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8/1/2018 7:52:24 PM
Visões de Marte

O planeta marte exerce tremenda força sobre a imaginação humana. O astro rubro foi visto como sinistro ou violento na Antiguidade. Os gregos o associaram a Ares, o deus da guerra; os babilônios o batizaram com o nome de Nergal, a divindade dos domínios subterrâneos. Para os antigos chineses, Marte era Ying-huo, o planeta de fogo.

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8/3/2018 3:10:18 PM
Os limites do império romano

Quase 2 mil anos atrás, essa era a linha que separava o Império Romano do resto do mundo. Ali na Alemanha, o montículo é o que resta de uma muralha que chegou a ter 3 metros de altura, estendendo-se por centenas de quilômetros e protegido pelo olhar vigilante de soldados romanos em torres de observação, remota e desolada, mil quilômetros ao norte de Roma. “Aqui, a muralha era rebocada e pintada”, afirma Hüssen. “Tudo era nítido e preciso. Os romanos tinham uma ideia clara de como deviam ser as coisas.”

História - Civilização Romana
5/1/2018 1:05:48 PM
Acordes na cabeça

Ouvir música não envolve só a audição, mas também experiências visuais, táteis e emocionais. cada pessoa processa sons musicais em regiões diferentes do cérebro.

Psicologia - Neuropsicologia
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Textos
7/13/2018 1:07:36 PM | Por Mário Curtis Giordani
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Língua Persa

O Império Aquemênida englobava muitos povos diferentes, e havia uma variedade correspondente de línguas locais. Três delas eram usadas amplamente em toda a Pérsia: o antigo persa, idioma iraniano originado no sudoeste do Irã e considerado língua oficial; o elamita, usado com frequência porque a maioria dos escribas tinha essa etnia; e o aramaico, que se tornou aos poucos a língua franca não só da Pérsia mas de todo o antigo Oriente Médio. O persa e o elamita eram escritos em cuneiforme; o aramaico, com caracteres próprios, que podiam ser registrados com tinta sobre o papiro. Dario adotou o antigo persa, o babilônio e o elamita nas inscrições reais em escrita cuneiforme, e seus sucessores mantiveram essa prática. O medo, outra língua iraniana, do noroeste do país, era falado por tribos desprovidas de escrita, persistindo só como língua local.

História - Civilização Persa
5/3/2018 1:00:20 PM | Por Priscila Laroca
Livre
Problematizando os contínuos desafios da Psicologia na formação docente

As problematizações que apresentamos, neste texto, procedem de nosso trabalho com a Psicologia da Educação, o qual temos desenvolvido em função de atuarmos em cursos de formação inicial (licenciaturas), em projetos de formação contínua e ainda porque elegemos o ensino de Psicologia para professores como eixo de nossos esforços para produzir conhecimentos. Ao longo de nosso trabalho, muitas vezes sentimos o desconforto de constatar que há ainda um longo caminho a ser percorrido para a construção efetiva de uma Psicologia da Educação mais correspondente às demandas de nossa realidade sócio-educacional. Paradoxalmente, este mesmo desconforto nos mobiliza para buscar novas formas de pensar e de fazer a Psicologia como ciência e profissão na formação de professores.

Através deste texto, enfrentamos o desafio de partilhar alguns desconfortos acerca de concepções e práticas presentes no ensino [31] de psicologia para professores em nosso contexto, com o propósito de suscitar discussões sobre a Psicologia da Educação que temos, compreendendo que iniciativas coletivas são fundamentais para desencadear rupturas no quadro de individualismo, isolamento e corporativismo de todos os segmentos que se envolvem na formação de professores.

Iniciamos com uma problemadzação que representa a essência de nossas preocupações: - Como a Psicologia da Educação pode estar sintonizada com uma concepção crítica na forrriação de professores. Para refletir sobre a questão, desdobramos o corpo deste trabalho em novas indagações:

- Qual o compromisso da Psicologia na formação de professores?

- Que é uma concepção crítica no contexto da formação de professores em Psicologia da Educação?

- Estamos realmente formando professores-sujeitos como pretendemos?

Com tais questões em vista, passemos às discussões.

1. Qual o compromisso da psicologia na formação de professores?

Segundo Paviani (1986) - Pensar e fazer educação fora das condições sociais e históricas é um grave perigo para o homem e pode significar uma ameaça para os destinos da humanidade(p.22). Sendo assim, não podemos conceber a educação como alguma espécie de exercício isolado, anterior ou posterior a fenômenos econômicos, sociais, culturais etc, como se os processos de ensino, aprendizagem e desenvolvimento que nela se inserem acontecessem de maneira recortada e desintegrada das condições de vida humanaencontradas na sociedade. Daí porque temos que pensar a Educação e a Psicologia ao mesmo tempo em que pensamos a sociedade que temos. [32]

Por causa disso a reflexão sobre compromissos da psicologia na formação de professores é atravessada por relações historicamente constituídas em nossa sociedade. É do cerne destas relações que emergem os interesses que justificam a razão de ser da relação entre Psicologia e Educação.

Em nossa perspectiva, o interesse ocupa lugar central na discussão pois, uma vez que esteja estabelecido, norteará outras definições importantes para a formação inicial e desenvolvimento profissional dos professores, entre as quais estão, com certeza, seu conteúdo e sua forma. Acreditamos, por isso, que aquelas velhas questões insistentemente colocadas pelos filósofos e sociólogos da educação sobre “quem queremos formar?”, “para quê queremos formar?”, “a favor de quem nós formamos?” e “contra quem nós formamos?” - continuam sendo vitais para refletirmos de modo consistente sobre as crenças que nos norteiam na Educação.

Na concretude das relações que estabelecemos com o mundo, com outros homens, com a sociedade e, até mesmo, com o que sabemos a nosso próprio respeito, os interesses apresentam-se como manifestações pessoais ou coletivas, nem sempre fáceis de detectar em virtude do caráter inconsciente de muitas de suas representações, que frequentemente os ocultam e os convertem em máscara ideológica.

Os interesses retratam as concepções que orientam nosso pensamento e ação. Desvelados ou não, mediates ou imediatos, sempre têm a ver com os objetivos finais que perseguimos nas práticas que desenvolvemos.

Acreditamos, por isso, que há grande importância na definição de nossas finalidades educativas pois serão elas que nortearão os questionamentos às contribuições da ciência psicológica. Isto implica um movimento contínuo entre Educação e Psicologia, no qual a Educação, como prática social, aponta-nos para a realidade que temos e para os fins a serem atingidos pela nossa ação profissional, [33] enquanto a Psicologia, mediante os objetos de estudo que seus referenciais disponibilizam, nos proporcionam instrumentos reflexivos para a compreensão e intervenção na realidade. Assim, entendemos a Psicologia, como meio e não como fim no contexto da atuação dos professores, pois é na Educação, que encontramos a responsabilidade humana e social da Psicologia. Desse modo, a movimentação inter e transdisciplinar já é um pressuposto de construção da Psicologia da Educação.

Se assim entendemos, a Psicologia da Educação se eletiva, sobretudo, como movimento dialético entre os dois pólos, uma unidade orgânica e comprometida, concreta e reflexiva que se personificará nas grandes e pequenas decisões que o professor toma para favorecer e direcionar a aprendizagem e o desenvolvimento dos seus alunos. Assim, estará presente no planejamento curricular, na efetivação do trabalho pedagógico nas saias de aula, na avaliação da aprendizagem e da prática educativa e nas interações humanas em nossas escolas.

Vista como unidade dialética de ação e reflexão, a Psicologia da Educação ultrapassa a noção de fundamento teórico na formação de professores, pois se ampliam suas possibilidades de melhor intervir na Educação, já que se traduzirá, sobretudo como atividade concreta e inteligente do professor, permitindo-lhe e impulsionando a interlocução entre teorias e práticas e não a mera execução de propostas pensadas fora de seu contexto pelos especialistas. Essa Psicologia da Educação não se vê como conhecimento pronto, nem como conhecimento a ser dado pelo formador aos professores, ainda que defensores destas ou daquelas teorias psicológicas tenham a pretensão de transformá-las, em relação à Educação, em sistemas teórico-práticos, fechados e auto-nutritivos. [34]

Por mais hem estruturados que sejam esses sistemas, assumimos aqui que estes, sozinhos, nunca poderão responder pela totalidade do real, pois entre realidade e conhecimento não há linearidade. Além disso, não podemos reduzir teoria e prática a entes delimitados e diretamente causais como pensava a ciência moderna que convalidou a racionalidade técnica na educação (Perez Gomez, 1995, 1998).

Hoje, numa etapa pós-moderna da ciência, somos chamados a nos despir de todo tipo de doutrinarismo para encarar de vez a complexidade, a impertinência, a incerteza, a impureza e o erro, não como atributos indesejáveis nas nossas aproximações da realidade, mas como processos inerentes a uma racionalidade aberta, necessária para este terceiro milênio (Morin, 2000a, 2000 b).

E, por isso, que a reflexão sobre a Psicologia da Educação exige mais e mais que nos perguntemos sobre os interesses que orientam nossas práticas e concepções, bem como sobre os meios pelos quais buscamos atingi-los, tornando claras as finalidades educativas que regem o teor e a feição que lhe imprimimos na formação de professores. Afinal, o quê pretendemos alcançar através da Psicologia da Educação? Possíveis respostas a essa pergunta demandam nossa pesição sobre o papel da Educação e dos educadores em nossa sociedade.

Desse modo, ou teremos a definição por uma educação conservadora ou nos decidiremos por fazer da Educação um instrumento de transformação da sociedade. É essa decisão que retrata o compromisso da Psicologia da Educação, e ela não acontece no interior do conhecimento psicológico, mas na consciência política e ética de cada um de nós. Será através dessa posição que o formador conduzirá o conteúdo e a forma de tratamento de suas contribuições, em articulação com as representações dos profissionais que são captadas no cotidiano das relações pedagógicas.

Portanto, a impressão de uma face progressista para a Psicologia da Educação não depende apenas de o formador avaliar e selecionar abordagens teóricas e temas a serem trabalhados. Depende também, e muito, de sua postura perante os futuros professores [35] frente às finalidades da educação, o que, aliás, encontra correspondência no projeto político-pedagógico que defende para a escola e para a sociedade. Nesse sentido, tal como Cunha (1998) acreditamos que:

Sem colocar em plano secundário as informações científicas, deve-se trabalhar no terreno em que se constitui a consciência do futuro professor como cidadão, pois é nesta arena que ele encontrará recursos para escolher dentre as várias alternativas científicas que lhe forem apresentadas. Trata-se de colocar o profissional da educação em condições de compreender que não é a ciência que lhe dará o norte de sua atuação, pois as decisões pertinentes ao campo da educação são da alçada exclusiva dos educadores (p.13).

Tais decisões, como já dissemos, são ética e politicamente orientadas. Entendemos, portanto, que, se nos propomos a levar a efeito um projeto educacional, devemos começar pela definição dos fins a serem alcançados mediante um conhecimento aprofundado e crítico das condições históricas e culturais que caracterizam a sociedade e a educação dentro dela. Pensar e fazer educação sem isso, ou revela uma visão ingênua e alienada das relações sociais, ou retrata outros compromissos, muitas vezes inconfessáveis, que nada têm a ver com transformação social e a efetiva conquista de direitos relativos à dignidade de vida de todos os cidadãos.

Considerando o exposto, e se nos colocarmos do ponto de vista cia diversidade de alternativas que temos na Psicologia Educacional, certamente chegaremos ao ponto de nos indagarmos a respeito de como efetivar uma abordagem crítica no ensino de Psicologia da Educação. Vemos, portanto, que nossas indagações e reflexões se remetem; uma implicando e dependendo de outra. [36]

2. Que é uma concepção crítica no contexto da formação de professores em psicologia da educação?

A pergunta que ora colocamos, representa para nós um núcleo de reflexões muito importantes, quando temos em vista, como formadores de professores, aproximarmo-nos de um ideal de avanço, qualidade e superação no conhecimento, como também de responsabilidade intelectual e social para o ensino que ministramos. Percebemos que estamos, sobretudo, perante uma questão ética que este texto com certeza não virá a esgotar. Afinal, são muitas as nossas fragilidades. Apesar disso, tentaremos.

O embasamento de grande parte das análises críticas dirigidas à Psicologia da Educação está ancorado em bases filosóficas, epistemológicas, sociológicas e político-ideológicas. No teor destas análises, encontramos frequentemente a denúncia da pseudo-neutralidade dos conhecimentos científicos da Psicologia, demostrando que a sua produção ocorreu (e ainda ocorre) em meio às torças sociais e econômicas, historicamente constituídas, de modo que o olhar dos pesquisadores, por mais neutro que pretendesse ser (como quer o Neo-Positivismo), nunca esteve e nem estará livre de favorecer algum tipo de interesse.

Outro ponto evidenciado nas análises, constata a herança liberal burguesa da Psicologia, a qual, por ignorar a dialética da relação homem/mundo, indivíduo/sociedade e a constituição dos fenômenos psicológicos dentro dessa relação, seria responsável por veicular um modelo de homem, apelidado por Bock (2000) de Barão de Münchhausen, lembrando o conto infantil em que esse personagem, segurando seu cavalo com os próprios joelhos, ainda é capaz de sair de um pântano puxando os próprios cabelos. A esse respeito, nos diz a autora:

A ideia de autonomia individual, do homem descolado das condições sociais e da possibilidade de auto-determinação de [37] cada um de nós, movidos por uma força interior dada pela semente que está dentro de nós e que nos empurra (natureza humana), é algo muito forte em nossas concepções liberais e positivistas (p.18).

É a visão desse homem autodetermínado e abstrato difundido pelo ideário liberal burguês que está por trás das produções científicas e de práticas educacionais que naturalizam e universalizam o fenômeno psicológico e contribuem para justificar o fracasso escolar como fenômeno individual, atribuído exclusivamente ao aluno e/ou sua família, resultando dessa concepção uma grande dicotomia entre vida social e escola, entre sociedade e educação.

Estas análises muito contribuíram para que o mundo valorativo e ideológico da produção da Psicologia fosse desvelado, ajudando-nos a compreender a penetração do interesse no núcleo lógico da pesquisa científica (Habermas: 1982; 1983).

Entretanto, se por um lado nos permitiram romper com muito de nossa ingenuidade e alienação, por outro, tomaram os referenciais da Psicologia da Educação considerando a prática pedagógica como um ente linearmente implicado das teorias psicológicas. É nesse sentido que vemos semelhança de concepção com o modelo racional-técnico que hoje nos propomos a superar. Assim, a própria crítica parece ter contribuído para referendar certo fechamento da Psicologia Educacional em diferentes sistemas [38] teórico-práticos que, tanto passam a ser vistos como desconectados uns dos outros, já que é preciso preservar a coerência epistemológica, quanto de outros saberes e variáveis que intervém na realidade educacional em razão de sua complexidade.

Um dos desconfortos que experimentamos situa-se, portanto, na concepção de relação teoria-prática que temos como formadores de professores, percebendo que um trabalho crítico na Psicologia da Educação está atrelado a essa concepção.

Evocando Morin (1998), acreditamos que a concepção do que seja teoria não pode cair no risco do doutrinarismo, pois, como diz ele: “uma teoria não é o conhecimento, ela permite o conhecimento. Uma teoria não é a chegada; é a possibilidade de uma partida. Uma teoria não é uma solução; é a possibilidade de tratar um problema” (p.335).

Outra advertência importante que nos faz Morin (1996), consiste na admissão de que por trás das teorias não existe apenas o interesse, no sentido que Habermas concedeu ao termo. Há, também, como diz ele: atitudes psicológicas de curiosidade, de perplexidade, de questionamento do real, há a imaginação (p.18).

Assim, os quadros teóricos, que deveriam ser tomados com o caráter de provisoriedade, qualidade inerente a todo conhecimento, correm o risco de converterem-se em verdadeiras doutrinas, e como tal, exigindo modelos de comportamento consequentes para os seus seguidores.

A prática, por sua vez, não pode ser tratada como implicação, colagem ou transposição direta de uma teoria, a não ser para nos situar historicamente nas tendências educacionais de uma maneira didática. A prática de que falamos em Psicologia da Educação é a prática social situada no pólo da Educação e, por isso mesmo, dinâmica, multifacetada e multideterminada em sua essência.

Além disso, estamos convictos de que a prática pedagógica de um professor não é algo que se depreende a partir de atos pedagógicos isolados, remetidos única e exclusivamente à dimensão do processo ensino-aprendizagem. Muitas arestas compõem a prática de [39] um professor: sua postura política na sociedade, seu compromisso e responsabilidade em relação ao trabalho desenvolvido na, e pela escola, sua busca de qualificação profissional, entre outros aspectos que se situam muito além das paredes de uma sala-de-aula.

Sobretudo, precisamos perceber que a prática de um professor é norteada concretamente, pelos fins e valores que estão subentendidos no papel que ele atribui para a sua atuação profissional na sociedade e nas maneiras pelas quais este professor contribui para isso.

Nesse ponto de vista, a relação teoria e prática é muito mais complexa que uma relação de implicação causai. Para nós, é do seu âmago que emergem as possibilidades de o professor conquistar a condição de sujeito de seu pensar e de seu agir, compreendendo também que o alcance e o exercício da condição de sujeito para o professor viabilizarão efetivamente uma visão crítica frente às contribuições da Psicologia da Educação.

Assim entendido, um ensino crítico na Psicologia da Educação passa muito além da simples escolha de referenciais liberais ou sócio-históricos em relação aos conteúdos que serão abordados na formação. Passa, principalmente, pelas possibilidades que nosso ensino oferece aos professores de conquistarem a condição de sujeito, cerne de validade na ação e na reflexão.

3. Estamos realmente formando professores-sujeitos como pretendemos?

Num momento em que as discussões da academia e de muitos projetos educacionais estão voltadas para a afirmação do professor como profissional reflexivo, acreditamos na pertinência de nossa pergunta: Será que estamos, de fato, formando professores-sujeitos como pretendemos?

Certamente, a questão nada tem de simples, ainda mais se considerarmos a precariedade geral que infesta a educação em nosso país e as difíceis, e muitas vezes intransponíveis, condições pessoais e profissionais que afetam nossos professores. [40]

No entanto, como pensar um profissional reflexivo sem pensarmos condições de conquista da condição de sujeito para os professores?

Para além de questionamentos afetos às prioridades estabelecidas nas políticas educacionais, como, por exemplo, a condição salarial dos professores, a infra-estrutura de funcionamento das escolas, entre outros, no caso específico da Psicologia da Educação há uma questão que nos incomoda e diz respeito à escolha de referenciais pelo formador e ao modo como ele os conduz na formação dos professores.

No que toca a esse aspecto, para dimensionar uma abordagem mais crítica no ensino de Psicologia da Educação, muitos formadores têm decidido pela adoção integral de determinados referenciais que são consoantes aos seus anseios e concepções. No entanto, se pretendemos contribuir para a formação de professores sujeitos, é provável que seja muito mais interessante propiciar variados instrumentos teóricos de interpretação da realidade, para que as decisões, quanto à prática pedagógica, sejam respaldadas no conhecimento e na consistência da crítica. Já dizia Freire (1980) a esse respeito que: Ninguém luta contra as forças que não compreende, cuja importância não mede, cujos contornos não discerne... (p. 40).

Nesse sentido, percebemos que a questão da Psicologia da Educação como área de ensino destinada à formação de professores tem sido confundida com a produção do conhecimento psico  lógico-educacional no âmbito da academia. Esta confusão provavelmente advém da ausência de distinção sobre o papel do ensino na formação de professores e o papel da pesquisa/ produção do conhecimento. Contudo, ensino e pesquisa, embora relacionados, são dois casos, em que o objetivo não é exatamente o mesmo pois a produção do pesquisador é circunstanciada no aperfeiçoamento de uma área ou tema específico, enquanto a produção referente ao ensino de Psicologia da Educação tem vistas à atuação de um profissional que possui responsabilidades sociais e com a própria divulgação/ socialização dos conhecimentos. [41]

Um pesquisador pode recortar objetos de investigação, controlar variáveis, delimitar campos que mais lhe interessam para se aprofundar. Já um professor, atua cotidianamente no seio de situações humanas complexas, muitas vezes inusitadas, que lhe exigem desenvolver múltiplas habilidades e competências de gerenciamento. Se o professor, em sua atuação profissional, fizer recortes como faz o pesquisador, é provável que privilegie alguns componentes da situação humano-social que se lhe coloca, deixando de atender a outros.

Diferentemente da atuação de um pesquisador, numa sala de aula aquilo que chamamos de variáveis, têm nomes e estão encarnados em pessoas concretas que possuem também as suas expectativas, os seus sonhos, as suas problemáticas sociais e existenciais que têm tudo a ver com a Educação. O terreno em que trabalha o professor é. pleno de dinamismo, mudança, heterogeneidade. Por causa disso, suas opções metodológicas não são estáveis e precisam criar-se e recriar-se, mesmo na forma de tímidos ou desesperados ensaios ou tentativas diante de realidades que nem sempre o professor consegue apreender com clareza, mas estão à sua frente esperando por decisões e sobre as quais assumiu a responsabilidade profissional de atuar.

Um professor não define aspectos de sua população, como faz o pesquisador; pelo contrário, ali está para servir uma população tenha ela as características que tiver. Portanto, as situações são bem diferenciadas, já que, o pesquisador desenvolve um olhar para a realidade e nele se aprofunda, enquanto o professor precisa conhecer vários olhares para a realidade, reconhecendo-os nela, interpretando-os, e sobretudo interferindo de acordo com os objetivos educacionais que admite.

Mais uma vez, reafirmamos que a prática de um professor se define pela sua responsabilidade social e não pelos referenciais da Psicologia da Educação. Enquanto estes contribuem para aprofundar determinados olhares para a realidade e, ao serem desenvolvi dos, vão agregando discípulos ao longo de sua produção; a responsabilidade social define compromissos do professor frente à Educação e acenam para a possibilidade de conquista da condição de [42] sujeito, perante a teoria e a prática educativa reconhecendo nessa condição, que é primordialmente reflexiva, os requisitos éticos e intelectuais da tomada de decisões na sua ação.

Ao final deste texto, convém salientar que as nossas reflexões sobre as perguntas colocadas não pretenderam apresentar-se como respostas plenas. É sempre muito importante que continuemos perguntando. Por isso, mais que encaminhar respostas, visamos delinear grandes desafios que a Psicologia da Educação ainda tem a enfrentar no contexto da formação de professores. Possíveis caminhos dentro dos tenras de discussão que apresentamos, certamente dependerão do exercício de nossa condição de sujeitos formadores, o qual pressupõe que tomemos consciência de nossa vontade política e que desenvolvamos capacidades como coletivo de formadores para articular novas propostas para o ensino de Psicologia da Educação, assim como para levantar novas perguntas, em permanente postura auto-crítica, interrogante da realidade e sobre tudo reflexiva do fazer e do pensar a Psicologia da Educação. [43]

Psicologia - Licenciatura em Psicologia
6/24/2017 12:16:55 PM | Por Mirella Faur
Livre
A sociedade viking

No mito do deus Heimdall é descrita a criação das castas humanas e suas características. Conheciam-se três classes: os servos pobres, os camponeses e fazendeiros donos de terra, e os nobres e chefes de tribo. Os servos ou escravos executavam trabalhos manuais pesados, não tinham direitos ou liberdade, nem um deus que fosse seu protetor. A grande maioria dos escandinavos pertencia à classe dos fazendeiros, protegidos pelo deus Thor; tinha melhores condições de vida e uma boa alimentação, composta de carne, peixe, grãos, verduras, frutas e hidromel. O poema “Rigsthula” descreve com detalhes a vida refinada e as ativi­dades sofisticadas da classe aristocrática, dos nobres e guerreiros protegidos por Odin. Eles se diferenciavam pelos seus bens —terras, navios e joias, que eram deixados aos primogênitos. Os guerreiros eram chefes de família responsáveis e leais, que passavam os longos meses de inverno em casa. O destaque dado no mito de Odin aos festejos em Valhalla refletia-se nas ruidosas festas dos guerrei­ros vivos regadas a hidromel. Eram estes os homens que no verão juntavam os bandos e saíam nos seus navios em busca das aventuras, explorações, pirataria e negócios, celebrados em inúmeros poemas épicos e canções.

Quando as primeiras tribos indo-europeias migraram para a Europa e o nor­te da Escandinávia, elas escolhiam seus líderes em função do seu valor de guer­reiros e sua origem nobre. Aquele que se considerava descendente ou eleito dos deuses, conquistava com os seus atos heróicos o lugar de honra entre aqueles que o seguiam. Apenas com o passar do tempo e o fortalecimento da monar­quia, o direito de governar tornou-se hereditário. [47]

Tanto os mitos quanto as sagas descrevem a vida isolada e permeada de dificuldades, desafios e privações dos povos nórdicos. Os viajantes tinham que passar por precipícios, geleiras, locais ermos e selvagens, açoitados por tem­pestades de neve ou ventos violentos, sendo que metade do ano a luz durava apenas algumas horas, entre o nascer tardio do sol e o seu ocaso precoce. Esse tipo de circunstância reforçava a importância dos laços e da unidade familiar, pois cada um dos seus membros contava apenas com o apoio e ajuda dos parentes. Se alguém era ferido ou morto, o agressor não escapava impune, pois dele se exigia um ressarcimento (weregild) ou retificação pelo mal cometido, pago com gado ou outros bens, em benefício de toda a família da vítima. Se nos conflitos os beligerantes não chegavam a um acordo, o caso era levado a uma corte ou assembleia, que decidia sobre a culpa e a punição, em forma de pagamento, exílio ou morte. A amizade também era muito valorizada pelos nórdicos, tanto no nível individual quanto grupal, pois uma coletividade era menos vulnerável do que as pessoas isoladas.

Nos laços familiares existia uma relação especial: o tio materno era responsá­vel pelo sobrinho e podia assumir o lugar do pai caso este falecesse. Tanto no pla­no familiar quanto no social e legal, as mulheres tinham os mesmos direitos que os homens; as sagas descreviam algumas heroínas mais determinadas e valen­tes do que os seus cônjuges ou parentes, lutando nos combates ou defendendo suas terras e famílias. Além das suas qualidades geradoras, nutrizes e morais, a mulher tinha habilidades extrassensoriais, que a capacitavam para desempenhar funções oraculares, mágicas e xamânicas. Em estado alterado de consciência, uma volva (vidente) podia projetar seu espírito à distancia para obter informa­ções e orientações no plano sobrenatural e assim responder às questões e dúvi­das, escolhendo os melhores rumos de conduta para a sua comunidade.

A sociedade nórdica tinha um rigoroso código de comportamento, em aparente contraste com a má fama e a conhecida cobiça e violência dos vikings. Porém, é sempre bom lembrar que nem todos os escandinavos eram piratas e assassinos e que mesmo os vikings, enquanto permaneciam na comunidade, res­peitavam e seguiam as mesmas normas de conduta e moral que os demais inte­grantes. Esses importantes valores são resumidos no código das Nove Nobres Virtudes Nórdicas: coragem, verdade, honra, lealdade, disciplina, hospitalidade, eficiência, autossuficiência ou independência e perseverança. Alguns autores ain­da acrescentam: igualdade, amizade, força, generosidade, parceria e sabedoria.

As primeiras cinco virtudes cooperam para definir o espírito heroico. Ter coragem e enfrentar com bravura o desafio era mais importante do que vencer [48] o inimigo. Os povos ancestrais sabiam que a morte era inevitável, por isso o que importava não era quanto tempo, mas de que modo se vivia.

Para viver corajosamente era preciso valorizar a verdade, pois quaisquer atos equivocados ou palavras proferidas por ostentação ou vanglória traziam consequências espirituais e morais negativas. As vezes era necessário falar com firmeza, outras vezes era melhor guardar silêncio até que surgisse uma solu­ção, mas era imprescindível que cada um fosse honesto consigo mesmo, em todas as circunstâncias.

Para honrar a verdade, era preciso que se tivesse honestidade quando se in­teragia com os outros, conceito este que sustenta a virtude da honra. As pessoas atraíam a honra se agissem honradamente sem depender das atitudes alheias, ou não ficassem desapontadas se estas não correspondem às suas expectativas. Para agir de forma honrada era necessário ter um código próprio de conduta, algo mais importante do que as regras e proibições externas. Ser honrado não significava necessariamente manter a integridade interior, pois a reputação, para os nórdicos, era criada pelas impressões e conclusões alheias sobre a conduta de alguém.

Uma maneira de se comprovar a honra era demonstrar lealdade e boa fé (ou troth). Ser leal significava manter um compromisso independentemente das circunstâncias externas; somente assim os outros podiam confiar e acreditar nas palavras e promessas feitas para uma pessoa ou um grupo. A lealdade também se referia ao vínculo sagrado entre os indivíduos e entre os seres humanos e as divindades. Para ser leal não bastava apenas manter a palavra, também era neces­sário oferecer ajuda e proteção.

Isso não era algo fácil de se cumprir e para isso tornava-se necessário adquirir a virtude seguinte: autodisciplina ou autodomínio. Nos acontecimentos descritos nas sagas, essa virtude se manifestava nas provocações ou impulsos de vingança, quando um herói procurava manter a calma, controlar seus instintos e aguardar o momento certo para reagir ou decidir. Ter autodomínio é uma qualidade imprescindível até hoje para os líderes, para que eles possam agir com coragem e honra, mesmo quando confrontados com situações e decisões desafiadoras.

Enquanto o primeiro grupo de virtudes visava o comportamento individual, as próximas quatro diziam respeito aos relacionamentos interpessoais.

A hospitalidade era uma das qualidades mais antigas e honradas, sendo tanto uma obrigação quanto um privilégio; devido às adversidades climáticas do norte europeu e os riscos das viagens, a sobrevivência dependia às vezes da genero­sidade daqueles que podiam ajudar. Pessoas que conquistassem a prosperidade adquiriam maior status se compartilhassem suas riquezas com os demais. [49] Para oferecer hospitalidade, a pessoa precisava ter recursos suficientes para poder compartilhar, e para isso devia se empenhar e trabalhar bastante, fato que justifica a virtude seguinte — a eficiência —, qualidade antiga e atual dos povos escandinavos e germânicos.

Um sábio conselho é dado por Odin no poema “Havamal”: “Raramente um lobo lento alcança a caça, ou um homem preguiçoso, a vitória. Aquele que tem poucos auxiliares deve acordar cedo e trabalhar bastante, pois quem acorda tar­de pouco produz”. É bom lembrar que o trabalho não visa a riqueza necessariamente, pois as atividades voluntárias e as ações generosas contribuem para o bem-estar alheio e enriquecem a alma dos doadores.

Mesmo em uma comunidade baseada em relacionamentos, a independência era necessária assim como a autossuficiência. Cada ser humano faz suas escolhas e arca com as responsabilidades delas decorrentes. Mas contar com os próprios recursos não anula a relação moral e espiritual nos relacionamentos humanos.

A perseverança era a última virtude, mas não a menos importante, pois ela se torna indispensável para se persistir nas tarefas até realizá-las. Na vida diária ela não se revela como um ato heroico, mas como a tenacidade que permite que se cumpram as obrigações, por menos nobres que elas sejam, que não tra­zem recompensas, mas contribuem para o bem-estar familiar ou comunitário. Completando as virtudes, existiam as Seis Metas: retidão ou justiça, sabedoria, poder, colheita, paz e amor. As Metas Sêxtuplas eram consideradas como dons legados à humanidade pelos deuses: a justiça, por Tyr; a sabedoria, por Odin; a força, por Thor; a colheita, pelas divindades Vanir; a paz, pela deusa Nerthus e o amor, por Freya e Frey.

Tanto as Nove Nobres Virtudes quanto as Metas Sêxtuplas são as diretrizes éticas que norteiam as ações, atitudes e escolhas dos seguidores das atuais religi­ões neoancestrais, como o Asatru ou Odinismo, e são consideradas valores e premis­sas fundamentais para o alinhamento e regeneração dos indivíduos em busca de uma nova e melhor sociedade contemporânea.

Estudando os mitos nórdicos, podemos reconhecer e honrar as qualidades heróicas e leais dos deuses, ensinadas aos homens. Os povos nórdicos sabiam que, mesmo reverenciando as divindades, elas não iriam afastar deles os perigos e calamidades, por estes fazem parte dos testes e provações a eles designados pe­las Nornas, as Senhoras do Destino. Não se percebe nas lendas nenhuma revolta ou amargura dos personagens perante as adversidades da vida, mas vê-se uma heróica resignação, a aceitação da inevitabilidade dos problemas e a gratidão pelas dadivas e prazeres da existência. O presente que os deuses conferiam aos [50] homens era a aceitação da vida como um traçado do destino, que não se podia alterar pelo fato de ter sido previamente determinado pelas Nornas.

Uma frase do mito de Skirnir resume esta visão fatalista: “Ser destemido é fundamental para quem sai do seu abrigo, pois a duração da vida e o dia da mor­te são determinados no próprio nascimento”.

A compreensão dos mitos
O mito pode ser definido como a narrativa de uma estória sagrada que se passa num tempo mítico, num contexto divino e mágico que envolve seres sobre­ naturais. O conhecimento das ações, dos aspectos e dos atributos das divindades pode fornecer paradigmas valiosos para a humanidade. Os mitos são expressões psíquicas ou espirituais que não incluem explicações racionais ou científicas, ge­ralmente incorporadas nos rituais ou cerimónias. Seu propósito é tornar aces­síveis e compreensíveis aos seres humanos as verdades universais e explicar as crenças, valores, experiências e rituais de uma determinada cultura. Os mitos se expressam por meio de símbolos e metáforas, que representam temas abstratos, tratados na sua essência, sem ênfase nos detalhes, caracterizados pelas imagens vívidas e o uso da imaginação criativa. Eles não se limitam a fatos, formas e datas por lidar com um tempo primordial e não linear, em vez de citar eventos cronológicos. Enquadradas em uma dimensão sutil, as descrições míticas das figuras sobrenaturais revelam a sua natureza sagrada e seus múltiplos aspectos.

Os povos primitivos aceitavam os mitos como relatos cósmicos verdadeiros cuja encenação ritualística lhes conferia poderes divinos. Conhecendo os mi­tos, aprende-se o segredo da origem de tudo e também como proceder para favorecer sua reaparição, caso tenham desaparecido da memória humana. Nas sociedades antigas, o contador de estórias tinha o poder conjunto do poeta, do curandeiro e do sacerdote. Seu seguidor moderno seria aquele filósofo ou es­critor disposto a recriar a compreensão do sentido da vida, de maneira simples, mas imbuída de magia e sabedoria.

A finalidade dos mitos é permitir às pessoas re-experimentar o tempo primordial e aprender as lições da criação e a origem das coisas, fornecendo assim uma compreensão do passado necessária e útil para as nossas ações, decisões e situações presentes. É comum encontrar nos mitos paradoxos que tentam re­solver contradições e dilemas com o esmaecimento das polaridades e oposições. Em vez de apresentar verdades absolutas, os mitos tentam evitar conflitos pela mediação entre as forças. O conhecimento que eles oferecem é obtido por meio da experiência sensorial, emocional e ética. Seu significado é apreendido [51] pela intuição e não pelo raciocínio linear. A mitologia aceita e preserva os fa­tores desconhecidos e imateriais, tudo aquilo que foge ao exame matemático dos fatos, pois ela transmite as verdades de forma camuflada e imaginativa, nos libertando das amarras do cotidiano, desafiando o nosso intelecto e emoções e abrindo o canal da livre expressão.

Os mitos ajudam as pessoas a lidarem melhor com os desafios e dificuldades existenciais, incluindo a morte, oferecendo orientações para a interpretação das experiências individuais por uma perspectiva universal. Eles também são uma for­ça cultural e social, pois ensinam e reforçam valores por meio da relação entre as necessidades humanas e os arquétipos míticos. Por conter em si sementes da me­mória coletiva, aumentam a coesão e união entre os membros de uma comunida­de, focalizando respostas de cooperação e parceria ante os problemas e conflitos.

Os rituais e a mitologia estão interligados. O ritual é um recurso mágico para concentrar a imaginação; ele surgiu da encenação periódica dos mitos, que mobilizava as pessoas e partilhava a dimensão do sagrado. O ritual permite a participação nos dramas universais e ações concretas no mundo físico para refletir as emoções da reverência e do êxtase. Os arquétipos divinos simbolizam as forças universais, apresentando-as de um modo que possamos compreendê-las e intera­gir com elas. Por meio dos arquétipos, as divindades se fazem presentes no nosso mundo e nos permitem interagir com elas em rituais e meditações. Os mitos, portanto, propiciam um canal de comunicação com as divindades, uma ponte en­tre o mundo divino e o humano, que nos auxilia a compreender o sagrado. Com seus poderosos símbolos e imagens sensoriais, os mitos e seus arquétipos tocam nossa alma e nos permitem descobrir e desenvolver a nossa espiritualidade.
Os mitos nórdicos são comentários verídicos e vigorosos da vida heróica nas regiões inóspitas, sujeitas a condições climáticas desafiadoras. Os deuses lutam permanentemente contra as criaturas ameaçadoras do gelo e da escuridão, e os homens precisam ultrapassar seus limites físicos para garantir a sua sobrevivência, reconhecendo e respeitando a permanente realidade da destruição. O Ragnarok – o fim dos tempos – é a representação em um nível mais elevado dos pequenos dramas cotidianos, em que os homens lutam contra as forças mons­truosas que tentam destruí-los. No Ragnarök, um mundo maravilhoso é destru­ído, mas, após a catástrofe final, sobre as ruínas do passado, será erguida uma renovada e promissora realidade. O reconhecimento da iminência da morte é constante nos mitos (nem os deuses escapam dela), mas os medos não são enfa­tizados e o destaque é dado às realizações feitas durante a vida. Após uma vida plena, intensa e útil, seguida por uma morte gloriosa e heróica, o homem tem [52] seus méritos reconhecidos pelas gerações futuras e suas qualidades são herdadas pelos descendentes.

O estudo da mitologia nórdica é facilitado atualmente pelas pesquisas e descobertas arqueológicas, que revelam as condições em que viviam os povos antigos, a natureza das suas cerimônias religiosas, o culto dos ancestrais e os seus ritos funerários. Os recentes achados arqueológicos, auxiliados pelo apri­moramento tecnológico das escavações e da interpretação dos dados, levaram à revisão e ampliação das ideias e dos conceitos anteriores sobre o simbolismo religioso. Além das evidências arqueológicas, o estudo mitológico deve incluir o conhecimento dos registros escritos, dos cultos e símbolos míticos e mágicos. Mesmo que no início o leitor brasileiro tenha alguma dificuldade para se fami­liarizar com os nomes (das divindades, dos seres sobrenaturais e dos lugares) e para assimilar conceitos cosmológicos, arquétipos e práticas rituais, esse esforço é recompensado quando ele descobre a riqueza e beleza mítica que trazem até nós os ecos de um legado distante, no tempo e no espaço.
Uma ajuda inestimável para entrarmos em ressonância com o simbolismo dos mitos é oferecida pela psicologia e o estudo da mente humana. Superando as crenças racionalistas do século XIX, que consideravam os mitos simples explica­ções dos fenômenos naturais, o século XX resgatou o valor do folclore como um meio para se conhecer as religiões antigas e os costumes dos nossos ancestrais. Jung demonstrou nas suas obras que o simbolismo de antigas lendas aparecia nos sonhos dos seus pacientes; mesmo se eles desconhecessem o conteúdo delas, certos símbolos que se repetiam faziam parte da mitologia de vários povos e do inconsciente coletivo.

Símbolos universais aparecem em histórias folclóricas, contos de fadas e lendas antigas, bem como na arte e nos livros, filmes e poemas atuais. Eles expressam desejos, aspirações, medos e eventos da vida humana de qualquer época histórica ou localização geográfica; por isso esses símbolos despertam em nós o reconhe­cimento de valores antigos e de registros ocultos nas nossas memórias, no nível individual e coletivo. Atualmente, podemos admitir e acreditar — sem temer per­seguições e punições — que existe um poder maior fora de nós, representado nas manifestações das forças, dos seres e das energias da natureza e que pode ser alcan­çado por meio de práticas e cultos, ativando assim lembranças ancestrais.

Precisamos honrar o legado dos nossos antepassados e perceber as verdades universais e eternas ocultas nos mitos, que podem nos auxiliar no nosso cresci­mento e aprimoramento cultural e espiritual, ampliando a nossa conexão com a natureza e com todas as formas de manifestação da vida. [52]

Cultos, práticas e rituais
Vários livros sobre história e mitologia descrevem práticas religiosas pré-cristãs do norte europeu, e a maior parte das suas informações são do Período Viking, mas com algumas suposições e comprovações de épocas mais remotas. Como a maior parte das evidências literárias foi registrada nos monastérios cristãos, são evidentes as distorções do significado mítico e os inevitáveis preconceitos religiosos na interpretação das fontes antigas. Em certos casos, os detalhes das narrativas não correspondem as atuais evidencias arqueológicas, como no caso do templo de Uppsala, descrito por Adam von Bremen no século XI como sendo “cercado por uma corrente de ouro”, algo que não foi comprovado. É possível que em certos casos lembranças de templos e cultos de outros lugares tenham permanecido na mente dos escritores, ou os detalhes tenham sido frutos da sua imaginação criati­va, para trazer mais colorido à simples e tosca realidade escandinava.

Diferentes dos seus vizinhos celtas, que contavam com os druidas, uma classe sacerdotal bem organizada e preparada, os povos germânicos e escandinavos não dispunham de profissionais religiosos; o contato com o mundo divino era feito pelos governantes, xamãs e chefes de família.

O calendário das festividades variava em função da região geográfica e da estação, e o ano era dividido em duas estações principais: inverno e verão, com­postos por três períodos de sessenta dias cada uma. Alguns desses meses do­brados tinham o mesmo nome, sendo conhecidos apenas alguns deles. O ano era dividido por três grandes festivais, começando no início do inverno (final de outubro) com uma festa equivalente ao Samhaim – o Sabbat celta. Essa co­memoração durava alguns dias e ficou conhecida como “As Noites Brancas” (ou de inverno). Como todos os outros pontos de transição, esse também era uma época perigosa, quando eram “se abriam” portais de comunicação com as divin­dades e o mundo dos mortos. Os marcos importantes para definir as datas das celebrações eram os solstícios e os equinócios.

Snorri Sturluson menciona nos textos dos Eddas três festas importantes acompanhadas de oferendas: no começo do inverno, para assegurar a sobre­ vivência; no final do inverno, para abençoar os plantios; e o último, no verão, em agradecimento a colheita. As oferendas, que incluíam sacrifícios, não eram intencionadas apenas para abençoar a terra e os animais, mas também para ga­rantir a vitoria nos combates, a proteção das expedições dos exploradores e das viagens dos mercadores.

Os elementos essenciais nessas ocasiões eram a festa e a refeição comunitária, com os habituais brindes de hidromel para as divindades, provável origem do [54] posterior costume cristão nas festas medievais escandinavas, nas quais os brindes com vinho eram dedicados a Cristo, à Virgem Maria e a diversos santos.

Outro elemento importante das festividades era o sacrifício de um animal, escolhido de acordo com a divindade padroeira; javali, touro, bode e cavalo, todos eles eram dignos de servir como oferenda e sua carne também era servida nas refeições dos guerreiros. Entre os animais a serem sacrificados, um deles era escolhido como uma oferenda adequada para os deuses. As caçadas de javalis e de auroques eram consideradas testes de coragem e faziam parte dos ritos de passagem dos jovens rapazes.

No caso dos sacrifícios de cavalos, a vítima era escolhida entre os vencedores das corridas ou das lutas entre espécimes selvagens, conforme comprovam os achados encontrados no lago Skedemosse, na Ilha de Õland (oferendas variadas junto com as ossadas de animais) e gravações representando uma luta entre dois cavalos. Nos Eddas é descrito o sacrifício de um cavalo feito na presença do rei e o consumo ritualístico de sua carne cozida em um enorme caldeirão.

O sacrifício cerimonial de cavalos e o uso da sua carne nas refeições comu­nitárias faziam parte das práticas do norte europeu desde o primeiro milênio, e o cavalo era o animal totêmico de vários deuses, especialmente de Odin. Esse costume continuou até o século XI na Dinamarca e mesmo depois em outros lugares, como parte dos ritos funerários de reis e cavaleiros. Durante séculos cavalos foram sacrificados ou enterrados vivos nas fundações das cons­truções, para afastar o azar e garantir a proteção. Ossadas de cavalos foram encontradas nas demolições e ruínas de mosteiros e igrejas cristãs da Escandinávia, Holanda, Alemanha e Inglaterra, bem como em cemitérios cristãos e ruínas em vários lugares.

Um importante símbolo religioso indo-europeu desde a Idade do Bronze, o cavalo também era associado à viagem do sol e, como mostram cenas das pedras memoriais de Gotland, do Período Viking, visto como um condutor dos heróis mortos para o além (denominado psicopompo). Segundo outra crença, os cavalos consagrados aos deuses podiam comunicar suas mensagens com sussurros ou sinais físicos interpretados pelos xamãs e por isso eram usados nas divinações. Juntamente com o javali e o touro, o cavalo era símbolo de fertilidade e com­batividade, sendo valente na luta e semeador da morte, mas erguendo-se ao céu pelo seu triunfo ou sacrifício. Nos países germânicos e escandinavos, os sacrifí­cios de cavalos faziam parte das cerimônias fúnebres, dos ritos de consagração da terra e dos rituais anuais das assembleias. Vários esqueletos de cavalos foram encontrados nos túmulos em forma de barcos da Noruega e Suécia, bem como [55] nos cemitérios da Alemanha. O cavalo podia ser enterrado junto com seu dono ou em cova separada ao seu lado, mas era visto como parte do aparato bélico dos guerreiros.

Outros animais também eram sacrificados, tais como bodes, cabras, ovelhas, cervos, cães e gado; vários esqueletos desses animais foram encontrados nos grandes túmulos dos vikings. O cão era considerado o guardião do mundo subterrâneo e acreditava-se que podia guiar o morto na sua transição. Aves eram sacrifícios mais comuns e baratos, e inúmeras ossadas de patos, gansos, cisnes e galos foram encontradas em túmulos e urnas de cremação, desde a Idade do Bronze até muito tempo depois do Período Viking. As aves de rapina eram asso­ciadas aos rituais de guerra e aos ritos de fertilidade, e o seu voo, sons e movi­mentos no momento da morte eram utilizados como presságios na divinação. O sangue dos sacrifícios servia para consagrar ambientes, armas, objetos má­gicos e altares; era espargido nas pessoas e nas paredes, e às vezes ingerido junta­mente com alguma bebida, para fortalecer a saúde e afastar o azar. Além de serem uma ocasião propicia para oferecer sacrifícios às divindades e reunir as comuni­dades em uma celebração, as festividades também eram uma oportunidade para se buscar presságios e orientações dos seres sobrenaturais, por meio da divinação.

A arte divinatória era exercida principalmente pelas mulheres; as profetisas e videntes eram honradas como porta-vozes das divindades e muitas delas, tais como Veleda, Aurínia, Thiota e Ganna, foram mencionadas em sagas e poemas. As sacerdotisas oraculares dos godos, que se comunicavam com os mortos, eram chamadas Haliarunnos e as suecas, Vargamors, eremitas que viviam nas florestas junto com os lobos. Nas sagas são descritas as divinações que as mulheres co­muns faziam em caso de doença ou ao preparar encantamentos de proteção nas batalhas para os maridos e filhos.

A divinação, a magia e o culto dos ancestrais faziam parte da vida das mulheres nórdicas. Na Islândia e na Escandinávia, as volvas ou spakonas (videntes) realizavam sessões de desdobramento em transe profundo, seguido de aconselhamento e a prática chamada Seidhr, que não era realizada pelos homens por ser considerada vergonhosa, devido à passividade exigida para o transe e a comunicação extrassensorial. Uma pratica xamânica muito usada era Utiseta (“ficar sentado ao relento”), quando a vidente pernoitava sentada sobre um túmulo ou perto de monumentos funerários a espera de mensagens e visões. O Seidhr era feito na frente da comu­nidade reunida e a vidente respondia às perguntas, em transe profundo (maiores explicações sobre a origem e a continuação dessas práticas na atualidade são encontradas no livro Mistérios Nórdicos, citado na bibliografia). [56]

A prática da magia também era bastante utilizada nas comunidades nórdicas, nos encantamentos de proteção nas batalhas ou nas maldições dos inimigos. Po­rém, como outras formas de poder pessoal, a magia tinha seu uso regulamenta­do e os abusos, punidos. O conceito ancestral da existência de uma energia divina permeando toda a natureza (ónd) favorecia a crença nos efeitos das práticas má­gicas, além de comprovações evidentes, citadas em vários escritos.

Poemas e sagas descrevem o uso oracular das runas por mulheres, mas, para os augúrios tribais, o chefe ou o xamã invocava as divindades para escolher e ler as runas, e deduzir presságios pelo voo dos pássaros ou pelo movimento de cavalos brancos, consagrados e mantidos para essa finalidade. Em ocasiões es­peciais, como a morte de um rei ou guerreiro renomado, ou diante da ameaça de uma invasão inimiga, faziam-se sacrifícios especiais, na abertura anual das assembleias, para pedir a benevolência e proteção divinas.

Invocavam-se os deuses nos juramentos para testemunhar os votos, pois, se o compromisso não fosse cumprido, esse fato iria atrair azar e infortúnio. Quan­do se assumia um compromisso individual, os deuses protetores corresponden­tes eram invocados. Fazer e cumprir juramentos e promessas eram poderosos costumes arcaicos para se alinhar com o fluxo de wjrd, o traçado do destino individual. Os juramentos tinham um papel importante na criação e manuten­ção da tessitura cármica de uma comunidade, formada pelo entrelaçamento dos fios dos relacionamentos e compromissos, juramentos levianos, destrutivos ou que não fossem mantidos, enfraqueciam e prejudicavam os relacionamentos e a energia coletiva, e eram severamente punidos.

Na sociedade nórdica, os elos grupais implicavam compromissos de lealdade, justiça e parceria, afirmados e ratificados com juramentos e pactos de sangue. Os juramentos eram feitos sobre um anel consagrado com sangue (de um sacrifício ou dos parceiros que o proferiam); diversas sagas mencionavam um anel sagrado, guardado pelo sacerdote no altar do templo de Thor. Tréguas e armistícios eram selados com juramentos feitos sobre o anel consagrado, diante dos deuses que iriam cuidar da sua concretização, pois as palavras faladas no juramento eram honradas como sendo a vontade divina.

A reverência às divindades era considerada um pedido formal para se obter suas bênçãos para a prosperidade da terra, a fertilidade humana e animal, a paz com as tribos vizinhas, a proteção nas viagens. Não havia ameaças ou punições para aqueles que não participassem dos cultos, pois eram implícitos o respeito e a reverência de todos perante o mundo sobrenatural e os atos que o honravam. Nas festas dedicadas aos deuses, predominava a alegria, e a celebração culminava [57] com oferendas, entregues na água ou na terra. Sacrifícios e pedidos individuais eram feitos em casos específicos, quando se invocava ajuda para assuntos práti­cos (negócios, doenças, disputas, ofensas pessoais).

Além dos sacrifícios de animais faziam parte das oferendas troféus de guerra, produtos da colheita e bebidas tais como hidromel (vinho de mel fermentado, considerado o “néctar dos deuses”, equivalente à ambrosia grega) e cerveja, co­locadas ao redor de árvores consagradas às divindades (carvalho, freixo, teixo). Usavam-se chifres para beber, os mais cobiçados sendo os de auroques, que somente podiam ser obtidos pelos caçadores mais valentes e habilidosos. No século XI, os chifres foram substituídos por taças, principalmente nos janta­res reais; mas eles continuam sendo usados até hoje nos encontros e rituais de grupos ligados à tradição nórdica. Desde os tempos antigos e mesmo depois da cristianização, até os dias de hoje, nas comemorações nórdicas, são feitos três brindes: para as divindades, para os ancestrais e para as pessoas presentes.
Um magnífico par de chifres de ouro com inscrições rúnicas, datado do sécu­lo V, foi encontrado perto de Gallehus, na Dinamarca. Embora guardado como um tesouro inestimável, foi roubado em 1802 e o ouro, derretido e vendido. As inúmeras gravações valiosas que decoravam a sua superfície, e que foram regis­tradas antes do roubo, retratam figuras humanas em diversas atividades como dança, cavalgada, tiro com arco, jogo de bola e acrobacias. Também havia guer­reiros usando elmos com chifres, homens com cabeças de animais e um gigante de três cabeças. Acredita-se que as cenas descreviam ritos sazonais, atividades esportivas e rituais. Cavalos aparecem em ambos os chifres, um deles atravesado por uma flecha e tendo ao seu lado uma mulher levando um chifre, o que pressupõe que os chifres eram usados pelas sacerdotisas para oferecer bebidas nos sacrifícios de cavalos, feitos para os deuses da guerra. No poema anglo-saxão “Beowulf”, é descrita uma cerimônia em que a própria rainha oferece o chifre com bebida, primeiro aos deuses, depois ao rei e em seguida ao chefe dos guer­reiros, que o passa aos demais.

O hidromel é um elemento importante em vários mitos – dos deuses Aegir, Kvasir, Odin e Thor, do armistício entre os deuses Aesir e Vanir – , sendo consi­derado uma bebida imbuída de qualidades mágicas, preparada e guardada em um grande caldeirão pelo deus Aegir. Em um poema antigo, afirma-se que o hidromel vinha das tetas da cabra Heidrun, que se alimentava com as folhas da Árvore do Mundo e abastecia permanentemente os chifres de beber dos espíritos dos guer­reiros nas festas de Valhalla, patrocinadas por Odin. Em várias pedras memoriais encontradas na Ilha de Gotland são vistas gravuras de mulheres saudando a che­gada [58] de reis ou guerreiros em Valhalla; o mesmo motivo também é encontrado em amuletos e monumentos funerários do Período Viking. Essa imagem, porém, tem uma origem mais antiga, pois já está presente nos chifres de Gallehus, do século V.

O caldeirão tinha um simbolismo especial por representar um vínculo entre o homem e o Outro Mundo, e estar associado à ideia de ressurreição, tão vividamente descrita no mito d eThor, que abatia diariamente seus bodes e os cozi­nhava no caldeirão para o jantar, mas eles ressuscitavam no dia seguinte, quando ele impunha seu martelo sobre as ossadas. No Período Viking, foi enfatizada e reforçada a crença da ressurreição diária dos guerreiros mortos no campo de batalha, que se reuniam ao pôr do sol para festejarem juntos durante a noite nos salões de Valhalla, voltando às lutas no dia seguinte. Em túmulos germânicos foram encontrados restos de comida, de chifres e de caldeirões, bem como vasiilhas para guardar provisões.

Os arranjos elaborados nas festas para os mortos reforçavam o simbolismo da renovação da vida, presente até mesmo nos túmulos simples dos pobres, onde um ovo, um pedaço de carne e uma vasilha com cerveja representavam a mesma fé na continuação da vida após a morte. Para os povos que valorizavam os festejos com comidas e bebidas, essas oferendas eram um meio simples de comunicação e comunhão com as divindades e os ancestrais.

Algumas sagas islandesas mencionam o medo da morte e dos chamados “mortos-vivos” (diaugai), que podiam agir de forma destrutiva contra os vivos. Por isso, conforme comprovam achados arqueológicos de corpos mutilados ou com as cabeças decepadas, julgavam necessário cortar a cabeça do cadáver, fura-lo com uma estaca e queimá-lo ou destruí-lo. Prevaleciam, no entanto, o res­peito e a veneração pelos ancestrais, considerados guardiões dos seus familiares, que lhes pediam ajuda e proteção. Os reis recebiam os nomes dos seus predeces­sores, enquanto, no Período Viking, os filhos recebiam o nome de um ancestral. Esse costume decorria da crença de que os antepassados poderiam “reviver” nos seus descendentes e lhes trazer sua força e boa sorte. Existia um forte vínculo entre os poderes da fertilidade e os burial mounds, as moradas dos ancestrais. O lugar sagrado de Uppsala era cercado por túmulos de vários tamanhos, sendo os maiores dos reis que reinaram antes dos vikings, e dos seus heróis. A preserva­ção das cabeças mumificadas de reis e guerreiros e a reverencia demonstrada a elas baseavam-se na crença de que eles podiam conferir poder e vitoria aqueles que eram merecedores de herdar suas qualidades e seu poder.

A importância dos túmulos é confirmada pelas descobertas arqueológicas que revelaram um elaborado cerimonial religioso nos enterros, alem da oferen­da [59] de objetos, alimentos e sacrifícios de sangue. O relato do árabe Ibn Fadland apresenta detalhes de um complexo rito funerário com cânticos, sacrifícios de animais e de uma vitima humana, seguidos do incêndio do navio em que jazia o corpo de um chefe viking. Após ter ficado enterrado durante dez dias em terra congelada, o corpo tinha sido exumado, vestido com roupas suntuosas e colo­cado em uma pira de troncos no convés do seu navio. A moça, que se ofereceu como voluntária para acompanhar seu senhor no papel de sua noiva, era uma escrava da tribo dos eslavos. Depois de se embriagar e fazer sexo com vários homens, a moça foi levada para um portal que representava o Outro Mundo e, olhando através dele, descreveu uma paisagem verdejante, onde seus ancestrais esperavam por ela. Enquanto os guerreiros faziam barulho com os escudos para abafar os gritos, a moça foi levada para uma tenda no navio e submetida à morte dupla, apunhalada e enforcada ao mesmo tempo, por uma velha da tribo dos hunos, chamada de Anjo da Morte. Seu cadáver foi colocado junto ao guerreiro morto e ambos foram cercados por oferendas de comida, bebida e animais sacri­ficados (cavalo, vaca, porco, galo, cachorro). Atearam logo à pira e, enquanto o navio era consumido pelas chamas, os guerreiros entoavam cantos de despedida, o navio representando a jornada da alma, liberada pelo fogo, para o além.

Não se sabe com certeza se as cerimônias fúnebres da Idade do Bronze e do Período Viking eram de fato semelhantes à cena descrita por Ibn Fadland, um forasteiro. Devido à localização do rito às margens do rio Volga, talvez ele tenha sofrido a influência da tribo vizinha dos hunos, que praticavam ritos macabros. No entanto, sabe-se que os povos nórdicos viam a morte como a passagem por um portal para o Outro Mundo, onde os mortos eram recebidos pelos seus an­cestrais. Evidências desse simbolismo religioso foram encontradas nos túmulos em forma de barcos – sugerindo uma viagem pós-morte – com alimentos e bebidas colocadas em vasilhas caras ao redor, fato que confirma a crença arcaica na continuidade da vida no Além. A ideia dos festejos no Outro Mundo — come­morando o encontro com ancestrais e divindades — aparece em diversos poemas e lendas. As armas, joias e objetos diversos encontrados nos túmulos poderiam indicar a posição social e a ocupação dos falecidos.

Os grandes cemitérios germânicos indicam ritos funerários simples; as cin­zas das cremações eram depositadas em urnas e enterradas. Os símbolos das urnas se tornaram mais complexos com o passar do tempo, incluindo figuras de animais (javali, cavalo, pássaros), de martelos e de raios. Existem relatos de cerimonias funerárias faustosas (como no poema Beowulf”), com a cremacão maciça dos guerreiros mortos nas batalhas e suas cinzas cobertas com grandes [60] amontoados de terra. Nesse funeral em massa, as armaduras e armas eram tam­bém queimadas, enquanto as mulheres entoavam cantos de louvor aos heróis. Os túmulos dos reis eram vistos como memoriais por eles deixados aos seus povos, pois eram considerados os protetores da nação e o elo entre os mundos divino e humano.

Em ocasiões especiais — tempos de perigo, fome, epidemias —, faziam-se sacrifícios humanos além dos animais. No século XI, o historiador Adam von Bremen refere-se aos sacrifícios feitos no Período Viking a cada nove anos no templo de Uppsala, acompanhados de cerimônias que duravam nove dias, com oferendas diárias de um exemplar de cada espécie de animal e ave, além de uma vítima humana. Esse rito era consagrado a Odin no início do verão, como um pedido para assegurar a vitória nas batalhas, sendo realizado também em outros lugares da Suécia, além de Uppsala.

Nos pântanos foram encontrados cadáveres mumificados com cordas no pes­coço, junto com restos de alimentos datados do Período das Migrações e da Idade do Ferro. No Período Viking, era comum a queima dos equipamentos e das armas dos inimigos, jogados depois nos pântanos. As vítimas eram escolhi­das entre prisioneiros de guerra (considerados uma categoria social marginal), escravos e criminosos; nas mortes ritualísticas, usava-se a tripla morte (enforca­mento, empalação por lança e cremação). A morte ritualística dos prisioneiros capturados era necessária para manter o equilíbrio da comunidade, pois atuava como catalisador das tensões acumuladas e servia como presente para os deuses ou um preço mágico pela paz.

Quando os povos escandinavos se opuseram à cristianização, os reis conver­tidos ameaçaram os rebeldes com sacrifícios, sendo as vítimas escolhidas entre homens nobres e dignitários. Não há comprovação arqueológica de que os acu­sados eram sacrificados deliberadamente ou apenas condenados à morte por insubordinação, uma difícil diferenciação entre sacrifício e execução. Sabe-se, porém, que os prisioneiros de guerra eram oferecidos pelos vikings em sacrifí­cio, como gratidão pela vitória ou como cumprimento de promessas anteriores, relacionadas à segurança das comunidades e à vitória nos combates. Os vikings almejavam o sucesso nas expedições, no comércio e nos saques, o que levava a um aumento maciço dos sacrifícios antes das suas campanhas. Os guerreiros tinham muita confiança nos rituais e encantamentos para lhes garantir a vitória e por isso sempre consultavam oráculos e presságios antes das viagens.

Um dos encantamentos mais comuns citados nas sagas islandesas servia para paralisar momentaneamente os inimigos, deixando-os imobilizados e tomados [61]de pânico. A magia da guerra não pode ser separada da reverência aos deuses padroeiros e das oferendas com sacrifícios. Os animais ofertados — javali, touro e cavalo — tinham características guerreiras, assim como os lobos e as aves de ra­pina. Os monumentos funerários dos líderes mortos nos combates e os poemas épicos evocam de forma vívida as crenças míticas associadas com as batalhas. Muitas lendas descrevem seres sobrenaturais que conferiam seu poder àqueles que os reverenciavam e ofertavam às vésperas dos confrontos armados. Aqueles que morriam em combate iriam para os salões de Valhalla, o ápice da jornada heróica e o ideal para quem queria se tornar Einherjar, guerreiro da tropa de elite de Odin. Doentes, pessoas idosas e crianças iam para o reino da deusa Hei e as mulheres, para as moradas das deusas.

Um costume bárbaro – praticado também pelos celtas – e comum à maioria das tribos nórdicas consistia em transformar a cabeça dos inimigos em troféus. O historiador Tácito descreve a exposição das cabeças dos ortos presas em árvores nos campos de guerra. Na literatura nórdica, os homens eram decapi­tados depois de feitos prisioneiros e, nas sagas, existem episódios sobre cabeças que falam depois de separadas dos corpos, uma possível alusão ao mito de Odin, que embalsamou a cabeça decepada do deus Mimir (o guardião do poço da sabedoria) e a consultava antes de tomar decisões. Em muitos contos de fadas e histórias folclóricas, há referências sobre “cabeças falantes”, que saíam de uma fonte e orientavam os merecedores de adquirir riqueza e sorte.

Na arte escandinava, existe uma profusão de cabeças e máscaras entalha­das em postes de madeira, com traços humanos ou de monstros aterrorizantes, como eram as carrancas que enfeitavam as proas dos navios vikings. Cabeças estilizadas ou grotescas também foram encontradas nos bracteatas de ouro do Período das Migrações, nos broches e nos cabos de espadas. A importância da cabeça como sede da inteligência e seu uso como um troféu de guerra, capaz de trazer sorte e fama ao seu portador, é enfatizada nas tradições arcaicas associadas a guerreiros e batalhas, e permaneceu como um elemento decorativo ou simbó­lico nas artes e nas lendas.

Havia classes especiais de guerreiros escandinavos chamados berseiks e uljhednar, nomes que significavam “camisa de urso” ou “de lobo”, ambos vistos como animais valentes, comuns nas sagas e lendas. A sua descrição como “guerreiros fanáticos dedicados a Odin” era resultado do seu árduo treinamento xamânico, com uma férrea disciplina e a crença de que eles eram seres especiais protegidos pelo deus. O treinamento e a crença favoreciam um estado de transe violento, quando eles lutavam sem armaduras, nus ou cobertos de peles de animais e [62] urrando como feras selvagens. Eles matavam os inimigos sem piedade e eram imunes aos golpes deles. A transformação dos homens em criaturas enlouqueci­das lutando como feras é descrita nas lendas como uma prática de metamorfose xamânica, que os tornava heróis destemidos, conduzindo os ataques e amedron­tando as tropas inimigas. Várias técnicas e práticas mágicas eram usadas para despertar a ferocidade dos guerreiros antes da batalha, incluindo danças extáti­cas, encantamentos, pulos e gritos. As vitórias também eram comemoradas com danças, cânticos de louvor e festas.

Além da habilidade e resistência nos combates, o guerreiro ideal devia possuir conhecimentos ocultos e intuição, para estabelecer a conexão com seres sobrenaturais que lhes oferecessem ajuda e também para saber interpretar os presságios e os sinais de alerta nos movimentos de animais e pássaros, prevendo assim os eventos vindouros. Muitas divindades se deslocavam metamorfoseados em pássaros e sua aparição antes dos combates assinalava o desfecho ou o curso do combate. Acreditava-se que as armas dos heróis tinham origens sobrenaturais e eram forjadas pelo deus ferreiro Welund ou pelos anões, depois presenteados pelos deuses aos seus favoritos. É marcante a percepção e a aceitação dos fatos e ações humanas como obra do destino, convicção que fortalecia a coragem dos guerreiros, cientes da impossibilidade de mudarem o que tinha sido traçado pelas Nornas, as Senhoras do Destino. A ênfase no destino (orlóg e wyid) é um elemento essencial para a compreensão do mundo religioso pre-cristão.
Há registros de reis sacrificando os filhos ou a si mesmos como um ato de fé e entrega para afastar perigos, garantir vitórias ou devolver a fertilidade a terra nas secas prolongadas. Como o rei tinha caráter sagrado e era considerado mediador entre o céu e a terra, sendo responsável pelo bem-estar do seu povo e a prosperidade do reino, em situações calamitosas ele era executado pelos próprios súditos na tentativa de reverter o azar e as desgraças. Sua morte pre­servava o equilíbrio da comunidade e seguia o ciclo de mudança e renovação das estações. A morte de um deus, ancestral, rei ou herói era um ato sacrificial necessário para que uma nova ordem — cósmica e natural —fosse estabelecida. O deus devia se sacrificar pela terra e seu povo, enquanto a deusa jamais morria; ela chorava sua perda e lhe proporcionava o renascimento como seu filho, tor­nado depois seu consorte. A imolação de reis era um costume comum desde o século VII até meados do século IX.

Também são conhecidos vários casos de infanticídio em todas as classes sociais, comprovados por fontes iconográficas do Período Viking. As crianças — assim como os escravos, criminosos e prisioneiros —tinham um vínculo muito [63] frágil com a sociedade, e seus direitos e deveres eram praticamente inexistentes. Bebês nascidos com deformidades, defeitos congênitos ou doenças, eram “expostas à natureza”, para que morressem sem uma interferência humana direta, pois o ato de alimentar um recém-nascido representava a sua aceitação pelos pais, e conferia-lhe o direito à vida. A inexistência de mortes ritualísticas de mulheres casadas confirma a sua posição importante na sociedade, pelo fato de serem portadoras do dom da vida e ter vínculos com familiares e ancestrais dos dois grupos (o próprio e o do marido).

Por mais horrendos e chocantes que fossem os sacrifícios como oferendas para as divindades, eles eram vistos como recursos para garantir as duas premis­sas básicas para a sobrevivência dos povos norte-europeus: vencer os inimigos e garantir a alimentação. Em troca da vitória e da fartura das colheitas, esses povos dispunham-se a fazer oferendas e sacrifícios como retribuição e agradecimento pela ajuda divina recebida. A função principal dos sacrifícios era apaziguar con­flitos, causados pela própria comunidade (desavenças, rivalidades, disputas), e restabelecer a união e a ordem internas.

Do nosso ponto de vista com respeito a formas de reverência, ligação e gratidão ao plano divino, as práticas e oferendas dos povos antigos parecem chocan­tes e fora de propósito, mas elas existiram em várias tradições, como a hebraica, a hindu, e do Oriente Médio, e na sociedade greco-romana, celta e asteca. O próprio cristianismo passou por períodos de extrema barbárie e violência, como foram os da Inquisição, das Cruzadas, da luta contra os protestantes e do exter­mínio cultural dos povos primitivos ancestrais. Em alguns países, ainda existem atualmente sacrifícios de animais, realizados em um contexto religioso e com propósitos sagrados. Podem ser citadas as sangrentas cerimônias de adoração no templo da deusa Kali, na índia, e os ritos de iniciação nas seitas afro-brasileiras, quando os neófitos são aspergidos ou ungidos com o sangue dos animais ofere­cidos aos Orixás; esse mesmo procedimento é usado para a cura e a sintonização mediúnica, visando benefícios pessoais ou materiais.

Por mais distantes entre si que estejam os lugares dessas práticas, foi comprovada a existência de registros tribais arcaicos preservados no inconsciente coletivo e que podem ser ativados por crenças, costumes ou ritos contempo­râneos. No entanto, as atuais tradições neoancestrais fundamentadas na mitologia e na magia nórdicas não usam sacrifícios de animais, mas exigem dos prati­cantes somente o seu “sacrifício” pessoal no estudo, aprimoramento psíquico e alinhamento espiritual, respeitando e praticando as Nove Nobres Virtudes e as Metas Sêxtuplas. [64]

O ressurgimento atual das antigas tradições nórdicas
Alguns estudiosos interpretaram o abandono e o esquecimento do legado es­piritual ancestral nórdico como a concretização do Ragnarõk, “o crepúsculo dos deuses”, o fim do mundo ancestral e sua substituição pelo cristianismo. Os antigos deuses, porém, não “morreram”, os seus arquétipos, mitos e valores apenas sub­mergiram nas profundezas do inconsciente — individual e coletivo —, à espera de serem trazidos novamente à luz da consciência.

Depois da alienação ao cristianismo — imposta à força aos povos teutônicos e escandinavos —, seguiu-se o período de “dupla fé” ou dualidade religiosa, em que as tradições e costumes ancestrais continuavam sendo mantidos, principalmente nas regiões mais remotas da Noruega e da Suécia. Na Islândia, foram os próprios monges que se empenharam em coletar e transcrever lendas e contos folclóricos, preservando assim o antigo legado. Muitas das estórias dos santos católicos são inspiradas nos mitos dos deuses ancestrais. As lendas foram “cristianizadas”, assim como os rituais, e as igrejas, erguidas sobre os antigos locais sagrados ou sobre as ruínas dos poucos templos ancestrais encontrados.

As datas de antigos festivais como Yule e Ostara foram transformadas em festas cristãs — Natal e Páscoa —, e muitos dos seus antigos costumes (como a reverência a uma árvore sagrada e a prática da troca de presentes e dos ovos pintados) continuam em uso até hoje, por não ter sido possível erradicá-los da memória popular. Os nomes das divindades regentes dos dias da semana (Tyr, Thor, Frigga) foram preservados, apesar da oposição cristã. O nome de Odin era o mais perseguido e considerado tabu, por isso mudou-se o nome em ale­mão da quarta-feira, dia dedicado a Odin, chamado de Wodestag (preservado em inglês como Wednesday) para Mittwoch (“o meio da semana”). Motivos or­namentais, contos de fadas e costumes folclóricos preservaram uma boa parte da sabedoria ancestral, oculta nos símbolos, nos personagens e nas ditas “su­perstições” populares. Devido à sua associação com o “demônio” e o “castigo divino” dos seus adeptos, as práticas mágicas, curativas e oraculares foram as mais perseguidas e poucas conseguiram permanecer nas tradições familiares ou disfarçadas de superstições.

O primeiro movimento do renascimento teutônico ocorreu em 1S00, com a criação do Stoigoticism na Suécia, pelas obras de Johannes Bureus, que incenti­vavam o estudo da mitologia gótica e a aplicação dos símbolos rúnicos. Apesar das boas intenções e do fato de ser o precursor do despertar nacionalista, o [65] movimento do Storgoticism era apenas uma miscelânea de ideias teutônicas e noções emprestadas do judaísmo e do cristianismo.

Entre 1700 e 1800, surgiu o movimento internacional do romantismo, que na Alemanha levou à necessidade de regeneração do espírito nacionalista, fun­damentado nos antigos valores teutônicos. Escritores e artistas começaram a se interessar pela herança nacional, e estudiosos e pesquisadores iniciaram investi­gações para recuperar a antiga tradição, soterrada no ostracismo durante quase mil anos após a cristianização. Os mais importantes expoentes do novo espírito romântico e do renascimento teutônico foram os irmãos Grimm, pioneiros na incipiente ciência da religião comparada, da mitologia e da linguística (demonstrando a relação entre as línguas indo-europeias e a alemã). Eles investigaram com afinco o folclore, coletaram inúmeros contos de fadas (lidos até hoje por crianças do mundo todo) e publicaram uma monumental Mitologia Teutônica, em quatro volumes. A Alemanha foi a grande divulgadora da riquíssima cultura nórdica (pela literatura, arte, música, grupos de estudos ocultos), por ter assimilado e preservado muito bem o conjunto de mitos, tradições e lendas escandinavos.

O interesse público pela antiga Escandinávia foi reforçado pela tradução para o inglês de antigos poemas e sagas islandesas, dos Eddas e de outros textos e cole­tâneas. Os artistas também começaram a produzir obras com enredos inspirados na mitologia, sobressaindo-se as famosas obras musicais de Wagner, influenciadas pelo passado mítico (O Ciclo do Anel) e medieval (O Ciclo do Graal), que tocaram milhares de espectadores com o seu poder dramático e matizes espirituais.

Até o início do século XX, foram erigidas as bases acadêmicas, artísticas e culturais de um verdadeiro “Renascimento Teutônico”, tanto na Alemanha quanto na Escandi­návia e na Inglaterra, com a formação de vários grupos empenhados em resgatar os valores ancestrais. Paralelamente ao surgimento do ocultismo, do espiritismo e da teosofia, vários estudiosos, escritores, místicos e artistas começaram a se empenhar em descobrir e divulgar as antigas crenças e valores dos seus antepassados.

Na Alemanha e na Áustria, o Movimento Pangermânico visava levar a socie­dade de volta às suas raízes pré-cristãs, reavivando a mitologia e a ética germâ­nicas. Um dos representantes mais importantes deste movimento foi Guido Von List (1848-1919), que escreveu várias obras e criou um novo alfabeto rúnico de dezoito caracteres, denominado Armamen e que serviu como base para a cria­ção de uma ordem oculta com o mesmo nome. Após sua morte, outros grupos neogermânicos continuaram a praticar e expandir seus ensinamentos, porém preservando a filosofia religiosa. Foi fundada a Liga de Pesquisas Rúnicas para coordenar as investigações mágicas e criada a yoga teutônica, constituída por [66] uma série de posturas chamadas stódhur, que expressavam fisicamente o traçado das runas e canalizavam seus poderes para a vida dos praticantes.

Na década de 20 do século passado, membros de uma sociedade secreta chamada Thule — Thule Gesselschaft —, fundada em 17 de agosto de 1918 e tendo uma suástica cravada por uma adaga como símbolo, começaram a desvirtuar a simbologia rúnica, dando-lhe uma acentuada conotação ultranacionalista, pangermânica e ariosófica. Essa sociedade, na verdade, foi a real e oculta criadora do Partido Nazista, que ela usou como artifício para disseminar sua filosofia no meio político. Ironicamente, porém, esse partido só começou a ganhar destaque quando adotou a suástica usada pela Thule e as runas de forma desvirtuada, para expandir o seu poder.

Hitler era um convicto seguidor da ariosofia (doutrina esotérica racista cria­ da por Jõrg LanzVon Liebenfels), fervoroso admirador dos símbolos teutônicos e obcecado pela ideia da supremacia da raça ariana, predestinada segundo ele a dominar o mundo e eliminar os não arianos. Ele escolheu a runa solar da vitória (Sowilo ou Sigel) como emblema da juventude hitlerista, duplicando-a para a Schutzstaffel, a temida SS, e a suástica invertida e inclinada como seu estandarte e principal símbolo. A suástica era um antigo símbolo indo-europeu que repre­sentava a roda solar e a energia vital, e supostamente atraía sorte e prosperidade. No entanto, em vez da vitória almejada pelo nazismo, a alteração da suástica e o uso desvirtuado dos antigos símbolos sagrados canalizaram as forças sombrias da destruição contidas nesses símbolos e aceleraram o fim da tenebrosa e mortífera campanha e ditadura hitleristas.

Depois do fim da guerra, em 1945, a associação negativa das runas e dos valores teutônicos com o nazismo desencadeou, tanto nos países escandinavos quanto nos anglo-saxões, uma onda de pavor e rejeição por tudo o que podia lembrá-los, relegando ao ostracismo símbolos, mitos e práticas mágicas ances­trais. O nazismo certamente atrasou muitas décadas o real renascimento teutônico e tornou tabu qualquer interesse ou estudo nessa área.

Apenas depois de transcorridas mais de duas décadas, reiniciou-se lentamen­te a conscientização da população com respeito ao necessário resgate das raízes místicas e espirituais dos povos ancestrais, sem, no entanto, o viés nacionalista, extremista ou doutrinário. Em 1969, foi reativada a extinta Armanen Orden, uma ordem orientada para o estudo do misticismo alemão e da magia rúnica. A partir de 1970, o interesse pelo simbolismo e o uso mágico das runas ultrapas­sou as fronteiras da Alemanha e chegou à Inglaterra e aos Estados Unidos, onde foram criados vários grupos de estudo das antigas tradições e dos valores nórdi­cos, que dali se espalharam para a Europa, a América do Sul e a Austrália. [67]

O mundo anglo-saxão despertou para o chamado do legado nórdico por meio das obras de J. R. Tolkien, cristão convicto e filólogo especialista em línguas germanicas. Nos seus livros O Senhor dos Anéis e O Hobbit, ele menciona as runas, descreve elfos, anões e trolls e cria situações semelhantes às encontradas nas antigas lendas. Outros autores que se inspiraram na mitologia germânica foram C. S. Lewis, que incluiu vários elementos místicos na série Nárnia; Robert Howard, cujos heróis são calcados no modelo germânico; e Poul Anderson, que escreveu várias obras de ficção científica usando personagens das sagas.

Nos Estados Unidos, surgiram vários grupos de estudos das tradições pré-cristãs, como o Odinist Fellowship, em 1969, na Flórida, e o Viking Brotherhood, em 1971, que se transformou, em 1976, na Asatru Free Assembly. Na Inglaterra, foi fundado, em 1973, The Odinic Rite, enquanto, em 1973, o Parlamento islandês reconheceu o Asatrú como religião oficial. Inspiradas no paganismo escandinavo e teutônico, surgiram organizações que praticam e ensinam as antigas tradições. Em 1987, o escritor Edred Thorsson criou a organização Troth no Texas, e seu livro A Book of Troth tornou-se o documento básico da organização chamada The Ring of Troth, que postula um código de comportamento e de práticas ritualísticas fundamentadas nos princípios e valores tradicionais escandinavos.
O termo Troth, que significa “fé, confiança, lealdade”, foi usado a partir do século XIX para definir o culto dos deuses Aesir. Vários outros nomes definem outras divisões conceituais e ritualísticas dentro do paganismo nórdico e teutônico, como Theodism, Odinism, Irminism, Forn Sidhr (os velhos caminhos;, Torna seden (caminho dos anciãos), Germanic Reconstructionism, Seax ou NorseWicca. O Theodism é baseado nas praticas anglo-saxãs e europeias tribais; sua organização é mais for­mal, hierárquica e solene, envolvendo juramentos e votos. Vanatrú é uma vertente promovida pelo escritor Edred Thorsson, e seus cultos são dedicados aos deuses Vanir, com elementos da Wicca (reverencia-se a polaridade deus/deusa represen­tada por Frey e Freya e não todo o panteão nórdico, como no Asatrú).
Para melhor esclarecer as diferenças entre elas, vou citar os principais tópicos. Em primeiro lugar, a Wicca é arquetípica e dualista, enquanto o Asatrú é politeísta. A Wicca descende em parte da magia cerimonial e mágica medieval, requerendo uma preparação mais elaborada nos rituais e celebrando os Sabbats (cerimônias da Roda do Ano) e Esbats (plenilúnios). No Asatrú, a conexão com a Roda do Ano é menor; seu enfoque é a herança mítica e as fontes históricas, e ele exige, portanto, mais estudo e menos insights e intuições. Na Wicca, segue-se a Lei Tríplice e valoriza-se “o que não deve ser feito”. No Asatrú, divulgam-se as Nove Nobres Virtudes e as Metas Sêxtuplas e ensina-se “o que deve ser feito”. [68] Enquanto os grupos de Wicca têm uma postura mais liberal e tolerante no nível comportamental, social e sexual, os do Asatrú são centrados em valores tradicionais, familiares e comportamentais. Na Wicca, o ponto-chave dos rituais é a criação do “círculo mágico”, que não é fundamental no Asatrú, no qual os pre­parativos são focados nos arquétipos dos deuses, nos seus mitos e nos elementos nórdicos (fogo e gelo).

Os grupos da Wicca se chamam covens, enquanto a organização do Asatrú inclui núcleos de kindreds (aparentados), hearths (lares), garths (encontros na natureza). Enquanto na Wicca existe a polaridade sacerdote e sacerdotisa e os in­tegrantes passam por iniciações, no Asatrú a liderança pode ser eletiva (escolha de um gothi ou gythja — sacerdotes) ou feita por revezamento. No início, as organizações do Asatrú tinham um perfil masculino e guerreiro, mas atualmente um número crescente de mulheres se interessa em participar e assumir papéis de destaque e liderança, assim como também cresce a participação das famílias nos festivais sazonais, nos sumbles (encontros com fins cerimoniais em homenagem a deuses, heróis e ancestrais) ou blots (cerimônias com propósitos específicos e festivos). A celebração dos antigos festivais é considerada um ato de respeito e amor com relação aos deuses, aos seres da natureza e aos ancestrais; os rituais buscam o alinhamento com as forças e os ciclos da natureza, as transformações externas se refletindo no psiquismo e na vida humana.

No movimento Asatrú, existem várias tendências ritualísticas e conceituais, porém o denominador comum é a atual reconstrução religiosa das crenças e práticas dos povos germânicos e escandinavos. Enfatizam-se os cultos das divin­dades arcaicas, dos seres sobrenaturais e dos ancestrais; o aprendizado e as práti­cas rúnicas e mágicas; e os encontros com comemorações e reverência com base nas antigas celebrações da Roda do Ano. As variações nas práticas ancestrais devem-se às localizações geográficas e à adaptação das tradições ancestrais, existindo uma afinidade religiosa em função de fatores comuns como genética, cultura, passado histórico, costumes e idiomas. Por isso, os noruegueses tiveram facilida­de para “exportar” seus deuses, imagens e mitos para a Islândia e os emigrantes europeus os levaram para o Novo Mundo.

Na Escandinávia, foi reconstruída a antiga tradição fortalecida pela herança familiar, a conexão com a terra nativa e o conhecimento das sagas. Os alemães também têm uma forte conexão linguística e cultural com a sua pátria, porém as distorções nazistas dificultaram o renascimento das antigas práticas ancestrais. No Reino Unido, existem varias vertentes de ancestralismo devido à ascendência anglo-saxã e à tradição celta. Nos Estados Unidos, há diferenças entre as práticas [69] da Costa Leste e da Oeste, que são mais liberais, enquanto no interior do país se prezam a hierarquia e a estrutura conservadora.

Os grupos ancestrais se diferenciam – além do foco cultural e a organização – pela sua atitude perante a religião e a identidade étnica dos seus participantes. Alguns praticantes consideram suas praticas religiosas como uma consequência da sua identidade cultural e nacional e uma forma de conexão com a herança ances­tral. Os grupos podem ter uma conduta diferenciada: inclusiva, aceitando pessoas de outras nacionalidades e opções religiosas; ou restritiva, abrindo a participação apenas para aqueles que têm uma origem ou descendência nórdica ou germânica.

Segundo a autora Galina Krasskova (vide bibliografia), o movimento neoancestral atual desempenhado na reconstrução das antigas práticas religiosas nórdicas e teutônicas, e na conexão e troca de energias com as divindades, pode ser divi­dido em quatro grupos.

Os Universalistas (Universalisten) são liberais e aceitam variações nas crenças e ritos, desde que sejam inspirados nos antigos textos; rejeitam a hierarquia social e uma autoridade centralizadora.

Os Populistas (Folkish) postulam a necessidade da origem ou descendência nórdica ou germânica dos seus membros, sem se considerarem racistas, mas com o desejo de preservar a pureza da tradição ancestral.

Os Tribais (Stammes) procuram recriar não apenas a religião, mas também a cultura e tentam formar grupos com estruturas sociais e rituais modelados de acordo com os ancestrais; são hierárquicos e têm padrões rígidos de comporta­mento, que impõem aos seus integrantes.

Os Tradicionalistas (Traditionelle) são cidadãos europeus que cresceram em famílias conservadoras ou foram educados para seguir as antigas tradições e os costumes familiares, mesmo tendo sido batizados como cristãos; de certa ma­neira eles são mais fieis a religião nativa, apesar de as suas práticas não seguirem estritamente os antigos textos.

As polêmicas e as divergências entre os grupos são agravadas pela presença de outras duas vertentes, dos ditos ancestrais nórdicos e das duas vertentes da Wicca nórdica e Seax. A fronteira entre os primeiros quatro grupos é mais tênue do que entre os dois últimos, que seguem a estrutura ritualística e hierárquica da Wicca e não as diretrizes originais das tradições nórdicas e teutônica.

Também existem praticantes do xamanismo nórdico, inspirado nas tradições nativas das tribos sami e siberianas, como a sauna sagrada; o seidhr oracular e o spae, a utiseta, a comunicação com os espíritos; as curas e os encantamentos, en­tre outras técnicas, descritas com maiores detalhes no livro Mistérios Nórdicos. [70].

Uma importante contribuição no resgate da antiga prática xamânica seidhr, tradicionalmente reservada às mulheres, foi dada pelo grupo Hrafnar, de San Francisco (EUA), dirigido pela pesquisadora Diana Paxson, autora de vários livros, entre eles Essential Asatrú, (Asatrú — Um Guia Essencial para o Paganismo Nórdico, publicado pela Editora Pensamento), Trance-Portation e Taking up the Runes. Diana Paxson e seu grupo empenham-se no resgate e na reconstrução oracular de seidhr em sessões públicas, a serviço da comunidade neoancestral. A técnica por eles criada foi adotada por outros grupos de estudos e práticas nórdicas em vá­rios países, inclusive no Brasil.

Escritora renomada, Diana é uma sacerdotisa consagrada na tradição Asat­rú desde 1982, além de cofundadora de outras organizações, editora do jornal Idunna, autora de vários artigos sobre as religiões ancestrais e líder reconhecida do atual movimento religioso nórdico. Juntamente com Freya Aswynn e outras es­critoras, Diana veio colaborar para enriquecer a compreensão e a prática da tradição nórdica pelo acréscimo de valores e arquétipos sagrados femininos.

Dessa maneira, foram ultrapassadas as conotações machistas e racistas ante­riores associadas às práticas teutônicas e escandinavas, e o ancestralismo europeu passou a ser divulgado como um caminho aberto, tanto espiritual quanto social­mente, amplo e inclusivo, que reverencia igualmente deuses e deusas, sem, no entanto, seguir a ideologia Wicca, nem se prender a cânones acadêmicos. Para os leitores que se interessarem em conhecer melhor a tradição Asatrú, recomen­do os livros citados na Bibliografia.

As runas: origem, oráculo e magia
No meu livro anterior, Mistérios Nórdicos, apresentei detalhadamente os di­versos alfabetos rúnicos com a simbologia específica e o significado mágico e oracular de cada runa, bem como a confecção do oráculo rúnico e os vários métodos de leitura. Além de apresentar esses conhecimentos básicos e neces­sários para qualquer pessoa que queira conhecer e usar as runas — para leituras, rituais ou meditações —, esse livro detalha o uso mágico das runas, como a pre­paração do praticante, do ambiente e dos objetos mágicos e pessoais, bem como as tradições mágicas, as cerimônias específicas e os sigilos rúnicos. Para aqueles que querem se iniciar e se dedicar a uma divindade, o capítulo final desse livro descreve todas as etapas e práticas necessárias para proteção, ativação energética e conexão com os Mundos de Yggdrasil.

Portanto, na presente obra, vou me ater ao relato sucinto da origem e dos usos das runas para familiarizar os leitores com a sua mágica sabedoria. Àqueles [71] que desejem se aprofundar nos seus mistérios e práticas específicas, recomendo que consultem Mistérios Nórdicos e outros livros indicados na bibliografia.

Origem
Popularizadas pelo uso oracular e consideradas erroneamente como um al­fabeto viking, as runas representam, na verdade, um complexo sistema espiri­tual, cujos símbolos e sons expressam conceitos transcendentais. Sua origem é envolta em mistério, como seu próprio nome indica: run em norueguês arcaico significa “segredo”, runa em alemão significa “sussurro”, enquanto os termos saxões e góticos roun, roon e raunen significam “segredo ou sussurro misterioso”, assim como a raiz indo-europeia ru (origem desses termos), que representa “algo misterioso”. As runas são uma expressão da espiritualidade da antiga Europa nórdica, mas atualmente pessoas de todas as origens étnicas sentem-se atraídas pelo seu uso e estudo. Mitologicamente, elas são associadas ao deus Odin que, no entanto, não as criou, mas obteve-as por meio de um sacrifício voluntário (como será descrito no capítulo sobre os deuses).

Historicamente, as primeiras inscrições rúnicas datam do século II d.e.c., mas acredita-se que elas já fossem usadas pelo menos um século antes disso. Existem várias teorias sobre o seu lugar de origem, mas a que tem maior respaldo histórico assinala sua semelhança com as antigas inscrições rupestres europeias (denomina­das escrita Hallrístinger), associadas à linguagem simbólica e mágica utilizada pelos xamãs do período Neolítico. Essa escrita era composta de símbolos pictográíicos de significado religioso — como círculos, rodas solares, suásticas, espirais, triângulos invertidos, árvores, mãos espalmadas, marcas de pés, barcos e ondas —, atribuídos aos cultos neolíticos da Deusa Mãe e da deusa solar. Foram encontradas runas gravadas nos períodos seguintes sobre pontas de flechas, escudos, elmos, medalhões, varetas de madeira, pentes, amuletos, ferramentas, pulseiras e chifres para beber. Posteriormente surgiram inscrições rúnicas sobre milhares de pedras memoriais e funerárias, espalhadas por toda a Escandinávia e em países como a Inglaterra, a Ale­manha, a Polônia, a Hungria, a Romênia, a antiga Iugoslávia e a Rússia. A maioria das inscrições tinha finalidades mágicas e visava atrair a sorte, afastar o mal, possibilitar o intercâmbio com os espíritos ancestrais e invocar a ajuda das divindades.

Do ponto de vista exotérico, as runas foram consideradas um sistema fonético e gráfico usado até o século XVII na Islândia e até o XIX nas regiões remotas da Noruega e Suécia.

Do ponto de vista esotérico, elas constituem um sistema simbólico complexo, que permite a transmissão de significados místicos e mágicos, além de ser usado [72] para transcrever palavras, conceitos e nomes (o que possibilitava a sua aplicação na magia talismânica).

O primeiro e mais conhecido sistema rúnico é o Futhark antigo, composto de 24 runas divididas em três famílias de oito. Seu nome deriva das primeiras seis runas que o compõem e se acredita que ele tenha surgido em torno de 200 a.e.c. Como as inscrições mais antigas que datavam dessa época foram feitas sobre osso e madeira, poucas sobreviveram, a não ser as mais tardias, gravadas sobre pedras e metais.

Devido às modificações linguísticas e dos conceitos mágicos, surgiu na Escandinávia no século VII um novo sistema rúnico denominado Futhark Novo, que reduziu o número de runas, porém preservou os elementos tradicionais e a se­quência original. Resultou assim o sistema simplificado composto de dezesseis runas, também divididas em três famílias, cada runa correspondendo a dois ou mais sons, o que dificultou a interpretação das inscrições encontradas posteriormente. Ao passar da Suécia para a Dinamarca, o Futhark Novo foi novamente reduzido, dando origem a outras duas versões, pouco usadas.

Das runas medievais que surgiram entre 1050 e 1450, foi desenvolvido o al­fabeto gótico, usado até o século XVIII, principalmente em cartas e manuscritos religiosos e profanos. As runas também foram usadas no lugar de números nos antigos calendários escandinavos confeccionados em madeira.

Apesar de a sua utilização na Escandinávia ter ocorrido também durante o Período Viking (800-1100 d.e.c.), os alfabetos rúnicos não são símbolos vikings, conforme afirmam algumas fontes literárias. Não somente a sua origem é ante­ rior, muito mais antiga, como também as runas representam arquétipos atemporais e sutis, que servem como portais mágicos de percepção sutil e expansão da consciência humana, tendo, portanto, amplas finalidades transcendentais.

Mudanças fonéticas ocorridas em outros dois países levaram ao acréscimo de novos símbolos aos alfabetos tradicionais. No litoral do mar do Norte, na antiga Frísia (constituída pela atual Holanda e a região oeste da Alemanha) surgiram duas runas novas para representar a mudança fonética do novo dialeto, dando origem assim ao alfabeto Futhork. Quando esse alfabeto foi levado por emigrantes para o leste da Inglaterra, a ampliação do vocabulário e as mudanças fonéticas lhe acrescentaram novos caracteres, dando origem ao sistema de 29 símbolos chamado Futhork anglo-saxão. Esse alfabeto foi bastante utilizado na gravação de moedas e pedras funerárias, em inscrições mágicas e em manuscritos religiosos e profanos. Por volta de 800 d.e.c., no norte da atual Inglaterra, foi criado outro sistema com maior número de caracteres — 33 —chamado alfabeto de Northumbria, que sofreu influências do alfabeto ogham celta, dele assimilando alguns conceitos. [73]

Além dos alfabetos citados, também existiam runas pontilhadas, interligadas, ramificadas e em ziguezague, que não faziam parte de um sistema organizado, mas eram usadas principalmente em mensagens criptográficas e secretas. Além do seu objetivo sagrado ou mágico (nas inscrições e nos talismãs), as runas eram usadas também para fins profanos, inscritas em varetas de madeira, cartas e manuscritos. O conhecimento rúnico mais profundo foi preservado na prática mágica do galdr, sons mântricos associados às runas e transmitidos pelos xamãs apenas aos seus discípulos. Independentemente do tipo de alfabeto, o traça­do dos símbolos rúnicos é sempre angular, sem cantos arredondados ou traços horizontais, em decorrência do material (madeira, osso, pedra, metal) e aos instrumentos utilizados para a sua gravação (machado, estilete, faca). O Futhark Antigo é o mais tradicional de todos os sistemas, mas os outros também podem ser usados para práticas oraculares e mágicas, se forem bem conhecidas a sua simbologia e sutilezas.

Depois da destruição dos monumentos rúnicos e da perseguição das antigas práticas e crenças ancestrais promovidas pelo movimento reformista do protestantismo, o uso das runas foi condenado, depois proibido e oficialmente substitu­ído pelo alfabeto latino. Durante a Idade das Trevas, os tribunais da Inquisição condenavam à fogueira todos aqueles que possuíssem runas ou usassem práticas mágicas ancestrais.

Apesar das perseguições da Igreja cristã, o alfabeto rúnico conseguiu sobre­viver clandestinamente até os séculos XVIII e XIX, nos emblemas e brasões dos artesãos e comerciantes, para marcar animais, carroças, barcos e moinhos; de­senhadas com o arado na terra antes do plantio; pintadas ou entalhadas nas vigas das casas; tecidas nas tapeçarias; gravadas em vidro, metal e joias; e usadas como decoração ou alfabeto nas pedras e nos monumentos funerários. As mandalas germânicas, pintadas em cores vivas sobre discos de madeira e cerâmica e usadas para a proteção dos ambientes ou como amuletos, eram embasadas no padrão hexagonal rúnico como a cruz ou a estrela de seis braços, símbolos encontrados na simbologia nórdica. No século XVIII, emigrantes alemães levaram essa tradi­ção medieval para os Estados Unidos, onde ela continuou a ser usada como arte decorativa, sem que se desse destaque ao seu significado mágico ou simbólico.

O uso das runas permaneceu também nas práticas de grupos ocultistas, nos costumes populares e no folclore, em localidades distantes da Suécia, Noruega, Islândia, e nas gravações dos monumentos funerários. O Movimento Teutônico reavivou o estudo das runas, principalmente para fins mágicos e simbólicos e vários livros foram escritos no período entre as duas guerras mundiais. No entanto, [74] assim como foi relatado anteriormente, a sua associação com o nazismo as mergulhou novamente no ostracismo depois da Segunda Guerra Mundial, o que resultou na negação dos seus atributos, valores, poderes e efeitos. Foi ape­nas a partir da década de 70 do século passado que o interesse pelo simbolismo e uso oracular mágico das runas foi reavivado, disseminando-se pela Inglaterra e Estados Unidos e chegando até a América do Sul e a Austrália.

Uso oracular das runas
A aquisição de um conjunto de runas não garante que o interessado saiba usá-las, mesmo seguindo as instruções resumidas que costumam acompanhá-las. O iniciante precisa entrar em sintonia e ressonância com as imagens primordiais que as representam e que se originaram do complexo e profundo sistema de crenças e conceitos dos povos nórdicos.

As runas representam imagens e símbolos arquetípicos que atuam como uma forma sutil de comunicação entre os vários aspectos do ser. Cada um dos caracteres de qualquer um dos alfabetos possui uma imagem arquetípica, um simbolismo complexo — oracular e mágico — e vários significados e associações, no nível físico e espiritual. Apesar da valorização dos assuntos ligados às condi­ções ambientais e às preocupações existenciais dos povos que lhe deram origem, a sua aparente simplicidade oculta uma riqueza espiritual profunda. As runas atuam como chaves que despertam ou ampliam o potencial latente da percep­ção intuitiva, sintonizando o buscador com os fluxos sutis de energia cósmica, telúrica e ctônica.

Toda a tradição e prática rúnica eram transmitidas antigamente por via oral, por isso os poemas e encantamentos desempenhavam um papel importante no aprendizado. O Futhark foi sistematizado de maneira conceituai e gráfica para transpor as fórmulas vocálicas e a sabedoria arcaica nos versos que acompanham cada runa, cujas metáforas representam o significado essencial e conciso de cada símbolo. A cada runa corresponde uma letra (vogal ou consoante) e um som mântrico (galdr), que, juntos, representam a qualidade vibratória que reverbera no campo sutil. Além da complexidade simbólica das runas, o aprendiz falante da língua portuguesa vai enfrentar o desafio da pronúncia correta, o que moti­vou o guia apresentado no Apêndice.

Por não se conhecerem os métodos de leitura rúnica usados pelos povos nórdicos — além daquele citado pelo historiador romano Tácito no seu livro Germânia — e de algumas referências nas sagas e lendas, os atuais métodos oraculares contemporâneos são frutos dos estudos e das experiências de escritores, [75] estudiosos e praticantes. Fica ao critério do praticante — e depende da afinidade daqueles que desejam aprender e experimentar os métodos propostos — esco­lher aqueles que lhes parecem mais fáceis ou compatíveis com seus interesses e conhecimentos. Assim como no tarô, a comprovação do método é obtida apenas com a prática e a experiência. É preciso conhecer profundamente os amplos significados e correspondências de cada runa, as palavras-chave, os seus aspectos construtivos e luminosos, bem como os sombrios e negativos (correspondentes à sua posição correta ou invertida em uma leitura).

O uso oracular das runas tem origem nas tradições orais do xamanismo nórdico; sua finalidade era oferecer soluções para os desafios cotidianos e orientar as atitudes e decisões das pessoas. As runas definem intenções e ações individuais sem detalhar os resultados, que dependem das escolhas, decisões e atitudes tomadas. A divinação rúnica não é fatalista, por levar em conta o fluxo permanente das energias cósmicas, dando margem assim ao exercício do livre-arbítrio, res­trito, no entanto, pelos desígnios do wjrd (destino) individual e grupal. Como as runas atuam nos níveis físico, mental e espiritual, elas não definem o que irá acontecer, mas indicam a direção das ações específicas e os efeitos/consequên­cias potenciais, seguindo assim a Lei das Nornas.

A eficácia do uso oracular das runas independe do sistema de crenças do consulente, mas do conhecimento e do grau de preparação do conselheiro. Para o apren­diz é indispensável o conhecimento do contexto espiritual, filosófico, simbólico e mágico da cultura que lhes deu origem. Mesmo tendo sido usadas no Período Viking, a sua origem e fundamentos são oriundos de uma época muito mais remota e seu uso arcaico visava a conexão espiritual em um contexto mágico e não somente a busca de orientações de ordem prática, como previsões sobre viagens, oferendas e sucesso nas guerras, como foram usadas pelos vikings.

Uso mágico das runas
A prática da magia —independentemente da sua natureza e propósito — é ba­seada no conhecimento e no uso de efeitos sincrônicos, atraindo, direcionando ou afastando energias existentes, sem criar algo preexistente, apenas proporcionando “coincidências” favoráveis ao mago. Todo tipo de magia deve ser praticado com conhecimento e responsabilidade, avaliando-se com honestidade e imparcialidade os motivos reais para se desejar, querer e buscar uma mudança ou realização.

Um verdadeiro mago jamais usa magia negativa ou destrutiva, pois, quando se diminui a força vital de uma pessoa e se interjere na teia cósmica que interliga todos os seres, o rebate energético atinge inexoravelmente aquele que iniciou ou ativou o processo. [76] Por­tanto, em qualquer operação mágica deve-se fazer previamente uma profunda avaliação dos motivos e razões para o seu uso e a sua influência sobre o meio ambiente, tendo o cuidado de agir sempre para o “bem de todos e do todo” e principalmente, lembrando da antiga advertência rúnica: ”É melhor não pedir do que pedir demais, pois um presente requer outro presente”.

O principal objetivo da magia rúnica (nórdica ou teutônica) é favorecer a integração do ser — corpo, mente e espírito — e permitir a expansão da consci­ência e da ascensão da alma. Para aqueles que se acham preparados para praticar a magia rúnica são indispensáveis as seguintes condições:

uma profunda compreensão do micro e do macrocosmo e da complexa estrutura psicoespiritual do ser humano; um amplo conhecimento da cosmologia nórdica, dos significados, atributos e correspondências rúnicas, antes da preparação e da prática mágica propria­mente ditas; lembrar que a magia nórdica é eminentemente prática e centrada em va­lores transcendentais e ecológicos, respeitando os ritmos e ciclos universais, naturais, biológicos; ela tem como objetivo mudar a mente consciente e incons­ciente do praticante, para melhorar a tessitura do seu wyrd. O conhecimento dos princípios transcendentais, dos conceitos e valores da tradição nórdica, bem como uma adequada preparação individual são requisitos essenciais para a prática da divinação e da magia rúnica.

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Hou Yi, o arqueiro que derrotou nove sóis

Conforme conta a lenda, durante o reinado do imperador Yao, dez Sois apareceram no céu ao mesmo tempo originando gravíssimas secas. Que teria acontecido? Xibe, a Mãe-Sol, tinha dado à luz dez filhos. Moravam todos juntos no lago oriental Tanggu, para além dos confins do mar, e como não houvesse dia em que não nadassem e brincassem nas águas do lago, estas estavam sempre escaldantes durante todo o ano. No centro do lago crescia uma - enorme arvore chamada Fusang, com mais de mil metros de altura e mil braçadas de circunferência e com dez ramos, aonde os dez Sois iam sempre descansar. Mas os Sois não passavam o tempo divertindo-se em vão, pois, por ordem do Imperador Celestial, todos os dias um deles tinha de trabalhar, a fim de iluminar o mundo dos humanos. Ao que estava de guarda, competia-lhe levantar-se a oriente de madrugada, atravessar o largo céu e pôr-se a ocidente no crepúsculo, emitindo durante a sua paisagem luz e valor ao mundo. Os dez irmãos revezavam-se constantemente nessa missão a cada dez dias. O mundo de então era maravilhoso! Tinha imponentes montanhas, impetuosos rios, densas florestas, viçosas e coloridas vegetação e flores, e terras férteis arroteadas a custo de suor... Em resumo, para os dez jovens Sóis a terra era bem mais divertida do que o lago oriental Tanggu.

Todavia, os Sois tinham poucos ensejos para apreciarem juntos a esplendorosa paisagem terrestre, pois, por ordem do Imperador Celestial, cada qual podia somente descer a terra uma vez em cada dez dias.

Os Sois eram muito travessos e um dia conversavam uns com os outros quando se puseram a lastimar.

- Este lago aborrece-me muito. Estou farto de ficar aqui nove em cada dez dias. Já não posso aguentar mais! - queixou-se um dos Sois.

- É verdade! Estamos presos a este lugar desinteressante. O Imperador Celestial controla-nos tão à risca que não chegamos a ter nenhuma liberdade - acrescentou um outro.

- Eu, por mim, penso que o regulamento é justo porque o mundo humano não poderia suportar o valor se todos ai fossemos juntos - retorquiu um deles.

Ouvindo esta opinião, o Sol que tinha falado primeiro ficou muito zangado:

Justo?! Justo?! Acho que não é nada justo! deveríamos era poder divertirmo-nos a nosso bel-prazer, pois de outro modo, contidos entre estas quatro paredes, todos os dias, a vida realmente perde o sentido. A meu ver, a partir de amanha, deveríamos ir todos juntos aonde bem quiséssemos.

- Sim, tem razão. Vamos! - ecoaram em uníssono as vozes dos outros.

Assim, no dia seguinte, e a despeito das proibições do Imperador Celestial, os dez Sois deixaram o lago Tanggu e foram despreocupadamente brincar nos céus sobre o mundo humano.

Quando um Sol aparecia no céu a terra era iluminada e aquecida de modo normal, mas com dez Sois surgindo ao mesmo tempo a situação tornava-se totalmente diferente. Em breve o mundo apresentou um aspecto desolador, pois a partir de múltiplos e diferentes ângulos os Sóis derramaram a sua luz sobre a terra iluminando-a completamente e deixando-a sem nenhuma sombra. Devido a forte incidência dos raios solares a temperatura subiu vertiginosamente, os rios secaram, a vegetação e flores murcharam, e as plantações ressecaram. Devido ao extremo calor, os seres humanos respiravam ofegantes, acabando por ter de irem se esconder em grutas.

Completamente alheios a extensão da calamidade que desencadeavam na superfície do planeta, os Sois vadiavam, brincavam e até se contentavam com as suas travessuras.

O imperador Yao, que reinava então na China, era um homem de hábitos extremamente frugais. Habitava em uma cabana, comia arroz não-refinado e bebia sopa com ervas silvestres. Tomando a peito os sofrimentos do seu povo, decidiu ir suplicar aos Sois que se afastassem imediatamente do mundo humano, caso contrário, a população não poderia sobreviver, mas não querendo saber do que ouviam, os Sois continuaram a brincar sem terem a mínima intenção de voltarem para o lago de Tanggu.

O imperador terrestre não teve então outro remédio, senão recorrer ao Imperador Celestial, o qual, ficando furioso ao saber que os Sois tinham transgredido as suas instruções provocando enormes calamidades no mundo, mandou chamar imediatamente o guerreiro Hou Yi, e disse-lhe:

- Os filhos da mãe Xihe violaram a minha ordem. Eles agem como irresponsáveis, perturbando a vida normal dos habitantes do mundo. Quero que os castigues com este arco vermelho e estas dez flechas brancas que te dou.

Assim, armado com o arco e as flechas e por encargo do Imperador Celestial, Hou Yi desceu ao mundo humano.

Ao chegar à terra, Hou Yi ficou perplexo com os males que o povo passava sob o brilho dos dez Sois e, levantando os olhos, furioso, tirou o arco que levava ao ombro e preparou uma flecha que, enérgica e certeiramente disparou contra eles. A flecha atravessou rapidamente os ares atingindo um dos Sois em cheio. Ouviu-se então um estrondo celeste, e o Sol, atingido pela flecha transformou-se em uma bola em chamas despedaçando-se no solo. Espantados, os outros nove tentaram fugir o mais depressa que puderam, mas Hou Yi, com tiros rápidos e certeiros atingiu um após outro. Quando o guerreiro tirou a sua ultima seta, o imperador Yao deteve-o e disse-lhe:

- Pare! Não dispare mais! A luz solar é muito proveitosa ao mundo humano. O problema que existia é que dez Sois era demasiado para as necessidades de sobrevivência humana, mas agora, como só resta um, o melhor é não disparar mais.

Acenando positivamente com a cabeça, Hou Yi guardou então a sua arma. O ultimo Sol estava pálido de medo!

Com a morte dos nove Sois, a temperatura normal reestabeleceu-se sobre o mundo humano, gradualmente a população saiu das grutas e recomeçou a cultivar os terrenos, a caçar e a reconstruir casas, levando alegremente a sua vida pacifica de outrora.

Apos ter liquidado os nove Sois, o herói Hou Yi preparava-se para voltar as alturas, quando os habitantes da terra lhe pediram insistentemente e muito reconhecidos, que passasse uns dias de folga juntamente com eles e que, como na terra ainda existiam muitas outras calamidades, se fosse possível, o herói os ajudasse a eliminá-las.

Hou Yi decidiu satisfazer-lhes o desejo.

Com a destruição dos noves Sois, e depois de o planeta ter-se completamente recomposto da grande secura, Hebe, o demônio das aguas, começou a intensificar as suas perniciosas atividades. Assumindo a forma de um dragão branco, cavalgando sobre uma torrente de agua, o demônio viajava constantemente por toda a parte provocando enormes inundações, nas regiões por onde passava, a força da corrente arrastava homens e gado, destruindo casas e desenraizando plantações e árvores. Quando a noticia chegou aos ouvidos do imperador Yao, este ficou muito inquieto e foi imediatamente pedir ajuda ao herói Hou Yi, que generosamente lhe prometeu fazer o melhor que pudesse.

Assim, Hou Yi resolveu ir para a margem de um no e esconder-se atrás de um grande salgueiro, ficando a espera do aparecimento de Hebe, o demônio das aguas. Não tardou muito para que visse nadando em sua direção um dragão branco, acompanhado por altas vagas e desencadeando uma enchente que transbordava das margens do rio. Foi então que Hou Yi disparou a ultima flecha que lhe restava e atingiu o olho esquerdo do dragão branco. Ouviu-se um grito estridente e o animal mergulhou nas profundezas.

Ferido, o demônio das aguas foi queixar-se ao Imperador Celestial:

- Eu vivo no rio e nunca fiz nenhum mal a Hou Yi, no entanto, ele feriu-me no olho. Peso-lhe que justiça seja feita e que se vingue deste crime por mim, caso contrario, de que servem os princípios e a lei?

Mas o Imperador Celestial, estando a par do que se passava, criticou-o severamente:

- Sendo um demônio das águas, podias servir o povo, em vez de vacilares por toda parte e molesta-lo com tempestades e cheias! O teu procedimento mereceu bem o castigo que Hou Yi te aplicou!

Não tendo razão para se justificar, Hebe, o demônio das aguas, partiu sem dizer mais nada para o fundo do rio onde habitava, sem mais coragem para criar futuras desordens no mundo humano. Rodeado de afeição e respeito, Hou Yi continuou vivendo feliz na terra, sempre correndo riscos a bem da humanidade e perseguindo animais ferozes nas florestas e montanhas. Nesse tempo, o mundo era infestado por vorazes feras selvagens que deambulavam e dizimavam os homens - isto, porque a humanidade estava mal equipada para as poder enfrentar. Hou Yi não parava de correr, transportando o seu arco e flechas às costas, exterminando animais selvagens e aves ferozes.

Na planície central da China, Yayu era uma fera muito conhecida por sua bestialidade. Segundo se dizia, tinha o corpanzil de um boi coberto de longos pelos vermelhos, uma cara humana, patas de cavalo e o seu rugido, dir-se-ia, o choro de uma criança: melancólico e chocante. Tinha uma enorme força, galopava mais velozmente que todos os outros animais e ninguém escapava às suas vorazes mandíbulas. Por vezes, pela calada da noite, a fera irrompia no seio das tribos destruindo as casas e devorando as pessoas. Eram incontáveis as pessoas que ela tinha comido!

Tomando em conta os interesses do povo, Hou Yi tomou a seu cargo destruir a fera Yayu.

Assim, um dia, e de acordo com as informações dadas pelos caçadores, o herói foi procurar a fera em uma alta montanha. Chegando a um vale das redondezas deparou-se, repentinamente, com um monte de ossos humanos. Levantou então a cabeça e avistou ao longe a fera devorando uns homens no cimo de um penhasco. Furioso com o que via, o herói disparou uma flecha contra a fera acertando em cheio na cabeça do animal fazendo-o rolar pela montanha abaixo soltando roucos gemidos. A partir dessa altura, os habitantes dessa região puderam viver descansados!

Em uma fértil planície do sul da China, habitava um animal monstruoso com dentes de três metros de comprimento e pontiagudos como formões. Os homens deram-lhe a alcunha de "dentes-formão". Quando as pessoas atravessavam os rios ou lagos onde ele habitava, por vezes o animal lançava-se de súbito sobre elas, levando-as para o fundo das aguas, onde as mastigava e depois as engolia. Dir-se-ia ser quase impossível vencê-lo, porque para além dos seus enormes dentes aguçados, tinha um corpo revestido de uma pele tão dura e tão espessa como uma carapaça indestrutível contra todas e quaisquer facadas ou machadadas. Felizmente Hou Yi era um exímio arqueiro porque um dia o "dentes-formao" lançou-se contra ele abrindo a sua enorme bocarra para o devorar e, se não fosse o herói ter acertado a garganta do animal em cheio com uma flecha, de terra terminado ali os seus dias.

Segundo conta a lenda, no sul da China corria um rio chamado Xiongshui onde habitava um temível monstro aquático chamado Jiuying que matava todos os incautos que se aproximavam das suas margens. O animal tinha nove cabeças e cuspia constantemente fogo e agua, sendo tão feroz que ninguém se atrevia a querer derrota-lo. Se por acaso alguém o ferisse ou lhe tentasse cortar uma das suas cabeças, o monstro não morria, mas, pelo contrario, lançava-se com uma fúria redobrada sobre o seu inimigo. No entanto, Hou Yi, ao encontra-lo disparou nove flechas tão rápidas e certeiras que o atingiram nas nove cabeças, vindo o animal a morrer sem mesmo ter tempo para reagir.

Pouco tempo após a morte do monstro Jiuying, nas margens do lago Dongting, não muito longe do rio Xingshui, surgiu uma jiboia gigante, de um enorme comprimento e grossura, e com uma boca tão grande que era capaz de engolir um elefante por inteiro, só vomitando os ossos do paquiderme depois de o ter digerido durante três anos. Segundo se dizia, estes ossos regurgitados eram os melhores e mais eficazes medicamentos para curar todas as doenças dos órgãos internos. Era realmente um ser terrível que despovoava todos os locais por onde passava, pois deglutia todos quantos conseguisse alcançar. Foi só apos uma renhida luta que Hou Yi a conseguiu matar, sendo que os ossos da jiboia gigante transformaram-se em uma montanha que veio a se chamar de Baling.

Depois de ter morto todas as feras do sul da China, Hou Yi voltou para o norte pela região leste. Estava ele atravessando a montanha Verde quando os seus habitantes lhe disseram que a região estava infestada por uma ave de rapina chamada Dafeng, a qual agredia as pessoas e perturbava a vida normal da população. Esta ave tinha um grande porte e quando em voo a amplitude das asas chegava a cobrir metade do céu. O bater das suas asas desencadeava fortes tufões que chegavam a desenraizar milhares de arvores e a destruir centenas de casas; homens e gado eram frequentemente vitimas da sua voracidade. Hou Yi compreendeu que a ave tinha um enorme poder e podia voar para muito longe com grande velocidade e que, com uma só seta, não seria possível mata-la, pois se ela fugisse ferida seria quase impossível liquidá-la mais tarde. Consciente de que tinha de acabar com a ave de uma só vez, depois de muito pensar, Hou Yi encontrou um meio: primeiro, amarrou uma corda a haste da seta; depois, disparou uma flecha atingindo a ave em cheio e prendendo-a de modo a não a deixar fugir; e finalmente, obrigando-a a pousar, decepou-a com a sua espada. O exemplo de Hou Yi passou a ser seguido por todos quantos tencionavam apanhar animais selvagens e aves possantes.

Mais tarde, Hou Yi foi para a aldeia de Sangcun, onde matou o colossal javali Fengxi e o lobisomem Fenghu que se podia metamorfosear de felino para humano.

Assim, gradualmente, o herói Hou Yi, após a sua inicial chegada e estabelecimento no mundo humano, veio a ganhar méritos sem par por parte de todos os povos. Certamente que sob o excesso do calor dos dez Sois escaldantes, as pedras já se teriam fundido em uma massa uniforme e todas as outras coisas a superfície da terra estariam derretidas, todo o planeta provavelmente estaria reduzido a cinzas, se não fosse Hou Yi ter infalivelmente atingido os noves Sois que agiam tão arbitraria e descuidadamente no céu. E que grandes ameaças seriam para a vida humana, se todos aqueles animais e aves malévolas não fossem mortos pelo herói?!... Por isso, de geração em geração, os povos continuam a recordar-se e a venerar o herói Hou Yi sempre com o maior respeito e grande admiração.

 

Mitologia Chinesa
SERES DIVINOS
MITOS E LENDAS
O assédio a Vesta

Uma das divindades romanas mais populares era Vesta, a deusa do fogo e da lareira, correspondente à grega Héstia. A lareira era o centro da vida romana e, portanto, Vesta era uma das divindades mais importantes. Diferentemente das deusas clássicas, ela era virgem e resguardava a virtude com afinco. Uma história narra como sua famosa castidade quase foi comprometida pelo deus Priapo.

A grande deusa Cibele convidou todos os imortais para uma Festa. Havia comida em abundância e todos se divertiam. Muitos convidados se embebedaram, inclusive o velho sátiro Sileno, que aparecera sem ser convidado. Com o passar da noite, a celebração foi ficando mais silenciosa, e vários convidados, exaustos das festividades, caíram no sono. Vesta foi uma delas.

Caminhando pela multidão, o deus
da fertilidade Priapo avistou Vesta adormecida. Tomado pelo desejo, aproximou-se com a intenção de tirar-lhe a castidade. Já prestes a locá-la, o burro de Sileno, que estava proximo, Berrou bem perto do ouvido de Vesta. Ela acordou, os outros deuses acorreram e Priapo fugiu envergonhado. A virtude de Vesta havia sido salva.

As virgens vestais

Os romanos adoravam Vesta em seus lares, mas havia também um templo do Estado para ela - uma construção circular no coração de Roma, para lembrar o povo das primeiras cabanas dos primórdios da cidade. No templo, tanto a deusa como o poder eterno de Roma eram representados pela chama mantida sempre acesa por jovens e castas sacerdotisas conhecidas como Vestais. Essas mulheres viviam em casas perto do templo e serviam-no por 30 anos. Depois podiam retomar uma vida normal. Eram vistas como pessoas sagradas e, se falhassem na castidade, eram confinadas em uma câmara subterrânea, onde morriam de inanição.

Mitologia Romana
Esaú e Jacó

- Lembra, Isaac? Foi exatamente aqui que, de certo modo, nos conhecemos - disse um dia Rebeca, à beira da fonte de Lahai-Roí, encostando a cabeça ao ombro do marido. Isaac sorria ao pensar no estratagema inventado pelo servo de seu pai, quando fora arrumar a sua esposa na distante terra de Haram. - Verdadeiramente tudo se deu conforme os planos dele - disse Isaac, dando novas graças ao Senhor. Eliézer, com efeito, após haver orado ao Senhor, conseguira identificar em Rebeca aquela que a providência havia destinado para ser a esposa do filho de Abraão. E foi instalados nas proximidades da velha fonte, na cidade natal de Rebeca, que ela e seu marido tiveram a ventura maior de sua vida. Rebeca, depois de lamentar-se seguidas vezes pela sua esterilidade, chegou a provocar em Isaac uma dolorosa pena, que o fez clamar certa noite ao Senhor, sob o brilho daquelas mesmas estrelas que Abraão tantas vezes vira como uma metáfora de sua futura descendência.

- Faze, meu Pai - disse ele, prostrado sobre a areia -, com que a minha doce Rebeca possa conceber, também, um filho!

Na mesma noite Isaac dormiu com sua esposa, e desta união veio o fruto de seu amor. Na verdade, dois frutos, pois desde os primeiros meses da sua gestação Rebeca sentia em seu ventre os espasmos de algo parecido a uma luta.

Assustada, ela clamava aos céus:

- Oh, Senhor! Soubesse eu quão ai de espera me aguardava!
Deus, entretanto, respondeu às suas queixas, dizendo:

- Dois povos se debatem em teu ventre. Eles disputarão um com o outro, de tal sorte que ao fim o mais fraco estará submetido ao mais forte.

Rebeca teve de sofrer o restante da gestação com todo o ânimo que pôde reunir, até que finalmente chegou a hora de lançar os dois irrequietos produtos do seu ventre para a luz do dia. O primeiro a sair foi um garoto de cabelos ruivos, que por isto mesmo mereceu o nome de Esaú (ou Ruivo). Já o segundo, que saíra com uma das mãos agarradas ao tornozelo do outro, como que para tentar tomar-lhe a dianteira, era muito diferente, e recebeu o nome de Jacó, ou seja, “aquele que domina".

Com o passar do tempo, as diferenças entre ambos foram se acentuando: enquanto Esaú o primogênito, era amante da caça – o que, por alguma razão estranha, fazia dele o predileto de seu pai -, Jacó era um espírito contemplativo, o que o tornava o predileto de Rebeca.

Rebeca, na verdade, identificava em Esaú, com seus modos rudes e seu corpo recoberto por um espesso pêlo ruivo, uma espécie de sucedâneo de Ismael, o turbulento tio dos gêmeos, que vivera sempre em meio as rudes tribos do deserto.

- Jacó, sim, puxou a mim e a Isaac – dizia ela -, e por isso deveria caber a ele o direito de herdar a bênção paterna.

A esposa de Isaac, com o passar dos anos, fora perdendo a sua candura de moça virgem e adstrita à autoridade dos pais, para adquirir a frieza do instinto maternal ameaçado. Sim, porque Esaú, embora saído de suas entranhas, tinha pouco ou quase nada do seu sangue, e era com certo asco que sentia o cheiro deste, quando ele retornava de suas correrias sanguinárias pelos campos, suarento e pegajoso.

Jacó, entretanto, apesar do gênio mais manso, também havia herdado a lábia tardia que sua mãe desenvolvera (porque uma mulher sem filhos é uma coisa, e a mesma, virada em mãe, é outra). Foi assim que, certo dia, estando Jacó sentado diante de uma pequena fogueira, a preparar sua comida, viu chegar seu irmão Esaú, completamente exaurido.


- Jacó, que bom que você está ai a cozinhar – disse, como pêlo ruivo lustroso. - O que temos para matar a nossa fome?


- Tenho uma suculenta sopa de lentilhas e um pedaço de pão fresco – disse o irmão, de olhos fitos nas labaredas do fogo, que brotando debaixo da caldeira pareciam dedos amarelados a suspendê-la sobre os gravetos.

- Deixe-me sentir o aroma – disse o Ruivo, aproximando o nariz lustroso de suor da nuvem esbranquiçada que se erguia da caldeira. - Hum! Vejo que pôs também alguns tomates!

Jacó sentiu o cheiro do irmão, e isto o irritou profundamente.


- Esta sopa só dá para um – disse ele, com franqueza.


- Não diga tal - disse o irmão. - Há na panela o bastante para dois.


- Comerei, então, por nós dois – respondeu secamente Jacó.


Esaú estava tão fraco da infrutífera caçada que teve de apoiar-se ao tronco de uma árvore, antes de retrucar:


- Estou com muita fome, Jacó.


- Eu também – disse o irmão, de maneira fria.

Esaú sentiu a água crescer em sua boca. a ponto de esconder pelos cantos dos lábios.

- O que quer em troca de um prato destas saborosas lentilhas? – disse ele, afinal.

- Quero o seu direito de primogenitura – respondeu Jacó, sempre de cócoras. Esaú refletiu longamente e terminou com uma conclusão pouco sensata.


- Está bem, mais vale estar vivo sem a primogenitura do que estar morto e enterrado junto com ela.


- Jure, então, pelo Senhor de nosso pai, que é assim que você quer.
Só depois de Esaú jurar solenemente que cedia o seu direito em troca do alimento foi que Jacó se retirou, deixando o irmão a sós com a caldeira fumegante.

Isaac envelhecera assustadoramente em seus últimos anos de vida. Transformado em um velho praticamente cego, vivia recluso em sua tenda. Rebeca, sua esposa, apesar de também ter se transformado em uma velha, ainda guardava intactos os sentidos.

- Preciso vigiar todos os atos de meu amado Isaac, antes que ingresse também na caverna de Makpelá - dizia ela, todo dia, ao levantar-se.

Um dia, então, escutou o velho Isaac chamar por seu filho dileto. - Esaú, venha até mim! – berrava ele, de dentro da tenda.


O filho peludo surgiu no mesmo instante.


- Aqui estou, meu pai - disse ele, pressuroso.

- Vá até o campo, mate um animal e faça para mim um assado saboroso - disse o velho. – Sinto que o momento de minha morte se aproxima com celeridade e quero, antes de partir, dar a você minha bênção.

Esaú tomou do arco e das flechas e saiu campo afora, como um alucinado.

Rebeca, contudo, escutara tudo do lado de fora, e tão logo vira o filho sumir-se, correu até Jacó, que estava a meditar, e lhe disse, não sem rudeza:

- Jacó, venha até a minha tenda!
Jacó seguiu a mãe, e, sob o abrigo das espessas lonas, ela disse:

- Chegou a hora de endireitarmos as coisas por aqui - disse ,com determinação. - Vá agora até o redil e mate dois cabritos. Depois prepararei um belo assado que você levará ao seu pai, que se ensaia já para deixar este mundo.

Assim que Jacó cumpriu as ordens, ela o tomou novamente pelo braço e o fez vestir as vestes de seu irmão.

- Mas minha mãe - disse o atônito Jacó -, como poderei enganar as mãos videntes de meu pai?

Rebeca, que já havia pensado no caso, tomou de alguns pedaços de pêlo de cabra e prendeu-os ao redor dos braços e do pescoço do filho.

- Pronto – disse ela, cheirando-o e apalpando-o. – O cheiro é o mesmo, e a pele é a mesma. Vá e cumpra o seu papel, que é o de ser Esaú.

Jacó, carregando nas mãos a terrina com o alimento, caminhou de maneira vacilante até a entrada da tenda do velho Isaac.

- Pai, posso entrar? - disse, engrossando um pouco a voz.


- Quem está aí? – disse o velho, inclinando a orelha direita para a entrada.


- Sou Esaú, seu filho, que retorna com a caça olorosa.


- Entre, de qualquer modo, ainda que eu saiba que não é meu filho Esaú.


Jacó paralisou-se. Por um instante sentiu vontade de jogar a terrina para o alto e sair correndo. Mas agora era tarde, não podia mais recuar, e assim, avançou.


- O que diz, meu pai? – falou, fazendo um grande esforço para tornar sua voz parecida com a do irmão.


- Como você caçou tão rápido? – disse o velho, sem lhe dar ouvidos.

- A caça veio até mim, por obra de Deus.


Isaac silenciou. Depois disse:


- Largue tudo e venha até mim.


Jacó obedeceu.


- Vejamos se você é mesmo meu filho Esaú – disse o velho, tomando  mãos de Jacó, recobertas pelo pêlo espesso da cabra.
Depois de alisar longamente as mãos e de espichar alguns fios enovelados, o ancião quase cego pareceu convencido.
- Está bem. O cheiro também me parece o mesmo – acrescentou ele, dilatando as grandes narinas avermelhadas.
- Dê-me, agora, a comida, pois o cheiro está delicioso.

Jacó deu de comer ao pai e baixou reverentemente os olhos ao ver os pedaços de carne serem consumidos pela velha boca.


- Estava muito bom – disse o velho, ao fim. - Agoradê-me de beber.


Jacó serviu-lhe um grande copo de vinho, que o velho repetiu.
Depois que esteve novamente recostado sobre os travesseiros, Isaac disse:

- Agora, Esaú, aproxime sua cabeça peluda da minha destra, eis que vou abençoá-lo.
E assim o fez, vertendo sobre a cabeça do falso Esaú a sua bênção poderosa e fazendo deste o último herdeiro legitimo e senhor da casa dos descendentes de Abraão.

- Que os filhos de sua mãe se prostrem diante de você! - disse ele, encerrando a bênção fatal.

Jacó, então, se retirou, e o fez em boa hora, pois nesse instante Esaú retornava trazendo a sua caça, que ainda precisava cozinhar.

Durante um bom tempo preparou a carne até que, estando tudo pronto, dirigiu-se com a sua terrina à tenda do pai.

- Com licença, meu pai - disse ele. - Cá estou com a delicia prometida.


- Esaú, outra vez? - disse o velho, suspendendo a cabeça. - O que você ainda quer? Já não lhe dei a minha bênção?


- Desculpe, meu pai, mas não o entendo.


Rebeca viu ao longe o pano da entrada da tenda descer. Um ligeiro e abafado altercar de vozes soou e então ela compreendeu que o filho enganado já era sabedor de sua constrangedora e irremediável situação.

- Traído! - berrou Esaú, arrancando os cabelos avermelhados. - Miseravelmente enganado!

Ainda assim tentou arrancar uma benção do velho pai, mas este não podia tomar.

- Você viverá desde hoje sob o jugo do seu irmão, até que ele, em suas andanças, se rompa naturalmente.

Foram estas as palavras mais suaves que Isaac encontrou para dizer ao filho mais amado.

Depois disso Esaú silenciou, pois sabia que, enquanto o pai vivesse, ele não poderia tirar a desforra – que outra não era se não matar o irmão usurpador.

Rebeca, no entanto, sabia perfeitamente dos propósitos do Ruivo. Por isso chegou até Isaac e disse:

- Isaac, não é bom que Jacó esteja a misturar-se com essas mulheres da qui. Faça como seu pai fez com você: não permita que seu filho se case com uma cananéia.

- Jacó não desposará nenhuma filha de Canaã, como Esaú – disse o velho cego.

Na verdade o Ruivo casara-se havia tempos com duas mulheres do lugar, as quais, desde então, infernizavam a vida de Isaac e Rebeca.

- Mande Jacó à terra de Abraão para que lá tome por esposa uma das filhas de seu irmão Labão - disseIsaac.

E assim Jacó partiu escondido, a fim de evitar a ira de Esaú. Quanto a Rebeca, a causadora de tudo, despediu-se do filho sem saber que jamais tornaria a revê-lo.

Mitologia judaico-cristã
A estória de dois rios

(Povo Mapuche Picunche)

Neuquén e Limay eram dois rapazes muito amigos, filhos de chefes de pueblos, e por isso as pessoas os chamavam de inalonkos. Não moravam na mesma região, porém: um deles vivia ao norte, outro ao sul. Seus pais eram aliados e ambos tinham orgulho dos filhos, considerados grandes caçadores e guerreiros. Sempre que podiam, eles saíam juntos para caçadas. E foi durante uma delas, quando perseguiam a trilha de um guanaco nas cercanias do Lago Huechulafken, o Lago Alto, que Neuquén e Limay ouviram uma estranha canção soar, levada pelo vento.

Os dois caçadores abandonaram o rastro do animal e se puseram a buscar a origem do som. Para sua surpresa, junto às margens do lago deram com a mais bela jovem que jamais haviam vislumbrado. Tímidos, acercaram-se da moça, e Limay perguntou:

- Como te chamas ?

- Raihué - disse ela, baixando os belíssimos olhos negros.

Após deixarem a jovem e voltarem às suas casas, os dois rapazes sentiram que sua amizade estava abalada: [81] as serpentes do céu aninhavam-se em seus corações. Pois era claro que ambos haviam se apaixonado loucamente pela bela Raihué. Começaram a se afastar e não mais saíam juntos para caçadas. Seus pais perceberam esse distanciamento dos filhos, mas não sabiam qual o motivo; temendo que sua inimizade crescesse e que isso abalasse a aliança entre seus povos, debateram o problema e resolveram ir consultar uma machi, mu­ lher xamã que era muito sábia.

A machi explicou aos pais de Neuquén e Limay que os dois amavam a mesma moça e sugeriu que, para decidir a questão, submetessem os dois a uma prova: aquele que a vencesse se casaria com ela. Decididos a pôr em ação a sugestão da xamã, os chefes indagaram a Raihué:

- O que é que mais gostarias de possuir?

- Uma concha, para encostar no ouvido e escutar as ondas - respondeu ela.

Os dois então chamaram os filhos e anunciaram a prova. Ambos deveriam partir, cada um de sua morada, até o mar distante, em busca da concha. O que primeiro trouxesse o presente a Raihué seria seu marido.

Chamaram a m achi para ajudar, e ela pediu aos deuses que transformassem os dois rapazes em dois rios. E assim se fez: Neuquén partiu do Norte e Limay partiu do Sul, ambos feitos correntes de água, atraves­ sando os terrenos acidentados que levavam ao mar. Porém, o que nem os chefes e nem a machi sabiam era que o vento, que se chamava Curef, sentiu-se ofendido por não ter sido consultado naquele caso. Fora ele a levar o canto da jovem aos dois apaixonados! Como ousavam deixá-lo de fora da situação ? [82]

Então, Curef resolveu não permitir que a história acabasse bem, e foi logo ventar maldades aos ouvidos de Raihué.

- Jamais verás Limay e Neuquén de novo - sussurrou-lhe o vento. - Quando chegarem ao mar, eles serão enfeitiçados pelas huen hueshá e nunca voltarão para casa...

A pobre Raihué acreditou naquilo e chorou de tristeza, pois gostava dos dois jovens. Ela sabia que as huen hueshá eram estrelas caídas do céu e transformadas em ferozes sereias. Viviam nas águas do mar e sempre que viam um homem por perto encantavam-no e o arrastavam para o fundo do oceano, onde se tornava um de seus escravos.

O vento não cessava de soprar aquelas mentiras aos ouvidos da moça. Ela foi ficando cada vez mais triste, mesmo porque o tempo passava e nenhum dos dois rapazes, agora rios, retornava à terra natal. Tão desesperada ficou, que, sem dizer nada a ninguém, um dia foi para as margens do Huechulafken, no ponto em que os três haviam se conhecido, e clamou pelo grande Deus Nguenechén.

Pensando que seus apaixonados perderiam a vida por sua culpa, já que ela lhes pedira uma concha do mar, Raihué implorou ao deus que salvasse os dois, oferecendo sua vida em troca da deles.

Nguenechén a ouviu e decidiu aceitar a oferta de sua vida. Mal havia ela terminado as súplicas e sentiu que seus pés se transformavam em raízes, tentando enfiar-se terra adentro. Seus braços erguidos aos céus se tornaram ramos, sua boca se abriu como uma flor vermelha e seus olhos negros se converteram em pe­ quenos frutos, doces como o mel. [83]

Raihué havia se transformado na árvore do mi- chay, que o povo da Patagônia chama de calafate. Desde então seus frutinhos muito doces adoçam a boca dos apaixonados. Mas Curef, o vento, não ficou satisfeito com a transformação da jovem em planta; quis fazer sofrer os dois inalonkos, que ainda não haviam chegado ao mar. E foi soprar no vale em que eles corriam, de tal forma que os fez chegar bem perto um do outro. Ao vê-los próximos, o vento soprou a novidade para que ambos soubessem que sua amada não mais vivia.

- Raihué está morta - disse-lhes, com crueldade. - Foi transformada numa planta às margens do Lago Alto. Ninguém jamais a terá por esposa!

O perverso vento foi soprar noutras plagas. Ao saberem do triste destino da jovem, Neuquén e Limay esqueceram a inimizade. Ainda como rios, abraçaram-se para chorar juntos o fim de Raihué, e desde então suas águas estão unidas para não mais se separarem. De luto pela amada, tornaram-se o caudaloso Rio Negro e seguiram juntos para o mar.[1]

Ainda hoje as águas de Neuquén e Limay correm na região patagônica e dão origem ao Negro, que deságua no oceano suas águas enlutadas. [84]

Povo Mapuche Picunche

Chamou-se povo Araucano ou Mapuche aos povos que habitam, desde tempos remotos, uma região do Norte da Patagônia, localizada ao Sul do Chile e Sudoeste da Argentina. Encontram-se referências a três divisões desse povo: os Picunche, os Huiliche e os Pehuenche. Consta ainda que os Mapuche teriam, porforça deguerras ou disputas, também imposto sua cultura a alguns dospovos vizinhos chamados Tehuelche.

A palavra mapuche parece significar apenas “gente da terra”, na língua desse povo. Já a denominação araucano pode ter origem inca, tendo vindo da palavra quéchua awka, que quer dizer “inimigo”; mas essa origem é discutida.

A estória dos dois rios foi recolhida na província de Neuquén, e, como em muitos mitos da região, atribui vida a elementos existentes na natureza; os araucanos possuem vários mitos etiológicos em uma riquíssima tradição oral.

 

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Início da construção do Templo de Salomão

No início do 1º milênio a.e.c, o reino de Israel, fortificado e engrandecido por Davi (1005-979 a.e.c.) que lhe deu como capital Jerusalém, está no auge de seu poderio. Abrange uma grande parte do Médio Oriente ocidental, desde o anel sírio do rio Eufrates a nordeste até a fronteira egípcia (chamada “torrente do Egito”, na Bíblia) a sudoeste. Seus vizinhos mais perigosos são os filisteus e os povos de Edom, de Moab e de Amon, que foram vencidos. O filho do rei Davi e de Betsabeia, Salomão (970-931 a.e.c.), quer fazer de seu reino um Estado poderoso e de sua capital, Jerusalém, uma cidade prestigiosa.

Entre os trabalhos empreendidos em Jerusalém, por Salomão, o templo ocupa um lugar todo particular, uma vez que é destinado a abrigar o objeto mais precioso do povo de Israel, a Arca da Aliança, que contém as Tábuas da Lei dadas por Javé a Moisés no monte Sinai. A Arca constitui o sinal visível da presença de Javé no meio de seu povo. A paz que reina no reino de Israel, a prosperidade que o acompanha e a abundância dos recursos de que dispõe o poder real, por meio dos impostos e do sistema de corveia instaurado por Salomão, permitem levar a termo, em sete anos (967-960 a.e.c.), a edificação do templo.

Quando Davi se apoderou de Jerusalém, em torno do ano 998, instalou a Arca da Aliança em seu palácio. Para dar-lhe uma morada digna, projeta construir um edifício imponente. No local mais elevado de Jerusalém, no monte Moriá, onde a tradição situa o sacrifício de Isaac por Abraão, Davi compra uma eira para bater os cereais de um tal de Oman ou Arauna, “o Jebuseu”. A primeira coisa que o rei faz é instalar ali um altar para sacrifícios, e Javé aprecia o holocausto que lhe é oferecido. No entanto, quando Davi quer edificar um templo de pedra, o profeta Natan, falando em nome de deus, dissuade-o: essa tarefa é reservada a seu filho e sucessor, Salomão.

Em 967 a.e.c, os trabalhos finalmente começam: os operários aterram primeiramente o fosso setentrional que separa “a cidade de Davi” do monte Moriá. Depois, aumentam o palácio real e o ligam por um adro à esplanada sobre a qual vão construir o templo. Salomão quer assim relembrar a estreita associação entre poder do rei e poder divino.

Ao mesmo tempo em que respeita os princípios fundamentais do culto de Javé, o templo é construído segundo modelos estrangeiros. Arquitetos são colocados à disposição de Salomão por seu aliado, o rei de Tiro. Hiram. Este fornece também os troncos de cedro e de zimbro destinados à cobertura, aos lambris e ao pavimento do templo. Salomão impõe a seus vassalos serviço de corveia para ajudar os habitantes de Tiro a cortar as árvores no monte Líbano e transportá-las até o mar, de onde são encaminhadas até a costa de Israel.

Durante sete anos, centenas de operários trabalham na esplanada do monte Moriá. As paredes do edifício são constituídas de blocos de pedra retangulares, talhadas nas pedreiras de extração por operários vindos de Tiro e de Biblos. Assim, nenhum barulho de cunha, de martelo ou de instrumento de ferro ressoou no recinto sagrado, cuja santidade é dessa forma preservada.

Para a consagração do templo, em setembro de 960, Salomão reúne os anciãos do povo de Israel, todos os chefes de tribo e os príncipes de Israel. Em presença dessa grande assembleia, os sacerdotes e os levitas tomam a arca sob a tenda onde havia sido depositada por Davi e sobem até o templo. Eles fazem a arca entrar no Santo dos Santos e a depositam entre dois querubins (de madeira de oliveira, chapeada de ouro e de 5 metros de altura) de asas estendidas.

Uma música triunfal ressoa no edifício: os cantores glorificam o deus, acompanhados pelas trombetas dos sacerdotes, pelas harpas e pelos címbalos dos levitas. De acordo com os relatos bíblicos, Javé manifesta então sua presença sob forma de uma nuvem que invade o templo.

A divindade não se encarna num objeto material ou num ídolo, mas indica claramente o lugar privilegiado onde sua glória e sua potência se revelam. É ali que o povo deve dirigir-lhe orações e súplicas. Assim é relembrada solenemente a aliança privilegiada entre Javé e o povo de Israel. Manifestando sua aprovação, o deus reconhece que o único e verdadeiro santuário de Israel é doravante o Templo de Jerusalém.

Um gigantesco sacrifício de vários milhares de bois e carneiros encerra a cerimônia de consagração. Todo o povo reunido permanece no local durante sete dias e sete noites. No oitavo dia, Salomão manda voltar para casa todos os seus súditos, que retornam “com a alegria no coração por causa de todo o bem que o deus havia feito a Israel, seu povo”.

Um templo para a glória de um deus solitário

No Médio Oriente ocidental, os filisteus, os cananeus ou os fenícios prestam culto a seus múltiplos deuses em templos onde a divindade é encarnada numa estátua ou num símbolo - às vezes um bétilo, uma simples pedra erguida. As mesas de oferenda e os altares são cercados de reservas de água lustral e de bosques sagrados. O acesso ao espaço interno do templo em geral só é permitido aos sacerdotes, detentores de conhecimentos mágicos que permitem entrar em contato com a divindade.

Israel é um caso isolado, pois seu deus único não se encarna materialmente como “os ídolos ancestrais” dos povos vizinhos. Essa especificidade é consequência de acontecimentos ocorridos vários séculos antes. Segundo a tradição bíblica, os hebreus, dedicados à criação de ovelhas, vieram instalar-se no Egito seguindo José, filho de Jacó (cognominado de Israel): José chega ao Egito por meio de seus irmãos, em razão de deportações ou da seca, o que os obriga a levar também seus rebanhos. Os doze filhos de Jacó, os Ben Israel, são os ancestrais fundadores das doze tribos de Israel: Ruben, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zabulon, Dan, Neftali, Gad, Aser, José (dele saíram duas tribos: a de Manassés e a de Efraim), Benjamin. Mas, no decorrer dos anos, a situação desse povo no Egito piora e eles se tornam dependentes, obrigados a um trabalho penoso e perpétuo. Graças à mediação de Moisés, o povo dos Ben Israel dá início à sua saída do Egito sob o reinado do faraó Ramsés II (1279-1213 a.e.c.)?. Antes, Moisés havia passado vários anos no deserto do Sinai, onde o deus se havia revelado a ele e lhe havia dado a missão de fazer sair do Egito os descendentes de Israel e conduzi-los até o país de Canaã. Esta terra então lhe será confiada, com a condição de observar estritamente as leis dadas pelo deus e de prestar-lhe um culto exclusivo. Na realidade, os Ben Israel, que saíram do Egito em torno de 1250 a.e.c.?, representam apenas um milhar de indivíduos. Mas esse período do Êxodo/expulsão e seus diversos episódios (passagem do mar Vermelho, estada no deserto, redação das Tábuas da Lei, conquista violenta do país de Canaã)? criam entre o povo de Israel e Javé uma relação de todo peculiar.

O resto do povo de Israel, que não participou do Êxodo/expulsão e que vive nos altos platôs situados entre o mar Morto e a Galileia, é constituído de clãs de origem nômade sedentarizados no final do 2º milênio. A unidade do conjunto, as doze tribos procedentes de Jacó/Israel, será estabelecida pela ficção de uma origem comum. Com um ancestral comum e com um território único, essas comunidades se reúnem no culto de Javé, que se manifestou, segundo o folclore, - por ocasião do episódio do deserto - sob forma de nuvem, envolvendo o santuário portátil da Arca da Aliança. Na origem, um simples cofre de madeira fabricado pelos hebreus durante seu Êxodo/expulsão no deserto, a arca contém as Tábuas da Lei. Graças a barras enfiadas em anéis, pode ser facilmente transportada. Uma tenda feita de peles de ovelha a recobre. A precariedade dessa instalação recorda permanentemente o período da fuga pelo deserto. A Arca está também presente nos combates travados pelos hebreus na conquista da terra de Canaã.

Desde sua instalação no país, o povo de Israel entra em contato com vizinhos hostis, especialmente filisteus, originários dos povos do mar, que estão estabelecidos na planície costeira. A arqueologia, de resto, mostrou que nos séculos XII e XI a.e.c., à parte as cidades dos filisteus da costa, as antigas cidades de Canaâ estão praticamente em ruínas. Mas, nas terras altas da Cisjordânia, constata-se o surgimento de pequenos centros rurais que se desenvolvem do leste para o oeste.

Esse período ininterrupto de conflitos entre os clãs hebraicos e seus vizinhos impõe uma evolução política: a partir de 1150-1130 a.e.c. destacam-se, à frente das diferentes tribos, líderes investidos de um poder de decisão para toda a comunidade e funcionando muitas vezes como chefes de guerra. Levam o título de juizes. Por exemplo, a aliança de Barac, chefe dos hebreus da Galileia, com a profetisa Débora, da confederação israelita da montanha de Efraim, permite vencer Sisera, um dos chefes dos povos do mar. Mais tarde, os sucessos militares de Gídeâo, da tribo de Manassés, levam uma parte do povo a querer proclamá-lo rei. Mas ele se recusa a fundar uma dinastia. Um dos juizes mais famosos é Sansaão, da tribo de Dan, que luta vitoriosamente contra os filisteus. Mas, traído por sua amante, Dalila, é entregue aos filisteus e morre no desabamento do templo do deus Dagon, que o próprio Sansão provocou, apoiando-se numa parede.

Aos poucos surge a ideia de que Israel tem necessidade de um dirigente único e que os juizes, se permitem a cada tribo manter sua individualidade, não são adequados para constituir o verdadeiro Estado que o povo exige. Pela mediação de um profeta, Samuel, Javé atribui ao povo de Israel esse poder monárquico. Por outro lado, ao mesmo tempo em que o adverte sobre os riscos gerados por sua liberdade, relembra que o rei deverá sempre permanecer sujeito à vontade divina. É a Saul (1025-1005 a.e.c.), da tribo de Benjamin que Samuel confere a primeira unção de óleo, que faz “o ungido do Senhor". Com um exército de 3 mi homens, Saul obtém várias vitórias sobre os filisteus. Ele também recebe a ajuda de um jovem pastor da tribo de Judá, chamado Davi, que vence o gigante filisteu Golias. Saul oferece sua filha em casamento. Entretanto, cai em seguida numa melancolia paranóica e procura eliminar Davi que tem de fugir. A morte de SauL após a debandada de seu exército diante dos filisteus, abre a Davi, estabelecido em Hebron, o caminho do trono. Acaba por ser reconhecido pelas tribos do norte de Israel e instala então sua capital em Jerusalém.

Depois da sangrenta derrota de Eben-Ezer em torno de 1050, os filisteus se apoderam da Arca da Aliança, mas são forçados a restituí-la seis meses depois. Até o reinado de Davi, a Arca reside em diferentes cidades de IsraeL primeiro em Gilgal. Depois em Siquém e, finalmente em Silo. Na época de Davi, ela está na colina de Qiriat Yearim, no limite entre os territórios de Israel e de Judá. Quando Davi faz de Jerusalém a capital política de seu reino, decide transferir para ela a Arca. Sua intenção era de demonstrar que a cidade é também o centro do culto para todo o povo de Israel.

Davi organiza e dirige o reino de Israel, e o eleva a uma potência nunca atingida até então. O fim de seu reinado glorioso, entretanto, é marcado por confusões que provocam dissenções e conspirações: Davi se envolve primeiro em um amor proibido com Betsabeia, futura mãe de Salomão, casada com um de seus generais, do qual se livra mandando matá-lo em combate. Depois, os filhos de Davi se dilaceram entre si: seu filho primogênito, Amnon, estupra sua meia-irmã Tamar. Absalão, irmão de Tamar, mata Amnon e depois se exila. O rei acaba por perdoá-lo e ele retorna a Jerusalém. Absalão continua suas intrigas e acaba por forçar seu pai a partir para o exílio. Graças a uma parte da população que permanece fiel, Davi enfrenta os conjurados: Absalão é morto e a paz é restabelecida em todo o reino. No fim de sua vida, Davi, ameaçado por uma nova conspiração, designa Salomão como seu único herdeiro legítimo.

A edificação do primeiro Templo de Jerusalém, entre 967 e 960 a.e.c., é a maior obra de Salomão, ao lado das construções das muralhas, de palácios, de fortalezas militares que, segundo a Bíblia, teria multiplicado em seu reino. O favor divino teria dotado a Salomão um senso particularmente desenvolvido de justiça e equidade, e sua fama se difunde por todo o Oriente Próximo. A rainha do reino de Sabá, no sul da península arábica, vem até Jerusalém para encontrá-lo. A construção e a consagração do templo constituem o apogeu da monarquia israelita. É neste momento que Javé concede mais claramente seus favores ao povo de Israel, antes que sejam cometidas faltas que provocam a cólera divina, a partir do fim do reinado de Salomão.

A partir do reinado de Davi, o relato bíblico nos mostra que uma profunda separação existia entre o sul do reino (Judá) e os territórios do norte (Israel). Quando uma dificuldade ocorre, os dois territórios seguem caminhos opostos. O reinado de Salomão, período de potência e de prosperidade, mascara essa oposição, mas esta se manifesta rapidamente após sua morte. Jeroboão, da tribo de Efraim (no norte), reúne os descontentes e exige de Roboão, filho de Salomão, uma redução dos impostos. Diante de sua recusa, cria um reino de Israel independente que reúne dez tribos. Assim Roboão reina apenas sobre as duas tribos de Judá e de Benjamin, no sul. Em torno de 930, a ruptura é consumada. Samaria se torna a capital do reino de Israel ao norte, Jerusalém permanece a de Judá, no sul. Há alguns anos, essa visão das coisas foi posta seriamente sob suspeita, a ponto de se chegar até mesmo a duvidar profundamente, se não da existência, pelo menos da importância dos reinados de Davi e de Salomão como a Bíblia os apresenta. Os argumentos invocados são sobretudo de ordem arqueológica; alega-se, por exemplo, que as vastas construções descobertas em Meggido, e Haçor, e Geser, cuja construção era atribuída a Salomão, são, de fato, mais recentes, remontando a um século mais tarde pelo menos. Além disso, a exploração arqueológica efetuada na própria Jerusalém não permitiu descobrir vestígio tangível de construções de prestígio que datam do século X a.e.c. Parece, ao contrário, que o território, cuja capital era Jerusalém e se tornou o reino de Judá, não contava nessa época senão com alguns milhares de habitantes, enquanto a parte setentrional, correspondendo a Israel depois da cisão, reunia cerca de 80 mil habitantes. Mesmo que não se trate se não de estimativas, o contraste é claro, o que leva a concluir que o início do século X não conheceu nem um vasto reino de Israel unificado, nem uma magnífica capital em Jerusalém, nem prestigiosos monumentos como o templo descrito pelo folclore bíblico.

Certamente, descobertas recentes provaram que a existência de “uma casa real de Davi” é atestada por pelo menos uma inscrição real de meados do século IX. Não há, portanto, razão para pôr em dúvida a existência verdadeira de um soberano com esse nome nem a de seu filho Salomão. Ambos exerceram realmente um poder local sobre Jerusalém, pequena povoação das altas terras de Judá no século X; suas proezas ou seu carisma transformaram essa lembrança em lenda nas gerações seguintes. No entanto, se um templo para Javé foi construído a partir dessa época em Jerusalém, não possuía o caráter excepcional que a Bíblia descreve. Parece, por outro lado, que o monoteísmo ainda não era a regra e que subsistiram, em todo o território de Judá no século X, formas ancestrais de culto nos “lugares altos” (expressão bíblica que designa os cumes das montanhas). A própria Bíblia, por exemplo, recrimina Salomão de ter, por amor a suas mulheres estrangeiras, prestado culto a Astarte, deusa de Sidon, e de ter construído santuários ao deus do povo de Moab, Kemosh, ou ao deus do povo de Amon, Milkom.

Como foi apresentada, essa dúvida se baseia exclusivamente na arqueologia de fatos comprováveis e muitas lacunas podem também ser explicadas pelo passar do tempo. Ela tem, contudo, o mérito de trazer à tona o fato de que a Bíblia em si não pode servir de única fonte de referência, mas apenas como um livro ilustrado com a cultura folclórica fantástica e rica de um povo. Com efeito, a transcrição de uma tradição oral que possui reais elementos históricos é acompanhada de seleção e de uma reconstrução voluntária da lógica dos acontecimentos. O ponto fundamental a tomar em consideração não é mais então o fato em si, mas o relato que dele é feito: aí é que reside a historicidade da fonte bíblica.

Se houve realmente um templo construído em 967 a.e.c. em Jerusalém para nele instaurar o culto de Javé, pareceria sem dúvida muito distante daquele do qual os livros bíblicos nos fornecem medidas e descrição. Mas, por meio do relato do “Livro dos Reis”, são destacados os traços essenciais da religião de Israel: a afirmação do monoteísmo, a recusa da encarnação de outro modo que não a divina, a recusa das práticas ancestrais do culto, às quais cederão, contudo, alguns dos sucessores de Salomão. Nela se relembra, por fim, a escolha da casa de Davi para governar o país, e sua estreita subordinação aa uma suposta vontade divina, diante de quem permanece perpetuamente responsável por suas decisões e seus atos. Nesse sentido, o relato da construção do primeiro Templo de Jerusalém é um fato histórico, rico de desenvolvimentos ulteriores.

A revolução Russa de 1905

O quarto de século do assassinato de Alexandre II até a Revolução de 1905 foi de estagnação política. A reação do novo governo ao assassinato foi interromper o processo de reforma, afirmar publicamente a necessidade da autocracia e formular planos de contrarreformas. Estes últimos não resultaram em nada, mas o governo aproveitou toda possibilidade de bloquear a crítica, a discussão política e a organização entre o público. Apesar de retomar o patrocínio do desenvolvimento econômico nos anos 1890 sob o ministro das Finanças Sergei Witte, ele recusou-se a reconhecer as implicações da modernização continuada da sociedade, que resultava em parte das suas próprias medidas. O isolamento crescente do governo e sua própria falta interna de coordenação levaram a uma tentativa malograda de imperialismo moderno na Manchúria, tentativa que levou a uma guerra malsucedida com o Japão, que quase derrubou a monarquia.

Alexandre III tornou-se o herdeiro do trono em 1865 após a morte do seu irmão mais velho. Alexandre já tinha 20 anos na época e recebera uma educação militar um tanto estreita, ao contrário do seu irmão. Em 1866 ele desposou a princesa Dagmar da Dinamarca (Maria Fedorovna depois da sua conversão à ortodoxia) e teve um casamento estável com uma mulher inteligente e de opiniões extremamente conservadoras. O jovem herdeiro não era um intelectual, mas teve contato com ideias eslavófilas na corte e por meio do seu tutor de jurisprudência, Konstantin Pobedonostsev. Por intermédio dos guardas e de outros aristocratas ele fez amizade com o publicista conservador (e o homossexual mais destacado da aristocracia de São Petersburgo) príncipe V. M. Meshcherskii. Tratava-se de conservadores radicais com  princípios rigorosos, que só tinham desprezo pela liberdade de expressão, pela democracia e pelo governo representativo, os quais eles julgavam ser embustes aptos a conduzir à revolução. Na sua opinião, o que era necessário era a unidade da sociedade e do monarca, que eles consideravam a essência da autocracia. Na década de 1870, eles formaram uma oposição poderosa aos ministros mais liberais em torno de Alexandre II, poderosa em grande parte por causa da sua associação com o herdeiro. Como parte da sua tentativa de governo equilibrado, o tsar Alexandre II nomeou Pobedonostsev chefe do Sínodo, cargo que ele ocupou pelos próximos 24 anos. Depois que Alexandre III ascendeu ao trono, Pobedonostsev usou sua posição no Sínodo para manter acesso constante ao tsar, oferecendo-lhe conselho sobre todo tipo de assuntos muito além das questões eclesiásticas sob sua alçada. Aos olhos da sociedade liberal e de muitos funcionários do governo, ele tinha poder e influência altamente excessivos e numa direção inteiramente conservadora. “Príncipe das Trevas” era um dos seus apelidos mais gentis.

Na realidade, Alexandre escutava Pobedonostsev e Meshcherskii, mas nas suas decisões ele geralmente acompanhava os ministros, conservadores decerto, mas não inclinados a desmantelar a estrutura construída com tanto cuidado no reinado anterior. Essas estruturas ainda deixavam muitas áreas nas quais os ministros e administradores locais podiam agir com discricionariedade - nas relações com os zemstvos, em casos de exílio administrativo de liberais e socialistas, e outros. Aqui o tsar e seus subordinados quase sempre escolhiam a linha mais severa e autoritária. As “Regulamentações Temporárias” de 1881 foram dirigidas contra os revolucionários e permitiam que os governadores provinciais declarassem um estado de “segurança reforçada”, que os autorizava a prender subversivos sem julgamento, transferir casos de segurança para tribunais militares e fechar universidades e empresas. As regulamentações duraram até 1917. Em contrapartida, poucas “contrarreformas” foram realmente executadas. A autonomia universitária foi restringida mais ainda e o tsar promulgou um decreto que nomeava nobres como “capitães de terra” para monitorar a aplicação da lei nas aldeias. Tal como era sua intenção, o decreto efetivamente reforçou o poder da aristocracia no campo, e outras regulamentações que remendavam a administração local fortaleceram a burocracia contra os zemstvos, mas nenhuma dessas medidas constituiu uma mudança importante. Nas cidades o governo acabou elevando o requisito de propriedade para ser eleito para as Dumas municipais e proibiu os judeus de serem eleitos para as Dumas, mas deixou a estrutura básica intacta. O caráter reacionário do reino de Alexandre III estava mais na ausência de reação às mudanças sociais e econômicas em curso do que em qualquer tentativa concertada de retornar a uma era anterior.

Parte do novo reinado era também um nacionalismo oficial cada vez mais estridente, incluindo um antissemitismo oficial. Era mais uma mudança de tom que de substância, pois pouca coisa aconteceu em relação a novas medidas ou políticas além de uma aplicação mais rigorosa da legislação discriminatória contra os judeus, como foram as restrições de moradia fora dos limites da Zona de Residência. Em 1887 o governo introduziu a quota formal para judeus nas universidades, além das novas leis sobre o governo municipal. Houve outras investidas ocasionais de russificação, mas esta última era, com frequência, mais declaratória que real, pois o Império Russo carecia de recursos para adotar uma política firme nessa área. As propostas de substituir o alemão pelo russo nas escolas das províncias bálticas, uma campanha particular dos nacionalistas russos da época, fracassaram porque o Ministério da Educação salientou que não tinha recursos para contratar professores nem para construir escolas. Logo, as escolas das províncias bálticas continuaram em mãos locais, ou seja, alemãs. A preeminência continuada de aristocratas alemães e outros não russos na corte, no Exército e no corpo diplomático também impunha um limite muito claro ao grau de “russidade” que o governo podia reivindicar ou tentar impor.

Foi na política externa e econômica que os anos de Alexandre III trouxeram mais mudanças. Nos anos seguintes à Guerra da Crimeia, o príncipe Gorchakov mantivera o país firmemente no campo tradicional da amizade com a Prússia, tentando ao mesmo tempo aliviar a tensão com a Grã-Bretanha e a França. Quanto a isso ele só teve êxito parcial, e a posição ambígua da Alemanha de Bismarck ao final da Guerra Russo-Turca em 1878 minou a antiga aliança entre Berlim e São Petersburgo. À medida que a Alemanha aproximou-se da Áustria ao longo da década de 1880, a relação desgastou-se ainda mais, pois tanto a Rússia quanto a Áustria tinham intenções nos Bálcãs. A competição entre a Rússia e as duas potências alemãs levou ao fim da influência russa na Bulgária em 1886. O esfriamento resultante das relações russo-alemãs deixou a Rússia efetivamente isolada na Europa. A nova Alemanha, no entanto, fora construída sobre a vitória na guerra franco-prussiana e a anexação da Alsácia-Lorena, e portanto tinha a França como inimigo implacável. A Rússia e a França logo perceberam um interesse comum e, em 1893, a grande República e a autocracia do Leste assinaram um tratado que fez delas aliadas contra a Alemanha. A constelação política que durara no continente europeu desde 1815 chegara ao fim, e fora plantada a primeira semente que levaria à guerra em 1914. Até hoje, a ponte Alexandre III no centro de Paris serve de lembrete dessa aliança fatal.

Porém, a aliança ainda não era um estopim de guerra, visto que, até aquele momento, nenhum dos inimigos potenciais queria a guerra. Os laços dinásticos entre Berlim e São Petersburgo subsistiam e permitiam que ambos os lados conservassem a ilusão de que as coisas poderiam ser resolvidas. Todavia, os respectivos Exércitos não pensavam o mesmo, pois o Exército russo havia começado a repensar suas defesas ocidentais a partir da década de 1870, quando a Alemanha e a Rússia ainda eram aliadas, e o Exército alemão também agiu rapidamente para planejar uma guerra em dois frontes. Mas por enquanto a atenção dos governos e sociedades estava mais focada no Extremo Oriente. Ali, duas questões totalmente separadas vieram a se encontrar, os planos económicos de Sergei Witte e a ascensão do Japão.

Sergei Witte foi talvez o último estadista realmente dinâmico e ponderado do Império Russo, um homem com grandes planos e capacidades, bem como um ego gigante, que nunca trabalhava facilmente com outros em pé de igualdade. Ele desprezava os outros ministros de Estado - em grande parte com razão - e formulava seus planos com sua equipe, trabalhando diretamente com o tsar. A maneira como ele obteve o cargo é uma história à parte. Witte sempre alegou que seus antepassados eram holandeses e haviam ido para a Rússia através das províncias bálticas. Na verdade, seu avô era simplesmente um alemão báltico de classe média (talvez com ascendência holandesa) que serviu como tutor em famílias aristocráticas russas. O jovem Witte formou-se na Universidade de Odessa em Ciências Naturais, não em Direito Administrativo como a maioria dos futuros funcionários públicos. Ele também parece ter participado de uma obscura sociedade direitista chamada “União de São Miguel Arcanjo”, mas depois começou a trabalhar para a Ferrovia do Sudoeste, uma ferrovia privada que fazia a linha entre Odessa e Kiev. Isso lhe deu uma experiência do funcionamento de uma empresa capitalista que poucos altos funcionários russos possuíam. Alexandre III nomeou-o primeiro para o departamento de ferrovias do governo e sua ascensão foi veloz: em 1892 ele já era ministro das Finanças aos 43 anos de idade, uma conquista notável num governo cada vez mais idoso. Como os favoritos precedentes do tsar, seu poder baseava-se inteiramente na confiança do monarca, dado que Witte era arrogante demais, grosseiro demais e desacostumado demais com as sutilezas da política de Petersburgo para encontrar aliados entre os ministros. Ele considerava a maioria deles como tímidos incompetentes, mas não conseguia perceber que, sem eles, ele só podia contar com o tsar. Com Alexandre III no trono, essa atitude parecia sensata.

O grande projeto de Witte foi a Ferrovia Transiberiana, iniciada já em 1891. Essa enorme linha férrea que atravessava toda a Ásia setentrional viria a se tornar, sob muitos aspectos, um monumento a ele. Contra muitos céticos, ele tocou o projeto, primeiro com o apoio de Alexandre III e depois com o de seu filho Nicolau II. Os planos de Witte não consistiam apenas em melhorar as comunicações com o ponto mais remoto do Império. Decerto, uma mudança radical era necessária, já que as únicas formas de ir da Rússia europeia ao Pacífico eram a cavalo e de barco, o que durava vários meses, ou tomar um vapor saindo de Odessa e atravessando o canal de Suez para depois contornar a Índia e a China. Witte pretendia desenvolver a Sibéria, tanto pelos seus recursos naturais quanto pelo seu potencial como área de colonização, para satisfazer a fome dos camponeses por terra. Ao mesmo tempo, ele tinha consciência de que as potências europeias estavam recortando a China em esferas de influência, e ele não queria que a Rússia perdesse o seu quinhão. Assim, a última perna da rota da nova ferrovia sairia do lago Baikal através da Manchúria até Vladivostok, e a linha no interior do território russo seria deixada para depois. O objetivo era tomar a Manchúria como parcela da Rússia na China e como espaço para um novo estilo mais moderno de colonialismo. A meta de Witte era a “penetração pacífica” da China por motivos econômicos, mas os militares russos queriam uma base naval, e em 1896 obtiveram da China a concessão de Port Arthur, na costa sul da Manchúria. A Rússia parecia ter uma posição firme no Extremo Oriente. O único problema com esse plano brilhante era o Japão. Exatamente na década de 1890, o Japão estava dando seus primeiros passos em direção a um império na Ásia, com a derrota infligida à China e um crescente poder informal na Coreia. A presença da ferrovia russa, de Harbin e da base naval de Port Arthur irritava profundamente os japoneses e era uma consequência direta das políticas de Witte. Mas, por enquanto, a paz persistia, e a Rússia, o Japão e as potências europeias trabalhavam juntos para suprimir a Rebelião dos Boxers na China (1900).

Em 1894, Alexandre III morreu. Embora suas políticas tivessem impedido a Rússia de avançar em quase todas as áreas exceto a industrialização e a construção do império, pelo menos ele tinha sido um líder firme, capaz de tomar decisões difíceis, como Witte reconhecia. Seu filho, Nicolau II, era um homem de caráter muito diferente. Ele carecia completamente da capacidade de seu pai de assumir responsabilidades e fazer uso de seus ministros. Alexandre havia-os seguido na maioria das ocasiões, mas também dispunha-se a aceitar uma opinião minoritária e apoiá-la. Nicolau, muitas vezes, simplesmente concordava com o último que lhe dirigisse a palavra, e depois mudava de ideia novamente. Ele compartilhava as opiniões de seu pai acerca da inutilidade dos parlamentos, da liberdade de expressão e dos direitos humanos, e tinha tendência a ver a mão oculta dos judeus no liberalismo e no socialismo. Se ele não fosse o tsar, teria dado um fidalgo rural conservador ideal, pois era também gracioso, gentil e bom homem de família. Sua esposa Alexandra, a princesa alemã Alix de Hesse-Darmstadt, incentivava todas essas características, visto que era igualmente conservadora e devotada à família.

Infelizmente, a devoção de Alexandra à família e seus horizontes limitados não ajudavam a lidar com a hemofilia que seu filho, o herdeiro do trono Alexei, tinha de nascença. Sua reação foi recorrer a uma série de curandeiros, cada qual mais influente que o anterior. Para piorar, o temor plenamente justificado de terroristas aumentava o isolamento de Nicolau e sua família, o que tornava ainda mais difícil para eles compreender o que estava acontecendo em torno deles. As incessantes viagens à Crimeia e alhures, os entretenimentos ocasionais na corte e as excursões familiares no iate imperial não deixavam muito espaço para contato com o povo. As únicas aparições públicas eram cuidadosamente encenadas, muitas vezes como parte de cerimônias religiosas, o que dava ao tsar e ao povo uma visão completamente falsa das necessidades do país e da opinião pública.

No entanto, de início tudo correu bem. Nicolau era um partidário fervoroso do Extremo Oriente e do seu desenvolvimento e apoiava Witte incondicionalmente. Ele até concordou com a iniciativa controvertida do ministro de adotar o padrão-ouro na Rússia em 1897, uma medida concebida para encorajar o investimento e a industrialização, mas que não era necessariamente boa para os interesses agrários que a nobreza defendia. Depois de 1900, o apoio do tsar a Witte começou a desgastar-se. A nomeação de Viacheslav Plehve, um funcionário de carreira e uma personalidade poderosa, para chefiar o Ministério do Interior deu a Witte um rival forte e, em meados de 1903, Nicolau destituiu o ministro das Finanças. A única solução de Plehve para os problemas da Rússia era mais repressão, contra os revolucionários e contra os liberais de classe média e alta.

Todos esses grupos de oposição cresceram e consolidaram-se rapidamente nos anos 1890. Os primeiros a se organizarem foram os marxistas, que rejeitavam o terror em prol da organização dos trabalhadores para conclamar greves e combater os empregadores e o Estado por meio da ação coletiva. Os marxistas que conseguiram reunir-se e adotar um programa geral em 1898 foram imediatamente presos, e os vários grupos marxistas não se reuniram novamente antes de 1903. Quando eles se encontraram em Londres naquele ano, uma nova figura destacou-se, um diplomado da faculdade de Direito da Universidade de São Petersburgo com experiência na clandestinidade e no exílio. Tratava-se de Vladimir Il’ich Ul’ianov, cujo pseudónimo revolucionário era Lenin. Filho de um professor de Ciências de colégio e inspetor de escolas públicas em Simbirsk no Volga, Lenin havia passado do exílio na Sibéria à Europa Ocidental para editar uma revista socialista, Iskra (Centelha), por meio da qual ele e o marxismo conquistaram seguidores entre os estudantes e poucos trabalhadores que eram o celeiro do movimento revolucionário. No congresso de Londres, o partido foi refundado com um programa e estrutura mais elaborada, e os primeiros desacordos se manifestaram. O objetivo dos marxistas era derrubar o tsar e estabelecer uma República democrática (uma “revolução burguesa”). Ou seja, eles acreditavam que, enquanto essa tarefa não fosse completada, eles não deveriam almejar uma ditadura do proletariado e a introdução do socialismo. O inimigo, por enquanto, era o tsar. Portanto, eles agiriam sob as barbas da autocracia, em guerra contínua com a polícia, e Lenin acreditava que o partido devia ser sobretudo um movimento clandestino de revolucionários profissionais. Seus adversários, liderados pelo exímio Iulii Martov, pensavam que Lenin exagerava a necessidade de concentrar-se na luta clandestina e queriam um partido mais flexível. No voto da questão, Lenin ganhou por uma maioria estreita, e seus seguidores ganharam assim o nome de bolcheviques (bolshe significa “mais”), enquanto os de Martov foram chamados de mencheviques (menshe significa “menos”). Essa disputa ainda não envolvia os poucos ativistas operários e permanecia domínio exclusivo da intelligentsia do partido, pois a ela pertenciam os líderes nesses anos iniciais. O pai de Martov era um próspero empresário judeu e jornalista na imprensa judaica de língua russa, que havia frequentado os ginásios em São Petersburgo e cursado um ano de universidade antes de ser preso por atividade revolucionária. Trotsky vinha de uma família de agricultores judeus, descendentes dos colonos da Nova Rússia da época de Alexandre I. Diplomado de um colégio luterano de elite em Odessa, Leon Trotsky, como Lenin e Martov, era típico dos primeiros líderes revolucionários.

Os marxistas não foram o único grupo político a formar-se. Em 1901, os grupos revolucionários que se inspiravam na antiga tradição populista da década de 1870 reuniram-se para formar o Partido dos Socialistas Revolucionários. Eles continuavam acreditando que o capitalismo era um transplante artificial na Rússia camponesa e em tese concentravam seus esforços nas aldeias. Na prática, eles julgaram difícil organizar os camponeses, e a maioria dos seus seguidores estava nas fábricas urbanas. Os SRs, como eram chamados, também absorveram algumas ideias marxistas e produziram uma ideologia eclética cuja falta de consistência não tirava seu apelo. Eles também continuavam a acreditar que o terror contra funcionários do governo era uma ferramenta útil e, junto com os agitadores do partido SR nas fábricas, a  Organização de Combate travou uma guerra implacável contra o governo, por meio de uma série de assassinatos espetaculares. A polícia concentrou naturalmente grande parte da sua atenção nesse grupo, e de 1903 a 1908 o chefe da Organização de Combate era um agente de polícia chamado Evno Azef.

Não surpreende que os últimos a formar uma organização tenham sido os liberais. Sua aparição no cenário político era parte da agitação mais ampla na classe média e alta da Rússia que cresceu rapidamente no final do século. Desde os anos 1860, incontáveis grupos e sociedades profissionais haviam surgido, organizações de químicos e engenheiros, médicos e agrónomos. Os empresários eram particularmente ativos na formação de grupos de pressão para exigir políticas económicas favoráveis, tarifas protecionistas e um quadro jurídico mais moderno (e favorável ao empresariado) para a sua atividade. Os grupos empresariais não eram meros grupos de manufatureiros ou banqueiros que negociavam em particular com o governo. Eles reuniam-se em convenções e usavam a grande feira de Nizhnii Novgorod e as muitas exposições como fóruns de discussão pública das suas necessidades. Os jornais relatavam com minúcias esses encontros, que abordavam as diversas necessidades da Rússia mas evitavam escrupulosamente as questões constitucionais. Muitas dessas organizações foram inicialmente apoiadas ou até criadas pelo Ministério das Finanças como medida para incentivar o progresso e a maioria dos seus membros era intensamente leal em política. Contudo, com o passar do tempo, as organizações empresariais e outras ampliaram a discussão de questões sociais e económicas, exprimindo a frustração desses níveis da sociedade com um governo que eles viam cada vez mais como demasiado conservador e lento para atender as necessidades de uma sociedade em mutação.

Alguns líderes liberais da intelligentsia e da aristocracia começaram a acreditar que havia chegado a hora de organizarem-se de forma mais política. Durante décadas eles tiveram a esperança de que os zemstvos evoluiriam para um sistema de representação do público ou que novas medidas mais liberais seriam tomadas pelo governo para substituir a arbitrariedade por direitos básicos e alguma forma de consulta popular. Nada disso veio à tona, mas os zemstvos efetivamente proporcionavam um fórum em que muitos nobres liberais e outros aprenderam a lidar com as inumeráveis questões locais, o que deu-lhes experiência da vida pública e da indisposição do governo de compartilhar o poder em qualquer medida mais ampla. Em 1901 eles haviam desistido, pois o governo recusava-se a ceder, e um pequeno grupo de ativistas liberais formou um grupo clandestino, a União da Libertação. Contrários ao terror e aos métodos revolucionários, eles decidiram que somente um grupo ilegal podia ir além das questões específicas, conduzir a discussão necessária e fornecer as publicações contrabandeadas do exterior.

Em 1904, redes de ativistas de tendências variadas cobriam as principais cidades do interior da Rússia e, nas bordas ocidental e meridional, grupos nacionalistas e socialistas entre os poloneses, judeus, georgianos, arménios e outros acrescentavam outra dimensão à instabilidade. Então, em 27 de janeiro (9 de fevereiro) de 1904, a Marinha japonesa atacou a base russa em Port Arthur e afundou a maior parte da esquadra russa. A Rússia estava agora em guerra com o Japão do outro lado do globo com relação a São Petersburgo. A única linha de comunicação era a Ferrovia Transiberiana, da qual grande parte ainda tinha via única e estava incompleta. O Exército russo, longe das suas bases e atravancado por generais idosos, sofreu uma série de derrotas ao longo do ano. Em julho, um terrorista SR assassinou Plehve, e Nicolau nomeou o mais tolerante príncipe, Petr Sviatopolk-Mirskii, no seu lugar. A nomeação foi inesperada e devia-se em grande parte aos esforços da mãe de Nicolau, a imperatriz viúva Maria. Enquanto Sviatopolk-Mirskii parecia avançar em direção a certas medidas levemente liberais, outra crise estava fermentando em São Petersburgo.

Há tempos a polícia das capitais era frustrada pelo sucesso dos social-democratas e dos SRs entre os trabalhadores da cidade. Apesar das prisões constantes, eles pareciam estar fazendo um modesto progresso e alarmavam as autoridades com sua persistência obstinada e a presteza dos trabalhadores em escutá-los. Então o chefe da polícia política de Moscou, Sergei Zubatov, teve a ideia de criar um sindicato trabalhista controlado pela polícia. Ele ofereceria alguns serviços sociais modestos aos trabalhadores para amenizar sua condição, ao mesmo tempo que incutiria neles a lealdade à Igreja ortodoxa e ao tsar. Em São Petersburgo, o líder do sindicato era o frei Georgii Gapon, que logo conquistou o apoio animado dos trabalhadores e representou uma séria ameaça aos revolucionários. Por isso, quando uma greve espontânea estourou nas imensas fábricas Putilov na borda meridional da cidade, Gapon viu-se diante de um dilema. A política dos sindicatos da polícia era opor-se às greves (vistas simplesmente como violações da ordem pública no Direito russo), mas se ele escolhesse esse caminho sabia que perderia para os radicais o apoio dos trabalhadores. Ele optou por aceitar a greve, mas teve a ideia de que os trabalhadores deveriam apresentar suas queixas ao tsar. Gapon presumiu que o tsar escutaria e faria algo, o que aplacaria os trabalhadores e resolveria a greve. Quando os trabalhadores aproximaram-se do Palácio de Inverno na neve em 9/22 de janeiro de 1905, a reação do governo, apreensivo quanto à agitação na cidade, foi alinhar soldados diante do palácio e ordenar que abrissem fogo sobre a multidão desarmada. Mais de cem pessoas foram mortas e muitas outras feridas.

Dentro de poucos dias, trabalhadores de todo o país, da Polónia à Sibéria, entraram em greve às centenas de milhares. Eram movimentos espontâneos sem sindicatos, sem pagamento de greve e praticamente sem liderança. O sindicato da polícia foi imediatamente desacreditado e os partidos revolucionários ficaram sobrecarregados, pois tinham somente poucos milhares de ativistas no país inteiro.

A Revolução de 1905 que se seguiu foi um acontecimento extraordinariamente complexo. O movimento urbano de greve foi enorme, especialmente ao considerar-se a falta de experiência nesse tipo de ações por parte de quase todos os trabalhadores e a inadequação das estruturas organizacionais. Nas aldeias, pela primeira vez a agitação camponesa tornou-se suficientemente generalizada para provocar campanhas ferozes de repressão militar, muito embora os SRs e outros ainda julgassem extremamente difícil organizar de fato os camponeses. A maior parte das áreas não russas conheceu os mesmos levantes que o interior do país, com forças nacionalistas ou socialistas predominantes em diferentes áreas e diferentes épocas. As classes médias liberais geralmente apoiavam todos esses levantes, mesmo que apenas de modo passivo, e culpavam insistentemente o governo pela carnificina. O governo viu-se extremamente isolado, embora o tsar Nicolau tenha tentado aferrar-se à fantasia do campesinato leal corrompido pela intelligentsia e pelos judeus.

Para complicar tudo, a guerra com o Japão continuava e ia de mal a pior. Na primavera, os japoneses infligiram uma derrota capital ao Exército russo em Mukden. Para substituir a esquadra perdida do Extremo Oriente, a Marinha enviou a esquadra do Báltico numa jornada épica contornando a África e a Ásia Meridional até o teatro de operações. Ali ela deparou-se com a Marinha japonesa em Tsushima em maio de 1905 e foi quase inteiramente destruída. Nesse ponto, Nicolau e seu governo perceberam que não tinham outra opção além de fazer a paz. Com Theodore Roosevelt como intermediário, a paz foi assinada em Portsmouth, New Hampshire, em 23 de agosto  (2 de setembro) de 1905. A Rússia perdeu a base de Port Arthur e a metade meridional da ilha de Sakhalin, mas conservou sua ferrovia na Manchúria e suas edificações em Harbin.

Esses acontecimentos ocorreram num contexto de agitação que crescia rapidamente. Na primavera, quase 1 milhão de trabalhadores só em São Petersburgo fizeram greve por maiores ou menores jornadas de trabalho. Algumas eram políticas, mas a maioria era sobre salários, e particularmente sobre o tratamento rude e condescendente nas mãos dos diretores das fábricas. A tomada de terras e os ataques às casas da nobreza pelos camponeses atingiram o ápice no verão e espalharam-se por toda a Rússia central, a Ucrânia, a Polónia, as províncias bálticas e o Cáucaso. Na Georgia, áreas inteiras estavam fora do controle do governo e bandidos prosperaram junto com os rebeldes camponeses. Começando por Baku, arménios e azeris atacaram-se mutuamente, matando milhares. Nos Estados bálticos, o antagonismo étnico entre os proprietários rurais alemães e os camponeses letões e estonianos fez recrudescer a violência, e os cossacos russos viram-se na posição de ter de defender os nobres alemães bálticos. O ponto alto do verão de 1905 foi o motim dos marinheiros do encouraçado Potemkin, mais tarde imortalizado no filme de Sergei Eisenstein. Os marinheiros exigiram melhores condições e o fim da autocracia e apoiaram os grevistas em Odessa antes de zarpar para o internamento na Roménia. Esse e outros motins militares, que continuaram até 1906, mantiveram o governo encurralado.

Em agosto, Nicolau, sob pressão do seu governo e de sua mãe, publicou um manifesto que concedia uma legislatura representativa, mas com poderes muito limitados. O manifesto não surtiu efeito e, no outono, o movimento grevista nas cidades foi retomado com força ainda maior. Em outubro, as greves transformaram-se em greve geral, agora de característica política, dirigida contra a autocracia com apelos em prol de uma república democrática. Na ausência de outras organizações, os trabalhadores de São Petersburgo começaram a formar conselhos (em russo, soviets) no nível das fábricas e depois reuniram-se para formar um soviete municipal. De início, os social-democratas tinham dúvidas quanto aos sovietes, mas os mencheviques perceberam seu potencial. O líder mais vigoroso entre os deputados do soviete de trabalhadores de São Petersburgo era Leon Trotsky, orador vivaz e poderoso e um dos principais líderes dos mencheviques. Lenin e seus seguidores logo se juntaram ao movimento. Finalmente, em 17/30 de outubro, o tsar concedeu que a Rússia teria de ter uma legislatura representativa, a ser chamada de Duma, e algum tipo de constituição. A greve geral  terminou, mas Lenin e os bolcheviques queriam continuar impulsionando a revolução. O resultado foi uma insurreição nos distritos industriais a oeste de Moscou em dezembro de 1905, reprimida com força considerável pelo Exército e pela polícia.

O Manifesto de Outubro mudou completamente a política russa, talvez mais do que Nicolau pretendera. Witte retornou ao poder no novo cargo de primeiro-ministro. Grupos liberais e conservadores começaram a formar partidos, e alguns revolucionários saíram, pelo menos parcialmente, da clandestinidade. Os novos partidos fundaram jornais e admitiram membros, preparando-se para as eleições. Os primórdios da política de massa também trouxeram forças mais sinistras na forma da União do Povo Russo e muitos grupos menores do mesmo tipo. Tratava-se das “Centenas Negras”, devotadas à autocracia e à ortodoxia, que acusavam os judeus de serem a fonte de todos os problemas da Rússia. Intensamente nacionalistas, elas opunham-se à igualdade para todas as minorias nacionais, mas discriminaram os judeus para os pogroms sangrentos, que eles acreditavam que poriam fim à revolução, a qual, na sua visão, era obra dos poloneses e da intelligentsia, e sobretudo dos judeus. Dois deputados judeus da Duma foram vítimas do terror, além de centenas de pessoas nos pogroms. Pelo menos 400 judeus morreram apenas no pogrom de Odessa. Embora ineficazes no combate à revolução, as Centenas Negras adicionaram outro elemento de violência e caos à política russa.

O governo prometera uma constituição para a Rússia, e Witte e os ministros produziram uma com a qual o tsar concordaria. Foi a primeira constituição da Rússia, as Leis Fundamentais, escrita por Witte e outros funcionários do governo e proclamada no dia de abertura da nova Duma - 27 de abril de 1906. Na nova estrutura, a Duma deveria aprovar leis e, se o Conselho de Estado concordasse, elas seriam enviadas ao tsar para sua aprovação, sem a qual não seriam válidas. O Conselho de Estado tornou-se uma casa superior, composta principalmente por grandes dignitários do Estado nomeados pelo tsar, mas com alguns representantes da nobreza, do empresariado e das universidades. De forma um tanto inconsistente, o documento proclamou o tsar um autocrata, mas agora ele tinha de fazer leis através da Duma. Seu poder continuou predominante, pois as Leis Fundamentais reservavam ao tsar a política externa, o poder de fazer a guerra e a paz, o comando do Exército e todas as nomeações administrativas. Pela primeira vez, o tsar tinha algo semelhante a um gabinete com um primeiro-ministro (Witte de início), mas os ministros eram todos responsáveis perante o tsar, e não perante a Duma.

Era uma constituição altamente conservadora, embora não tão estranha na Europa de 1906 como pareceu depois. A concentração do poder militar e da política externa nas mãos do monarca também era uma característica das constituições alemã e austríaca, e até na Suécia os ministros ainda eram responsáveis perante o rei, não o parlamento. O que tornou o sistema russo mais peculiar foi o fracasso do gabinete em impor-se como força unificada (os resultados dependiam das personalidades) e o complexo sistema de eleição para a Duma. Esta não era eleita simplesmente com base nas regiões ou em requisitos de voto censitário, mas por meio de um complexo de distritos regionais, do voto indireto e do sistema curial. Para cada grupo social (camponeses, citadinos, trabalhadores, nobres) havia uma cúria, na qual os eleitores depositavam suas cédulas na cúria. Ainda acreditando na lealdade do campesinato e no seu conservadorismo social, as eleições para a primeira Duma que aconteceram no inverno de 1905-1906 basearam-se numa distribuição de assentos que favorecia o campesinato. Nicolau estava convencido de que somente as classes médias e altas se opunham à autocracia, mas que os camponeses estavam do seu lado.

O resultado das eleições apresentou ao governo uma Duma com a qual era impossível trabalhar. O boicote dos partidos revolucionários significava que os liberais, os Kadets (Democratas Constitucionais, oficialmente o Partido da Liberdade Popular), eram o maior partido na Duma, enquanto os camponeses, que se organizavam lentamente em partidos, eram o maior grupo. Para os Kadets, as concessões do governo ao constitucionalismo eram pequenas demais, e os deputados camponeses surpreenderam a todos votando a favor de qualquer medida que lhes proporcionasse terras. Muitos exprimiram lealdade ao tsar, mas eles também queriam terra, algo com que Nicolau e Witte não haviam contado. Nicolau dissolveu a Duma em julho, esperando que novas eleições se mostrassem mais favoráveis. Witte renunciou e seu substituto foi Petr Stolypin, um ex-governador provincial com reputação de esmagar rebeliões, mas também com interesse por reformas. O primeiro sinal destas últimas foi a lei que ele patrocinou no outono de 1906 e que permitia que os camponeses deixassem a comunidade aldeã e montassem fazendas independentes.

O movimento de greve e os distúrbios rurais amainaram gradualmente no final de 1906. Stolypin enviou batalhões punitivos ao campo para reprimir os rebeldes camponeses com execuções realizadas no ato. As eleições para a segunda Duma, no entanto, não produziram os resultados que Stolypin e o governo esperavam. Ao contrário, a nova Duma era ainda mais radical que a primeira. Os deputados camponeses agora estavam organizadas no “Grupo Trabalhista”, que exigia toda a terra para o campesinato. Finalmente, em 3 de junho de 1907, Stolypin dissolveu a Duma e praticamente não houve reação do público. A revolução havia perdido sua força.

A Revolução de 1905 foi um episódio sangrento, com cerca de 15 mil mortos, a maioria camponeses executados ou simplesmente assassinados durante represálias do governo no campo. Vários milhares de revolucionários também foram executados e muitos trabalhadores pereceram em conflitos provocados por greves ou nas diversas insurreições. Alguns proprietários rurais também sofreram e muitas propriedades foram destruídas. No final de 1905, havia surgido um “Sindicato de Todos os Camponeses Russos”, que admitiu várias centenas de milhares de membros e exigiu a entrega de toda a terra ao campesinato. O sindicato tentou evitar táticas violentas, mas seus membros tornaram-se cada vez mais radicais durante o ano de 1906 e aliaram-se com o Grupo Trabalhista na Duma. O Sindicato Camponês também foi banido. O resultado mais importante foi uma mudança radical na política russa. O desaparecimento da censura na prática, as eleições para a Duma, bem como seus debates, levaram a política dos saguões da corte e dos escritórios da burocracia ao público, e até às ruas enquanto durou a revolução. Classes sociais inteiras começaram a pensar de modo diferente: a nobreza parou de flertar com o liberalismo e congregou-se rapidamente atrás dos motes de autocracia, nacionalismo e preservação da ordem social. As classes médias e operárias urbanas abandonaram sua passividade e começaram a participar de ações políticas e a apoiar certos partidos mais radicais. Os empresários formaram pequenos partidos próprios e grupos de pressão, o campesinato ouvia os discursos dos ativistas do Sindicato Camponês e dos SRs e apreendeu a votar pelos seus interesses na questão da terra. As diversas minorias nacionais tinham agora partidos políticos ativos: na Georgia, os mencheviques combinaram socialismo com nacionalismo e tornaram-se de longe a força mais poderosa. Na Letónia, os social-democratas aliaram-se aos bolcheviques e dominaram o movimento trabalhista. Na Polónia, todos os partidos políticos passaram a agir abertamente e os Nacional-Democratas competiam com algum êxito contra grupos socialistas pela fidelidade dos trabalhadores. Entre os povos muçulmanos do Império, a intelligentsia progressista apresentou candidatos à Duma e ganhou, passando a formar um grupo muçulmano na Duma que congregava tártaros, basquírios, crimeanos, azeris e montanheses do Cáucaso Setentrional para pedir igualdade de condições. Como muitos grupos autonomistas, eles aliaram-se aos Kadets russos e participaram ativamente dos debates na Duma.

Por mais poder que o tsar e seus ministros conservassem (e ele era considerável), agora eles tinham de lidar com uma situação política totalmente nova, e poucos deles, muito menos Nicolau, estavam preparados para isso.

Os sete anos que se seguiram à dissolução da segunda Duma foram o único experimento da Rússia em tempo de paz com um governo constitucional com imprensa livre e organizações públicas ativas. O destino do país dependia da capacidade de Stolypin e outros de lidar com essa nova realidade. A repressão da revolução por Stolypin teve um sucesso aparente: centenas de ativistas foram executados, especialmente do grupo terrorista SR, e todos os partidos radicais perderam membros em penca por causa da prisão, exílio, desilusão e simples exaustão. A dissolução da Duma em 1907 foi acompanhada de um novo sistema eleitoral ainda mais indireto e não democrático. Cerca de 50% dos assentos da nova Duma foram para a nobreza, enquanto a representação dos camponeses foi cortada radicalmente, bem como o número de assentos reservados às áreas de minorias nacionais do Sul e do Oeste. A nova Duma era esmagadoramente nobre, russa e muito conservadora. A maioria dos nobres e muitos empresários apoiavam o partido Outubrista (assim chamado devido ao apoio dado ao Manifesto de Outubro do tsar), mas também havia uma extrema-direita, majoritariamente de nobres, que incluía líderes das Centenas Negras. Stolypin parecia dispor de uma situação perfeita para realizar suas modestas reformas, manter o poder do tsar e do governo e avançar em direção a uma política nacionalista mais russa no império. Na realidade, ele fez pouca coisa além do programa agrário, que mostrou ter efeito limitado. O resultado das intermináveis negociações entre o primeiro-ministro e a Duma foi somente criar uma cisão entre ele e as classes altas. Suas reformas eram demasiado radicais para os nobres, mas não profundas o bastante para satisfazer a sociedade e os liberais da Duma. O clímax foi seu plano de 1911 para introduzir o zemstvo nas províncias ocidentais, regiões onde os nobres eram predominantemente poloneses. No intuito de manipular os conselhos dos zemstvos contra os poloneses, Stolypin propôs aumentar o número de deputados camponeses, por serem os ucranianos e bielorrussos que Stolypin considerava mais leais ao tsar que os nobres poloneses. Ao mesmo tempo, o zemstvo aliviaria o fardo administrativo do Estado e, com sorte, aplacaria os liberais. No fim, o plano era astucioso demais para ser bem-sucedido. Stolypin conseguiu fazê-lo passar pela Duma, mas ele foi rejeitado pelo Conselho de Estado. Stolypin renunciou em protesto, sabendo que Nicolau julgava-o indispensável. O tsar implorou que retornasse, mas Stolypin só concordaria se Nicolau retirasse alguns dos conservadores extremistas do governo, prorrogasse a Duma e aprovasse o projeto de lei dos zemstvos ocidentais com seus poderes de emergência. O tsar concordou, mas o incidente confirmou sua suspeita crescente de que os planos de Stolypin eram abrangentes demais e que ele era demasiado poderoso e não confiável. Antes que seus desacordos chegassem a uma crise, um terrorista SR assassinou Stolypin em setembro numa récita na ópera de Kiev.

Sem Stolypin, o tsar recorreu a figuras menores para gerir o governo. A instituição do primeiro-ministro desagradava-o particularmente, e ele nomeou para o cargo homens que não dominariam o gabinete. O resultado foi a desorientação. Nenhum dos problemas que a sociedade russa enfrentava foi abordado e o governo ficou cada vez mais isolado. Entre a sociedade instruída, cresceu a percepção, até mesmo entre os conservadores, de que o tsar e o governo não entendiam o país e viviam num mundo à parte. Nenhuma questão importante foi resolvida e as medidas do governo não alcançavam nem a reforma, nem uma repressão bem-sucedida. As tentativas de usar o nacionalismo e antissemitismo para angariar apoio popular saíram pela culatra. Em 1911, a investigação de um assassinato em Kiev levou a acusações de sacrifício ritual contra Mendel Beiliss, um judeu supervisor numa fábrica de tijolos. O Ministério da Justiça em Petersburgo e a polícia “organizaram” um julgamento, e panfletos foram publicados sobre sacrifícios rituais e outros supostos crimes dos judeus. Porém, a Rússia tinha agora uma imprensa relativamente livre e os diários liberais armaram uma contracampanha furiosa. As paixões estavam tão inflamadas entre a intelligentsia que a apresentação de uma peça baseada nas obras de Dostoievski foi cancelada em São Petersburgo, sob a alegação de que o nacionalismo antissemita do grande escritor dava apoio à acusação. O julgamento ocorreu no outono de 1913 num tribunal penal ordinário em Kiev. O júri não foi convencido pelas provas da acusação e inocentou Beiliss. O resultado foi uma humilhação suprema para o governo.

Para cúmulo da desgraça, a presença de Grigorii Rasputin no tribunal acrescentou um elemento de grotesco a uma atmosfera já bastante ruim. Rasputin era um monge errante da Sibéria que havia sido introduzido na corte no final de 1905. A imperatriz Alexandra sempre tivera interesse na cura pela fé e tinha esperança de que ele pudesse ajudar seu filho hemofílico, o herdeiro Aleksei. Ela rapidamente passou a acreditar que somente Rasputin podia parar o sangramento. Por isso, este tinha acesso ilimitado à família imperial, apesar das suas visões religiosas heterodoxas e histórias (a maioria verdadeiras) de bebedeira e libertinagem. A polícia de segurança criou um destacamento inteiro para vigiar o monge com o intuito de fazer cessar os rumores que desonravam o tsar e sua esposa. Rasputin era uma preocupação genuína para os monarquistas e conservadores no governo e na Duma, e eles conseguiram levar a questão ao plenário da assembleia, provocando a ira do tsar. Ele nunca percebeu que eles estavam tentando salvar o prestígio do trono e, em vez disso, interpretou seus atos como deslealdade. Rasputin, rumores à parte, não tinha nenhum efeito político identificável, mas sua presença e suas histórias reais e exageradas minaram ainda mais a monarquia.

Se os liberais e conservadores na Duma, apesar de todas as suas frustrações, encontraram na nova ordem uma vasta arena de atividade política, os partidos revolucionários foram desmoralizados e perderam milhares de membros, especialmente da intelligentsia. A liderança foi para o exílio no Ocidente, onde passava seu tempo tentando manter o movimento vivo. Os movimentos cindiram-se: Trotsky abandonou o principal movimento menchevique e fundou seu próprio jornal em Viena, no qual comentava a política mundial sentado em cafés. Os bolcheviques eram particularmente dados a controvérsia, divididos como eram por disputas filosóficas, além das táticas e organização do partido. Lenin escreveu um livro inteiro para denunciar a tentativa de certos intelectuais bolcheviques de integrar a epistemologia do físico alemão Ernst Mach ao marxismo. Foi somente por volta de 1912 que as diversas facções aglutinaram-se em partidos organizados e restabeleceram uma rede na Rússia. Para o partido bolchevique, a oportunidade surgiu naquele ano numa conferência em Praga que finalmente consolidou a estrutura e o programa bolchevique, reafirmando a crença de Lenin na necessidade de um partido clandestino. A conferência de Praga também marcou o início de uma transição geracional entre os bolcheviques, pois a liderança da intelligentsia da juventude de Lenin cedeu aos poucos espaço a um grupo mais jovem que era mais plebeu (embora não exatamente proletário). Eles geralmente não tinham educação universitária, mas sim experiência com os procedimentos da clandestinidade e o hábito de fazer contato com os trabalhadores em luta contínua com a polícia. Um deles era um bolchevique georgiano, Soso Djugashvili, conhecido como Koba, filho de um sapateiro do Cáucaso. Ao imprimir sua marca ao movimento em toda a Rússia, ele adotou um novo pseudónimo revolucionário, Stalin. E como Joseph Stalin é que ele entraria para a história.

Enquanto Stolypin estava lutando para controlar a Duma, a formação de blocos políticos na Europa continuava. Nicolau e o Kaiser tentaram repetidas vezes uma reaproximação, mas as tentativas não deram em nada. Em 1907, a Rússia e a Grã-Bretanha assinaram um tratado que dividia esferas de influência no Irã, eliminando assim um objeto importante da sua rivalidade imperial. O resultado não era exatamente uma aliança, mas pôs fim à “Guerra Fria” que durava décadas e, dado o acordo anglo-francês, significava que a Rússia, junto com a Grã-Bretanha e a França, enfrentava agora a Alemanha e a Áustria-Hungria. Havia muitas regiões de conflito, das quais a mais importante eram os Bálcãs. A Rússia havia se aliado à Sérvia, que estava exatamente no caminho de qualquer expansão austríaca ou alemã na região, e ambas tinham grandes ambições centradas no Império Otomano. A Alemanha esperava fazer dos turcos semialiados e semidependentes na sua rivalidade mais ampla com a Grã-Bretanha. Em 1909, a Áustria, com auxílio alemão, humilhou a Rússia ao anexar a Bósnia-Herzegovina, que era um protetorado austríaco desde 1878. Uma série de guerras locais nos Bálcãs intensificou a tensão crescente. Então, em junho de 1914, o herdeiro do trono austríaco, o arquiduque Francisco Ferdinando, fez uma viagem pela nova província da Bosnia. Enquanto sua carreata avançava pela rua estreita à beira do rio em Sarajevo, um jovem nacionalista sérvio, Gavrilo Princip, saiu da multidão com um revólver e matou-o com um tiro. Para a Rússia, assim como para o restante da Europa, aquele foi um tiro fatal.

 

CIVILIZAÇÃO
Por Mário Curtis Giordani
Índia, o país, o povo e a língua

O país - Os gregos chamaram Indos o Sindhu (rio, em língua nativa), e toda a região situada além desse rio passou a receber a mesma designação. A vasta extensão de terra, que hoje designamos por índia, situa-se entre os paralelos de 8 a 37 graus de latitude norte e possui mais de 4,6 de quilômetros quadrados de superfície, abrangendo
três regiões naturais distintas: A Barreira Montanhosa, a Planície Indo-Gangética e o Planalto peninsular. Na Barreira Montanhosa, ao norte, assinalamos a imponente cordilheira do Himalaia com suas neves eternas. A Planície Indo-Gangética estende-se entre as montanhas do norte e o planalto, desde o mar de Omã até ao golfo de Bengala por cerca de 3.000 quilômetros. As duas principais correntes de água, que cortam essa imensa região, são o Indo e o Ganges. O primeiro, depois de um longo percurso em que recebe a contribuição de diversos afluentes do Pendjab (região dos cinco rios), vai desaguar, formando um delta, no mar de Omã. Ao sul do Himalaia, corre, entre terras férteis, o Ganges, aumentando seu volume de água com afluentes entre os quais avulta o Bramaputra. Formando um luxuriante e imponente delta, as águas do Ganges vão desembocar no golfo de Bengala. A parte peninsular da Índia é constituída por vasto planalto granítico de forma triangular, o Decão, limitado ao norte pelos montes Vindhya, a leste e a oeste pelos montes Ghates.

O Indo e o Ganges são alimentados pela inesgotável reserva de gelo e neve que cobrem o Himalaia e o Tibet; os ventos que sopram regularmente do sul ao norte, através do golfo de Bengala, projetam contra a cordilheira do Himalaia uma colossal precipitação pluvial.

Encontramos na Índia regiões de grande fertilidade como o Pendjab e as terras banhadas pelo Ganges; verdadeiros desertos como o existente entre o Ganges e o Indo; zonas de mata-virgem em que se abrigam inúmeros animais ferozes tais como tigres, panteras, leopardos, cobras, etc.

As terras aráveis produzem juta, algodão, chá, arroz, trigo, cevada, etc. Completemos esse superficial esboço do cenário geográfico, em que se desenrolaram milênios de História, lembrando que o Pendjab é o vestíbulo da Índia: as vias fáceis de penetração se encontram ao noroeste: os passos de Bolan e de Khaiber são os caminhos tradicionais de invasão na fronteira ocidental.

O povo - A população da Índia apresenta uma notável complexidade racial, difícil de ser estudada. Situada na confluência de dois mundos antropológicos (raças brancas e raças amarelas), a Índia possui ainda um terceiro elemento em sua população ligado às raças negras ou aos tipos mais primitivos da Oceânia. O elemento negro que predomina no Decão não apresenta, entretanto, a cabeleira e os lábios dos negróides. H. Vallois distingue na população da Índia quatro «stocks» fundamentais: a raça veda, a raça melano-hindu, duas ou três raças brancas e uma ou duas raças amarelas[1].
A raça veda é constituída por alguns poucos milhares de indivíduos, que habitam as montanhas e as florestas do leste da ilha de Ceilão e apresentam marcada semelhança com os australianos. Em outras regiões da índia nota-se claramente algumas características da raça veda já atenuadas, provavelmente, pela miscigenação.

Os melano-hindus, que constituem um grupo racial mais evoluído que os vedas, tanto física como culturalmente, apresentam características raciais intermediárias entre brancos e negros; formam a base da população do Decão. Vedas e melano-hindus interpenetraram-se e é difícil dizer qual dos dois grupos chegou à Índia em primeiro lugar.

Os brancos, localizados sobretudo na Planície Indo-Gangética, penetraram na península depois da chegada dos dois grupos citados, obrigando os mesmos a buscarem refúgio nas montanhas e nas jungles. Esses brancos provinham do Irã e do Turquestão e introduziram na Índia a língua e a cultura indo-européia.

Do nordeste, finalmente, através do vale do Bramaputra e da Birmânia, chegaram os amarelos à região do Golfo de Bengala.

A língua - Depois de esboçarmos, de modo superficial, o panorama racial da população da Índia, digamos algumas palavras sobre as famílias linguísticas existentes na península e que são bem um indício
da complexidade dos problemas que o estudioso do passado índio deve enfrentar. Três famílias linguísticas mais importantes merecem ser anotadas:

As línguas munda - Essas línguas são faladas por uma pequena parte da população da Índia; outrora difundidas por uma área mais vasta, foram posteriormente substituídas em parte quer pelos falares arianos, quer pelos falares dravidianos, subsistindo apenas, em plena decadência, nas regiões montanhosas de difícil acesso. É interessante notar que os linguistas descobriram um parentesco entre o grupo munda e um grupo indo-chinês.

As línguas dravídicas - Até o presente não se conseguiu estabelecer decisivamente ligação alguma entre o dravidiano e qualquer outro grupo linguístico. As línguas dravídicas são faladas por uma grande parte da população. Podemos citar, como exemplo, o tamul, o canara e o telugu. Estes idiomas possuem um passado de cultura que se traduz em belas literaturas. Assim, v.g., a literatura tamul é a mais antiga e rica literatura da Índia, após a literatura sânscrita.

As línguas indo-arianas - O indo-ariano, falado atualmente na Índia, abrange diversos grupos entre os quais podemos citar, como exemplo, o grupo oriental abrangendo o bengali, o bihari, etc., e o grupo central abrangendo o hindi, o pendjabi, etc.

Os mais antigos documentos em indo-ariano são os textos védicos escritos em sânscrito. Sânscrito era a língua nobre em oposição ao prakrit, língua vulgar. O emprego do sânscrito clássico, língua de cultura, em diversos gêneros literários, lembra o uso do latim na Idade-Média.

Civilização Indiana | Geografia
Por Francis Joannès
As contas do templo sumério de Bawa

Em meados do 3º milênio a.e.c., o principado sumério de Lagash, no extremo sudeste da Baixa Mesopotâmia, é governado pelo rei Urukagina. A família real exerce seu poder também na gestão dos principais santuários. O templo da deusa Bawa, que se ergue em Girsu, perto de Lagash, está sob o controle de Sasag, esposa de Urukagina. O templo é proprietário de uma grande área fundiária onde são cultivados cevada, espelta (variedade de trigo) e trigo. Nas terras, pratica-se a criação de gado de grande porte (muares, bovinos) e de pequeno porte, (ovinos, caprinos, suínos). Toda essa produção permite ao pessoal do templo viver de modo autossuficiente. Para isso, é indispensável contabilizar ao mesmo tempo a produção das terras e as despesas necessárias para sua exploração. Por isso numerosos escribas, ligados ao templo, anotam todas as informações em placas de argila. Os escribas, únicos no reino a dominar a escrita, constituem uma elite e transmitem seus conhecimentos de pai para filho.

O escriba tem diante dele placas quadradas de argila fresca de 5 a 30 centímetros de lado e um calame, que é uma haste de madeira com ponta afilada. Com esse instrumento (cálamo, em português), o homem divide a placa em pequenos quadrados, dentro dos quais traça sinais. Apoiando fortemente a extremidade do cálamo, o escriba produz na argila uma incisão em cunha, de onde vem o nome cuneiforme (da palavra latina cuneus, que significa cunha ou prego) conferido a esse tipo de escrita.

Uma parte dos escribas se ocupa dos levantamentos cadastrais. Dos 285 hectares de terreno arável que pertencem ao templo de Bawa, a metade é constituída “de parcelas de manutenção” atribuídas ao pessoal do templo, um quarto consiste em terras públicas cultivadas por trabalhadores dependentes, um quarto de terras arrendadas que dão um retorno da ordem de 15% a 20% da colheita. A superfície atribuída a cada um, de 3.500 a 63.500 metros quadrados, está ligada à função exercida no templo. O “inspetor” Eniggal dispõe, por exemplo, de mais de 48 hectares de terras agrícolas. De fato, não é a terra que é cara, mas o material de exploração: é preciso dispor da atrelagem de bois e de asnos para os dois tipos de preparação de que a terra irrigada necessita. A área possui também hortas e pomares, divididos em faixas de diferentes tamanhos. Podem-se fazer até três colheitas por ano e, nas faixas destinadas às cebolas, por exemplo, são cultivadas até doze espécies diferentes. Nelas são cultivadas também ervilhas, coriandro, cominho e, em certos lugares, linho.

Os escribas anotam também as colheitas feitas nos cinco grandes pomares onde cultivam tamareiras, videiras, macieiras, figueiras. É necessário, por fim, contabilizar os lotes de árvores para extração de madeira (tamargueiras e choupos) e a produção de juncos. Cortado em grande quantidade nos pântanos e nas margens dos canais, esse vegetal é utilizado para toda espécie de artesanato e para o aquecimento por meio da queima.

Outros escribas se dedicam ao cálculo dos animais de criação. O templo dispõe de 113 burros para puxar os veículos de transporte e os arados leves para a semeadura (os bois são utilizados para trabalhos pesados). O leite é fornecido por 335 vacas, e é utilizado especialmente para a fabricação de produtos derivados, consumidos em grande quantidade: nata, manteiga, queijo. Os rebanhos de animais de pequeno porte são ainda mais numerosos (660 ovelhas com seus cordeiros, segundo um texto, 505 caprinos, segundo outro): uma parte dos animais é engordada no estábulo, com cevada, à razão de 25 litros por mês e por animal, para melhorar a qualidade da lã e da carne servida em seguida como oferenda. Os porcos fornecem o essencial da gordura (banha) e são servidos como refeição aos deuses. As listas são regularmente verificadas e eventualmente corrigidas. Cada escriba deve precisar, ao lado de cada lista que elaborou, o rendimento (lã, carne, banha) extraído de cada espécie e o custo de manutenção dos animais.

Os escribas da administração utilizam esses cálculos para avaliar os recursos do templo. Uma parte desses recursos é destinada às oferendas, outra à alimentação dos animais, e o restante serve à manutenção do pessoal: desde o mais eminente de seus membros, o rei, até o mais humilde dos trabalhadores agrícolas, ou seja, um conjunto de 600 a 800 pessoas. Para aqueles que dispõem “de uma parcela de manutenção”, o subsídio mensal é apenas uma gratificação suplementar. Os membros do pessoal, que não possuem “parcela de manutenção” e não são remunerados com salários, são mantidos pelo templo, que os alimenta e os veste.

Todos aqueles que não estão em condições de cultivar para si uma parcela de terra, “as pessoas contratadas por mês”, recebem apenas o subsídio. Pertencem a categorias cuja denominação nem sempre é clara: os carregadores, os “cegos”, os “isolados”, as “criadas” e seus filhos, os pescadores do mar.

À medida que preenchem as placas, os escribas as colocam ao sol para secar e endurecer, o que permitirá conservá-las por longo tempo. As placas são em seguida cuidadosamente dispostas nas salas dos arquivos, onde se poderá eventualmente consultá-las durante os anos seguintes. Toda a memória do templo é assim conservada por meio da escrita.

Civilização Suméria | Administração
Por Mary Vincent
As artes ibéricas no início do século XX

A república portuguesa, como a restauração da monarquia na Espanha, terminou em caos. Em ambos os casos, anos de esterilidade constitucional terminaram com uma intervenção autoritária. Em 1923, o general Miguel [149] Primo de Rivera (1870-1930) protagonizou um golpe militar na Espanha, com a aquiescência de Alfonso XIII. Ao governar ditatorialmente, colocou fim a seis anos de conflitos civis em que a força política mais dinâmica havia sido o nacionalismo catalão. Três anos mais tarde, o exército português derrubou a democracia e instituiu um governo provisório sob a liderança do general Oscar Carmona (1869-1951), que foi eleito presidente em 1928. Tanto na Espanha como em Portugal, a extrema instabilidade política havia sido sucedida pela supressão da democracia e do governo do exército. Apesar destas circunstâncias políticas pouco promissoras, as primeiras décadas do século XX deram origem a alguns feitos artísticos notáveis, em particular na Espanha. Libertados das limitações da representação figurativa, graças aos desenvolvimentos tecnológicos - em particular à fotografia -, os artistas visuais e plásticos exploraram novas formas de refletir o mundo moderno. A arte foi novamente uma atividade intelectual da elite com um mercado internacional. Neste mundo, Paris era dominante e, a partir de 1900, todos os grandes artistas modernos espanhóis viveram e trabalharam lá, ao menos por um tempo.

Entre aqueles que se mudaram permanentemente para Paris cabe destacar Pablo Picasso (1881-1973). Nascido em Málaga, estudou mais tarde em Barcelona, onde se associou a Ramón Casas (1866-1932) e ao jovem artista figurativo Isidre Nonell (1873-1911), cujos impressionantes quadros de ciganos e mendigos influenciaram Picasso nos períodos azul e rosa (c. 1901 -1905). Após a mudança para Paris em 1900, Picasso se transformou em uma força importante no novo movimento cubista. Os cubistas, entre eles Picasso Juan Gris (1887-1927) e o francês Georges Braque (1882-1963). junto com alguns expoentes menores como o português Amadeu de Sousa Cardoso (1887-1918), fizeram experiências com a forma e a perspectiva, desdobrando notavelmente vários aspectos do mesmo objeto ao mesmo tempo. Os escultores espanhóis Pablo Gargallo (1881-1934) e Julio González (1876-1942) trabalharam também com os cubistas em Paris. Ambos homens trabalharam com o metal - uma especialidade que González havia aprendido no ateliê de seu pai -, representando as tradições espanholas em fino metal e ferro forjado. Suas representações cubistas não só combinavam os mundos dos artistas parisienses e dos artesãos ibéricos, mas também uma nova orientação à escultura espanhola.

Inevitavelmente, o movimento cubista produziu uma reação. O artista catalão Joan Miró (1893-1983) disse que ele sempre havia desejado “acabar com os planos dos cubistas”, apesar dele também se sentir influenciado pela obra cubista de Picasso. Em 1924, Miró colocou seu nome no manifesto emitido por outro grupo moderno de artistas que se iniciou timidamente, os surrealistas. Fortemente influenciados pela psicanálise, os surrealistas utilizavam imagens incongruentes em uma tentativa de refletir o mundo subconsciente. No entanto, ao contrário de seu colega catalão, o talentoso Salvador Dali (1904-1989), ou do espanhol Oscar Domínguez (1906-1958), Miró continuou sendo um individualista, cuja obra mostra uma grande variedade de estilos e influências. Fora das galerias, o surrealismo causou maior impacto no cinema. Dali colaborou com o cineasta espanhol Luis Bunuel (1900-1983) nos filmes surrealistas. Um cão andaluz (Un chien andalu, 1929) e A idade de ouro (Lage d'or, 1931), e mais tarde trabalhou com o diretor inglês Alfred Hitchcock (1899-1980) nas sequências oníricas de Quando Fala o Coração (Spellbound, 1945).

Dali e Bunuel se associaram também ao poeta Federico Garcia Lorca (1898-1936), que conheceram quando [151] os três eram estudantes em Madri no início da década de 1920. Lorca pertencia à “geração de 1927”, um notável grupo de poetas que incluía a Rafael Alberti (1902- 1999), Vicente Aleixandre (1898-1984) e, na década de 1930, Miguel Hernández (1910-1942), cujo trabalho foi reconhecido pela primeira vez durante a ditadura de Primo de Rivera. Este florescimento notável da poesia espanhola não teve paralelo em outros ramos da literatura. Muitos membros da geração de 27 eram da Andaluzia e dividiam um sentido comum da história espanhola, que pode ser compendiada no renascimento das obras do poeta da Idade de Ouro, Luis de Góngora (1561-1627). Estas mesmas raízes andaluzas, junto com um sentido de passado, foram dividas pelo maior dos compositores da península do século XX, Manuel de Falia (1876-1946).

Amigo íntimo de Garcia Lorca, Falia foi aluno do musicólogo catalão Felipe Pedrell (1841-1922). Fundador da escola moderna de música espanhola, Pedrell alentou o conhecimento e a compreensão da música tradicional, na crença de que qualquer música autenticamente nacional tinha que ter raízes indígenas. Os primeiros expoentes importantes da nova música foram, talvez ironicamente, ambos catalães. Isaac Albéniz (1860-1909) - também aluno de Pedrell - e Enrique Granados (1867-1916) dominaram a música da península na virada do século. Ambos incorporaram canções folclóricas estilizadas e danças populares em suas obras e hoje são recordados, sobretudo, por suas peças para piano, que fazem um delicado uso do colorido local.

O uso da música tradicional nas composições modernas foi continuado, entre outros, por Joaquín Turina (1882-1949) e, em uma geração mais jovem, pelos pupilos de Falia Ernesto e Rodolfo Halffter (1905-1989 e 1900-1987). Nenhum superou os feitos do próprio Falia, que ganhou mais renome fora da Espanha que qualquer outro compositor ibérico moderno. Suas peças mais populares são os balés andaluzes O chapéu de trêspontas e, em particular, O amor bruxo, que se utiliza do dramático flamenco, uma arte popular que Fala tentou reviver. Natural de Granada, Falia combinou um profundo amor pela região natal com um profundo e ascético catolicismo. Passou os últimos anos de vida compondo uma ópera, Atlântida, que ficou inacabada no momento de sua morte no exílio na Argentina.

Incontestavelmente, as conquistas artísticas do início do século XX na península foram predominantemente espanholas. No entanto, talvez a figura literária mais destacada seja a do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935). Apesar de ter nascido em Lisboa, Pessoa foi educado em Durban (África do Sul) e assim seus primeiros poemas foram escritos em inglês. Sua contribuição para a literatura portuguesa foi extraordinária, tendo em conta, além disso, que não foi produto de um homem, mas de quatro. Além de escrever poesia metafísica com o próprio nome. Pessoa criou três heterônimos -Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis - que escreviam com estilos diferentes. Caeiro era um positivista lógico para quem a aparência era a única realidade, Campos era um escritor futurista de verso entusiasta, enquanto Reis era um humanista clássico.

Pessoa negou energicamente que seus heterônimos fossem meros pseudônimos, argumentando que eram mais bem manifestações das personalidades múltiplas encontradas em todos os seres humanos. Eram tão reais para ele que cada um tinha sua própria biografia, aspecto e personalidade intelectual. Ricardo Reis, por exemplo, havia nascido supostamente no Porto em 1887, educado pelos jesuítas e se dedicado à medicina geral depois de obter o título de médico. Livre pensador e fatalista, escrevia poesia em seu tempo livre e, como monárquico, preferiu se exilar a ter que se submeter à república. Ainda que tenha recebido pouco reconhecimento em vida, desde sua morte Pessoa foi saudado como o maior poeta português desde Camões no século XVI. Sua influência nas gerações de escritores mais jovens foi profunda, enquanto sua personalidade - ou personalidades - literária extraordinária o transformou até mesmo em um personagem de um romance, O ano da morte de Ricardo Reis (1984) de José Saramago.

Espanha | Artes
Por João Ferreira
Pedristas X Miguelistas, a guerra civil portuguesa

24 de Setembro de 1834, dias antes de completar 36 anos, o ex-imperador D. Pedro I do Brasil e ex-rei, D . Pedro IV de Portugal morreu no mesmo quarto onde tinha nascido, no Palácio de Queluz, arredores de Lisboa. Na sua curta vida. Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal cipriano Serafim de Bragança e Bourbon mudou de forma decisiva uma boa parte do mundo, desde o extremo ocidental da Europa até à ilha de Timor, na Oceania, passando pelo novo império da América e pelas colônias portuguesas em África e na Ásia. A guerra civil que conduziu em território português contra o “mano Miguel", como sempre chamou ao irmão e rival, deixou um legado fratricida. Nas ideias, nas mentalidades, nos costumes – mais do que nas posições políticas ou na hierarquia social - ainda hoje é possível descortinar, em Portugal, uma divisão profunda entre “pedristas" e "miguelistas".

Os reis de Portugal D. João VI (1767-1826) e D. Carioca Joaquina (1775-1830) tiveram nove filhos. D. Pedro foi o quarto (nasceu a 12 de Outubro de 1798) e D. Miguel, o sétimo, baptizado com o nome de Miguel Maria do Patrocínio João Carlos Francisco de Assis Xavier de Paula Pedro de Alcântara Antônio Rafael Gabriel Joaquim José Gonzaga Evaristo. Nasceu em Queluz, a 26 de Maio de 1802, e morreu em Carlsruhe (Alemanha), a 14 de Novembro de 1866.

Os dois irmãos chegaram meninos ao Brasil - Pedro com nove anos e Miguel com cinco -, na nau Príncipe Real, em março de 1808, acompanhando a fuga da Casa Real de Bragança ao invasor napoleônico. Apesar do mau relacionamento entre os pais, houve afecto entre os irmãos durante a infância e a adolescência. Ambos tiveram uma educação descuidada. D. Pedro sempre foi dado a aventuras de taberna e de saias, com parceiros de estúrdia como Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, um plebeu que, graças à amizade do futuro imperador, obteve o título de conde. Os costumes soltos e as crises de epilepsia não impediram-no de cultivar a veia musical: compôs o Hino da Independência brasileiro e o Hino da Carta, que seria hino nacional português de 1834 a 1910. Vaidoso e megalómano, as convicções liberais e a aposta no regime representativo não conseguiram apagar no seu carácter os traços de autoritarismo que viriam a fazê-lo perder um Império e a incompatibilizá-lo com grande parte dos que lhe tinham sido fiéis.

D. Miguel, a encarnação do Portugal Velho, era mais beato. Idolatrado pelos pobres, foi responsável por uma das características que ainda hoje marcam a ultra-direita portuguesa: o populismo. Amigo de campinos, era capaz de adiar assuntos de Estado por causa de uma tourada. Apesar de apoiado por intelectuais de grande valor, como o economista José Acúrsio das Neves, preferia os pregadores - o padre José Agostinho de Macedo e frei Fonunato de S. Boaventura, em cuja prosa, segundo Oliveira Martins, se sente “a explosão cega do gênio português, sempre plebeu na fúria”.

Os tumultos de 26 de Fevereiro de 1821, no Rio de Janeiro, eco da Resolução liberal de 24 de Agosto de 1820, no Porto, foram decisivos nos destinos opostos das dois irmãos. Depois de a multidão excitada ter desatrelado o coche em que seguia D. João VI, exigindo-lhe que jurasse a Constituição, D. Pedro assomou a varanda do Paço e, perante a mudez do pai, garantiu esse juramento. D. Miguel, com apenas 18 anos, assistiu a tudo sem se manifestar. Mas não mais esqueceu o que considerou uma humilhação e um atentado aos direitos reais de origem divina.

O último encontro entre os dois irmãos ocorreu a 26 de Abril de 1821, quando D. Miguel partiu, com os pais, de volta a Lisboa. 

“Os desatinos do mano Miguel”

Apesar da distância. D. Pedro manteve-se próximo do pai. A independência proclamada nas margens do Ipiranga, a 7 de Setembro de 1822. tinha sido há muito combinada com o próprio D. João VI que, antes de regressar a Portugal, dissera ao filho mais velho para não hesitar em tomar para si a coroa do Brasil, antes que algum aventureiro o fizesse.

Em Lisboa, D. Miguel afastou-se do pai e ligou-se cada vez mais à mãe, D. Carlota Joaquina. Unia-os o ódio ao regime encontrado no regresso. Enquanto a rainha foi a alma da contra-revolução, o infante tornou-se o seu instrumento principal. Miguel intentou dois golpes de Estado anti-liberais. Em maio de 1823, a Vilafrancada(assim chamada porque o infante saiu com a tropa para Vila Franca de Xira, nos arredores de Lisboa, e aí fez o seu pronunciamento) dissolveu as Cortes e suspendeu a Constituição, restaurando os “inauferiveis direitos” do rei. D. João VI aceitou, nomeou o filho generalissimo do exército e chamou para a chefia do governo um absolutista moderado, o conde de Subserra.

D. Miguel achou pouco. Menos de um ano depois, em Abril de 1824, voltou a pegar em armas. Foi a Abrilada. Dessa vez, D. João VI, que chegou a estar preso por ordem do filho mais novo, não perdoou. Com o apoio do corpo diplomático, refirgiou-se a bordo do navio inglês Windsor Castle, convocou D. Miguel para lhe comunicar que o destituía da chefia do exército e mandou-o para o exílio, em Viena de Áustria. D. Pedro desabafou, em carta ao pai, contra “os desatinos do mano Miguel”.

O “pedreiro” e o “apostólico”

Por morte de D. João VI, a regente D. Isabel Maria (irmã de D. Pedro e de D. Miguel), enviou uma embaixada ao Rio de Janeiro para informar o imperador de que, segundo o testamento do pai, era agora, também, rei de Portugal. A 29 de Abril de 1826, D. Pedro IV outorgou a Carta Constitucional, que se manteria, com algumas alterações, como a lei fundamental portuguesa até a implantação da república, em 1910. Apesar da moderação da Carta, D. Pedro sabia que a subida ao trono ele Portugal não era consensual. Para muitos representantes da aristocracia, da Igreja, do exército e da burguesia comercial – os poderes que, de facto, mandavam em Lisboa – ele era um “soberano estrangeiro. Chamavam-lhe “o brasilero". E pior “pedreiro- livre", numa alusão às suas ideias liberais e adesão à Maçonaria.

Num gesto destinado a conciliar os portugueses, a 2 de Maio de 1826, abdicou da coroa a favor da filha mais velha, D. Maria da Glória, nascida no Rio de Janeiro, em 1819, do seu casamento com a arquiduquesa D. Leopoldina de Habsburgo, filha do imperador Francisco II da Áustria. Mais: para apaziguar liberais e absolutistas, decidiu que, ao atingir a maioridade, a rainha casaria com o tio, o “mano Miguel”, que foi convidado a regressar da Áustria, onde se encontrava exilado, para assumir a regência de Portugal. Condições: D. Miguel deveria jurar a Carta Constitucional e governar o pais num regime de monarquia representativa.

Era exigir a quadratura do círculo. O exílio vienense, sob a protecção de Metternich, o “inventor” da Santa Aliança, reforçara em D. Miguel a crença nos malefícios do liberalismo e nas virtudes da união do Trono e do Altar. Aceitou as condições do rival a quem chamuva “o meu amado irmão" mas protelou o regresso. Ele sabia que a regente, a mana D. Isabel Maria, embora tivesse jurado a Carta, via com bons olhos a restauração da velha ordem.

Em Julho de 1827, perante o agravamento da situação política em Portugal e a doença de D. Isabel Maria, D. Pedro nomeia o irmão seu lugar-tenente e regente do reino. Pressionado por Metternich, que o instava a agarrar a oportunidade, D. Miguel jura a Carta em 4 de Outubro de 1827 e, dias depois, celebra as esponsais com a sobrinha, por procuração. Pare de regresso a Portugal mas, pelo caminho, faz uma demorada escala em Inglaterra. Chega finalmente ao estuário do Tejo, a bordo da fragata Pérola, e desembarca em Belém, a 22 de Fevereiro de 1828.

O desejado

O regresso gerou uma onda de entusiasmo que rapidamente descambou em histeria. Aos vivas a D. Miguel e à rainha Carlota Joaquina seguiram-se os morras aos “malhados" (designação pejorativa dos liberais, numa alusão à bandeira constitucional azul e branca, por oposição à absolutista. toda branca) e à “canalha pedreiral” (os pedreiros-livres, isto é, a Maçonaria).

Logo nesse dia, bandos de populares armados de cacetes começaram a percorrer as ruas à procura de liberais para os provocar e agredir. O clima de intimidação, imposto por arruaceiros favoritos de D. Miguel, como José Veríssimo e o Sedovém, era apenas uma amostra do que estava para vir. O novo êxito popular cantado por toda Lisboa era agora: "Fora malhado!/Chucha judeu!/Acabou-se a guerra!/D. Miguel é rei!"

Em Maio são convocadas Cortes à maneira antiga, pelos três “estados" medievais: clero, nobreza e povo. No Porto rebenta uma insurreição que alastra pelo Norte, proclamando fidelidade a D. Maria II. Durante os meses seguintes, as tropas féis a D. Miguel perseguem os revoltosos. Um novo movimento liberal, que ficaria conhecido por Belfastada (devido aos chefes terem fugido a bordo do cruzador inglês Belfast) é esmagado. Só a Ilha Terceira, nos Açores, resiste ao absolutismo.

Forcas e prisões

A 11 de Julho, as Cortes aclamam D. Miguel I, rei absoluto. O seu governo apoia-se em duas facções: os “tradicionalistas", mais moderados, chefiados pelo duque de Cadaval e pelo visconde de Santarém; e os "apostólicos" ou Tainhistas" (por terem o apoio de Carlota Joaquina), mais radicais, encabeçados pelo conde de Basto.

Inicia-se um período de repressão. Para combater a Maçonaria, os absolutistas formam a sua própria sociedade secreta, a Ordem de S. Miguel da Ala, cujo grão-mestre foi o próprio D. Miguel e que se manteve activa em Portugal pelo menos até 1853. O primeiro pretexto para represálias violentas surge com a conspiração dos Divodignos - uma associação de estudantes liberais da Universidade de Coimbra responsável pelo assassínio de professores miguelistas. A policia não descansa enquanto não manda os culpados para a forca.

As forcas do Cais do Sodré, em Lisboa, passam a fazer parte do imaginário português: entre 1828 e 1834 houve, segundo Oliveira Martins, 115 enforcamentos, a maioria por motivos políticos. Nas prisões, sobretudo no Limoeiro, em Lisboa, e de S. Julião da Barra, em Ociras, a poucos quilômetros da capital, foram deixados a apodrecer dezenas de milhares de presos políticos (Oliveira Martins fala em 26.700). Pelo seu comportamento desumano distinguiu-se em S. Julião o brigadeiro Teles Jordão, abatido pelos liberais no combate de Cacilhas, a 23 de julho de 1833.

Nas masmorras miguelistas morreram Manuel Borges Carneiro, um dos líderes da Revolução liberal de 1820 (sucumbiu à febre amarela no presídio de Cascais, em 1833), e o antigo primeiro-ministro Manuel Inácio Martins Pamplona Corte Real, conde de Subserra. Apesar de absolutista, incorrera no ódio de D. Miguel por causa da sua moderação. Preso em 1828, morreu no forte de Elvas, em 1832. A violência do regime - que levou à emigração, por razões políticas, muitos milhares de portugueses (13.700, segundo Oliveira Martins) - isolou D. Miguel na cena internacional. Em 1830, o poder em Inglaterra passara das mãos dos ‘tories' (conservadores), de Wellington, para as dos whigs (liberais), de Palmerston; em França, a revolução de Julho expulsara o legitimista Carlos X e colocara nas Tulherias o rei-cidadão Luís Filipe. A machadada final veio de Espanha, em 1833, quando até o arqui-reaccionário Fernando VII promoveu uma abertura liberalizante, ao designar herdeira do trono a filha Isabel, deitando por terra as expectativas do seu irmão Carlos Maria Isidro. Foi o início das guerras carlistas - e com elas o exercito espanhol tornou-se aliado dos liberais portugueses para dar caça aos rebeldes carlistas, que uniram a sua causa à de D. Miguel.

O Rei-soldado

Enquanto D. Miguel governava Portugal com pulso de ferro, a diplomacia liberal, encabeçada pelo marques (futuro duque) de Palmela, manobrava ao serviço de D. Maria II. Mas a “corte" da jovem rainha, reduzida a pouco mais do que ela própria e a madrasta, D. Amélia de Beauharnais, segunda mulher de D. Pedro, arrastava-se de londres para Paris.

Em 1831, porém, tudo muda. A 7 de Abril, o imperador abdica do trono brasileiro a favor do menino D. Pedro II e parte para a Europa. Com o único título de duque de Bragança, proclama-se regente de Portugal em nome da filha - e ganha o cognome de Rei-soldado. Apoiado pelo financeiro espanhol Mendizábal, lança uma campanha de recrutamento de mercenários em Inglaterra e França. Instala-se em Belle Isle, onde acelera os preparativos para a expedição.

Primeira etapa: a Ilha Terceira, bastião da fidelidade a D. Maria. Em Angra do Fleroísmo é estabelecido o primeiro governo constitucional, com Mouzinho da Silveira nas pastas da Fazenda e da Justiça. Decreto atrás de decreto, o ministro reforma a administração pública, nacionaliza os bens da coroa e da Igreja, lança os alicerces do Portugal moderno.

Depois da conquista das restantes ilhas das Açores, o objectivo seguinte é o desembarque em Portugal Continental. Para isso, D. Pedro conta com uma força de 7.500 homens, entre voluntários e mercenários estrangeiros.

O exército liberal desembarcou na praia de Pampelido, perto do Porto, no dia 8 de Julho de 1832. Uma das proclamações então divulgadas é um bom exemplo da mentalidade de D. Pedro: “Portugueses! Livrar a humanidade oprimida, restabelecer a ordem, restaurar o trono de minha filha e com ele a carta, são estas as minhas únicas vistas. Meu único interesse é a glória e o vosso bem. (...) Não me obrigueis a empregar a força para vos libertar! Reflecti e decidi-vos."

No dia seguinte, as tropas entraram no Porto, sem encontrar resistência. Embora dispusesse de forças muito superiores, D. Miguel foi lento a reagir. Ordenou aos seus generais que atacassem a cidade - e o resultado foi o cerco, que durou mais de um ano. Os liberais e a população civil sofreram privações terríveis. D. Pedro teve durante todo esse tempo um comportamento exemplar. Nas suas fileiras combateram grandes vultos da cultura portuguesa, como os escritores Almeida Garrett e Alexandre Herculano.

A concentração do exército miguelista no cerco do Porto deixou o resto do país desguarnecido. Em 21 de Junho de 1833, a esquadra liberal, comandada pelo inglês Charles Napier, largou da foz do Douro rumo ao Algarve. Depois de desembarcar os chefes liberais Terceira e Palmela, Napier contornou o litoral algarvio e, a 3 de Julho, derrotou a armada miguelista ao largo do Cabo de S. Vicente. Aquela batalha naval decidiu a guerra civil. Daí em diante, o avanço das tropas de D. Pedro tornou-se imparável. O duque da Terceira subiu pelo Alentejo e, a 24 de Julho de 1833, entrou triunfante em Lisboa.

No Porto, a 25 de Julho, Saldanha repeliu um último assalto do novo comandante miguelista, o general francês Bourmont que, perante a derrota, levantou o cerco. D. Miguel iniciou uma longa retirada: primeiro para Coimbra, daí para Leiria, depois para Santarém. A guerra durou ainda mais oito meses. As vitórias de Saldanha e Terceira em Almoster e Asseiceira deram o golpe de misericórdia no debilitado exército absolutista. A 27 de Maio de 1834, D. Miguel assinou a Convenção de Évora Monte e partiu para o exílio.

Em Lisboa, os vencedores não se entendiam. Saldanha, herói da guerra, encabeçava a oposição. D. Pedro achava-se com direito a mandar. Não resistiu a prender um liberal da primeira hora, Rodrigo Pinto Pizarro. Numa noite de Verão, no Teatro de S. Carlos, o regente foi pateado e ouviram-se gritos: “Abaixo o ditador!” O ex-rei e ex-imperador estava esgotado. Aos 35 anos, parecia um velho. A tuberculose consumia-o. A 24 de Setembro, morreu no mesmo quarto onde nascera, no Palácio de Queluz.

Com apenas 15 anos, D. Maria lI, que as Cortes se apressaram a declarar maior de idade, recebeu uma herança pesada. Até 1851, os governos sucederam-se vertiginosamente, ao sabor de resoluções e golpes de Estado. Vintistas, setembristas, cartistas, progressistas, regeneradores e históricos foram as sucessivas designações dos partidos do arco parlamentar liberal que disputaram o poder até ao início do século 20.

Os “pedristas" deram conta do recado? O balanço dependerá sempre do observador. O certo é que os sucessores de D. Pedro em Portugal mantiveram o trono até 1910 – no Brasil, o Império fora abolido em 1889. O seu bisneto D. Carlos, assassinado em Lisboa, em 1 de Fevereiro de 1908, chegou a desabafar que era rei de uma monarquia sem monárquicos. O regime cairia na sequência de um golpe de Estado comandado pelo Partido Republicano, que nas últimas eleições nacionais tinha obtido sete por cento dos votos. O último rei descendente directo de D. Pedro, D. Manuel II, partiu para o exílio a 5 de Outubro de 1910. 

O Portugal Velho

D. Miguel portou-se com dignidade na derrota. Mal desembarcou em Gênova, denunciou a Convenção de Évora Monte, pela qual renunciara aos seus direitos, e recusou a pensão de 60 contos anuais que os vencedores lhe tinham oferecido. Viveu alguns anos em Roma e depois mudou-se para a Alemanha, onde casou, em 1851, com Adelaide de Loewenstein-Weriheim-Rochefort-Rosenberg (1831-1909), com quem teve sete filhos. Fixou residência em Brombach e morreu aos 64 anos.

O miguelismo em Portugal manteve-se activo sob os nomes de partido realista, tradicionalista ou legitimista. Um dos seus jornais intitulava-se, justamente, O Portugal Velho. Não voltou ao poder, embora a sua bandeira tenha sido içada em 1847, aquando da revolta da Patuleia.

Implantada a república, os monárquicos dividiram-se entre apoiantes do ex-rei D. Manuel e seguidores do filho de D. Miguel, a quem chamavam D. Miguel II (1853-1927). Este, oficial do exercito austríaco, renunciou aos seus direitos a favor do filho Duarte Nuno (1907-1974). O neto de D. Miguel e a bisneta de D. Pedro

A morte, sem descendência, de D. Manuel II, em Inglaterra, em 1932, resolveu o dilema dos monárquicos. As duas facções reconheceram Duarte Nuno como chefe da casa real. A reconciliação definitiva aconteceu em 1942, quando D. Duarte Nuno, neto de D. Miguel, se casou com a princesa brasileira D. Maria Francisca de Orleães e Bragança, bisneta de D. Pedro. O actual pretendente ao trono de Portugal. D. Duarte Pio (n. 1945), é descendente directo dos dois irmãos desavindos. 

Portugal | Política
Por Junito de Souza Brandão
Legado Cretense

A Civilização Ocidental tem suas raízes profundamente mergulhadas na Egeida, especialmente na Creta Minoana. Claro está que a influência Minoana em nossa Civilização é indireta: processou-se, sobretudo, através da Grécia cuja civilização, no dizer de Glotz, "mãe da civilização latina e ocidental, é filha da civilização egéia". Vamos tentar resumir, nas linhas seguintes, a herança deixada pelos minoanos aos povos da Antiguidade com os quais estiveram em contato. Desses povos, claro está, os helenos figuram no primeiro plano. As atividades comerciais dos minoanos, puseram-nos em contato com as mais distantes regiões e diferentes populações. As transações de ordem econômica foram acompanhadas de intercâmbios culturais que deixaram, muitas vezes, a impressão indelével da superioridade da Civilização Minoana.

Em Chipre notamos vestígios marcantes da colonização cretense na indústria, na arte e provavelmente na escrita chamada Cipro-Minoana. Desta escrita teria sido elaborado pelos aqueus um novo sistema puramente silábico, chamado escrita cipriota e usado para grafar a língua grega.

A Síria Meridional sofreu a poderosa influência dos minoanos: Com o seguro instinto de comerciantes eméritos, ocuparam o país aonde chegavam as caravanas do Egito e da Arábia. Eram bons agricultores que aclimatavam em Canaã a vinha e a oliveira. Eram Excelentes ferreiros. Levavam consigo sua arquitetura com a base de coluna e o capital ou Kaphtor do tipo egeu.

É curioso notar que, na época da invasão dórica, quando a escrita minoana havia praticamente desaparecido do Egeu, esses cretenses radicados na Ásia dela faziam, ainda, largo uso. Hail dá-nos preciosas informações sobre a expansão cretense e o respectivo legado: Vimos que em seus primeiros dias a cultura egéia (considerando as civilizações de Creta e das Cícladas como única) alcançou os confins setentrionais do Egeu e pode ter penetrado no vale do Danúbio. Através também do Mar Negro, sua influência pode ter alcançado a Bessarábia e a Rússia Meridional: aqui, no norte, surgiu uma bela cerâmica, devendo sua inspiração a modelos egeus primitivos e pertencendo a um povo que nunca alcançou a era do metal, tendo desaparecido sem deixar descendentes, quando ainda usava instrumentos de pedra. Esses mediterrâneos, como acreditamos que tenham sido, Se haviam distanciado demasiadamente de suas bases. Pereceram por mera inadaptação do meio, tendo talvez contribuído para isso tribos mais viris indo-européias que por essa época caminhavam da Sibéria para a Europa.

O mesmo autor acrescenta: Na Ásia Menor a cultura egéia nunca se firmou. o litoral tinha sua civilização própria, sem dúvida alguma aparentada a egéia, mas distinta dela, com idéias muito diferentes sobre a cerâmica e que permaneceu fora da influência das concepções egéias até quase o fim da Idade do Bronze.

Já aludimos as relações entre minoanos e egípcios. Inegável é a mútua influência de ambas as civilizações. Entre as contribuições dos egeus aos habitantes do Nilo, podemos citar os empréstimos, feitos às formulas medicinais cretenses, contidos nos textos dos tratados médicos da XVIII dinastia.

No Ocidente a atividade minoana também não se limitou ao comércio: na Sardenha introduziram sua religião, suas técnicas e seus utensílios. Na península ibérica observa-se um florescimento cultural em pleno segundo milênio graças a irradiação da civilização cretense. O culto do Touro existente nas Baleares assinala a presença da inspiração religiosa egéia.

Passemos a principal herdeira de Creta: a civilização helênica: A herança recolhida pelos helenos é imensa e abrange os mais variados setores como a língua, a escrita, as artes, o esporte, a ciência, a agricultura, a técnica, a política e a religião.

Comecemos com a língua. É inegável a contribuição cretense para o enriquecimento da língua grega. A essa conclusão chegam os estudiosos por meio de diversos indícios entre os quais podemos citar: as terminações INTH-OS, SOS ou SSOS; o sigma inicial ou colocado entre duas vogais; a impossibilidade de explicar, por raízes indo-européias, a existência de numerosas palavras gregas, algumas das quais, frequentemente usadas nos poemas homéricos, desapareceram da linguagem comum; a falta de correspondência normal entre palavras gregas e latinas; um significativo número de vocábulos conservados pelo patoá cretense da época histórica.

Depois da língua, a escrita. Não se trata, evidentemente do alfabeto grego oriundo do congênere fenício. Aludimos aos silabários de que os helenos se utilizaram em duas ocasiões e regiões diferentes: A linear B (que os especialistas chamam silabário miceniano) e o silabário cipriota.

E em ambos os casos, o silabário era única adaptação da antiga escrita minoana.

Em relação ao legado artístico, limitemo-nos a reproduzir Cohen:

"A uma arte completamente evoluída e que soube permanecer por muito tempo jovem por meio da observação direta da natureza, os aqueus tomaram não somente os motivos decorativos ou uma técnica, mas ainda uma doutrina e um ideal".

Na literatura nascente da Grécia é inegável a contribuição da inspiração minoana. Claro está que, enquanto não dispusermos de grande quantidade de inscrições cretenses decifradas, convém ser prudente nesse assunto.

Mas um fato se impõe: na Ilíada e na Odisséia ressoam os distantes ecos da brilhante civilização cretense. Mas a lembrança das glórias passadas e das cidades desaparecidas persiste. Creta é sempre a ilha das cem cidades.

O gosto dos cretenses pelos concursos ginásticos e musicais, que acompanham as grandes solenidades, não só passou para os helenos mas constituiu nos mesmos uma nota característica que os distinguiu dos demais povos indo-europeus.

A dança, com seus acessórios já bem aperfeiçoados, a música e a poesia, constituem, no sentir de Gbotz, a mais bela herança que os gregos receberam de seus precursores. O lirismo helênico através da música e da dança está intimamente ligado ao lirismo cretense: Escutemos o aedo que acompanha os dançarinos na descrição homérica do escudo de Aquiles, e teremos uma idéia do que se cantava no teatro de Knossos; escutemos o hino das Curetas sob a forma dórica e perceberemos o eco de um hino mais antigo; escutemos, se é possível, as orações ritmadas dos sacerdotes cretenses que sobem a Pito, e ouviremos ressoar as estrofes que acompanhavam Minos sobre a montanha santa.

Os esportes cretenses, com exceção das corridas de touro cuja lembrança sobreviveu apenas em algumas regiões e deformada na tradição lendária, foram recolhidos cuidadosamente pela ginástica helênica. Em Esparta, consideravam-se os regulamentos de educação física, estabelecidos em nome de Licurgo, como provenientes de Creta.

É curioso notar que os grandes centros em que se realizaram as mais famosas competições atléticas haviam outrora pertencido à área de intensa influência cultural minoana: Olímpia, Delfos, Delos, etc.

A ciência, a técnica e a agricultura dos helenos constituem setores de maior ou menor influência minoana. A hidráulica (que se percebe tão adiantada nos palácios de Knossos), os conhecimentos astronômicos (indispensáveis aos marinheiros cretenses), os demais segredos da arte náutica (entre os quais a construção de navios), a metalurgia, eis alguns exemplos da contribuição cretense, os quais proporcionaram aos helenos um notável avanço no progresso material, sem que tivessem necessidade de trilhar as etapas evolutivas por que passaram outros povos na conquista desses resultados.

O azeite de oliva, os figos e o doce vinho das parreiras foram produtos da agricultura cretense que os helenos herdaram e perpetuaram pelos séculos em fora. Na vida político-social podemos registrar como legado de Creta aos helenos o modelo de uma sociedade organizada com vida urbana intensa, o exemplo de uma administração bem estruturada e de uma centralizada monarquia. Na vida religiosa parece ter sido imensa a contribuição minoana, como as crenças e as idéias relativas a morte e ao culto dos defuntos e o politeísmo antropomórfico. São as imagens e as lendas piedosas, transmitidas desde longa data pelos cretenses aos aqueus, que explicam a aparente rapidez com que a religião grega tomou seus caracteres essenciais, um antropomorfismo quase absoluto e uma mitologia exuberante.

Cremos que este ligeiro esboço do legado de Creta foi suficiente para dar-nos uma idéia da importância da História da civilização egéia.

Concluamos com as palavras significativas de um dos maiores estudiosos conhecedores dessa civilização: Em resumo, a História da Civilização Egéia merece mais que um interesse de curiosidade arqueológica ou mesmo estética. Ela está repleta de porvir. Os cretenses, que a criaram, dela fizeram presente aos povos circunvizinhos, graças às facilidades que lhes oferecia o Mar Egeu, e logo a comunicaram a muitos outros povos graças a complacente ubiqüidade do Mediterrâneo. Enquanto que as civilizações do Egito e da Ásia guardavam um caráter local e terrestre, uma civilização insular irradiava ao longe.

Pela atração que exerceu, tentou as nações guerreiras. Quando se espalhou sobre O contorno egeu, a supremacia passou dos cretenses aos aqueus "cretizados", de Knossos e Micenas: era uma queda.

Civilização Cretense | Sociedade
Por Mary Beard
Os perigos, vícios e diversões da vida noturna na Roma antiga

Muitos de nós conseguem imaginar os brilhantes espaços cobertos de mármore da Roma antiga em um dia ensolarado, porque esta é a imagem exibida por filmes e séries, além dos livros de história. Mas o que acontecia ao anoitecer? Mais especificamente, o que acontecia com a grande maioria da população da cidade imperial que vivia em casas abarrotadas e não nas amplas mansões dos mais ricos? Lembre-se de que, no século 1 a.C., na época de Júlio César, a Roma antiga era uma cidade de 1 milhão de habitantes: ricos e pobres, escravos e ex-escravos, nativos e estrangeiros.

Foi a primeira métropole multicultural do mundo, com bairros marginais, residências de múltiplas ocupações e zonas de aterros sanitários - e tendemos a nos esquecer disso tudo quando nos concentramos em suas magníficas colunas e praças.

Então, como era a cidade de Roma, a verdadeira Roma, depois que se apagavam as luzes?

Caminhar pelas ruas podia ser fatal

O melhor ponto de partida é a sátira do poeta Juvenal, que evocou uma imagem desagradável da vida cotidiana em Roma ao redor de 100 d.C..

Juvenal alertou sobre os riscos de caminhar pelas ruas ao anoitecer sob janelas abertas. No melhor dos casos, podiam chover os excrementos armazenados durante o dia. No pior, uma pessoa podia ser acertada na cabeça pelos objetos lançados dos andares superiores.

"Penses nos diferentes e diversos perigos da noite. (...)

Se tu fores a um jantar sem um testamento, merecerás a pena de ser chamado de incauto e indiscreto, porque estarás sujeito a muitos perigos.

Há morte sob cada janela aberta em seu caminho.

Farás bem, portanto, se ao céu pedires que a maior desgraça que tentem te causar, seja que se contentem em banhar-te, jogando sobre ti o vaso pestilento."

Juvenal também fala do risco de topar com pessoas ricas que passeavam com seus mantos escarlates e comitivas de seguidores parasitas e empurravam para o lado quem estivesse em seu caminho.

Mas esta visão do poeta de Roma à noite é precisa? Foi realmente um lugar onde coisas caíam sobre as cabeças dos transeuntes, onde os ricos e poderosos te derrubavam no chão e passavam por cima e no qual, como Juvenal observa em outras passagens, uma pessoa corria o risco de ser assaltada e roubada por gangues de bandidos? Provavelmente, sim.

Não havia força policial

Fora do esplêndido centro cívico, Roma era um labirinto de ruelas estreitas e corredores. Não havia iluminação pública, nem locais adequados onde jogar fora excrementos ou, ainda, vigilância de uma força policial. Ao anoitecer, deve ter sido um lugar ameaçador.

A única proteção pública possível de esperar era a força paramilitar dos vigias urbanos. O que exatamente faziam e quão efetivos eram são pontos abertos para debate.

Estavam divididos em batalhões, e sua principal tarefa era vigiar o surgimento de incêndios, algo frequente nos blocos de casas mal construídas, com braseiros ardendo nos andares de cima.

Mas havia poucas ferramentas para lidar com eles, além de uma pequena quantidade de vinagre, algumas mantas para sufocar as chamas e hastes pesadas para derrubar as construções vizinhas e evitar que o incêndio se propagasse.

Às vezes, eles se tornavam heróis. De fato, há um memorial para um vigia em Ostia, perto de Roma, que tentou resgatar pessoas presas pelo fogo e morreu no processo - seu enterro foi pago pelo poder público.

Mas nem sempre eram tão altruístas. No grande incêndio de Roma do ano 64 d.C., a história conta que os vigias participaram dos saques à cidade e se aproveitaram de seu conhecimento sobre ela para encontrar grandes riquezas.

Proteção por conta própria

De qualquer forma, os vigias não eram uma força policial e tinham pouca autoridade quando ocorriam pequenos delitos noturnos.

Quem fosse vítima de um, tinha de se defender sozinho, como mostra um caso particularmente difícil discutido em um antigo manual sobre direito romano.

O caso se refere a um comerciante que mantinha seu negócio aberto à noite e deixou uma luminária no balcão que dava para a rua. Quando o objeto foi roubado, o dono da loja perseguiu o ladrão, e eles começaram a brigar.

O criminoso tinha uma arma - um pedaço de corda com um metal na ponta - e a usou contra o comerciante, que reagiu com um golpe tão forte que arrancou o olho do ladrão.

O dilema dos advogados romanos era se o comerciante era responsável pelo ferimento. Em um debate que ecoa alguns dos nossos próprios dilemas de até onde o dono de um negócio ou imóvel pode ir para se defender de um criminoso, os advogados disseram que o ladrão estava armado e havia dado o primeiro golpe, portanto, devia assumir a responsabilidade de ter pedido um olho.

O incidente é um bom exemplo do que poderia ocorrer nas ruas de Roma depois do anoitecer: pequenas brigas podiam ganhar grandes proporções e uma vasilha jogada de uma janela poderia ser fatal. 

Bares e jogos de azar

Mas a noite romana não era apenas perigosa: era também divertida. Havia clubes, tabernas e bares abertos até altas horas.

Ainda que uma pessoa compartilhasse uma casa pequena com muita gente, se fosse um homem, poderia escapar do aperto por algumas horas para beber, fazer apostas ou se divertir com as garçonetes.

A elite romana desprezava estes locais. Ainda que o jogo fosse uma das atividades favoritas da sociedade romana - dizia-se que o imperador Claudio havia escrito um manual sobre o tema -, isso não impediam que as classes mais altas denunciassem os maus hábitos dos pobres e seu vício em jogos de azar.

Felizmente, temos algunas imagens da diversão em bares romanos do ponto de vista dos cidadãos comuns e não de seus críticos. Elas não estão em Roma, mas nas paredes dos bares de Pompeia, e mostram cenas típicas: grupos de homens sentados ao redor de mesas, pedindo outra rodada de bebidas, a interação entre clientes e garçonetes e uma grande quantidade de jogos. Há até indícios de violência.

Nesta pintura de um bar de Pompeia, que hoje está no Museu Arqueológico de Nápoles, vemos à esquerda uma dupla de jogadores que têm uma desavença sobre o jogo e, na direita, o proprietário ameaçando expulsá-los dali.

E os ricos?

Onde estavam os mais ricos durante essa agitada vida noturna nas ruas? A maioria estava cômodamente dormindo em suas camas, em casas luxuosas, com o auxílio de escravos e a proteção de cães de guarda.

Por trás das suas portas, reinava a paz - a menos, é claro, que houvesse um ataque -, e só ouviam os sons da vida dura nas ruas. Mas havia romanos na elite para quem a vida nas ruas era muito mais emocionante, e era ali que eles queriam estar.

Nas ruas de Roma, podia-se encontrar o imperador Nero em suas noites livres. Ao anoitecer, segundo conta seu biógrafo Suetônio, ele se disfarçava, visitava os bares da cidade e vagava pelas ruas, provocando confusão com seus companheiros.

Quando cruzava com homens a caminho de casa, os golpeava. Quando tinha vontade, invadia lojas fechadas e vendia no palácio o que roubava. Também se metia em brigas e, aparentemente, corria com frequêcia o risco de ser ferido ou morto.

E, ainda que muitos dos ricos evitasem sair de casa depois do anoitecer, outros faziam isso acompanhados por escravos que atuavam como seguranças privados ou um grande séquito de ajudantes, em busca de diversão.

Pelos relatos de Suetônio, talvez um dos maiores perigos de se andar à noite em Roma fosse encontrar o imperador.

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A capacidade de rir é uma das características mais prazerosas dos humanos. Sinal de superioridade para Platão, ou a distância mais curta entre dois corações, como consideram os apaixonados, esse instinto primordial e irresistível tem seus mistérios.

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Por Sigmund Freud
A dinâmica da Transferência

O tópico quase inexaurível da transferência foi recentemente tratado por Wilhelm Stekel [1911b] nesse periódico, em estilo descritivo. Gostaria de, nas páginas seguintes, acrescentar algumas considerações destinadas a explicar como a transferência é necessariamente ocasionada durante o tratamento psicanalítico, e como vem ela a desempenhar neste seu conhecido papel. Deve-se compreender que cada indivíduo, através da ação combinada de sua disposição inata e das influências sofridas durante os primeiros anos, conseguiu um método específico próprio de conduzir-se na vida erótica - isto é, nas precondições para enamorar-se que estabelece, nos instintos que satisfaz e nos objetivos que determina a si mesmo no decurso daquela. Isso produz o que se poderia descrever como um clichê estereotípico (ou diversos deles), constantemente repetido - constantemente reimpresso - no decorrer da vida da pessoa, na medida em que as circunstâncias externas e a natureza dos objetos amorosos a ela acessíveis permitam, e que decerto não é inteiramente incapaz de mudar, frente a experiências recentes. Ora, nossas observações demonstraram que somente uma parte daqueles impulsos que determinam o curso da vida erótica passou por todo o processo de desenvolvimento psíquico. Esta parte está dirigida para a realidade, acha-se à disposição da personalidade consciente e faz parte dela. Outra parte dos impulsos libidinais foi retida no curso do desenvolvimento; mantiveram-na afastada da personalidade consciente e da realidade, e, ou foi impedida de expansão ulterior, exceto na fantasia, ou permaneceu totalmente no inconsciente, de maneira que é desconhecida pela consciência da personalidade. Se a necessidade que alguém tem de amar não é inteiramente satisfeita pela realidade, ele está fadado a aproximar-se de cada nova pessoa que encontra com idéias libidinais antecipadas; e é bastante provável que ambas as partes de sua libido, tanto a parte que é capaz de se tornar consciente quanto a inconsciente, tenham sua cota na formação dessa atitude.

Assim, é perfeitamente normal e inteligível que a catexia libidinal de alguém que se acha parcialmente insatisfeito, uma catexia que se acha pronta por antecipação, dirija-se também para a figura do médico. Decorre de nossa hipótese primitiva que esta catexia recorrerá a protótipos, ligar- se-á a um dos clichês estereotípicos que se acham presentes no indivíduo; ou, para colocar a situação de outra maneira, a catexia incluirá o médico numa das ‘séries’ psíquicas que o paciente já formou. Se a ‘imago paterna’, para utilizar o termo adequado introduzido por Jung (1911, 164), foi o fator decisivo no caso, o resultado concordará com as relações reais do indivíduo com seu médico. Mas a transferência não se acha presa a este protótipo específico: pode surgir também semelhante à imago materna ou à imago fraterna. As peculiaridades da transferência para o médico, graças às quais ela excede, em quantidade e natureza, tudo que se possa justificar em fundamentos sensatos ou racionais, tornam-se inteligíveis se tivermos em mente que essa transferência foi precisamente estabelecida não apenas pelas idéias antecipadas conscientes, mas também por aquelas que foram retidas ou que são inconscientes.

Nada mais haveria a examinar ou com que se preocupar a respeito deste comportamento da transferência, não fosse permanecerem inexplicados nela dois pontos que são de interesse específico para os psicanalistas. Em primeiro lugar, não compreendemos por que a transferência é tão mais intensa nos indivíduos neuróticos em análise que em outras pessoas desse tipo que não estão sendo analisadas. Em segundo, permanece sendo um enigma a razão por que, na análise, a transferência surge como a resistência mais poderosa ao tratamento, enquanto que, fora dela, deve ser encarada como veículo de cura e condição de sucesso. Pois nossa experiência demonstrou - e o fato pode ser confirmado com tanta freqüência quanto o desejarmos - que, se as associações de um paciente faltam, a interrupção pode invariavelmente ser removida pela garantia de que ele está sendo dominado, momentaneamente, por uma associação relacionada com o próprio médico ou com algo a este vinculado. Assim que esta explicação é fornecida, a interrupção é removida ou a situação se altera, de uma em que as associações faltam para outra em que elas estão sendo retidas. À primeira vista, parece ser uma imensa desvantagem, para a psicanálise como método, que aquilo que alhures constitui o fator mais forte no sentido do sucesso nela se transforme no mais poderoso meio de resistência. Contudo, se examinarmos a situação mais de perto, podemos pelo menos dissipar o primeiro de nossos dois problemas. Não é fato que a transferência surja com maior intensidade e ausência de coibição durante a psicanálise que fora dela. Nas instituições em que doentes dos nervos são tratados de modo não analítico, podemos observar que a transferência ocorre com a maior intensidade e sob as formas mais indignas, chegando a nada menos que servidão mental e, ademais, apresentando o mais claro colorido erótico. Gabriele Reuter, com seus agudos poderes de observação, descreveu isso em época na qual não havia ainda uma coisa chamada psicanálise, num livro notável, que revela, sob todos os aspectos, a mais clara compreensão interna (insight) da natureza e gênese das neuroses. Essas características da transferência, portanto, não devem ser atribuídas à psicanálise, mas sim à própria neurose.

Nosso segundo problema - o problema de saber por que a transferência aparece na psicanálise como resistência - está por enquanto intacto; e temos agora de abordá-lo mais de perto. Figuremos a situação psicológica durante o tratamento. Uma precondição invariável e indispensável de todo desencadeamento de uma psiconeurose é o processo a que Jung deu o nome apropriado de ‘introversão’. Isto equivale a dizer: a parte da libido que é capaz de se tornar consciente e se acha dirigida para a realidade é diminuída, e a parte que se dirige para longe da realidade e é inconsciente, e que, embora possa ainda alimentar as fantasias do indivíduo, pertence todavia ao inconsciente, é proporcionalmente aumentada. A libido (inteiramente ou em parte) entrou num curso regressivo e reviveu as imagos infantis do indivíduo. O tratamento analítico então passa a segui-la; ele procura rastrear a libido, torná-la acessível à consciência e, enfim, útil à realidade. No ponto em que as investigações da análise deparam com a libido retirada em seu esconderijo, está fadado a irromper um combate; todas as forças que fizeram a libido regredir se erguerão como ‘resistências’ ao trabalho da análise, a fim de conservar o novo estado de coisas. Pois, se a introversão ou regressão da libido não houvesse sido justificada por uma relação específica entre o indivíduo e o mundo externo - enunciado, em termos mais gerais, pela frustração da satisfação - e se não se tivesse, no momento, tornado mesmo conveniente, não teria absolutamente ocorrido. Mas as resistências oriundas desta fonte não são as únicas ou, em verdade, as mais poderosas. A libido à disposição da personalidade do indivíduo esteve sempre sob a influência da atração de seus complexos inconscientes (ou mais corretamente, das partes desse complexos pertencentes ao inconsciente), e encontrou num curso regressivo devido ao fato de a atração da realidade haver diminuído. A fim de liberá-la, esta atração do inconsciente tem de ser superada, isto é, a repressão dos instintos inconscientes e de suas produções, que entrementes estabeleceu no indivíduo, deve ser removida. Isto é responsável, de longe, pela maior parte da resistência, que tão amiúde faz a doença persistir mesmo após o afastamento da realidade haver perdido sua justificação temporária. A análise tem de lutar contra as resistências oriundas de ambas essas fontes. A resistência acompanha o tratamento passo a passo. Cada associação isolada, cada ato da pessoa em tratamento tem de levar em conta a resistência e representa uma conciliação entre as forças que estão lutando no sentido do restabelecimento e as que se lhe opõem, já descritas por mim.

Se acompanharmos agora um complexo patogênico desde sua representação no consciente (seja ele óbvio, sob a forma de um sintoma, ou algo inteiramente indiscernível) até sua raiz no inconsciente, logo ingressaremos numa região em que a resistência se faz sentir tão claramente que a associação seguinte tem de levá-la em conta a aparecer como uma conciliação entre suas exigências e as do trabalho de investigação. É neste ponto, segundo prova nossa experiência, que a transferência entra em cena. Quando algo no material complexivo (no tema geral do complexo) serve para ser transferido para a figura do médico, essa transferência é realizada; ela produz a associação seguinte e se anuncia por sinais de resistências - por uma interrupção, por exemplo. Inferimos desta experiência que a idéia transferencial penetrou na consciência à frente de quaisquer outras associações possíveis, porque ela satisfaz a resistência. Um evento deste tipo se repete inúmeras vezes no decurso de um análise. Reiteradamente, quando nos aproximamos de um complexo patogênico, a parte desse complexo capaz de transferência é empurrada em primeiro lugar para a consciência e defendida com a maior obstinação.

Depois que ela for vencida, a superação das outras partes do complexo quase não apresenta novas dificuldades. Quanto mais um tratamento analítico demora e mais claramente o paciente se dá conta de que as deformações do material patogênico não podem, por si próprias, oferecer qualquer proteção contra sua revelação, mais sistematicamente faz ela uso de um tipo de deformação que obviamente lhe concede as maiores vantagens - a deformação mediante a transferência. Essas circunstâncias tendem para uma situação na qual, finalmente, todo conflito tem de ser combatido na esfera da transferência.

Assim, a transferência, no tratamento analítico, invariavelmente nos aparece, desde o início, como a arma mais forte da resistência, e podemos concluir que a intensidade e persistência da transferência constituem efeito e expressão da resistência. Ocupamo-nos do mecanismo da transferência, é verdade, quando o remontamos ao estado de prontidão da libido, que conservou imagos infantis, mas o papel que a transferência desempenha no tratamento só pode ser explicado se entrarmos na consideração de suas relações com as resistências.

Como é possível que a transferência sirva tão admiravelmente de meio de resistência? Poder-se-ia pensar que a resposta possa ser fornecida sem dificuldade, pois é claro que se torna particularmente difícil de admitir qualquer impulso proscrito de desejo, se ele tem de ser revelado diante desse tipo dá origem a situações que, no mundo real, mal parecem possíveis. Mas é precisamente a isso que o paciente visa, quando faz o objeto de seus impulsos emocionais coincidir com o médico. Uma nova consideração, no entanto, mostra que essa vitória aparente não pode fornecer a solução do problema. Na verdade, uma relação de dependência afetuosa e dedicada pode, pelo contrário, ajudar uma pessoa a superar todas as dificuldades de fazer uma confissão. Em situações reais análogas, as pessoas geralmente dirão: ‘Na sua frente, não sinto vergonha: posso dizer-lhe qualquer coisa.’ Assim, a transferência para o médico poderia, de modo igualmente simples, servir para facilitar as confissões, e não fica claro por que deve tornar as coisas mais difíceis.

A resposta à questão que foi tão amiúde repetida nestas páginas não pode ser alcançada por nova reflexão, mas pelo que descobrimos quando examinamos resistências transferenciais particulares que ocorrem durante o tratamento. Percebemos afinal que não podemos compreender o emprego da transferência como resistência enquanto pensarmos simplesmente em ‘transferência’. Temos de nos resolver a distinguir uma transferência ‘positiva’ de uma ‘negativa’, a transferência de sentimentos afetuosos da dos hostis e tratar separadamente os dois tipos de transferência para o médico. A transferência positiva é ainda divisível em transferência de sentimentos amistosos ou afetuosos, que são admissíveis à consciência, e transferência de prolongamentos desses sentimentos no inconsciente. Com referência aos últimos, a análise demonstra que invariavelmente remontam a fontes eróticas. E somos assim levados à descoberta de que todas as relações emocionais de simpatia, amizade, confiança e similares, das quais podemos tirar bom proveito em nossas vidas, acham-se geneticamente vinculadas à sexualidade e se desenvolveram a partir de desejos puramente sexuais, através da suavização de seu objetivo sexual, por mais puros e não sensuais que possam parecer à nossa autopercepção consciente. Originalmente, conhecemos apenas objetos sexuais, e a psicanálise demonstra-nos que pessoas que em nossa vida real são simplesmente admiradas ou respeitadas podem ainda ser objetos sexuais para nosso inconsciente.

Assim, a solução do enigma é que a transferência para o médico é apropriada para a resistência ao tratamento apenas na medida em que se tratar de transferência negativa ou de transferência positiva de impulsos eróticos reprimidos. Se “removermos" a transferência por torná- la consciente, estamos desligando apenas, da pessoa do médico, aqueles dois componentes do ato emocional; o outro componente, admissível à consciência e irrepreensível, persiste, constituindo o veículo de sucesso na psicanálise, exatamente como o é em outros métodos de tratamento. Até este ponto admitimos prontamente que os resultados da psicanálise baseiam-se na sugestão; por esta, contudo, devemos entender, como o faz Ferenczi (1909), a influenciação de uma pessoa por meio dos fenômenos transferenciais possíveis em seu caso. Cuidamos da independência final do paciente pelo emprego da sugestão, a fim de fazê-lo realizar um trabalho psíquico que resulta necessariamente numa melhora constante de sua situação psíquica.

Pode-se levantar ainda a questão de saber por que os fenômenos de resistência da transferência só aparecem na psicanálise e não em formas indiferentes de tratamento (em instituições, por exemplo). A resposta é que eles também se apresentam nestas outras situações, mas têm de ser identificados como tal. A manifestação de uma transferência negativa é, na realidade, acontecimento muito comum nas instituições. Assim que um paciente cai sob o domínio da transferência negativa, ele deixa a instituição em estado inalterado ou agravado. A transferência erótica não possui efeito tão inibidor nas instituições, visto que nestas, tal como acontece na vida comum, ela é encoberta ao invés de revelada. Mas se manifesta muito claramente como resistência ao restabelecimento, não, é verdade, por levar o paciente a sair da instituição - pelo contrário, retém-no aí - mas por mantê-lo a certa distância da vida. Pois, do ponto de vista do restabelecimento, é completamente indiferente que o paciente supere essa ou aquela ansiedade ou inibição na instituição; o que importa é que ele fique livre dela também na vida real.

A transferência negativa merece exame pormenorizado, que não pode ser feito dentro dos limites do presente trabalho. Nas formas curáveis de psiconeurose, ela é encontrada lado a lado com a transferência afetuosa, amiúde dirigidas simultaneamente para a mesma pessoa. Bleuler adotou o excelente termo ‘ambivalência’ para descrever este fenômeno. Até certo ponto, uma ambivalência de sentimento deste tipo parece ser normal; mas um alto grau dela é, certamente, peculiaridade especial de pessoas neuróticas. Nos neuróticos obsessivos, uma separação antecipada dos ‘pares de contrários’ parece ser característica de sua vida instintual e uma de suas precondições constitucionais. A ambivalência nas tendências emocionais dos neuróticos é a melhor explicação para sua habilidade em colocar as transferências a serviço da resistência. Onde a capacidade de transferência tornou-se essencialmente limitada a uma transferência negativa, como é o caso dos paranóicos, deixa de haver qualquer possibilidade de influência ou cura.

Em todas estas reflexões, porém, lidamos até agora com apenas um dos lados do fenômeno da transferência; temos de voltar nossa atenção para outro aspecto do mesmo assunto. Todo aquele que faça uma apreciação correta da maneira pela qual uma pessoa em análise, assim que entra sob o domínio de qualquer resistência transferencial considerável, é arremessada para fora de sua relação real com o médico, como se sente então em liberdade para desprezar a regra fundamental da psicanálise, que estabelece que tudo que lhe venha à cabeça deve ser comunicado sem crítica, como esquece as intenções com que iniciou o tratamento, e como encara com indiferença argumentos e conclusões lógicas que, apenas pouco tempo antes, lhe haviam causado grande impressão - todo aquele que tenha observado tudo isso achará necessário procurar uma explicação de sua impressão em outros fatores além dos que já foram aduzidos. E esses fatores não se acham longe; originam-se, mais uma vez, da situação psicológica em que o tratamento coloca o paciente.

No processo de procurar a libido que fugira do consciente do paciente, penetramos no reino do inconsciente. As reações que provocamos revelam, ao mesmo tempo, algumas das características que viemos a conhecer a partir do estudo dos sonhos. Os impulsos inconscientes não desejam ser recordados da maneira pela qual o tratamento quer que o sejam, mas esforçam- se por reproduzir-se de acordo com a atemporalidade do inconsciente e sua capacidade de alucinação. Tal como acontece aos sonhos, o paciente encara os produtos do despertar de seus impulsos inconscientes como contemporâneos e reais; procura colocar suas paixões em ação sem levar em conta a situação real. O médico tenta compeli-lo a ajustar esses impulsos emocionais ao nexo do tratamento e da história de sua vida, a submetê-los à consideração intelectual e a compreendê-los à luz de seu valor psíquico. Esta luta entre o médico e o paciente, entre o intelecto e a vida instintual, entre a compreensão e a procura da ação, é travada, quase exclusivamente, nos fenômenos da transferência. É nesse campo que a vitória tem de ser conquistada - vitória cuja expressão é a cura permanente da neurose. Não se discute que controlar os fenômenos da transferência representa para o psicanalista as maiores dificuldades; mas não se deve esquecer que são precisamente eles que nos prestam o inestimável serviço de tornar imediatos e manifestos os impulsos eróticos ocultos e esquecidos do paciente. Pois, quando tudo está dito e feito, é impossível destruir alguém in absentia ou in effligie.

Psicanálise | Texto
Por Maria Ester Garcia Arzeno
O psicodiagnóstico clínico na atualidade

O psicodiagnóstico está recuperando-se de uma época de crise durante a qual poderíamos dizer que havia caído no descrédito da maioria dos profissionais da saúde mental. Considero imprescindível revalorizar a etapa diagnóstica no trabalho clínico e sustento que um bom diagnóstico clínico está na base ea orientação vocacional e profissional, do trabalho como peritos forenses ou trabalhistas, etc. Se somos consultados é porque existe um problema, alguém sofre ou está incomodado e devemos indagar a verdadeira causa disso.

Fazer um diagnóstico psicológico não significa necessariamente o mesmo que fazer um psicodiagnóstico. Este temo implica automaticamente a administração de testes e estes nem sempre são necessários ou convenientes.

Mas um diagnóstico psicológico tão preciso quanto possível é imprescindível por diversas razões:

1.             Para saber o que ocorre e suas causas, de forma a responder ao pedido com o qual foi iniciada a consulta.

2.             Porque iniciar um tratamento sem o questionamento prévio do que realmente ocorre representa um risco muito algo. Significa, para o paciente, a certeza de que poderemos “curá-lo” (usando termos clássicos). E o que ocorre se logo aparecem patologias ou situações complicadas com as quais não sabemos lidar, que vão além daquilo que podemos absorver, através de supervisões e análises? Buscaremos a forma de interromper, através de supervisões e análises? Buscaremos a forma de interromper (consiente ou inconscientemente) o tratamento com a consequinte hostilidade ou decepção do paciente, o qual teá muitas dúvidas antes de tornar a solicitar ajuda.

3.             Para proteger o psicólogo, que ao iniciar um tratamento contrai automaticamente um compromisso em dois sentidos: clínico e ético.Do ponto de vista clínico deve estar certo de poder ser idôneo perante o caso sem cair em posturas ingênuas nem onipotentes. Do ponto de vista ético, deve proteger-se de situações nas quais está implicitamente comprometendo-se a fazer algo que não sabe exatamente o que é. No entanto, as consequências do não cumprimento de um contrato terapêutico são, em alguns países a cassação da carteira profissional.

Por estas razões insisto na importância da etapa diagnóstica, sejam quais forem os instrumentos científicos utilizados na mesma. Na obra “A iniciação do tratamento” Freud fala da importância desta etapa, à qual ele dedicava os primeiros meses do tratamento. Coloque que ela é vantajosa tanto para o paciente quanto para o profissional, que avalia assim se poderá ou não chegar a uma conclusão positiva.

Não sou favorável a ideia de dedicar tanto tempo ao diagnóstico, porque se estabelece assim uma relação transferencial muito difícil de dissolver se a decisão for a de não continuar. Além do mais, dispomos na atualidade de todos os recursos descritos neste livro (e muitos outros) que permitem solucionar as dúvidas em um tempo menor.

Vejamos agora com que finalidades pode ser utilizado o psicodiagnóstico:

1.  Diagnóstico. Conforme o exposto acima é óbvio que a primeira e principal finalidade de um estudo psicodiagnóstico é a de estabelecer um diagnóstico. E cabe esclarecer que isto não equivale a “colocar um rótulo”, mas a explicar o que ocorre além do que o paciente pode descrever conscientemente.

Durante a primeira entrevista elaboramos certas hipóteses presuntivas. Mas a entrevista projetiva, mesmo sendo imprescindível, não é suficiente para um diagnóstico cientificamente fundamentado.

Meninger foi durante muitos anos chefe da Clínica que leva seu nome e apoiou e animou a criação e o desenvolvimento dos testes tanto projetivos como objetivos. Cada paciente que ingressava na clínica era submetido a uma bateria completa de testes (T. A.T., Rorschach, Weschler e outros).

Eu concordo ainda hoje com este modelo de trabalho, porque acredito que a entrevista clínica não é uma ferramente infalível, a não ser quando em mãos de grandes mestres, e às vezes, nem mesmo nesses casos.

Os testes tampouco o são. Mas se utilizarmos ambos os instrumentos de forma complementar há uma margem de segurança maior para chegar a um diagnóstico correto, especialmente se incluirmos testes padronizados.

Além do mais, a utilização de diferentes instrumentos diagnósticos permite estudar o paciente através de todas as vias de comunicação: pode falar livremente, dizer o que vê em uma lâmina, desenhar, imaginar o que gostaria de ser, montar quebra-cabeças, copiar algo, etc. Se por algum motivo o domínio da linguagem verbal não foi alcançado (idade, doença, casos de surdos-mudos, etc.) os testes gráficos e lúdicos facilitam a comunicação. 

A bateria de testes utilizada deve incluir instrumentos que permitam obter ao máximo a projeção de si mesmo.

Por isso, se pedimos ao paciente que desenhe uma figura humana, sabemos que haverá projeção, mas muito mais se lhe pedirmos que desenhe uma casa ou uma árvore, já que ele não pode controlar totalmente o que projeta.

Como disse antes, é importante incluir testes padronizados porque nos dão uma margem de segurança diagnóstica maior.

Lembro o caso de uma jovem que foi consultar devido a fracasso escolar, impossibilidade de concentração nos estudos e dificuldades de compreensão. Considerava-se de baixo nível intelectual. Após ter solicitado a ela o Desenho Livre e o H.T.P., entreguei-lhe o pequeno caderno do Teste de Matrizes Progressivas de Raven. O mesmo dá ao paciente trinta minutos para realiza-lo. Ela o fez em quinze. Eu obsevava as suas anotações e percebi seu excelente resultado. Por isso, quando a tarefa foi concluída, entreguei-lhe a grade de avaliação, para que ela mesma fizesse a correção. Fizemos o cáculo devido e buscamos a cifra na tabela mais apropriada. O resultado final indicava um Q.I. superior à média. Ela ficou surpresa e incrédula, mas os resultados eram irrefutáveis. Voltou à sua casa muito contente. Obviamente, essa não era a solução final do problema. Haviamos desarticulado um mecanismo através do qual ela brincava de “menina boba”. Agora era necessário estudar o porquê. Apareceu então (principalmente pela reinteração de respostas de “uma figura e a outra é o reflexo em um espelho”, no Rorschach) seu enorme narcisismo e seu grau de aspiração de ser a número um em tudo. A ferida narcisistica por não consegui-lo era tão terrível que, inconscientemente, preferia ser “burra” para não se expor.

Outro elemento importante que nos é dado pelo psicodiagnóstico refere-se à relação de transferência-contratransferência.

Ao longo de um processo que se extende entre três e cinco entrevistas aproximadamente, e observando como o paciente se relaciona diante de cada proposta e o que nós sentimos em cada momento, podemos extrair conclusões de grande utilizade para prever como será o vínculo terapêutico (se houver terapia futura), quais serão os momentos mais difíceis do tratamento, os riscos de deserção, etc.

Porém, nem todos os psicólogos, psicanalistas e psicólogos clínicos concordam com este ponto de vista. Alguns reservam a utilização do psicodiagnóstico para casos nos quais surgem dúvidas diagnósticas ou quando querem obter uma informação mais precisa, diante, por exemplo, de uma suspeita de risco de suicídio, dependência de drogas, desestruturação psicótica, etc. Em outras ocasiões o solicitam porque têm dúvidas sobre o tratamento mais aconselhável, se a psicanálise ou uma terapia individual ou vincular. Finalmente, existe outro grupo de profissionais que não concordam em absoluto com este ponto de vista e prescindem totalmente do psicodiagnóstico. Ainda mais, não concedem valor científico algum aos testes projetivos. Alguns vão mais longe, dizendo que de forma alguma é importante fazer um diagnóstico inicial, que isso chega com o tempo, ao longo do tratamento. Ouvi isto de um palestrante estrangeiro durante um congresso internacional, ao que outro especialista replicou: “Então o senhor começaria com antibióticos e transfusões de sangue, mesmo antes de saber qual o problema do paciente?”

Acredito que todas as posições são respeitáveis, porém devem ser fundamentadas cientificamente e, até o momento, não tenho encontrado ninguém que me demonstre, baseado na teoria da projeção e da psicologia da personalidade, que os testes projetivos carecem de validade.

 

2.  Avaliação do tratamento. Outra forma de utilizar o psicodiagnóstico é como meio para avaliar o andamento do tratamento. É o que se denomina “re-testes” e consiste em aplicar novamente a mesma bateria de testes aplicados na primeira ocasião. Havendo suspeita de que o paciente lembre perfeitamente o que fez na primeira vez e se deseje variar, pode-se criar uma bateria paralela selecionando estes equivalentes, como o teste “Z” de Zulliger no lugar do Rorschach.

Algumas vezes isto é feito para apreciar os avanços terapêuticos de forma mais objetiva e também para planejar uma alta. Em outras é para descobrir o motivo de um “impasse” no tratamento e para que tanto o paciente como o terapeuta possam falar sobre isso, estabelecendo, talvez, um novo contrato sobre bases atualizadas. Em outros casos ainda, é porque existe disparidade de opiniões entre eles. Um deles acredita que pode dar fim ao tratamento, enquanto que o outro se opõe.

Estes casos representam um trabalho difícil para o psicólogo, pois passa a ocupar o papel de um árbitro que dará a razão a um dos dois. É então conveniente esclarecer ao paciente que o psicodiagnóstico não será realizado para demonstrar-lhe que estava enganado, mas, como um fotógrafo, ele registrará as situações para depois comentá-las. O mesmo esclarecimento deve ser dado ao terapeuta. Obviamente, é conveniente que a entrevista de devolução seja feita por aquele que realizou o estudo, tendo um cuidado muito especial em mostrar uma atitude imparcial e fundamentando as afirmações no material dado pelo paciente.

Nos tratamentos particulares, o terapeuta é quem decide o momento adequado para um novo psicodiagnóstico (ou talvez para o primeiro). No entanto, nos tratamentos realizados em instituições públicas ou privadas, são elas que fixam os critérios que devem ser levados em consideração. Algumas deixam isto a critério dos terapeutas. Outras decidem pauta-lo, considerando tanto a necessidade de avaliar a eficiência de seus profissionais quanto a de contar com um banco de dados úteis, por exemplo, para fins de pesquisa. Assim é possível que o primeiro psicodiagnóstico seja indicado quando o paciente entra na instituição, e o outro de seis a oito meses após, dependendo isto do período destinado a cada paciente.

3.  Como meio de comunicação.Existem pacientes com dificuldades para conversar espontaneamente sobre sua vida e seus problemas. Outros, como é o caso de crianças muito pequenas, não podem  fazê-lo. Outros emudecem e só dão respostas lacônicas e esporádicas. Com adolescentes e crianças podemos introduzir algumas modificações que muitas vezes despertarão seu entusiasmo. Assim que é sugerido, as crianças começam a desenhar ou a modelar; o jogo do rabisco de Winnicott entusiasma a todos, especialmente porque quebra a assimetria do vínculo.

Favorecer a comunicação é favorecer a tomada de insight, ou seja, contribuir para que aquele que consulta adquira a consciência de sofrimento suficiente para aceitar cooperar na consulta. Também provoca a perda de certas inibições, possibilitando assim um comportamento mais natural.

Não se trata de cair em atitudes condescendentes, mas de realizar a tarefa dentro de um clima ideal de comunicação, na medida do possível. Procura-se também respeitar o timingdo paciente, ou seja, o seu tempo. Alguns estabelecem rapportimediatamente, enquanto que para outros isso pode exigir bastante tempo.

Por isso seria grotesco ficar em silêncio por um longo período, apoiando-se no princípio de que a entrevista é livre e é o consultante quem deve falar, como seria também grotesco interrompê-lo enquanto está relatando algo importante pra impor-lhe a tarefa de desenhar.

O psicodiagnóstico possui um fim em si mesmo, mas é também um meio para outro fim: conhecer esta pessoa que chega porque precisa de nós. A finalidade é conhece-la da forma mais profunda possível. Para isso o bom rapporté imprescindível.

4.  Na investigação. No que se refere à investigação, devemos distinguir dois objetivos: um é a criação de novos instrumentos de exploração da personalidade que podem ser incluídos na tarefa psicodiagnóstica. Outro, o de planejar a investigação para o estudo de uma determinada patologia, algum problema trabalhista, educacional ou forense, etc. Neste caso, usa-se o psicodiagnóstico como uma das ferramentas úteis para chegar a conclusões confiáveis e, portanto, válidas.

Um exemplo do primeiro caso é o que fez o próprio Hermann Rorschach quando criou as manchas e selecionou entre milhares aquelas que demonstravam ser mais estimulantes para os pacientes.

Para dar validade a este teste mostrou as lâminas a um grupo de pacientes selecionados aleatoriamente e, após, a outro grupo já diagsnosticado com o método de entrevista clínica (esquizofrênicos, fóbicos, etc.). Assim pôde estabelecer as respostas populares (próprias da maioria estatística selecionada aleatoriamente) e as diferentes “síndromes” ou perfil de respostas típico de cada quadro patológico.

Da mesma forma procedeu Murray, criador do T.A.T. (Thematic Apperception Test). As respostas estatisticamente mais frequentes foram denominadas “populares”. Os desvios dessas respostas populares eram considerados significativos tanto no aspecto enriquecedor e criativo como no sentido oposto, ou seja, no aspecto patológico, podendo proceder do mesmo modo que Rorschach.

A criação de um teste não é uma tarefa fácil. Não podem ser colhidos alguns registros e deles extraídas conclusões com a pretensão de que sejam válidas para todos. É necessário respeitar aquilo que a psicoestatística indica como modelo de investigação para que as suas conclusões sejam aceitáveis. Também é necessário um conhecimento abrangente e o trabalho em equipe para a correta interpretação dos resultados. Assim, por exemplo, se se pretende criar um teste que avalie a inteligência em crianças surdas-mudas, será imprescindível a presença de um especialista dessa área. Se a intenção é criar um teste para pesquisar determinados conflitos do grupo étnico ao qual pertence o pesquisador, já que, não sendo assim, se a pesquisa tratasse de estudar o mesmo aspecto, mas em crianças suecas ou japonesas, sem a presença de um antropólogo e um psicólogo conhecedores da matéria, como integrantes da equipe pesquisadora, poderiam ser tiradas conclusões incorretas. Em relação ao segundo objetivo, trata-se em primeiro lugar de definir claramente o que se deseja pesquisar. Suponhamos que a finalidade é descobrir se existe um perfil psicológico típico dos homossexuais, dependentes de drogas ou claustrofóbicos. O primeiro passo deve ser selecionar adequadamente os instrumentos a serem utilizados, a ordem que será seguida, as ordens dentro dos quais podemos admitir variações individuais (por exemplo, podemos admitir que desenhe o Bender em mais de uma folha, que queira usar o verso, que acrescente detalhes às figuras, mas não que use borracha, de forma que tudo fique registrado). Isto é o que é chamado de padronizar a forma de administração do psicodiagnóstico. Se cada examinador trabalhasse à sua maneira, seria impossível comparar os registros colhidos e, portanto, não poderíamos pretender tirar deles conclusões cientificamente válidas.

Logo após, administraremos este psicodiagnóstico assim planejado: por um lado, a uma amostra de homossexuais, dependentes de drogas, etc., e por outro lado, o mesmo psicodiagnóstico, à outra amostra chamada de controle, que não registra a mesma patologia do grupo em estudo. Em uma terceira etapa, serão buscadas as recorrências e convergências em ambos os grupos, para poder-se assim chegar a conclusões válidas. Por exemplo, é significativo que os homossexuais desenhem primeiro a figura do sexo oposto, no Teste das Duas Pessoas. Estou usando um exemplo simples com a finalidade de transmitir claramente em que consiste essa tarefa. A utilidade destas pesquisas varia muito. As mais interessantes são aquelas que permitem identificar indicadores que servirão para detectar precocemente problemas clínicos, trabalhistas educacionais, etc., com a consequente economia de sofrimento, problemas e até complicações institucionais.

Método para que o consultante aceite melhor as recomendações

O psicodiagnóstico inclui, além das entrevistas iniciais, os testes, a hora de jogo com crianças, entrevistas familiares, vinculares, etc. As conclusões de todo o material obtido são discutidas com o interessado, com seus pais, ou com a família completa, conforme o caso e o sistema do profissional.

Os testes realizados individualmente são reservados, geralmente, para a entrevista individual com essa pessoa, para a entrega dos resultados. Porém o que tem sido feito e conversado entre todos pode ser mostrado ou assinalado para exemplificar algum conflito que os consultantes minimizam ou negam.

Por exemplo, um rapaz em torno de 25 anos que consultou por se sentir amarrado demais à noiva a à mãe, disse no Questionário Desiderativo que gostaria de ser o vento porque é livre e também um cão porque é uma companhia fiel. Além do restante do registro, estas duas catexias serviram para enfrenta-lo com a própria contradição: querer ser livre como o vento e ao mesmo tempo precisar da companha de alguém que lhe desse afeto. Logo aceitou que isto criava uma situação interna difícil e que não podia pensar que o problema seria solucionado trocando de noiva ou distanciando-se de sua mãe.

Em outra ocasião, com os pais de um menino de doze anos que se recusavam a aceitar a seriedade da doença do mesmo, usei outro recurso. Mostrei-lhes a lâmina III do Rorschach dizendo que o teste não estava sendo feito com eles, mas que a observassem silenciosamente por um instante e logo cada um dissesse o que havia visto. Ambos disseram algo semelhante à resposta popular: “Duas pessoas fazendo algo”. Então disse-lhes que o menino havia respondido: “Dois esqueletos”. Ambos ficaram muito impressionados e começaram a levar mais a sério minhas advertências.

Poderia eu ter tido a surpresa de que eles também dessem respostas muito patológicas. Nesse caso teria comentado de passagem o que o filho tinha visto e desviado a atenção para outro material. Quando as distorções são compartilhadas por pais e filhos, a conclusão inevitável é a de que uma terapia familiar é urgente.

Outro caso é o de uma moça de uns 20 anos que chega a um Serviço de Psicopatologia de um Hospital pedindo um estudo vocacional. Toda a sua conduta na sala de espera e o pedir a entrevista deixava clara uma grave patologia. A ansiedade era enorme, apertava nervosamente as mãos, sentava-se e levantava-se incessantemente, etc. Queria que fosse feito exclusivamente o “teste” vocacional. Com muita relutância, aceitou responder o Desiderativo. Suas respostas foram: 1+, “Gostaria de ser uma pomba”, que é graciosa e alegre”, e no 1- “Não gostaria de ser uma hiena porque vive se alimentando de desperdícios”; 2- Um gladíolo porque me lembra velórios”; 3- “Algo mineral, o carvão. Não me pergunte por quê”.

Entre a aparência alegre e inocente da pomba, inevitavelmente associada à vida e à paz, e a hiena que vive de cadáveres há uma dissociação abismal. As três colocações negativas estão relacionadas com a morte; o gladíolo com velórios, e o carvão é um vegetal sepultado sob a terra durante milênios. Isto facilitou o início da conversa com ela, sobre o quanto a preocupava a ideia da morte e com isso a deixava ansiosa. Ela deixou de insistir com o teste vocacional e começou a relatar fatos da sua vida, especialmente sobre a perda de vários seres queridos. Mesmo assim, recebeu algumas sugestões vocacionais, mas aceitou ir ao Serviço uma vez por semana para continuar falando sobre essas coisas que tanto perturbavam o seu dia-a-dia.

Escolha da estratégia terapêutia mais adequada

Um psicodiagnóstico completo e corretamente administrado permite-nos estimar o prognóstico do caso e a estratégia mais adequada para ajudar o consultante: entrevistas de esclarecimento, de apoio, terapia breve, psicanálise, terapia de grupo familiar ou vincular, sistêmica ou estrutural; análise transacional, gestáltica, etc.

Assim, por exemplo, um paciente trabalhará muito bem na psicanálise se aceitar a sua responsabilidade no conflito, se mostrar colaboração para fazer associações, contar lembranças, entrar em sua vida paticular, em seu passado. Diante da tarefa do Desenho Livre, aceita com prazer e responde com um bom nível de simbolização e riqueza em suas associações. As lâminas menos estruturadas como as do Rorschach não lhe causam impacto. A lâmina em branco do Phillipson o estimula favoravelmente. A entrevista final torna-se agradável de se preocupar, chorar, ou ao menos ficar deprimido na medida certa para empreender a tarefa psicanalítica com uma boa motivação.

Muito diferente seria o caso de outra pessoa que não tolera a entrevista aberta e prefere um inquérito pautado, que se bloqueia no Desenho Livre, no Rorschach e na lâmina branca do Phillipson. Pergunta “O que faço, que desenho?” e sente alívio quando nós damos uma ordem mais precisa, por exemplo “Bem, desenhe uma casa, uma árvore e uma pessoa”. A série A do Phillpson o deixa muito ansioso e gosta mais da B que é mais definida e menos difusa. Esta pessoa trabalhará melhor com uma terapia cara a cara, na qual se combinem interpretações cautelosas com sugestões e alguns direcionamentos. A situação de solidão e de regressão do divã seria para ele, por enquanto, insuportável, e só poderia aceita-la após uma primeira etapa com as características descritas.

As entrevistas diagnósticas vinculares e familiares são de grande utilidade para decidir entre a recomendação de um tratamento individual, vincular ou familiar.

Existem algumas técnicas projetivas idealizadas para serem aplicadas simultaneamente a um casal ou a um grupo (filial, familiar, de trabalho, etc.)

Entre elas posso citar o Teste do Casal em Interação (TPI) do psicólogo de Rosario, Luis Juri, o Teste Cinético da Família de Rana Frank de Verthelyi (adaptação) em suas formas atual e prospectiva; também o teste de Rorshchach com a técnica de consenso.

Estes testes são muito úteis para decidir a capacidade de agrupamento ou não de um indivíduo, ou para fazer um diagnóstico sobre como irá funcionar um grupo em formação.Os terapeutas de grupo têm usado muito, para isto, o teste das bolitas do Dr. Usandivaras. Ester Romano apresentou seu MEP (Modelo Experimental Perceptivo) à Associação Argentina de Psicanálise, idealizado sobre a base de estímulos gráficos ao estilo do Wartegg e não estruturados ao estilo do Rorschach.

No psicodiagnóstico individual, o motivo da consulta manifesto e latente dá-nos uma pauta para recomendar ou não a terapia de grupo. Quando as dificuldades situam-se na relação do indivíduo com os demais (pares, superiores ou subalternos) o mais indicado é recomendar a terapia de grupo. Se, no entanto, o conflito está mais centralizado no intrapsíquico, o mais adequado seria terapia individual.

O teste de Phillipson (especialmente as lâminas grupais AG, BG, e CG) nos dá uma informação muito útil a respeito, já que, se nelas a produção for boa, comprovaria a nossa suspeita de que uma terapia em grupo seria adequada, enquanto que se nelas o paciente se desarticula, sofre impactos, as nega ou distorce a produção, haveria que pensar que, longe de ser uma ajuda, a terapia de grupo aumentaria a sua angústia. De forma que, independentemente do motivo da consulta, isto seria um elemento para contra-indica-lá.

 

Em síntese, tentei resumir as diferentes aplicações que pode ter o psicodiagnóstico, e certamente serão abertos outros novos caminhos ainda não explorados.

Psicodiagnóstico | Texto
Por Gerald Bernard Mailhiot
As minorias psicológicas

Tendo situado Kurt Lewin na evolução da psicologia social, compreenderemos agora melhor a importância de seus diversos trabalhos e de suas descobertas. Ao expor suas hipóteses e suas teorias, respeitaremos a ordem cronológica de sua elaboração e de sua formulação. Assim veremos pouco a pouco precisar-se sua concepção pessoal da gênese e da dinâmica dos grupos.

O primeiro problema social ao qual Lewin dedica sua atenção, após emigrar para os Estados Unidos, é a psicologia de seu próprio grupo étnico. As discriminações, as injustiças, os vexames, o ostracismo aos quais ele e os seus foram submetidos pelos nazistas nos últimos meses vividos na Alemanha traumatizaram-no sob muitos aspectos. Lewin procura compreender e encontrar uma interpretação científica para o que sofreu: seres humanos que, pelo simples fato de pertencerem a um determinado grupo étnico, vivem em uma insegurança permanente e dependem das variações do clima político das comunidades humanas nas quais procuram se integrar.

Depois de tentar elucidar a psicologia das minorias judias, Kurt Lewin se esforça por elaborar uma psicologia dos grupos minoritários. A partir do que descobre como fundamental para a psicologia das minorias, é levado a repensar e a redefinir o que se torna depois o objeto quase exclusivo de sua reflexão e de suas pesquisas: que problemas constituem o centro da ex  ploração e da experimentação da psicologia social? A dinâmica dos grupos, tal qual a conceberá finalmente, será o resultado desta série cada vez mais convergente de recolocação de ques  tões e de proposições sistemáticas.

Demografia e psicologia

Desde o início de seus trabalhos sobre a psicologia das minorias, Kurt Lewin procura clarear e dissipar o que o termo [29] minoria comporta de ambiguidades e de equívocos no plano da semântica.

A demografia utiliza os termos minoria e maioria em sentidos diferentes da psicologia. Em demografia um grupo cons  titui uma maioria desde que a porcentagem de seus membros ultrapasse de um a metade da população em que está inserido. Por outro lado todo grupo constituído de menos de 50% da população dada é considerado como uma minoria.

Em Psicologia minoria e maioria adquirem sentidos mais diversificados. Um grupo é considerado fundamentalmente como maioria psicológica quando dispõe de estruturas, de um estatuto e de direitos que lhe permitam auto-determinar-se no plano do seu destino coletivo, independentemente do número ou da porcentagem de seus membros. Assim, minorias demográficas podem constituir maiorias psicológicas. É considerado como maior pelo psicólogo social todo grupo humano que se percebe na

posse de plenos direitos que dele fazem um grupo autônomo. Por outro lado, um grupo deve ser classificado como uma minoria psicológica desde que seu destino coletivo dependa da boa vontade de um outro grupo. Este grupo, mais ou menos conscientemente, percebe-se como menor, isto é, como não possuindo direitos totais ou um estatuto completo que lhe permitam optar ou orientar-se nos sentidos mais favoráveis a seu futuro. Desde que se trate da sorte de seu grupo, os membros que pertencem a uma minoria psicológica se sentem, se percebem e se conhecem em estado de tutela. E isto independentemente da porcentagem de seus membros em relação à população total onde vivem. Assim maiorias demográficas podem ter, por estas razões, uma psicologia de minorias.

Mas não param aqui as distinções da psicologia social. Como numerosos sociólogos e_psicólogos sociais, antes e depois dele, Kurt Lewin utiliza ainda os termos: minoria discriminada e minoria privilegiada. Vejamos em que sentido. Toda minoria psicológica, tal qual foi definida acima, é sempre considerada como uma minoria discriminada ou susceptível de sê-lo pelo fato de sua sorte e seu destino estarem na dependência do grupo majoritário. Por outro lado, toda maioria psicológica tende a tornar-se, mais ou menos rapidamente, um grupo privilegiado. Freqüentemente as maiorias psicológicas, com o tempo, estratificam-se. No interior destes grupos uma minoria de membros pode constituir-se em oligarquia e atribuir-se ou reservar-se privilégios exclusivos. A minoria privilegiada é portanto uma [30] minoria demográfica no seio de uma maioria psicológica que ela controla e manipula a seu favor.

As minorias judias

Kurt Lewin publicou quatro estudos sobre a psicologia dos judeus. O primeiro aparece em 1935 e tem por título: “Psychosociological problem of aminority group”. (58). O segundo é publicado em 1939 e traz o título: “When facing danger” (68). O terceiro e o quarto aparecem sucessivamente em 1940 e 1941. Os títulos que Lewin lhes dá são os seguintes:  “Bringing up the jewish child” e "Self-hatred among jews” (73), (78).

Estes quatro estudos são de caráter fenotípico ou sintomático. Kurt Lewin aplica-se neste estágio em nos apresentar uma caracteriologia étnica de seu povo e um psico-diagnóstico. À margem de sua reflexão, ele se permite generalizar e destacar constantes que retomará mais tarde, ao elaborar sua psicologia das minorias.

Não nos ocuparemos aqui senão da análise apresentada nos três últimos estudos mencionados acima, sendo que o primeiro estudo nada mais é que um esboço das teorias que os três outros retomarão de modo mais explícito e mais articulado.

  1. O estudo intitulado “When facing danger” trata do futuro ou das possibilidades de sobrevivência das minorias judias no Ocidente.

Lewin inicia com considerações sobre a perseguição em massa aos judeus nos países que sofriam então a dominação nazista. Como, de fato, pergunta Lewin, uma minoria pode sobreviver em um contexto de perseguição como aquele? Estudos sociológicos demonstraram que em todas as guerras européias dos últimos séculos os judeus tiveram que lutar e morrer por seu país de adoção, fossem eles alemães, franceses, espanhóis ou ingleses. No momento dos combates não foram poupados. Ao contrário, em certos países, foram selecionados para sofrer uma série de maus tratos tanto da parte de seus amigos como de seus inimigos. Na maior parte das vezes, acrescenta Lewin, estava-se disposto a lutar até o último judeu. É o caso, especialmente, dos judeus alemães que tiveram, repetidas vezes, de um século para cá, a ocasião de morrer por sua pátria. A partir da tomada do poder pelos nazistas, os jornais editados pelo regime passaram a sugerir com freqüência a formação de [31] bataIhões judeus que seriam mobilizados para serem enviados aos pontos mais perigosos do front. Foi aliás o que de fato ocorreu na Itália, na Hungria, na Polônia e em todos os países conquistados pelos nazistas e aterrorizados pela Gestapo.

Outro traço comum às doutrinas nazista e facista foi a tentativa de justificar a reconstituição dos guetos para os judeus. E Lewin nota que os judeus não foram rcalmente reconhecidos como seres humanos na Europa Ocidental, senão a partir do momento em que as ideias das revoluções francesa e americana fizeram deles seres humanos iguais em direitos e em privilégios. Conclui daí que os direitos judeus são inseparáveis de uma filosofia de igualdade dos homens. Os regimes políticos que perseguiram os judeus nestes últimos tempos tentaram sempre fazer prevalecer a teoria da inferioridade de certas raças e a superioridade da sua.

Lewin está consciente de não inovar ao retomar por sua conta e ao considerar como válidas estas observações já formuladas por sociólogos contemporâneos (68) . As reflexões de Lewin adquirem um caráter pessoal ao se perguntar em que medida o problema judeu é um problema individual ou um problema social. Para decidir sobre o assunto lhe basta lembrar que no momento da anexação da Áustria, os judeus foram me- tralhados pelo simples fato de serem judeus, sem nenhuma consideração por sua conduta passada ou seu status social. Para Lewin o problema judeu é um problema essencialmente social, um caso típico de minoria não privilegiada ou discriminada. O que caracteriza as classes ou os grupos não-privilegiados é que em todos os casos eles têm em comum o seguinte: não existem senão porque são tolerados. Sua sobrevivência coletiva depende da boa vontade das classes privilegiadas. Para ilustrar seu pensamento Lewin evoca o passado do grupo judeu. Segundo ele, a emancipação dos judeus dos guetos não foi conseguida por eles, mas em conseqüência da modificação dos sentimentos e das necessidades da maioria. Ainda hoje pode-se demonstrar que as pressões e as discriminações contra os judeus aumentam ou diminuem, conforme as dificuldades econômicas da minoria crescem ou decrescem. Lewin acrescenta ironicamente: é uma das razões pelas quais os judeus de toda parte estão necessariamente interessados em contribuir para o bem-estar econômico das maiorias no meio das quais vivem.

O problema judeu é um problema social. Mais explicitamente, o anti-semitismo tem por fundamento, cada vez que se [32] manifesta, a necessidade para a maioria de um bode expiatório. É necessário precisar ainda, segundo Lewin, que seria mais exato falar de uma minoria privilegiada que consegue mobilizar e manipular para seus fins uma massa ou uma multidão cuja agressão canaliza contra uma minoria rejeitada. Lewin pretende também que muitos judeus se enganam ao acreditar que, se todos os judeus se conduzissem decentemente, não haveria anti-semitismo. Geralmente é o contrário que acontece. É a capacidade de trabalho dos judeus, seus sucessos profissionais como médicos ou advogados, seus talentos para o comércio que, na maior parte dos casos, provocam periodicamente ondas de anti-semitismo. Na medida em que os judeus se sobressaem arriscam-se a ser perseguidos. Como último argumento de que não há relação entre a incidência do anti-semitismo e a conduta delinqüente de certos judeus, Lewin salienta que as razões invoca  das pelas minorias privilegiadas para justificar junto às massas seu anti-semitismo têm mudado de século para século. Há quatrocentos anos os judeus eram perseguidos por motivos religiosos. Em nossos dias as racionalizações promulgadas como bem-fundadas teorias racistas às quais adere oficialmente o partido nazista, são retiradas de argumentos supostamente baseados na antropologia e na biologia.

  1. O segundo estudo: “Bringing up the jewish child” trata da educação que deveria receber o jovem judeu para evoluir normalmente.

Kurt Lewin compara a educação do jovem judeu à educação de uma criança adotada. Eis as razões que o levam a esta conclusão. Lewin, pela primeira vez, nos revela suas concepções, ainda embrionárias, sobre a psicologia dos grupos. O grupo ao qual um indivíduo pertence pode comparar-se ao terreno sobre o qual ele se mantém e que lhe dá ou nega, segundo o caso, seu status social. Na medida em que o grupo lhe dá um status social, o indivíduo se sente em segurança; ao contrário, se o grupo não lhe concede nenhum status social, torna-se fonte de insegurança para o indivíduo. Esta segurança ou insegurança relaciona-se com a solidez ou fluidez do terreno sobre o qual o indivíduo se matém, uma vez que ele pode ou não identificar-se com seu grupo.

Segundo Lewin, isto é verdadeiro sobretudo quando se trata do meio familiar. Com efeito, parece-lhe amplamente provado pelas descobertas recentes da psicologia da criança (as suas próprias não o tinham esclarecido sobre este problema) [33] que a estabilidade ou instabilidade do meio familiar determina a estabilidade ou instabilidade emotiva da criança. A razão fundamental, Lewin é o primeiro a afirmá-lo, é que o meio familiar no qual a criança cresce e evolui forma um único campo de forças, “one dynamic field”, segundo uma expressão sua. É necessário pois levar em conta que o meio familiar, ou qualquer grupo ao qual pertence um indivíduo, não é para ele somente uma fonte de proteção ou segurança. Todo grupo, inclusive o grupo familiar, desenvolve suas leis, seus tabus, suas proibições coletivas. E segundo os tabus, as proibições, os mitos que prevalecem em um grupo, a criança ou o indivíduo que pertence a este grupo, disporá de um espaço de movimento livre mais ou menos extenso. Em conclusão, conforme seja largo ou restrito o espaço de movimento livre, o indivíduo terá maior ou menor facilidade de se adaptar à vida social, ou no caso da criança, de socializar-se. Para Lewin o problema fundamental em qualquer grupo humano é o seguinte: em que medida um indivíduo, pertencendo a seu grupo, pode satisfazer suas próprias necessidades ou aspirações psíquicas sem comprometer indevidamente a vida e os objetivos do grupo?

Lewin termina este estudo com considerações de ordem pedagógica, deduzidas do que lhe parece fundamental na socialização do ser humano: não é o fato de pertencer a vários grupos que constitui a origem dos conflitos mas a incerteza sobre sua própria participação num grupo determinado. Donde os quatro princípios pedagógicos nos quais deve inspirar-se a educação do jovem minoritário.

Lewin sugere, inicialmente, com muita insistência que, assim como a criança adotada se beneficia ao conhecer o mais cedo possível sua condição, também a criança que pertence a um grupo minoritário deve conhecer o mais cedo possível, desde que possa assimilá-lo emotivamente, o fato de o grupo ser objeto de vexames, discriminações, em uma situação não-privilegiada. Quanto mais os pais e educadores tardarem em revelar-lhe o fato, mais arriscam comprometer sua adaptação social. Este conselho vale sobretudo quando o meio educacional no qual a criança cresce não é confessional e mostra-se tolerante para com as crianças judias.

Além disto, a educação do jovem judeu, como de todo minoritário, deve procurar sensibilizá-lo muito cedo ao fato de que a questão judia é antes de tudo uma questão social. Os pais judeus devem deixar de pressionar as crianças a adotarem [34] uma conduta exemplar em presença dos não-judeus. Devem igualmente abster-se de constranger a criança a ambicionar os altos postos nas diferentes esferas em que se orienta. Em uma palavra, é necessário libertar a criança judia do mito de que será facilmente aceita pelos não-judeus se sobressair. Assim, quando as expressões de anti-semitismo o atingirem, ele estará imunizado contra o jogo dos mecanismos de auto-acusação que, de outro modo, poderiam ser adotados por ele em resposta à discriminação.

Os pais e os educadores no encargo de socializarem o jovem judeu devem lhe transmitir que, o que liga os judeus entre si não são as semelhanças ou as diferenças que existem entre judeus e não-judeus. O que constitui essencialmente um grupo e dele faz um todo dinâmico é a interdependência da sorte de seus membros.

Finalmente é fundamental ensinar muito cedo ao jovem judeu que o verdadeiro perigo para ele é de ser, durante toda a sua vida, um marginal na sociedade em que tenta integrar-se e assim permanecer durante toda a sua existência um eterno adolescente, incapaz como eles, de se identificar ao grupo ao qual pertence ou aos grupos aos quais deseja pertencer.

  1. O terceiro estudo é incontestavelmente o mais importante dos três. Tem por título: “Self-hatred among Jews” e tratados mecanismos de auto-depreciação que Kurt Lewin observara repetidas vezes em seus próprio grupo.

No início deste estudo Kurt Lewin refere-se a dois livros datando da mesma época (1930). O primeiro livro é do pro  fessor Lessing que tenta, do ponto de vista da psicopatologia, descrever o que ele chama “Ó ódio de si entre os Judeus”. O segundo é um romance americano do autor Ludwig Levisohn “Island with in”. Este romance tem como cenário a cosmopolita cidade de Nova York no interior da qual os judeus constituem uma ilha cultural, isolada e cercada de zonas de silêncio no seio da coletividade estadunidense em constante interação.

Para Kurt Lewin o fenômeno do ódio de si entre os judeus pode ser encarado ao mesmo tempo como um fenômeno individual, como um fenômeno de grupo e sobretudo como um fenômeno social, conforme os aspectos estudados.

Como fenômeno de grupo, o ódio de si afeta as relações intragrupais no interior da grande família judia, ou melhor, as relações entre os diversos grupos ou sub-grupos judeus que [35] existem no mundo. E aqui Lewin evoca recordações pessoais que datam do tempo em que vivia na Alemanha, onde por várias vezes foi testemunha de expressões de fortes ressentimentos da parte dos judeus alemães em relação aos judeus dos países eslavos. Os judeus alemães acusavam os judeus eslavos de serem responsáveis pela perseguição nazista de que eram vítimas. Lewin afirma ter observado o mesmo fato nos Estados Unidos: todos os judeus emigrados culpam os judeus alemães considerando-os responsáveis por todas as desgraças que caem sobre os judeus no mundo desde 1933.

Segundo Lewin, o ódio de si pode, também, em certos casos, apresentar-se como um fenômeno individual. Neste caso há uma variedade quase infinita de formas que o ódio de si toma entre os judeus considerados como indivíduos. Certos judeps, por exemplo, culpam o grupo judeu como tal ou se identificam negativamente a uma fração particular de judeus, ou difamam sistematicamente sua própria família. Outros rejeitam a si próprios, recusam aceitar-se como judeus e cedem periodicamente a mecanismos de auto-acusação e de auto-punição. Por outro lado, alguns judeus dirigirão o ódio de si exclusivamente contra as instituições, os costumes, a língua judia ou ainda o sistema de valores próprios da raça ou da cultura judia. Na maior parte das vezes, nota Lewin, este tipo de ódio de si não se manifesta abertamente, mas é camuflado por racionalizações de toda espécie.

O ódio de si é sobretudo um fenômeno social, segundo Lewin. Neste nível sua análise e sua interpretação tornam-se bastante penetrantes. Para ele, Lessing o Levisohn, que se inspiraram em Freud, quiseram explicar o ódio de si pelos instintos primários que seriam inerentes à natureza humana. Em seu apoio recorrem à tese que Freud elaborou para explicar as nevroses de fracasso, postulando a existência em todo ser humano de um instinto de morte que teria primazia sobre o instinto de vida. O que, sempre segundo Freud, explicaria a tendência que aparece com a idade, em todo ser humano, de uma degenerescência progressiva que se conclui pelo retorno ao inorgânico. Kurt Lewin recusa-se a explicar assim o ódio de si entre os judeus. Se assim fosse, argumenta, estaríamos em presença de um dado da natureza e não seria então estranho não se encontrar no mesmo grau o ódio de si entre os ingleses, os italianos, os alemães e os franceses em relação a seus próprios compatriotas? Além disto, se o ódio de si sentido pelos judeus [36] dependesse de algum instinto de base, seria a personalidade de cada indivíduo que nos revelaria sua intensidade. Parece, ao contrário, conclui Lewin, que este ódio de si — não obstante os diversos graus em que se manifesta — depende muito mais das atitudes que cada indivíduo adota em relação ao problema judeu do que das estruturas mentais ou emotivas de sua personalidade.

Aliás, nota Lewin, o ódio de si manifestado pelos judeus é um fenômeno observado em todas as minorias discriminadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, os negros são muito sensíveis às diferentes tonalidades de cor da epiderme humana. Aqueles cuja epiderme é de cor “chocolate com leite” ou “café-creme” menosprezam aqueles que são “café-preto”. Quanto mais a cor da epiderme de um negro se aproxima do branco, mais tendência tem ele a dirigir aos outros negros um olhar de superioridade e, em conseqüência, a identificar-se negativamente com seu grupo étnico. O mesmo fenômeno foi observado e abundantemente descrito pelos sociólogos americanos (2), (141), ao tratarem dos conflitos existentes entre a primeira e a segunda geração de imigrantes nos Estados Unidos. A segunda geração menospreza seus pais que não lhe parecem suficientemente americanizados e permanecem ainda por demais ligados à sua cultura de origem, dificultando assim uma identificação incondicional com seu país de adoção.

Vejamos agora, segundo Lewin, como o ódio de si aparece, tipicamente, em muitos judeus. Um indivíduo judeu tem ambições, alimenta e constrói projetos para logo descobrir que sua participação no grupo judeu constituirá sempre uma barreira intransponível à realização de seus projetos. Começa então a perceber e a considerar seu grupo como fonte de frustrações e passa a odiá-lo. Logo chegará à conclusão de que sua ascenção social como indivíduo está ameaçada e que sua segurança sócio-econômica e seu próprio destino pessoal correm o perigo de ficar comprometidos por causa de sua participação no grupo judeu. Surge então em muitos judeus o sentimento agudo de rejeição da interdependência de seu próprio destino e do destino de uma minoria discriminada.

Kurt Lewin termina este estudo concluindo que o ódio de si entre os judeus não poderia, na maior parte dos casos, ser diagnosticado como do domínio da psicopatologia. Como muitos outros fenômenos psíquicos com componentes nevróticos, o ódio de si não é geralmente senão a expressão de um conflito [37] criado pela situação social na qual um indivíduo é forçado a viver. Este fenômeno apresenta-se sob traços nevróticos, mas na realidade não se trata de nevrose. Tanto assim que o ódio de si entre os judeus é encontrado tanto entre os nevróticos como entre as pessoas normais. De fato, trata-se de um fenômeno sócio-psicológico. A tal ponto que, cada vez que os judeus, dentro de uma coletividade, são aceitos em clima de igualdade de direitos e de privilégios, desaparecem então os traços nevróticos que certos autores afirmam como típico do grupo judeu. Por outro lado, quando os judeus tornam-se o objeto sistemático de discriminação, seu único meio de não ceder ao ódio de si é intensificar entre eles as tendências de atração e de coesão pela causa judia. Daí a importância vital que os educadores e pais judeus devem dar à criação de climas de crescimento propícios a que os jovens judeus, desde seus primeiros anos de formação, possam identificar-se positivamente com seu grupo étnico.

Minorias e minoritários

Kurt Lewin publica, em seguida, um estudo onde, a partir de suas interpretações e de suas considerações sobre a minoria judia, tenta formular uma teoria suficientemente coerente para explicar a psicologia de todo grupo minoritário. Será sua última pesquisa ligada aos macro-fenômenos de grupo. Ela o convencerá definitivamente da certeza de sua opção ao escolher como centro da experimentação em psicologia social o estudo dos micro-grupos. Estas teorias tiveram uma influência determinante nos meios universitários, sobretudo no que se refere à psicologia das relações inter-raciais e revelaram-se fundamentais à compreensão das concepções definitivas sobre a gênese e a dinâmica dos grupos, que Kurt Lewin defenderá nos anos se  guintes. Parece-nos também importante destacar aqui as teses essenciais.

O estudo de que trataremos inicialmente tem por título: “Cultural Reconstruction” e foi publicado em 1943 (88). Depois disto Lewin refere-se à psicologia das minorias duas outras vezes (103), (104), durante o ano que precede sua morte.

Suas preocupações serão então exclusivamente de ordem metodológica. Partindo das suas próprias pesquisas sobre o problema, tentará destacar aquilo que elas lhe ensinaram sobre as exigências da experimentação em psicologia social. Retornaremos [38] ao assunto em um capítulo próximo para constatar e salientar a que ponto em três anos, de 1943 a 1946, os interesses, as concepções e as aproximações de Lewin evoluíram. Estes três anos lhe provaram que a inteligência científica dos macro-grupos não se tornará acessível senão após longas e sistemáticas pes  quisas sobre a psicologia dos grupos restritos. No momento não nos deteremos senão no seu estudo “Cultural Reconstruction”. Nele encontramos uma tese fundamental e três outras, dela deduzidas: sobre a origem das minorias, sua natureza psicológica e seu futuro.

A tese fundamental é formulada de modo que transcende o caso judeu para tornar inteligível o que Kurt Lewin considera como as constantes psicológicas de todo grupo minoritário. Para Lewin toda minoria psicológica tem suas dimensões antes de tudo sociais. Com isto não opõe social a psíquico, mas dissocia o social do individual. As minorias psicológicas são sociais em sua origem, em suas estruturas e em sua evolução. Sua dinâmica é essencialmente social. Do mesmo modo, a sobrevi  vência dos grupos minoritários não pode ser assegurada senão a partir do momento em que eles tomam consciência deste dado fundamental e o aceitam.

1. Origem das minorias.

Para Kurt Lewin a própria existência de toda minoria só é possível, em última análise, graças à tolerância da maioria no meio da qual ela se insere. Não é em consideração aos comportamentos aceitáveis ou em reação aos comportamentos re preensíveis de alguns indivíduos (se bem que isto seja, de fato, alegado como pretexto oficial), mas por motivos extrínsecos aos comportamentos dos membros das minorias, que as maiorias edificam, fortificam, multiplicam ou deixam cair as barreiras psicológicas com que cercam as minorias. Lewin acrescenta que* a maioria tem sempre interesse em privar as minorias de todo direito e de todo privilégio. Mas é sobretudo em período de tensão e de perigo coletivo que a maioria tende a exercer represálias contra as minorias, cedendo à necessidade de descar  regar sobre um bode expiatório as ondas de agressividade, de  sencadeadas pelas frustrações e privações que lhe são impostas durante estes períodos críticos. Por mecanismos de deslocamento sua agressividade torna-se extrapunitiva com relação às mino  rias sem defesa. [39]

2. Constituintes, constituídos e constitutivos das minorias.

Com esta terminologia tentaremos sistematizar o essencial do pensamento de Lewin sabre a existência das minorias. Esta sistematização nos parece necessária para evitar que o leitor tenha que seguir os caminhos tortuosos da argumentação de Lewin. Faremos todos os esforços para não trair em nada seu pensamento.

A . Os constituintes das minorias.

Os constituintes das minorias podem ser definidos diferentemente, conforme se faça referência às estruturas ou à dinâmica dos grupos minoritários.

  1. a) Em relação às suas estruturas, as minorias aparecem constituídas de várias camadas. No centro encontram-se as ca madas mais solidificadas. Elas compõem-se de membros que aderem com a maior boa vontade às instituições, aos costumes, às tradições e aos sistemas de valores, que distinguem seu grupo dos outros grupos. Estes membros identificam-se positivamente com tudo aquilo que é tipicamente próprio ao seu grupo. Já as camadas periféricas, longe de serem solidificadas como as primeiras, são móveis e fluidas. São compostas de membros que experimentam uma ambivalência marcante em. relação a tudo que distingue e por isto mesmo isola seu grupo da maioria.

São os membros marginais das minorias. Eler suportam de má vontade ter que viver em um espaço vital onde são mantidos à força por uma maioria que constrói barreiras psicológicas intransponíveis à sua migração para a maioria que invejam.

Lewin acrescenta que é sobretudo nas zonas periféricas que se situam os minoritários dê maior sucesso, aqueles que conseguiram sobressair-se em seu trabalho ou profissão e em conseqüência sentem maior atração pela maioria. Sua ilusão, segundo Lewin, consiste em esperar que seus sucessos pessoais facilitem sua aceitação por parte da maioria que lhe perdoará assim sua origem e sua identidade étnica.

Enfim, é nas camadas periféricas que as minorias têm tendência a recrutar seus dirigentes ou a agrupar-se em torno de dirigentes que pertençam a estas camadas. Estes indivíduos são geralmente designados para este posto em razão de seus suces  sos pessoais. Aceitam o posto com a esperança de poder, graças [40] à sua função de líder oficial, multiplicar seus contatos com a maioria e encontrar assim algum substitutivo de prestígio do qual estão privados em virtude de sua ligação com a minoria. Por outro lado, numerosos são os grupos minoritários que es  peram que este líder seja melhor aceito e pareça mais maleável à maioria e conseqüentemente possa melhorar magicamente as relações entre minoria e maioria.

  1. b) Em relação à sua dinâmica de grupo, as minorias se revelam ao observador como constituindo um equilíbrio mais ou menos estável entre dois campos de força. De um lado, um campo de forças que exerce sobre os membros uma influência integrante de coesão. Estas forças são constituídas pela atração que exercem sobre as minorias os traços culturais próprios a este grupo e irredutíveis às culturas vizinhas. Estas forças centrípedas desempenham o papel de núcleo dinâmico no seio das minorias. Elas engendram entre os minoritários atitudes de lealdade para com seu grupo ou aquilo que Lewin gosta de chamar de o chauvinismo positivo. Fazem nascer neles, paralelamente, um desejo cada vez mais intenso de se emancipar da maioria.

No extremo oposto situa-se um campo de forças centrífugas que exerce uma influência dissolvente sobre os membros da minoria. Estas forças são constituídas pela atração, algumas vezes irresistível, exercida pela maioria, com seus privilégios, incluindo as promessas de prestígio e de satisfação dos instintos frustrados ou limitados pelas discriminações impostas pela*maioria às minorias. As atitudes coletivas provocadas pelas forças centrífugas são (isto em oposição à lealdade do grupo) de uma parte, o desamor em relação a seu próprio grupo ou o chauvi  nismo negativo e, de outra parte, o desejo de assimilação à maioria.

  1. A minoria como constituída.

Se concebemos a minoria como uma totalidade dinâmica, torna-se necessário assinalar o fator de integração deste grupo que faz destes indivíduos múltiplos um só grupo coerente. Este fator de unificação é o constitutivo do grupo. Tentaremos destacá-lo mais adiante. Mas se tentamos, agora, definir as mino  rias como constituídas, Kurt Lewin nos fornece os conceitos que explicam o grau maior ou menor de integração que atingem nos diferentes momentos de seu desenvolvimento. [41]

Deste ponto de vista, Lewin distingue dois tipos de mino  rias. Algumas constituem unidades articuladas de modo orgânico. É o caso das minorias cujas camadas centrais englobam a maioria dos membros em ligações muito estreitas e em uma forte adesão à sua sorte e destino. Para a maioria dos membros, seu grupo étnico é percebido em termos de valência positiva .

Por outro lado, existem minorias mal ou não integradas que se revelam ao observador não mais como uma unidade orgânica, mas como uma unidade aparente, artificial, resultante de pressões e de coerções exteriores. Estas minorias não constituem um grupo no sentido restrito. Trata-se, antes, de um agregado de indivíduos, mais ou menos submetidos às mesmas restrições, às mesmas privações, às mesmas frustrações. Neste tipo de minorias o núcleo dinâmico não compreende senão alguns indivíduos que não perderam a fé no destino do seu grupo, a quase totalidade dos membros não vive senão da esperança de poder um dia pertencer à maioria. As ligações entre os membros são portanto muito frágeis. O equilíbrio entre os diferentes estratos é muito instável e quase inteiramente polarizado por valências negativas.

  1. O fator constitutivo das minorias.

Como explicar, pergunta Lewin, que em certos casos as minorias constituam unidades orgânicas e, em outros, não tenham senão a aparência de integração?

O fator constitutivo de todo grupo, segundo Lewin, é a interdependência da sorte de seus membros. No caso das minorias integradas, sua condição de minoritários é aceita, o que permite aos membros se unirem na luta pela emancipação. Por outro lado, no caso das .minorias não integradas ou mal integradas, sua condição de minoritários é suportada. Não existe inter-dependência entre os membros. O único fator negativo que os une é sua disposição a consentir em todos os compromissos, em todas as servidões ou em todas as baixezas que lhes facilitem a assimilação à maioria.

3 . O futuro das minorias.

Segundo Lewin, o futuro das minorias, assim como sua origem e existência, é antes de tudo social. [42]

O futuro das minorias não se coloca nos mesmos termos de superação em que se coloca o futuro de um grupo normal que não sofre nenhuma pressão, nem encontra nenhum obstáculo no processo de seu desenvolvimento. O futuro das minorias não pode se definir senão em termos de sobrevivência. A este respeito, três opções são possíveis, segundo Lewin. Há, inicialmente, o caso das minorias que perdem a crença em sua sobrevivência e estão prontas a tudo que possa apressar ou favorecer sua assimilação à maioria. Quanto às minorias que optam por sua sobrevivência, duas atitudes são possíveis. Elas têm em comum o seguinte: ambas concebem sua sobrevivência como uma emancipação do jugo arbitrário da maioria. Eis o que as distingue: certas minorias querem assegurar sua sobrevivência através da integração com a maioria, pela igualdade dos direitos e dos privilégios. Para conseguir seu intento estes grupos minoritários têm tendência de sublinhar e de destacar, em suas relações intergrupais com a maioria, muito mais o que os aparenta ou os une à maioria do que aquilo que os distingue ou os opõe a ela. Enfim, existem minorias que não acreditam poder assegurar sua sobrevivência, senão separando-se ou emancipando-se totalmente da maioria. Elas aspiram à independência total e definitiva em relação à maioria. Estão convencidas de que só assim poderão conservar a integridade de sua cultura, prosseguir na conquista de sua plena identidade e realização do seu destino coletivo. Lewin conclui que só estas últimas minorias têm alguma possibilidade de assegurarem sua sobrevivência. Enganam-se aquelas que acreditam poder integrar-se à maioria e nela con  servar sua identidade étnica. Cedo ou tarde elas serão assi  miladas.

Kurt Lewin termina este ensaio teórico sobre a psicologia das minorias, tentando caracterizar entre os minoritários as di  ferenças de atitudes coletivas que implicam estas três opções a respeito do futuro de suas relações inter-raciais com a maioria que as oprime e as discrimina.

Lewin afirma que as minorias que renunciam à sua sobre  vivência e aquelas que optam pela integração em um contexto de relações cordiais e um pouco servis em relação à maioria têm tendência, ambas, a adotarem as mesmas atitudes coletivas. Ele considera, com efeito, que no plano inter-racial as atitudes coletivas destas minorias são tipicamente adolescentes. Suas es  tratégias têm em comum o seguinte: elas se baseiam na hipótese de que a situação presente de discriminação desaparecerá [43] quando sua participação na minoria for desconhecida, ignorada ou anulada. Assim como o adolescente espera ser aceito pelo mundo dos adultos quando conseguir convencer os adultos de que não é mais uma criança. Também como os adolescentes, o comportamento social destes dois tipos de minorias caracteriza-se pela intra-agressão, pela auto-acusação, pelo exagero em suas ambições, pelas recusas, pelos protestos e pelo mimetismo. Sua identificação com a maioria é equivalente e nos dois casos apoia- -se no temor. Há ambivalência a respeito de seu próprio grupo tanto quanto a respeito do grupo majoritário.

Quanto às minorias que tentam assegurar sua sobrevivência pela independência em relação à maioria, suas atitudes coletivas são de um nível mais adulto. Elas ganharão em maturidade se à identificação positiva com o grupo na qual inspiram-se seus comportamentos, vierem acrescentar-se, ao mesmo tempo, a capacidade de proceder periodicamente a autocríticas e a vontade de conseguir eventualmente sua independência pela inter  dependência com os outros grupos étnicos. [44]

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Por Robert Dinwiddie
O que é o Universo?

O Universo é tudo que existe, todo espaço e tempo e toda a matéria e energia no seu interior. O universo é inimaginavelmente vasto, e, desde sua formação, tem-se expandido, carregando e separando regiões, até a velocidade da luz, e, em alguns casos, superando-a. O Universo engloba tudo, desde o menor átomo até o maior aglomerado de galáxias, e, contudo, parece governado pelas mesmas leis básicas. Toda matéria visível (que é apenas uma pequena porcentagem da matéria total) é constituída das mesmas unidades subatômicas, e as mesmas forças fundamentais governam todas as interações entre esses elementos. O conhecimento desses princípios cósmicos operantes – desde a relatividade geral até a física quântica – fundamenta a cosmologia, o estudo do Universo como uma entidade. Os cosmólogos esperam responder questões como “Qual o tamanho do Universo?”, “Qual a sua idade?”, “Como ele opera nas maiores escalas?”.

A escala do Universo

Tudo no Universo faz parte de algo maior. A mente humana apreende com relativa facilidade a escala d terra e da Lua, mas a estrela mais próxima é remota e as galáxias mais distantes estão bilhões de vezes mais longe. Os cosmólogos, que estudam o tamanho e estrutura do Universo, usam modelos matemáticos para construir um quadro de vasta escala do Cosmos.

O tamanho do Universo

Cosmólogos podem jamais determinar exatamente o tamanho do Universo. Ele pode ser infinito. Alternativamente, poderia ter um volume finito, mas mesmo um universo finito não teria centro ou fronteira, e se curvaria sobre ele mesmo. Assim, paradoxalmente, um objeto viajando numa direção acabaria reaparecendo na direção oposta. O que é certo é que o Universo está em expansão desde sua origem no Big Bang, 13,7 bilhões de anos atrás. Estudando os padrões da radiação remanescente do Big Bang os cosmólogos podem estimar o tamanho mínimo do Universo, caso ele seja finito. Algumas partes devem estar separadas por ao menos dezenas de bilhões de anos-luz. Como um ano-luz é a distância que a luz viaja em um ano (9,46 trilhões de km), o Universo é incrivelmente grande.

O universo observável

Embora o Universo não tenha bordas e possa ser infinito, a parte dele à qual os cientistas têm acesso, é delimitada e finita. Denominada universo observável, é a região esférica em torno da Terra na qual a luz teve tempo de nos alcançar desde o início do Universo. A fronteira que separa esta região do restante do Universo é chamada horizonte de luz cósmico. A luz que chega à Terra proveniente de um objeto muito próximo deste horizonte viajou durante a maior parte da idade do Universo, isto é, 13,7 bilhões de anos. Pode-se dizer que esta luz percorreu cerca de 13,7 bilhões de anos-luz até nos alcançar. Essa distância de viagem da luz pode ser definida como distância “lookback” entre nós e o objeto remoto (já que, ao observá-lo, olhamos para trás no tempo).

Contudo, a verdadeira distância é muito maior, pois, desde quando a luz detectada na Terra deixou o objeto, ele foi arrastado para mais longe pela expansão do Universo.

Objetos celestes

O universo consiste de energia, espaço e matéria. Uma parte da matéria vagueia pelo espaço como átomos isolados ou moléculas gasosas simples. Outra se agrega em escalas diversas, desde ciscos de poeira a sóis gigantes, ou implode para formar buracos negros.

A gravidade liga todos estes objetos nas grandes nuvens e discos de matéria, as galáxias. Estas por sua vez, se ajuntam em aglomerados e formam os maiores de todos os objetos, os superaglomerados.

Gás poeira e partículas

Grande parte da matéria convencional do Universo existe como um gás tênue dentro e ao redor das galáxias, e mesmo mais diluído entre elas. O gás é constituído principalmente de átomos de hidrogênio e hélio, mas nuvens no interior das galáxias contêm átomos de elementos químicos mais pesados e moléculas simples. O gás das nuvens galácticas, está misturado com poeira —na forma de minúsculas partículas de carbono ou substâncias como silicatos (compostos de silício e oxigênio). Dentro das galáxias, gás e poeira constituem o chamado meio interestelar. Porções visíveis deste meio, muitas delas abrigando formação estelar, são as chamadas nebulosas. Algumas delas, nebulosas de emissão, produzem um brilho intenso devido a seus átomos constituintes absorverem radiação das estrelas e re-irradiarem como luz. Outras, as chamadas nebulosas escuras, são visíveis apenas como manchas que bloqueiam a luz estelar. No espaço existem também partículas de matéria na forma de raios cósmicos - partículas subatômicas de alta energia viajando a velocidades elevadíssimas através do Cosmos.

Estrelas e anãs marrons

A maior parte da luz do Universo vem das estrelas - bolas quentes de gás que geram energia a partir de fusão nuclear em seu centro. As estrelas se formam da condensação de adensamentos de gás e poeira em nebulosas, e muitas vezes, ocorrem em pares ou aglomerados. Dependendo da massa inicial as estrelas variam em cor, temperatura superficial, brilho e tempo de vida.  As estrelas mais massivas, conhecidas como gigantes e supergigantes, são as mais quentes e luminosas, mas duram apenas uns poucos milhões de anos. As estrelas de baixa massa (as mais numerosas) são pequenas, fracas, e vermelhas e podem viver bilhões de anos. Ainda menores são as anãs marrons. Estas são estrelas que falharam, com a massa e temperatura insuficientes para sustentar a fusão nuclear estelar, e emitem apenas uma débil luminosidade. Anãs marrons podem dar conta de boa parte da matéria convencional do Universo.

Remanescentes estelares

Estrelas não duram para sempre. Mesmo as menores, as anãs vermelhas, de vida mais longa, no fim se apagam. As de massa intermediária, como o Sol, expandem em grandes estrelas de baixa densidade, as chamadas gigantes vermelhas, de expelirem a maior parte de suas camadas exteriores. Elas então colapsam para formar anãs brancas que gradualmente se resfriam e se apagam. As camadas do material expulso, em expansão em volta dessas estrelas, constituem as nebulosas planetárias (embora não tenham nada a ver com planetas). Estrelas com maior massa têm fim ainda espetacular, desintegrando-se em explosões chamadas supernovas. A camada em expansão de matéria ejetada pode ser vista por milhares de anos; é o resto de supernova. Porém, nem todo material da estrela é expelido. Parte da região central colapsa em um objeto compacto extremamente denso chamado estrela de nêutrons. Estrelas de ainda maior massa colapsam em buracos negros.

Planetas e corpos menores

Acredita-se que o Sistema Solar (nossa própria estrela, o Sol, e tudo que gira em torno dele) foi formado de uma nuvem de gás e poeira que se condensou em um disco em rotação, o chamado disco protoplanetário. O material central se tornou o Sol, enquanto o material exterior formou os planetas e outros objetos menores, frios. Um planeta é uma esfera orbitando uma estrela e, diferentemente de anãs marrons, sem produzir fusão nuclear. Como há planetas e discos protoplanetários em torno de outras estrelas na nossa galáxia, é provável que planetas sejam comuns no Universo. No Sistema Solar, os planetas ou são gigantes gasosos, como Júpiter, ou corpos rochosos, menores, como a Terra e Marte. Já os corpos menores encaixam-se em diversas categorias. Luas são objetos que orbitam planetas e asteróides. Asteróides são corpos rochosos com diâmetro entre 50 m e 1.000 km. Cometas são blocos de gelo e rocha, com poucos quilômetros de diâmetro, cuja órbita chega aos confins do Sistema Solar. Planetas anões são similares a planetas, mas que, ao contrário desses, não limparam sua orbita. Meteoroides sao restos de cometas ou de asteróides destroçados.

Galáxias

O Sistema Solar ocupa apenas uma parte mínima da enorme estrutura discoidal de estrelas, gás e poeira, que é a Via Láctea. Há cerca de 100 anos, pensava-se que nossa galáxia constituía todo o Universo; poucos imaginavam a existência de qualquer coisa fora da Via Láctea. Hoje sabemos que apenas a parte observável do Universo contém mais que 100 bilhões de galáxias separadas. Elas variam de galáxias anãs, com poucas centenas de anos-luz de diâmetro e poucos milhões de estrelas a gigantes com vários trilhões de estrelas, estendendo-se por centenas de milhares de anos- luz. Além de estrelas, galáxias contêm gás, poeira e matéria escura, tudo mantido coeso pela gravidade. Há cinco formas de galáxias: espirais, espirais barradas, elípticas (desde esféricas até achatadas), lenticulares (em forma de lente), e irregulares. Astrônomos identificam as galáxias por números de um dos diversos catálogos de objetos celestes. Por exemplo, N G C 1530 indica a galáxia que é o objeto 1530 no New General Catalogue (NGC).

Buracos negros

Um buraco negro é uma região do espaço contendo no seu centro matéria comprimida até um ponto de densidade infinita, a chamada singularidade. Dentro de uma região esférica em torno da singularidade, a atração gravitacional é tão forte que nada consegue escapar, nem mesmo a luz. Buracos negros podem ser detectados, portanto, somente a partir do comportamento do material ao seu redor; aqueles
até agora descobertos tipicamente têm um disco de matéria e poeira em rotação em torno do buraco, lançando jatos de material a alta velocidade, ou emitindo radiação (como raios-X) a medida que matéria cai no buraco. Há dois tipos principais de buracos negros: os supermassivos e os estelares. Os buracos negros supermassivos, que podem ter bilhões de massas solares, habitam nos centros da maioria das galáxias, incluindo a nossa. Sua origem ainda não é bem compreendida, mas parecem ser subproduto do processo de formação de galáxias. Buracos negros estelares formam-se dos restos da explosão de estrelas supergigantes.

Aglomerados de galáxias

A gravidade agrega galáxias em aglomerados de dezenas a vários milhares de galáxias. Os diâmetros dos aglomerados variam de 3 a 30 milhões de anos-luz. Alguns têm uma região central concentrada e uma estrutura esférica bem definida; outros têm forma e estrutura irregulares. O grupo de galáxias contendo nossa própria galáxia é chamado Grupo Local. O vizinho Aglomerado de Virgo é um aglomerado irregular, com várias centenas de galáxias, situado a 50 milhões de anos-luz de nós. Cadeias de uma dúzia ou mais de aglomerados são ligadas frouxamente pela gravidade e constituem os superaglomerados, que podem ter até 200 milhões de anos-luz de extensão. Superaglomerados, por sua vez, formam espessas membranas e filamentos, entremeados com vazios de 100 milhões de anos-luz de diâmetro. As paredes e os vazios formam um rendilhado que permeia todo o universo observável.

Matéria escura e energia escura

Há muito mais matéria no Universo que aquela contida em estrelas e outros objetos visíveis. A matéria invisível é chamada “matéria escura”. Sua composição é incerta. Algumas formas dela seriam os MACHOs (objetos compactos massivos do halo) - corpos escuros planetoidais — e os WIMPs (partículas massivas fracamente interagentes) — partículas exóticas que interagem pouquíssimo com a matéria convencional. Os movimentos de galáxias em agjomerados constituem uma evidência da matéria escura. Elas se movem mais rápido que a gravidade apenas da matéria visível possa explicar; deve portanto haver uma massa adicional.

Porém, mesmo incluindo a matéria escura deduzida das observações, ela ainda é insuficiente para satisfazer as teorias de evolução do Universo. Para encontrar uma solução os cosmólogos propuseram a existência da “energia escura”, uma força que se opõe à gravidade e provoca expansão acelerada do Universo. A natureza exata da energia escura é ainda especulativa.

Matéria

Examinada na menor das escalas a matéria é composta de partículas fundamentais, algumas delas, governadas por várias forças, agrupam-se para formar átomos e íons. Mas há outras formas de matéria. A maior parte da massa do Universo consiste de “matéria escura”, cuja natureza exata é ainda desconhecida.

O que é matéria?

Matéria é tudo que possui massa – isto é, tudo que é afetado pela gravidade. A maior parte da massa da Terra é constituída por átomos e íons. Em outras partes do Universo, contudo, a matéria existe sob uma vasta gama de condições e assume uma variedade de formas. Desde o meio interestelar tênue até a matéria em buracos negros infinitamente densa. Nem toda a matéria é feita de átomos, mas toda matéria é feita de algum tipo de partícula. Certos tipos de partículas são fundamentais – isto é, elas não são compostas de subunidades menores. As partículas mais comuns da matéria convencional são os quarks e os elétrons, que constitituem os átomos e íons e formam toda matéria visível. Porém a maior parte da matéria do Universo não é convencional, mas matéria escura, constituída parcialmente de neutrinos, e talvez dos teóricos WIMPs (partículas massivas fracamente interagentes).

Átomos e íons

Átomos são compostos de dois tipos de partículas, os quarks e os elétrons. Os quarks são ligados pelos glúons, partículas sem massa mediadoras de força, em grupos de três. Estes grupos de quarks formam as partículas chamadas prótons e nêutrons. Estes se juntam nos núcleos, regiões compactas no centro dos átomos. A maior parte do átomo é espaço vazio, onde se movem os elétrons. Têm carga negativa e massa muito pequena — quase toda a massa do átomo está nos prótons e nêutrons. Átomos contêm um número igual de prótons (positivamente carregados) e elétrons (negativamente carregados), assim são eletricamente neutros. Se eles ganham ou perdem elétrons, tornam-se partículas carregadas chamadas íons.

Elementos químicos

Nem todos os átomos são iguais – eles têm diferentes números de prótons, neutros e elétrons. Uma substância constituída de átomos de uma só espécie é chamada elementos químicos, que recebe um número atômico igual ao se número de prótons, e assim de elétrons, em seus átomos. Exemplos são o hidrogênio com número atômico 1 (os átomos de hidrogênio contêm um próton e um elétron), hélio (número atômico 2) e carbono (número atômico 6). Os átomos de um dado elemento têm todos o mesmo número de prótons, e, contém a mesma configuração eletrônica, única deste elemento, e responsável por suas propriedades químicas específicas. O universo primitivo consistia quase que inteiramente de elementos mais leves, hidrogênio e hélio. A maioria dos demais, incluindo elementos comuns como oxigênio, carbono e ferro, foram criados em estrelas e explosões estelares.

Compostos químicos

A maior parte da matéria no Universo consiste de átomos não-ligados ou íons de uns poucos elementos químicos, mas uma parte significativa existe como compostos, contendo átomos de mais de um elemento, unidos por ligações químicas. Compostos aparecem em corpos como planetas e asteróides, em organismos vivos e no meio interestelar. Em compostos iônicos, como os sais, os átomos permutam elétrons, e os resultantes íons carregados são ligados por forças elétricas, e arranjados em uma rede cristalina rígida. Em compostos covalentes, como a água, os átomos formam estruturas chamadas moléculas pela partilha de elétrons entre si. Dois ou mais átomos idênticos podem combinar-se para formar moléculas de certos elementos.

Estados da matéria

A matéria convencional existe em quatro estados: sólido, líquido, gasoso, e plasma. Eles diferem com respeito à energia das partículas da matéria (moléculas, átomos, ions) e à liberdade de movimento das partículas. Substancias podem sofrer transições de um estado a outro, por exemplo, ao perder e ganhar energia. Os constituintes de um sólido estão presos por fortes ligações e mal podem se mover, enquanto em líquido, estão conectados apenas por ligações fracas e têm liberdade de movimento. Em um gás, as partículas são ligadas muito fracamente e se movem com grande liberdade, ocasionalmente colidindo. Um gás se toma um plasma quando é tão quente que colisões começam a remover elétrons dos átomos. Um plasma, portanto, consiste de íons e elétrons movendo-se com extrema energia. Como as estrelas são feitas de plasma, ele é o estado da matéria convencional mais comum no Universo seguido pelo estado gasoso.

Forças no interior da matéria

As ligações que unem os constituintes dos sólidos, líquidos, gases e plasmas são baseadas na força eletromagnética (EM). Essa força atrai as partículas de carga elétrica de sinal oposto e repele as de mesmo sinal. Essa é uma das três forças que controlam a estrutura de pequena escala da matéria. As outras são a força nuclear forte, composta de parte fundamental e residual, e a força nuclear de interação fraca. Em conjunto com a força da gravidade formam as quatro forças fundamentais da natureza. As forças EM, fraca e forte são mediadas por partículas portadoras de forças, que pertencem a um grupo de partículas chamadas bósons. A força EM, além de ligar átomos em sólidos e líquidos, prende os elétrons aos átomos. A força forte mantém coesos os prótons, os nêutrons, e os núcleos atômicos. A força fraca causa o decaimento radioativo e outras interações nucleares.

Física de partículas

Por décadas, físicos contribuíram para uma melhor compreensão da matéria e das quatro forças fundamentais. Parte da motivação foi esclarecer o que ocorreu no universo primitivo, logo após o Big Bang. A pesquisa concentrou-se em destroçar partículas em dispositivos chamados aceleradores de partículas. Estes experimentos identificaram centenas de partículas (a maior parte delas altamente instáveis), que diferiam em suas massas, cargas elétricas, outras propriedades como “spin”, e nas forças fundamentais às quais estão sujeitas. As partículas conhecidas e suas interações são comumente explicadas pela teoria de modelo padrão da física de partículas, que explica as propriedades da maioria das partículas. Uma exceção é o gráviton, partícula hipotética que se crê ser a portadora da força da gravidade. A gravidade não se ajusta ao esquema, porque a melhor teoria da gravidade (relatividade geral) é incompatível com aspectos do modelo padrão. Novas teorias, como a teoria de cordas tentam unificar gravidade com física de partículas.

Fissão e fusão nuclear

Os físicos do século 20 descobriram que os núcleos atômicos não são imutáveis mas podem ser quebrados ou fundidos. Na natureza, núcleos atômicos instáveis se partem espontaneamente, produzindo partículas e energia, sob a forma de radioatividade. De um modo similar, no processo artificial de fissão nuclear, grandes núcleos são intencionalmente cindidos em partes menores, com imensa liberação de energia. Numa escala cósmica, um fenômeno mais importante é a fusão nuclear. Neste processo núcleos atômicos se fundem, formando um núcleo maior e liberando energia. A fusão alimenta as estrelas e cria os átomos dos elementos químicos mais pesados que o berílio. A reação de fusão nuclear mais comum em estrelas é a que funde quatro núcleos de hidrogênio (prótons) num de hélio. Nesta e em outras reações de fusão, os produtos da reação têm massa ligeiramente menor que a massa combinada dos reagentes. A massa faltante se converte em imensas quantidades de energia, de acordo com a famosa equação de Einstein E=mc2, relacionando energia (E), massa (m) e a velocidade da luz (c).

Radiação

A radiação é energia na forma de ondas ou partículas emitidas por uma fonte e pode viajar através do espaço e de alguns tipos de matéria. A radiação eletromagnética (EM) inclui luz, raios-X e radiação infravermelha. A radiação de partículas consiste de partículas carregadas com altas velocidades, como raios cósmicos e partículas emitidas no decaimento radioativo. A radiação EM é de longe a mais importante na astronomia.

Radiação eletromagnética

Energia na forma de radiação EM é um dos dois principais componentes do Universo; o outro é a matéria. Este tipo de radiação é produzido pelo movimento de partículas eletricamente carregadas, como os elétrons. Uma carga em movimento produz um campo magnético. Se o movimento não é constante, então o campo magnético varia e produz um campo elétrico. Interagindo, os dois campos se sustentam mutuamente e se propagam no espaço, transferindo energia. Além da luz visível, a radiação EM inclui ondas de rádio, microondas, radiação infravermelha (calor), radiação ultravioleta, raios-X, e raios gama. Todos estes fenômenos viajam pelo espaço vazio à velocidade da luz, que é de aproximadamente 300.000 km por segundo, ou cerca de 1 bilhão de km/h.

Comportamento ondulatório

Na maior parte dos casos a radiação EM age como uma onda – uma perturbação transportando energia de um local para o outro. Ela tem propriedades como comprimento de onda (distância entre duas cristas sucessivas da onda), e frequência (número de ondas passando por um dado ponto por segundo). Sua natureza ondulatória é demonstrada por experimentos como o da fenda dupla, no qual ondas de luz se difratam (se espalham) depois de passar por fendas, e interferem uma na outra pela superposição de suas cristas e depressões. As formas de radiação EM diferem somente no comprimento de onda, mas isso afeta outras propriedades, como o poder penetrante e a capacidade de ionizar átomos.

Comportamento corpuscular

Radiação EM tem um comportamento ondulatório, mas também consiste de pequenas porções ou “quanta” de energia chamadas fótons. Eles não têm massa mas transportam uma quantia fixa de energia. A energia de um fóton depende de seu comprimento de onda – quanto mais curto, mais energético. Por exemplo, fótons de luz azul (onda curta) são mais energéticos que fotos de luz vermelha (onda longa). Uma demonstração clássica das propriedades de partículas da luz é fornecida por um fenômeno chamado efeito fotoelétrico. Se uma luz aul ilumina uma superfície de metal, ela faz com que os elétrons sejam ejetados do metal, enquanto um luz vermelha mesmo brilhante não produz esse efeito.

Analisando a luz

A radiação de um corpo celeste é uma mistura de comprimentos de onda. Quando passa através de um prisma a luz é separada nos comprimentos de onda que a compõem, formando um registro chamado espectro. O espectro de uma estrela em geral contém linhas escuras, as linhas de absorção, causadas pelos fótons de determinados comprimentos de onda absorvidos por átomos da atmosfera estelar. As linhas são usadas para identificar elementos químicos. O espectro de uma nebulosa também pode revelar sua composição. Quando lluminada por uma estrela próxima, os átomos da nebulosa emitem sua própria luz. O espectro resultante, neste caso um espectro de emissão, consiste de séries de linhas brilhantes, características de diferentes elementos.

Redshift e Blueshift

O espectro da radiação recebida por um observador se desloca em comprimentos de onda, se a fonte da radiação se move em relação ao observador — e objetos celestes estão sempre em movimento. Os astronômos podem medir os deslocamentos nos comprimentos de onda de linhas características com respeito a seus valores em laboratório, que são de fontes em repouso. Observadores de um objeto afastando-se, vêem suas linhas espectrais deslocadas para maiores comprimentos de onda (deslocamento para o vermelho, redshift). Já objetos em aproximação apresentam deslocamento das linhas para menores comprimentos de onda (deslocamento para o azul, blueshift). Galáxias distantes têm grandes redshifts, indicando que estão se afastando a enormes velocidades.

Ao longo do espectro

Objetos celestes podem emitir ao longo de todo e espectro EM, desde as ondas de rádio, passando pelo visível, até os raios gama. Alguns objetos complexos como galáxias e restos de supernovas, brilham em quase todos os comprimentos de onda. Objetos frios tendem a irradiar fótons com menor energia e portanto somente são visíveis em comprimentos de onda mais longos. Em direção ao extremo de raios gama do espectro, os fótons são cada vez mais energéticos. Raios-X de alta energia e raios gama originam-se apenas de fontes extremamente quentes, como o gás de aglomerados de galáxias ou de eventos violentos, como buracos negros engolindo matéria. Para detectar todos estes tipos de radiação e obter imagens, os astrônomos usam uma variedade de instrumentos — cada tipo de radiação tem propriedades diferentes e deve ser coletada e focalizada de um modo particular. A radiação em muitos comprimentos de onda não pode chegar até a superfície terrestre, e é detectável apenas por observatórios orbitando acima da atmosfera.

Gravidade, movimento e órbitas

Gravidade é a força atrativa que existe entre todo objeto no Universo, que tanto mantém coesas estrelas e galáxias, como faz com que um alfinete caia. A gravidade é mais fraca que outras forças fundamentais da natureza, mas, por agir a grandes distâncias, e entre todos os corpos com massa, desempenha o papel de moldar o Universo. Gravidade também é essencial para determinar órbitas e criar fenômenos como anéis planetários e buracos negros.

Gravitação newtoniana

O estudo científico da gravidade começou por volta de 1590, quando Galileu Galilei demonstrou que objetos de diferentes pesos caem com exatamente a mesma taxa de aceleração. Em 1665 ou 1666, Isaac Newton percebeu que a mesma força que causa a queda dos corpos deveria estender-se ao espaço e ser responsável por manter a Lua em sua órbita. Analisando os movimentos de diversos corpos celestes, Newton formulou sua lei da gravitação universal, segundo a qual todo corpo no universo exerce uma força atrativa (gravidade) em todo outro corpo. A lei também descreve como essa força varia com as massas dos corpos e sua separação. Até hoje permanece aplicável para a compreensão e previsão dos movimentos da maioria dos objetos astronômicos.

Leis do movimento de Newton

A partir dos seus estudos da gravitação e dos movimentos dos corpos celestes, e estendendo conceitos desenvolvidos por Galileu, Newton formulou suas três leis do movimento. Antes de Galileu e Newton pensava-se que um objeto em movimento continuaria a se mover somente se uma força agisse sobre ele. Em sua primeira lei do movimento Newton contradiz essa ideia: um objeto permanece em movimento uniforme ou em repouso a menos que uma força resultante agisse sobre ele (uma força resultante é a soma de todas as forças agindo sobre o objeto). A segunda lei de Newton afirma que a força resultante no objeto causa sua aceleração (altera sua velocidade) numa taxa diretamente proporcional à magnitude da força. Ela também sustenta que, dada uma força, quanto menor a massa do objeto maior sua aceleração. A terceira lei afirma que cada ação corresponde a uma reação igual e oposta — por exemplo, a atração gravitacional da Terra na Lua é a mesma que a atração da Lua na Terra.

Peso e queda livre

A magnitude da força gravitacional agindo sobre um objeto é chamada peso. A massa de um objeto (medida em quilogramas) é constante, enquanto que seu peso (medido em newtons) varia de acordo com a força da gravidade local. Uma massa de 1kg pesa 9,8 newtons na Terra, mas somente 1,65 newtons na Lua. O peso pode ser mensurado, e só se pode sentir a sensação de peso quando a força da gravidade encontra a reação de uma segunda força oposta a ela. Uma pessoa de pé sobre a Terra sente o peso nem tanto pela atração gravitacional, mas pela resistência do chão empurrando seus pés. Uma pessoa orbitando em torno da Terra está de fato caindo em direção à Terra sob a ação da gravidade. Tal pessoa em “queda livre” experimenta uma aparente imponderabilidade. Isto ocorre não pela falta da gravidade, mas pela ausência de uma força opondo-se à ela.

Formato da órbitas

Quando um objeto orbita outro de massa maior, ele está em queda livre em direção ao corpo maior. Ele experimenta uma aceleração gravitacional em direção ao objeto maior que curva uma trajetória, que seria retilínea, para uma trajetória curvada. Tanto a direçãodo movimento como a da aceleração mudam constantemente, produzindo um trajeto curvo. Todas as órbitas fechadas na natureza têm a forma de uma elipse. O rau de desvio de uma elipse de um círculo perfeito é chamdo excentricidade. Muitas órbitas no Sistema Solar têm baixa excentricidade – isto é, são quase circulares. Outras, como a órbita de Plutão em torno do Sol, têm uma excentricidade elevada, sendo bem alongadas. Alguns objetos celestes seguem órbitas abertas, sem retorno; as curvas destas órbitas são de dois tipos: as parábolas e as hipérboles.

Corpos compactos em rotação

Estrelas, pulsares, galáxias e planetas todos têm rotação, governada pela lei de conservação do momento angular. O momento angular de um objeto é relacionado a sua energia rotacional, que depende da distribuição de massa do objeto e da rapidez de seu giro. O momento angular de qualquer objeto em rotação permanece constante. Assim se a gravidade provocar sua contração, sua taxa de giro aumentará para compensar a redistribuição de massa. Portanto, objetos compactos em rápida rotação tendem a formar corpos difusos em lenta rotação.

Espaço e tempo

A maioria das pessoas partilha algumas noções do senso comum sobre o mundo. Uma é que o tempo passa na mesma velocidade para todos. Outra é que o comprimento de um objeto não varia. Porém, estas ideias, que já foram base sólida para as leis da física, são uma ilusão: elas se aplicam somente ao campo restrito de situações com as quais as pessoas estão familiarizadas. De fato, espaço e tempo não são absolutos, mas se distendem ou se dobram dependendo do ponto de vista relativo. E mais, a presença da matéria distorce tanto tempo como espaço para produzir gravidade.

Problemas com o universo newtoniano

Os problemas com a visão newtoniana de espaço e tempo começaram a aparecer no final do século XIX. Até então os cientistas supunham que as posições e movimentos dos objetos no espaço pudessem todos ser medidos em relação a um “referencial” absoluto, imóvel, eu imaginavam ser preenchido com um meio invisível chamado “éter”. Contudo, em 1887, um experimento para medir o movimento da Terra através desse éter produziu resultados inesperados. Em primeiro lugar, não detectou o éter. Em segundo, indicou que a luz sempre viaja à mesma velocidade relativamente a um observador, não importando seu movimento. Esta descoberta sugeria que a luz não segue as mesmas regras de movimento relativo que governa objetos do dia-a-dia, como carros e projéteis. Por exemplo, se uma pessoa correr atrás de uma bala à metade da velocidade do projétil, ela verá a bala afastar-se na metade da velocidade que relativa pessoa parada. Porém, se uma pessoa correr atrás de um onda de luz na mesma velocidade da luz, a onda continuaria a se afastar exatamente na mesma velocidade.

Relatividade especial

Em 1905, Albert Einstein rechaçou a ideia de que houvesse qualquer referencial absoluto ou “privilegiado” no Universo. Ele também rejeitou a ideia de que o tempo é absoluto, sugerindo que o tempo não corre na mesma velocidade em todas as situações. Para substituir as antigas ideias ele formulou a teoria especial da relatividade, chamada “especial” porque é restrita a referenciais com movimento retilíneo uniforme (ou seja, sem estar acelerados por uma força). Toda sua teoria baseia-se emdois princípios. O primeiro deles, o chamado princípio da relatividade, estabelece que a forma das leis físicas não muda entre referenciais em movimento uniforme entre si. O segundo afirma que a velocidade da luz é constante, independentemente da velocidade do observador ou da fonte de luz. Einstein reconheceu que esse último princípio conflita com a noção comum sobre como velocidades se somam; além disso, combinado com o primeiro princípio leva a resultados, não-intuitivos.

Efeitos da relatividade especial

Os resultados decorrentes da relatividade especial são surpreendentes. No começo do século XX, Einstein postulou que, para a luz ser a mesma em todos os referenciais, as medidas de spaço e tempo devem sofrer transformações ao se passar de um referencial a outro. Essas transformações fazem com que o comprimento de um objeto a alta velocidade seja manor que em repouso – o chamado contração de Lorentz. Além disso, o tempo de um objeto a alta velocidade parece correr mais devagar – o efeito denominado dilatação dos tempos. Assim medidas de tempo e espaço variam entre referenciais em movimento. Einstein também mostrou que um objeto ganha massa quando sua energia aumenta, e perde quando ela diminui. Isto o levou a perceber que massa e nergia são equivalentes, o que expressou na sua famosa equação E (energia) = m (massa) x e2(velocidade da luz ao quadrado).

Espaço-Tempo

Uma implicação adicional da relatividade especial e que tempo e espaço estão intimamente ligados. Quando dois eventos ocorrem em locais separados, o espaço entre eles é ambíguo, porque observadores viajando a diferentes velocidades e em distâncias diferentes. O tempo decorrido entre os eventos também depende do movimento de cada observador. Contudo, pode-se utilizar métodos matemáticos para medir a separação de eventos, com uma combinação de espaço e tempo, que forneça valores sobre os quais todos os observadores concordem. Isso levou à ideia de que os eventos no Universo não mais podem ser descritos em três dimensões, mas em um mundo quadridimensional, incorporando o tempo, o espaço-tempo. Neste sistema, a separação entre dois eventos é descrita por uma quantidade chamada intervalo espaço-tempo.

Movimento acelerado

Após completar seu estudo da relatividade no caso de referenciais em movimento uniforme (referenciais inerciais), Einstein voltou-se para movimentos não-uniformes, com aceleração. Em particular, ele examinou as relações entre gravidade e aceleração. Isso o levou a formular uma proposição chamada princípio da equivalência, que descreve gravidade e aceleração como diferentes perspectivas da mesma coisa. Especificamente, Einstein afirmou ser impossível qualquer experimento distinguir entre repouso em um campo gravitacional uniforme e aceleração. Ilustrou essa ideia com a imagem de um cientista dentro de uma caixa fechada, sob várias condições de aceleração e gravidade. Partindo do princípio da equivalência, Einstein, em 1915, acabou de desenvolver sua maior e mais complexa obra prima, a teoria da relatividade geral, que fornece uma nova descrição da gravidade.

Luz e gravidade

Visualizando experimentos em referenciais acelerados e usando o princípio da equivalência para transpô-los a situações gravitacionais. Einstein postulou que a luz, apesar de não ter massa, deveria seguir uma trajetória curvada em um campo gravitacional. Embora não tivesse evidência direta de que isso fosse verdade, estava convencido que seria assim (em 1919, observações astronômicas de um eclipse solar provaram este efeito). Prosseguindo em sua ideia, Einstein teorizou que campos gravitacionais poderiam ser produzidos por grandes massas ou concentrações de energia provocando um distorção na forma do espaço-tempo. Desse modo a luz se curva em torno de grandes massas, devido à curvatura do espaço-tempo causada pela massa. Similarmente, um planeta em órbita de uma estrela, com ao Terra em torno do Sol, segue uma trajetória curva porque o espaço-tempo é curvado na vizinhança da estrela e o caminho mais curto do planeta através desta região distorcida é uma curva.

Relatividade geral em ação

Einstein exprimiu sua teoria de como a massa distorce o espaço-tempo em suas “equações de campo”. Os físicos, usando essas equações, descobriram que é nos campos gravitacionais mais intensos —onde objetos massivos e densos distorcem fortemente o espaço-tempo — que a realidade mais se desvia das previsões de Newton. Por exemplo, Mercúrio é tão próximo do Sol que ele se move num campo gravitacional intenso (num espaço-tempo fortemente curvado). Sua órbita revolve de um modo não previsto pela mecânica de Newton, mas que a relatividade geral explica perfeitamente. A relatividade geral também fornece uma base para modelos da estrutura, desenvolvimento e destino final do Universo. Ela prevê que o Universo pode estar em expansão ou contração. Antes da introdução da teoria da relatividade, pensava-se espaço e tempo apenas como palcos onde ocorriam os eventos. Após a relatividade geral, percebeu-se que espaço e tempo são entidades dinâmicas que podem ser afetadas por massa, forças e energia.

Gravidade quântica

Embora a relatividade geral descreva com precisão o Universo em grande escala, tem pouco a dizer sobre o mundo subatômico, no qual muitos cientistas creem que a gravidade tenha sua origem. Este mundo subatômico foi modelado por outra grande teoria física, a mecânica quântica, que, por sua vez, tem pouco a dizer sobre a gravidade. Aparentemente há pouco de comum entre as interações lisas, previsíveis do espaço-tempo e matéria previstas pela relatividade geral, e o mundo subatômico descontínuo descrito pela mecânica quântica, onde mudanças de energia e matéria ocorrem em saltos discretos, os quanta. Um objetivo central da física moderna é encontrar uma teoria unificadora – uma “teoria quântica da gravidade” ou “teoria de tudo” – que unifique relatividade e mecânica quântica, e harmonize a gravidade com as outras forças fundamentais da natureza. Uma das grandes esperanças é a teoria das cordas. A maior parte das teorias de tudo supõe que o Universo tem mais dimensões que as facilmente observáveis, três do espaço e uma do tempo.

Espaço em expansão

Uma propriedade crucial do Universo é que ele está em expansão. Ele deve estar aumentando, porque as galáxias mais distantes estão distanciando-se rapidamente da Terra e as mais distantes se afastam ainda mais rápido. Supondo que o Universo sempre esteve em expansão, ele deve já ter sido menor e mais denso — algo que fundamenta a teoria do Big Bang para a origem cósmica.

Medindo a expansão

A taxa de expansão do Universo pode ser calculada comparando-se as velocidades de recessão das galáxias remotas às suas distâncias até nós. As velocidades são medidas a partir dos redshifts do espectro de sua luz. As distâncias são inferidas indiretamente. Por exemplo: detecta-se nas galáxias estrelas variáveis de uma classe chamada Cefeidas; mede-se o período da variação do seu brilho; a partir dele se deduz a luminosidade real da estrela; compara-se esta com o brilho aparente e se obtém a distância. A taxa de expansão do Universo é conhecida como a constante de Hubble. O valor desta constante é atualmente aceito como sendo cerca de 22 km/s por milhão de anos-luz. Assim, duas galáxias separadas por 1 bilhão de anos-luz afastam-se uma da outra a 22.000 km/s. Na verdade, trata-se de uma expansão bem gradual — um aumento de 1% da separação entre as galáxias leva dezenas de milhões de anos.

A natureza da expansão

A expansão do Universo apresenta várias características notáveis. Primeiro, todas as galáxias distantes se afastam, não importando se a Terra ou outro ponto no espaço esteja no centro do Universo. De fato, todos os pontos se afastam uns dos outros, e não há um centro. Em segundo lugar, numa escala local, a gravidade domina sobre a expansão cosmológica e agrega a matéria. A escala em que isso ocorre é muito grande — os aglomerados de galáxias resistem à expansão e se mantêm ligados. Em terceiro lugar, é incorreto pensar que as galáxias se afastam uma das outras, movendo-se no espaço. É o próprio espaço que se expande e arrasta as galáxias consigo. Finalmente, a taxa de expansão varia. Os cosmólogos se interessam muito em estabelecer a evolução futura da taxa de expansão, cuja forma decidirá o destino final do Universo.

Tempo e espaço em expansão

Sua expansão continuada, junto com a velocidade constante da luz, transforma o Universo em uma verdadeira máquina no tempo. A luz de uma galáxia remota leva bilhões de anos para chegar à Terra e assim os astrônomos veem a galáxia como era há bilhões de anos. De fato, quanto mais fundo os astrônomos olham no espaço, mais eles mergulham no passo da história do Universo. Nas regiões mais remotas, só há galáxias incompletamente formadas com a aparência que tinham logo após o Big Bang. As galáxias mais distantes e fracas afastam-se de nós a velocidades próximas das da luz. Se os astrônomos pudessem observar tais objetos por milhões de anos, eles as veriam evoluir mais lentamente que se estivessem próximas de nos e não tivessem sido arrastadas para tão longe. A distâncias ainda maiores, além do Universo observável, pode haver objetos que se afastaram tão rápido que sua luz nunca alcançou a Terra.

Distância Lookback

A expansão do Universo complica a expressão de distâncias de objetos muito remotos, em particular daqueles que observamos agora como eram há mais de 5 bilhões de anos. De fato, há várias definições de distância (fornecendo números distintos para objetos remotos), entre elas a distância “lookback” ou distância de “tempo de viagem da luz”, pois olhamos para trás no tempo (“lookback”) em observações profundas. Essa distância exprime quanto tempo a luz do objeto percorreu no espaço até nos alcançar. Mas, como o espaço se expandiu nesse ínterim, a distância da galáxia quando a luz começou sua jornada à Terra e menor que a distância lookback. Ao contrário, a distância “real” ao objeto remoto, a chamada distância “comóvel”, é maior que a distância lookback. Deve-se lembrar de tais distinções quando se afirma, por exemplo, que uma galáxia está a 10 bilhões de anos-luz.

Universo | Texto
Por Robert Dinwiddie
A Terra, as constelações e observações celestes

Objetos no Universo – galáxias, estrelas, planetas, nebulosas – estão espalhados ao longo de três dimensões do espaço e uma do tempo. Vistas de locais vastamente separados no Universo, suas posições relativas parecem separados no Universo, suas posições relativas parecem completamente diferentes. Para encontrar objetos no espaço, estudar seus movimentos e fazer mapas celestes os astrônomos necessitam de um referencial comum, e, para a maior parte dos casos, este referencial é a própria Terra. O elemento primário desta vista desde a Terra é a esfera celeste – uma esfera fictícia na qual os astrônomos consideram que as estrelas estão fixas. Os movimentos aparentes dos objetos celestes podem ser relacionados aos movimentos reais da Terra, dos planetas (em orbita em torno do Sol), da Lua (em órbita da Terra), e das estrelas enquanto se movimentam dentro da Via Láctea. A compreensão da esfera celeste e as convenções para denominar e encontrar objetos nela são questões essenciais em astronomia.

A esfera celeste

Durante séculos os seres humanos souberam que estrelas estão a diferentes distâncias da Terra. Mas, para registrar suas posições no céu, imaginavam que estivessem fixas em uma esfera englobando a Terra. A ideia dessa esfera também ajuda os astrônomos a compreender a localização da Terra, as horas do dia e como a época do ano afeta o que veem no céu noturno.

O céu como uma esfera

Para um observador na Terra, as estrelas parecem mover-se lentamente no céu noturno. Seu movimento é causado pela rotação da Terra, embora pareça ser o céu que está girando em torno do planeta. Para o observador, o céu pode ser imaginado como o interior de uma esfera, conhecida como esfera celeste, onde as estrelas estão fixas e que revolve em torno da Terra. Esta esfera tem características relacionadas com a esfera real da Terra. Ela tem polos norte e sul, exatamente acima do Polo Norte e do Polo Sul na superfície terrestre. A esfera celeste é como uma versão celeste de um globo – as posições da estrelas e galáxias podem ser registradas nela, assim como as cidades da Terra têm suas posições de longitude e latitude em um globo.

Efeitos de latitude

Um observador na Terra pode, no máximo, ver somente metade do céu em cada instante (suponde um céu sem nuvens e um horizonte desobstruído). A outra. Metade é oculta pela Terra. De fato, para um observador em um dos polos celetes, uma metade específica da esfera em outras latitudes a rotação da Terra continuamente traz novas partes da esfera celeste para a vista e oculta outras. Isto implica por exemplo, que um observador em uma latitude 60º N ou 60º S, pode ver até três quartos da esfera celeste ao longo do tempo; um observador no equador verá toda a esfera celeste se aguardar o tempo suficiente.

Movimentos celestes diários

À medida que a Terra gira todos os objetos celestes se movem através do céu, embora os movimentos das estrelas e dos planetas se tornem visíveis apenas à noite. Para um observador em latitudes intermediárias as estrelas nas regiões polares da esfera celeste descrevem um círculo diário ao redor do polo celeste norte ou sul. O Sol, a Lua, os planetas e as estrelas se erguem no horizonte leste, descrevem um arco através do céu e se põem no oeste. Esse movimento é inclinado para o sul (para os observadores no hemisfério norte), ou para o norte (hemisfério sul) – quanto maior a latitude do observador, mais acentuada a inclinação. As estrelas têm posições aparentemente fixas na esfera celeste, e desse modo o padrão do seu movimento se repete com precisão a cada dia sideral. Os planetas, o Sol e a Lua sempre estão em movimento em relação à esfera celeste e, assim, o período de repetição deles é diferente do observador em relação às estrelas.

Movimentos celestes anuais

À medida que a Terra orbita o Sol, esta estrela parece mover-se contra o fundo do céu. Quando o Sol está em uma região do céu, seu clarão ofusca a luz dessa porção do céu, e assim torna-se difícil observar de qualquer parte da Terra uma estrela ou objeto aí localizado. A órbita da Terra também implica que a parte da esfera celeste no lado oposto da Terra segundo o Sol – isto é, a parte visível no meio da noite – também mude. A parte visível do céu, por exemplo, à meia noite em junho, setembro, dezembro ou março é significativamente diferente – ao menos para observadores na Terra em latitudes equatoriais ou intermediárias.

Coordenadas celestes

Os astrônomos, usando o conceito da esfera celeste, podem registrar e encontrar as posições das estrelas e outros objetos no céu. Para definir a posição de um objeto os astrônomos usam um sistema de coordenadas semelhante ao de latitude e longitude da Terra. As coordenadas são chamadas declinação e ascensão reta. Declinação é medida em graus e minutos de arco (60 minutos de arco = 1º) ao norte ou sul do equador, e assim é equivalente à latitude. Ascensão reta, a equivalente da longitude, é o ângulo de um objeto à leste do meridiano celeste. O meridiano é um alinha que passa por ambos polos celestes e apor um ponto no equador celeste chamado o primeiro ponto de Áries ou ponto equinocial vernal. A ascensão reta de um objeto pode ser dada em graus e minutos de arco ou em horas e minutos. Uma hora é equivalente a 15º porque 24 horas somam os 360º de um círculo.

Ciclos celestes

Para um observador na Terra os eventos celestes ocorrem dentro de um contexto de ciclos determinados pelos movimentos da Terra, do Sol e da Lua. Esses ciclos fornecem algumas das unidades básicas para medi ro tempo, como dias e anos. Eles incluem os movimentos aparentes diários dos objetos celestes através do céu, o movimento aparente anual do Sol contra a esfera celeste, o ciclo sazonal e o ciclo mensal das fases da Lua. Outros ciclos relacionados produzem eventos, previsíveis, com eclipses lunares e solares.

Caminho celeste do Sol

À medida que a Terra viaja em torno do Sol, para um observador na Terra, o Sol parece traçar uma trilha na esfera celeste chamado eclíptica. Devido ao ofuscamento pelo Sol esse movimento não é óbio, mas o Sol se move uma pequena distância cada dia contra o fundo das estrelas. A faixa do céu estendendo-se por 9 graus de declinação em ambos os lados da eclíptica é chamada zodíaco e incorpora 24 constelações inteiras ou parte delas. O Sol passa por 13 constelações, das quais 12 formam os “signos do zodíaco”. O Sol gasta um número variável de dias em cada uma dessas 13 constelações. Atualmente o Sol atravessa cada constelação em datas muito diferentes das astrológicas. Por exemplo, diz-se que alguém que nasceu entre 21 de março e 19 de abril, é do signo de Áries, embora agora, o Sol passe por Áries entre 19 de abril e 23 de maio. Essa disparidade é parcialmente causada por um fenômeno chamado precessão.

Precessão

O eixo de rotação da Terra é inclinado em relação à eclíptica por 23,5º. Essa inclinação é essencial para causar as estações. Atualmente, o eixo aponta para uma posição na esfera celeste norte (o polo celeste norte) próxima à estrela Polar, mas não foi sempre assim. Como um pião rodopiando, a Terra executa um lento “bamboleio”, que altera a direção deste eixo com um ciclo de 25.800 anos. O bamboleio, chamado precessão, é provocado pela gravidade do Sol e da Lua. A precessão também causa a mudança gradual das localizações do polo osul celeste, do equador celeste, e de dois outros pontos de referência na esfera celeste, chamados pontos equinociais. As coordenadas das estrelas e outros objetos “fixos”, como galáxias, portanto mudam, e assim os astrônomos devem referi-las a uma época “padrão” a cada 50 anos. O padrão autal era exatamente correto em 1º de janeiro de 2000.

As estações

A óbita da Terra ao redor do Sol é de 365,25 dias e fornece uma unidade fundamental de tempo, o ano. As estações da Terra resultam da inclinação do seu eixo em relação a sua órbita. Devido à inclinação da Terra um outro hemisfério está apontado em direção ao Sol. O hemisfério que se inclina em direção ao Sol recebe mais luz solar, e portanto está mais quente. Cada ano, o hemisfério norte atinge a inclinação mínima em direção ao Sol por volta de 21 de junho – solstício de inverno no hemisfério sul e solstício de verão no hemisfério norte. Por algum tempo, em torno dessa data, a região polar norte é iluminada o dia todo enquanto a região polar sul está na escuridão. Ao contrário, em torno de 21 de dezembro, a situação é invertida. Entre os solstícios estão os equinócios, quando o eixo de rotação da Terra se coloca de lado em relação ao Sol e as durações do dia claro e da noite são iguais para todos os pontos da Terra. A inclinação da Terra também define os trópicos. O sol está no zênite ao meio dia no trópico de Câncer (23,5° N) por volta de 21 de junho, e no trópico de Capricórnio (23,5°A) por volta de 21 de dezembro, e diretamente acima do equador ao meio dia durante os equinócios.

Medindo os dias

Cada dia a Terra completa uma rotação em torno de seu eixo, e a maior parte dos locais em sua superfície passam da claridade para a sombra e de volta à claridade, produzindo o ciclo dia-noite. Contudo, há duas definições possíveis para o que seria o dia, e, apenas uma para uma delas, o dia solar, sua duração é exatamente 24 horas. Um dia solar é definido pelo movimento aparente do Sol no céu produzido pela rotação da Terra. É o intervalo de tempo que o Sol leva para retornar ao seu ponto mais alto no céu desde o mesmo ponto onde estava no dia anterior. O outro tipo de dia, o dia sideral, é definido pela rotação da Terra relativa às estrelas. É o intervalo de tempo que uma estrela leva para retornar ao ponto mais alto no céu em dias sucessivos. Um dia sideral é 4 minutos mais curto que um dia solar.

Medindo os meses

O conceito de mês é baseado na órbita da Lua em torno da Terra. Ao longo de cada órbita lunar o ângulo entre Terra, Lua e Sol muda continuamente, dando origem às fases lunares. O ciclo de fases – Lua Nova (quando a Lua está entre a Terra e o Sol), crescente, quarto, convexa, Lua Cheia (quando a terra está entre a Lua e o Sol – e depois, em ordem reversa de volta à Lua Nova, dura 29,5 dias e define o mês lunar. Contudo, o movimento orbital da Terra em torno do Sol torna mais complexa a expressão do mês, do mesmo modo como acontece com a definição do dia. De fato, em relação ao fundo das estrelas,  a Lua leva 27,3 dias para completar sua órbita. É o chamado mês sideral. A disparidade provém da alteração dos ângulos entre Sol, Terra e Lua, pelo movimento orbital da Terra. Após um mês sideral, a Lua deve ainda orbitar um pouco mais para retornar ao alinhamento original com a Terra e o Sol (um mês lunar).

Eclipses lunares

À medida que a Lua órbita a Terra periodicamente atravessa a sombra das Terra – ocorrência chamada eclipse luar – ou bloqueia a luz solar em uma parte da superfície terrestre – um eclipse solar. Eclipses não acontecem todos os meses, por que o plano da Terra não coincide como o plano orbital da Terra em torno do Sol. Contudo um eclipse do mesmo tipo corre várias vezes ao ano. Eclipses lunares ocorrem duas ou três vezes ao ano, sempre durante a Lua cheia. Os astrônomos classificam os eclipses lunares em três diferentes tipos. Em um eclipse penumbral, a Lua passa pela penumbra (sombra parcial) da Terra, provocando ligeira diminuição do brilho da \lua. Em um eclipse parcial, uma parte da Lua atravessa a umbra (sobra total) da Terra enquanto em um eclipse total a Lua toda passa pela umbra.

Eclipses solares

Um eclipse solar ocorre quando a Lua bloqueia a luz solar, impedindo-a de alcançar uma parte da Terra. Durante um eclipse total, observadores dentro de uma faixa na superfície terrestre, chamada faixa de totalidade, testemunham o Sol totalmente obscurecido pela Lua por uns poucos momentos. Fora desta área há uma região maior, onde observadores veem o Sol apenas parcialmente obscurecido. Mais comuns são os eclipses parciais, que não têm faixa de totalidade. Um terceiro tipo de eclipse solar é o anular, que ocorre quando a Lua está mais longe da terra que a média, e assim seu disco é pequeno demais para cobrir o disco do Sol. No máximo de um eclipse anular a Lua se assemelha a um disco escuro dentro de um delgado anel de luz solar. Os eclipses solares acontecem duas ou três vezes por ano, mas eclipses totais ocorrem somente uma vez a cada aproximadamente 18 meses. Durante o período de totalidade, a coroa do Sol (sua atmosfera exterior quente) torna-se visível.

Movimento planetário

Os planetas no sistema solar estão evidentemente muito mais próximos da Terra que as estrelas e, enquanto orbitam o Sol, parecem deslocar-se contra o fundo estrelado. O movimento é influenciado pela translação da Terra em torno do Sol, que muda o ponto de vista de observadores na Terra. Os planetas mais próximos do Sol movem-se mais rapidamente que os mais distantes; isto é parcialmente devido a efeitos de perspectiva mas também porque a velocidade de um planeta é maior quando ela está mais perto do Sol.

Planetas inferiores e superiores

Em termos de seus movimentos no céu como vistos da Terra os planetas são divididos em dois grupos. Os planetas inferiores, Mercúri e Vênus, são aqueles cuja órbita é mais próxima do Sol que a Terra. Eles nunca se afastam do Sol na esfera celeste – o maior ângulo com respeito ao Sol (elongação máxima) é 28° para mercúrio e 45° para Vênus. Porque eles estão próximos da Terra têm velocidade orbital elevada, ambos movem-se rapidamente contra as estrelas de fundo. Eles também apresentam fases, como as da Lua, devido à variação e ângulo entre a Terra, o planeta e o Sol. Todos os demais planetas, de Marte para fora, são chamados planetas superiores. Eles não estão “presos” ao Sol na esfera celeste, desse modo, também podem ser vistos no meio da noite. Com exceção de Marte, os planetas superiores estão muito longe da Terra para mostrarem fases distintas e se movem lentamente na esfera celeste –quanto mais longe do Sol, mais lento seus movimentos.

Movimento retrógrado

Os planetas em geral se movem no céu de oeste para leste contra o fundo sideral, noite após noite. Porém, periodicamente, um planeta move-se de leste para oeste por um breve período –  um fenômeno chamado movimento retrógrado. O movimento retrógrado é um efeito de mudança de perspectiva. Planetas como Marte mostram movimento retrógrado quando a Terra “ultrapassa” os outros planetas em oposição (quando a Terra se posiciona entre o planeta superior e o Sol). Os planetas inferiores Mercúrio e Vênus mostram movimento retrógrado em ambos os lados da conjunção inferior. Eles ultrapassam a Terra quando passam entre a Terra e o Sol.

Alinhamento no céu

Como todos os planetas orbitam o Sol aproximadamente no mesmo plano, eles nunca se afastam muito da faixa no céu chamada zodíaco. Não é incomum que vários planetas esejam na mesma parte do céu, muitas vezes dispostos mais ou menos segundo uma linha. Esses eventos, chamados conjunções planetárias, não têm significado mais profundo, mas podem ser uma visão espetacular. Outro tipo de alinhamento, denominado trânsito, ocorre quando um planeta inferior coloca-se diretamente entre a Terra e o Sol, cruzando o disco solar. Um par de trânsito de Vênus, separados por oito anos, ocorre em períodos maiores que um século, enquanto que os trânsitos de Mercúrio acontecem cerca de 12 vezes por século. Antigamente, esses trânsitos possibilitavam aos astrônomos obterem dados mais precisos sobre distâncias no Sistema Solar. Um tipo final de alinhamento é quando um corpo celeste passa à frente de outro ocultando-o. Ocultações de um planeta por outro, como Vênus encobrindo Júpiter, ocorrem umas poucas vezes por século. Em contraste, ocultações de um dos planetas brilhantes pela Lua podem ocorrer 10 ou 11 vezes por ano.

Movimentos e padrões estelares

As estrelas parecem fixas na esfera celeste, mas de fato suas posições estão mudando, ainda que muito lentamente. Há duas contribuições a este movimento: um balanço minúsculo, anual da posição no céu, denominado paralaxe; e um movimento contínuo, chamado movimento próprio. Para o registro dos movimentos das estrelas, e de suas propriedades como brilho e cor, cada estrela precisa de um nome, Os sistemas de denominação e catálogos estelares têm suas raízes nas constelações, que foram criadas para descrever os padrões formados pelas estrelas no céu.

Paralaxe

Paralaxe é uma mudança aparente na posição de um objeto relativamente próximo contra um fundo mais distante quando a posição do observador muda. Quando um observador tira duas fotografias de uma estrela próxima de lados opostos da órbita terrestre em torno do Sol, a posição da estrela contra o fundo de estrelas muda ligeiramente. Quando o observador mede o valor deste deslocamento, sabendo o diâmetro da órbita terrestre, ele pode calcular a distância até a estrela usando trigonometria. Até recentemente esta técnica era limitada a estrela dentro de poucas centenas de anos-luz, porque os deslocamentos de estrelas distantes eram pequenos demais para serem medidos com precisão. Instrumentos mais precisos a bordo de satélites, alcançaram uma precisão muito maior: aqueles a bordo do satélite Hipparchos permitem derivar distâncias estelares até alguns milhares de anos-luz da Terra. Para estrelas ainda mais distantes, o paralaxe é insignificante e outros métodos de estimar distâncias devem ser utilizados.

Movimentos próprios

Todas as estrelas da galáxia estão movendo-se em velocidades diferentes com respeito ao Sistema Solar, ao centro da galáxia, e uma com respeito à outra. Este movimento dá origem a um movimento angular aparente na esfera celeste chamado movimento próprio – medido em segundos de arco por ano. A maior parte das estrelas está tão distante que seus movimentos próprios são desprezíveis. Cerca de 200 têm movimentos próprios maiores que 1 segundo de arco por ano – ou 1 grau em 3.600 anos. A estrela de Barnard tem o maior movimento próprio, 10,3 segundos de arco por ano. Em apenas 180 anos ela percorre o equivalente ao diâmetro da Lua cheia no céu. Se os astrônomos conhecerem tanto o movimento próprio de uma estrela quanto sua distância, poderiam calcular sua velocidade transversa com relação à Terra – isto é, sua velocidade perpendicular à linha de visada desde a Terra. O outro componente da velocidade da estrela relativa à Terra é sua velocidade radial (segundo a linha de visada), derivada a partir do deslocamento Doppler das linhas espectrais da estrela.

O brilho das estrelas

O brilho de uma estrela no céu depende de sua distância até nós e de sua luminosidade intrínseca (a quantidade de enrgia que irradia no espaço por segundo). Para comparar a aparência que as estrelas teriam se estivessem à mesma distância, os astrônomos usam uma escala de brilho intrínseco, a magnitude absoluta. Nessa escala, grandes números positivos assinalam objetos fracos e números negativos, objetos luminosos. O brilho de uma estrela, como visto da Terra, é dado pela magnitude aparente. Assim, quanto menor o valor da magnitude aparente de uma estrela, mais brilhante ela é. Estrelas com magnitude aparente de +6 estão no limiar de detecção a olho nu, enquanto as magnitudes aparentes das 50 estrelas mais brilhantes estão entre +2 e 0. As quatro estrelas mais brilhantes (Sirius é a campeã) têm magnitudes aparentes negativas.

Constelações

Desde a antiguidade as pessoas veem formas imaginárias nos grupos de estrelas no céu. Usado linhas, conectaram as estrelas nesses grupos para formar figuras chamadas constelações e as denominaram conforma as formas que representavam. |cada constelação tem um nome latino, que, na maioria dos casos, é o de um animal, um objeto, como Crater (a taça), ou um personagem mitológico, como Hércules. Algumas constelações são fáceis de se reconhecer, como Órion (o Caçador); outras, como Piscis (Peixes) são menos distinguíveis. Desde 1930 um sistema acordado internacionalmente divide a esfera celeste em 88 áreas desiguais, contendo essas figuras. De fato, do ponto de vista astronômico, o termo “constelação” agora é aplicado à área contendo a figura em vez de a própria figura. Todas as estrelas dentro das fronteiras de uma constelação pertencem àquela constelação, embora elas não estejam conectadas às estrelas que produzem a figura da constelação. Dentro de algumas constelações há, às vezes, grupos distintivos de estrelas chamados asterismos; incluem o cinturão de Órion (As Três Marias) e o Arado ou “Big Dipper” (um grupo de sete estrelas na constelação da Ursa Maior). Uns poucos asterismos vão além dos limites de uma constelação. Por exemplo, a maior parte do asterismo “Quadrado de Pégaso” está em Pégaso, mas um de seus cantos está em Andrômeda.

Nomeando as estrelas

A maioria das estrelas têm antigos nomes de origem babilônica, grega ou árabe. O nome Sirius, por exemplo, vem da palavra grega significando “ardente”. A primeira nomeação sistemática das estrelas foi introduzida por Johann Bayer em 1603. Bayer distingui até 24 estrelas em uma constelação, rotulando-as com letras gregas, e em seguida recorreu a letras latinas minúsculas de aa z. Em 1712, o astrônomo inglês John Flamsteed introduziu um outro sistema, no qual as estrelas eram numeradas na ordem de sua ascensão reta de oeste para leste através de sua constelação. Estrelas usualmente são nomeadas combinando-se sua letra de Bayer ou número de Flamsteed com o nome latino da constelação (no caso genitivo) – assim 56 Cygni indica a estrela que está na posição 56 com respeito ao limite ocidental da constelação do Cisne. Desde o século 18, numerosos outros catálogos de estrelas identificaram e numeraram muito mais estrelas fracas, e sistemas especializados foram elaborados para catalogar estrelas variáveis, binárias e múltiplas.

Catálogos de objetos nebulosos

Além de estrelas individuais, vários outros tipos de objetos, como aglomerados estelares, nebulosas e galáxias, têm posições praticamente fixas na esfera celeste. A maioria desses objetos sugere borrões enevoados no céu, mesmo através de um telescópio. A primeira pessoa a catalogar esses objetos foi o astrônomo francês Charles Messier no século XVIII. Ele compilou uma lista de 110 objetos difusos, embora nenhum dos céus da região polar sul – isto porque Messier realizou suas observações em Paris, e qualquer coisa com declinação abaixo de 40° S estaria abaixo do horizonte. Em 1888, um catálogo muito maior, o chamado New General Catalogue of Nebulae e Star Clusters(NGC) foi publicado, em ais tarde expandido pelo chamado Index Catalogue(IC). Atualmente, o NGC e o IC são importantes catálogos de nebulosas, aglomerados estelares e galáxias. Sua versão atual cobre todo o céu e fornece dados de mais de 13000 objetos, todos identificados por números NGC ou IC. Além disso, centenas de catálogos especializados são utilizados, cobrindo diferentes tipos de objetos, regiões do céu e porções do espectro eletromagnético. Muitos catálogos são agora mantidos como bases de dados disponíveis na internet.

Luzes no céu

Do mesmo modo que estrelas, galáxias nebulosas, luminosas e objetos do Sistema Solarr, outros fenômenos levam à aparição de luzes no céu. Em geral estas luzes se originam de fontes ou partículas de matéria lançadas na Terra pelo Sol por vários meios indiretos, mas em alguns casos, são geradas por processos terrestres. Observadores amadores devem estar atentos a estas fontes de luz noturna para evitar confusão com fenômenos astronômicos.

Auroras

As auroras boreais (Norte) e as auroras austrais (Sul) aparecem quando as partículas carregadas do Sol, transportadas para a Terra pelo vento solar, são aprisionadas pelo campo magnético terrestre. Elas são então aceleradas para regiões acima dos polos magnéticos Norte e Sul, onde excitam partículas do gás da atmosfera superior, 100-400 km acima da superfície terrestre. A aparência e localização das auroras mudam em resposta ao vento solar. Elas são mais frequentemente visíveis a altas latitudes, próximas aos polos magnéticos da Terra, mas podem ser vistas durante perturbações no vento solar, como ocorre após ejeções de massa do Sol.

Halos de gelo

Halos atmosféricos são causados por cristais de gelo na alta atmosfera refratando luz. A luz tanto do Sol como da lua (no fundo, luz solar refletida) pode causar halos. O halo mais comum é um círculo de luz com raio de 22° em torno do Sol ou da Lua. Também podem estar presentes chapiscos de luz chamados parasselênios (ao lado da Lua) ou parélios (ao lado do Sol), arcos ou círculos de luz que parecem passar pela Lua ou pelo Sol. Todos estes fenômenos resultam dos ângulos idênticos entre as faces dos cristais de gelo atmosféricos. Mesmo que os sinais não estejam alinhados, tendem a defletir a luz em algumas direções preferenciais.

Luz zodiacal

Uma luminescência débil às vezes é vista no céu oriental antes do nascer-do-sol ou ocasionalmente no oeste depois do pôr-do-sol. Chamada luz zodiacal, é causada pela luz solar espalhada por partículas de poeira interplanetária no plano do Sistema Solar – no plano da eclíptica. A mistura de comprimento de onda é a mesma do espectro solar. Um fenômeno correlato é o gegenschein (“contra-brilho”) em alemão, que é algumas vezes perceptível em uma noite escura, longe de qualquer poluição luminosa, como uma mancha na esfera celeste diretamente oposta à posição do Sol no céu. Acredita-se que as partículas de poeira no espaço responsáveis tanto pela luz zodiacal como pelo gegenschein provem de colisões de asteroides e cometas e tem diâmetro de cerca de 1mm.

Nuvens noctilucentes

Nuvens a alturas elevadas (por volta de 80km) podem brilhar á noite por refletirem a luz solar, bem depois do pôr-do-sol. Essas nuvens noctilucentes (“brilhando a noite”), podem ser vistas depois do poente ou antes do nascer-do-sol. Acredita-se que consistem de partículas cobertas de gelo que refletem a luz solar. Nuvens noctilucentes são mais frequentemente vistas entre latitudes 50° e 65° note ou sul, de maio a agosto no Hemisfério Norte, e de novembro a fevereiro no Hemisfério Sul. Elas também podem formar-se em outras latitudes e épocas do ano.

Luzes móveis e flashes

Muitos fenômenos provocam luzes móveis e flashes no céu. Rápidos riscos de luz são provavelmente meteoros ou estrelas cadentes – partículas de poeira penetrando a atmosfera e queimando-se. Uma variante maior e muito rara é um “fireball” – simplesmente um rápido meteoro em combustão. Luzes movendo-se lentamente, com brilho constante ou intermitente são provavelmente aeronaves, satélites ou espaçonaves em órbita. Grandes flashes de luz são em geral descargas elétricas conectadas a tempestades de raios. Recentemente, os meteorologistas identificaram novos tipos de relâmpagos, entre elas os “red sprites” (duendes vermelhos) e os “blue jets” (jatos azuis). Ambos são descargas elétricas entre os todos de nuvens de tempestades e a ionosfera acima.

Astronomia a olho nu

Instrumentos ópticos não são necessários para se adquirir uma base em astronomia – nossos ancestrais observaram o céu sem eles por milhares de anos. O observador a olho nu, com algum conhecimento prévio e alguns equipamentos básicos, pode apreciar as constelações, observar os objetos mais brilhantes de céu profundo e acompanhar as trajetórias da Lua e dos planetas no céu noturno.

Observando a olho nu

Há alguns preparativos para se obter o máximo da observação a olho nu. O olho humano leva uns 20 minutos para se ajustar à escuridão e, quanto mais a pupila se abre, objetos mais fracos e mais detalhes tornam-se visíveis. Olhe um planisfério ou um guia celeste mensal para ver o que é visível no céu agora. Uma boa localização deve ser protegida das luzes da cidade, e idealmente, longe de seu brilho indireto. Tente eviar qualquer luz artificial – se necessário, use uma lanterna com um filtro vermelho. Mantenha um diário ou folhas de relatório preparadas para registrar as observações, principalmente se estiver buscando fenômenos particulares, como meteoros. Para ver estrelas fracas e objetos de céu profundo, evite noites quando a Lua ofusca o céu. Mesmo em uma noite escura, sem nuvens, a turbulência do ar pode afetar a qualidade da observação – as melhores noites são frequentemente aquelas que não ficam subitamente frias no pôr-do-sol.

Medidas no céu

Distâncias entre objetos celestes são frequentemente expressas em ângulos. O horizonte todo mede 360°, enquanto o ângulo do horizonte ao zênite (o ponto exatamente acima da cabeça) mede 90°. O Sol e a Lua têm ambos um diâmetro angular de 0,5/, enquanto uma mão esticada pode ser usada para estimar outros ângulos. Ao se estudar as cartas celestes, deve-se lembrar que uma hora de ascensão reta (R.A.) ao longo do equador celeste é equivalente a 15° de declinação, mas que os círculos de ascensão reta se estreitam em direção aos polos celestes, assim à 60°N, uma hora de diferença em R.A. é equivalente a somente 7,5° de declinação.

Saltando entre as estrelas

Um eficiente método de se orientar no céu é o “star-hopping”, que consiste em primeiro localizar umas poucas estrelas brilhantes de referência e depois saltar “hop” de estrela em estrela até áreas obscuras. Por exemplo, no Hemisfério Norte, pode-se usar como referências o Arado (na Ursa Maior) para a região próxima ao polo norte celeste e, no equador celeste, a ária em torno da constelação de Órion, incluindo o Triângulo de Inverno. “Saltando-se” pelas linhas entre certas estrelas brilhantes destas constelações pode-se encontrar outras estrelas e começar a entender o layout geral do céu. O arado é útil porque duas de suas estrelas se orientam com Polares, a estrela podar atual. Como o céu parece girar em torno dos polos celestes. Polaris é um ponto fixo no céu boreal. Já no Hemisfério Sul, não há estrela polar brilhante. Outras referências são, no Norte, o Triângulo de verão, compreendo as estrelas Veja. Deneb e Altair, e no Sul, o Cruzeiro do Sul e o Falso Cruzeiro.

Astronomia com binóculos

Para a maior parte dos principiantes em astronomia o equipamento mais útil é um binóculo. Além de ter uso fácil e confortável, o binóculo (diferentemente do telescópio) fornece imagens não-invertidas. Numerosos objetos astronômicos fascinantes podem ser observados com ele.

Características dos binóculos

Binóculos são como uma combinação de dois telescópios de baixa potência. As duas concepções principais do binóculo, chamados de prisma porro e de prisma roof, têm ópticas diferentes, mas ambos são úteis para astronomia. O mais importante ao escolher binóculos são os números principais descrevendo suas qualidades ópticas por exemplo7x50 ou 12x70. O primeiro algarismo é a magnificação. Para a maior parte dos principiantes uma magnificação 7x ou 10 é em geral adequada – com uma magnificação maior, torna-se mais difícil localizar objetos no céu. O segundo algarismo é a abertura, ou diâmetro das lentas objetivas, medida em milímetros. Este número exprime o poder coletor de luz do binóculo, que é importante para ver objetos mais fracos. Para observações do céu noturno, é preferível uma abertura de ao menos 50mm.

Usando binóculos

Não importa o tamanho do binóculo que o astrônomo escolha, pode ser difícil mantê-lo parado. Apoiar os cotovelos em algo sólido, como um muro, ou sentar-se em uma espreguiçadeira, podem ajudar a evitar que o binóculo vibre. Binóculos gigantes são pesados demais para se segurar com as mães, e assim, devem ser apoiados em um tripé. Outro problema comum é encontrar o objeto alvo no campo de visão, mesmo quando o objeto é visível a olho nu. Um método é estabelecer a posição do alvo com respeito a um objeto fácil de se localizar, e então navegar até o objeto alvo. Alternadamente, pode-se partir de uma referência reconhecível no horizonte.

Campo de visão do binóculo

O tamanho da área do céu vista por binóculos é o campo de visão, em geral, expresso como um ângulo. O campo de visão é intimamente relacionado à magnificação – maior a magnificação, menor o campo de visão. Um binóculo de média potência (10x) tem tipicamente um campo de visão de 6-8°. Isto oferece uma boa relação entre uma magnificação adequada e um campo de visão largo o suficiente para se ver a maior parte de um grande objeto como a galáxia de Andrômeda. Para se observar áreas ainda maiores, binóculos de baixa potência (5-7x), com um campo de visão de ao menos 9°, são mais adequados. Ao contrário, para olhar objetos compactos, como Júpiter e suas luas, é melhor se usar binóculos com maior magnificação e campo de visão de 3° ou mesmo menores.

Objetos para binóculos

Um primeiro objeto impressionante para um usuário de binóculo novato é a Nebulosa de Órion. Outras escolhas poderiam ser a galáxia de Andrômeda e as fabulosas nuvens de estrelas e nebulosas nas regiões de Sagitário e Escorpião na Via Láctea, incluindo a Nebulosa da Lagoa. Para observadores ao sul de 50°N, um excelente objeto para binóculos é o aglomerado estelar Omega Centauri. Para encontra-los, tudo o que é necessário são algumas cartas celestes ou software astronômico. Tente também observar a Lua, Júpiter e as suas luas, e as fases de Vênus.

Astronomia com telescópio

Telescópios são os instrumentos astronômicos por excelência – olhos artificiais que capturam e focalizam muito maior quantidade de luz que o olho humano captaria, trazendo os objetos débeis para dentro dos limites da visão humana. Eles assumem uma variedade de formas – os mais simples pouco evoluíram com respeito àqueles em uso quatro séculos atrás, enquanto que os mais avançados oferecem óptica de alta performance e controles computadorizados que eram exclusividade dos profissionais até recentemente.

Design de telescópios

A função de um telescópio é coletar luz de objetos distantes, focalizá-la e magnificá-la. Há dois meios básicos de se conseguir isto: ou usando um alente ou um espelho côncavo. Uma lente refrata a luz passando por ela, quebrando sua direção e convergindo-a para um ponto focal atrás dela. Um espelho curvado reflete os raios luminosos em trilhas convergentes para um foco na sua frente. Tanto lentes como espelhos focalizam somente raios luminosos que entram no telescópio mais ou menos paralelos, o que felizmente é o caso para objetos astronômicos, em vista de uma grande distância. Uma vez que os raios de luz ultrapassem o foco, eles passam a divergir, e é onde eles são capturados pr uma ocular que retorna os raios para caminhos paralelos, resultando em magnificação da imagem. Como os raios luminosos que entram na ocular cruzaram entre si ao passar pelo foco a imagem é, em geral, invertida. Os diferentes princípios dos telescópios baseados em lentes (refratores) e daqueles baseados em espelhos (refletores) ditam designs distintos.

Montagens

O modo como um telescópio é montado afeta seu desempenho. Os tipos mais comuns de montagem são a alto-azimutal – que permite ao instrumento mover-0se em altitude (para cima e para baixo) e em azimure (paralelo ao horizonte) – e a equatorial, que alinha os movimentos do telescópio com as linhas de declinação e ascensão reta no céu. Montantes alto-azimutais são fáceis de se executar, mas porque os objetos no céu estão constantemente mudando de altitude e azimute, acompanha-los exige um ajuste continuado de ambos. As montagens equatoriais são mais pesadas e se leva mais tempo para ajustá-las, porém, uma vez alinhadas com o polo, permitem acompanhar os objetos no céu com movimentos em torno de um único eixo.

Abertura e magnificação

Dois fatores principais afetam a imagem na ocular de um telescópio – abertura e magnificação. A abertura é o diâmetro do espelho próprio do telescópio ou da lente objetiva. A abertura está ligada ao seu “poder coletor” – o total de luz capaz de coletar. Dobrando a abertura quadruplica-se a área coletora, permitindo ao telescópio detectar objetos mais débeis. A magnificação é limitada pela abertura do telescópio, mas é controlada pelas propriedades da ocular. A potência de um ocular é identificada pela distância focal – a distância na qual ela focaliza um feito paralelo de raios luminosos. Oculares com foco mais curto produzem magnificação maior. Lentes objetivas e espelhos primários também têm distâncias focais, e dividindo esta distância focal pela distância focal da ocular obtém-se a magnificação total do conjunto. O projeto de uma ocular também afeta a porção de céu visível – o campo de visão.

Dispositivos de busca

Outro elemento vital de um telescópio é uma buscadora. Mesmo com as magnificações mais baixas o campo de visão de um telescópio é estreito demais para a navegação e, pelo simples apontamento do telescópio na direção do objeto, é improvável acha-lo. Buscadores são presas do lado de um telescópio e alinhadas precisamente na mesma direção. As buscadoras mais populares são simplesmente telescópios e baixa potência com dispositivo localizador chamado retículo, constituído por fios cruzados. Outros tipos projetam um retículo alvo preciso em uma visão do céu não-magnificada, indicando precisamente para onde o telescópio está apontando.

Telescópio computadorizado

Computadores simplificam o árduo trabalho de rastrear e observar débeis objetos de céu profundo ou cometas e asteroides obscuros. Um conhecimento básico de astronomia ainda é necessário, mas uma vez que o instrumento esteja propriamente ajustado, bases de dados computadorizadas e motores automáticos podem tornar simples a localização e acompanhamento de objetos. A maior parte dos telescópios amadores de qualidade vem com controles manuais e podem formar interfaces com computadores de mesa ou notebooks. Bases de dados de localizações e órbitas podem ser atualizadas via internet. Muitos são equipados com sistemas de navegação por satélite GPS. Com o GPS um telescópio pode identificar sua localização na superfície terrestre e usar seus motores para compensar os movimentos do céu sem que o usuário tenha que alinhar sua montagem equatorial precisamente.

Software astronômico

Telescópios computadorizados estão equipados com softwares para controlar o instrumento a partir de um computador, mas outros pacotes também estão disponíveis. Softwares de planejamento permitem que o observador organize suas observações oferecem recursos para registrar notas e armazenar imagens. Softwares de planetário de mesa recriam o céu noturno da tela de um computador em qualquer localização ou tempo desde um passo distante até um futuro remoto. Alguns programas, como o livre Celestia, podem simular a visão em qualquer lugar no Sistema Solar ou na galáxia.

Usando filtros

Os filtros fazem uma enorme diferença quando observamos com um telescópio. Eles são discos coloridos que se acoplam à ocular e filtram ceras cores da luz. Eles podem eliminar a poluição luminosa, acentuar o contraste na superfície de planetas e objetos, ou enfatizar comprimentos de onda particulares emitidos por certos fenômenos. Contudo os chamados “filtros solares”, que são presos a uma ocular são perigosos, pois trincam facilmente a nunca são confiáveis para se olhar o Sol.

Astrofotografia

Enquanto muitos astrônomos amadores gostam de desenhar os objetos que eles vêem através de seu telescópio a fotografia é o meio definitivo de se registrar o céu. Câmaras fotográficas tipo SLR (single-lens-reflex) ou refles de lente única são as mais versáteis para astrofotografia – a principal exigência é que a câmara tenha uma função que mantenha o obturador aberto e o filme exposto por tanto tempo quanto necessário. Um disparador de cabo para abrir o obturador e sem tocar na câmera também auxiliará a evitar tremores e borrões na imagem. A câmara pode ser usada independentemente, em piggybackcom um telescópio para guiagem, ou a presa ao foco principal do telescópio no luar de uma ocular. Os melhores resultados exigem filmes rápidos, especializados que reagem prontamente mesmo a níveis muito baixos de luz. Contudo, deve-se sempre fazer um teste, porque filmes rápidos têm grãos fotossensíveis maiores que resultam em uma imgem mais grosseira. Alguns astrofotógrafos vão até extremos para obter os melhores resultados resfriando seu filme a câmara toda para torna-los mais responsivos.

Astrofotografia digital

A maioria das câmaras digitais são limitadas a exposições curtas demais para capturar estrelas. Contudo, equipamentos digitais especializados, como detectores CCD (charge-coupled device), abrem possibilidades além do alcance do filme. CCDs podem ser mais sensíveis que filmes porque eles “contam” o número de fótons atingido cada parte  do chip, e o usuário pode combinar os dados de diversas exposições. Softwares de processamento de imagem podem então acentuar as imagens e extrair dados. Mesmo simples “webcams” podem registrar o céu noturno – com o software correto. Contudo mesmo o CCS com a resolução mais alta ainda não pode capturar a mesma resolução do filme.

Via Láctea | Texto
Por David Hughes
Explorando o espaço - uma história da astronomia

A história da astronomia conecta círculos de pedra pré-históricos com sondas espaciais do século XX!. È uma história de sucessivas revoluções na compreensão de nosso local no Cosmos, e nos meios pelos quais tomamos consciência dele. A geometria permitiu aos gregos fazer as primeiras medidas do Sol, Terra e Lua. Já no século XVII, instrumentos precisos derrubaram ideias centradas na Terra. O telescópio descortinou o céu apresentando muitos novos mistérios a serem explicados pela teoria da gravitação de Newton. A espectrocospia ofereceu um novo método para estudar as propriedades das estrelas e, por fim, revelou a existência de outras galáxias e a expansão do Universo. Nas útlimas décadas, o desenvolvimento do voo espacial permitiu a telescópios em órbita sondar o espaço profundo, enquanto as jornadas de umas poucas pessoas e máquinas além da órbita imediata da Terra colocaram nosso planeta relamente em perspectiva pela primeira vez.

Astronomia antiga

A história da astronomia remonta a 6.000 anos atrás, o que a torna a mais antiga das ciências. Cada uma das culturas ao longo da história estudou o Sol, a Lua, as estrelas e observou como os corpos celestes se movem no céu. As observações refletem curiosidade e encanto com o mundo natural, mas também foram impulsionadas por razões urgentes de navegação, contagem de tempo e religião.

Ciclos da vida

Povos da antiguidade eram fascinados pelos padrões de mudança repetindo-se incessantemente no mundo a seu redor. Evidências da passagem do tempo incluías alterações na temperatura do ar, no horário e posição do nascer e pôr-do-sol, nas fases da Lua, no crescimento da vegetação e no comportamento animal. Esses fenômenos eram atribuídos aos deuses ou a poderes mágicos. Milhares de anos atrás, os “primeiros” astrônomos foram provavelmente pastores ou agricultores no Oriente Médio, que observavam a noite, atentos a sinais das mudanças das estações. Os antigos egípcios se baseavam em observações astronômicas para planejar o plantio e a safra das colheitas. Sabiam que o nascimento de Sirius logo antes do nascer-do-sol anunciava a enchente do rio Nilo. A habilidade para medir períodos de tempo e registrar ciclos celestes foi essencial para o avanço da astronomia, e assim muitas culturas antigas desenvolveram calendários, relógios de sol e relógios de água. Monumentos como as pirâmides e grupos de megalitos (grandes pedras eretas) foram, de fato, os primeiros observatórios. Em cerca de 1000 a.e.c., os indianos e babilônios haviam calculado a duração do ano em 360 dias; este período levou à divisão do círculo em 360°, com cada grau representando um dia solar. Posteriormente, os antigos egípcios refinaram a duração do ano para 365,25 dias.

Fazendo mapas celestes

A astronomia sempre se ocupou com mapear e nomear as estrelas. Por volta de 3500 a.e.c., os antigos egípcios dividiram o zodíaco nas 12 constelações de hoje e agruparam as outras estrelas fora do zodíaco em suas próprias constelações. Nas antigas China e Índia, criaram-se 28 mansões lunares, ou “domicílios noturnos” para registrar o movimento da Lua em seu caminho mensal. Os antigos gregos foram os primeiros a catalogar as cerca de 1000 estrelas mais brilhantes, por volta de 150-100 a.e.c. mas, muito antes deles, observadores da Índia e Oriente Médio mantinham registros astronômicos detalhados e datados. Coleta de dados sistemática foi desenvolvida pelos sumérios e babilônios – civilizações que viviam entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia – por razões de ritual e profecia política.

Orientação e navegação

Os mais importantes feitos dos astrônomos antigos incluem como encontrar os pontos cardeais – note, sul, leste e oeste – e como usar a Estrela Polar do norte para determinar a latitude. Este conhecimento capacitou a orientação precisa de estruturas, particularmente de templos e monumentos funerários, e também auxiliou na confecção de mapas terrestres acurados. Em 3000-2000 a.e.c., os povos da Idade da Pedra do norte da Europa utilizaram alinhamentos solares nos solstícios e equinócios, fases lunares, e outros dados astronômicos para construir grandes círculos de pedra, como Stonehenge e Avebury na Inglaterra, e Newgrange na Irlanda. Altares de foto (usados por sacrifícios rituais de fogo hindus), posicionados em bases astronômicas, e datando de 3000 anos atrás foram encontrados em diversos sítios arqueológicos na Índia. Algumas das mais complexas construções projetadas de acordo com princípios astronômicos são as pirâmides do antigo Egito e exemplos tardios construídos pelos astecas e maias na América. A arquitetura antiga fornece abundante prova de conhecimento astronômico, mas há poucas evidências do seu uso em navegação antiga. Contudo, os povos navegantes da Polinésia podem ter usado as posições das estrelas para migrar através do Pacífico por volta de 1000 a.e.c.

O nascimento da astrologia

Astrologia é uma prática milenar que busca determinar como os planetas e outros objetos celestes podem influenciar a vida na Terra, em especial os assuntos humanos. Descartada como superstição, ela estabeleceu fundamentos sólidos para a observação astronômica e dedução lógica. Em seu esforço de prever os eventos futuros e buscar sinais ou portentos os antigos astrólogos tentaram “ordenar” os céus e notaram o modo como o Sol, a Lua e os planetas se comportam. Enfatizaram em particular ocorrências inesperadas como eclipses, cometas, chuvas de meteoros e o aparecimento de novas estrelas. Muitas elites políticas empregavam astrólogos e observadores dos céus, e seu trabalho era uma atividade intelectual perfeitamente respeitável até o fim do século XVII. Astrônomos também escreviam tratados astrológicos; por exemplo, em 140 e.c., Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, o mais influente de todos os tratados astrológicos.

Início da astronomia científica

A Grécia antiga foi um divisor de águas no desenvolvimento da astronomia como a ciência racional. Os acadêmicos gregos formularam leis complexas e fizeram modelos do Universo. Após o estabelecimento do Islamismo, estudiosos árabes desenvolveram métodos ainda mais acurados de observação dos céus.

Germens do pensamento científico

O mundo grego antigo conheceu uma liberdade política e intelectual sem precedentes e um espantoso progrsso científico. Por 700 anos, de cerca de 500 a.e.c. a 200 e.c. os filósofos gregos buscaram respostas para questões astronômicas fundamentais. Ainda acreditavam em um plano mestre divino e tinham ideias que soam estranhas par anos hoje – Heráclito (540-500 a.e.c.), por exemplo, sugeria que as estrelas eram acesas toda noite, e o Sol toda manhã, como lâmpadas de óleo. Mas Platão (c.427-347 a.e.c.) argumentou que a geometria é a base de toda verdade, fornecendo assim o impulso necessário para deduzir exatamente como o Cosmos funcionava. Aristóteles fixou a Terra no centro do Universo e sugeriu que os planetas eram corpos eternos movendo-0se em órbitas perfeitamente circulares. Eudoxo (408-355 a.e.c.) cartografou as constelações setentrionais e Hiparco (190-120 a.e.c.) pela primeira vez classificou as estrelas em seis ordens de magnitude.

Medindo distâncias

Os avanços na geometria e trigonometria permitiram que os gregos medisses distâncias astronômicas com razoável precisão. Por volta de 500 a.e.c. Pitágoras propôs que o Sol e a Terra, a Lua e os planetas fossem todos esféricos, uma noção que Aristóteles confirmou, no caso da Terra, pela observação da forma de sua sombra durante um eclipse solar. Em 250 a.e.c. Eratóstenes (276-194 a.e.c.) notou que a luz solar incidia diretamente no fundo de um poço em Siena, no Egito, ao meio-dia do solstício de verão. Comparando com dados sobre as sombras em Alexandria, e usando trigonometria, ele estimou a circunferência da Terra com precisão de 5%. Hiparco e Aristarco (320-230 a.e.c.) mediram a distância Terra-Lua cronometrando eclipses lunares. Infelizmente, a distância Terra-Sol não foi estimada com a mesma precisão.

O cosmos centrado na Terra

É natural que as pessoas supusessem que o Cosmos era geocêntrico, ou centrado na Terra. Afinal de contas, não percebemos o movimento da Terra quando ela gera no espaço e as estrelas parecem fixas. Pensadores antigos, como Aristarco em 280 a.e.c., contestaram este sistema e colocaram o Sol no centro, mas suas ideias não tiveram crédito. Em vez disso, Ptolomeu refinou a visão de mundo cosmológica de Aristóteles e criou uma sequência ordenada de órbitas uniformes. Sua ordem era: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e finalmente as estrelas. Isto é baseado na velocidade percebida: por exemplo, a Lua completa uma volta no céu em um mês, o Sol em um ano e Saturno em 29,5 anos. De modo a reconciliar o conceito errôneo de órbitas circulares (em contraste com elípticas) e as velocidades variáveis dos planetas, Ptolomeu foi obrigado a argumentar que cada planeta também girava em um pequeno círculo, o epiciclo, enquanto orbitava a Terra.

Astronomia árabe

Depois do declínio das cidades-estado gregas, os mais importantes avanços da astronomia foram alcançados pelos árabes. O período de domínio grewgo durou 800 anos, desde a fundação do Islamismo em 622 até o século XIV. Astrônomos trabalhando no Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e Espanha mourisca traduziram textos gregos e em sânscrito (da Índia) para o árabe e assimilaram seu conhecimento astronômico. As regras muçulmanas para s cultos ao longo do dia e do mês, e a necessidade de encontrar a direção de Meca para fazer as orações e orientar as mesquitas, significavam que havia uma urgente necessidade de se determinar o tempo e a posição com extrema precisão. Desenvolveu-se a trigonometria esférica sofisticada, funções trigonométricas e álgebra e o astrolábio (uma invenção grega, usada para calcular a hora e a latitude) foi aprimorado. A abordagem dos grandes astrônomos árabes, como Al-Battani (850-929) e Ulugh Beg (1349-1449) fundamentava-se em observação paciente. Com este fim numerosos observatórios foram construídos, dos quais os maiores estavam em Bagdá, no Iraque, em Samarkand, no Uzbequistão, e em Maraghan, no Irã. Eles alojavam grandes instrumentos, incluindo quadrantes montados em paredes, utilizados para medir a altitude de objetos astronômicos quando cruzavam o meridiano (o plano norte-sul).

A revolução copernicana

Por séculos os astrônomos basearam suas teorias na suposição de que a Terra estaria no centro do Universo. No século XVI, esta posição privilegiada foi abalada pela sugestão de que a Terra era apenas um dos vários planetas circulando o Sol. Esta revolução foi acompanhada por imensos avanços tecnológicos, em particular pela invenção de telescópios, anunciando uma nova era de pesquisa e de grandes descobertas.

Astronomia medieval

Após a queda de Roma em 476, astrônomos na Europa, Oriente Médio e àsia deixaram para trás seu relativo isolamento cultural e passaram a trocar ideias mais livremente. Isto graças, em parte, ao crescimento do comércio durante a Idade Média e em parte à expansão do Islamismo. A astronomia observacional floresceu com ênfase em conjunções planetárias, eclipses solares e lunares a as aparições de cometas e estrelas novas. Muitos astrônomos medievais eram professores universitários e se sustentavam com o ensino. Apesar dos recursos limitados fizeram avanços notáveis, incluindo um novo preciso catálogo de posições de estrelas a olho nu, planejado por Ulugh Beg *1394-1449) da Mongólia – o primeiro desde os dias de Hiparco, 1600 anos.

O Universo heliocêntrico

Pode-se datar o nascimento da astronomia em 1543, quando Nicolau Copérnico publicou seu revolucionário tratado sobre um Universo centrado no Sol, ou heliocêntrico. Ele estava insatisfeito com a imprecisão dos modelos geocêntricos das orbitas planetárias, nos quais a Terra ocupava o centro e que dominavam a astronomia desde a obra de Ptolomeu no século II. Sua teoria muito mais simples de um Sol central e uma Terra em órbita explicava muitas observações antes enigmáticas, porque agora havia dois tipos de planetas, os internos e os externos da órbita da Terra. A sequencia Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno era um ordem de período orbital e de distância crescente ao Sol. A “lanterna do Universo”, com o Copérnico o chamava, agora assumia seu lugar de direito no centro do Cosmos. Embora isso significasse que a Terra se movia em alta velocidade, a teoria já havia sido proposta por Aristarco e outros.

A noção do Espaço

Os gregos e os astrônomos posteriores colocaram as estrelas logo além de Saturno, mas isto causaria um problema se a teoria copernicana estivesse correta. Se, como Copérnico argumentava, a Terra orbitava o Sol, por que as estrelas não tinham um movimento recíproco? A única escolha para Copérnico era banir as estrelas para uma distância tão vasta que seu movimento não seria perceptível para observadores terrestres. Ele também foi o primeiro a sugerir que as estrelas brilhantes estariam mais próximas que as fracas. Contudo, ouros se perguntavam porque Deus teria criado um espaço enorme, aparentemente inútil entre a órbita de Saturno e as estrelas. Tycho Brahe (1546-1601), um nobre dinamarquês, pensava que o futuro da astronomia dependia da estimativa de distâncias verdadeiras e do registro acurado das posições planetárias em diversos tempos. Com este objetivo ele aprimorou os padrões observacionais, fabricando instrumentos de mensuração precisamente calibrados. Em 1572 suas observações pacientes da supernova na constelação de Cassiopéia o convenceram de que as estrelas não estavam todas a uma distância fixa, mas que eram objetos cambiantes que existem no “espaço”. Propor essas ideias exigia coragem, ou o apoio de patronos poderosos, devido à Inquisição, nessa época, julgar e punir os que desafiassem a visão ortodoxa da Igreja Católica em relação ao Universo.

Leis do movimento planetário

O sistema heliocêntrico copernicano ainda descrevia as órbitas planetárias em termos de epicilos – cada planeta descrevia um pequeno círculo enquanto girava em torno do corpo central. Essa visão prevalecia desde Ptolomeu mas a forma real das órbitas permanecia um mistério. Necessitava-se de duas coisas para resolver o problema. A primeira era os dados planetários precisos obtidos por Tycho Brahe. A segunda era fé nos seus dados, junto com tenacidade e gênio matemático. A última foi fornecida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), sucessor de Tycho após 1601. Com base nas observações do caminho de Marte na esfera celeste Kepler acabou por formular suas três leis do movimento planetário. Primeiramente, em 1609, ele revelou que as órbitas eram elípticas, e não circulares ou epicíclicas. O Sol está em um dos focos da elipse (a elipse tem dois focos; o círculo é um calo limite de eclipse, com um único foco). Em segundo lugar, mostrou que a linha unindo o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, assim um planeta é mais lento na parte mais exterior da sua órbita. Em terceiro lugar, em 1619, Kepler provou a relação entre o tamanho e o período da órbita. Ele alimentava concepções místicas – acreditava que o Cosmos era permeado por coras musicais, com cada planeta produzindo um tom em proporção a sua velocidade. Como todos antes da descoberta da gravidade por Newton, não tinha a menor ideia do que mantinha os planetas em suas órbitas.

As descobertas de Galileu

Galileu Galileia apresentou provas concretas de que o modelo copernicano do Universo estava correto. Em 1608 quando um fabricante de óculos flamengo inventou o telescópio a notícia se espalhou rapidamente. Galileu construiu, ele mesmo, vários telescópios em 1609, assim tornando-se o fundador da astronomia telescópica. Seus instrumentos tinham uma magnificação de 30x. Em alguns meses ele descobriu que a Lua era montanhosa, detectou as fases de Vênus, as manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Chegou mesmo a sugerir que as estrelas fosses sóis distantes. Acima de tudo ele percebeu que as fases de Vênus somente poderiam ser explicadas se os planetas orbitassem o Sol, e não a Terra. Outros achados de Galileu fundamentam a física nascente: a aceleração de um corpo independe de sua composição ou peso; e o período de balanço de um pêndulo independe de sua amplitude.

Grandes observatórios

A emergência de uma nova geração de observatórios fo um divisor de águas na história da astronomia. Observatórios haviam sido anteriormente exclusivos a um grupo seleto de pessoas, incluindo Tycho Brahe na Dinamarca e Johannes Hevelius em Danzing, Prússia (agora Gdansky, na Polônia), ou de professores universitários, como Galileu ou Giovanni Cassini de Bologna, na Itália. Então, essas unidades foram ampliadas por instituições reais bem financiadas. Luis XIV fundou a Academia de Ciências em Paris, em 1666, e o Observatório Real francês, completado em 1672. Na Inglaterra, Charles II fundou a Royal Society em 1660, o que levou à construção do Royal Greenwich Observatory, onde John Flamsteed (1646-1719) foi o primeiro astrônomo real, iniciando seu trabalho em 1676. Em breve os astrônomos estavam atacando os três principais desafios daquela época: determinar o tamanho do Sistema Solar; medir a distância até as estrelas; e achar a latitude e a longitude de locais na terra e no mar. Esta busca foi em parte impulsionada por necessidades da navegação em uma época de expansão dos impérios europeus e pelo desejo de prestígio nacional. A partir do começo do século XVIII, os observatórios se multiplicaram rapidamente, inaugurando-se instalações em Berlim, Prússia (1711), em Jaipur, Índia (1726), em Uppsala, Suécia (1730), em Vilnius, Prússia (1753), em Washington, EUA (1838), e em Pulkovo, Rússia (1839). Dedicou-se muito esforço para mapear o céu e traçar os movimentos dos corpos celestes.

Leis da atração

Um dos maiores enigmas desafiando os astrônomos de meados do século XVII era porque os planetas percorriam imensas distâncias ao redor do Sol em órbitas estáveis sem se lançar no espaço. O grande físico inglês Issac Newton (1642-1727), professor na Universidade de Cambridge, encontrou a resposta. Um objeto se moveria a velocidade constante segundo uma linha reta, a menos que fosse sujeito a uma força. No caso dos planetas, a força era a gravidade do Sol. Ele logo percebeu que a gravidade era universal. Ela controlava tanto a trajetória de um objeto caindo (como a famosa maçã que Newton viu cair de uma árvore em 1666), como a Lua orbitando a Terra e um cometa viajando rumo ao Sol vindo dos remotos confins do Sistema Solar. A gravidade explicava as três leis de Kepler e também a altura das marés. Após a morte de Newton, o retorno do cometa Halley em 1758 provou que a gravidade também era aplicável nos limites do Sistema Solar, e o uso da teoria da gravitação possibilitou o cálculo da massa da Terra e do Sol. 

O telescópio refletor e Newton

Em 1666, Newton descobriu que um prisma dispersa a luz em um arco-íris de cores. Infelizmente, as lentes de um telescópio fazem o mesmo, e a luz azul de um extremo do espectro é focalizada em um ponto diferente da luz vermelha e o ouro extremo. Isto é a chamada aberração cromática, que produz halos de luz colorida ao redor do objeto sendo visto, causando uma grave perda de qualidade de imagem. Uma solução é suar espelhos curvos para focalizar toda luz no mesmo ponto, independentemente da cor. Em 1663, o escocês James Gregory (1638-75), projetou um telescópio refletor com um grande espelho côncavo primário e um secundário côncavo menor que projetava luz de volta através de um orifício para uma lente magnificadora atrás. Newton modificou o projeto usando um espelho plano secundário para refletir a luz capturada para uma ocular montada lateralmente. Exibido em 1672 o telescópio de Newton foi imensamente aclamado.

O espaço infinito

Na metade do século XIX, a astronomia havia evoluído de uma ciência essencialmente matemática para uma disciplina que incorporava o conhecimento novo e as técnicas dos físicos e químicos. Rápidos progressos tecnológicos, particularmente a invenção da fotografia e telescópios ainda mais poderosos, permitiram aos astrônomos estudar os corpos celestes com muito mais detalhe. Eles começaram a classificar os diferentes objetos e a estudar seu comportamento.

O iluminismo

Os séculos XVIII e XIX viram grandes progressos em ciência devido a métodos científicos aprimorados. Foi um período de consolidação em astronomia, baseada em avanços nas medidas e classificação de corpos celestes. As órbitas dos cometas eram de grande interesse depois do trabalho do inglês Edmond Halley (1656-1742), que mostrou que “seu” cometa retornava a cada 76 anos. As órbitas dos planetas eram determinadas com muito mais precisão que anteriormente e detalhes de sua superfície, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter e as calotas polares de Marte foram observados. Em 1728, a velocidade da Terra foi calculada. William Herschel descobriu o sétimo planeta, Urano, em 1781, e o italiano Giuseppe Piazzi ( 1746-1826) identificou o primeiro asteroide, Ceres, em 1801. Os franceses Urbain Le Verrie e Pierre-Simon Laplace (1749-1827), e o inglês John Adams (1819) aplicaram a teoria da gravitação de Newton para prever a posição de um planeta invisível além de Urano. Netuno foi descoberto em 1846.

O cosmos estelar

Aperfeiçoamentos dos telescópios ao longo do século XVIII permitiram que a astronomia tornasse o estudo do Universo um processo dinâmico. Anteriormente as estrelas eram apenas pontos fixos de luz, com distância desconhecida, mas na década de 1710 Halley descobriu o seu movimento dando início a esforços concentrados para compreender seu comportamento. Constatou-se que muitas estrelas são duplas, orbitando em torno de um centro de massa comum, em conformidade com a gravitação newtoniana e, na década de 1780, estrelas variáveis como Algol e Delta Cephei, eram investigadas. Em 1781, o francês Charles Messier (1730-1817) publicou um catálogo de 103 “corpos difusos”, ou nebulosas (nuvens de gás e poeira). Herschel estendeu este trabalho, gastando muitas horas contando estrelas de diferentes magnitudes, em uma ambiciosa tentativa de fazer um levantamento do céu. Em 1783 ele deduziu que o Sol está se aproximando da estrela Lambda Herculis, e erroneamente concluiu que ela se situava no centro do sistema estelar galáctico. Durante as duas primeiras décadas do século XIX, Laplace desenvolveu métodos de análise matemática que resultaram no primeiro modelo para a origem do Sistema Solar.

O nascimento da astrofísica

Durante o século 19, os astrônomos continuaram a aplicar o desenvolvimento da matemática, física e química para compreender a constituição e comportamento dos planetas, cometas e estrelas. Um novo campo – a astrofísica – emergiu, conferindo propriedades físicas aos objetos no espaço. A astronomia tratava principalmente com seu movimento, enquanto a astrofísica examinava seus parâmetros básicos como raio, massa temperatura, e composição química. Em 1815, o óptico alemão Joseph Fraunhofer (1787-1826), enquanto estudava o espectro da luz solar, notou várias linhas escuras sobre ele. Mais tarde, verificou-se que estas linhas eram devidas à absorção por elementos químicos do Sol. Como ada elemento químico absorve a luz em certos comprimentos de onda, o padrão de linhas de absorção revela a sua presença. Nos anos 1860, o astrônomo britânico William Huggis (1824-1910) descobriu, por meio da espectroscopia (o estudo de espectros) que as estrelas contêm os mesmos elementos que a Terra.

Avanços instrumentais

Os telescópios tornaram-se cada vez maiores desde o princípio do século XVIII – quando astrônomos como Edmond Halley labutavam para usar desajeitados e imprecisos instrumentos com lentes objetivas de pequeno diâmetro – na metade do século XIX. As lentes dobraram em tamanho a cada 40 anos, o que implicava que a distância até os objetos visíveis mais longínquos também dobrava, e que seu número crescia por um fator oito. Sofisticaram-se as montagens dos telescópios, e a qualidade das lentes foi aperfeiçoada. Os telescópios refratores foram totalmente transformados em 1758, quando o astrônomo inglês John Dolland (1706-1761) introduziu a lente dupla, que focalizava a luz azul e a vermelha no mesmo ponto. Herschel construiu enormes telescópios refletores e, em 1524 completou-se o primeiro telescópio com montagem equatorial, na qual o eixo do instrumento era alinhado com o polo norte celeste e um relógio mecânico movia o instrumento em torno deste eixo para acompanhar as estrelas. Nos anos 1840, a fotografia começou a substituir o lápis e papel para o registro de dados. Placas fotográficas podiam ser expostas por horas, permitindo a detecção de objetos muito mais fracos que os visíveis unicamente pelo olho humano.

A forma do espaço

No começo do século XX, alguns pensavam que havia apenas uma galáxia, com o Sol no centro. Nos anos 1930, os astrônomos já haviam percebido que havia bilhões de galáxias e que o Universo estava em expansão. Também começavam a compreender as fontes de energia estelar.

Matéria e energia das estrelas

A partir de 1900, devido à compreensão da natureza da radioatividade descoberta quatro anos antes, começou-se a perceber que a Terra poderia ter mais de 1 bilhão de anos de idade. Esta ideia era consistente com estimativas anteriores feitas por geólogos e com a avaliação de Charles Darwin do tempo necessário para a seleção natural operar. Permanecia o mistério de como o Sol poderia manter-se brilhando por tanto tempo. Uma ideia era que o Sol fosse alimentado pela queda de meteoritos; outra que o Sol estava lentamente se contraindo. Nenhuma dessas teorias dava conta da longa vida do Sol. Contudo, em 1905 Albert Einstein (1879-1955) propôs que E=mc2,  e assim energia E, poderia ser produzida pela destruição de massa, m. Nos anos 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington (1882-1944) sugeriu que a fonte de energia do Sol – e de outras estrelas – fosse a fusão nuclear. O físico germano-estadunidense Hans Bethe (1906-2005) especificou então os processos básicos de fusão nuclear. É de fato uma reação nuclear que libera energia da matéria. Astrofísicos têm agora uma visão detalhada de como as estrelas obtêm sua energia e estimam que estrelas do tipo solar possam brilhar por 10 bilhões de anos.

O grande debate

Nos anos 1920 houve um debate público entre os astrônomos estadunidenses Harlow Shapley e Heber Curtis sobre a forma da nossa galáxia em particular a extensão do Universo em geral. Shapley acreditava que havia apenas uma “grande galáxia”, com a Terra a dois terços da distância até a borda. Ele dizia que o diâmetro era de 300.000 anos-luz – 10 vezes maior que a estimativa de Curtis. Este valor foi obtido com estrelas variáveis cefeídas (cujo brilho varia periodicamente) como indicadores de distância. Curtis, por outro lado, estava convencido de que muitos objetos nebulosos no céu não estavam em nossa galáxia, mas que eram de fato outras galáxias como a nossa. Ele propôs que estes “universos-ilha” estava espalhados uniformemente no céu, com alguns deles obscurecidos pelo disco galáctico, o que explicava sua distribuição acima e abaixo do plano da Via Láctea.

O universo em expansão

Os novos e enormes telescópios estadunidenses revolucionaram a astronomia do século XX. O Telescópio Hooker era tão grande que podia detectar as estrelas cefeídas da Nebulosa de Andrômeda (M31). O  fraco brilho dessas estrelas indicava eu sua distância da Terra era cerca de 10 vezes o diâmetro da Via Láctea. Heber Curtis estava correto: Andrômeda não era uma “nebulosa” mas uma galáxia. Outras “nebulosas” espirais também eram claramente galáxias. Usando o Hooker o estadunidense Edwin Hubble mostrou que as galáxias são os “blocos fundamentais” de um universo muito mais vasto que previamente imaginado. Em 1927 ele investigou características espectrais de galáxias e constatou que não somente a luz da maioria delas apresentava um deslocamento para o lado vermelho do espectro, indicando que se afastavam de nós, mas também que essa velocidade de recessão era maior para as mais fracas (mais distantes). O Universo estava em expansão e, portanto, deveria ter sido muito menor no passado. O declive do gráfico velocidade-distância indicava a idade do Universo. Os astrônomos logo perceberam que algo havia dado início à expansão, lançando as sementes da teoria do Big Bang.

Tecnologia de telescópios

A astronomia observacional estadunidense atingiu um divisor de águas nas últimas décadas do século XIX. Nos Estados Unidos novos e sofisticados observatórios e departamentos universitários foram estabelecidos, muitas vezes financiados por empresários milionários. Os astrônomos desejavam examinar objetos muito fracos e distantes, mas a limitada resistência e a transparência relativamente baixa das lentas objetivas dos telescópios impunham um limite de cerca de 1m de diâmetro – o tamanho do telescópio refrator de Yerkes, inaugurado em Williams Bay, Wisconsin, em 1897. Assim abandonou-se os refratores: era o início de uma nova era de enormes telescópios refletores. O Telescópio Hooker, de 2,5m, em Monte Wilson, na Califórnia, tornou-se operacional em 1918. Em 1948, entrou em sérvio o Telescópio Hale, de 5,2m, no Monte Palomar, na Califórnia. Em 1993, o primeiro Telescópio Keck, com um espelho de 10m, feito de espelhos segmentados, entrou em operação. Acoplado ao progressivo aumento do tamanho dos telescópios veio um enorme aumento na sensibilidade dos detectores. Placas fotográficas tornaram-se mais sensíveis e foram usadas extensivamente par mapear o céu e gerar arquivos permanentes de posições e espectros de objetos. Outro desenvolvimento crucial foi a radioastronomia. Radiotelescópios, o primeiro dos quais foi feito em 1937, passaram a captar as emissões nos longos comprimentos de onda em rádio do espaço profundo.

Astronomia da era espacial

Com o início da Era Espacial (a era do vôo espacial) nos anos 1950, a viagem além da Terra e o contato co planetas, cometas e asteroides tornou-se uma realidade. O despertar das astronomias em rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama ofereceu à humanidade novas perspectivas do Universo, revelando a existência de novos e exóticos objetos nunca antes imaginados.

Estrelas extremas

Relações entre massa, raio e luminosidade das estrelas foram primeiramente estabelecidas graças ao diagrama Hertzsprung-Russel por volta de 1911 e levaram ao reconhecimento de estrelas gigantes e anãs. Desde então encontraram-se muitos tipos extremos de estrelas. Em 1915, W.S. Adams identificou Sirius B como a primeira anã branca – uma estrela da massa do Sol mas comprimida até o volume da Terra. Em 1931 o astrofísico indiano S. Chandrasekhar, usando os novos modelos para o comportamento de partículas subatômicas, descobriu um limite superior à massa de uma anã branca. 1,4 massa solar. Acima disso, um núcleo estelar exaurido colapsará em uma estrela de nêutrons superdensa com uns poucos quilômetros de diâmetro, arrebentando o resto da estrela em uma explosão de supernova. Estrelas de nêutrons em rotação são vistas da Terra como pulsares – radiofontes pulsantes –, a primeira delas foi descoberta em 1967 por Jocelyn Bell-Burnell e Anthony Hewish, do Reino Unido. No outro extremo de massa estelar estão as anãs marrons, muitas delas descobertas recentemente, muito frias para desencadearem rações nucleares no seu centro.

Buracos negros

A possibilidade de buracos negros foi sugerida em 1783 pelo astrônomo inglês John Michell, que considerou a hipótese de um objeto tão massivo que nem a luz poderia escapar da sua gravidade. A ideia reapareceu em 1916 como resultado da teoria da relatividade geral de Einstein, mas os buracos negros permaneceram uma curiosidade até a década de 1960, quando o lançamento de satélites de astronomia de raios-X levou à descoberta de estrelas binárias de raios-X como Cygnus X-1. Binárias de raios-X exigem uma fonte compacta, massiva de erngia, que só pode ser fornecida por um buraco negro. A descoberta de buracos negros de massa estelar também abriu o caminho para se aceitar os quasares – objetos compactos, extremamente luminosos, a altos redshifts – como violentas galáxias distantes, alimentadas por buracos negros supermassivos nos seus centros.

Interior das estrelas

Com telescópios ópticos os astrônomos podem enxergar até uma profundidade de 500km abaixo da superfície solar. Infelizmente, como o Sol tem um raio de 700.000km, um imenso volume não pode ser observado diretamente. Durante os anos 1920 os astrofísicos calcularam que o centro do Sol teria uma temperatura de aproximadamente 15 milhões °C e uma densidade cerca de 150 vezes a da água. Em 1939 o físico alemão Hans Bethe mostrou como processo nucleares, agindo sob essas condições extremas, converteriam lentamente hidrogênio em hélio, liberando imensas quantidades de energia pela conversão de massa em energia. O inglês Fred Hoyle e o alemão Martin Schwarzschild estenderam esta modelo na década de 1950, mostrando como hélio é transformado em carbono e oxigênio em estrelas gigantes. Logo os astrofísicos encontraram mecanismos para a manufatura de elementos ainda mais pesados, como cobalto e ferro, nas estrelas mais massivas. Na década de 1960 os primeiros detectores de neutrinos foram usados para detectar estas partículas altamente penetrantes, liberadas pelas reações nucleares no interior do Sol, e desde os anos 1970, a técnica de heliossismologia permitiu o monitoramento das ondas sonoras ressonando através do interior solar, assim revelando sua estrutura detalhada.

Meio interestelar

A descoberta de grandes quantidades de gás e poeira entre as estrelas foi um triunfo da radioastronomia. Em 1944, o astrônomo holandês Hendrick vam de Hulst previu que o hidrogênio interestelar emitiria ondas de rádio com um comprimento de onda de 21 cm, o que foi confirmado em 1951 pelos físicos estadunidenses Harold Ewen e Edward Purcell. Em breve, radiotelescópios eram usados para mapear a distribuição do hidrogênio neutro atômico nos braços espirais da Via Láctea e de outras galáxias. Em 1974, levantamentos do comprimento de onda de 2,6mm, que age como um traçador de hidrogênio molecular, levaram à descoberta de nuvens moleculares gigantes, locais de nascimento de estrelas.

Astronomia desde o espaço

A Era Espacial começou em 4 de outubro de 1957, quando a União Soviética lançou o satélite Sputnik I, e os astrônomos rapidamente aproveitaram a capacidade de se observar fora da atmosfera terrestre. Detectores a bordo de foguetes já haviam captado sinais intrigantes em comprimentos de onda incomuns durante suas breves excursões fora da atmosfera, e o primeiro observatório orbital, o Ariel I, foi lançado pelo Reino Unido em 1961, equipado com um telescópiode ultravioleta. Outros satélites, como as séries estadunidenses Explorer, e Uhuru, rapidamente mapearam as principais fontes de ultravioleta, infravermelho e raios-X. Enquanto isso, sondas espaciais se espalhavam pelo Sistema Solar, retornando informação sobre o ambiente interplanetário e cartografando os planetas com uma variedade de câmaras, radares e outros instrumentos.

A origem do Universo

A descoberta na década de 1920 de que o Universo está em expansão desencadeou uma nova onda de reflexões cosmológicas. Em 1931, o astrônomo e padre belga Georges Lamaître sugeriu que todo o material do Universo teria começado com o uma única esfera altamente condensada – a origem da teoria do Big Bang. Em 1948, o austríaco Hermann Bondi e os britânicos Thomas Gold e Fred Hoyle propuseram uma teoria rival, da Criação Contínua, na qual matéria estaria sendo criada continuamente para preencher os vazios deixados pela expansão. Felizmente, ambas teorias poderia ser testadas pelas observações e as evidências acabaram por apoiar o Big Bang. Em 1980, Alan Guth da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, estendeu a cosmologia do Big Bang introduzindo a inflação, que auxiliava a resolver alguns problemas maiores da teoria. Mas, ainda restam questões importantes nessa área.

Planetas extra-solares

Grandes refinamentos na espectroscopia permitiram medir ligeiras variações nas velocidades estelares produzidas pela perturbação gravitacional de planetas em órbita. Em 1995, os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra descobriram um planeta com massa um pouco abaixo da metade daquela de Júpiter em torna da estrela 51 Pegasi, a 48 anos-luz. Agora se conhecem centenas de planetas extra-solares e abriu-se um novo campo da astronomia. Os astrônomos têm se surpreendido com suas descobertas – a maioria dos sistemas planetários é muito diferente do Sistema Solar. Alguns têm planetas gigantes orbitando muito próximo à estrela mãe, enquanto outros têm planetas com órbitas altamente elípticas. 

A caçada continua

Quanto mais os astrônomos sabem sobre o Universo, mais querem saber. Na década de 1970 reconheceu-se que o Universo continha muito mais material que o visível: matéria escura afeta a rotação das galáxias; a massa faltante é prevista pela teoria do Big Bang mas ainda não foi observada. A exótica “energia escura” parece acelerar a expansão do Universo. Ao lado desses grandes mistérios cosmológicos está a busca pela vida do Universo, abarcada pela nova ciência da astrobiologia. Nos últimos séculos o tamanho dos espelhos de 10mde hoje serão substituídos por gigantes ainda maiores e observações feitas além da atmosfera terrestre serão cada vez mais produtivas. O telescópio de 2,5m do Telescópio Espacial Hubble será pequeno perto do Telescópio Espacial James Webb, com espelho de 6,5m, a ser lançado em 2021. Esta nova geração de telescópios deverá finalmente captar a primeira geração de estrelas e galáxias. E, à medida que os astrônomos observarem cada vez mais longe com instrumentos cada vez mais sensíveis, inevitavelmente serão confrontados com novos mistérios e corpos exóticos não imaginados antes.

Primeiras espaçonaves

A segunda metade do século XX registrou uma revolução na nossa compreensão do Universo, desencadeada pelo desenvolvimento do vôo espacial. Pela primeira vez, em lugar de apenas olhar para o esaplo, os seres humanos e suas máquinas viajavam por ele. Revezes e riscos marcaram os primeiros tempos da exploração espacial, mas, com esses obstáculos superados, o progresso foi rápido.

Sonhadores de foguetes

A ideia da viagem espacial é tão antiga quanto o contar estórias, mas com poucas noções das leis da física ou da natureza do espaço escritores frequentemente se baseavam em meios cômicos ou absurdos de transportar fictícios viajantes espaciais. Mas, as leis newtonianas do movimento e da gravitação, em conjunto com o fato do espaço ser um vácuo, indicavam que apenas uma forma de propulsão seria capaz de levar viajantes ao espaço – o foguete. Desenvolvidos como fogos de artifício e armas na China medieval, os foguetes contém o combustível necessário para sua propulsão, impulsionados por gases ejetados pelo seu escape. Embora o escritor francês Cyrano de Bergerae (1619-1655) tivesse sugerido no século XVII seu uso para alcançar a Lua, o primeiro a considerar seriamente as realidades da viagem espacial foi o professor da escola rural soviético Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), que desenvolveu muitos dos princípios dos foguetes de combustível líquido, de múltiplos estágios, publicando-os na década de 1890.

Lançamento

Os princípios dos foguetes estavam bem desenvolvidos no começo do século XX, mas ainda havia vários problemas para fazer do voo espacial uma realidade prática. O maior deles era a eficiência do combustível. O engenheiros estadunidense Robert Goddard concebeu a ideia de combustíveis líquidos mais eficientes e em 1926, lançou um foguete de 3m de comprimento impelido por oxigênio líquido e gasolina. As ideias de Goddard e Tsiolkovsky foram adotadas por entusiastas no mundo todo, inclusive pela Sociedade para a Viagem Espacial (VfR) da Alemanha. Durante a década de 1930, muitos dos cientistas da VfR foram recrutados pelo boverno nazistas para um programa militar que prosseguiu durante a Segunda Guerra Mundial. A culminação dos seus esforços, o míssil V2, chegou tarde demais para salvar a Alemanha da derrota, mas provou que armamentos à base de foguete eram o caminho do futuro.

A corrida espacial

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, as maiores potências desejavam a tecnologia de foguetes para si. A maioria dos cientistas fugiu para o Ocidente, mas a União Soviética capturou as fábricas das V2. As razões para tal interesse tornaram-se claras quando as relações internacionais rapidamente deterioraram e começou a Guerra Fria. Ambos acreditavam que mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) impulsionados por foguetes poderiam ser a resposta para lançar a arma final – a bomba nuclear. Foi neste contexto que os Estados Unidos e a União Soviética começaram seus programas espaciais. Ambos viram que a tecnologia de mísseis poderia ser utilizada para alcançar a órbita terrestre e reconheceram que esses lançamentos demonstrariam o poder de seus foguetes e renderiam grandes benefícios de propaganda.

Em órbita

No começo dos anos 1950 União Soviética e Estados Unidos anunciaram planos de lançar satélites durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-58. O programa soviético prosseguiu em sigilo, usando seus enormes mísseis R-7 como veículos de lançamentos, enquanto os cientistas estadunidenses passavam por escrutínio público. Os planos do cientista alemão Werher von Braun de lançar um satélite com o ICBM estadunidense Redstone foram engavetados a favor do programa de pesquisa espacial Vanguard da marinha estadunidense. Pouco antes da data de lançamento do Vanguard, em novembro de 1957, os soviéticos anunciaram em 4 de outubro do mesmo ano o lançamento bem sucedido do Sputnik I. As estações de rastreamento captaram sinais de rádio do satélite e confirmaram que a União Soviética tinha tomado a dianteira na corrida espacial. A humilhação estadunidense foi total quando, em 6 de dezembro, o lançamento do Vanguard terminou em uma explosão na plataforma de lançamento. O projeto de Von Braun foi imediatamente ressuscitado, e o primeiro satélite estadunidense, o Explorer I, entrou em órbita com êxito menos de dois meses mais tarde, em 31 de janeiro de 1958.

As missões Vostok

No final da década de 1950, o próximo grande passo da corrida espacial estava claro – qual das superpotências seria a primeira a colocar uma pessoa em órbita? Os soviéticos tinham uma óbvia vantagem de potência, já que o Sputnik II, o seu segundo satélite, pesava meia tonelada, e haviam conseguido enviar sondas além da vizinhança imediata da Terra. Em 12 de abril de 1961 fizeram um anúncio que surpreendeu o mundo: o Coronel Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espalho, a bordo da Vostok I. Gagarin retornou à Terra como herói da União Soviética, e o programa espacial estadunidense, agora gerenciado pela Nasa, de novo havia ficado para trás. As missões Vostok posteriores superaram novos limites e colocaram a primeira mulher no espaço, aumentaram os tempos em órbita e mantiveram mais de uma espaçonave simultaneamente em voo.

Projeto Mercury

A resposta da Nasa ao Vostok foi o programa Mercury, que lançou seis astronautas entre 1961 e 1963. Diferentemente do programa soviético os esforços estadunidenses foram conduzidos sob os holofotes da mídia. As cápsulas espaciais Mercury eram minúsculas e leves, parcialmente porque tinham que ser transportadas pelo pequeno veículo de lançamento Redstone nos primeiros voos. A Nasa estava desenvolvendo um novo lançador, o Atlas, mas os tests da cápsula deveriam começar antes do foguete maior estar pronto. Surpreendida pelo lançamento do Vostok I, a Nasa correu para retaliar e colocou seu primeiro homem no espaço em 5 de maior. Lançado em um foguete Redstone a missão Freedom 7, de Alan Shepard, não tinha velocidade suficiente para entrar em órbita, mas alcançou uma altura de 185 km durante um voo de 15 minutos. Após um segundo voo sub-orbital, o foguete Atlas foi completado no final de 1961. Seguindo um número de testes, John Glenn foi o primeiro estadunidense em órbita em 20 de fevereiro de 1962.

Próximos passos

Dispostos a manter sua liderança na corrida espacial, os soviéticos assumiam um grande risco. Os estadunidenses tinham anunciado suas missões planejadas de dois homens do Gemini e, em um esforço para ofusca-los de antemão, o diretor do programa espacial soviético, Korolev, planejava uma missão de três homens. Era um grande desafio, pois já havia sido iniciado um trabalho com as naves Soyuz visando alcançar a Lua. Finalmente, os engenheiros soviéticos chegaram a um engenhoso compromisso Voskhod era efetivamente uma cápsula Vostok modificada com espaço suficiente para levar três tripulantes. O voo da Voskhod I, em 12 de outubro de 1964, foi um sucesso, batendo a primeira missão tripulada Gemini por cinco meses. A Voskhod II, lançada alguns dias antes do primeiro teste de voo da Gemini foi um sucesso ainda maior. Durante o voo Alexei Leonov tornou-se a primeira pessoa a caminhar no espaço. Os soviéticos haviam desferido mais um espetacular golpe de propaganda.

Exploradores robôs

Enquanto o foco da atenção pública estava principalmente no programa espacial tripulado, uma segunda corrida espacial era mantida em paralelo – cujas consequências para nossa compressão do Sistema Solar. Cada superpotência tentava superar a outra nos “primeiros” passos da exploração de outros mundos. A exploração espacial robótica teve uma acidentada história inicial, com numerosas falhas, tanto nas plataformas de lançamento, enquanto, ou durante as tentativas de pouso. Porém houve alguns sucessos notáveis: em janeiro de 1959 a Lunik ou Luna I tornou-se o primeiro objeto a escapar da gravidade terrestre e entrar em órbita em torno do Sol; a Lunik II atingiu a Lua em setembro de 1959; a Lunik III registrou as primeiras imagens do lado oculto da Lua. A Pioneer V da Nasa foi a primeira sonda deliberadamente lançada ao espaço interplanetário, entrando em órita entre a terra e Vênus em 1960, enquanto as sondas estadunidenses Mariner II e IV venceram os soviéticos na corrida rumo a outros planetas, voando para Vênus e Marte em 1962 e 1965, respectivamente.

Viagens à Lua

As missões Apolo para a Lua frequentemente são descritas como uma grande conquista da técnica humana. Vastas quantidades de recursos humanos e financeiros foram investidos em um programa com motivações científicas e de propaganda. As missões revelaram muito sobre a Lua e seus imensos avanços tecnológicos remodelaram o mundo.

Um homem na Lua

Em 25 de maio de 1961 o presidente estadunidense John F. Kennedy fez um discurso que abalou o mundo. Em uma época em que os Estados Unidos ainda tinham que colocar um astronauta em órbita da Terra, ele prometeu que seu país levaria pessoas à Lua até o fim da década. A escala do empreendimento era monumental. Astronautas não haviam se aventurado a além de 300km da superfície terrestre, e agora Kennedy dava à Nasa a missão de enviá-los a uns 400.000km de distância, pousá-los na superfície de um mundo desconhecido e trazê-los de volta com segurança. Contudo, se isto fosse realizado, a mensagem seria que os Estados Unidos agora eram uma potência espacial. A Nasa imediatamente começou a investigar os meios de se pousar na Lua. A missão estabeleceu como objetivo usar o maior foguete já construído, projetado pelo cientista de foguetes alemão Wernher von Brauns, para enviar três naves conectadas rumo à Lua – somente uma delas retornaria à Terra. O nome, Apollo, o deus grego do Sol, foi sugerido pelo diretor de voos espaciais da Nasa. Dr. Abe Silvestein.

Projeto Gemini

Cada missão Apollo envolveria diversas operações de encontro, acoplamento e desacoplamento no espaço – operações que a Nasa e seus astronautas jamais haviam tentado antes. Apenas ir à Lua e voltar exigiria um mínimo de 7 dias. Para ganhar experiência em voos espaciais de longa duração e nas delicadas manobras necessárias no Apollo, a Nasa anunciou que o programa Mercury seria substituído pelo Projeto Gemini, uma série de missões de dois tripulantes. Houve 10 missões tripuladas Gemini, entre 1964 e 1966, diversas das quais envolviam encontros entre naves, caminhadas no espaço, e mesmo acoplamentos com veículos alvo não-tripulados. Agena. A espaçonave, composta de três módulos, também representava um grande avanço. Enquanto os dois astronautas permaneciam durante a missão dentro de um módulo de reentrada, apenas 50% maior que a cápsula Mercury, os suprimentos de água e ar, o equipamento elétrico e os experimentos eram mantidos principalmente em um módulo de serviço separado. Um terceiro módulo continha foguetes para manobrar a espaçonave em órbita e freá-la antes de sua reentrada.

Preparando o caminho

Um grande desafio para os planejadores da Apollo era a falta de conhecimento sobre a Lua. À época, pouco se conhecia sobra a história lunar, a natureza das suas crateras e as propriedades de sua superfície – pensava-se seriamente na possibilidade da superfície ser de um pó tão fino que a nave afundaria. Para responder estas questões, a Nasa planejou uma série de missões robóticas para fazer levantamentos detalhado da Lua incluindo pousos – tanto de colisão quanto suaves. As primeiras foram as naves Ranger, quatro das quais colidiram com a Lua entre 1961 e 1964. Pelas fotos retransmitidas à Terra, é inteiramente coberta por crateras, até nas menores escalas, o que indica uma origem por impacto. Em 1966 teve início uma segunda fase, com as naves Lunar Orbiter e surveyor. Os orbitadores fotografaram a Lua de perto, a cerca de 0 km, buscando locais interessantes para pousos tripulados, enquanto os Surveyor efetuaram uma série de pousos suaves, confirmando a firmeza da superfície lunar.

Apollo em órbita

No final de 1966, o programa Apollo estava avançando rápido. Os enormes foguetes Saturno V estavam em construção e as naves prontas para os testes. Porém, em janeiro de 1967, a tripulação da Apollo I morreu durante um incêndio na cápsula em um ensaio de lançamento. Como consequência as missões Apollo II e III foram canceladas, e as missões Apollo IV, V e VI foram convertidas em teses de lançamento não-tripulados. Somente em outubro de 1968 os astronautas retornaram ao espaço, com o lançamento da Apollo 7. Esta missão orbital foi logo seguida pela Apollo VIII. Lançada pela primeira vez pelo Saturno V a missão da nave foi alterada para incluir uma órbita ao redor da Lua no Natal, após rumores de que os soviéticos lançariam um veículo  tripulado para alcançar a Lua. O lançamento nunca aconteceu e, depois das Apollo IX e X, a Nasa estava finalmente pronta para tentar pousar na Lua.

O primeiro pouso na Lua

A Apolo XI partiu de Cabo Kennedy (agora Canaveral), na Flórida, em 16 de julho de 1969) e entrou em óribta lunar três dias depois. Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin então embarcaram no módulo lunar “Eagle” para a descida na superfície, enquanto Mihael Collins permanecia a bordo do módulo em comando e serviço (CSM) “Columbia” em órbita lunar. Eagle tocou seguramente uma planície de lava conhecida como o Mare Tranquilitatis (Mar da Tranquilidade) e, seis horas após o poso, Neil Armstrong deixou o módulo e desceu a escada, pisando a superfície das 2h56 do dia 20 de julho. Armstrong e Aldrin permaneceram na superfícia por 21 horas, realizando uma caminhada, durante a qual implantaram uma bandeira e uma placa comemorativa, conduziram diversos experimentos coletaram rochas, e telefonaram para o presidente estadunidense Richard Nixon.

Módulo lunar

O módulo lunar, com sua aparência frágil, era um elemento vital de cada missão Apollo. Como ele nunca voaria em uma atmosfera os projetistas tiveram a liberdade de dar-lhe uma forma estritamente funcional. Embora o módulo tivesse 9,5m de largura e 7m de altura, a cabine era tão apertada que os astronautas ficaram de pé durante o voo. O grande motor de foguete, embaixo da seção superior do módulo, era usado para frear a cápsula durante o pouso na Lua e, depois, fornecer o impulso para a decolagem da superfície lunar e injeção em órbita.

Missões posteriores

A Nasa havia originalmente planejado dez missões Apollo, mas apenas seis foram completadas. Embora a Apollo XII tenha sido um sucesso, a Apollo XIII ficou famosa pelo seu acidente, quando uma falha elétrica e perda de oxigênio, pela primeira vez colocaram uma tripulação da série em grave perigo. As últimas três Apollo levavam um jipe lunar, estendendo consideravelmente a área que os astronautas poderiam explorar. Redução no interesse público e cortes de verbas da Nasa levaram ao cancelamento das três últimas missões. Os estertores finais da Apollo foram a estação espacial Skylab, que usava um foguete Saturno V, e a missão Apollo-Soyuz, um encontro entre astronautas soviéticos e estadunidenses em órbita terrestre.

Lições científicas

As missões Apollo revelaram muito aos astrônomos sobre a química e história da Lua. As rochas coletadas ainda são estudadas em todo o mundo. O registro do bombardeamento da Lua e a datação por radioisótopos das amostras revelaram o período de intenso bombardeamento a modelou o Sistema Solar durante seu primeiro bilhão de anos. Embora os soviéticos nunca tenham tentado um pouso tripulado na Lua, colocaram uma série de jipes LunoKhod no satélite e trouxeram pequenas amostras de poeira para a Terra.

Em órbita da Terra

Embora muito do foco da exploração espacial tenha sido viagens a planeta e luas distantes, a grande maioria das missões não foi além da órbita terrestre. Em torno da Terra é que o advento do voo espacial teve maior impacto. Nossa vizinhança espacial agora está repleta de satélites, tanto com propósitos científicos como comerciais.

Estações espaciais

A União Sovietica mudou a direção do seu programa espacial no final da década de 1960, priorizando postos semipermanentes em órbita. As primeiras estações espaciais soviéticas, nos anos 1970, as Salyut, eram clilindros com 13m de comprimento e no máximo 4m de largura que abrigavam tripulações de três cosmonautas por diversas semanas em condições espartanas. Embora a corrida espacial tivesse se desacelerado, a Nasa ainda se sentia obrigada a competir e, em 1973, lançou a estação Skylab, que foi visitada por três tripulações separadas ao longo de um ano. Com isso, a Nasa manteve um breve recorde de permanência no espaço. Contudo, quando voltou suas atenções para o Space Shuttle, as estações espaciais foram deixadas para os soviéticos. As mais avançadas Salyut 6 e Salyut 7 eram muito maiores que suas antecessoras e podiam ser ampliadas por módulos lançados da Terra. Na metade na década de 1980, os cosmonautas permaneciam meses em órbita, conduzindo valiosos experimentos científicos.

Potencialidades do espaço

Além das razões políticas e científicas para a exploração espacial, as últimas décadas viram o surgimento para fins práticos. Empresas privadas e países menores conseguem agora lançar satélites e o mundo foi transformado pelos seus resultados. Os satélites de comunicações nasceram dos trabalhos de Arthur C. Clarke e outros, e radiotransmissores orbitais são os responsáveis pelo Global Positioning System (GPS), que permite aos usuários encontrar sua posição em qualquer parte da Terra com precisão de poucos metros. O potencial da observação da Terra desde sua órbita tornou-se claro quando os primeiros astronautas relataram avistar nitidamente acidentes geográficos – com grande surpresa para os controladores de solo. Hoje diversos satélites de observação da Terra circulam o globo, desde os climáticos que monitoram hemisférios inteiros, até os espiões, capazes de ver detalhes inferiores a 1m. Ainda mais sofisticados são os satélites de sensorialmente remoto. Monitorando a Terra em vários comprimentos de onda, reúnem imensas quantidades de informação sobre o solo, como a direção das correntes oceânicas, a localização de depósitos mineiras e a qualidade das plantações.

Observatórios orbitais

Muitas das grandes descobertas e imagens espetaculares do Universo distante provêm de satélites. A atmosfera terrestre representa um sério problema para os astrônomos, pois filtra a maioria da radiação eletromagnética. Contudo, um telescópio no espaço coloca problemas únicos. Não só eles devem ser controlados remotamente para retornar imagens à Terra, mas também devem operar em um ambiente hostil. As flutuações de extremas temperaturas entre a iluminação solar e a escuridão podem distorcer a delicada óptica do telescópio, visto que o instrumento todo se contrai e se dilata, e assim se exige um projeto engenhoso de isolamento. Mesmo assim, o tempo de operação em órbita é limitado. Além da energia fornecida pelas células solares, os satélites demandam combustível para se reorientar no espaço e agentes resfriadores para proteger sua delicada eletrônica.

Vôos tripulados

Desde as missões Apollo, o voo espacial tripulado continuou a se desenvolver. Apesar de duas tragédias de grande impacto, em 1986 e 2003, o Space Shuttle da Nasa, a primeira espaçonave reutilizável, transformou o voo espacial em uma atividade quase rotineira. Desde seu primeiro voo em 1980, os Shuttles completaram mais de 100 missões, levando experimentos, lançando satélites, e observando a Terra e o espaço. Enquanto isso, a União Soviética desenvolver o princípio da estação espacial modular, ampliável, como a Mir (1986-2001). Os plano da Nasa de um estação espacial permanente evoluíram para um enorme projeto internacional, e quando a Estação Espacial Internacional estiver completa, o Space Shuttle terá se aposentado após 25 anos de serviço. No momento, alguns países têm planos ambiciosos do retorno do homem à Lua como estala rumo a Marte.

Além da Terra

Embora os seres humanos não tenham ainda se aventurado além da Lua, as sondas espaciais automáticas mergulharam muito mais fundo. Exploradores robóticos visitaram todos os planetas e também pesquisaram dezenas de satélites em um conjunto de corpos menores. Durante suas jornadas, transformaram nossa visão do Sistema Solar, revelando outros mundos, quase tão complexos quanto a Terra.

Primeiros passos

A primeira sonda a deixar a influência da Terra e entrar em órbita própria ao redor do Sol foi a nave soviética Lunik I (Luna I), que, em 1959, errou seu alvo, a Lua, e se tornou por acidente a primeira sonda interplanetária. Logo seguiram-se esforços deliberados da Nasa, que, entre 1960 e 1968, lançou com sucesso as Pioneer 5 a 9 em órbitas entre a Terra e Vênus. Várias dessas naves alimentadas com energia solar ainda transmitem dados científicos. Assim como havia a corrida para colocar o homem no espaço, as superpotências da Guerra Fria competiam pelo primeiro lugar na chegada a outros planetas. Em dezembro de 1962, a Mariner 2 foi a primeira sonda a realizar um sobrevôo em Vênus, medindo a temperatura extremamente alta de sua superfície, e confirmando sua rotação anormalmente lenta. A Mariner 4 sobrevoou Marte em julho de 1965, medindo sua atmosfera e fotografando seus planaltos austrais com crateras.

O sistema solar interno

Como estão mais próximos do Sol, Mercúrio e Vênus viajam mais rápidos que a Terra. Assim, a sonda deve ganhar velocidade para entrar em suas órbitas. Contudo, algumas naves superaram este desafio técnico e visitaram Vênus nos anos seguintes ao primeiro sobrevoo. Diversas sondas soviéticas tentaram o pouso na superfície hostil, apenas para serem destruídas durante a reentrada. Em 1967, Venera 4, equipada com blindagem semelhante a um tanque, enviou com êxito sinais para a Terra. Foi somente oito anos mais tarde que a Venera 9 retornou as primeiras imagens da superfície venusiana. Tanto a Nasa como os soviéticos lançaram orbitadores para fazer levantamentos do planeta desde o espaço. Em 1978, a missão Pioneer Orbiter mapeou o planeta com radar e lançou sondas atmosféricas. Em 1989, o Magellan, um orbitador da Nasa equipado com um sofisticado radar, deu início ao estudo por quatro anos do planeta, com detalhes sem precedentes. A velocidade orbital de Mercúrio representa um problema maior: até agora [2008], apenas a Mariner 10 e a Messenger o visitaram.

Perto de Marte

Os primeiros sobrevoos de Marte foram sucessos notáveis, porém não no que se refere aos trajetos de seus voos. Três sondas estadunidenses retornaram imagens de 10% da superfície marciana, mas perderam toda a evidência de vulcanismo e de água que fazem o fascínio do planeta. A sorte da Nasa mudou em 1971, quando a Mariner 9 tornou-se a primeira nave a orbitar Marte, conduzindo um levantamento fotográfico que revelou o sistema de Valles Marineris, os altíssimos vulcões da região de Tharsis, e os primeiros sinais de cânios com erosão por água. Com o redespertar do interesse pelo Planeta Vermelho, a Nasa lançou a Marte as duas naves gêmeas da missão Viking, cada uma com um lander (módulo de pouso) e um orbitador. Os orbitadores forneceram imagens e dados climáticos da superfície, além de conduzirem vários experimentos detalhados, incluindo um controverso teste de vida microbiana.

O grand tour

Os anos 1970 apresentaram uma rara oportunidade: um alinhamento de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno permitiria a uma nave viajar de um planeta a outro, usando o efeito de “estilingue gravitacional”. O chamando Grand tour levaria pouco mais que uma década. Em 1977, a Nasa lançou a Voyager 1 e 2, inicialmente tendo como alvo apenas Júpiter e Saturno. A Voyager passou por Júpiter em março de 1979 e por Saturno em novembro de 1980, fazendo a primeira aproximação rasante da sua Titã. A Voyager 2 a seguiu poucos meses depois, e, como a Voyager 1 havia completado sua missão, os cientistas da Nasa decidiram ativar seu plano de reserva, lançando sua segunda sonda ao redor de Saturno rumo a Urano, alcançando em 1986, e a Netuno, em 1989. Esta missão extremamente bem sucedida nos ofereceu os primeiros vislumbres desses gigantes exteriores gelados, de suas luas e de seus anéis. Ambas naves ainda estão viajando, além de Plutão, nos confins do sistema solar [Atualmente – 2019 –, já saíram do Sistema Solar].

Exploradores em Marte

Apesar dos sucessos dos lander Viking, as sondas não retornaram a Marte até o final da década de 1990, seguindo uma série de fracassadas missões estadunidenses e soviéticas. Em 1997, a Mars Global Surveyor da Nasa entrou em órbita em torno do planeta, equipada com câmeras de última geração, enquanto um lander, o Mars Pathfinder, liberou o jipe robô Sojourner, que coletou rochas e solo. Seguiram-se muitas outras naves, e a cada nova descoberta, a possibilidade de vida em Marte tornou-se mais plausível. Vários satélites artificiais estão em órbita ao redor do planeta, usando técnicas de sensoriamente remoto para sondar o subolo marciano. Os jipes de exploração marciana, Spirit e Opportunity descobriram evidências inegáveis sobre oceanos extensos no passado marciano. Novas missões como a Phoenix, traçam a história da água em Marte e a possibilidade de vida no planeta.

Entre as luas de Júpiter

Os sobrevoos das Voyagers sobre as enormes luas de Júpiter revelaram que elas eram mundos fascinantes merecedores de uma inspeção mais de perto. A sonda Galileo, destinada a orbitar Júpiter, foi lançada em 1989, mas somente chegou ao destino em 1995. E os resultados valeram a espera. O orbitador fez o sobrevoo rasante de um asteroide durante seu curso, e librou uma sonda na atmosfera de Júpiter, antes de começar uma missão que ultrapassaria todas as expectativas. A Galileo estudou os vulcões de Io e o sistema climático de Júpiter, enquanto deu apoio a evidência de um oceano debaixo da crosta de gelo de Europa e nas luas jovianas exteriores Ganimedes e Calisto.

Cassini e além

A Galileo foi seguida por uma missão ainda mais ambiciosa para Saturno. A Cassini, uma enorme sonda pesando 5,6 toneladas, foi lançada em 1997. Depois de uma complexa jornada durante a qual sobrevoou duas vezes Vênus e uma vez a Terra e tomou impulso em Júpiter, finalmente chegou a Saturno em 2004. A bordo havia o lander europeu Huygens, que desceu de paraquedas na atmosfera de Titã em janeiro de 2005 enviando imagens durante seu pouso e revelando um mundo no qual o metano líquido parece desempenhar o mesmo papel que a água na Terra. Cassini continuou a monitorar Saturno e a fazer voos rasantes sobre muitos dos satélites fascinantes e variados do planeta. Desse modo abrirá caminho para futuras missões orbitais ainda mais ousadas, com ao Prometheus (antes o Orbitador das Luas Geladas de Júpiter), uma nave impulsionada à energia nuclear projetada para estudar as luas de Júpiter em detalhes sem precedentes. A Prometheus será a primeira de uma nova geração de naves espaciais nucleares que abrirá o Sistema Solar a uma exploração mais rápida e ainda mais profunda.

Cometas e asteroides

Embora a maior parte das sondas tivesse os planetas como alvos os cientistas não esqueceram os corpos menores do Sistema Solar. Cometas e asteroides virtualmente inalterados desde sua formação, há 4,5 bilhões de anos, contêm indícios fascinantes sobre a criação do Sistema Solar e mesmo sobre a origem da vida. Em 1985 e 1986, quando o Cometa Halley passou novamente pelas proximidades do Sol, uma flotilha de naves dirigiu-se ao seu encontro. O NEAR (Near Earth Asteroid Rendezvous) sobrevoou o asteroide Mathilde do Cinturão principal em 1997, antes de monitorar o grande asteroide Eros por um ano. Seguiram-se missões mais ambiciosas. A Stardust, da Nasa, recolheu poeira da cauda do cometa Wild 2 em 2004, para trazer à Terra; a missão europeia Rosetta pela primeira vez colocou um lander em um cometa; e a New Horizon sobrevoará Plutão [Chegou em 2016], antes explorando o cinturão de Kuiper, o berço de muitos cometas.

O futuro do homem no espaço

É inevitável que naves tripuladas um dia se aventurem pelas profundezas do Sistema Solar. China, Rússia e Estados Unidos têm planos para um retorno à Lua, e os estadunidenses também consideram a possibilidade de uma missão a Marte. Embora possam ser abandonados, esses planos serão substituídos por outros, e no meio tempo os cientistas espaciais terão reunido os conhecimentos necessários para tornar a viagem espacial de longa duração uma realidade. A Rússia ganhou uma experiência única de microgravidade prolongada com as missões na estação espacial Mir, e a tripulação da Estação Espacial Internacional é uma fonte preciosa de informações em medicina espacial. Por outro lado, experimentos em solo, como a Biosfera 2, fornecem informações úteis sobre como os astronautas poderiam produzir seu próprio alimento, água e oxigênio em outros planetas e como uma tripulação isolada enfrentaria o confinamento em uma nave por muitos meses.

Sistema Solar | Texto
Por Robert Dinwiddie
O começo e o fim do Universo

A história do Universo pode ser traçada desde seus primeiros instantes, de acordo com a teoria do Big Bang. No modelo do Big Bang, o Universo já foi infinitamente pequeno, denso e quente. O Big Bang deu início a um processo de expansão e resfriamento que continua até hoje. Não foi uma explosão de matéria no espaço, mas uma expansão do próprio espaço, que, no princípio, trouxe o tempo e o espaço à existência. O Big Bang, contudo, não explica todas as características do Universo, e continua a ser refinado. Os cientistas o usam como um quadro para mapear a evolução continuada do Universo, passando por eventos como o desacoplamento de matéria e radiação (quando os primeiros átomos se formam e o Universo se torna transparente) e a condensação das primeiras galáxias; a formação das primeiras estrelas. O estudo do Big Bang e do balanço da gravidade do Universo e a força da chamada energia escura podem dizer qual será o fim do Universo.

O Big Bang

Espaço, tempo, energia e matéria devem ter vindo à existência 13,7 bilhões de anos atrás, no evento chamado Big Bang. Em seus primeiros momentos, o Universo era infinitamente denso, inimaginavelmente quente e continha energia pura. Mas, dentro de uma ínfima fração de segundo, surgiu um vasto número de partículas fundamentais, criadas a partir de energia, à medida que o Universo resfriava. Em poucas centenas de milhares de anos estas partículas se combinaram para formar os primeiros átomos.

No princípio

O Big Bang não foi uma explosão no espaço, mas uma expansão que ocorreu no primeiro instante depois do Big Bang, a Era de Planck, mas no final deste período, a gravidade havia se separado das outras forças da natureza, seguida pela separação da força forte. Acredita-se que este evento originou a “inflação” – uma expansão curta porém rápida. A inflação ajudaria a explicar como o Universo parece tão homogêneo e plano. Durante a inflação, surgiu uma quantidade fantástica de massa-energia, em contraposição a uma quantidade igual porém negativa de energia gravitacional. No final da inflação, a matéria começou a aparecer.

A emergência da matéria

Cerca de 1 microsegundo (10-6 segundos ou um milionésimo de segundo) depois do Big Bang, o universo jovem continha além de vastas quantidades de energia radiante, ou fótons, uma “sopa” efervescente de quarks, antiquarks, e glúos. Também estava presente uma classe de partículas fundamentais chamadas léptons (principalmente elétrons, neutrinos e suas atipartículas), formando-se a partir de energia e se aniquilando de volta à energia. O palco estava armado para os processos de formação da matéria seguinte que levaram ao presente Universo. Em primeiro lugar, quarks e glúons se uniram para formar partículas mais pesadas – em particular prótons e um menor número de nêutrons. A seguir, os nêutrons se combinaram com alguns dos prótons para formar núcleos atômicos, principalmente de hélio. Os prótons restantes, destinados a formar núcleos de hidrogênio, permaneceram não-combinados. Finalmente, após meio milhão de anos, o Universo se resfriou o suficiente para os elétrons se combinarem com os prótons livres e os núbleos de hélio – assim formando os primeiros átomos.

Saindo das trevas

O período desde o nascimento dos átomos, 300.000 anos depois do Big Bang, até a ignição das primeiras estrelas, centenas de milhões de anos mais tarde, é conhecido como a “Idade das Trevas” do Universo. O que aconteceu durante essa era, e o subsequente “Renascimento” cósmico quando a luz das estrelas preencheu o Universo, é um enigma. Os astrônomos o estão solucionando pela análise da radiação relíquia do Big Bang e do uso dos mais poderosos telescópios para perscrutar os limites do Universo.

As consequências do Big Bang

Aos 350.000 anos de idade, o Universo estava repleto de fótons propagando-se em todas as direções, de átomos de hidrogênio e hélio, de neutrinos e outras formas de matéria escura. Embora o Universo ainda estivesse quente, a 2500ºC, e preenchido de radiação, os astrônomos não veriam nenhuma luz se pudessem olhar anteriormente a esse instante. A razão disso é que o Universo, ao se expandir, distendeu os comprimentos de onda da radiação por um fator 1000. Os fótons, agora, alcançam a Terra não como luz visível, mas como fótons de baixa energia da radiação cósmica de fundo em micro-ondas (CMBR). Estes comprimentos de onda, outrora característicos de um universo incandescente, são típicos de um objeto tão frio que sua temperatura é de cerca de -270ºC, 3K (3 graus Kelvin) acima do zero absoluto.

A Idade das Trevas

A Terra pode nunca receber a luz visível do período antes das primeiras estrelas se formarem, umas poucas centenas de milhões de anos após o Big Bang, mas os cosmólogos podem reconstruir o que ocorreu durante esse período, usando outros dados, como aqueles da CMBR. A CMBR revela minúsculas flutuações da densidade da matéria, quando os primeiros átomos se formaram. Os cosmólogos acreditam que a gravidade, atuando nestas flutuações, levam a matéria a formar aglutinações e cordões. Essas irregularidades na nuvem inical de matéria provavelmente constituíram o arcabouço dos atuais objetos de grande escala, como os superaglomerados de galáxias. A evolução dessas estruturas por bilhões de anos pode ser simulada por computadores. Essas simulações baseiam-se em suposições sobre a densidade e propriedades da matéria no universo jovem, assim como a influência da energia escura. Algumas simulações se assemelham à distribuição da matéria do universo atual.

Galáxias primitivas

Os astrônomos ainda estão tentando localizar quando as primeiras estrelas se formaram e em que tipo de estruturas galácticas isso ocorreu. Estudos recentes no infravermelho, feitos com instrumentos como o Telescópio Espacial Spitzer e o Very Large Telescope [VET], revelarem o que parece ser galáxias extremamente fracas, com redshifts elevados, presentes há apenas 500 milhões de anos depois do Big Bang. Sua existência indica que precursores bem desenvolvidos, nós e massas condensadas de matéria deviam estar presentes entre 100 e 300 milhões de anos depois do Big Bang. São nessas estruturas que as primeiras estrelas devem ter se formado.

As primeiras estrelas

As primeiras estrelas, que podem ter se formado 200 milhões de anos depois do Big Bang, eram feitas quase que inteiramente de hidrogênio e hélio, com virtualmente nenhum outro elemento químico. Os físicos pensam que as nebulosas de formação estelar sem elementos pesados e condensaram em nuvens muito maiores que as de hoje. As estrelas que aí se formaram também devem ter sido muito grandes e quentes, talvez tipicamente de 100 a 1000 massas solares. Muitas podem ter durado poucos milhões de anos ou menos, antes de morrerem como supernovas. A luz ultravioleta dessas estrelas pode ter originado um momento crucial na evolução do Universo – a reionização do seu hidrogênio, transformou de um gás neutro de volta à forma ionizada (prótons e elétrons livres) vista hoje. A radiação dos quasares também pode ter reionizado o Universo.

Enriquecimento químico cósmico

Durante suas vidas e ao final delas, as primeiras estrelas massivas criaram e dispersaram novos elementos químicos no espaço e em massas protogalácticas em colapso. Um zoológico de novos elementos, como carbono, oxigênio, silício e ferro, foi formado a partir da fusão nuclear nas regiões centrais quentes dessas estrelas. Elementos mais pesados que o ferro, como bário e chumbo, formaram-se durante suas mortes violentas. Estrelas de segunda e terceira gerações, menores que as megaestrelas primordiais, formaram-se, a partir do meio interestelar enriquecido. Essas estrelas criaram mais elementos químicos, que retornaram ao meio interestelar através de ventos estelares e supernovas. Interações entre galáxias e varrimento do seu gás levaram a mais enriquecimento e dispersão, no meio intergaláctico. Esses processos de reciclagem e enriquecimento continuam. Na Via Láctea, os novos elementos químicos são essenciais par aa formação de objetos desde planetas rochosos até organismos vivos.

Vida no Universo

A única vida conhecida no Universo está na Terra. A vida aqui, no entanto, é tão ubíqua e o Universo tão enorme que os cientistas vêem chances de o processo vital manifestar-se também em outras regiões do Cosmos. Mas a vida na Terra ter sido fortuita – produto de uma série improvável de eventos – ou, como muitos acreditam, não tão inesperada.

Organismos vivos

O que é um organismo vivo? As ideias a respeito disso dependem do estudo da vida na Terra, pois não temos ideia do alcance da vida fora daqui. Os biólogos concordam sobre algumas características básicas que distinguem o vivo do não-vivo em qualquer parte do Cosmos – no mínimo, uma entidade viva deve ser capaz de se reproduzir e, ao longo do tempo, evoluir. Não estão certos, no entanto, se vírus são vivos. Embora autorrepliquem, falta ao vírus algumas características que a maioria dos biólogos considera essenciais à vida: eles não existem como células e não possuem seu próprio maquinário bioquímico. É também incerto se outras características comuns à vida terrestre, como a química do carbono e o uso da água líquida, devam inevitavelmente ser um traço da vida extraterrestre. Desacordos sobre esses pontos aumentam a complexidade das discussões sore a possibilidade de vida extraterrestre.

Origens da vida

A maioria dos cientistas concorda que o começo da vida terrestre está ligado à acumulação de moléculas orgânicas simples em uma “sopa primordial! Nos oceanos, logo após sua formação. As moléculas teriam resultado de reações químicas na atmosfera, talvez estimuladas pela energia de raios. Na sopa, ao longo de milhões de anos, os compostos orgânicos reagiram, formando moléculas cada vez maiores e mais complexas, até que surgiu uma molécula com a capacidade de auto-replicação. devido sua natureza específica, essa molécula – um gene rudimentar – tornou-se mais comum. Através de mutações, e pelo mecanismo da seleção natural, variantes desse gene desenvolveram adaptações à sobrevivência cada vez mais sofisticadas, evoluindo ara uma céula do tipo bactéria – a precursora de toda vida terrestre. Muitos biólogos evolutivos diriam que o evento decisivo nesse caso foi o aparecimento de um auto-replicador.

A raridade da Vida

Há 30 anos as condiç~eos que se pensava serem essenciais à vida, como aquelas de temperatura e umidade, eram consideradas estreitas. Desde então os cientistas descobriram extremófilos (organismos que prosperam em condições extremas) vivendo em ambientes adversos na Terra. Esses organismos podem viver em profundas camadas de gelo ou nas fumarolas de água fervente no fundo dos oceanos. Alguns vivem em comunidades desprovidas de luz solar e extraem energia de fontes químicas. Pesquisas encontraram bactérias vivendo em profundidades de 3 km da crosta terrestre, com metabolismo baseado em hidrogênio. Extremófilos estimulam a ideia de que a vida pode existir em uma ampla gama de condições. Alguns cientistas ainda têm esperanças de que vida extraterrestre possa ser descoberta no Sistema Solar, embora a exploração do locam mais provável, Marte, tenha produzido resultados negativos até agora. Além do Sistema Solar os cientistas acreditam que a vida possa ser amplamente difundida. Nesses locais mais remotos, o cientistas estão interessados na possiblidade de existência de vida inteligente, contatável. Em 1960, o radioastrônomo estadunidense Frank Drake desenvolveu uma equação para prever o número de civilizações na Galáxia capazes de comunicação interestelar. Pelo fato de apenas poucos fatores da equação poderem ser estimados acuradamente, o resultado pode variar entre menos de um a milhões de plantas, dependendo dos valores supostos.

Buscando a Vida

Há muitas abordagens para as tentativas de identificar formas de vida extraterrestres. No Sistema Solar cientistas analisam imagens de planetas e luas, e enviam sondas para buscas em Marte e a lua Titã, de Saturno. Fora do Sistema Solar o principal foco até agora foi o Busca por Inteligência Extraterrestre [SETI] – conjunto de programas que envolve a varredura do céu em busca de sinais com a aparência de artificial. Também estão em andamento buscas por planetas de tipo terrestre em torno de estrelas próximas. Finalmente, Comunicação com Inteligência Extraterrestre [CETI] envolve mensagens de humanos por transmissão de sinais rumo a estrelas alvos. Em 1974 uma mensagem CETI em código binário foi enviada em direção ao aglomerado estelar M13, a 21000 anos-luz. Em 1999, a mensagem mais elaborada “Encontro 2001) foi enviada por um radiotelescópio ucraniano em direção a algumas estrelas de tipo solar próximas. Mesmo se os alienígenas captarem a mensagem, não esperamos receber respostas antes de um século.

O destino do Universo

Embora seja possível que o Universo possa ser eterno os tipos de estrutura que existem, como planetas, estrelas e galáxias, certamente não durarão para sempre. Em algum ponto, distante no futuro, nossa galáxia e outras serão rasgadas, ou sofrerão um alonga e prolongada morte fria. Ou ainda serão inteiramente esmagadas em um reverso do Big Bang. O destino do universo depende em grande medida da natureza da energia escura – uma força misteriosa oposta à gravidade que, recentemente se descobriu, desempenha um papel fundamental no comportamento do Universo em grande escala.

Big Crunch e Big Chill

Até recentemente os cosmólogos supunham que a taxa de expansão do Universo estava se desacelerando, devido ao efeito de “frenagem” da gravidade. Também se acreditava que um único fator – a densidade de massa-energia do Universo – decidiria qual de dois destinos básicos o aguardaria. Os cosmólogos medem a densidade tanto de massa como energia em conjunto, porque, como Einsteindemonstrou, massa e energia são equivalentes e intercambiáveis. Caso essa densidade, seja acima de um valor crítico a gravidade levará o Universo a deter sua expansão e a colapsar em uma implosão ígnea aniquilando tudo, o “Big Crunch”. Mas se a densidade do Universo for menor ou igual à densidade crítica, o Universo se expandirá para sempre, embora a uma taxa gradualmente desacelerada pela gravidade. Neste caso, o Universo acabará em uma longa morte fria “Big Chill”. Pesquisas com o objetivo de resolver esta questão revelaram que as propriedades do Universo sugerem que ele é extremamente próximo de ser “plano”, com a densidade exatamente igual à densidade crítica. Embora a parte da matéria-energia do Universo necessária para torna-lo plano seja difícil de se determinar, sua densidade deveria ser próxima do valor crítico, e assim seu destino mais provável seria a expansão eterna. Contudo, no final da década de 1990, esses modelos para o destino do Universo foram abalados por novas descobertas indicando que a expansão do Universo não está em desaceleração.

Energia escura

As descobertas vieram do estudo de supernovas em galáxias remotas. O brilho aparente dessas explosões estelares pode ser usado para calcular suas distâncias, e, comparando as distâncias com os redshifts das galáxias hospedeiras, pode-se calcular a taxa de expansão do Universo em diferentes épocas de sua história. Os cálculos mostraram que a expansão estava acelerando-se e que alguma força se opunha à gravidade, a “constante cosmológica” proposta por Einstein, como parte de sua teoria da relatividade geral. E existência dessa energia escura também responde pela massa-energia faltante no Universo para que ele seja plano e modifica o número de possíveis destinos do Universo.

A geometria do espaço

Os cosmólogos baseiam suas ideias sobre o destino do Universo parcialmente em modelos matemáticos. E os modelos indicam que, dependendo de sua densidade de massa-energia, o Universo tem três possíveis geometrias, cada uma com uma diferente curvatura do espaço-tempo, que pode ser representada por uma forma 2-D. Antes da descoberta da energia escura havia uma correspondência entre essas geometrias e o destino cósmico. Considerava-se que um Universo de curvatura positiva ou um universo “fechado” terminaria em um “Big Crunch”, e um universo de curvatura negativa ou “aberto”, em um “Big Chill”. Um univeso plano também terminaria em um “Big Chill”, mas a expansão do Universo acabaria por desacelerar até uma parada virtual. Com a proposição da energia escura essa correspondência não mais existe. Se a energia escura permanecer com intensidade constante o Universo se expandirá para sempre. Se a energia escura for capaz de reversão, qualquer tipo de universo teminaria em um Big Crunch. Atualmente, o modelo mais favorecido é o de um universo plano que sofrerá uma expansão acelerada. O cenário cataclísmico do “Big Rip”, onde a energia escura cada vez mais intensa dilacera o Universo, parece menos provável.

Uma morte fria

Se o Universo se esvaecer em um Big Chill, sua morte levará muito tempo. Nos próximos 1012(1 trilhão) de anos, as galáxias esgotarão seu gás para formar novas estrelas. Em cerca de 1025(10 trilhões) de anos no futuro, a maior parte da matéria do Universo estará em cadáveres estelares como buracos negros e anãs brancas apagadas, orbitando e caindo em buracos negros supermassivos no centro das galáxias (fótons), elétrons, pósitrons e neutrinos. Toda matéria que não esteja em buracos negros será despedaçada. Após 1067anos, os buracos negros começaram a se evaporar pela emissão de partículas e radiação, e em carca de 10100anos, mesmo os buracos negros supermassivos evaporarão. Um universo inteiramente frio e escuro será um mar difuso de fotos e partículas fundamentais.

 

Observadores de um objeto afastando-se, vêem suas linhas espectrais deslocadas para maiores comprimentos de onda (deslocamento para o vermelho, redshift)

 

Einstein exprimiu sua teoria de como a massa distorce o espaço-tempo em suas “equações de campo”. Os físicos, usando essas equações, descobriram que é nos campos gravitacionais mais intensos —onde objetos massivos e densos distorcem fortemente o espaço-tempo — que a realidade mais se desvia das previsões de Newton. 

Universo | Texto
Por José Roberto V. Costa
Zoológico espacial

Estrelas, planetas rochosos e gasosos, planetas anões, satélites, cometas e asteróides... Quais as diferenças entre todos eles? Chegou a hora de tirar todas as suas dúvidas e saber quem é quem neste verdadeiro zoológico espacial. Então, sem mais demora, vamos logo a classificação desses "bichos"! O Sol é uma estrela - uma estrela anã. Existem estrelas de volumes, massas e cores variadas. Mas há algo em comum a todas elas. As estrelas são constituídas, em sua maior parte, de hidrogênio e o hélio. Esses gases estão na forma de plasma, o quarto estado da matéria. Toda estrela é um corpo celeste feito de plasma que se mantém coeso devido a força gravitacional de sua enorme massa.

Mais uma coisa: em qualquer estrela ocorrem reações termonucleares. Reações no núcleo do átomo, convertendo hidrogênio em hélio (e hélio em outros elementos) com enorme liberação de energia. Estrelas geram radiação eletromagnética (luz visível, radiação e calor) em quantidades extraordinárias.

Estrelas não são habitáveis, mas somente graças a elas a vida pode surgir em algum planeta ao redor. Planetas não emitem luz e radiação como as estrelas. Mas além disso, para que um corpo celeste ser chamado de planeta ele deve:1) estar em órbita ao redor do Sol, 2) ter uma forma arredondada e3) ser um objeto de dimensão predominante entre os demais que estiverem em órbitas vizinhas.

O resultado prático dessa definição é que o Sistema Solar fica com oito planetas: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Uranoe Netuno.

Plutão, que foi descoberto em 1930, possui características físicas e orbitais que só recentemente foram melhor compreendidas pelos astrônomos. Por isso ele passa a integrar uma nova classe de objetos, os planetas anões. Pela definição, o Sistema Solar tem hoje cinco planetas anões: Plutão, Ceres, Éris, Haumea e Makemake. Esses astros não se encaixam no item 3 da definição de planeta apresentada acima.

Planetas extrasolares
A DEFINIÇÃO DE PLANETA, porém, foi pensada para o Sistema Solar. Para os planetas fora do domínio do Sol - os chamados extrasolares ou exoplanetas - as peculiaridades de cada sistema devem ser levadas em conta. Em comum a todos os planetas está o fato desses astros não produzirem energia por meio de reações termonucleares (como fazem as estrelas).

No final, contexto e localização definem quem é planeta e quem não é. E no reino das outras estrelas os astrônomos já identificaram tipos curiosos, como a Superterra - nada mais que um planeta rochoso maior que o nosso; o Júpiter quente - um gigante gasoso cuja órbita situa-se muito próxima de sua estrela-mãe, o que torna sua atmosfera turbulenta e aquecida; e também os planetas livres ou flutuantes - como são chamados aqueles que não giram em torno de nenhuma estrela e simplesmente vagam livres pelo espaço.

Os satélites naturais (também chamados luas) são corpos celestes que circulam em torno de um planeta. Satélites não estão em órbita de uma estrela, mas podem ser arredondados ou não. As luas de Marte, por exemplo, são irregulares.

A Lua é um satélite da Terra. O centro de gravidade do sistema Terra-Lua fica abaixo da superfície terrestre (embora distante do centro da Terra). No caso dos satélites de Júpiter, o centro de gravidade fica bem mais perto do centro desse planeta.

Se as massas de dois astros forem tais que o centro de gravidade fique a meio caminho entre eles, com num haltere, teremos um sistema planetário duplo - e nenhum satélite.

Os satélites são sempre menos maciços (e menores) que os planetas em torno dos quais orbitam. Porém, isoladamente, um satélite pode ser maior que um planeta. É o caso, por exemplo, de uma das luas de Saturno, Titã - maior que o planeta Mercúrio.

Asteróides são corpos rochosos que estão em órbita do Sol, mas são pequenos e têm formas irregulares. Às vezes são chamados de planetóides. Os asteróides são feitos do material remanescente da formação do Sistema Solar.

Os que estão situados logo após a órbita de Marte, no chamado Cinturão Principal, são provavelmente restos de matéria que nunca conseguiu se agregar para formar um planeta, devido a influência gravitacional de Júpiter.

Asteróide vem do grego aster, estrela, e oide, sufixo que indica semelhança. Isso se deveu as primeiras observações desses objetos, no século XIX. Na prática não existe tal similaridade.

Estima-se que existam mais de 400 mil asteróides com diâmetro superior a 1 km. Foram catalogados pouco mais de 3 mil. Há um segundo cinturão de Asteróides depois da órbita de Netuno, chamado Cinturão de Kuiper, mas esses objetos devem ter algumas características distintas daqueles do Cinturão Principal.

Cometas são ainda menores que asteróides e também são lembranças da época da formação do Sistema Solar. Verdadeiros fósseis espaciais, os cometas, no entanto, se desgastam a cada passagem, ao exibir suas caudas que nada mais são que material de seu próprio núcleo, uma "bola de gelo suja" de dióxido de carbono, metano, amônia, água e alguns minerais.

Nunca confunda cometas com meteoros, que são as populares "estrelas cadentes". Embora também venham do espaço, meteoros são um fenômeno atmosférico. Eles riscam um céu com velocidade, todas as noites, sendo visíveis no máximo por alguns segundos.

Cometas são corpos celestes que giram em torno do Sol como os planetas e asteróides, exibindo uma ou mais caudas quando se aproximam do astro-rei. Cometas são visíveis no céu por semanas ou meses. Eles não "passam voando".

Sistema Solar | Texto
Por John Updike
Visões de Marte

Mesmo depois de Copérnico ter proposto, em 1543, que o Sol, e não a Terra, ocupava o centro do nosso cosmo, a excentricidade dos movimentos celestes de Marte continuou a ser um enigma, até que, em 1609, Johannes Kepler mostrou que todas as órbitas planetárias eram elípticas (e não circulares), com o Sol situado em um dos focos da elipse. Nesse mesmo ano, pela primeira vez, Galileu observou o planeta com um telescópio. Até meados do século 17, esse equipamento foi de tal maneira aperfeiçoado que permitiu ver as calotas de gelo polares que cresciam e encolhiam segundo as estações, assim como acidentes geográficos, caso de Syrtis Major, um trecho escuro que era considerado um mar raso. O italiano Giovanni Cassini foi capaz de observar certas estruturas com a exatidão adequada para calcular a rotação do planeta. O dia marciano, concluiu, era 40 minutos mais longo que as nossas 24 horas (ele equivocou-se em apenas três minutos). Enquanto Vênus, um planeta vizinho maior e mais próximo, estava oculto por insondável cobertura de nuvens, Marte exibia uma superfície tão parecida com a terrestre que logo surgiram especulaçõe sobre a presença de formas de vida.

Telescópios potentes, ainda que prejudicados pelo efeito anuviador da espessa atmosfera de nosso planeta, tornaram possíveis mapas cada vez mais detalhados de Marte, delineando mares e até pântanos em áreas em que uma cobertura vegetal surgia e sumia ao sabor dos limites das calotas polares. Um dos mais acurados cartógrafos do planeta foi Giovanni Schiaparelli, que empregou o termo italiano canali para se referir às interligações lineares que notou entre supostos corpos dagua. O termo poderia ser traduzido para “conexões”, mas a palavra “canais” cativou a imaginação de todos, sobretudo a de Percival Lowell, um rico erudito de Boston que, em 1893, passou a defender a ideia de que os canais eram artefatos de uma civilização marciana. Como astrônomo, Lowell era amador, mas não maluco.

Ele construiu seu próprio observatório nas cercanias de Flagstaff, no Arizona, a mais de 2 mil metros de altitude e, em suas palavras, “longe da fumaça dos homens”. Seus desenhos da superfície de Marte foram considerados melhores que os de Schiaparelli até mesmo por astrônomos hostis a suas teorias. Lowell sugeriu que Marte era um planeta agonizante, cujos habitantes inteligentes estavam combatendo o ressecamento de seu globo com um sistema de canais de irrigação, os quais distribuíam a água cada vez mais rara armazenada nas calotas polares.

Tal concepção foi dramatizada por H.G. Wells em um clássico da ficção científica, A Guerra dos Mundos (1898). Os marcianos que invadem a Terra, embora de aparência medonha e impiedosos em suas ações, ainda assim são merecedores de uma dose de imparcial simpatia humana. Dotados de equipamentos avançados e inteligência apurada, eles espiam com inveja através do espaço o “nosso planeta mais cálido, esverdeado pela vegetação e acinzentado pela água”. [88]

No meio século subsequente de fantasia marciana, o planeta ocupou a posição de gêmeo espectral da Terra, sobre o qual eram projetadas nossas preocupações e angústias terrenas. Questões contemporâneas, como o colonialismo e o esgotamento dos recursos naturais encontraram espaço em utopias marcianas. Um ramo menor da ficção científica mostrou Marte como o local de uma pós-vida cristã; no livro Out of the Silent Planet (1938), C.S. Lewis inventou um mundo, Malacandra, que não conhecia o pecado original. A série de romances marcianos de Edgar Rice Burroughs apresentava o planeta como uma fronteira agreste e racialmente diversificada. Na esteira de Burroughs, os livretos de ficção acasalavam terrestres e marcianos, estes últimos em geral sob a forma de uma donzela, reunida a um viril agressor ariano originário de nosso violento planeta. Os etéreos e mulatos marcianos de olhos amarelos nas Crônicas Marcianas (1950), de Ray Bradbury, são extintos em meio à brutal pilhagem realizada por invasores humanos.

Contudo, toda a excêntrica megafauna marciana - os coriáceos amálgamas com tentáculos e cabeça desproporcional imaginados por Wells; os indivíduos quase rubros com 5 metros de altura concebidos por Garrett Serviss; os tharks cor de oliva com 3 metros e quatro braços de Burroughs; os hrossa parecidos com castores e os exímios pfiftriggi criados por Lewis; e as “criaturas grandes como ursos-polares” que Carl Sagan imaginou -, tudo isso se viu relegado ao esquecimento após a divulgação das fotos efetuadas pela sonda Mariner 4 em 14 de julho de 1965, desde uma altitude de 10 mil quilômetros. A região de Marte captada em sua primitiva câmera digital não mostrava nenhum canal, nenhuma cidade, nenhuma água e nenhum sinal de erosão. Marte era mais parecido com a Lua que com a Terra. As crateras intocadas indicavam que as condições da superfície não se tinham alterado em mais de 3 bilhões de anos. O planeta estava morto.

Duas outras sondas Mariner, lançadas em 1969, enviaram 57 imagens que, nas palavras da Nasa, “revelavam que Marte era coberto de crateras, estéril, gélido, quase sem atmosfera e inóspito a qualquer tipo de forma de vida similar às terrestres”.Noentanto, a Mariner 9, uma sonda orbital enviada em 1971, transmitiu, ao longo de 146 dias, 7 mil fotos de uma topografia variada e violenta, com imensos vulcões, dos quais o maior, o Olympus Mons, chega a 20 quilômetros de altitude, e um sistema de desfiladeiros, Valles Marineris, que se estende por 4 mil quilômetros, [89] a distância entre Nova York e Los Angeles. Enormes leitos fluviais escavados e ilhas em forma de lágrima atestam a ocorrência de inundações maciças no passado, presumivelmente de água, a condição da vida como a conhecemos aqui. Em 1976, duas sondas Viking pousaram bem na superfície marciana, e ali realizaram engenhosos experimentos químicos cujos resultados, no que tange à existência de vida no planeta, ainda hoje continuam a provocar discussões.

Nesse meio tempo, aumentou nosso conhecimento geográfico e geológico de Marte. O triunfante passeio do pequeno robô Sojourner, em 1997, foi seguido, em 2004, do êxito de dois robôs móveis, o Spirit e o Opportunity. Após quatro anos de movimentação no planeta vermelho, movidos por energia solar, os robôs gêmeos nos enviaram imagens com detalhes jamais vistos. As marcas paralelas das esteiras do Spirit e do Opportunity abrem caminho por entre rochas e poeira que durante eternidades não foram perturbadas sob céus rosados e Sol perolado.

Agora a missão Phoenix, cuja sonda possui braço articulado, coletores, imageadores e analisadores de excepcional complexidade, vai nos revelar o que há nos centímetros abaixo da superfície de pó, areia e gelo na região polar setentrional de Marte. Punhados da matéria de outro planeta terão seus elementos químicos volatilizados, separados e identificados, fornecendo mais dados sobre a história do cosmo. Enquanto isso, a Mars Reconnaissance Orbiter, a mais nova das três sondas em órbita ao largo do planeta, alimenta os computadores da Universidade do Arizona com fotos nítidas dos acidentes da superfície marciana. Algumas dessas imagens colorizadas artificialmente parecem abstratas, mas, para quem sabe ver, trazem incrível quantidade de informações científicas.

No fim das contas, o planeta vermelho não está tão morto assim: avalanches e tempestades de poeira foram registradas pelas câmeras e, nos pólos, a sublimação sazonal de gelo seco produz erosão e deslocamentos do solo. As dunas mudam de lugar; remoinhos de pó inscrevem garatujas na frágil superfície. Descubram-se ou não indícios de vida microbiana ou liquenácea em meio à montanha de dados acumulados pelos cientistas, Marte vem se tornando um vizinho cada vez mais próximo, e uma província do saber humano. Aquelas visões obscuras e fantasiosas do planeta do fogo bruxuleante acabaram nos proporcionando imagens panorâmicas e próximas mais belas que qualquer coisa imaginada. [91]

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4/24/2018 1:08:43 PM | Por David Rosenfeld
Livre
Teorias de Sartre sobre Grupos

Neste capítulo, desejo realizer uma breve introdução as teorias de J. P. Sartre, que permitem compreender, sob um novo enfoque, a origem e a dinâmica dos grupos. Para isso desenvolve suas ideias a respeito do que é um grupo, a dinâmica grupo sobre a base de duas tendências opostas e as diversas modalidades de relação em um grupo. Algumas vezes intercalo, entre as ideais de Sarte, alguns apontamentos pessoais.

O conceito de Grupo segundo Sartre:

Eu desejaria causar impacto ao leitor desde o começo (como ocorreu comigo mesmo) afirmando que, segundo Sartre, “o grupo não é”. Isto significa dizer que não é uma estrutura que se arma por completo e da qual possamos dizer: este é um grupo em sua plenitude total. O grupo não é nada mais que um ato. É um processo em marcha, em uma marque que, como veremos, é dialética.

Na teoria de Sartre, ocorre com o conceito de grupo algo similar com o que acontece com o conceito de liberdade. A liberdade não é uma propriedade que se tem e que uma vez possuída permite ao sujeito dizer: “sou livre”. Para Sartre, aquele que diz: “sou livre”, está morto. A liberdade é uma luta constante, não uma coisa, e o mesmo ocorre com o grupo.

Criticando os autores que pretendem explicar a vida do gruo sobre a base de forças (ou seja, como uma coisa física), Sartre assinala que terminam sendo coisificadores e coisificando os seres humanos que formam o grupo.

Na Crítica da Razão Dialéticapodemos ler que um grupo se constitui como uma tentativa de lutar contra a alienação e a serialidade, unidos os membros diante de um perigo comum[1].Em seu desenvolvimento, o gruo se alimenta das situações que tem que superar.

Também Sartre apresenta outro enfoque do grupo, o do vínculo de cada membro com o grupo e com os outros em uma relação dialética ternária: ou seja, nunca o vínculo é simplesmente binário e sim ternário.

Nesta relação dialética, homem e grupo são recíprocos e simultaneamente significantes e significados um para o outro. O grupo modifica e é modificado por seus integrantes.

Estes conceitos apontam para desenvolvimentos mais específicos do tema. Ao introduzi-los, desde o começo, procuro criar um contraste com outros conceitos, mais ou menos conhecidos, sobre os fenômenos grupais.

Disse que os conceitos de Sartre recém expostos apontam a desenvolvimentos mais específicos do tema. Com efeito, assinalam, por um lado, as polaridades entre as que oscila a luta do grupo para se constituir ou dispersar. Por outro lado, se referem à relação dos integrantes do grupo entre si e com os outros, de caráter dialético.

A Práxis Grupal

Dissemos que para Sartre o grupo está em constante luta contra a serialidade e a alienação. Por isso começarei explicando o que Sartre entende por serialidade e por alienação.

A serialidade é o tipo de relação humana na qual cada membro aparece como substituível por outro, ou seja, como indiferenciado (um número intercambiável). Este tipo de relação tem as caraterísticas do “idêntico”, no sentido de que qualquer um é visto como equivalente a outro. Isto significa conceder ao indivíduo um caráter de coisa e expressa a alienação do homem na serialidade.

A serialidade é o tipo de relação que se estabelece entre os indivíduos que compõem uma série. Por exemplo, um conjunto de pessoas que param diante de um poste esperando um ônibus constituem uma série. Cada um sente, frente ao outro, solidão, como se não tivesse nada em comum com ele (p. 308-309, Critique).

Desse modo, a solidão é vivida como a negação provisória, de cada um, das relações recíprocas com os outros”. Cada um não está isolado do outro somente elo seu corpo enquanto não conta que o outro lhe dê as cosas. Se trata de uma pluralidade de solidões (p. 305). Tal pluralidade de separações expressa a contraparte negativa da integração de indivíduos. Neste caso (solidões recíprocas), cada um vive “como reciprocidade, no centro social, a negação exteriorizada de toda interioridade”. Isto constitue a reciprocidade negativa, relação que caracteriza os cidadãos de uma grande cidade (p. 308, Critique).

Para explicar um pouco mais o conceito de serialidade, voltemos ao exemplo utilizado por Sartre, o de usuários agrupados de um ônibus. São pessoas de sexo, idade e meios diferentes que realizam, na banalidade cotidiana, a relação de solidão, de reciprocidade e de unificação pelo exterior. Se trata de uma série, não de um grupo. O coletivo, um ônibus, um cinema, somente vincula seus membros em uma série onde cada um é um número qualquer de um conjunto, por exemplo, de cem. Cada um pode ser substituído por outro. Além disso, cada um não tem nem ordem nem lugar próprio. Na serialidade há condições que fazem possível a passagem do grupo, o qual luta contra a série para não se dispersar.

Na teoria sartreana, a alienação aparece como algo inscrito no processo, como uma parte da práxis humana. O homem, desde seu nascimento, está em situação de alienado e tem que lutar contra isso, já que desde o começo tem que interiorizar a materialidade. O homem é “mediado” pelas coisas da mesma forma que as coisas são “mediadas” pelo homem. Sartre destaca que a alienação primeira, que se expressa através de outras formas, resida em que a própria práxis humana pode voltar-se contra os homens, convertendo-se em anti-práxis. A matéria, enquanto trabalhada, expressa o homem, o objetiva, mas também o aliena o trabalho envolvido nela. As duas formas primárias de alienação são, portanto, a alteração e a objetivação.

Agora bem, o grupo se constitui em uma luta contra a serialidade e a alienação, pela superação das mesmas. Com a superação da realidade se alcança uma unificação das liberdades e, com ela, a relação de reciprocidade. Para explicar este conceito de reciprocidade podemos recorrer ao mesmo modelo utilizado anteriormente. No ônibus, cada um é um número qualquer dentro de, por exemplo, um conjunto de cem.

A reciprocidade é a relação na qual um é para o outro com oele mesmo. Já não é o idêntico como coisa, mas o mesmo que ele, no sentido humano. Ocorre uma interiorização do outro como vínculo humano.

Para Sartre, as relações recíprocas e ternárias constituem o fundamento de todas as relações entre os homens, qualquer que seja a forma que posteriormente adotem. A reciprocidade consiste em que cada qual seja meio no projeto do outro. De tal modo, a reciprocidade implica:

  1. que o outro seja meio na exata medida em que eu mesmo sou meio, ou seja, que seja meio de um fim transcendente e não o meu meio;
  2. que eu reconheça o outro como práxis, ou seja, como totalização em curso, já que o integro como objeto de meu próprio projeto totalizador;
  3. que eu reconheça no seu movimento em direção aos seus próprios fins;
  4. que eu me descubra como objeto e como instrumento de seus fins da mesma forma que o outro se constitui, para meus fins, como instrumento objetivo.

Sartre distingue esta forma de reciprocidade de tipo positivo e a outra de caráter negativo.

O movimento que se institui na luta contra a serialidade e a alienação é o que Sartre denomina Práxis de grupo. Sartre a define como um atuar com consciência da alienação, como tentativa de transformação ativa.

A práxis, portanto, é o processo mediante o qual constantemente o homem busca dealienar-se (ou seja, realizar-se como homem) modificando-se e modificando o meio. É um “fazer” e um “compreender” em uníssono. Tanto fazer como o compreender são momentos distintos da práxis.

Para Sartre, a práxis é a relação fundamental do homem com o meio, que estrutura o campo prático como unidade de recursos e meios para satisfazer necessidades.

A práxis supões um agente material (o indivíduo orgânico) e a organização material de uma tarefa sobre a matéria. Nunca encontramos homens que não seja mediados pelo material ao mesmo tempo que eles o mediam, através das relações humanas, os setores materiais em si. Isto nos leva a explicar o que Sartre entende por mediação.

Na mediação os homens se relacionam entre si exteriorizando-se através da matéria trabalhada e, por sua vez interioriza a materialidade como algo humano. Isso significa dar um sentido humano. A práxis implica uma dupla mediação:

  1. a matéria como mediação entre os homens;
  2. os homens como mediação entre a matéria.

Na práxis, o homem busca desalienar-se

Mas o grupo não é somente uma tentativa de superar a serialidade. A luta contra a serialidade é um detonador do processo dialético, que é uma atividade totalizadora, cuja regra única é a totalização em curso. Sem dúvida, esta totalização do grupo sempre é buscada e nunca alcançada de maneira definitiva (totalidade perfeita e acabada).

O corre com a totalização o mesmo que ocorre com a liberdade; trata-se de uma práxis, de um processo constante, nunca concluído. É um processo em constante movimento para alcançar a totalidade perfeita que nunca é alcançada pelo grupo. Por isso dizemos que se trata de uma tentativa de totalização; o que se tenta descrever é um acontecer e nunca uma coisa.

É impossível calcular quando uma série se tranformará em grupo. Não se pode realizar cálculos préveios, porque isto supõe considerar que o processo é físico, não dialético, humano e terminaríamos por coisificá-lo. Por outro lado, não é possível préfixar a natureza humana.

Uma vez constituído, o grupo elege o tipo de relação entre seus membros. Nesta eleição, as estruturas grupais são constituídas pelo próprio grupo, o qual é simultaneamente sujeito e suporta essas estruturas as quais modifica.

Sartre afirma que formas de relação que um grupo elege são possibilidade do grupo para manter como tal.

Tipos possíveis de Relação em um Grupo

Existem diferentes possibilidades de relação em um grupo, que constituem momentos ou etapas. Estas se encontram ligadas entre si. Cada uma implica a possibilidade seguinte.

Sartre mostra diversas modalidades de relação, de luta para existir como grupo: ou seja, modalidades distintas na mediação: fusão, juramento, organização, fraternidade terror e institucionalização.

Cada possibilidade não constitui um momento que se dá necessariamente por um alei física que rege o funcionamento de todo o grupo, mas surge como uma decisão dos seres humanos que o compõe. As etapas se dão, se desenvolvem e chegam à seguinte somente se cada integrante e o grupo as assumem e decidem elegê-las. Portanto, as etapas podem não ocorrer.

Anteriormente, assinalei que para Sartre, cada etapa condiciona a seguinte. Assim, se uma pessoa toma consciência de sua alienação e sua solidão alienada, existem nela o embrião para a fusão; se a fusão é eleita, condiciona a aparição do juramento e com isso, da organização; se a organização é aceita, condiciona a aparição da fraternidade-terror e, se esta é assumida, se esboça o surgimento do processo de institucionalização.

Cada uma dessas etapas são momentos mais ou menos estáveis de certo tipo de relações, que marcam e dão sentido de criação em um grupo. Reiterarei porque me parece importante, que não se trata de uma ralação causal direta nem de uma simples implicação formal. Trata-se, pois, de uma ordem necessária, imposta pela práxis humana, mas não causal, posto que se o grupo não segue lutando por criar-se a si mesmo, a etapa seguinte pode não ocorrer. Logo, em um aporte pessoal, mostrarei como no nível da psicoterapia de grupos, várias pessoas em um consultório psicanalítico, podem estar juntas durante anos, sem constituir um grupo.

Fusão é o primeiro momento de saída da serialidade, com ela se supera a inércia petrificante. A fusão se desenvolve em um espaço, em um campo espacial próprio, unificado pelas participantes(a esse respeito, Sartre dá como exemplo o bairro que rodeia a Bastilha; este forma um campo espacial próprio, criado pelos homens em luta, o que possibilita o grupo).

Para que haja a fusão são necessárias certas condições. Por um lado, se requer certa tensão de necessidade: por exemplo, frio, fome, etc. na Revolução Francesa. Nessa ocasião, cada indivíduo isolado (serialidade) era um sofredor passivo. Por outro lado, também é necessário o desejo de rechaçar essa situação, ou seja, fazer aparecer como ameaças os causadores do frio, da fome da opressão. Esses causadores, convertidos em ameaças, lhes dão uma fisionomia humana. Sartre destaca, nesse sentido, que enquanto na clássica versão da história, rígida e estereotipada, se considera que o homem move os grupos humanos a uma revolução, por exemplo, que aparece então como reação diante da fome, em sua própria teoria já não se trataria de uma conduta para encher o estômago e ficar satisfeito, mas de uma conduta que surge na aparição do outro como existência ameaçante a nível de significado humano. Isso significa que somente a necessidade não basta; no exemplo, não basta que falte comida necessária, além disso, tem que haver outro que quite essa necessidade.

Com a passagem da serialidade à fusão, cada homem reage de uma maneira nova: não como um indivíduo isolado, mas como encarnação da pessoa comum ou grupo. Essa nova reação não tem em si nada de ágico: expressa simplesmente a reinteriorização de uma reciprocidade. A série se dissolve no grupo em fusão. Esse grupo ainda não estruturado é o contrário da solidão e da alienação.

Sartre utiliza exemplos históricos para mostrar sua teoria sobre a evolução dos grupos. Muitos deles percentem à Revolução Francesa.

Tomando o exemplo que dá Sartre, poderíamos ver como a unidade está sempre presente no grupo em fusão. Em 1789, em cada lugar de Paris, em cada momento, a partida se joga inteira e o movimento da cidade encontra sua finalidade e sua significação.

Perto da noite, Paris foi uma cidade nova. Tiros de canhão advertiam a população para que estivesse em guarda. As campanhas se uniam para dar o alarme. As sessenta igrejas onde se reuniam os habitantes, transbordavam de gente. Ali, cada um era orador.

Neste caso, o grupo em fusão é a cidade. Cada um era orador diante dos outros e diante de si mesmo e isto é a reinteriorização da reciprocidade em um grupo, dentre de um âmbito geográfico. Em cada momento, em cada lugar da cidade, em cada movimento, se realiza em cada homem a unidade sintética de Paris como gurpo em fusão.

Alguns sociólogos clássicos afirmar que em todo grupo existe uma recriprocidade intersubjetiva de dois. Se trataria, dentro dessas ideias, de uma relação binária eu-tu. Sartre se opõe a essas ideias afirmando que em todo grupo há reciprocidade, mas mediada. Sempre um grupo supõe a reciprocidade mediada por um terceiro. Trataria, portanto, não de uma relação binária, mas ternária.

Compreenderemos melhor isto se considerarmos que, para Sartre, os momentos da mediação são microprocessos de integração, por um lado, do grupo como um terceiro, e, por outro, de cada um dos integrantes como o terceiro grupo em relação aos outros membros. A mediação, portanto, não é linear nem rígida. É uma prática dialética plural, onde um terceiro está incluído. A relação eu-tu está mediada pelo grupo; na relação eu-grupo há um outro que se faz de terceiro.

O grupo não é um continente como coisa, mas cada grupo deve lutar para criá-lo. Por esse processo cada membro se integra a um grupo que ele mesmo faz: é, ao mesmo tempo, continente e conteúdo. O grupo cria seu próprio continente.

Para Sartre, os membros do grupo são terceiros, enquanto cada um totaliza as reciprocidades do outro. A relação de terceiro a terceiro não é já a alteridade mas a reciprocidade mediada. Tal mediação é dupla, enquanto é mediação do grupo entre os terceiros e mediação de cada terceiro entre o grupo e os outros terceiros.

As etapas sartreanas

Segundo Sartre, o grupo passa da fusão ao juramento, daí à organização, desta à fraternidade-terror e desta à institucionalização.

 Passo de uma etapa à outra não se dá por uma lei física imutável; trata-se, pelo contrário, de um processo.

 A origem de uma etapa traz em si o esboço da seguinte: o juramento possui uma implicação significativa que levará à organização (é uma relação dialética de significante e significado). É parte de um sistema de significações que se cria. Não é sucessão somente de etapas mas é criada em um contexto de significações assumidas.

São etapas significativas:

Fusão – Juramento – organização – Fraternidade-Terror – Institucionalização.

Assim como são significativas as etapas descritas na psicanálise:

Oral – Anal – fálica – Genital

Não são etapas somente genéticas, biológicas mas uma etapa surgirá com certo marco e condicionará a seguinte.

Fusão e Dimâmica de Grupo

Ao refererir-se ao nascimento de um grupo, Sartre se pergunta em que momento da Revolução de 14 de julho de 1789, Paris deixa de ser uma série e se transforma em um grupo. Esta pergunta também é validade para a psicoterapia de grupos e o training group (treinamento de grupo). Na psicoterapia grupal, o ponto de fusão é a chave para que o funciona como tal. O treinamento de grupo, a primeira experiência grupal é a luta contra a serialidade dos participantes que se veem pela primeira vez.

O grupo, ao constituir-se, existe uma fusão das distintas serialidades de cada um de seus integrantes. No interior do grupo existe desde então uma tensão permanente entre uma prática totalizante (quando o grupo “se trabalha”) e o traço constante de uma destotalização ou dispersão pela inércia e o retorno à serialidade. Pode-se dizer que isso se constitui o motor da dialética do grupo. A inércia provocaria a dispersão e a explosão do grupo. O primeiro esforço que se propõe um grupo é dissolver neles a serialidade.

O grupo de psicoterapia, a primeira sessão reflete a luta entre a série (a solidão, o narcisismo) e a expressão das antinomias entre as séries e o grupo. Na primeira sessão de um grupo, os integrantes são séries, entes individuais, que mais que dialogar fazem monólogos (segundo Pichon-Rivière, é o monólogo inicial). É importante, pois, descobrir o ponto de fusão.  O mesmo ocorre no treinamento de grupo.

Por exemplo, no treinamento de grupo a saída da serialidade grupal ocorre na sessão de terça feira com a conversa sobre o dinheiro e as gratificações e a conversa noturna. Depois dessa sessão, o grupo tornou-se muito mais solto e comunicativo que o habitual.

No dia seguinte, na quarta-feira, durante o café da manhã, o grupo espera sentado na lanchonete enquanto um dos integrantes que havia chegado mais tarde termina o seu café da manhã. A saída da série fica evidente já que todos o esperam e levantam da mesa unidos como um grupo.

A fusão pode surgir em diversos momentos da espiral evolutiva do grupo, mas em seu marco evolutivo (em uma semana de treinamento do grupo, ou três anos de uma psicoterapia, ou cem anos na história), denota ser exato como ponto de partida descrever um movimento.

O grupo pede uma certa estabilidade nos lugares em que se sentam, inclusive nos temas comuns.

Segundo Sartre, é uma prática reflexiva para a sobrevivência e não uma dissolução do grupo: as relações dos membos deste se estabelecem em uma comunidade que está atuando sobre si.

Sartre diz que esse momento do grupo em fusão, “em que cada um é ele mesmo” representa a livre constituição da práxis individual em práxis comum.

Ao aplicar esse enfoque do movimento grupal à prática psicoterapêutica, eu utilizo o conceito ponto de fusão e o de outro momento que assinala Sartre como um guia que permite marcar em que etapa o grupo está. Alguns que em diversos grupos permitem detectar o pondo de fusão são:

  1. o uso do nós em seu real valor;
  2. em termos de campo analítico-psicológico quando a vivência contratrasferencial do campo é a totalidade grupo-terapeuta, onde nada fica de fora;
  3. quando um dos integrantes pode expressar uma fantasia, um desejo ou uma atitude comum do grupo, ou seja, quando se postula o nós. Em outro tipo de grupo, um grupo de estudos no Seminário da Associação Psicanálitica Argentina; se percebeu também este momento quando um dos integrantes, com muitas qualidades de unir e reparar, se fez de porta-voz, através de uma nota escrita firmada por todos, pediu às autoridades permissão para modificar aspectos de aula;
  4. a aparição de sonhos que representam o grupo com suas fantasias, desejos;
  5. a fantasia ou vivência de que se romepeu a barreira do som, como nos aviões supersônicos, é típica como indício de fusão grupal. Se prestarmos a atenção, muitos observarão esta fato com frequência.
  6. Quando o grupo pode ter uma conduta comum, por exemplo, se reúne na porta do constultório para entrar todos juntos.

No que se refere à história, Sartre dá um exemplo dos ataques ao líder para alcançar uma pseudo-união; é o da fusão pelo temor externo. Sartre descreve o medo, ou o terror e a reação defensiva posterior que ocorreram nas jornadas de ofensiva popular de 14 de julho, de 20 de junho, de 10 de agosto, de 3 de setembro, quando se tomou por assalto as Tullerias porque se temia que saísse dali, de noite, um exército para matas as pessoas de Páris. Em algumas dessas jornadas não havia motivos reais mas somente desejos de pseudo-união por medo.

Os momentos de um grupo que assinala Sartre não aparececeram com oalgo fixo. Estnao em perpétuo movimento. Ocorre o mesmo com o conceito das posições segundo Melanie Klein: a posição esquizo-paranóide e a depressiva são descritas para certa idade pela primeira vez. Mas aparecem e reaparecem em cada movimento da vida em uma ou outra ocasião.

Juramento

 Juramento exige pertecência ao grupo de uma maneira mais intensa que do que ocorreu na fusão primeira, em um movimento dialético.

Segundo Sartre, a violência, o juramento, o terror estão em todas as partes como o primeiro estatudo comum. Ada juramento está condicionado por todos e é o reconhecimento em cada um de seu compromisso e de sua liberdade comprometida (liberdade de livre desenvolvimento prático atrás do compromisso) e que produz uma afirmação de pertencência ao grupo.

Isto não quer dizer que se provoque uma simbiose tal que todos o que pertencem a um grupo sejam iguais. Depois do ato criado do juramento. “somos nós próprios filhos, nosso invento comum”.

 Juramento significa o passo de uma menor diferenciação a outra maior. Sartre ao referir-se à relação prática do juramento em cada um, como “ele” mesmo com a multiplicidade já unificada, coincide com Picho-Rivière quando assinala, ainda que no nível distinto do grupo operativo, que a meta é que cada um leve dentro de a imagem do grupo funcionante.

A noção de juramento não faz mais do que designar o que permite esta passagem da ansiedade inicial à busca de acordo; é necessário decidir-se à fazer um grupo. Às vezes, o indício que permite detectar esta etapa é a necessidade de unanimidade total sobre um problema particular.

Organização

Ao referir-se ao grupo organizado, Sartre afirma que este aceita postular o problema da organização e o reencontro da organização de seu poder interno. Antes de começar a trabalhar, trata de organizar seu poder interno.

Na linguagem da dialética dos grupos, o grupo vai trabalhar-se. Se trabalha. Aqui começa, forçosamente, o problema da soberania, do autoritarismo do grupo.

Na origem do grupo em fusão cada um é soberano. O mesmo não ocorre no grupo organizado, onde a repartição de tarefas e o poder põem em perigo a soberania de todos.

 O grupo tem necessidade de organização e certo papel se chega, por exemplo, nomeando um presidente. Mas apesar disso controlar a ansiedade e o medo ao novo, os membros recusama perder a soberania ao definir um chefe. Esta organização supõe atadures, compromissos, retos do juramento.

Resumindo, o juramento seria uma tomada de decisão, logo o grupo se organiza, fazendo a práxis da organização.

Institucionalização

Na institucionalização se dá uma separação dos membros no espaço, diversidade de tarefas e isso impõe a separação e a especialização. Neste momento em que se consolidam os subgrupos, surge a possibilidade de uma dispersão, porque se dá o poder a alguns que se encarregam das funções, surge a estruturação do grupo pela especialização. O que isso significa? Que já é difícil reconhecer o outro com osenso exatamento o mesmo. A alteridade reaparace. Já não existe uma fusão. Luta-se contra essa alteridade inicial que levou, justamente, à formação do grupo. Trata-se de uma dialética circular. Há o perigo da alienação ao chegar à institucionalização contra este este perigo, não há juramento que os proteja.

O grupo institucionalizado é compreendido em três formas:

  1. Como objeto: visto de fora pelos não agrupados;
  2. Enquanto sujeito: visto de fora pelos ão agrupados para quem os membros do grupo explicam o que é o grupo e quais são seus fins (o outro é um possível sujeito do grupo) e
  3. Enquanto sujeito: visto de dentro, por cada um dos membros do grupo para os quais o grupo é significativo e razão de sua função individual e de sua objetivação possível como ação comum.

Na etapa institucional se postula a luta entre burocracia versus dispersão e crescimento (ou seja, aceitação das separações e mortes). Surgem fantasias de eternidade, de que o grupo nunca deixará de ser assim.

 

Psicologia - Psicologia social
7/29/2017 7:12:50 PM | Por Robert Graves
Livre
O Mito da criação Pelasgo

No início, Eurínome, a Deusa de Todas as coisas, ergueu-se nua do Caos, mas, não encontrando nenhum lugar firme onde pudesse descansar os pés, separou o mar do céu, dançando sozinha sobre as ondas. Dançou em direção ao sul, e atrás dela correu um vento novo e incomum, que lhe pareceu apropriado para o inicio de um trabalho de criação. Girado, ela se apoderou desse vento norte, esfregou-o entre as mãos e vejam só: a grande serpente Ofíon! Eurínome dançava para se esquentar, cada vez mais frenética, até que Ofíon, excitada, enrolou-se naqueles membros divinos com a intenção de copular com ela. A partir de então, o Vento Norte, também chamado Bóreas, fertiliza. Por isso as éguas frequentemente voltam as ancas para o vento e ficam prenhas sem a ajuda do garanhão. Da mesma maneira, Eurínome engravidou.

Em seguida, ela assumiu a forma de uma pomba e pôs o Ovo Universal, chocando-o por cima das ondas durante algum tempo. Ao seu comando, Ofíon enrolou-se sete vezes em torno desse ovo, completando a incubação, até ele se partir em dois. Para fora arremessaram-se todas as coisas que existem, seus filhos: o Sol a Lua, os planetas, as estrelas a Terra com suas montanhas e rios, suas árvores e plantas e todas as criaturas vivas.

Eurínome e Ofíon fizeram do topo do monte Olimpo seu lar, onde a serpente enfureceu a deusa ao reivindicar para si a autoria do Universo. Imediatamente, Eurínome esmagou-lhe a cabeça com o calcanhar, arrancou seus dentes e baniu-a para as cavernas escuras sob a Terra.

Em seguida, a deusa criou sete poderes planetários, designando uma titânida e um titã pra cada um deles: Téia e Hipérion para o Sol; Febe e Atlas para a Lua; Dione e Créos para o planeta Marte; Métis e Ceo para o planeta Mercúrio; Têmis e Eurínome para o planeta Júpiter; Tétis e Oceano para Vênus; Réia e Cronos para Saturno. Mas o primeiro homem foi Pelasgo, ancestral dos Pelasgos. Ele emergiu sob solo da Arcádia, seguido por alguns outros, a quem ensinou a construir cabanas, alimentar-se de frutos do carvalho e coser túnicas de couro de porco, como as usadas ainda hoje pelos mais pobres na Eubéia e na Fócida.

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Nesse sistema religioso arcaico não havia, até agora, deuses nem sacerdotes, mas apenas uma deusa universal e suas sacerdotisas, a mulher sendo o sexo dominante e o homem, sua vítima assustada. A paternidade não era honrada, e a concepção era atribuída ao vento, à ingestão de feijão ou, acidentalmente, de um inseto. A herança era matrilinear, e as cobras eram consideradas encarnações dos mortos. A deusa, como a Lua visível, tinha o título de Eurínome (vasta perambulação). Seu nome sumério era Iahu (pombo exaltada), título transferido mais tarde a Jeová, como o Criador. Foi uma pomba o animal que Marduk simbolicamente cortou em dois pedaços no Festival da Primavera Babilônica, ao inaugurar a nova ordem mundial.

Ofíon, ou Bóreas, é a serpente-demiurgo do mito hebraico e egípcio - na arte mediterrânea primitiva, a deusa aparece constantemente em sua companhia. Os pelasgos nascidos da terra, que parecem alegar terem surgido dos dentes de Ofíon, talvez tenham sido, originalmente, o povo neolítico das "Mercadorias Pintadas". Partindo da Palestina, eles chegaram à Grécia continental por volta de 3500 a.e.c. Setecentos anos mais tarde, os primeiros Helênicos - imigrantes da Ásia Menor vindos das Cíclades - encontraram-nos ocupando o Peloponeso. Mas o termo "Pelasgo" tornou-se aplicável livremente a todos os habitantes pré-helênicos da Grécia. Nesse sentido, Eurípides (citado por Estrabão V. 2.4) registra que os pelasgos adotaram o nome "dânaos" por ocasião da chegada de Dânao e suas cinquenta filhas a Argos. Severas críticas á sua conduta licenciosa (Heródoto: VI. 137) referem-se provavelmente ao costume pré-helênico de orgias eróticas. Estrabão diz, na mesma passagem, que aqueles que viviam perto de Atenas eram conhecidos como pelargi "cegonhas". Talvez fosse o pássaro totêmico dos pelasgos.

Os titãs "senhores" e as titânides tiveram suas contrapartes nas astrologias primitivas da Babilônia e da Palestina, onde constituíram divindades que governavam os sete dias da semana sagrada planetária. Talvez tenham sido introduzidos pela colônia cananéia, ou hitita, estabelecida no istmo de Corinto no início do segundo milênio a.e.c., ou até mesmo pelos primeiros helênicos. Mas, assim que oculto aos titãs foi abolido na Grécia e a semana de sete dias deixou de figurar no calendário oficial, seu número foi citado por alguns autores como sendo 12, provavelmente para fazê-los corresponder aos signos do Zodíaco. Hesíodo, Apolodoro, Estêvão de Bizâncio, Pausânias e outros autores oferecem listas inconsistentes de seus nomes. No mito babilônico, os governadores planetários da semana - Samas, Sin, Nergal, Bel, Beltis e Ninib - eram todos masculinos, exceto Beltis, a deusa do amor. Mas na semana germânica, que os celtas tomaram emprestada do mediterrâneo oriental, o domingo, a terça-feira e a sexta-feira eram governados por titânidas, e não por titãs. A julgar pelo estatuto divino das filhas e filhos emparelhados de Éolo e pelo mito de Níobe, quando o sistema chegou da Palestina á Grécia pré-helênica, decidiu-se por emparelhar uma titânida a cada um dos titãs, de maneira a salvaguardar os interesses da deusa. Mas, muito antes, os 14 eram reduzidos a uma companhia mista de sete. Os poderes planetários eram os seguintes: o Sol para iluminação; a Lua para encantamento; marte para crescimento; Mercúrio para sabedoria; Júpiter para justiça; Vênus para amor; Saturno para paz. Os astrólogos clássicos gregos ajustaram-se aos babilônios, atribuindo respectivamente os planetas a Hélio, Selene, Ares, Hermes (ou Apolo), Zeus Afrodite, Cronos - cujos equivalentes latinos supramencionados ainda nomeiam os dias das semanas francesa, italiana e espanhola.

No fim, miticamente falando, Zeus engoliu os titãs, inclusive uma representação primitiva de si mesmo - visto que os judeus de Jerusalém veneravam um Deus transcendente, composto por todos os poderes planetários da semana: teoria simbolizada pelo candelabro de sete braços e pelos sete Pilares da Sabedoria. Os sete pilares planetários instalados próximos á Tumba do Cavalo, em Esparta, eram, segundo Pausânias (II. 20.9), decorados á moda antiga, ligados possivelmente aos ritos egípcios trazidos pelos pelasgos (Heródoto II. 57). Não se sabe ao certo se os judeus tomaram essa teoria emprestada aos egípcios, ou vice-versa. Entretanto, o assim chamado Zeus heliopolitano, analisado por A. B. Cook em sua obra Zeus, tinha um caráter egípcio e ostentava bustos dos sete poderes planetários como ornamentos frontais e sua vestimenta e, com frequência, também bustos dos deuses olímpicos remanescentes como ornamentos da parte de trás. Uma estatueta de bronze desse deus foi encontrada em Tortos, na Espanha, e outra em Bibelôs, na Fenícia. Uma estela de mármore de Marselha exibe seis bustos planetários e uma figura completa de Hermes - revestido da maior importância nas estatuetas - presumivelmente como inventor da astronomia. Em Roma, Quintis Valerias Soramos alegava, de modo semelhante, que Júpiter era um deus transcendente, embora lá a semana não fosse respeitada como em Marselha, Bibelôs e provavelmente Tortos. Mas os poderes planetários foram limitados a jamais influenciar o culto olímpico oficial, pois eram vistos como não-gregos e portanto, não patrióticos: Aristófanes faz Trygalus dizer que a Lua e "aquele velho patife, o Sol" estão tramando um complô para trair a Grécia e fazê-la cair nas mãos dos bárbaros persas.

A afirmação de Pausânias de que os pelasgos foram os primeiros homens registra a continuidade de uma cultura neolítica na Arcádia até a época clássica.

Mitologia - Mitologia Grega
6/11/2017 7:33:29 PM | Por Pedro Pablo G. May
Livre
Festas Celtas Irlandesas

Entre os Tuatha dé Dannan, encontramos representadas as principais divindades irlandesas e, por extensão, as celtas. Os relatos de suas aventuras sustentam a tese de que no início deveriam tratar-se de grandes heróis ou caudilhos que com o passar do tempo "melhoraram de categoria", assimilando sua imagem a de seus colegas do continente. Das quatro grandes festas celtas do ano - Samain, Imbolc, Beltaine e Lughnasa -, esta última está diretamente relacionada com um dos mais conhecidos entre estes deuses.

Para os celtas, o dia começava com a noite e terminava com o nascer do sol - exatamente o contrário do que interpretamos nos dias de hoje - porque assim o sol derrotava a escuridão e encerrava cada data reinando no céu. Seu calendário era iniciado em 12 de novembro - Samain - e para festejá-lo, os celtas reuniam-se em grandes assembléias as quais compareciam todos: ricos e pobres, nobres e servos, reis e druidas, homens, mulheres e crianças. Nessas datas comemorativas - e principalmente na noite entre o último dia de outubro e o primeiro de novembro -, o véu que cobre o Outro Mundo se rasgava e era muito perigoso aventurar-se fora da proteção da tribo. Esta festa chegou aos dias de hoje transformada no Dia de Todos os Santos e no Dia de Finados.

Imbolc é afesta dedicada a Brighid (Santa Brigida), unia data de purificação.

Beltaine era festejada em 12 de maio para celebrar a chegada da primavera no hemisfério norte e estava ligada ao deus Bel, ou Belenos, o "Brilhante". Fogueiras eram acesas para comemorar a força da vida em eclosão após a superação de um rigoroso inverno. Perto dessa data, os casais empregavam todas as suas energias para que a mulher ficasse grávida para se somar ao carrossel da existência, assim como faziam muitas das espécies quando chegava aquela época do ano.

A Igreja Católica nunca viu com bons olhos a desinibição no que diz respeito ao ato sexual e condenou essa data e os festejos ligados a ela como se fosse algo diabólico, como uma reunião de bruxas. A Igreja transformou a data na sinistra noite de Wal-purgis, na qual "as esposas do demônio" assassinavam bebês inocentes para cozinhá-los e depois entregavam-se a orgias e bacanais inenarráveis.

Por fim, Lughnasa era a festa celebrada em 12 de agosto. Era a comemoração da colheita, celebrada por Lugh, em quem os romanos quiseram reconhecer Mercúrio, apesar de ser necessário levar em consideração que um estudo mais profundo do personagem o coloca a meio caminho entre o mesmo Mercúrio e Apolo, pois se trata do deus do sol por excelência entre os gaélicos.

História - Civilização Celta
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Matérias
7/30/2018 1:48:23 PM
Herodes, o visionário arquiteto da Terra Santa

Quase 13 quilometros ao sul de Jerusalém, onde as últimas oliveiras mirradas começam a se confundir com as extensões áridas do deserto da Judéia, ergue-se um morro, um cone íngreme de topo plano, parecido com um pequeno toilcão. Ali fica o Herodium, um dos grandiosos empreendimentos arquitetônicos de Herodes, o Grande, rei da Judéia.

História - Civilização Hebráica
6/21/2018 9:20:16 PM
Música por todos os sentidos

A percepção da música na antiguidade era muito mais abrangente no uso dos sentidos e na proposta de harmonização entre homem e universo.

Psicologia - Psicologia social
6/28/2018 6:02:22 PM
Tróia, a guerra de homens e deuses

"Canta ó deusa, a cólera de Aquiles, filho de Peleu, cólera funesta, que causou inumeráveis dores aos Aqueus, precipitou no Hades almas de heróis sem conta, e os corpos lhes tornou em presa de cães e pássaros carniceiros: cumpria-se a vontade de Zeus, desde a contenda que separou o Átrida, rei de guerreiros, e o divino Aquiles (...)"

Mitologia - Mitologia Grega
12/29/2018 3:25:24 PM
Napoleão, o construtor de uma nova Europa

Fronteiras redesenhadas, soberanias aviltadas, divisões territoriais arbitrárias: Napoleão subverte afisionomia da Europa à sua maneira. Mas, desprezando o direito à autodeterminação dos povos, ele desperta nacionalismos.

História - França
Todas as matérias
AAAP

abreviação de American association of applied psychology.

Dicionário de Psicologia APA (p. 19)
Os místicos espanhóis
John of The Cross - 1542-1591

O movimento místico que floresceu na Espanha no século XVI foi essencialmente castelhano. Seus principais praticantes foram sacerdotes e religiosos que normalmente estavam ligados a uma das grandes universidades ou casas religiosas de Castela. Os escritos - em castelha­no - estão impregnados de referências à paisagem e ao clima do planalto. Entretanto, embora seu trabalho tenha-se mostrado difícil de exportar, não era elitista em seu contexto, intenção ou origem. De fato, a principal característica dos místicos espanhóis foi que suas especulações fundiram vários ramos do pensamento e dos escritos renascentistas: o humanismo secular da escola florentina e de Erasmo, por um lado, e o profundo misti­cismo dos Países Baixos do século XV e os traços indíge­nas do catolicismo reformista na tradição do Cardeal Cisneros, por outro. Um dos místicos que exerceu uma enorme influência foi Luis de León, da Universidade de Salamanca, um inovador mestre, teólogo e poeta. As maiores luminares desse movimento foram Teresa d'Ávila e João da Cruz, que em seus poemas dirigidos à divindade, transmutaram o profano lirismo dos escrito­res do Renascimento, como Garcilaso de la Vega, numa espécie de êxtase religioso. Um misticismo de um tipo prático mais severo orientou a carreira de Inácio de Loyola, um basco tenaz e antigo soldado, que fundou a Companhia de Jesus. Tão consciente ficou a seguinte geração dos benefícios espirituais conseguidos pela Espanha, que os três foram canonizados juntos em 1622, durante uma semana inteira de festas celebradas em Madri, a mando de Felipe IV.

VINCENT, Mary. STRANDLING , R. A. O império católico, 1480-1670. in:__________. Espanha e Portugal. Grandes civilizações do passado. Barcelona/ES: Folio, 2008. Cap. 4. p.82
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Nero
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