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TEXTOS
1/17/2020 5:53:24 PM | Por Carlos Augusto de Proença Rosa
Livre
Os primórdios da ciência nas sociedades primitivas

O surgimento do Homo Sapiens Sapiens (há cerca de 40 mil), de características físicas e mentais atuais, significou e determinou uma radical, profunda e rápida modificação no desenvolvimento do processo evolutivo, até então lento, porquanto fruto de mera acumulação e somatório de experiência. O Homem atual, que recebeu de seus ancestrais técnicas simples e incipientes, desenvolvidas ao longo de centenas de milhares de anos, no Paleolítico Superior, teria, agora, as condições necessárias para inovar em diversas atividades, ampliando o âmbito de sua atuação e realizando, em poucos milhares de anos, verdadeira revolução em seu modo de vida. Tão extraordinário avanço técnico só foi possível em decorrência de uma nova capacidade mental que permitiu o desenvolvimento da imaginação, da curiosidade e da observação. A resultante é uma Sociedade mais complexa e sofisticada, totalmente distinta da anterior.

Esse relativamente curto Período Pré-Histórico, denominado pelos historiadores de acordo com os materiais descobertos ou utilizados pela primeira vez, é dividido, em geral, em Neolítico ou Idade da Pedra Polida e em Eneolítico ou Idade dos Metais, ou, ainda, Proto-História.

Período Neolítico

O termo Neolítico – Período da Pedra Polida – foi criado em 1865 pelo naturalista inglês Sir John Lubbock (1834-1913), em sua obra Prehistoric Times, em oposição ao Paleolítico, Período da Pedra Lascada. Ainda que essa classificação continue em uso, a noção de Neolítico mudou bastante. Hoje em dia, se considera que outros aspectos da cultura dessa fase Pré-Histórica seriam mais representativos dos desenvolvimentos ocorridos em muitas populações, como a invenção da agricultura, o início dos agrupamentos urbanos e a vida sedentária, enquanto outros povos se dedicariam ao pastoreio, à caça e à coleta, permanecendo nômades. Tais denominações são, assim, insuficientes para traduzir a real complexidade de uma nova Sociedade, cujas características transcendem a mera utilização da pedra. Dessa forma, alguns autores denominam o Período como o da Grande Revolução Agrícola; outros enfatizam o aspecto da formação de uma nova organização social; outros, ainda, priorizam o estágio fetichista da sociedade primitiva.

O desenvolvimento dessas primeiras comunidades seguiu um ritmo distinto nas diversas regiões da Terra. Iniciado em momentos diferentes e com duração variável, esse processo evolutivo foi, em muitas áreas, concomitante, o que dificulta, bastante, a fixação de datas de aplicação generalizada. As datas têm, assim, um caráter indicativo e aproximativo, inclusive porque, na ausência da escrita (inventada no quarto milênio), não são disponíveis evidências comprobatórias definitivas de datação dos fatos e acontecimentos pré-históricos. As regiões para as quais se dispõe de razoável número de dados e informações são a Mesopotâmia, a Europa e os vales do Nilo, do Indo e do Amarelo.

Considera-se que o Neolítico teve início na região mesopotâmica, há uns 12 mil anos; no Sul da Europa (Grécia, Bálcãs) e Anatólia, há 9 mil anos; no Vale do Indo, há 7 mil anos; e na China, há uns 6 mil anos; independentemente desse desenvolvimento na Eurásia, o Período Neolítico teria começado na América Central e México por volta de 8 mil anos atrás, com o início da chamada Revolução Agrícola.

O processo evolutivo não ocorreu, assim, por igual e simultaneamente, nas diversas regiões da Terra. Com defasagem e sujeitas a condições locais, as diversas comunidades tiveram, contudo, uma base comum ou uma cultura neolítica comum, muitas das vezes facilitada pelos contatos de comércio com vizinhos e até com populações de outras regiões; mesmo no caso de sociedades isoladas, como é o caso da América Central, a evolução seguiu o caminho percorrido por outras na Eurásia, como atestam a agricultura, a cerâmica, os metais. O desenvolvimento técnico foi, basicamente, equivalente, nesse Período Pré-Histórico, nas diversas partes do Mundo. A explicação se encontra no fato de que a invenção, impulsionadora da Técnica, é produto do meio, de sua época, e não de um indivíduo. Tais foram os casos, por exemplo, da linguagem, da agricultura, da cerâmica e da domesticação dos animais.

Na realidade, a primeira grande inovação nasceu da necessidade de subsistência de uma população cada vez maior (crescimento de comunidades), cujos produtos de caça, pesca e coleta já eram insuficientes para satisfazê-la. As crescentes dificuldades para o deslocamento de grupos cada vez maiores, errando pelas terras circunvizinhas atrás de um alimento aleatório, contribuíram decisivamente para a busca de suprimento garantido, abundante e menos penoso de alimentos. As plantas locais, complemento das necessidades alimentares em momentos de escassez de caça e frutos, viriam a se constituir na principal fonte de alimentos. Depois de inúmeras tentativas, erros e acertos, e, para alguns autores, após uma boa dose de sorte, aquelas populações adquiriram a técnica do cultivo do arroz e do sorgo (China e Sudeste da Ásia), do trigo, da cevada, do centeio, da aveia e de leguminosas (Mesopotâmia, Anatólia, Sul da Europa), do milho, do feijão e da batata (América Central, Região Andina). A fartura resultante da incipiente agricultura incentivou o aumento demográfico, o qual requereu novas técnicas a fim de aumentar a produção e a produtividade. A expansão da fronteira agrícola para novas terras férteis propiciou a invenção do arado (Europa – 6 mil anos atrás), enquanto a irrigação e a barragem foram utilizadas nas terras abundantes de água (Mesopotâmia, vales do Nilo, do Indo e do Amarelo). A agricultura fixou o Homem à terra, transformando-o em um ser sedentário, que passaria a viver em pequenas granjas ou vilas agrícolas. A transição decorrente da implantação da agricultura teria amplas e profundas consequências, transformando uma Sociedade predadora, nômade e formada de agrupamentos familiares em uma produtora, sedentária e de dimensão multifamiliar. A resultante mais significativa para essa nova e emergente Sociedade foi o nascimento de um novo modo de vida totalmente diferente do de seus antepassados.

A Cultura Pré-Histórica foi oral, o que significa não haver registro escrito desse período. O conhecimento atual desse período é, assim, necessariamente superficial e tentativo. As descobertas de utensílios, adornos, restos mortais, vestimentas, rodas e ruínas de construções são algumas das evidências do tipo de cultura de tradição oral dessas populações. A Antropologia, ao estudar as comunidades ágrafas contemporâneas, e as informações dos primeiros documentos escritos têm contribuído, também, para uma compreensão da cultura dos povos do Período Neolítico.

Dependentes exclusivamente da memória para a transmissão de conhecimento, não foi permitido a tais povos alcançar saber teórico, mas lhes foi possível obter e desenvolver a técnica de como fazer as coisas.

Os grandes avanços técnicos, movidos pelas crescentes necessidades, em um meio hostil, e pela capacidade inventiva e imaginativa, podem ser assim resumidos:

  1. utilização de novos materiais – pedra polida e argila, da qual criaram a cerâmica, com a fabricação de um grande número de utensílios (copos, vasilhames, jarras, potes), inclusive para a estocagem de alimentos, e o tijolo, que seria usado na construção de habitações;
  2. alimentação mais rica e variada, com a introdução de novos produtos, como o leite, cereais, leguminosas;
  3. vestimentas e agasalhos mais confortáveis de tecidos (linho, lã), o que significou, ao menos, uma incipiente e tosca tecelagem;
  4. desenvolvimento do curtume – peles, couro;
  5. domesticação de animais para alimento e tração (cão, cavalo, boi, porco, carneiro, cabra, rena, camelo, galinha). A pecuária (criação de animais) e a atividade de pastoreio foram decorrentes diretos dessa importante inovação;
  6. utilização da energia eólica (barco a vela) e da tração animal para moagem e semeadura, para as quais desenvolveram a atrelagem e a junta de bois;
  7. invenção da roda, roldana, rolos, aumentando a capacidade de força muscular humana e animal;
  8. fabricação de cestos e balaios de uso doméstico;
  9. identificação de plantas venenosas e de plantas medicinais;
  10. construção de moradias (palafitas) mais apropriadas para uma vida sedentária, o que corresponderia aos primeiros tempos da Arquitetura. As manifestações artísticas, inclusive a Arte decorativa se expandiram, como atesta o grande número de esculturas e adornos encontrados em vários locais arqueológicos.

Esses extraordinários avanços não se limitaram ao campo técnico (tecelagem, cerâmica) ou ao campo das Artes (Escultura, Pintura, Arquitetura), vinculados à satisfação das necessidades materiais e culturais de uma nova Sociedade mais complexa e sofisticada. Transformações profundas na organização social, decorrentes das novas exigências comunitárias, foram os pontos altos desse processo evolutivo.

As novas e variadas atividades na agricultura, no pastoreio, no artesanato de cerâmica, na construção de moradias, no comércio com outras comunidades, na defesa da vida e dos interesses comunitários, ao promover uma incipiente especialização, estabeleceram uma divisão de trabalho da qual surgiu a classe dos proprietários, a dos empregados, a dos escravos, a dos operários ou artesãos e a dos mercadores[1]. A necessidade de um chefe, a fim de poder agir em conjunto, tanto para a defesa da comunidade, diante de um inimigo, quanto para dirigir os esforços na obtenção de sua subsistência, introduziu na Sociedade a ideia de uma autoridade política. Consolidar-se-ia, com o tempo, a figura do chefe e de seus auxiliares mais próximos, e surgiria, como representante do poder espiritual, a casta sacerdotal, aliada e suporte dos detentores do poder político.

Essa divisão de trabalho se refletiu no processo de urbanização, ao separar o poder defensivo e religioso, localizado nas vilas, das populações camponesas, vivendo próximas da lavoura. Seria nesses centros populacionais, onde passaram a habitar os chefes militares e religiosos e parte dos artesãos, e onde se estocariam os alimentos, que seriam adotadas as decisões políticas regulatórias da vida comunitária[2]. O dispositivo funcional, escreveria Daumas, se transformou progressivamente, ao ponto que se produziu uma separação tanto social quanto territorial entre a maioria rural, engajada na produção alimentar, e a minoria urbana, dedicada, nos planos profanos e religiosos, ao capital coletivo. Desses centros urbanos, onde se concentravam a riqueza e o poder (militar e religioso), surgiriam as inovações técnicas, como a metalurgia, que só tardiamente beneficiarão as populações do campo. A noção de propriedade se firmaria definitivamente, e os novos detentores do poder passariam a gerir a coisa pública. Os processos de estratificação social e de organização política se acentuariam, enquanto o sistema produtivo se tornaria cada vez mais complexo. Algumas comunidades mais avançadas deixariam de sacrificar os prisioneiros de guerra em cerimônias de antropofagia, para apresá-los como trabalhadores cativos, surgindo, desse modo, o escravismo[3].

Como seus antepassados, o Homem desse Período Pré-Histórico tinha como prioridade absoluta sua sobrevivência em um meio hostil. Daí sua objetividade, seu pragmatismo, seu interesse no desenvolvimento de coisas práticas e úteis que lhe facilitassem enfrentar as dificuldades do dia a dia. Não havia outra preocupação além das de assegurar uma melhoria das condições de vida.

No Mundo Pré-Histórico e Proto-Histórico, a Natureza, tão diversa e misteriosa, deve ter maravilhado, e apavorado, aqueles habitantes, ainda impossibilitados de compreender os fenômenos naturais ou de procurar uma explicação racional e lógica para o que acontecia a seu redor. Apesar de o Homem primitivo constatar, através da observação, a ocorrência de fatos extraordinários, como o movimento dos corpos celestes, variação climática, sucessão do dia e da noite, chuva, eclipse, tremor de terra, doenças e morte, não lhe ocorria, nem o preocupava, buscar explicações para tais fenômenos, carente que era de espírito crítico e analítico. Sua própria observação dos fenômenos naturais era passiva, deficiente, assistemática e sem objetividade, no sentido de que não lhe aguçava a curiosidade. Sua reduzida capacidade de observação e sua imaginação lhe seriam suficientes, contudo, para deslanchar impressionante desenvolvimento técnico. Sua imaginação desempenharia um papel central em sua evolução mental e cultural, porém não se subordinaria à observação e, até mesmo, em alguns casos, e em determinadas situações, a substituiria pela pura imaginação. Como ensina Ivan Lins, era inevitável que o Homem primitivo atribuísse os fenômenos ou acontecimentos a vontades  fictícias, isto é, sobrenaturais e imaginárias, que só existiam em sua própria fantasia e eram informadas pela observação[4].

Surgiria, em consequência, como fruto da imaginação, a magia, que procuraria expressar uma síntese do Mundo natural e de seu relacionamento com o Homem. Para Colin Ronan[5], a “magia exprimiu o que, de um modo geral, era uma visão anímica... em um mundo onde as forças eram personificadas”. Esse relacionamento (chuva e crescimento das plantas, por exemplo) era facilmente observável, mas a dificuldade se encontrava em explicar tais fenômenos e em colocá-los a seu serviço. Como escreveu Maurice Daumas “durante muito tempo ainda, tudo decorrerá da simples experiência, de uma espécie de submissão ativa às leis naturais. O homem do campo se contentará durante séculos, em todas as latitudes, com os conhecimentos práticos, e este será o tesouro que ele legará às gerações que o seguirão. Aquilo que ele não compreende, ele o explicará por sua ação diária, mesmo a mais humilde, em ritos tornados tradicionais...”. O Mundo tornar-se-ia compreensível somente através da ideia de que os objetos e fenômenos tinham vida própria ou eram manifestações de deuses e divindades, que deveriam ser agradados de forma a terem boa vontade para com os homens em sua labuta diária. Assim, o Mundo era povoado por um conjunto de seres visíveis (animais, plantas) e controlado por espíritos e forças ocultas e misteriosas que habitavam os seres, objetos e elementos (animais, árvores, mar, vento, chuva, sol); algumas dessas forças eram perceptíveis (raio, trovão, tremor de terra), e a doença era tida como uma manifestação dos espíritos do mal. Os fenômenos naturais eram, assim, relacionados com o mundo dos espíritos, desenvolvendo-se procedimentos (através da magia) para lidar com os dois mundos. A reencarnação era uma crença amplamente difundida.

A Medicina, ou melhor, a arte de curar, nas culturas orais ou ágrafas, era inseparável da magia. O valor do especialista na cura não era devido à sua habilidade cirúrgica ou ao uso correto de plantas medicinais, mas ao seu conhecimento das causas sobrenaturais da enfermidade.

Surgiu, então, a  figura do feiticeiro, mago, curandeiro, que incentivaria a imaginação popular e criaria uma ritualística pela qual seria possível prestar homenagens a essas forças misteriosas. Detentor dessa capacidade de interpretar a vontade superior de tais entidades, o feiticeiro transformou-se em uma das autoridades da Sociedade, constituindo-se, inclusive, em uma casta, a sacerdotal. Como escreveu Darcy Ribeiro, “os especialistas no trato com o sobrenatural, cuja importância social vinha crescendo, tornam-se, agora, dominadores. Constituem não apenas os corpos eruditos que explicam o destino humano, mas também os técnicos que orientam o trabalho, estabelecendo os períodos apropriados para as diferentes atividades agrícolas. Mais tarde, compendiam e codificam todo o saber tradicional, ajustando-o às novas necessidades, mas tentando  fixá-lo para todos os tempos. Este caráter conservador era inarredável à sua posição de guardiões de verdades reveladas, cuja autoridade e cujo poder não se encontravam neles, mas nas divindades a que eram atribuídas”. Preces, invocações, feitiços, sacrifícios, purificações, amuletos e poções seriam, então, utilizados para apaziguar e festejar essas divindades e espíritos.

Essa visão anímica do Mundo e da Natureza, essa mentalidade fetichista levaria, inexoravelmente, a uma noção do absoluto; o Homem acreditaria ter posse do conhecimento absoluto, pois não encontraria nenhuma dificuldade ou problema em se satisfazer com a interveniência de divindades para justificar os fenômenos. O problema da compreensão não surgia, assim, para o Homem Neolítico, já que a explicação fetichista lhe satisfazia. Bastavam-lhe as constatações do que acontecia ao seu redor e a crença em um poder superior, responsável pelo que ocorria e ao qual deveria submeter-se e adorar.

Idade dos Metais

O terceiro e último Período da Pré-História é conhecido como o da Idade dos Metais, ou Eneolítico, ou ainda de Proto-Histórico, de curta duração (de 8 mil a 5 mil anos atrás), mas de grande importância no processo evolutivo da Sociedade Pré-Histórica, pois corresponde à transição para o Período Histórico. As atividades agrícolas e de artesanato, iniciadas no Neolítico, se expandiriam e se diversificariam para atender a uma maior demanda de uma crescente população que se urbanizava rapidamente; surgiriam centros urbanos em pontos estratégicos das rotas comerciais.

Uma nova atividade, a da mineração do metal, contribuiria para a diversificação econômica, propiciando o aparecimento da Metalurgia. Tão importante quanto foram, em épocas anteriores, a argila, o osso, a madeira e a pedra, o novo material, de múltipla utilização, teria um papel decisivo no plano econômico e social das sociedades do período, a ponto de caracterizá-lo.

O primeiro metal descoberto foi o cobre (cerca de 8 mil anos atrás, no Sudoeste europeu, espalhando-se pelo resto da Europa, da Ásia e do Norte da África), usado em utensílios domésticos; sua importância e significado explicam ser esse Período inicial chamado, por muitos autores, de Calcolítico. O ouro e a prata também foram conhecidos nessa época e tiveram muitas aplicações, inclusive em adornos. O bronze (liga de cobre e estanho) segue cronologicamente os três metais anteriores, mas pela técnica requerida para sua fabricação, originou a Metalurgia, avanço técnico fantástico, o que justifica chamar esse Período de Idade do Bronze. O bronze foi fabricado primeiro na Mesopotâmia, por volta de 6 mil anos atrás, e na Grécia e na China, há 5 mil anos, vindo, rapidamente, outras populações a aprender a técnica e a utilizar o metal. O ferro só viria a ser conhecido há cerca de 3.300 anos, usado, pela primeira vez, em artefato de guerra, pelos hititas.

A linguagem falada permitiria melhor convivência social entre os diversos grupos multifamiliares, ao mesmo tempo em que o avanço econômico e a divisão de trabalho favoreciam um empírico desenvolvimento técnico, de efeito altamente positivo, nas condições de vida das populações. A noção de propriedade privada se estenderia aos meios de produção e ao campo, consolidando-se a hierarquização social, com uma classe rica, dominante, próxima e beneficiária do poder político, exercido por um governante, apoiado por uma casta sacerdotal. A tradição, os costumes, as crenças e o conhecimento técnico eram transmitidos oralmente, de geração a geração, constituindo-se na característica marcante dessas comunidades.

A descoberta, em setembro de 1991, de uma múmia de caçador, em perfeito estado de conservação, na geleira do Tirol, com datação estimada em 5,3 mil anos, poderá trazer preciosas informações sobre hábitos da população das comunidades da região. O “homem de gelo” recebeu o nome de Otzi, por causa da área em que fora encontrado, Oetzal, e atualmente se encontra no museu da pequena cidade de Bolzano, na Itália.

Duas extraordinárias inovações técnicas ocorreram no período. A primeira foi a contagem – provavelmente apenas soma e subtração – para fins de medição de peso, volume e área, dadas as necessidades de comércio e de armazenamento do excesso de safra, além do requerimento de quantidade envolvida com a propriedade dos rebanhos de animais. Incipiente e precária, e fruto exclusivo das prementes necessidades comunitárias, a contagem, nesse estágio, foi um mero desenvolvimento técnico. A segunda inovação, a escrita de signo, surgiu por volta de 3,5 mil antes da Era Comum, na Mesopotâmia (tábuas de argila em Uruk), dada a necessidade de consignar o conhecimento obtido nas diversas atividades, de registrar os principais acontecimentos e decisões dos líderes da comunidade e de atender aos interesses comerciais. A transmissão oral, dependente da memória, era já insuficiente para esses propósitos, razão bastante para o desenvolvimento de uma técnica capaz de satisfazer os interesses comunitários. A invenção da escrita, instrumento fundamental na preservação e divulgação da cultura, é um marco no desenvolvimento da Humanidade, e serve, inclusive, como fecho do Período Pré-Histórico e momento inicial da História.

Apesar de todo o desenvolvimento técnico e acumulação de dados e informações, é compreensível não ter surgido a Ciência no Período Pré-Histórico, porquanto não se tinham ainda reunido as condições necessárias para a transformação do conhecimento empírico em conhecimento científico. Seria contraditório a uma comunidade ágrafa dispor de conhecimento teórico e desenvolver um saber científico. A falta da escrita e de um espírito científico, crítico, analítico, foi suficiente para inviabilizar o nascimento da Ciência naquele contexto Pré-Histórico, mental e social. Avanços técnicos (emprego de drogas extraídas de ervas, trepanação) e observações na área da saúde não podem ser considerados como indicação de algum conhecimento biológico, como a ideia do número, evidência de alguma capacidade de abstração, não serve como momento da constituição da Ciência Matemática. Da mesma forma, o conhecimento de algumas plantas não cria a Botânica, ou de certos animais, a Zoologia. O que havia era uma técnica, um conhecimento prático, um empirismo sem qualquer abstração dos princípios subjacentes. Assim, apesar dos incontestáveis progressos técnicos, a Ciência não foi criada nesse Período da Pré-História da evolução humana.

O surgimento das primeiras grandes civilizações, às margens dos vales do Tigre e Eufrates, do Nilo, do Amarelo e do Indo e Ganges, início do Período Histórico, beneficiou-se pela incorporação do adiantamento social, cultural e técnico ocorrido em épocas anteriores, especialmente no Período Arqueológico Neolítico e na Idade dos Metais, nessas regiões. Assim, não surgiram tais culturas por acaso ou por milagre nesses locais, nem desenvolveram esses povos seus conhecimentos e seu modo de vida sem uma base prévia; essas civilizações primárias emergiram diretamente de seu passado neolítico. Há, assim, um legado importante, recebido no início dos tempos históricos, que não deve ser esquecido ou desprezado, porquanto ele contém respostas para uma série de indagações sobre os primórdios do Homem, sua evolução e suas realizações, bem como sobre a emergência das civilizações primárias.

 

História - Neolítico
1/16/2020 1:40:18 PM | Por Francisco Teixeira Portugal
Livre
Comparação e genealogia na psicologia inglesa no século XIX

A obra de Charles Darwin (1809-1882) marcou de maneira incontornável a concepção do vivo no século XIX e os cinquenta anos que sucederam a publicação de Origem das espécies (1859) podem ser chamados de era darwiniana não só na psicologia, mas na biologia e nas ciências sociais (Jacquard, 1986). Ao final de sua obra marco, Darwin “visualiza novos campos que se estendem para pesquisas ainda mais importantes” e continua sua previsão escrevendo que a "psicologia irá basear-se num fundamento novo, o da necessária aquisição gradual de cada faculdade mental". Dessa forma, "nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história” (Darwin, 1859: 351).

À psicologia caberia a importante tarefa de mostrar a aquisição grada­tiva de cada faculdade mental e assim chegar a estender as propostas transtornacionistas ao homem, algo repleto de consequências não apenas para a universidade inglesa, ainda muito clerical, mas também para os grupos governantes ainda muito antiliberais. Um fundamento novo — seguindo as palavras de Darwin – suportou as novas pesquisas sobre o homem, os seres vivos e as organizações sociais, e a história de sua difusão revela o surgimento de uma importante vertente da psicologia inglesa no século XIX.

Constitui um erro comum considerar a biologia como fornecedora de referenciais e modelos para a psicologia, especialmente no que diz respeito às contribuições de Darwin. A suposição é a de que nas relações entre elas, as inovações conceituais e metodológicas da biologia seriam exportadas para a psicologia. Nesta linha de pensamento, e destacando a psicologia – darwiniana inglesa, restaria à psicologia apenas o procedimento maior de recolocação dos problemas a partir de um referencial novo que se mostrou fértil alhures sobre seu objeto privilegiado, as faculdades mentais.

Mas, deveríamos crer, ingenuamente, que a aplicação de um pressuposto ou de um método sobre um objeto faria com que ele se apresentasse aos nossos olhos sem possibilidade de ocultação?

Outros são os termos de Darwin e outra também a história desse saber. Essa psicologia, como qualquer outra, não se fez por depuração metodológica, mas pela constituição de dispositivos de legitimidade e pela emergência de novos temas. O papel desempenhado pela psicologia foi relevante para a constituição da própria teoria da seleção natural, modificando a mão dessa trilha que liga a psicologia à biologia.

O evolucionismo constitui um exemplo do equívoco apontado acima. Embora o conceito de evolução tenha se identificado com a evolução orgânica, ele não se restringe à biologia e pode ser remetido a campos diversos das ciências naturais e das ciências humanas e sociais (por exemplo, cosmologia evolutiva, termodinâmica evolutiva, algumas teorias da linguagem, as ciências sociais, a geologia). Como afirmou Lewontin (1985:249), Darwin representa o ponto culminante da teoria da evolução orgânica, não a matriz do evolucionismo do século XIX.

Podemos dizer que Darwin forneceu, com seu livro inaugural, uma credibilidade, segundo os cânones da ciência de então, à noção de evolução Jacquard (1986) lembra, entretanto, que o termo só apareceu na sexta edição da obra Origem das espécies. Na verdade, um dos grandes organizadores e difusores da tese evolucionista na Inglaterra do século XIX foi Herbert Spencer (1820-1903).

Spencer é atualmente um pensador muito ignorado; todavia, a ressurgência das forças liberalistas tem sido acompanhada da revalorização de parte de sua obra. Assim, há uma simpatia por seu pensamento quer pelos filósofos de mercado, quer pela renovada tentativa de aplicar os princípios evolucionistas à sociedade humana. A ausência de formação universitária e inserção profissional acadêmica de Spencer não impediu que ele fosse indicado a receber, ao longo dos últimos trinta anos de sua vida, uma série de homenagens acadêmicas (tendo recusado quase todas).

Juntamente com Edward Burnett Tylor (1832-1917) e Lewis Henry Mor­gan (1818-1881), Spencer está entre os três mais destacados evolucionistas do século XIX, e embora, segundo Burrow (1968), seu trabalho tenha sido exaltado da Rússia aos EUA, sua importância entre os pensadores do século XIX tem sido exagerada. Sua herança intelectual inclui também, além do evolucionismo, o liberalismo clássico calcado no individualismo, na noção puramente econômica das relações sociais, no Estado mínimo e na negação gradual das instituições com exceção da propriedade. Estas características fizeram dele o grande DARWINISTA SOCIAL, pois foi sobretudo seu evolucionismo e não o de Darwin, que, associado ao  liberalismo individualista, deu suporte às práticas excludentes e perigosas do evolucionismo social. 

O positivismo determinista presente nas ciências sociais na segunda metade do século XIX encontrou em Spencer um de seus mais firmes adeptos. Sua crença na causação natural o levou a adotar a teoria evolucionista. Tendo escrito algu­mas de suas obras onde a concepção de evolução é exposta antes mesmo da publicação do livro Origem das espécies de Darwin, Spencer buscou aplicar o princípio da evolução sistematicamente a todo o universo e es­ pecialmente à sociedade humana. Spencer considerava-se o Newton das ciências morais, a aplicar a lei universal da conservação de energia traduzida em princípio da evolução ao universo. Assim, para além do mundo ao qual os físicos se dirigem, a evolução se aplicaria também ao mundo dos seres vivos, aos homens e suas organizações sociais.

Sua concepção de evolução não vem, pois, de Darwin, nem ele foi um darwiniano. A concepção de evolução relaciona-se à sua crença na causação natural e a uma ciência determinista e, no caso de sua aplicação aos seres vivos, vem muito mais de um conhecimento de segunda mão das concepções de Jean-Baptiste Lamarck do que de uma reflexão a partir da obra de Darwin. Seu credo liberal valorizava, assim como os utilitaristas da primeira metade do século XIX, o indivíduo, mas de uma forma renovada, ao propor o conceito de estrutura social.

É dessa perspectiva individualista que se pode compreender a expressão de Spencer - “sobrevivência do mais apto" - para o conceito darwiniano de seleção natural. A seleção natural, tão importante por ter fornecido um sentido para as transformações e diferenças entre os seres vivos, inexplicáveis na perspectiva lamarquista, se ancora na comunidade, não no indivíduo. Spencer desloca para o indivíduo esse conceito crucial dos trabalhos de Darwin e o aloca na perspectiva do progresso. Além da deformação conceitual que representa a transformação da seleção natural em sobrevivência do mais apto, Spencer manteve até o final de sua vida a crença na concepção lamarquista de herança dos traços adquiridos. O evolucionismo liberalista de Spencer pode então hierarquizar as organizações sociais tomando como cume a organização liberal da Inglaterra colonialista.

Spencer foi muito mais resenhado por autores das ciências sociais que da psicologia. Contudo, considerando o retorno das abordagens evolucionistas ou evolucionárias na psicologia, Spencer tem sido retomado e historicamente revalorizado. Assim é que se indica repetidamente o elogio de Darwin e de William James a Herbert Spencer. 

Nessa vertente do melhoramento biológico, social e psíquico que se elaborou teoricamente na Inglaterra também pode ser incluído o contemporâneo de Spencer, Sir Francis Galton (1822-1911). As contribuições de Galton para a psicologia podem ser divididas em dois campos: a eugenia e a psicologia diferencial. 

A Eugenia significa “bem-nascido e consistia no estudo e no uso da reprodução seletiva com o fito de melhorar as espécies, principalmente dos atributos hereditários, ao longo das gerações. A defini­ção de eugenia foi refinada por Galton ao distinguir a eugenia positiva, que incentivava a reprodução do mais apto à da eugenia negativa, que buscava evitar ou dificultar a proliferação do menos apto. Assim, e nos termos marcadamente conservadores da Inglaterra vitoriana, Galton afirmou da maneira mais desqualificada sua impaciência e objeção em relação à tese da igualdade natural entre os homens (Galton, 1869: 44).

O esforço de Galton foi o de mostrar que as habilidades mentais – o que ele chamava gênio — eram traços hereditários tanto quanto os padrões físicos e estavam, consequentemente, submetidas aos mesmos dispositivos de transmissão. O lorde inglês utilizou para demonstrar tal propósito dois instrumentos de legitimação, um artifício matemático (a teoria das probabilidades) e as palavras de Darwin (a seleção artificial). O problema principal para Galton foi como ter acesso às habilidades mentais e como mostrar que eram traços hereditários. Para tanto, Galton fez uma passagem cheia de consequências ao correlacionar as habilidades mentais superiores à reputação profissional alcançada pelos individuos. O pressuposto era o de que a reputação so pode ser alcançada através das altas habilidades mentais. Em seguida era preciso mostrar como os indivíduos de alta reputação mantinham um padrão here­ditário. Em outras palavras, tratava-se de naturalizar as diferenças sociais. Além disto, observe-se que o termo correlacionar aqui é importante porque os instrumentos matemáticos permitem “limpar” as escolhas morais de Galton, uma vez que a sofisticação introduzida pelas matemáticas obstruem frequentemente a percepção dos interesses e consequências político-sociais envolvidos nessas analises.

O primeiro passo foi dado sem maiores dificuldades —“Estou con­vencido... – , o segundo foi dado ao indicar a similaridade entre a forma de distribuição das habilidades mentais e dos traços físicos herdados (ambos eram distribuídos segundo a curva normal). Embora tal similaridade não permitisse indicar a hereditariedade das habilidades mentais, o que importa notar é que o instrumental matemático ajudou a sustentar uma fraude cien­tífica muito mais por suas consequências sociais que por qualquer má-fé de seu criador e de seus divulgadores.

O argumento era circular; sem ter como medir a hereditariedade das habilidades mentais, Galton mediu as frequências com que a eminência ou reputação aparecia em famílias de grande notabilidade segundo o grau de parentesco. Comparando-as com as frequências de eminência esperada da população mais ampla, descobriu que as relações de homens eminentes exibiam uma frequência muito maior de eminência que a esperada na base e que ela declinava conforme o grau de parentesco dessas relações. Então, aí está a circularidade do argumento, Galton concluiu que esse padrão só poderia resultar da herança das habilidades mentais.

Independentemente das falhas do procedimento de Galton, estaría­mos enganados ao diminuir as consequências das propostas eugênicas. Elas tiveram uma ampla aplicação ao longo do século XX e estão presentes em nossos dias. O infame programa eugênico levado a cabo na Alemanha nazista em nome da pureza da raça ariana foi realizado pela esterilização forçada de centenas de milhares de pessoas consideradas mentalmente desadaptadas e pelos programas de eutanásia compulsória que mais tarde desembocaram no assassinato de milhões de “indesejáveis”, incluindo judeus, ciganos e ho­mossexuais, durante o Holocausto perpetrado na Segunda Grande Guerra.

O segundo maior movimento eugênico ocorreu nos EUA que, desde o final do século XIX, implantou leis sob a égide da eugenia proibindo o casamento dos epilépticos, imbecis e débeis mentais. As teses eugenistas também estiveram presentes em 1924 nas decisões do Congresso estadunidense de dificultar a imigração, ao serem aconselhados sobre os riscos de espalhar entre os estadunidenses um “estoque inferior” proveniente da Europa Oriental e do sul. Assim, também sob inspiração eugênica, foram adotadas, ainda nos EUA, leis contra o incesto e de antimiscigenação, bem como levados a cabo programas de esterilização que atingiram milhares de estadunidenses considerados desadaptados. Um relatório favorável desse programa de esterilização foi apontado pelo governo nazista como evi­dência de que a esterilização era praticável e humana e, durante o Tribunal de Nuremberg dos Crimes de Guerra, os administradores nazistas de programas de esterilização em massa apontaram os programas estadunidenses como sua inspiração. Contudo, observe-se que, com exceção do Reino Unido, quase todos os países não católicos da Europa Ocidental implan­taram ao longo do século XX uma legislação eugênica.

Após a Segunda Grande Guerra, os programas perdem força, mas muitos eugenistas nos EUA criam o termo criptoeugenia com a intenção de manter as propostas eugênicas disfarçadas. Assim, diversas argumentações sobre raça, imigração, pobreza, criminalidade e saúde mental são categorizadas como criptoeugênicas, ou seja, publicações e práticas eugênicas ganham novos nomes. Atualmente, um dos programas de inspiração eugênica de maior alcance está ligado ao projeto genoma de mapeamento do código genético.

Uma importante modificação nos procedimentos classificatórios praticados pelos pesquisadores do mundo natural no final do século XVIII e início do século XIX consistiu no abandono da descrição do que era observado diretamente na superfície das coisas e na eleição de princípios ordenadores invisíveis que pudessem fornecer sentido à classificação dos seres. A história natural própria ao século XVIII ordenava seu mundo pela comparação das características visíveis das plantas e dos animais em um sistema fechado, refratário às transformações. As novas noções de vida, de função e de órgãos que emergem no século XIX deslocam o procedi­mento descritivo da história natural e se impõem na formação de novas práticas que constituem a biologia (Foucault, 1987). Também o tempo passa a constituir uma dimensão invisível que ordena as relações entre os seres vivos. A genealogia se impõe à comparação.

Darwin, representante dessas modificações, também se perguntou so­bre o sentido da classificação. As aproximações e as diferenças que emergem da pura comparação entre os seres vivos geravam uma infinidade de categorias, tornando a classificação pouco operacional. Essas categorias poderiam ser drasticamente reduzidas se fosse eleito um princípio norteador que fornecesse uma inteligibilidade manuseável. Enquanto biólogos mais ligados à Igreja —os teólogos naturalistas —se esforçavam em agrupar os seres vivos em círculos simbólicos que revelariam a escrita de Deus própria ao criacionismo, Darwin, na esteira transformacionista, elege a genealogia como critério que fornece sentido às aproximações e diferenciações que permitem agrupar os tipos animais e vegetais. Entende, pois, que as enormes diferenças existentes entre os seres vivos remontariam a um longo passado reple­to de pequenas bifurcações. Se todos os seres existentes e que existiram pudessem ser coletados, então seria possível estabelecer suas séries, relacionando-os em um grande e indivisível grupo.

Ainda que esse princípio tenha sido altamente difundido a par­tir de então na biologia, não devemos esquecer sua artificialidade. As “ordens, famílias e gêneros são termos meramente artificiais extrema­mente úteis para mostrar o parentesco daqueles membros da série que não se tornaram extintos” (Darwin, 1859). Darwin ainda comenta que os natu­ralistas sabem que seus critérios são artificiais, mas têm a estranha tendência a esquecer essa característica e conceber suas propostas como o simples reflexo do mundo natural.

A psicologia entra em cena nos trabalhos de Darwin a partir de sua tentativa de saber como o homem descende de alguma forma preexistente. Se no livro Origem das espécies (1859) não houve menção à genealogia humana, com o sucesso de suas propostas, a pergunta encontra seu encaminhamento vinte e poucos anos depois em A ascendência do homem (1871) e em A ex­pressão das emoções em homens e animais (1872).

As conexões do homem com alguma forma preexistente foram procuradas nas variações da estrutura corporal e nas faculdades mentais. A assimetria dos critérios que garantem a conexão genealógica entre os seres vivos quando referidos às estruturas corporais e às faculdades mentais marca uma diferenciação presente entre biologia e psicologia. Darwin tem muito mais dificuldade em estabelecer critérios de ordenação das faculda­des mentais e seus elos com formas anteriores, em franco contraste com os critérios utilizados para as estruturas corporais.

Ainda que Darwin não tenha desenvolvido uma teoria sofisticada da relação mente-corpo, ele concebe as faculdades mentais como produtos do funcionamento cerebral. Seu argumento era bastante simples: assim com o não se sabe por que a gravitação é um efeito da matéria e ninguém fica perplexo por isso, também não sabemos por que a mente é um efeito do cérebro. Com essa definição naturalista, as faculdades mentais, tanto quanto os atri­butos estruturais dos organismos, poderiam ser utilizadas para classificá-los, legitimando a comparação entre homens e animais no campo da psicologia.

Entretanto, a tentativa de classificar um tipo animal por seus hábitos ou instintos havia se mostrado muito insatisfatória. Devemos lembrar sem­pre que as tentativas de classificação centradas em apenas um critério eram concebidas pelo naturalista com inadequadas e insuficientes, mas de uma forma geral o comportamento e as faculdades mentais não serviram ou não tiveram o mesm o respaldo que os critérios atinentes às estruturas corporais para o sistema classificatório.

Se fica claro que a base de sustentação da teoria biológica diferen­ciou-se da psicológica, por outro lado estaríamos equivocados ao afirmar que não houve interação entre elas, ou mesmo que a primeira tenha sido imposta à segunda. As faculdades mentais e o comportamento não são determinados passivamente pela evolução, tendo sido concebidos pelos transformacionistas como desempenhando um papel relevante na trajetória dos seres vivos. Jean-Baptiste Lamarck concebia o comportamento como simultaneamente produto e instrumento das transformações das espécies. Sua obra teve importante influência no pensamento de Darwin que a conheceu durante seus estudos em Edimburgo (onde tentou sem sucesso formar-se em medicina como seu pai e seu avo) e que manteve por longo tempo no eixo de suas reflexões. O pensamento do naturalista francês atua sobre o jovem Darwin da seguinte forma: algumas modificações no ambiente constrangem os animais a novos hábitos, em decorrência de novas exigencias. Novos habitos alteiam as estruturas cerebrais bem como outros órgãos, se praticados ao longo de muitas gerações. Para Darwin, a memória ou o pensamento, quando tornados habituais e involuntários, afetam a estrutura física do cérebro, podendo tais transformações ser transmitidas à prole. Dessa forma, os instintos ganhavam uma explicação materialista, mas grandes brechas ficaram abertas, a mais conhecida e mais grave sendo a pergunta: como conectar a modificação estrutural produzida pelo hábito com a transmissão para a prole das estruturas adquiridas?

Os instintos maravilhosos eram, para Darwin, extremamente difíceis de explicar pelo hábito. Sua dificuldade principal estava na acentuação do caráter não intencional e não consciente de comportamentos complexos. Como poderia a solitária vespa aprender a cavar um buraco, paralisar uma aranha e colocar seus ovos, se suas crias nascerão depois de sua morte.

Que benefício futuro ela poderá tirar? Que tipo de ajuste do comportamento pode ser evocado para dar sentido a este tipo de instinto? Em um formigueiro pode haver formigas divididas em duas ou mais castas, sendo algumas estéreis. Como esses insetos sexualmente neutros poderiam deixar prole?

Darwin encontrou respostas a estas perguntas na transposição do foco de análise do indivíduo para a população. A solução encontrada que permitiu a aplicação da teoria da seleção natural a estes casos foi o reconhecimento da diferença entre o animal que seleciona um comportamento por sua utilidade (o animal é o centro decisório) e o animal que é selecionado por seu comportamento útil (o animal é parte de um processo). A unidade de medida passa a ser a população ou a comunidade.

Um problema considerado psicológico como o do instinto ocupou, portanto, um lugar destacado no estabelecimento da teoria da seleção natural, envolvendo-a numa longa reflexão sobre a moral e as faculdades mentais.

Como dito anteriormente, foi principalmente nas obras A ascendência do homem (1871) e A expressão das emoções em homens e animais (1872) que Darwin buscou explicitar o parentesco comum entre homens e animais através das expressões e das faculdades mentais.

Ao longo desses livros foram desfiados extensos comentários sobre as semelhanças psicológicas entre homens e animais calcados em “fatos” colhidos por mais de quarenta anos através de observações, de questionários e de experimentações. A liberdade com que foram aplicados atributos mentais aos animais a partir das observações de viajantes e missionários salienta uma opção pela continuidade mental entre eles, já que esses “fatos” eram tremendamente antropomórficos e antropocêntricos. Muito mais do que uma fonte intelectual e documental para a construção de uma psico­logia comparada ou uma etologia, a psicologia de Darwin se apresenta como uma crítica aos argumentos que isolam qualitativamente homens e animais. Assim é que a observação dos cachor­ros pode fornecer uma evidência anticartesiana, uma vez constatado que eles constroem “uma ideia geral dos gatos e das ovelhas, e conhece[m] as palavras correspondentes tão bem quanto as pode conhecer um filósofo” (Fontenay, 1998: 566). Ou mesmo que os animais se espantem; aqui, lembramos ser o espanto uma característica-chave para a atividade filosófica na concepção de Platão e Aristóteles. Ficamos também cons­trangidos ao sermos comparados pelo naturalista em relação aos nobres sentimentos de um cão que, no momento mesmo de sua vivisseção, lambe a mão de seu dono: sinal não só de aceitação de seu martírio em nome da nobre causa da ciência, como de seu perdão por uma ação tão cruel.

O esforço de Darwin se justificava pela barreira imposta à teoria da seleção natural diante da descontinuidade das capacidades mentais do homem e dos animais. A genealogia simiesca do homem, apesar de ge­rar intensas discussões, foi aceita por um público amplo. Se o clero e algumas camadas dominantes a rejeitaram com fervor, o livro Darwin alcançou várias tiragens, as palestras de Huxley atraíam multi­dões e houve também a produção de uma literatura popular, divul­gando valores evolucionistas, avida­mente consumida por um grande público.

Mas, no plano das argumentações acadêmicas, muito havia ainda a ser feito para garantir a continuidade homem-animal no plano mental. Os esforços de George John Romanes (1848-1894) e Conwy Lloyd Morgan (1852-1936) foram os mais relevantes em continuidade com os do mais conhecido naturalista inglês.

Encarregado por Darwin de realizar a extensão das teses evolucionistas à mente e ao comportamento, Romanes realizou um estudo de psicologia comparada centrado na experiência humana consciente. Para ele, a força de uma teoria estava na possibilidade de fornecer inteligibilidade a campos novos que não tinham sido seu foco inicial e este era o caso da teoria da seleção na explicação de temas psicológicos como o instinto, a razão e o senso moral.

Seu projeto consistiu principalmente na elaboração de princípios explicativos da gênese da mente, mas ele também realizou estudos sobre o intelecto, a emoção, a vontade, a moral e a religião. Há um claro esforço em atestar a continuidade homem-animal, o que o levou a uma seleção bastante tendenciosa do material a ser analisado. Explicando: como seu material continuava provindo, em grande parte, de viajantes e missionários nas colônias europeias, Romanes o selecionava conforme a fama do autor do relato. Se o autor não fosse reconhecido, fazia a verificação da qualidade da observação através da confrontação das informações. Como a maioria dos relatos utilizados era proveniente de eminentes ingleses trabalhando nas longínquas terras daquele então vasto império colonial, não questionava seus dados nem sua interpretação, já que, segundo seus critérios, estes eram válidos e confiáveis. Dessa forma, o antropomorfismo das observações ganhava uma teorização academicamente legitimadora na obra de Romanes. 

Contudo, também contou com observação mais controlada e chegou mesmo a cuidar de um MACACO CEBUS COULO parte de suas pesquisas. A mente, em sua concepção, é imediatamente dada a nós, não podemos duvidar de que temos conhecimento de um certo fluxo de Pensamentos e sentimentos. Com esta perspectiva, a observação de outras mentes torna-se possível por inferência, a partir das atividades dos organismos que parecem exibi-las. Solipsismo e antropomorfismo regem a reflexão. Primeiro passo: os humanos têm acesso introspectiva e diretamente às suas mentes (é por analogia que podemos afirmar que todos partilhamos esta característica). Segundo passo: como só podemos inferir as mentes em animais a partir das atividades dos or­ ganismos, devemos compará-las às dos homens para, na medida de sua semelhança, vislumbrá-las.

Romanes justifica seu procedimento lançando mão de um argumento teológico. Assim como os teólogos mostraram que a mente divina só pode ser concebida por analogia com a nossa, ainda que imperfeita, também em reação à mente animal devemos impor tal entendimento e aplicar o “antropomorfismo invertido” (invertido aqui em comparação ao alvo teológico que, na primeira comparação, se dirige a Deus),

A consciência e a escolha são os traços distintivos que indicam a existência da mente entre os animais. Assim como os comportamentos humanos que não se restringem  ao conjunto de hábitos herdados podem ser explicados pela consciência e pela escolha, também as atividades dos animais que escapam ao hábito podem indicar decisão e consciência. Mas a mente só pode ser inferida a partir de atividades que se sobrepõem às determinações inatas. Atividade consciente e aprendizagem se aproximam e a distinção inato-aprendido passa ao primeiro plano.

Coube a Conwy Lloyd Morgan indicar um caminho para que a psicologia comparada pudesse se livrar das pesadas lentes do antropomor­fismo. Seu monismo metafísico o fez adotar a concepção de consciência de William James evitando o “forte preconceito de que temos estados mentais e de que o cérebro os condiciona” (1977a [1894]). Seu monismo fornece três ve­tores ao trabalho do pesquisador: uma teoria monista do conhecimento, uma interpretação monista da natureza e um monismo analítico. O primeiro evita tanto o idealismo quanto os dualismos que segmentam sujeito e objeto como entidades separadas e independentes. Nesta direção, os aspectos subjetivos e objetivos são uma divisão que se faz sobre o fluxo unitário da experiência pela atividade da razão. A concepção monista da natureza, por sua vez, o leva a conceber a análise psicológica e a biológica como aspectos de um mesmo processo, a mente consistindo em um dos aspectos da existência natural. Finalmente, o monismo analítico indica que a divisão mente-corpo resulta do trabalho do conhecimento. A atividade do conhecimento cria um objeto a ser conhecido para além dos sentidos, uma vez que o acesso a ele ocorre somente pela reflexão. O homem é concebido como objeto natural, sendo seus aspectos corporais e mentais estabelecidos pelo mesmo movimento e sem que um determine o outro.

Evocando a experiência subjetiva do leitor, Lloyd Morgan escreve “que ele sabe o que quero afirmar quando digo que ele é consciente” (1977a [1894]: 11). O termo mente é utilizado como o conjunto das atividades psí­quicas que, não tendo uma realidade independente do corpo, correspondem a diferentes modos de olhar o mesmo conjunto de ocorrências naturais.

Lloyd Morgan transformou a divisão entre a mente e o corpo em diferença de superfície, isto é, evitou sua duplicação ontológica. Entretanto, manteve a introspecção como via de acesso à mente: só podemos ter um conhecimento direto e imediato dos próprios processos psíquicos, o que faz da introspecção o ponto de partida de toda a psicologia comparada.

Mas seu monismo falha justamente na tentativa de conhecer as mentes animais. Podemos colocar sua questão da seguinte forma: se só temos conhecimento direto de nossa própria mente e derivamos sua existência nos outros homens por analogia, dada a semelhança interna à nossa espécie, como conhecer as mentes animais? E o aspecto corporal que sustenta a comparação porque permite estabelecer uma ponte en­tre as mentes humanas e as animais. Se a observação direta das mentes animais nos é vedada, as semelhanças corporais sustentam a hipótese das semelhanças psíquicas. O trajeto da comparação tem como ponto de partida o aspecto mental dos homens, passando em seguida a seu aspecto corporal, de onde, dadas as semelhanças, passa-se ao aspecto corporal de alguns animais para, finalmente, alcançarmos seu aspecto mental. A teoria da evolução constitui o solo desse trajeto, já que tanto o aspecto mental quanto o corporal são o resultado de exigências ambientais.

O dualismo de aspecto apresentado por Lloyd Morgan — que, em sua argumentação filosófica, seria secundário em relação ao monismo metafísico —, levou-o a uma valorização anômala (como compatibilizar a hierarquia dos aspectos com o monismo?) do aspecto corporal sobre o mental. A comparação entre os psíquismos segundo Lloyd M organ é legí­tima quando realizada, no máximo, em relação aos vertebrados superiores, porque seus estados psíquicos podem ser inferidos a partir da semelhança de seus hemisférios cerebrais com os dos homens. A dificuldade em atribuir esse privilégio ao aspecto físico, incoerente com o monismo, deixa em aberto o conhecimento dos estados psíquicos de animais cujas estruturas cerebrais são muito diferenciadas da dos homens.

Lloyd Morgan também introduziu o “princípio da simplicidade” na atividade comparativa. Este princípio diz que não se deve interpretar uma ação de um animal através de uma faculdade psíquica superior se ela puder ser explicada por uma outra mais simples. Tal princípio atuará no estabelecimento das diferenças entre as funções psíquicas de homens e animais, introduzindo uma continuidade imprevista ao legitimar a busca e a generalização de explicações “objetivas” das características mentais — os animais. É conhecido como cânon de Lloyd Morgan, organizando
pesquisas comparadas a partir da teoria da evolução. O parâmetro para inferir as habilidades mentais dos animais tem necessariamente que resultar de seu comportamento nos ambientes, já que a seleção natural não poderia explicar uma faculdade mental superior às exigidas por essa interação.

A acentuação do experimentalismo nos estudos psicológicos no iní­cio do século XX introduziu definitivamente uma desconfiança quanto à validade da observação. Se essa validade já havia sido notada por Romanes, os novos pesquisadores se ampararam sobretudo na observação planejada, não casual, e a tornaram dispositivo de legitimação indispensável.

A aproximação entre homens e animais levada a cabo por Darwm foi o solo de onde emergiu a psicologia comparada. Canguilhem (1970) mos­tra, entretanto, com o a metodologia desta se desenvolveu, em parte, contra a perspectiva darwiniana. A psicologia que compara homens e animais se tornou possível transformando o difundido paralelismo homem-ammal, com sua intransponível barreira, numa genealogia de muitas e pequenas
diferenças. Assim, noções como retorno, luta pela vida, adaptação por seleção natural forneceram instrumentos para a comparação na psicologia, mas sua aplicação teve que esperar até os trabalhos de Lloyd-Morgan.

A noção de meio específico da vida desenvolvida por Jacob von Uexküll (1864-1944) – considerado por alguns etólogos como figura cen­tral para emergência de seu campo – e, mais tarde, pela etologia permitiu o abandono dessa homogeneização promovida por Darwin na medida em que dissociou estrutura e comportamento. As características psicológicas do animal, se não anularmos as diferenças, devem ser tomadas pelas relações entre o organismo do animal e o meio que ele determina por sua estrutura: “A atenção de um animal é inseparável de seu modo de capturar suas presas. A rã aguarda e o sapo procura” (Canguilhem. 1970:125).

A psicologia elaborou essa relação entre homens e animais de três modos, primeiramente, tomando a conduta dos animais como referenciada a experiencia humana conscientemente vivida. Em seguida, a psicologia abordou as condutas animais como tema da fisiologia, compreendida como parte da biologia que aborda as relações entre o organismo e o meio. Uma terceira via foi o estudo do comportamento animal isolado de seu meio, isto é, inserido no laboratório e abordado analiticamente. Foi necessário que a psicologia se liberasse dessas formas de pesquisa para considerar o animal como sujeito de sua experiência, ou seja, foi necessário que esse caminho fosse percorrido para que a psicologia se despojasse de seu antropomorfismo.

Psicologia - História da Psicologia
1/16/2020 1:30:42 PM | Por Phillipe Ariès
Livre
O nascimento do sentimento de família na Europa medieval

Pareceria contestável falarmos de uma iconografia profana na Idade Média antes do século XIV, de tal forma o profano se distingue mal do sagrado. Contudo, entre as contribuições de origem profana a essa representação total do mundo, há um tema cuja frequência e popularidade são significativas: o tema dos ofícios. Os arqueólogos nos informaram que os gauleses da época romana gostavam de representar em seus baixos-relevos funerários cenas de suas vidas de trabalhadores[1]. Essa preferência pelos temas de ofícios não é encontrada em nenhuma outra parte. Os arqueólogos também ficaram impressionados com sua raridade, quando não com sua ausência, na iconografia funerária da África romana[2]. O tema remonta, por conseguinte, a um passado remoto. Ele se manteve e até mesmo se desenvolveu durante a Idade Média. Ressalvando o anacronismo da expressão, poderíamos dizer, grosso modo, mas sem deformar a verdade, que a iconografia “profana” medieval consiste acima de tudo no tema dos ofícios. É importante que durante tanto tempo o ofício tenha parecido às pessoas ser a principal atividade da vida quotidiana, uma atividade cuja lembrança se associava ao culto funerário da época galo-romana e à concepção erudita do mundo da Idade Média, nos calendários das catedrais. Sem dúvida, isso parece perfeitamente natural aos historiadores modernos. Mas terão eles se indagado quantos hoje em dia prefeririam esquecer seu ofício e gostariam de deixar uma outra imagem de si mesmos? Em vão tentamos introduzir algum lirismo nos aspectos funcionais da vida contemporânea; o resultado é uma espécie de academicismo sem raízes populares. O homem de hoje não escolheria seu ofício, mesmo que gostasse dele, para propô-lo como tema a seus artistas, mesmo que estes últimos pudessem aceitá-lo. A importância dada ao ofício na iconografia medieval é um sinal do valor sentimental que as pessoas lhe atribuíam. Era como se a vida privada de um homem fosse antes de mais nada seu ofício.

Uma das representações mais populares do ofício o liga ao tema das estações, cuja importância já tivemos a ocasião de reconhecer a propósito das idades da vida. Sabemos que a Idade Média ocidental se caracterizou pelo hábito de reunir através do simbolismo noções cujas correspondências secretas, ocultas por detrás das aparências, se desejava sublinhar. A Idade Média ligava as profissões às estações, assim como o fazia com as idades da vida ou os elementos. Era esse o sentido dos calendários de pedra e de vidro, dos calendários das catedrais e dos livros de horas.

A iconografia tradicional dos 12 meses do ano foi fixada no século XII, tal como a encontramos, com muito poucas variantes, em Saint-Denis, em Paris, em Senlis, em Chartres, em Amiens, em Reims etc.: os trabalhos e os dias. De um lado, os grandes trabalhos da terra: o feno, o trigo, a vinha e o vinho, o porco. De outro, a pausa, do inverno e da primavera. São camponeses que trabalham, mas a representação dos momentos de interrupção do trabalho oscila entre o camponês e o nobre. Janeiro (a festa de Reis) pertence ao nobre, diante de uma mesa na qual não falta nada. Fevereiro pertence ao plebeu que volta à casa carregando lenha e se aquece perto do fogo. Maio ora é um camponês que descansa no meio das flores, ora um jovem nobre que parte para a caça e prepara seu falcão. Em todo o caso, é a evocação da juventude participando das festas de maio. Nessas cenas, o homem está sempre sozinho: excepcionalmente um jovem criado (como em São Denis) aparece de pé atrás do amo, que come sentado em sua mesa. Por outro lado, trata-se sempre de um rapaz e nunca de uma mulher.

Podemos ver essa iconografia evoluir ao longo dos livros de horas até o século XVI, de acordo com tendências significativas.

Primeiro, vemos surgir a mulher, a dama do amor cortês ou a dona-de-casa. No livro de horas do Duque de Berry, no mês de fevereiro, o camponês não é mais o único a se aquecer, como nas paredes de Senlis, de Paris ou de Amiens. Três mulheres da casa já estão sentadas em torno do fogo, enquanto o homem ainda está do lado de fora, fransido de frio no pátio coberto de neve. Em outras representações, a cena se torna a imagem de um interior, de uma noite de inverno em que as pessoas ficam dentro de casa: o homem, diante da lareira, ainda aquece as mãos e o pé descalço, mas, ao lado, sua mulher trabalha tranquilamente em sua roca (Charles d’Angoulême). Em abril, aparece o tema da corte de amor: a dama e seu amigo em um jardim fechado com muros (Charles d’Angoulême). Ela também acompanha os cavaleiros à caça. Mas mesmo a dama nobre não é mais a heroína ociosa e um tanto imaginária dos jardins de abril, ou a cavaleira das festas de maio; ela também dirige os trabalhos desse jardim de abril (Turim). A camponesa aparece mais vezes. Ela participa dos trabalhos dos campos com os homens (Berry, Angoulême). Dá de beber aos trabalhadores que fazem a colheita enquanto eles descansam nos dias quentes de verão (Hennessy, Grimani). Seu marido a leva de volta em uma carreta com o cantil de vinho que ela lhe havia trazido. Os cavaleiros e as damas não estão mais isolados nos prazeres nobres de abril ou de maio. Assim como a dama do livro de horas de Turim cuidava de seu jardim, os cavaleiros e as damas se misturam aos camponeses, aos colhedores de uva (como na cena da colheita de cerejas do livro de horas de Turim). Quanto mais avançamos no tempo, e sobretudo no século XVI, mais frequentemente a família do senhor da terra é representada entre os camponeses, supervisionando seu trabalho e participando de seus jogos. Numerosas tapeçarias do século XVI descrevem essas cenas campestres em que os senhores e suas crianças colhem uvas e supervisionam a colheita do trigo. O homem não está mais sozinho. O casal não é mais apenas o casal imaginário do amor cortês. A mulher e a família participam do trabalho e vivem perto do homem, na sala ou nos campos. Não se trata propriamente de cenas de família: as crianças ainda estão ausentes no século XV. Mas o artista sente a necessidade de exprimir discretamente a colaboração da família, dos homens e das mulheres da casa, no trabalho quotidiano, com uma preocupação de intimidade outrora desconhecida.

Ao mesmo tempo, a rua surge nos calendários. A rua já era um tema familiar da iconografia medieval: ela se anima com uma vida particularmente expressiva nas admiráveis vistas das pontes de Paris da Vida de São Denis, um manuscrito do século XIII. Assim como nas cidades árabes de hoje, a rua era o lugar onde se praticavam os ofícios, a vida profissional, as conversas, os espetáculos e os jogos. Fora da vida privada, por muito tempo ignorada pelos artistas, tudo se passava na rua. No entanto, as cenas dos calendários, de inspiração rural, durante muito tempo a ignoraram. No século XV, a rua tomou seu lugar nos calendários. É verdade que os meses de novembro e de dezembro do livro de horas de Turim são ilustrados com o tradicional sacrifício do porco. Mas aqui, ele se passa na rua, e os vizinhos estão diante de suas portas para observá-lo. No calendário do livro de horas de Adelaide de Savoie, aparece o mercado: moleques cortam as bolsas de donas-de-casa ocupadas e distraídas - reconhecemos aí o tema dos pequenos batedores de carteiras, que se iria manter na pintura picaresca ao longo de todo o século XVII[3]. Uma outra cena do mesmo calendário representa a volta do mercado: uma comadre pára para falar com sua vizinha, que está na janela; alguns homens descansam sentados em um banco, protegidos por um telheiro, e distraem-se vendo meninos jogar péla e lutar. Essa rua medieval, assim como a rua árabe de hoje, não se opunha à intimidade da vida privada; era um prolongamento dessa vida privada, o cenário familiar do trabalho e das relações sociais. Os artistas, em suas tentativas relativamente tardias de representação da vida privada, começariam por mostrá-la na rua, antes de segui-la até dentro de casa. Talvez essa vida privada se passasse tanto ou mais na rua do que em casa.

Com a rua, os jogos invadiram as cenas dos calendários: os jogos de cavalaria, como os torneios (Turim, Hennessy), os jogos comuns a todos, e as festas folclóricas, como a árvore de maio. O calendário do livro de horas de Adelaide de Savoie compõe-se essencialmente de uma descrição dos mais diversos jogos, jogos de salão, jogos de força e de habilidade, jogos tradicionais: a festa de Reis, a dança de maio, a luta, o hóquei, as disputas entre dois homens armados de varas em duas barcas, as guerras de neve. Em outros manuscritos, assistimos a certames de tiro com bestas (Hennessy), a passeios de barco com música (Hennessy) e os banhos coletivos (Grimani). Ora, sabemos que os jogos não eram então apenas diversões, mas uma forma de participação na comunidade ou no grupo: jogava-se em família, entre vizinhos, entre classes de idade, entre paróquias[4].

Finalmente, a partir do século XVI, uma nova personagem entra em cena nos calendários: a criança. Sem dúvida, ela já aparecia com frequência na iconografia do século XVI, particularmente nos Miracles de Notre Dame. Mas ela havia permanecido ausente dos calendários, como se essa tradição iconográfica antiga tivesse hesitado em aceitar esse elemento tardio. Nos trabalhos dos campos, não aparecem crianças ao lado das mulheres. Apenas algumas servem à mesa nos banquetes de janeiro. Percebemo-las também no mercado do livro de horas de Adelaide de Savoie; nesse mesmo manuscrito, elas brincam de jogar bolas de neve, atrapalham com sua bagunça o pregador na igreja e são expulsas. Nos últimos manuscritos flamengos do século XVI, elas se divertem alegremente; percebe-se a predileção que lhes dedica o artista. Os calendários dos livros de horas de Hennessy e de Grimani imitaram com precisão a aldeia coberta de neve das Très Riches Heures do Duque de Berry, na cena do mês de janeiro que descrevemos acima, em que o camponês corre para casa a fim de se unir às mulheres que se aquecem. Contudo, eles acrescentaram uma outra personagem: a criança. E a criança aparece na pose do Manneken-Pis, que se tornara frequente na iconografia da época - a criança urina pela abertura da porta. Esse tema do Manneken-Pis é encontrado em toda a parte: lembremos o sermão de São João Batista do museu dos Augustins de Toulouse (que outrora ornava a capela do Parlamento dessa cidade), ou um certo putto de Ticiano[5].

Nesses livros de horas de Hennessy e Grimani, as crianças patinam no gelo, brincam de imitar os torneios dos adultos (alguns reconheceriam entre elas o jovem Carlos V). No livro de horas de Munique, elas se atiram bolas de neve. No Hortulus animae, elas brincam de corte de amor e de torneio, montadas numa barrica, ou patinam no gelo[6].

As representações sucessivas dos meses do ano introduziram portanto essas novas personagens: a mulher, o grupo de vizinhos e companheiros, e finalmente a criança. E a criança se ligava a essa necessidade outrora desconhecida de intimidade, de vida familiar, quando não ainda precisamente, de vida “em família”.

Ao longo do século XVI, essa iconografia dos meses sofreria uma última transformação muito significativa para nosso estudo: ela se tornaria uma iconografia da família. Ela se tornaria familiar ao se combinar com o simbolismo de uma outra alegoria tradicional: as idades da vida. Havia várias maneiras de representar as idades da vida, mas duas delas eram mais comuns: a primeira, mais popular, sobreviveu na gravura, e representava as idades nos degraus de uma pirâmide que subia do nascimento à maturidade, e daí descia até a velhice e a morte. Os grandes pintores recusavam-se a adotar essa composição demasiado ingênua. De modo qual, adotavam a representação das três idades da vida sob a forma de uma criança, alguns adolescentes - em geral um casal - e um velho. No quadro de Ticiano, por exemplo, aparecem dois putti dormindo, um casal formado por uma camponesa vestida tocando flauta e um homem nu no primeiro plano, e, ao fundo, um velho sentado e recurvado segurando uma caveira. O mesmo tema é encontrado em Van Dyck, no século XVII. Nessas composições, as três ou quatro idades da vida são representadas separadamente, segundo a tradição iconográfica. Ninguém teve a ideia de reuni-las dentro de uma mesma família, cujas gerações diferentes simbolizariam as três ou quatro idades da vida. Os artistas, e a opinião que eles traduziam, permaneciam fiéis a uma concepção mais individualista das idades: o mesmo indivíduo era representado nos diversos momentos de seu destino.

Entretanto, ao longo do século XVI, surgira uma nova ideia, que simbolizava a duração da vida através da hierarquia da família. Já tivemos a ocasião de citar Le Grand Propriétaire de toutes choses, esse velho texto medieval traduzido para o francês e editado em 1556. Como observamos, esse livro era um espelho do mundo. O sexto livro trata das “Idades”. É ilustrado com uma xilogravura que não representa nem os degraus das idades, nem as três ou quatro idades separadas, mas simplesmente uma reunião de família. O pai está sentado com uma criancinha sobre os joelhos. Sua mulher está de pé à sua direita. Um dos filhos está à sua esquerda, e o outro dobra o joelho para receber algo que o pai lhe dá. Trata-se ao mesmo tempo de um retrato de família, como os que abundavam nessa época nos Países Baixos, na Itália, na Inglaterra, na França e na Alemanha, e de uma cena de gênero familiar, como as que os pintores e gravado res multiplicariam no século XVII. Esse tema conheceria a mais extraordinária popularidade. Não era um tema totalmente desconhecido da Idade Média, ao menos do final. Foi desenvolvido de forma notável em um capitel das loggias do palácio Ducal de Veneza, dito capitel do casamento. Venturi data essa representação de cerca de 1424[7], enquanto Toesca a coloca no fim do século XIV, o que parece mais provável devido ao estilo e ao traje, mas mais surpreendente em virtude da precocidade do tema[8]. As oito faces desse capitel contam-nos uma história dramática que ilustra a fragilidade da vida, um tema familiar nos séculos XIV e XV - porém aqui, esse drama se passa no seio de uma família, e isso é novo. A representação começa pelo noivado. A seguir, a jovem mulher aparece vestida com um traje de cerimônia sobre o qual foram costurados pequenos discos de metal: seriam simples enfeites ou seriam moedas, já que as moedas desempenhavam um papel no folclore do casamento e do batismo? A terceira face representa a cerimônia do casamento, no momento em que um dos cônjuges segura uma coroa sobre a cabeça do outro: rito que subsistiu na liturgia oriental. Então, os noivos têm o direito de se beijar. Na quinta face, eles estão deitados nus no leito nupcial. Nasce uma criança, que aparece enrolada em cueiros e segura pelo pai e a mãe juntos. Suas roupas parecem mais simples do que na época do noivado e do casamento: eles se tornaram pessoas sérias, que se vestem com uma certa austeridade ou segundo a moda antiga. A sétima face reúne toda a família, que posa para um retrato. O pai e a mãe seguram a criança pelo ombro e pela mão. Já é o retrato familiar, tal como o encontramos no Le Grand Propriétaire. Mas, com a oitava face, o drama explode: a família sofre uma prova, pois a criança está morta, estendida sobre a cama, com as mãos postas. A mãe enxuga as lágrimas com uma das mãos e põe a outra no braço da criança; o pai reza. Outros capitéis, vizinhos deste, são ornados com putti nus que brincam com frutas, aves ou bolas: temas mais banais, mas que permitem recolocar o capitel do casamento em seu contexto iconográfico.

A história do casamento começa como a história de uma família, mas acaba com o tema diferente da morte prematura.

No museu Saint-Raimond, em Toulouse, podemos ver os fragmentos de um calendário que pôde ser datado do início da segunda metade do século XVI graças aos trajes. Na cena do mês de julho, a família está reunida em um retrato, como na gravura contemporânea do Le Grand Propriétaire, mas com um detalhe adicional que tem sua importância: a presença dos criados ao lado dos pais. O pai e a mãe estão no meio. O pai dá a mão ao filho, e mãe à filha. O criado está do lado dos homens, e a criada do lado das mulheres, pois os dois sexos são separados como nos retratos de doadores: os homens, pais e filhos, de um lado, e as mulheres, mães e filhas, do outro. Os criados fazem parte da família.

Agosto é o mês da colheita, mas o pintor se empenha em representar, mais do que a própria colheita, a entrega da colheita ao senhor, que tem na mão moedas para dar aos camponeses. Essa cena prende-se a uma iconografia muito frequente no século XVI, particularmente nas tapeçarias em que os fidalgos do campo supervisionam seus camponeses ou se divertem com eles.

Outubro: a refeição em família. Os pais e as crianças estão sentados à mesa. A criança menor está encarapitada em uma cadeira alta, que lhe permite alcançar o nível da mesa - uma cadeira feita especialmente para as crianças de sua idade, do tipo que vemos ainda hoje. Um menino com um guardanapo serve à mesa: talvez um criado, talvez um parente, encarregado naquele dia de servir à mesa, função que nada tinha de humilhante, muito ao contrário.

Novembro: o pai está velho e doente, tão doente que foi preciso recorrer ao médico. Este, com um gesto banal pertencente a uma iconografia tradicional, inspeciona o urinol.

Dezembro: toda a família está reunida no quarto, em torno do leito onde o pai agoniza. Ele recebe a comunhão. Sua mulher está de joelhos ao pé da cama. Atrás dela, uma moça ajoelhada chora. Um rapaz segura uma vela. Ao fundo, percebe-se uma criança pequena: sem dúvida o neto, a próxima geração que continuaria a família.

Portanto, esse calendário assimila a sucessão dos meses do ano à das idades da vida, mas representa as idades da vida sob a forma da história de uma família: a juventude de seus fundadores, sua maturidade em torno dos filhos, a velhice, a doença e a morte, que é ao mesmo tempo a boa morte, a morte do homem justo, tema igualmente tradicional, e também a morte do patriarca no seio da família reunida.

A história desse calendário começa como a da família do capitel do casamento do palácio dos Doges. Mas não é o filho, a criança querida, que a morte rouba cedo demais. As coisas seguem um curso mais natural. É o pai que parte, ao final de uma vida plena, cercado por uma família unida, e deixando-lhe sem dúvida um patrimônio bem administrado. A diferença está toda aí. Não se trata mais de uma morte súbita, e sim da ilustração de um sentimento novo: o sentimento da família.

O aparecimento do tema da família na iconografia dos meses não foi um simples episódio. Uma evolução maciça arrastaria nessa mesma direção toda a iconografia dos séculos XVI e XVII.

No princípio, as cenas representadas pelos artistas se passavam ou em um espaço indeterminado, ou em lugares públicos como as igrejas, ou ao ar livre. Na arte gótica, livre do simbolismo romano-bizantino, as cenas de ar livre tornaram-se mais numerosas e mais significativas graças à invenção da perspectiva e ao gosto pela paisagem: a dama recebe seu cavaleiro em um jardim fechado; a caçada conduz grupos através dos campos e florestas; o banho reúne as damas em torno da fonte de um jardim; os exércitos manobram, os cavaleiros se enfrentam em torneios, o exército acampa em torno da tenda onde o Rei descansa, os exércitos sitiam cidades; os príncipes entram e saem das cidades fortificadas, sob a aclamação do povo e dos burgueses.

Penetramos nas cidades por pontes, passando diante das tendas onde trabalham os ourives. Vemos passar os vendedores de biscoitos, e as barcas carregadas descendo o rio. Ao ar livre ainda, vemos todos os jogos serem praticados. Acompanhamos os jograis e os peregrinos em seu caminho. A iconografia profana medieval é uma iconografia do ar livre. Quando, nos séculos XIII ou XIV, os artistas se propõem a ilustrar anedotas ou episódios particulares, eles hesitam, e sua ingenuidade surpresa produz um resultado canhestro: nenhum deles se compara ao virtuosismo dos artistas que representam episódios nos séculos XV e XVI.

Antes do século XV, portanto, as cenas de interior são muito raras. A partir de então, elas se tornam cada vez mais frequentes. O evangelista, antes situado em um meio atemporal, torna-se um escriba em sua escrivaninha, com a pena e a raspadeira na mão. Primeiro ele é colocado na frente de um simples drapeado decorativo, mas finalmente aparece em um quarto cheio de livros em prateleiras: do evangelista, passou-se ao autor em seu quarto, a Froissart escrevendo uma dedicatória em seu livro[9]. Nas ilustrações do texto de Terêncio do palácio dos Doges, as mulheres trabalham e fiam em seus aposentos, com suas criadas, ou aparecem deitadas na cama, nem sempre sozinhas. Vêem-se cozinhas e salas de albergues. As cenas galantes e as conversações se passam agora no espaço fechado de uma sala.

Surge o tema do parto, cujo pretexto é o nascimento da Virgem. Criadas, comadres e parteiras se atarefam no quarto em torno da cama da mãe. Surge também o tema da morte, da morte no quarto, em que o agonizante luta em seu leito por sua salvação.

A representação mais frequente do quarto e da sala corresponde a uma tendência nova do sentimento, que se volta então para a intimidade da vida privada. As cenas de exterior não desaparecem, é certo - são a origem das paisagens, mas as cenas de interior tornam-se mais numerosas e mais originais. Iriam caracterizar a pintura de gênero durante todo o tempo de sua existência. A vida privada, rechaçada na Idade Média, invade a iconografia, particularmente a pintura e a gravura ocidentais no século XVI e sobretudo no XVII: a pintura holandesa e flamenga e a gravura francesa comprovam a extraordinária força desse sentimento, antes inconsistente ou menosprezado. Sentimento já tão moderno, que para nós é difícil compreender o quanto era novo.

Essa farta ilustração da vida privada poderia ser classificada em dois grupos: o do namoro e da farra à margem da vida social, no mundo suspeito dos mendigos, nas tabernas, nos bivaques, entre os boêmios e os vagabundos - grupo que desprezaremos por estar fora de nosso assunto - e sua outra face, o grupo da vida em família. Se percorrermos as coleções de estampas ou as galerias de pintura dos séculos XVI-XVII, ficaremos impressionados com essa verdadeira avalancha de imagens de famílias. Esse movimento culmina na pintura da primeira metade do século XVII na França, e na pintura de todo o século e até mais na Holanda. Ele persiste na França durante a segunda metade do século XVII na gravura e nos leques pintados, reaparece no século XVIII na pintura, e dura até o século XIX, até a grande revolução estética que baniria da arte a cena de gênero.

Nos séculos XVI e XVII, os retratos de grupos são numerosíssimos. Alguns são retratos de confrarias ou corporações. Mas a maioria representa uma família reunida. Estes últimos surgem no século XV, com os doadores que se fazem representar modestamente no nível inferior de alguma cena religiosa, como sinal de sua devoção. De início, esses doadores são discretos e estão sozinhos. Mas logo começam a trazer a seu lado toda a família, incluindo os vivos e os mortos: as mulheres e os filhos mortos também têm seu lugar na pintura. De um lado aparece o homem e os meninos, do outro a ou as mulheres, cada uma com as filhas de seu leito.

O nível ocupado pelos doadores amplia-se ao mesmo tempo em que se povoa, em detrimento da cena religiosa, que se torna então uma ilustração, quase um hors-d'oeuvre. Na maioria dos casos ela se reduz aos santos padroeiros do pai e da mãe, o santo do lado dos homens e a santa do lado das mulheres. Convém observar a importância assumida pela devoção dos santos padroeiros, que figuram como protetores da família: ela é o sinal de um culto particular de caráter familiar, como o do anjo da guarda, embora este último tenha um caráter mais pessoal e mais peculiar à infância.

Essa etapa do retrato dos doadores com sua família pode ser ilustrada com numerosos exemplos do século XVI: os vitrais da família Montmorency em Monfort-L’Amaury, Montmorency e Ecouen; ou os numerosos quadros pendurados como ex-votos nos pilares e nas paredes das igrejas alemãs, muitos dos quais ainda permanecem em seu lugar nas igrejas de Nurembergue. Muitas outras pinturas, às vezes ingênuas e mal feitas, chegaram aos museus regionais da Alemanha e da Suíça alemã. Os retratos de família de Holbein são fiéis a esse estilo[10]. Tudo indica que os alemães se tenham apegado por mais tempo a essa forma de retrato religioso da família, destinado às igrejas; ele seria uma forma mais barata do vitral dos doadores, mais antigo, e anunciaria os ex-votos mais anedóticos e pitorescos do século XVIII e início do XIX, que representam não mais a reunião familiar dos vivos e dos mortos, mas o acontecimento miraculoso que salvou um indivíduo ou um membro da família de um naufrágio, um acidente ou uma doença. O retrato de família é também uma espécie de ex-voto.

A escultura funerária inglesa da época elisabetana fornece um outro exemplo do retrato de família a serviço de uma forma de devoção. Esse exemplo, aliás, é específico, e não é encontrado com a mesma frequência e a mesma facilidade na França, na Alemanha ou na Itália. Muitos túmulos ingleses dos séculos XVI e XVII mostram toda a família reunida em torno do defunto, em baixo ou em alto-relevo: a insistência na enumeração das crianças, vivas ou mortas, é impressionante, e vários desses túmulos ainda são encontrados na abadia de Westminster: Sir Richard Pecksall, por exemplo, morto em 1571, aparece entre suas duas mulheres, e na base do monumento há pequenas figuras esculpidas: suas quatro filhas. De cada lado da estátua deitada de Margaret Stuart, morta em 1578, vêem-se seus filhos e filhas. Sobre túmulo de Winifred, Marquesa de Winchester, morta em 1586, também esculpida em posição deitada, aparece seu marido ajoelhado, representado em uma escala reduzida, e, ao lado, um minúsculo túmulo de criança.

Sir John e Lady Puckering, morta em 1596, estão esculpidos deitados lado a lado, no meio de suas oito filhas. O casal Norris (1601) aparece ajoelhado no meio de seus seis filhos.

Em Holdham, contam-se 21 figurinhas sobre o túmulo de John Coke (1639), alinhadas como nos retratos de doadores, e as que estão mortas seguram uma cruz. Sobre o túmulo de Cope d’Ayley em Hambledone (1633), os quatro meninos e as três meninas estão diante de seus pais ajoelhados; entre eles, um menino e uma menina seguram uma caveira.

Em Westminster, a Duquesa de Buckingham mandou erigir em 1634 o túmulo de seu marido, assassinado em 1628; os cônjuges estão esculpidos em posição deitada, no meio de suas crianças[11].
Essas representações alemães e inglesas prolongam aspectos ainda medievais do retrato de família. A partir do século XVI, o retrato de família se liberou de sua função religiosa. Foi como se o rés-do-chão dos quadros de doadores tivesse invadido toda a tela, expulsando dela a imagem religiosa, que, ou desapareceu completamente, ou persistiu sob a forma de uma pequena imagem devota pendurada na parede de fundo do quadro. A tradição do ex-voto ainda está presente em um quadro de Ticiano pintado em torno de 1560[12]: os membros de sexo masculino da família Cornaro - um velho, um homem maduro de barba grisalha, um homem jovem de barba negra (a barba, sua forma e sua cor são indícios da idade) e seis meninos, o menor dos quais brinca com um cão - estão agrupados em torno de um altar. Em certos casos, também, o retrato de família adota a forma material, a apresentação do quadro de igreja: existe no Victoria and Al bert Museum um tríptico de 1628 que representa no painel central um menininho e uma menininha, e nos painéis laterais, os dois pais[13]. Esses quadros não se destinavam mais às igrejas, decoravam agora os interiores particulares. E essa laicização do retrato de família é certamente um fenômeno importante: a família se contempla ela própria na casa de um de seus parentes. Sente-se a necessidade de fixar o estado dessa família, lembrando-se também às vezes os desaparecidos através de uma imagem ou uma inscrição na parede.

Esses retratos de família são muito numerosos, e seria inútil apontá-los todos. A lista seria longa e monótona. Eles são encontrados tanto em Flandres como na Itália, com Ticiano, Pordenone e Veronese, na França, com Le Nain, Lebrun e Tournier, na Inglaterra ou na Holanda, com Van Dyck, nos séculos XVI, XVII, e até mesmo início do século XVIII. Nessa época eles deviam ser tão numerosos como os retratos individuais. Muitas vezes foi dito que o retrato revela o progresso do individualismo. Talvez. Mas é notável que ele traduza acima de tudo o imenso progresso do sentimento da família.

No início, os membros da família são agrupados de forma seca, como nos quadros dos doadores ou na gravura das idades da vida de Le Grand Proprietáire, ou na miniatura do museu Saint-Raimond. Mesmo quando têm mais vida, “posam” em uma atitude solene e destinada a salientar o laço que os une. Em uma tela de Pourbus[14], o marido apoia a mão esquerda no ombro da mulher; a seus pés, uma das crianças repete o mesmo gesto, apoiando a mão no ombro da irmãzinha. Sébastien Leers foi pintado por Van Dyck segurando a mão de sua mulher em uma tela de Ticiano 1920, três homens barbudos cercam uma criança, única nota clara no meio dos trajes negros, e um deles aponta-a com o dedo: a criança está no centro da composição. Contudo, muitos desses retratos não procuram animar suas personagens: os membros da família são justapostos, às vezes ligados por gestos que exprimem seu sentimento recíproco, mas não participam de uma ação comum. É o que ocorre com a família Pordenone da galeria Borghese - o pai, a mãe e sete crianças - ou ainda da família Pembroke de Van Dyck[15]: o Conde e a Condessa estão sentados, e as outras personagens, de pé; à direita um casal, certamente um filho ou filha casados, e à esquerda, dois adolescentes muito elegantes (a elegância é um símbolo da adolescência masculina, e se atenua com a seriedade da maturidade), um escolar com seu livro embaixo do braço, e dois outros meninos mais moços.

Por volta de meados do século XVI, os artistas começaram a representar a família em torno de uma mesa coberta de frutas: a família Van Berchaun de Floris, de 1561, ou a família Anselme de Martin de Vos, de 1577[16]. Ou então, vemos a família que parou de comer para fazer música: não se trata, como sabemos, de um artificio do pintor, pois as refeições muitas vezes terminavam por um concerto ou eram interrompidas por uma canção. A família que posa para o artista, com um grau maior ou menor de afetação, permaneceria na arte francesa até pelo menos o início do século XVIII, com Tournier e Largillière. Mas, sob a influência particular dos holandeses, o retrato de família muitas vezes seria tratado como uma cena de gênero: o concerto após a refeição é um dos temas que os holandeses multiplicariam. Daí em diante, a família seria retratada em um instantâneo, em uma cena viva, em um certo momento de sua vida quotidiana: os homens reunidos em torno da lareira, uma mulher tirando um caldeirão do fogo, uma menina dando de comer ao irmãozinho. Daí em diante, torna-se difícil distinguir um retrato de família de uma cena de gênero que evoca a vida em família.

Durante a primeira metade do século XVII, as velhas alegorias medievais também são atingidas por essa contaminação geral, e são tratadas como ilustrações da vida familiar, sem respeito pela tradição iconográfica. Já vimos o que aconteceu no caso dos calendários. As outras alegorias clássicas se alteraram no mesmo sentido. No século XVII, as idades da vida tornaram-se pretextos para as imagens da vida familiar. Em uma gravura de Abraham Bosse representando as quatro idades do homem, a infância é sugerida pelo que hoje chamaríamos de nursery, um bebê no berço vigiado por uma irmã atenta, uma criança de túnica mantida de pé em uma espécie de cercado com rodas (objeto muito comum entre os séculos XV e XVIII), uma menina com sua boneca, um menino com um catavento, e dois meninos maiores preparando-se para brigar, tendo um deles jogado no chão seu chapéu e sua capa. A virilidade é ilustrada pela refeição que reúne toda a família em torno da mesa, em uma cena análoga à de vários retratos, e que seria muitas vezes repetida tanto na gravura francesa como na pintura holandesa. É o mesmo espírito da gravura das idades de Le Grand Propriétaire, do meio do século XVI, e da miniatura do museu Saint-Raimond, Toulouse. A idade viril é sempre a família. Humbelot não reuniu a família em torno da mesa, mas no gabinete do pai, um rico negociante em cuja casa se amontoam fardos de mercadorias e se alinham pastas de processos. O pai faz suas contas, com a pena na mão, ajudado pelo filho que se mantém atrás; a seu lado, a mulher cuida da filha pequena; um jovem criado entra com uma cesta cheia de provisões, sem dúvida voltando da casa de campo. No fim do século XVII, uma gravura de F. Guérard retoma o mesmo tema. O pai - mais moço do que na gravura de Humbelot-Huart - mostra pela janela o porto, o cais e os navios, fonte de sua fortuna. Dentro do aposento, perto da mesa onde ele faz suas contas e onde estão pousadas sua bolsa, algumas fichas e um á- baco, sua mulher nina um bebê de cueiros e cuida de outra criança vestida com uma túnica.

Esse sentimento nada tem de surpreendente para nós, homens do século XX, mas era novo na época, e sua expressão deveria nos espantar. Humbelot ilustraria o mesmo tema, desenhando uma mulher jovem que mostra o seio a uma criança trepada em suas costas. Não devemos esquecer que no século XVII as crianças desmamavam muito tarde. Há ainda uma outra gravura de Guérard que representa a dona-de-casa com suas chaves e suas crianças, dando ordens a uma criada[17].

As outras alegorias também evoluem para as mesmas cenas de família. Em um holandês do início do século XVII, o olfato, um dos cinco sentidos, é representado pela cena que se tornaria banal da toalete da criança nua no momento em que sua mãe lhe limpa o traseiro[18].

Abraham Bosse simboliza também um dos quatro elementos, a terra, através de uma imagem da vida familiar: em um jardim, uma ama segura uma criança vestida com uma túnica; seus pais, que, da entrada da casa, a contemplam com ternura, divertem-se em lançar-lhe frutas - os frutos da terra. Até mesmo as Beatitudes dão pretexto a evocações da vida em família: em Bonnard-Sandrart[19], a Beatitude torna-se o perdão da mãe às suas crianças, perdão que ela confirma distribuindo-lhes guloseimas - é já o espírito familiar sentimental do século XIX.

De modo geral, a cena de gênero moderna nasceu da ilustração das alegorias tradicionais da Idade Média. Mas a distância entre o tema antigo e sua nova expressão é enorme. Esquecemo-nos da alegoria das estações e do inverno quando contemplamos um quadro de Stella, representando uma noite ao pé do fogo: de um lado da grande sala, os homens ceiam, enquanto do outro, em volta da lareira, as mulheres fiam ou trançam o junco e as crianças brincam ou são lavadas. Não é mais o inverno, é o verão. Não é mais a virilidade ou a terceira idade, é a reunião de família. Nasce uma iconografia original, estranha aos velhos temas desgastados que no princípio ela havia ilustrado. O sentimento da família constitui sua inspiração essencial, uma inspiração muito diferente da das antigas alegorias. Seria fácil elaborarmos um catálogo de temas repetidos ad nauseam: a mãe vigiando a criança no berço[20], a mãe amamentando a criança[21], a mulher fazendo a toalete da criança, a mãe catando piolho na cabeça da criança (operação corriqueira e que aliás não se limitava às crianças, pois Samuels Pepys se submetia a ela), o irmão ou a irmã tentando ver o bebê no berço na ponta dos pés, a criança na cozinha ou no celeiro com um criado ou uma criada, a criança fazendo compras em um armazém. Este último tema, frequente na pintura holandesa, também foi tratado pelos gravadores franceses - em meados do século por Abraham Bosse (o padeiro), e no final do século por Le Camus (o taberneiro, que vendia vinhos) - mas é o espírito dessas ima   gens que é preciso compreender. Uma tela de Le Nain representa um camponês cansado que ferrou no sono. Sua mulher faz psiu! para as crianças, mostrando-lhes o pai que descansa, e que não deve ser acordado: é já um Greuze, não pela pintura ou o estilo, é claro, mas pela inspiração sentimental. A ação é centrada na criança. Em uma tela de Peter de Hooch, as pessoas estão reunidas para almoçar. O pai bebe sentado; uma criança de cerca de dois anos está de pé em cima de uma cadeira; ela usa o chapéu redondo e acolchoado comum na sua idade, em que o andar ainda não é firme, para protegê-la em seus tombos. Uma mulher (a criada?) a segura com uma das mãos e, com a outra, estende um copo de vinho a uma outra mulher (a mãe?), que mergulha nele um biscoito. Ela vai dar o biscoito molhado ao papagaio para distrair a criança, e a distração da criança no seio da família cuja unidade ela assegura é o verdadeiro tema do pintor, o sentido de sua anedota. O sentimento da família, que emerge assim nos séculos XVI-XVII, é inseparável do sentimento da infância. O interesse pela infância não é senão uma forma, uma expressão particular desse sentimento mais geral, o sentimento da família.

A análise iconográfica leva-nos a concluir que o sentimento da família era desconhecido da Idade Média e nasceu nos séculos XV-XVI, para se exprimir com um vigor definitivo no século XVII. Somos tentados a comparar essa hipótese com as observações dos historiadores da sociedade medieval.

A ideia essencial dos historiadores do direito e da sociedade é que os laços de sangue não constituíam um único grupo, e sim dois, distintos embora concêntricos: a família ou mesnie, que pode ser comparada à nossa família conjugal moderna, e a linhagem, que estendia sua solidariedade a todos os descendentes de um mesmo ancestral. Em sua opinião, haveria, mais do que uma distinção, uma oposição entre a família e a linhagem: os progressos de uma provocariam um enfraquecimento da outra, ao menos entre a nobreza. A família ou mesnie, embora não se estendesse a toda a linhagem, compreendia, entre os membros que residiam juntos, vários elementos, e, às vezes, vários casais, que viviam em uma propriedade que eles se haviam recusado a dividir, segundo um tipo de posse chamado frereche ou fratemitas. frereche agrupava em torno dos pais os filhos que não tinham bens próprios, os sobrinhos ou os primos solteiros. Essa tendência à indivisão da família, que aliás não durava além de duas gerações, deu origem às teorias tradicionalistas do século XIX sobre a grande família patriarcal.

A família conjugal moderna seria portanto a consequência de uma evolução que, no final da Idade Média, teria enfraquecido a linhagem e as tendências à indivisão.

Na realidade, a história das relações entre a linhagem e a família é mais complicada. Ela foi acompanhada por G. Duby na região do Mâconnais, do século IX ao XIII inclusive[22].

No Estado franco, escreve G. Duby, “a família do século X, ao que tudo indica, era uma comunidade reduzida à sua expressão mais simples, a célula conjugal, cuja coesão em certos casos se prolongava por algum tempo após a morte dos pais nas frereches. Mas os laços eram muito frouxos. É que eles eram inúteis: os órgãos de paz do velho Estado franco ainda eram bastante vigorosos para permitir ao homem livre viver uma vida independente e preferir, se assim o desejasse, a companhia de seus vizinhos e amigos à de seus parentes”. A solidariedade da linhagem e a indivisão do patrimônio se desenvolveram, ao contrário, em consequência da dissolução do Estado: “Depois do ano mil, a nova distribuição dos poderes de comando obrigou os homens a se agruparem mais estreitamente” . O estreitamento dos laços de sangue que então se produziu correspondia a uma necessidade de proteção, do mesmo modo como outras formas de relações humanas e de dependências: a homenagem de vassalo, a suzerania e a comunidade aldeã. “Demasiado independentes e mal defendidos contra certos perigos, os cavaleiros procuraram refúgio na solidariedade de linhagem.

Ao mesmo tempo, nesses séculos XI e XII do Mâconnais, podemos constatar o progresso da indivisão. É dessa época que data a indivisão dos bens dos dois cônjuges, que, no século X, ainda não estavam fundidos em uma massa comum, administrada pelo marido: nesse século, o marido e a mulher geriam cada um seus bens hereditários, compravam e vendiam separadamente, sem que o cônjuge pudesse interferir.

A indivisão quase sempre também foi estendida aos filhos, que eram impedidos de obter qualquer adiantamento sobre sua herança: “Agregação prolongada na casa paterna e sob a autoridade do ancestral, dos descendentes desprovidos de pecúlio pessoal e independência econômica”. A indivisão muitas vezes subsistia após a morte dos pais: “É preciso imaginar o que era então a casa de um cavaleiro, reunindo em um mesmo domínio, em uma mesma “corte”, 10, 20 senhores, dois ou três casais com filhos, os irmãos e as irmãs solteiras e o tio cônego, que aparecia de tempos em tempos e preparava a carreira de um ou outro sobrinho”. A frereche raramente durava além da segunda geração, mas, mesmo após a divisio do patrimônio, a linhagem conservava um direito coletivo sobre o conjunto do patrimônio dividido: a laudatio parentum, a recuperação da herança da linhagem.

Essa descrição aplica-se sobretudo à família dos cavaleiros, que já poderíamos chamar de família nobre. G. Duby acredita que a família camponesa tenha vivido menos intensamente esse estreitamento dos laços de sangue porque os camponeses haviam preenchido de maneira diferente dos nobres o vazio deixado peia dissolução do Estado franco: a tutela do senhor havia substituído imediatamente a proteção dos poderes públicos, e a comunidade aldeã havia fornecido aos camponeses um quadro de organização e de defesa superior à família. A comunidade aldeã teria sido para os camponeses o que a linhagem foi para os nobres.
Durante o século XIII, a situação mais uma vez se inverteu. As novas formas de economia monetária, a extensão da fortuna mobiliária, a frequência das transações, e, ao mesmo tempo, os progressos da autoridade do Príncipe (quer fosse um Rei capetíngio ou o chefe de um grande principado) e da segurança pública provocaram um estreitamento das solidariedades de linhagem e o abandono das indivisões patrimoniais. A família conjugal tornou-se novamente independente. Contudo, a classe nobre não voltou à família de laços frouxos do século X. O pai manteve e até mesmo aumentou a autoridade que, nos séculos XI e XII, lhe havia sido conferida pela necessidade de manter a integridade do patrimônio indiviso. Sabemos, por outro lado, que, a partir do fim da Idade Média, a capacidade da mulher entrou em declínio. Foi também no século XIII, na região do Mâconnais, que o direito da primogenitura se difundiu nas famílias nobres. Ele substituiu a indivisão, que se tornou mais rara, como meio de salvaguardar o patrimônio e sua integridade. A substituição da indivisão e da comunhão de bens do casal pelo direito de primogenitura parece ser ao mesmo tempo um sinal da importância atribuída à autoridade paterna e do lugar assumido na vida quotidiana pelo grupo do pai e seus filhos.

Georges Duby conclui: “ Na realidade, a família é o primeiro refúgio em que o indivíduo ameaçado se protege durante os períodos de enfraquecimento do Estado. Mas assim que as instituições políticas lhe oferecem garantias suficientes, ele se esquiva da opressão da família e os laços de sangue se afrouxam. A história da linhagem é uma sucessão de contrações e distensões, cujo ritmo sofre as modificações da ordem política”.

A oposição entre a família e a linhagem é menos marcada em G. Duby do que em outros historiadores do direito. Trata-se menos de uma substituição progressiva da linhagem pela família - o que, de fato, pareceria ser uma visão puramente teórica - do que da dilatação ou da contração dos laços de sangue, ora estendidos a toda a linhagem ou aos membros da frereche, ora restringidos ao casal e sua prole. Tem-se a impressão de que apenas a linhagem era capaz de exaltar as forças do sentimento e da imaginação. Por esse motivo, ela deixou tantas marcas nos romances de cavalaria. A comunidade familiar reduzida, ao contrário, levava uma vida obscura que escapou à atenção dos historiadores. Mas essa obscuridade tem um sentido. No mundo dos sentimentos e dos valores a família não contava tanto como a linhagem. Poder-se-ia dizer que o sentimento da linhagem era o único sentimento de caráter familiar conhecido na Idade Média. Mas ele é muito diferente do sentimento da família, tal como o vimos na iconografia dos séculos XVI e XVII. Estende-se aos laços de sangue, sem levar em conta os valores nascidos da coabitação e da intimidade. A linhagem nunca se reúne num espaço comum, em torno de um mesmo pátio. Não tem nada de comparável à Zadrouga serva. Os historiadores do direito reconhecem que não há vestígios de grandes comunidades “silenciosas” na França antes do século XV. Ao contrário, o sentimento da família está ligado à casa, ao governo da casa e à vida na casa. Seu encanto não foi conhecido durante a Idade Média porque esse período possuía uma concepção particular da família: a linhagem.

A partir do século XIV, porém, assistimos ao desenvolvimento da família moderna. Esse processo, bastante conhecido, foi claramente resumido por M. Pelot: “A partir do século XIV, assistimos a uma degradação progressiva e lenta da situação da mulher no lar. Ela perde o direito de substituir o marido ausente ou louco... Finalmente, no século XVI, a mulher casada torna-se uma incapaz, e todos os atos que faz sem ser autorizada pelo marido ou pela justiça tornam-se radicalmente nulos. Essa evolução reforça os poderes do marido, que acaba por estabelecer uma espécie de monarquia doméstica”. “A partir do século XVI, a legislação real se empenhou em reforçar o poder paterno no que concerne ao casamento dos filhos.”

“Enquanto se enfraqueciam os laços da linhagem, a autoridade do marido dentro de casa tornava-se maior e a mulher e os filhos se submetiam a ela mais estritamente. Esse movimento duplo, na medida em que foi o produto inconsciente e espontâneo do costume, manifesta sem dúvida uma mudança nos hábitos e nas condições sociais...” Passara-se portanto a atribuir à família o valor que outrora se atribuía à linhagem. Ela torna-se a célula social, a base dos Estados, o fundamento do poder monárquico. Veremos agora a importância que lhe era atribuída pela religião.

A exaltação medieval da linhagem, de sua honra, da solidariedade entre seus membros, era um sentimento especificamente leigo, que a Igreja ignorava, quando não via com desconfiança. O naturalismo ancestral dos laços de sangue pode muito bem ter-lhe parecido repugnante. Na França, onde a Igreja aceitou a hereditariedade dos reis, é significativo que ela não a tenha mencionado na liturgia da coroação.

Além disso, a Idade Média não conhecia o princípio moderno de santificação da vida leiga, ou melhor, só o admitia em casos excepcionais: o santo rei (mas o rei fora consagrado), ou o bom cavaleiro (mas o cavaleiro havia sido iniciado após uma cerimônia que se tornara religiosa). O sacramento do casamento poderia ter tido a função de enobrecer a união conjugal, de lhe dar um valor espiritual, bem como à família. Mas, na realidade, ele apenas legitimava a união. Durante muito tempo, o casamento foi apenas um contrato. A cerimônia, a julgar por suas representações esculpidas, não se realizava no interior da igreja, e sim na entrada, diante do pórtico. Qualquer que fosse o ponto de vista teológico, a maioria dos padres, considerando suas ovelhas, devia partilhar a opinião do cura de Chaucer, para quem o casamento era uma questão de último caso, uma concessão à fraqueza da carne ”, Ele não livrava a sexualidade de sua impureza essencial. Sem dúvida, essa reprovação não chegava à condenação da família e do casamento, à maneira dos cátaros do Sul da França; manifestava, porém, uma desconfiança com relação a todo fruto da carne. Não era na vida leiga que o homem podia se santificar; a união sexual, quando abençoada pelo casamento, deixava de ser um pecado, mas isso era tudo. Por outro lado, o outro grande pecado dos leigos, o pecado da usura, perseguia o homem em suas atividades temporais. O leigo não dispunha de outro meio para assegurar sua salvação além de abandonar completamente o mundo e entrar para a vida religiosa. Na sombra do claustro, ele podia reparar os erros de seu passado profano.  Foi preciso esperar o fim do século XVI, o tempo da Philotée de São Francisco de Sales, ou, no século XVII, o exemplo dos senhores de Port-Royal - e, de modo mais geral, de todos esses leigos empenhados em importantes atividades religiosas, teológicas, espirituais e místicas - para que se admitisse a possibilidade de uma santificação fora da vocação religiosa, na prática dos deveres civis.

Para que uma instituição natural tão ligada à carne como a família se tornasse objeto de uma devoção, essa reabilitação da condição leiga era necessária. Os progressos do sentimento da família e os da promoção religiosa do leigo seguiram caminhos paralelos. Pois o sentimento moderno da família - ao contrário do sentimento medieval da linhagem - penetrou na devoção comum. O sinal mais antigo dessa devoção, ainda muito discreto, aparece no hábito iniciado pelos doadores de quadros ou vitrais de igreja de agrupar em seu redor toda a família, e, mais ainda, no costume posterior de associar a família ao culto do santo padroeiro. No século XVI, era frequente oferecer como ex-votos retratos dos santos padroeiros do marido e da mulher, cercados pelos próprios cônjuges e suas crianças. O culto dos santos padroeiros tornou-se um culto de família.

A influência do sentimento da família também pode ser reconhecida, especialmente no século XVII, na nova maneira de pintar um casamento ou um batismo. No final da Idade Média, os miniaturistas costumavam representar a própria cerimônia religiosa, tal como ela se desenrolava na entrada da igreja: lembremos, por exemplo, o casamento do Rei Cosius e da Rainha Sabinède na vida de Santa Catarina, em que o padre enrola a estola em torno das mãos dos dois noivos: ou o casamento de Filipe de Macedônia pintado pelo mesmo Guillaume Vrelant, na história do bom Rei Alexandre, em que, atrás do padre, no tímpano da porta da igreja, se percebe uma cena esculpida que mostra um marido batendo na mulher. Nos séculos XVI e XVII, não se representava mais a cerimônia do casamento - a não ser no caso de reis e príncipes. Ao contrário, preferia- se evocar os aspectos familiares da festa, quando os parentes, os amigos e os vizinhos se reuniam em torno dos noivos. Em Gérard David já vemos o banquete de núpcias (“As Bodas de Caná" do Louvre). Em outros pintores, vemos o cortejo que acompanha os noivos: em Stella[23], a noiva de braço dado com o pai, seguida por um grupo de crianças, chega à igreja diante da qual a espera o noivo. Em Molinier[24], a cerimônia já acabou e o cortejo deixa a igreja - à esquerda, o noivo entre seus pajens, e à direita, a noiva coroada (mas ainda não vestida de branco: a cor do amor era ainda o vermelho, como nos ornamentos sacerdotais) entre suas damas de honra - ao som de gaitas de fole, enquanto uma menina atira moedas na frente da noiva. Certas coleções de gravuras de “trajes habituais” ou “trajes diversos” do fim do século XVI ou início do século XVII muitas vezes mostram o noivo ou a noiva com seus pajens e damas de honra: nessa época, o traje de casamento torna-se mais específico (sem ser ainda o uniforme branco usado do século XIX até nossos dias), ao menos por certos detalhes. E há uma tendência em apresentar esses detalhes como características dos costumes de uma determinada região.

Finalmente, todas as pequenas cenas maliciosas do folclore entraram na iconografia: por exemplo, o deitar dos noivos ou o levantar da mãe que deu à luz.

Da mesma forma, á cerimônia do batismo, os artistas passaram a preferir as reuniões tradicionais em casa: os convidados bebendo ao voltar da igreja enquanto um menino toca flauta, ou a visita das vizinhas à mãe que acaba de dar à luz. Ou então, vemos costumes folclóricos mais difíceis de identificar, como uma cena de Molenaer em que uma mulher carrega uma criança no meio de brincadeiras grosseiras, enquanto as damas da assistência cobrem a cabeça com o vestido.

Não devemos interpretar esse gosto pelas festas mundanas ou folclóricas, das quais a malícia não estava ausente, assim como tampouco estava ausente da linguagem das pessoas de bem, como um sinal de indiferença religiosa: simplesmente, enfatizava-se o caráter familiar e social da ocasião, mais do que seu caráter sacramental. Nos países do Norte, onde os temas da família eram extremamente difundidos, uma pintura muito significativa de J. Steen[25] mostra-nos a nova interpretação familiar do folclore ou da devoção tradicional. Já tivemos a ocasião de frisar a importância nos costumes do Ancien Regime das grandes festas coletivas, e insistimos na participação das crianças, que se misturavam aos adultos: toda uma sociedade inteiramente diversa se reunia nessas ocasiões, feliz por estar junta. Mas a festa descrita por Steen não é mais exatamente uma dessas festas da juventude, em que as crianças se comportavam um tanto como os escravos no dia das saturnais, em que desempenhavam um papel fixado pela tradição ao lado dos adultos. Aqui, ao contrário, os adultos organizaram a festa para distrair as crianças: é a festa de São Nicolau, o ancestral de nosso Papai Noel. Steen reproduz a cena no momento em que os pais ajudam as crianças a achar os brinquedos que eles haviam escondido para elas nos cantos da casa. Algumas crianças já encontraram os seus. Algumas meninas seguram bonecas. Outras seguram baldes cheios de brinquedos, e há sapatos espalhados pelo chão: os brinquedos já seriam escondidos nos sapatos, esses sapatos que as crianças dos séculos XIX e XX colocariam diante da lareira na véspera de Natal? Não se trata mais de uma grande festa coletiva, e sim de uma festa de família em sua intimidade; e, consequentemente, essa concentração da família é prolongada por uma contração da família em torno das crianças. As festas da família tornam-se as festas da infância. Hoje, o Natal tornou-se a maior, e poderíamos dizer, a única festa do ano, comum tanto aos ateus como aos religiosos. O Natal não tinha essa importância nas sociedades do Ancien Régime, pois enfrentava a concorrência da festa de Reis, que era muito próxima. Mas o extraordinário sucesso do Natal nas sociedades industriais contemporâneas, às quais repugnam cada vez mais as grandes festas coletivas, deve-se a seu caráter familiar, obtido graças à sua associação com a festa de São Nicolau: a pintura de Steen mostra-nos que, na Holanda do século XVII, já se festejava São Nicolau como o “Papai Noel” - ou o “menino Jesus” - na França de hoje, com o mesmo sentimento moderno da infância e da família, da infância dentro da família.

Um novo tema ilustra de maneira ainda mais significativa o componente religioso do sentimento da família: o tema do benedicite. Há muito tempo já a “cortesia" exigia que, na falta de um padre, um menino pequeno abençoasse a mesa no início das refeições. Certos textos manuscritos do século XV, publicados por F. J. Furnival em uma coletânea intitulada The Babees Book, enumeram as regras estritas da conduta à mesa: “As conveniências da mesa”, ou “a maneira de se portar à mesa”[26]. “Criança, diz o benedicite... quando estiveres em um lugar onde haja um prelado da igreja, deixa-o dizer, se ele assim o desejar, o benedicite e as graças. Criança, se o prelado ou o senhor te mandarem com sua autoridade dizer o benedicite, fá-lo com ardor, pois assim deve ser feito.” Sabemos que então a palavra enfant (criança) designava tanto as crianças pequenas como os meninos maiores. Os manuais de civilidade do século XVI, ao contrário, reservam a tarefa de dizer o benedicite não a qualquer uma das crianças, mas à mais nova: o manual pueril e honesto de Mathurin Cordier estabelece essa regra, que é conservada nas edições modificadas posteriores; assim, uma edição de 1761[27] ainda precisa que o dever de abençoar a mesa “ pertence aos eclesiásticos, quando os há, ou, na sua falta, ao mais jovem membro do grupo” . Segundo a Civilité nouvelle de 1671, “após servir à mesa, é uma mostra de civilidade perfeita e verdadeira fazer uma reverência ao grupo e a seguir dizer as graças”. Ou, segundo as Regies de la bienséance et de la civilité chrétienne de Jean-Baptiste de La Salle[28]: “Quando há uma criança, é comum se lhe atribuir essa função” de (abençoar a mesa). Em seus Dialogues Vivès descreve uma grande refeição: “O dono da casa, de acordo com seu direito, indicou os lugares. A prece foi dita por uma criança pequena, de forma breve, curiosa, e rimada.

Portanto, não é mais a um menino do grupo, e sim à menor criança da casa que cabe a honra de dizer o benedicite. Reconhecemos aí um sinal da promoção da infância no sentimento no século XVI, mas o mais importante é o fato de a criança ter sido associada à principal prece da família, durante muito tempo a única prece dita em comum pela família reunida. Nesse ponto, os textos dos tratados de civilidade são menos reveladores do que a iconografia. A partir do fim do século XVI, a cena do benedicite torna-se um dos temas mais frequentes da nova iconografia, que tentamos distinguir. Examinemos por exemplo uma gravura de Merian[29]. Trata-se de um retrato de família à mesa, fiel a uma convenção já antiga: o pai e a mãe estão sentados em cadeiras com seus cinco filhos em volta. Uma criada traz um prato, e a porta da cozinha está aberta. Mas o gravador fixou o momento em que um menininho de túnica, apoiado nos joelhos da mãe, com as mãos postas, recita o benedicite: o resto da família ouve a prece, com a cabeça descoberta e as mãos postas.

Uma outra gravura de Abraham Bosse[30] representa a mesma cena em uma família protestante. Antoine Le Nain reúne uma mulher e seus três filhos na hora da refeição: um dos meninos está de pé e diz as graças. Lebrun tratou esse tema segundo a maneira antiga, como uma Sagrada Família. A mesa está posta; o pai barbudo, com o bastão do viajante na mão, está de pé. A mãe, sentada, olha com ternura para a criança que, de mãos postas, recita a prece. Essa com posição foi amplamente difundida pela gravura como uma imagem devota.

É normal encontrarmos esse tema na pintura holandesa do século XVII. Em uma pintura de Steen, o pai é o único sentado: velho hábito rural, abandonado há muito pela burguesia francesa. A mãe serve o pai e as duas crianças que estão de pé: o menor, de dois ou três anos, está de mãos postas e diz a prece. Em um quadro semelhante de Heemskerck, dois velhos sentados e um homem mais jovem de pé estão em torno de uma mesa, ao lado de uma mulher sentada com as mãos postas: perto dela, uma menina repete a prece, lendo-a nos lábios da mãe. O mesmo tema é encontrado ainda no século XVIII no célebre “Bénédicité” de Chardin.

A insistência da iconografia dá a esse tema um valor singular. A recitação do benedicite pela criança não é mais uma marca de civilidade. Os artistas se dedicaram a representá-la porque em geral se atribuía a essa prece, outrora banal, uma significação nova. O tema iconográfico evocava e associava em uma síntese três forças afetivas: a religiosidade, o sentimento da infância (a criança menor) e o sentimento da família (a reunião em torno da mesa). O benedicite tornou-se o modelo da prece dita em família. Antes, não havia cultos religiosos privados. Os livros de civilidade mencionam a prece da manhã (nos colégios, os internos a diziam em comum após a toalete). Eles já falam menos sobre a prece da noite. Insistem, e isso é significativo, nos deveres das crianças para com seus pais (as regras de cortesia mais antigas, do século XV, não falavam nos deveres dos filhos para com seus pais, e sim para com seus mestres): “As crianças, diz J.-B. de La Salle, não devem ir dormir antes de cumprimentar seu pai e sua mãe”. O manual de Courtin de 1671 termina o dia da criança da seguinte maneira: “ Ela deverá recitar suas lições, dizer boa-noite a seus pais e mestres, fazer suas necessidades, e deitar-se na cama para dormir”.
No entanto, foi nessa época que surgiu, ao lado das orações particulares, uma oração pública da família. O benedicite é um dos atos desse culto, e sua frequência iconográfica prova que ele correspondia a uma forma viva de devoção. Esse culto familiar se desenvolveu muito nos meios protestantes: na França, sobretudo após a revogação do edito de Nantes, ele substituiu o culto público a tal ponto que, após a volta à liberdade, os pastores do fim do século XVIII tiveram dificuldade em trazer de volta ao culto público os fiéis habituados a se contentar com suas orações em família. A célebre caricatura de Hogarth mostra que no século XVIII a oração da noite em comum, que reunia em torno do pai de família os parentes e criados, tornara- se corriqueira e convencional. É provável que as famílias católicas tenham sofrido uma evolução quase paralela, e que também tenham sentido a necessidade de uma devoção nem pública nem individual: de uma devoção familiar.

Descrevemos acima o “Bénédicité” de Lebrun, popularizado pela gravura de Sarrabat: percebemos imediatamente que esse benedicite era também uma Sagrada Família, uma representação da oração e da refeição da Virgem, de São José e do menino Jesus. A cena de Lebrun pertence ao mesmo tempo a duas séries de representações, igualmente frequentes na época, pois ambas exaltavam o mesmo sentimento. Temos de reconhecer, como M. V. L. Tapie, que, “sem dúvida, era o próprio princípio da família que era associado a essa homenagem rendida à família de Cristo[31]”. Todas as famílias eram convidadas a considerar a Sagrada Família como seu modelo. A iconografia tradicional modificou-se, portanto, sob a mesma influência que aumentou a autoridade paterna: São José não desempenhava mais o papel apagado que ainda lhe era atribuído no século XV e início do século XVI. Ele aparece no primeiro plano, como o chefe da família, em um outro retrato da Sagrada Família à mesa pintado por Callot e igualmente popularizado pela gravura. “A Virgem, São José e o menino, comenta E. Mâle, tomam a refeição da noite: um candeeiro colocado sobre a mesa cria um contraste entre a luz viva e a sombra profunda, e dá à cena um aspecto misterioso; São José dá de beber à criancinha, enternecedora de tão bem comportada, com um guardanapo em torno do pescoço” Ou há ainda o tema que E. Mâle chama de “A Sagrada Família em marcha”, em que o menino é colocado entre Maria e José. Imagino que os teólogos da época possam ter visto aí a imagem da Trindade, mas o sentimento comum se comovia com esse tema como se fosse uma exaltação da família.

A autoridade de São José pode ser notada em várias cenas: em uma tela de um pintor napolitano do século XVII, São José carrega o menino Jesus no colo e passa assim para o centro da composição. Esse tema é frequente em Murilo e Guido Reni. Algumas vezes, José aparece reinando em seu ateliê de marceneiro, ajudado pelo menino Jesus.

Chefe de família na mesa, na hora da refeição, e no ateliê, nas horas de trabalho. São José é ainda chefe de família em um outro momento dramático da vida familiar, muitas vezes representado pelos artistas: o momento em que a morte o vem buscar. Tornando-se o padroeiro da boa morte, São José conserva seu sentido: a imagem de sua morte lembra a imagem da morte do pai, tantas vezes representa da nas ilustrações da boa morte - ela pertence à mesma iconografia da nova família.

As outras sagradas famílias inspiram o mesmo sentimento. No século XVI em particular tornou-se comum representar santos contemporâneos de Cristo em criança, reunidos e brincando juntos. Uma tapeçaria alemã representa de uma forma encantadoramente pitoresca as três Marias cercadas de seus filhos, que se agitam, se banham e brincam. Esse grupo é encontrado com frequência, particularmente em uma bela talha do início do século XVII em Notre-Dame la Grande, em Poitiers.

O tema parece evidentemente ligado ao sentimento da infância e da família. Essa ligação é sublinhada com insistência na decoração barroca da capela da Virgem, na igreja franciscana de Lucerne. Essa decoração data de 1723. A abóbada é ornamentada com anjinhos decentemente vestidos, cada um trazendo um dos símbolos da Virgem, enumerados em suas litanias (estrela-do-mar etc.). Nas paredes laterais, os pais e filhos santos se dão as mãos, em tamanho natural: São João Evangelista e Maria Salomé, São Tiago Maior e Zebedeu...

Os temas do Antigo Testamento também são utilizados para ilustrar essa devoção. O pintor veneziano Carlo Loth trata a bênção de José por Jacó como a cena frequente nas Idades da vida do velho cercado por seus filhos esperando a morte. Mas foi sobretudo a família de Adão que foi tratada como uma Sagrada Família. Em uma tela de Veronese, Adão e Eva aparecem no pátio de sua casa no meio de seus animais e de seus filhos, Caim e Abel. Um deles mama na mãe, enquanto o outro, menor, brinca no chão. Adão, escondido atrás de uma árvore a fim de não perturbar esses folguedos, observa a cena. Ele é visto de costas. Sem dúvida, poderíamos com razão encontrar uma intenção teológica nessa família do “primeiro Adão”, que anunciava a vinda de Cristo, o “segundo Adão”. Mas essa intenção erudita esconde-se atrás de uma cena que evoca as alegrias então consagradas da família.

O mesmo tema é encontrado em um teto mais recente do convento de San Martino, em Nápoles, que provavelmente data do início do século XVIII. Adão cava a terra - como José trabalha com a madeira -, Eva fia - como a Virgem costura - e seus dois filhos estão a seu lado.

Portanto, a iconografia nos permite acompanhar a ascensão de um sentimento novo: o sentimento da família. Espero ter sido bem compreendido. O sentimento era novo, mas não a família, embora esta sem dúvida não desempenhasse em suas origens o papel primordial que lhe atribuíram Fustel de Coulanges e seus contemporâneos. M. Jeanmaire descobriu na Grécia sobrevivências ainda fortes de estruturas não familiares, como as classes de idade. Os etnólogos mostraram a importância das classes de idade entre os africanos, e das comunidades clânicas entre os indígenas americanos. Não teríamos, sem o perceber, nos deixado impressionar pela função que a família desempenha em nossas sociedades há alguns séculos, e não nos sentiríamos tentados a exagerá-la indevidamente e até mesmo a atribuir-lhe uma espécie de autoridade histórica quase absoluta? No entanto, não há a menor dúvida de que a família foi constantemente mantida e reforçada por influências ao mesmo tempo semíticas (e não apenas bíblicas, creio eu) e romanas.

Por outro lado, é possível que ela se tenha enfraquecido na época das invasões germânicas. Pouco importa: seria vão contestar a existência de uma vida familiar na Idade Média. Mas a família subsistia no silêncio, não despertava um sentimento suficientemente forte para inspirar poetas ou artistas. Devemos atribuir a esse longo silêncio uma significação importante: não se conferia um valor suficiente à família. Da mesma forma, devemos reconhecer a importância do florescimento iconográfico que a partir do século XV, e sobretudo XVI, sucedeu a esse longo período de obscuridade: o nascimento e o desenvolvimento do sentimento da família. Daí em diante, a família não é apenas vivida discretamente, mas é reconhecida como um valor e exaltada por todas as forças da emoção.

Ora, esse sentimento tão forte se formou em torno da família conjugal, a família formada pelos pais e seus filhos. É raro uma tela reunir mais de duas gerações. Quando netos ou filhos casados aparecem, é sempre discretamente, como uma coisa sem importância. Nada aí lembra a antiga linhagem, nada acentua a ampliação da família ou a grande família patriarcal, essa invenção dos tradicionalistas do século XIX. Essa família, ou a própria família, ou ao menos a ideia que se fazia da família ao representá-la e exaltá-la, parece igual à nossa. O sentimento é o mesmo.

Esse sentimento está muito ligado também ao sentimento da infância. Ele afasta-se cada vez mais das preocupações com a honra da linhagem ou com a integridade do patrimônio, ou com a antiguidade ou permanência do nome: brota apenas da reunião incomparável dos pais e dos filhos. Uma de suas expressões mais comuns seria o hábito criado de se insistir nas semelhanças físicas entre os pais e seus filhos. No século XVII, pensava-se que São José se parecia com seu filho adotivo, salientando-se assim a força do laço familiar. Erasmo já possuía a ideia extremamente moderna de que as crianças uniam a família e de que sua semelhança física produzia essa união profunda; não nos espantaremos, pois, com o fato de seu tratado sobre o casa mento ter sido reimpresso ainda no século XVIII. Vejamos um trecho dessa obra, numa tradução francesa de 1714, que adorna de maneira picante e um tanto anacrônica a prosa do Renascimento: “Só nos pode causar admiração o cuidado surpreendente da natureza nesse ponto: ela pinta duas pessoas num mesmo rosto e num mesmo corpo; o marido reconhece o retrato de sua mulher em seus filhos, e a mulher, o do marido. Às vezes, descobre-se uma semelhança com o avô e com a avó, com um tio-avô ou com uma tia-avó” . O que conta acima de tudo é a emoção despertada pela criança, a imagem viva de seus pais.

 

História - França
1/12/2020 1:25:14 PM | Por Duane P. Schultz
Livre
Funcionalismo: as influências anteriores

Jenny estava vestida como qualquer criança típica de 2 anos, e certamente se comportava como uma criança de 2 anos. Milhares de pessoas afluíam para vê-la. Elas a encaravam maravilhados, encantados, pois Jenny - tão inocente, tão humana, na realidade era um orangotango, um macaco, como a maioria das pessoas a chamava. Jenny estava em exibição em uma gaiola de girafa no zoológico de Londres. O ano era 1838.

Poucas pessoas na Inglaterra, ou em qualquer lugar da Europa jamais tinham visto tal criatura, e aqueles que foram vê-la estavam surpresos, até mesmo desconcertados pelos maneirismos a que estavam tão familiarizados. Vestida em um vestido de babado, ela se sentava à mesa, usava uma colher para comer de um prato, tomava chá em uma xícara e parecia entender o que seu cuidador lhe dizia. Também parecia saber o que era e o que não era permitido fazer.

Um visitante escreveu:

O cuidador mostrou-lhe uma maçã, mas não a dava, o que fez com que se atirasse de costas, chutando e cho­rando, precisamente como uma criança malcriada... O cuidador disse: "Jenny, se parar de berrar e se comportar como uma menina boazinha, eu lhe dou a maçã." Ela certamente entendeu cada palavra e, embora como criança que custa a parar de choramingar, conseguiu a maçã (apud Aydon, 2002, p. 128).

Aparentemente, Jenny fazia com que aquele visitante se lembrasse de seus dois filhos pequenos, pois ele voltou ao zoológico alguns meses mais tarde, levando um instrumento de boca (gaita) e um espelho. Ele tocou o instrumento na frente da gaiola e depois o deu a ela pelas grades. Imediatamente ela o colocou nos lábios, como ele havia feito. Quando ele deu o espelho, ela ficou se olhando continuadamente como se estivesse surpresa com sua imagem, assim como os filhos daquele homem haviam ficado a primeira vez que se viram em um espelho.

Ele a observou aceitando pão de outro visitante, olhando primeiro para o seu cuida­dor para ver se podia comer. Mas Jenny também exibia comportamento voluntarioso e desobediente. Com frequência ela fazia algo que haviam dito que não deveria fazer. Quando ela acha que o cuidador não vai ver, mas que sabe que fez algo errado, ela se esconde. (...) Quando acha que vai ser chicoteada, ela se cobre com palha ou um cobertor (.apud Keynes, 2002, p. 50).

Observar o comportamento de Jenny teve um profundo efeito no nosso visitante. Ele escreveu o seguinte comentário em seu caderno: "Deixe o homem ver o orangotango domesticado e sua inteligência.... e depois deixe que se vanglorie de sua superioridade orgulhosa. (...) O homem, na sua arrogância, pensa que é o resultado de um grande tra­balho, digno da intervenção de uma divindade. Mais humilde e, creio verdadeiro, seria considerá-lo descendente dos animais" (apud Ridley, 2003, p. 9).

Quem era esse distinto visitante que ficou tão impressionado com Jenny? Seu nome era Charles Darwin.

O Protesto Funcionalista

Charles Darwin, com sua noção de evolução, mudou o foco da nova psicologia da estrutura da consciência para as suas funções. Era inevitável que a escola de pensamento funcionalista se desenvolvesse.

O funcionalismo se preocupa com as funções da mente, em como ela é usada por um organismo para se adaptar ao seu ambiente. O movimento da psicologia funcional focou em uma questão prática: O que os processos mentais conseguem realizar? Os funcionalistas estudaram a mente não do ponto de vista de sua composição - seus elementos mentais ou sua estrutura - mas sim como um conglomerado ou acúmulo de funções e processos que levam a consequências práticas no mundo real. As pesquisas realizadas por Wundt e Titchener nada revelaram sobre os resultados ou realizações da atividade mental humana, mas este não era o objetivo. Tais preocupações utilitárias eram incompatíveis com a sua abordagem puramente científica da psicologia.

Como um primeiro sistema de psicologia, puramente estadunidense, o funcionalismo foi um protesto deliberado contra a psicologia experimental de Wundt e a psicologia estrutural de Titchener, ambas vistas como restritivas demais. Essas primeiras escolas de pensamento não podiam responder às perguntas que os funcionalistas estavam fazendo: O que a mente faz? E como age?

Como resultado dessa ênfase nas funções mentais, os funcionalistas passaram a se in­teressar pelas aplicações em potencial da psicologia aos problemas da vida diária, de como as pessoas funcionam e se adaptam a diferentes ambientes. O rápido desenvolvimento da psicologia aplicada nos Estados Unidos pode ser considerado o legado mais importante do movimento funcionalista.

Este capítulo trata das raízes do movimento da psicologia funcional, incluindo os trabalhos de Darwin, Galton e os primeiros estudiosos do comportamento animal. É importante observar a época em que esses precursores do funcionalismo estavam desen­volvendo suas ideias: o período anterior e durante os anos em que a nova psicologia estava começando a evoluir.

A obra pioneira de Darwin sobre a evolução, On the origin of species (1859), foi publicada um ano antes do livro de Fechner, Elements of psychophysics (1860), e 20 anos antes de Wun­dt instalar o laboratório na University of Leipzig. Galton começou a trabalhar no problema das diferenças individuais em 1869, antes de Wundt escrever a obra Principies of physiological psychology (1873-1874). As experiências com psicologia animal já eram realizadas na década de 1880, antes de Titchener seguir da Inglaterra para a Alemanha para estudar com Wundt.
Portanto, a maior parte dos trabalhos a respeito das funções da consciência, das diferen­ças individuais e do comportamento animal estava sendo realizada ao mesmo tempo em que Wundt e Titchener optaram por excluir essas áreas das suas definições de psicologia. Somente com a chegada da nova psicologia aos Estados Unidos é que as funções mentais, as diferenças pessoais e os ratos de laboratório ganharam destaque na psicologia.

 

A Revolução da Teoria da Evolução de Charles Darwin (1809-1882)

A ideia da evolução não começou com Darwin. Na época em que ele publicou sua teoria em 1859, não havia nada realmente novo a esse respeito (ver Gribbin, 2002). A hipótese de que os seres vivos mudam com o tempo, noção fundamental da evolução, pode ser já encontrada no século V a.C., embora só fosse investigada de forma sistemática a partir do final do século XVIII. O fisiologista inglês Erasmus Darwin (avô de Charles Darwin e de Francis Galton) afirmava que todo animal de sangue quente havia evoluído de um único filamento vivo e animado por Deus.

Erasmus Darwin acreditava que havia um Deus que originalmente havia estabelecido vida na Terra em movimento, mas que não interveio depois disso para alterar a flora ou fauna ou para criar espécies. As mudanças nas formas animais, dizia, ocorriam de acordo com as leis naturais que fazem com que as espécies continuamente se adaptem às mu­danças em seu ambiente.

Em 1809, o naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck formulou a teoria comportamentalista da evolução, que enfatizava a modificação das características físicas do animal mediante o esforço de adaptação ao ambiente. Lamarck sugeria que essas modificações eram herdadas por gerações sucessivas. Por exemplo, a girafa desenvolveu o seu longo pescoço por várias gerações devido à necessidade de alcançar os galhos cada vez mais altos para obter comida.

Em meados da década de 1800, o geólogo britânico Charles Lyell introduziu a noção da evolução na teoria geológica, argumentando que a Terra havia passado por vários está­gios de desenvolvimento até chegar à estrutura atual. No Capítulo 13, veremos que a ideia de evolução também influenciou o trabalho de Freud.

Passados tantos séculos aceitando-se a doutrina bíblica da criação, por que os inte­lectuais buscavam uma explicação alternativa? Uma das razões era a de que os cientistas estavam adquirindo cada vez mais conhecimento sobre as outras espécies que habitaram a Terra. Os exploradores estavam descobrindo formas de vida animal antes desconheci­das. Portanto, era inevitável que alguém questionasse como Noé fora capaz de colocar um casal de cada espécie animal na arca. Tantas foram as espécies descobertas que não havia como os pesquisadores continuarem a acreditar nessa história.

O navegador italiano Américo Vespúcio escrevera, já em 1501, após a terceira viagem em torno da costa da América do Sul: "Não há como descrever a enorme variedade de animais selvagens, a abundância de pumas, panteras, gatos selvagens, diferentes dos que vemos na Espanha, mas parecidos com os das ilhas Antípodas; tantos lobos, veados ver­melhos, macacos e felinos, saguis de diversas espécies e várias cobras enormes. (...) Tantas espécies não caberiam na arca de Noé" (apud Boorstin, 1983, p. 250).

Na década de 1830, os ingleses e europeus viram pela primeira vez espécies animais constrangedoramente semelhantes aos seres humanos. Antes disso, somente alguns explo­radores corajosos haviam visto animais como os orangotangos e chimpanzés. Em 1835, um ano antes de Darwin retornar de uma viagem de exploração que durou cinco anos, um chim­panzé chamado Tommy foi exibido no zoológico de Londres. Em 1837, uma orangotango foi exibida e outra, dois anos depois; ambas se chamavam Jenny. Na década de 1850, um orangotango macho foi exibido em várias cidades da Inglaterra e da Escócia e a propaganda dizia que ele exibia comportamentos inteligentes quase no mesmo nível dos humanos.

Em 1853, o Museu Britânico exibiu o esqueleto de um gorila ao lado de um esqueleto humano. Tamanha era a semelhança que muitos observadores alegavam sentir-se emba­raçados. Era possível continuar insistindo que os seres humanos eram as únicas criaturas totalmente diferentes das outras espécies? Talvez não.

Exploradores também descobriram fósseis e ossadas de criaturas que não correspon­diam aos das espécies existentes, esqueletos aparentemente pertencentes a animais que em algum momento perambularam pela Terra mas que haviam desaparecido. Essas des­ cobertas fascinaram os cientistas e leigos interessados, e muitas pessoas começaram a colecionar fósseis.

A Grã-Bretanha do século XVIII foi um marco de requinte e impecável bom gosto na propriedade e exibição de coleções de fósseis. Os próprios objetos não apenas eram raros e bonitos (...) como a sua simples posse era uma indicação de sede de conhecimento, de consciência da filosofia natural, de compreensão solidária dos processos misteriosos da Terra. (Winchester, 2001, p. 106)

As pessoas desejavam saber o que aqueles fósseis e ossadas poderiam revelar sobre a origem do homem. Para os cientistas, o crescente acúmulo desses artefatos dava indicações de que as formas vivas não podiam mais ser consideradas constantes, imutáveis desde o início dos tempos e deviam ser vistas como sujeitas a mudanças e modificações. As espé­cies antigas evidentemente tornaram-se extintas, dando lugar a novas, sendo algumas delas versões alteradas das formas existentes. Talvez tudo na natureza fosse resultado de mudanças e ainda continuasse no processo de evolução.

O impacto da mudança contínua foi observado não apenas nos círculos científicos e intelectuais, como também na vida cotidiana. O Zeitgeist social estava se transformando por causa da Revolução Industrial. Os valores, as relações e as normas culturais, mantidos constantes por várias gerações, de repente foram rompidos quando a migração em massa da zona rural para as pequenas cidades promoveu o rápido desenvolvimento dos centros industriais urbanos.

A crescente dominação da ciência contaminava as atitudes populares. As pessoas esta­vam cada vez menos convencidas das ideias a respeito da natureza humana e da sociedade baseadas nos dogmas das antigas autoridades religiosas. Ao contrário, estavam dispostas e ávidas para transferir essa crença para a fé científica.

Mudança era a ordem do dia. Afetava o fazendeiro, cuja vida agora pulsava no ritmo de uma máquina e não das estações do ano, assim como afetava o cientista, cujo tempo era gasto tentando desvendar uma ossada desenterrada. A atmosfera intelectual produziu a noção de evolução não apenas respeitável cientificamente, como também necessária. Entretanto, durante muito tempo os estudiosos analisaram, especularam e levantaram hipóteses, mas ofereceram poucas provas concretas. Então, Darwin, em seu livro On the origin of species, apresentou informações tão bem organizadas que a teoria da evolução não pôde mais ser ignorada. O Zeitgeist demandava essa teoria e Charles Darwin tornou-se o seu agente.

A Biografia de Darwin

Ele foi um dos homens mais felizes que já viveu. Seus dois avôs foram dois dos homens mais famosos na Inglaterra. Graças a eles, acostumou-se desde pequeno à companhia de pessoas inteligentes e artísticas. Cresceu em uma casa confortável, cheia de afeto, onde sua imaginação era livre para vagar. Seu pai era muito rico, e no final da sua adolescência percebeu que não teria que fazer nada na vida que não quisesse. Para o resto de sua vida, ele fez exatamente o que lhe agradava. E, até o final de sua vida, foi sempre rodeado pelo mesmo ambiente de amor e proteção de sua infância. (Aydon, 2002, p. xxiii)

Quando criança, Charles Darwin dava poucas indicações de que se tornaria o cientista tão dedicado e entusiasmado que o mundo viria a conhecer. Era rude e maldoso, aprontando travessuras, mentindo e roubando para chamar a atenção. Os biógrafos relatam, sobre a infância de Darwin, um episódio em que ele tentou quebrar a janela de uma sala em que fora trancado como castigo por mau comportamento (veja Desmond e Moore, 1991). Ele parecia tão pouco promissor que seu pai, um rico médico, acreditava que o jovem Charles acabaria desgraçando o nome da família.

Embora seu desempenho escolar fosse fraco, demonstrava interesse por história natu­ral e em colecionar moedas, minérios e conchas. Seu pai o mandou para a University of Edinburgh para estudar medicina, mas logo o jovem se mostrou entediado. Como resposta, o pai disse-lhe que deveria tornar-se clérigo. Ele passou três anos na Cambridge University e achou a experiência uma perda de tempo, pelo menos do ponto de vista aca­dêmico. No âmbito social, no entanto, achou fantástico, tendo sido esse o período mais feliz da sua vida. Passava os dias e as noites bebendo, cantando, jogando cartas, fazendo parte de um grupo que descrevia como esbanjador e de baixo nível intelectual. Também colecionava besouros.

O botânico John Stevens Henslow, um de seus professores, conseguiu uma indicação para Darwin como naturalista para fazer parte da excursão do HMS Beagle, um navio que o governo britânico estava preparando para uma viagem científica ao redor do mundo.

A famosa excursão, que durou de 1831 a 1836, explorou as águas da América do Sul, seguin­do para o Taiti e Nova Zelândia, e retornou à Inglaterra, passando pela Ilha Ascensão e pelos Açores. Todavia, Darwin quase fora recusado para trabalhar a bordo do navio por causa do formato do seu nariz. O capitão, Robert Fitzroy, orgulhoso de sua capacidade de julgar o caráter pelas feições do rosto, tinha certeza de que o nariz de Darwin indicava um homem preguiçoso, mas ele conseguiu convencê-lo do contrário. Fitzroy, um homem extremamente religioso, desejava a presença de um naturalista a bordo para encontrar provas concretas sobre a teoria bíblica da criação. Escolhera o homem errado.

A viagem rendeu a Darwin a oportunidade ímpar de observar uma variedade de vida animal e vegetal e de coletar diversas espécies, além de enorme quantidade de dados. A viagem também parece ter mudado sua personalidade. Não mais um diletante e amante do prazer, Darwin retornou à Inglaterra como um cientista dedicado e com uma única paixão: desenvolver a teoria da evolução.

Casou-se em 1839 e três anos depois mudou-se com a esposa para o vilarejo de Down, a 26 quilômetros de Londres, onde pôde concentrar-se no trabalho sem as agitações da vida urbana. Sempre teve a saúde frágil e agora começava a sofrer de perturbações físicas como vômitos, gases, furúnculos, erupções cutâneas, tonturas, tremores e depressão. Sua casa se transformou em uma “enfermaria onde ninguém era saudável; a doença era regra e a saúde uma exceção" (Desmond, 1997, p. 291).

Os sintomas de Darwin eram aparentemente de fundo neurótico, provocados por qualquer interrupção na sua rotina diária. Sempre que alguma interferência externa o impedia de trabalhar, sofria outro ataque. A doença tornara-se um mecanismo convenien­te, protegendo-o dos afazeres mundanos e proporcionando a solidão e a concentração, necessárias para ele criar e desenvolver sua teoria. Um escritor batizou a condição de Darwin de "maldição criativa" (Pickering, 1974).

Ele se isolava, evitava festas e declinava de compromissos; chegou a instalar um espelho do lado de fora da janela da sua sala de estudos para espiar os visitantes que vinham procurá-lo. Dia após dia, semana após semana, o estômago o incomodava. (...) Era um homem preocupado. (Desmond e Moore, 1991, p. xviii-xix)

Darwin tinha motivos de sobra para se preocupar. A ideia de evolução vinha sendo condenada pelas autoridades religiosas conservadoras e até em alguns meios acadêmicos. O clero, entendendo-a como moralmente degenerativa e subversiva, pregava que, se as pessoas fossem retratadas como animais, igualmente se comportariam. O resultado de tal selvageria certamente causaria o colapso da civilização.

Darwin se autodenominava o "capelão do demônio", dizendo a um amigo que traba­lhar na teoria da evolução era como confessar um assassinato (Desmond e Moore, 1991). Ele sabia que, quando publicasse o livro, seria condenado por heresia. Percebeu que essas preocupações com o trabalho eram a causa dos seus persistentes males físicos, "a maior parte dos males de que a minha carne é herdeira” (apud Desmond, 1997, p. 254). Esperou 22 anos para apresentar publicamente as suas ideias, pois desejava ter a certeza de que, ao fazê-lo, a teoria estaria perfeitamente apoiada em provas científicas irrefutáveis. Assim, Darwin prosseguiu no trabalho com calma e com cuidado extremamente rigoroso.

Em 1842, Darwin redigiu um esquema de 35 páginas da sua teoria da evolução. Dois anos mais tarde, expandiu as ideias em um ensaio de 200 páginas, mas ainda não estava satisfeito. Continuou a manter segredo da maior parte do seu trabalho, compartilhando as ideias ape­nas com os amigos mais íntimos, como o geólogo Charles Lyell e o botânico Joseph Hooker.

Por mais 15 anos Darwin elaborou e trabalhou seus dados, conferindo, aperfeiçoando, revi­sando, insistindo para que todos os aspectos da sua posição fossem inquestionáveis.

Ninguém sabe ao certo quanto tempo mais ele se estenderia no trabalho se não houves­ se recebido uma carta chocante, em junho de 1858, de uma pessoa chamada Alfred Russel Wallace, um naturalista 14 anos mais jovem que ele. Morando nas índias Orientais para se recuperar de uma doença, Wallace esboçara uma teoria da evolução nitidamente semelhante à de Darwin, embora não estivesse baseada em dados tão ricos como os coletados por ele. E o pior é que Wallace afirmava ter desenvolvido a sua teoria completa em apenas três dias! Pedia a opinião e a ajuda de Darwin para publicá-la. O biógrafo de Wallace escreveu:

No intervalo de duas horas, desde os primeiros arrepios da febre até ficar banhado em um mar de suor [sintomas da malária], Wallace disse que havia desenvolvido toda a teoria da seleção natural, e a esboçou naquela mesma noite, apesar de sua exaustão física. Foi uma luz de inspiração que uniu anos de experiência e contemplação. Nas duas noites seguintes ele escreveu toda a sua teoria. (Slotten, 2004, p. 144)

Em sua carta a Darwin, Wallace pediu sua opinião sobre suas ideias e ajuda para que seu trabalho fosse publicado. Wallace escreveu anos mais tarde que o efeito desse curto trabalho sobre Darwin foi "praticamente paralisante", como se Darwin estivesse lendo sua própria teoria. "Qualquer noção da sua importância desaparecera, sua originalidade fora massacrada" (apud Raby, 2001, p. 137).

Assim como vários cientistas, Darwin era muito ambicioso. Escreveu em seu diário: "Gostaria de conseguir não valorizar tanto essa tal de fama. (...) E ainda abomino a ideia de escrever porque é importante criar; todavia certamente ficaria contrariado se outra pessoa publicasse essas doutrinas antes de mim" (apud Merton, 1957, p. 647-648). Darwin disse ao amigo Lyell que, se ajudasse Wallace a publicar sua teoria, todos os seus anos de
trabalho árduo e, o mais importante, o crédito pela criação da teoria da evolução estariam perdidos (Benjamin, 1993).

Enquanto ficava em dúvida se devia ajudar Wallace ou apressar a publicação do seu trabalho, seu filho de 18 meses morreu de febre escarlatina. Desesperado, Darwin remoía a respeito das implicações da carta de Wallace e as opções que surgiam para si próprio. Finalmente, munido de enorme sentido de justiça e de bom senso, decidiu: "Parece difícil para mim perder a prioridade de vários anos de dedicação, mas não tenho certeza absolu­ta de que isso altere a justiça do caso. (...) Seria desonesto de minha parte publicar agora" (apud Merton, 1957, p. 648).

Lyell e Hooker sugeriram que tanto o trabalho de Wallace como partes do livro de Darwin que estava para ser publicado fossem lidos em um encontro na Sociedade Linneana (uma sociedade científica cujo nome homenageia o naturalista sueco Linnaeus), em 10 de julho de 1858, no mesmo dia em que o filho de Darwin fora enterrado. O resto está registrado na história. Todas as 1.250 cópias da primeira edição do livro de Darwin, On the origin ofspecies, foram vendidas no dia da publicação. A obra provocou reações e discussões imediatas, e Darwin, embora fosse objeto de consideráveis críticas, ganhou a "tal da fama".

Quando o livro foi publicado, Darwin foi acometido de novas enfermidades. Ele des­creveu uma terrível e longa ânsia de vômito", "furúnculos que ardiam", além de se sentir “extremamente mal e em cacos" (apud Desmond, 1997, p. 257). Fugiu para uma estância hidromineral no norte da Inglaterra, onde se escondeu do mundo por dois meses. Wallace nunca expressou ressentimento por não receber o reconhecimento proporcional pelo desenvolvimento de uma teoria tão semelhante à de Darwin. Na verdade, sua reação foi pratica­mente contrária. Quando soube que o seu trabalho e o de Darwin seriam lidos na Sociedade Linneana, Wallace declarou haver recebido "mais reconhecimento e crédito do que mere­cia". Mostrou-se satisfeito quando soube que, ao mandar seus papéis para Darwin, ele fora o "meio inconsciente que fez com que [Darwin] se concentrasse na tarefa" para completar um dos livros mais importantes da história (Wallace, apud Raby, 2001, p. 141-142).

Depois de ler o livro de Darwin, Wallace escreveu a um amigo que "Jamais teria me igualado à totalidade desse livro, seu enorme acúmulo de evidência, sua impressionante argumentação, e seu admirável tom e espírito. (...) Sr. Darwin criou uma nova ciência." Em uma nota pessoal a Darwin fez elogios semelhantes e guardou a resposta que lhe foi enviada. Darwin respondeu "Com quanta nobreza você trata dessa falha da humanidade. Mas você fala com modéstia demasiada de si mesmo; se tivesse tido as mesmas vantagens, teria feito o trabalho tão bem, ou talvez ainda melhor do que eu." (Slotten, 2004, p. 172-173).

A Origem das Espécies por meio da Seleção Natural

A teoria da evolução darwiniana é tão conhecida que neste tópico abordaremos apenas alguns pontos básicos. A partir do fato evidente da variação entre os membros individuais de uma espécie, Darwin deduziu ser essa variabilidade espontânea transmitida de uma geração à outra. Na natureza, o processo de seleção natural resulta na sobrevivência dos organismos mais bem adaptados ao seu ambiente e na eliminação dos demais. A batalha pela sobrevivência é constante e as formas de vida sobreviventes são as que se adaptam ou se ajustam com êxito às circunstâncias ambientais a que forem expostas. Resumindo, as espécies que não se adaptam não sobrevivem.

Darwin formulou as ideias sobre a luta pela sobrevivência e a “sobrevivência do mais apto" após a leitura de Essay on the principie of population (1789), de autoria do economista Thomas Malthus, no qual observou que o suprimento de alimentos tende a crescer em proporção aritmética, enquanto a população humana, em progressão geométrica. O resul­tado inevitável seria, como Malthus descreveu em tom melancólico, muitos seres huma­nos vivendo praticamente em condições de inanição. Somente os mais fortes, espertos e adaptáveis sobreviveriam.

Darwin aplicou o princípio malthusiano a todos os organismos humanos para desenvol­ver a sua teoria da seleção natural. Esses seres vivos que sobrevivem à batalha e atingem a maturidade tendem a transmitir aos seus descendentes as mesmas habilidades e vantagens que lhes permitiram prosperar. Além disso, como a variação é uma das leis gerais da here­ditariedade, a prole também apresenta variações; alguns descendentes acabam tendo suas boas qualidades mais desenvolvidas que as dos pais. As qualidades tendem a sobreviver e, ao longo de várias gerações, ocorrem mudanças que podem ser bastante significativas a ponto de produzirem as diferenças observadas hoje entre as espécies.

A seleção natural não foi o único mecanismo de evolução reconhecido por Darwin. Ele também concordava com a doutrina de Lamarck de que as modificações na forma, derivadas da experiência durante o ciclo de vida do animal, podem ser transferidas às gerações subsequentes.

Thomas Henry Huxley e a polêmica sobre a evolução.

À medida que os estudiosos de diversas áreas aderiam à teoria da evolução ou a execravam, o próprio Darwin permanecia à parte e não se interessava em participar das crescentes discussões. Thomas Henry Huxley (1825-1895), ambicioso biólogo que foi a força diretriz no estabelicimento da ciência inglesa, estava disposto a se envolver nas polêmicas e foi um dos defensores mais ávidos da teoria.

Darwin chamava Huxley de seu "bom e gentil agente propagador do evangelho [da evolução]". Huxley era um orador eloquente e carismático e tinha prazer em debater com os inimigos da ciência, agora inimigos da evolução. Era dotado de enorme apelo popular, principalmente entre os operários. Para eles, Huxley promovia a ciência como uma nova religião, um novo caminho para a salvação. O biógrafo de Huxley disse: "Operários barbudos com as mãos calejadas acotovelavam-se para ouvir seus discursos. (...) Ele arrebanhava multidões semelhantes às que vemos hoje em encontros cristãos protestantes ou apresentações de rock" (Desmond, 1997, p. xvii). As pessoas paravam-no na rua para pedir autógrafo e os taxistas não lhe cobravam a corrida.

No período de um ano após a publicação de On the origin of species, a British Association for the Advencement of Science promoveu um debate a respeito do evolucionismo na Oxford University. Os amigos e defensores de Darwin pressionavam-no a participar do debate, no entanto ele não suportava a ideia de ter de se defender em público. Seus amigos insistiam e a situação tornava-se insustentável. Finalmente, escreveu um biógrafo, "seu estômago o salvou. Dois dias antes da reunião sua saúde deteriorou-se completamente Uma crise como essa nunca fora tão bem-vinda (Browne, 2002, p. 118).

No encontro, os oradores foram Huxley, defendendo Darwin e a evolução, e o bispo Samuel Willberforce (apelidado de Soapy [Sam, o Chato] por causa dos seus intermináveis discursos), que defendia a bíblia.

Com relação às ideias de Darwin, [Wilberforce] se felicitava (...) por não descender de um macaco. Veio a resposta de Huxley "Se tivesse de escolher, preferiria ser descendente de um simples macaco do que de um homem que emprega seu conhecimento e sua eloquencia para deturpar a imagem daqueles que dedicam a vida em busca da verdade". (White, 1896/1965, p. 92)

Outro orador no debate em Oxford foi Robert Fitzroy, o capitão do navio Beagle durante a viagem de Darwin. Fitzroy declarava-se culpado por ajudar na pesquisa de Darwin, aprovando a sua seleção para fazer parte da excursão como naturalista (apesar do formato do seu nariz). Fitzroy agitava a bíblia, enquanto conclamava o público a acreditar na palavra de Deus, expressando seu profundo pesar e arrependimento por ter proporcionado a Darwin a oportunidade de coletar dados para o desenvolvimento de sua teoria. Ninguém estava interessado em ouvir as lamentações de Fitzroy. "A sala permanecia em silêncio", declarou o biógrafo de Darwin, e, por fim, Fitzroy "afundou-se em seu assento sem praticamente ser ouvido" (Browne, 2002, p. 123).

Fitzroy tinha tida uma vida difícil desde a viage do Beagle Após servir o Parlamento e um período curto e não bem-sucedido como governador da Nova Zelândia, retornou à Inglaterra para se dedicar ao estudo da meteorologia. "Desenvolveu as técnicas fundamentais de previsão do tempo [e] inventou o sistema de avisos e sinais anunciando tempestades que salvaram inúmeras vidas nas décadas que se seguiram, e foi o responsável pela publicação de previsões diárias de tempo. Na verdade, ele inventou o termo 'previsão do tempo'" (Gribbin e Gribbin, 2004, p. 5). Mas sua obsessão lhe custou a fortuna da família.

Ficou também bastante atormentado com o papel que teve em habilitar Darwin a produzir a teoria da evolução. Ele estava convicto que se não tivesse escolhido Darwin para acompanhá-lo na viagem no Beagle, a teoria não teria surgido. Quando Darwin lhe enviou uma cópia do On the origin of species, ele respondeu que "não conseguia achar nada enobrecedor ser descendente do mais antigo dos macacos" (apud Nichols, 2003, p. 311).

Cinco anos depois do debate em Oxford, em um domingo de manhã no meio de sua preparação para ir à igreja, o pensativo capitão suicidou-se cortando sua garganta com uma lâmina. A Sra. Darwin escreveu que seu marido "havia sentido muito o acontecido com Fitzroy, mas que não estava nada surpreso. Lembrou-se de uma ocasião em que ele [Fitzroy] quase enlouqueceu na viagem no Beagle" (apud Browne, 2002, p. 264).

Posterior­mente Darwin enviou uma considerável quantia de dinheiro à viúva desamparada.

Outros trabalhos de Darwin.

O segundo importante trabalho sobre a evolução, The descent of man (1871), reunia as provas da evolução humana a partir das formas de vida mais simples, enfatizando a semelhança entre os processos mentais humanos e animais. O livro rapidamente ganhou popularidade, e um famoso escritor de revista ressaltou: "Na sala de estar, o livro compete com o mais recente romance; na sala de estudos, incomoda como o homem da ciência, o moralista e o teólogo. De todos os lados escorrem enxurra­das mistas de ódio, admiração e encantamento" (apud Richards, 1987, p. 219).

Darwin realizou um estudo intensivo sobre as expressões emocionais nos humanos e nos animais. Sugeriu que as mudanças dos gestos e das posturas típicas de vários estados emocionais podiam ser interpretadas com base no evolucionismo. Na obra The expression of the emotions in man and animals (1872), explicou as expressões emocionais como vestí­gios dos movimentos que em dado momento tiveram alguma função prática.

Darwin alegava que as expressões faciais e a chamada linguagem corporal eram "manifestações inatas e incontroláveis" dos estados emocionais internos. Por exemplo, a dor era acompanhada de trejeitos e o prazer, de um sorriso. Darwin afirmava que esses tipos de expressões humanas e de outras espécies animais surgiam por meio da evolução. Seu biógrafo relatou: "As expressões que surgem nos rostos humanos eram, para ele, uma prova viva e diária da ancestralidade animal" (Browne, 2002, p. 369).

Darwin também deu uma pequena contribuição para a literatura psicológica infantil com o diário sobre seu filho. Ele registrou cuidadosamente o desenvolvimento da criança e publicou o material intitulado “A biographical sketch on an infant” (1877) na revista Mind. O diário é um importante precursor da psicologia do desenvolvimento, um exemplo da tese de Darwin de que as crianças passam por uma série de estágios do desenvolvimento paralelos aos estágios da evolução humana.

A Evolução em Andamento: o Bico dos Tentilhões

Darwin realizou várias de suas observações a respeito da variação entre as espécies quan­ do esteve nas Ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico, próximo à costa da América do Sul. Observou como os animais da mesma espécie haviam evoluído de formas diferentes em resposta às diversas condições ambientais.

Seguindo os passos de Darwin, os biólogos Peter e Rosemary Grant, da Princeton University, acompanhados de um grupo dedicado de estudantes de pós-graduação, visi­taram as ilhas para monitorar as modificações encontradas nas gerações subsequentes de 13 espécies de tentilhões, decorrentes da adaptação dos pássaros às drásticas mudanças ambientais. O programa da pesquisa começou em 1973 e durou mais de 30 anos. Os pesquisadores testemunharam a evolução em andamento, observando as diferenças nas pequenas aves cantoras de uma geração a outra. Os Grants chegaram à conclusão de que Darwin havia subestimado a força da seleção natural. No caso dos tentilhões, a evolução era mais rápida do que se imaginava.

As variações observadas em uma espécie de tentilhão iniciaram durante um rigoroso período de seca que afetara o suprimento alimentar das aves, reduzindo-o a pequenas sementes duras e pontiagudas. Somente os tentilhões de bicos mais grossos, cerca de 15% da população, eram capazes de quebrar para abrir as sementes. Muitas aves de bicos finos não conseguiam abrir as sementes e logo morriam. Portanto, sob essas condições de seca, os bicos mais grossos eram ferramentas necessárias para a adaptação.

Quando essas aves de bicos mais espessos se reproduziam, sua ninhada também herdava essa característica, com bicos de 4% a 5% maiores do que os dos seus ancestrais antes da seca. Em apenas uma geração, a seleção natural produzira uma espécie mais bem adaptada e forte.
Logo vieram as chuvas, com enormes tempestades e enchentes que varreram da ilha as sementes graúdas, deixando apenas as miúdas como fonte de alimentação dos pássaros. Agora as aves de bicos mais grossos estavam em desvantagem, pois não conseguiam pegar a quantidade adequada de comida. Era nítida a necessidade de bicos mais finos para a sobrevivência. A partir daí, é fácil deduzir o que aconteceu. Peter Grant escreveu: “A sele­ção provocou uma verdadeira revolução na vida dos pássaros. As aves maiores, com bicos grandes, estavam morrendo enquanto as aves pequenas, com bicos menores, estavam se desenvolvendo. A seleção mudou rapidamente de lado" (apud Weiner, 1994, p. 104).

Na geração seguinte, o tamanho médio do bico era menor. Uma década mais tarde, como consequência da seca entre 2003-2004, observou-se outra evolução no tamanho do bico, em resposta àquele ambiente modificado (Grant e Grant, 2006). Mais uma vez a espécie havia evoluído, adaptando-se às mudanças do seu ambiente. Assim como Darwin previra, apenas os mais aptos sobreviveram.

O elo perdido? Em 2006, cerca de 147 anos depois da publicação de On the origin of the species, um grupo de cientistas dos Estados Unidos descobriu diversos fósseis em uma ilha remota do Canadá, ao norte do Círculo Ártico. Acredita-se que os fósseis encontrados eram os restos do esqueleto de um peixe enorme, medindo quase três metros de comprimento, e foi considerado o tão procurado elo perdido - isto é, um peixe no processo de evolução para se tornar um animal terrestre (Daeschler, Shubin e Jenkins, 2006; Shubin, Daeschler e Jenkins, 2006).

Os fósseis, que se acreditava ter 275 mil anos, tinham todas as características de peixe, como barbatanas e escama, e também mostravam evidência de membros em formação. Tinham ossos que correspondiam ao ombro, parte superior dos braços, cotovelo e traços semelhan­tes ao punho, desconhecidos em outras espécies de animais. Essas descobertas forneceram suporte adicional às ideias de Darwin sobre a transição de uma espécie para outra.

A Influência de Darwin na Psicologia

O trabalho de Darwin, bem no final do século XIX, influenciou a psicologia contempo­rânea, mediante:

  • o enfoque na psicologia animal, que formou a base da psicologia comparativa;
  • a ênfase nas funções e não na estrutura da consciência;
  • a aceitação da metodologia e dos dados de diversas áreas;
  • o enfoque na descrição e mensuração das diferenças individuais.

A teoria da evolução suscitou a intrigante possibilidade da continuidade do funcio­namento mental entre os humanos e os animais inferiores. Se a mente humana fosse uma evolução das mentes mais primitivas, então será que haveria semelhanças entre o funcionamento mental dos animais e dos homens? Dois séculos antes, Descartes insis­tira haver uma diferença entre o funcionamento humano e o animal. Agora a questão voltava à tona.

Os psicólogos perceberam a importância do estudo do comportamento animal para a compreensão do comportamento humano e concentraram a pesquisa no funcionamentomental dos animais, introduzindo um novo tópico no laboratório de psicologia. A investi­gação da psicologia animal viria exercer grande impacto no desenvolvimento da área.

A teoria da evolução provocou também uma mudança no objeto de estudo e na meta da psicologia. O enfoque da escola de pensamento estruturalista era a análise do conteúdo da consciência. O trabalho de Darwin inspirou alguns psicólogos que trabalhavam nos Estados Unidos a analisarem as funções da consciência. Para alguns pesquisadores, esse enfoque pareceu mais importante do que a descoberta de qualquer elemento estrutural da consciência. E assim, gradualmente, à medida que a psicologia se dedicava mais ao estudo do funcionamento do ser humano e dos animais na adaptação ao seu ambiente, a investigação detalhada dos elementos mentais, iniciada por Wundt e Titchener, perdia
o seu apelo.

As ideias de Darwin influenciaram a psicologia, ampliando os métodos que essa nova ciência passara a usar com legitimidade. Os métodos empregados no laboratório de Wundt, em Leipzig, foram derivados principalmente da fisiologia, mais especificamente dos métodos psicofísicos de Fechner. Os métodos de Darwin, que produziam resultados aplicáveis tanto nos seres humanos como nos animais, não tinham qualquer semelhança com as técnicas baseadas na fisiologia. Os dados de Darwin foram obtidos de diversas fon­tes, incluindo a geologia, a arqueologia, a demografia, as observações de animais selvagens e domésticos e a pesquisa com reprodução. Foram as informações obtidas de todos esses campos que deram suporte à sua teoria.

Essa foi uma prova tangível e impressionante da possibilidade de os cientistas estuda­rem a natureza humana adotando técnicas que não a introspecção experimental. Seguindo o exemplo de Darwin, os psicólogos que aceitavam a teoria evolucionista e sua ênfase nas funções da consciência tornaram-se mais ecléticos em relação aos seus métodos de pesquisa, expandindo, assim, os tipos de informações obtidos.
Outro efeito da evolução na psicologia foi o crescente enfoque nas diferenças indivi­duais. Durante a viagem do Beagle, Darwin observou várias espécies e formas, de modo que, para ele, era evidente a variação entre os membros da mesma espécie. Se cada geração fosse idêntica aos seus ancestrais, não haveria evolução. Portanto essas variações, ou seja, essas diferenças individuais, consistiam em um princípio importante do evolucionismo.

Enquanto os psicólogos estruturalistas continuavam a buscar as leis gerais que abranges­sem toda a mente, os psicólogos influenciados pelas ideias de Darwin procuravam as dife­renças mentais individuais e logo apresentaram técnicas para medir essas diferenças.
O material a seguir foi extraído da autobiografia de Darwin. Essa passagem não se refere à sua pesquisa ou à sua teoria, mas trata-se da imagem que ele tinha de si próprio e sua opinião sobre as qualidades pessoais que o levaram ao sucesso.


Texto original

Trecho Extraído de The Autobiography of Charles Darwin (1876)

Meus livros tiveram boa vendagem na Inglaterra, foram traduzidos para vários idiomas e passaram por várias edições em outros países. Ouvi dizer que o sucesso de um trabalho no exterior é o melhor teste para verificar seu valor perene. Tenho dúvidas se, afinal, essa afir­mação é digna de confiança; todavia, a julgar por esse padrão, o meu nome deve perdurar por alguns anos. Portanto, talvez seja de valia tentar analisar as qualidades mentais e as con­dições das quais dependeu o meu sucesso, embora ciente de não haver homem capaz de fazê-lo corretamente.
Não sou dotado de grande rapidez de apreensão ou sagacidade, que é notável em alguns homens inteligentes como, por exemplo, Huxley. Considero-me, assim, um mau crítico: quando leio pela primeira vez um trabalho ou um livro, normalmente ele suscita a minha admiração e somente depois de muita reflexão é que percebo os pontos fracos. Minha capacidade de seguir uma linha de pensamento extensa e puramente abstrata é bastante limitada e, portan­to, nunca teria êxito na metafísica ou na matemática. Minha memória é boa, porém vaga: suficiente para me alertar, indicando-me morosamente já ter eu observado ou lido algo que contradiga a conclusão a que estou chegando ou, de modo contrário, a favoreça; e depois de algum tempo, geralmente sou capaz de lembrar-me onde buscar o embasamento necessário. Em certo sentido minha memória é tão fraca, que jamais fui capaz de memorizar por alguns dias uma única data ou um verso de um poema. (...)

O lado favorável da balança, creio ser superior aos homens comuns no aspecto de obser­var algo que facilmente escapa da atenção, analisando-o cuidadosamente. Minha dedicação ao trabalho de observação e à coleta dos fatos chega praticamente ao extremo, O meu amor firme e ardente pela ciência natural é o mais importante.

Esse amor puro, no entanto, tem sido alimentado pela ambição de ser estimado por meus colegas naturalistas. Desde a juventude, sinto o profundo desejo de compreender ou explicar tudo que observo, ou seja, de agrupar todos os fatos sob algumas leis gerais. Essas causas combinadas proporcionaram-me paciência para refletir ou ponderar por quanto tempo fosse necessário a respeito de qualquer problema inexplicável. No que me concerne julgar, não tenho capacidade para seguir cegamente outros homens. Tenho me dedicado com fir­meza para manter minha mente livre de modo a renunciar a qualquer hipótese, mesmo que muito querida (e não resisto a criar uma sobre qualquer assunto), assim que se apresentem fatos que a desmintam. De fato, não possuo outra alternativa senão agir dessa forma, pois, - exceção dos Corais de Reefs, não tenho lembrança de uma única primeira hipótese que não tenha sido, deoois de algum tempo, renunciada ou bastante modificada. Isso me conduziu, naturalmente a rejeitar totalmente o raciocínio dedutivo nas ciências mistas. Por outro lado, não sou tão cético, uma característica da mente que creio ser um insulto para o progresso da ciência. Uma boa dose de ceticismo ao cientista é aconselhável para evitar muita perda de tempo, [mas] conheci não poucos homens que, sinto com certeza, várias vezes foram assim dissuadidos da experiência ou das observações que poderiam provar-se direta ou indireta­mente válidas (...)

Meus hábitos são metódicos e essa qualidade vem se mostrando bastante eficaz para a minha linha particular de trabalho. Ultimamente, venho tendo amplo lazer por não ter de obter meu próprio sustento. Até mesmo o meu estado de enfermidade, embora aniquilando vários anos da minha vida, salvou-me das distrações e divertimentos sociais.

Portanto, o meu sucesso como um homem da ciência, aonde quer que ele tenha me levado, foi determinado, de acordo com o meu julgamento, por condições e qualidades mentais diver­sificadas e complexas. Dentre essas características, as mais importantes são o amor à ciência, a paciência irrestrita para longas reflexões sobre qualquer assunto, o trabalho dedicado na obser­vação e coleta dos fatos e uma fatia razoável de criatividade, além do senso comum. Com essas modestas habilidades que possuo, é realmente surpreendente que eu houvesse influenciado tão extensamente a crença dos homens da ciência em alguns pontos importantes.


Diferenças Individuais: Francis Galton (1822-1911)

O trabalho de Galton a respeito da herança mental e das diferenças individuais da capacidade humana incorporou efetivamente o espírito da evolução na nova psicologia. Antes dele, o fenô­meno das diferenças individuais quase não era considerado um tema adequado para estudo.
Um dos poucos cientistas pioneiros a reconhecer as diferenças individuais nas habi­lidades e nas atitudes foi o médico espanhol Juan Huarte (1530-1592). Trezentos anos antes dos estudos de Galton nessa área, Huarte havia publicado um livro intitulado The examination of talented individuals (O exame dos indivíduos talentosos), em que apresentava uma grande variedade de diferenças individuais da capacidade humana (apud Diamond, 1974). Huarte sugeria que as crianças começassem a estudar desde cedo para que a educa­ção pudesse ser planejada individualmente de acordo com as suas habilidades. Por exem­plo, mediante uma avaliação adequada, seria oferecida ao aluno com aptidão musical a oportunidade de estudar música e as disciplinas afins.

O livro de Huarte teve alguma repercussão, no entanto suas ideias não eram formalmen­te seguidas antes de Galton. Embora Weber, Fechner e Helmholtz houvessem observado as diferenças individuais nas pesquisas experimentais, não investigaram sistematicamen­te essas descobertas.

Além disso, Wundt e Titchener sequer consideravam as diferenças individuais como parte legítima do estudo da psicologia.

A Biografia de Galton

Francis Galton era dotado de extraordinária inteligência (um QI estimado de 200) e riqueza de ideias originais. Entre alguns dos tópicos da sua pesquisa estão as impressões digitais que a polícia acabou adotando para a identificação criminal), a moda, a distribuição geo­gráfica da beleza, o levantamento de peso e a eficácia da oração religiosa. Ele inventou uma versão inicial da impressora de teletipo, um dispositivo para abrir cadeados e um periscópio que o permitia olhar por sobre as cabeças das pessoas durante um desfile de rua.

Galton era o caçula de nove filhos e nasceu em 1822, nas proximidades de Birmingham Inglaterra. Seu pai era um banqueiro próspero cuja família abastada e socialmente desta­cada incluia pessoas de esferas de grande influência como o governo, a Igreja e o exército. Francis era uma criança precoce que aprendia rapidamente. Um biógrafo escreveu que, aos 12 meses Galton conseguia reconhecer todas as letras maiúsculas; aos 18 meses conhecia bem o alfabeto inglês e o grego e chorava se fossem retirados de sua vista- aos 2 anos e meio leu seu primeiro livro... Aos 5 já estava bem familiarizado com os trabalhos de Homero. (Brooks, 2004, p. 18)

Aos 16 anos, pela insistência de seu pai, Galton começou a aprender medicina no Birmingham General Hospital, como assistente de médico. Distribuía medicamentos lia ívros de medicina, tratava de fraturas, amputava dedos, extraía dentes, aplicava vacina nas crianças e divertia-se lendo os clássicos da literatura. No geral, entretanto, não achava uma experiencia prazerosa e continuava somente por pressão do pai.

Um incidente ocorrido durante o aprendizado médico de Galton é um exemplo da sua curiosidade. Desejando conhecer os efeitos dos diversos medicamentos da farmácia ele passou a tomar pequenas doses de cada um e a anotar a sua reação, iniciando, de forma sistematica, com os que começavam com a letra "A". Essa aventura científica teve fim na etra C, quando tomou uma dose de óleo de cróton, um forte laxante.

Depois de um ano no hospital, continuou seus estudos de medicina no King's College em Londres. No ano seguinte mudou os planos e matriculou-se no Trinity College da Cambridge University. Ali, diante do olhar do busto de sir Isaac Newton, procurou seguir seu interesse pela matemática. Embora seu trabalho houvesse sido interrompido por um profundo surto mental, conseguiu formar-se. Retomou o odioso estudo da medicina, até que a morte do seu pai finalmente o libertou daquela profissão.

Nesse momento, a viagem e a exploração chamavam a atenção de Galton. Viajou por toda a Africa fazendo viagens difíceis e perigosas para áreas onde homens brancos jamais tinham visitado. Ele achou tudo muito empolgante e animador, exceto talvez por um incidente contado por seu biógrafo:

Só e longe de casa, parece que Galton possa ter superado sua timidez e procurou os serviços de uma prostituta. Sua coragem foi retribuída com uma grande dose de doença venérea que o perseguiu intermitentemente por muitos anos. Quer seja verdade ou não, a sua atitude em relação às mulheres esfriou notadamente apartir de 1846. o ano em questão. (Brookes, 2004, p. 60)

Quando voltou para a Inglaterra publicou histórias sobre suas viagens, que lhe renderam uma medalha da Royal Geographic Society [Sociedade Real de Geografia], Na década e 1850, parou de viajar, alegando como causas o casamento e a saúde frágil, mas manteve o interesse pela exploraçao e escreveu um famoso guia intitulado The art of travel. O livro fez tanto sucesso que publicado em oito edições, em oito anos, e reimpresso em 2001. Galton tambem organizava expedições para exploradores e dava orientações sobre a vida do campo a soldados em treinamento para servirem em país estrangeiro.

Sua inquietação mental o conduziu em seguida à meteorologia e à criação de instru­mentos para coletar informações meteorológicas. Seu trabalho nesse campo resultou no desenvolvimento do tipo de mapa meteorológico utilizado até hoje. Galton resumiu suas descobertas em um livro considerado a primeira tentativa de cartografar em grande esca­la os padrões de meteoros.

Quando seu primo Charles Darwin publicou On the origin of species, Galton ficou fas­cinado pela nova teoria. Escreveu, dizendo que o livro "marcou época no meu próprio desenvolvimento mental, assim como no pensamento humano em geral (apud Gillham, 2001, p. 155). O primeiro ponto a chamar sua atenção foi o aspecto biológico da evolução, e assim ele realizou uma pesquisa sobre os efeitos das transfusões de sangue entre os coe­lhos para descobrir se as características adquiridas seriam herdadas. Embora seu interesse pelo lado genético do evolucionismo não houvesse durado muito tempo, as implicações sociais da teoria direcionaram seu trabalho subsequente e determinaram sua influência na psicologia moderna.

A Herança Mental

O primeiro livro importante de Galton para a psicologia foi Hereditary genius (1869). Quando Darwin o leu, escreveu a Galton, dizendo nunca ter lido algo tão interessante e original. Galton procurou demonstrar que a grandeza ou a genialidade individuais ocorriam com tanta frequência dentro das famílias que a mera explicação da influência ambiental não era suficiente. Resumindo, sua tese afirmava que um homem notável teria filhos homens notáveis (naquele tempo, as filhas tinham poucas oportunidades de se destacarem, a não ser por meio de um casamento com algum homem importante).

A maioria dos estudos biográficos descritos por Galton em Hereditary genius era pes­quisas sobre os ancestrais de influentes cientistas e médicos contemporâneos. Os dados demonstravam que uma pessoa famosa herdava não apenas a genialidade, como também sua forma específica. Por exemplo, um grande cientista nascia em uma família que já se houvesse destacado na ciência.

O objetivo de Galton era incentivar o nascimento de indivíduos mais notáveis ou mais aptos na sociedade e desencorajar o nascimento dos inaptos. Para essa finalidade, fundou a ciência da "eugenia", palavra por ele cunhada. Eugenia, ele afirmou, lida com as "questões relacionadas com o termo grego, Eugenes, isto é, de boa estirpe, hereditariamente dotado de qualidades nobres" (apud Gillham, 2001, p. 207). Galton desejava impulsionar o aperfeiçoamento das qualidades herdadas da raça humana. Argumentava que os seres humanos, assim como os animais de criação, podiam ter as características melhoradas mediante a seleção artificial. Se as pessoas de muito talento fossem selecionadas e acasa­ladas geração após geração, o resultado seria uma raça humana extremamente talentosa. Propôs o desenvolvimento de testes de inteligência para selecionar homens e mulheres brilhantes, destinados à reprodução seletiva, e recomendou que os melhores recebessem incentivos financeiros para se casarem e procriarem.

Na tentativa de verificar sua teoria da eugenia, Galton estudou problemas de mensuração e de estatística. Para o livro Hereditary genius, aplicou conceitos estatísticos a problemas de hereditariedade, classificando os homens extraordinários de sua amostragem em categorias, conforme a frequência com que seus níveis de capacidade ocorriam na população. Os dados comprovaram que os homens notáveis apresentavam maior probabilidade de terem filhos extraordinários do que os homens comuns. A amostragem consistia em 977 homens famosos, cada um tão notável que a proporção era de 1 para cada 4.000 homens. Aleatoriamente, a expectativa seria de haver no grupo apenas um parente importante; no entanto havia 332.

A probabilidade de superioridade em algumas famílias não era alta o suficiente para Galton aceitar seriamente qualquer possibilidade de influência de um ambiente superior, como melhores oportunidades educacionais ou vantagens sociais. Seu argumento era de que a eminência ou a sua ausência deviam-se exclusivamente a uma função hereditária, e não à oportunidade.

Galton escreveu também English men of science (1874), Natural inheritance (1889) e mais 30 trabalhos a respeito da hereditariedade. Publicou a revista Biometrika, fundou o labo­ratório de eugenia na University College, de Londres, e uma organização para promover suas ideias acerca do aperfeiçoamento das qualidades mentais da raça humana.

No trecho a seguir, extraído de Hereditary genius, Galton discute os limites do desen­volvimento tanto físico como mental impostos pela hereditariedade. Ele observa que nenhum tipo de esforço, mental ou físico, possibilita que uma pessoa avance além de suas características genéticas.


Texto original

Trecho Extraído de Hereditary Genius: an Inquiry into Its Laws and Consequences (1869), de Franeis Galton

Não tenho como admitir a hipótese ocasionalmente expressa, e muitas vezes implícita, prin­cipalmente nas histórias escritas a fim de ensinar as crianças a serem boas, de que os bebês recém-nascidos são muito parecidos e que os únicos agentes a criarem as diferenças entre dois garotos e entre dois homens sejam a rígida aplicação e o esforço moral. É da maneira mais incondicional que faço objeção contra as pretensões da igualdade natural. As experiên­cias do berçário, da escola, da universidade e das carreiras profissionais formam uma cadeia de provas contrárias. Admito francamente o enorme efeito da educação e das influências sociais no desenvolvimento dos poderes ativos da mente, assim como reconheço o efeito do uso no desenvolvimento dos músculos do braço de um ferreiro e nada mais. Deixe o ferreiro simplesmente trabalhar, e ele descobrirá que existem algumas proezas acima do seu poder que são convenientes para a força de um homem de feitio hercúleo, embora possa ter tido uma vida sedentária. (...)

Todo aquele que se exercita fisicamente descobre a magnitude da sua força muscular para o refinamento. Quando começa a caminhar, a remar, a utilizar halteres ou a correr, descobre, para seu deleite, que seus [músculos] se fortalecem e a sua resistência à fadiga aumenta dia após dia. Enquanto é um novato, talvez se vanglorie da inexistência de um limite designável ao treinamento dos seus músculos; todavia logo notará que o ganho diário diminui e que, por fim, acaba desaparecendo. Seu desempenho máximo torna-se uma quantidade rigidamen­te determinada. Aprende a medir milimetricamente a sua capacidade de salto em altura ou sua ausência quando atinge o mais alto grau de treinamento. Aprende a dosar a força que pode aplicar no dinamômetro, comprimindo-o. É capaz de aplicar um golpe na máquina utilizada para medição de impacto e obter certo grau de índice, mas nada mais. É assim na corrida, no remo, na caminhada e em qualquer outra forma de exercício. A força muscular humana possui um limite definido que não pode ser ultrapassado por nenhum exercício ou treinamento.

Esse argumento é precisamente similar à experiência vivida por cada aluno que trabalha com a sua capacidade mental. O garoto ansioso no primeiro dia de aula, ao confrontar-se com as dificuldades intelectuais, fica maravilhado com seu progresso. Vangloria-se do desenvolvi­mento mental recém-conquistado e da sua capacidade crescente de aplicação e, talvez, cari­nhosamente acredite estar a seu alcance tornar-se um dos heróis que deixaram a sua marca ao longo da história mundial. Os anos passam, ele compete repetidas vezes com os seus colegas nos exames da escola e da faculdade e logo conquista o seu lugar entre eles. Sabe que pode vencer este ou aquele concorrente; que existem alguns com quem compete em igualdade de condições e outros com feitos intelectuais dos quais ele nen se aproxima. (...)

Dessa maneira, com esperanças recém-renovadas e com toda a ambição de um jovem de 22 anos, sai da universidade e ingressa em um campo de competição ainda maior. Ali, o mesmo tipo de experiência pelo qual já passou o aguarda. Surgem as oportunidades - e as surgem para todo homem - e ele se sente incapaz de agarrá-las. Ele tenta e é tentado de diversas maneiras. Em mais alguns anos, a menos que definitivamente cegado pela própria vaidade, aprende exatamente quais são os desempenhos de que é capaz e quais são os que estão além da sua capacidade. Quando atinge a maturidade, é confiante apenas dentro de determinados limites e se conhece, ou deveria conhecer-se, assim como é provavelmente julgado pelo mundo, com todas as suas inconfundíveis fraquezas e todas as suas inegáveis forças. Não se tortura mais em realizar esforços inúteis pelos discursos falaciosos da presunçosa vaidade, todavia limita as suas realizações às matérias abaixo do nível de seu alcance e descobre o verdadeiro repouso moral na convicção honesta de que está enga­jado na melhor empreitada de que é capaz de desempenhar, proporcionada pela sua natureza.


Métodos Estatísticos

Galton nunca ficava totalmente satisfeito com um problema até encontrar alguma maneira de quantificar os dados e analisá-los estatisticamente. Quando precisava, até desenvolvia os próprios métodos. 

Adolph Quetelet (1796-1874), um matemático belga que também era pintor, poeta e escritor, acreditava fortemente na utilidade da estatística, "convencido de que a estatística fornecia um insight ao comportamento humano e à compreensão da sociedade (Cohen, 2005, p. 126). Quetelet foi o primeiro a usar métodos estatísticos e a curva normal de distribuição em dados biológicos e sociais. A curva normal fora empregada em trabalhos acerca da distribuição de medidas e erros na observação científica, mas não havia sido aplicada à variabilidade humana até Quetelet demonstrar que as medidas de altura de 10 mil indivíduos ficavam próximas da curva normal. A sua expressão l homme moyen (o homem médio) explicava a descoberta de que a maioria das medidas físicas ficavam distribuídas em torno da média ou do centro da distribuição e poucas se encontravam
próximas de qualquer extremo.

Galton ficou impressionado com os dados de Quetelet e presumiu que resultados simi­lares seriam obtidos para as características mentais. Por exemplo, Galton descobriu que as notas atribuídas nos exames das universidades seguiam a curva normal. Devido à simplicidade da curva normal e à sua consistência em vários traços, ele sugeriu que qualquer conjunto grande de medidas ou de valores das características humanas podia ser descrito satisfatoriamente por dois números: o valor médio da distribuição (a média aritmética) e a dispersão ou a faixa de variação em torno desse valor médio (o desvio-padrão).

O trabalho estatístico de Galton produziu uma das medidas científicas mais importan­tes: a correlação. O primeiro relatório, utilizando o que ele chamou de "correlação" foi elaborado em 1888. As modernas técnicas estatísticas para a determinação da validade e confiabilidade dos testes, bem como dos métodos analítico-fatoriais, são resultado direto da sua pesquisa de correlação, os quais foram baseados na observação da tendência das características herdadas de regressarem na direção da média. Por exemplo, ele observou que, na média, os homens de estatura alta não são tão altos quanto seus pais; por outro lado, os filhos de homens de estatura bem baixa são mais altos do que os pais. Ele represen­tou graficamente as propriedades básicas do coeficiente de correlação e criou uma fórmula para o cálculo, embora não seja mais usada.

Incentivado por Galton, seu aluno Karl Pearson (1857-1936) desenvolveu a fórmula usada atualmente para calcular o coeficiente de correlação (o coeficiente de correlação produto-momento de Pearson), cujo símbolo é a letra "r" inicial da palavra "regressão", como homenagem à descoberta da tendência dos traços humanos herdados de regressão para a média feita por Galton. Durante muitos anos Pearson se preocupou com a ideia de que sua reputação científica não passaria de uma simples "nota de rodapé em uma fórmula (...) Esse medo tornou-se uma grande verdade" (E. Baumgartner, 2005, p. 84).

A correlação é uma ferramenta fundamental para as ciências sociais e comportamentais, bem como para a engenharia e as ciências naturais. Além disso, outras técnicas de estatística foram desenvolvidas graças ao trabalho pioneiro de Galton.

Testes Mentais

A expressão testes mentais foi cunhada por James McKeen Cattell, discípulo estadunidense de Galton e aluno de Wundt. Entretanto foi Galton quem deu origem ao conceito de testes mentais. Ele imaginava que a inteligência podia ser medida com base na capacidade sensorial individual e que, quanto mais inteligente, mais alto seria o nível de funcionamento sensorial do indivíduo. Galton extraiu essa ideia da visão empirista de John Locke de que todo conhecimento é adquirido por meio dos sentidos. Se Locke esti­vesse correto, as pessoas mais inteligentes teriam os sentidos mais aguçados.

A fim de atingir seus objetivos, Galton precisava inventar um aparelho que realizasse medidas sensoriais em um grande número de pessoas com rapidez e precisão. Por exemplo para determinar a frequência sonora mais alta, passível de detecção, inventou um apito que testou em animais e em seres humanos. Caminhava pelo zoológico de Londres com uma bengala que tinha o apito afixado em uma ponta e na outra uma espécie de bexiga de bor­racha que ele apertava para tocar o apito, enquanto observava a reação dos animais. O apito de Galton tornou-se uma peça-padrão entre os equipamentos do laboratório de psicologia até ser substituído, na década de 1930, por um dispositivo eletrônico mais sofisticado.

Entre outros instrumentos usados por Galton estão o fotômetro, para medir a precisão com que uma pessoa consegue encontrar dois pontos da mesma cor, um pêndulo calibra­do, para medir a velocidade de reação à luz e ao som, e uma série de pesos ordenados para medir a sinestesia ou a sensibilidade muscular. Criou ainda uma barra com várias medidas de distância para testar a estimativa de extensão visual e conjuntos de recipientes contendo diversas substâncias para testar a distinção olfativa. Em sua maioria, os testes de Galton serviram como protótipos para equipamentos que se tornaram padrão de laboratório.

Munido de seus novos testes, Galton prosseguiu coletando uma enorme quantidade de dados. Fundou o Laboratório Antropométrico na International Health Exhibition [Ex­posição Internacional de Saúde], em 1884, e mais tarde transferiu-o para o museu South Kensington de Londres. O laboratório funcionou durante seis anos e, nesse período, Galton coletou dados de mais de 9 mil pessoas. Ele arrumava os instrumentos para as medidas psicométricas e antropométricas sobre uma mesa comprida, no fundo de uma sala estrei­ta, de mais ou menos 2m de largura por 11m de comprimento. Mediante o pagamento de uma pequena taxa, o visitante entrava, passava por todo o comprimento da mesa e um atendente realizava a avaliação e registrava os dados em um cartão.

Além dessas medidas mencionadas, os funcionários do laboratório registravam a altu­ra, o peso, a capacidade respiratória, a força de impulsão e compressão, a rapidez de sopro, a audição, a visão e a percepção cromática. Cada pessoa passava por um total de 17 testes. O objetivo do programa de testes em larga escala de Galton era nada menos que a defini­ção da variedade da capacidade humana de toda a população britânica para determinar seus recursos mentais coletivos.

Um século mais tarde, um grupo de psicólogos estadunidenses analisou esses dados (Johnson et al, 1985) e descobriu muitas correlações teste-reteste, indicando a consistência estatística dos dados. Esses psicólogos constataram também que os dados forneciam informações acerca das tendências do desenvolvimento infantil, juvenil e adulto, dentro da população testada. As medidas como o peso, o alcance do braço, a capacidade respiratória e a força de compressão mostraram-se similares às descritas na literatura psicológica mais recente, exceto em reiação à velocidade de desenvolvimento que, na época de Galton, parece ter sido um pouco mais lenta. Os psicólogos chegaram à conclusão de que esses dados continuam instrutivos.

A Associação de Ideias

Galton trabalhou em dois problemas relacionados com a área da associação:

  1. a diversidade de associações de ideias;
  2. o tempo de reação (o tempo necessário para a produção de associações).

Um dos métodos usados por Galton para estudar a diversidade de associações era cami­nhar cerca de 400m pela rua Pall Mall (em Londres, entre a Trafalgar Square e o palácio de St. James), concentrando sua atenção em um objeto até que ele lhe incitasse uma ou duas associações de ideias.

A primeira vez em que realizou essa experiência, surpreendeu-se com o número de associações provocadas por cerca de 300 objetos que vira. Muitas dessas associações eram lembranças de experiências do passado, inclusive de incidentes que pensava ter se esque­cido havia muito tempo. Ao repetir a caminhada alguns dias depois, constatou uma considerável repetição das associações ocorridas na primeira experiência, o que pôs fim ao seu interesse na questão. Voltou-se para as experiências sobre o tempo de reação, que produziam resultados mais satisfatórios.
Preparou uma lista de 75 palavras e escreveu cada qual em uma tira de papel separada. Depois de uma semana, leu uma palavra de cada vez e, com o cronômetro, registrou o tempo que levou para produzir duas associações para cada palavra. Muitas delas consistiam em apenas uma palavra, mas algumas eram imagens e figuras mentais que exigiam diversas palavras para descrevê-las. A tarefa seguinte era determinar a origem dessas associações. Identificou cerca de 40% dos acontecimentos da infância e da adolescência, demonstração inicial da influência das experiências da infância na personalidade adulta.

Galton também ficou bastante impressionado com a influência dos processos de pensamento do seu inconsciente, que trouxeram para o nível consciente incidentes que acreditava haver esquecido muito tempo atrás. Disse que chegou a acreditar "que o meu melhor trabalho cerebral era totalmente independente da [consciência]" (apud Gillham, 2001, p. 221). Escreveu sobre a importância do inconsciente em um artigo publicado na revista Brain (1879). Em Viena, Sigmund Freud, que tinha ideias próprias a respeito da importância do inconsciente, era assinante da revista e foi nitidamente influenciado pelo trabalho de Galton.

Mais importante que os resultados foi o método experimental que Galton desenvol­veu para estudar as associações, hoje conhecido como o teste de associação de palavras. Wilhelm Wundt adaptou a técnica no laboratório de Leipzig, como mencionamos no Capítulo 4, limitando as respostas dos indivíduos a apenas uma palavra. O analista Cari Jung aprimorou a técnica para aplicá-la na sua pesquisa de associação de palavras relativas à personalidade.

Imagens Mentais

As pesquisas de Galton a respeito das imagens mentais marcaram a primeira aplicação ampla do questionário psicológico. Pedia-se às pessoas que se lembrassem de alguma cena, como, por exemplo, a mesa do café-da-manhã daquele dia, e tentassem inferir imagens. Elas eram instruídas a relatar se as imagens eram obscuras ou nítidas, claras ou escuras, coloridas ou não, e assim por diante. Para sua surpresa, o primeiro grupo de pessoas, cien­tistas conhecidos, não relatou nenhuma imagem nítida. Alguns não entenderam muito bem do que Galton estava falando. Tomando uma amostragem mais ampla da população, Galton obteve relatos de imagens nítidas e bem distintas, cheias de detalhes e de cores. As imagens descritas pelas mulheres e crianças eram mais concretas e detalhadas. Utilizando-se da análise estatística, Galton descobriu que as imagens mentais, assim como muitas outras características humanas, estavam distribuídas na população conforme a curva normal.

O trabalho de Galton sobre as imagens estava baseado na sua contínua tentativa de demonstrar as semelhanças hereditárias. Descobriu que a probabilidade de ocorrência de imagens semelhantes era maior entre parentes do que entre pessoas desconhecidas.

Aritmética Olfativa e Outros Tópicos

A riqueza do talento de Galton fica evidente na variedade dos seus estudos de pesquisa. Ele chegou a se colocar no estado mental de uma pessoa que sofre de paranóia, imaginando que todos ou tudo que via estavam o espionando. Um historiador relata que, quando ele fazia isso durante a sua caminhada matutina, "sentia como se todo cavalo olhasse direta­mente para ele ou, desconfiadamente, dissimulasse a espionagem, simplesmente fazendo de conta que não lhe prestava atenção" (Watson, 1978, p. 328-329).

No auge da controvérsia entre o evolucionismo de Darwin e a teologia fundamentalista, Galton estudou a questão com a objetividade necessária e concluiu que, embora muitas pessoas tivessem fortes crenças religiosas, não havia provas suficientes da sua validade. Realizou uma pesquisa sobre o poder da oração na produção de resultados e verificou não ter ela eficácia para os médicos curarem pacientes ou para os meteorologistas tentarem mudar as condições do tempo, nem para os religiosos aplicarem-na na vida cotidiana. Acreditava haver pouca diferença entre as pessoas possuidoras de fortes crenças religiosas e as que não possuíam, em termos de expectativa de vida, de relacionamento interpessoal ou de enfrentamento dos próprios problemas. Galton esperava que um conjunto de cren­ças mais efetivo pudesse ser estruturado em termos científicos. Pensava que o desenvol­vimento de uma raça humana superior por meio da evolução, mediante a eugenia, devia ser a meta da sociedade e não um lugar no céu.

Seu interesse na quantificação e na análise estatística muitas vezes se expressava no seu apego aos números. Passava o tempo entre palestras e peças teatrais contando os boce­jos e as tossidas do público. Descrevia os resultados como uma medida do tédio. Em uma ocasião, quando um artista pintava o seu retrato, contou o número de pinceladas: cerca de 20 mil. Um dia decidiu contar pelo cheiro e não por números, e praticou bastante para poder esquecer o significado deles. Mas, em vez de esquecer os números, atribuiu valores numéricos aos odores, como o cheiro de menta, e aprendeu a adicionar e subtrair pensan­do no cheiro. Esse exercício intelectual deu origem a um trabalho intitulado “Arithmetic by smell" ("Aritmética olfativa"), publicado na primeira edição da revista especializada estadunidense Psychological Review.

Comentários

Galton passou 15 anos pesquisando problemas psicológicos e seus esforços tiveram um impacto significativo na direção da nova psicologia, embora não fosse realmente um psicólo­go. Era uma pessoa extremamente bem dotada, cujos talento e temperamento não ficaram restritos a uma única disciplina. Basta verificar os métodos e o escopo do seu interesse: adaptação, hereditariedade versus ambiente, comparação das espécies, desenvolvimento infantil e testes mentais. Seu trabalho exerceu maior influência na evolução da psicologia estadunidense do que o trabalho do fundador da disciplina, Wilhelm Wundt.

A Psicologia Animal e a Evolução do Funcionalismo

A teoria da evolução de Darwin foi comprovadamente um estímulo para o desenvolvimento da psicologia animal. Antes da publicação de On the origin ofspecies, não havia razão para os cientistas se preocuparem com a mente animal, já que os animais eram apenas robôs sem mente e sem alma. Afinal, Descartes afirmou que os animais não tinham qualquer semelhança com os homens.

O trabalho de Darwin alterou essa visão conformista, pois suas conclusões apontaram para a inexistencia de qualquer distinção evidente entre a mente humana e a animal. Assim os cientistas propuseram a continuidade entre todo aspecto mental e físico dos seres humanos e dos animais, com base na teoria de que o homem descende do animal por meio do continuo processo de desenvolvimento evolutivo. Darwin afirmou: "Não existe diferença fundamental entre o homem e os mamíferos superiores em relação às faculdades mentais" (1871, p. 66). E ainda, acreditava que os animais inferiores sentiam prazer e dor, alegria e tristeza; tinham sonhos e até certo grau de imaginação. Mesmo as minhocas, afirmou Darwin, demonstram prazer ao comer, além de paixão sexual e senti­mento social, sendo tudo uma prova da existência de alguma forma de mente animal.

Se fosse possível provar a existência da habilidade mental nos animais, além de compro­var a continuidade entre a mente animal e a mente humana, essas evidências colocariam por terra a dicotomia humano/animal defendida por Descartes. Desse modo, estava lança­do o desafio para os cientistas buscarem as provas da existência da inteligência animal.

Darwin defendeu suas ideias sobre a inteligência animal no livro The expression of the emotions in man and animais (1872), em que argumentava que o comportamento emo­cional humano deriva do comportamento herdado que um dia fora útil aos animais mas que não é mais relevante para o homem. Um exemplo é a expressão nos lábios de uma pessoa quando ela quer demonstrar escárnio. Darwin alegava ser esse gesto remanescente da forma como os animais enfurecidos mostravam os dentes caninos.

Nos anos que se seguiram à publicação de On the origin of species, o tema da inteligencia animal ganhou popularidade, não apenas entre a comunidade científica como tambem entre o publico em geral. Nas décadas de 1860 e 1870, muitas pessoas escreviam para as revistas populares e científicas pedindo exemplos de comportamento animal que comprovassem habilidades mentais antes ignoradas. Histórias circulavam dando conta de feitos marcantes da inteligência de gatos e cães domésticos, cavalos e porcos e até de lesmas e pássaros.
Nem o grande experimentalista Wilhelm Wundt escapou dessa tendência. Em 1863 antes de tornar-se o primeiro psicólogo da história, Wundt escreveu a respeito das habili­dades intelectuais de vários seres vivos, desde besouros até castores. Ele presumia que os animais que exibissem qualquer capacidade mínima sensorial também deviam ser dotados de poder de julgamento e de inferência consciente. Na verdade, os animais simples não deviam ser considerados inferiores ou menos inteligentes, pois diferiam dos seres huma­nos não tanto pela habilidade como por terem recebido menos educação e treinamento! Trinta anos depois, a sua generosidade em relação à inteligência animal havia diminuído mas durante algum tempo sua afirmação juntou-se às várias que sugeriam serem os animais tão bem dotados quanto os seres humanos.

George John Romanes (1848-1894)

O fisiologista britânico George Romanes formalizou e sistematizou o estudo da inteligên­cia animal. Ainda criança, foi considerado pelos pais "um perfeito idiota" (Richards, 1987, p. 334). Quando jovem, ficou impressionado com os trabalhos de Darwin. Tornaram-se amigos, e Darwin deu a Romanes seu caderno de anotações sobre o comportamento ani­mal. Desse modo, Darwin escolheu Romanes para dar continuidade àquele aspecto do seu trabalho, aplicando a teoria da evolução à mente assim como ele havia aplicado ao corpo, e Romanes mostrou-se um sucessor de valor. Por ser rico, Romanes não precisava se preocupar em ganhar a vida. O único emprego que teve foi como professor de meio período na University of Edinburgh, que exigia a sua presença no total de duas semanas no ano. Passava o inverno em Londres e Oxford e o verão na praia, onde construiu um laboratório tão bem equipado quanto o de uma universidade.

Romanes publicou Animal intelligence (Inteligência animal) (1883), geralmente consi­derado o primeiro livro de psicologia comparativa. Coletou dados do comportamento de protozoários, formigas, aranhas, répteis, peixes, pássaros, elefantes, macacos e animais domésticos. Seu objetivo era demonstrar o alto nível da inteligência animal e a sua seme­lhança com o funcionamento intelectual humano, mostrando assim a continuidade do desenvolvimento mental. Com suas palavras, Romanes desejava demonstrar que "não há diferença de modalidade entre os atos racionais executados pelo caranguejo e qualquer ato racional humano" (apud Richards, 1987, p. 347).

Romanes desenvolveu o que chamou de "escada mental", em que ordenava as várias espécies animais por grau de funcionamento mental (Tabela 6.1). Observa-se na tabela que ele creditava até às formas de vida inferior (como a água-viva, o ouriço e a lesma) um alto grau de funcionamento mental. Ele formou essas opiniões, de algum modo surpreenden­tes, coletando dados por meio do método anedótico, definido como o uso de relatos ou narrativas de observações, muitas vezes casuais, sobre o comportamento animal. Muitos dos relatos foram de observadores não-treinados e acríticos, cujas observações poderiam ser parciais e negligentes.

Tabela 6.1

Romanes desenvolveu essas definições a respeito da inteligência animal com base nas observações anedóticas obtidas por meio de uma técnica curiosa chamada introspecção por analogia, que acabou sendo descartada. Nessa abordagem, os pesquisadores partem do princípio de que os mesmos processos mentais que ocorrem em suas mentes ocorrem na mente dos animais observados. Assim, presume-se a existência de uma função men­tal específica, observando-se o comportamento do animal e criando-se uma analogia, seja por alguma correspondência seja por relação, entre os processos mentais humanos conhecidos e os processos que, deduz-se, estejam ocorrendo na mente do animal.

Para começar, com base no conhecimento subjetivo das operações da minha mente e das atividades que essas operações parecem indicar em meu organismo, sigo por analogia para deduzir, a partir das atividades observáveis demonstradas por outros organismos, o fato de que certas operações mentais sustentam ou acompanham essas atividades, (Romanes apud Mackenzie, 1977, p. 56-57)

Com a técnica da introspecção por analogia, Romanes sugeria que os animais eram capazes de realizar os mesmos tipos de racionalização, ideação, raciocínio complexo, processamento de informação e solução de problemas que os humanos. Alguns de seus seguidores credi­tavam aos animais níveis de inteligência muito superiores ao do ser humano médio.

Romanes acreditava que, excluindo o macaco e o elefante, o gato era o animal mais inteligente. Escreveu muito sobre o comportamento do gato que pertencia ao seu motorista. Realizando vanos movimentos intrigantes, o gato era capaz de abrir as portas fechadas que conduziam ao estábulo. Empregando a introspecção por analogia, Romanes concluiu que:

Nos casos como esse, os gatos têm uma ideia perfeitamente definida das propriedades mecâ­nicas de uma porta; sabem que, para abri-la, mesmo quando destrancada, têm de empur­ra-la. (...) Primeiro, o animal deve ter observado que a porta é aberta pela mão que segura a maçaneta e move o trinco. Em seguida, deve raciocinar, pela "lógica dos sentimentos", que, se a mão é capaz de fazer isso, por que não a pata? (...) O ato de empurrar com a pata traseira após baixar o trinco deve-se a razões de adaptação. (Romanes, 1883, p. 421-422)

O trabalho de Romanes empregava métodos muito aquém do rigor científico moder­ no e, muitas vezes, a divisão entre a interpretação factual e a subjetiva de seus dados não era clara. Todavia, embora os cientistas reconhecessem a deficiência dos seus dados e métodos, ele era respeitado pelos esforços pioneiros, incentivando o desenvolvimento da psicologia comparativa e abrindo caminho para o estudo do comportamento animal.

Em diversas areas da ciência, a utilização de dados observacionais antecede o desenvolvimento de uma metodologia experimental mais refinada. E foi Romanes quem deu início ao estágio observacional da psicologia comparativa.

C. Lloyd Morgan (1852-1936)

O ponto fraco inerente aos métodos anedótico e da introspecção por analogia foi indicado formalmente por Conwy Lloyd Morgan (1852-1936), a quem Romanes designou como seu sucessor. Morgan foi aluno de Thomas Henry Huxley e tornou-se professor de psicologia e de educação da University of Bristol, na Inglaterra, além de ter sido uma das primeiras pessoas a pedalar uma bicicleta dentro dos limites da cidade. Também se interessava por geologia e zoologia e propôs a lei da parcimônia (também denominada Cânone de Lloyd Morgan) para neutralizar a tendência predominante de atribuir excessiva inteligência aos animais.

A lei da parcimônia afirma que o comportamento animal não deve ser interpretado como o resultado de um processo mental superior, quando pode ser explicado por um processo mental inferior. Morgan desenvolveu essa ideia em 1894 e pode tê-la criado com base na lei da parcimônia similar, descrita por Wundt dois anos antes. Wundt havia observado que "os princípios explicativos complexos devem ser empregados somente quando os [princípios] mais simples forem insuficientes" (Richards, 1980, p. 57).

A intenção de Morgan não era a exclusão completa do antropomorfismo dos traba­lhos sobre o comportamento animal, mas a redução do seu uso e aplicação, de modo mais científico, dos métodos da psicologia comparativa. Morgan concordava com Romanes em que os relatos subjetivos eram inevitáveis, no entanto tentou manter ao mínimo as infe­rências anedóticas no seu trabalho. Morgan disse:

Com relação às várias observações anedóticas de Romanes (...) noto, e sem dúvida ele também notou, que a ciência da psicologia comparativa não deve ser construída com tais fundamentos anedóticos. A maioria das histórias são meros registros casuais, complemen­tados por opiniões amadorísticas de observações passageiras, cujo treinamento psicológico é praticamente desprezível. Então, levanto dúvidas se alguém é capaz de extrair da mente do animal (...) os dados exigidos para uma ciência. (1930/1961, p. 247-248)

No geral, Morgan seguiu a abordagem de Romanes na observação do comportamen­to de um animal e na sua explicação por meio de uma análise introspectiva dos próprios processos mentais. No entanto, ao aplicar a lei da parcimônia, evitou atribuir processos mentais de nível mais elevado aos animais, quando o comportamento podia ser explicado em termos de processos de nível inferior.

Ele acreditava que a maioria dos comportamentos animais resultava da aprendizagem ou da associação com basea na experiência sensorial; esse tipo de aprendizagem consistia em um processo de nível inferior, e não em um pensamento racional ou em uma ideação.

Com a aceitação do cânon de Morgan, o método da introspecção por analogia foi aperfei­çoado e proporcionou dados mais úteis, mas acabou sendo superado por outros métodos mais objetivos.

Morgan foi o primeiro cientista a conduzir estudos experimentais em larga escala na psicologia animal. Embora suas experiências não fossem realizadas sob as condições cien­tíficas rígidas exigidas hoje, elas constituíram observações cuidadosas do comportamento animal, a maioria em ambientes naturais, mas com algumas modificações artificiais. Apesar de esses estudos não comportarem o mesmo grau de controle das experiências realizadas em laboratórios, foram um avanço importante do método anedótico de Romanes.

Comentários

O trabalho inicial na psicologia comparativa foi conduzido na Inglaterra, mas a liderança no campo passou rapidamente para os Estados Unidos. Romanes faleceu mais ou menos aos 40 anos, vitimado por tumor cerebral, e Morgan trocou sua pesquisa por uma carreira administrativa na universidade.

A psicologia comparativa surgiu da excitação e da polêmica provocadas pela sugestão de Darwin a respeito da continuidade entre as espécies humana e animal. As ideias bási­cas da teoria darwiniana são a noção de função e a afirmação de que as espécies evoluem e que as estruturas físicas são determinadas pela luta pela sobrevivência. Essa premissa levou os biólogos a considerarem cada estrutura anatômica um elemento utilitário ou funcional em um sistema total de vida e adaptação. Quando os psicólogos começaram a examinar os processos mentais da mesma maneira, estabeleceram o trabalho de base para um novo movimento: a psicologia funcional.

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Coelhos e bebedeiras
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Os deuses do pulque surgiam pintados em diversos códices sob a forma de coelhos, ou então com uma narigueira em forma de meia-lua, comprovando a sua associação com o astro lunar. Esse adereço era chamado yacametztli (“yacatl", nariz, e “metztli", Lua). Sahagún confirma a associação entre o pulque e os coelhos: “E quando um bêbado se lançava num abismo ou caía em qualquer parte, se dizia que ele “se acoeIhara". A relação entre bebida e animais não é exclusiva dos centro-americanos: os alemães também associavam sua cerveja a um animal, no caso, o urso, já que ambos possuíam a mesma cor parda (em nórdico antigo, Bier, “cerveja'', se assemelha a Bõr, “urso’’). No Kalevala, o poema épico nacional finlandês, durante um a festa de casamento alguém menciona uma receita de fabricação da cerveja, feita de cevada, malte, lúpulo e o acréscimo da saliva “da horrível boca do urso".

FRANCINI,A. S. Pulque, a bebida sagrada dos astecas .in:__________. Mitologias asteca, maia e inca: As melhores estórias da. Porto Alegre/RS: Artes e Ofícios, 2014. Cap. 1. p.146.
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A barca solar de Rá

Quando as primeiras manchas do crepúsculo tingem o horizonte egípcio, Rá, suprema divindade solar, depois de haver atravessado o universo em sua faiscante barca, prepara-se para ingressar no Amanti, o noturno reino subterrâneo. Lentamente, a embarcação ruma par a boca de Nut, a deusa dos céus, sob o impulso que lhe imprimem os remadores de braços lustrosos de essências balsâmicas e revigorantes. Postado na proa da barca está Seth, um dos filhos de Geb, o deus da terra, e da deusa Nut. Apesar de seu caráter duvidoso, Seth recebeu essa incumbência como prêmio de consolação de seu eterno rival. Enquanto isso, Rá, de pé e em meio aos remadores, dá as últimas recomendações a seus comandados. — Que a ninguém falte o vigor nos braços, sob pena de minha sagrada ira! — exclama o deus solar, cujo grande olho místico a tudo acompanha atentamente. O coruscante disco vermelho que brilhou o dia todo acima de sua cabeça vai, aos poucos, perdendo o brilho, à medida que as Doze Portas da Noite se aproximam. A cabeça de Rá abandona, aos poucos, sua antiga forma de falcão para ir adquirindo a de um carneiro de grandes chifres anelados, enquanto a barca ingressa nas águas escuras e revoltas do Amanti. Já se divisa, agora, o primeiro dos doze grandes portões que o deus deverá solenemente atravessar. — Vamos, remem! — repete o sagrado Rá, com uma voz meio caprina.

Um a um vão sendo transpostos os portões que representam as doze horas noturnas. São regiões escuras e desoladas, que somente a pericia do divino barqueiro pode vencer. Pelas margens dos lagos que a barca cruza vêem-se deuses, na maioria sem forma ou mumificados, que fazem as honras ao deus visitante. Ha, também, além de réprobos que sofrem o castigo das ofensas perpetradas à divindade, muitas serpentes, ora erguidas e sibilantes, ora abatidas e agonizantes. Já quase no final da viagem, Rá volta-se para seus comandados e exclama: — Estamos perto de ingressar no círculo onde governa Osíris, senhor dos mortos! Seth, inimigo mortal do deus que ele próprio assassinara por meio de uma pérfida armadilha, rilha os dentes de raiva: “A pior parte da viagem!”, pensa ele, encolerizado.

“Por que não suprimem este trecho aborrecido do roteiro, afinal?” Nas margens os mortos recebem a barca com alegria, pois Rá é o bisavô do deus subterrâneo. — Seja bem-vindo, deus solar, aos domínios do Senhor Osíris! — exclamam as vozes em uníssono. Sentado num trono elevado está Osíris, portando o “ankh” (o emblema da vida) e seu cetro recurvo. Diante dele, uma deusa mumificada segura uma balança, na qual devem ser pesados os corações de todos aqueles que ingressam definitivamente nos domínios de Osíris. Conforme o lado para o qual pendem os pratos, fica decretado o destino do morto: ou a felicidade suprema ou a aniquilação nos dentes afiados de “Babai, a Grande Devoradora”, uma besta que tem a cabeça de um crocodilo, o corpo de um leão e o traseiro de um hipopótamo, Do outro lado estão os 42 demônios dos infernos que a tudo observam, expectantes. — Agora vamos penetrar nas cavernas do Ocidente, onde tudo é treva e desolação — anuncia Rá.

De fato, tudo ali vive na mais absoluta escuridão e nem mesmo Rá, com todo seu esplendor, pode enxergar coisa alguma. Um rio de águas turvas e encapeladas, ornadas por serpentes negras, torna a travessia extremamente perigosa.

Então, algo verdadeiramente extraordinário começa a acontecer com a barca. Lentamente, ela vai assumindo o formato de uma grande serpente — a sagrada serpente Mehen —, meio infalível que Rá engendra para poder transpor com segurança as terríveis águas. Aos poucos, Rá vai deixando a zona perigosa, levando adiante dois grandes peixes de nadadeiras coloridas, que, a exemplo de batedores marinhos, vão conduzindo a barca — outra vez em sua forma original — para o último e mais perigoso dos portais que Rá deve transpor para voltar novamente a superfície do dia. Um silvo arrepiante faz-se ouvir no negror da noite. Embora já se possam distinguir, muito ao longe, alguns ligeiros tons esmaecidos, prenunciando o dia ao qual Rá pretende retornar, ainda estão o deus e os demais sob o império da noite mais profunda.

— Esteja alerta, Seth, para o terrível perigo que se aproxima! — brada Rá, empunhando sua comprida e afiada lança. O deus vermelho, que está a frente da barca, tem um dos pés colocado na borda dianteira da nave, a fim de manter o equilíbrio. Suas feições severas não traem o menor sinal de receio quando a barca aproxima-se de um imenso pico rochoso. — Apópis maldita! — brada Seth, com destemor. — E em vão que seu corpo se oculta no seio das águas, pois já conhecemos bem suas solertes artimanhas! Nesse momento, a serpente medindo algo em torno de trezentos metros ergue-se do abismo infernal como uma prodigiosa coluna negra de escamas superpostas, a despedir reflexos de um jade espelhado e fosforescente. — Você, novamente...! — brada Rá, frente a frente, outra vez, com sua mais terrível inimiga.

Enquanto isto, Seth, senhor dos ventos e das tempestades, faz desencadear uma tremenda tempestade, tão forte que mesmo a Rá parece demasiada. (Na verdade, ao deus solar desagradam tanto a noite tenebrosa, representada pela terrível serpente, quanto a tempestade furiosa, representada por Seth.)

— Para trás, maldita! — exclama Seth, fazendo rugir com maior violência ainda a tempestade. A serpente gigantesca, ainda ereta, inclina agora a sua grande cabeça negra na direção dos ocupantes da barca. Seus dois olhos de pupilas verticais lançam um brilho escarlate ameaçador, enquanto uma língua fendida surge do interior de sua boca. Seth, então, tomando de sua lança, arremessa-a certeiramente na fenda da boca da cobra, que lança um terrível grito de dor — É a sua morte, Apópis! — brada Rá, feliz com o triunfo sobre a inimiga. O réptil gigantesco tomba com grande estrondo, mergulhando nas profundezas do lago negro. — Agora basta, vilão! — diz o deus solar, nada satisfeito com a atitude de Seth, que continua a promover alegremente o seu temporal.

— Ora, sossegue e deixe que eu comande os elementos a minha vontade! — exclama o inconsiderado deus, sem dar atenção as palavras de Rá. “Maldito atrevido!”, pensa Rá, desgostoso. “Toda a noite é a mesma coisa!” — Termine já com isso ou mandarei meus remadores expulsarem-no de minha barca! — diz o deus do sol, disparando chispas de Ódio de seu grande olho solar, que, aos poucos, vai readquirindo outra vez o brilho intenso. — Oh, tente só para ver se não lanço meus raios e ventos sobre sua barca! — diz Seth, agora em aberto desafio. Este derradeiro ato de arrogância é o termo final para que Rá abandone seus últimos restos de paciência. — Remadores, lancem para fora de minha barca esse insolente! — diz Rá, pondo toda a ira em sua voz. E dessa maneira o pérfido Seth é lançado para fora da barca antes que Rá possa surgir outra vez no horizonte trazendo ao dia a luz de sua vivificante luminosidade.

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A Chegada da Tribo de Danna

A tribo de Danna aportou na Irlanda e ninguém os viu chegar. Vieram encobertos por uma nuvem mágica densa. Nesse tempo os Firbolg habitavam a ilha e viviam oprimidos pelos Fomore, o povo das trevas, que, travadas diversas lutas, lhes exigiram por fim tributos extorsivos. Agora um espesso nevoeiro cobria toda a Irlanda em uma única camada de nuvem. Os Firbolg sentiram uma terrível ameaça. Era a terra que se dissolvia em abismo a seus pés, foi o que pensaram. Diante de tão incompreensível poder, buscaram refúgio e por três dias e três noites se recolheram oprimidos pela grande nuvem que se abateu sobre o país.

Seus magos por fim descobriram que o fenômeno era efeito de encantamento, e a custo fizeram uma contra-magia dissolver o nevoeiro. Saíram de seus abrigos e perceberam que um novo povo tinha aportado no país. Já tinham construído uma fortificação em Moyrein. Era a tribo de Danna que chegava trazendo poderosas forças e tesouros de magia desconhecidos. Tinha sido Morrígu, auxiliada por Badb e Macha, deuses guerreiros dessa tribo, que tinha evocado o nevoeiro usando formulas druídicas.

Os Firbolg enviaram um de seus guerreiros, Sreng, para saber quem eram os misteriosos invasores. O povo de Danna enviou, por seu turno, Brian para os representar. Os dois embaixadores examinaram as armas de cada um com grande interesse. As lanças dos Danna tinham pontas agudas e eram leves. As dos Firbolg eram pesadas e rombudas. Brian propôs que os dois povos dividissem a Irlanda pacificamente, juntos derrotassem os Fomore e defendessem o país de futuros invasores. Os Firbolg não se impressionaram com a superioridade dos Danna, eram para eles novos intrusos que chegavam para também os oprimir. A irmandade que ofereciam era dissimulação e astúcia para os dominar. Foi o que pensaram, e decidiram recusar a proposta: Se concedemos parte do país, logo exigirão o país todo, e nos exigirão tributos insuportáveis, disse Eochai, seu rei. A batalha foi travada no Campo de Moytura, no sul de Mayo, perto do lugar hoje chamado Cong. Liderava os Firbolg seu rei, Eochai Mac Erc; o rei Nuada comandava os Danna.

O povo de Danna ergueu-se no campo de batalha em fileiras flamejantes, levando escudos sólidos, brilhantes e de bordas vermelhas. Nas fileiras dos Firbolg faiscavam espadas, lanças e lançadores. A peleja começou. Vinte e sete Danna enfrentaram e derrotaram o mesmo número de Firbolg. Seguiu-se nova embaixada para deliberar sobre o modo de continuar a batalha. Nuada obteve de Eochai a garantia de que os dois exércitos lutariam com números iguais de combatentes. A luta recomeçou com uma série seguida de combates singulares. No fim do dia retomavam cada um para seu campo, ao descansavam e se curavam das feridas de guerra com banhos de ervas medicinais. A luta durou quatro dias, com terríveis baixas para ambos os lados.

Um herói dos Firbolgs, Sreng, partiu em dois o escudo de Nuada, o rei dos deuses, e com um terrível golpe decepou uma de suas mãos. Eochai, rei dos Firbolg, menos afortunado, perdeu a vida. Os Danna obtiveram vitória, protegidos por sua arte mágica de cura. Por fim, os Firbolg, derrotados e morto seu rei, ficaram reduzidos a apenas trezentos homens. Sabendo que para eles não havia salvação, pediram combate até a morte de todos os combatentes de um dos lados. Mas, em vez de consentir, os Danna ofereceram a eles a quinta parte da Irlanda: que tomassem para si uma província de sua escolha. Concordaram e escolheram Connacht, que se tomou seu território.

Como resultado da perda de uma de suas mãos, Nuada ganhou o codinome de Argetlam, o Mão-de-Prata. Diancecht, o medico da tribo Danna, fez para ele uma mão artificial de prata, tão habilmente que se ligou em todas as juntas, e tão forte quanto uma real. Contudo, por mais excelente que fosse o trabalho de Diancecht, era uma mão artificial, e, de acordo com os costumes celtas, nenhum homem mutilado podia ocupar o trono. Nuada foi deposto, e a tribo de Danna reuniu-se em assembléia para escolher um novo rei.

Escolheram Bress, filho de En e Elathan, para reinar em seu lugar. Esse Bress, agora rei, embora forte e belo, trazia a sua parcela de alma escura, herança de sua raça, os Fomore. Não apenas permitiu que os inimigos de Erin, os Fomore, oprimissem seu povo com tributos insuportáveis; ele próprio tratou de taxar extorsivamente seus súditos. Era tão mesquinho, que não dava hospitalidade nem a chefes nem a nobres nem a músicos nem a poetas, tampouco tinha a alma generosa. Reunia em si os piores vícios num príncipe, intoleráveis entre o povo da tribo Danna.

Não bastassem as taxas extorsivas, obteve com um estratagema hábil todo o leite produzido entre os Danna. Inicialmente, exigiu apenas a produção de vacas castanhas e sem pêlo, e o povo de Danna consentiu de boa—vontade. Mas Bress passou todo o gado de Erin entre duas piras de fogo, de maneira que perderam o pêlo e ficaram queimadas. Foi desse modo fraudulento que obteve todo o leite produzido e ficou com o monopólio de toda a fonte de alimento da Irlanda. Para obter sobrevivência, todos os deuses, mesmo os maiores, foram forçados a trabalhar para ele. Ogma, o seu herói, tornou-se coletor de lenha para o fogo. Dagda, o construtor de fortalezas e castelos.

Bress provocou a ira dos deuses. Era inadmissível um rei que não fosse liberal com seus súditos. Na corte de Bress ninguém jamais teve entre as mãos uma faca untada de gordura, ou sentiu o aroma da cerveja. Os poetas, músicos e ilusionistas já não davam divertimento ao povo, pois Bress não compensava sua arte. Por último ele cortou toda a subsistência dos deuses. Tão escassa era a comida, que começaram a ficar fracos de fome. Ogma só tinha forças para apanhar um terço da lenha necessária ao fogo, e passaram todos a sofrer tanto com o frio quanto com a fome.

A crise se agravava. Foi então que dois médicos, Miach e Airmid, filho e filha de Diancecht, o deus da medicina, vieram ao castelo onde Nuada, o antigo rei, vivia. Examinaram seu pulso e viram que a juntura da mão de prata tinha causado uma grave infecção. Miach quis saber onde estava a mão mutilada. Tinha sido enterrada. Ele exumou a mão e a colocou no coto, pronunciou fórmulas mágicas: tendão com tendão, nervo com nervo se juntem! Em três dias a mão tinha se recomposto e se fixado no braço, e desse modo Nuada estava novamente perfeito.

Diancecht, pai de Miach, ficou furioso quando soube do feito do filho: Então, será possível que ele exceda a mim em talentos medicinais? Não, e preciso extirpar isso. Ninguém além de mim tem maior ciência em medicina e arte mágica de curar. Foi ao encalço do filho e abriu-lhe a cabeça com a espada. Miach facilmente se curou. Diancecht o feriu novamente. Novamente Miach se curou. Pela terceira vez Diancecht o feriu. Dessa vez o golpe tinha rompido a membrana que envolve o cérebro. Novamente Miach foi capaz de curar-se. E pela quarta vez, Diancecht veio ate ele e, cego de ciúmes e despeito, cortou-lhe a cabeça, partindo seu cérebro em dois. Miach não pôde fazer nada, era impossível a cura. Satisfeito, Diancecht tratou de sepultá—lo. Sobre seu túmulo nasceram 365 ervas, cada uma com propriedades curativas para as doenças de cada um dos 365 nervos que formam o corpo. Airmid, a irmã de Miach, colheu todas cuidadosamente e as ordenou segundo a propriedade de cada uma. Mas o ciúme e o despeito do pai novamente impediram que esse bem prosperasse. Embaralhou e confundiu todas entre si. A jovem irmã não pôde mais separá-las. Não fosse esse ato promovido por um instinto sombrio, dizem os poetas da Irlanda, os homens teriam o remédio para todas as doenças e seriam imortais. Diancecht é o pai da discórdia e o destruidor das esperanças do homem. Nunca mais houve outra oportunidade como essa. Miach foi o único ser dotado de tão excelente conhecimento e magia. Ninguém mais houve que excedesse seus divinos dons.

Lamentável o fim a que seu dom o levou. Embora morto, os efeitos benéficos de sua arte continuaram a exercer domínio entre os deuses. Os poetas da Irlanda — e ouçamos os poetas, entes que sensivelmente captam os mistérios do mundo — disseram a respeito da morte de Miach: Esse deus luminoso que morre, ainda que a sorte o tenha apartado dos seus, permanece atuando entre aqueles a quem amou. Assim acontece aos luminosos: parecem destinados a trazer toda ventura a seus pares e nenhuma para si mesmo.

Tem razão os poetas. O luminoso Miach tinha curado a mutilação de Nuada, e o fizera novamente homem sem defeito. Esse acontecimento oportuno foi uma bênção para os deuses, filhos de Danna, que nessa ocasião deliberavam sobre a necessidade imediata de depor Bress e acabar com sua tirania. Um evento recente tinha aviltado a todos. A tribo de Danna amava seus poetas e lhes dedicava grande honra. Toda consideração lhes era concedida e eles partilhavam da mesa dos reis. Aconteceu que o injusto e indelicado Bress tinha feito um agravo ao poeta Cairpré, filho de Ogma, deus da literatura, que insuflou na mente do filho o divino dom da poesia.

O sagrado poeta tinha ido visitar Bress. Em vez de ser tratado com as honras que lhe cabiam, o indelicado rei o instalou em um aposento escuro e pequeno, um cubículo, desprovido de toda benevolência e amizade. Fogo não havia, cama não havia, mobiliário não havia. Um cubículo nu, desconfortável, com uma miserável mesa sobre a qual havia pedaços de bolo velho, pão seco, nenhuma água. Cairpré passou frio, fome e sede a noite toda. Na manha seguinte levantou cedo e, sem dizer uma palavra ao rei, deixou em silêncio o palácio. Era costume entre os poetas criar um panegírico em honra do rei por sua hospitalidade. Cairpré, porém compôs uns versos satíricos mágicos. A primeira sátira composta na Irlanda, que dizia:

Nenhuma carne nos pratos, nenhum leite nas taças;

nenhum abraço aos visitantes;

nenhum prêmio aos menestréis:

Eis o louvor que Bress oferece!

E foi esse poeta mágico que completou a tarefa de Miach. A sátira de Cairpré foi tão virulenta, que o rosto de Bress arrebentou todo em pústulas vermelhas. Era isso também uma mutilação que impedia um rei de continuar reinando. Os Danna exigiram que ele renunciasse, e Nuada, novamente perfeito pelas mãos de Miach, reassumiu o reino.

Obrigado a deixar o trono, Bress procurou sua mãe Eri e lhe pediu que lhe declarasse quem era seu pai: Seu pai, ela disse, é Elathan, que me seqüestrou secretamente em uma noite e, depois de me copular, deixou comigo esse anel para dar àquele em cujo dedo ele se ajustasse e, dizendo isso, colocou o anel no dedo de Bress. De posse do anel e do segredo de seu nascimento, ele retornou ao país dos Fomore, sob o mar. Queixou-se ao seu pai, Elathan, pedindo a ele que reunisse um exército para reconquistar o trono. Reuniram-se os maiorais em conselho: Elathan, Tethra, Balor-do-Olho-Maligno, Indech, todos os guerreiros e chefes. Decidiram organizar uma grande hoste, e levar a Irlanda para o fim do mar onde o povo de Danna nunca mais a encontrasse.

Mitologia Celta
As tarefas impossíveis de Culhwch

Um dos contos mais populares de Mabinogion narra a estória de Culhwch e Olwen. Culhwch é de sangue real, pois é primo de Arthur. O seu nascimento foi invulgar. Antes de ele ter nascido, a mãe, Golenddyd, ganhou uma profunda antipatia por porcos, pois quando passava por uma vara deles, assustou-se e deu à luz um filho que abandonou. Um guardador de porcos pegou nele e levou-o para os pais criarem. Golenddyd morreu e o marido, Cilydd, voltou a casar com uma mulher que tinha uma filha que ela queria casar com Culhwch. Mas ele não quis, afirmando ser ainda muito jovem. A rainha então rogou uma praga a Culhwch, segundo a qual ele só viria a casar com Olwen, filha de Ysbaddeden, o Chefe dos Gigantes. Bastou a Culhwch ouvir o nome dela para se apaixonar profundamente.

Culhwch decidiu então pedir ajuda a Arthur para encontrar esta donzela e partiu num grande esplendor, completamente armado com machados de guerra, espada dourada e uma pequena machadinha que «podia fazer o ar sangrar.» Tinha também um chifre de marfim, dois galgos e montava um cavalo fantástico. Quando Culhwch chegou à corte de Arthur o porteiro tentou barrar-lhe a entrada, mas ele ameaçou dar três gritos de tal intensidade que as mulheres ficariam estéreis e as que estivessem grávidas abortariam.

É claro que ele passou. Encontrou-se com Arthur que se deixou convencer a ajudá-lo a procurar Olwen. As buscas decorreram durante um ano, sem sucesso. Por fim, juntaram um grupo dos melhores cavaleiros, cada um deles abençoado com peculiaridades extraordinárias. Um deles, Kay, tinha uma espada que provocava feridas que nenhum médico podia tratar; outro, Bedwyr, o mais veloz de todos, e Gwalchmai, que nunca voltava de uma missão sem a cumprir.

Após mais dia buscas, Olwen foi finalmente encontrada.

Ela correspondeu ao amor de Culhwch, mas explicou que o pai Ysbaddeden estava destinado a morrer quando se casasse. Olwen pediu a Culhwch que aceitasse qualquer condição que o pai lhe impusesse. Culhwch aproximou-se do Chefe dos Gigantes que lhe ordenou uma longa série de «tarefas impossíveis.» A mais intimidante delas consistia em recuperar uma tesoura, uma navalha da barba e um pente que estava entre as orelhas do grande e destruidor javali Twrch Trwyth. Apesar de tudo, Culhwch aceitou de boa vontade toda as tarefas. Ele e Arthur conseguiram atrair a ajuda de Mabon, o caçador que tinha estado preso num castelo após ter sido roubado. Na ocasião, ele tinha sido libertado Era conhecido como «o jovem» se bem que fosse o mais velho de todos os seres. Mabon Culhwch e os cavaleiros foram ajudados por animais mágicos: a Águia de Gwemabwy, o Melro de Kilgory, o Veado de Rhedynvre, Salmão de Llyn Law e outros bichos encantados. Um dos homens de Arthur, Gwrhyr, tim a capacidade de falar com cada um deles na sua própria linguagem. Após uma longa perseguição através do sul do País de Gales, da Cornualha e da Irlanda, durante a qual o diabólico javali devastou uma grande parte da terra, foi enfim possível, com a ajuda de Mabo dominá-lo e conduzi-lo para o mar. A navalha da barba, a tesoura e o pente foram entregue: e Culhwch pôde finalmente casar com Olwe.

Mitologia Celta
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FATOS HISTÓRICOS
Desenvolvimento da metalurgia no Perú

Na América do Sul, a metalurgia é um processo complexo que aparece na região andina (colômbia, Equador e norte do Peru), por volta de 1800 a.e.c. Uma vez que o ferro era desconhecido, é especialmente o ouro e o cobre que são explorados. Os sítios de Waywaka Andalahuaylas, nos Andes centrais (Apurimac), forneceram assim folhas de ouro e de cobre, marteladas e gravadas, datadas de 1500 a.e.c. Nos andes meridionais, restos de cobre foram recolhidos nos sítios de Wankarai e Chiripa, nos altos platôs bolivianos. E, no norte da Argentna (Condorwasi, Cienaga e La Aguada) e do Chile (Atacama), a utilização de ligas de cobre e prata e de bronze com arsênico e estanho é atestada a partir do 1º Milênio a.e.c.

O metal era fundido em pequenos fornos ventilados com a ajuda de tubos direcionados para o forno e nos quais era suficiente soprar para reativar o fogo. Martelado quente, permitia obter folhas que era recortadas em seguida, rebatidas e soldadas para confeccionar ornamentos (alfinetes, broches, braceletes, colares, ornamentos de nariz...) de ouro ou de cobre dourado, destinados aos dignitários locais e, mais raramente, utensílios (tesouras, facas, louça).

De 200 a 500, com o desenvolvimento das culturas Vicus, Moche, e Recuay, todas as técnicas de ourivesaria foram empregadas, como a fundição em cera perdida, a coloração, a filigrama e a utilização de uma liga de ouro e de cobre (chamada tumbago) na Colômbia, ou de ouro e prata (ou e ouro e platina) no Equador.

Civilização Moche
A batalha de Kadesh

Na primavera de 1274 a.e.c., Ramsés II, no comando de quatro divisões de cavaleiros e de soldados de infantaria, dirige-se da fronteira oriental do delta do Nilo para a costa de Canaã. No ano anterior, interveio militarmente em Amurru para retomar dos hititas os territórios dos quais se haviam apoderado. A segunda campanha tem por objetivo a tomada da fortaleza de Kadesh, situada nas margens do rio Oronte e que ocupa uma posição estratégica entre a Palestina e a Síria, entre o Mediterrâneo e o Eufrates. Um mês após sua partida, o faraó e suas quatro divisões chegam perto de Kadesh. Ramsés veste então seus trajes de guerra, os do deus Montu, seu protetor. Com o capacete, kheprech, cujas fitas flutuam ao vento, munido de seu arco e de sua aljava, avança a frente da primeira divisão dedicada ao deus Amon.

As outras divisões, as de Rá, Ptah e Seth, estão longe, atrás dele. Ramsés e seus homens chegam perto do Oronte e prendem dois beduínos escondidos nesse local. Interrogados, os dois homens garantem que as divisões hititas estão longe ainda, ao norte, em terras de Alepo. Sem procurar verificar essas informações, Ramsés atravessa o rio por um vau com sua divisão e avança pela planície próxima de Kadesh para estabelecer seu acampamento. Sem dúvida pensa em sitiar a cidade a partir do dia seguinte. Mas batedores egípcios enviados para reconhecimento do terreno surpreendem dois espiões hititas, capturam-nos e os interrogam com brutalidade. Confessam que o rei hitita, Muwatalli, já está de prontidão com suas tropas e seus carros bem ao lado de Kadesh, a 3 ou 4 quilômetros do acampamento egípcio.

Ramsés, ciente do perigo, envia o vizir Paser, com uma escolta, ao encontro da divisão de Ptah para fazer acelerar sua marcha. O faraó e sua tropa perscrutam com angústia a  linha do horizonte. Infelizmente, as primeiras nuvens de poeira anunciam o ataque das tropas hititas, duas vezes

mais numerosas que o conjunto das divisões egípcias. Os carros inimigos aparecem na desembocadura do rio e descem a colina em direção a planície. Os gritos e o barulho de armas se acrescentam a confusão geral. Os carros hititas são impressionantes, largos, pesados, puxados por três cavalos e conduzidos por um cocheiro e dois combatentes.

Os carros egípcios, muito mais leves e menos sólidos, são puxados por dois cavalos e dirigidos por um cocheiro e um só combatente. Os relinchos dos animais feridos se juntam aos gritos de terror. Cercadas, as fileiras egípcias se desfazem. Uma parte dos carros titias avança para o oeste para devastar o acampamento egípcio, a outra se dirige contra Ramsés e seus poucos fiéis, que não fugiram.

Quando tudo parece perdido, tropas de vigilância compostas de aliados da costa de Amurru, que estão acampadas a alguma distância, chegam como reforço e entram sem hesitar na confusão. Os hititas, surpreendidos, devem doravante combater em duas frentes, o que permite ao faraó. retomar a ofensiva com seus fiéis. Aos poucos, os carros hititas recuam em direção do Oronte.

Cavaleiros hititas são rechaçados até a margem do rio; alguns se afogam, os cavalos se dispersam, a confusão aumenta. Ramsés torna-se dono do terreno. Finalmente vê chegar a primeira divisão de Ptah, comandada por seu vizir. Mas o combate terminou. Os egípcios reúnem os feridos, recolhem os despojos e as armas abandonadas pelos hititas. O faraó deixa então explodir seu furor, pois a divisão de Rá o abandonou e a de Amon se dispersou no pânico do início da batalha. Quanto a de Seth, ela só chega no crepúsculo.

Durante a noite, Ramsés, inquieto, teme uma ofensiva das divisões hititas que ainda não participaram do combate. Mas sabe também que o rei Muwatalli perdeu chefes de valor durante o combate.

Muito antes da aurora, o faraó decide tomar a iniciativa do combate. Seu ataque fulminante paralisa a estratégia dos carros e da infantaria hititas.

Muwatalli pressente que não pode entrar em uma batalha de longa duração com forças em parte desorganizadas.

Prefere negociar e envia um emissário ao acampamento egípcio, portando uma carta pedindo paz. Ramsés consulta seus comandantes e acaba por aceitar a cessão dos combates, mas adia a assinatura de um acordo de paz. Na verdade, não quer renunciar nem a terra de Amurru, nem a suas pretensões sobre a fortaleza de Kadesh. O armistício não se conclui com a paz.

O faraó pode em seguida dar ordens de levantar acampamento e retomar a estrada meridional para Gaza e para o delta do Nilo. Muwatalli tem consciência de que isso não passa de uma trégua? Conserva Amurru, mas logo no nordeste o perigo assírio chama-o a intervir sem tardar em Hanigalbat, principado situado no alto Eufrates, perto da fortaleza de Karkemish: a regiâo . ameaçada pelas tropas do rei da Assíria, Salmanasar I.

Civilização Egípcia
GOVERNANTES
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Por civilização
CIVILIZAÇÃO
Por Carlos Augusto de Proença Rosa
Os primórdios da ciência nas sociedades primitivas

O surgimento do Homo Sapiens Sapiens (há cerca de 40 mil), de características físicas e mentais atuais, significou e determinou uma radical, profunda e rápida modificação no desenvolvimento do processo evolutivo, até então lento, porquanto fruto de mera acumulação e somatório de experiência. O Homem atual, que recebeu de seus ancestrais técnicas simples e incipientes, desenvolvidas ao longo de centenas de milhares de anos, no Paleolítico Superior, teria, agora, as condições necessárias para inovar em diversas atividades, ampliando o âmbito de sua atuação e realizando, em poucos milhares de anos, verdadeira revolução em seu modo de vida. Tão extraordinário avanço técnico só foi possível em decorrência de uma nova capacidade mental que permitiu o desenvolvimento da imaginação, da curiosidade e da observação. A resultante é uma Sociedade mais complexa e sofisticada, totalmente distinta da anterior.

Esse relativamente curto Período Pré-Histórico, denominado pelos historiadores de acordo com os materiais descobertos ou utilizados pela primeira vez, é dividido, em geral, em Neolítico ou Idade da Pedra Polida e em Eneolítico ou Idade dos Metais, ou, ainda, Proto-História.

Período Neolítico

O termo Neolítico – Período da Pedra Polida – foi criado em 1865 pelo naturalista inglês Sir John Lubbock (1834-1913), em sua obra Prehistoric Times, em oposição ao Paleolítico, Período da Pedra Lascada. Ainda que essa classificação continue em uso, a noção de Neolítico mudou bastante. Hoje em dia, se considera que outros aspectos da cultura dessa fase Pré-Histórica seriam mais representativos dos desenvolvimentos ocorridos em muitas populações, como a invenção da agricultura, o início dos agrupamentos urbanos e a vida sedentária, enquanto outros povos se dedicariam ao pastoreio, à caça e à coleta, permanecendo nômades. Tais denominações são, assim, insuficientes para traduzir a real complexidade de uma nova Sociedade, cujas características transcendem a mera utilização da pedra. Dessa forma, alguns autores denominam o Período como o da Grande Revolução Agrícola; outros enfatizam o aspecto da formação de uma nova organização social; outros, ainda, priorizam o estágio fetichista da sociedade primitiva.

O desenvolvimento dessas primeiras comunidades seguiu um ritmo distinto nas diversas regiões da Terra. Iniciado em momentos diferentes e com duração variável, esse processo evolutivo foi, em muitas áreas, concomitante, o que dificulta, bastante, a fixação de datas de aplicação generalizada. As datas têm, assim, um caráter indicativo e aproximativo, inclusive porque, na ausência da escrita (inventada no quarto milênio), não são disponíveis evidências comprobatórias definitivas de datação dos fatos e acontecimentos pré-históricos. As regiões para as quais se dispõe de razoável número de dados e informações são a Mesopotâmia, a Europa e os vales do Nilo, do Indo e do Amarelo.

Considera-se que o Neolítico teve início na região mesopotâmica, há uns 12 mil anos; no Sul da Europa (Grécia, Bálcãs) e Anatólia, há 9 mil anos; no Vale do Indo, há 7 mil anos; e na China, há uns 6 mil anos; independentemente desse desenvolvimento na Eurásia, o Período Neolítico teria começado na América Central e México por volta de 8 mil anos atrás, com o início da chamada Revolução Agrícola.

O processo evolutivo não ocorreu, assim, por igual e simultaneamente, nas diversas regiões da Terra. Com defasagem e sujeitas a condições locais, as diversas comunidades tiveram, contudo, uma base comum ou uma cultura neolítica comum, muitas das vezes facilitada pelos contatos de comércio com vizinhos e até com populações de outras regiões; mesmo no caso de sociedades isoladas, como é o caso da América Central, a evolução seguiu o caminho percorrido por outras na Eurásia, como atestam a agricultura, a cerâmica, os metais. O desenvolvimento técnico foi, basicamente, equivalente, nesse Período Pré-Histórico, nas diversas partes do Mundo. A explicação se encontra no fato de que a invenção, impulsionadora da Técnica, é produto do meio, de sua época, e não de um indivíduo. Tais foram os casos, por exemplo, da linguagem, da agricultura, da cerâmica e da domesticação dos animais.

Na realidade, a primeira grande inovação nasceu da necessidade de subsistência de uma população cada vez maior (crescimento de comunidades), cujos produtos de caça, pesca e coleta já eram insuficientes para satisfazê-la. As crescentes dificuldades para o deslocamento de grupos cada vez maiores, errando pelas terras circunvizinhas atrás de um alimento aleatório, contribuíram decisivamente para a busca de suprimento garantido, abundante e menos penoso de alimentos. As plantas locais, complemento das necessidades alimentares em momentos de escassez de caça e frutos, viriam a se constituir na principal fonte de alimentos. Depois de inúmeras tentativas, erros e acertos, e, para alguns autores, após uma boa dose de sorte, aquelas populações adquiriram a técnica do cultivo do arroz e do sorgo (China e Sudeste da Ásia), do trigo, da cevada, do centeio, da aveia e de leguminosas (Mesopotâmia, Anatólia, Sul da Europa), do milho, do feijão e da batata (América Central, Região Andina). A fartura resultante da incipiente agricultura incentivou o aumento demográfico, o qual requereu novas técnicas a fim de aumentar a produção e a produtividade. A expansão da fronteira agrícola para novas terras férteis propiciou a invenção do arado (Europa – 6 mil anos atrás), enquanto a irrigação e a barragem foram utilizadas nas terras abundantes de água (Mesopotâmia, vales do Nilo, do Indo e do Amarelo). A agricultura fixou o Homem à terra, transformando-o em um ser sedentário, que passaria a viver em pequenas granjas ou vilas agrícolas. A transição decorrente da implantação da agricultura teria amplas e profundas consequências, transformando uma Sociedade predadora, nômade e formada de agrupamentos familiares em uma produtora, sedentária e de dimensão multifamiliar. A resultante mais significativa para essa nova e emergente Sociedade foi o nascimento de um novo modo de vida totalmente diferente do de seus antepassados.

A Cultura Pré-Histórica foi oral, o que significa não haver registro escrito desse período. O conhecimento atual desse período é, assim, necessariamente superficial e tentativo. As descobertas de utensílios, adornos, restos mortais, vestimentas, rodas e ruínas de construções são algumas das evidências do tipo de cultura de tradição oral dessas populações. A Antropologia, ao estudar as comunidades ágrafas contemporâneas, e as informações dos primeiros documentos escritos têm contribuído, também, para uma compreensão da cultura dos povos do Período Neolítico.

Dependentes exclusivamente da memória para a transmissão de conhecimento, não foi permitido a tais povos alcançar saber teórico, mas lhes foi possível obter e desenvolver a técnica de como fazer as coisas.

Os grandes avanços técnicos, movidos pelas crescentes necessidades, em um meio hostil, e pela capacidade inventiva e imaginativa, podem ser assim resumidos:

  1. utilização de novos materiais – pedra polida e argila, da qual criaram a cerâmica, com a fabricação de um grande número de utensílios (copos, vasilhames, jarras, potes), inclusive para a estocagem de alimentos, e o tijolo, que seria usado na construção de habitações;
  2. alimentação mais rica e variada, com a introdução de novos produtos, como o leite, cereais, leguminosas;
  3. vestimentas e agasalhos mais confortáveis de tecidos (linho, lã), o que significou, ao menos, uma incipiente e tosca tecelagem;
  4. desenvolvimento do curtume – peles, couro;
  5. domesticação de animais para alimento e tração (cão, cavalo, boi, porco, carneiro, cabra, rena, camelo, galinha). A pecuária (criação de animais) e a atividade de pastoreio foram decorrentes diretos dessa importante inovação;
  6. utilização da energia eólica (barco a vela) e da tração animal para moagem e semeadura, para as quais desenvolveram a atrelagem e a junta de bois;
  7. invenção da roda, roldana, rolos, aumentando a capacidade de força muscular humana e animal;
  8. fabricação de cestos e balaios de uso doméstico;
  9. identificação de plantas venenosas e de plantas medicinais;
  10. construção de moradias (palafitas) mais apropriadas para uma vida sedentária, o que corresponderia aos primeiros tempos da Arquitetura. As manifestações artísticas, inclusive a Arte decorativa se expandiram, como atesta o grande número de esculturas e adornos encontrados em vários locais arqueológicos.

Esses extraordinários avanços não se limitaram ao campo técnico (tecelagem, cerâmica) ou ao campo das Artes (Escultura, Pintura, Arquitetura), vinculados à satisfação das necessidades materiais e culturais de uma nova Sociedade mais complexa e sofisticada. Transformações profundas na organização social, decorrentes das novas exigências comunitárias, foram os pontos altos desse processo evolutivo.

As novas e variadas atividades na agricultura, no pastoreio, no artesanato de cerâmica, na construção de moradias, no comércio com outras comunidades, na defesa da vida e dos interesses comunitários, ao promover uma incipiente especialização, estabeleceram uma divisão de trabalho da qual surgiu a classe dos proprietários, a dos empregados, a dos escravos, a dos operários ou artesãos e a dos mercadores[1]. A necessidade de um chefe, a fim de poder agir em conjunto, tanto para a defesa da comunidade, diante de um inimigo, quanto para dirigir os esforços na obtenção de sua subsistência, introduziu na Sociedade a ideia de uma autoridade política. Consolidar-se-ia, com o tempo, a figura do chefe e de seus auxiliares mais próximos, e surgiria, como representante do poder espiritual, a casta sacerdotal, aliada e suporte dos detentores do poder político.

Essa divisão de trabalho se refletiu no processo de urbanização, ao separar o poder defensivo e religioso, localizado nas vilas, das populações camponesas, vivendo próximas da lavoura. Seria nesses centros populacionais, onde passaram a habitar os chefes militares e religiosos e parte dos artesãos, e onde se estocariam os alimentos, que seriam adotadas as decisões políticas regulatórias da vida comunitária[2]. O dispositivo funcional, escreveria Daumas, se transformou progressivamente, ao ponto que se produziu uma separação tanto social quanto territorial entre a maioria rural, engajada na produção alimentar, e a minoria urbana, dedicada, nos planos profanos e religiosos, ao capital coletivo. Desses centros urbanos, onde se concentravam a riqueza e o poder (militar e religioso), surgiriam as inovações técnicas, como a metalurgia, que só tardiamente beneficiarão as populações do campo. A noção de propriedade se firmaria definitivamente, e os novos detentores do poder passariam a gerir a coisa pública. Os processos de estratificação social e de organização política se acentuariam, enquanto o sistema produtivo se tornaria cada vez mais complexo. Algumas comunidades mais avançadas deixariam de sacrificar os prisioneiros de guerra em cerimônias de antropofagia, para apresá-los como trabalhadores cativos, surgindo, desse modo, o escravismo[3].

Como seus antepassados, o Homem desse Período Pré-Histórico tinha como prioridade absoluta sua sobrevivência em um meio hostil. Daí sua objetividade, seu pragmatismo, seu interesse no desenvolvimento de coisas práticas e úteis que lhe facilitassem enfrentar as dificuldades do dia a dia. Não havia outra preocupação além das de assegurar uma melhoria das condições de vida.

No Mundo Pré-Histórico e Proto-Histórico, a Natureza, tão diversa e misteriosa, deve ter maravilhado, e apavorado, aqueles habitantes, ainda impossibilitados de compreender os fenômenos naturais ou de procurar uma explicação racional e lógica para o que acontecia a seu redor. Apesar de o Homem primitivo constatar, através da observação, a ocorrência de fatos extraordinários, como o movimento dos corpos celestes, variação climática, sucessão do dia e da noite, chuva, eclipse, tremor de terra, doenças e morte, não lhe ocorria, nem o preocupava, buscar explicações para tais fenômenos, carente que era de espírito crítico e analítico. Sua própria observação dos fenômenos naturais era passiva, deficiente, assistemática e sem objetividade, no sentido de que não lhe aguçava a curiosidade. Sua reduzida capacidade de observação e sua imaginação lhe seriam suficientes, contudo, para deslanchar impressionante desenvolvimento técnico. Sua imaginação desempenharia um papel central em sua evolução mental e cultural, porém não se subordinaria à observação e, até mesmo, em alguns casos, e em determinadas situações, a substituiria pela pura imaginação. Como ensina Ivan Lins, era inevitável que o Homem primitivo atribuísse os fenômenos ou acontecimentos a vontades  fictícias, isto é, sobrenaturais e imaginárias, que só existiam em sua própria fantasia e eram informadas pela observação[4].

Surgiria, em consequência, como fruto da imaginação, a magia, que procuraria expressar uma síntese do Mundo natural e de seu relacionamento com o Homem. Para Colin Ronan[5], a “magia exprimiu o que, de um modo geral, era uma visão anímica... em um mundo onde as forças eram personificadas”. Esse relacionamento (chuva e crescimento das plantas, por exemplo) era facilmente observável, mas a dificuldade se encontrava em explicar tais fenômenos e em colocá-los a seu serviço. Como escreveu Maurice Daumas “durante muito tempo ainda, tudo decorrerá da simples experiência, de uma espécie de submissão ativa às leis naturais. O homem do campo se contentará durante séculos, em todas as latitudes, com os conhecimentos práticos, e este será o tesouro que ele legará às gerações que o seguirão. Aquilo que ele não compreende, ele o explicará por sua ação diária, mesmo a mais humilde, em ritos tornados tradicionais...”. O Mundo tornar-se-ia compreensível somente através da ideia de que os objetos e fenômenos tinham vida própria ou eram manifestações de deuses e divindades, que deveriam ser agradados de forma a terem boa vontade para com os homens em sua labuta diária. Assim, o Mundo era povoado por um conjunto de seres visíveis (animais, plantas) e controlado por espíritos e forças ocultas e misteriosas que habitavam os seres, objetos e elementos (animais, árvores, mar, vento, chuva, sol); algumas dessas forças eram perceptíveis (raio, trovão, tremor de terra), e a doença era tida como uma manifestação dos espíritos do mal. Os fenômenos naturais eram, assim, relacionados com o mundo dos espíritos, desenvolvendo-se procedimentos (através da magia) para lidar com os dois mundos. A reencarnação era uma crença amplamente difundida.

A Medicina, ou melhor, a arte de curar, nas culturas orais ou ágrafas, era inseparável da magia. O valor do especialista na cura não era devido à sua habilidade cirúrgica ou ao uso correto de plantas medicinais, mas ao seu conhecimento das causas sobrenaturais da enfermidade.

Surgiu, então, a  figura do feiticeiro, mago, curandeiro, que incentivaria a imaginação popular e criaria uma ritualística pela qual seria possível prestar homenagens a essas forças misteriosas. Detentor dessa capacidade de interpretar a vontade superior de tais entidades, o feiticeiro transformou-se em uma das autoridades da Sociedade, constituindo-se, inclusive, em uma casta, a sacerdotal. Como escreveu Darcy Ribeiro, “os especialistas no trato com o sobrenatural, cuja importância social vinha crescendo, tornam-se, agora, dominadores. Constituem não apenas os corpos eruditos que explicam o destino humano, mas também os técnicos que orientam o trabalho, estabelecendo os períodos apropriados para as diferentes atividades agrícolas. Mais tarde, compendiam e codificam todo o saber tradicional, ajustando-o às novas necessidades, mas tentando  fixá-lo para todos os tempos. Este caráter conservador era inarredável à sua posição de guardiões de verdades reveladas, cuja autoridade e cujo poder não se encontravam neles, mas nas divindades a que eram atribuídas”. Preces, invocações, feitiços, sacrifícios, purificações, amuletos e poções seriam, então, utilizados para apaziguar e festejar essas divindades e espíritos.

Essa visão anímica do Mundo e da Natureza, essa mentalidade fetichista levaria, inexoravelmente, a uma noção do absoluto; o Homem acreditaria ter posse do conhecimento absoluto, pois não encontraria nenhuma dificuldade ou problema em se satisfazer com a interveniência de divindades para justificar os fenômenos. O problema da compreensão não surgia, assim, para o Homem Neolítico, já que a explicação fetichista lhe satisfazia. Bastavam-lhe as constatações do que acontecia ao seu redor e a crença em um poder superior, responsável pelo que ocorria e ao qual deveria submeter-se e adorar.

Idade dos Metais

O terceiro e último Período da Pré-História é conhecido como o da Idade dos Metais, ou Eneolítico, ou ainda de Proto-Histórico, de curta duração (de 8 mil a 5 mil anos atrás), mas de grande importância no processo evolutivo da Sociedade Pré-Histórica, pois corresponde à transição para o Período Histórico. As atividades agrícolas e de artesanato, iniciadas no Neolítico, se expandiriam e se diversificariam para atender a uma maior demanda de uma crescente população que se urbanizava rapidamente; surgiriam centros urbanos em pontos estratégicos das rotas comerciais.

Uma nova atividade, a da mineração do metal, contribuiria para a diversificação econômica, propiciando o aparecimento da Metalurgia. Tão importante quanto foram, em épocas anteriores, a argila, o osso, a madeira e a pedra, o novo material, de múltipla utilização, teria um papel decisivo no plano econômico e social das sociedades do período, a ponto de caracterizá-lo.

O primeiro metal descoberto foi o cobre (cerca de 8 mil anos atrás, no Sudoeste europeu, espalhando-se pelo resto da Europa, da Ásia e do Norte da África), usado em utensílios domésticos; sua importância e significado explicam ser esse Período inicial chamado, por muitos autores, de Calcolítico. O ouro e a prata também foram conhecidos nessa época e tiveram muitas aplicações, inclusive em adornos. O bronze (liga de cobre e estanho) segue cronologicamente os três metais anteriores, mas pela técnica requerida para sua fabricação, originou a Metalurgia, avanço técnico fantástico, o que justifica chamar esse Período de Idade do Bronze. O bronze foi fabricado primeiro na Mesopotâmia, por volta de 6 mil anos atrás, e na Grécia e na China, há 5 mil anos, vindo, rapidamente, outras populações a aprender a técnica e a utilizar o metal. O ferro só viria a ser conhecido há cerca de 3.300 anos, usado, pela primeira vez, em artefato de guerra, pelos hititas.

A linguagem falada permitiria melhor convivência social entre os diversos grupos multifamiliares, ao mesmo tempo em que o avanço econômico e a divisão de trabalho favoreciam um empírico desenvolvimento técnico, de efeito altamente positivo, nas condições de vida das populações. A noção de propriedade privada se estenderia aos meios de produção e ao campo, consolidando-se a hierarquização social, com uma classe rica, dominante, próxima e beneficiária do poder político, exercido por um governante, apoiado por uma casta sacerdotal. A tradição, os costumes, as crenças e o conhecimento técnico eram transmitidos oralmente, de geração a geração, constituindo-se na característica marcante dessas comunidades.

A descoberta, em setembro de 1991, de uma múmia de caçador, em perfeito estado de conservação, na geleira do Tirol, com datação estimada em 5,3 mil anos, poderá trazer preciosas informações sobre hábitos da população das comunidades da região. O “homem de gelo” recebeu o nome de Otzi, por causa da área em que fora encontrado, Oetzal, e atualmente se encontra no museu da pequena cidade de Bolzano, na Itália.

Duas extraordinárias inovações técnicas ocorreram no período. A primeira foi a contagem – provavelmente apenas soma e subtração – para fins de medição de peso, volume e área, dadas as necessidades de comércio e de armazenamento do excesso de safra, além do requerimento de quantidade envolvida com a propriedade dos rebanhos de animais. Incipiente e precária, e fruto exclusivo das prementes necessidades comunitárias, a contagem, nesse estágio, foi um mero desenvolvimento técnico. A segunda inovação, a escrita de signo, surgiu por volta de 3,5 mil antes da Era Comum, na Mesopotâmia (tábuas de argila em Uruk), dada a necessidade de consignar o conhecimento obtido nas diversas atividades, de registrar os principais acontecimentos e decisões dos líderes da comunidade e de atender aos interesses comerciais. A transmissão oral, dependente da memória, era já insuficiente para esses propósitos, razão bastante para o desenvolvimento de uma técnica capaz de satisfazer os interesses comunitários. A invenção da escrita, instrumento fundamental na preservação e divulgação da cultura, é um marco no desenvolvimento da Humanidade, e serve, inclusive, como fecho do Período Pré-Histórico e momento inicial da História.

Apesar de todo o desenvolvimento técnico e acumulação de dados e informações, é compreensível não ter surgido a Ciência no Período Pré-Histórico, porquanto não se tinham ainda reunido as condições necessárias para a transformação do conhecimento empírico em conhecimento científico. Seria contraditório a uma comunidade ágrafa dispor de conhecimento teórico e desenvolver um saber científico. A falta da escrita e de um espírito científico, crítico, analítico, foi suficiente para inviabilizar o nascimento da Ciência naquele contexto Pré-Histórico, mental e social. Avanços técnicos (emprego de drogas extraídas de ervas, trepanação) e observações na área da saúde não podem ser considerados como indicação de algum conhecimento biológico, como a ideia do número, evidência de alguma capacidade de abstração, não serve como momento da constituição da Ciência Matemática. Da mesma forma, o conhecimento de algumas plantas não cria a Botânica, ou de certos animais, a Zoologia. O que havia era uma técnica, um conhecimento prático, um empirismo sem qualquer abstração dos princípios subjacentes. Assim, apesar dos incontestáveis progressos técnicos, a Ciência não foi criada nesse Período da Pré-História da evolução humana.

O surgimento das primeiras grandes civilizações, às margens dos vales do Tigre e Eufrates, do Nilo, do Amarelo e do Indo e Ganges, início do Período Histórico, beneficiou-se pela incorporação do adiantamento social, cultural e técnico ocorrido em épocas anteriores, especialmente no Período Arqueológico Neolítico e na Idade dos Metais, nessas regiões. Assim, não surgiram tais culturas por acaso ou por milagre nesses locais, nem desenvolveram esses povos seus conhecimentos e seu modo de vida sem uma base prévia; essas civilizações primárias emergiram diretamente de seu passado neolítico. Há, assim, um legado importante, recebido no início dos tempos históricos, que não deve ser esquecido ou desprezado, porquanto ele contém respostas para uma série de indagações sobre os primórdios do Homem, sua evolução e suas realizações, bem como sobre a emergência das civilizações primárias.

 

Neolítico | Ciências
Por Phillipe Ariès
O nascimento do sentimento de família na Europa medieval

Pareceria contestável falarmos de uma iconografia profana na Idade Média antes do século XIV, de tal forma o profano se distingue mal do sagrado. Contudo, entre as contribuições de origem profana a essa representação total do mundo, há um tema cuja frequência e popularidade são significativas: o tema dos ofícios. Os arqueólogos nos informaram que os gauleses da época romana gostavam de representar em seus baixos-relevos funerários cenas de suas vidas de trabalhadores[1]. Essa preferência pelos temas de ofícios não é encontrada em nenhuma outra parte. Os arqueólogos também ficaram impressionados com sua raridade, quando não com sua ausência, na iconografia funerária da África romana[2]. O tema remonta, por conseguinte, a um passado remoto. Ele se manteve e até mesmo se desenvolveu durante a Idade Média. Ressalvando o anacronismo da expressão, poderíamos dizer, grosso modo, mas sem deformar a verdade, que a iconografia “profana” medieval consiste acima de tudo no tema dos ofícios. É importante que durante tanto tempo o ofício tenha parecido às pessoas ser a principal atividade da vida quotidiana, uma atividade cuja lembrança se associava ao culto funerário da época galo-romana e à concepção erudita do mundo da Idade Média, nos calendários das catedrais. Sem dúvida, isso parece perfeitamente natural aos historiadores modernos. Mas terão eles se indagado quantos hoje em dia prefeririam esquecer seu ofício e gostariam de deixar uma outra imagem de si mesmos? Em vão tentamos introduzir algum lirismo nos aspectos funcionais da vida contemporânea; o resultado é uma espécie de academicismo sem raízes populares. O homem de hoje não escolheria seu ofício, mesmo que gostasse dele, para propô-lo como tema a seus artistas, mesmo que estes últimos pudessem aceitá-lo. A importância dada ao ofício na iconografia medieval é um sinal do valor sentimental que as pessoas lhe atribuíam. Era como se a vida privada de um homem fosse antes de mais nada seu ofício.

Uma das representações mais populares do ofício o liga ao tema das estações, cuja importância já tivemos a ocasião de reconhecer a propósito das idades da vida. Sabemos que a Idade Média ocidental se caracterizou pelo hábito de reunir através do simbolismo noções cujas correspondências secretas, ocultas por detrás das aparências, se desejava sublinhar. A Idade Média ligava as profissões às estações, assim como o fazia com as idades da vida ou os elementos. Era esse o sentido dos calendários de pedra e de vidro, dos calendários das catedrais e dos livros de horas.

A iconografia tradicional dos 12 meses do ano foi fixada no século XII, tal como a encontramos, com muito poucas variantes, em Saint-Denis, em Paris, em Senlis, em Chartres, em Amiens, em Reims etc.: os trabalhos e os dias. De um lado, os grandes trabalhos da terra: o feno, o trigo, a vinha e o vinho, o porco. De outro, a pausa, do inverno e da primavera. São camponeses que trabalham, mas a representação dos momentos de interrupção do trabalho oscila entre o camponês e o nobre. Janeiro (a festa de Reis) pertence ao nobre, diante de uma mesa na qual não falta nada. Fevereiro pertence ao plebeu que volta à casa carregando lenha e se aquece perto do fogo. Maio ora é um camponês que descansa no meio das flores, ora um jovem nobre que parte para a caça e prepara seu falcão. Em todo o caso, é a evocação da juventude participando das festas de maio. Nessas cenas, o homem está sempre sozinho: excepcionalmente um jovem criado (como em São Denis) aparece de pé atrás do amo, que come sentado em sua mesa. Por outro lado, trata-se sempre de um rapaz e nunca de uma mulher.

Podemos ver essa iconografia evoluir ao longo dos livros de horas até o século XVI, de acordo com tendências significativas.

Primeiro, vemos surgir a mulher, a dama do amor cortês ou a dona-de-casa. No livro de horas do Duque de Berry, no mês de fevereiro, o camponês não é mais o único a se aquecer, como nas paredes de Senlis, de Paris ou de Amiens. Três mulheres da casa já estão sentadas em torno do fogo, enquanto o homem ainda está do lado de fora, fransido de frio no pátio coberto de neve. Em outras representações, a cena se torna a imagem de um interior, de uma noite de inverno em que as pessoas ficam dentro de casa: o homem, diante da lareira, ainda aquece as mãos e o pé descalço, mas, ao lado, sua mulher trabalha tranquilamente em sua roca (Charles d’Angoulême). Em abril, aparece o tema da corte de amor: a dama e seu amigo em um jardim fechado com muros (Charles d’Angoulême). Ela também acompanha os cavaleiros à caça. Mas mesmo a dama nobre não é mais a heroína ociosa e um tanto imaginária dos jardins de abril, ou a cavaleira das festas de maio; ela também dirige os trabalhos desse jardim de abril (Turim). A camponesa aparece mais vezes. Ela participa dos trabalhos dos campos com os homens (Berry, Angoulême). Dá de beber aos trabalhadores que fazem a colheita enquanto eles descansam nos dias quentes de verão (Hennessy, Grimani). Seu marido a leva de volta em uma carreta com o cantil de vinho que ela lhe havia trazido. Os cavaleiros e as damas não estão mais isolados nos prazeres nobres de abril ou de maio. Assim como a dama do livro de horas de Turim cuidava de seu jardim, os cavaleiros e as damas se misturam aos camponeses, aos colhedores de uva (como na cena da colheita de cerejas do livro de horas de Turim). Quanto mais avançamos no tempo, e sobretudo no século XVI, mais frequentemente a família do senhor da terra é representada entre os camponeses, supervisionando seu trabalho e participando de seus jogos. Numerosas tapeçarias do século XVI descrevem essas cenas campestres em que os senhores e suas crianças colhem uvas e supervisionam a colheita do trigo. O homem não está mais sozinho. O casal não é mais apenas o casal imaginário do amor cortês. A mulher e a família participam do trabalho e vivem perto do homem, na sala ou nos campos. Não se trata propriamente de cenas de família: as crianças ainda estão ausentes no século XV. Mas o artista sente a necessidade de exprimir discretamente a colaboração da família, dos homens e das mulheres da casa, no trabalho quotidiano, com uma preocupação de intimidade outrora desconhecida.

Ao mesmo tempo, a rua surge nos calendários. A rua já era um tema familiar da iconografia medieval: ela se anima com uma vida particularmente expressiva nas admiráveis vistas das pontes de Paris da Vida de São Denis, um manuscrito do século XIII. Assim como nas cidades árabes de hoje, a rua era o lugar onde se praticavam os ofícios, a vida profissional, as conversas, os espetáculos e os jogos. Fora da vida privada, por muito tempo ignorada pelos artistas, tudo se passava na rua. No entanto, as cenas dos calendários, de inspiração rural, durante muito tempo a ignoraram. No século XV, a rua tomou seu lugar nos calendários. É verdade que os meses de novembro e de dezembro do livro de horas de Turim são ilustrados com o tradicional sacrifício do porco. Mas aqui, ele se passa na rua, e os vizinhos estão diante de suas portas para observá-lo. No calendário do livro de horas de Adelaide de Savoie, aparece o mercado: moleques cortam as bolsas de donas-de-casa ocupadas e distraídas - reconhecemos aí o tema dos pequenos batedores de carteiras, que se iria manter na pintura picaresca ao longo de todo o século XVII[3]. Uma outra cena do mesmo calendário representa a volta do mercado: uma comadre pára para falar com sua vizinha, que está na janela; alguns homens descansam sentados em um banco, protegidos por um telheiro, e distraem-se vendo meninos jogar péla e lutar. Essa rua medieval, assim como a rua árabe de hoje, não se opunha à intimidade da vida privada; era um prolongamento dessa vida privada, o cenário familiar do trabalho e das relações sociais. Os artistas, em suas tentativas relativamente tardias de representação da vida privada, começariam por mostrá-la na rua, antes de segui-la até dentro de casa. Talvez essa vida privada se passasse tanto ou mais na rua do que em casa.

Com a rua, os jogos invadiram as cenas dos calendários: os jogos de cavalaria, como os torneios (Turim, Hennessy), os jogos comuns a todos, e as festas folclóricas, como a árvore de maio. O calendário do livro de horas de Adelaide de Savoie compõe-se essencialmente de uma descrição dos mais diversos jogos, jogos de salão, jogos de força e de habilidade, jogos tradicionais: a festa de Reis, a dança de maio, a luta, o hóquei, as disputas entre dois homens armados de varas em duas barcas, as guerras de neve. Em outros manuscritos, assistimos a certames de tiro com bestas (Hennessy), a passeios de barco com música (Hennessy) e os banhos coletivos (Grimani). Ora, sabemos que os jogos não eram então apenas diversões, mas uma forma de participação na comunidade ou no grupo: jogava-se em família, entre vizinhos, entre classes de idade, entre paróquias[4].

Finalmente, a partir do século XVI, uma nova personagem entra em cena nos calendários: a criança. Sem dúvida, ela já aparecia com frequência na iconografia do século XVI, particularmente nos Miracles de Notre Dame. Mas ela havia permanecido ausente dos calendários, como se essa tradição iconográfica antiga tivesse hesitado em aceitar esse elemento tardio. Nos trabalhos dos campos, não aparecem crianças ao lado das mulheres. Apenas algumas servem à mesa nos banquetes de janeiro. Percebemo-las também no mercado do livro de horas de Adelaide de Savoie; nesse mesmo manuscrito, elas brincam de jogar bolas de neve, atrapalham com sua bagunça o pregador na igreja e são expulsas. Nos últimos manuscritos flamengos do século XVI, elas se divertem alegremente; percebe-se a predileção que lhes dedica o artista. Os calendários dos livros de horas de Hennessy e de Grimani imitaram com precisão a aldeia coberta de neve das Très Riches Heures do Duque de Berry, na cena do mês de janeiro que descrevemos acima, em que o camponês corre para casa a fim de se unir às mulheres que se aquecem. Contudo, eles acrescentaram uma outra personagem: a criança. E a criança aparece na pose do Manneken-Pis, que se tornara frequente na iconografia da época - a criança urina pela abertura da porta. Esse tema do Manneken-Pis é encontrado em toda a parte: lembremos o sermão de São João Batista do museu dos Augustins de Toulouse (que outrora ornava a capela do Parlamento dessa cidade), ou um certo putto de Ticiano[5].

Nesses livros de horas de Hennessy e Grimani, as crianças patinam no gelo, brincam de imitar os torneios dos adultos (alguns reconheceriam entre elas o jovem Carlos V). No livro de horas de Munique, elas se atiram bolas de neve. No Hortulus animae, elas brincam de corte de amor e de torneio, montadas numa barrica, ou patinam no gelo[6].

As representações sucessivas dos meses do ano introduziram portanto essas novas personagens: a mulher, o grupo de vizinhos e companheiros, e finalmente a criança. E a criança se ligava a essa necessidade outrora desconhecida de intimidade, de vida familiar, quando não ainda precisamente, de vida “em família”.

Ao longo do século XVI, essa iconografia dos meses sofreria uma última transformação muito significativa para nosso estudo: ela se tornaria uma iconografia da família. Ela se tornaria familiar ao se combinar com o simbolismo de uma outra alegoria tradicional: as idades da vida. Havia várias maneiras de representar as idades da vida, mas duas delas eram mais comuns: a primeira, mais popular, sobreviveu na gravura, e representava as idades nos degraus de uma pirâmide que subia do nascimento à maturidade, e daí descia até a velhice e a morte. Os grandes pintores recusavam-se a adotar essa composição demasiado ingênua. De modo qual, adotavam a representação das três idades da vida sob a forma de uma criança, alguns adolescentes - em geral um casal - e um velho. No quadro de Ticiano, por exemplo, aparecem dois putti dormindo, um casal formado por uma camponesa vestida tocando flauta e um homem nu no primeiro plano, e, ao fundo, um velho sentado e recurvado segurando uma caveira. O mesmo tema é encontrado em Van Dyck, no século XVII. Nessas composições, as três ou quatro idades da vida são representadas separadamente, segundo a tradição iconográfica. Ninguém teve a ideia de reuni-las dentro de uma mesma família, cujas gerações diferentes simbolizariam as três ou quatro idades da vida. Os artistas, e a opinião que eles traduziam, permaneciam fiéis a uma concepção mais individualista das idades: o mesmo indivíduo era representado nos diversos momentos de seu destino.

Entretanto, ao longo do século XVI, surgira uma nova ideia, que simbolizava a duração da vida através da hierarquia da família. Já tivemos a ocasião de citar Le Grand Propriétaire de toutes choses, esse velho texto medieval traduzido para o francês e editado em 1556. Como observamos, esse livro era um espelho do mundo. O sexto livro trata das “Idades”. É ilustrado com uma xilogravura que não representa nem os degraus das idades, nem as três ou quatro idades separadas, mas simplesmente uma reunião de família. O pai está sentado com uma criancinha sobre os joelhos. Sua mulher está de pé à sua direita. Um dos filhos está à sua esquerda, e o outro dobra o joelho para receber algo que o pai lhe dá. Trata-se ao mesmo tempo de um retrato de família, como os que abundavam nessa época nos Países Baixos, na Itália, na Inglaterra, na França e na Alemanha, e de uma cena de gênero familiar, como as que os pintores e gravado res multiplicariam no século XVII. Esse tema conheceria a mais extraordinária popularidade. Não era um tema totalmente desconhecido da Idade Média, ao menos do final. Foi desenvolvido de forma notável em um capitel das loggias do palácio Ducal de Veneza, dito capitel do casamento. Venturi data essa representação de cerca de 1424[7], enquanto Toesca a coloca no fim do século XIV, o que parece mais provável devido ao estilo e ao traje, mas mais surpreendente em virtude da precocidade do tema[8]. As oito faces desse capitel contam-nos uma história dramática que ilustra a fragilidade da vida, um tema familiar nos séculos XIV e XV - porém aqui, esse drama se passa no seio de uma família, e isso é novo. A representação começa pelo noivado. A seguir, a jovem mulher aparece vestida com um traje de cerimônia sobre o qual foram costurados pequenos discos de metal: seriam simples enfeites ou seriam moedas, já que as moedas desempenhavam um papel no folclore do casamento e do batismo? A terceira face representa a cerimônia do casamento, no momento em que um dos cônjuges segura uma coroa sobre a cabeça do outro: rito que subsistiu na liturgia oriental. Então, os noivos têm o direito de se beijar. Na quinta face, eles estão deitados nus no leito nupcial. Nasce uma criança, que aparece enrolada em cueiros e segura pelo pai e a mãe juntos. Suas roupas parecem mais simples do que na época do noivado e do casamento: eles se tornaram pessoas sérias, que se vestem com uma certa austeridade ou segundo a moda antiga. A sétima face reúne toda a família, que posa para um retrato. O pai e a mãe seguram a criança pelo ombro e pela mão. Já é o retrato familiar, tal como o encontramos no Le Grand Propriétaire. Mas, com a oitava face, o drama explode: a família sofre uma prova, pois a criança está morta, estendida sobre a cama, com as mãos postas. A mãe enxuga as lágrimas com uma das mãos e põe a outra no braço da criança; o pai reza. Outros capitéis, vizinhos deste, são ornados com putti nus que brincam com frutas, aves ou bolas: temas mais banais, mas que permitem recolocar o capitel do casamento em seu contexto iconográfico.

A história do casamento começa como a história de uma família, mas acaba com o tema diferente da morte prematura.

No museu Saint-Raimond, em Toulouse, podemos ver os fragmentos de um calendário que pôde ser datado do início da segunda metade do século XVI graças aos trajes. Na cena do mês de julho, a família está reunida em um retrato, como na gravura contemporânea do Le Grand Propriétaire, mas com um detalhe adicional que tem sua importância: a presença dos criados ao lado dos pais. O pai e a mãe estão no meio. O pai dá a mão ao filho, e mãe à filha. O criado está do lado dos homens, e a criada do lado das mulheres, pois os dois sexos são separados como nos retratos de doadores: os homens, pais e filhos, de um lado, e as mulheres, mães e filhas, do outro. Os criados fazem parte da família.

Agosto é o mês da colheita, mas o pintor se empenha em representar, mais do que a própria colheita, a entrega da colheita ao senhor, que tem na mão moedas para dar aos camponeses. Essa cena prende-se a uma iconografia muito frequente no século XVI, particularmente nas tapeçarias em que os fidalgos do campo supervisionam seus camponeses ou se divertem com eles.

Outubro: a refeição em família. Os pais e as crianças estão sentados à mesa. A criança menor está encarapitada em uma cadeira alta, que lhe permite alcançar o nível da mesa - uma cadeira feita especialmente para as crianças de sua idade, do tipo que vemos ainda hoje. Um menino com um guardanapo serve à mesa: talvez um criado, talvez um parente, encarregado naquele dia de servir à mesa, função que nada tinha de humilhante, muito ao contrário.

Novembro: o pai está velho e doente, tão doente que foi preciso recorrer ao médico. Este, com um gesto banal pertencente a uma iconografia tradicional, inspeciona o urinol.

Dezembro: toda a família está reunida no quarto, em torno do leito onde o pai agoniza. Ele recebe a comunhão. Sua mulher está de joelhos ao pé da cama. Atrás dela, uma moça ajoelhada chora. Um rapaz segura uma vela. Ao fundo, percebe-se uma criança pequena: sem dúvida o neto, a próxima geração que continuaria a família.

Portanto, esse calendário assimila a sucessão dos meses do ano à das idades da vida, mas representa as idades da vida sob a forma da história de uma família: a juventude de seus fundadores, sua maturidade em torno dos filhos, a velhice, a doença e a morte, que é ao mesmo tempo a boa morte, a morte do homem justo, tema igualmente tradicional, e também a morte do patriarca no seio da família reunida.

A história desse calendário começa como a da família do capitel do casamento do palácio dos Doges. Mas não é o filho, a criança querida, que a morte rouba cedo demais. As coisas seguem um curso mais natural. É o pai que parte, ao final de uma vida plena, cercado por uma família unida, e deixando-lhe sem dúvida um patrimônio bem administrado. A diferença está toda aí. Não se trata mais de uma morte súbita, e sim da ilustração de um sentimento novo: o sentimento da família.

O aparecimento do tema da família na iconografia dos meses não foi um simples episódio. Uma evolução maciça arrastaria nessa mesma direção toda a iconografia dos séculos XVI e XVII.

No princípio, as cenas representadas pelos artistas se passavam ou em um espaço indeterminado, ou em lugares públicos como as igrejas, ou ao ar livre. Na arte gótica, livre do simbolismo romano-bizantino, as cenas de ar livre tornaram-se mais numerosas e mais significativas graças à invenção da perspectiva e ao gosto pela paisagem: a dama recebe seu cavaleiro em um jardim fechado; a caçada conduz grupos através dos campos e florestas; o banho reúne as damas em torno da fonte de um jardim; os exércitos manobram, os cavaleiros se enfrentam em torneios, o exército acampa em torno da tenda onde o Rei descansa, os exércitos sitiam cidades; os príncipes entram e saem das cidades fortificadas, sob a aclamação do povo e dos burgueses.

Penetramos nas cidades por pontes, passando diante das tendas onde trabalham os ourives. Vemos passar os vendedores de biscoitos, e as barcas carregadas descendo o rio. Ao ar livre ainda, vemos todos os jogos serem praticados. Acompanhamos os jograis e os peregrinos em seu caminho. A iconografia profana medieval é uma iconografia do ar livre. Quando, nos séculos XIII ou XIV, os artistas se propõem a ilustrar anedotas ou episódios particulares, eles hesitam, e sua ingenuidade surpresa produz um resultado canhestro: nenhum deles se compara ao virtuosismo dos artistas que representam episódios nos séculos XV e XVI.

Antes do século XV, portanto, as cenas de interior são muito raras. A partir de então, elas se tornam cada vez mais frequentes. O evangelista, antes situado em um meio atemporal, torna-se um escriba em sua escrivaninha, com a pena e a raspadeira na mão. Primeiro ele é colocado na frente de um simples drapeado decorativo, mas finalmente aparece em um quarto cheio de livros em prateleiras: do evangelista, passou-se ao autor em seu quarto, a Froissart escrevendo uma dedicatória em seu livro[9]. Nas ilustrações do texto de Terêncio do palácio dos Doges, as mulheres trabalham e fiam em seus aposentos, com suas criadas, ou aparecem deitadas na cama, nem sempre sozinhas. Vêem-se cozinhas e salas de albergues. As cenas galantes e as conversações se passam agora no espaço fechado de uma sala.

Surge o tema do parto, cujo pretexto é o nascimento da Virgem. Criadas, comadres e parteiras se atarefam no quarto em torno da cama da mãe. Surge também o tema da morte, da morte no quarto, em que o agonizante luta em seu leito por sua salvação.

A representação mais frequente do quarto e da sala corresponde a uma tendência nova do sentimento, que se volta então para a intimidade da vida privada. As cenas de exterior não desaparecem, é certo - são a origem das paisagens, mas as cenas de interior tornam-se mais numerosas e mais originais. Iriam caracterizar a pintura de gênero durante todo o tempo de sua existência. A vida privada, rechaçada na Idade Média, invade a iconografia, particularmente a pintura e a gravura ocidentais no século XVI e sobretudo no XVII: a pintura holandesa e flamenga e a gravura francesa comprovam a extraordinária força desse sentimento, antes inconsistente ou menosprezado. Sentimento já tão moderno, que para nós é difícil compreender o quanto era novo.

Essa farta ilustração da vida privada poderia ser classificada em dois grupos: o do namoro e da farra à margem da vida social, no mundo suspeito dos mendigos, nas tabernas, nos bivaques, entre os boêmios e os vagabundos - grupo que desprezaremos por estar fora de nosso assunto - e sua outra face, o grupo da vida em família. Se percorrermos as coleções de estampas ou as galerias de pintura dos séculos XVI-XVII, ficaremos impressionados com essa verdadeira avalancha de imagens de famílias. Esse movimento culmina na pintura da primeira metade do século XVII na França, e na pintura de todo o século e até mais na Holanda. Ele persiste na França durante a segunda metade do século XVII na gravura e nos leques pintados, reaparece no século XVIII na pintura, e dura até o século XIX, até a grande revolução estética que baniria da arte a cena de gênero.

Nos séculos XVI e XVII, os retratos de grupos são numerosíssimos. Alguns são retratos de confrarias ou corporações. Mas a maioria representa uma família reunida. Estes últimos surgem no século XV, com os doadores que se fazem representar modestamente no nível inferior de alguma cena religiosa, como sinal de sua devoção. De início, esses doadores são discretos e estão sozinhos. Mas logo começam a trazer a seu lado toda a família, incluindo os vivos e os mortos: as mulheres e os filhos mortos também têm seu lugar na pintura. De um lado aparece o homem e os meninos, do outro a ou as mulheres, cada uma com as filhas de seu leito.

O nível ocupado pelos doadores amplia-se ao mesmo tempo em que se povoa, em detrimento da cena religiosa, que se torna então uma ilustração, quase um hors-d'oeuvre. Na maioria dos casos ela se reduz aos santos padroeiros do pai e da mãe, o santo do lado dos homens e a santa do lado das mulheres. Convém observar a importância assumida pela devoção dos santos padroeiros, que figuram como protetores da família: ela é o sinal de um culto particular de caráter familiar, como o do anjo da guarda, embora este último tenha um caráter mais pessoal e mais peculiar à infância.

Essa etapa do retrato dos doadores com sua família pode ser ilustrada com numerosos exemplos do século XVI: os vitrais da família Montmorency em Monfort-L’Amaury, Montmorency e Ecouen; ou os numerosos quadros pendurados como ex-votos nos pilares e nas paredes das igrejas alemãs, muitos dos quais ainda permanecem em seu lugar nas igrejas de Nurembergue. Muitas outras pinturas, às vezes ingênuas e mal feitas, chegaram aos museus regionais da Alemanha e da Suíça alemã. Os retratos de família de Holbein são fiéis a esse estilo[10]. Tudo indica que os alemães se tenham apegado por mais tempo a essa forma de retrato religioso da família, destinado às igrejas; ele seria uma forma mais barata do vitral dos doadores, mais antigo, e anunciaria os ex-votos mais anedóticos e pitorescos do século XVIII e início do XIX, que representam não mais a reunião familiar dos vivos e dos mortos, mas o acontecimento miraculoso que salvou um indivíduo ou um membro da família de um naufrágio, um acidente ou uma doença. O retrato de família é também uma espécie de ex-voto.

A escultura funerária inglesa da época elisabetana fornece um outro exemplo do retrato de família a serviço de uma forma de devoção. Esse exemplo, aliás, é específico, e não é encontrado com a mesma frequência e a mesma facilidade na França, na Alemanha ou na Itália. Muitos túmulos ingleses dos séculos XVI e XVII mostram toda a família reunida em torno do defunto, em baixo ou em alto-relevo: a insistência na enumeração das crianças, vivas ou mortas, é impressionante, e vários desses túmulos ainda são encontrados na abadia de Westminster: Sir Richard Pecksall, por exemplo, morto em 1571, aparece entre suas duas mulheres, e na base do monumento há pequenas figuras esculpidas: suas quatro filhas. De cada lado da estátua deitada de Margaret Stuart, morta em 1578, vêem-se seus filhos e filhas. Sobre túmulo de Winifred, Marquesa de Winchester, morta em 1586, também esculpida em posição deitada, aparece seu marido ajoelhado, representado em uma escala reduzida, e, ao lado, um minúsculo túmulo de criança.

Sir John e Lady Puckering, morta em 1596, estão esculpidos deitados lado a lado, no meio de suas oito filhas. O casal Norris (1601) aparece ajoelhado no meio de seus seis filhos.

Em Holdham, contam-se 21 figurinhas sobre o túmulo de John Coke (1639), alinhadas como nos retratos de doadores, e as que estão mortas seguram uma cruz. Sobre o túmulo de Cope d’Ayley em Hambledone (1633), os quatro meninos e as três meninas estão diante de seus pais ajoelhados; entre eles, um menino e uma menina seguram uma caveira.

Em Westminster, a Duquesa de Buckingham mandou erigir em 1634 o túmulo de seu marido, assassinado em 1628; os cônjuges estão esculpidos em posição deitada, no meio de suas crianças[11].
Essas representações alemães e inglesas prolongam aspectos ainda medievais do retrato de família. A partir do século XVI, o retrato de família se liberou de sua função religiosa. Foi como se o rés-do-chão dos quadros de doadores tivesse invadido toda a tela, expulsando dela a imagem religiosa, que, ou desapareceu completamente, ou persistiu sob a forma de uma pequena imagem devota pendurada na parede de fundo do quadro. A tradição do ex-voto ainda está presente em um quadro de Ticiano pintado em torno de 1560[12]: os membros de sexo masculino da família Cornaro - um velho, um homem maduro de barba grisalha, um homem jovem de barba negra (a barba, sua forma e sua cor são indícios da idade) e seis meninos, o menor dos quais brinca com um cão - estão agrupados em torno de um altar. Em certos casos, também, o retrato de família adota a forma material, a apresentação do quadro de igreja: existe no Victoria and Al bert Museum um tríptico de 1628 que representa no painel central um menininho e uma menininha, e nos painéis laterais, os dois pais[13]. Esses quadros não se destinavam mais às igrejas, decoravam agora os interiores particulares. E essa laicização do retrato de família é certamente um fenômeno importante: a família se contempla ela própria na casa de um de seus parentes. Sente-se a necessidade de fixar o estado dessa família, lembrando-se também às vezes os desaparecidos através de uma imagem ou uma inscrição na parede.

Esses retratos de família são muito numerosos, e seria inútil apontá-los todos. A lista seria longa e monótona. Eles são encontrados tanto em Flandres como na Itália, com Ticiano, Pordenone e Veronese, na França, com Le Nain, Lebrun e Tournier, na Inglaterra ou na Holanda, com Van Dyck, nos séculos XVI, XVII, e até mesmo início do século XVIII. Nessa época eles deviam ser tão numerosos como os retratos individuais. Muitas vezes foi dito que o retrato revela o progresso do individualismo. Talvez. Mas é notável que ele traduza acima de tudo o imenso progresso do sentimento da família.

No início, os membros da família são agrupados de forma seca, como nos quadros dos doadores ou na gravura das idades da vida de Le Grand Proprietáire, ou na miniatura do museu Saint-Raimond. Mesmo quando têm mais vida, “posam” em uma atitude solene e destinada a salientar o laço que os une. Em uma tela de Pourbus[14], o marido apoia a mão esquerda no ombro da mulher; a seus pés, uma das crianças repete o mesmo gesto, apoiando a mão no ombro da irmãzinha. Sébastien Leers foi pintado por Van Dyck segurando a mão de sua mulher em uma tela de Ticiano 1920, três homens barbudos cercam uma criança, única nota clara no meio dos trajes negros, e um deles aponta-a com o dedo: a criança está no centro da composição. Contudo, muitos desses retratos não procuram animar suas personagens: os membros da família são justapostos, às vezes ligados por gestos que exprimem seu sentimento recíproco, mas não participam de uma ação comum. É o que ocorre com a família Pordenone da galeria Borghese - o pai, a mãe e sete crianças - ou ainda da família Pembroke de Van Dyck[15]: o Conde e a Condessa estão sentados, e as outras personagens, de pé; à direita um casal, certamente um filho ou filha casados, e à esquerda, dois adolescentes muito elegantes (a elegância é um símbolo da adolescência masculina, e se atenua com a seriedade da maturidade), um escolar com seu livro embaixo do braço, e dois outros meninos mais moços.

Por volta de meados do século XVI, os artistas começaram a representar a família em torno de uma mesa coberta de frutas: a família Van Berchaun de Floris, de 1561, ou a família Anselme de Martin de Vos, de 1577[16]. Ou então, vemos a família que parou de comer para fazer música: não se trata, como sabemos, de um artificio do pintor, pois as refeições muitas vezes terminavam por um concerto ou eram interrompidas por uma canção. A família que posa para o artista, com um grau maior ou menor de afetação, permaneceria na arte francesa até pelo menos o início do século XVIII, com Tournier e Largillière. Mas, sob a influência particular dos holandeses, o retrato de família muitas vezes seria tratado como uma cena de gênero: o concerto após a refeição é um dos temas que os holandeses multiplicariam. Daí em diante, a família seria retratada em um instantâneo, em uma cena viva, em um certo momento de sua vida quotidiana: os homens reunidos em torno da lareira, uma mulher tirando um caldeirão do fogo, uma menina dando de comer ao irmãozinho. Daí em diante, torna-se difícil distinguir um retrato de família de uma cena de gênero que evoca a vida em família.

Durante a primeira metade do século XVII, as velhas alegorias medievais também são atingidas por essa contaminação geral, e são tratadas como ilustrações da vida familiar, sem respeito pela tradição iconográfica. Já vimos o que aconteceu no caso dos calendários. As outras alegorias clássicas se alteraram no mesmo sentido. No século XVII, as idades da vida tornaram-se pretextos para as imagens da vida familiar. Em uma gravura de Abraham Bosse representando as quatro idades do homem, a infância é sugerida pelo que hoje chamaríamos de nursery, um bebê no berço vigiado por uma irmã atenta, uma criança de túnica mantida de pé em uma espécie de cercado com rodas (objeto muito comum entre os séculos XV e XVIII), uma menina com sua boneca, um menino com um catavento, e dois meninos maiores preparando-se para brigar, tendo um deles jogado no chão seu chapéu e sua capa. A virilidade é ilustrada pela refeição que reúne toda a família em torno da mesa, em uma cena análoga à de vários retratos, e que seria muitas vezes repetida tanto na gravura francesa como na pintura holandesa. É o mesmo espírito da gravura das idades de Le Grand Propriétaire, do meio do século XVI, e da miniatura do museu Saint-Raimond, Toulouse. A idade viril é sempre a família. Humbelot não reuniu a família em torno da mesa, mas no gabinete do pai, um rico negociante em cuja casa se amontoam fardos de mercadorias e se alinham pastas de processos. O pai faz suas contas, com a pena na mão, ajudado pelo filho que se mantém atrás; a seu lado, a mulher cuida da filha pequena; um jovem criado entra com uma cesta cheia de provisões, sem dúvida voltando da casa de campo. No fim do século XVII, uma gravura de F. Guérard retoma o mesmo tema. O pai - mais moço do que na gravura de Humbelot-Huart - mostra pela janela o porto, o cais e os navios, fonte de sua fortuna. Dentro do aposento, perto da mesa onde ele faz suas contas e onde estão pousadas sua bolsa, algumas fichas e um á- baco, sua mulher nina um bebê de cueiros e cuida de outra criança vestida com uma túnica.

Esse sentimento nada tem de surpreendente para nós, homens do século XX, mas era novo na época, e sua expressão deveria nos espantar. Humbelot ilustraria o mesmo tema, desenhando uma mulher jovem que mostra o seio a uma criança trepada em suas costas. Não devemos esquecer que no século XVII as crianças desmamavam muito tarde. Há ainda uma outra gravura de Guérard que representa a dona-de-casa com suas chaves e suas crianças, dando ordens a uma criada[17].

As outras alegorias também evoluem para as mesmas cenas de família. Em um holandês do início do século XVII, o olfato, um dos cinco sentidos, é representado pela cena que se tornaria banal da toalete da criança nua no momento em que sua mãe lhe limpa o traseiro[18].

Abraham Bosse simboliza também um dos quatro elementos, a terra, através de uma imagem da vida familiar: em um jardim, uma ama segura uma criança vestida com uma túnica; seus pais, que, da entrada da casa, a contemplam com ternura, divertem-se em lançar-lhe frutas - os frutos da terra. Até mesmo as Beatitudes dão pretexto a evocações da vida em família: em Bonnard-Sandrart[19], a Beatitude torna-se o perdão da mãe às suas crianças, perdão que ela confirma distribuindo-lhes guloseimas - é já o espírito familiar sentimental do século XIX.

De modo geral, a cena de gênero moderna nasceu da ilustração das alegorias tradicionais da Idade Média. Mas a distância entre o tema antigo e sua nova expressão é enorme. Esquecemo-nos da alegoria das estações e do inverno quando contemplamos um quadro de Stella, representando uma noite ao pé do fogo: de um lado da grande sala, os homens ceiam, enquanto do outro, em volta da lareira, as mulheres fiam ou trançam o junco e as crianças brincam ou são lavadas. Não é mais o inverno, é o verão. Não é mais a virilidade ou a terceira idade, é a reunião de família. Nasce uma iconografia original, estranha aos velhos temas desgastados que no princípio ela havia ilustrado. O sentimento da família constitui sua inspiração essencial, uma inspiração muito diferente da das antigas alegorias. Seria fácil elaborarmos um catálogo de temas repetidos ad nauseam: a mãe vigiando a criança no berço[20], a mãe amamentando a criança[21], a mulher fazendo a toalete da criança, a mãe catando piolho na cabeça da criança (operação corriqueira e que aliás não se limitava às crianças, pois Samuels Pepys se submetia a ela), o irmão ou a irmã tentando ver o bebê no berço na ponta dos pés, a criança na cozinha ou no celeiro com um criado ou uma criada, a criança fazendo compras em um armazém. Este último tema, frequente na pintura holandesa, também foi tratado pelos gravadores franceses - em meados do século por Abraham Bosse (o padeiro), e no final do século por Le Camus (o taberneiro, que vendia vinhos) - mas é o espírito dessas ima   gens que é preciso compreender. Uma tela de Le Nain representa um camponês cansado que ferrou no sono. Sua mulher faz psiu! para as crianças, mostrando-lhes o pai que descansa, e que não deve ser acordado: é já um Greuze, não pela pintura ou o estilo, é claro, mas pela inspiração sentimental. A ação é centrada na criança. Em uma tela de Peter de Hooch, as pessoas estão reunidas para almoçar. O pai bebe sentado; uma criança de cerca de dois anos está de pé em cima de uma cadeira; ela usa o chapéu redondo e acolchoado comum na sua idade, em que o andar ainda não é firme, para protegê-la em seus tombos. Uma mulher (a criada?) a segura com uma das mãos e, com a outra, estende um copo de vinho a uma outra mulher (a mãe?), que mergulha nele um biscoito. Ela vai dar o biscoito molhado ao papagaio para distrair a criança, e a distração da criança no seio da família cuja unidade ela assegura é o verdadeiro tema do pintor, o sentido de sua anedota. O sentimento da família, que emerge assim nos séculos XVI-XVII, é inseparável do sentimento da infância. O interesse pela infância não é senão uma forma, uma expressão particular desse sentimento mais geral, o sentimento da família.

A análise iconográfica leva-nos a concluir que o sentimento da família era desconhecido da Idade Média e nasceu nos séculos XV-XVI, para se exprimir com um vigor definitivo no século XVII. Somos tentados a comparar essa hipótese com as observações dos historiadores da sociedade medieval.

A ideia essencial dos historiadores do direito e da sociedade é que os laços de sangue não constituíam um único grupo, e sim dois, distintos embora concêntricos: a família ou mesnie, que pode ser comparada à nossa família conjugal moderna, e a linhagem, que estendia sua solidariedade a todos os descendentes de um mesmo ancestral. Em sua opinião, haveria, mais do que uma distinção, uma oposição entre a família e a linhagem: os progressos de uma provocariam um enfraquecimento da outra, ao menos entre a nobreza. A família ou mesnie, embora não se estendesse a toda a linhagem, compreendia, entre os membros que residiam juntos, vários elementos, e, às vezes, vários casais, que viviam em uma propriedade que eles se haviam recusado a dividir, segundo um tipo de posse chamado frereche ou fratemitas. frereche agrupava em torno dos pais os filhos que não tinham bens próprios, os sobrinhos ou os primos solteiros. Essa tendência à indivisão da família, que aliás não durava além de duas gerações, deu origem às teorias tradicionalistas do século XIX sobre a grande família patriarcal.

A família conjugal moderna seria portanto a consequência de uma evolução que, no final da Idade Média, teria enfraquecido a linhagem e as tendências à indivisão.

Na realidade, a história das relações entre a linhagem e a família é mais complicada. Ela foi acompanhada por G. Duby na região do Mâconnais, do século IX ao XIII inclusive[22].

No Estado franco, escreve G. Duby, “a família do século X, ao que tudo indica, era uma comunidade reduzida à sua expressão mais simples, a célula conjugal, cuja coesão em certos casos se prolongava por algum tempo após a morte dos pais nas frereches. Mas os laços eram muito frouxos. É que eles eram inúteis: os órgãos de paz do velho Estado franco ainda eram bastante vigorosos para permitir ao homem livre viver uma vida independente e preferir, se assim o desejasse, a companhia de seus vizinhos e amigos à de seus parentes”. A solidariedade da linhagem e a indivisão do patrimônio se desenvolveram, ao contrário, em consequência da dissolução do Estado: “Depois do ano mil, a nova distribuição dos poderes de comando obrigou os homens a se agruparem mais estreitamente” . O estreitamento dos laços de sangue que então se produziu correspondia a uma necessidade de proteção, do mesmo modo como outras formas de relações humanas e de dependências: a homenagem de vassalo, a suzerania e a comunidade aldeã. “Demasiado independentes e mal defendidos contra certos perigos, os cavaleiros procuraram refúgio na solidariedade de linhagem.

Ao mesmo tempo, nesses séculos XI e XII do Mâconnais, podemos constatar o progresso da indivisão. É dessa época que data a indivisão dos bens dos dois cônjuges, que, no século X, ainda não estavam fundidos em uma massa comum, administrada pelo marido: nesse século, o marido e a mulher geriam cada um seus bens hereditários, compravam e vendiam separadamente, sem que o cônjuge pudesse interferir.

A indivisão quase sempre também foi estendida aos filhos, que eram impedidos de obter qualquer adiantamento sobre sua herança: “Agregação prolongada na casa paterna e sob a autoridade do ancestral, dos descendentes desprovidos de pecúlio pessoal e independência econômica”. A indivisão muitas vezes subsistia após a morte dos pais: “É preciso imaginar o que era então a casa de um cavaleiro, reunindo em um mesmo domínio, em uma mesma “corte”, 10, 20 senhores, dois ou três casais com filhos, os irmãos e as irmãs solteiras e o tio cônego, que aparecia de tempos em tempos e preparava a carreira de um ou outro sobrinho”. A frereche raramente durava além da segunda geração, mas, mesmo após a divisio do patrimônio, a linhagem conservava um direito coletivo sobre o conjunto do patrimônio dividido: a laudatio parentum, a recuperação da herança da linhagem.

Essa descrição aplica-se sobretudo à família dos cavaleiros, que já poderíamos chamar de família nobre. G. Duby acredita que a família camponesa tenha vivido menos intensamente esse estreitamento dos laços de sangue porque os camponeses haviam preenchido de maneira diferente dos nobres o vazio deixado peia dissolução do Estado franco: a tutela do senhor havia substituído imediatamente a proteção dos poderes públicos, e a comunidade aldeã havia fornecido aos camponeses um quadro de organização e de defesa superior à família. A comunidade aldeã teria sido para os camponeses o que a linhagem foi para os nobres.
Durante o século XIII, a situação mais uma vez se inverteu. As novas formas de economia monetária, a extensão da fortuna mobiliária, a frequência das transações, e, ao mesmo tempo, os progressos da autoridade do Príncipe (quer fosse um Rei capetíngio ou o chefe de um grande principado) e da segurança pública provocaram um estreitamento das solidariedades de linhagem e o abandono das indivisões patrimoniais. A família conjugal tornou-se novamente independente. Contudo, a classe nobre não voltou à família de laços frouxos do século X. O pai manteve e até mesmo aumentou a autoridade que, nos séculos XI e XII, lhe havia sido conferida pela necessidade de manter a integridade do patrimônio indiviso. Sabemos, por outro lado, que, a partir do fim da Idade Média, a capacidade da mulher entrou em declínio. Foi também no século XIII, na região do Mâconnais, que o direito da primogenitura se difundiu nas famílias nobres. Ele substituiu a indivisão, que se tornou mais rara, como meio de salvaguardar o patrimônio e sua integridade. A substituição da indivisão e da comunhão de bens do casal pelo direito de primogenitura parece ser ao mesmo tempo um sinal da importância atribuída à autoridade paterna e do lugar assumido na vida quotidiana pelo grupo do pai e seus filhos.

Georges Duby conclui: “ Na realidade, a família é o primeiro refúgio em que o indivíduo ameaçado se protege durante os períodos de enfraquecimento do Estado. Mas assim que as instituições políticas lhe oferecem garantias suficientes, ele se esquiva da opressão da família e os laços de sangue se afrouxam. A história da linhagem é uma sucessão de contrações e distensões, cujo ritmo sofre as modificações da ordem política”.

A oposição entre a família e a linhagem é menos marcada em G. Duby do que em outros historiadores do direito. Trata-se menos de uma substituição progressiva da linhagem pela família - o que, de fato, pareceria ser uma visão puramente teórica - do que da dilatação ou da contração dos laços de sangue, ora estendidos a toda a linhagem ou aos membros da frereche, ora restringidos ao casal e sua prole. Tem-se a impressão de que apenas a linhagem era capaz de exaltar as forças do sentimento e da imaginação. Por esse motivo, ela deixou tantas marcas nos romances de cavalaria. A comunidade familiar reduzida, ao contrário, levava uma vida obscura que escapou à atenção dos historiadores. Mas essa obscuridade tem um sentido. No mundo dos sentimentos e dos valores a família não contava tanto como a linhagem. Poder-se-ia dizer que o sentimento da linhagem era o único sentimento de caráter familiar conhecido na Idade Média. Mas ele é muito diferente do sentimento da família, tal como o vimos na iconografia dos séculos XVI e XVII. Estende-se aos laços de sangue, sem levar em conta os valores nascidos da coabitação e da intimidade. A linhagem nunca se reúne num espaço comum, em torno de um mesmo pátio. Não tem nada de comparável à Zadrouga serva. Os historiadores do direito reconhecem que não há vestígios de grandes comunidades “silenciosas” na França antes do século XV. Ao contrário, o sentimento da família está ligado à casa, ao governo da casa e à vida na casa. Seu encanto não foi conhecido durante a Idade Média porque esse período possuía uma concepção particular da família: a linhagem.

A partir do século XIV, porém, assistimos ao desenvolvimento da família moderna. Esse processo, bastante conhecido, foi claramente resumido por M. Pelot: “A partir do século XIV, assistimos a uma degradação progressiva e lenta da situação da mulher no lar. Ela perde o direito de substituir o marido ausente ou louco... Finalmente, no século XVI, a mulher casada torna-se uma incapaz, e todos os atos que faz sem ser autorizada pelo marido ou pela justiça tornam-se radicalmente nulos. Essa evolução reforça os poderes do marido, que acaba por estabelecer uma espécie de monarquia doméstica”. “A partir do século XVI, a legislação real se empenhou em reforçar o poder paterno no que concerne ao casamento dos filhos.”

“Enquanto se enfraqueciam os laços da linhagem, a autoridade do marido dentro de casa tornava-se maior e a mulher e os filhos se submetiam a ela mais estritamente. Esse movimento duplo, na medida em que foi o produto inconsciente e espontâneo do costume, manifesta sem dúvida uma mudança nos hábitos e nas condições sociais...” Passara-se portanto a atribuir à família o valor que outrora se atribuía à linhagem. Ela torna-se a célula social, a base dos Estados, o fundamento do poder monárquico. Veremos agora a importância que lhe era atribuída pela religião.

A exaltação medieval da linhagem, de sua honra, da solidariedade entre seus membros, era um sentimento especificamente leigo, que a Igreja ignorava, quando não via com desconfiança. O naturalismo ancestral dos laços de sangue pode muito bem ter-lhe parecido repugnante. Na França, onde a Igreja aceitou a hereditariedade dos reis, é significativo que ela não a tenha mencionado na liturgia da coroação.

Além disso, a Idade Média não conhecia o princípio moderno de santificação da vida leiga, ou melhor, só o admitia em casos excepcionais: o santo rei (mas o rei fora consagrado), ou o bom cavaleiro (mas o cavaleiro havia sido iniciado após uma cerimônia que se tornara religiosa). O sacramento do casamento poderia ter tido a função de enobrecer a união conjugal, de lhe dar um valor espiritual, bem como à família. Mas, na realidade, ele apenas legitimava a união. Durante muito tempo, o casamento foi apenas um contrato. A cerimônia, a julgar por suas representações esculpidas, não se realizava no interior da igreja, e sim na entrada, diante do pórtico. Qualquer que fosse o ponto de vista teológico, a maioria dos padres, considerando suas ovelhas, devia partilhar a opinião do cura de Chaucer, para quem o casamento era uma questão de último caso, uma concessão à fraqueza da carne ”, Ele não livrava a sexualidade de sua impureza essencial. Sem dúvida, essa reprovação não chegava à condenação da família e do casamento, à maneira dos cátaros do Sul da França; manifestava, porém, uma desconfiança com relação a todo fruto da carne. Não era na vida leiga que o homem podia se santificar; a união sexual, quando abençoada pelo casamento, deixava de ser um pecado, mas isso era tudo. Por outro lado, o outro grande pecado dos leigos, o pecado da usura, perseguia o homem em suas atividades temporais. O leigo não dispunha de outro meio para assegurar sua salvação além de abandonar completamente o mundo e entrar para a vida religiosa. Na sombra do claustro, ele podia reparar os erros de seu passado profano.  Foi preciso esperar o fim do século XVI, o tempo da Philotée de São Francisco de Sales, ou, no século XVII, o exemplo dos senhores de Port-Royal - e, de modo mais geral, de todos esses leigos empenhados em importantes atividades religiosas, teológicas, espirituais e místicas - para que se admitisse a possibilidade de uma santificação fora da vocação religiosa, na prática dos deveres civis.

Para que uma instituição natural tão ligada à carne como a família se tornasse objeto de uma devoção, essa reabilitação da condição leiga era necessária. Os progressos do sentimento da família e os da promoção religiosa do leigo seguiram caminhos paralelos. Pois o sentimento moderno da família - ao contrário do sentimento medieval da linhagem - penetrou na devoção comum. O sinal mais antigo dessa devoção, ainda muito discreto, aparece no hábito iniciado pelos doadores de quadros ou vitrais de igreja de agrupar em seu redor toda a família, e, mais ainda, no costume posterior de associar a família ao culto do santo padroeiro. No século XVI, era frequente oferecer como ex-votos retratos dos santos padroeiros do marido e da mulher, cercados pelos próprios cônjuges e suas crianças. O culto dos santos padroeiros tornou-se um culto de família.

A influência do sentimento da família também pode ser reconhecida, especialmente no século XVII, na nova maneira de pintar um casamento ou um batismo. No final da Idade Média, os miniaturistas costumavam representar a própria cerimônia religiosa, tal como ela se desenrolava na entrada da igreja: lembremos, por exemplo, o casamento do Rei Cosius e da Rainha Sabinède na vida de Santa Catarina, em que o padre enrola a estola em torno das mãos dos dois noivos: ou o casamento de Filipe de Macedônia pintado pelo mesmo Guillaume Vrelant, na história do bom Rei Alexandre, em que, atrás do padre, no tímpano da porta da igreja, se percebe uma cena esculpida que mostra um marido batendo na mulher. Nos séculos XVI e XVII, não se representava mais a cerimônia do casamento - a não ser no caso de reis e príncipes. Ao contrário, preferia- se evocar os aspectos familiares da festa, quando os parentes, os amigos e os vizinhos se reuniam em torno dos noivos. Em Gérard David já vemos o banquete de núpcias (“As Bodas de Caná" do Louvre). Em outros pintores, vemos o cortejo que acompanha os noivos: em Stella[23], a noiva de braço dado com o pai, seguida por um grupo de crianças, chega à igreja diante da qual a espera o noivo. Em Molinier[24], a cerimônia já acabou e o cortejo deixa a igreja - à esquerda, o noivo entre seus pajens, e à direita, a noiva coroada (mas ainda não vestida de branco: a cor do amor era ainda o vermelho, como nos ornamentos sacerdotais) entre suas damas de honra - ao som de gaitas de fole, enquanto uma menina atira moedas na frente da noiva. Certas coleções de gravuras de “trajes habituais” ou “trajes diversos” do fim do século XVI ou início do século XVII muitas vezes mostram o noivo ou a noiva com seus pajens e damas de honra: nessa época, o traje de casamento torna-se mais específico (sem ser ainda o uniforme branco usado do século XIX até nossos dias), ao menos por certos detalhes. E há uma tendência em apresentar esses detalhes como características dos costumes de uma determinada região.

Finalmente, todas as pequenas cenas maliciosas do folclore entraram na iconografia: por exemplo, o deitar dos noivos ou o levantar da mãe que deu à luz.

Da mesma forma, á cerimônia do batismo, os artistas passaram a preferir as reuniões tradicionais em casa: os convidados bebendo ao voltar da igreja enquanto um menino toca flauta, ou a visita das vizinhas à mãe que acaba de dar à luz. Ou então, vemos costumes folclóricos mais difíceis de identificar, como uma cena de Molenaer em que uma mulher carrega uma criança no meio de brincadeiras grosseiras, enquanto as damas da assistência cobrem a cabeça com o vestido.

Não devemos interpretar esse gosto pelas festas mundanas ou folclóricas, das quais a malícia não estava ausente, assim como tampouco estava ausente da linguagem das pessoas de bem, como um sinal de indiferença religiosa: simplesmente, enfatizava-se o caráter familiar e social da ocasião, mais do que seu caráter sacramental. Nos países do Norte, onde os temas da família eram extremamente difundidos, uma pintura muito significativa de J. Steen[25] mostra-nos a nova interpretação familiar do folclore ou da devoção tradicional. Já tivemos a ocasião de frisar a importância nos costumes do Ancien Regime das grandes festas coletivas, e insistimos na participação das crianças, que se misturavam aos adultos: toda uma sociedade inteiramente diversa se reunia nessas ocasiões, feliz por estar junta. Mas a festa descrita por Steen não é mais exatamente uma dessas festas da juventude, em que as crianças se comportavam um tanto como os escravos no dia das saturnais, em que desempenhavam um papel fixado pela tradição ao lado dos adultos. Aqui, ao contrário, os adultos organizaram a festa para distrair as crianças: é a festa de São Nicolau, o ancestral de nosso Papai Noel. Steen reproduz a cena no momento em que os pais ajudam as crianças a achar os brinquedos que eles haviam escondido para elas nos cantos da casa. Algumas crianças já encontraram os seus. Algumas meninas seguram bonecas. Outras seguram baldes cheios de brinquedos, e há sapatos espalhados pelo chão: os brinquedos já seriam escondidos nos sapatos, esses sapatos que as crianças dos séculos XIX e XX colocariam diante da lareira na véspera de Natal? Não se trata mais de uma grande festa coletiva, e sim de uma festa de família em sua intimidade; e, consequentemente, essa concentração da família é prolongada por uma contração da família em torno das crianças. As festas da família tornam-se as festas da infância. Hoje, o Natal tornou-se a maior, e poderíamos dizer, a única festa do ano, comum tanto aos ateus como aos religiosos. O Natal não tinha essa importância nas sociedades do Ancien Régime, pois enfrentava a concorrência da festa de Reis, que era muito próxima. Mas o extraordinário sucesso do Natal nas sociedades industriais contemporâneas, às quais repugnam cada vez mais as grandes festas coletivas, deve-se a seu caráter familiar, obtido graças à sua associação com a festa de São Nicolau: a pintura de Steen mostra-nos que, na Holanda do século XVII, já se festejava São Nicolau como o “Papai Noel” - ou o “menino Jesus” - na França de hoje, com o mesmo sentimento moderno da infância e da família, da infância dentro da família.

Um novo tema ilustra de maneira ainda mais significativa o componente religioso do sentimento da família: o tema do benedicite. Há muito tempo já a “cortesia" exigia que, na falta de um padre, um menino pequeno abençoasse a mesa no início das refeições. Certos textos manuscritos do século XV, publicados por F. J. Furnival em uma coletânea intitulada The Babees Book, enumeram as regras estritas da conduta à mesa: “As conveniências da mesa”, ou “a maneira de se portar à mesa”[26]. “Criança, diz o benedicite... quando estiveres em um lugar onde haja um prelado da igreja, deixa-o dizer, se ele assim o desejar, o benedicite e as graças. Criança, se o prelado ou o senhor te mandarem com sua autoridade dizer o benedicite, fá-lo com ardor, pois assim deve ser feito.” Sabemos que então a palavra enfant (criança) designava tanto as crianças pequenas como os meninos maiores. Os manuais de civilidade do século XVI, ao contrário, reservam a tarefa de dizer o benedicite não a qualquer uma das crianças, mas à mais nova: o manual pueril e honesto de Mathurin Cordier estabelece essa regra, que é conservada nas edições modificadas posteriores; assim, uma edição de 1761[27] ainda precisa que o dever de abençoar a mesa “ pertence aos eclesiásticos, quando os há, ou, na sua falta, ao mais jovem membro do grupo” . Segundo a Civilité nouvelle de 1671, “após servir à mesa, é uma mostra de civilidade perfeita e verdadeira fazer uma reverência ao grupo e a seguir dizer as graças”. Ou, segundo as Regies de la bienséance et de la civilité chrétienne de Jean-Baptiste de La Salle[28]: “Quando há uma criança, é comum se lhe atribuir essa função” de (abençoar a mesa). Em seus Dialogues Vivès descreve uma grande refeição: “O dono da casa, de acordo com seu direito, indicou os lugares. A prece foi dita por uma criança pequena, de forma breve, curiosa, e rimada.

Portanto, não é mais a um menino do grupo, e sim à menor criança da casa que cabe a honra de dizer o benedicite. Reconhecemos aí um sinal da promoção da infância no sentimento no século XVI, mas o mais importante é o fato de a criança ter sido associada à principal prece da família, durante muito tempo a única prece dita em comum pela família reunida. Nesse ponto, os textos dos tratados de civilidade são menos reveladores do que a iconografia. A partir do fim do século XVI, a cena do benedicite torna-se um dos temas mais frequentes da nova iconografia, que tentamos distinguir. Examinemos por exemplo uma gravura de Merian[29]. Trata-se de um retrato de família à mesa, fiel a uma convenção já antiga: o pai e a mãe estão sentados em cadeiras com seus cinco filhos em volta. Uma criada traz um prato, e a porta da cozinha está aberta. Mas o gravador fixou o momento em que um menininho de túnica, apoiado nos joelhos da mãe, com as mãos postas, recita o benedicite: o resto da família ouve a prece, com a cabeça descoberta e as mãos postas.

Uma outra gravura de Abraham Bosse[30] representa a mesma cena em uma família protestante. Antoine Le Nain reúne uma mulher e seus três filhos na hora da refeição: um dos meninos está de pé e diz as graças. Lebrun tratou esse tema segundo a maneira antiga, como uma Sagrada Família. A mesa está posta; o pai barbudo, com o bastão do viajante na mão, está de pé. A mãe, sentada, olha com ternura para a criança que, de mãos postas, recita a prece. Essa com posição foi amplamente difundida pela gravura como uma imagem devota.

É normal encontrarmos esse tema na pintura holandesa do século XVII. Em uma pintura de Steen, o pai é o único sentado: velho hábito rural, abandonado há muito pela burguesia francesa. A mãe serve o pai e as duas crianças que estão de pé: o menor, de dois ou três anos, está de mãos postas e diz a prece. Em um quadro semelhante de Heemskerck, dois velhos sentados e um homem mais jovem de pé estão em torno de uma mesa, ao lado de uma mulher sentada com as mãos postas: perto dela, uma menina repete a prece, lendo-a nos lábios da mãe. O mesmo tema é encontrado ainda no século XVIII no célebre “Bénédicité” de Chardin.

A insistência da iconografia dá a esse tema um valor singular. A recitação do benedicite pela criança não é mais uma marca de civilidade. Os artistas se dedicaram a representá-la porque em geral se atribuía a essa prece, outrora banal, uma significação nova. O tema iconográfico evocava e associava em uma síntese três forças afetivas: a religiosidade, o sentimento da infância (a criança menor) e o sentimento da família (a reunião em torno da mesa). O benedicite tornou-se o modelo da prece dita em família. Antes, não havia cultos religiosos privados. Os livros de civilidade mencionam a prece da manhã (nos colégios, os internos a diziam em comum após a toalete). Eles já falam menos sobre a prece da noite. Insistem, e isso é significativo, nos deveres das crianças para com seus pais (as regras de cortesia mais antigas, do século XV, não falavam nos deveres dos filhos para com seus pais, e sim para com seus mestres): “As crianças, diz J.-B. de La Salle, não devem ir dormir antes de cumprimentar seu pai e sua mãe”. O manual de Courtin de 1671 termina o dia da criança da seguinte maneira: “ Ela deverá recitar suas lições, dizer boa-noite a seus pais e mestres, fazer suas necessidades, e deitar-se na cama para dormir”.
No entanto, foi nessa época que surgiu, ao lado das orações particulares, uma oração pública da família. O benedicite é um dos atos desse culto, e sua frequência iconográfica prova que ele correspondia a uma forma viva de devoção. Esse culto familiar se desenvolveu muito nos meios protestantes: na França, sobretudo após a revogação do edito de Nantes, ele substituiu o culto público a tal ponto que, após a volta à liberdade, os pastores do fim do século XVIII tiveram dificuldade em trazer de volta ao culto público os fiéis habituados a se contentar com suas orações em família. A célebre caricatura de Hogarth mostra que no século XVIII a oração da noite em comum, que reunia em torno do pai de família os parentes e criados, tornara- se corriqueira e convencional. É provável que as famílias católicas tenham sofrido uma evolução quase paralela, e que também tenham sentido a necessidade de uma devoção nem pública nem individual: de uma devoção familiar.

Descrevemos acima o “Bénédicité” de Lebrun, popularizado pela gravura de Sarrabat: percebemos imediatamente que esse benedicite era também uma Sagrada Família, uma representação da oração e da refeição da Virgem, de São José e do menino Jesus. A cena de Lebrun pertence ao mesmo tempo a duas séries de representações, igualmente frequentes na época, pois ambas exaltavam o mesmo sentimento. Temos de reconhecer, como M. V. L. Tapie, que, “sem dúvida, era o próprio princípio da família que era associado a essa homenagem rendida à família de Cristo[31]”. Todas as famílias eram convidadas a considerar a Sagrada Família como seu modelo. A iconografia tradicional modificou-se, portanto, sob a mesma influência que aumentou a autoridade paterna: São José não desempenhava mais o papel apagado que ainda lhe era atribuído no século XV e início do século XVI. Ele aparece no primeiro plano, como o chefe da família, em um outro retrato da Sagrada Família à mesa pintado por Callot e igualmente popularizado pela gravura. “A Virgem, São José e o menino, comenta E. Mâle, tomam a refeição da noite: um candeeiro colocado sobre a mesa cria um contraste entre a luz viva e a sombra profunda, e dá à cena um aspecto misterioso; São José dá de beber à criancinha, enternecedora de tão bem comportada, com um guardanapo em torno do pescoço” Ou há ainda o tema que E. Mâle chama de “A Sagrada Família em marcha”, em que o menino é colocado entre Maria e José. Imagino que os teólogos da época possam ter visto aí a imagem da Trindade, mas o sentimento comum se comovia com esse tema como se fosse uma exaltação da família.

A autoridade de São José pode ser notada em várias cenas: em uma tela de um pintor napolitano do século XVII, São José carrega o menino Jesus no colo e passa assim para o centro da composição. Esse tema é frequente em Murilo e Guido Reni. Algumas vezes, José aparece reinando em seu ateliê de marceneiro, ajudado pelo menino Jesus.

Chefe de família na mesa, na hora da refeição, e no ateliê, nas horas de trabalho. São José é ainda chefe de família em um outro momento dramático da vida familiar, muitas vezes representado pelos artistas: o momento em que a morte o vem buscar. Tornando-se o padroeiro da boa morte, São José conserva seu sentido: a imagem de sua morte lembra a imagem da morte do pai, tantas vezes representa da nas ilustrações da boa morte - ela pertence à mesma iconografia da nova família.

As outras sagradas famílias inspiram o mesmo sentimento. No século XVI em particular tornou-se comum representar santos contemporâneos de Cristo em criança, reunidos e brincando juntos. Uma tapeçaria alemã representa de uma forma encantadoramente pitoresca as três Marias cercadas de seus filhos, que se agitam, se banham e brincam. Esse grupo é encontrado com frequência, particularmente em uma bela talha do início do século XVII em Notre-Dame la Grande, em Poitiers.

O tema parece evidentemente ligado ao sentimento da infância e da família. Essa ligação é sublinhada com insistência na decoração barroca da capela da Virgem, na igreja franciscana de Lucerne. Essa decoração data de 1723. A abóbada é ornamentada com anjinhos decentemente vestidos, cada um trazendo um dos símbolos da Virgem, enumerados em suas litanias (estrela-do-mar etc.). Nas paredes laterais, os pais e filhos santos se dão as mãos, em tamanho natural: São João Evangelista e Maria Salomé, São Tiago Maior e Zebedeu...

Os temas do Antigo Testamento também são utilizados para ilustrar essa devoção. O pintor veneziano Carlo Loth trata a bênção de José por Jacó como a cena frequente nas Idades da vida do velho cercado por seus filhos esperando a morte. Mas foi sobretudo a família de Adão que foi tratada como uma Sagrada Família. Em uma tela de Veronese, Adão e Eva aparecem no pátio de sua casa no meio de seus animais e de seus filhos, Caim e Abel. Um deles mama na mãe, enquanto o outro, menor, brinca no chão. Adão, escondido atrás de uma árvore a fim de não perturbar esses folguedos, observa a cena. Ele é visto de costas. Sem dúvida, poderíamos com razão encontrar uma intenção teológica nessa família do “primeiro Adão”, que anunciava a vinda de Cristo, o “segundo Adão”. Mas essa intenção erudita esconde-se atrás de uma cena que evoca as alegrias então consagradas da família.

O mesmo tema é encontrado em um teto mais recente do convento de San Martino, em Nápoles, que provavelmente data do início do século XVIII. Adão cava a terra - como José trabalha com a madeira -, Eva fia - como a Virgem costura - e seus dois filhos estão a seu lado.

Portanto, a iconografia nos permite acompanhar a ascensão de um sentimento novo: o sentimento da família. Espero ter sido bem compreendido. O sentimento era novo, mas não a família, embora esta sem dúvida não desempenhasse em suas origens o papel primordial que lhe atribuíram Fustel de Coulanges e seus contemporâneos. M. Jeanmaire descobriu na Grécia sobrevivências ainda fortes de estruturas não familiares, como as classes de idade. Os etnólogos mostraram a importância das classes de idade entre os africanos, e das comunidades clânicas entre os indígenas americanos. Não teríamos, sem o perceber, nos deixado impressionar pela função que a família desempenha em nossas sociedades há alguns séculos, e não nos sentiríamos tentados a exagerá-la indevidamente e até mesmo a atribuir-lhe uma espécie de autoridade histórica quase absoluta? No entanto, não há a menor dúvida de que a família foi constantemente mantida e reforçada por influências ao mesmo tempo semíticas (e não apenas bíblicas, creio eu) e romanas.

Por outro lado, é possível que ela se tenha enfraquecido na época das invasões germânicas. Pouco importa: seria vão contestar a existência de uma vida familiar na Idade Média. Mas a família subsistia no silêncio, não despertava um sentimento suficientemente forte para inspirar poetas ou artistas. Devemos atribuir a esse longo silêncio uma significação importante: não se conferia um valor suficiente à família. Da mesma forma, devemos reconhecer a importância do florescimento iconográfico que a partir do século XV, e sobretudo XVI, sucedeu a esse longo período de obscuridade: o nascimento e o desenvolvimento do sentimento da família. Daí em diante, a família não é apenas vivida discretamente, mas é reconhecida como um valor e exaltada por todas as forças da emoção.

Ora, esse sentimento tão forte se formou em torno da família conjugal, a família formada pelos pais e seus filhos. É raro uma tela reunir mais de duas gerações. Quando netos ou filhos casados aparecem, é sempre discretamente, como uma coisa sem importância. Nada aí lembra a antiga linhagem, nada acentua a ampliação da família ou a grande família patriarcal, essa invenção dos tradicionalistas do século XIX. Essa família, ou a própria família, ou ao menos a ideia que se fazia da família ao representá-la e exaltá-la, parece igual à nossa. O sentimento é o mesmo.

Esse sentimento está muito ligado também ao sentimento da infância. Ele afasta-se cada vez mais das preocupações com a honra da linhagem ou com a integridade do patrimônio, ou com a antiguidade ou permanência do nome: brota apenas da reunião incomparável dos pais e dos filhos. Uma de suas expressões mais comuns seria o hábito criado de se insistir nas semelhanças físicas entre os pais e seus filhos. No século XVII, pensava-se que São José se parecia com seu filho adotivo, salientando-se assim a força do laço familiar. Erasmo já possuía a ideia extremamente moderna de que as crianças uniam a família e de que sua semelhança física produzia essa união profunda; não nos espantaremos, pois, com o fato de seu tratado sobre o casa mento ter sido reimpresso ainda no século XVIII. Vejamos um trecho dessa obra, numa tradução francesa de 1714, que adorna de maneira picante e um tanto anacrônica a prosa do Renascimento: “Só nos pode causar admiração o cuidado surpreendente da natureza nesse ponto: ela pinta duas pessoas num mesmo rosto e num mesmo corpo; o marido reconhece o retrato de sua mulher em seus filhos, e a mulher, o do marido. Às vezes, descobre-se uma semelhança com o avô e com a avó, com um tio-avô ou com uma tia-avó” . O que conta acima de tudo é a emoção despertada pela criança, a imagem viva de seus pais.

 

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O nascimento da Psicologia

Wilhelm Wundt não tinha ouvido falar de multitarefas. E mesmo que tivesse, não teria acreditado que fosse possível prestar atenção a mais de um estímulo, ou se envolver em mais de uma atividade mental, exatamente ao mesmo tempo. É claro que ninguém tinha ouvido falar de multitarefas na metade do século XIX, antes do telefone, e muito menos mensagens instantâneas, e-mail, videogames, e outros aparelhos eletrônicos, solicitando simultaneamente nosso tempo e nossa atenção.

O ano era 1861. Nos Estados Unidos, a Guerra Civil estava começando. Na Alemanha, um ambicioso Wilhelm Wundt, um pesquisador de 29 anos na área de fisiologia, lecionava meio período na University of Heidelberg. Descrito por amigos como distraído e sonhador, tentava encontrar seu caminho ensinando técnicas básicas de laboratório para alunos universitários. No laboratório improvisado em sua casa, ele tentava conduzir pesquisas para deslanchar o desenvolvimento da nova ciência psicológica.

Ultimamente, Wundt andava pensando a respeito do que Friedrich Bessel, o astrônomo alemão, havia cha­mado de "equação pessoal" - os erros de medição entre os astrônomos que haviam levado à demissão de David Kinnebrook em 1796. Como explicado por um historiador da psicologia, Wundt estava intrigado pelas diferenças entre os astrônomos ao medirem a passagem da grade quadriculada dos telescópios. Essas peque­nas diferenças [simplesmente meio segundo entre Kinnebrook e Maskelyne] ocorriam dependendo do que focalizavam primeiro - a estrela ou o cronômetro. (Blumenthal, 1980, p. 121)

Se o observador olhasse primeiro a estrela, ele obteria uma leitura, mas se olhasse primeiro a grade quadriculada, ele faria uma leitura ligeiramente diferente. Era impossível para o observador focar sua atenção nos dois objetos ao mesmo tempo. O interesse de Wundt por esse problema o levou a modificar um relógio de pêndulo de forma a apresentar dois estímulos - um auditivo e um visual - no caso, um sino e um pêndulo balançando diante de um ponto fixo. Ele chamou o instrumento de Geáankenmesser, o que significa "medidor do pensamento" ou "medida da mente", e ele o usava para medir o processo mental para perceber dois estímulos.

Colocando-se como único sujeito desse experimento, ele concluiu que era impossível perceber essas duas coisas ao mesmo tempo. Ele conseguia prestar atenção ao som do sino, ou ao movimento do pêndulo passando por um ponto específico. Os resultados de suas medidas mostraram que levava um oitavo de segundo para registrar os dois estímu­los sequencialmente. Para o observador casual, os estímulos pareciam ocorrer simultaneamente, mas não para o pesqui­sador treinado.

Wundt escreveu que "a consciência retém só um pen­samento, uma única percepção. Quando parece que temos diversas percepções simultâneas, somos enganados pela sua rápida sucessão" (apud Diamond, 1980b, p. 39). Com essa descoberta, Wilhelm Wundt havia medido a mente. É verdade que Fechner já havia feito isso antes, mas foi Wundt quem usou o experimento como base para uma nova ciência (e David Kinnebrook jamais soube do seu papel nisso).

O Pai da Psicologia Moderna

Wilhelm Wundt foi o fundador da psicologia como disciplina acadêmica formal. Instalou o primeiro laboratório, lançou a primeira revista especializada e deu início à psicologia experimental como ciência. Os temas de suas pesquisas, como sensação e percepção, atenção, sentimento, reação e associação, tornaram-se capítulos básicos de livros didáti­cos e são até hoje fontes inesgotáveis de estudo. Tanto que  a maior parte da história da psicologia pós-wundtiana é caracterizada pela contestação ao seu ponto de vista da psicologia, fato que não desvaloriza sua importância nem seus feitos como seu fundador.

Por que foi Wundt e não Fechner a receber os méritos pela fundação da nova psicologia? A obra Elements of psychophysics, de Fechner, foi publicada em 1860, cerca de 15 anos antes de Wundt iniciar os estudos de psicologia. O próprio Wundt declarou que o trabalho de Fech­ner representava a "primeira conquista" da psicologia experimental (Wundt, 1888, p. 471). Quando Fechner faleceu, seus papéis foram doados a Wundt, que proferiu palavras honrosas em sua memória durante o funeral. Além disso, E. B. Titchener, discípulo de Wundt, referia-se a Fechner como pai da psicologia experimental (Benjamin, Bryant, Campbell, Luttrell e Holtz, 1997). Os historiadores são unânimes em relação à importância de Fechner, e alguns até questionam se a psicologia teria começado naquele momento sem a sua contribuição. Então, por que eles não creditam a Fechner os méritos pela fundação da psicologia?

A resposta encontra-se na natureza do processo de fundação de uma escola de pensa­mento. A fundação consiste em um ato deliberado e intencional que envolve características e habilidades pessoais diferentes das exigidas na produção de contribuições científicas extraordinárias. Um historiador da psicologia disse:

Quando as ideias básicas estão todas elaboradas, algum promotor toma essas ideias e as organiza, adicionando informações que pareçam ser (...) essenciais, publica-as, divulga-as e as promove e, em resumo, "funda" uma escola. (Boring, 1950, p. 194)

O comentário mais recente sobre a natureza do fundador fala sobre a necessidade de se vender uma ideia à comunidade científica: "Para que uma importante contribuição ao conhecimento seja completa, assegurar o impacto de uma ideia é tão importante quanto a originalidade dessa ideia. Vender a ideia com sucesso talvez seja ainda mais importante" (Berscheid, 2003, p. 110).

A contribuição de Wundt para a fundação da psicologia moderna é devida não tanto a uma única descoberta científica quanto à promoção vigorosa da experimentação sistemática realizada por ele. Portanto, fundação não é sinônimo de criação, embora essa distinção não tenha intenção de ser depreciativa. Tanto os fundadores como os criadores são essenciais para a formação de uma ciência, assim como os arquitetos e os construtores são indispen­sáveis na construção de um edifício.

Com essa distinção em mente é possível compreender por que Fechner não foi iden­tificado como o fundador da psicologia. Na verdade, ele simplesmente não estava tentan­do fundar uma nova ciência. Seu objetivo era compreender a relação entre os universos mental e material. Ele buscava descrever com base científica um conceito unificado de mente e corpo.

Wundt, no entanto, estava determinado a fundar uma nova ciência. No prefácio da primeira edição da sua obra Principles of physiological psychology (Princípios da psicologia fisiológica) (1873-1874), ele escreveu: "O trabalho que ora apresento ao público consiste em uma tentativa de demarcar um novo domínio da ciência". Seu objetivo era promover a psicologia como uma ciência independente. Todavia é preciso reafirmar que, embora Wundt seja considerado o fundador da psicologia, ele não foi o seu criador. A psicologia é o resultado de uma longa sequência de esforços criativos.

Na segunda metade do século XIX, o Zeitgeist estava propício para a aplicação da metodologia experimental aos problemas da mente. Wundt foi um agente poderoso do que já estava em andamento, um promotor talentoso do inevitável.

Wilhelm Wundt (1832-1920)

A Biografia de Wundt

Wilhelm Wundt passou os anos iniciais de sua vida nas pequenas vilas das proximidades de Mannheim, na Alemanha. Teve uma infância solitária (seu irmão mais velho ficava em um internato) e a sua única diversão era ficar sonhando em um dia se tornar um escritor famoso. Seu rendimento escolar foi baixo nos anos iniciais. Seu pai era pastor, mas Wundt não tinha boas recordações dele, embora tanto o pai como a mãe fossem descritos como pessoas sociáveis. Lembrava-se de um dia em que o pai fora visitar a escola e dera-lhe uma bofetada no rosto por não prestar atenção ao professor. No início do segundo ano, a responsabilidade pela sua educação ficou a cargo de um assistente do pai, um jovem vigário por quem o garoto acabou criando uma forte afeição. Quando o pároco foi trans­ferido para uma cidade vizinha, Wundt ficou tão aborrecido que foi autorizado a viver com ele até os 13 anos.

A família Wundt era dotada de forte tradição acadêmica, com ancestrais renomados intelectualmente em praticamente todas as áreas. Entretanto parecia que essa extensa linhagem seria interrompida com o jovem Wundt. Ele passava a maior parte do tempo sonhando em vez de estudar, e fora reprovado no primeiro ano do Gymnasium. Sua relação com os colegas de classe não era muito amistosa e ele era ridicularizado pelos professores. Aos poucos, no entanto, aprendeu a controlar seus devaneios, tornando-se relativamente popular. Embora nunca houvesse apreciado a escola, esforçou-se para desenvolver seus interesses e sua capacidade intelectual. Quando se formou, com 19 anos, estava preparado para prosseguir os estudos universitários.

Decidiu tornar-se médico por duas razões: desejava trabalhar com a ciência e ganhar a vida. Frequentou a escola de medicina das universidades de Tübingen e de Heidelberg, nesta tendo cursado anatomia, fisiologia, física, medicina e química. No decorrer do curso, per­cebeu não ter tanta inclinação para a medicina e decidiu especializar-se em fisiologia.

Depois de estudar um semestre na University of Berlin, com o importante fisiologista Johannes Müller, retornou à University of Heidelberg e completou o doutorado em 1855. Lecionou fisiologia em Heidelberg, de 1857 a 1864, e foi indicado para ser assistente de laboratório de Helmholtz. Wundt detestou a tarefa de dar orientações básicas aos estu­dantes no laboratório e deixou a função. Em 1864, foi promovido a professor adjunto e permaneceu em Heidelberg por mais 10 anos.

Estando envolvido na pesquisa em fisiologia, Wundt começou a conceber o estudo da psicologia como uma disciplina científica experimental independente. Primeiramente, sintetizou as ideias no livro intitulado Contributions to the theory of sensoryperception, publi­cado em partes, entre 1858 e 1862. Descreveu suas experiências originais, realizadas em um laboratório improvisado em sua casa, e os métodos que considerava adequados para a nova psicologia, usando pela primeira vez o termo "psicologia experimental". Esse livro, juntamente com o Elements of psychophysics (1860), de Fechner, é considerado marco lite­rário do surgimento da nova ciência.

No ano seguinte, Wundt publicou Lectures on the minds of men and animais (1863). Sua revisão cerca de 30 anos mais tarde, a tradução para o inglês e as seguidas reimpressões da obra após a morte de Wundt são indicadores da importância do livro, no qual Wundt abordou vários temas, como o tempo de reação e a psicofísica, que ocupariam a atenção dos psicólogos experimentais durante vários anos.

Em 1867, Wundt começou a ministrar um curso de psicologia fisiológica na Heidelberg, o primeiro curso formal dessa área no mundo. Suas aulas também produziram material para outro importante livro, Principles of physiological psychology (Princípios da psicologia fisiológica), publicado em duas partes, em 1873 e 1874. Em 37 anos, Wundt revisou o livro em seis edições, sendo a última publicada em 1911. Principles é, indubitavelmente, sua obra-prima, na qual Wundt estabeleceu a psicologia como uma ciência laboratorial inde­pendente, com problemas e métodos de experimentação próprios.

Por vários anos, as sucessivas edições de Principles of physiological psychology serviram como base de informações para os psicólogos experimentais e de registro do progresso da psicologia. O termo "psicologia fisiológica" pode dar margem a interpretações equi­vocadas, já que naquela época o vocábulo "fisiológica" era sinônimo da palavra alemã que queria dizer "experimental”. Na realidade, Wundt estava lecionando e escrevendo a respeito de psicologia experimental e não sobre a psicologia fisiológica no sentido atual da palavra (Blumenthal, 1998).

Os Anos em Leipzig

Wundt começou a mais longa e importante fase da sua carreira em 1875, ao tornar-se professor de filosofia da University of Leipzig, onde trabalhou durante incríveis 45 anos. Logo depois de chegar a Leipzig, instalou um laboratório e, em 1881, lançou a revista Philosophical Studies, publicação oficial do novo laboratório e da nova ciência. Havia pen­sado em chamar a revista de Psychological Studies (Estudos Psicológicos), mas mudou de ideia aparentemente porque já existia outra com o mesmo nome (embora abordasse temas relacionados com ocultismo e espiritismo).

Em 1906, renomeou a revista de Psychological Studies. Agora tendo nas mãos um manual, um laboratório e uma revista acadêmica especializada, a psicologia estava em um bom caminho.

O laboratório de Wundt e também a sua crescente fama atraíram a Leipzig muitos estudantes que desejavam trabalhar com ele, dos quais vários se tornaram pioneiros, difun­dindo versões próprias de psicologia para as gerações seguintes. Entre eles estavam diversos estadunidenses que retornaram aos Estados Unidos para implementar laboratórios próprios. Assim, o laboratório de Leipzig exerceu enorme influência no desenvolvimento da psico­logia moderna, servindo como modelo para novos laboratórios e constantes pesquisas.

Além dos laboratórios instalados nos Estados Unidos, outros foram implementados por alunos de Wundt na Itália, na Rússia e no Japão. Nenhum outro idioma teve mais livros traduzidos de Wundt do que o russo e a admiração por ele chegou ao ponto de os psicólogos de Moscou construírem uma réplica do seu laboratório. Outra réplica foi cons­truída por estudantes japoneses na Tokyo University, em 1920, ano da morte de Wundt, mas foi destruída durante um conflito estudantil nos anos 1960.

Wundt foi um professor bastante popular e, em um dos cursos por ele ministrado em Leipzig, o número de estudantes matriculados ultrapassou a 600. Sua maneira de lecionar foi descrita da seguinte forma pelo estudante E. B. Titchener, em uma carta que escreveu em 1890, depois de assistir pela primeira vez a uma aula de Wundt:

O [funcionário] abriu a porta e Wundt entrou, todo vestido de preto, é claro, dos sapatos à gravata: uma figura magra, de ombros estreitos, com a coluna um pouco curvada a partir da cintura, dava a impressão de ser alto, no entanto, duvido que tivesse efetivamente mais de 1,75m de altura.
Ele caminhava ruidosamente - não há outra palavra para aquilo - subindo pelo corredor lateral os degraus da plataforma; batia com os pés e fazia barulho, como se as solas dos sapatos fossem de madeira. Realmente fiquei com má impressão daquele modo ruidoso de caminhar, todavia parece que ninguém se deu conta.

Alcançou a plataforma e pude ter uma boa visão da figura. Cabelos grisalhos, em quantidade razoável, exceto no topo da cabeça, cuidadosamente coberto por alguns fios longos puxados da lateral...

Wundt, pude perceber, não consultou qualquer tipo de anotação para dar a aula nem olhou em algum momento para o suporte de livros, embora tivesse alguns papéis misturados entre os cotovelos...

Wundt não deixava os braços sobre o descanso: mantinha os cotovelos fixos, mas movia constantemente os braços e as mãos, apontando e acenando... os movimentos eram controlados e pareciam, de alguma forma, misteriosamente ilustrativos...

Ele parou pontualmente ao soar do relógio e saiu pisando e fazendo barulho, um pouco curvado, assim como havia entrado. Se não fosse pelo ruído absurdo do seu cami­nhar, não teria outro sentimento a expressar senão o de admiração pelo seu procedimento. (Baldwin, 1980, p. 287-289)

Sua vida pessoal foi tranquila e modesta e seus dias eram cuidadosamente planejados. Pela manhãs trabalhava em um livro ou algum artigo, lia os trabalhos dos alunos e edita­va a revista. Às tardes realizava exames ou encaminhava-se para o laboratório, cuja visita, conforme lembrou um estudante estadunidense, não durava mais de cinco ou dez minutos. Aparentemente, apesar de acreditar na pesquisa de laboratório, "o próprio Wundt não era um pesquisador de laboratório" (Cattell, 1928, p. 545).

Mais ao final do dia, Wundt fazia uma caminhada e mentalmente preparava a aula da tarde que ministrava habitualmente às quatro horas. À noite dedicava-se à música, à política e, quando mais jovem, às atividades relacionadas com os direitos do trabalhador e do estudante. Levava uma vida confortável e a família dispunha de empregados domés­ticos e usufruía de lazer.

A Psicologia Cultural

Com a implementação do laboratório e a criação da revista especializada, além da gran­de quantidade de pesquisas em andamento, Wundt voltou a atenção para a filosofia. De 1880 a 1891, escreveu a respeito da ética, da lógica e da filosofia sistemática. Publicou a segunda edição de Principies of physiological psychology em 1880 e a terceira em 1887; ainda contribuía com artigos para a revista. Outra área em que Wundt concentrou seu grande talento fora esquematizada em seu primeiro livro: a criação da psicologia social. Ao retomar esse projeto, Wundt produziu um trabalho em 10 volumes, intitulado Cultural psychology (Psicologia cultural), que publi­cou entre 1900 e 1920 (muitas vezes, o título é traduzido equivocadamente como Folk psychology [Psicologia do povo]).

A psicologia cultural tratou de várias etapas do desenvolvimento mental humano mani­festado pela linguagem, nas artes, nos mitos, nos costumes sociais, na lei e na moral. O impacto dessa publicação na psicologia foi mais significativo do que o conteúdo em si, já que serviu para dividir a nova ciência em duas partes principais: a experimental e a social.

Wundt acreditava que as funções mentais mais simples, como a sensação e a percepção, deviam ser estudadas por meio de métodos de laboratório. Todavia os processos mentais superiores, como a aprendizagem e a memória, não podiam ser investigados pela experi­mentação científica por serem condicionados pela língua e por outros aspectos culturais. Wundt somente acreditava no estudo dos processos de pensamento superiores com o emprego de meios não-experimentais como os usados na sociologia, na antropologia e na psicologia social. A noção do significativo papel das forças sociais no desenvolvimen­to dos processos cognitivos ainda é considerada importante; no entanto, a conclusão de
Wundt de que tais processos não são passíveis de estudo por meio de experimentos foi logo contestada e invalidada.

Wundt dedicou 10 anos ao desenvolvimento da psicologia cultural; entretanto o campo, na forma como havia previsto, exerceu pouco impacto sobre a psicologia estadunidense. Uma pesquisa abrangendo os artigos publicados em 90 anos na American Journal of Psychology mostrou que, de todas as citações referentes às publicações de Wundt, menos de 4% estavam relacionadas com a obra Cultural psychology. Entretanto, Principies of physiological psychology era responsável por 61% das referências aos seus trabalhos (Brozek, 1980).

Uma razão provável para a falta de interesse dos psicólogos estadunidenses na psicologia cultural de Wundt seria a época da publicação: entre 1900 e 1920. Nesse período uma nova psicologia estava surgindo nos Estados Unidos, com uma abordagem um pouco distinta da de Wundt. Os psicólogos estadunidenses passaram a confiar nas próprias ideias e nas instituições educacionais e não sentiam mais tanta necessidade de voltar a atenção para os acontecimentos da Europa. Um destacado pesquisador observou que a psicologia cultural não atraía tanto interesse porque ela "surgiu em um estágio de maturidade da psicologia estadunidense em que os pesquisadores estadunidenses estavam bem menos suscetíveis às impressões estrangeiras do que nas décadas de 1880 e 1890" (Judd, 1961, p. 219).

Wundt prosseguiu na pesquisa sistemática e no trabalho teórico até a morte, em 1920. Graças ao seu estilo de vida organizado, conseguiu completar as memórias dos seus regis­tros psicológicos pouco antes de morrer. Análises acerca da sua produção constataram que ele escreveu 54 mil páginas entre 1853 e 1920, em uma média de 2,2 páginas por dia (Boring, 1950; Bringmann e Balk, 1992). Ele havia concretizado o sonho da infância de tornar-se um escritor famoso.

O Estudo da Experiência Consciente

A psicologia de Wundt utilizava os métodos experimentais das ciências naturais, princi­palmente as técnicas empregadas pelos fisiologistas. Wundt adaptou esses métodos cientí­ficos de investigação para a nova psicologia e prosseguiu na sua pesquisa do mesmo modo como os cientistas físicos se dedicavam ao objeto de estudo de sua própria área. Dessa forma, o Zeitgeist na fisiologia e na filosofia contribuiu para moldar tanto os métodos de investigação como o objeto de estudo.

O objeto de estudo de Wundt consistia, para definir em uma única palavra, na cons­ciência. No sentido mais amplo, o impacto do empirismo e do associacionismo do século XIX refletia-se ao menos parcialmente, no sistema de Wundt. Na sua perspectiva, a cons­ciência incluia varias partes diferentes e podia ser estudada pelo método da análise ou da redução. Ele declarou: "A primeira etapa da investigação de um fato deve ser uma descrição dos elementos individuais (...) dos quais consiste" (apuá Diamond, 1980, p. 85).

Todavia, a semelhança entre a abordagem de Wundt e a da maioria dos empiristas e dos associacionistas concentrava-se apenas nesse ponto de vista. Wundt não aceitava a ideia de os elementos da consciência serem estáticos (assim denominados átomos da mente) e se conectarem de forma passiva mediante algum processo mecânico de associação. Ao contrário, ele acreditava no papel ativo da consciência em organizar o próprio conteúdo.

Portanto, o estudo separado dos elementos, do conteúdo ou da estrutura da consciência proporcionaria apenas o ponto inicial para a compreensão dos processos psicológicos.

Voluntarismo.

Wundt concentrou-se no estudo da capacidade própria de organização da mente, dando o nome de voluntarismo ao seu sistema, em referência à palavra volição, que significa o ato ou a força de vontade. O voluntarismo refere-se à força de vontade pró­pria de organizar o conteúdo da mente em processos de pensamento superiores. Wundt enfatizava não os elementos em si, como os empiristas e associacionistas britânicos (assim como Titchener mais tarde enfatizara como aluno de Wundt), mas o processo ativo de organizaçao e síntese desses elementos. No entanto é importante lembrar que Wundt embora alegasse que a mente consciente era dotada do poder de sintetizar os elementos em processos cognitivos de nível superior, nunca deixou de reconhecer serem básicos os elementos da consciência. Na ausência desses elementos, não havia nada a ser organizado na mente.

Experiencia mediata e imediata.

Na opinião de Wundt, os psicólogos deveriam dedi­car-se ao estudo da experiência imediata e não da experiência mediata. A experiência mediata proporciona ao indivíduo as informações ou o conhecimento relacionado com algo além dos elementos de uma experiência. É a forma usual de empregar a experiência para adquirir o conhecimento do nosso mundo. Por exemplo, quando olhamos uma rosa e dizemos "A rosa e vermelha", subentende-se que nosso interesse principal concentra-se na flor e não no fato de percebermos algo denominado "[cor] vermelha". Todavia a experiência imediata de visualizar a flor não está no objeto propriamente dito, e sim na experiência de perceber que alguma coisa é vermelha. Para Wundt, a expe­riencia imediata não sofre nenhum tipo de influência de interpretações pessoais, como a descrição da experiência de visualizar a cor vermelha da rosa em termos do obieto ou seja, da flor em si.

Do mesmo modo, ao descrevermos a sensação de desconforto provocada por uma dor de dente relatamos a nossa experiência imediata. No entanto, se apenas dissermos: "Estou com dor de dente", referimo-nos somente à experiência mediata.

Na perspectiva de Wundt, as experiências básicas humanas, como a percepção da cor vermelha ou a sensação de desconforto provocada pela dor, formam os estados da consciência (os elementos mentais) organizados de forma ativa pela mente. A proposta de Wundt consistia em analisar a mente com base nos seus elementos, nas partes componen­tes, exatamente do mesmo modo que os cientistas naturalistas trabalhavam para dividir o seu objeto de estudo, ou seja, o universo físico. A ideia da tabela periódica desenvolvi­da pelo químico russo Dimitri Mendeleev serviu de apoio para o objetivo de Wundt. Os historiadores sugeriram que talvez Wundt estivesse tentando desenvolver uma espécie de "tabela periódica" da mente (Marx e Cronan-Hillix, 1987).

O Método de Introspecção

Wundt descrevia a sua psicologia como a ciência da experiência consciente. Assim, o método da psicologia científica deve abranger as observações da experiência consciente. No entanto, somente o indivíduo que passa pela experiência é capaz de observá-la. Wundt estabeleceu que o método de observação devia necessariamente utilizar-se da introspec­ção, ou seja, do autoexame do estado mental. Ele se referia a esse método como percepção interna. Wundt não foi o criador do método da introspecção, que já existia no tempo de Sócrates. A inovação introduzida por ele consistia na aplicação do controle experimental preciso sobre as condições de execução da introspecção.

Na física, a introspecção foi utilizada para estudar a luz e o som; na fisiologia, foi apli­cada na pesquisa dos órgãos dos sentidos. Por exemplo, para obter informações sobre os sentidos, o pesquisador aplicava um estímulo e pedia ao indivíduo para descrever a sensação produzida. Esse procedimento é semelhante aos métodos de pesquisa psicofísicos emprega­ dos por Fechner. Quando as pessoas comparavam dois pesos e apontavam se algum era mais pesado, mais leve ou se ambos possuíam o mesmo peso, estavam passando pela experiência da introspecção, ou seja, estavam descrevendo as suas experiências conscientes.

A introspecção, ou percepção interna, praticada no laboratório de Wundt, na Univer­sity of Leipzig, obedecia a regras e condições estabelecidas por ele:

  • Os observadores devem ser capazes de determinar quando o processo será intro­duzido;
  • Os observadores devem estar em estado de prontidão e alerta;
  • Deve haver condições adequadas para se repetir várias vezes a observação;
  • Deve haver condições adequadas para se variar as situações experimentais em termos de manipulação controlada do estímulo.

A última condição remete à essência do método experimental: a variação das condi­ções das situações de estímulo e a observação das mudanças resultantes nas experiências descritas pelos indivíduos. Wundt acreditava que sua forma de introspecção, a percepção interna, permitia fornecer todos os dados básicos necessários para o estudo dos problemas de interesse da psicologia, assim como a percepção externa proporcionava os dados para as ciências como a astronomia e a química. Na percepção externa, o foco de observação encontra-se fora do observador, por exemplo, uma estrela ou a reação da mistura química no tubo de ensaio. Na percepção interna, o foco encontra-se dentro do observador, na sua experiência consciente.

O objetivo de realizar a percepção interna sob rígidas condições experimentais con­siste em produzir observações precisas, passíveis de repetição, da mesma forma que a percepção externa produz para as ciências naturais observações que podem ser repetidas separadamente por outros pesquisadores. A fim de atingir essa meta, Wundt insistia em treinar cuidadosa e rigorosamente os seus observadores para realizar corretamente as percepções internas. Exigia que eles completassem até 10 mil observações introspectivas individuais antes de considerá-los preparados para fornecerem dados significativos para o seu laboratório de pesquisa.

Submetidos a esse treinamento repetitivo e persistente, os indivíduos estariam aptos a realizar mecanicamente as observações e se tornariam rápidos e alertas em relação à expe­riência consciente sendo observada. Na teoria, os observadores treinados por Wundt não precisariam de pausa para pensar ou refletir sobre o processo (e possivelmente introduzir alguma interpretação pessoal) e seriam capazes de descrever a experiência consciente quase imediata e automaticamente. Assim, o intervalo entre os atos de observar e de relatar a experiência imediata seria mínimo.

Wundt praticamente não aceitava o tipo de introspecção qualitativa em que as pes­soas simplesmente descreviam suas experiências íntimas. A descrição introspectiva que buscava estava relacionada principalmente aos julgamentos conscientes sobre o tamanho, a intensidade, a duração de vários estímulos físicos, ou seja, o tipo de análise quantitativa da pesquisa psicofísica. Poucos estudos do laboratório de Wundt usaram relatos de natu­reza subjetiva ou qualitativa, como a percepção de prazer provocada por um estímulo, a intensidade de uma imagem ou a qualidade de uma sensação. A maioria das pesquisas de Wundt consistia em medições objetivas proporcionadas por equipamentos sofisticados de laboratório, muitas delas referentes a tempos de reação registrados quantitativamente. Depois de acumular os dados objetivos suficientes, Wundt extraía as deduções a respeito dos elementos e dos processos de experiência consciente.

Um historiador pesquisou o uso que Wundt fez de dados qualitativos e quantitativos. Ele verificou que "praticamente em quase todos os 180 estudos experimentais publicados entre 1883 e 1903, nos 20 volumes do Philosophische Studien [o primeiro periódico de Wundt, Philosophical Studies], só foram encontrados quatro que usam dados introspectivos qualitativos" (Danziger, 1980, p. 248).

Elementos da Experiência Consciente

Definidos o objeto de estudo e a metodologia para a nova ciência da psicologia, Wundt traçou suas metas:

  • analisar os processos conscientes, utilizando os seus elementos básicos;
  • descobrir como esses elementos eram sintetizados e organizados;
  • determinar as leis da conexão que regiam a organização dos elementos.

Sensações.

Wundt alegava ser a sensação uma das duas formas básicas de experiên­cia. A sensação surge sempre que um órgão do sentido é estimulado e os impulsos resul­tantes atingem o cérebro. Pode ser classificada pela intensidade, duração e modalidade do sentido.
Wundt não reconhecia nenhuma diferença fundamental entre a sensação e a imagem porque esta também está associada com a estimulação do córtex cerebral.

Sentimentos.

O sentimento é a outra forma elementar da experiência. A sensação e o sentimento são aspectos simultâneos da experiência imediata. O sentimento é o com­plemento subjetivo da sensação, embora não se origine diretamente de órgão do sentido. Sensações são acompanhadas de certas qualidades de sentimento; quando se combinam para formar um estado mais complexo, resultam na qualidade de sentimento.
Wundt propôs a teoria tridimensional do sentimento com base nas próprias observa­ções introspectivas. Trabalhando com um metrônomo (aparelho que pode ser programado para produzir cliques audíveis em intervalos regulares), notou que, após ouvir uma série de cliques, alguns padrões rítmicos eram mais prazerosos ou agradáveis do que outros. Concluiu que parte da experiência de qualquer padrão sonoro requer o sentimento subje­tivo do prazer ou desprazer (observe que o sentimento subjetivo ocorria ao mesmo tempo que as sensações físicas associadas com os cliques). Wundt sugeriu então que esse estado de sentimento poderia ser alocado em uma variação contínua desde o extremamente agradável até o extremamente desagradável.

Dando continuidade aos experimentos, Wundt observou um segundo tipo de senti­mento ouvindo os cliques do metrônomo: uma leve tensão ao antecipar cada som suces­sivo, seguida do alívio após o clique. Concluiu assim que, além do contínuo prazer/des­prazer, o sentimento possuía uma dimensão de tensão/relaxamento. Posteriormente, ao aumentar o intervalo dos cliques, sentiu-se suavemente excitado e, ao reduzi-lo, sentiu-se calmo e até um pouco deprimido.

Dessa forma, variando o intervalo do metrônomo e praticando a introspecção, des­crevendo as suas experiências conscientes imediatas (as próprias sensações e os próprios sentimentos), Wundt definiu as três dimensões independentes do sentimento: prazer/des­prazer, tensão/relaxamento e excitação/depressão. Cada sentimento básico era efetivamente descrito de acordo com a sua localização dentro do espaço tridimensional, ou seja, a sua posição em cada uma das dimensões.

Wundt considerava as emoções um composto complexo de sentimentos elementares e, se fosse possível destacá-los na grade tridimensional, as emoções poderiam ser reduzi­das a esses elementos mentais. Embora a teoria tridimensional do sentimento houvesse despertado o interesse para várias pesquisas em Leipzig e em outros laboratórios europeus da época, não resistiu ao teste do tempo.

A Organização dos Elementos da Experiência Consciente

Apesar da sua ênfase nos elementos da experiência consciente, Wundt reconheceu que, ao olharmos para os objetos do mundo real, nossa percepção é dotada de unidade ou de totalidade. Por exemplo, ao olharmos por uma janela, vemos uma árvore e não sensações individuais ou experiências conscientes de brilho, cor ou formato que os observadores treinados do laboratório descrevem como resultado de suas introspecções. Nossa experiên­cia visual do mundo real abrange a árvore inteira e não como sensações e sentimentos básicos constituintes da árvore.

Como as partes elementares compõem essa experiência consciente unificada? Wundt explicou o fenômeno por meio da sua doutrina da apercepção. O processo de organização dos elementos mentais formando uma unidade é uma síntese criativa (também conhecida como a lei das resultantes psíquicas) que cria novas propriedades mediante a mistura ou a combinação dos elementos. Wundt declarou: "Todo composto psíquico é dotado de carac­terísticas que de modo algum consistem na mera soma das características dos elementos" (Wundt, 1896, p. 375). Todos já ouvimos esta afirmação: a totalidade não é igual à soma das partes. Essa noção é disseminada pelos psicólogos da Gestalt (veja no Capítulo 12). A noção da síntese criativa possui a correspondente na química. A combinação dos elemen­tos químicos produz compostos ou resultantes com propriedades não encontradas nos elementos originais.

Para Wundt, a apercepção consiste em um processo ativo. Nossa consciência não atua apenas sobre sensações e sentimentos básicos que experimentamos. Ao contrário, a men­te atua nesses elementos de forma criativa para compor a unidade. Desse modo, Wundt não acreditava no processo da associação mecânica e passiva, defendido pela maioria dos empiristas e associacionistas britânicos.


Trecho sobre a Lei das Resultantes Psíquicas e o Princípio da Síntese Criativa, Extraído de Outline of Psychology (1896), de WIlhelm Wundt

A lei das resultantes psíquicas encontra sua expressão no fato de todo componente psíquico exibir atributos que são conhecidos, na verdade, por meio dos próprios atributos dos elemen­tos que o compõem após serem identificados; entretanto esses elementos não podem, de maneira alguma, ser considerados mera soma dos atributos. Na melodia composta, há mais atributos afetivos e ideacionais do que na mera soma dos tons. A organização temporal e espacial das ideias temporais e espaciais é certamente condicionada de forma perfeitamente regular por meio da cooperação dos elementos componentes da ideia, no entanto, ainda ass!m, o arranjo em si não pode, de forma alguma, ser considerado propriedade pertencente aos próprios elementos da sensação. As teorias nativistas afirmam ser essa noção contraditória  e insolúvel; e, além disso, na hipótese de admitirem a ocorrência de mudanças subsequentes nas percepções espaciais e temporais originais, estão definitivamente partindo para a aceita­ ção do surgimento, pelo menos parcial, de novos atributos.

Por fim, essa lei encontra a expressão de forma evidentemente reconhecível nas funções aperceptivas e nas atividades da imaginação e da compreensão. Os elementos unidos pela sín­tese aperceptiva não só ganham, na ideia agregada resultante das suas combinações, um novo significado antes inexistente no seu estado isolado, como também - e o que é mais importante - a própria ideia agregada consiste em novo conteúdo psíquico derivado certamente desses elementos e que de modo algum encontrava-se neles contido. Essa característica apresenta-se de forma mais evidente nas produções com maior complexidade da síntese aperceptiva, por exemplo, em uma produção artística ou em um exercício de lógica.

A lei das resultantes psíquicas expressa, assim, um princípio que podemos designar, em vista dos resultados, como princípio da síntese criativa. Esse princípio, há muito reconhecido nos casos de criações mentais superiores, em geral não é aplicado a outros processos psíqui­cos. Na verdade, por uma confusão injustificável com as leis da causalidade psíquica, ele tem sido interpretado até erroneamente.

Equívoco semelhante é responsável pela ideia de contradição existente entre o princípio da síntese criativa no universo mental e as leis gerais do mundo natural, especialmente em relação à conservação da energia. Essa contradição é injustificada porque as perspectivas para o julgamento e, consequentemente, para todas as mensurações nos dois casos são diferentes e devem sê-lo, já que a ciência natural e a psicologia não lidam com os conteúdos distintos da experiência, mas com um único e mesmo conteúdo observado de ângulos diferentes...

As mensurações físicas referem-se a massas, forças e energias objetivas, conceitos adicionais obrigatórios no julgamento da experiência objetiva, e, como as suas leis gerais são derivadas da experiência, não devem ser contraditas por nenhum caso de experiência. As mensurações físicas, que se referem à comparação dos componentes físicos e de suas resultantes, estão relacionadas com valores e resultados subjetivos. O valor subjetivo de uma unidade poce aumentar em compa­ração com seus componentes; o propósito da unidade pode ser diferente e superior ao dos seus componentes sem qualquer alteração nas massas, forças e energias envolvidas. Os movimentos
musculares de um ato de vontade externa, os processos físicos que acompanham a sensação-percepção, associação e apercepção obedecem invariavelmente ao princípio da conservação da energia. Todavia, os valores e as finalizações que essas energias representam podem ser muito diferentes em quantidade, até mesmo quando a quantidade dessas energias permanece a mesma.


O Destino da Psicologia de Wundt na Alemanha

Embora a psicologia wundtiana tenha se espalhado rapidamente, não transformou de ime­diato nem completamente a natureza da psicologia acadêmica na Alemanha. No período de Wundt - na realidade, já em 1941, duas décadas após a sua morte —a psicologia nas universidades alemãs ainda consistia em uma área de especialização da filosofia. Esse fato, em parte, dava-se em virtude da resistência de alguns psicólogos e filósofos em separar a psicologia da filosofia e também a um fator contextual importante: os órgãos governamen­tais responsáveis pela criação das universidades não enxergavam nenhum valor prático na psicologia para garantir a alocação de recursos para o estabelecimento de departamentos acadêmicos e laboratórios independentes.

Em 1912, quando a Sociedade de Psicologia Experimental realizou um encontro em Berlim, os psicólogos pressionaram formalmente o governo para obter mais verba. Em res­posta, o prefeito de Berlim declarou que, primeiro, precisava ver os resultados práticos das pesquisas psicológicas. A mensagem foi clara: "Se a psicologia deseja obter mais verba, seus representantes devem provar a sua aplicabilidade para a sociedade" (Ash, 1995, p. 45).

A dificuldade estava no fato de a psicologia de Wundt concentrar-se na descrição e na organização dos elementos da consciência, não sendo, assim, apropriada para a solução dos problemas do mundo real. Talvez seja essa uma das razões de ela não ter criado raízes na atmosfera pragmática dos Estados Unidos. Wundt considerava a psicologia uma ciência puramente acadêmica e não se interessava em aplicá-la às questões práticas.

Desse modo, apesar da sua aceitação nas universidades de vários países, a evolução da psicologia wundtiana, como ciência distinta, foi relativamente lenta na própria Alemanha. Por volta de 1910, 10 anos antes da morte de Wundt, existiam três publicações especializadas em psicologia na Alemanha, além de diversos livros e laboratórios de pesquisa. No entanto, apenas quatro estudiosos constavam nas listas oficiais como psicólogos e não como filósofos. Por volta de 1925, apenas 25 pessoas na Alemanha intitulavam-se psicólogos e somente em 14 das 23 universidades havia departamentos de psicologia independentes (Turner, 1982).

Nesse mesmo período nos Estados Unidos, havia muito mais psicólogos e departamen­tos de psicologia. O conhecimento e as técnicas de psicologia estavam sendo aplicados aos problemas práticos, na economia e na educação. Ainda assim, deveríamos reconhe­cer que a origem para pensar o campo da psicologia nos Estados Unidos era derivada do pensamento de Wundt.

As Críticas à Psicologia de Wundt

A posição de Wundt, assim como a de qualquer outro inovador, estava sujeita a críticas. Especialmente vulnerável era o método da percepção interna ou da introspecção. Os crí­ticos questionavam: quando a introspecção realizada por diferentes observadores produz resultados distintos, como saber qual é o resultado correto? As experiências realizadas com o uso da técnica de introspecção nem sempre produzem o mesmo resultado, já que se trata de uma auto-observação - é definitivamente uma experiência particular. Assim, as divergências não podem ser dirimidas mediante a repetição das observações. Wundt reconhecia essa falha mas acreditava na possibilidade de aprimorar o método, submeten­do os observadores a mais treinamento e experiência.

As opiniões políticas de Wundt também eram alvo de críticas e podem ser a explica­ção para a afirmação de um historiador ao descrever "o declínio precipitado da psicologia wundtiana entre as duas grandes guerras [1918-1939], (...) A maior parte do conteúdo das pesquisas e dos trabalhos de Wundt simplesmente desapareceu nos ambientes de língua inglesa" (Blumenthal, 1985, p. 44). Os estudiosos creditavam o seu declínio às declarações francas de Wundt a respeito da Primeira Guerra Mundial. Ele considerava a Inglaterra culpada por iniciar a guerra e defendia a invasão da Bélgica pela Alemanha como uma forma de autodefesa. Essas declarações ... fizeram com que os psicólogos estadunidenses se voltassem contra Wundt e sua psicologia (in Benjamin, Dcrkín. Link, Vestal, Acord, 1992; Sanua, 1993).

Sua posição política também pode ter lhe custado o Prêmio Nobel. Wundt havia sido indicado duas vezes antes, em 1907 e 1909, e em 1915 foi um dos seis finalistas. Embora fosse  "o psicólogo mais conhecido do mundo na época, e uma pessoa de consideráveis realizações" ele não ganhou (Benjamin, 2003, p. 735). A Primeira Guerra Mundial estava no seu segundo ano sangrento, e o sentimento contra os alemães era forte.

A defesa algumas vezes cáustica da sua terra natal pode muito bem ter contribuído para que fosse rejeitado ao prêmio.

O sistema de Wundt também enfrentou a concorrência crescente nos países de língua alemã após a Primeira Guerra Mundial. Nos anos finais da sua vida, duas outras escolas de pensamento surgiram na Europa, obscurecendo a sua visão: a psicologia da Gestalt, na Alemanha, e a psicanálise, na Áustria. Nos Estados Unidos, o funcionalismo e o behaviorismo encobriram a abordagem wundtiana.

Além disso, as forças contextuais econômicas e políticas vigentes contribuíram para o desaparecimento do sistema wundtiano na Alemanha. Com o colapso econômico após a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, as universidades ficaram falidas. A University of Leipzig não possuía verbas nem para a aquisição dos livros mais recentes de Wundt para a biblioteca. O laboratório de Wundt, onde ele orientou a primeira geração de psicólogos, foi destruído durante um bombardeio de estadunidenses e ingleses em 4 de dezembro de 1943. Assim, a natureza, o conteúdo, a forma e até mesmo o lar da psicologia wundtiana se perderam.

A Herança de Wundt

O ato de instalação do primeiro laboratório de psicologia exigia uma pessoa com vasto conhe­cimento da fisiologia e da filosofia contemporâneas e com capacidade para sintetizar efetiva­mente as ideias e os métodos dessas disciplinas. Para Wundt cumprir a meta de fundar uma nova ciência, teve de rejeitar o pensamento não-científico do passado e eliminar as relações intelectuais entre a nova psicologia científica e a antiga filosofia mental. Ao restringir o obje­to de estudo da psicologia à experiência consciente e definir a disciplina como uma ciência baseada na experiência, Wundt conseguiu evitar discussões sobre a imortalidade da alma e as suas relações com a mortalidade do corpo. Ele apenas alegava enfaticamente que a psicologia não lidava com essas questões e essa afirmação foi um grande passo adiante.

Wundt, conforme anunciou que o faria, deu início a um novo domínio da ciência e conduziu pesquisas no laboratório que instalara exclusivamente para esse fim. Publicou os resultados na sua própria revista e tentou desenvolver uma teoria sistemática da natureza da mente humana. Alguns de seus alunos deram continuidade ao trabalho, criando labo­ratórios para prosseguir com as experiências relacionadas com as questões estabelecidas por ele e empregando as suas técnicas. Desse modo, Wundt proporcionou à psicologia todos os acessórios de uma ciência moderna.

Notadamente, a época estava preparada para o movimento wundtiano em consequên­cia do amadurecimento natural do desenvolvimento das ciências psicológicas, especial­mente nas universidades alemãs. Todavia, o fato de o trabalho de Wundt não consistir na origem desse movimento, e sim no seu ponto culminante, não reduz a sua importância. A fundação da psicologia exigiu extrema dedicação e coragem para a concretização do movimento. Os resultados de seus esforços representam uma conquista tão extraordiná­ria que Wundt merece ocupar uma posição de destaque entre os psicólogos do período moderno. Uma pesquisa conduzida por 49 historiadores estadunidenses de psicologia, 70 anos após a sua morte, relevou que ele ainda era considerado o psicólogo mais importante de todos os tempos, uma constatação honrosa para um estudioso cujo sistema já havia sido esquecido há muito tempo (Korn, Davis, e Davis, 1991).

O fato de a maior parte da história da psicologia pós-Wundt consistir de posições contrárias às limitações por ele impostas para a área não desvaloriza as suas brilhantes contribuições. Ao contrário, enaltece ainda mais a sua grandeza. As contestações devem ter algum alvo, algo a ser rebatido, e o trabalho de Wundt, sendo esse alvo, proporcionou um início magnífico e convincente para a moderna psicologia experimental.

Outros Tendências da Psicologia Alemã

Wundt deteve o monopólio da nova psicologia por pouco tempo. A ciência também começava a florescer em outros laboratórios alemães. Embora Wundt fosse obviamente o mais importante organizador e sistematizador dos primeiros passos da psicologia, outras figuras também exerceram influência na evolução inicial da área. Os pesquisadores que não concordavam com o ponto de vista de Wundt propunham ideias diferentes, embora todos estivessem comprometidos com uma empreitada comum: a expansão da psicologia como ciência. O trabalho desses psicólogos, aliado ao de Wundt, transformou a Alemanha indiscutivelmente no centro do movimento.

Os acontecimentos na Inglaterra dariam à psicologia uma temática e uma direção radicalmente diferentes. Charles Darwin apresentava a teoria da evolução e Francis Galton começava a trabalhar com a psicologia das diferenças individuais. Ao chegarem aos Esta­dos Unidos, essas ideias exerceram um impacto ainda maior sobre o rumo da psicologia do que o trabalho pioneiro de Wilhelm Wundt.

Além disso, os primeiros psicólogos estadunidenses, muitos dos quais formados sob a orientação de Wundt, em Leipzig, retornaram aos Estados Unidos e transformaram a psicologia wundtiana em algo tipicamente estadunidense. Esse assunto será abordado mais adiante, mas a questão principal neste momento é que, logo depois da sua fundação, a psicologia se dividiu em facções, e rapidamente a abordagem de Wundt tornou-se apenas mais uma delas.

Hermann Ebbinghaus (1850-1909)

Apenas alguns anos após Wundt afirmar ser impossível conduzir experiências com os processos mentais superiores, um psicólogo alemão que trabalhava sozinho, isolado de qualquer centro acadêmico de psicologia, começou a obter êxito nas experiências com esses processos. Hermann Ebbinghaus tornou-se o primeiro psicólogo a pesquisar expe­rimentalmente a aprendizagem e a memória. Desse modo, não apenas demonstrou que Wundt estava errado a respeito daquela questão, como também mudou a forma de estudo da associação e do aprendizado.

A Biografia de Ebbinghaus

Ebbinghaus nasceu nas proximidades de Bonn, na Alemanha, em 1850, realizou os estudos universitários inicialmente na University of Bonn e depois em Halle e Berlim. Durante a  formação acadêmica, seus interesses dividiam-se entre história, literatura e filosofia, tendo se formado nesta em 1873 e, em seguida, servido o exército na guerra Franco-Prussiana. Dedicou sete anos a estudos independentes na Inglaterra e na França, onde os seus inte­resses mudaram novamente, dessa vez voltando-se para a ciência.

Três anos antes de Wundt estabelecer o laboratório de Leipzig, Ebbinghaus havia adquirido, em uma livraria de Londres, uma cópia usada da importante obra de Fechner, Elements of psychophysics. Esse acontecimento casual afetou profundamente o seu pensa­mento e acabou influenciando também a direção da nova psicologia.

O tratamento matemático dado por Fechner ao fenômeno psicológico foi uma revelação instigante para Ebbinghaus, que resolveu aplicar na psicologia a metodologia empregada por Fechner na psicofísica: as medições sistemáticas e rígidas. Seu objetivo era simplesmen­te aplicar o método experimental aos processos mentais superiores. Muito provavelmente influenciado pela popularidade do trabalho dos associacionistas britânicos, Ebbinghaus optou por realizar essa importante pesquisa na área da aprendizagem humana.

Pesquisa sobre Aprendizagem

Antes do trabalho de Ebbinghaus, a maneira mais comum de estudar a aprendizagem era examinando as associações já formadas. Essa era a abordagem dos associacionistas britânicos. De certo modo, os pesquisadores trabalhavam no sentido inverso, tentando determinar como as ligações haviam sido estabelecidas.

O enfoque de Ebbinghaus era diferente: ele começava a análise com a formação inicial das associações. Dessa forma era possível controlar as condições sob as quais a cadeia de ideias se formava, o que tornava o estudo da aprendizagem mais objetivo.

O trabalho de Ebbinghaus a respeito da aprendizagem e do esquecimento acabou sendo considerado um exemplo de genialidade e originalidade da psicologia experimental. Foi o primeiro trabalho a tratar de um problema que fosse verdadeiramente psicológico e não fisiológico, como eram muitos dos tópicos da pesquisa de Wundt. Dessa forma, a pesquisa revolucionária de Ebbinghaus ampliou consideravelmente o escopo da psicologia expe­rimental. Como vimos anteriormente, a aprendizagem e a memória nunca haviam sido alvos de estudo experimental. Wundt afirmava categoricamente não ser possível estudá-las experimentalmente. Ebbinghaus começou a fazê-lo, embora não ocupasse nenhuma posição acadêmica, não estivesse em um ambiente universitário para conduzir o trabalho e não contasse com o auxílio de professores e alunos, nem de um laboratório. Entretanto, em um período de cinco anos, realizou por conta própria uma série de estudos bastante abrangentes e cuidadosamente controlados, sendo ele mesmo a fonte de sua pesquisa.

Para a medição básica da aprendizagem, Ebbinghaus adaptou uma técnica adota­da pelos associacionistas, cuja proposta afirmava ser a frequência de associações uma condição necessária para a lembrança. Ebbinghaus acreditava ser possível medir, por meio da frequência, a dificuldade de assimilação de um conteúdo - pela contagem do número de repetições necessárias para a perfeita reprodução do material. Percebemos aqui a influência de Fechner, que realizava a medição das sensações de forma indireta, mensurando a intensidade de estímulo necessária para produzir uma diferença míni­ma perceptível na sensação. Ebbinghaus tratou do problema da medição da memória de forma similar, contando o número de tentativas ou de repetições necessárias para a aprendizagem do material.

Como material para a aprendizagem, Ebbinghaus preparou uma lista de sílabas seme­lhantes, mas não idênticas. Ele repetia a tarefa quantas vezes fossem necessárias até se sentir seguro da exatidão do resultado. Assim, cancelava os erros variáveis de cada tentativa e obtinha uma medição média. Era tão sistemático em relação à experiência que mantinha com rigidez a regularidade dos seus hábitos pessoais, obedecendo a uma rotina invariável, estudando o material todos os dias, sempre no mesmo horário.

Pesquisa com Sílabas sem Sentido

Para utilizar como objeto de estudo da sua pesquisa - o material a ser aprendido -, Ebbinghaus inventou o que ficou conhecido como as sílabas sem sentido, revolucionando o estudo da aprendizagem. E. B. Titchener vaja o (Capítulo 5), aluno de Wíndut, observou que o uso das sílabas sem sentido marcou o primeiro avanço importante na área desde a época de Aristóteles.

Ebbinghaus buscava palavras diferentes das do dia-a-dia como objeto de estudo, porque percebera a dificuldade da utilização de estórias ou poesias como material de estímulo. As pessoas familiarizadas com a língua já carregam consigo os significados e as associações das palavras, e essas ligações podem facilitar a aprendizagem do material. Como essas conexões já estão presentes no momento da experiência, não podem ser controladas pelo pesquisador. Ebbinghaus desejava utilizar material uniforme que não contivesse associações e que fosse totalmente homogêneo e igualmente não familiar - material que tivesse poucas associações já estabelecidas. As sílabas sem sentido que ele criou, tipicamente formadas por duas consoantes intercaladas com uma vogal (como lef, bok ou yat), satisfaziam esses critérios. Escreveu em cartões todas as combinações possí­veis de consoantes e vogais, produzindo 2.300 sílabas, das quais extraía aleatoriamente o material de estímulo a ser aprendido.

Informações históricas fornecidas posteriormente por um psicólogo alemão - que leu todas as notas de rodapé das publicações e dos trabalhos de Ebbinghaus referentes às suas experiências, comparando as traduções em inglês com os originais em alemão - apresen­tam-nos uma nova interpretação para as sílabas sem sentido (Gundlach, 1986). Elas nem sempre eram limitadas a apenas três letras e não eram necessariamente sem sentido.

Essa análise meticulosa dos dados históricos, nesse caso usando os próprios escritos de Ebbinghaus, revelou que algumas sílabas compreendiam quatro, cinco ou seis letras. E, o que é mais importante, o objeto de pesquisa que Ebbinghaus denominava “série sem sentido de sílabas" foi traduzido incorretamente para o inglês como uma "série de sílabas sem sentido". Para Ebbinghaus, não eram as sílabas individuais que não deveriam ter sen­tido (embora muitas não tivessem), mas toda a lista de palavras, formada deliberadamente para não conter conexões nem associações anteriores.

Essa reinterpretação dos escritos de Ebbinghaus também revelou que ele era tão fluente em inglês e francês quanto em alemão, além de ter estudado latim e grego, o que mostra a dificuldade enfrentada na criação de sílabas que não tivessem absolutamente nenhum sentido para ele. O pesquisador concluiu: "O inútil esforço em obter a sílaba totalmente sem sentido e completamente livre de associações é uma tarefa para alguns dos seguidores [de Ebbinghaus]" (Gundlach, 1986, p. 469-470).

Ebbinghaus planejou diversos experimentos usando a sua série sem sentido de sílabas para determinar a influência das várias condições experimentais sobre a aprendizagem e a retenção humanas. Uma das pesquisas investigou a diferença entre a velocidade de memo­rização das listas de sílabas e a de memorização daquelas com significados mais aparentes. Para determinar a diferença, Ebbinghaus memorizou estrofes do poema "Dom Juan”, de Byron. Cada estrofe compreendia 80 sílabas, e Ebbinghaus acreditava serem necessárias aproximadamente nove leituras para a memorização de cada uma. Em seguida, memori­zou uma sequência sem sentido de 80 sílabas e constatou que essa tarefa exigia cerca de 80 repetições. Concluiu que a aprendizagem de material sem sentido e sem associações é aproximadamente nave-vezes mais difícil que a de conteúdo conhecido.

Ele tainbém estudou o efeito do tamanho do material a ser aprendido sobre o número de repetições necessário para obter uma reprodução perfeita. Constatou que, quanto mais longo o material a ser estudado, mais repetições eram necessárias e, consequentemente, mais tempo para a aprendizagem. Quando aumentou o número de sílabas a serem apren­didas, o tempo médio de memorização de uma sílaba também foi maior. É claro que, esses resultados eram previsíveis: quanto maior a quantidade de material a ser estudado, mais tempo se levava para aprender. A importância do trabalho de Ebbinghaus consiste no controle meticuloso das condições experimentais, na análise quantitativa dos dados e na conclusão de que o tempo de aprendizagem de uma sílaba - assim como o tempo total da aprendizagem - aumenta quanto mais extensa a lista de sílabas.

Ebbinghaus estudou ainda outras variáveis que acreditava influenciarem a aprendiza­gem e a memória, por exemplo,  o efeito da superaprendizagem (a repetição das listas por mais-tempo do que o necessário para obter a reprodução perfeita), as associações existentes nas listas, a revisão do material e o intervalo decorrido entre a aprendizagem e a lembrança. Com a pesquisa sobre o efeito do tempo, produziu a famosa curva do esquecimento de Ebbinghaus, que demonstra que o material é esquecido rapidamente nas primeiras horas após a aprendizagem e mais lentamente depois disso (veja a Figura 4.1).

Curva do esquecimento de Ebbinghaus

Em 1880, Ebbinghaus foi indicado para ocupar uma posição acadêmica na University of Berlin, onde prosseguiu com a sua pesquisa, repetindo e verificando seus estudos ante­riores. Publicou os resultados das pesquisas no livro intitulado On memory: a contribution to experimental psychology (1885), que pode ser considerada a pesquisa mais brilhante rea­lizada por um único estudioso na história da psicologia experimental. Além de inaugurar um novo campo de estudo, importante até hoje, seu programa de pesquisas é um exemplo de habilidade técnica, perseverança e engenhosidade. Não se tem notícia, na história da psicologia, de qualquer outro pesquisador que tenha trabalhado sozinho e se submetido
a um regime de experimentação tão rigoroso. Sua pesquisa foi tão precisa, completa e sis­temática que continua a ser mencionada nos livros atuais de psicologia, depois de mais de um século.

Outras Contribuições de Ebbinghaus à Psicologia

Em 1890, Ebbinghaus e o físico Arthur König lançaram a revista intitulada Journal of Psychology and Physiology of the Sense Organs. A nova revista foi bem recebida na Alemanha, pois a publicação de Wundt, o primeiro meio de divulgação dos trabalhos de pesquisa do laboratório de Leipzig, não dava mais conta de todo o trabalho produzido. A necessidade de uma nova publicação, apenas nove anos após o lançamento da revista de Wundt, é um testemunho importante do fenômeno do crescimento tanto da dimensão como da diversificação da psicologia.
Em sua primeira edição, Ebbinghaus e König deram destaque às duas disciplinas que emprestaram o nome ao título da publicação: psicologia e fisiologia. Essas áreas "têm con­ sequentemente crescido juntas (...) para formar um todo; elas promovem e pressupõem uma a outra, assim, constituem dois membros de igual importância de uma grande dupla ciência" (apud Turner, 1982, p. 151). Essa declaração, apenas 11 anos após Wundt instalar o seu laboratório experimental, também demonstra quão longe a ideia de Wundt sobre psicologia como uma ciência havia chegado.

Ebbinghaus não obteve qualquer outra promoção na University of Berlin, aparentemen­te porque não publicou mais nenhum trabalho. Em 1894, aceitou um cargo na University of Breslau, onde permaneceu até 1905, quando se transferiu para a University of Halle. Desenvolveu um exercício de completar sentenças, sempre considerado o primeiro teste bem-sucedido sobre os processos mentais superiores. Uma forma modificada dessa tarefa é utilizada em testes modernos de habilidade cognitiva.

Em 1902, Ebbinghaus lançou um livro de sucesso, The principles of psychology, dedicado à memória de Fechner, e em 1908 publicou A summary of psychology, voltado ao público mais leigo. Os dois livros tiveram várias edições e, após sua morte por pneumonia, em 1909, foram revisados por outros escritores.

Entre as contribuições de Ebbinghaus não consta nenhuma teoria, sistema formal ou disciplina. Ele não fundou nenhuma escola, nem parecia ser essa a sua intenção. No entanto, ele é importante não apenas no estudo da aprendizagem e da memória, ao qual deu início, como também na psicologia experimental como um todo.

Uma medida do valor histórico geral do cientista é dada pelo tempo durante o qual resiste a sua contribuição. Seguindo esse parâmetro, Ebbinghaus pode ser considerado um cientista de maior importância do que Wundt. Sua pesquisa proporcionou objetividade, quantificação e experimentação para o estudo da aprendizagem, tópico que continuou  central na psicologia do século XX. Graças à visão e à dedicação de Ebbinghaus, as pes­quisas relacionadas com a associação deixaram de basear-se em mera especulação sobre os seus atributos e passaram à investigação científica formal. Mais de um século depois, muitas das suas conclusões a respeito da natureza da aprendizagem e da memória ainda permanecem válidas.

Franz Brentano (1838-1917)

Com cerca de 16 anos, Franz Brentano iniciou os estudos para o sacerdócio. Frequentou as universidades de Berlim, Munique e Tübingen, na Alemanha, e formou-se em filosofia em Tübingen, em 1864. Foi ordenado nesse ano e dois anos mais tarde começou a lecionar filosofia na University of Würzburg, onde também escrevia e ministrava aulas a respeito do trabalho de Aristóteles. Em 1870, o Concílio do Vaticano, reunido em Roma, aceitou a doutrina da infalibilidade papal, ideia à qual Brentano se opôs. Renunciou ao cargo de professor a que havia sido indicado como padre e deixou a igreja.

O livro mais famoso de Brentano, Psychology from an empirical standpoint, foi publicado em 1874, ano do lançamento da segunda parte da obra de Wundt, Principies of physiological psychology. A publicação de Brentano contradizia diretamente as visões de Wundt, confirmando a divergencia já aparente na nova psicologia. Naquele mesmo ano, Brentano foi indicado para ser professor de filosofia da University de Vienna. Permaneceu na Áustria por 20 anos e sua influência aumentou consideravelmente. Professor popular, muitos de seus alunos acabaram destacando-se na psicologia e entre os mais brilhantes estão Christian von Ehrenfels e Sigmund Freud. Freud fez cinco cursos com Brentano e posteriormente se referiu a ele como um "gênio" e "uma pessoa incrivelmente esperta" (Gay, 1988, p. 29). Em 1894, Brentano aposentou-se como professor, mas continuou estudando e escrevendo, dividindo o tempo entre a Suíça e a Itália.

Brentano é considerado um dos mais importantes psicólogos do início da disciplina por causa da diversificação de seus interesses. Foi precursor intelectual das escolas da psicologia da Gestalt e da psicologia humanista, além de ter compartilhado com Wundt a ideia de transformar a psicologia em ciência. Enquanto a psicoIopia de Wundt era experimental, a de Brentano era empirista. Embora não rejeitasse totalmente o experimenta­lismo, Brentano considerava a observação, e não a experimentação, o principal método da psicologia. Acreditava que a abordagem empirista caracterizava-se por um escopo geralmente mais amplo, já que aceitava, além dos dados da observação e da experiência individual, os da experimentação.

O Estudo dos Atos Mentais

Brentano, se opunha à ideia de Wundt de que a psicologia devia estudar o conteúdo da experiência consciente. Seu argumento era que o próprio objeto de estudo da psicologia é a atividade mental, por exemplo, o ato mental de ver, e não o conteúdo mental do que é visto. Desse modo, a psicologia do ato de Brentano contestava a noção wundtiana de que os processos mentais envolvem conteúdo ou elementos.

Ele afirmava que uma distinção devia ser feita entre a experiência como uma estrutu­ra e a experiência como uma atividade. Por exemplo, ao olhar para uma flor vermelha, o conteúdo sensorial do objeto vermelho é diferente do ato de perceber ou sentir a vermelhi­dão. Para Brentano, o ato de perceber a cor vermelha é um exemplo do verdadeiro objeto de estudo da psicologia. Declarou que a cor consiste em uma qualidade física, mas o ato de ver a cor é uma qualidade ou atividade mental. É evidente que o ato envolve necessa­riamente um objeto; sempre deve haver algum conteúdo sensorial, pois o ato de ver não tem o menor sentido sem a presença do elemento a ser visualizado.

A redefinição de Brentano acerca do objeto de estudo da psicologia exigiu um método de análise diferente, já que o ato, ao contrário do conteúdo sensorial, não é acessível por meio da introspecção, método de percepção interna que Wundt e seus alunos estavam utilizando no laboratório de Leipzig. O estudo dos atos mentais exigia uma observação em larga escala. Essa é a razão da preferência de Brentano pelos métodos mais empiristas do que experimentais para a psicologia do ato. Sua proposta não era o retorno à filosofia especulativa. É importante lembrarmos que, apesar de não ser experimental, o método de Brentano dependia da observação sistemática.

Brentano aperfeiçoou duas formas de estudo dos atos mentais:

  1. por meio do uso da memória (a lembrança dos processos mentais envolvidos em um determinado estado mental);
  2. por meio do uso da imaginação (imaginando um estado mental e observando os processos mentais que ocorrem).

Embora a posição de Brentano atraísse um grupo de seguidores, a psicologia wundtiana continuava a ter destaque. Por lançar mais publicações do que Brentano, a posição de Wundt era mais conhecida. Além disso, os psicólogos admitiam ser mais fácil estudar as sensações ou o conteúdo consciente com os métodos da psicofísica do que usando a observação para analisar os atos mais evasivos.

Carl Stumpf (1848-1936)

Nascido em uma família de médicos na Bavária, Carl Stumpf tomou contato com a ciência muito cedo, mas desenvolveu grande interesse pela música. Aos 7 anos, começou a estudar violino e acabou aprendendo a tocar perfeitamente outros cinco instrumentos e, aos 10 anos, já compunha. Quando frequentou a University of Würzburg, interessou-se pelo trabalho de Brentano e concentrou a atenção na filosofia e na ciência. Por recomendação de Brentano, Stumpf cursou a University of Gõttingen, onde obteve o doutorado em 1868. Ocupou várias posições acadêmicas nos anos seguintes enquanto realizava seu trabalho na nova psicologia.

Em 1894, foi indicado para ocupar a mais alta e honrosa posição como professor de psicologia da Alemanha, na University of Berlin. Os anos nessa universidade foram extremamente produtivos. Conseguiu transformar seu laboratório original, composto de três pequenas salas, em um grande e importante instituto. Embora seus trabalhos não abrangessem o mesmo escopo dos de Wundt, foi considerado seu maior rival. Stumpf foi professor de dois psicólogos que viriam a fundar a psicologia da Gestalt (Capítulo 12) uma escola de pensamento que se opôs às visões de Wundt.

Os primeiros trabalhos produzidos por Stumpf eram a respeito da percepção espacial, no entanto seu trabalho de maior impacto, resultado do seu eterno interesse pela musica, foi Psychology of tone, publicado em dois volumes (1883 e 1890). Esse trabalho e os posteriores, relacionados, com a música, renderam-lhe a segunda posição no campo da acústica, perdendo apenas para Helmholtz, e ambos foram considerados pioneiros no estudo psicológico da música.

A Fenomenologia

A influencia de Brentano explica por que Stumpf aceitava o tratamento não tão rigoroso da Psicologia quanto Wundt acreditava ser necessário. Stumpf alegava serem os fenômenos mentais mais importantes para apsicologia. A fenomenologia, tipo de introspecção defendida por Stumpf, refere-se ao exame da experiência imparcial, ou seja, a experiência tal qual ela ocorre. Ele discordava da posição de Wundt de dividir a experiência em elementos. A creditava que analisar a experiência mediante a redução em conteúdo ou elementos mentais acabava tornando-a artificial e abstrata e a levava a deixar de ser natural.

Em uma série de publicações, Stumpf e Wundt travaram uma balalha dura a respeito da introspecção dos tons. Stumpf iniciou o debate no nível teórico, mas Wundt levou-o para o lado pessoal, apimentando as polêmicas com "denúncias contundentes" (Stumpf, 1930/1961, p. 441). As discussões giravam em torno de algumas questões básicas de quem eram os relatos introspectivos de maior credibilidade? Nos relatos das experiências musi­cais, devemos aceitar os resultados dos observadores altamente treinados do laboratório de Wundt ou dos músicos especializados de Stumpf? Stumpf simplesmente se recusou a aceitar os resultados do laboratório de Wundt.

Stumpf continuou a escrever sobre música e acústica e, nesse período, estabeleceu um centro para a coleta de gravações de músicas originárias de vários países do mundo. Fundou a Berlin Association for Child Psychology (Associação de Psicologia Infantil de Berlim) e publicou a teoria da emoção, que tentava reduzir os sentimentos a sensações, ideia importante para as teorias cognitivas contemporâneas da emoção. Assim, Stumpf foi um dos vários psicólogos alemães a trabalhar independentemente de Wundt para expandir as fronteiras da psicologia.

Oswald Külpe (1862-1915)

Inicialmente, Oswald Külpe foi seguidor de Wundt, mas acabou liderando um protesto estudantil contra o que chamou de limitações da psicologia wundtiana. Külpe dedicou toda a sua carreira a trabalhar com os problemas ignorados pela psicologia de Wundt.

Em 1881Külpe iniciou os estudos na University of Leipzig. Planejava estudar história, mas, por influência de Wundt, passou para a filosofia e para a psicologia experimental, a qual ainda estava dando os passos iniciais. Depois de se formar, tornou-se professor adjunto e assistente de Wundt, realizando pesquisas no laboratório de psicologia. Um aluno chamou-o de uma "espécie de mãe" do laboratório porque estava sempre disposto a ajudar os estudantes a resolverem os problemas (Kiesow, 1930/1961, p. 167).

Külpe escreveu um manual introdutório, Outline of psychology (1893) e dedicou-o a Wundt. No livro, definia a psicologia como a ciência dos fatos da experiência dependen­tes do indivíduo que a vivência.

Em 1894, Külpe aceitou o cargo de professor da University of Würzburg e dois anos mais tarde implementou um laboratório de psicologia que logo rivalizaria em importância com o de Wundt. Entre os estudantes atraídos a Würzburg estavam diversos estadunidenses, incluindo James Rowland Angell, que se tornou o pivô do desenvolvimento da escola de pensamento funcionalista (veja Capítulo 7). Külpe dedicou-se a vida toda aos alunos e às pesquisas. Nunca se casou e tinha orgulho de dizer que "a minha noiva é a ciência" (apud Ogden, 1951, p. 4).

Divergências entre Külpe e Wundt

Em Outline of psychology, Külpe não questionou o processo de pensamento, pois concordava com a visão de Wundt sobre a impossibilidade da análise experimental dos processos mentais superiores. Entretanto, apenas alguns anos depois, Külpe convenceu-se do contrário. Afinal, Ebbinghaus estava estudando a memória, outro processo mental superior. Se a memória era passível de análise em laboratório, por que não o pensamento? Ao formular essa pergunta, obviamente Külpe estava desafiando a definição de Wundt acerca do escopo da psicologia.

A Introspecção Experimental Sistemática

Outra diferença entre a psicologia praticada em Würzburg e em Leipzig refere-se à intros­pecção. Külpe desenvolveu um método que chamou de introspecção experimental sis­temática, que envolvia, primeiro, a execução de uma tarefa complexa (como estabelecer conexões lógicas entre conceitos) e, em seguida, a coleta dos relatos individuais sobre os processos cognitivos ocorridos durante a realização da tarefa. Em outras palavras, as pes­soas realizavam alguns processos mentais, como o pensamento ou o julgamento, e depois examinavam como haviam pensado e julgado. Wundt não permitia em seu laboratório o  uso dessa descrição retrospectiva ou após o fato. Ele analisava a experiência consciente à medida que ela ocorria e não a lembrança do fato ocorrido. Decepcionado com a meto­dologia de Külpe, chamou-a de "falsa" introspecção.

A abordagem-de Külpe era sistemática porque a experiência total podia ser descrita precisamente pela sua divisão em períodos de tempo. As tarefas semelhantes eram repeti­das diversas vezes, de modo que permitissem a correção, a confirmação e a ampliação dos relatos introspectivos, os quais eram normalmente complementados com mais perguntas, dirigindo a atenção do indivíduo a pontos específicos.

Outras diferenças existiam entre as abordagens introspectivas de Külpe e de Wundt, o qual não concordava com o método de os indivíduos descreverem em detalhes suas experiências conscientes subjetivas. A maior parte da sua pesquisa concentrava-se nas medições objetivas e quantitativas, como o tempo de reação ou a percepção do peso na pesquisa psicofísica. Entretanto, a introspecção experimental sistemática de Külpe dava ênfase aos relatos individuais detalhados, qualitativos e subjetivos acerca da natureza dos processos de pensamento. Külpe desejava dos participantes da sua pesquisa mais do que um simples julgamento da intensidade do estímulo. Ele lhes pedia para descreverem as operações mentais complexas realizadas durante a execução da tarefa.

É possível perceber que, na introspecção experimental sistemática de Külpe, o pesqui­sador assumia um papel mais, ativo no processo de pesquisa. No laboratório de Wundt, o envolvimento do pesquisador limitava-se à apresentação do material de estímulo e ao registro dos resultados das observações. Portanto, os pesquisadores de Wundt não interfe­riam nas observações em si. No entanto, na abordagem de Külpe, os pesquisadores faziam perguntas diretas aos observadores, tentando explicitar os detalhes das suas reações aos estímulos experimentais.

Esse tipo de questionamento exigia dos observadores um trabalho árduo para des­creverem cuidadosamente e com precisão os fatos mentais complexos que vivenciavam. Külpe desejava obter mais informações do que somente as referentes ao tempo de reação, à percepção de peso ou outras medições quantitativas. Um historiador chegou a afirmar que, na verdade, Külpe estava expandindo os limites estreitos da forma de introspecção de Wundt (Danziger, 1980).

Em resumo, a abordagem de Külpe objetivava diretamente a investigação sobre o que acontecia na mente do indivíduo durante a experiência consciente. Suas metas eram expandir o conceito de Wundt sobre o objeto de estudo da psicologia para englobar os processos mentais superiores e aprimorar o método de introspecção.

Pensamentos sem Imagens

Qual o resultado da campanha de Külpe para expandir e aperfeiçoar o objeto e o método de estudo da psicologia? Wundt afirmava que toda experiência é composta de sensações e imagens, e tentava reduzir a experiêricia consciente a essas partes componentes. Todavia os resultados da introspecção direta de Külpe nos processos de pensamento revelaram o contrário: que o pensamento pode ocorrer sem qualquer conteúdo sensorial ou imagístico. Essa descoberta foi definida como pensamento sem imagens, para representar a ideia de que os significados, no pensamento, não requerem necessariamente imagens específicas e, assim, a pesquisa de Külpe identificou o aspecto não-sensorial da consciência.

Tópicos de Pesquiso do Laboratório de Würzburg

Külpe e seus alunos realizaram pesquisas sobre diversos tópicos. O estudo de Karl Marbe sobre o julgamento comparativo de pesos foi uma contribuição importante, pois constatou que, apesar de as sensações e imagens estarem presentes durante a tarefa, elas parecem não tomar parte do processo de julgamento. Os indivíduos não foram capazes de descrever como os julgamentos de pesado ou leve ocorriam à mente. Essa descoberta contradizia a noção aceita de que, ao realizar esses julgamentos, os indivíduos retinham a imagem mental do primeiro peso e a comparavam com a impressão sensorial do segundo.

O estudo de Henry Watt demonstrou que, em uma tarefa de associação de palavras (em que se pedia às pessoas para responderem a uma palavra de estímulo), os indivíduos ofereceram poucas informações relevantes sobre o processo consciente de julgamento. Essa descoberta reforçou a alegação de Külpe de que a experiência consciente não pode ser redu­zida exclusivamente a sensações e imagens. Os participantes da pesquisa de Watt foram capazes de responder corretamente, sem nenhuma intenção de assim proceder no momento de formular a resposta. Watt concluiu que o trabalho consciente fora realizado antes de a tarefa ser executada - quando as pessoas receberam e entenderam as instruções.
As pessoas envolvidas no trabalho de Watt aparentemente estabeleceram um ambien­te inconsciente ou uma tendência determinante para responder da forma desejada, no momento em que compreenderam as instruções. Quando as regras da tarefa foram com­preendidas e a tendência determinante adotada, a tarefa em si foi realizada com pouco esforço consciente. Essa pesquisa indicou que as predisposições externas à consciência eram capazes, de alguma forma, de controlar as atividades conscientes. Dessa maneira, a experiência foi considerada dependente não apenas dos elementos conscientes, como também das tendências determinantes inconscientes, supondo que a mente inconsciente pode influenciar o comportamento humano. Essa noção foi adotada posteriormente por Sigmund Freud na sua escola de pensamento psicanalítica.

Comentários

Observamos que, logo após a fundação formal da psicologia, surgiram muitas divisões e controvérsias. Entretanto, apesar de todas as divergências, os primeiros psicólogos estiveram unidos em torno de um único objetivo: o desenvolvimento de uma ciência da psicologia independente. Mesmo com as diversas visões quanto ao objeto e ao método de estudo da psicologia, Wundt, Ebbinghaus, Brentano, Stumpf e outros mudaram definitivamente a perspectiva do estudo da natureza humana. Um escritor observou que, em virtude dos esforços desses intelectuais, a psicologia não era mais um estudo da alma [mas] um estudo, por meio da observação e da experiência, de certas reações do organismo humano não incluídas como objeto de estudo de qualquer outra ciência. Os psicólogos alemães, apesar de todas as suas diferenças, estavam totalmente comprometidos com um objetivo comum; e a capacidade, o empenho e a direção comum de seus trabalhos contribuíram para o desenvolvimento das universidades alemãs, trans­formando-as no centro do novo movimento na psicologia. (Heidbreder, 1933, p. 105)

A Alemanha logo deixou de ser o centro do movimento. E. B. Titchener, aluno de Wundt, levou aos Estados Unidos uma nova versão da psicologia do seu fundador.

História da Psicologia

PSICÓLOGOS E OUTRAS PERSONALIDADES
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Comparação e genealogia na psicologia inglesa no século XIX

A obra de Charles Darwin (1809-1882) marcou de maneira incontornável a concepção do vivo no século XIX e os cinquenta anos que sucederam a publicação de Origem das espécies (1859) podem ser chamados de era darwiniana não só na psicologia, mas na biologia e nas ciências sociais (Jacquard, 1986). Ao final de sua obra marco, Darwin “visualiza novos campos que se estendem para pesquisas ainda mais importantes” e continua sua previsão escrevendo que a "psicologia irá basear-se num fundamento novo, o da necessária aquisição gradual de cada faculdade mental". Dessa forma, "nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história” (Darwin, 1859: 351).

À psicologia caberia a importante tarefa de mostrar a aquisição grada­tiva de cada faculdade mental e assim chegar a estender as propostas transtornacionistas ao homem, algo repleto de consequências não apenas para a universidade inglesa, ainda muito clerical, mas também para os grupos governantes ainda muito antiliberais. Um fundamento novo — seguindo as palavras de Darwin – suportou as novas pesquisas sobre o homem, os seres vivos e as organizações sociais, e a história de sua difusão revela o surgimento de uma importante vertente da psicologia inglesa no século XIX.

Constitui um erro comum considerar a biologia como fornecedora de referenciais e modelos para a psicologia, especialmente no que diz respeito às contribuições de Darwin. A suposição é a de que nas relações entre elas, as inovações conceituais e metodológicas da biologia seriam exportadas para a psicologia. Nesta linha de pensamento, e destacando a psicologia – darwiniana inglesa, restaria à psicologia apenas o procedimento maior de recolocação dos problemas a partir de um referencial novo que se mostrou fértil alhures sobre seu objeto privilegiado, as faculdades mentais.

Mas, deveríamos crer, ingenuamente, que a aplicação de um pressuposto ou de um método sobre um objeto faria com que ele se apresentasse aos nossos olhos sem possibilidade de ocultação?

Outros são os termos de Darwin e outra também a história desse saber. Essa psicologia, como qualquer outra, não se fez por depuração metodológica, mas pela constituição de dispositivos de legitimidade e pela emergência de novos temas. O papel desempenhado pela psicologia foi relevante para a constituição da própria teoria da seleção natural, modificando a mão dessa trilha que liga a psicologia à biologia.

O evolucionismo constitui um exemplo do equívoco apontado acima. Embora o conceito de evolução tenha se identificado com a evolução orgânica, ele não se restringe à biologia e pode ser remetido a campos diversos das ciências naturais e das ciências humanas e sociais (por exemplo, cosmologia evolutiva, termodinâmica evolutiva, algumas teorias da linguagem, as ciências sociais, a geologia). Como afirmou Lewontin (1985:249), Darwin representa o ponto culminante da teoria da evolução orgânica, não a matriz do evolucionismo do século XIX.

Podemos dizer que Darwin forneceu, com seu livro inaugural, uma credibilidade, segundo os cânones da ciência de então, à noção de evolução Jacquard (1986) lembra, entretanto, que o termo só apareceu na sexta edição da obra Origem das espécies. Na verdade, um dos grandes organizadores e difusores da tese evolucionista na Inglaterra do século XIX foi Herbert Spencer (1820-1903).

Spencer é atualmente um pensador muito ignorado; todavia, a ressurgência das forças liberalistas tem sido acompanhada da revalorização de parte de sua obra. Assim, há uma simpatia por seu pensamento quer pelos filósofos de mercado, quer pela renovada tentativa de aplicar os princípios evolucionistas à sociedade humana. A ausência de formação universitária e inserção profissional acadêmica de Spencer não impediu que ele fosse indicado a receber, ao longo dos últimos trinta anos de sua vida, uma série de homenagens acadêmicas (tendo recusado quase todas).

Juntamente com Edward Burnett Tylor (1832-1917) e Lewis Henry Mor­gan (1818-1881), Spencer está entre os três mais destacados evolucionistas do século XIX, e embora, segundo Burrow (1968), seu trabalho tenha sido exaltado da Rússia aos EUA, sua importância entre os pensadores do século XIX tem sido exagerada. Sua herança intelectual inclui também, além do evolucionismo, o liberalismo clássico calcado no individualismo, na noção puramente econômica das relações sociais, no Estado mínimo e na negação gradual das instituições com exceção da propriedade. Estas características fizeram dele o grande DARWINISTA SOCIAL, pois foi sobretudo seu evolucionismo e não o de Darwin, que, associado ao  liberalismo individualista, deu suporte às práticas excludentes e perigosas do evolucionismo social. 

O positivismo determinista presente nas ciências sociais na segunda metade do século XIX encontrou em Spencer um de seus mais firmes adeptos. Sua crença na causação natural o levou a adotar a teoria evolucionista. Tendo escrito algu­mas de suas obras onde a concepção de evolução é exposta antes mesmo da publicação do livro Origem das espécies de Darwin, Spencer buscou aplicar o princípio da evolução sistematicamente a todo o universo e es­ pecialmente à sociedade humana. Spencer considerava-se o Newton das ciências morais, a aplicar a lei universal da conservação de energia traduzida em princípio da evolução ao universo. Assim, para além do mundo ao qual os físicos se dirigem, a evolução se aplicaria também ao mundo dos seres vivos, aos homens e suas organizações sociais.

Sua concepção de evolução não vem, pois, de Darwin, nem ele foi um darwiniano. A concepção de evolução relaciona-se à sua crença na causação natural e a uma ciência determinista e, no caso de sua aplicação aos seres vivos, vem muito mais de um conhecimento de segunda mão das concepções de Jean-Baptiste Lamarck do que de uma reflexão a partir da obra de Darwin. Seu credo liberal valorizava, assim como os utilitaristas da primeira metade do século XIX, o indivíduo, mas de uma forma renovada, ao propor o conceito de estrutura social.

É dessa perspectiva individualista que se pode compreender a expressão de Spencer - “sobrevivência do mais apto" - para o conceito darwiniano de seleção natural. A seleção natural, tão importante por ter fornecido um sentido para as transformações e diferenças entre os seres vivos, inexplicáveis na perspectiva lamarquista, se ancora na comunidade, não no indivíduo. Spencer desloca para o indivíduo esse conceito crucial dos trabalhos de Darwin e o aloca na perspectiva do progresso. Além da deformação conceitual que representa a transformação da seleção natural em sobrevivência do mais apto, Spencer manteve até o final de sua vida a crença na concepção lamarquista de herança dos traços adquiridos. O evolucionismo liberalista de Spencer pode então hierarquizar as organizações sociais tomando como cume a organização liberal da Inglaterra colonialista.

Spencer foi muito mais resenhado por autores das ciências sociais que da psicologia. Contudo, considerando o retorno das abordagens evolucionistas ou evolucionárias na psicologia, Spencer tem sido retomado e historicamente revalorizado. Assim é que se indica repetidamente o elogio de Darwin e de William James a Herbert Spencer. 

Nessa vertente do melhoramento biológico, social e psíquico que se elaborou teoricamente na Inglaterra também pode ser incluído o contemporâneo de Spencer, Sir Francis Galton (1822-1911). As contribuições de Galton para a psicologia podem ser divididas em dois campos: a eugenia e a psicologia diferencial. 

A Eugenia significa “bem-nascido e consistia no estudo e no uso da reprodução seletiva com o fito de melhorar as espécies, principalmente dos atributos hereditários, ao longo das gerações. A defini­ção de eugenia foi refinada por Galton ao distinguir a eugenia positiva, que incentivava a reprodução do mais apto à da eugenia negativa, que buscava evitar ou dificultar a proliferação do menos apto. Assim, e nos termos marcadamente conservadores da Inglaterra vitoriana, Galton afirmou da maneira mais desqualificada sua impaciência e objeção em relação à tese da igualdade natural entre os homens (Galton, 1869: 44).

O esforço de Galton foi o de mostrar que as habilidades mentais – o que ele chamava gênio — eram traços hereditários tanto quanto os padrões físicos e estavam, consequentemente, submetidas aos mesmos dispositivos de transmissão. O lorde inglês utilizou para demonstrar tal propósito dois instrumentos de legitimação, um artifício matemático (a teoria das probabilidades) e as palavras de Darwin (a seleção artificial). O problema principal para Galton foi como ter acesso às habilidades mentais e como mostrar que eram traços hereditários. Para tanto, Galton fez uma passagem cheia de consequências ao correlacionar as habilidades mentais superiores à reputação profissional alcançada pelos individuos. O pressuposto era o de que a reputação so pode ser alcançada através das altas habilidades mentais. Em seguida era preciso mostrar como os indivíduos de alta reputação mantinham um padrão here­ditário. Em outras palavras, tratava-se de naturalizar as diferenças sociais. Além disto, observe-se que o termo correlacionar aqui é importante porque os instrumentos matemáticos permitem “limpar” as escolhas morais de Galton, uma vez que a sofisticação introduzida pelas matemáticas obstruem frequentemente a percepção dos interesses e consequências político-sociais envolvidos nessas analises.

O primeiro passo foi dado sem maiores dificuldades —“Estou con­vencido... – , o segundo foi dado ao indicar a similaridade entre a forma de distribuição das habilidades mentais e dos traços físicos herdados (ambos eram distribuídos segundo a curva normal). Embora tal similaridade não permitisse indicar a hereditariedade das habilidades mentais, o que importa notar é que o instrumental matemático ajudou a sustentar uma fraude cien­tífica muito mais por suas consequências sociais que por qualquer má-fé de seu criador e de seus divulgadores.

O argumento era circular; sem ter como medir a hereditariedade das habilidades mentais, Galton mediu as frequências com que a eminência ou reputação aparecia em famílias de grande notabilidade segundo o grau de parentesco. Comparando-as com as frequências de eminência esperada da população mais ampla, descobriu que as relações de homens eminentes exibiam uma frequência muito maior de eminência que a esperada na base e que ela declinava conforme o grau de parentesco dessas relações. Então, aí está a circularidade do argumento, Galton concluiu que esse padrão só poderia resultar da herança das habilidades mentais.

Independentemente das falhas do procedimento de Galton, estaría­mos enganados ao diminuir as consequências das propostas eugênicas. Elas tiveram uma ampla aplicação ao longo do século XX e estão presentes em nossos dias. O infame programa eugênico levado a cabo na Alemanha nazista em nome da pureza da raça ariana foi realizado pela esterilização forçada de centenas de milhares de pessoas consideradas mentalmente desadaptadas e pelos programas de eutanásia compulsória que mais tarde desembocaram no assassinato de milhões de “indesejáveis”, incluindo judeus, ciganos e ho­mossexuais, durante o Holocausto perpetrado na Segunda Grande Guerra.

O segundo maior movimento eugênico ocorreu nos EUA que, desde o final do século XIX, implantou leis sob a égide da eugenia proibindo o casamento dos epilépticos, imbecis e débeis mentais. As teses eugenistas também estiveram presentes em 1924 nas decisões do Congresso estadunidense de dificultar a imigração, ao serem aconselhados sobre os riscos de espalhar entre os estadunidenses um “estoque inferior” proveniente da Europa Oriental e do sul. Assim, também sob inspiração eugênica, foram adotadas, ainda nos EUA, leis contra o incesto e de antimiscigenação, bem como levados a cabo programas de esterilização que atingiram milhares de estadunidenses considerados desadaptados. Um relatório favorável desse programa de esterilização foi apontado pelo governo nazista como evi­dência de que a esterilização era praticável e humana e, durante o Tribunal de Nuremberg dos Crimes de Guerra, os administradores nazistas de programas de esterilização em massa apontaram os programas estadunidenses como sua inspiração. Contudo, observe-se que, com exceção do Reino Unido, quase todos os países não católicos da Europa Ocidental implan­taram ao longo do século XX uma legislação eugênica.

Após a Segunda Grande Guerra, os programas perdem força, mas muitos eugenistas nos EUA criam o termo criptoeugenia com a intenção de manter as propostas eugênicas disfarçadas. Assim, diversas argumentações sobre raça, imigração, pobreza, criminalidade e saúde mental são categorizadas como criptoeugênicas, ou seja, publicações e práticas eugênicas ganham novos nomes. Atualmente, um dos programas de inspiração eugênica de maior alcance está ligado ao projeto genoma de mapeamento do código genético.

Uma importante modificação nos procedimentos classificatórios praticados pelos pesquisadores do mundo natural no final do século XVIII e início do século XIX consistiu no abandono da descrição do que era observado diretamente na superfície das coisas e na eleição de princípios ordenadores invisíveis que pudessem fornecer sentido à classificação dos seres. A história natural própria ao século XVIII ordenava seu mundo pela comparação das características visíveis das plantas e dos animais em um sistema fechado, refratário às transformações. As novas noções de vida, de função e de órgãos que emergem no século XIX deslocam o procedi­mento descritivo da história natural e se impõem na formação de novas práticas que constituem a biologia (Foucault, 1987). Também o tempo passa a constituir uma dimensão invisível que ordena as relações entre os seres vivos. A genealogia se impõe à comparação.

Darwin, representante dessas modificações, também se perguntou so­bre o sentido da classificação. As aproximações e as diferenças que emergem da pura comparação entre os seres vivos geravam uma infinidade de categorias, tornando a classificação pouco operacional. Essas categorias poderiam ser drasticamente reduzidas se fosse eleito um princípio norteador que fornecesse uma inteligibilidade manuseável. Enquanto biólogos mais ligados à Igreja —os teólogos naturalistas —se esforçavam em agrupar os seres vivos em círculos simbólicos que revelariam a escrita de Deus própria ao criacionismo, Darwin, na esteira transformacionista, elege a genealogia como critério que fornece sentido às aproximações e diferenciações que permitem agrupar os tipos animais e vegetais. Entende, pois, que as enormes diferenças existentes entre os seres vivos remontariam a um longo passado reple­to de pequenas bifurcações. Se todos os seres existentes e que existiram pudessem ser coletados, então seria possível estabelecer suas séries, relacionando-os em um grande e indivisível grupo.

Ainda que esse princípio tenha sido altamente difundido a par­tir de então na biologia, não devemos esquecer sua artificialidade. As “ordens, famílias e gêneros são termos meramente artificiais extrema­mente úteis para mostrar o parentesco daqueles membros da série que não se tornaram extintos” (Darwin, 1859). Darwin ainda comenta que os natu­ralistas sabem que seus critérios são artificiais, mas têm a estranha tendência a esquecer essa característica e conceber suas propostas como o simples reflexo do mundo natural.

A psicologia entra em cena nos trabalhos de Darwin a partir de sua tentativa de saber como o homem descende de alguma forma preexistente. Se no livro Origem das espécies (1859) não houve menção à genealogia humana, com o sucesso de suas propostas, a pergunta encontra seu encaminhamento vinte e poucos anos depois em A ascendência do homem (1871) e em A ex­pressão das emoções em homens e animais (1872).

As conexões do homem com alguma forma preexistente foram procuradas nas variações da estrutura corporal e nas faculdades mentais. A assimetria dos critérios que garantem a conexão genealógica entre os seres vivos quando referidos às estruturas corporais e às faculdades mentais marca uma diferenciação presente entre biologia e psicologia. Darwin tem muito mais dificuldade em estabelecer critérios de ordenação das faculda­des mentais e seus elos com formas anteriores, em franco contraste com os critérios utilizados para as estruturas corporais.

Ainda que Darwin não tenha desenvolvido uma teoria sofisticada da relação mente-corpo, ele concebe as faculdades mentais como produtos do funcionamento cerebral. Seu argumento era bastante simples: assim com o não se sabe por que a gravitação é um efeito da matéria e ninguém fica perplexo por isso, também não sabemos por que a mente é um efeito do cérebro. Com essa definição naturalista, as faculdades mentais, tanto quanto os atri­butos estruturais dos organismos, poderiam ser utilizadas para classificá-los, legitimando a comparação entre homens e animais no campo da psicologia.

Entretanto, a tentativa de classificar um tipo animal por seus hábitos ou instintos havia se mostrado muito insatisfatória. Devemos lembrar sem­pre que as tentativas de classificação centradas em apenas um critério eram concebidas pelo naturalista com inadequadas e insuficientes, mas de uma forma geral o comportamento e as faculdades mentais não serviram ou não tiveram o mesm o respaldo que os critérios atinentes às estruturas corporais para o sistema classificatório.

Se fica claro que a base de sustentação da teoria biológica diferen­ciou-se da psicológica, por outro lado estaríamos equivocados ao afirmar que não houve interação entre elas, ou mesmo que a primeira tenha sido imposta à segunda. As faculdades mentais e o comportamento não são determinados passivamente pela evolução, tendo sido concebidos pelos transformacionistas como desempenhando um papel relevante na trajetória dos seres vivos. Jean-Baptiste Lamarck concebia o comportamento como simultaneamente produto e instrumento das transformações das espécies. Sua obra teve importante influência no pensamento de Darwin que a conheceu durante seus estudos em Edimburgo (onde tentou sem sucesso formar-se em medicina como seu pai e seu avo) e que manteve por longo tempo no eixo de suas reflexões. O pensamento do naturalista francês atua sobre o jovem Darwin da seguinte forma: algumas modificações no ambiente constrangem os animais a novos hábitos, em decorrência de novas exigencias. Novos habitos alteiam as estruturas cerebrais bem como outros órgãos, se praticados ao longo de muitas gerações. Para Darwin, a memória ou o pensamento, quando tornados habituais e involuntários, afetam a estrutura física do cérebro, podendo tais transformações ser transmitidas à prole. Dessa forma, os instintos ganhavam uma explicação materialista, mas grandes brechas ficaram abertas, a mais conhecida e mais grave sendo a pergunta: como conectar a modificação estrutural produzida pelo hábito com a transmissão para a prole das estruturas adquiridas?

Os instintos maravilhosos eram, para Darwin, extremamente difíceis de explicar pelo hábito. Sua dificuldade principal estava na acentuação do caráter não intencional e não consciente de comportamentos complexos. Como poderia a solitária vespa aprender a cavar um buraco, paralisar uma aranha e colocar seus ovos, se suas crias nascerão depois de sua morte.

Que benefício futuro ela poderá tirar? Que tipo de ajuste do comportamento pode ser evocado para dar sentido a este tipo de instinto? Em um formigueiro pode haver formigas divididas em duas ou mais castas, sendo algumas estéreis. Como esses insetos sexualmente neutros poderiam deixar prole?

Darwin encontrou respostas a estas perguntas na transposição do foco de análise do indivíduo para a população. A solução encontrada que permitiu a aplicação da teoria da seleção natural a estes casos foi o reconhecimento da diferença entre o animal que seleciona um comportamento por sua utilidade (o animal é o centro decisório) e o animal que é selecionado por seu comportamento útil (o animal é parte de um processo). A unidade de medida passa a ser a população ou a comunidade.

Um problema considerado psicológico como o do instinto ocupou, portanto, um lugar destacado no estabelecimento da teoria da seleção natural, envolvendo-a numa longa reflexão sobre a moral e as faculdades mentais.

Como dito anteriormente, foi principalmente nas obras A ascendência do homem (1871) e A expressão das emoções em homens e animais (1872) que Darwin buscou explicitar o parentesco comum entre homens e animais através das expressões e das faculdades mentais.

Ao longo desses livros foram desfiados extensos comentários sobre as semelhanças psicológicas entre homens e animais calcados em “fatos” colhidos por mais de quarenta anos através de observações, de questionários e de experimentações. A liberdade com que foram aplicados atributos mentais aos animais a partir das observações de viajantes e missionários salienta uma opção pela continuidade mental entre eles, já que esses “fatos” eram tremendamente antropomórficos e antropocêntricos. Muito mais do que uma fonte intelectual e documental para a construção de uma psico­logia comparada ou uma etologia, a psicologia de Darwin se apresenta como uma crítica aos argumentos que isolam qualitativamente homens e animais. Assim é que a observação dos cachor­ros pode fornecer uma evidência anticartesiana, uma vez constatado que eles constroem “uma ideia geral dos gatos e das ovelhas, e conhece[m] as palavras correspondentes tão bem quanto as pode conhecer um filósofo” (Fontenay, 1998: 566). Ou mesmo que os animais se espantem; aqui, lembramos ser o espanto uma característica-chave para a atividade filosófica na concepção de Platão e Aristóteles. Ficamos também cons­trangidos ao sermos comparados pelo naturalista em relação aos nobres sentimentos de um cão que, no momento mesmo de sua vivisseção, lambe a mão de seu dono: sinal não só de aceitação de seu martírio em nome da nobre causa da ciência, como de seu perdão por uma ação tão cruel.

O esforço de Darwin se justificava pela barreira imposta à teoria da seleção natural diante da descontinuidade das capacidades mentais do homem e dos animais. A genealogia simiesca do homem, apesar de ge­rar intensas discussões, foi aceita por um público amplo. Se o clero e algumas camadas dominantes a rejeitaram com fervor, o livro Darwin alcançou várias tiragens, as palestras de Huxley atraíam multi­dões e houve também a produção de uma literatura popular, divul­gando valores evolucionistas, avida­mente consumida por um grande público.

Mas, no plano das argumentações acadêmicas, muito havia ainda a ser feito para garantir a continuidade homem-animal no plano mental. Os esforços de George John Romanes (1848-1894) e Conwy Lloyd Morgan (1852-1936) foram os mais relevantes em continuidade com os do mais conhecido naturalista inglês.

Encarregado por Darwin de realizar a extensão das teses evolucionistas à mente e ao comportamento, Romanes realizou um estudo de psicologia comparada centrado na experiência humana consciente. Para ele, a força de uma teoria estava na possibilidade de fornecer inteligibilidade a campos novos que não tinham sido seu foco inicial e este era o caso da teoria da seleção na explicação de temas psicológicos como o instinto, a razão e o senso moral.

Seu projeto consistiu principalmente na elaboração de princípios explicativos da gênese da mente, mas ele também realizou estudos sobre o intelecto, a emoção, a vontade, a moral e a religião. Há um claro esforço em atestar a continuidade homem-animal, o que o levou a uma seleção bastante tendenciosa do material a ser analisado. Explicando: como seu material continuava provindo, em grande parte, de viajantes e missionários nas colônias europeias, Romanes o selecionava conforme a fama do autor do relato. Se o autor não fosse reconhecido, fazia a verificação da qualidade da observação através da confrontação das informações. Como a maioria dos relatos utilizados era proveniente de eminentes ingleses trabalhando nas longínquas terras daquele então vasto império colonial, não questionava seus dados nem sua interpretação, já que, segundo seus critérios, estes eram válidos e confiáveis. Dessa forma, o antropomorfismo das observações ganhava uma teorização academicamente legitimadora na obra de Romanes. 

Contudo, também contou com observação mais controlada e chegou mesmo a cuidar de um MACACO CEBUS COULO parte de suas pesquisas. A mente, em sua concepção, é imediatamente dada a nós, não podemos duvidar de que temos conhecimento de um certo fluxo de Pensamentos e sentimentos. Com esta perspectiva, a observação de outras mentes torna-se possível por inferência, a partir das atividades dos organismos que parecem exibi-las. Solipsismo e antropomorfismo regem a reflexão. Primeiro passo: os humanos têm acesso introspectiva e diretamente às suas mentes (é por analogia que podemos afirmar que todos partilhamos esta característica). Segundo passo: como só podemos inferir as mentes em animais a partir das atividades dos or­ ganismos, devemos compará-las às dos homens para, na medida de sua semelhança, vislumbrá-las.

Romanes justifica seu procedimento lançando mão de um argumento teológico. Assim como os teólogos mostraram que a mente divina só pode ser concebida por analogia com a nossa, ainda que imperfeita, também em reação à mente animal devemos impor tal entendimento e aplicar o “antropomorfismo invertido” (invertido aqui em comparação ao alvo teológico que, na primeira comparação, se dirige a Deus),

A consciência e a escolha são os traços distintivos que indicam a existência da mente entre os animais. Assim como os comportamentos humanos que não se restringem  ao conjunto de hábitos herdados podem ser explicados pela consciência e pela escolha, também as atividades dos animais que escapam ao hábito podem indicar decisão e consciência. Mas a mente só pode ser inferida a partir de atividades que se sobrepõem às determinações inatas. Atividade consciente e aprendizagem se aproximam e a distinção inato-aprendido passa ao primeiro plano.

Coube a Conwy Lloyd Morgan indicar um caminho para que a psicologia comparada pudesse se livrar das pesadas lentes do antropomor­fismo. Seu monismo metafísico o fez adotar a concepção de consciência de William James evitando o “forte preconceito de que temos estados mentais e de que o cérebro os condiciona” (1977a [1894]). Seu monismo fornece três ve­tores ao trabalho do pesquisador: uma teoria monista do conhecimento, uma interpretação monista da natureza e um monismo analítico. O primeiro evita tanto o idealismo quanto os dualismos que segmentam sujeito e objeto como entidades separadas e independentes. Nesta direção, os aspectos subjetivos e objetivos são uma divisão que se faz sobre o fluxo unitário da experiência pela atividade da razão. A concepção monista da natureza, por sua vez, o leva a conceber a análise psicológica e a biológica como aspectos de um mesmo processo, a mente consistindo em um dos aspectos da existência natural. Finalmente, o monismo analítico indica que a divisão mente-corpo resulta do trabalho do conhecimento. A atividade do conhecimento cria um objeto a ser conhecido para além dos sentidos, uma vez que o acesso a ele ocorre somente pela reflexão. O homem é concebido como objeto natural, sendo seus aspectos corporais e mentais estabelecidos pelo mesmo movimento e sem que um determine o outro.

Evocando a experiência subjetiva do leitor, Lloyd Morgan escreve “que ele sabe o que quero afirmar quando digo que ele é consciente” (1977a [1894]: 11). O termo mente é utilizado como o conjunto das atividades psí­quicas que, não tendo uma realidade independente do corpo, correspondem a diferentes modos de olhar o mesmo conjunto de ocorrências naturais.

Lloyd Morgan transformou a divisão entre a mente e o corpo em diferença de superfície, isto é, evitou sua duplicação ontológica. Entretanto, manteve a introspecção como via de acesso à mente: só podemos ter um conhecimento direto e imediato dos próprios processos psíquicos, o que faz da introspecção o ponto de partida de toda a psicologia comparada.

Mas seu monismo falha justamente na tentativa de conhecer as mentes animais. Podemos colocar sua questão da seguinte forma: se só temos conhecimento direto de nossa própria mente e derivamos sua existência nos outros homens por analogia, dada a semelhança interna à nossa espécie, como conhecer as mentes animais? E o aspecto corporal que sustenta a comparação porque permite estabelecer uma ponte en­tre as mentes humanas e as animais. Se a observação direta das mentes animais nos é vedada, as semelhanças corporais sustentam a hipótese das semelhanças psíquicas. O trajeto da comparação tem como ponto de partida o aspecto mental dos homens, passando em seguida a seu aspecto corporal, de onde, dadas as semelhanças, passa-se ao aspecto corporal de alguns animais para, finalmente, alcançarmos seu aspecto mental. A teoria da evolução constitui o solo desse trajeto, já que tanto o aspecto mental quanto o corporal são o resultado de exigências ambientais.

O dualismo de aspecto apresentado por Lloyd Morgan — que, em sua argumentação filosófica, seria secundário em relação ao monismo metafísico —, levou-o a uma valorização anômala (como compatibilizar a hierarquia dos aspectos com o monismo?) do aspecto corporal sobre o mental. A comparação entre os psíquismos segundo Lloyd M organ é legí­tima quando realizada, no máximo, em relação aos vertebrados superiores, porque seus estados psíquicos podem ser inferidos a partir da semelhança de seus hemisférios cerebrais com os dos homens. A dificuldade em atribuir esse privilégio ao aspecto físico, incoerente com o monismo, deixa em aberto o conhecimento dos estados psíquicos de animais cujas estruturas cerebrais são muito diferenciadas da dos homens.

Lloyd Morgan também introduziu o “princípio da simplicidade” na atividade comparativa. Este princípio diz que não se deve interpretar uma ação de um animal através de uma faculdade psíquica superior se ela puder ser explicada por uma outra mais simples. Tal princípio atuará no estabelecimento das diferenças entre as funções psíquicas de homens e animais, introduzindo uma continuidade imprevista ao legitimar a busca e a generalização de explicações “objetivas” das características mentais — os animais. É conhecido como cânon de Lloyd Morgan, organizando
pesquisas comparadas a partir da teoria da evolução. O parâmetro para inferir as habilidades mentais dos animais tem necessariamente que resultar de seu comportamento nos ambientes, já que a seleção natural não poderia explicar uma faculdade mental superior às exigidas por essa interação.

A acentuação do experimentalismo nos estudos psicológicos no iní­cio do século XX introduziu definitivamente uma desconfiança quanto à validade da observação. Se essa validade já havia sido notada por Romanes, os novos pesquisadores se ampararam sobretudo na observação planejada, não casual, e a tornaram dispositivo de legitimação indispensável.

A aproximação entre homens e animais levada a cabo por Darwm foi o solo de onde emergiu a psicologia comparada. Canguilhem (1970) mos­tra, entretanto, com o a metodologia desta se desenvolveu, em parte, contra a perspectiva darwiniana. A psicologia que compara homens e animais se tornou possível transformando o difundido paralelismo homem-ammal, com sua intransponível barreira, numa genealogia de muitas e pequenas
diferenças. Assim, noções como retorno, luta pela vida, adaptação por seleção natural forneceram instrumentos para a comparação na psicologia, mas sua aplicação teve que esperar até os trabalhos de Lloyd-Morgan.

A noção de meio específico da vida desenvolvida por Jacob von Uexküll (1864-1944) – considerado por alguns etólogos como figura cen­tral para emergência de seu campo – e, mais tarde, pela etologia permitiu o abandono dessa homogeneização promovida por Darwin na medida em que dissociou estrutura e comportamento. As características psicológicas do animal, se não anularmos as diferenças, devem ser tomadas pelas relações entre o organismo do animal e o meio que ele determina por sua estrutura: “A atenção de um animal é inseparável de seu modo de capturar suas presas. A rã aguarda e o sapo procura” (Canguilhem. 1970:125).

A psicologia elaborou essa relação entre homens e animais de três modos, primeiramente, tomando a conduta dos animais como referenciada a experiencia humana conscientemente vivida. Em seguida, a psicologia abordou as condutas animais como tema da fisiologia, compreendida como parte da biologia que aborda as relações entre o organismo e o meio. Uma terceira via foi o estudo do comportamento animal isolado de seu meio, isto é, inserido no laboratório e abordado analiticamente. Foi necessário que a psicologia se liberasse dessas formas de pesquisa para considerar o animal como sujeito de sua experiência, ou seja, foi necessário que esse caminho fosse percorrido para que a psicologia se despojasse de seu antropomorfismo.

História da Psicologia
Funcionalismo: as influências anteriores

Jenny estava vestida como qualquer criança típica de 2 anos, e certamente se comportava como uma criança de 2 anos. Milhares de pessoas afluíam para vê-la. Elas a encaravam maravilhados, encantados, pois Jenny - tão inocente, tão humana, na realidade era um orangotango, um macaco, como a maioria das pessoas a chamava. Jenny estava em exibição em uma gaiola de girafa no zoológico de Londres. O ano era 1838.

Poucas pessoas na Inglaterra, ou em qualquer lugar da Europa jamais tinham visto tal criatura, e aqueles que foram vê-la estavam surpresos, até mesmo desconcertados pelos maneirismos a que estavam tão familiarizados. Vestida em um vestido de babado, ela se sentava à mesa, usava uma colher para comer de um prato, tomava chá em uma xícara e parecia entender o que seu cuidador lhe dizia. Também parecia saber o que era e o que não era permitido fazer.

Um visitante escreveu:

O cuidador mostrou-lhe uma maçã, mas não a dava, o que fez com que se atirasse de costas, chutando e cho­rando, precisamente como uma criança malcriada... O cuidador disse: "Jenny, se parar de berrar e se comportar como uma menina boazinha, eu lhe dou a maçã." Ela certamente entendeu cada palavra e, embora como criança que custa a parar de choramingar, conseguiu a maçã (apud Aydon, 2002, p. 128).

Aparentemente, Jenny fazia com que aquele visitante se lembrasse de seus dois filhos pequenos, pois ele voltou ao zoológico alguns meses mais tarde, levando um instrumento de boca (gaita) e um espelho. Ele tocou o instrumento na frente da gaiola e depois o deu a ela pelas grades. Imediatamente ela o colocou nos lábios, como ele havia feito. Quando ele deu o espelho, ela ficou se olhando continuadamente como se estivesse surpresa com sua imagem, assim como os filhos daquele homem haviam ficado a primeira vez que se viram em um espelho.

Ele a observou aceitando pão de outro visitante, olhando primeiro para o seu cuida­dor para ver se podia comer. Mas Jenny também exibia comportamento voluntarioso e desobediente. Com frequência ela fazia algo que haviam dito que não deveria fazer. Quando ela acha que o cuidador não vai ver, mas que sabe que fez algo errado, ela se esconde. (...) Quando acha que vai ser chicoteada, ela se cobre com palha ou um cobertor (.apud Keynes, 2002, p. 50).

Observar o comportamento de Jenny teve um profundo efeito no nosso visitante. Ele escreveu o seguinte comentário em seu caderno: "Deixe o homem ver o orangotango domesticado e sua inteligência.... e depois deixe que se vanglorie de sua superioridade orgulhosa. (...) O homem, na sua arrogância, pensa que é o resultado de um grande tra­balho, digno da intervenção de uma divindade. Mais humilde e, creio verdadeiro, seria considerá-lo descendente dos animais" (apud Ridley, 2003, p. 9).

Quem era esse distinto visitante que ficou tão impressionado com Jenny? Seu nome era Charles Darwin.

O Protesto Funcionalista

Charles Darwin, com sua noção de evolução, mudou o foco da nova psicologia da estrutura da consciência para as suas funções. Era inevitável que a escola de pensamento funcionalista se desenvolvesse.

O funcionalismo se preocupa com as funções da mente, em como ela é usada por um organismo para se adaptar ao seu ambiente. O movimento da psicologia funcional focou em uma questão prática: O que os processos mentais conseguem realizar? Os funcionalistas estudaram a mente não do ponto de vista de sua composição - seus elementos mentais ou sua estrutura - mas sim como um conglomerado ou acúmulo de funções e processos que levam a consequências práticas no mundo real. As pesquisas realizadas por Wundt e Titchener nada revelaram sobre os resultados ou realizações da atividade mental humana, mas este não era o objetivo. Tais preocupações utilitárias eram incompatíveis com a sua abordagem puramente científica da psicologia.

Como um primeiro sistema de psicologia, puramente estadunidense, o funcionalismo foi um protesto deliberado contra a psicologia experimental de Wundt e a psicologia estrutural de Titchener, ambas vistas como restritivas demais. Essas primeiras escolas de pensamento não podiam responder às perguntas que os funcionalistas estavam fazendo: O que a mente faz? E como age?

Como resultado dessa ênfase nas funções mentais, os funcionalistas passaram a se in­teressar pelas aplicações em potencial da psicologia aos problemas da vida diária, de como as pessoas funcionam e se adaptam a diferentes ambientes. O rápido desenvolvimento da psicologia aplicada nos Estados Unidos pode ser considerado o legado mais importante do movimento funcionalista.

Este capítulo trata das raízes do movimento da psicologia funcional, incluindo os trabalhos de Darwin, Galton e os primeiros estudiosos do comportamento animal. É importante observar a época em que esses precursores do funcionalismo estavam desen­volvendo suas ideias: o período anterior e durante os anos em que a nova psicologia estava começando a evoluir.

A obra pioneira de Darwin sobre a evolução, On the origin of species (1859), foi publicada um ano antes do livro de Fechner, Elements of psychophysics (1860), e 20 anos antes de Wun­dt instalar o laboratório na University of Leipzig. Galton começou a trabalhar no problema das diferenças individuais em 1869, antes de Wundt escrever a obra Principies of physiological psychology (1873-1874). As experiências com psicologia animal já eram realizadas na década de 1880, antes de Titchener seguir da Inglaterra para a Alemanha para estudar com Wundt.
Portanto, a maior parte dos trabalhos a respeito das funções da consciência, das diferen­ças individuais e do comportamento animal estava sendo realizada ao mesmo tempo em que Wundt e Titchener optaram por excluir essas áreas das suas definições de psicologia. Somente com a chegada da nova psicologia aos Estados Unidos é que as funções mentais, as diferenças pessoais e os ratos de laboratório ganharam destaque na psicologia.

 

A Revolução da Teoria da Evolução de Charles Darwin (1809-1882)

A ideia da evolução não começou com Darwin. Na época em que ele publicou sua teoria em 1859, não havia nada realmente novo a esse respeito (ver Gribbin, 2002). A hipótese de que os seres vivos mudam com o tempo, noção fundamental da evolução, pode ser já encontrada no século V a.C., embora só fosse investigada de forma sistemática a partir do final do século XVIII. O fisiologista inglês Erasmus Darwin (avô de Charles Darwin e de Francis Galton) afirmava que todo animal de sangue quente havia evoluído de um único filamento vivo e animado por Deus.

Erasmus Darwin acreditava que havia um Deus que originalmente havia estabelecido vida na Terra em movimento, mas que não interveio depois disso para alterar a flora ou fauna ou para criar espécies. As mudanças nas formas animais, dizia, ocorriam de acordo com as leis naturais que fazem com que as espécies continuamente se adaptem às mu­danças em seu ambiente.

Em 1809, o naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck formulou a teoria comportamentalista da evolução, que enfatizava a modificação das características físicas do animal mediante o esforço de adaptação ao ambiente. Lamarck sugeria que essas modificações eram herdadas por gerações sucessivas. Por exemplo, a girafa desenvolveu o seu longo pescoço por várias gerações devido à necessidade de alcançar os galhos cada vez mais altos para obter comida.

Em meados da década de 1800, o geólogo britânico Charles Lyell introduziu a noção da evolução na teoria geológica, argumentando que a Terra havia passado por vários está­gios de desenvolvimento até chegar à estrutura atual. No Capítulo 13, veremos que a ideia de evolução também influenciou o trabalho de Freud.

Passados tantos séculos aceitando-se a doutrina bíblica da criação, por que os inte­lectuais buscavam uma explicação alternativa? Uma das razões era a de que os cientistas estavam adquirindo cada vez mais conhecimento sobre as outras espécies que habitaram a Terra. Os exploradores estavam descobrindo formas de vida animal antes desconheci­das. Portanto, era inevitável que alguém questionasse como Noé fora capaz de colocar um casal de cada espécie animal na arca. Tantas foram as espécies descobertas que não havia como os pesquisadores continuarem a acreditar nessa história.

O navegador italiano Américo Vespúcio escrevera, já em 1501, após a terceira viagem em torno da costa da América do Sul: "Não há como descrever a enorme variedade de animais selvagens, a abundância de pumas, panteras, gatos selvagens, diferentes dos que vemos na Espanha, mas parecidos com os das ilhas Antípodas; tantos lobos, veados ver­melhos, macacos e felinos, saguis de diversas espécies e várias cobras enormes. (...) Tantas espécies não caberiam na arca de Noé" (apud Boorstin, 1983, p. 250).

Na década de 1830, os ingleses e europeus viram pela primeira vez espécies animais constrangedoramente semelhantes aos seres humanos. Antes disso, somente alguns explo­radores corajosos haviam visto animais como os orangotangos e chimpanzés. Em 1835, um ano antes de Darwin retornar de uma viagem de exploração que durou cinco anos, um chim­panzé chamado Tommy foi exibido no zoológico de Londres. Em 1837, uma orangotango foi exibida e outra, dois anos depois; ambas se chamavam Jenny. Na década de 1850, um orangotango macho foi exibido em várias cidades da Inglaterra e da Escócia e a propaganda dizia que ele exibia comportamentos inteligentes quase no mesmo nível dos humanos.

Em 1853, o Museu Britânico exibiu o esqueleto de um gorila ao lado de um esqueleto humano. Tamanha era a semelhança que muitos observadores alegavam sentir-se emba­raçados. Era possível continuar insistindo que os seres humanos eram as únicas criaturas totalmente diferentes das outras espécies? Talvez não.

Exploradores também descobriram fósseis e ossadas de criaturas que não correspon­diam aos das espécies existentes, esqueletos aparentemente pertencentes a animais que em algum momento perambularam pela Terra mas que haviam desaparecido. Essas des­ cobertas fascinaram os cientistas e leigos interessados, e muitas pessoas começaram a colecionar fósseis.

A Grã-Bretanha do século XVIII foi um marco de requinte e impecável bom gosto na propriedade e exibição de coleções de fósseis. Os próprios objetos não apenas eram raros e bonitos (...) como a sua simples posse era uma indicação de sede de conhecimento, de consciência da filosofia natural, de compreensão solidária dos processos misteriosos da Terra. (Winchester, 2001, p. 106)

As pessoas desejavam saber o que aqueles fósseis e ossadas poderiam revelar sobre a origem do homem. Para os cientistas, o crescente acúmulo desses artefatos dava indicações de que as formas vivas não podiam mais ser consideradas constantes, imutáveis desde o início dos tempos e deviam ser vistas como sujeitas a mudanças e modificações. As espé­cies antigas evidentemente tornaram-se extintas, dando lugar a novas, sendo algumas delas versões alteradas das formas existentes. Talvez tudo na natureza fosse resultado de mudanças e ainda continuasse no processo de evolução.

O impacto da mudança contínua foi observado não apenas nos círculos científicos e intelectuais, como também na vida cotidiana. O Zeitgeist social estava se transformando por causa da Revolução Industrial. Os valores, as relações e as normas culturais, mantidos constantes por várias gerações, de repente foram rompidos quando a migração em massa da zona rural para as pequenas cidades promoveu o rápido desenvolvimento dos centros industriais urbanos.

A crescente dominação da ciência contaminava as atitudes populares. As pessoas esta­vam cada vez menos convencidas das ideias a respeito da natureza humana e da sociedade baseadas nos dogmas das antigas autoridades religiosas. Ao contrário, estavam dispostas e ávidas para transferir essa crença para a fé científica.

Mudança era a ordem do dia. Afetava o fazendeiro, cuja vida agora pulsava no ritmo de uma máquina e não das estações do ano, assim como afetava o cientista, cujo tempo era gasto tentando desvendar uma ossada desenterrada. A atmosfera intelectual produziu a noção de evolução não apenas respeitável cientificamente, como também necessária. Entretanto, durante muito tempo os estudiosos analisaram, especularam e levantaram hipóteses, mas ofereceram poucas provas concretas. Então, Darwin, em seu livro On the origin of species, apresentou informações tão bem organizadas que a teoria da evolução não pôde mais ser ignorada. O Zeitgeist demandava essa teoria e Charles Darwin tornou-se o seu agente.

A Biografia de Darwin

Ele foi um dos homens mais felizes que já viveu. Seus dois avôs foram dois dos homens mais famosos na Inglaterra. Graças a eles, acostumou-se desde pequeno à companhia de pessoas inteligentes e artísticas. Cresceu em uma casa confortável, cheia de afeto, onde sua imaginação era livre para vagar. Seu pai era muito rico, e no final da sua adolescência percebeu que não teria que fazer nada na vida que não quisesse. Para o resto de sua vida, ele fez exatamente o que lhe agradava. E, até o final de sua vida, foi sempre rodeado pelo mesmo ambiente de amor e proteção de sua infância. (Aydon, 2002, p. xxiii)

Quando criança, Charles Darwin dava poucas indicações de que se tornaria o cientista tão dedicado e entusiasmado que o mundo viria a conhecer. Era rude e maldoso, aprontando travessuras, mentindo e roubando para chamar a atenção. Os biógrafos relatam, sobre a infância de Darwin, um episódio em que ele tentou quebrar a janela de uma sala em que fora trancado como castigo por mau comportamento (veja Desmond e Moore, 1991). Ele parecia tão pouco promissor que seu pai, um rico médico, acreditava que o jovem Charles acabaria desgraçando o nome da família.

Embora seu desempenho escolar fosse fraco, demonstrava interesse por história natu­ral e em colecionar moedas, minérios e conchas. Seu pai o mandou para a University of Edinburgh para estudar medicina, mas logo o jovem se mostrou entediado. Como resposta, o pai disse-lhe que deveria tornar-se clérigo. Ele passou três anos na Cambridge University e achou a experiência uma perda de tempo, pelo menos do ponto de vista aca­dêmico. No âmbito social, no entanto, achou fantástico, tendo sido esse o período mais feliz da sua vida. Passava os dias e as noites bebendo, cantando, jogando cartas, fazendo parte de um grupo que descrevia como esbanjador e de baixo nível intelectual. Também colecionava besouros.

O botânico John Stevens Henslow, um de seus professores, conseguiu uma indicação para Darwin como naturalista para fazer parte da excursão do HMS Beagle, um navio que o governo britânico estava preparando para uma viagem científica ao redor do mundo.

A famosa excursão, que durou de 1831 a 1836, explorou as águas da América do Sul, seguin­do para o Taiti e Nova Zelândia, e retornou à Inglaterra, passando pela Ilha Ascensão e pelos Açores. Todavia, Darwin quase fora recusado para trabalhar a bordo do navio por causa do formato do seu nariz. O capitão, Robert Fitzroy, orgulhoso de sua capacidade de julgar o caráter pelas feições do rosto, tinha certeza de que o nariz de Darwin indicava um homem preguiçoso, mas ele conseguiu convencê-lo do contrário. Fitzroy, um homem extremamente religioso, desejava a presença de um naturalista a bordo para encontrar provas concretas sobre a teoria bíblica da criação. Escolhera o homem errado.

A viagem rendeu a Darwin a oportunidade ímpar de observar uma variedade de vida animal e vegetal e de coletar diversas espécies, além de enorme quantidade de dados. A viagem também parece ter mudado sua personalidade. Não mais um diletante e amante do prazer, Darwin retornou à Inglaterra como um cientista dedicado e com uma única paixão: desenvolver a teoria da evolução.

Casou-se em 1839 e três anos depois mudou-se com a esposa para o vilarejo de Down, a 26 quilômetros de Londres, onde pôde concentrar-se no trabalho sem as agitações da vida urbana. Sempre teve a saúde frágil e agora começava a sofrer de perturbações físicas como vômitos, gases, furúnculos, erupções cutâneas, tonturas, tremores e depressão. Sua casa se transformou em uma “enfermaria onde ninguém era saudável; a doença era regra e a saúde uma exceção" (Desmond, 1997, p. 291).

Os sintomas de Darwin eram aparentemente de fundo neurótico, provocados por qualquer interrupção na sua rotina diária. Sempre que alguma interferência externa o impedia de trabalhar, sofria outro ataque. A doença tornara-se um mecanismo convenien­te, protegendo-o dos afazeres mundanos e proporcionando a solidão e a concentração, necessárias para ele criar e desenvolver sua teoria. Um escritor batizou a condição de Darwin de "maldição criativa" (Pickering, 1974).

Ele se isolava, evitava festas e declinava de compromissos; chegou a instalar um espelho do lado de fora da janela da sua sala de estudos para espiar os visitantes que vinham procurá-lo. Dia após dia, semana após semana, o estômago o incomodava. (...) Era um homem preocupado. (Desmond e Moore, 1991, p. xviii-xix)

Darwin tinha motivos de sobra para se preocupar. A ideia de evolução vinha sendo condenada pelas autoridades religiosas conservadoras e até em alguns meios acadêmicos. O clero, entendendo-a como moralmente degenerativa e subversiva, pregava que, se as pessoas fossem retratadas como animais, igualmente se comportariam. O resultado de tal selvageria certamente causaria o colapso da civilização.

Darwin se autodenominava o "capelão do demônio", dizendo a um amigo que traba­lhar na teoria da evolução era como confessar um assassinato (Desmond e Moore, 1991). Ele sabia que, quando publicasse o livro, seria condenado por heresia. Percebeu que essas preocupações com o trabalho eram a causa dos seus persistentes males físicos, "a maior parte dos males de que a minha carne é herdeira” (apud Desmond, 1997, p. 254). Esperou 22 anos para apresentar publicamente as suas ideias, pois desejava ter a certeza de que, ao fazê-lo, a teoria estaria perfeitamente apoiada em provas científicas irrefutáveis. Assim, Darwin prosseguiu no trabalho com calma e com cuidado extremamente rigoroso.

Em 1842, Darwin redigiu um esquema de 35 páginas da sua teoria da evolução. Dois anos mais tarde, expandiu as ideias em um ensaio de 200 páginas, mas ainda não estava satisfeito. Continuou a manter segredo da maior parte do seu trabalho, compartilhando as ideias ape­nas com os amigos mais íntimos, como o geólogo Charles Lyell e o botânico Joseph Hooker.

Por mais 15 anos Darwin elaborou e trabalhou seus dados, conferindo, aperfeiçoando, revi­sando, insistindo para que todos os aspectos da sua posição fossem inquestionáveis.

Ninguém sabe ao certo quanto tempo mais ele se estenderia no trabalho se não houves­ se recebido uma carta chocante, em junho de 1858, de uma pessoa chamada Alfred Russel Wallace, um naturalista 14 anos mais jovem que ele. Morando nas índias Orientais para se recuperar de uma doença, Wallace esboçara uma teoria da evolução nitidamente semelhante à de Darwin, embora não estivesse baseada em dados tão ricos como os coletados por ele. E o pior é que Wallace afirmava ter desenvolvido a sua teoria completa em apenas três dias! Pedia a opinião e a ajuda de Darwin para publicá-la. O biógrafo de Wallace escreveu:

No intervalo de duas horas, desde os primeiros arrepios da febre até ficar banhado em um mar de suor [sintomas da malária], Wallace disse que havia desenvolvido toda a teoria da seleção natural, e a esboçou naquela mesma noite, apesar de sua exaustão física. Foi uma luz de inspiração que uniu anos de experiência e contemplação. Nas duas noites seguintes ele escreveu toda a sua teoria. (Slotten, 2004, p. 144)

Em sua carta a Darwin, Wallace pediu sua opinião sobre suas ideias e ajuda para que seu trabalho fosse publicado. Wallace escreveu anos mais tarde que o efeito desse curto trabalho sobre Darwin foi "praticamente paralisante", como se Darwin estivesse lendo sua própria teoria. "Qualquer noção da sua importância desaparecera, sua originalidade fora massacrada" (apud Raby, 2001, p. 137).

Assim como vários cientistas, Darwin era muito ambicioso. Escreveu em seu diário: "Gostaria de conseguir não valorizar tanto essa tal de fama. (...) E ainda abomino a ideia de escrever porque é importante criar; todavia certamente ficaria contrariado se outra pessoa publicasse essas doutrinas antes de mim" (apud Merton, 1957, p. 647-648). Darwin disse ao amigo Lyell que, se ajudasse Wallace a publicar sua teoria, todos os seus anos de
trabalho árduo e, o mais importante, o crédito pela criação da teoria da evolução estariam perdidos (Benjamin, 1993).

Enquanto ficava em dúvida se devia ajudar Wallace ou apressar a publicação do seu trabalho, seu filho de 18 meses morreu de febre escarlatina. Desesperado, Darwin remoía a respeito das implicações da carta de Wallace e as opções que surgiam para si próprio. Finalmente, munido de enorme sentido de justiça e de bom senso, decidiu: "Parece difícil para mim perder a prioridade de vários anos de dedicação, mas não tenho certeza absolu­ta de que isso altere a justiça do caso. (...) Seria desonesto de minha parte publicar agora" (apud Merton, 1957, p. 648).

Lyell e Hooker sugeriram que tanto o trabalho de Wallace como partes do livro de Darwin que estava para ser publicado fossem lidos em um encontro na Sociedade Linneana (uma sociedade científica cujo nome homenageia o naturalista sueco Linnaeus), em 10 de julho de 1858, no mesmo dia em que o filho de Darwin fora enterrado. O resto está registrado na história. Todas as 1.250 cópias da primeira edição do livro de Darwin, On the origin ofspecies, foram vendidas no dia da publicação. A obra provocou reações e discussões imediatas, e Darwin, embora fosse objeto de consideráveis críticas, ganhou a "tal da fama".

Quando o livro foi publicado, Darwin foi acometido de novas enfermidades. Ele des­creveu uma terrível e longa ânsia de vômito", "furúnculos que ardiam", além de se sentir “extremamente mal e em cacos" (apud Desmond, 1997, p. 257). Fugiu para uma estância hidromineral no norte da Inglaterra, onde se escondeu do mundo por dois meses. Wallace nunca expressou ressentimento por não receber o reconhecimento proporcional pelo desenvolvimento de uma teoria tão semelhante à de Darwin. Na verdade, sua reação foi pratica­mente contrária. Quando soube que o seu trabalho e o de Darwin seriam lidos na Sociedade Linneana, Wallace declarou haver recebido "mais reconhecimento e crédito do que mere­cia". Mostrou-se satisfeito quando soube que, ao mandar seus papéis para Darwin, ele fora o "meio inconsciente que fez com que [Darwin] se concentrasse na tarefa" para completar um dos livros mais importantes da história (Wallace, apud Raby, 2001, p. 141-142).

Depois de ler o livro de Darwin, Wallace escreveu a um amigo que "Jamais teria me igualado à totalidade desse livro, seu enorme acúmulo de evidência, sua impressionante argumentação, e seu admirável tom e espírito. (...) Sr. Darwin criou uma nova ciência." Em uma nota pessoal a Darwin fez elogios semelhantes e guardou a resposta que lhe foi enviada. Darwin respondeu "Com quanta nobreza você trata dessa falha da humanidade. Mas você fala com modéstia demasiada de si mesmo; se tivesse tido as mesmas vantagens, teria feito o trabalho tão bem, ou talvez ainda melhor do que eu." (Slotten, 2004, p. 172-173).

A Origem das Espécies por meio da Seleção Natural

A teoria da evolução darwiniana é tão conhecida que neste tópico abordaremos apenas alguns pontos básicos. A partir do fato evidente da variação entre os membros individuais de uma espécie, Darwin deduziu ser essa variabilidade espontânea transmitida de uma geração à outra. Na natureza, o processo de seleção natural resulta na sobrevivência dos organismos mais bem adaptados ao seu ambiente e na eliminação dos demais. A batalha pela sobrevivência é constante e as formas de vida sobreviventes são as que se adaptam ou se ajustam com êxito às circunstâncias ambientais a que forem expostas. Resumindo, as espécies que não se adaptam não sobrevivem.

Darwin formulou as ideias sobre a luta pela sobrevivência e a “sobrevivência do mais apto" após a leitura de Essay on the principie of population (1789), de autoria do economista Thomas Malthus, no qual observou que o suprimento de alimentos tende a crescer em proporção aritmética, enquanto a população humana, em progressão geométrica. O resul­tado inevitável seria, como Malthus descreveu em tom melancólico, muitos seres huma­nos vivendo praticamente em condições de inanição. Somente os mais fortes, espertos e adaptáveis sobreviveriam.

Darwin aplicou o princípio malthusiano a todos os organismos humanos para desenvol­ver a sua teoria da seleção natural. Esses seres vivos que sobrevivem à batalha e atingem a maturidade tendem a transmitir aos seus descendentes as mesmas habilidades e vantagens que lhes permitiram prosperar. Além disso, como a variação é uma das leis gerais da here­ditariedade, a prole também apresenta variações; alguns descendentes acabam tendo suas boas qualidades mais desenvolvidas que as dos pais. As qualidades tendem a sobreviver e, ao longo de várias gerações, ocorrem mudanças que podem ser bastante significativas a ponto de produzirem as diferenças observadas hoje entre as espécies.

A seleção natural não foi o único mecanismo de evolução reconhecido por Darwin. Ele também concordava com a doutrina de Lamarck de que as modificações na forma, derivadas da experiência durante o ciclo de vida do animal, podem ser transferidas às gerações subsequentes.

Thomas Henry Huxley e a polêmica sobre a evolução.

À medida que os estudiosos de diversas áreas aderiam à teoria da evolução ou a execravam, o próprio Darwin permanecia à parte e não se interessava em participar das crescentes discussões. Thomas Henry Huxley (1825-1895), ambicioso biólogo que foi a força diretriz no estabelicimento da ciência inglesa, estava disposto a se envolver nas polêmicas e foi um dos defensores mais ávidos da teoria.

Darwin chamava Huxley de seu "bom e gentil agente propagador do evangelho [da evolução]". Huxley era um orador eloquente e carismático e tinha prazer em debater com os inimigos da ciência, agora inimigos da evolução. Era dotado de enorme apelo popular, principalmente entre os operários. Para eles, Huxley promovia a ciência como uma nova religião, um novo caminho para a salvação. O biógrafo de Huxley disse: "Operários barbudos com as mãos calejadas acotovelavam-se para ouvir seus discursos. (...) Ele arrebanhava multidões semelhantes às que vemos hoje em encontros cristãos protestantes ou apresentações de rock" (Desmond, 1997, p. xvii). As pessoas paravam-no na rua para pedir autógrafo e os taxistas não lhe cobravam a corrida.

No período de um ano após a publicação de On the origin of species, a British Association for the Advencement of Science promoveu um debate a respeito do evolucionismo na Oxford University. Os amigos e defensores de Darwin pressionavam-no a participar do debate, no entanto ele não suportava a ideia de ter de se defender em público. Seus amigos insistiam e a situação tornava-se insustentável. Finalmente, escreveu um biógrafo, "seu estômago o salvou. Dois dias antes da reunião sua saúde deteriorou-se completamente Uma crise como essa nunca fora tão bem-vinda (Browne, 2002, p. 118).

No encontro, os oradores foram Huxley, defendendo Darwin e a evolução, e o bispo Samuel Willberforce (apelidado de Soapy [Sam, o Chato] por causa dos seus intermináveis discursos), que defendia a bíblia.

Com relação às ideias de Darwin, [Wilberforce] se felicitava (...) por não descender de um macaco. Veio a resposta de Huxley "Se tivesse de escolher, preferiria ser descendente de um simples macaco do que de um homem que emprega seu conhecimento e sua eloquencia para deturpar a imagem daqueles que dedicam a vida em busca da verdade". (White, 1896/1965, p. 92)

Outro orador no debate em Oxford foi Robert Fitzroy, o capitão do navio Beagle durante a viagem de Darwin. Fitzroy declarava-se culpado por ajudar na pesquisa de Darwin, aprovando a sua seleção para fazer parte da excursão como naturalista (apesar do formato do seu nariz). Fitzroy agitava a bíblia, enquanto conclamava o público a acreditar na palavra de Deus, expressando seu profundo pesar e arrependimento por ter proporcionado a Darwin a oportunidade de coletar dados para o desenvolvimento de sua teoria. Ninguém estava interessado em ouvir as lamentações de Fitzroy. "A sala permanecia em silêncio", declarou o biógrafo de Darwin, e, por fim, Fitzroy "afundou-se em seu assento sem praticamente ser ouvido" (Browne, 2002, p. 123).

Fitzroy tinha tida uma vida difícil desde a viage do Beagle Após servir o Parlamento e um período curto e não bem-sucedido como governador da Nova Zelândia, retornou à Inglaterra para se dedicar ao estudo da meteorologia. "Desenvolveu as técnicas fundamentais de previsão do tempo [e] inventou o sistema de avisos e sinais anunciando tempestades que salvaram inúmeras vidas nas décadas que se seguiram, e foi o responsável pela publicação de previsões diárias de tempo. Na verdade, ele inventou o termo 'previsão do tempo'" (Gribbin e Gribbin, 2004, p. 5). Mas sua obsessão lhe custou a fortuna da família.

Ficou também bastante atormentado com o papel que teve em habilitar Darwin a produzir a teoria da evolução. Ele estava convicto que se não tivesse escolhido Darwin para acompanhá-lo na viagem no Beagle, a teoria não teria surgido. Quando Darwin lhe enviou uma cópia do On the origin of species, ele respondeu que "não conseguia achar nada enobrecedor ser descendente do mais antigo dos macacos" (apud Nichols, 2003, p. 311).

Cinco anos depois do debate em Oxford, em um domingo de manhã no meio de sua preparação para ir à igreja, o pensativo capitão suicidou-se cortando sua garganta com uma lâmina. A Sra. Darwin escreveu que seu marido "havia sentido muito o acontecido com Fitzroy, mas que não estava nada surpreso. Lembrou-se de uma ocasião em que ele [Fitzroy] quase enlouqueceu na viagem no Beagle" (apud Browne, 2002, p. 264).

Posterior­mente Darwin enviou uma considerável quantia de dinheiro à viúva desamparada.

Outros trabalhos de Darwin.

O segundo importante trabalho sobre a evolução, The descent of man (1871), reunia as provas da evolução humana a partir das formas de vida mais simples, enfatizando a semelhança entre os processos mentais humanos e animais. O livro rapidamente ganhou popularidade, e um famoso escritor de revista ressaltou: "Na sala de estar, o livro compete com o mais recente romance; na sala de estudos, incomoda como o homem da ciência, o moralista e o teólogo. De todos os lados escorrem enxurra­das mistas de ódio, admiração e encantamento" (apud Richards, 1987, p. 219).

Darwin realizou um estudo intensivo sobre as expressões emocionais nos humanos e nos animais. Sugeriu que as mudanças dos gestos e das posturas típicas de vários estados emocionais podiam ser interpretadas com base no evolucionismo. Na obra The expression of the emotions in man and animals (1872), explicou as expressões emocionais como vestí­gios dos movimentos que em dado momento tiveram alguma função prática.

Darwin alegava que as expressões faciais e a chamada linguagem corporal eram "manifestações inatas e incontroláveis" dos estados emocionais internos. Por exemplo, a dor era acompanhada de trejeitos e o prazer, de um sorriso. Darwin afirmava que esses tipos de expressões humanas e de outras espécies animais surgiam por meio da evolução. Seu biógrafo relatou: "As expressões que surgem nos rostos humanos eram, para ele, uma prova viva e diária da ancestralidade animal" (Browne, 2002, p. 369).

Darwin também deu uma pequena contribuição para a literatura psicológica infantil com o diário sobre seu filho. Ele registrou cuidadosamente o desenvolvimento da criança e publicou o material intitulado “A biographical sketch on an infant” (1877) na revista Mind. O diário é um importante precursor da psicologia do desenvolvimento, um exemplo da tese de Darwin de que as crianças passam por uma série de estágios do desenvolvimento paralelos aos estágios da evolução humana.

A Evolução em Andamento: o Bico dos Tentilhões

Darwin realizou várias de suas observações a respeito da variação entre as espécies quan­ do esteve nas Ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico, próximo à costa da América do Sul. Observou como os animais da mesma espécie haviam evoluído de formas diferentes em resposta às diversas condições ambientais.

Seguindo os passos de Darwin, os biólogos Peter e Rosemary Grant, da Princeton University, acompanhados de um grupo dedicado de estudantes de pós-graduação, visi­taram as ilhas para monitorar as modificações encontradas nas gerações subsequentes de 13 espécies de tentilhões, decorrentes da adaptação dos pássaros às drásticas mudanças ambientais. O programa da pesquisa começou em 1973 e durou mais de 30 anos. Os pesquisadores testemunharam a evolução em andamento, observando as diferenças nas pequenas aves cantoras de uma geração a outra. Os Grants chegaram à conclusão de que Darwin havia subestimado a força da seleção natural. No caso dos tentilhões, a evolução era mais rápida do que se imaginava.

As variações observadas em uma espécie de tentilhão iniciaram durante um rigoroso período de seca que afetara o suprimento alimentar das aves, reduzindo-o a pequenas sementes duras e pontiagudas. Somente os tentilhões de bicos mais grossos, cerca de 15% da população, eram capazes de quebrar para abrir as sementes. Muitas aves de bicos finos não conseguiam abrir as sementes e logo morriam. Portanto, sob essas condições de seca, os bicos mais grossos eram ferramentas necessárias para a adaptação.

Quando essas aves de bicos mais espessos se reproduziam, sua ninhada também herdava essa característica, com bicos de 4% a 5% maiores do que os dos seus ancestrais antes da seca. Em apenas uma geração, a seleção natural produzira uma espécie mais bem adaptada e forte.
Logo vieram as chuvas, com enormes tempestades e enchentes que varreram da ilha as sementes graúdas, deixando apenas as miúdas como fonte de alimentação dos pássaros. Agora as aves de bicos mais grossos estavam em desvantagem, pois não conseguiam pegar a quantidade adequada de comida. Era nítida a necessidade de bicos mais finos para a sobrevivência. A partir daí, é fácil deduzir o que aconteceu. Peter Grant escreveu: “A sele­ção provocou uma verdadeira revolução na vida dos pássaros. As aves maiores, com bicos grandes, estavam morrendo enquanto as aves pequenas, com bicos menores, estavam se desenvolvendo. A seleção mudou rapidamente de lado" (apud Weiner, 1994, p. 104).

Na geração seguinte, o tamanho médio do bico era menor. Uma década mais tarde, como consequência da seca entre 2003-2004, observou-se outra evolução no tamanho do bico, em resposta àquele ambiente modificado (Grant e Grant, 2006). Mais uma vez a espécie havia evoluído, adaptando-se às mudanças do seu ambiente. Assim como Darwin previra, apenas os mais aptos sobreviveram.

O elo perdido? Em 2006, cerca de 147 anos depois da publicação de On the origin of the species, um grupo de cientistas dos Estados Unidos descobriu diversos fósseis em uma ilha remota do Canadá, ao norte do Círculo Ártico. Acredita-se que os fósseis encontrados eram os restos do esqueleto de um peixe enorme, medindo quase três metros de comprimento, e foi considerado o tão procurado elo perdido - isto é, um peixe no processo de evolução para se tornar um animal terrestre (Daeschler, Shubin e Jenkins, 2006; Shubin, Daeschler e Jenkins, 2006).

Os fósseis, que se acreditava ter 275 mil anos, tinham todas as características de peixe, como barbatanas e escama, e também mostravam evidência de membros em formação. Tinham ossos que correspondiam ao ombro, parte superior dos braços, cotovelo e traços semelhan­tes ao punho, desconhecidos em outras espécies de animais. Essas descobertas forneceram suporte adicional às ideias de Darwin sobre a transição de uma espécie para outra.

A Influência de Darwin na Psicologia

O trabalho de Darwin, bem no final do século XIX, influenciou a psicologia contempo­rânea, mediante:

  • o enfoque na psicologia animal, que formou a base da psicologia comparativa;
  • a ênfase nas funções e não na estrutura da consciência;
  • a aceitação da metodologia e dos dados de diversas áreas;
  • o enfoque na descrição e mensuração das diferenças individuais.

A teoria da evolução suscitou a intrigante possibilidade da continuidade do funcio­namento mental entre os humanos e os animais inferiores. Se a mente humana fosse uma evolução das mentes mais primitivas, então será que haveria semelhanças entre o funcionamento mental dos animais e dos homens? Dois séculos antes, Descartes insis­tira haver uma diferença entre o funcionamento humano e o animal. Agora a questão voltava à tona.

Os psicólogos perceberam a importância do estudo do comportamento animal para a compreensão do comportamento humano e concentraram a pesquisa no funcionamentomental dos animais, introduzindo um novo tópico no laboratório de psicologia. A investi­gação da psicologia animal viria exercer grande impacto no desenvolvimento da área.

A teoria da evolução provocou também uma mudança no objeto de estudo e na meta da psicologia. O enfoque da escola de pensamento estruturalista era a análise do conteúdo da consciência. O trabalho de Darwin inspirou alguns psicólogos que trabalhavam nos Estados Unidos a analisarem as funções da consciência. Para alguns pesquisadores, esse enfoque pareceu mais importante do que a descoberta de qualquer elemento estrutural da consciência. E assim, gradualmente, à medida que a psicologia se dedicava mais ao estudo do funcionamento do ser humano e dos animais na adaptação ao seu ambiente, a investigação detalhada dos elementos mentais, iniciada por Wundt e Titchener, perdia
o seu apelo.

As ideias de Darwin influenciaram a psicologia, ampliando os métodos que essa nova ciência passara a usar com legitimidade. Os métodos empregados no laboratório de Wundt, em Leipzig, foram derivados principalmente da fisiologia, mais especificamente dos métodos psicofísicos de Fechner. Os métodos de Darwin, que produziam resultados aplicáveis tanto nos seres humanos como nos animais, não tinham qualquer semelhança com as técnicas baseadas na fisiologia. Os dados de Darwin foram obtidos de diversas fon­tes, incluindo a geologia, a arqueologia, a demografia, as observações de animais selvagens e domésticos e a pesquisa com reprodução. Foram as informações obtidas de todos esses campos que deram suporte à sua teoria.

Essa foi uma prova tangível e impressionante da possibilidade de os cientistas estuda­rem a natureza humana adotando técnicas que não a introspecção experimental. Seguindo o exemplo de Darwin, os psicólogos que aceitavam a teoria evolucionista e sua ênfase nas funções da consciência tornaram-se mais ecléticos em relação aos seus métodos de pesquisa, expandindo, assim, os tipos de informações obtidos.
Outro efeito da evolução na psicologia foi o crescente enfoque nas diferenças indivi­duais. Durante a viagem do Beagle, Darwin observou várias espécies e formas, de modo que, para ele, era evidente a variação entre os membros da mesma espécie. Se cada geração fosse idêntica aos seus ancestrais, não haveria evolução. Portanto essas variações, ou seja, essas diferenças individuais, consistiam em um princípio importante do evolucionismo.

Enquanto os psicólogos estruturalistas continuavam a buscar as leis gerais que abranges­sem toda a mente, os psicólogos influenciados pelas ideias de Darwin procuravam as dife­renças mentais individuais e logo apresentaram técnicas para medir essas diferenças.
O material a seguir foi extraído da autobiografia de Darwin. Essa passagem não se refere à sua pesquisa ou à sua teoria, mas trata-se da imagem que ele tinha de si próprio e sua opinião sobre as qualidades pessoais que o levaram ao sucesso.


Texto original

Trecho Extraído de The Autobiography of Charles Darwin (1876)

Meus livros tiveram boa vendagem na Inglaterra, foram traduzidos para vários idiomas e passaram por várias edições em outros países. Ouvi dizer que o sucesso de um trabalho no exterior é o melhor teste para verificar seu valor perene. Tenho dúvidas se, afinal, essa afir­mação é digna de confiança; todavia, a julgar por esse padrão, o meu nome deve perdurar por alguns anos. Portanto, talvez seja de valia tentar analisar as qualidades mentais e as con­dições das quais dependeu o meu sucesso, embora ciente de não haver homem capaz de fazê-lo corretamente.
Não sou dotado de grande rapidez de apreensão ou sagacidade, que é notável em alguns homens inteligentes como, por exemplo, Huxley. Considero-me, assim, um mau crítico: quando leio pela primeira vez um trabalho ou um livro, normalmente ele suscita a minha admiração e somente depois de muita reflexão é que percebo os pontos fracos. Minha capacidade de seguir uma linha de pensamento extensa e puramente abstrata é bastante limitada e, portan­to, nunca teria êxito na metafísica ou na matemática. Minha memória é boa, porém vaga: suficiente para me alertar, indicando-me morosamente já ter eu observado ou lido algo que contradiga a conclusão a que estou chegando ou, de modo contrário, a favoreça; e depois de algum tempo, geralmente sou capaz de lembrar-me onde buscar o embasamento necessário. Em certo sentido minha memória é tão fraca, que jamais fui capaz de memorizar por alguns dias uma única data ou um verso de um poema. (...)

O lado favorável da balança, creio ser superior aos homens comuns no aspecto de obser­var algo que facilmente escapa da atenção, analisando-o cuidadosamente. Minha dedicação ao trabalho de observação e à coleta dos fatos chega praticamente ao extremo, O meu amor firme e ardente pela ciência natural é o mais importante.

Esse amor puro, no entanto, tem sido alimentado pela ambição de ser estimado por meus colegas naturalistas. Desde a juventude, sinto o profundo desejo de compreender ou explicar tudo que observo, ou seja, de agrupar todos os fatos sob algumas leis gerais. Essas causas combinadas proporcionaram-me paciência para refletir ou ponderar por quanto tempo fosse necessário a respeito de qualquer problema inexplicável. No que me concerne julgar, não tenho capacidade para seguir cegamente outros homens. Tenho me dedicado com fir­meza para manter minha mente livre de modo a renunciar a qualquer hipótese, mesmo que muito querida (e não resisto a criar uma sobre qualquer assunto), assim que se apresentem fatos que a desmintam. De fato, não possuo outra alternativa senão agir dessa forma, pois, - exceção dos Corais de Reefs, não tenho lembrança de uma única primeira hipótese que não tenha sido, deoois de algum tempo, renunciada ou bastante modificada. Isso me conduziu, naturalmente a rejeitar totalmente o raciocínio dedutivo nas ciências mistas. Por outro lado, não sou tão cético, uma característica da mente que creio ser um insulto para o progresso da ciência. Uma boa dose de ceticismo ao cientista é aconselhável para evitar muita perda de tempo, [mas] conheci não poucos homens que, sinto com certeza, várias vezes foram assim dissuadidos da experiência ou das observações que poderiam provar-se direta ou indireta­mente válidas (...)

Meus hábitos são metódicos e essa qualidade vem se mostrando bastante eficaz para a minha linha particular de trabalho. Ultimamente, venho tendo amplo lazer por não ter de obter meu próprio sustento. Até mesmo o meu estado de enfermidade, embora aniquilando vários anos da minha vida, salvou-me das distrações e divertimentos sociais.

Portanto, o meu sucesso como um homem da ciência, aonde quer que ele tenha me levado, foi determinado, de acordo com o meu julgamento, por condições e qualidades mentais diver­sificadas e complexas. Dentre essas características, as mais importantes são o amor à ciência, a paciência irrestrita para longas reflexões sobre qualquer assunto, o trabalho dedicado na obser­vação e coleta dos fatos e uma fatia razoável de criatividade, além do senso comum. Com essas modestas habilidades que possuo, é realmente surpreendente que eu houvesse influenciado tão extensamente a crença dos homens da ciência em alguns pontos importantes.


Diferenças Individuais: Francis Galton (1822-1911)

O trabalho de Galton a respeito da herança mental e das diferenças individuais da capacidade humana incorporou efetivamente o espírito da evolução na nova psicologia. Antes dele, o fenô­meno das diferenças individuais quase não era considerado um tema adequado para estudo.
Um dos poucos cientistas pioneiros a reconhecer as diferenças individuais nas habi­lidades e nas atitudes foi o médico espanhol Juan Huarte (1530-1592). Trezentos anos antes dos estudos de Galton nessa área, Huarte havia publicado um livro intitulado The examination of talented individuals (O exame dos indivíduos talentosos), em que apresentava uma grande variedade de diferenças individuais da capacidade humana (apud Diamond, 1974). Huarte sugeria que as crianças começassem a estudar desde cedo para que a educa­ção pudesse ser planejada individualmente de acordo com as suas habilidades. Por exem­plo, mediante uma avaliação adequada, seria oferecida ao aluno com aptidão musical a oportunidade de estudar música e as disciplinas afins.

O livro de Huarte teve alguma repercussão, no entanto suas ideias não eram formalmen­te seguidas antes de Galton. Embora Weber, Fechner e Helmholtz houvessem observado as diferenças individuais nas pesquisas experimentais, não investigaram sistematicamen­te essas descobertas.

Além disso, Wundt e Titchener sequer consideravam as diferenças individuais como parte legítima do estudo da psicologia.

A Biografia de Galton

Francis Galton era dotado de extraordinária inteligência (um QI estimado de 200) e riqueza de ideias originais. Entre alguns dos tópicos da sua pesquisa estão as impressões digitais que a polícia acabou adotando para a identificação criminal), a moda, a distribuição geo­gráfica da beleza, o levantamento de peso e a eficácia da oração religiosa. Ele inventou uma versão inicial da impressora de teletipo, um dispositivo para abrir cadeados e um periscópio que o permitia olhar por sobre as cabeças das pessoas durante um desfile de rua.

Galton era o caçula de nove filhos e nasceu em 1822, nas proximidades de Birmingham Inglaterra. Seu pai era um banqueiro próspero cuja família abastada e socialmente desta­cada incluia pessoas de esferas de grande influência como o governo, a Igreja e o exército. Francis era uma criança precoce que aprendia rapidamente. Um biógrafo escreveu que, aos 12 meses Galton conseguia reconhecer todas as letras maiúsculas; aos 18 meses conhecia bem o alfabeto inglês e o grego e chorava se fossem retirados de sua vista- aos 2 anos e meio leu seu primeiro livro... Aos 5 já estava bem familiarizado com os trabalhos de Homero. (Brooks, 2004, p. 18)

Aos 16 anos, pela insistência de seu pai, Galton começou a aprender medicina no Birmingham General Hospital, como assistente de médico. Distribuía medicamentos lia ívros de medicina, tratava de fraturas, amputava dedos, extraía dentes, aplicava vacina nas crianças e divertia-se lendo os clássicos da literatura. No geral, entretanto, não achava uma experiencia prazerosa e continuava somente por pressão do pai.

Um incidente ocorrido durante o aprendizado médico de Galton é um exemplo da sua curiosidade. Desejando conhecer os efeitos dos diversos medicamentos da farmácia ele passou a tomar pequenas doses de cada um e a anotar a sua reação, iniciando, de forma sistematica, com os que começavam com a letra "A". Essa aventura científica teve fim na etra C, quando tomou uma dose de óleo de cróton, um forte laxante.

Depois de um ano no hospital, continuou seus estudos de medicina no King's College em Londres. No ano seguinte mudou os planos e matriculou-se no Trinity College da Cambridge University. Ali, diante do olhar do busto de sir Isaac Newton, procurou seguir seu interesse pela matemática. Embora seu trabalho houvesse sido interrompido por um profundo surto mental, conseguiu formar-se. Retomou o odioso estudo da medicina, até que a morte do seu pai finalmente o libertou daquela profissão.

Nesse momento, a viagem e a exploração chamavam a atenção de Galton. Viajou por toda a Africa fazendo viagens difíceis e perigosas para áreas onde homens brancos jamais tinham visitado. Ele achou tudo muito empolgante e animador, exceto talvez por um incidente contado por seu biógrafo:

Só e longe de casa, parece que Galton possa ter superado sua timidez e procurou os serviços de uma prostituta. Sua coragem foi retribuída com uma grande dose de doença venérea que o perseguiu intermitentemente por muitos anos. Quer seja verdade ou não, a sua atitude em relação às mulheres esfriou notadamente apartir de 1846. o ano em questão. (Brookes, 2004, p. 60)

Quando voltou para a Inglaterra publicou histórias sobre suas viagens, que lhe renderam uma medalha da Royal Geographic Society [Sociedade Real de Geografia], Na década e 1850, parou de viajar, alegando como causas o casamento e a saúde frágil, mas manteve o interesse pela exploraçao e escreveu um famoso guia intitulado The art of travel. O livro fez tanto sucesso que publicado em oito edições, em oito anos, e reimpresso em 2001. Galton tambem organizava expedições para exploradores e dava orientações sobre a vida do campo a soldados em treinamento para servirem em país estrangeiro.

Sua inquietação mental o conduziu em seguida à meteorologia e à criação de instru­mentos para coletar informações meteorológicas. Seu trabalho nesse campo resultou no desenvolvimento do tipo de mapa meteorológico utilizado até hoje. Galton resumiu suas descobertas em um livro considerado a primeira tentativa de cartografar em grande esca­la os padrões de meteoros.

Quando seu primo Charles Darwin publicou On the origin of species, Galton ficou fas­cinado pela nova teoria. Escreveu, dizendo que o livro "marcou época no meu próprio desenvolvimento mental, assim como no pensamento humano em geral (apud Gillham, 2001, p. 155). O primeiro ponto a chamar sua atenção foi o aspecto biológico da evolução, e assim ele realizou uma pesquisa sobre os efeitos das transfusões de sangue entre os coe­lhos para descobrir se as características adquiridas seriam herdadas. Embora seu interesse pelo lado genético do evolucionismo não houvesse durado muito tempo, as implicações sociais da teoria direcionaram seu trabalho subsequente e determinaram sua influência na psicologia moderna.

A Herança Mental

O primeiro livro importante de Galton para a psicologia foi Hereditary genius (1869). Quando Darwin o leu, escreveu a Galton, dizendo nunca ter lido algo tão interessante e original. Galton procurou demonstrar que a grandeza ou a genialidade individuais ocorriam com tanta frequência dentro das famílias que a mera explicação da influência ambiental não era suficiente. Resumindo, sua tese afirmava que um homem notável teria filhos homens notáveis (naquele tempo, as filhas tinham poucas oportunidades de se destacarem, a não ser por meio de um casamento com algum homem importante).

A maioria dos estudos biográficos descritos por Galton em Hereditary genius era pes­quisas sobre os ancestrais de influentes cientistas e médicos contemporâneos. Os dados demonstravam que uma pessoa famosa herdava não apenas a genialidade, como também sua forma específica. Por exemplo, um grande cientista nascia em uma família que já se houvesse destacado na ciência.

O objetivo de Galton era incentivar o nascimento de indivíduos mais notáveis ou mais aptos na sociedade e desencorajar o nascimento dos inaptos. Para essa finalidade, fundou a ciência da "eugenia", palavra por ele cunhada. Eugenia, ele afirmou, lida com as "questões relacionadas com o termo grego, Eugenes, isto é, de boa estirpe, hereditariamente dotado de qualidades nobres" (apud Gillham, 2001, p. 207). Galton desejava impulsionar o aperfeiçoamento das qualidades herdadas da raça humana. Argumentava que os seres humanos, assim como os animais de criação, podiam ter as características melhoradas mediante a seleção artificial. Se as pessoas de muito talento fossem selecionadas e acasa­ladas geração após geração, o resultado seria uma raça humana extremamente talentosa. Propôs o desenvolvimento de testes de inteligência para selecionar homens e mulheres brilhantes, destinados à reprodução seletiva, e recomendou que os melhores recebessem incentivos financeiros para se casarem e procriarem.

Na tentativa de verificar sua teoria da eugenia, Galton estudou problemas de mensuração e de estatística. Para o livro Hereditary genius, aplicou conceitos estatísticos a problemas de hereditariedade, classificando os homens extraordinários de sua amostragem em categorias, conforme a frequência com que seus níveis de capacidade ocorriam na população. Os dados comprovaram que os homens notáveis apresentavam maior probabilidade de terem filhos extraordinários do que os homens comuns. A amostragem consistia em 977 homens famosos, cada um tão notável que a proporção era de 1 para cada 4.000 homens. Aleatoriamente, a expectativa seria de haver no grupo apenas um parente importante; no entanto havia 332.

A probabilidade de superioridade em algumas famílias não era alta o suficiente para Galton aceitar seriamente qualquer possibilidade de influência de um ambiente superior, como melhores oportunidades educacionais ou vantagens sociais. Seu argumento era de que a eminência ou a sua ausência deviam-se exclusivamente a uma função hereditária, e não à oportunidade.

Galton escreveu também English men of science (1874), Natural inheritance (1889) e mais 30 trabalhos a respeito da hereditariedade. Publicou a revista Biometrika, fundou o labo­ratório de eugenia na University College, de Londres, e uma organização para promover suas ideias acerca do aperfeiçoamento das qualidades mentais da raça humana.

No trecho a seguir, extraído de Hereditary genius, Galton discute os limites do desen­volvimento tanto físico como mental impostos pela hereditariedade. Ele observa que nenhum tipo de esforço, mental ou físico, possibilita que uma pessoa avance além de suas características genéticas.


Texto original

Trecho Extraído de Hereditary Genius: an Inquiry into Its Laws and Consequences (1869), de Franeis Galton

Não tenho como admitir a hipótese ocasionalmente expressa, e muitas vezes implícita, prin­cipalmente nas histórias escritas a fim de ensinar as crianças a serem boas, de que os bebês recém-nascidos são muito parecidos e que os únicos agentes a criarem as diferenças entre dois garotos e entre dois homens sejam a rígida aplicação e o esforço moral. É da maneira mais incondicional que faço objeção contra as pretensões da igualdade natural. As experiên­cias do berçário, da escola, da universidade e das carreiras profissionais formam uma cadeia de provas contrárias. Admito francamente o enorme efeito da educação e das influências sociais no desenvolvimento dos poderes ativos da mente, assim como reconheço o efeito do uso no desenvolvimento dos músculos do braço de um ferreiro e nada mais. Deixe o ferreiro simplesmente trabalhar, e ele descobrirá que existem algumas proezas acima do seu poder que são convenientes para a força de um homem de feitio hercúleo, embora possa ter tido uma vida sedentária. (...)

Todo aquele que se exercita fisicamente descobre a magnitude da sua força muscular para o refinamento. Quando começa a caminhar, a remar, a utilizar halteres ou a correr, descobre, para seu deleite, que seus [músculos] se fortalecem e a sua resistência à fadiga aumenta dia após dia. Enquanto é um novato, talvez se vanglorie da inexistência de um limite designável ao treinamento dos seus músculos; todavia logo notará que o ganho diário diminui e que, por fim, acaba desaparecendo. Seu desempenho máximo torna-se uma quantidade rigidamen­te determinada. Aprende a medir milimetricamente a sua capacidade de salto em altura ou sua ausência quando atinge o mais alto grau de treinamento. Aprende a dosar a força que pode aplicar no dinamômetro, comprimindo-o. É capaz de aplicar um golpe na máquina utilizada para medição de impacto e obter certo grau de índice, mas nada mais. É assim na corrida, no remo, na caminhada e em qualquer outra forma de exercício. A força muscular humana possui um limite definido que não pode ser ultrapassado por nenhum exercício ou treinamento.

Esse argumento é precisamente similar à experiência vivida por cada aluno que trabalha com a sua capacidade mental. O garoto ansioso no primeiro dia de aula, ao confrontar-se com as dificuldades intelectuais, fica maravilhado com seu progresso. Vangloria-se do desenvolvi­mento mental recém-conquistado e da sua capacidade crescente de aplicação e, talvez, cari­nhosamente acredite estar a seu alcance tornar-se um dos heróis que deixaram a sua marca ao longo da história mundial. Os anos passam, ele compete repetidas vezes com os seus colegas nos exames da escola e da faculdade e logo conquista o seu lugar entre eles. Sabe que pode vencer este ou aquele concorrente; que existem alguns com quem compete em igualdade de condições e outros com feitos intelectuais dos quais ele nen se aproxima. (...)

Dessa maneira, com esperanças recém-renovadas e com toda a ambição de um jovem de 22 anos, sai da universidade e ingressa em um campo de competição ainda maior. Ali, o mesmo tipo de experiência pelo qual já passou o aguarda. Surgem as oportunidades - e as surgem para todo homem - e ele se sente incapaz de agarrá-las. Ele tenta e é tentado de diversas maneiras. Em mais alguns anos, a menos que definitivamente cegado pela própria vaidade, aprende exatamente quais são os desempenhos de que é capaz e quais são os que estão além da sua capacidade. Quando atinge a maturidade, é confiante apenas dentro de determinados limites e se conhece, ou deveria conhecer-se, assim como é provavelmente julgado pelo mundo, com todas as suas inconfundíveis fraquezas e todas as suas inegáveis forças. Não se tortura mais em realizar esforços inúteis pelos discursos falaciosos da presunçosa vaidade, todavia limita as suas realizações às matérias abaixo do nível de seu alcance e descobre o verdadeiro repouso moral na convicção honesta de que está enga­jado na melhor empreitada de que é capaz de desempenhar, proporcionada pela sua natureza.


Métodos Estatísticos

Galton nunca ficava totalmente satisfeito com um problema até encontrar alguma maneira de quantificar os dados e analisá-los estatisticamente. Quando precisava, até desenvolvia os próprios métodos. 

Adolph Quetelet (1796-1874), um matemático belga que também era pintor, poeta e escritor, acreditava fortemente na utilidade da estatística, "convencido de que a estatística fornecia um insight ao comportamento humano e à compreensão da sociedade (Cohen, 2005, p. 126). Quetelet foi o primeiro a usar métodos estatísticos e a curva normal de distribuição em dados biológicos e sociais. A curva normal fora empregada em trabalhos acerca da distribuição de medidas e erros na observação científica, mas não havia sido aplicada à variabilidade humana até Quetelet demonstrar que as medidas de altura de 10 mil indivíduos ficavam próximas da curva normal. A sua expressão l homme moyen (o homem médio) explicava a descoberta de que a maioria das medidas físicas ficavam distribuídas em torno da média ou do centro da distribuição e poucas se encontravam
próximas de qualquer extremo.

Galton ficou impressionado com os dados de Quetelet e presumiu que resultados simi­lares seriam obtidos para as características mentais. Por exemplo, Galton descobriu que as notas atribuídas nos exames das universidades seguiam a curva normal. Devido à simplicidade da curva normal e à sua consistência em vários traços, ele sugeriu que qualquer conjunto grande de medidas ou de valores das características humanas podia ser descrito satisfatoriamente por dois números: o valor médio da distribuição (a média aritmética) e a dispersão ou a faixa de variação em torno desse valor médio (o desvio-padrão).

O trabalho estatístico de Galton produziu uma das medidas científicas mais importan­tes: a correlação. O primeiro relatório, utilizando o que ele chamou de "correlação" foi elaborado em 1888. As modernas técnicas estatísticas para a determinação da validade e confiabilidade dos testes, bem como dos métodos analítico-fatoriais, são resultado direto da sua pesquisa de correlação, os quais foram baseados na observação da tendência das características herdadas de regressarem na direção da média. Por exemplo, ele observou que, na média, os homens de estatura alta não são tão altos quanto seus pais; por outro lado, os filhos de homens de estatura bem baixa são mais altos do que os pais. Ele represen­tou graficamente as propriedades básicas do coeficiente de correlação e criou uma fórmula para o cálculo, embora não seja mais usada.

Incentivado por Galton, seu aluno Karl Pearson (1857-1936) desenvolveu a fórmula usada atualmente para calcular o coeficiente de correlação (o coeficiente de correlação produto-momento de Pearson), cujo símbolo é a letra "r" inicial da palavra "regressão", como homenagem à descoberta da tendência dos traços humanos herdados de regressão para a média feita por Galton. Durante muitos anos Pearson se preocupou com a ideia de que sua reputação científica não passaria de uma simples "nota de rodapé em uma fórmula (...) Esse medo tornou-se uma grande verdade" (E. Baumgartner, 2005, p. 84).

A correlação é uma ferramenta fundamental para as ciências sociais e comportamentais, bem como para a engenharia e as ciências naturais. Além disso, outras técnicas de estatística foram desenvolvidas graças ao trabalho pioneiro de Galton.

Testes Mentais

A expressão testes mentais foi cunhada por James McKeen Cattell, discípulo estadunidense de Galton e aluno de Wundt. Entretanto foi Galton quem deu origem ao conceito de testes mentais. Ele imaginava que a inteligência podia ser medida com base na capacidade sensorial individual e que, quanto mais inteligente, mais alto seria o nível de funcionamento sensorial do indivíduo. Galton extraiu essa ideia da visão empirista de John Locke de que todo conhecimento é adquirido por meio dos sentidos. Se Locke esti­vesse correto, as pessoas mais inteligentes teriam os sentidos mais aguçados.

A fim de atingir seus objetivos, Galton precisava inventar um aparelho que realizasse medidas sensoriais em um grande número de pessoas com rapidez e precisão. Por exemplo para determinar a frequência sonora mais alta, passível de detecção, inventou um apito que testou em animais e em seres humanos. Caminhava pelo zoológico de Londres com uma bengala que tinha o apito afixado em uma ponta e na outra uma espécie de bexiga de bor­racha que ele apertava para tocar o apito, enquanto observava a reação dos animais. O apito de Galton tornou-se uma peça-padrão entre os equipamentos do laboratório de psicologia até ser substituído, na década de 1930, por um dispositivo eletrônico mais sofisticado.

Entre outros instrumentos usados por Galton estão o fotômetro, para medir a precisão com que uma pessoa consegue encontrar dois pontos da mesma cor, um pêndulo calibra­do, para medir a velocidade de reação à luz e ao som, e uma série de pesos ordenados para medir a sinestesia ou a sensibilidade muscular. Criou ainda uma barra com várias medidas de distância para testar a estimativa de extensão visual e conjuntos de recipientes contendo diversas substâncias para testar a distinção olfativa. Em sua maioria, os testes de Galton serviram como protótipos para equipamentos que se tornaram padrão de laboratório.

Munido de seus novos testes, Galton prosseguiu coletando uma enorme quantidade de dados. Fundou o Laboratório Antropométrico na International Health Exhibition [Ex­posição Internacional de Saúde], em 1884, e mais tarde transferiu-o para o museu South Kensington de Londres. O laboratório funcionou durante seis anos e, nesse período, Galton coletou dados de mais de 9 mil pessoas. Ele arrumava os instrumentos para as medidas psicométricas e antropométricas sobre uma mesa comprida, no fundo de uma sala estrei­ta, de mais ou menos 2m de largura por 11m de comprimento. Mediante o pagamento de uma pequena taxa, o visitante entrava, passava por todo o comprimento da mesa e um atendente realizava a avaliação e registrava os dados em um cartão.

Além dessas medidas mencionadas, os funcionários do laboratório registravam a altu­ra, o peso, a capacidade respiratória, a força de impulsão e compressão, a rapidez de sopro, a audição, a visão e a percepção cromática. Cada pessoa passava por um total de 17 testes. O objetivo do programa de testes em larga escala de Galton era nada menos que a defini­ção da variedade da capacidade humana de toda a população britânica para determinar seus recursos mentais coletivos.

Um século mais tarde, um grupo de psicólogos estadunidenses analisou esses dados (Johnson et al, 1985) e descobriu muitas correlações teste-reteste, indicando a consistência estatística dos dados. Esses psicólogos constataram também que os dados forneciam informações acerca das tendências do desenvolvimento infantil, juvenil e adulto, dentro da população testada. As medidas como o peso, o alcance do braço, a capacidade respiratória e a força de compressão mostraram-se similares às descritas na literatura psicológica mais recente, exceto em reiação à velocidade de desenvolvimento que, na época de Galton, parece ter sido um pouco mais lenta. Os psicólogos chegaram à conclusão de que esses dados continuam instrutivos.

A Associação de Ideias

Galton trabalhou em dois problemas relacionados com a área da associação:

  1. a diversidade de associações de ideias;
  2. o tempo de reação (o tempo necessário para a produção de associações).

Um dos métodos usados por Galton para estudar a diversidade de associações era cami­nhar cerca de 400m pela rua Pall Mall (em Londres, entre a Trafalgar Square e o palácio de St. James), concentrando sua atenção em um objeto até que ele lhe incitasse uma ou duas associações de ideias.

A primeira vez em que realizou essa experiência, surpreendeu-se com o número de associações provocadas por cerca de 300 objetos que vira. Muitas dessas associações eram lembranças de experiências do passado, inclusive de incidentes que pensava ter se esque­cido havia muito tempo. Ao repetir a caminhada alguns dias depois, constatou uma considerável repetição das associações ocorridas na primeira experiência, o que pôs fim ao seu interesse na questão. Voltou-se para as experiências sobre o tempo de reação, que produziam resultados mais satisfatórios.
Preparou uma lista de 75 palavras e escreveu cada qual em uma tira de papel separada. Depois de uma semana, leu uma palavra de cada vez e, com o cronômetro, registrou o tempo que levou para produzir duas associações para cada palavra. Muitas delas consistiam em apenas uma palavra, mas algumas eram imagens e figuras mentais que exigiam diversas palavras para descrevê-las. A tarefa seguinte era determinar a origem dessas associações. Identificou cerca de 40% dos acontecimentos da infância e da adolescência, demonstração inicial da influência das experiências da infância na personalidade adulta.

Galton também ficou bastante impressionado com a influência dos processos de pensamento do seu inconsciente, que trouxeram para o nível consciente incidentes que acreditava haver esquecido muito tempo atrás. Disse que chegou a acreditar "que o meu melhor trabalho cerebral era totalmente independente da [consciência]" (apud Gillham, 2001, p. 221). Escreveu sobre a importância do inconsciente em um artigo publicado na revista Brain (1879). Em Viena, Sigmund Freud, que tinha ideias próprias a respeito da importância do inconsciente, era assinante da revista e foi nitidamente influenciado pelo trabalho de Galton.

Mais importante que os resultados foi o método experimental que Galton desenvol­veu para estudar as associações, hoje conhecido como o teste de associação de palavras. Wilhelm Wundt adaptou a técnica no laboratório de Leipzig, como mencionamos no Capítulo 4, limitando as respostas dos indivíduos a apenas uma palavra. O analista Cari Jung aprimorou a técnica para aplicá-la na sua pesquisa de associação de palavras relativas à personalidade.

Imagens Mentais

As pesquisas de Galton a respeito das imagens mentais marcaram a primeira aplicação ampla do questionário psicológico. Pedia-se às pessoas que se lembrassem de alguma cena, como, por exemplo, a mesa do café-da-manhã daquele dia, e tentassem inferir imagens. Elas eram instruídas a relatar se as imagens eram obscuras ou nítidas, claras ou escuras, coloridas ou não, e assim por diante. Para sua surpresa, o primeiro grupo de pessoas, cien­tistas conhecidos, não relatou nenhuma imagem nítida. Alguns não entenderam muito bem do que Galton estava falando. Tomando uma amostragem mais ampla da população, Galton obteve relatos de imagens nítidas e bem distintas, cheias de detalhes e de cores. As imagens descritas pelas mulheres e crianças eram mais concretas e detalhadas. Utilizando-se da análise estatística, Galton descobriu que as imagens mentais, assim como muitas outras características humanas, estavam distribuídas na população conforme a curva normal.

O trabalho de Galton sobre as imagens estava baseado na sua contínua tentativa de demonstrar as semelhanças hereditárias. Descobriu que a probabilidade de ocorrência de imagens semelhantes era maior entre parentes do que entre pessoas desconhecidas.

Aritmética Olfativa e Outros Tópicos

A riqueza do talento de Galton fica evidente na variedade dos seus estudos de pesquisa. Ele chegou a se colocar no estado mental de uma pessoa que sofre de paranóia, imaginando que todos ou tudo que via estavam o espionando. Um historiador relata que, quando ele fazia isso durante a sua caminhada matutina, "sentia como se todo cavalo olhasse direta­mente para ele ou, desconfiadamente, dissimulasse a espionagem, simplesmente fazendo de conta que não lhe prestava atenção" (Watson, 1978, p. 328-329).

No auge da controvérsia entre o evolucionismo de Darwin e a teologia fundamentalista, Galton estudou a questão com a objetividade necessária e concluiu que, embora muitas pessoas tivessem fortes crenças religiosas, não havia provas suficientes da sua validade. Realizou uma pesquisa sobre o poder da oração na produção de resultados e verificou não ter ela eficácia para os médicos curarem pacientes ou para os meteorologistas tentarem mudar as condições do tempo, nem para os religiosos aplicarem-na na vida cotidiana. Acreditava haver pouca diferença entre as pessoas possuidoras de fortes crenças religiosas e as que não possuíam, em termos de expectativa de vida, de relacionamento interpessoal ou de enfrentamento dos próprios problemas. Galton esperava que um conjunto de cren­ças mais efetivo pudesse ser estruturado em termos científicos. Pensava que o desenvol­vimento de uma raça humana superior por meio da evolução, mediante a eugenia, devia ser a meta da sociedade e não um lugar no céu.

Seu interesse na quantificação e na análise estatística muitas vezes se expressava no seu apego aos números. Passava o tempo entre palestras e peças teatrais contando os boce­jos e as tossidas do público. Descrevia os resultados como uma medida do tédio. Em uma ocasião, quando um artista pintava o seu retrato, contou o número de pinceladas: cerca de 20 mil. Um dia decidiu contar pelo cheiro e não por números, e praticou bastante para poder esquecer o significado deles. Mas, em vez de esquecer os números, atribuiu valores numéricos aos odores, como o cheiro de menta, e aprendeu a adicionar e subtrair pensan­do no cheiro. Esse exercício intelectual deu origem a um trabalho intitulado “Arithmetic by smell" ("Aritmética olfativa"), publicado na primeira edição da revista especializada estadunidense Psychological Review.

Comentários

Galton passou 15 anos pesquisando problemas psicológicos e seus esforços tiveram um impacto significativo na direção da nova psicologia, embora não fosse realmente um psicólo­go. Era uma pessoa extremamente bem dotada, cujos talento e temperamento não ficaram restritos a uma única disciplina. Basta verificar os métodos e o escopo do seu interesse: adaptação, hereditariedade versus ambiente, comparação das espécies, desenvolvimento infantil e testes mentais. Seu trabalho exerceu maior influência na evolução da psicologia estadunidense do que o trabalho do fundador da disciplina, Wilhelm Wundt.

A Psicologia Animal e a Evolução do Funcionalismo

A teoria da evolução de Darwin foi comprovadamente um estímulo para o desenvolvimento da psicologia animal. Antes da publicação de On the origin ofspecies, não havia razão para os cientistas se preocuparem com a mente animal, já que os animais eram apenas robôs sem mente e sem alma. Afinal, Descartes afirmou que os animais não tinham qualquer semelhança com os homens.

O trabalho de Darwin alterou essa visão conformista, pois suas conclusões apontaram para a inexistencia de qualquer distinção evidente entre a mente humana e a animal. Assim os cientistas propuseram a continuidade entre todo aspecto mental e físico dos seres humanos e dos animais, com base na teoria de que o homem descende do animal por meio do continuo processo de desenvolvimento evolutivo. Darwin afirmou: "Não existe diferença fundamental entre o homem e os mamíferos superiores em relação às faculdades mentais" (1871, p. 66). E ainda, acreditava que os animais inferiores sentiam prazer e dor, alegria e tristeza; tinham sonhos e até certo grau de imaginação. Mesmo as minhocas, afirmou Darwin, demonstram prazer ao comer, além de paixão sexual e senti­mento social, sendo tudo uma prova da existência de alguma forma de mente animal.

Se fosse possível provar a existência da habilidade mental nos animais, além de compro­var a continuidade entre a mente animal e a mente humana, essas evidências colocariam por terra a dicotomia humano/animal defendida por Descartes. Desse modo, estava lança­do o desafio para os cientistas buscarem as provas da existência da inteligência animal.

Darwin defendeu suas ideias sobre a inteligência animal no livro The expression of the emotions in man and animais (1872), em que argumentava que o comportamento emo­cional humano deriva do comportamento herdado que um dia fora útil aos animais mas que não é mais relevante para o homem. Um exemplo é a expressão nos lábios de uma pessoa quando ela quer demonstrar escárnio. Darwin alegava ser esse gesto remanescente da forma como os animais enfurecidos mostravam os dentes caninos.

Nos anos que se seguiram à publicação de On the origin of species, o tema da inteligencia animal ganhou popularidade, não apenas entre a comunidade científica como tambem entre o publico em geral. Nas décadas de 1860 e 1870, muitas pessoas escreviam para as revistas populares e científicas pedindo exemplos de comportamento animal que comprovassem habilidades mentais antes ignoradas. Histórias circulavam dando conta de feitos marcantes da inteligência de gatos e cães domésticos, cavalos e porcos e até de lesmas e pássaros.
Nem o grande experimentalista Wilhelm Wundt escapou dessa tendência. Em 1863 antes de tornar-se o primeiro psicólogo da história, Wundt escreveu a respeito das habili­dades intelectuais de vários seres vivos, desde besouros até castores. Ele presumia que os animais que exibissem qualquer capacidade mínima sensorial também deviam ser dotados de poder de julgamento e de inferência consciente. Na verdade, os animais simples não deviam ser considerados inferiores ou menos inteligentes, pois diferiam dos seres huma­nos não tanto pela habilidade como por terem recebido menos educação e treinamento! Trinta anos depois, a sua generosidade em relação à inteligência animal havia diminuído mas durante algum tempo sua afirmação juntou-se às várias que sugeriam serem os animais tão bem dotados quanto os seres humanos.

George John Romanes (1848-1894)

O fisiologista britânico George Romanes formalizou e sistematizou o estudo da inteligên­cia animal. Ainda criança, foi considerado pelos pais "um perfeito idiota" (Richards, 1987, p. 334). Quando jovem, ficou impressionado com os trabalhos de Darwin. Tornaram-se amigos, e Darwin deu a Romanes seu caderno de anotações sobre o comportamento ani­mal. Desse modo, Darwin escolheu Romanes para dar continuidade àquele aspecto do seu trabalho, aplicando a teoria da evolução à mente assim como ele havia aplicado ao corpo, e Romanes mostrou-se um sucessor de valor. Por ser rico, Romanes não precisava se preocupar em ganhar a vida. O único emprego que teve foi como professor de meio período na University of Edinburgh, que exigia a sua presença no total de duas semanas no ano. Passava o inverno em Londres e Oxford e o verão na praia, onde construiu um laboratório tão bem equipado quanto o de uma universidade.

Romanes publicou Animal intelligence (Inteligência animal) (1883), geralmente consi­derado o primeiro livro de psicologia comparativa. Coletou dados do comportamento de protozoários, formigas, aranhas, répteis, peixes, pássaros, elefantes, macacos e animais domésticos. Seu objetivo era demonstrar o alto nível da inteligência animal e a sua seme­lhança com o funcionamento intelectual humano, mostrando assim a continuidade do desenvolvimento mental. Com suas palavras, Romanes desejava demonstrar que "não há diferença de modalidade entre os atos racionais executados pelo caranguejo e qualquer ato racional humano" (apud Richards, 1987, p. 347).

Romanes desenvolveu o que chamou de "escada mental", em que ordenava as várias espécies animais por grau de funcionamento mental (Tabela 6.1). Observa-se na tabela que ele creditava até às formas de vida inferior (como a água-viva, o ouriço e a lesma) um alto grau de funcionamento mental. Ele formou essas opiniões, de algum modo surpreenden­tes, coletando dados por meio do método anedótico, definido como o uso de relatos ou narrativas de observações, muitas vezes casuais, sobre o comportamento animal. Muitos dos relatos foram de observadores não-treinados e acríticos, cujas observações poderiam ser parciais e negligentes.

Tabela 6.1

Romanes desenvolveu essas definições a respeito da inteligência animal com base nas observações anedóticas obtidas por meio de uma técnica curiosa chamada introspecção por analogia, que acabou sendo descartada. Nessa abordagem, os pesquisadores partem do princípio de que os mesmos processos mentais que ocorrem em suas mentes ocorrem na mente dos animais observados. Assim, presume-se a existência de uma função men­tal específica, observando-se o comportamento do animal e criando-se uma analogia, seja por alguma correspondência seja por relação, entre os processos mentais humanos conhecidos e os processos que, deduz-se, estejam ocorrendo na mente do animal.

Para começar, com base no conhecimento subjetivo das operações da minha mente e das atividades que essas operações parecem indicar em meu organismo, sigo por analogia para deduzir, a partir das atividades observáveis demonstradas por outros organismos, o fato de que certas operações mentais sustentam ou acompanham essas atividades, (Romanes apud Mackenzie, 1977, p. 56-57)

Com a técnica da introspecção por analogia, Romanes sugeria que os animais eram capazes de realizar os mesmos tipos de racionalização, ideação, raciocínio complexo, processamento de informação e solução de problemas que os humanos. Alguns de seus seguidores credi­tavam aos animais níveis de inteligência muito superiores ao do ser humano médio.

Romanes acreditava que, excluindo o macaco e o elefante, o gato era o animal mais inteligente. Escreveu muito sobre o comportamento do gato que pertencia ao seu motorista. Realizando vanos movimentos intrigantes, o gato era capaz de abrir as portas fechadas que conduziam ao estábulo. Empregando a introspecção por analogia, Romanes concluiu que:

Nos casos como esse, os gatos têm uma ideia perfeitamente definida das propriedades mecâ­nicas de uma porta; sabem que, para abri-la, mesmo quando destrancada, têm de empur­ra-la. (...) Primeiro, o animal deve ter observado que a porta é aberta pela mão que segura a maçaneta e move o trinco. Em seguida, deve raciocinar, pela "lógica dos sentimentos", que, se a mão é capaz de fazer isso, por que não a pata? (...) O ato de empurrar com a pata traseira após baixar o trinco deve-se a razões de adaptação. (Romanes, 1883, p. 421-422)

O trabalho de Romanes empregava métodos muito aquém do rigor científico moder­ no e, muitas vezes, a divisão entre a interpretação factual e a subjetiva de seus dados não era clara. Todavia, embora os cientistas reconhecessem a deficiência dos seus dados e métodos, ele era respeitado pelos esforços pioneiros, incentivando o desenvolvimento da psicologia comparativa e abrindo caminho para o estudo do comportamento animal.

Em diversas areas da ciência, a utilização de dados observacionais antecede o desenvolvimento de uma metodologia experimental mais refinada. E foi Romanes quem deu início ao estágio observacional da psicologia comparativa.

C. Lloyd Morgan (1852-1936)

O ponto fraco inerente aos métodos anedótico e da introspecção por analogia foi indicado formalmente por Conwy Lloyd Morgan (1852-1936), a quem Romanes designou como seu sucessor. Morgan foi aluno de Thomas Henry Huxley e tornou-se professor de psicologia e de educação da University of Bristol, na Inglaterra, além de ter sido uma das primeiras pessoas a pedalar uma bicicleta dentro dos limites da cidade. Também se interessava por geologia e zoologia e propôs a lei da parcimônia (também denominada Cânone de Lloyd Morgan) para neutralizar a tendência predominante de atribuir excessiva inteligência aos animais.

A lei da parcimônia afirma que o comportamento animal não deve ser interpretado como o resultado de um processo mental superior, quando pode ser explicado por um processo mental inferior. Morgan desenvolveu essa ideia em 1894 e pode tê-la criado com base na lei da parcimônia similar, descrita por Wundt dois anos antes. Wundt havia observado que "os princípios explicativos complexos devem ser empregados somente quando os [princípios] mais simples forem insuficientes" (Richards, 1980, p. 57).

A intenção de Morgan não era a exclusão completa do antropomorfismo dos traba­lhos sobre o comportamento animal, mas a redução do seu uso e aplicação, de modo mais científico, dos métodos da psicologia comparativa. Morgan concordava com Romanes em que os relatos subjetivos eram inevitáveis, no entanto tentou manter ao mínimo as infe­rências anedóticas no seu trabalho. Morgan disse:

Com relação às várias observações anedóticas de Romanes (...) noto, e sem dúvida ele também notou, que a ciência da psicologia comparativa não deve ser construída com tais fundamentos anedóticos. A maioria das histórias são meros registros casuais, complemen­tados por opiniões amadorísticas de observações passageiras, cujo treinamento psicológico é praticamente desprezível. Então, levanto dúvidas se alguém é capaz de extrair da mente do animal (...) os dados exigidos para uma ciência. (1930/1961, p. 247-248)

No geral, Morgan seguiu a abordagem de Romanes na observação do comportamen­to de um animal e na sua explicação por meio de uma análise introspectiva dos próprios processos mentais. No entanto, ao aplicar a lei da parcimônia, evitou atribuir processos mentais de nível mais elevado aos animais, quando o comportamento podia ser explicado em termos de processos de nível inferior.

Ele acreditava que a maioria dos comportamentos animais resultava da aprendizagem ou da associação com basea na experiência sensorial; esse tipo de aprendizagem consistia em um processo de nível inferior, e não em um pensamento racional ou em uma ideação.

Com a aceitação do cânon de Morgan, o método da introspecção por analogia foi aperfei­çoado e proporcionou dados mais úteis, mas acabou sendo superado por outros métodos mais objetivos.

Morgan foi o primeiro cientista a conduzir estudos experimentais em larga escala na psicologia animal. Embora suas experiências não fossem realizadas sob as condições cien­tíficas rígidas exigidas hoje, elas constituíram observações cuidadosas do comportamento animal, a maioria em ambientes naturais, mas com algumas modificações artificiais. Apesar de esses estudos não comportarem o mesmo grau de controle das experiências realizadas em laboratórios, foram um avanço importante do método anedótico de Romanes.

Comentários

O trabalho inicial na psicologia comparativa foi conduzido na Inglaterra, mas a liderança no campo passou rapidamente para os Estados Unidos. Romanes faleceu mais ou menos aos 40 anos, vitimado por tumor cerebral, e Morgan trocou sua pesquisa por uma carreira administrativa na universidade.

A psicologia comparativa surgiu da excitação e da polêmica provocadas pela sugestão de Darwin a respeito da continuidade entre as espécies humana e animal. As ideias bási­cas da teoria darwiniana são a noção de função e a afirmação de que as espécies evoluem e que as estruturas físicas são determinadas pela luta pela sobrevivência. Essa premissa levou os biólogos a considerarem cada estrutura anatômica um elemento utilitário ou funcional em um sistema total de vida e adaptação. Quando os psicólogos começaram a examinar os processos mentais da mesma maneira, estabeleceram o trabalho de base para um novo movimento: a psicologia funcional.

História da Psicologia
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Explorando o espaço - uma história da astronomia

A história da astronomia conecta círculos de pedra pré-históricos com sondas espaciais do século XX!. È uma história de sucessivas revoluções na compreensão de nosso local no Cosmos, e nos meios pelos quais tomamos consciência dele. A geometria permitiu aos gregos fazer as primeiras medidas do Sol, Terra e Lua. Já no século XVII, instrumentos precisos derrubaram ideias centradas na Terra. O telescópio descortinou o céu apresentando muitos novos mistérios a serem explicados pela teoria da gravitação de Newton. A espectrocospia ofereceu um novo método para estudar as propriedades das estrelas e, por fim, revelou a existência de outras galáxias e a expansão do Universo. Nas útlimas décadas, o desenvolvimento do voo espacial permitiu a telescópios em órbita sondar o espaço profundo, enquanto as jornadas de umas poucas pessoas e máquinas além da órbita imediata da Terra colocaram nosso planeta relamente em perspectiva pela primeira vez.

Astronomia antiga

A história da astronomia remonta a 6.000 anos atrás, o que a torna a mais antiga das ciências. Cada uma das culturas ao longo da história estudou o Sol, a Lua, as estrelas e observou como os corpos celestes se movem no céu. As observações refletem curiosidade e encanto com o mundo natural, mas também foram impulsionadas por razões urgentes de navegação, contagem de tempo e religião.

Ciclos da vida

Povos da antiguidade eram fascinados pelos padrões de mudança repetindo-se incessantemente no mundo a seu redor. Evidências da passagem do tempo incluías alterações na temperatura do ar, no horário e posição do nascer e pôr-do-sol, nas fases da Lua, no crescimento da vegetação e no comportamento animal. Esses fenômenos eram atribuídos aos deuses ou a poderes mágicos. Milhares de anos atrás, os “primeiros” astrônomos foram provavelmente pastores ou agricultores no Oriente Médio, que observavam a noite, atentos a sinais das mudanças das estações. Os antigos egípcios se baseavam em observações astronômicas para planejar o plantio e a safra das colheitas. Sabiam que o nascimento de Sirius logo antes do nascer-do-sol anunciava a enchente do rio Nilo. A habilidade para medir períodos de tempo e registrar ciclos celestes foi essencial para o avanço da astronomia, e assim muitas culturas antigas desenvolveram calendários, relógios de sol e relógios de água. Monumentos como as pirâmides e grupos de megalitos (grandes pedras eretas) foram, de fato, os primeiros observatórios. Em cerca de 1000 a.e.c., os indianos e babilônios haviam calculado a duração do ano em 360 dias; este período levou à divisão do círculo em 360°, com cada grau representando um dia solar. Posteriormente, os antigos egípcios refinaram a duração do ano para 365,25 dias.

Fazendo mapas celestes

A astronomia sempre se ocupou com mapear e nomear as estrelas. Por volta de 3500 a.e.c., os antigos egípcios dividiram o zodíaco nas 12 constelações de hoje e agruparam as outras estrelas fora do zodíaco em suas próprias constelações. Nas antigas China e Índia, criaram-se 28 mansões lunares, ou “domicílios noturnos” para registrar o movimento da Lua em seu caminho mensal. Os antigos gregos foram os primeiros a catalogar as cerca de 1000 estrelas mais brilhantes, por volta de 150-100 a.e.c. mas, muito antes deles, observadores da Índia e Oriente Médio mantinham registros astronômicos detalhados e datados. Coleta de dados sistemática foi desenvolvida pelos sumérios e babilônios – civilizações que viviam entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia – por razões de ritual e profecia política.

Orientação e navegação

Os mais importantes feitos dos astrônomos antigos incluem como encontrar os pontos cardeais – note, sul, leste e oeste – e como usar a Estrela Polar do norte para determinar a latitude. Este conhecimento capacitou a orientação precisa de estruturas, particularmente de templos e monumentos funerários, e também auxiliou na confecção de mapas terrestres acurados. Em 3000-2000 a.e.c., os povos da Idade da Pedra do norte da Europa utilizaram alinhamentos solares nos solstícios e equinócios, fases lunares, e outros dados astronômicos para construir grandes círculos de pedra, como Stonehenge e Avebury na Inglaterra, e Newgrange na Irlanda. Altares de foto (usados por sacrifícios rituais de fogo hindus), posicionados em bases astronômicas, e datando de 3000 anos atrás foram encontrados em diversos sítios arqueológicos na Índia. Algumas das mais complexas construções projetadas de acordo com princípios astronômicos são as pirâmides do antigo Egito e exemplos tardios construídos pelos astecas e maias na América. A arquitetura antiga fornece abundante prova de conhecimento astronômico, mas há poucas evidências do seu uso em navegação antiga. Contudo, os povos navegantes da Polinésia podem ter usado as posições das estrelas para migrar através do Pacífico por volta de 1000 a.e.c.

O nascimento da astrologia

Astrologia é uma prática milenar que busca determinar como os planetas e outros objetos celestes podem influenciar a vida na Terra, em especial os assuntos humanos. Descartada como superstição, ela estabeleceu fundamentos sólidos para a observação astronômica e dedução lógica. Em seu esforço de prever os eventos futuros e buscar sinais ou portentos os antigos astrólogos tentaram “ordenar” os céus e notaram o modo como o Sol, a Lua e os planetas se comportam. Enfatizaram em particular ocorrências inesperadas como eclipses, cometas, chuvas de meteoros e o aparecimento de novas estrelas. Muitas elites políticas empregavam astrólogos e observadores dos céus, e seu trabalho era uma atividade intelectual perfeitamente respeitável até o fim do século XVII. Astrônomos também escreviam tratados astrológicos; por exemplo, em 140 e.c., Ptolomeu escreveu o Tetrabiblos, o mais influente de todos os tratados astrológicos.

Início da astronomia científica

A Grécia antiga foi um divisor de águas no desenvolvimento da astronomia como a ciência racional. Os acadêmicos gregos formularam leis complexas e fizeram modelos do Universo. Após o estabelecimento do Islamismo, estudiosos árabes desenvolveram métodos ainda mais acurados de observação dos céus.

Germens do pensamento científico

O mundo grego antigo conheceu uma liberdade política e intelectual sem precedentes e um espantoso progrsso científico. Por 700 anos, de cerca de 500 a.e.c. a 200 e.c. os filósofos gregos buscaram respostas para questões astronômicas fundamentais. Ainda acreditavam em um plano mestre divino e tinham ideias que soam estranhas par anos hoje – Heráclito (540-500 a.e.c.), por exemplo, sugeria que as estrelas eram acesas toda noite, e o Sol toda manhã, como lâmpadas de óleo. Mas Platão (c.427-347 a.e.c.) argumentou que a geometria é a base de toda verdade, fornecendo assim o impulso necessário para deduzir exatamente como o Cosmos funcionava. Aristóteles fixou a Terra no centro do Universo e sugeriu que os planetas eram corpos eternos movendo-0se em órbitas perfeitamente circulares. Eudoxo (408-355 a.e.c.) cartografou as constelações setentrionais e Hiparco (190-120 a.e.c.) pela primeira vez classificou as estrelas em seis ordens de magnitude.

Medindo distâncias

Os avanços na geometria e trigonometria permitiram que os gregos medisses distâncias astronômicas com razoável precisão. Por volta de 500 a.e.c. Pitágoras propôs que o Sol e a Terra, a Lua e os planetas fossem todos esféricos, uma noção que Aristóteles confirmou, no caso da Terra, pela observação da forma de sua sombra durante um eclipse solar. Em 250 a.e.c. Eratóstenes (276-194 a.e.c.) notou que a luz solar incidia diretamente no fundo de um poço em Siena, no Egito, ao meio-dia do solstício de verão. Comparando com dados sobre as sombras em Alexandria, e usando trigonometria, ele estimou a circunferência da Terra com precisão de 5%. Hiparco e Aristarco (320-230 a.e.c.) mediram a distância Terra-Lua cronometrando eclipses lunares. Infelizmente, a distância Terra-Sol não foi estimada com a mesma precisão.

O cosmos centrado na Terra

É natural que as pessoas supusessem que o Cosmos era geocêntrico, ou centrado na Terra. Afinal de contas, não percebemos o movimento da Terra quando ela gera no espaço e as estrelas parecem fixas. Pensadores antigos, como Aristarco em 280 a.e.c., contestaram este sistema e colocaram o Sol no centro, mas suas ideias não tiveram crédito. Em vez disso, Ptolomeu refinou a visão de mundo cosmológica de Aristóteles e criou uma sequência ordenada de órbitas uniformes. Sua ordem era: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e finalmente as estrelas. Isto é baseado na velocidade percebida: por exemplo, a Lua completa uma volta no céu em um mês, o Sol em um ano e Saturno em 29,5 anos. De modo a reconciliar o conceito errôneo de órbitas circulares (em contraste com elípticas) e as velocidades variáveis dos planetas, Ptolomeu foi obrigado a argumentar que cada planeta também girava em um pequeno círculo, o epiciclo, enquanto orbitava a Terra.

Astronomia árabe

Depois do declínio das cidades-estado gregas, os mais importantes avanços da astronomia foram alcançados pelos árabes. O período de domínio grewgo durou 800 anos, desde a fundação do Islamismo em 622 até o século XIV. Astrônomos trabalhando no Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e Espanha mourisca traduziram textos gregos e em sânscrito (da Índia) para o árabe e assimilaram seu conhecimento astronômico. As regras muçulmanas para s cultos ao longo do dia e do mês, e a necessidade de encontrar a direção de Meca para fazer as orações e orientar as mesquitas, significavam que havia uma urgente necessidade de se determinar o tempo e a posição com extrema precisão. Desenvolveu-se a trigonometria esférica sofisticada, funções trigonométricas e álgebra e o astrolábio (uma invenção grega, usada para calcular a hora e a latitude) foi aprimorado. A abordagem dos grandes astrônomos árabes, como Al-Battani (850-929) e Ulugh Beg (1349-1449) fundamentava-se em observação paciente. Com este fim numerosos observatórios foram construídos, dos quais os maiores estavam em Bagdá, no Iraque, em Samarkand, no Uzbequistão, e em Maraghan, no Irã. Eles alojavam grandes instrumentos, incluindo quadrantes montados em paredes, utilizados para medir a altitude de objetos astronômicos quando cruzavam o meridiano (o plano norte-sul).

A revolução copernicana

Por séculos os astrônomos basearam suas teorias na suposição de que a Terra estaria no centro do Universo. No século XVI, esta posição privilegiada foi abalada pela sugestão de que a Terra era apenas um dos vários planetas circulando o Sol. Esta revolução foi acompanhada por imensos avanços tecnológicos, em particular pela invenção de telescópios, anunciando uma nova era de pesquisa e de grandes descobertas.

Astronomia medieval

Após a queda de Roma em 476, astrônomos na Europa, Oriente Médio e àsia deixaram para trás seu relativo isolamento cultural e passaram a trocar ideias mais livremente. Isto graças, em parte, ao crescimento do comércio durante a Idade Média e em parte à expansão do Islamismo. A astronomia observacional floresceu com ênfase em conjunções planetárias, eclipses solares e lunares a as aparições de cometas e estrelas novas. Muitos astrônomos medievais eram professores universitários e se sustentavam com o ensino. Apesar dos recursos limitados fizeram avanços notáveis, incluindo um novo preciso catálogo de posições de estrelas a olho nu, planejado por Ulugh Beg *1394-1449) da Mongólia – o primeiro desde os dias de Hiparco, 1600 anos.

O Universo heliocêntrico

Pode-se datar o nascimento da astronomia em 1543, quando Nicolau Copérnico publicou seu revolucionário tratado sobre um Universo centrado no Sol, ou heliocêntrico. Ele estava insatisfeito com a imprecisão dos modelos geocêntricos das orbitas planetárias, nos quais a Terra ocupava o centro e que dominavam a astronomia desde a obra de Ptolomeu no século II. Sua teoria muito mais simples de um Sol central e uma Terra em órbita explicava muitas observações antes enigmáticas, porque agora havia dois tipos de planetas, os internos e os externos da órbita da Terra. A sequencia Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno era um ordem de período orbital e de distância crescente ao Sol. A “lanterna do Universo”, com o Copérnico o chamava, agora assumia seu lugar de direito no centro do Cosmos. Embora isso significasse que a Terra se movia em alta velocidade, a teoria já havia sido proposta por Aristarco e outros.

A noção do Espaço

Os gregos e os astrônomos posteriores colocaram as estrelas logo além de Saturno, mas isto causaria um problema se a teoria copernicana estivesse correta. Se, como Copérnico argumentava, a Terra orbitava o Sol, por que as estrelas não tinham um movimento recíproco? A única escolha para Copérnico era banir as estrelas para uma distância tão vasta que seu movimento não seria perceptível para observadores terrestres. Ele também foi o primeiro a sugerir que as estrelas brilhantes estariam mais próximas que as fracas. Contudo, ouros se perguntavam porque Deus teria criado um espaço enorme, aparentemente inútil entre a órbita de Saturno e as estrelas. Tycho Brahe (1546-1601), um nobre dinamarquês, pensava que o futuro da astronomia dependia da estimativa de distâncias verdadeiras e do registro acurado das posições planetárias em diversos tempos. Com este objetivo ele aprimorou os padrões observacionais, fabricando instrumentos de mensuração precisamente calibrados. Em 1572 suas observações pacientes da supernova na constelação de Cassiopéia o convenceram de que as estrelas não estavam todas a uma distância fixa, mas que eram objetos cambiantes que existem no “espaço”. Propor essas ideias exigia coragem, ou o apoio de patronos poderosos, devido à Inquisição, nessa época, julgar e punir os que desafiassem a visão ortodoxa da Igreja Católica em relação ao Universo.

Leis do movimento planetário

O sistema heliocêntrico copernicano ainda descrevia as órbitas planetárias em termos de epicilos – cada planeta descrevia um pequeno círculo enquanto girava em torno do corpo central. Essa visão prevalecia desde Ptolomeu mas a forma real das órbitas permanecia um mistério. Necessitava-se de duas coisas para resolver o problema. A primeira era os dados planetários precisos obtidos por Tycho Brahe. A segunda era fé nos seus dados, junto com tenacidade e gênio matemático. A última foi fornecida pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), sucessor de Tycho após 1601. Com base nas observações do caminho de Marte na esfera celeste Kepler acabou por formular suas três leis do movimento planetário. Primeiramente, em 1609, ele revelou que as órbitas eram elípticas, e não circulares ou epicíclicas. O Sol está em um dos focos da elipse (a elipse tem dois focos; o círculo é um calo limite de eclipse, com um único foco). Em segundo lugar, mostrou que a linha unindo o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais, assim um planeta é mais lento na parte mais exterior da sua órbita. Em terceiro lugar, em 1619, Kepler provou a relação entre o tamanho e o período da órbita. Ele alimentava concepções místicas – acreditava que o Cosmos era permeado por coras musicais, com cada planeta produzindo um tom em proporção a sua velocidade. Como todos antes da descoberta da gravidade por Newton, não tinha a menor ideia do que mantinha os planetas em suas órbitas.

As descobertas de Galileu

Galileu Galileia apresentou provas concretas de que o modelo copernicano do Universo estava correto. Em 1608 quando um fabricante de óculos flamengo inventou o telescópio a notícia se espalhou rapidamente. Galileu construiu, ele mesmo, vários telescópios em 1609, assim tornando-se o fundador da astronomia telescópica. Seus instrumentos tinham uma magnificação de 30x. Em alguns meses ele descobriu que a Lua era montanhosa, detectou as fases de Vênus, as manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Chegou mesmo a sugerir que as estrelas fosses sóis distantes. Acima de tudo ele percebeu que as fases de Vênus somente poderiam ser explicadas se os planetas orbitassem o Sol, e não a Terra. Outros achados de Galileu fundamentam a física nascente: a aceleração de um corpo independe de sua composição ou peso; e o período de balanço de um pêndulo independe de sua amplitude.

Grandes observatórios

A emergência de uma nova geração de observatórios fo um divisor de águas na história da astronomia. Observatórios haviam sido anteriormente exclusivos a um grupo seleto de pessoas, incluindo Tycho Brahe na Dinamarca e Johannes Hevelius em Danzing, Prússia (agora Gdansky, na Polônia), ou de professores universitários, como Galileu ou Giovanni Cassini de Bologna, na Itália. Então, essas unidades foram ampliadas por instituições reais bem financiadas. Luis XIV fundou a Academia de Ciências em Paris, em 1666, e o Observatório Real francês, completado em 1672. Na Inglaterra, Charles II fundou a Royal Society em 1660, o que levou à construção do Royal Greenwich Observatory, onde John Flamsteed (1646-1719) foi o primeiro astrônomo real, iniciando seu trabalho em 1676. Em breve os astrônomos estavam atacando os três principais desafios daquela época: determinar o tamanho do Sistema Solar; medir a distância até as estrelas; e achar a latitude e a longitude de locais na terra e no mar. Esta busca foi em parte impulsionada por necessidades da navegação em uma época de expansão dos impérios europeus e pelo desejo de prestígio nacional. A partir do começo do século XVIII, os observatórios se multiplicaram rapidamente, inaugurando-se instalações em Berlim, Prússia (1711), em Jaipur, Índia (1726), em Uppsala, Suécia (1730), em Vilnius, Prússia (1753), em Washington, EUA (1838), e em Pulkovo, Rússia (1839). Dedicou-se muito esforço para mapear o céu e traçar os movimentos dos corpos celestes.

Leis da atração

Um dos maiores enigmas desafiando os astrônomos de meados do século XVII era porque os planetas percorriam imensas distâncias ao redor do Sol em órbitas estáveis sem se lançar no espaço. O grande físico inglês Issac Newton (1642-1727), professor na Universidade de Cambridge, encontrou a resposta. Um objeto se moveria a velocidade constante segundo uma linha reta, a menos que fosse sujeito a uma força. No caso dos planetas, a força era a gravidade do Sol. Ele logo percebeu que a gravidade era universal. Ela controlava tanto a trajetória de um objeto caindo (como a famosa maçã que Newton viu cair de uma árvore em 1666), como a Lua orbitando a Terra e um cometa viajando rumo ao Sol vindo dos remotos confins do Sistema Solar. A gravidade explicava as três leis de Kepler e também a altura das marés. Após a morte de Newton, o retorno do cometa Halley em 1758 provou que a gravidade também era aplicável nos limites do Sistema Solar, e o uso da teoria da gravitação possibilitou o cálculo da massa da Terra e do Sol. 

O telescópio refletor e Newton

Em 1666, Newton descobriu que um prisma dispersa a luz em um arco-íris de cores. Infelizmente, as lentes de um telescópio fazem o mesmo, e a luz azul de um extremo do espectro é focalizada em um ponto diferente da luz vermelha e o ouro extremo. Isto é a chamada aberração cromática, que produz halos de luz colorida ao redor do objeto sendo visto, causando uma grave perda de qualidade de imagem. Uma solução é suar espelhos curvos para focalizar toda luz no mesmo ponto, independentemente da cor. Em 1663, o escocês James Gregory (1638-75), projetou um telescópio refletor com um grande espelho côncavo primário e um secundário côncavo menor que projetava luz de volta através de um orifício para uma lente magnificadora atrás. Newton modificou o projeto usando um espelho plano secundário para refletir a luz capturada para uma ocular montada lateralmente. Exibido em 1672 o telescópio de Newton foi imensamente aclamado.

O espaço infinito

Na metade do século XIX, a astronomia havia evoluído de uma ciência essencialmente matemática para uma disciplina que incorporava o conhecimento novo e as técnicas dos físicos e químicos. Rápidos progressos tecnológicos, particularmente a invenção da fotografia e telescópios ainda mais poderosos, permitiram aos astrônomos estudar os corpos celestes com muito mais detalhe. Eles começaram a classificar os diferentes objetos e a estudar seu comportamento.

O iluminismo

Os séculos XVIII e XIX viram grandes progressos em ciência devido a métodos científicos aprimorados. Foi um período de consolidação em astronomia, baseada em avanços nas medidas e classificação de corpos celestes. As órbitas dos cometas eram de grande interesse depois do trabalho do inglês Edmond Halley (1656-1742), que mostrou que “seu” cometa retornava a cada 76 anos. As órbitas dos planetas eram determinadas com muito mais precisão que anteriormente e detalhes de sua superfície, como a Grande Mancha Vermelha de Júpiter e as calotas polares de Marte foram observados. Em 1728, a velocidade da Terra foi calculada. William Herschel descobriu o sétimo planeta, Urano, em 1781, e o italiano Giuseppe Piazzi ( 1746-1826) identificou o primeiro asteroide, Ceres, em 1801. Os franceses Urbain Le Verrie e Pierre-Simon Laplace (1749-1827), e o inglês John Adams (1819) aplicaram a teoria da gravitação de Newton para prever a posição de um planeta invisível além de Urano. Netuno foi descoberto em 1846.

O cosmos estelar

Aperfeiçoamentos dos telescópios ao longo do século XVIII permitiram que a astronomia tornasse o estudo do Universo um processo dinâmico. Anteriormente as estrelas eram apenas pontos fixos de luz, com distância desconhecida, mas na década de 1710 Halley descobriu o seu movimento dando início a esforços concentrados para compreender seu comportamento. Constatou-se que muitas estrelas são duplas, orbitando em torno de um centro de massa comum, em conformidade com a gravitação newtoniana e, na década de 1780, estrelas variáveis como Algol e Delta Cephei, eram investigadas. Em 1781, o francês Charles Messier (1730-1817) publicou um catálogo de 103 “corpos difusos”, ou nebulosas (nuvens de gás e poeira). Herschel estendeu este trabalho, gastando muitas horas contando estrelas de diferentes magnitudes, em uma ambiciosa tentativa de fazer um levantamento do céu. Em 1783 ele deduziu que o Sol está se aproximando da estrela Lambda Herculis, e erroneamente concluiu que ela se situava no centro do sistema estelar galáctico. Durante as duas primeiras décadas do século XIX, Laplace desenvolveu métodos de análise matemática que resultaram no primeiro modelo para a origem do Sistema Solar.

O nascimento da astrofísica

Durante o século 19, os astrônomos continuaram a aplicar o desenvolvimento da matemática, física e química para compreender a constituição e comportamento dos planetas, cometas e estrelas. Um novo campo – a astrofísica – emergiu, conferindo propriedades físicas aos objetos no espaço. A astronomia tratava principalmente com seu movimento, enquanto a astrofísica examinava seus parâmetros básicos como raio, massa temperatura, e composição química. Em 1815, o óptico alemão Joseph Fraunhofer (1787-1826), enquanto estudava o espectro da luz solar, notou várias linhas escuras sobre ele. Mais tarde, verificou-se que estas linhas eram devidas à absorção por elementos químicos do Sol. Como ada elemento químico absorve a luz em certos comprimentos de onda, o padrão de linhas de absorção revela a sua presença. Nos anos 1860, o astrônomo britânico William Huggis (1824-1910) descobriu, por meio da espectroscopia (o estudo de espectros) que as estrelas contêm os mesmos elementos que a Terra.

Avanços instrumentais

Os telescópios tornaram-se cada vez maiores desde o princípio do século XVIII – quando astrônomos como Edmond Halley labutavam para usar desajeitados e imprecisos instrumentos com lentes objetivas de pequeno diâmetro – na metade do século XIX. As lentes dobraram em tamanho a cada 40 anos, o que implicava que a distância até os objetos visíveis mais longínquos também dobrava, e que seu número crescia por um fator oito. Sofisticaram-se as montagens dos telescópios, e a qualidade das lentes foi aperfeiçoada. Os telescópios refratores foram totalmente transformados em 1758, quando o astrônomo inglês John Dolland (1706-1761) introduziu a lente dupla, que focalizava a luz azul e a vermelha no mesmo ponto. Herschel construiu enormes telescópios refletores e, em 1524 completou-se o primeiro telescópio com montagem equatorial, na qual o eixo do instrumento era alinhado com o polo norte celeste e um relógio mecânico movia o instrumento em torno deste eixo para acompanhar as estrelas. Nos anos 1840, a fotografia começou a substituir o lápis e papel para o registro de dados. Placas fotográficas podiam ser expostas por horas, permitindo a detecção de objetos muito mais fracos que os visíveis unicamente pelo olho humano.

A forma do espaço

No começo do século XX, alguns pensavam que havia apenas uma galáxia, com o Sol no centro. Nos anos 1930, os astrônomos já haviam percebido que havia bilhões de galáxias e que o Universo estava em expansão. Também começavam a compreender as fontes de energia estelar.

Matéria e energia das estrelas

A partir de 1900, devido à compreensão da natureza da radioatividade descoberta quatro anos antes, começou-se a perceber que a Terra poderia ter mais de 1 bilhão de anos de idade. Esta ideia era consistente com estimativas anteriores feitas por geólogos e com a avaliação de Charles Darwin do tempo necessário para a seleção natural operar. Permanecia o mistério de como o Sol poderia manter-se brilhando por tanto tempo. Uma ideia era que o Sol fosse alimentado pela queda de meteoritos; outra que o Sol estava lentamente se contraindo. Nenhuma dessas teorias dava conta da longa vida do Sol. Contudo, em 1905 Albert Einstein (1879-1955) propôs que E=mc2,  e assim energia E, poderia ser produzida pela destruição de massa, m. Nos anos 1920, o astrofísico britânico Arthur Eddington (1882-1944) sugeriu que a fonte de energia do Sol – e de outras estrelas – fosse a fusão nuclear. O físico germano-estadunidense Hans Bethe (1906-2005) especificou então os processos básicos de fusão nuclear. É de fato uma reação nuclear que libera energia da matéria. Astrofísicos têm agora uma visão detalhada de como as estrelas obtêm sua energia e estimam que estrelas do tipo solar possam brilhar por 10 bilhões de anos.

O grande debate

Nos anos 1920 houve um debate público entre os astrônomos estadunidenses Harlow Shapley e Heber Curtis sobre a forma da nossa galáxia em particular a extensão do Universo em geral. Shapley acreditava que havia apenas uma “grande galáxia”, com a Terra a dois terços da distância até a borda. Ele dizia que o diâmetro era de 300.000 anos-luz – 10 vezes maior que a estimativa de Curtis. Este valor foi obtido com estrelas variáveis cefeídas (cujo brilho varia periodicamente) como indicadores de distância. Curtis, por outro lado, estava convencido de que muitos objetos nebulosos no céu não estavam em nossa galáxia, mas que eram de fato outras galáxias como a nossa. Ele propôs que estes “universos-ilha” estava espalhados uniformemente no céu, com alguns deles obscurecidos pelo disco galáctico, o que explicava sua distribuição acima e abaixo do plano da Via Láctea.

O universo em expansão

Os novos e enormes telescópios estadunidenses revolucionaram a astronomia do século XX. O Telescópio Hooker era tão grande que podia detectar as estrelas cefeídas da Nebulosa de Andrômeda (M31). O  fraco brilho dessas estrelas indicava eu sua distância da Terra era cerca de 10 vezes o diâmetro da Via Láctea. Heber Curtis estava correto: Andrômeda não era uma “nebulosa” mas uma galáxia. Outras “nebulosas” espirais também eram claramente galáxias. Usando o Hooker o estadunidense Edwin Hubble mostrou que as galáxias são os “blocos fundamentais” de um universo muito mais vasto que previamente imaginado. Em 1927 ele investigou características espectrais de galáxias e constatou que não somente a luz da maioria delas apresentava um deslocamento para o lado vermelho do espectro, indicando que se afastavam de nós, mas também que essa velocidade de recessão era maior para as mais fracas (mais distantes). O Universo estava em expansão e, portanto, deveria ter sido muito menor no passado. O declive do gráfico velocidade-distância indicava a idade do Universo. Os astrônomos logo perceberam que algo havia dado início à expansão, lançando as sementes da teoria do Big Bang.

Tecnologia de telescópios

A astronomia observacional estadunidense atingiu um divisor de águas nas últimas décadas do século XIX. Nos Estados Unidos novos e sofisticados observatórios e departamentos universitários foram estabelecidos, muitas vezes financiados por empresários milionários. Os astrônomos desejavam examinar objetos muito fracos e distantes, mas a limitada resistência e a transparência relativamente baixa das lentas objetivas dos telescópios impunham um limite de cerca de 1m de diâmetro – o tamanho do telescópio refrator de Yerkes, inaugurado em Williams Bay, Wisconsin, em 1897. Assim abandonou-se os refratores: era o início de uma nova era de enormes telescópios refletores. O Telescópio Hooker, de 2,5m, em Monte Wilson, na Califórnia, tornou-se operacional em 1918. Em 1948, entrou em sérvio o Telescópio Hale, de 5,2m, no Monte Palomar, na Califórnia. Em 1993, o primeiro Telescópio Keck, com um espelho de 10m, feito de espelhos segmentados, entrou em operação. Acoplado ao progressivo aumento do tamanho dos telescópios veio um enorme aumento na sensibilidade dos detectores. Placas fotográficas tornaram-se mais sensíveis e foram usadas extensivamente par mapear o céu e gerar arquivos permanentes de posições e espectros de objetos. Outro desenvolvimento crucial foi a radioastronomia. Radiotelescópios, o primeiro dos quais foi feito em 1937, passaram a captar as emissões nos longos comprimentos de onda em rádio do espaço profundo.

Astronomia da era espacial

Com o início da Era Espacial (a era do vôo espacial) nos anos 1950, a viagem além da Terra e o contato co planetas, cometas e asteroides tornou-se uma realidade. O despertar das astronomias em rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama ofereceu à humanidade novas perspectivas do Universo, revelando a existência de novos e exóticos objetos nunca antes imaginados.

Estrelas extremas

Relações entre massa, raio e luminosidade das estrelas foram primeiramente estabelecidas graças ao diagrama Hertzsprung-Russel por volta de 1911 e levaram ao reconhecimento de estrelas gigantes e anãs. Desde então encontraram-se muitos tipos extremos de estrelas. Em 1915, W.S. Adams identificou Sirius B como a primeira anã branca – uma estrela da massa do Sol mas comprimida até o volume da Terra. Em 1931 o astrofísico indiano S. Chandrasekhar, usando os novos modelos para o comportamento de partículas subatômicas, descobriu um limite superior à massa de uma anã branca. 1,4 massa solar. Acima disso, um núcleo estelar exaurido colapsará em uma estrela de nêutrons superdensa com uns poucos quilômetros de diâmetro, arrebentando o resto da estrela em uma explosão de supernova. Estrelas de nêutrons em rotação são vistas da Terra como pulsares – radiofontes pulsantes –, a primeira delas foi descoberta em 1967 por Jocelyn Bell-Burnell e Anthony Hewish, do Reino Unido. No outro extremo de massa estelar estão as anãs marrons, muitas delas descobertas recentemente, muito frias para desencadearem rações nucleares no seu centro.

Buracos negros

A possibilidade de buracos negros foi sugerida em 1783 pelo astrônomo inglês John Michell, que considerou a hipótese de um objeto tão massivo que nem a luz poderia escapar da sua gravidade. A ideia reapareceu em 1916 como resultado da teoria da relatividade geral de Einstein, mas os buracos negros permaneceram uma curiosidade até a década de 1960, quando o lançamento de satélites de astronomia de raios-X levou à descoberta de estrelas binárias de raios-X como Cygnus X-1. Binárias de raios-X exigem uma fonte compacta, massiva de erngia, que só pode ser fornecida por um buraco negro. A descoberta de buracos negros de massa estelar também abriu o caminho para se aceitar os quasares – objetos compactos, extremamente luminosos, a altos redshifts – como violentas galáxias distantes, alimentadas por buracos negros supermassivos nos seus centros.

Interior das estrelas

Com telescópios ópticos os astrônomos podem enxergar até uma profundidade de 500km abaixo da superfície solar. Infelizmente, como o Sol tem um raio de 700.000km, um imenso volume não pode ser observado diretamente. Durante os anos 1920 os astrofísicos calcularam que o centro do Sol teria uma temperatura de aproximadamente 15 milhões °C e uma densidade cerca de 150 vezes a da água. Em 1939 o físico alemão Hans Bethe mostrou como processo nucleares, agindo sob essas condições extremas, converteriam lentamente hidrogênio em hélio, liberando imensas quantidades de energia pela conversão de massa em energia. O inglês Fred Hoyle e o alemão Martin Schwarzschild estenderam esta modelo na década de 1950, mostrando como hélio é transformado em carbono e oxigênio em estrelas gigantes. Logo os astrofísicos encontraram mecanismos para a manufatura de elementos ainda mais pesados, como cobalto e ferro, nas estrelas mais massivas. Na década de 1960 os primeiros detectores de neutrinos foram usados para detectar estas partículas altamente penetrantes, liberadas pelas reações nucleares no interior do Sol, e desde os anos 1970, a técnica de heliossismologia permitiu o monitoramento das ondas sonoras ressonando através do interior solar, assim revelando sua estrutura detalhada.

Meio interestelar

A descoberta de grandes quantidades de gás e poeira entre as estrelas foi um triunfo da radioastronomia. Em 1944, o astrônomo holandês Hendrick vam de Hulst previu que o hidrogênio interestelar emitiria ondas de rádio com um comprimento de onda de 21 cm, o que foi confirmado em 1951 pelos físicos estadunidenses Harold Ewen e Edward Purcell. Em breve, radiotelescópios eram usados para mapear a distribuição do hidrogênio neutro atômico nos braços espirais da Via Láctea e de outras galáxias. Em 1974, levantamentos do comprimento de onda de 2,6mm, que age como um traçador de hidrogênio molecular, levaram à descoberta de nuvens moleculares gigantes, locais de nascimento de estrelas.

Astronomia desde o espaço

A Era Espacial começou em 4 de outubro de 1957, quando a União Soviética lançou o satélite Sputnik I, e os astrônomos rapidamente aproveitaram a capacidade de se observar fora da atmosfera terrestre. Detectores a bordo de foguetes já haviam captado sinais intrigantes em comprimentos de onda incomuns durante suas breves excursões fora da atmosfera, e o primeiro observatório orbital, o Ariel I, foi lançado pelo Reino Unido em 1961, equipado com um telescópiode ultravioleta. Outros satélites, como as séries estadunidenses Explorer, e Uhuru, rapidamente mapearam as principais fontes de ultravioleta, infravermelho e raios-X. Enquanto isso, sondas espaciais se espalhavam pelo Sistema Solar, retornando informação sobre o ambiente interplanetário e cartografando os planetas com uma variedade de câmaras, radares e outros instrumentos.

A origem do Universo

A descoberta na década de 1920 de que o Universo está em expansão desencadeou uma nova onda de reflexões cosmológicas. Em 1931, o astrônomo e padre belga Georges Lamaître sugeriu que todo o material do Universo teria começado com o uma única esfera altamente condensada – a origem da teoria do Big Bang. Em 1948, o austríaco Hermann Bondi e os britânicos Thomas Gold e Fred Hoyle propuseram uma teoria rival, da Criação Contínua, na qual matéria estaria sendo criada continuamente para preencher os vazios deixados pela expansão. Felizmente, ambas teorias poderia ser testadas pelas observações e as evidências acabaram por apoiar o Big Bang. Em 1980, Alan Guth da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, estendeu a cosmologia do Big Bang introduzindo a inflação, que auxiliava a resolver alguns problemas maiores da teoria. Mas, ainda restam questões importantes nessa área.

Planetas extra-solares

Grandes refinamentos na espectroscopia permitiram medir ligeiras variações nas velocidades estelares produzidas pela perturbação gravitacional de planetas em órbita. Em 1995, os astrônomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra descobriram um planeta com massa um pouco abaixo da metade daquela de Júpiter em torna da estrela 51 Pegasi, a 48 anos-luz. Agora se conhecem centenas de planetas extra-solares e abriu-se um novo campo da astronomia. Os astrônomos têm se surpreendido com suas descobertas – a maioria dos sistemas planetários é muito diferente do Sistema Solar. Alguns têm planetas gigantes orbitando muito próximo à estrela mãe, enquanto outros têm planetas com órbitas altamente elípticas. 

A caçada continua

Quanto mais os astrônomos sabem sobre o Universo, mais querem saber. Na década de 1970 reconheceu-se que o Universo continha muito mais material que o visível: matéria escura afeta a rotação das galáxias; a massa faltante é prevista pela teoria do Big Bang mas ainda não foi observada. A exótica “energia escura” parece acelerar a expansão do Universo. Ao lado desses grandes mistérios cosmológicos está a busca pela vida do Universo, abarcada pela nova ciência da astrobiologia. Nos últimos séculos o tamanho dos espelhos de 10mde hoje serão substituídos por gigantes ainda maiores e observações feitas além da atmosfera terrestre serão cada vez mais produtivas. O telescópio de 2,5m do Telescópio Espacial Hubble será pequeno perto do Telescópio Espacial James Webb, com espelho de 6,5m, a ser lançado em 2021. Esta nova geração de telescópios deverá finalmente captar a primeira geração de estrelas e galáxias. E, à medida que os astrônomos observarem cada vez mais longe com instrumentos cada vez mais sensíveis, inevitavelmente serão confrontados com novos mistérios e corpos exóticos não imaginados antes.

Primeiras espaçonaves

A segunda metade do século XX registrou uma revolução na nossa compreensão do Universo, desencadeada pelo desenvolvimento do vôo espacial. Pela primeira vez, em lugar de apenas olhar para o esaplo, os seres humanos e suas máquinas viajavam por ele. Revezes e riscos marcaram os primeiros tempos da exploração espacial, mas, com esses obstáculos superados, o progresso foi rápido.

Sonhadores de foguetes

A ideia da viagem espacial é tão antiga quanto o contar estórias, mas com poucas noções das leis da física ou da natureza do espaço escritores frequentemente se baseavam em meios cômicos ou absurdos de transportar fictícios viajantes espaciais. Mas, as leis newtonianas do movimento e da gravitação, em conjunto com o fato do espaço ser um vácuo, indicavam que apenas uma forma de propulsão seria capaz de levar viajantes ao espaço – o foguete. Desenvolvidos como fogos de artifício e armas na China medieval, os foguetes contém o combustível necessário para sua propulsão, impulsionados por gases ejetados pelo seu escape. Embora o escritor francês Cyrano de Bergerae (1619-1655) tivesse sugerido no século XVII seu uso para alcançar a Lua, o primeiro a considerar seriamente as realidades da viagem espacial foi o professor da escola rural soviético Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), que desenvolveu muitos dos princípios dos foguetes de combustível líquido, de múltiplos estágios, publicando-os na década de 1890.

Lançamento

Os princípios dos foguetes estavam bem desenvolvidos no começo do século XX, mas ainda havia vários problemas para fazer do voo espacial uma realidade prática. O maior deles era a eficiência do combustível. O engenheiros estadunidense Robert Goddard concebeu a ideia de combustíveis líquidos mais eficientes e em 1926, lançou um foguete de 3m de comprimento impelido por oxigênio líquido e gasolina. As ideias de Goddard e Tsiolkovsky foram adotadas por entusiastas no mundo todo, inclusive pela Sociedade para a Viagem Espacial (VfR) da Alemanha. Durante a década de 1930, muitos dos cientistas da VfR foram recrutados pelo boverno nazistas para um programa militar que prosseguiu durante a Segunda Guerra Mundial. A culminação dos seus esforços, o míssil V2, chegou tarde demais para salvar a Alemanha da derrota, mas provou que armamentos à base de foguete eram o caminho do futuro.

A corrida espacial

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, as maiores potências desejavam a tecnologia de foguetes para si. A maioria dos cientistas fugiu para o Ocidente, mas a União Soviética capturou as fábricas das V2. As razões para tal interesse tornaram-se claras quando as relações internacionais rapidamente deterioraram e começou a Guerra Fria. Ambos acreditavam que mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) impulsionados por foguetes poderiam ser a resposta para lançar a arma final – a bomba nuclear. Foi neste contexto que os Estados Unidos e a União Soviética começaram seus programas espaciais. Ambos viram que a tecnologia de mísseis poderia ser utilizada para alcançar a órbita terrestre e reconheceram que esses lançamentos demonstrariam o poder de seus foguetes e renderiam grandes benefícios de propaganda.

Em órbita

No começo dos anos 1950 União Soviética e Estados Unidos anunciaram planos de lançar satélites durante o Ano Geofísico Internacional de 1957-58. O programa soviético prosseguiu em sigilo, usando seus enormes mísseis R-7 como veículos de lançamentos, enquanto os cientistas estadunidenses passavam por escrutínio público. Os planos do cientista alemão Werher von Braun de lançar um satélite com o ICBM estadunidense Redstone foram engavetados a favor do programa de pesquisa espacial Vanguard da marinha estadunidense. Pouco antes da data de lançamento do Vanguard, em novembro de 1957, os soviéticos anunciaram em 4 de outubro do mesmo ano o lançamento bem sucedido do Sputnik I. As estações de rastreamento captaram sinais de rádio do satélite e confirmaram que a União Soviética tinha tomado a dianteira na corrida espacial. A humilhação estadunidense foi total quando, em 6 de dezembro, o lançamento do Vanguard terminou em uma explosão na plataforma de lançamento. O projeto de Von Braun foi imediatamente ressuscitado, e o primeiro satélite estadunidense, o Explorer I, entrou em órbita com êxito menos de dois meses mais tarde, em 31 de janeiro de 1958.

As missões Vostok

No final da década de 1950, o próximo grande passo da corrida espacial estava claro – qual das superpotências seria a primeira a colocar uma pessoa em órbita? Os soviéticos tinham uma óbvia vantagem de potência, já que o Sputnik II, o seu segundo satélite, pesava meia tonelada, e haviam conseguido enviar sondas além da vizinhança imediata da Terra. Em 12 de abril de 1961 fizeram um anúncio que surpreendeu o mundo: o Coronel Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espalho, a bordo da Vostok I. Gagarin retornou à Terra como herói da União Soviética, e o programa espacial estadunidense, agora gerenciado pela Nasa, de novo havia ficado para trás. As missões Vostok posteriores superaram novos limites e colocaram a primeira mulher no espaço, aumentaram os tempos em órbita e mantiveram mais de uma espaçonave simultaneamente em voo.

Projeto Mercury

A resposta da Nasa ao Vostok foi o programa Mercury, que lançou seis astronautas entre 1961 e 1963. Diferentemente do programa soviético os esforços estadunidenses foram conduzidos sob os holofotes da mídia. As cápsulas espaciais Mercury eram minúsculas e leves, parcialmente porque tinham que ser transportadas pelo pequeno veículo de lançamento Redstone nos primeiros voos. A Nasa estava desenvolvendo um novo lançador, o Atlas, mas os tests da cápsula deveriam começar antes do foguete maior estar pronto. Surpreendida pelo lançamento do Vostok I, a Nasa correu para retaliar e colocou seu primeiro homem no espaço em 5 de maior. Lançado em um foguete Redstone a missão Freedom 7, de Alan Shepard, não tinha velocidade suficiente para entrar em órbita, mas alcançou uma altura de 185 km durante um voo de 15 minutos. Após um segundo voo sub-orbital, o foguete Atlas foi completado no final de 1961. Seguindo um número de testes, John Glenn foi o primeiro estadunidense em órbita em 20 de fevereiro de 1962.

Próximos passos

Dispostos a manter sua liderança na corrida espacial, os soviéticos assumiam um grande risco. Os estadunidenses tinham anunciado suas missões planejadas de dois homens do Gemini e, em um esforço para ofusca-los de antemão, o diretor do programa espacial soviético, Korolev, planejava uma missão de três homens. Era um grande desafio, pois já havia sido iniciado um trabalho com as naves Soyuz visando alcançar a Lua. Finalmente, os engenheiros soviéticos chegaram a um engenhoso compromisso Voskhod era efetivamente uma cápsula Vostok modificada com espaço suficiente para levar três tripulantes. O voo da Voskhod I, em 12 de outubro de 1964, foi um sucesso, batendo a primeira missão tripulada Gemini por cinco meses. A Voskhod II, lançada alguns dias antes do primeiro teste de voo da Gemini foi um sucesso ainda maior. Durante o voo Alexei Leonov tornou-se a primeira pessoa a caminhar no espaço. Os soviéticos haviam desferido mais um espetacular golpe de propaganda.

Exploradores robôs

Enquanto o foco da atenção pública estava principalmente no programa espacial tripulado, uma segunda corrida espacial era mantida em paralelo – cujas consequências para nossa compressão do Sistema Solar. Cada superpotência tentava superar a outra nos “primeiros” passos da exploração de outros mundos. A exploração espacial robótica teve uma