocorre e suas causas, de forma a responder ao pedido com o qual foi iniciada a consulta.

2.             Porque iniciar um tratamento sem o questionamento prévio do que realmente ocorre representa um risco muito algo. Significa, para o paciente, a certeza de que poderemos “curá-lo” (usando termos clássicos). E o que ocorre se logo aparecem patologias ou situações complicadas com as quais não sabemos lidar, que vão além daquilo que podemos absorver, através de supervisões e análises? Buscaremos a forma de interromper, através de supervisões e análises? Buscaremos a forma de interromper (consiente ou inconscientemente) o tratamento com a consequinte hostilidade ou decepção do paciente, o qual teá muitas dúvidas antes de tornar a solicitar ajuda.

3.             Para proteger o psicólogo, que ao iniciar um tratamento contrai automaticamente um compromisso em dois sentidos: clínico e ético.Do ponto de vista clínico deve estar certo de poder ser idôneo perante o caso sem cair em posturas ingênuas nem onipotentes. Do ponto de vista ético, deve proteger-se de situações nas quais está implicitamente comprometendo-se a fazer algo que não sabe exatamente o que é. No entanto, as consequências do não cumprimento de um contrato terapêutico são, em alguns países a cassação da carteira profissional.

Por estas razões insisto na importância da etapa diagnóstica, sejam quais forem os instrumentos científicos utilizados na mesma. Na obra “A iniciação do tratamento” Freud fala da importância desta etapa, à qual ele dedicava os primeiros meses do tratamento. Coloque que ela é vantajosa tanto para o paciente quanto para o profissional, que avalia assim se poderá ou não chegar a uma conclusão positiva.

Não sou favorável a ideia de dedicar tanto tempo ao diagnóstico, porque se estabelece assim uma relação transferencial muito difícil de dissolver se a decisão for a de não continuar. Além do mais, dispomos na atualidade de todos os recursos descritos neste livro (e muitos outros) que permitem solucionar as dúvidas em um tempo menor.

Vejamos agora com que finalidades pode ser utilizado o psicodiagnóstico:

1.  Diagnóstico. Conforme o exposto acima é óbvio que a primeira e principal finalidade de um estudo psicodiagnóstico é a de estabelecer um diagnóstico. E cabe esclarecer que isto não equivale a “colocar um rótulo”, mas a explicar o que ocorre além do que o paciente pode descrever conscientemente.

Durante a primeira entrevista elaboramos certas hipóteses presuntivas. Mas a entrevista projetiva, mesmo sendo imprescindível, não é suficiente para um diagnóstico cientificamente fundamentado.

Meninger foi durante muitos anos chefe da Clínica que leva seu nome e apoiou e animou a criação e o desenvolvimento dos testes tanto projetivos como objetivos. Cada paciente que ingressava na clínica era submetido a uma bateria completa de testes (T. A.T., Rorschach, Weschler e outros).

Eu concordo ainda hoje com este modelo de trabalho, porque acredito que a entrevista clínica não é uma ferramente infalível, a não ser quando em mãos de grandes mestres, e às vezes, nem mesmo nesses casos.

Os testes tampouco o são. Mas se utilizarmos ambos os instrumentos de forma complementar há uma margem de segurança maior para chegar a um diagnóstico correto, especialmente se incluirmos testes padronizados.

Além do mais, a utilização de diferentes instrumentos diagnósticos permite estudar o paciente através de todas as vias de comunicação: pode falar livremente, dizer o que vê em uma lâmina, desenhar, imaginar o que gostaria de ser, montar quebra-cabeças, copiar algo, etc. Se por algum motivo o domínio da linguagem verbal não foi alcançado (idade, doença, casos de surdos-mudos, etc.) os testes gráficos e lúdicos facilitam a comunicação. 

A bateria de testes utilizada deve incluir instrumentos que permitam obter ao máximo a projeção de si mesmo.

Por isso, se pedimos ao paciente que desenhe uma figura humana, sabemos que haverá projeção, mas muito mais se lhe pedirmos que desenhe uma casa ou uma árvore, já que ele não pode controlar totalmente o que projeta.

Como disse antes, é importante incluir testes padronizados porque nos dão uma margem de segurança diagnóstica maior.

Lembro o caso de uma jovem que foi consultar devido a fracasso escolar, impossibilidade de concentração nos estudos e dificuldades de compreensão. Considerava-se de baixo nível intelectual. Após ter solicitado a ela o Desenho Livre e o H.T.P., entreguei-lhe o pequeno caderno do Teste de Matrizes Progressivas de Raven. O mesmo dá ao paciente trinta minutos para realiza-lo. Ela o fez em quinze. Eu obsevava as suas anotações e percebi seu excelente resultado. Por isso, quando a tarefa foi concluída, entreguei-lhe a grade de avaliação, para que ela mesma fizesse a correção. Fizemos o cáculo devido e buscamos a cifra na tabela mais apropriada. O resultado final indicava um Q.I. superior à média. Ela ficou surpresa e incrédula, mas os resultados eram irrefutáveis. Voltou à sua casa muito contente. Obviamente, essa não era a solução final do problema. Haviamos desarticulado um mecanismo através do qual ela brincava de “menina boba”. Agora era necessário estudar o porquê. Apareceu então (principalmente pela reinteração de respostas de “uma figura e a outra é o reflexo em um espelho”, no Rorschach) seu enorme narcisismo e seu grau de aspiração de ser a número um em tudo. A ferida narcisistica por não consegui-lo era tão terrível que, inconscientemente, preferia ser “burra” para não se expor.

Outro elemento importante que nos é dado pelo psicodiagnóstico refere-se à relação de transferência-contratransferência.

Ao longo de um processo que se extende entre três e cinco entrevistas aproximadamente, e observando como o paciente se relaciona diante de cada proposta e o que nós sentimos em cada momento, podemos extrair conclusões de grande utilizade para prever como será o vínculo terapêutico (se houver terapia futura), quais serão os momentos mais difíceis do tratamento, os riscos de deserção, etc.

Porém, nem todos os psicólogos, psicanalistas e psicólogos clínicos concordam com este ponto de vista. Alguns reservam a utilização do psicodiagnóstico para casos nos quais surgem dúvidas diagnósticas ou quando querem obter uma informação mais precisa, diante, por exemplo, de uma suspeita de risco de suicídio, dependência de drogas, desestruturação psicótica, etc. Em outras ocasiões o solicitam porque têm dúvidas sobre o tratamento mais aconselhável, se a psicanálise ou uma terapia individual ou vincular. Finalmente, existe outro grupo de profissionais que não concordam em absoluto com este ponto de vista e prescindem totalmente do psicodiagnóstico. Ainda mais, não concedem valor científico algum aos testes projetivos. Alguns vão mais longe, dizendo que de forma alguma é importante fazer um diagnóstico inicial, que isso chega com o tempo, ao longo do tratamento. Ouvi isto de um palestrante estrangeiro durante um congresso internacional, ao que outro especialista replicou: “Então o senhor começaria com antibióticos e transfusões de sangue, mesmo antes de saber qual o problema do paciente?”

Acredito que todas as posições são respeitáveis, porém devem ser fundamentadas cientificamente e, até o momento, não tenho encontrado ninguém que me demonstre, baseado na teoria da projeção e da psicologia da personalidade, que os testes projetivos carecem de validade.

 

2.  Avaliação do tratamento. Outra forma de utilizar o psicodiagnóstico é como meio para avaliar o andamento do tratamento. É o que se denomina “re-testes” e consiste em aplicar novamente a mesma bateria de testes aplicados na primeira ocasião. Havendo suspeita de que o paciente lembre perfeitamente o que fez na primeira vez e se deseje variar, pode-se criar uma bateria paralela selecionando estes equivalentes, como o teste “Z” de Zulliger no lugar do Rorschach.

Algumas vezes isto é feito para apreciar os avanços terapêuticos de forma mais objetiva e também para planejar uma alta. Em outras é para descobrir o motivo de um “impasse” no tratamento e para que tanto o paciente como o terapeuta possam falar sobre isso, estabelecendo, talvez, um novo contrato sobre bases atualizadas. Em outros casos ainda, é porque existe disparidade de opiniões entre eles. Um deles acredita que pode dar fim ao tratamento, enquanto que o outro se opõe.

Estes casos representam um trabalho difícil para o psicólogo, pois passa a ocupar o papel de um árbitro que dará a razão a um dos dois. É então conveniente esclarecer ao paciente que o psicodiagnóstico não será realizado para demonstrar-lhe que estava enganado, mas, como um fotógrafo, ele registrará as situações para depois comentá-las. O mesmo esclarecimento deve ser dado ao terapeuta. Obviamente, é conveniente que a entrevista de devolução seja feita por aquele que realizou o estudo, tendo um cuidado muito especial em mostrar uma atitude imparcial e fundamentando as afirmações no material dado pelo paciente.

Nos tratamentos particulares, o terapeuta é quem decide o momento adequado para um novo psicodiagnóstico (ou talvez para o primeiro). No entanto, nos tratamentos realizados em instituições públicas ou privadas, são elas que fixam os critérios que devem ser levados em consideração. Algumas deixam isto a critério dos terapeutas. Outras decidem pauta-lo, considerando tanto a necessidade de avaliar a eficiência de seus profissionais quanto a de contar com um banco de dados úteis, por exemplo, para fins de pesquisa. Assim é possível que o primeiro psicodiagnóstico seja indicado quando o paciente entra na instituição, e o outro de seis a oito meses após, dependendo isto do período destinado a cada paciente.

3.  Como meio de comunicação.Existem pacientes com dificuldades para conversar espontaneamente sobre sua vida e seus problemas. Outros, como é o caso de crianças muito pequenas, não podem  fazê-lo. Outros emudecem e só dão respostas lacônicas e esporádicas. Com adolescentes e crianças podemos introduzir algumas modificações que muitas vezes despertarão seu entusiasmo. Assim que é sugerido, as crianças começam a desenhar ou a modelar; o jogo do rabisco de Winnicott entusiasma a todos, especialmente porque quebra a assimetria do vínculo.

Favorecer a comunicação é favorecer a tomada de insight, ou seja, contribuir para que aquele que consulta adquira a consciência de sofrimento suficiente para aceitar cooperar na consulta. Também provoca a perda de certas inibições, possibilitando assim um comportamento mais natural.

Não se trata de cair em atitudes condescendentes, mas de realizar a tarefa dentro de um clima ideal de comunicação, na medida do possível. Procura-se também respeitar o timingdo paciente, ou seja, o seu tempo. Alguns estabelecem rapportimediatamente, enquanto que para outros isso pode exigir bastante tempo.

Por isso seria grotesco ficar em silêncio por um longo período, apoiando-se no princípio de que a entrevista é livre e é o consultante quem deve falar, como seria também grotesco interrompê-lo enquanto está relatando algo importante pra impor-lhe a tarefa de desenhar.

O psicodiagnóstico possui um fim em si mesmo, mas é também um meio para outro fim: conhecer esta pessoa que chega porque precisa de nós. A finalidade é conhece-la da forma mais profunda possível. Para isso o bom rapporté imprescindível.

4.  Na investigação. No que se refere à investigação, devemos distinguir dois objetivos: um é a criação de novos instrumentos de exploração da personalidade que podem ser incluídos na tarefa psicodiagnóstica. Outro, o de planejar a investigação para o estudo de uma determinada patologia, algum problema trabalhista, educacional ou forense, etc. Neste caso, usa-se o psicodiagnóstico como uma das ferramentas úteis para chegar a conclusões confiáveis e, portanto, válidas.

Um exemplo do primeiro caso é o que fez o próprio Hermann Rorschach quando criou as manchas e selecionou entre milhares aquelas que demonstravam ser mais estimulantes para os pacientes.

Para dar validade a este teste mostrou as lâminas a um grupo de pacientes selecionados aleatoriamente e, após, a outro grupo já diagsnosticado com o método de entrevista clínica (esquizofrênicos, fóbicos, etc.). Assim pôde estabelecer as respostas populares (próprias da maioria estatística selecionada aleatoriamente) e as diferentes “síndromes” ou perfil de respostas típico de cada quadro patológico.

Da mesma forma procedeu Murray, criador do T.A.T. (Thematic Apperception Test). As respostas estatisticamente mais frequentes foram denominadas “populares”. Os desvios dessas respostas populares eram considerados significativos tanto no aspecto enriquecedor e criativo como no sentido oposto, ou seja, no aspecto patológico, podendo proceder do mesmo modo que Rorschach.

A criação de um teste não é uma tarefa fácil. Não podem ser colhidos alguns registros e deles extraídas conclusões com a pretensão de que sejam válidas para todos. É necessário respeitar aquilo que a psicoestatística indica como modelo de investigação para que as suas conclusões sejam aceitáveis. Também é necessário um conhecimento abrangente e o trabalho em equipe para a correta interpretação dos resultados. Assim, por exemplo, se se pretende criar um teste que avalie a inteligência em crianças surdas-mudas, será imprescindível a presença de um especialista dessa área. Se a intenção é criar um teste para pesquisar determinados conflitos do grupo étnico ao qual pertence o pesquisador, já que, não sendo assim, se a pesquisa tratasse de estudar o mesmo aspecto, mas em crianças suecas ou japonesas, sem a presença de um antropólogo e um psicólogo conhecedores da matéria, como integrantes da equipe pesquisadora, poderiam ser tiradas conclusões incorretas. Em relação ao segundo objetivo, trata-se em primeiro lugar de definir claramente o que se deseja pesquisar. Suponhamos que a finalidade é descobrir se existe um perfil psicológico típico dos homossexuais, dependentes de drogas ou claustrofóbicos. O primeiro passo deve ser selecionar adequadamente os instrumentos a serem utilizados, a ordem que será seguida, as ordens dentro dos quais podemos admitir variações individuais (por exemplo, podemos admitir que desenhe o Bender em mais de uma folha, que queira usar o verso, que acrescente detalhes às figuras, mas não que use borracha, de forma que tudo fique registrado). Isto é o que é chamado de padronizar a forma de administração do psicodiagnóstico. Se cada examinador trabalhasse à sua maneira, seria impossível comparar os registros colhidos e, portanto, não poderíamos pretender tirar deles conclusões cientificamente válidas.

Logo após, administraremos este psicodiagnóstico assim planejado: por um lado, a uma amostra de homossexuais, dependentes de drogas, etc., e por outro lado, o mesmo psicodiagnóstico, à outra amostra chamada de controle, que não registra a mesma patologia do grupo em estudo. Em uma terceira etapa, serão buscadas as recorrências e convergências em ambos os grupos, para poder-se assim chegar a conclusões válidas. Por exemplo, é significativo que os homossexuais desenhem primeiro a figura do sexo oposto, no Teste das Duas Pessoas. Estou usando um exemplo simples com a finalidade de transmitir claramente em que consiste essa tarefa. A utilidade destas pesquisas varia muito. As mais interessantes são aquelas que permitem identificar indicadores que servirão para detectar precocemente problemas clínicos, trabalhistas educacionais, etc., com a consequente economia de sofrimento, problemas e até complicações institucionais.

Método para que o consultante aceite melhor as recomendações

O psicodiagnóstico inclui, além das entrevistas iniciais, os testes, a hora de jogo com crianças, entrevistas familiares, vinculares, etc. As conclusões de todo o material obtido são discutidas com o interessado, com seus pais, ou com a família completa, conforme o caso e o sistema do profissional.

Os testes realizados individualmente são reservados, geralmente, para a entrevista individual com essa pessoa, para a entrega dos resultados. Porém o que tem sido feito e conversado entre todos pode ser mostrado ou assinalado para exemplificar algum conflito que os consultantes minimizam ou negam.

Por exemplo, um rapaz em torno de 25 anos que consultou por se sentir amarrado demais à noiva a à mãe, disse no Questionário Desiderativo que gostaria de ser o vento porque é livre e também um cão porque é uma companhia fiel. Além do restante do registro, estas duas catexias serviram para enfrenta-lo com a própria contradição: querer ser livre como o vento e ao mesmo tempo precisar da companha de alguém que lhe desse afeto. Logo aceitou que isto criava uma situação interna difícil e que não podia pensar que o problema seria solucionado trocando de noiva ou distanciando-se de sua mãe.

Em outra ocasião, com os pais de um menino de doze anos que se recusavam a aceitar a seriedade da doença do mesmo, usei outro recurso. Mostrei-lhes a lâmina III do Rorschach dizendo que o teste não estava sendo feito com eles, mas que a observassem silenciosamente por um instante e logo cada um dissesse o que havia visto. Ambos disseram algo semelhante à resposta popular: “Duas pessoas fazendo algo”. Então disse-lhes que o menino havia respondido: “Dois esqueletos”. Ambos ficaram muito impressionados e começaram a levar mais a sério minhas advertências.

Poderia eu ter tido a surpresa de que eles também dessem respostas muito patológicas. Nesse caso teria comentado de passagem o que o filho tinha visto e desviado a atenção para outro material. Quando as distorções são compartilhadas por pais e filhos, a conclusão inevitável é a de que uma terapia familiar é urgente.

Outro caso é o de uma moça de uns 20 anos que chega a um Serviço de Psicopatologia de um Hospital pedindo um estudo vocacional. Toda a sua conduta na sala de espera e o pedir a entrevista deixava clara uma grave patologia. A ansiedade era enorme, apertava nervosamente as mãos, sentava-se e levantava-se incessantemente, etc. Queria que fosse feito exclusivamente o “teste” vocacional. Com muita relutância, aceitou responder o Desiderativo. Suas respostas foram: 1+, “Gostaria de ser uma pomba”, que é graciosa e alegre”, e no 1- “Não gostaria de ser uma hiena porque vive se alimentando de desperdícios”; 2- Um gladíolo porque me lembra velórios”; 3- “Algo mineral, o carvão. Não me pergunte por quê”.

Entre a aparência alegre e inocente da pomba, inevitavelmente associada à vida e à paz, e a hiena que vive de cadáveres há uma dissociação abismal. As três colocações negativas estão relacionadas com a morte; o gladíolo com velórios, e o carvão é um vegetal sepultado sob a terra durante milênios. Isto facilitou o início da conversa com ela, sobre o quanto a preocupava a ideia da morte e com isso a deixava ansiosa. Ela deixou de insistir com o teste vocacional e começou a relatar fatos da sua vida, especialmente sobre a perda de vários seres queridos. Mesmo assim, recebeu algumas sugestões vocacionais, mas aceitou ir ao Serviço uma vez por semana para continuar falando sobre essas coisas que tanto perturbavam o seu dia-a-dia.

Escolha da estratégia terapêutia mais adequada

Um psicodiagnóstico completo e corretamente administrado permite-nos estimar o prognóstico do caso e a estratégia mais adequada para ajudar o consultante: entrevistas de esclarecimento, de apoio, terapia breve, psicanálise, terapia de grupo familiar ou vincular, sistêmica ou estrutural; análise transacional, gestáltica, etc.

Assim, por exemplo, um paciente trabalhará muito bem na psicanálise se aceitar a sua responsabilidade no conflito, se mostrar colaboração para fazer associações, contar lembranças, entrar em sua vida paticular, em seu passado. Diante da tarefa do Desenho Livre, aceita com prazer e responde com um bom nível de simbolização e riqueza em suas associações. As lâminas menos estruturadas como as do Rorschach não lhe causam impacto. A lâmina em branco do Phillipson o estimula favoravelmente. A entrevista final torna-se agradável de se preocupar, chorar, ou ao menos ficar deprimido na medida certa para empreender a tarefa psicanalítica com uma boa motivação.

Muito diferente seria o caso de outra pessoa que não tolera a entrevista aberta e prefere um inquérito pautado, que se bloqueia no Desenho Livre, no Rorschach e na lâmina branca do Phillipson. Pergunta “O que faço, que desenho?” e sente alívio quando nós damos uma ordem mais precisa, por exemplo “Bem, desenhe uma casa, uma árvore e uma pessoa”. A série A do Phillpson o deixa muito ansioso e gosta mais da B que é mais definida e menos difusa. Esta pessoa trabalhará melhor com uma terapia cara a cara, na qual se combinem interpretações cautelosas com sugestões e alguns direcionamentos. A situação de solidão e de regressão do divã seria para ele, por enquanto, insuportável, e só poderia aceita-la após uma primeira etapa com as características descritas.

As entrevistas diagnósticas vinculares e familiares são de grande utilidade para decidir entre a recomendação de um tratamento individual, vincular ou familiar.

Existem algumas técnicas projetivas idealizadas para serem aplicadas simultaneamente a um casal ou a um grupo (filial, familiar, de trabalho, etc.)

Entre elas posso citar o Teste do Casal em Interação (TPI) do psicólogo de Rosario, Luis Juri, o Teste Cinético da Família de Rana Frank de Verthelyi (adaptação) em suas formas atual e prospectiva; também o teste de Rorshchach com a técnica de consenso.

Estes testes são muito úteis para decidir a capacidade de agrupamento ou não de um indivíduo, ou para fazer um diagnóstico sobre como irá funcionar um grupo em formação.Os terapeutas de grupo têm usado muito, para isto, o teste das bolitas do Dr. Usandivaras. Ester Romano apresentou seu MEP (Modelo Experimental Perceptivo) à Associação Argentina de Psicanálise, idealizado sobre a base de estímulos gráficos ao estilo do Wartegg e não estruturados ao estilo do Rorschach.

No psicodiagnóstico individual, o motivo da consulta manifesto e latente dá-nos uma pauta para recomendar ou não a terapia de grupo. Quando as dificuldades situam-se na relação do indivíduo com os demais (pares, superiores ou subalternos) o mais indicado é recomendar a terapia de grupo. Se, no entanto, o conflito está mais centralizado no intrapsíquico, o mais adequado seria terapia individual.

O teste de Phillipson (especialmente as lâminas grupais AG, BG, e CG) nos dá uma informação muito útil a respeito, já que, se nelas a produção for boa, comprovaria a nossa suspeita de que uma terapia em grupo seria adequada, enquanto que se nelas o paciente se desarticula, sofre impactos, as nega ou distorce a produção, haveria que pensar que, longe de ser uma ajuda, a terapia de grupo aumentaria a sua angústia. De forma que, independentemente do motivo da consulta, isto seria um elemento para contra-indica-lá.

 

Em síntese, tentei resumir as diferentes aplicações que pode ter o psicodiagnóstico, e certamente serão abertos outros novos caminhos ainda não explorados.

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Explorando o espaço - uma história da astronomia

A história da astronomia conecta círculos de pedra pré-históricos com sondas espaciais do século XX!. È uma história de sucessivas revoluções na compreensão de nosso local no Cosmos, e nos meios pelos quais tomamos consciência dele. A geometria permitiu aos gregos fazer as primeiras medidas do Sol, Terra e Lua. Já no século XVII, instrumentos precisos derrubaram ideias centradas na Terra. O telescópio descortinou o céu apresentando muitos novos mistérios a serem explicados pela teoria da gravitação de Newton. A espectrocospia ofereceu um novo método para estudar as propriedades das estrelas e, por fim, revelou a existência de outras galáxias e a expansão do Universo. Nas útlimas décadas, o desenvolvimento do voo espacial permitiu a telescópios em órbita sondar o espaço profundo, enquanto as jornadas de umas poucas pessoas e máquinas além da órbita imediata da Terra colocaram nosso planeta relamente em perspectiva pela primeira vez.

Astronomia antiga

A história da astronomia remonta a 6.000 anos atrás, o que a torna a mais antiga das ciências. Cada uma das culturas ao longo da história estudou o Sol, a Lua, as estrelas e observou como os corpos celestes se movem no céu. As observações refletem curiosidade e encanto com o mundo natural, mas também foram impulsionadas por razões urgentes de navegação, contagem de tempo e religião.

Ciclos da vida

Povos da antiguidade eram fascinados pelos padrões de mudança repetindo-se incessantemente no mundo a seu redor. Evidências da passagem do tempo incluías alterações na temperatura do ar, no horário e posição do nascer e pôr-do-sol, nas fases da Lua, no crescimento da vegetação e no comportamento animal. Esses fenômenos eram atribuídos aos deuses ou a poderes mágicos. Milhares de anos atrás, os “primeiros” astrônomos foram provavelmente pastores ou agricultores no Oriente Médio, que observavam a noite, atentos a sinais das mudanças das estações. Os antigos egípcios se baseavam em observações astronômicas para planejar o plantio e a safra das colheitas. Sabiam que o nascimento de Sirius logo antes do nascer-do-sol anunciava a enchente do rio Nilo. A habilidade para medir períodos de tempo e registrar ciclos celestes foi essencial para o avanço da astronomia, e assim muitas culturas antigas desenvolveram calendários, relógios de sol e relógios de água. Monumentos como as pirâmides e grupos de megalitos (grandes pedras eretas) foram, de fato, os primeiros observatórios. Em cerca de 1000 a.e.c., os indianos e babilônios haviam calculado a duração do ano em 360 dias; este período levou à divisão do círculo em 360°, com cada grau representando um dia solar. Posteriormente, os antigos egípcios refinaram a duração do ano para 365,25 dias.

Fazendo mapas celestes

A astronomia sempre se ocupou com mapear e nomear as estrelas. Por volta de 3500 a.e.c., os antigos egípcios dividiram o zodíaco nas 12 constelações de hoje e agruparam as outras estrelas fora do zodíaco em suas próprias constelações. Nas antigas China e Índia, criaram-se 28 mansões lunares, ou “domicílios noturnos” para registrar o movimento da Lua em seu caminho mensal. Os antigos gregos foram os primeiros a catalogar as cerca de 1000 estrelas mais brilhantes, por volta de 150-100 a.e.c. mas, muito antes deles, observadores da Índia e Oriente Médio mantinham registros astronômicos detalhados e datados. Coleta de dados sistemática foi desenvolvida pelos sumérios e babilônios – civilizações que viviam entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia – por razões de ritual e profecia política.

Orientação e navegação

Os mais importantes feitos dos astrônomos antigos incluem como encontrar os pontos cardeais – note, sul, leste e oeste – e como usar a Estrela Polar do norte para determinar a latitude. Este conhecimento capacitou a orientação precisa de estruturas, particularmente de templos e monumentos funerários, e também auxiliou na confecção de mapas terrestres acurados. Em 3000-2000 a.e.c., os povos da Idade da Pedra do norte da Europa utilizaram alinhamentos solares nos solstícios e equinócios, fases lunares, e outros dados astronômicos para construir grandes círculos de pedra, como Stonehenge e Avebury na Inglaterra, e Newgrange na Irlanda. Altares de foto (usados por sacrifícios rituais de fogo hindus), posicionados em bases astronômicas, e datando de 3000 anos atrás foram encontrados em diversos sítios arqueológicos na Índia. Algumas das mais complexas construções projetadas de acordo com princípios astronômicos são as pirâmides do antigo Egito e exemplos tardios construídos pelos astecas e maias na América. A arquitetura antiga fornece abundante prova de conhecimento astronômico, mas há poucas evidências do seu uso em navegação antiga. Contudo, os povos navegantes da Polinésia podem ter usado as posições das estrelas para migrar através do Pacífico por volta de 1000 a.e.c.

O nascimento da astrologia

Astrologia é uma prática milenar que busca determinar como os planetas e outros objetos celestes podem influenciar a vida na Terra, em especial os assuntos humanos. Descartada como superstição, ela estabeleceu fundamentos sólidos para a observação astronômica e dedução lógica. Em seu esforço de prever os eventos futuros e buscar sinais ou portentos os antigos astrólogos tentaram “ordenar” os céus e notaram o modo como o Sol, a Lua e os planetas se comportam. Enfatizaram em particular ocorrências inesperadas como eclipses, cometas, chuvas de meteoros e o aparecimento de novas estrelas. Muitas elites políticas empregavam astrólogos e observadores dos céus, e seu trabalho era uma atividade intelectual perfeitamente respeitável até o fim do século XVII. Astrônomos também escreviam tratados astrológicos; por exemplo, em 140 e.c., Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, o mais influente de todos os tratados astrológicos.

Início da astronomia científica

A Grécia antiga foi um divisor de águas no desenvolvimento da astronomia como a ciência racional. Os acadêmicos gregos formularam leis complexas e fizeram modelos do Universo. Após o estabelecimento do Islamismo, estudiosos árabes desenvolveram métodos ainda mais acurados de observação dos céus.

Germens do pensamento científico

O mundo grego antigo conheceu uma liberdade política e intelectual sem precedentes e um espantoso progrsso científico. Por 700 anos, de cerca de 500 a.e.c. a 200 e.c. os filósofos gregos buscaram respostas para questões astronômicas fundamentais. Ainda acreditavam em um plano mestre divino e tinham ideias que soam estranhas par anos hoje – Heráclito (540-500 a.e.c.), por exemplo, sugeria que as estrelas eram acesas toda noite, e o Sol toda manhã, como lâmpadas de óleo. Mas Platão (c.427-347 a.e.c.) argumentou que a geometria é a base de toda verdade, fornecendo assim o impulso necessário para deduzir exatamente como o Cosmos funcionava. Aristóteles fixou a Terra no centro do Universo e sugeriu que os planetas eram corpos eternos movendo-0se em órbitas perfeitamente circulares. Eudoxo (408-355 a.e.c.) cartografou as constelações setentrionais e Hiparco (190-120 a.e.c.) pela primeira vez classificou as estrelas em seis ordens de magnitude.

Medindo distâncias

Os avanços na geometria e trigonometria permitiram que os gregos medisses distâncias astronômicas com razoável precisão. Por volta de 500 a.e.c. Pitágoras propôs que o Sol e a Terra, a Lua e os planetas fossem todos esféricos, uma noção que Aristóteles confirmou, no caso da Terra, pela observação da forma de sua sombra durante um eclipse solar. Em 250 a.e.c. Eratóstenes (276-194 a.e.c.) notou que a luz solar incidia diretamente no fundo de um poço em Siena, no Egito, ao meio-dia do solstício de verão. Comparando com dados sobre as sombras em Alexandria, e usando trigonometria, ele estimou a circunferência da Terra com precisão de 5%. Hiparco e Aristarco (320-230 a.e.c.) mediram a distância Terra-Lua cronometrando eclipses lunares. Infelizmente, a distância Terra-Sol não foi estimada com a mesma precisão.

O cosmos centrado na Terra

É natural que as pessoas supusessem que o Cosmos era geocêntrico, ou centrado na Terra. Afinal de contas, não percebemos o movimento da Terra quando ela gera no espaço e as estrelas parecem fixas. Pensadores antigos, como Aristarco em 280 a.e.c., contestaram este sistema e colocaram o Sol no centro, mas suas ideias não tiveram crédito. Em vez disso, Ptolomeu refinou a visão de mundo cosmológica de Aristóteles e criou uma sequência ordenada de órbitas uniformes. Sua ordem era: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e finalmente as estrelas. Isto é baseado na velocidade percebida: por exemplo, a Lua completa uma volta no céu em um mês, o Sol em um ano e Saturno em 29,5 anos. De modo a reconciliar o conceito errôneo de órbitas circulares (em contraste com elípticas) e as velocidades variáveis dos planetas, Ptolomeu foi obrigado a argumentar que cada planeta também girava em um pequeno círculo, o epiciclo, enquanto orbitava a Terra.

Astronomia árabe

Depois do declínio das cidades-estado gregas, os mais importantes avanços da astronomia foram alcançados pelos árabes. O período de domínio grewgo durou 800 anos, desde a fundação do Islamismo em 622 até o século XIV. Astrônomos trabalhando no Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e Espanha mourisca traduziram textos gregos e em sânscrito (da Índia) para o árabe e assimilaram seu conhecimento astronômico. As regras muçulmanas para s cultos ao longo do dia e do mês, e a necessidade de encontrar a direção de Meca para fazer as orações e orientar as mesquitas, significavam que havia uma urgente necessidade de se determinar o tempo e a posição com extrema precisão. Desenvolveu-se a trigonometria esférica sofisticada, funções trigonométricas e álgebra e o astrolábio (uma invenção grega, usada para calcular a hora e a latitude) foi aprimorado. A abordagem dos grandes astrônomos árabes, como Al-Battani (850-929) e Ulugh Beg (1349-1449) fundamentava-se em observação paciente. Com este fim numerosos observatórios foram construídos, dos quais os maiores estavam em Bagdá, no Iraque, em Samarkand, no Uzbequistão, e em Maraghan, no Irã. Eles alojavam grandes instrumentos, incluindo quadrantes montados em paredes, utilizados para medir a altitude de objetos astronômicos quando cruzavam o meridiano (o plano norte-sul).

A revolução copernicana

Por séculos os astrônomos basearam suas teorias na suposição de que a Terra estaria no centro do Universo. No século XVI, esta posição privilegiada foi abalada pela sugestão de que a Terra era apenas um dos vários planetas circulando o Sol. Esta revolução foi acompanhada por imensos avanços tecnológicos, em particular pela invenção de telescópios, anunciando uma nova era de pesquisa e de grandes descobertas.

Astronomia medieval

Após a queda de Roma em 476, astrônomos na Europa, Oriente Médio e àsia deixaram para trás seu relativo isolamento cultural e passaram a trocar ideias mais livremente. Isto graças, em parte, ao crescimento do comércio durante a Idade Média e em parte à expansão do Islamismo. A astronomia observacional floresceu com ênfase em conjunções planetárias, eclipses solares e lunares a as aparições de cometas e estrelas novas. Muitos astrônomos medievais eram professores universitários e se sustentavam com o ensino. Apesar dos recursos limitados fizeram avanços notáveis, incluindo um novo preciso catálogo de posições de estrelas a olho nu, planejado por Ulugh Beg *1394-1449) da Mongólia – o primeiro desde os dias de Hiparco, 1600 anos.

O Universo heliocêntrico

Pode-se datar o nascimento da astronomia em 1543, quando Nicolau Copérnico publicou seu revolucionário tratado sobre um Universo centrado no Sol, ou heliocêntrico. Ele estava insatisfeito com a imprecisão dos modelos geocêntricos das orbitas planetárias, nos quais a Terra ocupava o centro e que dominavam a astronomia desde a obra de Ptolomeu no século II. Sua teoria muito mais simples de um Sol central e uma Terra em órbita explicava muitas observações antes enigmáticas, porque agora havia dois tipos de planetas, os internos e os externos da órbita da Terra. A sequencia Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno era um ordem de período orbital e de distância crescente ao Sol. A “lanterna do Universo”, com o Copérnico o chamava, agora assumia seu lugar de direito no centro do Cosmos. Embora isso significasse que a Terra se movia em alta velocidade, a teoria já havia sido proposta por Aristarco e outros.

A noção do Espaço

Os gregos e os astrônomos posteriores colocaram as estrelas logo além de Saturno, mas isto causaria um problema se a teoria copernicana estivesse correta. Se, como Copérnico argumentava, a Terra orbitava o Sol, por que as estrelas não tinham um movimento recíproco? A única escolha para Copérnico era banir as estrelas para uma distância tão vasta que seu movimento não seria perceptível para observadores terrestres. Ele também foi o primeiro a sugerir que as estrelas brilhantes estariam mais próximas que as fracas. Contudo, ouros se perguntavam porque Deus teria criado um espaço enorme, aparentemente inútil entre a órbita de Saturno e as estrelas. Tycho Brahe (1546-1601), um nobre dinamarquês, pensava que o futuro da astronomia dependia da estimativa de distâncias verdadeiras e do registro acurado das posições planetárias em diversos tempos. Com este objetivo ele aprimorou os padrões observacionais, fabricando instrumentos de mensuração precisamente calibrados. Em 1572 suas observações pacientes da supernova na constelação de Cassiopéia o convenceram de que as estrelas não estavam todas a uma distância fixa, mas que eram objetos cambiantes que existem no “espaço”. Propor essas ideias exigia coragem, ou o apoio de patronos poderosos, devido à Inquisição, nessa época, julgar e punir os que desafiassem a visão ortodoxa da Igreja Católica em relação ao Universo.

Leis do movimento planetário

O sistema heliocêntrico copernicano ainda descrevia as órbitas planetárias em termos de epicilos – cada planeta descrevia um pequeno círculo enquanto girava em torno do corpo central. Essa visão prevalecia desde Ptolomeu mas a forma real das órbitas permanecia um mistério. Necessitava-se de duas coisas para resolver o problema. A primeira era os dados planetários precisos obtidos por Tycho Brahe. A segunda era fé nos seus dados, junto com tenacidade e gênio matemático. A última foi fornecida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), sucessor de Tycho após 1601. Com base nas observações do caminho de Marte na esfera celeste Kepler acabou por formular suas três leis do movimento planetário. Primeiramente, em 1609, ele revelou que as órbitas eram elípticas, e não circulares ou epicíclicas. O Sol está em um dos focos da elipse (a elipse tem dois focos; o círculo é um calo limite de eclipse, com um único foco). Em segundo lugar, mostrou que a linha unindo o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, assim um planeta é mais lento na parte mais exterior da sua órbita. Em terceiro lugar, em 1619, Kepler provou a relação entre o tamanho e o período da órbita. Ele alimentava concepções místicas – acreditava que o Cosmos era permeado por coras musicais, com cada planeta produzindo um tom em proporção a sua velocidade. Como todos antes da descoberta da gravidade por Newton, não tinha a menor ideia do que mantinha os planetas em suas órbitas.

As descobertas de Galileu

Galileu Galileia apresentou provas concretas de que o modelo copernicano do Universo estava correto. Em 1608 quando um fabricante de óculos flamengo inventou o telescópio a notícia se espalhou rapidamente. Galileu construiu, ele mesmo, vários telescópios em 1609, assim tornando-se o fundador da astronomia telescópica. Seus instrumentos tinham uma magnificação de 30x. Em alguns meses ele descobriu que a Lua era montanhosa, detectou as fases de Vênus, as manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Chegou mesmo a sugerir que as estrelas fosses sóis distantes. Acima de tudo ele percebeu que as fases de Vênus somente poderiam ser explicadas se os planetas orbitassem o Sol, e não a Terra. Outros achados de Galileu fundamentam a física nascente: a aceleração de um corpo independe de sua composição ou peso; e o período de balanço de um pêndulo independe de sua amplitude.

Grandes observatórios

A emergência de uma nova geração de observatórios fo um divisor de águas na história da astronomia. Observatórios haviam sido anteriormente exclusivos a um grupo seleto de pessoas, incluindo Tycho Brahe na Dinamarca e Johannes Hevelius em Danzing, Prússia (agora Gdansky, na Polônia), ou de professores universitários, como Galileu ou Giovanni Cassini de Bologna, na Itália. Então, essas unidades foram ampliadas por instituições reais bem financiadas. Luis XIV fundou a Academia de Ciências em Paris, em 1666, e o Observatório Real francês, completado em 1672. Na Inglaterra, Charles II fundou a Royal Society em 1660, o que levou à construção do Royal Greenwich Observatory, onde John Flamsteed (1646-1719) foi o primeiro astrônomo real, iniciando seu trabalho em 1676. Em breve os astrônomos estavam atacando os três principais desafios daquela época: determinar o tamanho do Sistema Solar; medir a distância até as estrelas; e achar a latitude e a longitude de locais na terra e no mar. Esta busca foi em parte impulsionada por necessidades da navegação em uma época de expansão dos impérios europeus e pelo desejo de prestígio nacional. A partir do começo do século XVIII, os observatórios se multiplicaram rapidamente, inaugurando-se instalações em Berlim, Prússia (1711), em Jaipur, Índia (1726), em Uppsala, Suécia (1730), em Vilnius, Prússia (1753), em Washington, EUA (1838), e em Pulkovo, Rússia (1839). Dedicou-se muito esforço para mapear o céu e traçar os movimentos dos corpos celestes.

Leis da atração

Um dos maiores enigmas desafiando os astrônomos de meados do século XVII era porque os planetas percorriam imensas distâncias ao redor do Sol em órbitas estáveis sem se lançar no espaço. O grande físico inglês Issac Newton (1642-1727), professor na Universidade de Cambridge, encontrou a resposta. Um objeto se moveria a velocidade constante segundo uma linha reta, a menos que fosse sujeito a uma força. No caso dos planetas, a força era a gravidade do Sol. Ele logo percebeu que a gravidade era universal. Ela controlava tanto a trajetória de um objeto caindo (como a famosa maçã que Newton viu cair de uma árvore em 1666), como a Lua orbitando a Terra e um cometa viajando rumo ao Sol vindo dos remotos confins do Sistema Solar. A gravidade explicava as três leis de Kepler e também a altura das marés. Após a morte de Newton, o retorno do cometa Halley em 1758 provou que a gravidade também era aplicável nos limites do Sistema Solar, e o uso da teoria da gravitação possibilitou o cálculo da massa da Terra e do Sol. 

O telescópio refletor e Newton

Em 1666, Newton descobriu que um prisma dispersa a luz em um arco-íris de cores. Infelizmente, as lentes de um telescópio fazem o mesmo, e a luz azul de um extremo do espectro é focalizada em um ponto diferente da luz vermelha e o ouro extremo. Isto é a chamada aberração cromática, que produz halos de luz colorida ao redor do objeto sendo visto, causando uma grave perda de qualidade de imagem. Uma solução é suar espelhos curvos para focalizar toda luz no mesmo ponto, independentemente da cor. Em 1663, o escocês James Gregory (1638-75), projetou um telescópio refletor com um grande espelho côncavo primário e um secundário côncavo menor que projetava luz de volta através de um orifício para uma lente magnificadora atrás. Newton modificou o projeto usando um espelho plano secundário para refletir a luz capturada para uma ocular montada lateralmente. Exibido em 1672 o telescópio de Newton foi imensamente aclamado.

O espaço infinito

Na metade do século XIX, a astronomia havia evoluído de uma ciência essencialmente matemática para uma disciplina que incorporava o conhecimento novo e as técnicas dos físicos e químicos. Rápidos progressos tecnológicos, particularmente a invenção da fotografia e telescópios ainda mais poderosos, permitiram aos astrônomos estudar os corpos celestes com muito mais detalhe. Eles começaram a classificar os diferentes objetos e a estudar seu comportamento.

O iluminismo

Os séculos XVIII e XIX viram grandes progressos em ciência devido a métodos científicos aprimorados. Foi um período de consolidação em astronomia, baseada em avanços nas medidas e classificação de corpos celestes. As órbitas dos cometas eram de grande interesse depois do trabalho do inglês Edmond Halley (1656-1742), que mostrou que “seu” cometa retornava a cada 76 anos. As órbitas dos planetas eram determinadas com muito mais precisão que anteriormente e detalhes de sua superfície, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter e as calotas polares de Marte foram observados. Em 1728, a velocidade da Terra foi calculada. William Herschel descobriu o sétimo planeta, Urano, em 1781, e o italiano Giuseppe Piazzi ( 1746-1826) identificou o primeiro asteroide, Ceres, em 1801. Os franceses Urbain Le Verrie e Pierre-Simon Laplace (1749-1827), e o inglês John Adams (1819) aplicaram a teoria da gravitação de Newton para prever a posição de um planeta invisível além de Urano. Netuno foi descoberto em 1846.

O cosmos estelar

Aperfeiçoamentos dos telescópios ao longo do século XVIII permitiram que a astronomia tornasse o estudo do Universo um processo dinâmico. Anteriormente as estrelas eram apenas pontos fixos de luz, com distância desconhecida, mas na década de 1710 Halley descobriu o seu movimento dando início a esforços concentrados para compreender seu comportamento. Constatou-se que muitas estrelas são duplas, orbitando em torno de um centro de massa comum, em conformidade com a gravitação newtoniana e, na década de 1780, estrelas variáveis como Algol e Delta Cephei, eram investigadas. Em 1781, o francês Charles Messier (1730-1817) publicou um catálogo de 103 “corpos difusos”, ou nebulosas (nuvens de gás e poeira). Herschel estendeu este trabalho, gastando muitas horas contando estrelas de diferentes magnitudes, em uma ambiciosa tentativa de fazer um levantamento do céu. Em 1783 ele deduziu que o Sol está se aproximando da estrela Lambda Herculis, e erroneamente concluiu que ela se situava no centro do sistema estelar galáctico. Durante as duas primeiras décadas do século XIX, Laplace desenvolveu métodos de análise matemática que resultaram no primeiro modelo para a origem do Sistema Solar.

O nascimento da astrofísica

Durante o século 19, os astrônomos continuaram a aplicar o desenvolvimento da matemática, física e química para compreender a constituição e comportamento dos planetas, cometas e estrelas. Um novo campo – a astrofísica – emergiu, conferindo propriedades físicas aos objetos no espaço. A astronomia tratava principalmente com seu movimento, enquanto a astrofísica examinava seus parâmetros básicos como raio, massa temperatura, e composição química. Em 1815, o óptico alemão Joseph Fraunhofer (1787-1826), enquanto estudava o espectro da luz solar, notou várias linhas escuras sobre ele. Mais tarde, verificou-se que estas linhas eram devidas à absorção por elementos químicos do Sol. Como ada elemento químico absorve a luz em certos comprimentos de onda, o padrão de linhas de absorção revela a sua presença. Nos anos 1860, o astrônomo britânico William Huggis (1824-1910) descobriu, por meio da espectroscopia (o estudo de espectros) que as estrelas contêm os mesmos elementos que a Terra.

Avanços instrumentais

Os telescópios tornaram-se cada vez maiores desde o princípio do século XVIII – quando astrônomos como Edmond Halley labutavam para usar desajeitados e imprecisos instrumentos com lentes objetivas de pequeno diâmetro – na metade do século XIX. As lentes dobraram em tamanho a cada 40 anos, o que implicava que a distância até os objetos visíveis mais longínquos também dobrava, e que seu número crescia por um fator oito. Sofisticaram-se as montagens dos telescópios, e a qualidade das lentes foi aperfeiçoada. Os telescópios refratores foram totalmente transformados em 1758, quando o astrônomo inglês John Dolland (1706-1761) introduziu a lente dupla, que focalizava a luz azul e a vermelha no mesmo ponto. Herschel construiu enormes telescópios refletores e, em 1524 completou-se o primeiro telescópio com montagem equatorial, na qual o eixo do instrumento era alinhado com o polo norte celeste e um relógio mecânico movia o instrumento em torno deste eixo para acompanhar as estrelas. Nos anos 1840, a fotografia começou a substituir o lápis e papel para o registro de dados. Placas fotográficas podiam ser expostas por horas, permitindo a detecção de objetos muito mais fracos que os visíveis unicamente pelo olho humano.

A forma do espaço

No começo do século XX, alguns pensavam que havia apenas uma galáxia, com o Sol no centro. Nos anos 1930, os astrônomos já haviam percebido que havia bilhões de galáxias e que o Universo estava em expansão. Também começavam a compreender as fontes de energia estelar.

Matéria e energia das estrelas

A partir de 1900, devido à compreensão da natureza da radioatividade descoberta quatro anos antes, começou-se a perceber que a Terra poderia ter mais de 1 bilhão de anos de idade. Esta ideia era consistente com estimativas anteriores feitas por geólogos e com a avaliação de Charles Darwin do tempo necessário para a seleção natural operar. Permanecia o mistério de como o Sol poderia manter-se brilhando por tanto tempo. Uma ideia era que o Sol fosse alimentado pela queda de meteoritos; outra que o Sol estava lentamente se contraindo. Nenhuma dessas teorias dava conta da longa vida do Sol. Contudo, em 1905 Albert Einstein (1879-1955) propôs que E=mc2,  e assim energia E, poderia ser produzida pela destruição de massa, m. Nos anos 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington (1882-1944) sugeriu que a fonte de energia do Sol – e de outras estrelas – fosse a fusão nuclear. O físico germano-estadunidense Hans Bethe (1906-2005) especificou então os processos básicos de fusão nuclear. É de fato uma reação nuclear que libera energia da matéria. Astrofísicos têm agora uma visão detalhada de como as estrelas obtêm sua energia e estimam que estrelas do tipo solar possam brilhar por 10 bilhões de anos.

O grande debate

Nos anos 1920 houve um debate público entre os astrônomos estadunidenses Harlow Shapley e Heber Curtis sobre a forma da nossa galáxia em particular a extensão do Universo em geral. Shapley acreditava que havia apenas uma “grande galáxia”, com a Terra a dois terços da distância até a borda. Ele dizia que o diâmetro era de 300.000 anos-luz – 10 vezes maior que a estimativa de Curtis. Este valor foi obtido com estrelas variáveis cefeídas (cujo brilho varia periodicamente) como indicadores de distância. Curtis, por outro lado, estava convencido de que muitos objetos nebulosos no céu não estavam em nossa galáxia, mas que eram de fato outras galáxias como a nossa. Ele propôs que estes “universos-ilha” estava espalhados uniformemente no céu, com alguns deles obscurecidos pelo disco galáctico, o que explicava sua distribuição acima e abaixo do plano da Via Láctea.

O universo em expansão

Os novos e enormes telescópios estadunidenses revolucionaram a astronomia do século XX. O Telescópio Hooker era tão grande que podia detectar as estrelas cefeídas da Nebulosa de Andrômeda (M31). O  fraco brilho dessas estrelas indicava eu sua distância da Terra era cerca de 10 vezes o diâmetro da Via Láctea. Heber Curtis estava correto: Andrômeda não era uma “nebulosa” mas uma galáxia. Outras “nebulosas” espirais também eram claramente galáxias. Usando o Hooker o estadunidense Edwin Hubble mostrou que as galáxias são os “blocos fundamentais” de um universo muito mais vasto que previamente imaginado. Em 1927 ele investigou características espectrais de galáxias e constatou que não somente a luz da maioria delas apresentava um deslocamento para o lado vermelho do espectro, indicando que se afastavam de nós, mas também que essa velocidade de recessão era maior para as mais fracas (mais distantes). O Universo estava em expansão e, portanto, deveria ter sido muito menor no passado. O declive do gráfico velocidade-distância indicava a idade do Universo. Os astrônomos logo perceberam que algo havia dado início à expansão, lançando as sementes da teoria do Big Bang.

Tecnologia de telescópios

A astronomia observacional estadunidense atingiu um divisor de águas nas últimas décadas do século XIX. Nos Estados Unidos novos e sofisticados observatórios e departamentos universitários foram estabelecidos, muitas vezes financiados por empresários milionários. Os astrônomos desejavam examinar objetos muito fracos e distantes, mas a limitada resistência e a transparência relativamente baixa das lentas objetivas dos telescópios impunham um limite de cerca de 1m de diâmetro – o tamanho do telescópio refrator de Yerkes, inaugurado em Williams Bay, Wisconsin, em 1897. Assim abandonou-se os refratores: era o início de uma nova era de enormes telescópios refletores. O Telescópio Hooker, de 2,5m, em Monte Wilson, na Califórnia, tornou-se operacional em 1918. Em 1948, entrou em sérvio o Telescópio Hale, de 5,2m, no Monte Palomar, na Califórnia. Em 1993, o primeiro Telescópio Keck, com um espelho de 10m, feito de espelhos segmentados, entrou em operação. Acoplado ao progressivo aumento do tamanho dos telescópios veio um enorme aumento na sensibilidade dos detectores. Placas fotográficas tornaram-se mais sensíveis e foram usadas extensivamente par mapear o céu e gerar arquivos permanentes de posições e espectros de objetos. Outro desenvolvimento crucial foi a radioastronomia. Radiotelescópios, o primeiro dos quais foi feito em 1937, passaram a captar as emissões nos longos comprimentos de onda em rádio do espaço profundo.

Astronomia da era espacial

Com o início da Era Espacial (a era do vôo espacial) nos anos 1950, a viagem além da Terra e o contato co planetas, cometas e asteroides tornou-se uma realidade. O despertar das astronomias em rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama ofereceu à humanidade novas perspectivas do Universo, revelando a existência de novos e exóticos objetos nunca antes imaginados.

Estrelas extremas

Relações entre massa, raio e luminosidade das estrelas foram primeiramente estabelecidas graças ao diagrama Hertzsprung-Russel por volta de 1911 e levaram ao reconhecimento de estrelas gigantes e anãs. Desde então encontraram-se muitos tipos extremos de estrelas. Em 1915, W.S. Adams identificou Sirius B como a primeira anã branca – uma estrela da massa do Sol mas comprimida até o volume da Terra. Em 1931 o astrofísico indiano S. Chandrasekhar, usando os novos modelos para o comportamento de partículas subatômicas, descobriu um limite superior à massa de uma anã branca. 1,4 massa solar. Acima disso, um núcleo estelar exaurido colapsará em uma estrela de nêutrons superdensa com uns poucos quilômetros de diâmetro, arrebentando o resto da estrela em uma explosão de supernova. Estrelas de nêutrons em rotação são vistas da Terra como pulsares – radiofontes pulsantes –, a primeira delas foi descoberta em 1967 por Jocelyn Bell-Burnell e Anthony Hewish, do Reino Unido. No outro extremo de massa estelar estão as anãs marrons, muitas delas descobertas recentemente, muito frias para desencadearem rações nucleares no seu centro.

Buracos negros

A possibilidade de buracos negros foi sugerida em 1783 pelo astrônomo inglês John Michell, que considerou a hipótese de um objeto tão massivo que nem a luz poderia escapar da sua gravidade. A ideia reapareceu em 1916 como resultado da teoria da relatividade geral de Einstein, mas os buracos negros permaneceram uma curiosidade até a década de 1960, quando o lançamento de satélites de astronomia de raios-X levou à descoberta de estrelas binárias de raios-X como Cygnus X-1. Binárias de raios-X exigem uma fonte compacta, massiva de erngia, que só pode ser fornecida por um buraco negro. A descoberta de buracos negros de massa estelar também abriu o caminho para se aceitar os quasares – objetos compactos, extremamente luminosos, a altos redshifts – como violentas galáxias distantes, alimentadas por buracos negros supermassivos nos seus centros.

Interior das estrelas

Com telescópios ópticos os astrônomos podem enxergar até uma profundidade de 500km abaixo da superfície solar. Infelizmente, como o Sol tem um raio de 700.000km, um imenso volume não pode ser observado diretamente. Durante os anos 1920 os astrofísicos calcularam que o centro do Sol teria uma temperatura de aproximadamente 15 milhões °C e uma densidade cerca de 150 vezes a da água. Em 1939 o físico alemão Hans Bethe mostrou como processo nucleares, agindo sob essas condições extremas, converteriam lentamente hidrogênio em hélio, liberando imensas quantidades de energia pela conversão de massa em energia. O inglês Fred Hoyle e o alemão Martin Schwarzschild estenderam esta modelo na década de 1950, mostrando como hélio é transformado em carbono e oxigênio em estrelas gigantes. Logo os astrofísicos encontraram mecanismos para a manufatura de elementos ainda mais pesados, como cobalto e ferro, nas estrelas mais massivas. Na década de 1960 os primeiros detectores de neutrinos foram usados para detectar estas partículas altamente penetrantes, liberadas pelas reações nucleares no interior do Sol, e desde os anos 1970, a técnica de heliossismologia permitiu o monitoramento das ondas sonoras ressonando através do interior solar, assim revelando sua estrutura detalhada.

Meio interestelar

A descoberta de grandes quantidades de gás e poeira entre as estrelas foi um triunfo da radioastronomia. Em 1944, o astrônomo holandês Hendrick vam de Hulst previu que o hidrogênio interestelar emitiria ondas de rádio com um comprimento de onda de 21 cm, o que foi confirmado em 1951 pelos físicos estadunidenses Harold Ewen e Edward Purcell. Em breve, radiotelescópios eram usados para mapear a distribuição do hidrogênio neutro atômico nos braços espirais da Via Láctea e de outras galáxias. Em 1974, levantamentos do comprimento de onda de 2,6mm, que age como um traçador de hidrogênio molecular, levaram à descoberta de nuvens moleculares gigantes, locais de nascimento de estrelas.

Astronomia desde o espaço

A Era Espacial começou em 4 de outubro de 1957, quando a União Soviética lançou o satélite Sputnik I, e os astrônomos rapidamente aproveitaram a capacidade de se observar fora da atmosfera terrestre. Detectores a bordo de foguetes já haviam captado sinais intrigantes em comprimentos de onda incomuns durante suas breves excursões fora da atmosfera, e o primeiro observatório orbital, o Ariel I, foi lançado pelo Reino Unido em 1961, equipado com um telescópiode ultravioleta. Outros satélites, como as séries estadunidenses Explorer, e Uhuru, rapidamente mapearam as principais fontes de ultravioleta, infravermelho e raios-X. Enquanto isso, sondas espaciais se espalhavam pelo Sistema Solar, retornando informação sobre o ambiente interplanetário e cartografando os planetas com uma variedade de câmaras, radares e outros instrumentos.

A origem do Universo

A descoberta na década de 1920 de que o Universo está em expansão desencadeou uma nova onda de reflexões cosmológicas. Em 1931, o astrônomo e padre belga Georges Lamaître sugeriu que todo o material do Universo teria começado com o uma única esfera altamente condensada – a origem da teoria do Big Bang. Em 1948, o austríaco Hermann Bondi e os britânicos Thomas Gold e Fred Hoyle propuseram uma teoria rival, da Criação Contínua, na qual matéria estaria sendo criada continuamente para preencher os vazios deixados pela expansão. Felizmente, ambas teorias poderia ser testadas pelas observações e as evidências acabaram por apoiar o Big Bang. Em 1980, Alan Guth da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, estendeu a cosmologia do Big Bang introduzindo a inflação, que auxiliava a resolver alguns problemas maiores da teoria. Mas, ainda restam questões importantes nessa área.

Planetas extra-solares

Grandes refinamentos na espectroscopia permitiram medir ligeiras variações nas velocidades estelares produzidas pela perturbação gravitacional de planetas em órbita. Em 1995, os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra descobriram um planeta com massa um pouco abaixo da metade daquela de Júpiter em torna da estrela 51 Pegasi, a 48 anos-luz. Agora se conhecem centenas de planetas extra-solares e abriu-se um novo campo da astronomia. Os astrônomos têm se surpreendido com suas descobertas – a maioria dos sistemas planetários é muito diferente do Sistema Solar. Alguns têm planetas gigantes orbitando muito próximo à estrela mãe, enquanto outros têm planetas com órbitas altamente elípticas. 

A caçada continua

Quanto mais os astrônomos sabem sobre o Universo, mais querem saber. Na década de 1970 reconheceu-se que o Universo continha muito mais material que o visível: matéria escura afeta a rotação das galáxias; a massa faltante é prevista pela teoria do Big Bang mas ainda não foi observada. A exótica “energia escura” parece acelerar a expansão do Universo. Ao lado desses grandes mistérios cosmológicos está a busca pela vida do Universo, abarcada pela nova ciência da astrobiologia. Nos últimos séculos o tamanho dos espelhos de 10mde hoje serão substituídos por gigantes ainda maiores e observações feitas além da atmosfera terrestre serão cada vez mais produtivas. O telescópio de 2,5m do Telescópio Espacial Hubble será pequeno perto do Telescópio Espacial James Webb, com espelho de 6,5m, a ser lançado em 2021. Esta nova geração de telescópios deverá finalmente captar a primeira geração de estrelas e galáxias. E, à medida que os astrônomos observarem cada vez mais longe com instrumentos cada vez mais sensíveis, inevitavelmente serão confrontados com novos mistérios e corpos exóticos não imaginados antes.

Primeiras espaçonaves

A segunda metade do século XX registrou uma revolução na nossa compreensão do Universo, desencadeada pelo desenvolvimento do vôo espacial. Pela primeira vez, em lugar de apenas olhar para o esaplo, os seres humanos e suas máquinas viajavam por ele. Revezes e riscos marcaram os primeiros tempos da exploração espacial, mas, com esses obstáculos superados, o progresso foi rápido.

Sonhadores de foguetes

A ideia da viagem espacial é tão antiga quanto o contar estórias, mas com poucas noções das leis da física ou da natureza do espaço escritores frequentemente se baseavam em meios cômicos ou absurdos de transportar fictícios viajantes espaciais. Mas, as leis newtonianas do movimento e da gravitação, em conjunto com o fato do espaço ser um vácuo, indicavam que apenas uma forma de propulsão seria capaz de levar viajantes ao espaço – o foguete. Desenvolvidos como fogos de artifício e armas na China medieval, os foguetes contém o combustível necessário para sua propulsão, impulsionados por gases ejetados pelo seu escape. Embora o escritor francês Cyrano de Bergerae (1619-1655) tivesse sugerido no século XVII seu uso para alcançar a Lua, o primeiro a considerar seriamente as realidades da viagem espacial foi o professor da escola rural soviético Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), que desenvolveu muitos dos princípios dos foguetes de combustível líquido, de múltiplos estágios, publicando-os na década de 1890.

Lançamento

Os princípios dos foguetes estavam bem desenvolvidos no começo do século XX, mas ainda havia vários problemas para fazer do voo espacial uma realidade prática. O maior deles era a eficiência do combustível. O engenheiros estadunidense Robert Goddard concebeu a ideia de combustíveis líquidos mais eficientes e em 1926, lançou um foguete de 3m de comprimento impelido por oxigênio líquido e gasolina. As ideias de Goddard e Tsiolkovsky foram adotadas por entusiastas no mundo todo, inclusive pela Sociedade para a Viagem Espacial (VfR) da Alemanha. Durante a década de 1930, muitos dos cientistas da VfR foram recrutados pelo boverno nazistas para um programa militar que prosseguiu durante a Segunda Guerra Mundial. A culminação dos seus esforços, o míssil V2, chegou tarde demais para salvar a Alemanha da derrota, mas provou que armamentos à base de foguete eram o caminho do futuro.

A corrida espacial

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, as maiores potências desejavam a tecnologia de foguetes para si. A maioria dos cientistas fugiu para o Ocidente, mas a União Soviética capturou as fábricas das V2. As razões para tal interesse tornaram-se claras quando as relações internacionais rapidamente deterioraram e começou a Guerra Fria. Ambos acreditavam que mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) impulsionados por foguetes poderiam ser a resposta para lançar a arma final – a bomba nuclear. Foi neste contexto que os Estados Unidos e a União Soviética começaram seus programas espaciais. Ambos viram que a tecnologia de mísseis poderia ser utilizada para alcançar a órbita terrestre e reconheceram que esses lançamentos demonstrariam o poder de seus foguetes e renderiam grandes benefícios de propaganda.

Em órbita

No começo dos anos 1950 União Soviética e Estados Unidos anunciaram planos de lançar satélites durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-58. O programa soviético prosseguiu em sigilo, usando seus enormes mísseis R-7 como veículos de lançamentos, enquanto os cientistas estadunidenses passavam por escrutínio público. Os planos do cientista alemão Werher von Braun de lançar um satélite com o ICBM estadunidense Redstone foram engavetados a favor do programa de pesquisa espacial Vanguard da marinha estadunidense. Pouco antes da data de lançamento do Vanguard, em novembro de 1957, os soviéticos anunciaram em 4 de outubro do mesmo ano o lançamento bem sucedido do Sputnik I. As estações de rastreamento captaram sinais de rádio do satélite e confirmaram que a União Soviética tinha tomado a dianteira na corrida espacial. A humilhação estadunidense foi total quando, em 6 de dezembro, o lançamento do Vanguard terminou em uma explosão na plataforma de lançamento. O projeto de Von Braun foi imediatamente ressuscitado, e o primeiro satélite estadunidense, o Explorer I, entrou em órbita com êxito menos de dois meses mais tarde, em 31 de janeiro de 1958.

As missões Vostok

No final da década de 1950, o próximo grande passo da corrida espacial estava claro – qual das superpotências seria a primeira a colocar uma pessoa em órbita? Os soviéticos tinham uma óbvia vantagem de potência, já que o Sputnik II, o seu segundo satélite, pesava meia tonelada, e haviam conseguido enviar sondas além da vizinhança imediata da Terra. Em 12 de abril de 1961 fizeram um anúncio que surpreendeu o mundo: o Coronel Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espalho, a bordo da Vostok I. Gagarin retornou à Terra como herói da União Soviética, e o programa espacial estadunidense, agora gerenciado pela Nasa, de novo havia ficado para trás. As missões Vostok posteriores superaram novos limites e colocaram a primeira mulher no espaço, aumentaram os tempos em órbita e mantiveram mais de uma espaçonave simultaneamente em voo.

Projeto Mercury

A resposta da Nasa ao Vostok foi o programa Mercury, que lançou seis astronautas entre 1961 e 1963. Diferentemente do programa soviético os esforços estadunidenses foram conduzidos sob os holofotes da mídia. As cápsulas espaciais Mercury eram minúsculas e leves, parcialmente porque tinham que ser transportadas pelo pequeno veículo de lançamento Redstone nos primeiros voos. A Nasa estava desenvolvendo um novo lançador, o Atlas, mas os tests da cápsula deveriam começar antes do foguete maior estar pronto. Surpreendida pelo lançamento do Vostok I, a Nasa correu para retaliar e colocou seu primeiro homem no espaço em 5 de maior. Lançado em um foguete Redstone a missão Freedom 7, de Alan Shepard, não tinha velocidade suficiente para entrar em órbita, mas alcançou uma altura de 185 km durante um voo de 15 minutos. Após um segundo voo sub-orbital, o foguete Atlas foi completado no final de 1961. Seguindo um número de testes, John Glenn foi o primeiro estadunidense em órbita em 20 de fevereiro de 1962.

Próximos passos

Dispostos a manter sua liderança na corrida espacial, os soviéticos assumiam um grande risco. Os estadunidenses tinham anunciado suas missões planejadas de dois homens do Gemini e, em um esforço para ofusca-los de antemão, o diretor do programa espacial soviético, Korolev, planejava uma missão de três homens. Era um grande desafio, pois já havia sido iniciado um trabalho com as naves Soyuz visando alcançar a Lua. Finalmente, os engenheiros soviéticos chegaram a um engenhoso compromisso Voskhod era efetivamente uma cápsula Vostok modificada com espaço suficiente para levar três tripulantes. O voo da Voskhod I, em 12 de outubro de 1964, foi um sucesso, batendo a primeira missão tripulada Gemini por cinco meses. A Voskhod II, lançada alguns dias antes do primeiro teste de voo da Gemini foi um sucesso ainda maior. Durante o voo Alexei Leonov tornou-se a primeira pessoa a caminhar no espaço. Os soviéticos haviam desferido mais um espetacular golpe de propaganda.

Exploradores robôs

Enquanto o foco da atenção pública estava principalmente no programa espacial tripulado, uma segunda corrida espacial era mantida em paralelo – cujas consequências para nossa compressão do Sistema Solar. Cada superpotência tentava superar a outra nos “primeiros” passos da exploração de outros mundos. A exploração espacial robótica teve uma acidentada história inicial, com numerosas falhas, tanto nas plataformas de lançamento, enquanto, ou durante as tentativas de pouso. Porém houve alguns sucessos notáveis: em janeiro de 1959 a Lunik ou Luna I tornou-se o primeiro objeto a escapar da gravidade terrestre e entrar em órbita em torno do Sol; a Lunik II atingiu a Lua em setembro de 1959; a Lunik III registrou as primeiras imagens do lado oculto da Lua. A Pioneer V da Nasa foi a primeira sonda deliberadamente lançada ao espaço interplanetário, entrando em órita entre a terra e Vênus em 1960, enquanto as sondas estadunidenses Mariner II e IV venceram os soviéticos na corrida rumo a outros planetas, voando para Vênus e Marte em 1962 e 1965, respectivamente.

Viagens à Lua

As missões Apolo para a Lua frequentemente são descritas como uma grande conquista da técnica humana. Vastas quantidades de recursos humanos e financeiros foram investidos em um programa com motivações científicas e de propaganda. As missões revelaram muito sobre a Lua e seus imensos avanços tecnológicos remodelaram o mundo.

Um homem na Lua

Em 25 de maio de 1961 o presidente estadunidense John F. Kennedy fez um discurso que abalou o mundo. Em uma época em que os Estados Unidos ainda tinham que colocar um astronauta em órbita da Terra, ele prometeu que seu país levaria pessoas à Lua até o fim da década. A escala do empreendimento era monumental. Astronautas não haviam se aventurado a além de 300km da superfície terrestre, e agora Kennedy dava à Nasa a missão de enviá-los a uns 400.000km de distância, pousá-los na superfície de um mundo desconhecido e trazê-los de volta com segurança. Contudo, se isto fosse realizado, a mensagem seria que os Estados Unidos agora eram uma potência espacial. A Nasa imediatamente começou a investigar os meios de se pousar na Lua. A missão estabeleceu como objetivo usar o maior foguete já construído, projetado pelo cientista de foguetes alemão Wernher von Brauns, para enviar três naves conectadas rumo à Lua – somente uma delas retornaria à Terra. O nome, Apollo, o deus grego do Sol, foi sugerido pelo diretor de voos espaciais da Nasa. Dr. Abe Silvestein.

Projeto Gemini

Cada missão Apollo envolveria diversas operações de encontro, acoplamento e desacoplamento no espaço – operações que a Nasa e seus astronautas jamais haviam tentado antes. Apenas ir à Lua e voltar exigiria um mínimo de 7 dias. Para ganhar experiência em voos espaciais de longa duração e nas delicadas manobras necessárias no Apollo, a Nasa anunciou que o programa Mercury seria substituído pelo Projeto Gemini, uma série de missões de dois tripulantes. Houve 10 missões tripuladas Gemini, entre 1964 e 1966, diversas das quais envolviam encontros entre naves, caminhadas no espaço, e mesmo acoplamentos com veículos alvo não-tripulados. Agena. A espaçonave, composta de três módulos, também representava um grande avanço. Enquanto os dois astronautas permaneciam durante a missão dentro de um módulo de reentrada, apenas 50% maior que a cápsula Mercury, os suprimentos de água e ar, o equipamento elétrico e os experimentos eram mantidos principalmente em um módulo de serviço separado. Um terceiro módulo continha foguetes para manobrar a espaçonave em órbita e freá-la antes de sua reentrada.

Preparando o caminho

Um grande desafio para os planejadores da Apollo era a falta de conhecimento sobre a Lua. À época, pouco se conhecia sobra a história lunar, a natureza das suas crateras e as propriedades de sua superfície – pensava-se seriamente na possibilidade da superfície ser de um pó tão fino que a nave afundaria. Para responder estas questões, a Nasa planejou uma série de missões robóticas para fazer levantamentos detalhado da Lua incluindo pousos – tanto de colisão quanto suaves. As primeiras foram as naves Ranger, quatro das quais colidiram com a Lua entre 1961 e 1964. Pelas fotos retransmitidas à Terra, é inteiramente coberta por crateras, até nas menores escalas, o que indica uma origem por impacto. Em 1966 teve início uma segunda fase, com as naves Lunar Orbiter e surveyor. Os orbitadores fotografaram a Lua de perto, a cerca de 0 km, buscando locais interessantes para pousos tripulados, enquanto os Surveyor efetuaram uma série de pousos suaves, confirmando a firmeza da superfície lunar.

Apollo em órbita

No final de 1966, o programa Apollo estava avançando rápido. Os enormes foguetes Saturno V estavam em construção e as naves prontas para os testes. Porém, em janeiro de 1967, a tripulação da Apollo I morreu durante um incêndio na cápsula em um ensaio de lançamento. Como consequência as missões Apollo II e III foram canceladas, e as missões Apollo IV, V e VI foram convertidas em teses de lançamento não-tripulados. Somente em outubro de 1968 os astronautas retornaram ao espaço, com o lançamento da Apollo 7. Esta missão orbital foi logo seguida pela Apollo VIII. Lançada pela primeira vez pelo Saturno V a missão da nave foi alterada para incluir uma órbita ao redor da Lua no Natal, após rumores de que os soviéticos lançariam um veículo  tripulado para alcançar a Lua. O lançamento nunca aconteceu e, depois das Apollo IX e X, a Nasa estava finalmente pronta para tentar pousar na Lua.

O primeiro pouso na Lua

A Apolo XI partiu de Cabo Kennedy (agora Canaveral), na Flórida, em 16 de julho de 1969) e entrou em óribta lunar três dias depois. Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin então embarcaram no módulo lunar “Eagle” para a descida na superfície, enquanto Mihael Collins permanecia a bordo do módulo em comando e serviço (CSM) “Columbia” em órbita lunar. Eagle tocou seguramente uma planície de lava conhecida como o Mare Tranquilitatis (Mar da Tranquilidade) e, seis horas após o poso, Neil Armstrong deixou o módulo e desceu a escada, pisando a superfície das 2h56 do dia 20 de julho. Armstrong e Aldrin permaneceram na superfícia por 21 horas, realizando uma caminhada, durante a qual implantaram uma bandeira e uma placa comemorativa, conduziram diversos experimentos coletaram rochas, e telefonaram para o presidente estadunidense Richard Nixon.

Módulo lunar

O módulo lunar, com sua aparência frágil, era um elemento vital de cada missão Apollo. Como ele nunca voaria em uma atmosfera os projetistas tiveram a liberdade de dar-lhe uma forma estritamente funcional. Embora o módulo tivesse 9,5m de largura e 7m de altura, a cabine era tão apertada que os astronautas ficaram de pé durante o voo. O grande motor de foguete, embaixo da seção superior do módulo, era usado para frear a cápsula durante o pouso na Lua e, depois, fornecer o impulso para a decolagem da superfície lunar e injeção em órbita.

Missões posteriores

A Nasa havia originalmente planejado dez missões Apollo, mas apenas seis foram completadas. Embora a Apollo XII tenha sido um sucesso, a Apollo XIII ficou famosa pelo seu acidente, quando uma falha elétrica e perda de oxigênio, pela primeira vez colocaram uma tripulação da série em grave perigo. As últimas três Apollo levavam um jipe lunar, estendendo consideravelmente a área que os astronautas poderiam explorar. Redução no interesse público e cortes de verbas da Nasa levaram ao cancelamento das três últimas missões. Os estertores finais da Apollo foram a estação espacial Skylab, que usava um foguete Saturno V, e a missão Apollo-Soyuz, um encontro entre astronautas soviéticos e estadunidenses em órbita terrestre.

Lições científicas

As missões Apollo revelaram muito aos astrônomos sobre a química e história da Lua. As rochas coletadas ainda são estudadas em todo o mundo. O registro do bombardeamento da Lua e a datação por radioisótopos das amostras revelaram o período de intenso bombardeamento a modelou o Sistema Solar durante seu primeiro bilhão de anos. Embora os soviéticos nunca tenham tentado um pouso tripulado na Lua, colocaram uma série de jipes LunoKhod no satélite e trouxeram pequenas amostras de poeira para a Terra.

Em órbita da Terra

Embora muito do foco da exploração espacial tenha sido viagens a planeta e luas distantes, a grande maioria das missões não foi além da órbita terrestre. Em torno da Terra é que o advento do voo espacial teve maior impacto. Nossa vizinhança espacial agora está repleta de satélites, tanto com propósitos científicos como comerciais.

Estações espaciais

A União Sovietica mudou a direção do seu programa espacial no final da década de 1960, priorizando postos semipermanentes em órbita. As primeiras estações espaciais soviéticas, nos anos 1970, as Salyut, eram clilindros com 13m de comprimento e no máximo 4m de largura que abrigavam tripulações de três cosmonautas por diversas semanas em condições espartanas. Embora a corrida espacial tivesse se desacelerado, a Nasa ainda se sentia obrigada a competir e, em 1973, lançou a estação Skylab, que foi visitada por três tripulações separadas ao longo de um ano. Com isso, a Nasa manteve um breve recorde de permanência no espaço. Contudo, quando voltou suas atenções para o Space Shuttle, as estações espaciais foram deixadas para os soviéticos. As mais avançadas Salyut 6 e Salyut 7 eram muito maiores que suas antecessoras e podiam ser ampliadas por módulos lançados da Terra. Na metade na década de 1980, os cosmonautas permaneciam meses em órbita, conduzindo valiosos experimentos científicos.

Potencialidades do espaço

Além das razões políticas e científicas para a exploração espacial, as últimas décadas viram o surgimento para fins práticos. Empresas privadas e países menores conseguem agora lançar satélites e o mundo foi transformado pelos seus resultados. Os satélites de comunicações nasceram dos trabalhos de Arthur C. Clarke e outros, e radiotransmissores orbitais são os responsáveis pelo Global Positioning System (GPS), que permite aos usuários encontrar sua posição em qualquer parte da Terra com precisão de poucos metros. O potencial da observação da Terra desde sua órbita tornou-se claro quando os primeiros astronautas relataram avistar nitidamente acidentes geográficos – com grande surpresa para os controladores de solo. Hoje diversos satélites de observação da Terra circulam o globo, desde os climáticos que monitoram hemisférios inteiros, até os espiões, capazes de ver detalhes inferiores a 1m. Ainda mais sofisticados são os satélites de sensorialmente remoto. Monitorando a Terra em vários comprimentos de onda, reúnem imensas quantidades de informação sobre o solo, como a direção das correntes oceânicas, a localização de depósitos mineiras e a qualidade das plantações.

Observatórios orbitais

Muitas das grandes descobertas e imagens espetaculares do Universo distante provêm de satélites. A atmosfera terrestre representa um sério problema para os astrônomos, pois filtra a maioria da radiação eletromagnética. Contudo, um telescópio no espaço coloca problemas únicos. Não só eles devem ser controlados remotamente para retornar imagens à Terra, mas também devem operar em um ambiente hostil. As flutuações de extremas temperaturas entre a iluminação solar e a escuridão podem distorcer a delicada óptica do telescópio, visto que o instrumento todo se contrai e se dilata, e assim se exige um projeto engenhoso de isolamento. Mesmo assim, o tempo de operação em órbita é limitado. Além da energia fornecida pelas células solares, os satélites demandam combustível para se reorientar no espaço e agentes resfriadores para proteger sua delicada eletrônica.

Vôos tripulados

Desde as missões Apollo, o voo espacial tripulado continuou a se desenvolver. Apesar de duas tragédias de grande impacto, em 1986 e 2003, o Space Shuttle da Nasa, a primeira espaçonave reutilizável, transformou o voo espacial em uma atividade quase rotineira. Desde seu primeiro voo em 1980, os Shuttles completaram mais de 100 missões, levando experimentos, lançando satélites, e observando a Terra e o espaço. Enquanto isso, a União Soviética desenvolver o princípio da estação espacial modular, ampliável, como a Mir (1986-2001). Os plano da Nasa de um estação espacial permanente evoluíram para um enorme projeto internacional, e quando a Estação Espacial Internacional estiver completa, o Space Shuttle terá se aposentado após 25 anos de serviço. No momento, alguns países têm planos ambiciosos do retorno do homem à Lua como estala rumo a Marte.

Além da Terra

Embora os seres humanos não tenham ainda se aventurado além da Lua, as sondas espaciais automáticas mergulharam muito mais fundo. Exploradores robóticos visitaram todos os planetas e também pesquisaram dezenas de satélites em um conjunto de corpos menores. Durante suas jornadas, transformaram nossa visão do Sistema Solar, revelando outros mundos, quase tão complexos quanto a Terra.

Primeiros passos

A primeira sonda a deixar a influência da Terra e entrar em órbita própria ao redor do Sol foi a nave soviética Lunik I (Luna I), que, em 1959, errou seu alvo, a Lua, e se tornou por acidente a primeira sonda interplanetária. Logo seguiram-se esforços deliberados da Nasa, que, entre 1960 e 1968, lançou com sucesso as Pioneer 5 a 9 em órbitas entre a Terra e Vênus. Várias dessas naves alimentadas com energia solar ainda transmitem dados científicos. Assim como havia a corrida para colocar o homem no espaço, as superpotências da Guerra Fria competiam pelo primeiro lugar na chegada a outros planetas. Em dezembro de 1962, a Mariner 2 foi a primeira sonda a realizar um sobrevôo em Vênus, medindo a temperatura extremamente alta de sua superfície, e confirmando sua rotação anormalmente lenta. A Mariner 4 sobrevoou Marte em julho de 1965, medindo sua atmosfera e fotografando seus planaltos austrais com crateras.

O sistema solar interno

Como estão mais próximos do Sol, Mercúrio e Vênus viajam mais rápidos que a Terra. Assim, a sonda deve ganhar velocidade para entrar em suas órbitas. Contudo, algumas naves superaram este desafio técnico e visitaram Vênus nos anos seguintes ao primeiro sobrevoo. Diversas sondas soviéticas tentaram o pouso na superfície hostil, apenas para serem destruídas durante a reentrada. Em 1967, Venera 4, equipada com blindagem semelhante a um tanque, enviou com êxito sinais para a Terra. Foi somente oito anos mais tarde que a Venera 9 retornou as primeiras imagens da superfície venusiana. Tanto a Nasa como os soviéticos lançaram orbitadores para fazer levantamentos do planeta desde o espaço. Em 1978, a missão Pioneer Orbiter mapeou o planeta com radar e lançou sondas atmosféricas. Em 1989, o Magellan, um orbitador da Nasa equipado com um sofisticado radar, deu início ao estudo por quatro anos do planeta, com detalhes sem precedentes. A velocidade orbital de Mercúrio representa um problema maior: até agora [2008], apenas a Mariner 10 e a Messenger o visitaram.

Perto de Marte

Os primeiros sobrevoos de Marte foram sucessos notáveis, porém não no que se refere aos trajetos de seus voos. Três sondas estadunidenses retornaram imagens de 10% da superfície marciana, mas perderam toda a evidência de vulcanismo e de água que fazem o fascínio do planeta. A sorte da Nasa mudou em 1971, quando a Mariner 9 tornou-se a primeira nave a orbitar Marte, conduzindo um levantamento fotográfico que revelou o sistema de Valles Marineris, os altíssimos vulcões da região de Tharsis, e os primeiros sinais de cânios com erosão por água. Com o redespertar do interesse pelo Planeta Vermelho, a Nasa lançou a Marte as duas naves gêmeas da missão Viking, cada uma com um lander (módulo de pouso) e um orbitador. Os orbitadores forneceram imagens e dados climáticos da superfície, além de conduzirem vários experimentos detalhados, incluindo um controverso teste de vida microbiana.

O grand tour

Os anos 1970 apresentaram uma rara oportunidade: um alinhamento de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno permitiria a uma nave viajar de um planeta a outro, usando o efeito de “estilingue gravitacional”. O chamando Grand tour levaria pouco mais que uma década. Em 1977, a Nasa lançou a Voyager 1 e 2, inicialmente tendo como alvo apenas Júpiter e Saturno. A Voyager passou por Júpiter em março de 1979 e por Saturno em novembro de 1980, fazendo a primeira aproximação rasante da sua Titã. A Voyager 2 a seguiu poucos meses depois, e, como a Voyager 1 havia completado sua missão, os cientistas da Nasa decidiram ativar seu plano de reserva, lançando sua segunda sonda ao redor de Saturno rumo a Urano, alcançando em 1986, e a Netuno, em 1989. Esta missão extremamente bem sucedida nos ofereceu os primeiros vislumbres desses gigantes exteriores gelados, de suas luas e de seus anéis. Ambas naves ainda estão viajando, além de Plutão, nos confins do sistema solar [Atualmente – 2019 –, já saíram do Sistema Solar].

Exploradores em Marte

Apesar dos sucessos dos lander Viking, as sondas não retornaram a Marte até o final da década de 1990, seguindo uma série de fracassadas missões estadunidenses e soviéticas. Em 1997, a Mars Global Surveyor da Nasa entrou em órbita em torno do planeta, equipada com câmeras de última geração, enquanto um lander, o Mars Pathfinder, liberou o jipe robô Sojourner, que coletou rochas e solo. Seguiram-se muitas outras naves, e a cada nova descoberta, a possibilidade de vida em Marte tornou-se mais plausível. Vários satélites artificiais estão em órbita ao redor do planeta, usando técnicas de sensoriamente remoto para sondar o subolo marciano. Os jipes de exploração marciana, Spirit e Opportunity descobriram evidências inegáveis sobre oceanos extensos no passado marciano. Novas missões como a Phoenix, traçam a história da água em Marte e a possibilidade de vida no planeta.

Entre as luas de Júpiter

Os sobrevoos das Voyagers sobre as enormes luas de Júpiter revelaram que elas eram mundos fascinantes merecedores de uma inspeção mais de perto. A sonda Galileo, destinada a orbitar Júpiter, foi lançada em 1989, mas somente chegou ao destino em 1995. E os resultados valeram a espera. O orbitador fez o sobrevoo rasante de um asteroide durante seu curso, e librou uma sonda na atmosfera de Júpiter, antes de começar uma missão que ultrapassaria todas as expectativas. A Galileo estudou os vulcões de Io e o sistema climático de Júpiter, enquanto deu apoio a evidência de um oceano debaixo da crosta de gelo de Europa e nas luas jovianas exteriores Ganimedes e Calisto.

Cassini e além

A Galileo foi seguida por uma missão ainda mais ambiciosa para Saturno. A Cassini, uma enorme sonda pesando 5,6 toneladas, foi lançada em 1997. Depois de uma complexa jornada durante a qual sobrevoou duas vezes Vênus e uma vez a Terra e tomou impulso em Júpiter, finalmente chegou a Saturno em 2004. A bordo havia o lander europeu Huygens, que desceu de paraquedas na atmosfera de Titã em janeiro de 2005 enviando imagens durante seu pouso e revelando um mundo no qual o metano líquido parece desempenhar o mesmo papel que a água na Terra. Cassini continuou a monitorar Saturno e a fazer voos rasantes sobre muitos dos satélites fascinantes e variados do planeta. Desse modo abrirá caminho para futuras missões orbitais ainda mais ousadas, com ao Prometheus (antes o Orbitador das Luas Geladas de Júpiter), uma nave impulsionada à energia nuclear projetada para estudar as luas de Júpiter em detalhes sem precedentes. A Prometheus será a primeira de uma nova geração de naves espaciais nucleares que abrirá o Sistema Solar a uma exploração mais rápida e ainda mais profunda.

Cometas e asteroides

Embora a maior parte das sondas tivesse os planetas como alvos os cientistas não esqueceram os corpos menores do Sistema Solar. Cometas e asteroides virtualmente inalterados desde sua formação, há 4,5 bilhões de anos, contêm indícios fascinantes sobre a criação do Sistema Solar e mesmo sobre a origem da vida. Em 1985 e 1986, quando o Cometa Halley passou novamente pelas proximidades do Sol, uma flotilha de naves dirigiu-se ao seu encontro. O NEAR (Near Earth Asteroid Rendezvous) sobrevoou o asteroide Mathilde do Cinturão principal em 1997, antes de monitorar o grande asteroide Eros por um ano. Seguiram-se missões mais ambiciosas. A Stardust, da Nasa, recolheu poeira da cauda do cometa Wild 2 em 2004, para trazer à Terra; a missão europeia Rosetta pela primeira vez colocou um lander em um cometa; e a New Horizon sobrevoará Plutão [Chegou em 2016], antes explorando o cinturão de Kuiper, o berço de muitos cometas.

O futuro do homem no espaço

É inevitável que naves tripuladas um dia se aventurem pelas profundezas do Sistema Solar. China, Rússia e Estados Unidos têm planos para um retorno à Lua, e os estadunidenses também consideram a possibilidade de uma missão a Marte. Embora possam ser abandonados, esses planos serão substituídos por outros, e no meio tempo os cientistas espaciais terão reunido os conhecimentos necessários para tornar a viagem espacial de longa duração uma realidade. A Rússia ganhou uma experiência única de microgravidade prolongada com as missões na estação espacial Mir, e a tripulação da Estação Espacial Internacional é uma fonte preciosa de informações em medicina espacial. Por outro lado, experimentos em solo, como a Biosfera 2, fornecem informações úteis sobre como os astronautas poderiam produzir seu próprio alimento, água e oxigênio em outros planetas e como uma tripulação isolada enfrentaria o confinamento em uma nave por muitos meses.

Sistema Solar

ASTRÔNOMOS, E OUTRAS PERSONALIDADES
Por ocupação principal
TEXTOS
Descobrindo o Sistema Solar

Quem foi descoberto primeiro, a Terra ou Marte? A pergunta, em princípio tola, na verdade tem fundamento. Não há como saber quem foi o autor da façanha, mas o fato é que bem antes de alguém descobrir que a Terra era um planeta, tivemos a certeza de que Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno eram! Descobrir planetas no céu até que foi fácil. Mas daí para nossos antepassados deduzirem que também habitavamos um deles foi outra história. Na Antiguidade, ao observar o céu, certas pessoas notaram que alguns astros faziam um trajeto muito estranho. Se você já passou uma noite ao ar livre deve ter percebido que um grupo qualquer de estrelas "move-se" em bloco pelo céu, do leste para o oeste, mantendo as mesmas distâncias aparentes entre si. Mas existe uma classe de astros que subjuga essa ordem celeste. Ao observá-los em relação às estrelas próximas veremos, ao longo dos dias, que ora estarão adiante delas, ora ficarão para trás.


Depois retomarão o caminho e seguirão adiante, mas sem estar sempre com um grupo específico de estrelas. Esse movimento em ziguezague deu-lhes o apelido de errantes. Ou planetas, em latim.

Problema deles
ERAM CINCO OS PLANETAS. Havia um que "corria" próximo ao Sol, ziguezagueando veloz em seu caminho, às vezes pouco antes do nascer, outras vezes pouco depois que o astro-rei se escondia no horizonte. Deram-lhe o nome de Hermes, o mensageiro dos deuses. Nós usamos até hoje o nome latino: Mercúrio.

Também havia um outro que vagava por perto, tão belo e cintilante que lhe deram um significado feminino: era Afrodite. Ou Vênus, a deusa da beleza.

Outro errante costumava brilhar em vermelho cor de sangue no meio da noite. Para os antigos era Ares, um planeta ferido de morte - ou Marte, o deus da guerra. Eram todos nomes de deuses da mitologia greco-romana. Mas não deuses quaisquer, eram os manda-chuvas do Olimpo. O poderoso Zeus, senhor supremo, também estava lá. Para os antigos era o planeta mais brilhante depois de Vênus, com uma coloração branco-alaranjada, sereno, como um deus deve ser. Era Júpiter.


Por fim, havia aquele que os gregos chamavam de Cronos, o senhor do tempo, pai de Júpiter e o mais jovem entre os Titãs. Para nós ficou Saturno, o senhor dos anéis.

Todos errantes no céu, senhores de seus próprios caminhos. Mas a Terra, que os gregos chamavam Gaia, não era um planeta: não vagávamos sem rumo pelo céu, estávamos bem presos ao chão e tudo parecia girar à nossa volta. Errantes eram os outros.

Tem mais um ali
MAS AFINAL, NADA HAVIA DE ERRADO com o movimento dos planetas. Como a Terra, eles simplesmente giravam em torno do Sol. Ao contrário das estrelas, que de tão distantes parecem fixas no firmamento. O efeito conjunto do movimento da Terra e de um planeta provoca a ilusão de que ele está regredindo no céu.

Na verdade, as estrelas também se movem, mas como estão muito longe custamos a perceber, do mesmo modo que quando viajamos de carro percebemos muito mais facilmente o deslocamento aparente dos postes ao longo da estrada que das nuvens no horizonte. O tempo passou. Inventaram o telescópio e esqueceram-se dos deuses gregos. Um belo dia um astrônomo inglês descobriu um novo planeta. Ninguém podia vê-lo a olho nu mas ele tinha o mesmo movimento errático dos demais.


O pior é que lhe deram o nome de Jorge, em homenagem ao rei Jorge III da Inglaterra. Sorte que o bom senso prevaleceu e a comunidade científica rejeitou o nome e o chamou de Urano, céu em grego. Sessenta e cinco anos mais tarde, em 1846, foi a vez de Netuno - na mitologia grega, Poseidon, o deus dos mares.

Plutão só foi descoberto no século XX (em 1930) e desde então ainda não completou uma volta em torno do Sol. Para Hades, também uma divindade do Olimpo, ainda não se passou nem um ano desde que o encontraram. Asteróides em dose dupla

AS DESCOBERTAS NÃO PARARAM POR AÍ. Em 1951 o astrônomo de origem holandesa Gerard Kuiper (1905-1973) propôs a existência de um segundo cinturão de asteróides além da órbita de Plutão.

Muitos desses corpos seriam compostos por materiais voláteis, que evaporariam caso chegassem perto do Sol, formando longas caudas de gás e poeira. Hoje essa região é conhecida como Cinturão de Kuiper.

Em 1992 foram descobertos Smiley e Karla, dois pequenos corpos na região proposta por Kuiper. Hoje se conhecem mais de 600 objetos no cinturão de Kuiper, entre eles Quaoar, com 1.250 km, quase a metade do tamanho de Plutão e um volume superior à soma de todos os asteróides conhecidos.

O Sistema Solar atual é formado pelo Sol, os nove planetas conhecidos, um anel de asteróides entre Marte e Júpiter e outro chamado Cinturão de Kuiper, localizado depois da órbita de Netuno. Sem falar nos cometas. E quanto à Terra? Bem, afinal alguém descobriu que fazíamos parte da família do Sol. Isso foi por volta do ano 500 antes de Cristo. Hoje, é irresistível brincar com a idéia de que enquanto o Brasil fazia 500 anos, a Terra, cujo dia também se comemora em 22 de abril, "completava 2.500 anos". Feliz aniversário!

Sistema Solar
Explorando o espaço - uma história da astronomia

A história da astronomia conecta círculos de pedra pré-históricos com sondas espaciais do século XX!. È uma história de sucessivas revoluções na compreensão de nosso local no Cosmos, e nos meios pelos quais tomamos consciência dele. A geometria permitiu aos gregos fazer as primeiras medidas do Sol, Terra e Lua. Já no século XVII, instrumentos precisos derrubaram ideias centradas na Terra. O telescópio descortinou o céu apresentando muitos novos mistérios a serem explicados pela teoria da gravitação de Newton. A espectrocospia ofereceu um novo método para estudar as propriedades das estrelas e, por fim, revelou a existência de outras galáxias e a expansão do Universo. Nas útlimas décadas, o desenvolvimento do voo espacial permitiu a telescópios em órbita sondar o espaço profundo, enquanto as jornadas de umas poucas pessoas e máquinas além da órbita imediata da Terra colocaram nosso planeta relamente em perspectiva pela primeira vez.

Astronomia antiga

A história da astronomia remonta a 6.000 anos atrás, o que a torna a mais antiga das ciências. Cada uma das culturas ao longo da história estudou o Sol, a Lua, as estrelas e observou como os corpos celestes se movem no céu. As observações refletem curiosidade e encanto com o mundo natural, mas também foram impulsionadas por razões urgentes de navegação, contagem de tempo e religião.

Ciclos da vida

Povos da antiguidade eram fascinados pelos padrões de mudança repetindo-se incessantemente no mundo a seu redor. Evidências da passagem do tempo incluías alterações na temperatura do ar, no horário e posição do nascer e pôr-do-sol, nas fases da Lua, no crescimento da vegetação e no comportamento animal. Esses fenômenos eram atribuídos aos deuses ou a poderes mágicos. Milhares de anos atrás, os “primeiros” astrônomos foram provavelmente pastores ou agricultores no Oriente Médio, que observavam a noite, atentos a sinais das mudanças das estações. Os antigos egípcios se baseavam em observações astronômicas para planejar o plantio e a safra das colheitas. Sabiam que o nascimento de Sirius logo antes do nascer-do-sol anunciava a enchente do rio Nilo. A habilidade para medir períodos de tempo e registrar ciclos celestes foi essencial para o avanço da astronomia, e assim muitas culturas antigas desenvolveram calendários, relógios de sol e relógios de água. Monumentos como as pirâmides e grupos de megalitos (grandes pedras eretas) foram, de fato, os primeiros observatórios. Em cerca de 1000 a.e.c., os indianos e babilônios haviam calculado a duração do ano em 360 dias; este período levou à divisão do círculo em 360°, com cada grau representando um dia solar. Posteriormente, os antigos egípcios refinaram a duração do ano para 365,25 dias.

Fazendo mapas celestes

A astronomia sempre se ocupou com mapear e nomear as estrelas. Por volta de 3500 a.e.c., os antigos egípcios dividiram o zodíaco nas 12 constelações de hoje e agruparam as outras estrelas fora do zodíaco em suas próprias constelações. Nas antigas China e Índia, criaram-se 28 mansões lunares, ou “domicílios noturnos” para registrar o movimento da Lua em seu caminho mensal. Os antigos gregos foram os primeiros a catalogar as cerca de 1000 estrelas mais brilhantes, por volta de 150-100 a.e.c. mas, muito antes deles, observadores da Índia e Oriente Médio mantinham registros astronômicos detalhados e datados. Coleta de dados sistemática foi desenvolvida pelos sumérios e babilônios – civilizações que viviam entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia – por razões de ritual e profecia política.

Orientação e navegação

Os mais importantes feitos dos astrônomos antigos incluem como encontrar os pontos cardeais – note, sul, leste e oeste – e como usar a Estrela Polar do norte para determinar a latitude. Este conhecimento capacitou a orientação precisa de estruturas, particularmente de templos e monumentos funerários, e também auxiliou na confecção de mapas terrestres acurados. Em 3000-2000 a.e.c., os povos da Idade da Pedra do norte da Europa utilizaram alinhamentos solares nos solstícios e equinócios, fases lunares, e outros dados astronômicos para construir grandes círculos de pedra, como Stonehenge e Avebury na Inglaterra, e Newgrange na Irlanda. Altares de foto (usados por sacrifícios rituais de fogo hindus), posicionados em bases astronômicas, e datando de 3000 anos atrás foram encontrados em diversos sítios arqueológicos na Índia. Algumas das mais complexas construções projetadas de acordo com princípios astronômicos são as pirâmides do antigo Egito e exemplos tardios construídos pelos astecas e maias na América. A arquitetura antiga fornece abundante prova de conhecimento astronômico, mas há poucas evidências do seu uso em navegação antiga. Contudo, os povos navegantes da Polinésia podem ter usado as posições das estrelas para migrar através do Pacífico por volta de 1000 a.e.c.

O nascimento da astrologia

Astrologia é uma prática milenar que busca determinar como os planetas e outros objetos celestes podem influenciar a vida na Terra, em especial os assuntos humanos. Descartada como superstição, ela estabeleceu fundamentos sólidos para a observação astronômica e dedução lógica. Em seu esforço de prever os eventos futuros e buscar sinais ou portentos os antigos astrólogos tentaram “ordenar” os céus e notaram o modo como o Sol, a Lua e os planetas se comportam. Enfatizaram em particular ocorrências inesperadas como eclipses, cometas, chuvas de meteoros e o aparecimento de novas estrelas. Muitas elites políticas empregavam astrólogos e observadores dos céus, e seu trabalho era uma atividade intelectual perfeitamente respeitável até o fim do século XVII. Astrônomos também escreviam tratados astrológicos; por exemplo, em 140 e.c., Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, o mais influente de todos os tratados astrológicos.

Início da astronomia científica

A Grécia antiga foi um divisor de águas no desenvolvimento da astronomia como a ciência racional. Os acadêmicos gregos formularam leis complexas e fizeram modelos do Universo. Após o estabelecimento do Islamismo, estudiosos árabes desenvolveram métodos ainda mais acurados de observação dos céus.

Germens do pensamento científico

O mundo grego antigo conheceu uma liberdade política e intelectual sem precedentes e um espantoso progrsso científico. Por 700 anos, de cerca de 500 a.e.c. a 200 e.c. os filósofos gregos buscaram respostas para questões astronômicas fundamentais. Ainda acreditavam em um plano mestre divino e tinham ideias que soam estranhas par anos hoje – Heráclito (540-500 a.e.c.), por exemplo, sugeria que as estrelas eram acesas toda noite, e o Sol toda manhã, como lâmpadas de óleo. Mas Platão (c.427-347 a.e.c.) argumentou que a geometria é a base de toda verdade, fornecendo assim o impulso necessário para deduzir exatamente como o Cosmos funcionava. Aristóteles fixou a Terra no centro do Universo e sugeriu que os planetas eram corpos eternos movendo-0se em órbitas perfeitamente circulares. Eudoxo (408-355 a.e.c.) cartografou as constelações setentrionais e Hiparco (190-120 a.e.c.) pela primeira vez classificou as estrelas em seis ordens de magnitude.

Medindo distâncias

Os avanços na geometria e trigonometria permitiram que os gregos medisses distâncias astronômicas com razoável precisão. Por volta de 500 a.e.c. Pitágoras propôs que o Sol e a Terra, a Lua e os planetas fossem todos esféricos, uma noção que Aristóteles confirmou, no caso da Terra, pela observação da forma de sua sombra durante um eclipse solar. Em 250 a.e.c. Eratóstenes (276-194 a.e.c.) notou que a luz solar incidia diretamente no fundo de um poço em Siena, no Egito, ao meio-dia do solstício de verão. Comparando com dados sobre as sombras em Alexandria, e usando trigonometria, ele estimou a circunferência da Terra com precisão de 5%. Hiparco e Aristarco (320-230 a.e.c.) mediram a distância Terra-Lua cronometrando eclipses lunares. Infelizmente, a distância Terra-Sol não foi estimada com a mesma precisão.

O cosmos centrado na Terra

É natural que as pessoas supusessem que o Cosmos era geocêntrico, ou centrado na Terra. Afinal de contas, não percebemos o movimento da Terra quando ela gera no espaço e as estrelas parecem fixas. Pensadores antigos, como Aristarco em 280 a.e.c., contestaram este sistema e colocaram o Sol no centro, mas suas ideias não tiveram crédito. Em vez disso, Ptolomeu refinou a visão de mundo cosmológica de Aristóteles e criou uma sequência ordenada de órbitas uniformes. Sua ordem era: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e finalmente as estrelas. Isto é baseado na velocidade percebida: por exemplo, a Lua completa uma volta no céu em um mês, o Sol em um ano e Saturno em 29,5 anos. De modo a reconciliar o conceito errôneo de órbitas circulares (em contraste com elípticas) e as velocidades variáveis dos planetas, Ptolomeu foi obrigado a argumentar que cada planeta também girava em um pequeno círculo, o epiciclo, enquanto orbitava a Terra.

Astronomia árabe

Depois do declínio das cidades-estado gregas, os mais importantes avanços da astronomia foram alcançados pelos árabes. O período de domínio grewgo durou 800 anos, desde a fundação do Islamismo em 622 até o século XIV. Astrônomos trabalhando no Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e Espanha mourisca traduziram textos gregos e em sânscrito (da Índia) para o árabe e assimilaram seu conhecimento astronômico. As regras muçulmanas para s cultos ao longo do dia e do mês, e a necessidade de encontrar a direção de Meca para fazer as orações e orientar as mesquitas, significavam que havia uma urgente necessidade de se determinar o tempo e a posição com extrema precisão. Desenvolveu-se a trigonometria esférica sofisticada, funções trigonométricas e álgebra e o astrolábio (uma invenção grega, usada para calcular a hora e a latitude) foi aprimorado. A abordagem dos grandes astrônomos árabes, como Al-Battani (850-929) e Ulugh Beg (1349-1449) fundamentava-se em observação paciente. Com este fim numerosos observatórios foram construídos, dos quais os maiores estavam em Bagdá, no Iraque, em Samarkand, no Uzbequistão, e em Maraghan, no Irã. Eles alojavam grandes instrumentos, incluindo quadrantes montados em paredes, utilizados para medir a altitude de objetos astronômicos quando cruzavam o meridiano (o plano norte-sul).

A revolução copernicana

Por séculos os astrônomos basearam suas teorias na suposição de que a Terra estaria no centro do Universo. No século XVI, esta posição privilegiada foi abalada pela sugestão de que a Terra era apenas um dos vários planetas circulando o Sol. Esta revolução foi acompanhada por imensos avanços tecnológicos, em particular pela invenção de telescópios, anunciando uma nova era de pesquisa e de grandes descobertas.

Astronomia medieval

Após a queda de Roma em 476, astrônomos na Europa, Oriente Médio e àsia deixaram para trás seu relativo isolamento cultural e passaram a trocar ideias mais livremente. Isto graças, em parte, ao crescimento do comércio durante a Idade Média e em parte à expansão do Islamismo. A astronomia observacional floresceu com ênfase em conjunções planetárias, eclipses solares e lunares a as aparições de cometas e estrelas novas. Muitos astrônomos medievais eram professores universitários e se sustentavam com o ensino. Apesar dos recursos limitados fizeram avanços notáveis, incluindo um novo preciso catálogo de posições de estrelas a olho nu, planejado por Ulugh Beg *1394-1449) da Mongólia – o primeiro desde os dias de Hiparco, 1600 anos.

O Universo heliocêntrico

Pode-se datar o nascimento da astronomia em 1543, quando Nicolau Copérnico publicou seu revolucionário tratado sobre um Universo centrado no Sol, ou heliocêntrico. Ele estava insatisfeito com a imprecisão dos modelos geocêntricos das orbitas planetárias, nos quais a Terra ocupava o centro e que dominavam a astronomia desde a obra de Ptolomeu no século II. Sua teoria muito mais simples de um Sol central e uma Terra em órbita explicava muitas observações antes enigmáticas, porque agora havia dois tipos de planetas, os internos e os externos da órbita da Terra. A sequencia Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno era um ordem de período orbital e de distância crescente ao Sol. A “lanterna do Universo”, com o Copérnico o chamava, agora assumia seu lugar de direito no centro do Cosmos. Embora isso significasse que a Terra se movia em alta velocidade, a teoria já havia sido proposta por Aristarco e outros.

A noção do Espaço

Os gregos e os astrônomos posteriores colocaram as estrelas logo além de Saturno, mas isto causaria um problema se a teoria copernicana estivesse correta. Se, como Copérnico argumentava, a Terra orbitava o Sol, por que as estrelas não tinham um movimento recíproco? A única escolha para Copérnico era banir as estrelas para uma distância tão vasta que seu movimento não seria perceptível para observadores terrestres. Ele também foi o primeiro a sugerir que as estrelas brilhantes estariam mais próximas que as fracas. Contudo, ouros se perguntavam porque Deus teria criado um espaço enorme, aparentemente inútil entre a órbita de Saturno e as estrelas. Tycho Brahe (1546-1601), um nobre dinamarquês, pensava que o futuro da astronomia dependia da estimativa de distâncias verdadeiras e do registro acurado das posições planetárias em diversos tempos. Com este objetivo ele aprimorou os padrões observacionais, fabricando instrumentos de mensuração precisamente calibrados. Em 1572 suas observações pacientes da supernova na constelação de Cassiopéia o convenceram de que as estrelas não estavam todas a uma distância fixa, mas que eram objetos cambiantes que existem no “espaço”. Propor essas ideias exigia coragem, ou o apoio de patronos poderosos, devido à Inquisição, nessa época, julgar e punir os que desafiassem a visão ortodoxa da Igreja Católica em relação ao Universo.

Leis do movimento planetário

O sistema heliocêntrico copernicano ainda descrevia as órbitas planetárias em termos de epicilos – cada planeta descrevia um pequeno círculo enquanto girava em torno do corpo central. Essa visão prevalecia desde Ptolomeu mas a forma real das órbitas permanecia um mistério. Necessitava-se de duas coisas para resolver o problema. A primeira era os dados planetários precisos obtidos por Tycho Brahe. A segunda era fé nos seus dados, junto com tenacidade e gênio matemático. A última foi fornecida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), sucessor de Tycho após 1601. Com base nas observações do caminho de Marte na esfera celeste Kepler acabou por formular suas três leis do movimento planetário. Primeiramente, em 1609, ele revelou que as órbitas eram elípticas, e não circulares ou epicíclicas. O Sol está em um dos focos da elipse (a elipse tem dois focos; o círculo é um calo limite de eclipse, com um único foco). Em segundo lugar, mostrou que a linha unindo o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, assim um planeta é mais lento na parte mais exterior da sua órbita. Em terceiro lugar, em 1619, Kepler provou a relação entre o tamanho e o período da órbita. Ele alimentava concepções místicas – acreditava que o Cosmos era permeado por coras musicais, com cada planeta produzindo um tom em proporção a sua velocidade. Como todos antes da descoberta da gravidade por Newton, não tinha a menor ideia do que mantinha os planetas em suas órbitas.

As descobertas de Galileu

Galileu Galileia apresentou provas concretas de que o modelo copernicano do Universo estava correto. Em 1608 quando um fabricante de óculos flamengo inventou o telescópio a notícia se espalhou rapidamente. Galileu construiu, ele mesmo, vários telescópios em 1609, assim tornando-se o fundador da astronomia telescópica. Seus instrumentos tinham uma magnificação de 30x. Em alguns meses ele descobriu que a Lua era montanhosa, detectou as fases de Vênus, as manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Chegou mesmo a sugerir que as estrelas fosses sóis distantes. Acima de tudo ele percebeu que as fases de Vênus somente poderiam ser explicadas se os planetas orbitassem o Sol, e não a Terra. Outros achados de Galileu fundamentam a física nascente: a aceleração de um corpo independe de sua composição ou peso; e o período de balanço de um pêndulo independe de sua amplitude.

Grandes observatórios

A emergência de uma nova geração de observatórios fo um divisor de águas na história da astronomia. Observatórios haviam sido anteriormente exclusivos a um grupo seleto de pessoas, incluindo Tycho Brahe na Dinamarca e Johannes Hevelius em Danzing, Prússia (agora Gdansky, na Polônia), ou de professores universitários, como Galileu ou Giovanni Cassini de Bologna, na Itália. Então, essas unidades foram ampliadas por instituições reais bem financiadas. Luis XIV fundou a Academia de Ciências em Paris, em 1666, e o Observatório Real francês, completado em 1672. Na Inglaterra, Charles II fundou a Royal Society em 1660, o que levou à construção do Royal Greenwich Observatory, onde John Flamsteed (1646-1719) foi o primeiro astrônomo real, iniciando seu trabalho em 1676. Em breve os astrônomos estavam atacando os três principais desafios daquela época: determinar o tamanho do Sistema Solar; medir a distância até as estrelas; e achar a latitude e a longitude de locais na terra e no mar. Esta busca foi em parte impulsionada por necessidades da navegação em uma época de expansão dos impérios europeus e pelo desejo de prestígio nacional. A partir do começo do século XVIII, os observatórios se multiplicaram rapidamente, inaugurando-se instalações em Berlim, Prússia (1711), em Jaipur, Índia (1726), em Uppsala, Suécia (1730), em Vilnius, Prússia (1753), em Washington, EUA (1838), e em Pulkovo, Rússia (1839). Dedicou-se muito esforço para mapear o céu e traçar os movimentos dos corpos celestes.

Leis da atração

Um dos maiores enigmas desafiando os astrônomos de meados do século XVII era porque os planetas percorriam imensas distâncias ao redor do Sol em órbitas estáveis sem se lançar no espaço. O grande físico inglês Issac Newton (1642-1727), professor na Universidade de Cambridge, encontrou a resposta. Um objeto se moveria a velocidade constante segundo uma linha reta, a menos que fosse sujeito a uma força. No caso dos planetas, a força era a gravidade do Sol. Ele logo percebeu que a gravidade era universal. Ela controlava tanto a trajetória de um objeto caindo (como a famosa maçã que Newton viu cair de uma árvore em 1666), como a Lua orbitando a Terra e um cometa viajando rumo ao Sol vindo dos remotos confins do Sistema Solar. A gravidade explicava as três leis de Kepler e também a altura das marés. Após a morte de Newton, o retorno do cometa Halley em 1758 provou que a gravidade também era aplicável nos limites do Sistema Solar, e o uso da teoria da gravitação possibilitou o cálculo da massa da Terra e do Sol. 

O telescópio refletor e Newton

Em 1666, Newton descobriu que um prisma dispersa a luz em um arco-íris de cores. Infelizmente, as lentes de um telescópio fazem o mesmo, e a luz azul de um extremo do espectro é focalizada em um ponto diferente da luz vermelha e o ouro extremo. Isto é a chamada aberração cromática, que produz halos de luz colorida ao redor do objeto sendo visto, causando uma grave perda de qualidade de imagem. Uma solução é suar espelhos curvos para focalizar toda luz no mesmo ponto, independentemente da cor. Em 1663, o escocês James Gregory (1638-75), projetou um telescópio refletor com um grande espelho côncavo primário e um secundário côncavo menor que projetava luz de volta através de um orifício para uma lente magnificadora atrás. Newton modificou o projeto usando um espelho plano secundário para refletir a luz capturada para uma ocular montada lateralmente. Exibido em 1672 o telescópio de Newton foi imensamente aclamado.

O espaço infinito

Na metade do século XIX, a astronomia havia evoluído de uma ciência essencialmente matemática para uma disciplina que incorporava o conhecimento novo e as técnicas dos físicos e químicos. Rápidos progressos tecnológicos, particularmente a invenção da fotografia e telescópios ainda mais poderosos, permitiram aos astrônomos estudar os corpos celestes com muito mais detalhe. Eles começaram a classificar os diferentes objetos e a estudar seu comportamento.

O iluminismo

Os séculos XVIII e XIX viram grandes progressos em ciência devido a métodos científicos aprimorados. Foi um período de consolidação em astronomia, baseada em avanços nas medidas e classificação de corpos celestes. As órbitas dos cometas eram de grande interesse depois do trabalho do inglês Edmond Halley (1656-1742), que mostrou que “seu” cometa retornava a cada 76 anos. As órbitas dos planetas eram determinadas com muito mais precisão que anteriormente e detalhes de sua superfície, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter e as calotas polares de Marte foram observados. Em 1728, a velocidade da Terra foi calculada. William Herschel descobriu o sétimo planeta, Urano, em 1781, e o italiano Giuseppe Piazzi ( 1746-1826) identificou o primeiro asteroide, Ceres, em 1801. Os franceses Urbain Le Verrie e Pierre-Simon Laplace (1749-1827), e o inglês John Adams (1819) aplicaram a teoria da gravitação de Newton para prever a posição de um planeta invisível além de Urano. Netuno foi descoberto em 1846.

O cosmos estelar

Aperfeiçoamentos dos telescópios ao longo do século XVIII permitiram que a astronomia tornasse o estudo do Universo um processo dinâmico. Anteriormente as estrelas eram apenas pontos fixos de luz, com distância desconhecida, mas na década de 1710 Halley descobriu o seu movimento dando início a esforços concentrados para compreender seu comportamento. Constatou-se que muitas estrelas são duplas, orbitando em torno de um centro de massa comum, em conformidade com a gravitação newtoniana e, na década de 1780, estrelas variáveis como Algol e Delta Cephei, eram investigadas. Em 1781, o francês Charles Messier (1730-1817) publicou um catálogo de 103 “corpos difusos”, ou nebulosas (nuvens de gás e poeira). Herschel estendeu este trabalho, gastando muitas horas contando estrelas de diferentes magnitudes, em uma ambiciosa tentativa de fazer um levantamento do céu. Em 1783 ele deduziu que o Sol está se aproximando da estrela Lambda Herculis, e erroneamente concluiu que ela se situava no centro do sistema estelar galáctico. Durante as duas primeiras décadas do século XIX, Laplace desenvolveu métodos de análise matemática que resultaram no primeiro modelo para a origem do Sistema Solar.

O nascimento da astrofísica

Durante o século 19, os astrônomos continuaram a aplicar o desenvolvimento da matemática, física e química para compreender a constituição e comportamento dos planetas, cometas e estrelas. Um novo campo – a astrofísica – emergiu, conferindo propriedades físicas aos objetos no espaço. A astronomia tratava principalmente com seu movimento, enquanto a astrofísica examinava seus parâmetros básicos como raio, massa temperatura, e composição química. Em 1815, o óptico alemão Joseph Fraunhofer (1787-1826), enquanto estudava o espectro da luz solar, notou várias linhas escuras sobre ele. Mais tarde, verificou-se que estas linhas eram devidas à absorção por elementos químicos do Sol. Como ada elemento químico absorve a luz em certos comprimentos de onda, o padrão de linhas de absorção revela a sua presença. Nos anos 1860, o astrônomo britânico William Huggis (1824-1910) descobriu, por meio da espectroscopia (o estudo de espectros) que as estrelas contêm os mesmos elementos que a Terra.

Avanços instrumentais

Os telescópios tornaram-se cada vez maiores desde o princípio do século XVIII – quando astrônomos como Edmond Halley labutavam para usar desajeitados e imprecisos instrumentos com lentes objetivas de pequeno diâmetro – na metade do século XIX. As lentes dobraram em tamanho a cada 40 anos, o que implicava que a distância até os objetos visíveis mais longínquos também dobrava, e que seu número crescia por um fator oito. Sofisticaram-se as montagens dos telescópios, e a qualidade das lentes foi aperfeiçoada. Os telescópios refratores foram totalmente transformados em 1758, quando o astrônomo inglês John Dolland (1706-1761) introduziu a lente dupla, que focalizava a luz azul e a vermelha no mesmo ponto. Herschel construiu enormes telescópios refletores e, em 1524 completou-se o primeiro telescópio com montagem equatorial, na qual o eixo do instrumento era alinhado com o polo norte celeste e um relógio mecânico movia o instrumento em torno deste eixo para acompanhar as estrelas. Nos anos 1840, a fotografia começou a substituir o lápis e papel para o registro de dados. Placas fotográficas podiam ser expostas por horas, permitindo a detecção de objetos muito mais fracos que os visíveis unicamente pelo olho humano.

A forma do espaço

No começo do século XX, alguns pensavam que havia apenas uma galáxia, com o Sol no centro. Nos anos 1930, os astrônomos já haviam percebido que havia bilhões de galáxias e que o Universo estava em expansão. Também começavam a compreender as fontes de energia estelar.

Matéria e energia das estrelas

A partir de 1900, devido à compreensão da natureza da radioatividade descoberta quatro anos antes, começou-se a perceber que a Terra poderia ter mais de 1 bilhão de anos de idade. Esta ideia era consistente com estimativas anteriores feitas por geólogos e com a avaliação de Charles Darwin do tempo necessário para a seleção natural operar. Permanecia o mistério de como o Sol poderia manter-se brilhando por tanto tempo. Uma ideia era que o Sol fosse alimentado pela queda de meteoritos; outra que o Sol estava lentamente se contraindo. Nenhuma dessas teorias dava conta da longa vida do Sol. Contudo, em 1905 Albert Einstein (1879-1955) propôs que E=mc2,  e assim energia E, poderia ser produzida pela destruição de massa, m. Nos anos 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington (1882-1944) sugeriu que a fonte de energia do Sol – e de outras estrelas – fosse a fusão nuclear. O físico germano-estadunidense Hans Bethe (1906-2005) especificou então os processos básicos de fusão nuclear. É de fato uma reação nuclear que libera energia da matéria. Astrofísicos têm agora uma visão detalhada de como as estrelas obtêm sua energia e estimam que estrelas do tipo solar possam brilhar por 10 bilhões de anos.

O grande debate

Nos anos 1920 houve um debate público entre os astrônomos estadunidenses Harlow Shapley e Heber Curtis sobre a forma da nossa galáxia em particular a extensão do Universo em geral. Shapley acreditava que havia apenas uma “grande galáxia”, com a Terra a dois terços da distância até a borda. Ele dizia que o diâmetro era de 300.000 anos-luz – 10 vezes maior que a estimativa de Curtis. Este valor foi obtido com estrelas variáveis cefeídas (cujo brilho varia periodicamente) como indicadores de distância. Curtis, por outro lado, estava convencido de que muitos objetos nebulosos no céu não estavam em nossa galáxia, mas que eram de fato outras galáxias como a nossa. Ele propôs que estes “universos-ilha” estava espalhados uniformemente no céu, com alguns deles obscurecidos pelo disco galáctico, o que explicava sua distribuição acima e abaixo do plano da Via Láctea.

O universo em expansão

Os novos e enormes telescópios estadunidenses revolucionaram a astronomia do século XX. O Telescópio Hooker era tão grande que podia detectar as estrelas cefeídas da Nebulosa de Andrômeda (M31). O  fraco brilho dessas estrelas indicava eu sua distância da Terra era cerca de 10 vezes o diâmetro da Via Láctea. Heber Curtis estava correto: Andrômeda não era uma “nebulosa” mas uma galáxia. Outras “nebulosas” espirais também eram claramente galáxias. Usando o Hooker o estadunidense Edwin Hubble mostrou que as galáxias são os “blocos fundamentais” de um universo muito mais vasto que previamente imaginado. Em 1927 ele investigou características espectrais de galáxias e constatou que não somente a luz da maioria delas apresentava um deslocamento para o lado vermelho do espectro, indicando que se afastavam de nós, mas também que essa velocidade de recessão era maior para as mais fracas (mais distantes). O Universo estava em expansão e, portanto, deveria ter sido muito menor no passado. O declive do gráfico velocidade-distância indicava a idade do Universo. Os astrônomos logo perceberam que algo havia dado início à expansão, lançando as sementes da teoria do Big Bang.

Tecnologia de telescópios

A astronomia observacional estadunidense atingiu um divisor de águas nas últimas décadas do século XIX. Nos Estados Unidos novos e sofisticados observatórios e departamentos universitários foram estabelecidos, muitas vezes financiados por empresários milionários. Os astrônomos desejavam examinar objetos muito fracos e distantes, mas a limitada resistência e a transparência relativamente baixa das lentas objetivas dos telescópios impunham um limite de cerca de 1m de diâmetro – o tamanho do telescópio refrator de Yerkes, inaugurado em Williams Bay, Wisconsin, em 1897. Assim abandonou-se os refratores: era o início de uma nova era de enormes telescópios refletores. O Telescópio Hooker, de 2,5m, em Monte Wilson, na Califórnia, tornou-se operacional em 1918. Em 1948, entrou em sérvio o Telescópio Hale, de 5,2m, no Monte Palomar, na Califórnia. Em 1993, o primeiro Telescópio Keck, com um espelho de 10m, feito de espelhos segmentados, entrou em operação. Acoplado ao progressivo aumento do tamanho dos telescópios veio um enorme aumento na sensibilidade dos detectores. Placas fotográficas tornaram-se mais sensíveis e foram usadas extensivamente par mapear o céu e gerar arquivos permanentes de posições e espectros de objetos. Outro desenvolvimento crucial foi a radioastronomia. Radiotelescópios, o primeiro dos quais foi feito em 1937, passaram a captar as emissões nos longos comprimentos de onda em rádio do espaço profundo.

Astronomia da era espacial

Com o início da Era Espacial (a era do vôo espacial) nos anos 1950, a viagem além da Terra e o contato co planetas, cometas e asteroides tornou-se uma realidade. O despertar das astronomias em rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama ofereceu à humanidade novas perspectivas do Universo, revelando a existência de novos e exóticos objetos nunca antes imaginados.

Estrelas extremas

Relações entre massa, raio e luminosidade das estrelas foram primeiramente estabelecidas graças ao diagrama Hertzsprung-Russel por volta de 1911 e levaram ao reconhecimento de estrelas gigantes e anãs. Desde então encontraram-se muitos tipos extremos de estrelas. Em 1915, W.S. Adams identificou Sirius B como a primeira anã branca – uma estrela da massa do Sol mas comprimida até o volume da Terra. Em 1931 o astrofísico indiano S. Chandrasekhar, usando os novos modelos para o comportamento de partículas subatômicas, descobriu um limite superior à massa de uma anã branca. 1,4 massa solar. Acima disso, um núcleo estelar exaurido colapsará em uma estrela de nêutrons superdensa com uns poucos quilômetros de diâmetro, arrebentando o resto da estrela em uma explosão de supernova. Estrelas de nêutrons em rotação são vistas da Terra como pulsares – radiofontes pulsantes –, a primeira delas foi descoberta em 1967 por Jocelyn Bell-Burnell e Anthony Hewish, do Reino Unido. No outro extremo de massa estelar estão as anãs marrons, muitas delas descobertas recentemente, muito frias para desencadearem rações nucleares no seu centro.

Buracos negros

A possibilidade de buracos negros foi sugerida em 1783 pelo astrônomo inglês John Michell, que considerou a hipótese de um objeto tão massivo que nem a luz poderia escapar da sua gravidade. A ideia reapareceu em 1916 como resultado da teoria da relatividade geral de Einstein, mas os buracos negros permaneceram uma curiosidade até a década de 1960, quando o lançamento de satélites de astronomia de raios-X levou à descoberta de estrelas binárias de raios-X como Cygnus X-1. Binárias de raios-X exigem uma fonte compacta, massiva de erngia, que só pode ser fornecida por um buraco negro. A descoberta de buracos negros de massa estelar também abriu o caminho para se aceitar os quasares – objetos compactos, extremamente luminosos, a altos redshifts – como violentas galáxias distantes, alimentadas por buracos negros supermassivos nos seus centros.

Interior das estrelas

Com telescópios ópticos os astrônomos podem enxergar até uma profundidade de 500km abaixo da superfície solar. Infelizmente, como o Sol tem um raio de 700.000km, um imenso volume não pode ser observado diretamente. Durante os anos 1920 os astrofísicos calcularam que o centro do Sol teria uma temperatura de aproximadamente 15 milhões °C e uma densidade cerca de 150 vezes a da água. Em 1939 o físico alemão Hans Bethe mostrou como processo nucleares, agindo sob essas condições extremas, converteriam lentamente hidrogênio em hélio, liberando imensas quantidades de energia pela conversão de massa em energia. O inglês Fred Hoyle e o alemão Martin Schwarzschild estenderam esta modelo na década de 1950, mostrando como hélio é transformado em carbono e oxigênio em estrelas gigantes. Logo os astrofísicos encontraram mecanismos para a manufatura de elementos ainda mais pesados, como cobalto e ferro, nas estrelas mais massivas. Na década de 1960 os primeiros detectores de neutrinos foram usados para detectar estas partículas altamente penetrantes, liberadas pelas reações nucleares no interior do Sol, e desde os anos 1970, a técnica de heliossismologia permitiu o monitoramento das ondas sonoras ressonando através do interior solar, assim revelando sua estrutura detalhada.

Meio interestelar

A descoberta de grandes quantidades de gás e poeira entre as estrelas foi um triunfo da radioastronomia. Em 1944, o astrônomo holandês Hendrick vam de Hulst previu que o hidrogênio interestelar emitiria ondas de rádio com um comprimento de onda de 21 cm, o que foi confirmado em 1951 pelos físicos estadunidenses Harold Ewen e Edward Purcell. Em breve, radiotelescópios eram usados para mapear a distribuição do hidrogênio neutro atômico nos braços espirais da Via Láctea e de outras galáxias. Em 1974, levantamentos do comprimento de onda de 2,6mm, que age como um traçador de hidrogênio molecular, levaram à descoberta de nuvens moleculares gigantes, locais de nascimento de estrelas.

Astronomia desde o espaço

A Era Espacial começou em 4 de outubro de 1957, quando a União Soviética lançou o satélite Sputnik I, e os astrônomos rapidamente aproveitaram a capacidade de se observar fora da atmosfera terrestre. Detectores a bordo de foguetes já haviam captado sinais intrigantes em comprimentos de onda incomuns durante suas breves excursões fora da atmosfera, e o primeiro observatório orbital, o Ariel I, foi lançado pelo Reino Unido em 1961, equipado com um telescópiode ultravioleta. Outros satélites, como as séries estadunidenses Explorer, e Uhuru, rapidamente mapearam as principais fontes de ultravioleta, infravermelho e raios-X. Enquanto isso, sondas espaciais se espalhavam pelo Sistema Solar, retornando informação sobre o ambiente interplanetário e cartografando os planetas com uma variedade de câmaras, radares e outros instrumentos.

A origem do Universo

A descoberta na década de 1920 de que o Universo está em expansão desencadeou uma nova onda de reflexões cosmológicas. Em 1931, o astrônomo e padre belga Georges Lamaître sugeriu que todo o material do Universo teria começado com o uma única esfera altamente condensada – a origem da teoria do Big Bang. Em 1948, o austríaco Hermann Bondi e os britânicos Thomas Gold e Fred Hoyle propuseram uma teoria rival, da Criação Contínua, na qual matéria estaria sendo criada continuamente para preencher os vazios deixados pela expansão. Felizmente, ambas teorias poderia ser testadas pelas observações e as evidências acabaram por apoiar o Big Bang. Em 1980, Alan Guth da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, estendeu a cosmologia do Big Bang introduzindo a inflação, que auxiliava a resolver alguns problemas maiores da teoria. Mas, ainda restam questões importantes nessa área.

Planetas extra-solares

Grandes refinamentos na espectroscopia permitiram medir ligeiras variações nas velocidades estelares produzidas pela perturbação gravitacional de planetas em órbita. Em 1995, os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra descobriram um planeta com massa um pouco abaixo da metade daquela de Júpiter em torna da estrela 51 Pegasi, a 48 anos-luz. Agora se conhecem centenas de planetas extra-solares e abriu-se um novo campo da astronomia. Os astrônomos têm se surpreendido com suas descobertas – a maioria dos sistemas planetários é muito diferente do Sistema Solar. Alguns têm planetas gigantes orbitando muito próximo à estrela mãe, enquanto outros têm planetas com órbitas altamente elípticas. 

A caçada continua

Quanto mais os astrônomos sabem sobre o Universo, mais querem saber. Na década de 1970 reconheceu-se que o Universo continha muito mais material que o visível: matéria escura afeta a rotação das galáxias; a massa faltante é prevista pela teoria do Big Bang mas ainda não foi observada. A exótica “energia escura” parece acelerar a expansão do Universo. Ao lado desses grandes mistérios cosmológicos está a busca pela vida do Universo, abarcada pela nova ciência da astrobiologia. Nos últimos séculos o tamanho dos espelhos de 10mde hoje serão substituídos por gigantes ainda maiores e observações feitas além da atmosfera terrestre serão cada vez mais produtivas. O telescópio de 2,5m do Telescópio Espacial Hubble será pequeno perto do Telescópio Espacial James Webb, com espelho de 6,5m, a ser lançado em 2021. Esta nova geração de telescópios deverá finalmente captar a primeira geração de estrelas e galáxias. E, à medida que os astrônomos observarem cada vez mais longe com instrumentos cada vez mais sensíveis, inevitavelmente serão confrontados com novos mistérios e corpos exóticos não imaginados antes.

Primeiras espaçonaves

A segunda metade do século XX registrou uma revolução na nossa compreensão do Universo, desencadeada pelo desenvolvimento do vôo espacial. Pela primeira vez, em lugar de apenas olhar para o esaplo, os seres humanos e suas máquinas viajavam por ele. Revezes e riscos marcaram os primeiros tempos da exploração espacial, mas, com esses obstáculos superados, o progresso foi rápido.

Sonhadores de foguetes

A ideia da viagem espacial é tão antiga quanto o contar estórias, mas com poucas noções das leis da física ou da natureza do espaço escritores frequentemente se baseavam em meios cômicos ou absurdos de transportar fictícios viajantes espaciais. Mas, as leis newtonianas do movimento e da gravitação, em conjunto com o fato do espaço ser um vácuo, indicavam que apenas uma forma de propulsão seria capaz de levar viajantes ao espaço – o foguete. Desenvolvidos como fogos de artifício e armas na China medieval, os foguetes contém o combustível necessário para sua propulsão, impulsionados por gases ejetados pelo seu escape. Embora o escritor francês Cyrano de Bergerae (1619-1655) tivesse sugerido no século XVII seu uso para alcançar a Lua, o primeiro a considerar seriamente as realidades da viagem espacial foi o professor da escola rural soviético Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), que desenvolveu muitos dos princípios dos foguetes de combustível líquido, de múltiplos estágios, publicando-os na década de 1890.

Lançamento

Os princípios dos foguetes estavam bem desenvolvidos no começo do século XX, mas ainda havia vários problemas para fazer do voo espacial uma realidade prática. O maior deles era a eficiência do combustível. O engenheiros estadunidense Robert Goddard concebeu a ideia de combustíveis líquidos mais eficientes e em 1926, lançou um foguete de 3m de comprimento impelido por oxigênio líquido e gasolina. As ideias de Goddard e Tsiolkovsky foram adotadas por entusiastas no mundo todo, inclusive pela Sociedade para a Viagem Espacial (VfR) da Alemanha. Durante a década de 1930, muitos dos cientistas da VfR foram recrutados pelo boverno nazistas para um programa militar que prosseguiu durante a Segunda Guerra Mundial. A culminação dos seus esforços, o míssil V2, chegou tarde demais para salvar a Alemanha da derrota, mas provou que armamentos à base de foguete eram o caminho do futuro.

A corrida espacial

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, as maiores potências desejavam a tecnologia de foguetes para si. A maioria dos cientistas fugiu para o Ocidente, mas a União Soviética capturou as fábricas das V2. As razões para tal interesse tornaram-se claras quando as relações internacionais rapidamente deterioraram e começou a Guerra Fria. Ambos acreditavam que mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) impulsionados por foguetes poderiam ser a resposta para lançar a arma final – a bomba nuclear. Foi neste contexto que os Estados Unidos e a União Soviética começaram seus programas espaciais. Ambos viram que a tecnologia de mísseis poderia ser utilizada para alcançar a órbita terrestre e reconheceram que esses lançamentos demonstrariam o poder de seus foguetes e renderiam grandes benefícios de propaganda.

Em órbita

No começo dos anos 1950 União Soviética e Estados Unidos anunciaram planos de lançar satélites durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-58. O programa soviético prosseguiu em sigilo, usando seus enormes mísseis R-7 como veículos de lançamentos, enquanto os cientistas estadunidenses passavam por escrutínio público. Os planos do cientista alemão Werher von Braun de lançar um satélite com o ICBM estadunidense Redstone foram engavetados a favor do programa de pesquisa espacial Vanguard da marinha estadunidense. Pouco antes da data de lançamento do Vanguard, em novembro de 1957, os soviéticos anunciaram em 4 de outubro do mesmo ano o lançamento bem sucedido do Sputnik I. As estações de rastreamento captaram sinais de rádio do satélite e confirmaram que a União Soviética tinha tomado a dianteira na corrida espacial. A humilhação estadunidense foi total quando, em 6 de dezembro, o lançamento do Vanguard terminou em uma explosão na plataforma de lançamento. O projeto de Von Braun foi imediatamente ressuscitado, e o primeiro satélite estadunidense, o Explorer I, entrou em órbita com êxito menos de dois meses mais tarde, em 31 de janeiro de 1958.

As missões Vostok

No final da década de 1950, o próximo grande passo da corrida espacial estava claro – qual das superpotências seria a primeira a colocar uma pessoa em órbita? Os soviéticos tinham uma óbvia vantagem de potência, já que o Sputnik II, o seu segundo satélite, pesava meia tonelada, e haviam conseguido enviar sondas além da vizinhança imediata da Terra. Em 12 de abril de 1961 fizeram um anúncio que surpreendeu o mundo: o Coronel Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espalho, a bordo da Vostok I. Gagarin retornou à Terra como herói da União Soviética, e o programa espacial estadunidense, agora gerenciado pela Nasa, de novo havia ficado para trás. As missões Vostok posteriores superaram novos limites e colocaram a primeira mulher no espaço, aumentaram os tempos em órbita e mantiveram mais de uma espaçonave simultaneamente em voo.

Projeto Mercury

A resposta da Nasa ao Vostok foi o programa Mercury, que lançou seis astronautas entre 1961 e 1963. Diferentemente do programa soviético os esforços estadunidenses foram conduzidos sob os holofotes da mídia. As cápsulas espaciais Mercury eram minúsculas e leves, parcialmente porque tinham que ser transportadas pelo pequeno veículo de lançamento Redstone nos primeiros voos. A Nasa estava desenvolvendo um novo lançador, o Atlas, mas os tests da cápsula deveriam começar antes do foguete maior estar pronto. Surpreendida pelo lançamento do Vostok I, a Nasa correu para retaliar e colocou seu primeiro homem no espaço em 5 de maior. Lançado em um foguete Redstone a missão Freedom 7, de Alan Shepard, não tinha velocidade suficiente para entrar em órbita, mas alcançou uma altura de 185 km durante um voo de 15 minutos. Após um segundo voo sub-orbital, o foguete Atlas foi completado no final de 1961. Seguindo um número de testes, John Glenn foi o primeiro estadunidense em órbita em 20 de fevereiro de 1962.

Próximos passos

Dispostos a manter sua liderança na corrida espacial, os soviéticos assumiam um grande risco. Os estadunidenses tinham anunciado suas missões planejadas de dois homens do Gemini e, em um esforço para ofusca-los de antemão, o diretor do programa espacial soviético, Korolev, planejava uma missão de três homens. Era um grande desafio, pois já havia sido iniciado um trabalho com as naves Soyuz visando alcançar a Lua. Finalmente, os engenheiros soviéticos chegaram a um engenhoso compromisso Voskhod era efetivamente uma cápsula Vostok modificada com espaço suficiente para levar três tripulantes. O voo da Voskhod I, em 12 de outubro de 1964, foi um sucesso, batendo a primeira missão tripulada Gemini por cinco meses. A Voskhod II, lançada alguns dias antes do primeiro teste de voo da Gemini foi um sucesso ainda maior. Durante o voo Alexei Leonov tornou-se a primeira pessoa a caminhar no espaço. Os soviéticos haviam desferido mais um espetacular golpe de propaganda.

Exploradores robôs

Enquanto o foco da atenção pública estava principalmente no programa espacial tripulado, uma segunda corrida espacial era mantida em paralelo – cujas consequências para nossa compressão do Sistema Solar. Cada superpotência tentava superar a outra nos “primeiros” passos da exploração de outros mundos. A exploração espacial robótica teve uma acidentada história inicial, com numerosas falhas, tanto nas plataformas de lançamento, enquanto, ou durante as tentativas de pouso. Porém houve alguns sucessos notáveis: em janeiro de 1959 a Lunik ou Luna I tornou-se o primeiro objeto a escapar da gravidade terrestre e entrar em órbita em torno do Sol; a Lunik II atingiu a Lua em setembro de 1959; a Lunik III registrou as primeiras imagens do lado oculto da Lua. A Pioneer V da Nasa foi a primeira sonda deliberadamente lançada ao espaço interplanetário, entrando em órita entre a terra e Vênus em 1960, enquanto as sondas estadunidenses Mariner II e IV venceram os soviéticos na corrida rumo a outros planetas, voando para Vênus e Marte em 1962 e 1965, respectivamente.

Viagens à Lua

As missões Apolo para a Lua frequentemente são descritas como uma grande conquista da técnica humana. Vastas quantidades de recursos humanos e financeiros foram investidos em um programa com motivações científicas e de propaganda. As missões revelaram muito sobre a Lua e seus imensos avanços tecnológicos remodelaram o mundo.

Um homem na Lua

Em 25 de maio de 1961 o presidente estadunidense John F. Kennedy fez um discurso que abalou o mundo. Em uma época em que os Estados Unidos ainda tinham que colocar um astronauta em órbita da Terra, ele prometeu que seu país levaria pessoas à Lua até o fim da década. A escala do empreendimento era monumental. Astronautas não haviam se aventurado a além de 300km da superfície terrestre, e agora Kennedy dava à Nasa a missão de enviá-los a uns 400.000km de distância, pousá-los na superfície de um mundo desconhecido e trazê-los de volta com segurança. Contudo, se isto fosse realizado, a mensagem seria que os Estados Unidos agora eram uma potência espacial. A Nasa imediatamente começou a investigar os meios de se pousar na Lua. A missão estabeleceu como objetivo usar o maior foguete já construído, projetado pelo cientista de foguetes alemão Wernher von Brauns, para enviar três naves conectadas rumo à Lua – somente uma delas retornaria à Terra. O nome, Apollo, o deus grego do Sol, foi sugerido pelo diretor de voos espaciais da Nasa. Dr. Abe Silvestein.

Projeto Gemini

Cada missão Apollo envolveria diversas operações de encontro, acoplamento e desacoplamento no espaço – operações que a Nasa e seus astronautas jamais haviam tentado antes. Apenas ir à Lua e voltar exigiria um mínimo de 7 dias. Para ganhar experiência em voos espaciais de longa duração e nas delicadas manobras necessárias no Apollo, a Nasa anunciou que o programa Mercury seria substituído pelo Projeto Gemini, uma série de missões de dois tripulantes. Houve 10 missões tripuladas Gemini, entre 1964 e 1966, diversas das quais envolviam encontros entre naves, caminhadas no espaço, e mesmo acoplamentos com veículos alvo não-tripulados. Agena. A espaçonave, composta de três módulos, também representava um grande avanço. Enquanto os dois astronautas permaneciam durante a missão dentro de um módulo de reentrada, apenas 50% maior que a cápsula Mercury, os suprimentos de água e ar, o equipamento elétrico e os experimentos eram mantidos principalmente em um módulo de serviço separado. Um terceiro módulo continha foguetes para manobrar a espaçonave em órbita e freá-la antes de sua reentrada.

Preparando o caminho

Um grande desafio para os planejadores da Apollo era a falta de conhecimento sobre a Lua. À época, pouco se conhecia sobra a história lunar, a natureza das suas crateras e as propriedades de sua superfície – pensava-se seriamente na possibilidade da superfície ser de um pó tão fino que a nave afundaria. Para responder estas questões, a Nasa planejou uma série de missões robóticas para fazer levantamentos detalhado da Lua incluindo pousos – tanto de colisão quanto suaves. As primeiras foram as naves Ranger, quatro das quais colidiram com a Lua entre 1961 e 1964. Pelas fotos retransmitidas à Terra, é inteiramente coberta por crateras, até nas menores escalas, o que indica uma origem por impacto. Em 1966 teve início uma segunda fase, com as naves Lunar Orbiter e surveyor. Os orbitadores fotografaram a Lua de perto, a cerca de 0 km, buscando locais interessantes para pousos tripulados, enquanto os Surveyor efetuaram uma série de pousos suaves, confirmando a firmeza da superfície lunar.

Apollo em órbita

No final de 1966, o programa Apollo estava avançando rápido. Os enormes foguetes Saturno V estavam em construção e as naves prontas para os testes. Porém, em janeiro de 1967, a tripulação da Apollo I morreu durante um incêndio na cápsula em um ensaio de lançamento. Como consequência as missões Apollo II e III foram canceladas, e as missões Apollo IV, V e VI foram convertidas em teses de lançamento não-tripulados. Somente em outubro de 1968 os astronautas retornaram ao espaço, com o lançamento da Apollo 7. Esta missão orbital foi logo seguida pela Apollo VIII. Lançada pela primeira vez pelo Saturno V a missão da nave foi alterada para incluir uma órbita ao redor da Lua no Natal, após rumores de que os soviéticos lançariam um veículo  tripulado para alcançar a Lua. O lançamento nunca aconteceu e, depois das Apollo IX e X, a Nasa estava finalmente pronta para tentar pousar na Lua.

O primeiro pouso na Lua

A Apolo XI partiu de Cabo Kennedy (agora Canaveral), na Flórida, em 16 de julho de 1969) e entrou em óribta lunar três dias depois. Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin então embarcaram no módulo lunar “Eagle” para a descida na superfície, enquanto Mihael Collins permanecia a bordo do módulo em comando e serviço (CSM) “Columbia” em órbita lunar. Eagle tocou seguramente uma planície de lava conhecida como o Mare Tranquilitatis (Mar da Tranquilidade) e, seis horas após o poso, Neil Armstrong deixou o módulo e desceu a escada, pisando a superfície das 2h56 do dia 20 de julho. Armstrong e Aldrin permaneceram na superfícia por 21 horas, realizando uma caminhada, durante a qual implantaram uma bandeira e uma placa comemorativa, conduziram diversos experimentos coletaram rochas, e telefonaram para o presidente estadunidense Richard Nixon.

Módulo lunar

O módulo lunar, com sua aparência frágil, era um elemento vital de cada missão Apollo. Como ele nunca voaria em uma atmosfera os projetistas tiveram a liberdade de dar-lhe uma forma estritamente funcional. Embora o módulo tivesse 9,5m de largura e 7m de altura, a cabine era tão apertada que os astronautas ficaram de pé durante o voo. O grande motor de foguete, embaixo da seção superior do módulo, era usado para frear a cápsula durante o pouso na Lua e, depois, fornecer o impulso para a decolagem da superfície lunar e injeção em órbita.

Missões posteriores

A Nasa havia originalmente planejado dez missões Apollo, mas apenas seis foram completadas. Embora a Apollo XII tenha sido um sucesso, a Apollo XIII ficou famosa pelo seu acidente, quando uma falha elétrica e perda de oxigênio, pela primeira vez colocaram uma tripulação da série em grave perigo. As últimas três Apollo levavam um jipe lunar, estendendo consideravelmente a área que os astronautas poderiam explorar. Redução no interesse público e cortes de verbas da Nasa levaram ao cancelamento das três últimas missões. Os estertores finais da Apollo foram a estação espacial Skylab, que usava um foguete Saturno V, e a missão Apollo-Soyuz, um encontro entre astronautas soviéticos e estadunidenses em órbita terrestre.

Lições científicas

As missões Apollo revelaram muito aos astrônomos sobre a química e história da Lua. As rochas coletadas ainda são estudadas em todo o mundo. O registro do bombardeamento da Lua e a datação por radioisótopos das amostras revelaram o período de intenso bombardeamento a modelou o Sistema Solar durante seu primeiro bilhão de anos. Embora os soviéticos nunca tenham tentado um pouso tripulado na Lua, colocaram uma série de jipes LunoKhod no satélite e trouxeram pequenas amostras de poeira para a Terra.

Em órbita da Terra

Embora muito do foco da exploração espacial tenha sido viagens a planeta e luas distantes, a grande maioria das missões não foi além da órbita terrestre. Em torno da Terra é que o advento do voo espacial teve maior impacto. Nossa vizinhança espacial agora está repleta de satélites, tanto com propósitos científicos como comerciais.

Estações espaciais

A União Sovietica mudou a direção do seu programa espacial no final da década de 1960, priorizando postos semipermanentes em órbita. As primeiras estações espaciais soviéticas, nos anos 1970, as Salyut, eram clilindros com 13m de comprimento e no máximo 4m de largura que abrigavam tripulações de três cosmonautas por diversas semanas em condições espartanas. Embora a corrida espacial tivesse se desacelerado, a Nasa ainda se sentia obrigada a competir e, em 1973, lançou a estação Skylab, que foi visitada por três tripulações separadas ao longo de um ano. Com isso, a Nasa manteve um breve recorde de permanência no espaço. Contudo, quando voltou suas atenções para o Space Shuttle, as estações espaciais foram deixadas para os soviéticos. As mais avançadas Salyut 6 e Salyut 7 eram muito maiores que suas antecessoras e podiam ser ampliadas por módulos lançados da Terra. Na metade na década de 1980, os cosmonautas permaneciam meses em órbita, conduzindo valiosos experimentos científicos.

Potencialidades do espaço

Além das razões políticas e científicas para a exploração espacial, as últimas décadas viram o surgimento para fins práticos. Empresas privadas e países menores conseguem agora lançar satélites e o mundo foi transformado pelos seus resultados. Os satélites de comunicações nasceram dos trabalhos de Arthur C. Clarke e outros, e radiotransmissores orbitais são os responsáveis pelo Global Positioning System (GPS), que permite aos usuários encontrar sua posição em qualquer parte da Terra com precisão de poucos metros. O potencial da observação da Terra desde sua órbita tornou-se claro quando os primeiros astronautas relataram avistar nitidamente acidentes geográficos – com grande surpresa para os controladores de solo. Hoje diversos satélites de observação da Terra circulam o globo, desde os climáticos que monitoram hemisférios inteiros, até os espiões, capazes de ver detalhes inferiores a 1m. Ainda mais sofisticados são os satélites de sensorialmente remoto. Monitorando a Terra em vários comprimentos de onda, reúnem imensas quantidades de informação sobre o solo, como a direção das correntes oceânicas, a localização de depósitos mineiras e a qualidade das plantações.

Observatórios orbitais

Muitas das grandes descobertas e imagens espetaculares do Universo distante provêm de satélites. A atmosfera terrestre representa um sério problema para os astrônomos, pois filtra a maioria da radiação eletromagnética. Contudo, um telescópio no espaço coloca problemas únicos. Não só eles devem ser controlados remotamente para retornar imagens à Terra, mas também devem operar em um ambiente hostil. As flutuações de extremas temperaturas entre a iluminação solar e a escuridão podem distorcer a delicada óptica do telescópio, visto que o instrumento todo se contrai e se dilata, e assim se exige um projeto engenhoso de isolamento. Mesmo assim, o tempo de operação em órbita é limitado. Além da energia fornecida pelas células solares, os satélites demandam combustível para se reorientar no espaço e agentes resfriadores para proteger sua delicada eletrônica.

Vôos tripulados

Desde as missões Apollo, o voo espacial tripulado continuou a se desenvolver. Apesar de duas tragédias de grande impacto, em 1986 e 2003, o Space Shuttle da Nasa, a primeira espaçonave reutilizável, transformou o voo espacial em uma atividade quase rotineira. Desde seu primeiro voo em 1980, os Shuttles completaram mais de 100 missões, levando experimentos, lançando satélites, e observando a Terra e o espaço. Enquanto isso, a União Soviética desenvolver o princípio da estação espacial modular, ampliável, como a Mir (1986-2001). Os plano da Nasa de um estação espacial permanente evoluíram para um enorme projeto internacional, e quando a Estação Espacial Internacional estiver completa, o Space Shuttle terá se aposentado após 25 anos de serviço. No momento, alguns países têm planos ambiciosos do retorno do homem à Lua como estala rumo a Marte.

Além da Terra

Embora os seres humanos não tenham ainda se aventurado além da Lua, as sondas espaciais automáticas mergulharam muito mais fundo. Exploradores robóticos visitaram todos os planetas e também pesquisaram dezenas de satélites em um conjunto de corpos menores. Durante suas jornadas, transformaram nossa visão do Sistema Solar, revelando outros mundos, quase tão complexos quanto a Terra.

Primeiros passos

A primeira sonda a deixar a influência da Terra e entrar em órbita própria ao redor do Sol foi a nave soviética Lunik I (Luna I), que, em 1959, errou seu alvo, a Lua, e se tornou por acidente a primeira sonda interplanetária. Logo seguiram-se esforços deliberados da Nasa, que, entre 1960 e 1968, lançou com sucesso as Pioneer 5 a 9 em órbitas entre a Terra e Vênus. Várias dessas naves alimentadas com energia solar ainda transmitem dados científicos. Assim como havia a corrida para colocar o homem no espaço, as superpotências da Guerra Fria competiam pelo primeiro lugar na chegada a outros planetas. Em dezembro de 1962, a Mariner 2 foi a primeira sonda a realizar um sobrevôo em Vênus, medindo a temperatura extremamente alta de sua superfície, e confirmando sua rotação anormalmente lenta. A Mariner 4 sobrevoou Marte em julho de 1965, medindo sua atmosfera e fotografando seus planaltos austrais com crateras.

O sistema solar interno

Como estão mais próximos do Sol, Mercúrio e Vênus viajam mais rápidos que a Terra. Assim, a sonda deve ganhar velocidade para entrar em suas órbitas. Contudo, algumas naves superaram este desafio técnico e visitaram Vênus nos anos seguintes ao primeiro sobrevoo. Diversas sondas soviéticas tentaram o pouso na superfície hostil, apenas para serem destruídas durante a reentrada. Em 1967, Venera 4, equipada com blindagem semelhante a um tanque, enviou com êxito sinais para a Terra. Foi somente oito anos mais tarde que a Venera 9 retornou as primeiras imagens da superfície venusiana. Tanto a Nasa como os soviéticos lançaram orbitadores para fazer levantamentos do planeta desde o espaço. Em 1978, a missão Pioneer Orbiter mapeou o planeta com radar e lançou sondas atmosféricas. Em 1989, o Magellan, um orbitador da Nasa equipado com um sofisticado radar, deu início ao estudo por quatro anos do planeta, com detalhes sem precedentes. A velocidade orbital de Mercúrio representa um problema maior: até agora [2008], apenas a Mariner 10 e a Messenger o visitaram.

Perto de Marte

Os primeiros sobrevoos de Marte foram sucessos notáveis, porém não no que se refere aos trajetos de seus voos. Três sondas estadunidenses retornaram imagens de 10% da superfície marciana, mas perderam toda a evidência de vulcanismo e de água que fazem o fascínio do planeta. A sorte da Nasa mudou em 1971, quando a Mariner 9 tornou-se a primeira nave a orbitar Marte, conduzindo um levantamento fotográfico que revelou o sistema de Valles Marineris, os altíssimos vulcões da região de Tharsis, e os primeiros sinais de cânios com erosão por água. Com o redespertar do interesse pelo Planeta Vermelho, a Nasa lançou a Marte as duas naves gêmeas da missão Viking, cada uma com um lander (módulo de pouso) e um orbitador. Os orbitadores forneceram imagens e dados climáticos da superfície, além de conduzirem vários experimentos detalhados, incluindo um controverso teste de vida microbiana.

O grand tour

Os anos 1970 apresentaram uma rara oportunidade: um alinhamento de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno permitiria a uma nave viajar de um planeta a outro, usando o efeito de “estilingue gravitacional”. O chamando Grand tour levaria pouco mais que uma década. Em 1977, a Nasa lançou a Voyager 1 e 2, inicialmente tendo como alvo apenas Júpiter e Saturno. A Voyager passou por Júpiter em março de 1979 e por Saturno em novembro de 1980, fazendo a primeira aproximação rasante da sua Titã. A Voyager 2 a seguiu poucos meses depois, e, como a Voyager 1 havia completado sua missão, os cientistas da Nasa decidiram ativar seu plano de reserva, lançando sua segunda sonda ao redor de Saturno rumo a Urano, alcançando em 1986, e a Netuno, em 1989. Esta missão extremamente bem sucedida nos ofereceu os primeiros vislumbres desses gigantes exteriores gelados, de suas luas e de seus anéis. Ambas naves ainda estão viajando, além de Plutão, nos confins do sistema solar [Atualmente – 2019 –, já saíram do Sistema Solar].

Exploradores em Marte

Apesar dos sucessos dos lander Viking, as sondas não retornaram a Marte até o final da década de 1990, seguindo uma série de fracassadas missões estadunidenses e soviéticas. Em 1997, a Mars Global Surveyor da Nasa entrou em órbita em torno do planeta, equipada com câmeras de última geração, enquanto um lander, o Mars Pathfinder, liberou o jipe robô Sojourner, que coletou rochas e solo. Seguiram-se muitas outras naves, e a cada nova descoberta, a possibilidade de vida em Marte tornou-se mais plausível. Vários satélites artificiais estão em órbita ao redor do planeta, usando técnicas de sensoriamente remoto para sondar o subolo marciano. Os jipes de exploração marciana, Spirit e Opportunity descobriram evidências inegáveis sobre oceanos extensos no passado marciano. Novas missões como a Phoenix, traçam a história da água em Marte e a possibilidade de vida no planeta.

Entre as luas de Júpiter

Os sobrevoos das Voyagers sobre as enormes luas de Júpiter revelaram que elas eram mundos fascinantes merecedores de uma inspeção mais de perto. A sonda Galileo, destinada a orbitar Júpiter, foi lançada em 1989, mas somente chegou ao destino em 1995. E os resultados valeram a espera. O orbitador fez o sobrevoo rasante de um asteroide durante seu curso, e librou uma sonda na atmosfera de Júpiter, antes de começar uma missão que ultrapassaria todas as expectativas. A Galileo estudou os vulcões de Io e o sistema climático de Júpiter, enquanto deu apoio a evidência de um oceano debaixo da crosta de gelo de Europa e nas luas jovianas exteriores Ganimedes e Calisto.

Cassini e além

A Galileo foi seguida por uma missão ainda mais ambiciosa para Saturno. A Cassini, uma enorme sonda pesando 5,6 toneladas, foi lançada em 1997. Depois de uma complexa jornada durante a qual sobrevoou duas vezes Vênus e uma vez a Terra e tomou impulso em Júpiter, finalmente chegou a Saturno em 2004. A bordo havia o lander europeu Huygens, que desceu de paraquedas na atmosfera de Titã em janeiro de 2005 enviando imagens durante seu pouso e revelando um mundo no qual o metano líquido parece desempenhar o mesmo papel que a água na Terra. Cassini continuou a monitorar Saturno e a fazer voos rasantes sobre muitos dos satélites fascinantes e variados do planeta. Desse modo abrirá caminho para futuras missões orbitais ainda mais ousadas, com ao Prometheus (antes o Orbitador das Luas Geladas de Júpiter), uma nave impulsionada à energia nuclear projetada para estudar as luas de Júpiter em detalhes sem precedentes. A Prometheus será a primeira de uma nova geração de naves espaciais nucleares que abrirá o Sistema Solar a uma exploração mais rápida e ainda mais profunda.

Cometas e asteroides

Embora a maior parte das sondas tivesse os planetas como alvos os cientistas não esqueceram os corpos menores do Sistema Solar. Cometas e asteroides virtualmente inalterados desde sua formação, há 4,5 bilhões de anos, contêm indícios fascinantes sobre a criação do Sistema Solar e mesmo sobre a origem da vida. Em 1985 e 1986, quando o Cometa Halley passou novamente pelas proximidades do Sol, uma flotilha de naves dirigiu-se ao seu encontro. O NEAR (Near Earth Asteroid Rendezvous) sobrevoou o asteroide Mathilde do Cinturão principal em 1997, antes de monitorar o grande asteroide Eros por um ano. Seguiram-se missões mais ambiciosas. A Stardust, da Nasa, recolheu poeira da cauda do cometa Wild 2 em 2004, para trazer à Terra; a missão europeia Rosetta pela primeira vez colocou um lander em um cometa; e a New Horizon sobrevoará Plutão [Chegou em 2016], antes explorando o cinturão de Kuiper, o berço de muitos cometas.

O futuro do homem no espaço

É inevitável que naves tripuladas um dia se aventurem pelas profundezas do Sistema Solar. China, Rússia e Estados Unidos têm planos para um retorno à Lua, e os estadunidenses também consideram a possibilidade de uma missão a Marte. Embora possam ser abandonados, esses planos serão substituídos por outros, e no meio tempo os cientistas espaciais terão reunido os conhecimentos necessários para tornar a viagem espacial de longa duração uma realidade. A Rússia ganhou uma experiência única de microgravidade prolongada com as missões na estação espacial Mir, e a tripulação da Estação Espacial Internacional é uma fonte preciosa de informações em medicina espacial. Por outro lado, experimentos em solo, como a Biosfera 2, fornecem informações úteis sobre como os astronautas poderiam produzir seu próprio alimento, água e oxigênio em outros planetas e como uma tripulação isolada enfrentaria o confinamento em uma nave por muitos meses.

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Solilóquios de Marco Aurélio - Livro VI

1. A substância do conjunto universal é dócil e maleável. E a razão que a governa não tem em si nenhum motivo para fazer mal, pois não tem maldade, e nem faz mal algum nem nada recebe mal daquela. Tudo se origina e chega a seu fim de acordo com ela.

2. Seja indiferente para ti passar frio ou calor, se cumpres com teu dever, passar a noite em vigia ou saciar-te de dormir, ser criticado ou elogiado, morrer ou fazer outra coisa. Pois uma das ações da vida é também aquela pela qual morremos. Assim, basta também para este ato “dispor bem o presente” .

3. Olhe o interior; que de nenhuma coisa te escape nem sua peculiar qualidade nem seu mérito.

4. Todas as coisas que existem rapidamente serão transformadas e, ou evaporarão, se a substância é uma, ou se dispersarão.

5. A razão que governa sabe como se encontra, o que faz e sobre qual matéria. 

6. A melhor maneira de defender-te é não te assemelhar a eles.

7. Regozija-te e repouse em uma só coisa: em passar de uma ação útil à sociedade a outra ação útil à sociedade, tendo sempre Deus presente.

8. O guia interior é o que desperta a si mesmo, que se gira e se faz a si mesmo com quer, e faz que todo acontecimento lhe pareça tal como ele quer.

9. Todas e cada uma das coisas chegam ao seu fim de acordo com a natureza do conjunto, e não segundo outra natureza que abarque o mundo exteriormente, ou esteja incluída em seu interior, ou esteja desvinculada no exterior.

10. Barulho, entrelaçamento e dispersão, ou bem união, ordem e providência. Se efetivamente é o primeiro, por qual desejo demorar minha estância em uma mistura azarada e confusão? E por que terá importância outra coisa que não seja saber como “converter-me um dia em terra?”. E por que perturbar-me? Pois a dispersão me alcançará, faça o que faça. E se é o segundo, venero, persisto e confio no que governa.

11. Sempre que te vejas obrigado pelas circunstancias a sentir-te confuso, retorne a ti mesmo rapidamente e não te desvies fora de teu ritmo mais do que o necessário. Pois serás mais dono da harmonia graças a teu contínuo retomá-la.

12. Se tivesses simultaneamente uma madrasta e uma mãe, atenderias àquela, mas, contudo, as visitas a tua mãe seriam contínuas. Isso tu tens agora: o palácio e a filosofia. Assim, pois, retorne frequentemente a ela e nela repouse; graças a esta, as coisas de lá te parecem suportáveis e tu és suportável entre eles.

13. Assim como se tem um conceito das carnes e peixes e comestíveis semelhantes, sabendo que isso é um cadáver de peixe, aquele cadáver de um pássaro ou de um porco; e também que o Falerno é suco de uva, e a toga pretexta lã de ovelha tingida com sangue de marisco; e em relação ao ato sexual, que é uma fricção do intestino e uma ejaculação acompanhada de certa convulsão. Como, de fato, esses conceitos alcançam seus objetos e penetram em seu interior, de modo que se pode ver o que são! Assim, é preciso agir ao longo da vida inteira, e quando as coisas te derem a impressão de serem dignas de crédito em excesso, analise-as e observe seu nulo valor, e despoje-as da ficção, pela qual se vangloriam. Pois o orgulho é um terrível enganador da razão, e quando pensas ocupar-te principalmente das coisas sérias, então, ainda assim, te enganas. Olhe, por exemplo, o que diz Crates sobre o próprio Xenócrates.

14. A maior parte das coisas que o vulgo admira se referem às mais gerais, às constituídas por uma espécie de ser ou natureza: pedras, madeira, figueiras, vinhas e oliveiras. As pessoas um pouco mais comedidas tendem a admirar os seres animados, como os rebanhos de vacas, ovelhas ou, simplesmente, a propriedade de escravos. E as pessoas ainda mais agraciadas, as coisas realizadas pelo espírito racional, mas não o universal, e sim aquele que tanto é hábil nas artes ou engenhoso de outras maneiras (ou simplesmente capaz de adquirir multidão de escravos). Mas o que honra a alma racional universal e social não direciona seu olhar a nenhuma das demais coisas, e diante de tudo, procure conservar sua alma em disposição e movimento em acordo com a razão e o bem comum, e colabore com seu semelhante para alcançar esse objetivo.

15. Coloque sempre seu empenho em chegar a ser algumas coisas, em outras coloque seu afã em persistir, mas uma parte do que chega a ser já se extinguiu. Fluxos e alterações renovam incessantemente o mundo, assim como o passo ininterrupto do tempo proporciona sempre nova a eternidade infinita. Em meio a esse rio, sobre o qual não é possível deter-se, que coisa entre as que passam correndo poderiam ser estimadas? Como se alguém começasse a se apaixonar pelas aves que voam ao nosso redor, e logo desaparecem diante de nossos olhos. Tal é de certa forma a vida de cada um, como a exalação do sangue e a inspiração do ar. Pois, assim como o inspirar uma vez o ar e expulsá-lo, coisa que fazemos a cada momento, também é devolver ali, de onde retiraste pela primeira vez, toda a faculdade respiratória, que tu adquiriste ontem ou anteontem, recém chegado ao mundo.

16. Nem é valoroso transpirar como as plantas, nem respirar como o gado e as feras, nem ser impressionado pela imaginação, nem ser movido como uma marionete pelos impulsos, nem agrupar-se como rebanhos, nem alimentar-se; pois isso é semelhante à evacuação das sobras de comida. O que vale à pena, então? Ser aplaudido? Não. Assim, tampouco ser aplaudido pelo bater de línguas, porque os elogios do vulgo são bater de línguas. Portanto, renunciaste também à vangloria. O que sobra como digno de estima? Opino que o mover-se e manter-se de acordo com a própria constituição, fim ao qual conduzem as ocupações e as artes. Porque toda arte aponta para esse objetivo, para que a coisa constituída seja adequada à obra que motivou sua constituição. E tanto o homem que se ocupa do cultivo da vinha, como o domador de cavalos, e o que adestra cães, perseguem esse resultado. E a que objetivo tendem com afinco os métodos de educação e ensino? A vista está, pois, o que é digno de estima. E se nisso tens êxito, nenhuma outra coisa te preocupará. E não deixarás de estimar muitas outras coisas? Então nem serás livre, nem te bastarás a ti mesmo, nem estarás isento de paixões. Será necessário que invejes, tenhas ciúme, receies os que possam tirar-lhe os seus bens, e terás necessidade de conspirar contra os que têm o que tu estimas. Em resumo, forçosamente a pessoa que sente falta de alguns daqueles bens estará perturbada e, além disso, censurará muitas vezes aos deuses. Mas o respeito e a estima ao teu próprio pensamento farão de ti um homem satisfeito contigo mesmo, perfeitamente adaptado aos que convivem ao teu lado e em concordância com os deuses, isso é, um homem que louva o que lhe foi concedido e designado.

17. Para cima, para baixo, em círculo, são os movimentos dos elementos. Mas o movimento da virtude não se encontra em nenhum desses, mas é algo um tanto divino e segue seu curso favorável por um caminho difícil de conceber.

18. Curiosa atuação! Não querem falar bem dos homens de seu tempo e que vivem ao seu lado, e, em troca, têm em grande estima serem elogiados pelas gerações vindouras, a quem nunca viram nem verão. Isso vem a ser como se te afligisses, porque teus antepassados não tiveram para ti palavras de elogio.

19. Não penses, se algo te resulta difícil e doloroso, que isso seja impossível para o homem; antes bem, se algo é possível e natural ao homem, pense que também está ao teu alcance.

20. Nos exercícios dos ginásios, alguém nos arranhou com suas unhas e nos feriu com uma cabeçada. Entretanto, nem o colocamos de manifesto, nem nos incomodamos, nem suspeitamos mais tarde dele como conspirador. Mas sim, certamente, nos colocamos em guarda, mas não como se fosse um inimigo, nem com receio, mas esquivando-o benevolamente. Algo parecido ocorre nas demais conjunturas da vida. Deixemos de lado muitos receios mútuos dos que nos exercitamos como nos ginásios. Porque é possível, como dizia, evitá-los sem mostrar receio nem aversão.

21. Se alguém pode refutar-me e provar de modo conclusivo que penso ou procedo incorretamente, de bom grado mudarei minha forma de agir. Pois persigo a verdade, que nunca prejudicou ninguém; ao contrario, sim se prejudica o que persiste em seu próprio engano e ignorância.

22. Eu, pessoalmente, faço o que devo; o demais não me atrai, porque é algo que carece de vida, ou de razão, ou anda extraviado e desconhece o caminho.

23. Aos animais irracionais e, em geral, às coisas e aos objetos submetidos aos sentidos, que carecem de razão, tu, posto que estás dotado de entendimento, trate-os com magnanimidade e liberalidade; mas aos homens, como dotados de razão, trate-os ademais sociavelmente.

24. Alexandre, da Macedonia e seu tropeiro, uma vez mortos, encontram-se em uma mesma situação; pois, ou foram reabsorvidos pelas razões geradoras do mundo ou foram igualmente desagregados em átomos.

25. Perceba quantas coisas, no mesmo lapso de tempo, brevíssimo, brotam simultaneamente em cada um de nós, tanto corporais como espirituais. E assim não te surpreenderás de que muitas coisas, mais ainda, todos os acontecimentos da vida residam ao mesmo tempo no ser único e universal, que chamamos mundo.

26. Se alguém te faz a pergunta de como se escreve o nome de Antonino, não soletrarias cada uma de suas letras? E no caso de que se aborrecessem, replicarias tu também te aborrecendo? Não seguirias enumerando tranquilamente cada uma das letras? Da mesma forma, também aqui, considere que todo dever se cumpre mediante certos cálculos. É preciso olhá-los com atenção sem perturbar-se nem incomodar-se com os que se incomodam, e cumprir metodicamente o proposto.

27. Quão cruel é não permitir aos homens que dirijam seus impulsos ao que lhes parece apropriado e conveniente! E o certo é que, de algum modo, não estás de acordo em que façam isso, sempre que te aborreces com eles por suas falhas. Porque se mostram absolutamente arrastados ao que consideram apropriado e conveniente para si. “Mas não é assim”. Consequentemente, esclareça-os e demonstre a eles, mas sem irritar-se.

28. A morte é o descanso da reação sensitiva, do impulso instintivo que nos move como fantoches, da evolução do pensamento, do tributo que nos impõe a carne.

29. É vergonhoso que, no decorrer de uma vida na qual teu corpo não desfalece, neste desfaleça primeiramente tua alma.

30. Cuidado! Não te convertas em um César, não te manches sequer, porque costuma ocorrer. Mantenha-te, portanto, simples, bom, puro, respeitável, sem arrogância, amigo do justo, piedoso, benévolo, afável, firme no cumprimento do dever. Lute por conservar-te tal qual a filosofia quis fazer-te. Respeite os deuses, ajude a salvar os homens. Breve é a vida. O único fruto da vida terrena é uma piedosa disposição e atos úteis à comunidade. Em tudo, proceda como discípulo de Antonino; sua constância em agir conforme a razão, sua equanimidade em tudo, a serenidade de seu rosto, a ausência nele de vangloria, seu afa no que se refere à compreensão das coisas. E lembra-te de como não haveria omitido absolutamente nada sem uma profunda análise prévia e sem uma compreensão com clareza; e como suportava sem replicar os que lhe censuravam injustamente; e como não tinha presa por nada; e como não aceitava as calúnias; e como era escrupuloso indagador dos costumes e dos feitos; mas não era insolente, nem lhe atemorizava a agitação, nem era desconfiado, nem charlatão. E como tinha bastante com pouco, para sua casa, por exemplo, para seu leito, para sua vestimenta, para sua alimentação, para seu serviço; e como era diligente e amistoso; e capaz de permanecer na mesma tarefa até o entardecer, graças à sua dieta frugal, sem ter necessidade de evacuar os resíduos fora da hora de costume; e sua firmeza e uniformidade na amizade; e sua capacidade de suportar aos que se opunham sinceramente a suas opiniões e de alegrar-se, se alguém lhe mostrava algo melhor; e como era respeitoso com os deuses sem superstição, para que assim te surpreendas, como a ele, a última hora com boa consciência.

31. Retorna a ti e reanima-te, e uma vez que tenhas saído de teu sonho e tenhas compreendido que te perturbavam pesadelos, novamente desperto, olhe essas coisas como olhavas aquelas.

32. Sou um composto de alma e corpo. Portanto, para o corpo tudo é indiferente, pois não é capaz de distinguir; mas ao espírito lhe são indiferentes quantas atividades não lhe são próprias, e, em troca, quantas atividades lhe são próprias, todas elas estão sob seu domínio. E, apesar disso, somente a atividade presente lhe preocupa, pois suas atividades futuras e passadas lhe são também, desde este momento, indiferentes.

33. Não é contrario à natureza nem o trabalho da mão nem tampouco o do pé, desde que o pé cumpra a tarefa própria do pé, e a mão, a da mão. Do mesmo modo, pois, tampouco é contrario à natureza o trabalho do homem, como homem, desde que cumpra a tarefa própria do homem. E, se não é contrário à sua natureza, tampouco lhe é nocivo.

34. Que classe de prazeres desfrutaram bandidos, lascivos, parricidas, tiranos!

35. Não vês como os artesãos se colocam de acordo, até certo ponto, com os profanos, mas não deixam de cumprir as regras de seu ofício e não aceitam renunciar a ele? Não é surpreendente que o arquiteto e o médico respeitem mais a razão de seu próprio ofício que o homem a sua própria, que compartilha com os deuses?

36. Asia, Europa, cantos do mundo; o mar inteiro, uma gota de água; o Atos, um pequeno monte do mundo; todo o tempo presente, um instante da eternidade; tudo é pequeno, mutável, passageiro. Tudo procede de lá, arrancando daquele princípio norteador ou derivando dele. Assim, a boca do leão, o veneno e tudo o que faz mal, como as espinhas, como o lodo, são parte daquelas coisas veneráveis e belas. Não te imagines, pois, que essas coisas são alheias a aquele a quem tu veneras; mas antes, reflita sobre a fonte de todas as coisas.

37. Quem viu o presente, tudo viu: a saber, quantas coisas surgiram desde a eternidade e quantas coisas permanecerão até o infinito. Pois tudo tem uma mesma origem e um mesmo aspecto.

38. Medite com frequência sobre a conexão de todas as coisas existentes no mundo e em sua mútua relação. Pois, de certa forma, todas as coisas se entrelaçam umas com as outras e todas, nesse sentido, são amigas entre si; pois uma está à continuação da outra devido ao movimento ordenado, do hábito comum e da unidade da substância.

39. Amolda-te às coisas nas quais tens sorte; e aos homens com os quais tens de conviver, ame-os, mas de verdade.

40. Um instrumento, uma ferramenta, um objeto qualquer, se realiza o trabalho para o qual foi construído, é bom; ainda que esteja fora dali o que os construiu. Mas tratando-se das coisas que se mantêm unidas por natureza, em seu interior reside e persiste o poder construtor; por essa razão é preciso ter um respeito especial por ele e considerar, caso te comportes e procedas de acordo com seu propósito, que todas as coisas ocorrem segundo a inteligência. Assim também ao Todo suas coisas ocorrem conforme a inteligência.

 41. Em qualquer coisa das alheias a tua livre vontade, que consideres boa ou má para ti, é inevitável que, segundo a evolução de tal dano ou da perda de semelhante bem, censures os deuses e odeies os homens como responsáveis de tua queda ou privação, ou como suspeitos de sê-lo. Também nós cometemos muitas injustiças devido às diferenças em relação a essas coisas. Mas no caso de que julguemos bom e mau unicamente o que depende de nós, nenhum motivo nos resta para culpar os deuses nem para manter uma atitude hostil frente aos homens.

42. Todos nós colaboramos para o cumprimento de um só fim, uns consciente e Consequentemente, outros sem sabê-lo; como Heráclito, creio, diz que, inclusive os que dormem, são operários e colaboradores do que acontece no mundo. Um colabora de uma maneira, outro de outra, e inclusive, por acréscimo, o que critica e tenta se opor e destruir o que faz. Porque também o mundo tinha necessidade de gente assim. Em conseqüência, pense com quem formarás partido adiante. Pois o que governa o conjunto do universo te dará um trato estupendo em tudo e te acolherá em certo posto entre seus colaboradores e pessoas dispostas a colaborar. Mas não ocupes um posto tal, como o vulgo e ridículo da tragédia que recorda Crisipo.

43. Acaso o sol acha justo fazer o que é próprio da chuva? Acaso Esculápio o que é próprio da deusa, portadora dos frutos? E o que dizer de cada um dos astros? Não são diferentes e, entretanto, cooperam na mesma tarefa?

44. Se, efetivamente, os deuses deliberaram sobre mim e sobre o que deve me acontecer, bem deliberaram; porque não é tarefa fácil conceber um deus sem decisão. E por qual razão iriam desejar causar-me dano? Qual seria seu ganho ou da comunidade, que é sua máxima preocupação? E se não deliberaram em particular sobre mim, sim, ao menos, o fizeram profundamente sobre o bem comum, e dado que essas coisas me acontecem por conseqüência com este, devo abraçá-las e amá-las. Mas se é certo que sobre nada deliberam (dar crédito a isso é impiedade; não façamos sacrifícios, nem súplicas, nem juramentos, nem os demais ritos que todos e cada um fazem na idéia de que vão destinados a deuses presentes e que convivem com nós), se é certo que sobre nada do que nos concerne deliberam, então me é possível deliberar sobre mim mesmo e indagar sobre minha conveniência. E a cada um lhe convém o que está de acordo co sua constituição e natureza, e minha natureza é racional e sociável. Minha cidade e minha pátria, enquanto Marco Aurélio, é Roma, mas enquanto homem, é o mundo. Em conseqüência, o que beneficia a essas cidades é meu único bem.

45. O que acontece a cada um importa ao conjunto. Isso deveria ser suficiente. Mas ademais, en geral, verás, se percebeste atentamente, que o que é útil a um homem, o é também a outros homens. Aceite agora “a utilidade” na acepção mais comum, aplicada às coisas indiferentes.

46. Assim como os jogos do anfiteatro e de lugares semelhantes te inspiram repugnância, pelo fato de que sempre as mesmas coisas são vistas, e a uniformidade faz o espetáculo fastidioso, assim também ocorre ao considerar a vida em seu conjunto; porque todas as coisas, de cima para baixo, são as mesmas e procedem das mesmas. Até quando, pois?

47. Medite sem cessar na morte de homens de todas as classes, de todo tipo de profissões e de toda sorte de raças. De maneira que podes descender nessa enumeração até Filístio, Febo e Origânio. Passe agora aos outros tipos de gente. E preciso, pois, que nos desloquemos para lá, para onde se encontra tão grande número de hábeis oradores, tantos filósofos e veneráveis: Heráclito, Pitágoras, Sócrates, tantos heróis com anterioridade, e, depois, tantos generais, tiranos. E, além desses, Eudóxio, Hiparco, Arquimedes, outras naturezas agudas, magnânimos, diligentes, trabalhadores, ridicularizadores da mesma vida humana, mortal e efêmera, como Menipo, e todos os de sua classe. Medite sobre todos esses que há tempo nos deixaram. O que há nisso, pois, de terrível para eles? E c que há de terrível para os que de nenhuma forma são nomeados? Uma só coisa vale à pena: passar a vida em companhia da verdade e da justiça, benévolo com os mentirosos e com os injustos.

48. Sempre que queiras alegrar-te, pense nos méritos dos que vivem contigo, por exemplo, a energia no trabalho de um, a discrição de outro, a liberalidade de um terceiro e qualquer outra qualidade de outro. Porque nada produz tanta satisfação como os exemplos das virtudes, ao manifestarem-se no caráter dos que vivem conosco e ao serem agrupadas na medida do possível. Por essa razão devem ser tidas sempre à mão.

49. Ficas incomodado por pesar tantas libras e não trezentas? Da mesma forma, também, porque deves viver um número determinado de anos e não mais. Porque assim como te contentas com a parte de substância que te foi designada, assim também com o tempo.

50. Tente persuadi-los; mas aja, inclusive contra a sua vontade, sempre que a razão da justiça o imponha. Entretanto, se alguém se opuser fazendo uso de alguma violência, mude para a complacência e para o bom trato, sirva-te dessa dificuldade para outra virtude e tenha presente que com discrição te movias, que não pretendias coisas impossíveis. Qual era, pois, tua pretensão? Alcançar tal impulso em certa maneira. E o consegues. Aquelas coisas às quais nos movemos, chegam a concretizar-se.

51. O que ama a fama considera bem próprio a atividade alheia; o que ama o prazer, seu próprio apreço; o homem inteligente, ao contrario, sua própria atividade.

52. Cabe a possibilidade, no que concerne a isso, de não haver conjectura alguma e de não turbar a alma; pois as coisas, por si mesmas, não têm uma natureza capaz de criar nossos juízos.

53. Acostuma-te a não estar distraído ao que diz outro, e inclusive, na medida de tuas possibilidades, adentre a alma do que fala.

54. O que não beneficia a colméia, tampouco beneficia a abelha.

55. Se os marinheiros insultassem seu piloto ou os enfermos o médico, se dedicariam a outra coisa além de colocar em prática os meios para salvar a tripulação, o primeiro, e para curar os que estão sob tratamento, o segundo?

56. Quanto, em companhia dos quais entrei no mundo, já partiram!

57. Aos ictéricos lhes parece amargo o mel; aos que foram mordidos por um cachorro raivoso são hidrófobos, e os pequenos gostam da bola. Por que, pois, aborrecer-te? Parece-te menos poderoso o erro que a bílis no ictérico e o veneno no homem mordido por um animal raivoso?

58. Ninguém te impedirá de viver segundo a razão de tua própria natureza; nada te ocorrerá contra a razão da natureza comum.

59. Quem são aqueles a quem quer agradar! E por quais ganhos, e graças a quais procedimentos! Quão rapidamente o tempo sepultará todas as coisas e quantas já sepultou!

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TEXTOS
Solilóquios de Marco Aurélio - Livro VII

1. O que é a maldade? É o que tens visto muitas vezes. E a propósito de tudo o que acontece, tenhas presente que isso é o que tens visto muitas vezes. Em resumo, de baixo para cima, encontrarás as mesmas coisas, das que estão cheias as histórias, as antigas, as médias e as contemporâneas, das quais estão cheias agora as cidades e as casas. Nada novo; tudo é habitual e efêmero.

2. As máximas vivem. Como, de outro modo, poderiam morrer, a não ser que se extinguissem as imagens que lhes correspondem? Em tuas mãos está reavivá-las constantemente. Posso, em relação a isso, conceber que é preciso. E se, como é natural, posso, por que perturbar-me? O que está fora, de minha inteligência nenhuma relação tem com a inteligência. Aprenda isso e estarás no que é correto. É possível reviver. Olhe novamente as coisas como as tens visto, pois nisso consiste o reviver.

3. Vão desejo à pompa, representações em cena, rebanhos de gado menor e maior, lutas com lança, ossos jogados aos cães, migalhas destinadas aos viveiros de peixes, fatigas e colônias de formigas, idas e voltas de ratos assustados, fantoches movidos por fios. Convém, pois, presenciar esses espetáculos benevolamente e sem rebeldia, mas seguir e observar com atenção que o mérito de cada um é tanto maior quanto meritória é a tarefa objeto de seus alas.

4. É preciso seguir, palavra por palavra, o que se diz, e, em todo impulso, seu resultado; e, no segundo caso, ver diretamente a que objetivo aponta a tentativa; e no primeiro, velar por seu significado.

5. Minha inteligência é suficiente para isso ou não? Se é suficiente, sirvo-me dela para esta ação como se fosse um instrumento concedido pela natureza do conjunto universal. Mas se não me basta, cedo a obra a quem seja capaz de cumpri-la melhor, a não ser, por outro lado, que isso seja de minha incumbência, ou bem coloco as mãos à obra como possa, com a colaboração da pessoa capaz de fazer, com a ajuda do meu guia interior, o que nesse momento é oportuno e benéfico à comunidade. Porque o que estou fazendo por mim mesmo, ou em colaboração com outro, deve tender, exclusivamente, ao benefício e à boa harmonia com a comunidade.

6. Quantos homens, que foram muito celebrados, caíram já no esquecimento! E quantos homens que os celebraram já há tempos partiram?

7. Não sintas vergonha de ser socorrido. Pois está estabelecido que cumpras a tarefa imposta como um soldado no assalto a uma muralha. Que farias, pois, se, vítima de ferimentos na perna, não pudesses tu somente escalar as fortalezas e, em troca, isso te fosse possível com ajuda de outro?

8. Não te inquiete o futuro; pois irás a seu encontro, se for preciso, com a mesma razão que agora utilizas para as coisas presentes.

 9. Todas as coisas se encontram entre si e seu comum vínculo é sagrado e quase nenhuma é estranha à outra, porque todas estão coordenadas e contribuem à ordem do mesmo mundo. Que um é o mundo, composto de todas as coisas; um é deus que se estende através de todas elas, única a substância, única a lei, uma só razão comum de todos os seres inteligentes, uma também a verdade, porque também uma é a perfeição dos seres do mesmo gênero e dos seres que participam da mesma razão.

10. Tudo o que é material se desvanece rapidamente na substância do conjunto universal; toda causa se funde rapidamente na razão do conjunto universal; a lembrança de todas as coisas fica em um instante sepultada na eternidade.

11. Para o ser racional o mesmo ato está de acordo com a natureza e com a razão.

12. Direito ou endireitado.

13. Como existem os membros do corpo nos indivíduos, também os seres racionais foram constituídos, por esse motivo, para uma idêntica colaboração, ainda que em seres diferentes. E mais te ocorrerá esse pensamento se muitas vezes fizer essa reflexão contigo mesmo. Sou um membro do sistema constituído por seres racionais. Mas se dissesses que és parte, com a mudança da letra “R”, não amas ainda de coração os homens, ainda não te alegras integramente de fazer-lhes favores; mais ainda, se o fazes simplesmente como um dever, significa que ainda não compreendes que fazes um bem a ti mesmo.

14. Aconteça exteriormente o que se queira aos que estão expostos a serem afetados por este acidente. Pois aqueles, se querem, se queixarão de seus sofrimentos; mas eu, se não imagino que o acontecido é um mal, ainda não sofri dano algum. E de mim depende não imaginá-lo.

15. Digam ou façam o que queiram, meu dever é ser bom. Como se o ouro, a esmeralda ou a púrpura dissessem sempre isso: “Façam ou digam o que queiram, meu dever é ser esmeralda e conservar minha própria cor”.

16. Meu guia interior não se altera por si mesmo; quero dizer, não se assusta nem se aflige. E se algum outro é capaz de assustá-lo ou afligi-lo, que o faça. Pois ele, por si mesmo, não se moverá conscientemente a semelhantes alterações. Preocupe-se o corpo, se pode, de não sofrer nada. E se sofre, manifeste-o. Também o espírito animal, que se assusta, que se aflige. Mas o que, em resumo, pensa sobre essas considerações, não há nenhum temor que sofra, pois sua condição não lhe impulsionará a um juízo semelhante. O guia interior, por sua mesma condição, carece de necessidade, a não ser que as crie, e por isso mesmo não tem tribulações nem obstáculos, a não ser que se perturbe e se ponha obstáculos a si mesmo.

17. A felicidade é um bom numenou um bom “espírito familiar”. Que fazes, pois, aqui, ó imaginação? Vá, pelos deuses, como vieste! Não te necessito. Vieste segundo teu antigo costume. Não me aborreço contigo; unicamente, vá.

18. A mudança é temida? E que pode acontecer sem mudança? Existe algo mais querido e familiar à natureza do conjunto universal? Poderias tu mesmo lavar-te com água quente, se a lenha não se transformasse? Poderias alimentar-te se os alimentos não se transformassem? E outra coisa qualquer entre as úteis, poderia cumprir-se sem transformação? Não percebes, pois, que tua própria transformação é algo similar e igualmente necessária à natureza do conjunto universal?

19. Pela substância do conjunto universal, como através de uma torrente, cooperam todos os corpos, naturais e colaboradores do conjunto universal, como nossos membros entre si. Quantos Crisipos, quantos Sócrates, quantos Epítetos absorveu já o tempo! Idêntico pensamento tenhas tu em relação a todo tipo de homem e a todas as coisas.

20. Apenas uma coisa me inquieta: o temor de que faça algo que minha constituição de homem não quer, ou da maneira que não quer, ou o que agora não quer.

21. Próximo está seu esquecimento de tudo, próximo também o esquecimento de tudo em relação a ti.

22. Próprio do homem é amar inclusive os que tropeçam. E isso se consegue quando pensas que são teus familiares e que pecam por ignorância e contra sua vontade e que, dentro de pouco tempo, ambos estarão mortos e que, ante tudo, não te prejudicou, posto que não fez o teu guia interior pior do que era antes.

23. A natureza do conjunto universal, valendo-se da substância do conjunto universal, como de uma cera, modelou agora um potro; depois, o fundiu e utilizou sua matéria para formar um arbusto, depois, um homenzinho, e mais tarde outra coisa. E cada um desses seres subsistiu por pouquíssimo tempo. Mas não é nenhum mal um cofre ser desmontado nem tampouco ser montado.

24. O semblante rancoroso é demasiado contrário à natureza. Quando se afeta reiteradamente, sua beleza morre e finalmente se extingue, de maneira que torna-se impossível reavivá-la. Tente, ao menos, ser consciente disso, na convicção de que é contrário à razão. Porque se desaparece a compreensão do agir mal, que motivo para seguir vivendo nos sobra?

25. Tudo quanto vês, enquanto ainda não é, será transformado pela natureza que governa o conjunto universal, e outras coisas fará de sua substância, e ao mesmo tempo outras da substância daquela, a fim de que o mundo sempre rejuvenesça.

26. Cada vez que alguém cometa uma falta contra ti, medite sobre que conceito do mal ou do bem tinha ao cometer dita falta. Porque, uma vez que tenhas examinado isso, terás compaixão dele e nem te surpreenderás, nem te irritarás com ele. Já que compreenderás tu também o mesmo conceito do bem que ele, ou outro similar. Em consequência, é preciso que lhe perdoemos. Mas ainda se não chegues a compartilhar com seu conceito do bem e do mal, serás mais facilmente benévolo com seu extravio.

27. Não imagines as coisas ausentes como já presentes; antes, selecione dentre as presentes as mais favoráveis, e, à vista disso, lembre-se como as buscarias, se não estivessem presentes. Mas ao mesmo tempo tenha precaução, não deixes que, por comprazer-te a tal ponto em seu prazer, habitua-te a subestimá-las, de maneira que, se alguma vez não estivessem presentes, pudesses sentir-te inquieto.

28. Recolha-te em ti mesmo. O guia interior racional pode, por natureza, bastar-se a si mesmo praticando a justiça e, segundo essa prática, conservando a calma.

29. Apague a imaginação. Detenha o impulso de marionete. Circunscreva-te ao momento presente. Compreenda o que te acontece ou a outro. Divida e separe o objeto dado em seu aspecto causal e material. Pense em tua hora posterior. A falta cometida por aquele, deixe-a ali onde se originou.

30. Compare o pensamento com as palavras. Submerge teu pensamento nos acontecimentos e nas causas que o produziram.

31. Faça resplandecer em ti a simplicidade, o pudor e a indiferença no relativo ao que é intermediário entre a virtude e o vício. Ame o gênero humano. Siga a Deus. Aquele diz: “tudo é convencional, e em realidade só existem os elementos”. E basta lembrar que nem todas as coisas são convencionais, mas poucas.

32. Sobre a morte: ou dispersão, se existem átomos; ou extinção ou mudança, se existe unidade.

33. Sobre a dor: o que é insuportável mata, o que se prolonga é tolerável. E a inteligência, retirando-se, conserva sua calma e não aja em detrimento do guia interior. E em relação às partes danificadas pela dor, se há alguma possibilidade, manifestem-se sobre o particular.

34. Sobre a fama: examine quais são seus pensamentos, quais coisas evitam e quais perseguem. E que, assim como as dunas ao amontoar-se uma sobre outras ocultam as primeiras, assim também na vida os acontecimentos anteriores são rapidamente encobertos pelos posteriores.

35. E a aquele pensamento que, cheio de grandeza, alcança a contemplação de todo tempo e de toda essência, crês que lhe parece grande coisa a vida humana? Impossível, disse. Então, tampouco tal homem considerará terrível a morte? De forma alguma.

36. “Cabe ao rei fazer o bem e receber calúnias”.

37. É vergonhoso que o semblante aceite acomodar-se e alienar-se como ordena a inteligência, e que, em troca, ela seja incapaz de acomodar-se e seguir sua linha.

38. “Não devemos nos irritar com as coisas, pois a elas nada lhes importa”.

39. “Oxalá pudesses dar motivos de regozijo aos deuses imortais e a nós!”.

40. “Ceifar a vida, tal como uma espiga madura, e que um exista e o outro não”.

41. “Se os deuses me esqueceram e esqueceram meus dois filhos, também isso tem sua razão”. 

42. “O bem e a justiça estão comigo”.

43. Não associar-se a suas lamentações, nem a seus estremecimentos.

44. “Mas eu te responderia com esta justa razão: estás equivocado, amigo, se pensas que um homem deve calcular o risco de viver ou morrer, inclusive sendo insignificante a sua valia, e, em troca, pensas que não deve examinar, quando age, se são justas ou não suas ações e próprias de um homem bom ou mau”.

45. “Assim é, atenienses, em verdade. Onde quer que um esteja por considerar que é o melhor ou no posto que seja designado pelo general, ali deve, no meu entender, permanecer e correr risco, sem ter em conta em absoluto nem a morte nem nenhuma outra coisa com preferência à infâmia”.

46. Porque não deve o homem que valorize sê-lo preocupar-se com a duração da vida, tampouco deve ter excessivo apego a ela, mas confiar à divindade esses cuidados e dar crédito às mulheres quando afirmam que ninguém poderia evitar o destino. A obrigação que lhe incumbe é examinar de que modo, durante o tempo que viverá, poderá viver melhor.

47. Contemple o curso dos astros, como se tu evoluísses com ele, e considere sem cessar as transformações mútuas dos elementos. Porque esses pensamentos purificam a vida das sujeiras da vida terrena.

48. Belo o texto de Platão: “preciso é que quem faz discursos sobre os homens examine também o que acontece na terra, como do alto de um monte: manadas de tribunais, regiões desertas, populações bárbaras diversas, festas, trovões, reuniões públicas, toda a mistura e a conjunção harmoniosa procedente dos contrários”.

49. Com a observação dos acontecimentos passados e de tantas transformações que se produzem agora, também o futuro é possível prever. Porque inteiramente igual será seu aspecto e não será possível sair do ritmo dos acontecimentos atuais. Em consequência, ter investigado a vida humana durante quarenta anos ou durante dez mil é a mesma coisa. Pois, o que mais verás?

50. “O que nasceu da terra à terra retorna; o que germinou de uma semente etérea volta novamente à abóboda celeste”. Ou também isso: dissolução dos entrelaçamentos nos átomos e dispersão semelhante dos elementos impassíveis.

51. “Com manjares, bebidas e feitiços, tratando de desviar o curso, para não morrer”. “É forçoso suportar o sopro do vento impulsionado pelos deuses entre sofrimentos sem lamentos”.

52. É melhor lutador; mas não mais generoso com os cidadãos, nem mais reservado, nem mais disciplinado nos acontecimentos, nem mais benévolo cornos menosprezados dos vizinhos.

53. Quando pode cumprir-se uma tarefa de acordo com a razão comum aos deuses e aos homens, nada há que temer ali. Quando é possível obter um beneficio graças a uma atividade bem embasada e que progrida de acordo com sua constituição, nenhum prejuízo deve suspeitar-se ali.

54. Em toda parte e continuamente, de ti depende estar piedosamente satisfeito com a presente conjectura, comportar-te com justiça com os homens presentes e colocar toda tua arte ao serviço da impressão presente, a fim de que nada se infiltre em ti de maneira imperceptível.

55. Não direciones seu olhar para guias interiores alheios, antes, dirija seu olhar diretamente ao ponto aonde te conduz a natureza do conjunto universal por meio dos acontecimentos que te sucedem, e a tua própria pelas obrigações que te exige. Cada um deve fazer o que corresponde a sua constituição. Os demais seres foram constituídos por causas dos seres racionais e, em toda outra coisa, os seres inferiores por causas dos superiores, mas os seres racionais foram constituídos para ajudarem-se mutuamente. Em consequência, o que prevalece na constituição humana é a sociabilidade. Em segundo lugar, a resistência às paixões corporais, pois é próprio do movimento racional e intelectual demarcar limites e não ser derrotado nunca nem pelo sensitivo nem pelo instintivo. Pois ambos são de natureza animal, enquanto que o movimento intelectual quer prevalecer e não ser subjugado por aqueles. Em terceiro lugar, na constituição racional não ocorre a precipitação nem a possibilidade de engano. Assim, que o guia interior, que possui essas virtudes, cumpra sua tarefa com retidão, e possua o que lhe pertence.

56. Como homem que já morreu e que não viveu até hoje, deves passar o resto de tua vida de acordo com a natureza.

57. Amar unicamente o que te acontece e o que é traçado pelo destino. Pois, o que pode adaptar-se melhor a ti?

58. Em cada acontecimento, conservar ante os olhos aqueles aos quais lhes aconteciam as mesmas coisas, e logo se afligiam, se estranhavam, censuravam. E agora, onde estão aqueles? Em nenhuma parte. O que, então? Queres proceder de igual modo? Não queres deixar estas atitudes estranhas aos que as provocam e as sofrem, e aplicar-te inteiramente a pensar como servir-te dos acontecimentos? Os aproveitarás bem e terás matéria. Preste atenção e seja teu único desejo ser bom em tudo o que faças. E tenha presente estas máximas: o que importa são os atos, não os resultados.

59. Cave em teu interior. Dentro se encontra a fonte do bem, e é uma fonte capaz de brotar continuamente, se não deixas de escavar.

60. É preciso que o corpo fique solidamente fixo e não se distorça, nem no movimento nem no repouso. Porque do mesmo modo que a inteligência se manifesta em certa maneira no rosto, conservando-se sempre harmonioso e agradável à vista, assim também deve exigir-se no corpo inteiro. Mas todas essas precauções devem ser observadas sem afetação.

61. A arte de viver assemelha-se mais à luta que à dança no que se refere a estar firmemente disposto a fazer frente aos acidentes, inclusive imprevistos.

62. Considere sem interrupção quem são esses dos quais desejas que contribuam com seu testemunho, e quais guias interiores têm; pois, nem censurarás aos que tropeçam involuntariamente, nem terás necessidade de seu testemunho, se diriges teu olhar às fontes de suas opiniões e de seus instintos.

63. “Toda alma, afirmam, se vê privada contra sua vontade da verdade”. Igualmente também da justiça, da prudência, da benevolência e de toda virtude semelhante. E é bastante necessário que o tenhas presente em todo momento, pois serás mais condescendente com todos”.

64. Em qualquer caso de dor, reflita: não é indecoroso nem tampouco deteriorará a inteligência que me governa; pois não a destrói, nem no aspecto racional, nem no aspecto social. Nas maiores dores, entretanto, lembra-te da máxima de Epicuro: nem é insuportável a dor, nem eterna, se te lembras de teus limites e não imaginas além da conta. Lembra-te também de que muitas coisas, que são o mesmo que a dor, nos incomodam e não percebemos, assim, por exemplo, a sonolência, o calor exagerado, a inaptidão. Depois, sempre que te aborreças com alguma dessas coisas, diga para ti mesmo: cedi à dor.

65. Cuide de não experimentar com os homens não-humanos algo parecido ao que estes experimentam em relação aos homens.

66. De onde sabemos se Telauges não tinha melhor disposição que Sócrates? Pois não basta o fato de que Sócrates tenha morrido com mais glória nem que tenha dialogado com os sofistas com muito mais habilidade nem que tenha passado toda a noite sobre gelo mais pacientemente nem que, havendo recebido a ordem de prender Salaminio, tenha decidido opor-se com maior coragem, nem que tenha congregado tanta gente pelas ruas. Sobre o que não se sabe precisamente nem se é certo. Mas é preciso examinar o seguinte: que tipo de alma tinha Sócrates e se podia conformar-se com ser justo nas relações com os homens e piedoso em suas relações com os deuses, sem indignar-se com a maldade, sem tampouco ser escravo da ignorância de ninguém, sem aceitar como coisa estranha nada do que era designado pelo conjunto universal ou resistir a ela como insuportável, sem tampouco dar ocasião a sua inteligência a consentir nas paixões da carne.

67. A natureza não te misturou com o composto de tal modo, que não te permitisse fixar-te uns limites e fazer o que te incumbe e é tua obrigação. Porque é possível em demasia converter-te em homem divino e não ser reconhecido por ninguém. Tenha sempre presente isso e ainda mais o que direi: em muito pouco radica a vida feliz. E não porque tenhas escassa confiança em chegar a ser um dialético ou um físico, renuncies com base nisso a ser livre, modesto, sociável e obediente a Deus.

68. Passa a vida sem violências em meio do maior júbilo, ainda que todos clamem contra ti as maldições que queiram, ainda que as feras despedacem os pobres membros dessa massa pastosa que te circunda e sustenta. Porque, o que impede que, no meio de tudo isso, tua inteligência se conserve calma, tenha um juízo verdadeiro do que acontece em torno de ti e esteja disposta a fazer uso do que está ao seu alcance? De maneira que eu juízo possa dizer ao que aconteça: “Tu, és isso em essência, ainda que te mostres diferente em aparências”. E teu uso possa dizer ao que aconteça: “Te buscava. Pois para mim o presente é sempre matéria de virtude racional, social e, em resumo, matéria da arte humana ou divina”. Porque tudo o que acontece se faz familiar a Deus ou ao homem, e nem é novo nemé difícil de manejar, mas conhecido e fácil de manejar.

69. A perfeição moral consiste nisso: em passar cada dia como se fosse o último, sem convulsões, sem entorpecimentos, sem hipocrisias.

70. Os deuses, que são imortais, não se irritam pelo fato de que durante tão longo período de tempo devam suportar de um modo ou outro, repetidamente, os malvados, que são de tais características e tão numerosos. Mas ainda, preocupam-se com eles de muitas maneiras diferentes. E tu, que quase estás a ponto de terminar, renuncias, e isso sendo tu um dos malvados?

71. É ridículo não tentar evitar tua própria maldade, o que é possível, e, em troca, tentar evitar a dos demais, o que é impossível.

72. O que a faculdade racional e sociável encontra desprovido de inteligência e sociabilidade, com muita razão o julga inferior a si mesma.

73. Quando tenhas feito um favor e outro o tenha recebido, que terceira coisa ainda continuas buscando, como os ignorantes?

74. Ninguém se cansa de receber favores, e a ação de favorecer está de acordo com a natureza. Não te canses, pois, de receber favores ao mesmo tempo em que tu o fazes.

75. A natureza universal empreendeu a criação do mundo. E agora, ou tudo o que acontece se produz por consequência, ou é irracional inclusive o mais sobressalente, objetivo ao qual o guia do mundo dirige seu impulso próprio. A lembrança desse pensamento te fará em muitos aspectos mais sereno.

Estoicismo
Solilóquios de Marco Aurélio - Livro VI

1. A substância do conjunto universal é dócil e maleável. E a razão que a governa não tem em si nenhum motivo para fazer mal, pois não tem maldade, e nem faz mal algum nem nada recebe mal daquela. Tudo se origina e chega a seu fim de acordo com ela.

2. Seja indiferente para ti passar frio ou calor, se cumpres com teu dever, passar a noite em vigia ou saciar-te de dormir, ser criticado ou elogiado, morrer ou fazer outra coisa. Pois uma das ações da vida é também aquela pela qual morremos. Assim, basta também para este ato “dispor bem o presente” .

3. Olhe o interior; que de nenhuma coisa te escape nem sua peculiar qualidade nem seu mérito.

4. Todas as coisas que existem rapidamente serão transformadas e, ou evaporarão, se a substância é uma, ou se dispersarão.

5. A razão que governa sabe como se encontra, o que faz e sobre qual matéria. 

6. A melhor maneira de defender-te é não te assemelhar a eles.

7. Regozija-te e repouse em uma só coisa: em passar de uma ação útil à sociedade a outra ação útil à sociedade, tendo sempre Deus presente.

8. O guia interior é o que desperta a si mesmo, que se gira e se faz a si mesmo com quer, e faz que todo acontecimento lhe pareça tal como ele quer.

9. Todas e cada uma das coisas chegam ao seu fim de acordo com a natureza do conjunto, e não segundo outra natureza que abarque o mundo exteriormente, ou esteja incluída em seu interior, ou esteja desvinculada no exterior.

10. Barulho, entrelaçamento e dispersão, ou bem união, ordem e providência. Se efetivamente é o primeiro, por qual desejo demorar minha estância em uma mistura azarada e confusão? E por que terá importância outra coisa que não seja saber como “converter-me um dia em terra?”. E por que perturbar-me? Pois a dispersão me alcançará, faça o que faça. E se é o segundo, venero, persisto e confio no que governa.

11. Sempre que te vejas obrigado pelas circunstancias a sentir-te confuso, retorne a ti mesmo rapidamente e não te desvies fora de teu ritmo mais do que o necessário. Pois serás mais dono da harmonia graças a teu contínuo retomá-la.

12. Se tivesses simultaneamente uma madrasta e uma mãe, atenderias àquela, mas, contudo, as visitas a tua mãe seriam contínuas. Isso tu tens agora: o palácio e a filosofia. Assim, pois, retorne frequentemente a ela e nela repouse; graças a esta, as coisas de lá te parecem suportáveis e tu és suportável entre eles.

13. Assim como se tem um conceito das carnes e peixes e comestíveis semelhantes, sabendo que isso é um cadáver de peixe, aquele cadáver de um pássaro ou de um porco; e também que o Falerno é suco de uva, e a toga pretexta lã de ovelha tingida com sangue de marisco; e em relação ao ato sexual, que é uma fricção do intestino e uma ejaculação acompanhada de certa convulsão. Como, de fato, esses conceitos alcançam seus objetos e penetram em seu interior, de modo que se pode ver o que são! Assim, é preciso agir ao longo da vida inteira, e quando as coisas te derem a impressão de serem dignas de crédito em excesso, analise-as e observe seu nulo valor, e despoje-as da ficção, pela qual se vangloriam. Pois o orgulho é um terrível enganador da razão, e quando pensas ocupar-te principalmente das coisas sérias, então, ainda assim, te enganas. Olhe, por exemplo, o que diz Crates sobre o próprio Xenócrates.

14. A maior parte das coisas que o vulgo admira se referem às mais gerais, às constituídas por uma espécie de ser ou natureza: pedras, madeira, figueiras, vinhas e oliveiras. As pessoas um pouco mais comedidas tendem a admirar os seres animados, como os rebanhos de vacas, ovelhas ou, simplesmente, a propr