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A filosofia na Roma imperial

Filosofia - Filosofia Clássica

A disposição à neurose obsessiva

Psicologia - Psicanálise

Conceito psicanalítico de humanidade

Psicologia - Psicanálise

Atletismo Romano

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Os Avatares de Vishnu

Mitologia - Mitologia Indiana

8/11/2020 7:32:20 PM | Por Paul Veyne
A filosofia na Roma imperial

Num livro célebre, porém mais erudito que perspicaz, Max Pohlenz surpreende-se com o fato de a filosofia dos antigos, diferentemente daquela dos modernos, ter feito a obrigação moral repousar sobre um fim interessado, a felicidade. Estranha falta de senso histórico; não se percebe muito bem como os antigos poderiam ter feito de outro modo, pois o que entendiam por filosofia não se propunha, como em Kant, investigar o fundamento da moral: uma filosofia propunha-se dar aos indivíduos um método de felicidade. Uma seita não era uma escola aonde se ia aprender ideias gerais; aderia-se a ela porque se buscava um método racional de tranquilização. A moralidade fazia parte dos remédios prescritos por algumas seitas, que explicavam a receita racionalmente; donde a confusão dos modernos. 

A seita epicurista e a dos estoicos propunham a mesma coisa a seus adeptos: uma receita baseada na natureza das coisas (quer dizer, filosoficamente baseada) para viver sem temer os homens, os deuses, o acaso e a morte, e para tornar a felicidade individual independente dos caprichos da sorte: para resumir seu objetivo idêntico, as duas seitas proclamavam que queriam fazer dos homens os iguais mortais dos deuses, tão tranquilos como estes. As diferenças estavam nas nuanças e nas metafísicas que justificavam esses remédios. O estoicismo — que só tem o nome em comum com o que Vigny entenderá por isso — prescrevia que, à força de exercícios de pensamento, o adepto se instalasse em estado de espírito heroico e inatingível; o epicurismo considerava que o indivíduo precisa basicamente se libertar de angústias ilusórias. Ao desdém da morte as duas medicinas acrescentam os dos desejos vãos; o dinheiro e as honras, bens perecíveis, não podem proporcionar uma segurança inquebrantável. O epicurismo ensinava a se liberar de falsas necessidades; recomendava viver de amizade e água fresca. Os estoicos justificavam seu método pela existência de uma razão e de uma providência que constituem suas bases, enquanto o atomismo epicurista libertava o homem dos medos vãos que nascem de suas superstições. Outra diferença era a seguinte: para os estoicos nossa natureza nos dita uma afeição inata pela família e pela cidade, tanto que, se não cumpríssemos nossos deveres para com elas, seríamos mutilados e infelizes; para os epicuristas, ao contrário, nossa felicidade só nos prescreve respeitar os pactos de amizade que firmamos por um cálculo de interesse bem compreendido. Uma e outra seita preveem que, se um homem enfermo ou perseguido não pode mais levar uma existência humana em seu grupo ou em sua cidade, o suicídio é o remédio autorizado ou até mesmo recomendado. 

As seitas não impunham a seus membros imperativos morais: elas lhes prometiam a felicidade; um letrado teria aderido livremente a uma seita se nela não encontrasse uma vantagem pessoal? Pela mesma razão, estoicismo e epicurismo eram intelectualismos: como tornar o homem heroico, como livrá-lo de suas angústias e de seus desejos vãos? Convencendo-lhe o intelecto. Sua vontade seguirá se lhe derem boas razões. Com efeito não percebemos bem que autoridade um diretor de consciência antigo poderia exercer sobre seus livres discípulos senão aquela da verdadeira persuasão: eles não eram submetidos a sua disciplina. 

É sensível a diferença entre essas seitas e a escola. Todos os membros da boa sociedade foram à escola na juventude e estudaram retórica; num momento qualquer de sua existência, alguns deles se "convertem" (era o termo empregado) à doutrina de alguma seita. Além desse punhado de ricos convertidos que vivem no ócio, a seita compreende também um punhado de convertidos provenientes da pequena burguesia; têm poucas rendas e devem aumentar seus magros recursos tornando-se preceptores de filosofia junto aos grandes, clientes de personagens poderosos ou conferencistas itinerantes. Fizeram profissão de se consagrar à filosofia e comprova-o a austeridade de sua vestimenta, quase um uniforme de filósofo. Entre os ricos, ao contrário, para os quais a profissão não constitui um ganha-pão, a profundidade do envolvimento comporta degraus; só os convictos levam sua profissão de fé ao ponto de usar a veste filosófica e a longa barba descuidada; a maioria dos convertidos abastados contenta-se com mudar detalhes simbólicos em seu modo de vida, ler as obras dos autores de sua seita e manter um preceptor de filosofia que lhe ensina os dogmas e com a simples presença atesta sua elevação espiritual. 

Por que hesitam em se entregar inteiramente à sabedoria? Repetem que não têm tempo, que o estado de seu patrimônio ou os deveres de seu cargo os absorvem inteiramente. Mas não será importante, indaga Sêneca, que consagrem seus pensamentos à doutrina, se cerquem de amigos filósofos e ocupem seu ócio conversando com seu filósofo doméstico? A um alto funcionário atraído pelo estoicismo Sêneca aconselha ater-se à leitura e aos exercícios de pensamento e abster-se de práticas mais ostensivas que sinceras, como usar a veste e a barba, recusar-se a jantar com baixelas de prata, dormir no chão. Para muitos espíritos, mudar de vida era uma preocupação terrivelmente séria, senão possível de realizar. 

IMPREGNAÇÃO FILOSÓFICA 

A gente simples zombava dos convertidos e apontava o contraste entre suas convicções e seu modo de vida, sua riqueza, sua mesa abundante e suas amantes. Zombarias ditadas pela inveja, pois o tipo humano do filósofo gozava de admiração e autoridade consideráveis; sem se rebaixar, um senador podia se vestir e escrever como filósofo, e assim também um imperador. Nenhum literato, poeta ou erudito romano desempenhou o papel de consciência pública; este reservava-se a tais intelectuais, com a condição de que seu modo de vida e sua aparência provassem que viviam de acordo com a respectiva doutrina. Têm o direito de repreender e aconselhar, e uma das suas missões consistia em dar conselhos de alta moralidade às cidades que visitavam: ao pregar no Areópago de Atenas, Paulo seguiu-lhes o exemplo. No fundo esses intelectuais compõem um clero leigo, e os zombeteiros inventam histórias jocosas sobre eles, como fariam na Idade Média com relação aos costumes dos clérigos. Determinado senador, condenado à morte, marcha para o suplício acompanhado de seu filósofo doméstico, que até o fim lhe prodigaliza exortações; outro mantém no leito de morte doutas conversações com um filósofo da seita cínica; um terceiro grande personagem, gravemente enfermo, ouve os conselhos de um estoico que o exorta ao suicídio e se deixa morrer de fome. 

Pois todo convertido a uma doutrina torna-se seu propagandista e esforça-se para atrair novos membros: Fulano é rebelde, mas o caso de Beltrano não é desesperador, pode-se ainda ganhá-lo para a sabedoria. Os cristãos plagiaram das seitas filosóficas as palavras conversão, dogma e heresia. Estoicismo, epicurismo, platonismo, cinismo, pitagorismo, cada seita continuava a doutrina de seu fundador e era ou se julgava fiel a seus dogmas; a ideia de livre procura era desconhecida. Cada seita transmitia a doutrina como um tesouro e polemizava ardorosamente contra a doutrina das outras seitas; as modificações, às vezes consideráveis, que ao longo dos séculos se introduziam nos dogmas eram involuntárias e escapavam aos próprios autores. Livres grupos de convictos, sem nenhuma hierarquia nem Organização, as seitas tinham o sectarismo de seus dogmas. 

Dogmas que servem como norma de vida ao punhado de convictos que se consideram membros da seita. Pierre Hadot mostrou-o bem: uma filosofia antiga existe não para ser considerada interessante ou verdadeira, mas para ser posta em prática, mudar uma existência, ser profundamente assimilada por meio de exercícios de pensamento, que servirão de modelo para os exercícios espirituais do cristianismo. Esses exercícios são cotidianos, são de todos os instantes: "Remete sem cessar ao espírito as verdades que muitas vezes ouviste e ensinaste"; é preciso meditar sobre os dogmas, rememorá-los, aplicá-los aos pequenos fatos da vida cotidiana, procurar com os olhos algum objeto que dê a oportunidade de repensar, recapitular as verdades, repeti-las em silêncio, se há terceiros presentes, e em voz alta, caso se esteja sozinho, ouvir ou pronunciar conferências públicas.... Deve-se anotar esses exercícios: Hadot acaba de mostrar que os Pensamentos de Marco Aurélio não são o diário íntimo que se julgaria; longe de reunir pensamentos esparsos e reflexão livre, esse livro consiste na aplicação muito metódica de um plano de meditação em três pontos. 

A influência da doutrina não se limita ao círculo da seita; ao preço de mudanças de função, difunde-se em toda a vida social, quando não política. O estoicismo torna-se uma ideologia bem pensante que todo mundo respeita; os estoicos põem tanto vigor em seu conformismo que parecem seus autores. Mais comumente, entre as pessoas cultas a filosofia deixa de ser método de vida e torna-se objeto de curiosidade intelectual. Cultura e ideologia: isso era a filosofia para um Cícero, que vivia mais como senador letrado que como filósofo; a filosofia desempenhou um papel considerável em sua vida intelectual e um papel quase nulo em sua vida pessoal, como entre os modernos. Ninguém pode se dizer culto se não tem algum conhecimento dos dogmas; médicos e arquitetos se dividem ao perguntar se sua arte deve ser filosófica ou ater-se ao empirismo. E sobretudo as doutrinas filosóficas fornecem material à retórica: um estudante ou um amador de arte retórica brilhará se enriquecer sua argumentação com razões filosóficas; os professores de eloquência indicavam as doutrinas mais úteis para um aprendiz de orador. A filosofia acabou sendo uma parte da vida cultural, de suas pompas e de suas obras, e todos acorriam às muito eloquentes conferências públicas de certos grandes tenores do pensamento. Parte integrante da cultura, dessa paideia que os letrados fixavam como finalidade ideal de sua vida ociosa; nos sarcófagos, a imagem do letrado lendo conviria indiferentemente a um filósofo, a um amante das belas-letras ou a um retórico. O gabinete de trabalho é um santuário da vida privada, guarnecido com obras de escritores e pensadores e decorado com seus bustos ou retratos. 

A impregnação filosófica da classe letrada, mesmo entre os membros que as seitas não atraem, é proporcional a sua capacidade de reflexão sobre si mesma, a um desdobramento; um traço dos costumes prova o sucesso dessa aculturação: a frequência dos suicídios refletidos. Suicídio do senador que sabe que o imperador se prepara para o acusar e condenar à morte; suicídio do enfermo ou do velho que deseja uma morte digna ou mais branda que suas enfermidades: tais mortes voluntárias eram admitidas e até admiradas; a coragem do enfermo que foge ao sofrimento no repouso eterno era altamente louvada pelos próprios filósofos, pois o suicida firmara com seu sangue uma ideia filosoficamente exata: só conta o valor do tempo vivido, que sua extensão não multiplica. A vida privada encontrava refúgio no autocontrole, nos dois sentidos da palavra: ter a força de dispor da própria vida e reconhecer seu direito soberano sobre ela, em lugar de submeter-se à decisão da natureza ou de um deus. No repouso eterno da morte, o suicídio sela o ideal de uma tranquilidade privada feita de renúncia aos bens ilusórios. 

A PREOCUPAÇÃO CONSIGO MESMO 

A busca de um jardim privado não configura um recuo em relação às normas éticas e sociais, mas sim uma "preocupação consigo mesmo", que era preocupação com segurança, à custa de certa diminuição da envergadura do eu. Em outras sociedades, a vida privada será secessão ou consistirá em soltar as velas de navegador solitário ou de corsário ao vento dos desejos, do sonho ou da fantasia individual. 

Tudo isso ao preço de uma falta de abandono e de narcisismo. Já se reparou como o sorriso é raro na arte greco-romana? A tranquilidade se obtém pela tensão e pela renúncia: nisso o mundo ancestral é tão tipificado como o dos samurais ou o da rainha Vitória. Ora, tudo isso nos parece um pouco pobre: moralistas, pensadores e poetas antigos parecem ingenuamente superestimar as possibilidades da autocensura, subestimar o censurado, ter uma visão estreita do homem. O exemplo mais rasteiro será o mais convincente. "Cada ser tem seu segredo; no devaneio, sem os outros saberem, ele encontra a paz, a liberdade, o arrependimento; há uma solidão entre amigos, entre amantes, entre todos os homens" — uma frase moderna tão simples seria impensável na Antigüidade. A partir do século II, um estilo novo, interiorizado, passa à hipocondria e à afetação; Élio Aristides é obcecado por sua saúde, Frontão troca as mais ternas cartas (e sem nada de equívoco) com seu discípulo Marco Aurélio, futuro imperador; Herodes Ático faz de seu luto mais sincero um ritual de dor; toda espontaneidade, com a ajuda da cultura, erige-se em doutrina e arte de viver. 

Mas o ancestralismo também foi outra coisa, que continua fazendo sonhar os cérebros humanos; censura também quer dizer elegância; sua arte, seus livros, até sua escrita, tudo é belo; comparemos uma inscrição grega ou latina do século I, com sua grafia digna de nossos maiores tipógrafos, e uma inscrição do Baixo Império ou da Idade Média... É no século II que se inicia a grande reviravolta; o mundo torna-se cada vez mais feio enquanto o homem interior já não se recusa o conhecimento não estilizado de seus sofrimentos, impotências e abismos. Ele não é mais um tolo elegante, um conselheiro não pagante. O cristianismo jogou e ganhou graças à antropologia menos estreita e distinta que inventou a partir dos Salmos. Será mais compreensivo, mais popular, porém mais autoritário: durante quinze séculos o autoritarismo pastoral, o comando das almas suscitariam mais apetites e revoltas, fariam correr mais sangue do que, tudo somado, a luta de classes ou o patriotismo.

SARCÓFAGOS BELOS DEMAIS 

O Império Romano era propriedade de uma nobreza de cidades, se não por um direito de sangue, ao menos pelo patrimônio e também por um espírito nobiliário que não se revela de imediato porque se investiu de signos cívicos. Esses notáveis, tão loucos por vaidades como os contemporâneos de Saint-Simon, hesitam ainda entre o ideal de homo civicus e o novo ideal de homo interior, e sua hesitação perdura por muito tempo. 

Prova disso, paradoxalmente, é um conjunto de imagens em que os numerosos discípulos de Frantz Cumont julgaram ler o contrário, o dos ricos sarcófagos com decoração mitológica: sejam essas imagens as últimas que o leitor levará da Cidade antiga. A partir do século II de nossa era, os romanos ricos passaram a ser sepultados em sarcófagos decorados com baixos-relevos. Ora, esses baixos-relevos nada têm de funerário: representam as mais diversas lendas da mitologia; o estilo é ainda menos fúnebre que o tema: tem o academismo próprio dos "antigos", o humanismo gracioso e sereno da arte grega; quando as figuras da lenda recebem do escultor uma animação patética, tal emoção é a mesma que um bom narrador sabe dar a seus relatos. A decoração desses sarcófagos fala de outra coisa que não a morte e o falecido: conta uma história que nada tem a ver com a questão. Temos no Louvre a nudez de Diana surpreendida no banho pelo indiscreto caçador Acteão, a quem a deusa pudica manda seus cães devorarem. 

O que fazem nas tumbas essas imagens graciosas e gratuitas? Como nada é mais fácil e tentador que as interpretações simbólicas, F. Cumont emprestou a tal mitologia um significado escatológico; ainda no Louvre, a lenda de Júpiter levando para o céu o belo Ganimedes a fim de transformá-lo em seu favorito e a de Castor e Pólux raptando as filhas do rei Leucipo seriam, assim, alegorias da alma do morto conduzido ao céu para a imortalidade. O problema é que essas interpretações engenhosas só são possíveis para algumas lendas, não necessariamente as mais representadas; o problema também é que elas brigam com o estilo. 

Então, se a decoração mitológica dos sarcófagos não é simbólica, devemos crer que seja apenas decorativa? Não: a iconografia, segundo Panofsky, tem seus limites, o significado de uma imagem não é somente conceitual e doutrinal. Longe de apenas adornar os sarcófagos, a mitologia servia para mergulhar os espectadores numa atmosfera não prosaica e não realista. Pouco importava a lenda representada: o importante é que os romanos fugiam da morte no mito em geral; as belas imagens míticas (tão diferentes do pathos da arte do retrato na mesma época) propunham-se estetizar a morte, não entristecê-la; nisso eram cheias de significado: nelas floresce pela última vez o ideal apolíneo da velha Grécia. Diante de um sarcófago de decoração mitológica, qual é a primeira reação do espectador? Sentir o medo da morte eclipsado atrás do maravilhoso, do fabuloso, do voluptuoso e da humanidade carnal. Ricos sarcófagos, desenvoltura moral diante do além: esses privilégios iam bem juntos. Ideal apolíneo feito de autocensura, virtude da riqueza satisfeita, quietismo e estetismo desejados e secretamente puritanos — há todo um mundo lá dentro.

Filosofia - Filosofia Clássica
8/7/2020 6:17:55 PM | Por Gregory J. Feist
Conceito psicanalítico de humanidade

A primeira delas [dimensões do conceito de humanidade] é determinismo versus livre-arbítrio. Se­gundo essa dimensão, a visão de Freud da natureza humana recairia facilmente no determinismo. Freud acreditava que a maior parte de nosso comportamento é determinada por eventos passados, em vez de moldada por objetivos presentes. Os humanos possuem pouco controle sobre suas ações pre­sentes, porque muitos de seus comportamentos estão enrai­zados nos esforços inconscientes que se encontram subjacen­tes à consciência presente. Mesmo que as pessoas, em geral, acreditem que estão no controle das próprias vidas, Freud insistia em que tais crenças eram ilusões.

A personalidade adulta é em grande parte determinada pelas experiências da infância - especialmente o complexo de Édipo -, que deixaram seus resíduos na mente inconsciente. Freud (1917/1955a) sustentava que a humanidade, ao longo de sua história, sofreu três grandes golpes em seu ego narcisista. O primeiro foi a redescoberta por Copérnico de que a Terra não é o centro do universo; o segundo foi a descoberta de Darwin de que os humanos são muito semelhantes a outros animais; o ter­ceiro golpe, e com maiores danos, foi a descoberta de Freud de que não estamos no controle de nossas próprias ações ou, como ele dizia, “o ego não é o mestre de sua própria casa" (p. 143).

Uma segunda questão relacionada é pessimismo versus otimismo. De acordo com Freud, ingressamos no mundo em um estado básico de conflito, com as forças de vida e morte operando em nós de lados opostos. O desejo inato de morte incessantemente nos impulsiona para a autodestruição ou a agressão, enquanto o impulso sexual nos faz buscar de modo cego o prazer. O ego experimenta um estado mais ou menos permanente de conflito, tentando equilibrar as demandas contraditórias do id e do superego, enquanto, ao mesmo tempo, faz concessões ao mundo externo. Sob o fino verniz da civilização, somos bestas selvagens com a tendência natu­ral a explorar os outros para a satisfação sexual e destrutiva. O comportamento antissocial se encontra logo abaixo da su­perfície mesmo da pessoa mais pacífica, acreditava Freud. Pior ainda, não estamos normalmente conscientes das ra­zões para nosso comportamento, nem estamos conscientes do ódio que sentimos por nossos amigos, família e aman­tes. Por essas razões, a teoria psicanalítica é essencialmente pessimista.

Uma terceira abordagem para referir a humanidade é a dimensão causalidade versus teleologia. Freud acreditava que o comportamento presente é, sobretudo, moldado por causas passadas, em vez de pelos objetivos para o futuro. As pessoas não avançam em direção a um objetivo autodeterminado; em vez disso, elas estão, de forma indefesa, presas na luta entre Eros e Tanatos. Esses dois impulsos poderosos forçam as pessoas a repetirem compulsivamente padrões primitivos de comportamento. Quando adultas, seu compor­tamento é uma longa série de reações. As pessoas tentam constantemente reduzir a tensão; aliviar as ansiedades; re­primir experiências desagradáveis; regressar a estágios do desenvolvimento anteriores mais seguros; e repetir de modo compulsivo comportamentos que são familiares e seguros. Portanto, classificamos a teoria de Freud como muito alta em causalidade.

Na dimensão consciente versus inconsciente, a teoria psi­canalítica, é óbvio, tende fortemente na direção da motivação inconsciente. Freud acreditava que tudo, desde os lapsos de linguagem até as experiências religiosas, é resultado de um desejo profundamente enraizado de satisfazer os impulsos sexuais ou agressivos. Esses motivos nos tornam escravos do nosso inconsciente. Ainda que tenhamos consciência de nossas ações, Freud acreditava que as motivações subjacentes a essas ações estavam profundamente incorporadas em nosso inconsciente, sendo, com frequência, muito diferentes do que acreditamos que sejam.

Uma quinta dimensão são as influências sociais versus biológicas. Como médico, o treinamento de Freud o predispôs a ver a personalidade humana a partir de um ponto de vista biológico. No entanto, Freud (1913/1953, 1985) frequente­mente especulava acerca das conseqüências das unidades so­ciais pré-históricas e sobre as conseqüências das experiências sociais precoces de um indivíduo. Como Freud acreditava que muitas fantasias e ansiedades infantis estavam enraizadas na biologia, nós o classificamos como baixo em influências sociais.

A sexta é a questão da singularidade versus semelhanças. Nessa dimensão, a teoria psicanalítica assume uma posição intermediária. O passado evolutivo da humanidade dá origem a muitas semelhanças entre as pessoas. No entanto, as expe­riências individuais, em especial aquelas do início da infância, moldam as pessoas de uma maneira única e explicam muitas das diferenças entre as personalidades.

Psicologia - Psicanálise
8/6/2020 7:06:47 PM | Por Pierre Grimal
Atletismo Romano

Na Grécia, os jovens formavam-se no ginásio e a sua cultura intelectual vinha completar a educação do corpo. O ginásio não tinha por objetivo principal formar os soldados da cidade: o desporto, os exercícios eram um fim em si, uma "arte da paz" da qual se esperavam espíritos bem formados, equilibrados e nobres. Preparavam-se, com os melhores súbditos, atletas dignos de figurar nos Jogos Magnos, contribuindo assim, poderosamente, para a gloria da sua cidade. Em Roma, pelo contrário, a ginástica pura, o atletismo considerado como uma arte só por si, foram ignorados durante muito tempo. No Campo de Marte, os jovens submetiam-se a um treino quase exclusivamente militar: saltar, lançar o dardo, correr com ou sem armas, nadar, endurecer ao frio e ao calor, combater à lança, montar a cavalo. Mas tudo isto sem arte, sem qualquer preocupação de perfeição estética. Assim, quando, em 169 a.e.c., Paulo Emilio organizou jogos gimnicos em Amphipolis, os soldados romanos não fizeram nenhuma figura brilhante.

Os primeiros espetáculos de atletas foram introduzidos em Roma por Fulvius Nobilior (um senador fileleno), em 186 a.e.c. Mas os concorrentes eram, na sua maior parte, gregos chamados expressamente para a circunstância. O público romano parece não se ter divertido muito. Preferia os jogos tradicionais, sobretudo os espetáculos de gladiadores e de animais. No entanto, no fim da República, as exibições de atletas multiplicam-se com os progressos da "vida grega". Pompeu quis que figurassem nas grandes festas que marcaram a inauguração do seu teatro, e César, em 46, mandou construir expressamente um estádio provisório no Campo de Marte. Muitos romanos tinham percorrido o pais grego, vivido acampados em cidades da Asia e possuíam alguns conhecimentos da arte, embora pensassem, no fundo de si mesmos, que não passava de um divertimento pueril, indigno de um homem livre. A atração das multidões gregas pelos triunfos atléticos parecia-lhes muito exagerada, mas o aspecto da gloria não podia deixar de os seduzir. As numerosas estátuas levadas para a Cidade depois das conquistas tinham acabado por impor os cânones de beleza masculina em que se inspirava o ideal do ginásio. E, progressivamente, este mundo novo abriu-se à sua frente.

Nas cidades latinas sempre tinham existido lutadores nas praças públicas, em volta dos quais se reuniam os papalvos. Augusto, diz-nos Suetônio, apreciava muito esses espetáculos e, por vezes, fomentava lutas contra especialistas gregos. Esperava, com certeza, que os Romanos ganhassem gosto pelo atletismo, gosto esse que possuía em alto grau. Cabe-lhe a honra de ter instituído, para comemorar a vitória de Accio, jogos celebrados de quatro em quatro anos na cidade de Nicópolis, que fundara perto de Accio. Com este gesto, pretendeu honrar Apolo, seu protetor, mas, conscientemente, imitava também o rito grego dos Grandes Jogos. Os jogos de Accio figuraram ao lado dos quatro grandes santuários helênicos, Olimpia, Delfos, Corinto e Nemeia. E o seu cerimonial reproduziu-se em Roma; acompanhou a festa anual do templo de Apolo Palatino. Realizaram-se, além dos combates de gladiadores, corridas de carros e exibições de atletas no Campo de Marte. Estes jogos de Augusto não sobreviveram ao seu reinado mas o hábito tinha sido adquirido e o atletismo ganhara o direito de cidade romana.

O triunfo dos jogos gregos foi, evidentemente, o reinado de Nero. Todavia, a atração pelo atletismo é anterior à instituição de um concurso quinquenal chamado Jogos Neronianos (Neronia) e a festa anual do ginásio do Campo de Marte, para a qual o imperador, seguindo o exemplo dos soberanos helenísticos, previu um abastecimento de óleo destinado ao uso de quem treinasse, fosse senador ou cavaleiro. Sabemos, por um tratado de Sêneca, o diálogo Sobre a Fugacidade da Vida, que data de 49 d.e.c., que os nobres romanos se apaixonavam pelos campeões de atletismo, que os acompanhavam ao estádio e à sala de treinos, que partilhavam dos seus lazeres e acompanhavam os progressos dos novos atletas, que honravam com a sua proteção. Nero, ao multiplicar os espetáculos deste gênero, estava longe, portanto, de inovar; limitava-se a seguir uma moda já bem estabelecida. A partir do seu reinado, os jogos gregos multiplicaram-se. Os célebres Jogos Capitolinos, instituídos por Domiciano, atraíram grandes multidões e continuaram a ser celebrados pelo menos durante todo o século II e o século III da nossa era. Domiciano (como já acontecera com Nero) acrescentara aos concursos de atletas competições puramente literárias, um prêmio de eloqüência grega, um prêmio de eloqüência latina, outro de poesia: O que nos mostra a que ponto o ideal da paideia é então aceito na sua totalidade. Excelência do espírito e excelência do corpo tornaram-se inseparáveis. Para estes concursos, Domiciano mandou construir um edifício especial, um estádio, no Campo de Marte: a forma deste estádio ainda hoje se pode ver na Praça Navone, que ocupa o mesmo espaço, e as suas substruções foram postas a descoberto por escavações recentes. Teria uma lotação de trinta mil espectadores, O que nos prova, diga-se o que se disser, a popularidade destes espetáculos. É verdade que alguns espíritos tradicionalistas criticavam esta consagração da paideia grega; a oposição senatorial não perdeu tão excelente ocasião de protestar contra esta infidelidade à tradição dos antepassados, mas Roma não podia entregar as cidades do Oriente o monopólio destes concursos de atletismo. Capital do mundo, era seu dever acolher todas as formas da gloria e não recusar, em nome de um conservantismo tacanho, um ideal de beleza humana que, no passado, inspirava o classicismo grego. Por outro lado, o que chocava a maior parte dos detractores do atletismo, era o fato de ele ter degenerado da sua principal finalidade e, em vez de moldar harmoniosamente o corpo dos que o praticavam, tendeu a produzir campeões de másculos hipertrofiados, a propósito dos quais Sêneca escreveu:

"Que ridícula ocupação, meu caro Lucilius, e tão pouco adaptada a um homem culto, essa que consiste em treinar os músculos, em fortalecer a nuca e adelgaçar as ancas. Quando te encontrares forte como desejas, de músculos bem salientes, verás que nem assim terás atingido a força nem o peso de um boi..."

Mas considerações como estas não impediam que muitos jovens tivessem lições de ginástica com atletas de renome, de orelhas esmagadas em gloriosos combates, e até mesmo que certos romanos ricos tivessem em casa, ao lado do medico, especialistas que os treinavam e chegavam a regular minuciosamente todos os pormenores da sua vida.

Os espetáculos de atletismo, importados da Grécia, nunca conseguiram agradar tanto as multidões romanas como os jogos nacionais, pois não pertenciam, como estes, a mais profunda tradição religiosa da cidade.

Os jogos romanos, na sua essência, são atos religiosos. Representam um ritual necessário para manter as desejadas boas relações entre a cidade e os deuses: este caráter primitivo nunca será esquecido e, já muito tarde, ainda era uso assistir em cabelo aos combates do anfiteatro ou as corridas do circo, como se assistia aos sacrifícios.

História - Civilização Romana
7/31/2020 8:20:23 PM | Por Philip Wilkinson & Neil Philip
Os Avatares de Vishnu

Vishnu, o protetor, é o terceiro deus da trindade hindu. Mitos primitivos afirmam que ele participou da criação do mundo. Um conta como um lótus contendo Brahma cresce do seu umbigo; outro, como três passadas suas definiram os mundos dos homens e dos deuses. Os mitos mais famosos descrevem seus dez avatares, as formas sob as quais ele vem à Terra para protegê-la do perigo e do mal. Os avatares são formas terrenas do deus Vishnu. Em seus três primeiros avatares, ele visitou a Terra para proteger o mundo de uma série de desastres naturais.

Como Matsia, o
peixe, ele avisou Manu,
o primeiro homem, do
grande dilúvio, para
que Manu pudesse construir um barco e sobreviver. Como Kurma, a tartaruga, Vishnu tomou o monte Mandara nas costas, quando os deuses agitaram o oceano para produzir o elixir da vida. Como Varana, o javali, ergueu a Terra acima da água, para que ela sobrevivesse a outra inundação. Os três avatares seguintes, Narasimha (o homem- leão), Vamana (o anão) e 1Parashurama (o brâmane), salvaram o mundo derrotando vários inimigos, inclusive demônios e guerreiros.

O sétimo avatar, Rama, o Senhor, é um dos maiores heróis da mitologia hindu, um guerreiro que destrói o cruel rei de Lanka. Sua estória é narrada no grande épico hindu, o Ramayana. Em seguida, Vishnu veio à Terra como Krishna, destinado a derrotar os demônios do mal e adorado como um deus. Krishna também é famoso pelas amantes, especialmente a fiei Radha, cuja venerarão é vista como um exemplo perfeito de como um adorador deveria amar a um deus.

Os dois últimos avatares de Vishnu têm um aspecto mais espiritual. O primeiro é Buda, o grande líder religioso e mestre, que abandonou uma vida de riquezas e privilégios para encontrar a satisfação espiritual. Ele mostra às pessoas o caminho para a iluminação, e, esperto, engana os malfeitores para que eles sejam punidos.

O último avatar ainda não surgiu. Seu nome é Kalkin. Dizem que ele aparecerá montado em um cavalo branco, banirá o mal e dará início a uma nova idade do ouro.

Mitologia - Mitologia Indiana
Os nomes de Odin
Odin | Desconhecido

O seu nome principal —Wotan ou Odin — que significava “fúria”, referia-se ao transe extático por ele causado nos berserks. Outros títulos mais significativos são: Grimnir (o encapuzado), Yggr (o terrível), Sigfadhir (pai da vitória), Valfadhir (pai dos escolhidos para morrer), Harbardr (barba grisalha), Har (o altíssimo), Hroptr (o malvado), Hetjan (o senhor), Fimbultjr (deus poderoso), Hrjotr (o trovejante), Svipall (o mutante), Hangagod (deus dos enforcados), Geirvaldr (senhor da lança), Oski (“realizador dos desejos”), Sangetal (aquele que encontra a verdade), Galdrfadhir (pai dos sons mágicos), Svithur (o sábio), Diauga Diottin (senhor dos fantasmas), Gangleri (o peregrino), Herteit (aquele que ama a guerra), Omi (aquele cuja voz ressoa), Svafnir (aquele que adormece os homens), Glapsvidr (o sedutor), entre muitos outros.

<<Expandir>>
7/27/2020 8:09:30 PM | História Viva, n. 01
Napoleão, o senhor da guerra

Durante a revolução, Napoleão Bonaparte é um oficial como os outros. Ou quase. Por seu gênio militar, será reconhecido e condecorado no exterior, o grande triunfo para se impor perante os franceses.

História - França
7/20/2020 8:16:52 PM | Psicanálise, n. 25
Chantagem emocional

Você tem medo de ser reprovado ou tem medo do outro? Você sente que deve a alguém uma obrigação, mesmo quando se trata de algo que você não deseja fazer ou que é ruim para você? Você se sente culpado quando não cede às solicitações do outro? Situações deste tipo fazem você se sentir que não é uma pessoa boa? De acordo com a autora Susan Forward, se você respondeu sim a qualquer destas pergun­ tas, existe uma grande chance de que você possa “sucumbir” à chantagem emocional do outro.

Psicologia - Psicanálise
7/10/2020 7:16:58 PM | MenteCérebro, n.141
Mentira, um componente da inteligência social

Psicólogos, antropólogos e neurobiólogos confirmam: mentir não é apenas um processo cognitivo complexo, mas também um componente decisivo de nossa competência social.

Psicologia - Neuropsicologia
12/31/2019 3:55:18 PM | MenteCérebro, n.141
Imagens de um cérebro apaixonado

Com ajuda da ressonância magnética funcional, pesquisadores descobriram como o amor subverte nossa vida emocional. 

Psicologia - Neuropsicologia
Todas as matérias
Igrejas visigodas e asturianas
Vincent & Strandling (2008, p. 40)

Comparada com muitas outras partes da Europa ociden­tal, a Espanha é particularmente dotada de igrejas que po­dem ser datadas em sua maioria ou em parte dos séculos VI e VII. Várias delas, como em San Juan de Banos, Palência, cuja fundação em 661 se acha registrada em uma inscrição que ainda se conserva, são conhecidas há muito tempo, mas outras não foram encontradas senão recentemente ou foram datadas neste período graças à pesquisa arqueológi­ca. Este trabalho significa que ainda continuam a ser acha­dos elementos de edifícios anteriores em igrejas extensa­mente reconstruídas em séculos posteriores. As igrejas visigodas variam em sua planta: todas são retilíneas, sem absides ou cúpulas, mas algumas têm normalmente altos e proeminentes cruzeiros; a planta de uma delas, São Fru­tuoso de Montélios, em Portugal, se baseia na cruz grega de braços iguais. A decoração varia também: San Pedro de la Nave, Zamora, é notável pelas cenas bíblicas e pelas cabe­ças de apóstolos talhadas nas colunas de sua interseção central, enquanto os desenhos decorativos de San Juan de Banos e outras são estritamente nãn-figurativos, e mos­tram tão-somente austeros motivos vegetais e geométricos em seus capitéis e cordões salientes. A conquista árabe de 711 não pôs fim à construção de igrejas na península, mas só no reino cristão de Astúrias remanescem em quantidade apreciável vestígios dos edifícios dos dois séculos seguintes. Uma campanha particularmente intensiva de construção de igrejas teve lugar durante o reinado de Afonso III (866- 910), e certo número delas mostra vestígios do que podem ter sido elaborados desenhos ou decorações de afrescos. As talhas de pedra nestas construções, no entanto, são em geral mais simples e menos bem executadas que em suas predecessoras visigodas.

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8/12/2020 6:10:42 PM | Por Jess Feist
Conceito da Psicologia individual de humanidade

Adler acreditava que as pessoas são, basicamente, autodeterminadas e que elas moldam suas personalidades a partir do significado que dão a suas experiências. O material cons­tituinte da personalidade é fornecido pela hereditariedade e pelo ambiente, porém a força criativa molda esse material e o coloca em uso. Adler, com frequência, enfatizava que o uso que as pessoas fazem de suas habilidades é mais importante do que a qualidade destas. A hereditariedade dota as pessoas com certas habilidades e o ambiente lhes dá a oportunidade de melhorá-las, mas somos, em última análise, responsáveis pelo emprego que damos a essas habilidades.

Adler também acreditava que as interpretações feitas acerca das próprias experiências são mais importantes do que as experiências em si. Nem o passado nem o futuro determi­nam o comportamento presente. Em vez disso, as pessoas são motivadas por suas percepções atuais do passado e suas expectativas presentes sobre o futuro. Essas percepções não correspondem, necessariamente, à realidade, e, como Adler (1956} afirmou, “os significados não são determinados pelas situações, mas nos determinamos por meio dos significados que damos às situações” (p. 208).

As pessoas se movem para a frente, motivadas por obje­tivos futuros, em vez de por instintos inatos ou forças causais. Esses objetivos futuros costumam ser rígidos e irrealistas, mas a liberdade pessoal dos indivíduos lhes permite refor­mular seus objetivos e, assim, mudar suas vidas. As pessoas criam suas personalidades e são capazes de alterá-las apren­dendo novas atitudes. Tais atitudes incluem uma compreen­são de que a mudança pode ocorrer, que nenhuma outra pessoa ou circunstância é responsável pelo que o indivíduo é e que os objetivos pessoais devem estar subordinados ao interesse social.

Ainda que nosso objetivo final seja relativamente fixo durante a primeira infância, permanecemos livres para mu­dar nosso estilo de vida a qualquer momento. Como o objeti­vo é fictício e inconsciente, podemos estabelecer e perseguir metas temporárias. Tais metas momentâneas não estão ri­gidamente circunscritas pelo objetivo final, mas são criadas por nós apenas como soluções parciais. Adler (1927) expres­sou essa ideia da seguinte forma: “Precisamos entender que as reações da alma humana não são finais e absolutas. Cada resposta é apenas parcial, temporariamente válida, mas de forma alguma deve ser considerada uma solução final de um problema” (p. 24). Em outras palavras, mesmo que nosso objetivo final seja estabelecido durante a infância, somos ca­pazes de mudar em qualquer ponto da vida. Contudo, Adler defendia que nem todas as nossas escolhas são conscientes e que o estilo de vida é criado por meio de escolhas conscien­tes e inconscientes.
Adler acreditava que, em última análise, as pessoas são responsáveis pela própria personalidade. A força criativa das pessoas é capaz de transformar sentimentos de inadequação em interesse social ou no objetivo autocentrado da supe­rioridade pessoal. Essa capacidade significa que as pessoas permanecem livres para escolher entre a saúde psicológica e a neurose. Adler considerava a postura autocentrada como patológica e estabeleceu o interesse social como o padrão de maturidade psicológica. As pessoas sadias possuem um alto nível de interesse social, mas, durante suas vidas, elas per­manecem livres para aceitar ou rejeitar a normalidade e se tornarem o que desejam.

Segundo as seis dimensões de um conceito de humani­dade listadas no Capítulo 1, classificamos Adler como muito alto em livre escolha e otimismo e muito baixo em causalida­de; moderado em influências inconscientes alto em sociais e na singularidade dos indivíduos. Em suma, Adler sustentava que as pessoas são criaturas sociais autodeterminadas, que se movem para a frente e são motivadas por ficções presentes para lutar pela perfeição para si mesmas e para a sociedade.

Psicologia - Psicologia individual
8/12/2020 5:48:55 PM | Por Tomi-Ann Roberts
Críticas à teoria da psicologia individual

A teoria de Adler, como a de Freud, produziu muitos con­ceitos que não se prestam facilmente à verificação ou à comprovação. Por exemplo, embora a pesquisa tenha mos­trado de forma consistente uma relação entre as lembran­ças da primeira infância e o estilo de vida atual de uma pes­soa (Clark, 2002), esses resultados não verificam a noção de Adler de que o estilo presente molda as LPs do indiví­duo. Uma explicação causal alternativa também é possível; isto é, as experiências precoces podem causar o estilo de vida atual. Assim, um dos conceitos mais importantes de Adler - o pressuposto de que o estilo de vida presente de­termina as LPs, em vez do contrário - é difícil de verificar ou refutar.
Outra função de uma teoria útil e, se­gundo esse critério, classificamos a teoria de Adler como acima da média. Boa parte da pesquisa sugerida pela psi­cologia individual investigou as LPs, o interesse social e o estilo de vida. Arthur J. Clark (2002), por exemplo, cita evidências que mostram que as LPs se relacionam a uma miríade de fatores de personalidade, incluindo dimensões de transtornos da personalidade, escolha profissional, estilo explanatório e processos e resultados da psicoterapia. Além disso, a teoria de Adler encorajou os pesquisadores a construírem várias escalas de interesse social, por exemplo, a Escala de Interesse Social (Crandall, 1975,1981), o índice de Interesse Social (Greever, Tseng, & Friedland, 1973) e a Escala de Interesse Social de Sulliman (Sulliman, 1973). A atividade de pesquisa sobre essas escalas e a ordem de nascimento, as LPs e o estilo de vida conferem à teoria ad­leriana uma classificação como moderada a alta quanto a sua capacidade de gerar pesquisa.

Como a teoria adleriana organiza o conhecimento den­tro de uma estrutura significativa? Em geral, a psicologia individual é ampla o suficiente para abranger possíveis explicações para muito do que é conhecido sobre o com­portamento e o desenvolvimento humano. Mesmo os comportamentos autoderrotistas e incoerentes podem ser enquadrados na estrutura da luta pela superioridade. A visão prática de Adler dos problemas vitais nos permite classificar sua teoria como alta na capacidade de extrair um sentido do que conhecemos sobre o comportamento humano.

Também classificamos a teoria adleriana como alta em sua capacidade de orientar a ação. A teoria serve ao psicoterapeuta, ao professor e aos pais como diretriz para a solu­ção de problemas práticos em uma variedade de contextos. Os praticantes adlerianos reúnem informações por meio de relatos sobre a ordem de nascimento, os sonhos, as LPs, as dificuldades na infância e as deficiências físicas. Eles, en­tão, usam essas informações para compreender o estilo de vida de uma pessoa e aplicar técnicas específicas que irão aumentar a responsabilidade individual do paciente e am­pliar sua liberdade de escolha.

A psicologia individual é internamente? Ela inclui um conjunto de expressões definidas operacional­mente? Mesmo que a teoria adleriana seja um modelo para autocoerência, ela sofre de uma falta de definições operacionais precisas. Expressões como objetivo de superio­ridade e força criativa não possuem definição científica. Em nenhum dos trabalhos de Adler elas são definidas de forma operacional, e o pesquisador irá procurar em vão por definições precisas que se prestem ao estudo rigoroso. A expressão força criativa é especialmente ilusória. O que é essa força mágica que toma os materiais brutos da heredi­tariedade e do ambiente e molda uma personalidade úni­ca? Como a força criativa se transforma em ações ou ope­rações específicas que o cientista precisa para desenvolver uma investigação? Infelizmente, a psicologia individual é um tanto filosófica - até mesmo moralista - e não oferece respostas a tais perguntas.

O conceito de força criativa é muito atraente. Prova­velmente, a maioria das pessoas prefere acreditar que elas são compostas de algo mais do que as interações da he­reditariedade e do ambiente. Muitas pessoas sentem, in­tuitivamente, que possuem algum agente (alma, ego, self, força criativa) dentro delas que lhes permite fazer escolhas e criar seu estilo de vida. No entanto, mesmo sendo tão convidativo, o conceito de força criativa é simplesmente uma ficção e não pode ser estudado no âmbito científico. Devido à falta de definições operacionais, portanto, classificamos a psicologia individual como baixa em coerência interna.

O critério final de uma teoria útil é a simplicidade, ou parcimônia. Segundo esse padrão, classificamos a psicologia individual como estando em torno da média. Ainda que os escritos desajeitados e desorganizados de Adler se desviem da classificação da teoria em relação à parcimônia, o traba­lho de Ansbacher e Ansbacher (Adler, 1956,1964) tornou a psicologia individual mais parcimoniosa. [66]

Psicologia - Psicologia individual
8/12/2020 3:53:46 PM | Por Gregory J. Feist
Pesquisas e cientificidade da psicologia individual

A teoria adleriana continua a gerar uma quantidade mode­rada de pesquisa sobre temas como os efeitos da ordem de nascimento, a escolha da carreira, os transtornos alimentares e o beber compulsivo. Cada um desses temas pode servir como fonte potencialmente rica para a compreensão de vários conceitos adlerianos. A fascinante teorização de Adler sobre a ordem de nasci­mento deu origem a uma quantidade impressionante de pesquisas. No entanto, estudos controlados dos efeitos da ordem de nascimento não são apenas difíceis de condu­zir como, com frequência, não resultam em efeito algum. Imaginem-se as muitas variáveis que devem ser contabili­zadas: o número geral, o gênero e o espaço de tempo entre os irmãos, e os eventos e o momento desses eventos que ocorrem nas famílias (mudanças, divórcio, morte, incapaci­dade, para citar apenas alguns). Poucos estudos conseguem incluir números suficientemente altos de participantes e controlar essas variáveis de forma que leve a resultados significativos. Os críticos argumentaram que, por todas essas razões, a pesquisa não pode confirmar nem negar as predições de Adler acerca do impacto da posição na ordem de nascimento sobre os indivíduos.

Em 1996, Frank Sulloway publicou Born to rebel: birth order, family dinamics and creative lives (Nascido para se rebelar: ordem de nascimento, dinâmica familiar e vidas cria­tivas), no qual ele apresentava um argumento evolutivo para os efeitos da ordem de nascimento na personalidade. Os irmãos, escreveu ele, competem por um recurso im­portante e frequentemente escasso: a afeição e a atenção parental. O sucesso dos filhos nessa competição reflete estratégias que impactam suas personalidades, e a posição [62] na ordem de nascimento prediz esses traços de persona­lidade estratégicos. Dando apoio à teoria de Adler, Sulloway propôs que os primogênitos têm mais probabilidade de serem orientados para a realização, ansiosos e confor­mistas, enquanto os nascidos posteriormente tendem a ser mais aventureiros, abertos à experiência, inovadores e rejeitam o status quo. No final das contas, eles precisam encontrar uma forma de ganhar o amor de seus pais que seja diferente da de seu irmão mais velho. Assim, “isto, mãe!" é provável de ser o grito de guerra de quem nas­ceu depois. De fato, a análise histórica de Sulloway constatou que os cientistas não primogênitos tinham muito mais probabilidade de aceitar novas teorias radicais quan­do propostas do que os cientistas primogênitos. Os pri­mogênitos tinham maior probabilidade de aderir a teorias convencionais e já estabelecidas.

Ainda que Sulloway tenha sido criticado por sua me­todologia (ele coletava dados biográficos sobre indivíduos históricos), Nascido para se rebelar trouxe vida nova para a pesquisa sobre a ordem de nascimento e, desde sua publi­cação, muitos e melhores estudos foram conduzidos para testar as predições de Adler. Em geral, os modelos de pes­quisa “entre famílias” (indivíduos de famílias diferentes são comparados) tendem a não confirmar a teoria de Adler, talvez devido à dificuldade nesses tipos de modelos de con­trolar as muitas variáveis que distinguem as famílias. Os modelos “intrafamília" pedem que os respondentes se com­parem com os próprios irmãos, e esses estudos tendem a confirmar a teoria de Adler. Por exemplo, Paulhus, Trapnell e Chen (1999) conduziram um estudo intrafamília com mais de mil famílias e constataram que os primogênitos eram indicados como os de realização mais elevada e mais conscienciosos, enquanto os que nasceram depois eram vistos como mais rebeldes, liberais e agradáveis. Em uma revisão muito recente de mais de 200 estudos da ordem de nascimento que apresentaram diferenças significativas entre os irmãos, Eckstein e colaboradores (2010) encontra­ram apoio para Adler e Sulloway: os primogênitos e filhos únicos são vistos como os de realização mais elevada; e os nascidos posteriormente, como mais rebeldes e interessa­dos no âmbito social.

Lembranças precoces e escolha da carreira

As LPs predizem a escolha da carreira entre os jovens es­tudantes? Adler acreditava que a escolha da carreira re­fletia a personalidade de uma pessoa. “Se sou chamado para orientação vocacional, sempre pergunto ao indivíduo em que ele era interessado durante seus primeiros anos de vida. Suas lembranças desse período mostram conclusivamente em que ele se treinou de modo mais contínuo" (Adler, 1958, conforme citado em Kasler 8t Nevo, 2005, p. 221). Os pesquisadores inspirados por Adler, portanto, previram que o tipo de carreira que o indivíduo escolhe quando adulto com frequência está refletido em suas lem­branças mais precoces.

Para testar essa hipótese, Jon Kasler e Ofra Nevo (2005) coletaram as lembranças mais precoces de 130 participantes. Essas lembranças foram, então, codificadas por dois juizes sobre o tipo de carreira que a lembrança refletia. As lembranças foram classificadas com o uso dos tipos de interesse vocacional de Holland (1973), a saber: realista, investigativo, artístico, social, empreendedor e convencional (ver Tab. 3.3 para a descrição desses tipos de interesse). Por exemplo, uma LP que reflete um inte­resse pela carreira social mais tarde na vida foi: “Fui para o jardim de infância pela primeira vez com 4 ou 5 anos. Não me lembro de meus sentimentos naquele dia, mas fui com a minha mãe e, no momento em que cheguei, conheci meu primeiro amigo, um menino com o nome de P. Tenho uma imagem clara de P. brincando nas grades e, de alguma forma, eu me juntei a ele. Eu me diverti o dia todo" (Kasler & Nevo, 2005, p. 226). Essa LP está centrada em torno da interação social e dos relacionamentos. Um exemplo de uma LP que reflete um interesse pela carreira realista foi: “Quando era pequeno, eu gostava de desmontar as coisas, especialmente aparelhos elétricos. Um dia quis descobrir o que havia dentro da televisão, então decidi pegar uma faca e abri-la. Como era muito pequeno, eu não tinha força e, de qualquer forma, meu pai me pegou e gritou comigo” (Kasler & Nevo, 2005, p. 225).

O interesse pela carreira dos participantes foi avaliado por uma medida de autorrelato, o questionário Self-Direc­ted Search (SDS) (Holland, 1973). O SDS mede os interesses vocacionais, os quais foram categorizados de forma inde­pendente dentro dos mesmos seis tipos de Holland em que as LPs foram incluídas. Os pesquisadores, assim, tinham as LPs e os interesses adultos pela carreira, ambos classifica­dos em seis tipos de carreiras, e eles queriam verificar se as LPs se correlacionavam com o interesse pela carreira.

Kasler & Nevo (2005) constataram que as LPs na in­fância combinavam com o tipo de carreira quando adultos, pelo menos para os três tipos de carreira que estavam bem-representados em sua amostra (realista, artístico e social). A direção geral do caminho da carreira de um participan­te podia ser identificada a partir de temas vistos nas LPs. Essas vinhetas estão coerentes com a visão de Adler das LPs e demonstram como o estilo de vida pode se relacionar com a escolha ocupacional.

Primeira infância e questões relacionadas à saúde

Os psicólogos têm estudado questões relacionadas à saúde durante muitos anos, mas apenas recentemente esses temas se tornaram de interesse para os psicólogos adlerianos. Como constatamos, a teoria de Adler da in­ferioridade, da superioridade e do interesse social pode [63 ser aplicada para explicar comportamentos relacionados à saúde, como os transtornos alimentares e o beber com­pulsivo.

Tabela 3

De acordo com Susan Belangee (2006), as dietas, a compulsão alimentar e a bulimia podem ser encaradas como formas comuns de expressar sentimentos de infe­rioridade. Belangee cita um relato de Lowes e Tiggeman (2003), que examinaram a satisfação com o corpo em 135 crianças de 5 a 8 anos e constataram que 59% delas que­riam ser mais magras. Outra pesquisa demonstrou que 35% dos jovens que faziam dieta progrediam para a dieta patológica. Os psicólogos adlerianos reconheceram essa progressão e a viram como um meio de compensar a infe­rioridade ou um sentimento de desvalorização. Em outras palavras, os transtornos alimentares e seu esforço pela su­perioridade são formas não sadias de compensar a inferio­ridade. Além do mais, os transtornos alimentares sugerem que o Gemeinschaftsgefühl, ou interesse social, está em desequilíbrio. Em vez de estarem focadas em ajudar os outros e sentirem compaixão pelos outros, as pessoas com esses transtornos estão muito mais centradas em suas próprias vidas e dificuldades (Belangee, 2007).

A teoria adleriana também pode lançar luz sobre outro comportamento relacionado à saúde: o beber compulsivo. Ainda que beber excessivamente entre universitários tenha uma história longa e destrutiva, esse padrão de consumo de álcool aumentou em anos recentes, com estudantes do sexo masculino tendo mais probabilidade do que estu­dantes do sexo feminino de beberem em excesso por um período relativamente curto (Brannon 8r Feist, 2007). Homens e mulheres universitários entre 18 e 30 anos pos­suem o risco mais elevado de consumir álcool excessiva­mente. No entanto, as taxas de ingestão de bebida entre esses estudantes não foram analisadas de acordo com a or­dem de nascimento, o gênero dos irmãos, a etnia e outros tópicos adlerianos. [64]

Recentemente, no entanto, Teresa Laird e Andrea Shelton (2006) examinaram a questão do beber compul­sivo e a ordem de nascimento entre homens e mulheres que freqüentam a universidade. As pesquisadoras encon­traram diferenças significativas entre os estudantes em relação à dinâmica familiar, ao consumo de álcool e aos padrões de ingestão alcoólica. Isto é, os filhos mais moços em uma família tinham maior probabilidade de beber compulsivamente, enquanto os outros filhos demons­traram mais restrições à ingestão. As autoras explicaram essa associação usando a teoria adleriana: os filhos mais moços são mais dependentes dos outros e, quando as pessoas que são dependentes estão estressadas, elas têm maior probabilidade de lidar com isso por meio do beber em excesso. [65]

Psicologia - Psicologia individual
8/11/2020 7:32:20 PM | Por Paul Veyne
A filosofia na Roma imperial

Num livro célebre, porém mais erudito que perspicaz, Max Pohlenz surpreende-se com o fato de a filosofia dos antigos, diferentemente daquela dos modernos, ter feito a obrigação moral repousar sobre um fim interessado, a felicidade. Estranha falta de senso histórico; não se percebe muito bem como os antigos poderiam ter feito de outro modo, pois o que entendiam por filosofia não se propunha, como em Kant, investigar o fundamento da moral: uma filosofia propunha-se dar aos indivíduos um método de felicidade. Uma seita não era uma escola aonde se ia aprender ideias gerais; aderia-se a ela porque se buscava um método racional de tranquilização. A moralidade fazia parte dos remédios prescritos por algumas seitas, que explicavam a receita racionalmente; donde a confusão dos modernos. 

A seita epicurista e a dos estoicos propunham a mesma coisa a seus adeptos: uma receita baseada na natureza das coisas (quer dizer, filosoficamente baseada) para viver sem temer os homens, os deuses, o acaso e a morte, e para tornar a felicidade individual independente dos caprichos da sorte: para resumir seu objetivo idêntico, as duas seitas proclamavam que queriam fazer dos homens os iguais mortais dos deuses, tão tranquilos como estes. As diferenças estavam nas nuanças e nas metafísicas que justificavam esses remédios. O estoicismo — que só tem o nome em comum com o que Vigny entenderá por isso — prescrevia que, à força de exercícios de pensamento, o adepto se instalasse em estado de espírito heroico e inatingível; o epicurismo considerava que o indivíduo precisa basicamente se libertar de angústias ilusórias. Ao desdém da morte as duas medicinas acrescentam os dos desejos vãos; o dinheiro e as honras, bens perecíveis, não podem proporcionar uma segurança inquebrantável. O epicurismo ensinava a se liberar de falsas necessidades; recomendava viver de amizade e água fresca. Os estoicos justificavam seu método pela existência de uma razão e de uma providência que constituem suas bases, enquanto o atomismo epicurista libertava o homem dos medos vãos que nascem de suas superstições. Outra diferença era a seguinte: para os estoicos nossa natureza nos dita uma afeição inata pela família e pela cidade, tanto que, se não cumpríssemos nossos deveres para com elas, seríamos mutilados e infelizes; para os epicuristas, ao contrário, nossa felicidade só nos prescreve respeitar os pactos de amizade que firmamos por um cálculo de interesse bem compreendido. Uma e outra seita preveem que, se um homem enfermo ou perseguido não pode mais levar uma existência humana em seu grupo ou em sua cidade, o suicídio é o remédio autorizado ou até mesmo recomendado. 

As seitas não impunham a seus membros imperativos morais: elas lhes prometiam a felicidade; um letrado teria aderido livremente a uma seita se nela não encontrasse uma vantagem pessoal? Pela mesma razão, estoicismo e epicurismo eram intelectualismos: como tornar o homem heroico, como livrá-lo de suas angústias e de seus desejos vãos? Convencendo-lhe o intelecto. Sua vontade seguirá se lhe derem boas razões. Com efeito não percebemos bem que autoridade um diretor de consciência antigo poderia exercer sobre seus livres discípulos senão aquela da verdadeira persuasão: eles não eram submetidos a sua disciplina. 

É sensível a diferença entre essas seitas e a escola. Todos os membros da boa sociedade foram à escola na juventude e estudaram retórica; num momento qualquer de sua existência, alguns deles se "convertem" (era o termo empregado) à doutrina de alguma seita. Além desse punhado de ricos convertidos que vivem no ócio, a seita compreende também um punhado de convertidos provenientes da pequena burguesia; têm poucas rendas e devem aumentar seus magros recursos tornando-se preceptores de filosofia junto aos grandes, clientes de personagens poderosos ou conferencistas itinerantes. Fizeram profissão de se consagrar à filosofia e comprova-o a austeridade de sua vestimenta, quase um uniforme de filósofo. Entre os ricos, ao contrário, para os quais a profissão não constitui um ganha-pão, a profundidade do envolvimento comporta degraus; só os convictos levam sua profissão de fé ao ponto de usar a veste filosófica e a longa barba descuidada; a maioria dos convertidos abastados contenta-se com mudar detalhes simbólicos em seu modo de vida, ler as obras dos autores de sua seita e manter um preceptor de filosofia que lhe ensina os dogmas e com a simples presença atesta sua elevação espiritual. 

Por que hesitam em se entregar inteiramente à sabedoria? Repetem que não têm tempo, que o estado de seu patrimônio ou os deveres de seu cargo os absorvem inteiramente. Mas não será importante, indaga Sêneca, que consagrem seus pensamentos à doutrina, se cerquem de amigos filósofos e ocupem seu ócio conversando com seu filósofo doméstico? A um alto funcionário atraído pelo estoicismo Sêneca aconselha ater-se à leitura e aos exercícios de pensamento e abster-se de práticas mais ostensivas que sinceras, como usar a veste e a barba, recusar-se a jantar com baixelas de prata, dormir no chão. Para muitos espíritos, mudar de vida era uma preocupação terrivelmente séria, senão possível de realizar. 

IMPREGNAÇÃO FILOSÓFICA 

A gente simples zombava dos convertidos e apontava o contraste entre suas convicções e seu modo de vida, sua riqueza, sua mesa abundante e suas amantes. Zombarias ditadas pela inveja, pois o tipo humano do filósofo gozava de admiração e autoridade consideráveis; sem se rebaixar, um senador podia se vestir e escrever como filósofo, e assim também um imperador. Nenhum literato, poeta ou erudito romano desempenhou o papel de consciência pública; este reservava-se a tais intelectuais, com a condição de que seu modo de vida e sua aparência provassem que viviam de acordo com a respectiva doutrina. Têm o direito de repreender e aconselhar, e uma das suas missões consistia em dar conselhos de alta moralidade às cidades que visitavam: ao pregar no Areópago de Atenas, Paulo seguiu-lhes o exemplo. No fundo esses intelectuais compõem um clero leigo, e os zombeteiros inventam histórias jocosas sobre eles, como fariam na Idade Média com relação aos costumes dos clérigos. Determinado senador, condenado à morte, marcha para o suplício acompanhado de seu filósofo doméstico, que até o fim lhe prodigaliza exortações; outro mantém no leito de morte doutas conversações com um filósofo da seita cínica; um terceiro grande personagem, gravemente enfermo, ouve os conselhos de um estoico que o exorta ao suicídio e se deixa morrer de fome. 

Pois todo convertido a uma doutrina torna-se seu propagandista e esforça-se para atrair novos membros: Fulano é rebelde, mas o caso de Beltrano não é desesperador, pode-se ainda ganhá-lo para a sabedoria. Os cristãos plagiaram das seitas filosóficas as palavras conversão, dogma e heresia. Estoicismo, epicurismo, platonismo, cinismo, pitagorismo, cada seita continuava a doutrina de seu fundador e era ou se julgava fiel a seus dogmas; a ideia de livre procura era desconhecida. Cada seita transmitia a doutrina como um tesouro e polemizava ardorosamente contra a doutrina das outras seitas; as modificações, às vezes consideráveis, que ao longo dos séculos se introduziam nos dogmas eram involuntárias e escapavam aos próprios autores. Livres grupos de convictos, sem nenhuma hierarquia nem Organização, as seitas tinham o sectarismo de seus dogmas. 

Dogmas que servem como norma de vida ao punhado de convictos que se consideram membros da seita. Pierre Hadot mostrou-o bem: uma filosofia antiga existe não para ser considerada interessante ou verdadeira, mas para ser posta em prática, mudar uma existência, ser profundamente assimilada por meio de exercícios de pensamento, que servirão de modelo para os exercícios espirituais do cristianismo. Esses exercícios são cotidianos, são de todos os instantes: "Remete sem cessar ao espírito as verdades que muitas vezes ouviste e ensinaste"; é preciso meditar sobre os dogmas, rememorá-los, aplicá-los aos pequenos fatos da vida cotidiana, procurar com os olhos algum objeto que dê a oportunidade de repensar, recapitular as verdades, repeti-las em silêncio, se há terceiros presentes, e em voz alta, caso se esteja sozinho, ouvir ou pronunciar conferências públicas.... Deve-se anotar esses exercícios: Hadot acaba de mostrar que os Pensamentos de Marco Aurélio não são o diário íntimo que se julgaria; longe de reunir pensamentos esparsos e reflexão livre, esse livro consiste na aplicação muito metódica de um plano de meditação em três pontos. 

A influência da doutrina não se limita ao círculo da seita; ao preço de mudanças de função, difunde-se em toda a vida social, quando não política. O estoicismo torna-se uma ideologia bem pensante que todo mundo respeita; os estoicos põem tanto vigor em seu conformismo que parecem seus autores. Mais comumente, entre as pessoas cultas a filosofia deixa de ser método de vida e torna-se objeto de curiosidade intelectual. Cultura e ideologia: isso era a filosofia para um Cícero, que vivia mais como senador letrado que como filósofo; a filosofia desempenhou um papel considerável em sua vida intelectual e um papel quase nulo em sua vida pessoal, como entre os modernos. Ninguém pode se dizer culto se não tem algum conhecimento dos dogmas; médicos e arquitetos se dividem ao perguntar se sua arte deve ser filosófica ou ater-se ao empirismo. E sobretudo as doutrinas filosóficas fornecem material à retórica: um estudante ou um amador de arte retórica brilhará se enriquecer sua argumentação com razões filosóficas; os professores de eloquência indicavam as doutrinas mais úteis para um aprendiz de orador. A filosofia acabou sendo uma parte da vida cultural, de suas pompas e de suas obras, e todos acorriam às muito eloquentes conferências públicas de certos grandes tenores do pensamento. Parte integrante da cultura, dessa paideia que os letrados fixavam como finalidade ideal de sua vida ociosa; nos sarcófagos, a imagem do letrado lendo conviria indiferentemente a um filósofo, a um amante das belas-letras ou a um retórico. O gabinete de trabalho é um santuário da vida privada, guarnecido com obras de escritores e pensadores e decorado com seus bustos ou retratos. 

A impregnação filosófica da classe letrada, mesmo entre os membros que as seitas não atraem, é proporcional a sua capacidade de reflexão sobre si mesma, a um desdobramento; um traço dos costumes prova o sucesso dessa aculturação: a frequência dos suicídios refletidos. Suicídio do senador que sabe que o imperador se prepara para o acusar e condenar à morte; suicídio do enfermo ou do velho que deseja uma morte digna ou mais branda que suas enfermidades: tais mortes voluntárias eram admitidas e até admiradas; a coragem do enfermo que foge ao sofrimento no repouso eterno era altamente louvada pelos próprios filósofos, pois o suicida firmara com seu sangue uma ideia filosoficamente exata: só conta o valor do tempo vivido, que sua extensão não multiplica. A vida privada encontrava refúgio no autocontrole, nos dois sentidos da palavra: ter a força de dispor da própria vida e reconhecer seu direito soberano sobre ela, em lugar de submeter-se à decisão da natureza ou de um deus. No repouso eterno da morte, o suicídio sela o ideal de uma tranquilidade privada feita de renúncia aos bens ilusórios. 

A PREOCUPAÇÃO CONSIGO MESMO 

A busca de um jardim privado não configura um recuo em relação às normas éticas e sociais, mas sim uma "preocupação consigo mesmo", que era preocupação com segurança, à custa de certa diminuição da envergadura do eu. Em outras sociedades, a vida privada será secessão ou consistirá em soltar as velas de navegador solitário ou de corsário ao vento dos desejos, do sonho ou da fantasia individual. 

Tudo isso ao preço de uma falta de abandono e de narcisismo. Já se reparou como o sorriso é raro na arte greco-romana? A tranquilidade se obtém pela tensão e pela renúncia: nisso o mundo ancestral é tão tipificado como o dos samurais ou o da rainha Vitória. Ora, tudo isso nos parece um pouco pobre: moralistas, pensadores e poetas antigos parecem ingenuamente superestimar as possibilidades da autocensura, subestimar o censurado, ter uma visão estreita do homem. O exemplo mais rasteiro será o mais convincente. "Cada ser tem seu segredo; no devaneio, sem os outros saberem, ele encontra a paz, a liberdade, o arrependimento; há uma solidão entre amigos, entre amantes, entre todos os homens" — uma frase moderna tão simples seria impensável na Antigüidade. A partir do século II, um estilo novo, interiorizado, passa à hipocondria e à afetação; Élio Aristides é obcecado por sua saúde, Frontão troca as mais ternas cartas (e sem nada de equívoco) com seu discípulo Marco Aurélio, futuro imperador; Herodes Ático faz de seu luto mais sincero um ritual de dor; toda espontaneidade, com a ajuda da cultura, erige-se em doutrina e arte de viver. 

Mas o ancestralismo também foi outra coisa, que continua fazendo sonhar os cérebros humanos; censura também quer dizer elegância; sua arte, seus livros, até sua escrita, tudo é belo; comparemos uma inscrição grega ou latina do século I, com sua grafia digna de nossos maiores tipógrafos, e uma inscrição do Baixo Império ou da Idade Média... É no século II que se inicia a grande reviravolta; o mundo torna-se cada vez mais feio enquanto o homem interior já não se recusa o conhecimento não estilizado de seus sofrimentos, impotências e abismos. Ele não é mais um tolo elegante, um conselheiro não pagante. O cristianismo jogou e ganhou graças à antropologia menos estreita e distinta que inventou a partir dos Salmos. Será mais compreensivo, mais popular, porém mais autoritário: durante quinze séculos o autoritarismo pastoral, o comando das almas suscitariam mais apetites e revoltas, fariam correr mais sangue do que, tudo somado, a luta de classes ou o patriotismo.

SARCÓFAGOS BELOS DEMAIS 

O Império Romano era propriedade de uma nobreza de cidades, se não por um direito de sangue, ao menos pelo patrimônio e também por um espírito nobiliário que não se revela de imediato porque se investiu de signos cívicos. Esses notáveis, tão loucos por vaidades como os contemporâneos de Saint-Simon, hesitam ainda entre o ideal de homo civicus e o novo ideal de homo interior, e sua hesitação perdura por muito tempo. 

Prova disso, paradoxalmente, é um conjunto de imagens em que os numerosos discípulos de Frantz Cumont julgaram ler o contrário, o dos ricos sarcófagos com decoração mitológica: sejam essas imagens as últimas que o leitor levará da Cidade antiga. A partir do século II de nossa era, os romanos ricos passaram a ser sepultados em sarcófagos decorados com baixos-relevos. Ora, esses baixos-relevos nada têm de funerário: representam as mais diversas lendas da mitologia; o estilo é ainda menos fúnebre que o tema: tem o academismo próprio dos "antigos", o humanismo gracioso e sereno da arte grega; quando as figuras da lenda recebem do escultor uma animação patética, tal emoção é a mesma que um bom narrador sabe dar a seus relatos. A decoração desses sarcófagos fala de outra coisa que não a morte e o falecido: conta uma história que nada tem a ver com a questão. Temos no Louvre a nudez de Diana surpreendida no banho pelo indiscreto caçador Acteão, a quem a deusa pudica manda seus cães devorarem. 

O que fazem nas tumbas essas imagens graciosas e gratuitas? Como nada é mais fácil e tentador que as interpretações simbólicas, F. Cumont emprestou a tal mitologia um significado escatológico; ainda no Louvre, a lenda de Júpiter levando para o céu o belo Ganimedes a fim de transformá-lo em seu favorito e a de Castor e Pólux raptando as filhas do rei Leucipo seriam, assim, alegorias da alma do morto conduzido ao céu para a imortalidade. O problema é que essas interpretações engenhosas só são possíveis para algumas lendas, não necessariamente as mais representadas; o problema também é que elas brigam com o estilo. 

Então, se a decoração mitológica dos sarcófagos não é simbólica, devemos crer que seja apenas decorativa? Não: a iconografia, segundo Panofsky, tem seus limites, o significado de uma imagem não é somente conceitual e doutrinal. Longe de apenas adornar os sarcófagos, a mitologia servia para mergulhar os espectadores numa atmosfera não prosaica e não realista. Pouco importava a lenda representada: o importante é que os romanos fugiam da morte no mito em geral; as belas imagens míticas (tão diferentes do pathos da arte do retrato na mesma época) propunham-se estetizar a morte, não entristecê-la; nisso eram cheias de significado: nelas floresce pela última vez o ideal apolíneo da velha Grécia. Diante de um sarcófago de decoração mitológica, qual é a primeira reação do espectador? Sentir o medo da morte eclipsado atrás do maravilhoso, do fabuloso, do voluptuoso e da humanidade carnal. Ricos sarcófagos, desenvoltura moral diante do além: esses privilégios iam bem juntos. Ideal apolíneo feito de autocensura, virtude da riqueza satisfeita, quietismo e estetismo desejados e secretamente puritanos — há todo um mundo lá dentro.

Filosofia - Filosofia Clássica
8/11/2020 6:22:26 PM | Por Tomi-Ann Roberts
Pesquisas e cientificidade da psicanálise

O status científico é uma das questões mais calorosamen­te contestadas e discutidas em toda a teoria freudiana. Ela era ciência ou uma mera especulação de gabinete? Freud propôs hipóteses testáveis? Suas idéias são experimental­mente verificáveis, testáveis ou refutáveis? Karl Popper, o filósofo da ciência que propôs o critério de refutabilidades, contrastou a teoria de Freud com a de Einstein e concluiu que a primeira não era refutável e, por­ tanto, não era ciência. Seria justo dizer que, durante boa parte do século XX, a maioria dos psicólogos acadêmicos rejeitou as idéias freudianas, entendendo-as como especu­lações fantasiosas que podem conter insights sobre a natu­reza humana, mas que não eram ciência.

Durante os últimos 5 a 10 anos, o status científico da teoria freudiana começou a mudar, pelo menos entre certos círculos científicos de psicólogos cognitivos e neurocientistas. A neurociência está atualmente experimen­tando um crescimento explosivo por meio de suas inves­tigações da atividade cerebral durante uma variedade de tarefas cognitivas e emocionais. Muito desse crescimento se deveu à tecnologia de imagem cerebral garantida pelo exame de imagem por ressonância magnética funcional (IRMf), que mapeia regiões do cérebro que estão ativas du­rante tarefas particulares. Quase ao mesmo tempo, certos grupos de psicólogos cognitivos começaram a pesquisar sobre a importância do processamento não consciente da informação e da memória, ou o que eles chamaram de cognição "implícita”. John Bargh, um dos líderes no campo da psicologia sociocognitiva, revisou a literatura sobre a “automaticidade do ser” e concluiu que quase 95% de nossos comportamentos são determinados inconscientemente (Bargh 8c Chartrand, 1999). Essa conclusão é coerente com a metáfora de Freud de que a consciência é meramente a "ponta do iceberg".

No final da década de 1990, as descobertas da neuro­ciência e da psicologia cognitiva começaram a convergir em
processos cognitivos e afetivos muito consistentes com a teoria freudiana. Esses aspectos em comum se transforma­ram na base para um movimento iniciado por alguns psicó­logos cognitivos, neurocientistas e psiquiatras, convencidos de que a teoria de Freud é uma das teorias integrativas mais convincentes - e que poderia explicar muitas descobertas.

Em 1999, um grupo de cientistas deu início a uma sociedade chamada de Neuropsicanálise e a um jornal científico com o mesmo nome. Pela primeira vez, alguns psicólogos cognitivos e de neurociênda eminentes, como o ganhador do prêmio Nobel de fisiologia, Eric Kandel, com Joseph
LeDoux, Antonio Damasio, Daniel Schacter e Vilayanur Ramachandran, declararam publicamente o valor da teoria de Freud, argumentando que "a psicanálise ainda é a visão mais coerente e intelectualmente satisfatória da mente” (conforme citado em Solms, 2004, p. 84). O neurocientista
Antonio Damasio escreveu: “Acredito que podemos dizer que os insights de Freud sobre a natureza da consciência estão em consonância com as mais avançadas visões da neurociência contemporânea” (conforme citado em Solms [36]  & Turnbull, 2002, p. 93). Vinte anos atrás, tais pronunciamentos de neurocientistas teriam sido quase impensáveis.

Mark Solms é provavelmente a pessoa mais ativa en­volvida na integração da teoria psicanalítica e da pesqui­sa neurocientífica (Solms, 2000, 2004; Solms & Turnbull, 2002). Ele argumentou, por exemplo, que os seguintes conceitos freudianos possuem apoio da neurociência mo­derna: motivação inconsciente, repressão, princípio do prazer, impulsos primitivos e sonhos (Solms, 2004). Do mesmo modo, Kandel (1999) defendeu que a psicanálise e a neurociência juntas podem dar contribuições úteis em oito domínios, a saber: a natureza dos processos mentais inconscientes; a natureza da causalidade psicológica; a cau­salidade psicológica e a psicopatologia; a experiência pre­coce e a predisposição à doença mental; o pré-consciente, o inconsciente e o córtex pré-frontal; a orientação sexual; a psicoterapia e as mudanças estruturais no cérebro; e a psicofarmacologia como procedimento adjunto à psicanálise.

Mesmo havendo algumas lacunas nas evidências (Hobson, 2004), a sobreposição entre a teoria de Freud e a neurociência é suficiente para, pelo menos, justificar, de forma sugestiva, se não convincente, sua integração. Examinamos algumas das evidências empíricas para o processamento mental inconsciente, o id e o princípio do prazer e o ego e o princípio da realidade, a repressão e os mecanismos de defesa e os sonhos.

Processamento mental inconsciente

Muitos cientistas e filósofos reconheceram duas formas diferentes de consciência. A primeira é o estado de não es­tar consciente ou acordado; e a segunda, o estado de estar desperto. O primeiro estado é referido como “consciência básica"; enquanto o último, como "consciência ampliada". O tronco cerebral, e o sistema de ativação ascendente em particular, é a parte do cérebro mais diretamente associada à consciência básica, ou inconsciente, no sentido de não es­tar acordado. Por exemplo, o coma provém de dano a essa região do tronco cerebral e deixa uma pessoa inconsciente. Em contraste, estar consciente e capaz de refletir sobre o próprio conhecimento e o self é mais uma função de ativi­dade no córtex pré-frontal (o córtex frontal dorsal) (Solms, 2004; Solms & Turnbull, 2002).

Além do mais, um tema importante da psicologia cognitiva durante os anos mais recentes tem sido o fe­nômeno do processamento mental não consciente, ou o que é chamado de pensamento e memória “implícitos", “não conscientes” ou “automáticos” (Bargh 8c Chartrand, 1999; Schacter, 1987). Com isso, os psicólogos cognitivos estão se referindo aos processos mentais que não estão na consciência nem sob o controle emocional e, desse modo, aproximam-se da definição de inconsciente de Freud. Ob­viamente, o conceito de Freud de inconsciente era mais dinâmico, repressivo e inibidor, mas - como veremos a se­guir - a neurociência cognitiva está encontrando um tipo similar de inconsciente.

Prazer e id, inibição e ego

As descobertas de muitos programas de pesquisa neuro­científica diferentes estabeleceram que os impulsos que bus­cam o prazer possuem suas origens neurológicas em duas estruturas cerebrais: o tronco cerebral e o sistema límbico (Solms, 2004; Solms & Turnbull, 2002). Outrossim, o neurotransmissor dopamina está mais centralmente envolvido na maioria dos comportamentos que buscam o prazer. Na linguagem de Freud, esses são os impulsos e instintos do id.

Pesquisas mais recentes estão emprestando uma nuance fascinante ao conhecimento de como o cérebro ex­perimenta os impulsos e instintos do id. O neurocientista Jaak Panksepp (2004) e o psicólogo Kent Berridge (2009) passaram décadas explorando os sistemas de recompensa em nossos cérebros. Esse trabalho destacou dois neurotransmissores importantes que estão envolvidos na bus­ca permanente de prazer do id: a dopamina e os opioides (como as endorfinas). O sistema dopaminérgico está asso­ciado às tendências de busca ou aos desejos do id (me dê!), enquanto o sistema opioide está envolvido no prazer que experimentamos quando o id está satisfeito (ahhh!). Os dois sistemas funcionam em paralelo. O sistema de bus­ca não somente nos coloca de pé pela manhã e nos incita a ir procurar por comida e amigos, mas também nos atrai para nosso computador para procurar no Google várias e infindáveis curiosidades ou ao smartphone para verificar se nossa atualização no Facebook recebeu algum comentário. O sistema de ligação nos permite experimentar satisfação quando encontramos o que procurávamos. Porém, mesmo que eles funcionem em paralelo, Berridge argumenta que são sistemas desequilibrados. Nosso cérebro é mais “sovina” quando se trata de prazer do que de desejo, o que faz com que evolua. Se o id fosse satisfeito facilmente, todos nós estaríamos largados por aí felizes e desmotivados, mas pro­vavelmente mortos em seguida. É por isso que Panksepp afirma que procurar é o motivador principal, confirmando a noção de Freud da força primitiva do id, levando-nos a con­tinuar procurando depois de uma pequena dose de prazer.

Em 1923, quando Freud modificou seu entendimen­to a respeito de como a mente funciona e propôs a visão estrutural de id, ego e superego, o ego se tornou uma es­trutura que era sobretudo inconsciente, mas cuja função principal era inibir os impulsos. Se a parte do cérebro que funciona para inibir os impulsos é lesionada, deveríamos ver um aumento nos impulsos que buscam prazer fun­damentados no id. Isto é precisamente o que acontece quando o sistema límbico frontal é lesionado. Muitos es­tudos de caso e pesquisas mais sistemáticas por imagem cerebral demonstram a conexão entre o sistema límbico frontal e a regulação dos impulsos [37] (Chow 8c Cummings, 1999; Pincus, 2001; Raine, Buchsbaum, & LaCasse, 1997). O primeiro desses casos relatado e muito conhecido foi o do trabalhador ferroviário Phineas Gage. Enquanto traba­lhava na estrada de ferro, uma explosão fez com que uma haste de metal saltasse e lhe atravessasse a parte inferior da mandíbula, indo até o alto de sua testa, lesionando os lobos frontais. Surpreendentemente, talvez porque a velo­cidade da haste tenha cauterizado o tecido cerebral, Gage nunca perdeu a consciência e sobreviveu. Fisicamente (ex­ceto pela perda de tecido cerebral) ele ficou relativamente bem, mas sua personalidade mudou. Segundo consta, esse trabalhador de maneiras suaves, responsável e confiável se tornou, nas palavras de seu médico, “inconstante, irreve­rente, usando grosserias (o que anteriormente não era seu costume), manifestando falta de respeito por seus compa­nheiros, impaciente com restrições ou alertas quando em conflito com seus desejos, por vezes perseverantemente obstinado, e ainda caprichoso e vacilante” (conforme cita­do em Solms & Turnbull, 2002, p. 3). Em outras palavras, ele se tornou hostil, impulsivo e absolutamente despreo­cupado com normas sociais e condutas apropriadas. No jargão freudiano, seu ego não conseguia mais inibir os im­pulsos e instintos básicos e ele se tornou movido pelo id.

De acordo com Solms, o tema subjacente nos pacientes com lesão no lobo frontal é sua incapacidade de se mante­rem “ligados à realidade" (ego) e sua propensão a interpretar os eventos muito mais por meio dos “desejos" (id); ou seja, eles criam a realidade que querem ou desejam. Tudo isso, de acordo com Solms, apoia as idéias de Freud referentes ao princípio do prazer do id e ao princípio da realidade do ego.

Repressão, inibição e mecanismos de defesa

Outro componente central da teoria de Freud envolve os mecanismos de defesa, em especial a repressão. O incons­ciente mantém ativamente (dinamicamente) as idéias, os sentimentos e os impulsos desagradáveis ou ameaçadores fora da consciência. A área dos mecanismos de defesa per­manece sendo uma zona ativa de estudo para os pesquisa­dores da personalidade. Parte dessa pesquisa focou o uso da projeção e da identificação na infância e na adolescência (Cramer, 2007), enquanto outro trabalho investigou quem é mais provável de ser alvo de projeção (Govorun, Fuegen, & Payne, 2006).

Segundo a perspectiva neuropsicológica, Solms (2004) relata casos que exploram as áreas do cérebro que podem estar implicadas no uso e na perseverança dos mecanismos de defesa. De forma mais específica, Solms (2004) descreve casos demonstrando a repressão de informações desagra­dáveis quando ocorre lesão no hemisfério direito e, se essa região lesionada for estimulada de modo artificial, a repres­são se vai, isto é, a consciência retorna. Além disso, esses pacientes, muitas vezes, racionalizam fatos indesejáveis fa­bricando histórias. Em outras palavras, eles empregam me­canismos de defesa freudianos de realização do desejo. Por exemplo, um paciente, quando perguntado sobre a cicatriz em seu rosto, confabulou uma história sobre ela ser resulta­do de uma cirurgia dentária ou uma cirurgia cardíaca, ambas as quais haviam acontecido anos antes. Além do mais, quan­do o médico perguntou a esse paciente quem ele era, ele ora respondeu que o médico era um colega, ora um parceiro de bebedeiras, ora um colega de time da universidade. Todas essas interpretações eram mais desejo do que realidade.

Um estudo feito por Howard Shevrin e colaboradores (Shevrin, Ghannam, & Libet, 2002) examinou as bases da repressão. Eles observaram que as pessoas com persona­lidade repressiva, na verdade, requerem estímulos mais prolongados para que um estímulo breve seja percebido conscientemente. Pesquisas anteriores estabeleceram que as pessoas em geral, variam de 200 a 800 m/s no tempo de duração que um estímulo precisa estar presente antes de ser percebido conscientemente. O estudo de Shevrin e co­laboradores incluiu seis participantes clínicos entre 51 e 70 anos de idade, todos os quais anos antes haviam se subme­tido a tratamento cirúrgico para problemas motores (prin­cipalmente parkinsonismo). Durante essas cirurgias, foi realizado um procedimento em que eletrodos estimularam partes do córtex motor e foi registrada a duração de tempo necessária para que o estímulo fosse percebido consciente­mente. Os resultados desse procedimento mostraram que os seis participantes também variaram de 200 a 800ms no tempo que levaram para perceber conscientemente o estí­mulo. Para tanto, quatro testes psicológicos foram admi­nistrados nas casas dos pacientes e, então, pontuados se­gundo o grau de tendências repressivas. Esses testes foram o Teste de Rorschach, o Teste de Lembranças Precoces, o Teste de Vocabulário do WAIS (um teste de QI) e o HOQ ( Hysteroid-Obsessoid Questionnaire).* Os três primeiros tes­tes foram avaliados por três juizes “cegos" quanto ao grau de repressão, e o quarto teste foi avaliado objetivamente em relação ao grau de repressão.

Os resultados mostraram que as pontuações combina­das dos três juizes estavam associadas de forma significa­tiva e positiva ao tempo que levou para que um estímulo fosse percebido conscientemente. Além do mais, o Ques­tionário Histeroide-obsessoide pontuado de modo objetivo confirmou o resultado. Em outras palavras, quanto mais estilo repressivo as pessoas tiverem, mais tempo levarão para perceber conscientemente um estímulo. Nem a idade nem o Q1 estão relacionados ao tempo que leva para que o estímulo seja percebido. Como os autores reconhecem, esse é apenas o passo inicial na demonstração de como a repressão pode operar para manter conteúdos fora da cons­ciência, porém esse é o primeiro estudo a relatar as bases neurofisiológicas da repressão. [38] 

Pesquisa sobre os sonhos

Na década de 1950, quando o fenômeno do sono com mo­vimento rápido dos olhos (REM) foi inicialmente descober­to e associado de modo substancial ao sonho, muitos cien­tistas começaram a desconsiderar a teoria dos sonhos de Freud, a qual estava baseada na ideia de que eles têm sig­nificado e são tentativas de realizar desejos inconscientes. Além do mais, a pesquisa REM demonstrou que somente regiões do tronco cerebral e não regiões corticais superio­res estavam envolvidas nos estados de REM. Se essas es­truturas corticais não se encontravam envolvidas no sono REM e ainda elas estavam onde ocorria o pensamento de nível superior, então os sonhos consistem em simplesmen­te atividade mental aleatória e não poderiam ter significa­ do inerente. Segundo a perspectiva da chamada teoria de ativação-síntese, o significado é o que a mente acordada dá a essas atividades cerebrais mais ou menos aleatórias, mas o significado não é inerente ao sonho.

A principal área de pesquisa de Solms são os sonhos, e, com base nas investigações atuais sobre os sonhos, in­cluindo a dele mesmo, ele contesta cada um dos pressupos­tos da teoria dos sonhos de ativação-síntese (Solms, 2000, 2004). O que é mais importante, Solms argumentou que sonhar e REM não são uma única coisa. Primeiro, cerca de 5 a 30% dos pacientes despertados durante o sono REM não relataram sonhos e aproximadamente 5 a 10% dos pa­cientes não REM que foram acordados referiram sonhar. Portanto, não existe uma correspondência 1:1 entre REM e sonho. Segundo, as lesões (decorrentes de danos ou ci­rurgia) no tronco cerebral não eliminam completamente o sonho, enquanto lesões nas regiões do prosencéfalo (nos lobos frontais e na junção parietal-temporal-occipital) eli­minam o sono e ainda preservam o sono REM.
Além disso, os sonhos parecem não ser aleatórios em conteúdo. Daniel Wegner e colaboradores (2004) testaram um aspecto da teoria dos sonhos de Freud. Conforme Freud escreveu na Interpretação dos sonhos, “os desejos suprimidos durante o dia se impõem nos sonhos” (1900/1953, p. 590). Wegner e colaboradores examinaram se isso era assim em um grupo de mais de 300 universitários. Primeiramente, os participantes eram instruídos logo antes de irem para a cama (eles abriam as instruções apenas imediatamen­te antes de irem dormir) a pensar em duas pessoas, uma das quais por quem eles haviam tido uma “queda" e uma de quem “gostavam”, mas não tinham uma "queda”.

A seguir, os participantes foram designados para uma das três condições: supressão, expressão e menção. Na condição da supressão, os estudantes foram instruídos a não pensar sobre a pessoa-alvo (tanto a pessoa por quem tinham a "queda” quanto a de quem "gostavam”) durante 5 minutos; na condição da expressão, participantes diferen­tes foram instruídos a pensar na pessoa-alvo durante esse período de 5 minutos; e na condição da menção, outros pa­cientes foram instruídos a pensar em qualquer coisa depois de observarem (mencionarem) as iniciais da pessoa-alvo. Além do mais, durante o período de 5 minutos em que es­tavam pensando ou não na pessoa-alvo, eles escreviam um relato de “fluxo da consciência” e faziam uma marca ao lado do relato a cada vez que pensavam na pessoa-alvo. Essa era uma verificação de validade para estabelecer se a técnica de manipulação da supressão funcionava. Ela funcionava. Quando acordavam na manhã seguinte, os participantes relatavam se tinham sonhado e, em caso positivo, o quanto sonharam e o quanto sonharam com a pessoa-alvo e com outras pessoas (sonho autoclassificado). Por fim, eles es­creviam uma descrição do sonho (relato do sonho). Os rela­tos do fluxo da consciência e dos sonhos eram codificados por um avaliador cego para condições sobre frequência do aparecimento do alvo e do não alvo.

Os resultados mostraram que os estudantes sonharam mais com os alvos suprimidos do que com os não suprimidos; eles também sonharam mais com os alvos suprimidos do que com os não alvos suprimidos. Em ou­tras palavras, os estudantes tinham mais probabilidade de sonhar com pessoas em quem eles passavam mais tem­po pensando (alvo), mas especialmente aqueles alvos em quem eles tentaram de modo ativo não pensar (supres­são). Os pensamentos suprimidos, concluíram os autores, têm probabilidade de se “recuperar” e aparecer nos so­nhos. Esse achado é coerente com a teoria de Freud e não coerente com a teoria da ativação-síntese de que o sono REM proporciona ativação aleatória da atividade cerebral que é desprovida de significado. Nas palavras de Wegner e colaboradores (2004), "embora ainda permaneça muito a ser aprendido sobre como são formados os sonhos, o achado de que os pensamentos suprimidos se recuperam nos sonhos oferece uma ponte entre um insight inicial da psicanálise com as descobertas da neurociência cognitiva" (p. 236).

Contudo, as tendências atuais em pesquisa neuropsicanalítica não confirmam e nem mesmo mencionam a teoria dos estágios psicossexuais de Freud, especialmente seus ele­mentos mais controversos dos conflitos edípicos, ansiedade de castração e inveja do pênis. Em vez disso, a pesquisa neuropsicanalítica focou aquelas partes da teoria de Freud que parecem estar empiricamente resistindo ao teste do tempo. O descaso com a teoria dos estágios psicossexuais de Freud é, de certa forma, coerente com boa parte da teorização pós-freudiana e neofreudiana, que minimizou ou abandonou a teoria de Freud. Portanto, embora muitas das idéias prin­cipais de Freud - inconsciente, busca do prazer, repressão, id, ego, sonhos - estejam merecendo apoio científico, nem todas estão, e ainda outras precisam de modificação.

Uma área que recentemente recebeu atenção é o tra­balho do censor dos sonhos (Boag, 2006). O censor dos sonhos, de acordo com Freud (1917/1963), é o mecanismo que converte o conteúdo latente dos sonhos em conteúdo [39] manifesto mais aceitável e menos assustador. Boag (2006) propõe que se conceitualize o censor do sonho como um mecanismo que envolve repressão e/ou inibição. Tal conceitualização é útil se estivermos interessados em testar de modo empírico as noções de Freud referentes aos sonhos, porque existe uma grande quantidade de pesquisa em neurociência sobre a inibição (Aron 8c Poldrack, 2005; Praamstra 8c Seiss, 2005). De forma mais específica, Boag (2006) propõe que os gânglios basais e a amígdala podem ser as estruturas cerebrais principais responsáveis pelos sonhos, incluindo a conversão do conteúdo latente em conteúdo manifesto. Argumentos como o de Boag (2006) e de ou­tros estudiosos no campo da neuropsicanálise tornam cada vez mais difícil descartar sem hesitação as idéias de Freud a partir de uma perspectiva científica, na medida em que se acumulam descobertas da psicologia cognitiva e da neurociência que apoiam os pressupostos básicos freudianos. [40]

Psicologia - Psicanálise
8/11/2020 6:10:15 PM | Por Tomi-Ann Roberts
Adler, Freud e o Protesto viril

Em contraste com Freud, Adler (1930, 1956) acreditava que a vida psíquica das mulheres é essencialmente a mes­ma que a dos homens e que uma sociedade dominada pelos homens não é natural, mas um produto artificial do desen­volvimento histórico. De acordo com Adler, as práticas cul­turais e sociais - não a anatomia - influenciam muitos ho­mens e mulheres a enfatizar excessivamente a importância de ser másculo, uma condição que ele chamou de protesto viril. Em muitas sociedades, tanto homens quanto mulheres atribuem um valor inferior a ser mulher. Os meninos são, com frequência, ensinados cedo de que ser masculino signi­fica ser corajoso, forte e dominante. O protótipo do suces­so para os meninos é vencer, ser poderoso, estar no topo. Em contraste, as meninas, com frequência, aprendem a ser passivas e a aceitar uma posição inferior na sociedade.

Algumas mulheres lutam contra seus papéis femini­nos, desenvolvendo uma orientação masculina e se tornan­do assertivas e competitivas; outras se revoltam adotando um papel passivo, tornando-se excessivamente desampa­radas e obedientes; outras, ainda, mostram-se resignadas à crença de que são seres humanos inferiores, reconhecendo a posição privilegiada dos homens, transferindo as respon­sabilidades para eles. Cada um desses modos de adaptação resulta de influências culturais e sociais, e não da diferença psíquica inerente entre os dois gêneros.

Adler, Freud e o protesto viril

No capítulo anterior, vimos que Freud (1924/1961) acre­ditava que “anatomia é destino” (p. 178) e que ele conside­rava as mulheres "continente obscuro' para a psicologia” (Freud, 1926/1959b, p. 212). Além do mais, próximo ao final de sua vida, ele ainda estava perguntando: “O que quer uma mulher?" (E. Jones, 1955, p. 421). De acordo com Adler, essas atitudes em relação às mulheres seriam evidência de uma pessoa com um forte protesto viril. Em contraste com a visão de Freud, Adler assumia que as mu­lheres - porque elas têm as mesmas necessidades fisiológi­cas e psicológicas que os homens - querem mais ou menos as mesmas coisas que os homens querem.

Tais visões opostas sobre a feminilidade eram amplia­das ou acentuadas nas mulheres que Freud e Adler esco­lheram para se casar. Martha Bernays Freud era uma dona de casa subserviente e dedicada aos filhos e ao marido, e não tinha qualquer interesse na vida profissional de seu es­poso. Em contraste, Raissa Epstein Adler era uma mulher muito independente, que abominava o papel doméstico tradicional, preferindo uma carreira ativa politicamente.

Durante os primeiros anos de seu casamento, Raissa e Alfred Adler tinham visões políticas bastante compatíveis, mas, com o tempo, essas visões divergiram. Alfred se tor­nou mais um capitalista, defendendo a responsabilidade pessoal, enquanto Raissa era entusiasta comunista de sua Rússia nativa. Tal independência agrada­va a Adler, que era tão feminista quanto sua determinada esposa. [59]

Psicologia - Psicologia individual
8/9/2020 3:57:21 PM | Por Gregory J. Feist
Uma introdução à psicologia de Alfred Adler

Em1937, o jovem Abraham Maslow estava jantando em um restaurante de Nova York com um colega um pouco mais velho. O homem mais velho era ampla­mente conhecido por sua associação anterior com Sigmund Freud, e muitas pessoas, incluindo Maslow, o considera­vam um discípulo de Freud. Quando Maslow casualmente perguntou ao homem mais velho a respeito de ser seguidor de Freud, o homem ficou muito nervoso e, de acordo com Maslow, ele quase gritou que:

Isto era uma mentira e um embuste pelo qual ele cul­pava Freud inteiramente, a quem ele então se referiu como embusteiro, dissimulado, maquinador... Ele disse que nunca fora aluno de Freud, discípulo ou seguidor. Ele deixou claro, desde o início, que não concordava com Freud e que tinha suas próprias opiniões. (Maslow, 1962, p. 125)

Maslow, que conhecia aquele homem mais velho como uma pessoa equilibrada e agradável, ficou chocado com sua explosão.

O homem mais velho, é claro, era Alfred Adler, que ba­talhou durante toda a sua vida profissional para dissipar a noção de que, em algum momento, havia sido seguidor de Freud. Sempre que repórteres e outras pessoas o inqui­riam acerca de sua relação anterior com Freud, Adler exibia o velho cartão postal desbotado com o convite para Adler se juntar a Freud e três outros médicos em uma reunião na casa do vienense na noite da quinta-feira seguinte. Freud encerrava o convite dizendo: "Com os cumprimentos ca­lorosos de seu colega” (citado em Hoffman, 1994, p. 42).

Essa observação amigável dava a Adler evidências tangíveis de que Freud o considerava como seu igual. No entanto, a associação cordial entre Adler e Freud chegou a um fim amargo, com os dois homens lançando comentários cáusticos um em direção ao outro. Por exem­plo, depois da I Guerra Mundial, quando Freud elevou a agressividade a um impulso humano básico, Adler, que há muito tempo tinha abandonado o conceito, comentou sar­casticamente: “Enriqueci a psicanálise por meio do impulso agressivo. Eu, com prazer, faço-lhes um presente dela” (ci­tado em Bottome, 1939, p. 64).

Após o rompimento entre os dois homens, Freud acu­sou Adler de ter delírios paranoides e de usar táticas terro­ristas. Ele disse a um de seus amigos que a revolta de Adler era a de “um indivíduo anormal enlouquecido pela ambi­ção" (citado em Gay, 1988, p. 223).

Panorama da psicologia individual

Alfred Adler não era nem um terrorista nem uma pessoa enlouquecida pela ambição. Na verdade, sua psicologia individual apresenta uma visão otimista das pessoas, en­quanto se baseia fortemente na noção de interesse social, isto é, um sentimento de unidade com toda a humanida­de. Além do olhar mais otimista de Adler para as pessoas, várias outras diferenças tornaram a relação entre Freud e Adler muito tênue.

Em primeiro lugar, Freud reduziu toda motivação a sexo e agressividade, enquanto Adler via as pessoas mo­tivadas sobretudo por influências sociais e por sua luta pela superioridade ou sucesso; em segundo lugar, Freud assumia que as pessoas têm pouca ou nenhuma escolha na formação de sua personalidade, enquanto Adler acreditava que elas são, em grande parte, responsáveis por quem são; em terceiro lugar, o pressuposto de Freud de que o compor­tamento presente é causado por experiências passadas era diretamente oposto à noção de Adler de que o comporta­mento presente é moldado pela visão de futuro da pessoa; e, em quarto lugar, em contraste com Freud, que colocava ênfase muito acentuada nos componentes inconscientes do comportamento, Adler entendia que as pessoas psico­logicamente saudáveis tendem a ser conscientes do que estão fazendo e de por que estão fazendo.

Conforme vimos, Adler era um membro original do pequeno grupo de médicos que se encontrava na casa de Freud nas noites de quarta-feira para discutir temas psi­cológicos. No entanto, quando surgiram as diferenças teó­ricas e pessoais entre Adler e Freud, Adler abandonou o círculo de Freud e estabeleceu uma teoria oposta, a qual se tornou conhecida como psicologia individual. [46]

Ainda que Alfred Adler tenha causado um efeito profundo em teóricos posteriores, como Harry Satck Sullivan, Karen Homey, Julian Rotter, Abraham H. Maslow, Carl Rogers, Albert Ellis, Rollo May e outros (Mosak & Maniacci, 1999), seu nome é menos conhecido do que o de Freud ou de Carl Jung. Pelo menos três motivos explicam isso. Primeiro, Adler não estabeleceu uma organização dirigida firme­mente para perpetuar suas teorias. Segundo, ele não era um escritor particularmente notável, e a maioria dos seus livros foi compilada por uma série de editores que usaram [48] palestras dispersas de Adler. Terceiro, muitas de suas vi­sões foram incorporadas ao trabalho de teóricos posterio­res, como Maslow, Rogers e Ellis e, assim, não foram mais associadas ao nome de Adler.

Ainda que seus escritos revelassem uma grande per­cepção da profundidade e da complexidade da personali­dade humana, Adler desenvolveu uma teoria basicamen­te simples e parcimoniosa. Para Adler, as pessoas nascem com corpos fracos e inferiores - uma condição que conduz a sentimentos de inferioridade e a uma conseqüente depen­dência de outras pessoas. Assim, um sentimento de uni­dade com os outros (interesse social) é inerente às pessoas e o padrão final para a saúde psicológica. De forma mais específica, os princípios fundamentais da teoria adleriana podem ser especificados em forma de tópicos. O que apre­sentamos a seguir é adaptado de uma lista que representa o balanço final da psicologia individual (Adler, 1964):

  1. A única força dinâmica por trás do comportamen­to das pessoas é a luta pelo sucesso ou pela superio­ridade;
  2. As percepções subjetivas das pessoas moldam seu comportamento e sua personalidade;
  3. A personalidade é unificada e autocoerente;
  4. O valor de toda a atividade humana deve ser visto segundo o ponto de vista do interesse social;
  5. A estrutura da personalidade autocoerente se de­senvolve em direção ao estilo devida de uma pessoa;
  6. O estilo de vida é moldado pela força criativa das pessoas.
Psicologia - Psicologia individual
8/7/2020 6:17:55 PM | Por Gregory J. Feist
Conceito psicanalítico de humanidade

A primeira delas [dimensões do conceito de humanidade] é determinismo versus livre-arbítrio. Se­gundo essa dimensão, a visão de Freud da natureza humana recairia facilmente no determinismo. Freud acreditava que a maior parte de nosso comportamento é determinada por eventos passados, em vez de moldada por objetivos presentes. Os humanos possuem pouco controle sobre suas ações pre­sentes, porque muitos de seus comportamentos estão enrai­zados nos esforços inconscientes que se encontram subjacen­tes à consciência presente. Mesmo que as pessoas, em geral, acreditem que estão no controle das próprias vidas, Freud insistia em que tais crenças eram ilusões.

A personalidade adulta é em grande parte determinada pelas experiências da infância - especialmente o complexo de Édipo -, que deixaram seus resíduos na mente inconsciente. Freud (1917/1955a) sustentava que a humanidade, ao longo de sua história, sofreu três grandes golpes em seu ego narcisista. O primeiro foi a redescoberta por Copérnico de que a Terra não é o centro do universo; o segundo foi a descoberta de Darwin de que os humanos são muito semelhantes a outros animais; o ter­ceiro golpe, e com maiores danos, foi a descoberta de Freud de que não estamos no controle de nossas próprias ações ou, como ele dizia, “o ego não é o mestre de sua própria casa" (p. 143).

Uma segunda questão relacionada é pessimismo versus otimismo. De acordo com Freud, ingressamos no mundo em um estado básico de conflito, com as forças de vida e morte operando em nós de lados opostos. O desejo inato de morte incessantemente nos impulsiona para a autodestruição ou a agressão, enquanto o impulso sexual nos faz buscar de modo cego o prazer. O ego experimenta um estado mais ou menos permanente de conflito, tentando equilibrar as demandas contraditórias do id e do superego, enquanto, ao mesmo tempo, faz concessões ao mundo externo. Sob o fino verniz da civilização, somos bestas selvagens com a tendência natu­ral a explorar os outros para a satisfação sexual e destrutiva. O comportamento antissocial se encontra logo abaixo da su­perfície mesmo da pessoa mais pacífica, acreditava Freud. Pior ainda, não estamos normalmente conscientes das ra­zões para nosso comportamento, nem estamos conscientes do ódio que sentimos por nossos amigos, família e aman­tes. Por essas razões, a teoria psicanalítica é essencialmente pessimista.

Uma terceira abordagem para referir a humanidade é a dimensão causalidade versus teleologia. Freud acreditava que o comportamento presente é, sobretudo, moldado por causas passadas, em vez de pelos objetivos para o futuro. As pessoas não avançam em direção a um objetivo autodeterminado; em vez disso, elas estão, de forma indefesa, presas na luta entre Eros e Tanatos. Esses dois impulsos poderosos forçam as pessoas a repetirem compulsivamente padrões primitivos de comportamento. Quando adultas, seu compor­tamento é uma longa série de reações. As pessoas tentam constantemente reduzir a tensão; aliviar as ansiedades; re­primir experiências desagradáveis; regressar a estágios do desenvolvimento anteriores mais seguros; e repetir de modo compulsivo comportamentos que são familiares e seguros. Portanto, classificamos a teoria de Freud como muito alta em causalidade.

Na dimensão consciente versus inconsciente, a teoria psi­canalítica, é óbvio, tende fortemente na direção da motivação inconsciente. Freud acreditava que tudo, desde os lapsos de linguagem até as experiências religiosas, é resultado de um desejo profundamente enraizado de satisfazer os impulsos sexuais ou agressivos. Esses motivos nos tornam escravos do nosso inconsciente. Ainda que tenhamos consciência de nossas ações, Freud acreditava que as motivações subjacentes a essas ações estavam profundamente incorporadas em nosso inconsciente, sendo, com frequência, muito diferentes do que acreditamos que sejam.

Uma quinta dimensão são as influências sociais versus biológicas. Como médico, o treinamento de Freud o predispôs a ver a personalidade humana a partir de um ponto de vista biológico. No entanto, Freud (1913/1953, 1985) frequente­mente especulava acerca das conseqüências das unidades so­ciais pré-históricas e sobre as conseqüências das experiências sociais precoces de um indivíduo. Como Freud acreditava que muitas fantasias e ansiedades infantis estavam enraizadas na biologia, nós o classificamos como baixo em influências sociais.

A sexta é a questão da singularidade versus semelhanças. Nessa dimensão, a teoria psicanalítica assume uma posição intermediária. O passado evolutivo da humanidade dá origem a muitas semelhanças entre as pessoas. No entanto, as expe­riências individuais, em especial aquelas do início da infância, moldam as pessoas de uma maneira única e explicam muitas das diferenças entre as personalidades.

Psicologia - Psicanálise
8/7/2020 5:48:36 PM | Por Jess Feist
Críticas à teoria psicanalítica

Ao criticarmos Freud, precisamos primeiro fazer duas per­ guntas: (1) Freud entendia as mulheres, o gênero e a sexua­lidade? (2) Freud era um cientista? Uma crítica freqüente a Freud é que ele não entendia as mulheres e que sua teoria da personalidade era fortemente orientada para os homens. Existe uma boa parcela de verdade nessa crítica, e Freud reconhecia que lhe faltava uma compreensão completa da psique feminina.
Por que Freud não tinha um conhecimento mais apurado da psique feminina? Uma resposta é que ele era produto de seu tempo, e a sociedade era dominada pelos homens naquela época. Na Áustria do século XIX, as mu­lheres eram cidadãs de segunda classe, com poucos direi­tos e privilégios. Elas tinham poucas oportunidades para ingressar em uma profissão ou serem membros de uma organização profissional - como a Sociedade Psicológica das Quartas-feiras.

Assim, durante o primeiro quarto de século da psica­nálise, o movimento foi um clube só para homens. Após a I Guerra Mundial, as mulheres, de forma gradual, foram sendo atraídas para a psicanálise, e algumas dessas mulhe­res, como Marie Bonaparte, Ruth Mack Brunswick, Hele­ne Deutsch, Melanie Klein, Lou Andreas-Salomé e Anna Freud, conseguiram exercer certa influência sobre Freud. No entanto, nunca conseguiram convencê-lo de que as se­melhanças entre os gêneros superavam as diferenças.

O próprio Freud era um burguês vienense cujas atitu­des sexuais foram moldadas durante uma época em que o esperado era que as mulheres cuidassem de seus maridos, administrassem a casa, atendessem filhos e ficassem de fora dos negócios ou da profissão do esposo. A esposa de Freud, Martha, não era exceção a essa regra (Gay, 1988).

Freud, como filho mais velho e favorecido, governava suas irmãs, aconselhando sobre livros a serem lidos e en­sinando sobre o mundo em geral. Um incidente com um piano revela mais sobre a posição privilegiada de Freud dentro de sua família. As irmãs de Freud gostavam de mú­sica e tinham prazer em tocar piano. Quando a música do piano incomodou Freud, ele reclamou para os pais que não conseguia se concentrar nos livros. Os pais imediatamente removeram o piano da casa, deixando Freud com o enten­dimento de que os desejos das cinco moças não se iguala­vam às preferências dele.

Assim como muitos homens de seu tempo, Freud con­siderava as mulheres o “sexo frágil”, adequado para cuidar dos afazeres domésticos e dos filhos, mas não igual aos homens em assuntos científicos e eruditos. Suas cartas de amor à futura esposa Martha Bernays são cheias de referências a ela como “minha garotinha”, “minha pequena mulher” ou “minha princesa” (Freud, 1960). Freud, sem dúvida, teria se surpreendido em saber que, 130 anos de­pois, esses termos carinhosos são vistos por muitos como depreciativos para as mulheres.

Freud continuamente se esforçava para tentar entender as mulheres, e sua visão sobre a feminilidade se modificou diversas vezes durante sua vida. Quando jovem estudan­te, ele exclamava para um amigo: “Como são sábios nossos educadores, que importunam tão pouco o belo sexo com co­nhecimento científico" (citado em Gay, 1988, p. 522).

Durante os anos iniciais de sua carreira, Freud via o crescimento psicossexual masculino e feminino como ima­gens em espelho entre si, com linhas diferentes, mas parale­las, de desenvolvimento. Contudo, posteriormente, propôs que as meninas são meninos fracassados e que as mulheres adultas são comparáveis a homens castrados. Freud, a prin­cipio, propôs essas idéias de modo provisório, mas, com o passar do tempo, ele inflexivelmente as defendeu e se recu­sou a comprometer sua visão. Quando as pessoas critica­vam sua noção de feminilidade, Freud respondia adotando uma postura cada vez mais rígida. Na década de 1920, ele insistia que as diferenças psicológicas entre homens e mu­lheres decorriam de distinções anatômicas e não podiam ser explicadas por experiências de socialização diferentes (Freud, 1924/1961). Entretanto, ele sempre reconheceu que não compreendia as mulheres tanto quanto os ho­mens. Ele as chamava de “continente obscuro da psicologia" (Freud, 1926/1959b, p. 212). Nessa declaração final sobre o assunto, Freud (1933/1964) sugeriu que "se você quiser sa­ber mais a respeito da feminilidade, questione-se a partir de suas próprias experiências de vida ou, então, volte-se para os poetas” (p. 135). A profundidade (e natureza inconscien­te?) do seu sexismo é revelada nessa declaração. “Você" se refere, é claro, não a qualquer pessoa, mas a um homem. Considerando que Freud baseava quase toda a sua [40] teorização em estudos de caso de mulheres, é surpreendente que ele nunca tenha pensado em perguntar a elas diretamente sobre suas experiências.

Ainda que alguns dos colaboradores próximos de Freud tenham habitado o “continente obscuro” da condição feminina, seus amigos mais íntimos eram homens. Além disso, mulheres como Marie Bonaparte, Lou Andreas-Salomé e Minna Bernays (sua cunhada), as quais exerce­ram alguma influência sobre Freud, não tinham o mesmo padrão das demais. Ernest Jones (1955) se referiu a elas como mulheres intelectuais com uma “característica mas­culina” (p. 421). Essas mulheres se distanciavam muito da mãe e da esposa de Freud, ambas as quais eram autênticas mães e esposas vienenses, cuja preocupação primária era o marido e os filhos. As colegas e discípulas de Freud eram escolhidas por sua inteligência, força emocional e lealdade - as mesmas qualidades que Freud considerava atrativas nos homens. Porém, nenhuma dessas mulheres conseguiu substituir um amigo íntimo do sexo masculino. Em agos­to de 1901, Freud (1985) escreveu a seu amigo Wilhelm Fliess: “Na minha vida, como você sabe, a mulher nunca substituiu o camarada, o amigo" (p. 447).

Por que Freud foi incapaz de entender as mulheres? Considerando sua criação durante a metade do século XIX, a aceitação parental de sua dominação sobre as irmãs, uma tendência a exagerar as diferenças entre mulheres e ho­mens e a crença de que as mulheres habitavam o “continen­te obscuro” da humanidade, parece improvável que Freud possuísse as experiências necessárias para entender as mu­lheres. Próximo ao final de sua vida, ele ainda questionava: “O que quer uma mulher?” (E. Jones, p. 421).

As teóricas feministas, como Judith Butler (1995), cri­ticaram a normatividade (depois que o complexo de Édipo é resolvido, os meninos se tornam homens masculinos e as meninas se tornam mulheres femininas) e o heterossexismo da teorização de Freud. Em dois dos trabalhos de Freud, Luto e melancolia (1917) e O ego e o id (1923), ele dis­cutiu que parte do processo de formação do caráter (o ego) é primeiramente o luto e depois a substituição dos objetos de amor perdidos por outros objetos. Ou seja, o menino precisa fazer o luto pela “perda” de sua mãe como objeto
de amor e substituí-lo pelo amor erótico por uma mulher. Inversamente, a menina precisa fazer o luto pela perda de seu pai e, por fim, substituir esse amor por um parceiro romântico do sexo masculino.

Em seu ensaio Melancolia de gênero - identificação recu­sada (1995), Butler toma as idéias originais de Freud e as inverte, fazendo a pergunta: “O que o ego faz com o vínculo perdido com o mesmo sexo?”. Obviamente, quando crianças pequenas, também formamos fortes vínculos com nosso genitor do mesmo sexo. Ela argumenta que, no entanto, o superego não permite facilmente que o ego forme vínculos compensatórios para substituir os objetos perdidos do mes­mo sexo. Por que não? A ideia de Freud é que esses objetos perdidos são investidos com libido. A sociedade desaprova o vínculo libidinal com o mesmo sexo e, portanto, o ego é incapaz de, ou se esforça em, produzir substitutos apropria­dos e satisfatórios para os objetos perdidos do mesmo sexo que poderiam ajudar o id a se sentir melhor. Nesse caso, o id fica aprisionado na “melancolia". O id nunca consegue resolver completamente o luto.

Se, na teoria de gênero normativa/heterossexual de Freud, meninas e meninos precisam reprimir seu desejo pelo genitor do sexo oposto, na configuração de Butler, a ação psíquica é ainda mais árdua. As crianças precisam re­pudiar os sentimentos de amor pelo mesmo sexo. De fato, argumenta ela, as proibições culturais contra a homosse­xualidade operam como um fundamento para o gênero e a heterossexualidade. Isso é especialmente verdadeiro para meninos e homens. A identidade de gênero heterossexual masculina, conforme ela argumenta, é um tipo de melancolia, refletindo o repúdio absoluto de sua atração por outros homens, e o assunto inacabado de elaborar o luto pela perda do genitor do mesmo sexo. Dessa forma, Butler propõe um envolvimento crítico fascinante da teoria freu­diana para entender gênero e sexualidade.

Freud era um cientista?

Uma segunda área de crítica a Freud se concentra em torno de seu status como cientista. Ainda que ele, várias vezes, insistisse que era sobretudo um cientista e que a psicanáli­ se era uma ciência, a definição de Freud de ciência precisa de explicação. Quando se referia à psicanálise como ciência, estava tentando separá-la de uma filosofia ou de uma ideo­logia. Ele não estava alegando que ela fosse uma ciência natural. A língua e a cultura alemãs de Freud fizeram uma distinção entre uma ciência natural (Naturwissenschaften) e uma ciência humana (Geisteswissenschaften) Infelizmente, as traduções de James Strachey na Edição standard fez Freud parecer um cientista natural. No entanto, outros estudiosos (Federn, 1988; Holder, 1988) acreditavam que Freud claramente se via como um cientista humanista, ou seja, um humanista ou estudioso, e não um cientista natu­ral. Para tornar os trabalhos de Freud mais precisos e mais humanistas, um grupo de estudiosos da língua está atual­mente produzindo uma tradução atualizada de Freud (ver, por exemplo, Freud, 1905/2002).

Bruno Bettelheim (1982, 1983) também foi crítico das traduções de Strachey. Ele argumentou que a Edição standard usou conceitos médicos precisos e empregou er­roneamente termos em grego e latim, em vez das palavras alemãs comuns, com frequência ambíguas, que Freud ha­via escolhido. Tal precisão tendia a tornar Freud mais cien­tífico e menos humanista do que ele parece para o leitor [41] alemão. Por exemplo, Bettleheim, cuja introdução a Freud foi em alemão, acreditava que o médico vienense via a tera­pia psicanalítica como uma jornada espiritual às profunde­zas da alma (traduzida por Strachey como “mente”) e não uma análise mecanicista do aparelho psíquico.

Em conseqüência da visão alemã da ciência do século XIX de Freud, muitos escritores contemporâneos conside­ram os métodos freudianos de construção da teoria como insustentáveis e não científicos (Breger, 2000; Crews, 1995,1996; Sulloway, 1992; Webster, 1995). As teorias de Freud não foram baseadas na investigação experimental, mas em observações subjetivas que ele fez de si mesmo e de seus pacientes clínicos. Esses pacientes não eram repre­sentativos das pessoas em geral, mas provinham, prepon­derantemente, das classes média e alta.

Além do amplo interesse popular e profissional, a questão permanece: Freud era científico? A descrição de ciência do próprio Freud (1915/1957a) dá muito espaço para interpretações subjetivas e definições vagas:

Ouvimos com frequência a afirmação de que as ciências devem ser desenvolvidas com base em conceitos elemen­tares claros e bem-definidos. Na verdade, nenhuma ciên­cia, nem mesmo a mais exata, começa com tais definições. O verdadeiro começo da atividade científica consiste, em vez disso, na descrição dos fenômenos para depois, então, agrupá-los, classificá-los e correlacioná-los. Mesmo no estágio da descrição, não é possível evitar a aplicação de certas idéias abstratas ao material em questão, idéias deri­vadas de um lugar ou outro, mas, com certeza, não a partir das novas observações unicamente, (p. 117)

Talvez o próprio Freud tenha nos deixado com a me­lhor descrição de como ele desenvolveu suas teorias. Em 1900, logo depois da publicação da Interpretação dos so­nhos, ele escreveu a seu amigo Fliess, confessando que “eu, na verdade, não sou absolutamente um homem da ciên­cia, não um observador, não um experimentador, não um pensador. Sou, por temperamento, nada mais do que um conquistador - um aventureiro... com toda a curiosidade, ousadia e tenacidade características de um homem desse tipo" (Freud, 1985, p. 398).

Mesmo que Freud, por vezes, possa ter se visto como um conquistador, ele também acreditava que estava construindo uma teoria científica. O quanto essa teoria satisfaz os seis cri­térios para uma teoria útil que identificamos no Capítulo 1?

Apesar das dificuldades substanciais em testar os pres­supostos de Freud, os pesquisadores conduziram estudos que se relacionam direta ou indiretamente à teoria psicana­lítica. Assim, classificamos a teoria de Freud como modera­da em sua capacidade de gerar pesquisa.

Em segundo lugar, uma teoria útil deve ser refutável. Como boa parte das evidências de pesquisa compatíveis com as idéias de Freud também pode ser explicada por ou­tros modelos, a teoria freudiana é quase impossível de ser verificada. Um bom exemplo dessa dificuldade é a histó­ria da mulher que sonhou que sua sogra estava vindo para uma visita. O conteúdo de seu sonho não podia ser uma realização de desejo, porque a mulher odiava sua sogra e não desejava uma visita dela. Freud escapou desse enigma explicando que a mulher teve o sonho meramente para implicar com ele e provar que nem todos os sonhos são realizações de desejos. Esse tipo de raciocínio claramente dá à teoria freudiana uma classificação muito baixa em sua capacidade de gerar hipóteses verificáveis.

Um terceiro critério de uma teoria útil é a capacidade de organizar o conhecimento dentro de uma estrutura signi­ficativa. Infelizmente, a estrutura da teoria da personali­dade de Freud, com sua ênfase no inconsciente, é tão solta e flexível que dados aparentemente incoerentes podem coexistir dentro de suas fronteiras. Comparada a outras teo­rias da personalidade, a psicanálise arrisca mais respostas às perguntas referentes a por que as pessoas se compor­tam da forma como se comportam. Mas apenas algumas dessas respostas provêm de investigações científicas - a maioria é simplesmente extensão lógica dos pressupos­tos básicos de Freud. Assim sendo, julgamos a psicanálise como tendo apenas uma capacidade moderada de organi­zar o conhecimento.

Em quarto lugar, uma teoria útil deve servir como um guia para a solução de problemas práticos. Como a teoria freu­diana é incomumente abrangente, muitos praticantes treina­dos no âmbito psicanalítico se baseiam nela para encontrar soluções para problemas práticos do dia a dia. Entretanto, a psicanálise já não domina mais o campo da psicoterapia, e a maioria dos terapeutas atuais usa outras orientações teóricas em sua prática. Assim, a psicanálise como guia para o profis­sional tem uma classificação baixa.

O quinto critério de uma teoria útil trata da coerência interna, incluindo termos definidos de modo operacio­nal. A psicanálise é uma teoria internamente coerente, se lembrarmos que Freud escreveu por mais de 40 anos e alterou de modo gradual o significado de alguns conceitos durante esse tempo. No entanto, em qualquer ponto no tempo, a teoria em geral possuía coerência interna, embo­ra alguns termos específicos fossem usados com menos rigor científico.

A psicanálise possui um conjunto de termos defini­dos operacionalmente? Aqui, a teoria definitivamente fica aquém. Termos como id, ego, superego, consciente, pré-consciente, inconsciente, estágio oral, estágio sádico anal, estágio fálico, complexo de Édipo, nível latente dos sonhos e muitos outros não são definidos operacionalmente; isto é, eles não são expressos em termos de operações ou compor­tamentos específicos. Os pesquisadores precisam criar sua própria definição da maioria dos termos psicanalíticos.

Em sexto lugar, a psicanálise não é uma teoria simples ou parcimoniosa, mas, considerando sua abrangência e a complexidade da personalidade humana, ela não é desne­cessariamente complexa. [43]

Psicologia - Psicanálise
8/6/2020 7:06:47 PM | Por Pierre Grimal
Atletismo Romano

Na Grécia, os jovens formavam-se no ginásio e a sua cultura intelectual vinha completar a educação do corpo. O ginásio não tinha por objetivo principal formar os soldados da cidade: o desporto, os exercícios eram um fim em si, uma "arte da paz" da qual se esperavam espíritos bem formados, equilibrados e nobres. Preparavam-se, com os melhores súbditos, atletas dignos de figurar nos Jogos Magnos, contribuindo assim, poderosamente, para a gloria da sua cidade. Em Roma, pelo contrário, a ginástica pura, o atletismo considerado como uma arte só por si, foram ignorados durante muito tempo. No Campo de Marte, os jovens submetiam-se a um treino quase exclusivamente militar: saltar, lançar o dardo, correr com ou sem armas, nadar, endurecer ao frio e ao calor, combater à lança, montar a cavalo. Mas tudo isto sem arte, sem qualquer preocupação de perfeição estética. Assim, quando, em 169 a.e.c., Paulo Emilio organizou jogos gimnicos em Amphipolis, os soldados romanos não fizeram nenhuma figura brilhante.

Os primeiros espetáculos de atletas foram introduzidos em Roma por Fulvius Nobilior (um senador fileleno), em 186 a.e.c. Mas os concorrentes eram, na sua maior parte, gregos chamados expressamente para a circunstância. O público romano parece não se ter divertido muito. Preferia os jogos tradicionais, sobretudo os espetáculos de gladiadores e de animais. No entanto, no fim da República, as exibições de atletas multiplicam-se com os progressos da "vida grega". Pompeu quis que figurassem nas grandes festas que marcaram a inauguração do seu teatro, e César, em 46, mandou construir expressamente um estádio provisório no Campo de Marte. Muitos romanos tinham percorrido o pais grego, vivido acampados em cidades da Asia e possuíam alguns conhecimentos da arte, embora pensassem, no fundo de si mesmos, que não passava de um divertimento pueril, indigno de um homem livre. A atração das multidões gregas pelos triunfos atléticos parecia-lhes muito exagerada, mas o aspecto da gloria não podia deixar de os seduzir. As numerosas estátuas levadas para a Cidade depois das conquistas tinham acabado por impor os cânones de beleza masculina em que se inspirava o ideal do ginásio. E, progressivamente, este mundo novo abriu-se à sua frente.

Nas cidades latinas sempre tinham existido lutadores nas praças públicas, em volta dos quais se reuniam os papalvos. Augusto, diz-nos Suetônio, apreciava muito esses espetáculos e, por vezes, fomentava lutas contra especialistas gregos. Esperava, com certeza, que os Romanos ganhassem gosto pelo atletismo, gosto esse que possuía em alto grau. Cabe-lhe a honra de ter instituído, para comemorar a vitória de Accio, jogos celebrados de quatro em quatro anos na cidade de Nicópolis, que fundara perto de Accio. Com este gesto, pretendeu honrar Apolo, seu protetor, mas, conscientemente, imitava também o rito grego dos Grandes Jogos. Os jogos de Accio figuraram ao lado dos quatro grandes santuários helênicos, Olimpia, Delfos, Corinto e Nemeia. E o seu cerimonial reproduziu-se em Roma; acompanhou a festa anual do templo de Apolo Palatino. Realizaram-se, além dos combates de gladiadores, corridas de carros e exibições de atletas no Campo de Marte. Estes jogos de Augusto não sobreviveram ao seu reinado mas o hábito tinha sido adquirido e o atletismo ganhara o direito de cidade romana.

O triunfo dos jogos gregos foi, evidentemente, o reinado de Nero. Todavia, a atração pelo atletismo é anterior à instituição de um concurso quinquenal chamado Jogos Neronianos (Neronia) e a festa anual do ginásio do Campo de Marte, para a qual o imperador, seguindo o exemplo dos soberanos helenísticos, previu um abastecimento de óleo destinado ao uso de quem treinasse, fosse senador ou cavaleiro. Sabemos, por um tratado de Sêneca, o diálogo Sobre a Fugacidade da Vida, que data de 49 d.e.c., que os nobres romanos se apaixonavam pelos campeões de atletismo, que os acompanhavam ao estádio e à sala de treinos, que partilhavam dos seus lazeres e acompanhavam os progressos dos novos atletas, que honravam com a sua proteção. Nero, ao multiplicar os espetáculos deste gênero, estava longe, portanto, de inovar; limitava-se a seguir uma moda já bem estabelecida. A partir do seu reinado, os jogos gregos multiplicaram-se. Os célebres Jogos Capitolinos, instituídos por Domiciano, atraíram grandes multidões e continuaram a ser celebrados pelo menos durante todo o século II e o século III da nossa era. Domiciano (como já acontecera com Nero) acrescentara aos concursos de atletas competições puramente literárias, um prêmio de eloqüência grega, um prêmio de eloqüência latina, outro de poesia: O que nos mostra a que ponto o ideal da paideia é então aceito na sua totalidade. Excelência do espírito e excelência do corpo tornaram-se inseparáveis. Para estes concursos, Domiciano mandou construir um edifício especial, um estádio, no Campo de Marte: a forma deste estádio ainda hoje se pode ver na Praça Navone, que ocupa o mesmo espaço, e as suas substruções foram postas a descoberto por escavações recentes. Teria uma lotação de trinta mil espectadores, O que nos prova, diga-se o que se disser, a popularidade destes espetáculos. É verdade que alguns espíritos tradicionalistas criticavam esta consagração da paideia grega; a oposição senatorial não perdeu tão excelente ocasião de protestar contra esta infidelidade à tradição dos antepassados, mas Roma não podia entregar as cidades do Oriente o monopólio destes concursos de atletismo. Capital do mundo, era seu dever acolher todas as formas da gloria e não recusar, em nome de um conservantismo tacanho, um ideal de beleza humana que, no passado, inspirava o classicismo grego. Por outro lado, o que chocava a maior parte dos detractores do atletismo, era o fato de ele ter degenerado da sua principal finalidade e, em vez de moldar harmoniosamente o corpo dos que o praticavam, tendeu a produzir campeões de másculos hipertrofiados, a propósito dos quais Sêneca escreveu:

"Que ridícula ocupação, meu caro Lucilius, e tão pouco adaptada a um homem culto, essa que consiste em treinar os músculos, em fortalecer a nuca e adelgaçar as ancas. Quando te encontrares forte como desejas, de músculos bem salientes, verás que nem assim terás atingido a força nem o peso de um boi..."

Mas considerações como estas não impediam que muitos jovens tivessem lições de ginástica com atletas de renome, de orelhas esmagadas em gloriosos combates, e até mesmo que certos romanos ricos tivessem em casa, ao lado do medico, especialistas que os treinavam e chegavam a regular minuciosamente todos os pormenores da sua vida.

Os espetáculos de atletismo, importados da Grécia, nunca conseguiram agradar tanto as multidões romanas como os jogos nacionais, pois não pertenciam, como estes, a mais profunda tradição religiosa da cidade.

Os jogos romanos, na sua essência, são atos religiosos. Representam um ritual necessário para manter as desejadas boas relações entre a cidade e os deuses: este caráter primitivo nunca será esquecido e, já muito tarde, ainda era uso assistir em cabelo aos combates do anfiteatro ou as corridas do circo, como se assistia aos sacrifícios.

História - Civilização Romana
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O café dos Quatro Gatos
Cardápio desenhado por Pablo Picasso com 17 anos

Entre 1897 e 1907, o Cafè dels Quatre Gats (Café dos Quatro Gatos), constituiu o expoente máximo da vida boêmia da virada de século em Barcelona. Fundado pe­los pintores Santiago Rusinol e Ramón Casas, ambos fi­guras de ponta do movimento modernista, situava-se na Casa Marti de Josep Puig i Cadafalch, onde serviu ao mesmo tempo como ponto de encontro e cervejaria para a comunidade artística e intelectual da cidade. Seu nome deriva de uma expressão típica catalã que signifi­ca “somente unas poucas pessoas”;os “quatro gatos”, no entanto, eram comumente identificados como Rusi­nol e Casas, o folclorista e marionetista Miquel Utrillo, e o idiossincrático gerente do café, Pere Romeu, que também era pintor, embora nunca tenha desfrutado de muito sucesso.

A intimidade festiva dos cafés era há muito tempo um traço característico da vida urbana na Espanha. Madri tinha vários cafés literários famosos, como o Café Gijón, onde escritores, políticos e intelectuais se reuniam em grupos regulares de discussão informal (tertúlias). No entanto, somente Os Quatro Gatos conseguiria renome internacional como o equivalente ibérico dos cafés boêmios da Rive Gauche parisiense, um reflexo, em parte, da maior vibração da capital catalã.

Avida no café Os Quatro Gatos era uma longa tertú­lia. Entre os clientes regulares estavam Pablo Picasso e Isidre Nonell, além dos próprios “quatro gatos”. Eram organizadas exposições e conferências; muitos músicos, entre eles Enrique Granados e Isaac Albéniz, davam re­citais, enquanto os artistas e escritores associados com o café publicavam sua própria revista ilustrada, “Pèl e ploma” (“Pelo e pluma”, em referência a que nela ti­nham lugar tanto os pincéis dos pintores quanto a plu­ma dos escritores). Para estes homens, a arte tinha de proporcionar os meios de superar o materialismo da Barcelona moderna e industrial. Rusinol acreditava em praticar “a religião da arte e a verdade..., dominando o mundo mau e profano”. Com este fim fundou Os Qua­ tro Gatos. No entanto - embora se tornasse uma lenda artística - não foi um sucesso comercial. O café fechou após somente seis anos.

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12/28/2019 5:45:14 PM | MenteCérebro, n.141
Prazer, hormônios e vínculo

Pesquisas recentes lançam nova luz sobre os mecanismos do prazer e do amor e mostram semelhanças entre desejo sexual e vontade de comer chocolate. Romeu e Julieta só estariam viciados um no outro?

Psicologia - Neuropsicologia
12/27/2019 8:00:14 PM | MenteCérebro, n.141
Drogas ou divã, não tão distantes assim

Médicos e psicólogos divergem sobre o tratamento adequado para transtornos mentais, os primeiros têm em mira o cérebro enfermo; os últimos os conflitos psíquicos. Mas essa rigorosa separação está ultrapassada, dizem pesquisadores.

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Cientistas descobrem fósseis de um dos primeiros ancestrais do homem e outros mamíferos
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Mãe Terra
Mãe Terra | Desconhecido

Ainda podemos encontrar as reais joias da herança da Grande Deusa entremeando o tecido dos mitos de dominação masculina. Em uma primeira versão pré-helênica do conto de Orfeu, Eurídice era, na ver­dade a mãe do destino, e a serpente, sua companheira no Mundo Inferior, que apenas acolhera Orleu em vez de matar Eurídice. Como fonte de vida, a Grande Deusa era rambém o ventre sempre fruiífero, e, seja ela manifestada mais tarde sob a forma de Hathor, Cibele, Ishtar, Gaia, Parvati, Tara, Kuan Yin, Sofia ou Maria, é benéfica, prote­tora e criativa. Está ligada à Terra, assim como o arquétipo masculino, ou do pai, está ligado ao céu. No entanto, a Grande Mãe tem um outro aspecto som­ brio, mais assustador. Ela é tanto feiticeira como mercadora da morte quando aparece como Astarte, Kali ou Durga, ou no culto a Artemis, Hécate e até Diana. Deusas do sexo feminino evoluí­ram umas das outras tanto como ocorreu com os deuses masculinos, e em nenhum outro lugar isso é mais aparente do que nas várias deusas da mitologia hindu, cuja fonte primária foi Devi. Da mesma maneira, a mãe terrível aparece na mitologia asteca como a assus­tadora deusa da Terra Coatlicue, a deusa maia Ixchel, a Medusa grega e projeções posteriores do “mal” em “femmes fatales" míticas, como Lilith.

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11/22/2019 6:04:27 PM | Danna
A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

Mitologia Celta
11/22/2019 5:49:58 PM | Culhwch
As tarefas impossíveis de Culhwch

Um dos contos mais populares de Mabinogion narra a estória de Culhwch e Olwen. Culhwch é de sangue real, pois é primo de Arthur. O seu nascimento foi invulgar. Antes de ele ter nascido, a mãe, Golenddyd, ganhou uma profunda antipatia por porcos, pois quando passava por uma vara deles, assustou-se e deu à luz um filho que abandonou. Um guardador de porcos pegou nele e levou-o para os pais criarem. Golenddyd morreu e o marido, Cilydd, voltou a casar com uma mulher que tinha uma filha que ela queria casar com Culhwch. Mas ele não quis, afirmando ser ainda muito jovem. A rainha então rogou uma praga a Culhwch, segundo a qual ele só viria a casar com Olwen, filha de Ysbaddeden, o Chefe dos Gigantes. Bastou a Culhwch ouvir o nome dela para se apaixonar profundamente.

Culhwch decidiu então pedir ajuda a Arthur para encontrar esta donzela e partiu num grande esplendor, completamente armado com machados de guerra, espada dourada e uma pequena machadinha que «podia fazer o ar sangrar.» Tinha também um chifre de marfim, dois galgos e montava um cavalo fantástico. Quando Culhwch chegou à corte de Arthur o porteiro tentou barrar-lhe a entrada, mas ele ameaçou dar três gritos de tal intensidade que as mulheres ficariam estéreis e as que estivessem grávidas abortariam.

É claro que ele passou. Encontrou-se com Arthur que se deixou convencer a ajudá-lo a procurar Olwen. As buscas decorreram durante um ano, sem sucesso. Por fim, juntaram um grupo dos melhores cavaleiros, cada um deles abençoado com peculiaridades extraordinárias. Um deles, Kay, tinha uma espada que provocava feridas que nenhum médico podia tratar; outro, Bedwyr, o mais veloz de todos, e Gwalchmai, que nunca voltava de uma missão sem a cumprir.

Após mais dia buscas, Olwen foi finalmente encontrada.

Ela correspondeu ao amor de Culhwch, mas explicou que o pai Ysbaddeden estava destinado a morrer quando se casasse. Olwen pediu a Culhwch que aceitasse qualquer condição que o pai lhe impusesse. Culhwch aproximou-se do Chefe dos Gigantes que lhe ordenou uma longa série de «tarefas impossíveis.» A mais intimidante delas consistia em recuperar uma tesoura, uma navalha da barba e um pente que estava entre as orelhas do grande e destruidor javali Twrch Trwyth. Apesar de tudo, Culhwch aceitou de boa vontade toda as tarefas. Ele e Arthur conseguiram atrair a ajuda de Mabon, o caçador que tinha estado preso num castelo após ter sido roubado. Na ocasião, ele tinha sido libertado Era conhecido como «o jovem» se bem que fosse o mais velho de todos os seres. Mabon Culhwch e os cavaleiros foram ajudados por animais mágicos: a Águia de Gwemabwy, o Melro de Kilgory, o Veado de Rhedynvre, Salmão de Llyn Law e outros bichos encantados. Um dos homens de Arthur, Gwrhyr, tim a capacidade de falar com cada um deles na sua própria linguagem. Após uma longa perseguição através do sul do País de Gales, da Cornualha e da Irlanda, durante a qual o diabólico javali devastou uma grande parte da terra, foi enfim possível, com a ajuda de Mabo dominá-lo e conduzi-lo para o mar. A navalha da barba, a tesoura e o pente foram entregue: e Culhwch pôde finalmente casar com Olwe.

Mitologia Celta
11/19/2019 7:57:26 PM | Math Ap Mathonwy
Math Ap Mathonwy e os dois sobrinhos

A história complicada de Math Ap Mathonwy, Lorde de Gwynedd, no Norte, constitui o quarto livro de Mabinogion. Tal como sucede em muitos destes contos, nela existe decepção e magia, e oscila com facilidade para trás e para a frente entre este e o Outro Mundo. É uma história de magia na qual o mal é punido, mas apenas na medida certa. Quando Math, um mago, não estava fora a vigiar as suas terras ou em alguma guerra, ele tinha de pousar os pés no regaço de uma donzela. Ele tinha dois sobrinhos, filhos da deusa Don, Gilfaethwy e Gwydion, que desejavam a virgem onde o tio pousava os pés e cujo nome era Goewin. Os irmãos, que tinham sido treinados na arte da magia pelo próprio Math, planejaram uma forma de o distraírem, começando uma guerra com Pryderi, Lorde de Dyfed, no Sul. Gwydion intrujou Pryderi com os seus porcos brancos mágicos e, tal como planejara, rebentou a guerra entre as cidades de Gwynedd e Dyfed.

Enquanto Math estava na guerra os irmãos por magia, violaram Goerin e depois regressaram ao campo de batalha. Em seguida Gwydion matou Pryderi, através das suas magias. Quando Math regressou, a sua ira ao descobrir o que tinha sucedido a Goewin levou-o a punir os dois irmãos, transformando-os durante três anos consecutivos em pares de animais: um veado e uma corça; um javali e uma porca; um lobo e uma loba, forçando-os a seguir as respectivas naturezas. Os irmãos alternavam o gênero masculino e feminino e em cada ano produziam um descendente. No fim deste período, Math perdoou os sobrinhos e voltou a dar-lhes a forma humana assim como aos descendentes, que, no mínimo, mantiveram os nomes de animais.

 

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