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A vida marinha no cambriano

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Psicologia - Teoria pós-freudiana

9/11/2020 9:14:33 PM | Por Douglas Palmer
A vida marinha no cambriano

À medida que o mundo emergia do estado de «câmara frigorífica» da idade glacial de finais do Pré-Cambriano, o supercontinente da Panótia, composto pela Gonduana, pela Laurência (América do Norte), pela Báltíca (Eurásia), pela Sibéria (Ásia) e pela Avalônia (Europa Ocidental), continuou a fender-se, criando o oceano Japeto, o precursor do atual Atlântico. Os climas aqueceram bem acima da média das temperaturas atuais, tornando-se húmidos, e a subida geral do nível do mar, que começara no início do Cambriano, continuou e prolongou-se até finais deste período. Nessa época, mais de metade do continente norte-americano encontrava-se inundado por águas superficiais.

Episódios de extinção

Estas águas superficiais, muito iluminadas, constituíam um ambiente ideal para a vida se expandir e se diversificar, mas a evolução não foi regular. Verificaram-se dois episódios de extinção em larga escala, um em finais do Pré-Cambriano e um outro, mais drástico, no início do Cambriano Médio, há cerca de quinhentos e trinta milhões de anos, Médio, como o Anomalocaris e o Laggania, que já possuíam boca, que mordia ativamente. Outros predadores carnívoros eram sobretudo vermes, que engoliam as suas presas inteiras.

Os artrópodes, incluindo as trilobites, eram os organismos marinhos mais comuns desse período e continuaram a evoluir e a prosperar. Muitos possuíam corpo com uma armadura cada vez maior, por vezes revestida de espinhos e «esclerites» equipadas com uma espécie de cota de malha, para se defenderem dos predadores, e acabaram por se cobrir de conchas rígidas, constituídas à base de carbonatos e fosfatos presentes na água do mar.

O Pikaia e o xisto de Burgess

Os moluscos e os braquiópodes (invertebrados bivalves), que tinham aparecido no Cambriano Inferior, continuaram a diversificar-se, mas talvez o desenvolvimento mais importante desta época, pelo menos em retrospectiva, fosse o aparecimento de um pequeno animal que nadava, chamado Pikaia, o qual foi o primeiro ser a apresentar as características primitivas de uma coluna vertebral, na forma de um cordão axial compacto e de uma corda nervosa espinal. Pensa-se que o Pikaia foi o antepassado de todos os animais vertebrados, incluindo o homem, e, tal como a vida animal, outras formas de vida restringiam-se ainda aos mares. Estas formas incluíam algas azul-esverdeadas (organismos unicelulares), assim como algas marinhas multicelulares primitivas (verdes, vermelhas e castanhas).

A informação de que dispomos sobre este período aumentou desde os anos 80, pois os dados pormenorizados do famoso xisto de Burgess. no Canadá, foram complementados com descobertas efetuadas em locais como Chengjiang, na província de Iunan. na China, e Sirius Passet, na Gronelândia.

O Mundo Marinho de Burgess

Omelhor retrato do mundo marinho câmbrico é proporcionado pela jazida do xisto de Burgess, na província da Colúmbia Britânica, no Canadá, que já forneceu milhares de fósseis excepcionalmente bem conservados, muitos deles intactos, facultando no seu conjunto um panorama vibrante da vida nos mares cambrianos, numa época em que os artrópodes eram a forma dominante de vida.

A descoberta do xisto de Burgess

O paleontólogo estadunidense Charles Doolittle Walcott descobriu o xisto de Burgess, por acaso, em 31 de Agosto de 1909, quando atravessava um alto maciço das montanhas Rochosas que faz a ligação entre os montes Field e Wapta. Walcott detectou uma profusão de fósseis num bloco de xisto duro e reconheceu imediatamente a sua importância, pois não só estavam preservadas as habituais partes rígidas dos animais, como também os tecidos moles, constituindo o maior campo de fósseis em perfeito estado de conservação que até agora se encontrou.

Pensa-se geralmente que os seres encontrados no xisto de Burgess foram sepultados por um aluimento de Iodos de um penhasco submarino, porque os extraordinários pormenores anatómicos presentes nos fósseis, incluindo apêndices delicados, indica que ficaram soterrados muito depressa, possivelmente em lodo pobre em oxigeênio, já que na ausência deste os tecidos decompõem-se mais devagar e conservam-se melhor.

Durante oito anos após a sua feliz descoberta, Walcott explorou sistematicamente as montanhas, descobrindo milhares de espécimes, que enviou para o Smithsonian Institution, em Washington, e o subsequente trabalho de paleontólogos da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e do Museu Real do Ontário, no Canadá, revelou toda a importância do achado.

O mundo marinho cambriano

O estudo dos fósseis encontrados no xisto de Burgess revelou que cerca de quarenta espécies de artrópodes compreendiam cerca de metade de todos os animais preservados. Trinta por cento eram equinodermes (a família a que pertencem as estrelas-do-mar), esponjas e vermes priapulídeos, e o restante incluía braquiópodes, moluscos e uma curiosa criatura que nadava chamada Pikaia, que, como atrás se disse, pode ter afinidades com os vertebrados atuais.

Encontraram-se também vermes «peludos» que viviam na superfície do leito marinho, como o Canadia e o Burgessochaeta, literalmente cobertos de milhares de fibras diminutas semelhantes a cabelos, pensando-se que essas cerdas, tal como muitas das escamas e placas com finas nervuras, funcionavam como refletores para aumentarem a visibilidade. Na luz atenuada que se filtrava da superfície da água, os refletores e os pêlos deveriam emitir reflexos prateados quando os animais se deslocavam, permitindo-lhes o reconhecimento mútuo. Por outro lado, estes apêndices também os tornariam visíveis aos predadores, mas os seus espinhos e escamas tê-los-iam protegido.

A maior variedade dos seres marinhos desta época sugere que já se tinha desenvolvido uma cadeia alimentar estruturada, semelhante à que se encontra nos modernos ecossistemas marinhos. De fato, a descoberta desta notável diversidade e o elevado nível de sofisticação ecológica já visível na evolução animal levaram os cientistas a concluir que deve ter havido um desenvolvimento anterior prolongado de animais multicelulares, remontando ao Pré-Cambriano.

O Pikaia

Um animal primitivo sem uma cabeça bem definida e com menos de cinco centímetros de comprimento, que nadava nos mares do Câmbrico Médio, é o antepassado próximo de todos os animais vertebrados, dos peixes às aves e aos mamíferos. Denominado Pikaia, é um dos mais interessantes dentre a miríade de fósseis encontrados no famoso xisto de Burgess, nas montanhas da província da Colúmbia Britânica, no Canadá.

Antepassado improvável

A primeira vista, o Pikaia não parece um possível antepassado do homem, pois assemelha-se a um verme achatado dos lados. Contudo, estudado em pormenor, este fóssil presente no xisto de Burgess mostra claramente características de cordado, como traços de um notocórdio alongado, corda nervosa dorsal e blocos de músculos de ambos os lados do corpo — todas elas características da evolução dos vertebrados.

O notocórdio é um eixo esquelético flexível que corre ao longo do dorso do animal, prolongando e conferindo rigidez ao corpo, de modo que este se possa flectir de lado a lado pelos blocos de músculos, para nadar. Nos peixes e em todos os vertebrados subsequentes, o notocórdio forma a coluna vertebral, que fortalece o corpo, suporta os membros e protege o cordão nervoso dorsal, que é vital, para além de permitir que o corpo se dobre.

Surpreendentemente ainda existe um curioso e pequeno animal semelhante ao Pikaia, o anfioxo Branchiostoma, já conhecido dos biólogos muito antes de o fóssil ter sido descoberto. Com notocórdio e blocos de músculos aos pares, o anfioxo e o Pikaia pertencem ao grupo de animais cordados de que os vertebrados descendem, e os estudos moleculares confirmaram o seu estatuto como parentes mais próximos dos vertebrados. Enquanto o anfioxo é um cordado avançado, outros grupos, quer fósseis quer atuais, como os ascídios (tunicados) e os graptólitos, são mais primitivos. Denominados hemicordados, só apresentam notocórdio nas primeiras fases da sua vida.

A presença de uma criatura tão complexa como o Pikaia há cerca de quinhentos e vinte milhões de anos reforça a perspectiva controversa de que a diversificação da vida teve de remontar muito para além do Cambriano, ao Pré-Cambriano.

Cabeça para os vertebrados

desenvolvimento da cabeça resultou de uma morfologia corporal alongada, do hábito de nadar e de uma boca na extremidade, que entrava primeiro em contato com o ambiente à medida que o animal nadava. A busca de alimentos exigia formas de sondar continuamente o que estava à frente e as estruturas anatômicas para ver e cheirar desenvolveram-se em redor da boca. A informação que recolhiam era processada por um entumescimento da corda nervosa — o cérebro — e, no seu conjunto, estas estruturas frontais formavam a parte distinta do corpo dos vertebrados chamada cabeça. O primeiro sinal do desenvolvimento desta observa-se nos cordados como o anfioxo Branchiostoma e o Pikaia.

 
Ciências naturais - Geologia
9/10/2020 8:20:30 PM | Por André Bonnard
O século de Péricles

Péricles deu o seu nome ao século em que viveu, para nos o século V antes da era cristã. Grande honra, desde que merecida. Vejamos primeiramente os limites desse "século". Péricles, apos uma breve luta politica contra os seus adversários atenienses, fora e dentro do seu partido, alcançou o poder em 461. A partir desta data, é o único dirigente da cidade de Atenas, não contando um brevíssimo eclipse de alguns meses, ate a data da sua morte, em 429. Este século reduz-se a um terço de século: dura trinta e dois anos.

É certo que, durante este período, os acontecimentos políticos se precipitam em ritmo acelerado. As obras-primas sucedem-se umas as outras. Poucos são, nestes trinta e dois anos, os que não vejam o nascimento de uma ou várias das mais deslumbrantes obras que jamais produziu a historia dos homens. Obras de mármore ou de bronze, obras de matéria poética, obras de pensamento cientifico.

Mas qual foi a parte de Péricles neste brusco desabrochar do gênio ateniense em todos os domínios, e sobretudo no das artes plásticas? Por que prego os cidadãos e os aliados de Atenas, por que prego a Grécia inteira e a civilização que ela trazia em si, pagaram este parto do século de Péricles? E isso que importa saber.

Péricles realiza a democracia ateniense. Ao mesmo tempo, dirige-a, é o seu chefe - deveremos dizer "tirano?" (os Atenienses assim o diziam) -, incontestado durante muito tempo. É, segundo Tucídides, o "primeiro dos Atenienses!" Reúne na sua pessoa quatro virtudes que, ligadas umas as outras, definem o grande homem de Estado. Tem a inteligência, isto é, a faculdade de analisar uma situação politica, de prever exatamente o acontecimento e responder-lhe com um ato. Tem a eloquência que convence, que faz que o povo inteiro participe na sua ação. De cada vez que fala perante a Assembleia do povo, dir-se-ia que depõe aos pés dela a sua coroa de chefe, para só a voltar a colocar sobre a cabeça com o consentimento de todos. Diz-se que ele tem o relâmpago na sua língua. Terceira virtude, o patriotismo mais puro: para ele, nada está acima do interesse da comunidade dos cidadãos, acima da honra da cidade de Atenas. Finalmente, e do mais absoluto desinteresse. Para que serviriam, com efeito, os dois primeiros dons - o poder de distinguir o interesse publico e a faculdade de convencer dele o povo -, se ele não fosse inteiramente dedicado ao seu pais e inacessível à corrupção? Assim, o grande historiador traçou, com este retrato de Péricles, no limiar da sua obra, uma imagem do homem de Estado que dominou de alto as figuras dos outros homens políticos, que se lhe opõem, e aos quais falta um destes dons essenciais que caraterizam todo o grande chefe. Segundo Tucídides, Péricles não só domina os outros homens políticos - por mais inteligentes, eloquentes ou patriotas ou honestos que possam ser -, como tem, de Atenas e da sua grandeza, do poderio que o seu povo deve conquistar, nesse momento histórico ou nunca mais, um entendimento tão perfeito, que soube unir esse povo sempre dividido contra si mesmo, propondo-lhe um objetivo que o ultrapassasse, um objetivo comum a todas as cidades convulsionadas da Grécia.

Com efeito, Péricles fala por vezes, em Tucídides, uma linguagem pan-helenica, como homem que se propôs reunir enfim todo o povo grego, sob a hegemonia da cidade em todos os aspectos mais digna de o comandar. Durante trinta anos modelou a cidade de Atenas para fazer dela "a escola da Grécia" (entendamos, segundo o contexto, a escola politica da Grécia). Quis fazer da sua cidade o centro ativo e brilhante do mundo helênico, persuadido de que a superioridade que ela iria, sob a sua direção, afirmar nas artes plásticas saberia exprimir o amor da vida que ardia no coração de todos os Gregos. Mas quis fazer de Atenas, sobretudo, o coração ardente da vida politica grega, um coração que nada faz bater mais forte que o amor da liberdade traduzido em atos. Péricles pronuncia, segundo Tucídides, esta frase em que ressoa magnificamente esse amor comum a todos os Gregos:

"Convencidos de que a felicidade está na liberdade e a liberdade na coragem, olhai de frente os perigos da guerra".

Esta frase, apesar das aparencias, não a dirige Péricles apenas aos Atenienses: ela atinge todos os Gregos, todas as cidades helênicas, em um sentimento comum que os define conjuntamente frente ao rosto dos homens, que os define a esse nível de sacrifício supremo feito a felicidade - o amor da liberdade. Mais do que exprimir um sentimento, exige um ato, fundado na mais grega das virtudes - um ato de coragem.

Péricles concebeu - o que mais adiante se determinara - o desígnio de reunir no regaço de Atenas, a cidade-mãe, a Grécia esparsa das outras cidades, e se fracassou nesse desígnio, foi em parte porque, antes que o pudesse realizar, a morte mais imprevisível para esta inteligência feita para prever - a morte pela peste - o atingiu em plena ação, em pleno vigor, mas foi também porque os Gregos deram um nome diferente ao patriotismo ateniense de Péricles, que pretendia uni-los - chamaram-lhe o imperialismo de Atenas. Assim foram Péricles e o seu destino, segundo Tucídides.

Mas será tudo isto verdade? Ou antes: que haver de verdade em tudo isto? Uma multidão de questões se apresentam ao nosso espirito. A magnifica figura de Péricles que Tucídides nos apresenta é bela de mais para não nos inquietar, a maneira de um rosto de esfinge. Contem em si contradições que, explicáveis pelo tempo em que este homem viveu, nem por isso limitam menos, para nos, o seu valor. Ao mesmo tempo, parece-nos demasiado perfeita para não ser ideal. Demasiado preciosa também para que não procuremos reter a matéria real de que se compôs, antes que se desvaneça como um belo sonho da historia. Tentemos pois apreender a sua secreta complexidade.

Fisicamente, Péricles não se distinguia senão pela forma oblonga da sua caixa craniana - uma cabeça "que nunca mais acaba" diz um contemporâneo. Os poetas cômicos tinham-lhe dado, por causa disso e por causa das suas maneiras altivas, a alcunha de "Olimpio de cabeça de cebola". O busto que o escultor Cresilas, seu contemporâneo, fez dele, e de que possuímos três copias, dissimula-lhe a forma singular da cabeça cobrindo-a com um capacete. A expressão que o artista da ao rosto não e nem altiva, nem arrogante: e simplesmente orgulhosa, com um leve sorriso matreiro.

Por seu pai, Xantipo, ligava-se Péricles a uma velha família da nobreza ática. Mas este pai fora chefe do partido democrático, antes de ser exilado por ostracismo. Descendia por sua mãe da muito nobre família dos Alcmeonidas, família riquíssima e poderosa, mas banida de Atenas, também, em resultado de acusações de sacrilégio e de traição. Péricles contava na sua ascendência materna, por trisavô, um tirano de Sicion (e os tiranos foram quase sempre, na antiguidade, conduzidos ao poder pelas massas populares), e, por tio-avo, o legislador Clistenes que, retomando a obra inacabada do grande Solon, tinha, em 508, rejuvenescido e completado as reformas do antepassado da democracia ateniense. O nascimento de Péricles, cuja data exata ignoramos, situa-se pouco depois deste acontecimento, por alturas de 492.

Nascimento aristocrático, tradições democráticas, tanto sob a forma tirânica como sob a forma propriamente democrática, eis o balanço familiar que Péricles herdou. Que partido irá ele escolher quando se entregar a ação publica, a que o destina o seu temperamento? "Tinha, na juventude", diz Plutarco, uma extrema repugnância pelo povo." Sempre grave e distante, detestava a familiaridade dos modos de Cimon, o ultimo vencedor as guerras persas e chefe do partido aristocrático. Apesar do desdém nato que tinha talvez pela população, sentimento de que se defendia e a que respondia com bruscos atos de generosidade, o seu instinto é a sua logica sem defeito não o enganaram: a grandeza de Atenas, sua cidade, que, desde a juventude, se propusera levar ao mais alto ponto, não podia ser realizada pelo punhado de aristocratas que gravitavam em redor do presunçoso e leviano Cimon. Só as massas populares, cujos direitos tinham de ser ampliados, ressalvando em todo o caso os meios de dispor delas e de guiá-las para o objetivo a alcançar, só essas massas ricas de futuro estavam em condições de conquistar, para Atenas, a grandeza do poderio material e o brilho da primazia artística e cultural que daquele pode derivar. Péricles decidiu servir o partido democrático. Tornou-se seu único chefe em trinta anos.

Por formação intelectual, Péricles era um racionalista manifesto, mas não destituído de vivíssima sensibilidade, ao mesmo tempo ardente e delicada, não destituído também de uma forma de sentimento religioso que ele confunde com o amor da cidade. Este respeito religioso, este amor profundo pelo seu país, não permitem ao seu racionalismo descambar, como tantas vezes acontece, em um individualismo vulgar.

Os mestres que o tinham educado não eram pensadores de torre-de-marfim. O principal, talvez, Damon, ao mesmo tempo compositor e teórico da musica, tomava a sua arte suficientemente a serio para dizer: Não se pode tocar nas regras da musica sem perturbar, no mesmo instante, as leis fundamentais do Estado... Façamos da musica a cidadela do Estado. "Quanto a Zenão de Eleia e a Anaxágoras, foram, ao instalarem-se em Atenas, os seus principais mestres de pensamento. Zenão implanta em Atenas a doutrina monoteísta da escola de Eleia: Há um só Deus... Sem trabalho, pela simples força do seu espirito, põe em movimento todas as coisas. " (Não foi isto mesmo que Péricles se esforçou por fazer no domínio da vida publica: governar pela -força do pensamento?) Anaxágoras, por sua vez, que sabemos ter mantido com Péricles estreitas relações - Anaxágoras, que voltaremos a encontrar mais a frente -, foi o homem que ensinava que a Inteligência pura tirara o mundo do caos inicial, organizara-o e continuava a rege-lo. Aos ensinamentos de Anaxágoras foi Péricles buscar toda a sua formação cientifica, que era tão vasta quanto a época o permitia. Neles confirmou a forma racionalista do seu pensamento e encontrou um princípio e um modelo para o governo da cidade. Todos os discursos que Tucídides lhe atribui são exemplos de eloquência dedutiva, alimentada pelas paixões vivas do seu jovem povo ateniense. Discursos e narrativas mostram a alta inteligência ativa, soberana, deste ,tirano", na condução da cidade de Atenas. Quando Péricles se apresentava em publico para arengar ao povo, parecia a imagem do No (a inteligência), a encarnação humana da força construtiva, motriz, analítica, ordenadora, clarividente e artista... escreve Nietzsche.

Anaxágoras não pode escapar a uma condenação por ateísmo. Péricles livrou-o da dificuldade.

A religião de Péricles confunde, em uma mesma exaltação de alma, o culto das antigas Potencias que outrora presidiam a ação dos homens e o culto da ação dos próprios homens, em que doravante elas encarnam, homens que lutam na cidade para realizar o bem-estar, o progresso, a justiça social e a gloria, impelidos pela força crescente da comunidade dos cidadãos. Esta religião de Péricles inscreve-se no mármore dos templos que ergue, nas estátuas dos deuses e dos heróis de Atenas, em todos esses monumentos que erige a gloria comum dos deuses e dos homens. É a esta comunhão dos cidadãos e dos deuses protetores que ele faz erguer, para o céu, tantas colunas e tanta pedra esculpida. No entanto, é significativo que, nos discursos que Tucídides lhe atribui, nunca, nem uma só vez, apareçam os deuses. O próprio nome deles está ausente desse esplendido elogio da cidade de Atenas e dos bens que lhe cabe salvaguardar pelo sacrifício da sua juventude - elogio pronunciado por Péricles aquando dos funerais dos mortos do primeiro ano da guerra do Peloponeso. Como, em tal circunstancia, pode o nome dos deuses faltar? É que, presente por toda a parte, ressoa o nome de Atenas. Como se Atenas fosse a divindade visível de Péricles.

Vejamos que ações este amor lhe inspira. Péricles começa por rematar o sistema democrático, completando as leis e os costumes existentes desde o tempo de Solon, Pisistrato e Clistenes, os seus três predecessores nesta obra de democratização. Alias, não quer nem regime de classe, nem governo de partido. Para ele, não se trata de organizar, em proveito da classe pobre, um monopólio politico e social, a custa das classes mais ricas. A democracia ateniense, para Péricles, é toda a cidade a trabalhar. Ele honra o trabalho. "Não é a pobreza" diz na Assembleia, "que entre nós se considera vergonhosa; vergonhoso é nada fazer para sair dela."

Para tomar Atenas - a Atenas dos cidadãos, bem entendido - plenamente democrática, vai alargar o campo de recrutamento das magistraturas, ate ai limitado as duas classes mais ricas. Por outro lado, sabe que a participação dos mais pobres nessas magistraturas será puramente teórica, enquanto não forem salariados os cidadãos que se apresentarem aos cargos a que são admitidos, enquanto não puderem ser arcontes ou fazer parte do tribunal dos Heliastas sem preocupações de perdas de ganho. Péricles alarga pois o campo do arcontato aos cidadãos de terceira classe (pequenos burgueses e artífices de modestos rendimentos), deixando de fora a quarta e ultima classe, a dos operários e serventes. Quanto a indenizações, criou-as para os membros do Conselho dos Quinhentos, para os militares e também para a participação dos cidadãos nas em numerosas festas da Republica. Em contrapartida, não concedes nunca indenização e desocupação para a Assembleia do povo, onde a presença dos cidadãos é por ele considerada um dever.

Estas duas medidas - alargamento do arcontato, salario concedido aos cidadãos no exercício das suas funções, salvo na Assembleia - rematam, aos olhos de Péricles, a democratização de Atenas. A isto juntara-se a supressão do direito de veto do Areópago que limitava em diversos casos a soberania popular, operação que fora conduzida, em 462-461, por Efialtes, o integro acusador dos Areopagitas concussionários, logo misteriosamente assassinado.

De futuro, o Areópago não será mais que um nome. A Assembleia do povo e o Tribunal do povo herdaram os seus despojos.

Em politica alias, as leis contém menos que os costumes, não são os arcontes que governam Atenas: administram-na, executam as decisões tomadas. Todas as decisões importantes são tomadas pela Assembleia do povo, composta por todos os cidadãos, onde os ausentes são mais os camponeses, que não gostam de se deslocar para a ela assistirem, que os operários da cidade e os marinheiros do Pireu. É este povo trabalhador da cidade que faz as maiorias e nem sequer há necessidade de pagar-lhe para que ele corra a colher a sua parte neste espetáculo apaixonante: as justas da eloquência.

É aqui que Péricles trava o seu combate pelo objetivo que fixou a cidade de Atenas - o poder. É isto sem outro titulo, sem outra magistratura que o primado triunfante da palavra inteligente e do patriotismo honesto e incorruptível. Péricles é apenas o prostates tou demou, o que significa, ao mesmo tempo, que e o líder do partido democrático é o chefe da comunidade democrática no seu conjunto. É também estratego, isto é, general, anualmente eleito pelo povo para o colégio dos dez estrategos atenienses. Péricles - temos a prova material, com diferença de um ou de dois anos - é reeleito estratego durante todo o período que vai de 460 a 429, e não apenas eleito pela sua tribo (divisão administrativa que tem o direito de eleger um dos seus a estrategia), mas quase sempre pelo conjunto da comunidade cívica ateniense. Esta rara unanimidade, única mesmo na historia de Atenas, significa sem duvida que Péricles convencera o povo a marchar pelo caminho que ele prescrevia, mas que, por outro lado, cabe ao, povo, e só a ele, como soberano, escolher.

Na verdade, esta soberania popular dos cidadãos atenienses é mais do que uma palavra.

A Assembleia exerce uma ação direta e permanente sobre os funcionários, os arcontes, no sentido nato da palavra. Estes funcionários são designados, a fim de que, por um lado, as possibilidades de todos sejam iguais, e de que, por outro lado, sejam asseguradas as competências, graças a uma combinação de tiragem a sorte e de eleição, ou, por vezes, por um dos dois sistemas, exclusivamente. Com exceção dos estrategos, não ha possibilidade de serem escolhidos dois anos seguidos nem de acumularem duas magistraturas. Assim, o poder é posto sob a dependência do povo. Mas é também fiscalizado de uma outra maneira. Ao assumir o cargo, o funcionário passa por um exame, quer perante o Conselho dos Quinhentos, composto de antigos arcontes, quer perante uma seção do Tribunal do povo, o Helia. Ao deixar as funções, presta as suas contas e, enquanto esta prestação de contas não for feita com inteira satisfação do povo, o funcionário não pode dispor dos seus bens. Além disso, mesmo depois de obtida quitação, pode ainda ser acusado por qualquer cidadão e ser objeto de um processo, acusação de ilegalidade. E ainda não é tudo. Durante o ano das suas funções, o funcionário fica sob a fiscalização direta e permanente do povo, o qual, pelo processo do voto "confirmativo", pode em qualquer altura suspendê-lo e leva-lo a julgamento perante o Tribunal do povo.

Também no domínio judiciário o povo exerce a sua plena soberania. Uma grande parte dos cidadãos tem assento em cada ano no tribunal dos Heliastas, que julgam sem apelo a maior parte das causas, publicas ou privadas. Em certos casos - atentados contra a democracia, filiação em uma sociedade secreta, participação em uma conspiração, traição, corrupção politica, etc. - é a própria Assembleia do povo que se constitui em tribunal de justiça, ou faz transitar a acusação para uma seção composta, pelo menos, de mil membros do tribunal do povo.

Por todas estas disposições, e outras ainda, a democracia ateniense constitui um regime de democracia integral, um governo ao mesmo tempo pelo povo e para o povo, a realização democrática mais completa que o mundo antigo conheceu.

Contudo, a suprema autoridade conferida a Péricles pela amplidão do seu pensamento e pelo vigor da sua eloquência atua como poderoso contrabalanço. Esta democracia de Péricles é uma democracia dirigida. Tucídides escreveu, sobre a Atenas desse tempo, uma frase decisiva:          "De nome, era uma democracia; de fato, era um governo exercido pelo primeiro dos cidadãos". Vê-se aqui como Sófocles, que conhecia Péricles muito bem e o amava, pode ir buscar a ele certos traços para a criação da personagem de Creonte na Antígona.

Mas há mais, e pior. Ao mesmo tempo que Péricles remata a democracia e, com a sua pessoa, faz contrabalanço e faz o exercício dela, pode dizer-se também que a fecha.

No ano de 451-450, por proposta sua, foi decidido, diz-nos Aristóteles, que ninguém gozaria de direitos políticos se não tivesse nascido de pai e mãe atenienses. Ora, segundo a legislação de Solon, os filhos nascidos de um casamento entre um cidadão e uma estrangeira gozavam plenamente do direito de cidade. Era o caso de Temístocles, de Cimon, do historiador Tucídides, do legislador Clistenes, de outros ainda, grandes Atenienses todos eles. Muitos estrangeiros tinham mesmo obtido o direito de cidade por haverem prestado a Atenas serviços considerados excepcionais. Muitos outros se tinham também introduzido fraudulentamente nas listas cívicas, graças a complacência de funcionários corruptos. A partir da lei nova, procede-se a verificações frequentes e severas. Assim, em 445-444, por ocasião de uma penúria grave, tendo um rei do Delta, Psametico, enviado trinta mil alqueires de trigo para distribuição pelos cidadãos de Atenas, foram riscados dos registos cívicos alguns milhares de nomes. Daqueles cujos títulos foram reconhecidos validos, apresentaram-se a distribuição quatorze mil duzentos e quarenta cidadãos. Quantos não se apresentaram? Uns dez mil, por certo. Nessa data, o número exato de cidadãos não excede, em todo o caso, trinta mil.

Seja como for, após o remate da democracia de Atenas por Péricles, esta cidade, a mais democrática da Grécia, contava apenas quatorze mil duzentos e quarenta cidadãos a usar do seu direito cívico. Isto para quatrocentos mil habitantes.

A pujança das instituições é também o ponto de partida do seu declínio. No momento da subida de Péricles ao poder, Atenas estava, havia quinze anos, à frente de uma importante confederação de cidades - a liga de Delos. Esta liga, aquando da sua criação, no ultimo período da guerra persa (em 479), fixara a si própria um objetivo estritamente militar: continuar no mar as hostilidades contra a Pérsia, libertar as cidades helênicas ainda submetidas pelo Rei, tornar impossível uma nova invasão da Grécia pelos Persas. Guerra de libertação - de desforra também -, guerra ao mesmo tempo defensiva e preventiva, eis o objetivo que a liga se propunha e que realizou com êxito sob a direção de Temístocles, de Aristides e de Cimon.

A capital da Confederação - simultaneamente santuário, lugar de reunião do Conselho federal e lugar de deposito do seu tesouro - e, no coração do Egeu, a ilha santa de Delos.

Desde o principio, Atenas gozava de privilégios particulares no seio da Confederação, devidos a força única da sua frota. Tinha o comando das operações militares, de onde resultava livre disposição das finanças. As obrigações dos aliados consistiam em fornecer a liga barcos armados e montados para a guerra contra a Pérsia. Mas admitiu-se também, e com bastante facilidade, que algumas das cidades aliadas, cujos barcos não eram de tipo moderno, pudessem substituir os navios que deviam fornecer por uma contribuição em dinheiro. Em 454, só três membros da federação, além de Atenas, pagam em barcos e não em dinheiro: Samos, Quios e Lesbos. Atenas conta, em compensação, com cerca de cento e cinquenta cidades tributarias, e o total da contribuição financeira anual sobe, nessa data, a cerca de três milhões de francos-ouro.

Foi finalmente em 454 (Péricles governa) que se decidiu transferir de Delos para Atenas o tesouro da liga.

Em teoria, todos os aliados são cidades autônomas e tem direitos iguais. De fato, existe um desequilíbrio entre o poder de Atenas, senhora das operações militares e das finanças, e a fraqueza relativa das cidades aliadas. Este desequilíbrio provoca discórdias no seio da federação, e logo tentativas de abandono, brutalmente reprimidas por Atenas. Naxos foi a primeira a sublevar-se, em 470. Em 465, Tasos. Vencidas, estas duas cidades, de aliadas que eram, tornaram-se simplesmente súditas. Atenas fixa a importância do seu tributo anual. Estas primeiras defecções, seguidas de repressão, começam quando o partido aristocrático está ainda no poder: é Cimon, seu chefe, que, pela espada e pelo fogo, reduz os rebeldes a obediência.

Com a subida de Péricles ao governo, o movimento precipita-se: três grandes cidades da Jônia revoltam-se, entre as quais Mileto. Em 446 e a vez das cidades da Eubeia: Calcis, Eretria e outras. Esta insurreição da Eubeia ameaçou mortalmente a existência da Republica, dado que Esparta interveio em auxilio dos insurrectos. Enquanto Péricles submetia duramente a Eubeia, Megara escolhe este momento para trair a liga, abrindo o caminho da Ática ao exercito de Esparta. A Ática é invadida. Péricles é obrigado a abandonar as operações na Eubeia para ir em socorro da sua cidade de Atenas, em perigo. O seu regresso fulminante leva os Espartanos a retirarem-se. Volta a Eubeia. A ilha inteira é dominada. Algumas cidades recebem guarnições. Outras veem os seus oligarcas expulsos e "democratizado" o governo.

Por toda a parte, Atenas, após cada rebelião, conclui um tratado de sujeição com a cidade que submeteu pelas armas. Por vezes, exige reféns. Instala em diversos lugares governos que lhe são dedicados. Instala também, em certas cidades importantes que convém dominar firmemente, "governadores" que fiscalizam toda a politica da cidade submetida. Finalmente, generaliza o uso das "cleruquias", colônias de cidadãos atenienses armados, a quem são entregues, perto das cidades suspeitas, terras tiradas aos "rebeldes" expulsos ou liquidados, e a quem cabe o cuidado de velar por que a "ordem" reine na região.

Há muito que o Conselho federal se não reúne. É o povo ateniense que fixa, em cada três anos, a importância do tributo. É pelos tribunais de Atenas que são julgadas as desavenças de Atenas com os seus súditos ou com os seus raros aliados. A Confederação de Delos tornou-se Império de Atenas.

Império sempre ameaçado de dentro. Uma nova defeção, a de Samos, no coração do governo de Péricles, em 441, reedita a mesma historia. Ela impõe a Péricles dois anos de lutas estéreis e sangrentas. Samos acaba por capitular. Submetida, cede uma parte do seu território ao Estado ateniense. Paga as enormes despesas da guerra e, como por milagre, tudo entra na ordem, uma vez "democratizado" o seu governo.

Império que nem sequer é um simples governo de cidades submetidas a Atenas. Império que, segundo Péricles, não é outra coisa senão uma "tirania", de que a própria Atenas esta prisioneira. Di-lo ele, nestes exatos termos, em um dos discursos de Tucídides. Falando ao povo, declara-lhe: "Não podeis renunciar a este Império, mesmo se, por receio e amor do repouso, realizásseis esse ato heroico. Considerai-o uma tirania: apoderar-se dela pode parecer injustiça, renunciar constitui um perigo".

Eis o monstro da "democracia imperialista"! Democracia que reina, não o esqueçamos nunca, sobre um povo de escravos e que agora enriquece, pelo sangue, com o recurso de numerosos súditos.

Entretanto, esta politica imperial, enquanto vai durando, proporciona a Péricles quantias enormes. Ano após ano, afluem os milhões de francos-ouro. Quanto basta para manter, é certo que com salários modestos, um povo de funcionários. Quanto basta para empreender dispendiosas obras de arte, que darão pão durante vinte anos a uma população operaria e, a cidade de Atenas, "gloria imperecível".

É certo que a transformação da Confederação de Delos em Império ateniense, brutalmente operada, não se dera sem provocar, mesmo em Atenas, vivos protestos. "O povo desonra-se e move contra si as mais justas censuras" declaravam, segundo Plutarco, os adversários de Péricles na Assembleia, "quando transporta de Delos para Atenas um tesouro que pertence a comunidade dos Gregos. 

A Grécia não pode deixar de ver que, pela mais injusta e mais tirânica depredação, as somas que ela destinou às despesas da guerra (meda) são empregadas no embelezamento da nossa cidade, como uma mulher garrida que se cobre de pedras preciosas; que servem para erigir estátuas magníficas, para construir templos, um dos quais custou mil talentos» (seis milhões de francos-ouro).

Péricles responde. Um dia apresenta-se perante a Assembleia e declara, em substância, que os Atenienses eram os guardiões do mar Egeu contra os Persas, que tinham pago, e tornariam a pagar se preciso fosse, o imposto do sangue, que as cidades aliadas de Atenas apenas contribuíam para a defesa da Grécia, assegurada por Atenas, «com algumas somas de dinheiro que, uma vez pagas, não pertencem mais àqueles que as dão, mas sim àqueles que as recebem, os quais outro compromisso não têm senão o de cumprir as condições a que se obrigaram ao recebê-las». Raciocínio irrefutável!

Acrescenta orgulhosamente, ou, se se preferir, com uma franqueza não isenta de cinismo: «A cidade, abundantemente provida de todos os meios de defesa que a guerra exige, deve empregar essas riquezas em obras que, uma vez concluídas, lhe assegurarão uma glória imortal.»
E mais (resumindo): «não esqueçamos também os lucros que retiraremos do transporte, do trabalho e da colocação de uma enorme quantidade de materiais diversos, donde resultará um movimento geral que utilizará todos os braços no florescimento da indústria e das artes.» O orador prossegue: «Recursos consideráveis estão à nossa disposição. Doravante, o povo inteiro receberá do Estado o seu salário, seja no exército, seja nas funções civis ordinárias, seja no trabalho das suas mãos. Temos a pedra, o bronze, o marfim, o ouro, o ébano, o cipreste. Operários inúmeros, carpinteiros, pedreiros, ferreiros, marceneiros, ourives, cinzeladores e pintores ocupam-se em trabalhá-los. Os comerciantes marítimos, os marinheiros e os pilotos conduzem por mar esta imensa quantidade de materiais. Os carreteiros e os carroceiros trazem-nos por terra. Os carpinteiros de carros, os cordoeiros. os correeiros, os trabalhadores de aterros, os mineiros exercem à porfia o seu ofício... Desta maneira, todas as idades e todas as condições são chamadas a partilhar da abundância que estes trabalhos espalham por toda a parte.»

Não se pode mostrar mais claramente que as grandes obras empreendidas por Péricles na Acrópole e noutros locais eram destinadas a dar de que viver a todos os cidadãos, particularmente à classe operária, à custa dos tributários de Atenas. Política democrática, política de «tirano», se a houve. O Parténon ilustra a glória imperecível de Atenas, ao mesmo tempo que dá comer aos cidadãos... Mas os súbditos do Império terão o pão e a glória? Nem uma nem outro, sem dúvida.

*

Foi baseando-se no decreto votado em 450-449, por proposta sua, o qual autorizava Atenas a retirar do tesouro federal as somas necessárias para reedi­ ficar os templos destruídos no decurso da segunda guerra meda, que Péricles empreendeu estas grandes obras, nomeadamente a reconstrução dos santuários da Acrópole. Quatro obras principais, sem falar das estátuas erguidas ao ar livre ou nos templos, datam desta época de apogeu da arquitectura e da escultura atenienses. Apogeu que Péricles domina com a sua pessoa, enamorada da «beleza na simplicidade», segundo a frase que Tucídides põe na sua boca, aplicando-a aliás a todo o povo ateniense. Estas quatro obras exemplares são, como se sabe, o Parténon, os Propileus, o Erectêione e o templo de Atena- -Vitória. Falarei apenas do Parténon.

Não se trata de repetir aqui a história do templo grego, mas de caracterizar por meio de algumas observações marginais, neste esboço da pessoa de Péri­ cles, esse «amor da beleza na simplicidade» manifestado pela obra fundamental erigida sobre a Acrópole à glória de Atena e do seu povo.

Quando o exército persa partiu, em 479, a Acrópole não era mais que um vasto cemitério de pedras amontoadas e de estátuas partidas. Temístocles e Címon acodem ao mais urgente, às necessidades militares: reconstroem, o primeiro, no flanco norte, o segundo, na flanco sul, os dois muros implantados no rochedo da colina. Estes muros que a protegem e a cingem a toda a volta são construídos de maneira a alargar e a permitir aplanar a superfície do alto da Acrópole. No intervalo entre o bordo superior do muro e o planalto da colina, enterram-se preciosamente as belas raparigas iluminadas de vermelho e azul erguidas pela geração precedente, no tempo da sua prosperidade. (Só vieram a ser desenterradas pela nossa geração: as cores ainda estavam frescas.)

Péricles vê na arte um meio de afirmar a preeminência de Atenas sobre o mundo helénico. O Parténon dominará a Grécia, tal como domina, na sua calculada perfeição, a terra e o mar, e os séculos.

Péricles via tudo, discutia os planos do arquitecto, a escolha do material. Vigiava a execução, visitava o local dos trabalhos, verificava a despesa. Fídias foi designado em 450 como director geral das obras da Acrópole. Era um escultor ateniense de quarenta e dois anos, já conhecido por numerosos traba­ lhos na Grécia. Nesse mesmo ano de 450, erigia sobre a Acrópole a imagem de Atena, brilhante de juventude, cabeça encaracolada, os cabelos seguros por uma simples fita, égide solta, capacete na mão; a lança transportada no braço esquerdo não é já uma arma, mas sim um simples apoio para o braço. Não é uma Atena combatente, é a imagem fresca da paz reconquistada. Mais tarde, Fídias ergueu na Acrópole duas outras Atenas: uma Atena colossal e guerreira onde se afirma a sua mestria de bronzista e que, no metal, mostra o imperialismo de Atenas, que a paz é instável, e que, mal é conquistada, logo tende para a guerra. Finalmente, o astro de ouro e de marfim que brilha na sombra do seu templo, a Atena Parteno, ídolo e guardiã da cidade e do seu tesouro. Imagi­ namos a alta estátua de marfim, vestida de ouro e adornada, enquadrada pela perspectiva da dupla colunata interior do templo dominando com o seu rosto tranquilo, que a sombra anima, o amontoado de objectos preciosos, os ricos estofos sobre as mesas de mármore, os escudos suspensos das colunas. Ima­ gem orgulhosa e esplêndida da supremacia de Atenas.

Fídias, por outro lado, esculpiu pela sua própria mão uma grande parte da decoração do Parténon. Esculpiu, ou pelo menos inspirou, o friso jónico em faixa contínua, onde o seu cinzel mostra, com uma simplicidade que suspende o coração, de tal modo se aproxima do Ideal, a procissão da festa de Atena — a cavalgada dos jovens cavaleiros, a marcha lenta dos velhos que a idade não atingiu, os metecos e os súbditos com as suas oferendas, as raparigas saídas do gineceu para essa rara ocasião, estritamente envolvidas nas suas túnicas como num atavio de pudor. Nenhuma expressão nos rostos, nem sorriso, nem alegria: os homens, ao aproximarem-se dos deuses (que os esperam no fim do friso) revestem-se de impassibilidade. Mas é também a primeira vez que no friso de um templo são representados não deuses ou heróis, mas simples
cidadãos. Péricles e Fídias o tinham querido assim.

Fídias esculpiu igualmente, em pessoa, os dois frontões, danificados de mais para que possamos falar deles: apenas se pode dizer que a força divina aí se exprime não na violência de qualquer gesto ousado, mas simplesmente na indolência da sua perfeita musculatura em repouso. Fixada numa acção, qual­ quer que fosse, a força dos deuses seria como que limitada, mas, no calmo repouso, a força sem uso parece ilimitada e realmente divina.

Fídias deixou aos seus alunos o encargo de esculpirem a maior parte das métopas do friso dórico.
Este artista viveu no convívio do pensamento mais íntimo de Péricles, que se conservou fiel a Fídias na desgraça deste (em 432) e até à morte, sobrevinda pouco depois da sua condenação, na prisão.

Exerceu durante dezoito anos a direcção geral dos trabalhos da Acrópole. Nada escapava à sua crítica severa e sempre criadora. Fídias interessou-se tanto pelos planos de conjunto dos diversos monumentos como pelos mais pequenos pormenores da sua realização técnica. A arquitectura do Parténon deve-lhe, sem dúvida, muito mais que a sua florescência escultural.

Com Sófocles e Péricles, Fídias contava-se entre os três génios que produziram este monumento histórico. Eles colaboravam nessa obra colectiva que foi o Pártenon. Notemos, a propósito, que Sófocles, ao mesmo tempo que compunha a Antígona, presidia à comissão financeira — o colégio de helenó- tamos — que administrava o tesouro público cobrado aos aliados. Este três homens estavam empenhados, senão na mesma política, pelo menos ao serviço do mesmo empreendimento, em que se exprimia, pela criação da nova Acró­ pole como pelo florescimento do teatro de Sófocles, a grandeza do povo dirigido por Péricles. Sófocles, por seu lado, não pensava que a Antígona e o Edipo o dispensassem de presidir, com a sua inteligência e a sua lealdade de cidadão, a um importante colégio financeiro.

A beleza de Parténon é uma «beleza simples». Mas esta simplicidade, como toda a simplicidade duma grande obra artística, é o resultado final duma rara complexidade que se furta ao nosso sentimento primeiro.

O Parténon começa por parecer uma obra puramente geométrica. É a solução de um problema de geometria, no qual a matéria seria reunida em perpendiculares, em círculos, em rectas e em triângulos, de modo a conservar-se de pé num equilíbrio agradável. Parece construído com números: é que ele aparece no termo de um estudo secular dos arquitectos dos templos gregos, que procuraram a relação entre o comprimento e a largura e a altura do edifício, a relação entre o diâmetro da coluna e a sua altura, a relação entre a largura da coluna e o espaço entre as colunas, a do diâmetro da coluna, tomado na base, e o do alto do fuste. Muitas outras relações ainda.

Contudo, esta busca da perfeição matemática do templo agradaria somente à nossa razão, como um teorema bem resolvido. Mas não é assim — não é apenas assim — que o Parténon nos agrada. Ele satisfaz, prolonga a nossa vida orgânica, a nossa alegria orgânica. Toca-nos como se fosse não um Absoluto, mas um ser vivo. E uma ordem, mas uma ordem tão móbil como a ordem dos reinos e das espécies.
Como se conseguiu isto? É que as rectas que o compõem são apenas aproximativas, exactamente como as da vida. Os círculos igualmente; e as relações também. A matemática do Parténon nunca é mais que uma tendência para a perfeição matemática: não tem outro rigor que não seja o das leis do mundo real, repensadas pelo homem, exprimidas pela arte, mas sempre rela­ tivas e móveis. E esta relatividade e esta mobilidade que tomam vivo o Parténon.

Vejamos alguns exemplos. Os quatro degraus do envasamento do edifício são de altura desigual: o primeiro, o degrau de acerto, assente sobre a rocha, é o mais baixo. O último, o mais alto. A diferença é mínima, mais sensível ao passo do que aos olhos. Mas, à distância, os três degraus parecem iguais, e o degrau superior não dá a impressão, que a igualdade produziria, de se enterrar sobre o peso do monumento.
Por outro lado, a superfície de cada degrau não é exactamente horizontal: é ligeiramente convexa. Uma superfície plana, vista de uma das suas extremi­ dades, tem tendência a parecer cavar-se no meio. Para dissipar esta ilusão óptica foi calculada uma curvatura.

A base sobre a qual assenta o monumento é pois, por estes e outros traçados, construída em falsas rectas e em planos falsamente horizontais, que são, aos olhos, rectas e planos vivos. Esta base «pode, assim», como já foi dito, «resistir opticamente ao peso do monumento» que suporta.
Que dizer da diversividade das colunas, que nos parecem todas elas semelhantes e todas perpendiculares ao solo? Que dizer também da ilusória igualdade dos intercolúnios? Não há um número, neste poema do número posto em mármore, que seja idêntico em posições idênticas. Nesta obra, que parece dar-nos uma prova da estabilidade do eterno, não há nada que não seja móvel e instável. Nela tocamos a eternidade, a eternidade da vida, não a do Absoluto.

Darei apenas alguns exemplos acerca das colunas. Não há sequer uma que seja perpendicular ao solo ou exactamente paralela às suas vizinhas.

Rigorosamente vertical, a coluna preencheria somente uma função indivi­ dual de amparo de uma parte restrita do edifício. Inclinadas, como estão, para o interior do edifício, as colunas entram todas numa comunidade que suporta conjuntamente o peso do monumento inteiro. Esta inclinação da coluna varia conforme o lugar que ocupa na própria colunata. É uma pequena inclinação, de sessenta e cinco a oitenta e três milímetros, mas, concêntrica como é, tem por efeito, aos nossos olhos, alargar a função de suporte de cada coluna e mostrar o conjunto da colunata como empenhada num mesmo «esforço de cooperação convergente».

Talvez tenha havido aqui uma necessidade técnica. Talvez, se não fosse assim, o peso do entablamento, dos frontões e de toda a parte superior do templo obrigasse o templo a abrir-se e a desabar. Mas esta necessidade técnica é também uma exigência estética: os nossos olhos, prolongando os eixos das colunas no céu, unem-nos num ponto único situado muito acima do templo. Assim, o Parténon não se nos apresenta como uma simples casa rodeada de colunas. Aparece como um edifício cuja estabilidade móvel, dominada pelo nosso olhar, sobe para o céu em pirâmide imaginária, num esforço coerente que nós disciplinámos.

Esta inclinação calculada das colunas produz ainda outros efeitos. «Desloca o aprumo das cornijas para dentro do edifício, repelindo assim a parte das saliências exteriores para a massa geral.» Mas as colunas dos cantos não participam da mesma inclinação. Formando as quatro um conjunto indepen­ dente, menos inclinadas, estão mais fora do feixe comum. Sustêm com maior nitidez a cumeeira do monumento nos seus quatro cantos. Posta assim em evidência a sua função essencial, tranquilizam-nos sobre a solidez e a duração do templo. Os fustes destas mesmas colunas dos cantos são também ligeira­ mente reforçados, de modo a resistirem melhor ao brilho da luz, cujo peso suportam mais. Pela mesma razão, as colunas de canto estão sensivelmente aproximadas das suas vizinhas: um intercolúnio idêntico aos outros criaria um vazio luminoso que as adelgaçaria. Ora, de todas, devem ser elas as mais fortes, porque têm de suportar a massa total do edifício.

Assim nasce um templo que, concebido segundo as leis da geometria e da vida, parece um ser vivo e como que uma árvore carregada de frutos, produ­ zida pelo solo da Acrópole. Para quem sobe a colina, parece, de baixo, uma coisa pequena, insignificante, ou talvez como que um rosto escondido que nos lança um olhar inquietante'. Continua-se a subir (caminho custoso nos tempos antigos), perde-se o Parténon de vista, chega-se aos Propileus, entra-se: foram postos ali apenas para furtar aos nossos olhos, por todo o tempo possível, o Parténon. De súbito ele ergue-se diante de nós, não já insignificante e inquie­ tante, mas imenso e satisfazendo a nossa expectativa. Porque ele não é imenso segundo a aritmética, é imenso para o nosso coração. Não imenso em dimen­ sões (comparemos: catedral de Lausana: 100 m x 42 x 75; Parténon: 70 m X
X 31 X 17,5). Mas, conforme foi dito e repetido: «O templo grego não tem dimensões, tem proporções.» Ou ainda: «Grande ou pequeno, nunca se pensa no seu tamanho.» Em que se pensa diante do Parténon? Não mintamos, não inventemos: em ser feliz e nada mais, e diante dele sentimos mais força para o sermos. E que se ama o Parténon como a um ser vivo...

Ai de nós! os seres vivos têm a faculdade de se reproduzirem. O Parténon e toda a arquitectura grega reproduziram-se abundantemente, no decurso dos séculos, sob a forma de igrejas ou de bancos, de Paris a Munique e de Washington a Moscovo, parindo seres em geral monstruosos, do género da Madeleine. O Parténon nasceu de um solo, concorda com uma paisagem, é o fruto de um momento histórico. Não se pode soltá-lo de tudo isto. Desenrai­ zado da Acrópole, perde a sua seiva e a sua beleza. Incorporado na colina de calcário e nesse muro de Temístocles e de Címon que a completa com pedras reunidas do mesmo tom, o Parténon coroa uma paisagem. Apesar da sua ruína, colhemos ainda no seu mármore marfíneo, no jogo contrastado das saliências e das reentrâncias, na alternância de sombra e de luz que, enchendo de negro a concavidade das caneluras e afiando de sol as suas arestas, faz dançar as colunas numa dança imóvel cheia de majestade — em tudo isto colhemos ainda a vida que o génio encerrou no mármore. Mármore sempre sensível à luz. O monumento destruído pode ser, conforme os dias ou as horas do dia, ora castanho escuro, ora cinzento quase negro. Pode ser também róseo na poeira da tarde, ou cor de malva com incidências fulvas. Nunca é branco, como se diz que o mármore é branco. Se é branco, é como a pele de um velho, com manchas escuras que se abrem nos seus membros.

Pode parecer, com efeito, muito velho, muito danificado, mas é impos­ sível que, na sua velhice arruinada, o não ouçamos exprimir ainda esse amor da sabedoria e esse amor da beleza que lhe deram nascimento, no tempo da juventude do seu povo.

O fim do reinado de Péricles foi difícil.

A meio do seu governo. Péricles parece ter concebido, na sua imperial cabeça oblonga, um projecto de união pan-helénica. Estamos mal informa­ dos — muito escassamente e apenas por intermédio de Plutarco — sobre esta tentativa. Um decreto aprovado, por proposta sua, por alturas de 446, convi­ dava todas as cidades gregas, da Europa como da Ásia (postas de parte as cidades da Sicília e da Itália), a enviarem a Atenas delegados para ali delibe­ rarem sobre questões de interesse geral: reconstrução dos templos incendiados pelos persas, sacrifícios a oferecer nos santuários nacionais para agradecer aos deuses a vitória alcançada pelos povos unidos, e enfim, sobre os meios de estabelecer a paz entre todos os Gregos. Vinte cidadãos atenienses foram designados para irem, em grupos de cinco, às diferentes regiões do domínio helénico, abrir negociações pacíficas em nome de Atenas. Estas diligências preliminares foram realizadas. Mas esbarraram, diz Plutarco, com a decidida oposição dos Lacedemónios, que recusavam o princípio de um congresso pan-helénico convocado por Atenas e implicando, por esse facto, a supremacia da grande cidade. O congresso nunca se reuniu.

Como sempre, é difícil, em tal circunstância, lançar a responsabilidade do fracasso das negociações sobre um dos partidos apenas. Havia mais de dez anos que a política imperialista de Péricles para com os aliados de Atenas contradizia, nos factos, esta política de «apaziguamento» que propunha agora ao conjunto dos Gregos. Nesse mesmo ano de 446, quando enviava até aos confins do mundo helénico os seus emissários de paz. esmagava às portas de Atenas a insurreição das cidades de Eubeia, como anteriormente abafara o movimento separatista da Jónia. E foi também anteriormente a esta data (em 450-451) que Péricles fez aprovar pela Assembleia o decreto sobre o direito de cidade que, em vez de alargar a comunidade cívica ateniense a todos os defensores do seu Império, a restringia ao que não era mais que uma egoísta categoria de cidadãos privilegiados, de nascimento duas vezes ateniense. Final­ mente, foi ainda em 446 que Péricles, assentando a primeira pedra no Parténon, ligou indissoluvelmente a política de grandes obras, anteriormente anunciada, à necessidade de explorar os Gregos do Império para que eles suportassem as despesas.

Cada dia mais prisioneiro desta política impregnada de imperialismo, sujeitado pelo sangue que vertia, pelo dinheiro que extorquia, pelas liberdades que confiscava, como podia ele fazer acreditar, com as suas propostas de pacificação geral da Grécia, que o congresso pan-helénico de Atenas pudesse ser outra coisa que a confirmação da omnipotência ateniense, a consagração da exclusiva supremacia de Atenas sobre a Grécia inteira? Plutarco parece ingénuo ao atribuir-lhe, nesta circunstância, «tanta elevação de espírito como grandeza de alma».
A partir daqui, Péricles tem de acelerar a marcha de Atenas para a guerra. Não é este o lugar para lembrar as circunstâncias que provocaram essa mortal e irreparável divisão do povo grego que foi a guerra do Peloponeso. Tal como Atenas, os adversários de Atenas têm nestes acontecimentos as suas responsa­ bilidades. Péricles ao fazer aprovar pelos Atenienses o decreto contra Mégara, que fechava aos produtos e aos barcos desta cidade os mercados da Ática e os portos do Império, assume a maior parte dessas responsabilidades. Medida de retorsão? Represálias dos acontecimentos de 446? Explicações deste género, estão sempre ao alcance da mão. Péricles, nesta data, está já apanhado na engrenagem que ele próprio montou. Na verdade, há muito tempo que os dados estão lançados e a partida jogada. Não pode já escapar à necessidade da guerra, que toda a sua política provocou e que ele se esforça agora, à última hora, por apresentar como defensiva, ao mesmo tempo que a exalta como alto tema de glória. Conta ganhar esta guerra, à força, diz, «de inteligência ede dinheiro». Ganhando-a, pretende, no mesmo lance, ganhar a paz.

No entanto, esta inteligência tão aguda está, numa direcção bem determi­ nada, limitada por um obstáculo que ele não vê. O seu patriotismo não ultrapassa a cidade de Atenas, queele quer engrandecer. Não concebe a unidade da Grécia senão como extensão da grandeza ateniense.Quanto às outras cidades, subjugá-las-á. As cidades são «escravas», diz Aristófanes, aos dezanove anos, com o seu riso quevê claro.

Distinguimos nós o obstáculo quenão cabe a Péricles ultrapassar? A socie­ dade de que faz parte é mais profundamente esclavagista do que ela própria julga. A escravização das cidades não é mais que a forma continuada de um racismo inextirpável. A escravatura é mancha de óleo que vai alastrando. Aí perecerá a civilização grega. Ainda não apresentámos assuas mais altas obras-primas, mas sabemos já que o verme está no fruto.

A beleza sem par do Parténon não nos consola de ter sido comprada não apenas com o ouro, mas com o sangue dos homens subjugados.

Essa é a falta inexplicável. Falta de Péricles? Não, nem isso. Esta falta estava inscrita na história anterior e presente do seu povo. Uma sociedade esclavagista não podia produzir a democracia verdadeira, mas apenas uma tirania reinando sobre um povo de escravos, de nome ou de facto.

O revés que atingiu, pela guerra, o pensamento de Péricles — por mais brilhante que tenha sido o seu «século» — diz-nos com toda a clareza que uma civilização não pode perdurar se não for capaz de abranger o conjunto dos homens vivos. Esse é o ensinamento mais importante que a história da civili­ zação grega nos dispensa. Os seus frutos mais esplêndidos enchem-nos de alegria, de coragem e de esperança. Deixam na boca não sei que gosto áspero, que os frutos da idade vindoura — se soubermos ler o passado grego até às suas sombras — talvez não venham a ter.

*

Maçã verde, muito tempo foi preciso para te dourar. Nem todos os dias há sol na história dos homens. Civilização grega, tu és jovem, mas a tua acidez refrescante promete-nos esse gosto de fruto «cozido ao sol - de que fala o poeta da Odisseia — esse gosto de fruto maduro.

História - Civilização Grega
9/5/2020 9:33:21 AM | Por Robert Graves
Os feitos e a natureza de Posídon

Zeus, Poseidon e Hades, apos destronarem seu pai Cronos, tiraram a sorte em um elmo para decidir quem governaria o céu, o mar e o lúgubre mundo subterrâneo, deixando a terra como domínio de todos. Zeus ganhou o céu; Hades, o mundo subterrâneo; e Poseidon, o mar. Este ultimo, igual a seu irmão Zeus em dignidade mas não em poder, e sendo de natureza áspera e combativa, pôs-se imediatamente a construir seu palácio submarino perto de Aegae, na Eubeia. Em seus espaçosos estábulos guardava cavalos brancos de tração, com cascos de bronze e crinas douradas, e um carro de ouro que fazia com que, ao aproximarem-se, os ventos de tempestade cessassem de imediato, e em torno do qual os monstros marinhos se alçavam e davam cabriolas.

Como necessitasse de uma esposa que se sentisse em casa nas profundezas do mar, ele cortejou a nereida Tetis. Mas quando Temis profetizou que qualquer filho nascido de Tetis seria superior ao pai, ele desistiu e permitiu que ela se casasse com um mortal chamado Peleu. Então tentou se aproximar de outra nereida, Anfitrite, mas causou-lhe tanta repugnância que ela acabou fugindo na direção do monte Atlas. Contudo, Poseidon enviou mensageiros no seu encalço. Um deles, chamado Delfim, defendeu com tanta arte a causa de Poseidon que esta acabou cedendo, e pediu-lhe que cuidasse dos preparativos para o casamento. Em agradecimento, Poseidon colocou a imagem de Delfim entre as estrelas, que é agora a constelação do Delfim.

Anfitrite deu três filhos a Poseidon: Tritão, Rode e Bentesicima, mas ele lhe dá quase tantos motivos de ciúmes quanto Zeus a Hera, por causa de seus constantes casos amorosos com deusas, ninfas e mortais. Ela detestou de modo especial sua obsessão por Cila, filha de Forcis, a quem transformou em um monstro ladrador de seis cabeças e 12 pés, ao jogar ervas mágicas na água de seu banho.

Poseidon cobiçava os reinos terrestres e reivindicou, certa vez, a posse da Ática, cravando seu tridente na Acrópole de Atenas, de onde imediatamente brotou um poço de agua salgada, ainda hoje existente. Quando sopra o Vento Sul (Notus ou Auster), pode-se ouvir o rumor das ondas. Mais tarde, durante o reinado de Cecrope, Atena chegou e tomou posse da Ática de uma maneira mais delicada: plantando a primeira oliveira ao lado do poço. Num acesso de ira, Poseidon a desafiou a um duelo, que Atena teria aceitado não fosse a intervenção de Zeus, obrigando-os a submeter a disputa a um tribunal de arbítrio. Pouco tempo depois, os dois se apresentaram diante de uma corte divina, formada por divindades celestiais equivalentes a eles, e Cecrope foi convocado como testemunha. Zeus absteve-se de opinar, mas todos os outros deuses apoiavam Poseidon, ao passo que todas as deusas estavam do lado de Atena. Assim, por um voto de diferença, a corte determinou que Atena tinha mais direito a terra, por ter-lhe oferecido um presente melhor.

Profundamente ofendido, Poseidon enviou ondas enormes para inundar a planície da Triasia, onde se localizava a cidade de Atena, e a deusa se mudou então para o lugar ao qual deu seu próprio nome: Atenas. Entretanto, para aplacar a ira de Poseidon, as mulheres de Atenas foram privadas de voto e os homens, proibidos de portar o sobrenome materno, como haviam feito até então.

Poseidon disputou também Trezena com Atena, mas, nessa ocasião, Zeus ordenou que a cidade fosse dividida igualmente entre eles, decisão que não agradou a nenhum dos dois. Depois, ele tentou, sem êxito, reivindicar Egina, que pertencia a Zeus, e Naxos, que pertencia a Dionísio, e, ao reclamar Corinto de Hélio, obteve somente o istmo, enquanto o ultimo ficou com a Acrópole. Enfurecido, e novamente disposto a lutar, tentou arrebatar a Argólida de Hera, negando-se a se apresentar diante de seus companheiros no Olimpo, que, segundo dizia, tinham preconceitos contra ele. Por conseguinte, Zeus transferiu o assunto para os deuses fluviais Ínaco, Cefiso e Asterio, que decidiram em favor de Hera. Posto que estava proibido de se vingar com inundações, como fizera anteriormente, Poseidon fez exatamente o oposto: secou os rios de seus juízes de maneira que nunca mais voltaram a fluir durante o verão. Entretanto, por consideração a Amimone, uma das danaides afetadas por essa seca, ele fez com que o rio Lerna, em Argos, tivesse caudal perene.

Presume-se ter sido ele o criador do cavalo, ainda que alguns digam que, logo depois de seu nascimento, Réia tenha dado um cavalo a Cronos para que o comesse no lugar da criança. Também se atribui a Poseidon a invenção das rédeas, apesar de Atena já as ter inventado antes. Mas do que ninguém duvida é que foi ele quem instituiu as corridas de cavalo. Sem duvida, os cavalos são consagrados a ele, talvez por causa de sua perseguição amorosa a Demeter, enquanto ela buscava, aos prantos, sua filha Perséfone. Diz-se que Demeter, exausta e abatida pela busca e sem nenhum desejo de flertar com deuses ou titãs, transformou-se em uma égua e começiu a pastar junto com a manada de um certo Onco, filho de Apolo que reinava em Telpusa, na Arcádia. Contudo, ela não conseguiu enganar Poseidon, que, por sua vez, transformou-se em um garanhão e a cobriu, e dessa vergonhosa união nasceram a ninfa Despina e o cavalo selvagem Arion. A ira de Demeter foi tão intensa que ela ainda é venerada, no culto local, como "Demeter, a Furia".

Tetis, Anfitrite e Nereis eram diferentes títulos locais da deusa-Lua tripla como regente do mar, e Poseidon, por ser o deus-pai dos eólios, povo dedicado às atividades marítimas, reclamou o direito de ser seu esposo, onde quer que ela fosse venerada. Peleu esposara Tetis no monte Pelion (Nereis significa "a molhada", e o nome de Anfitrite se refere ao "terceiro elemento", o mar, que rodeia o primeiro elemento, a terra, e por cima dos quais se alga o segundo elemento, ou seja, o ar). Nos poemas homéricos, Anfitrite significa simplesmente "o mar" e não se apresenta personificada como esposa de Poseidon. Sua relutância em se casar com ele coincide com a relutância de Hera em se casar com Zeus, e com a de Perséfone em se casar com Hades. O matrimônio envolvia a interferência dos sacerdotes masculinos no controle feminino da indústria pesqueira. A fabula do Delfim é uma alegoria sentimental: os golfinhos aparecem apenas quando o mar esta calmo. As filhas de Anfitrite eram ela mesma, manifestada numa triade: Tritão, a Lua nova da boa sorte; Rode, a Lua cheia da colheita; e Bentesicima, a perigosa Lua velha. Mas a Tritão, depois, foi atribuído o gênero masculino. Aegae situava-se no lado beócio protegido da Eubeia e servia como porto de Orcomeno. Foi em seus arredores que se concentrou a expedição naval que partiu contra Tróia.

A história da vingança de Anfitrite contra Cila tem um paralelismo com a vingança de Pasifae contra uma outra Cila. Cila ("a que rasga" ou "cachorrinho") é simplesmente um aspecto desagradável dela mesma: Hecate, a deusa da morte com cabeça de cão que vivia tanto na terra como entre as ondas. Um selo impresso de Knossos mostra Hecate ameaçando um homem em um barco, tal como ameaçou Odisseu (Ulisses, entre os romanos) no estreito de Messina. O relato citado por Tzetzes parece resultar da interpretação equivocada da pintura de uma antiga vasilha, na qual Anfitrite aparece em pé, ao lado de um tanque com agua ocupado por um monstro com cabeça de cão. No outro lado da vasilha aparece um herói afogado, preso entre duas tríades de deusas também com cabeças de cão, na entrada do mundo subterrâneo.

As tentativas de Poseidon de se apoderar de certas cidades são mitos políticos. Sua disputa por Atenas sugere uma tentativa fracassada de ocupar o lugar de Atena, convertendo-se no deus patrono da cidade. A vitória de Atena, porem, foi diminuída por uma concessão feita ao patriarcado: os atenienses abandonaram o costume cretense de usar o sobrenome da mãe, tradição que prevaleceu em Cária ate a época clássica (Herodoto: 1. 173). Varrão, que aponta esse detalhe, descreve o processo como um plebiscito do qual participaram todos os homens e mulheres de Arenas.

E evidente que os pelasgos jônicos de Atenas foram derrotados pelos eólios e que Atena recuperou sua soberania, só por ter-se aliado aos aqueus de Zeus, que mais tarde fizeram-na renegar a paternidade de Poseidon e admitir ter renascido da cabeça de Zeus.

O cultivo da oliveira foi originalmente importado da Líbia, o que sustenta o mito da origem líbia de Atena. Mas o que ela levou consigo deve ter sido uma muda, visto que a oliveira cultivada não se reproduz sozinha, a não ser a partir de um enxerto na oleácea, ou oliveira selvagem. A oliveira da deusa ainda era exibida na Atenas do século II da era cristã. A inundação da planície da Triasia é provavelmente um acontecimento histórico, mas que não pode ser datado. No inicio do século XIV a.e.c., época que os meteorologistas imaginam ter sido de chuvas torrenciais, é possível que os rios da Arcádia nunca tenham ficado sem agua e que sua posterior diminuição tenha sido atribuída à vingança de Poseidon. O culto pré-helênico do Sol em Corinto está claramente demonstrado (Pausânias: 11. 4. 7).

O mito de Demeter e Poseidon registra uma invasão helênica da Arcádia. Demeter era representada, em Figália, como a padroeira com cabeça de égua do culto pré-helênico do cavalo. Os cavalos eram consagrados à Lua, porque seus cascos tem a forma de meia-lua, e a Lua era considerada fonte de todas as aguas, dai a associação de Pegaso com as fontes de agua. Os helenos primitivos introduziram na Grécia uma nova raça de cavalos maiores, transcaspianos, já que a variedade local era do tamanho de um pônei das ilhas Shetland e impropria para tração. Eles parecem ter tornado os principais centros do culto ao cavalo, onde forçaram as sacerdotisas locais a se casarem com seus reis guerreiros, obtendo, assim, o direito de propriedade da terra e suprimindo, consequentemente, as orgias das éguas selvagens. Os cavalos sagrados Arion e Despina (este ultimo, um titulo da própria Demeter) foram então reivindicados como filhos de Poseidon. Amimone pode ter sido um nome da deusa em Lerna, centro do culto danaideo da agua.

Demeter como Fúria, do mesmo modo que Nêmeses como Fúria, era a deusa em seu estado de ânimo assassino, o que ocorria uma vez por ano. O que se conta a respeito de Poseidon e Demeter em Telpusia, e de Poseidon e uma Fúria sem nome na fonte de Tilfusa, na Beocia, ja era sobejamente conhecido quando os helenos chegaram. Aparece na literatura sagrada primitiva indiana, na qual Saranyu se transforma em égua, e Vivaswat, em um garanhão que a cobre. São frutos dessa união os dois heroicos Asvins. Talvez a "Demeter Erinia" não seja o equivalente da "Demeter, a Furia", mas da "Demeter Saranyu" - numa tentativa de reconciliação das duas culturas guerreiras. De qualquer modo, para as ressentidos pelasgos, Demeter foi desde sempre ultrajada.

Mitologia - Mitologia Grega
9/3/2020 7:47:49 PM | Por Greg Bailey
Mitologia chinesa, uma mitologia incomum

Na maior parte das civilizações, as tradições antigas
e freqüentemente também a literatura são mitológicas e referem-se às origens remotas ou à criação do mundo, assim como aos contos dos seres sobrenaturais. A China, à primeira vista, parece ser uma exceção. Nos Clássicos
os mais antigos livros chineses e os livros de textos da escola de Confúcio, encontramos estórias de homens,
reis e nobres, soldados e camponeses, mas não de deuses. O Livro de História,
embora, provavelmente,
em certa medida, fantasiado
não contém registros
de contos ligados à criação
e trata principalmente
das atividades humanas. O famoso
Livro das Mudanças é simbólico, mas não
tem a forma de conto e era tradicionalmente
interpretado como relatando acontecimentos verídicos.
O Livro dos Cânticos contém, na sua maior parte, canções populares, mas surgem traços mitológicos nos hinos
de rituais. Os Clássicos são categoricamente antimitológicos, refletindo os ideais confucianos dos editores.

Os fundadores das primeiras dinastias são considerados como tendo tido origens miraculosas ou divinas e são feitas alusões a este respeito nos Clássicos. Por exemplo, o primeiro imperador de linhagem real, que viria a ser a dinastia Shang, foi concebido quando a mãe engoliu um ovo. Jiang Yuan,
a mãe de Hou Ji, antepassado dos reis Zhou, ficou grávida quando inadvertidamente pisou uma marca do dedo
grande do pé de Deus. Estas estórias,
provavelmente,
refletem mitos
mais antigos, de que
apenas nos podemos
aperceber lendo
nas entrelinhas
da literatura oficial disponível.

Os mitos recolhidos pelos povos
tribais (as chamadas minorias nacionais)
na China moderna, podem representar
as tradições dos vários povos que
não fizeram parte do Han, ou âmago
do grupo chinês do norte do território
e estão por certo cheios de estórias
da criação e de importantes figuras mitológicas heróicas.

Figuras mitológicas

O que fica claro nos registros é que os Chineses antigos parecem ter englobado as figuras míticas na história. Ao contrário dos antigos Gregos que, segundo Evémero (c. 300 e. c.), transformaram os homens em deuses, os antigos Chineses transformaram os deuses em homens. O interesse
dos sábios confucianos, que se ocupavam da guarda
das tradições, estava voltado para a sociedade, o governo e a moral; e a história serviu melhor estes eruditos nestas áreas do que as idéias da mitologia.

Os escritos mais remotos que temos da antiga China são as curtas inscrições nos ossos de oráculos, do segundo milênio antes da era comum, e revelam uma variedade de seres espirituais a quem eram oferecidos sacrifícios. Sabe-se muito pouco acerca de cada um. Eles devem ter sido considerados como poderosos e os seus nomes sugerem que teriam por base mitos da natureza, mas as suas estórias perderam-se para sempre. Como Derk Bodde, uma autoridade nos mitos e rituais chineses, afirma, havia seguramente mitos na antiga China, mas não uma mitologia sistemática.

Os primeiros escritos da tradição Tauista, o Daode]ing e o Zkuangzí contêm referências a figuras misteriosas que podem ser provenientes da mitologia tradicional.

Os seus nomes sugerem que se tratasse de figuras alegóricas ou simbólicas. Por exemplo, em Zhuangzi, há uma estória acerca de Caos, cujos amigos tentam ajudá-lo abrindo buracos no seu corpo, para que pudesse respirar, ver, ouvir e comer. Ele ficou literalmente furado de morte pelos amigos.

Estas estórias têm o seu lugar, mas são simplesmente produções literárias conscientes e nada têm a ver com mitos, os quais vêm de fontes mais profundas do inconsciente e das tradições chinesas anteriores à literatura.

Influências na mitologia chinesa

A chegada à China, por volta do século I e.c. , da religião indiana, o Budismo, transformou a mitologia do país.
Os contos sobre a vida de Buda e as suas vidas anteriores, assim como dos deuses indianos e acontecimentos milagrosos encontrados nas sutras budistas foram traduzidos para chinês e passaram a fazer parte do repertório dos contadores de estórias das praças de mercado. Influenciaram a literatura popular, as práticas religiosas do povo e organizaram a religião tauísta,
a qual sistematizou e desenvolveu as velhas tradições chinesas. Também trouxeram um interesse renovado pelas origens remotas, pela cosmogonia (onde o mundo teve origem) e pela cosmologia (o que é o mundo).

Na religião popular chinesa é impossível deslindar fontes derivadas das grandes tradições do Confucionismo, Tauísmo e Budismo das que provêm das fontes locais
e muito antigas. Cada aldeia ou região tem o seu próprio Deus do Local (Tudi Gong), e os seus santuários podem ser vistos nas ruas e nos templos por toda a diáspora chinesa e atualmente na República Popular.

Todos estes sítios têm as suas estórias e mitos, mas,
uma vez mais, especialmente no caso da Cidade dos Deuses, são muitas vezes moldados para endeusar humanos, individualidades oficiais, generais e heróis do passado.
Os deuses chineses até têm dias de aniversário, esposas
e filhos e uma burocracia para os servir. Como em todas
as sociedades, os mitos chineses estão muito ligados
ao envolvimento em ritos e festivais.

Existem mitos e práticas associados com o Ano Novo, com a chegada da primavera (Qing Ming), com a época das as colheitas, com os aniversários do Imperador Jade
(o Alto Deus Tauísta), de Confúcio, de Buda e da Lao Tse, e ainda o festival das lanternas, o festival do barco dragão e o festival dos «Fantasmas Famintos».

Mitologia confuciana

No Cântico 245 do clássico Livro dos Cânticos, há um hino que provavelmente acompanhava um rito de sacrifício dos reis da Dinastia Zhou (data tradicional de 1122-221 a.e.c.). Nele se celebram as origens da casa real Zhou e a descoberta da sua primeira capital em Tai, muito antes de conquistarem todo o norte da China. É um mito
do herói clássico, no qual o protagonista tem
misteriosas origens, possivelmente divinas, um nascimento extraordinário, é abandonado e salvo,
tem um desenvolvimento precoce e realiza grandes feitos. A sua grande proeza, porém, é caracteristicamente chinesa. Ele inventa a lavoura e estabelece a agricultura como forma de vida. Este hino mostra como o mito Hou Ji se tornou a base de um sacrifício anual
de primavera para santificar o início do ano agrícola. Muito mais típicas nos Clássicos são as estórias acerca da descoberta dos Reis Sábios da China, encontrada
no Livro da História. No princípio, há uns 5000 anos, havia os Três Soberanos chamados Fu Xi, Sheng Nong e Huang Di (o Imperador Amarelo). Foram eles os inventores, respetivamente, da escrita, da agricultura e do calendário - todos eles características fundamentais da civilização chinesa. Não há qualquer evidência histórica da existência destes indivíduos, mas por volta do terceiro milênio antes da era comum, talvez até mesmo antes, as três invenções básicas tiveram indubitavelmente
lugar. Talvez tenham sido mais desenvolvimentos graduais do que invenções individuais, mas marcam o início da civilização em sentido restrito, na China. Assim, estas figuras são «heróis culturais» a quem se atribui a paternidade dos principais feitos da civilização chinesa. (Não existem «mães» tal como em muitas outras mitologias nacionais.)

Aos Três Soberanos seguiram-se os Cinco Imperadores, dos quais os dois últimos, Yao e Shun, foram os dois primeiros do império.
Yao escolheu Shun para seu sucessor ao ouvir como é que ele conseguia viver em paz com
a sua terrível família que, entre outras coisas, tinha tentado matá-lo atirando-lhe uma pedra
à cabeça quando ele estava a reparar um poço. Yao testou Shun com várias tarefas administrativas e deu-lhe as duas filhas em casamento, para
ver se ele conseguia manter ambas felizes.
Shun passou estes testes difíceis e foi escolhido para rei, em vez do inútil filho mais velho
de Yao. E foi assim que se iniciou o costume
de escolher o mais virtuoso dos homens
para governar o império. A Shun sucedeu-se Yu,
o fundador da primeira dinastia, a Xia. O maior feito de Yu, diz-se, foi a implementação de medidas para controlar as inundações. «Se não fosse Yu, todos nós éramos peixes!», reza um ditado chinês.

O Livro da História continua a narrar
como os reis Xia se degeneraram e foram
substituídos pelos virtuosos reis Shang,
escolhidos pelo Alto Deus. Sucessivamente,
os Shang perderam o Mandato dos Céus
e foram substituídos pelos fundadores da Dinastia Zhou, que governavam quando os Clássicos foram escritos. Se isto é mitologia, e não lenda (ou a
criação de estórias acerca do povo real), é uma mitologia política e não religiosa. Ao dar realce
à legitimidade e à ratificação divina, o seu objetivo
é claramente ideológico. Não lhe assentaria bem
a definição chinesa de «mito» que é shenhua
(falando acerca de espíritos). Contudo, não é história e encontra-se dentro dos limites do que no ocidente se chama «mitologia». Por exemplo, a estória
do último rei da primeira dinastia, o Xia, é claramente mitológica, visto que Jie Gui é representado como um monstro de vícios. Era suficientemente forte para torcer barras de ferro, fazia guerras com toda a gente : desgastava os súbditos com longos discursos.
Para o subornar, um dos grandes chefes propôs-lhe a filha em casamento. Jie Gui estava tão apaixonado pela nova esposa que lhe fez uma cama de marfim
e pedras preciosas e criou um jardim onde podiam desfrutar um do outro durante os meses de verão. Construiu uma piscina e encheu-a de vinho, pendurou carne nas árvores e rodeou-se de comidas exóticas.

Jie Gui tornou-se tão devasso que os súbditos, o Shang, se fartaram do seu comportamento e concluíram que
a única coisa a fazer era destroná-lo.

Mitologia da criação

A mitologia chinesa da criação não se encontra nas fontes mais antigas e teve de ser reconstruída a partir de escritos posteriores como o Clássico das Montanhas e dos Mares, onde os mitos chineses já são influenciados pelo Budismo e pelo Confucionismo. No entanto, podem ser confrontados com as tradições orais de povos tribais sobreviventes, como os Miao. Registros de criadores, em oposição a um processo impessoal de criação, foram encontrados pela primeira vez no século lll e.c. - após a introdução das idéias indianas, o que não deixa de ter significado - na forma de um criador masculino, Pan Gu, e um feminino, Nu Wa. Pan Gu é semelhante em vários aspetos às figuras do criador da Mesopotâmia e da índia. Em uma narrativa, ele separa o céu da terra; em outra, o mundo desenvolve-se fora do seu corpo.

Pan Gu

Pan Gu, receando que o céu e a terra se misturassem, colocou-se de pé entre eles, mantendo com a cabeça o céu em cima e com os pés calcando a terra. Durante 18 000 anos,
a distância entre o céu e a terra foi aumentando em 3 metros por dia. Pan Gu foi crescendo na mesma proporção para poder continuar a manter o céu afastado da terra. Por fim, ele achou que não havia mais risco do céu e a terra se juntarem, pelo que adormeceu e acabou por morrer. Do seu corpo saíram todos os elementos. A sua respiração tornou-se o vento e as nuvens, a sua voz o trovão, o olho esquerdo transformou-se no Sol e o direito na Lua. Os quatro membros e o tronco transformaram-se em pontos cardiais e montanhas, o seu sangue em rios e as suas veias em estradas. A sua carne originou as árvores e o solo, os cabelos passaram a ser estrelas e os pelos do corpo erva e flores. Finalmente, as pulgas do seu corpo tornaram-se nos antepassados das diferentes raças de seres humanos.

Nu wa

Em outro mito, Nu wa é responsável pela criação dos seres humanos e é conhecida através de referências muito anteriores (pré-budistas) que lhe são feitas como a que muda de aspeto e transforma as coisas. Ela pode ser, como acontece com
os seres femininos de outras sociedades, o criador original dos Chineses. Nu wa vagueava pelo mundo em busca
de companheiro. Sentou-se na margem de um rio e começou moldar em barro uma pequena figura. Quando Nu wa pôs a figura de pé no chão, imediatamente ganhou vida
e começou a dançar e a rir de felicidade. Nu wa ficou tão feliz que decidiu encher o mundo de pessoas, tendo trabalhado até escurecer. Trabalhou imensamente mas acabou por concluir que não conseguia criar gente suficiente para povoar o mundo inteiro. Recorreu então aos seus poderes mágicos e, pegando em uma vara de videira, arrastou-a na lama e depois rodopiou-a no ar. Logo que as gotas que ela soltava caíam no chão, transformavam-se em seres humanos.

Em tempos, os mitos de Pan Gu e Nu wa juntaram-se, sendo eles representados como irmão e irmã. O problema estava em acasalá-los para procriarem seres humanos, mas isso foi solucionado com uma mensagem especial dos Céus autorizando este desvio do decoro.

O mundo mítico da antiga China é melhor retratado em uma obra da Dinastia Han que simula ser uma geografia mas que é antes uma mitografia. O Clássico das Montanhas e dos Mares, à semelhança das crônicas de viagem européias, descreve animais misteriosos, seres humanos monstruosos, deuses e deusas, e terras longínquas muito
estranhas. Entre as figuras que
se encontram nesta volta pelo mundo
está um deus da sorte, um ser com
aspecto humano mas com pelo
e uma cauda de tigre, o Uivo
do Deus Macaco, um deus
cobra com nove cabeças
humanas e a raposa de nove
caudas. E entre as terras
descobertas está o país do povo
cabeludo, o país do povo com
orelhas pendentes e o país das pessoas
baixas com caudas de peixe em vez de pés.

Mitologia Tauista

A obra tauísta do século IV a.e.c. atribuída a Zhuang Zhou ou Mestre Zhuang (Zhuangzi) abre com um mito do mundo em constante transformação.

No vórtice norte há um peixe que se chama Kun.
É gigantesco e ninguém sabe quantos milhares de li
(uma medida mitológica) ele pesa. Sofre uma transformação e passa a ser um pássaro, chamado Peng, cujo dorso é tão largo que ninguém sabe quantos milhares de li ele mede. Peng salta para o ar e voa, e as suas asas são como nuvens pairando no céu. Esta ave também flutua sobre as ondas
em direção ao Lago do Céu. Isto pode ser produto da extraordinária imaginação de Zhuang, mas soa como
um mito cosmológico.

A partir do século lI a.e.c.,, o Tauísmo torna-se
uma religião organizada, com sacerdotes, regras disciplinares e morais, ritos e penitências. Rapidamente constituiu um panteão de deuses e deusas, no topo do qual estava uma trindade composta pelo Venerável Celeste do Começo Original,
o Imperador Jade e o Senhor Lao que sobe ao Céu e que não é senão Lao Tse, o alegado autor do Livro do Caminho e da sua Virtude, agora endeusado. Estas figuras e a imensidão desconcertante de certos seres são descritos em vastos escritos que só recentemente foram explorados.

Uma característica impressionante da tradição tauísta é o relevo dado ao feminino, algo que recua até Lao Tse que, no Livro
do Caminho e da sua Virtude, descreve a fonte de tudo como «a entrada da fêmea misteriosa.» Isto é refletido na evolução de um culto com uma mitologia alargada, que é o da Rainha
Mãe do Ocidente, que vive em uma enorme montanha no Ocidente longínquo e possui
o segredo da imortalidade. O palácio da Rainha Mãe do Ocidente tem nove estórias e acreditava-se que fosse construído inteiramente em jade.

À volta do palácio, os jardins são magníficos e neles se encontra o Pessegueiro
da Imortalidade. Dizia-se que era aí que vivam os Imortais, em uma interminável série de diversões e banquetes.

O Tauísmo também desenvolveu a mitologia e a iconografia dos Oito Imortais, os quais se tornaram uma parte integrante da religião da chinesa popular.

Os tauístas acreditavam que os seres humanos podem passar a ser imortais (xian) através de práticas especiais e muitos destes imortais eram venerados. Finalmente, por volta do século XIII d.e.c., oito destes humanos imortais foram os escolhidos
e as suas imagens e/ou símbolos passaram a figurar
nos templos, enquanto as suas estórias são contadas e recontadas na imprensa, nas óperas e, mais recentemente, nos filmes.

Os Oito Imortais do Tauísmo são os seguintes:

Lu Tongbin


Este Imortal é representado como um sábio com um enxota-moscas e uma espada. Provavelmente um dos mais populares dos Imortais, Lu é tema de muitos mitos, como aquele em que mata o Dragão Amarelo; a sua conversão do cortesão Peonia Branca; e o Sonho do Painço Amarelo, um sonho que prevê uma carreira cheia de sucesso e que termina com o seu assassínio.

Zhong Liquan


O Imortal da longevidade que, segundo se dizia antigamente, teria descoberto o Elixir da Vida.
É sempre representado com um leque para ressuscitar o morto e, por vezes, tem um pêssego da Árvore
da Imortalidade.

Cao Guojiu


Esta figura é sempre ilustrada com um falo curto. Dizia-se que tinha sido irmão
de uma imperatriz. Como
patrono dos atores, tem
nas mãos um par de
castanholas. Tem fama de
ser um assassino de mau
temperamento.

Li Tieguai


Li é sempre representado como mendigo
com uma bengala e a tigela de pedinte. Foi o primeiro Imortal salvo da sua pobreza pela Rainha Mãe do Ocidente. Também é conhecido como «Bengala de Ferro».

Zhang Guolao


Este Imortal monta normalmente uma mula branca
e transporta um instrumento musical cilíndrico
feito de bambu. Nasceu velho, foi perseguido
durante toda a vida pela família e, depois de muitas aventuras, foi recompensado com a imortalidade
pelo Imperador Jade. Ele dobra a mula como se fosse
de papel e mete-a no bolso, levando-a consigo quando precisa de se afastar para proceder a atos de misericórdia.

Han Xianzi


Este patrono dos músicos segura na mão botões
de pessegueiro e uma flauta de jade. Recebeu o dom da imortalidade depois de ter caído do seu pessegueiro favorito.

Lan Caihe


Pedinte e cantor de rua de gênero duvidoso, Lan transporta um cesto com flores. As estórias sobre esta figura curiosa mostram-no
(ou mostram-na) entoando canções que atacam os prazeres da vida.

He Xiangu

Um Imortal feminino, muitas vezes representada segurando um lótus ou uma concha da sopa. Após muitos anos, foi salva da escravidão na cozinha da sua madrasta perversa. Adquiriu a imortalidade ao comer um pêssego da antiga Árvore da Imortalidade.

Mitologia budista

O Budismo chinês continua o processo de transformação da figura histórica Siddhartha no mítico Buda, o que se iniciou na índia. Os textos chineses antigos realçam os eventos miraculosos da sua vida na índia, até à longínqua China, que só conheceu o Budismo cinco ou seis séculos mais tarde. Por exemplo, no momento do seu nascimento, dizia-se que os rios chineses tinham transbordado das margens, as montanhas tinham ruído e tinham surgido meteoros.
O imperador da altura consultou homens eruditos e eles disseram que tinha nascido um grande sábio no Ocidente.
Os tauístas têm uma outra versão. Para eles Buda era na verdade Lao Tse, que desapareceu para o Ocidente às costas de um boi, após ter concluído a sua obra, o Livro do Caminho e da sua Virtude. (O Ocidente para os Chineses antigos era a índia, não a Europa.)
O mais interessante dos mitos budistas chineses diz respeito a Guan Yin, uma divindade feminina popular. Os historiadores traçaram a evolução de Guan Yin a partir do indiano bodhisattva Avalokitesvara através da influência das figuras chinesas da fertilidade. Os budistas de mentes sérias salvaram as suas credenciais budistas argumentando que um bodhisattva pode mudar de forma e de sexo a seu bel-prazer. Uma sstória diz que se ela descobre que não está a ser levada a sério pelos homens devido à sua feminilidade, aparece e transforma-se em homem e de novo em mulher para mostrar que as diferenças de sexo são irrelevantes para o poder espiritual.

As mulheres chinesas, porém, acham atraente a sua feminilidade quando procuram bons casamentos ou filhos do sexo masculino.

Mitologia - Mitologia Chinesa
A mulher na sociedade egípcia
Músicas egípcias | Pintura mural do túmulo de Horemheb (Tebas ocidental T. n. 78), 18ª dinastia

O lugar da mulher no Egito Antigo é essencial. Para convencer-se disso é suficiente estudar a documentação desse período: desde estatuetas de terra ocre do Neolítico até os relevos que exaltam a beleza de Nefertiti, ou o encanto matizado de helenismo de Cleópatra. Os traços físicos sublinham as origens afro-asiáticas da população; as representações, os objetos e as inscrições comprovam o interesse atribuído à beleza, aos penteados, às vestimentas, aos cuidados do corpo e do gosto pelos perfumes preciosos. A mulher tem um estatuto próximo ao do homem. Os textos jurídicos tratam do casamento, da gestão dos bens, sem esquecer o divórcio, o futuro do patrimônio dos filhos e as questões de herança. Mas, qualquer que seja sua posição social, a mulher é primeiramente uma dona de casa, que administra o cotidiano com seus imprevistos, vela pela manutenção corrente da casa, ocupa-se dos filhos, sem esquecer os pais idosos. Na alta sociedade, as esposas de funcionários administram a vida doméstica e, eventualmente, acolhem os hóspedes e preparam as festas. Como nas áreas rurais, a casa possui um bom número de criadas, cujos vínculos são bem diversos: da liberdade à completa servidão. Na arte egípcia, encontram-se numerosas representações de mulheres nos trabalhos de artesanato - tecelãs de linho, padeiras etc. - bem como nos trabalhos dos campos. São representadas também como carregadoras de oferendas em procissões. Por último, encontram-se muitas "carpideiras", cujas lamentações acompanham a dor das famílias durante os dias que dura o ritual fúnebre.

<<Expandir>>
9/5/2020 11:20:25 AM | História Viva, n. 49
Galileu Galilei na Inquisição

Com Galileu, houve uma dissidência entre os cientistas. Meio a contragosto, é verdade. Porque, animado por uma fé profunda, Galileu nunca ousou negar a existência de Deus, ou menosprezar a autoridade da Igreja. Bem longe disso. Sua erudição e eloquência persuasiva conquistaram o respeito da cúria romana que, deve-se acrescentar, jamais fez segredo de seu interesse pelas descobertas científicas.

História - Itália
9/5/2020 10:13:56 AM | Leituras da História, n. 05
Prostitutas, de deusas à escória da sociedade

Por volta de 3.000 a.e.c., tribos nômades passaram a criar gado e tornaram-se conscientes do papel masculino na reprodução. As sociedades matriarcais da deusa começaram a ser subjugadas. As primeiras civilizações da era histórica desenvolveram-se na Mesopotâmia e no Egito, e nasceram desse levante.

História - Civilização Suméria
9/3/2020 8:00:21 PM | História Viva, n. 104
Em Sarajevo, atentados em série

Tudo começou em 1913, em Viena, quando o herdeiro do trono, o arquiduque Francisco Ferdinando, resolveu que, no ano seguinte, iria inspecionar as tropas da guarnição na Bósnia-Herzegovina. Sua mulher, Sofia, o acompanharia. Quebrando a etiqueta imperial, ela, uma esposa morganática, seria autorizada a aparecer a seu lado, até mesmo no dia 28 de junho, data que lembrava a Francisco Ferdinando a humilhação sofrida, em 1900, às vésperas de seu casamento, quando teve de renunciar ao trono por seus filhos.

História - Primeira Guerra Mundial
7/27/2020 8:09:30 PM | História Viva, n. 01
Napoleão, o senhor da guerra

Durante a revolução, Napoleão Bonaparte é um oficial como os outros. Ou quase. Por seu gênio militar, será reconhecido e condecorado no exterior, o grande triunfo para se impor perante os franceses.

História - França
Todas as matérias
Janus e a porta da paz
Janus, o deus das aberturas

Jano era o deus romano das aberturas e entradas de todas as espécies. Era representado como tendo duas caras, olhando cada uma na direção oposta da outra. Em termos de localização, era o deus da passagem das portas e dos cruzamentos, e as nascentes dos rios e ribeiros eram sagradas para ele. Era também o deus dos viajantes, esses que atravessam fronteiras por terra e por mar. Em termos de tempo, era o deus do crepúsculo e da aurora, as passagens entre a noite e o dia, e da transição de mês para mês e de ano para ano. O primeiro mês do ano, janeiro, derivou do seu nome. Em Roma, as portas do seu santuário estavam abertas quando era declarada guerra e fechadas em tempo de paz (um evento muito raro na história de Roma), Este era também o deus dos inícios. Os Romanos acreditavam que todos os inícios eram cruciais para o sucesso de qualquer aventura, e consideravam-nos como portais para o futuro. Contava-se com a bênção de Jano no início de cada dia, mês e ano.

<<Expandir>>
9/19/2020 3:06:49 PM | Por
Espiritualidade, em busca do sagrado

Observar alguém envolvido em um comportamento cotidiano pode evocar [235] pensamentos sobre espiritualidade. Por exemplo, imagine uma imagem de uma mulher mais velha se ajoelhando com um olhar de total con­centração em seu rosto. Sua busca pe­lo sagrado (aquilo que é separado do comum e merecedor de veneração) pode ser deduzida a par­tir de seu comportamento; esse é o caso se, por trás da imagem da mulher, apare­cer um interior de igreja... ou se um jar­dim servir como pano de fundo. Essa bus­ca do sagrado pode acontecer em qualquer parte, em qualquer momento, porque, as­sim como o flow e o mindfulness, a espiri­tualidade é um estado mental, e é univer­salmente acessível.

A expressão busca do sagrado é uma descrição amplamente aceita de espiritua­lidade. (A religião e os comportamentos religiosos representam as muitas formas nas quais essa busca é organizada e [236] aprovada pela sociedade; por exemplo, pela participação em cultos religiosos e pela fre­quência e duração das orações.) Em 2000, Hill e colaboradores definiram a espiritua­lidade como sendo “os sentimentos, pen­samentos e comportamentos que surgem da busca do sagrado” Cp. 66). Pargament e Mahoney (2002) também definiram espiri­ tualidade como “uma busca do sagrado...” e aprofundaram, “as pessoas podem seguir um número praticamente ilimitado de ca­minhos em suas tentativas de descobrir e conservar o sagrado... os caminhos envol­vem sistemas de crenças que incluem os das religiões organizadas tradicionalmen­te (como a protestante, a católica romana, a judaica, a hindu, a budista, a muçulma­na), e os mais novos movimentos de espiri­tualidade (como o feminista, da deusa, eco­lógico, espiritualidades) e visões de mun­do mais individualizadas” (p. 647). Esses caminhos para o sagrado também podem ser descritos como lutas espirituais, que in­cluíam objetivos pessoais associados aos conceitos maiores de propósito, ética e reconhecimento do transcendente (Emmons, Cheung e Tehrani, 1998).

Os pesquisadores da psicologia con­cordam com a definição de espiritualidade a seguir, e há sustentação geral para a vi­são de que a espiritualidade é um estado mental positivo vivenciado pela maioria das pessoas. Peterson e Seligman (2004) afir­mam que a espiritualidade é uma qualida­de universal da transcendência, declaran­do que “embora o conteúdo específico das crenças espirituais varie, todas as culturas têm o conceito de uma força maior, trans­cendente, sagrada e divina” (p. 601). Da mesma forma, Pargament e Mahoney (2002) afirmam que a espiritualidade é uma parte vital da sociedade e da psicolo­gia dos Estados Unidos:

Em primeiro lugar, a espiritualidade é um “fato cultural” (cf. Shafranske e Malony, 1990): a ampla maioria dos norte-ameri­canos acredita em Deus (95%), acredita que Deus pode ser alcançado por meio da oração (86%) e acha que a religião lhe é importante ou muito importante (86%) (Gallup Organization, 1995; Hoge, 1996). Em segundo, em um corpo empírico de literatura que está aumentando, as impor­tantes implicações da espiritualidade para uma série de aspectos do funcionamento humano estão sendo observadas. Essa lis­ta inclui a saúde mental (Koenig, 1998), o uso de drogas e álcool (Benson, 1992), o funcionamento conjugal (Mahoney et al., 1999), a paternidade e a maternida­ de (Ellison e Sherkat, 1993), os resulta­dos de experiências estressantes na vida (Pargament, 1997) e a morbidade e a mor­talidade (Ellison e Levin, 1998; Hummer et al., 1999)... Resumindo, há razões mui­to boas pelas quais os psicólogos devem prestar mais atenção às dimensões espi­rituais da vida das pessoas (p. 646).

Apesar de sua natureza ubíqua e da concordância acadêmica sobre sua defini­ção, os pesquisadores da psicologia e o público em geral continuam a turvar as águas quando discutem espiritualidade. Por exemplo, a Classificação de Qualidades Valores em Ação, de Peterson e Seligman (2004), empilhou a espiritualidade junto com conceitos parecidos, mas diferentes, como religião e fé. E, em um grande grupo de participantes de pesquisa, quase 75% se identificaram como sendo espirituais e religiosos (Zinnbauer et al., 1997). A indefinição do constructo prejudica os es­forços para entender os efeitos reais da busca pelo sagrado sobre o funcionamen­to de uma pessoa.

Os verdadeiros benefícios da espiritualidade?

Muitos psicólogos positivos (como Peterson e Seligman, 2004; Snyder e Lopez, 2002) levantaram a hipótese de que nossa busca pelo sagrado aprimora um entendi­mento profundo de nós mesmos e de nos­sa vida. De fato, como observado anterior­mente, a espiritualidade é associada à saú­de mental, à administração do uso [237] excessivo de drogas, ao funcionamento conju­gal, à maternidade e à paternidade, ao enfrentamento e à mortalidade (resumido em Pargament e Mahoney, 2002; Thoresen, Harris e Oman, 2001). Um exame dos es­forços espirituais revela que esses caminhos em direção ao sagrado podem levar ao bem-estar (ou, pelo menos, estar associa­dos a ele) (Emmons et al., 1998). Outro exame dos esforços espirituais revela que a busca pelo sagrado pode levar ao que consideramos ser os verdadeiros benefícios da espiritualidade em nossa vida: pro­pósito e sentido (Mahoney et al., 2005). Apesar das conclusões que demonstram os benefícios de buscar o sagrado, os mecanis­mos pelos quais a espiritualidade leva a resultados positivos na vida não estão claros.

Psicologia - Psicologia positiva
9/11/2020 9:14:33 PM | Por Douglas Palmer
A vida marinha no cambriano

À medida que o mundo emergia do estado de «câmara frigorífica» da idade glacial de finais do Pré-Cambriano, o supercontinente da Panótia, composto pela Gonduana, pela Laurência (América do Norte), pela Báltíca (Eurásia), pela Sibéria (Ásia) e pela Avalônia (Europa Ocidental), continuou a fender-se, criando o oceano Japeto, o precursor do atual Atlântico. Os climas aqueceram bem acima da média das temperaturas atuais, tornando-se húmidos, e a subida geral do nível do mar, que começara no início do Cambriano, continuou e prolongou-se até finais deste período. Nessa época, mais de metade do continente norte-americano encontrava-se inundado por águas superficiais.

Episódios de extinção

Estas águas superficiais, muito iluminadas, constituíam um ambiente ideal para a vida se expandir e se diversificar, mas a evolução não foi regular. Verificaram-se dois episódios de extinção em larga escala, um em finais do Pré-Cambriano e um outro, mais drástico, no início do Cambriano Médio, há cerca de quinhentos e trinta milhões de anos, Médio, como o Anomalocaris e o Laggania, que já possuíam boca, que mordia ativamente. Outros predadores carnívoros eram sobretudo vermes, que engoliam as suas presas inteiras.

Os artrópodes, incluindo as trilobites, eram os organismos marinhos mais comuns desse período e continuaram a evoluir e a prosperar. Muitos possuíam corpo com uma armadura cada vez maior, por vezes revestida de espinhos e «esclerites» equipadas com uma espécie de cota de malha, para se defenderem dos predadores, e acabaram por se cobrir de conchas rígidas, constituídas à base de carbonatos e fosfatos presentes na água do mar.

O Pikaia e o xisto de Burgess

Os moluscos e os braquiópodes (invertebrados bivalves), que tinham aparecido no Cambriano Inferior, continuaram a diversificar-se, mas talvez o desenvolvimento mais importante desta época, pelo menos em retrospectiva, fosse o aparecimento de um pequeno animal que nadava, chamado Pikaia, o qual foi o primeiro ser a apresentar as características primitivas de uma coluna vertebral, na forma de um cordão axial compacto e de uma corda nervosa espinal. Pensa-se que o Pikaia foi o antepassado de todos os animais vertebrados, incluindo o homem, e, tal como a vida animal, outras formas de vida restringiam-se ainda aos mares. Estas formas incluíam algas azul-esverdeadas (organismos unicelulares), assim como algas marinhas multicelulares primitivas (verdes, vermelhas e castanhas).

A informação de que dispomos sobre este período aumentou desde os anos 80, pois os dados pormenorizados do famoso xisto de Burgess. no Canadá, foram complementados com descobertas efetuadas em locais como Chengjiang, na província de Iunan. na China, e Sirius Passet, na Gronelândia.

O Mundo Marinho de Burgess

Omelhor retrato do mundo marinho câmbrico é proporcionado pela jazida do xisto de Burgess, na província da Colúmbia Britânica, no Canadá, que já forneceu milhares de fósseis excepcionalmente bem conservados, muitos deles intactos, facultando no seu conjunto um panorama vibrante da vida nos mares cambrianos, numa época em que os artrópodes eram a forma dominante de vida.

A descoberta do xisto de Burgess

O paleontólogo estadunidense Charles Doolittle Walcott descobriu o xisto de Burgess, por acaso, em 31 de Agosto de 1909, quando atravessava um alto maciço das montanhas Rochosas que faz a ligação entre os montes Field e Wapta. Walcott detectou uma profusão de fósseis num bloco de xisto duro e reconheceu imediatamente a sua importância, pois não só estavam preservadas as habituais partes rígidas dos animais, como também os tecidos moles, constituindo o maior campo de fósseis em perfeito estado de conservação que até agora se encontrou.

Pensa-se geralmente que os seres encontrados no xisto de Burgess foram sepultados por um aluimento de Iodos de um penhasco submarino, porque os extraordinários pormenores anatómicos presentes nos fósseis, incluindo apêndices delicados, indica que ficaram soterrados muito depressa, possivelmente em lodo pobre em oxigeênio, já que na ausência deste os tecidos decompõem-se mais devagar e conservam-se melhor.

Durante oito anos após a sua feliz descoberta, Walcott explorou sistematicamente as montanhas, descobrindo milhares de espécimes, que enviou para o Smithsonian Institution, em Washington, e o subsequente trabalho de paleontólogos da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e do Museu Real do Ontário, no Canadá, revelou toda a importância do achado.

O mundo marinho cambriano

O estudo dos fósseis encontrados no xisto de Burgess revelou que cerca de quarenta espécies de artrópodes compreendiam cerca de metade de todos os animais preservados. Trinta por cento eram equinodermes (a família a que pertencem as estrelas-do-mar), esponjas e vermes priapulídeos, e o restante incluía braquiópodes, moluscos e uma curiosa criatura que nadava chamada Pikaia, que, como atrás se disse, pode ter afinidades com os vertebrados atuais.

Encontraram-se também vermes «peludos» que viviam na superfície do leito marinho, como o Canadia e o Burgessochaeta, literalmente cobertos de milhares de fibras diminutas semelhantes a cabelos, pensando-se que essas cerdas, tal como muitas das escamas e placas com finas nervuras, funcionavam como refletores para aumentarem a visibilidade. Na luz atenuada que se filtrava da superfície da água, os refletores e os pêlos deveriam emitir reflexos prateados quando os animais se deslocavam, permitindo-lhes o reconhecimento mútuo. Por outro lado, estes apêndices também os tornariam visíveis aos predadores, mas os seus espinhos e escamas tê-los-iam protegido.

A maior variedade dos seres marinhos desta época sugere que já se tinha desenvolvido uma cadeia alimentar estruturada, semelhante à que se encontra nos modernos ecossistemas marinhos. De fato, a descoberta desta notável diversidade e o elevado nível de sofisticação ecológica já visível na evolução animal levaram os cientistas a concluir que deve ter havido um desenvolvimento anterior prolongado de animais multicelulares, remontando ao Pré-Cambriano.

O Pikaia

Um animal primitivo sem uma cabeça bem definida e com menos de cinco centímetros de comprimento, que nadava nos mares do Câmbrico Médio, é o antepassado próximo de todos os animais vertebrados, dos peixes às aves e aos mamíferos. Denominado Pikaia, é um dos mais interessantes dentre a miríade de fósseis encontrados no famoso xisto de Burgess, nas montanhas da província da Colúmbia Britânica, no Canadá.

Antepassado improvável

A primeira vista, o Pikaia não parece um possível antepassado do homem, pois assemelha-se a um verme achatado dos lados. Contudo, estudado em pormenor, este fóssil presente no xisto de Burgess mostra claramente características de cordado, como traços de um notocórdio alongado, corda nervosa dorsal e blocos de músculos de ambos os lados do corpo — todas elas características da evolução dos vertebrados.

O notocórdio é um eixo esquelético flexível que corre ao longo do dorso do animal, prolongando e conferindo rigidez ao corpo, de modo que este se possa flectir de lado a lado pelos blocos de músculos, para nadar. Nos peixes e em todos os vertebrados subsequentes, o notocórdio forma a coluna vertebral, que fortalece o corpo, suporta os membros e protege o cordão nervoso dorsal, que é vital, para além de permitir que o corpo se dobre.

Surpreendentemente ainda existe um curioso e pequeno animal semelhante ao Pikaia, o anfioxo Branchiostoma, já conhecido dos biólogos muito antes de o fóssil ter sido descoberto. Com notocórdio e blocos de músculos aos pares, o anfioxo e o Pikaia pertencem ao grupo de animais cordados de que os vertebrados descendem, e os estudos moleculares confirmaram o seu estatuto como parentes mais próximos dos vertebrados. Enquanto o anfioxo é um cordado avançado, outros grupos, quer fósseis quer atuais, como os ascídios (tunicados) e os graptólitos, são mais primitivos. Denominados hemicordados, só apresentam notocórdio nas primeiras fases da sua vida.

A presença de uma criatura tão complexa como o Pikaia há cerca de quinhentos e vinte milhões de anos reforça a perspectiva controversa de que a diversificação da vida teve de remontar muito para além do Cambriano, ao Pré-Cambriano.

Cabeça para os vertebrados

desenvolvimento da cabeça resultou de uma morfologia corporal alongada, do hábito de nadar e de uma boca na extremidade, que entrava primeiro em contato com o ambiente à medida que o animal nadava. A busca de alimentos exigia formas de sondar continuamente o que estava à frente e as estruturas anatômicas para ver e cheirar desenvolveram-se em redor da boca. A informação que recolhiam era processada por um entumescimento da corda nervosa — o cérebro — e, no seu conjunto, estas estruturas frontais formavam a parte distinta do corpo dos vertebrados chamada cabeça. O primeiro sinal do desenvolvimento desta observa-se nos cordados como o anfioxo Branchiostoma e o Pikaia.

 
Ciências naturais - Geologia
9/10/2020 8:20:30 PM | Por André Bonnard
O século de Péricles

Péricles deu o seu nome ao século em que viveu, para nos o século V antes da era cristã. Grande honra, desde que merecida. Vejamos primeiramente os limites desse "século". Péricles, apos uma breve luta politica contra os seus adversários atenienses, fora e dentro do seu partido, alcançou o poder em 461. A partir desta data, é o único dirigente da cidade de Atenas, não contando um brevíssimo eclipse de alguns meses, ate a data da sua morte, em 429. Este século reduz-se a um terço de século: dura trinta e dois anos.

É certo que, durante este período, os acontecimentos políticos se precipitam em ritmo acelerado. As obras-primas sucedem-se umas as outras. Poucos são, nestes trinta e dois anos, os que não vejam o nascimento de uma ou várias das mais deslumbrantes obras que jamais produziu a historia dos homens. Obras de mármore ou de bronze, obras de matéria poética, obras de pensamento cientifico.

Mas qual foi a parte de Péricles neste brusco desabrochar do gênio ateniense em todos os domínios, e sobretudo no das artes plásticas? Por que prego os cidadãos e os aliados de Atenas, por que prego a Grécia inteira e a civilização que ela trazia em si, pagaram este parto do século de Péricles? E isso que importa saber.

Péricles realiza a democracia ateniense. Ao mesmo tempo, dirige-a, é o seu chefe - deveremos dizer "tirano?" (os Atenienses assim o diziam) -, incontestado durante muito tempo. É, segundo Tucídides, o "primeiro dos Atenienses!" Reúne na sua pessoa quatro virtudes que, ligadas umas as outras, definem o grande homem de Estado. Tem a inteligência, isto é, a faculdade de analisar uma situação politica, de prever exatamente o acontecimento e responder-lhe com um ato. Tem a eloquência que convence, que faz que o povo inteiro participe na sua ação. De cada vez que fala perante a Assembleia do povo, dir-se-ia que depõe aos pés dela a sua coroa de chefe, para só a voltar a colocar sobre a cabeça com o consentimento de todos. Diz-se que ele tem o relâmpago na sua língua. Terceira virtude, o patriotismo mais puro: para ele, nada está acima do interesse da comunidade dos cidadãos, acima da honra da cidade de Atenas. Finalmente, e do mais absoluto desinteresse. Para que serviriam, com efeito, os dois primeiros dons - o poder de distinguir o interesse publico e a faculdade de convencer dele o povo -, se ele não fosse inteiramente dedicado ao seu pais e inacessível à corrupção? Assim, o grande historiador traçou, com este retrato de Péricles, no limiar da sua obra, uma imagem do homem de Estado que dominou de alto as figuras dos outros homens políticos, que se lhe opõem, e aos quais falta um destes dons essenciais que caraterizam todo o grande chefe. Segundo Tucídides, Péricles não só domina os outros homens políticos - por mais inteligentes, eloquentes ou patriotas ou honestos que possam ser -, como tem, de Atenas e da sua grandeza, do poderio que o seu povo deve conquistar, nesse momento histórico ou nunca mais, um entendimento tão perfeito, que soube unir esse povo sempre dividido contra si mesmo, propondo-lhe um objetivo que o ultrapassasse, um objetivo comum a todas as cidades convulsionadas da Grécia.

Com efeito, Péricles fala por vezes, em Tucídides, uma linguagem pan-helenica, como homem que se propôs reunir enfim todo o povo grego, sob a hegemonia da cidade em todos os aspectos mais digna de o comandar. Durante trinta anos modelou a cidade de Atenas para fazer dela "a escola da Grécia" (entendamos, segundo o contexto, a escola politica da Grécia). Quis fazer da sua cidade o centro ativo e brilhante do mundo helênico, persuadido de que a superioridade que ela iria, sob a sua direção, afirmar nas artes plásticas saberia exprimir o amor da vida que ardia no coração de todos os Gregos. Mas quis fazer de Atenas, sobretudo, o coração ardente da vida politica grega, um coração que nada faz bater mais forte que o amor da liberdade traduzido em atos. Péricles pronuncia, segundo Tucídides, esta frase em que ressoa magnificamente esse amor comum a todos os Gregos:

"Convencidos de que a felicidade está na liberdade e a liberdade na coragem, olhai de frente os perigos da guerra".

Esta frase, apesar das aparencias, não a dirige Péricles apenas aos Atenienses: ela atinge todos os Gregos, todas as cidades helênicas, em um sentimento comum que os define conjuntamente frente ao rosto dos homens, que os define a esse nível de sacrifício supremo feito a felicidade - o amor da liberdade. Mais do que exprimir um sentimento, exige um ato, fundado na mais grega das virtudes - um ato de coragem.

Péricles concebeu - o que mais adiante se determinara - o desígnio de reunir no regaço de Atenas, a cidade-mãe, a Grécia esparsa das outras cidades, e se fracassou nesse desígnio, foi em parte porque, antes que o pudesse realizar, a morte mais imprevisível para esta inteligência feita para prever - a morte pela peste - o atingiu em plena ação, em pleno vigor, mas foi também porque os Gregos deram um nome diferente ao patriotismo ateniense de Péricles, que pretendia uni-los - chamaram-lhe o imperialismo de Atenas. Assim foram Péricles e o seu destino, segundo Tucídides.

Mas será tudo isto verdade? Ou antes: que haver de verdade em tudo isto? Uma multidão de questões se apresentam ao nosso espirito. A magnifica figura de Péricles que Tucídides nos apresenta é bela de mais para não nos inquietar, a maneira de um rosto de esfinge. Contem em si contradições que, explicáveis pelo tempo em que este homem viveu, nem por isso limitam menos, para nos, o seu valor. Ao mesmo tempo, parece-nos demasiado perfeita para não ser ideal. Demasiado preciosa também para que não procuremos reter a matéria real de que se compôs, antes que se desvaneça como um belo sonho da historia. Tentemos pois apreender a sua secreta complexidade.

Fisicamente, Péricles não se distinguia senão pela forma oblonga da sua caixa craniana - uma cabeça "que nunca mais acaba" diz um contemporâneo. Os poetas cômicos tinham-lhe dado, por causa disso e por causa das suas maneiras altivas, a alcunha de "Olimpio de cabeça de cebola". O busto que o escultor Cresilas, seu contemporâneo, fez dele, e de que possuímos três copias, dissimula-lhe a forma singular da cabeça cobrindo-a com um capacete. A expressão que o artista da ao rosto não e nem altiva, nem arrogante: e simplesmente orgulhosa, com um leve sorriso matreiro.

Por seu pai, Xantipo, ligava-se Péricles a uma velha família da nobreza ática. Mas este pai fora chefe do partido democrático, antes de ser exilado por ostracismo. Descendia por sua mãe da muito nobre família dos Alcmeonidas, família riquíssima e poderosa, mas banida de Atenas, também, em resultado de acusações de sacrilégio e de traição. Péricles contava na sua ascendência materna, por trisavô, um tirano de Sicion (e os tiranos foram quase sempre, na antiguidade, conduzidos ao poder pelas massas populares), e, por tio-avo, o legislador Clistenes que, retomando a obra inacabada do grande Solon, tinha, em 508, rejuvenescido e completado as reformas do antepassado da democracia ateniense. O nascimento de Péricles, cuja data exata ignoramos, situa-se pouco depois deste acontecimento, por alturas de 492.

Nascimento aristocrático, tradições democráticas, tanto sob a forma tirânica como sob a forma propriamente democrática, eis o balanço familiar que Péricles herdou. Que partido irá ele escolher quando se entregar a ação publica, a que o destina o seu temperamento? "Tinha, na juventude", diz Plutarco, uma extrema repugnância pelo povo." Sempre grave e distante, detestava a familiaridade dos modos de Cimon, o ultimo vencedor as guerras persas e chefe do partido aristocrático. Apesar do desdém nato que tinha talvez pela população, sentimento de que se defendia e a que respondia com bruscos atos de generosidade, o seu instinto é a sua logica sem defeito não o enganaram: a grandeza de Atenas, sua cidade, que, desde a juventude, se propusera levar ao mais alto ponto, não podia ser realizada pelo punhado de aristocratas que gravitavam em redor do presunçoso e leviano Cimon. Só as massas populares, cujos direitos tinham de ser ampliados, ressalvando em todo o caso os meios de dispor delas e de guiá-las para o objetivo a alcançar, só essas massas ricas de futuro estavam em condições de conquistar, para Atenas, a grandeza do poderio material e o brilho da primazia artística e cultural que daquele pode derivar. Péricles decidiu servir o partido democrático. Tornou-se seu único chefe em trinta anos.

Por formação intelectual, Péricles era um racionalista manifesto, mas não destituído de vivíssima sensibilidade, ao mesmo tempo ardente e delicada, não destituído também de uma forma de sentimento religioso que ele confunde com o amor da cidade. Este respeito religioso, este amor profundo pelo seu país, não permitem ao seu racionalismo descambar, como tantas vezes acontece, em um individualismo vulgar.

Os mestres que o tinham educado não eram pensadores de torre-de-marfim. O principal, talvez, Damon, ao mesmo tempo compositor e teórico da musica, tomava a sua arte suficientemente a serio para dizer: Não se pode tocar nas regras da musica sem perturbar, no mesmo instante, as leis fundamentais do Estado... Façamos da musica a cidadela do Estado. "Quanto a Zenão de Eleia e a Anaxágoras, foram, ao instalarem-se em Atenas, os seus principais mestres de pensamento. Zenão implanta em Atenas a doutrina monoteísta da escola de Eleia: Há um só Deus... Sem trabalho, pela simples força do seu espirito, põe em movimento todas as coisas. " (Não foi isto mesmo que Péricles se esforçou por fazer no domínio da vida publica: governar pela -força do pensamento?) Anaxágoras, por sua vez, que sabemos ter mantido com Péricles estreitas relações - Anaxágoras, que voltaremos a encontrar mais a frente -, foi o homem que ensinava que a Inteligência pura tirara o mundo do caos inicial, organizara-o e continuava a rege-lo. Aos ensinamentos de Anaxágoras foi Péricles buscar toda a sua formação cientifica, que era tão vasta quanto a época o permitia. Neles confirmou a forma racionalista do seu pensamento e encontrou um princípio e um modelo para o governo da cidade. Todos os discursos que Tucídides lhe atribui são exemplos de eloquência dedutiva, alimentada pelas paixões vivas do seu jovem povo ateniense. Discursos e narrativas mostram a alta inteligência ativa, soberana, deste ,tirano", na condução da cidade de Atenas. Quando Péricles se apresentava em publico para arengar ao povo, parecia a imagem do No (a inteligência), a encarnação humana da força construtiva, motriz, analítica, ordenadora, clarividente e artista... escreve Nietzsche.

Anaxágoras não pode escapar a uma condenação por ateísmo. Péricles livrou-o da dificuldade.

A religião de Péricles confunde, em uma mesma exaltação de alma, o culto das antigas Potencias que outrora presidiam a ação dos homens e o culto da ação dos próprios homens, em que doravante elas encarnam, homens que lutam na cidade para realizar o bem-estar, o progresso, a justiça social e a gloria, impelidos pela força crescente da comunidade dos cidadãos. Esta religião de Péricles inscreve-se no mármore dos templos que ergue, nas estátuas dos deuses e dos heróis de Atenas, em todos esses monumentos que erige a gloria comum dos deuses e dos homens. É a esta comunhão dos cidadãos e dos deuses protetores que ele faz erguer, para o céu, tantas colunas e tanta pedra esculpida. No entanto, é significativo que, nos discursos que Tucídides lhe atribui, nunca, nem uma só vez, apareçam os deuses. O próprio nome deles está ausente desse esplendido elogio da cidade de Atenas e dos bens que lhe cabe salvaguardar pelo sacrifício da sua juventude - elogio pronunciado por Péricles aquando dos funerais dos mortos do primeiro ano da guerra do Peloponeso. Como, em tal circunstancia, pode o nome dos deuses faltar? É que, presente por toda a parte, ressoa o nome de Atenas. Como se Atenas fosse a divindade visível de Péricles.

Vejamos que ações este amor lhe inspira. Péricles começa por rematar o sistema democrático, completando as leis e os costumes existentes desde o tempo de Solon, Pisistrato e Clistenes, os seus três predecessores nesta obra de democratização. Alias, não quer nem regime de classe, nem governo de partido. Para ele, não se trata de organizar, em proveito da classe pobre, um monopólio politico e social, a custa das classes mais ricas. A democracia ateniense, para Péricles, é toda a cidade a trabalhar. Ele honra o trabalho. "Não é a pobreza" diz na Assembleia, "que entre nós se considera vergonhosa; vergonhoso é nada fazer para sair dela."

Para tomar Atenas - a Atenas dos cidadãos, bem entendido - plenamente democrática, vai alargar o campo de recrutamento das magistraturas, ate ai limitado as duas classes mais ricas. Por outro lado, sabe que a participação dos mais pobres nessas magistraturas será puramente teórica, enquanto não forem salariados os cidadãos que se apresentarem aos cargos a que são admitidos, enquanto não puderem ser arcontes ou fazer parte do tribunal dos Heliastas sem preocupações de perdas de ganho. Péricles alarga pois o campo do arcontato aos cidadãos de terceira classe (pequenos burgueses e artífices de modestos rendimentos), deixando de fora a quarta e ultima classe, a dos operários e serventes. Quanto a indenizações, criou-as para os membros do Conselho dos Quinhentos, para os militares e também para a participação dos cidadãos nas em numerosas festas da Republica. Em contrapartida, não concedes nunca indenização e desocupação para a Assembleia do povo, onde a presença dos cidadãos é por ele considerada um dever.

Estas duas medidas - alargamento do arcontato, salario concedido aos cidadãos no exercício das suas funções, salvo na Assembleia - rematam, aos olhos de Péricles, a democratização de Atenas. A isto juntara-se a supressão do direito de veto do Areópago que limitava em diversos casos a soberania popular, operação que fora conduzida, em 462-461, por Efialtes, o integro acusador dos Areopagitas concussionários, logo misteriosamente assassinado.

De futuro, o Areópago não será mais que um nome. A Assembleia do povo e o Tribunal do povo herdaram os seus despojos.

Em politica alias, as leis contém menos que os costumes, não são os arcontes que governam Atenas: administram-na, executam as decisões tomadas. Todas as decisões importantes são tomadas pela Assembleia do povo, composta por todos os cidadãos, onde os ausentes são mais os camponeses, que não gostam de se deslocar para a ela assistirem, que os operários da cidade e os marinheiros do Pireu. É este povo trabalhador da cidade que faz as maiorias e nem sequer há necessidade de pagar-lhe para que ele corra a colher a sua parte neste espetáculo apaixonante: as justas da eloquência.

É aqui que Péricles trava o seu combate pelo objetivo que fixou a cidade de Atenas - o poder. É isto sem outro titulo, sem outra magistratura que o primado triunfante da palavra inteligente e do patriotismo honesto e incorruptível. Péricles é apenas o prostates tou demou, o que significa, ao mesmo tempo, que e o líder do partido democrático é o chefe da comunidade democrática no seu conjunto. É também estratego, isto é, general, anualmente eleito pelo povo para o colégio dos dez estrategos atenienses. Péricles - temos a prova material, com diferença de um ou de dois anos - é reeleito estratego durante todo o período que vai de 460 a 429, e não apenas eleito pela sua tribo (divisão administrativa que tem o direito de eleger um dos seus a estrategia), mas quase sempre pelo conjunto da comunidade cívica ateniense. Esta rara unanimidade, única mesmo na historia de Atenas, significa sem duvida que Péricles convencera o povo a marchar pelo caminho que ele prescrevia, mas que, por outro lado, cabe ao, povo, e só a ele, como soberano, escolher.

Na verdade, esta soberania popular dos cidadãos atenienses é mais do que uma palavra.

A Assembleia exerce uma ação direta e permanente sobre os funcionários, os arcontes, no sentido nato da palavra. Estes funcionários são designados, a fim de que, por um lado, as possibilidades de todos sejam iguais, e de que, por outro lado, sejam asseguradas as competências, graças a uma combinação de tiragem a sorte e de eleição, ou, por vezes, por um dos dois sistemas, exclusivamente. Com exceção dos estrategos, não ha possibilidade de serem escolhidos dois anos seguidos nem de acumularem duas magistraturas. Assim, o poder é posto sob a dependência do povo. Mas é também fiscalizado de uma outra maneira. Ao assumir o cargo, o funcionário passa por um exame, quer perante o Conselho dos Quinhentos, composto de antigos arcontes, quer perante uma seção do Tribunal do povo, o Helia. Ao deixar as funções, presta as suas contas e, enquanto esta prestação de contas não for feita com inteira satisfação do povo, o funcionário não pode dispor dos seus bens. Além disso, mesmo depois de obtida quitação, pode ainda ser acusado por qualquer cidadão e ser objeto de um processo, acusação de ilegalidade. E ainda não é tudo. Durante o ano das suas funções, o funcionário fica sob a fiscalização direta e permanente do povo, o qual, pelo processo do voto "confirmativo", pode em qualquer altura suspendê-lo e leva-lo a julgamento perante o Tribunal do povo.

Também no domínio judiciário o povo exerce a sua plena soberania. Uma grande parte dos cidadãos tem assento em cada ano no tribunal dos Heliastas, que julgam sem apelo a maior parte das causas, publicas ou privadas. Em certos casos - atentados contra a democracia, filiação em uma sociedade secreta, participação em uma conspiração, traição, corrupção politica, etc. - é a própria Assembleia do povo que se constitui em tribunal de justiça, ou faz transitar a acusação para uma seção composta, pelo menos, de mil membros do tribunal do povo.

Por todas estas disposições, e outras ainda, a democracia ateniense constitui um regime de democracia integral, um governo ao mesmo tempo pelo povo e para o povo, a realização democrática mais completa que o mundo antigo conheceu.

Contudo, a suprema autoridade conferida a Péricles pela amplidão do seu pensamento e pelo vigor da sua eloquência atua como poderoso contrabalanço. Esta democracia de Péricles é uma democracia dirigida. Tucídides escreveu, sobre a Atenas desse tempo, uma frase decisiva:          "De nome, era uma democracia; de fato, era um governo exercido pelo primeiro dos cidadãos". Vê-se aqui como Sófocles, que conhecia Péricles muito bem e o amava, pode ir buscar a ele certos traços para a criação da personagem de Creonte na Antígona.

Mas há mais, e pior. Ao mesmo tempo que Péricles remata a democracia e, com a sua pessoa, faz contrabalanço e faz o exercício dela, pode dizer-se também que a fecha.

No ano de 451-450, por proposta sua, foi decidido, diz-nos Aristóteles, que ninguém gozaria de direitos políticos se não tivesse nascido de pai e mãe atenienses. Ora, segundo a legislação de Solon, os filhos nascidos de um casamento entre um cidadão e uma estrangeira gozavam plenamente do direito de cidade. Era o caso de Temístocles, de Cimon, do historiador Tucídides, do legislador Clistenes, de outros ainda, grandes Atenienses todos eles. Muitos estrangeiros tinham mesmo obtido o direito de cidade por haverem prestado a Atenas serviços considerados excepcionais. Muitos outros se tinham também introduzido fraudulentamente nas listas cívicas, graças a complacência de funcionários corruptos. A partir da lei nova, procede-se a verificações frequentes e severas. Assim, em 445-444, por ocasião de uma penúria grave, tendo um rei do Delta, Psametico, enviado trinta mil alqueires de trigo para distribuição pelos cidadãos de Atenas, foram riscados dos registos cívicos alguns milhares de nomes. Daqueles cujos títulos foram reconhecidos validos, apresentaram-se a distribuição quatorze mil duzentos e quarenta cidadãos. Quantos não se apresentaram? Uns dez mil, por certo. Nessa data, o número exato de cidadãos não excede, em todo o caso, trinta mil.

Seja como for, após o remate da democracia de Atenas por Péricles, esta cidade, a mais democrática da Grécia, contava apenas quatorze mil duzentos e quarenta cidadãos a usar do seu direito cívico. Isto para quatrocentos mil habitantes.

A pujança das instituições é também o ponto de partida do seu declínio. No momento da subida de Péricles ao poder, Atenas estava, havia quinze anos, à frente de uma importante confederação de cidades - a liga de Delos. Esta liga, aquando da sua criação, no ultimo período da guerra persa (em 479), fixara a si própria um objetivo estritamente militar: continuar no mar as hostilidades contra a Pérsia, libertar as cidades helênicas ainda submetidas pelo Rei, tornar impossível uma nova invasão da Grécia pelos Persas. Guerra de libertação - de desforra também -, guerra ao mesmo tempo defensiva e preventiva, eis o objetivo que a liga se propunha e que realizou com êxito sob a direção de Temístocles, de Aristides e de Cimon.

A capital da Confederação - simultaneamente santuário, lugar de reunião do Conselho federal e lugar de deposito do seu tesouro - e, no coração do Egeu, a ilha santa de Delos.

Desde o principio, Atenas gozava de privilégios particulares no seio da Confederação, devidos a força única da sua frota. Tinha o comando das operações militares, de onde resultava livre disposição das finanças. As obrigações dos aliados consistiam em fornecer a liga barcos armados e montados para a guerra contra a Pérsia. Mas admitiu-se também, e com bastante facilidade, que algumas das cidades aliadas, cujos barcos não eram de tipo moderno, pudessem substituir os navios que deviam fornecer por uma contribuição em dinheiro. Em 454, só três membros da federação, além de Atenas, pagam em barcos e não em dinheiro: Samos, Quios e Lesbos. Atenas conta, em compensação, com cerca de cento e cinquenta cidades tributarias, e o total da contribuição financeira anual sobe, nessa data, a cerca de três milhões de francos-ouro.

Foi finalmente em 454 (Péricles governa) que se decidiu transferir de Delos para Atenas o tesouro da liga.

Em teoria, todos os aliados são cidades autônomas e tem direitos iguais. De fato, existe um desequilíbrio entre o poder de Atenas, senhora das operações militares e das finanças, e a fraqueza relativa das cidades aliadas. Este desequilíbrio provoca discórdias no seio da federação, e logo tentativas de abandono, brutalmente reprimidas por Atenas. Naxos foi a primeira a sublevar-se, em 470. Em 465, Tasos. Vencidas, estas duas cidades, de aliadas que eram, tornaram-se simplesmente súditas. Atenas fixa a importância do seu tributo anual. Estas primeiras defecções, seguidas de repressão, começam quando o partido aristocrático está ainda no poder: é Cimon, seu chefe, que, pela espada e pelo fogo, reduz os rebeldes a obediência.

Com a subida de Péricles ao governo, o movimento precipita-se: três grandes cidades da Jônia revoltam-se, entre as quais Mileto. Em 446 e a vez das cidades da Eubeia: Calcis, Eretria e outras. Esta insurreição da Eubeia ameaçou mortalmente a existência da Republica, dado que Esparta interveio em auxilio dos insurrectos. Enquanto Péricles submetia duramente a Eubeia, Megara escolhe este momento para trair a liga, abrindo o caminho da Ática ao exercito de Esparta. A Ática é invadida. Péricles é obrigado a abandonar as operações na Eubeia para ir em socorro da sua cidade de Atenas, em perigo. O seu regresso fulminante leva os Espartanos a retirarem-se. Volta a Eubeia. A ilha inteira é dominada. Algumas cidades recebem guarnições. Outras veem os seus oligarcas expulsos e "democratizado" o governo.

Por toda a parte, Atenas, após cada rebelião, conclui um tratado de sujeição com a cidade que submeteu pelas armas. Por vezes, exige reféns. Instala em diversos lugares governos que lhe são dedicados. Instala também, em certas cidades importantes que convém dominar firmemente, "governadores" que fiscalizam toda a politica da cidade submetida. Finalmente, generaliza o uso das "cleruquias", colônias de cidadãos atenienses armados, a quem são entregues, perto das cidades suspeitas, terras tiradas aos "rebeldes" expulsos ou liquidados, e a quem cabe o cuidado de velar por que a "ordem" reine na região.

Há muito que o Conselho federal se não reúne. É o povo ateniense que fixa, em cada três anos, a importância do tributo. É pelos tribunais de Atenas que são julgadas as desavenças de Atenas com os seus súditos ou com os seus raros aliados. A Confederação de Delos tornou-se Império de Atenas.

Império sempre ameaçado de dentro. Uma nova defeção, a de Samos, no coração do governo de Péricles, em 441, reedita a mesma historia. Ela impõe a Péricles dois anos de lutas estéreis e sangrentas. Samos acaba por capitular. Submetida, cede uma parte do seu território ao Estado ateniense. Paga as enormes despesas da guerra e, como por milagre, tudo entra na ordem, uma vez "democratizado" o seu governo.

Império que nem sequer é um simples governo de cidades submetidas a Atenas. Império que, segundo Péricles, não é outra coisa senão uma "tirania", de que a própria Atenas esta prisioneira. Di-lo ele, nestes exatos termos, em um dos discursos de Tucídides. Falando ao povo, declara-lhe: "Não podeis renunciar a este Império, mesmo se, por receio e amor do repouso, realizásseis esse ato heroico. Considerai-o uma tirania: apoderar-se dela pode parecer injustiça, renunciar constitui um perigo".

Eis o monstro da "democracia imperialista"! Democracia que reina, não o esqueçamos nunca, sobre um povo de escravos e que agora enriquece, pelo sangue, com o recurso de numerosos súditos.

Entretanto, esta politica imperial, enquanto vai durando, proporciona a Péricles quantias enormes. Ano após ano, afluem os milhões de francos-ouro. Quanto basta para manter, é certo que com salários modestos, um povo de funcionários. Quanto basta para empreender dispendiosas obras de arte, que darão pão durante vinte anos a uma população operaria e, a cidade de Atenas, "gloria imperecível".

É certo que a transformação da Confederação de Delos em Império ateniense, brutalmente operada, não se dera sem provocar, mesmo em Atenas, vivos protestos. "O povo desonra-se e move contra si as mais justas censuras" declaravam, segundo Plutarco, os adversários de Péricles na Assembleia, "quando transporta de Delos para Atenas um tesouro que pertence a comunidade dos Gregos. 

A Grécia não pode deixar de ver que, pela mais injusta e mais tirânica depredação, as somas que ela destinou às despesas da guerra (meda) são empregadas no embelezamento da nossa cidade, como uma mulher garrida que se cobre de pedras preciosas; que servem para erigir estátuas magníficas, para construir templos, um dos quais custou mil talentos» (seis milhões de francos-ouro).

Péricles responde. Um dia apresenta-se perante a Assembleia e declara, em substância, que os Atenienses eram os guardiões do mar Egeu contra os Persas, que tinham pago, e tornariam a pagar se preciso fosse, o imposto do sangue, que as cidades aliadas de Atenas apenas contribuíam para a defesa da Grécia, assegurada por Atenas, «com algumas somas de dinheiro que, uma vez pagas, não pertencem mais àqueles que as dão, mas sim àqueles que as recebem, os quais outro compromisso não têm senão o de cumprir as condições a que se obrigaram ao recebê-las». Raciocínio irrefutável!

Acrescenta orgulhosamente, ou, se se preferir, com uma franqueza não isenta de cinismo: «A cidade, abundantemente provida de todos os meios de defesa que a guerra exige, deve empregar essas riquezas em obras que, uma vez concluídas, lhe assegurarão uma glória imortal.»
E mais (resumindo): «não esqueçamos também os lucros que retiraremos do transporte, do trabalho e da colocação de uma enorme quantidade de materiais diversos, donde resultará um movimento geral que utilizará todos os braços no florescimento da indústria e das artes.» O orador prossegue: «Recursos consideráveis estão à nossa disposição. Doravante, o povo inteiro receberá do Estado o seu salário, seja no exército, seja nas funções civis ordinárias, seja no trabalho das suas mãos. Temos a pedra, o bronze, o marfim, o ouro, o ébano, o cipreste. Operários inúmeros, carpinteiros, pedreiros, ferreiros, marceneiros, ourives, cinzeladores e pintores ocupam-se em trabalhá-los. Os comerciantes marítimos, os marinheiros e os pilotos conduzem por mar esta imensa quantidade de materiais. Os carreteiros e os carroceiros trazem-nos por terra. Os carpinteiros de carros, os cordoeiros. os correeiros, os trabalhadores de aterros, os mineiros exercem à porfia o seu ofício... Desta maneira, todas as idades e todas as condições são chamadas a partilhar da abundância que estes trabalhos espalham por toda a parte.»

Não se pode mostrar mais claramente que as grandes obras empreendidas por Péricles na Acrópole e noutros locais eram destinadas a dar de que viver a todos os cidadãos, particularmente à classe operária, à custa dos tributários de Atenas. Política democrática, política de «tirano», se a houve. O Parténon ilustra a glória imperecível de Atenas, ao mesmo tempo que dá comer aos cidadãos... Mas os súbditos do Império terão o pão e a glória? Nem uma nem outro, sem dúvida.

*

Foi baseando-se no decreto votado em 450-449, por proposta sua, o qual autorizava Atenas a retirar do tesouro federal as somas necessárias para reedi­ ficar os templos destruídos no decurso da segunda guerra meda, que Péricles empreendeu estas grandes obras, nomeadamente a reconstrução dos santuários da Acrópole. Quatro obras principais, sem falar das estátuas erguidas ao ar livre ou nos templos, datam desta época de apogeu da arquitectura e da escultura atenienses. Apogeu que Péricles domina com a sua pessoa, enamorada da «beleza na simplicidade», segundo a frase que Tucídides põe na sua boca, aplicando-a aliás a todo o povo ateniense. Estas quatro obras exemplares são, como se sabe, o Parténon, os Propileus, o Erectêione e o templo de Atena- -Vitória. Falarei apenas do Parténon.

Não se trata de repetir aqui a história do templo grego, mas de caracterizar por meio de algumas observações marginais, neste esboço da pessoa de Péri­ cles, esse «amor da beleza na simplicidade» manifestado pela obra fundamental erigida sobre a Acrópole à glória de Atena e do seu povo.

Quando o exército persa partiu, em 479, a Acrópole não era mais que um vasto cemitério de pedras amontoadas e de estátuas partidas. Temístocles e Címon acodem ao mais urgente, às necessidades militares: reconstroem, o primeiro, no flanco norte, o segundo, na flanco sul, os dois muros implantados no rochedo da colina. Estes muros que a protegem e a cingem a toda a volta são construídos de maneira a alargar e a permitir aplanar a superfície do alto da Acrópole. No intervalo entre o bordo superior do muro e o planalto da colina, enterram-se preciosamente as belas raparigas iluminadas de vermelho e azul erguidas pela geração precedente, no tempo da sua prosperidade. (Só vieram a ser desenterradas pela nossa geração: as cores ainda estavam frescas.)

Péricles vê na arte um meio de afirmar a preeminência de Atenas sobre o mundo helénico. O Parténon dominará a Grécia, tal como domina, na sua calculada perfeição, a terra e o mar, e os séculos.

Péricles via tudo, discutia os planos do arquitecto, a escolha do material. Vigiava a execução, visitava o local dos trabalhos, verificava a despesa. Fídias foi designado em 450 como director geral das obras da Acrópole. Era um escultor ateniense de quarenta e dois anos, já conhecido por numerosos traba­ lhos na Grécia. Nesse mesmo ano de 450, erigia sobre a Acrópole a imagem de Atena, brilhante de juventude, cabeça encaracolada, os cabelos seguros por uma simples fita, égide solta, capacete na mão; a lança transportada no braço esquerdo não é já uma arma, mas sim um simples apoio para o braço. Não é uma Atena combatente, é a imagem fresca da paz reconquistada. Mais tarde, Fídias ergueu na Acrópole duas outras Atenas: uma Atena colossal e guerreira onde se afirma a sua mestria de bronzista e que, no metal, mostra o imperialismo de Atenas, que a paz é instável, e que, mal é conquistada, logo tende para a guerra. Finalmente, o astro de ouro e de marfim que brilha na sombra do seu templo, a Atena Parteno, ídolo e guardiã da cidade e do seu tesouro. Imagi­ namos a alta estátua de marfim, vestida de ouro e adornada, enquadrada pela perspectiva da dupla colunata interior do templo dominando com o seu rosto tranquilo, que a sombra anima, o amontoado de objectos preciosos, os ricos estofos sobre as mesas de mármore, os escudos suspensos das colunas. Ima­ gem orgulhosa e esplêndida da supremacia de Atenas.

Fídias, por outro lado, esculpiu pela sua própria mão uma grande parte da decoração do Parténon. Esculpiu, ou pelo menos inspirou, o friso jónico em faixa contínua, onde o seu cinzel mostra, com uma simplicidade que suspende o coração, de tal modo se aproxima do Ideal, a procissão da festa de Atena — a cavalgada dos jovens cavaleiros, a marcha lenta dos velhos que a idade não atingiu, os metecos e os súbditos com as suas oferendas, as raparigas saídas do gineceu para essa rara ocasião, estritamente envolvidas nas suas túnicas como num atavio de pudor. Nenhuma expressão nos rostos, nem sorriso, nem alegria: os homens, ao aproximarem-se dos deuses (que os esperam no fim do friso) revestem-se de impassibilidade. Mas é também a primeira vez que no friso de um templo são representados não deuses ou heróis, mas simples
cidadãos. Péricles e Fídias o tinham querido assim.

Fídias esculpiu igualmente, em pessoa, os dois frontões, danificados de mais para que possamos falar deles: apenas se pode dizer que a força divina aí se exprime não na violência de qualquer gesto ousado, mas simplesmente na indolência da sua perfeita musculatura em repouso. Fixada numa acção, qual­ quer que fosse, a força dos deuses seria como que limitada, mas, no calmo repouso, a força sem uso parece ilimitada e realmente divina.

Fídias deixou aos seus alunos o encargo de esculpirem a maior parte das métopas do friso dórico.
Este artista viveu no convívio do pensamento mais íntimo de Péricles, que se conservou fiel a Fídias na desgraça deste (em 432) e até à morte, sobrevinda pouco depois da sua condenação, na prisão.

Exerceu durante dezoito anos a direcção geral dos trabalhos da Acrópole. Nada escapava à sua crítica severa e sempre criadora. Fídias interessou-se tanto pelos planos de conjunto dos diversos monumentos como pelos mais pequenos pormenores da sua realização técnica. A arquitectura do Parténon deve-lhe, sem dúvida, muito mais que a sua florescência escultural.

Com Sófocles e Péricles, Fídias contava-se entre os três génios que produziram este monumento histórico. Eles colaboravam nessa obra colectiva que foi o Pártenon. Notemos, a propósito, que Sófocles, ao mesmo tempo que compunha a Antígona, presidia à comissão financeira — o colégio de helenó- tamos — que administrava o tesouro público cobrado aos aliados. Este três homens estavam empenhados, senão na mesma política, pelo menos ao serviço do mesmo empreendimento, em que se exprimia, pela criação da nova Acró­ pole como pelo florescimento do teatro de Sófocles, a grandeza do povo dirigido por Péricles. Sófocles, por seu lado, não pensava que a Antígona e o Edipo o dispensassem de presidir, com a sua inteligência e a sua lealdade de cidadão, a um importante colégio financeiro.

A beleza de Parténon é uma «beleza simples». Mas esta simplicidade, como toda a simplicidade duma grande obra artística, é o resultado final duma rara complexidade que se furta ao nosso sentimento primeiro.

O Parténon começa por parecer uma obra puramente geométrica. É a solução de um problema de geometria, no qual a matéria seria reunida em perpendiculares, em círculos, em rectas e em triângulos, de modo a conservar-se de pé num equilíbrio agradável. Parece construído com números: é que ele aparece no termo de um estudo secular dos arquitectos dos templos gregos, que procuraram a relação entre o comprimento e a largura e a altura do edifício, a relação entre o diâmetro da coluna e a sua altura, a relação entre a largura da coluna e o espaço entre as colunas, a do diâmetro da coluna, tomado na base, e o do alto do fuste. Muitas outras relações ainda.

Contudo, esta busca da perfeição matemática do templo agradaria somente à nossa razão, como um teorema bem resolvido. Mas não é assim — não é apenas assim — que o Parténon nos agrada. Ele satisfaz, prolonga a nossa vida orgânica, a nossa alegria orgânica. Toca-nos como se fosse não um Absoluto, mas um ser vivo. E uma ordem, mas uma ordem tão móbil como a ordem dos reinos e das espécies.
Como se conseguiu isto? É que as rectas que o compõem são apenas aproximativas, exactamente como as da vida. Os círculos igualmente; e as relações também. A matemática do Parténon nunca é mais que uma tendência para a perfeição matemática: não tem outro rigor que não seja o das leis do mundo real, repensadas pelo homem, exprimidas pela arte, mas sempre rela­ tivas e móveis. E esta relatividade e esta mobilidade que tomam vivo o Parténon.

Vejamos alguns exemplos. Os quatro degraus do envasamento do edifício são de altura desigual: o primeiro, o degrau de acerto, assente sobre a rocha, é o mais baixo. O último, o mais alto. A diferença é mínima, mais sensível ao passo do que aos olhos. Mas, à distância, os três degraus parecem iguais, e o degrau superior não dá a impressão, que a igualdade produziria, de se enterrar sobre o peso do monumento.
Por outro lado, a superfície de cada degrau não é exactamente horizontal: é ligeiramente convexa. Uma superfície plana, vista de uma das suas extremi­ dades, tem tendência a parecer cavar-se no meio. Para dissipar esta ilusão óptica foi calculada uma curvatura.

A base sobre a qual assenta o monumento é pois, por estes e outros traçados, construída em falsas rectas e em planos falsamente horizontais, que são, aos olhos, rectas e planos vivos. Esta base «pode, assim», como já foi dito, «resistir opticamente ao peso do monumento» que suporta.
Que dizer da diversividade das colunas, que nos parecem todas elas semelhantes e todas perpendiculares ao solo? Que dizer também da ilusória igualdade dos intercolúnios? Não há um número, neste poema do número posto em mármore, que seja idêntico em posições idênticas. Nesta obra, que parece dar-nos uma prova da estabilidade do eterno, não há nada que não seja móvel e instável. Nela tocamos a eternidade, a eternidade da vida, não a do Absoluto.

Darei apenas alguns exemplos acerca das colunas. Não há sequer uma que seja perpendicular ao solo ou exactamente paralela às suas vizinhas.

Rigorosamente vertical, a coluna preencheria somente uma função indivi­ dual de amparo de uma parte restrita do edifício. Inclinadas, como estão, para o interior do edifício, as colunas entram todas numa comunidade que suporta conjuntamente o peso do monumento inteiro. Esta inclinação da coluna varia conforme o lugar que ocupa na própria colunata. É uma pequena inclinação, de sessenta e cinco a oitenta e três milímetros, mas, concêntrica como é, tem por efeito, aos nossos olhos, alargar a função de suporte de cada coluna e mostrar o conjunto da colunata como empenhada num mesmo «esforço de cooperação convergente».

Talvez tenha havido aqui uma necessidade técnica. Talvez, se não fosse assim, o peso do entablamento, dos frontões e de toda a parte superior do templo obrigasse o templo a abrir-se e a desabar. Mas esta necessidade técnica é também uma exigência estética: os nossos olhos, prolongando os eixos das colunas no céu, unem-nos num ponto único situado muito acima do templo. Assim, o Parténon não se nos apresenta como uma simples casa rodeada de colunas. Aparece como um edifício cuja estabilidade móvel, dominada pelo nosso olhar, sobe para o céu em pirâmide imaginária, num esforço coerente que nós disciplinámos.

Esta inclinação calculada das colunas produz ainda outros efeitos. «Desloca o aprumo das cornijas para dentro do edifício, repelindo assim a parte das saliências exteriores para a massa geral.» Mas as colunas dos cantos não participam da mesma inclinação. Formando as quatro um conjunto indepen­ dente, menos inclinadas, estão mais fora do feixe comum. Sustêm com maior nitidez a cumeeira do monumento nos seus quatro cantos. Posta assim em evidência a sua função essencial, tranquilizam-nos sobre a solidez e a duração do templo. Os fustes destas mesmas colunas dos cantos são também ligeira­ mente reforçados, de modo a resistirem melhor ao brilho da luz, cujo peso suportam mais. Pela mesma razão, as colunas de canto estão sensivelmente aproximadas das suas vizinhas: um intercolúnio idêntico aos outros criaria um vazio luminoso que as adelgaçaria. Ora, de todas, devem ser elas as mais fortes, porque têm de suportar a massa total do edifício.

Assim nasce um templo que, concebido segundo as leis da geometria e da vida, parece um ser vivo e como que uma árvore carregada de frutos, produ­ zida pelo solo da Acrópole. Para quem sobe a colina, parece, de baixo, uma coisa pequena, insignificante, ou talvez como que um rosto escondido que nos lança um olhar inquietante'. Continua-se a subir (caminho custoso nos tempos antigos), perde-se o Parténon de vista, chega-se aos Propileus, entra-se: foram postos ali apenas para furtar aos nossos olhos, por todo o tempo possível, o Parténon. De súbito ele ergue-se diante de nós, não já insignificante e inquie­ tante, mas imenso e satisfazendo a nossa expectativa. Porque ele não é imenso segundo a aritmética, é imenso para o nosso coração. Não imenso em dimen­ sões (comparemos: catedral de Lausana: 100 m x 42 x 75; Parténon: 70 m X
X 31 X 17,5). Mas, conforme foi dito e repetido: «O templo grego não tem dimensões, tem proporções.» Ou ainda: «Grande ou pequeno, nunca se pensa no seu tamanho.» Em que se pensa diante do Parténon? Não mintamos, não inventemos: em ser feliz e nada mais, e diante dele sentimos mais força para o sermos. E que se ama o Parténon como a um ser vivo...

Ai de nós! os seres vivos têm a faculdade de se reproduzirem. O Parténon e toda a arquitectura grega reproduziram-se abundantemente, no decurso dos séculos, sob a forma de igrejas ou de bancos, de Paris a Munique e de Washington a Moscovo, parindo seres em geral monstruosos, do género da Madeleine. O Parténon nasceu de um solo, concorda com uma paisagem, é o fruto de um momento histórico. Não se pode soltá-lo de tudo isto. Desenrai­ zado da Acrópole, perde a sua seiva e a sua beleza. Incorporado na colina de calcário e nesse muro de Temístocles e de Címon que a completa com pedras reunidas do mesmo tom, o Parténon coroa uma paisagem. Apesar da sua ruína, colhemos ainda no seu mármore marfíneo, no jogo contrastado das saliências e das reentrâncias, na alternância de sombra e de luz que, enchendo de negro a concavidade das caneluras e afiando de sol as suas arestas, faz dançar as colunas numa dança imóvel cheia de majestade — em tudo isto colhemos ainda a vida que o génio encerrou no mármore. Mármore sempre sensível à luz. O monumento destruído pode ser, conforme os dias ou as horas do dia, ora castanho escuro, ora cinzento quase negro. Pode ser também róseo na poeira da tarde, ou cor de malva com incidências fulvas. Nunca é branco, como se diz que o mármore é branco. Se é branco, é como a pele de um velho, com manchas escuras que se abrem nos seus membros.

Pode parecer, com efeito, muito velho, muito danificado, mas é impos­ sível que, na sua velhice arruinada, o não ouçamos exprimir ainda esse amor da sabedoria e esse amor da beleza que lhe deram nascimento, no tempo da juventude do seu povo.

O fim do reinado de Péricles foi difícil.

A meio do seu governo. Péricles parece ter concebido, na sua imperial cabeça oblonga, um projecto de união pan-helénica. Estamos mal informa­ dos — muito escassamente e apenas por intermédio de Plutarco — sobre esta tentativa. Um decreto aprovado, por proposta sua, por alturas de 446, convi­ dava todas as cidades gregas, da Europa como da Ásia (postas de parte as cidades da Sicília e da Itália), a enviarem a Atenas delegados para ali delibe­ rarem sobre questões de interesse geral: reconstrução dos templos incendiados pelos persas, sacrifícios a oferecer nos santuários nacionais para agradecer aos deuses a vitória alcançada pelos povos unidos, e enfim, sobre os meios de estabelecer a paz entre todos os Gregos. Vinte cidadãos atenienses foram designados para irem, em grupos de cinco, às diferentes regiões do domínio helénico, abrir negociações pacíficas em nome de Atenas. Estas diligências preliminares foram realizadas. Mas esbarraram, diz Plutarco, com a decidida oposição dos Lacedemónios, que recusavam o princípio de um congresso pan-helénico convocado por Atenas e implicando, por esse facto, a supremacia da grande cidade. O congresso nunca se reuniu.

Como sempre, é difícil, em tal circunstância, lançar a responsabilidade do fracasso das negociações sobre um dos partidos apenas. Havia mais de dez anos que a política imperialista de Péricles para com os aliados de Atenas contradizia, nos factos, esta política de «apaziguamento» que propunha agora ao conjunto dos Gregos. Nesse mesmo ano de 446, quando enviava até aos confins do mundo helénico os seus emissários de paz. esmagava às portas de Atenas a insurreição das cidades de Eubeia, como anteriormente abafara o movimento separatista da Jónia. E foi também anteriormente a esta data (em 450-451) que Péricles fez aprovar pela Assembleia o decreto sobre o direito de cidade que, em vez de alargar a comunidade cívica ateniense a todos os defensores do seu Império, a restringia ao que não era mais que uma egoísta categoria de cidadãos privilegiados, de nascimento duas vezes ateniense. Final­ mente, foi ainda em 446 que Péricles, assentando a primeira pedra no Parténon, ligou indissoluvelmente a política de grandes obras, anteriormente anunciada, à necessidade de explorar os Gregos do Império para que eles suportassem as despesas.

Cada dia mais prisioneiro desta política impregnada de imperialismo, sujeitado pelo sangue que vertia, pelo dinheiro que extorquia, pelas liberdades que confiscava, como podia ele fazer acreditar, com as suas propostas de pacificação geral da Grécia, que o congresso pan-helénico de Atenas pudesse ser outra coisa que a confirmação da omnipotência ateniense, a consagração da exclusiva supremacia de Atenas sobre a Grécia inteira? Plutarco parece ingénuo ao atribuir-lhe, nesta circunstância, «tanta elevação de espírito como grandeza de alma».
A partir daqui, Péricles tem de acelerar a marcha de Atenas para a guerra. Não é este o lugar para lembrar as circunstâncias que provocaram essa mortal e irreparável divisão do povo grego que foi a guerra do Peloponeso. Tal como Atenas, os adversários de Atenas têm nestes acontecimentos as suas responsa­ bilidades. Péricles ao fazer aprovar pelos Atenienses o decreto contra Mégara, que fechava aos produtos e aos barcos desta cidade os mercados da Ática e os portos do Império, assume a maior parte dessas responsabilidades. Medida de retorsão? Represálias dos acontecimentos de 446? Explicações deste género, estão sempre ao alcance da mão. Péricles, nesta data, está já apanhado na engrenagem que ele próprio montou. Na verdade, há muito tempo que os dados estão lançados e a partida jogada. Não pode já escapar à necessidade da guerra, que toda a sua política provocou e que ele se esforça agora, à última hora, por apresentar como defensiva, ao mesmo tempo que a exalta como alto tema de glória. Conta ganhar esta guerra, à força, diz, «de inteligência ede dinheiro». Ganhando-a, pretende, no mesmo lance, ganhar a paz.

No entanto, esta inteligência tão aguda está, numa direcção bem determi­ nada, limitada por um obstáculo que ele não vê. O seu patriotismo não ultrapassa a cidade de Atenas, queele quer engrandecer. Não concebe a unidade da Grécia senão como extensão da grandeza ateniense.Quanto às outras cidades, subjugá-las-á. As cidades são «escravas», diz Aristófanes, aos dezanove anos, com o seu riso quevê claro.

Distinguimos nós o obstáculo quenão cabe a Péricles ultrapassar? A socie­ dade de que faz parte é mais profundamente esclavagista do que ela própria julga. A escravização das cidades não é mais que a forma continuada de um racismo inextirpável. A escravatura é mancha de óleo que vai alastrando. Aí perecerá a civilização grega. Ainda não apresentámos assuas mais altas obras-primas, mas sabemos já que o verme está no fruto.

A beleza sem par do Parténon não nos consola de ter sido comprada não apenas com o ouro, mas com o sangue dos homens subjugados.

Essa é a falta inexplicável. Falta de Péricles? Não, nem isso. Esta falta estava inscrita na história anterior e presente do seu povo. Uma sociedade esclavagista não podia produzir a democracia verdadeira, mas apenas uma tirania reinando sobre um povo de escravos, de nome ou de facto.

O revés que atingiu, pela guerra, o pensamento de Péricles — por mais brilhante que tenha sido o seu «século» — diz-nos com toda a clareza que uma civilização não pode perdurar se não for capaz de abranger o conjunto dos homens vivos. Esse é o ensinamento mais importante que a história da civili­ zação grega nos dispensa. Os seus frutos mais esplêndidos enchem-nos de alegria, de coragem e de esperança. Deixam na boca não sei que gosto áspero, que os frutos da idade vindoura — se soubermos ler o passado grego até às suas sombras — talvez não venham a ter.

*

Maçã verde, muito tempo foi preciso para te dourar. Nem todos os dias há sol na história dos homens. Civilização grega, tu és jovem, mas a tua acidez refrescante promete-nos esse gosto de fruto «cozido ao sol - de que fala o poeta da Odisseia — esse gosto de fruto maduro.

História - Civilização Grega
9/10/2020 3:38:58 PM | Por Gregory J. Feist
Conceito de Erikson de humanidade

Em contraste com Freud, que acreditava que anatomia era destino, Erikson sugeriu que outros fatores poderiam ser res­ponsáveis pelas diferenças entre mulheres e homens. Citando algumas de suas próprias pesquisas, Erikson (1977) sugeriu que, embora meninas e meninos tenham métodos diferen­tes de jogar, essas diferenças são, pelo menos em parte, re­sultado de práticas de socialização distintas. Essa conclusão significa que Erikson concordava com Freud que anatomia é destino? A resposta de Erikson era sim, anatomia é destino, mas ele rapidamente qualificava essa máxima para dizer: "Anatomia, história e personalidade são nosso destino combi­nado" (Erikson, 1968, p. 285). Em outras palavras, a anatomia, isoladamente, não determina o destino, mas ela se combina com eventos passados, incluindo dimensões sociais e várias dimensões da personalidade, como temperamento e inteli­gência, para determinar quem a pessoa se tornará.

Como a teoria de Erikson conceitualiza a humanidade em termos das seis dimensões que apresentamos no Capí­tulo 1? Primeiro, o ciclo da vida é determinado por forças externas ou as pessoas têm alguma escolha para moldar suas personalidades e vidas? Erikson não era tão determinista quanto Freud, mas também não acreditava fortemente em livre-arbítrio. Sua posição era mais intermediária. Ainda que a personalidade seja moldada, em parte, pela cultura e pela história, é possível manter um controle limitado so­bre o próprio destino. As pessoas podem procurar suas pró­prias identidades e não estão completamente restringidas pela cultura e pela história. Os indivíduos, de fato, podem mudar a história e alterar seu ambiente. Os dois sujeitos das psico-histórias mais extensas de Erikson, Martin Luther e Mahatma Gandhi, possibilitaram um profundo efeito na história mundial e em seu ambiente imediato. Do mesmo modo, cada um de nós tem o poder de determinar o próprio ciclo de vida, mesmo que nosso impacto global possa ser em uma escala menor.

Na dimensão pessimismo vesus otimismo, Erikson tendia a ser mais otimista. Mesmo que patologias centrais possam predominar em estágios iniciais do desenvolvimento, os hu­manos não estão inevitavelmente condenados a continuar uma existência patológica em estágios posteriores. Apesar de fraquezas no início da vida tornarem mais difícil adquirir for­ças básicas mais tarde, as pessoas permanecem capazes de mudar em qualquer estágio da vida. Cada conflito psicossocial consiste em uma qualidade sintônica e distônica. Cada crise pode ser resolvida em favor do elemento sintônico, ou harmo­nioso, sejam quais forem as resoluções passadas.

Erikson não tratou especificamente da questão da causalidade versus teleologia, mas sua visão da humanidade sugere que as pessoas são mais influenciadas por forças biológicas e sociais do que pela visão do futuro. As pessoas são produto de um momento histórico particular e de um contexto social específico. Mesmo que possamos estabelecer objetivos e lutar ativamente para atingi-los, não podemos escapar por completo das forças causais poderosas da anatomia, da história e da cultura. Por essa razão, classificamos Erikson como alto em causalidade.

Na quarta dimensão, determinantes conscientes versus inconscientes, a posição de Erikson é mista. Antes da adoles­cência, a personalidade é, em grande parte, moldada pela motivação inconsciente. Os conflitos psicossexuais e psicosociais durante os quatro primeiros estágios do desenvolvi­mento ocorrem antes que as crianças tenham estabelecido sua identidade com firmeza. Raras vezes, estamos claramente conscientes dessas crises e das formas como elas moldam nossas personalidades. Da adolescência em diante, no entanto, as pessoas tendem a ter consciência de suas ações e da maioria das razões subjacentes a elas.

A teoria de Erikson, é claro, é mais social do que bioló­gica, embora não negligencie a anatomia e outros fatores fi­siológicos no desenvolvimento da personalidade. Cada modo psicossexual possui um componente biológico específico. En­tretanto, conforme as pessoas avançam pelos oito estágios, as influências sociais se tornam cada vez mais poderosas. Além disso, o raio das relações sociais se expande da pessoa mater­na para uma identificação global com toda a humanidade.

A sexta dimensão para um conceito de humanidade é singularidade versus semelhanças. Erikson tendia a colocar ênfase nas diferenças individuais, não tanto nas característi­cas universais. Ainda que as pessoas em diferentes culturas avancem ao longo dos oito estágios do desenvolvimento na mesma ordem, uma miríade de diferenças é encontrada na marcha dessa jornada. Cada pessoa resolve as crises psicossociais de maneira única, e cada uma usa as forças básicas de forma peculiar.

Psicologia - Teoria pós-freudiana
9/10/2020 3:31:04 PM | Por Gregory J. Feist
Crítica à Teoria pós-freudiana

Erikson construiu sua teoria em grande parte sobre princí­pios éticos, e não necessariamente sobre dados científicos. Ele chegou à psicologia pela arte e reconheceu que via o mundo mais pelos olhos de um artista do que pelos olhos de um cientista. Certa vez, escreveu que nada tinha a ofere­cer exceto “uma maneira de olhar para as coisas” (Erikson, 1963, p. 403). Seus livros são reconhecidamente subjetivos e pessoais, o que certamente os torna mais atraentes. No entanto, a teoria de Erikson deve ser julgada pelos padrões da ciência, não pela ética ou pela arte.
O primeiro critério de uma teoria útil é a capacidade de gerar pesquisa, e, por esse padrão, classificamos a teoria de Erikson como um pouco acima da média. Por exemplo, somente o tópico da identidade do ego gerou várias cen­tenas de estudos; outros aspectos dos estágios de desen­volvimento de Erikson, como intimidade versus isolamen­to (Gold & Rogers, 1995) e generatividade (Arnett, 2000; Pratt, Norris, Arnold, & Filyer, 1999) e todo o ciclo de vida (Whitbourne, Zuschlag, Elliot, & Waterman, 1992), esti­mularam investigações empíricas ativas. Apesar dessa pesquisa ativa, classificamos a teoria de Erikson como somente na média quanto ao critério de [163] refutação. Muitos achados desse corpo de pesquisa podem ser explicados por outras teorias além da teoria dos estágios de desenvolvimento de Erikson. 

Em sua capacidade de organizar conhecimento, a teoria de Erikson está limitada, principalmente, aos estágios do desenvolvimento. Ela não aborda de modo adequado ques­tões como traços pessoais ou motivação, uma limitação que reduz a capacidade da teoria de dar significado a muito do que é hoje conhecido sobre a personalidade humana. Os oito estágios do desenvolvimento permanecem sendo uma afirmação eloqüente do que deve ser o ciclo da vida, e os achados de pesquisa nessas áreas em geral podem ser en­caixados em um modelo eriksoniano. No entanto, a teoria carece de alcance suficiente para ser classificada como alta em tal critério.

Como um guia para a ação, a teoria de Erikson fornece muitas diretrizes gerais, mas poucas informações específi­cas. Comparada a outras teorias ... ela se classifica próxima ao topo na sugestão de abordagens para lidar com adultos de meia-idade e mais velhos. A visão de Erikson sobre o envelhecimento foi útil para as pessoas no campo da gerontologia, e suas idéias sobre a identida­de do ego são quase sempre citadas em livros de psicologia adolescente. Além disso, seus conceitos de intimidade ver­sus isolamento e generatividade versus estagnação têm muito a oferecer a terapeutas de casais e a outros profissionais preocupados com relações íntimas entre jovens adultos.

Classificamos a teoria de Erikson como alta em coerên­cia interna, principalmente porque os termos usados para rotular as diferentes crises psicossociais, forças básicas e patologias centrais são escolhidos com muito cuidado. O inglês não era a língua materna de Erikson, e seu extenso uso de um dicionário enquanto escrevia aumentou a pre­cisão de sua terminologia. No entanto, conceitos como es­perança, vontade, propósito, amor, cuidado, entre outros, não são definidos de modo operacional. Eles têm pouca utilidade científica, embora se classifiquem como altos em valor literário e emocional. Todavia, o princípio epigenético de Erikson e a eloqüência da descrição dos outros estágios do desenvolvimento marcam sua teoria com coerência in­terna visível.

No critério de simplicidade, ou parcimônia, atribuí­mos à teoria a classificação moderada. A precisão de seus termos é um ponto forte, mas as descrições dos estágios psicossexuais e das crises psicossociais, em especial nas fases posteriores, nem sempre são claramente diferenciadas. Além disso, Erikson usou termos diferentes e até conceitos distintos para preencher os 64 quadros que es­ tão vagos na Figura 8.2. Tal inconsistência subtrai simpli­cidade da teoria. [164]

Psicologia - Teoria pós-freudiana
9/10/2020 3:05:23 PM | Por Gregory J. Feist
Pesquisas relacionadas à Teoria pós-freudiana

Uma das principais contribuições de Erikson foi ampliar o desenvolvimento da personalidade até a idade adulta. Ao expandir a noção de Freud do desenvolvimento até a velhice, Erikson desafiou a ideia de que o desenvolvi­mento psicológico termina com a infância. O legado mais influente de Erikson foi sua teoria do desenvolvimento e, em particular, os estágios desde a adolescência até a velhi­ce. Ele foi um dos primeiros teóricos a enfatizar o período crítico da adolescência e os conflitos associados à busca por uma identidade. Adolescentes e jovens adultos com frequência perguntam: Quem sou eu? Para onde estou indo? E o que quero fazer com o resto da minha vida? A forma como eles respondem a essas perguntas desempe­nha um papel importante nos tipos de relações que de­senvolvem, em com quem se casam e nos caminhos profissionais que seguem.

Em contraste com a maioria dos outros teóricos psicodinâmicos, Erikson estimulou bastante a pesquisa empíri­ca, boa parte sobre a adolescência, o início da idade adulta e idade adulta. Discutimos aqui as pesquisas recentes sobre o desenvolvimento no início e na metade da vida adulta, de forma mais específicas os estágios da identidade, da inti­midade e da generatividade.

A identidade precede a intimidade?

Os pesquisadores Wim Beyers e Inge Seiffge-Krenke (2010) fizeram exatamente a mesma pergunta, como uma forma de testar o princípio epigenético de Erikson. A aquisição, na adolescência, de um senso de identidade seguro forne­ce uma base para o desenvolvimento de relações íntimas sadias na idade adulta emergente? Seu estudo longitudi­nal testou o pressuposto de Erikson em relação a esse or­denamento fixo do desenvolvimento para preencher duas lacunas na literatura de pesquisa: a) apenas estudos trans­versais e de curto prazo foram realizados até o momento sobre esses dois estágios eriksonianos; portanto, ainda não foi possível chegar a uma conclusão de fato referente ao desenvolvimento; e b) vários modelos mais recentes sobre o desenvolvimento adolescente questionaram se a identi­dade realmente precede a intimidade, conforme postula a teoria de Erikson.

Existem indicações de um contexto de desenvolvimen­to bastante alterado em décadas recentes, que coloca em questão a adequação do ordenamento de Erikson em es­tágios na adolescência e na idade adulta. Por exemplo, os adolescentes hoje podem adiar os compromissos adultos e explorar um amplo leque de opções na faculdade e além (Luyckx, Goossens, Soenens, & Beyers, 2006), sugerindo que a solidificação da identidade é estendida. Além do mais, alguns sugeriram que as relações sexuais íntimas se desenvolvem cada vez mais durante a adolescência, talvez precedendo e até mesmo interrompendo o desenvolvimen­to da identidade (considere-se a taxa de gravidez na adolescência) (p. ex., Brown, 1999).

Beyers e Seiffge-Krenke (2010) examinaram dados de 52 mulheres e 41 homens em um estudo longitudinal de 10 anos na Alemanha para avaliar, primeiro, se o ordena­mento do desenvolvimento de Erikson da identidade e, segundo, a intimidade ainda se mantêm verdadeiros. Seus participantes foram entrevistados quando tinham 15 anos e novamente aos 25 anos. Eles encontraram evidências de uma marcante progressão do desenvolvimento da identi­dade para a intimidade, com um crescente desenvolvimen­to do ego dos 15 aos 25 anos, mais conformado aos 15 anos e mais autoconsciente aos 25 anos. Além disso, não houve indicação de adiamento da identidade, conforme su­gerido por outros, nos jovens adultos. Por fim, a maioria da amostra tinha parcerias íntimas aos 25 anos e seus níveis de intimidade podiam ser previstos a partir do desenvol­vimento da identidade do ego, aos 15 anos. Portanto, os pesquisadores concluíram que, mesmo no novo milênio, o desenvolvimento do ego na adolescência é um forte preditor de intimidade no jovem adulto. [162]

Psicologia - Teoria pós-freudiana
9/6/2020 2:48:15 PM | Por Gregory J. Feist
O conceito de humanidade para Erich Fromm

Mais do que qualquer outro teórico da personalidade, Erich Fromm enfatizou as diferenças entre os humanos e os ou­tros animais. A natureza essencial dos humanos reside na experiência única de “estarem na natureza e sujeitos a todas as suas leis e, ao mesmo tempo, transcenderem a natureza” (Fromm, 1992, p. 24). Ele acreditava que apenas os humanos têm consciência de si e de sua existência. De forma mais específica, a visão de Fromm da huma­nidade é resumida em sua definição da espécie: “A espécie humana pode ser definida como o primata que surgiu naque­le ponto da evolução em que o determinismo instintivo ha­via atingido um mínimo e o desenvolvimento do cérebro um máximo" (Fromm, 1976, p. 137). Os seres humanos, então, são aberrações da natureza, a única espécie a se desenvolver nessa combinação de poderes instintivos mínimos e desenvolvimento cerebral máximo.

“Não tendo a capacidade de agir pelo comando dos instintos, enquanto possui a capacidade de autoconsciência, pensamento e imaginação... a espécie humana precisava de uma estrutura de orientação e um objeto de devoção para sobreviver” (p. 137).

No entanto, a sobrevivência humana pagou o preço da an­siedade básica, da solidão e da impotência. Em todas as épocas e culturas, os indivíduos se defrontam com o mesmo proble­ma fundamental: como fugir dos sentimentos de isolamento e encontrara unidade com a natureza e com as outras pessoas.

De forma geral, Fromm era pessimista e otimista. Por um lado, ele acreditava que a maioria das pessoas não alcança uma reunião com a natureza ou com os outros seres huma­nos e que poucos indivíduos atingem a liberdade positiva. Ele também tinha uma atitude um tanto negativa em [143] relação ao capitalismo moderno, que ele insistia ser responsável pelo sentimento de isolamento e solidão de muitas pessoas, enquanto se apegam desesperadamente à ilusão de indepen­dência e liberdade. Por outro lado, Fromm era esperançoso o suficiente para acreditar que algumas pessoas alcançarão a reunião e, portanto, realizarão seu potencial humano. Ele também acreditava que os humanos podem alcançar um sen­timento de identidade, liberdade positiva e individualidade crescente dentro dos limites de uma sociedade capitalista. Em Análise do homem (1947), ele escreveu: “Estou cada vez mais impressionado pela... força dos esforços por felicidade e saúde que fazem parte do equipamento natural das [pessoas]” (p. x).

Na dimensão de Livre-arbftrio versus determinismo, Fromm assumiu uma posição intermediária, insistindo que essa questão não pode ser aplicada a toda a espécie. Em vez disso, ele acreditava que os indivíduos possuem graus de incli­nações para a ação livremente escolhida, muito embora raras vezes estejam conscientes de todas as alternativas possíveis. No entanto, sua capacidade de raciocinar possibilita que as pessoas tomem parte ativa no próprio destino.

Na dimensão da causalidade versus teleologia, Fromm tendia a favorecer a teleologia. Ele acreditava que as pessoas lutam constantemente por uma estrutura de orientação, um mapa, por meio do qual planejam suas vidas para o futuro. [144]

Psicologia - Psicanálise humanista
9/6/2020 2:41:28 PM | Por Gregory J. Feist
Crítica à Psicanálise humanista

Erich Fromm foi talvez o ensaísta mais brilhante de todos os teóricos da personalidade. Ele escreveu belos ensaios sobre política internacional (Fromm, 1961); sobre a rele­vância dos profetas bíblicos para as pessoas hoje (Fromm, 1986); sobre os problemas psicológicos do envelhecimento (Fromm, 1981); sobre Marx, Hitler, Freud e Cristo; e so­bre uma miríade de outros temas. Seja qual for o tema, no cerne de toda a obra de Fromm pode ser encontrada uma revelação da essência da natureza humana. Assim como outros teóricos psicodinâmicos, Fromm tendeu a assumir uma abordagem global para a cons­trução da teoria, engendrando um modelo grandioso e altamente abstrato que era mais filosófico do que cien­tífico. Sua visão da natureza humana toca um ponto sensível, conforme evidenciado pela popularidade de seus livros.

Infelizmente, seus ensaios e argumentos não são tão conhecidos hoje como eram 50 anos atrás. Paul Roazen (1996) afirmou que, durante a metade da década de 1950, uma pessoa não podia ser considerada educa­da sem ter lido o livro de Fromm escrito com tanta elo­qüência, Medo à liberdade. Hoje, no entanto, os livros de Fromm raramente são uma leitura requisitada nos campi universitários.

Eloqüência, é claro, não é igual a ciência. A partir de uma perspectiva científica, precisamos perguntar como as idéias de Fromm se classificam dentro dos seis critérios de uma teoria útil. Primeiro, os termos imprecisos e vagos de Fromm tornaram suas idéias quase estéreis como um
gerador de pesquisa empírica. Na verdade, nossa busca dos últimos 45 anos de literatura de psicologia resultou em menos de uma dúzia de estudos empíricos que testaram diretamente os pressupostos teóricos de Fromm. Essa es­cassez de investigações científicas o coloca entre os menos validados de forma empírica de todos os teóricos aborda­dos neste livro.

Segundo, a teoria de Fromm é muito filosófica para ser refutável ou verificável. Quase todos os achados empíricos gerados pela teoria de Fromm (se existissem) poderiam ser explicados por teorias alternativas.

Terceiro, a amplitude da teoria de Fromm possibilita organizar e explicar muito do que é sabido sobre a persona­lidade humana. Sua perspectiva social, política e histórica proporciona tanto amplitude quanto profundidade para a compreensão da condição humana; porém, a falta de precisão de sua teoria dificulta a previsão e torna a refutação impossível.

Quarto, como um guia para a ação, o valor principal da obra de Fromm é estimular os leitores a pensarem de modo produtivo. Infelizmente, no entanto, nem o pesquisador nem o terapeuta recebem muita informação prática dos ensaios de Fromm.

Quinto, as visões de Fromm são internamente coeren­tes, na medida em que um único tema permeia toda a sua obra. No entanto, a teoria carece de uma taxonomia estru­turada, um conjunto de termos definidos de forma ope­racional e uma limitação clara do escopo. Portanto, ela se classifica como baixa em coerência interna.

Por fim, como Fromm relutou em abandonar concei­tos mais iniciais ou relacioná-los com suas idéias posterio­res, sua teoria carece de simplicidade e unidade. Por essas razões, classificamos a teoria de Fromm como baixa no cri­tério de parcimônia. [143]

Psicologia - Psicanálise humanista
9/6/2020 2:16:53 PM | Por Gregory J. Feist
Pesquisas relacionadas à Psicanálise humanista

Apesar de a obra de Erich Fromm ser estimulante e escla­recedora, sua idéias produziram pouca pesquisa empíri­ca no campo da psicologia da personalidade. Uma razão para isso pode ser a abordagem ampla que Fromm adota. Em muitos aspectos, suas idéias são mais sociológicas do que psicológicas, uma vez que sua teoria trata da alie­nação da cultura e da natureza em geral, dois temas que costumam ser abordados mais em aulas de sociologia do que de psicologia. Isso não significa, no entanto, que tais temas amplos não sejam importantes para a psicologia da personalidade. Muito ao contrário, ainda que amplo e sociológico, o estranhamento da própria cultura é um tema que pode ser examinado no nível individual em es­tudos psicológicos e pode ter implicações para o bem-es­tar. Além disso, as idéias de Fromm sobre autoritarismo levaram a investigações empíricas recentes, em particular à associação entre medo e crenças autoritárias.

Estranhamento da cultura e bem-estar

É importante lembrar que o tema central da teoria da per­ sonalidade de Erich Fromm envolve estranhamento e alie­nação: os humanos foram apartados do ambiente natural ao qual foram projetados para habitar e se distanciaram uns dos outros. Além do mais, de acordo com Fromm, a riqueza material criada pelo capitalismo forneceu tanta li­berdade que muito honestamente não sabemos o que fazer com nós mesmos. Ironicamente, ansiedade e isolamento resultam de muita liberdade. Mark Bernard e colaborado­res (2006) procuraram testar esses componentes centrais da teoria de Fromm pelo uso de medidas de autorrelato em uma amostra de universitários na Grã-Bretanha. De forma específica, os pesquisadores queriam testar se as discrepâncias entre as crenças de uma pessoa e a maneira como ela percebia as crenças de sua sociedade levavam ou não a sentimentos de estranhamento.

Setenta e dois participantes responderam um ques­tionário, que consistia de diversos valores que tinham sido identificados por pesquisas prévias como presentes em muitas culturas diferentes (como a importância da liberdade, os bens materiais, a espiritualidade, entre ou­tros). Em primeiro lugar, os participantes classificaram cada valor para o quanto ele era um princípio orientador em suas vidas e, então, classificaram os mesmos valores para o quanto cada um era um princípio orientador para sua sociedade. Administrar o questionário dessa manei­ra permitiu que os pesquisadores computassem até que ponto cada participante mantinha valores que eram dife­rentes de sua sociedade em geral. Em segundo, o estra­nhamento foi avaliado por meio do preenchimento de um questionário com itens que indagavam o quanto os participantes se sentiam diferentes de sua sociedade e até que ponto eles sentiam que não eram “normais” em sua cultura.

Os achados do estudo foram conforme o previsto. Quanto mais uma pessoa relatava que seus valores eram discrepantes da sociedade em geral, mais provável era que ela tivesse um forte sentimento de estranhamento (Bernard, Gebauer, & Maio, 2006). Isso não é de causar surpresa. Basicamente, se seus valores são diferentes dos de sua sociedade ou cultura, você se sente diferente e não normal. Isto também é precisamente o que prevê a teoria de Fromm. Quanto mais distante as pessoas se sentem daqueles que estão à sua volta em sua comunidade, mais provável é se sentirem isoladas.

Para testar melhor as idéias de Fromm, Bernard e co­laboradores (2006) examinaram se o fato de ter um sen­timento de estranhamento da própria cultura estava rela­cionado a sentimentos mais pronunciados de ansiedade [141] e depressão. Os mesmos participantes que preencheram as medidas de autorrelato das discrepâncias dos valores e do estranhamento também completaram uma medida de ansiedade e depressão. Como os pesquisadores previram, e como discute a teoria de Fromm, quanto mais estranha­mento da sociedade as pessoas sentiam em geral, mais ansiosas e deprimidas elas eram. Apesar de o estranha­mento da sociedade em geral ser prejudicial ao bem-estar, havia um tipo específico de estranhamento que era ruim para as pessoas. Aqueles que apresentavam um sentimen­to de estranhamento de seus amigos relatavam sentimen­tos pronunciados de ansiedade e depressão. Esse achado sugere que sentir estranhamento da sociedade em geral pode tornar as pessoas mais suscetíveis a sentimentos de depressão, mas tais sentimentos podem ser diminuídos se o indivíduo puder encontrar um grupo de pessoas que compartilham suas crenças, mesmo que elas não sejam as crenças da sociedade em geral. É particularmente preju­dicial, no entanto, se as pessoas sentem estranhamento não só da sociedade em geral, como também daqueles que estão mais próximos delas.

Tomados em conjunto, esses achados apoiam clara­mente as idéias de Erich Fromm. A sociedade moderna nos proporciona inumeráveis conveniências e benefícios. Po­rém, essas conveniências têm um preço. Liberdade pessoal e um sentimento de individualidade são importantes, mas, quando essas forças levam as pessoas a estranharem sua comunidade, isso pode ser prejudicial a seu bem-estar.

Autoritarismo e medo

Fundamental para a teoria de Fromm (1941) é que a li­berdade é, ironicamente, assustadora. Os indivíduos pro­curam fugir da liberdade por meio de mecanismos como o autoritarismo, a destruição ou a conformidade para ate­nuar o medo do isolamento. Logo depois da publicação de Fromm Medo à liberdade, os estudiosos interessaram-se particularmente pelo mecanismo de fuga autoritário. A ideia central por trás de Medo à liberdade é que as pes­soas são atraídas por respostas absolutas e pela certeza, mesmo que associadas a ditadores autoritários, quando elas se sentem com medo e inseguras. Depois de Fromm, Adorno e colaboradores publicaram um livro intitulado A personalidade autoritária, em 1950, e esse trabalho es­timulou uma grande quantidade de pesquisas, que con­tinuam até hoje, sobre a questão do autoritarismo como uma orientação da personalidade. Entretanto, muito desse trabalho se desviou da conceitualização original de Fromm e focou os resultados do autoritarismo, incluindo preconceito e hostilidade.

Recentemente, no entanto, J. Corey Butler (no prelo, 2009) procurou reabrir a questão da relação entre medo e autoritarismo. Adorno (1950) postulou que o autorita­rismo é a conseqüência de parentalidade excessivamente severa durante a infância, levando a um sentimento generalizado de medo em relação ao mundo interpessoal. O tra­balho de Butler, entretanto, é um esforço para confirmar a ideia de Fromm de que os sentimentos de impotência ge­rados pelo isolamento da sociedade “livre" moderna levam à submissão autoritária. Estudos sociológicos mostram, na verdade, que os grupos se voltam para o autoritarismo durante tempos de tensão econômica ou social (p. ex., Ri- ckert, 1998), preferindo ordem e estabilidade. Coerente com a tese original de Fromm, Butler previu que, como os autoritários abandonam a autonomia e a liberdade pessoal em prol das normas culturais estabelecidas, aqueles com tendências de personalidade autoritária devem ter medo não de todas as situações interpessoais, mas particular­mente do desvio e da desordem social. Ou seja, aqueles que desafiam as normas da ordem devem ser especialmente problemáticos para os autoritários.

Butler conduziu vários estudos para testar sua previ­são. Em cada um, ele deu a universitários a Escala de Auto­ritarismo de Extrema Direita (RWA, Right Wing Authori­tarianism Scale; Altemeyer, 1981), um instrumento de 22 itens com afirmações como: “Nosso país precisa desesperadamente de um líder forte que fará o que tem que ser feito para destruir as novas formas radicais e a licenciosidade que está nos arruinando”, que os participantes classificam em termos de grau de sua concordância. No primeiro con­junto de estudos (2009), os universitários também classifi­caram o quanto temiam uma variedade de itens, situações ou circunstâncias. No segundo estudo (no prelo), foi feita aos universitários uma apresentação de slides com vários itens, incluindo animais, situações perigosas, pessoas di­versas ou cenas de desordem social. Butler encontrou apoio para sua previsão em todos os casos. As diferenças sociais e a desordem social eram desproporcionalmente temidas em relação a outros medos por aqueles com alto escore em autoritarismo.

Parece, então, conforme Erich Fromm teorizou, que as ameaças políticas e sociais, e não as ameaças pessoais, estão mais fortemente relacionadas ao autoritarismo, isso implica que a ideologia associada ao autoritarismo é um tipo de cognição social motivada. Butler (2009) levanta a hipótese de que certos estímulos culturais conduzem ao medo, que, por sua vez, cria a motivação para um sistema de crenças autoritário. O desvio e a desordem social, en­tão, tornam-se particularmente ameaçadores para essas pessoas, que agora desenvolveram um estilo de vida mais convencional e restrito. Uma vez que o assim denominado comportamento desviante sugere que existem outras ma­neiras de viver, os autoritários se sentirão especialmente ameaçados por ele. E, de fato, como cultura, devemos ser vigilantes em tempos de intranqüilidade social ou econô­mica, como Fromm alertou, contra a fuga que o autorita­rismo proporciona. [142]

Psicologia - Psicanálise humanista
9/5/2020 9:47:27 AM | Por Junito de Souza Brandão
Seres Primordiais e o 1º Reinado, Glória de Urano

No princípio era o Caos (Vazio primordial, vale profundo, espaço incomensurável), matéria eterna, informe, rudimentar, mas dotada de energia prolífica; depois veio Géia (Terra), Tártaro (habitação profunda) e Eros (o Amor), a força do desejo. O Caos deu origem ao Érebo (Escuridão profunda) e a Nix (noite). Nix Gerou Éter e Hemera (Dia). De Géia nasceram Úrano (Céu), Montes e Pontos (Mar). Na primeira fase há nítido predomínio do mundo Ctônio, já que a cosmogonia Hesiódica se desenvolve ciclicamente de baixo para cima, das trevas para a luz.

O Primeiro reinado conhecido do universo foi o de Úrano (Céu). À fase da energia prolífica segue-se a primeira geração divina, em que Úrano (Céu) se une a Géia (Terra), de onde descendem numerosa descendência. Nasceram primeiro os Titãs e depois as Titânidas, sendo Crono o caçula.

 

Titãs: Oceano, Ceos, Crio, Hiperión, Jápeto e Crono.

Titânidas: Téia, Réia, Mnemósina, Febe e Tétis.

 

Após os Titãs e Titânidas, Urano e Geia geraram os Ciclopes e os Hecatonquiros (Monstros de cem braços e de cinqüenta cabeças).

Urano é a personalização do Céu, enquanto elemento fecundador de Geia. Urano Céu era concebido como um hemisfério, a abóbada celeste, que cobria a terra, concebida como esférica, mas achatada: entre ambos se interpunham o Éter e o Ar e, nas profundezas de Geia, localizava-se o Tártaro, bem a baixo do próprio Hades. Do ponto de vista simbólico, o deus do céu traduz uma proliferação criadora desmedida e indiferenciada, cuja abundância acaba por destruir o que foi gerado. Urano caracteriza assim a fase inicial de qualquer ação, com alternância de exaltação e depressão, de impulso e queda, de vida e morte dos projetos.

Por solicitação de Geia, Crono mutila seu pai Urano, contando-lhe os testículos. Do Sangue de Urano que caiu sobre Geia nasceram, "no decurso dos anos", as Erínias, os Gigantes e as Ninfas dos Freixos, chamadas Mélias ou Melíades; da parte que caiu no mar e formou uma espumarada nasceu Afrodite.

Mitologia - Mitologia Grega
Todos os textos
A colonização grega

A paz relativa e a estabilidade que reinam na Grécia, no século IX a.e.c., se traduzem num crescimento demográfico importante. Rapidamente as terras vêm a faltar e as cidades gregas tomam a iniciativa de enviar grupos de emigrantes para novos territórios. Ao lado das colônias de povoamento, multiplicam entrepostos por todo o Mediterrâneo para dar escoamento a seu comércio. Outras colônias são instaladas em regiões produtoras de matérias-primas. Diferentes ritos acompanham a fundação de uma colônia: após a consulta do oráculo de Delfos para saber se os deuses aprovam a escolha do local, o oikistès(o fundador) manda traçar o projeto da futura cidade pelos geômetras, depois reparte entre os colonos as terras divididas em lotes. A apoikia(colônia) é uma cidade-Estado independente, mas guarda relações com sua metrópole. Em particular, adota como deuses protetores os da cidade-mãe.

A primeira colônia grega fundada pelos jónicos é Poseideion (al-Mina) na Síria. Depois, estabelecimentos se erguem nas costas da Trácia e da Macedônia e nas ilhas que margeiam a Ásia Menor. Outros colonos se dirigem para o oeste, para a Sicília e a Itália meridonal, que tomarão o nome de Magna Grécia. Os fócios avançam ainda mais para o oeste e fundam Massalia (Marselha) e Alalia (Aléria). No século VII, os dórios e os jónicos colonizam as margens do Mar Negro e o faraó Amásis autoriza os jónicos a fundar Náucratis no delta do Nilo. Durante quase três séculos, o fenômeno da colonização permite à língua e à civilização gregas se difundir por toda a área do Mediterrâneo. [116]

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7/20/2020 8:16:52 PM | Psicanálise, n. 25
Chantagem emocional

Você tem medo de ser reprovado ou tem medo do outro? Você sente que deve a alguém uma obrigação, mesmo quando se trata de algo que você não deseja fazer ou que é ruim para você? Você se sente culpado quando não cede às solicitações do outro? Situações deste tipo fazem você se sentir que não é uma pessoa boa? De acordo com a autora Susan Forward, se você respondeu sim a qualquer destas pergun­ tas, existe uma grande chance de que você possa “sucumbir” à chantagem emocional do outro.

Psicologia - Psicanálise
7/10/2020 7:16:58 PM | MenteCérebro, n.141
Mentira, um componente da inteligência social

Psicólogos, antropólogos e neurobiólogos confirmam: mentir não é apenas um processo cognitivo complexo, mas também um componente decisivo de nossa competência social.

Psicologia - Neuropsicologia
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São as circunstâncias que regem os homens e não os homens que regem as circunstâncias...

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10 Jan , 2020, 11:23h
Por que alguns gregos voltaram a cultuar os deuses da mitologia
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17 Dec , 2019, 17:41h
Navio romano naufragado é encontrado com 6 mil peças de vasos
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7 Nov , 2017, 13:45h
Cientistas descobrem fósseis de um dos primeiros ancestrais do homem e outros mamíferos
Ciências naturais - Paleontologia
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, h
Ausência de dinossauros nos trópicos foi causada por tempo quente e seco
Ciências naturais - Paleontologia
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Os primeiros jogos olímpicos

Em 776 a.e.c., em Élida (noroeste do Peloponeso), o rei Ifitos organiza competições desportivas no Altis, bosque sagrado de Zeus, futuro local de Olímpia. Esses jogos são depois repetidos a cada quatro anos. Uma lenda conta sua origem. Enômao, rei de Pisa (cidade de Élida), decide dar a mão de sua filha, Hipodâmia, àquele que conseguir vencê-lo numa corrida de carros. Graças a cavalos mágicos, Enômao sai sempre vitorioso e mata em seguida seus concorrentes. O décimo terceiro candidato, Pélops, filho de Tântalo, desperta o amor de Hipodâmia. Ela sabota o carro do pai que se decompõe e provoca a morte de Enômao. Depois disso, é Pélops quem organiza, no Altis, as competições esportivas.

Em 776, Ifitos substitui as corridas de carros pela corrida a pé e os concorrentes devem fazer uma volta completa do estádio (192,27 metros). O primeiro vencedor olímpico é o heleno Coroebos. Por ocasião desses primeiros jogos, os reis de Élis, Esparta e Pisa celebram um pacto de paz, tornando-se depois a trégua pan-helênica observada por todas as cidades gregas durante o período dos jogos. Novas competições esportivas são acrescentadas: o diaulos (2 vezes a volta no estádio), o dolichos (24 vezes a volta no estádio), o pentathlon (lançadores de disco e de lança, salto em distância, corrida do estádio e luta), concursos hípicos. Os esportistas vêm de toda a Grécia e das cidades gregas da Itália e da Sicília. Em 456 a.e.c.. é construído o templo de Zeus Olímpico que contém a estátua criselefantina do deus, esculpida por Fídias e que mede 12,40 metros. Os jogos olímpicos são celebrados até 393 e.c., data em que são supressos pelo imperador Teodósio I.

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Mitos e lendas
11/22/2019 6:04:27 PM | Danna
A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

Mitologia Celta
11/22/2019 5:49:58 PM | Culhwch
As tarefas impossíveis de Culhwch

Um dos contos mais populares de Mabinogion narra a estória de Culhwch e Olwen. Culhwch é de sangue real, pois é primo de Arthur. O seu nascimento foi invulgar. Antes de ele ter nascido, a mãe, Golenddyd, ganhou uma profunda antipatia por porcos, pois quando passava por uma vara deles, assustou-se e deu à luz um filho que abandonou. Um guardador de porcos pegou nele e levou-o para os pais criarem. Golenddyd morreu e o marido, Cilydd, voltou a casar com uma mulher que tinha uma filha que ela queria casar com Culhwch. Mas ele não quis, afirmando ser ainda muito jovem. A rainha então rogou uma praga a Culhwch, segundo a qual ele só viria a casar com Olwen, filha de Ysbaddeden, o Chefe dos Gigantes. Bastou a Culhwch ouvir o nome dela para se apaixonar profundamente.

Culhwch decidiu então pedir ajuda a Arthur para encontrar esta donzela e partiu num grande esplendor, completamente armado com machados de guerra, espada dourada e uma pequena machadinha que «podia fazer o ar sangrar.» Tinha também um chifre de marfim, dois galgos e montava um cavalo fantástico. Quando Culhwch chegou à corte de Arthur o porteiro tentou barrar-lhe a entrada, mas ele ameaçou dar três gritos de tal intensidade que as mulheres ficariam estéreis e as que estivessem grávidas abortariam.

É claro que ele passou. Encontrou-se com Arthur que se deixou convencer a ajudá-lo a procurar Olwen. As buscas decorreram durante um ano, sem sucesso. Por fim, juntaram um grupo dos melhores cavaleiros, cada um deles abençoado com peculiaridades extraordinárias. Um deles, Kay, tinha uma espada que provocava feridas que nenhum médico podia tratar; outro, Bedwyr, o mais veloz de todos, e Gwalchmai, que nunca voltava de uma missão sem a cumprir.

Após mais dia buscas, Olwen foi finalmente encontrada.

Ela correspondeu ao amor de Culhwch, mas explicou que o pai Ysbaddeden estava destinado a morrer quando se casasse. Olwen pediu a Culhwch que aceitasse qualquer condição que o pai lhe impusesse. Culhwch aproximou-se do Chefe dos Gigantes que lhe ordenou uma longa série de «tarefas impossíveis.» A mais intimidante delas consistia em recuperar uma tesoura, uma navalha da barba e um pente que estava entre as orelhas do grande e destruidor javali Twrch Trwyth. Apesar de tudo, Culhwch aceitou de boa vontade toda as tarefas. Ele e Arthur conseguiram atrair a ajuda de Mabon, o caçador que tinha estado preso num castelo após ter sido roubado. Na ocasião, ele tinha sido libertado Era conhecido como «o jovem» se bem que fosse o mais velho de todos os seres. Mabon Culhwch e os cavaleiros foram ajudados por animais mágicos: a Águia de Gwemabwy, o Melro de Kilgory, o Veado de Rhedynvre, Salmão de Llyn Law e outros bichos encantados. Um dos homens de Arthur, Gwrhyr, tim a capacidade de falar com cada um deles na sua própria linguagem. Após uma longa perseguição através do sul do País de Gales, da Cornualha e da Irlanda, durante a qual o diabólico javali devastou uma grande parte da terra, foi enfim possível, com a ajuda de Mabo dominá-lo e conduzi-lo para o mar. A navalha da barba, a tesoura e o pente foram entregue: e Culhwch pôde finalmente casar com Olwe.

Mitologia Celta
11/19/2019 7:57:26 PM | Math Ap Mathonwy
Math Ap Mathonwy e os dois sobrinhos

A história complicada de Math Ap Mathonwy, Lorde de Gwynedd, no Norte, constitui o quarto livro de Mabinogion. Tal como sucede em muitos destes contos, nela existe decepção e magia, e oscila com facilidade para trás e para a frente entre este e o Outro Mundo. É uma história de magia na qual o mal é punido, mas apenas na medida certa. Quando Math, um mago, não estava fora a vigiar as suas terras ou em alguma guerra, ele tinha de pousar os pés no regaço de uma donzela. Ele tinha dois sobrinhos, filhos da deusa Don, Gilfaethwy e Gwydion, que desejavam a virgem onde o tio pousava os pés e cujo nome era Goewin. Os irmãos, que tinham sido treinados na arte da magia pelo próprio Math, planejaram uma forma de o distraírem, começando uma guerra com Pryderi, Lorde de Dyfed, no Sul. Gwydion intrujou Pryderi com os seus porcos brancos mágicos e, tal como planejara, rebentou a guerra entre as cidades de Gwynedd e Dyfed.

Enquanto Math estava na guerra os irmãos por magia, violaram Goerin e depois regressaram ao campo de batalha. Em seguida Gwydion matou Pryderi, através das suas magias. Quando Math regressou, a sua ira ao descobrir o que tinha sucedido a Goewin levou-o a punir os dois irmãos, transformando-os durante três anos consecutivos em pares de animais: um veado e uma corça; um javali e uma porca; um lobo e uma loba, forçando-os a seguir as respectivas naturezas. Os irmãos alternavam o gênero masculino e feminino e em cada ano produziam um descendente. No fim deste período, Math perdoou os sobrinhos e voltou a dar-lhes a forma humana assim como aos descendentes, que, no mínimo, mantiveram os nomes de animais.

 

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