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Publicado por:
Odsson Ferreira | 25 fev , 2017
Surgimento do pensamento científico: a Grécia e a invenção da ciência
25 fev , 2017
Carlos Augusto de Proença Rosa
História
Civilização Grega

Na História da Ciência, um dos Períodos mais importantes e mais complexos foi o da Grécia Antiga, principalmente a partir do século VI antes da era comum, pois foi quando se iniciou e se desenvolveu, pela primeira vez, o espírito científico, marco fundamental na evolução do pensamento humano, e quando ocorreria, em consequência, o advento da Ciência abstrata. Esse novo espírito viria a ser o grande divisor entre a civilização grega e as demais civilizações daquele Período Histórico, os quais trilhariam caminhos distintos na busca de resposta às inquietações do Homem quanto a seu Destino e quanto à Natureza e seus fenômenos.

Assim, no Oriente surgiriam, por volta dos séculos VI e V, os fundadores de grandes Religiões, como Lao Tse (Taoismo) na China, Zoroastro na Pérsia e Buda e Mahavira (Janaísmo) na Índia; apareceriam, igualmente, reformadores sociais e políticos, como Confúcio, e se fortaleceriam, nessa mesma época, na Mesopotâmia, no Egito, na Pérsia e na Judeia as castas sacerdotais. No mundo helênico, nesse Período, no entanto, nasceria a Filosofia (pré-socráticos) que, à parte de todas as especulações, muitas vezes ditadas pela pura imaginação, sem apoio na observação e na experimentação, levaria ao desenvolvimento do espírito científico, e, por via de consequência, ao advento da Ciência. Enquanto nas culturas orientais se desenvolvia um espírito contemplativo e conservador, a Grécia seria capaz de criar, por seus  filósofos, um espírito especulativo e crítico. No Oriente, o grande interesse seria desvendar os mistérios da vida após a morte e obter a conquista do Nirvana ou da vida eterna; na [99]Grécia, o importante seria entender os fenômenos naturais, buscando uma explicação lógica e racional.

Aos gregos coube a glória de terem sido os primeiros a romper as algemas do conservadorismo e a libertar a Razão, capacitando-a a realizar sua obra. Ademais do brilhantismo nos diversos campos da Educação, das Artes, do Direito, da Política e da Filosofia, os gregos foram, assim, os criadores da Ciência e os iniciadores do espírito científico. Trata-se de uma obra que não pode ser atribuída a um indivíduo de gênio, ou mesmo a uma geração privilegiada, mas cujo desenvolvimento e aperfeiçoamento seriam frutos de longo e complexo processo, como atesta sua evolução desde seu começo.

Conquistada pela força das legiões de Roma, a cultura grega viria a predominar sobre os domínios do extenso Império, embora a civilização romana continuasse a manter suas características próprias, resultantes de um povo aguerrido e prático. Para efeitos da História da Ciência, o exame das realizações romanas no campo da Filosofia Natural deve ser incluído no contexto mais amplo da civilização helênica, sob a denominação genérica de civilização greco-romana, mas em separado, de forma a acentuar seu caráter técnico.

2.1 A Civilização Grega e o Advento do Pensamento Científico e da Ciência

2.1.1 Considerações Gerais

Sob a denominação genérica de Filosofia Natural, os gregos antigos criariam uma Ciência com o objetivo de estudar e compreender a Natureza. Essa busca por uma compreensão do Mundo físico abrangia um vasto campo, que englobava a Matemática, as Ciências Naturais e as Ciências Físicas (inclusive a Astronomia e a Meteorologia); ou seja, ao tempo dos filósofos pré-socráticos, os campos científicos e  filósofos se confundiam e se inter-relacionavam, ao ponto que os  filósofos tanto se dedicavam a especulações  filosóficas e metafísicas sobre a origem e a constituição do Universo quanto aos números (Aritmética), áreas (Geometria) e elementos (Física e Química). Aristóteles, com seu Organon, seria o grande pensador grego, cuja imensa influência seria decisiva na evolução do pensamento científico ao criar a Lógica Formal. Com o passar dos tempos, as disciplinas científicas foram adquirindo complexidade e extensão, o que as separaria, gradualmente, do campo  filosófico, reduzindo, assim, o papel da [100] especulação, em benefício do trabalho baseado na experimentação e na verificação. O estudo, a análise e a experimentação nas várias áreas dessas disciplinas passariam a especialistas, aos homens de Ciência. Os cientistas Eratóstenes, Herófilo, Erasístrato, Hiparco, Euclides, Arquimedes e Apolônio, do Período Helenístico, são as expressões maiores dessa evolução, no período áureo das Ciências na civilização grega.

O espírito científico, essencial para o surgimento das diversas Ciências, originou-se na Grécia, sem querer, contudo, significar que todas as Ciências se formariam durante a evolução da civilização helênica. A História das Ciências comprova o entendimento atual de que as Ciências menos complexas, não experimentais e de interesse imediato da Sociedade seriam as que primeiro se constituiriam e se desenvolveriam. Desta forma, a Matemática e a Astronomia foram criadas pelos gregos, ainda que a especulação  filosófica não estivesse abandonada. O desenvolvimento dessas duas Ciências levou ao nascimento de partes da Física, como a Mecânica (Estática e Dinâmica), a Óptica e a Acústica, mas, compreensivelmente, outros ramos da Física, como o Eletromagnetismo e a Termodinâmica, só surgiriam muitos séculos depois, quando criadas as condições para tanto. Somente após avanços significativos dessas três Ciências, refinamento do espírito e dos métodos científicos e acumulação de conhecimentos e técnicas (particularmente da metalurgia) é que a Química ingressaria, no século XVII, na era científica, pois o que havia até então era uma Química prática, sem base teórica; no entanto, deve ser apreciada a contribuição da Alquimia, cuja real contribuição à Química científica seria a introdução de uma série de instrumentos e material de laboratório para os experimentos e pesquisas. A História Natural, englobando os estudos de definição e classificação da flora, da fauna e dos minerais, se estruturaria a partir de Aristóteles, mantendo tais características até o Período do Renascimento Científico; o conhecimento da Anatomia e da Fisiologia humanas se iniciaria com a prática de uma Medicina que buscaria, a partir de Hipócrates, as causas naturais das enfermidades. As Ciências Sociais, criadas e estruturadas há menos de 200 anos, já seriam, também, objeto de consideração de pensadores, como Aristóteles.

O aparecimento do espírito científico não significaria a unidade de pensamento na Sociedade ou mesmo na elite intelectual gregas, nem implicaria ter essa nova mentalidade permeado as diversas camadas sociais. A grande massa popular helênica permaneceria presa, ainda, às tradições mitológicas, tão bem representadas por Homero (Ilíada e Odisseia) e Hesíodo (Teogonia e Os Trabalhos e Os Dias). As autoridades [101] das diversas cidades-Estados assegurariam o caráter oficial da religião mitológica, como atestam as conhecidas perseguições a Anaxágoras e a Sócrates. Conviveriam, assim, na antiga Grécia, uma consciência mitológica arcaica, influenciou influenciada pelas religiões do mistério e do medo, e um ceticismo humanístico, comprometido com a Razão. Erguiam-se templos, santuários, oráculos e monumentos em homenagem aos deuses, criados à semelhança e à imagem do Homem, mas ao mesmo tempo progredia o espírito científico, com uma nova metodologia – observação, análise, crítica, comparação e experimentação – criada para encontrar uma explicação racional e lógica para os fenômenos. Assim,

... embora a religião grega fosse, no mínimo, tão animista quanto as outras religiões antigas, baseando-se em sacrifícios aos deuses e na intervenção divina nos negócios, a Ciência grega representou um feito notável, separando a investigação das leis da Natureza de quaisquer questões religiosas entre o homem e os deuses..[1].

2.1.2 Nascimento do Pensamento Científico

Se bem que prevalecesse em todas as culturas da Antiguidade um espírito teocrático, de tradição neolítica, teria cada povo uma evolução própria, seguindo suas inclinações e sua mentalidade, influenciado por uma série de condicionantes socioculturais e físicas (Geografica, Meio Ambiente, Economia, Educação, História). Nas sociedades de economia rural, de regime teocrático, de mentalidade conservadora, de índole contemplativa e meditativa, o poder político (e tudo daí decorrente) foi exercido, através dos governantes e da Lei, pelas divindades, ou em seu nome exercido, sem ingerência popular. As Leis, de origem divina (Dez Mandamentos) ou cunho religioso (Torá), eram administradas pelo Rei, Faraó ou Imperador e pela casta sacerdotal, característica do regime teocrático. Preceitos morais e normas sociais e de conduta eram impostos por desígnios superiores.

O povo grego – comerciante, navegador, audacioso, competitivo, dinâmico, ambicioso – desenvolveria a noção de que cabia ao Homem a responsabilidade e a tarefa de se organizar, de se governar e de entender a Natureza. Para tanto contribuiu seu espírito aventureiro, que o lançou ao mar em busca de terras desconhecidas, onde, para sobreviver, teria de criar condições favoráveis para o desenvolvimento social das novas colônias ou cidades-Estados (polis). [102]

Na civilização helênica, a política foi obra humana, sem interferência dos deuses homéricos. O governo emanou do povo, e em seu nome foi exercido. As Leis eram de autoria de legisladores (Draco, Sólon), administradas por tribunais e corpos de jurados. Enquanto naquelas sociedades autocráticas e teocráticas a condição de súdito pressupunha uma inferioridade e uma dependência, na Grécia a atuante participação do indivíduo na vida pública refletia sua condição de cidadão, sujeito e objeto de Direito. A praça pública, onde se realizavam debates políticos, teria um papel fundamental no exercício democrático da cidadania. De acordo com declarações atribuídas a Péricles, “nossa Constituição nada tem a invejar dos outros: é modelo e não imita. Chama-se democracia, porque a maioria e não a minoria tem o poder... O progresso na vida pública depende dos méritos e não das classes; nem a pobreza, nem a obscuridade impedem um cidadão capaz de servir à cidade...”.

Aristóteles definiria o Homem como um animal político, na medida em que o exercício da atividade pública era obrigação e honra para o cidadão grego. Sua educação, voltada para a formação do Homem completo, fortaleceria e encorajaria o caráter laico e democrático da cultura grega. Como sintetizou o sofista Protágoras: o Homem é a medida de todas as coisas.

Assim, a tradicional visão do Mundo, oriunda dos tempos neolíticos, seria profunda e radicalmente alterada pelos filósofos gregos, que adotariam uma atitude crítica sobre as explicações e entendimentos de um Mundo governado e dirigido por divindades e entes sobrenaturais. A nova atitude foi, assim, de questionamento, de dúvidas, de indagações e de ceticismo para com as crenças predominantes. Tratava-se, portanto, do desenvolvimento de um espírito crítico, que não se satisfaria com explicações e argumentos sem fundamentação ou base plausível, lógica e racional.

O próprio politeísmo, etapa mais avançada do espírito humano que o fetichismo, seria posto em dúvida, e, até mesmo, rejeitado pela nova mentalidade que se delineava, como em Anaxágoras, Heráclito, Demócrito e Xenófanes. Bertrand Russell seria incisivo:

“Na verdade, um dos traços mais notáveis dos pré-socráticos consistiu na discordância de todos para com as tradições religiosas dominantes”.

Passou-se a defender a utilização do raciocínio e da reflexão para encontrar as respostas lógicas aos fenômenos naturais. As explicações com apelação para o sobrenatural e o misterioso já não satisfaziam as mentes céticas.

A grande inovação revolucionária da civilização helênica foi exatamente essa quase completa independência da Filosofia, e, por conseguinte, da Filosofia Natural, em relação aos dogmas e mitos[2]. Com os primeiros filósofos haveria uma superposição do mítico e do científico, passo fundamental na evolução do pensamento grego, empenhado em descobrir uma explicação natural para o Cosmos por meio da observação e da Razão. A explicação, com o tempo, se desfaria de seus residuais componentes mitológicos para utilizar a análise crítica em relação aos fenômenos naturais. Charles Seignobos reforçaria esse entendimento:

“As crenças dos gregos diferiam pouco das dos outros povos, mas os filósofos trabalharam com espírito independente da religião, pela observação e pelo raciocínio, sem levar em conta as crenças fundadas sobre a tradição”[3].

As divindades antropomórficas dariam lugar a substâncias primárias, entidades puramente materiais – como a água, o ar, a terra e o fogo, movidas mecanicamente pelo acaso ou pela necessidade. Buscar-se-ia compreender a Natureza, e, para tanto, suas leis. Como observou Colin Ronan:

...foram os gregos que não apenas colecionaram e examinaram fatos, mas também os fundiram em um grande esquema; que racionalizaram o Universo inteiro, sem recorrer à magia ou à superstição. Foram os primeiros filósofos da Natureza que formaram ideias e criaram interpretações que podiam manter-se por si mesmas, sem invocar qualquer deus para apoiar fraquezas ou obscurantismos em suas explanações[4].

Assim, a Filosofia Natural grega representou um feito notável, separando a investigação das leis da Natureza de quaisquer questões religiosas entre o Homem e os deuses. René Taton[5] explicou, de forma clara e concisa, esse ponto:

“Malgrado as divergências profundas de suas doutrinas e de suas hipóteses, os primeiros pensadores gregos podem ser legitimamente agrupados. Eles têm em comum serem os primeiros a tentar uma explicação racional do Mundo sensível, de ter proposto, sobre a estrutura da matéria e sobre a arquitetura do Universo, hipóteses desvinculadas – cada vez mais – de dados mitológicos. Em seu apetite de explicação total, eles trataram de todas as Ciências, mas os problemas que mais lhe chamaram a atenção foram, de uma parte, a natureza das coisas, a origem da matéria, suas transformações, seus elementos últimos e, de outra parte, a forma de nosso Universo e as leis que o regem”.

Seignobos, já citado, esclareceu que “pela primeira vez no Mundo, foi empregado um método racional, inspirado no desejo de penetrar até o fundo das coisas e dos fatos para descobrir-lhes os caracteres próprios e as leis gerais. Este [104] método os gregos o aplicaram à Matemática, Astronomia, Física, e mesmo à Medicina e à Política”.

Com Tales de Mileto se iniciaria o conceito grego de crença na força do pensamento humano para compreender e interpretar, racionalmente, o Mundo.

Até então, o Homem aceitara crença sem exigir provas ou evidências. Com os helenos se inaugurou a exigência de explicação natural, racional e coerente, germe do espírito científico. Para Harry Barnes.

“... os gregos emanciparam os homens do peso morto da tradição e do demônio da superstição. Deve-se-lhes a introdução do espírito científico e um modo profundamente secular de conceber a vida”[6].

Na civilização helênica, e pela primeira vez na História, a Razão, contrária a tudo aquilo que não lhe fizesse sentido ou não lhe chegasse ao conhecimento por meio de adequada teorização e fundamentação, faria o contraponto ao Mito e a todas as tradicionais superstições, que continuariam, no entanto, como crença oficial e amplamente majoritária. Roberts trata desse aspecto:

...essencial foi a nova importância que os gregos deram ao racional, a uma indagação consciente a respeito do Mundo em que viviam. O fato de muitos deles continuarem sendo supersticiosos e acreditarem em magia não obscurece esta visão. A maneira com que usavam a Razão e o argumento fez com que dessem aos seres humanos um melhor entendimento do Mundo... as ideias gregas nem sempre estavam certas, mas eram mais bem trabalhadas e testadas do que as anteriores....Um dos exemplos que se destaca é a Ciência grega, totalmente diferente de qualquer tentativa anterior de abordagem do Mundo natural... de o Universo trabalhar em termos de lei e de regras, e não de deuses e demônios[7].

Em seu estudo sobre a Ciência grega, Marshall Clagett menciona três aspectos fundamentais vinculados a esta criação helênica: i) a emergência de um espírito crítico a partir dos filósofos pré-socráticos, como a dessacralização da doença por Hipócrates; ii) o conceito da Ciência como universal e geral, (como a Geometria abstrata e teórica ou os trabalhos em Zoologia de Aristóteles), distinta de mero conjunto de regras empíricas; e iii) o desenvolvimento de uma estrita metodologia de Lógica, particularmente da Lógica dedutiva.

Ainda que se tenha beneficiado de influências de outras culturas, como as da Mesopotâmia, do Egito e de Micenas, para citar apenas três, [105] deve-se ao gênio grego ter criado a Ciência como disciplina separada e independente da religião e da magia, de uma parte, e da Técnica, de outra. Na realidade, o conhecimento empírico e pragmático do Oriente divergia, fundamentalmente, da Ciência grega, teorizante e desinteressada. Nas outras grandes civilizações antigas, o desenvolvimento técnico, ou tecnológico, foi uma das características marcantes. O estágio de desenvolvimento mental desses povos refletia a estrutura político-sócio-cultural, que restringia a uma pequena elite governante o acesso ao conhecimento e interditava às demais classes sociais o aprendizado e o estudo. Impossibilitadas de pensar, de raciocinar, de analisar, de compreender e de criticar, essas sociedades se dedicaram ao mero trabalho manual, ao qual introduziram inovações e melhoramentos de forma a amenizar as tarefas diárias e aumentar sua produtividade cotidiana. A Técnica precedeu, portanto, a Ciência e, por tal motivo, o desenvolvimento tecnológico, sem embasamento teórico, foi muito lento, apesar de ter abarcado grande parte de setores das atividades humanas (transporte, energia, construção, metalurgia, agricultura, cerâmica, tecelagem, etc.). Foram tais sociedades, por assim dizer, civilizações técnicas, que continuariam e desenvolveriam, de alguma maneira, as atividades dos povos neolíticos. O método adotado era, portanto, o empírico, limitativo de um rápido e e ciente desenvolvimento técnico.

A assombrosa civilização grega diferiu, no particular, das demais civilizações contemporâneas, na medida em que seus grandes feitos foram na esfera da Filosofia, da Ciência, das Artes, do Direito e da Política. Muitos autores argumentam que os gregos desprezavam as atividades manuais, por considerá-las indignas do ser humano livre. Esta posição elitista seria uma das causas que teria impedido a aplicação da Ciência à Técnica. Platão, por exemplo, julgava um rebaixamento trocar o estudo das coisas incorpóreas e inteligíveis pelo de objetos ao alcance dos sentidos. Xenofontes escreveria que as chamadas “Artes Mecânicas levam um estigma social, sendo devidamente desprezadas em nossas cidades”. Ainda, segundo Xenofontes, Sócrates considerava a Astronomia uma perda de tempo[8].

Essa tese é parcialmente correta, porquanto não podem ser desprezados os pioneiros trabalhos de Engenharia, durante o Período Helenístico, da parte de vários cientistas (Arquimedes, Ctesíbio, Herão, Filon e outros), cujas iniciativas não foram aproveitadas, por serem antieconômicas ou estarem bem adiante de seu tempo. Como afirma Marshall Clagett, seria incorreto a afirmar que não havia experimentação, para a descoberta de novos fatos sobre a Natureza ou para a confirmação de teoria científica. Mesmo nos estágios iniciais da Ciência grega, nos séculos [106] VI e V, Pitágoras e seus discípulos estabeleceram, por experimentação, a relação entre o comprimento das cordas vibrantes e a altura das notas emitidas pelas cordas; Empédocles provou, experimentalmente, a existência do ar, e discípulos de Teofrasto, no Liceu, como o físico Strato, se dedicaram à experimentação em suas investigações científicas. O Liceu, a Biblioteca de Alexandria, as escolas de Medicina e os centros de Astronomia e Física eram verdadeiros laboratórios de pesquisas. Embora tenha havido considerável atividade experimental, certamente que, comparada com a Ciência Moderna, foram insuficientes à maturidade e à universalidade do uso de técnicas matemáticas e experimentais, as quais ainda não eram comumente consideradas necessárias na investigação. Antes que tais técnicas se tornassem de uso corrente, o desenvolvimento do espírito científico receberia violento golpe com o domínio político de Roma, com a ascensão do cristianismo e o recrutamento de eruditos que poderiam estar em atividades científicas e com os efeitos de forças espirituais não críticas que assolaram a região no Período Greco-Romano[9]. Não há dúvida, por outro lado, de que a mentalidade grega, de relativo desinteresse pela aplicação prática das formulações teóricas, serviu, em compensação, para desenvolver sua capacidade de abstração, fundamental para gerar o espírito científico. Conhecimento refletido, a Ciência grega procurou utilizar e compreender os fatos, através da abstração, observação, raciocínio, análise, reflexão, conceituação, teorização.

Assim, os gregos souberam elevar seus conhecimentos a um nível muito superior, e sem paralelo, ao de todos os demais povos da Antiguidade, e fundaram uma Ciência abstrata. O desenvolvimento dos conhecimentos científicos se deveu a  filósofos e físicos, porquanto ambos se propunham a uma explicação abrangente do Universo. Esses estudiosos e pensadores trariam um espírito totalmente novo e revolucionário a esse processo pela compreensão do Mundo e do Homem: confiança na Razão humana.

Para o uso da Razão humana era imprescindível o conhecimento (episteme), a ser adquirido por meio de adequadas educação e instrução, um dos alicerces da cultura grega. Na realidade, ao contrário de todas as outras civilizações precedentes e contemporâneas, os gregos estabeleceram uma excelente formação para os cidadãos. A função da escola e do professor não se limitava à transmissão de informações, mas era fundamentalmente a de mentor ou orientador, para que o aluno aprendesse a pensar e a raciocinar, inculcando-lhe hábitos mentais independentes e um espírito de investigação isento das tendências e dos preconceitos do momento. [107]

A escola não descia ao nível de doutrinação[10], não asfixiando o espírito de crítica. O sistema educacional grego – Paideia – consistia, basicamente, de Ginástica, Gramática, Retórica, Poesia, Música, Matemática, Geografia, História Natural, Astronomia e Ciências físicas, História da Sociedade, Ética e Filosofia, o que a tornava curso pedagógico necessário para produzir o cidadão completo, plenamente instruído[11]. A ginástica e os jogos (proibidos pelo cristianismo) tinham um papel relevante na cultura grega para a formação do cidadão.

A importância dada à aquisição do conhecimento se refletia nas diversas instituições criadas ao longo do tempo nos diversos campos: a Academia (388) de Platão, o Liceu (335) de Aristóteles, os Jardins de Epicuro, a Biblioteca e o Museu (cerca de 290) de Alexandria, as quatro Escolas de Medicina (jônica, de Abdera, de Alexandria e de Agrigento), as duas Escolas de Matemática (Atenas, Alexandria), os dois centros de estudos médicos (Cós e Cnido), os centros de estudos de Astronomia, Física e Geogra a. Acrescente-se, ainda, a publicação e a divulgação de obras de cunho científico e  filosófico, criando, assim, uma efervescência intelectual e cultural até então desconhecida. A propósito, é bom ter presente que a própria mitologia dava a maior importância à inteligência, a ponto de a deusa preferida de Zeus ser sua  filha Palas Atena, nascida da cabeça de seu pai, patrona da sabedoria, do conhecimento e da inteligência; na mitologia romana Palas Atena recebeu o nome de Minerva.

De tal atitude mental e intelectual, decorreriam: 1) as várias correntes  filosóficas (jônica, pitagórica, atomista, eleática, sofista, estoica, platônica, aristotélica, cética, epicurista), e uma demonstração de grande capacidade especulativa, e 2) as diversas Ciências (Matemática, Astronomia, Mecânica, Óptica, História Natural, Medicina), fruto do pensamento científico, surgido da mentalidade inquisitiva e racional.

Nesse desbravamento de um terreno totalmente inexplorado, até então, como o da Filosofia, o extraordinário esforço mental grego se dirigiu para a busca de uma resposta convincente, lógica, racional para os mistérios do Universo. Para tanto, a maioria dos  filósofos dedicou-se, igualmente, ao exame dos fenômenos naturais, procurando fundamentar suas teses e doutrinas. Assim, Ciência e Filosofia estão na base dessa busca helênica por uma explicação racional e lógica do Universo e da Vida. Elas se entrelaçavam e se autoinfluenciavam, sem significar, contudo, que todas as doutrinas  filosócas tenham contribuído positivamente para o progresso da Ciência e do pensamento científico. Se não houve significativo aporte de [108] filósofos como Hecateu, Melisso, Diógenes e Sócrates, outros, como Tales (Matemática, Física, Astronomia, Cosmologia), Pitágoras (Matemática, Cosmologia), Aristóteles (História Natural, Biologia, Cosmologia, Física) e Epicuro (Física, Cosmologia) têm posição fundamental na História da Ciência. Filosofia e Ciência, duas criações gregas, só viriam a ser cultivadas separadamente a partir de Aristóteles, devido às crescentes complexidade e extensão temáticas (Euclides, Apolônio, Arquimedes, Hiparco, Eratóstenes, Ctesíbio, Herão, Ptolomeu, Herófilo, Erasístrato, Dioscórides, Galeno).

Cultivados em diversas partes do mundo helênico, os diversos ramos da Filosofia Natural teriam um extraordinário desenvolvimento em um período de tempo relativamente curto. No dizer de René Taton,

“a rapidez surpreendente de seus progressos (justa recompensa de sua ambição desinteressada e de seus  fins teóricos) evidenciou sua superioridade sobre a ciência oriental, sem necessidade de proceder a uma minuciosa confrontação de seus resultados”[12].

Mesmo consideradas separadamente, e apesar de suas diferenças e suas particularidades, as diversas Ciências tiveram o mesmo progresso na esfera da explicação, a equivalente pesquisa das causas, a igual redução dos fatos a um número pequeno de princípios e a consequente passagem do Mito à procura do entendimento lógico dos fenômenos naturais.

Criadores e cultivadores da Filosofia, das Ciências, das grandes Artes, do Direito, da Lógica e de tantas outras manifestações do espírito humano, os gregos, em consequência, seriam capazes de desenvolver, no prazo de oito séculos, uma cultura sui generis, diferente de todas as demais, com base no raciocínio para explicação dos mistérios do Universo e da Natureza

 

2.1.3 O Pensamento Científico na Grécia

Uma pergunta recorrente nos livros de História das Ciências é a: por que surgiu na Grécia, e não em qualquer outro lugar, esse espírito crítico, inquisitivo? O que de extraordinário ocorreu naquela parte oriental do Mediterrâneo, para transformar a civilização helênica no maior centro cultural, científio,  filosófico e artístico da Antiguidade e berço da civilização ocidental? Como explicar o que alguns autores de séculos passados costumavam chamar de o milagre grego?

Todos os historiadores da Ciência se deparam com esta dificuldade inicial de explicar o surgimento do pensamento científico na cultura [109] grega, tanto que não há unanimidade nem consenso, a respeito, apesar da convergência nas explicações. Alguns autores enfatizam elementos culturais, outros priorizam fatores econômicos, outros, ainda, preferem argumentos de ordem política, e até a geografia é citada como fator preponderante no desenvolvimento mental e intelectual do povo grego.

Para Maurice Meuleau[13], as proezas técnicas gregas, comparadas com as dos impérios orientais, eram bastante modestas, e, depois do século VI, nenhuma inovação técnica de ponta surgiria, até o  final do Mundo Antigo. A cultura científica não poderia contar, assim, com o progresso e o desenvolvimento técnico, mas se beneficiaria do extraordinário desenvolvimento da vida intelectual. “Pode-se invocar o gênio grego, resultante do equilíbrio e da razão”, que soube dar os meios indispensáveis a esse progresso: a difusão da escrita, que não se limitou às classes privilegiadas, e que permitiria a rápida difusão do conhecimento a um mundo mais amplo, e não restrito ao mundo sacerdotal. O desenvolvimento do pensamento grego pode, assim, escapar à influência dos templos. O saber avançou pelas escolas dispersas da Jônia à Magna Grécia e agrupados em torno dos mestres, independentes dos santuários e do Estado, se formariam círculos de alunos e discípulos; a individualidade se afirmaria pela primeira vez: manifestações de individualismo, características de uma vida intelectual que escaparia do peso das tradições e dos conhecimentos revelados.

Para Martin Stevers[14], uma plêiade de homens ilustres moldou, no século VI, os contornos do pensamento nacional. Foram os sete sábios da Grécia (Tales, Sólon, Periandro, Pitaco, Cleóbulo, Bias e Quilon); desses, apenas Tales era  filósofo e matemático, mas todos eram estadistas (Pitaco, Periandro), humanistas (Tales, Cleóbulo), legisladores (Bias, Sólon, Quilon). O notável dessa lista é que todos granjearam fama pela forma e ciente e sábia com que procuraram resolver os problemas políticos (Atenas, Priene, Mitilene, Esparta, Rodes, Siracusa, Corinto). Os helenos, que haviam destruído a cultura de Micenas, se viram na necessidade de construir algo em substituição da cultura esmagada, de conceber novas ideias. O processo se manifestou primeiro nas ilhas do Egeu e da Jônia e nos estados ribeirinhos, que se dedicariam ao comércio marítimo, estabelecendo contatos com outros povos.

Richard Tarnas entende que “o desenvolvimento do autogoverno democrático e dos avanços técnicos na agricultura e na navegação expressavam e estimulavam o novo espírito humanista”. As especulações [110] losóficas se coadunavam com a vida intelectual da cidade que se movia em direção ao pensamento conceitual, à análise crítica, à re exão e à dialética[15]. De acordo com A. C. Crombie, os gregos inventaram a Ciência Natural ao buscar a permanência inteligível e impessoal que existe no Mundo cambiante, e ao descobrir a brilhante ideia do uso generalizado da teoria cientí ca, e propuseram a ideia de supor uma ordem permanente, uniforme, abstrata, da qual se poderia deduzir o Mundo mutável da observação. Os mitos foram reduzidos à condição de teorias, e suas entidades recortadas às exigências da previsão quantitativa. Com esta ideia, da qual a Geometria foi o paradigma, a Ciência grega deve ser considerada como a origem de tudo que se seguiu, constituiu o triunfo da ordem trazida pelo pensamento abstrato ao caos da experiência imediata, e continuou sendo característica do pensamento grego o interesse principal pelo conhecimento e compreensão, e apenas secundariamente, o interesse

pela utilidade prática[16].

Segundo o já citado Colin Ronan,

não parece haver razão geográ ca ou racial para que isso acontecesse; tudo que se pode dizer é que ali havia colonizadores vivendo em um novo ambiente político, de sua inteira criação, não imposta de fora, em uma área que também era nova para eles. Eles tendiam a fazer perguntas e procurar respostas, o que não teriam feito caso se tivesse estabelecido em um modo de vida tradicional... além disso, a Jônia era uma área de comércio, foco de mercadores do Leste e do Sudeste do Crescente Fértil e de mais além, do Irã, da Índia e até da China. Os jônicos viviam, então, em um ambiente estimulante.

Pierre Rousseau[17] argumentaria que, enquanto a Grécia peninsular estava ainda envolvida em guerras intermináveis, a região do mar Egeu e do mar Jônico desenvolvia-se graças ao comércio e às influências das regiões vizinhas. Cidades importantes resplandeciam no século VI, como Mileto, Éfeso, Colofon, Priene, Teo, Clazômenas, bem como as ilhas Quíos, Samos, Cós, Rodes. O saber egípcio e babilônico se infiltraria pouco a pouco na Jônia, encontrando aí um ambiente propício para se desenvolver. As cidades gregas eram independentes umas das outras, a expansão colonial tinha feito surgir uma classe e um espírito novos; a democracia sentou raízes. Nada poderia impedir o jogo da livre crítica, que redundaria em explorar as forças da Natureza, expulsando a feitiçaria. [111]

“Sonha-se purgar o Mundo de todos os agentes ocultos”. Harmonia e simplicidade seriam características do gênio grego. Assim, o espírito dos jônicos, favorecido pela liberdade de que gozavam, iria atuar sobre os acontecimentos oriundos do Oriente, e, pela lógica e busca da harmonia, imprimir à Ciência seu impulso primeiro.

Marshall Clagett, além de reconhecer a importância de fatores sociais, da mentalidade comercial do povo e da mudança mitológica (da Cosmogonia dos tempos heroicos para uma explicação natural do Cosmos), relaciona outros fatores para explicar o milagre grego; a passagem da Idade do Bronze para a do Ferro, isto é, a Grécia, como civilização da Idade do Ferro, teria condições, com as novas técnicas e instrumentos, de melhor competir no comércio com as monarquias do Oriente Próximo, e o desenvolvimento do alfabeto teriam sido fatores cruciais para as extraordinárias conquistas[18].

Outros autores, como Rubin Aquino[19], sugerem que as antigas civilizações do Oriente, por se caracterizarem como sociedades agrárias, eram, por sua natureza rústica, opressivas, fechadas, extremamente hostis ao desenvolvimento do pensamento racional; para elas “o pensamento mítico bastava para satisfazer às necessidades de explicações dos fenômenos daqueles homens voltados para o duro trabalho do dia-a-dia”. As condições para a passagem do Mito à Razão, ou seja, para o advento do pensamento racional, se deram, pela primeira vez, com o surgimento da polis grega. Um conjunto de condições a tornava mais própria ao desenvolvimento científico: a facilidade para viajar, o contato com povos diferentes, a divisão do trabalho, a moeda cunhada, garantida pelo Estado, e o desenvolvimento comercial.

Para Condorcet,

ali [Grécia] as Ciências não podiam ser a ocupação e o patrimônio de uma casta particular; as funções de seus sacerdotes se limitaram ao culto dos deuses. Ali o gênio podia desdobrar todas as suas forças, sem estar sujeito a observâncias pedantes, ao sistema de hipocrisia de um colégio sacerdotal. Todos os homens conservavam um direito igual ao conhecimento da verdade. Todos podiam procurar descobri-la para comunicá-la a todos, e comunicá-la por inteiro. Essa circunstância feliz, mais ainda que a liberdade política, deixava ao espírito humano uma independência, garantia segura da rapidez e da extensão de seus progressos.

 

Horta Barbosa escreveu:

Condições geográficas, econômicas e históricas favoráveis permitiram a essa nação realizar transformações em todos os campos da vida social, sem as quais o progresso geral da Humanidade ter-se-ia retardado de muitos séculos. Dentre os complexos e variados fatores desse chamado “milagre grego”, é fácil assinalar a rápida libertação, a partir de Homero, tanto das atividades práticas quanto das criações do espírito, das peias e rígidos moldes impostos pelos velhos regimes teocráticos... Os poderes temporal e espiritual, fundidos e imóveis em outros povos, por representarem a vontade eterna e sagrada dos deuses, a tudo regulavam e controlavam, impossibilitando, ou melhor, freando as liberdades, as mudanças e transformações que constituíam o progresso... o pequeno povo heleno agia, nos campos prático e teórico, com excepcional autonomia e individualismo, os governos políticos e religiosos eram fragmentários e débeis, a casta sacerdotal, absorvida ou submetida aos militares, colônias e núcleos distantes um dos outros e de reduzida população, vida marítima, relativo isolamento em relação aos grandes impérios, tais alguns fatores do “milagre grego”.

Na introdução do item Pré-Socráticos[20], consta o comentário de que:

a partir do século V (...) cedeu lugar a uma nova e mais radical forma de pensamento racional, que não partia da tradição mítica, mas de realidades apreendidas na experiência humana cotidiana. Fruto da progressiva valorização da “medida humana” e da laicização da cultura efetuada pelos gregos, despontou, nas colônias da Ásia Menor, uma nova mentalidade, que coordenou racionalmente os dados da experiência sensível, buscando integrá-los numa visão compreensiva e globalizadora. Dentro desse espírito surgiram, na Jônia, as primeiras concepções cientí cas e  losó cas da cultura ocidental, propostas pela Escola de Mileto.

O extraordinário desenvolvimento desse pensamento racional e cientíco ocorreu com um povo que habitava uma região completamente diferente de outras, onde  cresceram importantes civilizações, como as do Egito, da Mesopotâmia, da Índia e da China. Pode-se considerar, mesmo, que as condições de relevo e solo, pouco favoráveis ao desenvolvimento agrário (baixas produtividade e fertilidade, técnica rudimentar), dificultariam o assentamento de uma população numerosa e agrícola na Hélade, antigo nome da Grécia. [113]

A agricultura, praticamente para consumo local, se concentrava na vinha, na oliveira, em alguns cereais (de forma insuficiente), na  figueira; as pastagens e as  florestas tinham, igualmente, baixa rentabilidade. Essa seria a principal razão da dieta frugal do grego antigo. Os pouco férteis e úmidos vales e planícies, separados por montanhas, explicam o relativo isolamento em que viviam as populações dessas áreas, pelo que desenvolveriam um forte sentimento de devoção à Cidade-Estado (polis), entidade política independente e autônoma, verdadeiro centro comunitário, mas de proporções reduzidas, se comparadas com centros urbanos de outras civilizações antigas (China, Índia); a unificação da Grécia em um Estado não seria obtida pelos gregos na Antiguidade, devido às rivalidades entre as diversas cidades-Estados.

As vocações do povo seriam, assim, o mar (navegação marítima) e o comércio, e nessas atividades os gregos foram e cientes, ativos e competentes. Na falta de uma agricultura que pudesse abastecer a crescente população, a solução foi a emigração, com fins de colonização, para as ilhas do mar Egeu, Ásia Menor, litorais do mar Negro (Ponto Euxino) e do mar de Mármara (Propôntida), Norte da África, Sicília e Sul da Itália, Sul da Gália e da Península Ibérica.

A primeira expansão colonizadora, espontânea, foi no Período Histórico denominado de Homérico (1150-776), com a fundação de centenas de colônias, chamadas apoéquias.

A segunda onda colonizadora (séculos VI e V), planejada e executada pelos governos das polis, fundou, igualmente, um grande número de colônias, agora chamadas clerúquias. Calcula-se em 700 o número das colônias (cidades-Estado) gregas espalhadas pelo Mediterrâneo, Ásia Menor e mar Negro, que, com a Grécia continental, formavam o mundo grego, integravam a civilização helênica e serviam como postos avançados para a propagação da sua cultura e de seu modo de vida. Não se pode deixar de enfatizar o papel da maior importância que essas polis tiveram na formação, desenvolvimento e divulgação do pensamento e do espírito gregos, tanto na Filosofia, quanto nas Ciências. O intenso comércio entre essas colônias traria prosperidade à região, ao mesmo tempo em que tais frequentes contatos mantiveram vivos os laços que os identificavam como membros de uma mesma e grande comunidade helênica. A língua, a cultura, a religião, a história e os interesses faziam que habitantes de colônias tão distantes, como Cumes, na Itália, Siracusa, na Sicília, Mileto, na Jônia, Cirene, na Líbia e Teodósia, no mar Negro, se sentissem parte da mesma nação grega, ainda que rivalidades e constantes confrontações armadas impedissem uma aliança política tendente à unidade administrativa do mundo helênico. [114]

As mais importantes e significativas colônias (polis)[21], estabelecidas ao longo das costas do Mediterrâneo e do mar Negro até a Península Ibérica, de onde se irradiaria para outras regiões a cultura grega, foram:

  1. Mar Negro (Ponto Euxino): Fasis, Sinope, Odessa, Teodósia, Istros, Apolônia, Olbia, Callatis, Tomi, Cruni, Heracleia, Tomol, Megara;
  2. Mar de Mármara (Propôntida): Bizâncio, Lâmpsaco, Cízico, Calcedônia, Selymbria, Sestos;
  • Ásia Menor: (Eólia) Ábidos, Lesbos, Mitilene; (Jônia), Mileto, Éfeso, Priene, Esmirna, Clazômenas, Pérgamo, Colofon, (Dórida), Halicarnasso, Cnido;
  1. Grécia Insular: Quíos, Naxos, Samotrácia, Cós, Rodes, Delos, Chipre, Samos, Creta;
  2. Trácia: Abdera, Estagira, Potideia;
  3. Sul da Itália: Tarento, Crotona, Metaponto, Cumes, Ísquia, Nápoles, Eleia, Posidônia, Sibaris, Locres;
  • Sicília: Siracusa, Agrigento, Naxos, Catânia;
  • Sul da França: Marselha, Nice, Atenópolis, Olbia, Emporion; IX - Sul da Espanha: Tarragona, Empória, Sagunto;
  1. Norte da África: Líbia – Cirene, Apolônia; Egito – Naucratis.

A Cultura grega se espalharia, ainda mais, por vastas extensões da Ásia, após as fulminantes vitórias militares de Alexandre. Cidades foram fundadas, como Alexandria, sendo que a colônia mais afastada da Grécia continental talvez tenha sido Ay Khanoum, no Afeganistão, próxima da fronteira com a China.

2.1.4 Evolução da Ciência Grega

Apesar do inevitável arbítrio ao estabelecer divisões temporais, é importante, para fins expositivos, dividir em períodos o relevante processo da evolução do pensamento científico e da Ciência gregas entre aproximadamente 600 antes da era comum e o  final do século III. Quatro períodos podem ser estabelecidos: i) o primeiro abarca os séculos VI e V, caracterizado pelo chamado Período da Filosofia Pré-Socrática, no qual a Filosofia se orienta para compreender os fenômenos naturais pela investigação intelectual; ii) o segundo período corresponde ao século IV, [115] época das Escolas de Platão, Aristóteles e Epicuro, além das contribuições importantes de Anaxágoras, Empédocles, Parmênides, Leucipo, Demócrito, Hipócrates, Alcmeon, Arquitas, Eudoxo, Teofrasto; iii) o terceiro, chamado de Helenístico, do século III até 146 (ano da conquista da Grécia por Roma), caracterizado pela preeminência do cientista sobre o  filósofo, fundação da Biblioteca e do Museu de Alexandria, e época de Arquimedes, Euclides, Apolônio, Aristarco, Eratóstenes, Hiparco, Heró lo, Erasístrato; e iv) o quarto, Greco-Romano, de 146 até  nal do século III, invenções mecânicas (Ctesíbio, Herão, Filon), anexação do Egito (Alexandria), como província, ao Império Romano (31), decadência cultural, mas de expansão geográfica via Império Romano, época de Dioscórides, Ptolomeu, Possidônio, Sosígenes, Galeno, Diofanto, Teon, Pappus, misticismo, gnosticismo, neoplatonismo, Ciências ocultas (Alquimia, Astrologia).

Embora a Ciência grega tenha sobrevivido por mais alguns séculos, para efeitos da História da Ciência os Períodos relevantes são os do  final do século VI até o  final do Período Greco-Romano, tema a ser desenvolvido no atual capítulo. A Ciência grega, nos séculos imediatamente subsequentes, será tratada em um capítulo em separado, por corresponder a um período de seu de nitivo declínio e eventual rejeição e abandono por uma nova e emergente Sociedade.

A fase áurea da civilização grega correspondeu aos períodos entre os séculos VI e II, sendo que alcançaria seu apogeu na época de Arquimedes. As contribuições geniais, extraordinárias e pioneiras de cientistas do quilate de Tales, Pitágoras, Hipócrates, Aristóteles, Eudoxo, Arquitas, Teofrasto, Euclides, Herófilo, Erasístrato, Aristarco, Arquimedes, Eratóstenes, Apolônio e Hiparco, nos campos da Matemática, Astronomia, Mecânica, Óptica, Ciências Naturais e Biologia elevaram o conhecimento humano a patamares até então desconhecidos por civilizações anteriores e contemporâneas, e serviriam, séculos mais tarde, após longo esquecimento, rejeição ou incompreensão, de guia e inspiração do chamado Renascimento Científico.

O declínio da Grécia continental começou a ser transparente desde o século II (Período Greco-Romano), devido à concorrência estrangeira a seus produtos agrícolas, artesanais e industriais, com reflexos negativos nas atividades produtivas e comerciais, à redução das atividades portuárias em cidades-chave, como Rodes, Delos, Atenas, Corinto e Pireu, à ausência de progresso técnico e desinteresse pelo trabalho manual, à falta de união e cooperação entre as cidades-Estados, à sua subjugação pela Macedônia de Felipe e Alexandre, à fundação e desenvolvimento de [116] Alexandria, que se transformaria rapidamente em grande centro comercial e cultural, graças a incentivos oficiais e ao total comprometimento dos governantes em transformá-la na mais resplandecente cidade do Mundo[22]. A decadência da cultura grega se agravaria e se precipitaria com a dominação romana, em 146, depois da queda de Corinto. No momento em que Roma conquistou a Grécia, no século II, explica Tarnas, o vigor da cultura helênica se estiolava, deslocado pela visão mais oriental da subordinação do ser humano às forças avassaladoras do sobrenatural[23]. Ganhariam público os movimentos místicos e o ocultismo; a Alquimia e a Astrologia se espalhariam pelo vasto território do Império Romano; cresceria o desinteresse pelo estudo da Filosofia Natural.

A civilização helênica perdeu, por essa época, seu grande impulso criador nos diversos campos científicos. O declínio intelectual e criador de Alexandria e da civilização helênica é, evidentemente, devido a diversas causas, que afetariam a Ciência, de um modo geral. A virtual paralisação das pesquisas biológicas em Alexandria, a partir do século II, correspondeu, em termos cronológicos, ao declínio, igualmente, nos estudos e pesquisas em outros ramos da Ciência, como na Matemática, na Astronomia e na Física.

Foi, conforme explica Beaujeu, em La Vie Scienti que[24],

...a época que a atividade criadora começou a sentir um grave e duradouro eclipse; as disciplinas científicas recuavam em proveito da Filosofia e da erudição. Este declínio se manifestava mesmo na atitude em face dos problemas da Ciência; a partir do II século a.e.c. a sedução do irracional sob formas diversas começa a exercer estragos até nos meios interessados no conhecimento do Mundo: as Ciências ocultas, a Astrologia, sobretudo, fazem concorrência com as Ciências da Natureza, enquanto a magia se opõe ou se mistura com a Medicina; tende-se a confundir, com toda a inocência, fato observado e o prodígio fabuloso, a explicação racional e a falsa chave misteriosa, a investigação científica e as divagações desordenadas.

A desorganização política e social, os problemas econômicos e as influências desestabilizadoras e atrasadas de outras culturas teriam um impacto tremendo na cultura helenística, centrada, agora, em Alexandria. O mundo grego encontrava-se conquistado, submetido, enfraquecido, desmembrado pelos conquistadores romanos; a crise era generalizada e [117] abrangente, tanto na Grécia continental e insular quanto nas demais áreas (como Alexandria, cidades na Península Itálica). Péssimos governos se sucederiam, no Egito, aos primeiros Ptolomeus, inclusive pela falta de interesse na cultura e de apoio ao Museu. O apogeu científico alexandrino era, agora, coisa do passado; o espírito científico entraria em recesso. A inquietação intelectual, o espírito crítico, a pesquisa objetiva e sistemática cederiam lugar a uma retomada de práticas antigas, nas quais as crenças e o sobrenatural prevaleceriam na explicação do Universo e dos fenômenos.

Aos progressos alcançados, por exemplo, na Biologia e na Astronomia, novas atitudes e percepções iriam retardar o avanço científico nessas áreas: na Biologia, a proibição à dissecação e à autópsia, e a perseguição aos infratores dificultariam e, até mesmo, impediriam os cientistas de melhor conhecer o corpo humano e as funções de seus diversos órgãos. Hipócrates, Herófilo e Erasístrato,  figuras superlativas na História da Medicina, seriam criticados e combatidos, mas recuperados apenas muitos séculos adiante, quando o espírito científico voltaria a presidir os trabalhos de pesquisa na Biologia e na Medicina; na Astronomia, as descobertas e estudos de Aristarco, Eratóstenes e Hiparco seriam parcialmente aproveitados por Ptolomeu, autor do Almagesto, sem o brilhantismo daqueles predecessores. O Sistema de Ptolomeu dominaria a Astronomia por cerca de mil e duzentos anos, quando o caminho, apontado por Aristarco, só voltaria a ser trilhado por Copérnico.

A submissão da Magna Grécia e de outros territórios da África, Ásia Menor e Europa transformariam Roma na nova potência dominadora de toda a região mediterrânea e de boa parte da Europa ocidental, impondo suas leis e seu modo de vida aos povos subjugados.

A cultura grega sofreria, então, novo e forte golpe, porquanto à submissão política e econômica, seguiriam a perda de seu poder criador e as influências negativas e perversas (Alquimia, Astrologia) de outras culturas. A esse período de decadência corresponderia, contudo, a ampla divulgação e imposição da cultura grega no imenso Império Romano, em particular nas suas províncias no continente europeu. A cultura grega prevaleceria no mundo romano, tanto no domínio das Artes (Teatro, Literatura, Pintura, Escultura) quanto no da Filosofia Natural (Matemática, Astronomia, Física, Biologia, Medicina)[25]. Deste modo, se não foi possível à Grécia manter seu extraordinário nível cultural, prosseguindo no desbravamento do campo científico, inclusive com a divulgação e aprimoramento do espírito científico, seu invejável acúmulo de conhecimentos, ao menos, seria incorporado pelos romanos à sua cultura [118] tradicional, preservando-o, assim, de total abandono e esquecimento, o que teria resultado em uma perda irreparável para os séculos futuros. O mundo helênico fora, portanto, conquistado e subjugado pela nova potência, Roma, a qual buscaria absorver e difundir urbi et orbi a cultura grega, embora num novo contexto pouco favorável ao desenvolvimento da Ciência.

Sem mais o fulgor de antes, a contribuição helênica ainda seria muito importante à Ciência, como atestam as obras de Dioscórides, Ptolomeu, Herão, Filon, Galeno, Diofanto, Pappus, Teon e outros.

Aos sábios e gênios, sucederiam pesquisadores medíocres, cientistas de segunda ordem, sem contribuição importante para o desenvolvimento da Ciência. Meros seguidores de seus ilustres antecessores, alguns se notabilizariam por copiar e divulgar os ensinamentos dos mestres. Nos centros de estudo e nas diversas Escolas, os professores e os estudantes, em número cada vez menor, não teriam condições, nem incentivos para preservar o espírito científico, um dos galardões da extraordinária civilização grega.

Ainda que o Museu e a Biblioteca de Alexandria tivessem continuado a funcionar após a conquista romana, a notável pesquisa original decaiu em qualidade e quantidade; o ensino das várias disciplinas já não atraía maior interesse, tanto pelo desprestígio da Ciência quanto da Escola. Inspirado no Liceu de Aristóteles, o Museu de Alexandria era dotado de jardins botânico e zoológico, observatório astronômico, salas para aulas e uma Biblioteca com mais de 500 mil rolos de papiros; cerca de cem professores ensinavam, custeados pelo Estado, nessa primeira Universidade do Mundo[26]. O resultado final desse processo perverso foi o declínio paulatino da cultura helênica, até o ponto de ser perseguida pelas autoridades políticas e religiosas daqueles novos tempos.

A Biblioteca, parcialmente queimada pelas legiões de Júlio César, foi danificada por diversas invasões e insurreições. Em 269, a Biblioteca foi novamente queimada por ordem de Zenóbia, Rainha de Palmira, quando conquistou o Egito.

É evidente que a cultura grega prosseguiria pelos séculos seguintes, ainda que em declínio e em desprestígio, devido, em parte, pelas novas ideias que começavam a prevalecer e a forjar uma nova Sociedade. A crescente popularidade do cristianismo, uma nova religião monoteica, reconhecida oficialmente no século IV e tornada oficial do Império, no século V, viria a se impor, em definitivo, em todas as regiões do vasto Império Romano, criando uma situação insuportável para o [119] desenvolvimento do espírito científico e do racionalismo grego. Diante de um ambiente político e cultural hostil, a Filosofia Natural viria a ser abandonada e esquecida, por desnecessária e perigosa, cedendo lugar a um conhecimento revelado, dogmático e absoluto.

Na partilha do Império Romano (395), por Teodósio, coube a seu  filho Arcádio, entre outros territórios, a Grécia, a Macedônia, a Capadócia, a Síria, a Ásia Menor, a Mesopotâmia e o Norte do Egito (Alexandria). Criado, assim, o Império Romano do Oriente, continuaria a prevalecer, contudo, nessa parte da Europa oriental, até o  final do reinado de Justiniano (565), a cultura greco-romana, apesar do desaparecimento do Império Romano do Ocidente, em 476. Nesse conturbado Período, o Museu de Alexandria foi atacado, em 415, por uma multidão instigada por Cirilo, bispo daquela cidade, “que patrocinava a ortodoxia contra aqueles que consideravam cristãos heréticos e contra os ensinamentos ancestrais. Hipácia, matemática,  filósofa neoplatônica e dirigente do Museu, foi brutalmente assassinada por monges...”[27]. A Academia de Platão, bem como as demais Escolas ancestrais, seria fechada em 529, por ordem de Justiniano.

O cristianismo, religião oficial em ambos os Impérios, tinha, porém, dois chefes, o Bispo de Roma e o Patriarca de Constantinopla, o que geraria, ao longo dos séculos, um grande número de disputas, divergências, debates teológicos e de jurisdição, e, finalmente, o cisma.

 

História, Idade antiga, Antiguidade clássica, Civilização romana, Civilização grega, História da ciência, Filosofia, Ciências
Proença-Rosa,
Carlos Augusto.
História da ciência, vol I:
Publicado por:
Odsson Ferreira | 23 fev , 2017
Revolução de Fevereiro: movimento que abriu portas à União Soviética
23 fev , 2017
Sputnik
História
Rússia

No dia 23 de fevereiro a Rússia assinala o 100º aniversário da Revolução de Fevereiro. Infelizmente, nem todos têm plena consciência histórica daquilo que se passou na época, das causas do acontecido e como a Revolução de Fevereiro foi diferente da de Outubro. A Sputnik explica e lhes propõe uma retrospectiva dos eventos.  A Rússia entrou no século XX dilacerada por problemas que se vinham agudizando. Dava para sentir o perigo revolucionário no ar — e não levou muito tempo para que este se concretizasse. 

Foi uma cadeia sólida de causas e condições prévias — não apenas ideias e lemas — que levou ao colapso de czarismo na Rússia e à futura instalação do regime comunista, mudando o registro civilizacional do país e de todo o globo de uma vez por todas.

Início de século turbulento

Algumas das causas mais flagrantes dos distúrbios que abalaram o país nas primeiras décadas do século XX foram más safras, o aumento exponencial da dívida orçamental, fracassos no plano militar e a ausência de qualquer tipo de direitos civis.

Tudo isso fez com que as massas populares se revoltassem contra o regime imperial e reivindicassem aquilo que eles consideravam ser algo que inerentemente lhes pertencia. Em primeiro lugar, foram os trabalhadores rurais que ficaram na "armadilha" de prolongadas contribuições sem um verdadeiro direito à terra na consequência da polêmica reforma que aboliu a servidão em 1861. Segundo, foram os recém-emergidos trabalhadores urbanos que se manifestaram com os principais lemas da época: "Nos deem pão!", "Abaixo a guerra!", "Fora com o absolutismo!".

A situação estava agravada pelo fato das autoridades imperiais terem envolvido o país em duas guerras desastrosas que acabaram por corroer a economia russa por dentro: ou seja, a derrota "vergonhosa" na confrontação com o Japão em 1904-1905 e a arrastada Primeira Guerra Mundial que drenou todo o sangue do regime czarista agonizante. 

O fator mais importante foi também a discordância que se tinha gerado a nível do Estado, sendo que em fevereiro de 1917 a Duma de Estado, já formada completamente pela oposição ao czarismo, se reunia apenas algumas vezes por ano, e o governo estava mergulhado em um incessante carrossel ministerial.

Além das razões puramente econômicas e materiais, o czarismo estava comprometido e privado da confiança por parte do povo devido aos acontecimentos em torno da figura mística de Grigory Rasputin, que oficialmente ajudava o príncipe Aleksei a sobreviver à hemofilia, porém, ele alegadamente teria exercido grande influência sobre as decisões da família real. Rasputin, de origem rural, era considerado como "profeta" e "ancião", e até hoje há muitas especulações quanto à sua participação nos acontecimentos de 1917.

Revolução russa de 1905: um futuro que não se deu

Seria justo dizer que, em grande sentido, a Revolução de Fevereiro foi impulsionada pela desilusão com a revolução anterior de 1905, que não chegou a trazer quaisquer frutos. Mesmo que tivessem sido declarados, as liberdades e princípios democráticos fracassaram na sua aplicação, o que ainda agravou mais a atmosfera de desilusão na sociedade.

Porém, vale ressaltar que, se a Revolução de 1905 era pautada por forças e motivos pouco definidos, tendo sido despoletada pelo chamado Domingo Sangrento (22 de janeiro de 1905), que consistiu de uma manifestação pacífica, encabeçada pelo padre ortodoxo Georgy Gapon, esmagada violentamente pela guarda czarista, a sua "sucessora" de fevereiro de 1917 já tinha uma base ideológica mais sólida. 

Deste modo, o movimento revolucionário caótico de 1905 resultou na obtenção ilusória de um leque de liberdades e na planejada transição da monarquia ao parlamentarismo, proclamadas pelo famoso Manifesto de Outubro, mas uma parte esmagadora destes resultados não passou de nada além de simples declarações.

Os grupos opositores ao czarismo ganharam poderes legislativos. Porém, eles não conseguiram obter consenso entre eles mesmos. A Duma de Estado virou um palco de briga entre os grupos que, em princípio, queriam o mesmo, mas divergiam nos métodos e nas ideias.

A fermentação no maior órgão legislativo do país fez com que os principais problemas do país, que tinham servido de ímpeto ao movimento de 1905, não fossem resolvidos. Primeiramente, se tratava da chamada "questão agrária". Pior ainda, a Rússia estava atolada em uma dispendiosa e infrutífera campanha militar — a Primeira Guerra Mundial.

Dias ousados da revolta popular

Nos dias de janeiro e, especialmente, de fevereiro de 1917, cada vez mais fábricas se viam paralisadas por greves, sendo o caso mais conhecido relacionado com a fábrica Putilov em Petrogrado (nome de então de São Petersburgo). Os motins públicos se realizavam sob os lemas "Abaixo a guerra!" e "Viva a República!".

Outra uma parte integrante dos acontecimentos de fevereiro foram as "rebeliões do pão", provocadas por um programa de distribuição de produtos agrícolas ineficiente, introduzido um ano antes. Todos estes distúrbios foram apenas um prólogo para a Revolução, que começou em 23 de fevereiro (8 de março atual, devido à mudança de calendário), com greves maciças contra czarismo, fome e escassez de direitos civis. 

A atmosfera se vinha agudizando, o tzar Nicolau II, de acordo com alguns relatos, ficou em pânico, a Duma de Estado acabou sendo dissolvida. As ruas viviam um caos armado. Neste contexto, o destino do Império dependia totalmente da lealdade do exército ao regime. 

Porém, a maior parte dos militares não justificou as esperanças da monarquia. Começou uma rebelião militar. Em 27 de fevereiro (atual 12 de março), os soldados de Petrogrado cercaram o Palácio Tauride onde estava sediada a Duma, supostamente já dissolvida. Em vez dela, foi formada uma nova entidade — o Comitê Provisório da Duma de Estado, que logo assumiu funções.

Uma das figuras-chave nos acontecimentos de fevereiro foi o socialista revolucionário Aleksandr Kerensky, que não só ascendeu ao poder na época, mas saudou a revolução lhe dando grande inspiração e apoio. Nos dias turbulentos da agonia dos antigos órgãos legislativos, Kerensky apelava aos deputados para que não cedessem ao tsar, chefiou o processo da substituição da guarda do Palácio pelos militares rebeldes e, finalmente, integrou a nova entidade legislativa.

De modo inesperado para as autoridades, o ardor revolucionário se via alastrando a Moscou e, provavelmente, bem poderia ter prosseguido para outras grandes cidades russas se nada tivesse sido feito. O caos revolucionário na Rússia resultou na chamada dualidade de poderes, ou seja, na governança exercida de fato por uma força (Soviete de Petrogrado), mas de jure atribuída a outra (Governo Provisório).

Em 2 de março, o tzar Nicolau II abdicou do trono, passando-o para seu irmão, Mikhail Aleksandrovich, que, por sua vez, o recusou. O czarismo caiu, a família real foi detida, privada de todos os direitos e todos os seus bens.

Herança de Fevereiro ou primeiro 'ato' da Grande Revolução Russa

O projeto de Estado que surgiu em resultado das manifestações de Fevereiro foi um dos mais democráticos, se não o mais democrático, da época. Poucos países podiam se gabar de ter um leque tão vasto de liberdades proclamadas, inclusive as das mulheres.

Mas isso acabou por não sair para além da moldura do projeto. No final, todas as principais reclamações de Fevereiro continuavam insatisfeitas — a guerra continuou, a crise econômica não dava fôlego ao país, a questão do campo permaneceu em impasse e, finalmente, a crise governamental sacudiu de novo a Rússia. 

O fenômeno emergido dos movimentos de fevereiro, a dualidade de poderes, era uma espécie de bomba-relógio. Por um lado, o Soviete de Petrogrado como órgão do povo, e por outro — a força da burguesia, mais treinada para as atividades públicas, mas muito menos apoiada pelos recém-manifestantes. 

Deste modo, o país ficou paralisado pela "ditadura da burguesia", ou seja, pelo Governo Provisório que não era capaz de promover as reformas necessárias e cumprir as promessas dadas. Os problemas econômicos e políticos se vinham agudizando, os setores agrário e industrial estavam na miséria e a questão das terras não se resolvia. Muitos, aliás, acreditam que a Revolução de Fevereiro foi uma parte da subsequente Guerra Civil Russa.

Tudo isso serviu como pretexto para o último "ato" deste grande movimento revolucionário — transformação de uma revolução democrática e burguesa em uma socialista, que ocorreu já no mês de outubro de 1917.

História, Idade contemporânea, Rússia, União soviética, Revolução, Comunismo
{+} Textos
personalidades
Pitágoras
Pitágoras
Nascimento: 570 a.e.c. - Samos
Morte: 496 a.e.c. - Crotona [Século VI]
Filósofo, matemático, engenheiro
35px
{+} Personalidades
Fato histÓRICO
404
a.e.c.
Idade Antiga
Antiguidade Clássica
  Século V Março
Guerra do Peloponeso: Esparta derrota Atenas, e vence a Guerra

APESAR DE TODAS AS DIFICULDADES vividas depois da batalha, os atenienses tiveram uma vitoria espetacular nas Arginusas e a esquadra espartana sofreu terrivelmente. Embora ainda lhes restassem noventa trirremes, não havia mais dinheiro para o pagamento da tripulação e os soldados e marinheiros só conseguiam escapar da fome trabalhando como assalariados em fazendas de Quios. A situação era tão desesperadora que uma parte deles planejou um ataque capital da ilha, aliada de Esparta. Inicialmente, os moradores da cidade, assustados, concordaram em apoiar os soldados, mas sem o apoio financeiro da Pérsia os espartanos não conseguiriam levar adiante a guerra no mar Egeu. Em Esparta, muitos estavam desanimados com a derrota diante de uma força ateniense tão inexperiente. Além disso, os espartanos que compartilhavam as convicções de Calicrátidas consideravam a aliança com a Persia contra os gregos uma desgraça; e opositores políticos de Lisandro temiam suas ambições pessoais e que ele voltasse ao poder.

 

MAIS UMA PROPOSTA DE PAZ DE ESPARTA

POR TUDO ISSO, ESPARTA mais uma vez tentou um acordo de Paz, desta vez oferecendo a retirada de Decelea e propondo que os dois lados mantivessem as demais áreas conquistadas. Para os atenienses, esta proposta era melhor do que a que eles rejeitaram depois de Cizico. Embora Atenas tivesse Perdido Pilos em 409 a.e.c., os espartanos estavam dispostos a abandonar suas fortalezas na Atica sem exigir compensações. Desde 410 a.e.c. eles tinham sido obrigados a abandonar o controle de Bizancio e da Calcedonia, permitindo que os atenienses ficassem livres no estreito de Bósforo e tivessem livre acesso ao mar Negro e, consequentemente, ao mercado de cereais. Ate aquele momento, as unicas conquistas significativas de Esparta tinham sido Abido, no Helesponto, a importante ilha de Quios, na costa da Jonia, alem de Cumas, Foceia e Éfeso, no continente. Embora a proposta de paz não oferecesse tudo o que os atenienses desejavam, os avanços com a devolução de Cizico eram consideráveis. A oferta era atraente também em outros aspectos. Se Esparta decidisse continuar a guerra com apoio dos persas, rapidamente teria mais navios que o inimigo e atrairia um numero cada vez maior de remadores atenienses oferecendo-lhes mais dinheiro. E, por mais grandiosa que fosse, a vitória ateniense nas Arginusas tinha algo de milagroso e a retomada das hostilidades rapidamente acabaria de exaurir seus cofres. A paz, por outro lado, permitiria que os atenienses garantissem a segurança de seu império e voltassem a recolher impostos sem problemas. A retirada espartana de Decelea também permitiria que os agricultores retornassem ao campo para o plantio.

Apesar da tentação, Atenas rejeitou a oferta espartana. Aristóteles, entre outros autores antigos, critica a insensatez da democracia - e especialmente o "demagogo" Cleofonte - por ter "frustrado a paz". "Entrando na assembleia bêbado e vestido em seu traje de combate, ele disse que não permitiria um acordo de paz a menos que Esparta entregasse todas as cidades" (A Constituição dos atenienses 34.1). Trata-se de um relato pouco imparcial dos acontecimentos, mas o fato é que a maioria dos milhares de atenienses presentes rejeitou a proposta. A explicação mais plausível para esta negativa é a desconfiança em relação a Esparta, que só aumentou desde que os espartanos romperam o Tratado de Nicias. Em 406 a.e.c., os atenienses temiam que o inimigo, mais uma vez, fizesse do acordo de paz uma simples trégua, durante a qual poderiam se reagrupar, recuperar-se da derrota e fazer uma nova negociação com a Persia para obter dinheiro suficiente para lutar ate a vitória. Devem ter achado mais seguro continuar lutando para tentar uma vitória definitiva enquanto os espartanos ainda estivessem fracos, desanimados e com a relação estremecida com a Persia.

 

 A VOLTA DE LISANDRO

O PROBLEMA DESSE PLANO, entretanto, é que Ciro continuava sendo o satrapa e estava decidido a utilizar as forças espartanas em benefício próprio, enquanto Lisandro esperava para se juntar a ele como colaborador. Durante o inverno de 406-5 a.e.c., os aliados de Esparta no mar Egeu e no continente asiático reuniram-se em Éfeso. Desde a derrota espartana nas Arginusas, eles vinham sofrendo terrivelmente com os ataques das tropas de Atenas, que realizavam ofensivas sem enfrentar resistências. Por isso, juntamente com o enviado de Ciro, pediram que Esparta colocasse Lisandro novamente no comando. Embora houvesse dois obstáculos a este pleito -- a política e a Constituição de Esparta -, eles foram facilmente deixados de lado, pois a vitória ateniense, a morte de Calicratidas e a recusa de Atenas à proposta de paz os deixaram sem alternativas. Como a guerra tinha que prosseguir, Esparta não podia recusar aliados tanto gregos quanto persas. Qualquer oposição ao ambicioso Lisandro teria que ceder às necessidades, bem como as restrições constitucionais. Como a lei estabelecia que um homem podia ser navarca apenas uma vez na vida, os espartanos nomearam Aracus como navarca de direito e Lisandro como seu secretário (epistoleus) e vice-almirante. Todos sabiam que esse arranjo não passava de uma ficção legal.

O mais brilhante personagem da maquina naval de Esparta entrou em ação imediatamente. Reuniu navios de sua antiga base em Éfeso e ordenou a construção de novas embarcações. Em seguida, pediu uma audiência com Ciro para requisitar o dinheiro necessário. Embora o príncipe ainda fosse sinceramente afeiçoado a Lisandro, foi obrigado a informa-lo de que todo o dinheiro do rei persa tinha sido gasto, além de uma boa parte do dele. Prometeu, no entanto, continuar ajudando Esparta com seus próprios recursos, mesmo que o rei se negasse a faze-lo, e para provar que estava sendo sincero, providenciou na mesma hora uma boa quantidade de dinheiro.

Ciro precisava do apoio de Lisandro, não só para suas ambições futuras, mas também como solução para seus problemas do momento. O assassinato de seus primos, cometido por Ciro, rendera-lhe criticas de parentes e Dario o havia convocado a sua corte em Susa.

O jovem príncipe nada podia fazer a não ser obedecer e como não confiava em outro persa para assumir em sua ausência, tomou uma decisão surpreendente: chamou Lisandro a Sardis e o nomeou satrapa substituto na província do império persa. Deixou todo o dinheiro disponível nas mãos do espartano e atribuiu a ele a missão de arrecadar os tributos. Confiando na lealdade mas não na prudência de Lisandro, o satrapa recomendou que não atacasse os atenienses até que ele retomasse de Susa. O pedido caiu como uma luva para Lisandro, pois sua esquadra ainda era menor que a do inimigo e ele precisava de alguns meses para aumenta-la e para treinar a tripulação.

Enquanto isso, na ausência de Ciro, Lisandro precisava minar a influencia ainda exercida por Calicrátidas. Essa influencia despertava fortes sentimentos pan-helenicos e antipersas e prejudicava a relação de Lisandro com os gregos da região. Esse era o caso especialmente de Mileto, onde se instalara um governo democrático desfavorável a ele. A primeira ação de Lisandro foi derrubar o governo local. Como a cidade permanecia leal a Esparta, ele não podia simplesmente atacá-la. Por isso, recorreu à conspiração interna e à farsa, que sempre fizeram parte de seu arsenal político. Embora em publico falasse contra as disputas de facções em Mileto, reservadamente incentivava seus seguidores a se rebelarem contra a democracia. Lisandro matou trezentos e quarenta opositores em suas casas e no mercado e expulsou da cidade outros mil. No lugar da democracia, colocou a facção que lhe era leal à frente de um governo oligarca, que era dependente e leal não a Esparta, mas ao, próprio Lisandro.

A campanha de Mileto foi um prenuncio dos métodos que Lisandro usaria no futuro. Aos críticos de seus métodos golpistas e desleais, o espartano justificava-se afirmando com frieza: "onde não alcança a pele de leão deve ser coberto com pele de raposa (Plutarco, Lisandro 7.4; 8.4).

Para chegar a Mileto, Lisandro teve que navegar em direção ao sul, próximo à esquadra ateniense em Samos. Como a tripulação de Lisandro ainda não estava em plena forma, os atenienses, que ainda estavam em maior numero, deveriam ficar alertas para a primeira chance de desafiar o inimigo a um combate naval. Mas eles não fizeram grandes esforços para interceptar Lisandro. A hesitação ainda era reflexo da execução e do exílio dos generais que haviam vencido nas Arginusas, pois os novos generais eram inexperientes e careciam da confiança adquirida nas grandes vitórias. Nenhum dos novos generais emergiu como líder e todos devem ter atuado timidamente, pois tinham em mente a lembrança do destino dos que os antecederam.

A cautela custou caro aos atenienses, pois, ao partir de Mileto, Lisandro virou a situação estratégica a seu favor. Em Caria e Rodes, atacou as cidades leais a Atenas, matando os homens e escravizando mulheres e crianças. Foram atos deliberados de terror, feitos para servir de exemplo e desencorajar a resistencia de outros aliados de Atenas. A política de Lisandro era oposta a de Calicrátidas - ele era contra o pan-helenismo. A linha divisória não seria mais traçada entre gregos e persas, mas entre amigos e inimigos de Lisandro.

Mesmo assim, a guerra teria que ser ganha no estreito e a força naval ateniense em Samos, ainda superior, precisaria ser driblada. Para isso, Lisandro conduziu sua esquadra com rapidez pelo Egeu na direção oeste, tomando ilhas, atacando Egina e Salamina em águas atenienses e finalmente desembarcando na Ática propriamente dita. Como nem o mais receoso comandante ateniense poderia deixar tal ofensiva sem resistência, a esquadra de Atenas saiu em perseguição ao inimigo. Lisandro conseguiu fugir para Rodes pelo sul do Egeu. De lá, seguiu para o norte ao longo da costa, passando em segurança por Samos, de onde os navios atenienses já tinham saído, e seguindo ao Helesponto "para impedir a passagem dos navios mercantes e atacar as cidades rebeladas contra Esparta" (Xenofonte, Helenicas 2.1.18). Uma poderosa esquadra espartana liderada por um comandante brilhante e corajoso mais uma vez ameaçava bloquear a rota vital para os atenienses.

 

A BATALHA DE EGOSPOTAMOS

DE SUA BASE EM ABIDO, Lisandro reuniu um exercito, colocou-o sob o comando do espartano Thorax e atacou a estratégica cidade de Lampsaco por mar e por terra, tomando-a de assalto. A vitoria pós os espartanos às portas do Propontis, abrindo o caminho para Bizancio e a Calcedonia, para o controle do Bósforo e permitindo o estrangulamento do comercio de Atenas com o mar Negro. Os atenienses sabiam que todo o êxito que obtiveram em Cinossema, Cizico e nas Arginusas iria por água abaixo e que a própria sobrevivencia de Atenas estaria em risco se não conseguissem obrigar Lisandro a sair para o combate e derrota-lo definitivamente. Eles chegaram a base de Sestos e de lá  seguiram com sua esquadra pouco mais de quinze quilômetrosw do Helesponto acima ate um lugar chamado Egospótamos, que fica a cerca de cinco quilômetros de distancia de Lampsaco, do outro lado do estreito.

A decisão de posicionar a esquadra ateniense naquele lugar foi controvertida desde o inicio, pois a região dispunha apenas de uma Praia e não de um Porto de verdade. A pequena cidade próxima não tinha condições de abastecer os quase trinta e seis mil homens que chegaram nos navios. Para obter alimentos, os atenienses seriam obrigados a se dividir e espalhar suas forças diversas vezes a fim de fazer o percurso de trinta e oito quilômetros de ida e volta à sua base principal em Sestos. Por que eles não acamparam em Sestos, evitando todo esse risco? A resposta pode estar nas necessidades estratégicas que eles tinham pela frente. O primeiro objetivo era bloquear Lisandro e impedir que navegasse ate o Propontis e em direção ao Bósforo; o segundo objetivo era forçar um combate o mais rapidamente possível, antes que o dinheiro ateniense acabasse. O primeiro objetivo era impossível de ser atingido de uma base a quinze quilômetros de onde estava Lisandro; e o segundo era ainda mais difícil e perigoso. Para desafiar a esquadra espartana em Lampsaco a partir de Sestos, os atenienses teriam que remar contra a corrente e contra fortes ventos, o que significava que eles chegariam ao local da batalha exaustos para enfrentar uma tropa descansada. Se esses motivos justificam a escolha da base pelos atenienses, não conseguem explicar o que eles fizeram em seguida naquela campanha.

Seis generais atenienses comandaram a esquadra em Egospótamos. Como nas Arginusas, não havia um comandante supremo e os generais revezavam-se na liderança diariamente. Ao contrario dos generais das Arginusas, os de Egospótamos não conseguiram formular uma estratégia brilhante e original e se limitaram a levar sua esquadra, a cada manhã, ate o porto de Lampsaco, para desafiar Lisandro a aceitar o combate. Não existem números precisos, mas ao que parece os dois lados tinham a mesma quantidade de navios. Por quatro dias, o comandante espartano permaneceu impassível no Porto. O tempo se esgotava e os atenienses não conseguiam convence-lo a lutar.

Foi nesse momento que ninguém menos que Alcibiades reapareceu de forma espetacular. Ele vivia exilado nas terras que possuía na península de Galipoli e de seu castelo observava o impasse. A cavalo, ele desceu até o acampamento ateniense e ofereceu seus conselhos e serviços. Aconselhou os generais a transferir a base para Sestos por motivos óbvios e anunciou que dois reis trácios lhe haviam prometido um exercito para que pudesse vencer a guerra. O conselho, como vimos, teve menos utilidade do que ele imaginava, mas a entrada de tropas terrestres seria de extrema importância. Se os atenienses tomassem Lampsaco por terra, Lisandro seria obrigado a lutar para abandonar o porto e o faria contra uma esquadra ateniense em posição mais forte. O combate aconteceria em momento e local escolhidos pelos atenienses. Nessas circunstancias, a derrota era certa. Com o continente nas mãos do inimigo, a esquadra espartana seria derrotada como em Cizico.

Os generais atenienses, entretanto, tinham boas razōes para duvidar que as forças prometidas por Alcibiades de fato chegariam, pois se lembravam de promessas semelhantes não cumpridas no passado. O desertor tinha também imposto condições inaceitáveis para fornecer ajuda - especificamente uma participação no comando das forças atenienses. Os comandantes questionaram as motivações de Alcibiades e suspeitaram que ele desejava "realizar algum grande feito para recuperar a antiga afeição do povo" (Diodoro 13.105.3). Independentemente das preocupações que tivesse, nenhum general ateniense cometeria a imprudência de ceder parte do comando das tropas a um exilado por duas vezes condenado pelo povo de Atenas. Os militares estavam menos dispostos ainda a aceitar a proposta de um homem como Alcibiades, pois sabiam que "se fossem derrotados todo o ônus recairia sobre eles, mas se saíssem vitoriosos os créditos pelo sucesso iriam todos para Alcibiades". Portanto, os comandantes disseram a Alcibiades que "agora os generais eram eles" (Diodoro 13 105.4) e ordenaram que ele se retirasse.

Em seguida, retomaram a tática inicial, mas a demora em entrar em ação teve um efeito negativo para o moral e a disciplina das tropas. Os homens ficaram menos cuidadosos e saiam em busca de comida e água tão logo seus navios chegaram a praia, sem tomar medidas de precaução com a segurança, e os comandantes sequer os repreendiam. A situação estava difícil. Manter a tropa em nível elevado de disciplina e treinamento não é uma tarefa fácil em qualquer situação, mas a timidez dos generais apenas exacerbava o problema. No quinto dia, o comando, pelo sistema de rodízio, recaiu sobre Filocles, que tinha um plano para por fim ao impasse e obrigar o inimigo a entrar em combate. Com trinta navios, ele navegou em direção a Sestos, determinando que os capitães dos navios restantes o seguissem no momento apropriado. A ideia era fazer com que os espartanos pensassem que os atenienses, cansados de manter uma posição infrutífera em Egospótamos, tinham decidido se deslocar para sua base principal em Sestos. A tentação de atacar um destacamento pequeno o suficiente para ser facilmente derrotado e grande o bastante para valer a pena o esforço, pensou Filocles, seria irresistível para os espartanos. Na verdade, o próprio Lisandro havia tentado uma estratégia semelhante em Nécio, quando atacou o esquadrão avançado de Antioco e venceu a batalha quando a parte principal da esquadra ateniense chegou para socorre-la. Talvez Filocles tenha se lembrado daquela estratégia e agora tentasse aplica-la em Egospótamos. Dessa vez, no entanto, o envio de um destacamento avançado serviria como isca. Quando Lisandro mordesse, a força principal atacaria.

Era um bom plano, mas exigia um comando experiente e seguro, grande disciplina, excelente coordenação de tempo e ajuste entre os esquadrões para que desse certo. Naquele dia, no entanto, a esquadra ateniense carecia desses requisitos essenciais. A esquadra inimiga, por outro lado, estava muito bem treinada e sob o comando de um único líder altamente confiante em seu grande talento. Lisandro sabia que os atenienses teriam, em algum momento, que decidir entre se retirar ou fazer alguma coisa para força-lo a sair para o combate - e ele estava pronto para qualquer uma das duas contingências. O espartano, envio, ficou pacientemente observando o inimigo com atenção, verificou que sua própria frota estava preparada, alerta e pronta, e preparou-se para atacar no momento certo. Assim que viu Filocles partir, os navios de Lisandro posicionaram-se e impediram que os atenienses avançassem. Mais fortes, os espartanos expulsaram os navios de Filocles e partiram sobre o grosso da esquadra ateniense que vinha atras deles. A força de Lisandro movimentava-se com grande rapidez e os atenienses já tinham perdido o momento certo de atacar. O plano deles previa que o inimigo perseguiria os navios de Filocles até a saída do estreito, deixando a retaguarda inevitavelmente exposta. Mas, em vez disso, os atenienses em Egospótamos ficaram atordoados ao ver o que sobrou da esquadra de Filocles voltando em sua direção, tendo em seu encalço a frota vitoriosa de Lisandro. Houve pânico e muitos navios foram parar na praia sem a tripulação.

A confusão reinante do outro lado encorajou Lisandro a enviar uma unidade de soldados ao continente sob o comando de Eteonicus para capturar o acampamento dos atenienses, enquanto seus navios continuavam aniquilando as trirremes inimigas na praia. Os atenienses não tinham uma força terrestre organizada para resistir as ofensivas e começaram a correr em todas as direçōes. A maioria correu para se proteger em Sestos. De toda a grandiosa esquadra ateniense, apenas dez navios restavam. Todos os demais foram capturados ou afundados. Lisandro conseguiu reverter o resultado de Cizico. Só que agora os atenienses não tinham um aliado para reabastecer seu tesouro e, com os cofres vazios, não teriam como construir uma nova frota. Atenas, portanto, tinha perdido a guerra.

 

RESULTADOS DA BATALHA

DEPOIS DE ENVIAR NOTÍCIAS da vitória espetacular a Esparta, Lisandro encontrou em Lampsaco entre três e quatro mil prisioneiros atenienses, o que representava quase 10% de toda a força militar inimiga. Apesar de seu histórico de crueldade com inimigos derrotados em situações anteriores, não podemos ter certeza se Lisandro teria matado ou escravizado os presos, se a escolha fosse exclusivamente dele. O espartano, ao que parece, não cometia atrocidades no calor das batalhas, mas de forma calculada e friamente. Como vimos, ele sabia ser clemente quando a piedade se encaixava em seus objetivos.

Mas a decisão ficou em mãos menos racionais e os aliados vingativos insistiram na pena de morte. Durante uma guerra que durou mais de um quarto de século, cidades como Corinto, Megara e Egina viram suas terras serem devastadas, seu comércio ser interrompido, sua economia ser arruinada e sua prosperidade e seu status serem reduzidos para sempre. Sofreram pesadas baixas nos combates e foram tratadas com crueldade crescente. As atrocidades dos dois lados foram se tornando cada vez mais terríveis, mas os massacres e a escravização de populações cometidos pelos atenienses em cidades como Scione e Melos ficaram particularmente famosos e os vitoriosos tendem a justificar e até a esquecer seus próprios excessos. Pouco antes da batalha decisiva, os atenienses, furiosos com os desertores de sua esquadra, votaram a favor de cortar a mão direita de todos os prisioneiros. Na mesma linha, Filocles mandou jogar ao mar as tripulações de dois navios inimigos capturados. Com esses atos de brutalidade ainda frescos na memória, os espartanos e seus aliados decidiram em votação matar todos os prisioneiros atenienses.

Xenofonte, que provavelmente estava presente, conta como Atenas recebeu as noticias de Egospótamos:

O Paralus [um dos dois navios velozes usados em missões especiais] chegou à Atenas a noite e anunciou o desastre. Um lamento veio de Pire

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Tales de Mileto
Teorema de Tales
Por

"Quando duas retas se cortam, são iguais os ângulos"

Tales observou que, num mesmo instante, a razão entre a altura de um objeto e o comprimento da sombra que esse objeto projetava no chão era sempre a mesma para quaisquer objetos

"Este teorema certamente mostra, que de duas linhas retas, que se cortam, os ângulos contrários pelo vértice são iguais. Contudo a questão se apresenta pouco clara, porque o teorema supõe também outros conhecimentos mais simples, os quais possivelmente Tales não tivesse. Por isso, melhor é supor que Tales se tenha valido de sua experiência adquirida em cálculos práticos.

"Com referência à geometria, Pânfilo diz, que:

Tales, - aprendiz dos egípcios, - foi o primeiro, que inscreveu no círculo o ângulo reto, e que por isso ofereceu a Deus um boi. 21

O matemático Apolodoro e outros atribuem isto a Pitágoras. Só, ou ambos, Tales e Pitágoras estudaram este aspecto da matemática, e cada um com resultado Com referência ao sacrifício do boi, por causa de uma descoberta matemática, eis uma assertiva não convincente, gerada todavia dentro dos parâmetros do pensamento mítico, que faz o saber derivar de uma inspiração externa superior.

Não é impossível, que entre muitos sábios continuasse a haver um resto deste modo de pensar. Ainda o eminente Descartes, apesar de seu espírito crítico, fez uma promessa a N. Sra. do Loreto de visitar o seu santuário, se resolvesse as suas dúvidas, e como julgasse havê-lo conseguido, foi especialmente à Itália pagar seu voto. Assim também o saber de Platão gerou o mito, de que fora gerado por Apolo, o qual teria engravidado sua mãe; então o seu saber estaria explicado, porquanto era filho de um Deus, e dali porque passou a ser citado como o Divino Platão. O mesmo se dirá de alguns dos fundadores de religiões. E assim também a descoberta do teorema de Tales teria valido o sacrifício de um boi.

Tales ensinou sobre a descoberta das propriedades do ângulo escaleno e das linhas em geral.

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