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TEXTOS
2/25/2020 2:30:59 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Behaviorismo - Período Pós-fundação

Algum dia visitou o Zoológico do Ql em Hot Springs, Arkansas? Não? É uma pena, pois não existe mais. Mas, por 35 anos, milhares de pessoas visitaram e observaram animais desempenhando uma variedade surpreendente de truques. Pelo menos pareciam ser truques, mas, na realidade, cada animal havia sido cuidadosamente treinado. Nada havia sido deixado ao acaso no Ql Animal. Cada animal que via - fosse uma pomba ou uma galinha ou um guaxinim - havia se tornado outro Hans, o Esperto.

Pense na Priscilla, o Porco Metódico. Se algum dia viu porcos em uma fazenda, pode achar que não são capazes de fazer qualquer coisa suficientemente excitante para você olhar. Entretanto, Priscilla era fascinante. Ela tinha uma rotina matinal.

Primeiro ligava o rádio, depois comia sentada à mesa, pegava toda a roupa suja e a guardava na cesta, e limpa­va seu quarto com um aspirador de pó. E quando estava pronta para enfrentar o público, ela respondia perguntas feitas pela plateia, ativando sinais que acendiam indicando "sim" ou "não".

Outro residente do Zoológico do Ql era a Ave Inteli­gente, uma galinha que participava do jogo da velha com pessoas e, invariavelmente, empatava ou ganhava. Jamais perdia nem mesmo quando jogava com o grande psicólogo B. F. Skinner, cuja reação ao perder para a galinha nunca foi registrada. Em uma época, havia centenas de galinhas como a Ave Inteligente, apresentadas em exposições e cas­sinos espalhados pelos Estados Unidos, e nenhuma jamais perdeu o jogo para um oponente humano.

Além da Ave Inteligente, uma “galinha tocava algumas notas melodiosas em um piano pequeno, outra dançava 'sapateado' fantasiada e com sapatos, enquanto uma terceira 'punha ovos de madeira' em um ninho; os ovos rolavam por uma calha até uma cesta. A plateia podia pedir um determinado número de ovos desejado, até oito, e a galinha os punha sem parar" (Breland e Breland, 1951, p. 202).

Tinha galinhas que andavam no trapézio e outras treinadas para jogar beisebol. Coelhos dirigiam caminhões de bombeiro tocando a sirene, patos tocavam piano e bate­ria, papagaios andavam de bicicleta, e guaxinins jogavam basquete. Posteriormente foram acrescentados shows de golfinhos e baleias.

Esse zoológico foi iniciado em 1955, por Keller e Ma­rian Breland, antigas alunas do curso de pós-graduação em psicologia, que abandonaram a universidade para ganhar a vida aplicando técnicas de condicionamento ao comportamento animal. Em 1943, elas haviam formado a Empresa de Comportamento Animal para treinar animais a se apresentarem em feiras estaduais e para servirem de atrações turísticas. Quando abriram o Zoológico do QI seu trabalho já era bastante conhecido, graças a artigos no Wall Street Journal, Time, Life e Reader's Digest. No auge de seu sucesso, as irmãs Breland administravam cerca de 140 shows com animais treinados em lugares turísticos importantes e dez vezes mais esse número em shows pelo país. Também haviam treinado centenas de animais para papéis em filmes, programas de televisão e comerciais. No total treinaram mais de 6 mil animais de cerca de 150 espécies. E tudo isso utilizando técnicas básicas de condicionamento que haviam aprendido com B. F. Skinner, o behaviorista mais importante do século XX.

Os Três Estágios do Behaviorismo

A revolução iniciada por John B. Watson não transformou a pscologia de um dia para o outro. Levou mais tempo do que ele imaginava. Todavia, por volta de 1924, um pouco mais uma década após o lançamento formal do behaviorismo, até mesmo o seu maior opositor, Titchener, admitia que o movimento impregnou a psicologia estadunidense. Mais o menos em 1930, Watson já possuía argumentos suficiente para se declarar completamente vitorioso.

O behaviorismo de Watson constituiu o primeiro estágio da evolução da escola de pen­samento comportamental. O segundo estágio, o neobehaviorismo, compreende o período de 1930 a mais ou menos 1960, e engloba os trabalhos de Tolman, Hull e Skinner. Esses neobehavioristas compartilhavam diversos pontos em comum:

  • O estudo da aprendizagem constitui o tópico central da psicologia;
  • Em sua maioria, os comportamentos, independentemente da sua complexidade, podem ser entendidos pelas leis do condicionamento;
  • A psicologia deve adotar o princípio do operacionismo.

O terceiro estágio da evolução behaviorista, o neo-neobehaviorismo ou o sociobehaviorismo, data de cerca de 1960 a 1990. Essa etapa inclui o trabalho de Bandura e Rotter e destaca-se pelo retorno do estudo dos processos cognitivos, mas mantendo o enfoque na observação do comportamento manifesto.

Operacionismo

O operacionismo, principal característica do neobehaviorismo, tinha por objetivo propor­cionar uma linguagem e uma terminologia mais objetivas e precisas à ciência, livrando-a dos "pseudoproblemas", ou seja, dos problemas não-observáveis fisicamente ou não-demonstráveis. O operacionismo sustenta que o valor de qualquer descoberta científica ou de qualquer constructo teórico depende da validade das operações empregadas para determiná-los.

A visão operacionista foi promovida por Percy W. Bridgman (1882-1961), ganhador do Prêmio Nobel de física e psicólogo da Harvard University. O seu livro, The logic of modern physics (1927), chamou a atenção de muitos psicólogos (Feest, 2005). Bridgman insistia na definição exata dos conceitos da física e no descarte de todos os conceitos que não possuíssem referentes físicos.

Utilizemos como exemplo o conceito de comprimento. O que queremos dizer quando nos referimos ao comprimento de um objeto? Evidentemente, entenderemos o significado de comprimento se soubermos especificar o comprimento de todo e qualquer objeto e, para o físico, isso é o suficiente. A determinação do comprimento de um objeto requer algumas operações físicas. O conceito de comprimento, assim, é definido quando se determinam as operações de mensuração do comprimento, ou seja, o conceito de com­primento envolve tão-somente e apenas um conjunto de operações; o conceito é sinônimo do conjunto correspondente de operações. (Bridgman, 1927, p. 5)

Desse modo, um conceito físico equivale ao conjunto de operações ou de procedimen­tos que o determinam. Muitos psicólogos acreditavam que esse conceito seria muito útil nos seus trabalhos e estavam ansiosos para utilizá-lo.

A insistência de Bridgman em descartar os pseudoproblemas, ou seja, as questões que desafiam a resposta resultante de qualquer teste objetivo conhecido, era muito bem-vista pelos psicólogos behavioristas. As proposições que não podem ser submetidas a um teste experimental, como a existência e a natureza da alma, não têm nenhum valor científi­co. O que é alma? Como observá-la no laboratório? É possível medi-la e manipulá-la sob condições controladas para determinar seus efeitos no comportamento? Se a resposta for negativa, o conceito não é dotado de nenhuma utilidade, significado ou importância para a ciência.

Seguindo esse raciocínio, o conceito de experiência consciente individual ou privada consiste em um pseudoproblema para a ciência da psicologia. Não é possível determinar nem investigar a existência ou as características da consciência por meio de métodos objetivos. Assim, de acordo com a visão operacionista, a consciência não tem lugar na psicologia científica.

Os críticos alegavam que o operacionismo não passava de uma afirmação um pouco mais formal dos princípios já aplicados pelos psicólogos para definir as ideias e os conceitos em relação ao seus referentes físicos. No livro de Bridgman, há muito pouco sobre o operacionismo que não se relacione com os trabalhos dos empiristas britânicos. A tendência do longo prazo da psicologia estadunidense seguia em direção à objetividade da metodologia e do objeto de estudo, portanto pode-se afirmar que a visão operacionista em relação à pesquisa e à teoria já fora aceita por muitos psicólogos.

Entretanto, desde a época de Wilhelm Wundt, na Alemanha, os físicos vinham sendo, para a nova psicologia, exemplos de perfeição da respeitabilidade científica. Quando os físicos anunciaram a aceitação do operacionismo como uma doutrina formal, muitos psicó­logos sentiram-se obrigados a seguir esse modelo de papel. No fim, os psicólogos acabaram empregando mais amplamente o operacionismo do que os físicos. Consequentemente, a geração dos neobehavioristas atuantes entre as décadas de 1920 e 1930 incorporou o operacionismo na sua abordagem de psicologia.

Bridgman viveu tempo suficiente para testemunhar tanto a aceitação como o descarte do operacionismo na psicologia. Com 79 anos, ciente do seu estado terminal, Bridgman terminou o sumário da edição em sete volumes de todos os seus trabalhos, enviou-o para o editor e suicidou-se. Temia esperar mais tempo e ficar incapacitado para tal ação. Na carta deixada antes de suicidar-se, escreveu: "Provavelmente, este é o último dia em que terei condições de fazê-lo" (apud Nuland, 1994, p. 152).

Edward Chace Tolman (1886-1959)

Edward Tolman, um dos primeiros convertidos ao behaviorismo, estudou engenharia no Massachusetts Institute of Technology. Voltou-se para a psicologia, obtendo o Ph.D. da Harvard em 1915. No verão de 1912, Tolman estudou na Alemanha com o psicólogo da Gestalt, Kurt Koffka. No último ano de pós-graduação, Tolman conheceu o novo behavio­rismo de Watson e, embora orientado de acordo com a tradição da psicologia estruturalista de Titchener, Tolman já não estava convicto do valor científico da introspecção. Em sua autobiografia, declarou que o behaviorismo de Watson apareceu como um "enorme estímulo e alívio" (1952, p. 326).

Tolman tornou-se professor da Northwestern University, em Evanston, Illinois, e, em 1918, seguiu para a University of California, em Berkeley, onde lecionou psicologia comparativa e conduziu pesquisas sobre a aprendizagem nos ratos - nessa época tornou-se insatisfeito com a forma de behaviorismo de Watson e começou a desenvolver a sua. Durante a Segunda Guerra Mundial, colaborou com o Office of Strategic Services - OSS [Departamento de Serviços Estratégicos], precursor da Central Intelligence Agency [Agência Central de Inteligência] - CIA. No início da década de 1950, foi um dos líderes do movi­mento de professores contra o juramento de lealdade ao Estado da Califórnia.

O Behaviorismo intencional

A visão de behaviorismo de Tolman está descrita no livro Purposive behavior in animais and men (1932). O termo cunhado por ele, behaviorismo intencional, à primeira vista pode parecer uma aglutinação curiosa de duas ideias contraditórias: a intenção e o comportamento. A atribuição de intenção ao comportamento do organismo parece implicar a consciência, conceito mentalista não aceito na psicologia behaviorista. Tolman deixava claro, no entanto, que a sua visão era muito mais behaviorista no objeto de estudo e na metodologia. Ele não tentava impor o conceito de consciência à psicologia. Assim como Watson, rejeitava a introspecção e não se interessava pelas experiências internas presumi­das, não acessíveis à observação objetiva.

Para ele, a intencionalidade do comportamento pode ser definida em termos comportamentais objetivos sem se recorrer à introspecção ou aos relatos das sensações do indivíduo em relação à experiência. 

Parecia óbvio para Tolman que toda ação visava a um objetivo. Por exemplo, o gato tenta escapar da caixa-problema experimental do psicólogo o rato tenta aprender o caminho do labirinto, a criança tenta aprender a tocar piano ou a chutar a bola de futebol.

Em outras palavras, dizia Tolman, o comportamento está "impregnado" de intenção e visa atingir um objetivo ou aprender a forma de alcançar a meta. O rato persiste em percorrer os caminhos do labirinto, reduzindo os erros a cada tentativa, a fim de atingir mais rapidamente a meta. O que ocorre nesse caso é que o rato está aprendendo, e o fato de aprender, seja em um ser humano seja em um animal, é a prova comportamental objetiva da intenção. Tolman lida com as respostas objetivas do organismo e as medidas são feitas com base nas mudanças nas respostas comportamentais como uma função da aprendizagem. São essas medidas que produzem os dados objetivos.

Os behavioristas watsonianos imediatamente reagiram com críticas contra a atribuição de intenção ao comportamento. Insistiam em afirmar que qualquer referência à intenção implicava o reconhecimento dos processos conscientes. Tolman respondeu que não fazia a menor diferença se o indivíduo ou o animal estivesse ou não consciente. A experiência consciente - se ela existisse - associada com o comportamento intencional não influenciava a resposta do organismo. Ademais, Tolman estava interessado apenas no comportamento manifesto.

As Variáveis intervenientes

Como behaviorista, Tolman acreditava que as causas iniciadoras do comportamento e o comportamento final deviam ser passíveis de observação objetiva e de definição opera­cional. Relacionou cinco variáveis independentes como as causas do comportamento: o estímulo ambiental, os impulsos fisiológicos, a hereditariedade, o treinamento prévio e a idade. O comportamento é uma função dessas cinco variáveis, uma ideia que Tolman expressou por meio de uma equação matemática.

Entre essas variáveis independentes observáveis e o comportamento de resposta resul­tante (a variável dependente observável), Tolman presumia a existência de um conjunto de fatores não-observáveis, as variáveis intervenientes, que são as verdadeiras determi­nantes do comportamento. Esses fatores consistem em processos internos que estabelecem a ligação entre a situação de estímulo e a resposta observada. A proposição E-R (estímulo-resposta) dos behavioristas deve ser lida, então, E-O-R. A variável interveniente refere-se a tudo que ocorre dentro do organismo (O) e que provoca a resposta comportamental a determinada situação de estímulo. No entanto, como a variável interveniente não pode ser observada objetivamente, ela somente tem validade para a psicologia quando pode ser relacionada diretamente com as variáveis experimentais (independentes) e com a variável do comportamento (dependente).

A fome é um exemplo clássico de variável interveniente. Não se pode observar a fome em um indivíduo ou em um animal no laboratório, no entanto ela pode ser precisa e obje­tivamente relacionada com uma variável experimental como, por exemplo, o intervalo de tempo transcorrido desde a última vez em que o organismo recebeu comida. A fome tam­bém pode ser relacionada a uma resposta objetiva ou a uma variável de comportamento, como a quantidade de comida consumida ou a velocidade com a qual foi ingerida. Assim, é possível descrever precisamente a variável não-observável da fome em relação a variáveis empiristas e torná-la passível de quantificação e de manipulação experimental.

A especificação das variáveis independentes e dependentes, que são fatos observáveis, possibilitou a Tolman estabelecer definições operacionais de estados internos não-obser­váveis. No princípio, ele se referia à sua abordagem, no geral, como behaviorismo opera­cional, antes de optar pelo termo mais preciso "variável interveniente".

A Teoria da Aprendizagem

O principal enfoque do behaviorismo intencional de Tolman estava no problema da apren­dizagem. Tolman rejeitou a lei do efeito de Thorndike, afirmando que a recompensa ou o reforço exerciam pouca influência sobre a aprendizagem. Em seu lugar, propunha uma explicação cognitiva para a aprendizagem, sugerindo que a repetição do desempenho de uma tarefa reforça a relação aprendida entre as dicas ambientais e as expectativas do organismo. Dessa forma, o organismo acaba conhecendo o seu ambiente. Tolman chama­va essas relações aprendidas de “sign Gestalts", e afirmava serem elas estabelecidas pela repetição da realização de uma tarefa.

Imaginemos um rato faminto dentro de um labirinto. Ele o percorre, explorando todos os caminhos corretos como os sem saída e, finalmente, acaba alcançando a comida. X tentativas subsequentes dentro do labirinto, o objetivo (encontrar a comida) proporciona ao rato a intenção e a direção. A cada ponto de intersecção em que o animal tem de fazer uma opção de seguir para um lado ou outro, cria-se uma expectativa de que certas dicas associadas ao ponto de intersecção vão ou não levar à comida.

Quando a expectativa do rato é confirmada e ele obtém a comida, a sign Gestalt, a expectativa de sinalização associada com determinada opção) é reforçada. Assim, para todas as tentativas realizadas no labirinto, o animal estabelece um mapa cognitivo, que consiste em um padrão de sign Gestalts. Esse padrão é o que o animal aprende, ou seja, um mapa do labirinto, e não apenas um conjunto de hábitos motores. O cérebro do rato cria uma visão completa do labirinto ou de qualquer ambiente familiar, que lhe permite tran­sitar de um lugar a outro sem se restringir a uma série de movimentos físicos fixos.

A clássica experiência para testar a teoria de aprendizagem de Tolman investigava se o rato que percorria os caminhos do labirinto aprendia um mapa cognitivo ou uma série de respostas motoras. Em um labirinto com formato de cruz, um grupo de ratos sempre encontrava a comida no mesmo lugar, ainda que, usando pontos iniciais diferentes, às vezes tivessem de virar à direita e outras vezes à esquerda para chegarem até o alimento. As respostas motoras eram diferentes, mas a comida estava sempre no mesmo lugar.

O segundo grupo de ratos apresentava as mesmas respostas independentemente do ponto inicial, mas com a comida em lugares diferentes. Iniciando de uma saída do labirin­to, o ratos achavam a comida somente quando viravam à direita no ponto de intersecção: começando da outra saída, também encontravam a comida virando à direita.

Os resultados demonstraram que os ratos que aprendiam o caminho (o primeiro grupo apresentavam um desempenho bem melhor do que os que aprendiam o movimento (o segundo grupo). Tolman concluiu que o mesmo fenômeno ocorre com o indivíduo fami­liarizado com a cidade ou com a vizinhança. Ele é capaz de locomover-se de um ponto a outro utilizando diversos caminhos por causa do mapa cognitivo que desenvolveu de toda a área.

Comentários

Tolman é considerado o precursor da psicologia cognitiva contemporânea, tendo seu trabalho exercido grande impacto na disciplina, principalmente a pesquisa acerca dos problemas de aprendizagem e o conceito da variável interveniente. Por ser uma forma de definir operacionalmente os estados internos não-observáveis, as variáveis inter­venientes fizeram desses estados temas válidos para o estudo científico. As variáveis intervenientes foram empregadas pelos neobehavioristas, como Hull e Skinner.

Outra contribuição significativa de Tolman foi a sua defesa veemente para conside­rar o rato como sujeito apropriado para pesquisa em psicologia. No entanto, no início da carreira, ele não pensava assim e afirmava: "Não gosto de ratos. Eles me dão arrepios" (Tolman, 1919, apuã Innis, 1992, p. 191).

Em torno de 1945, sua atitude havia mudado:

Observe-se que os ratos vivem em gaiolas; não caem na farra na noite anterior a um expe­rimento; não provocam guerras matando uns aos outros; não inventam máquinas de des­truição e, se inventassem, não seriam tão inaptos para controlar esses equipamentos; não se envolvem em conflitos de classe ou raciais; ficam distantes da política, da economia e dos trabalhos de psicologia. Eles são maravilhosos, puros e agradáveis. (Tolman, 1945, p. 166)

Graças aos trabalhos de Tolman e de outros psicólogos, o rato branco tornou-se o princi­pal sujeito utilizado na pesquisa dos neobehavioristas e dos teóricos da aprendizagem, desde 1930 até a década de 1960. Acreditava-se que as pesquisas com os ratos brancos produziriam observações sobre os processos básicos subjacentes do comportamento não apenas dos ratos, como também de outros animais e dos seres humanos. Como observou um pesquisador contemporâneo, "o rato era um modelo simples mas acessível de animal, que possibilitava ao psicólogo investigar os fundamentos do cérebro, do comportamento, da emoção e da aprendizagem com precisão sem precedentes" (Logan, 1999, p. 3). Quem precisa de seres humanos para as pesquisas, perguntavam, com tantos ratos brancos disponíveis?

Clark Leonard Hull (1884-1952)

Clark Hull e seus seguidores dominaram a psicologia estadunidense entre as décadas de 1940 e 1960. Talvez nenhum psicólogo tenha se dedicado tanto aos problemas do método científico. Hull era dotado de espantoso domínio da matemática e da lógica formal, e as aplicava à teoria psicológica de maneira nunca vista antes. A forma de behaviorismo de Hull era mais sofisticada e mais complexa do que a de Watson. Hull dizia a seus alunos de pós-graduação que "Watson era ingênuo demais. Seu behaviorismo é excessivamente simples e imaturo" (apuei Gengerelli, 1976, p. 686).

Biografia de Hull

Por toda a vida, Hull foi incomodado pela saúde frágil e pela dificuldade visual. Quando ainda menino, quase morreu de tifo, deixando-o com a memória deficitária. Aos 24 anos contraiu poliomielite, que o deixou paralítico de uma perna, sendo forçado a usar muleta de metal construída por ele mesmo. Era de família pobre e por diversas vezes vira-se forçado a interromper os estudos para lecionar e ganhar dinheiro. Sua maior qualidade era a intensa motivação para atingir o sucesso e a perseverança diante dos muitos obstáculos.

Em 1918, com 34 anos, idade já relativamente adiantada, recebeu o título de Ph.D. - a University of Wisconsin, onde estudou engenharia de minas antes de passar para a psicologia. Fez parte do corpo docente da Wisconsin por 10 anos. Os interesses iniciais em pesquisa já davam indicações da sua eterna ênfase nos métodos objetivos e nas leis rancionais. Hull estudou a formação de conceitos e os efeitos do fumo na eficácia do comportamento, além de analisar os testes e as medidas e com isso publicar um livro a respeito dos testes de aptidão (Hull, 1928). Ele desenvolveu métodos de análise estatística e inventou uma máquina calculadora de correlações, que foi exibida no museu do Smithsonian institution em Washington, DC. Dedicou 10 anos ao estudo da hipnose e da sugestionabilidade, publicando 32 trabalhos e um livro resumindo as pesquisas (Hull, 1933).

Em 1929, Hull aceitou a posição de professor de pesquisa na Yale University, com o objetivo de formular uma teoria sobre o comportamento com base nas leis de condicio­namento de Pavlov. Lera o trabalho de Pavlov havia alguns anos e ficara impressionado com os estudos do reflexo condicionado e da aprendizagem. Hull considerava a obra Conáitioned reflexes, de Pavlov, um "grande livro” e decidiu realizar pesquisas usando ani­mais. Ele nunca utilizara animais porque abominava o cheiro dos ratos de laboratório, no entanto, ao chegar a Yale, conheceu uma colônia de ratos mantida por E. R. Hilgard sob totais condições de higiene. Viu os animais, "cheirou-os e disse que talvez pudesse afinal usar ratos" (Hilgard, 1987, p. 201).

Na década de 1930, Hull publicou artigos a respeito do condicionamento, afirmando ser possível explicar os comportamentos complexos de ordem superior com base nos prin­cípios básicos do condicionamento. A sua obra Principies of behavior (1943) apresentava o esboço de uma estrutura teórica completa, abrangendo todo comportamento. Logo Hull tornou-se o psicólogo mais frequentemente citado da área; na década de 1940, até 40% de todos artigos sobre psicologia experimental e 70% dos artigos sobre a aprendizagem e motivação publicados nas duas principais revistas de psicologia estadunidense citavam o traba­lho de Hull (Spence, 1952). Hull revisava constantemente o seu sistema, incorporando os resultados de sua prolongada pesquisa, e submetia suas proposições ao teste experimental. A forma final do trabalho foi publicada em 1952 na obra A behavior system.

O Espírito do Mecanicismo

Hull descrevia seu behaviorismo e sua visão da natureza humana empregando termos mecanicistas e considerava o comportamento humano automático e possível de ser redu­zido e explicado na linguagem da física. De acordo com Hull, os behavioristas deviam considerar seus sujeitos como máquinas, e ele apoiava a ideia de que um dia se construiria uma máquina para pensar e exibir outras funções cognitivas humanas. Em 1926, Hull afirmou: "Ocorreu-me várias vezes que o organismo humano é uma das máquinas mais extraordinárias - mas, ainda assim, uma máquina. E pensei mais de uma vez que, assim como ocorrem os processos de pensamento, se poderia construir uma máquina capaz de executar todas as funções essenciais que o corpo realiza" (cipud Amsel e Rashotte, 1984, p. 2-3). Nota-se, assim, que o espírito mecanicista do século XVII, representado pelas figuras mecânicas, pelos relógios e robôs vistos na Europa, incorporou-se perfeitamente no trabalho de Hull.

A Metodologia Objetiva e a Quantificação

O behaviorismo objetivo, reducionista e mecanicista de Hull proporciona uma clara visão de como era o seu método de estudo. Primeiro, tinha de ser objetivo, além de quantitati­vo, ou seja, com as leis fundamentais do comportamento expressas na linguagem precisa da matemática.

Em Principies of behavior (1943), Hull explicou como desenvolver uma psicologia mate­maticamente definida. Evidentemente, qualquer adepto do sistema de Hull tinha de ser disciplinado, comprometido e paciente.

O progresso consistirá no extenso trabalho de registrar, uma por uma, das centenas de equações; na determinação experimental, uma por uma, das centenas de constantes empíricas contidas nas equações; no planejamento das unidades utilizáveis na prática com as quais medir as quantidades expressas pelas equações; na definição objetiva de centenas de símbolos que aparecem nas equações; na rigorosa dedução, um por um, dos milhares de teoremas e corolários decorrentes das primeiras definições e equações; na meticulosa realização de milhares de experimentos quantitativos críticos. (Hull, 1943, p. 400-401)

Hull seguia quatro métodos que considerava úteis na pesquisa científica. Três já eram amplamente empregados: a observação simples, a observação sistemática controlada e o teste experimental das hipóteses. O quarto método proposto por Hull foi o método hipotetico-dedutivo, que utiliza a dedução baseada em um conjunto de formulações deter­minadas a priori. Consiste em estabelecer postulados a partir dos quais são deduzidas as conclusões testáveis por meio da experimentação. Essas conclusões são submetidas a um teste experimental: se não forem comprovadas com evidências experimentais, devem ser revistas e, se comprovadas e verificadas, podem ser incorporadas ao corpo da ciência. Hull acreditava que, se a psicologia desejasse se tornar verdadeiramente objetiva assim como as demais ciências naturais, princípio básico do programa behaviorista, o único método apropriado seria o hipotético-dedutivo.

Os Impulsos

Para Hull, a base da motivação era um estado de necessidade corporal provocada por um desvio nas condições biológicas ideais. Em vez de introduzir o conceito de necessidade biológica diretamente no seu sistema, Hull postulou a variável interveniente do "impulso", termo já empregado na psicologia. O impulso era definido como o estímulo provocado por um estado de necessidade do organismo que impulsiona ou ativa um comportamento. Na opinião de Hull, a redução ou a satisfação de um impulso era a única base para o reforço. A força do impulso pode ser determinada na prática pelo tempo de privação ou pela inten­sidade, força e gasto de energia do comportamento resultante. Ele considerava o tempo de privação uma medida imperfeita e colocava maior ênfase na intensidade da resposta. Hull postulou dois tipos de impulso. O primário, associado aos estados de necessidades biológicas inatas e vitais para a sobrevivência do organismo, entre as quais o alimento, a água, o ar, a temperatura, a defecação, a micção, o sono, a atividade, a relação sexual e o alívio da dor. Reconhecia, no entanto, outras forças, que não os impulsos primários, capazes de moti­var o organismo. Propôs, assim, os impulsos adquiridos ou secundários, relacionados com os estímulos situacionais ou ambientais associados à redução dos impulsos primários e que também podem se transformar em impulsos. Desse modo, o estímulo anteriormente neutro pode adquirir características de um impulso por ser capaz de provocar respostas semelhantes às instigadas pelo impulso primário ou pelo estado de necessidade original.

Um exemplo simples é queimar-se ao tocar um fogão quente. A dor da queimadura, provocada por um dano físico real nos tecidos do corpo, produz um impulso primário, ou seja, o desejo de alívio da dor. Outro estímulo ambiental associado com esse impulso pri­mário - como a visualização de um fogão - pode, no futuro, provocar o rápido afastamento da mão diante da percepção visual do estímulo. Desse modo, a visão do fogão torna-se um estímulo para o impulso adquirido de medo. Esse impulso adquirido ou secundário motivador do comportamento é resultante de um impulso primário.

A Aprendizagem

A teoria da aprendizagem de Hull concentra-se no princípio do reforço, o qual é essen­cialmente a lei do efeito de Thorndike. A lei do reforço primário de Hull estabelece que quando a relação estímulo-resposta é seguida de uma redução na necessidade, aumenta a probabilidade de ocorrência da mesma resposta nas apresentações subsequentes do mesmo estímulo. A recompensa e o reforço não são definidos em termos da noção de satisfação de Thorndike, mas em termos de redução da necessidade primária. Assim, o reforço primário (a redução de um impulso primário) é fundamental para a teoria de aprendizagem de Hull.

Uma vez que seu sistema contém o impulso adquirido ou secundário, ele também trata do reforço secundário. Se a intensidade do estímulo é reduzida em virtude de um impulso secundário, este atuará como reforço secundário.

Ocorre que qualquer estímulo coerentemente associado com uma situação de reforço adquire, mediante essa associação, o poder de provocar a inibição condicionada, ou seja, a redução na intensidade do estímulo e, assim, de si mesmo produzir o reforço resultante. Como essa força indireta de reforço é adquirida por meio de aprendizagem, denomina-se reforço secundário. (Hull, 1951, p. 27-28).

As relações estímulo-resposta são fortalecidas pelo número de reforços ocorridos. Hull chamava a força da conexão estímulo-resposta de força do hábito, e afirmava ser ela uma função do reforço referente à persistência do condicionamento.

A aprendizagem não ocorre na ausência do reforço necessário para provocar a redução do impulso. Essa ênfase no reforço caracteriza o sistema de Hull como a teoria da neces­sidade de redução, em oposição à teoria cognitiva de Tolman.

Comentários

Sendo um importante expoente do neobehaviorismo, Hull também era alvo dos mesmos ataques direcionados a Watson e a outros behavioristas. Os psicólogos contrários a qual­quer abordagem behaviorista da psicologia colocavam Hull no campo dos inimigos.

Uma falha observada no seu sistema era a falta de generalização. Na tentativa de defi­nir com precisão as variáveis, em termos quantitativos, Hull operava necessariamente em um plano limitado. Frequentemente formulava postulados a partir de resultados obtidos em um único experimento. Os opositores argumentavam ser imprudente a generalização a todo comportamento com base em demonstrações experimentais específicas, tais como “o intervalo mais favorável para o condicionamento do piscar dos olhos (Postulado 2)" ou "o peso em gramas necessário de comida para condicionar um rato (Postulado 7)" (apud Hilgard, 1956, p. 181). Embora a quantificação fosse louvável, a abordagem extrema de Hull reduzia a faixa de aplicabilidade das suas descobertas de pesquisa.

Mesmo assim, a influência de Hull na psicologia foi substancial. A quantidade abso­luta de pesquisas inspiradas por seu trabalho assim como o grande número de psicólogos influenciados por ele, garantem a sua importância na história da psicologia. Hull defen­deu, ampliou e explicou a abordagem behaviorista objetiva da psicologia como não o fez nenhum psicólogo. Um historiador declarou: "Não é comum o surgimento de um verda­deiro gênio teórico em qualquer área; dentre os poucos da psicologia assim considerados, Hull certamente se classificaria entre os principais" (Lowry, 1982, p. 211).

B. F. Skinner (1904-1990)

Durante décadas, B. F. Skinner foi o psicólogo mais influente do mundo. Quando morreu, em 1990, o editor da revista American Psychologist elogiou-o, dizendo que ele foi "um dos gigantes da nossa disciplina", alguém que "marcou a psicologia para sempre" (Fowler, 1990, p. 1.203). O obituário de Skinner, na publicação Journal of the History of the Behavioral Sciences, descreveu-o como a "principal figura da ciência do comportamento deste século" (Keller, 1991, p. 3).

Começando na década de 1950, Skinner foi a grande personificação da psicologia behaviorista estadunidense. Ele atraía enorme grupo de seguidores leais e entusiasmados. Desenvolveu um programa para o controle comportamental da sociedade, promoveu técnicas de modificação de comportamento e inventou um berço automático para emba­lar bebês. O seu romance, Walden two, ainda se mantém com grande popularidade após décadas de publicação. O livro Beyond freedom and dignity, lançado em 1971, foi um dos mais vendidos no país, proporcionando a Skinner a oportunidade de participar de muitos programas de entrevista na televisão. Tornou-se uma celebridade, tendo seu nome reco­nhecido tanto pelo público em geral como por outros psicólogos. Em 1972, o editorial da revista Psychology Today afirmou que "Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, um professor de psicologia alcançou a celebridade comparável à dos astros de cinema e da televisão" (,apud Rutherford, 2000, p. 372).

A Biografia de Skinner

Skinner, nascido em Susquehanna, na Pensilvânia, cresceu em ambiente estável e de muito afeto. Frequentou a mesma pequena escola de ensino médio em que se formaram os seus pais; na cerimônia de formatura, havia apenas ele e mais sete outros colegas. Quando criança, gostava de construir vagões, jangadas, aeromodelos, chegando a montar uma espécie de canhão a vapor para atirar pedaços de cenoura e batata sobre o telhado. Passou anos tentando desenvolver uma máquina de movimento perpétuo. Gostava de ler sobre os animais e mantinha diversas espécies de tartarugas, cobras, lagartos, sapos e esquilos. Em uma feira local, viu alguns pombos realizando performances; e, anos mais tarde, treinou algumas dessas aves para realizar alguns truques.

O sistema de psicologia de Skinner reflete as próprias experiências de infância. De acordo com o seu ponto de vista, a vida é produto da história de reforços. Afirmava que sua vida foi predeterminada e organizada exatamente do modo que o seu sistema ditava como devia ser a vida de todo ser humano. Acreditava que as suas experiências estavam relacionadas exclusiva e diretamente aos estímulos do próprio ambiente.

Skinner matriculou-se na Hamilton College de Nova York, mas não se sentia feliz. Escreveu:

Nunca me adaptei à vida estudantil. Entrei para a fraternidade sem saber bem o que era. Não possuía habilidade nos esportes e sofria demais quando batia a minha canela durante um jogo de hóquei sobre o gelo ou quando no jogo de basquete usavam a minha cabeça como tabela para acertar na cesta. (...) Reclamava que a faculdade me exigia demais em requisitos inúteis (um deles era a oração diária na capela) e que ela quase não demonstra­va o interesse intelectual pela maioria dos alunos. (Skinner, 1967, p. 392)

Skinner preparava trotes que perturbavam a comunidade da faculdade e criticava abertamente os professores e a administração. Formou-se em Letras - Inglês, com distinção Phi Beta Kappa, e desejava tornar-se escritor. Em um seminário de redação de que participou no verão, o poeta Robert Frost elogiou seus poemas e contos. Por dois anos, depois de se formar, trabalhou escrevendo, mas chegou à conclusão de que não tinha nada a dizer. Deprimido pelo fiasco como escri­tor, pensou em consultar um psiquiatra. Considerava-se um fracasso, e a sua autoestima estava despedaçada. Além disso, estava desiludido no amor; mais ou menos meia dúzia de mulheres rejeitaram-no.

Leu sobre as experiências de condicionamento de Watson e Pavlov, os quais lhe des­pertaram um interesse mais científico que literário acerca da natureza humana. Em 1928, matriculou-se no curso de pós-graduação em psicologia na Harvard University, embora nunca houvesse frequentado qualquer curso da área. Obteve o Ph.D. em três anos, completou com bolsa de estudo o pós-doutorado e lecionou na University of Minnesota (1936-1945) e na Indiana University (1945-1947), retornando depois para Harvard.

O tópico da sua dissertação dá uma indicação da posição que adotaria por toda a car­reira. Propôs ser o reflexo simplesmente uma correlação entre um estímulo e uma resposta, nada mais. Destacava a utilidade do conceito de reflexo na descrição do comportamento e dava amplo crédito a Descartes.

O seu livro lançado em 1938, The behavior of organisms, descreve os pontos principais do seu sistema. A obra vendeu apenas 80 cópias em quatro anos, perfazendo um total de 500 cópias nos oito primeiros anos, e recebeu críticas muito negativas. Cinquenta anos depois, foi considerado "um dentre alguns livros que mudaram a face da psicologia moderna" (Thompson, 1988, p. 397). O que levou esse livro do fracasso inicial para o estrondoso sucesso foi a sua utilidade nas áreas aplicadas, como na psicologia educacio­nal e clínica. Essa ampla aplicação prática das ideias de Skinner era bastante adequada, já que ele estava profundamente interessado em resolver os problemas da vida real. Um trabalho posterior, Science and human behavior (1953), tornou-se o livro básico da psicolo­gia behaviorista de Skinner.

Skinner continuou produzindo até à morte, com 86 anos. No porão da sua casa, cons­truiu a própria "caixa de Skinner", um ambiente controlado para proporcionar reforço positivo. Dormia em um tanque de plástico amarelo suficientemente grande para colocar um colchão, algumas prateleiras de livros e um pequeno aparelho de televisão. Deitava-se às 10 horas, dormia três horas, trabalhava uma hora, dormia mais três horas e levanta-se às cinco da manhã para trabalhar mais três horas. Depois, seguia para o escritório para trabalhar mais e toda tarde aplicava-se um autorreforço ouvindo música.

Gostava de escrever e dizia que essa atividade proporcionava-lhe bastante reforço positivo. Com 78 anos, escreveu um trabalho intitulado “Intellectual self-management in old age ("Autogerenciamento intelectual na velhice"), descrevendo suas experiências como um estudo de caso (Skinner, 1983). Descreveu a necessidade de o cérebro trabalhar menos horas por dia, com períodos de descanso entre os esforços exaustivos, para lidar com a perda de memória e a redução da capacidade intelectual. Ficou feliz ao saber que fora citado na literatura psicológica mais vezes do que Sigmund Freud. Quando pergunta­do por um amigo se tinha atingido a meta como escritor, apenas comentou: "Pensei que conseguiria" (apud Bjork, 1993, p. 214).

Em 1989, Skinner foi diagnosticado com leucemia, tendo expectativa de dois meses de vida. Durante uma entrevista no rádio, descreveu como se sentia:

Não sou religioso, portanto não me preocupo com o que acontecerá comigo depois da morte. Quando soube da doença e que morreria em alguns meses, não senti nenhum tipo de emoção. Não entrei em pânico, nem senti medo ou ansiedade. (...) O único sentimento de comoção que realmente encheu os meus olhos de lágrimas eu tive quando pensei em como contaria à minha esposa e às minhas filhas. (...) A minha vida foi realmente muito boa. Seria muito tolo de minha parte queixar-me, de alguma forma, sobre essa situação. Então estou aproveitando esses últimos meses assim como fiz a minha vida inteira. (apud Catania, 1992, p. 1.527)

Oito dias antes de morrer, mesmo fraco, Skinner apresentou um trabalho na convenção da APA de 1990, em Boston. Atacou veementemente o crescimento da psicologia cogniti­va, que desafiava a sua forma de behaviorismo. Na tarde anterior à sua morte, trabalhava no seu último artigo, “Can psychology be a Science of mind?" ("A psicologia pode ser uma ciência da mente?") (Skinner, 1990), outra acusação contra o movimento cognitivo que ameaçava suplantar a sua visão de psicologia.

O Behaviorismo de Skinner

Em diversos aspectos, a posição de Skinner representa uma renovação do behaviorismo de Watson. Um historiador afirmou: "O espírito de Watson é indestrutível. Límpido e purificado, ele respira por meio dos trabalhos de B. F. Skinner" (MacLeod, 1959, p. 34). Embora Hull também fosse considerado um rigoroso behaviorista, há diferenças entre suas visões e as de Skinner. Enquanto Hull enfatizava a importância da teoria, Skinner defendia um sistema empírico sem estrutura teórica para a condução de uma pesquisa.

Skinner resumia sua visão da seguinte forma: "Nunca ataquei um problema construindo uma hipótese. Jamais deduzi teoremas, nem os submeti a verificação experimental. Até onde consigo enxergar, não tenho nenhum modelo preconcebido de comportamento e, certamente, nem fisiológico nem mentalista e, creio, nem conceitual" (Skinner, 1956, p. 227).

O behaviorismo de Skinner dedica-se ao estudo das respostas. Ele se preocupava em descrever e não em explicar o comportamento. A sua pesquisa tratava apenas do compor­tamento observável, e ele acreditava que a tarefa da investigação científica era estabelecer as relações funcionais entre as condições de estímulo controladas pelo pesquisador e as respostas subsequentes do organismo.

Skinner não se preocupava em especular sobre o que ocorria dentro do organismo. Seu programa não apresentava suposições a respeito das entidades internas, fossem as variá­veis intervenientes, os impulsos ou os processos fisiológicos. O que acontecia na relação entre estímulo e resposta não era o tipo de dado objetivo com o qual o behaviorista skinneriano lidava. Assim, o behaviorismo puramente descritivo de Skinner foi denominado adequadamente de abordagem do "organismo vazio". Nessa visão, o organismo humano seria controlado e operado pelas forças do ambiente, pelo mundo exterior, e não pelas forças internas. Skinner não duvidava da existência das condições mentais ou fisiológicas internas, apenas não aceitava a sua validade no estudo científico do comportamento. Um biógrafo reiterou que a posição de Skinner "não era uma negação dos eventos mentais, mas uma recusa em classificá-los como entidades explicativas" (Richelle, 1993, p. 10).

Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, Skinner não considerava necessá­rio usar grande quantidade de indivíduos nas experiências ou realizar comparações esta­tísticas entre as respostas médias dos grupos de pesquisados, o seu método consistia na investigação compreensiva de um único indivíduo.

Uma previsão do que o indivíduo médio realizará é, muitas vezes, de pouco ou nenhum valor ao lidar com um indivíduo em particular. (...) Uma ciência é válida ao lidar com um indivíduo somente se as leis forem referentes aos indivíduos. Uma ciência do com­portamento que considera apenas o comportamento coletivo não parece válida para compreender um caso particular. (Skinner, 1953, p. 19)

Em 1958, os behavioristas skinnerianos criaram a revista Journal of the Experimental Analysis of Behavior, principalmente como resposta às exigências para publicação, não mencionadas nas principais revistas de psicologia, a respeito da análise estatística e da dimensão da amostragem de indivíduos observados. A revista Journal of Applied Behavior Analysis foi lançada para promover a pesquisa sobre a modificação do comportamento, um produto aplicado da psicologia de Skinner.

No trecho a seguir da obra Science and human behavior, Skinner descreve como o tra­balho de Descartes e as figuras mecânicas da Europa do século XVII (veja no Capítulo 2) influenciaram a sua abordagem de psicologia. Esse é um bom exemplo do uso da história, ou seja, de um psicólogo do século XX que se baseou em um trabalho realizado 300 anos antes. O texto também demonstra a evolução contínua das máquinas, tornando-se cada vez mais próximas da vida real.


Texto Original

Trecho Extraído de Science and Human Behavior (1953), de B. F. Skinner

O comportamento é uma característica primária das espécies vivas. Quase o identificamos com a própria vida. Qualquer objeto que se mova é praticamente chamado de ser vivo, princi­palmente quando o movimento é dotado de direção ou atua mudando o ambiente. O movi­mento acrescenta verossimilhança a qualquer modelo de organismo. A marionete adquire vida quando é movida, e os ídolos que se requebram ou exalam fumaça de cigarro são alvos de grande admiração. Robôs e criaturas mecânicas nos divertem apenas por se moverem. E há um significado na etimologia do termo desenho animado.

As máquinas parecem ter vida apenas porque estão em movimento. O fascínio da pá a vapor para neve é lendário. As máquinas menos conhecidas talvez possam realmente ser temi­das. Hoje, percebemos que somente as pessoas mais simples confundem-nas com as criaturas vivas; no entanto, em algum momento, todos as desconheciam. Um dia, quando [os poetas do século XIX William] Wordsworth e [Samuel Taylor] Coleridge passaram pela locomotiva a vapor, Wordsworth observou que era praticamente impossível apagar a impressão de vida e vontade que ela transmitia. "Sim", afirmou, "é um gigante dotado de pensamento".

Um brinquedo mecânico que imitava o comportamento humano conduziu à teoria da chamada ação reflexa. Na primeira parte do século XVII, certas figuras movidas por força hidráulica foram instaladas nos jardins públicos e particulares como objetos de diversão. Uma jovem passeando pelo jardim pisava sem querer em uma pequena plataforma escondida. Assim, uma válvula se abria, a água fluía para um pistão, e uma figura assustadora saltava por entre os galhos das árvores, assustando-a. René Descartes sabia como essas figuras funciona­vam e também o quanto elas se pareciam com as criaturas vivas. Pensava na possibilidade de aplicar a explicação do sistema hidráulico das figuras mecânicas também nas criaturas vivas. O músculo que se dilata quando move um membro talvez seja inflado por um fluido vindo pelos nervos cerebrais. Os nervos que se estendem da superfície do corpo até o cérebro talvez sejam os fios que abrem as válvulas.

Descartes não afirmava que o organismo humano sempre operava dessa forma. Aceitava essa explicação no caso dos animais e reservava uma esfera de ação para a "alma racional", talvez por causa da pressão religiosa. Todavia, não levou muito tempo para que um passo adiante produzisse a doutrina totalmente amadurecida do "homem como máquina". A dou­trina não deveu sua popularidade à plausibilidade - não havia provas confiáveis para a teoria de Descartes -, mas às chocantes implicações teóricas e metafísicas.

Desde aquela época, dois fatos se destacam: as máquinas parecem cada vez mais dotadas de vida, e os organismos vivos estão cada vez mais parecidos com as máquinas. As máquinas contem­porâneas não são apenas mais complexas: elas são propositadamente projetadas para operarem de forma a imitar o comportamento humano. As maquinações "quase humanas" fazem parte da experiência cotidiana. As portas nos veem chegando e se abrem para nos receber. Os elevadores memorizam os comandos e param no andar correto. As mãos mecânicas retiram os itens defei­tuosos da linha de produção. Outras escrevem mensagens até certo grau legíveis. As calculadoras mecânicas ou elétricas resolvem as equações mais difíceis ou as que tomam muito tempo dos matemáticos. O homem criou, assim, a máquina à sua imagem e semelhança —consequentemente, o organismo vivo perdeu uma parte da sua exclusividade. Ficamos menos espantados com as máquinas do que nossos ancestrais e menos propensos a dotar a máquina com autonomia de pensamento. Ao mesmo tempo, descobrimos mais a respeito do funcionamento do organismo vivo e estamos mais aptos a enxergar nele propriedades semelhantes às das máquinas


O Condicionamento Operante

Várias gerações de estudantes de psicologia estudaram os experimentos de Skinner sobre condicionamento operante e como diferem do comportamento respondente investigado por Pavlov. Na situação de condicionamento pavloviano, um estímulo conhecido é pareado com outro estímulo sob condições de reforço. A resposta comportamental é eliciada por um estímulo observável e Skinner chamou-a de comportamento respondente.

O comportamento operante ocorre sem qualquer estímulo antecedente externo observá­vel. A resposta do organismo parece ser espontânea, ou seja, não relacionada com qualquer estímulo observável conhecido. Isso não significa que não haja um estímulo que elicite a resposta, mas que ele não é detectado quando ocorre a resposta. No entanto, na visão do observador, não existe estímulo porque ele não o aplicou e não consegue vê-lo.

Outra diferença entre o comportamento respondente e o operante é que este opera no ambiente do organismo, enquanto o outro, não. O cão treinado do laboratório de Pavlov não fazia outra coisa senão reagir (nesse caso, salivar) quando o pesquisador apre­sentava-lhe o estímulo (a comida). O cão não era capaz de atuar por si só para assegurar o estímulo. No entanto, o comportamento operante do rato na caixa de Skinner é ins­trumental em assegurar o estímulo (a comida). Quando o rato pressiona a barra, recebe comida, e somente a recebe se pressionar a barra, portanto ele opera sobre o ambiente.

Skinner acreditava no comportamento operante como o melhor representante da situa­ção típica de aprendizagem. Na maioria das vezes, o comportamento é do tipo operante, por isso, a melhor abordagem científica para seu estudo são os processos de condiciona­mento e extinção.
A demonstração da clássica experiência da caixa de Skinner envolvia o ato de pressio­nar a barra, que fora construída de modo que controlasse as variáveis externas. Colocava-se um rato privado de comida dentro da caixa, ficando livre para explorar o ambiente. No curso dessa exploração, o rato pressionava uma alavanca ou uma barra, ativando um meca­nismo que liberava uma bolinha de ração em uma bandeja. Depois de conseguir algumas bolinhas (os reforços), o condicionamento geralmente se estabelecia com rapidez. Observe que o comportamento do rato (pressionando a alavanca) atuou sobre o ambiente e assim serviu como instrumento para a obtenção do alimento. A variável dependente é simples e direta: a taxa de respostas.

Com base nessa experiência básica, Skinner derivou sua lei da aquisição, que afirma que a força de um comportamento operante aumenta quando ele é seguido pela apresenta­ção de um estímulo reforçador. Embora a prática seja importante para se estabelecer uma alta taxa de pressão à barra, a variável-chave é o reforço. A prática em si não aumenta a taxa de respostas; ela apenas proporciona a oportunidade de ocorrência do reforço adicional.

A lei da aquisição de Skinner é diferente das visões de Thorndike e Hull sobre a aprendizagem. Skinner não lidava com as consequências do reforço, como as sensações de prazer/dor ou satisfação/insatisfação, como fazia Thorndike, nem tentava interpretar o reforço com base na redução dos impulsos, como Hull. Enquanto os sistemas de Thorndike e Hull eram explicativos, o de Skinner era descritivo.

Esquemas de Reforço

A pesquisa inicial com o rato pressionando a barra da caixa de Skinner demonstrou o papel do reforço no comportamento operante. O comportamento do rato era reforçado cada vez que ele pressionava a barra. Em outras palavras, o rato recebia alimento sempre que executava a resposta correta. No mundo real, no entanto, o reforço nem sempre é assim consistente ou contínuo, muito embora a aprendizagem ocorra e o comportamento persista, mesmo quando o reforço seja intermitente. Skinner afirmou:

Nem sempre encontramos uma boa camada de gelo ou uma boa neve quando vamos pati­nar ou esquiar. (...) Nem sempre temos uma ótima refeição nos restaurantes, porque os cozinheiros não são muito previsíveis. Nem sempre que telefonamos a um amigo consegui­mos falar com ele, porque nem sempre ele está em casa. (...) Os reforços característicos do trabalho e do estudo são quase sempre intermitentes porque não é viável controlar o comportamento reforçando toda resposta. (Skinner, 1953, p. 99)

Pense na sua experiência. Mesmo que você estude sem parar, não conseguirá obter a nota máxima em todas as provas. No emprego, mesmo que trabalhe com a máxima eficiência, nem sempre você recebe elogios ou aumentos salariais. Assim, Skinner dese­java saber de que forma o reforço variável influenciava o comportamento. Será que um esquema de reforço ou um determinado padrão é melhor que outro para determinar as respostas do organismo?

A motivação para a realização da pesquisa não surgiu da curiosidade intelectual mas da conveniência, o que mostra que a ciência às vezes funciona diferentemente da imagem idealizada descrita em muitos livros. Em um sábado à tarde, Skinner percebeu que as bolinhas de ração do rato estavam acabando. Naquela época, ou seja, na década de 1930, a ração animal não era adquirida pronta nas lojas de animais ou diretamente dos fabricantes. O pesquisador (ou o aluno de pós-graduação) tinha de prepará-las manual­mente, um processo trabalhoso que consumia muito tempo. Em vez de passar o fim de semana preparando as bolinhas, Skinner perguntou-se o que aconteceria se reforçasse os ratos apenas uma vez a cada minuto, independentemente do número de respostas que apresentassem. Desse modo, gastaria muito menos ração naquele fim de semana. Elabo­rou, assim, uma série de experiências para testar diferentes taxas e intervalos de reforço (Ferster e Skinner, 1957; Skinner, 1969).

Em uma série de estudos, comparou as taxas de resposta dos animais que recebiam um reforço por resposta sendo apresentado após um intervalo específico. A segunda condição era um programa de reforço com intervalo fixo. O novo reforço era dado uma vez a cada minuto ou uma vez a cada quatro minutos. O aspecto importante era a apresentação do reforço ao animal depois de um período fixo. Um emprego com sistema de pagamento semanal ou mensal proporciona o reforço em um intervalo fixo. A remuneração dos fun­cionários não é baseada no número de peças produzidas (o número de respostas), mas nos dias trabalhados. A pesquisa de Skinner demonstrou que, quanto menor o intervalo entre os reforços, mais rápida a resposta do animal. Quando o intervalo aumentava, a taxa de respostas diminuía.

A frequência dos reforços também contribui para a extinção de uma resposta. Elimi­na-se um comportamento com mais rapidez quando o reforço é contínuo e interrompido de repente, do que quando é intermitente. Alguns pombos apresentaram respostas até 10 mil vezes, mesmo sem reforço, quando foram originalmente condicionados com reforços intermitentes.

Em um esquema de razão fixa, o reforço não é apresentado depois de certo intervalo, mas depois de um número predeterminado de respostas. O comportamento do animal é que determina a frequência com que receberá o reforço. Talvez seja necessário respon­der 10 ou 20 vezes depois do reforço inicial antes de receber outro. Os animais em um esquema de razão fixa respondem com muito mais rapidez que os de intervalo fixo. Responder rapidamente em um esquema de intervalo fixo não proporciona nenhum reforço adicional; nesse esquema, mesmo que o animal pressione a barra 5 ou 50 vezes, receberá o reforço somente depois de passado o intervalo estabelecido. A alta taxa de resposta em um esquema de razão fixa funciona com ratos, pombos e seres humanos. Em um progra­ma salarial de razão fixa aplicado no ambiente de trabalho, o pagamento ou a comissão do empregado depende do número de itens produzidos ou vendidos. Esse esquema de reforço é válido somente se a razão não for elevada demais, ou seja, se foi requerida uma carga de trabalho exequível para se receber uma unidade de pagamento, e se o reforço específico recompensar o esforço.

Aproximação Sucessiva: a Formação do Comportamento

No experimento original de Skinner do condicionamento operante, esse (apertar uma alavanca) era um comportamento simples, esperado de um rato de laboratório, que po­deria possivelmente exibir ao explorar seu ambiente. Assim, a possibilidade de que tal comportamento ocorrerá é grande, supondo-se que o experimentador tenha paciência suficiente. Entretanto, é óbvio que os animais e humanos demonstrem comportamentos operantes muito mais complexos com pequena probabilidade de ocorrência no curso normal dos eventos. Lembre-se da sequência complicada de comportamentos exibida por Priscilla, o Porco Metálico, ou os surpreendentes feitos da Ave Inteligente que estavam sendo exibidos no Zoológico do QI. Como esses comportamentos complexos são aprendi­dos? Como pode um treinador ou um experimentador ou um pai reforçar e condicionar um animal ou uma criança a desempenhar comportamentos que provavelmente não ocorrem espontaneamente?

Skinner respondeu a essas perguntas com o método de aproximação sucessiva, ou modelagem (Skinner, 1953). Ele treinou uma pomba em um período muito curto a bicar um determinado lugar na sua gaiola. A probabilidade de que a pomba bicasse aquele lu­gar preciso era baixa. Primeiro a pomba foi reforçada com comida quando simplesmente se virava para a direção do lugar designado. Em seguida, o reforço foi retirado até que a pomba fizesse qualquer movimento, mesmo mínimo, em direção àquele local. Depois, o reforço era dado somente quando a pomba se aproximasse de lá. E, finalmente, reforço era dado somente quando seu bico tocasse o local. Embora isso tudo pareça tomar bastante tempo, Skinner condicionou pombos em menos de três minutos.

O procedimento experimental em si explica o termo "aproximação sucessiva". O organismo é reforçado à medida que seu comportamento ocorra em fases sucessivas ou consecutivas para se aproximar do comportamento final desejado. Skinner propôs a ideia de que é assim que as crianças aprendem o complexo comportamento da fala. Crianças pequenas espontaneamente emitem sons sem sentido, o que é reforçado pelos pais com sorrisos, risadas e conversas. Depois de um tempo os pais recompensam esses balbucios infantis de modos diferentes, oferecendo recompensas mais fortes para aqueles sons que se aproximam de palavras. À medida que o processo continua, o reforço paterno torna-se mais restrito, dado somente quando usado e pronunciado adequadamente. Assim, o com­ portamento complexo de se adquirir habilidades de linguagem é moldado ao se oferecer reforço diferenciado por fases.

Os Aparelhos de Condicionamento Operante de Skinner

Os aparelhos condicionantes de Skinner trouxeram-lhe fama entre os psicólogos, mas foi o "berço automático", aparelho para automatizar as tarefas de cuidar dos bebês, que lhe rendeu a notoriedade pública (Benjamin e Nielsen-Gammon, 1999). Quando Skinner e a esposa resolveram ter um segundo filho, ela disse que os dois primeiros anos do bebê requeriam muito trabalho; assim, Skinner inventou um ambiente mecanizado para ali­viar as tarefas rotineiras dos pais. Embora fosse comercialmente, o berço automático não obteve êxito. A filha de Skinner, criada nesse berço, aparentemente não apresentou efeitos negativos da experiência.

Skinner descreveu o aparelho pela primeira vez na revista Ladies Home Journal em 1945 e, mais tarde, na autobiografia. Era um espaço para viver do tamanho de um berço ao qual chamamos de "bebê-conforto". As paredes eram à prova de som e havia uma grande janela pintada. O ar entrava por filtros instalados na base e, depois de aquecido e umidificado, circulava por todos os lados e todas as bordas de uma lona bem esticada que servia de colchão. Uma espécie de tira de lençol com cerca de nove metros de comprimento passava sobre a lona, e uma parte limpa sua podia ser encaixada no lugar em alguns segundos. (Skinner, 1979, p. 275)

Outro equipamento apresentado por Skinner foi a máquina de ensinar, inventada na década de 1920 por Sidney Pressey. Infelizmente para ele, o aparelho era moderno demais para a sua época, e não houve interesse em continuar a sua comercialização (Pressey, 19671. Talvez as forças contextuais tenham sido responsáveis tanto pela falta de interesse, na épo­ca, como pelo ressurgimento entusiástico do mecanismo, mais ou menos 30 anos depois (Benjamin, 1988). Pressey introduziu a máquina, prometendo que ela ensinaria os alunos em um ritmo mais rápido, exigindo, assim, menos professores nas salas de aula. Na época, no entanto, havia excesso de professores e não existia pressão pública para a melhoria do processo de aprendizagem. Na década de 1950, quando Skinner promoveu um equipamento semelhante, havia falta de professores, excesso de estudantes e pressão pública para a melho­ria da educação, para que os Estados Unidos pudessem competir com a União Soviética na corrida espacial. Skinner resumiu o seu trabalho nessa área no livro The technology of teaching (1968). As máquinas de ensinar foram amplamente empregadas nas décadas de 1950 e 1960, até serem substituídas pelos métodos de ensino por computador.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Skinner, juntamente com as irmãs Breland, de­senvolveu um sistema de orientação para guiar as bombas lançadas dos aviões de guerra sobre alvos específicos em terra. Na ponta dos mísseis, ficavam pombos condicionados a dar bicadas ao avistarem o alvo. As bicadas afetavam o ângulo das alhetas dos mísseis, permitindo, assim, mirar corretamente o alvo. No entanto, o exército estadunidense pareceu não se impressionar quando abriram as alhetas dos mísseis e viram três pombos ao invés do sofisticado instrumento eletrônico que esperavam. Eles recusaram incorporar pombos ao arsenal de artilharia (Skinner, 1960).

Nas décadas de 1960 e 1970, Keller e Marian Breland trabalharam para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Elas 

condicionaram arenques e gaivotas a pesquisarem áreas a uma distância de 360 graus sobre lagos e oceanos, ensinaram pombos a voar ao longo de uma estrada para encontrar atiradores e condicionaram corvos a desempenharem tarefas complexas de longa distância, como fotografar, segurando pequenas câmeras nos seus bicos. Era impressionante que embora tivessem a chance de escapar do cativeiro, esses animais constantemente voltavam depois de desempenharem suas tarefas. (Gillaspy e Bihm, 2002, p. 293)

Walden Two - uma Sociedade do Futuro

Skinner planejou minuciosamente uma tecnologia do comportamento, na tentativa de aplicar as descobertas feitas no laboratório à sociedade. Enquanto Watson falava, em geral sobre a construção de uma base para uma vida mais saudável por meio do condicionamento, Skinner descrevia em detalhes o funcionamento dessa sociedade. No seu romance, Walden two (1948), descreve a vida de uma comunidade rural de mil habitantes, cujo comporta­mento é controlado por reforços positivos. O livro resultou da crise pessoal de meia-idade de Skinner, depressão que sofrera aos 41 anos. A fim de sair da crise, retomou a sua iden­tidade pós-universitária de escritor, expressando os conflitos e desesperos por meio da personagem principal da história, T. E. Frazier. Skinner afirmou: "Grande parte da vida em Walden two retratava a minha vida daquela época. Deixei Frazier dizer coisas que eu mesmo ainda não estava preparado para contar a ninguém" (1979, p. 297-298).

Skinner retratou no romance uma sociedade com base nas suposições a respeito da semelhança entre o homem e a máquina. Essa ideia reflete a linha de pensamento traçada desde Galileu e Newton, passando pelos empiristas britânicos até chegar a Watson e Skin­ner. A visão da ciência natural determinista, analítica e mecanicista de Skinner, reforçada pelos resultados de seus experimentos sobre condicionamento, convenceu vários psicólogos behavioristas de que o comportamento humano pode ser guiado, modificado e modelado com o conhecimento das condições ambientais e a aplicação do reforço positivo.

Modificação de Comportamento

A sociedade de Skinner baseada no reforço positivo existe apenas na ficção. No entanto, o controle ou a modificação do comportamento humano, de forma individual ou em pequenos grupos, são amplamente aceitos. A modificação de comportamento mediante - reforço positivo é aplicada clinicamente com frequência em hospitais de saúde mental, fabricas, prisões e escolas para alterar os comportamentos indesejáveis, transformando-os em mais aceitáveis. A modificação de comportamento funciona com as pessoas da mesma forma que o condicionamento operante o faz para alterar o comportamento de ratos e pombos, ou seja, reforçando o comportamento desejado e não reforçando o indesejado.

Pense em uma criança que vive fazendo cenas para obter comida ou chamar a atenção. Quando os pais acabam cedendo, estão reforçando o comportamento inadequado. Na situação de modificação de comportamento, chutes ou gritos jamais devem ser reforçados, somente os comportamentos aceitáveis socialmente o devem ser. Depois de algum tempo, o comportamento da criança acaba mudando, porque os ataques de teimosia não surtem mais efeito na obtenção de recompensas, enquanto o comportamento adequado é recompensado.

O condicionamento operante e o reforço vêm sendo aplicados em ambientes de trabalho, em que os programas de modificação de comportamento visam reduzir as faltas, melhorar o desempenho do trabalho e as práticas de segurança, além de aperfeiçoamento de habilidades na função. A modificação de comportamento também serve para alterar o comportamento dos pacientes em hospitais de saúde mental. Pode-se induzir a modificação para um comportamento positivo, recompensando o paciente com fichas que podem se trocadas por mercadorias ou privilégios, e não reforçando o comportamento negativo ou agressivo. Ao contrário das técnicas clínicas tradicionais, o psicólogo behaviorista, nessa situação, não se preocupa em saber o que se passa na mente do paciente, assim como o experimentador não se importa com as atividades mentais do rato na caixa de Skinner. O enfoque concentra-se exclusivamente no comportamento aberto e no reforço positivo.

As pesquisas têm mostrado que os programas de modificação de comportamento normalmente têm êxito somente dentro das organizações ou instituições em que são apli­cados. Os efeitos raramente são transferidos para situações externas porque o programa de reforço teria de ser continuado, mesmo de modo intermitente, para que as mudança desejadas persistissem. No caso de pacientes, por exemplo, isso pode ser feito em casa com acompanhantes treinados para reforçar o comportamento desejável com sorrisos, elogios ou outros sinais de afeto e aprovação.
A punição não faz parte do programa de modificação de comportamento. De acordo com Skinner, as pessoas não devem ser punidas por não se comportarem da forma dese­jada. Ao contrário, devem ser reforçadas ou recompensadas quando mudarem o compor­tamento na direção positiva. A posição de Skinner de que o reforço positivo é mais eficaz do que a punição para alterar o comportamento é comprovada por várias pesquisas com animais e seres humanos.

As Críticas ao Behaviorismo de Skinner

As críticas ao behaviorismo de Skinner tinham como alvo o seu extremo positivismo e a oposição à teoria, a qual seus oponentes alegavam ser impossível eliminar completamen­te. O planejamento prévio dos detalhes de um experimento é uma evidência da teoriza­ção, mesmo sendo uma teoria simples. Além disso, a aplicação dos princípios básicos de condicionamento como quadro de referência para a sua pesquisa também constitui um grau de teorização.

Skinner emitia afirmações ousadas a respeito das questões econômicas, sociais, polí­ticas e religiosas derivadas do seu sistema. Em 1986, escreveu um artigo com título bem abrangente "What is wrong with life in the western world?" (“O que há de errado com a vida no mundo ocidental?"). Afirmava que o "comportamento humano ocidental se enfraquecera, mas pode ser fortalecido com a aplicação dos princípios derivados da análi­se experimental do comportamento" (Skinner, 1986, p. 568). Essa disposição de extrapo­lar os dados, especialmente para propor soluções aos problemas humanos complexos, é inconsistente com a posição antiteórica e mostra que Skinner rompeu os limites dos dados observáveis ao apresentar seu esquema de reestruturação da sociedade.

A afirmação de Skinner de que todo comportamento é aprendido foi rebatida pelo trabalho de treinamento animal dos Brelands. Eles constataram que o porco, a galinha, o hamster, o boto, a baleia, a vaca e outros animais demonstraram uma propensão à 'transferência instintiva", ou seja, que tendiam a substituir o comportamento instintivo pelo comportamento reforçado, mesmo que o comportamento instintivo interferisse na
obtenção de comida.

Utilizando a comida como reforço, o porco e o guaxinim rapidamente se condiciona­vam a apanhar uma moeda, carregá-la por uma certa distância e colocá-la em um banco de brinquedo. Depois de certo tempo, no entanto, os animais começavam a apresentar comportamentos indesejados.

O porco parava pelo caminho, enterrava a moeda na areia e a retirava com o focinho; o guaxinim ficava bastante tempo mexendo na moeda e fazendo movimentos como se estivesse se lavando. No começo, pareceu interessante, mas acabava consumindo tempo demais e fazia o show parecer cheio de falhas para o espectador. Comercialmente, foi desastroso. (Richelle, 1993, p. 68)

O que estava acontecendo era uma transferência instintiva. O animal revertia o com­portamento inato que tinha precedência sobre o comportamento aprendido, mesmo que atrapalhasse na obtenção do alimento. Nesse caso, o reforço evidentemente não era tão eficaz quanto afirmava Skinner.

As visões de Skinner sobre o comportamento verbal e a explicação sobre como a criança aprendia a falar também foram contestadas. Os críticos insistiam em afirmar que alguns comportamentos seriam inatos. Os bebês não aprendem a língua, palavra por palavra, porque recebem reforço por seu uso ou sua pronúncia corretos. Ao contrário, eles dominam as regras gramaticais necessárias para produzir frases. O potencial para cons­truir essas regras, de acordo com essa argumentação, é inato e não adquirido (Chomsky, 1959, 1972).

As Contribuições do Behaviorismo de Skinner

Apesar dessas críticas, Skinner foi o campeão inconteste da psicologia behaviorista entre as décadas de 1950 e 1980. Durante esse período, a psicologia estadunidense foi moldada muito mais pelo seu trabalho do que pelas ideias de qualquer outro psicólogo. Em 1958, a APA outorgou a Skinner o Distinguished Scientific Contribution Award [Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica], observando que "poucos psicólogos estadunidenses exerceram tamanho impacto no desenvolvimento da psicologia e nos jovens promissores psicólogos".

Em 1968, Skinner recebeu a National Medal of Science [Medalha Nacional da Ciên­cia] , a mais alta honraria concedida pelo governo estadunidense, por causa das contribuições à ciência. A American Psychological Foundation [Fundação Americana de Psicologia] concedeu a Skinner o Gold Medal Award [Prêmio da Medalha de Ouro], e ele foi capa da revista Time. Em 1990, foi homenageado com a citação presidencial da APA por uma vida de contribuições à psicologia.

O objetivo geral de Skinner era a melhoria da vida humana e da sociedade. Apesar da natureza mecanicista do seu sistema, ele era humanista, qualidade expressa nos seus esforços para modificar o comportamento nos ambientes do mundo real - como nos lares, escolas, empresas e instituições. Esperava que a sua tecnologia do comportamento ajudasse a aliviar o sofrimento humano e sentia-se muito frustrado ao ver que as suas ideias, embo­ra populares e influentes, não eram aplicadas de forma mais sábia e mais ampla.

Embora o tipo de behaviorismo de Skinner continue a ser aplicado em laboratórios, clínicas, empresas e outros ambientes do mundo real, foi contestado pelo trabalho do neo-neobehavioristas, incluindo Albert Bandura e Julian Rotter, entre outros, que adotam uma abordagem mais sociobehaviorista.

Behaviorismo Social: o Desafio Cognitivo

Bandura, Rotter e outros seguidores da abordagem sociobehaviorista eram, em princípio, behavioristas, mas adotavam uma forma de behaviorismo bem distinta da de Skinner. Eles questionavam a sua total negação aos processos mentais ou cognitivos e propunham em seu lugar uma aprendizagem social ou uma abordagem sociobehaviorista, uma reflexão sobre um movimento cognitivo mais amplo na psicologia como um todo. As teorias de aprendizagem social marcam o terceiro estágio (o estágio neo-neobehaviorista) no desen­ volvimento da escola de pensamento behaviorista. A origem e o impacto do movimento cognitivo serão abordados integralmente no Capítulo 15. 

Albert Bandura (1925-)

Albert Bandura nasceu no Canadá, em uma cidade tão pequena que a escola secundária tiha somente 20 alunos e 2 professores. Seus pais eram imigrantes da Europa Oriental, com pouca educaçao formal, mas que a valorizaram muito para seu filho. Depois de terminar o colegial, Albert trabalhou na construção civil no território Yukon, tapando buracos em uma estrada do Alasca. "Vendo-se no meio de diversas personalidades curiosas, muitas das quais fugindo dos credores, de pensões e de funcionários da justiça, [Bandura] desenvolveu rapidamente uma profunda admiração pela psicopatologia da vida cotidiana, que parecia brotar da rigorosa tundra" (Distinguished Scientific Contribution Award, 1981, p 28)

Bandura se matriculou na University of British Columbia, em Vancouver, onde fez um curso de psicologia, mas só porque estava sendo oferecido em um horário conveniente e não porque tivesse qualquer interesse no assunto. No entanto, verificou que gostava da área e decidiu continuar nela. Obteve o diploma de Ph.D. pela University of Iowa em 1952 e daí para a frente teve uma carreira brilhante e altamente produtiva em Stanford University.

A Teoria Social Cognitiva

A teoria social cognitiva de Bandura é uma forma de behaviorismo menos radical que a de Skinner e reflete o espírito dos tempos, o impacto do renovado interesse da psicologia nos fatores cognitivos. Mesmo assim, a visão de Bandura ainda era behaviorista. Sua pes­quisa tmha como meta observar o comportamento dos indivíduos durante a interação não usava a introspecção nem enfatizava a importância da recompensa ou do reforço na aquisição ou modificação do comportamento.

Além de ser uma teoria behaviorista, o sistema de Bandura era cognitivo. Ele enfa­tizava a influência dos esquemas de reforço externo dos processos de pensamento, tais como crenças, expectativas e instrução. Para Bandura, respostas comportamentais não são disparadas automaticamente por um estímulo externo, como em uma máquina ou em um robô. Ao contrário, as reações aos estímulos são autoativadas, iniciadas pela pró­pria pessoa. Quando um reforço externo altera o comportamento, é porque a pessoa tem consciência da resposta que está sendo reforçada e antecipa a recepção do mesmo reforço ao repetir o comportamento da próxima vez em que a situação ocorrer.

Embora Bandura concordasse com Skinner a respeito da possibilidade de mudar o compor­tamento humano por meio do reforço, também sugeriu e demonstrou, na prática, a capacidade de as pessoas aprenderem quase todos os tipos de comportamento sem receberem diretamente qualquer reforço. Para ele, não é necessário receber sempre um reforço para se aprender algo. A aprendizagem também ocorre por meio do reforço vicário, ou seja, mediante a observação tanto do comportamento das outras pessoas como das suas consequências. 

A capacidade de aprender por meio de exemplos e de reforço vicário parte do prin­cípio de que somos capazes de antecipar e avaliar as consequências que observamos nas outras pessoas, mesmo não passando pela mesma experiência. É possível controlar o pró­prio comportamento, observando as consequências, ainda que não experimentadas, de determinado comportamento e fazendo uma opção consciente de agir ou não da mesma forma. Bandura acredita não existir uma ligação direta entre estímulo e resposta, ou entre comportamento e reforço, como afirmava Skinner. Para ele, há um mecanismo interposto entre o estímulo e a resposta, que nada mais é do que o processo cognitivo do indivíduo.

Desse modo, o processo cognitivo exerceu um papel importante na teoria social cog­nitiva de Bandura, diferenciando a sua visão da de Skinner. Na opinião de Bandura, não é o esquema de reforço em si que produz efeito na mudança do comportamento de uma pessoa, mas o que ela pensa desse esquema. A aprendizagem ocorre não pelo reforço dire­to, mas por meio de "modelos", observando o comportamento de outras pessoas e nele fundamentando os próprios padrões. Para Skinner, o controlador do reforço regula o com­portamento. Para Bandura, o controlador do modelo social regula o comportamento.

Bandura conduziu pesquisas completas sobre as características dos modelos que influenciam o comportamento humano. A tendência do indivíduo é modelar o próprio compor­tamento com base nas pessoas do mesmo sexo e idade, ou seja, nos nossos semelhantes que conseguiram resolver os problemas similares aos nossos. Há uma propensão também de se deixar impressionar por modelos de prestígio e status superiores ao nosso. O tipo de comportamento envolvido afeta a amplitude da imitação. A tendência é de imitar mais os comportamentos simples do que os extremamente complexos. A hostilidade e a agressividade tendem a ser muito imitadas, principalmente pelas crianças (Bandura, 1986). Assim, o que se vê na vida real ou na mídia, muitas vezes, determina o nosso comportamento.

A abordagem de Bandura consiste em uma teoria de aprendizagem "social", porque estuda iformação e a modificação do comportamento nas situações sociais. Bandura criticou Skinner por usar apenas um único sujeito na observação (na maioria das vezes, ratos e pombos) em vez de pessoas interagindo umas com as outras. Poucas pessoas vivem isoladas socialmente. Bandura afirmava que os psicólogos não devem considerar relevantes para o mundo moderno as descobertas de pesquisas que ignorem as interações sociais.

A Autoeficácia

Bandura realizou muitas pesquisas sobre a autoeficácia, descrita como o senso de autoestima ou valor próprio, o sentimento de adequação, eficácia e competência para enfrentar os problemas (Bandura, 1982). Seu trabalho demonstrou que as pessoas com grau elevado de autoeficácia acreditam ser capazes de lidar com os diversos acontecimentos da vida. Um pesquisador a descreveu simplesmente como "o poder de acreditar que se consegue fazer coisas", acrescentando que "acreditar que consegue realizar o que quer é um dos ingredientes mais importantes na receita para o sucesso" (Maddux, 2002, p. 277).

As pessoas com baixo grau de autoeficácia sentem-se inúteis, sem esperança, acredi­tam que não conseguem lidar com as situações que enfrentam e que têm poucas chances de mudá-las. Diante de um problema, tendem a desistir na primeira tentativa frustrada. Não acreditam que a sua atitude faça alguma diferença nem que controlam e podem mudar o próprio destino.

A pesquisa de Bandura mostrou que a crença no nível de autoeficácia influencia vários aspectos da vida. Por exemplo, pessoas com elevado grau de autoeficácia tendem a obter notas altas, a analisar mais opções de carreira, a obter maior sucesso profissional, a esta­belecer metas pessoais mais altas e a apreciar mais a saúde mental e física do que as com baixa autoeficácia. No geral, constatou-se que o homem tem a autoeficácia mais elevada do que a mulher. Tanto no homem como na mulher, o pico da autoeficácia ocorre na meia-idade e diminui depois dos 60 anos.
Parece óbvio que o alto grau de autoeficácia produz efeitos positivos em praticamen­te todos os aspectos da vida. O estudo demonstrou que as pessoas com grau elevado de autoeficácia sentem-se melhor e mais saudáveis, menos estressadas, suportam mais a dor física e tendem a recuperar-se mais rapidamente de uma doença ou de uma cirurgia do que as de baixa autoeficácia. Esta afeta também o desempenho escolar e profissional. Por exemplo, constatou-se que empregados com elevado grau de autoeficácia sentem-se mais realizados profissionalmente, são mais comprometidos com a empresa e mais motivados para realizar bem as tarefas e os programas de treinamento do que os funcionários de baixa autoeficácia (Salas e Cannon-Bowers, 2001).

Bandura descobriu também que os grupos desenvolvem níveis coletivos de eficácia que influenciam no desempenho de diversas tarefas. A pesquisa com grupos como equi­pes de esportes, departamentos corporativos, unidades militares, comunidades de bairro e grupos de ação política mostrou que "quanto mais intensamente percebida a eficácia coletiva, mais elevadas são as aspirações do grupo e maior é a motivação para as realizações; quanto mais intensa a persistência diante de impedimentos e obstáculos mais ele­vados são o moral e a capacidade de recuperação diante do estresse, e maior a realização de proezas" (Bandura, 2001, p. 14).

A Modificação de Comportamento

A proposta de Bandura para o desenvolvimento de uma abordagem social cognitiva para o behaviorismo consistia em alterar ou modificar comportamentos considerados social­mente anormais ou indesejáveis. Ele pensou que, se todo comportamento é aprendido observando outras pessoas e modelando o nosso comportamento de acordo com o delas, então é possível alterar ou reaprender o comportamento indesejável também por meio da observação. Assim como Skinner, Bandura concentrava-se nos fatores externos, ou seja, no comportamento em si e não em alguma consciência interna presumida ou em algum conflito inconsciente. Para Bandura, o tratamento do sintoma significa tratar o distúrbio porque sintoma e distúrbio são a mesma coisa.

As técnicas de modelação são usadas para modificar o comportamento, fazendo com que o indivíduo observe um modelo em uma situação que normalmente provoque certo grau de ansiedade. Por exemplo, uma criança que tem medo de cachorro observa outra da mesma idade - o modelo - aproximar-se do animal e acariciá-lo. Observando de uma distancia segura, a criança vê o modelo realizar movimentos progressivos, aproximando-se aos poucos do cachorro. O modelo acaricia o cão pelas barras do cercadinho e, em seguida, entra e brinca com o animal. Como resultado dessa situação de aprendizagem por observação, o medo da criança pode ser reduzido. Em uma variação dessa técnica, pessoas assistem a modelos brincarem com objetos temidos, como uma cobra, e então os próprios indivíduos realizam movimentos progressivos de aproximação em direção ao objeto, até se sentirem realmente capazes de tocá-lo.

A forma de terapia do comportamento de Bandura é amplamente empregada em clínicas, empresas e salas de aula e tem sido comprovada por centenas de estudos experimentais. Esse método tem sido eficaz na cura da fobia de cobras, espaços fechados, espaços abertos e altu­ras. Também é válido no tratamento dos distúrbios obsessivo-compulsivos, das disfunções sexuais e de algumas formas de ansiedade, além de ser eficaz no aumento da autoeficácia

O trabalho de Bandura vem sendo adaptado para programas de rádio e televisão com o objetivo de apresentar modelos de comportamento adequados para tratar de problemas sociais e nacionais, como a prevenção de gravidez indesejada, controle da disseminação da AIDS e redução do analfabetismo. Esses programas baseiam-se em personagens fictícias atuando como modelos para que os ouvintes e telespectadores simulem a mudança do comportamento. Pesquisas realizadas com tais simulações em rádios e televisões compro­vam o aumento significativo do comportamento adequado, tais como a prática de sexo seguro, o planejamento familiar e a melhoria do status da mulher (Smith, 2002a).

Comentários

Como era de se esperar, os behavioristas tradicionais criticaram o behaviorismo social cog­nitivo de Bandura, alegando que os processos cognitivos, como a crença e a antecipação, não causam efeito no comportamento. A resposta de Bandura foi a seguinte: "É interessan­te observar os behavioristas radicais afirmarem que o pensamento não exerce influência, enquanto dedicam um tempo razoável com palestras, artigos e livros em um esforço para convencer as pessoas a adotarem a sua forma de pensamento" (apud Evans, 1989, p. 83)

A teoria social cognitiva tem sido amplamente aceita na psicologia como uma forma eficaz para o estudo do comportamento em laboratórios e para modificá-lo nos ambien­tes clínicos. Além disso, as contribuições de Bandura foram amplamente reconhecidas pelos colegas. Ele presidiu a APA em 1974 e, em 1980, recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Cientifica da APA. Em 2004 recebeu o prêmio Outstanding Contribution to
Psychology Award
, da APA, e em 2006 recebeu o American Psychological Foundation's Gold Medal Award for Life Achievement in the Science of Psychology.

Sua teoria e a terapia de modelos dela derivada ajustam-se à forma prática e funcional da psicologia estadunidense contemporânea. A sua abordagem é objetiva e adaptável aos métodos precisos de laboratório. Atende aos anseios do clima intelectual corrente que se concentra nas variáveis cognitivas internas, além de ser aplicável às questões da vida real.

Julian Rotter (1916-2014)

Julian Rotter cresceu no bairro do Brooklyn, em Nova York. A família levou uma vida confortável até seu pai perder os negócios no início da Grande Depressão de 1929. Essa desastrosa mudança no cenário econômico marcou a guinada na vida de Rotter, na época com 13 anos. Ele declarou que "essa experiência despertou a minha eterna preocupação com a injustiça social e proporcionou-me uma grande lição de como a personalidade e o comportamento são influenciados pelas condições situacionais" (Rotter, 1993, p. 274)

Durante o ensino médio, Rotter descobriu os livros de psicanálise de Sigmund Freud e de Alfred Adler. Como brincadeira, começou a interpretar os sonhos dos colegas e resolveu que desejava se tornar psicólogo. Decepcionado ao descobrir a pouca disponibilidade de empregos para psicólogos, decidiu formar-se em química na Brooklyn College. No entan­to, ao ingressar na faculdade, conheceu, por acaso, Adler e resolveu afinal mudar para a psicologia, mesmo sabendo ser ela impraticável. Desejava seguir a carreira acadêmica, mas a discriminação contra os judeus frustrou suas expectativas. "Tanto na Brooklyn College como no curso de pós-graduação, fui alertado de que os judeus simplesmente não
conseguiam obter posições acadêmicas, independentemente das credenciais. Os alertas se confirmaram" (Rotter, 1982, p. 346). Depois de obter o Ph.D. na Indiana University, em 1941, aceitou um emprego em um hospital de saúde mental em Connecticut. Serviu o exército estadunidense como psicólogo durante a Segunda Guerra Mundial, lecionou na Ohio State University até 1963 e foi para a University of Connecticut. Em 1988, recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica da APA.

Os Processos Cognitivos

Rotter foi o primeiro psicólogo a utilizar o termo "teoria da aprendizagem social" (Rotter 1947). Ele desenvolveu uma forma de behaviorismo que, como a de Bandura, inclui referências às experiências subjetivas internas. Desse modo, o seu behaviorismo é menos radical do que o de Skinner.
Criticado por Rotter por estudar os indivíduos isoladamente, afirmando que a aprendi­zagem do comportamento ocorre principalmente mediante experiências sociais. A pesquisa de laboratório de Rotter era rigorosa e bem controlada, típica do movimento behaviorista. Ele realizou pesquisas somente com pessoas em situações de interação social.

Rotter enfatizava mais amplamente os processos cognitivos do que Bandura. Acredi­tava que os indivíduos se percebem como seres conscientes capazes de mudar as próprias vidas, e que o comportamento é determinado pelo estímulo externo e pelo esforço que oferece - no entanto, a influência relativa desses dois fatores é intermediada pelos proces­sos cognitivos. Rotter esboçou quatro princípios regentes dos resultados comportamentais (Rotter, 1982).

  • O indivíduo cria expectativas subjetivas em relação às consequências ou aos resultados do seu comportamento com base na quantidade e no tipo de reforço que recebe;
  • Ele calcula a probabilidade de determinado comportamento conduzir a um refor­ço específico e o ajusta apropriadamente;
  • Atribui valores diferentes para os diversos reforços e avalia o seu valor relativo nas variadas situações;
  • Como cada indivíduo apresenta um comportamento exclusivo e único no ambien­te psicológico, o mesmo reforço pode adquirir diferentes valores para diversas pessoas.

Desse modo, para Rotter, os valores e as expectativas subjetivas, que consistem em estados cognitivos internos, determinam os efeitos das diferentes experiências externas (estímulos e reforços externos diferentes) sobre o indivíduo.

Locus de Controle

Rotter concentrou razoável pesquisa nas crenças a respeito da origem do reforço. Algumas pessoas consideram o reforço dependente do próprio comportamento e alegam a existên­cia de um locus de controle interno. Outras pessoas acreditam no reforço dependente das forças externas - como o destino, a sorte ou as atitudes de outros indivíduos; alegam a existência do locus de controle externo (Rotter, 1966).

Obviamente, tais percepções acerca da origem do controle exercem variadas influências sobre o comportamento. Para as pessoas que percebem a existência do locus de controle exter­no, as próprias habilidades e ações não exercem muita influência nos reforços que recebem.

Convencidas da falta de poder em relação às forças externas, não se esforçam em tentar mudar ou melhorar a situação. As pessoas que percebem a existência do locus de controle interno acreditam ser responsáveis pela própria vida e por isso atuam apropriadamente. A pesquisa de Rotter demonstrou que as pessoas com locus de controle interno tendem a ser física e mentalmente mais saudáveis do que as outras. Em geral, sua pressão sanguí­nea é mais baixa, apresentam menos infartos, ansiedade e depressão e são mais hábeis ao lidarem com o estresse. Obtêm as melhores notas na escola e acreditam ter maior liberdade de escolha. São mais populares e sociáveis e apresentam elevado grau de autoestima. Além disso, o trabalho de Rotter sugere que o locus de controle é adquirido na infância por meio do comportamento dos pais e dos responsáveis pela criação. Pais de adultos com locus de controle interno tendem a ser solidários, generosos ao elogiarem as realizações (reforço positivo), coerentes na disciplina e a demonstrarem atitudes não autoritárias.

Rotter desenvolveu um teste para medir o locus de controle, que consiste em 23 ques­tões com alternativas obrigatórias; a pessoa deve escolher uma das duas opções que melhor descreva as suas crenças (veja na Tabela 11.1).

Exemplos da Escala l-E (Locus de Controle Interno-Externo)

Uma descoberta ao acaso. Relembremos o caso da descoberta acidental de Skinner do esquema de reforço, resultado do acaso, por ele não desejar passar o fim de semana no laboratório preparando as bolinhas de ração para os ratos. Percebemos que a ciência nem sempre avança na forma sistemática e racional descrita na maioria dos livros. Os fatores casuais ocorrem para moldar o desenvolvimento de um campo de estudo. A conceituação de Rotter sobre o locus de controle, que ele considerava a sua descoberta mais importante, ocorreu por acaso, em virtude de um comentário eventual de um colega.

Rotter conduzia um experimento em que as pessoas trabalhavam com um conjunto de cartões, tentando adivinhar se no reverso de cada um havia a figura de um quadrado ou de um círculo. Elas foram informadas de que estavam sendo testadas a respeito da per­cepção extrassensorial (PES). Depois de terminar uma série de cartões, elas deviam tentar calcular quantos acertos obteriam na segunda série.

Alguns indivíduos afirmavam que acertariam menos, pois acreditavam que os acertos da primeira tentativa foram apenas questão de sorte. Outros alegavam que se desempenha­riam melhor, pois acreditavam que os acertos da primeira tentativa foram por causa de sua capacidade de percepção extrassensorial, a qual esperavam aperfeiçoar com a prática.

Ao mesmo tempo que estava envolvido com essa pesquisa, Rotter supervisionava o trei­namento clínico de E. Jerry Phares. Phares contou a Rotter sobre um paciente insatisfeito com a sua falta de vida social. Pressionado por Phares, o rapaz foi a uma festa e dançou com várias mulheres, mas, mesmo com o aparente sucesso social, sua visão não mudou. Ele afirmou a Phares que fora apenas uma questão de sorte. "Jamais vai se repetir."

Quando Rotter ouviu a história, ocorreu-lhe uma ideia. Ele observou que nas experiências há sempre algumas pessoas cujas expectativas, assim como a desse paciente, nunca melhoram mesmo ante o êxito.

Eu e meu aluno de pós-graduação reali­zamos várias experiências em que manipulávamos o êxito ou o fracasso dos voluntários. (...) Alguns voluntários, mesmo quando informados de que estavam corretos ou errados a maioria das vezes, não mudavam suas expectativas de que cometeriam mais erros na próxima tentativa. Outros, independentemente do que lhes era dito, acreditavam que se desempenhariam melhor na vez seguinte. Nesse momento, juntei os dois lados do meu trabalho - o cientista e o empirista - e formulei a hipótese de que algumas pessoas acreditam em forças externas que, de uma forma ou outra, regem os acontecimentos da vida, enquanto outras creem na capacidade própria e no esforço individual como determinantes dos próprios destinos. (Rotter apud Hunt, 1993, p. 334)

Deixamos as dúvidas quanto a se Rotter teria desenvolvido a ideia do locus de controle caso o paciente de Phares houvesse mudado de posição sobre a sua popularidade depois do baile.

Comentários

A teoria da aprendizagem social de Rotter atraiu muitos seguidores que, a princípio, seguiam a orientação experimentalista, mas concordavam com a importância das variáveis cogni­tivas no impacto do comportamento. O rigor e o controle da sua pesquisa obedecem aos padrões permitidos de acordo com o assunto, e ele define os seus conceitos com a precisão que os torne passíveis de testes experimentais. Vários estudos de pesquisa, principalmente a respeito do locus de controle interno e externo, sustentam a sua abordagem. Rotter afir­ma que o centro de controle tornou-se "uma das variáveis mais estudadas na psicologia e nas demais ciências sociais" (Rotter, 1990, p. 489).

O Destino do Behaviorismo

Apesar de o debate interno a respeito da questão cognitiva no behaviorismo ter provoca­do mudanças no movimento behaviorista, que se seguiram desde Watson até Skinner, é importante lembrar que Bandura, Rotter e outros neo-neobehavioristas defensores da abor­dagem cognitiva ainda se consideram behavioristas. Podemos chamá-los de behavioristas metodológicos, porque se referem aos processos cognitivos internos como parte do objeto de estudo da psicologia, enquanto os behavioristas radicais acreditam que a disciplina deva se dedicar ao estudo do comportamento público e do estímulo ambiental, e não dos estados internos presumidos. Watson e Skinner eram behavioristas radicais. Hull, Tolman, Bandura e Rotter podem ser classificados como behavioristas metodológicos.

O domínio do tipo de behaviorismo de Skinner chegou ao auge na década de 1980 e diminuiu depois da sua morte, em 1990. Até o laboratório de pombos da Harvard, criado por Skinner em 1948, foi fechado em 1998 (Azar, 2002). Skinner admitia que a sua forma de behaviorismo estava perdendo terreno e que o impacto da abordagem cognitiva aumentava. Outros pesquisadores concordam, observando que "menos especialistas das principais univer­sidades hoje se denominam behavioristas no sentido tradicional. Na verdade, 'behaviorismo' é geralmente mencionado como algo pertencente ao passado" (Baars, 1986, p. 1).

O behaviorismo que permanece vivo na psicologia contemporânea, principalmente na psicologia aplicada, é diferente daquele que surgiu nas décadas entre o manifesto de Watson, de 1913, e a morte de Skinner. Assim como ocorre com todo movimento evolutivo na ciência e na natureza, as espécies continuam a evoluir. Nesse sentido, o behaviorismo sobrevive no espírito e não na realidade da intenção do seu fundador.
 

Psicologia - História da Psicologia
2/25/2020 1:44:24 PM | Por Stuart B. Schwartz
Livre
Império marítimo português: o Estado da Índia

Como sistema econômico, o Estado da índia era efetivamente a articulação da «carreira da índia», a grande rota transoceânica que ligava Lisboa ao colonato português de Goa, na costa ocidental da India, e a uma série de escalas que conectavam vários lugares da Ásia a Goa e à carreira. Os Portugueses procuraram monopolizar o comércio do oceano Indico, eliminando rivais poderosos (Turcos, Mamelucos e Guzerates) e controlando o comércio a partir de uma série de feitorias e fortalezas que vieram a estender-se de Sofala (África Oriental) a Ormuz (golfo Pérsico), Cochim (índia Ocidental), Malaca (Malásia) e além-Macau (China). A alfândega da Casa das índias, em Lisboa, o vice-rei e outros agentes régios presentes nos portos e feitorias do oceano índico administravam o monopólio real sobre a pimenta, a canela e outras especiarias. Durante a primeira metade do século XVI, este sistema proporcionou lucros consideráveis à coroa. Contudo, após a penetração portuguesa original e as primeiras vitórias militares, o comércio local do oceano índico recuperou e encontrou maneiras de abastecer as antigas rotas das caravanas para o Médio Oriente. As contínuas tentativas portuguesas para estrangular este comércio concorrente fizerem disparar os custos da operação imperial e acabaram por se revelar infrutíferas. A política foi alterada. Em vez de eliminarem o comércio local, os Portugueses procuraram controlar e taxar o comércio privado através de um sistema de «cartazes» (licenças), que gerou receitas apreciáveis para o Estado da índia mas permitiu o desenvolvimento das rotas alternativas do comércio das especiarias e minou o monopólio da carreira, que continuava a ser a principal aposta da coroa.

Embora fosse enviada para a Europa, pelo cabo da Boa Esperança, toda uma variedade de produtos, em especial canela, cravinho e outras especiarias, o grosso, em valor e volume, era constituído pela pimenta. A frota de 1518, por exemplo, transportou 1000 toneladas métricas de pimenta, 95% da carga total, e durante todo o século XVI a pimenta foi o bem mais transacionado do comércio real. Mas os grandes navios da carreira também transportavam os produtos dos comerciantes privados, e embora a sua parte do espaço representasse apenas 25%-30% da tonelagem, o valor dos seus bens era superior a 90% do valor total - e estes números não têm em conta o contrabando. Eram transportadas especiarias, tecidos, jóias e outros artigos de luxo, mas na década de 1580 os têxteis foram predominantes. Este padrão manteve-se durante boa parte do século XVII.

Os navios que zarpavam da Europa transportavam colonos, soldados e funcionários, alguns artigos de luxo e - de suma importância - dinheiro para pagar os produtos asiáticos e os custos militares e administrativos do império. O Quadro 1.1 apresenta, por decênio, números de tonelagens relativos às partidas e chegadas em ambos os sentidos. Mostra um período de grande atividade entre 1531 e 1540, seguido de um longo período de relativa estabilidade entre as viagens de ida e as de volta. Entre 1541 e 1600 viajaram cerca de 20% mais navios para a Ásia do que para a Europa. A taxa de perdas nas viagens para a Ásia foi de cerca de 13%, e um pouco mais elevada, 17%, em sentido contrário. Embora o nível de atividade variasse anualmente, durante os setenta anos do século XVI para os quais possuímos estimativas entre cinco e seis navios deslocaram-se anualmente em ambos os sentidos para assegurarem a carreira.

O monopólio português do comércio do oceano Indico foi um sonho nunca realizado devido à concorrência, e o comércio privado levado a cabo por funcionários régios, soldados e mercadores também minou o controle exclusivo do comércio índico por parte da coroa. A partir da década de 1550, as concessões a administradores reais e a mercadores privados, por outorga ou compra, criaram um sistema de escalas comerciais que ligou a Indonésia, a baía de Bengala e outras áreas vizinhas ao comércio da carreira. A coroa obteve algumas receitas das taxas alfandegárias sobre este comércio e também da venda das rotas. Estima-se que o valor destas viagens concessionadas, como de Goa para Ormuz ou de Malaca para São Tomé, tenha sido o dobro das receitas da coroa com o comércio da carreira em um ano bom. A rota entre Macau e Nagasáqui, na qual os Portugueses trocavam seda chinesa por prata japonesa, ou a rota entre Macau e Manila, em que a prata mexicana era trocada por seda destinada aos compradores da Nova Espanha, do Peru e da própria Espanha continental, geravam grandes lucros, mas eram apenas dois dos muitos circuitos em que o «comércio local» indígena e o comércio privado português operavam no âmbito do sistema do oceano índico. De fato, como observou o historiador James Boyajian: «O sucesso do comércio privado português na Ásia e na rota do Cabo não foi um fenômeno isolado. Integrou um vasto mundo comercial asiático, no qual os Portugueses desempenharam um papel secundário em relação aos Guzerates, Chineses, Javaneses e Japoneses»[1].

As viagens e rotas concessionadas e o comércio costeiro ligavam-se depois a Goa e à carreira por comboios anuais e pelo comércio por via terrestre. Os Portugueses também investiram bastante neste tráfico. Cada rota contribuía para o vértice aparente do sistema, que continuava a ser a rota do Cabo. Goa recebia bens de toda a Ásia: de Macau, de Bengala, das Molucas, de Malaca. Entre 1580 e 1640, cerca de 75% do valor total dos produtos descarregados em Lisboa pela carreira provieram de Bijapur, perto de Goa, e das regiões mais distantes de Cambaia, Guzerate e Sinde. Em cada rota colaboravam comerciantes locais e negociantes portugueses, incluindo muitos cristãos-novos. Estes foram praticamente empurrados para fora do sistema entre 1640 e 1670, devido à pressão da Inquisição, mas os mercadores indígenas muçulmanos, hindus e cristãos demonstraram considerável engenho e capacidade para se adaptarem e explorarem o sistema comercial português em benefício próprio.

O que significava o império para a economia portuguesa nas primeiras décadas do século XVI, quando o comércio da Ásia começou a fazer sentir o seu impacto? Em 1506 as especiarias asiáticas representaram mais de um quarto das receitas anuais do reino. Em 1518-1519 este número subiu para quase 40%. Entre os produtos ultramarinos, as especiarias da índia constituíam, de longe, a categoria maior. No entanto, importa ter em conta que as rendas e taxas cobradas em Portugal e as receitas geradas pela alfândega de Lisboa continuaram a ser fontes importantes de rendimentos.

No fim do século XVI estava já definido o carácter essencial dos dois sistemas do Império Português. A atividade econômica portuguesa no seio do Estado da índia era quase exclusivamente militar e comercial, uma combinação do uso da força e do terror, em especial na parte ocidental do oceano índico, com uma inteligente atividade comercial na baía de Bengala e além-Malaca. A economia da colônia brasileira diferia essencialmente do império além-cabo da Boa Esperança. Nas ilhas atlânticas e no Brasil, os Portugueses tinham investido fortemente na produção e haviam organizado capital, terra e mão-de-obra para produzir açúcar e outros produtos. Na Ásia quase nunca foi levada a cabo uma empresa semelhante. Os Portugueses deixaram as populações locais produzir pimenta, especiarias, seda e têxteis e negociaram estes produtos, ou licenciaram a sua circulação. Isto não é dizer que as taxas e as rendas sobre as terras não foram importantes para o império na Ásia. Em alguns lugares, como o Sri Lanka (Ceilão), contribuíram para mais de 80% das receitas da coroa e em meados do século XVII estas fontes de rendimentos poderão ter representado cerca de um terço do total. Contudo, os Portugueses raramente se dedicaram à produção dos bens comerciados. Apenas em alguns locais se desenvolveram propriedades fundiárias (aforamentos), sendo as mais impressionantes os «prazos» ao longo do rio Zambeze, na África Oriental, onde detentores e instituições se «africanizaram» como uma espécie de governantes locais. Os Portugueses quase nunca se oneraram com a responsabilidade da organização dos fatores de produção, em particular o capital e a terra, e acima de tudo, na maior parte dos locais, o problema do fornecimento e organização da mão-de-obra não lhes dizia respeito. Esta foi uma importante diferença econômica entre as duas esferas de atividade e teve também amplas implicações sociais. No princípio do século XVII, Ambrósio Fernandes Brandão, nos seus Diálogos das Grandezas do Brasil (1618), observou que em Portugal era possível encontrar muitos homens que tinham regressado da India com fortunas, mas poucos que tivessem feito o mesmo no Brasil. A diferença, disse ele, não residia no nível de lucro que se obtinha entre uma e outra esfera colonial, mas no fato de as fortunas que se faziam no Brasil estarem em propriedades e ativos fixos, enquanto as da índia eram resultado do comércio e portanto mais líquidas. Brandão poderia inclusivamente ter acrescentado que o estilo de vida e os níveis de consumo na índia, onde os Portugueses residentes usavam a sua riqueza para deslumbrar a classe alta indígena e se impressionarem uns aos outros, eram muito mais ostentosos do que no Brasil. Este consumo ostentivo também contribuiu para a eventual estagnação do Estado da índia.

Crise e Sobrevivência no Século XVII

Durante o século XVII, o papel do Império Português e o contexto em que operava modificaram-se radicalmente devido a alterações gerais na economia mundial e à emergência de um novo equilíbrio político na Europa. A desastrosa tentativa do rei D. Sebastião para expandir os interesses portugueses em Marrocos, em 1578, provocou não apenas a sua morte, mas também a perda do trono para os Habsburgos espanhóis durante sessenta anos (1580-1640). Subjacente à intervenção espanhola estava o interesse em Lisboa como grande porto atlântico e pelo comércio da índia, e muitas famílias nobres e da comunidade mercantil demonstraram considerável apoio à causa dos Habsburgos. De fato, de 1580 a 1620, o acesso português à prata espanhola, aos mercados das possessões habsburgas e à protecção oferecida pelas armas espanholas contribuíram para a economia portuguesa, uma situação favorecida pelo disparar da produção açucareira brasileira e pelos preços elevados alcançados por este produto. Porém, depois de 1621, a situação alterou-se radicalmente. Primeiro, entre 1622 e 1624, verificou-se uma recessão impressionante na economia euro-atlântica, provavelmente causada por uma expansão excessiva e pela eclosão da Guerra dos Trinta Anos. A renovação da guerra contra os Holandeses, a formação da Companhia das índias Orientais holandesa (1621), concebida como uma arma comercial contra os domínios dos Habsburgos espanhóis, e as crescentes exigências militares e navais daqui decorrentes colocaram enorme pressão sobre os recursos de Portugal e a sua capacidade de aumento da produção. A ocupação do Nordeste brasileiro (1630-1654), a conquista de EI Mina (1638) e a ocupação de Luanda (1641-1648) pelos Holandeses desorganizaram o fornecimento de escravos sobre o qual assentava todo o sistema atlântico. Esta situação e as políticas mercantilistas fechadas de Filipe IV contribuíram para o apoio à separação de Espanha. A Restauração, iniciada em 1640 por apoiantes dos Braganças, inaugurou um período de esforços militares, diplomáticos e econômicos portugueses que durou quase trinta e anos e deixou os dois campos exaustos. O fato de Portugal ter lutado pela sua independência ao mesmo tempo que travava um combate à escala global para defender o seu império contra os concorrentes europeus toma o feito português ainda mais impressionante.

Neste contexto, podem também descortinar-se benefícios proporcionados pelo império que não eram essencialmente econômicos. Na década de 1580, os opositores portugueses da causa dos Habsburgos tinham conseguido recrutar auxílio francês e inglês oferecendo concessões no comércio do Brasil, e houvera até insinuações de concessões ou transferências territoriais. Durante as negociações com os Holandeses, na década de 1640, o chamariz do comércio colonial e a entrega de praças coloniais tinham sido utilizados como moeda de troca. Em certa medida, o apoio da Inglaterra a Portugal, a partir de 1642, e especialmente após o tratado de 1654, foi comprado com a promessa de vantagens comerciais nas colônias portuguesas, e quando a relação foi consolidada através do casamento de Catarina de Bragança com Carlos II, em 1661, um fator de peso nas negociações foi o enorme dote de 2 milhões de cruzados, grande parte do qual obtida através de impostos sobre as populações coloniais e da entrega de praças coloniais como Bombaim e Tânger. Por si só, Portugal contava pouco para os outros monarcas da Europa, mas com o seu império global passava a ser merecedor de alguma consideração, fato de que a corte, em Lisboa, estava plenamente consciente. Estes acordos comerciais poderão ter sido economicamente desvantajosos para Portugal a longo prazo, mas garantiram a independência política do reino e recrutaram um aliado poderoso para defesa da sua soberania. Era um benefício que não se podia calcular facilmente no balancete do império, mesmo se este existisse. Além do mais, o sistema atlântico também pagou diretamente, em homens e armas, a sobrevivência do reino. Os impostos sobre a indústria do açúcar foram cruciais para pagar a guerra da independência e financiar a luta global contra os Holandeses, durante a qual o contributo das forças coloniais para a reconquista de Pernambuco e de Angola foi um fator importante. Muitos dos capitães e comandantes das guerras da Restauração tinham prestado serviço no Brasil ou na índia.

No meio destes acontecimentos políticos, a economia açucareira, coração do sistema atlântico, alterou-se. Em 1630 o Brasil produziu cerca de 22 000 toneladas, mas a baixa de preços reduziu os lucros para metade dos auferidos na década de 1610. Os preços voltaram a subir nas décadas de 1640 e 1650, mas isto fez com que os concorrentes estrangeiros das Caraíbas, em particular de Barbados, começassem a produzir açúcar. Estes desenvolvimentos tiveram duas consequências. Com açúcar disponível nas suas próprias colônias, a Inglaterra e a França começaram a impor restrições às importações do Brasil e, para todos os efeitos, eliminaram o açúcar brasileiro dos seus mercados. Em segundo lugar, o aumento da produção fez cair o preço do açúcar no mercado atlântico, e a procura de trabalhadores para as plantações das Caraíbas fez subir o preço dos escravos. Os plantadores brasileiros foram apanhados entre estas duas tendências no preciso momento em que o Estado português aumentava cada vez mais os impostos sobre o açúcar para pagar a defesa do império e a guerra de independência. Mesmo depois do fim da Guerra Luso-Holandesa, em 1654, a produção do Brasil conseguiu superar a dos seus concorrentes em mais de 1 200 000 de arrobas (18 000 toneladas). A região continuava a possuir algumas vantagens comparativas, mas as condições político-econômicas internacionais e os seus efeitos nas políticas fiscais portuguesas conjugaram-se para dar origem a uma situação de crise. Portugal procurou responder de várias formas. Em 1649, foi criada a Companhia do Brasil, para organizar o comércio da colônia. Apesar de prejudicada pela irregularidade das viagens marítimas, pelo contrabando e por outros problemas, a companhia foi relativamente bem-sucedida, enviando frotas carregadas com os principais produtos da colônia, que passaram a incluir, além de açúcar, grandes quantidades de tabaco e peles.

Na década de 1680 a economia entrou em profunda recessão. A separação de Espanha interrompera e dificultara o afluxo de prata da América espanhola à economia portuguesa. À semelhança do resto da Europa Ocidental, Portugal viu-se a braços com uma recessão que levou a uma desvalorização da moeda portuguesa, em 1688, e à intensificação da busca de novas fontes de receitas, mas o sistema atlântico, na sua maioria, sobreviveu. Os rendimentos que proporcionou deram ao reino forças para se manter independente, impedindo que Portugal seguisse o caminho da Catalunha ou da Escócia.

O século XVII foi muito pior para o Estado da índia. Para lá do cabo da Boa Esperança, podemos aperceber-nos de três processos inter-relacionados que afetaram a natureza do império. Primeiro, depois de 1590, a chegada de rivais europeus, em especial os Holandeses e os Ingleses, e a subsequente perda de rotas, portos e praças importantes como Malaca (perdida em 1641), provocaram uma grave contração nas operações do Estado da índia e no volume de comércio e receitas. Em segundo lugar, e ao mesmo tempo, do Levante ao Japão assistiu-se a uma reação asiática à presença portuguesa (e europeia). A ascensão ao poder dos Safávidas, na Pérsia, a expansão mogol no Norte da índia e o xogunato Tokugawa no Japão deram origem a Estados grandes e poderosos que não podiam ser intimidados, coagidos ou bajulados como antes. Estes «impérios da pólvora» também eliminaram a antiga divisão entre potências fundiárias e Estados comerciais menores. A perda de Ormuz (1622) para os Safávidas e Ingleses e a expulsão dos cristãos (com exceção dos Holandeses) do Japão, em 1638-1640, foram episódios sintomáticos da contração imperial provocada pela emergência das novas potências.

Em resposta à concorrência estrangeira e à assertividade indígena, os Portugueses experimentaram novas alternativas. O êxito das companhias comerciais inglesas e holandesas promoveu a criação de uma Companhia Portuguesa das índias Orientais, mas as elevadas perdas no mar e a escassez de capital provocada pela obstrução da Inquisição à participação dos cristãos-novos condenaram-na a uma existência breve (1628-1633). A coroa virou-se cada vez mais para os privados e vendeu as lucrativas rotas asiáticas para Goa sob a forma de viagens concessionadas. O volume das receitas da carreira propriamente dita só começou a revelar uma contração séria na segunda metade do século; em parte como resposta a esta contração, tentou-se integrar o vacilante sistema do oceano índico no do Atlântico, também a braços com problemas, mas com melhores resultados. Os navios que rumavam à metrópole começaram a escalar com alguma regularidade em Salvador, no Brasil, onde as sedas, as pérolas e os artigos de luxo que traziam eram procurados, e onde a partir de 1675 passaram a ser autorizados a carregar açúcar para entrega em Lisboa. Também o Rio de Janeiro acabou por ser atraído para o comércio com Goa, e entre o Brasil e Goa prosperou o comércio de tabaco na forma de rapé.

A carreira sofreu os prejuízos mais pesados em meados do século XII, com a perda de cerca de 20% da tonelagem total embarcada. Em 1670, o Estado da índia, enquanto empresa estatal, sofreu as maiores perdas, mas isto não quer dizer que os comerciantes privados não tenham continuado a prosperar, nem que os milhares de mercenários, mercadores e missionários portugueses existentes de Macau ao Sião e à Abissínia tenham perdido importância nas sociedades locais.

Na luta global contra os Holandeses, os Portugueses praticamente perderam a Ásia, contiveram-nos na África e, recorrendo à guerra e às aquisições, venceram na América. Os esforços para se manterem no Brasil representaram o reconhecimento de que o sistema atlântico, não obstante as pressões a que fora sujeito, se tornara a espinha dorsal do império. Compunha-se agora primariamente do Brasil e da África Central e Ocidental. A Madeira e os Açores tinham-se convertido em produtores de vinho e cereais e estavam mais integrados na economia e na política da metrópole, mas o Atlântico Sul do Brasil e da África formou progressivamente um sistema integrado de mão-de-obra e produção. A importação de escravos atingia 5000 por ano e a impressionante mortalidade e o crescimento demográfico negativo verificados no Brasil transformaram o tráfico de escravos na caraterística essencial de todo o sistema. A vida econômica de Angola e dos outros colonatos da África passou a subordinar-se quase por inteiro às exigências do tráfico de escravos.

História - Portugal
2/16/2020 2:02:39 PM | Por Nicolau Tadeu Arcaro
Livre
A psicologia humanista

O humanismo é a vertente da psicologia fenomenológica que conta com o maior número de adeptos e abordagens psicoterápicas, dentre as quais figura, como uma das mais proeminentes, a Gestalt-terapia. De acordo com Smith (1990), a corrente humanista surgiu como um movimento social dentro da psicologia, que acabou por se estabelecer como uma perspectiva duradoura. Tal perspectiva dá prioridade aos tipos de experiência mais especificamente humanos. Estes, a seu ver, são insuficientemente abordados por outras visões.

Conforme explica DeCarvalho (1990), o iniciador primordial do movimento humanista foi Abraham Maslow. Psicólogo expe­rimental talentoso dos Estados Unidos, Maslow foi colocado no ostracismo por seus colegas quando começou a explorar assuntos considerados não convencionais. A partir daí, passou a fazer con­tato com colegas que, por assumirem posições semelhantes, tam­bém estavam na mesma situação. Em 1954 organizou uma mala direta com 125 autores para que houvesse um meio de troca de trabalhos mimeografados entre eles. Essa mala foi. crescendo, mas conforme ele próprio e Anthony Sutich, um colega que se associou mais proximamente a ele em sua empreitada, observaram, não era um método eficiente de comunicação. Perceberam que, na reali­dade, era necessário organizar uma revista científica, o que ficou principalmente a cargo de Sutich.

Após várias discussões sobre qual seria seu nome, decidiram, por influência de Anthony Cohen, genro de Maslow e também ligado à área, chamá-la Journal of Humanistic Psychology. Entre os componentes de seu primeiro comitê editorial figuravam Kurt Goldstein, Rollo May, Erich Fromm e Clark Moustakas. O primeiro número foi publicado na primavera de 1961, e seus primeiros assinantes foram os integrantes da mala direta mencionada acima.

Ainda segundo DeCarvalho (1990), à medida que a revista foi ganhando fôlego, outros psicólogos, além dos contatados por Maslow até então, começaram a procurar por Sutich, o que o levou a considerar necessário que os assinantes do periódico tivessem sua própria associação. Ele e Maslow discutiram o assunto com outros colegas e, graças a uma verba obtida por Gordon Allport  o primeiro congresso da Associação Americana de Psicologia Humanista aconteceu na Filadélfia em meados de 1963.

No entanto, foi somente no fim de 1964 que á psicologia humanista terminou, de fato, de estruturar-se como uma terceira força no panorama norte-americano. Isso ocorreu através da conferência realizada em Old Saybrook, na qual as apresentações dos participantes voltaram-se para as questões teóricas básicas implicadas por essa nova corrente da psicologia.

Houve, a princípio, dissidências entre dois grupos que assumiam posições diversas: um queria definir o humanismo simplesmente como oposição ao comportamentalismo e à psicanálise, e o outro queria identificá-lo, de maneira mais positiva, com a introdução de valores e significados humanos na psicologia vigente. Chegou-se a um acordo em favor da segunda postura, pois adotando a proposta defendida por Bugental (1963), concordaram que, ao invés de negar as orientações psicanalíticas e comportamentalista, poderiam incorporá-las a uma visão mais ampla, de caráter fenomenológico, que enfatizava o valor e o significado da experiência humana.

A partir disso foram estruturados os primeiros estatutos do novo movimento, baseados em cinco postulados:

  • a pessoa é mais que a soma de suas partes;
  • ela é afetada por seu relacionamento com outras pessoas;
  • ela é um se rconsciente;
  • ela tem possibilidade de escolha;
  • ela apresenta um caráter intencional.

Entretanto, como o próprio DeCarvalho (1990) salienta, tais postulados eram um tanto quanto vagos. Uma tal indefinição, contudo, não era de se estranhar, uma vez que a tarefa de caracterizar o humanismo não é, de fato, simples. Isso porque, ao contrário das outras correntes da psicologia, ele não se iniciou a partir das idéias de um determinado autor ou escola de pensamento, mas, conforme expliquei, como uma aglutinação de diversas tendências que se contrapunham ao comportamentalismo e à psicanálise (BOANAIN JR., 1995).

Não obstante, apesar da diversidade das abordagens que a ele se filiaram, o movimento apresenta alguns aspectos fundamentais e genéricos, que se estruturaram a partir das bases em que buscou inspiração para se constituir (o humanismo filosófico, o existencialismo, dissidentes de Freud como Adler e Jung, teóricos da personalidade, proposições gerais da psicologia da gestalt e, dentro dela, concepções mais específicas de Lewin e Goldstein). Para melhor explicá-lo, portanto, devo-me remeter a esses aspectos.

Um deles é o de se tomar a experiência subjetiva como referência básica para a compreensão, numa postura de teor fenomenológico. De acordo com Burow e Scherp (1985), tal idéia foi, em grande medida, inspirada pelo humanismo e pelo existencialismo filosóficos. É preciso todavia acrescentar que, no tocante ao existencialismo, não há uma completa coincidência de idéias entre ele e a psicologia humanista. Conquanto uma vertente desta última apóie-se bastante em idéias existencialistas, a ponto de alguns chamarem tal vertente de ‘humanista-existencial, isso não consiste numa posição genérica (BOANAIN JR., 1995).

Além disso, deve-se ressaltar que a influência importante para a corrente humanista foi a do existencialismo filosófico, e não a da psicologia existencial e fenomenológica européia. Muito embora, por ocasião do estabelecimento do humanismo, tenha havido uma interação significativa entre ele e a psicologia existencial européia, o relacionamento entre ambos nem sempre foi dos mais harmoniosos. Como explica DeCarvalho (1990), tal relacionamento foi mais de paralelismo de idéias, que de influência de uma escola sobre a outra.

Cabe acrescentar que o mesmo ocorreu relativamente à fenomenologia husserliana: apesar de essa visão ser adotada por al­guns humanistas, outros adotam o que Boanain Jr. (1995) chama de uma versão simplificada, levada anteriormente para os Esta­dos Unidos pelos gestaltistas alemães e psiquiatras jasperianos (alguns autores preferem chamar de ‘fenomenismo’ a esta última  versão da fenomenologia). Tal versão, de sentido mais amplo, foi a que embasou, por exemplo, várias elaborações de Carl Rogers. Não implica em adotar todos os parâmetros desenvolvidos pela primeira, mas simplesmente em buscar o significado da experiên­cia vivida nos próprios fenômenos que a constituem. Explicando melhor, essa postura propõe que se tente compreender tais fenô­menos a partir de sua observação e dos significados que surgem estritamente associados a ela, e não através de uma estrutura te­órica explicativa.

É preciso explicar, ainda, que a compreensão mais caracteristicamente fenomenológica dos humanistas consiste num estilo, numa tendência, e não numa atitude exclusivista. Dessa forma, apesar de a maioria das abordagens humanistas procurarem, no trabalho terapêutico, entender a experiência da pessoa acompanhando empaticamente tal experiência, e não interpretando-a teoricamente, esta última estratégia não é totalmente excluída.

E algo semelhante também ocorre relativamente ao trabalho de pesquisa: não obstante serem realizadas investigações de gênero mais propriamente fenomenológico, também o são as de caráter mais positivista. Este é o caso, entre outros, dos extensos e sofisticados trabalhos voltados para a análise do conteúdo de sessões terapêuticas conduzidos por Rogers e seus colaboradores (Cf. Marsden, 1971).

Mencionando agora um outro aspecto importante do humanis­mo, tem-se que, para ele, o ser humano apresenta possibilidade de escolha, ou seja, capacidade de livre arbítrio. Este aspecto tam­bém foi, em certa medida, inspirado pelo humanismo e pelo existencialismo filosóficos (BUROW; SCHERPP, 1985), e deve-se ainda levar em conta a influência da psicologia da gestalt, principalmen­te no que se refere ao trabalho de Kurt Lewin. Também é preciso explicar que, como detalharei melhor à frente, essa idéia de livre arbítrio não consiste numa visão utópica de plena liberdade, mas na convicção de que o próprio indivíduo é uma das fontes de deter­minação de seu comportamento e de sua experiência subjetiva.

E mais uma característica básica do movimento humanista, que deve ser lembrada, é a crença numa tendência do ser humano para a auto-realização e o crescimento. Fundamentada prin­cipalmente nas idéias de Goldstein (Cf. Smith, 1990), tal crença prega que o homem é orientado pela necessidade, intrínseca a todos os organismos vivos, de efetivar ao máximo seu potencial e atingir o estado mais amplo e sofisticado de que for capaz. De acordo com ela, se a pessoa tiver suas necessidades mais básicas e individuais adequadamente satisfeitas, tenderá a se voltar para interesses como os sociais e espirituais, que se associam as etapas mais elevadas de seu desenvolvimento.

Alguns autores importantes, como novamente é o caso de Ro­gers, têm uma visão bastante otimista a respeito da natureza hu­mana, segundo a qual o indivíduo tende a crescer num sentido positivo, a não ser que entraves sócio-ambientais o desviem desse caminho. Entretanto, essa visão, embora talvez dominante, não é hegemônica dentro do humanismo. Um exemplo disso é Rollo May, que se baseou num existencialismo mais cético. Embora tam­bém se apresente relativamente otimista quanto à natureza das pessoas, acredita, por outro lado, que forças negativas possam ter papel motivacional relevante em suas escolhas (DeCARVALHO. 1990). Desse modo, conquanto seja geral a crença num impulso natural do ser humano para o crescimento, não é geral a de que esse impulso seja predominantemente positivo.

Como quer que seja, uma das características mais marcantes e genéricas da compreensão humanista a respeito da natureza hu­mana está em rejeitar concepções estáticas desta última, conce­bendo-a como um constante processo de crescimento, de vir a ser (BOANAIN JR., 1995). E com base nisso, inclusive, que o huma­nismo opõe-se à adoção do modelo médico na psicoterapia. Em sua compreensão, o trabalho psicoterápico deve consistir num proces­so que favoreça o crescimento que acabei de mencionar, sendo o terapeuta essencialmente um facilitador do mesmo. Não encaram portanto, a atividade terapêutica como a cura de patologias, conforme prega o modelo em questão.

Pode-se dizer também que, coerente com a idéia de uma ten­dência para a auto-realização, outra particularidade importante do humanismo é o interesse nos aspectos mais característi­cos do ser humano. Esse interesse associa-se à idéia em questão, pois está voltado para os fatores que possibilitam a auto-realização, como a satisfação das necessidades de segurança emocional, a aquisição de identidade própria, e de autonomia, a criatividade, os valores sociais mais elevados e a espiritualidade.

Para os humanistas, uma psicologia realmente humana exige que se aborde as peculiaridades do comportamento das pessoas tanto em termos de espécie animal como de características indivi­duais. Discordam, assim, de estratégias que procuram conhecer o homem através da pesquisa com animais, como muitas vezes faz a psicologia comportamental. Além disso, ainda coerentes com a idéia de auto-realização, crêem que se deva privilegiar, dentro da investigação das experiências tipicamente humanas, o estudo de indivíduos saudáveis e bem dotados, que podem indicar cami­nhos para um desenvolvimento pessoal mais satisfatório. Desta forma, contrapõem-se às escolas como a psicanálise, que estrutu­raram suas teorias a partir da observação de casos considerados patológicos.

Enfocando agora outras facetas do movimento humanista, uma das mais fundamentais, de grande repercussão teórica e prática, é a de abordar o ser humano a partir de uma ótica holista (BOA- NAIN JR., 1995; DeCARVALHO, 1990; SMITH, 1990). De acordo com Boanain Jr., tal visão foi adotada por influência da psicologia da gestalt e também de Adler. Consiste em privilegiar uma com­preensão integral da totalidade do homem ao invés de analisá-lo através de seu fracionamento em partes, acreditando que ele seja mais que a soma dessas partes. Essa estratégia opõe-se às de cará­ter elementarista utilizadas por outras escolas do pensamento da psicologia. Os humanistas rejeitam as concepções reducionistas e
fragmentadoras da psicanálise e do comportamentalismo. Em sua opinião, a primeira delas enxerga a pessoa como um animal lascivo e feroz, movido por instintos voltados para o prazer e a agressão. E apenas às custas de um trabalho árduo de repressão e sublimação que uma tal pessoa pode adquirir algum verniz de sociabilidade, mas vivendo, por causa disso, uma existência frustrada e infeliz E a segunda vê o indivíduo como uma marionete manipulada por contingências de estimulação exteriores que, na melhor hipótese poderá optar entre um condicionamento fortuito e um planejado. Já segundo a visão holista, o ser humano consiste num sistema complexo e organicamente integrado, cujas qualidades mais es­senciais advêm de sua estrutura total. O homem é, de acordo com ela, um ser bio-psico-social.

Coerentes com essa visão, os humanistas, inspirados princi­palmente pela teoria organísmica de Kurt Goldstein, vinculada a psicologia da gestalt, opõem-se à divisão cartesiana entre corpo e mente, enxergando a ambos como aspectos intimamente rela­cionados de um mesmo fenômeno bio-psíquico. Nesse sentido acreditam que tudo o que ocorra em âmbito orgânico tenha sua contrapartida no psíquico e vice-versa, adotando um enfoque psicossomático.

Por outro lado, mais influenciados por Kurt Lewin, os huma­nistas também vêem o ser humano como indissociavelmente li­gado ao seu ambiente e influenciado por ele. Isso não quer dizer, entretanto, que o comportamento humano seja propriamente de­ terminado pelo ambiente, como propõem os comportamentalistas, o que contradiria o princípio de livre arbítrio defendido pelo humanismo. A concepção humanista inspira-se, sim, na teoria de campo desenvolvida por Lewin. De acordo com esta, é um campo psicofísico composto pelo indivíduo e seu meio que determina a experiência deste indivíduo. Sendo ambos, indivíduo e ambiente, as duas forças polares básicas que estruturam tal campo, o comportamefito é fruto de sua interação, e não exclusivamente de uma ou outra. Dessa forma, a pessoa exerce parcela significativa de de­ terminação sobre suas próprias ações, apesar de elas estarem inti­mamente associadas a fatores ambientais.

A visão bio-psico-social encontra uma expressão talvez mais clara na metáfora empregada por Koestler (1978) para explicar a concepção sistêmica. Este autor utiliza a imagem de Jano, o deus romano de dois rostos opostos, para expressar o caráter básico da existência humana. Da mesma forma que esse deus, a pessoa apresenta duas faces ou tendências simultâneas: uma é a de se compor­tar como um sistema independente, articulando numa totalidade indissociável aspectos como o orgânico e o psíquico e afirmando sua individualidade; a outra é a de agir como parte integrada de sistemas mais amplos, como o sócio-ambiental.

É, em medida significativa, como fruto de uma tal compreensão que houve, no humanismo, grande desenvolvimento de métodos de intervenção, tanto corporais, dada a associação íntima entre o biológico e o psíquico, como grupais, dada a relação igualmente próxima entre o indivíduo e seu meio social. Cabe entretanto es­clarecer que, relativamente aos primeiros, também foi importante a influência do pensamento de Reich, como se pode observar na gestalt-terapia, que apresenta formulações baseadas na idéia de couraça muscular desse autor. E no que se refere aos procedimen­tos grupais, foram, da mesma forma, importantes as concepções de Moreno, criador do psicodrama.

Com base em tais influências, muitos humanistas passaram a utilizar estratégias corporais que envolvem massagem, toque, dança, movimento, métodos catárticos com alta mobilização or­gânica, exploração e intensificação de sensações e outros recursos. E também adotaram procedimentos grupais que abrangem, além da psicoterapia de grupo em sentido mais estrito, ampla gama de trabalhos vivenciais. Estes podem ser realizados com pequenos ou grandes grupos, apresentarem caráter intensivo (workshops com até vários dias de duração ininterrupta) ou extensivo (cur­tas sessões periódicas), bem como serem pautados por temas ou estratégias de intervenção definidos, ou simplesmente terem a proposta de as pessoas explorarem o que parecer interessante no momento.

E além da prática de trabalhos corporais e grupais, pode-se ain­da associar à visão holista outro dos aspectos fundamentais do hu­manismo: acreditar que o ser humano apresente um caráter eminentemente dialogal (Cf. Boanaín Jr., 1995). Coerente com a teoria de campo de Lewin, tal consiste na crença de que o homem não existe, realmente, como indivíduo isolado, mas só se define e se realiza plenamente no encontro pessoal com seus semelhantes.

Entretanto, não obstante essa sintonia com idéias da psicologia da gestalt, tal crença baseia-se menos nesta escola de pensamento e mais em concepções existencialistas, principalmente no que toca às expressas por Martin Buber.

Segundo Buber (1979), o encontro a que me referi acima não está associado a qualquer comportamento interpessoal, mas ape­nas àqueles em que se estabelece o que ele chama de ‘relação Eu-Tu. Nesta, os participantes não assumem uma atitude utilitarista, e sim uma atitude verdadeiramente empática e autêntica, de sin­cero respeito e compreensão entre si.

Em conformidade com o que expus acima, os psicoterapeutas humanistas acreditam que o relacionamento de pessoa para pes­soa seja o mais favorável para o crescimento do indivíduo e sua auto-realização. E em função disso que propõem a adoção de uma postura relacional na psicoterapia. Orientados por ela, abandonam a estratégia mais tradicional e, a seu ver, defensiva, de se abordar os clientes de psicoterapia como objetos a serem analisados e ma­nipulados. Isso para poderem se relacionar com eles de maneira mais pessoal e aberta, respeitando sua maneira de ser.

Diga-se, inclusive, é devido a tal postura que os humanistas não utilizam o termo ‘paciente’, mas sim 'cliente’, para designar a pes­soa que busca atendimento psicológico. A idéia de paciente está associada à imagem de uma pessoa passiva, basicamente direcio­nada pelas influências do terapeuta, e não à de uma pessoa cujas características e liberdade de decisão devam ser respeitadas.

E ainda fundamentados por sua visão dialogal de ser humano e sua crença na tendência para a auto-realização, os humanistas também propõem que o indivíduo busque uma existência mais espontânea, autêntica e auto-consciente. É dessa forma que, em sua compreensão, ele pode obter o máximo de realização pessoal e o mais verdadeiro e profundo relacionamento com os outros. Nesse sentido, questionam uma série de valores e práticas sociais mais conservadoras, que inibem a expressão e a liberdade de escolha  individual. Não se entenda isso, é claro, como uma negação de limites necessários para a vida em sociedade e o respeito mútuo entre seus integrantes. A oposição é feita contra restrições arbitrárias e obscurantistas, que ao invés de promoverem o bem estar e a evolução individual e social, acabam por atravancá-los.

O humanismo acredita que a melhor chance de um relaciona­mento social produtivo está exatamente numa postura aberta das pessoas, o que permite que se compreendam melhor e se sensibili­zem mais para as necessidades umas das outras. Foi devido a isso que, nos anos 60, houve uma ligação próxima entre o humanismo e a contracultura, pois ambos questionavam valores sociais que consideravam arcaicos ou destrutivos.
Finalmente, diante do exposto nas páginas anteriores, pode-se expressar, de maneira concisa, as características mais proeminentes da corrente humanista como sendo:

  • colocar no centro das atenções a vivência pessoal, sendo as explicações teóricas e o comportamento observável vistos como secundários;
  • acreditar na possibilidade, embora não irrestrita, de livre arbítrio;
  • crer num impulso natural para a auto-realização;
  • acreditar que, tendo suas necessidades mais básicas, físicas e emocionais, satisfeitas, a pessoa tende a voltar-se para aspira­ções mais amplas, como as de ordem social e espiritual;
  • visar, como objetivo fundamental da psicoterapia, o cresci­mento e a autonomia psicológica do cliente;
  • crer na importância de se levar em conta as singularida­des da espécie humana e de cada indivíduo para que se possa compreendê-los;
  • adotar uma visão holista de ser humano, segundo a qual ele só pode ser compreendido como um todo integrado, e não através da análise isolada de seus diferentes aspectos (atitude elementarista); 
  • abordá-lo em sua real magnitude, criticando outras corren­tes por pregarem que a experiência humana pode ser compre­endida através de um modelo mais simples do que realmente é (atitude reducionista);
  • crer na importância de o terapeuta relacionar-se empática e autenticamente com o cliente;
  • acreditar que a existência humana deva ser pautada pela espontaneidade e a autenticidade.
Psicologia - Psicologia humanista
2/13/2020 4:20:16 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
O Behaviorismo de Watson

A bonita e jovem aluna do curso de pós-graduação segurava o bebê enquanto o psicólogo segurava o martelo. Vagarosamente ela abanava sua mão no ar para manter a atenção do bebê de modo que ele se ligasse nela e não virasse sua cabeça e olhasse para outro lugar. Assim, a criança distraida, não vê o bastão de metal de 1,2 m de comprimento por 2 cm de largura, pendurado no teto. Ele não viu o homem que levantou o martelo e bateu com força na barra de metal.

O relato da pesquisa afirmava que "A criança alterou violentamente, sua respiração foi verificada e seus braços levantados." Quando o psicólogo bateu no bastão novamente, os lábios da criança "começaram a se dobrar e a tremer" e após bater pela terceira vez no bastão, ele começou a chorar repentina e fortemente" (Watson e Rayner, 1920, p. 2).

Já descobriu quem são essas pessoas e o que estão fazendo? O sujeito desse experimento passou a ser conhecido como O "Pequeno Alberto", o bebê mais famoso da história da psicologia. O psicólogo de 42 anos de idade era John Watson, o fundador da escola de pensamento conhecida como behaviorismo. Sua assistente era Rosalie Rayner, uma aluna de pós-graduação de 21 anos que ia para o campus da Johns Hopkins University dirigindo seu Stutz Bearcat, o carro esportivo mais moderno e caro daquela época. Juntos eles mudaram a psicologia e, no processo, terminaram a brilhante carreira acadêmica de Watson.

Albert (seu sobrenome é ainda desconhecido) tinha 8 meses e 26 dias quando o mar­telo foi batido na barra de metal atrás de sua cabeça. Um bebê saudável e feliz, ele havia sido escolhido por Watson para ser o sujeito de sua pesquisa, precisamente por ser tão estável emocionalmente e não facilmente perturbado.

Dois meses antes de ser assustado pelas batidas do martelo, Albert havia sido exposto a uma variedade de estimulos, incluindo um rato branco, um coelho, um cachorro, um macaco, jornais sendo queimados, e uma série de máscaras. Ainda não havia exibido nenhum medo em resposta a esses objetos. Na realidade, nem a mãe de Albert, nem outra pessoa jamais havia visto a criança exibindo medo em nenhuma situação - até o dia do laboratório.

Quando Watson bateu o martelo pela primeira vez, Albert reagiu amedrontadamente tudo indica que pela primeira vez na sua vida. Isso deu a Watson uma resposta emocional não-condicionada com a qual poderia trabalhar. Ele queria descobrir se conseguiria produzir em Albert uma resposta emocional condicionada, por exemplo, medo do rato branco do qual não tinha anteriormente, combinando a visão do rato com o barulho provocado pelo som que o havia assustado. Não foi preciso mais do que sete combinações do rato branco com o barulho para que a criança mostrasse medo cada vez que visse o rato, mesmo se o bastão não fosse batido com o martelo por trás de sua cabeça.

Assim, Watson e Rayner estabeleceram uma resposta de medo a um objeto anterior­mente neutro e isso foi realizado de uma maneira fácil e eficaz. Em seguida eles demons­traram que a resposta de medo de Albert podia ser generalizada a outros objetos brancos e peludos, como um coelho, cachorro, um casaco de pele e a máscara do Papai Noel!

Watson concluiu que nossos medos, ansiedades e fobias quando adultos, consequen­temente, devem ser simples respostas emocionais condicionadas que foram estabelecidas na infância, e que permanecem durante toda a nossa vida.

E quanto ao pequeno Alberto? Ele ainda se esconde de pequenos animais brancos e peludos? Teve que fazer psicoterapia? Ninguém sabe o que aconteceu a ele. Talvez tenha se tornado um psicólogo, mas não há como negar sua contribuição para a história da psicologia e seu papel no desenvolvimento do behaviorismo de John B. Watson.

John B. Watson (1878-1958)

Foram várias as tendências que influenciaram John B. Watson na tentativa de construir a escola de pensamento behaviorista da psicologia. Watson reconhecia não ser o ato de fun­dar o mesmo que originar e descrevia os seus esforços como uma cristalização das ideias ja emergentes dentro da psicologia. Assim como Wilhelm Wundt, o primeiro promotor-fundador da psicologia, Watson deixou clara a sua intenção de fundar uma escola. Essa intenção deliberada é o que estabelece a nítida distinção entre Watson e os demais, hoje denominados pela história como precursores do behaviorismo.

A Biografia de Watson

John B. Watson nasceu em um  sítio próximo a Greenville, na Carolina do Sul, onde fre­quentou os primeiros anos de estudo em uma escola que possuia apenas uma sala. Sua mãe era extremamente religiosa, ao contrário do pai. O velho Watson bebia muito, era violento e mantinha muitas relações extraconjugais. Ele raramente conseguia manter um emprego fixo, por isso a família vivia à beira da pobreza, subsistindo à custa da produção do sitio. Alguns vizinhos os desprezavam, enquanto outros sentiam pena deles. Quando Watson estava com 13 anos, seu pai fugiu com outra mulher e nunca mais voltou. Watson jamais o perdoou por isso, e anos mais tarde, quando se tornou rico e famoso, seu pai foi procurá-lo em Nova York, mas Watson não quis vê-lo.

Quando pequeno e na adolescência, Watson era considerado delinquente. Ele mesmo se dizia preguiçoso e desobediente e suas notas na escola eram apenas suficientes para passar de ano. Os professores consideravam-no indolente, sempre propenso a discussões e, às vezes, incontrolável. Duas vezes envolveu-se em brigas e foi preso, em uma das ocasioes, por atirar dentro dos limites urbanos. Contudo, aos 16 anos matriculou-se na Furman University, em Greenville, afiliada à igreja Batista, disposto a tornar-se pastor, como prometera à mãe. Estudou filosofia, matemática, latim e grego, planejando entrar no seminário teológico depois de se formar em Furman.

Um fato curioso ocorreu durante o último ano de Watson na Furman University. Um professor advertiu os alunos de que se alguém entregasse o exame final com as páginas na ordem inversa seria reprovado. Watson resolveu desafiá-lo, entregando a prova dessa forma e foi reprovado - pelo menos essa é a sua versão. Um estudo posterior dos dados históricos a respeito do episódio - nesse caso, das notas de Watson - mostra que ele não foi reprovado nessa matéria. Seu biógrafo acredita que a versão da história escolhida pelo proprio Watson revela algo da sua personalidade, ou seja, "a sua ambivalência em relação ao sucesso. Muitas vezes, seus contínuos esforços para atingir as metas e ser aceito eram boicotados pelos próprios atos, totalmente obstinados e impulsivos, que o afastavam ainda mais da respeitabilidade” (Buckley, 1989, p. 11). Outro professor de Watson disse que ele era inconformista, "um aluno brilhante, mas de algum modo preguiçoso e indolente; um pouquinho pesado, mas de boa aparência; valoriza-se demasiadamente e preocupa-se mais com as próprias ideias do que com as pessoas" (Brewer, 1991, p. 174).

Watson ficou mais um ano em Furman, completando o mestrado em 1899, mas nessa data sua mãe faleceu, ficando ele, assim, livre da promessa de tornar-se pastor. Em vez de ir para o seminário teológico, foi para a University of Chicago. Seu biógrafo observou que naquela época ele era ambicioso, um homem extremamente consciente da importâcia do status social, ansioso por deixar sua marca no mundo, mas totalmente indeciso em relaçao à escolha da profissão e inseguro por causa da falta de recursos e de sofisticação social. Chegou ao campus com apenas 50 dólares no bolso (Buckley, 1989, p. 39).

Escolheu a University of Chicago para realizar o trabalho de pós-graduação em filo­sofia com o ilustre John Dewev, mas sentia dificuldade para entender as aulas. "Jamais compreendia o que ele estava falando", relembrou Watson, "e, infelizmente para mim, até hoje não entendo" (Watson, 1936, p. 274). Como era de se esperar, o entusiasmo pela filosofia diminuiu. Atraido para a psicologia em função do trabalho do psicólogo funcionalista James Rowland Angell, Watson estudou também biologia e fisiologia com Jacques Loeb, que lhe introduziu o conceito de mecanismo.

Teve vários empregos de meio período, trabalhando como garçom em uma república, tratador de ratos e zelador encarregado de tirar o pó da escrivaninha de Angell. Perto de terminar os estudos de pós-graduação, começou a sofrer ataques profundos de ansiedade e durante certo período só conseguia dormir com uma luz acesa no quarto.

Em 1903, com 25 anos, completou o doutorado, sendo o mais jovem na história da University of Chicago a obter a título de Ph.D. Embora aprovado com louvor (magna cum laude e Phi Beta Kappa), sentiu-se profundamente inferiorizado quando Angell e Dewey Ihe disseram que seu exame de doutorado não fora tão bom quanto o de Helen Bradford Thompson Woolley, que completara a graduação três anos antes. Watson comentou: "Fiquei imaginando, então, quem seria capaz de igualar-se a ela. Esse ciúme persistiu por vários anos" (Watson, 1936, p. 274).

Naquele ano, Watson casou-se com uma de suas alunas, Mary Ickes, de 19 anos, per­tencente a uma importante família do meio político e social. Contam que ela escreveu um longo poema de amor para Watson em um de seus exames. Não se sabe a nota que ela obteve, mas sabe-se que obtivera Watson.

A carreira acadêmica de Watson

Watson permaneceu na University of Chicago como professor até 1908. Publicou a dissertação sobre a maturação psicológica e neuroló­gica do rato branco, pesquisa que revelava a sua preferência inicial pelo uso de animais nas pesquisas.

Nunca quis usar seres humanos nas minhas pesquisas. Detestava servir de cobaia. Não gostava daquela parafernália de instruções artificiais dadas às pessoas. Sempre me sentia incomodado e não agia com naturalidade. Com os animais, no entanto, sentia-me em casa. Percebia que, observando-os, conseguia me manter próximo da biologia e com os pés no chão. Aos poucos, a ideia se concretizava: será que minhas descobertas observan­do o comportamento dos animais não são iguais às dos demais alunos que observam os [seres humanos]? (Watson, 1936, p. 276)

Os colegas de Watson lembram-se de que ele não conseguia obter exito com a intros­pecção. Qualquer que fosse o talento ou o temperamento necessários para utilizar adequa­damente essa técnica, Watson não os possuia. Essa deficiência talvez o tenha direcionado para a psicologia behaviorista objetiva. Afinal, se ele era uma negação na utilização da introspecção, técnica de pesquisa fundamental na sua área, então suas perspectivas pro­fissionais certamente estavam prejudicadas. Ele teria de buscar outra abordagem. Além disso, caso seguisse sua tendência de enxergar a psicologia como uma ciência que estudava apenas o comportamento - o que evidentemente era possível de ser feito mediante expe­riências com animais e com seres humanos -, ajudaria a atrair os interesses profissionais dos psicólogos que estudavam animais para a psicologia geral.

Em 1908, recebeu uma proposta para lecionar na Johns Hopkins University, em Baltimore. Embora relutasse em deixar Chicago, a promessa de promoção, o aumento substancial no salário e a chance de dirigir o laboratório não lhe deixaram outra opção. E, assim, os 12 anos de Watson na Hopkins acabaram sendo os mais produtivos para a psicologia.

James Mark Baldwin (1861-1934), o psicólogo que lhe havia oferecido o emprego, era um dos fundadores (juntamente com James McKeen Cattell) da revista Psychological Review. Um ano depois da chegada de Watson à Hopkins, Baldwin foi obrigado a pedir demissão por causa de um escândalo. Em uma batida policial, fora flagrado em uma casa de prostituição. O reitor da universidade não aceitou as explicações de Baldwin. Ele ale­gou ter aceitado ingenuamente uma sugestão, feita depois de um jantar, para conhecer [o bordel]. Antes de chegar ao local, não sabia que ali trabalhavam mulheres indecentes" (apud Evans e Scott, 1978, p. 713). Mas deu um nome falso para a policia. Baldwin foi totalmente banido da psicologia estadunidense, passando o resto dos seus anos na Inglaterra e no México, morrendo em Paris em 1934 (Horley, 2001). Onze anos depois da demissão de Baldwin, a história se repetiu. O mesmo reitor da universidade exigiu a demissão de Watson por causa de um escândalo.

Quando Baldwin pediu demissão, Watson tornou-se o responsável pelo departamen­to de psicologia e editor da importante Psychological Review. Assim, aos 31 anos havia se tornado uma figura importante na psicologia estadunidense, no momento e local certos. "Todo o teor da minha vida havia mudado", ele escreveu. Experimentei a liberdade no trabalho sem supervisão. Estava perdido no meu trabalho, mas feliz.” Em casa, no entanto, Watson não estava feliz: "Dois filhos é suficiente" escreveu depois que seu segundo filho nasceu {apud Hulbert, 2003, p. 131). Começou a levar uma vida social ativa, desenvolvendo uma reputação de mulherengo, não diferente de seu pai.

Era extremamente querido pelos alunos da Johns Hopkins University, que costuma­vam lhe dedicar o anuário estudantil e elegê-lo como melhor professor, certamente uma honraria ímpar na história da psicologia. Ele continuava ambicioso e dedicado. Muitas vezes, com medo de perder o controle, chegava à exaustão.

No inicio da carreira na Hopkins, Watson propos estudar os efeitos, tanto positivos como negativos, do álcool e dos filmes de educação sexual nos adolescentes (Simpson, 2000). A administração da universidade não acolheu muito bem essa ideia. Consideraram a pesquisa arriscada e insistiram para que ele parasse. Felizmente, Watson possuia outras válvulas de escape para sua energia e ambição.

Ele começou a pensar seriamente a respeito do tratamento mais objetivo da psicologia por volta de 1903, e expressou essa opinião publicamente em 1908, em palestra na Yale University e em um trabalho apresentado na reunião anual em Baltimore, da Southern Society for Philosophy and Psychology [Sociedade Sulista de Filosofia e Psicologia]. Watson argumentava que os conceitos psiquicos e mentais não serviam de nada para uma ciência como a psicologia. Em 1912, a convite de Cattell, apresentou uma série de palestras na Columbia University. No ano seguinte, publicou um artigo, que mais tarde ficou famoso, na revista Psychological Review (Watson, 1913], assim lançando oficialmente o behaviorismo.

O livro de Watson, Behavior: an introduction to comparative psychology, foi lançado em 1914. Defendia a aceitação da psicologia animal e descrevia as vantagens do uso de ani­mais na pesquisa psicológica. Muitos psicólogos mais jovens e estudantes de pós-graduação consideraram interessantes as propostas de uma psicologia comportamental, afirmando que Watson estava limpando a atmosfera poluida da psicologia, expulsando os mistérios de longa data herdados da filosofia.

Mary Cover Jones (1896-1987), na época aluna de pós-graduação e, mais tarde, presi­dente da Divisão de Psicologia do Desenvolvimento da APA, lembrou-se do entusiasmo com que era recebida a publicação de cada um dos seus livros. "[O behaviorismo de Watson] abalou as estruturas da psicologia tradicional nascida na Europa, e nós o recebemos de bra­ços abertos. (...) Esse behavorismo indicou o caminho da psicologia teórica para a ação e para a reforma e foi, por essa razão, saudado como uma panaceia" (Jones, 1974, p. 582). O programa de Watson normalmente não seduzia os psicólogos mais antigos. Ao contrário, a maioria rejeitava a sua abordagem.

Somente dois anos após a publicação do artigo na Psychological Review, Watson foi eleito presidente da APA. Sua eleição talvez não fosse um sinal de aprovação oficial da sua posição, mas servia como reconhecimento da sua notoriedade e da rede pessoal de relações estabelecidas com diversos psicólogos renomados.

Watson desejava que o novo behaviorismo tivesse valor prático; suas ideias não ser­viam apenas para serem aplicadas nos laboratórios, como também na vida real. Promoveu as especializações aplicadas da psicologia e tornou-se consultor pessoal de uma grande companhia seguradora. Além disso, oferecia cursos de psicologia aplicada à publicidade aos alunos de administração da Hopkins e deu início a um programa de treinamento de estudantes de pos-graduação para trabalharem na área da psicologia industrial.

Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu no exército estadunidense, com a patente de major, desenvolvendo testes de habilidade perceptiva e motora para usar como esquema de seleção para pilotos. Também pesquisou o efeito da redução de oxigênio em atitudes elevadas. Depois da guerra, Watson e um médico criaram a industrial Service Corporation para oferecer serviços de seleção de pessoal e consultoria de admimstração no mundo empresarial (DiClemente e Hantula, 2000).

Embora suas atividades estivessem relacionadas com as áreas da psicologia aplicada a visão de Watson concentrava-se no desenvolvimento da abordagem behaviorista do pensamento psicologico. Em 1919, publicou o livro Psychology from the standpoint of a behavirors, dedicando-o a Cattell. O livro apresentava uma abordagem mais completa da sua psicologia behaviorista, alem do argumento de que os métodos e principios recomendados para a psicologia animal também eram adequados para o estudo do ser humano.

Enquanto isso, seu casamento se deteriorava; sua infidelidade deixava a esposa furio­sa. Watson escreveu a Angell, dizendo que Mary não ligava mais para ele. "Ela instintivamente abomina o meu toque. Será que arruinamos as nossas vidas?" (Watson, apud isucKiey, 1994, p. 27). Ele estava prestes a arruinar a sua ainda mais.

Watson apaixonara-se por Rosalie Rayner, uma assistente da pós-graduação com metade da sua idade, e pertencente a uma rica família de Baltimore que fizera generosa doação para a universidade. Watson escrevia cartas, cientificamente falando ardentes de paixão, 15 das quais encontradas pela esposa. Durante o escandaloso processo de divórcio trechos das cartas eram publicados no jornal Baltimore Sun.

Cada célula do meu corpo a ti pertence, individual e coletivamente. Todas as minhas reações são positivas e todas são para ti. Assim como cada uma e todas as reações do coração. Não posso ser mais teu do que sou, mesmo que uma cirurgia nos transformasse em um unico ser. (Watson, apud Pauly, 1979, p. 40) 

Assim chegava ao fim a carreira acadêmica de Watson, sendo forçado a demitir-se da Hopkins. Seu biografo disse: "Watson ficou chocado. Até o final, recusava-se a acre­ditar que realmente seria demitido. (...) Acreditava piamente que sua estatura profissional lhe proporcionaria imunidade a qualquer censura a respeito da sua vida pessoal" (Buckley 1 9 9 4 , p. 31). Embora tenha se casado com Rosalie Rayner, nunca mais pôde assumir integralmente outra posição acadêmica. Nenhuma universidade o aceitava por causa da má reputaçao, e ele logo percebeu que teria de começar uma nova vida. "Posso arrumar um emprego na area comercial", disse a um amigo. "Mas, sinceramente, amo o meu trabalho. Sei da sua importancia para a psicologia e que a pequena chama que tentei manter acesa para o futuro da psicologia se extinguirá, caso eu a abandone" (apud Pauly, 1986, p 39)

Muitos colegas acadêmicos, inclusive o seu mentor Angell, da University of Chicago criticaram publicamente Watson, que se ressentiu da falta de apoio, chegando a acusá-los de deslealdade. Ironicamente, considerando as diferenças radicais de temperamento e de posições teóricas, foi E. B. Titchener, da Cornell University, quem lhe deu apoio emocional durante sua crise Pessoal. Tltchener escreveu a Robert Yerkes, comentando: "Sinto muita pena dos filhos de Watson", "Também sinto pena dele, pois terá de desaparecer por cinco ou 10 anos; temo se algum dia desejar voltar para a psicologia" (apud Leys e Evans, 1990, p. 105).

A carreira empresarial de Watson

Desempregado e tendo de pagar a quantia equi­valente a dois terços do último salário como pensão para os filhos, Watson iniciou uma segunda carreira profissional como psicólogo aplicado no campo da publicidade. Começou a trabalhar na agência publicitária J. Walter Thompson em 1921, ganhando um salário anual de 25 mil dólares, quatro vezes mais que seu salário acadêmico. Realizou pesquisas de porta em porta, vendeu café e trabalhou como atendente da Macy's para conhecer melhor o mundo dos negócios. Atuando com a sua criatividade e energia características, em três anos tornou-se vice-presidente da agência. Em 1936, foi para outra agência de publicidade, permanecendo ali até se aposentar, em 1945.

Watson acreditava ser o comportamento humano igual ao da máquina. Portanto, era possível prever e controlar o comportamento das pessoas como consumidoras, assim como se previa o funcionamento de qualquer máquina. Afirmava que, para controlar o consumidor, basta apresentar-lhe um estímulo emocional, condicional ou fundamental. (...) dizer-lhe algo que se relacione com o medo, que provoque uma leve ira, que incentive uma reação apaixonada e afetiva, ou que capte uma profunda necessidade psicológica ou de hábito. (apud Buckley, 1982, p. 212)

Propôs pesquisas de laboratório a respeito do comportamento do consumidor. Res­saltava que as mensagens publicitárias deviam enfocar o estilo e não a substância, além de transmitirem a impressão de uma imagem nova e melhorada. O objetivo era deixar o consumidor insatisfeito com os produtos que estava consumindo e estimular o desejo de novas mercadorias.

Durante vários anos, Watson foi considerado o pioneiro no uso de celebridades para a promoção de produtos e serviços e na criação de técnicas para manipular a motivação e a emoção. Mais tarde, pesquisas revelaram que, embora ele promovesse bem essas técni­cas, elas já vinham sendo aplicadas antes do seu ingresso no universo da publicidade. Mesmo assim, as contribuições de Watson para a publicidade foram extremamente eficazes e logo lhe renderam notoriedade e riqueza.

Depois de 1920, Watson mantinha contato apenas indireto com a psicologia acadêmica. Apresentava suas ideias a respeito da psicologia comportamental para o público em geral por meio de palestras, discursos em rádios e artigos em revistas populares, aumen­tando, assim, sua visibilidade e, alguns diriam, sua notoriedade. Por exemplo, em um artigo escrito para o leitor comum, ele previa o fim da instituição do casamento. "Creio ser a monogamia uma coisa do passado. O mecanismo social descarrilou. Estamos livres das algemas e rompendo e aproveitando a nossa liberdade" (apud Simpson, 2000, p. 64). Se seu objetivo era chocar, estava conseguindo.

Nos artigos de revistas, ele também transmitia mensagens mais sérias acerca do beha­viorismo para um público mais amplo. Seu estilo de redação era claro, de fácil leitura e, de algum modo, simples. Na autobiografia, comentou que, embora o seu trabalho não fosse mais viável para publicação nas revistas especializadas de psicologia profissional, não havia razões para não "vender os seus artigos" para o público (Watson, 1936). Essa atitude o afastou ainda mais da comunidade acadêmica. "Aqueles que não aceitavam de modo algum a aplicação mais genérica dos principios da psicologia, ou a visão behaviorista em si, rejeitavam mais ainda as 'campanhas' de Watson para a divulgação da doutrina" (Kreshel, 1990, p. 56).

Um raro contato formal com a psicologia acadêmica ocorreu quando Watson minis­trou uma serie de palestras na New School for Social Research [Nova Escola para Pesquisas Sociais] em Nova York. Essas palestras serviram de base para o livro Behaviorism, em que ele escrevia o seu programa para a melhoria da sociedade. O livro foi publicado pela primeira vez em 1925 e mais tarde Watson confessou que havia sido preparado apressadamente.

Minhas palestras eram datilografadas; depois eu as olhava rapidamente e as levava para o editor (apud Carpentero, 2004, p. 185). Uma versão revisada foi lançada em 1930 As duas edições tiveram muito sucesso. As ideias de Watson atingiram e influenciaram um grande numero de pessoas que nao pertenciam ao mundo da psicologia.

Prática da Educação Infantil

Em 1928, publicou Psychological care of the infant and child, onde critica severamente o modo de se educar crianças naquela época. Ele acusou os "pais de incompetenaa A maioria deveria ser processada por assassinato psicológico" (apud Hulbert,2003, p. 123). Ele propos um sistema de educacão infantil regulador e não-permissivo dentro da sua visão estritamente ambientalista. O livro estava repleto de conselhos rígidos, baseados na forma behaviorista de educar crianças. De acordo com Watson, os pais nunca devem abraçar e beijar, jamais as deixem sentar no colo. Quando estritamente necessário bei­jem mas apenas uma vez na testa ao lhes dar boa-noite. Pela manhã, cumprimentem-nas com um aperto de mão. Afaguem-lhes a cabeça, caso realizem muito bem uma tarefa extremamente difícil. (...) vocês perceberão como é fácil serem perfeitamente objetivos com os filhos e ao mesmo tempo gentis. Vocês se sentirão totalmente envergonhados da forma sentimental e insipida de como os estavam tratando. (Watson, 1928, p. 81-82)

O livro era bastante popular e transformou as práticas estadunidenses de educação infantil. Uma geraçao de crianças, inclusive as suas, foi educada seguindo essas orientações.

Seu filho James empresário na Califórnia, recorda-se do pai como um homem incapaz de demonstrar afeto para com ele e com o seu irmão. Descreveu Watson como insensivel, emocionalmente reservado, incapaz de expressar - e lidar com - qualquer sentimento ou emoção própria e, creio, determinado inadvertidamente a privar-me bem como ao meu irmão, de qualquer tipo de estrutura emocional. Realmente acreditava que qualquer expressão de ternura ou afeto nos traria efeitos danosos. Era extremamente rigido na aplcação das suas filosofias fundamentais como behaviorista. Nunca fomos beijados ou carregados no colo quando crianças; nunca nos foi demonstrado qualquer tipo de proximidade emocional, era totalmente proibido na família. À noite, quando ia para a cama, lembro-me de apertar as mãos dos meus pais. (...) Nunca tentei (e nem o meu irmao Billy) me aproximar fisicamente dos meus pais, pois sabíamos que era um tabu. (James Watson apud Hannush, 1987, p. 137-138)

Rosalie, esposa de Watson escreveu um artigo para a revista Parents Magazine inti­tulado I am the mother of a behaviorist's sons" ("Sou mãe dos filhos de um behaviorista") discordando publicamente das práticas de educação infantil definidas por ele "Em alguns aspectos, ela afirmou, "reverencio a grande sabedoria da ciência do behaviorismo e em outros me rebelo. Desejo secretamente que em razões de afeto [das crianças] demonstrem certa fraqueza quando crescerem, que sejam capazes de ter lágrimas nos olhos diante de uma poesia ou de um drama da vida e sintam palpitações de paixão. (...) Gosto de ser ale­gre e jovial e de rir bastante. Os behavioristas consideram as risadas um sinal de desajuste” (apud Simpson, 2000, p. 65). Rosalie também afirmou ser difícil refrear completamente a sua afeição pelos filhos, tendo desejado, algumas vezes, quebrar as regras do behavioris­mo. Mas seu filho James não se recorda de isso haver ocorrido.

Seus dois filhos sofreram de depressão séria na adolescência e vida adulta. Um dos filhos se suicidou e o outro teve um colapso nervoso, lutando contra seus próprios impulsos suicidas. Embora tenha sobrevivido, sua filha suicidou-se alguns anos mais tarde.

Os últimos anos de Watson

Ele era inteligente, articulado, bonito e charmoso, quali­dades que o tornavam uma celebridade. Frequentemente aparecia em público, cortejando e saboreando a atenção recebida. Vestia-se com elegância, participava de competições de lancha e circulava facilmente no meio da sociedade nova-iorquina. Considerava-se um grande amante e aventureiro romântico, e gostava de participar de rodadas de bebidas. Mandou construir uma mansão em Connecticut e contratou vários empregados, embora gostasse de vestir roupas velhas e fazer jardinagem.

[Watson] se preocupava bastante com as atividades masculinas, como caçar, pescar e outras formas de adultos e crianças demonstrarem coragem e habilidades pessoais. Dessa forma, ele possuia um "quê" de Hemingway, já que valorvalorizava a competência, a bravura e a masculinidade. (James Watson apud Hannush, 1987, p. 138)

Em 1935 Rosalie faleceu, aos 37 anos. James Watson lembra-se de ter sido essa a única ocasião em que viu o pai chorar. Por um breve momento, Watson abraçou os seus filhos, pelo menos a única vez que se lembravam. Depois disso ele os mandou para o colégio interno e jamais voltou a falar sobre Rosalie com eles.

Quando Myrtle McGraw, uma psicóloga de Nova York, conheceu W atson pouco depois da morte da esposa, ele lhe confessou que não estava preparado para lidar com a morte de Rosalie. Por ele ser 20 anos mais velho do que ela, sempre pensou que morreria primeiro. Conversou com alguma profundidade com McGraw, perguntando-lhe como devia lidar com a dor (McGraw, 1990). Depois de algum tempo tornou-se recluso, desligando-se do contato social e mergulhando no trabalho. Vendeu a enorme casa e mudou-se para uma de madeira, parecida com aquela em que passara a sua infância.

Em 1957, quando Watson estava com 79 anos, a APA prestou-lhe uma homenagem, elogiando seu trabalho como "uma das determinantes vitais da forma e substância da psicologia moderna (...) o ponto de partida das linhas contínuas da pesquisa proveitosa". Um amigo levou-o para o hotel em Nova York onde aconteceria a apresentação, mas no último minuto Watson recusou-se a entrar e insistiu para que o filho mais velho fosse em seu lugar. (...) Watson ficara com medo de que naquele momento as suas emoções o dominassem e que o apóstolo do controle do comportamento fraquejasse e desabasse em lágrimas. (Buckley, 1989, p. 182)
Antes de morrer, um ano depois, Watson queimou todas as cartas, manuscritos e ano­ tações, jogando-as, uma por uma, na lareira, recusando-se a deixá-las para a história.

A melhor forma de começar a estudar a escola de pensamento behaviorista de Watson é lendo um trecho do artigo que inaugurou o movimento. Na passagem a seguir, ele dis­ cute a definição e o objetivo da sua nova psicologia, bem como as suas críticas contra o estruturalismo e o funcionalismo. Ele também explica a sua visão ao considerar as áreas
da psicologia aplicada como científicas por buscarem leis gerais para o controle e a previ­ são do comportamento.

A Reação ao Programa de Watson

Para muitos psicólogos, a crítica de Watson à antiga psicologia e o seu clamor por uma nova abordagem constituíam apelos comoventes. Vamos reconsiderar os fundamentos principais. A psicologia deve ser uma ciência do comportamento - não o estudo introspec­tivo da consciência puramente objetiva, uma ciência natural experimental. Ela teria de investigar tanto o comportamento humano como o animal. Os psicólogos precisariam deixar de lado todas as ideias mentalistas e empregar apenas os conceitos do comporta­mento tais como o estímulo e a resposta. As metas da psicologia deviam ser a previsão e o controle do comportamento.

Embora os argumentos fossem convincentes para alguns, o programa de Watson não foi imediatamente aceito por todos. No início, as publicações especializadas não deram muito destaque ao behaviorísmo. O movimento começou a exercer maior impacto somente após a publicação, em 1919, do livro Psychology from the standpoint of a behavioríst.

Mary Whiton Calkins discordava de Watson e, questionando a sua visão, disse a muitos colegas psicólogos acreditar na introspecção como único método que permitia o estudo de certos processos psicológicos. Esse debate a respeito da introspecção perdurou por vários anos, e Margaret Washburn chegou ao extremo de chamar Watson de inimigo da psicologia.

Era inevitável o crescimento do movimento de apoio a Watson, especialmente entre os psicólogos mais jovens; por volta da década de 1920, as universidades já ofereciam cursos sobre o behaviorísmo, e o termo passou a ser adotado nas revistas especializadas. William McDougall, entre os psicólogos mais antigos, fez uma advertência pública con­tra a popularidade do behaviorísmo, e E. B. Titchener acusou o behaviorísmo de tragar o país como uma onda gigantesca. Entretanto, por volta de 1930, Watson anunciou, com orgulho, que o behaviorismo era tão importante que nenhuma universidade podia deixar de ministrar essa disciplina.

Evidentemente, o movimento behaviorista foi muito bem-sucedido; no entanto, as mudanças exigidas por Watson em 1913 foram lentas. E, quando finalmente se concretiza­ram, a psicologia watsoniana não era a única forma de behaviorismo sendo difundida.

Os Métodos do Behaviorismo

Quando a psicologia teve início formalmente, estava ávida por se aliar à antiga, bem esta­belecida e mais respeitável ciência natural da física. A nova psicologia tentou adaptar os métodos naturais científicos às próprias necessidades. Essa tendência foi ainda mais clara no caso do behaviorismo.

Watson insistia em que a psicologia se limitasse aos dados das ciência naturais, ao que fosse passível de observação. Em poucas palavras: a psicologia devia limitar-se ao estudo objetivo do comportamento. Somente os métodos objetivos rígidos de investigação deviam ser adotados nos laboratórios dos behavioristas. Para Watson, esses métodos incluíam:

  • a observação, com e sem o uso de instrumentos;
  • métodos de teste;
  • o método de relato verbal; e
  • o método do reflexo condicionado.

A observação constitui a base fundamental para os outros métodos. Métodos de teste objetivo já eram adotados, mas Watson propôs tratar os resultados dos testes como amos­tragens do comportamento, e não como indicadores das qualidades mentais. Para ele, o teste não media a inteligência nem a personalidade, ao contrário, simplesmente media as respostas do indivíduo à situação do estímulo de ser submetido ao teste.
A questão do relato verbal foi ainda mais controversa. Como Watson rejeitava tão claramente a introspecção, o uso do relato verbal no laboratório deixava uma abertura às críticas. Alguns psicólogos consideraram o ato comprometedor, afirmando ter Watson intro­duzido a introspecção pela porta dos fundos, depois de tê-la enxotado pela da frente.

Por que ele aceitara o relato verbal? Apesar da aversão pela introspecção, não pôde ignorar os trabalhos realizados pelos psicofísicos com o uso da introspecção. Portanto, sugeriu que as reações orais, por serem observáveis objetivamente, seriam significativas para o behaviorismo, assim como qualquer tipo de resposta motora. "Falar é fazer - ou seja, comportar-se. Falar abertamente ou para nós mesmos (pensar) é um comportamento tão objetivo quanto jogar beisebol" (Watson, 1930, p. 6).

Todavia, a adoção do método do relato verbal no behaviorismo foi uma concessão muito questionada. Os adversários de Watson acusavam-no de fazer um jogo de palavras, de oferecer apenas uma mudança semântica. Ele rebatia, concordando que os relatos verbais talvez não fossem precisos e, portanto, não seriam os substitutos adequados da observação objetiva. Por isso restringia o seu uso para as situações em que pudessem ser verificados, como na descrição das diferenças tonais. Os relatos verbais não-verificáveis, como o pen­samento sem imagens e os relatos dos estados de sentimento, seriam descartados.

O método do reflexo condicionado foi adotado em 1915, dois anos depois da funda­ção formal do behaviorismo. Os métodos de condicionamento eram pouco usados, no entanto, Watson foi bastante responsável pela sua ampla aplicação na pesquisa psicoló­gica estadunidense. Ele contou ao psicólogo Ernest Hilgard haver se interessado muito pelos reflexos condicionados ao estudar o trabalho de Bekhterev, embora mais tarde também
creditasse a Pavlov esse interesse (Hilgard, 1994).

Watson descrevia o condicionamento em termos de substituição de estímulo. A respos­ta torna-se condicionada quando associada ou conectada a um estímulo diferente daquele que a originou (no caso dos cães de Pavlov, a resposta condicionada consistia na salivação mediante o som da campainha e não pela visualização da comida). Ele escolheu esse tra­tamento por oferecer um método objetivo de análise do comportamento, de redução em unidades básicas, ou seja, em ligações de estímulo-resposta (E-R). Todo comportamento podia ser reduzido a esses elementos, portanto o método de reflexo condicionado permi­tia aos psicólogos conduzirem investigações acerca da complexidade do comportamento humano em laboratórios.

Desse modo, Watson mantinha a tradição atomística e mecanicista estabelecida pelos empiristas britânicos e adotada pelos psicólogos estruturalistas. Sua intenção era estudar o comportamento humano da mesma maneira que os físicos estudavam o universo, separando-o em partes componentes, entre elas átomos e elementos.

Para a psicologia, esse enfoque exclusivo nos métodos objetivos e a eliminação da introspecção significaram uma mudança na natureza e no papel do sujeito humano no laboratorio de psicologia. Para Wundt e Titchener, o indivíduo desempenhava o papel tanto do observador como do observado, já que observavam a própria experiência cons­ciente. O seu papel era muito mais importante do que o do pesquisador.

No behaviorismo, os indivíduos em si tornaram-se menos importantes. Eles não mais observaram; em vez disso, eram observados pelo pesquisador. Com essa mudança de enfo­que, o sujeito humano do laboratório, normalmente chamado de observador, passou a ser
conhecido como sujeito. Os verdadeiros observadores eram os pesquisadores, psicólogos responsáveis pela pesquisa que estabeleciam as condições experimentais e registravam as respostas dos sujeitos.

Desse modo, o indivíduo foi rebaixado de posto. Não mais observava as próprias carac­terísticas, apenas exibia os comportamentos. E praticamente todos exibem comportamen­tos. bebês, crianças, pessoas portadoras de distúrbios mentais e emocionais, pombos ou ratos. Esse ponto de vista reforçou a imagem da psicologia de semelhança entre o homem e a maquina. Como notou um historiador, "Insere-se um estímulo em uma das pequenas aberturas para, em seguida, sair um pacote de reações” (Burt, 1962, p. 232).

O Objeto de Estudo do Behaviorismo

Os principais objetos de estudo da psicologia behaviorista de Watson eram os elementos do comportamento, ou seja, os movimentos musculares do corpo e as secrecões glandula­res. Sendo uma ciência do comportamento, a psicologia tratava exclusivamente dos atos passíveis de descrição objetiva, sem o emprego de terminologia subjetiva ou mentalista.

Apesar de a meta estabelecida reduzir todo comportamento em unidades de estímulo-resposta (E-R), o behaviorista basicamente devia envidar esforços para compreender o comportamento do organismo na totalidade. Por exemplo, embora a resposta fosse apenas um espasmo do joelho, ela também podia ser mais complexa. Watson chamava essas res­postas mais complexas de "atos". Considerava atos de resposta inclusive os fatos de comer escrever, dançar ou construir uma casa. Em outras palavras, o ato envolve o movimento do organismo no espaço. Aparentemente, Watson concebia os atos de resposta em função  da realização de alguma meta que afetasse o ambiente de algum indivíduo, e não como uma simples conexão dos elementos musculares. Entretanto, os atos do comportamento, independentemente da sua complexidade, podiam ser reduzidos em respostas glandula­res ou motoras inferiores.

As respostas podem ser explícitas ou implícitas. São explícitas notórias e diretamente observáveis. As respostas implícitas são as que ocorrem dentro do organismo -, por exem­plo, o movimento das vísceras, as secreções glandulares e os impulsos nervosos. Embora as respostas implícitas não sejam patentes, ainda são consideradas comportamentos e, ao incluí-las, Watson estava modificando seu ponto de vista de que todos os dados eram observáveis em psicologia. Ele aceitou que alguns itens do comportamento eram poten­cialmente observáveis. A observação dos movimentos ou das respostas ocorridas dentro do organismo era feita por meio de instrumentos.

Assim como as respostas com as quais o behaviorismo lida, o estímulo também pode ser simples ou complexo. Os feixes de luz que incidem sobre a retina dos olhos são estí­mulos relativamente simples, porém há outros mais complexos. Do mesmo modo que o conjunto de reações envolvido em uma ação pode ser reduzido em respostas componentes, é possível analisar a situação de estímulo reduzindo-a em estímulos componentes espe­cíficos. Assim, a psicologia behaviorista de Watson investiga o comportamento de todo organismo em relação ao seu ambiente. Para propor leis específicas do comportamento, primeiramente é necessário analisar os complexos de estímulo-resposta, reduzindo-os em estímulos elementares e nas unidades de resposta.

No que tange aos métodos e ao objeto de estudo, o behaviorismo de Watson foi uma tentativa de construir uma ciência livre de noções e métodos subjetivos, ou seja, uma ciência tão objetiva quanto a física. A seguir, analisaremos a forma de tratamento dispen­sada por Watson a três temas principais: o instinto, a emoção e o pensamento. Como qualquer teórico sistemático, ele desenvolveu a sua psicologia de acordo com a crença básica de que todas as áreas do comportamento devem ser consideradas no que se refere aos objetivos de estímulo-resposta.

Os Instintos

No início, Watson aceitava o papel dos instintos no comportamento. No livro Behavior: an introduction to comparative psychology (1914), ele descreveu 11 instintos, inclusive um relacionado com o comportamento aleatório. Estudou o comportamento instintivo das andorinhas-do-mar, uma espécie de pássaro aquático das ilhas Dry Tortugas, na região costeira da Flórida. Acompanhou-o nessa experiência Karl Lashley, um estudante da Johns Hopkins University, que afirmou haver sido a expedição prematuramente interrompida ao término do estoque de cigarros e de uísque.
Mais ou menos em 1925, Watson reavaliou sua posição e eliminou o conceito de instinto. Alegou que os comportamentos aparentemente instintivos são, na verdade, respostas con­dicionadas socialmente. Ao adotar a visão de que a aprendizagem - ou o condicionamento - seria a chave para a compreensão do desenvolvimento humano, tornou-se um ambientalista radical, indo ainda mais longe: não apenas negava os instintos como também se recusava a admitir no seu sistema qualquer tipo de talento, temperamento ou capacidade herdado.

Os comportamentos aparentemente herdados estavam relacionados com o treinamen­to adquirido logo nos primeiros anos de infância. Por exemplo, as crianças não nasciam com a habilidade para se tornarem grandes atletas ou músicos, mas eram conduzidas nessa direção pelos pais ou pelos responsáveis pela sua criação, mediante o incentivo e o reforço dos comportamentos adequados. Essa ênfase no efeito imperativo dos pais e do ambiente social na criação infantil foi um dos motivos da popularidade de Watson. Ele concluiu, de forma simples e otimista, ser possível treinar uma criança para se tornar o que se desejasse que ela fosse, pois não havia fatores genéticos limitadores.

Watson não estava sozinho ao sugerir que as influências ambientais seriam mais impor­tantes do que qualquer traço ou potencial inatos. Tornava-se cada vez mais popular, na psi­cologia, a noção de minimizar o papel do instinto como um determinante comportamental. Assim, a posição de Watson refletia uma mudança de perspectiva já em andamento. Além disso, ele pode ter sido influenciado pela orientação aplicada da psicologia estadunidense do iní­cio do século XX. A psicologia não podia ser aplicada para alterar o comportamento, a menos que ele fosse passível de modificação. Não era possível alterar o comportamento regido por forças como o instinto, no entanto o comportamento dependente da aprendizagem ou do treinamento podia ser mudado.

As Emoções

Para Watson, as emoções não passavam de simples respostas fisiológicas a estímulos especí­ficos. Um estímulo (como a ameaça de uma agressão física) produz mudanças físicas inter­nas, tais como o aumento do batimento cardíaco, acompanhado das respostas explícitas apropriadas e adquiridas. Essa explicação para as emoções nega a existência de qualquer percepção consciente da emoção ou as sensações dos órgãos internos.

Cada emoção envolve um padrão particular de mudanças fisiológicas. Embora Watson tenha observado que respostas emocionais têm envolvimento no movimento explícito, acreditava nas reações internas como predominantes. Assim, a emoção constitui uma forma de comportamento implícito no qual as reações internas são expressas por meio de manifestações físicas como o rubor das faces, a transpiração ou o aumento do bati­mento cardíaco.

A teoria das emoções de Watson é menos complexa do que a de William James, cuja teoria afirmava ser a percepção do estímulo imediatamente seguida de mudanças físicas, e definia os sentimentos resultantes como emoção. Watson criticava a posição de James. Descartando o processo consciente de percepção da situação e do estado do sentimento, Watson garantia ser possível descrever as emoções totalmente em função da situação de estimulação objetiva, da resposta física visível e das modificações fisiológicas internas.

Em um estudo hoje considerado clássico, Watson investigou os estímulos que pro­duziam respostas emocionais nos bebês. Sugeria que eles demonstravam três padrões fundamentais de resposta emocional não aprendida: o medo, a raiva e o afeto. O medo seria provocado por ruídos altos e súbita perda de apoio; a raiva, pela restrição dos movi­mentos do corpo, e o afeto, pelo toque carinhoso na pele, pelo embalo e pelas carícias. Watson também descobriu padrões típicos de resposta para esses estímulos. Essas três emoções básicas compõem outras respostas emocionais mediante o processo de condi­cionamento. Elas podem se associar a estímulos que originalmente não eram capazes de provocá-las.

Albert, Peter e os Coelhos

Watson demonstrou sua teoria das respostas emocionais condicionadas nos estudos experi­mentais realizados com o bebê Albert, de 11 meses, condicionando-o a ter medo de um rato branco, que ele não temia antes de ser submetido ao condicionamento (Watson e Ravner, 1920). Para estabelecer a relação de medo, provocava-se um enorme barulho (batendo em uma barra de aço com um martelo) atrás da cabeça de Albert, sempre que o rato lhe era mostrado. Em pouco tempo, a mera visualização do rato produzia sinais de medo na criança. Esse medo condicionado generalizava-se a outros estímulos similares como um coelho, uma pele branca de animal ou a barba branca do Papai Noel. Watson sugeriu que todos os medos, todas as aversões e ansiedades do adulto eram, do mesmo modo, condicionados no início da infância. Eles não surgem, assim como afirmava Freud, de conflitos inconscientes. Watson rejeitava totalmente a noção do inconsciente porque, assim como o consciente, não era possível observá-lo objetivamente. No início, ficara fascinado com vários conceitos de Freud, mas acabou descartando a psicanálise, chamando-a de "macumba" (apiul Rilling, 2000, p. 302).

Watson descreveu a pesquisa com Albert como apenas um estudo-piloto preliminar. Todavia ele jamais foi reproduzido com êxito. Apesar de os psicólogos notarem algumas sérias falhas metodológicas na pesquisa, seus resultados foram aceitos como uma prova científica e são mencionados em praticamente qualquer livro básico de psicologia.

Embora Albert fosse condicionado a ter medo de ratos brancos, coelhos e Papai Noel, ele não estava mais disponível como sujeito da pesquisa quando Watson tentou eliminar esses temores. Pouco tempo depois de começar esse programa de pesquisa, Watson abandonou a vida acadêmica. Mais tarde, quando trabalhava com publicidade em Nova York, apresentou uma palestra sobre a pesquisa. Estava presente no público Mary Cover Jones (uma colega de faculdade da sua esposa, Rosalie). As observações de Watson despertaram seu interesse e ela se questionou se a técnica de condicionamento podia ser utilizada para eliminar o medo das crianças. Pediu a Rosalie que lhe apresentasse Watson e então começou a realizar um estudo que, desde então, tornou-se outro clássico da história da psicologia (Jones, 1924).

Sua pesquisa foi realizada com Peter, de 3 anos, que já demonstrava medo de coelhos, embora esse temor não tenha sido condicionado em laboratório. Enquanto Peter comia, um coelho era colocado na sala, mas a uma distância razoável, de modo que não provocasse uma resposta de medo. Depois de uma série de tentativas, que duraram várias semanas, o coelho era progressivamente trazido para mais perto, sempre quando a criança estava comendo. Finalmente, Peter acabou se acostumando com o coelho e conseguiu tocá-lo sem sentir medo. As respostas generalizadas de medo de objetos similares também foram eliminadas por meio desse procedimento.

O estudo de Jones foi considerado um precursor da terapia do comportamento (a aplicação dos princípios de aprendizagem para alterar o comportamento desajustado), quase 50 anos antes de a técnica se tornar conhecida. Jones, há muito tempo associada ao Institute of Child Walfare da University of Califórnia, em Berkeley, recebeu de G. Stanley Hall um prêmio, em 1968, pelas extraordinárias contribuições para a psicologia do desenvolvimento.

Os Processos de Pensamento

A visão tradicional dos processos de pensamento afirmava que eles ocorriam no cérebro "tão indistintamente que nenhum impulso nervoso passa pelo nervo motor até o músculo, portanto nenhuma reação ocorre nos músculos e nas glândulas" (Watson, 1930, p. 239). De acordo com essa teoria, os processos de pensamento não são passíveis de observação e de experimentação, já que ocorrem na ausência de movimentos musculares. O pensa­mento era considerado intangível, algo exclusivamente mental e, portanto, desprovido de pontos de referência físicos.
O sistema behaviorista de Watson tentou reduzir o pensamento a comportamento motor implícito. Ele alegava ser o pensamento, como todos os demais aspectos do funcio­namento humano, uma espécie de comportamento sensório-motor. Partia do princípio de que o comportamento do pensamento envolvia movimentos ou reações de fala implí­citas. Desse modo, reduzia o pensamento para a fala subvocal que dependia dos mesmos hábitos musculares aprendidos para a expressão da fala explícita. À medida que nos tor­namos adultos, esses hábitos musculares tornam-se inaudíveis e invisíveis porque pais e professores nos reprimem para pararmos de conversar alto com nós mesmos. Assim, o pensamento transforma-se em uma forma de conversação silenciosa.

Watson achava que grande parte desse comportamento implícito se concentrava nos músculos da língua e da laringe (chamadas de caixa da voz). Também expressamos o pen­samento por gestos, como o franzir da testa e o movimento dos ombros, que são reações explícitas a um estímulo.
Uma das fontes mais claras de comprovação da teoria de Watson está no fato de mui­tos admitirem conversar consigo mesmos enquanto estão pensando. Um estudo realizado com relatos introspectivos de estudantes da faculdade constatou que 73% das amostras de pensamento envolviam o ato de conversar consigo mesmo enquanto estavam pen­sando (Farthing, 1992). Todavia, esse tipo de evidência não é aceito pelos behavioristas exatamente por ser introspectivo, e Watson raramente lançava mão da introspecção para sustentar a sua teoria. O behaviorismo exigia provas objetivas de movimentos implícitos da fala, portanto Watson realizou tentativas experimentais para registrar os movimentos da língua e da laringe durante o pensamento.

Essas mensurações revelaram alguns leves movimentos quando os indivíduos estavam pensando. As mensurações dos gestos dos dedos e das mãos dos portadores de deficiência auditiva usando a linguagem dos sinais também revelaram alguns movimentos durante o pensamento. Apesar da sua incapacidade de assegurar resultados mais confiáveis, Watson conti­nuou convicto da existência dos movimentos implícitos de fala. Insistia em que a comprovação dependia apenas do desenvolvimento de equipamentos de laboratório mais sofisticados.

O Apelo Popular do Behaviorismo

Por que as declarações ousadas de Watson lhe renderam tanta adesão do público? Na verdade, a maioria das pessoas pouco se importava se alguns psicólogos fingiam estar conscientes enquanto outros afirmavam ter a psicologia perdido a cabeça ou se o pensa­mento ocorria na cabeça ou no pescoço. Essas questões provocavam muitos debates entre os psicólogos, mas quase não despertavam o interesse das pessoas comuns.
O que sensibilizou o público foi o clamor de Watson por uma sociedade baseada no comportamento controlado e moldado cientificamente, livre dos mitos, dos costumes e dos comportamentos convencionais. Esses conceitos trouxeram esperança às pessoas desencantadas com as antigas ideias. Na fé e na devoção, o behaviorismo adquiriu as características de uma religião. Entre as centenas de artigos e livros escritos sobre o behaviorismo de Watson estava The religion called behaviorism (Berman, 1927), que logo foi lido por um jovem de 23 anos, B. F. Skinner, que escreveu um artigo, enviando-o para uma revista literária popular. "Eles não publicaram o [meu artigo], mas o fato de tê-lo escrito foi como se eu tivesse me definido pela primeira vez como um behaviorista" (Skinner, 1976, p. 299). Skinner prosseguiu aprimorando e ampliando o trabalho de Watson (veja no Capítulo 11).

O entusiasmo gerado pelas ideias de Watson pode ser observado nos comentários dos jornais a respeito do seu livro Behaviorism (1925). O The New York Times declarou: Trata-se de um marco da época na história intelectual do homem" (2 ago. 1925). O The New York Herald Tribune afirmou ser "o livro mais importante escrito até hoje. Saímos em um instante da escuridão para uma grande esperança" (21 jun. 1925).

A esperança vinha da ênfase de Watson no efeito da criação e do ambiente infantil, na determinação do comportamento e na minimização do impacto das tendências inatas. 

O trecho a seguir, extraído do livro Behaviorism, frequentemente é citado para sustentar essa visão:

Deixe sob a minha responsabilidade uns 10 bebês saudáveis e bem-formados, e a um mundo especificado por mim para criá-los, e garanto escolher algum aleatoriamente e treiná-lo para tornar-se especialista de qualquer área, seja um médico, um advogado, um empresário e até mesmo um mendigo ou um bandido, independentemente do talen­to, da propensão, da tendência, da habilidade, da vocação e da raça de seus ancestrais. (Watson, 1930, p. 104)

As experiências de Watson acerca do reflexo condicionado, tais como o estudo com Albert, convenceram-no de que os distúrbios emocionais do adulto são provocados pelas respostas condicionadas estabelecidas na infância e na adolescência. E, se o desequilíbrio do adulto é resultante do condicionamento deficiente na infância, então um programa de condicionamento infantil adequado evitaria o surgimento de adultos desequilibrados. Watson acreditava que esse tipo de controle prático sobre o comportamento infantil (e, consequentemente, sobre o comportamento adulto posterior) não era apenas possível, como também absolutamente necessário. Ele desenvolveu um plano para a melhoria da socieda­de, um programa de ética experimental, baseado nos princípios do behaviorismo.

Ninguém jamais lhe ofereceu uma dezena de bebês saudáveis para ele testar sua afirmação e, mais tarde, Watson reconheceu que, se houvesse feito isso, estaria ultrapas­sando os limites dos fatos. No entanto, comentou que as pessoas que discordavam dele e acreditavam no maior impacto da hereditariedade do que do ambiente vinham fazendo essa afirmação por milhares de anos e ainda não haviam conseguido alguma prova real para a sua visão.

O seguinte trecho do livro Behaviorism mostra a vitalidade com que Watson descrevia o seu programa de sobrevivência nos termos do sistema behaviorista. E talvez ajude a esclarecer por que tantas pessoas adotaram o behaviorismo como uma nova fé.

O behaviorismo deve ser uma ciência que prepare homens e mulheres para compreender os princípios dos próprios comportamentos. Deve formar homens e mulheres dispostos a reorganizar as próprias vidas, e principalmente com disposição para se prepararem para educar seus filhos de maneira saudável. Gostaria de conseguir retratar a vocês o indivíduo rico e maravilhoso que podemos produzir de cada criança saudável se pudermos moldá-la de forma adequada e oferecer-lhe um universo em que possa exercer essa organização, um universo não influenciado pelas lendas folclóricas dos acontecimentos de milhares de anos passados, não tolhido pela história política desonrosa, livre de costumes e conven­ções tolas, desprovidas de significados próprios, mas que submetem os indivíduos como rígidas algemas de aço.

Não clamo aqui por uma revolução; não peço às pessoas que se dirijam a algum local esquecido por Deus, formem uma colônia, andem nuas e vivam em uma comunidade; nem peço para mudarem para uma dieta à base de raízes ou ervas. Não clamo pelo "amor livre". Estou tentando lhes apresentar um estímulo verbal que, se produzir algum efeito, gradualmente transformará o universo. Porque o universo se transformará se vocês edu­carem seus filhos, não com libertinagem, mas com a liberdade behaviorista, uma liber­dade que não pode ser descrita em palavras, já que pouco sabemos dela. E será que essas crianças, com a sua melhor forma de vida e de pensamento, não nos substituirão como sociedade e educarão seus filhos de uma forma mais científica até que o mundo finalmen­te se torne um lugar adequado para o homem viver? (Watson, 1930, p. 303-304)

O plano de Watson de substituir a ética baseada na religião pela experimental, fun­damentada no behaviorismo, ficou na esperança e não se concretizou. Ele esboçou esse programa e o deixou como base para outros. Anos mais tarde, B. F. Skinner (veja no Capí­tulo 11) concebeu mais detalhadamente uma utopia moldada cientificamente no espírito das ideias de Watson.

A Popularização da Psicologia

Por volta da década de 1920, o campo da psicologia já havia conquistado e cativado a atenção do público. Em virtude do carisma, do charme pessoal, do poder de persuasão e da mensagem de esperança de Watson, os estadunidenses estavam enfeitiçados por algo cha­mado "surto" de psicologia. Grande parte do público estava convencida da capacidade da psicologia de mostrar o caminho para a saúde, a felicidade e a prosperidade. As colunas com conselhos psicológicos brotavam nas páginas dos jornais diários.

O psicólogo Joseph Jastrow (1863-1944) era descrito como um propagandista hiperativo da psicologia, comparado aos modernos colunistas famosos, como Ann Landers ou Dear Abby (Rabkin, 1994). Jastrow obteve o Ph.D. em 1886, na Johns Hopkins e construiu uma longa carreira acadêmica na University of Wisconsin. Também escrevia artigos para as revis­tas sobre psicologia, trabalhando com a crença de que a "popularização da psicologia era essencial para o seu reconhecimento público e apoio oficial" (Jastrow, 1930/1961, p. 150). Entre os assuntos abordados estavam a cura da melancolia, a psicologia dos delinquentes, os medos e as preocupações, o significado dos testes de QI, o complexo de inferioridade, os conflitos familiares e o motivo do consumo de café. Obviamente, a psicologia já se encontrava bem distante do trabalho de laboratório da época de Wundt e Titchener.

Jastrow era autor de uma coluna, Keeping Mentally Fit (Como Manter o Equilíbrio Mental), publicada em 150 jornais, e também participava de um programa de rádio semanal da rede NBC. Chegou a escrever um manual popular de psicologia, Piloting your life: the psychologist as helmsman, bem diferente dos livros de autoajuda mais vendidos atualmente. Albert Wiggam foi outro grande divulgador da psicologia. Embora não fosse psicólogo, escrevia uma coluna chamada Exploring Your Mind (Explorando sua Mente). Esse trecho ilustra as suas opiniões:

Os homens e as mulheres nunca precisaram tanto da psicologia como nos dias de hoje. Os rapazes e as moças necessitam da psicologia para avaliar seus traços mentais e suas habilidades, a fim de fazer uma opção precoce e correta da carreira. (...) os empresários a utilizam na seleção de funcionários; os pais e educadores, para ajudar na criação e educa­ção dos filhos; enfim, todos necessitam da psicologia para garantir a mais elevada eficácia e a felicidade. Não se pode atingir plenamente esses objetivos sem o novo conhecimento da própria mente e personalidade que os psicólogos nos oferecem. (Wiggam, 1928 apud Benjamin, 1986, p. 943)

O humorista canadense Stephen Butler Leacock comentou que a psicologia, enquanto confinada nos campi universitários, não estabelecia relações com a realidade nem provocava nenhum dano a quem a estudasse. No entanto, por volta de 1924, ela estava disseminada por toda parte. Leacock disse: "Hoje, para qualquer momento crítico da vida, procuramos os serviços de um psicólogo com a mesma naturalidade com que contratamos o serviço de um encanador. Em todas as metrópoles há ou haverá cartazes em que se lê 'Psicólogo - 24 horas por dia"' (apud Benjamin, 1986, p. 944).

Dessa maneira, a psicologia foi acolhida em todo o território estadunidense, e John B. Watson, mais do que qualquer outra figura, foi responsável por ajudar a divulgá-la.

As Críticas ao Behaviorismo de Watson

Qualquer sistema que apresente propostas radicais de revisão, que desafie violentamente a ordem existente e sugira a exclusão da versão anterior da verdade certamente deve ser alvo de críticas. É sabido que a psicologia estadunidense já rumava em direção à maior obje­tividade quando Watson fundou o behaviorismo, no entanto nem todo psicólogo estava disposto a aceitar a radical objetividade por ele apresentada. Muitos psicólogos, inclusive alguns defensores do princípio da objetividade, acreditavam que o programa de Watson omitia componentes importantes - como os processos perceptuais e sensoriais.

Edwin B.Holt (1873-1946)

Holt recebeu seu diploma de Ph.D. das mãos de William James, pela Harvard University, em 1901 e passou sua carreira acadêmica na Princeton University. Ele discordava do senti­mento de rejeição e dos fenômenos mentais de Watson, e achava que é possível relacionar experiências conscientes a situações físicas. Entretanto, como Watson, Holt acreditava na influência determinante das forças ambientais sobre as forças instintivas.

Também acreditava que a aprendizagem podia ocorrer como resposta a motivações interiores (nossas necessidades e impulsos internos, como fome e sede) bem como moti­vações externas (estímulos). Holt foi um dos primeiros teóricos a identificar os impulsos internos, antecipando-se ao trabalho posterior na área de motivação.

Holt não tentou reduzir o comportamento à unidade estímulo-resposta. Preferiu lidar com comportamentos maiores que tinham algum propósito para o organismo, compor­tamentos que ajudavam a atingir algum objetivo. O termo e conceito de "propósito" não eram permitidos no sistema de Watson. A ênfase que Holt deu a esse conceito serviu de estímulo para o trabalho do neo-behaviorista E.C. Tolman (veja no Capítulo 11).

Karl Lashley (1890-1958)

Lashley fora aluno de Watson na Johns Hopkins, onde completou o Ph.D. Sua carreira na psicofisiologia abriu-lhe as portas das universidades de Minnesota e de Chicago, além da Harvard, conduzindo-o finalmente ao laboratório de Yerkes, dedicado ao estudo biológi­co dos primatas. Ele preservou a tradição mecanicista característica da psicologia desde a sua fundação.

Lashley revelou que, quando criança, ficava muito intrigado com as pessoas e era habili­doso com os objetos mecânicos [como os brinquedos de montar, para construir prédios e pontes]. Afirmou que a psicologia foi uma verdadeira revelação para ele, quando ele reconheceu que o ser humano e a máquina tinham muitos aspectos em comum. (Murray apud Robinson, 1992, p. 213)

Karl Lashley defendia o behaviorismo de Watson, embora sua pesquisa acerca do mecanismo cerebral dos ratos contrariasse um dos pontos básicos de Watson.

Ele resumiu suas descobertas no trabalho Brain mechanisms and intelligence (1929), e apresentou dois princípios hoje famosos: a lei da ação da massa, que estabelece ser a eficácia da aprendizagem uma fun­ção da massa intacta do córtex (quanto mais tecido cortical estiver disponível, melhor a aprendizagem); e o princípio da equipotencialidade, que estabelece ser uma parte do córtex essen­cialmente igual à outra na contribuição para a aprendizagem.

Lashley esperava que a pesquisa lhe revelasse os centros motor e sensorial específicos do córtex cerebral, bem como as conexões correspondentes entre o aparelho motor e o sensorial. Essas descobertas teriam sustentado a primazia e a simplicidade do arco reflexo como uma unidade de comportamento elementar. No entanto, ocorreu que os resultados contradiziam a ideia de Watson da conexão simples, ponto a ponto, dos reflexos, de acor­do com a qual o cérebro serve apenas para transformar os impulsos nervosos sensoriais de origem em impulsos motores de resposta. As descobertas de Lashley sugeriam que o cérebro desempenha uma função muito mais ativa na aprendizagem do que Watson admi­tia. Desse modo, Lashley contestava a afirmação de Watson de que o comportamento era composto parte por parte exclusivamente dos reflexos condicionados.

Embora o trabalho de Lashley contrariasse uma parte fundamental do sistema de Watson, ele não enfraqueceu a insistência behaviorista na utilização dos métodos obje­tivos de pesquisa. Ao contrário, seu trabalho confirmou o valor da objetividade na pes­quisa psicológica.

William McDougall (1871-1938)

Um dos mais vigorosos opositores de Watson era William McDougall, psicólogo inglês que foi para os Estados Unidos em 1920, primeiro para a Harvard e depois para a Duke University. McDougall ficou conhecido por sua teoria do comportamento instintivo e pelo ímpeto do seu livro acerca da psicologia social (McDougall, 1908).

Embora houvesse contribuído muito para a psicologia social, pessoalmente McDougall não era muito sociável. Ele dizia:

Nunca me adaptei adequadamente a nenhum grupo social, jamais fui capaz de me encon­trar completamente como indivíduo na presença de alguma pessoa ou de algum sistema; e, embora não ignorando os interesses da vida, do sentimento e do pensamento coletivo, sempre me mantive isolado, crítico e insatisfeito. (McDougall, 1930, p. 192)

Costumava apoiar causas impopulares, como o livre-arbítrio, a superioridade nórdica e a pesquisa psíquica, e muitas vezes foi criticado pela imprensa por causa das suas posi­ções. McDougall também foi difamado pela comunidade psicológica por haver criticado o behaviorismo na década de 1920, período em que a maioria dos psicólogos aceitava a influência behaviorista.

MacDougall escreveu que "sofreu muito com a perda da reputação, impopularidade, informações difamadoras e hostilidade desdenhosa" (apud Innis, 2003, p. 102). Um psicólogo estadunidense chegou a ponto de dizer publicamente, quando McDougall estava muito doente, que a psicologia lucraria mais se ele morresse. Robert Yerkes, mais compreensivo, observou que a vida de McDougall tinha sido uma "grande tragédia" (Innis, 2003, p. 91).

A teoria do instinto de McDougall afirmava ser o comportamento humano derivado das tendências inatas ao pensamento e à ação. Embora a sua ideia fosse bem recebida no início, perdera terreno para o behaviorismo. Watson não aceitava a noção de instinto, e nessa questão e em várias outras os dois colidiam.

O debate entre Watson e McDougall.

Watson e McDougall encontraram-se para debater suas divergências em 5 de fevereiro de 1924, no Clube de Psicologia, localizado em Washington, DC. O fato de haver em Washington um clube de psicologia não-filiado a nenhuma universidade comprova a ampla popularidade da disciplina. Cerca de mil pes­soas compareceram ao debate. Havia poucos psicólogos: somente 464 membros da APA de todo o país. Assim, o tamanho do público também refletia a popularidade do behavioris­mo de Watson. Os julgadores do debate, no entanto, declaram McDougall o vencedor. Os argumentos de ambas as partes foram publicados em The battle of behaviorism (1929).

McDougall começou com otimismo, dizendo: "Começo com boa vantagem sobre o Dr. Watson, uma superioridade tão grande que se torna até injusto; isto é, todas as pes­soas dotadas de bom senso ficarão necessariamente a meu lado desde o início" (Watson e McDougall, 1929, p. 40). Ele concordava com a visão de Watson de serem os dados do comportamento o enfoque adequado do estudo psicológico, no entanto, afirmava serem igualmente indispensáveis os dados da consciência (essa posição foi sustentada posterior­mente pelos psicólogos humanistas e pelos teóricos da aprendizagem social).

Se os psicólogos não adotassem a introspecção, perguntava McDougall, como deter­minariam o significado da reação de um indivíduo ou a precisão do ato da fala (que Watson chamava de relato verbal)? Sem o autorrelato, como descobrir algo a respeito das fantasias e dos sonhos das pessoas? Como compreender ou analisar as experiências estéticas? McDougall desafiava Watson a explicar como seria o relato do behaviorista acerca da expenencia de apreciar um concerto de violino. McDougall disse:

Entro neste salão e vejo um homem no palco raspando as tripas de um gato com os pelos do rabo de um cavalo, e, sentados silenciosamente em uma atitude de total atenção mil pessoas que de repente irrompem em aplausos. Qual a explicação behaviorista para estra­nhos incidentes como esse? Como explicar o fato de as vibrações emitidas pelos categutes motivarem mil pessoas a permanecerem em total e absoluto silêncio e quietude e o fato seguinte, no qual a interrupção desse estímulo parece transformar-se em outro estímulo provocador de uma atividade tão frenética?

O senso comum e a psicologia concordam em aceitar a explicação de que o público ouviu a musica com extremado prazer e deu vazão à admiração e gratidão ao artista com gritos e aplausos. No entanto, o behaviorista não conhece nada a respeito do prazer e da dor, nem da admiraçao e da gratidão. Ele relegou todas essas "entidades metafísicas" a um amontoado de poeira, e tem de buscar outra explicação. Deixemo-lo procurando, já que a busca o manterá inofensivamente ocupado por vários séculos. (Watson e McDougall, 1929, p. 62-63)

Assim, McDougall questionava a afirmação de Watson de que o comportamento humano é totalmente determinado, de que tudo que realizamos é resultado direto da experiência passada e pode ser previsto assim que conhecemos esses fatos passados. Esse tipo de Pslcologia não dá espaço para o livre-arbítrio ou a liberdade de escolha. Se essa posição determinista fosse verdadeira, ou seja, se os humanos não fossem dotados
e vontade livre nem responsáveis pelas próprias ações, então não existiria a iniciativa humana, o esforço criativo, o desejo de melhoria individual e social. Ninguém tentaria evitar a guerra, minimizar a injustiça ou lutar por algum ideal pessoal ou social Por que continuar tentando achar uma resposta, se todo pensamento e comportamento é deter­minado pela experiência passada?

O método do relato verbal de Watson entrou no fogo cruzado. Watson foi acusado e inconsistência por aceita-lo quando conseguia comprová-lo e rejeitá-lo quando não. Evidentemente, esse era o enfoque principal de Watson e de todo o movimento behaviorista: usar somente dados verificáveis.

O debate entre os dois ocorreu 11 anos depois de Watson fundar a escola de pensa­mento behaviorista. McDougall previu que em mais alguns anos a posição de Watson desapareceria sem deixar rastros. Em um pós-escrito à publicação do debate, cinco anos depois McDougall disse que sua previsão foi excessivamente otimista, "baseada em uma ideia generosa demais da inteligência do público americano. (...) Dr. Watson continua
como um profeta muito honrado no próprio país, a emitir suas opiniões" (Watson é McDougall, 1929, p. 86-87).

As Contribuições do Behaviorismo de Watson

A carreira produtiva de Watson na psicologia durou pouco menos de 20 anos; mesmo assim, afetou profundamente o curso do desenvolvimento da psicologia por muito tempo.

Watson foi um eficaz agente do Zeitgeist, em uma época de mudanças não apenas na psicologia, como também nas atitudes científicas em geral. O século XIX testemunhou os magníficos avanços em todos os ramos da ciência. O século XX prometia feitos ainda mais extraordinários. Na época, acreditava-se que, se aos cientistas fosse dado tempo sufi­ciente, eles descobririam as soluções para todos os problemas e as respostas para todas as perguntas.

Watson tornou a metodologia e a terminologia da psicologia mais objetivas. Embo­ra suas posições a respeito de determinados tópicos estimulassem muita pesquisa, suas formulações iniciais não são mais válidas. Como uma escola de pensamento distinta, o behaviorismo de Watson foi substituído por outras formas de objetivismo psicológico nele baseado, como veremos no Capítulo 11. O historiador E. G. Boring afirmou que, em 1929, o behaviorismo já ultrapassara a etapa inicial. Como os movimentos revolucionários dependem das polêmicas para se fortalecerem, é um verdadeiro tributo ao behaviorismo de Watson que apenas 16 anos após a sua introdução ele não precisasse mais protestar. Na verdade, não sobrou nada para protestar.

O behaviorismo de Watson efetivamente superou as posições iniciais mais gerais da psicologia. Em 1926, um estudante de pós-graduação da University of Wisconsin relatou que, naquela época, poucos estudantes tinham ouvido falar de Wundt e Titchener (Gengerelli, 1976). Os métodos objetivos e a linguagem acabaram se incorporando à psicologia estadunidense e, desse modo, morria o sistema de Watson, assim como outros movimentos bem-sucedidos, ou seja, sendo absorvidos por um corpo principal de pensamento, a fim de proporcionar uma base conceituai mais firme para a psicologia moderna.

Embora o programa de Watson não lhe permitisse atingir seus ambiciosos objetivos, ele foi amplamente reconhecido pelo seu papel de fundador. O seu 100° aniversário de nascimento foi comemorado em abril de 1979, o mesmo ano do centenário da psicologia como ciência. Um simpósio realizado na Furman University, para o qual o laboratório de psicologia levou o nome de Watson em sua homenagem, reuniu psicólogos vindos de todos os Estados Unidos. Um dos oradores foi B. F. Skinner, cujo discurso se intitulava “What J. B. Watson meant to me” ("O que J. B. Watson significou para mim"). Seus conterrâneos não guardavam boas lembranças de Watson. Muitos recordavam-se dele como "arrogante e ateu que voltara as costas para a sua herança sulista e a criação batista" (Greenville News, 5 abr. 1979). Em 1984, foi inaugurado um marco comemorativo em uma estrada próxima ao local de seu nascimento.

Até certo ponto, a aceitação do behaviorismo watsoniano deveu-se à personalidade de Watson, figura carismática que projetava suas ideias com entusiasmo, otimismo e autocon­fiança. Orador muito eloquente e persuasivo, desprezava a tradição e rejeitava a psicologia corrente. Essas características pessoais, aliadas ao espírito dos tempos que ele manipulava com tanta maestria, definiram John B. Watson como um dos pioneiros da psicologia.
 

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Isabel, mecenas da intelectualidade
Vincent & Strandling, p. 68

Aos 31 anos - quase passada a metade da vida, segundo os padrões da época - Isabel dedicou-se seriamente ao estudo do latim, e fundou uma escola de gramática den­tro de sua corte para a educação humanista dos filhos da nobreza castelhana. Essa atitude, embora frustrada, é um exemplo de iniciativa e mostra porque Isa­bel tornou-se a mais duradoura inspiração da “Espa­nha”. Esposa, mãe, soberana reinante, guerreira, erudi­ta e devota fiel, parecia ser tudo o que o Renascimento idealizava. A imagem propagandística pode ter sido um tanto exagerada, mas Isabel certamente foi uma líder de irreprimível energia e curiosidade. Desde jovem, fez amizade com os Mendoza, a família que, quase sozinha, introduziu a erudição humanista em Castela. Decano dos primeiros humanistas espanhóis, o poeta e latinista Inigo López de Mendoza, marquês de Santillana (1398-1458), colecionou uma enorme biblioteca pessoal, e seus dois filhos mais novos, o conde de Tendilla e o arcebispo de Sevilha, respectivamente, tornaram-se os conselhei­ros de confiança de Fernando e Isabel durante a década de 1470. Ambos os irmãos eram ávidos por novos conhecimentos; o primeiro introduziu os intelectuais italianos na corte, enquanto o segundo fundou a impor­tante nova universidade da Vera Cruz em Valladolid, para todos os efeitos a capital dos monarcas católicos. A erudição e a nova tecnologia da imprensa foram rapi­damente mobilizadas para servir à dinastia. Durante o reinado de Isabel, foram instaladas imprensas de tipos móveis em muitas cidades castelhanas, muitas delas re­sultado de uma deliberada política real de convidar os técnicos alemães para se instalar ali. Antes de sua morte, haviam sido produzidas na Espanha 1.000 edições, e es­tima-se que 50 por cento dos habitantes da cidade sa­biam ler. Embora a maioria das obras fossem devocionárias, também apareceram traduções de autores clássicos e até literatura imaginativa vernácula sob um sistema de licenças reais introduzido na década de 1490. Enquanto isso, a rainha colocou-se na primeira linha do mecenato, conhecendo homens de ideias, aprendendo com eles e abrindo seus próprios horizontes mentais, até o ponto em que foi capaz de compartilhar pelo menos uma parte da visão de Colombo, em 1492.

VINCENT, Mary. STRANDLING , R. A. O império católico, 1480-1670. in:__________. Espanha e Portugal. Grandes civilizações do passado. Barcelona/ES: Folio, 2008. Cap. 4. p.68
Mitologia
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MITOLOGIAS DA CIVILIZAÇÃO
Loki e a construção do muro de Asgard

Durante muitos anos, os deuses viveram junto com os mortais até que, um dia, Odin, o maior dos deuses, teve a idéia de construir Asgard, a sua morada celestial. Era preciso que os deuses tivessem um local só para si, resguardado dos ataques dos seus terríveis inimigos, os Gigantes. Nem bem, porém, haviam terminado de construir a cidade, depararam-se todos com um grande problema: é que, na pressa, esqueceram de construir também uma sólida muralha para se proteger de um eventual ataque de seus pérfidos inimigos. Odin e Loki estavam conversando sobre o assunto, tendo ao lado outros deuses, como Tyr e Heimdall, quando, de repente, viram passar perto um cavaleiro. - Uma bela construção a que fizeram...! - disse ele, admirando a arquitetura da divina cidade. - Mas, onde está o muro que deveria protegê-lo?

Os deuses, constrangidos, foram obrigados a confessar que haviam esquecido desta parte.

- Ora, mas isto não é problema! - disse o forasteiro. - Sou o mais hábil construtor do mundo e posso erguer um belo e fortificado muro, se assim desejarem.

Um sorriso de satisfação iluminou a barba ruiva de Odin. Loki, também satisfeito, acenou para o homem e lhe disse:

- E quanto tempo levará para terminá-lo?

- Em um ano e meio estará perfeito e acabado.

- Muito bem, pode começá-lo imediatamente! - disse Loki, aplaudindo o construtor.

- Esperem! - bradou Odin, interrompendo tudo. - O senhor disse que é o melhor construtor de todo o mundo, não é?

- Sim, honro-me de sê-lo!

- E, o que pede para realizar a sua tarefa? - quis saber o deus supremo, já imaginando que o hábil construtor não pediria pouco.

- Quero a mão da bela Idun em casamento - disse o outro, confirmando as mais negras previsões do maior dos deuses.

Idun era a deusa da juventude e cuidava do pomar onde brotavam as maçãs da juventude, graças às quais os deuses permaneciam sempre jovens e saudáveis.

- Ora, desapareça daqui! - disse Tyr, o mais valente dos deuses, brandindo o seu único punho para o atrevido.

Heimdall, o guardião da ponte Bifrost, que conduzia a Asgard, como não podia falar, protestou tocando sua corneta tão alto no ouvido do estrangeiro, que o construtor sofreu um sobressalto e precisou de alguns minutos para recuperar inteiramente a audição. Quanto aos demais deuses, já iam todos dando as costas, incluindo Odin, quando ouviram Loki dizer ao atrevido forasteiro:

- Muito bem, se puder construir em seis meses, o negócio está fechado! Todos os rostos voltaram-se, alarmados, para o imprevidente deus.

- Imporemos apenas a condição de que realize sozinho a sua tarefa e no espaço de um único inverno - disse ainda Loki, sem se importar com as censuras que faiscavam no olhar de seus colegas. Para estes, entretanto, disse à boca pequena: - Não se preocupem: em seis meses, ele não terá construído nem a metade do muro, o que o obrigará a nos entregá-lo de graça!

- Trato feito! - disse o construtor, que pareceu muito satisfeito com a proposta. No mesmo instante, desceu de seu cavalo Svadilfair e meteu mãos à obra. Acoplando um trenó à cauda do cavalo, ele começou a empilhar e a arrastar enormes pedregulhos pela neve com tanta vontade e determinação, que todos os deuses empalideceram, menos Loki, que olhava para o homem com um sorriso irônico.

- Não se aflija, bela Idun! - disse ele à infeliz deusa, que vertia pelos olhos pequeninas lágrimas douradas. - São fanfarronices do primeiro dia; amanhã, ele á estará exausto e jamais conseguirá terminar o muro dentro do prazo estipulado!

Mas, no segundo dia, o ritmo não diminuiu; na verdade, aumentou e, ao fim do primeiro mês, o estrangeiro já havia construído um bom pedaço, grande o bastante para deixar em pé os cabelos de Odin.

- Loki, seu idiota...! - disse ele, chamando o responsável pelo iminente desastre. - Se a coisa for neste passo, antes mesmo dos seis meses, ele terá concluído o maldito muro e perderemos Idun e as maçãs da juventude! Não lhe passou pela cabeça, cretino, que este construtor pode ser um gigante disfarçado a tramar a nossa destruição? - indagou Odin a Loki, que cocava a cabeça, com um ar culpado.

Idun, por sua vez, observava noite e dia, com desolação, a movimentação do construtor e cada pedra que ele depositava a mais sobre o muro, era um golpe cavo que soava em seu peito. Seus olhos estavam sempre postos sobre as costas suadas do infatigável construtor e de seu portentoso cavalo que arrastava no trenó, sem um minuto de descanso, os grandes pedregulhos.

O tempo passou e faltavam agora somente cinco dias para a chegada do verão e um pequeno trecho para que o muro estivesse concluído.

Odin fez um sinal para que Heimdall fizesse soar a sua trompa, convocando os deuses para uma reunião de emergência.

- E agora, seu tratante? - disse Odin, tão logo avistou Loki adentrar o salão. - Já que foi esperto o bastante para nos meter nesta enrascada, trate de arrumar um jeito de nos tirar dela, caso contrário, você irá para o sombrio Niflheim, onde sofrerá torturas tão cruéis que nem mesmo sua filha Hei o reconhecerá!

- Verei o que posso fazer, poderoso Odin - disse Loki, o qual, se era imprevidente a ponto de se meter a todo instante em enrascadas, não era menos hábil em se safar destas mesmas situações.

Loki internou-se numa grande floresta e, naquela mesma noite, enquanto o construtor trabalhava com a ajuda de seu cavalo, ele retornou de lá transformado numa belíssima égua branca. Postando-se diante do cavalo do construtor, a égua começou a relinchar melodiosamente (tanto quanto um eqüino possa ter alguma melodia), o que fez com que Svadilfair arrebentasse, afinal, os freios que o mantinham preso ao trenó e seguisse a égua floresta adentro.

- Ei, espere, aonde vai? - gritou o construtor, espantado.

O cavalo, entretanto, lançara-se numa corrida tão desenfreada que, por mais que seu dono tentasse alcançá-lo, não pôde fazê-lo. Depois de descansar um pouco e refletir, porém, o construtor farejou naquilo o dedo de Loki.

- É claro! - exclamou furioso. - Tão certo quanto sou um gigante disfarçado de construtor, esta égua não passa do maldito Loki disfarçado!

O gigante, então, vendo que não conseguiria terminar o muro sem o auxílio de seu prodigioso cavalo, resolveu reassumir a sua forma natural para tentar completar a tarefa.

Odin, contudo, que a tudo assistia de seu trono, exclamou tomado pela ira:

- Tal como eu imaginava: o tal construtor não passa, na verdade, de um maldito gigante!... Ótimo, pois com isto fico também desobrigado de meu juramento! - Odin suspendeu no ar a mão que alimentava seus dois lobos, Geri e Freki, e ordenou, imediatamente, que um servidor fosse chamar seu filho Thor.

- Thor, preciso que, mais uma vez, faça uso de seu martelo Miollnir para derrotar este gigante impostor! - disse Odin, depositando todas as esperanças em seu valente filho.

Thor não esperou segunda ordem: empunhando seu martelo e afivelando bem à cintura o seu cinto de força, foi até o gigante, que empilhava, freneticamente, imensos pedregulhos no afã de terminar logo a sua tarefa. O rio de suor, que lhe escorria dos membros, fizera com que a neve ao seu redor tivesse derretido toda.

- Ora, vejam...! - disse Thor, ao se aproximar dele. - O pequeno construtor virou, então, de uma hora para a outra, um gigante atarefado?

- Fique longe de mim! - disse o outro, carregando em desespero a última pedra que faltava para completar o muro.

Porém, antes que tivesse tempo de colocá-la sobre o último vão do muro, Thor arremessou seu martelo com tal força e velocidade, que a cabeça do gigante se esmigalhou inteira.

- Aí está, patife, o seu pagamento! - disse o deus, recolhendo Miollnir. O gigante teve, logo em seguida, o restante de seu corpo jogado nos gelos eternos de Niflheim.

- E então, tudo correu bem? - disse Odin ao filho, tendo ao lado Idun.

- Já deve estar construindo seus muros na terrível morada de Hei! - disse Thor, enquanto retirava sua pesada luva de ferro.

Todos os deuses regozijaram-se com uma grande festa, aliviados que estavam pela derrota do gigante. Entretanto, em meio a ela, alguém perguntou:

- E Loki? Que fim levou o espertalhão?

De fato, Loki havia desaparecido de Asgard desde o instante em que entrara na floresta com o garanhão do gigante. Durante muito tempo, ninguém ouviu falar dele até que, um belo dia, ressurgiu, trazendo um belíssimo e prodigioso cavalo negro de oito patas.

- Ora, viva! Finalmente, reapareceu! - exclamou Odin, que, no entanto, parecia mais interessado no cavalo do que no deus desaparecido.

- Apresento a vocês Sleipnir, o cavalo mais veloz do universo! - disse Loki, todo sorridente.

Loki, por mais incrível que possa parecer, tornara-se pai de um cavalo; mas, para quem já havia sido anteriormente pai de um lobo e de uma serpente, não havia nisto nada de surpreendente. Entretanto, percebendo que Odin apaixonara-se, perdidamente, pelo cavalo, tratou logo de lhe dar o animal de presente na esperança de fazer com que esquecesse, rapidamente, de suas trapalhadas.

E foi assim que Odin se tornou dono do cavalo mais veloz do universo.

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MITOS, FÁBULAS E LENDAS
A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

Mitologia Celta
As tarefas impossíveis de Culhwch

Um dos contos mais populares de Mabinogion narra a estória de Culhwch e Olwen. Culhwch é de sangue real, pois é primo de Arthur. O seu nascimento foi invulgar. Antes de ele ter nascido, a mãe, Golenddyd, ganhou uma profunda antipatia por porcos, pois quando passava por uma vara deles, assustou-se e deu à luz um filho que abandonou. Um guardador de porcos pegou nele e levou-o para os pais criarem. Golenddyd morreu e o marido, Cilydd, voltou a casar com uma mulher que tinha uma filha que ela queria casar com Culhwch. Mas ele não quis, afirmando ser ainda muito jovem. A rainha então rogou uma praga a Culhwch, segundo a qual ele só viria a casar com Olwen, filha de Ysbaddeden, o Chefe dos Gigantes. Bastou a Culhwch ouvir o nome dela para se apaixonar profundamente.

Culhwch decidiu então pedir ajuda a Arthur para encontrar esta donzela e partiu num grande esplendor, completamente armado com machados de guerra, espada dourada e uma pequena machadinha que «podia fazer o ar sangrar.» Tinha também um chifre de marfim, dois galgos e montava um cavalo fantástico. Quando Culhwch chegou à corte de Arthur o porteiro tentou barrar-lhe a entrada, mas ele ameaçou dar três gritos de tal intensidade que as mulheres ficariam estéreis e as que estivessem grávidas abortariam.

É claro que ele passou. Encontrou-se com Arthur que se deixou convencer a ajudá-lo a procurar Olwen. As buscas decorreram durante um ano, sem sucesso. Por fim, juntaram um grupo dos melhores cavaleiros, cada um deles abençoado com peculiaridades extraordinárias. Um deles, Kay, tinha uma espada que provocava feridas que nenhum médico podia tratar; outro, Bedwyr, o mais veloz de todos, e Gwalchmai, que nunca voltava de uma missão sem a cumprir.

Após mais dia buscas, Olwen foi finalmente encontrada.

Ela correspondeu ao amor de Culhwch, mas explicou que o pai Ysbaddeden estava destinado a morrer quando se casasse. Olwen pediu a Culhwch que aceitasse qualquer condição que o pai lhe impusesse. Culhwch aproximou-se do Chefe dos Gigantes que lhe ordenou uma longa série de «tarefas impossíveis.» A mais intimidante delas consistia em recuperar uma tesoura, uma navalha da barba e um pente que estava entre as orelhas do grande e destruidor javali Twrch Trwyth. Apesar de tudo, Culhwch aceitou de boa vontade toda as tarefas. Ele e Arthur conseguiram atrair a ajuda de Mabon, o caçador que tinha estado preso num castelo após ter sido roubado. Na ocasião, ele tinha sido libertado Era conhecido como «o jovem» se bem que fosse o mais velho de todos os seres. Mabon Culhwch e os cavaleiros foram ajudados por animais mágicos: a Águia de Gwemabwy, o Melro de Kilgory, o Veado de Rhedynvre, Salmão de Llyn Law e outros bichos encantados. Um dos homens de Arthur, Gwrhyr, tim a capacidade de falar com cada um deles na sua própria linguagem. Após uma longa perseguição através do sul do País de Gales, da Cornualha e da Irlanda, durante a qual o diabólico javali devastou uma grande parte da terra, foi enfim possível, com a ajuda de Mabo dominá-lo e conduzi-lo para o mar. A navalha da barba, a tesoura e o pente foram entregue: e Culhwch pôde finalmente casar com Olwe.

Mitologia Celta
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FATOS HISTÓRICOS
O surgimento da escrita na Mesopotâmia

Por volta de 3300 a.e.c. aparecem em Uruk os primeiros verdadeiros textos escritos. Os princípios básicos dessa escrita são simples: reproduzem elementos reais representados de maneira estilizada sobre a argila. São pictogramas (desenhos figurativos). Nesse sistema, um desenho representa um animal, um vegetal ou um objeto útil. Pouco a pouco, “codifica-se” a representação de certas noções: por exemplo, um pássaro e um ovo desenhados lado a lado permitem evocar a idéia de dar à luz. São introduzidos também elementos puramente abstratos como as anotações de quantidades.

Os pictogramas dão lugar então a ideogramas: um sinal representa uma palavra da língua. A partir de então, a escrita funciona com sinais e não mais com desenhos, e a noção de “representação explícita” desaparece progressivamente. Os sinais se simplificam em combinações de “cunhas”, mais fáceis de imprimir na argila mole que linhas curvas.

À medida que as vastas potencialidades desse sistema aparecem, os sumérios compõem lentamente um processo de escrita no qual, para cada palavra, é necessário um desenho correspondente. Recorrem então a agrupamentos de sentidos em torno de um único sinal. Por exemplo, um só e mesmo sinal designa a “boca”, o “dente”, o “ato de comer”, a “palavra” etc. Depois, ao lado do valor de evocação de uma palavra inteira (ideograma) por meio de um sinal, atribui-se a este um ou vários valores fonéticos elementares (do tipo: “la”, “bi”, mas também “ab” ou “ib”). No final desse processo, os sumérios dispõem, por volta de 2600 a.e.c., de uma escrita com cerca de um milhar de sinais, constituídos de agrupamentos de “cunhas” inscritas na argila e que só possuem uma remota relação com o desenho-prictograma original. Esses sinais devem ser lidos ora como palavras inteiras (valor ideogramático), ora como fonogramas (sinais-som), que, combinados com os sinais vizinhos, permitem escrever uma palavra para a qual não existe ideograma adequado, por exemplo, uma forma verbal conjugada ou um nome próprio.

Esse sistema pode parecer muito complicado, visto que cada sinal pode ter ao mesmo tempo vários valores fonéticos e vários valores ideogramáticos, e que nada indica, a priori, qual deve ser escolhido. Entretanto, pode-se constatar que o sistema de escrita cuneiforme dos sumérios foi construído de maneira muito pragmática. Representa, na época de Urukagina, uma espécie de ponto de equilíbrio entre o número total de sinais razoavelmente memorizáveis e a quantidade dos valores que possui cada um desses sinais. Deve-se também ter em mente que essa escrita não é concebida com um simples “instrumento, mas veicula ao mesmo tempo uma concepção do mundo, a maneira de representá-lo e, com isso, de dominá-lo. De modo significativo, constata-se que, a volta de 2600 a.e.c., se encontram listas nas quais são registradas, de maneira ordenada, todas as espécies de realidades: nomes de cidades, nomes de ofícios, nomes de divindades, nomes de animais, como se colocar por escrito a realidade do mundo permitisse compreender melhor os mecanismos de seu funcionamento íntimo.

Mesmo simplificando desse modo, o sistema da escrita cuneiforme não está ao alcance de todos. Permanece privilégio de especialistas, os técnicos da escrita. Os escribas possuem ao mesmo tempo a arte de escrever, a de contar, o conhecimento das fórmulas jurídicas, epistolares, administrativas. Aprenderam a estabelecer listas de pessoal, a registrar movimentos de produtos ou de animais, a elaborar balanços, a reunir dados estatísticos. Sabem também redigir as inscrições oficiais pelas quais o rei celebra sua bravura ou sua piedade, ou as fórmulas religiosas pelas quais se pode enternecer o coração dos deuses.

Mas o aspecto mais importante dessa prática da escrita reside realmente na possibilidade conferida doravante aos grandes organismos econômicos das diversas cidades-Estado sumérias, palácios e templos, de praticar uma gestão escrita de seus recursos, de controlá-la e, por fim, de otimizá-la.

 

Civilização Suméria
A revolução Russa de 1905

O quarto de século do assassinato de Alexandre II até a Revolução de 1905 foi de estagnação política. A reação do novo governo ao assassinato foi interromper o processo de reforma, afirmar publicamente a necessidade da autocracia e formular planos de contrarreformas. Estes últimos não resultaram em nada, mas o governo aproveitou toda possibilidade de bloquear a crítica, a discussão política e a organização entre o público. Apesar de retomar o patrocínio do desenvolvimento econômico nos anos 1890 sob o ministro das Finanças Sergei Witte, ele recusou-se a reconhecer as implicações da modernização continuada da sociedade, que resultava em parte das suas próprias medidas. O isolamento crescente do governo e sua própria falta interna de coordenação levaram a uma tentativa malograda de imperialismo moderno na Manchúria, tentativa que levou a uma guerra malsucedida com o Japão, que quase derrubou a monarquia.

Alexandre III tornou-se o herdeiro do trono em 1865 após a morte do seu irmão mais velho. Alexandre já tinha 20 anos na época e recebera uma educação militar um tanto estreita, ao contrário do seu irmão. Em 1866 ele desposou a princesa Dagmar da Dinamarca (Maria Fedorovna depois da sua conversão à ortodoxia) e teve um casamento estável com uma mulher inteligente e de opiniões extremamente conservadoras. O jovem herdeiro não era um intelectual, mas teve contato com ideias eslavófilas na corte e por meio do seu tutor de jurisprudência, Konstantin Pobedonostsev. Por intermédio dos guardas e de outros aristocratas ele fez amizade com o publicista conservador (e o homossexual mais destacado da aristocracia de São Petersburgo) príncipe V. M. Meshcherskii. Tratava-se de conservadores radicais com  princípios rigorosos, que só tinham desprezo pela liberdade de expressão, pela democracia e pelo governo representativo, os quais eles julgavam ser embustes aptos a conduzir à revolução. Na sua opinião, o que era necessário era a unidade da sociedade e do monarca, que eles consideravam a essência da autocracia. Na década de 1870, eles formaram uma oposição poderosa aos ministros mais liberais em torno de Alexandre II, poderosa em grande parte por causa da sua associação com o herdeiro. Como parte da sua tentativa de governo equilibrado, o tsar Alexandre II nomeou Pobedonostsev chefe do Sínodo, cargo que ele ocupou pelos próximos 24 anos. Depois que Alexandre III ascendeu ao trono, Pobedonostsev usou sua posição no Sínodo para manter acesso constante ao tsar, oferecendo-lhe conselho sobre todo tipo de assuntos muito além das questões eclesiásticas sob sua alçada. Aos olhos da sociedade liberal e de muitos funcionários do governo, ele tinha poder e influência altamente excessivos e numa direção inteiramente conservadora. “Príncipe das Trevas” era um dos seus apelidos mais gentis.

Na realidade, Alexandre escutava Pobedonostsev e Meshcherskii, mas nas suas decisões ele geralmente acompanhava os ministros, conservadores decerto, mas não inclinados a desmantelar a estrutura construída com tanto cuidado no reinado anterior. Essas estruturas ainda deixavam muitas áreas nas quais os ministros e administradores locais podiam agir com discricionariedade - nas relações com os zemstvos, em casos de exílio administrativo de liberais e socialistas, e outros. Aqui o tsar e seus subordinados quase sempre escolhiam a linha mais severa e autoritária. As “Regulamentações Temporárias” de 1881 foram dirigidas contra os revolucionários e permitiam que os governadores provinciais declarassem um estado de “segurança reforçada”, que os autorizava a prender subversivos sem julgamento, transferir casos de segurança para tribunais militares e fechar universidades e empresas. As regulamentações duraram até 1917. Em contrapartida, poucas “contrarreformas” foram realmente executadas. A autonomia universitária foi restringida mais ainda e o tsar promulgou um decreto que nomeava nobres como “capitães de terra” para monitorar a aplicação da lei nas aldeias. Tal como era sua intenção, o decreto efetivamente reforçou o poder da aristocracia no campo, e outras regulamentações que remendavam a administração local fortaleceram a burocracia contra os zemstvos, mas nenhuma dessas medidas constituiu uma mudança importante. Nas cidades o governo acabou elevando o requisito de propriedade para ser eleito para as Dumas municipais e proibiu os judeus de serem eleitos para as Dumas, mas deixou a estrutura básica intacta. O caráter reacionário do reino de Alexandre III estava mais na ausência de reação às mudanças sociais e econômicas em curso do que em qualquer tentativa concertada de retornar a uma era anterior.

Parte do novo reinado era também um nacionalismo oficial cada vez mais estridente, incluindo um antissemitismo oficial. Era mais uma mudança de tom que de substância, pois pouca coisa aconteceu em relação a novas medidas ou políticas além de uma aplicação mais rigorosa da legislação discriminatória contra os judeus, como foram as restrições de moradia fora dos limites da Zona de Residência. Em 1887 o governo introduziu a quota formal para judeus nas universidades, além das novas leis sobre o governo municipal. Houve outras investidas ocasionais de russificação, mas esta última era, com frequência, mais declaratória que real, pois o Império Russo carecia de recursos para adotar uma política firme nessa área. As propostas de substituir o alemão pelo russo nas escolas das províncias bálticas, uma campanha particular dos nacionalistas russos da época, fracassaram porque o Ministério da Educação salientou que não tinha recursos para contratar professores nem para construir escolas. Logo, as escolas das províncias bálticas continuaram em mãos locais, ou seja, alemãs. A preeminência continuada de aristocratas alemães e outros não russos na corte, no Exército e no corpo diplomático também impunha um limite muito claro ao grau de “russidade” que o governo podia reivindicar ou tentar impor.

Foi na política externa e econômica que os anos de Alexandre III trouxeram mais mudanças. Nos anos seguintes à Guerra da Crimeia, o príncipe Gorchakov mantivera o país firmemente no campo tradicional da amizade com a Prússia, tentando ao mesmo tempo aliviar a tensão com a Grã-Bretanha e a França. Quanto a isso ele só teve êxito parcial, e a posição ambígua da Alemanha de Bismarck ao final da Guerra Russo-Turca em 1878 minou a antiga aliança entre Berlim e São Petersburgo. À medida que a Alemanha aproximou-se da Áustria ao longo da década de 1880, a relação desgastou-se ainda mais, pois tanto a Rússia quanto a Áustria tinham intenções nos Bálcãs. A competição entre a Rússia e as duas potências alemãs levou ao fim da influência russa na Bulgária em 1886. O esfriamento resultante das relações russo-alemãs deixou a Rússia efetivamente isolada na Europa. A nova Alemanha, no entanto, fora construída sobre a vitória na guerra franco-prussiana e a anexação da Alsácia-Lorena, e portanto tinha a França como inimigo implacável. A Rússia e a França logo perceberam um interesse comum e, em 1893, a grande República e a autocracia do Leste assinaram um tratado que fez delas aliadas contra a Alemanha. A constelação política que durara no continente europeu desde 1815 chegara ao fim, e fora plantada a primeira semente que levaria à guerra em 1914. Até hoje, a ponte Alexandre III no centro de Paris serve de lembrete dessa aliança fatal.

Porém, a aliança ainda não era um estopim de guerra, visto que, até aquele momento, nenhum dos inimigos potenciais queria a guerra. Os laços dinásticos entre Berlim e São Petersburgo subsistiam e permitiam que ambos os lados conservassem a ilusão de que as coisas poderiam ser resolvidas. Todavia, os respectivos Exércitos não pensavam o mesmo, pois o Exército russo havia começado a repensar suas defesas ocidentais a partir da década de 1870, quando a Alemanha e a Rússia ainda eram aliadas, e o Exército alemão também agiu rapidamente para planejar uma guerra em dois frontes. Mas por enquanto a atenção dos governos e sociedades estava mais focada no Extremo Oriente. Ali, duas questões totalmente separadas vieram a se encontrar, os planos económicos de Sergei Witte e a ascensão do Japão.

Sergei Witte foi talvez o último estadista realmente dinâmico e ponderado do Império Russo, um homem com grandes planos e capacidades, bem como um ego gigante, que nunca trabalhava facilmente com outros em pé de igualdade. Ele desprezava os outros ministros de Estado - em grande parte com razão - e formulava seus planos com sua equipe, trabalhando diretamente com o tsar. A maneira como ele obteve o cargo é uma história à parte. Witte sempre alegou que seus antepassados eram holandeses e haviam ido para a Rússia através das províncias bálticas. Na verdade, seu avô era simplesmente um alemão báltico de classe média (talvez com ascendência holandesa) que serviu como tutor em famílias aristocráticas russas. O jovem Witte formou-se na Universidade de Odessa em Ciências Naturais, não em Direito Administrativo como a maioria dos futuros funcionários públicos. Ele também parece ter participado de uma obscura sociedade direitista chamada “União de São Miguel Arcanjo”, mas depois começou a trabalhar para a Ferrovia do Sudoeste, uma ferrovia privada que fazia a linha entre Odessa e Kiev. Isso lhe deu uma experiência do funcionamento de uma empresa capitalista que poucos altos funcionários russos possuíam. Alexandre III nomeou-o primeiro para o departamento de ferrovias do governo e sua ascensão foi veloz: em 1892 ele já era ministro das Finanças aos 43 anos de idade, uma conquista notável num governo cada vez mais idoso. Como os favoritos precedentes do tsar, seu poder baseava-se inteiramente na confiança do monarca, dado que Witte era arrogante demais, grosseiro demais e desacostumado demais com as sutilezas da política de Petersburgo para encontrar aliados entre os ministros. Ele considerava a maioria deles como tímidos incompetentes, mas não conseguia perceber que, sem eles, ele só podia contar com o tsar. Com Alexandre III no trono, essa atitude parecia sensata.

O grande projeto de Witte foi a Ferrovia Transiberiana, iniciada já em 1891. Essa enorme linha férrea que atravessava toda a Ásia setentrional viria a se tornar, sob muitos aspectos, um monumento a ele. Contra muitos céticos, ele tocou o projeto, primeiro com o apoio de Alexandre III e depois com o de seu filho Nicolau II. Os planos de Witte não consistiam apenas em melhorar as comunicações com o ponto mais remoto do Império. Decerto, uma mudança radical era necessária, já que as únicas formas de ir da Rússia europeia ao Pacífico eram a cavalo e de barco, o que durava vários meses, ou tomar um vapor saindo de Odessa e atravessando o canal de Suez para depois contornar a Índia e a China. Witte pretendia desenvolver a Sibéria, tanto pelos seus recursos naturais quanto pelo seu potencial como área de colonização, para satisfazer a fome dos camponeses por terra. Ao mesmo tempo, ele tinha consciência de que as potências europeias estavam recortando a China em esferas de influência, e ele não queria que a Rússia perdesse o seu quinhão. Assim, a última perna da rota da nova ferrovia sairia do lago Baikal através da Manchúria até Vladivostok, e a linha no interior do território russo seria deixada para depois. O objetivo era tomar a Manchúria como parcela da Rússia na China e como espaço para um novo estilo mais moderno de colonialismo. A meta de Witte era a “penetração pacífica” da China por motivos econômicos, mas os militares russos queriam uma base naval, e em 1896 obtiveram da China a concessão de Port Arthur, na costa sul da Manchúria. A Rússia parecia ter uma posição firme no Extremo Oriente. O único problema com esse plano brilhante era o Japão. Exatamente na década de 1890, o Japão estava dando seus primeiros passos em direção a um império na Ásia, com a derrota infligida à China e um crescente poder informal na Coreia. A presença da ferrovia russa, de Harbin e da base naval de Port Arthur irritava profundamente os japoneses e era uma consequência direta das políticas de Witte. Mas, por enquanto, a paz persistia, e a Rússia, o Japão e as potências europeias trabalhavam juntos para suprimir a Rebelião dos Boxers na China (1900).

Em 1894, Alexandre III morreu. Embora suas políticas tivessem impedido a Rússia de avançar em quase todas as áreas exceto a industrialização e a construção do império, pelo menos ele tinha sido um líder firme, capaz de tomar decisões difíceis, como Witte reconhecia. Seu filho, Nicolau II, era um homem de caráter muito diferente. Ele carecia completamente da capacidade de seu pai de assumir responsabilidades e fazer uso de seus ministros. Alexandre havia-os seguido na maioria das ocasiões, mas também dispunha-se a aceitar uma opinião minoritária e apoiá-la. Nicolau, muitas vezes, simplesmente concordava com o último que lhe dirigisse a palavra, e depois mudava de ideia novamente. Ele compartilhava as opiniões de seu pai acerca da inutilidade dos parlamentos, da liberdade de expressão e dos direitos humanos, e tinha tendência a ver a mão oculta dos judeus no liberalismo e no socialismo. Se ele não fosse o tsar, teria dado um fidalgo rural conservador ideal, pois era também gracioso, gentil e bom homem de família. Sua esposa Alexandra, a princesa alemã Alix de Hesse-Darmstadt, incentivava todas essas características, visto que era igualmente conservadora e devotada à família.

Infelizmente, a devoção de Alexandra à família e seus horizontes limitados não ajudavam a lidar com a hemofilia que seu filho, o herdeiro do trono Alexei, tinha de nascença. Sua reação foi recorrer a uma série de curandeiros, cada qual mais influente que o anterior. Para piorar, o temor plenamente justificado de terroristas aumentava o isolamento de Nicolau e sua família, o que tornava ainda mais difícil para eles compreender o que estava acontecendo em torno deles. As incessantes viagens à Crimeia e alhures, os entretenimentos ocasionais na corte e as excursões familiares no iate imperial não deixavam muito espaço para contato com o povo. As únicas aparições públicas eram cuidadosamente encenadas, muitas vezes como parte de cerimônias religiosas, o que dava ao tsar e ao povo uma visão completamente falsa das necessidades do país e da opinião pública.

No entanto, de início tudo correu bem. Nicolau era um partidário fervoroso do Extremo Oriente e do seu desenvolvimento e apoiava Witte incondicionalmente. Ele até concordou com a iniciativa controvertida do ministro de adotar o padrão-ouro na Rússia em 1897, uma medida concebida para encorajar o investimento e a industrialização, mas que não era necessariamente boa para os interesses agrários que a nobreza defendia. Depois de 1900, o apoio do tsar a Witte começou a desgastar-se. A nomeação de Viacheslav Plehve, um funcionário de carreira e uma personalidade poderosa, para chefiar o Ministério do Interior deu a Witte um rival forte e, em meados de 1903, Nicolau destituiu o ministro das Finanças. A única solução de Plehve para os problemas da Rússia era mais repressão, contra os revolucionários e contra os liberais de classe média e alta.

Todos esses grupos de oposição cresceram e consolidaram-se rapidamente nos anos 1890. Os primeiros a se organizarem foram os marxistas, que rejeitavam o terror em prol da organização dos trabalhadores para conclamar greves e combater os empregadores e o Estado por meio da ação coletiva. Os marxistas que conseguiram reunir-se e adotar um programa geral em 1898 foram imediatamente presos, e os vários grupos marxistas não se reuniram novamente antes de 1903. Quando eles se encontraram em Londres naquele ano, uma nova figura destacou-se, um diplomado da faculdade de Direito da Universidade de São Petersburgo com experiência na clandestinidade e no exílio. Tratava-se de Vladimir Il’ich Ul’ianov, cujo pseudónimo revolucionário era Lenin. Filho de um professor de Ciências de colégio e inspetor de escolas públicas em Simbirsk no Volga, Lenin havia passado do exílio na Sibéria à Europa Ocidental para editar uma revista socialista, Iskra (Centelha), por meio da qual ele e o marxismo conquistaram seguidores entre os estudantes e poucos trabalhadores que eram o celeiro do movimento revolucionário. No congresso de Londres, o partido foi refundado com um programa e estrutura mais elaborada, e os primeiros desacordos se manifestaram. O objetivo dos marxistas era derrubar o tsar e estabelecer uma República democrática (uma “revolução burguesa”). Ou seja, eles acreditavam que, enquanto essa tarefa não fosse completada, eles não deveriam almejar uma ditadura do proletariado e a introdução do socialismo. O inimigo, por enquanto, era o tsar. Portanto, eles agiriam sob as barbas da autocracia, em guerra contínua com a polícia, e Lenin acreditava que o partido devia ser sobretudo um movimento clandestino de revolucionários profissionais. Seus adversários, liderados pelo exímio Iulii Martov, pensavam que Lenin exagerava a necessidade de concentrar-se na luta clandestina e queriam um partido mais flexível. No voto da questão, Lenin ganhou por uma maioria estreita, e seus seguidores ganharam assim o nome de bolcheviques (bolshe significa “mais”), enquanto os de Martov foram chamados de mencheviques (menshe significa “menos”). Essa disputa ainda não envolvia os poucos ativistas operários e permanecia domínio exclusivo da intelligentsia do partido, pois a ela pertenciam os líderes nesses anos iniciais. O pai de Martov era um próspero empresário judeu e jornalista na imprensa judaica de língua russa, que havia frequentado os ginásios em São Petersburgo e cursado um ano de universidade antes de ser preso por atividade revolucionária. Trotsky vinha de uma família de agricultores judeus, descendentes dos colonos da Nova Rússia da época de Alexandre I. Diplomado de um colégio luterano de elite em Odessa, Leon Trotsky, como Lenin e Martov, era típico dos primeiros líderes revolucionários.

Os marxistas não foram o único grupo político a formar-se. Em 1901, os grupos revolucionários que se inspiravam na antiga tradição populista da década de 1870 reuniram-se para formar o Partido dos Socialistas Revolucionários. Eles continuavam acreditando que o capitalismo era um transplante artificial na Rússia camponesa e em tese concentravam seus esforços nas aldeias. Na prática, eles julgaram difícil organizar os camponeses, e a maioria dos seus seguidores estava nas fábricas urbanas. Os SRs, como eram chamados, também absorveram algumas ideias marxistas e produziram uma ideologia eclética cuja falta de consistência não tirava seu apelo. Eles também continuavam a acreditar que o terror contra funcionários do governo era uma ferramenta útil e, junto com os agitadores do partido SR nas fábricas, a  Organização de Combate travou uma guerra implacável contra o governo, por meio de uma série de assassinatos espetaculares. A polícia concentrou naturalmente grande parte da sua atenção nesse grupo, e de 1903 a 1908 o chefe da Organização de Combate era um agente de polícia chamado Evno Azef.

Não surpreende que os últimos a formar uma organização tenham sido os liberais. Sua aparição no cenário político era parte da agitação mais ampla na classe média e alta da Rússia que cresceu rapidamente no final do século. Desde os anos 1860, incontáveis grupos e sociedades profissionais haviam surgido, organizações de químicos e engenheiros, médicos e agrónomos. Os empresários eram particularmente ativos na formação de grupos de pressão para exigir políticas económicas favoráveis, tarifas protecionistas e um quadro jurídico mais moderno (e favorável ao empresariado) para a sua atividade. Os grupos empresariais não eram meros grupos de manufatureiros ou banqueiros que negociavam em particular com o governo. Eles reuniam-se em convenções e usavam a grande feira de Nizhnii Novgorod e as muitas exposições como fóruns de discussão pública das suas necessidades. Os jornais relatavam com minúcias esses encontros, que abordavam as diversas necessidades da Rússia mas evitavam escrupulosamente as questões constitucionais. Muitas dessas organizações foram inicialmente apoiadas ou até criadas pelo Ministério das Finanças como medida para incentivar o progresso e a maioria dos seus membros era intensamente leal em política. Contudo, com o passar do tempo, as organizações empresariais e outras ampliaram a discussão de questões sociais e económicas, exprimindo a frustração desses níveis da sociedade com um governo que eles viam cada vez mais como demasiado conservador e lento para atender as necessidades de uma sociedade em mutação.

Alguns líderes liberais da intelligentsia e da aristocracia começaram a acreditar que havia chegado a hora de organizarem-se de forma mais política. Durante décadas eles tiveram a esperança de que os zemstvos evoluiriam para um sistema de representação do público ou que novas medidas mais liberais seriam tomadas pelo governo para substituir a arbitrariedade por direitos básicos e alguma forma de consulta popular. Nada disso veio à tona, mas os zemstvos efetivamente proporcionavam um fórum em que muitos nobres liberais e outros aprenderam a lidar com as inumeráveis questões locais, o que deu-lhes experiência da vida pública e da indisposição do governo de compartilhar o poder em qualquer medida mais ampla. Em 1901 eles haviam desistido, pois o governo recusava-se a ceder, e um pequeno grupo de ativistas liberais formou um grupo clandestino, a União da Libertação. Contrários ao terror e aos métodos revolucionários, eles decidiram que somente um grupo ilegal podia ir além das questões específicas, conduzir a discussão necessária e fornecer as publicações contrabandeadas do exterior.

Em 1904, redes de ativistas de tendências variadas cobriam as principais cidades do interior da Rússia e, nas bordas ocidental e meridional, grupos nacionalistas e socialistas entre os poloneses, judeus, georgianos, arménios e outros acrescentavam outra dimensão à instabilidade. Então, em 27 de janeiro (9 de fevereiro) de 1904, a Marinha japonesa atacou a base russa em Port Arthur e afundou a maior parte da esquadra russa. A Rússia estava agora em guerra com o Japão do outro lado do globo com relação a São Petersburgo. A única linha de comunicação era a Ferrovia Transiberiana, da qual grande parte ainda tinha via única e estava incompleta. O Exército russo, longe das suas bases e atravancado por generais idosos, sofreu uma série de derrotas ao longo do ano. Em julho, um terrorista SR assassinou Plehve, e Nicolau nomeou o mais tolerante príncipe, Petr Sviatopolk-Mirskii, no seu lugar. A nomeação foi inesperada e devia-se em grande parte aos esforços da mãe de Nicolau, a imperatriz viúva Maria. Enquanto Sviatopolk-Mirskii parecia avançar em direção a certas medidas levemente liberais, outra crise estava fermentando em São Petersburgo.

Há tempos a polícia das capitais era frustrada pelo sucesso dos social-democratas e dos SRs entre os trabalhadores da cidade. Apesar das prisões constantes, eles pareciam estar fazendo um modesto progresso e alarmavam as autoridades com sua persistência obstinada e a presteza dos trabalhadores em escutá-los. Então o chefe da polícia política de Moscou, Sergei Zubatov, teve a ideia de criar um sindicato trabalhista controlado pela polícia. Ele ofereceria alguns serviços sociais modestos aos trabalhadores para amenizar sua condição, ao mesmo tempo que incutiria neles a lealdade à Igreja ortodoxa e ao tsar. Em São Petersburgo, o líder do sindicato era o frei Georgii Gapon, que logo conquistou o apoio animado dos trabalhadores e representou uma séria ameaça aos revolucionários. Por isso, quando uma greve espontânea estourou nas imensas fábricas Putilov na borda meridional da cidade, Gapon viu-se diante de um dilema. A política dos sindicatos da polícia era opor-se às greves (vistas simplesmente como violações da ordem pública no Direito russo), mas se ele escolhesse esse caminho sabia que perderia para os radicais o apoio dos trabalhadores. Ele optou por aceitar a greve, mas teve a ideia de que os trabalhadores deveriam apresentar suas queixas ao tsar. Gapon presumiu que o tsar escutaria e faria algo, o que aplacaria os trabalhadores e resolveria a greve. Quando os trabalhadores aproximaram-se do Palácio de Inverno na neve em 9/22 de janeiro de 1905, a reação do governo, apreensivo quanto à agitação na cidade, foi alinhar soldados diante do palácio e ordenar que abrissem fogo sobre a multidão desarmada. Mais de cem pessoas foram mortas e muitas outras feridas.

Dentro de poucos dias, trabalhadores de todo o país, da Polónia à Sibéria, entraram em greve às centenas de milhares. Eram movimentos espontâneos sem sindicatos, sem pagamento de greve e praticamente sem liderança. O sindicato da polícia foi imediatamente desacreditado e os partidos revolucionários ficaram sobrecarregados, pois tinham somente poucos milhares de ativistas no país inteiro.

A Revolução de 1905 que se seguiu foi um acontecimento extraordinariamente complexo. O movimento urbano de greve foi enorme, especialmente ao considerar-se a falta de experiência nesse tipo de ações por parte de quase todos os trabalhadores e a inadequação das estruturas organizacionais. Nas aldeias, pela primeira vez a agitação camponesa tornou-se suficientemente generalizada para provocar campanhas ferozes de repressão militar, muito embora os SRs e outros ainda julgassem extremamente difícil organizar de fato os camponeses. A maior parte das áreas não russas conheceu os mesmos levantes que o interior do país, com forças nacionalistas ou socialistas predominantes em diferentes áreas e diferentes épocas. As classes médias liberais geralmente apoiavam todos esses levantes, mesmo que apenas de modo passivo, e culpavam insistentemente o governo pela carnificina. O governo viu-se extremamente isolado, embora o tsar Nicolau tenha tentado aferrar-se à fantasia do campesinato leal corrompido pela intelligentsia e pelos judeus.

Para complicar tudo, a guerra com o Japão continuava e ia de mal a pior. Na primavera, os japoneses infligiram uma derrota capital ao Exército russo em Mukden. Para substituir a esquadra perdida do Extremo Oriente, a Marinha enviou a esquadra do Báltico numa jornada épica contornando a África e a Ásia Meridional até o teatro de operações. Ali ela deparou-se com a Marinha japonesa em Tsushima em maio de 1905 e foi quase inteiramente destruída. Nesse ponto, Nicolau e seu governo perceberam que não tinham outra opção além de fazer a paz. Com Theodore Roosevelt como intermediário, a paz foi assinada em Portsmouth, New Hampshire, em 23 de agosto  (2 de setembro) de 1905. A Rússia perdeu a base de Port Arthur e a metade meridional da ilha de Sakhalin, mas conservou sua ferrovia na Manchúria e suas edificações em Harbin.

Esses acontecimentos ocorreram num contexto de agitação que crescia rapidamente. Na primavera, quase 1 milhão de trabalhadores só em São Petersburgo fizeram greve por maiores ou menores jornadas de trabalho. Algumas eram políticas, mas a maioria era sobre salários, e particularmente sobre o tratamento rude e condescendente nas mãos dos diretores das fábricas. A tomada de terras e os ataques às casas da nobreza pelos camponeses atingiram o ápice no verão e espalharam-se por toda a Rússia central, a Ucrânia, a Polónia, as províncias bálticas e o Cáucaso. Na Georgia, áreas inteiras estavam fora do controle do governo e bandidos prosperaram junto com os rebeldes camponeses. Começando por Baku, arménios e azeris atacaram-se mutuamente, matando milhares. Nos Estados bálticos, o antagonismo étnico entre os proprietários rurais alemães e os camponeses letões e estonianos fez recrudescer a violência, e os cossacos russos viram-se na posição de ter de defender os nobres alemães bálticos. O ponto alto do verão de 1905 foi o motim dos marinheiros do encouraçado Potemkin, mais tarde imortalizado no filme de Sergei Eisenstein. Os marinheiros exigiram melhores condições e o fim da autocracia e apoiaram os grevistas em Odessa antes de zarpar para o internamento na Roménia. Esse e outros motins militares, que continuaram até 1906, mantiveram o governo encurralado.

Em agosto, Nicolau, sob pressão do seu governo e de sua mãe, publicou um manifesto que concedia uma legislatura representativa, mas com poderes muito limitados. O manifesto não surtiu efeito e, no outono, o movimento grevista nas cidades foi retomado com força ainda maior. Em outubro, as greves transformaram-se em greve geral, agora de característica política, dirigida contra a autocracia com apelos em prol de uma república democrática. Na ausência de outras organizações, os trabalhadores de São Petersburgo começaram a formar conselhos (em russo, soviets) no nível das fábricas e depois reuniram-se para formar um soviete municipal. De início, os social-democratas tinham dúvidas quanto aos sovietes, mas os mencheviques perceberam seu potencial. O líder mais vigoroso entre os deputados do soviete de trabalhadores de São Petersburgo era Leon Trotsky, orador vivaz e poderoso e um dos principais líderes dos mencheviques. Lenin e seus seguidores logo se juntaram ao movimento. Finalmente, em 17/30 de outubro, o tsar concedeu que a Rússia teria de ter uma legislatura representativa, a ser chamada de Duma, e algum tipo de constituição. A greve geral  terminou, mas Lenin e os bolcheviques queriam continuar impulsionando a revolução. O resultado foi uma insurreição nos distritos industriais a oeste de Moscou em dezembro de 1905, reprimida com força considerável pelo Exército e pela polícia.

O Manifesto de Outubro mudou completamente a política russa, talvez mais do que Nicolau pretendera. Witte retornou ao poder no novo cargo de primeiro-ministro. Grupos liberais e conservadores começaram a formar partidos, e alguns revolucionários saíram, pelo menos parcialmente, da clandestinidade. Os novos partidos fundaram jornais e admitiram membros, preparando-se para as eleições. Os primórdios da política de massa também trouxeram forças mais sinistras na forma da União do Povo Russo e muitos grupos menores do mesmo tipo. Tratava-se das “Centenas Negras”, devotadas à autocracia e à ortodoxia, que acusavam os judeus de serem a fonte de todos os problemas da Rússia. Intensamente nacionalistas, elas opunham-se à igualdade para todas as minorias nacionais, mas discriminaram os judeus para os pogroms sangrentos, que eles acreditavam que poriam fim à revolução, a qual, na sua visão, era obra dos poloneses e da intelligentsia, e sobretudo dos judeus. Dois deputados judeus da Duma foram vítimas do terror, além de centenas de pessoas nos pogroms. Pelo menos 400 judeus morreram apenas no pogrom de Odessa. Embora ineficazes no combate à revolução, as Centenas Negras adicionaram outro elemento de violência e caos à política russa.

O governo prometera uma constituição para a Rússia, e Witte e os ministros produziram uma com a qual o tsar concordaria. Foi a primeira constituição da Rússia, as Leis Fundamentais, escrita por Witte e outros funcionários do governo e proclamada no dia de abertura da nova Duma - 27 de abril de 1906. Na nova estrutura, a Duma deveria aprovar leis e, se o Conselho de Estado concordasse, elas seriam enviadas ao tsar para sua aprovação, sem a qual não seriam válidas. O Conselho de Estado tornou-se uma casa superior, composta principalmente por grandes dignitários do Estado nomeados pelo tsar, mas com alguns representantes da nobreza, do empresariado e das universidades. De forma um tanto inconsistente, o documento proclamou o tsar um autocrata, mas agora ele tinha de fazer leis através da Duma. Seu poder continuou predominante, pois as Leis Fundamentais reservavam ao tsar a política externa, o poder de fazer a guerra e a paz, o comando do Exército e todas as nomeações administrativas. Pela primeira vez, o tsar tinha algo semelhante a um gabinete com um primeiro-ministro (Witte de início), mas os ministros eram todos responsáveis perante o tsar, e não perante a Duma.

Era uma constituição altamente conservadora, embora não tão estranha na Europa de 1906 como pareceu depois. A concentração do poder militar e da política externa nas mãos do monarca também era uma característica das constituições alemã e austríaca, e até na Suécia os ministros ainda eram responsáveis perante o rei, não o parlamento. O que tornou o sistema russo mais peculiar foi o fracasso do gabinete em impor-se como força unificada (os resultados dependiam das personalidades) e o complexo sistema de eleição para a Duma. Esta não era eleita simplesmente com base nas regiões ou em requisitos de voto censitário, mas por meio de um complexo de distritos regionais, do voto indireto e do sistema curial. Para cada grupo social (camponeses, citadinos, trabalhadores, nobres) havia uma cúria, na qual os eleitores depositavam suas cédulas na cúria. Ainda acreditando na lealdade do campesinato e no seu conservadorismo social, as eleições para a primeira Duma que aconteceram no inverno de 1905-1906 basearam-se numa distribuição de assentos que favorecia o campesinato. Nicolau estava convencido de que somente as classes médias e altas se opunham à autocracia, mas que os camponeses estavam do seu lado.

O resultado das eleições apresentou ao governo uma Duma com a qual era impossível trabalhar. O boicote dos partidos revolucionários significava que os liberais, os Kadets (Democratas Constitucionais, oficialmente o Partido da Liberdade Popular), eram o maior partido na Duma, enquanto os camponeses, que se organizavam lentamente em partidos, eram o maior grupo. Para os Kadets, as concessões do governo ao constitucionalismo eram pequenas demais, e os deputados camponeses surpreenderam a todos votando a favor de qualquer medida que lhes proporcionasse terras. Muitos exprimiram lealdade ao tsar, mas eles também queriam terra, algo com que Nicolau e Witte não haviam contado. Nicolau dissolveu a Duma em julho, esperando que novas eleições se mostrassem mais favoráveis. Witte renunciou e seu substituto foi Petr Stolypin, um ex-governador provincial com reputação de esmagar rebeliões, mas também com interesse por reformas. O primeiro sinal destas últimas foi a lei que ele patrocinou no outono de 1906 e que permitia que os camponeses deixassem a comunidade aldeã e montassem fazendas independentes.

O movimento de greve e os distúrbios rurais amainaram gradualmente no final de 1906. Stolypin enviou batalhões punitivos ao campo para reprimir os rebeldes camponeses com execuções realizadas no ato. As eleições para a segunda Duma, no entanto, não produziram os resultados que Stolypin e o governo esperavam. Ao contrário, a nova Duma era ainda mais radical que a primeira. Os deputados camponeses agora estavam organizadas no “Grupo Trabalhista”, que exigia toda a terra para o campesinato. Finalmente, em 3 de junho de 1907, Stolypin dissolveu a Duma e praticamente não houve reação do público. A revolução havia perdido sua força.

A Revolução de 1905 foi um episódio sangrento, com cerca de 15 mil mortos, a maioria camponeses executados ou simplesmente assassinados durante represálias do governo no campo. Vários milhares de revolucionários também foram executados e muitos trabalhadores pereceram em conflitos provocados por greves ou nas diversas insurreições. Alguns proprietários rurais também sofreram e muitas propriedades foram destruídas. No final de 1905, havia surgido um “Sindicato de Todos os Camponeses Russos”, que admitiu várias centenas de milhares de membros e exigiu a entrega de toda a terra ao campesinato. O sindicato tentou evitar táticas violentas, mas seus membros tornaram-se cada vez mais radicais durante o ano de 1906 e aliaram-se com o Grupo Trabalhista na Duma. O Sindicato Camponês também foi banido. O resultado mais importante foi uma mudança radical na política russa. O desaparecimento da censura na prática, as eleições para a Duma, bem como seus debates, levaram a política dos saguões da corte e dos escritórios da burocracia ao público, e até às ruas enquanto durou a revolução. Classes sociais inteiras começaram a pensar de modo diferente: a nobreza parou de flertar com o liberalismo e congregou-se rapidamente atrás dos motes de autocracia, nacionalismo e preservação da ordem social. As classes médias e operárias urbanas abandonaram sua passividade e começaram a participar de ações políticas e a apoiar certos partidos mais radicais. Os empresários formaram pequenos partidos próprios e grupos de pressão, o campesinato ouvia os discursos dos ativistas do Sindicato Camponês e dos SRs e apreendeu a votar pelos seus interesses na questão da terra. As diversas minorias nacionais tinham agora partidos políticos ativos: na Georgia, os mencheviques combinaram socialismo com nacionalismo e tornaram-se de longe a força mais poderosa. Na Letónia, os social-democratas aliaram-se aos bolcheviques e dominaram o movimento trabalhista. Na Polónia, todos os partidos políticos passaram a agir abertamente e os Nacional-Democratas competiam com algum êxito contra grupos socialistas pela fidelidade dos trabalhadores. Entre os povos muçulmanos do Império, a intelligentsia progressista apresentou candidatos à Duma e ganhou, passando a formar um grupo muçulmano na Duma que congregava tártaros, basquírios, crimeanos, azeris e montanheses do Cáucaso Setentrional para pedir igualdade de condições. Como muitos grupos autonomistas, eles aliaram-se aos Kadets russos e participaram ativamente dos debates na Duma.

Por mais poder que o tsar e seus ministros conservassem (e ele era considerável), agora eles tinham de lidar com uma situação política totalmente nova, e poucos deles, muito menos Nicolau, estavam preparados para isso.

Os sete anos que se seguiram à dissolução da segunda Duma foram o único experimento da Rússia em tempo de paz com um governo constitucional com imprensa livre e organizações públicas ativas. O destino do país dependia da capacidade de Stolypin e outros de lidar com essa nova realidade. A repressão da revolução por Stolypin teve um sucesso aparente: centenas de ativistas foram executados, especialmente do grupo terrorista SR, e todos os partidos radicais perderam membros em penca por causa da prisão, exílio, desilusão e simples exaustão. A dissolução da Duma em 1907 foi acompanhada de um novo sistema eleitoral ainda mais indireto e não democrático. Cerca de 50% dos assentos da nova Duma foram para a nobreza, enquanto a representação dos camponeses foi cortada radicalmente, bem como o número de assentos reservados às áreas de minorias nacionais do Sul e do Oeste. A nova Duma era esmagadoramente nobre, russa e muito conservadora. A maioria dos nobres e muitos empresários apoiavam o partido Outubrista (assim chamado devido ao apoio dado ao Manifesto de Outubro do tsar), mas também havia uma extrema-direita, majoritariamente de nobres, que incluía líderes das Centenas Negras. Stolypin parecia dispor de uma situação perfeita para realizar suas modestas reformas, manter o poder do tsar e do governo e avançar em direção a uma política nacionalista mais russa no império. Na realidade, ele fez pouca coisa além do programa agrário, que mostrou ter efeito limitado. O resultado das intermináveis negociações entre o primeiro-ministro e a Duma foi somente criar uma cisão entre ele e as classes altas. Suas reformas eram demasiado radicais para os nobres, mas não profundas o bastante para satisfazer a sociedade e os liberais da Duma. O clímax foi seu plano de 1911 para introduzir o zemstvo nas províncias ocidentais, regiões onde os nobres eram predominantemente poloneses. No intuito de manipular os conselhos dos zemstvos contra os poloneses, Stolypin propôs aumentar o número de deputados camponeses, por serem os ucranianos e bielorrussos que Stolypin considerava mais leais ao tsar que os nobres poloneses. Ao mesmo tempo, o zemstvo aliviaria o fardo administrativo do Estado e, com sorte, aplacaria os liberais. No fim, o plano era astucioso demais para ser bem-sucedido. Stolypin conseguiu fazê-lo passar pela Duma, mas ele foi rejeitado pelo Conselho de Estado. Stolypin renunciou em protesto, sabendo que Nicolau julgava-o indispensável. O tsar implorou que retornasse, mas Stolypin só concordaria se Nicolau retirasse alguns dos conservadores extremistas do governo, prorrogasse a Duma e aprovasse o projeto de lei dos zemstvos ocidentais com seus poderes de emergência. O tsar concordou, mas o incidente confirmou sua suspeita crescente de que os planos de Stolypin eram abrangentes demais e que ele era demasiado poderoso e não confiável. Antes que seus desacordos chegassem a uma crise, um terrorista SR assassinou Stolypin em setembro numa récita na ópera de Kiev.

Sem Stolypin, o tsar recorreu a figuras menores para gerir o governo. A instituição do primeiro-ministro desagradava-o particularmente, e ele nomeou para o cargo homens que não dominariam o gabinete. O resultado foi a desorientação. Nenhum dos problemas que a sociedade russa enfrentava foi abordado e o governo ficou cada vez mais isolado. Entre a sociedade instruída, cresceu a percepção, até mesmo entre os conservadores, de que o tsar e o governo não entendiam o país e viviam num mundo à parte. Nenhuma questão importante foi resolvida e as medidas do governo não alcançavam nem a reforma, nem uma repressão bem-sucedida. As tentativas de usar o nacionalismo e antissemitismo para angariar apoio popular saíram pela culatra. Em 1911, a investigação de um assassinato em Kiev levou a acusações de sacrifício ritual contra Mendel Beiliss, um judeu supervisor numa fábrica de tijolos. O Ministério da Justiça em Petersburgo e a polícia “organizaram” um julgamento, e panfletos foram publicados sobre sacrifícios rituais e outros supostos crimes dos judeus. Porém, a Rússia tinha agora uma imprensa relativamente livre e os diários liberais armaram uma contracampanha furiosa. As paixões estavam tão inflamadas entre a intelligentsia que a apresentação de uma peça baseada nas obras de Dostoievski foi cancelada em São Petersburgo, sob a alegação de que o nacionalismo antissemita do grande escritor dava apoio à acusação. O julgamento ocorreu no outono de 1913 num tribunal penal ordinário em Kiev. O júri não foi convencido pelas provas da acusação e inocentou Beiliss. O resultado foi uma humilhação suprema para o governo.

Para cúmulo da desgraça, a presença de Grigorii Rasputin no tribunal acrescentou um elemento de grotesco a uma atmosfera já bastante ruim. Rasputin era um monge errante da Sibéria que havia sido introduzido na corte no final de 1905. A imperatriz Alexandra sempre tivera interesse na cura pela fé e tinha esperança de que ele pudesse ajudar seu filho hemofílico, o herdeiro Aleksei. Ela rapidamente passou a acreditar que somente Rasputin podia parar o sangramento. Por isso, este tinha acesso ilimitado à família imperial, apesar das suas visões religiosas heterodoxas e histórias (a maioria verdadeiras) de bebedeira e libertinagem. A polícia de segurança criou um destacamento inteiro para vigiar o monge com o intuito de fazer cessar os rumores que desonravam o tsar e sua esposa. Rasputin era uma preocupação genuína para os monarquistas e conservadores no governo e na Duma, e eles conseguiram levar a questão ao plenário da assembleia, provocando a ira do tsar. Ele nunca percebeu que eles estavam tentando salvar o prestígio do trono e, em vez disso, interpretou seus atos como deslealdade. Rasputin, rumores à parte, não tinha nenhum efeito político identificável, mas sua presença e suas histórias reais e exageradas minaram ainda mais a monarquia.

Se os liberais e conservadores na Duma, apesar de todas as suas frustrações, encontraram na nova ordem uma vasta arena de atividade política, os partidos revolucionários foram desmoralizados e perderam milhares de membros, especialmente da intelligentsia. A liderança foi para o exílio no Ocidente, onde passava seu tempo tentando manter o movimento vivo. Os movimentos cindiram-se: Trotsky abandonou o principal movimento menchevique e fundou seu próprio jornal em Viena, no qual comentava a política mundial sentado em cafés. Os bolcheviques eram particularmente dados a controvérsia, divididos como eram por disputas filosóficas, além das táticas e organização do partido. Lenin escreveu um livro inteiro para denunciar a tentativa de certos intelectuais bolcheviques de integrar a epistemologia do físico alemão Ernst Mach ao marxismo. Foi somente por volta de 1912 que as diversas facções aglutinaram-se em partidos organizados e restabeleceram uma rede na Rússia. Para o partido bolchevique, a oportunidade surgiu naquele ano numa conferência em Praga que finalmente consolidou a estrutura e o programa bolchevique, reafirmando a crença de Lenin na necessidade de um partido clandestino. A conferência de Praga também marcou o início de uma transição geracional entre os bolcheviques, pois a liderança da intelligentsia da juventude de Lenin cedeu aos poucos espaço a um grupo mais jovem que era mais plebeu (embora não exatamente proletário). Eles geralmente não tinham educação universitária, mas sim experiência com os procedimentos da clandestinidade e o hábito de fazer contato com os trabalhadores em luta contínua com a polícia. Um deles era um bolchevique georgiano, Soso Djugashvili, conhecido como Koba, filho de um sapateiro do Cáucaso. Ao imprimir sua marca ao movimento em toda a Rússia, ele adotou um novo pseudónimo revolucionário, Stalin. E como Joseph Stalin é que ele entraria para a história.

Enquanto Stolypin estava lutando para controlar a Duma, a formação de blocos políticos na Europa continuava. Nicolau e o Kaiser tentaram repetidas vezes uma reaproximação, mas as tentativas não deram em nada. Em 1907, a Rússia e a Grã-Bretanha assinaram um tratado que dividia esferas de influência no Irã, eliminando assim um objeto importante da sua rivalidade imperial. O resultado não era exatamente uma aliança, mas pôs fim à “Guerra Fria” que durava décadas e, dado o acordo anglo-francês, significava que a Rússia, junto com a Grã-Bretanha e a França, enfrentava agora a Alemanha e a Áustria-Hungria. Havia muitas regiões de conflito, das quais a mais importante eram os Bálcãs. A Rússia havia se aliado à Sérvia, que estava exatamente no caminho de qualquer expansão austríaca ou alemã na região, e ambas tinham grandes ambições centradas no Império Otomano. A Alemanha esperava fazer dos turcos semialiados e semidependentes na sua rivalidade mais ampla com a Grã-Bretanha. Em 1909, a Áustria, com auxílio alemão, humilhou a Rússia ao anexar a Bósnia-Herzegovina, que era um protetorado austríaco desde 1878. Uma série de guerras locais nos Bálcãs intensificou a tensão crescente. Então, em junho de 1914, o herdeiro do trono austríaco, o arquiduque Francisco Ferdinando, fez uma viagem pela nova província da Bosnia. Enquanto sua carreata avançava pela rua estreita à beira do rio em Sarajevo, um jovem nacionalista sérvio, Gavrilo Princip, saiu da multidão com um revólver e matou-o com um tiro. Para a Rússia, assim como para o restante da Europa, aquele foi um tiro fatal.

 

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O Deserto Oriental na época dos faraós

A leste do Egito existiam várias fontes importantes de minerais. A que se situava mais ao norte era o Sinai, que fornecia turquesas, extraídas pelos Egípcios desde a 3ª dinastia até ao fim do Novo Império, mas não mais tarde (teve-se recentemente notícia de descobertas datando do inicio do período dinástico). As principais escavações de ruínas egípcias ficam no Sinai ocidental, no uadi Maghara e Serabit el-Khadim, tende havido, em certos períodos, um povoamento egípcio permanente nesta região. O Sinai é também fonte de cobre, e em Timna, próximo de Eilat, foram escavadas minas de cobre contemporâneas das 18ª - 20ª dinastias egípcias. Estas minas eram provavelmente exploradas pela população local, sob controle egípcio, não havendo indícios de que os Egípcios extraíssem eles próprios cobre em qualquer outro local do Sinai. É possível que, tal como acontecia com o comércio de cereais entre o Egito e o Próximo Oriente, os Egípcios extraíssem cobre, não considerando, porém, essa atividade suficientemente prestigiosa para a registrarem. Caso contrário, talvez utilizassem mão-de-obra local, como em Timna, ou comprassem cobre à população local, ou adquirissem a maior parte de que necessitavam noutro local.

O deserto oriental do Egito fornecia grande quantidade de pedras para a construção e pedras semi-preciosas e era o caminho para o mar Vermelho. Algumas pedreiras localizavam-se perto do vale do Nilo, como era o caso de Gebel Ahmar (quartzito) e de Hatnub (alabastro egípcio), mas outras, particularmente as de grauvaque (pedra dura e negra), em uadi Hammamat, e as de ouro, na sua maior parte ao sul da latitude de Koptos, implicavam expedições em grande escala. Sem o domínio egípcio sobre a população nômade local, ou sem a sua colaboração, estas minas não podiam ter sido exploradas. Este controle era-lhes igualmente necessário para poderem utilizar as três principais vias de acesso ao mar Vermelho que seguem pelo uadi Gasssus ate Safaga, pelo uadi Hammamat ate Quseir e pelo uadi Abbad ate Berenike, existindo igualmente um caminho menos importante que vai de cerca de 80 km ao sul de Cairo até ao golfo de Suez, de cuja existência há provas que datam do reinado de Ramsés II. O testemunho mais antigo da utilização destas rotas data do fim do período pré-dinástico (uadi el-Qash, de Koptos a Berenike), podendo estar relacionada com o comércio do mar Vermelho ou com a exploração mineira. Existem provas da utilização das rotas mais ao norte em todos os principais períodos da história egípcia e mais ao sul a partir do Novo Império.

Nos confins do uadi Gassus encontrava-se um templo da 12ª dinastia e em 1976 foram descobertas ruínas do porto egípcio próxima, da mesma época. Existem mais vestígios, das 25ª e 26ª dinastias (700-525 a.e.c.), e este padrão manteve-se provavelmente durante o período persa (séculos VI-V a.e.c.), altura em que existiam ligações com o lrã, contornando a costa arábica. O período romano esta representado em sítios como Quseir e Berenike, que eram portos de comércio com a África oriental e com a Índia. Embora não existam provas de que os contatos dos Egípcios tivessem chegado tão longe, tais portos deviam ser utilizados para o comércio com as terras quase míticas do Ponto, que aparece referido em textos a partir do Antigo Império. A localização do Ponto não esta rigorosamente estabelecida, sendo, para os Egípcios, uma região com várias associações idealizadas, mas é muito provável que se tratasse da região da moderna Eritréia ou Somália, onde há notícia de recentes descobertas dos períodos helenístico e romano, Os artigos que vinham do Ponto eram quase todos exóticos ou de luxo, sendo o mais importante o incenso. Não se sabe se o comércio com o país do Ponto era a única razão para a navegação no mar Vermelho, para além do acesso a algumas zonas do Sinai. Há noticia de terem sido encontradas pérolas egípcias de 18ª dinastia na costa ao sul do rio Juba, perto do equador, mas isto não significa que os Egípcios tivessem chegado eles próprios ate aí.

Civilização Egípcia | Geografia
Por John Baines & Jaromir Málek
O Deserto Ocidental na época dos faraós

As restantes regiões a tratar eram mais periféricas em relação ao Egito e só podiam ser mantidas quando havia um governo forte. Os oásis do deserto ocidental produziam algumas culturas valiosas, por exemplo, uvas e as melhores tâmaras, e eram também pontos de ligação importantes no comércio com as regiões remotas. Do norte para o sul, eram essencialmente quatro os oásis governados pelo Egito: Bahariya, Farafra, el—Dakhla e el—Kharga (a leste de el—Dakhla), sendo os dois últimos, de longe, os mais importantes. Para além destes, o mais remoto oásis a oeste de Siwa foi incorporado no Egito no período tardio, tendo adquirido renome mundial graças a fracassada missão de Cambises em 525 a.e.c (soube-se recentemente que foram encontrados no deserto vestígios do exército de Cambises), e a posterior consulta aí efetuada por Alexandre Magno ao oráculo. Existem também oásis menores, ao ocidente do Nilo e mais para sul, Kurkur, Dunqul e Salima, que são pontes de paragem onde não foram encontrados quaisquer vestígios da Antiguidade.

Há testemunhas, datando dos Impérios Médio e Novo, de pessoas que fugiam da justiça ou a perseguições para os oásis de el-Kharga e el-Dakhla, enquante na 21ª dinastia os exilados políticos eram para laá banidos. Nesse aspecto, esta região era uma faceta da Sibéria egípcia, sendo outro o de trabalho forçado em condições horríveis, com enormes perdas de vidas, nas minas do deserto oriental.

Toda a zona a ocidente do vale do Nilo se chamava, na Antiguidade, Líbia. A região costeira ao ocidente de Alexandria, até a Cineraica, albergava provavelmente a maioria da população Líbia e era menos inóspita do que parece atualmente. Quase todos os vestígios egípcios ali encontrados datam do reinado de Ramsés II, que construiu fortalezas ao longo da costa ate Zawyet Umm el-Rakham, a 340 km ao ocidente de Alexandria, e do período greco-romano, quando os Ptolomeus construíram, nos estilos grego e egípcio, em Tolmeita, na Cirenaica, a 1000 km de Alexandria.

Durante quase toda a história do Egito os oásis constituíram um posto avançado contra os Líbios, que tentaram, em vários períodos, infiltrar-se. Nos reinados de Merenre e de Pepi II, o chefe de expedição Harkhu foi várias vezes até Yam, zona que fica, provavelmente, na região moderna de Kerma e Dongola, ao sul da 3ª catarata do Nilo. Numa dessas ocasiões, Harkhuf seguiu pela estrada do deserto, deixando o vale do Nilo perto de Abydos e passando, certamente, por el-Dakhla. Ao chegar verificou que o governador de Yam tinha ido "correr com o chefe do território líbio para o canto ocidental do céu — descoberta esta provavelmente relacionada com a estrada do ocidente, utilizada nesta expedição. Este pormenor mostra que, para os Egípcios, a "Líbia" se estendia até cerca de 1500 km ao sul do mar. As ruínas do Fezzan, que datam, provavelmente, do tempo de Cristo, revelam a possibilidade de o Sul da Líbia ter sido povoado na Antiguidade, enquanto a zona de Uweinat o foi no 3º milênio antes da era Cristã. Em períodos mais antigos a cultura dos Líbios era semelhante a dos Egípcios e é possível que falassem um dialeto da mesma língua, mas os contatos entre eles foram, durante o período dinástico, em boa parte hostis.

Dos oásis ocidentais sai um caminho, conhecido hoje por Darb el—Arba’in "o caminho dos 40 dias", que leva a el-Fasher, capital da província de Darfur, no Sudão ocidental. Harkhuf utilizou a primeira parte deste caminho, mas é possível que, já na Antiguidade, estivesse totalmente aberto ao comércio. Harkhuf viajava com burros, mas a exploração eficaz de tais caminhos deve ter dependido do camelo, introduzido no Egito, ao que parece, nos séculos VI-V a.e.c.

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A psicologia humanista

O humanismo é a vertente da psicologia fenomenológica que conta com o maior número de adeptos e abordagens psicoterápicas, dentre as quais figura, como uma das mais proeminentes, a Gestalt-terapia. De acordo com Smith (1990), a corrente humanista surgiu como um movimento social dentro da psicologia, que acabou por se estabelecer como uma perspectiva duradoura. Tal perspectiva dá prioridade aos tipos de experiência mais especificamente humanos. Estes, a seu ver, são insuficientemente abordados por outras visões.

Conforme explica DeCarvalho (1990), o iniciador primordial do movimento humanista foi Abraham Maslow. Psicólogo expe­rimental talentoso dos Estados Unidos, Maslow foi colocado no ostracismo por seus colegas quando começou a explorar assuntos considerados não convencionais. A partir daí, passou a fazer con­tato com colegas que, por assumirem posições semelhantes, tam­bém estavam na mesma situação. Em 1954 organizou uma mala direta com 125 autores para que houvesse um meio de troca de trabalhos mimeografados entre eles. Essa mala foi. crescendo, mas conforme ele próprio e Anthony Sutich, um colega que se associou mais proximamente a ele em sua empreitada, observaram, não era um método eficiente de comunicação. Perceberam que, na reali­dade, era necessário organizar uma revista científica, o que ficou principalmente a cargo de Sutich.

Após várias discussões sobre qual seria seu nome, decidiram, por influência de Anthony Cohen, genro de Maslow e também ligado à área, chamá-la Journal of Humanistic Psychology. Entre os componentes de seu primeiro comitê editorial figuravam Kurt Goldstein, Rollo May, Erich Fromm e Clark Moustakas. O primeiro número foi publicado na primavera de 1961, e seus primeiros assinantes foram os integrantes da mala direta mencionada acima.

Ainda segundo DeCarvalho (1990), à medida que a revista foi ganhando fôlego, outros psicólogos, além dos contatados por Maslow até então, começaram a procurar por Sutich, o que o levou a considerar necessário que os assinantes do periódico tivessem sua própria associação. Ele e Maslow discutiram o assunto com outros colegas e, graças a uma verba obtida por Gordon Allport  o primeiro congresso da Associação Americana de Psicologia Humanista aconteceu na Filadélfia em meados de 1963.

No entanto, foi somente no fim de 1964 que á psicologia humanista terminou, de fato, de estruturar-se como uma terceira força no panorama norte-americano. Isso ocorreu através da conferência realizada em Old Saybrook, na qual as apresentações dos participantes voltaram-se para as questões teóricas básicas implicadas por essa nova corrente da psicologia.

Houve, a princípio, dissidências entre dois grupos que assumiam posições diversas: um queria definir o humanismo simplesmente como oposição ao comportamentalismo e à psicanálise, e o outro queria identificá-lo, de maneira mais positiva, com a introdução de valores e significados humanos na psicologia vigente. Chegou-se a um acordo em favor da segunda postura, pois adotando a proposta defendida por Bugental (1963), concordaram que, ao invés de negar as orientações psicanalíticas e comportamentalista, poderiam incorporá-las a uma visão mais ampla, de caráter fenomenológico, que enfatizava o valor e o significado da experiência humana.

A partir disso foram estruturados os primeiros estatutos do novo movimento, baseados em cinco postulados:

  • a pessoa é mais que a soma de suas partes;
  • ela é afetada por seu relacionamento com outras pessoas;
  • ela é um se rconsciente;
  • ela tem possibilidade de escolha;
  • ela apresenta um caráter intencional.

Entretanto, como o próprio DeCarvalho (1990) salienta, tais postulados eram um tanto quanto vagos. Uma tal indefinição, contudo, não era de se estranhar, uma vez que a tarefa de caracterizar o humanismo não é, de fato, simples. Isso porque, ao contrário das outras correntes da psicologia, ele não se iniciou a partir das idéias de um determinado autor ou escola de pensamento, mas, conforme expliquei, como uma aglutinação de diversas tendências que se contrapunham ao comportamentalismo e à psicanálise (BOANAIN JR., 1995).

Não obstante, apesar da diversidade das abordagens que a ele se filiaram, o movimento apresenta alguns aspectos fundamentais e genéricos, que se estruturaram a partir das bases em que buscou inspiração para se constituir (o humanismo filosófico, o existencialismo, dissidentes de Freud como Adler e Jung, teóricos da personalidade, proposições gerais da psicologia da gestalt e, dentro dela, concepções mais específicas de Lewin e Goldstein). Para melhor explicá-lo, portanto, devo-me remeter a esses aspectos.

Um deles é o de se tomar a experiência subjetiva como referência básica para a compreensão, numa postura de teor fenomenológico. De acordo com Burow e Scherp (1985), tal idéia foi, em grande medida, inspirada pelo humanismo e pelo existencialismo filosóficos. É preciso todavia acrescentar que, no tocante ao existencialismo, não há uma completa coincidência de idéias entre ele e a psicologia humanista. Conquanto uma vertente desta última apóie-se bastante em idéias existencialistas, a ponto de alguns chamarem tal vertente de ‘humanista-existencial, isso não consiste numa posição genérica (BOANAIN JR., 1995).

Além disso, deve-se ressaltar que a influência importante para a corrente humanista foi a do existencialismo filosófico, e não a da psicologia existencial e fenomenológica européia. Muito embora, por ocasião do estabelecimento do humanismo, tenha havido uma interação significativa entre ele e a psicologia existencial européia, o relacionamento entre ambos nem sempre foi dos mais harmoniosos. Como explica DeCarvalho (1990), tal relacionamento foi mais de paralelismo de idéias, que de influência de uma escola sobre a outra.

Cabe acrescentar que o mesmo ocorreu relativamente à fenomenologia husserliana: apesar de essa visão ser adotada por al­guns humanistas, outros adotam o que Boanain Jr. (1995) chama de uma versão simplificada, levada anteriormente para os Esta­dos Unidos pelos gestaltistas alemães e psiquiatras jasperianos (alguns autores preferem chamar de ‘fenomenismo’ a esta última  versão da fenomenologia). Tal versão, de sentido mais amplo, foi a que embasou, por exemplo, várias elaborações de Carl Rogers. Não implica em adotar todos os parâmetros desenvolvidos pela primeira, mas simplesmente em buscar o significado da experiên­cia vivida nos próprios fenômenos que a constituem. Explicando melhor, essa postura propõe que se tente compreender tais fenô­menos a partir de sua observação e dos significados que surgem estritamente associados a ela, e não através de uma estrutura te­órica explicativa.

É preciso explicar, ainda, que a compreensão mais caracteristicamente fenomenológica dos humanistas consiste num estilo, numa tendência, e não numa atitude exclusivista. Dessa forma, apesar de a maioria das abordagens humanistas procurarem, no trabalho terapêutico, entender a experiência da pessoa acompanhando empaticamente tal experiência, e não interpretando-a teoricamente, esta última estratégia não é totalmente excluída.

E algo semelhante também ocorre relativamente ao trabalho de pesquisa: não obstante serem realizadas investigações de gênero mais propriamente fenomenológico, também o são as de caráter mais positivista. Este é o caso, entre outros, dos extensos e sofisticados trabalhos voltados para a análise do conteúdo de sessões terapêuticas conduzidos por Rogers e seus colaboradores (Cf. Marsden, 1971).

Mencionando agora um outro aspecto importante do humanis­mo, tem-se que, para ele, o ser humano apresenta possibilidade de escolha, ou seja, capacidade de livre arbítrio. Este aspecto tam­bém foi, em certa medida, inspirado pelo humanismo e pelo existencialismo filosóficos (BUROW; SCHERPP, 1985), e deve-se ainda levar em conta a influência da psicologia da gestalt, principalmen­te no que se refere ao trabalho de Kurt Lewin. Também é preciso explicar que, como detalharei melhor à frente, essa idéia de livre arbítrio não consiste numa visão utópica de plena liberdade, mas na convicção de que o próprio indivíduo é uma das fontes de deter­minação de seu comportamento e de sua experiência subjetiva.

E mais uma característica básica do movimento humanista, que deve ser lembrada, é a crença numa tendência do ser humano para a auto-realização e o crescimento. Fundamentada prin­cipalmente nas idéias de Goldstein (Cf. Smith, 1990), tal crença prega que o homem é orientado pela necessidade, intrínseca a todos os organismos vivos, de efetivar ao máximo seu potencial e atingir o estado mais amplo e sofisticado de que for capaz. De acordo com ela, se a pessoa tiver suas necessidades mais básicas e individuais adequadamente satisfeitas, tenderá a se voltar para interesses como os sociais e espirituais, que se associam as etapas mais elevadas de seu desenvolvimento.

Alguns autores importantes, como novamente é o caso de Ro­gers, têm uma visão bastante otimista a respeito da natureza hu­mana, segundo a qual o indivíduo tende a crescer num sentido positivo, a não ser que entraves sócio-ambientais o desviem desse caminho. Entretanto, essa visão, embora talvez dominante, não é hegemônica dentro do humanismo. Um exemplo disso é Rollo May, que se baseou num existencialismo mais cético. Embora tam­bém se apresente relativamente otimista quanto à natureza das pessoas, acredita, por outro lado, que forças negativas possam ter papel motivacional relevante em suas escolhas (DeCARVALHO. 1990). Desse modo, conquanto seja geral a crença num impulso natural do ser humano para o crescimento, não é geral a de que esse impulso seja predominantemente positivo.

Como quer que seja, uma das características mais marcantes e genéricas da compreensão humanista a respeito da natureza hu­mana está em rejeitar concepções estáticas desta última, conce­bendo-a como um constante processo de crescimento, de vir a ser (BOANAIN JR., 1995). E com base nisso, inclusive, que o huma­nismo opõe-se à adoção do modelo médico na psicoterapia. Em sua compreensão, o trabalho psicoterápico deve consistir num proces­so que favoreça o crescimento que acabei de mencionar, sendo o terapeuta essencialmente um facilitador do mesmo. Não encaram portanto, a atividade terapêutica como a cura de patologias, conforme prega o modelo em questão.

Pode-se dizer também que, coerente com a idéia de uma ten­dência para a auto-realização, outra particularidade importante do humanismo é o interesse nos aspectos mais característi­cos do ser humano. Esse interesse associa-se à idéia em questão, pois está voltado para os fatores que possibilitam a auto-realização, como a satisfação das necessidades de segurança emocional, a aquisição de identidade própria, e de autonomia, a criatividade, os valores sociais mais elevados e a espiritualidade.

Para os humanistas, uma psicologia realmente humana exige que se aborde as peculiaridades do comportamento das pessoas tanto em termos de espécie animal como de características indivi­duais. Discordam, assim, de estratégias que procuram conhecer o homem através da pesquisa com animais, como muitas vezes faz a psicologia comportamental. Além disso, ainda coerentes com a idéia de auto-realização, crêem que se deva privilegiar, dentro da investigação das experiências tipicamente humanas, o estudo de indivíduos saudáveis e bem dotados, que podem indicar cami­nhos para um desenvolvimento pessoal mais satisfatório. Desta forma, contrapõem-se às escolas como a psicanálise, que estrutu­raram suas teorias a partir da observação de casos considerados patológicos.

Enfocando agora outras facetas do movimento humanista, uma das mais fundamentais, de grande repercussão teórica e prática, é a de abordar o ser humano a partir de uma ótica holista (BOA- NAIN JR., 1995; DeCARVALHO, 1990; SMITH, 1990). De acordo com Boanain Jr., tal visão foi adotada por influência da psicologia da gestalt e também de Adler. Consiste em privilegiar uma com­preensão integral da totalidade do homem ao invés de analisá-lo através de seu fracionamento em partes, acreditando que ele seja mais que a soma dessas partes. Essa estratégia opõe-se às de cará­ter elementarista utilizadas por outras escolas do pensamento da psicologia. Os humanistas rejeitam as concepções reducionistas e
fragmentadoras da psicanálise e do comportamentalismo. Em sua opinião, a primeira delas enxerga a pessoa como um animal lascivo e feroz, movido por instintos voltados para o prazer e a agressão. E apenas às custas de um trabalho árduo de repressão e sublimação que uma tal pessoa pode adquirir algum verniz de sociabilidade, mas vivendo, por causa disso, uma existência frustrada e infeliz E a segunda vê o indivíduo como uma marionete manipulada por contingências de estimulação exteriores que, na melhor hipótese poderá optar entre um condicionamento fortuito e um planejado. Já segundo a visão holista, o ser humano consiste num sistema complexo e organicamente integrado, cujas qualidades mais es­senciais advêm de sua estrutura total. O homem é, de acordo com ela, um ser bio-psico-social.

Coerentes com essa visão, os humanistas, inspirados princi­palmente pela teoria organísmica de Kurt Goldstein, vinculada a psicologia da gestalt, opõem-se à divisão cartesiana entre corpo e mente, enxergando a ambos como aspectos intimamente rela­cionados de um mesmo fenômeno bio-psíquico. Nesse sentido acreditam que tudo o que ocorra em âmbito orgânico tenha sua contrapartida no psíquico e vice-versa, adotando um enfoque psicossomático.

Por outro lado, mais influenciados por Kurt Lewin, os huma­nistas também vêem o ser humano como indissociavelmente li­gado ao seu ambiente e influenciado por ele. Isso não quer dizer, entretanto, que o comportamento humano seja propriamente de­ terminado pelo ambiente, como propõem os comportamentalistas, o que contradiria o princípio de livre arbítrio defendido pelo humanismo. A concepção humanista inspira-se, sim, na teoria de campo desenvolvida por Lewin. De acordo com esta, é um campo psicofísico composto pelo indivíduo e seu meio que determina a experiência deste indivíduo. Sendo ambos, indivíduo e ambiente, as duas forças polares básicas que estruturam tal campo, o comportamefito é fruto de sua interação, e não exclusivamente de uma ou outra. Dessa forma, a pessoa exerce parcela significativa de de­ terminação sobre suas próprias ações, apesar de elas estarem inti­mamente associadas a fatores ambientais.

A visão bio-psico-social encontra uma expressão talvez mais clara na metáfora empregada por Koestler (1978) para explicar a concepção sistêmica. Este autor utiliza a imagem de Jano, o deus romano de dois rostos opostos, para expressar o caráter básico da existência humana. Da mesma forma que esse deus, a pessoa apresenta duas faces ou tendências simultâneas: uma é a de se compor­tar como um sistema independente, articulando numa totalidade indissociável aspectos como o orgânico e o psíquico e afirmando sua individualidade; a outra é a de agir como parte integrada de sistemas mais amplos, como o sócio-ambiental.

É, em medida significativa, como fruto de uma tal compreensão que houve, no humanismo, grande desenvolvimento de métodos de intervenção, tanto corporais, dada a associação íntima entre o biológico e o psíquico, como grupais, dada a relação igualmente próxima entre o indivíduo e seu meio social. Cabe entretanto es­clarecer que, relativamente aos primeiros, também foi importante a influência do pensamento de Reich, como se pode observar na gestalt-terapia, que apresenta formulações baseadas na idéia de couraça muscular desse autor. E no que se refere aos procedimen­tos grupais, foram, da mesma forma, importantes as concepções de Moreno, criador do psicodrama.

Com base em tais influências, muitos humanistas passaram a utilizar estratégias corporais que envolvem massagem, toque, dança, movimento, métodos catárticos com alta mobilização or­gânica, exploração e intensificação de sensações e outros recursos. E também adotaram procedimentos grupais que abrangem, além da psicoterapia de grupo em sentido mais estrito, ampla gama de trabalhos vivenciais. Estes podem ser realizados com pequenos ou grandes grupos, apresentarem caráter intensivo (workshops com até vários dias de duração ininterrupta) ou extensivo (cur­tas sessões periódicas), bem como serem pautados por temas ou estratégias de intervenção definidos, ou simplesmente terem a proposta de as pessoas explorarem o que parecer interessante no momento.

E além da prática de trabalhos corporais e grupais, pode-se ain­da associar à visão holista outro dos aspectos fundamentais do hu­manismo: acreditar que o ser humano apresente um caráter eminentemente dialogal (Cf. Boanaín Jr., 1995). Coerente com a teoria de campo de Lewin, tal consiste na crença de que o homem não existe, realmente, como indivíduo isolado, mas só se define e se realiza plenamente no encontro pessoal com seus semelhantes.

Entretanto, não obstante essa sintonia com idéias da psicologia da gestalt, tal crença baseia-se menos nesta escola de pensamento e mais em concepções existencialistas, principalmente no que toca às expressas por Martin Buber.

Segundo Buber (1979), o encontro a que me referi acima não está associado a qualquer comportamento interpessoal, mas ape­nas àqueles em que se estabelece o que ele chama de ‘relação Eu-Tu. Nesta, os participantes não assumem uma atitude utilitarista, e sim uma atitude verdadeiramente empática e autêntica, de sin­cero respeito e compreensão entre si.

Em conformidade com o que expus acima, os psicoterapeutas humanistas acreditam que o relacionamento de pessoa para pes­soa seja o mais favorável para o crescimento do indivíduo e sua auto-realização. E em função disso que propõem a adoção de uma postura relacional na psicoterapia. Orientados por ela, abandonam a estratégia mais tradicional e, a seu ver, defensiva, de se abordar os clientes de psicoterapia como objetos a serem analisados e ma­nipulados. Isso para poderem se relacionar com eles de maneira mais pessoal e aberta, respeitando sua maneira de ser.

Diga-se, inclusive, é devido a tal postura que os humanistas não utilizam o termo ‘paciente’, mas sim 'cliente’, para designar a pes­soa que busca atendimento psicológico. A idéia de paciente está associada à imagem de uma pessoa passiva, basicamente direcio­nada pelas influências do terapeuta, e não à de uma pessoa cujas características e liberdade de decisão devam ser respeitadas.

E ainda fundamentados por sua visão dialogal de ser humano e sua crença na tendência para a auto-realização, os humanistas também propõem que o indivíduo busque uma existência mais espontânea, autêntica e auto-consciente. É dessa forma que, em sua compreensão, ele pode obter o máximo de realização pessoal e o mais verdadeiro e profundo relacionamento com os outros. Nesse sentido, questionam uma série de valores e práticas sociais mais conservadoras, que inibem a expressão e a liberdade de escolha  individual. Não se entenda isso, é claro, como uma negação de limites necessários para a vida em sociedade e o respeito mútuo entre seus integrantes. A oposição é feita contra restrições arbitrárias e obscurantistas, que ao invés de promoverem o bem estar e a evolução individual e social, acabam por atravancá-los.

O humanismo acredita que a melhor chance de um relaciona­mento social produtivo está exatamente numa postura aberta das pessoas, o que permite que se compreendam melhor e se sensibili­zem mais para as necessidades umas das outras. Foi devido a isso que, nos anos 60, houve uma ligação próxima entre o humanismo e a contracultura, pois ambos questionavam valores sociais que consideravam arcaicos ou destrutivos.
Finalmente, diante do exposto nas páginas anteriores, pode-se expressar, de maneira concisa, as características mais proeminentes da corrente humanista como sendo:

  • colocar no centro das atenções a vivência pessoal, sendo as explicações teóricas e o comportamento observável vistos como secundários;
  • acreditar na possibilidade, embora não irrestrita, de livre arbítrio;
  • crer num impulso natural para a auto-realização;
  • acreditar que, tendo suas necessidades mais básicas, físicas e emocionais, satisfeitas, a pessoa tende a voltar-se para aspira­ções mais amplas, como as de ordem social e espiritual;
  • visar, como objetivo fundamental da psicoterapia, o cresci­mento e a autonomia psicológica do cliente;
  • crer na importância de se levar em conta as singularida­des da espécie humana e de cada indivíduo para que se possa compreendê-los;
  • adotar uma visão holista de ser humano, segundo a qual ele só pode ser compreendido como um todo integrado, e não através da análise isolada de seus diferentes aspectos (atitude elementarista); 
  • abordá-lo em sua real magnitude, criticando outras corren­tes por pregarem que a experiência humana pode ser compre­endida através de um modelo mais simples do que realmente é (atitude reducionista);
  • crer na importância de o terapeuta relacionar-se empática e autenticamente com o cliente;
  • acreditar que a existência humana deva ser pautada pela espontaneidade e a autenticidade.
Psicologia humanista

PSICÓLOGOS E OUTRAS PERSONALIDADES
Por área e/ou origem
TEXTOS
Behaviorismo - Período Pós-fundação

Algum dia visitou o Zoológico do Ql em Hot Springs, Arkansas? Não? É uma pena, pois não existe mais. Mas, por 35 anos, milhares de pessoas visitaram e observaram animais desempenhando uma variedade surpreendente de truques. Pelo menos pareciam ser truques, mas, na realidade, cada animal havia sido cuidadosamente treinado. Nada havia sido deixado ao acaso no Ql Animal. Cada animal que via - fosse uma pomba ou uma galinha ou um guaxinim - havia se tornado outro Hans, o Esperto.

Pense na Priscilla, o Porco Metódico. Se algum dia viu porcos em uma fazenda, pode achar que não são capazes de fazer qualquer coisa suficientemente excitante para você olhar. Entretanto, Priscilla era fascinante. Ela tinha uma rotina matinal.

Primeiro ligava o rádio, depois comia sentada à mesa, pegava toda a roupa suja e a guardava na cesta, e limpa­va seu quarto com um aspirador de pó. E quando estava pronta para enfrentar o público, ela respondia perguntas feitas pela plateia, ativando sinais que acendiam indicando "sim" ou "não".

Outro residente do Zoológico do Ql era a Ave Inteli­gente, uma galinha que participava do jogo da velha com pessoas e, invariavelmente, empatava ou ganhava. Jamais perdia nem mesmo quando jogava com o grande psicólogo B. F. Skinner, cuja reação ao perder para a galinha nunca foi registrada. Em uma época, havia centenas de galinhas como a Ave Inteligente, apresentadas em exposições e cas­sinos espalhados pelos Estados Unidos, e nenhuma jamais perdeu o jogo para um oponente humano.

Além da Ave Inteligente, uma “galinha tocava algumas notas melodiosas em um piano pequeno, outra dançava 'sapateado' fantasiada e com sapatos, enquanto uma terceira 'punha ovos de madeira' em um ninho; os ovos rolavam por uma calha até uma cesta. A plateia podia pedir um determinado número de ovos desejado, até oito, e a galinha os punha sem parar" (Breland e Breland, 1951, p. 202).

Tinha galinhas que andavam no trapézio e outras treinadas para jogar beisebol. Coelhos dirigiam caminhões de bombeiro tocando a sirene, patos tocavam piano e bate­ria, papagaios andavam de bicicleta, e guaxinins jogavam basquete. Posteriormente foram acrescentados shows de golfinhos e baleias.

Esse zoológico foi iniciado em 1955, por Keller e Ma­rian Breland, antigas alunas do curso de pós-graduação em psicologia, que abandonaram a universidade para ganhar a vida aplicando técnicas de condicionamento ao comportamento animal. Em 1943, elas haviam formado a Empresa de Comportamento Animal para treinar animais a se apresentarem em feiras estaduais e para servirem de atrações turísticas. Quando abriram o Zoológico do QI seu trabalho já era bastante conhecido, graças a artigos no Wall Street Journal, Time, Life e Reader's Digest. No auge de seu sucesso, as irmãs Breland administravam cerca de 140 shows com animais treinados em lugares turísticos importantes e dez vezes mais esse número em shows pelo país. Também haviam treinado centenas de animais para papéis em filmes, programas de televisão e comerciais. No total treinaram mais de 6 mil animais de cerca de 150 espécies. E tudo isso utilizando técnicas básicas de condicionamento que haviam aprendido com B. F. Skinner, o behaviorista mais importante do século XX.

Os Três Estágios do Behaviorismo

A revolução iniciada por John B. Watson não transformou a pscologia de um dia para o outro. Levou mais tempo do que ele imaginava. Todavia, por volta de 1924, um pouco mais uma década após o lançamento formal do behaviorismo, até mesmo o seu maior opositor, Titchener, admitia que o movimento impregnou a psicologia estadunidense. Mais o menos em 1930, Watson já possuía argumentos suficiente para se declarar completamente vitorioso.

O behaviorismo de Watson constituiu o primeiro estágio da evolução da escola de pen­samento comportamental. O segundo estágio, o neobehaviorismo, compreende o período de 1930 a mais ou menos 1960, e engloba os trabalhos de Tolman, Hull e Skinner. Esses neobehavioristas compartilhavam diversos pontos em comum:

  • O estudo da aprendizagem constitui o tópico central da psicologia;
  • Em sua maioria, os comportamentos, independentemente da sua complexidade, podem ser entendidos pelas leis do condicionamento;
  • A psicologia deve adotar o princípio do operacionismo.

O terceiro estágio da evolução behaviorista, o neo-neobehaviorismo ou o sociobehaviorismo, data de cerca de 1960 a 1990. Essa etapa inclui o trabalho de Bandura e Rotter e destaca-se pelo retorno do estudo dos processos cognitivos, mas mantendo o enfoque na observação do comportamento manifesto.

Operacionismo

O operacionismo, principal característica do neobehaviorismo, tinha por objetivo propor­cionar uma linguagem e uma terminologia mais objetivas e precisas à ciência, livrando-a dos "pseudoproblemas", ou seja, dos problemas não-observáveis fisicamente ou não-demonstráveis. O operacionismo sustenta que o valor de qualquer descoberta científica ou de qualquer constructo teórico depende da validade das operações empregadas para determiná-los.

A visão operacionista foi promovida por Percy W. Bridgman (1882-1961), ganhador do Prêmio Nobel de física e psicólogo da Harvard University. O seu livro, The logic of modern physics (1927), chamou a atenção de muitos psicólogos (Feest, 2005). Bridgman insistia na definição exata dos conceitos da física e no descarte de todos os conceitos que não possuíssem referentes físicos.

Utilizemos como exemplo o conceito de comprimento. O que queremos dizer quando nos referimos ao comprimento de um objeto? Evidentemente, entenderemos o significado de comprimento se soubermos especificar o comprimento de todo e qualquer objeto e, para o físico, isso é o suficiente. A determinação do comprimento de um objeto requer algumas operações físicas. O conceito de comprimento, assim, é definido quando se determinam as operações de mensuração do comprimento, ou seja, o conceito de com­primento envolve tão-somente e apenas um conjunto de operações; o conceito é sinônimo do conjunto correspondente de operações. (Bridgman, 1927, p. 5)

Desse modo, um conceito físico equivale ao conjunto de operações ou de procedimen­tos que o determinam. Muitos psicólogos acreditavam que esse conceito seria muito útil nos seus trabalhos e estavam ansiosos para utilizá-lo.

A insistência de Bridgman em descartar os pseudoproblemas, ou seja, as questões que desafiam a resposta resultante de qualquer teste objetivo conhecido, era muito bem-vista pelos psicólogos behavioristas. As proposições que não podem ser submetidas a um teste experimental, como a existência e a natureza da alma, não têm nenhum valor científi­co. O que é alma? Como observá-la no laboratório? É possível medi-la e manipulá-la sob condições controladas para determinar seus efeitos no comportamento? Se a resposta for negativa, o conceito não é dotado de nenhuma utilidade, significado ou importância para a ciência.

Seguindo esse raciocínio, o conceito de experiência consciente individual ou privada consiste em um pseudoproblema para a ciência da psicologia. Não é possível determinar nem investigar a existência ou as características da consciência por meio de métodos objetivos. Assim, de acordo com a visão operacionista, a consciência não tem lugar na psicologia científica.

Os críticos alegavam que o operacionismo não passava de uma afirmação um pouco mais formal dos princípios já aplicados pelos psicólogos para definir as ideias e os conceitos em relação ao seus referentes físicos. No livro de Bridgman, há muito pouco sobre o operacionismo que não se relacione com os trabalhos dos empiristas britânicos. A tendência do longo prazo da psicologia estadunidense seguia em direção à objetividade da metodologia e do objeto de estudo, portanto pode-se afirmar que a visão operacionista em relação à pesquisa e à teoria já fora aceita por muitos psicólogos.

Entretanto, desde a época de Wilhelm Wundt, na Alemanha, os físicos vinham sendo, para a nova psicologia, exemplos de perfeição da respeitabilidade científica. Quando os físicos anunciaram a aceitação do operacionismo como uma doutrina formal, muitos psicó­logos sentiram-se obrigados a seguir esse modelo de papel. No fim, os psicólogos acabaram empregando mais amplamente o operacionismo do que os físicos. Consequentemente, a geração dos neobehavioristas atuantes entre as décadas de 1920 e 1930 incorporou o operacionismo na sua abordagem de psicologia.

Bridgman viveu tempo suficiente para testemunhar tanto a aceitação como o descarte do operacionismo na psicologia. Com 79 anos, ciente do seu estado terminal, Bridgman terminou o sumário da edição em sete volumes de todos os seus trabalhos, enviou-o para o editor e suicidou-se. Temia esperar mais tempo e ficar incapacitado para tal ação. Na carta deixada antes de suicidar-se, escreveu: "Provavelmente, este é o último dia em que terei condições de fazê-lo" (apud Nuland, 1994, p. 152).

Edward Chace Tolman (1886-1959)

Edward Tolman, um dos primeiros convertidos ao behaviorismo, estudou engenharia no Massachusetts Institute of Technology. Voltou-se para a psicologia, obtendo o Ph.D. da Harvard em 1915. No verão de 1912, Tolman estudou na Alemanha com o psicólogo da Gestalt, Kurt Koffka. No último ano de pós-graduação, Tolman conheceu o novo behavio­rismo de Watson e, embora orientado de acordo com a tradição da psicologia estruturalista de Titchener, Tolman já não estava convicto do valor científico da introspecção. Em sua autobiografia, declarou que o behaviorismo de Watson apareceu como um "enorme estímulo e alívio" (1952, p. 326).

Tolman tornou-se professor da Northwestern University, em Evanston, Illinois, e, em 1918, seguiu para a University of California, em Berkeley, onde lecionou psicologia comparativa e conduziu pesquisas sobre a aprendizagem nos ratos - nessa época tornou-se insatisfeito com a forma de behaviorismo de Watson e começou a desenvolver a sua. Durante a Segunda Guerra Mundial, colaborou com o Office of Strategic Services - OSS [Departamento de Serviços Estratégicos], precursor da Central Intelligence Agency [Agência Central de Inteligência] - CIA. No início da década de 1950, foi um dos líderes do movi­mento de professores contra o juramento de lealdade ao Estado da Califórnia.

O Behaviorismo intencional

A visão de behaviorismo de Tolman está descrita no livro Purposive behavior in animais and men (1932). O termo cunhado por ele, behaviorismo intencional, à primeira vista pode parecer uma aglutinação curiosa de duas ideias contraditórias: a intenção e o comportamento. A atribuição de intenção ao comportamento do organismo parece implicar a consciência, conceito mentalista não aceito na psicologia behaviorista. Tolman deixava claro, no entanto, que a sua visão era muito mais behaviorista no objeto de estudo e na metodologia. Ele não tentava impor o conceito de consciência à psicologia. Assim como Watson, rejeitava a introspecção e não se interessava pelas experiências internas presumi­das, não acessíveis à observação objetiva.

Para ele, a intencionalidade do comportamento pode ser definida em termos comportamentais objetivos sem se recorrer à introspecção ou aos relatos das sensações do indivíduo em relação à experiência. 

Parecia óbvio para Tolman que toda ação visava a um objetivo. Por exemplo, o gato tenta escapar da caixa-problema experimental do psicólogo o rato tenta aprender o caminho do labirinto, a criança tenta aprender a tocar piano ou a chutar a bola de futebol.

Em outras palavras, dizia Tolman, o comportamento está "impregnado" de intenção e visa atingir um objetivo ou aprender a forma de alcançar a meta. O rato persiste em percorrer os caminhos do labirinto, reduzindo os erros a cada tentativa, a fim de atingir mais rapidamente a meta. O que ocorre nesse caso é que o rato está aprendendo, e o fato de aprender, seja em um ser humano seja em um animal, é a prova comportamental objetiva da intenção. Tolman lida com as respostas objetivas do organismo e as medidas são feitas com base nas mudanças nas respostas comportamentais como uma função da aprendizagem. São essas medidas que produzem os dados objetivos.

Os behavioristas watsonianos imediatamente reagiram com críticas contra a atribuição de intenção ao comportamento. Insistiam em afirmar que qualquer referência à intenção implicava o reconhecimento dos processos conscientes. Tolman respondeu que não fazia a menor diferença se o indivíduo ou o animal estivesse ou não consciente. A experiência consciente - se ela existisse - associada com o comportamento intencional não influenciava a resposta do organismo. Ademais, Tolman estava interessado apenas no comportamento manifesto.

As Variáveis intervenientes

Como behaviorista, Tolman acreditava que as causas iniciadoras do comportamento e o comportamento final deviam ser passíveis de observação objetiva e de definição opera­cional. Relacionou cinco variáveis independentes como as causas do comportamento: o estímulo ambiental, os impulsos fisiológicos, a hereditariedade, o treinamento prévio e a idade. O comportamento é uma função dessas cinco variáveis, uma ideia que Tolman expressou por meio de uma equação matemática.

Entre essas variáveis independentes observáveis e o comportamento de resposta resul­tante (a variável dependente observável), Tolman presumia a existência de um conjunto de fatores não-observáveis, as variáveis intervenientes, que são as verdadeiras determi­nantes do comportamento. Esses fatores consistem em processos internos que estabelecem a ligação entre a situação de estímulo e a resposta observada. A proposição E-R (estímulo-resposta) dos behavioristas deve ser lida, então, E-O-R. A variável interveniente refere-se a tudo que ocorre dentro do organismo (O) e que provoca a resposta comportamental a determinada situação de estímulo. No entanto, como a variável interveniente não pode ser observada objetivamente, ela somente tem validade para a psicologia quando pode ser relacionada diretamente com as variáveis experimentais (independentes) e com a variável do comportamento (dependente).

A fome é um exemplo clássico de variável interveniente. Não se pode observar a fome em um indivíduo ou em um animal no laboratório, no entanto ela pode ser precisa e obje­tivamente relacionada com uma variável experimental como, por exemplo, o intervalo de tempo transcorrido desde a última vez em que o organismo recebeu comida. A fome tam­bém pode ser relacionada a uma resposta objetiva ou a uma variável de comportamento, como a quantidade de comida consumida ou a velocidade com a qual foi ingerida. Assim, é possível descrever precisamente a variável não-observável da fome em relação a variáveis empiristas e torná-la passível de quantificação e de manipulação experimental.

A especificação das variáveis independentes e dependentes, que são fatos observáveis, possibilitou a Tolman estabelecer definições operacionais de estados internos não-obser­váveis. No princípio, ele se referia à sua abordagem, no geral, como behaviorismo opera­cional, antes de optar pelo termo mais preciso "variável interveniente".

A Teoria da Aprendizagem

O principal enfoque do behaviorismo intencional de Tolman estava no problema da apren­dizagem. Tolman rejeitou a lei do efeito de Thorndike, afirmando que a recompensa ou o reforço exerciam pouca influência sobre a aprendizagem. Em seu lugar, propunha uma explicação cognitiva para a aprendizagem, sugerindo que a repetição do desempenho de uma tarefa reforça a relação aprendida entre as dicas ambientais e as expectativas do organismo. Dessa forma, o organismo acaba conhecendo o seu ambiente. Tolman chama­va essas relações aprendidas de “sign Gestalts", e afirmava serem elas estabelecidas pela repetição da realização de uma tarefa.

Imaginemos um rato faminto dentro de um labirinto. Ele o percorre, explorando todos os caminhos corretos como os sem saída e, finalmente, acaba alcançando a comida. X tentativas subsequentes dentro do labirinto, o objetivo (encontrar a comida) proporciona ao rato a intenção e a direção. A cada ponto de intersecção em que o animal tem de fazer uma opção de seguir para um lado ou outro, cria-se uma expectativa de que certas dicas associadas ao ponto de intersecção vão ou não levar à comida.

Quando a expectativa do rato é confirmada e ele obtém a comida, a sign Gestalt, a expectativa de sinalização associada com determinada opção) é reforçada. Assim, para todas as tentativas realizadas no labirinto, o animal estabelece um mapa cognitivo, que consiste em um padrão de sign Gestalts. Esse padrão é o que o animal aprende, ou seja, um mapa do labirinto, e não apenas um conjunto de hábitos motores. O cérebro do rato cria uma visão completa do labirinto ou de qualquer ambiente familiar, que lhe permite tran­sitar de um lugar a outro sem se restringir a uma série de movimentos físicos fixos.

A clássica experiência para testar a teoria de aprendizagem de Tolman investigava se o rato que percorria os caminhos do labirinto aprendia um mapa cognitivo ou uma série de respostas motoras. Em um labirinto com formato de cruz, um grupo de ratos sempre encontrava a comida no mesmo lugar, ainda que, usando pontos iniciais diferentes, às vezes tivessem de virar à direita e outras vezes à esquerda para chegarem até o alimento. As respostas motoras eram diferentes, mas a comida estava sempre no mesmo lugar.

O segundo grupo de ratos apresentava as mesmas respostas independentemente do ponto inicial, mas com a comida em lugares diferentes. Iniciando de uma saída do labirin­to, o ratos achavam a comida somente quando viravam à direita no ponto de intersecção: começando da outra saída, também encontravam a comida virando à direita.

Os resultados demonstraram que os ratos que aprendiam o caminho (o primeiro grupo apresentavam um desempenho bem melhor do que os que aprendiam o movimento (o segundo grupo). Tolman concluiu que o mesmo fenômeno ocorre com o indivíduo fami­liarizado com a cidade ou com a vizinhança. Ele é capaz de locomover-se de um ponto a outro utilizando diversos caminhos por causa do mapa cognitivo que desenvolveu de toda a área.

Comentários

Tolman é considerado o precursor da psicologia cognitiva contemporânea, tendo seu trabalho exercido grande impacto na disciplina, principalmente a pesquisa acerca dos problemas de aprendizagem e o conceito da variável interveniente. Por ser uma forma de definir operacionalmente os estados internos não-observáveis, as variáveis inter­venientes fizeram desses estados temas válidos para o estudo científico. As variáveis intervenientes foram empregadas pelos neobehavioristas, como Hull e Skinner.

Outra contribuição significativa de Tolman foi a sua defesa veemente para conside­rar o rato como sujeito apropriado para pesquisa em psicologia. No entanto, no início da carreira, ele não pensava assim e afirmava: "Não gosto de ratos. Eles me dão arrepios" (Tolman, 1919, apuã Innis, 1992, p. 191).

Em torno de 1945, sua atitude havia mudado:

Observe-se que os ratos vivem em gaiolas; não caem na farra na noite anterior a um expe­rimento; não provocam guerras matando uns aos outros; não inventam máquinas de des­truição e, se inventassem, não seriam tão inaptos para controlar esses equipamentos; não se envolvem em conflitos de classe ou raciais; ficam distantes da política, da economia e dos trabalhos de psicologia. Eles são maravilhosos, puros e agradáveis. (Tolman, 1945, p. 166)

Graças aos trabalhos de Tolman e de outros psicólogos, o rato branco tornou-se o princi­pal sujeito utilizado na pesquisa dos neobehavioristas e dos teóricos da aprendizagem, desde 1930 até a década de 1960. Acreditava-se que as pesquisas com os ratos brancos produziriam observações sobre os processos básicos subjacentes do comportamento não apenas dos ratos, como também de outros animais e dos seres humanos. Como observou um pesquisador contemporâneo, "o rato era um modelo simples mas acessível de animal, que possibilitava ao psicólogo investigar os fundamentos do cérebro, do comportamento, da emoção e da aprendizagem com precisão sem precedentes" (Logan, 1999, p. 3). Quem precisa de seres humanos para as pesquisas, perguntavam, com tantos ratos brancos disponíveis?

Clark Leonard Hull (1884-1952)

Clark Hull e seus seguidores dominaram a psicologia estadunidense entre as décadas de 1940 e 1960. Talvez nenhum psicólogo tenha se dedicado tanto aos problemas do método científico. Hull era dotado de espantoso domínio da matemática e da lógica formal, e as aplicava à teoria psicológica de maneira nunca vista antes. A forma de behaviorismo de Hull era mais sofisticada e mais complexa do que a de Watson. Hull dizia a seus alunos de pós-graduação que "Watson era ingênuo demais. Seu behaviorismo é excessivamente simples e imaturo" (apuei Gengerelli, 1976, p. 686).

Biografia de Hull

Por toda a vida, Hull foi incomodado pela saúde frágil e pela dificuldade visual. Quando ainda menino, quase morreu de tifo, deixando-o com a memória deficitária. Aos 24 anos contraiu poliomielite, que o deixou paralítico de uma perna, sendo forçado a usar muleta de metal construída por ele mesmo. Era de família pobre e por diversas vezes vira-se forçado a interromper os estudos para lecionar e ganhar dinheiro. Sua maior qualidade era a intensa motivação para atingir o sucesso e a perseverança diante dos muitos obstáculos.

Em 1918, com 34 anos, idade já relativamente adiantada, recebeu o título de Ph.D. - a University of Wisconsin, onde estudou engenharia de minas antes de passar para a psicologia. Fez parte do corpo docente da Wisconsin por 10 anos. Os interesses iniciais em pesquisa já davam indicações da sua eterna ênfase nos métodos objetivos e nas leis rancionais. Hull estudou a formação de conceitos e os efeitos do fumo na eficácia do comportamento, além de analisar os testes e as medidas e com isso publicar um livro a respeito dos testes de aptidão (Hull, 1928). Ele desenvolveu métodos de análise estatística e inventou uma máquina calculadora de correlações, que foi exibida no museu do Smithsonian institution em Washington, DC. Dedicou 10 anos ao estudo da hipnose e da sugestionabilidade, publicando 32 trabalhos e um livro resumindo as pesquisas (Hull, 1933).

Em 1929, Hull aceitou a posição de professor de pesquisa na Yale University, com o objetivo de formular uma teoria sobre o comportamento com base nas leis de condicio­namento de Pavlov. Lera o trabalho de Pavlov havia alguns anos e ficara impressionado com os estudos do reflexo condicionado e da aprendizagem. Hull considerava a obra Conáitioned reflexes, de Pavlov, um "grande livro” e decidiu realizar pesquisas usando ani­mais. Ele nunca utilizara animais porque abominava o cheiro dos ratos de laboratório, no entanto, ao chegar a Yale, conheceu uma colônia de ratos mantida por E. R. Hilgard sob totais condições de higiene. Viu os animais, "cheirou-os e disse que talvez pudesse afinal usar ratos" (Hilgard, 1987, p. 201).

Na década de 1930, Hull publicou artigos a respeito do condicionamento, afirmando ser possível explicar os comportamentos complexos de ordem superior com base nos prin­cípios básicos do condicionamento. A sua obra Principies of behavior (1943) apresentava o esboço de uma estrutura teórica completa, abrangendo todo comportamento. Logo Hull tornou-se o psicólogo mais frequentemente citado da área; na década de 1940, até 40% de todos artigos sobre psicologia experimental e 70% dos artigos sobre a aprendizagem e motivação publicados nas duas principais revistas de psicologia estadunidense citavam o traba­lho de Hull (Spence, 1952). Hull revisava constantemente o seu sistema, incorporando os resultados de sua prolongada pesquisa, e submetia suas proposições ao teste experimental. A forma final do trabalho foi publicada em 1952 na obra A behavior system.

O Espírito do Mecanicismo

Hull descrevia seu behaviorismo e sua visão da natureza humana empregando termos mecanicistas e considerava o comportamento humano automático e possível de ser redu­zido e explicado na linguagem da física. De acordo com Hull, os behavioristas deviam considerar seus sujeitos como máquinas, e ele apoiava a ideia de que um dia se construiria uma máquina para pensar e exibir outras funções cognitivas humanas. Em 1926, Hull afirmou: "Ocorreu-me várias vezes que o organismo humano é uma das máquinas mais extraordinárias - mas, ainda assim, uma máquina. E pensei mais de uma vez que, assim como ocorrem os processos de pensamento, se poderia construir uma máquina capaz de executar todas as funções essenciais que o corpo realiza" (cipud Amsel e Rashotte, 1984, p. 2-3). Nota-se, assim, que o espírito mecanicista do século XVII, representado pelas figuras mecânicas, pelos relógios e robôs vistos na Europa, incorporou-se perfeitamente no trabalho de Hull.

A Metodologia Objetiva e a Quantificação

O behaviorismo objetivo, reducionista e mecanicista de Hull proporciona uma clara visão de como era o seu método de estudo. Primeiro, tinha de ser objetivo, além de quantitati­vo, ou seja, com as leis fundamentais do comportamento expressas na linguagem precisa da matemática.

Em Principies of behavior (1943), Hull explicou como desenvolver uma psicologia mate­maticamente definida. Evidentemente, qualquer adepto do sistema de Hull tinha de ser disciplinado, comprometido e paciente.

O progresso consistirá no extenso trabalho de registrar, uma por uma, das centenas de equações; na determinação experimental, uma por uma, das centenas de constantes empíricas contidas nas equações; no planejamento das unidades utilizáveis na prática com as quais medir as quantidades expressas pelas equações; na definição objetiva de centenas de símbolos que aparecem nas equações; na rigorosa dedução, um por um, dos milhares de teoremas e corolários decorrentes das primeiras definições e equações; na meticulosa realização de milhares de experimentos quantitativos críticos. (Hull, 1943, p. 400-401)

Hull seguia quatro métodos que considerava úteis na pesquisa científica. Três já eram amplamente empregados: a observação simples, a observação sistemática controlada e o teste experimental das hipóteses. O quarto método proposto por Hull foi o método hipotetico-dedutivo, que utiliza a dedução baseada em um conjunto de formulações deter­minadas a priori. Consiste em estabelecer postulados a partir dos quais são deduzidas as conclusões testáveis por meio da experimentação. Essas conclusões são submetidas a um teste experimental: se não forem comprovadas com evidências experimentais, devem ser revistas e, se comprovadas e verificadas, podem ser incorporadas ao corpo da ciência. Hull acreditava que, se a psicologia desejasse se tornar verdadeiramente objetiva assim como as demais ciências naturais, princípio básico do programa behaviorista, o único método apropriado seria o hipotético-dedutivo.

Os Impulsos

Para Hull, a base da motivação era um estado de necessidade corporal provocada por um desvio nas condições biológicas ideais. Em vez de introduzir o conceito de necessidade biológica diretamente no seu sistema, Hull postulou a variável interveniente do "impulso", termo já empregado na psicologia. O impulso era definido como o estímulo provocado por um estado de necessidade do organismo que impulsiona ou ativa um comportamento. Na opinião de Hull, a redução ou a satisfação de um impulso era a única base para o reforço. A força do impulso pode ser determinada na prática pelo tempo de privação ou pela inten­sidade, força e gasto de energia do comportamento resultante. Ele considerava o tempo de privação uma medida imperfeita e colocava maior ênfase na intensidade da resposta. Hull postulou dois tipos de impulso. O primário, associado aos estados de necessidades biológicas inatas e vitais para a sobrevivência do organismo, entre as quais o alimento, a água, o ar, a temperatura, a defecação, a micção, o sono, a atividade, a relação sexual e o alívio da dor. Reconhecia, no entanto, outras forças, que não os impulsos primários, capazes de moti­var o organismo. Propôs, assim, os impulsos adquiridos ou secundários, relacionados com os estímulos situacionais ou ambientais associados à redução dos impulsos primários e que também podem se transformar em impulsos. Desse modo, o estímulo anteriormente neutro pode adquirir características de um impulso por ser capaz de provocar respostas semelhantes às instigadas pelo impulso primário ou pelo estado de necessidade original.

Um exemplo simples é queimar-se ao tocar um fogão quente. A dor da queimadura, provocada por um dano físico real nos tecidos do corpo, produz um impulso primário, ou seja, o desejo de alívio da dor. Outro estímulo ambiental associado com esse impulso pri­mário - como a visualização de um fogão - pode, no futuro, provocar o rápido afastamento da mão diante da percepção visual do estímulo. Desse modo, a visão do fogão torna-se um estímulo para o impulso adquirido de medo. Esse impulso adquirido ou secundário motivador do comportamento é resultante de um impulso primário.

A Aprendizagem

A teoria da aprendizagem de Hull concentra-se no princípio do reforço, o qual é essen­cialmente a lei do efeito de Thorndike. A lei do reforço primário de Hull estabelece que quando a relação estímulo-resposta é seguida de uma redução na necessidade, aumenta a probabilidade de ocorrência da mesma resposta nas apresentações subsequentes do mesmo estímulo. A recompensa e o reforço não são definidos em termos da noção de satisfação de Thorndike, mas em termos de redução da necessidade primária. Assim, o reforço primário (a redução de um impulso primário) é fundamental para a teoria de aprendizagem de Hull.

Uma vez que seu sistema contém o impulso adquirido ou secundário, ele também trata do reforço secundário. Se a intensidade do estímulo é reduzida em virtude de um impulso secundário, este atuará como reforço secundário.

Ocorre que qualquer estímulo coerentemente associado com uma situação de reforço adquire, mediante essa associação, o poder de provocar a inibição condicionada, ou seja, a redução na intensidade do estímulo e, assim, de si mesmo produzir o reforço resultante. Como essa força indireta de reforço é adquirida por meio de aprendizagem, denomina-se reforço secundário. (Hull, 1951, p. 27-28).

As relações estímulo-resposta são fortalecidas pelo número de reforços ocorridos. Hull chamava a força da conexão estímulo-resposta de força do hábito, e afirmava ser ela uma função do reforço referente à persistência do condicionamento.

A aprendizagem não ocorre na ausência do reforço necessário para provocar a redução do impulso. Essa ênfase no reforço caracteriza o sistema de Hull como a teoria da neces­sidade de redução, em oposição à teoria cognitiva de Tolman.

Comentários

Sendo um importante expoente do neobehaviorismo, Hull também era alvo dos mesmos ataques direcionados a Watson e a outros behavioristas. Os psicólogos contrários a qual­quer abordagem behaviorista da psicologia colocavam Hull no campo dos inimigos.

Uma falha observada no seu sistema era a falta de generalização. Na tentativa de defi­nir com precisão as variáveis, em termos quantitativos, Hull operava necessariamente em um plano limitado. Frequentemente formulava postulados a partir de resultados obtidos em um único experimento. Os opositores argumentavam ser imprudente a generalização a todo comportamento com base em demonstrações experimentais específicas, tais como “o intervalo mais favorável para o condicionamento do piscar dos olhos (Postulado 2)" ou "o peso em gramas necessário de comida para condicionar um rato (Postulado 7)" (apud Hilgard, 1956, p. 181). Embora a quantificação fosse louvável, a abordagem extrema de Hull reduzia a faixa de aplicabilidade das suas descobertas de pesquisa.

Mesmo assim, a influência de Hull na psicologia foi substancial. A quantidade abso­luta de pesquisas inspiradas por seu trabalho assim como o grande número de psicólogos influenciados por ele, garantem a sua importância na história da psicologia. Hull defen­deu, ampliou e explicou a abordagem behaviorista objetiva da psicologia como não o fez nenhum psicólogo. Um historiador declarou: "Não é comum o surgimento de um verda­deiro gênio teórico em qualquer área; dentre os poucos da psicologia assim considerados, Hull certamente se classificaria entre os principais" (Lowry, 1982, p. 211).

B. F. Skinner (1904-1990)

Durante décadas, B. F. Skinner foi o psicólogo mais influente do mundo. Quando morreu, em 1990, o editor da revista American Psychologist elogiou-o, dizendo que ele foi "um dos gigantes da nossa disciplina", alguém que "marcou a psicologia para sempre" (Fowler, 1990, p. 1.203). O obituário de Skinner, na publicação Journal of the History of the Behavioral Sciences, descreveu-o como a "principal figura da ciência do comportamento deste século" (Keller, 1991, p. 3).

Começando na década de 1950, Skinner foi a grande personificação da psicologia behaviorista estadunidense. Ele atraía enorme grupo de seguidores leais e entusiasmados. Desenvolveu um programa para o controle comportamental da sociedade, promoveu técnicas de modificação de comportamento e inventou um berço automático para emba­lar bebês. O seu romance, Walden two, ainda se mantém com grande popularidade após décadas de publicação. O livro Beyond freedom and dignity, lançado em 1971, foi um dos mais vendidos no país, proporcionando a Skinner a oportunidade de participar de muitos programas de entrevista na televisão. Tornou-se uma celebridade, tendo seu nome reco­nhecido tanto pelo público em geral como por outros psicólogos. Em 1972, o editorial da revista Psychology Today afirmou que "Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, um professor de psicologia alcançou a celebridade comparável à dos astros de cinema e da televisão" (,apud Rutherford, 2000, p. 372).

A Biografia de Skinner

Skinner, nascido em Susquehanna, na Pensilvânia, cresceu em ambiente estável e de muito afeto. Frequentou a mesma pequena escola de ensino médio em que se formaram os seus pais; na cerimônia de formatura, havia apenas ele e mais sete outros colegas. Quando criança, gostava de construir vagões, jangadas, aeromodelos, chegando a montar uma espécie de canhão a vapor para atirar pedaços de cenoura e batata sobre o telhado. Passou anos tentando desenvolver uma máquina de movimento perpétuo. Gostava de ler sobre os animais e mantinha diversas espécies de tartarugas, cobras, lagartos, sapos e esquilos. Em uma feira local, viu alguns pombos realizando performances; e, anos mais tarde, treinou algumas dessas aves para realizar alguns truques.

O sistema de psicologia de Skinner reflete as próprias experiências de infância. De acordo com o seu ponto de vista, a vida é produto da história de reforços. Afirmava que sua vida foi predeterminada e organizada exatamente do modo que o seu sistema ditava como devia ser a vida de todo ser humano. Acreditava que as suas experiências estavam relacionadas exclusiva e diretamente aos estímulos do próprio ambiente.

Skinner matriculou-se na Hamilton College de Nova York, mas não se sentia feliz. Escreveu:

Nunca me adaptei à vida estudantil. Entrei para a fraternidade sem saber bem o que era. Não possuía habilidade nos esportes e sofria demais quando batia a minha canela durante um jogo de hóquei sobre o gelo ou quando no jogo de basquete usavam a minha cabeça como tabela para acertar na cesta. (...) Reclamava que a faculdade me exigia demais em requisitos inúteis (um deles era a oração diária na capela) e que ela quase não demonstra­va o interesse intelectual pela maioria dos alunos. (Skinner, 1967, p. 392)

Skinner preparava trotes que perturbavam a comunidade da faculdade e criticava abertamente os professores e a administração. Formou-se em Letras - Inglês, com distinção Phi Beta Kappa, e desejava tornar-se escritor. Em um seminário de redação de que participou no verão, o poeta Robert Frost elogiou seus poemas e contos. Por dois anos, depois de se formar, trabalhou escrevendo, mas chegou à conclusão de que não tinha nada a dizer. Deprimido pelo fiasco como escri­tor, pensou em consultar um psiquiatra. Considerava-se um fracasso, e a sua autoestima estava despedaçada. Além disso, estava desiludido no amor; mais ou menos meia dúzia de mulheres rejeitaram-no.

Leu sobre as experiências de condicionamento de Watson e Pavlov, os quais lhe des­pertaram um interesse mais científico que literário acerca da natureza humana. Em 1928, matriculou-se no curso de pós-graduação em psicologia na Harvard University, embora nunca houvesse frequentado qualquer curso da área. Obteve o Ph.D. em três anos, completou com bolsa de estudo o pós-doutorado e lecionou na University of Minnesota (1936-1945) e na Indiana University (1945-1947), retornando depois para Harvard.

O tópico da sua dissertação dá uma indicação da posição que adotaria por toda a car­reira. Propôs ser o reflexo simplesmente uma correlação entre um estímulo e uma resposta, nada mais. Destacava a utilidade do conceito de reflexo na descrição do comportamento e dava amplo crédito a Descartes.

O seu livro lançado em 1938, The behavior of organisms, descreve os pontos principais do seu sistema. A obra vendeu apenas 80 cópias em quatro anos, perfazendo um total de 500 cópias nos oito primeiros anos, e recebeu críticas muito negativas. Cinquenta anos depois, foi considerado "um dentre alguns livros que mudaram a face da psicologia moderna" (Thompson, 1988, p. 397). O que levou esse livro do fracasso inicial para o estrondoso sucesso foi a sua utilidade nas áreas aplicadas, como na psicologia educacio­nal e clínica. Essa ampla aplicação prática das ideias de Skinner era bastante adequada, já que ele estava profundamente interessado em resolver os problemas da vida real. Um trabalho posterior, Science and human behavior (1953), tornou-se o livro básico da psicolo­gia behaviorista de Skinner.

Skinner continuou produzindo até à morte, com 86 anos. No porão da sua casa, cons­truiu a própria "caixa de Skinner", um ambiente controlado para proporcionar reforço positivo. Dormia em um tanque de plástico amarelo suficientemente grande para colocar um colchão, algumas prateleiras de livros e um pequeno aparelho de televisão. Deitava-se às 10 horas, dormia três horas, trabalhava uma hora, dormia mais três horas e levanta-se às cinco da manhã para trabalhar mais três horas. Depois, seguia para o escritório para trabalhar mais e toda tarde aplicava-se um autorreforço ouvindo música.

Gostava de escrever e dizia que essa atividade proporcionava-lhe bastante reforço positivo. Com 78 anos, escreveu um trabalho intitulado “Intellectual self-management in old age ("Autogerenciamento intelectual na velhice"), descrevendo suas experiências como um estudo de caso (Skinner, 1983). Descreveu a necessidade de o cérebro trabalhar menos horas por dia, com períodos de descanso entre os esforços exaustivos, para lidar com a perda de memória e a redução da capacidade intelectual. Ficou feliz ao saber que fora citado na literatura psicológica mais vezes do que Sigmund Freud. Quando pergunta­do por um amigo se tinha atingido a meta como escritor, apenas comentou: "Pensei que conseguiria" (apud Bjork, 1993, p. 214).

Em 1989, Skinner foi diagnosticado com leucemia, tendo expectativa de dois meses de vida. Durante uma entrevista no rádio, descreveu como se sentia:

Não sou religioso, portanto não me preocupo com o que acontecerá comigo depois da morte. Quando soube da doença e que morreria em alguns meses, não senti nenhum tipo de emoção. Não entrei em pânico, nem senti medo ou ansiedade. (...) O único sentimento de comoção que realmente encheu os meus olhos de lágrimas eu tive quando pensei em como contaria à minha esposa e às minhas filhas. (...) A minha vida foi realmente muito boa. Seria muito tolo de minha parte queixar-me, de alguma forma, sobre essa situação. Então estou aproveitando esses últimos meses assim como fiz a minha vida inteira. (apud Catania, 1992, p. 1.527)

Oito dias antes de morrer, mesmo fraco, Skinner apresentou um trabalho na convenção da APA de 1990, em Boston. Atacou veementemente o crescimento da psicologia cogniti­va, que desafiava a sua forma de behaviorismo. Na tarde anterior à sua morte, trabalhava no seu último artigo, “Can psychology be a Science of mind?" ("A psicologia pode ser uma ciência da mente?") (Skinner, 1990), outra acusação contra o movimento cognitivo que ameaçava suplantar a sua visão de psicologia.

O Behaviorismo de Skinner

Em diversos aspectos, a posição de Skinner representa uma renovação do behaviorismo de Watson. Um historiador afirmou: "O espírito de Watson é indestrutível. Límpido e purificado, ele respira por meio dos trabalhos de B. F. Skinner" (MacLeod, 1959, p. 34). Embora Hull também fosse considerado um rigoroso behaviorista, há diferenças entre suas visões e as de Skinner. Enquanto Hull enfatizava a importância da teoria, Skinner defendia um sistema empírico sem estrutura teórica para a condução de uma pesquisa.

Skinner resumia sua visão da seguinte forma: "Nunca ataquei um problema construindo uma hipótese. Jamais deduzi teoremas, nem os submeti a verificação experimental. Até onde consigo enxergar, não tenho nenhum modelo preconcebido de comportamento e, certamente, nem fisiológico nem mentalista e, creio, nem conceitual" (Skinner, 1956, p. 227).

O behaviorismo de Skinner dedica-se ao estudo das respostas. Ele se preocupava em descrever e não em explicar o comportamento. A sua pesquisa tratava apenas do compor­tamento observável, e ele acreditava que a tarefa da investigação científica era estabelecer as relações funcionais entre as condições de estímulo controladas pelo pesquisador e as respostas subsequentes do organismo.

Skinner não se preocupava em especular sobre o que ocorria dentro do organismo. Seu programa não apresentava suposições a respeito das entidades internas, fossem as variá­veis intervenientes, os impulsos ou os processos fisiológicos. O que acontecia na relação entre estímulo e resposta não era o tipo de dado objetivo com o qual o behaviorista skinneriano lidava. Assim, o behaviorismo puramente descritivo de Skinner foi denominado adequadamente de abordagem do "organismo vazio". Nessa visão, o organismo humano seria controlado e operado pelas forças do ambiente, pelo mundo exterior, e não pelas forças internas. Skinner não duvidava da existência das condições mentais ou fisiológicas internas, apenas não aceitava a sua validade no estudo científico do comportamento. Um biógrafo reiterou que a posição de Skinner "não era uma negação dos eventos mentais, mas uma recusa em classificá-los como entidades explicativas" (Richelle, 1993, p. 10).

Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, Skinner não considerava necessá­rio usar grande quantidade de indivíduos nas experiências ou realizar comparações esta­tísticas entre as respostas médias dos grupos de pesquisados, o seu método consistia na investigação compreensiva de um único indivíduo.

Uma previsão do que o indivíduo médio realizará é, muitas vezes, de pouco ou nenhum valor ao lidar com um indivíduo em particular. (...) Uma ciência é válida ao lidar com um indivíduo somente se as leis forem referentes aos indivíduos. Uma ciência do com­portamento que considera apenas o comportamento coletivo não parece válida para compreender um caso particular. (Skinner, 1953, p. 19)

Em 1958, os behavioristas skinnerianos criaram a revista Journal of the Experimental Analysis of Behavior, principalmente como resposta às exigências para publicação, não mencionadas nas principais revistas de psicologia, a respeito da análise estatística e da dimensão da amostragem de indivíduos observados. A revista Journal of Applied Behavior Analysis foi lançada para promover a pesquisa sobre a modificação do comportamento, um produto aplicado da psicologia de Skinner.

No trecho a seguir da obra Science and human behavior, Skinner descreve como o tra­balho de Descartes e as figuras mecânicas da Europa do século XVII (veja no Capítulo 2) influenciaram a sua abordagem de psicologia. Esse é um bom exemplo do uso da história, ou seja, de um psicólogo do século XX que se baseou em um trabalho realizado 300 anos antes. O texto também demonstra a evolução contínua das máquinas, tornando-se cada vez mais próximas da vida real.


Texto Original

Trecho Extraído de Science and Human Behavior (1953), de B. F. Skinner

O comportamento é uma característica primária das espécies vivas. Quase o identificamos com a própria vida. Qualquer objeto que se mova é praticamente chamado de ser vivo, princi­palmente quando o movimento é dotado de direção ou atua mudando o ambiente. O movi­mento acrescenta verossimilhança a qualquer modelo de organismo. A marionete adquire vida quando é movida, e os ídolos que se requebram ou exalam fumaça de cigarro são alvos de grande admiração. Robôs e criaturas mecânicas nos divertem apenas por se moverem. E há um significado na etimologia do termo desenho animado.

As máquinas parecem ter vida apenas porque estão em movimento. O fascínio da pá a vapor para neve é lendário. As máquinas menos conhecidas talvez possam realmente ser temi­das. Hoje, percebemos que somente as pessoas mais simples confundem-nas com as criaturas vivas; no entanto, em algum momento, todos as desconheciam. Um dia, quando [os poetas do século XIX William] Wordsworth e [Samuel Taylor] Coleridge passaram pela locomotiva a vapor, Wordsworth observou que era praticamente impossível apagar a impressão de vida e vontade que ela transmitia. "Sim", afirmou, "é um gigante dotado de pensamento".

Um brinquedo mecânico que imitava o comportamento humano conduziu à teoria da chamada ação reflexa. Na primeira parte do século XVII, certas figuras movidas por força hidráulica foram instaladas nos jardins públicos e particulares como objetos de diversão. Uma jovem passeando pelo jardim pisava sem querer em uma pequena plataforma escondida. Assim, uma válvula se abria, a água fluía para um pistão, e uma figura assustadora saltava por entre os galhos das árvores, assustando-a. René Descartes sabia como essas figuras funciona­vam e também o quanto elas se pareciam com as criaturas vivas. Pensava na possibilidade de aplicar a explicação do sistema hidráulico das figuras mecânicas também nas criaturas vivas. O músculo que se dilata quando move um membro talvez seja inflado por um fluido vindo pelos nervos cerebrais. Os nervos que se estendem da superfície do corpo até o cérebro talvez sejam os fios que abrem as válvulas.

Descartes não afirmava que o organismo humano sempre operava dessa forma. Aceitava essa explicação no caso dos animais e reservava uma esfera de ação para a "alma racional", talvez por causa da pressão religiosa. Todavia, não levou muito tempo para que um passo adiante produzisse a doutrina totalmente amadurecida do "homem como máquina". A dou­trina não deveu sua popularidade à plausibilidade - não havia provas confiáveis para a teoria de Descartes -, mas às chocantes implicações teóricas e metafísicas.

Desde aquela época, dois fatos se destacam: as máquinas parecem cada vez mais dotadas de vida, e os organismos vivos estão cada vez mais parecidos com as máquinas. As máquinas contem­porâneas não são apenas mais complexas: elas são propositadamente projetadas para operarem de forma a imitar o comportamento humano. As maquinações "quase humanas" fazem parte da experiência cotidiana. As portas nos veem chegando e se abrem para nos receber. Os elevadores memorizam os comandos e param no andar correto. As mãos mecânicas retiram os itens defei­tuosos da linha de produção. Outras escrevem mensagens até certo grau legíveis. As calculadoras mecânicas ou elétricas resolvem as equações mais difíceis ou as que tomam muito tempo dos matemáticos. O homem criou, assim, a máquina à sua imagem e semelhança —consequentemente, o organismo vivo perdeu uma parte da sua exclusividade. Ficamos menos espantados com as máquinas do que nossos ancestrais e menos propensos a dotar a máquina com autonomia de pensamento. Ao mesmo tempo, descobrimos mais a respeito do funcionamento do organismo vivo e estamos mais aptos a enxergar nele propriedades semelhantes às das máquinas


O Condicionamento Operante

Várias gerações de estudantes de psicologia estudaram os experimentos de Skinner sobre condicionamento operante e como diferem do comportamento respondente investigado por Pavlov. Na situação de condicionamento pavloviano, um estímulo conhecido é pareado com outro estímulo sob condições de reforço. A resposta comportamental é eliciada por um estímulo observável e Skinner chamou-a de comportamento respondente.

O comportamento operante ocorre sem qualquer estímulo antecedente externo observá­vel. A resposta do organismo parece ser espontânea, ou seja, não relacionada com qualquer estímulo observável conhecido. Isso não significa que não haja um estímulo que elicite a resposta, mas que ele não é detectado quando ocorre a resposta. No entanto, na visão do observador, não existe estímulo porque ele não o aplicou e não consegue vê-lo.

Outra diferença entre o comportamento respondente e o operante é que este opera no ambiente do organismo, enquanto o outro, não. O cão treinado do laboratório de Pavlov não fazia outra coisa senão reagir (nesse caso, salivar) quando o pesquisador apre­sentava-lhe o estímulo (a comida). O cão não era capaz de atuar por si só para assegurar o estímulo. No entanto, o comportamento operante do rato na caixa de Skinner é ins­trumental em assegurar o estímulo (a comida). Quando o rato pressiona a barra, recebe comida, e somente a recebe se pressionar a barra, portanto ele opera sobre o ambiente.

Skinner acreditava no comportamento operante como o melhor representante da situa­ção típica de aprendizagem. Na maioria das vezes, o comportamento é do tipo operante, por isso, a melhor abordagem científica para seu estudo são os processos de condiciona­mento e extinção.
A demonstração da clássica experiência da caixa de Skinner envolvia o ato de pressio­nar a barra, que fora construída de modo que controlasse as variáveis externas. Colocava-se um rato privado de comida dentro da caixa, ficando livre para explorar o ambiente. No curso dessa exploração, o rato pressionava uma alavanca ou uma barra, ativando um meca­nismo que liberava uma bolinha de ração em uma bandeja. Depois de conseguir algumas bolinhas (os reforços), o condicionamento geralmente se estabelecia com rapidez. Observe que o comportamento do rato (pressionando a alavanca) atuou sobre o ambiente e assim serviu como instrumento para a obtenção do alimento. A variável dependente é simples e direta: a taxa de respostas.

Com base nessa experiência básica, Skinner derivou sua lei da aquisição, que afirma que a força de um comportamento operante aumenta quando ele é seguido pela apresenta­ção de um estímulo reforçador. Embora a prática seja importante para se estabelecer uma alta taxa de pressão à barra, a variável-chave é o reforço. A prática em si não aumenta a taxa de respostas; ela apenas proporciona a oportunidade de ocorrência do reforço adicional.

A lei da aquisição de Skinner é diferente das visões de Thorndike e Hull sobre a aprendizagem. Skinner não lidava com as consequências do reforço, como as sensações de prazer/dor ou satisfação/insatisfação, como fazia Thorndike, nem tentava interpretar o reforço com base na redução dos impulsos, como Hull. Enquanto os sistemas de Thorndike e Hull eram explicativos, o de Skinner era descritivo.

Esquemas de Reforço

A pesquisa inicial com o rato pressionando a barra da caixa de Skinner demonstrou o papel do reforço no comportamento operante. O comportamento do rato era reforçado cada vez que ele pressionava a barra. Em outras palavras, o rato recebia alimento sempre que executava a resposta correta. No mundo real, no entanto, o reforço nem sempre é assim consistente ou contínuo, muito embora a aprendizagem ocorra e o comportamento persista, mesmo quando o reforço seja intermitente. Skinner afirmou:

Nem sempre encontramos uma boa camada de gelo ou uma boa neve quando vamos pati­nar ou esquiar. (...) Nem sempre temos uma ótima refeição nos restaurantes, porque os cozinheiros não são muito previsíveis. Nem sempre que telefonamos a um amigo consegui­mos falar com ele, porque nem sempre ele está em casa. (...) Os reforços característicos do trabalho e do estudo são quase sempre intermitentes porque não é viável controlar o comportamento reforçando toda resposta. (Skinner, 1953, p. 99)

Pense na sua experiência. Mesmo que você estude sem parar, não conseguirá obter a nota máxima em todas as provas. No emprego, mesmo que trabalhe com a máxima eficiência, nem sempre você recebe elogios ou aumentos salariais. Assim, Skinner dese­java saber de que forma o reforço variável influenciava o comportamento. Será que um esquema de reforço ou um determinado padrão é melhor que outro para determinar as respostas do organismo?

A motivação para a realização da pesquisa não surgiu da curiosidade intelectual mas da conveniência, o que mostra que a ciência às vezes funciona diferentemente da imagem idealizada descrita em muitos livros. Em um sábado à tarde, Skinner percebeu que as bolinhas de ração do rato estavam acabando. Naquela época, ou seja, na década de 1930, a ração animal não era adquirida pronta nas lojas de animais ou diretamente dos fabricantes. O pesquisador (ou o aluno de pós-graduação) tinha de prepará-las manual­mente, um processo trabalhoso que consumia muito tempo. Em vez de passar o fim de semana preparando as bolinhas, Skinner perguntou-se o que aconteceria se reforçasse os ratos apenas uma vez a cada minuto, independentemente do número de respostas que apresentassem. Desse modo, gastaria muito menos ração naquele fim de semana. Elabo­rou, assim, uma série de experiências para testar diferentes taxas e intervalos de reforço (Ferster e Skinner, 1957; Skinner, 1969).

Em uma série de estudos, comparou as taxas de resposta dos animais que recebiam um reforço por resposta sendo apresentado após um intervalo específico. A segunda condição era um programa de reforço com intervalo fixo. O novo reforço era dado uma vez a cada minuto ou uma vez a cada quatro minutos. O aspecto importante era a apresentação do reforço ao animal depois de um período fixo. Um emprego com sistema de pagamento semanal ou mensal proporciona o reforço em um intervalo fixo. A remuneração dos fun­cionários não é baseada no número de peças produzidas (o número de respostas), mas nos dias trabalhados. A pesquisa de Skinner demonstrou que, quanto menor o intervalo entre os reforços, mais rápida a resposta do animal. Quando o intervalo aumentava, a taxa de respostas diminuía.

A frequência dos reforços também contribui para a extinção de uma resposta. Elimi­na-se um comportamento com mais rapidez quando o reforço é contínuo e interrompido de repente, do que quando é intermitente. Alguns pombos apresentaram respostas até 10 mil vezes, mesmo sem reforço, quando foram originalmente condicionados com reforços intermitentes.

Em um esquema de razão fixa, o reforço não é apresentado depois de certo intervalo, mas depois de um número predeterminado de respostas. O comportamento do animal é que determina a frequência com que receberá o reforço. Talvez seja necessário respon­der 10 ou 20 vezes depois do reforço inicial antes de receber outro. Os animais em um esquema de razão fixa respondem com muito mais rapidez que os de intervalo fixo. Responder rapidamente em um esquema de intervalo fixo não proporciona nenhum reforço adicional; nesse esquema, mesmo que o animal pressione a barra 5 ou 50 vezes, receberá o reforço somente depois de passado o intervalo estabelecido. A alta taxa de resposta em um esquema de razão fixa funciona com ratos, pombos e seres humanos. Em um progra­ma salarial de razão fixa aplicado no ambiente de trabalho, o pagamento ou a comissão do empregado depende do número de itens produzidos ou vendidos. Esse esquema de reforço é válido somente se a razão não for elevada demais, ou seja, se foi requerida uma carga de trabalho exequível para se receber uma unidade de pagamento, e se o reforço específico recompensar o esforço.

Aproximação Sucessiva: a Formação do Comportamento

No experimento original de Skinner do condicionamento operante, esse (apertar uma alavanca) era um comportamento simples, esperado de um rato de laboratório, que po­deria possivelmente exibir ao explorar seu ambiente. Assim, a possibilidade de que tal comportamento ocorrerá é grande, supondo-se que o experimentador tenha paciência suficiente. Entretanto, é óbvio que os animais e humanos demonstrem comportamentos operantes muito mais complexos com pequena probabilidade de ocorrência no curso normal dos eventos. Lembre-se da sequência complicada de comportamentos exibida por Priscilla, o Porco Metálico, ou os surpreendentes feitos da Ave Inteligente que estavam sendo exibidos no Zoológico do QI. Como esses comportamentos complexos são aprendi­dos? Como pode um treinador ou um experimentador ou um pai reforçar e condicionar um animal ou uma criança a desempenhar comportamentos que provavelmente não ocorrem espontaneamente?

Skinner respondeu a essas perguntas com o método de aproximação sucessiva, ou modelagem (Skinner, 1953). Ele treinou uma pomba em um período muito curto a bicar um determinado lugar na sua gaiola. A probabilidade de que a pomba bicasse aquele lu­gar preciso era baixa. Primeiro a pomba foi reforçada com comida quando simplesmente se virava para a direção do lugar designado. Em seguida, o reforço foi retirado até que a pomba fizesse qualquer movimento, mesmo mínimo, em direção àquele local. Depois, o reforço era dado somente quando a pomba se aproximasse de lá. E, finalmente, reforço era dado somente quando seu bico tocasse o local. Embora isso tudo pareça tomar bastante tempo, Skinner condicionou pombos em menos de três minutos.

O procedimento experimental em si explica o termo "aproximação sucessiva". O organismo é reforçado à medida que seu comportamento ocorra em fases sucessivas ou consecutivas para se aproximar do comportamento final desejado. Skinner propôs a ideia de que é assim que as crianças aprendem o complexo comportamento da fala. Crianças pequenas espontaneamente emitem sons sem sentido, o que é reforçado pelos pais com sorrisos, risadas e conversas. Depois de um tempo os pais recompensam esses balbucios infantis de modos diferentes, oferecendo recompensas mais fortes para aqueles sons que se aproximam de palavras. À medida que o processo continua, o reforço paterno torna-se mais restrito, dado somente quando usado e pronunciado adequadamente. Assim, o com­ portamento complexo de se adquirir habilidades de linguagem é moldado ao se oferecer reforço diferenciado por fases.

Os Aparelhos de Condicionamento Operante de Skinner

Os aparelhos condicionantes de Skinner trouxeram-lhe fama entre os psicólogos, mas foi o "berço automático", aparelho para automatizar as tarefas de cuidar dos bebês, que lhe rendeu a notoriedade pública (Benjamin e Nielsen-Gammon, 1999). Quando Skinner e a esposa resolveram ter um segundo filho, ela disse que os dois primeiros anos do bebê requeriam muito trabalho; assim, Skinner inventou um ambiente mecanizado para ali­viar as tarefas rotineiras dos pais. Embora fosse comercialmente, o berço automático não obteve êxito. A filha de Skinner, criada nesse berço, aparentemente não apresentou efeitos negativos da experiência.

Skinner descreveu o aparelho pela primeira vez na revista Ladies Home Journal em 1945 e, mais tarde, na autobiografia. Era um espaço para viver do tamanho de um berço ao qual chamamos de "bebê-conforto". As paredes eram à prova de som e havia uma grande janela pintada. O ar entrava por filtros instalados na base e, depois de aquecido e umidificado, circulava por todos os lados e todas as bordas de uma lona bem esticada que servia de colchão. Uma espécie de tira de lençol com cerca de nove metros de comprimento passava sobre a lona, e uma parte limpa sua podia ser encaixada no lugar em alguns segundos. (Skinner, 1979, p. 275)

Outro equipamento apresentado por Skinner foi a máquina de ensinar, inventada na década de 1920 por Sidney Pressey. Infelizmente para ele, o aparelho era moderno demais para a sua época, e não houve interesse em continuar a sua comercialização (Pressey, 19671. Talvez as forças contextuais tenham sido responsáveis tanto pela falta de interesse, na épo­ca, como pelo ressurgimento entusiástico do mecanismo, mais ou menos 30 anos depois (Benjamin, 1988). Pressey introduziu a máquina, prometendo que ela ensinaria os alunos em um ritmo mais rápido, exigindo, assim, menos professores nas salas de aula. Na época, no entanto, havia excesso de professores e não existia pressão pública para a melhoria do processo de aprendizagem. Na década de 1950, quando Skinner promoveu um equipamento semelhante, havia falta de professores, excesso de estudantes e pressão pública para a melho­ria da educação, para que os Estados Unidos pudessem competir com a União Soviética na corrida espacial. Skinner resumiu o seu trabalho nessa área no livro The technology of teaching (1968). As máquinas de ensinar foram amplamente empregadas nas décadas de 1950 e 1960, até serem substituídas pelos métodos de ensino por computador.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Skinner, juntamente com as irmãs Breland, de­senvolveu um sistema de orientação para guiar as bombas lançadas dos aviões de guerra sobre alvos específicos em terra. Na ponta dos mísseis, ficavam pombos condicionados a dar bicadas ao avistarem o alvo. As bicadas afetavam o ângulo das alhetas dos mísseis, permitindo, assim, mirar corretamente o alvo. No entanto, o exército estadunidense pareceu não se impressionar quando abriram as alhetas dos mísseis e viram três pombos ao invés do sofisticado instrumento eletrônico que esperavam. Eles recusaram incorporar pombos ao arsenal de artilharia (Skinner, 1960).

Nas décadas de 1960 e 1970, Keller e Marian Breland trabalharam para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Elas 

condicionaram arenques e gaivotas a pesquisarem áreas a uma distância de 360 graus sobre lagos e oceanos, ensinaram pombos a voar ao longo de uma estrada para encontrar atiradores e condicionaram corvos a desempenharem tarefas complexas de longa distância, como fotografar, segurando pequenas câmeras nos seus bicos. Era impressionante que embora tivessem a chance de escapar do cativeiro, esses animais constantemente voltavam depois de desempenharem suas tarefas. (Gillaspy e Bihm, 2002, p. 293)

Walden Two - uma Sociedade do Futuro

Skinner planejou minuciosamente uma tecnologia do comportamento, na tentativa de aplicar as descobertas feitas no laboratório à sociedade. Enquanto Watson falava, em geral sobre a construção de uma base para uma vida mais saudável por meio do condicionamento, Skinner descrevia em detalhes o funcionamento dessa sociedade. No seu romance, Walden two (1948), descreve a vida de uma comunidade rural de mil habitantes, cujo comporta­mento é controlado por reforços positivos. O livro resultou da crise pessoal de meia-idade de Skinner, depressão que sofrera aos 41 anos. A fim de sair da crise, retomou a sua iden­tidade pós-universitária de escritor, expressando os conflitos e desesperos por meio da personagem principal da história, T. E. Frazier. Skinner afirmou: "Grande parte da vida em Walden two retratava a minha vida daquela época. Deixei Frazier dizer coisas que eu mesmo ainda não estava preparado para contar a ninguém" (1979, p. 297-298).

Skinner retratou no romance uma sociedade com base nas suposições a respeito da semelhança entre o homem e a máquina. Essa ideia reflete a linha de pensamento traçada desde Galileu e Newton, passando pelos empiristas britânicos até chegar a Watson e Skin­ner. A visão da ciência natural determinista, analítica e mecanicista de Skinner, reforçada pelos resultados de seus experimentos sobre condicionamento, convenceu vários psicólogos behavioristas de que o comportamento humano pode ser guiado, modificado e modelado com o conhecimento das condições ambientais e a aplicação do reforço positivo.

Modificação de Comportamento

A sociedade de Skinner baseada no reforço positivo existe apenas na ficção. No entanto, o controle ou a modificação do comportamento humano, de forma individual ou em pequenos grupos, são amplamente aceitos. A modificação de comportamento mediante - reforço positivo é aplicada clinicamente com frequência em hospitais de saúde mental, fabricas, prisões e escolas para alterar os comportamentos indesejáveis, transformando-os em mais aceitáveis. A modificação de comportamento funciona com as pessoas da mesma forma que o condicionamento operante o faz para alterar o comportamento de ratos e pombos, ou seja, reforçando o comportamento desejado e não reforçando o indesejado.

Pense em uma criança que vive fazendo cenas para obter comida ou chamar a atenção. Quando os pais acabam cedendo, estão reforçando o comportamento inadequado. Na situação de modificação de comportamento, chutes ou gritos jamais devem ser reforçados, somente os comportamentos aceitáveis socialmente o devem ser. Depois de algum tempo, o comportamento da criança acaba mudando, porque os ataques de teimosia não surtem mais efeito na obtenção de recompensas, enquanto o comportamento adequado é recompensado.

O condicionamento operante e o reforço vêm sendo aplicados em ambientes de trabalho, em que os programas de modificação de comportamento visam reduzir as faltas, melhorar o desempenho do trabalho e as práticas de segurança, além de aperfeiçoamento de habilidades na função. A modificação de comportamento também serve para alterar o comportamento dos pacientes em hospitais de saúde mental. Pode-se induzir a modificação para um comportamento positivo, recompensando o paciente com fichas que podem se trocadas por mercadorias ou privilégios, e não reforçando o comportamento negativo ou agressivo. Ao contrário das técnicas clínicas tradicionais, o psicólogo behaviorista, nessa situação, não se preocupa em saber o que se passa na mente do paciente, assim como o experimentador não se importa com as atividades mentais do rato na caixa de Skinner. O enfoque concentra-se exclusivamente no comportamento aberto e no reforço positivo.

As pesquisas têm mostrado que os programas de modificação de comportamento normalmente têm êxito somente dentro das organizações ou instituições em que são apli­cados. Os efeitos raramente são transferidos para situações externas porque o programa de reforço teria de ser continuado, mesmo de modo intermitente, para que as mudança desejadas persistissem. No caso de pacientes, por exemplo, isso pode ser feito em casa com acompanhantes treinados para reforçar o comportamento desejável com sorrisos, elogios ou outros sinais de afeto e aprovação.
A punição não faz parte do programa de modificação de comportamento. De acordo com Skinner, as pessoas não devem ser punidas por não se comportarem da forma dese­jada. Ao contrário, devem ser reforçadas ou recompensadas quando mudarem o compor­tamento na direção positiva. A posição de Skinner de que o reforço positivo é mais eficaz do que a punição para alterar o comportamento é comprovada por várias pesquisas com animais e seres humanos.

As Críticas ao Behaviorismo de Skinner

As críticas ao behaviorismo de Skinner tinham como alvo o seu extremo positivismo e a oposição à teoria, a qual seus oponentes alegavam ser impossível eliminar completamen­te. O planejamento prévio dos detalhes de um experimento é uma evidência da teoriza­ção, mesmo sendo uma teoria simples. Além disso, a aplicação dos princípios básicos de condicionamento como quadro de referência para a sua pesquisa também constitui um grau de teorização.

Skinner emitia afirmações ousadas a respeito das questões econômicas, sociais, polí­ticas e religiosas derivadas do seu sistema. Em 1986, escreveu um artigo com título bem abrangente "What is wrong with life in the western world?" (“O que há de errado com a vida no mundo ocidental?"). Afirmava que o "comportamento humano ocidental se enfraquecera, mas pode ser fortalecido com a aplicação dos princípios derivados da análi­se experimental do comportamento" (Skinner, 1986, p. 568). Essa disposição de extrapo­lar os dados, especialmente para propor soluções aos problemas humanos complexos, é inconsistente com a posição antiteórica e mostra que Skinner rompeu os limites dos dados observáveis ao apresentar seu esquema de reestruturação da sociedade.

A afirmação de Skinner de que todo comportamento é aprendido foi rebatida pelo trabalho de treinamento animal dos Brelands. Eles constataram que o porco, a galinha, o hamster, o boto, a baleia, a vaca e outros animais demonstraram uma propensão à 'transferência instintiva", ou seja, que tendiam a substituir o comportamento instintivo pelo comportamento reforçado, mesmo que o comportamento instintivo interferisse na
obtenção de comida.

Utilizando a comida como reforço, o porco e o guaxinim rapidamente se condiciona­vam a apanhar uma moeda, carregá-la por uma certa distância e colocá-la em um banco de brinquedo. Depois de certo tempo, no entanto, os animais começavam a apresentar comportamentos indesejados.

O porco parava pelo caminho, enterrava a moeda na areia e a retirava com o focinho; o guaxinim ficava bastante tempo mexendo na moeda e fazendo movimentos como se estivesse se lavando. No começo, pareceu interessante, mas acabava consumindo tempo demais e fazia o show parecer cheio de falhas para o espectador. Comercialmente, foi desastroso. (Richelle, 1993, p. 68)

O que estava acontecendo era uma transferência instintiva. O animal revertia o com­portamento inato que tinha precedência sobre o comportamento aprendido, mesmo que atrapalhasse na obtenção do alimento. Nesse caso, o reforço evidentemente não era tão eficaz quanto afirmava Skinner.

As visões de Skinner sobre o comportamento verbal e a explicação sobre como a criança aprendia a falar também foram contestadas. Os críticos insistiam em afirmar que alguns comportamentos seriam inatos. Os bebês não aprendem a língua, palavra por palavra, porque recebem reforço por seu uso ou sua pronúncia corretos. Ao contrário, eles dominam as regras gramaticais necessárias para produzir frases. O potencial para cons­truir essas regras, de acordo com essa argumentação, é inato e não adquirido (Chomsky, 1959, 1972).

As Contribuições do Behaviorismo de Skinner

Apesar dessas críticas, Skinner foi o campeão inconteste da psicologia behaviorista entre as décadas de 1950 e 1980. Durante esse período, a psicologia estadunidense foi moldada muito mais pelo seu trabalho do que pelas ideias de qualquer outro psicólogo. Em 1958, a APA outorgou a Skinner o Distinguished Scientific Contribution Award [Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica], observando que "poucos psicólogos estadunidenses exerceram tamanho impacto no desenvolvimento da psicologia e nos jovens promissores psicólogos".

Em 1968, Skinner recebeu a National Medal of Science [Medalha Nacional da Ciên­cia] , a mais alta honraria concedida pelo governo estadunidense, por causa das contribuições à ciência. A American Psychological Foundation [Fundação Americana de Psicologia] concedeu a Skinner o Gold Medal Award [Prêmio da Medalha de Ouro], e ele foi capa da revista Time. Em 1990, foi homenageado com a citação presidencial da APA por uma vida de contribuições à psicologia.

O objetivo geral de Skinner era a melhoria da vida humana e da sociedade. Apesar da natureza mecanicista do seu sistema, ele era humanista, qualidade expressa nos seus esforços para modificar o comportamento nos ambientes do mundo real - como nos lares, escolas, empresas e instituições. Esperava que a sua tecnologia do comportamento ajudasse a aliviar o sofrimento humano e sentia-se muito frustrado ao ver que as suas ideias, embo­ra populares e influentes, não eram aplicadas de forma mais sábia e mais ampla.

Embora o tipo de behaviorismo de Skinner continue a ser aplicado em laboratórios, clínicas, empresas e outros ambientes do mundo real, foi contestado pelo trabalho do neo-neobehavioristas, incluindo Albert Bandura e Julian Rotter, entre outros, que adotam uma abordagem mais sociobehaviorista.

Behaviorismo Social: o Desafio Cognitivo

Bandura, Rotter e outros seguidores da abordagem sociobehaviorista eram, em princípio, behavioristas, mas adotavam uma forma de behaviorismo bem distinta da de Skinner. Eles questionavam a sua total negação aos processos mentais ou cognitivos e propunham em seu lugar uma aprendizagem social ou uma abordagem sociobehaviorista, uma reflexão sobre um movimento cognitivo mais amplo na psicologia como um todo. As teorias de aprendizagem social marcam o terceiro estágio (o estágio neo-neobehaviorista) no desen­ volvimento da escola de pensamento behaviorista. A origem e o impacto do movimento cognitivo serão abordados integralmente no Capítulo 15. 

Albert Bandura (1925-)

Albert Bandura nasceu no Canadá, em uma cidade tão pequena que a escola secundária tiha somente 20 alunos e 2 professores. Seus pais eram imigrantes da Europa Oriental, com pouca educaçao formal, mas que a valorizaram muito para seu filho. Depois de terminar o colegial, Albert trabalhou na construção civil no território Yukon, tapando buracos em uma estrada do Alasca. "Vendo-se no meio de diversas personalidades curiosas, muitas das quais fugindo dos credores, de pensões e de funcionários da justiça, [Bandura] desenvolveu rapidamente uma profunda admiração pela psicopatologia da vida cotidiana, que parecia brotar da rigorosa tundra" (Distinguished Scientific Contribution Award, 1981, p 28)

Bandura se matriculou na University of British Columbia, em Vancouver, onde fez um curso de psicologia, mas só porque estava sendo oferecido em um horário conveniente e não porque tivesse qualquer interesse no assunto. No entanto, verificou que gostava da área e decidiu continuar nela. Obteve o diploma de Ph.D. pela University of Iowa em 1952 e daí para a frente teve uma carreira brilhante e altamente produtiva em Stanford University.

A Teoria Social Cognitiva

A teoria social cognitiva de Bandura é uma forma de behaviorismo menos radical que a de Skinner e reflete o espírito dos tempos, o impacto do renovado interesse da psicologia nos fatores cognitivos. Mesmo assim, a visão de Bandura ainda era behaviorista. Sua pes­quisa tmha como meta observar o comportamento dos indivíduos durante a interação não usava a introspecção nem enfatizava a importância da recompensa ou do reforço na aquisição ou modificação do comportamento.

Além de ser uma teoria behaviorista, o sistema de Bandura era cognitivo. Ele enfa­tizava a influência dos esquemas de reforço externo dos processos de pensamento, tais como crenças, expectativas e instrução. Para Bandura, respostas comportamentais não são disparadas automaticamente por um estímulo externo, como em uma máquina ou em um robô. Ao contrário, as reações aos estímulos são autoativadas, iniciadas pela pró­pria pessoa. Quando um reforço externo altera o comportamento, é porque a pessoa tem consciência da resposta que está sendo reforçada e antecipa a recepção do mesmo reforço ao repetir o comportamento da próxima vez em que a situação ocorrer.

Embora Bandura concordasse com Skinner a respeito da possibilidade de mudar o compor­tamento humano por meio do reforço, também sugeriu e demonstrou, na prática, a capacidade de as pessoas aprenderem quase todos os tipos de comportamento sem receberem diretamente qualquer reforço. Para ele, não é necessário receber sempre um reforço para se aprender algo. A aprendizagem também ocorre por meio do reforço vicário, ou seja, mediante a observação tanto do comportamento das outras pessoas como das suas consequências. 

A capacidade de aprender por meio de exemplos e de reforço vicário parte do prin­cípio de que somos capazes de antecipar e avaliar as consequências que observamos nas outras pessoas, mesmo não passando pela mesma experiência. É possível controlar o pró­prio comportamento, observando as consequências, ainda que não experimentadas, de determinado comportamento e fazendo uma opção consciente de agir ou não da mesma forma. Bandura acredita não existir uma ligação direta entre estímulo e resposta, ou entre comportamento e reforço, como afirmava Skinner. Para ele, há um mecanismo interposto entre o estímulo e a resposta, que nada mais é do que o processo cognitivo do indivíduo.

Desse modo, o processo cognitivo exerceu um papel importante na teoria social cog­nitiva de Bandura, diferenciando a sua visão da de Skinner. Na opinião de Bandura, não é o esquema de reforço em si que produz efeito na mudança do comportamento de uma pessoa, mas o que ela pensa desse esquema. A aprendizagem ocorre não pelo reforço dire­to, mas por meio de "modelos", observando o comportamento de outras pessoas e nele fundamentando os próprios padrões. Para Skinner, o controlador do reforço regula o com­portamento. Para Bandura, o controlador do modelo social regula o comportamento.

Bandura conduziu pesquisas completas sobre as características dos modelos que influenciam o comportamento humano. A tendência do indivíduo é modelar o próprio compor­tamento com base nas pessoas do mesmo sexo e idade, ou seja, nos nossos semelhantes que conseguiram resolver os problemas similares aos nossos. Há uma propensão também de se deixar impressionar por modelos de prestígio e status superiores ao nosso. O tipo de comportamento envolvido afeta a amplitude da imitação. A tendência é de imitar mais os comportamentos simples do que os extremamente complexos. A hostilidade e a agressividade tendem a ser muito imitadas, principalmente pelas crianças (Bandura, 1986). Assim, o que se vê na vida real ou na mídia, muitas vezes, determina o nosso comportamento.

A abordagem de Bandura consiste em uma teoria de aprendizagem "social", porque estuda iformação e a modificação do comportamento nas situações sociais. Bandura criticou Skinner por usar apenas um único sujeito na observação (na maioria das vezes, ratos e pombos) em vez de pessoas interagindo umas com as outras. Poucas pessoas vivem isoladas socialmente. Bandura afirmava que os psicólogos não devem considerar relevantes para o mundo moderno as descobertas de pesquisas que ignorem as interações sociais.

A Autoeficácia

Bandura realizou muitas pesquisas sobre a autoeficácia, descrita como o senso de autoestima ou valor próprio, o sentimento de adequação, eficácia e competência para enfrentar os problemas (Bandura, 1982). Seu trabalho demonstrou que as pessoas com grau elevado de autoeficácia acreditam ser capazes de lidar com os diversos acontecimentos da vida. Um pesquisador a descreveu simplesmente como "o poder de acreditar que se consegue fazer coisas", acrescentando que "acreditar que consegue realizar o que quer é um dos ingredientes mais importantes na receita para o sucesso" (Maddux, 2002, p. 277).

As pessoas com baixo grau de autoeficácia sentem-se inúteis, sem esperança, acredi­tam que não conseguem lidar com as situações que enfrentam e que têm poucas chances de mudá-las. Diante de um problema, tendem a desistir na primeira tentativa frustrada. Não acreditam que a sua atitude faça alguma diferença nem que controlam e podem mudar o próprio destino.

A pesquisa de Bandura mostrou que a crença no nível de autoeficácia influencia vários aspectos da vida. Por exemplo, pessoas com elevado grau de autoeficácia tendem a obter notas altas, a analisar mais opções de carreira, a obter maior sucesso profissional, a esta­belecer metas pessoais mais altas e a apreciar mais a saúde mental e física do que as com baixa autoeficácia. No geral, constatou-se que o homem tem a autoeficácia mais elevada do que a mulher. Tanto no homem como na mulher, o pico da autoeficácia ocorre na meia-idade e diminui depois dos 60 anos.
Parece óbvio que o alto grau de autoeficácia produz efeitos positivos em praticamen­te todos os aspectos da vida. O estudo demonstrou que as pessoas com grau elevado de autoeficácia sentem-se melhor e mais saudáveis, menos estressadas, suportam mais a dor física e tendem a recuperar-se mais rapidamente de uma doença ou de uma cirurgia do que as de baixa autoeficácia. Esta afeta também o desempenho escolar e profissional. Por exemplo, constatou-se que empregados com elevado grau de autoeficácia sentem-se mais realizados profissionalmente, são mais comprometidos com a empresa e mais motivados para realizar bem as tarefas e os programas de treinamento do que os funcionários de baixa autoeficácia (Salas e Cannon-Bowers, 2001).

Bandura descobriu também que os grupos desenvolvem níveis coletivos de eficácia que influenciam no desempenho de diversas tarefas. A pesquisa com grupos como equi­pes de esportes, departamentos corporativos, unidades militares, comunidades de bairro e grupos de ação política mostrou que "quanto mais intensamente percebida a eficácia coletiva, mais elevadas são as aspirações do grupo e maior é a motivação para as realizações; quanto mais intensa a persistência diante de impedimentos e obstáculos mais ele­vados são o moral e a capacidade de recuperação diante do estresse, e maior a realização de proezas" (Bandura, 2001, p. 14).

A Modificação de Comportamento

A proposta de Bandura para o desenvolvimento de uma abordagem social cognitiva para o behaviorismo consistia em alterar ou modificar comportamentos considerados social­mente anormais ou indesejáveis. Ele pensou que, se todo comportamento é aprendido observando outras pessoas e modelando o nosso comportamento de acordo com o delas, então é possível alterar ou reaprender o comportamento indesejável também por meio da observação. Assim como Skinner, Bandura concentrava-se nos fatores externos, ou seja, no comportamento em si e não em alguma consciência interna presumida ou em algum conflito inconsciente. Para Bandura, o tratamento do sintoma significa tratar o distúrbio porque sintoma e distúrbio são a mesma coisa.

As técnicas de modelação são usadas para modificar o comportamento, fazendo com que o indivíduo observe um modelo em uma situação que normalmente provoque certo grau de ansiedade. Por exemplo, uma criança que tem medo de cachorro observa outra da mesma idade - o modelo - aproximar-se do animal e acariciá-lo. Observando de uma distancia segura, a criança vê o modelo realizar movimentos progressivos, aproximando-se aos poucos do cachorro. O modelo acaricia o cão pelas barras do cercadinho e, em seguida, entra e brinca com o animal. Como resultado dessa situação de aprendizagem por observação, o medo da criança pode ser reduzido. Em uma variação dessa técnica, pessoas assistem a modelos brincarem com objetos temidos, como uma cobra, e então os próprios indivíduos realizam movimentos progressivos de aproximação em direção ao objeto, até se sentirem realmente capazes de tocá-lo.

A forma de terapia do comportamento de Bandura é amplamente empregada em clínicas, empresas e salas de aula e tem sido comprovada por centenas de estudos experimentais. Esse método tem sido eficaz na cura da fobia de cobras, espaços fechados, espaços abertos e altu­ras. Também é válido no tratamento dos distúrbios obsessivo-compulsivos, das disfunções sexuais e de algumas formas de ansiedade, além de ser eficaz no aumento da autoeficácia

O trabalho de Bandura vem sendo adaptado para programas de rádio e televisão com o objetivo de apresentar modelos de comportamento adequados para tratar de problemas sociais e nacionais, como a prevenção de gravidez indesejada, controle da disseminação da AIDS e redução do analfabetismo. Esses programas baseiam-se em personagens fictícias atuando como modelos para que os ouvintes e telespectadores simulem a mudança do comportamento. Pesquisas realizadas com tais simulações em rádios e televisões compro­vam o aumento significativo do comportamento adequado, tais como a prática de sexo seguro, o planejamento familiar e a melhoria do status da mulher (Smith, 2002a).

Comentários

Como era de se esperar, os behavioristas tradicionais criticaram o behaviorismo social cog­nitivo de Bandura, alegando que os processos cognitivos, como a crença e a antecipação, não causam efeito no comportamento. A resposta de Bandura foi a seguinte: "É interessan­te observar os behavioristas radicais afirmarem que o pensamento não exerce influência, enquanto dedicam um tempo razoável com palestras, artigos e livros em um esforço para convencer as pessoas a adotarem a sua forma de pensamento" (apud Evans, 1989, p. 83)

A teoria social cognitiva tem sido amplamente aceita na psicologia como uma forma eficaz para o estudo do comportamento em laboratórios e para modificá-lo nos ambien­tes clínicos. Além disso, as contribuições de Bandura foram amplamente reconhecidas pelos colegas. Ele presidiu a APA em 1974 e, em 1980, recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Cientifica da APA. Em 2004 recebeu o prêmio Outstanding Contribution to
Psychology Award
, da APA, e em 2006 recebeu o American Psychological Foundation's Gold Medal Award for Life Achievement in the Science of Psychology.

Sua teoria e a terapia de modelos dela derivada ajustam-se à forma prática e funcional da psicologia estadunidense contemporânea. A sua abordagem é objetiva e adaptável aos métodos precisos de laboratório. Atende aos anseios do clima intelectual corrente que se concentra nas variáveis cognitivas internas, além de ser aplicável às questões da vida real.

Julian Rotter (1916-2014)

Julian Rotter cresceu no bairro do Brooklyn, em Nova York. A família levou uma vida confortável até seu pai perder os negócios no início da Grande Depressão de 1929. Essa desastrosa mudança no cenário econômico marcou a guinada na vida de Rotter, na época com 13 anos. Ele declarou que "essa experiência despertou a minha eterna preocupação com a injustiça social e proporcionou-me uma grande lição de como a personalidade e o comportamento são influenciados pelas condições situacionais" (Rotter, 1993, p. 274)

Durante o ensino médio, Rotter descobriu os livros de psicanálise de Sigmund Freud e de Alfred Adler. Como brincadeira, começou a interpretar os sonhos dos colegas e resolveu que desejava se tornar psicólogo. Decepcionado ao descobrir a pouca disponibilidade de empregos para psicólogos, decidiu formar-se em química na Brooklyn College. No entan­to, ao ingressar na faculdade, conheceu, por acaso, Adler e resolveu afinal mudar para a psicologia, mesmo sabendo ser ela impraticável. Desejava seguir a carreira acadêmica, mas a discriminação contra os judeus frustrou suas expectativas. "Tanto na Brooklyn College como no curso de pós-graduação, fui alertado de que os judeus simplesmente não
conseguiam obter posições acadêmicas, independentemente das credenciais. Os alertas se confirmaram" (Rotter, 1982, p. 346). Depois de obter o Ph.D. na Indiana University, em 1941, aceitou um emprego em um hospital de saúde mental em Connecticut. Serviu o exército estadunidense como psicólogo durante a Segunda Guerra Mundial, lecionou na Ohio State University até 1963 e foi para a University of Connecticut. Em 1988, recebeu o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica da APA.

Os Processos Cognitivos

Rotter foi o primeiro psicólogo a utilizar o termo "teoria da aprendizagem social" (Rotter 1947). Ele desenvolveu uma forma de behaviorismo que, como a de Bandura, inclui referências às experiências subjetivas internas. Desse modo, o seu behaviorismo é menos radical do que o de Skinner.
Criticado por Rotter por estudar os indivíduos isoladamente, afirmando que a aprendi­zagem do comportamento ocorre principalmente mediante experiências sociais. A pesquisa de laboratório de Rotter era rigorosa e bem controlada, típica do movimento behaviorista. Ele realizou pesquisas somente com pessoas em situações de interação social.

Rotter enfatizava mais amplamente os processos cognitivos do que Bandura. Acredi­tava que os indivíduos se percebem como seres conscientes capazes de mudar as próprias vidas, e que o comportamento é determinado pelo estímulo externo e pelo esforço que oferece - no entanto, a influência relativa desses dois fatores é intermediada pelos proces­sos cognitivos. Rotter esboçou quatro princípios regentes dos resultados comportamentais (Rotter, 1982).

  • O indivíduo cria expectativas subjetivas em relação às consequências ou aos resultados do seu comportamento com base na quantidade e no tipo de reforço que recebe;
  • Ele calcula a probabilidade de determinado comportamento conduzir a um refor­ço específico e o ajusta apropriadamente;
  • Atribui valores diferentes para os diversos reforços e avalia o seu valor relativo nas variadas situações;
  • Como cada indivíduo apresenta um comportamento exclusivo e único no ambien­te psicológico, o mesmo reforço pode adquirir diferentes valores para diversas pessoas.

Desse modo, para Rotter, os valores e as expectativas subjetivas, que consistem em estados cognitivos internos, determinam os efeitos das diferentes experiências externas (estímulos e reforços externos diferentes) sobre o indivíduo.

Locus de Controle

Rotter concentrou razoável pesquisa nas crenças a respeito da origem do reforço. Algumas pessoas consideram o reforço dependente do próprio comportamento e alegam a existên­cia de um locus de controle interno. Outras pessoas acreditam no reforço dependente das forças externas - como o destino, a sorte ou as atitudes de outros indivíduos; alegam a existência do locus de controle externo (Rotter, 1966).

Obviamente, tais percepções acerca da origem do controle exercem variadas influências sobre o comportamento. Para as pessoas que percebem a existência do locus de controle exter­no, as próprias habilidades e ações não exercem muita influência nos reforços que recebem.

Convencidas da falta de poder em relação às forças externas, não se esforçam em tentar mudar ou melhorar a situação. As pessoas que percebem a existência do locus de controle interno acreditam ser responsáveis pela própria vida e por isso atuam apropriadamente. A pesquisa de Rotter demonstrou que as pessoas com locus de controle interno tendem a ser física e mentalmente mais saudáveis do que as outras. Em geral, sua pressão sanguí­nea é mais baixa, apresentam menos infartos, ansiedade e depressão e são mais hábeis ao lidarem com o estresse. Obtêm as melhores notas na escola e acreditam ter maior liberdade de escolha. São mais populares e sociáveis e apresentam elevado grau de autoestima. Além disso, o trabalho de Rotter sugere que o locus de controle é adquirido na infância por meio do comportamento dos pais e dos responsáveis pela criação. Pais de adultos com locus de controle interno tendem a ser solidários, generosos ao elogiarem as realizações (reforço positivo), coerentes na disciplina e a demonstrarem atitudes não autoritárias.

Rotter desenvolveu um teste para medir o locus de controle, que consiste em 23 ques­tões com alternativas obrigatórias; a pessoa deve escolher uma das duas opções que melhor descreva as suas crenças (veja na Tabela 11.1).

Exemplos da Escala l-E (Locus de Controle Interno-Externo)

Uma descoberta ao acaso. Relembremos o caso da descoberta acidental de Skinner do esquema de reforço, resultado do acaso, por ele não desejar passar o fim de semana no laboratório preparando as bolinhas de ração para os ratos. Percebemos que a ciência nem sempre avança na forma sistemática e racional descrita na maioria dos livros. Os fatores casuais ocorrem para moldar o desenvolvimento de um campo de estudo. A conceituação de Rotter sobre o locus de controle, que ele considerava a sua descoberta mais importante, ocorreu por acaso, em virtude de um comentário eventual de um colega.

Rotter conduzia um experimento em que as pessoas trabalhavam com um conjunto de cartões, tentando adivinhar se no reverso de cada um havia a figura de um quadrado ou de um círculo. Elas foram informadas de que estavam sendo testadas a respeito da per­cepção extrassensorial (PES). Depois de terminar uma série de cartões, elas deviam tentar calcular quantos acertos obteriam na segunda série.

Alguns indivíduos afirmavam que acertariam menos, pois acreditavam que os acertos da primeira tentativa foram apenas questão de sorte. Outros alegavam que se desempenha­riam melhor, pois acreditavam que os acertos da primeira tentativa foram por causa de sua capacidade de percepção extrassensorial, a qual esperavam aperfeiçoar com a prática.

Ao mesmo tempo que estava envolvido com essa pesquisa, Rotter supervisionava o trei­namento clínico de E. Jerry Phares. Phares contou a Rotter sobre um paciente insatisfeito com a sua falta de vida social. Pressionado por Phares, o rapaz foi a uma festa e dançou com várias mulheres, mas, mesmo com o aparente sucesso social, sua visão não mudou. Ele afirmou a Phares que fora apenas uma questão de sorte. "Jamais vai se repetir."

Quando Rotter ouviu a história, ocorreu-lhe uma ideia. Ele observou que nas experiências há sempre algumas pessoas cujas expectativas, assim como a desse paciente, nunca melhoram mesmo ante o êxito.

Eu e meu aluno de pós-graduação reali­zamos várias experiências em que manipulávamos o êxito ou o fracasso dos voluntários. (...) Alguns voluntários, mesmo quando informados de que estavam corretos ou errados a maioria das vezes, não mudavam suas expectativas de que cometeriam mais erros na próxima tentativa. Outros, independentemente do que lhes era dito, acreditavam que se desempenhariam melhor na vez seguinte. Nesse momento, juntei os dois lados do meu trabalho - o cientista e o empirista - e formulei a hipótese de que algumas pessoas acreditam em forças externas que, de uma forma ou outra, regem os acontecimentos da vida, enquanto outras creem na capacidade própria e no esforço individual como determinantes dos próprios destinos. (Rotter apud Hunt, 1993, p. 334)

Deixamos as dúvidas quanto a se Rotter teria desenvolvido a ideia do locus de controle caso o paciente de Phares houvesse mudado de posição sobre a sua popularidade depois do baile.

Comentários

A teoria da aprendizagem social de Rotter atraiu muitos seguidores que, a princípio, seguiam a orientação experimentalista, mas concordavam com a importância das variáveis cogni­tivas no impacto do comportamento. O rigor e o controle da sua pesquisa obedecem aos padrões permitidos de acordo com o assunto, e ele define os seus conceitos com a precisão que os torne passíveis de testes experimentais. Vários estudos de pesquisa, principalmente a respeito do locus de controle interno e externo, sustentam a sua abordagem. Rotter afir­ma que o centro de controle tornou-se "uma das variáveis mais estudadas na psicologia e nas demais ciências sociais" (Rotter, 1990, p. 489).

O Destino do Behaviorismo

Apesar de o debate interno a respeito da questão cognitiva no behaviorismo ter provoca­do mudanças no movimento behaviorista, que se seguiram desde Watson até Skinner, é importante lembrar que Bandura, Rotter e outros neo-neobehavioristas defensores da abor­dagem cognitiva ainda se consideram behavioristas. Podemos chamá-los de behavioristas metodológicos, porque se referem aos processos cognitivos internos como parte do objeto de estudo da psicologia, enquanto os behavioristas radicais acreditam que a disciplina deva se dedicar ao estudo do comportamento público e do estímulo ambiental, e não dos estados internos presumidos. Watson e Skinner eram behavioristas radicais. Hull, Tolman, Bandura e Rotter podem ser classificados como behavioristas metodológicos.

O domínio do tipo de behaviorismo de Skinner chegou ao auge na década de 1980 e diminuiu depois da sua morte, em 1990. Até o laboratório de pombos da Harvard, criado por Skinner em 1948, foi fechado em 1998 (Azar, 2002). Skinner admitia que a sua forma de behaviorismo estava perdendo terreno e que o impacto da abordagem cognitiva aumentava. Outros pesquisadores concordam, observando que "menos especialistas das principais univer­sidades hoje se denominam behavioristas no sentido tradicional. Na verdade, 'behaviorismo' é geralmente mencionado como algo pertencente ao passado" (Baars, 1986, p. 1).

O behaviorismo que permanece vivo na psicologia contemporânea, principalmente na psicologia aplicada, é diferente daquele que surgiu nas décadas entre o manifesto de Watson, de 1913, e a morte de Skinner. Assim como ocorre com todo movimento evolutivo na ciência e na natureza, as espécies continuam a evoluir. Nesse sentido, o behaviorismo sobrevive no espírito e não na realidade da intenção do seu fundador.
 

História da Psicologia
A psicologia humanista

O humanismo é a vertente da psicologia fenomenológica que conta com o maior número de adeptos e abordagens psicoterápicas, dentre as quais figura, como uma das mais proeminentes, a Gestalt-terapia. De acordo com Smith (1990), a corrente humanista surgiu como um movimento social dentro da psicologia, que acabou por se estabelecer como uma perspectiva duradoura. Tal perspectiva dá prioridade aos tipos de experiência mais especificamente humanos. Estes, a seu ver, são insuficientemente abordados por outras visões.

Conforme explica DeCarvalho (1990), o iniciador primordial do movimento humanista foi Abraham Maslow. Psicólogo expe­rimental talentoso dos Estados Unidos, Maslow foi colocado no ostracismo por seus colegas quando começou a explorar assuntos considerados não convencionais. A partir daí, passou a fazer con­tato com colegas que, por assumirem posições semelhantes, tam­bém estavam na mesma situação. Em 1954 organizou uma mala direta com 125 autores para que houvesse um meio de troca de trabalhos mimeografados entre eles. Essa mala foi. crescendo, mas conforme ele próprio e Anthony Sutich, um colega que se associou mais proximamente a ele em sua empreitada, observaram, não era um método eficiente de comunicação. Perceberam que, na reali­dade, era necessário organizar uma revista científica, o que ficou principalmente a cargo de Sutich.

Após várias discussões sobre qual seria seu nome, decidiram, por influência de Anthony Cohen, genro de Maslow e também ligado à área, chamá-la Journal of Humanistic Psychology. Entre os componentes de seu primeiro comitê editorial figuravam Kurt Goldstein, Rollo May, Erich Fromm e Clark Moustakas. O primeiro número foi publicado na primavera de 1961, e seus primeiros assinantes foram os integrantes da mala direta mencionada acima.

Ainda segundo DeCarvalho (1990), à medida que a revista foi ganhando fôlego, outros psicólogos, além dos contatados por Maslow até então, começaram a procurar por Sutich, o que o levou a considerar necessário que os assinantes do periódico tivessem sua própria associação. Ele e Maslow discutiram o assunto com outros colegas e, graças a uma verba obtida por Gordon Allport  o primeiro congresso da Associação Americana de Psicologia Humanista aconteceu na Filadélfia em meados de 1963.

No entanto, foi somente no fim de 1964 que á psicologia humanista terminou, de fato, de estruturar-se como uma terceira força no panorama norte-americano. Isso ocorreu através da conferência realizada em Old Saybrook, na qual as apresentações dos participantes voltaram-se para as questões teóricas básicas implicadas por essa nova corrente da psicologia.

Houve, a princípio, dissidências entre dois grupos que assumiam posições diversas: um queria definir o humanismo simplesmente como oposição ao comportamentalismo e à psicanálise, e o outro queria identificá-lo, de maneira mais positiva, com a introdução de valores e significados humanos na psicologia vigente. Chegou-se a um acordo em favor da segunda postura, pois adotando a proposta defendida por Bugental (1963), concordaram que, ao invés de negar as orientações psicanalíticas e comportamentalista, poderiam incorporá-las a uma visão mais ampla, de caráter fenomenológico, que enfatizava o valor e o significado da experiência humana.

A partir disso foram estruturados os primeiros estatutos do novo movimento, baseados em cinco postulados:

  • a pessoa é mais que a soma de suas partes;
  • ela é afetada por seu relacionamento com outras pessoas;
  • ela é um se rconsciente;
  • ela tem possibilidade de escolha;
  • ela apresenta um caráter intencional.

Entretanto, como o próprio DeCarvalho (1990) salienta, tais postulados eram um tanto quanto vagos. Uma tal indefinição, contudo, não era de se estranhar, uma vez que a tarefa de caracterizar o humanismo não é, de fato, simples. Isso porque, ao contrário das outras correntes da psicologia, ele não se iniciou a partir das idéias de um determinado autor ou escola de pensamento, mas, conforme expliquei, como uma aglutinação de diversas tendências que se contrapunham ao comportamentalismo e à psicanálise (BOANAIN JR., 1995).

Não obstante, apesar da diversidade das abordagens que a ele se filiaram, o movimento apresenta alguns aspectos fundamentais e genéricos, que se estruturaram a partir das bases em que buscou inspiração para se constituir (o humanismo filosófico, o existencialismo, dissidentes de Freud como Adler e Jung, teóricos da personalidade, proposições gerais da psicologia da gestalt e, dentro dela, concepções mais específicas de Lewin e Goldstein). Para melhor explicá-lo, portanto, devo-me remeter a esses aspectos.

Um deles é o de se tomar a experiência subjetiva como referência básica para a compreensão, numa postura de teor fenomenológico. De acordo com Burow e Scherp (1985), tal idéia foi, em grande medida, inspirada pelo humanismo e pelo existencialismo filosóficos. É preciso todavia acrescentar que, no tocante ao existencialismo, não há uma completa coincidência de idéias entre ele e a psicologia humanista. Conquanto uma vertente desta última apóie-se bastante em idéias existencialistas, a ponto de alguns chamarem tal vertente de ‘humanista-existencial, isso não consiste numa posição genérica (BOANAIN JR., 1995).

Além disso, deve-se ressaltar que a influência importante para a corrente humanista foi a do existencialismo filosófico, e não a da psicologia existencial e fenomenológica européia. Muito embora, por ocasião do estabelecimento do humanismo, tenha havido uma interação significativa entre ele e a psicologia existencial européia, o relacionamento entre ambos nem sempre foi dos mais harmoniosos. Como explica DeCarvalho (1990), tal relacionamento foi mais de paralelismo de idéias, que de influência de uma escola sobre a outra.

Cabe acrescentar que o mesmo ocorreu relativamente à fenomenologia husserliana: apesar de essa visão ser adotada por al­guns humanistas, outros adotam o que Boanain Jr. (1995) chama de uma versão simplificada, levada anteriormente para os Esta­dos Unidos pelos gestaltistas alemães e psiquiatras jasperianos (alguns autores preferem chamar de ‘fenomenismo’ a esta última  versão da fenomenologia). Tal versão, de sentido mais amplo, foi a que embasou, por exemplo, várias elaborações de Carl Rogers. Não implica em adotar todos os parâmetros desenvolvidos pela primeira, mas simplesmente em buscar o significado da experiên­cia vivida nos próprios fenômenos que a constituem. Explicando melhor, essa postura propõe que se tente compreender tais fenô­menos a partir de sua observação e dos significados que surgem estritamente associados a ela, e não através de uma estrutura te­órica explicativa.

É preciso explicar, ainda, que a compreensão mais caracteristicamente fenomenológica dos humanistas consiste num estilo, numa tendência, e não numa atitude exclusivista. Dessa forma, apesar de a maioria das abordagens humanistas procurarem, no trabalho terapêutico, entender a experiência da pessoa acompanhando empaticamente tal experiência, e não interpretando-a teoricamente, esta última estratégia não é totalmente excluída.

E algo semelhante também ocorre relativamente ao trabalho de pesquisa: não obstante serem realizadas investigações de gênero mais propriamente fenomenológico, também o são as de caráter mais positivista. Este é o caso, entre outros, dos extensos e sofisticados trabalhos voltados para a análise do conteúdo de sessões terapêuticas conduzidos por Rogers e seus colaboradores (Cf. Marsden, 1971).

Mencionando agora um outro aspecto importante do humanis­mo, tem-se que, para ele, o ser humano apresenta possibilidade de escolha, ou seja, capacidade de livre arbítrio. Este aspecto tam­bém foi, em certa medida, inspirado pelo humanismo e pelo existencialismo filosóficos (BUROW; SCHERPP, 1985), e deve-se ainda levar em conta a influência da psicologia da gestalt, principalmen­te no que se refere ao trabalho de Kurt Lewin. Também é preciso explicar que, como detalharei melhor à frente, essa idéia de livre arbítrio não consiste numa visão utópica de plena liberdade, mas na convicção de que o próprio indivíduo é uma das fontes de deter­minação de seu comportamento e de sua experiência subjetiva.

E mais uma característica básica do movimento humanista, que deve ser lembrada, é a crença numa tendência do ser humano para a auto-realização e o crescimento. Fundamentada prin­cipalmente nas idéias de Goldstein (Cf. Smith, 1990), tal crença prega que o homem é orientado pela necessidade, intrínseca a todos os organismos vivos, de efetivar ao máximo seu potencial e atingir o estado mais amplo e sofisticado de que for capaz. De acordo com ela, se a pessoa tiver suas necessidades mais básicas e individuais adequadamente satisfeitas, tenderá a se voltar para interesses como os sociais e espirituais, que se associam as etapas mais elevadas de seu desenvolvimento.

Alguns autores importantes, como novamente é o caso de Ro­gers, têm uma visão bastante otimista a respeito da natureza hu­mana, segundo a qual o indivíduo tende a crescer num sentido positivo, a não ser que entraves sócio-ambientais o desviem desse caminho. Entretanto, essa visão, embora talvez dominante, não é hegemônica dentro do humanismo. Um exemplo disso é Rollo May, que se baseou num existencialismo mais cético. Embora tam­bém se apresente relativamente otimista quanto à natureza das pessoas, acredita, por outro lado, que forças negativas possam ter papel motivacional relevante em suas escolhas (DeCARVALHO. 1990). Desse modo, conquanto seja geral a crença num impulso natural do ser humano para o crescimento, não é geral a de que esse impulso seja predominantemente positivo.

Como quer que seja, uma das características mais marcantes e genéricas da compreensão humanista a respeito da natureza hu­mana está em rejeitar concepções estáticas desta última, conce­bendo-a como um constante processo de crescimento, de vir a ser (BOANAIN JR., 1995). E com base nisso, inclusive, que o huma­nismo opõe-se à adoção do modelo médico na psicoterapia. Em sua compreensão, o trabalho psicoterápico deve consistir num proces­so que favoreça o crescimento que acabei de mencionar, sendo o terapeuta essencialmente um facilitador do mesmo. Não encaram portanto, a atividade terapêutica como a cura de patologias, conforme prega o modelo em questão.

Pode-se dizer também que, coerente com a idéia de uma ten­dência para a auto-realização, outra particularidade importante do humanismo é o interesse nos aspectos mais característi­cos do ser humano. Esse interesse associa-se à idéia em questão, pois está voltado para os fatores que possibilitam a auto-realização, como a satisfação das necessidades de segurança emocional, a aquisição de identidade própria, e de autonomia, a criatividade, os valores sociais mais elevados e a espiritualidade.

Para os humanistas, uma psicologia realmente humana exige que se aborde as peculiaridades do comportamento das pessoas tanto em termos de espécie animal como de características indivi­duais. Discordam, assim, de estratégias que procuram conhecer o homem através da pesquisa com animais, como muitas vezes faz a psicologia comportamental. Além disso, ainda coerentes com a idéia de auto-realização, crêem que se deva privilegiar, dentro da investigação das experiências tipicamente humanas, o estudo de indivíduos saudáveis e bem dotados, que podem indicar cami­nhos para um desenvolvimento pessoal mais satisfatório. Desta forma, contrapõem-se às escolas como a psicanálise, que estrutu­raram suas teorias a partir da observação de casos considerados patológicos.

Enfocando agora outras facetas do movimento humanista, uma das mais fundamentais, de grande repercussão teórica e prática, é a de abordar o ser humano a partir de uma ótica holista (BOA- NAIN JR., 1995; DeCARVALHO, 1990; SMITH, 1990). De acordo com Boanain Jr., tal visão foi adotada por influência da psicologia da gestalt e também de Adler. Consiste em privilegiar uma com­preensão integral da totalidade do homem ao invés de analisá-lo através de seu fracionamento em partes, acreditando que ele seja mais que a soma dessas partes. Essa estratégia opõe-se às de cará­ter elementarista utilizadas por outras escolas do pensamento da psicologia. Os humanistas rejeitam as concepções reducionistas e
fragmentadoras da psicanálise e do comportamentalismo. Em sua opinião, a primeira delas enxerga a pessoa como um animal lascivo e feroz, movido por instintos voltados para o prazer e a agressão. E apenas às custas de um trabalho árduo de repressão e sublimação que uma tal pessoa pode adquirir algum verniz de sociabilidade, mas vivendo, por causa disso, uma existência frustrada e infeliz E a segunda vê o indivíduo como uma marionete manipulada por contingências de estimulação exteriores que, na melhor hipótese poderá optar entre um condicionamento fortuito e um planejado. Já segundo a visão holista, o ser humano consiste num sistema complexo e organicamente integrado, cujas qualidades mais es­senciais advêm de sua estrutura total. O homem é, de acordo com ela, um ser bio-psico-social.

Coerentes com essa visão, os humanistas, inspirados princi­palmente pela teoria organísmica de Kurt Goldstein, vinculada a psicologia da gestalt, opõem-se à divisão cartesiana entre corpo e mente, enxergando a ambos como aspectos intimamente rela­cionados de um mesmo fenômeno bio-psíquico. Nesse sentido acreditam que tudo o que ocorra em âmbito orgânico tenha sua contrapartida no psíquico e vice-versa, adotando um enfoque psicossomático.

Por outro lado, mais influenciados por Kurt Lewin, os huma­nistas também vêem o ser humano como indissociavelmente li­gado ao seu ambiente e influenciado por ele. Isso não quer dizer, entretanto, que o comportamento humano seja propriamente de­ terminado pelo ambiente, como propõem os comportamentalistas, o que contradiria o princípio de livre arbítrio defendido pelo humanismo. A concepção humanista inspira-se, sim, na teoria de campo desenvolvida por Lewin. De acordo com esta, é um campo psicofísico composto pelo indivíduo e seu meio que determina a experiência deste indivíduo. Sendo ambos, indivíduo e ambiente, as duas forças polares básicas que estruturam tal campo, o comportamefito é fruto de sua interação, e não exclusivamente de uma ou outra. Dessa forma, a pessoa exerce parcela significativa de de­ terminação sobre suas próprias ações, apesar de elas estarem inti­mamente associadas a fatores ambientais.

A visão bio-psico-social encontra uma expressão talvez mais clara na metáfora empregada por Koestler (1978) para explicar a concepção sistêmica. Este autor utiliza a imagem de Jano, o deus romano de dois rostos opostos, para expressar o caráter básico da existência humana. Da mesma forma que esse deus, a pessoa apresenta duas faces ou tendências simultâneas: uma é a de se compor­tar como um sistema independente, articulando numa totalidade indissociável aspectos como o orgânico e o psíquico e afirmando sua individualidade; a outra é a de agir como parte integrada de sistemas mais amplos, como o sócio-ambiental.

É, em medida significativa, como fruto de uma tal compreensão que houve, no humanismo, grande desenvolvimento de métodos de intervenção, tanto corporais, dada a associação íntima entre o biológico e o psíquico, como grupais, dada a relação igualmente próxima entre o indivíduo e seu meio social. Cabe entretanto es­clarecer que, relativamente aos primeiros, também foi importante a influência do pensamento de Reich, como se pode observar na gestalt-terapia, que apresenta formulações baseadas na idéia de couraça muscular desse autor. E no que se refere aos procedimen­tos grupais, foram, da mesma forma, importantes as concepções de Moreno, criador do psicodrama.

Com base em tais influências, muitos humanistas passaram a utilizar estratégias corporais que envolvem massagem, toque, dança, movimento, métodos catárticos com alta mobilização or­gânica, exploração e intensificação de sensações e outros recursos. E também adotaram procedimentos grupais que abrangem, além da psicoterapia de grupo em sentido mais estrito, ampla gama de trabalhos vivenciais. Estes podem ser realizados com pequenos ou grandes grupos, apresentarem caráter intensivo (workshops com até vários dias de duração ininterrupta) ou extensivo (cur­tas sessões periódicas), bem como serem pautados por temas ou estratégias de intervenção definidos, ou simplesmente terem a proposta de as pessoas explorarem o que parecer interessante no momento.

E além da prática de trabalhos corporais e grupais, pode-se ain­da associar à visão holista outro dos aspectos fundamentais do hu­manismo: acreditar que o ser humano apresente um caráter eminentemente dialogal (Cf. Boanaín Jr., 1995). Coerente com a teoria de campo de Lewin, tal consiste na crença de que o homem não existe, realmente, como indivíduo isolado, mas só se define e se realiza plenamente no encontro pessoal com seus semelhantes.

Entretanto, não obstante essa sintonia com idéias da psicologia da gestalt, tal crença baseia-se menos nesta escola de pensamento e mais em concepções existencialistas, principalmente no que toca às expressas por Martin Buber.

Segundo Buber (1979), o encontro a que me referi acima não está associado a qualquer comportamento interpessoal, mas ape­nas àqueles em que se estabelece o que ele chama de ‘relação Eu-Tu. Nesta, os participantes não assumem uma atitude utilitarista, e sim uma atitude verdadeiramente empática e autêntica, de sin­cero respeito e compreensão entre si.

Em conformidade com o que expus acima, os psicoterapeutas humanistas acreditam que o relacionamento de pessoa para pes­soa seja o mais favorável para o crescimento do indivíduo e sua auto-realização. E em função disso que propõem a adoção de uma postura relacional na psicoterapia. Orientados por ela, abandonam a estratégia mais tradicional e, a seu ver, defensiva, de se abordar os clientes de psicoterapia como objetos a serem analisados e ma­nipulados. Isso para poderem se relacionar com eles de maneira mais pessoal e aberta, respeitando sua maneira de ser.

Diga-se, inclusive, é devido a tal postura que os humanistas não utilizam o termo ‘paciente’, mas sim 'cliente’, para designar a pes­soa que busca atendimento psicológico. A idéia de paciente está associada à imagem de uma pessoa passiva, basicamente direcio­nada pelas influências do terapeuta, e não à de uma pessoa cujas características e liberdade de decisão devam ser respeitadas.

E ainda fundamentados por sua visão dialogal de ser humano e sua crença na tendência para a auto-realização, os humanistas também propõem que o indivíduo busque uma existência mais espontânea, autêntica e auto-consciente. É dessa forma que, em sua compreensão, ele pode obter o máximo de realização pessoal e o mais verdadeiro e profundo relacionamento com os outros. Nesse sentido, questionam uma série de valores e práticas sociais mais conservadoras, que inibem a expressão e a liberdade de escolha  individual. Não se entenda isso, é claro, como uma negação de limites necessários para a vida em sociedade e o respeito mútuo entre seus integrantes. A oposição é feita contra restrições arbitrárias e obscurantistas, que ao invés de promoverem o bem estar e a evolução individual e social, acabam por atravancá-los.

O humanismo acredita que a melhor chance de um relaciona­mento social produtivo está exatamente numa postura aberta das pessoas, o que permite que se compreendam melhor e se sensibili­zem mais para as necessidades umas das outras. Foi devido a isso que, nos anos 60, houve uma ligação próxima entre o humanismo e a contracultura, pois ambos questionavam valores sociais que consideravam arcaicos ou destrutivos.
Finalmente, diante do exposto nas páginas anteriores, pode-se expressar, de maneira concisa, as características mais proeminentes da corrente humanista como sendo:

  • colocar no centro das atenções a vivência pessoal, sendo as explicações teóricas e o comportamento observável vistos como secundários;
  • acreditar na possibilidade, embora não irrestrita, de livre arbítrio;
  • crer num impulso natural para a auto-realização;
  • acreditar que, tendo suas necessidades mais básicas, físicas e emocionais, satisfeitas, a pessoa tende a voltar-se para aspira­ções mais amplas, como as de ordem social e espiritual;
  • visar, como objetivo fundamental da psicoterapia, o cresci­mento e a autonomia psicológica do cliente;
  • crer na importância de se levar em conta as singularida­des da espécie humana e de cada indivíduo para que se possa compreendê-los;
  • adotar uma visão holista de ser humano, segundo a qual ele só pode ser compreendido como um todo integrado, e não através da análise isolada de seus diferentes aspectos (atitude elementarista); 
  • abordá-lo em sua real magnitude, criticando outras corren­tes por pregarem que a experiência humana pode ser compre­endida através de um modelo mais simples do que realmente é (atitude reducionista);
  • crer na importância de o terapeuta relacionar-se empática e autenticamente com o cliente;
  • acreditar que a existência humana deva ser pautada pela espontaneidade e a autenticidade.
Psicologia humanista
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Explorando o espaço - uma história da astronomia

A história da astronomia conecta círculos de pedra pré-históricos com sondas espaciais do século XX!. È uma história de sucessivas revoluções na compreensão de nosso local no Cosmos, e nos meios pelos quais tomamos consciência dele. A geometria permitiu aos gregos fazer as primeiras medidas do Sol, Terra e Lua. Já no século XVII, instrumentos precisos derrubaram ideias centradas na Terra. O telescópio descortinou o céu apresentando muitos novos mistérios a serem explicados pela teoria da gravitação de Newton. A espectrocospia ofereceu um novo método para estudar as propriedades das estrelas e, por fim, revelou a existência de outras galáxias e a expansão do Universo. Nas útlimas décadas, o desenvolvimento do voo espacial permitiu a telescópios em órbita sondar o espaço profundo, enquanto as jornadas de umas poucas pessoas e máquinas além da órbita imediata da Terra colocaram nosso planeta relamente em perspectiva pela primeira vez.

Astronomia antiga

A história da astronomia remonta a 6.000 anos atrás, o que a torna a mais antiga das ciências. Cada uma das culturas ao longo da história estudou o Sol, a Lua, as estrelas e observou como os corpos celestes se movem no céu. As observações refletem curiosidade e encanto com o mundo natural, mas também foram impulsionadas por razões urgentes de navegação, contagem de tempo e religião.

Ciclos da vida

Povos da antiguidade eram fascinados pelos padrões de mudança repetindo-se incessantemente no mundo a seu redor. Evidências da passagem do tempo incluías alterações na temperatura do ar, no horário e posição do nascer e pôr-do-sol, nas fases da Lua, no crescimento da vegetação e no comportamento animal. Esses fenômenos eram atribuídos aos deuses ou a poderes mágicos. Milhares de anos atrás, os “primeiros” astrônomos foram provavelmente pastores ou agricultores no Oriente Médio, que observavam a noite, atentos a sinais das mudanças das estações. Os antigos egípcios se baseavam em observações astronômicas para planejar o plantio e a safra das colheitas. Sabiam que o nascimento de Sirius logo antes do nascer-do-sol anunciava a enchente do rio Nilo. A habilidade para medir períodos de tempo e registrar ciclos celestes foi essencial para o avanço da astronomia, e assim muitas culturas antigas desenvolveram calendários, relógios de sol e relógios de água. Monumentos como as pirâmides e grupos de megalitos (grandes pedras eretas) foram, de fato, os primeiros observatórios. Em cerca de 1000 a.e.c., os indianos e babilônios haviam calculado a duração do ano em 360 dias; este período levou à divisão do círculo em 360°, com cada grau representando um dia solar. Posteriormente, os antigos egípcios refinaram a duração do ano para 365,25 dias.

Fazendo mapas celestes

A astronomia sempre se ocupou com mapear e nomear as estrelas. Por volta de 3500 a.e.c., os antigos egípcios dividiram o zodíaco nas 12 constelações de hoje e agruparam as outras estrelas fora do zodíaco em suas próprias constelações. Nas antigas China e Índia, criaram-se 28 mansões lunares, ou “domicílios noturnos” para registrar o movimento da Lua em seu caminho mensal. Os antigos gregos foram os primeiros a catalogar as cerca de 1000 estrelas mais brilhantes, por volta de 150-100 a.e.c. mas, muito antes deles, observadores da Índia e Oriente Médio mantinham registros astronômicos detalhados e datados. Coleta de dados sistemática foi desenvolvida pelos sumérios e babilônios – civilizações que viviam entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia – por razões de ritual e profecia política.

Orientação e navegação

Os mais importantes feitos dos astrônomos antigos incluem como encontrar os pontos cardeais – note, sul, leste e oeste – e como usar a Estrela Polar do norte para determinar a latitude. Este conhecimento capacitou a orientação precisa de estruturas, particularmente de templos e monumentos funerários, e também auxiliou na confecção de mapas terrestres acurados. Em 3000-2000 a.e.c., os povos da Idade da Pedra do norte da Europa utilizaram alinhamentos solares nos solstícios e equinócios, fases lunares, e outros dados astronômicos para construir grandes círculos de pedra, como Stonehenge e Avebury na Inglaterra, e Newgrange na Irlanda. Altares de foto (usados por sacrifícios rituais de fogo hindus), posicionados em bases astronômicas, e datando de 3000 anos atrás foram encontrados em diversos sítios arqueológicos na Índia. Algumas das mais complexas construções projetadas de acordo com princípios astronômicos são as pirâmides do antigo Egito e exemplos tardios construídos pelos astecas e maias na América. A arquitetura antiga fornece abundante prova de conhecimento astronômico, mas há poucas evidências do seu uso em navegação antiga. Contudo, os povos navegantes da Polinésia podem ter usado as posições das estrelas para migrar através do Pacífico por volta de 1000 a.e.c.

O nascimento da astrologia

Astrologia é uma prática milenar que busca determinar como os planetas e outros objetos celestes podem influenciar a vida na Terra, em especial os assuntos humanos. Descartada como superstição, ela estabeleceu fundamentos sólidos para a observação astronômica e dedução lógica. Em seu esforço de prever os eventos futuros e buscar sinais ou portentos os antigos astrólogos tentaram “ordenar” os céus e notaram o modo como o Sol, a Lua e os planetas se comportam. Enfatizaram em particular ocorrências inesperadas como eclipses, cometas, chuvas de meteoros e o aparecimento de novas estrelas. Muitas elites políticas empregavam astrólogos e observadores dos céus, e seu trabalho era uma atividade intelectual perfeitamente respeitável até o fim do século XVII. Astrônomos também escreviam tratados astrológicos; por exemplo, em 140 e.c., Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, o mais influente de todos os tratados astrológicos.

Início da astronomia científica

A Grécia antiga foi um divisor de águas no desenvolvimento da astronomia como a ciência racional. Os acadêmicos gregos formularam leis complexas e fizeram modelos do Universo. Após o estabelecimento do Islamismo, estudiosos árabes desenvolveram métodos ainda mais acurados de observação dos céus.

Germens do pensamento científico

O mundo grego antigo conheceu uma liberdade política e intelectual sem precedentes e um espantoso progrsso científico. Por 700 anos, de cerca de 500 a.e.c. a 200 e.c. os filósofos gregos buscaram respostas para questões astronômicas fundamentais. Ainda acreditavam em um plano mestre divino e tinham ideias que soam estranhas par anos hoje – Heráclito (540-500 a.e.c.), por exemplo, sugeria que as estrelas eram acesas toda noite, e o Sol toda manhã, como lâmpadas de óleo. Mas Platão (c.427-347 a.e.c.) argumentou que a geometria é a base de toda verdade, fornecendo assim o impulso necessário para deduzir exatamente como o Cosmos funcionava. Aristóteles fixou a Terra no centro do Universo e sugeriu que os planetas eram corpos eternos movendo-0se em órbitas perfeitamente circulares. Eudoxo (408-355 a.e.c.) cartografou as constelações setentrionais e Hiparco (190-120 a.e.c.) pela primeira vez classificou as estrelas em seis ordens de magnitude.

Medindo distâncias

Os avanços na geometria e trigonometria permitiram que os gregos medisses distâncias astronômicas com razoável precisão. Por volta de 500 a.e.c. Pitágoras propôs que o Sol e a Terra, a Lua e os planetas fossem todos esféricos, uma noção que Aristóteles confirmou, no caso da Terra, pela observação da forma de sua sombra durante um eclipse solar. Em 250 a.e.c. Eratóstenes (276-194 a.e.c.) notou que a luz solar incidia diretamente no fundo de um poço em Siena, no Egito, ao meio-dia do solstício de verão. Comparando com dados sobre as sombras em Alexandria, e usando trigonometria, ele estimou a circunferência da Terra com precisão de 5%. Hiparco e Aristarco (320-230 a.e.c.) mediram a distância Terra-Lua cronometrando eclipses lunares. Infelizmente, a distância Terra-Sol não foi estimada com a mesma precisão.

O cosmos centrado na Terra

É natural que as pessoas supusessem que o Cosmos era geocêntrico, ou centrado na Terra. Afinal de contas, não percebemos o movimento da Terra quando ela gera no espaço e as estrelas parecem fixas. Pensadores antigos, como Aristarco em 280 a.e.c., contestaram este sistema e colocaram o Sol no centro, mas suas ideias não tiveram crédito. Em vez disso, Ptolomeu refinou a visão de mundo cosmológica de Aristóteles e criou uma sequência ordenada de órbitas uniformes. Sua ordem era: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e finalmente as estrelas. Isto é baseado na velocidade percebida: por exemplo, a Lua completa uma volta no céu em um mês, o Sol em um ano e Saturno em 29,5 anos. De modo a reconciliar o conceito errôneo de órbitas circulares (em contraste com elípticas) e as velocidades variáveis dos planetas, Ptolomeu foi obrigado a argumentar que cada planeta também girava em um pequeno círculo, o epiciclo, enquanto orbitava a Terra.

Astronomia árabe

Depois do declínio das cidades-estado gregas, os mais importantes avanços da astronomia foram alcançados pelos árabes. O período de domínio grewgo durou 800 anos, desde a fundação do Islamismo em 622 até o século XIV. Astrônomos trabalhando no Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e Espanha mourisca traduziram textos gregos e em sânscrito (da Índia) para o árabe e assimilaram seu conhecimento astronômico. As regras muçulmanas para s cultos ao longo do dia e do mês, e a necessidade de encontrar a direção de Meca para fazer as orações e orientar as mesquitas, significavam que havia uma urgente necessidade de se determinar o tempo e a posição com extrema precisão. Desenvolveu-se a trigonometria esférica sofisticada, funções trigonométricas e álgebra e o astrolábio (uma invenção grega, usada para calcular a hora e a latitude) foi aprimorado. A abordagem dos grandes astrônomos árabes, como Al-Battani (850-929) e Ulugh Beg (1349-1449) fundamentava-se em observação paciente. Com este fim numerosos observatórios foram construídos, dos quais os maiores estavam em Bagdá, no Iraque, em Samarkand, no Uzbequistão, e em Maraghan, no Irã. Eles alojavam grandes instrumentos, incluindo quadrantes montados em paredes, utilizados para medir a altitude de objetos astronômicos quando cruzavam o meridiano (o plano norte-sul).

A revolução copernicana

Por séculos os astrônomos basearam suas teorias na suposição de que a Terra estaria no centro do Universo. No século XVI, esta posição privilegiada foi abalada pela sugestão de que a Terra era apenas um dos vários planetas circulando o Sol. Esta revolução foi acompanhada por imensos avanços tecnológicos, em particular pela invenção de telescópios, anunciando uma nova era de pesquisa e de grandes descobertas.

Astronomia medieval

Após a queda de Roma em 476, astrônomos na Europa, Oriente Médio e àsia deixaram para trás seu relativo isolamento cultural e passaram a trocar ideias mais livremente. Isto graças, em parte, ao crescimento do comércio durante a Idade Média e em parte à expansão do Islamismo. A astronomia observacional floresceu com ênfase em conjunções planetárias, eclipses solares e lunares a as aparições de cometas e estrelas novas. Muitos astrônomos medievais eram professores universitários e se sustentavam com o ensino. Apesar dos recursos limitados fizeram avanços notáveis, incluindo um novo preciso catálogo de posições de estrelas a olho nu, planejado por Ulugh Beg *1394-1449) da Mongólia – o primeiro desde os dias de Hiparco, 1600 anos.

O Universo heliocêntrico

Pode-se datar o nascimento da astronomia em 1543, quando Nicolau Copérnico publicou seu revolucionário tratado sobre um Universo centrado no Sol, ou heliocêntrico. Ele estava insatisfeito com a imprecisão dos modelos geocêntricos das orbitas planetárias, nos quais a Terra ocupava o centro e que dominavam a astronomia desde a obra de Ptolomeu no século II. Sua teoria muito mais simples de um Sol central e uma Terra em órbita explicava muitas observações antes enigmáticas, porque agora havia dois tipos de planetas, os internos e os externos da órbita da Terra. A sequencia Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno era um ordem de período orbital e de distância crescente ao Sol. A “lanterna do Universo”, com o Copérnico o chamava, agora assumia seu lugar de direito no centro do Cosmos. Embora isso significasse que a Terra se movia em alta velocidade, a teoria já havia sido proposta por Aristarco e outros.

A noção do Espaço

Os gregos e os astrônomos posteriores colocaram as estrelas logo além de Saturno, mas isto causaria um problema se a teoria copernicana estivesse correta. Se, como Copérnico argumentava, a Terra orbitava o Sol, por que as estrelas não tinham um movimento recíproco? A única escolha para Copérnico era banir as estrelas para uma distância tão vasta que seu movimento não seria perceptível para observadores terrestres. Ele também foi o primeiro a sugerir que as estrelas brilhantes estariam mais próximas que as fracas. Contudo, ouros se perguntavam porque Deus teria criado um espaço enorme, aparentemente inútil entre a órbita de Saturno e as estrelas. Tycho Brahe (1546-1601), um nobre dinamarquês, pensava que o futuro da astronomia dependia da estimativa de distâncias verdadeiras e do registro acurado das posições planetárias em diversos tempos. Com este objetivo ele aprimorou os padrões observacionais, fabricando instrumentos de mensuração precisamente calibrados. Em 1572 suas observações pacientes da supernova na constelação de Cassiopéia o convenceram de que as estrelas não estavam todas a uma distância fixa, mas que eram objetos cambiantes que existem no “espaço”. Propor essas ideias exigia coragem, ou o apoio de patronos poderosos, devido à Inquisição, nessa época, julgar e punir os que desafiassem a visão ortodoxa da Igreja Católica em relação ao Universo.

Leis do movimento planetário

O sistema heliocêntrico copernicano ainda descrevia as órbitas planetárias em termos de epicilos – cada planeta descrevia um pequeno círculo enquanto girava em torno do corpo central. Essa visão prevalecia desde Ptolomeu mas a forma real das órbitas permanecia um mistério. Necessitava-se de duas coisas para resolver o problema. A primeira era os dados planetários precisos obtidos por Tycho Brahe. A segunda era fé nos seus dados, junto com tenacidade e gênio matemático. A última foi fornecida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), sucessor de Tycho após 1601. Com base nas observações do caminho de Marte na esfera celeste Kepler acabou por formular suas três leis do movimento planetário. Primeiramente, em 1609, ele revelou que as órbitas eram elípticas, e não circulares ou epicíclicas. O Sol está em um dos focos da elipse (a elipse tem dois focos; o círculo é um calo limite de eclipse, com um único foco). Em segundo lugar, mostrou que a linha unindo o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, assim um planeta é mais lento na parte mais exterior da sua órbita. Em terceiro lugar, em 1619, Kepler provou a relação entre o tamanho e o período da órbita. Ele alimentava concepções místicas – acreditava que o Cosmos era permeado por coras musicais, com cada planeta produzindo um tom em proporção a sua velocidade. Como todos antes da descoberta da gravidade por Newton, não tinha a menor ideia do que mantinha os planetas em suas órbitas.

As descobertas de Galileu

Galileu Galileia apresentou provas concretas de que o modelo copernicano do Universo estava correto. Em 1608 quando um fabricante de óculos flamengo inventou o telescópio a notícia se espalhou rapidamente. Galileu construiu, ele mesmo, vários telescópios em 1609, assim tornando-se o fundador da astronomia telescópica. Seus instrumentos tinham uma magnificação de 30x. Em alguns meses ele descobriu que a Lua era montanhosa, detectou as fases de Vênus, as manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Chegou mesmo a sugerir que as estrelas fosses sóis distantes. Acima de tudo ele percebeu que as fases de Vênus somente poderiam ser explicadas se os planetas orbitassem o Sol, e não a Terra. Outros achados de Galileu fundamentam a física nascente: a aceleração de um corpo independe de sua composição ou peso; e o período de balanço de um pêndulo independe de sua amplitude.

Grandes observatórios

A emergência de uma nova geração de observatórios fo um divisor de águas na história da astronomia. Observatórios haviam sido anteriormente exclusivos a um grupo seleto de pessoas, incluindo Tycho Brahe na Dinamarca e Johannes Hevelius em Danzing, Prússia (agora Gdansky, na Polônia), ou de professores universitários, como Galileu ou Giovanni Cassini de Bologna, na Itália. Então, essas unidades foram ampliadas por instituições reais bem financiadas. Luis XIV fundou a Academia de Ciências em Paris, em 1666, e o Observatório Real francês, completado em 1672. Na Inglaterra, Charles II fundou a Royal Society em 1660, o que levou à construção do Royal Greenwich Observatory, onde John Flamsteed (1646-1719) foi o primeiro astrônomo real, iniciando seu trabalho em 1676. Em breve os astrônomos estavam atacando os três principais desafios daquela época: determinar o tamanho do Sistema Solar; medir a distância até as estrelas; e achar a latitude e a longitude de locais na terra e no mar. Esta busca foi em parte impulsionada por necessidades da navegação em uma época de expansão dos impérios europeus e pelo desejo de prestígio nacional. A partir do começo do século XVIII, os observatórios se multiplicaram rapidamente, inaugurando-se instalações em Berlim, Prússia (1711), em Jaipur, Índia (1726), em Uppsala, Suécia (1730), em Vilnius, Prússia (1753), em Washington, EUA (1838), e em Pulkovo, Rússia (1839). Dedicou-se muito esforço para mapear o céu e traçar os movimentos dos corpos celestes.

Leis da atração

Um dos maiores enigmas desafiando os astrônomos de meados do século XVII era porque os planetas percorriam imensas distâncias ao redor do Sol em órbitas estáveis sem se lançar no espaço. O grande físico inglês Issac Newton (1642-1727), professor na Universidade de Cambridge, encontrou a resposta. Um objeto se moveria a velocidade constante segundo uma linha reta, a menos que fosse sujeito a uma força. No caso dos planetas, a força era a gravidade do Sol. Ele logo percebeu que a gravidade era universal. Ela controlava tanto a trajetória de um objeto caindo (como a famosa maçã que Newton viu cair de uma árvore em 1666), como a Lua orbitando a Terra e um cometa viajando rumo ao Sol vindo dos remotos confins do Sistema Solar. A gravidade explicava as três leis de Kepler e também a altura das marés. Após a morte de Newton, o retorno do cometa Halley em 1758 provou que a gravidade também era aplicável nos limites do Sistema Solar, e o uso da teoria da gravitação possibilitou o cálculo da massa da Terra e do Sol. 

O telescópio refletor e Newton

Em 1666, Newton descobriu que um prisma dispersa a luz em um arco-íris de cores. Infelizmente, as lentes de um telescópio fazem o mesmo, e a luz azul de um extremo do espectro é focalizada em um ponto diferente da luz vermelha e o ouro extremo. Isto é a chamada aberração cromática, que produz halos de luz colorida ao redor do objeto sendo visto, causando uma grave perda de qualidade de imagem. Uma solução é suar espelhos curvos para focalizar toda luz no mesmo ponto, independentemente da cor. Em 1663, o escocês James Gregory (1638-75), projetou um telescópio refletor com um grande espelho côncavo primário e um secundário côncavo menor que projetava luz de volta através de um orifício para uma lente magnificadora atrás. Newton modificou o projeto usando um espelho plano secundário para refletir a luz capturada para uma ocular montada lateralmente. Exibido em 1672 o telescópio de Newton foi imensamente aclamado.

O espaço infinito

Na metade do século XIX, a astronomia havia evoluído de uma ciência essencialmente matemática para uma disciplina que incorporava o conhecimento novo e as técnicas dos físicos e químicos. Rápidos progressos tecnológicos, particularmente a invenção da fotografia e telescópios ainda mais poderosos, permitiram aos astrônomos estudar os corpos celestes com muito mais detalhe. Eles começaram a classificar os diferentes objetos e a estudar seu comportamento.

O iluminismo

Os séculos XVIII e XIX viram grandes progressos em ciência devido a métodos científicos aprimorados. Foi um período de consolidação em astronomia, baseada em avanços nas medidas e classificação de corpos celestes. As órbitas dos cometas eram de grande interesse depois do trabalho do inglês Edmond Halley (1656-1742), que mostrou que “seu” cometa retornava a cada 76 anos. As órbitas dos planetas eram determinadas com muito mais precisão que anteriormente e detalhes de sua superfície, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter e as calotas polares de Marte foram observados. Em 1728, a velocidade da Terra foi calculada. William Herschel descobriu o sétimo planeta, Urano, em 1781, e o italiano Giuseppe Piazzi ( 1746-1826) identificou o primeiro asteroide, Ceres, em 1801. Os franceses Urbain Le Verrie e Pierre-Simon Laplace (1749-1827), e o inglês John Adams (1819) aplicaram a teoria da gravitação de Newton para prever a posição de um planeta invisível além de Urano. Netuno foi descoberto em 1846.

O cosmos estelar

Aperfeiçoamentos dos telescópios ao longo do século XVIII permitiram que a astronomia tornasse o estudo do Universo um processo dinâmico. Anteriormente as estrelas eram apenas pontos fixos de luz, com distância desconhecida, mas na década de 1710 Halley descobriu o seu movimento dando início a esforços concentrados para compreender seu comportamento. Constatou-se que muitas estrelas são duplas, orbitando em torno de um centro de massa comum, em conformidade com a gravitação newtoniana e, na década de 1780, estrelas variáveis como Algol e Delta Cephei, eram investigadas. Em 1781, o francês Charles Messier (1730-1817) publicou um catálogo de 103 “corpos difusos”, ou nebulosas (nuvens de gás e poeira). Herschel estendeu este trabalho, gastando muitas horas contando estrelas de diferentes magnitudes, em uma ambiciosa tentativa de fazer um levantamento do céu. Em 1783 ele deduziu que o Sol está se aproximando da estrela Lambda Herculis, e erroneamente concluiu que ela se situava no centro do sistema estelar galáctico. Durante as duas primeiras décadas do século XIX, Laplace desenvolveu métodos de análise matemática que resultaram no primeiro modelo para a origem do Sistema Solar.

O nascimento da astrofísica

Durante o século 19, os astrônomos continuaram a aplicar o desenvolvimento da matemática, física e química para compreender a constituição e comportamento dos planetas, cometas e estrelas. Um novo campo – a astrofísica – emergiu, conferindo propriedades físicas aos objetos no espaço. A astronomia tratava principalmente com seu movimento, enquanto a astrofísica examinava seus parâmetros básicos como raio, massa temperatura, e composição química. Em 1815, o óptico alemão Joseph Fraunhofer (1787-1826), enquanto estudava o espectro da luz solar, notou várias linhas escuras sobre ele. Mais tarde, verificou-se que estas linhas eram devidas à absorção por elementos químicos do Sol. Como ada elemento químico absorve a luz em certos comprimentos de onda, o padrão de linhas de absorção revela a sua presença. Nos anos 1860, o astrônomo britânico William Huggis (1824-1910) descobriu, por meio da espectroscopia (o estudo de espectros) que as estrelas contêm os mesmos elementos que a Terra.

Avanços instrumentais

Os telescópios tornaram-se cada vez maiores desde o princípio do século XVIII – quando astrônomos como Edmond Halley labutavam para usar desajeitados e imprecisos instrumentos com lentes objetivas de pequeno diâmetro – na metade do século XIX. As lentes dobraram em tamanho a cada 40 anos, o que implicava que a distância até os objetos visíveis mais longínquos também dobrava, e que seu número crescia por um fator oito. Sofisticaram-se as montagens dos telescópios, e a qualidade das lentes foi aperfeiçoada. Os telescópios refratores foram totalmente transformados em 1758, quando o astrônomo inglês John Dolland (1706-1761) introduziu a lente dupla, que focalizava a luz azul e a vermelha no mesmo ponto. Herschel construiu enormes telescópios refletores e, em 1524 completou-se o primeiro telescópio com montagem equatorial, na qual o eixo do instrumento era alinhado com o polo norte celeste e um relógio mecânico movia o instrumento em torno deste eixo para acompanhar as estrelas. Nos anos 1840, a fotografia começou a substituir o lápis e papel para o registro de dados. Placas fotográficas podiam ser expostas por horas, permitindo a detecção de objetos muito mais fracos que os visíveis unicamente pelo olho humano.

A forma do espaço

No começo do século XX, alguns pensavam que havia apenas uma galáxia, com o Sol no centro. Nos anos 1930, os astrônomos já haviam percebido que havia bilhões de galáxias e que o Universo estava em expansão. Também começavam a compreender as fontes de energia estelar.

Matéria e energia das estrelas

A partir de 1900, devido à compreensão da natureza da radioatividade descoberta quatro anos antes, começou-se a perceber que a Terra poderia ter mais de 1 bilhão de anos de idade. Esta ideia era consistente com estimativas anteriores feitas por geólogos e com a avaliação de Charles Darwin do tempo necessário para a seleção natural operar. Permanecia o mistério de como o Sol poderia manter-se brilhando por tanto tempo. Uma ideia era que o Sol fosse alimentado pela queda de meteoritos; outra que o Sol estava lentamente se contraindo. Nenhuma dessas teorias dava conta da longa vida do Sol. Contudo, em 1905 Albert Einstein (1879-1955) propôs que E=mc2,  e assim energia E, poderia ser produzida pela destruição de massa, m. Nos anos 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington (1882-1944) sugeriu que a fonte de energia do Sol – e de outras estrelas – fosse a fusão nuclear. O físico germano-estadunidense Hans Bethe (1906-2005) especificou então os processos básicos de fusão nuclear. É de fato uma reação nuclear que libera energia da matéria. Astrofísicos têm agora uma visão detalhada de como as estrelas obtêm sua energia e estimam que estrelas do tipo solar possam brilhar por 10 bilhões de anos.

O grande debate

Nos anos 1920 houve um debate público entre os astrônomos estadunidenses Harlow Shapley e Heber Curtis sobre a forma da nossa galáxia em particular a extensão do Universo em geral. Shapley acreditava que havia apenas uma “grande galáxia”, com a Terra a dois terços da distância até a borda. Ele dizia que o diâmetro era de 300.000 anos-luz – 10 vezes maior que a estimativa de Curtis. Este valor foi obtido com estrelas variáveis cefeídas (cujo brilho varia periodicamente) como indicadores de distância. Curtis, por outro lado, estava convencido de que muitos objetos nebulosos no céu não estavam em nossa galáxia, mas que eram de fato outras galáxias como a nossa. Ele propôs que estes “universos-ilha” estava espalhados uniformemente no céu, com alguns deles obscurecidos pelo disco galáctico, o que explicava sua distribuição acima e abaixo do plano da Via Láctea.

O universo em expansão

Os novos e enormes telescópios estadunidenses revolucionaram a astronomia do século XX. O Telescópio Hooker era tão grande que podia detectar as estrelas cefeídas da Nebulosa de Andrômeda (M31). O  fraco brilho dessas estrelas indicava eu sua distância da Terra era cerca de 10 vezes o diâmetro da Via Láctea. Heber Curtis estava correto: Andrômeda não era uma “nebulosa” mas uma galáxia. Outras “nebulosas” espirais também eram claramente galáxias. Usando o Hooker o estadunidense Edwin Hubble mostrou que as galáxias são os “blocos fundamentais” de um universo muito mais vasto que previamente imaginado. Em 1927 ele investigou características espectrais de galáxias e constatou que não somente a luz da maioria delas apresentava um deslocamento para o lado vermelho do espectro, indicando que se afastavam de nós, mas também que essa velocidade de recessão era maior para as mais fracas (mais distantes). O Universo estava em expansão e, portanto, deveria ter sido muito menor no passado. O declive do gráfico velocidade-distância indicava a idade do Universo. Os astrônomos logo perceberam que algo havia dado início à expansão, lançando as sementes da teoria do Big Bang.

Tecnologia de telescópios

A astronomia observacional estadunidense atingiu um divisor de águas nas últimas décadas do século XIX. Nos Estados Unidos novos e sofisticados observatórios e departamentos universitários foram estabelecidos, muitas vezes financiados por empresários milionários. Os astrônomos desejavam examinar objetos muito fracos e distantes, mas a limitada resistência e a transparência relativamente baixa das lentas objetivas dos telescópios impunham um limite de cerca de 1m de diâmetro – o tamanho do telescópio refrator de Yerkes, inaugurado em Williams Bay, Wisconsin, em 1897. Assim abandonou-se os refratores: era o início de uma nova era de enormes telescópios refletores. O Telescópio Hooker, de 2,5m, em Monte Wilson, na Califórnia, tornou-se operacional em 1918. Em 1948, entrou em sérvio o Telescópio Hale, de 5,2m, no Monte Palomar, na Califórnia. Em 1993, o primeiro Telescópio Keck, com um espelho de 10m, feito de espelhos segmentados, entrou em operação. Acoplado ao progressivo aumento do tamanho dos telescópios veio um enorme aumento na sensibilidade dos detectores. Placas fotográficas tornaram-se mais sensíveis e foram usadas extensivamente par mapear o céu e gerar arquivos permanentes de posições e espectros de objetos. Outro desenvolvimento crucial foi a radioastronomia. Radiotelescópios, o primeiro dos quais foi feito em 1937, passaram a captar as emissões nos longos comprimentos de onda em rádio do espaço profundo.

Astronomia da era espacial

Com o início da Era Espacial (a era do vôo espacial) nos anos 1950, a viagem além da Terra e o contato co planetas, cometas e asteroides tornou-se uma realidade. O despertar das astronomias em rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama ofereceu à humanidade novas perspectivas do Universo, revelando a existência de novos e exóticos objetos nunca antes imaginados.

Estrelas extremas

Relações entre massa, raio e luminosidade das estrelas foram primeiramente estabelecidas graças ao diagrama Hertzsprung-Russel por volta de 1911 e levaram ao reconhecimento de estrelas gigantes e anãs. Desde então encontraram-se muitos tipos extremos de estrelas. Em 1915, W.S. Adams identificou Sirius B como a primeira anã branca – uma estrela da massa do Sol mas comprimida até o volume da Terra. Em 1931 o astrofísico indiano S. Chandrasekhar, usando os novos modelos para o comportamento de partículas subatômicas, descobriu um limite superior à massa de uma anã branca. 1,4 massa solar. Acima disso, um núcleo estelar exaurido colapsará em uma estrela de nêutrons superdensa com uns poucos quilômetros de diâmetro, arrebentando o resto da estrela em uma explosão de supernova. Estrelas de nêutrons em rotação são vistas da Terra como pulsares – radiofontes pulsantes –, a primeira delas foi descoberta em 1967 por Jocelyn Bell-Burnell e Anthony Hewish, do Reino Unido. No outro extremo de massa estelar estão as anãs marrons, muitas delas descobertas recentemente, muito frias para desencadearem rações nucleares no seu centro.

Buracos negros

A possibilidade de buracos negros foi sugerida em 1783 pelo astrônomo inglês John Michell, que considerou a hipótese de um objeto tão massivo que nem a luz poderia escapar da sua gravidade. A ideia reapareceu em 1916 como resultado da teoria da relatividade geral de Einstein, mas os buracos negros permaneceram uma curiosidade até a década de 1960, quando o lançamento de satélites de astronomia de raios-X levou à descoberta de estrelas binárias de raios-X como Cygnus X-1. Binárias de raios-X exigem uma fonte compacta, massiva de erngia, que só pode ser fornecida por um buraco negro. A descoberta de buracos negros de massa estelar também abriu o caminho para se aceitar os quasares – objetos compactos, extremamente luminosos, a altos redshifts – como violentas galáxias distantes, alimentadas por buracos negros supermassivos nos seus centros.

Interior das estrelas

Com telescópios ópticos os astrônomos podem enxergar até uma profundidade de 500km abaixo da superfície solar. Infelizmente, como o Sol tem um raio de 700.000km, um imenso volume não pode ser observado diretamente. Durante os anos 1920 os astrofísicos calcularam que o centro do Sol teria uma temperatura de aproximadamente 15 milhões °C e uma densidade cerca de 150 vezes a da água. Em 1939 o físico alemão Hans Bethe mostrou como processo nucleares, agindo sob essas condições extremas, converteriam lentamente hidrogênio em hélio, liberando imensas quantidades de energia pela conversão de massa em energia. O inglês Fred Hoyle e o alemão Martin Schwarzschild estenderam esta modelo na década de 1950, mostrando como hélio é transformado em carbono e oxigênio em estrelas gigantes. Logo os astrofísicos encontraram mecanismos para a manufatura de elementos ainda mais pesados, como cobalto e ferro, nas estrelas mais massivas. Na década de 1960 os primeiros detectores de neutrinos foram usados para detectar estas partículas altamente penetrantes, liberadas pelas reações nucleares no interior do Sol, e desde os anos 1970, a técnica de heliossismologia permitiu o monitoramento das ondas sonoras ressonando através do interior solar, assim revelando sua estrutura detalhada.

Meio interestelar

A descoberta de grandes quantidades de gás e poeira entre as estrelas foi um triunfo da radioastronomia. Em 1944, o astrônomo holandês Hendrick vam de Hulst previu que o hidrogênio interestelar emitiria ondas de rádio com um comprimento de onda de 21 cm, o que foi confirmado em 1951 pelos físicos estadunidenses Harold Ewen e Edward Purcell. Em breve, radiotelescópios eram usados para mapear a distribuição do hidrogênio neutro atômico nos braços espirais da Via Láctea e de outras galáxias. Em 1974, levantamentos do comprimento de onda de 2,6mm, que age como um traçador de hidrogênio molecular, levaram à descoberta de nuvens moleculares gigantes, locais de nascimento de estrelas.

Astronomia desde o espaço

A Era Espacial começou em 4 de outubro de 1957, quando a União Soviética lançou o satélite Sputnik I, e os astrônomos rapidamente aproveitaram a capacidade de se observar fora da atmosfera terrestre. Detectores a bordo de foguetes já haviam captado sinais intrigantes em comprimentos de onda incomuns durante suas breves excursões fora da atmosfera, e o primeiro observatório orbital, o Ariel I, foi lançado pelo Reino Unido em 1961, equipado com um telescópiode ultravioleta. Outros satélites, como as séries estadunidenses Explorer, e Uhuru, rapidamente mapearam as principais fontes de ultravioleta, infravermelho e raios-X. Enquanto isso, sondas espaciais se espalhavam pelo Sistema Solar, retornando informação sobre o ambiente interplanetário e cartografando os planetas com uma variedade de câmaras, radares e outros instrumentos.

A origem do Universo

A descoberta na década de 1920 de que o Universo está em expansão desencadeou uma nova onda de reflexões cosmológicas. Em 1931, o astrônomo e padre belga Georges Lamaître sugeriu que todo o material do Universo teria começado com o uma única esfera altamente condensada – a origem da teoria do Big Bang. Em 1948, o austríaco Hermann Bondi e os britânicos Thomas Gold e Fred Hoyle propuseram uma teoria rival, da Criação Contínua, na qual matéria estaria sendo criada continuamente para preencher os vazios deixados pela expansão. Felizmente, ambas teorias poderia ser testadas pelas observações e as evidências acabaram por apoiar o Big Bang. Em 1980, Alan Guth da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, estendeu a cosmologia do Big Bang introduzindo a inflação, que auxiliava a resolver alguns problemas maiores da teoria. Mas, ainda restam questões importantes nessa área.

Planetas extra-solares

Grandes refinamentos na espectroscopia permitiram medir ligeiras variações nas velocidades estelares produzidas pela perturbação gravitacional de planetas em órbita. Em 1995, os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra descobriram um planeta com massa um pouco abaixo da metade daquela de Júpiter em torna da estrela 51 Pegasi, a 48 anos-luz. Agora se conhecem centenas de planetas extra-solares e abriu-se um novo campo da astronomia. Os astrônomos têm se surpreendido com suas descobertas – a maioria dos sistemas planetários é muito diferente do Sistema Solar. Alguns têm planetas gigantes orbitando muito próximo à estrela mãe, enquanto outros têm planetas com órbitas altamente elípticas. 

A caçada continua

Quanto mais os astrônomos sabem sobre o Universo, mais querem saber. Na década de 1970 reconheceu-se que o Universo continha muito mais material que o visível: matéria escura afeta a rotação das galáxias; a massa faltante é prevista pela teoria do Big Bang mas ainda não foi observada. A exótica “energia escura” parece acelerar a expansão do Universo. Ao lado desses grandes mistérios cosmológicos está a busca pela vida do Universo, abarcada pela nova ciência da astrobiologia. Nos últimos séculos o tamanho dos espelhos de 10mde hoje serão substituídos por gigantes ainda maiores e observações feitas além da atmosfera terrestre serão cada vez mais produtivas. O telescópio de 2,5m do Telescópio Espacial Hubble será pequeno perto do Telescópio Espacial James Webb, com espelho de 6,5m, a ser lançado em 2021. Esta nova geração de telescópios deverá finalmente captar a primeira geração de estrelas e galáxias. E, à medida que os astrônomos observarem cada vez mais longe com instrumentos cada vez mais sensíveis, inevitavelmente serão confrontados com novos mistérios e corpos exóticos não imaginados antes.

Primeiras espaçonaves

A segunda metade do século XX registrou uma revolução na nossa compreensão do Universo, desencadeada pelo desenvolvimento do vôo espacial. Pela primeira vez, em lugar de apenas olhar para o esaplo, os seres humanos e suas máquinas viajavam por ele. Revezes e riscos marcaram os primeiros tempos da exploração espacial, mas, com esses obstáculos superados, o progresso foi rápido.

Sonhadores de foguetes

A ideia da viagem espacial é tão antiga quanto o contar estórias, mas com poucas noções das leis da física ou da natureza do espaço escritores frequentemente se baseavam em meios cômicos ou absurdos de transportar fictícios viajantes espaciais. Mas, as leis newtonianas do movimento e da gravitação, em conjunto com o fato do espaço ser um vácuo, indicavam que apenas uma forma de propulsão seria capaz de levar viajantes ao espaço – o foguete. Desenvolvidos como fogos de artifício e armas na China medieval, os foguetes contém o combustível necessário para sua propulsão, impulsionados por gases ejetados pelo seu escape. Embora o escritor francês Cyrano de Bergerae (1619-1655) tivesse sugerido no século XVII seu uso para alcançar a Lua, o primeiro a considerar seriamente as realidades da viagem espacial foi o professor da escola rural soviético Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), que desenvolveu muitos dos princípios dos foguetes de combustível líquido, de múltiplos estágios, publicando-os na década de 1890.

Lançamento

Os princípios dos foguetes estavam bem desenvolvidos no começo do século XX, mas ainda havia vários problemas para fazer do voo espacial uma realidade prática. O maior deles era a eficiência do combustível. O engenheiros estadunidense Robert Goddard concebeu a ideia de combustíveis líquidos mais eficientes e em 1926, lançou um foguete de 3m de comprimento impelido por oxigênio líquido e gasolina. As ideias de Goddard e Tsiolkovsky foram adotadas por entusiastas no mundo todo, inclusive pela Sociedade para a Viagem Espacial (VfR) da Alemanha. Durante a década de 1930, muitos dos cientistas da VfR foram recrutados pelo boverno nazistas para um programa militar que prosseguiu durante a Segunda Guerra Mundial. A culminação dos seus esforços, o míssil V2, chegou tarde demais para salvar a Alemanha da derrota, mas provou que armamentos à base de foguete eram o caminho do futuro.

A corrida espacial

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, as maiores potências desejavam a tecnologia de foguetes para si. A maioria dos cientistas fugiu para o Ocidente, mas a União Soviética capturou as fábricas das V2. As razões para tal interesse tornaram-se claras quando as relações internacionais rapidamente deterioraram e começou a Guerra Fria. Ambos acreditavam que mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) impulsionados por foguetes poderiam ser a resposta para lançar a arma final – a bomba nuclear. Foi neste contexto que os Estados Unidos e a União Soviética começaram seus programas espaciais. Ambos viram que a tecnologia de mísseis poderia ser utilizada para alcançar a órbita terrestre e reconheceram que esses lançamentos demonstrariam o poder de seus foguetes e renderiam grandes benefícios de propaganda.

Em órbita

No começo dos anos 1950 União Soviética e Estados Unidos anunciaram planos de lançar satélites durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-58. O programa soviético prosseguiu em sigilo, usando seus enormes mísseis R-7 como veículos de lançamentos, enquanto os cientistas estadunidenses passavam por escrutínio público. Os planos do cientista alemão Werher von Braun de lançar um satélite com o ICBM estadunidense Redstone foram engavetados a favor do programa de pesquisa espacial Vanguard da marinha estadunidense. Pouco antes da data de lançamento do Vanguard, em novembro de 1957, os soviéticos anunciaram em 4 de outubro do mesmo ano o lançamento bem sucedido do Sputnik I. As estações de rastreamento captaram sinais de rádio do satélite e confirmaram que a União Soviética tinha tomado a dianteira na corrida espacial. A humilhação estadunidense foi total quando, em 6 de dezembro, o lançamento do Vanguard terminou em uma explosão na plataforma de lançamento. O projeto de Von Braun foi imediatamente ressuscitado, e o primeiro satélite estadunidense, o Explorer I, entrou em órbita com êxito menos de dois meses mais tarde, em 31 de janeiro de 1958.

As missões Vostok

No final da década de 1950, o próximo grande passo da corrida espacial estava claro – qual das superpotências seria a primeira a colocar uma pessoa em órbita? Os soviéticos tinham uma óbvia vantagem de potência, já que o Sputnik II, o seu segundo satélite, pesava meia tonelada, e haviam conseguido enviar sondas além da vizinhança imediata da Terra. Em 12 de abril de 1961 fizeram um anúncio que surpreendeu o mundo: o Coronel Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espalho, a bordo da Vostok I. Gagarin retornou à Terra como herói da União Soviética, e o programa espacial estadunidense, agora gerenciado pela Nasa, de novo havia ficado para trás. As missões Vostok posteriores superaram novos limites e colocaram a primeira mulher no espaço, aumentaram os tempos em órbita e mantiveram mais de uma espaçonave simultaneamente em voo.

Projeto Mercury

A resposta da Nasa ao Vostok foi o programa Mercury, que lançou seis astronautas entre 1961 e 1963. Diferentemente do programa soviético os esforços estadunidenses foram conduzidos sob os holofotes da mídia. As cápsulas espaciais Mercury eram minúsculas e leves, parcialmente porque tinham que ser transportadas pelo pequeno veículo de lançamento Redstone nos primeiros voos. A Nasa estava desenvolvendo um novo lançador, o Atlas, mas os tests da cápsula deveriam começar antes do foguete maior estar pronto. Surpreendida pelo lançamento do Vostok I, a Nasa correu para retaliar e colocou seu primeiro homem no espaço em 5 de maior. Lançado em um foguete Redstone a missão Freedom 7, de Alan Shepard, não tinha velocidade suficiente para entrar em órbita, mas alcançou uma altura de 185 km durante um voo de 15 minutos. Após um segundo voo sub-orbital, o foguete Atlas foi completado no final de 1961. Seguindo um número de testes, John Glenn foi o primeiro estadunidense em órbita em 20 de fevereiro de 1962.

Próximos passos

Dispostos a manter sua liderança na corrida espacial, os soviéticos assumiam um grande risco. Os estadunidenses tinham anunciado suas missões planejadas de dois homens do Gemini e, em um esforço para ofusca-los de antemão, o diretor do programa espacial soviético, Korolev, planejava uma missão de três homens. Era um grande desafio, pois já havia sido iniciado um trabalho com as naves Soyuz visando alcançar a Lua. Finalmente, os engenheiros soviéticos chegaram a um engenhoso compromisso Voskhod era efetivamente uma cápsula Vostok modificada com espaço suficiente para levar três tripulantes. O voo da Voskhod I, em 12 de outubro de 1964, foi um sucesso, batendo a primeira missão tripulada Gemini por cinco meses. A Voskhod II, lançada alguns dias antes do primeiro teste de voo da Gemini foi um sucesso ainda maior. Durante o voo Alexei Leonov tornou-se a primeira pessoa a caminhar no espaço. Os soviéticos haviam desferido mais um espetacular golpe de propaganda.

Exploradores robôs

Enquanto o foco da atenção pública estava principalmente no programa espacial tripulado, uma segunda corrida espacial era mantida em paralelo – cujas consequências para nossa compressão do Sistema Solar. Cada superpotência tentava superar a outra nos “primeiros” passos da exploração de outros mundos. A exploração espacial robótica teve uma acidentada história inicial, com numerosas falhas, tanto nas plataformas de lançamento, enquanto, ou durante as tentativas de pouso. Porém houve alguns sucessos notáveis: em janeiro de 1959 a Lunik ou Luna I tornou-se o primeiro objeto a escapar da gravidade terrestre e entrar em órbita em torno do Sol; a Lunik II atingiu a Lua em setembro de 1959; a Lunik III registrou as primeiras imagens do lado oculto da Lua. A Pioneer V da Nasa foi a primeira sonda deliberadamente lançada ao espaço interplanetário, entrando em órita entre a terra e Vênus em 1960, enquanto as sondas estadunidenses Mariner II e IV venceram os soviéticos na corrida rumo a outros planetas, voando para Vênus e Marte em 1962 e 1965, respectivamente.

Viagens à Lua

As missões Apolo para a Lua frequentemente são descritas como uma grande conquista da técnica humana. Vastas quantidades de recursos humanos e financeiros foram investidos em um programa com motivações científicas e de propaganda. As missões revelaram muito sobre a Lua e seus imensos avanços tecnológicos remodelaram o mundo.

Um homem na Lua

Em 25 de maio de 1961 o presidente estadunidense John F. Kennedy fez um discurso que abalou o mundo. Em uma época em que os Estados Unidos ainda tinham que colocar um astronauta em órbita da Terra, ele prometeu que seu país levaria pessoas à Lua até o fim da década. A escala do empreendimento era monumental. Astronautas não haviam se aventurado a além de 300km da superfície terrestre, e agora Kennedy dava à Nasa a missão de enviá-los a uns 400.000km de distância, pousá-los na superfície de um mundo desconhecido e trazê-los de volta com segurança. Contudo, se isto fosse realizado, a mensagem seria que os Estados Unidos agora eram uma potência espacial. A Nasa imediatamente começou a investigar os meios de se pousar na Lua. A missão estabeleceu como objetivo usar o maior foguete já construído, projetado pelo cientista de foguetes alemão Wernher von Brauns, para enviar três naves conectadas rumo à Lua – somente uma delas retornaria à Terra. O nome, Apollo, o deus grego do Sol, foi sugerido pelo diretor de voos espaciais da Nasa. Dr. Abe Silvestein.

Projeto Gemini

Cada missão Apollo envolveria diversas operações de encontro, acoplamento e desacoplamento no espaço – operações que a Nasa e seus astronautas jamais haviam tentado antes. Apenas ir à Lua e voltar exigiria um mínimo de 7 dias. Para ganhar experiência em voos espaciais de longa duração e nas delicadas manobras necessárias no Apollo, a Nasa anunciou que o programa Mercury seria substituído pelo Projeto Gemini, uma série de missões de dois tripulantes. Houve 10 missões tripuladas Gemini, entre 1964 e 1966, diversas das quais envolviam encontros entre naves, caminhadas no espaço, e mesmo acoplamentos com veículos alvo não-tripulados. Agena. A espaçonave, composta de três módulos, também representava um grande avanço. Enquanto os dois astronautas permaneciam durante a missão dentro de um módulo de reentrada, apenas 50% maior que a cápsula Mercury, os suprimentos de água e ar, o equipamento elétrico e os experimentos eram mantidos principalmente em um módulo de serviço separado. Um terceiro módulo continha foguetes para manobrar a espaçonave em órbita e freá-la antes de sua reentrada.

Preparando o caminho

Um grande desafio para os planejadores da Apollo era a falta de conhecimento sobre a Lua. À época, pouco se conhecia sobra a história lunar, a natureza das suas crateras e as propriedades de sua superfície – pensava-se seriamente na possibilidade da superfície ser de um pó tão fino que a nave afundaria. Para responder estas questões, a Nasa planejou uma série de missões robóticas para fazer levantamentos detalhado da Lua incluindo pousos – tanto de colisão quanto suaves. As primeiras foram as naves Ranger, quatro das quais colidiram com a Lua entre 1961 e 1964. Pelas fotos retransmitidas à Terra, é inteiramente coberta por crateras, até nas menores escalas, o que indica uma origem por impacto. Em 1966 teve início uma segunda fase, com as naves Lunar Orbiter e surveyor. Os orbitadores fotografaram a Lua de perto, a cerca de 0 km, buscando locais interessantes para pousos tripulados, enquanto os Surveyor efetuaram uma série de pousos suaves, confirmando a firmeza da superfície lunar.

Apollo em órbita

No final de 1966, o programa Apollo estava avançando rápido. Os enormes foguetes Saturno V estavam em construção e as naves prontas para os testes. Porém, em janeiro de 1967, a tripulação da Apollo I morreu durante um incêndio na cápsula em um ensaio de lançamento. Como consequência as missões Apollo II e III foram canceladas, e as missões Apollo IV, V e VI foram convertidas em teses de lançamento não-tripulados. Somente em outubro de 1968 os astronautas retornaram ao espaço, com o lançamento da Apollo 7. Esta missão orbital foi logo seguida pela Apollo VIII. Lançada pela primeira vez pelo Saturno V a missão da nave foi alterada para incluir uma órbita ao redor da Lua no Natal, após rumores de que os soviéticos lançariam um veículo  tripulado para alcançar a Lua. O lançamento nunca aconteceu e, depois das Apollo IX e X, a Nasa estava finalmente pronta para tentar pousar na Lua.

O primeiro pouso na Lua

A Apolo XI partiu de Cabo Kennedy (agora Canaveral), na Flórida, em 16 de julho de 1969) e entrou em óribta lunar três dias depois. Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin então embarcaram no módulo lunar “Eagle” para a descida na superfície, enquanto Mihael Collins permanecia a bordo do módulo em comando e serviço (CSM) “Columbia” em órbita lunar. Eagle tocou seguramente uma planície de lava conhecida como o Mare Tranquilitatis (Mar da Tranquilidade) e, seis horas após o poso, Neil Armstrong deixou o módulo e desceu a escada, pisando a superfície das 2h56 do dia 20 de julho. Armstrong e Aldrin permaneceram na superfícia por 21 horas, realizando uma caminhada, durante a qual implantaram uma bandeira e uma placa comemorativa, conduziram diversos experimentos coletaram rochas, e telefonaram para o presidente estadunidense Richard Nixon.

Módulo lunar

O módulo lunar, com sua aparência frágil, era um elemento vital de cada missão Apollo. Como ele nunca voaria em uma atmosfera os projetistas tiveram a liberdade de dar-lhe uma forma estritamente funcional. Embora o módulo tivesse 9,5m de largura e 7m de altura, a cabine era tão apertada que os astronautas ficaram de pé durante o voo. O grande motor de foguete, embaixo da seção superior do módulo, era usado para frear a cápsula durante o pouso na Lua e, depois, fornecer o impulso para a decolagem da superfície lunar e injeção em órbita.

Missões posteriores

A Nasa havia originalmente planejado dez missões Apollo, mas apenas seis foram completadas. Embora a Apollo XII tenha sido um sucesso, a Apollo XIII ficou famosa pelo seu acidente, quando uma falha elétrica e perda de oxigênio, pela primeira vez colocaram uma tripulação da série em grave perigo. As últimas três Apollo levavam um jipe lunar, estendendo consideravelmente a área que os astronautas poderiam explorar. Redução no interesse público e cortes de verbas da Nasa levaram ao cancelamento das três últimas missões. Os estertores finais da Apollo foram a estação espacial Skylab, que usava um foguete Saturno V, e a missão Apollo-Soyuz, um encontro entre astronautas soviéticos e estadunidenses em órbita terrestre.

Lições científicas

As missões Apollo revelaram muito aos astrônomos sobre a química e história da Lua. As rochas coletadas ainda são estudadas em todo o mundo. O registro do bombardeamento da Lua e a datação por radioisótopos das amostras revelaram o período de intenso bombardeamento a modelou o Sistema Solar durante seu primeiro bilhão de anos. Embora os soviéticos nunca tenham tentado um pouso tripulado na Lua, colocaram uma série de jipes LunoKhod no satélite e trouxeram pequenas amostras de poeira para a Terra.

Em órbita da Terra

Embora muito do foco da exploração espacial tenha sido viagens a planeta e luas distantes, a grande maioria das missões não foi além da órbita terrestre. Em torno da Terra é que o advento do voo espacial teve maior impacto. Nossa vizinhança espacial agora está repleta de satélites, tanto com propósitos científicos como comerciais.

Estações espaciais

A União Sovietica mudou a direção do seu programa espacial no final da década de 1960, priorizando postos semipermanentes em órbita. As primeiras estações espaciais soviéticas, nos anos 1970, as Salyut, eram clilindros com 13m de comprimento e no máximo 4m de largura que abrigavam tripulações de três cosmonautas por diversas semanas em condições espartanas. Embora a corrida espacial tivesse se desacelerado, a Nasa ainda se sentia obrigada a competir e, em 1973, lançou a estação Skylab, que foi visitada por três tripulações separadas ao longo de um ano. Com isso, a Nasa manteve um breve recorde de permanência no espaço. Contudo, quando voltou suas atenções para o Space Shuttle, as estações espaciais foram deixadas para os soviéticos. As mais avançadas Salyut 6 e Salyut 7 eram muito maiores que suas antecessoras e podiam ser ampliadas por módulos lançados da Terra. Na metade na década de 1980, os cosmonautas permaneciam meses em órbita, conduzindo valiosos experimentos científicos.

Potencialidades do espaço

Além das razões políticas e científicas para a exploração espacial, as últimas décadas viram o surgimento para fins práticos. Empresas privadas e países menores conseguem agora lançar satélites e o mundo foi transformado pelos seus resultados. Os satélites de comunicações nasceram dos trabalhos de Arthur C. Clarke e outros, e radiotransmissores orbitais são os responsáveis pelo Global Positioning System (GPS), que permite aos usuários encontrar sua posição em qualquer parte da Terra com precisão de poucos metros. O potencial da observação da Terra desde sua órbita tornou-se claro quando os primeiros astronautas relataram avistar nitidamente acidentes geográficos – com grande surpresa para os controladores de solo. Hoje diversos satélites de observação da Terra circulam o globo, desde os climáticos que monitoram hemisférios inteiros, até os espiões, capazes de ver detalhes inferiores a 1m. Ainda mais sofisticados são os satélites de sensorialmente remoto. Monitorando a Terra em vários comprimentos de onda, reúnem imensas quantidades de informação sobre o solo, como a direção das correntes oceânicas, a localização de depósitos mineiras e a qualidade das plantações.

Observatórios orbitais

Muitas das grandes descobertas e imagens espetaculares do Universo distante provêm de satélites. A atmosfera terrestre representa um sério problema para os astrônomos, pois filtra a maioria da radiação eletromagnética. Contudo, um telescópio no espaço coloca problemas únicos. Não só eles devem ser controlados remotamente para retornar imagens à Terra, mas também devem operar em um ambiente hostil. As flutuações de extremas temperaturas entre a iluminação solar e a escuridão podem distorcer a delicada óptica do telescópio, visto que o instrumento todo se contrai e se dilata, e assim se exige um projeto engenhoso de isolamento. Mesmo assim, o tempo de operação em órbita é limitado. Além da energia fornecida pelas células solares, os satélites demandam combustível para se reorientar no espaço e agentes resfriadores para proteger sua delicada eletrônica.

Vôos tripulados

Desde as missões Apollo, o voo espacial tripulado continuou a se desenvolver. Apesar de duas tragédias de grande impacto, em 1986 e 2003, o Space Shuttle da Nasa, a primeira espaçonave reutilizável, transformou o voo espacial em uma atividade quase rotineira. Desde seu primeiro voo em 1980, os Shuttles completaram mais de 100 missões, levando experimentos, lançando satélites, e observando a Terra e o espaço. Enquanto isso, a União Soviética desenvolver o princípio da estação espacial modular, ampliável, como a Mir (1986-2001). Os plano da Nasa de um estação espacial permanente evoluíram para um enorme projeto internacional, e quando a Estação Espacial Internacional estiver completa, o Space Shuttle terá se aposentado após 25 anos de serviço. No momento, alguns países têm planos ambiciosos do retorno do homem à Lua como estala rumo a Marte.

Além da Terra

Embora os seres humanos não tenham ainda se aventurado além da Lua, as sondas espaciais automáticas mergulharam muito mais fundo. Exploradores robóticos visitaram todos os planetas e também pesquisaram dezenas de satélites em um conjunto de corpos menores. Durante suas jornadas, transformaram nossa visão do Sistema Solar, revelando outros mundos, quase tão complexos quanto a Terra.

Primeiros passos

A primeira sonda a deixar a influência da Terra e entrar em órbita própria ao redor do Sol foi a nave soviética Lunik I (Luna I), que, em 1959, errou seu alvo, a Lua, e se tornou por acidente a primeira sonda interplanetária. Logo seguiram-se esforços deliberados da Nasa, que, entre 1960 e 1968, lançou com sucesso as Pioneer 5 a 9 em órbitas entre a Terra e Vênus. Várias dessas naves alimentadas com energia solar ainda transmitem dados científicos. Assim como havia a corrida para colocar o homem no espaço, as superpotências da Guerra Fria competiam pelo primeiro lugar na chegada a outros planetas. Em dezembro de 1962, a Mariner 2 foi a primeira sonda a realizar um sobrevôo em Vênus, medindo a temperatura extremamente alta de sua superfície, e confirmando sua rotação anormalmente lenta. A Mariner 4 sobrevoou Marte em julho de 1965, medindo sua atmosfera e fotografando seus planaltos austrais com crateras.

O sistema solar interno

Como estão mais próximos do Sol, Mercúrio e Vênus viajam mais rápidos que a Terra. Assim, a sonda deve ganhar velocidade para entrar em suas órbitas. Contudo, algumas naves superaram este desafio técnico e visitaram Vênus nos anos seguintes ao primeiro sobrevoo. Diversas sondas soviéticas tentaram o pouso na superfície hostil, apenas para serem destruídas durante a reentrada. Em 1967, Venera 4, equipada com blindagem semelhante a um tanque, enviou com êxito sinais para a Terra. Foi somente oito anos mais tarde que a Venera 9 retornou as primeiras imagens da superfície venusiana. Tanto a Nasa como os soviéticos lançaram orbitadores para fazer levantamentos do planeta desde o espaço. Em 1978, a missão Pioneer Orbiter mapeou o planeta com radar e lançou sondas atmosféricas. Em 1989, o Magellan, um orbitador da Nasa equipado com um sofisticado radar, deu início ao estudo por quatro anos do planeta, com detalhes sem precedentes. A velocidade orbital de Mercúrio representa um problema maior: até agora [2008], apenas a Mariner 10 e a Messenger o visitaram.

Perto de Marte

Os primeiros sobrevoos de Marte foram sucessos notáveis, porém não no que se refere aos trajetos de seus voos. Três sondas estadunidenses retornaram imagens de 10% da superfície marciana, mas perderam toda a evidência de vulcanismo e de água que fazem o fascínio do planeta. A sorte da Nasa mudou em 1971, quando a Mariner 9 tornou-se a primeira nave a orbitar Marte, conduzindo um levantamento fotográfico que revelou o sistema de Valles Marineris, os altíssimos vulcões da região de Tharsis, e os primeiros sinais de cânios com erosão por água. Com o redespertar do interesse pelo Planeta Vermelho, a Nasa lançou a Marte as duas naves gêmeas da missão Viking, cada uma com um lander (módulo de pouso) e um orbitador. Os orbitadores forneceram imagens e dados climáticos da superfície, além de conduzirem vários experimentos detalhados, incluindo um controverso teste de vida microbiana.

O grand tour

Os anos 1970 apresentaram uma rara oportunidade: um alinhamento de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno permitiria a uma nave viajar de um planeta a outro, usando o efeito de “estilingue gravitacional”. O chamando Grand tour levaria pouco mais que uma década. Em 1977, a Nasa lançou a Voyager 1 e 2, inicialmente tendo como alvo apenas Júpiter e Saturno. A Voyager passou por Júpiter em março de 1979 e por Saturno em novembro de 1980, fazendo a primeira aproximação rasante da sua Titã. A Voyager 2 a seguiu poucos meses depois, e, como a Voyager 1 havia completado sua missão, os cientistas da Nasa decidiram ativar seu plano de reserva, lançando sua segunda sonda ao redor de Saturno rumo a Urano, alcançando em 1986, e a Netuno, em 1989. Esta missão extremamente bem sucedida nos ofereceu os primeiros vislumbres desses gigantes exteriores gelados, de suas luas e de seus anéis. Ambas naves ainda estão viajando, além de Plutão, nos confins do sistema solar [Atualmente – 2019 –, já saíram do Sistema Solar].

Exploradores em Marte

Apesar dos sucessos dos lander Viking, as sondas não retornaram a Marte até o final da década de 1990, seguindo uma série de fracassadas missões estadunidenses e soviéticas. Em 1997, a Mars Global Surveyor da Nasa entrou em órbita em torno do planeta, equipada com câmeras de última geração, enquanto um lander, o Mars Pathfinder, liberou o jipe robô Sojourner, que coletou rochas e solo. Seguiram-se muitas outras naves, e a cada nova descoberta, a possibilidade de vida em Marte tornou-se mais plausível. Vários satélites artificiais estão em órbita ao redor do planeta, usando técnicas de sensoriamente remoto para sondar o subolo marciano. Os jipes de exploração marciana, Spirit e Opportunity descobriram evidências inegáveis sobre oceanos extensos no passado marciano. Novas missões como a Phoenix, traçam a história da água em Marte e a possibilidade de vida no planeta.

Entre as luas de Júpiter

Os sobrevoos das Voyagers sobre as enormes luas de Júpiter revelaram que elas eram mundos fascinantes merecedores de uma inspeção mais de perto. A sonda Galileo, destinada a orbitar Júpiter, foi lançada em 1989, mas somente chegou ao destino em 1995. E os resultados valeram a espera. O orbitador fez o sobrevoo rasante de um asteroide durante seu curso, e librou uma sonda na atmosfera de Júpiter, antes de começar uma missão que ultrapassaria todas as expectativas. A Galileo estudou os vulcões de Io e o sistema climático de Júpiter, enquanto deu apoio a evidência de um oceano debaixo da crosta de gelo de Europa e nas luas jovianas exteriores Ganimedes e Calisto.

Cassini e além

A Galileo foi seguida por uma missão ainda mais ambiciosa para Saturno. A Cassini, uma enorme sonda pesando 5,6 toneladas, foi lançada em 1997. Depois de uma complexa jornada durante a qual sobrevoou duas vezes Vênus e uma vez a Terra e tomou impulso em Júpiter, finalmente chegou a Saturno em 2004. A bordo havia o lander europeu Huygens, que desceu de paraquedas na atmosfera de Titã em janeiro de 2005 enviando imagens durante seu pouso e revelando um mundo no qual o metano líquido parece desempenhar o mesmo papel que a água na Terra. Cassini continuou a monitorar Saturno e a fazer voos rasantes sobre muitos dos satélites fascinantes e variados do planeta. Desse modo abrirá caminho para futuras missões orbitais ainda mais ousadas, com ao Prometheus (antes o Orbitador das Luas Geladas de Júpiter), uma nave impulsionada à energia nuclear projetada para estudar as luas de Júpiter em detalhes sem precedentes. A Prometheus será a primeira de uma nova geração de naves espaciais nucleares que abrirá o Sistema Solar a uma exploração mais rápida e ainda mais profunda.

Cometas e asteroides

Embora a maior parte das sondas tivesse os planetas como alvos os cientistas não esqueceram os corpos menores do Sistema Solar. Cometas e asteroides virtualmente inalterados desde sua formação, há 4,5 bilhões de anos, contêm indícios fascinantes sobre a criação do Sistema Solar e mesmo sobre a origem da vida. Em 1985 e 1986, quando o Cometa Halley passou novamente pelas proximidades do Sol, uma flotilha de naves dirigiu-se ao seu encontro. O NEAR (Near Earth Asteroid Rendezvous) sobrevoou o asteroide Mathilde do Cinturão principal em 1997, antes de monitorar o grande asteroide Eros por um ano. Seguiram-se missões mais ambiciosas. A Stardust, da Nasa, recolheu poeira da cauda do cometa Wild 2 em 2004, para trazer à Terra; a missão europeia Rosetta pela primeira vez colocou um lander em um cometa; e a New Horizon sobrevoará Plutão [Chegou em 2016], antes explorando o cinturão de Kuiper, o berço de muitos cometas.

O futuro do homem no espaço

É inevitável que naves tripuladas um dia se aventurem pelas profundezas do Sistema Solar. China, Rússia e Estados Unidos têm planos para um retorno à Lua, e os estadunidenses também consideram a possibilidade de uma missão a Marte. Embora possam ser abandonados, esses planos serão substituídos por outros, e no meio tempo os cientistas espaciais terão reunido os conhecimentos necessários para tornar a viagem espacial de longa duração uma realidade. A Rússia ganhou uma experiência única de microgravidade prolongada com as missões na estação espacial Mir, e a tripulação da Estação Espacial Internacional é uma fonte preciosa de informações em medicina espacial. Por outro lado, experimentos em solo, como a Biosfera 2, fornecem informações úteis sobre como os astronautas poderiam produzir seu próprio alimento, água e oxigênio em outros planetas e como uma tripulação isolada enfrentaria o confinamento em uma nave por muitos meses.

Sistema Solar

ASTRÔNOMOS, E OUTRAS PERSONALIDADES
Por ocupação principal
TEXTOS
Descobrindo o Sistema Solar

Quem foi descoberto primeiro, a Terra ou Marte? A pergunta, em princípio tola, na verdade tem fundamento. Não há como saber quem foi o autor da façanha, mas o fato é que bem antes de alguém descobrir que a Terra era um planeta, tivemos a certeza de que Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno eram! Descobrir planetas no céu até que foi fácil. Mas daí para nossos antepassados deduzirem que também habitavamos um deles foi outra história. Na Antiguidade, ao observar o céu, certas pessoas notaram que alguns astros faziam um trajeto muito estranho. Se você já passou uma noite ao ar livre deve ter percebido que um grupo qualquer de estrelas "move-se" em bloco pelo céu, do leste para o oeste, mantendo as mesmas distâncias aparentes entre si. Mas existe uma classe de astros que subjuga essa ordem celeste. Ao observá-los em relação às estrelas próximas veremos, ao longo dos dias, que ora estarão adiante delas, ora ficarão para trás.


Depois retomarão o caminho e seguirão adiante, mas sem estar sempre com um grupo específico de estrelas. Esse movimento em ziguezague deu-lhes o apelido de errantes. Ou planetas, em latim.

Problema deles
ERAM CINCO OS PLANETAS. Havia um que "corria" próximo ao Sol, ziguezagueando veloz em seu caminho, às vezes pouco antes do nascer, outras vezes pouco depois que o astro-rei se escondia no horizonte. Deram-lhe o nome de Hermes, o mensageiro dos deuses. Nós usamos até hoje o nome latino: Mercúrio.

Também havia um outro que vagava por perto, tão belo e cintilante que lhe deram um significado feminino: era Afrodite. Ou Vênus, a deusa da beleza.

Outro errante costumava brilhar em vermelho cor de sangue no meio da noite. Para os antigos era Ares, um planeta ferido de morte - ou Marte, o deus da guerra. Eram todos nomes de deuses da mitologia greco-romana. Mas não deuses quaisquer, eram os manda-chuvas do Olimpo. O poderoso Zeus, senhor supremo, também estava lá. Para os antigos era o planeta mais brilhante depois de Vênus, com uma coloração branco-alaranjada, sereno, como um deus deve ser. Era Júpiter.


Por fim, havia aquele que os gregos chamavam de Cronos, o senhor do tempo, pai de Júpiter e o mais jovem entre os Titãs. Para nós ficou Saturno, o senhor dos anéis.

Todos errantes no céu, senhores de seus próprios caminhos. Mas a Terra, que os gregos chamavam Gaia, não era um planeta: não vagávamos sem rumo pelo céu, estávamos bem presos ao chão e tudo parecia girar à nossa volta. Errantes eram os outros.

Tem mais um ali
MAS AFINAL, NADA HAVIA DE ERRADO com o movimento dos planetas. Como a Terra, eles simplesmente giravam em torno do Sol. Ao contrário das estrelas, que de tão distantes parecem fixas no firmamento. O efeito conjunto do movimento da Terra e de um planeta provoca a ilusão de que ele está regredindo no céu.

Na verdade, as estrelas também se movem, mas como estão muito longe custamos a perceber, do mesmo modo que quando viajamos de carro percebemos muito mais facilmente o deslocamento aparente dos postes ao longo da estrada que das nuvens no horizonte. O tempo passou. Inventaram o telescópio e esqueceram-se dos deuses gregos. Um belo dia um astrônomo inglês descobriu um novo planeta. Ninguém podia vê-lo a olho nu mas ele tinha o mesmo movimento errático dos demais.


O pior é que lhe deram o nome de Jorge, em homenagem ao rei Jorge III da Inglaterra. Sorte que o bom senso prevaleceu e a comunidade científica rejeitou o nome e o chamou de Urano, céu em grego. Sessenta e cinco anos mais tarde, em 1846, foi a vez de Netuno - na mitologia grega, Poseidon, o deus dos mares.

Plutão só foi descoberto no século XX (em 1930) e desde então ainda não completou uma volta em torno do Sol. Para Hades, também uma divindade do Olimpo, ainda não se passou nem um ano desde que o encontraram. Asteróides em dose dupla

AS DESCOBERTAS NÃO PARARAM POR AÍ. Em 1951 o astrônomo de origem holandesa Gerard Kuiper (1905-1973) propôs a existência de um segundo cinturão de asteróides além da órbita de Plutão.

Muitos desses corpos seriam compostos por materiais voláteis, que evaporariam caso chegassem perto do Sol, formando longas caudas de gás e poeira. Hoje essa região é conhecida como Cinturão de Kuiper.

Em 1992 foram descobertos Smiley e Karla, dois pequenos corpos na região proposta por Kuiper. Hoje se conhecem mais de 600 objetos no cinturão de Kuiper, entre eles Quaoar, com 1.250 km, quase a metade do tamanho de Plutão e um volume superior à soma de todos os asteróides conhecidos.

O Sistema Solar atual é formado pelo Sol, os nove planetas conhecidos, um anel de asteróides entre Marte e Júpiter e outro chamado Cinturão de Kuiper, localizado depois da órbita de Netuno. Sem falar nos cometas. E quanto à Terra? Bem, afinal alguém descobriu que fazíamos parte da família do Sol. Isso foi por volta do ano 500 antes de Cristo. Hoje, é irresistível brincar com a idéia de que enquanto o Brasil fazia 500 anos, a Terra, cujo dia também se comemora em 22 de abril, "completava 2.500 anos". Feliz aniversário!

Sistema Solar
Explorando o espaço - uma história da astronomia

A história da astronomia conecta círculos de pedra pré-históricos com sondas espaciais do século XX!. È uma história de sucessivas revoluções na compreensão de nosso local no Cosmos, e nos meios pelos quais tomamos consciência dele. A geometria permitiu aos gregos fazer as primeiras medidas do Sol, Terra e Lua. Já no século XVII, instrumentos precisos derrubaram ideias centradas na Terra. O telescópio descortinou o céu apresentando muitos novos mistérios a serem explicados pela teoria da gravitação de Newton. A espectrocospia ofereceu um novo método para estudar as propriedades das estrelas e, por fim, revelou a existência de outras galáxias e a expansão do Universo. Nas útlimas décadas, o desenvolvimento do voo espacial permitiu a telescópios em órbita sondar o espaço profundo, enquanto as jornadas de umas poucas pessoas e máquinas além da órbita imediata da Terra colocaram nosso planeta relamente em perspectiva pela primeira vez.

Astronomia antiga

A história da astronomia remonta a 6.000 anos atrás, o que a torna a mais antiga das ciências. Cada uma das culturas ao longo da história estudou o Sol, a Lua, as estrelas e observou como os corpos celestes se movem no céu. As observações refletem curiosidade e encanto com o mundo natural, mas também foram impulsionadas por razões urgentes de navegação, contagem de tempo e religião.

Ciclos da vida

Povos da antiguidade eram fascinados pelos padrões de mudança repetindo-se incessantemente no mundo a seu redor. Evidências da passagem do tempo incluías alterações na temperatura do ar, no horário e posição do nascer e pôr-do-sol, nas fases da Lua, no crescimento da vegetação e no comportamento animal. Esses fenômenos eram atribuídos aos deuses ou a poderes mágicos. Milhares de anos atrás, os “primeiros” astrônomos foram provavelmente pastores ou agricultores no Oriente Médio, que observavam a noite, atentos a sinais das mudanças das estações. Os antigos egípcios se baseavam em observações astronômicas para planejar o plantio e a safra das colheitas. Sabiam que o nascimento de Sirius logo antes do nascer-do-sol anunciava a enchente do rio Nilo. A habilidade para medir períodos de tempo e registrar ciclos celestes foi essencial para o avanço da astronomia, e assim muitas culturas antigas desenvolveram calendários, relógios de sol e relógios de água. Monumentos como as pirâmides e grupos de megalitos (grandes pedras eretas) foram, de fato, os primeiros observatórios. Em cerca de 1000 a.e.c., os indianos e babilônios haviam calculado a duração do ano em 360 dias; este período levou à divisão do círculo em 360°, com cada grau representando um dia solar. Posteriormente, os antigos egípcios refinaram a duração do ano para 365,25 dias.

Fazendo mapas celestes

A astronomia sempre se ocupou com mapear e nomear as estrelas. Por volta de 3500 a.e.c., os antigos egípcios dividiram o zodíaco nas 12 constelações de hoje e agruparam as outras estrelas fora do zodíaco em suas próprias constelações. Nas antigas China e Índia, criaram-se 28 mansões lunares, ou “domicílios noturnos” para registrar o movimento da Lua em seu caminho mensal. Os antigos gregos foram os primeiros a catalogar as cerca de 1000 estrelas mais brilhantes, por volta de 150-100 a.e.c. mas, muito antes deles, observadores da Índia e Oriente Médio mantinham registros astronômicos detalhados e datados. Coleta de dados sistemática foi desenvolvida pelos sumérios e babilônios – civilizações que viviam entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia – por razões de ritual e profecia política.

Orientação e navegação

Os mais importantes feitos dos astrônomos antigos incluem como encontrar os pontos cardeais – note, sul, leste e oeste – e como usar a Estrela Polar do norte para determinar a latitude. Este conhecimento capacitou a orientação precisa de estruturas, particularmente de templos e monumentos funerários, e também auxiliou na confecção de mapas terrestres acurados. Em 3000-2000 a.e.c., os povos da Idade da Pedra do norte da Europa utilizaram alinhamentos solares nos solstícios e equinócios, fases lunares, e outros dados astronômicos para construir grandes círculos de pedra, como Stonehenge e Avebury na Inglaterra, e Newgrange na Irlanda. Altares de foto (usados por sacrifícios rituais de fogo hindus), posicionados em bases astronômicas, e datando de 3000 anos atrás foram encontrados em diversos sítios arqueológicos na Índia. Algumas das mais complexas construções projetadas de acordo com princípios astronômicos são as pirâmides do antigo Egito e exemplos tardios construídos pelos astecas e maias na América. A arquitetura antiga fornece abundante prova de conhecimento astronômico, mas há poucas evidências do seu uso em navegação antiga. Contudo, os povos navegantes da Polinésia podem ter usado as posições das estrelas para migrar através do Pacífico por volta de 1000 a.e.c.

O nascimento da astrologia

Astrologia é uma prática milenar que busca determinar como os planetas e outros objetos celestes podem influenciar a vida na Terra, em especial os assuntos humanos. Descartada como superstição, ela estabeleceu fundamentos sólidos para a observação astronômica e dedução lógica. Em seu esforço de prever os eventos futuros e buscar sinais ou portentos os antigos astrólogos tentaram “ordenar” os céus e notaram o modo como o Sol, a Lua e os planetas se comportam. Enfatizaram em particular ocorrências inesperadas como eclipses, cometas, chuvas de meteoros e o aparecimento de novas estrelas. Muitas elites políticas empregavam astrólogos e observadores dos céus, e seu trabalho era uma atividade intelectual perfeitamente respeitável até o fim do século XVII. Astrônomos também escreviam tratados astrológicos; por exemplo, em 140 e.c., Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, o mais influente de todos os tratados astrológicos.

Início da astronomia científica

A Grécia antiga foi um divisor de águas no desenvolvimento da astronomia como a ciência racional. Os acadêmicos gregos formularam leis complexas e fizeram modelos do Universo. Após o estabelecimento do Islamismo, estudiosos árabes desenvolveram métodos ainda mais acurados de observação dos céus.

Germens do pensamento científico

O mundo grego antigo conheceu uma liberdade política e intelectual sem precedentes e um espantoso progrsso científico. Por 700 anos, de cerca de 500 a.e.c. a 200 e.c. os filósofos gregos buscaram respostas para questões astronômicas fundamentais. Ainda acreditavam em um plano mestre divino e tinham ideias que soam estranhas par anos hoje – Heráclito (540-500 a.e.c.), por exemplo, sugeria que as estrelas eram acesas toda noite, e o Sol toda manhã, como lâmpadas de óleo. Mas Platão (c.427-347 a.e.c.) argumentou que a geometria é a base de toda verdade, fornecendo assim o impulso necessário para deduzir exatamente como o Cosmos funcionava. Aristóteles fixou a Terra no centro do Universo e sugeriu que os planetas eram corpos eternos movendo-0se em órbitas perfeitamente circulares. Eudoxo (408-355 a.e.c.) cartografou as constelações setentrionais e Hiparco (190-120 a.e.c.) pela primeira vez classificou as estrelas em seis ordens de magnitude.

Medindo distâncias

Os avanços na geometria e trigonometria permitiram que os gregos medisses distâncias astronômicas com razoável precisão. Por volta de 500 a.e.c. Pitágoras propôs que o Sol e a Terra, a Lua e os planetas fossem todos esféricos, uma noção que Aristóteles confirmou, no caso da Terra, pela observação da forma de sua sombra durante um eclipse solar. Em 250 a.e.c. Eratóstenes (276-194 a.e.c.) notou que a luz solar incidia diretamente no fundo de um poço em Siena, no Egito, ao meio-dia do solstício de verão. Comparando com dados sobre as sombras em Alexandria, e usando trigonometria, ele estimou a circunferência da Terra com precisão de 5%. Hiparco e Aristarco (320-230 a.e.c.) mediram a distância Terra-Lua cronometrando eclipses lunares. Infelizmente, a distância Terra-Sol não foi estimada com a mesma precisão.

O cosmos centrado na Terra

É natural que as pessoas supusessem que o Cosmos era geocêntrico, ou centrado na Terra. Afinal de contas, não percebemos o movimento da Terra quando ela gera no espaço e as estrelas parecem fixas. Pensadores antigos, como Aristarco em 280 a.e.c., contestaram este sistema e colocaram o Sol no centro, mas suas ideias não tiveram crédito. Em vez disso, Ptolomeu refinou a visão de mundo cosmológica de Aristóteles e criou uma sequência ordenada de órbitas uniformes. Sua ordem era: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e finalmente as estrelas. Isto é baseado na velocidade percebida: por exemplo, a Lua completa uma volta no céu em um mês, o Sol em um ano e Saturno em 29,5 anos. De modo a reconciliar o conceito errôneo de órbitas circulares (em contraste com elípticas) e as velocidades variáveis dos planetas, Ptolomeu foi obrigado a argumentar que cada planeta também girava em um pequeno círculo, o epiciclo, enquanto orbitava a Terra.

Astronomia árabe

Depois do declínio das cidades-estado gregas, os mais importantes avanços da astronomia foram alcançados pelos árabes. O período de domínio grewgo durou 800 anos, desde a fundação do Islamismo em 622 até o século XIV. Astrônomos trabalhando no Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e Espanha mourisca traduziram textos gregos e em sânscrito (da Índia) para o árabe e assimilaram seu conhecimento astronômico. As regras muçulmanas para s cultos ao longo do dia e do mês, e a necessidade de encontrar a direção de Meca para fazer as orações e orientar as mesquitas, significavam que havia uma urgente necessidade de se determinar o tempo e a posição com extrema precisão. Desenvolveu-se a trigonometria esférica sofisticada, funções trigonométricas e álgebra e o astrolábio (uma invenção grega, usada para calcular a hora e a latitude) foi aprimorado. A abordagem dos grandes astrônomos árabes, como Al-Battani (850-929) e Ulugh Beg (1349-1449) fundamentava-se em observação paciente. Com este fim numerosos observatórios foram construídos, dos quais os maiores estavam em Bagdá, no Iraque, em Samarkand, no Uzbequistão, e em Maraghan, no Irã. Eles alojavam grandes instrumentos, incluindo quadrantes montados em paredes, utilizados para medir a altitude de objetos astronômicos quando cruzavam o meridiano (o plano norte-sul).

A revolução copernicana

Por séculos os astrônomos basearam suas teorias na suposição de que a Terra estaria no centro do Universo. No século XVI, esta posição privilegiada foi abalada pela sugestão de que a Terra era apenas um dos vários planetas circulando o Sol. Esta revolução foi acompanhada por imensos avanços tecnológicos, em particular pela invenção de telescópios, anunciando uma nova era de pesquisa e de grandes descobertas.

Astronomia medieval

Após a queda de Roma em 476, astrônomos na Europa, Oriente Médio e àsia deixaram para trás seu relativo isolamento cultural e passaram a trocar ideias mais livremente. Isto graças, em parte, ao crescimento do comércio durante a Idade Média e em parte à expansão do Islamismo. A astronomia observacional floresceu com ênfase em conjunções planetárias, eclipses solares e lunares a as aparições de cometas e estrelas novas. Muitos astrônomos medievais eram professores universitários e se sustentavam com o ensino. Apesar dos recursos limitados fizeram avanços notáveis, incluindo um novo preciso catálogo de posições de estrelas a olho nu, planejado por Ulugh Beg *1394-1449) da Mongólia – o primeiro desde os dias de Hiparco, 1600 anos.

O Universo heliocêntrico

Pode-se datar o nascimento da astronomia em 1543, quando Nicolau Copérnico publicou seu revolucionário tratado sobre um Universo centrado no Sol, ou heliocêntrico. Ele estava insatisfeito com a imprecisão dos modelos geocêntricos das orbitas planetárias, nos quais a Terra ocupava o centro e que dominavam a astronomia desde a obra de Ptolomeu no século II. Sua teoria muito mais simples de um Sol central e uma Terra em órbita explicava muitas observações antes enigmáticas, porque agora havia dois tipos de planetas, os internos e os externos da órbita da Terra. A sequencia Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno era um ordem de período orbital e de distância crescente ao Sol. A “lanterna do Universo”, com o Copérnico o chamava, agora assumia seu lugar de direito no centro do Cosmos. Embora isso significasse que a Terra se movia em alta velocidade, a teoria já havia sido proposta por Aristarco e outros.

A noção do Espaço

Os gregos e os astrônomos posteriores colocaram as estrelas logo além de Saturno, mas isto causaria um problema se a teoria copernicana estivesse correta. Se, como Copérnico argumentava, a Terra orbitava o Sol, por que as estrelas não tinham um movimento recíproco? A única escolha para Copérnico era banir as estrelas para uma distância tão vasta que seu movimento não seria perceptível para observadores terrestres. Ele também foi o primeiro a sugerir que as estrelas brilhantes estariam mais próximas que as fracas. Contudo, ouros se perguntavam porque Deus teria criado um espaço enorme, aparentemente inútil entre a órbita de Saturno e as estrelas. Tycho Brahe (1546-1601), um nobre dinamarquês, pensava que o futuro da astronomia dependia da estimativa de distâncias verdadeiras e do registro acurado das posições planetárias em diversos tempos. Com este objetivo ele aprimorou os padrões observacionais, fabricando instrumentos de mensuração precisamente calibrados. Em 1572 suas observações pacientes da supernova na constelação de Cassiopéia o convenceram de que as estrelas não estavam todas a uma distância fixa, mas que eram objetos cambiantes que existem no “espaço”. Propor essas ideias exigia coragem, ou o apoio de patronos poderosos, devido à Inquisição, nessa época, julgar e punir os que desafiassem a visão ortodoxa da Igreja Católica em relação ao Universo.

Leis do movimento planetário

O sistema heliocêntrico copernicano ainda descrevia as órbitas planetárias em termos de epicilos – cada planeta descrevia um pequeno círculo enquanto girava em torno do corpo central. Essa visão prevalecia desde Ptolomeu mas a forma real das órbitas permanecia um mistério. Necessitava-se de duas coisas para resolver o problema. A primeira era os dados planetários precisos obtidos por Tycho Brahe. A segunda era fé nos seus dados, junto com tenacidade e gênio matemático. A última foi fornecida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), sucessor de Tycho após 1601. Com base nas observações do caminho de Marte na esfera celeste Kepler acabou por formular suas três leis do movimento planetário. Primeiramente, em 1609, ele revelou que as órbitas eram elípticas, e não circulares ou epicíclicas. O Sol está em um dos focos da elipse (a elipse tem dois focos; o círculo é um calo limite de eclipse, com um único foco). Em segundo lugar, mostrou que a linha unindo o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, assim um planeta é mais lento na parte mais exterior da sua órbita. Em terceiro lugar, em 1619, Kepler provou a relação entre o tamanho e o período da órbita. Ele alimentava concepções místicas – acreditava que o Cosmos era permeado por coras musicais, com cada planeta produzindo um tom em proporção a sua velocidade. Como todos antes da descoberta da gravidade por Newton, não tinha a menor ideia do que mantinha os planetas em suas órbitas.

As descobertas de Galileu

Galileu Galileia apresentou provas concretas de que o modelo copernicano do Universo estava correto. Em 1608 quando um fabricante de óculos flamengo inventou o telescópio a notícia se espalhou rapidamente. Galileu construiu, ele mesmo, vários telescópios em 1609, assim tornando-se o fundador da astronomia telescópica. Seus instrumentos tinham uma magnificação de 30x. Em alguns meses ele descobriu que a Lua era montanhosa, detectou as fases de Vênus, as manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Chegou mesmo a sugerir que as estrelas fosses sóis distantes. Acima de tudo ele percebeu que as fases de Vênus somente poderiam ser explicadas se os planetas orbitassem o Sol, e não a Terra. Outros achados de Galileu fundamentam a física nascente: a aceleração de um corpo independe de sua composição ou peso; e o período de balanço de um pêndulo independe de sua amplitude.

Grandes observatórios

A emergência de uma nova geração de observatórios fo um divisor de águas na história da astronomia. Observatórios haviam sido anteriormente exclusivos a um grupo seleto de pessoas, incluindo Tycho Brahe na Dinamarca e Johannes Hevelius em Danzing, Prússia (agora Gdansky, na Polônia), ou de professores universitários, como Galileu ou Giovanni Cassini de Bologna, na Itália. Então, essas unidades foram ampliadas por instituições reais bem financiadas. Luis XIV fundou a Academia de Ciências em Paris, em 1666, e o Observatório Real francês, completado em 1672. Na Inglaterra, Charles II fundou a Royal Society em 1660, o que levou à construção do Royal Greenwich Observatory, onde John Flamsteed (1646-1719) foi o primeiro astrônomo real, iniciando seu trabalho em 1676. Em breve os astrônomos estavam atacando os três principais desafios daquela época: determinar o tamanho do Sistema Solar; medir a distância até as estrelas; e achar a latitude e a longitude de locais na terra e no mar. Esta busca foi em parte impulsionada por necessidades da navegação em uma época de expansão dos impérios europeus e pelo desejo de prestígio nacional. A partir do começo do século XVIII, os observatórios se multiplicaram rapidamente, inaugurando-se instalações em Berlim, Prússia (1711), em Jaipur, Índia (1726), em Uppsala, Suécia (1730), em Vilnius, Prússia (1753), em Washington, EUA (1838), e em Pulkovo, Rússia (1839). Dedicou-se muito esforço para mapear o céu e traçar os movimentos dos corpos celestes.

Leis da atração

Um dos maiores enigmas desafiando os astrônomos de meados do século XVII era porque os planetas percorriam imensas distâncias ao redor do Sol em órbitas estáveis sem se lançar no espaço. O grande físico inglês Issac Newton (1642-1727), professor na Universidade de Cambridge, encontrou a resposta. Um objeto se moveria a velocidade constante segundo uma linha reta, a menos que fosse sujeito a uma força. No caso dos planetas, a força era a gravidade do Sol. Ele logo percebeu que a gravidade era universal. Ela controlava tanto a trajetória de um objeto caindo (como a famosa maçã que Newton viu cair de uma árvore em 1666), como a Lua orbitando a Terra e um cometa viajando rumo ao Sol vindo dos remotos confins do Sistema Solar. A gravidade explicava as três leis de Kepler e também a altura das marés. Após a morte de Newton, o retorno do cometa Halley em 1758 provou que a gravidade também era aplicável nos limites do Sistema Solar, e o uso da teoria da gravitação possibilitou o cálculo da massa da Terra e do Sol. 

O telescópio refletor e Newton

Em 1666, Newton descobriu que um prisma dispersa a luz em um arco-íris de cores. Infelizmente, as lentes de um telescópio fazem o mesmo, e a luz azul de um extremo do espectro é focalizada em um ponto diferente da luz vermelha e o ouro extremo. Isto é a chamada aberração cromática, que produz halos de luz colorida ao redor do objeto sendo visto, causando uma grave perda de qualidade de imagem. Uma solução é suar espelhos curvos para focalizar toda luz no mesmo ponto, independentemente da cor. Em 1663, o escocês James Gregory (1638-75), projetou um telescópio refletor com um grande espelho côncavo primário e um secundário côncavo menor que projetava luz de volta através de um orifício para uma lente magnificadora atrás. Newton modificou o projeto usando um espelho plano secundário para refletir a luz capturada para uma ocular montada lateralmente. Exibido em 1672 o telescópio de Newton foi imensamente aclamado.

O espaço infinito

Na metade do século XIX, a astronomia havia evoluído de uma ciência essencialmente matemática para uma disciplina que incorporava o conhecimento novo e as técnicas dos físicos e químicos. Rápidos progressos tecnológicos, particularmente a invenção da fotografia e telescópios ainda mais poderosos, permitiram aos astrônomos estudar os corpos celestes com muito mais detalhe. Eles começaram a classificar os diferentes objetos e a estudar seu comportamento.

O iluminismo

Os séculos XVIII e XIX viram grandes progressos em ciência devido a métodos científicos aprimorados. Foi um período de consolidação em astronomia, baseada em avanços nas medidas e classificação de corpos celestes. As órbitas dos cometas eram de grande interesse depois do trabalho do inglês Edmond Halley (1656-1742), que mostrou que “seu” cometa retornava a cada 76 anos. As órbitas dos planetas eram determinadas com muito mais precisão que anteriormente e detalhes de sua superfície, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter e as calotas polares de Marte foram observados. Em 1728, a velocidade da Terra foi calculada. William Herschel descobriu o sétimo planeta, Urano, em 1781, e o italiano Giuseppe Piazzi ( 1746-1826) identificou o primeiro asteroide, Ceres, em 1801. Os franceses Urbain Le Verrie e Pierre-Simon Laplace (1749-1827), e o inglês John Adams (1819) aplicaram a teoria da gravitação de Newton para prever a posição de um planeta invisível além de Urano. Netuno foi descoberto em 1846.

O cosmos estelar

Aperfeiçoamentos dos telescópios ao longo do século XVIII permitiram que a astronomia tornasse o estudo do Universo um processo dinâmico. Anteriormente as estrelas eram apenas pontos fixos de luz, com distância desconhecida, mas na década de 1710 Halley descobriu o seu movimento dando início a esforços concentrados para compreender seu comportamento. Constatou-se que muitas estrelas são duplas, orbitando em torno de um centro de massa comum, em conformidade com a gravitação newtoniana e, na década de 1780, estrelas variáveis como Algol e Delta Cephei, eram investigadas. Em 1781, o francês Charles Messier (1730-1817) publicou um catálogo de 103 “corpos difusos”, ou nebulosas (nuvens de gás e poeira). Herschel estendeu este trabalho, gastando muitas horas contando estrelas de diferentes magnitudes, em uma ambiciosa tentativa de fazer um levantamento do céu. Em 1783 ele deduziu que o Sol está se aproximando da estrela Lambda Herculis, e erroneamente concluiu que ela se situava no centro do sistema estelar galáctico. Durante as duas primeiras décadas do século XIX, Laplace desenvolveu métodos de análise matemática que resultaram no primeiro modelo para a origem do Sistema Solar.

O nascimento da astrofísica

Durante o século 19, os astrônomos continuaram a aplicar o desenvolvimento da matemática, física e química para compreender a constituição e comportamento dos planetas, cometas e estrelas. Um novo campo – a astrofísica – emergiu, conferindo propriedades físicas aos objetos no espaço. A astronomia tratava principalmente com seu movimento, enquanto a astrofísica examinava seus parâmetros básicos como raio, massa temperatura, e composição química. Em 1815, o óptico alemão Joseph Fraunhofer (1787-1826), enquanto estudava o espectro da luz solar, notou várias linhas escuras sobre ele. Mais tarde, verificou-se que estas linhas eram devidas à absorção por elementos químicos do Sol. Como ada elemento químico absorve a luz em certos comprimentos de onda, o padrão de linhas de absorção revela a sua presença. Nos anos 1860, o astrônomo britânico William Huggis (1824-1910) descobriu, por meio da espectroscopia (o estudo de espectros) que as estrelas contêm os mesmos elementos que a Terra.

Avanços instrumentais

Os telescópios tornaram-se cada vez maiores desde o princípio do século XVIII – quando astrônomos como Edmond Halley labutavam para usar desajeitados e imprecisos instrumentos com lentes objetivas de pequeno diâmetro – na metade do século XIX. As lentes dobraram em tamanho a cada 40 anos, o que implicava que a distância até os objetos visíveis mais longínquos também dobrava, e que seu número crescia por um fator oito. Sofisticaram-se as montagens dos telescópios, e a qualidade das lentes foi aperfeiçoada. Os telescópios refratores foram totalmente transformados em 1758, quando o astrônomo inglês John Dolland (1706-1761) introduziu a lente dupla, que focalizava a luz azul e a vermelha no mesmo ponto. Herschel construiu enormes telescópios refletores e, em 1524 completou-se o primeiro telescópio com montagem equatorial, na qual o eixo do instrumento era alinhado com o polo norte celeste e um relógio mecânico movia o instrumento em torno deste eixo para acompanhar as estrelas. Nos anos 1840, a fotografia começou a substituir o lápis e papel para o registro de dados. Placas fotográficas podiam ser expostas por horas, permitindo a detecção de objetos muito mais fracos que os visíveis unicamente pelo olho humano.

A forma do espaço

No começo do século XX, alguns pensavam que havia apenas uma galáxia, com o Sol no centro. Nos anos 1930, os astrônomos já haviam percebido que havia bilhões de galáxias e que o Universo estava em expansão. Também começavam a compreender as fontes de energia estelar.

Matéria e energia das estrelas

A partir de 1900, devido à compreensão da natureza da radioatividade descoberta quatro anos antes, começou-se a perceber que a Terra poderia ter mais de 1 bilhão de anos de idade. Esta ideia era consistente com estimativas anteriores feitas por geólogos e com a avaliação de Charles Darwin do tempo necessário para a seleção natural operar. Permanecia o mistério de como o Sol poderia manter-se brilhando por tanto tempo. Uma ideia era que o Sol fosse alimentado pela queda de meteoritos; outra que o Sol estava lentamente se contraindo. Nenhuma dessas teorias dava conta da longa vida do Sol. Contudo, em 1905 Albert Einstein (1879-1955) propôs que E=mc2,  e assim energia E, poderia ser produzida pela destruição de massa, m. Nos anos 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington (1882-1944) sugeriu que a fonte de energia do Sol – e de outras estrelas – fosse a fusão nuclear. O físico germano-estadunidense Hans Bethe (1906-2005) especificou então os processos básicos de fusão nuclear. É de fato uma reação nuclear que libera energia da matéria. Astrofísicos têm agora uma visão detalhada de como as estrelas obtêm sua energia e estimam que estrelas do tipo solar possam brilhar por 10 bilhões de anos.

O grande debate

Nos anos 1920 houve um debate público entre os astrônomos estadunidenses Harlow Shapley e Heber Curtis sobre a forma da nossa galáxia em particular a extensão do Universo em geral. Shapley acreditava que havia apenas uma “grande galáxia”, com a Terra a dois terços da distância até a borda. Ele dizia que o diâmetro era de 300.000 anos-luz – 10 vezes maior que a estimativa de Curtis. Este valor foi obtido com estrelas variáveis cefeídas (cujo brilho varia periodicamente) como indicadores de distância. Curtis, por outro lado, estava convencido de que muitos objetos nebulosos no céu não estavam em nossa galáxia, mas que eram de fato outras galáxias como a nossa. Ele propôs que estes “universos-ilha” estava espalhados uniformemente no céu, com alguns deles obscurecidos pelo disco galáctico, o que explicava sua distribuição acima e abaixo do plano da Via Láctea.

O universo em expansão

Os novos e enormes telescópios estadunidenses revolucionaram a astronomia do século XX. O Telescópio Hooker era tão grande que podia detectar as estrelas cefeídas da Nebulosa de Andrômeda (M31). O  fraco brilho dessas estrelas indicava eu sua distância da Terra era cerca de 10 vezes o diâmetro da Via Láctea. Heber Curtis estava correto: Andrômeda não era uma “nebulosa” mas uma galáxia. Outras “nebulosas” espirais também eram claramente galáxias. Usando o Hooker o estadunidense Edwin Hubble mostrou que as galáxias são os “blocos fundamentais” de um universo muito mais vasto que previamente imaginado. Em 1927 ele investigou características espectrais de galáxias e constatou que não somente a luz da maioria delas apresentava um deslocamento para o lado vermelho do espectro, indicando que se afastavam de nós, mas também que essa velocidade de recessão era maior para as mais fracas (mais distantes). O Universo estava em expansão e, portanto, deveria ter sido muito menor no passado. O declive do gráfico velocidade-distância indicava a idade do Universo. Os astrônomos logo perceberam que algo havia dado início à expansão, lançando as sementes da teoria do Big Bang.

Tecnologia de telescópios

A astronomia observacional estadunidense atingiu um divisor de águas nas últimas décadas do século XIX. Nos Estados Unidos novos e sofisticados observatórios e departamentos universitários foram estabelecidos, muitas vezes financiados por empresários milionários. Os astrônomos desejavam examinar objetos muito fracos e distantes, mas a limitada resistência e a transparência relativamente baixa das lentas objetivas dos telescópios impunham um limite de cerca de 1m de diâmetro – o tamanho do telescópio refrator de Yerkes, inaugurado em Williams Bay, Wisconsin, em 1897. Assim abandonou-se os refratores: era o início de uma nova era de enormes telescópios refletores. O Telescópio Hooker, de 2,5m, em Monte Wilson, na Califórnia, tornou-se operacional em 1918. Em 1948, entrou em sérvio o Telescópio Hale, de 5,2m, no Monte Palomar, na Califórnia. Em 1993, o primeiro Telescópio Keck, com um espelho de 10m, feito de espelhos segmentados, entrou em operação. Acoplado ao progressivo aumento do tamanho dos telescópios veio um enorme aumento na sensibilidade dos detectores. Placas fotográficas tornaram-se mais sensíveis e foram usadas extensivamente par mapear o céu e gerar arquivos permanentes de posições e espectros de objetos. Outro desenvolvimento crucial foi a radioastronomia. Radiotelescópios, o primeiro dos quais foi feito em 1937, passaram a captar as emissões nos longos comprimentos de onda em rádio do espaço profundo.

Astronomia da era espacial

Com o início da Era Espacial (a era do vôo espacial) nos anos 1950, a viagem além da Terra e o contato co planetas, cometas e asteroides tornou-se uma realidade. O despertar das astronomias em rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama ofereceu à humanidade novas perspectivas do Universo, revelando a existência de novos e exóticos objetos nunca antes imaginados.

Estrelas extremas

Relações entre massa, raio e luminosidade das estrelas foram primeiramente estabelecidas graças ao diagrama Hertzsprung-Russel por volta de 1911 e levaram ao reconhecimento de estrelas gigantes e anãs. Desde então encontraram-se muitos tipos extremos de estrelas. Em 1915, W.S. Adams identificou Sirius B como a primeira anã branca – uma estrela da massa do Sol mas comprimida até o volume da Terra. Em 1931 o astrofísico indiano S. Chandrasekhar, usando os novos modelos para o comportamento de partículas subatômicas, descobriu um limite superior à massa de uma anã branca. 1,4 massa solar. Acima disso, um núcleo estelar exaurido colapsará em uma estrela de nêutrons superdensa com uns poucos quilômetros de diâmetro, arrebentando o resto da estrela em uma explosão de supernova. Estrelas de nêutrons em rotação são vistas da Terra como pulsares – radiofontes pulsantes –, a primeira delas foi descoberta em 1967 por Jocelyn Bell-Burnell e Anthony Hewish, do Reino Unido. No outro extremo de massa estelar estão as anãs marrons, muitas delas descobertas recentemente, muito frias para desencadearem rações nucleares no seu centro.

Buracos negros

A possibilidade de buracos negros foi sugerida em 1783 pelo astrônomo inglês John Michell, que considerou a hipótese de um objeto tão massivo que nem a luz poderia escapar da sua gravidade. A ideia reapareceu em 1916 como resultado da teoria da relatividade geral de Einstein, mas os buracos negros permaneceram uma curiosidade até a década de 1960, quando o lançamento de satélites de astronomia de raios-X levou à descoberta de estrelas binárias de raios-X como Cygnus X-1. Binárias de raios-X exigem uma fonte compacta, massiva de erngia, que só pode ser fornecida por um buraco negro. A descoberta de buracos negros de massa estelar também abriu o caminho para se aceitar os quasares – objetos compactos, extremamente luminosos, a altos redshifts – como violentas galáxias distantes, alimentadas por buracos negros supermassivos nos seus centros.

Interior das estrelas

Com telescópios ópticos os astrônomos podem enxergar até uma profundidade de 500km abaixo da superfície solar. Infelizmente, como o Sol tem um raio de 700.000km, um imenso volume não pode ser observado diretamente. Durante os anos 1920 os astrofísicos calcularam que o centro do Sol teria uma temperatura de aproximadamente 15 milhões °C e uma densidade cerca de 150 vezes a da água. Em 1939 o físico alemão Hans Bethe mostrou como processo nucleares, agindo sob essas condições extremas, converteriam lentamente hidrogênio em hélio, liberando imensas quantidades de energia pela conversão de massa em energia. O inglês Fred Hoyle e o alemão Martin Schwarzschild estenderam esta modelo na década de 1950, mostrando como hélio é transformado em carbono e oxigênio em estrelas gigantes. Logo os astrofísicos encontraram mecanismos para a manufatura de elementos ainda mais pesados, como cobalto e ferro, nas estrelas mais massivas. Na década de 1960 os primeiros detectores de neutrinos foram usados para detectar estas partículas altamente penetrantes, liberadas pelas reações nucleares no interior do Sol, e desde os anos 1970, a técnica de heliossismologia permitiu o monitoramento das ondas sonoras ressonando através do interior solar, assim revelando sua estrutura detalhada.

Meio interestelar

A descoberta de grandes quantidades de gás e poeira entre as estrelas foi um triunfo da radioastronomia. Em 1944, o astrônomo holandês Hendrick vam de Hulst previu que o hidrogênio interestelar emitiria ondas de rádio com um comprimento de onda de 21 cm, o que foi confirmado em 1951 pelos físicos estadunidenses Harold Ewen e Edward Purcell. Em breve, radiotelescópios eram usados para mapear a distribuição do hidrogênio neutro atômico nos braços espirais da Via Láctea e de outras galáxias. Em 1974, levantamentos do comprimento de onda de 2,6mm, que age como um traçador de hidrogênio molecular, levaram à descoberta de nuvens moleculares gigantes, locais de nascimento de estrelas.

Astronomia desde o espaço

A Era Espacial começou em 4 de outubro de 1957, quando a União Soviética lançou o satélite Sputnik I, e os astrônomos rapidamente aproveitaram a capacidade de se observar fora da atmosfera terrestre. Detectores a bordo de foguetes já haviam captado sinais intrigantes em comprimentos de onda incomuns durante suas breves excursões fora da atmosfera, e o primeiro observatório orbital, o Ariel I, foi lançado pelo Reino Unido em 1961, equipado com um telescópiode ultravioleta. Outros satélites, como as séries estadunidenses Explorer, e Uhuru, rapidamente mapearam as principais fontes de ultravioleta, infravermelho e raios-X. Enquanto isso, sondas espaciais se espalhavam pelo Sistema Solar, retornando informação sobre o ambiente interplanetário e cartografando os planetas com uma variedade de câmaras, radares e outros instrumentos.

A origem do Universo

A descoberta na década de 1920 de que o Universo está em expansão desencadeou uma nova onda de reflexões cosmológicas. Em 1931, o astrônomo e padre belga Georges Lamaître sugeriu que todo o material do Universo teria começado com o uma única esfera altamente condensada – a origem da teoria do Big Bang. Em 1948, o austríaco Hermann Bondi e os britânicos Thomas Gold e Fred Hoyle propuseram uma teoria rival, da Criação Contínua, na qual matéria estaria sendo criada continuamente para preencher os vazios deixados pela expansão. Felizmente, ambas teorias poderia ser testadas pelas observações e as evidências acabaram por apoiar o Big Bang. Em 1980, Alan Guth da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, estendeu a cosmologia do Big Bang introduzindo a inflação, que auxiliava a resolver alguns problemas maiores da teoria. Mas, ainda restam questões importantes nessa área.

Planetas extra-solares

Grandes refinamentos na espectroscopia permitiram medir ligeiras variações nas velocidades estelares produzidas pela perturbação gravitacional de planetas em órbita. Em 1995, os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra descobriram um planeta com massa um pouco abaixo da metade daquela de Júpiter em torna da estrela 51 Pegasi, a 48 anos-luz. Agora se conhecem centenas de planetas extra-solares e abriu-se um novo campo da astronomia. Os astrônomos têm se surpreendido com suas descobertas – a maioria dos sistemas planetários é muito diferente do Sistema Solar. Alguns têm planetas gigantes orbitando muito próximo à estrela mãe, enquanto outros têm planetas com órbitas altamente elípticas. 

A caçada continua

Quanto mais os astrônomos sabem sobre o Universo, mais querem saber. Na década de 1970 reconheceu-se que o Universo continha muito mais material que o visível: matéria escura afeta a rotação das galáxias; a massa faltante é prevista pela teoria do Big Bang mas ainda não foi observada. A exótica “energia escura” parece acelerar a expansão do Universo. Ao lado desses grandes mistérios cosmológicos está a busca pela vida do Universo, abarcada pela nova ciência da astrobiologia. Nos últimos séculos o tamanho dos espelhos de 10mde hoje serão substituídos por gigantes ainda maiores e observações feitas além da atmosfera terrestre serão cada vez mais produtivas. O telescópio de 2,5m do Telescópio Espacial Hubble será pequeno perto do Telescópio Espacial James Webb, com espelho de 6,5m, a ser lançado em 2021. Esta nova geração de telescópios deverá finalmente captar a primeira geração de estrelas e galáxias. E, à medida que os astrônomos observarem cada vez mais longe com instrumentos cada vez mais sensíveis, inevitavelmente serão confrontados com novos mistérios e corpos exóticos não imaginados antes.

Primeiras espaçonaves

A segunda metade do século XX registrou uma revolução na nossa compreensão do Universo, desencadeada pelo desenvolvimento do vôo espacial. Pela primeira vez, em lugar de apenas olhar para o esaplo, os seres humanos e suas máquinas viajavam por ele. Revezes e riscos marcaram os primeiros tempos da exploração espacial, mas, com esses obstáculos superados, o progresso foi rápido.

Sonhadores de foguetes

A ideia da viagem espacial é tão antiga quanto o contar estórias, mas com poucas noções das leis da física ou da natureza do espaço escritores frequentemente se baseavam em meios cômicos ou absurdos de transportar fictícios viajantes espaciais. Mas, as leis newtonianas do movimento e da gravitação, em conjunto com o fato do espaço ser um vácuo, indicavam que apenas uma forma de propulsão seria capaz de levar viajantes ao espaço – o foguete. Desenvolvidos como fogos de artifício e armas na China medieval, os foguetes contém o combustível necessário para sua propulsão, impulsionados por gases ejetados pelo seu escape. Embora o escritor francês Cyrano de Bergerae (1619-1655) tivesse sugerido no século XVII seu uso para alcançar a Lua, o primeiro a considerar seriamente as realidades da viagem espacial foi o professor da escola rural soviético Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), que desenvolveu muitos dos princípios dos foguetes de combustível líquido, de múltiplos estágios, publicando-os na década de 1890.

Lançamento

Os princípios dos foguetes estavam bem desenvolvidos no começo do século XX, mas ainda havia vários problemas para fazer do voo espacial uma realidade prática. O maior deles era a eficiência do combustível. O engenheiros estadunidense Robert Goddard concebeu a ideia de combustíveis líquidos mais eficientes e em 1926, lançou um foguete de 3m de comprimento impelido por oxigênio líquido e gasolina. As ideias de Goddard e Tsiolkovsky foram adotadas por entusiastas no mundo todo, inclusive pela Sociedade para a Viagem Espacial (VfR) da Alemanha. Durante a década de 1930, muitos dos cientistas da VfR foram recrutados pelo boverno nazistas para um programa militar que prosseguiu durante a Segunda Guerra Mundial. A culminação dos seus esforços, o míssil V2, chegou tarde demais para salvar a Alemanha da derrota, mas provou que armamentos à base de foguete eram o caminho do futuro.

A corrida espacial

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, as maiores potências desejavam a tecnologia de foguetes para si. A maioria dos cientistas fugiu para o Ocidente, mas a União Soviética capturou as fábricas das V2. As razões para tal interesse tornaram-se claras quando as relações internacionais rapidamente deterioraram e começou a Guerra Fria. Ambos acreditavam que mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) impulsionados por foguetes poderiam ser a resposta para lançar a arma final – a bomba nuclear. Foi neste contexto que os Estados Unidos e a União Soviética começaram seus programas espaciais. Ambos viram que a tecnologia de mísseis poderia ser utilizada para alcançar a órbita terrestre e reconheceram que esses lançamentos demonstrariam o poder de seus foguetes e renderiam grandes benefícios de propaganda.

Em órbita

No começo dos anos 1950 União Soviética e Estados Unidos anunciaram planos de lançar satélites durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-58. O programa soviético prosseguiu em sigilo, usando seus enormes mísseis R-7 como veículos de lançamentos, enquanto os cientistas estadunidenses passavam por escrutínio público. Os planos do cientista alemão Werher von Braun de lançar um satélite com o ICBM estadunidense Redstone foram engavetados a favor do programa de pesquisa espacial Vanguard da marinha estadunidense. Pouco antes da data de lançamento do Vanguard, em novembro de 1957, os soviéticos anunciaram em 4 de outubro do mesmo ano o lançamento bem sucedido do Sputnik I. As estações de rastreamento captaram sinais de rádio do satélite e confirmaram que a União Soviética tinha tomado a dianteira na corrida espacial. A humilhação estadunidense foi total quando, em 6 de dezembro, o lançamento do Vanguard terminou em uma explosão na plataforma de lançamento. O projeto de Von Braun foi imediatamente ressuscitado, e o primeiro satélite estadunidense, o Explorer I, entrou em órbita com êxito menos de dois meses mais tarde, em 31 de janeiro de 1958.

As missões Vostok

No final da década de 1950, o próximo grande passo da corrida espacial estava claro – qual das superpotências seria a primeira a colocar uma pessoa em órbita? Os soviéticos tinham uma óbvia vantagem de potência, já que o Sputnik II, o seu segundo satélite, pesava meia tonelada, e haviam conseguido enviar sondas além da vizinhança imediata da Terra. Em 12 de abril de 1961 fizeram um anúncio que surpreendeu o mundo: o Coronel Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espalho, a bordo da Vostok I. Gagarin retornou à Terra como herói da União Soviética, e o programa espacial estadunidense, agora gerenciado pela Nasa, de novo havia ficado para trás. As missões Vostok posteriores superaram novos limites e colocaram a primeira mulher no espaço, aumentaram os tempos em órbita e mantiveram mais de uma espaçonave simultaneamente em voo.

Projeto Mercury

A resposta da Nasa ao Vostok foi o programa Mercury, que lançou seis astronautas entre 1961 e 1963. Diferentemente do programa soviético os esforços estadunidenses foram conduzidos sob os holofotes da mídia. As cápsulas espaciais Mercury eram minúsculas e leves, parcialmente porque tinham que ser transportadas pelo pequeno veículo de lançamento Redstone nos primeiros voos. A Nasa estava desenvolvendo um novo lançador, o Atlas, mas os tests da cápsula deveriam começar antes do foguete maior estar pronto. Surpreendida pelo lançamento do Vostok I, a Nasa correu para retaliar e colocou seu primeiro homem no espaço em 5 de maior. Lançado em um foguete Redstone a missão Freedom 7, de Alan Shepard, não tinha velocidade suficiente para entrar em órbita, mas alcançou uma altura de 185 km durante um voo de 15 minutos. Após um segundo voo sub-orbital, o foguete Atlas foi completado no final de 1961. Seguindo um número de testes, John Glenn foi o primeiro estadunidense em órbita em 20 de fevereiro de 1962.

Próximos passos

Dispostos a manter sua liderança na corrida espacial, os soviéticos assumiam um grande risco. Os estadunidenses tinham anunciado suas missões planejadas de dois homens do Gemini e, em um esforço para ofusca-los de antemão, o diretor do programa espacial soviético, Korolev, planejava uma missão de três homens. Era um grande desafio, pois já havia sido iniciado um trabalho com as naves Soyuz visando alcançar a Lua. Finalmente, os engenheiros soviéticos chegaram a um engenhoso compromisso Voskhod era efetivamente uma cápsula Vostok modificada com espaço suficiente para levar três tripulantes. O voo da Voskhod I, em 12 de outubro de 1964, foi um sucesso, batendo a primeira missão tripulada Gemini por cinco meses. A Voskhod II, lançada alguns dias antes do primeiro teste de voo da Gemini foi um sucesso ainda maior. Durante o voo Alexei Leonov tornou-se a primeira pessoa a caminhar no espaço. Os soviéticos haviam desferido mais um espetacular golpe de propaganda.

Exploradores robôs

Enquanto o foco da atenção pública estava principalmente no programa espacial tripulado, uma segunda corrida espacial era mantida em paralelo – cujas consequências para nossa compressão do Sistema Solar. Cada superpotência tentava superar a outra nos “primeiros” passos da exploração de outros mundos. A exploração espacial robótica teve uma acidentada história inicial, com numerosas falhas, tanto nas plataformas de lançamento, enquanto, ou durante as tentativas de pouso. Porém houve alguns sucessos notáveis: em janeiro de 1959 a Lunik ou Luna I tornou-se o primeiro objeto a escapar da gravidade terrestre e entrar em órbita em torno do Sol; a Lunik II atingiu a Lua em setembro de 1959; a Lunik III registrou as primeiras imagens do lado oculto da Lua. A Pioneer V da Nasa foi a primeira sonda deliberadamente lançada ao espaço interplanetário, entrando em órita entre a terra e Vênus em 1960, enquanto as sondas estadunidenses Mariner II e IV venceram os soviéticos na corrida rumo a outros planetas, voando para Vênus e Marte em 1962 e 1965, respectivamente.

Viagens à Lua

As missões Apolo para a Lua frequentemente são descritas como uma grande conquista da técnica humana. Vastas quantidades de recursos humanos e financeiros foram investidos em um programa com motivações científicas e de propaganda. As missões revelaram muito sobre a Lua e seus imensos avanços tecnológicos remodelaram o mundo.

Um homem na Lua

Em 25 de maio de 1961 o presidente estadunidense John F. Kennedy fez um discurso que abalou o mundo. Em uma época em que os Estados Unidos ainda tinham que colocar um astronauta em órbita da Terra, ele prometeu que seu país levaria pessoas à Lua até o fim da década. A escala do empreendimento era monumental. Astronautas não haviam se aventurado a além de 300km da superfície terrestre, e agora Kennedy dava à Nasa a missão de enviá-los a uns 400.000km de distância, pousá-los na superfície de um mundo desconhecido e trazê-los de volta com segurança. Contudo, se isto fosse realizado, a mensagem seria que os Estados Unidos agora eram uma potência espacial. A Nasa imediatamente começou a investigar os meios de se pousar na Lua. A missão estabeleceu como objetivo usar o maior foguete já construído, projetado pelo cientista de foguetes alemão Wernher von Brauns, para enviar três naves conectadas rumo à Lua – somente uma delas retornaria à Terra. O nome, Apollo, o deus grego do Sol, foi sugerido pelo diretor de voos espaciais da Nasa. Dr. Abe Silvestein.

Projeto Gemini

Cada missão Apollo envolveria diversas operações de encontro, acoplamento e desacoplamento no espaço – operações que a Nasa e seus astronautas jamais haviam tentado antes. Apenas ir à Lua e voltar exigiria um mínimo de 7 dias. Para ganhar experiência em voos espaciais de longa duração e nas delicadas manobras necessárias no Apollo, a Nasa anunciou que o programa Mercury seria substituído pelo Projeto Gemini, uma série de missões de dois tripulantes. Houve 10 missões tripuladas Gemini, entre 1964 e 1966, diversas das quais envolviam encontros entre naves, caminhadas no espaço, e mesmo acoplamentos com veículos alvo não-tripulados. Agena. A espaçonave, composta de três módulos, também representava um grande avanço. Enquanto os dois astronautas permaneciam durante a missão dentro de um módulo de reentrada, apenas 50% maior que a cápsula Mercury, os suprimentos de água e ar, o equipamento elétrico e os experimentos eram mantidos principalmente em um módulo de serviço separado. Um terceiro módulo continha foguetes para manobrar a espaçonave em órbita e freá-la antes de sua reentrada.

Preparando o caminho

Um grande desafio para os planejadores da Apollo era a falta de conhecimento sobre a Lua. À época, pouco se conhecia sobra a história lunar, a natureza das suas crateras e as propriedades de sua superfície – pensava-se seriamente na possibilidade da superfície ser de um pó tão fino que a nave afundaria. Para responder estas questões, a Nasa planejou uma série de missões robóticas para fazer levantamentos detalhado da Lua incluindo pousos – tanto de colisão quanto suaves. As primeiras foram as naves Ranger, quatro das quais colidiram com a Lua entre 1961 e 1964. Pelas fotos retransmitidas à Terra, é inteiramente coberta por crateras, até nas menores escalas, o que indica uma origem por impacto. Em 1966 teve início uma segunda fase, com as naves Lunar Orbiter e surveyor. Os orbitadores fotografaram a Lua de perto, a cerca de 0 km, buscando locais interessantes para pousos tripulados, enquanto os Surveyor efetuaram uma série de pousos suaves, confirmando a firmeza da superfície lunar.

Apollo em órbita

No final de 1966, o programa Apollo estava avançando rápido. Os enormes foguetes Saturno V estavam em construção e as naves prontas para os testes. Porém, em janeiro de 1967, a tripulação da Apollo I morreu durante um incêndio na cápsula em um ensaio de lançamento. Como consequência as missões Apollo II e III foram canceladas, e as missões Apollo IV, V e VI foram convertidas em teses de lançamento não-tripulados. Somente em outubro de 1968 os astronautas retornaram ao espaço, com o lançamento da Apollo 7. Esta missão orbital foi logo seguida pela Apollo VIII. Lançada pela primeira vez pelo Saturno V a missão da nave foi alterada para incluir uma órbita ao redor da Lua no Natal, após rumores de que os soviéticos lançariam um veículo  tripulado para alcançar a Lua. O lançamento nunca aconteceu e, depois das Apollo IX e X, a Nasa estava finalmente pronta para tentar pousar na Lua.

O primeiro pouso na Lua

A Apolo XI partiu de Cabo Kennedy (agora Canaveral), na Flórida, em 16 de julho de 1969) e entrou em óribta lunar três dias depois. Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin então embarcaram no módulo lunar “Eagle” para a descida na superfície, enquanto Mihael Collins permanecia a bordo do módulo em comando e serviço (CSM) “Columbia” em órbita lunar. Eagle tocou seguramente uma planície de lava conhecida como o Mare Tranquilitatis (Mar da Tranquilidade) e, seis horas após o poso, Neil Armstrong deixou o módulo e desceu a escada, pisando a superfície das 2h56 do dia 20 de julho. Armstrong e Aldrin permaneceram na superfícia por 21 horas, realizando uma caminhada, durante a qual implantaram uma bandeira e uma placa comemorativa, conduziram diversos experimentos coletaram rochas, e telefonaram para o presidente estadunidense Richard Nixon.

Módulo lunar

O módulo lunar, com sua aparência frágil, era um elemento vital de cada missão Apollo. Como ele nunca voaria em uma atmosfera os projetistas tiveram a liberdade de dar-lhe uma forma estritamente funcional. Embora o módulo tivesse 9,5m de largura e 7m de altura, a cabine era tão apertada que os astronautas ficaram de pé durante o voo. O grande motor de foguete, embaixo da seção superior do módulo, era usado para frear a cápsula durante o pouso na Lua e, depois, fornecer o impulso para a decolagem da superfície lunar e injeção em órbita.

Missões posteriores

A Nasa havia originalmente planejado dez missões Apollo, mas apenas seis foram completadas. Embora a Apollo XII tenha sido um sucesso, a Apollo XIII ficou famosa pelo seu acidente, quando uma falha elétrica e perda de oxigênio, pela primeira vez colocaram uma tripulação da série em grave perigo. As últimas três Apollo levavam um jipe lunar, estendendo consideravelmente a área que os astronautas poderiam explorar. Redução no interesse público e cortes de verbas da Nasa levaram ao cancelamento das três últimas missões. Os estertores finais da Apollo foram a estação espacial Skylab, que usava um foguete Saturno V, e a missão Apollo-Soyuz, um encontro entre astronautas soviéticos e estadunidenses em órbita terrestre.

Lições científicas

As missões Apollo revelaram muito aos astrônomos sobre a química e história da Lua. As rochas coletadas ainda são estudadas em todo o mundo. O registro do bombardeamento da Lua e a datação por radioisótopos das amostras revelaram o período de intenso bombardeamento a modelou o Sistema Solar durante seu primeiro bilhão de anos. Embora os soviéticos nunca tenham tentado um pouso tripulado na Lua, colocaram uma série de jipes LunoKhod no satélite e trouxeram pequenas amostras de poeira para a Terra.

Em órbita da Terra

Embora muito do foco da exploração espacial tenha sido viagens a planeta e luas distantes, a grande maioria das missões não foi além da órbita terrestre. Em torno da Terra é que o advento do voo espacial teve maior impacto. Nossa vizinhança espacial agora está repleta de satélites, tanto com propósitos científicos como comerciais.

Estações espaciais

A União Sovietica mudou a direção do seu programa espacial no final da década de 1960, priorizando postos semipermanentes em órbita. As primeiras estações espaciais soviéticas, nos anos 1970, as Salyut, eram clilindros com 13m de comprimento e no máximo 4m de largura que abrigavam tripulações de três cosmonautas por diversas semanas em condições espartanas. Embora a corrida espacial tivesse se desacelerado, a Nasa ainda se sentia obrigada a competir e, em 1973, lançou a estação Skylab, que foi visitada por três tripulações separadas ao longo de um ano. Com isso, a Nasa manteve um breve recorde de permanência no espaço. Contudo, quando voltou suas atenções para o Space Shuttle, as estações espaciais foram deixadas para os soviéticos. As mais avançadas Salyut 6 e Salyut 7 eram muito maiores que suas antecessoras e podiam ser ampliadas por módulos lançados da Terra. Na metade na década de 1980, os cosmonautas permaneciam meses em órbita, conduzindo valiosos experimentos científicos.

Potencialidades do espaço

Além das razões políticas e científicas para a exploração espacial, as últimas décadas viram o surgimento para fins práticos. Empresas privadas e países menores conseguem agora lançar satélites e o mundo foi transformado pelos seus resultados. Os satélites de comunicações nasceram dos trabalhos de Arthur C. Clarke e outros, e radiotransmissores orbitais são os responsáveis pelo Global Positioning System (GPS), que permite aos usuários encontrar sua posição em qualquer parte da Terra com precisão de poucos metros. O potencial da observação da Terra desde sua órbita tornou-se claro quando os primeiros astronautas relataram avistar nitidamente acidentes geográficos – com grande surpresa para os controladores de solo. Hoje diversos satélites de observação da Terra circulam o globo, desde os climáticos que monitoram hemisférios inteiros, até os espiões, capazes de ver detalhes inferiores a 1m. Ainda mais sofisticados são os satélites de sensorialmente remoto. Monitorando a Terra em vários comprimentos de onda, reúnem imensas quantidades de informação sobre o solo, como a direção das correntes oceânicas, a localização de depósitos mineiras e a qualidade das plantações.

Observatórios orbitais

Muitas das grandes descobertas e imagens espetaculares do Universo distante provêm de satélites. A atmosfera terrestre representa um sério problema para os astrônomos, pois filtra a maioria da radiação eletromagnética. Contudo, um telescópio no espaço coloca problemas únicos. Não só eles devem ser controlados remotamente para retornar imagens à Terra, mas também devem operar em um ambiente hostil. As flutuações de extremas temperaturas entre a iluminação solar e a escuridão podem distorcer a delicada óptica do telescópio, visto que o instrumento todo se contrai e se dilata, e assim se exige um projeto engenhoso de isolamento. Mesmo assim, o tempo de operação em órbita é limitado. Além da energia fornecida pelas células solares, os satélites demandam combustível para se reorientar no espaço e agentes resfriadores para proteger sua delicada eletrônica.

Vôos tripulados

Desde as missões Apollo, o voo espacial tripulado continuou a se desenvolver. Apesar de duas tragédias de grande impacto, em 1986 e 2003, o Space Shuttle da Nasa, a primeira espaçonave reutilizável, transformou o voo espacial em uma atividade quase rotineira. Desde seu primeiro voo em 1980, os Shuttles completaram mais de 100 missões, levando experimentos, lançando satélites, e observando a Terra e o espaço. Enquanto isso, a União Soviética desenvolver o princípio da estação espacial modular, ampliável, como a Mir (1986-2001). Os plano da Nasa de um estação espacial permanente evoluíram para um enorme projeto internacional, e quando a Estação Espacial Internacional estiver completa, o Space Shuttle terá se aposentado após 25 anos de serviço. No momento, alguns países têm planos ambiciosos do retorno do homem à Lua como estala rumo a Marte.

Além da Terra

Embora os seres humanos não tenham ainda se aventurado além da Lua, as sondas espaciais automáticas mergulharam muito mais fundo. Exploradores robóticos visitaram todos os planetas e também pesquisaram dezenas de satélites em um conjunto de corpos menores. Durante suas jornadas, transformaram nossa visão do Sistema Solar, revelando outros mundos, quase tão complexos quanto a Terra.

Primeiros passos

A primeira sonda a deixar a influência da Terra e entrar em órbita própria ao redor do Sol foi a nave soviética Lunik I (Luna I), que, em 1959, errou seu alvo, a Lua, e se tornou por acidente a primeira sonda interplanetária. Logo seguiram-se esforços deliberados da Nasa, que, entre 1960 e 1968, lançou com sucesso as Pioneer 5 a 9 em órbitas entre a Terra e Vênus. Várias dessas naves alimentadas com energia solar ainda transmitem dados científicos. Assim como havia a corrida para colocar o homem no espaço, as superpotências da Guerra Fria competiam pelo primeiro lugar na chegada a outros planetas. Em dezembro de 1962, a Mariner 2 foi a primeira sonda a realizar um sobrevôo em Vênus, medindo a temperatura extremamente alta de sua superfície, e confirmando sua rotação anormalmente lenta. A Mariner 4 sobrevoou Marte em julho de 1965, medindo sua atmosfera e fotografando seus planaltos austrais com crateras.

O sistema solar interno

Como estão mais próximos do Sol, Mercúrio e Vênus viajam mais rápidos que a Terra. Assim, a sonda deve ganhar velocidade para entrar em suas órbitas. Contudo, algumas naves superaram este desafio técnico e visitaram Vênus nos anos seguintes ao primeiro sobrevoo. Diversas sondas soviéticas tentaram o pouso na superfície hostil, apenas para serem destruídas durante a reentrada. Em 1967, Venera 4, equipada com blindagem semelhante a um tanque, enviou com êxito sinais para a Terra. Foi somente oito anos mais tarde que a Venera 9 retornou as primeiras imagens da superfície venusiana. Tanto a Nasa como os soviéticos lançaram orbitadores para fazer levantamentos do planeta desde o espaço. Em 1978, a missão Pioneer Orbiter mapeou o planeta com radar e lançou sondas atmosféricas. Em 1989, o Magellan, um orbitador da Nasa equipado com um sofisticado radar, deu início ao estudo por quatro anos do planeta, com detalhes sem precedentes. A velocidade orbital de Mercúrio representa um problema maior: até agora [2008], apenas a Mariner 10 e a Messenger o visitaram.

Perto de Marte

Os primeiros sobrevoos de Marte foram sucessos notáveis, porém não no que se refere aos trajetos de seus voos. Três sondas estadunidenses retornaram imagens de 10% da superfície marciana, mas perderam toda a evidência de vulcanismo e de água que fazem o fascínio do planeta. A sorte da Nasa mudou em 1971, quando a Mariner 9 tornou-se a primeira nave a orbitar Marte, conduzindo um levantamento fotográfico que revelou o sistema de Valles Marineris, os altíssimos vulcões da região de Tharsis, e os primeiros sinais de cânios com erosão por água. Com o redespertar do interesse pelo Planeta Vermelho, a Nasa lançou a Marte as duas naves gêmeas da missão Viking, cada uma com um lander (módulo de pouso) e um orbitador. Os orbitadores forneceram imagens e dados climáticos da superfície, além de conduzirem vários experimentos detalhados, incluindo um controverso teste de vida microbiana.

O grand tour

Os anos 1970 apresentaram uma rara oportunidade: um alinhamento de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno permitiria a uma nave viajar de um planeta a outro, usando o efeito de “estilingue gravitacional”. O chamando Grand tour levaria pouco mais que uma década. Em 1977, a Nasa lançou a Voyager 1 e 2, inicialmente tendo como alvo apenas Júpiter e Saturno. A Voyager passou por Júpiter em março de 1979 e por Saturno em novembro de 1980, fazendo a primeira aproximação rasante da sua Titã. A Voyager 2 a seguiu poucos meses depois, e, como a Voyager 1 havia completado sua missão, os cientistas da Nasa decidiram ativar seu plano de reserva, lançando sua segunda sonda ao redor de Saturno rumo a Urano, alcançando em 1986, e a Netuno, em 1989. Esta missão extremamente bem sucedida nos ofereceu os primeiros vislumbres desses gigantes exteriores gelados, de suas luas e de seus anéis. Ambas naves ainda estão viajando, além de Plutão, nos confins do sistema solar [Atualmente – 2019 –, já saíram do Sistema Solar].

Exploradores em Marte

Apesar dos sucessos dos lander Viking, as sondas não retornaram a Marte até o final da década de 1990, seguindo uma série de fracassadas missões estadunidenses e soviéticas. Em 1997, a Mars Global Surveyor da Nasa entrou em órbita em torno do planeta, equipada com câmeras de última geração, enquanto um lander, o Mars Pathfinder, liberou o jipe robô Sojourner, que coletou rochas e solo. Seguiram-se muitas outras naves, e a cada nova descoberta, a possibilidade de vida em Marte tornou-se mais plausível. Vários satélites artificiais estão em órbita ao redor do planeta, usando técnicas de sensoriamente remoto para sondar o subolo marciano. Os jipes de exploração marciana, Spirit e Opportunity descobriram evidências inegáveis sobre oceanos extensos no passado marciano. Novas missões como a Phoenix, traçam a história da água em Marte e a possibilidade de vida no planeta.

Entre as luas de Júpiter

Os sobrevoos das Voyagers sobre as enormes luas de Júpiter revelaram que elas eram mundos fascinantes merecedores de uma inspeção mais de perto. A sonda Galileo, destinada a orbitar Júpiter, foi lançada em 1989, mas somente chegou ao destino em 1995. E os resultados valeram a espera. O orbitador fez o sobrevoo rasante de um asteroide durante seu curso, e librou uma sonda na atmosfera de Júpiter, antes de começar uma missão que ultrapassaria todas as expectativas. A Galileo estudou os vulcões de Io e o sistema climático de Júpiter, enquanto deu apoio a evidência de um oceano debaixo da crosta de gelo de Europa e nas luas jovianas exteriores Ganimedes e Calisto.

Cassini e além

A Galileo foi seguida por uma missão ainda mais ambiciosa para Saturno. A Cassini, uma enorme sonda pesando 5,6 toneladas, foi lançada em 1997. Depois de uma complexa jornada durante a qual sobrevoou duas vezes Vênus e uma vez a Terra e tomou impulso em Júpiter, finalmente chegou a Saturno em 2004. A bordo havia o lander europeu Huygens, que desceu de paraquedas na atmosfera de Titã em janeiro de 2005 enviando imagens durante seu pouso e revelando um mundo no qual o metano líquido parece desempenhar o mesmo papel que a água na Terra. Cassini continuou a monitorar Saturno e a fazer voos rasantes sobre muitos dos satélites fascinantes e variados do planeta. Desse modo abrirá caminho para futuras missões orbitais ainda mais ousadas, com ao Prometheus (antes o Orbitador das Luas Geladas de Júpiter), uma nave impulsionada à energia nuclear projetada para estudar as luas de Júpiter em detalhes sem precedentes. A Prometheus será a primeira de uma nova geração de naves espaciais nucleares que abrirá o Sistema Solar a uma exploração mais rápida e ainda mais profunda.

Cometas e asteroides

Embora a maior parte das sondas tivesse os planetas como alvos os cientistas não esqueceram os corpos menores do Sistema Solar. Cometas e asteroides virtualmente inalterados desde sua formação, há 4,5 bilhões de anos, contêm indícios fascinantes sobre a criação do Sistema Solar e mesmo sobre a origem da vida. Em 1985 e 1986, quando o Cometa Halley passou novamente pelas proximidades do Sol, uma flotilha de naves dirigiu-se ao seu encontro. O NEAR (Near Earth Asteroid Rendezvous) sobrevoou o asteroide Mathilde do Cinturão principal em 1997, antes de monitorar o grande asteroide Eros por um ano. Seguiram-se missões mais ambiciosas. A Stardust, da Nasa, recolheu poeira da cauda do cometa Wild 2 em 2004, para trazer à Terra; a missão europeia Rosetta pela primeira vez colocou um lander em um cometa; e a New Horizon sobrevoará Plutão [Chegou em 2016], antes explorando o cinturão de Kuiper, o berço de muitos cometas.

O futuro do homem no espaço

É inevitável que naves tripuladas um dia se aventurem pelas profundezas do Sistema Solar. China, Rússia e Estados Unidos têm planos para um retorno à Lua, e os estadunidenses também consideram a possibilidade de uma missão a Marte. Embora possam ser abandonados, esses planos serão substituídos por outros, e no meio tempo os cientistas espaciais terão reunido os conhecimentos necessários para tornar a viagem espacial de longa duração uma realidade. A Rússia ganhou uma experiência única de microgravidade prolongada com as missões na estação espacial Mir, e a tripulação da Estação Espacial Internacional é uma fonte preciosa de informações em medicina espacial. Por outro lado, experimentos em solo, como a Biosfera 2, fornecem informações úteis sobre como os astronautas poderiam produzir seu próprio alimento, água e oxigênio em outros planetas e como uma tripulação isolada enfrentaria o confinamento em uma nave por muitos meses.

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Solilóquios de Marco Aurélio - Livro VI

1. A substância do conjunto universal é dócil e maleável. E a razão que a governa não tem em si nenhum motivo para fazer mal, pois não tem maldade, e nem faz mal algum nem nada recebe mal daquela. Tudo se origina e chega a seu fim de acordo com ela.

2. Seja indiferente para ti passar frio ou calor, se cumpres com teu dever, passar a noite em vigia ou saciar-te de dormir, ser criticado ou elogiado, morrer ou fazer outra coisa. Pois uma das ações da vida é também aquela pela qual morremos. Assim, basta também para este ato “dispor bem o presente” .

3. Olhe o interior; que de nenhuma coisa te escape nem sua peculiar qualidade nem seu mérito.

4. Todas as coisas que existem rapidamente serão transformadas e, ou evaporarão, se a substância é uma, ou se dispersarão.

5. A razão que governa sabe como se encontra, o que faz e sobre qual matéria. 

6. A melhor maneira de defender-te é não te assemelhar a eles.

7. Regozija-te e repouse em uma só coisa: em passar de uma ação útil à sociedade a outra ação útil à sociedade, tendo sempre Deus presente.

8. O guia interior é o que desperta a si mesmo, que se gira e se faz a si mesmo com quer, e faz que todo acontecimento lhe pareça tal como ele quer.

9. Todas e cada uma das coisas chegam ao seu fim de acordo com a natureza do conjunto, e não segundo outra natureza que abarque o mundo exteriormente, ou esteja incluída em seu interior, ou esteja desvinculada no exterior.

10. Barulho, entrelaçamento e dispersão, ou bem união, ordem e providência. Se efetivamente é o primeiro, por qual desejo demorar minha estância em uma mistura azarada e confusão? E por que terá importância outra coisa que não seja saber como “converter-me um dia em terra?”. E por que perturbar-me? Pois a dispersão me alcançará, faça o que faça. E se é o segundo, venero, persisto e confio no que governa.

11. Sempre que te vejas obrigado pelas circunstancias a sentir-te confuso, retorne a ti mesmo rapidamente e não te desvies fora de teu ritmo mais do que o necessário. Pois serás mais dono da harmonia graças a teu contínuo retomá-la.

12. Se tivesses simultaneamente uma madrasta e uma mãe, atenderias àquela, mas, contudo, as visitas a tua mãe seriam contínuas. Isso tu tens agora: o palácio e a filosofia. Assim, pois, retorne frequentemente a ela e nela repouse; graças a esta, as coisas de lá te parecem suportáveis e tu és suportável entre eles.

13. Assim como se tem um conceito das carnes e peixes e comestíveis semelhantes, sabendo que isso é um cadáver de peixe, aquele cadáver de um pássaro ou de um porco; e também que o Falerno é suco de uva, e a toga pretexta lã de ovelha tingida com sangue de marisco; e em relação ao ato sexual, que é uma fricção do intestino e uma ejaculação acompanhada de certa convulsão. Como, de fato, esses conceitos alcançam seus objetos e penetram em seu interior, de modo que se pode ver o que são! Assim, é preciso agir ao longo da vida inteira, e quando as coisas te derem a impressão de serem dignas de crédito em excesso, analise-as e observe seu nulo valor, e despoje-as da ficção, pela qual se vangloriam. Pois o orgulho é um terrível enganador da razão, e quando pensas ocupar-te principalmente das coisas sérias, então, ainda assim, te enganas. Olhe, por exemplo, o que diz Crates sobre o próprio Xenócrates.

14. A maior parte das coisas que o vulgo admira se referem às mais gerais, às constituídas por uma espécie de ser ou natureza: pedras, madeira, figueiras, vinhas e oliveiras. As pessoas um pouco mais comedidas tendem a admirar os seres animados, como os rebanhos de vacas, ovelhas ou, simplesmente, a propriedade de escravos. E as pessoas ainda mais agraciadas, as coisas realizadas pelo espírito racional, mas não o universal, e sim aquele que tanto é hábil nas artes ou engenhoso de outras maneiras (ou simplesmente capaz de adquirir multidão de escravos). Mas o que honra a alma racional universal e social não direciona seu olhar a nenhuma das demais coisas, e diante de tudo, procure conservar sua alma em disposição e movimento em acordo com a razão e o bem comum, e colabore com seu semelhante para alcançar esse objetivo.

15. Coloque sempre seu empenho em chegar a ser algumas coisas, em outras coloque seu afã em persistir, mas uma parte do que chega a ser já se extinguiu. Fluxos e alterações renovam incessantemente o mundo, assim como o passo ininterrupto do tempo proporciona sempre nova a eternidade infinita. Em meio a esse rio, sobre o qual não é possível deter-se, que coisa entre as que passam correndo poderiam ser estimadas? Como se alguém começasse a se apaixonar pelas aves que voam ao nosso redor, e logo desaparecem diante de nossos olhos. Tal é de certa forma a vida de cada um, como a exalação do sangue e a inspiração do ar. Pois, assim como o inspirar uma vez o ar e expulsá-lo, coisa que fazemos a cada momento, também é devolver ali, de onde retiraste pela primeira vez, toda a faculdade respiratória, que tu adquiriste ontem ou anteontem, recém chegado ao mundo.

16. Nem é valoroso transpirar como as plantas, nem respirar como o gado e as feras, nem ser impressionado pela imaginação, nem ser movido como uma marionete pelos impulsos, nem agrupar-se como rebanhos, nem alimentar-se; pois isso é semelhante à evacuação das sobras de comida. O que vale à pena, então? Ser aplaudido? Não. Assim, tampouco ser aplaudido pelo bater de línguas, porque os elogios do vulgo são bater de línguas. Portanto, renunciaste também à vangloria. O que sobra como digno de estima? Opino que o mover-se e manter-se de acordo com a própria constituição, fim ao qual conduzem as ocupações e as artes. Porque toda arte aponta para esse objetivo, para que a coisa constituída seja adequada à obra que motivou sua constituição. E tanto o homem que se ocupa do cultivo da vinha, como